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Dionísio, o Areopagita, Works (1897) pp.129-137.

Teologia Mística

PREFÁCIO À TEOLOGIA MÍSTICA.

A TEOLOGIA MÍSTICA é como aquela escada colocada na terra cujo topo alcançava o
Céu, na qual os anjos de Deus ascendiam e descendiam, e acima da qual ficava Deus Todo-
Poderoso. O Anjo ascendendo é a “negativa” que distingue Deus Todo-Poderoso de todas
as coisas criadas. Deus não é matéria----alma, mente, espírito, qualquer ser, nem mesmo o
próprio ser, mas acima e além de tudo isso. O Anjo descendendo é a “afirmativa”. Deus é
bom, sábio, poderoso, o Ser, até chegarmos à Teologia Simbólica, que denota-O sob formas
e condições materiais: a Teologia prefere a negativa porque Deus Todo-Poderoso é
apresentado mais apropriadamente por distinção do que por comparação.

TEOLOGIA MÍSTICA.

CAPUT I.
O que é a Obscuridade Divina?

SEÇÃO I.
TRÍADE supernal, tanto super-Deus como suber-bem, Guardiã da Teosofia dos cristãos,
direcionai-nos direto ao super-desconhecido e super-brilhante cume dos Oráculos místicos,
onde os mistérios simples e absolutos e imutáveis da teologia jazem ocultos dentro da
super-luminosa obscuridade do silêncio, revelando coisas ocultas, que em sua mais
profunda escuridão brilha acima do mais super-brilhante, e no impalpável e invisível, enche
as mentes sem olhos até transbordar com glórias de beleza extraordinária. Seja esta então
minha prece; mas tu, Ó caro Timóteo, por teu persistente comércio com as visões místicas,
deixa para trás tanto as percepções sensíveis como os esforços intelectuais, e todos objetos
do sentido e da inteligência, e todas as coisas que não são e que são, e sê elevado
desconhecidamente à união, tanto quanto atingível, com Ele que está acima de toda
essência e conhecimento. Pois pelo êxtase irresistido e absoluto em toda pureza, de ti
mesmo e de tudo, tu serás levado ao alto, ao raio superessencial da escuridão Divina,
quando tiveres abandonado tudo, e tornado-se livre de tudo.

SEÇÃO II.
Mas observa que nenhum não-iniciado escute essas coisas----quero dizer aqueles que estão
emaranhados nas coisas que são, e fantasiam que não há nada superessencialmente acima
das coisas que são, mas imaginam que conhecem, por seu próprio conhecimento, a Ele, que
colocou a escuridão como Seu lugar de ocultamento. Mas, se as iniciações Divinas estão
acima desses, o que se diria a respeito daqueles ainda mais não-iniciados tais como tanto
retratam a Causa exaltada acima de tudo, das mais baixas das coisas criadas, e dizem que
Ele de maneira alguma supera os não-deuses moldados por eles mesmos e de formas
diversas, sendo nosso dever atribuir e afirmar todos os atributos das coisas existentes a Ele,
como Causa de tudo, e mais apropriadamente negá-las todas a Ele, como estando acima de
tudo, e não considerar as negações como estando em oposição às afirmações, mas muito
pelo contrário que Ele, que está acima de qualquer abstração e definição, está acima das
privações.
SEÇÃO III.
Assim, então, o divino Bartolomeu diz que a Teologia é muito e pouco, e o Evangelho
amplo e grande, e por outro lado conciso. Para mim, ele parece ter compreendido isto
sobrenaturalmente, que a boa Causa de tudo é tanto de muita expressão, e ao mesmo tempo
da mais breve expressão e sem expressão; como não tendo expressão nem conceito, porque
Ele é exaltado superessencialmente acima de tudo, e manifestado sem véu e em verdade,
somente àqueles que passam tanto por todas as coisas consagradas e puras, e ascendem
acima de toda ascensão de todos os cumes sagrados, e deixa para trás todas as luzes e sons,
e palavras celestiais, e entra na obscuridade, onde realmente está, como os Oráculos dizem,
Ele que está além de tudo. Pois mesmo o divino Moisés é ele próprio estritamente ordenado
a ser primeiramente purificado, e então ser separado daqueles que não são, e após toda a
purificação ouve os trompetes multivocais, e vê muitas luzes, emanando raios puros e
fluentes; então ele está separado da multidão, e com os sacerdotes escolhidos vai primeiro
ao cume das ascensões divinas, apesar de mesmo então não encontrar com o próprio Deus
Todo-Poderoso, pois não O vê (pois Ele é invisível) mas o lugar onde Ele está. Agora isto
eu penso que signifique que as coisas mais Altas e Divinas vistas e contempladas são um
tipo de expressão sugestiva, das coisas sujeitas a Ele que está acima de tudo, por meio da
qual Sua Presença inteiramente inconcebível é mostrada, alcançando os mais altos cumes
espirituais de Seus lugares mais sagrados; e então ele (Moisés) é libertado daqueles que
tanto vêem como são vistos, e entra na obscuridade da Agnosia; uma obscuridade
verdadeiramente mística, dentro da qual ele fecha todas as percepções do conhecimento e
entra no impalpável e não visto, sendo inteiro daqu’Ele que está além de tudo, e de mais
ninguém, nem de si mesmo nem de outrem; e por inatividade de todo conhecimento, unido
em sua melhor parte ao totalmente Desconhecido, e por não saber nada, sabendo acima da
mente.

CAPUT II.
Como deveríamos estar unidos e louvar a Causa de tudo e acima de tudo.

SEÇÃO I.
PEDIMOS para adentrar a obscuridade super-brilhante, e por não ver e não saber, ver e
saber que não ver e nem saber é em si acima da visão e da sabedoria. Pois isto é
verdadeiramente ver e saber e celebrar super-essencialmente o Superessencial, por meio da
abstração de todas as coisas existentes, assim como aqueles que fazem uma estátua que
parece viva, ao extrair todas as coberturas que foram colocadas sobre a vista clara do que
estava encoberto, e por trazer à luz, pelo mero lapidar, a beleza genuína escondida nele. E,
é necessário, como penso, celebrar as abstrações em uma forma oposta às definições. Pois,
costumávamos colocar estas últimas ao começar da mais importante e descender pelo meio
à mais baixa, mas, neste caso, ao fazer as ascenções do mais baixo ao mais alto, abstraímos
tudo, para que, sem véu, possamos conhecer aquela Agnosia, que está encoberta sob todo o
conhecido, em todas as coisas que são, e possamos ver aquela obscuridade superessencial,
que está oculta por toda a luz em coisas existentes.

CAPUT III.
Quais são as expressões afirmativas a respeito de Deus, e quais as negativas.

SEÇÃO I.
NAS Delineações Teológicas, então, celebramos as principais expressões afirmativas a
respeito de Deus----como a Natureza Divina e boa é falada como Um----como Tripla----o
que é aquilo dentro dela que é dito como Paternidade e Filiação----o que o nome Divino do
“Espírito” deve significar,----como do Bem imaterial e indivísivel as Luzes que habitam no
coração da Bondade fluíram, e persistiram, em suas ramificações, sem deixar o coeterno
que reside n’Ele e n’Eles e em cada um,----como o Jesus super-essencial toma substância
em uma natureza verdadeiramente humana----e quaisquer outras coisas, tornadas
conhecidas pelos Oráculos, são celebradas pelas Delineações Teológicas; e no tratado a
respeito dos Nomes Divinos, como Ele é chamado de Bem----como Ser----como Vida e
Sabedoria e Poder----e o que quer que pertença à nomenclatura de Deus. Além disso, na
Teologia Simbólica, quais são os Nomes transferidos dos objetos do sentido às coisas
Divinas?----quais são as formas Divinas?----quais são as aparências, e partes e órgãos
Divinos?----quais os lugares e ornamentos Divinos?----quais as iras?----quais os
pesares?----e a cólera Divina?----quais as orgias, e as doenças decorrentes?----quais os
juramentos,----e quais as maldições?----quais as dormidas, e quais os despertares?----e
todas as outras representações Divinamente formadas, que pertencem à descrição de Deus,
por meio de símbolos. E eu imagino que tu compreendeste, como o mais baixo é expresso
em mais palavras que o primeiro. Pois, era necessário que as Delineações Teológicas, e a
exposição dos Nomes Divinos devessem ser expressas em menos palavras que a Teologia
Simbólica; uma vez que, na proporção em que ascendemos para o mais alto, em tal grau as
expressões são circunscritas pelas contemplações das coisas inteligíveis. Como mesmo
agora, quando ao entrar na obscuridade que está acima da mente, encontraremos, não pouca
fala, mas uma completa ausência de discurso, e ausência de conceito. No outro caso, o
discurso, ao descender de cima para o mais baixo, é alargado de acordo com a descida, a
uma extensão proporcional; mas agora, ao ascender de baixo àquilo que está acima, em
proporção à ascensão, é contraído, e após uma ascensão completa, se tornará totalmente
sem voz, e estará totalmente unido ao inexprimível. Mas, por que razão em suma, tu dizes,
tendo atribuido os atributos Divinos a partir do mais alto, começamos a abstração Divina a
partir das coisas mais baixas? Porque é necessário que aqueles que dão atributos àquilo que
está acima de todo atributo, devam colocar a afirmação atributiva daquilo que é mais
cognato a ele; mas aqueles que abstraem, com respeito àquilo que está acima de toda
abstração, devem fazer a abstração das coisas que estão mais distantes dele. Não são a vida
e a bondade mais (cognatos) que o ar e a pedra? e Ele não é mais dado ao deboche e à
cólera, (removido) do que Ele não é expressado nem concebido.

CAPUT IV.
Que a Causa preeminente de todo objeto de percepção sensível não é nenhum dos objetos
de percepção sensível.

SEÇÃO I.
DIZEMOS então que a Causa de tudo, que está acima de tudo, não é nem sem ser, nem sem
vida----nem sem razão, nem sem mente, nem é um corpo----nem tem forma----nem
figura----nem qualidade, ou quantidade, ou volume----nem está em um lugar----nem é
visto----nem tem contato sensível----nem percebe, nem é percebido, pelos sentidos----nem
tem desordem e confusão, como sendo exasperado por paixões terrenas,---- nem é
destituído de poder, como estando sujeito às casualidades do sentido,----nem precisa de
luz;----nem é Ele, nem tem Ele, mudança, ou decaimento, ou divisão, ou deprivação, ou
fluxo,----ou quaisquer outros dos objetos do sentido.

CAPUT V.
Que a Causa preeminente de todo objeto de percepção inteligível não é nenhum dos
objetos de percepção inteligível.

POR outro lado, ao ascender, dizemos, que Ele não é nem alma, nem mente, nem tem
imaginação, ou opinião, ou razão, ou concepção; não é expresso, nem concebido; não é
número, nem ordem, nem grandeza, nem pequeneza; nem igualdade, nem desigualdade;
nem similaridade, nem dissimilaridade; não permanece, nem se move; nem descansa; não
tem poder, nem é poder, nem luz; não vive, nem é vida; não é essência nem eternidade,
nem tempo; Seu toque não é inteligível, Ele não é ciência, nem verdade; nem reino, nem
sabedoria; nem um, nem unidade; nem Deidade, nem Bondade; nem é Espírito de acordo
com nosso entendimento; nem Filiação, nem Paternidade; nem qualquer outra coisa
daquelas conhecidas por nós, ou por qualquer outro ser existente; Ele não é nenhuma das
coisas existentes nem não-existentes, nem as coisas existentes O conhecem, como Ele é;
nem Ele conhece as coisas existentes, qua existentes; não há expressão d’Ele, nem nome,
nem conhecimento; Ele não é escuridão, nem luz; nem erro, nem verdade; não há qualquer
definição d’Ele, nem qualquer abstração. Mas ao fazer as predicações e abstrações das
coisas segundo Ele, não predicamos, nem abstraímos a partir d’Ele; uma vez que a Causa
toda-perfeita e uniforme de tudo está acima de toda definição e preeminência d’Ele, que é
absolutamente livre de tudo, e além do todo, está acima também de toda abstração.

Traduzido de:

http://www.tertullian.org/fathers/areopagite_05_preface.htm
http://www.tertullian.org/fathers/areopagite_06_mystic_theology.htm