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Ana Maria Nicolaci-da-Costa

Na Malha da

Rede
Os impactos íntimos da Internet

Apresentação da versão online

Na malha da Rede: os impactos íntimos da Internet é um livro sobre um período
único, aquele que se seguiu à chegada da Internet ao Brasil no ano de 1995. Ao longo
deste e dos anos de 1996 e 1997, no último dos quais o livro foi escrito, as reações à
sua chegada foram muitas e dos mais diversos teores.

A interatividade online, por exemplo, ao mesmo tempo em que conquistou muitos
adeptos, gerou muito medo de que as interações mediadas por computadores viessem
a substituir os relacionamentos face a face, o toque, o cheiro. Já a exploração do novo
espaço virtual que, naquela época de conexões discadas e lentas, consumia muitas
horas online foi rapidamente encarada como uma nova forma de vício (temor não
completamente extinto até os dias de hoje!). Enquanto isso, outros medos como o da
invasão da privacidade, do roubo de identidade, do controle, da pedofilia, invadiam as
páginas dos jornais, as telas de cinema, os livros e o imaginário de grandes parcelas da
população mundial.

Apesar de todos esses obstáculos e preconceitos, a grande curiosidade despertada por
algo tão novo e poderoso fez com que milhões de usuários brasileiros, tal como outros
milhões de usuários ao redor do mundo, mergulhassem de cabeça no que passou a ser
conhecido como “ciberespaço”.

A esses brasileiros e brasileiras, às suas reflexões, comportamentos, depoimentos e
reações, é dedicado este registro. Foram eles e a mídia que forneceram o farto material
de pesquisa que serviu de base às minhas análises, reflexões e conclusões.

Na malha da Rede foi publicado pela Editora Campus, Rio de Janeiro, no ano de 1998
e sua tiragem está esgotada há bastante tempo.

Novamente de posse dos direitos autorais, resolvi tornar o livro disponível online porque
percebi que, com o passar do tempo, Na malha da Rede está se tornando um registro
histórico cada vez mais procurado por pesquisadores e estudantes.

Ana Maria Nicolaci-da-Costa
Rio de Janeiro, 8 de outubro de 2008

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SUMÁRIO

PREFÁCIO 04

O IMPACTO DO NOVO 07

NOVOS USUÁRIOS 14
Marcando presença no ciberespaço 16
Usando o ciberespaço 22

NOVAS RELAÇÕES HOMEM-MÁQUINA 28
Novas formas de comunicação do homem com a máquina 30
O que está por trás das novas formas de comunicação do homem com a máquina 35
A antropomorfização da máquina 41
Homens e máquinas no ciberespaço 45
Nota sobre o registro de uma realidade 49

NOVOS CONCEITOS 50
O ciberespaço e a virtualidade 51
Home pages e hipertextos 59
Tempo real e chats 65
“Sabemos aonde podemos chegar?” ou a moral da história 70

NOVA LÓGICA 73
Excessos 75
Agilidade, integração e relativização 82
Liberdade de publicação, liberdade de acesso à informação e o copiar/colar 88
A expertise jovem e o novo mercado de trabalho 95
Velho e novo lado a lado 101

NOVOS USOS DE LINGUAGEM 102
Os desafios da conquista online e em tempo real 104
O e-mail e o estilo online 111
A influência do hipertexto 118
Os novos usos de linguagem da mídia 123
Inglês: a moderna versão do esperanto? 127

NOVOS RELACIONAMENTOS 128
Novas possibilidades para relacionamentos antigos 130
O fenômeno chat e o autoconhecimento 134
O fenômeno chat, o sentimento de pertencer e a auto-ajuda 141
Namoros virtuais e casamentos reais 146
Desilusões reais e virtuais 155
Os prós e contras dos relacionamentos virtuais 158

CONSOLIDANDO IMPRESSÕES E CONFIRMANDO INTUIÇÕES 161

GLOSSÁRIO 165

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todos passíveis de sofrerem alterações sob o impacto da nova tecnologia digital.Prefácio Sou pesquisadora em psicologia. psicóloga e professora de Psicologia da PUC-Rio desde 1976. Sobre alguns aspectos dessas mudanças. o 4 . da chegada do homem à Lua. Por isso mesmo. creio ser necessário deixar claro o que pretendo com o registro das minhas observações e reflexões. um livro intitulado Sujeito e Cotidiano. da Guerra do Vietnam. e vem sendo divulgada nos vários cadernos de informática dos grandes jornais. que ocorreram sob a influência da revolução de valores mundial resultante do movimento hippie. Qual a durabilidade desse registro? Tendo em vista que uma das principais características de revolução cibernética é a velocidade com a qual as coisas mudam. horas ou até mesmo minutos. em 1987. seus modos de agir e seus modos de sentir. sentir e se organizar daqueles que os vivenciaram. Pela primeira vez teria que lidar. A última palavra pode ficar ultrapassada em questão de dias. a última palavra só tem sua efêmera durabilidade garantida quando divulgada na própria Rede. ainda pouco aprofundada (e aqui não vai nenhuma crítica). passo a passo. quero apenas dizer que ao longo dessas páginas procuro tornar essa conexão explícita através do registro de tudo o que pude observar no que diz respeito à matéria-prima da psicologia: o ser humano e seus modos de pensar. Há já muitos anos venho me dedicando a investigar quais são os impactos psicológicos de processos de mudança social. Esse tipo de interesse com o que acontece com os homens. ao longo dos últimos anos. com a mudança do Distrito Federal para Brasília.e de maneira bastante dramática -. A reflexão. acarretaram inegáveis transformações nas formas de viver. também publicado pela Editora Campus. Esses processos de mudança locais. com uma mudança tecnológica que certamente geraria mudanças sociais e psicológicas. sobre a última palavra tem uma durabilidade maior. mulheres e crianças no espaço de cujas vidas ocorrem grandes mudanças sociais foi novamente acionado -. soube que o rumo de minhas reflexões ia sofrer uma alteração radical. No momento. semanal por enquanto. A resposta está contida nas páginas deste livro. escrevi. a ditadura militar etc. pensar. seus modos de se relacionar com o mundo e com os outros. ainda sob o impacto daquele primeiro contato.na primeiríssima vez em que me conectei à Internet. o “milagre” do desenvolvimento econômico. como os que presenciamos no Brasil. que têm o mérito de estar fazendo. Em outras palavras. principalmente a partir da década de 1960. A Rede introduziu na vida de seus usuários uma nova noção de tempo e de durabilidade do que é dito. em primeira mão.. da luta dos negros norte-americanos por direitos iguais. Soube. da pílula anticoncepcional etc. Muitos foram aqueles que. que as minhas incursões pelo ciberespaço teriam alguma conseqüência análoga à que o leitor tem agora em suas mãos. então. não conseguiram compreender essa alteração de rumo e me perguntaram qual poderia ser a conexão entre a psicologia e a Internet.

a observação e a reflexão são nossas principais armas e devem anteceder qualquer tentativa de alçar vôos teóricos. os textos que se seguem oferecem reflexões sobre uma realidade que já conhece. 5 . portanto. de seus medos. Para o primeiro. cujo mérito é semelhante ao dos cadernos de informática. Isso para que possam dar a devida importância a essa nova realidade e não descartá-la como uma mera fantasia ou hobby sem maiores conseqüências. Qual o conhecimento de Rede necessário para lê-lo? Este livro foi escrito tendo como alvo tanto o leitor que já usa a Rede quanto aquele que com ela não tem nenhum contato. é feita mensalmente através das revistas especializadas. por exemplo. saber. A quem é dirigido este livro? A todos aqueles que se interessam pelo que se passa com e dentro de um ser humano a partir do momento em que suas condições externas de vida são modificadas. a partir de um ponto de vista ainda pouco explorado: o dos efeitos psicológicos das novas tecnologias. Uma reflexão um pouco mais aprofundada e. a partir de um ponto de vista interno a este. ser fundamental que os pesquisadores das chamadas ciências humanas e sociais reconheçam que. E reflexões circunscritas aos usuários brasileiros..registro histórico de uma revolução. de seu sofrimento às vezes muito real embora oficialmente virtual (com seus amores cibernéticos. aos programas ou à Rede. Já as explicações dadas sobre alguns dos aspectos técnicos da Internet bem como de sua difusão no Brasil não trarão nenhuma novidade para esse leitor e podem simplesmente ser ignoradas. O tipo de observação e reflexão nele feitos são de uma ordem diferente e têm sua durabilidade garantida por uma outra preocupação: o que está acontecendo com o ser humano. por último. Creio. Creio ser importante. Creio ser indispensável para profissionais que lidam com gente de todas as idades saber quais os recursos que a Rede coloca a seu dispor e quais os diferentes tipos de problema que ela pode gerar para diferentes tipos de pessoa. que não muda tão rapidamente assim e para quem mudanças geralmente trazem conseqüências psicológicas importantes a médio e longo prazo. que não é o único a ter medo das mudanças introduzidas na vida das novas gerações pela revolução cibernética. por uma nova tecnologia. Creio também ser importante que os pais desses jovens entendam um pouco desse novo mundo para que possam ter alguma compreensão das paixões de seus filhos pela Rede ou por ela geradas. mais durável. para um jovem. por exemplo). no caso. Neste livro não há nenhuma preocupação com a última palavra.. quando se está vivendo os primeiros estágios de uma revolução do porte da que estamos presenciando. seja esta relativa às máquinas.

que aparece no final do livro. que procuram associar o registro bem-humorado à reflexão cultivada pelos anos de leitura e pela experiência profissional e de vida. com um clicar do mouse. cujo uso não poderia ser evitado. A Internet é vista. um roteiro pré-determinado e rígido. por muitos. no caso de com ela não estar familiarizado. Na ausência do hipertexto. como um caos organizado ou um caos que funciona. de acordo com o fluxo de seus interesses. que tem ligações imediatas para vários outros textos e raramente é lido do início ao fim de uma só feita. ser extremamente úteis. Por isso mesmo. que podem ser lidos em qualquer ordem. Ainda para esse leitor foi preparado um pequeno glossário. e podem. Há simplesmente uma organização em blocos temáticos. Digo isso porque.Essas explicações foram especialmente escritas para o leitor que desconhece completamente a Rede. Tentando incorporar outra característica da Rede -. Isto posto. Tudo depende do que vai despertar o interesse do viajante. Não há. que tal passarmos ao que interessa? 6 . Qual a estrutura do livro? É útil que o leitor saiba de que forma o livro está organizado. espero que o leitor se sinta livre para pular de um assunto a outro. Tudo pode se ligar a tudo. Um livro sobre o impacto da Internet sobre nós. faço das notas de pé de página o elemento de ligação entre os diversos blocos e seções. deve corresponder a essa.sua agilidade -. pois isso já poderá ajudá- lo a entender um pouco de seu propósito e a entrar em contato com algumas características da Rede. portanto.e para facilitar a leitura da forma proposta. diferentemente do texto ciberespacial (o hipertexto). que é uma das principais características da Rede: tudo pode levar a tudo. Uma viagem no ciberespaço raramente tem itinerário certo. o texto impresso é linear e o leitor tem o hábito de lê-lo seqüencialmente. para ele. todos os temas são discutidos sob a forma de rápidos ensaios. Não há como falar de uma nova realidade sem usar uma terminologia nova e a proposta do livro não é a de familiarizar o leitor com o que é a Internet. comuns e concretos mortais. A proposta é a de mostrar ao leitor o quanto e o quão profundamente a Internet está mudando nossas vidas e nós mesmos. O glossário foi incluído para que o leitor leigo possa localizar com facilidade o significado do vocabulário específico da Rede.

7 . Tive a sensação de um estranho privilégio em relação a Colombo. somente a minha curiosidade e o rosto iluminado da minha jovem instrutora me forneciam a energia necessária para estar ali.O IMPACTO DO NOVO Momento 1: uma tarde iluminada Quanto mais velhos ficamos mais difícil se torna ter uma primeira vez impactante. que certamente estavam menos preparadas do que eles). Por isso mesmo. já enfrentamos as agruras da nossa primeira decepção.e como! -. já ganhamos e já perdemos. como se sentiram os primeiros homens a pisar na Lua? Nesse momento. meu rosto ficasse tão iluminado quanto o deles. era assim que me sentia até que uma jovem guia me mostrou como cruzar o umbral de um novo mundo a partir de uma tela de computador. pisar e travar contato com os pedaços de América nos quais aportaram? E fui mais longe ainda: como se sentiram os astronautas que viram pela primeira vez o nosso planeta como se fora qualquer outro planeta.sem mover nada além dos meus dedos.já altamente consolidada pelos anos de vida. latitude e longitude das trevas bidimensionais de uma tela negra. já demos nosso primeiro beijo. Mas minha instrutora era competente e. muito menos ainda. ao avistar. Cabral e os astronautas! Tudo. ou ainda. acima de tudo. já vivemos a excitação do nosso primeiro dia de trabalho.. embora carecendo da destreza dos meus jovens companheiros e guia. me fez ingressar pela primeira vez no ciberespaço. O estranho caminho de uma associação me levou aos descobridores do nosso já velho mundo que um dia foi novo. E eu me sentia como se tivesse sido contemplada com um par de asas velozes para apreciar tudo isso. Como se sentiram Cristóvão Colombo. Por esse critério posso afirmar que sou uma pessoa experiente.. intrigante e. ou Pedro Álvares Cabral (e principalmente suas tripulações. já festejamos nossas primeiras vitórias e choramos os nossos primeiros fracassos. Não demorou muito para que. numa sala repleta de telas como aquela à minha frente e igualmente repleta de jovens excitados e iluminados que delas faziam um uso que eu desconhecia. num passe de mágica.e de me ver e me sentir dentro dele -. percebi que já estava viajando -. há algum tempo achava que seria improvável ter alguma primeira vez realmente impactante e. já experimentamos os altos e os baixos da nossa primeira paixão. pensei eu. a partir de alguns comandos digitados. A tela era negra -. fascinante. desconcertante. A princípio. A isso comumente damos o nome de experiência de vida. Era como se. Já fizemos nossa primeira viagem. profundidade. Pois bem. tivesse feito surgir luz e vida.e contrastava com a bela tarde ensolarada que havia deixado do lado de fora.a de um terminal de Rede operando no sistema UNIX -. transformadora de uma forma de ver e sentir o mundo -.

já no porto seguro do meu espaço privado. entrei em lojas de CD’s. impensável. enfrentar diferentes climas ou suportar o inevitável cansaço gerado pelas diferenças de fusos horários. era. mas havia acabado de travar contato com outra importante característica dessa Rede das redes: o excesso de informações. embora natural para os jovens que me cercavam.inclusive as associações e emoções. para me locomover. que durou umas duas horas. fiz. concreto e cotidiano já tinha pelo menos algumas certezas. a experiências antigas. provavelmente. Explico. verifiquei com cuidado o que estava acontecendo na Broadway. e ainda me dei ao luxo de procurar os endereços eletrônicos de amigos que vivem em outros cantos do mundo. um pouco de tudo. retomei minhas antigas asas -. visitei livrarias em diferentes cantos do mundo. daquele momento em diante. para mim. A velocidade com a qual tudo acontecia. eu estava completamente tonta. uma surpresa extra: não pude entrar na Nova Zelândia para ver um projeto arquitetônico arrojado porque a legislação neozelandesa não permite a entrada de internautas estranhos fora do horário comercial! Ao sair da sala das telinhas. E não havia precisado de carteira de identidade. E a terceira era a de que eu. Um engarrafamento de tráfego suavizou minha chegada em casa. Entrei em museus mundo afora. li um artigo da Time Magazine e a primeira página do New York Times. Para uma época distante. cruzar fronteiras geográficas. fui transportada para o cenário que antecedeu a última grande revolução: a Revolução Industrial. bilhetes aéreos. Tive. à observação e à pesquisa das mudanças que a experiência com esse novo mundo certamente iria introduzir na vida cotidiana e nas formas de pensar. sendo pesquisadora e psicóloga. joguei conversa fora com gente que nunca havia visto e que. ao menos por analogia. filmes.e viajei de novo. nunca chegarei a ver. Nessa minha primeira viagem virtual. que teve a duração de um vôo um pouco mais longo do que o que liga o Rio de Janeiro a Brasília. A segunda era a de que certamente tentaria travar um contato mais íntimo com esse novo mundo. vividas pessoalmente ou vivenciadas imaginariamente através de livros. entrei numa discussão filosófica sobre Habermas. Nessa primeira vez. havia viajado e conhecido muito mais do que em várias de minhas viagens convencionais no Brasil ou no exterior.aquelas da imaginação -. ainda. Ao adentrar o meu espaço real. mas não tão longínqua assim (pois 8 . Não há como se ter uma experiência nova sem se reportar. A primeira era a certeza de que essa havia sido apenas a minha primeira viagem. viver e sentir de meus contemporâneos (principalmente dos mais jovens). Assim sendo. guiada por minha instrutora. Estava também muito excitada. documentários etc. passaria a me dedicar intensamente. era surpreendente porque completamente novo para mim. pedi informações sobre filmes antigos e sobre os que ainda nem haviam sido exibidos. E aí. Tive algum tempo para pensar entre uma primeira marcha e outra. roupas especiais. até então. se não exclusivamente. ou descanso. que já estava rolando há algum tempo. passaporte. Não o sabia então.

Com o aparecimento dos trens movidos a vapor (algo semelhante às nossas antigas marias-fumaça) ganhou-se uma mobilidade nunca antes sonhada. de vida em comum num determinado lugar e de uma mesma vocação profissional e/ou religiosa.isso ainda acontecia no final do século XVIII). As grandes propriedades eram herdadas pelos primogênitos e casamentos eram arranjados tendo em vista. tiveram um enorme impacto sobre a vida pessoal de todos aqueles por elas atingidos. mulheres e crianças passaram a trabalhar como autômatos. Todo esse quadro. de se relacionar com o mundo. Trabalhavam a terra ou fabricavam de modo caseiro (e do início ao fim) os objetos de que necessitavam. poderia prever que uma invenção tecnológica -. 9 . produzir e sentir de praticamente todos os que viveram nos séculos XIX e XX. por sua vez. com os outros e consigo mesmos. no final do século XVIII. As viagens eram feitas a cavalo. Emergiu o capitalismo com suas linhas de montagem e longas horas de trabalho repetitivo. Esses muitos estavam enganados e a história revela de forma contundente que a invenção da máquina a vapor mudou os modos de viver. a se sentir sozinhas e a apresentar problemas de ordem psicológica antes desconhecidos. no princípio. mas também as formas de viver. Até mesmo as bases do casamento foram alteradas. Era também uma época em que as pessoas tinham pouca mobilidade. foi radicalmente alterado pelo que. em carroças e carruagens. Com o aparecimento das indústrias. a população do campo deslocou-se para as sedes das mesmas e isso resultou no surgimento das grandes metrópoles com seus parques industriais.teria o poder de desencadear uma revolução de tal porte que alteraria não somente os meios de produção. além das formas de sentir. não o amor. talvez tenha sido visto por muitos como apenas mais uma invenção. que a capacidade de produção de alimentos estava prestes a se esgotar! A esse quadro somavam-se os pesados impostos cobrados pelos donos das terras (os senhores feudais). O papel-moeda introduziu o anonimato nas trocas antes pessoais.a da máquina a vapor -. O trabalho deixou de ter o significado e a completude que tinha antes. agora. mas a manutenção do patrimônio ou o aumento deste. no final desse século distante. A miséria era grande. No lugar do casamento arranjado pelas famílias. principalmente entre aqueles para quem não se colocava o problema de um patrimônio que não tinham que transmitir porque não o possuíam. homens. Ao se radicarem numa grande metrópole. podiam ser transportados com rapidez de terras férteis porém longínquas. cenário de tantos romances e filmes. A vida era vivida entre rostos familiares que tinham interesses comuns. Quem. o que acabou resolvendo o problema da escassez de alimentos que. Essas mudanças. tornou-se simplesmente repetitivo e sem sentido. as pessoas perderam suas raízes. surgiu o casamento por amor. começaram a viver entre estranhos. Por quê? Porque uma coisa leva à outra. Nas linhas de montagem. foi exatamente isso o que aconteceu. A população aumentava e a terra empobrecia de tal forma que Thomas Malthus chegou a concluir. de progressivas levas da população mundial? Pois bem. em que as pessoas moravam em pequenas localidades nas quais todos se conheciam e se relacionavam entre si a partir de afinidades baseadas nos laços de sangue.

Explico. agora buscando saber como com ele lidaram aqueles que o estudaram. num primeiro momento. além de Freud e Marx. a partir de pontos de vista diferentes e com interesses diferentes. quando passaram à interpretação do que haviam 10 . Quero somente dar ciência ao meu leitor de que a eles recorri para que pudesse elaborar um plano de ação. estudá-lo. Max Weber. quais seriam as conseqüências a curto. aos quais pedi ajuda. Mas o século XIX nos deixou o legado do trabalho de vários outros como Friedrich Engels. Mas o que é velho hoje já foi novo algum dia e alguém teve a coragem de. o que é uma forma de não enxergá-lo. E não é fácil porque o velho tende a atrapalhar. E a inspiração veio logo. Georg Simmel. Não é fácil estudar o novo. Não quero aqui entrar no mérito do que escreveram. que. buscando compreender as dimensões e o alcance das mudanças geradas pela Revolução Industrial. Pedi inspiração e coragem a vários grandes nomes. E. principalmente quando já temos formas consolidadas de ver e interpretar o que nos cerca. de ver o mundo e de sentir de tantos. da inovação tecnológica a que se deu o nome de Internet? Não é à toa que muitos se referem ao que já está acontecendo como a Revolução Digital ou Cibernética! Momento 2: o plano de ação Com essa pergunta em mente. O novo sempre requer um novo olhar e novos olhares geralmente geram insegurança naqueles que olham sem fazer uso de referenciais conhecidos. mesmo enfrentando obstáculos e preconceitos. Emile Durkheim. imediatamente. O problema é que. se debruçaram sobre o que estava acontecendo diante dos seus próprios olhos. tentei elaborar um plano de ação e. para mim. pois o que todos esses diferentes nomes têm em comum é a coragem que tiveram de. Dentre eles. se desenhado com nitidez: se a invenção da máquina a vapor tinha tido o poder de alterar os modos de viver. médio e longo prazo. os mais conhecidos são Sigmund Freud e Karl Marx. em se tratando de algo completamente novo.e constatei que uma pergunta havia. observar e registrar o que de novo estava acontecendo ao seu redor. me deparei com minha primeira dificuldade: a descontinuidade.a virtual e a imaginária -. Sabia o quanto essa compreensão havia sido fundamental para a construção de formas de lidar com os diferentes problemas gerados por essas mesmas mudanças.Comparei minhas duas viagens -. Partir do que já é conhecido é sempre mais confortável. quando se parte do conhecido tende-se a encaixar o novo no velho. pois não é esse meu objetivo. Ferdinand de Tönnies. Admirei a coragem e a visão de vários dos grandes intelectuais do século passado. ao mesmo tempo que provocam a ira daqueles que não querem abandonar a segurança desses referenciais. Alexis de Tocqueville. para mencionar somente alguns daqueles. Fiz mais uma visita ao novo instaurado pela Revolução Industrial.

não é. Observar pode parecer uma tarefa fácil mas. Isto foi exatamente o que fizeram. Engels foi morar na Inglaterra para observar de perto o cotidiano da primeira classe trabalhadora do regime capitalista. ou. Que o leitor não espere. portanto. Este livro é o resultado da interação de um modo próprio de ver essa nova realidade. Resolvi ficar de mente aberta. Esses muitos são todos usuários brasileiros porque. em muitos casos. Durkheim usou. reflexões. fizeram diversas revisões e reformulações de suas interpretações -. Isso é tudo o que é possível fazer nos primeiros estágios de uma mudança radical cujo desenrolar é impossível de prever. no século passado. quanto mais diversificados forem os pontos de vista. a partir de uma experiência de vida e uma trajetória profissional específicas. com as opiniões. questionamentos. o registro das taxas de suicídio nos diferentes países europeus da época. necessário observar o seu cotidiano. Momento 3: ação. O que me interessa. como o de Freud. quero deixar claro.. para tudo o que estava e está acontecendo no nosso cotidiano. etc. É claro que é interessante saber o que outros profissionais estão pensando a respeito de um assunto que se quer conhecer o mais profundamente que se possa. A observação das mudanças que ocorrem em dois contextos diferentes que podem ou não se interpenetrar -. é. porém pode canalizar a percepção e criar obstáculos para uma visão diferente. seus habitantes e as formas destes se organizarem. é saber o impacto que o ingresso no ciberespaço está tendo nos nossos contemporâneos que também são nossos conterrâneos.progressivamente porque. de entrar em contato com como outros profissionais estão vendo o que está acontecendo.. asseguro ao leitor. de muitos daqueles que vivem essa realidade no seu cotidiano. E é exatamente isso que resolvi fazer na medida do meu possível. como um dos pontos de partida para suas reflexões.o de um cotidiano extremamente diversificado como o das nossas 11 . experiências. portanto. criaram -. se debruçou sobre o cotidiano da histérica no início de sua jornada. sem ter a preocupação. vários dos intelectuais que me serviram como fontes de inspiração. mais ricas poderão ser as nossas contribuições. Simmel prestou atenção aos minúsculos detalhes da vida numa grande metrópole. encontrar referências ao que outros pesquisadores estão fazendo ou pensando. e olhos e ouvidos mais abertos ainda. embora a Internet seja uma Rede mundial. É interessante. nesses primeiros estágios da revolução que estamos presenciando. observação do cotidiano Para saber quais as mudanças que um determinado novo gera na vida das pessoas.observado. bastante louvável e necessária em outros contextos. aqueles que a usam sempre têm como ponto de partida uma cultura local. Acho que estes são excelentes exemplos de observações cujos frutos marcaram o nosso século.novas formas de ver o mundo. Freud. sentimentos. Estou convicta de que. por exemplo.

com os relacionamentos que travaram a partir dela.minha equipe de pesquisa e eu -.grandes metrópoles e o de um cotidiano cuja velocidade de transformação é algo nunca antes julgado possível como o da Internet -. Para a divulgação desta home page. quais eram os meus sentimentos. com a Rede. as reações dos meus amigos e colegas ao que dizia e fazia. comentários ou mesmo simples olhares perscrutadores ou censuradores. Várias dessas perguntas foram organizadas sob a forma de questionários e entrevistas. o C@T. de revistas especializadas na Internet. seus nomes 12 . a televisão e o rádio. Meu ponto de partida fui eu mesma. também. foi dada a garantia de completo anonimato. e na não-especializada. que sempre tenho ao meu redor em grande número.para observar o que estava acontecendo comigo mesma. principalmente. seu modo de pensar e.um total de 83 respostas aos dois questionários que enviamos e fizemos um total de 20 entrevistas. como não poderia deixar de ser. A todos os usuários-colaboradores que nos forneceram dados. também com muito interesse. jornalistas especializados em informática e Internet: Fernando Villela e Carlos Alberto Teixeira. e mudando rápido.e ainda paro -. Observei. Assim sendo. contei com a inestimável colaboração de dois grandes amigos. a cada novo caderno ou revista de informática. Meus jovens amigos sempre estiveram a postos para me ajudar. como os próprios jornais diários. através de incentivos. o quanto a minha forma de pensar havia mudado. me davam um retorno importante do quanto eu própria estava mudando. seu modo de sentir me mostravam o quanto as coisas estavam mudando. além de inúmeros arquivos de e-mails e home pages. as revistas de grande circulação. Observava. através de listas informativas e através da home page da pesquisa. nela. como as revistas sobre a Rede e os cadernos de informática dos grandes jornais. bem como programas de televisão dedicados à informática. Seu modo de lidar com as máquinas. e. minhas observações têm origens bastante variadas. Eles. dedicação. principalmente. A todo momento parava -. alguns bastante íntimos. de recortes de outros jornais e revistas. através dos quais foram colhidos depoimentos de inúmeros usuários brasileiros. que foi especialmente construída com essa finalidade. delineava-se uma reflexão ou surgia uma pergunta para a qual eu não tinha uma resposta imediata. Tudo isso me rendeu uma enorme coleção de cadernos de informática de grandes jornais. Tornei-me. ao longo do livro. críticas.requer muita paciência. observei muito o que estava acontecendo na própria Rede. Por isso. A cada recorte ou e-mail. usuária leiga (em informática) que era: quais eram as minhas reações. Os questionários foram divulgados e respondidos através da própria Rede (por e-mail) e as entrevistas foram feitas pessoal e individualmente. capacidade de lidar com o excesso de informação disponível. o que estava acontecendo com os jovens. Passei a prestar muita atenção na mídia especializada. Outros depoimentos escritos foram coletados através de e-mails espontâneos. uma central de coleta de todo tipo de dicas e informações. Recebemos -. E.

que foram desenvolvidas as reflexões que compõem este livro. Espero que sua leitura seja prazerosa. por simples letras.verdadeiros foram substituídos por nomes fictícios ou. É a partir de todo esse material. em alguns poucos casos por razões que serão oportunamente explicitadas. coletado ao longo de pouco mais de dois anos. 13 .

bem como a alguns indicadores da velocidade com a qual a Internet penetrou e continua penetrando os mais diversos recantos da nossa vida cotidiana. no entanto.e têm uma função também relativamente simples: a de contextualizar minhas reflexões e os usuários brasileiros no tempo veloz e na cultura voraz que a Rede inaugurou. ser úteis para que muitos outros leitores. de algumas peças dessa coleção. com muita intensidade -. Mas.ou melhor de acesso comercial à Internet -. estava ligada à Internet.muitos falam por si mesmos -. a revista Veja publicou o seguinte artigo de capa: Internet: A Rede planetária em que você ainda vai se plugar. no mais das vezes. pois geralmente conhecem as origens do ciberespaço brasileiro. Isso é necessário para que possa avaliar quantos brasileiros já estão vivendo -. recortes.dá um eloqüente testemunho do quanto a Rede cresceu nesse curto espaço de tempo.sob a égide dessa nova realidade. Os dados são simples -. mas. entrem em contato com aquilo que chamei de configuração psicológica básica do usuário brasileiro.pudesse ter acesso direto ao fascínio que a Rede vem exercendo sobre suas crescentes levas de usuários. uma matéria escrita na hora certa a respeito de um futuro pronto para explodir no Brasil. Quando começou o acadêmico é difícil precisar -. quando o acesso à Rede ainda estava praticamente restrito aos círculos acadêmicos. a minha coleção das mais diversas publicações. Já o período comercial -. cientistas brasileiros trocavam informações e arquivos. Esta foi a primeira publicação a respeito da Rede que guardei. etc. o leitor leigo provavelmente desconhece. Hoje. por sua vez. Os novos e antigos usuários sabem disso. Seguem-se algumas informações.o leitor -. A história da Internet no Brasil pode ser dividida em dois períodos distintos: o acadêmico e o comercial.de formas diferentes.NOVOS USUÁRIOS A Internet tem novos e antigos usuários. Gostaria que ele -. mas é certo que. RNP --. pelo menos desde o início desta mesma década de 1990.uma boa data talvez seja 1990. que correspondem a fases distintas do uso dessa Rede de computadores no Brasil. se correspondiam e faziam uso de computadores distantes por acesso remoto através da RNP que. arquivos. sem compromisso. ano que presenciou a implantação da Rede Nacional de Pesquisa.tudo coletado ao longo de pouco mais de dois anos -. Neste primeiro bloco. que podem. imprescindíveis para este leitor. convido o leitor para uma contemplação. -. já experientes na Rede.tem data de início bastante nítida: o ano de 1995. No dia primeiro de março de 1995. 14 .

mesmo tratando do ciberespaço. No segundo caso. reafirmo que estarei sempre falando do Brasil. e abraçá-lo quando se depende da falha infra-estrutura de nossas grandes metrópoles. pois esta é a plataforma a partir da qual nos lançamos nas nossas aventuras ciberespaciais. pensemos nas enormes diferenças existentes entre abraçar o desafio do ciberespaço. e a paciência e a persistência também. a partir de uma infra-estrutura de primeiro mundo. cuja existência depende de linhas telefônicas e eletricidade.Quanto ao espaço. 15 . A título de exemplo. a vontade tem que ser muito maior. o nosso.

Marcando presença no ciberespaço

Uma das formas de usarmos a Rede é a de nela colocarmos à disposição dos outros
usuários aquilo que gostaríamos que eles soubessem a nosso respeito. Para isso são
construídas as home pages que povoam o ciberespaço e nele são visitadas.

Dou alguns exemplos. Em sua home page, uma universidade divulga seus cursos, as
qualificações de seu corpo docente, sua produção científica, etc.; uma editora divulga
seus livros; uma loja de eletrodomésticos anuncia os produtos que vende; uma
campanha para encontrar crianças desaparecidas fornece os dados e fotos dessas
crianças; um partido político torna públicas suas posições a respeito de diferentes
assuntos; um clube desportivo torna disponíveis horários de aulas e treinamentos bem
como históricos de suas glórias e conquistas; etc. etc. etc.

Usar uma home page é uma forma nova de se fazer, ao mesmo tempo, marketing --
pois as home pages cumprem as funções de vitrines, anúncios, catálogos, outdoors,
simples cartões de visita, etc. -- e pesquisa de mercado -- dado que as home pages
podem solicitar as opiniões dos visitantes e promover debates entre os mesmos, tudo
isso através da Rede, é claro.

Mas o que talvez seja mais importante é que a interatividade das home pages inaugura,
embora ainda de forma incipiente por conta de problemas de segurança no envio de
informações privadas, uma nova forma de fazer comércio, transações bancárias, etc. O
dia em que o comércio na Rede estiver funcionando a todo vapor, não há dúvidas de
que ela vai se tornar um grande shopping.

De qualquer forma, parece que cada vez mais representantes de todos os setores da
nossa sociedade pressentem, quando não sabem de fato, que é importante estar
presente no ciberespaço mesmo que dele ainda não se saiba bem o que fazer.1 Esses
primeiros estágios da nova revolução requerem muita experimentação, muito ensaio-e-
erro, pois o que não se sabe é sempre muito. Mas já se sabe que não é possível
aprender desconhecendo ou testar estando ausente...

Assim sendo, o ciberespaço começou a ser colonizado por home pages brasileiras no já
histórico ano de 1995, que viu o início da Internet comercial no Brasil.

No início, as home pages eram poucas e era fácil listá-las. A revista Internet World --
cujo primeiro número foi publicado em setembro de 1995 --, por exemplo, o fazia
destinando para tal finalidade algumas páginas de sua publicação mensal.

Pouco tempo depois, mais exatamente em junho de 1996, a mesma revista adotou uma
nova política perante o crescente número de home pages brasileiras. Passou a listá-las

1
Uma discussão de como os usuários vêem as home pages pode ser encontrada em NOVOS
CONCEITOS. Já algumas considerações a respeito de como usar as home pages com finalidades
publicitárias podem ser encontradas em A expertise jovem e o novo mercado de trabalho, no bloco
sobre a NOVA LÓGICA.
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num encarte intitulado Internet Brasil, que se tornou um guia de home pages e
provedores de acesso à Internet no Brasil.
Em suas primeiras edições, esse guia listava as home pages simplesmente em ordem
alfabética. Logo depois, em agosto de 1996, ainda para lidar com números cada vez
maiores e para facilitar a consulta, a listagem passou a ser feita por assuntos. A
discussão desses assuntos fica para daqui a pouco, dado que o propósito, agora, é
simplesmente o de mostrar ao leitor a velocidade com a qual o ciberespaço foi povoado.

Um pouco mais tarde ainda, a revista Internet World deixou de publicar esses encartes.
Muito provavelmente o número de home pages cresceu tanto que tornou impraticável a
sua publicação. A tudo continuar no mesmo ritmo, os encartes logo, logo acabariam
tendo as dimensões dos catálogos telefônicos de grandes metrópoles. E a Rede já
contava com sites de busca nacionais, como o Cadê? que, em dezembro de 1996, tinha
em seus cadastros a bagatela de mais de 14 mil endereços exclusivamente brasileiros.
Estes endereços, por sua vez, deram origem a uma publicação -- daquelas
convencionais -- intitulada Internet: Páginas Amarelas Brasil (organizada por Gustavo
Viberti e editada por Axcel Books do Brasil Editora), que, em 1997, já se encontrava em
sua segunda edição. Os encartes não eram mais necessários. Já haviam cumprido sua
missão.

Revistas e cadernos de informática acabaram adotando o procedimento de publicar
dicas de home pages visitadas. O Guia da Internet.Br, por exemplo, desde seu primeiro
número, que data de maio de 1996, publica encartes com comentários, críticas e outras
informações sobre home pages brasileiras e internacionais.

Todo esse processo pode ser resumido da seguinte forma: a Internet no Brasil cresceu
assustadoramente nos seus dois primeiros anos de vida comercial.

Uma importante conseqüência desse crescimento é a penetração da Rede nas mais
diversas áreas da nossa experiência cotidiana.

Como mencionei anteriormente, já em agosto de 1996, a revista Internet World, passou
a publicar a lista de home pages brasileiras por assunto. Quais eram esses assuntos?
Diria que os convencionais de um guia de páginas amarelas. Ou seja, assuntos bem
cotidianos como:

- Arte, Cultura, Lazer e Religião
- Ciência e Tecnologia
- Comunicação
- Educação
- Esportes
- Finanças & ETC.
- Governo, Política e Associações
- Indústria e Comércio
- Internet e Informática
- Pessoais
- Saúde
- Turismo e Ecologia

17

Isso já dá uma boa idéia da penetração da Rede. Mas acho que, para que o meu leitor
possa ter uma avaliação mais concreta do quanto a Rede já atingiu os mais diferentes
recantos do nosso cotidiano bem brasileiro, melhor seria ele me acompanhar num
passeio por home pages selecionadas por mim mesma. O principal critério que usei
para fazer essa seleção foi o quanto essas home pages estão próximas do nosso dia-a-
dia e de alguns de seus problemas e alegrias, ou seja, o quanto elas são reveladoras de
como vivemos e reagimos às nossas experiências diárias.

Quem está na Rede de acordo com essa seleção?

O time de maior torcida carioca, dizendo o seguinte:

“Tenha um endereço e-mail no formato: seunome@flamengo.com.br(...) Telefone
já para (...), ramal Flamengo ou vá no endereço:
http://www.flamengo.com/provedor.html”.

“Mostre a 40 milhões de pessoas em todo o mundo a sua paixão pelo Flamengo.
Coloque sua home page pessoal dentro do Fl@Net e seja parte integrante da
Torcida Eletrônica Oficial do Flamengo. Maiores informações no endereço:
http://www.flamengo.com/torcida/socio.html”
(Revista do Flamengo de dezembro 96/janeiro 97).

E o Flamengo não somente está na Rede como se tornou um provedor de acesso à
mesma. Anuncia tudo isso na Revista que é vendida nas bancas de jornais e distribuída
a todos os seus inúmeros sócios sem qualquer preocupação de ter sua popularidade
arranhada por uma propaganda elitista ou de difícil compreensão. Além disso, de
acordo com o número de fevereiro de 1997 da mesma Revista, o Flamengo firmou
convênio com a empresa Data-Rio com o objetivo de oferecer a seus sócios cursos de
computação de caráter profissionalizante nas dependências do clube, com desconto de
50% na mensalidade. Entre os vários cursos que estão abertos a alunos a partir dos
sete anos de idade já está incluído um de Internet. Em breve, ainda de acordo com a
Revista, serão lançados cursos de Clipper, Visual Basic, HTML e Coreldraw para a
elaboração de home pages.

Agora, além de grandes desportistas, as escolinhas do Flamengo podem gerar novos
profissionais de computação e Rede. A Internet torna-se cada vez mais popular.

Mas o Flamengo, é bom que se saiba, é apenas um dentre os vários times brasileiros
que já faz a divulgação de sua história e desempenho no ciberespaço e tem uma torcida
eletrônica. Outro exemplo é o seu tradicional adversário, o Fluminense.

A penetração e a popularidade da Internet brasileira também podem ser apreciadas no
texto que se segue:

“Comprar uma fantasia da Beija-Flor, da Mocidade Independente de Padre Miguel,
da Imperatriz Leopoldinense, da Estácio de Sá ou do Salgueiro... acessando seus
endereços eletrônicos tem vantagens. Além da possibilidade de a roupa para o
desfile poder ser entregue em casa, na maioria dos casos, elas estão sendo
parceladas em várias vezes. Um negócio virtual que começou a virar realidade no
ano passado.”

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projeto idealizado e executado pelo Hospital Clementino Fraga Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Outros Procon’s Brasil afora. também com a ajuda de programas especiais. também. Os grandes jornais com suas versões online. cujas contas foram doadas por um provedor de acesso comercial. Os alunos das escolas comunitárias ligadas ao Comitê para Democratização da Informática. com um catálogo de odontologia. inclusive com pelo menos um hospital virtual intitulado Médico Virtual. Os dentistas. Os cegos. Muitas grandes revistas. 19 . Outros deficientes físicos. (O Globo . domingo. com uma home page que afirma aceitar sugestões e críticas. publica o Código de Defesa do Consumidor. que já foi tema de um bloco carnavalesco no Rio de Janeiro. A acupuntura. individualmente e através de seus conselhos regionais e federal. que se propõe a formar uma grande rede de comunicação entre médicos e especialistas de todo o país. que. 2 de fevereiro de 1997) As populares escolas de samba cariocas também estão na Rede. Quem mais? A impopular TELERJ. Os advogados e juízes. O Senado Federal. A Divisão de Repressão a Entorpecentes (DRE) da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Os psicanalistas e algumas de suas sociedades e revistas. aqueles que com ela se desesperam podem desabafar num site intitulado “Eu odeio a TELERJ!”. com a ajuda de um programa de acesso com sintetizador de voz. que. após a descoberta de que a Rede estava sendo usada para a venda de drogas. Os médicos. em sua home page. Alguns delegados especializados em Rede foram deslocados para desbaratar o crime no ciberespaço. vendendo o seu carnaval. Os psicólogos. Mas. resolveu abrir uma home page para onde podem ser feitas denúncias. Vários partidos políticos. O Procon-Rj.

etc. facilitando a vida das donas e donos-de-casa com suas vendas online. (A expectativa em abril de 1997 era a de que 500. um livro de culinária popular). Expectativa esta que foi confirmada. Os poetas atuais e os futuros também. Há também aqueles que. 20 . companhias de táxi.) Várias associações profissionais e sindicatos. guias de saúde. As cadeias de supermercados Pão de Açúcar e Zona Sul. Raul Seixas. Grandes pintores brasileiros. em cuja home page pode ser encontrado um “Ufonário”. festivais folclóricos. seitas esotéricas. em muitos casos. etc.000 contribuintes fizessem sua declaração pela Rede. lojas de CD’s. moda jovem. e os Mamonas Assassinas. cinemas. Vários artistas brasileiros. administradoras prediais. com receitas de bolos. construtoras. Filmes. Jô Soares Onze e meia. imobiliárias. com uma Agenda do Samba & Choro. como Noel Rosa. igrejas.As campanhas para encontrar crianças desaparecidas. O samba e o chorinho. Cazuza. Vários grandes bancos. ou seja. inclusive com seus formulários para declaração do Imposto de Renda. Lulu Santos. conservas. Quase todas as editoras brasileiras. Chico Buarque. Vários escritores brasileiros vivos ou mortos. A música erudita brasileira. Os ufólogos. A música popular brasileira através de. Jamelão (o grande mestre da Mangueira. a exemplo de Candido Portinari. grandes cervejarias. Barão Vermelho. Várias livrarias também. um dicionário dos termos utilizados pela Ufologia. estão presentes in memoriam. entre outras do gênero. também. agendas culturais de diversas cidades. MPB-4. com seus catálogos e. As tradicionais receitas da vovó Dona Benta (para quem não sabe. geléias. Outra vovó que está na Rede é a vovó Barreiros. A Receita Federal. companhias de aluguel de carros. Biquíni Cavadão. jogos lotéricos. O Ponto Frio “Bonzão” e as Lojas Americanas. entre outros: Gilberto Gil. griffes. mesmo). Zélia Duncan. churrascarias e outros restaurantes. vendas de livros pela Rede. teatros. entre outras cadeias vistas como populares. com suas lojas virtuais. Quarteto em Cy. pois a home page Expoética aceita contribuições.

dicionários. guia de CEP’s de todo o Brasil. etc. 21 . Não tenho dúvidas de que o leitor concordará comigo. etc.. etc.canais de TV por assinatura.. não? Resta saber. E foi tudo muito rápido. e essa é a grande pergunta para a qual este livro tentará encontrar algumas respostas. batalhões da polícia militar e do corpo de bombeiros. qual o impacto que tudo isso está tendo sobre todos nós. É difícil pensar em algum setor de nossas vidas bem cotidianas que não tenha um representante na Rede.

é possível mandar construir uma home page e abandoná-la no ciberespaço somente para nele marcar presença. então o único provedor de acesso comercial do país. era o único provedor comercial no Brasil. interativo -. publicamente. pois. pode dar ao leitor a oportunidade de fazer uma avaliação bastante concreta de quanto cresceu o uso ativo da Rede desde o ano-marco de 1995. Mas. de fato. acima de tudo. O conflito entre a defesa da ausência de censura no ciberespaço e a censura.de um episódio que. É óbvio que o AlterNex não era o ciberespaço. sob a acusação de comportamento incompatível com os princípios do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas). cotidiano). posição que seria esperável que o Ibase endossasse. a punição havia sido exagerada. por comparação com o que veremos depois. Passemos a alguns deles. a maior parte daqueles que realmente usam a Rede se posiciona firmemente contra a censura no ciberespaço.da mesma. editora de “Informática. Isso é possível e acontece. de uma proibição ciberespacial. Comecemos com o relato -. por isso mesmo. como excluir o usuário em questão.o caderno de informática de O Globo --.revelam a presença de instituições.ou melhor. um usuário foi excluído do AlterNex. infelizmente para todos os envolvidos.Usando o ciberespaço A difusão da Internet no Brasil pode ser avaliada a partir de diferentes tipos de dados. organização não-governamental conhecida por suas posições e campanhas em defesa da cidadania e dos direitos humanos. de acordo com ela própria. O episódio envolvia pessoas e instituições muito prezadas e. o ciberespaço para todos os que não pertenciam aos círculos acadêmicos.como as home pages -. dava uma noção das dificuldades que o conflito mundo real versus mundo virtual pode gerar. Em julho de 1995. O caso gerou muita discussão porque. o AlterNex resolveu não apenas censurar. organização à qual o AlterNex se achava vinculado. Alguns -. naquele momento o AlterNex. como disse. empresas e pessoas físicas na Rede mas não necessariamente o seu uso ativo -. no mundo real (ou. A confusão foi tanta que fez com que a jornalista Cora Rónai. no entanto. embora não o sendo de direito. assumisse a autoria da nota que serviu de estopim ao episódio e se pronunciasse indignadamente.baseado em algumas peças valiosas da minha coleção de recortes históricos -. Segundo ela. como prefiro. etc” -. Há. “internauta de carteirinha”. 22 . e. fez com que fossem. No entanto. era apenas o braço ciberespacial e comercial de uma instituição de renome cujas regras o usuário havia infringido. era. trocadas cartas em tom bastante áspero. Afinal de contas. outros fatos e números que revelam as levas de brasileiros que vêm se tornando usuários ativos da Rede. por razões de ordem interna.

Desconexão. o AlterNex é. Quais são as características desses usuários? Esta é uma outra questão que se coloca com freqüência (há grandes interesses econômicos por trás dessa curiosidade) e que comporta diferentes tipos de resposta baseados em diferentes tipos de dados. Dois 23 . O Globo. mesmo assim. até segunda ordem. podando da Rede as vozes muito dissonantes. naquela época. em sua maioria. era pequeno o número de pessoas que usavam os diversos serviços que a Rede torna disponíveis (correio eletrônico. em dezembro de 1996.” (Cora Rónai. os usuários ativos eram. as estatísticas estão sempre defasadas dada a velocidade com que tudo muda na Rede. ‘a Internet’. Muitos haviam acabado de entrar na Rede.. neste caso. jovens e solteiros. porém só quando este for um país de fato civilizado com ampla escolha de acesso à Internet. transferência de arquivos. viagens pelas home pages. E agora..000 e fechou com cerca de 1 milhão de usuários brasileiros (os cálculos foram feitos pela Embratel). O primeiro tipo é aquele que tenta traçar o perfil sócio-econômico e saber quais as áreas de interesse dos usuários. em julho de 1995 só podia usar a Rede quem fazia parte dos círculos acadêmicos ou quem tinha tido a sorte de poder abrir uma conta no AlterNex. pois os 50 provedores do início do ano de 1996 se contrapunham.“A nota sobre a desconexão do usuário do Ibase. o Ibase poderia cuidar à vontade do seu meio-ambiente. grupos de bate-papo livre. etc. foi assinada por mim. Eu não protestaria contra a atitude do AlterNex se existissem outros provedores de acesso à Internet comercial no Brasil. Segundo a Folha de São Paulo. que pularam de 50 para cerca de 800 somente no ano de 1996. Mas. E deve-se levar em consideração o também enorme crescimento do ano anterior. realizada pelo Cadê? (site de busca brasileiro que. etc. quantos são os usuários desses serviços no Brasil? É difícil calcular e. Dadas essas condições. o ano de 1996 começou com cerca de 110. homens. Saindo (ou saído) de lá. à existência de apenas um provedor comercial no país no mês de julho do ano de 1995. Um crescimento assombroso! Também segundo o artigo da Folha. como único provedor do país.e deve -. de 25 de dezembro de 1996. as estatísticas são o único conjunto de dados capaz de revelar o tamanho que a Rede já assumiu e como tudo foi extremamente rápido. De acordo com a primeira pesquisa deste tipo sobre o internauta brasileiro. como já vimos no caso da expulsão do usuário pelo AlterNex. grupos de discussão com temas definidos. o usuário não tem alternativas. visitas a museus e bibliotecas. Mas. vale advertir. a maioria desses usuários tem acesso à Rede através de provedores de acesso comerciais. já recebia cerca de 170 mil acessos diários) em associação com o Ibope e divulgada na imprensa convencional em fevereiro de 1997. Se alguém está passando dos limites pode -. 10 de julho de 1995) Ou seja. etc. coletados de diferentes modos e com diferentes objetivos.ser processado: Justiça existe para isso.).

Quaisquer discordâncias serão bem-vindas.) Embora todas as entrevistas tenham sido realizadas na própria Rede. embora minuciosos.principalmente para os homens -.terços dos entrevistados acessavam a Rede uma vez ao dia e a maior parte destes ficava ligada pelo menos uma hora a cada acesso. quando foram divulgadas.ao jovem usuário-leitor. ao menos provisoriamente. volume 2. número 18. Revista Internet World. podem delinear. Resumindo. os entrevistados tinham uma vida financeira confortável (renda familiar mensal acima de 20 salários-mínimos) Quanto ao que demandavam da Rede. E essas características pessoais são de grande interesse para quem quer que queira avaliar o impacto psicológico que a Internet vem tendo sobre todos nós. poliglota e com uma boa renda mensal. solteiro. jovem. Além de boa instrução. esses são dados quantitativos.) Mas. são outros ainda. as estatísticas acima mostram que o usuário brasileiro médio. levas de novos usuários se conectam todos os dias. os números já eram outros e. certamente um novo e rápido modo de produzir estatísticas. datado de maio de 1996. a arte e o turismo para as mulheres. esses usuários pertenciam ao topo da pirâmide social.2 As principais áreas de interesse apontadas foram os esportes -. gostaria agora de complementá-los com dados de um segundo tipo: dados baseados na análise do discurso dirigido pela mídia -. Estes são dados que. 24 . mas não inclui quaisquer indicações a respeito das características pessoais dos usuários da mesma. Sem contradizer ou confirmar nenhum desses resultados. um perfil psicológico básico do usuário brasileiro. era homem. Porém isso não importa. Mais da metade dos entrevistados falava inglês e já era relativamente reduzido o percentual de usuários que trabalhava com informática (apenas cerca de 20% do total). Ainda segundo a mesma pesquisa. pois esses números sempre indicam ao menos uma tendência e uma ordem de grandeza. Começo com o exemplo do discurso dirigido por uma jovem usuária-jornalista ao público leitor do primeiro número. somente capazes de revelar o perfil sócio-econômico do usuário da Rede. foi constatado que a grande maioria se conectava em busca de informação. embora não se prestando a qualquer tipo de quantificação. todos sabemos que. o que pode alterar o quadro drasticamente de uma hora para outra. corroborados pelo conhecimento olho-no-olho de muitos jovens usuários e pela observação próxima destes e de outros tantos. e disso o leitor não deve se esquecer. culto. (Fontes: Caderno de Economia de O Globo de 2 de fevereiro de 1997. pois o intuito principal é o de provocar alguma reflexão. por exemplo. Mais de um terço tinha nível superior e um grande contingente já havia completado ou estava completando o segundo grau. hoje. (O número de mulheres. certamente tem aumentado muito.muitas vezes pelo jovem usuário-jornalista -. na época em que a pesquisa do Cadê?/Ibope foi realizada.e a música. da primeira revista mensal 2 Contrastar com os nossos próprios resultados expostos em NOVOS RELACIONAMENTOS. Este perfil é muito útil para quem tem interesses comerciais na Rede. Digo era porque.

Não importa sobre o que você se interessa. Nossa equipe é composta de jovens com raízes universitárias. Agricultura. trocam mensagens. da qual a jovem usuária-jornalista é supervisora editorial -. se divertem. onde não há fronteiras. pois alguma coisa realmente grande está acontecendo. Trabalhamos afinados ao espírito evolutivo da Internet. em condições de igualdade. A Internet. É um convite ao leitor para participar também.br é uma iniciativa como muitas outras que nascem na Internet.Br.completamente brasileira sobre a Internet. 25 . A Internet é um mundo novo. A velha fórmula de manter novas descobertas e informações trancadas a sete chaves não vale no cyberspace. em breve poderemos dizer que na Internet existe informação sobre todos os assuntos já pensados pela humanidade. fazendo esta revista para você e com você. Estatísticas indicam que hoje encontram-se ligadas à rede aproximadamente quarenta milhões de pessoas. Com o surgimento do telefone. a Internet tem algo para você. sentimos que o mundo havia ficado menor. O que isso tudo significa é que existe um novo mundo fora daqui esperando por você. feito por uma equipe com a qual ele provavelmente irá se identificar (identificação que é comprovada pelo espaço conquistado.poder para quem souber usar. falam de sexo. que transcrevo na íntegra: “A sociedade sempre rompe seus paradigmas. Se você for explorando sistematicamente tudo que encontrar pela frente. e realmente havia. Agora nossas possibilidades aumentam de forma exponencial. comércio e indústria já tiveram seus tempos de glória. sendo estimado um crescimento na faixa de um milhão de novos adeptos por mês. quase sem limites. sendo o nosso único compromisso o de mostrar o que há de melhor neste novo mundo. Diz ela no artigo/editorial intitulado Na era da informação.quem não tem sua curiosidade despertada pela menção de um mundo novo? -. em poucos meses. as nossas boas vindas em nome de todo o cyberspace! E prepare-se. Grandes quantidades de software são distribuídas largamente sem qualquer custo. pela revista entre suas congêneres de origem estrangeira ou nacional). Os grandes nomes da Internet não são Microsoft. Ligue sua máquina e venha surfar com a gente!” Jaqueline Gomes Pedreira É um discurso contagiante de quem sente estar participando de uma revolução. Informação sem filtros ao alcance de todos -. disponibilizam e pesquisam informações. pesquisadores e estudantes universitários. mas sim uma coleção heterogênea de novas companhias. Para você que está chegando.o Guia da Internet. participam de grupos de discussão. totalmente imersos no cyberspace. quase sem leis. pirataria e muito mais. o que você quer conseguir ou qual o seu nível de conhecimento em computação.e atiça seu medo de ficar para trás. Provoca sua curiosidade -. Agora estamos em plena revolução ‘informacional’. IBM ou APPLE. alterando profundamente a forma de fazer negócios. Na Internet estas pessoas fazem comércio. nunca vai terminar. da televisão e do satélite.

e não- tão-jovens (cujo número aumenta a cada dia). bispos. Essas características estão presentes em duas outras matérias publicadas no número 8 do ano 1 -. A revista somente documentou para a posteridade um discurso que é contagiante por estar em sintonia com os olhos vibrantes e com os sentimentos daqueles que o emitem.Estratégia de marketing da revista? Até poderia ser se não fosse esse. mais do que nunca. Se você se ferrar. Na primeira. cujo sugestivo título é Convocação. 26 . agora associado ao desafio de estar (e permanecer) à frente. sua ambição profissional e seu faro para novas alternativas no novo mercado de trabalho aberto pela Internet (e isso também parece independer de idade). encontramos novamente o espírito revolucionário. Ouse mostrar a sua cara neste final de milênio. com algumas pequenas alterações e variações de estilo. comunicação simples e veloz. o discurso que ouvi todos os jovens. cravando uma bandeira no ciberespaço: “(. e o medo de ficar para trás e perder o bonde da história. O que é que você está esperando para cravar sua bandeira no ciberespaço?” Marcela Lanson 25 de agosto de 1996 Já a segunda matéria lida com duas outras características do usuário brasileiro da Rede. você tivesse acesso às últimas novidades do ramo. a curiosidade insaciável gerada por um novo que nunca deixa de ser novo.) Algum dia você imaginou que poderia participar ativamente de uma experiência fascinante que iria mudar o rumo da história? (. usuários da Rede proferirem a respeito da mesma nas mais variadas circunstâncias e para os mais variados interlocutores.) Não? Então se liga. Assim sendo..as pessoas só vão perceber isso no início do próximo. a partir desse discurso. e 3 Leia mais sobre o novo mercado de trabalho em a NOVA LÓGICA. está sendo requisitado para essas coisas que estão por vir. assistindo o resultado dos outros? Na Rede. preciosos contatos humanos. por um custo razoável. corroborado por minhas observações olho-no- olho. generais..janeiro de 1997 -. as seguintes características de ordem interna (que valem para diferentes faixas etárias): o sentimento de estar participando de uma revolução. Você é parte do que está acontecendo e o seu talento. acrescentaria ao perfil do usuário brasileiro traçado pelo Cadê?/Ibope... não se preocupe -.Br. Mas ainda faltam algumas características para completar o perfil dos sentimentos do usuário brasileiro que me é possível delinear no momento.3 O título da seção da revista é Profissionet: Internet e a sua profissão e de seu discurso inaugural foram retirados os seguintes trechos: “(.. ou favores de qualquer outra autoridade constituída. você não depende da ajuda de deputados. cara.da mesma revista Guia da Internet. Por que você não sai de dentro de você mesmo e tenta fazer aquela revolução que os seus pais não conseguiram fazer em 68? Por que não experimenta testar você mesmo esse novo paradigma do ciberespaço ao invés de ficar aí..) Já imaginou se.

É. Temos o objetivo de orientar você. clientes potenciais. (. a Internet. chegamos ao que chamaria de configuração psicológica básica do usuário brasileiro. para impulsionar seu desempenho no trabalho.. 4 Ao longo do livro. O espaço está aberto: Participe!! (. recursos e problemas aos quais retornaremos em diversos pontos deste livro.. de algum modo.) Caso a Internet contribua.ou seria um profissional internauta? -. aceita o desafio de estar e tentar permanecer à frente. Mensalmente. e até a resolução de dúvidas cabeludas em sua especialidade? São algumas. (. um internauta profissional -.contará de que maneira utiliza a Internet em prol de sua profissão. portanto.4 este sente estar participando de uma revolução.) muitos caminhos levam à utilização consciente da Rede-Mãe.)” Por esses novos critérios.. 27 . Jovem ou não. chegou a hora de compartilhar essa experiência com os nossos leitores. entre as múltiplas vantagens que a Internet pode oferecer a sua atividade profissional. o usuário brasileiro. expertise.. De olho vivo e mente aberta.. o leitor entrará em contato com vários usuários que podem ser considerados jovens somente “de espírito”. lhe mostrando a diversidade de uso da Internet. ainda.br inaugura então a seção Profissionet. e ajudando-o a aproveitar tudo de positivo que a Rede pode lhe oferecer. Essas características básicas vão interagir com o que a Rede oferece e dessa interação surgirão outras características. ambicioso e sensível para novas alternativas no mercado de trabalho. tem medo de ficar para trás e..softwares específicos para o seu negócio? Ou ainda: dados exclusivos. é curioso. alternativas essas geradas pelas novas tecnologias deste final de século nas quais ele é o expert.

O homem não sabe o que pedir à máquina e.sentimentos. ou seja. Peço.principalmente das áreas em que o uso de computadores por pessoas que entendem de computadores é antigo -.são arrebatados pela surpresa. porque a crescente antropomorfização da máquina está fazendo com que a relação do homem com seu computador subverta muitas de nossas concepções. Não é o homem. instalados ou instaláveis em nossas máquinas. Dado que sentimentos desse tipo estão geralmente circunscritos às relações do homem com seus semelhantes e alguns outros seres vivos. mais fáceis de usar. Porém. às vezes muito intensos. Se pede da forma errada. Para lidar com essas dificuldades iniciais. por exemplo. Há muito. a ajuda e a compreensão dos leitores experientes. Mas outros tipos de dificuldades. quando sabe. há muito fazem parte do nosso cotidiano. estar muito preocupado com alguns comportamentos e reações de seu filho ou filha. não sabe como pedir. portanto. O início da comunicação homem-máquina é difícil.penetrou no espaço doméstico e passou a ser usado por leigos em informática cuja experiência com máquinas geralmente se resume à experiência com aquelas máquinas mais distantes. Num primeiro momento. que povoam nossos lares. que são incompreensíveis de seu ponto de vista). incredulidade. muitos usuários -. não são ainda objeto de atenção especializada. mas o computador que dá o tom dos primeiros contatos. negativos e positivos. O usuário pode encontrar livros (além do help-na-tela que consta de praticamente todos os programas que usamos) que o ajudem a lidar com os problemas técnicos acarretados pelo uso de um ou outro programa. portanto. das mais simples. os programas. o computador se nega a fazer o que foi pedido e exibe mensagens e perguntas que o usuário também não entende. O computador. ao sair dos círculos acadêmicos -. medo. Quero garantir o acesso do meu leitor leigo à discussão (ele pode. e também mais dóceis.NOVAS RELAÇÕES HOMEM-MÁQUINA Máquinas. que são previsíveis. como uma torradeira. o homem mal sabe o que fazer depois que a telinha se ilumina. Por isso. tornam-se cada vez mais “amigáveis”. dado que este é apenas o segundo 28 . às mais sofisticadas. como um automóvel. decorrentes do que chamei de antropomorfização da máquina. raramente encontrará algo que lhe diga como avaliar ou interpretar as dificuldades para ele geradas por seus próprios inesperados sentimentos em relação ao seu computador. que aprendemos a lidar com elas com um confortável grau de distanciamento e a frieza que condizem com o tratamento que julgamos deve ser dispensado a um objeto. Sim. Tentarei discutir um pouco desses novos aspectos da relação do homem com sua máquina neste bloco.da parte do homem em relação ao seu computador -. Essa experiência é profundamente contrariada por seus contatos com o computador.e aqueles que com eles convivem -. revelando o cada vez mais aprofundado conhecimento do ser humano que lhes serve de base. etc. ao colocar em cena -.

mas cujo ponto de partida é.bloco de um livro. que não é técnico. necessariamente. e. novamente. 29 . que fornecer algumas informações básicas nas quais os leitores experientes não precisam se deter. Minha intenção é a de que todos possam ter contato com alguns dos ingredientes que podem tornar a relação do homem com seu computador cada vez mais amigável. Isso pode ajudar tanto o leitor experiente quanto o leitor leigo a fazer sentido do que está acontecendo ao nosso redor. terei. surpreendentemente íntima e intensa. uma tecnologia que nem todos dominam. muitas vezes.

Retratam. máquina.reconheceu Kasparov domingo. Cartunistas retratam o computador. o computador da IBM. O que está acontecendo? Quais as razões desses embates? É verdade que os programas estão se tornando cada vez mais fáceis de usar? Se estão se tornando mais fáceis. unidos e enraivecidos. impedindo Kasparov de fazer uma dama quando isso parecia líquido e certo: -. considerada por muitos mestres o verdadeiro final da disputa. Não me sobraram forças para continuar. por que os usuários ainda se desesperam tanto enquanto tentam dominá-los e. sábado. tendo à sua frente um usuário derrotado e ansioso. se sentem vitoriosos? 30 . não havia salvado nada em disquete). escritor. depois de perder pela segunda (e por enquanto definitiva) vez para Deep Blue.) A tensão acumulada pelo humano nos últimos dias foi ao auge no encerramento da penúltima partida. 13 de maio de 1997) É fato e foi manchete: Garry Kasparov. José Queiroz. desesperado e suplicante.Novas formas de comunicação do homem com a máquina “O que parecia impossível aconteceu.” ( Caderno de Esportes de O Globo. Sou um ser humano -. oficialmente reconhecido pela Federação Internacional de Xadrez como o melhor jogador de todos os tempos. Ao mesmo tempo. perdeu todas as notas de seu próximo livro sem sequer saber como. se recusando a acatar uma ordem humana --. também. considerado o melhor jogador de xadrez de todos os tempos. Já foi derrotado várias vezes. novato. Fernando Carvalho. fala-se em grandes avanços nos programas disponíveis para as mais diversas finalidades. perdeu para Deep Blue.cara amarrada e braços cruzados. campeão mundial de xadrez há 12 anos consecutivos. contador experiente.. temperamental -. revanches de usuários. com um lance espetacular de Deep Blue.. relata estar suando a camisa para aprender a usar uma simples planilha eletrônica. Talvez essa tenha sido uma derrota histórica de um humano para a máquina. Garry Kasparov. formam pelotões de fuzilamento para a execução de seus micros. Contratou um expert para vasculhar seu computador na esperança de encontrar ao menos alguns traços do seu trabalho (é claro que ele. ser humano. que. O que se viu nesse dia foi xadrez de verdade. mas certamente não foi a primeira nem será a última. depois que o fazem.O jogo acabou ali. (. foi derrotado por Deep Blue. Diz-se que eles estão se tornando cada vez mais amigáveis.

se os programas são amigáveis. Impressoras configuradas para a impressão de um programa certamente não imprimiam o que houvesse sido digitado em outro. como eu. E pior. Era uma odisséia e esse era diz respeito a um passado relativamente recente. F12) e de absurdas combinatórias destas com as teclas Ctrl. quando o fizemos. certamente não valia para outro. programas de manuseio mais fácil. e comportando todas as necessidades de acentuação da língua pátria. deve passar para a próxima seção. eram raríssimos aqueles que. F3. difíceis de adquirir e proibitivas em termos de preços. que ocupava andares inteiros de centros de computação. para começar. ou seja. A acentuação também variava de um programa para outro. ou seja. o que valia para um programa. Na época em que o homem interagia com o computador através de cartões perfurados e o computador era apenas uma grande máquina. surgiram os computadores pessoais (ou microcomputadores) e. os programas se tornaram mais amigáveis se comparados com os programas que os antecederam. se aventuravam a usá-lo. hoje chamada de mainframe. No entanto. isoladas ou combinadas com outras. antagônico e hostil entre o homem e a máquina? Bem.. 31 . usando DOS (Disk Operating System). F2. E. para compreendê-las necessitamos conhecer um pouco da história recente do computador. como já vimos.. sabíamos que o aprendizado seria difícil. A difusão do computador no Brasil. que já atraíram mais adeptos para o computador. em português. era menor do que o enorme benefício de poder alterar e re-alterar um texto sem ter que datilografá-lo (a alternativa ainda era uma máquina de escrever) novamente e por inteiro a cada alteração que mudasse a paginação de um documento. cabe perguntar. Quem quer que já a conheça. O problema é que as funções desempenhadas pelas teclas de função. pois até quem usava os recursos deste somente para escrever e editar textos começou a achar que o custo de aprender a se comunicar com a máquina através das teclas de função (as F1. ou seja. Um pouco mais tarde. Mas foram relativamente poucos aqueles que. As vantagens de máquinas mais rápidas e com maior capacidade de armazenamento de dados são óbvias. os principais responsáveis pela difusão dos computadores no Brasil são mesmo os novos programas para Windows. mais amigáveis. embarcaram nesse tipo de aventura. Alt e Shift. mas são comparativas. os programas para Windows. as mesmas teclas desempenhavam diferentes funções em diferentes programas. sem terem necessidade imperiosa do computador como ferramenta de trabalho. geralmente as importadas. data do início da década de 1980 e deve-se a dois fatores conjugados: o fim da reserva de mercado que tornava as melhores opções de máquinas. o que não quer necessariamente dizer que eles tenham se tornado amigáveis de fato. com eles. tinham que ser memorizadas a partir de manuais tão longos quanto maçantes. Mas. Disquetes não podiam ser passados ou enviados para quem não usasse o mesmo programa.As razões são relativamente simples. por que há tantas referências a um relacionamento tenso. e o advento de programas mais amigáveis e mais fáceis de manusear.

por analogia. Uma grande diferença é introduzida nesses programas pelos avanços da computação gráfica: a tela ficou organizada em janelas auto-explicativas que podem ser movimentadas e os comandos se tornaram visíveis e clicáveis com o mouse. Ao tentar armazenar um arquivo na memória de meu computador. só podemos deletar se excluirmos. uma alma de encontrar a perdição. novamente. Como poderia imaginar que o verbo inglês save que significa poupar. mas não sabia nomeá-las incorretamente em português pelo simples fato de conhecer bem inglês. um bem de uma catástrofe. Isto porque. ou seja. guardar ou qualquer coisa no gênero. guardar arquivos na memória de um computador) encontraria sua tradução para o português em seu outro significado. o que era feito pelas teclas de função (que ainda podem ser usadas) tem agora seu correlato na forma de botões e ícones compreensíveis. quer simplesmente dizer que esses já estão acostumados às pequenas derrotas e vitórias que fazem parte da convivência homem- máquina e já se sentem vitoriosos por não terem desistido nos estágios iniciais de sua aventura digital. não é o mesmo que dizer que torne as coisas fáceis.5 no entanto. guardar dinheiro ou objetos de valor nos cofres de um banco. menus e ícones. Isso torna as coisas fáceis para o novato? Diria que torna as coisas mais fáceis.? Pois bem. guardar alguma coisa para mais tarde (ou. em português só se fala em deletar (que é um neologismo já incorporado). etc. Em inglês é delete. ainda.Além disso. a partir dos quais os comandos podem ser escolhidos sem maiores dores de cabeça por aqueles que já tiverem apreendido a lógica desses botões. não encontrava nada como armazenar. podemos retomar a questão dos programas mais amigáveis e tentar avaliar as vantagens que estes oferecem em relação aos seus antecessores. no menu do Word. São tantos os comandos possíveis que é necessário conhecer muito bem as opções disponíveis como também saber nomeá-las corretamente (de acordo com os parâmetros do programa) em português. Perdi alguns arquivos por conta dessa tradução bastante canhestra. Na realidade. ou seja. 5 Leia mais a respeito da incorporação de palavras inglesas ao português em NOVOS USOS DE LINGUAGEM. 32 . arquivar. Dou alguns exemplos tirados da minha própria experiência. geralmente se dão entre iniciantes e o computador. Outro problema que enfrentei foi quando quis deletar alguma coisa. As grandes brigas. que seria a tradução mais próxima. quando queremos armazenar em português. Há. quando já sabia quais eram as opções. ao menos aparentemente. à exceção de casos como o de Kasparov. Agora. o de salvar uma vida. O novato vai levar algum tempo para se sentir em casa mesmo nesse ambiente amigável de janelas supostamente auto-explicativas. o que não quer dizer que veteranos não briguem com suas máquinas. são os programas que têm que falar a língua do usuário e não o contrário. os úteis menus. o que. salvamos ao invés de guardarmos/arquivarmos. não podemos sequer apagar. fiquei sem saber como fazê-lo pois. Tendo definido o iniciante como o usuário sobre o qual centraremos esta discussão. há que se levar em consideração o usuário a respeito do qual estamos falando. por mais que vasculhasse os diversos menus.

voltar. dos botões já simplificou muito nossa interação com a máquina quando não somos experts (alguns desses ainda preferem digitar comandos ou usar teclas de função). o que certamente ainda não acontece. Da mesma forma que comecei a usar o computador quando se usavam programas que rodavam em DOS. corrigir a ortografia. ou clico o botão que exibe o layout da página e aí aciono página por página. faziam uso de teclas de função sozinhas ou combinadas com outras teclas. o UNIX. executar as operações correspondentes: abrir uma nova pasta. principalmente. visualizar a impressão. quiçá. colocar bordas. neste exato momento. à frente da telinha. a facilidade inicial que temos quando apertamos as teclas ou botões de um liquidificador. os avanços da computação gráfica já tornaram tudo muito mais fácil. se debruçando sobre as inúmeras páginas de um manual. se desesperando). etc. Para me movimentar no texto uso a barra de rolagem lateral. através do qual posso aumentar ou diminuir o que vejo na telinha.Talvez o novato tenha mais sorte! Mas. olho para a tela e vejo que estou usando. Essa será uma experiência única na história das relações que o novato em computação já estabeleceu com outras máquinas. no entanto. transportada para os programas da Rede. de qualquer modo vai ter que aprender a se comunicar com o computador de uma de três formas: freqüentando um cursinho (já há vários cursinhos de computação disputando a atenção de potenciais alunos). escolher fontes. comecei a usar a Rede usando programas que rodavam sobre outro sistema operacional. salvar. Enquanto escrevo este texto. formatar. se tudo tivesse continuado como antes muito provavelmente a revolução digital não estaria acontecendo. barra de rolagem e. inserir. etc. usar negrito ou itálico. exibir. Tenho também acesso a um botão de zoom. utilitários. copiar. Estamos longe de ter. recortar. Vejo também o número da página. Além disso. colar. limpar. útil que esse novato saiba que se tudo tivesse continuado como antes ele provavelmente sequer cogitaria de usar um computador. os que rodavam em DOS. ou perdendo horas a fio na frente da telinha ensaiando e errando (e. Sim. mas a invenção das janelas. Já os programas em UNIX da Rede exigiam 33 . Expliquei que os primeiros.ou seja. inserir tabelas. Nunca antes ele havia enfrentado tanta dificuldade. posso abrir vários menus dentro das seguintes categorias: arquivo. justificar. A mesma lógica das janelas foi. imprimir. fazer auto formatação. e a botões que alteram o tipo e o tamanho das letras que estou usando. É. O pior é que não necessariamente estas formas são excludentes. mais recentemente. Na realidade. editar. repetir. menus. ainda sem a facilidade de janelas. janela e ? (o ponto de interrogação significa ajuda). a hora em que escrevo e tenho acesso a uma barra de ferramentas na qual posso clicar diversas teclas e. assim. a nonagésima segunda posição da trigésima segunda linha da página atual. coloque na tomada e use --. sublinhar. tabela. porque apesar dos pesares e embora se fale muito em plug and play -.

o que tornou a vida dos usuários da Rede bem mais fácil. Em resumo. computadores pessoais) passaram a ser substituídos por programas que usavam o sistema de janelas. os grupos de discussão temática. Pouco depois.que os comandos fossem dados por extenso. Esta lógica tornou-se.). embora ainda desafiante para os iniciantes. naquele tipo de sintaxe que não permite qualquer tipo de erro ou omissão. e em inglês. menus. fazemos uma planilha. ou ainda para que possamos interagir com nossos semelhantes através das máquinas (como nos programas de bate-papo livre -. seja para fazer com que a nossa máquina interaja com outras (como quando enviamos uma correspondência eletrônica. 34 . o que não é pouca coisa. a lógica à qual estamos expostos todo o tempo que usamos o computador. surfamos nas ondas WWW. num determinado momento da nossa história recente. com a difusão da Internet. no entanto. barra de rolagem e botões se tornou a predominante em praticamente todos os programas que usamos. a amigável lógica das janelas. usamos mecanismos de busca em nossas pesquisas. 6 6 Leia a respeito de algumas de suas conseqüências em NOVA LÓGICA. etc. tanto os programas que rodavam em UNIX quanto aqueles que rodavam em PC’s (personal computers. seja para interagir somente com a nossa máquina (como quando jogamos unicamente com ela ou quando escrevemos. etc.).os chats --. etc).

os aspectos físicos da máquina -. . mas o usuário perde a sensação de estar trabalhando ininterruptamente. Não é necessário nenhum aviso na tela.10 segundos -. Máquina e cérebro estão no mesmo compasso. E aqui me refiro principalmente aos desenvolvimentos do software -.5 segundos ou mais -.Recomenda-se mostrar uma ampulheta indicando que uma operação está em curso e o usuário não poderá continuar trabalhando até o seu término. de forma resumida. .e tentemos apreender os esforços feitos.ou seja. e. dos programas através dos quais os usuários interagem com a máquina. Comecemos. Na qualidade de usuária leiga em informática. no sentido de torná-los cada vez mais fáceis e agradáveis para o usuário.o software -. do Canadá. Segundo um documento divulgado pela divisão de pesquisa da multinacional Bell. por seus criadores. mas certamente não posso discorrer sobre a tecnologia que está por trás dos mesmos. o tempo que temos que esperar para que a máquina abra um determinado aplicativo ou execute algum comando. Para esperas maiores.2 a 3 segundos -. o tempo de resposta ideal para determinadas operações é. como exemplo.Limite para o usuário sentir que o sistema está reagindo instantaneamente. seus desejos e suas limitações todos esses desenvolvimentos têm em sua base.Limite para manter a atenção do usuário focalizada. o ser humano tem muito pouca paciência quando está sentado à frente da telinha.para depois. programas ao mesmo tempo mais e mais fáceis de usar. Deixarei meus comentários sobre o hardware -.Limite para o fluxo de atenção do usuário permanecer ininterrupto. [a não ser que passe a trabalhar em outro programa]. por outro. e mais e mais sofisticados. posso avaliar o quanto de conhecimento do homem.1 segundo -.0. posso simplesmente apreciar uma máquina mais veloz do que aquela que usava há um ano ou programas mais fáceis de manusear do que aqueles com os quais tive que lidar no início de minha aventura informática. máquinas que se superam em velocidade de processamento de dados e capacidade de armazenamento. de forma que o usuário saiba quanto tempo falta para sua conclusão. o seguinte: “. Não tenho conhecimento de informática suficiente para tanto. Tomemos. por aquilo com que interagimos -. Já na qualidade de usuária-psicóloga. .Recomenda-se mostrar uma barra indicando o progresso da operação sendo realizada pelo micro.O que está por trás das novas formas de comunicação do homem com a máquina Todas as mudanças que temos presenciado nos últimos anos no sentido de tornar a vida do usuário do computador mais fácil através da criação de linguagens e programas mais amigáveis e acessíveis evidenciam um domínio cada vez maior da tecnologia que produz.1 segundo -. por um lado. Ainda na opinião desses especialistas. o usuário desejará fazer outras operações enquanto aguarda o 35 . portanto. Cada segundo de espera torna-se fonte de exacerbação e motivo de desatenção. mesmo que note o lapso. e de acordo com os programadores da Microsoft. .

esses programadores introduziram os joguinhos de paciência. Um outro exemplo do conhecimento que os programadores têm dos limites. dentro de um determinado 36 . é que seres humanos. num controle remoto de televisão). dezembro de 1995.computador concluir a sua. sejam estes sistemas operacionais ou aplicativos que rodam em cima de um sistema operacional. Por isso mesmo. das capacidades e gostos dos seres humanos pode ser dado usando a linguagem de sintaxe rígida da máquina. Sempre que os tempos de espera forem variáveis. copas e congêneres no pacote do Windows. enquanto você faz o que quiser. enquanto você navega pela Internet.. é melhor descansar sem largar o computador do que deixá-lo de lado por algum tempo enquanto se toma um cafezinho ou se bate um dedo de prosa. Agora você pode imprimir enquanto você escreve um texto.de que basta comandar que a operação é executada imediatamente (como. pp.conceito de multitarefa simultânea. por exemplo. o usuário vai querer fazer alguma outra coisa. edição especial Computador: o micro chega às casas. E os programadores sabem disso.” (Fonte: revista Veja.” (Anúncio do Windows 95 em diversos jornais e revistas à época de seu lançamento no ano de 1995) Outra coisa que os programadores conhecem a respeito dos seres humanos que usam computadores.. quando ficam cansados depois de muito tempo à frente da telinha ou à procura de soluções difíceis para as tarefas que estão executando. mas que muitos seres humanos que pouco conhecem de si mesmos desconhecem. para esperar que sejam concluídas. Numa visão bastante utilitária e prática. ou seja o mandamento que reza que devemos fazer várias coisas ao mesmo tempo para que possamos ganhar tempo para fazer mais coisas ainda. que pode ser sentida pelo usuário como muito atenciosa e amiga. E. E sabem mais ainda. É fato conhecido que não interagimos diretamente com a máquina. enquanto você roda um velho programa em DOS. O cafezinho e a prosa certamente tomarão mais tempo. Sabem que algumas operações são demoradas e que. 38-39) É desnecessário dizer que todos aqueles que lidam com computadores logo se familiarizam com ampulhetas e barras. Essa alguma outra coisa enquanto se espera é o fundamento básico do conhecido -. de preferência sem deixar de lado o computador. Elas ajudam o usuário a lidar com a subversão de sua expectativa -.porque amplamente divulgado pela Microsoft à época do lançamento do Windows 95 -.gerada pela experiência com outras máquinas -. mas sim com programas. Vejamos o que dizia a esse respeito a propaganda do Windows 95: “Assobiando e chupando cana” “Com Windows 95 a multitarefa no seu PC ficou muito mais fácil. as barras indicando em porcentuais o progresso da operação são imprescindíveis. precisam de um pouco de distração para descansar a mente.

os comandos têm que ser dados de determinadas formas.BR. ou mesmo se algo é escrito incorretamente. Nela encontramos as instruções a serem seguidas para nos tornarmos assinantes da mesma. Se o programa exige uma seqüência de letras. o usuário vai simplesmente receber uma mensagem assinalando que a seqüência está incorreta. contendo. com o texto UNSUBSCRIBE MEUPOVO Sugestoes e colaboracoes para a lista devem ser enviados para dariomor@actech. sem qualquer espaço entre as letras e símbolos do endereço. o texto: SUBSCRIBE MEUPOVO Para cancelar a assinatura.7 Comparemos. não vai haver resposta.BR. Examinemos a seguinte mensagem de uma lista informativa bastante conhecida: a lista MeuPovo. o endereço acima com esse outro (fictício) do mundo real: Alberto Vieira Avenida N. ************************************************************************** ********** Lista Informativa MeuPovo. 37 . de Copacabana. apto 402 Copacabana. o carteiro vai compreender onde deve deixar a carta.S. caso contrário o computador não executará a operação que desejamos que execute. ou que é impossível executar a operação. envie msg para MAJORDOMO@ACTECH. 7 Leia mais a respeito da ausência de acentuação e de cedilhas em NOVOS USOS DE LINGUAGEM. na 1a linha da msg. se o datilografamos na máquina de escrever manual que herdamos da nossa avó. Basta colocar um espaço que a mensagem não vai seguir. Isso porque quem envia a correspondência é uma máquina e quem responde é outra.BR. 1200.br ************************************************************************** *********** Estas instruções são explícitas: deve-se usar a primeira linha e escrever SUBSCRIBE MEUPOVO exatamente da forma indicada. E.programa. se a tinta é vermelha. azul ou verde. Isso deve ser enviado por e-mail para MAJORDOMO@ACTECH. caso o texto seja ligeiramente diferente do prescrito. se o escrevemos à mão usando letra cursiva ou de fôrma. agora.COM. Para assinar a lista MeuPovo.COM. envie msg para MAJORDOMO@ACTECH. ou não esteja na primeira linha como indicado. símbolos e espaços para efetuar uma determinada operação. Rio de Janeiro 22040-000 Não vai fazer a menor diferença se o digitamos no computador e o imprimimos numa impressora laser.COM.com. e algo for omitido ou alterado na seqüência digitada. Observe-se também que esse software não aceita acentos ou cedilhas.

ou seja. os avanços não têm sido muito impactantes. em seu número 8 (janeiro de 1996). ou do bairro. Da mesma forma que os programadores conhecem a dificuldade que nós. Assim sendo. ou melhor. conhecido simplesmente como professor Hermógenes. na home page da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). para esticar colunas castigadas e moídas pelo uso constante de computadores. Clicamos um botão e a máquina transforma esse clicar em algo por ela compreensível. havia um link para uma página integralmente dedicada à dor nas costas. seu uso está ficando cada vez mais restrito aos endereços eletrônicos ou aos endereços de sites na Rede. 38 . revistas especializadas. O uso prolongado do mouse e do teclado bem como o ficar sentado à frente de uma tela iluminada horas a fio geram problemas de saúde de várias ordens. usuários.Br. para executarmos outras tantas tarefas. Quanto mais clicamos botões ou abrimos janelas. transformam comandos difíceis e insuportáveis em macios botões virtuais que quase todos acham visualmente agradáveis e gostosos de apertar. etc. temos com a sintaxe rígida da máquina. Seguem-se alguns exemplos: Há algum tempo.8 Isso porque os programadores inventaram fórmulas para tornar a nossa vida mais fácil. A área da interação física do ser humano com o computador. ou dos dados essenciais como o número do prédio numa avenida que percorre alguns quilômetros!).E mais. menos nos damos conta de que a linguagem da máquina continua inflexível e mais temos a sensação de que ela fala a nossa língua. problemas esses que só podem ser evitados pelo desenvolvimento de um hardware mais ergonômico. Na realidade. à sua prevenção. compreenderá o endereço mesmo que nos esqueçamos do CEP. exigidas pela máquina. Mesmo os jovens sabem que não é nenhuma brincadeira ficar sentado em má postura horas a fio à frente de um micro! A revista Guia da Internet. simples usuários. a área das interfaces. embora o conhecimento do ser humano seja grande. sabem perfeitamente que adoramos teclas e botões. gerado por um conhecimento cada vez mais aprofundado dos efeitos físicos que a interação homem-máquina tem sobre o primeiro. por nós. ou do nome do destinatário (só não podemos nos esquecer de tudo. é dedicado espaço em home pages. fornece dicas de um célebre professor de ioga. temos que usar o teclado. cadernos de informática dos grandes jornais. esteja se tornando cada vez menos freqüente. Alguns problemas de saúde gerados pelo uso contínuo e prolongado de computadores são tão preocupantes que a eles. Mas a evolução dos programas tem feito com que o uso das seqüências rígidas. Para clicar todos os macios botões gerados pelos programadores temos que usar o mouse e. 8 Leia mais a respeito de diferentes usos de linguagem em NOVOS USOS DE LINGUAGEM. E isso nos leva a uma outra área onde. Estamos acostumados à flexibilidade desse tipo de linguagem e temos muita dificuldade em usar seqüências que não permitem qualquer alteração.

publicada em 18 de março de 1996.que atingem os usuários de computador -- aumentou de 34% para 60. é chegada a hora dos projetistas de hardware usarem todo o amplo conhecimento que as ciências biomédicas acumularam sobre o corpo humano e suas limitações para criar máquinas. Por tudo isso. braços. Diz: “Tenossinovite .71% entre os 908 pacientes analisados. Até a coluna Input. permito-me discordar dos terapeutas citados anteriormente. do braço. mas também máquinas com as quais possamos interagir mais harmonicamente. revelou que a incidência de LER (lesões por esforço repetitivo) -. alongar e fortalecer.” Feita esta triste constatação. não somente mais rápidas ou com maior capacidade de armazenamento de dados. 5% dos usuários estão na mira da doença. o segredo para evitar a LER se resume a três palavras: relaxar. A tenossinovite ocorre quando o micreiro é acometido de uma fascinação compulsiva pelo micro. que podem lesar. Isto sem falar dos olhos para os quais há poucas formas de prevenção disponíveis. por exemplo. por isto mesmo. 39 . etc. Como conseqüência. Com a informatização dos escritórios. inflamar ou matar os nervos das mãos. em resposta à demanda de seus leitores.O caderno Informática. ombros e pescoço.podem ser feitos diante de um computador. músicos e trabalhadores de linhas de montagem que executam repetidamente os mesmos movimentos das mãos. na reportagem intitulada Micreiros com o corpo em forma. Alguns dos dados fornecidos na matéria. passou a ser identificada como a doença dos digitadores. é necessário que tenhamos máquinas que interajam com nossos corpos de maneira menos agressiva. como. com a questão da saúde não pára aí.. realizada em Belo Horizonte. etc. Embora relaxar. para evitar a lesões por esforço repetitivo no que diz respeito à informática.segundo terapeutas ocupacionais que participaram da elaboração de um software intitulado Postura no Trabalho Informatizado. A doença é conhecida dos cortadores de carne. Mas a preocupação dos editores do Informática. causada por movimentos prolongados e repetitivos das mãos e dos braços. ocorrem lesões algumas vezes irreversíveis. sentados à frente de uma tela iluminada. Se o software já se tornou mais amigável e. da Ergon -. Nos próximos anos. do jornal O Globo já abordou o tema diversas vezes. alongar e fortalecer sejam importantes para a manutenção da nossa saúde. repetindo ad nauseam os mesmos movimentos com nossas mãos e com o nosso braço mais hábil. dedicou uma entrada a um tipo de lesão que pode ser mutilante. A musculatura da coluna. acabam se ressentindo. a matéria passa a discutir os movimentos que -. embora certamente defasados. que semanalmente publica uma espécie de dicionário bem- humorado de informática e Internet em capítulos. como. e não consegue sair de perto da máquina mais do que alguns metros. a tenossinovite. são bastante interessantes: “Uma pesquisa do Núcleo de Referência em Doenças Ocupacionais da Previdência Social. do pescoço.Doença ocupacional grave e potencialmente debilitante. passamos mais horas à frente de uma telinha. Ainda de acordo com esses mesmos terapeutas. as articulações das mãos. por exemplo. etc. não fomos feitos para passar horas a fio.” Afinal de contas. proteções de telas e lentes especiais.

Ao que parece, a psicologia já contribuiu mais para os avanços do software que usamos
(ou suas contribuições foram melhor utilizadas) do que as ciências biomédicas para os
avanços do hardware que ainda nos faz penar...

Para o que mais contribuiu o conhecimento aprofundado do ser humano? Contribuiu
para tornar o computador, com o qual o usuário interage, cada vez mais humano aos
seus olhos. Ou seja, contribuiu para a antropomorfização dos computadores. Isto tem
conseqüências surpreendentes para grande parte dos usuários...

40

A antropomorfização da máquina

Indagada, através da própria Rede, a respeito da relação homem-máquina, Stella
Freitas, estudante de programação visual de 23 anos de idade, escreve:

“Esta relação está muito próxima, e tem gente por aí sendo parte da máquina.”

Já Ricardo Neves, estudante de comunicação de 19 anos de idade, vai mais além em
resposta à mesma pergunta.

“Relação homem-máquina = Tempos Modernos, eu e meu computador (amor).”

Maria do Carmo Veiga, advogada de 32 anos de idade, concorda:

“Relação homem-máquina = Relação existente entre as pessoas e os
computadores. Que da minha parte é maravilhosa. :))”

Como se vê nesses depoimentos, que são somente exemplos,9 foi-se a época em que
máquinas eram máquinas e seres humanos eram humanos e em que havia uma linha
divisória indiscutível entre essas duas categorias. Hoje, enquanto muitos seres
humanos ainda são tratados como máquinas, uma classe especial de máquinas -- os
computadores -- recebe o mesmo tratamento que seres humanos.

Não cabe aqui falar da mecanização do ser humano na estressante civilização industrial
ou pós-industrial (quem não se lembra da magistral cena de Chaplin preso às
engrenagens de uma máquina no filme Tempos Modernos, ao qual Ricardo Neves faz
menção?), mas certamente cabe falar da humanização, ou melhor, da
antropomorfização do computador na moderna sociedade digital.

Para começar, computadores não são máquinas comuns, disso todos sabemos. São
máquinas que já nasceram um pouco humanas na medida em que nelas seus criadores
procuraram simular e incorporar duas das principais características da nossa espécie: a
inteligência, com seu infinito potencial de resolução dos mais variados tipos de
problema, e a capacidade de memória.

Mas os computadores de nossos dias não são simples arquivos de dados ou
instrumentos para a resolução rápida e eficaz de diferentes tipos de problemas. Os
computadores dos dias de hoje, se não têm a capacidade humana de sentir, têm, ao
menos, a capacidade também muito humana de gerar uma ampla gama de sentimentos
em seus usuários: sentimentos negativos -- como os de raiva, desespero e impotência
perante a máquina --, e sentimentos positivos -- como os de confiança, cumplicidade,
companheirismo em relação à máquina. O fato é que não são poucos os relatos de
seres humanos que admitem ter estabelecido uma relação de amizade e até mesmo de
amor com seus computadores.

9
Leia mais a respeito de como foram coletados esses e outros depoimentos em O IMPACTO DO NOVO.
41

É útil, portanto, pensar um pouco sobre esse novo tipo de relação de amizade e,
principalmente, sobre os elementos que tornam possível uma amizade entre o homem e
a máquina.

Qualquer adolescente conhece a importância de um diário ou, mais modernamente, de
uma agenda (que serve mais ou menos aos mesmos propósitos). O diário é um amigo,
um interlocutor, um companheiro com o qual nos abrimos sem reservas. Às suas
páginas, confiamos nossos pensamentos, nossas dúvidas, nossos pecadilhos, nossas
emoções mais profundas, nossas esperanças, nossos projetos, nossos desejos, etc. O
diário é um confidente discreto.

Minimamente, o computador pode desempenhar funções análogas, sendo ainda mais
discreto, pois não pode ser sorrateiramente aberto e lido por outros com a mesma
facilidade que um diário ou agenda comuns.

Disse minimamente porque, dadas as múltiplas funções que um computador
contemporâneo pode exercer, são inúmeras as áreas da nossa experiência em que ele
pode se tornar um companheiro confiável e quase imprescindível.

Estamos com insônia? Por que não ligar o computador e jogar um pouco de paciência
para chamar o sono? Se formos vitoriosos, ainda receberemos os parabéns.

Queremos passar um fax, por que não fazê-lo através do computador?

Temos que escrever um trabalho para a faculdade? Nada melhor do que o computador
para poder mexer e remexer à vontade no que estamos fazendo.

Precisamos calcular o orçamento doméstico? O computador certamente torna isso mais
fácil. Podemos até, sem sermos grandes calculistas, fazer um exercício de futurologia e
calcular rendimentos a serem creditados, coisa que não saberíamos fazer com uma
simples calculadora.

Queremos imprimir cartões de visita ou convites para uma festa? Basta termos o papel
e o software apropriado que não necessitaremos de recorrer a uma gráfica.

Queremos ampliar uma foto? Não há problema. Com o uso de um scanner, colocamos
a foto na telinha e com alguns cliques do mouse a foto estará ampliada e pronta para
ser impressa.

Queremos recuperar um trabalho que fizemos há cinco anos quando usávamos um
processador de texto diferente e que rodava em DOS? Também não há problema. Hoje,
qualquer processador de textos faz a conversão de textos gerados em programas
antigos (pelo menos os mais comuns) para o nosso grande alívio e comodidade.

Não vou listar todos os usos possíveis, que são muitos. Quero somente mostrar que,
mesmo desconectado da Rede, o computador já se torna nosso amigo inseparável e
polivalente (pois sabe fazer de tudo!).

Isso pode parecer estranho tendo em vista toda a discussão sobre os embates entre o
homem e o computador. Mas não é estranho, não.

42

O computador pode ser visto como uma mulher ou um homem atraente e difícil que
queremos conquistar. Penamos, mas, quando somos bem-sucedidos, nos sentimos
vitoriosos e dela ou dele podemos nos aproximar sem os grandes receios e barreiras
iniciais, pois esses já foram vencidos durante a fase da conquista.

São inúmeros os relatos de usuários que odeiam seus micros, que têm crises de
desespero, querem atirá-los pelas janelas de seus apartamentos, etc. Estes geralmente
estão nas primeiras fases da conquista.

Uma vez dominado o know-how necessário, ou feita a conquista, é comum
constatarmos que esses mesmos usuários facilmente entram num estado de total
enlevo com a nova parceria. Só que essa lua-de-mel não dura para sempre pois,
eventualmente, o usuário -- tal como um namorado/a ou marido/mulher -- vai se
aventurar por áreas e experiências novas e, com isso, reacender os conflitos.

Quantos de nós, usuários antigos que nos damos muito bem com nossos micros, não
nos enfurecemos esporadicamente quando nosso computador, não querendo obedecer
a uma ordem que nos parece absolutamente sensata, emite um som desagradável,
exibe uma janela com dizeres ásperos e se recusa terminantemente a executar um ou
outro tipo de operação? Quando isso acontece, como num relacionamento humano,
sabemos que é hora de revermos o que estamos fazendo e procurarmos uma outra
forma de tentar fazer o que queremos...

Agora, uma advertência: toda essa discussão sobre relações harmoniosas e
desentendimentos entre o homem e o computador certamente parecerá absurda se não
registrarmos que, por trás dos computadores, ou melhor, do software que usamos, há
sempre homens e mulheres que são responsáveis por seu desenvolvimento e que para
isso usam todo o conhecimento sobre o ser humano de que dispõem. Em outras
palavras, ao nos relacionarmos com nossos computadores, estamos indiretamente nos
relacionando com os seres humanos que estão por trás do software que estamos
usando.

O conhecimento do qual esses homens e mulheres lançam mão pode ter uma ou mais
de várias origens: pesquisas científicas, pesquisas de opinião, experiência própria,
experiência de pessoas próximas e, principalmente, o conhecimento de seres humanos
que qualquer ser humano tem. É a crescente capacidade de gerar e fazer uso desses
diferentes tipos de conhecimento que torna os diversos tipos de software cada vez mais
amigáveis e o computador cada vez mais humano e o amigo de todas as horas.

O cursor pisca e nos convida à ação; o computador se zanga e solta um grunhido de
raiva; ganhamos uma partida de paciência jogada contra o computador e ele, com a
elegância que muitos humanos não têm, registra nossa vitória com uma alegria
exuberante; se queremos fazer uma operação radical, o computador, sempre atento,
nos pergunta se temos certeza do que queremos fazer; se escrevemos um texto,
podemos pedir-lhe que reveja a ortografia daquelas palavras com as quais sempre
tivemos dificuldades, se queremos ver de perto o detalhe de uma página ou de uma
figura, ele nos fornece uma lupa, etc., etc., etc. Os exemplos se multiplicam... São seres
humanos que estão por trás dos diversos tipos de software que usamos e são seres

43

humanos que tornam a máquina humana ou não, amigável ou não, dependendo dos
objetivos para os quais será usada.

Garry Kasparov, o grande enxadrista, foi derrotado por Deep Blue. Mas Deep Blue é um
computador da IBM programado por uma equipe de seres humanos especializada não
somente em programação como também em xadrez. E esta equipe tinha por objetivo
vencê-lo. Pelo que li, uma das reclamações de Kasparov, depois de derrotado, foi a de
que Deep Blue era desumano!

44

Homens e máquinas no ciberespaço

O ciberespaço é um espaço onde as máquinas reinam soberanas. Lá, máquinas se
comunicam com máquinas, homens se comunicam com máquinas e homens se
comunicam com homens através das máquinas. Ou seja, no ciberespaço, o homem não
tem vida independente da máquina.

Esta dependência acaba intensificando a relação homem-máquina de forma análoga à
que faz com que outros tipos de dependência intensifiquem a relação entre homens,
entre homens e animais (como o cego e seu cão, ou o jóquei e seu cavalo), entre
homens e outras máquinas (como o homem e seu carro), etc. 10

Enquanto o acesso ao ciberespaço era facultado somente por programas que rodavam
em UNIX, sem as facilidades de um sistema de janelas, a cada vez que queríamos dar
um novo comando tínhamos que digitá-lo por extenso, naquela gramática rígida da
máquina e em inglês. Isso, inevitavelmente, nos recordava de que estávamos lidando
com uma máquina.

Mas, embora os programas em UNIX ainda sejam usados por muitos, hoje tornou-se
muito fácil esquecermos daquilo com o que estamos lidando. Surgiram os programas de
Rede para Windows, mais amigáveis, que, como os outros programas para Windows
que nada têm a ver com a Rede, incorporaram várias formas mais humanas de se
relacionar, como, por exemplo, uma manifestação de alegria -- geralmente uma música
alegre -- para avisar que chegou correspondência nova, ou um sádico, mas também
bem humano, aviso de que o seu programa executou uma operação ilegal -- que a
maioria dos usuários totalmente ignora qual seja -- e por isso será fechado.

Ou seja, a antropomorfização do computador chegou à Rede e, nela, colaborou para
derrubar ainda mais as fronteiras entre seres humanos e máquinas e intensificar suas
relações.

Esses fatores somam-se a outros -- a dimensão de novidade, a curiosidade, as várias
possibilidades de exploração tanto da nova quanto da velha realidade, a velocidade, as
novas formas de comunicação, etc. -- que atraem e surpreendem, no mais das vezes
positivamente, o novato e tornam-no cada vez mais dependente dessa máquina cada
vez mais humana.

Para que o meu leitor possa ter uma idéia do que gera esse tipo de dependência,
vejamos o que dizem (em entrevistas olho-no-olho) ou escrevem (em resposta a
questionários enviados por e-mail) a respeito de suas primeiras impressões da Rede os
seguintes usuários:11

Rafaela Nunes, estudante de segundo grau de 17 anos:

10
Leia a respeito de um tipo de dependência que chega a ser caracterizada como vício em Os prós e
contras dos relacionamentos virtuais, no bloco NOVOS RELACIONAMENTOS.
11
Leia mais a repeito dos questionários e entrevistas em O IMPACTO DO NOVO.
45

com um amigo também ‘virgem’. estudante de psicologia de 22 anos: “. né.” Julia Novaes. Vejamos alguns desses depoimentos.” Luís Cardoso. pois eram milhares as possibilidades.. por exemplo. Bruno Torres. Atualmente provavelmente tenho um e-mail de estudantes em todos os estados da federação.. percebemos que o HD do meu computador subitamente expandiu de 1. pesquisadores etc. grande e positivo.. gerado pelas primeiras experiências com a Rede.. naquele momento. expressa a mesma visão de um modo bem mais leigo e singelo.. Talvez porque a primeiríssima vez que acessei a Net... tanto dentro quanto fora da Rede. eu posso saber o que eu quiser ali.” Sylvia Barroso.. etc. estudante de informática de 26 anos: “E comecei a navegar.. Bruno Torres. conversando c/ [com] estudantes e médicos do Brasil e exterior. no mundo não estou mais presa ao Rio de Janeiro.. sacou? É outra coisa. estudante de informática de 26 anos com o qual já travamos contato. psicóloga de 25 anos.” Paulo Sodré.. imediatamente transferido para aquele que tornou tudo possível: o computador. é. até mesmo nos estudos..” O impacto. Estreita-se o vínculo entre o homem e sua máquina. e a Rede é uma parada muito sinistra. professor de inglês de 31 anos. Vários usuários relatam terem tido uma mesma sensação ao se conectarem à Internet pela primeira vez: a sensação de que seus computadores subitamente haviam se tornado mais potentes. se fazia a seguinte pergunta: “Como é que pode o mundo inteiro caber dentro do meu computador?” Alguns usuários vão mais longe e admitem a ausência de fronteiras entre o computador e o homem. o negócio da Rede é que é um mundo muito grande. Quando você entra na Internet. em muitos casos. você.. “. o mundo se abriu para mim. quando perguntado a respeito dos sentimentos que a Rede nele gerava. cara. antes de entrar na Rede. parece confirmar a impressão de Bruno: “Excitante. pesquisando sobre medicina. 20 anos. vários médicos. É outro mundo. O computador torna-se uma extensão do corpo humano. Diz ela que. foi aqui na minha casa... numa 46 .. para quem já usa computador é como se estivesse tudo no próprio computador. estudante de medicina: “[Tive a impressão de] que nunca mais sairia da frente do computador. Somos loucos por computador e.. quer dizer. você. cara? É.2 Gigabytes para o tamanho do mundo. foi uma extensão natural....

?’.. temem poder vir a interagir 47 . uma combinação perfeita. Os ideais de perfeição e comunicação total. Como reagem a isso os usuários? No mais das vezes. 39 anos: “Interação total no mundo cibernético.entrevista olho-no-olho. etc. O sucesso da parceria dependerá da qualidade e intensidade do entendimento de ambos. usuários. A antropomorfização das máquinas. metalúrgico. chega a afetar a credibilidade de muitos usuários nas comunicações digitais. 36 anos: “Interação que deve existir entre o computador e seus usuários para que o mesmo seja usado de forma correta. Será que com o computador é diferente? As respostas acima sugerem que não. com muito medo. ou seja. seja esta vista como amiga. Eu vou dizer ‘Não sei.. dentro e fora da Rede. enfatizam que a relação entre o homem e o computador deve ser de pleno entendimento. 22 anos: “Não tem como fugir!!! O homem criou sua perfeita reflexão. ainda.. para o leigo em informática e Internet..”. ter sido transferidos para o relacionamento homem-computador. de total intimidade. Sugerem que os usuários de computadores acham que suas aventuras digitais. peguei uma fase boa da minha aprendizagem com um computador do lado. agora. vítima de algum exagero da parte de fanáticos. e outras vezes. analista de sistemas. com incredulidade. eu. toda essa discussão possa parecer surreal.. independentemente de onde esteja (na Rede ou fora dela): “Não dá para ter sentimento (. também parecem. no mínimo. companheira. não e. ‘o que você sente pelo seu computadorzinho. trata o seu próprio braço e o computador de forma análoga. Mesmo admitindo que. Walter Costa.” Rogério Dantas. com as quais se trava contato no ciberespaço. passou a ser uma coisa fundamental em muitas coisas que faço. geralmente associados aos relacionamentos humanos..” Outros.” Gustavo Freire. creio que não restam dúvidas a respeito da cada vez mais estreita relação do homem com o seu computador fora da Rede. ou.” Todos esses depoimentos me trazem à mente a imagem de cavaleiro e cavalo numa prova de hipismo da qual nem um nem outro podem participar sozinhos. estudante de desenho industrial.. eficaz e plena.) sobre acessar a Web pelo seguinte. pelo seu laptopzinho. desde que bem utilizada. cúmplice. e da dependência do primeiro em relação ao segundo no ciberespaço. vão depender do grau de sintonia que têm com a sua máquina. É uma extensão natural e isso porque eu já venho.. Você vai perguntar pra mim ‘o que você sente pelo seu braço hoje?”. E por quê? Porque eles.

Uma dessas advertências. 14 Leia mais sobre a paranóia em CONSOLIDANDO IMPRESSÕES E CONFIRMANDO INTUIÇÕES. Mas. bastante comuns no discurso de usuários. o medo do desconhecido se instaura. de ser iludido. afetos dirigidos a máquinas? Isso é novo demais para não gerar medo. muitas vezes tem como resultado uma certa paranóia. como relatam acontecer inclusive em alguns canais de bate-papo.ri) sempre levamos a culpa por tudo de errado que acontece. essa mistura entre homens e máquinas. nesse primeiro momento de grande confusão. Esse desconhecimento de com quem se está falando. novas ansiedades. Na Rede. Esse medo não é totalmente infundado. que reza que “do outro lado [da comunicação] pode estar um cachorro.!”. ou de fato envolvem. Vai levar tempo para que todas essas novidades sejam assimiladas.. a fazer a seguinte brincadeira: “Relação homem-máquina .. O que já me foi possível observar é que sempre que se interage com algo/alguém desconhecido -. O relacionamento estabelecido com a própria máquina ou com o amigo que se conhece fisicamente não geram medo. novas dúvidas.ser humano ou máquina -. e vai levar tempo para que aprendamos a nos defender do que nos é indesejável. quando estes sabem que estão interagindo com máquinas -- como.14 12 Leia mais sobre o medo da mentira nos relacionamentos ciberespaciais em NOVOS RELACIONAMENTOS. nós (as máquinas .gera.Injusta. sejamos bem-humorados e descubramos o lado jocoso e divertido de tudo isso..12 Acho que podemos injetar um pouco de realidade e sensatez à antiga em tantas experiências novas e fazer um simples raciocínio: novas formas de relacionamentos humanos sempre levam ao surgimento de novos medos. o desconhecido -.(de modo significativo. por exemplo.e tenho plena consciência de que algo/alguém desconhecido pode soar muito estranho para o meu leitor leigo --. há robôs programados para interagir com seres humanos. quando usam uma ferramenta de busca do tipo Altavista ou o brasileiro Cadê? --. medo esse que é revelado em “advertências aos incautos”. por exemplo. o que acontece muitas vezes na Rede.Ri. e também quando não sabem. 13 Leia mais sobre isso também em NOVOS RELACIONAMENTOS.13 O que dizer de novas formas de relacionamento que podem envolver.ri. ao longo de uma comunicação que não se reduza a algumas poucas palavras. Ele ou ela podem estar mentindo ou simulando e não há meios de descobrirmos isso a curto prazo. 48 . engenheiro de 32 anos.. Sei que cachorros não têm o know-how necessário para usar computadores e não acredito que máquinas possam ser programadas para realmente dar a um ser humano a impressão de que têm capacidades e sentimentos humanos. No entanto. é claro) com uma máquina pensando que estão interagindo com um outro ser humano através de uma máquina. é o que leva Pedro Werneck. Isso gera o medo.” Temos que aprender a lidar com essa nova realidade tendo o cuidado de não acionar uma improdutiva e paralisante paranóia. bem humano.

etc. dados pessoais ignorados) “Relação homem-máquina . Foi socorrido a tempo e. Demonstrou estar em contato com o novo e provou a utilidade profissional desse contato: é importante que se saiba que o computador pode gerar emoções fortes e inadequadas para um recém-infartado. operário. o difícil é chegar a um ideal. teve um infarto sério ao qual. médico. O leitor conhece alguma outra máquina que seja capaz de gerar em nós os sentimentos descritos ao longo das últimas páginas e resumidos nos dois depoimentos abaixo? “[A relação entre o homem e o computador é] uma difícil relação onde às vezes os homens dominam a máquina e. É desde uma ferramenta bastante pragmática. jornalista de 24 anos de idade) Que fiquem atentos aqueles que ainda olham para tudo isso com descrédito! Principalmente se. dificuldades. após alguns dias de internação hospitalar -. Como em toda relação. Modifica- se rapidamente pois o computador vai assumindo diferentes ‘caras’ e funções para o ser humano. Alguns amigos -. meio termo onde se convive sem dominação.Nota sobre o registro de uma realidade Há pouco tempo.inclusive no CTI (Centro de Tratamento Intensivo) -. possibilidades e expectativas geradas pelo desenvolvimento tecnológico da informática. a aparelhagem de som.que é amante das máquinas -.problemas. porém estava terminantemente proibido de ligar o computador e. Outros aplaudiram a sensibilidade do médico em questão. até a possibilidade de tornar-se um companheiro. felizmente sobreviveu. como profissionais. outras. Por quê? Porque ele protegeu nosso amigo -. têm que lidar com seres humanos que podem estar vivendo essa nova realidade. de acessar a Rede. principalmente. faxineiro. o vídeo.” (Marcela Caetano.ao deixar claro que sabia que o computador é diferente de outras máquinas. jovem de 40 anos de idade..aqueles que não têm nenhum contato com computadores -.ficaram surpresos. As ordens do médico foram explícitas: ele podia ligar a televisão. um amigo. etc.” (Carolina Ribeiro. a máquina domina os homens. 49 .voltou para casa tendo que se submeter a um repouso absoluto.

vale frisar. porém. A eles o meu mais profundo agradecimento. nosso lar ciberespacial é uma home page. “feras” em informática ou leigos. ora em lojas de CD’s. Esses dicionários são extremamente úteis. a velocidade chega a ser medida em nanossegundos (a bilionésima parte de um segundo). sobre as quais nos locomovemos através de links. de diferentes faixas etárias e diferentes profissões. o tempo é real. muitas vezes sem nenhum conhecimento de informática e outras tantas com muito pouco conhecimento da tecnologia usada na Internet. Os novos conceitos são tantos que já há dicionários integralmente dedicados a eles. o leitor vai poder ter acesso a como a Internet é vista por esses usuários. mesmo quando crítico. ora em salas de visita.. ora em salas de conferência. vai poder avaliar alguns de seus conflitos e vai poder apreciar o seu espírito brincalhão. são homens e mulheres. Um livro sobre os impactos psicológicos da Rede. como são escritos por experts.NOVOS CONCEITOS O espaço é cibernético. Um passeio por reflexões tornadas possíveis pela colaboração de 43 usuários comuns. tem que privilegiar as concepções dos homens e mulheres.15 Através deste passeio. a realidade é virtual. mais ou menos versados em informática. Os autores dos depoimentos citados (quer tenham tido origem nos questionários ou nas entrevistas) não são identificados. além de divertido. ora em museus. somente seu sexo. Com o advento dos computadores contemporâneos e.. que nos nos deram as suas próprias definições de alguns conceitos básicos da realidade inaugurada pela Internet. Neste bloco. pode ser muito informativo. que dela fazem uso. principalmente. no entanto. navegamos por ondas WWW. convido meu leitor para um passeio inédito. 15 Leia mais a respeito dos procedimentos usados em O IMPACTO DO NOVO. nossos computadores se transformam ora em bancos. 50 . jovens e não-tão-jovens. Acho que esse passeio. ora em bibliotecas. de sua interligação em redes. também comuns. adentramos um novo espaço onde impera uma nova realidade que só pode ser mapeada e apreendida a partir de novos conceitos. e nas 20 entrevistas olho-no-olho que fizemos. profissão e idade são mencionados. ora em escritórios virtuais. Os nomes citados são fictícios como os outros nomes que já apareceram neste livro. o correio é eletrônico. habitantes dos mais diversos cantos deste país. suas definições não nos dão a dimensão de como absorvem e lidam com esses novos conceitos aqueles que usam a Rede. Vai poder perceber as dificuldades que eles encontram quando tentam colocar em palavras aquilo que conhecem muito bem na prática. Essas definições vieram complementar as informações colhidas nas 40 respostas que recebemos a um segundo questionário. no qual outros usuários. que. nos relataram algumas de suas experiências na Internet. ora em livrarias.

pela televisão. comecemos com suas definições do que é a Rede. 51 . o espaço sideral. Todos têm plena consciência de que a Rede é formada pela conexão de computadores. namorados correi.”. é muito diferente do espaço cotidiano em que vivemos. o espaço cibernético. Enquanto isso acontecia. vejamos o que nos dizem nossos colaboradores. Está em pauta agora. (Não foram poucos aqueles que. inclusive com a década de 60. Nessa época já distante. muitos dos quais. Talvez as derradeiras noites de luar. têm idade suficiente para poderem fazer comparações com outras épocas. Em outras palavras. E. versos nos quais Gilberto Gil registrava a surpresa. saber que os homens nele podem viajar mesmo assim. todos aprendemos então. Acompanhamos as várias peripécias dos navegantes desse espaço -. o choque do novo e o medo no imaginário de muitos. ele é regido por suas próprias leis que são diferentes daquelas que regem o espaço cotidiano no qual todos sempre vivemos? Para tentar responder a essas e outras perguntas. o primeiro homem pisar na Lua. esse entrar em contato com o espaço cósmico significava muito simplesmente saber de sua existência.e vimos. O fato é que a década de 1990 nos fez entrar em contato com um outro tipo de espaço. e assistir aos feitos do homem na televisão como se fossem. Elis Regina cantava: “Poetas. É chegada a hora de escrever e cantar.O ciberespaço e a virtualidade Na década de 1960. para os outros mortais era simplesmente um espaço potencialmente alcançável. mesmo havendo visto a chegada do homem à lua. obras da imaginação. saber que nele não há força da gravidade. que é muito real para quem lá esteve. para termos uma idéia do quanto eles têm consciência do que gera esse novo espaço. seresteiros. O que significa isso? Significa dizer que o ciberespaço é algo apenas potencialmente alcançável e distante como o espaço cósmico? Significa dizer que. Poder-se-ia então dizer que o espaço cósmico para praticamente todos os mortais era um espaço virtual. afirmavam que tudo era mentira!) É claro que nunca nenhum de nós travou contato pessoal com esse espaço. tal como o espaço sideral. travamos contato com o espaço sideral que. um espaço virtual. todos dizem. Mas isso não estava em pauta nos anos 60. tal qual os filmes produzidos em estúdios de Hollywood.os cosmonautas -. ou o chamado ciberespaço que é. contrariando as expectativas de que receberíamos respostas quase que exclusivamente de jovens.

linhas telefônicas e sites com infos [informações] que constituem a malha da Web. lugares. economista de 45 anos. aposentado de 50 anos de idade. de posse do conhecimento de que os usuários sabem muito bem que a Internet é formada por computadores conectados em Rede. ao definir Rede como “Aldeia global”. seria de se esperar que. e. Isso. cada um desses pontos se abre em outros. ou seja. define Arnaldo França. “Rede = união de computadores” “Rede = Ligação entre computadores”. estudante de programação visual de 23 anos. quando perguntados a respeito do espaço virtual criado por essas conexões. também. metalúrgico de 39 anos. Isabel Torres. Muitos vão além disso e registram diferentes características da Rede. que escolhe priorizar a interconexão temática.” Essa é a definição de Stella Freitas. fazem coro Julio Tavares. perito judicial de 38 anos de idade. advogada de 32 anos. enfatiza os aspectos infra-estruturais: “Rede -. Nenhum dos usuários consultados revelou qualquer dificuldade ou contradição ao responder o que é Rede. e Henrique Salles. Esta parece ter sido uma definição fácil de dar. médico de 56 anos. Já Wanda Soeiro. ex: um assunto tem dez pontos diferentes. É o que fazem: Rogério Dantas. Maria do Carmo Veiga. e assim por diante. Felipe Delgado.” Há. computadores. 52 . no entanto.com roiters. engenheiro geotécnico de 27 anos. engenheira de 40 anos ao associar à palavra Rede uma de suas principais características ao dar sua definição em uma única palavra “Comunicação”. etc. “Rede: seqüência de assuntos. “Uma porção de computadores ligados”.sistema mundial de ligações -. Tendo esse resultado em vista. como os diversos tipos de ligação que formam sua malha. mas bastante reveladoras. ao dar como definição de Rede “muitos ligados a muitos”. os mesmos usuários fizessem alguma referência a um espaço que é uma ilusão ou um produto da imaginação. os que optam por definições compactas e de impacto. não aconteceu.

que estavam usando o ciberespaço para receber nossos questionários e enviar suas respostas. publicado pela Editora Campus em 1997. Segundo a definição dada por Christian Crumlish. Muito provavelmente eles. Assim é que encontramos definições como as seguintes.] Já que os usuários não se referem a essa realidade imaginária compartilhada. 40 anos). que não tem existência física. um local onde coisas acontecem. Roberta Dantas (estudante de psicologia. Estas e outras caracterizações são importantes para percebermos o quanto é difícil -.” [A ênfase é minha. “Ciberespaço: espaço virtual.Nossos colaboradores. não físico. Elizabeth Ramos (psicóloga.”. usuários comuns que são. normalmente faço analogia com o inconsciente freudiano. “local. em que as trocas de informação da Net ocorrem. a qualificar o que estão escrevendo. consensual e similar ao mundo físico. não registram em suas definições de ciberespaço aquilo que é a principal característica deste: a de ser um espaço imaginário. imersos na nova realidade. O constante recurso a palavras como 53 . o espaço virtual. o mero colocar em preto e branco de uma palavra como “local” parece deixar alguns usuários desconfortáveis e eles passam. ciberespaço é: “Um termo popularizado por William Gibson [escritor norte-americano] para designar a realidade imaginária compartilhada das redes de computadores. O oposto de espaço "real" em que interagimos cara a cara com outras pessoas. Felipe Delgado (engenheiro geotécnico. Complicado. local etc. Muitos dizem que ciberespaço é um lugar. 27 anos). Primeiramente. espaço. tal como a retratada nos romances de Gibson. 19 anos). Mas como a experiência cotidiana desses usuários. mas não existe fisicamente”. jamais haviam parado para pensar no assunto. as definições foram confusas e contraditórias. imediatamente. espaço não real. tentam fazê-lo -. “Ciberespaço.conceber o ciberespaço como uma ilusão ou uma obra do imaginário coletivo. fatos se dão. um especialista no vocabulário ciberespacial. tal como a nossa. Algumas pessoas usam o termo ciberespaço como sinônimo de Internet. Outros se atêm à realidade mais completa. não? Espaço sem existência física. onde está a informação”. Dou alguns exemplos e explico. garante que lugares e espaços têm existência física.para aqueles que. local não físico. quais são as suas definições? Sugiro que prossigamos por partes. considerando-se que praticamente todos tomaram como referência a realidade cotidiana (e quem não o faria?). em seu O Dicionário da Internet.

diz Walter Costa (analista de sistemas. escreve Stella Freitas (estudante de programação visual. ao se referirem a algo que não tem existência física como um local ou um lugar. o ciberespaço para eles é algo tão concreto e natural que sequer suscita dúvidas. trocando em miúdos. “Lugar em que se "vive" e se instrui com o auxílio do computador. Pedro Werneck (engenheiro.”. isto está soando esquisito!”. 23 anos). por exemplo.como os de lugar ou local -. afirma que “após descansar no sétimo dia (um dia divino=X Gdias humanos). Ao que suas definições indicam. no entanto. implícita ou explicitamente. Ao menos introduz a noção de uma realidade completamente diferente daquela na qual vivemos o nosso cotidiano. 32 anos). significa dizer: “Ôpa.”. As confusas definições apresentadas acima. como um espaço paralelo regido por suas próprias leis. criou um universo paralelo e virtual. no entanto.” Enquanto que a também engenheira Isabel Torres (40 anos) livre-associa de forma a dar a entender algo análogo “Ciberespaço . A definição de ciberespaço como um espaço paralelo regido por suas próprias leis é a que mais se aproxima daquela do dicionário que diz que o ciberespaço é a realidade imaginária compartilhada das redes de computadores. ou dá origem a contradições e confusões. 36 anos). Daí a confusão que. Outros usuários nem parecem se preocupar com isso. Ele. sugerem que seus autores. definem ciberespaço.para definir algo que só existe dentro dela. ainda. Alguns. A total ausência de referência a um imaginário compartilhado. “Ciberespaço: lugar da net onde vc [você] pode colocar infos [informações]. se dão conta de que alguma coisa está estranha e se apressam em fornecer uma explicação.Liberdade”. pode nos dar uma idéia do quão concreto o ciberespaço é para os seus usuários.lugar e local parece indicar que os usuários percebem o espaço virtual como tão concreto quanto o espaço “real”. Outra grande dificuldade encontrada pelos usuários parece ser a de abandonar conceitos de fora Rede -. E qual a sensação que eles têm do que acontece nesse espaço? Diria que uma sensação bastante difícil de colocar nas palavras convencionais. livre das correntes físicas e mais ao gosto dos impulsos elétricos dos neurônios. cansado de criar somente matéria. atreladas que estas estão à concretude das sensações geradas pela realidade cotidiana que continua a lhes 54 .

. estudante de programação visual) dá uma dimensão desse tipo de contradição e da consciência que dela tem a usuária: “Realidade Virtual: na minha opinião algo contraditório. são às vezes considerados exemplos de realidade virtual. A resposta de Stella Freitas (23 anos. ou tentam definir a nova realidade tomando como referência a antiga e acabam concluindo. eles recorrem a dois tipos principais de definição: usam definições dos equipamentos e técnicas que criam essa nova realidade. analista de sistemas). o que acontece quando é solicitada aos mesmos usuários-colaboradores uma definição de realidade virtual. agora. fazem uma ponte que integra as duas e faz sentido. inclusive a do dicionário.a “real” e a “não real” -. que a velha e já complexa realidade comporta agora uma nova cisão. freqüentemente através do uso de equipamento como luvas e óculos especiais. “.. Elizabeth Ramos (40 anos. mas pertencem à realidade cotidiana e.”. Walter Costa (36 anos. em que o participante interage como se a mesma fosse real. neste caso. Para definir realidade virtual.. a sensação de que os estímulos experimentados no cyber espaço é semelhante à dos estímulos experimentados no espaço real. Comecemos pelo que chamei de definições técnicas. A realidade virtual é definida por oposição à realidade “real”. As definições são seguras.”. a primeira que acho útil mencionar é a do Dicionário de Informática que estamos tomando como fonte de referência: “Um termo demasiadamente usado para ambientes tridimensionais simulados por computador nos quais o usuário pode interagir. ambientes de jogos tipo role-playing. psicóloga). Os equipamentos e o know-how são criados na realidade “real” e produzem uma realidade “não real” ou situações imaginárias que simulam os efeitos e sensações da primeira. O recurso à tecnologia permite a referência a ambas as “realidades” sem contradições. se é virtual não pode ser real. Destas. Por analogia.servir de referência. muitas vezes para sua própria surpresa.de forma harmônica e não contraditória. “Recurso de simulação em que se estabelece uma realidade digital. por exemplo. às definições técnicas dadas por nossos colaboradores. Essas respostas.” Passemos. O mesmo não acontece quando os usuários procuram definir a realidade virtual comparando-a com a realidade cotidiana ou “real”.. Aí as contradições são muitas e são registradas pelos próprios usuários.” 55 . são exemplos de definições em que estão presentes as duas realidades -. Examinemos.

realidade não real”. “Realidade Virtual . Felipe Delgado (27 anos.Realidade de hoje”.3D interativo”. analista de sistemas). a realidade virtual se mescla à realidade fantasiosa dos sonhos: 56 . Alguns associam livremente e. “Imagens que passam pela realidade”.É o mesmo “soar estranho” que Pedro Werneck (32 anos. ao fazê-lo. “. estudante de desenho industrial). Já Ricardo Neves (19 anos. estudante de comunicação) modernamente associa realidade virtual a um tipo de sexo até segunda ordem bastante seguro: “Realidade Virtual = sexo virtual”. Finalmente. engenheiro geotécnico). Julio Tavares (38 anos. perito judicial).”. revelam muito de sua concepção de realidade virtual. para alguns usuários. porém mantendo os maiores graus de liberdade do universo Virtual. falam de imagens. Há os que. como Isabel Torres. médico). E Valéria Alexandrino (43 anos.. técnica de contabilidade) resume tudo com simplicidade: “Realidade Virtual . por exemplo. parecem entender que realidade virtual é o mesmo que simulação: “Realidade Virtual = CAPACETE”. Paulo César Coelho e Jerônimo Falcão. são vários os que afirmam ser a realidade virtual uma outra realidade.” Com ou sem registro da contradição ou “esquisitice”. uma realidade “não real”: “Realidade fictícia ou não real. Julio e Henrique. Eduardo Gouveia (38 anos.. engenheiro) registra em sua definição: “Realidade alternativa que busca reproduzir a realidade Real (que termo esquisito). Henrique Salles (56 anos. Márcio Cruz (17 anos. ainda tomando a realidade “real” como referência.

é raro que alguém mencione a imaginação ou o imaginário e muito menos ainda a ilusão. sonho. vemos que a década de 1990 gerou um quadro oposto àquele.ambiente para sonhos serem concretizados”. milhões de seres humanos passaram a ter a sensação de que estão vivendo e se relacionando com os outros em duas realidades diferentes que muitas vezes não se interpenetram: a realidade “real” e a realidade virtual. Ninguém que com ele trave contato duvida da sua existência e. Isabel Torres. jamais deixarem o conforto de sua cadeira. pois só existe em software.sonhos . estudante de informática).os internautas -. Parece que Rogério Dantas (39 anos. Todos esses tipos de resposta apontam no mesmo sentido. Jerônimo Falcão (que optou por não fornecer dados identificatórios).fantasia”.16 16 Leia mais sobre os usos e abusos da experiência com essas duas realidades em NOVOS RELACIONAMENTOS.pela maioria esmagadora dos seres humanos que com ela nunca travaram contato. realidade alternativa. Paulo César Coelho (22 anos.que por ele trafegam! É chamado de um espaço virtual. em que uma realidade muito real para os cosmonautas era sentida como virtual -. no entanto. mas sua realidade e concretude parecem ser tão palpáveis para os seus usuários que.Visualização de um mundo no qual vc [você] toma o controle da situação. engenheira. Nos dias de hoje.” Realidade “não real”. Talvez seja porque é difícil acreditar que possa haver um imaginário coletivo transcultural e de proporções mundiais! Como resultado dessa concretude. ao defini-lo. “Realidade Virtual . “Realidade Virtual . ele literalmente não tem existência a não ser na imaginação de todos e cada um dos milhões de seres humanos -. Acho que agora podemos fechar o círculo: da realidade “não real” ao sonho. que é regida por leis tão diferentes das nossas que não há gravidade. 57 .no sentido de apenas potencialmente alcançável -. Retomando a comparação. com a realidade paralela do espaço cósmico. feita anteriormente. no entanto. metalúrgico) lê a resposta de Isabel e resolve materializar seu próprio sonho: “Realidade Virtual . estamos falando de alternativas à realidade “real” que são regidas por suas próprias leis. milhões de seres humanos têm contato diário e íntimo com o novo espaço cibernético e nele navegam com grande grau de liberdade sem. vivido na década de 1960. 40 anos. imagens que passam pela realidade. “Realidade Virtual = imaginação .sonho materializado”. simulação.

do status de “outra” realidade do sonho. e respondo com uma analogia sob a forma de outra pergunta.Quão concretas e “reais” são essas sensações? Retomo as associações com o sonho. Quão concretas e “reais” são as nossas sensações enquanto estamos sonhando? Quem tiver dúvidas a respeito da concretude dessas sensações. nunca teve um pesadelo! Mas deixemos a realidade do sonho de lado. principalmente. ou de suas diferentes leis. feitas por alguns usuários. provavelmente nunca sonhou e. pois as duas realidades com as quais os usuários da Rede têm contato enquanto estão bem acordados já podem gerar bastante dor-de-cabeça! 58 .

hipertextos e links. como. Este foi o caso de Julio Tavares (28 anos. quando não definitivamente. a mesma coisa. Houve. para alguns deles. site e home page são praticamente. por exemplo.Home pages e hipertextos Home pages. um site é tecnicamente definido no já mencionado Dicionário da Internet como: “Um host [computador em uma rede que permite que muitos usuários o acessem ao mesmo tempo] da Internet que permite algum tipo de acesso remoto. e não saber definir nenhuma dessas palavras ou conceitos. Muitas pessoas possuem home pages personalizadas com informações biográficas e uma lista de hosts (hostlist) de seus destinos favoritos na Web. meus colaboradores-usuários se desincumbiram bastante bem da árdua tarefa que lhes foi solicitada e forneceram informações preciosas sobre os significados que a experiência nos faz sobrepor às definições técnicas. Palavras novas. entre outros.17 Palavras difíceis de definir. 17 Leia mais sobre diferentes tipos de incorporação de palavras inglesas ao português em NOVOS USOS DE LINGUAGEM.” Já uma home page é na Rede. Podemos perfeitamente acessar uma home page ou um site. Por exemplo. 59 .. que sabemos nos levará a alguma outra home page ou site. Houve definições circulares do tipo: “Sites: home pagess” “Homepages: sites” dadas por usuários.. segundo a mesma fonte: “uma página inicial/principal com vínculos (links) para outras páginas relacionadas. o inglês. usar um link de hipertexto com desenvoltura ao clicar numa palavra grifada. Mesmo assim. perito judicial). principalmente porque jamais somos solicitados a fazê-lo.” Mas. Suas definições tornam claro que. incorporadas ao português a partir da língua-mãe da Rede. também. quem definisse sites como conjuntos de home pages: “Sites: conjunto de homepages” “Homepages: parte de um site”. para os usuários consultados o quadro não é bem esse. sites. assessor de imprensa). Renato Bastos (29 anos.

médico).páginas de marketing e informações sobre tudo o que se tem na rede.Bibliotecas virtuais. Como podemos avaliar essas definições? São elas definições erradas? Por que passam uma visão de home pages tão diferente daquela que consta do dicionário? Essa visão de home pages como uma forma de marketing. “Sites . a hora que for. painéis publicitários. “Homepages . também. 43 anos). conclui Sonia Campos (psicóloga. psicóloga). informativamente.Locais onde encontramos inúmeras informações.Alguns novamente associaram livremente e. metalúrgico) parece até estar fazendo arte ciberespacial. 22 anos. o que não surpreende. Essa foi a associação feita por Gustavo Freire. estão sempre disponíveis para o que for.Painel publicitário de um domínio ou de um usuário”.Particularmente será um meio de vida”. é certamente o fruto da própria difusão das home pages como meio de divulgação dos produtos mais variados. Homepages . geralmente com finalidades comerciais.à equipe dessa pesquisa. lugares. “Homepages . A grande maioria das respostas se refere a sites como locais. Rogério Dantas (39 anos. Com essa definição de home pages. colocadas na Rede para auto-apresentação. ou simplesmente como páginas colocadas na Rede com a preocupação de “vender” uma imagem a respeito de quem quer que a tenha colocado. 60 . que gentilmente ofereceu seus préstimos -. levando-se em conta que a palavra site em inglês significa local.”.Telas personalizadas.. para nós. Um outro tipo de resposta merece ser comentado com maior cuidado: vários usuários se referiram a home pages como páginas de marketing. tendo em vista a concretude da sensação que o ciberespaço gera em seus usuários e. diz Judith Freire (33 anos. “Homepages . “Sites . etc. Homepages . reitera Henrique Salles (56 anos. com uma preocupação de "vender" uma imagem”.ele constrói home pages -. sítios. Examinemos algumas dessas respostas.páginas com informações fornecidas pelos respectivos donos. Vejamos o que disseram. que tanto se distancia da sua definição técnica de dicionário. páginas de empresas.”.

Além das definições circulares.locais com urls onde estão home pages de hipertextos ou textos na Web. mesmo nos canais de TV por assinatura) isso não deveria surpreender. nossos colaboradores. “Sites (Localidade onde uma unidade ou computador está situado como entidade e conseqüentemente provendo informações à rede) Homepages (Meio de divulgação de informação. Tanto no dicionário quanto nas definições técnicas dadas pelos nossos usuários-colaboradores há pelo menos uma menção a um dos dois. na opinião de alguns desses mesmos usuários. nossos colaboradores tiveram muita dificuldade. que são. Eduardo Gouveia (38 anos. definições técnicas. a alma da Rede.Não é uma visão nem certa nem errada. sabem ir de uma home page para outra fazendo uso dos links de hipertexto. como não poderia deixar de ser. composta de hipertexto)”. porém jamais ouviram falar quer seja de hipertexto quer seja de links. certamente sabem acessar e visitar uma home page. ou com as definições conceituais dadas a tudo isso. usuários que são da Rede. Homepages . E é muito difícil dar uma definição técnica de home page sem fazer menção a pelo menos um dos dois. economista). ou seja. “Sites . É simplesmente uma visão de usuários. Com esses dois conceitos. A julgar por esses depoimentos. diria eu. das compactas e das mercadológicas. houve. que deu respostas técnicas a praticamente todos os itens do questionário. E são essas definições que nos trazem aos dois próximos conceitos a serem discutidos: os conceitos técnicos de hipertexto e links. E isso talvez explique porque houve poucas definições técnicas em resposta ao item das home pages. parece que a Internet no Brasil assumiu um jeitão comercial em muito pouco tempo de existência. analista de sistemas). embora em número relativamente pequeno. ela é um painel publicitário e o que transmite é uma imagem que se quer “vender”.”. Ao que tudo indica. A home page é vista e apreciada pelo que é e pelo que transmite e. Quais são as definições que o Dicionário da Internet dá para hipertexto e links? Hipertexto: 61 . daqueles que usam o ciberespaço e visitam home pages sem jamais terem se preocupado com os avanços tecnológicos. Pensando bem e caindo na real (aquela cotidiana na qual somos submetidos aos mais variados tipos de comercial. Wanda Soeiro (45 anos. ou as técnicas de construção. que estão por trás de toda e qualquer home page.páginas de hipertextos ou textos da Web. Mas continuemos nosso passeio.

permitindo ao leitor que se desloque de um para outro e leia os documentos em ordem diversa. 62 . em NOVOS USOS DE LINGUAGEM. advogada). relacionar. ou smileys. 38 anos).” A sua fórmula “aperta e vai lá” revela o que quase todos que sabem o que é um link dizem: um link é algo que faz o movimento de ligar. Jerônimo Falcão (sem dados identificatórios).”. de que as coisas podem se conectar no ciberespaço. “Hipertexto = Texto que ao ser clicado lança o usuário para outro lugar seja dentro da página ou fora dela.” Links: “Nas páginas da Web [Rede]. Links = Ligação entre uma página e outra. “Texto que contém vínculos (links) para outros documentos. dele não posso dar exemplos textuais. também. É. Já a sensação de movimento. “Hipertexto 18 Leia mais sobre as carinhas. Julio Tavares (perito judicial. ao ser selecionado.” E o que dizem nossos colaboradores? É grande o número dos que admitem não saber o significado nem de um nem de outro. emoticons. “Hipertexto um texto bem grande :) [a carinha :) quer dizer que Jerônimo não está levando a sério sua resposta!]18 Links não tenho idéia”. E mais. Arnaldo França: “Hipertexto: estas coisas do http Links: aperta e vai lá. essa feliz fórmula revela o que muito provavelmente está por trás de tantos “não-sei”: mesmo quem não sabe o que é um link. vincular ou simplesmente “navegar”. Boa saída encontrou o já nosso amigo aposentado de 50 anos. é passível de ser exemplificada de várias maneiras dentre as descritas pelos usuários. Maria do Carmo Veiga (32 anos. Portanto. um vínculo (link) de hipertexto. e um hipertexto é um tipo de texto que oferece recursos que permitem que esse movimento seja feito. um botão ou trecho destacado do texto que. quando está na Rede “aperta e vai lá” sem nenhum problema! O “não-sei” é apenas observável. remete o leitor para uma outra página. grande o número daqueles que tentam advinhar seu significado e acabam demonstrando desconhecê-lo: “Hipertexto = não sei links = endereço de alguém ou algum lugar”.

Nosso pensamento não é bidimensional nem tampouco seqüencial. Dito tudo isso. uma pergunta pode se colocar: será que alguém assinalou o potencial inovador do hipertexto e seus links? E a resposta é sim.”. por exemplo. entre várias outras coisas. variando de acordo com os desejos e objetivos do interessado. som e vídeo numa coisa definida como HTML. em várias direções. Mas os recursos do hipertexto -. permitindo uma viagem entrelaçada de assuntos. extremamente rápidas. imagens. com a ajuda da leitura de grandes escritores.como. Ainda não sabemos como usar o que esse fantástico recurso tem a nos oferecer (há várias experiências em curso).abrem novas e fascinantes possibilidades. mas houve quem assinalasse a que é. Links Relação possibilitada entre um endereço e outros presentes no mesmo diretório ou mesmo em outros diretórios ou servidores.) [A carinha está piscando um olho. Eles não foram muitos. ou a possibilidade de tudo se conectar a tudo dependendo dos objetivos.] Links pra facilitar a navegação. com a ajuda de leitores experientes. analista de sistemas).”. uns melhor do que outros. em várias direções. “Hipertexto Combinação de textos. “Hipertexto html . a possibilidade de idas e vindas. e com séculos de conhecimento e técnicas acumulados. muitos fazemos isso relativamente a contento. em tom de brincadeira. Walter Costa (36 anos. mas certamente já podemos avaliar o quanto ele pode revolucionar a relação que temos com a palavra escrita e com o papel! E isso é registrado em pelo menos algumas das respostas que recebemos. a principal característica do hipertexto: a característica verdadeiramente nova e revolucionária de ser um texto muito mais próximo da nossa forma natural de pensar do que o texto bidimensional e linear ao qual estamos acostumados e que o leitor tem diante de seus olhos. Para isso contamos. a meu ver. Recurso de se atrelar assuntos em textos. Márcio Cruz (17 anos. 63 . que ao meu ver é uma revolução no mundo dos homens. Temos que fazer força e usar diversos recursos lingüísticos e literários para colocá-lo na bidimensionalidade do papel de forma compreensível. interesses do escritor e do leitor -. Links Ligações para outras páginas ou Sites. Tudo bem.”. desenho industrial).

de seus contemporâneos.”. “Hipertexto ====> texto que permite a interação com o leitor. Talvez esse exercício possa nos dar uma idéia do que pode vir a acontecer a partir dos novos recursos tecnológicos que hoje estão à nossa disposição. seria como vc estacionar com seu carro sobre uma placa indicando Itaquaquecetuba e **Plim** ir para lá num passe de mágica. Links ====> Redirecionamento para outro serviço. nas formas de ver o mundo e pensar sobre ele. José Carlos Nogueira (dados pessoais não disponíveis). nas comunicações.evolução natural do texto. Pedro Werneck (32 anos. ou seja. engenheiro).placas de indicação virtuais.”.19 19 Leia mais sobre o hipertexto em NOVOS USOS DE LINGUAGEM.Carlos Eduardo Cavalcante (23 anos. analista de suporte Internet). etc.um texto esperto que ajuda a desenvolver a cultura através de links e procuras diretas on touch. depois do textu-erectus chegou a vez do textu-sapiens -. Sua leitura se torna mais semelhante a uma conversa com quem escreve o texto. permitindo que este interrompa a leitura para obter mais informação disponível sobre um conceito realçado no texto. nas formas de transmissão do conhecimento. 64 . tentemos fazer um exercício: façamos uso da velha imaginação e tentemos retornar no tempo o suficiente para podermos apreciar as transformações que a invenção e a difusão da escrita introduziram no cotidiano. Links . “Hipertexto -. Enquanto isso. Como passaremos a usar o diálogo e a mágica desse novo recurso só o futuro nos pode dizer.

. 65 . o tempo usado para comunicação síncrona. Juliana Assunção.. ao vivo.. jornalista de 33 anos de idade. para distingui-la da “virtual”. já está tão naturalizado que parece ter existido sempre. O tempo real que. para eles nova. feita por eles mesmos. “Onde?”. tão recente quanto a Rede que possibilita a comunicação síncrona por escrito. Também no sentido de algo que está ocorrendo no momento atual. aquele que venho usando como referência ao longo deste bloco. revelando o meu espanto leigo.” A comunicação síncrona já existe há muito tempo (embora eu nunca tenha ouvido ninguém se referir a uma conversa telefônica como uma “comunicação síncrona”!).. Mas. que há muito fazem parte do nosso cotidiano. na qual ambos os participantes devem estar disponíveis -. a mensagem é recebida no mesmo momento que está sendo mandada. certamente.ter esboçado qualquer reação à. como programas de TV e rádio (embora eu nunca tenha ouvido alguém dizer que o jogo da Copa do Mundo estava sendo transmitido “em tempo real” para o mundo inteiro!). ao que tudo indica. Surpreendeu-me o fato de nenhum desses usuários -- em sua maioria cidadãos comuns que geralmente se referem a transmissões de TV que ocorrem ao mesmo tempo em que eles as estão assistindo como transmissões “ao vivo” -. qualificação do velho tempo como real. a uma qualificação análoga. não tendo sido gravado ou sofrido qualquer atraso” também imediatamente me ocorrem vários exemplos. com algum espanto. a expressão “tempo real” é. sou obrigada a concordar que o tempo real já é antigo.como em uma conversa telefônica. ao ler a definição do Dicionário da Internet. para a maior parte dos usuários. ao vivo. Diz o dicionário que tempo real é: “.” Tal como para Juliana.Tempo real e chats Antes do advento da Rede. “Quando?”. pois foi em conexão com esta que eles travaram contato com aquela! Por isso mesmo tive uma surpresa ao examinar as definições dadas a tempo real pelos nossos usuários-colaboradores. não tendo sido gravado ou sofrido qualquer atraso. sou informada. “Como?”. concorda comigo e diz que tempo real é uma: “nova expressão para ‘ao vivo’. para muitos desses usuários é tão recente quanto a Rede. “. pergunto. da realidade em que todos vivemos como “real”. já se usava o conceito de tempo real. Lembremo-nos de que esses mesmos usuários haviam reagido." E se refere imediatamente a uma nova realidade: a da troca “ao vivo” de mensagens escritas. De “algo que está ocorrendo no momento atual.

os chats. define Esther Mendes (49 anos. “O processo se desenvolve na máquina em tempo igual ao da vida real”. médico). Ele pode examinar as definições dadas com seus próprios olhos e concordar ou discordar de meus comentários e conclusões. concorda Henrique Salles (56 anos. ou tornam-nos evidentes mesmo quando somente implícitos. Muitos usuários dão definições técnicas. e. engenheiro).”. algum suspense nunca faz mal a ninguém). Agora. estudante de informática). Paulo César Coelho (22. “. Vários outros usuários. São aqueles que definem tempo real fazendo menção àquilo que. Isso sugere que esse “o quê” já deveria ser evidente! Vejamos alguns exemplos. ao mesmo tempo”. vou apenas mencionar que não são todos os nossos colaboradores que omitem um ou ambos os eventos que são simultâneos. Gustavo Freire (22 anos e sem outros dados identificatórios). fazer com que a comunicação ocorra em conjunção com o tempo físico do sistema terrestre (conforme Greenwich e etc.). 66 . nada dizem além de que tempo real é aquilo que acontece ao mesmo tempo. afirma Pedro Werneck.”. “É o tempo em que um determinado evento está ocorrendo na realidade e via computador. Não revelam o quê acontece ao mesmo tempo que o quê. ou seja. “Tempo Real: Algo que acontece simultaneamente. Arnaldo França (50 anos. aposentado). Os dois eventos que ocorrem ao mesmo tempo são explícitos nessas definições: um é um evento relacionado à máquina e o outro é um evento que ocorre na vida real. na Rede. “Tempo Real simultaneamente. química). “Tempo Real: ao mesmo tempo”. Alguns os declaram abertamente. E qual a razão dessa suposição de que todos-sabem-o-quê-ocorre-ao-mesmo-tempo- que-o-quê? A razão está ligada a uma segunda surpresa que deixarei para relatar um pouco depois (afinal. é sobejamente conhecido por acontecer em tempo real.Mas o leitor não tem que aceitar a minha palavra sobre isso... no entanto.”. (32 anos.

”. ou seja. estilos e ênfase. de forma compacta mas aberta [porque um chat -. tão populares entre os mais jovens. embora muitos houvessem feito isso em relação a outros itens. “Tempo Real = chat”. Canais de chat: as pessoas falam ao mesmo tempo. em resposta a outro item do questionário. Além disso. Embora chat seja uma palavra inglesa. analista de suporte de Internet) que escancara o pressuposto que está na base de todas essas definições: o de que o tempo real pertence não à realidade “real” mas sim à realidade da Rede: “Tempo Real Pressupõe-se acesso on-line e rápido . Alguns fazem a mesma associação um pouco mais tarde. Comparemos a relativa formalidade da definição do Dicionário da Internet com a informalidade das respostas dadas por vários de nossos usuários-colaboradores. No dicionário. onde não encontramos uma entrada para canal de chat. economista). a palavra chat recebe a seguinte definição: 67 . na Rede. nos ajudam a encontrar um motivo plausível para a suposição de que todos- sabem-o-quê-ocorre-ao-mesmo-tempo-que-o-quê.”. Wanda Soeiro (45 anos. percepção. as conversas se dão em tempo real. uma conversa -.:)”. (aposentado.:) mais uma vez indica o sarcasmo da brincadeira. você fala e a pessoa recebe o digitado ao mesmo tempo. Ricardo Neves (19 anos. comunicação).] E isso nos traz àquilo que. ninguém nos deu nenhuma resposta pomposa no estilo dicionário. [A carinha sorridente . todos os nossos colaboradores sabiam o seu significado e isso se estendia mesmo aos usuários mais velhos que. têm preconceitos em relação às conversas online. “Tempo Real: ao mesmo tempo. explica Roberta Dantas (19 anos. Arnaldo França. sempre pressupõe acesso online e rápido: os chats. “Tempo Real a forma de conversa em programas como o irc. quando definem os chats. Agora posso revelar ao meu leitor a minha segunda surpresa. “Canais de chat .já envolve pelo menos duas pessoas].com isso.isto é. 50 anos). As respostas parecem ter preservado a informalidade de um bate-papo. estudante de psicologia). ou o chat pela Web. de forma mais ou menos explícita. supostamente. é a definição de Carlos Eduardo Cavalcante (23 anos.canais de conversa em tempo real.”. Apesar de todas as diferenças de conhecimento de informática. coloca.

”. Mas mesmo assim vale a pena pois depois de muito papo furado vc [você] sempre tem a chance de desenvolver amizades 68 . Walter Costa (36 anos. Julio Tavares (38 anos. e uma carinha sorridente] .”. médico). diz. coloca.apareça no # [seguem-se o nome de um canal. analista de sistemas). “Canais de chat . de forma um tanto incompreensível. técnica de contabilidade). “Canais de chat = LOCAL [ ? ] DE QUEM TEM MUITO DINHEIRO E NADA PARA FAZER”. Já os nossos colaboradores respondem bastante descontraidamente.** mentirinha **. “Canais de chat . perito judicial). onde vc [você] encontra pessoas e faz amizades”.:)” . O nome é uma abreviação de canais de chatos. Estão sendo muito usados para cursos à distância. tal qual em uma conversa telefônica e diferente de um intercâmbio de mensagens de correio eletrônico.Bate papo. A formalidade ficou restrita a algumas respostas que procuraram ser mais técnicas. química). “Canais de chat Endereço com recursos tais que permitem a múltipla interação de informações entre vários internautas. “Canais de chat São sites utilizados para conversação entre pessoas com uma finalidade específica.acho um saco !!”.“Comunicação linha a linha com um outro usuário pela rede de forma síncrona em tempo real. Todas essas são respostas informais que condizem bastante com a informalidade de uma conversa digitada em tempo real. E o preconceito? Emergiu em relativamente poucas respostas. “Canais de chat Salas de bate papo . “Canais de chat . Carlos Eduardo Cavalcante (23 anos. porque é o que mais tem nesses lugares . Esther Mendes (49 anos. analista de suporte de Internet). Valéria Alexandrino (43 anos. Um deles chega inclusive a convidar a equipe da pesquisa para visitar um determinado canal temático. Henrique Salles (56 anos.lugares para conversas sobre tudo e com todos. com obviedade.

“Canais de chat Um passatempo perigoso”. Alguns parecem gostar muito. aguça a curiosidade de todos Gustavo Freire (22 anos. diferentes gostos. alguns pensam em como utilizar essa forma de comunicação com propósitos educacionais. que um chat pressupõe tempo real? 20 Leia muito mais sobre os chats em NOVOS RELACIONAMENTOS.. engenheiro). Diferentes idades.”. critica e relativiza Pedro Werneck (32 anos. 69 . vários pensam nas amizades que podem resultar desse tipo de contato. diferentes objetivos. outros detestam.. muito legais. então. outros dados desconhecidos). mas algo definitivamente em comum: todos sabem o que é um canal de chat! Quantos desses e de outros usuários saberiam o significado dessa palavra inglesa há pouco mais de dois anos?20 E quantos saberiam.

Poucos pensam nas transformações de cunho social e psicológico que essa tecnologia já está gerando e ainda irá gerar. ao final da discussão que acabamos de travar sobre alguns conceitos básicos da Rede. de sua não existência física. 70 . O que os depoimentos dos nossos usuários-colaboradores deixam claro é que a cultura. A concepção de espaço. o da soberania da prática. cujo uso certamente conhecem. Creio que. o tempo e a realidade. não sabemos aonde podemos chegar. todas essas são manifestações de um mesmo fenômeno.chegaremos lá. A estes cabe a tarefa.ou melhor.“Sabemos aonde podemos chegar?” ou a moral da história “Você sabe aonde pode chegar?” é um conhecido lema da Microsoft. teria que ser uma moral parcial da história Passemos logo a ela para satisfazer a curiosidade do leitor e tentemos ser breves para que possamos almejar alguma eficácia. coloco uma pergunta análoga: “Sabemos aonde podemos chegar?” Não. próximos que estão dessa tecnologia revolucionária. Mesmo assim. de tentar demonstrar o que já mudou e o quanto ainda poderá mudar. O mesmo se aplica às noções correlatas de lugar. como -. por exemplo. mais ou menos difícil de perceber e/ou aceitar.e se sobrepondo às culturas locais. alterações essas que são indubitavelmente fruto da experiência ciberespacial. que. a expressão realidade “real” ou “não real” --. que vem se instalando -. é uma cultura da prática e não necessariamente da reflexão. Alguns de nossos contemporâneos sequer se perguntam o que está ocorrendo. como o hipertexto e seus links. como numa fábula. Após toda a discussão dos novos conceitos que acabamos de fazer. Outros. no nosso caso. muito menos ainda. um fecho do tipo moral da estória. mas acham que a tecnologia está muito distante deles.a chamada cibercultura -. Não sabemos aonde queremos chegar e. etc. Outros sabem que está ocorrendo uma grande revolução tecnológica. com que tipo de organização mental e psicológica -. seria útil termos. nosso despretensioso e curto passeio pela história contemporânea. pensam nela somente como uma tecnologia que revoluciona outras tecnologias. a ignorância que muitos demonstraram ter em relação ao significado de aspectos fundamentais da Rede. a gigantesca indústria de software que tornou Bill Gates milionário e conhecido no mundo inteiro. localidade. A surpresa de alguns colaboradores com aquilo que eles próprios haviam acabado de escrever -- como. árdua mas gratificante. passa a comportar a possibilidade. tornou visíveis várias alterações nas formas de conceber o espaço. por exemplo. a difusão do uso de uma expressão como tempo real (até pouco tempo ignorada por grande parte dos mortais leigos) que está intimamente vinculada aos populares programas de chats.

a nova concepção de construção de textos não lineares e a nova concepção de escrita online. Não importa onde estejamos. podemos bater papo digital em tempo real tanto com o vizinho que mora ao lado quanto com alguém que está do outro lado do globo terrestre. etc. Aonde isso nos levará não podemos saber. esperemos o futuro chegar para que com ele possamos interagir.-) que fazem parte da escrita online e são discutidas no mesmo bloco sobre linguagem. ou praticamente todos os nossos colaboradores responderam online -- ou seja. usaram várias outras características da linguagem online: texto econômico. cuja definição nunca foi fácil. não usamos acentuação nem cedilhas. agora se encontra cindida em realidade “real” -. com uma velocidade digna da Rede. podemos interagir com nossos representantes políticos.23 Ocorreu. erros não corrigidos. enquanto estavam conectados à Rede -. espaço e realidade da Rede tudo pode interagir com tudo e todos podem. ainda a respeito da escrita. foram enviados aos nossos usuários- colaboradores através do correio eletrônico e.aquela da Rede.e realidade “virtual” -. 24 Os emoticons são as carinhas do tipo . além de não acentuar nem usar cedilhas. Os questionários. como esperávamos (acentos e cedilhas foram colocados em suas respostas posteriormente porque o leitor leigo poderia não entender o que estava acontecendo!). etc.21 E ambas são vividas como bem concretas pelos usuários.de interatividade. como já foi dito. Nossos colaboradores. Já a realidade. passa a ser o tempo real da comunicação virtual. 21 E as conseqüências dessa cisão não são de pouca monta. Não importam quais os nossos objetivos. Outros pontos valem a pena ser comentados à guisa de moral da história: a nova concepção -.aquela da vida cotidiana -. Em quais direções é impossível dizer. algo surpreendente. 71 .a despeito dos gastos com contas telefônicas e provedores de acesso (mesmo podendo não fazê-lo). como é discutido no bloco sobre os NOVOS RELACIONAMENTOS. Podemos interagir com a mídia. assim que forem resolvidos certos problemas como os de direitos autorais.O tempo real penetra setores que nunca tinham ouvido falar de tal qualificação para o velho tempo e ganha popularidade.bastante ampliada -. no entanto. um comentário sobre as respostas que recebemos. Por conta de sua vinculação com as conversas online.22 Por último. A construção de textos não lineares através dos links de hipertexto é outro aspecto que certamente. interagir com todos. vai revolucionar aquilo que hoje conhecemos por escrita. ao menos potencialmente. as possibilidades são muitas e em sua maior parte ainda não foram exploradas. podemos pesquisar e interagir com aquilo que estamos pesquisando ao interargirmos com as home pages que nos interessam. abreviações e emoticons (ícones que retratam emoções de forma sintética). Vejamos. A maior parte dos nossos colaboradores respondeu de acordo com os mesmos padrões. No tempo. 23 A “netiqueta” bem como a colocação de acentos e cedilhas nas respostas recebidas por e-mail são discutidas em detalhes em NOVOS USOS DE LINGUAGEM. 22 Leia mais sobre o hipertexto e sobre a escrita online em NOVOS USOS DE LINGUAGEM. etc. ou o estilo online já invadiu a escrita digital offline.24 Das duas uma. seguindo as regras da “netiqueta” (a etiqueta da Rede).

Se o faz. 72 .Pergunto-me se o leitor cético ainda duvida das influências que a Rede está tendo sobre nós. peço-lhe que por favor não deixe de ler os próximos blocos.

o link não é mais para somente uma nota ou uma referência a uma publicação que fica a seu encargo encontrar na biblioteca. etc. está mudando as nossas formas de pensar. das fibras óticas e congêneres. basta clicar nos lugares certos. há alguns anos. Basta digitar a mensagem e enviá-la por e-mail. mais terríveis ainda. cabos submarinos. Com o hipertexto e seus links você não precisa marcar nem a página de ida nem a de volta. comprar envelope e ir ao correio? Alegre-se. pare de se preocupar com as questões da pornografia e da violência na Rede. 73 . E mais. mas nunca tem paciência de escrever. no texto ciberespacial. Você sempre desejou exercer os seus direitos de cidadão e consumidor? Quando esses direitos são violados. A pornografia e a violência existem principalmente fora da Rede. Lembre-se de que você vai saber lidar com elas. com isso. Essa nova realidade. da interatividade. a largura do tempo está a caminho de se tornar uma pedra fundamental do raciocínio humano! Sua mãe não lhe ensinou que não dava para assobiar e chupar cana ao mesmo tempo? Ora. onde também estão sempre bastante acessíveis e visíveis. chupar cana e fazer outras coisas simultaneamente! Você é daquele tipo de leitor que sempre odiou ler notas de pé de página -.para não falar daquelas. -.é bom e urgente que todos saibamos -. se tornar largo? Pois bem. ou com a sua ansiedade a respeito delas.e. estou certa? E agora? Você já entende ou procura entender o que são essas coisas? Então você já faz parte do crescente número de pessoas que se preocupam com aquilo que torna o ciberespaço possível..NOVA LÓGICA Algum dia você imaginou que o tempo poderia. do hipertexto. cujas páginas tem-se que deixar marcadas no final do capítulo ou do livro -. além de longo. na realidade construída pelos sistemas e aplicativos contemporâneos. você agora pode fazer tudo isso sem papel nem envelope. emissoras de TV. da multitarefa simultânea. aquela do tempo largo. isso é coisa do passado! Bill Gates. Você é mãe. linhas telefônicas digitais não entravam no rol de suas preocupações. o papa da Microsoft. etc. pai. fibras óticas. sempre deixou de ler informações importantes? Regozije-se porque esses dias estão contados.está mudando muito mais aspectos das nossas vidas do que podemos supor à primeira vista: entre outras coisas. deputados. os recursos que a Rede torna disponíveis e os discursos sobre ela estão exercendo uma influência muitas vezes insuspeita sobre os usuários do 25 Leia mais sobre alterações nas nossas formas de sentir em NOVAS RELAÇÕES HOMEM-MÁQUINA e NOVOS RELACIONAMENTOS. Muitas vezes. por favor. procurar o endereço. tanto melhor quanto mais contato tiver com a nova realidade na qual seus filhos estão imersos. ou de alguma forma tem a responsabilidade de educar os muito jovens? Então. já remete para o artigo cuja referência daríamos no texto convencional! Tenho certeza de que. você sempre pensa em mandar cartas para jornais. serviços de proteção ao consumidor. assegura que é possível assobiar.25 Dito de outro modo.

da informação sem propriedade. da ruptura de barreiras e fronteiras.esses recursos e discursos -. Esta lógica pode ser muito útil. mas também pode gerar vários tipos de problema. da interação.ciberespaço. da ausência de censura. da ausência de controle central. da integração. do acesso fácil a qualquer tipo de informação. da colaboração. 74 . do raciocínio ágil. Proponho que examinemos alguns de seus prós e contras.instauram uma nova lógica: a lógica do excesso. da ajuda mútua à distância. etc. Eles -. do autodidatismo. da democracia. da velocidade.

E quem. dá um depoimento bastante eloqüente a respeito de sua primeira impressão da Rede. para tanto. inclusive os endereços eletrônicos. após uma colocação divulgada nesta lista. quase me afogo no excesso de informação sobre o excesso de informação. que é organizada/liderada/mediada por Dario Mor. que diz: “. Gostaria me desculpar por não ter respondido uma a uma pessoalmente -.com> Fala Meu Povo! Recebi uma avalanche de mensagens sobre o tema "Excesso de Informação".Excessos Porque tudo. Ele foi levado a um tal estado de excitação e êxtase por tudo o que fez e viu. A mensagem do editor da revista. é curioso por natureza.Br (ver o número 8. para os interessados. por e-mail. entretanto. 43 usuários da Rede deram.com. A tal ponto que a revista Guia da Internet.br # 8. fora o grande volume de e-mails do dia-a-dia. Os trechos mais interessantes para essa discussão foram por mim colocados em itálico. A *íntegra* das mensagens. dariomor@actech. portanto.como sempre costumo e faço questão de fazer. ao menos potencialmente.Forwarded Message Follows ------- From: Fernando Villela <fervil@pobox. ficará disponível no site da revista. solicitou a ajuda da Lista Informativa MeuPovo. como os jovens. =:-o - O alto nível do conteúdo e das idéias. seus depoimentos sobre suas primeiras impressões da Rede.na Rede e na Revista -. Uma edição dos e-mails recebidos.. como vêem o futuro da Internet. O leitor quer um exemplo? Bem. as mudanças que ela gerou. que sairá em meados de Janeiro. A Rede põe à disposição de seu usuário mais informações do que qualquer ser humano pode absorver durante uma vida. Rodrigo Alvarenga. é arrebatado por tantas possibilidades passando a cometer excessos.acho que posso resumir [a primeira experiência] como um orgasmo cibernético. de janeiro de 1997) resolveu pesquisar o assunto e. Segue-se uma seleção feita por mim dos depoimentos de vários usuários. se conecta a tudo e todos podem eventualmente se conectar a todos com uma velocidade inédita.foram preservadas todas as características dos textos recebidos. os impactos que a Internet teve sobre eles. 75 . etc. então. Como essas mensagens já foram tornadas duplamente públicas -.. estudante de 22 anos que acessa a Rede uma média de 10 a 20 horas por semana (o que não é pouco!). será publicada na revista Internet. segue na íntegra por também ser informativa. levou-nos a ter uma idéia: montar uma enquete sobre o assunto. a Internet se tornou uma fonte inesgotável de exploração de novos horizontes e conhecimentos.” O excesso parece ser a palavra de ordem na rede. Fernando Villela. Não houve jeito. 26 Leia mais a respeito de nossos procedimentos de coleta de dados em O IMPACTO DO NOVO.br ------.26 Entre eles.

com Supervisor Editorial . nem se pode ficar alheio às novidades. Primeiro.br> A rapidez das informações continuará e será cada vez maior. A necessidade de reciclagem contínua também perdurará se quisermos nos manter "empregáveis". que teremos que saber utilizar técnicas para diminuirmos nossa ansiedade (meditação e outros processos de relaxamento. Não se pode querer saber tudo.com> Tirei alguns daqueles intermináveis minutos que perdemos dentro da condução diária para meditar um pouco nas causas e efeitos deste problema. Vejo.) ou então optarmos por uma solução radical. Com o tempo... Então no cotidiano mundial não é diferente.fervil@pobox. etc. - Um grande abraço! Fernando Villela . com o clicar de um mouse ou o apertar de botões de um controle remoto. seria interessante nos lembrarmos de que o motivo pelo qual há tanta informação disponível hoje é exatamente a busca do homem por uma vida mais fácil neste fim de século. Jamais poderia haver um progresso da humanidade. isso é fácil na teoria.- Agradeço muito ao Dario pelo incentivo.br A seguir. horas sagradas para o lazer. nossas brincadeiras se vão e com isso nos tornamos outra pessoa com responsabilidades. então. talvez trazendo uma pequena fagulha de luz para sua solução. uma edição do material recebido: - ---------- From: "Davi Souza" <dsouza@hotmail.Internet. MacDowell <smd@biograph. tanta informação muitas vezes dificulta nossa vida.br> 76 . Começamos criança e vamos crescendo e aprendendo. A resposta é saber filtrar informações.. enquanto crescemos temos que sofrer o sacrifício de viver sem preocupações. É como a nossa vida. Agora. sem que ela sofresse algo em troca. --------- From: Samuel J. onde virtualmente tudo o que precisamos está ao nosso alcance. ---------- From: Felipe Pullen Parente <felipe@eln.com. Paradoxalmente. mudar de vida e ir criar galinha..gov. não sou uma máquina. o que nos resta é deixar tudo aquilo que não é imediatamente necessário e/ou essencial para aquele dia em que ganharmos a promoção da "Tampinha do gol" e formos coçar em Aruba. exercícios físicos. Portanto. por favor compreendam. nosso corpo muda etc. Caso tenha esquecido de alguém. e à colaboração de todos. Já na prática .

Numa trilha como esta. ainda mais. Na ausência de uma orientação melhor. é frustrante acessá-la. a obtenção e processamento de informação é um recurso básico importantíssimo e. A sensação e perda de tempo é angustiante. é mais de cobrança. ---------- From: Luiz Augusto <larocha@cce. O problema. Tal medida não é fácil a seleção menos ainda. mas temos que ler 1000 notícias para ler 1 que presta. Essa ansiedade pode nos enlouquecer se não estivermos atentos e conscientes de que precisamos rever o uso de nosso tempo e dar uma peneirada no que pretendemos e precisamos. da sociedade ou nossa mesmo.com. creio que devemos desenvolver filtros para eliminar tudo o que não for de interesse para o nosso processo decisório (Como montar tal filtro? Este é o problema.com. Poderíamos perder este tempo passeando em um bosque com a nossa amada. devido à grande variedade e quantidade de ofertas da mesma.ufpr. revistas e etc. de forma indiscriminada. devendo subir de prestígio. pois são filtrados pela formação reticular (situada no bulbo).br> Estamos realmente com uma doença moderna chamada Ansiedade de Informação que atinge principalmente as pessoas que não estão aqui na terra a passeio e sabem que o único caminho a se seguir é o do crescimento pessoal e da busca da qualidade de vida. Portanto temos nossas defesas naturais. me parece.Não acho que seja o excesso de informação que importa. a maioria é um lixo. ) ---------- From: Luciano Pletsch Leite <lpletsch@nutecnet. Mas a angústia que nos pesa na consciência de saber que enquanto estamos passeando o mundo está a 1000 por hora! Quantas informações novas foram geradas na última hora? Agora com a Internet. Mas o que fazer ? Precisamos neste 77 . mas a onipotência em querer absorver tudo.br> A informação é o fator econômico mais importante nos dias de hoje.br> Acho que o maior problema de hoje é que as informações nos chegam de todos os lados. Devemos abandonar o excesso de informações disponibilizadas? Escolher aquelas que nos são mais simpáticas? Parar de nos informar quando acreditarmos que as informações coletadas já são suficientes? Colocar uma viseira para recolher somente informações dentro de determinado prisma próprio? Creio que a resposta destas questões será o próximo desafio da Sociedade Moderna. Sabemos que estamos dentro de um oceano de informações e nos chega uma gota deste mar! Não dá mais! Não agüento mais! Socorro! ---------- From: Henrique José Castelo <castelo@bis. somos acometidos de calafrios ao vermos montanhas de jornais. Os órgãos dos sentidos são bombardeados diariamente por milhares de estímulos que sequer atinge a "córtex". nos próximos anos. se acumulando a nossa frente em velocidade muito superior ao nosso poder e tempo de absorção.

quando afirma que a informação é o fator econômico mais importante nos dias de hoje e sugere que criemos filtros para eliminar o que não é de interesse. para muitas pessoas. A quantidade de downloads "para ler depois" e de livros encostados já é bem considerável. relaxamento. ---------- From: "Mauricio Ruy Prates" <prates@joinnet. me ocorre um branco a respeito de pelo menos 40% das matérias lidas na Internet. Henrique acha que o que está acontecendo assume as proporções de uma nova doença que pode nos enlouquecer -- 78 . Já que não podemos ampliar nossa RAM. Penso que. Luciano Leite e Henrique Castelo fazem outro diagnóstico: ambos apontam o quanto é angustiante parar de se informar quando se sabe que o mundo está. “a 1000 por hora”. -------- From: Giovanni R. no que diz respeito ao mercado de trabalho.br * E-mail: info@actech. etc. pois não adianta nada sair dos trilhos por querer andar acima de nossos limites. Já Samuel MacDowell é de opinião que não é o excesso de informação que importa mas sim a nossa onipotência em querer absorver tudo. É mais importante ser saudável e se constituir em uma pessoa IN FORMAÇÃO. tirar uma moral da história. vamos então escolher o essencial e investir na qualidade do que ingerimos e não na quantidade. seria interessante fazer um curso sobre Leitura Dinâmica. você não acha? ***************************************************************************************************** *********** A Lista Informativa MeuPovo e'distribuida por A&C Tecnologia Web: http://www. Neles.) ou mudamos de vida e vamos criar galinhas! Luiz Augusto parece concordar com Felipe. Fernando Villela recebe um número excessivo de e-mails quando demanda informações sobre o excesso de informação. nas palavras de Luciano.com. publicado pela AMORC do Brasil. Martins <gmartins@nitnet. Tem sido muito freqüente a dúvida sobre: "li ou não li determinada publicação?". Acredito que estou atingindo meu limite. também. do que sofrer e pirar por causa da INFORMAÇÃO.mundo moderno estar em plena carga e com os conhecimentos bem atualizados. Poole.com.com.br> Tenho observado que.br> Há outro livro relacionado ao tema: "Ansiedade . do americano Cecil A. novamente. ou usamos técnicas para diminuir a ansiedade (como meditação. a dificuldade em reproduzir as matérias lidas. sistematicamente.com. É muito comum. Acho que temos de trabalhar nosso stress e ir levando. eu simplesmente esqueço parte delas.actech.br ***************************************************************************************************** *********** Tentemos resumir o que foi dito e. Davi Souza também acha que tanta informação pode dificultar a nossa vida e que a solução é saber filtrar as informações. Felipe Parente atribui o consumo excessivo de informação à necessidade de nos mantermos “empregáveis”: a seu ver.Um Obstáculo Entre o Homem e a Felicidade".

Os dois ditos que selecionei. ler mais em NOVOS RELACIONAMENTOS. Sejam quais forem os seus determinantes. que. Newark. que selecionei. com sua linguagem jovem. na tecnologia push.. Também por analogia aos AA (Alcoólicos Anônimos). as novidades sobre os assuntos por ele previamente selecionados!) Qual a moral da história? Devemos usar filtros. principalmente na seção sobre Os prós e contras dos relacionamentos virtuais. atraem leitores de todos os tipos e idades levando-os a refletirem sobre o seu próprio comportamento. entre colchetes. seja tentar tomar alguma distância da Rede e de nós mesmos e fazer exatamente o que estamos fazendo: pensar e discutir o problema.com/netaholics) que exibe ditos jocosos enviados por usuários de várias partes do mundo. mais recentemente. foi criada uma home page dos Netaholics Anonymous (http://www. 79 .earthplaza. é chamado de netaholism por analogia a um outro vício já antigo: o alcoholism (alcoolismo). o vício na Rede ou netvício. Delaware Estas e outras piadinhas registram de forma jocosa o que está acontecendo e.. Singapore “When people ask about the Presidential Election you ask ‘Which country?’" [Quando perguntam sobre as eleições presidenciais você pergunta “Em que país?”] Jason H.] Gabriel K. Eventualmente encontraremos soluções e erigiremos defesas externas e internas para lidar com esse novo tipo de ansiedade.a da “ansiedade da informação” -. criar galinhas. Ainda estamos num estágio de ensaio-e-erro no qual as cobaias somos nós mesmos. deixam claro que as pessoas estão ficando horas a fio conectadas à Rede. 27 Sobre o medo de enlouquecer. a curiosidade insaciável pode levar a uma nova forma de vício. numa tecnologia em que as grandes agências de notícias “empurram”. Outros homens já fizeram coisas análogas em outras revoluções! Enquanto isso.e também sugere que se dê uma “peneirada” nas informações. bem-humorada. via telefone. “Your phone bill comes to your doorstep in a box. os originais em inglês.” [Sua conta de telefone chega à sua casa numa caixa. portanto. lemos e ouvimos. já que ninguém domina todo o potencial desse meio de comunicação veloz e voraz. traduzidos por outros tantos para outras tantas línguas e amplamente circulados na Rede. com autoria declarada. e dele a Rede está cheia. ou seja. fazer ioga. por exemplo. uma das soluções para ao menos aliviar a ansiedade e o stress é o velho humor.27 Tanto ele quanto Mauríco Prates assinalam a nossa incapacidade de absorver e digerir tudo o que vemos. Passemos a alguns exemplos. Vou traduzir. ou aprender leitura dinâmica? Fica evidente que não sabemos. absorvendo tudo quanto é tipo de informação sem maiores seleções. na língua-mãe desta. para dentro do computador do usuário. (Não é à toa que se teve que pensar em mecanismos de busca e. O fato é que estamos nos primeiros estágios de uma revolução e não podemos mesmo saber como lidar com esse novo avassalador. Talvez o melhor procedimento.

ou largura de banda alta. Estamos tentando alargar 80 . testando nossos limites sem saber no que isso vai dar. E leva. É essa lógica que leva Ricardo Neves (19 anos. Portersville. Todos os depoimentos que o leitor acaba de ler apontam numa mesma direção: estamos.” [Sua namorada virtual arranja um novo namorado com maior largura de banda. ou seja. a lógica dos excessos. quando do lançamento pela Microsoft do Windows 95. como não poderia deixar de ser nesse início de vida digital. não se falava em outra coisa: “Assobiando e chupando cana” “Com Windows 95 a multitarefa no seu PC ficou muito mais fácil. enquanto você roda um velho programa em DOS. Os usuários fanáticos sabem disso e os Netaholics mais uma vez registram a novidade com humor: “You consider bandwidth to be more important than carats. elas precisam de tempo. E para que possam fazer várias coisas simultaneamente têm que usar programas adequados. eu perdido e estressado!”. programas que permitam assobiar e chupar cana ao mesmo tempo! Tais programas não somente existem como fazem da multitarefa simultânea um dos carros-chefe do seu marketing. também. enquanto você faz o que quiser. enquanto você navega pela Internet. para que as pessoas possam ficar conectadas à Rede horas a fio. por exemplo. se o tempo largo no computador desconectado da Rede exige um determinado tipo de programa. E para que possam ter tempo têm que fazer várias coisas simultaneamente. Em 1995.” (Anúncio do Windows 95 em diversos jornais e revistas) Essa é a lógica do tempo largo além de longo. PA “Your virtual girlfriend finds a new net sweetheart with a larger bandwidth. absorvendo informações relevantes ou não. estudante de comunicação) a associar: “Multitarefa simultânea= meus trabalhos da faculdade! e tb [também] várias janelas abertas ao mesmo tempo.] Aaron. Agora você pode imprimir enquanto você escreve um texto. e Jerônimo Falcão a piração.fazer um monte de coisa ao mesmo tempo = piração” Mas.” [Você considera largura de banda mais importante do que quilates.Prosseguindo com nosso raciocínio que procura juntar fragmentos de informação colhidos em diversas fontes. Jerônimo Falcão (aquele cujos dados desconhecemos) a dizer: “Multitarefa simultânea . o tempo largo das tarefas simultâneas na Rede exige mais ainda.] Gregory F. Não é por acaso que o jovem Ricardo Neves associa multitarefa simultânea a estresse. Exige ampla capacidade de transmissão de informação.. do fazer tudo ao mesmo tempo. Nathan and the paranoid Kangaroo.

pedindo SOCORRO!. leia um pouco mais nos dois últimos blocos 81 . pois o dia em que realmente não agüentarmos certamente encontraremos modos de nos proteger e evitar os excessos. NÃO AGÜENTAMOS MAIS! Acho que ainda estamos agüentando. em sua resposta à pesquisa sobre excessos. muitos de nós já estamos. como o Luciano Pletsch Leite.o tempo para podermos fazer mais coisas ao longo mais tempo! Como não estamos conseguindo.28 28 Sobre as defesas que temos que aprender a erigir para lidar com as dificuldades de várias ordens geradas pela experiência com a Rede.

incorporada por jovens e adultos. com isso.Br (ano I. ela registra. Desenvolvimento de um outro tipo de raciocínio. de um assunto para outro. por questões profissionais e por questões de prazer.29 O computador está na minha vida em cerca de 8 a 10 horas diárias. número 9). que foi sua precursora --. as colaborações de cientistas que trabalhavam em lugares distantes. faz interessantes comentários a seu próprio respeito: “[Timothy] Leary. entre outros. acabou por se tornar um meio de suprir a necessidade científica de troca de informações e acesso a arquivos de pesquisadores de todo o mundo por pesquisadores também de todo o mundo. A agilidade é uma decorrência de tanto o que conhecer em tão pouco tempo e dos recursos que tornam todo esse conhecimento disponível. produtor da revista virtual Transmídia. argumentou que a rede teria uma função parecida com a droga. o raciocínio ágil: “Maior interação. 82 . integrado e relativizado. Possibilidade de Conhecimento (saber) e de Informação. hábito que perdemos ou nunca tivemos. Entrar na Internet e localizar novos mundos ocupa a mente com novas idéias. de um contexto cultural para outro. num centro de pesquisa europeu que congrega pesquisadores de várias 29 Drogas podem viciar e o vício na Rede é discutido em NOVOS RELACIONAMENTOS. Você chega perto das pessoas. ágil. com cada vez maior eficácia e velocidade.” Já a integração está nas próprias origens da Rede. por incrível que pareça. psicóloga de 43 anos que usa a Rede em média seis horas por semana há cerca de um ano. o papa do LSD. e. A influência dessa agilidade sobre as formas de raciocinar dos usuários é percebida e registrada por alguns deles. de uma informação para outra. integração e relativização O tudo-potencialmente-se-conecta-a-tudo da Rede tem outras conseqüências além dos excessos. passou a ser um dos principais objetivos dessa grande rede de computadores. acelera a lógica e nos desloca para outros mundos. parece concordar com Cláudio Duarte no que diz respeito à aceleração da lógica.ou a ARPANET.Agilidade. uma vez que seu uso foi expandido para as universidades. Em entrevista concedida ao Guia da Internet. Sonia Campos. absorve-se a lógica ágil dos links de hipertexto. Pula-se de um site para outro. Integrar. Mas a coisa cresceu e. o jornalista Claudio Manoel Duarte. em suas últimas defesas da Internet. no sentido da expansão da mente. Quando indagada sobre os efeitos da Internet. através de seu uso. O fato é que a Internet -. o e-mail é uma carta. que encontrou abrigo no servidor da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estados de Alagoas (Fapeal).” Dentre os usuários que enviaram suas respostas aos nossos questionários. é através dela possibilitada e é. embora tendo sido criada pelo governo americano para fins militares na época da Guerra Fria. Uma delas é a de instaurar um novo tipo de raciocínio: um raciocínio ágil.

encontramos um item dedicado à relativização: “1 .Possibilitar um horário mais flexível de trabalho. tais como operações bancárias.” 83 . De fato. declara: “. pedagoga de 42 anos que acessa a Internet de oito a dez horas semanais há um ano. dá um testemunho sintético e de conseqüências devastadoras: “Fiquei impressionada como o mundo ficou pequeno. Queremos algo mais diferente do nosso modo habitual de pensar -. e do e-mail.” Se o mundo ficou pequeno. favorecer a construção de um mundo melhor.até. das trocas de experiências entre pessoas dos mais variados e remotos cantos e recantos do planeta através dos chats e grupos de discussão em tempo real.Utilização mais inteligente do tempo.Economia de tempo e dinheiro para a realização de procedimentos profissionais e particulares. na Rede o diferente é mais do que pensado.surgiu a World Wide Web. tive a impressão que os assuntos e disciplinas passam a se interrelacionar de forma natural. ele é conhecido e até vivido como realidade virtual. deixando para o homem as tarefas mais nobres (pensar.Minimizar preconceitos por facilitar a comunicação entre pessoas de culturas diferentes. nos fornece uma interessante lista de efeitos relativos à melhor utilização da inteligência humana e.Velocidade maior de criação pela possibilidade maior de acesso à informação. A também experiente Vera Solano.do que uma “realidade não real” ou um “tempo largo”? Esther Mendes. 6 . o diferente certamente se tornou pensável e o pensamento relativizável. experiente. Isabel. O objetivo foi alcançado com sucesso e um outro tipo de integração.. nela. 5 . estabelecendo as pontes entre áreas de conhecimento antes bastante fragmentadas em suas especificidades. criar. é observado por Isabel Torres. reuniões à distância etc. química e professora universitária de 49 anos e usuária da Rede apenas cerca de uma hora por semana há 1 ano. 2 . fruto da primeira.) 4 .Devido ao grande poder de troca da mais valiosa capacidade do Homem (pensamento). engenheira civil de 40 anos de idade que acessa a Internet há um ano e meio pelo menos duas horas por semana. organizar etc. pouco tempo atrás -.o CERN (Conseil Européan pour la Recherche Nucleaire) -..nacionalidades -. a nova e revolucionária forma de correspondência. pelo menos. holística. a popular WWW que tudo integra a tudo. quando indagada sobre sua primeira impressão da Rede.” E a relativização? Esta é uma conseqüência imediata do contato com tantas informações de diferentes teores e origens. Ao relatar a primeira impressão que teve da Rede. 3 .

alguns holandeses vão ter uma visão diferente do que é que é brasileiro. No momento em que deram suas respostas. E os jovens. porque ele dizia que se as crianças do mundo inteiro se conhecessem tenderia.. conto mais prá eles. isso é até um pensamento daquele pessoal que fundou o CISV (Children International Summer Village). você conhece muito o pessoal de Pernambuco de ouvir dizer ou então nas poucas vezes que você vai lá. o quanto percebem dessas mudanças? Passemos em revista alguns dos depoimentos de vários usuários jovens cuja capacidade de reflexão é diferente da dessas profissionais experientes. Vera e Esther são todas mulheres experientes cujo ofício é pensar e educar. p/ [para] troca de idéias. E isso não é de pouca monta! A minimização de preconceitos é mais do que relativização. esse tipo de coisa. e isso envolve também uma mudança na forma de pensar das pessoas. primeiro a possibilidade de diminuição de preconceito muito grande porque preconceito vem geralmente por falta de informação. Ela diz ter se tornado uma usuária da Internet: “. mas sei que Sonia. não vão achar que é subdesenvolvido povinho assim. essa coisa vai mudar e isso envolve praticamente tudo.. se está todo mundo conectado a facilidade de você conversar com pessoas que não estão próximas a você fisicamente é muito maior. que. envolve comércio. tudo que precisa de troca de informação. falando a respeito de mudanças. em primeiro lugar pela facilidade de encontrar com pessoas de pensamentos diferentes. Por exemplo. E é diferente simplesmente porque são jovens demais para terem termos de comparação ou porque sua empolgação com o novo é justificadamente maior. Isabel. portanto. quando você começa a se relacionar mais com as pessoas de lá. Estão todas. Acho que essas são as verdadeiras possibilidades. Vera é pedagoga e Esther professora universitária. é sei lá. só que isso só vem 84 . Acho que essa é uma das possibilidades da rede. segundo p/ [para] utilização da net como informativo geral. por exemplo. de comunicação ou de colaboração. então.. O contato com o diferente é ressaltado por Tatiana Góes.Como vemos. hoje em dia. ia diminuir ou não ia haver mais guerra porque se você conhece todo mundo na Argentina você não ia querer fazer guerra com a Argentina. Sonia e Isabel se dedicavam a uma aprimoração profissional bastante árdua: Sonia estava fazendo seu curso de mestrado e Isabel o seu de doutorado. numa entrevista olho-no-olho. sempre bastante atentas a diferentes formas de raciocinar e integrar saberes. eu conto metade das piadas de gaúcho que eu contava a um tempo atrás. por isso ele criou esse negócio de intercâmbio. Não disponho dos dados pessoais de Cláudio.. estudante de engenharia de 21 anos. falta de conhecimento. estudante de 23 anos que usa a Rede quatro ou cinco horas por semana há quinze meses. Esther argumenta que a Rede pode minimizar preconceitos ao facilitar a comunicação entre pessoas de diferentes culturas. Um pessoal aqui do Brasil ficar conversando muito com o pessoal da Holanda. Se você parar prá pensar. diz: “.” Mas quem se pronuncia detalhadamente sobre o assunto é Bernardo Viveiros. é flexibilização mesmo.

o raciocínio da Teia da Vida.. estudante de comunicação de 19 anos que acessa a Rede há seis meses. Desde que começou a acessá-la. ou até melhor... para um trabalho. leio diariamente o jornal Folha de São Paulo (o que não fazia antes). ou seja. acessa a Internet cinco horas por semana há seis meses. Em resposta a uma pergunta sobre as mudanças que a Internet trouxe para o seu dia-a-dia. Outro trabalho foi escrito metade em minha casa e a outra na casa de uma amiga. envio mails. Tive uma resposta que enriqueceu muito o trabalho do meu grupo. tudo na véspera da entrega! Quanta ajuda!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!” (Quem sabe algum dia Ricardo Neves não trabalhará num escritório virtual. “A Internet mudou meu cotidiano. Juca tem uma visão bastante própria da Rede. visão esta que enfatiza a existência de um novo paradigma científico. leio revistas. a Folha de São Paulo tem um dos sites mais visitados por usuários brasileiros] Juca Mineiro (singelo pseudônimo escolhido pelo próprio usuário) é jornalista e tem 23 anos. Escreve ele em resposta ao nosso questionário: “. ou seja. Acessa a Internet há dois anos e meio e sua média de acesso é de cinco a sete horas semanais. acho que só conseguiria uma meia dúzia.. percebe mudanças no que diz respeito à colaboração à distância.. também enfatiza a colaboração entre desconhecidos ao brincar com a minha equipe de pesquisa que lhe enviou o questionário.” [Para quem não sabe. outro lance legal foi quando escrevi para um museu na Flórida pedindo uma ajuda na interpretação de um quadro de Salvador Dali. estudando a Terra como um imenso ser vivo do qual os seres humanos são células componentes. Fritjof Capra acabou de 85 .. mandei para ela via mail e ela juntou as partes para ficar com o mesmo layout.” Fábio Salles.vc [você] acha que estariam respondendo a esse questionário caso ele tivesse vindo pelo correio??? Ou teria conseguido parar alguém na rua para ficar meia hora fazendo perguntas. em sua própria casa. Eis uma de suas respostas ao questionário: “.O que mais me fascina: a visão da Internet dentro do novo paradigma científico que surge na Biologia.. pode-se concluir que o que fez a diferença foi o meio através do qual tem acesso à informação..com uma porcentagem muito maior de pessoas conectadas.por mais que seja interessante o assunto. que a gente não tem ainda. da integração de literalmente tudo. mas vou tentar resumir em algumas palavras. acessa a Rede de dez a vinte horas por semana). ele diz: “Daria para escrever um livro.” Já o jovem Ricardo Neves. estudante de 16 anos.. que com certeza não será o que irá acontecer via e-mail. passou a se informar mais.. da Teoria de Gaia. Como o que lê na Rede sempre esteve à sua disposição fora dela. estudante de 22 anos com o qual já travamos contato (usuário há dois anos. de quatro horas a quatro horas e meia por semana.. interagindo com os outros através da Rede?) Rodrigo Alvarenga.

reunindo as principais vertentes deste novo paradigma que vai nascendo em Universidades diversas espalhadas pelo Globo. É com o passar do tempo que. Mas isso não é surpreendente. hehehe [risos].boff. e o depoimento de Juca Mineiro sobre a Teia da 30 Ver outras importantes conseqüências do contato com o diferente em NOVOS RELACIONAMENTOS. 86 ... a exemplo de Tatiana Góes. uma certa lentidão se instala às vezes por pura preguiça de pensar e outras por excessos de barreiras e preconceitos. como a nossa colaboradora Sonia e eu.. a participação de Rodrigo Alvarenga na pesquisa que gerou os depoimentos que estamos discutindo.. para o bem ou para o mal: “Acho que futuramente irá surgir uma superpopulação HIGH TECH por aí. dentro desse pessoal. De qualquer modo. ..-) de Juca Mineiro pisca o olho para mostrar o tom de brincadeira. A espécie humana está se unindo em um mesmo conjunto cooperativo.30 não somente é registrado pelos usuários jovens. em muitos adultos maduros. ele é o único a afirmar que a Internet é uma excelente professora... "Web of Life". quem mais entende do assunto (é uma sumidade com bagagem e conhecimento prá discorrer sobre) é Leonardo Boff (www. É um desdobramento da Alquimia. com certeza conhece ambas as faces e sabe os Prós e os Contras de cada uma. que estuda a Vida para.] Claúdio Barreiros é bem jovem. dado que o raciocínio jovem sempre tende a ser ágil. Quem é usuário como eu. Porém. mas eu lia o livro como se ele estivesse falando da Internet DURANTE TODO O TEMPO.. que deixa o jovem Ricardo Neves tão empolgado.2) fenomenal. lancar um livro (96. Ele sabe (*muito*) mais do que imaginam. um dia estarão deixando muita gente de cabelo em pé por aí com suas contas hackeadas. Ele acessa há três anos a bagatela de 300 horas por mês! Com sua pouca idade mas toda a experiência acumulada em tantas horas de ciberespaço. basta observar o raciocínio dos jovens que são usuários da Rede -- e garanto ao leitor que já observei muitos -. Apesar do nome. tem apenas 17 anos e é estudante do segundo grau.. e seu funcionamento enquanto sistema integrado. compreender e avaliar uma forma de Vida superior e mais complexa (a Terra) do que a nossa (o Homem). imagino. e muito mais. (ex-)padre e barbudo. vamos nos aproximando do que o teólogo Teilhard de Chardin chamou de NOOSFERA.” A agilidade parece passar sem registro explícito no discurso jovem sobre a Rede. simplificando é um mundo de duas faces. observam-nos e percebem a diferença entre o antes e o depois da entrada na Rede. irão surgir os que sabem desses problemas e irão irabalhar contra criando sistemas seguros.para perceber o quão ágil é seu raciocínio! Os usuários mais velhos e experientes. No Brasil. pedra fundamental da relativização e da flexibilização do raciocínio que leva à minimização dos preconceitos apontada por Esther. a face doce e a face amarga. Já o contato com o diferente. pobre. como considerado um dos grandes pontos de interesse da Rede. Esses que hoje são meras crianças que parecem estar se divertindo na home page da XUXA. A cooperação e a integração são outro grande atrativo: a cooperação à distância na confecção de um trabalho de faculdade.com).-)” [A carinha . com informações de empresas sendo divulgadas a todos. um gênio encarnado que só não é mais famoso porque brasileiro. ele não fala em Internet NEM UMA VEZ.

que apontam as influências da Rede no processo de aprendizagem.de amanhã. por exemplo. que os visitantes da home page da Xuxa hoje poderão ser os hackers -. É exatamente assim.Vida são testemunhos de como os jovens são sensíveis a essas características da Rede. autodidaticamente. não se aprende no colégio! 87 . E Cláudio Barreiros pontua. como. Por quê? Porque.amantes de computadores que testam os limites destes e da Rede -. Parece que o que acontece nesse novo meio de comunicação teve o poder de contagiá-lo e despertar sua curiosidade. e Cláudio Barreiros. com muita clareza e visão. quais são os seus mecanismos. Mas são dois usuários muito jovens -. Isso. que os hackers se tornam hackers. independentemente do conteúdo de uma home page ou de várias. ler jornais e revistas. de 16 anos. Desde que entrou na Internet. o mero xeretar na Rede ensina. e muito.Fábio Salles. Fábio passou a fazer coisas que estavam à sua disposição antes de a ela se conectar. como a ginga do samba. de 17-.

poesias. em alguns casos. muitos usuários perceberam esse potencial. livros.nlink. Com o passar do tempo. através das listas informativas que também fazem uso do correio eletrônico. micros e impressoras. a jornalista Cora Rónai já escrevia sobre o poder editorial das home pages no jornal O Globo. configurando um claro caso de liberdade de imprensa. E os leitores podem pegar qualquer texto de graça. de novo teoricamente. Visite e comprove agora mesmo: http://www. Segue-se uma reprodução parcial de seu conteúdo: 88 .Liberdade de publicação. Depois vieram copiadoras.com. liberdade de acesso à informação e o copiar/colar O excesso de informação que caracteriza a Rede se deve à facilidade e à liberdade que nela se tem de divulgar e acessar idéias. deixaram a teoria de lado e se tornaram seus próprios editores na prática. apenas com um click (via ftp). um modem e uma linha telefônica se encontrem para que. por exemplo. teoricamente. em 24 de julho de 1995.. seus artigos. seus gostos. porque postar uma página na Web equivale.. vão sendo colocados no ar capítulo por capítulo. Cora ainda achava que os usuários poderiam se tornar editores teoricamente. suas opiniões. principalmente. Essa divulgação pode ser feita de várias formas como. No início da era ciberespacial no Brasil. Agora. de exemplares. Todo mundo virou ‘imprensa’. (.)” Mas. a tornar-se um editor.. num artigo intitulado Liberdade de Imprensa: “Houve um tempo em que a posse de mimeógrafos (alguém ainda se lembra do que era isso?) era atividade subversiva na URSS (alguém ainda se lembra do que era isso?): um mimeógrafo possibilitava a reprodução de um texto em dezenas. as seguintes: através do simples correio eletrônico. e deu no que deu. Há também intermediários que estimulam a publicação de material na Internet. etc inéditos.. suas poesias e até mesmo seus livros que. através dos grupos de discussão temáticos. por qualquer cidadão comum que tenha acesso a um certo conjunto de endereços eletrônicos. através das home pages. Na "Livro Livre" você divulga e distribui gratuitamente seus textos. quiçá centenas. e.br/~galves/livrolivre” Aceitei o convite e visitei o site. Suas home pages divulgam suas idéias. no mais das vezes de forma a propiciar a interatividade e a discussão. Seriam uma espécie de editora ciberespacial? Vejamos um trecho de um e-mail que recebi: “Gostaríamos do seu apoio para a mais nova home-page da Internet. nessa época. o usuário possa divulgar suas idéias urbi et orbi. a Internet: basta que um micro. para isso oferecendo espaço gratuito.

Confirme com o Provedor qual endereço (URL) de FTP completo que você deverá nos informar. acha que a divulgação de seu trabalho numa home page individual não o tornará suficientemente conhecido e acha que a concentração dos trabalhos de várias pessoas facilitará a sua divulgação.31 Ao que tudo indica.br/~galves/auto-ajuda/ajuda.br).não passarão por qualquer crivo a não ser uma revisão do 31 Leia mais sobre as novas estratégias de publicidade em A expertise jovem e o novo mercado de trabalho. Nome: E-mail: Título. Peça orientação ao Provedor sobre como copiar seu arquivo para o computador dele. atualize o arquivo quando necessário (conservando o mesmo nome). preencha o formulário de Cadastramento.: Gênero (policial. Para cancelar seu cadastramento. neste bloco. apostila ou jornal inédito (que não conseguiu publicar na mídia tradicional). Ex: ftp://www. poesia. Copie seu arquivo do seu micro (local) para o do provedor (host). envie-nos um e-mail. Publique quantas obras desejar. Em caso de periódicos ou revisões.nlink. e tenha seu texto divulgado e distribuído gratuitamente nesta home-page.tucows. sem alterar o conteúdo URL Completo: Click aqui para enviar o formulário: [botão clicável]” Para quem não tem uma home page. esotérico. Solicite um espaço em disco ao seu Provedor (geralmente o usuário já possui uma área).que precisam ser inéditos -. Faça FTP do seu arquivo para o Provedor pela Internet. o “livro livre” parece ser uma opção. Execute o programa com os parâmetros que o provedor lhe deu (endereço do host.doc Preencha e envie o Formulário de Cadastramento abaixo. via FTP (transferência de arquivos à distância). preenchendo vários formulários (com os dados e URL de cada uma).com. Consiga um programa de FTP (procure em www. COMO FAZER Digite seu trabalho no Word. 89 . CADASTRAMENTO O formulário abaixo servirá como documento de AUTORIZAÇÃO PARA DISTRIBUIÇÃO GRATUITA do seu trabalho nesta Página. “LIVRO LIVRE Se você possui um livro. para serem publicados. etc): Resumo (até 5 linhas): *Damo-nos a liberdade de revisar o resumo acima. seu login e sua senha).com. os trabalhos -.

. Por uma razão muito simples.” Segue-se.” Acho que a questão é ainda mais complicada porque.. algum dia e alguma língua foram escritos por alguém.br"> está oferecendo espaço gratuito para a publicação de contos e poesias na Internet.traduzindo o informatiquês estão aguardando consulta na PontoNet. Raramente são distribuídas gratuitamente. a questão dos direitos autorais. como as chances são altas de que. num artigo intitulado Muda tudo com a Internet. Idéias são mercadorias que podem ser compradas e vendidas. “POETAS INTERNAUTAS.” Livros que podem ser consultados publicamente não são nenhuma novidade. de como protegê-los de pirataria e plágio. Ricardo Rangel já dava sua opinião no jornal O Globo de 16 de outubro de 1995. uma oferta exclusivamente para leitores: “4000 VERBETES .resumo. seja ela intermediada ou não. UNI-VOS -.com.com.) Não há nada mais fácil do que distribuir a cópia eletrônica de um livro sem que o autor receba um tostão por isso. sua autoria seja deletada (quando não substituída por outra) e assim circule amplamente na Rede. ou melhor.. que parece não ter mudado o rumo das publicações na Rede: “Uma das questões profissionais mais diretamente atingidas pela disseminação da Internet é a da propriedade intelectual -.spacenet. Se for bom. potencialmente para o mundo inteiro. Mas a divulgação de textos inéditos. <http://www. eventualmente. na mesma coluna. imediatamente.. poderá inclusive ser traduzido para várias línguas! A falta de demarcações claras entre o que é público e o que é privado somada ao ideal de que toda informação deve ser de domínio público e.que é relativamente recente na história humana. Textos inéditos são considerados propriedade intelectual daqueles que o produziram e protegidos pelas leis de direitos autorais. “E por quê?”. é certamente uma novidade com a qual temos que aprender a lidar. muitas vezes. É uma hipótese aterradora que eliminaria os escritores. à ingenuidade ou à má fé de alguns. não somente o escritor não vai receber um tostão. do jornal O Globo de 13 de janeiro de 1997. de forma gratuita. É ainda colocado como uma vantagem o fato de que sua distribuição será gratuita a partir de um simples clique do mouse do leitor interessado! Na coluna As Últimas. etc. encontramos uma chamada para outra oferta no gênero para autores de contos e poesias. pode se perguntar o leitor. Livros de produção caseira que não excedem um pequeno número de exemplares distribuídos gratuitamente.. do caderno Informática.br/dicionario>. (.toplink. fazem com que vira-e-mexe se receba na Rede textos que em algum lugar. também não.. 90 . E aqui chegamos a um dos pontos nevrálgicos da Internet.O Toplink <http://www.. remunerada até agora através de direitos autorais e royalties.

recentemente. Recebi.)” Este é somente o início de um mesmo texto longo que pintou na tela do computador do Jabor bem depois de ter pintado na minha! Quem é o autor? Provavelmente nunca saberemos.Onipotente. O segundo exemplo é análogo ao primeiro. And God said %Let there be light! #Enter user id.) Qual não foi minha surpresa ao me deparar. no dia 25 de fevereiro de 1997. %Omnipotent (. E Deus disse: .. leve e solto..Omnisciente. Try again.Deus. . * Senha incorreta. %God #Enter password. %Omniscient #Password incorrect. mesmo que ele nunca tenha optado pelo anonimato. . por sua vez. Tente de novo. . (. Será um aviso? No princípio era o computador. com o seguinte texto na coluna de Arnaldo Jabor no jornal O Globo: “Pintou magicamente na tela do meu E-mail este texto que eu adapto. havia recebido de alguém num efeito “corrente” bastante comum na Rede... No dia 1 de fevereiro de 1996. a seguinte mensagem por e-mail: 91 .Faça-se a luz! * Entre com a identificação do usuário. recebi de um amigo a seguinte mensagem que ele... livre. --------------------------------------------------------------------------------- IN THE BEGINNING [author unknown] ---------------------------------------------------------------------------------- In the beginning there was the computer.Seguem-se dois exemplos de vários possíveis. mais de um ano depois. * Entre com a senha.

a nao ser que voce tenha os direitos autorais e especifique isto na mensagem. incluir esses tipos de documentos em sua correspondencia. Começa a soar.em inglês. e consegue ligação! Não foi difícil traçar a origem de pelo menos algumas dessas brincadeiras.distribuídas por listas informativas como a lista MeuPovo. Nao utilize ideias alheias como sendo suas. letras de musicas. ela provavelmente e'de dominio publico. etc.Se voce esta'usando argumentos para ajuda-lo em sua teoria.com/netaholics>. 5) Passa a viagem de avião com o seu portátil no colo e as crianças no compartimento das bagagens.” O fato é que se tornou muito fácil copiar uma mensagem. Várias podem ser encontradas -.as diferentes versões da “netiqueta” -. Finalmente decide ligar por voz para o seu ISP e assobia para simular um modem.. Não é à toa que o respeito aos direitos autorais é incentivado por mensagens sobre as regras de etiqueta na Rede -. pois só as iniciais dos sobrenomes são fornecidas. . Evite.na home page dos Netaholics Anonymous. com autoria semideclarada. 7) Faz um riso amarelo sempre que lhe dizem que possuem um modem de 14400bps. “Recebo o boletim de notícias RECORTES de uma agência em Portugal (explica- se com isso alguns termos empregados na mensagem). já divulgava alertas sobre o problema. 3) Os nomes dos seus filhos são Eudora e Francisco Teobaldo Pereira (abrev. em 9 de setembro de 1996. dentro do possivel. Cuidado ao enviar artigos. 92 . além de um pedido para que se cite a fonte -. 4) Quando desliga o seu modem tem um ataque de angústia e ansiedade. Começa com ataque de cócegas. pode conferir em <http://www. Quem quiser saciar sua curiosidade. muito siso! 10 Sinais de como alguém está viciado na Internet: 1) Acorda às 3 da manha para ir à casa de banho mas vê primeiro se tem email à espera 2) Faz uma tatuagem que diz: "Este corpo está optimizado para Netscape 3. diga de onde eles provem. dizia (a mensagem não é acentuada por conta da “netiqueta”)32: “Respeite direitos autorais (copyright) . resenhas de livros ou qualquer outra coisa que seja sujeita a copyright.earthplaza. entre outras coisas interessantes trouxe o check-list abaixo: Muito Riso. que. adulterá-la sem deixar qualquer rastro. Esta.Quando voce envia alguma coisa pela rede. Os exemplos que escolhi são apenas uma 32 Leia mais a respeito da “netiqueta” em NOVOS USOS DE LINGUAGEM.0". 8) Começa a usar emoticons na sua correspondência :) 9) A sua última rapariga tinha o formato JPEG 10) O seu computador crasha. Entre outras coisas. 6) Decide chumbar repetidamente na Universidade para aproveitar o acesso Internet gratuito. FTP). etc. organizada e distribuída por Dario Mor e A&C Tecnologia. colá-la em outra..

obsoletas no que diz respeito à nova tecnologia. copia. gostaria de desviar a atenção do leitor para um outro problema decorrente do que chamei de lógica do copiar/colar. fazíamos copiando a lápis ou caneta -. Um belo dia. Coloquemo-nos. A proteção dos direitos autorais no ciberespaço é tema de constante discussão na mídia e entre especialistas sem que se tenha caminhado muito no sentido de encontrar uma solução. talvez surjam outros. Ele usa a estratégia de copiar/colar da Rede para seus trabalhos escolares -. ou jovem. Também são tantas as fontes de informação que fica mais difícil detectar a pirataria ou plágio. Antes de mais nada. Não teme represálias? Não. sob a influência da lógica do copiar/colar associada a uma outra lógica bem cotidiana e nossa conhecida -- a da esperteza e do tirar vantagem -.ou melhor. Ele faz downloads gratuitos a partir de diferentes sites com freqüência.finge desconhecê-los. mas. Ele percebe que textos são passados de mão em mão -.como nós. Várias home pages oferecem a seus visitantes a possibilidade de fazer download de vários programas gratuitamente e a mídia especializada alerta seu público para como e onde conseguir determinados programas. Solicitado a escrever sobre o mesmo assunto. gostaria de apontar que essa lógica é reforçada pela do download. ou seja. agora para as editoras cuja sobrevivência poderá vir a ser ameaçada pela facilidade de autopublicação através de uma simples home page! Enquanto não se encontra a solução para proteger a autoria de textos ciberespaciais e não se cria um problema para as editoras. da transferência de arquivos via Rede de um computador remoto para o nosso. o dia que esse problema for resolvido. Como legislar no ciberespaço? A única coisa que é certa é que as leis dos direitos autorais são remanescentes de uma civilização tipográfica e. que zela pela proteção dos direitos do autor. Peço-lhe somente um pouco mais de paciência para que possa introduzi-lo a contento. Infringe uma regra básica da vida cotidiana -- a da propriedade intelectual -. Tudo isso lhe parece natural e ninguém diz nada em contrário. e isso lhe parece ser mais ou menos a mesma coisa (o que certamente não é verdade. de tela em tela -- sem que sua autoria seja explícita.e pouca atenção presta ao fornecimento das fontes de onde o material usado foi retirado. 93 . imaginária ou virtualmente. Resta saber como serão protegidos os direitos dos autores na nova civilização digital! E. pois os programas estão nos sites com a finalidade explícita de serem copiados). eventualmente descobre a fonte da qual foram retirados esses textos e percebe também que ninguém critica esse tipo de uso de material alheio. conhece-os. ele faz uso do mesmo procedimento que usa na Rede. mais antigos. que absorve a lógica da Rede sem poder relativizá-la por conta de sua pouca experiência de vida. ele lê alguma coisa fora da Rede e gosta do que leu. o que é muito pior.amostra do que pode acontecer na Rede. no lugar de um adolescente. e tem razão principalmente porque agucei sua curiosidade ao fazer menção a um novo problema. pouca experiência essa que pode facilmente estar associada a um idealismo juvenil do tipo que interpreta democracia e liberdade como ausência de regras e limites. cola e esquece de dar os créditos devidos. portanto. Ele desconhece a existência desses direitos! Ou.e fica extremamente surpreso quando gera uma reação negativa em seu leitor. O leitor já deve estar se perguntando onde quero chegar com isso.

formas de se lidar com a informação! Cabe a todos que nos vemos como responsáveis. ingênuos! É preciso que nos lembremos de que. ficar atentos à lógica que está sendo absorvida pelos jovens de modo a evitar a ocorrência desse tipo de aprendizado equivocado que pode ser mais prejudicial do que qualquer visita a um site pornográfico! 94 . Que não sejamos. nós. caso sua má fé seja descoberta. portanto. não se absorve somente conteúdos mas. acredita que poderá se defender alegando simples ingenuidade juvenil.porque. na Rede. principalmente.

ou. então. como adultos. serve de obstáculo para a absorção do novo. A moderna tecnologia digital que resultou na criação da Internet operou uma inversão nessas expectativas.” Só discordo do meu amigo em um ponto: não acho que uma nova tecnologia possa igualar jovens e não-tão-jovens. o futebol ou o surfe. agora.. a expertise na Rede requer basicamente atividades mentais. no entanto. dos programas usados para acessá-la. é mais fácil para o jovem. etc. de 43 anos de idade.) tenho medo ao me defrontar com uma tecnologia desconhecida. Quando. Uma gurizada que começou ontem está no mesmo nível. Alguns deles são tão jovens que não chegaram a conhecer.A expertise jovem e o novo mercado de trabalho Há poucos anos. qual de nós pensa em alguém maduro quando se menciona um expert -.. Hoje. Levei tantos anos para assimilar algumas coisas e de um momento para o outro vem uma mudança de tecnologia em que você se vê novamente no princípio. 95 . Esta sempre necessita de termos de comparação dos quais os jovens não dispõem por não terem vivido o suficiente ainda. que se tornou inútil e que. quando ouvíamos falar de expertise. Isso porque todos sabemos que. somente para o não-tão-jovem é possível torná-la objeto de uma reflexão madura. da vida ciberespacial.em Rede? Essa é uma inversão porque. uma “fera” -. que trabalha com informática desde a época dos computadores de grande porte. uma realidade diferente desta. atribuíamos imediatamente ao expert uma determinada faixa etária. começam com vantagem aqueles que não têm que fazer nenhum esforço para se despojar daquilo que já absorveram. a força física não é relevante e a experiência acumulada é de valor inestimável. Se para o jovem é mais fácil absorver a lógica da Rede do que para ele. é tão mais fácil absorver a lógica da Rede. Quando todos têm que começar do início. no que diz respeito à maior parte das atividades mentais. dependendo da atividade na qual ele se sobressaía. É por isso que. ocorria-nos à mente a imagem de uma pessoa jovem. Se a expertise fosse ligada a algum esporte que exige muito preparo físico. mais informalmente. ser uma “fera” do que um não-tão-jovem com muito treinamento formal? Quem dá uma resposta clara é um amigo. embora algum preparo físico seja necessário para enfrentar as longas horas sentado à frente de uma tela pilotando mouse e teclado. tínhamos a tendência de imaginar uma pessoa madura. Imaginem aqueles que estão nascendo agora que não conhecerão outra realidade nem como crianças! Mas o não-tão-jovem também tem alguns privilégios. no mais das vezes autodidata. a expertise era relativa a alguma atividade mental. como o vôlei. para os jovens. Por que. Seu depoimento é eloqüente: “(. Eles não perderam tempo aprendendo tecnologia hoje obsoleta.

e 2. Se. A Internet é uma tecnologia que.” 96 . vice-presidente de Marketing e Novas Tecnologias da News Corporation (grupo de comunicações do magnata australiano Rupert Murdoch). vai gerar muitas mudanças às quais uns se adaptarão com mais facilidade do que outros. se. analista de sistemas e usuário há dois anos com uma média de seis horas semanais de acesso. deve mudar inclusive o mercado de trabalho. e portanto quis sair na frente. Dificilmente elas vão conseguir atingir o seu público. É preciso lembrar que uma tecnologia é exatamente isso. Que efeito terá. hoje em dia coordeno um setor ligado justamente a computadores e Internet dentro da escola onde trabalho..Essa nova divisão do trabalho intelectual instaurada pela Rede. quanto pode fechar-lhes muitas portas. mesmo antes de uma empresa ser informatizada. Luís Cardoso. segundo Ronaldo. por exemplo.” Ronaldo Bastos.). tanto pode abrir novas perspectivas para os já maduros.. Em contrapartida.. Por que se tornou um usuário? “Dois motivos: 1. um empregado não se dispuser a dominar a nova tecnologia. a Internet na vida das pessoas no futuro? “Como já disse as fronteiras estão caindo. O mercado de trabalho está sofrendo várias transformações na medida em surgem novas necessidades e ramos de atividade e outros tornam-se obsoletos. Não é boa nem má. senti que a Internet tomaria conta do ambiente doméstico e de trabalho.. Mathew Jacobson. resolveu apostar na nova tecnologia e teve bons resultados. (. sua atitude poderá resultar em sua promoção a algum posto de liderança. pois uma série de atividades meio serão extintas.” Ronaldo Bastos tem razão.) sabia que seria um recurso inigualável para comunicação e obtenção de dados que poderia me ajudar em vários aspectos (. durante o processo de informatização de uma determinada empresa. Vale a pena tomar ciência de algumas das opiniões emitidas então. acha que: “ [há] empresas que estão na Internet sem motivo certo. O ano de 1996. por exemplo. um empregado sair na frente e adquirir os conhecimentos dessa nova tecnologia que poderão ser úteis à empresa. também percebe as alterações no mercado de trabalho. professor de inglês de 31 anos. isso poderá resultar numa demissão. presenciou a discussão sobre o potencial da Internet como veículo de informação comercial. fato que modificará o ser humano na sua forma de sentir o mundo que o cerca e suas relações humanas. realizado em São Paulo em setembro daquele ano. Outro ponto é o perigo cada vez maior do declínio nos contatos pessoais. por exemplo. uma tecnologia. a possibilidade de acesso às informações e a velocidade com que será possível resolver algumas questões. como outras tecnologias antes dela. Deu certo. por exemplo. Tudo vai depender da disponibilidade destes para entrar em contato com o novo e do grau de intimidade que com ele manterão contato. Devem as empresas correr para marcar presença na Internet? Sobreviverão as agências de publicidade? Essas foram questões amplamente discutidas no Sexto Encontro Internacional de Mídia.

o perfil do usuário e do consumidor e os melhores sites para anunciar. adequando corretamente o produto ao veículo. como os de jornais e revistas. segundo Paulo Jorge Pereira Neto (também chamado de PJ). como os dos times de futebol e de artistas famosos. terapia corporal etc. não vale nada na Rede! Quantos outros paradigmas já foram ou serão subvertidos no ciberespaço? Aproveito o ensejo para retomar brevemente a discussão de pelo menos uma outra subversão -. (para fisioterapeutas.para desta dar um exemplo.. Dentre elas as de: Digitalizador: cuja função é transformar documentos em informações digitais. Este. O que mais pode ser dito a respeito desse emergente mercado de trabalho? Primeiramente que. e Jaqueline Pedreira. coordenador de mídia interativa da DM9. além de sites com grande número de usuários. numa mesa redonda sobre as transformações desencadeadas pela Internet no mesmo ano de 1996. engenheira de computação de pouco mais de 25! Fernando e Jaqueline são supervisores editorias da revista Guia da Internet. ou que são completamente novas.o que as agências [de publicidade] terão de fazer é aprender a lidar com todas as oportunidades.” (Fonte: O Globo. 19 de setembro de 1996) Na semana anterior. os melhores sites para tal finalidade são aqueles que reúnem serviços diferentes com informações novas todos os dias.a da expertise jovem -. De qualquer forma cai por terra o paradigma do comercial de 30 segundos. O critério para essa seleção é simples: esses sites são os mais visitados pelos usuários. educadores. O expert da DM9 não tinha mais do que uns vinte e pouquinhos anos de idade! E havia sido convidado por outras “feras” jovens: Fernando Villela. O paradigma do comercial de 30 segundos não vale nada na Internet. com o auxílio de um scanner (para profissionais de informática). estimulação psicomotora e sensorial. Psicomotricista: cuja função é ficar responsável por tratamentos de reeducação motora. O Caderno Boa Chance do jornal O Globo de 8 de dezembro de 1996 lista algumas das “profissões do fim do século”. Conheci Paulo Jorge.E continua: “. mas incorporam novas necessidades e objetivos. E. o coordenador de mídia interativa da DM9. como disse Murdoch. outras. jornalista de 23. os clientes da brasileira agência de publicidade DM9 foram chamados para receber explicações sobre as vantagens da Internet.. segundo a edição de 8 de setembro de 1996 do mesmo jornal. que têm como base as tradicionais. estão surgindo em função da nova tecnologia.Br. Personal Trainer: 97 . psicólogos e profissionais de educação física). Já anunciar em home pages isoladas pode ser ineficaz porque essas podem ser pouco visitadas. se algumas atividades estão se tornando obsoletas.

porque nem todos têm os mesmos pontos fracos -. CD-Roms e outros produtos e projetos que aliem educação e tecnologia (para pedagogos. Tecnólogo em educação: cuja função é desenvolver software. autodidaticamente. Nesse meio tempo. por exemplo --..de pessoas (para professores de educação física). Segue-se uma explicação baseada em experiência própria. sugiro que inspecionemos o que aqueles que mais conhecem essa tecnologia -. ou sozinhos. por favor voltem um pouco atrás e releiam o depoimento de Ronaldo Bastos. Para começar.. papel de carta personalizado. tudo ao gosto do freguês. 98 . desejos e necessidades na lista das profissões desse final de milênio. esse livro ainda não permite interação em tempo real. Esse livro é um exemplo disso! Pensemos. que convivem lado a lado com os célebres cursinhos de inglês. espanta-me não encontrar nada relativo à administração de novos sentimentos. e individualizada -.os jovens -.efetivamente. leiam ou releiam com cuidado o que foi dito sobre a lógica dos excessos e prestem muita atenção à discussão dos novos relacionamentos e dos sentimentos que fluem de um canto para outro do ciberespaço. E uma vez dominada a nova tecnologia. ou rede interna (para profissionais de informática com especialização em redes de computadores).com a vida afetiva de seus usuários. Se dispõem do equipamento 33 Essas discussões são travadas nos dois últimos blocos. eles começam a substituir ou complementar a mesada de diversas formas. o leitor poderá se perguntar por que incluí as profissões de psicomotricista e personal trainer. A nova tecnologia gera problemas de saúde.. é ficar responsável pela Intranet. psicopedagogos e profissionais de informática).de reeducação motora e postural.. vou ter que esperar para saber sua resposta. convites para festa. para os quais atenção especializada -. vídeos. E o leitor? Quais as aplicações que vê para os conhecimentos da nova tecnologia digital? Como. Webmaster: cuja função. Montam pequenas gráficas onde imprimem cartões de visita. Será que as pessoas estão achando que isso é supérfluo? Se estão. Já há alguns anunciando seus préstimos na Internet. ou seja. Gostaria de conhecer suas propostas em maior detalhe. Basta pararmos para pensar sobre os efeitos que a vida ciberespacial está tendo sobre nós mesmos que encontraremos novas formas de canalizar os nossos conhecimentos da nova tecnologia. Ao ler essa lista.33 A Internet está mexendo com as vísceras das pessoas e cada vez mais serão necessários profissionais que saibam lidar -. os jovens estão aprendendo as novas tecnologias cada vez mais cedo através de cursinhos de informática. com uma visão de dentro porque conhecem computadores e a Rede em primeira mão -.são necessárias! Mas essas estão longe de serem as únicas novas profissões possíveis. Usando minha própria sugestão e sendo psicóloga. infelizmente.estão fazendo com ela. cuja função é assumir a responsabilidade pelo treinamento físico -- individualizado -. principalmente motores. nas empresas. Alguns deles chegam a propor atendimento em consultórios virtuais. em outras aplicações possíveis. problemas. no entanto.

Vejamos o que nos diz Cláudio Barreiros. A cada dia que passa. mas aqui. na medida em que o novo ainda não foi suficientemente explorado. pois lá fora a segurança de sistemas acompanha o ritmo. é esperado de um redator de home pages: “Recém-formados em jornalismo ou publicidade. com seus 17 anos e 300 horas de acesso por mês ao longo de três anos! Qual a impressão que você tem da Rede atualmente? Por quê? “O atual estágio de evolução da Internet a torna difícil de ser avaliada. eu inclusive troco experiências com cinco hackers americamos e um finlandês e vejo que nós brasileiros não estamos nem a meio caminho do estágio em que esse pessoal se encontra. Se já se aventuram um pouco mais. Aí a criatividade é o limite. segundo o mesmo artigo. dedicam-se à construção de home pages. E enquanto fazem tudo isso.. do jornal O Globo de 23 de julho de 1997). continuam fuçando um pouco de tudo. etc.necessário. ou programador para projetos de Internet (fonte: Caderno Informática. hackers estão surgindo aos montes. se aventurar por diferentes tipos de programação. pois sabe-se da total insegurança do mesmo.. imprimem camisetas.. pois o Brasil é dos países em que a Internet mais cresce e logo logo seremos alvos fáceis. participar do desenvolvimento de CD-ROM’s etc. o mundo da Internet cresce mais rápido do que parece. às aulas particulares de diversos programas e de Rede -- estas geralmente para alunos mais velhos que têm menos paciência e/ou maior dificuldade e/ou medo de lidar com máquinas. aprendendo e se mantendo a par dos desenvolvimentos recentes. lamentável. estão sempre treinando para aplicações futuras. A renda varia de caso para caso. poderá acabar adquirindo o perfil de um “profissional polivalente e multimídia”. etc. Caso já tenham mais experiência e formação especializada. que não apenas testam os limites de computadores e sistemas.” É evidente que Cláudio e muitos outros estão se preparando para defender a segurança dos usuários nacionais! Abençoados sejam! Se o explorador autodidata associar à sua experiência uma formação universitária. se torna mais fácil de acessar a Internet e a cada dia se torna mais arriscado utilizar e-mail. e se tornar um dos seguintes profissionais: redator multimídia. E o hacker de hoje muito provavelmente será um especialista cobiçado amanhã. mas usam seus conhecimentos em crimes ciberespaciais como o roubo de informações sigilosas). webdesigner. e com ele crescem os problemas. por curiosidade ou visão. Muitos se tornam hackers (não confundir com crackers. podem montar cursos de informática e Internet. responsável pelo marketing on-line. Ou seja. principalmente em HTML. com ótimo texto e uma alfabetização em informática. leiamos o que. é como uma cidade que cresce porém seus habitantes não se dão conta disso. A título de curiosidade. redator de home pages.. programador de multimídia.. mas é invariavelmente maior do que a que teriam caso não tivessem embarcado nessa aventura digital... É indispensável boa 99 . programador visual para multimídia..

00. bom texto associado a outros recursos como sons e imagens. FTP e WWW.00 ou pouco mais de US$1. desenvoltura em e-mail. Nada mau para um recém-formado. não? 100 . na época.500.” Parece que o piso salarial para um “profissional polivalente e multimídia” com lugar garantido no mercado de trabalho era. Tem que saber escrever um material multimídia -.500.isto é. em torno de R$1.

que passa a conviver em bases igualitárias com o expert maduro. o que está criando os mais diferentes tipos de problema. e isso coloca problemas para anunciantes e agências de publicidade. Isso torna-se particularmente relevante se já não somos jovens. muda o senso. tal como numa cultura de transmissão de conhecimento exclusivamente oral. No momento. ao travarmos contato com as home pages e sites comerciais. manteve separados em especialidades distintas. poucos aqueles que dominam ambas.. é tornada obsoleta pela realidade ciberespacial. Isso é tarefa impossível! Bastam alguns exemplos e o registro de que a velocidade de mudança é espantosa. em posição análoga. Não vou aqui me propor a listar todas as mudanças que já ocorreram. organizar e viver o nosso cotidiano. parecemos estar diante de universos paralelos. à qual estamos tão acostumados nos intervalos comerciais da TV. fruto da civilização tipográfica. uma vez que tenhamos absorvido a lógica da Rede e da nova realidade. Os excessos são provas evidentes do quanto de reflexão será necessário para que possamos erigir sistemas de defesa externos (na Rede e em nossos computadores) e internos (em nós mesmos) para lidar com tudo isso. Muitas vezes não podemos dar crédito sequer ao velho bom senso que sempre nos foi de tanta valia! Muda a lógica. caem barreiras e fronteiras que há muito norteavam nossos horizontes. Outros. Foi assim em outras revoluções e está sendo assim agora. Nesse contexto confuso mas fascinante. estão ocorrendo ou virão a ocorrer como conseqüência da nova tecnologia. Os efeitos da nova revolução tecnológica a que se deu o nome de Internet se alastram rapidamente e penetram cada vez mais os aspectos mais miúdos das nossas formas de perceber. A legislação sobre a propriedade intelectual. mas nada de novo surge de pronto em seu lugar. 101 . por exemplo. sendo. Surge a necessidade prática da integração de conhecimentos e saberes que o século XX. com sua necessidade de aprofundamento.Velho e novo lado a lado Os primeiros estágios de uma revolução são invariavelmente momentos em que o velho e o novo convivem lado a lado gerando muita confusão porque operam a partir de lógicas diferentes. e. Neste caso. com isso. Surge a figura do expert jovem. e isso também coloca todo tipo de questão para a velha estrutura hierárquica de empresas e instituições. caduca. na onerosa mas fascinante posição de sermos os únicos que já vivemos o suficiente para possuirmos termos de comparação vividos que podem sugerir caminhos a serem trilhados nesses primeiros momentos.. que leva algum tempo para se tornar bom de novo. A publicidade de 30 segundos. inicialmente. Precisamos pensar a esse respeito. fizeram outro tanto em outras revoluções. estamos. há que ficarmos alertas para que possamos separar o joio do trigo e não ter nossa atenção desviada por aspectos da nova realidade que não são realmente importantes ou centrais.

Nos grandes jornais. 102 .-) (se o leitor não entendeu nada. várias publicações e formas de divulgação novas -. Como já mencionei várias vezes.principalmente sua gramática --. as características da linguagem usada na Rede pelos usuários comuns em suas comunicações cotidianas. a língua- mãe da Internet é o inglês e nós.(veremos uma flor se olharmos com a cabeça inclinada para a esquerda e a imaginação jovem acionada). e outros tantos neologismos. Quais são as características dessa última? Embora os usos de linguagem na Rede variem de acordo com os programas usados e com os objetivos do usuário. Surgiram. como em @}----. Há. não parecemos ter nenhum problema em admitir isso. surgiram os cadernos de informática. como. como. muito passou a ser escrito sobre ela na mídia em geral e. abreviações de expressões em inglês. econômica e cheia de símbolos brincalhões que poupam palavras e toques.NOVOS USOS DE LINGUAGEM Desde que a Internet se tornou acessível a partir de provedores de acesso comerciais.home page (página-lar). É mais uma língua híbrida. largura de banda. principalmente. por exemplo. que tem como base o português -. em inglês ou português -. Essa mesma língua híbrida é povoada por várias metáforas espaciais. bulletin board system (software -. mas com alta incidência de vocábulos ingleses não traduzidos. entre o antes e o depois. surgiram seções especializadas. home page. Tudo isso nos leva a uma pergunta: no que a linguagem jornalística usada para escrever sobre a Internet difere da linguagem jornalística usada para falar de outros assuntos? Difere muito porque a língua usada para falar da Rede não é o português tal como o conhecemos fora da dela. economizar alguns toques. ainda. cuja forma de expressão é predominantemente escrita.que dão ao leitor a sensação de continuidade entre o velho e o novo. ou seja. por favor deite a cabeça sobre o ombro esquerdo. como em :-) ou em .de comunicação cujo nome significa. ciberespaço. em certas revistas. expressões e palavras novas que são adaptações de palavras inglesas. sistema de quadro de avisos). leve. ou brincar com a criatividade. endereço. compacta.34 Embora absorvidas por quase todos que têm contato com a Rede. ou acrônimos como btw (by the way ou a propósito). Símbolos para expressar emoções. janelas. no entanto. domínio. por exemplo. entre a realidade cotidiana e a do ciberespaço e tornam as transições mais suaves.bem como por metáforas de movimentos ondulares -. também. mailbox (caixa de correio) -.na Rede e fora dela. site (sítio). Mas o leitor leigo pode estar se perguntando se não há nada em comum entre a linguagem sobre a Rede e a linguagem das comunicações cotidianas via Rede. como em [ ]’s (abraços). ou seja. na especializada. literalmente. deletar. essas não são. a linguagem nas comunicações ciberespaciais é quase sempre escrita.como surfar e navegar -.dedicadas à Internet e até mesmo programas de televisão especializados. online e offline -. e bbs. verá uma carinha sorridente e outra piscando o olho). e o 34 Leia mais sobre a convivência entre o velho e o novo em NOVA LÓGICA. brasileiros. acione a imaginação e olhe de novo.mais um exemplo de palavra inglesa que foi incorporada ao vernáculo ciberespacial -.

como o que aparece ao final deste livro.leitor-usuário pode estar contestando essa divisão estanque. portanto. Veremos também algumas das razões por trás da proliferação de glossários. Há sempre muito o que ver e fazer. 103 . e dicionários convencionais e virtuais. o tempo é sempre pouco e a capacidade de transmissão de informação (não importam os meios) sempre limitada. E tanto a pergunta quanto a contestação procedem. Vamos. Sem qualquer pretensão de que possamos examinar os diversos usos de linguagem on e offline em profundidade. examinar os usos de linguagem de algumas formas de comunicação muito populares. conciso e objetivo!”. além da linguagem das home pages e da linguagem dos jornais e revistas convencionais mas especializados na Rede. sugiro que entremos em contato com alguns dos usos de linguagem mais freqüentes nesses primeiros estágios. e com o aviso prévio de que as discussões que se seguem têm por finalidade registrar a mudança enquanto ela acontecia nos primórdios da vida ciberespacial no Brasil. como o e-mail e o IRC. É claro que há muito em comum entre esses dois tipos de linguagem e esse muito em comum é o que chamaria de estilo online onde impera o lema “seja breve.

104 .. É também importante ter um exemplo que possa ser usado na discussão proposta. e os participantes fantasiam que estão numa praia de nudismo. cientistas. adoram esse bater papo via teclado. um canal do IRC é um ponto de encontro virtual. você escolhe um canal. o # rio (# significa canal). um trecho de uma sessão de bate-papo jovem num canal brasileiro. Alguns chamam-no de “monólogo coletivo eletrônico”! Outros. cujo exemplo mais difundido é o IRC (acrônimo de Internet Relay Chat).36 De qualquer forma.como meu computador tá lerdoooooooo oooooooooooo <Patricia_> 09. um digita e os outros lêem logo depois -. Todas as mensagens aparecem imediatamente nas telas dos computadores de todos aqueles que estão conectados àquele canal naquele exato momento. odeiam o IRC.08Está sol por aí? 35 As definições dadas aos chats pelos próprios usuários podem ser encontradas em NOVOS CONCEITOS. o IRC e as outras formas de chat são muito populares e. está versando sobre o tempo em Dallas (onde parece haver a previsão um furacão) e no Rio. sentado à frente de sua tela. 36 Leia mais sobre o vício na seção final de NOVOS RELACIONAMENTOS. Por isso começo por ele toda essa discussão sobre usos de linguagem. principalmente os jovens. hackers. podem exercer muita influência direta ou indireta sobre os usuários da Rede.37 E é o exame dessas influências que nos interessa aqui.e até mesmo parceiros amorosos -. por isso mesmo. principalmente os usuários mais velhos (não necessariamente os mais antigos!) da Rede. Muitos. Tudo isso aparece numa tela que não pára de rolar.e pública. por exemplo. Antes de mais nada. Muitos se dizem inclusive viciados. <_Bia> caramba. cujo computador está muito lento.Os desafios da conquista online e em tempo real O exemplo paradigmático do texto online é o das sessões de bate-papo online e em tempo real. No IRC toda a conversa é online -. 37 Outras conseqüências dessa popularidade são examinadas em NOVOS RELACIONAMENTOS. portanto. O exemplo é longo para que o leitor possa acompanhar os diálogos. a não ser quando são trocadas mensagens privadas em telas separadas depois de travado o primeiro contato.35 Dando uma breve explicação para os leitores leigos.ou seja. que o leitor tente acompanhar os comentários e sugestões dirigidos à <Bia>.. também freqüentado por brasileiros que moram fora do país. é importante que os leitores que nunca usaram o IRC ou outro chat saibam como essa conversa a muitas mãos aparece na tela de todos.a partir de toques de teclado que envolvem um uso de linguagem bastante distanciado daqueles aos quais estamos acostumados. religião. o seu ponto de encontro virtual. sexo. gays. e as falas de <Rico> e as de <Araman>. cinema. Em outras palavras. mas deixemos isso de lado no momento. você escolhe um nickname (apelido) pelo qual será identificado (a comunicação é anônima) e passa a ler as mensagens dos outros e digitar as suas. A conversa. ou seja. a partir de suas áreas de interesse: música. etc. de uma maneira geral. Sugiro.. Segue-se. ou chats. onde as pessoas se conhecem e conquistam amigos -.. entrecortados que esses são por falas de outros participantes do canal. Uma vez conectado.

com.br) has joined #rio <Patricia_> 09. é difícil se conectar? 105 .provale.com.homeshopping.com... vc mora aí há quanto tempo <^Rico^> luca. mora aki edsde agosto de 96! <^Rico^> Vou voltar dia 9 de Julho!!! <luca> Intercâmbio? *** Pelson (NELSON.48.ne t) has joined #rio *** LeoRJ (leoj@bbs.230) has joined #rio <Natasha-RJ> deinha: seu provedor é homeshopping.69) has joined #rio <ARAMAN> _Bia -> @ }-'-. FL..br) has joined #rio *** Marverick (denied@porta13. <ARAMAN> Assim eu fico sem jeito Bia!!! hehehehe <luca> Rico..ri.provale.highway.255..*** Marverick (denied@porta13..br) has joined #rio <Pelson> VOLTEI <luca> vc volta 15 dias antes do meu bday! *** ^Nata^ (user@200.239. Aperta o Botaozinho chamado: Turbo!! hahahahhahhahah <Ramiro> ta lerdo so pra internet ou pra tudo Bia ? <Natasha-RJ> uauuuu <^Rico^> Legal Luca!!! Em Junho farei uma viagem a NY. <^Rico^> VAleu RAmiro! <_Bia> AAAARRRRRRAAAAAAMMMMMMMMMAAAAAAANNNNNNNNNN <Ramiro> Rico.-..04Nublado?Que chato."Uma rosa para uma rosa" :) <^Rico^> hahahhahhahahaha Ramiro *** _Deinha_ (mthomps@rjo06.243. <_Bia> hehehe brigadinha ARA!:* <Ramiro> me amarro em fenômenos naturais :) <ARAMAN> 4:) <_Deinha_> Alou pessoal <_Deinha_> voltei. ontem deu previsao ed twister aki na minha cidade e em Dallas! <^Rico^> Maneiro RAmiro! <^Rico^> Bia... etc!! maneirasso * ARAMAN is back!!! <Ramiro> poxa Rico .GOM@slip166-72-36-67.. eu tenho uma foto de uma casa pré-fabricada *voando* cara !!!!! muito impressionante *** Pedro-RJ (xxxxx@200.ibm..br) has left #rio <Natasha-RJ> ta nubladooooo <^Rico^> Ramiro.já apaguei tanto arquivo.com.vamo vê se melhora agora...br. Washington DC. tira umas fotos pra mim e me manda ??? <_Bia> pra tudo ramiro.

Brasnet. é pq estou querendo passar pra ele.....inter-rotas.230) has left #rio <^Rico^> hehehe <Natasha-RJ> ta paradim.242) has left #rio <^Ricao^> o ^Rico^ Ta com LAg hehehehhe <Natasha-RJ> de provedor <^Ricao^> Ih. para hoje a noite <pe-de-cabra> oi <Natasha-RJ> o meu tá muito caro! *** Andre-RS (~arocha@sli1.48.com.. estamos numa praia de nudismo! hahahahahahaha <Pelson> fala rico !!!!!!!!!!!!!!! <^Rico^> Fala PElson! <Natasha-RJ> RICO: ce ta de bermuda e sem camisa!!!! <Natasha-RJ> hahahah *** pe-de-cabra has quit IRC (Ping timeout) 106 .Brasnet.cyberramp.255..243.org E-net.252.253.net) has joined #rio <_Bia> sei naum pelson <Pelson> FALA GALERA!!! <^Ricao^> aki ta melhor heheh <^Ricao^> he lag *** Patricia_ (~www@200.... <^Rico^> alo?? *** Mobrau_Maravilha (ronan@200..sp. valeu deinha <Pelson> E ai Bia .br) has left #rio <pe-de-cabra> de que se fala *** ^Rico^ has quit IRC (Dialdata..142) has joined #rio <^Rico^> allguem me vendo??? <Natasha-RJ> euuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu <Ramiro> eu vejo Rico ! :) * Mobrau_Maravilha * <Natasha-RJ> to venduuuuuuu <^Rico^> Natasha..ssa. imaginando. hehheh <^Rico^> Lewmbre-se. ele caiu heheheh *** ^Ricao^ is now known as ^Rico^ *** ^Nata^ (user@200.ba..239.. alguma coisa combinada ..<Pelson> oioioioioioioioi BIAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAA <_Deinha_> nao.telepac. entaum.pt) has joined #rio <Natasha-RJ> ahhh... como e'q eu to?? hhahahahah <Natasha-RJ> ou melhor.org) *** ^Ricao^ (usernamer@pm5-25..gru. <_Deinha_> conecto rapidinho <_Bia> oioioioioioioioi pelson *** pe-de-cabra (pjd@gd2_p6...

. Araman berra.. mas através delas..outros participantes ficam calados assistindo -.. econômico e a conquista pela palavra continua a ser um desafio. :).hehehhe <luca> @--->---. “você” se transforma em “ce” ou em “vc”. Quem quer que deseje aprofundar um pouco o contato com qualquer um dos três pode. “aqui” que se transforma em “aki”. ao entrar no canal e depois gentilmente manda uma rosa para Bia. usando as letras maiúsculas.”). pois ali não podemos fazer uso da voz ou dos gestos e isso pode trazer falhas na 107 . Ramiro e Araman. Bia. :* @--->----. também em tempo real. asteriscos para dar ênfase (“tenho uma foto de uma casa. aproveitando algum desses ganchos.37) has joined #rio * Mobrau_Maravilha * <NunServ> Phala galera do #Rio!!!!! <LeooRJ> Rico > Eu quero ser q nem vc cara. afinal. com eles trocar mensagens privadas. abreviado.Flores p/ todos! Palavras acentuadas se misturam com uma total ausência de acentuação.25. mas minha imaginação nao se atreve.37) has left #rio <Natasha-RJ> praia de nudismo Rico. uma gentileza é sempre atraente..240. <^Rico^> Pelson.compacto. usam-se maiúsculas para chamar a atenção. *** Doroty (~aaaaa@200.. publicado no número 17 do volume 2 da revista Internet World. e o Hockey ai no Rio?? tem?? ou e' so'nos patins normais?? <^Rico^> hahahah Natasha! *** Doroty (~aaaaa@200. etc. o que certamente acrescenta rapidez à digitação não especializada e faz com que “então” vire “entaum” e “alô” vire “alou”.. das constantes intervenções -. ????. Recursos gráficos pouco usados fora da Rede proliferam: !!!!!!!.. o que também abre possibilidades de contato. chama a atenção dos outros freqüentadores através de constantes reclamações a respeito de algo que é certamente do interesse de todos: seu computador. E aqui chegamos ao primeiro desafio que os freqüentadores dos canais de chat têm que enfrentar: como chamar a atenção dos outros freqüentadores nessa Babel digital? As palavras são poucas e muitas vezes em outras línguas (um bom treinamento para línguas estrangeiras?).e dos recursos gráficos. Esse desafio não passa despercebido pelos seus freqüentadores. O estilo de escrever continua o mesmo -. Marcio “Big” Mattos. por que o IRC vicia?.. mas com perguntas e respostas sem a interferência de outras falas e fora do alcance dos olhares dos outros freqüentadores (numa tela separada)...25. podemos detectar três estilos diferentes: os de Bia.240... Em artigo intitulado Mas. Rico fala de sua experiência fora do país e da previsão de um furacão na cidade onde mora.*voando*. Por conta da rapidez usa-se apenas a inicial de algumas palavras e a grafia de outras é alterada: “que” se transforma em “q”. escreve: “O uso da linguagem adequada no IRC assume um papel de extrema importância. um dos Channel Managers (administradores de canal) do canal #Brasil da UNDERNET. que parece ser conhecida no canal. mesmo nesse pequeno trecho de sessão.

esses conselhos tenham sido digitados no sistema UNIX. de qualquer modo. e a preocupação ainda maior com as possibilidades de mal-entendidos aparecem num outro tipo de texto distribuído na própria Rede ou divulgado em jornais e revistas especializados: o da “netiqueta” ou das regras de etiqueta na Internet. ícones de emoção! Nela encontrei o seguinte texto e uma longa lista de carinhas. a rede desenvolveu simbolos denominados emoticons ou smilies. uma frase reduzida fez com que gastássemos uma série de outras para explicar que isso não é aquilo. Quantas e quantas vezes. que já apareceram algumas vezes nos depoimentos via e-mail reproduzidos anteriormente). ou seja. Neste instante.ESCREVER USANDO SOMENTE LETRAS MAIUSCULAS FAZ SUPOR QUE O AUTOR ESTA'FALANDO EM VOZ ALTA OU GRITANDO.. não se colocou a necessidade de incluir o conselho para não acentuar. Alguns Conselhos Uteis para Comunicar-se na Internet . por exemplo. Para compensar esta falta de visualizacao. regra essa que aparece em outras versões da “netiqueta”. que não aceita acentuação. comunicação e fazer com que uma mensagem seja entendida de forma muito diferente do objetivo de quem a emitiu. Use-os com moderacao. a economia de digitação é perigosa e o uso dos emoticons [símbolos gráficos que expressam emoções]. e por isso mesmo. A lista havia sido retirada por Fernando dos Santos Silva do gopher -. que puxa outra e outra.cyberbrasil. uma mensagem mal compreendida gera uma explicação menos entendida ainda.. transformando aquele chat em uma conversa de bêbados. Visitei a home page sugerida por Marcio e lá me deparei com um verdadeiro dicionário de emoticons. organizada por Dario Mor. Mas. Portanto. e assim evitar os problemas gerados pela incompatibilidade entre máquinas e programas.. evite!” Talvez porque. Algumas dessas regras dizem respeito exclusivamente aos chats. já aparecem duas regras importantes para a escrita online: a regra do uso dos emoticons ou smileys (as carinhas. as reproduzo a seguir.. única e exclusivamente através da linguagem. como o uso do gopher sugere.net). comentarios bem humorados do autor podem ser mal interpretados nas comunicacoes eletronicas. que corrobora a visão de Marcio “Big” Mattos sobre a economia de digitação e a do significado das letras maiúsculas. .Sem a inflexao da voz e a linguagem corporal existentes nas comunicacoes face-a-face. Um deles e' :-) e significa que a intencao do autor e'bem humorada. Outras tantas vezes.mecanismo de busca -- da Rede Nacional de Pesquisa. E quantas não foram as amizades interrompidas ou não desenvolvidas por esse motivo?” A mesma preocupação com o uso compacto de linguagem quando o objetivo é dar-se a conhecer (mesmo que somente o que se quer que seja conhecido). pode fazer a diferença entre um carinho e um cascudo (Veja lista de emoticons em http://www. 108 . na versão distribuída em 9 de setembro de 1996 pela lista informativa MeuPovo.

como: :) Feliz :] Gleep (um smiley anão que ficaria feliz em ser seu amigo) :( Triste :D Risada [ ]’s abraços :*’s Beijos. Você conhece aquelas combinações estranhas de parênteses. Difícil imaginar quando você o usaria. como: %-\ De ressaca I -) Caindo de sono Isso tudo sem contar com uma lista de abreviações de palavras inglesas utilizadas na comunicação ciberespacial. :-> O usuário acabou de fazer um comentário terrivelmente sarcástico. colunas e coisas do tipo que vira e mexe encontra em e-mail's e newsgroup's? Elas se chamam ‘Smileys’. em comunicações eletrônicas e no IRC. O usuário faz apenas um flerte e/ou uma observação sarcástica..” Seguem-se alguns exemplos retirados do “dicionário”: :-) Seu Smiley básico. “Esta é uma versão não oficial ‘Dicionário de Carinhas’ (smileys). hífen-para-nariz e parênteses-para- boca. Devem ser visualizados de lado. E na Internet são uma linguagem à parte. Use-o e você estará dizendo “Não me critique pelo que eu acabei de dizer”. portanto vire sua cabeça 90 graus para a esquerda e use sua imaginação. :-( Smiley carrancudo.-) Smiley piscador. ou seja. está chateado ou deprimido com alguma coisa. sem narizes. E o que é mais legal: tudo depende da sua criatividade. Usado para sugerir uma observação sarcástica ou brincalhona . O usuário não gostou da última afirmação. Melhor do que um smiley carrancudo. tem um significado todo próprio. Cada variação nos dois-pontos-para-os-olhos. Pior do que :-) Há ainda os smileys anões. mas não tão bom quanto um smiley feliz. mas as possibilidades combinatórias destes simples sinais gráficos. :-| Smiley indiferente. juntos com alguns outros. Aqui você encontrará muitas carinhas que geralmente são utilizadas em mails. Talvez você nunca tivesse imaginado.. Os smileys são pequenos conjuntos de caracateres ASCII que pretendem transmitir uma emoção ou estado de espírito. E os smileys de humor e emoção. ou AFK (“away from keyboard”) = longe do teclado! 109 . como LOL (“laughing out loud”) = rindo alto. é quase infinita.

Quanta coisa a aprender! Mas os jovens aprendem e..aquela do aprofundamento -. como provas. o recurso mais popular da Internet. 38 Leia mais a respeito dessa seqüência em NOVOS RELACIONAMENTOS. antes de mergulharmos na difusão do estilo de comunicação online e em tempo real. Holanda Já há os que usam smileys também em outros tipos de texto. Os Netaholics Anonymous (http://www.earthplaza.. Uma vez aprendidos. se voltarmos agora ao trecho de conversa reproduzido anteriormente. sugiro que paremos para pensar no passo que geralmente é dado depois das primeiras trocas de mensagens com alguém interessante nos chats: o e-mail.do bate-papo que começou num chat. Amersfoot. poderemos observar o quanto dessas regras já havia sido incorporado. bem como em suas conseqüências. ou seja.com/netaholics) sabem disso e registram essa transferência com seu habitual bom humor.38 Mas o e-mail não é somente a etapa seguinte -. No entanto. a correpondência convencional]” “You start using smileys in your snail mail” Rien P. e também para a escrita offline. você sabe que está se tornando netviciado se: “Você começa a usar smileys na sua snail-mail [correspondência-lesma.. esses novos usos online de linguagem tendem a ser transferidos para outros tipos de comunicação online.! E a mídia especializada está cheia deles. como o e-mail. O e-mail é... sem sombra de dúvida. Segundo eles. 110 ...

Quero escrever para uma amiga que vive nos E. não? E esse novo tipo de comunicação.<dar@xyznet. acesso remoto. a minha amiga está acessando seu e-mail com freqüência ao longo de sua viagem. E. todos os usuários da Rede -.todos os usuários têm uma conta em algum provedor -. Acho que dá para entender. é claro. entro no programa de e- mail. idas ao correio.A. pois há sempre um recado. bastante visível. pois vários de seus amigos europeus estão ligados à Rede e ela se conecta ao seu provedor de acesso a partir das conexões deles. -.não conheço a exceção -. Os chats geram paixões e aversões. Mesmo assim. colas. para que o leitor leigo em Rede possa apreciar o porquê dessa popularidade. Já em relação ao e-mail há consenso. O e-mail é a correspondência eletrônica. cheio de computadores conectados à Internet. Com todas essas facilidades -. tipo um café convencional.do tipo “saudades!”. como veremos. tal como o chat.a minha amiga cujo nome tem essas iniciais -.U. uma consulta que queremos 111 .O e-mail e o estilo online Tal como nos chats.R. isso não posso saber! Para complicar e sofisticar um pouquinho mais. mas não a sua correspondência eletrônica.A.nenhuma taxa a pagar. no e-mail as mensagens não são trocadas em tempo real. é facílimo acessar sua própria conta -. sua correspondência convencional só poderá ser lida quando ela voltar para New Haven (a cidade onde mora). hoje. não pode deixar de ter conseqüências! A primeira conseqüência do e-mail era previsível e é. por que o e-mail é tão revolucionário. mantemos correspondência até com pessoas que vemos com freqüência. Hoje. diferentemente do que acontece naqueles. certamente dá o que pensar porque. e cujo endereço eletrônico conheço. selos. e a envio para o endereço eletrônico dela -. De forma bastante simplificada resume-se ao seguinte. ao menos em parte. o estilo de escrita online prevalece no e- mail. terei certeza de que a mensagem chegou ao destino. quase imediatamente. me conecto à Rede. -.usam o e-mail regularmente e apreciam poder usá-lo. dou algumas breves explicações nas quais o usuário de e-mails não deve se deter. Ligo o computador. uma mensagem.não importa em que parte do mundo esteja! Quando me respondeu. nada de envelopes. Como a envio? Simplesmente clicando com o mouse numa tecla! Quando ela recebe? Loguinho. a minha amiga estava num cybercafé em Amsterdam! O que é um cybercafé? É um lugar. imaginemos que D. etc. redijo uma mensagem com um “subject” -. Como posso ter certeza de que ela o recebeu? Caso eu própria não o receba de volta.está fazendo uma viagem pela Europa. através do e-mail as pessoas trocam mensagens mas.as pessoas reativaram ou adquiriram um hábito que supúnhamos pertencer ao passado: o de manter correspondência com várias pessoas mundo afora. Já se foi lida ou não. Uma vez conectada. Na realidade.espécie de título para auxiliar na localização das mensagens na caixa de correio virtual -.com>. que faz uso de vários dos recursos utilizados no IRC e em outros programas de chat. Neste caso.

Continuidade - Nunca comece uma nova mensagem para responder a que voce acaba de receber. com a difusão e a popularização da Internet em todo o mundo.pois o usuário só recebe nossas mensagens quando disponível para tanto. Se eles conseguem conversar e trocar mensagens ente si. Mais uma vez. já foram criadas convenções para esse tipo de comunicação que se torna cada vez mais difundido. alguns itens de uma mensagem que recebi no dia 27 de março de 1997. por Ubiratan Pimentel <ubiratan@terra. recebi essa mensagem através da lista informativa MeuPovo. 112 .fazer. evite usar acentos. para cinco palavras na mensagem que recebeu. gracas a Internet. se puder. esse mesmo texto foi publicado na “Revista * Exame * outubro 1996 . Compatibilidade - Ha mais de cinco tipos diferentes de correio eletronico. de suas convenções e de seus usos de linguagem. Em primeiro lugar. a seguir. aumentou desde então. E é sobre isso que vamos nos deter. menos ainda. quando acessa sua mailbox virtual. isso nao quer dizer que todos os problemas de compatibilidade estejam resolvidos. Reproduzo. Podemos fazer tudo isso com a certeza adicional de que não estamos sendo inoportunos -. Um dos recursos mais uteis do e-mail e a resposta automatica. escreva uma na resposta. Como no caso dos chats. mesmo que o seu computador permita. Objetividade e precisao sao essenciais nesse meio de comunicacao. em que o remetente vira destinatario. Como regra. cedilha e til. Nunca tantos se corresponderam com tantos antes! Talvez seja por isso que o dito popular da era ciberespacial reza que “o homem é o produto do e-mail”! Produto de suas comunicações. Voce aperta um botao e surge uma mensagem nova a ser preenchida. ou seja. Segundo os créditos. Formalidade - O correio eletronico e um meio informal. mas em mensagens de negocios sempre e necessario certo grau de formalidade. etc. ou subject. Briga - Nunca escreva um e-mail quando estiver com raiva.npd. Correio Elegante”. (O Globo de 26 de dezembro de 1996) já noticiava que 500 milhões de mensagens de correio eletrônico circulavam diariamente pela Internet! Um número assombroso que certamente.o que pode acontecer com freqüência quando usamos o telefone -.br>.Art. “Concisao - Escreva pouco e. O assunto tratado. Uma agressao por escrito e muito mais forte e duradoura que uma agressao verbal. Selecionei da mensagem como um todo somente os itens que têm mais diretamente a ver com os novos usos de linguagem. A coluna As Últimas do Caderno Informática.ufpb. era novamente a “netiqueta”. em uma nova versão especificamente dedicada ao correio eletrônico.

Não há tempo a perder porque não há tempo para fazer tudo o que se quer porque se quer sempre mais do que se pode. Para enfatizar uma palavra coloque-a entre asteriscos ( *assim* ).” Essa é a regra básica da comunicação via Internet e nada faz supor que venha a sofrer transformações. Outros são aparentemente definitivos. por exemplo. 113 . Por isso nunca mande mensagens escritas so com maiusculas. com o treinamento que estão recebendo na Rede. Objetividade e precisão são portanto necessárias. retomar cada uma dessas regras e tentar mostrar ao meu leitor. acostumado que está a longas digressões e rocócós estilísticos. mas não me parece definitivo. isso também significa dizer “altere o estilo de escrever. independentemente do fato deste ser ou não um usuário. No caso do usuário brasileiro. Se eles conseguem conversar e trocar mensagens ente si. Uma palavra em letras maiusculas e interpretada como grito ( ASSIM ).” Vou. recebi uma mensagem cujo subject era: =?iso-8859-1?Q?mudan=E7a_convencional?= Leiga que sou. não cabe julgar se isso é bom ou mau. Sao consideradas ofensivas. Algumas delas e alguns dos novos usos de linguagem por elas definidos são temporários porque ainda decorrem de limitações geradas pela incompatibilidade de diferentes programas. tipicamente nacional”. para nossa cultura e para nossa língua. Não entendi mais nada além da palavra “convencional”! Imagine o leitor uma mensagem inteira com esse tipo de “ruído”! Torna-se certamente ilegível. cabe apenas registrar uma tendência de mudança. isso nao quer dizer que todos os problemas de compatibilidade estejam resolvidos. Certamente as novas gerações. e pensar. se puder. Na nossa reflexão. agora. Vale para os chats e vale para o e-mail. só consegui perceber que o cedilha de “mudança” se transformou em =E7. Convencoes - O e-mail tem uma serie de convencoes proprias a sua linguagem. menos ainda. objetivo e econômico. “Escreva pouco e. o quanto o estilo online de escrever está presente mesmo num texto que pode ser escrito offline (há muitos programas de e-mail que permitem que a mensagem seja escrita offline. ficando somente a transmissão da mesma dependente da conexão à Rede) e que nunca se dá em tempo real como no caso dos chats.” O pressuposto é correto e o problema concreto. algumas dessas regras de uso de linguagem no e-mail se assemelham àquelas das conversas online e em tempo real. gracas a Internet. Tentemos detectar algumas dessas conseqüências. Mas todas essas regras e todos esses usos podem vir a ter conseqüências para todos nós. O uso de abreviacoes e comum em mensagens informais. Como provavelmente o leitor já observou. Outro dia. Quem quer que use o correio eletrônico com freqüência sabe perfeitamente o que é essa tal incompatibilidade entre máquinas. terão estilos muito mais econômicos e objetivos. “Ha mais de cinco tipos diferentes de correio eletronico. Tudo deve ser rápido.

portanto. depois me dei conta disso. se válido por um longo tempo. em sua maior parte. sua linguagem está livre de arroubos negativos! A conseqüência dessa regra e desses procedimentos é geralmente.formais e finas -. muito embora os acentos façam muita falta na língua portuguesa. muito comum entre os jovens desde tempos pré-ciberespaciais. há outras regras de tratamento. alguma formalidade pode ser necessária. tratávamos qualquer pessoa mais velha como senhor/senhora. Quando imaginaríamos que alguma troca de mensagens de negócios pudesse receber um tratamento informal? Mais uma vez reagi com surpresa e mais uma vez me dei conta de que a Rede subverteu tanto as coisas que os muito jovens podem nunca ter aprendido que. que também é útil para os chats. “Continuidade . antes do aparecimento das primeiras versões da “netiqueta”. Eles tendem a ser leves justamente porque. que também é adotada nos chats por razões análogas além da óbvia economia na digitação. Agora. nos dá a dimensão do quanto as coisas já mudaram e do quanto ainda poderão mudar.” Foi com surpresa que reagi a esse item. ter uma ou ambas de duas consequências bastante sérias: fazer com que levas de jovens não aprendam a acentuação da língua portuguesa e/ou se tornar uma alavanca de mudança da mesma! “Nunca escreva um e-mail quando estiver com raiva. Só que.para tratar de negócios no centro da cidade. Uma ótima conseqüência para uma época de tanto stress.” O mero aviso de que. diferentemente da regra da concisão. respeito. Uma agressao por escrito e muito mais forte e duradoura que uma agressao verbal. principalmente. não? “O correio eletronico e um meio informal. um texto leve e livre de sentimentos negativos em estado bruto. às vezes. Talvez seja por isso que é geralmente tão gostoso receber e-mails. mesmo no correio eletrônico. polidez. Que bom que sempre há quem assume a responsabilidade de divulgar regras básicas e difundir o bom senso gerado pela experiência de vida! O que é bom sempre pode ser ouvido ou lido. 114 . as pessoas há muito haviam deixado de se corresponder. tendiam a mostrar um total desconhecimento dessa regra e escreviam suas mensagens sem pensar no que estavam dizendo. mas o que é ruim deve ser dito e. Um dos recursos mais uteis do e-mail e a resposta automatica. que é observada por grande parte dos usuários brasileiros. Não faz muito tempo. quando o li pela primeira vez. é bom que isso mude rápido porque as conseqüências dessa regra. Diria mesmo. principalmente escrito. Os jovens. portanto. e colocávamos roupas especiais -. que a regra de não acentuação reforça uma certa preguiça em aprender a acentuação correta e um certo descaso pela mesma. Esta sempre me pareceu uma regra básica de qualquer correspondência! E é. mas em mensagens de negocios sempre e necessario certo grau de formalidade. pensadamente. não colide com traços da cultura nacional.Nunca comece uma nova mensagem para responder a que voce acaba de receber.Mas a tendência é a de que isso mude. embora correndo o perigo de exagero. hierarquia. podem ser bastante sérias. O não dever acentuar. A regra de não acentuação. refinamento. Explico o que quero dizer. na realidade cotidiana. como mudou no caso dos programas de computadores não relativos à Internet. etc. pode.

O importante é que toda a mensagem do remetente aparece sob a forma de citação. eu nao xeretei la nao.net tem varias coisas que voce pode conseguir e um dos >links sao discussoes sobre varios assuntos e um deles e sobre Psychology of >cyberspace! Achei a sua cara! > >Bom. inserir meu próprio texto logo após aquilo que quero responder.behavior. Mas isso não é o mais importante. mas achei um em especial que eu acho que vai te interessar muito! Em www. com um simples clicar do mouse sobre um botão. Desse modo. não há a necessidade de resumir ou parafrasear o que o remetente disse ou perguntou para que possamos responder. Recebo a seguinte mensagem: Oi Ana! Tudo bem? :) Bom to te mandando esse mail porque descobri aqui nas minhas andancas pela Internet varios sobre Psicologia. mas achei um em especial que eu acho que >vai te interessar muito! >Em www.behavior. Oi. >Oi Ana! >Tudo bem? :) >Bom to te mandando esse mail porque descobri aqui nas minhas andanças pela >Internet varios sobre Psicologia. Vejamos. qual foi minha resposta à mensagem de Fernanda e o que aproveitei do seu texto. Dou um exemplo. por exemplo.” Sim. mas acho q deve ter coisas interessantes! Um beijo grande! Fernanda Se quero responder. etc. o remetente vira destinatário. Numa correspondência convencional. mas acho q deve ter coisas interessantes! >Um beijo grande! >Fernanda Agora. Voce aperta um botao e surge uma mensagem nova a ser preenchida. Posso deletar o que não me interessa. posso usar como quiser o texto que recebi. Basta colocar a resposta logo após a pergunta dele no mesmo texto. basta clicar em reply (responder) e tudo vira uma citação (o símbolo > indica isso).net tem varias coisas que voce pode conseguir e um dos links sao discussoes sobre varios assuntos e um deles e sobre Psychology of cyberspace! Achei a sua cara! Bom. dado o lapso de tempo entre o envio de uma carta e o recebimento da resposta à mesma. em que o remetente vira destinatario. quem responde é forçado a resumir as perguntas e comentários do remetente que deseja responder. Assim. eu nao xeretei la nao. ninguém mais se lembra exatamente do que escreveu a não ser que guarde uma cópia. Nada disso é necessário na correspondência eletrônica. Fernanda! 115 .

Por isso nunca mande mensagens escritas so com maiusculas. O uso de abreviacoes e comum em mensagens informais. >Bom.O e-mail tem uma serie de convencoes proprias a sua linguagem. “Por quê?”. eu nao xeretei la nao. Não há mais a necessidade de resumir ou parafrasear. são as mesmas. inclusive os smileys. a ser difícil retornar ao velho estilo mais rebuscado e pensado. A correspondência deixou de ser um diálogo um tanto ou quanto com cara de monólogo para tornar-se efetivamente um diálogo. entre os quais o de mudar o estilo de escrever de milhões de usuários mundo afora e no Brasil. mas acho q deve ter coisas interessantes! Vou xeretar e depois te conto. Ana O texto da correspondência não é mais estático. Boa parte das pesquisas feitas para a confecção deste livro também usou o e-mail! “Convencoes ..behavior. a questão que se coloca é outra. pode perguntar o leitor que não conhece nada disso.net tem varias coisas que voce pode conseguir e um dos >links sao discussoes sobre varios assuntos e um deles e sobre Psychology of >cyberspace! Achei a sua cara! Obrigada pela lembranca. Chega. Não acredito que isso venha a mudar. Não lemos a regra mas vimos um exemplo desse uso na sessão de IRC que reproduzi. Tornou-se dinâmico e com ele podemos interagir. Entrevistas via e-mail já estão sendo muito usadas em revistas e jornais. enfatizar usando negrito ou itálico. Para enfatizar uma palavra coloque-a entre asteriscos ( *assim* ). uma vez 116 . por exemplo. além do de eliminar os riscos de imprecisão de um resumo feito de memória ou de uma paráfrase. Por que não podemos usar os recursos habituais. caso algum venha a aceitá-los. muitas vezes.. já vimos essa regra anteriormente em relação aos chats. >Um beijo grande! Outro.. juntamente com os programas de chat. Mas isso também deve ser temporário..” Maiúsculas significam gritos e não ênfase. ou revelar nossa emoção através de palavras? Não podemos usar negrito. Astericos devem ser usados para enfatizar. E um diálogo econômico! Quais os efeitos que isso pode ter? Muitos. tal como a acentuação..>Tudo bem? :) Tudo otimo! :) >Em www. itálico. levará algum tempo para que possamos utilizá-los com a certeza de que não estaremos gerando problemas de incompatibilidade e ruído. E. aquela básica na comunicação online: a rapidez e a concisão. A reprodução pode e deve ser precisa e essa precisão de fácil acesso já está sendo muito utilizada. aqueles que usamos em qualquer texto escrito. Sao consideradas ofensivas. como. Quanto a revelar nossa emoção através de palavras. porque os programas não aceitam esses recursos. O que é decididamente definitivo é que o e-mail chegou para ficar e. está gerando um modelo de escrita novo e internacional. etc. Uma palavra em letras maiusculas e interpretada como grito ( ASSIM ).. As regras sobre o uso de recursos gráficos.

O leitor atento poderá ter observado que todos os depoimentos obtidos através dos questionários enviados por e-mail que foram citados neste livro estavam acentuados. aconteceu entre o recebimento dessas mensagens e seu uso no livro? Respondo e assumo a responsabilidade.incorporadas todas essas facilidades e regras. da tela do computador --. 117 . no entanto. inclusive. o que permitirá o uso irrestrito de acentuação online. Uma observação sobre as respostas aos nossos questionários que recebemos por e-mail. os leitores encontrarão algumas mensagens em que foram mantidas as características da escrita online. O que. esse expediente me pareceu necessário para evitar confusões e mal-entendidos ou sua contrapartida. em sua esmagadora maioria. quer seja porque haverá maior compatibilidade entre programas. e colocá-las no ambiente offline de um texto impresso. O que aconteceu foi que tive que tomar uma decisão. nas mensagens que recebemos não havia acentos.ou seja. etc. ser detectado em textos escritos e divulgados fora da Rede. Todas elas usavam uma linguagem bastante informal e os erros de digitação também não eram infreqüentes. decidi que as respostas deveriam respeitar as regras do último para que a harmonia do texto não fosse interrompida. mas que a ela dizem respeito. Na realidade. então. Essas mensagens são um excelente exemplo de um estilo online de texto. cedilhas. Esse tipo de procedimento certamente será irrelevante dentro de pouco tempo quer seja porque cada vez mais pessoas estarão familiarizadas com o texto online. principalmente para aqueles que não têm familiaridade com o texto online. O estilo de texto que venho descrevendo -. como os jornalísticos. no entanto.o da escrita online -. til.é poderoso e já pode. Ao retirá-las de seu ambiente natural -. A partir desta discussão. Será que os usuários que os responderam ignoravam a regra de não acentuação da “netiqueta”? Esse certamente não foi o caso. No atual estágio. o excesso de explicações fora de hora.

Dicion&aacute. colunas e coisas do tipo que vira e mexe encontra em e-mail's e newsgroups? Elas se chamam ‘Smileys’.nteses.o oficial &quot. em comunicações eletrônicas e no IRC. Aqui voc&ecirc. colunas e coisas do tipo que vira e mexe encontra em e-mail's e newsgroup's ? Elas se chamam &quot.e indicava os endereços na Rede onde os usuários poderiam obter as principais ferramentas necessárias para a aventura de construir a sua primeira home page. pode pensar o meu leitor. e por outros veículos da mídia especializada. por uma 118 . Assim sendo. o Guia da Internet. No entanto. (smileys). ainda não são muitos os usuários que sabem utilizar os recursos tornados disponíveis pela HTML.. Apesar desse tipo de divulgação e das lições explícitas dadas pela revista em questão. Lá o que aparece é o seguinte: “Esta é uma versão não oficial ‘Dicionário de Carinhas’ (smileys).” A maior parte dos usuários sequer se dá conta da linguagem e dos comandos invisíveis que estão sempre por trás de uma home page.</P> Com todas essas marcas e especificações não dá para entender nada. todos os usuários da World Wide Web (ou WWW) são indiretamente influenciados pela HTML. conhece aquelas combina&ccedil. uma vers&atilde.Br dava sua primeira lição de HTML -. diria que são a grande maioria.nicas e no IRC. <P>Esta &eacute.A influência do hipertexto No segundo número de seu primeiro ano de vida. Na realidade. certo? Só que essas especificações e marcas se tornam invisíveis quando lidas numa home page no ciberespaço. Aqui você encontrará muitas carinhas que geralmente são utilizadas em mails. analista de sistemas. ou o dicionário dos emoticons.Smileys&quot. E terá razão.&otilde. em comunica&ccedil.o utilizadas em mails.rio de Carinhas&quot.o n&atilde.o uma linguagem &agrave. E na Internet s&atilde. O professor era André Luna. encontrar&aacute.</P> <P> Voc&ecirc. E é um exemplo que já usamos na forma de texto legível antes! O do Dicionário Smiley. Você conhece aquelas combinações estranhas de parênteses.es eletr&ocirc.es estranhas de par&ecirc.&otilde. ao menos parcialmente.acrônimo de HyperText Markup Language ou Linguagem de hipertexto baseada em marcas -. ou melhor. Vejamos um exemplo de HTML. muitas carinhas que geralmente s&atilde. E na Internet são uma linguagem à parte. parte. o ano de 1996. o poder de difusão desse tipo de linguagem é pequeno.

podemos simplesmente sublinhar uma palavra ou expressão que. É sempre possível voltar ao texto já lido e encontrar facilmente um link.. Ou seja. no texto offline. quando clicada com o mouse. 119 . elas interrompem o fluxo do texto principal. o quanto o tipo de leitura possibilitado pelos links de hipertexto deixa suas marcas sobre aqueles que escrevem qualquer tipo de texto.) Com a mesma facilidade com que você constrói um link para uma página na sua própria máquina. não é somente o ato de escrever que cria um estilo de escrita (embora esse certamente o concretize).Br: “A marca de link faz exatamente o que todas as outras fazem [dá comandos explícitos que serão invisíveis no texto final].. que usa recursos tão novos que permitem uma leitura multidimensional e em várias direções.de suas marcas: a marca de link de hipertexto. o que nos influencia não são exatamente os recursos estilísticos usados pelo autor. para aprendermos a escrever com estilo próprio. Já se o que estamos escrevendo vai ser transformado em hipertexto. mesmo quando usamos notas. Já. Este é o sentido do World Wide Web. pois têm que ser lidas na hora já que não são fáceis de encontrar num mero passar de segundos olhos. Tentemos agora estabelecer um link (que não é de hipertexto) entre a leitura/escrita online e a leitura/escrita offline. (. Se o ato de ler um texto convencional -. E. você pode fazer o mesmo para uma página em qualquer outro lugar do mundo. Se o que estamos escrevendo vai ser impresso. Citando o mesmo artigo-lição da revista Guia da Internet. temos que ler muito e muitos estilos diferentes para que o nosso estilo possa germinar a partir de tal fecundação. temos apenas duas saídas: a primeira é a de usar notas de rodapé. o ato de ler é de fundamental importância nessa criação. Começo com um exemplo offline bastante conhecido de escritores de todos os tipos. a de desistir de mencionar o assunto. o que nos influencia são as técnicas de construção e redação do argumento. de final de capítulo ou de final de livro. pode ter uma influência ainda maior. mas sim os recursos tecnológicos tornados disponíveis pelo hipertexto. A diferença é que ela contém um endereço para uma outra página. o ato de ler um texto online. mas que achamos que poderá interessar o leitor. de repente sentimos a necessidade de aprofundar um determinado assunto que não tem diretamente a ver com o argumento ou raciocínio que estamos desenvolvendo. etc. ainda é um texto bidimensional e seqüencial -. remeterá para o que quer que quisermos sem interromper o fluxo do texto principal. a segunda. temos que fazê-lo com muita parcimônia. Sei. nos textos online.que por mais inconvencional que seja o estilo de um autor. Ainda que sejam breves. Ao escrever um texto.pode exercer importante influência sobre a nossa forma de escrever e pensar um texto on ou offline. Este geralmente está em cor diferente para dar destaque. É matéria de conhecimento geral que. da narrativa. O tipo mais simples é quando a página apontada está armazenada no mesmo diretório que a corrente.” Vejamos como se dá essa influência indireta da HTML sobre os estilos de escrever offline. por experiência própria e por observação. A diferença é que.

) A World Wide Web consiste de um grande número de documentos e programas que vivem na Internet. pelos jornais e pelos romances. Links Ligações para outras páginas ou Sites.” Pedro Werneck (32 anos. bem como para outros usuários. Leia mais a respeito dos nossos procedimentos de coleta de dados em O IMPACTO DO NOVO. ou seja depois do textu-erectus chegou a vez do textu-sapiens -. 120 . Depois de Gutenberg tornou-se possível reproduzir documentos mecanicamente de tal forma que um grande número de pessoas pudesse lê-los e divulgá-los.evolução natural do texto. agora.. Vou traduzir livremente alguns trechos do texto em inglês: “Quando Johann Gutenberg criou a imprensa por volta do ano de 1450 ele mudou praticamente todos os aspectos da sociedade européia.39 Carlos Eduardo Cavalcante (23 anos.)” Tudo isso pode parecer exagerado ao meu leitor. O leitor já sabe qual é a minha opinião. Agora a palavra.um texto esperto que 39 Esses e outros depoimentos de usuários sobre o hipertexto podem ser encontrados em NOVOS CONCEITOS.) é um novo meio de publicação que promete ter um efeito tão profundo na transferência de idéias quanto a invenção de Gutenberg (.. mas. Vejamos. Essa simples mudança significava que as Bíblias passavam a estar tanto nas igrejas quanto nas mãos da congregação.com/Courses/WWWCo. engenheiro): “Hipertexto -. analista de suporte Internet): “Hipertexto Combinação de textos. Comparado à laboriosa transcrição de documentos à mão executada pelo clero.) A World Wide Web (. os aspectos revolucionários do hipertexto são palpáveis.. Esses documentos são “conectados” (“linked”) de tal forma que o usuário possa clicar uma palavra ou imagem num documento e chamar um documento completamente diferente. que ao meu ver é uma revolução no mundo dos homens.. O novo papel é a tela do computador (. num documento sobre os pontos de partida conceituais das redes de informação. o novo método era rápido e confiável.... Essa mudança deu início a uma cultura baseada no conhecimento divulgado pelo livro impresso. encontrei. o que dizem alguns desses usuários quando solicitados a definir livremente “hipertexto” e “links”..Não é à toa que em www. para mim. som e video numa coisa definida como HTML. uma seção intitulada Gutenberg all over again! [O retorno de Gutenberg! ou Gutenberg está de volta!]. passa a ser produzida eletronicamente. além de ser produzida mecanicamente.pacificspirit. Isso é conhecido como “link de hipertexto” e é um grande passo além daquilo que é possível fazer na mídia que tem o papel como base (. imagens. Significava que as notícias passavam a ser escritas ao invés de faladas.

como diz José Carlos. Ao invés de todos os leitores lerem todas as páginas na mesma ordem pré-estabelecida. Links . que pode escolher não somente o que ler. A diferença é a de que fazemos isso quando conseguimos ter com o livro impresso uma relação de independência. ajuda a desenvolver a cultura através de links e procuras diretas on touch. estudante de comunicação) “Hipertexto é um texto não-linear. Como o texto ciberespacial é ainda muito novo para leitores e escritores. revelando. e o resultado é que raramente lemos um desses textos do início ao fim. cujo copyright pertence ao jornal O Estado de São 121 . relação entre entre textos. mas também como ler o que escolhe. ler simplesmente o início e o final de um livro. jornalista): “Hipertexto . corresponde a liberdade para o leitor. Dou dois exemplos fáceis de serem consultados: a seção Hipertexto da revista Veja. e a publicação Help! Língua Portuguesa.placas de indicação virtuais. sua leitura se torna semelhante a uma conversa com quem o escreveu. Mesmo assim pode ser detectada offline a influência do que chamaria de texto WWW. seria como vc estacionar com seu carro sobre uma placa indicando Itaquaquecetuba e **Plim** ir para lá num passe de mágica. etc.” Adelina Nogueira (24 anos. Sandra Vieira (24 anos. o que nem todos conseguem. Qualquer outro tipo de leitura pode ser. Links ====> Redirecionamento para outro serviço. E essa é tão grande que já podemos encontrar tentativas de colocar links no papel. permitindo que este interrompa a leitura para obter mais informação disponível sobre um conceito realçado no texto. etc? Ainda são muitos. Quantos são os leitores que não conseguem abandonar um livro pela metade.” José Carlos Nogueira (dados pessoais não disponíveis): “Hipertexto ====> texto que permite a interação com o leitor. Sua leitura se torna mais semelhante a uma conversa com quem escreve o texto. ou seja. a meu ver. cada leitor decide quais partes ler e em qual ordem. de forma mais explícita que o texto impresso a intertextualidade.” Sandra está certa: à liberdade para o escritor. Ou seja. O texto ciberespacial incita e promove o aprofundamento de detalhes. fazer uma leitura na “transversal”. de questões tangenciais. à qual me referi acima.texto que contém links (portas de acesso) a outros textos. por eles. sentido como uma transgressão! Já o texto ciberespacial não é feito necessariamente para ser lido do início ao fim de uma só feita. dentre as possibilitadas pelo(s) criador(es) do hipertexto. poucos dominam as suas técnicas de redação e argumentação. E por que reagem ao livro desta forma? Porque foram treinados para ler qualquer tipo de texto da primeira à última palavra e nunca conseguiram se libertar dessa prisão. também fazemos isso num livro impresso!” E ele terá razão. E aqui o meu leitor tradicionalista dirá: “Ora.

. Mas. E isso porque o hipertexto é um recurso inédito ainda mal explorado. Quando isso acontece. é bom deixar claro que. não podemos falar de um estilo WWW. Chegará o dia em que surgirão bons escritores de hipertexto que saberão usar os links de forma integrada com o texto principal que. no Rio de Janeiro.. 122 . por sua vez. pelo menos até agora. sem muito sucesso é fato. estão sendo feitas por gigantes da imprensa brasileira! No entanto.. terá atrativos próprios. o leitor embarca no primeiro link que encontra e jamais retorna à página de origem. isso é desculpável porque tudo isso é muito recente e aprender a escrever bem leva muito tempo..Paulo e à Klick Editora e que foi. Uns serão melhores do que outros e desenvolverão recursos estilísticos inerentes ao próprio cibertexto. É mais do que freqüente encontrarmos textos ciberespaciais de má qualidade porém recheados de links. as tentativas de colocar links no papel. Ou seja. distribuída pelo jornal O Globo. Na realidade.. Seu valor está nos links que oferecem e não no texto em si. acho que chegará o dia em que todos aprenderemos a redigir e compor textos ciberespaciais..

além de econômica.cabe a tarefa de fornecer os elementos que possibilitam a transição da vida offline para a vida online. que os ajudem a integrar sua experiência com a vida online no conjunto de experiências da vida offline. Você abre o setup do seu PC e logo aparecem aqueles parâmetros enigmáticos que ninguém é capaz de explicar. E usuários tendem a usar uma linguagem em comum. os princípios da comunicação online: uma linguagem leve. de profissionais que lhes ofereçam alguma versão sobre o conjunto de novas experiências que estão tendo. é necessário saber o que ele significa e. também. ou seja. cheia de jargões e gírias. A página usa frames e é escrita em inglês. em sua base. bem-humorada. também a ela devem ser dedicados os louros do registro passo-a-passo de uma transformação sem precedentes na história mundial. Mas. porque sempre recheada de últimas novidades que se sucedem com uma rapidez espantosa. Só assim daríamos conta de traduzir cada termo adequadamente porque para se traduzir um termo que é novo.) A característica desse discurso jornalístico sobre a Rede que mais chama a atenção é o uso de uma língua que tem no português sua base gramatical. ou adquiriu um uso novo mesmo em sua língua original. Nosso amigo Carlindo Lago da Costa <carlindo@pobox.como os cadernos de informática dos grandes jornais e as revistas sobre a Internet -. como a mídia especializada vem desempenhando esse papel desde os primeiros momentos da era ciberespacial no Brasil. do jornal O Globo. o C@T. etc.” (Os itálicos das palavras inglesas ou originadas do inglês são meus. mas para grande parte dos internautas. precisam de “aulas” sobre o uso disso ou daquilo. com ou sem adaptações à nossa língua pátria. têm curiosidade em saber como os outros usuários reagem a tal ou qual novidade.com> andou fuxicando pela rede e encontrou uma web page ideal para quem quer desvendar os mistérios do BIOS. Fôssemos nós vítimas de algum tipo de xenofobia e teríamos que ter tradutores especializados de plantão 24 horas por dia. em se tratando de mídia -- e aqui incluo as publicações offline e online -. E a mídia especializada faz de tudo isso um pouco. etc. sua linguagem difere um pouco das comunicações interpessoais no ciberespaço. uma linguagem que tem. Segue-se um exemplo desse tipo de linguagem. de 25 de agosto de 1997: “Alguma vez a leitora se viu totalmente perdida diante do BIOS de sua máquina? É quase certo que sim. informal. em constante expansão. para 123 . E. Cadernos de informática dos grandes jornais e revistas especializadas na Rede foram sendo criados a partir das necessidades. de usuários-leitores. a menos que você chame o hardwarista de plantão. E o faz com competência porque é feita para usuários por usuários para quem tudo isso também é novo. do Caderno Informática.que tem que dar conta de uma realidade sempre nova. Estes sempre precisam de informação sobre máquinas e programas em suas versões que se renovam em alta velocidade. retirado da conhecida coluna de Carlos Alberto Teixeira. mas cujos vocábulos são em grande parte provenientes do inglês. Precisam.Os novos usos de linguagem da mídia À mídia especializada -. isso não é problema.

os vocábulos recebem o mesmo tratamento dedicado às palavras da língua portuguesa.envolve o recurso de vídeo. etc. web page [página da World Wide Web] e frames [molduras]. temos que ter contato com o conceito ao qual está vinculado. Quais são algumas dessas operações? A primeira. ICQ. essa é uma simples questão de lingüística! Mas. Netiqueta [regras de etiqueta da Net]. Outros exemplos são deletar. IRContros [encontros de pessoas que se conheceram virtualmente num canal de IRC]. link. E é ainda a essa lógica.”. por exemplo. você me vê] e indica que o programa desenvolvido na Universidade de Cornell -. agora aplicada ao português e à cultura brasileira. ou seja.a leitura que se deve fazer é See you see me [Vejo você. aquele que lida com hardware. quando lidas as iniciais. chat. 124 . Confuso? Não. o trabalho de incorporação de um novo vocabulário. o caso outras palavras bastante comuns como home page.. que não comportam plural em inglês.. descreverem. como.e também no inglês brasileiro -. ou sorriso). desta feita adaptada à língua portuguesa. e da cultura da terra de Tio Sam -. C@T também usa esse recurso ao transformar hardware em radical da palavra hardwarista. scannear. e mouse. como setup [configuração]. o plural em s mesmo no caso de palavras como hardware e software. Assim sendo. que geralmente acompanham o tradicional “Have a nice day!” [“Tenha um bom dia”] sorridente dos americanos. e-mail. mouse. A segunda operação é a incorporação da palavra inglesa. felizmente para todos. as principais características dos programas em questão. por exemplo. hardware. É importante lembrar que essa incorporação traz em seu bojo a absorção de uma lógica (ágil e que permite usos bastante criativos como o de transformar substantivos em verbos) até pouco tempo estranha à língua portuguesa e à cultura brasileira. nós sempre convivemos muito bem com línguas estrangeiras e sempre tivemos uma queda especial pelo inglês.o CuSeeMe -.saber o que algo novo significa. principalmente em sua versão norte- americana. Esses são pensados para. ou seja.nunca como as letras i. cujo plural em inglês é mice.Cornell University ou CU -.já ouvi várias referências do tipo “Aquele programa de nome feio. etc. Ao outro programa -. um programa que localiza usuários da Rede e lhes envia mensagens onde quer que estejam no mundo. Esse é.a da língua inglesa. e a mais simples. etc. é a incorporação do vocábulo ou expressão em inglês sem qualquer alteração.que pertencem os nossos já conhecidos emoticons (palavra formada a partir de emotion icons. Bastam algumas operações bastante simples e a incorporação é feita de forma rápida e relativamente indolor. Quando isso acontece. também. E é a essa mesma lógica -. c e q no nosso alfabeto! --. o que difere é simplesmente a pronúncia. é muito facilitado. É lido em português tal como em inglês -. Mas. em sua língua original. software. no trecho da coluna do C@T reproduzido acima. ou ícones de emoção) ou smileys (palavra formada a partir de smile. é lido como I seek you [Eu procuro você] e é um pager. Uma outra incorporação interessante é a dos nomes de programas como ICQ e CuSeeMe. que pertencem palavras como vIRCiados [viciados em IRC]. clicar. que diz respeito a uma nova realidade. em inglês -.

há já alguns anos. pois aparentemente esse dicionário online vai além do Internetês. Não é a troco de nada que o governo francês vem. publica semanalmente uma coluna intitulada Input. podemos ter acesso a mais de 2. acrônimos e siglas na língua inglesa. por exemplo. certamente. Também eles têm como ponto de partida exclusivamente palavras. pode estar se perguntando o leitor. o que quer que aconteça. dos quais selecionei apenas alguns: Acrônimo Significado Tradução (livre) B4 Before Antes BRB Be Right Back Estou de volta logo CUL See you later Vejo você depois FAQ Frequently Asked Questions Perguntas mais freqüentes MORF Male or Female Homem ou Mulher? RUOK Are you Ok? Você está ok? TVM Thanks very much Muito obrigado E até agora não falei dos dicionários. no segundo o número sobe para 4. O caderno Informática. de O Globo.com. no primeiro. Essa é a razão por trás da proliferação de glossários além da publicação de dicionários on e offline. etc. mas a esmagadora maioria é. seria de se esperar que os usuários ficassem à deriva.” (Os itálicos das palavras em inglês são novamente meus) Segue-se uma longa lista de acrônimos. de algumas editoras. expressões. Não há como prever. de alguns sites e até mesmo de provedores de acesso à Rede. dedicando-se também ao informatiquês.400 definições de termos usados na Internet. Mas sempre na língua-mãe de tudo isso. não fosse pelo cuidado da mídia. não vai acontecer somente com o português.Com tantas novidades e tantas incorporações. e o dicionário online da PontoNet <http://www. um offline e outro online. na qual são definidos os termos e expressões mais usados na Rede.o mesmo C@T -. O português só aparece na definição. Há. São eles o Dicionário da Internet. grupos de news ou tem o hábito de trocar mails em inglês.000 verbetes. cuidadosamente estudadas.e Astrid Heilmann). de autoria de Christian Crumlish e publicado em 1997 pela Editora Campus (com tradução de Carlos Alberto Teixeira -. pelo menos dois dicionários sobre o vocabulário da Rede. fazem parte da ‘linguagem da Internet’ e se você não quiser ficar perdido. Mas. todos eles baseados em palavras da língua inglesa! Diz o texto introdutório: “Se você costuma freqüentar listas de discussão. no Brasil. Já a revista Guia da Internet. fique atento para algumas delas. há já alguns anos. 125 .spacenet. de colocá-los a par de todos os novos vocábulos e significados. Essas siglas. certamente já se deparou com vários acrônimos que você não tem a menor idéia do que sejam. o inglês! “O que vai acontecer com o português?”. A dica daquele mês foi uma lista de acrônimos.br/dicionario>. Enquanto. Nem todos esses termos e expressões são em inglês.Br deu um presente a seus leitores no número 10 de seu primeiro ano de vida.

O objetivo é combater o uso excessivo e indiscriminado de expressões inglesas como stand-by. Talvez seja melhor aceitar essa realidade porque línguas sempre foram dinâmicas e ninguém pode proibir o cidadão comum de usar a terminologia que quiser na língua que bem lhe aprouver.A França avançou mais um passo em sua cruzada de purificação da língua pátria. No entanto.. Não seria necessário chamar o corpo de bombeiros se não houvesse sequer uma fumaça.. ou pode? A história parece provar que não.7 mil.) O projeto -. Jacques Toubon. e fogo que se alastra por todos os países em que o inglês não é a língua oficial.proíbe o uso de palavras estrangeiras em contratos. a Assembléia Nacional aprovou ontem uma lei que proíbe o uso de palavras estrangeiras nos anúncios publicitários.. Talvez um dia. As sanções não são descritas em detalhes. que geralmente usam o inglês nas palestras internacionais. anúncios públicos e propaganda no rádio e na televisão.” É óbvio que.declarou o ministro da Cultura. O artigo preocupou os cientistas. ninguém precisa perder o sono. 126 .As penas são limitadas. mais exatamente no dia 6 de maio daquele ano. no caso.O projeto reflete a imagem de um francês de mentalidade estreita que se coloca sempre na defensiva -.. os franceses não poderão ser obrigados a falar em outra língua. tal como latim. on line ou software. Há fogo mesmo.atacou o deputado socialista Didier Mathus. -. algumas línguas deixem de ser faladas. mas o projeto classifica as faltas e contravenções. que segundo os autores do projeto estão transformando o francês em ‘franglês’. (. categoria que implica penas de até seis meses de prisão e multas de até US$ 8.considerado por muitos manifestação de arrogância cultural ou obsessão maníaca -.travando uma verdadeira batalha contra a incorporação de palavras inglesas à sua sempre bem-cuidada língua pátria. Elas deverão ser substituídas por termos aceitos pela Academia Francesa. porque isso não vai acontecer num futuro próximo. Ainda nos idos de 1994. tal como os brasileiros. E. Dessa matéria retirei os seguintes trechos: “PARIS -. -. havia e há mais do que fumaça. É falso dizer que as prisões ficarão cheias de jornalistas que falam incorretamente -. os franceses estão sentindo a necessidade de incorporar as palavras e idéias novas que são produzidas em altíssima velocidade. Depois de dois dias de debates. o jornal O Globo publicou uma matéria sobre a defesa da língua francesa cujo título era Nova batalha na guerra ao franglês. Nas conferências e seminários.

tornou-se também a língua-mãe da cultura gerada por essa rede de computadores. Essa língua era o esperanto. línguas e culturas diversas. e para que haja integração necessita-se de denominadores comuns. Afinal. E. a língua-mãe da Internet pois foi. Línguas naturais são eminentemente convenções sociais internalizadas por todos aqueles que fazem parte da cultura na qual são faladas. elaborou uma língua auxiliar de comunicação internacional que começou a divulgar no ano de 1887. não há como duvidar que a língua inglesa é a melhor candidata a se tornar a língua auxiliar de comunicação internacional que o esperanto jamais conseguiu ser. Mais de um século depois.ou seus dirigentes -. por ser a língua-mãe da Internet. Isso não é de pouca monta nos dias de hoje. estamos fazendo. se desenvolvem. Registrar isso do modo que nós. Nesse quadro. como já vimos. para que possam manter sua língua e sua cultura intactas. esses povos -. talvez seja uma demonstração de sabedoria e da ginga e jogo de cintura. Ludwig Lazar Zamenhof. em que o processo de globalização torna- se cada vez mais acelerado. entre os quais uma língua que possibilite a criação e o estreitamento de afinidades entre povos de origens. algumas vezes. brasileiros.Inglês: a moderna versão do esperanto? No final do século passado. desde os primórdios desta. O que vai acontecer com as outras línguas é difícil prever. Vai depender muito do quanto os povos que as têm como línguas maternas desejarem manter vivas suas raízes culturais e lingüísticas. e línguas naturais não são intencionalmente criadas por alguém. um médico judeu-polonês. chegam mesmo a morrer. em função do que acontece com aqueles que as usam. temo que desapareçam as primeiras. Globalização significa integração. pois a língua e a cultura ciberespaciais estão se tornando cada vez mais inescapáveis. também. É. O inglês é uma língua natural falada em diversos cantos do mundo por diversas culturas. bem como do regime de convivência que estabelecerem com a nova cultura e a nova língua do ciberespaço. portanto. Línguas naturais. Línguas faladas são línguas naturais. que são as marcas registradas da nossa cultura. cibercultura também significa integração. têm seus rumos alterados e. não é preciso dizer que o esperanto nunca cumpriu o seu objetivo de possibilitar a comunicação entre povos de origens lingüísticas diversas simplesmente porque as pessoas jamais aprenderam a usá-lo. a língua usada por seus criadores. Se.resolverem abolir a língua e a cultura ciberespaciais. ginga e jogo de cintura sempre foram armas de integração! 127 . a cibercultura. ou seja.

e também o de Sonia em Os prós e contras dos relacionamentos virtuais. mas que. Não são poucos aqueles que se dizem viciados nesse bate-papo digitado. mas não dão conta da complexidade introduzida por um fator que geralmente recebe pouca atenção: a difícil conciliação dessas duas realidades paralelas. ficam amigas sem jamais terem se visto ou ouvido. que é uma forma de isolamento. os chamados relacionamentos virtuais. a julgar pela popularidade incontestável dos canais de IRC (Internet Relay Chat). ver NOVOS CONCEITOS. uma cisão que corresponde à cisão por ela instaurada entre a realidade virtual e a realidade cotidiana. ou usam e abusam da mesma. Quem. pois são relacionamentos via teclado. acusa o usuário de estar tendo uma atitude anti- social e de estar se isolando. E. ambos neste bloco. Do ponto de vista das relações sociais convencionais. geralmente familiares e amigos.41 Esta talvez seja a área na qual o impacto da Internet sobre seus usuários ganhe maior visibilidade e. pelo menos no início. Um dos maiores atrativos da Internet é justamente a facilidade de se 40 Vários usuários já dão provas da dificuldade que têm que lidar com esses conceitos ao defini-los informalmente. que só pode ser feita pelo usuário. mesmo assim. ocupe o centro das atenções (principalmente na mídia especializada) quando se fala sobre as influências do ciberespaço. Com as dificuldades geradas por esse tipo de relacionamento. Já quem.. nas convenções e nas restrições sociais. que muitos chamam de “real”. elas escrevem sob a proteção do anonimato. O que conta é o que essas pessoas escrevem. No entanto. namoram e amam sem jamais terem se tocado ou trocado um beijo. quando este passa horas a fio papeando através do computador. Alguns acham que isso é loucura. em O fenômeno chat e o autoconhecimento. 41 Ver. o depoimento de Márcio “Big” Mattos. alegando como defesa o fato de que o bate-papo ciberespacial é uma nova forma de sociabilidade. ainda. as pessoas não usam seus nomes. geralmente o usuário. tem razão em dizer isso. geram muitas desilusões porque têm suas bases nas aparências. outros. ou semelhantes. mundo afora. na já complicada área dos relacionamentos humanos. apaixonadamente. também está coberto de razão.. As interpretações são muitas. ou seja. estamos relativamente acostumados a lidar na realidade cotidiana.NOVOS RELACIONAMENTOS A Internet introduz. nos canais de chat.40 Na realidade “real” ficam os relacionamentos “reais”. ou jamais se conectaram à Rede. por exemplo. por isso mesmo. aqueles em que se crê poder atingir o âmago do outro através de seus olhos. dado que. esta é uma forma de isolamento. 128 . em que as pessoas se conhecem em canais de bate-papo sem saber que aparência têm. há algo de especial nesses novos relacionamentos. outros que isso é uma fuga. Na realidade “não real” estão os novos tipos de relacionamento. por isso mesmo. e. Esses são os adeptos dos relacionamentos convencionais que. mas odeiam os relacionamentos virtuais. revida. mas sim apelidos que podem ser trocados segundo a vontade e conveniência do usuário. sabemos que nem sempre seremos bem-sucedidos.

É nesse momento que emerge. quero mostrar que as maiores dificuldades. Isso é relativamente bem absorvido se o interlocutor do papo ou correspondência digital é um parente. emergem não necessariamente do uso do computador por horas com a finalidade de bater-papo ou trocar e-mails. que merece por si só um outro livro. Assim sendo. 129 . Não tendo qualquer pretensão de esgotar o assunto. É também nesse momento que começam as acusações de isolamento e comportamento anti-social vindas de amigos e familiares. o conflito interno entre as realidades paralelas.comunicar de forma rápida e barata com quem quer que se queira em qualquer parte do mundo. amigo ou conhecido do mundo “real”. quero somente fazer um breve registro de alguns aspectos que não têm merecido muita atenção por não serem tão visíveis quanto outros. tanto para o usuário quanto para aqueles que o cercam. para o usuário. Mas é importante que todos saibam que nem tudo o que acontece na realidade virtual está confinado à mesma. familiar e social para o usuário surgem quando o computador é usado para estabelecer e manter os novos e revolucionários relacionamentos virtuais. Os problemas de ordem interna. Muitos são os usuários que já aprenderam a construir pontes entre as duas realidades e a transferir o conhecimento e a experiência ganhos virtualmente para o seu cotidiano “real”.

” E Jorge Ferreira. que achei bem interessante. pois ela retorna imediatamente ao remetente 42 Solange Gomes e os demais usuários citados neste bloco fazem parte do conjunto de 43 usuários que enviaram depoimentos sobre suas primeiras impressões da Rede. os programas de bate-papo. estudante de psicologia de 22 anos. comportando a troca de várias mensagens diárias se os usuários assim o desejarem. que diz ter se tornado uma usuária da Internet. Também é desnecessário que se acuse o recebimento de uma mensagem. a Rede torna disponíveis dois recursos muito velozes: o correio eletrônico e os programas de bate-papo em tempo real. 130 . Outras novidades óbvias nesse tipo de comunicação são: a sua facilidade. a comunicação eletrônica facilita a vida de todos. a troca de mensagens é imediata caracterizando uma conversa por escrito. Já os segundos. Enquanto uma carta leva dias para chegar ao seu destino e a resposta outros tantos dias para atingir o primeiro remetente. correspondem ao “telefone escrito” que Solange Gomes desejava.Novas possibilidades para relacionamentos antigos O que Solange Gomes. e permite uma correspondência muito intensa. postagem. que moram longe. por conta do programa de bate-papo: “.” [Ele é estrangeiro e não mora no Brasil] É visível que um dos aspectos da Rede que mais fascina essas pessoas é a facilidade de comunicação com pessoas queridas mas geograficamente distantes... ida aos correios ou a caixas de coleta. porque o usuário só o acessa quando quer.para me comunicar diariamente com meu namorado.. entre outras coisas. em resposta ao questionário que lhes enviamos por e-mail.. nutricionista de 32 anos. a sua garantia de recebimento e seu baixo custo. esperava da Internet antes de acessá- la pela primeira vez?42 “Um telefone escrito. selos. etc. Em relação ao correio habitual.” A despeito da diferença de idade. O que há de novo nesse tipo de comunicação? A primeira resposta óbvia é a velocidade. pois tive a oportunidade de falar com muitos conhecidos.. O primeiro é veloz e pouco intrusivo. pois prescinde de envelopes. a correspondência com amigos distantes também fascinou Andréa Bastos. estudante secundária de 16 anos. Leia mais a respeito de nossos questionários e entrevistas em O IMPACTO DO NOVO. sem precisar pagar a ligação mais cara!” Já Bianca Viveiros. engenheiro de 34 anos? Jorge esperava ter: “Acesso ao correio eletrônico para me corresponder com amigos e conhecidos fora do Brasil. começou a acessar a Rede por uma razão análoga e muito simples: “..

que por serem de recém-chegado ainda faziam sentido para seus conterrâneos distantes. Michigan. 25 de outubro de 1995. quase sempre revestido de alguma formalidade: ‘Rio de Janeiro. acabavam deixando de receber notícias com freqüência. pela moleza que é usar o correio eletrônico: eu escrevo aqui num PC. nas pausas. sobrinhos. ganha- se muito no número de contatos passíveis de serem feitos sem restrições de tempo e ao custo de uma chamada telefônica local.. Nos idos de 25 de outubro de 1995. pioneira que é. e o meu filho usando um Mac em Ann Arbor. por outro lado. a jornalista Cora Rónai escrevia didaticamente em sua coluna Aviso aos n@vegantes do jornal O Globo: “Quando se diz que a Internet vai mudar radicalmente as formas pelas quais as pessoas se comunicam. Se longo. nas hesitações. pode ter sido uma das primeiras mães brasileiras a fazer uso desse recurso para se manter a par do cotidiano de seu filho. É um fato. etc. onde prevalece a versão pingue-pongue-zás-trás das relações humanas. O recém-chegado começava a viver um cotidiano muito diferente do cotidiano vivido por seus amigos e familiares e a troca de cartas não era suficiente para o relato detalhado de todas as novidades vividas. significava um afastamento brusco que tinha a duração da permanência do ser querido no lugar distante para o qual partira. mas. 131 . por seu turno. ainda fazem e continuarão fazendo. Em relação às conversas telefônicas. quando não paravam de todo. isso não é uma figura de retórica. filhos e filhas.no caso de qualquer problema. muitas outras mães também já o fizeram. para isso. a freqüência das cartas começava a diminuir. esse afastamento. O mesmo acontece entre amigos. esta mensagem é muito mais coloquial do que uma carta. no início. do outro.. por isso mesmo. as cartas eram insuficientes para tantas novidades. O mundo já se tornara veloz demais e as cartas ainda eram muito lentas e davam muito trabalho para remeter. ao fazer uso desse tipo de comunicação têm uma sensação de continuidade da vida familiar que é verdadeira pelos padrões de hoje.’ Ora. parente ou amigo. Mães e pais. de um lado. [Naquela época PC’s e Mac’s eram incompatíveis para quase tudo. certamente. nas quais o recém-chegado contava suas novidades. no entanto. Passo agora às razões não-tão-óbvias pelas quais o correio eletrônico e os canais de bate-papo instauram novas relações entre pessoas conhecidas mas geograficamente distantes. Mesmo porque o próprio ato de escrever uma carta é um gesto deliberado. nas inflexões. perde-se muito com a ausência do contato de voz e toda a energia humana que esse transmite nos tons de voz. Mas. a partida de um ser querido.] Por ser tão simples de enviar. Que começa. é claro. Ou seja. e. geralmente se caracterizava por uma troca regular de cartas.” Cora. nada disso existe com o correio eletrônico. preciso de alguns termos de comparação. recebe a minha mensagem quase instantaneamente. Esses mesmos amigos e familiares. achavam que não tinham muito a contar sem se repetir e também passavam a escrever mais espaçadamente. Amigos e familiares não podiam acompanhar o que estava acontecendo e. não havia muito de novo para contar.. Mas. Com o passar do tempo.. Isso porque somente o grandioso e o fora-do-comum mereciam destaque suficiente para que uma carta fosse escrita. mas que subverte completamente o que acontecia há pouco tempo e é agora pouco lembrado. A menos de uma década atrás. irmãos. primos e avós que vivem distantes.

mas elas levavam um bom tempo para chegar. em resposta a uma pergunta que lhe havia feito. Basta ligar a televisão e. tão logo sejam tornados disponíveis na Rede. Convidava-se os amigos para uma grande degustação. o jantar que preparou e outras trivialidades no gênero. a goiabada cascão pode ainda ser uma mercadoria rara. amigos muito íntimos. O mesmo vale para os bits da comunicação com familiares e amigos. a Internet. os recursos da Rede até mesmo aprofundam relacionamentos. são compostos por bits e bits podem ser acessados de qualquer lugar do planeta. Mantido o elo do conhecimento partilhado. famílias e amigos podem compartilhar o cotidiano. podem ser constantemente atualizadas e mantidas no mesmo nível de proximidade e intimidade de antes da separação. Já recebi um e-mail de um parente. sem ter nada em comum que não o passado.. dupla nacionalidade: somos cidadãos de um determinado país e somos. Pode. ao menos em sua versão online. minimamente. além de uma garrafa da legítima pinga! Tanto a goiabada cascão quanto as notícias do torrão natal eram raras e preciosas. dado por namorados. uma lata de goiabada é composta por átomos! Já as revistas e jornais não. Essas relações. facilmente ter a sensação de uma proximidade virtual com seus familiares e amigos. que se resumia a duas letras: “ok”! Dito de outro modo. etc.. apesar da distância que os separa. mas geralmente acompanhados de uma lata de goiabada cascão ou de doce de leite.E as notícias da terrinha distante? Estas eram escassas. tendiam a se deteriorar ou a se tornar distantes com o passar do tempo. Uma revista ou jornal recentes eram coisas cobiçadas entre os que estavam longe. via e-mail ou chat. nesse lugar remoto. Esses. com quem saiu. cidadãos do mundo. principalmente do e-mail e dos programas de bate-papo. Muitos recebiam uma ou outra revista ou jornal. ou seja. sempre com bastante atraso. Essas trivialidades. são tão importantes para a manutenção de um sentimento de intimidade e proximidade que fazem parte do telefonema. o filme que viu na televisão.. no entanto. também. no entanto. para quem vive fora do país. Alguns faziam assinaturas de revistas. muitas vezes diário. torna isso possível mesmo à distância. via Web. Hoje todos temos. se dê às suas origens. Mas. não importa onde esteja e a importância que. nos dias de hoje. ou seja. A CNN não nos deixa dúvidas. E agora? Bem. 132 .a Net -. até pouco tempo atrás. Quem vive fora de seu contexto original pode. e com a facilidade e rapidez dos novos recursos de trocas de mensagens. nela. acessar uma outra rede -. talvez surpreendentemente para alguns mas certamente não para mim. ou com seu contexto de origem. através dos novos recursos tornados disponíveis pela Internet. familiares e amigos podem continuar tendo a sensação de proximidade e intimidade.para termos uma de várias provas contundentes disso. Afinal. que vivem numa mesma cidade. também. Agora. pais e filhos. Esses podem ser trocados com a freqüência que se desejar e sem o problema de as pessoas estarem vivendo em contextos completamente diferentes. quem encontrou na rua ou no supermercado. ter de um sentimento de estar virtualmente em casa quando em contato com eles. Aquilo que Solange Gomes chama de “telefone escrito”. apesar da distância.. Os jornais e revistas online mantêm quem está fora atualizado em relação ao que acontece em sua terra natal. Ninguém escreve uma carta para contar como foi o seu dia.

“Acho que. responsável pela sensação de proximidade apesar da distância. diz. de Minas. ela responde que usa todos os possíveis e para tudo. entre outros usuários. Mas é uma forma que integra a realidade virtual. uma das possibilidades da rede vai ser o de mudar o jeito que a gente trabalha.que conversam todos os dias pela Net. eu acho isso uma grande baboseira porque.” Esta é certamente uma nova forma de aprofundar e manter amizades. com nossos amigos “reais” e/ou familiares que agora estão distantes. por exemplo. ou seja. mudar o jeito que a gente aprende. a não ser que eu ficasse horas no telefone. meus amigos que são de Pernambuco.” E Bernardo não somente troca mails com os amigos. faz o mesmo tipo de uso talvez com maior intensidade por conta de sua tenra idade. até mudar a forma que a gente se relaciona porque apesar de se falar ‘ah. você trabalha com o computador’. afasta as pessoas. Nosso relacionamento é muito melhor assim. aí tudo bem. coisa que eu não ia fazer. estudante secundária de 17 anos. àquilo que é por nós vivido como a realidade “real”. Pernambuco e São Paulo.Bernardo Viveiros. ele usa os recursos desse bate-papo online e em tempo real para aprofundar suas amizades. e eu nunca ia ficar horas. aquele no qual as pessoas entram para se conhecer e bater papo). que agora troco mail todo dia com o pessoal de Pernambuco.. 133 . em resposta a uma pergunta sobre as mudanças que a Rede vai introduzir na vida de todos. tenho um grupo de amigos . como exemplo. feita numa entrevista olho-no-olho. mudar o jeito que a gente estuda.. estudante de engenharia de 21 anos. do Espírito Santo ou do Rio Grande do Sul do que se eu tivesse usando telefone ou carta. Embora odiando o chat anônimo (o usual. Bernardo e vários de seus amigos se encontram em canais de IRC: “Até uso IRC se eu for fazer uma reunião com o pessoal de Minas. no futuro. relacionamento por internet é uma coisa mais fria. o que aí ia ser até ridículo. aquela em que sempre vivemos e na qual já nos relacionávamos e ainda provavelmente voltaremos a nos relacionar. a respeito dos programas de Rede que mais usa.. através de questionário via e-mail.” Flávia Penna. ou seja.. inclusive bater papo: “p/ vcs [para vocês] terem uma idéia. Perguntada. eu nunca ia ter um relacionamento melhor com eles. aí junta o pessoal e vamos fazer uma reunião pelo IRC.23 pessoas .

O fenômeno chat e o autoconhecimento Enquanto muitos dos usuários que responderam nossos questionários ou nos cederam seu tempo em entrevistas pessoais tinham como prioridade usar a Rede para a manutenção e aprofundamento de relações já existentes. fiz novas amizades” Ou seja. é necessário dizer que.” As expectativas de Juca Mineiro. Escrevo um artigo para uma revista. Seguem-se alguns exemplos. “[esperava encontrar] um meio eficaz. Alguém quer discutir o artigo comigo e desenvolve pontos interessantes a respeito do mesmo.. p/ [para] troca de idéias. mas. não eram muito diferentes”. estudante universitária de 23 anos. que funcionam como pontos de encontro e azaração virtuais. antes. Poderia me descortinar novos universos e abrir a frente para contatos com pessoas diferentes de vários lugares do planeta” Já Tatiana Góes.. E Maria Clara Mourão? “me Virciei :).. Para falar a verdade eu tinha uma expectativa muito grande de conhecer novas pessoas e conseguir informações antes impossíveis. Luciano Cunha. publica o meu endereço eletrônico. além do meu nome. outros queriam principalmente usar os recursos da Internet para conhecer novas pessoas. 134 . veloz e anônimo para troca de informações. revela ter se tornado usuária da Rede: “Em primeiro lugar pela facilidade de encontrar com pessoas de pensamentos diferentes.. ou seja. uma me chama a atenção. se tornado viciada em IRC! O que se faz para se conhecer gente na Rede? Como se escolhe com quem se quer bater papo e como se dão os primeiros contatos? Isso acontece somente nos canais de chat? Os lugares destinados para esse tipo de contato em tempo real são. de fato. estudante de informática de 19 anos. Entre as várias mensagens que recebo. os canais de chat. muitas vezes os primeiros contatos virtuais são fortuitos. quando indagado sobre o que esperava da Internet antes de acessá-la pela primeira vez: “Todos diziam que era legal. estudante de comunicação de 23 anos. Logo retornaremos a eles. tal como na vida cotidiana. Maria Clara gostou tanto de bater papo com pessoas que não conhece. nos canais de IRC que diz ter se vIRCiado. que. nem ao vivo nem a cores. diz.

pronto para discorrer sobre o assunto que você desejar. a imensa maioria está ali para isso -. Basta um /join #qualquer_canal [comando para entrar num canal] que a sopa de letrinhas começa a correr na sua tela e o sangue a borbulhar nas suas veias.a atmosfera da rede é sempre de altíssimo astral. sem o consumo de salgadinhos e refrigerantes. Como todos sabem que um escorregão. no artigo Mas. Mando alguns comentários e faço algumas perguntas. Numa viagem ciberespacial.. no IRC podemos encontrar milhares de pessoas para satisfazer nossas necessidades pessoais. o grande barato não é fazer amizades desse jeito. topo com uma home page sobre técnicas fotográficas digitais que me interessa. e invioláveis. Nela há um link para correspondência. contar alguma coisa reveladora. quando fazemos isso. Tem sempre alguém interessante do outro lado da tela. se tornou tão popular.Respondo e. torna público aquilo que queremos que seja público. na realidade cotidiana. Por quê? Marcio “Big” Mattos.... Nele se desenvolvem grandes paixões e ódios. e muitos não querem isso. com muita facilidade. mas que não revele o contador da estória -. E tudo isso na proteção de nossa própria casa. se aquele soninho não bater ou se uma crise de solidão aguda estiver presente. recebo outro e-mail. tá lá nosso planetinha inteiro à sua disposição.. podemos ser identificados como as pessoas que somos na realidade “real” ou. As possibilidades são várias. “. um furo dos grandes ou um ‘mico’ sempre pode ser corrigido na próxima conexão pela simples mudança do nickname [apelido escolhido pelo usuário para entrar no canal] ou do nome de acesso. O IRC nos traz a possibilidade de convidar diversas pessoas para um bate-papo doméstico. o superego atua menos sobre o nosso grupo de vIRCiados. O contato já foi feito... Respondo. no mínimo. uma das formas de bate-papo ciberespacial.. volume 2. publicado na revista Internet World. É muito bom saber que no cantinho do seu escritório caseiro existe uma verdadeira janela para o mundo. A Rede é um meio de comunicação que. pimba. número 17. nossas idéias e nossos endereços eletrônicos... Bateu uma vontade? Pintou uma necessidade? É só correr pra lá e. trocar idéias.conversar. explicita algumas das razões pelas quais o IRC. O responsável pela home page responde com interesse e me coloca outras tantas questões. A única coisa necessária é que tornemos públicos nossos interesses. Daí pode eventualmente surgir uma boa amizade. Esse é o segredo da disponibilidade mútua que habita o IRC. como todos ou.. logo depois.. Para muita gente. Mas. porém podemos prolongá-la indefinidamente around the clock. Essa sensação de segurança total também é a causadora dos extremos do IRC. se assim decidirmos. principalmente para os jovens. afinal por que o IRC vicia?.. incógnitos. se assim desejarmos. Podemos acabar a festinha no momento que desejarmos. deixando que o ID tenha uma força muito acentuada 135 .. como gosto de dizer... Temos interesses comuns que podem dar origem a outra amizade. Muitos gostam mesmo é de conhecer outras pessoas mundo afora através dos canais de bate-papo. Channel Manager do canal #Brasil da UNDERNET.

Mas seus contatos e suas relações sociais. fazer pose. Não conhecemos o íntimo dos outros. E isso não é por querer ser diplomática! Diria que é apenas uma visão dentre várias possíveis. em sua grande maioria são altamente superficiais..embora possamos. Quando muito. outro perito no assunto. Como o ser humano é de uma riqueza interior extrema. “Mas é uma visão correta?”. em raros casos. ‘falsificar’ nossa identidade.. amor. nos mostra um valioso atalho para o inexplorado interior de outras almas. publicado no número 12. Basta então ligar o micro. já que estamos protegidos pelo anonimato e pela relativa ausência de restrições sociais. interlocutores disponíveis para aquilo que queremos dizer. e. Nele. centenas de pessoas: parentes. E não é fácil! A Internet aparece e.. A todo instante. ou fingir ser aquilo que não somos realmente -. sexo. arriscar possíveis incômodos ou gafes. A personalidade interior da pessoa. somente letrável e sem sentimento. inocente amizade. a simples e saudável inexistência ou redução dos parâmetros moderadores e de censura sociais deixa que se revele esta criação de Deus e faz com que aquilo que possa parecer algo frio. ou sem compromisso. conhecemos o outro não pela sua aparência física.” O depoimento de Marcio é eloqüente. conversar com um. salas ou mundos virtuais.. conhecidos. nos abrimos ou aprofundamos um pouco na personalidade de alguém. pois nesse lugar virtual a nossa autocensura. com seriedade. O indivíduo contemporâneo convive em cidades. com sua magia hiperdimensional. suas roupagens sociais. amigos. seu jeito de ser. se revista de uma capa de emoção logo após os primeiros estágios de reconhecimento. Um canal de IRC é um lugar virtual onde você e eu podemos entrar com a total segurança dada pelo conforto doméstico e pela proteção do anonimato. conectar-se. com mais um. não mais precisamos nos arrumar. mas. mas suas aparências externas. com todos. Para abordá-las. procurando encontros humanos. podemos contar lorotas. fazer o que quisermos. podemos vender de nós mesmos as imagens que quisermos. do Guia da Internet. passatempo ou remédio para a solidão. do volume 1. No artigo Encontros Virtuais.. Nesse lugar virtual podemos combater a solidão. Podemos fazer revelações íntimas. (.Br. visão de mundo e 136 . em suma. Fernando Villela. querendo.. em tantos e tantos canais. não importa a hora. Esta é certamente uma visão interessante de quem conhece bem o assunto. preocupado que está porque a filha é uma amante fervorosa dese tipo de bate-papo. pelo que assume ser em sua essência.) No ciberespaço. podemos. Desejos íntimos. temos sempre. com outro. 365 dias ao ano. Não responderia nem afirmativa nem negativamente. a comunicação interpessoal é muito intensa na Rede-Mãe. pode estar se perguntando o leitor. passa o dia rodeado e esbarrando em dezenas. escolher. por mais múltiplos e constantes que sejam. dá a sua visão dos canais de chat: “Duvida? Conecte-se AGORA e veja quantas pessoas estão plugadas. estranhos. bem como a censura alheia estão sempre de férias. ao contrário. e expondo o verdadeiro interior daquele mascarado interlocutor. 24 horas por dia. pelo que parece ser externamente.

Ao contrário. pelo menos de alguns deles. E conhecendo melhor a essência dos outros. o que não deixa dúvidas quanto à intensidade das emoções que fluem de um canto para outro do mundo. mesmo quando o que esse apresenta não é verdadeiro. Marcio e Fernando adotam principalmente um ponto de vista que torna o outro o objeto do conhecimento íntimo tornado possível pelos chats. a qualquer hora do dia e da noite. sem maiores riscos. As diferentes interpretações podem no máximo se interpenetrar e complementar.” Em outras palavras. pode-se conhecer o outro muito mais intimamente porque esse. no mundo real. mas não adotam sistematicamente. Marcio e Fernando mencionam o fato de que.. Todos aqueles que se conectam a um canal de chat pela primeira vez certamente o fazem por um motivo bastante simples: curiosidade. são mais evidenciadas do que o corpo físico. agora. adicionar a minha visão às de Marcio e Fernando. Mas o que Fernando e Marcio dizem dá conta de tudo o que acontece e de por que tantos gostam tanto desses bate-papos? É claro que não. E começo marcando uma diferença. o objeto desse conhecimento íntimo. hábito esse que pode ser muito útil. 137 . Fernando parece estar dizendo que as relações que travamos no ciberespaço podem ser bem mais íntimas e profundas do que muitas daquelas que temos ao nosso redor no espaço cotidiano e externo à Rede que habitamos. Isso certamente é verdadeiro. também menciona aspectos como o combate à solidão e a possibilidade de satisfação dos nossos desejos. Assim sendo vou. eu sou. mesmo não sendo psicólogos. nesses canais. E Fernando. passo à minha interpretação. por privilegiarem o ponto de vista que lhe é complementar. nenhuma tentativa de interpretação do fenômeno chat pode ser completa. se revela muito mais. Marco. tal como Marcio. ou seja. uma outra diferença. dado o anonimato que a todos protege. pois até mesmo as pequenas ou grandes mentiras são reveladoras. Quero adotar um ponto de vista diferente: aquele que nos torna. Na realidade. adquiri o hábito de separar pontos de vista.. portanto. agora. quando ele finge ser o que não é.particularidades. de como estamos habituados culturalmente. Marcio e Fernando não são psicólogos. associado ao fato de ser pesquisadora. podemos entrar em contato com a essência do outro. estaremos também conhecendo um pouco mais de nós mesmos. sem grandes riscos. onde as aparências são tão valorizadas. sob a proteção do anonimato e sem qualquer compromisso de qualquer ordem. E justamente pelo fato de sê-lo. segundo ele. nesta inversão tecnomoderna. ao menos no momento. (. Vou adotar um ponto de vista que Marcio e Fernando registram. Dito isso. O que chama a atenção é que tanto Marcio quanto Fernando. através do bate-papo por escrito dos canais de chat. Explicando um pouco melhor. têm visões bastante psicologizadas dos bate-papos ciberespaciais. Nelas. nós próprios.) A Internet apresenta uma nova (e poderosa!) capacidade de explorar facilmente o interior do próximo. É a exploração desse novo tipo de comunicação bem como aquilo que a mídia divulga a seu respeito que indicam os usos potenciais que o novato dele pode fazer.

Quando perguntada sobre o efeito que a Internet poderia ter sobre as pessoas no futuro. Quem é assediado porque é muito bonito. ela diz confusamente: “Preocupo-me que no futuro os tímidos e o comportamento das pessoas possam ser pelo computador. onde sabem vencer a sua timidez? Quando li essa preocupação. que admite ter sido viciada no IRC e estar morando com algém que conheceu virtualmente. seu humor. Ao nos revelarmos para o outro. na Rede. somos informados do quanto vale aquilo que somos. ficar restritos às conversas na telinha. a uma amiga: >> Qual seria minha segunda impressão da Web? >> Agora que a euforia do descobrimento já passou. estamos. pela distância geográfica. como é o caso de boa parte dos freqüentadores dos canais de chat. as gafes. encobertos que são pelo anonimato e. Será que os tímidos. fez um comentário que me chamou a atenção.. me lembrei imediatamente de um aluno -. muitas vezes. médica de 29 anos de idade. E isso tem pelo menos duas conseqüências muito importantes. essa frase aponta para uma preocupação muito relevante. os micos e os tropeços geralmente não têm conseqüências sérias. sua inteligência. E por quê? Como ele próprio fez questão de me revelar. entre outros. Se somos jovens e inseguros em relação ao nosso valor pessoal. E. pode aprender que os outros apreciam suas opiniões. ou qualquer outra razão análoga. no futuro. coisas boas e coisas más também.. vão.Mas o fato é que não é somente o outro que se dá a conhecer de uma forma menos contida por conta do anonimato. é hoje um ex-tímido. todos aprenderão muito. seu carro é importado. vai ter a oportunidade de testar o quanto atraem os seus hobbies.que conheci muito tímido. a seu próprio respeito num espaço em que todos estão fazendo algo análogo e onde. tímido talvez por ser bonito demais. 138 . etc. nos revelando para nós mesmos. Até mesmo quem cria um personagem (o que acontece com freqüência) vai ter algum tipo de retorno sobre si mesmo: minimamente saberá se seu personagem é consistente e se tem alguma chance de escrever ficção com sucesso algum dia! De qualquer modo e acima de tudo. Uma das usuárias que enviaram respostas ao nosso questionário. Pois bem. ao observarmos. os erros.” Mesmo truncada como está. também. os seus interesses por esportes ou a sua sensibilidade.Francisco Neves -. nós também o fazemos. nesse outro. Quem é rico e. as reações àquilo que revelamos ser. não vai poder atrair os outros simplesmente porque sua casa tem piscina. dentista de 37 anos. provavelmente por conta do depoimento online. isso pode nos dar uma segurança interna de fundamental importância para as nossas vidas. por isso mesmo. É Solange Costa. esse rapaz. porque adquiriu segurança nos chats da vida! Um outro exemplo do mesmo tipo de mudança é relatado em um e-mail enviado por Sérgio Batista. numa sociedade que cultua a beleza.

né? Os dois mundos diferentes.. cheio de agradáveis armadilhas e artimanhas. que não sou interessante. à tua cidade. mas com a minha observação.. Era muito mais que isso.. O aprendizado obtido nos relacionamentos virtuais não só >>pode como deve ser aplicado àqueles da vida real. é.. que tenho que me controlar em certos momentos…. abriu muito a cabeça não foi? Vc compreendeu a idéia de que o >>mundo não se resumia só ao teu país. porque eu tô na mesa me divertindo. eu aprendi fuçando a Internet. mais >>direto.Pode ter sido até para Disney. dos tempos da faculdade? Era um mundo >>novo... não >>importa. com base em Freud.. A mesma percepção arguta desse processo de mudança interna é relatada em maiores minúcias por Kátia Assunção.. então eu acho que foi meio que uma escola. com base em Lacan. isso aqui… É ridículo falar do lado de fora... >> Quanta descoberta! Quantas trilhas pra explorar. em uma longa entrevista olho-no-olho. parece que tem dupla personalidade. >>Passou nada! A energia continua a mil! Olha só: a angústia do desnível >>entre as duas realidades.. eu acho que mudou. E eu acredito que isso eu não aprendi lendo Freud. como pessoa que sou interessante. comecei a exercitar me descobrir... Mas. Estou mais solto. eu consigo ser mais crítica e tenho uma necessidade muito grande de observar as coisas aqui.. psicóloga de 24 anos de idade. não? Quanta coisa a explorar.’ ai todo mundo ‘Nossa mas que feeling [que sensibilidade]. >>Essa agente nunca esquece. de conhecer as pessoas mais lá daquele lado. E eu acho que eu exercito muito isso aqui. J. você é psicóloga mesmo!’. Chegou um momento que eu comecei a conhecer as pessoas lá dentro. E a primeira viagem ao exterior. tem sido uma escola pra mim.. Meus amigos não entendem as transformações. mas depois a gente tá voltando de carro pra casa e eu falo ‘Ai. está sendo aos poucos >>superada. Eu como pessoa que seduzo. eu acho que eu tenho um senso crítico muito maior hoje em dia. É tudo bem. >>mais aberta e despreocupada? >> Vc [você] lembra. sem >>prefácios ou pré-ambulos. Num >>outro mundo. a real e a virtual. Os meus amigos até brincam comigo ‘Ah você só podia ser psicóloga’. mais instigante e provocante nos meus relacionamentos da vida >>real... que espécie de >>mágica é essa que possibilita vc se exercitar de uma forma mais livre. Vc cai na rede e pronto! Tá no mundo. “Eu acho que eu mudei muito. Então eu me vejo muito observadora.. Eu tenho uma 139 .. mas fulano é assim. >> A Internet joga essa realidade direto na cara de quem entra. ao teu bairro ou à >>tua comunidade.... podendo ter uma amplitude maior..

ao que parece. Sérgio. Seus depoimentos podem servir de modelo e incentivo para outros usuários que ainda estão em busca de uma solução.. Francisco e Kátia. E eu acho que isso veio muito da Internet. a maneira de enxergar as pessoas. de entender porque que ela está fazendo dessa forma e enfim de observar. que a partir do momento que você escreve. Não é que aquilo me agradava. nem que eu deixasse o chat lá paradinho.. e muito bem.. uns dez minutos ficou me agradecendo que nunca ninguém tinha parado pra ouvir as coisas dele. eu gosto de observar muito. eu vi que ele precisava ser ouvido. mas ao mesmo tempo eu me via.” Quem dera que todos os psicólogos tivessem tanta flexibilidade mental e tanta capacidade de observar aquilo que é novo!.. como aprendeu a tirar o melhor proveito de ambas. humham... e eu só ‘humham. de entender. aproveitar o aprendizado obtido nos relacionamentos virtuais em proveito de suas vidas “reais”.. você apura essa maneira de … Acho que foi isso. Então eu comecei a ter uma escuta melhor. eu entrava lá e as pessoas iam caindo em cima de mim. 140 . e o cara me agradeceu assim. eu modifiquei sim um pouco a maneira de enxergar aqui. souberam. Não pode haver dúvida de que Kátia não somente tem consciência da existência dessas duas realidades paralelas. a ter uma maneira de verbalizar melhor.’ mas ele precisava falar. você tá organizando. Apesar das dificuldades enfrentadas. um tinha tara por pé. ele falando. necessidade muito grande de observar as pessoas.. principalmente pela confusão e angústia geradas pela experiência com realidades que a princípio não se conectam. eles souberam construir pontes entre elas e tirar bom proveito de ambas.

hobby ou perversao. o quanto é importante termos a sensação de que pertencemos.O fenômeno chat. como viver em realidades paralelas dá uma estranha sensação de divisão do próprio eu em dois. muitas HPs. Já no mundo “virtual”. 141 . a sensação de termos encontrado a nossa turma. muitas vezes. > Na verdade. mania. pois é sempre virtual). FAQs. que mantenho como os recebi (com todas as características da linguagem online): “ Voce nao e'o(a) unico(a): por mais estranho que seja > seu vicio. onde podemos ser anônimos e nos locomover de um lado para outro. por conta das convenções e restrições sociais. só que.. pois o que importa aqui certamente não é a forma da comunicação.43 Seu autor. dependendo do caso. em busca daqueles com quem possamos entrar em sintonia.” (. via e-mail. Sabe. o bate-papo pode rolar sobre praticamente tudo: de música popular ou erudita e cinema a receitas culinárias. associacoes etc. o mais provavel e'encontrar varios > newsgroups dedicados ao assunto. Mas. todas as características da 43 Leia mais a respeito desses depoimentos em O IMPACTO DO NOVO. mas uma coisa e'certa: > com a Internet ele sera'muito diferente. por conta de compromissos assumidos e também por conta do fato de que às vezes temos características que não são facilmente aceitas pelo grupo social em que vivemos. quando > todos tiverem acesso. é engenheiro eletrônico de 43 anos de idade. > Um mundo que voce nem sabia que existia. Basta dar uma olhada nas possibilidades de “salas” ou canais de bate-papo que existem em português ou em outras línguas (a localização não importa.. isso se torna muito mais fácil. Henrique Lima. Vejamos agora dois desses casos que nos foram relatados em depoimentos enviados pelo correio eletrônico. com facilidade e rapidez. É claro que isso é possível no mundo “real”. ou seja. Desse depoimento retirei os seguintes trechos. muitos tentam construir pontes entre as realidades virtual e “real”. mas revela muita sensibilidade para problemas humanos. para que possamos encontrar a nossa praia temos que nos expor e isso pode ser muito difícil. São “salas” de todos os tipos e para todos os gostos. o que pode ser mais ou menos difícil. Muitos já descobriram isso e muitos já se utilizam desse recurso. um excelente depoimento sobre os impactos que a Rede está tendo sobre seus usuários. da simples azaração ao sadomasoquismo. mas sim o que está sendo comunicado. de como manter o corpo em forma a body-piercing (ou a arte de perfurar e colocar brincos em várias partes do corpo). Como quero passar para o meu leitor a palavra dessas pessoas tal e qual me chegou. > clubes. por exemplo.” Henrique é engenheiro.) > E'dificil prever o que sera'o mundo do futuro. o sentimento de pertencer e a auto-ajuda Recebi. ha'sempre > alguem na Internet como voce. em torno de > algo que voce achava que so'interessava a voce.

mulheres que também acessam esses canais.. “sendo que aos finais de semana os acessos são mais demorados. > Utilizo. caso estivesse sendo identificada. buscamos o prazer solitário também! > Tenho 2 filhos adolescentes que sabem os canais que freqüento. A... Converso com pessoas que acreditam que eu realmente seja uma lésbica na vida real e que se "relacionam" comigo. 44 Uma discussão sobre a linguagem online e suas principais características pode ser encontrada em NOVOS USOS DE LINGUAGEM. das palavras e da modulação das nossas vozes. funcionária pública de 44 anos. mas acho que faço parte de um grande grupo -.. uso o NETSCAPE e -. em qualquer daquelas salas. sub-grupo de Lésbicas e Afins e.44 Tendo em vista a intimidade desses mesmos depoimentos. como o #sexphotos e #sexpics.até -.o de atribuir nomes fictícios aos meus usuários-colaboradores -. o #GLS e o #Georgia.uma vez lá -. me forneceram o nº de seus telefones.. Isso fortalece meu ego. na BrasIRC (servidor) e outros. evidentemente me ligo ao bate-papo e escolho o grupo das imagens..para evitar eventuais constrangimentos para possíveis homônimos.. Via de regra. apesar de tudo. fico 'papeando'com outros visitantes da sala e assistindo às fotografias que alguns projetam lá. isso é mais excitante ainda. quanto mais se estivermos em conversas privativas com alguém. sou mais ou menos popular e é bastante festejada a minha chegada em qualquer desses locais. tratando-me como namorada delas. Com isso. > Além do mIRC.” Eis o seu depoimento: > “Certamente que eu não escreveria nada disso que se segue. que não são iniciais. contando simplesmente com a garantia de anonimato que foi dada. naturalmente. foi repostado através de um mecanismo que garante total anonimato.. o segundo nos chegou através de um e-mail comum. sabem que coleciono imagens pornográficas e não sabem que me envolvo com as outras mulheres que me atraem. ou seja. diametralmente oposta. a todos aqueles que dela participaram. Por isso toma as precauções possíveis e nos envia um e-mail anônimo. pedindo-lhes que eu ligasse e pudéssemos conversar 'na voz'. O mais estranho é que nunca me viram.uma postura de 'netlove'. essas ligações assumem um clima mais do que picante e ocorre uma excitação mútua. por causa da redução da tarifa telefônica. que culmina com masturbações e busca de orgasmos. pela equipe da pesquisa. na intenção de 'soltar'meus anseios homossexuais latentes..o dos falsos moralistas -. teme ser identificada.que adota uma atitude na sociedade e outra..gosto de acessar a página da UOL. na rede. preferentemente o mIRC e acesso canais 'gays'. > Sinto-me querida. porque talvez tenha muito a perder no mundo “real”. farei referência às suas autoras por letras. ela dá um exemplo para o meu leitor do tipo de revelação que o anonimato permite fazer nos canais de chat. > Algumas vezes. apenas utilizando-nos da imaginação. nem por fotografia. como o #lesbians. Resolvi alterar o procedimento que venho usando ao longo do livro -. Ela acessa a Rede todos os dias. 142 . O primeiro desses depoimentos nos foi enviado através de um remailer.linguagem usada em ambos os depoimentos serão preservadas. adotando -.

. Mas posso dizer que "resolvi" minha sexualidade. seja no campo interpessoal. depois pessoalmente. por um tempo. neste momento em que a internet invade a vida do ser humano e traz uma verdadeira mudança de paradigmas. até mesmo viciada na rede. > Não falo outras línguas.. com uma garota que conheci na rede. A principal mudança que a Internet introduziu em minha vida foi a necessidade de aprender a conduzir uma relaçao amorosa à distância.. através da internet. ou mesmo da simples comunicaçao. qdo [quando] nao se tem mais nada a fazer. Dessa forma tornei-me usuária assídua e. Ouso abrir um parêntesis aqui. de certa forma.) Hoje vejo a rede principalmente como um meio de comunicaçao eficiente. e até para solucionar conflitos emocionais. e que meus conflitos nao sao mais um problema para mim. que a própria net ajuda. e podendo "clarear minhas duvidas".. Sou lésbica. falando com pessoas de todos os tipos. façam bom proveito do depoimento!” B. minha família e meus amigos não sabem de nada. e a comodidade e praticidade do e-mail. apesar de não haver perguntas sobre este assunto.> Também gosto de me corresponder com pessoas e utilizo o EUDORA como meu preferido para troca de e-mails. Isso sem falar no acesso fácil a informaçoes sobre assuntos diversos. meu pequeno vocabulário em inglês cria um pouco de dificuldades. E alternativamente como forma de diversao. pois era tudo novidade. e com quem já estou há 7 meses.. mas leio com relativa facilidade o espanhol e o francês. (.) Num primeiro momento tudo me pareceu muito estranho.. No bate-papo da folha de sao Paulo encontrei um ambiente propício a esta abertura.. Isso graças à oportunidade de conversar com pessoas com conflitos parecidos. ou simplesmente qdo se quer "rir" um pouquinho num bate-papo... Chegava a me assustar a velocidade com que as informaçoes iam e vinham. logo descobri junto com o veículo de informaçao uma nova forma de diversão. > Costumo ler jornais que tragam cadernos de Informática e mantenho-me razoavelmente atualizada com as novidades da área. onde a tela do computador funciona como uma proteçao. (.. e eu sentia uma enorme necessidade de conversar com outras pessoas sobre meus sentimentos.. do qual retirei apenas alguns trechos: “Alunos e professores responsáveis por esta pesquisa. principalmente os bate-papos. e até entrar na rede tinha tido um único relacionamento homossexual. a suprir. também nos escreveu um longo e íntimo e-mail... Quero em primeiro lugar parabenizá-los por esta iniciativa.. 143 .. podemos falar qqr [qualquer] coisa. mas isso não me importa nada! > Acho que é o suficiente por ora. onde encontrei pessoas agradáveis para "jogar conversa fora". resultou meu atual relacionamento amoroso. Disso tudo. pois quem está do outro lado jamais saberá quem somos. > Também utilizo o ICQ e converso com pessoas as mais diversas pelo veículo. se nao quisermos. estudante universitária de 22 anos..

A revelou a seus filhos os canais de chat que freqüenta mas. quer dizer depois até você descobre. no mundo “real”. está podendo aproveitar isso melhor do que A. aqui você não pode criar. mas se você tem uma nóia [paranóia] de que você é assim ou assado.Acredito que. mais compromissos. as suas questões que afligem. Então se você tá num canal falando sobre um problema visto como tabu.. e tem uma nóia. ou o mesmo tipo de problema. Mas não é por isso que vou recuar. as pessoas terao se conscientizado da importancia da internet para o processo de globalizao pelo qual estamos passando. (Note-se a necessidade de frisar o anonimato!) Voltemos agora aos casos de A e B. mas já tem uma relação homossexual estável. ao que me parece. sendo que a de B parece estar praticamente pronta. se dá. importante como aprendizado. só se você cria um grupo de estudo na faculdade. o melhor proveito que pode ser feito desses dois depoimentos é o de apontar o quanto o sentimento de pertencer. E isso não vale somente para A e B em suas tentativas de conciliar os preconceitos familiares e sociais com aquilo que desejam para si mesmas. de não ser um estranho. você não vai conseguir chegar para um amigo seu ou companheiro de faculdade pra falar sobre isso. ela tem relações homossexuais bem concretas no mundo “real”. Até porque ela tá naquele canal e ela tá lá com você no chat porque ela quer te ouvir. Como registra Kátia Assunção. só falta as pessoas se adaptarem e aprenderem com ela. o tamanho. o nome de grupo de auto-ajuda. embora informais. sugeriu a esses que a sua homossexualidade era virtual. importante como apoio. de encontrar pessoas que tenham o mesmo tipo de vida. B. Na verdade quando você está conversando você nem lembra dessa tela. Elas encontraram grupos semelhantes. pode ser importante. então tudo o que você não pode dizer. importante como fonte de informação. como em toda revoluçao. tudo o que é taxado como errado na sociedade lá você pode falar. você não lembra da cor da pessoa nem nada então você tem uma abertura muito maior pra poder falar de você pra ela. A revoluçao das comunicaçoes já está aí. pode ser importante para todos nós nos momentos de nossas vidas em que estamos em busca de um rumo: “Eu acho que é muito mais fácil você se abrir e falar com uma pessoa que você não sabe a cor. quando. ela própria diz que: 144 . E. Importante para dar segurança. embora não tendo uma relação estável. os Narcóticos Anônimos e os Vigilantes do Peso. tudo que é fora de um padrão de normalidade. que já tem dois filhos adolescentes e. por ser jovem e ter a vida pela frente.. portanto. o mesmo tipo de interesse. ou seja. que te interessam…” Ao tipo de grupo a que Kátia se refere. B ainda não revelou nada à sua família. então você tem seus espaços lá demarcados pra você poder falar sobre as suas questões.” É uma senhora responsabilidade atender o pedido de A e fazer bom proveito de depoimentos tão íntimos e valiosos quanto os de A e B. você vai falar sobre esse tipo de problema. num futuro próximo. a idade. as pontes entre as duas realidades ainda estão em construção. Os exemplos institucionais clássicos são os Alcóolicos Anônimos. ao que parece. mas que tem uma tela separando vocês. Como vimos. Para ambas. o grupo formado por pessoas que têm um mesmo tipo de problema (qualquer que seja) com o qual é difícil lidar e para o qual é difícil encontrar soluções. nos chats.

onde a tela do computador funciona como uma proteçao. que há sempre algo positivo no negativo como também algo negativo no positivo. 145 . se a nova tecnologia de telecomunicações pode gerar problemas novos. depende do quanto de equilíbrio conseguimos manter e do quanto conseguimos domar nossas primeiras reações à nova tecnologia. pois quem está do outro lado jamais saberá quem somos. E isso. Isso graças à oportunidade de conversar com pessoas com conflitos parecidos.. sabemos. podemos falar qqr [qualquer] coisa.. “..posso dizer que "resolvi" minha sexualidade.” A principal lição a ser tirada de tudo isso é a de que. com toda a certeza. se nao quisermos.. e que meus conflitos nao sao mais um problema para mim. também pode gerar soluções novas para problemas antigos. Principalmente se já pertencemos ao grupo dos não-tão-jovens. através da internet. por sua vez. Tudo depende de como nós vamos usá-la. sejam elas de horror ou de enlevo.

mas distinto da masturbação. entre a realidade virtual e a realidade “real”.” Bem. diretor da produtora Magnetoscópio. E sei. farei falar aqueles que viveram isso em primeira mão. Essas foram pessoas que conseguiram construir uma ponte inusitada.Namoros virtuais e casamentos reais A primeira vez que li alguma coisa sobre relacionamentos virtuais foi em 1994.” e “O que ocorre num ambiente virtual é para os sentimentos humanos tão real quanto são as coisas do mundo material. é estudante de artes. médica de 29 anos de idade. por relato de terceiros. onde este estuda. Até porque não se vê a cara.” E complementava: “Leva-se tempo para achar um parceiro. ainda na pré-história da Internet no Brasil. Seguem-se dois casos de namoros virtuais que se transformaram em casamentos reais. Você é quem conseguir expressar que é. Em 1995. O primeiro é o caso de Vera Costa e Antonio Sá. É como se tivéssemos que sair com um monte de gente que nunca vimos para saber quem são. Mas afirmava que isso era muito difícil. Mas não quero que o leitor tenha contato com esse novo tipo de encontro amoroso através do relato de terceiros. Solange Costa. então. sexo é pura imaginação. fiquei muito surpresa com o que Marcello dizia. isso foi em 1994. estudante universitária de 22. só linguagem. Físico não interessa. Era um artigo do videomaker Marcello Dantas. todos já sabemos de alguns casos de pessoas que acharam sua cara metade no palheiro da Internet. pelo menos até pouco tempo atrás. Quem está me acompanhando ao longo do livro já encontrou duas delas. e acaba de se casar com Antonio com quem agora reside na Inglaterra. e B.”. alguns anos depois. de outros casos. desconhecendo a cara mas conhecendo o coração. Por isso mesmo. Confesso que. O título do artigo era Um coito internacional via chips. embora somente alguns trechos desta tenham sido selecionados. acessa a rede desde janeiro de 1995. 146 . Quem faz o relato é Vera. Marcello fazia menção ao encontro amoroso na rede. que tem 25 anos. escrito para o caderno Ela de O Globo de 17 de setembro de 1994. a Rede começou a se difundir no Brasil e. O relato que se segue respeita a seqüência de perguntas e respostas da entrevista realizada face-a- face. pode ser a dois: com uma mídia no meio. Entre afirmações do tipo: “Na rede. “Achar sua cara metade na Internet é tão difícil quanto no mundo real.

foi maravilhoso. aí a gente fez os planos de eu esperar terminar o meu semestre na faculdade aqui e ir para lá no fim do ano. Aí a gente foi se conhecer pessoalmente. quase um namoro assim.Como Vera conheceu seu marido na Rede? “A gente… quando eu conheci ele. em dezembro.” No início eles não oficializavam o namoro. eu também gosto. aí a gente começou a conversar. você gosta. conversando. já tinha encontrado. Aí ele estava entrando lá pela primeira vez. e o nome que ele usava era de um cantor que eu adoro. eu estava de férias aqui. já vai mostrando um pouco dos traços.. vendo o que era. Uma é aquela pessoa que cria uma outra personalidade. Eu falo que a gente tem dois tipos de pessoa lá na Internet. ele estava lá na Inglaterra e ele usava a Internet só para e-mail. Aí algumas vezes ele entrava e a gente ia conversando. Ele é brasileiro e estava estudando lá. quando as férias chegassem. aí a gente se encontrou em Londres. Eles estão ali e usam aquilo só como veículo. assim. E outros que são a mesma coisa que eles são na vida real. legal. Depois que eu já tinha conhecido. tal. Ele estava usando pela primeira vez. E aí eu fui puxar papo com ele. se você olhar. Ele tinha férias lá. aí depois de. a conversa já estava mais pra… sei lá. criou um personagem. meio que pelo nome que ela escolheu para usar. e aí a gente ia resolver o que ia fazer. Mas a maioria do pessoal que eu conheci era essa história do teatrinho. sem entender muito bem como funcionava.” Mas nisso eles já estavam namorando? (Parece que é cada dia mais difícil saber quando se está namorando!) “Nisso a gente já estava conversando todo o dia. mas já deixavam de sair com outras pessoas. essas coisas e ele não conhecia o chat. pessoal que morava aqui no Brasil. aquela coisa… Eu ficava ‘ah.) E ele… eu conheci foi por maior acaso. trocava e-mail toda hora e aí em agosto a gente combinou de se encontrar. pra você conhecer gente de lugares diferentes e tal. Só que aí eu não agüentei de saudade aqui em outubro eu fui para lá e estou lá desde então. mil horas por dia assim desde janeiro. Aí tem muito a ver. Então eu já estava acessando há um ano. de trabalho. aquela coisa. foi em janeiro de 96. em São Paulo principalmente. sei lá. muitas das pessoas que eu tinha conhecido na Internet eu já tinha conhecido pessoalmente. eu já conhecia muita gente… Inclusive. uns 2 meses. “Eu preferi não ir mais aos IRContros. catando… Isso foi mais ou menos em janeiro. será que ele vai aparecer hoje?’ ‘hoje será que não vai’. ele continou lá estudando e aí… Só que aí eu não agüentei mais. que é a personalidade que aparece lá. Aí a gente se encontrou. 147 . aí a gente mandava e-mail..” Ela já havia freqüentado IRContros [encontros de usuários de IRC] e havia se decepcionado com o que vira. Ele tipo assim. assim. aí eu voltei. procurar coisas. na verdade. Faziam um teatrinho que não tinha nada a ver com eles. procurando. e a gente passou quinze dias lá de férias. falei ah. (.

não dava mais. não tinha como.. acho que talvez uns 2 meses. até pelo pessoal que eu já tinha conhecido mesmo.. a pessoa não tem muito a ver com você e tal. quase todas as desvantagens de um namoro. sei lá (. e ele é uma pessoa super legal.’. mas não aconteceu. babando. E eu fui. era uma coisa que a gente tinha que fazer.. a gente vai achar tudo isso que a gente acha aqui agora. que legal. tem chulé. chega. E eu não tinha vontade de sair com alguma outra pessoa só por causa disso. eu tinha uma pessoa muito legal para conversar e tal. conversar eu já sei mais ou menos o que ele pensa. me dando carinho. querendo. então é difícil. no seco!” 148 . o lado ruim. chegou num ponto que não dava. idiota.)..” Ela teve medo? “Eu ficava pensando as coisas mais idiotas. que cara legal..’ e eu também ia poder chegar pra ele e falar que ‘ó.. porque a gente não tinha nem se encontrado. mas eu tinha.... pô.’.. foi até depois de um bom tempo... se por acaso eu chegar lá e você olhar pra mim e não é nada disso’.. e eu não tinha nenhuma das vantagens. eu ficava. muita sorte. por exemplo.. aquela coisa assim. vamos ver se. pessoal gente fina’. e se um chegar lá e.. sabe? Eu não ia conseguir simplesmente chegar um dia e falar: ‘ó.. eu não. até a gente se encontrar. Bem. a gente já estava lá conversando. chegava lá ‘ah.. A gente combinou de ser assim ‘olha. eu tinha.. Não foi logo no começo não. assim tipo: tá. Então eu acho que eu dei muita sorte. já sei como é que é a cabeça dele. eu fiquei praticamente. Eu acho. não tinha como.. Eu pensava isso de montão. não é isso.. sem muito compromisso ‘olha. foi muito difícil. vamos continuar bons amigos.... sei lá. falava e tal.. aquela coisa. E a gente sabia. e não tinha como. vamos dizer. eu estava apaixonada mesmo. quando eu fui pra lá a gente foi assim. obviamente.. então vamos ver. Eu cheguei lá e foi muito melhor.” Tinham trocado fotos? “A gente trocou foto. e aí quando você conhece não é bem aquilo. Então esse lado meio físico e tal foi muito complicado. quando a gente se encontrar. me dando apoio. precisando...’ E como lidou com a ausência de contato físico? “Eu tinha assim. mas depois de um determinado tempo. a gente já tinha tanta intimidade que ele ia poder chegar pra mim e falar ‘ah. porque eu não tinha alguém do meu lado. a gente apostou tudo. mas eu nunca falei para ninguém ‘é meu namorado’. ‘eu não vou sair com mais ninguém aqui’. do que pela Internet. mas não. era assim. Eu acho que eu dei sorte porque. pessoalmente. E ao mesmo tempo eu também não queria sair mais com ninguém. né.. eu tinha. eu . era aquela coisa.“A gente não falava. não tinha vontade. boba. eu acho que eu dei sorte. esqueci!’ fingir que não aconteceu. não vou mais falar com você. 3 meses que a gente trocou foto pela 1ª vez. tem bafo..” O que Vera achou de conhecer na Internet uma pessoa com quem acabou se casando? “Olha. vamos dizer até de brigar. de janeiro até agosto. que garota legal..

com ele não. um maluco. Até porque quando a gente combinou a viagem. Todo mundo não. a gente não combinou nada e eu falei ‘ah. você pode ser o que você quiser. Aí também foi o maior nervoso. Mas eu não acho impossível não. Aí a gente começou a falar por telefone mesmo. eu te amo.. Porque. a primeira vez fui eu que liguei. exatamente do jeito que eu imaginei.. mas quando a gente se encontrou e quando a gente já estava junto isso também ja não fazia mais a menor diferença.. não uns 2 meses antes de eu ir pra lá a gente começou por telefone. mas eu duvido que.) aqui em casa era legal porque todo mundo estava na Internet. atrás de um cara que você nunca viu na vida. como reagiu? “(.” E a família de Vera.. que bom... eu tenho 2 irmãs e 1 irmão e minhas duas irmãs acessam. ‘como você vai largar tudo aqui. aquela coisa.. ouvir a voz. até acho que.. não foi nada diferente do que eu estava esperando. Como meu pai já acessava. eu acho que já tiveram vários casos. então eles não me achavam uma maluca. 149 . Mas eu pensava assim. Porque também tem essa. E também foi. cinco. Então tinha briga no computador. a não ser que o cara fosse assim o melhor ator que existe no mundo! Porque a gente conversava todo dia. Não. igual. saber como é que é. pelo que eu li. era muito difícil. dez horas. na maioria dos casos não era uma coisa assim que as pessoas já se correspondiam há tanto tempo.. e meu pai falava. então eles não achavam tão louco. ele não era.. Eu estava apaixonada por aquela pessoa que estava ali. tem muita gente que às vezes você está conversando e não sabe nem se é homem.. se é mulher. né. direto! Então era complicado. ele não era não. no hotel. porque. né. eu cheguei e liguei de supresa. né. Eu acho que pode ter. né? Não ia mandar também qualquer foto pra ele e eu aposto que ele também escolheu bem a que ele mandou pra mim. assim.. e se for um estuprador. era muita. então a gente vai ficar junto.) depois de tanto tempo.O contato telefônico. então até foi o que ajudou muito também.. (. E quanto à personalidade. não vou dizer que era. quer dizer... Minha mãe achava que eu era louca.... não é. Então se eu chegasse lá e. sabe. às vezes. tudo que eu vi até hoje era igual. eles já conhecerem. pelo que ele era. ‘não. até porque foto.. meu irmão não. já era tipo assim.’ Mas aí teve também antes que a gente começou a se falar por telefone... não vou te dizer que foi uma coisa que nem passou pela minha cabeça.. sei lá. hoje sou eu’. a gente já estar um tempo enfronhado com isso assim. era muito difícil. oito. “Aí a gente trocou foto e tal e tipo assim ‘ah. uns 2 ou 3 meses antes de eu ir. sabendo tanto da pessoa. um tarado?’. Só realmente fisicamente. E. E meu pai também acessava. era igual.” E Vera tinha esse medo? “Eu tinha. vou ligar’. você pode ser qualquer coisa lá. Então isso também ajudou bastante. Primeiro porque quando você vai mandar vai escolher aquela. você cria uma imagem daquela pessoa na sua cabeça.. Mas o jeito dele. porque nem isso tinha. quatro. três. eu te adoro. igualzinho ao que ele tinha me mostrado e igual ao que eu tinha imaginado encontrar mesmo. mas podia ser. passou.. Eu acho difícil uma pessoa criar isso tudo durante tanto tempo.

blá. contente. a maioria dos casos também que eu conheço não é exatamente igual ao nosso não. tapar o buraco’. eu falo pra ele. eu me apaixonei pela pessoa que ele é. (. Porque também tem aquelas coisas. amarelo. E foi exatamente o contrário. roxo. Então é. Eu ainda fiquei mil vezes. não sei.” 150 .. eles não estão morando juntos nem nada assim. então o jeito deles conversarem era pela Internet. E muito menos doloroso do que você fazer isso pessoalmente. Se aquilo fosse sincero. Eu não conheço ainda. eu não acredito. do jeito que ele é. você está muito próximo. sozinho.como é que vocês se conheceram?’ E ele ‘que isso! Até lá vai estar normal!’. entendeu? Aí depois eles conversavam. e lá você não tem essas barreiras. Então.) Ele achava uma maluquice. blá. eu acho que é muito fácil de você conhecer alguém.. será que é. meu namoro agora foi uma tragédia. se você estiver sendo sincero. entendeu. não.. aí você vai ver se você realmente gosta.. eu amava aquilo ali. se você quer conhecer a pessoa. legal’. mas eu acho que não era. é porque eu estou aqui há tanto tempo. né. Porque às vezes pra você conversar certo tipo de coisa é mais difícil. Eles nem se conheciam na Internet. quer dizer.. eu não conheci ninguém que casou.. E eu acho que vai mesmo. ou verde.. e. e resolveram se encontrar não me lembro onde e hoje ele está morando nos EUA por causa dela. Muito próximo. é muito fácil você se liberar e contar coisas que você não contaria tão facilmente pra alguém. blá. Mas eu conheço um outro cara que. Porque é um jeito de você conhecer muito a pessoa. E eu acho mais legal porque.. Eu acho que não é o veículo pra você ir procurando isso. aí você vai conversar. Mas eu falava com meu marido assim: ‘imagina no dia em que os nossos filhos perguntarem -.. eu acho que é muito fácil de você conhecer. ‘gente. se você está procurando uma coisa de verdade.. mas por acaso ela conheceu ele num IRContro.. feliz. você não se abre tão facilmente e tal. a pessoa fica falando aquele monte de coisa e não é nada daquilo.. se você não estiver inventando alguma coisa que você não é. blá.. aí você se interessa e aí você vai conhecer. A única coisa que eu acho é que não é.(.. sem ninguém’ e aí ficava fazendo aquelas análises psicológicas todas. aquela coisa. eu estou ficando doido’ ‘ah. Então eu até. Eles fizeram assim o caminho contrário. você olha e fala ‘pô.) Normalmente é o contrário. mas eu acho que não era isso não. baixo. porque tinha acabado de conhecer aquilo e ele ficava ‘como pode?’ e tal. é que nem essa agência matrimonial. estou tão carente que eu preciso encontrar alguém. aquele cara é bonitinho e tal. Mas eu conheço várias pessoas que estão namorando. mas eles pretendem até casar e tal. E foi exatamente o que eu encontrei quando eu encontrei com ele pessoalmente. mas eu acho que pode acontecer facilmente. Então eu acho que vai ser uma coisa cada vez mais freqüente. eu já amava a pessoa que ele era. ou gordo. Não tem barreira nenhuma. blá. mas tipo assim.. que vai acontecer cada vez mais? “Eu acho. eu acho que é. porque ele morava em São Paulo e ela morava aqui.” E Vera acha que o que aconteceu com eles é uma coisa comum. magro. minha irmã namorou um cara. hoje eu tenho certeza que não era porque senão a gente não ia estar junto assim até hoje. ele era português e conheceu essa menina que é brasileira e está morando nos EUA e eles também só se falavam pela Internet. ‘não é possível. não me importava se ele fosse azul.

com muito medo de tudo e achando que os chats eram um meio de se esconder. como dois desconhecidos vieram a se amar e a querer ser parceiros de vida via Rede. mais tarde fotos e telefonemas. revelaram uma seqüência de etapas análoga à de Vera e Antônio. foi indo.45 Renata: “Aí começa a ficar mais real. mas quando eu mandava e-mail para ela o provedor dela estava com problema o e-mail não chegava. experiente em chats. Primeiro houve o contato no chat.” Renata: “É. tal… E carta também a gente mandava. porque a gente só trocava e-mail.. Vai. aí a gente voltou a falar.. e Jorge Magalhães. a gente ficava o dia inteiro mandando e-mail. a gente marcou. ficar lá sozinho. né? O dia inteiro. aí no final a gente trocou e-mail. Um belo dia. Aí a gente. sou eu. direto. eu estava conversando com todo mundo. A gente falava quase todo dia. [Vocês ficaram com receio de não 45 Ver a discussão sobre o medo de pirar em Os prós e contras dos relacionamentos virtuais. Você vê a voz. foi indo. aí depois eu acho que devo ter mandado uma mensagem para ele e a gente começou a conversar só eu e ele. Será que tudo isso não se deve a uma grande carência afetiva? Mas.. quando se encontram. depois a troca de e-mails. desse dia. são um outro exemplo de um romance que deu certo. Tanto Vera quanto Antonio chegam a duvidar da sua sanidade mental. Encontraram-se num chat quando Renata estava dando seus primeiros passos na Rede. aí sempre acessava. se reencontrou nesse chat da Folha de São Paulo e dali a gente foi embora porque aí a gente já terminava a conversa do dia marcando para o dia seguinte ou para o outro dia. Aí numa confusão na sala eu expliquei qual era o meu nick antigo.” Renata: “E-mail o dia inteiro também. por alguma… mas eu já tinha dado o endereço do chat em que eu ficava. Renata Borges. Aí você vai pro reservado. lembra de mim?”. neste bloco. uma decisão radical: Vera resolve ir encontrar Antonio.. desse primeiro dia. no outro dia a gente foi de novo… Aí foi indo.” Renata e Jorge em pouco tempo trocam telefones e a coisa fica um pouco mais real aplacando um pouco o medo de ambos. 151 . aí a gente não conseguiu se encontrar de novo porque o provedor dela estava com problema e aí. em primeira mão.A entrevista é longa para que o meu leitor possa saber. conseguem estabelecer a ponte entre as duas realidades.. Aí combinamos para um outro dia. Ambos foram sinceros todo o tempo e tudo deu certo. né? Depois que você fala no telefone. aí a gente ficou falando sozinho.” Jorge: “Aí a gente trocou e-mail. Tiveram sorte e sabem disso. sabia da paranóia que ronda esses canais por conta do quanto neles se mente. sei lá. bioquímico de 30. estudante de psicologia de 23 anos. Numa entrevista em que os dois estavam presentes e que também é longa demais para ser transcrita na íntegra. digamos assim. Renata achava que a coisa era de “pirar” e Jorge.. receosa e incrédula.” Jorge: “Se bem que no nosso caso. aí por algum acaso ela estava lá e aí entrei até com outro nick. na mesma hora. Como se deu o “processo”? Renata: “Eu estava conversando com uma outra pessoa. Acharam sua cara metade. aí ela estava coincidentemente na sala e falou: “Olha.

nesse negócio de falar quase sempre. que começaram a trocar e-mails no primeiro dia. ainda duvidava que ele vivesse fora do país. pode não ser nada daquilo. janeiro inteiro. foi uma coisa assim meio natural. a pessoa que tá do outro lado pode ser uma coisa. não sei… Eu acho que essa mentira do jeito que foi ia ser difícil de ser levada até o final. engraçado. batia. mandar carta… Ia ser impossível você levar aquilo ali. E foi engraçado que quando a gente falou pela primeira vez. aquela coisa assim de todo mundo conhece todo mundo. era para ver se tinha chegado dela.” A partir de um ponto Renata. e aí logo depois a gente trocou a foto. acho que na primeira semana… É. Parece se esquecer. ela tinha falado que tinha olho claro e tudo e aí eu falei assim para ela: ‘É.” Jorge: “Eu já tinha falado bastante em chat antes de falar com ela e essa ‘nóia’ sempre rola. era muito mais Internet do que telefone. aí você começa a trocar informação e você vê que a pessoa mentiu para você. aí. mas muito rápido. todo dia. E o que você mais vê é mentira também. Todo mundo na Internet é louro de olho azul. então é uma coisa assim impressionante. passava e-mail só para ela… Aí você começa a ver que naturalmente você caiu naquele lance do namoro. agora. Porque todo mundo fala. por exemplo. Renata: “Aí quando mandou e-mail já é diferente. Porque a gente mandou por e-mail. porque não chegava lá no provedor dela.” Renata continuava insegura e. porque a gente ficou dezembro inteiro. a despeito dos telefonemas. Deve ter batido uma vez só. eu. mas com ela foi meio diferente a coisa. Quando checava e-mail. não dá para… Depois a gente fica sabendo… É engraçado como o chat rola. várias. a gente trocou a foto e eu recebi a foto dela e ela não recebia a minha.ser verdade ou de alguém estar brincando com vocês?] Ah. mas basicamente… Acho que era. Porque tem aquela coisa. Não sei por que. nessa Internet’. você começa a ter um compromisso no sentido de que eu ia. eu quero ir só para falar com ela. no telefone falar também. eu comecei a ir só quando eu marcava com ela… Então você começa a ver que naturalmente.] Quando perceberam que estavam namorando? Vera e Antonio levaram algum tempo mas Jorge percebeu rapidamente. ia cair numa contradição algum dia. Mas era tudo via Internet mesmo e telefone. sou loura de olho azul’.” 152 . Vera e Antonio também fizeram isso. brinquei. você já vê o endereço. alguma coisa. Jorge: “Ah. sem nenhuma cobrança. aliás é um procedimento comum nos chats. tal como Vera. Aí eu falei até isso para ela. nesse chat todo mundo tem olho claro. quer dizer. Eu comecei a ver assim. Jorge (a respeito das fotos): “Trocamos. de que a pessoa está mentindo e tudo sempre tem. começa a achar que fica difícil alguém mentir por tanto tempo com tanta convicção e começa a relaxar. Chega a hora de trocar fotos. que andava muito pela Internet. você tá ali falando. Você conversa com todo mundo: ‘ah não.” [Renata e Jorge passavam uma média de 4 horas por dia se falando via Internet. mas essa paranóia. acho não. o que.

mas mais pelo computador eu digo até. de fevereiro.” Jorge: “É. né? Quando você está ali… Porque 153 . né? Não era aquela coisa… A gente não ficou: ‘aaah…’ e se decepcionou. é horrível. era o que a gente esperava. estava acontecendo ali na hora. Mas quando você começa a se aprofundar em um relacionamento via computador. a gente… era mais ou menos o que a gente esperava. Deu para passar… E também tem uma dificuldade que você tem que se expressar muito bem escrevendo. alguma coisa do gênero. uma coisa assim que não dava para ela aproveitar a noite aqui…Porque eu pensava: ‘Se ela ficar é porque tem alguma coisa a ver’. Agora. Agora. liguei para ela do aeroporto.Mesmo contando um pouco com o incerto. Renata e Jorge. principalmente nos finais de semana. começa a bater aquela ‘nóia’ que uma tela separa vocês dois. Aí eu pensava: ‘pô.) Era brabo. mas não um medo de: ‘pode ser diferente ou não pode?’. mas eu acho que o ideal seria você conhecer e marcar um encontro. Só ansiedade. e que já sabia que tinha muito a ver. Era um nervoso. também. Não só o nosso caso. não teve tanto. tipo assim. Eu estava nervoso no sentido de que uma coisa que eu estava esperando tanto. ali. foram deixando de sair com outras pessoas e ficando mais nos chats. de falar. nesse negócio de surpreender.” Como foi essa “quebra da virtualidade” ou a inauguração da ponte entre as duas realidades? Renata: “Engraçado que a gente conheceu tão bem por ali. eu acho que quando a coisa começa a ficar constante. foi. que… não sei. Um contato via computador é legal assim você conhecer. E as coisas acontecem mesmo. eu com ela. quando as tarifas telefônicas são mais baratas. tal qual Vera admite ter sido o seu caso. eu cheguei dia 5. assim.” Jorge vem ao Brasil e eles decidem marcar um encontro. Como foi esse encontro? Sentiram medo? Renata: “Medo não. eu acho que é horrível. Isso daí é o tempo inteiro. no dia mesmo. ouvindo a minha história. de você encontrar essa pessoa todo o tempo. de querer… uma ansiedade.. sexta e sábado. pelo computador. eu sei que se você não está lá não dá para você opinar. mas milhões de outros casos que eu soube. eu acho que é uma faca de dois gumes. deixei tudo na casa do meu pai e a gente saiu no dia 5 mesmo. Porque assim.” E a ausência de contato físico? Como foi sentida? “. Porque é estranho. Ao mesmo tempo que eu acho que é super prático você estar acionando um computador e achar alguém. porque.. entendeu? Eu acho que tem muito isso. pelo telefone. eu marcava muito com ela. de você querer falar com essa pessoa. na hora. quando me colocava na posição dos outros. que as coisas acontecem mesmo. medo não.. eu falava e chegou no final a gente já estava tão estressado com aquela tela ali que a gente acabava ficando desanimado(. na tela ali.. uma pessoa que está abrindo mão de um final de semana para ficar aqui… tem alguma coisa a ver’. Não achavam isso loucura? Jorge: “Eu mesmo. eu falaria: ‘Esse cara é louco’. Tinha.

né? É porque eu falava direto isso… De outubro a fevereiro. agora. eles já falavam em noivado e casamento.. Toda essa mudança teve. Várias vezes… Tanto que agora eu mandei um e-mail para ela.. ou não. na posição social. o tempo inteiro. políticos. muitas ou poucas dúvidas.. muitos ou poucos medos. caminho percorrido por Vera e Antonio bem como por Renata e Jorge.. eu estou só ajeitando aqui meu casamento’. no círculo de amizades. telefonemas. o processo de industrialização levou as pessoas a morarem sozinhas em grandes cidades e alterou profundamente seus modos de viver. é… de falar. Os outros achavam que estavam malucos. Aí ela achava que eu era maluco. uma frase que agrada. Quantos mais trilharão caminhos análogos? O futuro nos dirá. hoje sabemos. o surgimento do casamento por amor para substituir a tradicional união contratual que tinha ganhos financeiros. Ele não entendia… Aí…” Antes mesmo de “quebrar a virtualidade”. até pouco tempo inédito. chats. e-mails. Porque a gente ficou noivo tinha dez dias depois de eu chegar. Aí eu falava: ‘Não. etc. trocas de fotos. 154 .) eu falava [com os outros] de uma maneira tão natural que o pessoal pensava que eu estava maluco. Você não sabe se a pessoa está te dizendo uma coisa fazendo uma ironia e rindo.” Um apelido que chama a atenção. No século passado.? Esperemos. Eles não entendiam muito… Na época eu tinha uma amiga que morava comigo e ela entrava no quarto e falava: ‘Cara. Mas o casamento por amor.. e ela falando que ela não está acreditando. uma viagem longa e um encontro físico com uma pessoa que já se conhece por dentro há muito. quando eu cheguei. você não sai daí!’ e eu estava o tempo inteiro no chat com ela. ainda em seus primeiros estágios. muitos devem ter achado que aquilo era irrelevante ou loucura. como uma de suas conseqüências.a gente tinha vários momentos… Vários desentendimentos. Esse foi o. a gente já falava de ficar noivo logo (. A resposta está no futuro. então aconteciam algumas vezes assim. Jorge: “Agora. falando sério.. testes de veracidade para servir de um mínimo de proteção contra a insinceridade alheia. etc. e esse futuro não tardará a chegar. a coisa foi tão assim que a gente. mesmo via computador e telefone. como finalidade. mandar uma mensagem que você não está vendo a expressão. Que eu sempre falei com ela isso. sobreviveu. Sobreviverão agora os relacionamentos que invertem a tradicional seqüência de etapas que tem início nas aparências. Naquela época.

Mas. encontramos alguns dos mesmos ingredientes que já vimos nos depoimentos de Vera. Parecia real as coisas que sentíamos. (. Ela conheceu alguém via Rede. Qdo recebo um mail dele. não é nenhum mar de rosas. tal como este do qual escrevo. Me incomodava isso. Tive um romance uma vez. Em depoimento enviado por e-mail. mas falamos com o coração. mas sinto muito ciumes dele. Há.” Nesse depoimento de Rosa. filho. Mas ela continuou tendo sentimentos. fico super contente.. ao que tudo 155 . ficou confusa com o fato de seus sentimentos parecerem “reais” e achou que isso era devido ao fato de que estava se sentindo carente. Renata e Jorge. com os quais o leitor acaba de travar contato. Ela acessa a Rede há somente 9 meses. Sentiamos muito a falta um do outro. A situação ficou sem controle. a principal dessas diferenças é que tudo acabou antes mesmo de Rosa e seu namorado virtual se conhecerem. Por isso mesmo. tenho um filho de 9 anos e não saio muito de casa.) Na internet. pq já passei por experiencias de separação. se enamorou. no entanto. E. Foi casada e já passou pela experiência de uma desilusão e separação bastante “reais”. meu leitor. Trocamos fotos. Nunca nos encontramos pessoalmente. Terminamos e senti um enorme sentimento de perda. Rosa nos relata agora uma desilusão virtual que ela associa à perda por ela vivida quando desfez um relacionamento tão real que havia gerado um filho. Rosa Leite é professora de francês e tem 38 anos de idade. acontece uma coisa que poucos entendem. trocou fotos com esse alguém. me sinto protegida qdo [quando] ele está na mesma sala que eu.) “Sou separada. pq [porque] como poderia sentir tantos sentimentos. me senti muito confundida.Desilusões reais e virtuais O ciberespaço. Minhas reações eram de uma adolescente. algumas diferenças entre esse curto relato escrito de uma desilusão amorosa e os longos e detalhados depoimentos ao vivo de grandes encontros. Somos amigos(?). se nem ao menos tinhamos dado um beijo? Achava que era pq estava me sentindo carente. O meio é virtual. seguem-se dois relatos de decepções bastante amargas. qdo estávamos juntos. para não deixar você. etc. com a falsa impressão de que tudo acaba em happy end.. (Novamente foram preservadas as características e os erros da linguagem online nesse depoimento.

Eles estão ali e usam aquilo só como veículo. ela não sabe se é você vocês as vezes nem se falam porque ou não gostaram. sente ciúmes.indica bastante “reais”. porque além de ter sido muito engraçada. que é a personalidade que aparece lá. embora de menor grau de seriedade. acontece uma coisa que poucos entendem. Peço a Vera alguma ajuda para entender o que pode ter acontecido. como Kátia Assunção tiveram outras experiências frustrantes. por mínima que seja. Aí tem muito a ver. a pessoa fala: eu tenho cabelo curto liso. que tem um monte de coisa atrás disso e que você precisa colocar essa sua expectativa em stand by [em estado de alerta] e ver o que é que é. prestativa. em relação a ele. pra você conhecer gente de lugares diferentes e tal. Elas tentaram conhecer ao vivo as pessoas que conheciam apenas virtualmente e se frustraram. já vai mostrando um pouco dos traços.” Pode ser que Rosa tenha tido azar e dado crédito a um desses personagens de teatro amador. ao mesmo tempo. que a pessoa não é só a palavra.. se você olhar. na verdade. Você vê uma palavrinha na tela você se apaixona pela palavra e ai você. Mas você entra no lugar a espera da pessoa. “É muito doido. Quando eu digo te apaixona é que te interessa. que pode servir de forma de defesa ou proteção. Vera. e. Renata e Jorge temiam. meio que pelo nome que ela escolheu para usar. você fala: sou de cabelo curtinho.. agora. embora ainda confinados ao espaço virtual. mas. Quando você vai marcar um encontro com alguém você tem que trabalhar exatamente essa sua expectativa. Teve um “enorme sentimento de perda” logo que houve o rompimento. a pessoa entra você não sabe se é ela. e você cria uma expectativa louca porque a palavra é tudo. se sente protegida quando ele está na mesma “sala” (ou canal) que ela. Ele tipo assim. enroladinho. E outros que são a mesma coisa que eles são na vida real. é uma loucura porque você só vai marcar um encontro com uma pessoa se essa pessoa de alguma forma te apaixona. porque você marca num lugar mas você não sabe exatamente como essa pessoa é [ao que parece.. contra as decepções originadas pelos encontros onde há o que é chamado de “quebra de virtualidade”. Então é uma coisa muito complicada. Mas no meu caso não. O meio é virtual. Antonio. Algumas pessoas. Kátia chega a sugerir uma estratégia. A minha experiência foi super agradável.” faz crer que talvez ela tenha sido vítima da insinceridade que Vera. Baseada na sua experiência. Uma é aquela pessoa que cria uma outra personalidade. mas falamos com o coração. alguns encontros ocorrem mesmo antes da troca de fotos]. Mas a maioria do pessoal que eu conheci era essa história do teatrinho. Eu que fui falar com a pessoa porque eu 156 . Ela não fornece mais detalhes a respeito de sua desilusão mas a sua afirmação de que “Na internet. analisa: “Eu falo que a gente tem dois tipos de pessoa lá na Internet.. Faziam um teatrinho que não tinha nada a ver com eles. criou um personagem.

talvez não tenha tomado certas precauções. com a convivência diária ela foi descobrindo que Sebastião era egoísta. pior. Mas. também trocou fotos e telefonemas. um belo dia.e como! -. mas é um pouco frustrante. Talvez ela tenha se precipitado. De qualquer modo. você na tela é muito diferente de você ao vivo. Mas. de Dina Álvares. não tenho informações a esse respeito. Para isso. No começo.. dado que Sebastião não poderia se mudar por conta de compromissos profissionais e familiares. Dina deixou sua cidade natal. isso não aconteceu. também conheceu alguém num chat. o relacionamento “real” de Dina e Sebastião não durou muito. No entanto. entendeu ? (risos)” Mas vejamos o caso. ela não teve mais opção. Depois de algum tempo de namoro virtual. Era desse tipo de coisa que Vera e Antonio bem como Renata e Jorge tinham medo. Ele a expulsou da casa que era dele e ela teve que voltar para a casa de sua família. atribuía tudo às habituais fases de adaptação de qualquer casamento convencional.. etc. Mas. bem mais complexo. que só queria as coisas do seu jeito.. apegada que estava a esse relacionamento cujo começo havia sido inédito. começou a ser alvo de “suas explosões violentas e de seus comportamentos grosseiros”. que a tratava com indiferença. Já Dina não teve a mesma sorte. conheceu Sebastião Dias pessoalmente e. com quem havia brigado para viver com Sebastião. Eles deram sorte e sabem disso. no caso deles. tal como Vera/Antonio e Renata/Jorge.. Ela. diferentemente de Vera/Antônio e Renata/Jorge. na vida que chamamos de real mas onde muitas vezes só conseguimos enxergar da realidade aquilo que queremos ver! 157 . Dina. E. descobri que era e de alguma forma foi legal porque foi divertido. também teve medo e também teve coragem. é bom que não nos esqueçamos de que isso também acontece -. a gente continuou a ter um certo vínculo.do lado de fora da Rede. eles fizeram planos de filhos. Fico pensando em até que ponto as pessoas ao vivo são frustrantes. segundo o relato de Dina. de viagens. Dina relata ter sofrido muito sem sequer poder pensar em voltar para a casa de seus pais. como ambos gostaram do que viram. logo após foram viver juntos.

Os prós e contras dos relacionamentos virtuais

“Eu adoro a Internet. Mas ultimamente tenho tido um pouco de sentimento de
frustração, pelo seguinte. A Internet nos põe em contato com pessoas de todo o
mundo. E a gente fica amiga delas, ou até mais que isso, e chega uma hora que
não tem ciberespaço, mundo virtual, que dê jeito. A gente quer mais é encontrar,
ficar junto, conversar de verdade. Tenho tido um sentimento tipo: a rede é uma
vitrine que me mostra um mundo maravilhoso, mas na hora que vou pegar dou de
cara no vidro. Agora eles têm que inventar o teletransporte.”

Quem escreve isso, num e-mail, é Adriana Rosas, jornalista de 26 anos. E Adriana tem
razão: a ilusão de proximidade, conhecimento e intimidade a despeito das, às vezes
enormes, distâncias geográficas é um dos contras da virtualidade.

Quais são alguns outros? Um dos mais sérios é a fuga da realidade “real”, quando essa
não é, ou não está, das melhores, o que, muito provavelmente, é parte do que está por
trás do tão alardeado vício na Rede, principalmente nos chats. Peço a Rosa Leite, a
professora de francês de 38 anos de idade que já sofreu uma grande desilusão na
Rede, que me ajude a tornar isso claro para o meu leitor. Rosa o faz dando o próprio
exemplo. Ele, que também chegou por e-mail, é longo e carregado de emoção.

“Quando estou triste entro na internet e esqueço de tudo. Me renovo. Quando tem
uma pessoa que me enche o saco eu simplesmente ignoro e não vejo o que a
pessoa escreve. Mas, isso nunca aconteceu. (...) Tenho muitos amigos
verdadeiros na internet. Poucos ou nenhum no real. Vivo em dois mundos. Não
tem pq [porque] meus amigos mentirem para mim, se além de estarmos longe,
não poderemos usar nada do que é dito confidencialmente, para prejudicar ou
falarmos para outras pessoas. Tudo fica em segredo mesmo. Não minto.
Acesso a internet, todos os dias. Saio pouco com o pessoal do meu trabalho.
Mesmo saindo pouco, deixei de sair com eles para ficar na internet.Todos me
criticam por eu não sair com eles. Minha programação é só em casas que tenham
internet ou um computador. Minha irmã reclama que eu não dou atenção à minha
familia. Faço o serviço da casa, dou a refeição , mas qdo entro na internet, pode o
mundo cair. O virtual é bem melhor do que o real. No real vc [você] tem que
conviver com pessoas más. Aqui é mais facil de lidar com elas. Atualmente, estou
me policiando. Estou reduzindo os dias. Cheguei a um ponto que estou viciada e
isso está me trazendo problemas de ordem social e pq não dizer financeiros. Qdo
começa a dar a hora de eu entrar, por volta as 21:00, fico ansiosa e como mais,
fico mais agressiva tb [também] pq estou evitando me conectar. Fico pensando em
quem poderia estar na sala, penso em ver o mail. Tudo motivo para eu me
conectar. Está difícil, qdo [quando] não é o dia de eu me conectar. Fico muito
ansiosa!! Em geral, me conecto todas as noites nos dias de semana até qdo me
dá sono , sábados e domingos a partir das 16:00. até a hora que acaba Sai de
Baixo. Nas férias, fiquei de manhã, tarde e noite, sem horários. Fazia uma coisa
em casa e o computador ficou ligado direto. Passava e-mail para todos. Entrava
no ICQ. Foi Ótimo. Não viajei, para ficar na internet. Qdo fico sozinha, fico a noite
inteira.

158

Fico nos lugares, só pensando na internet. Estou fazendo um curso de infomatica
pelo meu trabalho, leio só livros de informática. Vejo programas de informática.
Falo só de computador, mas estou passando por um treinamento e estou
diminuindo esse quadro. Espero ter ajudado em alguma coisa.”

Tenho certeza de que meu leitor não tem dúvida de que Rosa ajudou, e muito, ao nos
ofertar esse depoimento tão sincero, no qual ela revela o seu vício e descreve algo que,
fosse a Internet uma droga da qual a pessoa estivesse tentando se livrar,
provavelmente seria chamado de síndrome de abstinência. (Na realidade, o uso da
Internet foi, recentemente, comparado ao uso da cocaína pelo psicólogo britânico Mark
Griffiths, professor da Universidade de Trent. A comparação foi feita em virtude da
semelhança dos sintomas apresentados pelos viciados em ambas.)46

O depoimento de Rosa nos mostra um uso perigoso da Internet porque, Rosa
certamente sabe disso, não dá para resolver os problemas do mundo “real” desse jeito.
Simplesmente se desconectar da vida e do contato direto e olho-no-olho com os outros
não vai resolver os problemas nem de Rosa nem de ninguém. Muito pelo contrário, a
vivência cotidiana de duas realidades que não se interpenetram pode ser muito
angustiante e é vivida como “pirante” por muitos usuários. Além disso, viver
exclusivamente nessa realidade -- quer dizer, quase que exclusivamente porque
ninguém pode viver num espaço que não tem existência física -- certamente torna o
usuário presa fácil de mentiras e manipulações, o que, por sua vez, pode gerar grandes
decepções e sofrimentos e acabar transformando a vida virtual num inferno paralelo ao
inferno da vida “real”, do qual esses mesmos usuários estão tentando escapar.

Esse é um uso bastante diferente daqueles que foram discutidos ao longo das páginas
deste bloco e que podem ser vistos como fazendo parte dos prós da virtualidade. A
Internet, como já foi dito, pode funcionar muito bem como uma fonte de auto-
conhecimento; como um recurso para que encontremos pessoas com as quais
possamos nos identificar, sejam quais forem os nossos problemas, gostos, inclinações
sexuais, e com as quais podemos ter muito o que aprender; como um auxílio para a
ruptura de preconceitos; como uma fonte inesgotável de informações a respeito de
diferentes formas de viver, pensar e sentir, etc. Mas, para isso, o usuário tem que
aprender a construir algum tipo de ponte entre a realidade virtual e a “real”.

Esses são apenas alguns prós e contras dos ainda recentes relacionamentos virtuais
que, tenho certeza, ainda darão muito o que falar, tendo em vista as mudanças que
introduzem nas vidas de todos aqueles que mantêm algum tipo de relacionamento
ciberespacial.

Como tudo isso é muito novo e ninguém sabe ao certo como usar esse poderoso
instrumento de comunicação que é a própria Rede, é importante que tomemos distância
e analisemos cada aspecto de cada mudança que esse instrumento introduz nos
relacionamentos humanos. O que acabamos de fazer foi colocar no papel aquelas que
são meramente as primeiras considerações de muitas que serão necessárias para que
possamos dar conta da complexidade da troca rápida, quando não instantânea, de
sentimentos e emoções via computadores interligados.

46
Ver também a referência a Timothy Leary, o papa do LSD da década de 1960, na seção Agilidade,
integração e relativização do bloco NOVA LÓGICA
159

Como não podemos analisar tudo o que já existe e, muito menos ainda, aquilo que
ainda está por vir, talvez o mais importante, no momento, seja sabermos que temos que
aprender a construir, e ajudar a construir, defesas internas e externas para lidar com os
contras desse tipo de relacionamento, para que ele não gere sofrimento desnecessário
e para evitar que algumas pessoas literalmente pirem. Temos que saber dar crédito e
ouvidos aos medos de usuários e ainda-não-usuários. Estes são expressos, inclusive,
em filmes como A Rede, em que a personagem principal, ao perder sua identidade na
Internet, perde também sua identidade no mundo “real”, pois todos só a conhecem
virtualmente, e a mãe, sua única parente viva, não pode reconhecê-la porque também
vive num universo paralelo por conta de problemas mentais. Temos, também, que
prestar atenção à preocupação com a própria sanidade mental, que é bastante
difundida entre os usuários, embora geralmente sob a forma de brincadeira.47

Por outro lado, devemos investir em outro aprendizado. Temos que aprender a explorar
o potencial de todo e qualquer dos vários prós dos relacionamentos virtuais, prós esses
que geralmente são deixados de lado face ao arrebatamento e a atenção gerados pelo
medo e também pelo fascínio dos contras.

47
Leia mais a respeito do medo de pirar na discussão sobre a lógica dos excessos em NOVA LÓGICA.
160

e esses 1.' .4 megabytes não muito tempo depois. apesar de não ter feito nenhuma profecia. sobre o microchip.Bill Gates. dei início à viagem. E eles disseram 'Não'. montado com algumas de suas partes.. prevendo o implacável progresso da ciência. Paguem nossos salários e viremos trabalhar para vocês'. recebi. pela experiência profissional) me disse que os impactos da nova tecnologia não seriam pequenos.." -- Popular Mechanics. em 1943. "Acredito que exista um mercado mundial em torno de cinco computadores. Como relatei no início deste livro.CONSOLIDANDO IMPRESSÕES E CONFIRMANDO INTUIÇÕES No dia 19 de julho de 1997. minha intuição me disse que homens. Ainda nessa primeiríssima vez. organizada por Dario Mor. presidente e fundador da Digital Equipment Corp.. minha intuição (guiada. quando tentou que a Atari e a H-P se interessassem pelo seu projeto e de Steve Wozniak de um computador pessoal.. em 1968. em 1981. "640K [640 kilobytes] deverão ser suficientes para qualquer um.5 toneladas.br>. Mais explicitamente." -..com. feita por Daniel Marques <dmarques@rio. mulheres e crianças teriam suas formas de conceber o mundo e a realidade." -- Steve Jobs. é fato. correndo o risco de também estar enganada. para que serve isto?" -. em 1949.. [Um único disquete de 3 ½ polegadas passou a ter 1. presidente da IBM. As profecias eram as seguintes: "No futuro os computadores não deverão pesar mais do que 1. Então fomos para a Hewlett-Packard com a mesma oferta e eles disseram 'Bem. em 1977. suas formas de se relacionar com os outros 161 . Por que dou início às minhas últimas considerações neste livro citando essas profecias que se mostraram completamente equivocadas? Porque. o que vocês acham de nos ajudar financeiramente? Ou então até damos este produto para vocês." -- Ken Olson. na primeiríssima vez em que me conectei à Rede tive a impressão de que estava diante de uma nova Revolução.4MB são insuficientes para armazenar vários de nossos arquivos!] "Então fomos à Atari e dissemos: 'Bem. que agora se aproxima do seu ponto final. não precisamos de vocês. Queremos apenas fazê-lo. "Mas.Engenheiro da Divisão de Sistemas de Computadores da IBM. Vocês ainda nem passaram pela faculdade. nós temos este produto maravilhoso.nutecnet. "Não existe nenhuma razão para que alguém queira um computador em casa. fundador da Apple Computer Inc. mais uma vez através da lista informativa MeuPovo. guiada por impressões e intuições. de porte minimamente análogo ao da Revolução Industrial. uma interessante compilação de “profecias da informática”." -- Thomas Watson.

mau-humor.e. É. bom-humor. conflitos e alegrias humanos. a nós mesmos.e consigo mesmos. sociabilidade. angustiados. lá estão presentes com uma intensidade inimaginável até muito pouco tempo atrás. dado que a Internet. também. positivo ou negativo amar uma máquina. é ainda difícil separar o positivo do negativo. era impossível prever quais seriam os benefícios e quais seriam os problemas. fantasia. temos que dar tempo ao tempo e. como muitos usuários revelam amar seus computadores? É positivo ou negativo termos uma realidade “não real” para a qual podemos fugir a qualquer hora do dia e da noite. de enlouquecer ou de “ser sugado pelo virtual” (como coloca o nosso colaborador Juca Mineiro). desilusão. ciúmes. paralelo mas bem “real”. se possível -. perplexidade. esperança. loucura. fascínio. deve ser mantido --. desconhecidos e incômodos. perversões. dependência. mas ainda no tempo em que os computadores eram vistos com respeito e distância pela maior parte dos comuns mortais. conflitos. naquela época. sentimentos. falar e sentir há provavelmente muito de positivo e outro tanto de negativo. companheirismo. interatividade. Mesmo hoje. Tanto a incredulidade quanto a incapacidade de administração dos próprios afetos. Mas. Há poucos anos. ansiedade. tão rápidas e profundas foram as mudanças e tão pouco o tempo que tivemos para pensar sobre elas. ajuda. onipotência. ou a incapacidade de lidar com as mesmas. acima de tudo. Em cada uma dessas novas formas de pensar. bastante difundido. daquilo que é nocivo -. quando quer que tenhamos necessidade de partilhar nossos sonhos. seria no mínimo improvável (se não impossível) prever que o ciberespaço se transformaria num novo palco. revolução. em seu bojo. ilusão. ou que desejemos companhia para combater a nossa solidão? É boa ou má a nova lógica instaurada pela experiência com a Rede (os excessos podem parecer negativos. e ambos fazem parte do mesmo pacote)? São boas ou más as influências que a linguagem online e o hipertexto estão exercendo sobre a nossa língua pátria? A nós mesmos caberá a tarefa de encontrar as respostas para essas perguntas. aliadas ao inédito contato cotidiano com a nova realidade virtual e aos excessos gerados pela velocidade ciberespacial. sedução. competição. impotência. ódio. mas a integração parece bastante positiva. a separação do que é bom -. integração. Curiosidade. para o desenrolar de dramas. como a incredulidade nas próprias percepções e emoções. dúvidas. sofrimento. O que somos capazes de sentir à frente da telinha é tão intenso que. No entanto. 162 . benefícios e problemas. é na insuspeita área dos sentimentos e dos relacionamentos humanos que a confusão se instaura dentro de nós. bem como seus modos de pensar e de sentir. A intensidade é tanta que pode gerar. etc. amor. Disse-me. por exemplo. sonho. Porém. medo. excessos.é ainda mais difícil de ser feita. profundamente alterados. nos deixa perplexos e faz com que percamos a capacidade de julgar. certamente estão por trás do medo. crimes. etc. expertise. que essas alterações trariam. desejos e problemas. etc. foi exatamente isso que aconteceu e é exatamente isso que está deixando tantos confusos. Mas. policiamento. verdade. vício.e de que devemos tentar nos defender ou nos livrar. etc. angústia. Nessa área. mentira. portanto. muitas vezes chegamos a duvidar de nossas próprias percepções. para que saibamos separar o joio do trigo. não passa de uma fria rede de computadores. ao menos em princípio. no usuário. para surpresa geral.

dos problemas e soluções oferecidos pela nova realidade do ciberespaço. suportando a ansiedade de não saber. de Aldous Huxley. em antigas formas de ver e perceber o mundo e o ser humano. registrar e pensar. de acordo com os vários depoimentos que vimos ao longo deste livro. Mas. gerados pela existência de uma nova realidade. não ter parâmetros.. Medo. ser possível afirmar que. pude consolidar minha primeira impressão e vê-la ganhar o peso de uma verdade constatável por observação e consenso. chegou para ficar e que. temos que adotar uma estratégia análoga à que outros pensadores adotaram em outras épocas: tentar enxergar o novo a partir de categorias novas. entre outras coisas. agora. espero. Para registrar e pensar tudo isso. que ninguém se engane. Somente as observações a partir de um novo referencial poderão nos fornecer as pistas e os insights para que possamos aprender a lidar com os problemas. dos benefícios e malefícios. mas sentida como muito concreta. querendo ou não. duas sensações que se complementam: a de satisfação. e uma Rede de computadores nos filmes. tentarmos encaixar esse novo. registrar e pensar de uma forma que deixe de lado o preconceito. e a de dever cumprido. ter conseguido lançar alguma luz. de tão novo que é. Certamente tenho. E isso nos leva a um outro ponto importante a respeito do qual gostaria de dizer uma última palavra. para que possamos nos sentir seguros. de George Orwell) e filmes (como os recentes A Rede e Denise está chamando). que adentra o nosso cotidiano de diversos modos. Pude também confirmar a minha intuição e vê- la assumir os contornos cada vez mais nítidos das vantagens e desvantagens. paralela àquela à qual estamos acostumados. o medo e a paranóia gerados. a ela teremos que nos adaptar. Foi-me ainda possível perceber que a nova tecnologia. bem como a fruir os prazeres. que. dele perderemos a essência e torná-lo-emos velho (e isso não nos será de nenhuma utilidade). por ter mergulhado no novo e sobre ele. Se. não compreender.O que fazer de tudo isso? No momento atual. e 1984. dos recursos e obstáculos. Mas. ao longo dos poucos anos que se seguiram aos primeiros momentos da difusão da Internet no Brasil. nos deixa confusos e incrédulos. Teremos que aprender como. ou deixa de ter contato físico com seus semelhantes (em sua versão mais moderna). preconceito e paranóia não vão nos levar a lugar nenhum e certamente vão dificultar a compreensão tanto dos aspectos negativos quanto dos aspectos positivos da vida ciberespacial. contemporâneos -. Creio que a arte de viver em contato com essas duas realidades certamente envolverá a nossa capacidade de integrá-las de um modo ou de outro.. creio. Talvez por ter conseguido manter olhos e ouvidos sempre abertos e ter sido capaz de suportar a ansiedade de não saber. neste momento. Isso porque tanto o positivo quanto o negativo são novos e devem ser entendidos a partir de um novo referencial. já antigos. nos quais o computador -.invade de tal modo a vida do ser humano que este se torna menos humano.um computador central no caso dos livros. que interconectou computadores no mundo inteiro. 163 . por livros (como os clássicos Admirável Mundo Novo. por não ter me equivocado. passa a ser controlado pela máquina (na versão mais antiga da paranóia). ele só permanecerá velho na ilusão daquele que não quer enxergar o que acontece ao seu redor.

Mas.. deixemos isso para uma próxima vez! 164 . Esse novo continua a se tornar novo a cada dia que passa e. a sensação de dever cumprido. pode ser passageira. estou consciente disso. Bem..

excluir participantes anti-sociais. 50 As definições marcadas com dois asteriscos foram retiradas do Dicionário de Informática da Microsoft Press. Algumas pessoas usam o termo ciberespaço como sinônimo de Internet. a menor unidade de informação de computador. que significa excluir.* 48 Salvo quando assinaladas com um ou dois astericos.unidade de significado -. ASCII é um conjunto padrão de caracteres que tem sido adotado pela maioria dos sistemas de computadores no mundo. simbolizado por 1 ou 0. aplicativo programa. PC Um computador projetado para ser usado por uma pessoa de cada vez. publicado pela Editora Campus. com a colaboração de Paulo Roberto Marinho. com um ambiente ou um sistema operacional. aplicação Um programa de computador que desempenha uma tarefa específica para o usuário. Os computadores pessoais não precisam compartilhar os recursos de processamento. 165 . de autoria de Christiam Crumlish.geralmente constituída de oito bits. byte Uma “palavra” binária (binary) -. 2.* 49 @ arroba. O programa de chat propriamente dito. at Separa o nome do usuário do domínio em endereços de correio eletrônico (e-mail) da Internet. publicado pela Editora Campus.** 50 deletar Versão “aportuguesada” do inglês delete. channel manager channel op. Outros se atêm à realidade mais completa. por um lado com um documento. dependendo da intenção do usuário. apagar um caracter. chat bate-papo (s.GLOSSÁRIO48 # Na Internet. bit Um dígito binário (binary). agora amplamente substituído pelo programa IRC. ASCII American Standard Code for Information Interchange. símbolo usado no IRC para indicar os seus canais. todas as definições que constam deste glossário foram retiradas de O Dicionário da Internet. 49 Todas as definições assinaladas com um asterisco são de autoria de Daniela Romão e Cristina Durski. operador de canal Um usuário privilegiado de um canal IRC com poderes para. que é um arquivo gerado por um aplicativo e. tal qual em uma conversa telefônica e diferente de um intercâmbio de mensagens de correio eletrônico. transmitida (transmited) como impulso único significando ligado ou desligado. tal como a retratada nos romances de Gibson. ciberespaço Um termo popularizado por William Gibson para designar a realidade imaginária compartilhada das redes de computadores. consensual e similar ao mundo físico. dentre outras coisas. em 1997. usualmente estendido para alfabetos estrangeiros e sinais diacríticos. por outro.) 1. discos e impressoras de outro computador (embora isso seja possível. que gerenciam a comunicação entre o usuário e o próprio computador. computador pessoal personal computer. Comunicação linha a linha com um outro usuário pela rede de forma síncrona em tempo real. contrastando. arquivo ou diretório. em 1992.

disquete diskette Um disco flexível e removível (floppy disk) para armazenamento de dados. O protocolo TCP/IP padrão para transferência de arquivos na Internet.073. é o protocolo de transferência de arquivos da Internet.741. Um arquivo contendo perguntas feitas com frequência e suas respostas. em contraposição aos programas que são executados em computadores (software). como as seguintes: :-) :-( :-P %^) . gopher Um aplicativo cliente/servidor que permite examinar grandes quantidades de informações através de transferências FTP. Seu uso poupa o usuário da obrigatoriedade de saber (ou digitar) os endereços dos recursos da Internet utilizados. entre quaisquer plataformas. uma grande quantidade de espaço de armazenamento.diretório directory Uma estrutura para organização de arquivos. “baixar” Transferir um arquivo via modem de um computador remoto para o seu computador de mesa. normalmente de tamanhos 5 ¼ ou 3 ½ polegadas. disco rígido Um meio fixo de armazenamento de dados em computadores. Frequently Asked Question (perguntas feitas freqüentemente).propriamente as peças de metal e plástico. DOS Disk Operating System. Na maioria dos sistemas operacionais (operation systems).-) B-) :D Emoticons podem contribuir para dar uma idéia do estado emocional do autor. nunca lhe fará mal digitar help ou h ou ? e depois apertar a tecla Enter para ver o que acontece. e-mail eletronic mail. emoticon Um smiley ou outras carinhas deitadas formadas por caracteres de pontuação. help ajuda O comando que trará informações de ajuda em alguns programas e sistemas operacionais. Quando você estiver atrapalhado. download fazer download. hardware Equipamentos de computador -. logins remotos. apresentando tudo para o usuário final sob forma de menus. transferir por download. correio eletrônico Consiste em mensagens carregadas eletronicamente de computador para computador. FTP File Transfer Protocol. (Tecnicamente. às vezes chamado de FAQL (lista de perguntas feitas frequentemente). o sistema operacional desenvolvido pela IBM para PCs. transferir um arquivo de um computador maior para um computador menor). HD hard disk. os próprios diretórios podem ser organizados de forma hierárquica dentro de uma árvore de diretórios principais e diretórios secundários. 166 . FAQ 1. pesquisas archie e assim por diante.824 bytes). gigabyte Aproximadamente um bilhão de bytes (precisamente 1. 2. receber.

em um bate-papo (chat) em tempo real com pessoas abrangendo toda a Internet através de canais (channels) dedicados a diferentes assuntos. de forma síncrona. um protocolo para programas cliente/servidor que lhe permite entrar. a linguagem hipertexto usada em páginas da Web. Ela consiste em texto comum e tags que informam ao navegador (browser) o que fazer quando um vínculo (link) é ativado. interfaces ou ferramentas que facilitam o processo de busca de informações específicas em um banco de dados. Também usado na Internet de forma coloquial para se referir à velocidade ou capacidade de uma conexão de rede -. geralmente através da especificação de palavras-chave a serem nelas encontradas. kilobyte (abreviado K. host Um computador em uma rede que permite que muitos usuários o acessem ao mesmo tempo. ao ser selecionado. largura de banda Literalmente. lag Uma demora excessiva no IRC causando o acúmulo de mensagens.hipertexto hypertext Texto que contém vínculos (links) para outros documentos. IRC Internet Relay Chat. Os usuários do Macintosh constituem uma subculura de tipos e geralemtne são ferrenhamente leais à sua marca. normalmente medida de memória (memory) ou capacidade de armazenamento. Aproximadamente um mil (precisamente 1. permitindo ao leitor que se desloque de um para outro e leia os documentos em ordem diversa. documento ou outra fonte. HTML Hypertext Markup Language.que pode ser descrita como low bandwith (largura de banda baixa) ou high bandwith (largura de banda alta) -. K Abreviatura de kilobyte. mecanismo de busca Termo que designa programas. alguns fazendo-se valer de toda e qualquer oportunidade pra procurar converter “infiéis”. um vínculo (link) de hipertexto.024) bytes. Um computador pessoal fabricado pela empresa Apple com uma interface gráfica com o usuário (graphical user interface) interna. HP ver home page. conexão Nas páginas da Web. uma página inicial/principal com vínculos (links) para outras páginas relacionadas. KB ou Kbyte). a velocidade na qual dados podem ser transmitidos através de um meio. um botão ou trecho destacado do texto que. 167 . remete o leitor a uma outra página. link vínculo.ou de recursos de rede em geral. home page HP Na Web. Mac Abreviatura de Macintosh.

tal como um provedor comercial de serviços.* mouse Um dispositivo usado para acionar os botões.megabyte Aproximadamente um milhão (precisamente 1. geralemnte uma medida de memória RAM ou de espaço para armazenamento de disco rígido. offline 1. fazem uso de recursos de comunicação assíncrona. barras de rolagem.048. 3. menu Uma lista de opções disponíveis a um usuário. Termo que designa uma pessoa que está participando de um bate-papo (chat). Não conectado à Internet em um dado momento. não necessariamente o mesmo que seu nome de usuário.* nick cognome. animações. sons etc. microchip Pastilha de silício que contém transistores responsáveis pela execução de tarefas. newsgroups Grupos de discussão que. 168 . Termo que desina uma pessoa que não mais está envolvida em um bate-papo (chat). seguido do pressionamento da tecla Enter. como o Eudora. Disponível para solicitações de rede. programa ver aplicativo e software.576) bytes. 2. especialmente no que se refere a correio eletrônico (e-mail) e à Usenet. informações sobre assuntos previamente selecionados pelo usuário. Conectado à Net em um dado momento. usados combinadamente.* recursos multimídia Texto e imagens gráficas. ou nome alternativo. pseudônimo. 3. As opções podem geralmente ser escolhidas com a ajuda de um mouse ou outro dispositivo de indicação ou mesmo através da digitação do número do item desejado do menu. nickname pseudônimo. provedor de acesso Uma instituição que provê acesso à Internet. PC Abreviatura de computador pessoal. Apesar de a Internet e Usenet serem efetivamente anarquistas. ligado 1. Viole a etiqueta da Internet por sua própria conta e risco. nas telas do sistema Windows. elas possuem fortes culturas sociais e a maioria das regras e regulamentos da Internet é imposta por pressão informal de seus próprios habitantes. etc. push Tecnologia que permite receber diretamente em seu computador e de forma automática. online conectado. universidades ou empregadores. etiqueta da Internet Comportamento aceito como apropriado na Net. ou ainda uma entrada na caderneta de endereços em alguns programas de correio eletrônico. layout de página. apelido Um pseudônimo. apelido Um apelido usado no IRC. filmes. diferentemente dos chats. 2. Não respondendo a solicitações da rede.* netiqueta netiquette.

menus e bancos de dados.que um computador pode executar (execute). bem como toda a comunicação com os recursos desse sistema. router roteador Um dispositivo (device) que conecta fisicamente duas redes ou uma Rede à Internet. UNIX e VMS. Ele também atua como intermediário entre as aplicações e os recursos do sistema. scanner Um dispositivo de entrada que usa sensores de luz para ler o papel ou algum outro meio. modem e outros. gopher etc. copiar um arquivo ou alguns dados da memória (memory) -. incluem-se o DOS.na Suíça. De forma mais ampla. em oposição a hardware. ou seja: a memória (RAM). save Literalemte. Os servidores Web usam HTTP para exibir páginas da Web. de correio (mail). o computador propriamente dito. O sistema operacional começa a ser executado antes de qualquer outro software e permanece na memória o tempo todo em que o computador está ligado. Em redes convencionais. normalmente refere-se a um programa.em um disco ou outro meio de armazenamento. tal como FTP. Esse conjunto se acha disponível via URLs. site Um host da Internet que permite algum tipo de acesso remoto. Os documentos da Web são marcados para formatação e ativação de vínculos (links) através da HTML (linguagem para marcação de hipertexto). o termo servidor geralmente se refere a um computador. como teclado. espaço em disco. preservar o trabalho que você está realizando através do seu armazenamento em disco.seja um aplicativo (application) ou sistema operacional (operating system) -. OS/2. processador central (CPU) e dispositivos periféricos em geral. WAIS. 169 . salvar gravar. traduzindo em parões de claro e escuro (ou cores) em sinais digitais que podem ser processados por softwares de reconnhecimento de caracteres óticos ou softwares gráficos. A Web foi inventada por físicos do.RAM -. no caso de aplicativos cliente/servidor da Internet. impressora. software 1. denominados páginas da Web. FTP. CERN (European Particle Physics Laboratory). monitor. Macintosh. Um programa -. Muitos recursos da Internet são fornecidos por servidores: servidores de arquivos (file servers). de nome (name servers). archie. como um recurso de documentação online. telnet. finger e assim por diante. um conjunto interligado de documentos em hipertexto. Web. convertendo endereços e passando adiante somente as mensagens que precisam passar para a outra rede. Um conjunto (suite) de programas relacionados.** servidor server Um aplicativo de rede ou computador que fornece informações ou outros recursos a aplicativos clientes que se conectam a ele. que residem em servidores da Web e outros documentos. 2.Rede Web O nome mais comumente usado para denominar a World Wide Web. Dentre os sistemas operacionais mais populares. mouse. sistema operacional O software comanda toda a utilização de um sistema computacional.

URL Uniform Resource Locator. não fisicamente. Esse conjunto se acha disponível via URLs. Exemplo: a tecla F1 executa a função de ajuda em determinados programas.html. URLs podem ser usados para endereçar outros recursos da Internet além de páginas da Web.opcionalmente - de uma porta. UNIX Um sistema operacional de 32 bits. denominados páginas da Web.* terminal de rede Um dispositivo teclado-monitor que envia toques de teclado para um computador e exibe a saída na tela. ou seja.berkeley. incluindo ícones. que residem em servidores da Web e outros documentos. endereços telnet etc. Ele foi originalmente desenvolvido na Bell Labs em 1969 por Ken Thomson e é de propriedade da Novell. menus e bancos de dados. por exemplo. servidores gopher. Os documentos da Web são marcados para formatação e ativação de vínculos (links) através da HTML (linguagem para marcação de hipertexto). Web ver Rede. No URL http://enterzone. Se você discar para um ambiente UNIX. Ele consiste em um protocolo. Um endereço da Web. um conjunto interligado de documentos em hipertexto. Os servidores Web usam HTTP para exibir páginas da Web. o nome do host é enterzone. na Suíça. virtual virtual Dito de algo que somente existe em software. comum a estações de trabalho e (cada vez menos) dominante na Internet. Windows (abrv. sites FTP. apesar de ter gerado muitos clones e versões. um diretório e um nome de arquivo. w3 ou W 3. como. 170 . então seu PC estará sujeitoendo usado como um terminal de rede. WWW Abreviatura de World Wide Web.edu e o nome de arquivo é enterzone. menus e cursor do mouse.berkeley. “localizador uniforme de recursos”. World Wide Web Também conhecida como WWW. um nome de host e -. A Web foi inventada por físicos do CERN (European Particle Physics Laboratory).teclas de função Conjunto de teclas que quando pressiondas executam uma função específica.edu/enterzone. como um recurso de documentação online. o protocolo é HTTP.html. caixas de diálogo. multiusuário e multitarefa.berkeley.) Microsoft Windows Um ambiente operacional multitarefa executado em MS-DOS e fornece PCs da IBM e seus compatíveis de uma interface gráfica com o usuário semelhante à do Macintosh.