Carnaval, permanência e regeneração Tradição, prazer, atraso, dureza, seriedade, renovação e regeneração no Carnaval brasileiro.

Roberto DaMatta especial para o Capitu, em Indiana - EUA Enquanto nas cerimônias cívicas e políticas, bem como nos rituais eleitorais, as elites falam compulsivamente em mudança, transformação, crescimento, eficência e modernidade, o Carnaval lembra os aspectos permanentes do Brasil. Os seus traços invariantes e as suas estruturas de longa duração como diziam os estruturalistas e os seguidores de Fernand Braudel. A festa de Momo trás à tona um conjunto de objetos, instituições, falas e gestos que, como tenho repetidamente acentuado na minha obra, pertencem mais a sociedade e aos valores inscritos no coração, do que à superfície letrada, legal e lisa, na qual pululam os nossos ideais de Estado nacional, liberal, burguês (socialista ou capitalista), burocrático e moderno. No Carnaval cantamos samba, não falamos economês; no Carnaval abrimos mão da crítica azeda ao Brazil; no Carnaval a mascarada (que permite trocar de lugar) impede o sabe com quem está falando e o jeitinho. Aliás, o Carnaval são os jeitinhoS. Talvez seja essa disjunção dissolvedora de ideologias a responsável pelo horror que o Carnaval desperta nas nossas elites, sobretudo nas mais imbuidas de espírito burocrático e Cartesiano. A presença dos esbanjamentos carnavalescos esses bailes, fantasias, carros alegóricos, desfiles e desperdício de tempo e dinheiro - dessa energia que é despendida em "brincar" e em sair deste mundo para vislumbrar prazer, sedução e utopia é, para essas pessoas, um pecado mortal e um sintoma de nosso atraso e de nossa "tara original". Mas o fato é que o Carnaval ai está confirmando quem somos nas suas mais variadas mensagens e folguedos. Nas letras dos sambas enredo, redescobrimos as ingenuidades racialistas cantadas como artigos de fé: somos feitos de três raças inferiores que misturadas em doses perfeitas e douradas pelo sol desse lado do mundo - esse sul equinocial e sem pecado - engendra um povo alegre. Um povo que vence "os desabores da vida" cantando e pondo de quarentena todas as safadezas e canalhices que seus patrões, chefes e governantes lhes tem afligido ao longo de cinco séculos de concentração de renda e de poder. Coisa curiosa: se nossas vistosas instituições modernas - a Constituição, os códigos jurídicos, os estatutos legais, o desenho da organização governamental vive mudando - e eu não serei cruel para lembrar a moeda - o Carnaval continua o mesmo. Há, é claro, a tal "badalação" com a qual algumas pessoas da chamada "alta sociedade" compram personagens de destaque, há uma clara penetração da classe média alta nas alas das Escolas de Samba, há uma massificação do desfile uma Broadwayzação para gringo ver desse pedaço do Carnaval. Mas seria isso um sintoma de mudança? Ou um fenômeno de mistura que, de fato, faz parte da grande lógica de dissolução e de fragementação das fronteiras que constitui a índole ou o "espírito", como diria Weber, do nosso Carnaval e da sociedade brasileira ? Diferentemente do Estado democrático que não vive sem Congresso Nacional eleito pelo povo, o Carnaval é mais do que o desfile e do que o sambodrômono que o ancorou. É mais do que o samba-enredo e do que a nudez às vezes grotesca de suas coristas mais ambiciosas. Feito de multiplos planos, ele tem sempre um lado a ser esquecido e coberto e outro a ser lembrado e descoberto. A presença do Carnaval deixa ver como nossa vida coletiva é governada por códigos alternados. Os cerimoniais e as rotinas cívicas, econômicas, acadêmicas, jornalísticas e literárias nos afirmam a conquista da modernidade. Neles, enroupados de negro, legitimamos gravebundos e solenes o nosso progresso e o curso linear de nossa história. Só que nessa marcha para o futuro, esbarramos em decepcionantes acidentes, deslises e retrocessos. Descobrimos, por exemplo, que quanto mais precisamos da polícia, menos podemos confiar nela. Vemos que quanto mais precisamos de um judiciário flexível e de leis adequadas ao mundo moderno, mais resistências existem para abrir essa dimensão do governo as necessidades da sociedade. Entendemos, estarrecidos, que a linha entre boa sociedade, milionários e bandidos é dura de traçar. Sobretudo de você for muito rico. Mas eis que chega o Carnaval com suas possibilidades e o seu modo leve e relativizado de encarar o mundo, dizendo: nem tudo é seriedade ou dureza. Calma que o leão é manso e o Brasil é nosso. O mundo pode ser lido de outro modo. O riso - esse dissolvedor de diferenças - e o corpo - esse aniquilador de pretenções - reafirmam: vamos gargalhar um pouco deste mundo que, melhora e piora simultaneamente. Vamos esquecer as nossas magoas e preocupações para viver uns dias de prazer e de individualidade, uns dias fora desse circulo de giz de mercado, lucro e exploração. Gritemos, então, com o Carnaval que o mundo pode ser periodicamente renovado e, mais que isso, regenerado. livro recomendado

transformando-as em janelas privilegiadas para as interpretações do Brasil. malandros e heróis'' foram considerados. MALANDROS E HERÓIS Para uma sociologia do dilema brasileiro Roberto Damatta O que torna a sociedade brasileira diferente e única? Este livro clássico inquestionável da antropologia brasileira. responde a essa questão através do dilema que faz do Brasil um país de grandes desigualdades. pela primeira vez um antropólogo considerou a sociedade através dessa e de outras festividades.CARNAVAIS. Mito e rito são. dramatizações ou maneiras de chamar a atenção para certos aspectos da realidade social dissimulados pelas rotinas e complicações do cotidiano. na época do lançamento. Para Roberto DaMatta. Os ensaios de ''Carnavais. tanto o carnaval quanto seus malandros e heróis são criações sociais que refletem os problemas e dilemas básicos da sociedade que os concebeu. assim. Embora o carnaval tivesse sido tema de alguns estudos. como uma visão inovadora e um esforço definitivo para o entendimento do Brasil. Editora: Rocco 352 páginas . mas de futuro promissor.

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