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ORGANIZAÇÃO E GESTÃO

DA ESCOLA

Teoria e Práctica

Por
José Carlos Libâneo

Editora Alternativa

1ª ediçao: 2001
5ª edição: 2004

Este material es de uso


exclusivamente didáctico
SUMÁRIO

9 Apresentação a 5ª edição
19 Apresentação

CAPITULO I
27 A escola como organização de trabalho e lugar de aprendizagem do professor

CAPITULO II
43 Uma escola para novos tempos

CAPITULO III
63 Buscando a qualidade social do ensino

CAPITULO IV
73 A identidade profissional dos professores e o desenvolvimento de competencias

CAPITULO V
95 Os conceitos de organização, gestao, participação e cultura organizacional

CAPITULO VI
117 O sistema de organização e gestao da escola

CAPITULO VII
135 Princípios e características da gestao escolar participativa

CAPITULO VIII
147 O planejamento escolar e o projeto pedagógico-curricular

CAPITULO IX
203 Organização geral do trabalho escolar

CAPITULO X
213 As atividades de direção e coordenação

CAPITULO XI.
225 Formação continuada

CAPITULO XII
235 Avaliação de sistemas escolares e de escolas

CAPITULO XIII
261 As áreas de atuação do sistema de organização e gestao escolar -Ações,
procedimentos e técnicas de coordenação do trabalho escolar.
313 Bibliografia
C A P Í T U L O
IV

A IDENTIDADE
PROFISSIONAL DOS
PROFESSORES E O
DESENVOLVIMENTO
DE COMPETÊNCIA
CAPÍTULO IV

O professor é um profissional cuja atividade principal é o ensino. Sua formação inicial visa
a propiciar os conhecimentos, as habilidades e as atitudes requeridas para levar adiante o
processo de ensino e aprendizagem nas escolas. Esse conjunto de requisitos profissionais que
tornam alguém um professor, uma professora, é denominado profissionalidade. A conquista da
profissionalidade supõe a profissionalização e o profissionalismo.
A profissionalização refere-se às condições ideais que venham a garantir o exercício
profissional de qualidade. Essas condições são: formação inicial e formação continuada nas
quais o professor aprende e desenvolve as competências, habilidades e atitudes profissionais;
remuneração compatível com a natureza e as exigências da profissáo; condições de trabalho
(recursos físicos e materiais, ambiente e clima de trabalho, práticas de organização e gestão).
O profissionalismo refere-se ao desempenho competente e compromissado dos deveres e
responsabilidades que consti, tuem a especificidade de ser professor e ao comportamento ético e
político expresso nas atitudes relacionadas a prática profissional. Na prática, isso significa ter o
domínio da matéria e dos métodos de ensino, a dedicação ao trabalho, a participação na
construção coletiva do projeto pedagógico-curricular, o respeito à cultura de origem dos alunos,
a assiduidade, o rigor no preparo e na conducção das aulas, o compromisso com um projeto
político democrático.
As duas noções apresentadas se complementam. O profissionalismo requer
profissionalização, a profissionalização requer profissionalismo. Um professor
profissionalmente despreparado, recebendo salários baixos, trabalhando em precárias condições,
terá dificuldades de atuar com profissionalismo. Por outro lado, um professor muito dedicado,
que ama sua profissao, respeita os alunos, é assíduo ao trabalho e terá muito pouco êxito na sua
atividade profissional se não apresentar as qualidades e competências consideradas ideais a um
profissional, isto é, os requisitos da profissionalização.
Não se trata, certamente, de lidar com essas duas noções de forma que a ausencia de uma
comprometa irremediavelmente a outra. Um professor pode compensar uma fraca
profissionalização estudando mais, investindo na sua formação continuada, lutando por
melhores salários. Pode, ao mesmo tempo, mudar suas atitudes, suas convicções, seus valores
em relação a prática profissional, o que pode levá-lo, inclusive, a buscar melhor qualificação. O
que justifica essa atuação comprometida é a natureza da profissao de professor, é a
responsabilidade que a tarefa educativa traz consigo.
É verdade que a profissão de professor vem sendo muito desvalorizada tanto social quanto
economicamente, interferindo na imagem da profissao. Em boa parte isso se deve às condições
precárias de profissionalização -salários, recursos materiais e didáticos, formação profissional,
carreira- cujo provimento é, em boa parte, responsabilidade dos governos. É muito comum as
autoridades governamentais fazerem autopromoção mediante discursos a favor da educação,
alardeando que a educação é a prioridade, que os professores são importantes etc. No entanto,
na prática, os governos têm sido incapazes de garantir a valorização salarial dos professores,
levando a uma degradação social e econômica da profissão e a um rebaixamento evidente da
qualificação profissional dos professores em todo o país. Em outros termos, ao mesmo tempo
em que se fala da valorização da educação escolar para a competitividade, para a cidadania, para
o consumo, continuam vigorando salários baixos e um reduzido empenho na melhoria da
qualidade da formação profissional dos pçãrofessores.
As condições de trabalho e a desvalorização social da profissão de professor, de fato,
prejudicam a construção da identidade dos futuros professores com a profissão e de um quadro
de referência teórico-prático que defina os conteúdos e as competências que caracterizam o ser
professor. Isso acontece porque a identidade com a profissão diz respeito ao significado pessoal
e social que a profissão tem para a pessoa. Se o professor perde o significado do trabalho tanto
para si próprio como para a sociedade, ele perde a identidade com a sua profissão. O mal-estar,
a frustração, a baixa auto-estima são algumas conseqüências que podem resultar dessa perda de
identidade profissional. Paradoxalmente, no entanto, a ressignificação de sua identidade -que
passa pela luta por melhores salários e pela elevação da qualidade da formação- pode ser a
garantia da recuperação do significado social da profissão. Apesar dos problemas, os
professores continuam sendo os principais agentes da formação dos alunos e, portanto, a
qualidade dos resultados de aprendizagem é inseparável da sua qualificação e competência
profissionais.
Por isso, a construção e o fortalecimento da identidade profissional precisam fazer parte
do currículo e das práticas de formação inicial e continuada. Nos últimos anos, os estudiosos da
formação de professores vêm insistindo na importância do desenvolvimento pessoal e
profissional no contexto de trabalho, mediante a educação ou formação continuada. Os cursos
de formação inicial tem um papel muito importante na construção dos conhecimentos, atitudes e
convicções dos futuros professores necessários à sua identificação com a profissão. Mas é na
formação continuada que essa identidade se consolida, uma vez que ela pode desenvolver-se no
próprio trabalho.
A formação continuada é uma maneira diferente de ver a capacitação profissional de
professores. Ela visa ao desenvolvimento pessoal e profissional mediante práticas de
envolvimento dos professores na organização da escola, na organização e articulação do
currículo, nas atividades de assistência pedagógico-didática junto com a coordenação
pedagógica, nas reuniões pedagógicas, nos conselhos de classe etc. O professor deixa de estar
apenas cumprindo a rotina e executando tarefas, sem tempo de refletir e avaliar o que faz. Ainda
tem sido muito comum nas Secretarias de Educação promover a capacitação dos professores por
meio de cursos de treinamento ou de reciclagem, de grandes conferências para um grande
número de pessoas. Nesses cursos são passadas propostas para serem executadas ou os
conferencistas dizem o que os professores devem fazer. O professor não é instigado a ganhar
autonomia profissional, a refletir sobre sua prática, a investigar e construir teorias sobre seu
trabalho.
Na nova concepção de formação do professor como intelectual crítico, como profissional
reflexivo e pesquisador e elaborador de conhecimentos, como participante qualificado na
organização e gestao da escola- o professor prepara-se teoricamente nos assuntos pedagógicos e
nos conteúdos para poder realizar a reflexão sobre sua prática; atua como intelectual crítico na
contextualização sociocultural de suas aulas e na transformação social mais ampla; torna-se
investigador analisando suas práticas docentes, revendo as rotinas, inventando novas soluções;
desenvolve habilidades de participação grupal e de tomada de decisões seja na elaboração do
projeto pedagógico e da proposta curricular seja nas várias atividades da escola como execução
de ações, análise de problemas, discussão de pontos de vista, avaliação de situações etc. Esse é o
sentido mais ampliado que assume a formação continuada.

A Educação Continuada se faz necessária pela própria natureza do saber e do


fazer humanos como práticas que se transformam constantemente. A realidade
muda e o saber que construímos sobre ela precisa ser revisto e ampliado
sempre. Dessa forma, um programa de educação continuada se faz necessário
para atualizarmos nossos conhecimentos, principalmente para analisarmos as
mudanças queocorrem em nossa prática, bem como para atribuirmos direções
esperadas a essas mudanças. (Christov, 1998, p. 9)

Isso não quer dizer que o professor não necessita da teoria, do conhecimento científico.
Significa que o professor analisa sua prática à luz da teoria, revê sua prática, experimenta novas
formas de trabalho, cria novas estratégias, inventa novos procedimentos. Tematizando sua
prática, isto é, fazendo coro que sua prática se transforme em conteúdo de reflexão, ele vai
ampliando a consciencia sobre sua própria prática.

O alargamento da consciência se dá pela refiexão que o professor realiza na


ação. Em suas atividades cotidianas, o professor toma decisões diante das
situações concretas com as quais depara, com base nas quais constrói saberes
na ação. [...] Mas a sua reflexão na ação precisa ultrapassar a situação
imediata. Para isso, é necessário mobilizar a refiexão sobre a refiexão na ação.
Ou seja, uma reflexão que se eleve da situação imediata, possibilitando uma
elaboração teórica de seus saberes. (Pimenta, 1998, p. 158)

É assim que o professor transforma-se num pesquisador, a caminho de construir sua


autonomia profissional, enriquecendo-se de conhecimentos e práticas e aprendendo a resolver
problemas, inclusive aqueles imprevistos. Sabemos que as situações de ensino, boa parte delas,
são singulares, incertas e muitas vezes desconhecidas, por isso, não basta ao professor ter uma
lista de métodos e técnicas a serem utilizados. O que ele precisa é desenvolver a capacidade de
dar respostas criativas conforme cada situação. Não precisa tanto saber aplicar regras já
estabelecidas, mas construir estratégias, descobrir saídas, inventar procedimentos. Ou seja, o
professor precisa ser capaz de inventar suas próprias respostas.
Neste ponto, chegamos a necessidade do trabalho em equipe mediante o qual os
professores formulam o projeto pedagógico-curricular, criam uma cultura organizacional,
interagem com seus colegas, assumem as responsabilidades coletivamente, pensam juntos,
discutem juntos, encontram soluções juntos. Há muitas formas de realizar a formação
continuada: cursos, congressos, seminários de estudo, reunião pedagógica, encontros com a
Coordenação Pedagógica, estudos individuais. O importante é acreditar que a formação
continuada é condição indispensável para a profissionalização, que se põe como requisito para a
luta por melhores salários e melhores condições de trabalho, assim como para o exercício
responsável da profissão, o profissionalismo.

Enquanto agirmos em nossas escolas contentando-nos com níveis mínimos de


profissionalização (qualificação mínima, descompromisso com atualização
pedagógica, auto-desqualificação...) e profissionalismo (insensibilidade ao
insucesso escolar dos alunos, má qualidade das experiências de aprendizagem
dos alunos, rotinização e desencanto com o trabalho...) a luta pela
profissionalidade se esvazia porque os professores continuarão pensando que,
como está, está bom. (Guimaráes, 1999, p. 5)

A identidade profissional dos professores

Em que consiste a profissão de professor? O que significa ser professor? Como vimos.,
identidade profissional é o conjunto de conhecimentos, habilidades, atitudes, valores que
definem e orientam a especificidade do trabalho de professor. Sabemos que a profissão de
professor vai assumindo determinadas características, vale dizer, determinada identidade
profissional, conforme necessidades educacionais colocadas em cada momento da história e em
cada contexto social (Pimenta, 1998).
A sociedade brasileira está passando por intensas transformações econômicas, sociais,
políticas, culturais. As novas exigências educacionais diante dessas transformações pedem um
professor capaz de exercer sua profissão em correspondência às novas realidades da sociedade,
do conhecimento, do aluno, dos meios de comunicação e informação. Há uma nítida mudança
no desempenho dos papéis docentes, novos modos de pensar, agir e interagir. Com isso, surgem
novas práticas profissionais, novas competências. Libâneo e Pimenta (1999, p. 41) apontam
duas dimensóes da identidade profissional de professor:

O desenvolvimento profissional envolve formação inicial e contínua


articuladas a um processo de valorização identitária e profissional dos
professores. ldentidade que é epistemológica, ou seja, que reconhece a
docência como um campo de conhecimentos específicos configurados em
quatro grandes conjuntos, a saber: 1) conteúdos das diversas áreas do saber e
do ensino, ou seja, das ciências humanas e naturais, da cultura e das artes; 2)
conteúdos didático-pedagógicos, diretamente relacionados ao campo da prática
profissional; 3) conteúdos relacionados a saberes pedagógicos mais amplos do
campo teórico da prática educacional; 4) conteúdos ligados à explicitação do
sentido da existência humana (individual, sensibilidade pessoal e social). E
identidade que é profissional. Ou seja, a docência constitui um campo
específico de intervenção profissional na prática social - não é qualquer um
que pode ser professor .

Saberes e competências profissionais

O tema da identidade profissional remete-nos aos saberes e competências exigidas para a


profissão. No últimos anos, vários estudos vêm pesquisando os saberes e competências
profissionais que fazem parte da profissionalidade do professor. Saberes são conhecimentos
teóricos e práticos requeridos para o exercício profissional, competências são as qualidades,
capacidades, habilidades e atitudes relacionadas a esses conhecimentos teóricos e práticos e que
permitem a um profissional exercer adequadamente sua profissão. Perrenoud (2000a) sugere
que os saberes estão contidos no termo "competências", ao definir "competência profissional"
como uma capacidade de mobilizar diversos recursos cognitivos para enfrentar situações
determinadas. Essa capacidade geral ou capacidades não se confundiriam com objetivos
comportamentais, comportamentos rotineiros e repetitivos, condutas e práticas observá, veis, tal
como entendidos no tecnicismo educacional. As competências estariam, assim, vinculadas a
conhecimentos e a atividades cognitivas, e não apenas a habilidades e procedimentos práticos.
Perrenoud (2000b) apresenta dez famílias de competências para ensinar: organizar e dirigir
situações de aprendizagem; administrar a progressão das aprendizagens; conceber e fazer
evoluir os dispositivos de diferenciação; envolver os alunos em suas aprendizagens e em seu
trabalho; trabalhar em equipe; participar da administração da escola; informar e envolver os
pais; utilizar novas tecnologias; enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão;
administrar sua própria formação continua.
Outros autores investigaram os saberes profissionais de professores. Gauthier et al. (1998)
relacionam os vários saberes necessários ao ensino: o saber disciplinar, o saber curricular , o
saber das ciências da educação, o saber da tradição pedagógica, o saber da experiência e o saber
da ação pedagógica.
Pimenta (1999) aponta como saberes necessários à docência os saberes de experiência, os
conhecimentos específicos da matéria e os saberes pedagógicos. Laranjeira et al. (1999)
organizam o conhecimento profissional dos professores em cinco âmbitos: conhecimentos sobre
crianças, jovens e adultos; conhecimentos sobre as dimensões culturais, sociais e políticas da
educação; cultura geral e profissional; conhecimento para a atuação pedagógica e conhecimento
de experiência contextualizado na ação pedagógica.
Terezinha Rios (2000) associa o termo competência à qualidade do trabalho, na qual se
reúnem as dimensoes técnica, política, ética e estética. Para ela, um profissional qualificado é
aquele que possui determinadas qualidades. A competência envolve uma pluralidade de
propriedades, um conjunto de qualidades positivas fundadas no bem comum, na realização dos
direitos do coletivo de uma sociedade.
Faremos, a seguir, algumas considerações mais específicas sobre as competências
profissionais de professores.

A palavra de origem latina competência tem dois sentidos: a) faculdade atribuída a


alguém para apreciar e julgar um pedido, uma questão. Por exemplo, o juiz é competente para
julgar esta causa; b) conhecimento, capacidade ou habilidade da pessoa em resolver problemas,
realizar uma atividade. Por exemplo, um aluno desenvolve competência lingüística ou
competência comunicativa, um professor sabe como dar uma boa aula.
No sentido empregado aqui, entenderemos competência como o uso de conhecimentos e
capacidades para fazer um trabalho, lidar com uma situação ou resolver problemas. Um
mecanico de automóveis, um engenheiro, um médico precisam ter e desenvolver competências
para realizar seu trabalho. Para isso, precisam dispor de certos conhecimentos, de certas
capacidades físicas e mentais (raciocínio, análise e síntese, expressão verbal, atenção,
psicomotricidade, etc.) e das habilidades correspondentes de modo que, frente a uma situação do
cotidiano ou da profissão, coloque todas essas "disposições internas" em ação para resolvê-la
com êxito. A competência está ligada, portanto, a um modo adequado e correto de pôr em ação
conhecimentos, instrumentos, materiais, supondo-se o domínio desses conhecimentos,
capacidades, habilidades, instrumentos. A questão torna-se ainda mais complexa se
entendermos que as realidades do mundo do trabalho hoje requerem, de fato, uma relação mais
explícita entre conhecimentos e capacidades e sua aplicação1. Mas como entender essa relação
entre os conhecimentos e a ação prática?
Na perspectiva sociocrítica, a competência é sinônimo de formação omnilateral (integral),
formação politécnica, em que os profissionais desenvolvem capacidades subjetivas -
intelectuais, físicas, sociais, estéticas, éticas e profissionais- visando a unidade, na ação humana,
entre capacidades intelectuais e práticas. Trata-se, assim, de unir uma visão ampliada de
trabalho, envolvendo competências universais e saberes técnico-metodológicos, as
competências sócio-comunicativas e subjetivas e as competências histórico-políticas
transformadoras. (Market, p. 196). Com isso, os trabalhadores podem aplicar-se
competentemente no trabalho e intervir no contexto organizacional, no qual se qualificam
mediante formas participativas e comunicativas na própria situação de trabalho. Essa estratégia
implica o método da análise reflexiva em que os sujeitos analisam sua própria atividade,
desenvolvem competências na ação e incorporam novos saberes2.
Sendo assim, nenhuma profissão se exime de formular determinadas exigências de
competência e de estabelecer um conjunto de competências necessárias ao adequado exercício
profissional, desde que pautadas no desenvolvimento de capacidades subjetivas que possibilitem
uma atuação nas situações de trabalho, a serviço dos interesses coletivos.
Um professor competente, portanto, é aquele que desenvolve capacidade de mobilizar
recursos cognitivos (conhecimentos aprofundados, operações mentais, capacidade crítica),
capacidades relacionais, procedimentos, técnicas, atitudes para enfrentar situações
problemáticas, dilemas. Esta noção vale tanto para caracterizar o trabalho do professor quanto
para explicitar objetivos de aprendizagem para os alunos. Urn professor será mais competente
quanto mais souber imaginar, refletir, articular as condições que possibilitem aos alunos
aprender melhor e de forma mais duradoura, a desenvolver suas estruturas cognitivas e seus
recursos de pensar e agir - de modo ase constituírem como sujeitos pensantes e críticos, ou seja,
competentes.
Com base nessas considerações, ao se planejar o currículo e outras ações educativas de
formação inicial e continuada de professores, as competências não podem ser reduzidas a meras
habilidades a serem treinadas, nem tornadas instrumentos de competição entre as pessoas, como
ocorreria numa perspectiva meramente econornicista. Ao contrário, são requeridos
conhecimentos, competências técnico-metodológicas (domínio do processo de trabalho) e
competências subjetivas e comunicativas (capacidade de estabelecer relações humanas,
competências sócio-comunicativas, formas participativas), competências transformadoras.
1
O termo "competências" tem sido questionado por alguns autores devido à sua vinculação a uma visão economicista
e empresarial do trabalho. Com efeito, as atuais formas de produção capitalista, baseadas na alta tecnologia e na
produção flexivel, introduzem mudanças no mundo do trabalho, especialmente, a substituição do conceito de
qualificação pelo de competência. Nesse caso, tem-se um conceito instrumental de competência, em que o
desenvolvimento de competências visaria a instrumentalização do trabalhador para novas exigéncias da produção
capitalista, incluindo a modelação de sua consciência uma nova ideologia do capital (Market, 2002). Formar para a
competência implicaria, portanto, maior atenção a formação da subjetividade dos trabalhadores, isto é, para a
valorização dos componentes subjetivos do trabalho (autonomia, capacidade de comunicação, iniciativa, capacidade
de reflexão), especialmente para situações de trabalho em grupo (cooperação entre diferentes especialidades na
empresa). Isso levaria a forçar a individualização de papéis no trabalho e as formas de competição, como estratégias
de melhorar o desempenho dos trabalhadores, aumentar a produção ea lucratividade. Isso estaria associado, também,
a redução de trabalhadores por conta da automação da produção; nesse caso, apenas parte dos trabalhadores seriam
aproveitados, e o critério seria sua competência. Market, no artigo citado, propõe um conceito integral e critico de
competência, baseado na visão dialética de formação humana, relacionando as categorias de trabalho e comunicação
"com a visão da formação do sujeito em estruturas de trabalho que permitem a intervenção participativa de homens
autónomos" (2002, p. 191). É essa abordagem adotada aqui para analisar o conceito de competência.
2
Conforme Marker: " A forma de aquisição dos saberes é o método da ciência-ação (...). Neste procedimento, as
ações profissionais seguem a lógica da intervenção de maneira análoga a uma pesquisa científica e abrem a
possibilidade de que a razão prática das ações de atores autónomos no sistema de trabalho permita um "poder
comunicativamente gerado" pelos assalariados. Com tais capacidades conquistadas, eles dispõem de competências
para intervenções significativas na organização do trabalho, que permitem a articulação e implantação dos seus
interesses coletivos e competências transformadoras" .(ib. p. 204).
Entendemos, por exemplo, que o conhecimento mais aprofundado da organização e
gestão da escola, por parte dos futuros professores, é uma forma de desenvolver competências
técnico-metodológicas e comunicativas, ou seja, desenvolvem, se saberes e competências para
intervenções significativas na organização do trabalho, visando a criação de uma cultura
instituinte em que são transformados os modos usuais e rotineiros de agir.
Em síntese, desenvolver competências profissionais de professor significa ir além dos
estreitos limites da definição de professor como profissional preparado para ensinar. Sem
dúvida, faz parte das competências de professor saber ensinar saber dar uma aula, saber
comunicar-se com os alunos; mas é, também, saber participar ativamente numa equipe, é saber
contribuir para formar urna organização do trabalho escolar qualificante e participativa, isto é,
ter capacidades subjetivas e sociocomunicativas para construir coletivamente a estrutura
organizacional. Nesse sentido, a competência produz instrumentalidades cognitivas e
operacionais para a transformação da realidade social.
A relação de competências profissionais reproduzida abaixo ajuda a compreender as
qualidades e capacidades exigidas hoje na formação profissional de professores.

1. É especialista no conteúdo que ensina e nos processos investigativos da matéria , e é


portador de uma razoável cultura geral;
2. Sabe associar a aquisição de conceitos científicos ao desenvolvimento dos processos
de pensamento;
3. Domina razoavelmente métodos e procedimentos de ensino, com destaque a
procedimentos de pesquisa ea exercícios do pensar centrados em problemas;
4. Conhece o mundo do trabalho e os requisitos atuais de exercício profissional;
5. Desenvolve visão crítica em relação aos conteúdos da matéria (contextualização) e ao
seu papel social enquanto intelectual;
6. Sabe lidar com as tecnologias da informação e comunicação, tanto no que se refere
aos conteúdos quanto ao seu manejo;
7. Conhece e sabe aplicar modalidades e instrumentos de avaliação da organização
escolar e da aprendizagem.
8. Sabe lidar com as várias formas culturais que perpassam a escola e a sala de aula, e
com a diversidade social e cultural, para conhecer melhor a prática do aluno e sua
relação com o saber;
10. Sabe articular, na atividade docente, as dimensoes cognitiva, social, cultural e
afetiva, visando ajudar os alunos a construírem sua subjetividade;
11. Domina procedimentos de trabalho interativo e desenvolve capacidade
comunicativa (comunicar-se e relacionar-se com as pessoas, assumir a aula como um
processo comunicacional);
12. É capaz de participar de forma produtiva de um grupo de trabalho ou de discussão,
bem como atuar em equipe em atividades de pesquisa, interdisciplinares e
organizativas;
13. Ajuda os alunos a pensar e agir em relação a valores e atitudes.

Competencias necessárias especificamente para participar da gestão da escola

Na concepção democrático-participativa, os profissionais que trabalham na escola


precisam desenvolver e pôr em ação competências profissionais específicas para participar das
práticas de gestão. Os tópicos seguintes indicam conhecimentos e práticas que podem auxiliar
os professores a participar ativamente dos processos e práticas da organização e da gestão da
escola.
a) Desenvolver capacidade de interação e comunicação entre si e com os alunos de modo
a saber participar ativamente de um grupo de trabalho ou de discussão, e promover esse tipo
de atividade com os alunos -Essas capacidades envolvem um conjunto de habilidades, tais
como: bom relacionamento com colegas, disposição colaborativa, saber expressar-se e
argumentar com propriedade, saber ouvir, compartilhar interesses e motivações. Segundo o
pesquisador portugues Rui Canário (1997), o professor é, em primeiro lugar, uma pessoa, o que
significa que sua atividade se define tanto por aquilo que ele sabe quanto por aquilo que ele é.
Por isso, ganha importancia a competência interativa, na qual se destacam as habilidades de
comunicação, expressão e escuta. Esse tipo de competência é requerido não apenas para a
participação nas práticas de organização e gestão da escola mas, também, para a condução da
sala de aula. De acordo com autor mencionado, a relação professor-aluno impregna a totalidade
da ação profissional do professor. Os professores necessariamente aprendem no contato com os
alunos, e serão melhores professores quanto maior for a sua capacidade para realizar essa
aprendizagem.
b) Desenvolver capacidades e habilidades de liderança - Liderança é a capacidade de
influenciar, motivar, integrar e organizar pessoas e grupos a trabalharem para a consecução de
objetivos. Em uma gestão participativa, não basta que haja na equipe certas pessoas que apenas
administrem a realização das metas, objetivos, recursos e meios já previstos. É preciso que se
consiga da equipe o compartilhamento de intenções, valores, práticas, de modo que os interesses
do grupo sejam canalizados para esses objetivos, e que várias pessoas possam assumir a
liderança e desenvolver essas qualidades. Trata-se da liderança cooperativa que envolve
determinados requisitos como: capacidade de comunicação e de relacionamento com as pessoas,
saber escutar, saber expor com clareza suas idéias, capacidade organizativa (saber definir um
problema, propor soluções, atribuir responsabilidades, coordenar o trabalho, acompanhar e
avaliar a execução), compreender as características sociais, culturais e psicológicas do grupo.
C) Compreender os processos envolvidos nas inovações organizativas, pedagógicas e
curriculares - Todos sabemos que nas escolas ainda vigoram formas de gestão centralizadoras,
burocráticas e inibidoras da participação. Para isso, é preciso mudar mentalidades, saber como
introduzir inovações e como são instituídas novas práticas. A mudança de uma cultura
organizacional instituída ou de representações que as pessoas tem sobre o funcionamento da
escola é um processo complexo no qual influem a história de vida das pessoas, os modos de
pensar e agir já consolidados, as atitudes de acomodamento, a resistencia a mudar práticas que a
pessoa acha que estão dando certo etc. Portanto, a introdução de inovações precisa ser feita de
modo planejado, cuidadoso, implicando ações e procedimentos muito concretos. O melhor meio
de promover a gestão participativa consiste em implantar a prática da participação em um clima
de confiança, transparência e respeito às pessoas. Independentemente da importância de os
membros da equipe tomarem consciência da necessidade da participação, é a prática que
possibilita o alargamento dessa consciência e o sentido da participação na construção de uma
nova cultura organizacional.
d) Aprender a tomar decisões sobre problemas e dilemas da organização escolar, das
formas de gestão e da sala de aula - A gestão participativa é um modo de fazer funcionar uma
organização em que se criam formas de inserir todos os membros da equipe nos processos e
procedimentos de tomada de decisões a respeito de objetivos, critérios de realização desses
objetivos, encaminhamento de solução para problemas. Tanto a solução de problemas como as
decisões a serem tomadas requerem alguns procedimentos como o levantamento de dados e
informações sobre a situação analisada, a identificação dos problemas e das possíveis causas, a
busca de soluções possíveis, a definição de atividades a serem postas em prática, a avaliação da
eficácia das medidas tomadas.
e) Conhecer, informar-se, dominar o conteúdo da discussão para ser um participante
atuante e crítico - Ninguém pode participar plenamente de uma equipe se não estiver bem
informado sobre os assuntos tratados. A participação em um grupo e nas reuniões exige que os
membros conheçam o assunto e se familiarizem com a problemática discutida. Há três campos
de conhecimento em relação aos quais os professores precisam estar muito bem informados: a
legislação, os planos e diretrizes oficiais; as normas e rotinas organizacionais; as questões
pedagógicas e curriculares. As escolas devem tornar disponíveis aos professores e pessoal
técnico-administrativo os documentos básicos da legislação federal, estadual e municipal, dentre
eles, cópias da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, do Plano Nacional de
Educação, dos Parametros Curriculares Nacionais, do Regimento Escolar.
I) Saber elaborar planos e projetos de ação - Os pedagogos e professores são
responsáveis pelo projeto pedagógico-curricular e outros projetos de suas especialidades. É
imprescindível que todos desenvolvam competência para realizar diagnósticos, definir
problemas, formular objetivos, gerar soluções e estabelecer atividades necessárias para alcançar
os objetivos.
g) Aprender métodos e procedimentos de pesquisa - A pesquisa é uma das formas mais
eficazes de detectar e resolver problemas. O professor-pesquisador é um professor que sabe
formular questões relevantes sobre sua própria prática e tomar decisões que apresentem
soluções a essas questões, para o que necessita dominar alguns procedimentos básicos da
pesquisa. A pesquisa é uma forma de trabalho colaborativo para a solução de problemas da
escola e da sala de aula e tem como resultado a produção de conhecimentos pelos professores
sobre o seu trabalho. É uma das formas mais eficazes de articular a prática ea reflexão sobre a
prática, ajudando o professor a melhorar sua competência profissional, já que importa melhorar
a qualidade das aulas para que a aprendizagem dos alunos seja mais efetiva.
h) Familiarizar-se com modalidades e instrumentos de avaliação do sistema, da
organização escolar e da aprendizagem escolar - A avalialção caracteriza-se sempre por ser
uma visão retrospectiva do trabalho. É uma etapa necessária de qualquer plano ou projeto, no
ambito da escola ou da sala de aula. Todas as pessoas que trabalham na escola e que participam
dos processos de gestão e tomada de decisões precisam dominar conhecimentos, instrumentos e
práticas de avalialção. As reuniões e os encontros específicos para realizar a avalialção da
escola constituem espaços adequados para discutir se os objetivos pretendidos estão sendo
alcançados, definir as ações e os procedimentos necessários para retomar o rumo, e as mudanças
necessárias para melhor promover a aprendizagem dos alunos.
É sabido o quanto o desenvolvimento dessas características de professor pode ser
prejudicado pelas atuais condiçoes de exercício profissional tais como a baixa remuneração e as
precárias condições de trabalho. Todavia, aposta-se nas possibilidades de melhoria da
qualificação profissional na formação inicial e formação continuada como um dos requisitos
essenciais para a profissionalização. É o que recomenda Guimaraes (1999, p. 5):

A ampliação e eficiencia dos meios de comunicação, o caráter de


instantaneidade que os fatos adquiriram, as inúmeras mediações que provocam
um turbilhão de estímulos que povoam a mente dos alunos desencadeiam
enorme ampliação da prática profissional, aumentando-se a complexidade da
profissão, exigindo-se conhecimentos mais refinados para uma atuação
produtiva.
Deixam de existir em educação -se já existiram- fatos simples. A cada dia
demanda-se uma formação [...] mais sólida, mais ampla e mais flexível para
que o professor seja capaz de ir compondo sempre melhor as suas respostas,
profissionalizando-se.