Grandes Guerras - Os grandes conflitos do século XX

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Tristes memórias de Guerra
A guerra sob a ótica de uma menina na cidade de Turin sob bombardeio. Daquele trágico período que vai de 1940 a 1945 não quero descrever os pormenores políticomilitares. Existe um sem fim de livros apropriados e, através da TV, todo dia, entram em nossos lares imagens das guerras que pipocam em todo lugar. Para perceber toda a emoção é preciso viver esses momentos, e não descrevê-los; tal como não se define uma dor de dente ou de parto. Vou narrar alguns episódios da minha infânciaadolescência através dos olhos e das sensações de uma menina de nove anos que assiste estupefata e horrorizada às barbaridades cometidas contra as crianças...sim...porque, à razão do egocentrismo infantil, eu me sentia alvo desse desastre e achava a guerra uma afronta pessoal. Porém é necessário testemunhar como esta experiência resultou numa grande lição de vida. Adquiri a capacidade de “filosofar”, de respeitar e valorizar as coisas miúdas, de agradecer o “pouco”, porque o “muito” é: saúde, integridade física e moral, amor e a união da família. As idéias se confundem, a memória vacila, mas... naquela tarde de 10 de junho, os berros daquele homem que me chegavam através do rádio, transmitindo a entrada em guerra da Itália, ressoarão em mim eternamente. Sem saber, mas pressentindo, como um rato no navio, um perigo iminente, joguei-me em cima da cama e chorei desesperadamente. Nos primeiros dias nada parecia mudado. Estava ainda gozando as férias escolares, porém, na volta, começaram os bombardeios. No início, ainda não tão terríveis. Os meses passando, se intensificaram; as bombas ficaram mais sofisticadas e potentes, porém os aviões nos visitavam somente à noite, permitindo que durante o dia cada um cuidasse dos seus afazeres. Frequentava as aulas normalmente, quando muito, cochilando por causa das noites mal dormidas e cheias de susto. No entanto, a guerra encrudecia mais e mais. Vivíamos em pleno terror. Meu pai não foi convocado, mas foi nomeado “capo-casa” [chefe-casa] cuja função era proteger o edifício e os moradores. Era muito corajoso, nunca descia ao abrigo, a menos que fosse necessário. Apagou muitos incêndios, salvando o prédio muitas vezes, de tal modo que ao fim da guerra ganhou do Estado uma menção honrosa. Foi nesse tempo que aprendi a orar à minha maneira. Certamente Deus devia se enfastiar de tantas litanias que dos porões subiam aos céus. Será que Ele atendia a todas as preces? A minha dúvida aumentava de tamanho... Toda noite morria tanta gente! Já não frequentava mais a escola das freiras, as “Rosinas”. Agora estava no colegial, ainda tínhamos aulas de religião, mas sem a obrigação de comungar todo mês. Minha fé declinava... Minhas dúvidas cresciam, mas não tinha perdido o medo do Inferno, apesar de que o Dito Cujo não poderia ser pior do que este em que estávamos. Mas tinha certeza de uma coisa: o Inferno é eterno e a guerra terminaria um dia. Comungava , porém não confessava ao padre todos os meus pecados. Como poderia confessar todas as maldições que eu lançava a esses danados que nos faziam guerra, àqueles que mandavam os soldados morrer nos campos de batalha e às bombas que caíam sobre as cabeças das crianças? Imaginava o que o padre diria: “Promete não ter mais estes pensamentos anticristãos e eu te absolvo”. Até parece! Então despachava estes meus negros pensamentos de ódio diretamente ao Senhor, que estava tranquilamente sentado no Seu Trono, longe dos bombardeios. Que fizesse desta pecadora o que quisesse e, se o castigo fosse uma bomba na minha cabeça, que me levasse sem maiores sofrimentos! Implorava não um, mas um sem fim de milagres. Implorava pela segurança minha e da minha família e agradecia toda vez que subia as escadas de volta do abrigo com minhas próprias pernas e não extraída com pás e picaretas de debaixo dos escombros. Prometia a Deus ser sempre uma boa menina, sem pensar que as meninas crescem e nunca poderia cumprir , totalmente, a minha promessa. Eu, dos bombardeios, tinha um terror visceral... e digo visceral porque, ao toque da sirene , minhas tripas se revolucionavam num potente desarranjo e subitamente travava angustiante batalha entre fugir para o porão ou ir correndo sentar-me no trono. Evidentemente o trono era o vencedor. Ao término do bombardeio, corria para a cozinha para saciar uma fome real
Cartazes em alemão em Portanuova Sinagoga parcialmente destruída após um bombardeio

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Mapa indicando a localização da cidade de Turin (Torino)

Comemoração da libertação em Piazza Vittorio

http://www.grandesguerras.com.br/relatos/text01.php?art_id=97

3/6/2007

Grandes Guerras - Os grandes conflitos do século XX
e psicológica. Vivi este drama durante toda guerra. Como era magra naquele tempo! Cozinhava o meu terror em silêncio. Tinha o pudor de não oferecer espetáculo para os outros. Deglutia o meu medo e o latejar do coração no maior mutismo. Minha mãe não teria nunca descido ao abrigo, para evitar o triste fim de um rato. Descia por causa da minha insistência. Eu tinha inveja de uma senhora surdíssima que percebia o cair das bombas porque o piso e as paredes trepidavam... e perguntava: “Estão bombardeando?” Quando faltava a luz (quase sempre), iluminavam o local com as lanternas, entre terços e berros histéricos de alguma mulher mais assustada que eu. Esses feixes de luz iluminavam expressões de susto nos rostos lívidos. Minha mãe me mantinha abraçada, enfiava um dedo nos meus ouvidos na vã esperança de minorar o barulho dos estrondos, e quando eu voltava para a minha cama, suas unhas tinham deixado marcas e ardências como recordação. Quando os bombardeios eram mais intensos, das paredes caía parte do reboco e a poeira resultante nos impedia de respirar, por isso, molhávamos panos ou lenços, para filtrar o ar. Já estávamos preparados para não sairmos vivos dali. Assim, a presença da Morte era uma constante e a tortura maior era achar uma resposta à mesma pergunta: “Não foi hoje... Será amanhã?” No inverno, sair da cama duas ou mais vezes por noite era um sacrifício terrível. A muito custo, tínhamos conseguido esquentar os gélidos lençóis e já íamos correndo pela escada envoltos em cobertores, tiritando de frio e de medo. É possível acostumar-se a tanto sofrimento? Porém, o ser humano tem capacidades ilimitadas. Mesmo com nossas vidas de cabeças para baixo, o dia a dia tinha que transcorrer num ritmo mais “normal” possível. Os adultos ao trabalho, nós, crianças, para a escola. As classes não tinham aquecimento e congelávamos nessas salas enormes. Agora os bombardeios aconteciam também durante o dia. Quem morasse perto da escola tinha a permissão de voltar para a própria residência quando soasse a sirene. Você via as crianças saindo dos portões a toda velocidade como se fossem formigas enlouquecidas. Eu corria esses quatrocentos metros, que me separavam da minha casa, como se tivesse asas aos pés e , graças a Deus , o bombardeio nunca me surpreendeu no meio da corrida. Se tivesse que chegar a minha hora de morrer, que isso acontecesse junto à minha mãe. Entre uma bomba e outra a vida continuava. A comida era escassa, tudo era limitado e quem mais, quem menos, sofria penúrias. Dos chocolates e doces já tínhamos esquecido os gostos. No interior não acontecia este drama, porém nas cidades as dificuldades eram enormes. Nas sacadas, nos quintais e jardins, criavam-se coelhos e galinhas. Estas complementariam as parcas refeições com seus ovinhos, mas duvido que os donos dessas preciosuras tivessem a coragem de enfiá-las numa panela. Esses bichinhos de estimação faziam parte da família. Mais os anos se passavam, mais aumentavam os sacrifícios. As mulheres arrancavam a lã dos colchões, fiavam-na e tricotavam meias e pulôveres que te provocavam uma maldita coceira. Até minha mãe tinha me dado este presente de grego e eu me coçava como um cão sarnento. Tudo era reutilizado. Velho casaco de quando tinha sete anos foi alargado e encompridado com sobras do mesmo (verdadeira obra de arte), visto que nós crianças, apesar da guerra, não parávamos de crescer. As mães compravam nossos sapatos dois números a mais do necessário e preenchiam as pontas com algodão. Minha “triste figura” era bem ridícula: magra, equilibrando-me sobre dois pés enormes parecendo dois barcos! Nós, particularmente, graças à Clínica onde meu pai trabalhava, não passávamos fome, pois as sobras da cozinha eram distribuídas aos empregados; mas nesses longos cinco anos, parte das refeições foi à base de pés, cabeças e pescoços de galinha e restos das sopas que certamente não faziam parte do cardápio dos sofisticados clientes da Sanatrix. Meu pai, todos os dias, me trazia um copo de leite dentro de uma garrafinha enfiada no bolso do casaco e, por causa dessa garrafa, uma noite quase recebe uma metralhada quando foi revistado numa ponte. Sendo apalpado, o soldado alemão pensou se tratar de uma granada de mão. Em tempo foi esclarecido o equívoco. Milagrosamente o nosso edifício permaneceu de pé. Os outros, ao redor, quem mais, quem menos, viraram escombros. Uma noite, saindo de um terrível bombardeio, ficamos consternados vendo os entulhos, os incêndios, os jatos de água fervendo escapando dos canos estourados pelo excessivo calor, enquanto todos nós fugíamos a toda velocidade para não sermos atingidos. O nosso apartamento teve todos os vidros estourados e a porta do meu quarto estava deitada na cama. Mamãe se esmerava para que eu não fosse espectadora dos horrores, evitando curiosidades mórbidas, porém nem tudo me foi poupado. Vi corpos queimados pelas bombas incendiárias feitas com produtos químicos que acendiam ao contato com o ar, impossíveis de apagar. As pessoas atingidas se jogavam no rio apagando momentaneamente o fogo e, não sabendo nadar, morriam afogadas. Pessoas resgatadas com vida dos escombros, depois de dias sem luz, água, comida, cara a cara com o medo de morrer enterradas vivas, renasciam completamente encanecidas. Vi minha mãe, várias vezes, ser levada pela polícia para interrogatório, acusada de esconder um Rabino e sua esposa. Soube que foi ameaçada com um revólver e que respondeu à ameaça: “Se não respondo estando viva... muito menos falarei depois de morta!” Ela sabia, a polícia sabia que ela sabia e acabaram confessando que não sentiam o menor

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http://www.grandesguerras.com.br/relatos/text01.php?art_id=97

3/6/2007

Grandes Guerras - Os grandes conflitos do século XX
orgulho do que estavam fazendo. Ainda elogiaram minha mãe pela coragem! (I Piemontesi hanno la testa dura!) Com o andamento da guerra e depois, já perto do fim, o povo era submetido não só aos bombardeios, mas também aos abusos de uma guerra fratricida, entre fascistas, partigiani e alemães que, de aliados antes da nossa traição, tornaram-se nossos inimigos e, mais uma vez, a população era vítima das retaliações. Assim, não raro, nos deparávamos com corpos metralhados, deitados nas praças, com calotas de cabeças longe do corpo, os cérebros esparsos em massas sanguinolentas, os dentes saindo pelas bochechas, olhos esbugalhados olhando sem ver, um céu imenso e indiferente, bocas escancaradas numa muda pergunta: “Por quê?” Sim... por que esta sede de sangue... Estes absurdos sentimentos patrióticos... Estas inúteis batalhas religiosas... Esta ausência de humanidade? Por que esta infinita estupidez que nos impede de aprender algum ensinamento de tantos exemplos recebidos no decorrer dos séculos? Quando hordas ensandecidas lotam as praças berrando “slogans” a favor desta ou daquela guerra, por que não reunir as mães para perguntar-lhes se pariram em dor os seus filhos para serem usados como alimento aos canhões? Tudo, nesta vida, tem um começo e um fim. Narrei, em parte, a longa agonia de uma batalha sem glória. A vitória tão decantada não foi nossa. A população civil foi a que mais sofreu; ficou com os lutos, os escombros, a derrota. Pagamos o preço da Paz com juros feitos de lágrimas e sangue. Rezei por milagres... fui atendida e agradeço! Ninguém dos meus parentes foi vitimado. Não vou relatar a alegria que nos causou o fim da guerra. Não caberá nestas páginas.
Fonte deste artigo: Texto original de Nide Fontana Beccaccia, gentilmente cedido para o Grandes Guerras

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3/6/2007