Bhagavad-Gita

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Nota do editor:
O texto abaixo foi retirado integralmente do site http://gita.vraja.net/index.htm. Não encontrei copyright's no site e por isso tomei a liberdade de copiar o conteúdo criando este pdf. No site o conteúdo divide-se em vários links sequenciais (Intro, Capítulo 1, Capítulo 2 , …) então copiei para este documento o conteúdo de cada link na mesma ordem encontrada no site. Cada capítulo possui um extenso comentário feito por Chandramukha Swami o que auxilia a compreensão do leitor. A divisão do texto em 108 pérolas também é de sua autoria e a explicação para tal é dada no capítulo 108 Pérolas de Sabedoria. Esta é uma ótima leitura para todas as pessoas, independentemente de sua posição religiosa, pois traz grandes ensinamentos que podem ser aplicados a quaisquer pessoas.

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ÍNDICE
Bem Vindo …............................................................................................................................................. 3 Dedicatória …............................................................................................................................................. 4 108 Pérolas de Sabedoria …....................................................................................................................... 5 Introdução ….............................................................................................................................................. 6 CAPÍTULO I: Observando os Exércitos …............................................................................................... 8 CAPÍTULO II: Resumo do Conteúdo do Gita ….................................................................................... 16 CAPÍTULO III: Karma-yoga ….............................................................................................................. 25 CAPÍTULO IV: O Conhecimento Transcedental …................................................................................ 30 CAPÍTULO V: Karma-yoga, Ação em Consciência de Krishna …......................................................... 36 CAPÍTULO VI: Dhyana-yoga …............................................................................................................. 39 CAPÍTULO VII: O Conhecimento Acerca do Absoluto …...................................................................... 44 CAPÍTULO VIII: Alcançando o Supremo …........................................................................................... 48 CAPÍTULO IX: O Conhecimento Mais Confidencial …......................................................................... 52 CAPÍTULO X: A Opulência do Absoluto …............................................................................................ 57 CAPÍTULO XI: A Forma Universal …..................................................................................................... 60 CAPÍTULO XII: Serviço Devocional ….................................................................................................. 65 CAPÍTULO XIII: A Natureza, o Desfrutador e a Consciência …............................................................ 68 CAPÍTULO XIV: Os Três Modos da Natureza Material …..................................................................... 73 CAPÍTULO XV: A Yoga da Pessoa Suprema …...................................................................................... 77 CAPÍTULO XVI: As Naturezas Divinas e Demoníacas …...................................................................... 82 CAPÍTULO XVII: As Divisões da Fé ….................................................................................................. 86 CAPÍTULO XVIII: A Perfeição da Renúncia …...................................................................................... 91

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É com prazer que apresentamos o Bhagavad-gita On Line, um trabalho extraído do livro 108 Pérolas de Sabedoria e baseado nos textos originais do Bhagavad-gita Como Ele É de Sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, o fundador e mestre da Sociedade Internacional da Consciência de Krishna. Na realidade, este site não passa de uma humilde e sincera tentativa de auxiliar os leitores que, por uma razão ou outra, encontram alguma dificuldade em compreender esta literatura transcendental e sua finalidade é inspirar e encorajar os leitores a estudarem profundamente o Bhagavad-gita Como Ele É de Srila Prabhupada. Assim como uma infinidade de pérolas valiosas se encontram nas profundezas do oceano, os significados dados por Srila Prabhupada podem ser comparados ao oceano de conhecimento mais profundo e estão repletos de pérolas de sabedoria. Por sua misericórdia, um estudante insignificante como eu foi capaz de colher estas 108 pérolas, mas, conhecendo meu limite, sei que não fui capaz de penetrar nas regiões mais profundas deste oceano transcendental. Deste modo, sugiro enfaticamente que todos mergulhem no oceano de conhecimento do Bhagavad-gita Como Ele É de Srila Prabhupada o mais profundo que puderem e colham pessoalmente suas próprias pérolas divinas. Posso apenas dar-lhes meu testemunho. Para mim, o Bhagavad-gita Como Ele É tem sido um companheiro verdadeiro e fiel nos momentos difíceis de solidão, um perfeito conselheiro nos momentos decisivos da vida e um farol brilhante que ilumina tudo em meio às mais profundas trevas do intelecto e sua leitura diária tem sido um alimento saudável para o apetite do intelecto. Esperamos sinceramente que vocês apreciem este esforço e se inspirem a colocarem cada vez mais os ensinamentos do Bhagavad-gita no centro de suas vidas. Om tat sat.

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A A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada que, ao ter apresentado o Bhagavad-gita Como Ele É sem adulteração, tem ajudado milhões de leitores do mundo todo a chegarem a um entendimento prático das instruções do Senhor Krishna. Assim como o poderoso oceano abriga variedades de pérolas preciosas, suas traduções e comentários completamente ricos em devoção e erudição comparam-se a um profundo oceano de conhecimento que contém uma infinidade de pérolas de sabedoria Tendo mergulhado constantemente neste oceano transcendental, fui capaz de colher estas 108 Pérolas de Sabedoria, as quais baseiam-se exclusivamente em seus ensinamentos divinos. Portanto, este trabalho é dedicado a ele e a todos aqueles que se interessam pelo verdadeiro espírito do Bhagavad-gita.

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A idéia de 108 Pérolas surgiu de maneira interessante. Ao fazer um estudo mais pormenorizado da obra, percebi que os 700 versos do Bhagavad-gita seguem naturalmente uma sequência de assunto. Desse modo, comecei a dividir os versos em módulos sequenciais. Por exemplo, nos primeiros 11 versos o rei Duryodhana conversa com seu mestre de armas Dronacharya e, ao analisar ambos os exércitos, tenta encorajar Drona mostrando sua confiança em seu exército. Depois disso, dos versos 12 a 19, Sanjaya começa a descrever o soar dos búzios dos poderosos guerreiros e o resultado do som produzidon pelos búzios nos corações de todos, e assim por diante. Ao terminar esta divisão, decidi contar o número de módulos e fiquei bastante surpreso de constatar que tinha em mãos 108 módulos! Para nós, seguidores dos Vedas, o número 108 é bastante auspicioso, pois além de 108 Upanishads (textos de filosofia avançada) e 108 gopis (as vaqueirinhas-devotas que se relacionam intimamente com o Senhor Krishna) o devoto de Krishna tem um voto de cantar o mahamantra Hare Krishna em um rosário que possui 108 contas. Assim, vi que tinha uma grande oportunidade de satisfazer um desejo antigo de escrever um livro usando uma linguagem bastante simples (para que a minha mãe possa entender o Bhagavad-gita, como costumo brincar). Como não seria adequado chamar o livro de 108 Módulos, achei conveniente entitulá-lo de 108 Pérolas de Sabedoria. E o resultado disso tem sido excelente. Com a primeira edição esgotada, acabo de lançar uma segunda edição. Além disso, este trabalho está sendo a base de um Curso de Bhagavad-gita On Line, o responsável pela idéia da criação deste site. Esperamos sinceramente que você aprecie este trabalho e aplique os ensinamentos divinos do senhor Krishna em sua vida. Isto certamente lhe abrirá um campo de atividades novas e encherá a sua vida de significados profundos. Todas as glórias a Srila Prabhupada e sua edição insubstituível do Bhagavad-gita Como Ele É.

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INTRODUÇÃO: Bhagavad-gita, a Essência do Conhecimento Védico Os Vedas são a fonte original de todo e qualquer conhecimento e sua origem é transcendental. Desse modo, não há ramo de conhecimento material ou espiritual que não esteja contido nos textos védicos originais. O conhecimento de uma pessoa sob a influência da energia material está sempre sujeito a quatro tipos de defeitos: sua mente e intelecto têm a forte tendência de se iludir, seu comportamento está sempre manchado de erros, seus sentidos de percepção são defeituosos e limitados e, para satisfazer seus interesses pessoais, ela é capaz de enganar as outras pessoas. Na verdade, é comum que uma pessoa na plataforma material manifeste um ou mais destes defeitos de uma só vez. No entanto, devemos compreender que o conhecimento védico não possui nenhum destes defeitos, pois foi transmitido pela Pessoa Suprema – uma fonte completamente transcendental. O receptor original deste conhecimento foi o primeiro ser vivo, o Senhor Brahma, o qual existiu antes mesmo da criação material. Brahmaji foi dotado de poder pelo Senhor para criar o mundo material com o propósito de dar uma nova oportunidade às almas condicionadas que não alcançaram a liberação na criação anterior. Depois de cumprir esta missão, Brahma transmitiu este conhecimento védico ao sábio Narada que, por sua vez, o transmitiu a seu discípulo Vyasadeva que, com o propósito de preservá-lo, registrou-o na forma literária. Uma vez que os Vedas têm como propósito último fornecer conhecimento sobre a auto-realização espiritual, os seus temas são compreendidos apenas por pessoas com excepcionais qualidades de bondade, e não podem compreendê-los as pessoas sob a influência da paixão e da ignorância. Por este motivo, no início da era de Kali, o grande sábio Vyasa dividiu os Vedas em vários ramos, tornando-os acessíveis às pessoas menos inteligentes, situadas na paixão e na ignorância. Especialmente, o sábio Vyasa preparou o Mahabharata, uma compilação admirável repleta de histórias que prendem a atenção de qualquer tipo de pessoa, e, dentro do Mahabharata, incluiu a essência do conhecimento védico na forma do Bhagavad-gita. A realidade é que as pessoas comuns se interessam muito mais por histórias fascinantes do que por filosofia profunda. Assim, Vyasadeva compôs o Mahabharata, e prendeu a atenção dos leitores menos inteligentes com a incrível história da disputa pelo trono entre as dinastias Kaurava e Pandava. O interessante é que no momento mais crítico da história, exatamente quando a Batalha de Kurukshetra está por começar, o Senhor Krishna entra em cena e transmite Sua mensagem maravilhosa, ou seja, o Bhagavad-gita. Na verdade, toda a trama política e envolvente do Mahabharata não passa de um arranjo divino para prender a atenção dos leitores para que o Senhor Krishna possa derramar um oceano infinito de instruções sublimes sob a forma do Bhagavad-gita, o resumo da verdadeira essência dos Vedas. As próprias escrituras védicas não se cansam de glorificar as qualidades singulares do Bhagavad-gita. Isto porque o Bhagavad-gita emanou diretamente da boca da maior autoridade em conhecimento, Sri Krishna, o qual é glorificado em todos os Vedas como Mahaprabhu, o Mestre Espiritual Supremo, e Purushottama, a Maior de Todas as Personalidades. Devemos ser entusiastas em estudar o Bhagavad-gita e compreender que ele é a manifestação da ilimitada bondade do Senhor, que, em apenas 700 versos, apresentou toda a essência do conhecimento contido em todos os Vedas. Nesta era atual, as pessoas têm uma curta duração de vida e não são muito entusiastas e qualificadas para estudar a imensidão de textos védicos, tais como os Puranas, Upanishads, Vedanta-sutra, etc. Desse modo, ao estudarem simplesmente o Bhagavad-gita, todos poderão se elevar ao estado de sabedoria e iluminação transcendental. Portanto, assim como os Vedas, o conhecimento apresentado no Gita é eterno e imaculado e se destina ao homem fiel que tem o desejo sincero de compreender o tema de como se livrar das garras da existência material e alcançar uma existência eterna e plena de felicidade. O Bhagavad-gita é o primeiro livro de valores espirituais e eleva o seu estudante para que ele possa iniciar seu estudo da filosofia Vedanta para, finalmente, ingressar no bhagavata-dharma, ou seja, serviço devocional amoroso ao Senhor. Segundo os Vedas, o cosmos material se manifesta em ciclos de quatro eras: Satya, Treta, Dvapara e Kali. A era de Satya é caracterizada pelas boas virtudes e todos os seres humanos que vivem na Terra são repletos de qualidades divinas. Na era de Treta, há um declínio das virtudes e a Terra passa a abrigar ao mesmo tempo seres divinos e seres demoníacos. Na era de Dvapara, o aumento da irreligião e da impiedade se acentua e o divino e o demoníaco passam a viver na mesma família. Finalmente, na era de

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Kali, ou era das trevas, há um predomínio total de irreligião, hipocrisia e desavenças, e a natureza divina e demoníaca habitam lado a lado no mesmo corpo. Desse modo, foi há cinco mil anos, entre o final da era de Dvapara e o começo da era de Kali, que a Pessoa Suprema, Bhagavan Sri Krishna, veio à Terra e transmitiu para Arjuna este conhecimento sublime do Bhagavad-gita, removendo, assim, todas as suas dúvidas, ansiedades e lamentações. O cenário do Bhagavad-gita foi o campo sagrado de Kurukshetra, minutos antes da batalha mais violenta já registrada pela história dos últimos tempos. Naquela época, a Terra e seus habitantes estavam sendo atormentados pela influência perturbadora de indivíduos materialistas e cobiçosos e, como é confirmado no Capítulo Quatro do próprio Bhagavad-gita, em tais situações, o próprio Senhor sempre desce a este ou qualquer outro planeta para eliminar os elementos indesejáveis e proteger diretamente as pessoas piedosas. Sendo um companheiro eterno do Senhor Krishna, o guerreiro Arjuna está sempre livre de qualquer classe de ilusão. Entretanto, ele foi colocado em ilusão pessoalmente pelo Senhor, porque o Senhor desejava transmitir os ensinamentos do Bhagavad-gita para as futuras gerações. Desse modo, representando o papel de uma pessoa absorta em sofrimento material, Arjuna pôde formular perguntas relevantes sobre os verdadeiros problemas da vida. Devemos entender que Arjuna está representando a nossa posição, pois, quer compreendamos ou não, na existência material convivemos frequentemente com ansiedades e temores. Portanto, temos de primeiramente seguir o exemplo de Arjuna que admitiu sua incapacidade de, sozinho, solucionar os problemas que surgiram diante dele no Campo de Batalha de Kurukshetra. Depois disso, temos de aceitar o abrigo do Senhor e seguir Suas instruções divinas, independente do nível de educação ou inteligência que possamos ter. A realidade é que não temos a capacidade de encontrarmos as devidas soluções para os problemas que surgem na vida, pois, em nossa vida prática, é como se estivéssemos no Campo de Kurukshetra, onde a batalha entre o bem e o mal acontece a todo momento. Arjuna mostrou-nos que, se quisermos vencer esta grande batalha interna, temos de nos armar com o conhecimento transcendental do Bhagavad-gita, o qual não foi destinado apenas ao guerreiro. Na realidade, tais instruções sublimes não se aplicam apenas àquele momento ou lugar específico, mas servem para todos os tipos de pessoas, em todas as épocas e lugares. Isto significa que, ainda hoje, se uma pessoa for inteligente o bastante para compreender o Bhagavad-gita do mesmo modo que Arjuna o compreendeu, ela será tão beneficiada como Arjuna, o qual estava na presença pessoal do Senhor. Faz parte do conhecimento transcendental compreender que, uma vez que o Senhor é absoluto, não existe diferença entre Ele e Suas instruções. Materialmente falando, a associação entre uma pessoa e outra depende do contato pessoal físico, mas na plataforma espiritual a situação é diferente. Na verdade, o Senhor Krishna transmitiu estes ensinamentos sublimes, os quais foram registrados pelo grande sábio Vyasadeva, para que sempre tenhamos a oportunidade de estar recebendo instruções do Senhor mesmo que Ele esteja fora de nossa visão material. Por si sós, nossos sentidos materiais limitados nunca nos darão acesso à compreensão do Senhor ilimitado. Entretanto, justamente por ser ilimitado, o Senhor pode Se revelar mesmo àqueles que possuem sentidos limitados, pois, caso Ele não pudesse, o próprio Senhor também seria limitado como um de nós. O Senhor possui poderes inconcebíveis. Desse modo, sendo uma das energias do Senhor, a energia material pode ser espiritualizada pelo Seu desejo transcendental. Desse modo, a representação de uma escritura como o Bhagavad-gita é uma representação sonora autêntica do Senhor e é especialmente destinada à percepção sensorial que possuímos neste momento. Chandramukha Swami 26 de Dezembro de 1999 Dia do desaparecimento de Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakur Kurukshetra Tirtha (O local onde o sagrado Gita foi falado há mais de cinco mil anos) Haryana, Índia

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CAPÍTULO I: Observando os Exércitos Pérola 1. DURYODHANA ACREDITA NA VITÓRIA (versos 1 a 11) 1. Dhritarastra disse: Ó Sañjaya, que fizeram meus filhos e os filhos de Pandu depois que se reuniram no lugar de peregrinação em Kurukshetra, desejando lutar? 2. Sañjaya disse: Ó rei, após observar o exército disposto em formação militar pelos filhos de Pandu, o rei Duryodhana foi até seu preceptor e falou as seguintes palavras. 3. Ó meu mestre, olha o grande exército dos filhos de Pandu, tão habilmente organizado por teu inteligente discípulo, o filho de Drupada. 4. Aqui neste exército, estão muitos arqueiros heróicos que sabem lutar tanto quanto Bhima e Arjuna: grandes lutadores como Yuyudhana, Virata e Drupada. 5. Há também grandes combatentes heróicos e poderosos, tais como Dhristaketu, Chekitana, Kashiraja, Purujit, Kuntibhoja e Saibya. 6. Há o possante Yudhamanyu, o poderosíssimo Uttamauja, o filho de Subhadra e os filhos de Draupadi. Todos esses guerreiros lutam habilmente em suas quadrigas. 7. Mas para a tua informação, ó melhor dos brahmanas, deixa-me falar-te sobre os capitães que estão especialmente qualificados para conduzir minha força militar. 8. Há personalidades como tu, Bhisma, Karna, Kripa, Asvatthama, Vikarna e o filho de Somadatta chamado Bhurisrava, que sempre saem vitoriosos na batalha. 9. Há muitos outros heróis que estão preparados a sacrificar sua vida por mim. Todos eles estão bem equipados com diversas espécies de armas, e todos são experientes na ciência militar. 10. Nossa força é incomensurável, e estamos perfeitamente protegidos pelo avô Bhisma, ao passo que a força dos Pandavas, cuidadosamente protegida por Bhima, é limitada. 11. Todos deveis dar todo o apoio ao avô Bhisma, à medida que assumis vossos respectivos pontos estratégicos enquanto entrais na falange do exército. Dhritarastra e Pandu eram irmãos, pois ambos haviam sido gerados pelo grande sábio Vyasadeva. A história do nascimento deles começa com um incidente ocorrido com o piedoso Maharaja Mahabhisheka. Tendo abandonado seu corpo, Mahabhiseka alcançou os planetas celestiais. Ao visitar Satyaloka com o propósito de adorar o Senhor Brahma, Mahabhisheka encontrou-se com a bela deusa Ganga. Naquela atmosfera devocional, uma brisa fortuita levantou o vestido de Ganga, inspirando-o a lançar um olhar luxurioso para ela. Uma vez que Ganga Devi havia respondido ao olhar do rei com um leve sorriso, Brahma ficou indignado com a atitude deles e amaldiçoou-os a nascer na Terra. Não desejando vir a este planeta, Ganga Devi caiu aos pés do Senhor Brahma, pedindo seu perdão. Mas, Brahma disse a ela que somente depois de liberar os oito Vasus*, ela iria recuperar sua verdadeira posição. Desse modo, Mahabhiseka teve de nascer na Terra como Maharaja Santanu e obteve Ganga como sua esposa. Enquanto caçava nas margens do rio Ganges, Santanu conheceu a linda donzela Ganga e imediatamente caiu de amor por ela, desejando-a como esposa. Ela aceitou tornar-se sua esposa na condição que ele não poderia se opor a qualquer coisa que ela fizesse. Caso contrário, ela partiria imediatamente para nunca mais voltar. Embora assustado com o que acabara de ouvir, Santanu concordou com Ganga, e eles se casaram. Ganga mostrava ser uma esposa ideal. Dedicada e gentil, ela era querida por todos e parecia que eles formavam um casal perfeito. Logo uma bela criança nasceu, entretanto, de uma maneira cruel, Ganga pegou este filho e carregou-o até a beira do rio Ganges. Santanu ficou perplexo, mas, lembrando a promessa que fizera a Ganga, não podia contrariá-la. Desse modo, em grande desespero e calado, Santanu teve de assistir à sua querida esposa atirando dentro do rio Ganges a criança recém-nascida. Sete filhos nasceram e ela jogava um por um dentro do rio Ganges. Em grande desespero e incapaz de se controlar, após o nascimento do oitavo filho, Santanu tentou impedir Ganga de voltar a cometer semelhante crueldade. Embora tivesse concordado com Santanu, Ganga lembrou-o de que ele havia quebrado sua promessa e, como havia sido combinado, imediatamente partiu do palácio para a floresta, acompanhada de seu oitavo filho, o qual passou a chamar-se Devavrata. Muitos anos se passaram e, novamente, Santanu Maharaja foi à beira do rio Ganges para caçar. Dessa vez, ele viu um lindo jovem parando o fluxo das águas, atirando uma fileira de flechas sobre toda a sua extensão. Sentindo-se atraído por ele, Santanu se aproximou e, naquele momento, Ganga Devi apareceu novamente diante do rei. Entendendo que o menino era o seu querido filho, Santanu, dirigindo-se a Ganga, pediu-o de volta e levou-o para o seu palácio, enquanto Ganga desapareceu para sempre. Santanu ficou muito feliz com a companhia de seu querido e qualificado filho, pois o jovem e maravilhoso Devavrata possuía beleza indescritível e havia sido educado em todos os ramos de conhecimento dos Vedas pelo poderoso sábio Vashistha. Desse modo, todos, e especialmente Santanu, estavam muito felizes, pois agora o reino possuía um herdeiro verdadeiramente qualificado.

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Um dia, novamente enquanto caçava na floresta, Santanu sentiu um doce aroma de almíscar no ar que exalava do corpo da bela jovem chamada Satyavati*, a qual era a filha de um pescador. Sentindo-se completamente encantado por ela, Santanu aproximou-se de seu pai e pediu-a em casamento. Mas o valente pescador não cedeu ao pedido do rei imediatamente, pois ele explicou que sua filha havia recebido uma bênção do grande sábio Parashara Muni de que o filho dela herdaria o trono real. Ele também acrescentou que Santanu já tinha Devavrata como filho e este seria o herdeiro do trono. Incapaz de encontrar solução para o problema, Santanu voltou para o palácio, sentindo muita tristeza e depressão por não poder se casar com a bela Satyavati. Desde então, Santanu perdeu o interesse pela vida e preferia permanecer em sua cama, passando o tempo na solidão. Preocupado com a condição de seu pai, Devavrata aproximou-se dos seus ministros, os quais contaram todos os pormenores da causa da lamentação de seu pai. Imediatamente indo até o pescador, Devavrata pediu para que ele permitisse que sua filha se casasse com seu pai. Tendo ouvido as condições impostas pelo pescador, Devavrata decidiu imediatamente renunciar ao reino. Desse modo, o filho de Satyavati se tornaria o herdeiro do trono. No entanto, o pescador ainda não estava satisfeito. Sendo muito inteligente e perspicaz, ele mencionou que, ainda assim, no futuro poderia haver uma grande disputa pelo trono entre o filho de Satyavati e o filho de Devavrata. Neste caso, num gesto de completa fidelidade a seu pai, Devavrata se levantou e, com as mãos postas, fez um voto solene de castidade, garantindo ao pescador que nunca iria se casar! Neste momento, os semideuses lançaram do céu uma chuva de flores, enquanto declararam impressionados que, a partir daquele momento, Devavrata deveria ser chamado de Bhisma, ou seja: “Aquele que fez um voto terrível”. Ficando satisfeito, o pescador finalmente concordou em dar a mão de sua filha a Santanu. Devavrata, agora conhecido como Bhisma, levou Satyavati para o palácio e entregou-a a seu pai. Ao saber dos detalhes sobre o que havia acontecido, Santanu Maharaja ficou muito satisfeito com o seu filho e o abraçou com lágrimas de gratidão e orgulho, dando-lhe a bênção de que ele só iria morrer quando quisesse. Do casamento de Santanu e Satyavati nasceram Vichitravirya e Chitrangada, sendo este último coroado como rei. No entanto, o jovem rei foi morto por um Gandharva de mesmo nome, deixando o trono para seu irmão Vichitravirya. Bhisma estava preocupado com a continuidade da dinastia e, por isso, queria que seu jovem irmão Vichitravirya se casasse o mais rápido possível. Ouvindo que o momento da cerimônia svayamvara (a cerimônia da escolha do esposo) das três filhas do rei de Kashi havia chegado, Bhisma se dirigiu até lá. Como ele já era um pouco idoso e tinha a fama de ter feito um voto de castidade, os outros reis tentaram impedi-lo de participar da cerimônia. Depois de derrotar vários reis como Salva, Bhisma heroicamente raptou as três filhas do rei de Kashi e levou-as em sua carruagem para o palácio de Vichitravirya. Com sua chegada, portanto, foram feitas as preparações para o casamento de Vichitravirya com as três princesas que se chamavam Amba, Ambika e Ambalika. Então, Amba aproximou-se de Bhisma e disse-lhe que ela já havia entregado seu coração ao rei Salva. Bhisma, então, permitiu que ela retornasse para casa e fosse procurar Salva. Assim sendo, Vichitravirya casou-se com Ambika e Ambalika. Depois de reinar por sete anos, Vichitravirya acaba morrendo sem deixar nenhum herdeiro, criando mais uma grande crise na dinastia. Depois disso, Satyavati aproximou-se de Bhisma e pediu para que ele gerasse uma criança numa das esposas de seu falecido irmão, mas Bhisma manteve-se firme e decidido a não quebrar sua promessa. Então, Satyavati contou-lhe que quando era bastante jovem teve com Parashara Muni um filho cujo nome era Vyasadeva, e sugeriu trazê-lo para gerar filhos nas viúvas de Vichitravirya. Na verdade, Vyasadeva era um sábio muito famoso e poderoso e levava uma vida retirada, praticando austeridades e penitências nas montanhas dos Himalayas. Bhismadeva imediatamente concordou com a idéia, vendo a possibilidade de dar continuidade à dinastia de seu pai. Tendo sido solicitado, Vyasadeva concordou com a proposta e desceu das montanhas Himalayas para satisfazer o pedido de sua querida mãe. No entanto, devido às suas severas penitências, seu aspecto era assustador. Seus cabelos e barba eram longos e desgrenhados e suas unhas eram enormes. Ao aproximar-se de Ambika para gerar um filho, ela ficou bastante assustada e fechou os olhos durante o intercurso sexual. Desta união, nasceu Dhritarastra, um rei muito forte e poderoso. Entretanto, como Ambika havia fechado seus olhos no momento da união com Vyasa, Dhritarastra nasceu cego. Chegou, portanto, a vez de Ambalika ser chamada para conceber um filho com o sábio Vyasa. Sabendo do que havia acontecido com sua irmã, Ambalika estava muito assustada e manteve seus olhos bem abertos durante o ato sexual. O resultado desta união foi o nascimento do poderoso Pandu, o qual nasceu excessivamente pálido, devido à condição assustada de sua mãe na hora de sua concepção. Ao crescerem, Dhritarastra casou-se com Gandhari, ao passo que Pandu casou-se com Kunti e Madri. Com a bênção de Vyasa, da união de Dhritarastra e Gandhari, nasceram cem filhos, encabeçados pelo malévolo Duryodhana*, enquanto Pandu teve cinco filhos com suas esposas, os quais ficaram famosos

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como Pandavas. Embora fosse mais velho do que Pandu, Dhritarastra foi excluído da herança do reino devido à sua cegueira. Desse modo, Pandu foi coroado rei. No entanto, seu reinado durou muito pouco e, antes mesmo de ter filhos, Pandu recebeu uma terrível maldição que ele seria morto no momento que ele se entregasse ao ato sexual. Desse modo, Pandu abandonou o reino e, acompanhado de suas duas esposas, foi viver na floresta executando austeridades. Vendo que novamente a dinastia estava ameaçada, uma de suas esposas, a gloriosa Kunti Devi, revelou que havia recebido a bênção do grande sábio Durvasa Muni de invocar qualquer semideus que desejasse para, deste modo, gerar filhos com ele. Portanto, a pedido de Pandu, Kunti foi capaz de gerar três filhos gloriosos. Primeiro Kunti invocou Dharma, o semideus da religião, gerando assim um virtuosíssimo filho. Logo que nasceu, uma voz divina disse: “Esta criança será chamada Yudhisthira e será gloriosa, determinada, renunciada e famosa nos três mundos!” Pandu desejava também um filho de grande força física. Portanto, Kunti invocou Vayu, o semideus do vento. Tendo se unido com ele, uma criança muito poderosa foi gerada. Ao nascer, a mesma voz sobrenatural disse: “Esta criança será o mais forte dentre os homens!” Em seguida, Kunti invocou Indra, o rei dos céus, e concebeu mais uma linda criança. Desta vez, a voz celestial vibrou: “Ó Kunti, esta criança será tão forte como Kartavirya e Shibi, e, como o próprio Indra, será invencível na batalha. Sua fama espalhar-se-á por todos os lugares e ele obterá armas divinas”. Subsequentemente, Madri, a segunda esposa de Pandu, gerou dois filhos: Nakula e Sahadeva. Estes cinco filhos – Yudhisthira, Bhima, Arjuna, Nakula e Sahadeva – ficaram conhecidos como Pandavas. Desde a época em que Pandu havia ido para a floresta, Dhritarastra havia assumido temporariamente o reino, até que Yudhisthira atingisse a idade apropriada para assumir o trono. Entretanto, como resultado da maldição que havia recebido, Pandu morreu antes que seu filho mais velho fosse entronizado e os Pandavas ficaram sob os cuidados de Kunti Devi, uma vez que Madri havia renunciado sua vida, entrando na pira funerária juntamente com seu esposo. Depois disso, os Pandavas foram levados para Hastinapura e foram criados à maneira real sob os cuidados de Dhritarastra. Portanto, como depois da morte de seu pai os Pandavas viveram sob o completo abrigo de Dhritarastra, eles também deveriam ser considerados como filhos diretos de Dhritarastra. No entanto, fica bastante explícito aqui no começo do Bhagavad-gita que, infelizmente, Dhritarastra limitava seu interesse apenas em seus filhos, não se considerando responsável de por proteção a filhos de seu irmão Pandu. Em condições normais, tal comportamento por parte de Dhritarastra não fazia o menor sentido, uma vez que tanto seus filhos quanto os filhos de seu falecido irmão sempre viveram juntos no mesmo palácio onde estudaram e aprenderam as ciências militares, políticas, etc. O verdadeiro problema era que a cegueira de Dhritarastra também se manifestava na vida espiritual. Especialmente seu filho mais velho, Duryodhana, havia herdado dele esta mesma cegueira espiritual e não queria conviver amistosamente com seus primos-irmãos, os Pandavas. Ele não conseguia tolerar o fato de que seus primos, encabeçados por Yudhisthira, deveriam ser coroados como sucessores do reino dos Kurus. Sedentos de poder, os invejosos filhos de Dhritarastra criaram uma situação insustentável, a qual acabou culminando na grande Batalha de Kurukshetra. É igualmente importante verificarmos a grande preocupação de Dhritarastra pelo resultado desta batalha. Em seu íntimo, ele podia compreender que a tentativa de seus filhos de usurparem o reino de seus primos era ilícita e, por conseguinte, estava destinada ao fracasso. Ao citar que a batalha aconteceria em Kurukshetra, um lugar de peregrinação, ele estava indiretamente perguntando a seu secretário Sañjaya* se, de fato, a influência do lugar favoreceria os Pandavas que eram seguidores estritos do dharma. Como resposta, Sañjaya inicia a descrição da situação no campo de Kurukshetra, transmitindo primeiramente o diálogo entre Duryodhana e seu mestre de armas, Dronacharya. Como um materialista cobiçoso e obstinado, Duryodhana estava pensando que a força de seu exército era superior. Ele não podia compreender que o Senhor Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, estando ao lado de Arjuna, definia completamente a vitória para o lado dos Pandavas, os quais, além de altamente qualificados, se sentiam plenamente dependentes e confiantes na misericórdia do Senhor.
*VASUS: Certa vez, a esposa de Dyau, um dos oito Vasus, estava perambulando pela floresta e viu a vaca Nandini pastando com seu bezerro perto do ashram de Vasistha Muni. Atraída pela beleza e pelos poderes divinos que o animal possuía, ela desejou obter esta vaca para presenteá-la à sua amiga Jitavati, a filha do rei Ushinara. Deste modo, ela informou seu esposo Dyau sobre seu desejo e, no dia seguinte, quando o sábio Vasistha estava ausente, os oito Vasus roubaram Nandini com seu bezerro. Quando Vasistha retornou ao ashram, tanto Nandini quanto seu bezerro haviam desaparecido e, com seus olhos místicos de grande yogi, ele pôde entender a razão disto. Desse modo, ele amaldiçoou os Vasus a nascerem na Terra, e, quando eles imploraram pelo seu perdão, Vasistha Muni decidiu diminuir a maldição, dizendo-lhes que, ainda assim, eles teriam de simplesmente nascer na Terra para imediatamente morrer e voltar para os planetas celestiais. Ao mesmo tempo, o sábio disse que Dyau sozinho, o qual havia liderado o roubo de Nandini, deveria viver na Terra por um longo período antes de retornar aos planetas celestiais. *SATYAVATI: Ao contemplar a união de dois animais, certa vez enquanto caçava, o rei Uparicharavasu ejaculou seu poderoso sêmen. O rei então enviou seu sêmen à rainha, mas, no caminho, o sêmen caiu no rio Ganges e foi comido por um peixe, o qual era a jovem celestial Adrika que havia sido amaldiçoada a nascer como um peixe. Adrika ficou grávida e foi capturada por um pescador que, ao abrir a barriga do peixe, encontrou um menino, o qual foi entregue ao rei, e uma menina, que foi criada por ele. Seu nome era Satyavati, mas, por que tinha cheiro (gandha) de peixe (matsya), a bela menina ficou conhecida como Matsya-gandha. Crescendo sob os cuidados do pescador, Matsya-gandha ajudava-o a atravessar as pessoas para a outra

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margem do Ganges. Numa ocasião, o sábio Parashara desejou ir para a outra margem do rio. A pedido de seu pai, Matsya-gandha, a qual já havia se tornado uma jovem mulher, começou a remar, sentada em frente a ele. A beleza da donzela combinada com as ondas do rio atraiu sexualmente o sábio Parashara, que veio sentar-se perto dela. Assustada, Matsya-gandha afastou-se e pediu humildemente que não violasse sua castidade. O poderoso sábio então formou um nevoeiro em volta do barco e criou uma pequena ilha no meio do rio. Neste momento, o cheiro de peixe desapareceu e um doce aroma de almíscar surgiu do corpo da donzela. Dando-lhe a garantia de que ela não perderia sua virgindade, o sábio concebeu uma criança no ventre de Satyavati e disse: “Ó gloriosa Satyavati! Uma porção plenária de Vishnu virá como teu filho. Ele será puro, famoso nos três mundos, altamente erudito e o mestre do mundo todo e será conhecido como Vyasadeva!” *DURYODHANA: Quando menina, Gandhari havia recebido uma bênção do Senhor Shiva de conceber cem filhos. Embora fosse uma das mais belas moças daquela época, quando ficou sabendo que seu futuro esposo seria o cego Dhritarastra, a casta Gandhari voluntariamente decidiu cobrir seus olhos com tiras de seda. Gandhari logo ficou grávida de Dhritarastra, mas, passados dois anos, ela ainda não havia dado à luz. Neste ínterim, a esposa de Pandu, Kunti Devi, concebeu Yudhisthira como filho, o que provocou a inveja de Gandhari. Desse modo, Gandhari ficou irada e deu uma pancada em seu próprio abdômen, provocando o aborto de um amontoado de carne. O sábio Vyasadeva se propôs a ajudá-la e aconselhou-a a dividir o amontoado em cem partes. Cada uma das partes se desenvolveu até se tornar um menino e, assim, sua ambição de ser mãe de cem filhos foi satisfeita. O filho mais velho foi chamado de Duryodhana, o qual, no momento do nascimento, emitiu um grito terrível que era exatamente como um choro de um asno e, ao ouvirem-no, os outros asnos também gritaram, produzindo um som demoníaco. Ao mesmo tempo, os chacais uivavam, pássaros como os corvos e abutres choravam e uma forte tempestade testemunhava a terrível ocasião. Alarmado pelos maus presságios, Dhritarastra enviou seu filho aos brahmanas e outros benquerentes como Bhisma e Vidura e perguntou a eles se seu filho poderia se tornar rei depois da morte de Yudhisthira. Novamente, os maus presságios se manifestaram como testemunhas. Depois de madura consideração, Vidura e os brahmanas eruditos responderam que, devido ao nascimento de Duryodhana, toda a região e seu povo seriam arruinados e que Dhritarastra deveria abandonar a criança. Evidentemente, devido à afeição paternal, Dhritarastra não foi capaz de tomar esta atitude. *SAÑJAYA: Tendo nascido nos círculos de amigos dos Kauravas, Sañjaya tornou-se ministro de Dhritarastra e recebeu uma grande bênção de Vyasadeva. Quando Vyasa foi visitar Dhritarastra, os exércitos dos Kauravas e dos Pandavas estavam se preparando para a batalha. Dhritarastra estava ansioso, mas, como era cego, estava impossibilitado de ir ao campo de Kurukshetra e observar os acontecimentos por si só. Desse modo, Vyasa chamou Sañjaya e, dando-lhe uma visão divina interior, abençoou-o a ver todos os eventos da batalha diretamente dentro do coração e narrá-los para Dhritarastra.

Pérola 2. O SOAR DOS BÚZIOS (versos 12 a 19) 12. Então Bhisma, o grande e valente patriarca da dinastia Kuru, o avô dos combatentes, soprou seu búzio bem alto, produzindo um som parecido com o rugido de um leão, dando alegria a Duryodhana. 13. Depois disso, os búzios, tambores, clarins, trombetas e cornetas soaram todos de repente, produzindo um som tumultuoso. 14. No outro lado, o Senhor Krishna e Arjuna, acomodados numa grande quadriga puxada por cavalos brancos, soaram seus búzios transcendentais. 15. O Senhor Krishna soprou Seu búzio, chamado Panchajanya; Arjuna soprou o seu, o Devadatta; e Bhima, o comedor voraz que executa tarefas hercúleas, soprou seu aterrador búzio, chamado Paundra. 16-18. O rei Yudhisthira, filho de Kunti, soprou seu búzio, o Anantavijaya, e Nakula e Sahadeva sopraram o Sugosha e Manipuspaka. Aquele grande arqueiro, o rei de Kashi, o grande lutador Sikhandi, Dhristadyumna, Virata, o invencível Satyaki, Drupada, os filhos de Draupadi, e os outros, ó rei, tais como o poderoso filho de Subhadra, todos sopraram seus respectivos búzios. 19. O som arrancado destes diferentes búzios tornou-se estrondoso. Vibrando no céu e na terra, ele abalou os corações dos filhos de Dhritarastra. Embora os Pandavas e os Kauravas realmente fossem se confrontar em Kurukshetra para decidir quem iria governar a Terra, ao mesmo tempo, a batalha também possuía seus aspectos esotéricos, e estava repleta de significados ocultos. Por exemplo, Krishna é conhecido como Partha-sarathi porque aceitou atuar como o quadrigário de Arjuna. Analogamente, nosso corpo material é também comparado a uma quadriga arrastada por cinco cavalos, os cinco sentidos. Neste exemplo, nossa mente é comparada às rédeas desta quadriga e a inteligência é comparada ao quadrigário ou condutor. Portanto, a alma está simplesmente na posição de passageiro deste corpo material, ou quadriga. Isto significa que, ao aceitar atuar como quadrigário de Seu amigo e devoto Arjuna, o Senhor Krishna estava indicando que não iria simplesmente conduzir a sua quadriga propriamente dita. O Senhor Krishna previu que Arjuna teria de enfrentar sérios problemas com seus “cavalos” dos sentidos, e, devido a afeição que sentia por Arjuna, queria ajudá-lo a conduzir corretamente seus sentidos. Em outras palavras, assim como Partha-sarathi é o nome de Krishna que O indica como o condutor de Arjuna, ao ser chamado de Hrishikesha, o Senhor Krishna confirma que, como Inteligência Suprema, Ele é o condutor dos sentidos, ou cavalos, dos Seus devotos, que estão temporariamente como passageiros neste corpo material, ou quadriga, lutando arduamente com seus próprios inimigos internos, tais como a cobiça, a luxúria e a ira. A batalha estava prestes a começar. Sañjaya descreve os guerreiros soprando suas conchas, indicando que estavam prontos para o seu início. Primeiramente, ele procura animar Dhritarastra, comparando o som produzido pela concha do avô Bhisma com um poderoso rugido de um leão. No entanto, logo que os búzios de Krishna e Arjuna foram soprados, Sañjaya os chama de búzios transcendentais. Tal diferença entre a descrição do búzio soprado por Bhisma e, por outro lado, dos búzios soprados por Krishna e Arjuna, simplesmente servia como uma forte indicação de que a vitória estava ao lado de Arjuna, que

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aceitou que seu amigo e companheiro, Krishna, Hrishikesha, ou “o Senhor dos sentidos”, atuasse como seu quadrigário. Pérola 3. ARJUNA OBSERVA OS EXÉRCITOS (versos 20 a 27) 20. Naquele momento, Arjuna, o filho de Pandu, sentado na quadriga que portava a bandeira na qual estava estampada a marca de Hanuman, pegou do seu arco e preparou-se para disparar suas flechas. Ó rei, após ver os filhos de Dhritarastra dispostos em formação militar, Arjuna então dirigiu ao Senhor Krishna estas palavras. 21-22. Arjuna disse: Ó infalível, por favor, coloca minha quadriga entre os dois exércitos para que eu possa ver as pessoas aqui presentes, que desejam lutar, e com quem devo me digladiar neste grande empreendimento bélico. 23. Deixa-me ver aqueles que vieram aqui para lutar, desejando agradar ao malintencionado filho de Dhritarastra. 24. Sañjaya disse: Ó descendente de Bharata, tendo recebido de Arjuna essa determinação, o Senhor Krishna conduziu a magnífica quadriga para o meio dos exércitos de ambos os grupos. 25. Na presença de Bhisma, de Drona e de todos os outros comandantes do mundo, o Senhor disse: Simplesmente observa, Partha, todos os Kurus aqui reunidos. 26. Foi então que Arjuna pôde ver, no meio dos exércitos em ambos os grupos, seus pais, avós, mestres, tios maternos, irmãos, filhos, netos, amigos e também seus sogros e benquerentes. 27. Ao ver todas essas diferentes categorias de amigos e parentes, o filho de Kunti, Arjuna, ficou dominado pela compaixão e falou as seguintes palavras. Ao ver seus parentes e benquerentes prontos para se digladiarem com ele, Arjuna ficou completamente dominado pela compaixão. As conchas já haviam sido sopradas e a batalha estava a ponto de começar, mas, ainda assim, Arjuna queria pela última vez contemplar o exército adversário, que era composto por pessoas conhecidas por ele. Como representante do exército dos piedosos, Arjuna não tinha o menor desejo de lutar com seus primos, mas, infelizmente, apesar de todas as tentativas de reconciliação, os Pandavas foram forçados a ir ao Campo de Batalha de Kurukshetra devido à obstinação de Duryodhana, que nunca aceitou acordos pacíficos. Pelo contrário, Duryodhana, como representante do exército dos impiedosos, juntamente com seu tio Shakuni e seu pai Dhritarastra, engendrou grandes planos maquiavélicos para usurpar o reino dos Pandavas. No entanto, como um grande devoto puro do Senhor, Arjuna não guardava a menor mágoa de seus primos. Como Superalma de todas as entidades vivas, o Senhor Krishna sabia o que se passava na mente de Seu devoto e, embora fosse o Senhor Supremo, Krishna apreciava Se ocupar a serviço de Seu devoto. Isto revela que o relacionamento amoroso entre o Senhor e Seus devotos é encantador. O devoto está sempre absorto em prestar serviço a seu Senhor adorável e, por Sua vez, o Senhor está sempre procurando oportunidades para prestar serviços amorosos aos Seus devotos. Na verdade, é dito que o Senhor sente mais prazer em prestar serviço a Seus devotos do que ser servido por eles. Obviamente, isto também acontece com os devotos. No entanto, é importante ressaltar que, como a Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Krishna não necessita ser o cumpridor das ordens de ninguém. Se Ele o faz, devemos compreender que isto é simplesmente um aspecto de Sua personalidade transcendental que é plena de qualidades. Portanto, do mesmo modo que um pai presta serviço a seu filho querido e sente prazer em fazê-lo, o Senhor pode, a Seu bel-prazer, assumir a posição de um servo prestativo de Seu devoto. Por que não? Devido à Sua misericórdia e afeição amorosa para com Seus devotos, isto se torna completamente possível. Existe uma bela história em relação à figura de Hanuman na bandeira de Arjuna. Certa vez, durante uma viagem, Arjuna ficou muito surpreso ao ver um represa que havia sido construída de Ramesvara até Lanka pelo Senhor Ramachandra. Entretanto, ele achou que não foi totalmente apropriado por parte do Senhor Rama ter solicitado a ajuda dos macacos para construir a represa, pois Ele poderia ter simplesmente utilizado Suas próprias flechas. Arjuna colocou a questão para um grande erudito que estava próximo dali lendo o Ramayana, mas nem o erudito e nem outros brahmanas que estavam lá puderam dar uma resposta convincente para Arjuna. Então, uma macaco ainda filhote apareceu para Arjuna e disse com orgulho que uma represa feita de flechas teria se quebrado quando os macacos fossem andar nela. Arjuna então disse: “Não, não, nenhum macaco seria capaz de quebrar uma represa feita pelas flechas de Rama. Que macaco seria capaz de quebrar uma represa feita por mim?” Então, o macaco e Arjuna fizeram uma aposta. Ficou combinado que, se o macaco quebrasse uma represa feita por Arjuna, Arjuna teria de acabar com sua vida, jogando-se no fogo. Por outro lado, se o macaco não conseguisse quebrar a represa, ele se tornaria um escravo de Arjuna. Arjuna construiu uma represa com flechas e rapidamente o macaco quebrou-a com seus pés. Arjuna tentou novamente e o macaco mais uma vez não teve grande dificuldade em quebrá-la. Desse modo, não havia outra alternativa para Arjuna a não ser se lançar dentro do fogo e

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abandonar sua vida. Antes de fazer isso, porém, um menino brahmana apareceu e disse para Arjuna que sua auto-aniquilação não deveria ser considerada válida. Ele então sugeriu que Arjuna tentasse de novo e ele atuaria como árbitro. A sugestão do menino foi aceita. E o filhote de macaco tentou em vão quebrar a represa feita novamente por Arjuna. O macaco então desenvolveu seu corpo até o tamanho de uma montanha e se atirou em cima das flechas de Arjuna, mas, ainda assim, sua tentativa foi malsucedida. Neste momento, compreendendo o que estava acontecendo, ele correu até o menino que atuava como árbitro e caiu aos Seus pés chorando: “Ó Ramachandra”. Naquele mesmo momento, Arjuna também prostrou-se perante o menino, chorando e dizendo: “Ó querido Krishna, ó escravo dos Teus devotos”. O menino então pediu para que ambos se aproximassem. Ele também pediu ao macaco (o qual era na verdade Hanuman) honrar sua palavra, mantendo-se como um emblema na bandeira de Arjuna. Pérola 4. ARJUNA MANIFESTA LAMENTAÇÃO E COMPAIXÃO (versos 28 a 35) 28. Arjuna disse: Meu querido Krishna, vendo diante de mim meus amigos e parentes com esse espírito belicoso, sinto os membros do meu corpo tremer e minha boca secar. 29. Todo o meu corpo está tremendo, meus pêlos estão arrepiados, meu arco Gandiva está escorregando da minha mão e minha pele está ardendo. 30. Já não sou capaz de continuar aqui. Estou esquecendo-me de mim mesmo e minha mente está girando. Parece que tudo traz infortúnio, ó Krishna, matador do demônio Keshi. 31. Não consigo ver qual o bem que decorreria da morte de meus próprios parentes nesta batalha, nem posso eu, meu querido Krishna, desejar alguma vitória, reino ou felicidade subseqüentes. 32-35. Ó Govinda, que nos adiantam um reino, felicidade ou até mesmo a própria vida quando todos aqueles em razão de quem somos impelidos a desejar tudo isto estão agora enfileirados neste campo de batalha? Ó Madhusudana, quando mestres, pais, filhos, avós, tios maternos, sogros, netos, cunhados e outros parentes estão prontos a abandonar suas vidas e propriedades e colocam-se diante de mim, por que deveria eu querer matá-los, mesmo que, por sua parte, eles sejam capazes de matar-me? Ó mantenedor de todas as entidades vivas, não estou preparado para lutar com eles, nem mesmo em troca dos três mundos, muito menos desta Terra. Que prazer obteremos em matarmos os filhos de Dhritarastra? Como discutimos anteriormente, Arjuna era um verdadeiro devoto do Senhor, uma pessoa piedosa cheia de qualidades santas. Por isso, ao perceber a destruição inevitável que estava por vir, Arjuna ficou completamente transtornado. Embora fosse extremamente forte, os membros de seu poderoso corpo de guerreiro começaram a tremer e sua fraqueza foi tão grande que ele foi incapaz de manter-se segurando suas armas. Uma batalha significa muitas mortes, e morte significa a perda do próprio corpo e, especificamente na situação de Arjuna, a perda de outros corpos que estavam ligados a ele por afeição familiar. Diante desta difícil realidade, Ele ficou dominado pelo sentimento de medo. Subitamente sua boca secou, sua pele começou a arder e sua mente começou a girar. Tais características são típicas de uma pessoa absorta na concepção de vida material. No entanto, é sempre bom lembrar que tudo isto aconteceu pela vontade suprema de Krishna que desejou que Arjuna, naquele momento, representasse o papel de uma pessoa que estava ignorando seu verdadeiro eu. Dando-nos o exemplo de uma pessoa excessivamente consciente de suas relações corpóreas, Arjuna esqueceu que a Suprema Personalidade de Deus estava do seu lado no campo de batalha, tornando tudo absolutamente auspicioso. Em outras palavras, todos os guerreiros envolvidos nesta batalha receberiam um benefício espiritual incomparável, pois, ao morrer na presença direta do Senhor Krishna, todos teriam garantida a sua libertação espiritual. A realidade é que a presença do Senhor no campo de batalha trouxe unicamente benefícios para todos os que estavam presentes. Portanto, o Senhor é sempre absolutamente bom e não devemos pensar que, como amigo íntimo de Arjuna, Krishna estava pensando apenas em seu bem-estar. É importante compreender que o Senhor Krishna foi igualmente misericordioso com o grupo oposto que alcançou a máxima perfeição da vida por abandonarem seus corpos materiais, contemplando pessoalmente o Senhor na hora da morte. Pérola 5. ARJUNA APRESENTA SUAS DÚVIDAS (versos 36 a 46) 36. O pecado nos dominará se matarmos tais agressores. Portanto, não convém matarmos os filhos de Dhritarastra e nossos amigos. Que ganharíamos, ó Krishna, esposo da deusa da fortuna, e como poderíamos ser felizes, matando nossos próprios parentes? 37-38. Ó Janardana, embora estes homens, com seus corações dominados pela cobiça, não achem errado matar a própria família ou brigar com os amigos, por que deveríamos nós, que

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entendemos ser crime destruir uma família, ocupar-nos nestes atos pecaminosos? 39. Com a destruição da dinastia, a tradição eterna da família extingue-se, e assim o resto da família se envolve em irreligião. 40. Quando a irreligião é preeminente na família, ó Krishna, as mulheres da família se poluem, e da degradação feminina, ó descendente de Vrishni, vem progênie indesejada. 41. Um aumento de população indesejada decerto causa vida infernal tanto para a família quanto para aqueles que destroem a tradição familiar. Os ancestrais dessas famílias corruptas caem, porque os rituais através dos quais se lhes oferecem alimento e água são inteiramente interrompidos. 42. Pelas más ações daqueles que destroem a tradição familiar, e acabam dando origem a crianças indesejadas, todas as espécies de projetos comunitários e atividades para o bem-estar da família entram em colapso. 43. Ó Krishna, mantenedor do povo, eu ouvi através da sucessão discipular que aqueles que destroem as tradições familiares sempre residem no inferno. 44. Ai de mim! Como é estranho que estejamos nos preparando para cometer atos extremamente pecaminosos. Levados pelo desejo de desfrutar da felicidade régia, estamos decididos a matar nossos próprios parentes. 45. Para mim, seria melhor que os filhos de Dhritarastra, de armas na mão, matassem-me no campo de batalha, desarmado e sem opor resistência. 46. Sañjaya disse: Arjuna, tendo falado essas palavras no campo de batalha, pôs de lado seu arco e flechas e sentou-se na quadriga, com sua mente dominada pelo pesar. Arjuna era um verdadeiro kshatriya (guerreiro) e tinha todo o direito de exterminar os agressores. No entanto, uma vez que se tratava de seus parentes, ele preferia não tomar as medidas habituais. Isto mostra, mais uma vez, que Arjuna não era uma pessoa comum, pois sua preocupação em não cometer injustiças com seus primos destacava-se como um verdadeiro sinal de suas qualidades santas. Como um guerreiro, Arjuna deveria seguir seu dharma e prosseguir na luta para não correr o risco de ser considerado um covarde, principalmente naquele momento delicado, quando a proteção espiritual de todo um Estado dependia de sua firmeza na batalha. Em outras palavras, não era correto que Arjuna agisse como uma pessoa santa e perdoasse seus primos, caso tal atitude fosse comprometer todo o futuro do mundo que, desta maneira, iria receber a influência negativa de uma liderança demoníaca. De fato, seus interesses pessoais deveriam ser sacrificados em prol de uma causa muito superior. De qualquer modo, é louvável o fato de Arjuna ser uma pessoa consciente e preocupada com o bem-estar de todos. Além de considerar a batalha entre parentes por si só um ato pecaminoso, Arjuna previa, além disso, uma série de resultados terríveis. Sua primeira preocupação era que, ao destruir a dinastia dos Kurus, a tradição da família extinguir-se-ia também, fazendo com que o resto da família passasse a se envolver em atos irreligiosos. Na verdade, tais argumentos de Arjuna são extremamente válidos. No sistema védico social e espiritual, os membros mais velhos das famílias possuem grandes responsabilidades. Neste sistema, os membros mais velhos têm a função de outorgar orientações morais e espirituais para ajudar os membros mais jovens da família a obterem uma boa formação e alcançarem verdadeiros valores espirituais. Portanto, com a morte de tais membros, sem a tradição moral e espiritual da família, ocorreria a interrupção de tal processo educacional e, assim, Arjuna previa o consequente desenvolvimento de hábitos irreligiosos por parte dos membros mais novos da família. A próxima consideração de Arjuna era com as mulheres. Na verdade, a saúde física, moral, emocional e espiritual da população forma a base para uma sociedade humana pacífica e próspera, tanto material quanto espiritualmente. E, para que isto seja possível, o papel exercido pelas mulheres é fundamental. Numa família verdadeiramente religiosa, a responsabilidade das mulheres como mães e educadoras é indispensável. E, uma vez que o desempenho perfeito desse papel constitui a base da saúde moral da população, existe uma preocupação autêntica em dar-lhes sempre proteção, não permitindo que elas tenham que conviver livremente com homens irresponsáveis. Infelizmente, nos dias de hoje, as mulheres não recebem a devida proteção e, como resultado inauspicioso disto, existe uma convivência livre entre homens e mulheres inconsequentes. Devido a tal associação irreligiosa e ilícita, crianças indesejáveis proliferam, que crescem carentes de uma devida educação e carinho, o que causa uma vida infernal para a nossa humanidade atual. Portanto, para que uma sociedade humana seja realmente próspera e pacífica, a qualidade da população é uma preocupação fundamental e isto está intimamente ligado às qualidades de castidade e devoção das mães. Por esta série de considerações, Arjuna chegou à conclusão que tratava-se de um ato extremamente pecaminoso matar os parentes com o propósito de desfrutar da felicidade material. Por isso, ele revelou a seu amigo, o Senhor Krishna, que preferia até ser morto no campo de batalha sem reagir contra o ataque dos filhos de Dhritarastra. No início do Capítulo Dois, iremos verificar que Arjuna realmente encontrava-se numa situação extremamente difícil e delicada e, devido à sua atitude devocional humilde, ele pôde receber a graça do Senhor Krishna que bondosamente aceitou atuar como seu guru, ou mestre espiritual. Definitivamente, Arjuna não é uma pessoa comum. Ele é um associado eterno do Senhor, uma alma

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eternamente liberada, dotada de completa iluminação espiritual. Ele foi colocado em ilusão diretamente pelo arranjo da providência para, desse modo, ser criada a condição ideal para que o Bhagavad-gita fosse falado pelo Senhor. Tendo aceitado a posição de um discípulo rendido, Arjuna estabeleceu que, como almas espirituais dentro de um corpo material, estamos vivendo uma situação incompatível e dependemos da ajuda de um mestre espiritual qualificado. Admitindo sua fraqueza e dificuldade em enfrentar parentes e amigos numa batalha, Arjuna pede auxílio ao Senhor Krishna e assume o papel de um discípulo obediente e humilde, colocandose sob Suas divinas instruções.

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CAPÍTULO II: Resumo do Conteúdo do Gita Pérola 6. ARJUNA É REPREENDIDO POR KRISHNA (versos 1 a 3) 1. Sañjaya disse: Vendo Arjuna cheio de compaixão, sua mente deprimida, seus olhos rasos d’água, Madhusudana, Krishna, disse as seguintes palavras: 2. A Suprema Personalidade de Deus disse: Meu querido Arjuna, como foi que estas impurezas desenvolveram-se em ti? Elas não condizem com um homem que conhece o valor da vida. Elas não conduzem aos planetas superiores, mas à infâmia. 3. Ó filho de Pritha, não cedas a esta impotência degradante. Isto não te fica bem. Abandona esta mesquinha fraqueza de coração e levanta-te, ó castigador dos inimigos. Tal reação enérgica do Senhor em relação à condição aflitiva de Arjuna serve como grande exemplo para todos nós. Embora tivesse recebido treinamento espiritual, Arjuna deixou-se entregar a sentimentos mundanos. Portanto, o Senhor Krishna mostrou Sua surpresa ao indagar: “Como estas impurezas se desenvolveram em ti, um ariano, uma pessoa que conhece o verdadeiro propósito da vida?” A lição a se aprender com isto é que, caso nossos desejos pessoais sejam prejudicados, nossa mente pode se tornar uma inimiga tão traiçoeira que, com imperceptível sutileza, nos desviará do nosso verdadeiro dharma. Este foi exatamente o caso de Arjuna, que apresentava argumentos sensatos e inventava boas desculpas com o propósito de simplesmente esconder seus sentimentos mundanos de medo e o apego às relações corpóreas. Esquecidos da nossa identidade espiritual eterna, apegamo-nos excessivamente ao nosso corpo material e a tudo e todos que estejam ligados a ele. Este apego faz com que a mente se absorva em raciocínios materiais e receba a influência constante de falsos conceitos de “eu e meu”, desviando-nos cada vez mais da verdade. Ao estudarmos o primeiro capítulo, pudemos entender com bastante clareza que o temor que tomou conta de Arjuna, por muitos motivos, não fazia o menor sentido. Como guerreiro, era inaceitável que Arjuna desistisse de uma luta onde a responsabilidade de proteger o dharma estava sob seus cuidados, embora ele houvesse argumentado que seu desejo de desistir da batalha se devia ao profundo respeito ao seu avô Bhisma. Na verdade, o Senhor Krishna considerou tal argumento como simples fraqueza do coração, uma falsa idéia de não-violência. Em outras palavras, toda a lamentação de Arjuna não se justificava, pois, em última análise, ela se baseava na ignorância acerca do verdadeiro eu. Suas lágrimas revelavam muito mais sua fraqueza de coração do que um sinal de verdadeira compaixão espiritual. Por isso, o Senhor tentou animar Arjuna a abandonar sua impotência revestida de tal pretensa não-violência e recomendou que ele se levantasse e participasse energicamente da batalha. Desse modo, sentindo-se incapacitado de resolver seus próprios problemas, Arjuna não hesita em pedir ajuda a seu amigo, o Senhor Krishna. Pérola 7. ARJUNA ACEITA KRISHNA COMO MESTRE ESPIRITUAL (versos 4 a 9) 4. Arjuna disse: Ó matador dos inimigos, ó matador de Madhu, como é que na batalha posso contra-atacar com flechas homens como Bhisma e Drona, que são dignos de minha adoração? 5. É preferível viver mendigando neste mundo que viver à custa das vidas de grandes almas que são meus mestres. Embora desejem conquistas terrenas, eles são superiores. Se forem mortos, tudo o que desfrutarmos estará manchado de sangue. 6. Tampouco sabemos o que é melhor – vencê-los ou ser vencidos por eles. Se matássemos os filhos de Dhritarastra, não nos importaríamos de viver. Contudo, eles agora estão diante de nós no campo de batalha. 7. Agora estou confuso quanto ao meu dever e perdi toda a compostura devido à torpe fraqueza. Nesta condição, estou Te pedindo que me digas com certeza o que é melhor para mim. Agora sou Teu discípulo e uma alma rendida a Ti. Por favor, instrui-me. 8. Não consigo descobrir um meio de afastar este pesar que está secando meus sentidos. Não serei capaz de suprimi-lo nem mesmo que ganhe na Terra um reino próspero e inigualável com soberania como a dos semideuses nos céus. 9. Sañjaya disse: Tendo falado essas palavras, Arjuna, o castigador dos inimigos, disse a Krishna, Govinda, não lutarei, e ficou calado. Apesar de ter apresentado anteriormente tantos argumentos baseados no conhecimento dos princípios religiosos e morais, podemos analisar que Arjuna foi incapaz de resolver seus problemas sozinho. Esta verdade não é aplicável simplesmente a Arjuna, mas se aplica a todos que se encontram neste mundo. Independente do grau elevado de conhecimento material que a pessoa tenha atingido, continuará sendo impossível superar as perplexidades da vida sem a ajuda de um mestre espiritual. Assim como Arjuna,

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qualquer pessoa desprovida de conhecimento transcendental comprovará, mais cedo ou mais tarde, que seus esforços pessoais em tentar resolver seus problemas serão insuficientes. Ela terá de se submeter ao cultivo do conhecimento transcendental sob a guia de um mestre espiritual auto-realizado. As perplexidades e situações problemáticas fazem parte da natureza deste mundo e surgem a todos, mesmo que ninguém as procure. Em meio a tantas dificuldades, Arjuna reconheceu sua fraqueza e confusão mental e assumiu sua incapacidade de cumprir corretamente seus diferentes deveres. Sua situação era extremamente delicada, pois seu dever de guerreiro ia contra seus deveres familiares, os quais também aparentemente contrariavam o desejo do Senhor. Em outras palavras, ao cumprir corretamente seu dever de guerreiro, ele cometeria ofensas aos membros de sua família, tais como seus primos, os filhos de Dhritarastra, e seu querido avô Bhisma. Por outro lado, renunciando a guerra e cumprindo seus deveres familiares, Arjuna estaria contrariando o desejo direto de Deus, o Senhor Krishna, que estava pessoalmente a seu lado. Dessa maneira, Arjuna revelou sua incapacidade de encontrar sozinho uma solução e recorreu à ajuda de seu amigo, colocando-se como um discípulo dependente. Como ficará claro no Capítulo Quatro, o Senhor Krishna desce à Terra por Sua misericórdia imotivada e executa atividades como se fosse um ser humano comum, embora nunca deixe de ser a Suprema Personalidade de Deus. Seu aparecimento neste mundo tem como propósito principal atrair os diferentes seres vivos que estão esquecidos de suas identidades espirituais eternas. Desse modo, o Senhor Krishna cria uma situação na qual o grande devoto Arjuna revela sua perplexidade e confusão mental e decide pedir instruções espirituais. Com isto, o Senhor coloca-Se na posição de mestre espiritual não apenas de Arjuna, mas de todos os afortunados seres vivos que podem tirar proveito espiritual ilimitado deste conhecimento imaculado apresentado sob a forma do Bhagavad-gita. Pérola 8. AS PRIMEIRAS INSTRUÇÕES DO SENHOR (versos 10 a 15) 10. Ó descendente de Bharata, naquele momento, Krishna, no meio dos dois exércitos, sorriu e disse as seguintes palavras ao desconsolado Arjuna. 11. A Suprema Personalidade de Deus disse: Enquanto falas palavras sábias, estás lamentando aquilo com que não precisas te afligir. Os sábios não lamentam nem os vivos nem os mortos. 12. Nunca houve um tempo que Eu não existisse, nem tu, nem todos esses reis; e no futuro nenhum de nós deixará de existir. 13. Assim como, neste corpo, a alma corporificada seguidamente passa da infância à juventude e à velhice, do mesmo modo, chegando a morte, a alma passa para outro corpo. Uma pessoa ponderada não fica confusa com essa mudança. 14. Ó Filho de Kunti, o aparecimento transitório de felicidade e aflição, e seu desaparecimento no devido tempo, são como o aparecimento e o desaparecimento das estações de inverno e verão. Surgem da percepção sensorial, ó descendente de Bharata, e é preciso aprender a tolerá-los sem perturbar-se. 15. Ó melhor entre os homens (Arjuna), quem não se deixa perturbar pela felicidade ou aflição e que permanece estável em ambas as circunstâncias decerto está qualificado para alcançar a liberação. O Senhor Krishna, o mestre espiritual supremo, foi direto ao assunto: “Meu querido Arjuna, se Me queres como teu mestre espiritual, então dar-te-ei Minha primeira instrução: torna-te um verdadeiro sábio e não te lamentes desnecessariamente!” Isto é extremamente significativo. Lamentação e vida espiritual definitivamente não combinam. De um modo geral, a lamentação é um sinal evidente da ignorância acerca do verdadeiro eu. Pelo controle supremo, as diferentes almas são lançadas em diferentes corpos, onde terão de existir por um período específico de tempo. Pelo controle supremo, tais almas terão de abandonar no momento certo seus respectivos corpos e obterão, de uma maneira impecavelmente justa, os resultados de suas atividades. Qual é, então, a necessidade de lamentação? Como ficará cada vez mais claro durante o estudo desta obra, a alma é eterna e sempre existente. A morte é um simples conceito material, relativo apenas ao corpo físico, uma mera cobertura temporária da alma. Por isto, Arjuna não deveria dar tamanha importância à condição do corpo material. Isto estava acarretando um esquecimento acerca do verdadeiro eu, a alma espiritual, resultando em desnecessária lamentação. Nos dias de hoje, a civilização humana carece deste conhecimento espiritual e, como Arjuna, foi mordida pela serpente da lamentação, cujo veneno se expande em todos os setores da sociedade. Na verdade, a condição corpórea é lamentável por ser completamente incompatível com a natureza eterna da alma. Logo que nasce, o corpo terá de gradualmente atingir as fases de doença, velhice e morte. Em conclusão, a identificação corpórea é uma fonte de lamentação que tem como consequência a intolerância e a instabilidade emocional. No entanto, ao compreender sua natureza eterna e ao utilizar o corpo material exclusivamente como um instrumento para a auto-realização espiritual, a pessoa livra-se das dualidades concernentes à

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vida material, aprende a tolerar as adversidades deste mundo e não se perturba diante dos reveses da vida. Certamente, tal pessoa pode alcançar completa liberação mesmo estando em contato com o corpo material, posto que suas atividades corpóreas não mais a afetarão. Isto significa que, mesmo que o seu corpo aja movido pela reação às suas atividades passadas, a Suprema Personalidade de Deus passa a cuidar pessoalmente de tal alma liberada. Por exemplo, mesmo depois de desligado, o ventilador elétrico continua girando por algum tempo. No entanto, este giro não se deve à corrente elétrica, mas à continuação do último movimento. Em outras palavras, embora uma alma liberada pareça estar agindo tal qual uma pessoa comum, suas ações não passam de continuação das atividades passadas. Pérola 9. A NATUREZA SUPERIOR DA ALMA (versos 16 a 25) 16. Aqueles que são videntes da verdade concluíram que o não-existente (o corpo material) não permanece e o eterno (a alma) não muda. Isto eles concluíram estudando a natureza de ambos. 17. Deves saber que aquilo que penetra o corpo inteiro é indestrutível. Ninguém é capaz de destruir a alma imperecível. 18. O corpo material da entidade viva indestrutível, imensurável e eterna decerto chegará ao fim; portanto, luta, ó descendente de Bharata. 19. Nem aquele que pensa que a entidade viva é o matador nem aquele que pensa que ela é morta estão em conhecimento, pois o eu não mata nem é morto. 20. Para a alma, em tempo algum existe nascimento ou morte. Ela não passou a existir, não passa a existir e nem passará a existir. Ela é não nascida, eterna, sempre-existente e primordial. Ela não morre quando o corpo morre. 21. Ó Partha, como pode uma pessoa que sabe que a alma é indestrutível, eterna, nãonascida e imutável matar alguém ou fazer com que outrem mate? 22. Assim como alguém veste roupas novas, abandonando as antigas, a alma aceita novos corpos materiais, abandonando os velhos e inúteis. 23. A alma nunca pode ser despedaçada por arma alguma, tampouco pode ser queimada pelo fogo, umedecida pela água ou enxugada pelo vento. 24. Essa alma individual é inquebrável e indissolúvel, e não pode ser queimada nem seca. Ela é permanente, está presente em toda parte, é imutável, imóvel e eternamente a mesma. 25. Diz-se que a alma é invisível, inconcebível e imutável. Sabendo disto, não te deves afligir por causa do corpo. Nestes versos, encontramos explicações claras da verdadeira natureza da alma como algo diferente do corpo. O corpo material, por exemplo, vive em constante transformação através das ações e reações das diferentes células, produzindo o crescimento e a velhice. A alma, no entanto, sendo uma centelha espiritual minúscula, permanece imutável, sem se submeter às mudanças que ocorrem no corpo. Portanto, este corpo material é simplesmente a corporificação da alma, a qual se espalha por todo o corpo e pode ser percebida como consciência individual. Por natureza, o corpo material é perecível, mas a alma é eterna. Ela é descrita nos Vedas como sendo do tamanho de uma décima milésima parte da porção superior da ponta de um fio de cabelo. Em outras palavras, ela é tão pequena que nem sequer pode-se medir sua dimensão. Ainda assim, apesar de diminuta, ela é autoluminosa, sendo parte da luz suprema. É esta partícula de luz espiritual que mantém o corpo, pois quando ela parte, imediatamente começa a decomposição do corpo. O que se chama de morte, portanto, nada mais é do que o fenômeno que ocorre quando a alma abandona o corpo que não apresenta mais condições apropriadas para sua permanência. O corpo está frequentemente sujeito a seis diferentes transformações: ele nasce do ventre do corpo da mãe, permanece por algum tempo, cresce, produz subprodutos, definha gradualmente e cai no esquecimento. A alma, porém, não passa por tais mudanças. Ela não nasce, mas, por ser lançada no ventre materno, acaba aceitando a cobertura de um determinado corpo e faz com que, sob sua influência, o corpo nasça e se desenvolva. Por observação, podemos comprovar que tudo o que nasce também morre. No entanto, por que não tem nascimento, a alma não tem passado, presente ou futuro – ela é sempre-existente e primordial. A alma nunca é afetada pelas mudanças do corpo e tampouco ela produz algum subproduto. O que chamamos de filhos são simplesmente os subprodutos do corpo, os quais possuem diferentes almas individuais. O corpo só se desenvolve por causa da presença da alma, mas ela permanece livre de qualquer alteração. Estando localizada no coração da entidade viva, a alma simplesmente atua como fonte de energia para que o corpo possa executar suas funções. Às vezes, devido às nuvens no céu, não podemos ver o Sol no céu, mas quando existe claridade podemos ter a completa convicção de que é dia e que o Sol ainda está presente. Da mesma forma, mesmo que não se consiga encontrar a alma dentro do coração, ainda assim, se um corpo apresenta consciência isto indica a presença da alma dentro deste corpo. Do mesmo modo, quando o corpo perde completamente sua consciência, isso é uma evidência concreta que a alma foi transferida para outro corpo. Esta transferência torna-se possível unicamente pela presença transcendental da manifestação do Senhor conhecida como Superalma, a qual também reside dentro de todos os corpos. Segundo este exemplo, os Vedas comparam este corpo a uma árvore onde

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estão pousados dois pássaros: a alma individual e a Superalma. Um pássaro, a alma individual, executa todo tipo de atividades mundanas e, na tentativa de desfrutar dos frutos desta árvore, vive mergulhado em constante ansiedade e melancolia. A Superalma, por Sua vez, mantém-Se à parte e, como um pássaro amigo, simplesmente testemunha e aguarda o momento em que a alma individual irá se voltar para Ele. Neste momento, o pássaro aflito, concordando em aceitar Suas instruções divinas, se livrará de toda ansiedade. Mas, enquanto isto não acontecer, a alma terá de se contentar em trocar de corpo material, assim como uma pessoa tem de substituir suas roupas inúteis e velhas por vestes mais novas. Através dessas instruções transcendentais, o Senhor Krishna queria livrar seu amigo Arjuna de qualquer tipo de lamentação. Com certeza, Arjuna estava preocupado com a morte de seu avô Bhisma e de seu mestre Drona, no entanto, segundo o Senhor, Arjuna deveria sentir-se feliz de saber que eles seriam promovidos para uma situação de vida superior. Suas almas não seriam absolutamente alteradas, pois qualquer tipo de arma – seja ela espada, arma incandescente, arma pluvial, etc. – seria incapaz de ferir a alma de seus entes queridos que, como partículas atômicas do Espírito Supremo, sempre permaneceriam o mesmo átomo imutável. Portanto, como ficará ainda mais claro nos próximos versos, a lamentação de Arjuna não se justificava nem material, nem espiritualmente. Pérola 10. NÃO HÁ RAZÃO PARA SE LAMENTAR (versos 26 a 30) 26. Se, no entanto, pensas que a alma sempre nasce e morre para sempre, mesmo assim, não tens razão para lamentar, ó pessoa de braços poderosos. 27. Alguém que nasceu com certeza morrerá, e após a morte ele voltará a nascer. Portanto, no inevitável cumprimento do dever, não deves te lamentar. 28. Todos os seres criados são imanifestos no seu começo, manifestos no seu estado intermediário, e de novo imanifestos quando aniquilados. Então, qual a necessidade de lamentação? 29. Alguns consideram a alma espantosa, outros descrevem-na como espantosa, e alguns ouvem dizer que ela é espantosa, enquanto outros, mesmo após ouvir sobre ela, não podem absolutamente compreendê-la. 30. Ó descendente de Bharata, aquele que mora no corpo nunca pode ser morto. Portanto, não precisas afligir-te por nenhum ser vivo. Estes versos são especialmente destinados às pessoas que acreditam que este corpo não passa de uma mera combinação de elementos químicos e que a vida se desenvolve através da simples interação desses elementos químicos. Para tais pessoas, que não acreditam na existência da alma, ainda assim não existe motivo para lamentação, pois ninguém deve se lamentar pela simples perda de meras substâncias químicas. Além disso, a batalha tornara-se inevitável e, como ficará cada vez mais claro, em certas circunstâncias a violência e a guerra são fatores essenciais para se manter uma situação pacífica na sociedade humana. Na verdade, esta Batalha de Kurukshetra era um desejo do próprio Senhor e, como um kshatriya, Arjuna deveria lutar por esta causa suprema sem cair em lamentação. As atividades que a pessoa executa numa vida irão determinar seu próximo nascimento, pois, dessa maneira, todos passam por consecutivos ciclos de nascimentos e mortes. Isso significa que, mesmo que evitasse a guerra contra seus parentes, Arjuna não seria capaz de deter a morte deles. Tal lamentação era infundada e levaria Arjuna à degradação por escolher a maneira errada de agir. O Bhagavad-gita revela-nos o conhecimento essencial para a auto-realização espiritual, dando-nos como base a não-existência do corpo material. No entanto, é muito difícil encontrar alguém que esteja verdadeiramente inclinado a entender esta ciência da alma diretamente da boca de lótus do Senhor. Deixando-se levar por diferentes teorias desautorizadas, as pessoas podem facilmente se desorientar e concluir erroneamente que a alma individual e a Alma Suprema são unas em todos os aspectos. De qualquer maneira, aceitando ou não a existência da alma ou mesmo acreditando na unidade entre a alma atômica e a Superalma, a lamentação pela perda do corpo material não faz o menor sentido. Pérola 11. OS DEVERES DE UM GUERREIRO (versos 31 a 38) 31. Considerando teu dever específico de kshatriya, deves saber que não há melhor ocupação para ti do que lutar conforme determinam os princípios religiosos; e assim não há necessidade de hesitação. 32. Ó Partha, felizes são os kshatriyas a quem aparece essa oportunidade de lutar, abrindo-lhes as portas dos planetas celestiais. 33. Se, contudo, não executares teu dever religioso e não lutares, então na certa incorrerás em pecados por negligenciar teus deveres e assim perderás tua reputação de lutador. 34. As pessoas sempre falarão de tua infâmia, e para alguém respeitável, a desonra é pior do que a morte. 35. Os grandes generais que têm na mais alta estima o teu nome e fama pensarão que deixaste o campo de batalha simplesmente porque

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estavas com medo, e portanto te considerarão insignificante. 36. Teus inimigos te descreverão com muitas palavras indelicadas e desdenharão tua habilidade. Que poderia ser mais doloroso para ti? 37. Ó filho de Kunti, ou serás morto no campo de batalha e alcançarás os planetas celestiais, ou conquistarás e gozarás o reino terrestre. Portanto, levanta-te com determinação e luta. 38. Luta pelo simples fato de lutar, sem levar em consideração felicidade ou aflição, perda ou ganho, vitória ou derrota – e adotando este procedimento nunca incorrerás em pecado. Ao matar indivíduos que estão atuando como inimigos dos princípios religiosos, o kshatriya não está absolutamente incorrendo em violência. Na verdade, a atitude enérgica por parte do kshatriya contra os agressores dos princípios religiosos não deve ser interpretada como violência, assim como não existe a menor violência quando se usa um espinho para ajudar a arrancar o outro espinho que esteja fincado em alguma parte do corpo. Desse modo, o argumento de Arjuna de que esta luta iria proporcionar a ele uma residência permanente no inferno não fazia o menor sentido, pois, a palavra composta kshatriya (kshat lesado, trayate - dar proteção) é dada às pessoas que se propõem a proteger os cidadãos. Arjuna havia sido treinado como um verdadeiro kshatriya e teve de se submeter a severos treinamentos como entrar na floresta e desafiar animais selvagens munido unicamente de uma espada. Este treinamento se faz necessário porque às vezes a violência pode ser útil para dar proteção à vida religiosa. Por isso, o Senhor Krishna diz para Arjuna que esta luta abriria as portas dos planetas celestiais superiores. Se ele vencesse, desfrutaria do reino terrestre em nome da religião e, se fosse derrotado, elevar-se-ia aos planetas celestiais. Arjuna era muito famoso, pois havia vencido inclusive alguns semideuses na batalha. Seu próprio mestre, Dronacharya, havia presenteado Arjuna com uma arma especial. Esta arma era tão poderosa que, com ela, Arjuna poderia inclusive matar Drona. De modo que, se ele fugisse da batalha, todos iriam considerálo um covarde e, assim, perderia fama e reputação. Como um amigo e mestre, o Senhor Krishna o alertou quanto a isto e o aconselhou a permanecer na batalha, mesmo que tivesse de enfrentar a morte. No cumprimento dos deveres religiosos, Arjuna não deveria levar em consideração se o resultado imediato apareceria na forma de felicidade ou aflição, vitória ou derrota, etc. Sendo transcendentais, as atividades religiosas da consciência de Krishna estão acima da dualidade material. Depois de explicar a verdadeira natureza da alma e, ao mesmo tempo, deixar claro que a proposta de Arjuna de não lutar era irreligiosa e baseava-se simplesmente no gozo dos sentidos, o Senhor começará agora a ensinar o processo espiritual chamado buddhi-yoga, na qual se passa a agir com inteligência transcendental. Pérola 12. A YOGA DA INTELIGÊNCIA (versos 39 a 41) 39. Até aqui, descrevi-te este conhecimento através do estudo analítico. Agora ouve enquanto Eu o explico em termos do trabalho sem resultados fruitivos. Ó filho de Pritha, quando ages com esse conhecimento, podes libertar-te do cativeiro decorrente das ações. 40. Neste esforço, não há perda nem diminuição, e um pequeno progresso neste caminho pode proteger a pessoa do mais perigoso tipo de medo. 41. Aqueles que estão neste caminho são resolutos, e têm apenas um objetivo. Ó amado filho dos Kurus, a inteligência daqueles que são irresolutos tem muitas ramificações. Até então, o Senhor Krishna havia explicado o sistema de sankhya-yoga, ou seja, a diferença analítica entre o corpo material e a alma espiritual. Isto, no entanto, não consistia em instruções práticas de como agir na plataforma espiritual. Para praticar tal sistema de yoga, Arjuna teria de compreender a individualidade das diferentes almas que estavam naquele campo de batalha e teria de vê-las como indivíduos eternos, os quais estavam sujeitos às várias mudanças das roupas corpóreas. Porém, o simples fato de compreender a diferença entre corpo e alma não seria suficiente para resolver os problemas de Arjuna. Ele teria de aprender a agir neste mundo sem se afetar pelas reações materiais. Por isso, o Senhor passará agora a descrever buddhi-yoga, a qualidade superior de trabalho quando, com inteligência purificada, passa-se a atuar em liberdade sem se envolver com as reações do trabalho. O Senhor estava pessoalmente presente no campo sagrado de Kurukshetra e pessoalmente desejava a batalha para que todos fossem beneficiados e elevados a uma posição superior. Desse modo, satisfazendo os desejos do Senhor, todos estariam praticando serviço devocional, mesmo abandonando seus respectivos corpos no campo de batalha. Isso daria a todos os guerreiros um resultado espiritual excelente, o qual nunca estaria perdido. Diferentemente das atividades materiais, cujos resultados são perdidos com a destruição do corpo material, aqui o Senhor afirma que as atividades espirituais produzem resultados permanentes. “Não há perda, nem diminuição”, diz o Senhor, o que significa que nosso avanço

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espiritual é transferido para nossas próximas vidas e esta é a vantagem de executar atividades em consciência de Krishna. Pérola 13. AS PALAVRAS FLORIDAS DOS VEDAS (versos 42 a 46) 42-43. Os homens de pouco conhecimento estão muitíssimo apegados às palavras floridas dos Vedas, que recomendam várias atividades fruitivas àqueles que desejam elevar-se aos planetas celestiais, com o consequente bom nascimento, poder e assim por diante. Por estarem ávidos de gozo dos sentidos e vida opulenta, eles dizem que isto é tudo o que existe. 44. Nas mentes daqueles que estão muito apegados ao gozo dos sentidos e à opulência material, e que se deixam confundir por estas coisas, não ocorre a determinação resoluta de prestar serviço devocional ao Senhor Supremo. 45. Os Vedas tratam principalmente do tema três modos da natureza material. Ó Arjuna, torna-te transcendental a esses três modos. Liberta-te de todas as dualidades e de todos os anseios advindos da busca de ganho e segurança e estabelece-te no eu. 46. Todos os propósitos satisfeitos por um poço pequeno podem imediatamente ser satisfeitos por um grande reservatório de água. De modo semelhante, pode servir-se de todos os propósitos dos Vedas quem conhece o seu propósito subjacente. As pessoas em geral têm grande dificuldade em compreender e adotar diretamente as atividades espirituais da consciência de Krishna. Devido à sua forte determinação em satisfazer os sentidos, tais pessoas materialmente motivadas preferem adotar atividades religiosas mundanas, onde as propostas de gozo dos sentidos e opulência material são enfatizadas. Mal sabem elas que qualquer atividade material, quer seja religiosa ou não, irá envolvê-las em reações nos três modos da natureza, e causará cativeiro permanente neste mundo. Para tais pessoas menos inteligentes, os Vedas oferecem as seções karmakanda para, aos poucos, elevá-las do campo grosseiro do gozo do sentidos a uma posição no plano transcendental. Arjuna, no entanto, como aluno e amigo direto do Senhor, deveria transcender a todas as propostas de prazeres materiais temporários e se situar além das dualidades pertinentes à vida material. Portanto, atinge a prática de buddhi-yoga quem é bastante inteligente para compreender o verdadeiro propósito dos Vedas sem se apegar meramente aos rituais e sem visar simplesmente a uma melhor qualidade de gozo dos sentidos. Pérola 14. LIBERTANDO-SE DAS ATIVIDADES FRUITIVAS (versos 47 a 53) 47. Tens o direito de executar teu dever prescrito, mas não podes exigir os frutos da ação. Jamais te consideres a causa dos resultados de tuas atividades, e jamais te apegues ao nãocumprimento do teu dever. 48. Desempenha teu dever com equilíbrio, ó Arjuna, abandonando todo o apego a sucesso ou fracasso. Essa equanimidade chama-se yoga. 49. Ó Dhanañjaya, através do serviço devocional, mantém todas as atividades abomináveis bem distantes, e com esta consciência, rende-te ao Senhor. Aqueles que querem gozar o fruto de seu trabalho são mesquinhos. 50. Um homem ocupado em serviço devocional livra-se tanto das boas quanto das más ações, mesmo nesta vida. Portanto, empenha-te na yoga, que é a arte de todo o trabalho. 51. Ocupando-se nesse serviço devocional ao Senhor, grandes sábios ou devotos livram-se dos resultados do trabalho no mundo material. Desse modo, eles transcendem ao ciclo de nascimentos e mortes e passam a viver além de todas as misérias. 52. Quando tua inteligência tiver cruzado a densa floresta da ilusão, tornar-te-ás indiferente a tudo o que se ouviu e a tudo o que se há de ouvir. 53. Quando tua mente deixar de perturbar-se pela linguagem florida dos Vedas, e quando se fixar no transe da auto-realização, então terás atingido a consciência divina. O Bhagavad-gita nos ensina que todos são forçados pela natureza material a agir de acordo com suas próprias tendências. Desse modo, todos devem aceitar um treinamento para aprender a fazer um bom uso de sua natureza específica. Tal natureza é como uma bagagem trazida de outras vidas, da qual não podemos nos livrar facilmente. Ela é o resultado das atividades piedosas e pecaminosas acumuladas em muitas vidas prévias. Portanto, dentro de uma sociedade centralizada em Deus, todos são treinados a adotar deveres prescritos naturais e, assim, utilizar sua natureza para propósitos espirituais. Na vida material, todos estão visando à sua própria satisfação e, como resultado disso, permanecem constantemente sujeitos às reações materiais. Na vida espiritual, no entanto, a dedicação está sempre voltada à satisfação do Senhor, e, como resultado natural, os deveres prescritos são desempenhados com estabilidade e equilíbrio, e livram gradualmente a pessoa de resultados indesejáveis. Isto porque, ao

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compreender sua posição constitucional como parte integrante do Senhor, a pessoa aprende a abandonar suas atividades materialmente motivadas, e, mediante um simples ajuste espiritual, transforma-as em ocupações verdadeiramente transcendentais. Devido à influência de maya, a energia ilusória do Senhor, as pessoas não conseguem perceber que este mundo material é um lugar onde existe perigo a cada passo. Os verdadeiros yogis, portanto, são devotados ao Senhor e refugiam-se nEle, ocupando-se no Seu serviço devocional amoroso. Portanto, quando o yogi compreende que as atividades fruitivas materiais, religiosas ou não, nunca poderão livrá-lo por completo das ansiedades materiais, ele se torna realmente perfeito e atinge o transe, fixando-se na auto-realização espiritual. Desse modo, ele abandona todas as outras ocupações inferiores e passa a se ocupar exclusivamente no serviço devocional ao Senhor, sem interesses materiais. Portanto, sua vida se torna um sucesso completo, independente da situação social em que ele se encontra. Quer posicionado como um chefe de família ou um renunciado, quer seja rico ou pobre, nada disso importa, pois ele sempre utiliza sua energia ou bens materiais em prol da satisfação do seu Senhor adorável – e esta é a arte perfeita de todos os trabalhos. Ele não precisa se preocupar com a execução de austeridades severas ou complicados rituais védicos. De fato, caso tenha alcançado a compreensão espiritual correta e tenha desenvolvido interesse espontâneo em servir ao Senhor com verdadeira devoção pura, tal yogi estará situado numa condição perfeita, além de qualquer regra ou regulação contida nos próprios Vedas. Pérolas 15. SINTOMAS DE UM TRANSCENDENTALISTA (versos 54 a 59) 54. Arjuna disse: Ó Krishna, quais são os sintomas daquele cuja consciência está absorta nessa transcendência? Como fala, e qual é sua linguagem? Como se senta e como caminha? 55. A Suprema Personalidade de Deus disse: Ó Partha, quando alguém desiste de todas as variedades de desejo de gozo dos sentidos, que surgem da invenção mental, e quando sua mente, assim purificada, encontra satisfação apenas no eu, então se diz que ele está em consciência transcendental pura. 56. Quem não deixa a mente se perturbar mesmo em meio às três classes de misérias, nem exulta quando há felicidade, e que está livre do apego, medo e ira, é chamado um sábio de mente estável. 57. No mundo material, quem não se deixa afetar pelo bem ou mal a que está sujeito a obter, sem louvá-los nem desprezá-los, está firmemente fixo em conhecimento perfeito. 58. Aquele que é capaz de retirar seus sentidos dos objetos dos sentidos, assim como a tartaruga recolhe seus membros para dentro da carapaça, está firmemente fixo em consciência perfeita. 59. A alma corporificada pode restringir-se do gozo dos sentidos, embora permaneça o gosto pelos objetos dos sentidos. Porém, interrompendo tais ocupações ao experimentar um gosto superior, ela se fixa em consciência. Atinge a plataforma transcendental a pessoa que, além de ser capaz de distinguir entre os desejos materiais e espirituais, adquire força suficiente para não se deixar arrastar pelos impulsos dos sentidos materiais. Para isso, ela necessita ocupar-se em serviço devocional sem hesitação – isso irá mantê-la sempre feliz em sua posição natural eterna. Nesta sublime posição, tal pessoa nunca se perturba pelas dualidades materiais. Quando as dificuldades surgem, ela as aceita de bom grado. Ela admite que, devido aos seus maus feitos passados, seria merecedora de mais dificuldades. Ao mesmo tempo, quando está feliz, continua vendo tudo como misericórdia do Senhor, pois ela sempre se considera um servo que depende exclusivamente da Sua graça. O mundo material é o mundo da dualidade. No entanto, ao se fixar em conhecimento, a pessoa passa a se interessar unicamente no Senhor, o Bem Absoluto, e nunca se afeta pela situação material, a qual é temporária e ilusória. Esta consciência espiritual faz com que tal pessoa tenha controle sobre seus sentidos, utilizando-os exclusivamente a serviço do Senhor. A ocupação espiritual dos sentidos resulta em experiências transcendentais, as quais oferecem prazeres espirituais muito superiores. Tal experiência de um prazer superior coloca tal pessoa numa posição extremamente segura e imperturbável. A consciência de Krishna é, portanto, tão maravilhosa que faz com que o gozo material dos sentidos se torne automaticamente desagradável. Na plataforma material, as misérias são divididas em três categorias: as misérias causadas pelo próprio corpo ou mente materiais; as misérias causadas pelas perturbações impostas por outras entidades vivas; e as misérias causadas pelos fenômenos naturais, tais como calor ou frio excessivo, etc. No entanto, a pessoa transcendental não permite que tais manifestações materiais miseráveis interfiram em sua vida espiritual. Isto é possível pelo simples fato de que a pessoa transcendental não possui apego, ou seja, não vive em função de obter diferentes parafernálias ou condições adequadas para o gozo dos seus sentidos. Dedicada a servir ao Senhor, uma pessoa transcendental está muito além da plataforma sensual e sua vida está em permanente bem-aventurança, independente dos sucessos ou fracassos materiais, os quais

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são inevitáveis neste mundo. Em outras palavras, em vez de desperdiçar seu tempo com inúteis tentativas de evitar as misérias materiais ou com esforços constantes por obter o improvável sucesso material, uma pessoa transcendental é perfeitamente inteligente, pois utiliza seu precioso tempo unicamente em consciência de Krishna, permanecendo sempre indesviavelmente fixo em sua determinação espiritual. Ao mesmo tempo, tal pessoa está sempre atenta às condições externas que possam afetar sua consciência espiritual. Por isso, ela é comparada à tartaruga que, ao perceber qualquer perigo à sua volta, recolhe seus membros dentro da carapaça. Com esta analogia, o Senhor Krishna está nos indicando que devemos utilizar nossos sentidos unicamente em atividades transcendentais e, caso isto não seja possível, é melhor recolhê-los e novamente manifestá-los onde existam condições espirituais favoráveis. Pérola 16. O CONTROLE DOS SENTIDOS (versos 60 a 72) 60. Os sentidos são tão fortes e impetuosos, ó Arjuna, que arrebatam à força mesmo a mente de um homem de discriminação que se esforça por controlá-los. 61. Aquele que restringe os sentidos, mantendo-os sob completo controle, e fixa sua consciência em Mim, é conhecido como homem de inteligência estável. 62. Enquanto contempla os objetos dos sentidos, a pessoa desenvolve apego a eles, e de tal apego se desenvolve a luxúria, e da luxúria surge a ira. 63. Da ira, surge completa ilusão, e da ilusão, a confusão da memória. Quando a memória está confusa, perde-se a inteligência, e ao perder a inteligência, cai-se de novo no poço material. 64. Mas quem está livre de todo o apego e aversão e é capaz de controlar seus sentidos através dos princípios reguladores com os quais se obtém a liberdade, pode receber a completa misericórdia do Senhor. 65. Para alguém que sente essa alegria, as três classes de misérias da existência material deixam de existir; nessa consciência jubilosa, a inteligência logo torna-se resoluta. 66. Quem não está vinculado ao Supremo não pode ter inteligência transcendental nem mente estável, sem as quais não há possibilidade de paz. E como pode haver alguma felicidade sem paz? 67. Assim como um vento forte arrasta um barco na água, mesmo um só dos sentidos errantes em que a mente se detenha pode arrebatar a inteligência de um homem. 68. Portanto, ó pessoa de braços poderosos, o indivíduo cujos sentidos são restringidos de seus objetos com certeza tem a inteligência estável. 69. Aquilo que é noite para todos os seres é a hora de despertar para o autocontrolado; e a hora de despertar para todos os seres é noite para o sábio introspectivo. 70. Só quem não se perturba com o incessante fluxo de desejos – que são como rios que entram no oceano, que está sempre sendo enchido mas nunca se agita – pode alcançar a paz, e não o homem que luta para satisfazer esses desejos. 71. Aquele que abandonou todos os desejos de gozo dos sentidos, que vive livre de desejos, que abandonou todo o sentimento de propriedade e não tem ego falso – só ele pode conseguir a paz verdadeira. 72. Este é o caminho da vida espiritual e piedosa, e o homem que a alcança não se confunde. Se, mesmo somente à hora da morte, ele atinge essa posição, pode entrar no reino de Deus. Tanto nas escrituras védicas, quanto em outras escrituras do mundo, existem muitas histórias narrando a vida de grandes personalidades, yogis, sábios ou diferentes classes de espiritualistas, que fracassaram no intento de controlar seus sentidos. E agora, o motivo deste fracasso é explicado aqui pelo Senhor Krishna. Os sentidos são fortes e impetuosos e eles têm o poder de arrastar a mente de qualquer um – especialmente no que diz respeito ao impulso sexual. Deve-se entender, portanto, que sem uma ocupação constante nas atividades da consciência de Krishna é absolutamente impossível controlar os sentidos. Isto porque os sentidos exigem ocupações práticas, e se não estiverem ocupados em serviço devocional ao Senhor, certamente se ocuparão em atividades para desfrute material. A verdade é que, enquanto habita um corpo material, a alma espiritual está numa condição bastante difícil, vivendo numa atmosfera plena de encantos criados pela energia ilusória. Os objetos dos sentidos materiais estão sempre tentando atrair os sentidos do ser corporificado. A situação do ser corporificado pode ser comparada a um submarino nas profundezas do oceano. O submarino tem de estar hermeticamente fechado, pois, caso haja um mínimo orifício, por menor que seja, o submarino afundará gradualmente. Do mesmo modo, vivendo nas profundezas deste oceano de ilusão material, os seres corporificados precisam ter o cuidado constante de fechar seus sentidos e não permitir que a energia ilusória penetre por eles e afunde sua consciência. Mas isto não significa que uma pessoa consciente de Krishna tenta evitar os objetos dos sentidos artificialmente, simplesmente negando-os ou reprimindo seus sentidos. Ela é inteligente o bastante para compreender que o segredo do controle dos sentidos é a arte de utilizar tudo no serviço ao Senhor, o que para ela é bastante natural, devido ao desenvolvimento de sua devoção. Portanto, ela nunca se torna vítima da consciência materialista e nunca cai na ilusão de

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julgar-se proprietário, controlador ou desfrutador da energia material. Ao vincular ao Senhor todas as suas ocupações, a pessoa estabiliza sua inteligência e apazigua sua mente e sentidos. Perdendo o interesse por atividades mundanas, tal pessoa vive desperta para atividades transcendentais e sente grande prazer no avanço espiritual. Ela não tem necessidade de nada, pois o Senhor está sempre presente em sua mente e coração. Mesmo que, de algum modo, surjam desejos em sua mente, ela consegue manter-se imperturbável, devido à misericórdia do Senhor que recompensa o esforço de seu servo que tão sinceramente se ocupa em Seu serviço. Seu único desejo é tornar-se cada vez mais consciente de Krishna e esta fase perfeita é considerada a verdadeira ausência de desejos. Situada assim, tal pessoa nunca se esquece de que o Senhor é o único proprietário e que, portanto, tudo deve ser utilizado em Seu serviço amoroso. A entidade viva não pode existir sem desejos, nem pode existir sem sentimentos ou atividades. Portanto, estar sem desejos significa que não se reivindica falsamente a propriedade de algo. Este é o princípio básico e essencial para se alcançar a plataforma de verdadeira paz interior.

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CAPÍTULO III: Karma-yoga Pérola 17. SEGUINDO A PRÓPRIA NATUREZA (versos 1 a 8) 1. Arjuna disse: Ó Janardana, ó Keshava, por que queres ocupar-me nesta guerra terrível, se achas que a inteligência é melhor do que o trabalho fruitivo? 2. Minha inteligência ficou confusa com Tuas instruções equívocas. Portanto, dize-me definitivamente o que me será mais benéfico. 3. A Suprema Personalidade de Deus disse: Ó virtuoso Arjuna, acabei de explicar que há duas classes de homens que tentam compreender o eu. Alguns se inclinam a compreendê-lo pela especulação filosófica empírica, e outros, pelo serviço devocional. 4. Não é possível livrarse da reação só porque se deixa de agir, nem pode alguém atingir a perfeição só porque pratica a renúncia. 5. Todos são irremediavelmente forçados a agir segundo as qualidades que adquirem nos modos da natureza material; portanto, ninguém pode deixar de fazer algo, nem mesmo por um momento. 6. Aquele que impede os sentidos de agir, mas não afasta sua mente dos objetos dos sentidos, decerto ilude a si mesmo e não passa de um impostor. 7. Por outro lado, se uma pessoa sincera utiliza a mente para tentar controlar os sentidos ativos e passa então a praticar karma-yoga sem apego, ela é muito superior. 8. Executa teu dever prescrito, pois este procedimento é melhor do que não trabalhar. Sem trabalho, não se pode nem ao menos manter o corpo físico. Pudemos ver no capítulo anterior duas espécies de procedimentos para quem busca a auto-realização – sankhya-yoga, o estudo analítico da natureza material e espiritual, e karma-yoga, a qual é também conhecida como buddhi-yoga, ou a ação baseada no conhecimento espiritual através da qual fica-se livre de qualquer reação material. O processo de sankhya é geralmente aceito por pessoas inclinadas a especular filosoficamente e a compreender as coisas através do conhecimento experimental. Tais pessoas costumam se afastar da vida ativa e dedicam-se a praticar penitências e austeridades num lugar isolado. Em karma-yoga, porém, a pessoa sente grande prazer espiritual em agir para a satisfação de Krishna. Portanto, ao invés de se afastar das atividades tidas como materiais, o karma-yogi aprende a arte de espiritualizar tais atividades, enquanto permanece ocupado de acordo com a sua própria natureza. Como as pessoas comuns sentem muita dificuldade em compreender que em karma-yoga não é necessário afastar-se das atividades materiais e sim afastar-se do gozo dos sentidos materiais, Arjuna pede para o Senhor Krishna definitivamente tornar este tema mais claro. Como resposta, o Senhor diz que simplesmente por se afastar das atividades mundanas, a pessoa não pode manter-se livre das reações. A condição de Arjuna como um kshatriya era um exemplo perfeito disso, pois, caso ele renunciasse a luta, estaria incorrendo em pecado e certamente teria de sofrer severas reações. Ao seguir sua própria natureza, qualquer pessoa consciente de Deus sente grande satisfação em se ocupar no serviço devocional amoroso e, gradualmente, obtém grandes percepções a nível material e espiritual. No entanto, quando a pessoa tenta contrariar sua natureza, reprimindo suas tendências naturais, ela se depara com uma luta constante com seus sentidos e mente, cujo resultado é o inevitável enfraquecimento espiritual. A conclusão é que todos devem permanecer na sua própria ocupação natural com o propósito de alcançar o objetivo da vida, em vez de se tornar um pseudotranscendentalista que se recusa a trabalhar em consciência de Krishna enquanto a mente permanece apegada aos objetos dos sentidos. Em outras palavras, enquanto se vive neste mundo material, não se deve abandonar caprichosamente o trabalho, pois a propensão a dominar a natureza material e satisfazer os sentidos é realmente muito forte. Estas propensões mundanas precisam ser purificadas e, para isso, é mais adequado nos ocuparmos em nossos deveres prescritos e oferecermos os frutos desta ocupação como uma oferenda devocional ao Senhor. Tal oferecimento é chamado yajña, ou sacrifício. Pérola 18. A IMPORTÂNCIA DO SACRIFÍCIO (versos 9 a 16) 9. Deve-se realizar o trabalho como um sacrifício a Vishnu; caso contrário, o trabalho produz cativeiro neste mundo material. Portanto, ó filho de Kunti, executa teus deveres prescritos para a satisfação dEle, e desta forma sempre permanecerás livre do cativeiro. 10. No início da criação, o Senhor de todas as criaturas enviou muitas gerações de homens e semideuses, que deveriam dedicar-se a executar sacrifícios para Vishnu, e abençoou-os dizendo: “Sede felizes com este yajña (sacrifício) porque sua execução outorgar-vos-á tudo o que é desejável para viverdes com felicidade e alcançardes a liberação”. 11. Os semideuses, estando contentes com os sacrifícios, também vos agradarão, e assim, pela cooperação entre homens e semideuses, a prosperidade reinará para todos. 12. Cuidando das várias necessidades da vida, os semideuses,

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estando satisfeitos com a realização de sacrifício, suprirão todas as vossas necessidades. Mas aquele que desfruta destas dádivas sem oferecê-las aos semideuses como reconhecimento é certamente um ladrão. 13. Os devotos do Senhor libertam-se de todas as espécies de pecados porque comem alimento que primeiramente é oferecido como sacrifício. Outros, que preparam alimento para o próprio gozo dos sentidos, na verdade comem apenas pecado. 14. Todos os corpos vivos subsistem de grãos alimentícios, que são produzidos das chuvas. As chuvas são produzidas pela execução de sacrifício, e o sacrifício nasce dos deveres prescritos. 15. As atividades reguladas são prescritas nos Vedas, e os Vedas manifestam-se diretamente da Suprema Personalidade de Deus. Por conseguinte, a Transcendência onipenetrante situa-Se eternamente nos atos de sacrifício. 16. Meu querido Arjuna, aquele que, na vida humana, não segue esse ciclo de sacrifício estabelecido pelos Vedas certamente leva uma vida cheia de pecado. Vivendo só para a satisfação dos sentidos, tal pessoa vive em vão. A prosperidade humana é completamente dependente das dádivas naturais, as quais são supridas pela misericórdia do Senhor. Portanto, se a civilização humana for consciente de Deus e viver de modo simples, voltada principalmente para seu interesse em auto-realização, o Senhor estará satisfeito e abençoará a todos, suprindo-os com amplo fornecimento de opulências materiais. Como está claramente explicado aqui, a lei natural dá permissão para que, através do processo conhecido como yajña ou sacrifício, os seres humanos piedosos tirem o máximo proveito das dádivas divinas presentes na natureza. Porém, o homem materialista não é capaz de compreender este fato e se dedica a uma vida artificial que supervaloriza os empreendimentos industriais. Isto se deve unicamente à visão ateísta do homem moderno, que perdeu sua consciência de Deus e, por isso, tem causado uma condição de vida infernal, vivendo em função da exploração predatória da natureza material. Fica claro, portanto, que, para nos mantermos afastados de todas as espécies de contaminações produzidas pela associação mundana no mundo material, devemos executar yajñas, ou sacrifícios, assumindo nossos deveres prescritos em consciência de Krishna da forma mais impecável possível. Como foi discutido anteriormente, a atração dos sentidos pelos objetos é inevitável. Os olhos desejam contemplar belas formas, os ouvidos querem ouvir sons agradáveis, o paladar deseja saborear alimentos saborosos e assim por diante. Desse modo, uma pessoa que queira evitar os perigos da contaminação material terá de impedir que os sentidos materiais se ocupem em desfrutar dos objetos dos sentidos mundanos, redirecionando-os para os objetos dos sentidos espirituais. Isso é o verdadeiro conceito de sacrifício – tirar os sentidos do contato com a matéria e colocá-los a serviço do Senhor. Utilizando os sentidos para a satisfação do Senhor, a pessoa alcança a posição de liberação e, no devido tempo, retorna ao reino de Deus. Por outro lado, não agindo para a satisfação do Senhor, qualquer pessoa terá de permanecer neste mundo material, tentando inutilmente satisfazer seus sentidos, e terá de conviver com diferentes reações materiais que, certamente, irão ser a causa de sofrimento material. O verdadeiro propósito dos sacrifícios é satisfazer a Pessoa Suprema, o Senhor dos sacrifícios. Quando os sacrifícios são devidamente executados, o Senhor dos sacrifícios Se torna satisfeito e, como consequência, os semideuses, os quais são agentes que têm autoridade para agir em nome da Suprema Personalidade de Deus, também se satisfazem. Como encarregados dos diferentes departamentos de fornecimentos, os semideuses, satisfeitos, não permitem que haja escassez de recursos naturais. Eles são considerados como partes do Senhor e, por agirmos em consciência de Krishna, estaremos servindo e satisfazendo o Todo, o que inclui naturalmente a satisfação de Suas partes, os semideuses. É importante compreender que os diferentes sacrifícios recomendados nos Vedas para a satisfação dos semideuses são, em última análise, oferecidos à Suprema Personalidade de Deus. Tais sacrifícios são executados para que os semideuses possam fornecer ar, luz e água suficientes para que haja produção de grãos alimentícios em abundância. No entanto, quando o Senhor Krishna é adorado, os semideuses, que são diferentes membros do Senhor, são também automaticamente adorados, sendo desnecessário um esforço em adorá-los independentemente do Senhor. A conclusão é que a adoração dos semideuses é executada por aqueles que têm insuficiente fundo de conhecimento. Ainda assim, através deste processo, uma pessoa poderá se livrar da reação pecaminosa de usurpar as substâncias naturais que, sob a sanção superior do Senhor, são fornecidas pelos semideuses. Devemos compreender, portanto, que as necessidades da vida são os cereais, as frutas, o leite, etc. – os quais são supridos unicamente pelos semideuses dotados de poderes divinos. Os seres humanos não podem fabricar o calor, a luz, o ar, a água, etc., sem os quais ninguém pode viver. Torna-se completamente evidente que nossa vida depende das substâncias naturais fornecidas pelo Senhor e devemos fazer um uso apropriado delas para nos manter saudáveis e em condições adequadas para a auto-realização espiritual. Porém, se aquilo que recebemos do Senhor e de Seus agentes for utilizado para mero gozo dos sentidos, certamente nos tornaremos ladrões e teremos de ser

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punidos pelas leis da natureza material. Pérola 19. PARA A ALMA AUTO-REALIZADA NÃO HÁ DEVER (versos 17 a 20) 17. Mas para quem sente prazer no eu e utiliza a vida humana para buscar a auto-realização, satisfazendo-se apenas com o eu, ficando plenamente saciado – para ele não há dever. 18. Um homem auto-realizado não tem propósito a cumprir no desempenho de seus deveres prescritos, tampouco tem ele alguma razão para não executar tal trabalho. Nem tem ele necessidade alguma de depender de nenhum outro ser vivo. 19. Portanto, sem se apegar aos frutos das atividades, tem-se de agir por uma questão de dever, pois, trabalhando sem apego, alcança-se o Supremo. 20. Reis tais como Janaka alcançaram a perfeição com a simples execução dos deveres prescritos. Portanto, apenas para educar o povo em geral, deves executar teu trabalho. Os rituais védicos, tais como os sacrifícios prescritos, visam à purificação das atividades passadas de uma pessoa que se entregou ao gozo dos sentidos; por isso, eles são imprescindíveis para pessoas que relutam em se ocupar a serviço do Senhor. Quem é consciente de Krishna, porém, se ocupa em atividades espirituais, as quais são livres das reações boas ou más. Tais almas puramente conscientes de Krishna são auto-realizadas e inteiramente desapegadas das atividades deste mundo. No entanto, ainda que não tenha interesses pessoais por este mundo, uma pessoa completamente consciente de Krishna deve se ocupar de uma maneira exemplar e cumprir o propósito de ensinar a todos como se deve agir e como se deve viver. Ainda assim, tal pessoa realmente consciente de Krishna atuará sempre para o prazer do Senhor e, desse modo, irá manter-se inteiramente satisfeita. Para tal pessoa, na verdade, não haveria mais necessidade de aceitar deveres prescritos específicos, pois, pela graça do Senhor, todas as impurezas que existiam em seu coração, resultado acumulado de muitas e muitas vidas, são eliminadas através de suas atividades devocionais. Evidentemente, nem o Senhor Krishna nem Seu amigo Arjuna precisariam ocupar-se na Batalha de Kurukshetra. Eles só lutaram para ensinar as pessoas que a violência às vezes se faz necessária, especialmente quando ela visa à proteção da religiosidade. Pérola 20. O COMPORTAMENTO EXEMPLAR DO SENHOR KRISHNA (versos 21 a 24) 21. Seja qual for a ação executada por um grande homem, os homens comuns seguem, e o mundo inteiro procura imitar todos os padrões que ele estabelece através de seus atos exemplares. 22. Ó filho de Pritha, não há trabalho prescrito para Mim dentro de todos os três sistemas planetários. Nem sinto falta de nada, nem tenho necessidade de obter algo – e mesmo assim ocupo-Me nos deveres prescritos. 23. Pois, se alguma vez Eu deixasse de ocupar-Me na cuidadosa execução dos deveres prescritos, ó Partha, todos os homens decerto seguiriam Meu caminho. 24. Se Eu não executasse os deveres prescritos, todos estes mundos seriam levados à ruína. Eu causaria a criação de população indesejada, e com isso Eu destruiria a paz de todos os seres vivos. Sri Krishna é o controlador dos controladores e tudo e todos estão sob Seu controle. Ele é a causa de todas as causas e ninguém é igual ou superior a Ele. Ele possui opulências plenas e é a Suprema Deidade adorável. Evidentemente, a Suprema Personalidade de Deus é transcendental às regras e regulações, as quais existem unicamente para disciplinar e purificar as almas condicionadas que dependem dos resultados de seu trabalho e, por isso, se encarregam de diferentes deveres. Sendo transcendental, o Senhor não tem o menor interesse em nada deste mundo e, portanto, não precisa aceitar nenhum dever prescrito. No entanto, as almas condicionadas precisam de exemplos vivos de grandes líderes que as ensinem a se comportar de uma maneira exemplar. Desse modo, por Sua bondade sem limites, o Senhor vem a este mundo e age unicamente para o benefício das pessoas em geral. Assim, Ele assume para Si mesmo a responsabilidade de ser a maior autoridade de modo que as pessoas comuns sigam Seus passos e alcancem a perfeição da vida. Devemos, no entanto, entender claramente que as regras e regulações prescritas nas escrituras nunca podem afetá-lO, mas, ainda assim, para estabelecer os princípios religiosos Ele prefere segui-las à risca. Pérola 21. A AÇÃO DO SÁBIO E A AÇÃO DO IGNORANTE (versos 25 a 35) 25. Assim como os ignorantes executam seus deveres com apego aos resultados, os eruditos também podem agir, mas sem apego, com o propósito de conduzir as pessoas para o caminho

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correto. 26. Para não perturbar as mentes dos homens ignorantes apegados aos resultados fruitivos dos deveres prescritos, o sábio não deve induzi-los a parar de trabalhar. Ao contrário, trabalhando com espírito de devoção, ele deve ocupá-los em todas as espécies de atividades para que pouco a pouco desenvolvam a consciência de Krishna. 27. Confusa, a alma espiritual que está sob a influência do ego falso julga-se a autora das atividades que, de fato, são executadas pelos três modos da natureza material. 28. Quem tem conhecimento da Verdade Absoluta, ó pessoa de braços poderosos, não se ocupa a serviço dos sentidos e do gozo dos sentidos, pois conhece bem as diferenças entre trabalho com devoção e trabalho em busca de resultados fruitivos. 29. Confundidos pelos modos da natureza material, os ignorantes ocupamse plenamente em atividades materiais e tornam-se apegados. Mas os sábios não devem inquietá-los, embora estes deveres sejam inferiores por causa da falta de conhecimento daqueles que os executam. 30. Portanto, ó Arjuna, ofertando-Me todos os teus trabalhos, com pleno conhecimento de Mim, sem desejos de lucro, sem alegares ter alguma posse, e livre da letargia, luta. 31. Aqueles que cumprem seus deveres de acordo com Meus preceitos e que sem inveja seguem fielmente este ensinamento livram-se do cativeiro das ações fruitivas. 32.Mas aqueles que, por inveja, rejeitam estes ensinamentos e não os seguem devem ser considerados desprovidos de todo o conhecimento, enganados e malogrados em seus esforços pela perfeição. 33. Até mesmo um homem de conhecimento age segundo sua própria natureza, pois cada qual segue a natureza que adquiriu dos três modos. Que se pode conseguir com a repressão? 34. Há princípios que servem para regular o apego e a aversão relacionados com os sentidos e seus objetos. Ninguém deve ficar sob o controle desse apego e aversão, porque são obstáculos no caminho da auto-realização. 35. É muito melhor cumprir os próprios deveres prescritos, embora com defeito, do que executar com perfeição os deveres alheios. A destruição durante o cumprimento do próprio dever é melhor do que ocupar-se nos deveres alheios, pois seguir o caminho dos outros é perigoso. Uma vez que os homens ignorantes não podem aceitar as atividades em consciência de Krishna, os sábios não devem desperdiçar seu tempo valioso, perturbando-os desnecessariamente. Sendo bondosos, no entanto, os devotos do Senhor toleram o mau comportamento dos ignorantes e aproximam-se deles para tentar ocupá-los apropriadamente. Movida pelo ego falso, uma pessoa ignorante da sua natureza espiritual eterna considera-se a causa dos resultados de suas atividades e atribui o mérito unicamente a si própria. Ela não reconhece que seu corpo é um simples resultado de suas atividades passadas, o qual funciona sob a ordem do Senhor. Absorta em consciência material, a pessoa ignorante esquece-se de sua posição de servo amoroso do Senhor e dedica-se a servir seus próprios interesses pessoais. Uma pessoa sábia, no entanto, nunca age visando à sua satisfação pessoal, mas está sempre ativa no serviço devocional amoroso e, assim, está sempre ajudando a pessoa ignorante a aperfeiçoar o seu comportamento. Quando observamos uma pessoa sábia agir, podemos comprovar que ela é dotada de grande conhecimento espiritual, pois mostra sua indiferença às exigências mundanas dos sentidos materiais. Por outro lado, absorto em designações materiais ilusórias, o ignorante vive preso ao desfrute de seus sentidos. Portanto, qualquer pessoa que queira se tornar sábia deve desenvolver conhecimento prático a respeito da existência eterna da alma. Ela precisa compreender que não é este corpo material e, sim, uma alma espiritual que tem habitado diferentes corpos temporários. Isto irá ajudá-la a perceber claramente que existe uma certa classe de prazeres materiais que é perigosa, pois produz reações materiais que irão desviá-la da sua meta espiritual. Desse modo, compreendendo bem a diferença entre trabalho prático em devoção e trabalho fruitivo, a pessoa pode exercer controle sobre suas paixões materiais e utilizar seus sentidos em trabalhos práticos com o único propósito de se purificar. Pérola 22. O INIMIGO INSACIÁVEL CHAMADO LUXÚRIA (versos 36 a 46) 36. Arjuna disse: Ó descendente de Vrishni, que impele alguém a atos pecaminosos, mesmo contra a sua vontade, como se ele agisse à força? 37. A Suprema Personalidade de Deus disse: É somente a luxúria, Arjuna, que nasce do contato com o modo material da paixão e mais tarde se transforma em ira, e que é o inimigo pecaminoso que tudo devora neste mundo. 38. Assim como a fumaça cobre o fogo, o pó cobre um espelho ou um ventre cobre um embrião, diferentes graus de luxúria cobrem o ser vivo. 39. Assim, a consciência pura da entidade viva sábia é coberta por seu eterno inimigo sob a forma de luxúria, que nunca é satisfeita e queima como o fogo. 40. Os sentidos, a mente e a inteligência são os lugares que servem de assento para esta luxúria. Através deles, a luxúria confunde o ser vivo e obscurece o verdadeiro

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conhecimento que ele possui. 41. Portanto, ó Arjuna, ó melhor dos Bharatas, desde o começo, refreia este grande símbolo do pecado (a luxúria), regulando os sentidos, e aniquila este destruidor do conhecimento e da auto-realização. 42. Os sentidos funcionais são superiores à matéria bruta; a mente é superior aos sentidos; por sua vez, a inteligência é mais elevada do que a mente; e ela (a alma) é superior à inteligência. 43. Assim, sabendo que é transcendental aos sentidos, à mente e à inteligência materiais, ó Arjuna de braços poderosos, a pessoa deve equilibrar a mente por meio de deliberada inteligência espiritual (consciência de Krishna) e assim – pela força espiritual – vencer este inimigo insaciável conhecido como luxúria. Aqui se explica que, ao vir ao mundo material, a entidade viva inevitavelmente passa a interagir com o modo da paixão, o que faz com que seu sentimento puro de amor por Deus se transforme em luxúria. O amor a Deus é uma qualidade natural de todo ser vivo puro, e se caracteriza pelo desejo espontâneo de agir para o prazer do Senhor. Este amor a Deus é comparado ao leite puro e a luxúria é comparada ao iogurte. Em outras palavras, assim como o leite em contato com uma substância ácida se transforma em iogurte, o amor a Deus em contato com a paixão material se perverte em luxúria, ou o desejo incontrolável de satisfazer os próprios sentidos materiais. A entidade viva, portanto, permanece presa a este mundo material unicamente por causa da luxúria, a qual é comparada ao fogo. Isto significa que, assim como não podemos apagar o fogo simplesmente jogando combustível nele, não podemos controlar a nossa luxúria simplesmente tentando satisfazê-la. A solução dada pelo Senhor é que a pessoa deve refrear esta propensão luxuriosa, pois esta austeridade executada por uma pessoa irá gradualmente tornar a luxúria cada vez mais fraca. Quando a luxúria é portanto refreada e, ao mesmo tempo, a pessoa se ocupa no serviço devocional ativo, esta mesma luxúria irá se reespiritualizar e irá recuperar sua natureza original pura. A grande dificuldade que o ser vivo corporificado enfrenta é que ele está viciado em satisfazer os sentidos e confunde o prazer ilusório dos sentidos com a verdadeira felicidade. Devido ao mau uso do seu livre-arbítrio, a entidade viva veio a este mundo material exclusivamente para tentar ser feliz independente de Deus. Passando a habitar um corpo material específico e recebendo da natureza material um tipo específico de visão, audição, paladar, etc., bem como uma mente, um intelecto e um ego materiais, os seres vivos se esquecem de sua natureza espiritual eterna. Por terem abusado de sua independência parcial, eles caíram nesta condição ilusória e são forçados pela influência da luxúria a permanecerem absortos em atividades de gozo dos sentidos. Esta criação material, no entanto, é feita pelo Senhor de uma maneira que os seres vivos nunca conseguirão satisfazer por completo suas propensões de gozo material. Ao contrário disso, esta constante busca infrutífera de gozo dos sentidos torna-se a causa da própria frustração do ser vivo, a qual o levará a indagar sobre sua verdadeira natureza espiritual. Nos versos anteriores conseguimos compreender como podemos purificar a nossa própria natureza por aceitar deveres prescritos como um serviço em sacrifício ao Senhor. Contudo, podemos observar que na prática nossa natureza frequentemente se perverte e manifesta tendências pecaminosas. Arjuna, portanto, quer compreender que força é esta que nos confunde completamente e nos induz a agir contra nosso próprio interesse. Por esse motivo, o Senhor aqui revela que nosso verdadeiro inimigo, a luxúria, vive dentro de todos nós, e conclui que, através da prática da consciência de Krishna, a qual inclui conhecimento transcendental, a pessoa pode valer-se de sua força espiritual e gradualmente subjugar este inimigo tão perigoso.

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CAPÍTULO IV: O Conhecimento Transcendental Perola 23. O MISTÉRIO DA CIÊNCIA DO GITA (versos 1 a 3) 1. A Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna, disse: Ensinei esta imperecível ciência da yoga ao deus do Sol, Vivasvan, e Vivasvan ensinou-a a Manu, o pai da humanidade, e Manu, por sua vez, ensinou-a a Iksvaku. 2. Esta ciência suprema foi então recebida através da corrente de sucessão discipular, e os reis santos compreenderam-na dessa maneira. Porém, com o passar do tempo, a sucessão foi interrompida, e portanto a ciência como ela é parece ter-se perdido. 3. Esta antiquíssima ciência da relação com o Supremo é falada hoje a ti por Mim porque és Meu devoto bem como Meu amigo e podes portanto entender o mistério transcendental que há nesta ciência. Aqui fica claro que o Bhagavad-gita é um tratado espiritual especialmente destinado ao bhakta, ou devoto do Senhor. Na verdade, segundo o próprio Senhor, os jñanis, ou especuladores filosóficos, e os yogis, ou os que se limitam às práticas ióguicas mecânicas, não podem tirar o verdadeiro proveito do Bhagavadgita. Portanto, o Senhor diz claramente que escolhera Arjuna para receber este conhecimento devido às suas qualidades devocionais. A bhakti-yoga só pode ser praticada com conhecimento transcendental e este conhecimento é um grande segredo, pois inclui o conhecimento sobre a natureza espiritual da Suprema Personalidade de Deus. Além de devoto, Arjuna era um amigo sincero do Senhor e, devido à sua fidelidade, era qualificado para penetrar nos mistérios da compreensão acerca do Senhor Krishna. O Senhor informa aqui que este sistema de yoga foi primeiramente falado ao deus do Sol e o deus do Sol o explicou a Svayambhuva Manu, que o transmitiu a Maharaja Iksvaku e assim por diante. A história do Bhagavad-gita, portanto, remonta a um tempo muito antigo, quando foi entregue à ordem real, começando pela deidade que preside o planeta Sol. Isto revela que, através de um orador para outro, este sistema de yoga foi transmitido através da sucessão discipular, conhecida como parampara, para a proteção de todos os habitantes. Todos as pessoas com cargos de responsabilidade devem compreender o Bhagavad-gita e assim ajudar a proteger os cidadãos do cativeiro material produzido pela luxúria. Este conhecimento é essencial para se cumprir o propósito da vida humana, mas, devido à influência do poderoso tempo eterno, a transmissão deste conhecimento através da sucessão discipular foi interrompida e o conhecimento se perdeu. Como consequência disto, o Senhor deseja apresentá-lo novamente e escolheu Seu amigo Arjuna, o qual estava no Campo de Batalha de Kurukshetra, como alguém qualificado para recebê-lo. Isto indica que melhor compreende o Bhagavad-gita a pessoa que tem qualidades semelhantes às de Arjuna. Ela deve tornar-se devota do Senhor e desenvolver seu relacionamento de serviço amoroso direto ao Senhor. Arjuna já era perfeito em serviço devocional e, por isso, relacionava-se com o Senhor na condição de amigo transcendental. De qualquer modo, apesar de, em nosso atual estado de vida, termos nos esquecido do Senhor, esta relação poderá ser revivida se seguimos os passos de Arjuna e aceitamos Krishna como nosso verdadeiro refúgio. Pérola 24. A NATUREZA TRANSCENDENTAL DO SENHOR (versos 4 a 6) 4. Arjuna disse: O deus do Sol, Vivasvan, nasceu antes de Ti. Como poderei entender que, no começo, ensinaste-lhe esta ciência? 5. A Personalidade de Deus disse: Tu e Eu já passamos por muitos e muitos nascimentos. Posso lembrar-Me de todos eles, mas tu não podes, ó subjugador do inimigo! 6. Embora Eu seja não nascido e Meu corpo transcendental jamais se deteriore, e embora Eu seja o Senhor de todas as entidades vivas, mesmo assim, em cada milênio Eu apareço sob Minha forma transcendental original. Aqui, revela-se a característica especial do nascimento do Senhor: embora apareça como um ser humano comum, Ele Se lembra dos pormenores de Seus outros milhares de nascimentos anteriores. Esta é a diferença entre o Senhor e um ser vivo comum. O Senhor possui um corpo espiritual eterno, livre de nascimento, velhice, doença ou morte, e por isso Ele pode Se lembrar dos atos que Ele executou há milhões de anos. Um ser vivo comum muda de um corpo para outro e sua memória é tão limitada que mal pode se lembrar do que fez em algumas horas atrás. Assim, ninguém pode nunca se igualar ao Senhor. O Senhor possui um corpo eterno e transcendental. Seu corpo é, na verdade, idêntico a Ele e, mesmo descendo ao mundo material, Ele Se mantém na plataforma transcendental – livre de toda e qualquer ilusão. Sempre que aparece, Ele o faz através de Sua própria potência interna e a Seu bel-prazer. O Seu corpo nunca se deteriora, mas, mesmo assim, Ele passa da infância à juventude e surpreendentemente nunca ultrapassa esta fase. Mesmo na época da Batalha de Kurukshetra quando o Senhor já estava cheio

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de netos, Sua aparência era jovial, como se tivesse vinte ou no máximo vinte e cinco anos. Embora seja a pessoa mais velha, nem Seu corpo nem Sua inteligência jamais se deterioram. Assim como o poderoso Sol, Ele aparentemente “nasce” e “morre”. Na verdade, o Sol está praticamente fixo em sua posição, só que, devido a nossos sentidos precários, calculamos o seu “nascimento” e “morte”. De forma semelhante, o Senhor é não-nascido. Ele aparece diante de nossa visão, executa atividades para o bem-estar de todos e, ao concluir Sua missão, desaparece de nossa visão, tornando-Se imanifesto. Ele é Um, mas manifestaSe sob inúmeras formas e todas estas variadas formas são compreendidas pelos devotos puros e imaculados, mas nunca por uma pessoa que simplesmente se limita a estudar os Vedas. Devotos puros como Arjuna, os quais são companheiros eternos do Senhor, sempre encarnam com Ele para prestar-Lhe diferentes classes de serviços. Porém, a diferença é que o Senhor pode Se lembrar de todos os Seus aparecimentos, ao passo que Seu devoto os esquece. Devotos puros como Arjuna estão sempre acima de qualquer dúvida ou mal-entendido acerca da natureza espiritual do Senhor. Portanto, como ficará cada vez mais claro, Arjuna compreende muito bem que o Senhor Krishna é a Pessoa Suprema, a causa de todas as causas. Ainda assim, por estar representando o papel de uma pessoa confusa, em todo o Bhagavad-gita Arjuna tem de levantar diferentes questões importantes. Será que ele tem dúvidas quanto às afirmações apresentadas por Krishna? Evidentemente que não. Arjuna não está querendo esclarecer suas próprias dúvidas. Mas, como os homens comuns estão às voltas com muitos questionamentos e sentem grande dificuldade em compreender os tópicos do Bhagavad-gita, Arjuna teve de assumir este importante papel. Além disso, Arjuna estava tendo a oportunidade de ouvir diretamente do Senhor, o que para os devotos puros como Arjuna é extremamente prazeroso. Pérola 25. O PROPÓSITO DO APARECIMENTO DO SENHOR (versos 7 a 11) 7. Sempre e onde quer que haja um declínio na prática religiosa, ó descendente de Bharata, e um aumento predominante da irreligião – neste momento Eu próprio desço. 8. Para libertar os piedosos e aniquilar os canalhas, bem como para restabelecer os princípios da religião, Eu mesmo apareço, milênio após milênio. 9. Aquele que conhece a natureza transcendental do Meu aparecimento e atividades, ao deixar o corpo não volta a nascer neste mundo material, senão que alcança Minha morada eterna, ó Arjuna. 10. Estando livres do apego, do medo e da ira, estando plenamente absortas em Mim e refugiando-se em Mim, muitas e muitas pessoas no passado purificaram-se através do conhecimento a respeito de Mim – e com isso todas alcançaram transcendental amor por Mim. 11. A todos Eu recompenso proporcionalmente ao grau de sua rendição a Mim. Ó filho de Pritha, em qualquer circunstância, todos seguem o Meu caminho. Sob a ordem do Senhor, os Vedas apresentam diferentes princípios religiosos, mas quando existem discrepâncias quanto à execução apropriada das regras contidas nos Vedas, o mundo todo torna-se irreligioso. Neste momento, o Senhor desce do Seu reino espiritual e aparece como um avatara, uma encarnação divina. Ele o faz por Sua própria vontade, devido à misericórdia que sente por Seus devotos que estão no mundo material. Tais devotos são sempre molestados por pessoas demoníacas que tentam propagar suas filosofias mundanas ou distorcer o verdadeiro significado da religião. Na verdade, para conseguir se libertar do cativeiro material, a entidade viva precisa vencer sérias dificuldades. Para tal, nada melhor do que aceitar a ajuda do Senhor na forma do conhecimento védico, do mestre espiritual e da associação com os devotos. Só assim ela poderá compreender a natureza transcendental do corpo e das atividades do Senhor e, como resultado, após findar este corpo, não correr o risco de voltar a este mundo material. Os Vedas nos declaram que embora seja Um, a mesmíssima Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Se manifesta em muitíssimas formas e encarnações. Evidentemente, isto é incompreensível para os eruditos mundanos e filósofos empíricos, embora o devoto puro possa compreender este fato com completa convicção. Nesta parte do Bhagavad-gita, o Senhor confirma de fato que, sempre e onde quer que existe a necessidade, Ele aparece para resgatar Seus devotos queridos. Tais devotos compreendem que o nascimento e as atividades do Senhor são completamente espirituais e, aceitando esta verdade com fé, eles não perdem tempo com especulações filosóficas inúteis. O Senhor declara que, mesmo no passado, muitas pessoas adotaram o serviço devocional amoroso e se livraram dos diferentes obstáculos deste mundo, os quais se apresentam na forma de apego, medo e ira. Portanto, o Senhor Krishna encoraja Seu amigo e discípulo Arjuna a praticar a consciência de Krishna e conclui que devemos cultivá-la com fé e conhecimento, e com isto alcançar a perfeição. Com certeza, o Senhor irá recompensar a tentativa sincera empreendida pelo devoto que, apesar das dificuldades encontradas neste mundo, persiste em praticar

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serviço devocional ao Senhor. Pérola 26. AS COMPLEXIDADES DA AÇÃO (versos 12 a 24) 12. Neste mundo, os homens desejam sucesso nas atividades fruitivas, e por isso adoram os semideuses. Rapidamente, é claro, os homens obtêm neste mundo os resultados do trabalho fruitivo. 13. Conforme os três modos da natureza material e o trabalho referente a eles, as quatro divisões da sociedade humana são criadas por Mim. E embora Eu seja o criador deste sistema, deves saber que, sendo Eu imutável, continuo como a pessoa que não age. 14. Não há trabalho que Me afete; tampouco Eu aspiro aos frutos da ação. Aquele que entende esta verdade sobre Mim também não se enreda nas reações do trabalho fruitivo. 15. Em tempos antigos, todas as almas liberadas agiram com esta compreensão acerca de Minha natureza transcendental. Portanto, deves executar teu dever, seguindo-lhes os passos. 16. Até mesmo os inteligentes ficam confusos em determinar o que é ação e o que é inação. Agora, passarei a explicar-te o que é ação, e conhecendo isto te libertarás de todo o infortúnio. 17. É dificílimo entender as complexidades da ação. Portanto, deve-se saber apropriadamente o que é ação, o que é ação proibida e o que é inação. 18. Quem vê inação na ação, e ação na inação, é inteligente entre os homens, e está na posição transcendental, embora ocupado em todas as espécies de atividades. 19. Tem conhecimento pleno quem, em cada esforço seu, não apresenta desejo de gozo dos sentidos. Os sábios dizem que tal pessoa é um trabalhador cujas reações do trabalho foram queimadas pelo fogo do conhecimento perfeito. 20. Abandonando todo o apego aos resultados de suas atividades, sempre satisfeito e independente, ele não executa nenhuma ação fruitiva, embora ocupado em todas as espécies de empreendimentos. 21. Tal homem de compreensão age com a mente e a inteligência sob perfeito controle, deixa de ter qualquer sentimento de propriedade por suas posses e age apenas para obter as necessidades mínimas da vida. Trabalhando assim, ele não é afetado por reações pecaminosas. 22. Aquele que se contenta com o ganho que vem automaticamente, que está livre de dualidade e não inveja, que é estável no sucesso e no fracasso, nunca se enreda, embora execute ações. 23. O trabalho do homem que não está apegado aos modos da natureza material e que está situado em pleno conhecimento transcendental imerge por completo na transcendência. 24. Quem se absorve por completo em consciência de Krishna com certeza alcançará o reino espiritual por causa de sua plena contribuição às atividades espirituais, cuja execução é absoluta e nelas tudo o que se oferece é da mesma natureza espiritual. O processo através do qual a pessoa pode se livrar do cativeiro das ações é chamado de consciência de Krishna, onde tudo passa a ser feito para a satisfação do Senhor. Quem é consciente de Krishna age por amor à Suprema Personalidade de Deus e vive livre de interesses egoístas. Para se alcançar esta fase elevada, é necessário seguir a liderança de pessoas autorizadas que estão na linha de sucessão discipular, como se explicou no início deste capítulo. Os exemplos deixados pelos devotos autênticos anteriores são perfeitos e devemos segui-los, caso contrário, mesmo homens muito inteligentes ficarão confusos no que se refere às ações reguladoras existentes na consciência de Krishna. Os princípios religiosos são estabelecidos diretamente pelo Senhor. Isto significa que ninguém pode criar sua própria maneira de agir baseado no seu conhecimento experimental imperfeito. A alma condicionada vive absorta em suas especulações mentais e não consegue determinar o verdadeiro significado de religião e auto-realização transcendental. Portanto, bondosamente o Senhor explica a Arjuna e a todos nós o verdadeiro significado de ação, inação e ação proibida, pois qualquer pessoa que estiver decidida a libertar-se deste cativeiro material terá de compreender muito bem tais tópicos. Ao tornar-se consciente de Krishna, a pessoa aprende naturalmente a relacionar-se com o Senhor Supremo e com as demais entidades vivas. Compreendendo que todo ser vivo é um servo eterno do Senhor, ela compreenderá que todas as suas ações devem visar à satisfação do Senhor, o que é chamado de karma-yoga. Qualquer conclusão que leve a pessoa a agir de uma maneira diferente é considerada vikarma, ou ação proibida. Isto pode ser facilmente compreendido quando nos aproximamos do mestre espiritual, uma verdadeira autoridade na consciência de Krishna. Agir em consciência de Krishna significa agir em prol da satisfação de Krishna e isto torna a pessoa completamente livre do cativeiro do karma. Tal pessoa, materialmente falando, está completamente inativa, pois seu sentimento de servidão a Krishna faz com que ela se torne akarma, uma pessoa imune a todas as espécies de reações ao trabalho. O conhecimento sobre a ação em consciência de Krishna é verdadeiro conhecimento e é comparado ao fogo, sendo capaz de queimar todas as espécies de reações ao trabalho. A palavra brahman significa “espiritual”. O Senhor é o Supremo Brahman e qualquer atividade oferecida a Ele também torna-se

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brahman, ou espiritual. Na verdade, o resultado desta atividade e o próprio executor também se tornam brahman, ou espirituais, devido à influência espiritual do Senhor. A energia material, conhecida como maya, é também considerada divina, sendo uma das energias do Senhor. Quando utilizada para propósitos materiais, esta maya atua para confundir a alma condicionada que acaba desenvolvendo apego e desejo de posse por ela. Mas, quando é utilizada no serviço amoroso ao Senhor, esta mesma maya readquire sua qualidade espiritual, tornando-se brahman. Este é, portanto, o método transcendental da consciência de Krishna: utilizar tudo a serviço do Senhor, onde a execução, o executor e o resultado último – tudo – se une no Absoluto e atinge a plataforma espiritual. Pérola 27. OS DIFERENTES TIPOS DE SACRIFÍCIOS (versos 25 a 33) 25. Alguns yogis adoram perfeitamente os semideuses, oferecendo-lhes diferentes sacrifícios, e alguns deles oferecem sacrifícios no fogo do Brahman Supremo. 26. Alguns (os brahmacharis verdadeiros) sacrificam a faculdade auditiva e os sentidos no fogo do controle mental; e outros (os chefes de família regulados) sacrificam os objetos dos sentidos no fogo dos sentidos. 27. Outros, que se interessam em obter a auto-realização através do controle da mente e dos sentidos, oferecem as funções de todos os sentidos e do alento vital como oblações no fogo da mente controlada. 28. Tendo feito votos estritos, alguns se iluminam sacrificando seus bens, e outros, executando austeridades rigorosas, praticando a yoga do misticismo óctuplo (astangayoga) ou estudando os Vedas para progredir no conhecimento transcendental. 29. E outros, que estão inclinados ao processo de restrição da respiração para permanecer em transe, praticam oferecendo no alento inspirado o movimento do alento expirado, e no alento expirado o alento inspirado, e assim acabam entrando em transe, suspendendo toda a respiração. Outros, restringindo o processo alimentar, oferecem como sacrifício o alento expirado neste mesmo alento. 30. Todos estes executores que sabem o significado do sacrifício purificam-se das reações pecaminosas, e, tendo saboreado o néctar dos resultados dos sacrifícios, avançam em direção à atmosfera eterna e suprema. 31. Ó melhor da dinastia Kuru, sem sacrifício a pessoa jamais pode viver feliz neste planeta ou nesta vida; que se dizer da próxima, então? 32. Os Vedas aprovam todos estes diferentes tipos de sacrifício, e todos eles surgem de diferentes classes de trabalho. Tu te libertarás ao conhecê-los assim. 33. Ó castigador do inimigo, o sacrifício executado com conhecimento é melhor do que o mero sacrifício dos bens materiais. Afinal de contas, ó filho de Pritha, todos os sacrifícios do trabalho culminam em conhecimento transcendental. Como aprendemos aqui no Bhagavad-gita, a alma condicionada, absorta na matéria, pode curar-se por meio da consciência de Krishna. Este processo também é conhecido como yajña (sacrifícios), ou seja, atividades destinadas à satisfação do Senhor Vishnu, ou Krishna. Tais sacrifícios podem ser de diferentes categorias. Os bhaktas, ou aqueles que estão em consciência de Krishna, executam sacrifícios para a satisfação do Senhor e são considerados os mais perfeitos yogis. Os karmis, no entanto, desejam felicidade material advinda do gozo dos sentidos. Desse modo, eles executam sacrifícios para a satisfação dos semideuses, tais como Indra, Surya, etc. Tais semideuses são seres poderosos, pois são designados pelo Senhor para administrar os diferentes departamentos da criação material, tais como irrigação, aquecimento, iluminação, etc., do Universo. Há também aqueles que, sendo impersonalistas, sacrificam sua identidade material e espiritual para fundir-se na existência do Absoluto. De qualquer modo, qualquer pessoa interessada em obter auto-realização material ou espiritual deve adotar os vários sacrifícios conforme os rituais prescritos nos Vedas. A essência da vida dos estudantes transcendentalistas (brahmacharis) é a austeridade, por isso eles devem dedicar-se a ouvir o conhecimento védico da boca de lótus de um mestre espiritual puro e, assim, abster-se completamente do gozo dos sentidos. Os chefes de família (grihasthas) podem se purificar através do sacrifício sob a forma da caridade. Eles possuem alguma licença para o gozo dos sentidos, mas, ainda assim, executam-no com bastante restrição. Portanto, o casamento religioso é um sacrifício que visa a restringir a vida sexual das pessoas. Uma pessoa na ordem de vida renunciada (sannyasi) deve executar sacrifícios que beneficiem todas as outras classes de pessoas, por isso seu principal dever prescrito é a propagação da consciência de Krishna. Todas estas práticas chamam-se yoga-yajña, e são diferentes sacrifícios para se obter diferentes perfeições espirituais. Além disso, há sacrifícios de diferentes naturezas. Há pessoas que sacrificam seus bens materiais e abrem várias espécies de instituições de caridade, asilos, hospitais, etc. Outras pessoas preferem executar grandes austeridades e fazem votos estritos, vivendo livre de qualquer espécie de conforto material. Há outros que, com o propósito de controlar seus sentidos e progredir em compreensão espiritual, praticam a yoga apresentada por Patañjali, dedicando-se a diferentes técnicas ióguicas. Todas

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estas diferentes classes de pessoas estão fielmente ocupadas em suas diferentes classes de sacrifícios e procuram uma situação de vida superior. Dependendo do grau de consciência, os sacrifícios ora fazem parte da seção karma-kanda (atividades fruitivas), ora jñana-kanda (conhecimento em busca da verdade). A consciência de Krishna, entretanto, é diferente de tudo isto porque é serviço direto ao Senhor Supremo. A consciência de Krishna não pode ser alcançada por nenhuma das atividades acima mencionadas, mas só pode ser conseguida pela misericórdia do Senhor e Seus devotos autênticos. Nesta atual era de Kali as pessoas geralmente têm muita dificuldade em praticar o autocontrole e não têm uma mente tranquila para praticar yoga ou meditação. Além disso, as pessoas desta era vivem pouco, demoram muito a compreender o que é vida espiritual e estão sempre perturbadas por constantes ansiedades. Portanto, as escrituras védicas enfatizam o sacrifício conhecido como sankirtana-yajña, o cantar dos santos nomes do Senhor: Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare, Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare. Pérola 28. A FORÇA DO CONHECIMENTO TRANSCENDENTAL (versos 34 a 42) 34. Tenta aprender a verdade aproximando-te de um mestre espiritual. Faze-lhe perguntas com submissão e presta-lhe serviço. As almas auto-realizadas te podem transmitir conhecimento porque viram a verdade. 35. Tendo recebido verdadeiro conhecimento de uma alma autorealizada, jamais voltarás a cair nessa ilusão, pois, com este conhecimento, verás que todos os seres vivos são apenas partes do Supremo, ou, em outras palavras, que eles são Meus. 36. Mesmo que sejas considerado o mais pecaminoso de todos os pecadores, quando estiveres situado no barco do conhecimento transcendental serás capaz de cruzar o oceano de misérias. 37. Assim como o fogo ardente transforma a lenha em cinzas, ó Arjuna, do mesmo modo, o fogo do conhecimento reduz a cinzas todas as reações às atividades materiais. 38. Neste mundo, não há nada tão sublime e puro como o conhecimento transcendental. Esse conhecimento é o fruto maduro de todo o misticismo. E aquele que se familiarizou com a prática do serviço devocional desfruta este conhecimento dentro de si no devido curso do tempo. 39. Um homem fiel que se dedica ao conhecimento transcendental e que subjuga seus sentidos está qualificado para conseguir este conhecimento, e, tendo-o alcançado, obtém rapidamente a paz espiritual suprema. 40. Mas as pessoas ignorantes e sem fé, que duvidam das escrituras reveladas, não alcançam a consciência de Deus; elas acabam caindo. Para a alma incrédula não há felicidade nem neste mundo nem no próximo. 41. Aquele que age em serviço devocional, renunciando aos frutos de suas ações, e cujas dúvidas foram destruídas pelo conhecimento transcendental, está de fato situado no eu. Assim, ele não está atado às reações do trabalho, ó conquistador de riquezas. 42. Portanto, as dúvidas que, por ignorância, surgiram em teu coração devem ser cortadas com a arma do conhecimento. Armado com a yoga, ó Bharata, levanta-te e luta. É necessário aproximar-se de um mestre espiritual genuíno para se obter o conhecimento transcendental. Um mestre genuíno tem de, antes de mais nada, fazer parte da linha de sucessão discipular proveniente do próprio Senhor, pois ninguém pode alcançar a auto-realização espiritual fabricando seu próprio processo. Tal mestre espiritual mantém intacta a mensagem original do Senhor e a transmite sem interpretações materialmente motivadas. Ele aprendeu este conhecimento, rendendo-se ao seu mestre espiritual, e, assim, passou a entender as coisas como elas são. O mestre espiritual deve ter uma compreensão prática de que todos os seres vivos são partes integrantes da Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Krishna. Portanto, seus ensinamentos se destinam a convencer o discípulo que o ser vivo, como servo eterno de Krishna, não pode estar separado do Senhor, e quando uma pessoa sente que sua identidade é separada do Senhor, deve-se saber que ela está sob os encantos de maya, a energia ilusória. Por isso, o mestre espiritual ensina o discípulo a prestar serviço devocional puro, livrando-o gradualmente da busca pelos resultados fruitivos e da especulação mental. Quem presta serviço devocional ao Senhor, sob a guia de um verdadeiro mestre espiritual, imediatamente livra-se da ilusão que faz com que um ser vivo equivocado manifeste interesses diferentes dos interesses do Senhor. Portanto, como exemplificado por Arjuna no início do segundo capítulo, ninguém é capaz de resolver seus problemas e desenvolver conhecimento perfeito sem a ajuda do mestre espiritual. Desse modo, o discípulo aprende a se relacionar com seu mestre espiritual através do serviço amoroso humilde, sem falso prestígio. Evidentemente, não se trata de obediência cega, pois é necessário um entendimento bastante claro do que é verdadeira vida espiritual. Com submissão autêntica, o discípulo faz constantes indagações filosóficas a seu mestre espiritual, o qual, sendo por natureza muito bondoso, fica satisfeito e revela o

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segredo do conhecimento espiritual. Desse modo, não importa quão pecaminosa uma pessoa possa ter sido. Se ela adota as instruções do mestre espiritual e age baseada somente no conhecimento transcendental recebido, todas as suas reações kármicas são completamente eliminadas. Este conhecimento é, portanto, a causa da liberação, ao passo que a ignorância é a causa do cativeiro material. Este é o importante significado desta passagem do Bhagavad-gita.

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CAPÍTULO V: Karma-yoga, Ação em Consciência de Krishna Pérola 29. RENÚNCIA AO TRABALHO E O TRABALHO EM DEVOÇÃO (versos 1 a 6) 1. Arjuna disse: Ó Krishna, em primeiro lugar, me pedes que renuncie ao trabalho, e depois passas a recomendar o trabalho com devoção. Agora, por favor, dize-me definitivamente qual dos dois é mais benéfico! 2. A Personalidade de Deus respondeu: A renúncia ao trabalho e o trabalho em devoção são bons para obter a liberação. No entanto, entre os dois, o trabalho em serviço devocional é melhor do que a renúncia ao trabalho. 3. Sabe-se que é sempre renunciado aquele que não odeia nem deseja os frutos de suas atividades. Tal pessoa, livre de todas as dualidades, supera facilmente o cativeiro material e é inteiramente liberada, ó Arjuna de braços poderosos. 4. Só os ignorantes dizem que o serviço devocional (karma-yoga) é diferente do estudo analítico do mundo material (sankhya). Aqueles que são eruditos de verdade afirmam que quem segue com afinco um destes caminhos consegue os resultados de ambos. 5. Aquele que sabe que a posição alcançada por meio do estudo analítico também pode ser conseguida através do serviço devocional, e que portanto vê o estudo analítico e o serviço devocional como estando no mesmo nível, vê as coisas como elas são. 6. Ninguém pode ser feliz só por renunciar a todas as atividades sem se ocupar no serviço devocional ao Senhor. Mas quem é introspectivo, que se ocupa no serviço devocional, pode alcançar o Supremo sem demora. No decorrer do Capítulo Quatro, o Senhor Krishna enfatizou o trabalho em devoção e a inação com conhecimento. Porém, no final do capítulo, Ele recomendou que Arjuna saísse da letargia, se levantasse e cortasse todas as dúvidas com a arma do conhecimento transcendental. Isto produziu uma certa confusão na mente de Arjuna, o qual estava inclinado a entender que a renúncia em conhecimento envolvia a cessação de todas as atividades. Em outras palavras, Arjuna achava que a renúncia e o trabalho eram incompatíveis, e não compreendia que o trabalho com conhecimento pode livrar a pessoa de qualquer tipo de reação. Portanto, aqui, o Senhor conclui que o trabalho feito com conhecimento e devoção é superior. A verdade é que o conhecimento espiritual desprovido de ação não é suficiente para a liberação da alma condicionada. A pessoa precisa agir na qualidade de alma espiritual para, inclusive, fortalecer cada vez mais o conhecimento adquirido. A ação espiritual pode purificar completamente o coração da pessoa e, de uma vez por todas, livrá-la da propensão a agir em busca de gozo dos sentidos. Por conseguinte, ao agir com o conhecimento de sua relação espiritual eterna com o Senhor, a pessoa torna-se verdadeiramente renunciada. Atingir o conhecimento espiritual é comparado a encontrar a raiz da árvore, e praticar o serviço devocional, ou a ação em conhecimento espiritual, é comparado a regar essa raiz. Primeiramente, em sankhya-yoga, chega-se à conclusão filosófica que a alma nada tem a ver com este mundo material e depois, em karma-yoga, começa-se a agir em consciência de Krishna, sempre em relação ao Supremo. Portanto, ambos os processos envolvem a renúncia. Enquanto no primeiro caso se pratica unicamente a renúncia às atividades materiais, no segundo se inclui o apego às atividades espirituais. A conclusão é que embora ambos os processos sejam importantes e valiosos, aqueles que estão ocupados em consciência de Krishna estão mais bem situados, pois somente eles desfrutam da felicidades espiritual que se obtém do relacionamento amoroso com o Senhor. Pérola 30. OFERECENDO O RESULTADO DAS ATIVIDADES (versos 7 a 12) 7. Aquele que trabalha com devoção, que é uma alma pura e que controla a mente e os sentidos, é querido por todos, e todos lhe são queridos. Embora sempre trabalhe, essa pessoa nunca se enreda. 8-9. Embora ocupado em ver, ouvir, tocar, cheirar, comer, locomover-se, dormir e respirar, quem tem consciência divina sempre sabe dentro de si que na verdade não faz absolutamente nada. Porque enquanto fala, evacua, recebe, ou abre ou fecha os olhos, ele sempre sabe que só os sentidos materiais estão ocupados com seus objetos ao passo que ele é distinto de tudo. 10. Aquele que executa seu dever sem apego, entregando os resultados ao Senhor Supremo, não é afetado pela ação pecaminosa, assim como a folha de lótus não é tocada pela água. 11. Os yogis, abandonando o apego, agem com o corpo, a mente, a inteligência e mesmo com os sentidos, com o único propósito de se purificarem. 12. A alma firmemente devotada alcança paz inadulterada porque Me oferece os resultados de todas as atividades; mas quem não está em união com o Divino, que cobiça os frutos de sua labuta, fica enredado.

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A diferença entre uma pessoa em consciência material e em consciência espiritual está no apego. Enquanto a primeira está apegada aos resultados de suas atividades e age sempre visando ao seu próprio desfrute egoísta, a segunda está sempre apegada a Krishna e nunca cobiça os resultados de suas atividades. Esta pessoa quer sempre dar prazer ao Senhor, colocando-se, assim, no plano transcendental, livre de qualquer efeito material. Desse modo, qualquer ação que tal pessoa execute, quer seja corpórea, sensorial, mental ou intelectual, está sempre purificada da contaminação material, exatamente como a flor de lótus que permanece acima do nível da água, sem ser tocada por ela. Em consciência material, os sentidos se ocupam constantemente em buscar prazeres materiais, mas em consciência espiritual, ou consciência de Krishna, acontece o contrário: os sentidos se ocupam unicamente no serviço amoroso ao Senhor. Uma pessoa consciente de Krishna perde seu ego falso que constantemente a impele a agir como um desfrutador. Pelo contrário, a pessoa consciente de Krishna sente-se um servo de todos e sempre age com pureza e autocontrole. Suas atividades são tão puras que todos permanecem sempre satisfeitos com ela. Portanto, assim como ela é um benquerente de todos, ela também se torna benquista todos. Pérola 31. O SÁBIO DE VISÃO EQUÂNIME (versos 13 a 19) 13. Ao controlar sua natureza e renunciar mentalmente a todas as ações, o ser vivo corporificado reside feliz na cidade de nove portões (o corpo material), onde não trabalha nem faz com que se execute trabalho. 14. O espírito corporificado, senhor da cidade de seu corpo, não cria atividades, nem induz as pessoas a agir, nem cria os frutos da ação. Tudo isto é designado pelos modos da natureza material. 15. Tampouco o Senhor Supremo assume as atividades pecaminosas ou piedosas de alguém. No entanto, os seres corporificados ficam confusos por causa da ignorância que lhes cobre o verdadeiro conhecimento. 16. Quando, porém, a pessoa é iluminada com o conhecimento pelo qual a ignorância é destruída, então, seu conhecimento revela tudo, assim como o Sol ilumina tudo durante o dia. 17. Quando a inteligência, a mente, a fé e o refúgio de alguém estão todos fixos no Supremo, então, através do conhecimento pleno, ele purifica-se por completo dos receios e desse modo prossegue resoluto no caminho da liberação. 18. Os sábios humildes, em virtude do conhecimento verdadeiro, vêem com a mesma visão um brahmana erudito e cortês, uma vaca, um elefante, um cachorro e um comedor de cachorro (pária). 19. Aqueles cujas mentes estão estabelecidas em igualdade e equanimidade já subjugaram as condições de nascimento e morte. Eles são perfeitos como o Brahman, e desse modo já estão situados no Brahman. O corpo material é comparado a uma cidade que possui nove portões: dois olhos, duas narinas, dois ouvidos, uma boca, o ânus e o órgão genital. Residindo temporariamente nesta cidade, a alma iludida se julga proprietária e controladora do corpo, sem compreender que, na verdade, as ações e reações do corpo estão sob a influência inevitável dos modos da natureza. Define-se, portanto, a alma condicionada como aquela que ainda vive sob o conceito corpóreo da vida e não é capaz de compreender que os corpos são simplesmente produtos de diferentes modos da natureza material. Ao ser iluminada pelo conhecimento transcendental, tal alma condicionada se libera destes conceitos ilusórios e pode compreender que a alma que habita o corpo é de uma natureza plenamente espiritual. Gradualmente, pela influência do conhecimento transcendental, tal pessoa afortunada se livra de todos os receios e toma completo abrigo no Senhor. Ela pode compreender cada vez mais que tudo e todos estão sob completo controle do Senhor e passa a perceber a presença transcendental do Senhor como Paramatma ou Superalma no coração de todos os seres. Assim, ela adquire sua visão espiritual, livre de qualquer distinção de espécies ou castas. Isto significa que, embora o corpo de um sacerdote brahmana ou o corpo de um pecaminoso chandala, ou comedor de cachorros, não sejam iguais em qualidade, uma pessoa plenamente consciente de Deus sabe perfeitamente que tal diferença existe unicamente na plataforma material temporária, ao passo que a alma (tanto do brahmana quanto do chandala) é da mesmíssima qualidade espiritual. Tal equanimidade mental é um verdadeiro sintoma de auto-realização e quem a alcançou tem toda chance de ser transferido para o mundo espiritual, conquistando definitivamente as condições indesejáveis de nascimentos e mortes. Pérola 32. A ALMA LIBERADA E SUA FELICIDADE INTERIOR (versos 20 a 29) 20. Aquele que não se regozija ao conseguir algo agradável nem se lamenta ao obter algo desagradável, que é inteligente em assuntos relacionados ao eu, que não se confunde, e que conhece a ciência de Deus, já está situado na transcendência. 21. Semelhante pessoa liberada

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não se deixa atrair pelo prazer dos sentidos materiais, mas está sempre em transe, gozando o prazer interior. Desse modo, a pessoa auto-realizada sente felicidade ilimitada, pois se concentra no Supremo. 22. A pessoa inteligente não participa das fontes de misérias , que se devem ao contato com os sentidos materiais. Ó filho de Kunti, esses prazeres têm um começo e um fim, e por isso os sábios não se deleitam com eles. 23. Antes de abandonar o corpo atual, se alguém for capaz de tolerar os impulsos dos sentidos materiais e conter a força do desejo e da ira, ficará em situação privilegiada e será feliz neste mundo. 24. Aquele cuja felicidade é interior, que é ativo e se regozija dentro de si, e cujo objetivo volta-se para o seu próprio íntimo é de fato o místico perfeito. Ele liberta-se no Supremo e por fim alcança o Supremo. 25. Aqueles que estão além das dualidades que surgem das dúvidas, cujas mentes estão voltadas para si, que vivem atarefados, trabalhando para o bem-estar de todos os seres vivos, e que estão livres de todos os pecados libertam-se no Supremo. 26. Aqueles que estão livres da ira e de todos os desejos materiais, que são auto-realizados, autodisciplinados e empreendem um constante esforço em busca da perfeição, ficam garantidos de libertarem-se no Supremo num futuro muito próximo. 27-28. Repelindo todos os objetos sensoriais externos, mantendo os olhos e a visão concentrados entre as duas sobrancelhas, suspendendo dentro das narinas os alentos que entram e que saem, e assim controlando a mente, os sentidos e a inteligência, o transcendentalista que visa à liberação livra-se do desejo, do medo e da ira. Alguém que está sempre neste estado decerto é liberado. 29. Quem tem plena consciência de Mim, conhecendoMe como o beneficiário último de todos os sacrifícios e austeridades, o Senhor Supremo de todos os planetas e semideuses, e o benfeitor e benquerente de todas as entidades vivas, alivia-se das dores e misérias materiais. Uma pessoa desprovida de consciência espiritual age sempre sob o encanto dos prazeres dos sentidos, especialmente o prazer derivado da vida sexual. Na verdade, um materialista não pode manter sua vida trabalhando com vigor, sem entregar-se às práticas sexuais. Desse modo, o materialista vive em constante dualidade, pois, ao conseguir algo relacionado com o seu corpo, ele se alegra, assim como ao perder algo relacionado com o corpo, ele se lamenta. Portanto, é considerada uma alma liberada a pessoa que, sendo espiritualmente avançada, mantém-se livre dos seis impulsos dos sentidos materiais: a fala, o paladar, o estômago, os órgãos genitais, a mente e a ira. Isto ocorre devido à percepção prática de que os prazeres dos sentidos, assim como o corpo material, são temporários. Ela sabe, portanto, que a compreensão espiritual e o prazer dos sentidos não combinam muito bem. Certamente, uma alma liberada que perdeu o interesse pelos prazeres dos sentidos materiais está situada na transcendência, pois se identifica como uma parte integrante da Suprema Personalidade de Deus e vive absorta em satisfação plena. Ela mantém-se incólume diante das dualidades materiais, pois compreende que, ao se entregar aos prazeres materiais, a pessoa terá de se enredar cada vez mais nas misérias materiais. Refreando os impulsos dos seus sentidos e mergulhando dentro de si mesma, a alma liberada desfruta de um prazer espiritual ilimitado. Na realidade, afastar-se das ocupações externas que oferecem felicidade material superficial só é possível para a grande alma que saboreia a felicidade interior. Este estado avançado de vida espiritual chama-se consciência de Krishna, e o alcança quem pratica serviço devocional puro ao Senhor. Como não existe diferença entre estar ocupado no serviço devocional ao Senhor ou estar situado no mundo espiritual, um devoto puro tem como garantia o seu retorno ao seu lar original, de volta ao Supremo. O desejo de desfrutar da energia material do Senhor está tão profundamente arraigado que mesmo grandes sábios têm muita dificuldade em controlar seus sentidos. A menos que se ocupem no serviço devocional, nem mesmo grandes sábios ou praticantes de astanga-yoga são capazes de conter os impulsos dos sentidos de maneira tão eficaz como os devotos puros que se dedicam a servir aos pés de lótus do Senhor em grande bem-aventurança e amor transcendental. Tais devotos puros alcançam a plataforma máxima de paz interior por seguir a fórmula apresentada aqui no Bhagavad-gita: como o proprietário e controlador supremo, o Senhor é o verdadeiro reservatório de nosso amor e o beneficiário último de todos os nossos sacrifícios e austeridades. Ele é o nosso verdadeiro benquerente e devemos sempre trabalhar em consciência de Krishna na prática, livre da especulação mental e livre de interesses materiais. No próximo capítulo, o Senhor apresenta em pormenores o processo de meditação dhyanayoga, que é também conhecido como astanga-yoga, ou o processo místico de oito fases começando por yama e chegando finalmente ao samadhi, a mais elevada fase de meditação no Senhor. Este processo de dhyana-yoga ajuda o praticante a libertar-se de todas as espécies de temores e ira e, desse modo, ajudao também a sentir a presença da Superalma dentro do coração. Todavia, este processo gradual de yoga constitui apenas uma introdução ao serviço devocional ao Senhor, o qual é considerado a mais elevada perfeição da vida e o único meio que pode conceder a mais profunda paz ao ser humano.

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CAPÍTULO VI: Dhyana-yoga Pérola 33. A MENTE COMO AMIGA OU INIMIGA (versos 1 a 9) 1. A Suprema Personalidade de Deus disse: Aquele que não está apegado aos frutos de seu trabalho e que trabalha conforme sua obrigação está na ordem de vida renunciada e é um místico de verdade, e não aquele que não acende nenhum fogo nem cumpre dever algum. 2. Fica sabendo que aquilo que se chama renúncia é o mesmo que yoga, ou união com o Supremo, ó filho de Pandu, pois só pode tornar-se um yogi quem renuncia ao desejo de gozo dos sentidos. 3. Afirma-se que quem é neófito no sistema ióguico óctuplo recorre ao trabalho; mas quem já está elevado em yoga atua através da cessação de todas as atividades materiais. 4. Diz-se que alguém está elevado em yoga quando, tendo renunciado a todos os desejos materiais, não age em troca de gozo dos sentidos nem se ocupa em atividades fruitivas. 5. Com a ajuda de sua mente, a pessoa deve libertar-se, e não degradar-se. A mente é amiga da alma condicionada, e sua inimiga também. 6. Para aquele que conquistou a mente, a mente é o melhor dos amigos; mas para quem fracassou nesse empreendimento, sua mente continuará sendo seu maior inimigo. 7. Quem conquistou a mente já alcançou a Superalma, pois vive com tranquilidade. Para ele, felicidade e tristeza, calor e frio, honra e desonra é tudo o mesmo. 8. Diz-se que alguém está estabelecido em auto-realização e se chama um yogi (ou místico) quando está plenamente satisfeito em virtude do conhecimento e percepção adquiridos. Ele está situado em transcendência e é autocontrolado. Ele vê tudo – seixos, pedras ou ouro – como a mesma coisa. 9. Considera-se que tem maior avanço quem vê benquerentes honestos, benfeitores afetuosos, os neutros, os mediadores, os invejosos, amigos e inimigos, os piedosos e os pecadores – todos com mente igual. O verdadeiro e último propósito da prática da yoga é unir-se ao Supremo através de bhakti, ou serviço devocional. Porém, até se alcançar bhakti-yoga, o praticante passa por diferentes fases de autorealização. Este processo de se unir ao Supremo, portanto, pode ser comparado a uma escada com diferentes degraus: karma-yoga, jñana-yoga, dhyana-yoga e bhakti-yoga. Em outras palavras, segundo o Bhagavad-gita, todas estas diferentes yogas são simples meios para, enfim se chegar até bhakti, uma vez que de karma-yoga, até se chegar à bhakti-yoga existe um longo caminho para se percorrer. No Capítulo Três, foi explicado karma-yoga, no Capítulo Quatro, jñana-yoga, e no Capítulo Cinco foi dado uma introdução em bhakti. Agora, aqui no Capítulo Seis, o Senhor irá apresentar o processo conhecido como dhyana-yoga para depois, então, concluir que bhakti é, de fato, o processo mais elevado de todos. Apesar de explicar que dhyana-yoga é um poderoso meio para controlar a mente e os sentidos, o Senhor irá enfatizar que, por agir em consciência de Krishna, a pessoa irá se tornar um yogi perfeito. Em outras palavras, tornar-se um renunciado quando se tem como meta fundir-se no aspecto impessoal de Deus ou praticar yoga simplesmente para alguma satisfação pessoal não constituem as verdadeiras metas da yoga. Portanto, praticar a renúncia do gozo pessoal dos sentidos com o propósito de se ocupar no serviço devocional para o prazer do Senhor é a perfeição da renúncia. Um yogi perfeito age sempre baseado na sua relação amorosa com o Senhor e, por isso, está sempre preocupado em dar prazer ao Senhor. Mas, devido às insuficientes informações acerca do Senhor, um yogi neófito tenta de maneira mecânica controlar sua mente e, fatalmente, acaba caindo vítima de seus desejos pessoais grosseiros e sutis ou até, em raras exceções, espirituais. Isto acontece porque, na prática, ninguém consegue manter-se na condição de inatividade. O processo conhecido como astanga-yoga, portanto, pode ajudar a pessoa a controlar sua mente até um certo ponto e afastá-la do gozo dos sentidos, mas isto não irá resolver por completo o problema da alma condicionada. O Bhagavad-gita enfatiza com frequência que a melhor maneira de livrar uma pessoa dos seus desejos mundanos é ocupar sua mente em consciência de Krishna. Na realidade, a menos que a mente esteja sob controle, a prática da yoga não passa de uma mera exibição, pois a pessoa continuará vivendo com sua pior inimiga dentro de si e, enquanto isto, terá de continuar a servir os ditames da luxúria, cobiça e ira. De maneira diferente, uma pessoa completamente consciente de Krishna permanece sempre ocupando sua mente em pensamentos relacionados com o Senhor e alcança Sua graça divina, tornando-se plenamente satisfeita e autocontrolada. Mas quem não é autocontrolado e não tem a mente tranquila não encontra condições favoráveis para praticar meditação. Por isso, especialmente nesta atual era das trevas, Kali-yuga, quando as pessoas vivem perturbadas por diferentes ansiedades e, por isso, têm grande dificuldade em compreender o que é vida espiritual, enfatiza-se o sankirtana, ou o canto congregacional dos santos nomes do Senhor, Hare Krishna Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare, Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare.

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Pérola 34. AS TÉCNICAS DA DHYANA-YOGA (versos 10-18) 10. O transcendentalista deve sempre ocupar seu corpo, mente e ego em atividades relacionadas com o Supremo; ele deve viver sozinho num lugar isolado e deve sempre ter todo o cuidado de controlar a mente. Ele deve estar livre de desejos e sentimentos de posse. 11-12. Para praticar yoga, é necessário dirigir-se a um lugar isolado e colocar grama kusha no chão e depois cobri-la com pele de veado e pano macio. O assento não deve ser nem muito alto nem muito baixo e deve estar situado num lugar sagrado. O yogi deve então sentar-se nele mui firmemente e praticar yoga para purificar o coração, controlando a mente, os sentidos e as atividades e fixando a mente num único ponto. 13-14. Deve-se manter o corpo, pescoço e cabeça eretos, conservando-os em linha reta, e deve-se olhar fixamente para a ponta do nariz. Assim, com a mente plácida e subjugada, sem medo, livre por completo da vida sexual, deve-se meditar em Mim dentro do coração e ver a Mim como a meta última da vida. 15. Praticando esse constante controle do corpo, da mente e das atividades, o transcendentalista místico, com sua mente regulada, alcança o reino de Deus através da cessação da existência material. 16. Não há possibilidade de alguém tornar-se yogi, ó Arjuna, se come em demasia ou muito pouco, se dorme demais ou não dorme o bastante. 17. Aquele que é regulado em seus hábitos de comer, dormir, divertir-se e trabalhar pode mitigar todas as dores materiais, praticando o sistema de yoga. 18. Quando o yogi, pela prática da yoga, disciplina suas atividades mentais e se situa na transcendência – desprovido de todos os desejos materiais –, diz-se que está bem estabelecido em yoga. 19. Assim como uma candeia não tremula num lugar sem vento, do mesmo modo, o transcendentalista, que tem a mente controlada, permanece sempre fixo em sua meditação no eu transcendental. 20-23. Na etapa de perfeição chamada transe, ou samadhi, a mente abstém-se por completo das atividades mentais materiais pela prática de yoga. Caracteriza esta perfeição o fato de se poder ver o eu com a mente pura e sentir sabor e regozijo no eu. Neste estado jubiloso, o yogi situa-se em felicidade transcendental ilimitada, percebida através de sentidos transcendentais. Nesse caso, ele jamais se afasta da verdade, e, ao obter isto, vê que não há ganho maior. Situando-se nessa posição, ele nunca se deixa abalar, mesmo em meio às maiores dificuldades. Esta é a verdadeira maneira de alguém livrarse de todas as misérias surgidas do contato material. 24. É necessário ocupar-se na prática de yoga com determinação e fé, e não se desviar do caminho. Devem-se abandonar, sem exceção, todos os desejos materiais nascidos da especulação mental e desse modo controlar com a mente todos os sentidos por todos os lados. 25. Aos poucos, passo a passo, o yogi deve se situar em transe por meio da inteligência alimentada de convicção plena, e assim a mente deve fixar-se no eu apenas e não deve pensar em mais nada. 26. Sempre que a mente divague devido à sua natureza instável e inconstante, deve-se com certeza coibi-la e colocá-la sob o controle do eu. Aqui, o Senhor explica com clareza que a meta final da yoga é purificar a mente e o coração e encontrarse com a representação plenária do Senhor que mora dentro de todos nós, a Superalma localizada. Tal prática visa à cessação da existência material e não a alcançar condições materiais favoráveis. Uma vez que o principal dever de um transcendentalista é manter sua mente sempre fixa em Krishna, encontramos aqui diferentes precauções e restrições. Recomenda-se, por exemplo, permanecer em lugares tranquilos para evitar ser perturbado por objetos externos. É necessário observar completa abstinência da vida sexual e, para se alcançar isso, é ideal permanecer em lugares sagrados de peregrinação, como Vrindavana ou Mayapur, onde correm os rios sagrados Yamuna e Ganges. Os exageros nos hábitos físicos de comer e dormir devem ser energicamente evitados e mesmo o trabalho e a diversão devem ser executados de forma regulada. Para evitar as perturbações da mente, deve-se voluntariamente adotar uma vida de autodisciplina e auto-abnegação e abster-se por completo de atividades que incrementam o modo da paixão. Como foi explicado no capítulo anterior, devem-se repelir os objetos dos sentidos, tais como o som, a forma, etc., pela prática da yoga. Se o yogi fica com os olhos completamente fechados, surge a possibilidade de se cair no sono, e se os olhos ficam abertos, há o perigo de se deixar atrair pelos objetos dos sentidos. Desse modo, com as pálpebras semicerradas e com os olhos entre as duas sobrancelhas, o yogi deve concentrar sua visão na ponta do nariz. Dentro das narinas, deve-se restringir o movimento respiratório, neutralizando o ar que sobe e o ar que desce dentro do corpo e assim por diante. Arjuna, no entanto, estava naquele momento no campo de batalha e, como ficará mais claro mais à frente, ele sentia-se incapaz de seguir as técnicas da dhyana-yoga. O Senhor irá acalmá-lo, concluindo que um devoto puro que pensa constantemente em Krishna e está sempre absorto em fazer planos para ocupar tudo no Seu serviço devocional está em verdadeiro samadhi, ou transe, e já alcançou a perfeição

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da yoga. Mesmo sem ocupar-se na prática mecânica da yoga, o devoto puro perde naturalmente o interesse por coisas materiais desnecessárias e nunca se enreda com falsos sentimentos de posses. Sabendo muito bem que Krishna é o verdadeiro único proprietário, tal devoto nunca se interessa em algo que possa lhe trazer benefícios materiais, mas aceita qualquer coisa que seja favorável no desempenho de seu serviço devocional. Por exemplo, o devoto cozinha pratos saborosos e oferece ao Senhor e depois, com muito prazer, aceita os restos chamados prasadam. Consciente de que a prasadam é um alimento sagrado ou Krishnaizado, o devoto pode gozar a vida sem cair vítima da consciência material. No entanto, mesmo em se tratando de prasadam, o devoto é regulado na quantidade e nos horários, pois ele sabe que, se comer mais do que o necessário, surgirá a tendência de dormir em excesso e, assim, ele irá perder seu tempo precioso numa atividade influenciada pelo modo da ignorância. Pérola 35. O YOGI E SUA VISÃO DE IGUALDADE (versos 27 a 32) 27. O yogi cuja mente está fixa em Mim alcança deveras a mais elevada perfeição da felicidade transcendental. Ele está além do modo da paixão, percebe sua identidade qualitativa com o Supremo, e assim livra-se de todas as reações a atos passados. 28. Assim, o yogi autocontrolado, constantemente ocupado na prática de yoga, livra-se de toda a contaminação material e alcança a etapa mais elevada – a felicidade perfeita no transcendental serviço amoroso ao Senhor. 29. Um yogi de verdade Me observa em todos os seres e também vê todos os seres em Mim. De fato, a pessoa auto-realizada vê a Mim, o mesmíssimo Senhor Supremo, em toda parte. 30. Aquele que Me vê em toda parte e vê tudo em Mim jamais Me deixa, tampouco eu o deixo. 31. Semelhante yogi, que se ocupa no adorável serviço à Superalma, sabendo que Eu e a Superalma somos um, sempre permanece em Mim em todas as circunstâncias. 32. Yogi perfeito é aquele que, através da comparação com o seu próprio eu, vê a verdadeira igualdade de todos os seres, quer se sintam felizes ou infelizes, ó Arjuna! O sentimento de que exista algo separado do Senhor chama-se maya ou, em outras palavras: “aquilo que não é”. Portanto, deve-se compreender que as diferentes entidades vivas são expansões do Senhor e Suas partes integrantes e se destinam a viver em comunhão com o Senhor. Enquanto está sob o controle da energia material, a entidade viva serve seus sentidos; mas, ao aceitar o controle da energia espiritual, ela passa a servir diretamente o Senhor Supremo. Portanto, um yogi perfeito que adquiriu sua visão espiritual pode ver claramente que, independente da posição que possam ocupar, todas as entidades vivas permanecem servas do Senhor sob todas as circunstâncias. Representando o papel de uma alma condicionada, Arjuna ignorava que a relação corpórea temporária que existia entre ele e seus parentes era infinitamente menos importante do que sua relação espiritual eterna com Krishna. Desse modo, o Senhor bondosamente transmitiu este conhecimento transcendental do Bhagavad-gita não só para Arjuna, mas para que toda entidade viva pudesse recobrar sua consciência espiritual e, de uma vez por todas, livrar-se da ilusão de pensar que pode ser feliz sem prestar serviço amoroso a Deus. De uma maneira ou de outra, ao livrar-se desta contaminação, a entidade viva passa a se interessar pelo serviço devocional e fixa Sua mente nos pés de lótus do Senhor. Nesta posição espiritual segura, o yogi se livra cada vez mais da paixão material e pode perceber sua identidade qualitativa com o Senhor, e atinge a etapa tecnicamente conhecida como brahma-bhuta. Desse modo, ele passa a desfrutar de felicidade transcendental e passa a ver tudo com total clareza. Ele percebe a presença do Senhor no coração de todos os seres vivos, independente das condições materiais nas quais eles se encontram. Compreendendo a natureza transcendental do Senhor, o yogi perfeito sabe que, mesmo estando presente dentro dos cães ou porcos, o Senhor nunca é afetado pela matéria. Com a visão espiritual perfeita, o yogi pode entender a diferença entre a alma individual e a Superalma. A alma individual também está presente individualmente em cada um dos corações, mas a Superalma está presente simultaneamente em todos os corações. Nada, portanto, pode existir sem Krishna e Krishna é o proprietário de tudo. Krishna está em tudo e tudo está em Krishna, mas, ainda assim, Ele permanece em Sua própria morada, desfrutando dos relacionamentos amorosos com Seus associados eternos, os devotos puros. O ser vivo, no entanto, permanece sofrendo imerso na existência material simplesmente porque perdeu sua consciência de Krishna. Compreendendo perfeitamente bem este fato, o yogi perfeito se esforça sinceramente para distribuir este conhecimento espiritual a todos, tornando-se um servo muito querido do Senhor. Pérola 36. ARJUNA REJEITA A DHYANA-YOGA (versos 33 a 36) 33. Arjuna disse: Ó Madhusudana, o sistema de yoga que resumiste parece-me impraticável e inviável, pois a mente é inquieta e instável. 34. Pois a mente é inquieta, turbulenta, obstinada e

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muito forte, ó Krishna, e parece-me que subjugá-la é mais difícil do que controlar o vento. 35. O Senhor Sri Krishna disse: Ó poderosíssimo filho de Kunti, é sem dúvida muito difícil refrear a mente inquieta, mas isso é possível pela prática adequada e pelo desapego. 36. Para alguém cuja mente é desenfreada, a auto-realização é tarefa difícil. Mas aquele cuja mente é controlada e que se empenha com meios apropriados com certeza terá sucesso. Esta é a Minha opinião. Como um homem prático, Arjuna achava muito difícil seguir o sistema de dhyana-yoga apresentado pelo Senhor. No entanto, Arjuna não era uma pessoa comum. Ele era um amigo íntimo de Krishna, pertencia a uma família real e era qualificado como um grande guerreiro. Mesmo sendo dotado de tantas qualidades, ele se recusava a aceitar este sistema de yoga. De fato, deixar o lar e isolar-se nas montanhas com o propósito de regular completamente o modo de vida, inclusive a maneira de sentar-se, a escolha do lugar, o processo de alimentar-se e de dormir, enquanto se tenta afastar da mente todas as ocupações externas, é uma tarefa praticamente impossível. Se, há cinco mil anos, uma pessoa tão qualificada como Arjuna se recusou a praticar esta yoga, que dizer das pessoas comuns que vivem nesta era, a era das trevas? Podemos observar que as pessoas de hoje em dia mal conseguem levar a sério certas práticas espirituais extremamente simples, que dizer então de elas adotarem um sistema de yoga tão complexo e que requer tanta renúncia e auto-abnegação? É claro que podem existir raríssimas exceções, mas para as pessoas em geral a dhyana-yoga é um empreendimento impossível. Esta dificuldade existe especialmente devido à obstinação da mente, a qual muitas vezes tem a força de sobrepujar até a inteligência. Arjuna, portanto, não se identificava com um sistema de yoga tão inviável. Ele está representando o papel do homem moderno que tem de enfrentar o mundo e viver seu próprio cotidiano. Tal qual Arjuna, o Senhor concordou que, especialmente para esta era, ninguém consegue seguir tantas regras e regulações tão estritas e, portanto, ofereceu a Arjuna (e a todos nós) um tratamento adequado para a mente obstinada: deve-se praticar a consciência de Krishna segundo a própria natureza. Isto irá nos livrar gradualmente de todos os desejos materiais. Em outras palavras, perfeição da yoga significa livrar-se por completo da existência material; semelhante perfeição não se caracteriza como sendo um ato de mágica ou ginástica para se enganar o povo inocente e obter algum lucro material. Pérola 37. O DESTINO DO YOGI MALSUCEDIDO (versos 37 a 47) 37. Arjuna disse: Ó Krishna, qual é o destino do transcendentalista malogrado, que no começo adota com fé o processo da auto-realização, mas que mais tarde desiste devido à mentalidade mundana e desse modo acaba não alcançando a perfeição no misticismo? 38. Ó Krishna de braços poderosos, será que semelhante homem, que se afasta do caminho da transcendência, não estraga seu sucesso espiritual e material e sucumbe como uma nuvem destroçada, sem nenhuma posição em esfera alguma? 39. Esta é a minha dúvida, ó Krishna, e peço-Te que a suprimas por completo. À exceção de Ti, não se pode encontrar ninguém que possa dirimir esta dúvida. 40. A Suprema Personalidade de Deus disse: Filho de Pritha, um transcendentalista ocupado em atividades auspiciosas não sofre destruição nem neste mundo nem no mundo espiritual; quem faz o bem, Meu amigo, jamais é vencido pelo mal. 41. Após muitos e muitos anos de gozo nos planetas habitados por entidades vivas piedosas, o yogi malogrado nasce numa família de pessoas virtuosas ou numa família de rica aristocracia. 42. Ou (se fracassa após longa prática de yoga) ele nasce numa família de transcendentalistas que com certeza têm muita sabedoria. É claro que semelhante nascimento é raro neste mundo. 43. Obtendo esse nascimento, ele revive a consciência divina de sua vida anterior e volta a tentar o prosseguimento do seu avanço para conseguir sucesso completo, ó filho de Kuru. 44. Em virtude da consciência divina de sua vida anterior, ele automaticamente sente-se atraído aos princípios ióguicos – mesmo sem procurá-los. Esse transcendentalista inquisitivo sempre fica acima dos princípios ritualísticos das escrituras. 45. E quando com esforço sincero o yogi ocupa-se em continuar progredindo, limpando-se de todas as contaminações, então afinal atinge a meta suprema, alcançando a perfeição depois de praticar durante muitos e muitos nascimentos. 46. Um yogi é maior do que o asceta, maior do que o empirista e maior do que o trabalhador fruitivo. Portanto, ó Arjuna, em todas as circunstâncias, sê um yogi. 47. E de todos os yogis, aquele que tem muita fé e sempre se refugia em Mim, pensa em Mim dentro de si mesmo e Me presta transcendental serviço amoroso – é o mais intimamente unido a Mim em yoga e é o mais elevado de todos. Esta é a Minha opinião. Apesar de, anteriormente, ter ouvido de Krishna que a bhakti-yoga é superior e que um pequeno esforço

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neste caminho pode dar uma grande esperança de liberação, Arjuna queria assegurar-se ainda mais sobre este tema e pediu a Krishna que confirmasse esta declaração. Por estar seduzida pela energia material ilusória, mesmo executando disciplinas espirituais, a possibilidade de a entidade viva voltar a cair em suas garras sempre existe e Arjuna está curioso de saber o que é que se reserva para tal transcendentalista malogrado. A verdade é que, ao trilhar o caminho espiritual, a pessoa está declarando guerra contra maya. Como consequência, ao tentar escapar das garras da energia ilusória, a pessoa provavelmente terá de se defrontar com diferentes armadilhas preparadas especialmente para derrotá-la. Em resposta a esta questão, o Senhor garantiu que o transcendentalista malsucedido não precisa se preocupar, pois ele nunca sairá perdendo. Se ele cai após um curto período de prática, irá para os planetas celestiais e poderá conviver com muitas pessoas piedosas. Depois de viver lá por um longo período, ele voltará a este planeta, quando nascerá numa família de pessoas piedosas ou de mercadores aristocratas. Desse modo, ele poderá tirar proveito dessas condições favoráveis e continuar sua elevação espiritual. Se, no entanto, o transcendentalista fracassar depois de longo período de prática, ele irá nascer diretamente numa família de grandes transcendentalistas. Neste caso, para uma criança nascida numa família com grande sabedoria, seu ímpeto espiritual surgirá desde o começo de sua vida. Tal nascimento é altamente louvável e é considerado muito raro. Devemos compreender, portanto, que qualquer esforço que a pessoa empreender no caminho espiritual nunca será em vão. Ela sempre atrairá a misericórdia do Senhor, que lhe dará repetidas oportunidades para ajudá-la a conseguir a completa perfeição em yoga, ou em outras palavras, alcançar a perfeição em consciência de Krishna.

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CAPÍTULO VII: O Conhecimento Acerca do Absoluto Pérola 38. O CONHECIMENTO DO ABSOLUTO (versos 1 a 14) 1. A Suprema Personalidade de Deus disse: Agora presta atenção, ó filho de Pritha, enquanto te explico como é que, praticando yoga com plena consciência de Mim, com a mente apegada a Mim, podes ficar livre das dúvidas e conhecer-Me por completo. 2. Agora te declararei na íntegra este conhecimento, tanto fenomenal quanto numenal. Conhecendo isto, nada mais te restará saber. 3. Dentre muitos milhares de homens, talvez haja um que se esforce para obter perfeição, e dentre aqueles que alcançaram a perfeição, é difícil encontrar um que Me conheça de verdade. 4. Terra, água, fogo, ar, éter, mente, inteligência e ego falso – juntos, todos estes oito elementos formam Minhas energias materiais separadas. 5. Além dessas, ó Arjuna de braços poderosos, existe outra energia, Minha energia superior, que consiste nas entidades vivas que exploram os recursos dessa natureza material inferior. 6. Todos os seres criados têm sua fonte nestas duas naturezas. Fica sabendo com toda a certeza que Eu sou a origem e a dissolução de tudo o que é material e de tudo o que é espiritual neste mundo. 7. Ó conquistador de riquezas, não há verdade superior a Mim. Tudo repousa em Mim, como pérolas ensartadas num cordão. 8. Ó filho de Kunti, Eu sou o sabor da água, a luz do Sol e da Lua, a sílaba om nos mantras védicos; Eu sou o som no éter e a habilidade no homem. 9. Eu sou a fragrância original da terra e sou o calor no fogo. Eu sou a vida de tudo o que vive e sou as penitências de todos os ascetas. 10. Ó filho de Pritha, fica sabendo que Eu sou a semente da qual se originam todas as existências, sou a inteligência dos inteligentes e o poder de todos os homens poderosos. 11. Eu sou a força dos fortes, desprovida de paixão e desejo. Eu sou a vida sexual que não é contrária aos princípios religiosos, ó Arjuna. 12. Fica sabendo que todos os estados de existência – sejam eles em bondade, paixão ou ignorância – manifestam-se por Minha energia. Em certo sentido, Eu sou tudo, mas Eu sou independente. Eu não estou sob a influência dos modos da natureza material, porque eles, ao contrário, estão dentro de Mim. 13. Iludido pelos três modos, o mundo inteiro não conhece a Mim, que estou acima dos modos e sou inesgotável. 14. Esta Minha energia divina, que consiste nos três modos da natureza material, é difícil de ser suplantada. Mas aqueles que se renderam a Mim podem facilmente transpô-la. Como estudamos no Capítulo Dois, o espírito é eterno e nunca é criado. Ele é o fator básico da criação e o mundo material manifesta-se devido a ele. Este conhecimento científico espiritual é bem elaborado nos primeiros seis capítulos do Bhagavad-gita, e aqueles que se interessam por este conhecimento devem estudá-los. Todavia, Krishna em Seu aspecto pessoal, como a Suprema Personalidade de Deus, só pode ser conhecido por aqueles que se situam em consciência de Krishna. Portanto, embora existam pessoas interessadas em conhecimento espiritual básico, poucas delas se interessam em se aprofundar o bastante até chegar à compreensão acerca da Pessoa Suprema, pois preferem concentrar suas atenções no aspecto impessoal de Deus. Este Sétimo Capítulo, portanto, se destina especialmente ao estudante que deseja conhecer o Senhor Krishna como Ele é – na íntegra. Para isso, o próprio Senhor revela como Ele manifesta Suas diferentes opulências, ficando ainda mais claro que Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, é o conhecimento último. O conhecimento completo inclui a compreensão da energia material, da energia espiritual e a fonte de ambos e, uma vez situado nessa compreensão, pode-se praticar a yoga mais elevada, como foi concluído no capítulo anterior. Na verdade, esta mais elevada prática de yoga começa seguindo as instruções do último verso do Capítulo Seis: deve-se concentrar a mente no Supremo, refugiando-se nEle através do serviço devocional e deve-se executar constante adoração a Ele. Os itens mais importantes do serviço devocional são sravanam-kirtanam, ouvir e cantar. Por isso, o Senhor enfatiza no início deste capítulo: “ouça-Me”. Adquirir diretamente do Senhor o conhecimento a respeito da Sua natureza absoluta é uma grande bênção recebida por Arjuna e transmitida posteriormente pela sucessão discipular. Portanto, encontra imensa fortuna qualquer estudante sincero que, ao estudar o Bhagavad-gita com o auxílio de um devoto puro, não cai vítima de motivações pessoais ou falsas interpretações. Receber o conhecimento diretamente do Senhor ou através da sucessão discipular constitui a maior oportunidade de se tornar perfeitamente consciente de Krishna. Por outro lado, de nada adiantará receber o Bhagavad-gita de um não-devoto arrogante, envaidecido por sua erudição acadêmica mundana. Sendo uma manifestação temporária da energia do Senhor, este mundo material se caracteriza pela ilusão. Portanto, para ajudar seu íntimo amigo Arjuna, o Senhor aqui revela que tudo o que existe é um produto da combinação de matéria e espírito. Assim como a alma individual aceita um corpo que, devido à

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sua presença, pode se desenvolver, de modo semelhante, a manifestação cósmica material se desenvolve unicamente devido à presença do Senhor Vishnu como a Superalma. Esta Superalma é a grande causa deste Universo, nela tudo repousa e por ela tudo é mantido. A verdadeira finalidade de se praticar yoga é poder perceber a presença deste Senhor em cada milímetro desta criação para, finalmente, prestar serviço devocional a Ele. Na etapa preliminar, o Senhor Supremo pode ser percebido através da manifestação das Suas energias, assim como o Sol é percebido primeiramente através da manifestação de sua energia. Ou seja, a energia é simplesmente uma manifestação parcial do energético. Portanto, enquanto os yogis perfeitos percebem Deus como o energético e O adoram, os yogis imperfeitos só conseguem perceber Deus através de Suas energias impessoais. Por exemplo, através do sabor da água, os impersonalistas podem perceber a presença do Senhor. Os devotos, porém, glorificam a bondade do Senhor em nos suprir com água pura. Na verdade, não existe verdadeira contradição entre o devoto e o impersonalista. O que existe de fato são diferentes níveis de percepção. Este capítulo nos ajudará a entender que somente a grande alma que se rendeu por completo ao Senhor e adotou o serviço devocional puro pode superar a ilusão dos modos da natureza material e, pela graça do Senhor, pode conhecer Sua natureza absoluta. Pérola 39. AS 4 CLASSES DE HOMENS PIEDOSOS E IMPIEDOSOS (versos 15 a 19) 15. Os canalhas que são grosseiros e tolos, que são os mais baixos da humanidade, cujo conhecimento é roubado pela ilusão e que compartilham da natureza ateísta dos demônios, não se rendem a Mim. 16. Ó melhor entre os Bharatas, quatro classes de homens piedosos passam a Me prestar serviço devocional – o aflito, o que deseja riquezas, o inquisitivo e o que busca conhecer o Absoluto. 17. Destes, aquele que tem conhecimento pleno e está sempre ocupado em serviço devocional puro é o melhor. Pois Eu lhe sou muito querido, e ele Me é querido. 18. Todos esses devotos são sem dúvida almas magnânimas, mas aquele que cultiva conhecimento acerca de Mim, Eu o considero como sendo tal qual Eu mesmo. Ocupando-se em Me prestar serviço transcendental, ele com certeza Me alcançará, e esta é a meta mais elevada e perfeita. 19. Após muitos nascimentos e mortes, aquele que tem verdadeiro conhecimento rende-se a Mim, sabendo que sou a causa de todas as causas e de tudo o que existe. É muito raro encontrar semelhante grande alma. Certamente, existem muitas pessoas que não se interessam pelo processo de rendição ao Senhor Krishna. Tais pessoas ateístas são chamados de asuras pelo Senhor, ou seja, pessoas influenciadas pela natureza demoníaca. Tais asuras rejeitam os ensinamentos dados pelo Senhor, a autoridade Todo-poderosa. Eles preferem fabricar seus próprios métodos, os quais, na verdade, só aumentam os problemas da existência material. Mesmo sendo possuidores de bastante inteligência material, os asuras são chamados de duskirti, indicando que, apesar de inteligentes, seus esforços são mal orientados. Eles são de quatro categorias: os mudhas, ou bestas de carga; os naradhamas, os mais baixos da humanidade; os mayayapahrita-jñanas, ou aqueles cujo conhecimento se tornou velado pela ilusão e, finalmente, os asuram bhavam asritah, aqueles cujos princípios de vida são demoníacos. O primeiro tipo de asura, o mudha, é muito comum. Ele trabalha arduamente dia e noite e quer gozar sozinho o fruto do seu trabalho. Como está tão ocupado em trabalhar para aliviar os problemas que ele mesmo criou, ele nunca tem tempo para ouvir sobre o conhecimento espiritual. Por isso, ele é comparado ao asno, um animal que trabalha sem saber para quem. O naradhama é o homem que não tem nenhum princípio social e religioso. Uma vez que o verdadeiro propósito da vida humana é dedicar-se ao cultivo do avanço espiritual, qualquer pessoa que não se preocupa em conhecer o seu relacionamento com Deus é classificado, na verdade, na categoria de naradhama, uma pessoa da classe mais baixa. O próximo asura é o mayayapahrita-jñana. Tais asuras são aquelas pessoas que zombam da Personalidade do Senhor e O consideram como um simples ser humano. Às vezes, eles se tornam estudiosos do Bhagavad-gita e desautorizadamente escrevem suas interpretações influenciadas pelo ateísmo. Eles são perigosos, pois, além de não se render ao Senhor, eles se dedicam a ensinar às pessoas inocentes ateísmo disfarçado de filosofia. Na última classe de asuras está o asuram bhavam asritah. Este asura é bastante demoníaco e invejoso da Suprema Personalidade de Deus. Tais asuras, cujo princípio vital é criticar o Senhor e Seus representantes, vivem propagando o ateísmo e frequentemente apresentam um grande número de falsas encarnações de Deus. Ao contrário dos asuras existem os sukritis, ou quatro tipos de pessoas piedosas: o aflito, o que deseja riquezas, o curioso e o sábio. Porque procuram o Senhor em troca de algum benefício pessoal, estes quatro tipos de homens não são devotos puros, mas prestam serviço ao Senhor em diferentes condições. Porém, associando-se com devotos puros, eles avançam também e isto pode levar algumas vidas. Quando

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alcançam a perfeição do conhecimento, eles podem compreender a natureza absoluta do Senhor e naturalmente abandonam o materialismo e o impersonalismo que existem no começo do processo de rendição. Tal devoto que se torna completamente purificado passa a entender que tudo está relacionado com o Supremo e tudo tem sua função no serviço ao Senhor. Pérola 40. OS MENOS INTELIGENTES ADORAM OS SEMIDEUSES (versos 20 a 23) 20. Aqueles cuja inteligência foi roubada pelos desejos materiais rendem-se aos semideuses e prestam adoração através de determinadas regras e regulações que se coadunam com suas próprias naturezas. 21. Eu estou no coração de todos como a Superalma. Logo que alguém deseja adorar algum semideus, Eu fortifico sua fé para que ele possa se devotar a essa deidade específica. 22. Munido dessa fé, ele se empenha em adorar um semideus específico e realiza seus desejos. Mas na verdade, estes benefícios são concedidos apenas por Mim. 23. Homens de pouca inteligência adoram os semideuses, e seus frutos são limitados e temporários. Aqueles que adoram os semideuses vão para os planetas dos semideuses, mas Meus devotos acabam alcançando Meu planeta supremo. Desejando obter uma satisfação imediata dos desejos materiais, pessoas menos inteligentes buscam refúgio nos semideuses. Elas não conseguem se render ao Senhor porque, como foi explicado no Capítulo Dois, suas inteligências estão voltadas ao gozo dos sentidos e à opulência material. Por estarem motivadas por desejos materiais, tais pessoas pensam que seguir a seção karma-kanda dos Vedas é a melhor maneira de satisfazer seus desejos materiais. O devoto do Senhor, mesmo ainda no estágio imperfeito onde se desejam aquisições materiais, pode compreender que tanto as entidades vivas quanto os semideuses estão subordinados ao desejo do Senhor. Portanto, nenhum semideus pode outorgar nenhum resultado a nenhuma entidade viva sem que haja a sanção do Senhor. Isto significa que uma pessoa adora algum semideus e obtém seus resultados desejados porque, em última análise, esta foi a vontade do Senhor. Embora não interfira na independência de cada uma das entidades vivas, é o Senhor que dá as condições favoráveis para que alguém adore um semideus específico e é o Senhor que dá poder para o semideus outorgar as bênçãos materiais, pois os semideuses são simplesmente diferentes partes do corpo universal do Senhor Supremo. Como não sabem que os semideuses não são independentes, as entidades vivas menos inteligentes dirigem-se a eles em troca de benefícios limitados e temporários. Presas aos seus desejos materiais, tais pessoas permanecem neste mundo material e nunca podem alcançar o Supremo. O máximo que elas podem alcançar é a elevação aos planetas dos semideuses, onde tudo é igualmente perecível. O devoto puro, portanto, não perde tempo com a adoração interesseira que se faz aos semideuses. Ele adora diretamente o Senhor e obtém uma existência eterna e plena de bemaventurança. O Senhor é ilimitado e Suas bênçãos são ilimitadas e a misericórdia que Ele concede aos Seus devotos puros também é ilimitada. Pérola 41. A COMPREENSÃO SOBRE O ABSOLUTO (versos 24 a 30) 24. Homens sem inteligência, que não Me conhecem perfeitamente, pensam que Eu, a Suprema Personalidade de Deus, Krishna, era impessoal e depois assumi esta personalidade. Devido a seu conhecimento escasso, eles não conhecem Minha natureza superior, que é imperecível e suprema. 25. Eu nunca Me manifesto aos tolos e aos menos inteligentes. Para eles, Eu estou coberto por Minha potência interna, e portanto eles não sabem que Eu sou não-nascido e infalível. 26. Ó Arjuna, como a Suprema Personalidade de Deus, sei tudo o que aconteceu no passado, tudo o que está acontecendo no presente e tudo o que ainda vai acontecer. Conheço também todas as entidades vivas; mas a Mim ninguém Me conhece. 27. Ó descendente de Bharata, ó vencedor do inimigo, todas as entidades vivas nascem em ilusão, confundidas pelas dualidades surgidas do desejo e do ódio. 28. Aqueles que agiram piedosamente tanto nessa vida quanto em vidas passadas e cujas ações pecaminosas se erradicaram por completo livramse da ilusão manifesta sob a forma de dualidades e ocupam-se em servir-Me com determinação. 29. Os homens inteligentes que buscam libertar-se da velhice e da morte refugiam-se em Mim, prestando serviço devocional. Eles de fato são Brahman porque conhecem inteiramente tudo sobre as atividades transcendentais. 30. Aqueles que estão em plena consciência de Mim, que sabem que Eu, o Senhor Supremo, sou o princípio governante da manifestação material, dos semideuses e de todos os métodos de sacrifício, podem, mesmo ao chegar a hora da morte, compreender e conhecer a Mim, a Suprema Personalidade de Deus.

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Como os adoradores de semideuses, as pessoas que julgam que a Verdade Absoluta é impessoal também são consideradas aqui no Bhagavad-gita como menos inteligentes. Elas pensam que o Senhor Krishna é simplesmente uma personalidade poderosa, um príncipe ou uma entidade viva comum. Porém, como fica claro nestes versos, o próprio Senhor Supremo desaprova a alegação falsa de que a verdade última não tem uma forma. No Capítulo Quatro, o Senhor já afirmou que embora Ele seja aja, não-nascido, mesmo assim Ele aparece em Seu corpo transcendental que nunca se deteriora. Portanto, as escrituras védicas enfatizam que a Verdade Absoluta é eterna e possui uma forma plena de conhecimento e bemaventurança. No entanto, o Senhor aqui diz que Ele não Se revela aos não-devoto menos inteligentes. Ele permanece coberto pela Sua cortina ilusória chamada yoga-maya. Desse modo, os impersonalistas não podem compreender a posição transcendental do Senhor como conhecedor do passado, presente e futuro. Como almas condicionadas, eles permanecem sob o controle da energia ilusória do Senhor e repetidamente nascem invejando o Senhor e desejando tornar-se uno com Ele. Vivendo neste mundo de ilusão, e tendo de sofrer a influência das dualidades, tais como honra e desonra, bom e mau, homem e mulher, calor e frio, etc., eles são incapazes de compreender a Suprema Personalidade de Deus, Sri Krishna. Para se elevarem à posição transcendental onde poderão compreender o Senhor, eles precisam superar a ilusão que se manifesta como a dualidade de desejo e ódio. Isto se torna possível quando se praticam durante muitas vidas os princípios reguladores da religião. Isto faz com que tal pessoa acumule uma certa quantidade de atividades piedosas e se deixe atrair pela associação com os devotos, os quais estão completamente situados na plataforma espiritual e sabem tudo sobre as atividades transcendentais. É somente através desta associação devocional que se pode cultivar conhecimento puro acerca da Personalidade de Deus.

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CAPÍTULO VIII: Alcançando o Supremo Pérola 42. O SENHOR DOS SACRIFÍCIOS (versos 1 a 4) 1. Arjuna perguntou: Ó meu Senhor, ó Pessoa Suprema, que é Brahman? Que é o eu? Que são atividades fruitivas? Que é esta manifestação material? E que são os semideuses? Por favor, explica-me isto. 2. Quem é o Senhor do sacrifício, e como Ele vive no corpo, ó Madhusudana? E como é que aqueles ocupados em serviço devocional podem conhecer-Te ao chegar a hora da morte? 3. Suprema Personalidade de Deus disse: A entidade viva transcendental e indestrutível chama-se Brahman, e sua natureza eterna chama-se adhyatma, o eu. A ação que desencadeia o desenvolvimento dos corpos materiais das entidades vivas chama-se karma, ou atividades fruitivas. 4. Ó melhor dos seres corporificados, a natureza física, que está constantemente mudando, chama-se adhibhuta (a manifestação material). A forma universal do Senhor, que inclui todos os semideuses, tais como o Sol e a Lua, chama-se adhidaiva. E Eu, o Senhor Supremo, representado como Superalma no coração de cada ser corporificado, sou chamado adhiyajña (o Senhor do sacrifício). Ao se tentar obter conhecimento perfeito, é necessário colocar-se sob a orientação do mestre espiritual, como é exemplificado aqui por Arjuna, e demonstrar autêntico interesse nos temas espirituais, fazendo perguntas relevantes e submissas. As perguntas formuladas por Arjuna no início deste capítulo, portanto, têm caráter bastante filosófico e as explicações dadas pelo Senhor visam a fortalecer a convicção das pessoas em relação à posição suprema do serviço devocional. A palavra brahman define o aspecto de percepção impessoal acerca da Verdade Suprema. No entanto, a alma individual também é conhecida como brahman, devido à sua natureza espiritual eterna. Embora sendo de natureza superior, a entidade viva eterna, ao interagir com a natureza material temporária, acaba se envolvendo em atividades temporárias e ilusórias e, por isso, se prende nas estritas leis do karma e é forçada a experimentar as reações de suas atividades. Desse modo, a natureza material força a entidade viva a aceitar um corpo em qualquer uma das 8.400.000 espécies de vida, submetendo-se a viver como semideus, ser humano, animal, ave, etc. Querendo melhorar seu karma, e se promover aos planetas celestiais onde o gozo dos sentidos é maior, tal entidade viva às vezes executa yajñas, ou sacrifícios. Assim, por um determinado período de tempo, ela pode desfrutar das delícias encontradas nos planetas celestiais, mas, expirando o prazo, tem de voltar à Terra sob a forma de ser humano. Nos Upanishads se explica que, quando se esgota o mérito concedido pelo sacrifício, a entidade viva desce à Terra sob a forma da chuva para depois assumir a forma de grãos. O grão é então ingerido pelo homem, transformado em sêmen e depositado no ventre de uma mulher para ser fecundado e, finalmente, voltará a nascer na forma de vida humana e, quem sabe, voltará a executar sacrifícios a semideuses e repetir o mesmo ciclo. Portanto, Arjuna pergunta aqui quem é o verdadeiro Senhor dos sacrifícios. Ele já havia entendido a imperfeição da simples execução de sacrifícios materiais. Como um estudante sincero e qualificado, Arjuna queria evitar tais sacrifícios fruitivos e queria preparar-se para retornar definitivamente ao Supremo. Como ficará ainda mais claro nos versos seguintes, este Senhor dos sacrifícios é a manifestação plenária do Senhor Krishna conhecida como Paramatma ou Superalma. Este Senhor dos sacrifícios situa-se juntamente com a alma individual nos corações de todos os seres vivos com o propósito de testemunhar as suas atividades neste mundo. Pérola 43. LEMBRANDO-SE DO SENHOR NA HORA DA MORTE (versos 5 a 10) 5. E todo aquele que, no fim de sua vida, abandone seu corpo, lembrando-se unicamente de Mim, no mesmo instante alcança Minha natureza. Quanto a isto não há dúvidas. 6. Qualquer que seja o estado de existência de que alguém se lembre ao deixar o corpo, ó filho de Kunti, esse mesmo estado ele alcançará impreterivelmente. 7. Portanto, Arjuna, deves sempre pensar em Mim sob a forma de Krishna e ao mesmo tempo cumprir teu dever prescrito de lutar. Com tuas atividades dedicadas a Mim e tua mente e inteligência fixas em Mim, não há dúvida de que Me alcançarás. 8. Aquele que, meditando em Mim como a Suprema Personalidade de Deus, sempre ocupa sua mente em lembrar-se de Mim e não se desvia do caminho, ele, ó Partha, com certeza Me alcança. 9. Deve-se meditar na Pessoa Suprema como aquele que sabe tudo, como aquele que é o mais velho, que é o controlador, que é menor do que o menor, que é o mantenedor de tudo, que está além de toda a concepção material, que é inconcebível e que é sempre uma pessoa. Ele é luminoso como o Sol e é transcendental, situado além desta natureza material. 10. Aquele que, ao chegar a hora da morte, fixar seu ar vital entre as

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sobrancelhas e, pela força da yoga, com mente indesviável, ocupar-se em lembrar do Senhor Supremo com devoção plena, com certeza alcançará a Suprema Personalidade de Deus. Aqui, o Senhor Krishna responde à pergunta de Arjuna sobre como aqueles que se ocupam em serviço devocional podem conhecê-lO ao chegar a hora da morte. Ele garante aqui que quem quer que abandone o corpo em consciência de Krishna será transferido à morada do Senhor. Na verdade, para se chegar a esta perfeição de, no momento derradeiro, estar pensando no Senhor Krishna, a pessoa precisa ter praticado a consciência de Krishna através do serviço devocional durante a sua vida. O Senhor Chaitanya Mahaprabhu nos aconselhou a estarmos sempre ocupados em glorificar o Senhor Hari, especialmente através do cantar do maha-mantra Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare, Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare. Pensar constantemente no Senhor depende de pureza de mente e coração e o cantar dos santos nomes sem ofensas é justamente o agente purificador ideal especialmente para esta era que vivemos, a era das trevas, ou Kali-yuga. O cantar elimina as sementes de atividades pecaminosas que estão armazenadas no coração e desperta na pessoa que o pratica uma atitude devocional perante o serviço ao Senhor e somente quando a devoção surge numa pessoa é que a meditação no Senhor se torna naturalmente possível. O momento da morte é um momento crítico, e o nível de consciência que a pessoa atingiu neste momento vai manifestar diferentes desejos específicos, os quais, por sua vez, irão criar uma nova condição de vida em um novo corpo. Em outras palavras, os corpos que as diferentes pessoas obtêm são simplesmente o resultado da bagagem trazida de outras vidas. Desta forma, é nesta vida que todos criam a próxima vida e terão de nascer numa família específica, com diferentes graus de saúde, beleza, inteligência e demais opulências. A consciência material se manifesta de três modos, a ignorância, a paixão e a bondade. Ao abandonar o corpo sob a influência da ignorância, a pessoa perde a valiosa vida humana e acaba nascendo no reino animal. Ao morrer sob a influência do modo da paixão, ela reencarnará entre os seres humanos no planeta Terra e, ao deixar o corpo na bondade, ela será promovida aos planetas celestiais e obterá um corpo de semideus. É importante entender, no entanto, que qualquer corpo material que possamos obter, quer seja em ignorância, paixão ou mesmo em bondade, estará fadado ao envelhecimento, doença e morte. Portanto, cumpre perfeitamente a meta da vida a pessoa que abandona seu corpo em consciência espiritual, pensando no Senhor Krishna, a Suprema Personalidade de Deus. Certamente, tal pessoa obterá um corpo espiritual completamente livre de toda espécie de miséria e terá associação direta com o Senhor. Para se chegar a este estágio perfeito, enquanto estiver neste mundo, a pessoa terá de se manter cumprindo seus deveres prescritos e, ao mesmo tempo, cultivar sua consciência de Krishna. Na verdade, essencialmente, a consciência é um elemento espiritual, cujas qualidades espirituais se encontram latentes. Portanto, a absorção completa no cantar dos santos nomes, enquanto se pratica a lembrança da forma, qualidades e passatempos do Senhor, é o método perfeito para reviver nossa consciência espiritual. Pérola 44. OS DEVOTOS ALCANÇAM O SENHOR FACILMENTE (versos 11 a 16) 11. As pessoas que são versadas nos Vedas, que pronunciam o omkara e que são grandes sábios na ordem renunciada entram no Brahman. Desejando esta perfeição, deve-se praticar o celibato. Passarei então a explicar-te sucintamente este processo pelo qual alguém pode obter a salvação. 12. A yoga consiste no desapego de todas as ocupações sensuais. Para estabelecerse em yoga deve-se fechar todas as portas dos sentidos e fixar a mente no coração e o ar vital no topo da cabeça. 13. Após situar-se nesta prática de yoga e vibrar a sílaba om, a suprema combinação de letras, se o yogi pensar na Suprema Personalidade de Deus e abandonar o corpo, com certeza alcançará os planetas espirituais. 14. Para alguém cuja lembrança é sempre fixa em Mim, Eu sou fácil de obter, ó filho de Pritha, por causa de sua constante ocupação em serviço devocional. 15. Após Me alcançarem, as grandes almas, que são yogis em devoção, jamais retornam a este mundo temporário, que é cheio de misérias, porque obtiveram a perfeição máxima. 16. Partindo do planeta mais elevado do mundo material e indo até o mais baixo, todos são lugares de miséria, onde ocorrem repetidos nascimentos e mortes. Mas quem alcança Minha morada, ó filho de Kunti, jamais volta a nascer. Aqui, o Senhor Krishna explica a prática através da qual o estudante vive com o mestre espiritual e, sob seus cuidados, torna-se versado em conhecimento védico. Além disso, o estudante desde o início da vida pratica o celibato, pois se torna muito difícil avançar espiritualmente entregando-se a uma vida sexual ativa. Portanto, sendo treinado para se tornar sábio renunciado, ele pratica o processo que consiste em colocar o ar vital sobre as sobrancelhas enquanto vibra o omkara, a combinação suprema de letras. A

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meta é fixar a mente na Superalma dentro do coração e elevar a força vital até o topo da cabeça. Certamente, para se alcançar este sucesso é necessário eliminar todas as atividades dos sentidos. Mas, como foi mencionado anteriormente, este método não é nada prático para esta era, pois a constituição do mundo sofreu tantas mudanças que não existe a possibilidade de se praticar celibato desde o início da vida. Que dizer, então, de controlar os órgãos dos sentidos, não permitindo que eles se entreguem ao prazer? Certamente, o processo mais adequado e simples é adotar a consciência de Krishna, pois o mesmo transe que se obtinha em outras eras através da exigente prática de yoga mística torna-se possível se a pessoa é capaz de sempre fixar a mente em Krishna em serviço devocional. Os yogis que pronunciam o om estão também se referindo a Krishna, mas apenas a Seu aspecto impessoal. Por isso, os impersonalistas que se dedicam a vibrar o om podem unicamente alcançar o brilho espiritual que existe no mundo espiritual. Tal brilho espiritual é conhecido como brahmajyoti e está situado no céu espiritual entre os planetas Vaikuntha. Por outro lado, quando alguém canta o maha-mantra Hare Krishna, a vibração do omkara está também contida nele. Mas como o nome Krishna é uma referência pessoal à Suprema Personalidade de Deus, o resultado de se praticar constantemente esta vibração sonora é conseguir uma transferência para Goloka Vrindavana, o planeta de Krishna. Embora tal perfeição seja difícil de ser atingida, a ocupação constante no serviço devocional ao Senhor é tão purificante que torna tudo muito fácil. Na verdade, o devoto puro que se ocupa intensa e exclusivamente em serviço devocional o faz porque ele já não possui desejos materiais, tais como promoção aos planetas celestiais, conhecimento filosófico especulativo ou qualquer interesse egoísta. Ele se ocupa em serviço devocional com amor à Pessoa Suprema e nem sequer deseja salvar-se do enredamento material ou buscar unidade com o brahmajyoti do Senhor. Sua devoção é pura e inabalável. Portanto, embora seja muito difícil encontrar um verdadeiro devoto puro que esteja livre de desejos materiais, para ele a perfeição de absorver-se na lembrança do Senhor Krishna é fácil de ser alcançada, pois sua vida foi inteiramente dedicada a isto. Tal devoto puro nunca se deixa abater por impedimentos materiais e mantém-se fixo em seu serviço devocional e vive pensando em Krishna em qualquer tempo ou lugar. Esta plataforma elevada de consciência de Krishna pode ser obtida por aquele que segue as instruções do Senhor Chaitanya e sempre canta com bastante humildade o maha-mantra Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare, Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare. Devemos compreender, portanto, que todos os processos de yoga, – karma, jñana, dhyana, etc. – não poderão livrar completamente uma pessoa das misérias materiais, a menos que o sentimento puro de bhakti esteja incluído. Os processos de yoga devem ser considerados meios para ajudar a pessoa a alcançar bhakti, pois somente através de bhakti é que pode-se ser promovido à morada suprema do Senhor. Enquanto se permanece no mundo material (mesmo em planetas superiores onde o grau de desfrute é inimaginável para nós) é preciso submeter-se a repetidos nascimentos e mortes. Dessa maneira, o bhakti-yogi é o yogi supremo. Ele reconhece o perigo que existe a cada passo neste mundo material, por isso, ele não deseja nada mais além da associação direta com a Pessoa Suprema, o Senhor Sri Krishna, em Sua própria morada transcendental eterna, onde não existe o menor vestígio de qualquer tipo de aflição material. Pérola 45. A NATUREZA MANIFESTA E IMANIFESTA (versos 17 a 21) 17. Pelo cálculo humano, quando se soma um total de mil eras, obtém-se a duração de um dia de Brahma. E esta é também a duração de sua noite. 18. No início do dia de Brahma, todos os seres vivos se manifestam a partir do estado imanifesto, e depois, quando cai a noite, voltam a fundir-se no imanifesto. 19. Repetidas vezes, quando chega o dia de Brahma, todos os seres vivos passam a existir, e com a chegada de sua noite, eles são desamparadamente aniquilados. 20. Entretanto, há outra natureza imanifesta, que é eterna e transcendental a esta matéria manifesta e imanifesta. Ela é suprema e jamais é aniquilada. Quando todo este mundo é aniquilado, aquela região permanece inalterada. 21. Aquilo que os vedantistas descrevem como imanifesto e infalível, aquilo que é conhecido como o destino supremo, aquele lugar do qual jamais se retorna após alcançá-lo – essa é Minha morada suprema. Mesmo Brahma, o ser mais elevado deste Universo, tem uma duração de vida limitada. Na verdade, existem inúmeros universos e em cada um deles existe um Brahma específico ajudando o Senhor a levar a cabo a criação material. Ele vive apenas cem anos, mas do nosso ponto de vista, seus anos são praticamente intermináveis. Um dia de Brahma, por exemplo, é conhecido por nós como uma kalpa, ou seja, mil ciclos de quatro eras: Satya, Treta, Dvapara e Kali. A era de Satya se caracteriza pela virtude e tem uma duração de 1.728.000 anos. Na era de Treta a virtude diminui e ela dura 1.296.000 anos. Na Era de Dvapara, além de diminuir a virtude, a religião se perde e os vícios se infiltram e esta era dura 864.000

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anos. Na era que vivemos atualmente, a era de Kali, a desavença e irreligião predominam e sua duração diminui para 432.000 anos. Se somarmos os anos das quatro eras e as multiplicarmos por mil vezes, teremos uma kalpa, ou em outras palavras, um dia de Brahma, e este mesmo número irá corresponder à sua noite. Do nosso ponto de vista, portanto, os cem anos de Brahma representam 311 trilhões e 40 bilhões de anos terrestres. Assim como os seres vivos são criados no início da vida de Brahma, no final de sua vida, todos os seres são irremediavelmente aniquilados juntamente com a criação material e permanecem por um tempo num estado imanifesto. E somente quando um Brahma específico volta a nascer é que eles manifestam-se de novo. Uma pessoa inteligente não deve perder tempo executando atividades que irá mantê-la cativada pelo encanto desta energia material e a manterá em constantes renascimentos dentro deste mundo material. Ela deve despertar seu interesse pela morada de Deus, a qual é constituída de energia espiritual superior e nada tem a ver com a manifestação e aniquilação deste mundo que acontecem durante os dias e noites de Brahma. No texto védico Brahma-samhita há uma descrição vívida da morada pessoal do Senhor Krishna, onde se descreve que esta morada é conhecida como Cintamani-dhama, ou o lugar onde todos os desejos são completamente satisfeitos. Pérola 46. AS SITUAÇÕES AO SE ABANDONAR O CORPO (versos 22 a 28) 22.A Suprema Personalidade de Deus, que é maior do que tudo, é alcançado pela devoção imaculada. Embora presente em Sua morada, Ele é onipenetrante, e tudo está situado dentro dEle. 23. Ó melhor dos Bharatas, passarei agora a explicar-te os diferentes momentos em que, partindo deste mundo, o yogi retorna ou não. 24. Aqueles que conhecem o Brahman Supremo alcançam este Supremo, partindo do mundo durante a influência do deus do fogo, na luz, num momento auspicioso do dia, durante a quinzena da lua crescente ou durante os seis meses em que o Sol viaja pelo Norte. 25. O místico que se vai deste mundo durante a fumaça, à noite, a quinzena da lua minguante ou os seis meses que o Sol passa para o Sul, alcança o planeta Lua, mas acaba voltando. 26. Segundo a opinião védica, há duas circunstâncias em que se pode partir deste mundo – na luz e na escuridão. Quando parte na luz, a pessoa não volta; mas quando parte na escuridão, ela retorna. 27. Embora conheçam estes caminhos, ó Arjuna, os devotos nunca se confundem. Portanto, fixa-te sempre na devoção. 28. Aquele que aceita o caminho do serviço devocional não se priva dos resultados obtidos por alguém que estuda os Vedas, executa sacrifícios austeros, dá caridade ou dedica-se a atividades filosóficas e fruitivas. Pelo simples fato de executar serviço devocional, ele consegue tudo isto, e por fim alcança a suprema morada eterna. Como discutimos anteriormente, os devotos puros do Senhor são almas completamente rendidas e, por permanecerem constantemente absortos em pensar no Senhor, não precisam se preocupar com o momento ou o método adequado para abandonarem o corpo. Tal preocupação, entretanto, existe naqueles que praticam algum método diferente de bhakti. Desse modo, os praticantes de karma-yoga, jñana-yoga ou dhyana-yoga se preocupam em abandonar seus corpos nos momentos convenientes apresentados aqui pelo Senhor Krishna. Tais yogis precisam chegar ao ponto de desenvolverem a habilidade de partir deste mundo no momento auspicioso exato. Por isso, para alcançar o brahmajyoti, o místico perfeito pode abandonar o corpo durante a influência das deidades que presidem o fogo, a luz, o dia e a quinzena da lua crescente e, assim, eles não precisam retornar. Outros preferem abandonar este mundo sob a influência das deidades que presidem a fumaça, a noite, a quinzena da lua minguante e conseguem alcançar a Lua, onde poderão desfrutar por dez mil anos para, finalmente, acabarem retornando à Terra. O devoto puro do Senhor prefere deixar tudo nas Suas mãos enquanto ocupa seu tempo precioso em estabelecer-se cada vez mais em consciência de Krishna. Ele sabe que não precisa se preocupar com os diferentes caminhos, pois, vivendo em harmonia com o Senhor através do serviço devocional, ele irá ao reino espiritual por um caminho seguro e direto. O devoto puro pode entender claramente que os caminhos aqui apresentados são arriscados e problemáticos e prefere manter-se no caminho devocional, onde a passagem para o mundo espiritual é totalmente garantida.

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CAPÍTULO IX: O Conhecimento Mais Confidencial Pérola 47. O MAIS SECRETO DE TODOS OS SEGREDOS ((versos 1 a 3) 1. A Suprema Personalidade de Deus disse: Meu querido Arjuna, porque nunca Me invejas, transmitirei a ti este ensinamento e compreensão muito confidenciais. Passando a conhecê-los, ficarás livre das misérias encontradas na existência material. 2. Este conhecimento é o rei da educação, o mais secreto de todos os segredos. É o conhecimento mais puro, e por conceder a percepção direta do eu, é a perfeição da religião. Ele é eterno e é agradável praticá-lo. 3. Aqueles que não são fiéis neste serviço devocional não podem Me alcançar, ó subjugador dos inimigos. Por isso, eles voltam a trilhar o caminho de nascimentos e mortes neste mundo material. O serviço devocional puro consiste em nove diferentes atividades: ouvir, cantar, lembrar, servir, adorar, orar, obedecer, manter amizade e entregar-se completamente ao Senhor. Praticando constantemente estes nove itens do serviço devocional, elevamo-nos à consciência espiritual e toda a contaminação material é eliminada do coração. Aqui no começo deste capítulo, vemos que Arjuna teve a oportunidade de receber o conhecimento diretamente do Senhor. Tanto a oportunidade de ouvir diretamente do Senhor, quanto a oportunidade de ouvir dos devotos puros do Senhor, fará com que uma pessoa sincera obtenha iluminação espiritual. Isto acontece porque não há diferença entre o Senhor Supremo e os tópicos relacionados com Ele. Portanto, quando um devoto puro transmite as mensagens imaculadas sobre a consciência de Krishna, ele tem a potência espiritual de estabelecer o Senhor no coração do ouvinte, especialmente se o ouvinte estiver livre de inveja do Senhor e tiver o desejo autêntico de assimilar o conhecimento e fortalecer sua vida espiritual. Estando dentro do coração de tal ouvinte, o Senhor dará inteligência para que tal pessoa compreenda a ciência da consciência de Krishna e, ao mesmo tempo, inspirará a pessoa a buscar pela associação dos devotos. Por outro lado, mesmo ouvindo da boca de lótus de um devoto puro, se a pessoa for invejosa do Senhor Krishna e não puder aceitá-lO como a fonte de tudo que é material e espiritual e Senhor de todas as entidades vivas, tal pessoa permanecerá em ignorância. Portanto, mesmo que tais pessoas ignorantes decidam comentar sobre o Bhagavad-gita, elas o farão de maneira desautorizada. Mas, para aquele que aceita o Senhor Krishna como a Suprema Personalidade de Deus, certamente este capítulo, onde o Senhor revela o conhecimento a respeito de Sua Personalidade Suprema, será bastante benéfico. Por isso, o Senhor afirma aqui que este Nono Capítulo é o rei de todo esse conhecimento. Quando falamos de conhecimento confidencial, estamos falando sobre o serviço devocional, pois nada pode ser mais confidencial do que o relacionamento amoroso que existe entre o Senhor e Seus devotos. Portanto, a essência de todas as diferentes espécies de filosofias encontradas nos Vedas é a compreensão do serviço devocional puro. A primeira parte deste conhecimento confidencial trata da ciência da alma espiritual. Como estudamos anteriormente, sem a presença da alma, o corpo não tem valor algum. Este é apenas o começo do conhecimento confidencial. Além disso, temos de prosseguir e chegar a compreender as atividades da alma que está em liberdade total. Em outras palavras, aprender diretamente do Senhor ou de Seu devoto como a alma liberada atua no reino espiritual significa entrar na parte mais confidencial do conhecimento espiritual. Mesmo neste mundo, quando uma pessoa adota o serviço devocional executando-o com pureza, ela será capaz de perceber diretamente os resultados. Por ouvir sobre as atividades do Senhor e cantar o mahamantra Hare Krishna com sinceridade, qualquer pessoa sentirá algum prazer transcendental e se purificará de toda a contaminação material. À medida que suas atividades devocionais se intensificam, ela pouco a pouco vai experimentando progresso espiritual, o que a faz sentir cada vez mais prazer. Este aperfeiçoamento na vida espiritual não depende de nenhum tipo de instrução ou qualificação anterior. O próprio método é tão puro que qualquer pessoa irá se purificar pelo simples fato de se ocupar nele. No entanto, pessoas que são desprovidas de bom senso espiritual não irão depositar sua fé nas palavras proferidas pelo Senhor e não poderão adotar este processo de serviço devocional. Para tais pessoas desafortunadas, o progresso em consciência de Krishna é praticamente impossível. Ainda assim, través da associação com os devotos, mesmo uma pessoa incrédula poderá mudar seu coração e desenvolver gradualmente a convicção de que, pelo simples fato de servir sinceramente ao Supremo Senhor, pode-se alcançar a máxima perfeição. Enquanto isto não acontecer, não haverá esperança de livrar-se do ciclo de repetidos nascimentos e mortes. Pérola 48. OS TRÊS ASPECTOS DO ABSOLUTO (versos 4 a 6)

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4. Sob Minha forma imanifesta, Eu penetro este Universo inteiro. Todos os seres estão em Mim, mas Eu não estou neles. 5. E mesmo assim, os elementos criados não repousam em Mim. Observa Minha opulência mística! Embora Eu seja o mantenedor de todas as entidades vivas e embora esteja em toda parte, não faço parte desta manifestação cósmica, pois Meu Eu é a própria fonte da criação. 6. Compreende que, assim como o vento poderoso, que sopra em toda parte, sempre permanece no céu, todos os seres criados repousam em Mim. Os Vedas afirmam que o Senhor pode ser percebido em três aspectos: o aspecto impessoal (a energia cósmica), o aspecto localizado (a Superalma) e o aspecto pessoal (a Suprema Personalidade de Deus). Para entendermos isto, podemos fazer uma analogia entre o Senhor e o Sol. O semideus Surya reside no Sol, o qual permanece em seu local no espaço, mas espalha seu brilho por todo o Universo. De forma similar, o Senhor permanece em Sua morada, onde manifesta Sua personalidade transcendental, mas espalha Sua energia por toda a criação, e tudo repousa nessa energia. Podemos observar que, mesmo espalhando seus raios, o semideus Surya não perde sua personalidade e, ao mesmo tempo, o planeta Sol mantém sua existência no espaço. Do mesmo modo, o Senhor Se espalha por toda parte e não perde Sua existência pessoal. Como a Suprema Personalidade de Deus, Ele permanece a distância, enquanto todas as Suas manifestações, tanto neste mundo material quanto no mundo espiritual, repousam em Sua energia impessoal. A Suprema Personalidade de Deus, portanto, difunde Suas diferentes energias, e Se mantém presente em toda parte por meio de Sua representação pessoal. Além disso, o Senhor diz que tudo repousa nEle, mas isto não significa que Ele está diretamente envolvido com a manutenção e sustentação desta manifestação material. Os diferentes planetas flutuam no espaço, e este espaço é a energia do Senhor Supremo. Mas Ele é diferente do espaço. Esta é a incomparável opulência do Senhor. Devemos compreender que a Personalidade de Deus tem poderes infinitos. Portanto, quando quer fazer algo, não pode existir o menor obstáculo. Pelo Seu simples desejo, tudo é executado perfeitamente. Ainda assim, Ele pessoalmente não precisa Se envolver com nada. Embora seja o mantenedor e o sustentador da manifestação material inteira, Ele não toca esta manifestação material. Apenas por Sua vontade suprema, tudo é criado, tudo é sustentado, tudo é mantido e tudo é aniquilado. O Senhor mantém Sua forma original como a Suprema Personalidade de Deus e, simultaneamente, permanece presente em tudo como o mantenedor supremo e, ao mesmo tempo, reside nos corações de todas as entidades vivas como a Superalma localizada. Todas as maravilhosas manifestações cósmicas existem pela suprema vontade de Deus, e todas elas estão subordinadas a essa vontade suprema. Pérola 49. A NATUREZA FUNCIONA SOB A DIREÇÃO DO SENHOR (versos 7 a 10) 7. Ó filho de Kunti, no final do milênio todas as manifestações materiais entram em Minha natureza, e no começo de outro milênio, por Minha potência, Eu volto a criá-las. 8. Toda a ordem cósmica está sujeita a Mim. Sob Minha vontade, ela repetidas vezes manifesta-se automaticamente, e no final ela é aniquilada sob Minha vontade. 9. Ó Dhanañjaya, nenhum desses trabalhos pode atar-Me. Eu estou sempre desapegado de todas essas atividades materiais como se estivesse neutro. 10. Esta natureza material, que é uma de Minhas energias, funciona sob Minha direção, ó filho de Kunti, produzindo todos os seres móveis e inertes. Obedecendo-lhe ao comando, esta manifestação é criada e aniquilada repetidas vezes. Aqui se descreve outro aspecto do poder do Senhor. Embora esta manifestação cósmica seja criada, mantida e aniquilada por Ele, ainda assim, Ele permanece completamente neutro e desapegado, pois tudo ocorre através de Suas potências, as quais agem maravilhosamente pela Sua ordem divina. Este mundo material é a manifestação da energia inferior da Suprema Personalidade de Deus. É aqui que as entidades vivas, como resultado de suas atividades passadas, são fecundadas e assumem diferentes corpos e condições de existência. Uma vez que a criação e aniquilação ocorrem periodicamente, os desejos que as entidades vivas acalentam no momento da aniquilação são levados para a próxima criação. Isto significa que, quando o Universo é criado, as diferentes espécies de vida surgem ao mesmo tempo – quer sejam seres humanos, feras, vegetais, etc. Tais atividades materiais de criação e aniquilação ocorrem unicamente pela potência inconcebível de Deus, o qual permanece imutável, embora tudo esteja sob Seu completo controle. O Senhor não está diretamente vinculado a este mundo material porque as entidades vivas recebem seus corpos de acordo com seus atos e desejos passados. Depois da aniquilação, as entidades vivas são lançadas no corpo da primeira encarnação purusha do Senhor, chamada Mahavishnu, onde permanecem imanifestas por um período. Depois disso, quando chega o momento da nova criação, Ele simplesmente lança Seu olhar para a natureza material e injeta as entidades vivas novamente no ventre da natureza material. A conclusão é que o Senhor Supremo é o sustentáculo de toda a criação e o

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diretor supremo, embora a administração esteja sendo conduzida pela própria natureza material. É Ele quem dita as ordens aos semideuses, Seus agentes executivos. Pérola 50. O VERDADEIRO E O FALSO REFÚGIO (versos 11 a 22) 11. Os tolos zombam de Mim quando desço sob forma humana. Eles não conhecem Minha natureza transcendental como o Supremo Senhor de tudo o que existe. 12. Aqueles que estão assim perplexos deixam-se atrair por opiniões demoníacas e ateístas. Estando mergulhados nessa ilusão, suas esperanças de liberação, suas atividades fruitivas e seu cultivo de conhecimento são todos destroçados. 13. Ó filho de Pritha, aqueles que não se iludem, as grandes almas, estão sob a proteção da natureza divina. Eles se ocupam completamente em serviço devocional porque sabem que Eu sou a original e inexaurível Suprema Personalidade de Deus. 14. Sempre cantando Minhas glórias, esforçando-se com muita determinação, prostrando-se diante de Mim, estas grandes almas adoram-Me perpetuamente com devoção. 15. Outros, que se ocupam em sacrifício por meio do cultivo do conhecimento, adoram o Senhor Supremo como o único e inigualável, como aquele que Se dividiu em muitos, e na forma universal. 16. Mas Eu é que sou o ritual, sou o sacrifício, a oferenda aos ancestrais, a erva medicinal, o canto transcendental. Sou a manteiga, o fogo e a oferenda. 17. Eu sou o pai deste Universo, a mãe, o sustentáculo e o avô. Sou o objeto do conhecimento, o purificador e a sílaba om. Também sou o Rig, o Sama e o Yajur Vedas. 18. Eu sou a meta, o sustentador, o senhor, a testemunha, a morada, o refúgio e o amigo mais querido. Sou a criação e a aniquilação, a base de tudo, o lugar onde se descansa e a semente eterna. 19. Ó Arjuna, Eu forneço calor e retenho e envio a chuva. Eu sou a imortalidade e sou também a morte personificada. Tanto o espírito quanto a matéria estão em Mim. 20. Aqueles que, buscando os planetas celestiais, estudam os Vedas e bebem suco de soma, adoram-Me indiretamente. Purificados de reações pecaminosas, eles nascem no piedoso planeta celestial de Indra, onde gozam de prazeres divinos. 21. Após desfrutarem desse imenso prazer celestial dos sentidos e tendo esgotado os resultados de suas atividades piedosas, eles regressam a este planeta mortal. Logo, aqueles que buscam o prazer dos sentidos sujeitando-se aos princípios dos três Vedas conseguem apenas repetidos nascimentos e mortes. 22. Mas aqueles que sempre Me adoram com devoção exclusiva, meditando em Minha forma transcendental – a eles Eu trago o que lhes falta e preservo o que têm. Como aprendemos do Bhagavad-gita, a Suprema Personalidade de Deus, Sri Krishna, é o responsável pela criação, manutenção e aniquilação da manifestação cósmica. Como, então, Ele poderia enquadrar-Se na categoria de um ser humano comum? No entanto, existem muitas pessoas tolas que insistem em afirmar que o Senhor Krishna é simplesmente um ser humano poderoso e nada mais. Mas, como seres humanos comuns poderiam executar atividades maravilhosas como as descritas nos versos anteriores? Na realidade, Krishna é o Senhor Supremo, cuja forma eterna é plena de conhecimento e bem-aventurança. Por Sua misericórdia, Ele vem a este mundo material e age aparentemente como um ser humano comum, envolvendo-Se em assuntos aparentemente mundanos, como a Batalha de Kurukshetra. Desse modo, pessoas com pouco conhecimento ficam perplexas ao estudarem o Bhagavad-gita e acabam por se deixar atrair pelas opiniões de pessoas ateístas e inescrupulosas. Em certos caso, tais pessoas passam a se interessar pelo Bhagavad-gita unicamente por uma questão econômica e compõem seus próprios comentários, os quais estão repletos de especulações filosóficas inúteis. Refugiando-se nas suas próprias conclusões filosóficas distorcidas, tais pessoas permanecem eternamente presas no ciclo de repetidos nascimentos e mortes. No entanto, diferentemente destas pessoas desafortunadas, existem os mahatmas, as grandes almas que não se interessam pela especulação filosófica árida. Eles aceitam o Bhagavad-gita como foi falado pelo próprio Sri Krishna e, consequentemente, recebem a proteção da energia divina do Senhor. Eles se ocupam unicamente no serviço devocional ao Senhor e, por isso, se livram da influência da energia ilusória. Estas grandes almas não se interessam em criar seus próprios métodos imperfeitos de auto-realização espiritual. Eles seguem à risca as regras e regulações das escrituras védicas e economizam seu tempo valioso (o qual é ocupado na glorificação do Senhor) simplesmente seguindo os passos dos acharyas anteriores. Guiadas por um mestre espiritual experiente, tais grandes almas se submetem a um treinamento espiritual científico, ocupando seu corpo, mente e palavras a serviço do Senhor. Eles não conseguem ficar um momento sequer sem consciência de Krishna. Por isso, ficam a pensar em Krishna vinte e quatro horas por dia, pois perderam completamente o interesse por qualquer tópico ou afazeres mundanos. Eles se absorvem em atividades auspiciosas e estão sempre ouvindo, cantando, lembrando, oferecendo orações, adorando, servindo os pés de lótus do Senhor, prestando

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diferentes tipos de serviços, cultivando amizade e rendendo-se completamente ao Senhor. Por estarem sempre ocupadas em atividades cheias de potência espiritual, as grandes almas recebem do Senhor a garantia que nunca irão retornar a uma condição de vida miserável. Uma vez que o único desejo destas grandes almas é alcançar a associação direta do Senhor, o Senhor Se compromete a ajudá-las e protegêlas. Pérola 51. O SUPREMO DESFRUTADOR (versos 23 a 28) 23. Aqueles que são devotos de outros deuses e que os adoram com fé na verdade adoram apenas a Mim, ó filho de Kunti, mas não Me prestam a adoração correta. 24. Eu sou o único desfrutador e Senhor de todos os sacrifícios. Portanto, aqueles que não reconhecem Minha verdadeira natureza transcendental acabam caindo. 25. Aqueles que adoram os semideuses nascerão entre os semideuses; aqueles que adoram os ancestrais irão ter com os ancestrais; aqueles que adoram fantasmas e espíritos nascerão entre tais seres; e aqueles que Me adoram viverão comigo. 26. Se alguém Me oferecer, com amor e devoção, folhas, flores, frutas ou água, Eu as aceitarei. 27. Tudo o que fizeres, tudo o que comeres, tudo o que ofereceres ou deres, e quaisquer austeridades que executares – faze isto, ó filho de Kunti, como uma oferenda a Mim. 28. Desse modo, ficarás livre do cativeiro do trabalho e de seus resultados auspiciosos e inauspiciosos. Com a mente fixa em Mim neste princípio de renúncia, libertar-te-ás e virás a Mim. Como foi discutido anteriormente, todos os sacrifícios devem-se destinar a satisfazer diretamente Vishnu e mesmo que uma pessoa tenha desejos materiais a serem satisfeitos, será melhor fazer sacrifício diretamente para o Senhor – embora isto esteja fora da categoria de devoção pura. Aqui fica claro por que o Senhor Krishna não aprova a adoração aos semideuses: eles são simplesmente diferentes funcionários e diretores do governo do Senhor, os quais ficam naturalmente satisfeitos caso todas as leis feitas pelo governo sejam obedecidas. Adorar os semideuses é considerado uma atividade ilegal e pode ser comparado a uma tentativa de subornar os funcionários e diretores. Certamente, dependendo do grau de suborno, a pessoa poderá ser transferida aos planetas dos semideuses. Tal elevação aos planetas celestiais é, na verdade, mera perda de tempo, pois, quando o bom resultado das atividades piedosas de se adorar os semideuses se esgotarem, tais pessoas terão de descer novamente a este planeta. Da mesma forma, por se envolver em atividades materialistas que consistem em adorar os ancestrais e os fantasmas, as pessoas irão alcançar os planetas de tais seres, onde, segundo informações das escrituras védicas, a condição é bastante miserável. A perfeição das atividades é, portanto, o serviço devocional amoroso ao Senhor, pois, executando-o, o devoto será transferido para a morada do Senhor e viverá eternamente na companhia do Senhor, numa vida plena de conhecimento e bem-aventurança. Tal processo de serviço devocional é extremamente fácil de ser praticado por qualquer um. Qualquer pessoa poderá conseguir diariamente algumas frutas, flores e água e oferecer ao Senhor com amor e devoção. O Senhor aqui promete que, se houver pureza nesta oferenda, se ela for feita com amor, Ele terá prazer em aceitá-la. Evidentemente, o Senhor é auto-suficiente e não precisa absolutamente de nada, porém, através dessa oferenda devocional, Ele está permitindo que haja uma troca afetiva amorosa entre Ele e Seus devotos. Ele deseja que Seu devoto organize sua vida de tal modo que ele nunca se esqueça dEle. Uma vez que todos acabam se ocupando em algum tipo de atividade, por que não oferecê-la ao Senhor? Para manter sua sobrevivência, todos precisam comer. Por que, antes disso, não oferecer o alimento ao Senhor e comer unicamente os restos do alimento oferecido ao Senhor? Uma vez que prestar serviço é uma condição natural de todo ser vivo, por que não prestar serviço direto ao Senhor, ajudando nas atividades missionárias da consciência de Krishna? Pérola 52. O DEVOTO ALCANÇA O DESTINO SUPREMO (versos 29 a 34) 29. Não invejo ninguém, tampouco sou parcial com alguém. Sou igual com todos. Porém, todo aquele que Me preste serviço com devoção é um amigo, está em Mim, e Eu também sou seu amigo. 30. Mesmo que alguém cometa ações das mais abomináveis, se estiver ocupado em serviço devocional deve ser considerado santo porque está devidamente situado em sua determinação. 31. Ele logo se torna virtuoso e alcança paz duradoura. Ó filho de Kunti, declara ousadamente que Meu devoto jamais perece. 32. Ó filho de Pritha, mesmo as mulheres que sejam de nascimento inferior, os vaishyas (comerciantes), bem como os sudras (trabalhadores braçais), todos os que se refugiam em Mim podem alcançar o destino supremo. 33 Então, isto tem muito maior validade para os brahmanas virtuosos, os devotos e os reis santos. Portanto,

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como vieste a este miserável mundo temporário, ocupa-te em Me prestar serviço amoroso. 34. Ocupa tua mente em pensar sempre em Mim, torna-te Meu devoto, oferece-Me reverências e Me adora. Estando absorto por completo em Mim, com certeza virás a Mim. Aqui, se declara que o Senhor é inclinado a Seus devotos. Embora cada entidade viva seja Seu filho e o Senhor esteja provendo as necessidades de todos, ainda assim, Ele revela que tem um interesse especial por aqueles que estão ocupados em servi-lO com um sentimento devocional. Isto é o resultado natural de uma reciprocidade amorosa. Portanto, assim como os devotos estão sempre absortos em prestar serviço ao Senhor, por Sua vez, o Senhor deseja servir o devoto. Na verdade, o Senhor Se torna devoto dos devotos. Em outras palavras, Ele dedica atenção especial àqueles que, mesmo estando neste mundo material ilusório, atuam como devotos puros e só se dedicam a satisfazer os desejos do Senhor. É importante compreender que isto nada tem a ver com a lei do karma. Tanto o Senhor quanto Seus devotos agem na plataforma transcendental, onde as leis materiais não podem influir. O Senhor está sempre situado numa existência espiritual e, por ocupar-se no serviço devocional a essa Pessoa Transcendental, os devotos deixam de ter algo a ver com este mundo material. Evidentemente, existe o estágio em que se executa serviço devocional enquanto não se atingiu a plataforma de vida liberada. Neste estado de vida condicionada, o serviço devocional e a identificação corpórea existem lado a lado e o devoto nesta situação deve ser muito cauteloso para não agir de uma maneira que seu serviço devocional seja prejudicado. Ainda assim, é provável que um devoto nesta categoria cometa uma atividade que seja considerada abominável, mas isto não poderá desqualificá-lo em absoluto. Embora as influências da energia ilusória sejam bastante fortes, a consciência de Krishna, quando executada com sinceridade, é ainda mais forte e irá certamente corrigir as falhas daqueles que a praticam. Um devoto sincero nunca comete tolices conscientemente, mas, devido às suas ligações mundanas anteriores e seu nascimento inferior, ele pode experimentar acidentes no seu caminho espiritual. Contudo, ele não precisa abandonar sua posição devocional e, com o propósito de expiar seus pecados, procurar algum outro processo purificador diferente do serviço devocional. Ele deve simplesmente intensificar suas práticas devocionais e, sem interrupção, enfatizar o cantar do maha-mantra Hare Krishna. A conclusão é que devemos adotar a consciência de Krishna e nos absorver completamente nas atividades devocionais. Isto certamente tornará nossa vida perfeita.

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CAPÍTULO X: A Opulência do Absoluto Pérola 53. O CONHECIMENTO SUPERIOR (versos 1 a 3) 1. A Suprema Personalidade de Deus disse: Volta a ouvir, ó Arjuna de braços poderosos. Porque és Meu querido amigo, para o teu benefício continuarei dirigindo a palavra a ti, transmitindo um conhecimento superior a tudo o que já expliquei. 2. Nem as hostes de semideuses nem os grandes sábios conhecem Minha origem ou opulências, pois, em todos os aspectos, Eu sou a fonte dos semideuses e dos sábios. 3. Quem Me conhece como o não-nascido, como aquele que não tem começo, como o Supremo Senhor de todos os mundos – só este, que, entre os homens, não se deixa iludir, está livre de todos os pecados. Tornar-se completamente bem-sucedido em percepção espiritual significa compreender Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, como aquele que é imutável e está completamente livre da influência de Sua energia material inferior. Ele é o supremo proprietário de todos os sistemas planetários do Universo. Na verdade, Ele existia mesmo antes da criação e continuará existindo depois da aniquilação, pois Sua personalidade e Sua morada são eternas. O Senhor Krishna é a Pessoa Suprema, a causa de todos os semideuses e sábios e a origem de tudo o que existe. Portanto, devemos ter plena convicção de que, quanto mais ouvimos sobre Ele e Suas qualidades transcendentais, mais iremos nos fixar no serviço devocional. Por isso, o Senhor irá narrar a Seu amigo Arjuna as manifestações de Suas várias opulências para fortalecer ainda mais a sua convicção. Tais narrações do Senhor são extremamente benéficas para aqueles que querem se fixar no serviço devocional e devemos nos dedicar a ouvi-las na companhia dos devotos puros do Senhor, pois nunca poderemos compreender as opulências e glórias do Senhor com nossos sentidos de percepção materialmente influenciados. Mesmo grandiosos sábios que tentaram compreender a Verdade Absoluta através de meros esforços mentais e intelectuais fracassaram em seu intento. Na verdade, o limite de alcance de nossos sentidos e inteligência materiais é o conceito impessoal de Deus. Mas, isto não é suficiente para que possamos compreender a Verdade Absoluta em Seu aspecto mais elevado como a Suprema Personalidade de Deus. Só quem está na posição transcendental, prestando serviço devocional amoroso ao Senhor, poderá compreendê-lO por completo. O Senhor, por Sua misericórdia imotivada, desce a este mundo e executa atividades completamente incomuns. Além disso, Ele pessoalmente revela Suas opulências inconcebíveis, transmitindo o conhecimento transcendental do Bhagavad-gita, e devemos tornar nossa existência auspiciosa por aceitar estes ensinamentos espirituais sob a guia de um mestre espiritual, um devoto puro do Senhor. Pérola 54. A OPULÊNCIA DO ABSOLUTO (versos 4 a 11) 4-5. Inteligência, conhecimento, estar livre da dúvida e da ilusão, clemência, veracidade, controle dos sentidos, controle da mente, felicidade e aflição, nascimento, morte, medo, destemor, não-violência, equanimidade, satisfação, austeridade, caridade, fama e infâmia – todas essas várias qualidades dos seres vivos são criadas apenas por Mim. 6. Os sete grandes sábios e, mais antigos do que eles, os quatro outros grandes sábios e os Manus (progenitores da humanidade) vêm de Mim, nascidos de Minha mente, e todos os seres vivos que povoam os vários planetas descendem deles. 7. Quem, de fato, está convencido desta Minha opulência e poder místico ocupa-se em serviço devocional imaculado; quanto a isto, não há dúvida. 8. Eu sou a fonte de todos os mundos materiais e espirituais. Tudo emana de Mim. Os sábios que conhecem isto perfeitamente ocupam-se em Meu serviço devocional e adoram-Me de todo o coração. 9. Os pensamentos de Meus devotos puros residem em Mim, suas vidas são plenamente devotadas a Meu serviço, e eles obtêm grande satisfação e bem-aventurança sempre se iluminando uns aos outros e conversando sobre Mim. 10. Àqueles que estão constantemente devotados a Me servir com amor, Eu dou a compreensão pela qual eles podem vir a Mim. 11. Para lhes mostrar misericórdia especial, Eu, residindo em seus corações, destruo com a luz brilhante do conhecimento a escuridão nascida da ignorância. Quando conhecemos as opulências do Senhor, sentimos uma inclinação natural para Lhe prestar serviço devocional. O Senhor é a suprema causa de todas as causas e tudo, quer seja material ou espiritual, depende dEle e os devotos sentem grande prazer em se reunir e se ocupar em glorificá-lO, descrevendo Seus nomes, Suas formas, qualidades e passatempos. Tais conversas transcendentais sobre o Senhor darão resistência e força à plantinha devocional que se encontra no coração do devoto. Desta forma, a fé, a atração e a devoção se tornam cada vez mais fortes à medida que os devotos se absorvem em

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sravanam-kirtanam, ou seja, ouvir e cantar sobre o Senhor. Com isso, o devoto desenvolve cada vez mais sua inteligência e cada vez mais compreende a diferença entre espírito e matéria. Munido desse conhecimento, o devoto vai se livrando de toda espécie de dúvida e ilusão. Como parte do treinamento espiritual, ele desenvolve tolerância às ofensas alheias e, ao mesmo tempo, para o benefício das pessoas em geral, se torna veraz, apresentando as coisas como elas são, sem deturpação. Um devoto vive neste mundo sem apego ou aversão a ele, enquanto permanece satisfeito com aquilo que é obtido pela misericórdia do Senhor. Quando são recomendadas pelas escrituras, ele aceita as inconveniências corpóreas em prol do avanço espiritual e é caridoso com os brahmanas e pessoas que se dedicam a propagar a consciência de Krishna. Controlando os sentidos por utilizá-los apenas para cultivar a consciência de Krishna, o devoto consegue também afastar da mente os pensamentos prejudiciais ao seu avanço espiritual. Ele sabe que qualquer qualidade sua, foi obtida simplesmente pela graça do Senhor. Portanto, ocupando-se no serviço devocional, ele vai perdendo completamente qualquer temor e aprende a ficar feliz, aceitando as coisas favoráveis para o serviço devocional e rejeitando as coisas desfavoráveis. Tal devoto nunca traz sofrimentos aos outros. Pelo contrário, ele sempre está propagando o conhecimento espiritual e, com isso, ajuda todos a atingirem a verdadeira felicidade. Pérola 55. DEUS DOS DEUSES (versos 12 a 18) 12-13. Arjuna disse: És a Suprema Personalidade de Deus, a morada última, o mais puro, a Verdade Absoluta. És a pessoa original, eterna e transcendental, o não-nascido, o maior. Todos os grandes sábios, tais como Narada, Asita, Devala e Vyasa, confirmam esta verdade referente a Ti, e agora Tu mesmo a declaras para mim. 14. Ó Krishna, aceito totalmente como verdade tudo o que me disseste. Nem os semideuses nem os demônios, ó Senhor, podem compreender Tua personalidade. 15. Na verdade, só Tu Te conheces através de Tua potência interna, ó Pessoa Suprema, origem de tudo, Senhor de todos os seres, Deus dos deuses, Senhor do Universo! 16. Por favor, descreve-me Tuas opulências divinas com as quais penetras todos esses mundos. 17. Ó Krishna, ó místico supremo, como devo pensar constantemente em Ti, e como devo conhecer-Te? Quais as Tuas várias formas que devem ser lembradas, ó Suprema Personalidade de Deus? 18. Ó Janardana, por favor, volta a descrever em detalhes o poder místico de Tuas opulências. Nunca me canso de ouvir sobre Ti, pois, quanto mais ouço, mais quero saborear o néctar de Tuas palavras. Aqui podemos ver como Arjuna, depois de ouvir diretamente o Senhor sobre Suas opulências, ficou completamente livre de todas as dúvidas. Ele aceitou o Senhor Krishna como a Verdade Absoluta plena de opulências. Ao mesmo tempo, Arjuna deixa claro que não se trata da opinião de um simples amigo querendo glorificar o outro. Ele aceita as glórias do Senhor Krishna, assim como grandes sábios já o fizeram no passado. Em outras palavras, Arjuna possuía conhecimento védico suficiente. Ele não era um sentimentalista tolo e muito menos um especulador mental. Sua qualificação especial foi aceitar tudo o que o Senhor Krishna disse, sem interpretação pessoal, pois não há outra maneira de se compreender o Bhagavad-gita. Como discutimos no Capítulo Quatro, Arjuna foi escolhido para receber o conhecimento do Bhagavad-gita devido às suas qualificações pessoais. Ele era um amigo pessoal de Krishna e um devoto puro, livre de inveja, e isso o qualificava para compreender a essência dos ensinamentos do Senhor. Devemos, portanto, seguir os passos de Arjuna se quisermos compreender os ensinamentos de Krishna como eles são. Arjuna estava satisfeito com suas percepções espirituais, mas, ainda assim, ele pede ao Senhor para descrever em maiores detalhes Sua opulência. Na verdade, o devoto puro jamais se sente saciado, mesmo que ouça continuamente sobre as qualidades transcendentais do Senhor. Os tópicos sobre o Senhor são exatamente como um néctar e quanto mais ouvimos tais narrações, mais desejamos saboreálas. Pérola 56. AS MANIFESTAÇÕES ESPLENDOROSAS DE DEUS (versos 19 a 42) 19. A Suprema Personalidade de Deus disse: Sim, Eu te falarei sobre Minhas manifestações esplendorosas, mas só sobre aquelas que são preeminentes, ó Arjuna, pois Minha opulência é ilimitada. 20. Eu sou a Superalma, ó Arjuna, situado nos corações de todas as entidades vivas. Eu sou o princípio, o meio e o fim de todos os seres. 21. Entre os Adityas, sou Vishnu; entre as luzes, sou o Sol radiante; entre os Maruts, sou Marici; e entre as estrelas, sou a Lua. 22. Dos Vedas, sou o Sama Veda; dos semideuses, sou Indra, o rei dos céus; dos sentidos, sou a mente; e nos seres vivos, sou a força viva (consciência). 23. De todos os Rudras, sou o Senhor Shiva;

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dos Yakshas e Rakshasas, sou o senhor da riqueza (Kuvera); dos Vasus, sou o fogo (Agni); e das montanhas, sou Meru. 24. Dos sacerdotes, ó Arjuna, fica sabendo que sou o principal, Brihaspati. Dos generais, sou Kartikeya, e dos corpos de água, sou o oceano. 25. Dos grandes sábios, sou Bhrigu; das vibrações, sou o om transcendental. Dos sacrifícios, sou o cantar dos santos nomes (japa), e dos objetos inertes, sou os Himalaias. 26. De todas as árvores, sou a figueira-da-bengala; e dos sábios entre os semideuses, sou Narada. Dos Gandharvas, sou Citraratha, e entre os seres perfeitos, sou o sábio Kapila. 27. Dos cavalos, fica sabendo que sou Ucchaishrava, produzido durante a batedura do oceano quando se queria obter néctar. Dos elefantes imponentes, sou Airavata; e entre os homens, sou o monarca. 28. Das armas sou o raio; entre as vacas sou a surabhi. Das causas que fomentam a procriação, sou Kandarpa, o deus do amor, e das serpentes, sou Vasuki. 29. Das Nagas de muitos capelos, sou Ananta, e entre os seres aquáticos, sou o semideus Varuna. Dos ancestrais que partiram sou Aryama, e entre aqueles que impõem a lei, sou Yama, o senhor da morte. 30. Entre os demônios Daityas, sou o devotado Prahlada; entre os subjugadores, sou o tempo; entre os animais selvagens, sou o leão; e entre as aves, sou Garuda. 31. Dos purificadores, sou o vento; dos manejadores de armas, sou Rama; dos peixes, sou o tubarão; e dos rios que correm, sou o Ganges. 32. De todas as criações, sou o começo, o fim e também o meio, ó Arjuna. De todas as ciências, sou a ciência espiritual do eu, e entre os lógicos, sou a verdade conclusiva. 33. Das letras, sou a letra A, e entre as palavras compostas, sou o composto dual. Sou também o tempo inexaurível, e dos criadores, sou Brahma. 34. Eu sou a morte que tudo devora e sou o princípio encarregado de gerar tudo o que vai existir. Entre as mulheres, sou a fama, a fortuna, a linguagem afável, a memória, a inteligência, a firmeza e a paciência. 35. Dos hinos do Sama Veda, sou o Brihatsama, e da poesia, sou o Gayatri. Dos meses, sou margasirsha (novembro-dezembro), e das estações, sou a primavera florida. 36. Sou também a jogatina em que se fazem trapaças, e do esplêndido, sou o esplendor. Eu sou a vitória, a aventura e a força dos fortes. 37. Dos descendentes de Vrishni, sou Vasudeva, e dos Pandavas, sou Arjuna. Dos sábios, sou Vyasa, e entre os grandes pensadores, sou Usana. 38. Dentre todos os meios que reprimem a ilegalidade, sou o castigo, e daqueles processos que visam à vitória, sou a moralidade. Das coisas secretas, sou o silêncio, e dos sábios, sou a sabedoria. 39. Ademais, ó Arjuna, sou a semente geradora de todas as existências. Não existe ser algum – móvel ou inerte – que possa existir sem Mim. 40. Ó poderoso vencedor dos inimigos, Minhas manifestações divinas nunca chegam ao fim. O que te disse é apenas um mero indício de Minhas opulências infinitas. 41. Fica sabendo que todas as criações opulentas, belas e gloriosas emanam de uma mera centelha do Meu esplendor. 42. Mas qual a necessidade, Arjuna, de todo esse conhecimento minucioso? Com um simples fragmento de Mim mesmo, Eu penetro e sustento todo este Universo. O corpo material da entidade viva só pode existir devido à presença da alma, uma centelha espiritual do Senhor. Do mesmo modo, a manifestação cósmica existe unicamente porque a Alma Suprema está presente através de Sua expansão Paramatma. Por isso, aqui o Senhor Krishna começa a informar a Arjuna que Ele é a alma da manifestação cósmica inteira. Tudo o que existe tem sua causa e esta causa é Krishna, a causa original de tudo. Sem a energia dEle nada pode existir e tudo o que existe, seja material ou espiritual, não passa de uma pequena partícula da opulência do Senhor. Além disso, qualquer coisa que manifeste extraordinária opulência deve ser considerada como um fragmento da opulência de Krishna. Portanto, Arjuna queria ouvir diretamente do Senhor como Ele está simultaneamente presente e nãopresente nesta criação. Por esse motivo, o Senhor concorda em descrever uma minúscula parcela de Suas opulências. Os devotos puros do Senhor, como Arjuna, querem conhecê-lO ao máximo, mas, ao mesmo tempo, eles sabem que não serão capazes de conhecê-lO por completo em nenhuma fase da vida. Exatamente como uma pássaro que voa no céu tanto quanto permite sua capacidade, os devotos compreendem as grandezas e opulências de Krishna de acordo com suas respectivas capacidades. Portanto, eles sentem grande prazer ao comentarem sobre as opulências do Senhor e desejam ouvi-las e discuti-las vinte e quatro horas por dia.

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CAPÍTULO XI: A Forma Universal Pérolas 57. ARJUNA DESEJA VER A FORMA UNIVERSAL (versos 1 a 4) 1. Arjuna disse: pelo fato de eu ter ouvido as instruções sobre estes assuntos espirituais muito confidenciais que gentilmente me transmitiste, minha ilusão acaba de ser dirimida. 2. Ó pessoa de olhos de lótus, eu ouvi enquanto falavas pormenorizadamente sobre o aparecimento e o desaparecimento de todas as entidades vivas e passei a entender Tuas glórias inexauríveis. 3. Ó maior de todas as personalidades, ó forma suprema, embora estejas diante de mim em Tua posição verdadeira, como Tu mesmo Te descreveste, desejo ver como entraste nesta manifestação cósmica. Quero ver esta Tua forma. 4. Se achas que sou capaz de contemplar Tua forma cósmica, ó meu Senhor, ó mestre de todo o poder místico, então, mostra-me por favor este ilimitado Eu universal. Aqui, a importância de receber instruções espirituais da fonte certa é mais uma vez assinalada. Arjuna afirma que depois de ouvir no capítulo anterior o Senhor Krishna pessoalmente revelar Suas manifestações esplendorosas, ele se viu livre da ilusão. Isto significa que Arjuna pôde compreender que o Senhor Krishna, o qual estava misericordiosamente na sua frente, não era um simples amigo ou um ser humano comum. Em outras palavras, Arjuna compreendeu que o Senhor Krishna é a Suprema Personalidade de Deus, a última palavra em conhecimento espiritual. No entanto, apesar de Arjuna ter alcançado esse estágio perfectivo, Arjuna pede para que o Senhor Krishna mostre Sua forma universal para que não só ele, mas todos possam aceitá-lo. Arjuna está inspirado com as instruções e declarações confidenciais feitas pelo Senhor e pede para ver a forma universal do Senhor por que está querendo deixar claro para qualquer pessoa, mesmo no futuro, que o Senhor Krishna não é uma pessoa comum. Arjuna pessoalmente não precisava de nenhuma confirmação da posição transcendental do Senhor. Ele manifestou o desejo de ver a forma universal porque estava prevendo que no futuro surgiriam muitos impostores que se fariam passar por encarnações de Deus. Assim, Arjuna estabeleceu que o critério para se aceitar uma pessoa que alegue ser uma encarnação de Deus é pedir que ele revele sua forma universal. Caso ele não seja capaz de revelá-la, deve-se compreender que se trata de um impostor. Arjuna também admitia suas limitações como entidade viva e reconhecia que, com seus sentidos materiais, não seria possível ter acesso à grandeza de Krishna. Portanto, com bastante humildade, Arjuna pede a Yogesvara, o Senhor de todo o poder místico, que, se assim Ele concordar, revele Sua forma universal ilimitada. Pérola 58. ARJUNA OBTÉM VISÃO DIVINA (versos 5 a 14) 5. A Suprema Personalidade de Deus disse: Meu querido Arjuna, ó filho de Pritha, vê então Minhas opulências, constituídas de centenas de milhares de variadas formas divinas e multicoloridas. 6. Ó melhor dos Bharatas, vê aqui as diferentes manifestações dos Adityas, Vasus, Rudras, Asvini-kumaras e todos os outros semideuses. Contempla as muitas coisas maravilhosas que ninguém jamais viu nem ouviu. 7. Ó Arjuna, tudo o que quiseres ver, contempla imediatamente neste Meu corpo! Esta forma universal pode mostrar-te tudo o que agora desejes ver e tudo o que queiras ver no futuro. Todas as coisas – móveis e inertes – estão aqui completamente, num só lugar. 8. Mas não Me podes ver com teus olhos atuais. Por isso, Eu te dou olhos divinos. Observa Minha opulência mística! 9. Sañjaya disse; Ó rei, tendo falado essas palavras, o Supremo Senhor de todo o poder místico, a Personalidade de Deus, mostrou a Arjuna a forma universal. 10-11. Arjuna viu naquela forma universal bocas ilimitadas, olhos ilimitados e maravilhosas visões ilimitadas. A forma estava decorada com muitos ornamentos celestiais e portava em riste muitas armas divinas. Ele usava guirlandas e roupas celestiais, e muitas essências divinas untavam o Seu corpo. Tudo era maravilhoso, brilhante, ilimitado e não parava de expandir-se. 12. Se centenas de milhares de sóis nascessem ao mesmo tempo no céu, talvez seu resplendor pudesse assemelhar-se à refulgência dessa forma universal da Pessoa Suprema. 13. Nesse momento, Arjuna pôde ver na forma universal do Senhor as expansões ilimitadas do Universo situadas em um só lugar, embora tenham sofrido muitos e muitos milhares de divisões. 14. Então, perplexo e atônito, com os pêlos arrepiados, Arjuna inclinou a cabeça para oferecer reverências e, de mãos postas, começou a orar ao Senhor Supremo. Como um devoto puro do Senhor, Arjuna estava completamente satisfeito em se relacionar diretamente

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com a forma pessoal do Senhor, o seu amigo Sri Krishna. Ele queria que o Senhor mostrasse Sua forma universal unicamente para o benefício dos não-devotos. Os materialistas não-devotos precisam contemplar uma exibição de opulências por parte do Senhor para, assim, se tornarem atraídos. O devoto, no entanto, já estabeleceu um relacionamento amoroso com o Senhor e não tem necessidade de contemplar a forma universal do Senhor, a qual, por estar relacionada com este mundo, é temporária. Concordando em satisfazer Seu amigo Arjuna, o Senhor então revelou Sua forma universal que era composta de centenas e milhares de formas divinas variadas, sendo que, ao mesmo tempo, o Senhor dotou Arjuna com uma visão divina para contemplá-la. Vendo esta forma do Senhor, a qual era maravilhosa e sempre se expandia, Arjuna ficou assustado e, espantado, começou a orar ao Senhor. Pérola 59. ARJUNA DESCREVE SUA VISÃO (versos 15 a 31) 15. Arjuna disse: Meu querido Senhor Krishna, vejo reunidos em Teu corpo todos os semideuses e várias outras entidades vivas. Vejo Brahma sentado na flor de lótus, e vejo o Senhor Shiva e todos os sábios e as serpentes divinas. 16. Ó Senhor do Universo, ó forma universal, vejo em Teu corpo muitos e muitos braços, ventres, bocas e olhos, expandidos por toda a parte, sem limite. Em Ti, não vejo começo, meio nem fim. 17. É difícil ver Tua forma por causa de Tua refulgência deslumbrante e onidirecional como o fogo ardente ou o imensurável resplendor do sol. Entretanto, com toda aparte vejo esta forma reluzente, adornada com várias coroas, maças e discos. 18. És o objetivo primordial supremo, o lugar definitivo que serve de repouso para todo o Universo. És inesgotável e o mais antigo. És o mantenedor da religião eterna, a Personalidade de Deus. Esta é a minha opinião. 19. Não tens origem, meio nem fim. Tua glória é ilimitada. Tens inúmeros braços, e o Sol e a Lua são Teus olhos. Vejo o fogo ardente saindo de Tua boca, e queimas todo este Universo com o Teu próprio resplendor. 20. Embora sejas um, Te expandes por todo o céu, planetas e espaço intermediário. Ó grande pessoa, vendo esta maravilhosa e terrível forma, todos os sistemas planetários ficam perturbados. 21. Todas as hostes de semideuses estão se rendendo a Ti e entrando em Ti. Alguns deles, muito atemorizados, estão de mãos postas, oferecendo orações. Hostes de grandes sábios e seres perfeitos, bradando “Que haja paz”, estão orando a Ti, cantando os hinos védicos. 22. Todas as várias manifestações do Senhor Shiva, os Adityas, os Vasus, os Sadhyas, os Visvadevas, os dois Asvinis, os Maruts, os antepassados, os Gandharvas, os Yakshas, os Asuras e os semideuses perfeitos estão Te contemplando com admiração. 23. Ó pessoas de braços poderosos, todos os planetas e seus semideuses estão perturbados ao verem Tua grande forma, com Teus vários rostos, olhos, braços, coxas, pernas, ventres e Teus vários dentes terríveis; e assim como eles estão perturbados, eu também estou. 24. Ó Vishnu onipenetrante, ao Te ver com Tuas muitas cores resplandecentes tocando o céu, Tuas bocas escancaradas e Teus grandes olhos reluzentes, minha mente fica perturbada pelo medo. Já não consigo manter minha firmeza ou equilíbrio mental. 25. Ó senhor dos senhores, ó refúgio dos mundos, por favor, conceda-me Tua graça. Não consigo manter o equilíbrio, vendo esses Teus rostos resplandecentes, parecidos com a morte, e esses Teus dentes medonhos. Em todas as direções sinto-me confuso. 26-27. Todos os filhos de Dhritarastra, juntamente com os reis que se aliaram a eles, bem como Bhisma, Drona e Karna – e nossos principais soldados também – estão precipitando-se em direção a Tuas bocas amedrontadoras. E vejo algumas pessoas presas com as cabeças esmagadas entre Teus dentes. 28. Assim como as muitas ondas dos rios desembocam no oceano, do mesmo modo, todos esses grandes guerreiros entram incandescentes em Tuas bocas. 29. Vejo todas as pessoas disparando precipitadamente em direção às Tuas bocas, como mariposas que são destruídas quando se lançam no fogo ardente. 30. Ó Vishnu, vejo-Te, com Tuas bocas flamejantes, devorando todas as pessoas de todos os lados. Cobrindo todo o Universo com Tua refulgência, Tu Te manifesta com raios terríveis e abrasadores. 31. Ó Senhor dos senhores, cuja forma é tão aterradora, por favor, diga-me quem és. Ofereço-Te minhas reverências; por favor, sê benevolente comigo. És o Senhor primordial. Quero conhecer-Te, pois não sei qual é a Tua missão. Podemos observar que, depois de ver a forma universal do Senhor, Arjuna fica tomado de espanto e admiração e, repetidamente, glorifica a grandeza maravilhosa do Senhor. Neste forma universal, Arjuna teve a oportunidade de contemplar tudo o que poderia ser visto. Ele pôde ver o Senhor Brahma sentado na flor de lótus, o Senhor Shiva e todos os outros semideuses oferecendo orações e recitando hinos védicos. A forma universal se expandia sem limites, não existindo nem começo nem fim para ela. Ela manifestava milhares de rostos, braços, pernas, etc., e a visão era tão assustadora que Arjuna acabou

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perdendo seu equilíbrio mental e, tomado de espanto e medo, ofereceu suas respeitosas reverências ao Senhor Krishna. Além disso, depois de ver diferentes guerreiros precipitando-se dentro das bocas flamejantes da forma universal, Arjuna pediu para o Senhor ser bondoso para com ele e revelar a Sua missão. Pérola 60. O PLANO DIVINO DO SENHOR (versos 32 a 34) 32. O Bem-aventurado Senhor disse: Eu sou o tempo, o grande destruidor dos mundos, e vim aqui para destruir todas as pessoas. Excetuando vós (os Pandavas), aqui, todos os soldados de ambos os lados serão mortos. 33. Portanto, levanta-te. Prepara-te para lutar e conquistar a glória. Vence teus inimigos e desfruta de um reino próspero. Por Meu arranjo, eles já estão mortos, e tu, ó Savyasacin, és apenas um instrumento na luta. 34. Drona, Bhisma, Jayadratha, Karna e outros grandes guerreiros já foram destruídos por Mim. Portanto, mata-os e não fiques perturbado. Simplesmente luta, e derrotarás teus inimigos na batalha. Como já discutimos algumas vezes, Arjuna não estava inclinado a participar da batalha. Ela pensava que, se desistisse da batalha, as mortes de muitos soldados poderiam ser evitadas. No entanto, vendo todos os guerreiros de ambos os exércitos sendo lançados na boca devoradora da forma universal, Arjuna ficou apavorado. Diante do medo da terrível visão da forma universal exibida pelo seu amigo, o Senhor Krishna, Arjuna desejou conhecer mais detalhes sobre a causa da vinda do Senhor a este mundo. Ele quis saber especificamente qual era a missão do Senhor Krishna e o que ele realmente desejava. Aqui, portanto, o Senhor mostrou para seu amigo Arjuna que, sob a poderosa forma do tempo, Ele é o destruidor implacável e, assim, deixou claro que mesmo que Arjuna não quisesse participar da batalha, a destruição de todos o soldados fazia parte do plano do Senhor. Pérola 61. ESPANTO E ÊXTASE DE ARJUNA (versos 35 a 46) 35. Sañjaya disse a Dhritarastra: Ó rei, depois de ouvir estas palavras faladas pela Suprema Personalidade de Deus, Arjuna trêmulo e de mãos postas, ofereceu repetidas reverências. Com voz balbuciante, ele estava amedrontado quando dirigiu ao Senhor Krishna as seguintes palavras. 36. Arjuna disse: Ó Senhor dos sentidos, o mundo se regozija ao ouvir Teu nome, e assim todos se apegam a Ti. Embora os seres perfeitos Te ofereçam suas respeitosas homenagens, os demônios têm medo, e fogem de um lado para o outro. Tudo isto se faz de forma justa. 37. Ó pessoa grandiosa, maior até mesmo que Brahma, és o criador original. Por que então deveriam eles furtar-se a oferecer suas respeitosas reverências a Ti? Ó ilimitado, Deus dos deuses, refúgio do Universo! És a fonte invencível, a causa de todas as causas, transcendental a esta manifestação material. 38. És a Personalidade de Deus original, o mais antigo, o santuário definitivo deste mundo cósmico manifestado. És o conhecedor de tudo e és tudo o que é cognoscível. És o refúgio supremo, situado acima dos modos materiais. Ó forma ilimitada! Penetras toda esta manifestação cósmica! 39. És o ar e és o controlador supremo! És o fogo, a água e a Lua! És Brahma, a primeira criatura viva e és o bisavô. Portanto, faço questão de oferecer-Te mil vezes minhas respeitosas reverências, e volto a oferecê-las vezes e mais vezes. 40. Ofereço-Te reverências de frente, de trás e de todos os lados! Ó poder incomensurável, és o Senhor cujo poder não conhece limites! És onipenetrante e, portanto, és tudo! 41-42. Colocando-Te na posição de amigo, sem sequer conhecer Tuas glórias, dirigi-me a Ti com as seguintes palavras imprudentes: “Ó Krishna”, “Ó Yadava”, “Ó meu amigo”. Por favor, perdoa tudo o que eu possa ter feito por loucura ou por amor. Quantas vezes Te desonrei, gracejando enquanto nos descontraíamos, deitávamos na mesma cama, sentávamos ou comíamos juntos, às vezes a sós e outras vezes diante de muitos amigos. Ó infalível, por favor, perdoa todas essas minhas ofensas! 43. És o pai desta manifestação cósmica completa, do móvel e do inerte. És o seu líder adorável, o mestre espiritual supremo. Ninguém é igual a Ti, e tampouco pode alguém ser uno contigo. Como então poderia haver alguém dentro os três mundos maior do que Tu, ó Senhor de poder imensurável? 44. És o Senhor Supremo, que deve ser adorado por todos os seres vivos. Então, eu me prostro para Te oferecer minhas respeitosas reverências e pedir Tua misericórdia. Assim como o pai tolera a insolência de seu filho, ou um amigo tolera a impertinência do amigo, ou uma esposa tolera a familiaridade de seu parceiro, por favor, tolera os erros que acaso eu tenha cometido contra Ti. 45. Após ver esta forma universal, que jamais havia visto, sinto-me satisfeito, mas ao mesmo tempo minha mente está perturbada pelo medo. Por isso, por favor, concede-me Tua graça e torna a revelar Tua forma

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como a Suprema Personalidade de Deus, ó Senhor dos senhores, ó morada do Universo. 46. Ó forma universal, ó Senhor de mil braços, desejo ver-Te em Tua forma de quatro braços, com elmo na cabeça e portando maça, disco, búzio e flor de lótus em Tuas mãos. Almejo ver essa Tua forma. Depois de ouvir diretamente do Senhor sobre Sua missão transcendental, Arjuna ficou completamente iluminado e passou a glorificar o Senhor Krishna com orações extáticas. Ele pôde compreender perfeitamente bem que o Senhor Krishna era muito mais do que um simples amigo. Na verdade, ele pôde reconhecer que o Senhor Krishna é a Suprema Personalidade de Deus, a causa de todas as causas e de tudo que existe. Ele é a Alma Suprema, pois reside no coração de todas as entidade vivas e é o controlador supremo, controlador inclusive dos semideuses poderosos como Shiva e Brahma. Ele é o refúgio supremo e ninguém é igual ou superior a Ele. Arjuna pôde entender que o Senhor Krishna está além de toda esta manifestação cósmica e que, na verdade, Ele é a própria causa deste mundo e tudo repousa unicamente nEle. Ele é onisciente e é o conhecedor de tudo: passado, presente e futuro. Ele é o mais velho, pois é o pai da primeira criatura, Brahmaji. Ele é o mestre espiritual supremo, pois foi unicamente Ele que, no começo da criação, transmitiu o conhecimento védico no coração do Senhor Brahma. Portanto, Sua grandeza é imensurável. Assim, Arjuna sentiu um profundo êxtase amoroso por seu amigo Krishna e, oferecendo todo tipo de respeito e reverência com bastante humildade, ele também pediu perdão ao Senhor Krishna pela negligência nos relacionamentos do passado. Agora que o Senhor estava manifestando Sua forma universal todo-poderosa, Arjuna pôde entende melhor a grandeza de seu amigo e sentiu-se um ofensor quando o tratava de maneira familiar, pois eles se relacionavam como amigos. Ao mesmo tempo, ele ficou feliz em ver que seu amigo era a poderosa Pessoa Suprema. Embora Arjuna estivesse contente, sua mente ainda estava bastante perturbada pelo medo e, assim, ele pede que o Senhor novamente manifeste Sua forma encantadora, semelhante à humana. Pérola 62. ELIMINANDO A PERTURBAÇÃO DE ARJUNA (versos 47 a 51) 47. A Suprema Personalidade de Deus disse; Meu querido Arjuna, com prazer te mostrei, através de Minha potência interna, esta forma universal suprema. Dentro do mundo material, antes de ti, ninguém jamais viu esta forma primordial, ilimitada e plena de refulgência deslumbrante. 48. Ó melhor dos guerreiros Kurus, antes de ti, ninguém jamais vira esta Minha forma universal, pois nem através do estudo dos Vedas, da execução de sacrifícios, da caridade, de atividades piedosas ou de rigorosas penitências, posso Eu ser visto sob esta forma no mundo material. 49. Ficaste perturbado e confuso ao ver este Meu aspecto terrífico. Agora basta. Meu devoto, volta a livrar-te de toda a perturbação. Com a mente tranqüila podes então ver forma que desejas. 50. Sañjaya disse a Dhritarastra: A Suprema Personalidade de Deus, Krishna, tendo falado essas palavras a Arjuna, manifestou Sua verdadeira forma de quatro braços e por fim mostrou Sua forma de dois braços, encorajando assim o amedrontado Arjuna. 51. Ao ver Krishna em Sua forma original, Arjuna, então, disse; Ó Janardana, gora que vejo esta forma aparentemente humana e que possui tamanha beleza, minha mente está tranqüila e reassumi minha natureza original. Esta parte do Bhagavad-gita mostra que as pessoas que consideram o Senhor Krishna como uma pessoa comum cometem a maior injustiça pois, como uma pessoa comum poderia revelar uma forma universal tão maravilhosa e depois uma forma de quatro braços para, finalmente, reassumir sua forma original? Para satisfazer o desejo de Seu amigo Arjuna, pela primeira vez Krishna mostrou a Sua forma universal plena de refulgência e opulência. Embora o devoto não esteja interessado em ver esta forma universal, Arjuna quis que o Senhor a revelasse para que no futuro outras pessoas também pudessem se convencer da grandeza do Senhor e também se alguém se apresentasse como uma encarnação, as pessoas pudessem pedir para ver sua forma universal. Como vimos anteriormente, Arjuna fora dotado de visão divina, mas, na verdade, pelo simples fato de ser um devoto puro do Senhor, Arjuna possuía uma natureza divina e já tinha uma visão divina. Entretanto, os não-devotos invejam Krishna e, como são ateus, nunca podem ter uma visão divina. Muitas vezes, tais ateus também estudam a literatura védica por estarem interessados no aspecto impessoal do Supremo. Além disso, eles também executam sacrifícios, dão caridades e aceitam inconveniências físicas para algum propósito, mas, ainda assim, se eles não se tornarem devotos do Senhor, nunca poderão ver ou sequer entender esta forma universal do Senhor. Na verdade, o devoto prefere relacionar-se com a forma original do Senhor, pois esta relação possibilita a reciprocidade de sentimentos amorosos. Por isso, o Senhor Krishna concordou em manifestar novamente Sua forma original de dois braços, acalmando a mente de Seu confuso amigo e devoto Arjuna.

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Pérola 63. OS MISTÉRIOS DA COMPREENSÃO ESPIRITUAL (versos 52 a 55) 52. A Suprema Personalidade de Deus disse: Meu querido Arjuna, esta Minha forma que agora vês é muito difícil de contemplar. Até mesmo os semideuses sempre buscam a oportunidade de ver esta forma, que é tão querida. 53. A forma que vês com teus olhos transcendentais não pode ser compreendida através do simples estudo dos Vedas, nem por submeter-se a sérias penitências, nem por fazer caridade, nem por prestar adoração. Não é por estes meios que se pode ver-Me como sou. 54. Meu querido Arjuna, só pelo serviço devocional indiviso é possível compreender-Me como sou, tal qual Me apresento diante de ti, e assim poder Me ver diretamente. Só desse modo podes ingressar nos mistérios da compreensão acerca de Mim. 55. Meu querido Arjuna, aquele que se ocupa em Meu serviço devocional puro, livre das contaminações das atividades fruitivas e da especulação mental, que trabalha para Mim e faz de Mim a meta suprema de sua vida, sendo amigo de todos os seres vivos – com certeza virá a Mim. O devoto puro que se ocupa em serviço devocional pleno em consciência de Krishna pode desenvolver olhos espirituais, quando passa a ver o Senhor o tempo todo. Na verdade, esta visão espiritual é uma revelação divina e é o resultado da atitude pura de serviço que tal devoto desenvolveu. Esta revelação espiritual é tão rara que ela não é possível nem sequer para os semideuses que não sejam devotos puros. Embora tais semideuses estejam sempre esperançosos de contemplar a forma maravilhosa de Krishna com dois braços, eles têm bastante dificuldade em compreendê-la, pois, na sua maioria, não são almas totalmente rendidas ao Senhor. No Srimad-Bhagavatam se evidencia que, quando o Senhor estava prestes a aparecer neste mundo e ainda estava no ventre de Devaki, os semideuses vinham oferecer suas reverências ao Senhor, embora, naquela ocasião, Ele não lhes fosse visível. O materialista tolo, no entanto, insiste em considerá-lO como uma pessoa comum e mesmo que mostre algum respeito ao Senhor Krishna, muitas vezes não o faz diretamente a Ele, mas a “algo” impessoal dentro dEle. No Quarto Capítulo, aprendemos que, pelo simples fato de compreender o aparecimento e as atividades do Senhor, uma pessoa consegue libertar-se deste mundo de nascimentos e mortes. Isto é um fato por que o nascimento do Senhor e a manifestação de Sua forma transcendental são bastante misteriosos. Primeiramente, Ele aparece diante de Seus pais na forma de Vishnu de quatro braços e então transformaSe numa manifestação de dois braços semelhante à humana e isto certamente desconcerta as pessoas ateístas e desprovidas de serviço devocional. De qualquer modo, a forma universal é completamente diferente da forma do Senhor de dois ou quatro braços. A forma universal mostrada a Arjuna é temporária, ao passo que as formas de dois e quatro braços são eternas e transcendentais. A conclusão deste capítulo, portanto, é que devemos procurar entender a forma original transcendental do Senhor Krishna e desenvolver nossa relação com ela, o que só é possível através do serviço devocional. A forma universal é uma manifestação divina menos importante por que é temporária, e mesmo a forma quatro braços que é transcendental também foi manifestada por Krishna. Logo, Krishna é a origem de todas as manifestações. Há tantas encarnações e manifestações de Krishna quanto são as ondas do oceano, mas o devoto puro se interessa completamente pela forma original de Krishna, que é conhecido como Govinda. Aqueles, portanto, que se apegam a Krishna e prestam-Lhe serviço com amor e devoção podem compreendê-lO completamente e vê-lO sempre dentro do coração.

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CAPÍTULO XII: Serviço Devocional Pérola 64. A ADORAÇÃO PESSOAL E IMPESSOAL (versos 1 a 7) 1. Arjuna perguntou: Quais são considerados mais perfeitos, aqueles que sempre estão devidamente ocupados em Seu serviço devocional ou aqueles que adoram o Brahman impessoal, o imanifesto? 2. A Suprema Personalidade de Deus disse: Aqueles que fixam suas mentes em Minha forma pessoal e sempre se ocupam em adorar-Me com grande fé transcendental, Eu os considero muito perfeitos. 3-4. Mas aqueles que adoram plenamente o imanifesto, aquilo que está além da percepção dos sentidos, o onipenetrante, inconcebível, imutável, fixo e imóvel – a concepção impessoal sobre a Verdade Absoluta – controlando os vários sentidos e sendo equânimes para com todos, tais pessoas, ocupadas em prol do bemestar de todos, acabarão Me alcançando. 5. Para aqueles cujas mentes estão apegadas ao aspecto impessoal e imanifesto do Supremo, o progresso é muito problemático. Progredir nesta disciplina é sempre difícil para aqueles que estão corporificados. 6-7. Mas aqueles que Me adoram, abandonando todas as atividades por Mim e não se afastando de sua devoção a Mim, ocupando-se em serviço devocional e sempre meditando em Mim, tendo fixado suas mentes em Mim, ó filho de Pritha – para eles Eu sou o pronto salvador do oceano de nascimentos e mortes. Como foi explicado pelo Senhor, existem duas categorias de transcendentalistas: o personalista, a saber, aquele que emprega seu tempo e energia a serviço do Senhor; e o impersonalista, aquele que não se ocupa diretamente no serviço, mas dedica-se à prática da meditação no aspecto imanifesto e impessoal do Absoluto. Embora o Senhor tivesse explicado que existem estes dois meios de auto-realização espiritual, Arjuna queria compreender qual dos dois é melhor e superior. Como resposta a esta indagação importante de Arjuna, o Senhor Krishna foi bastante claro: a maior perfeição é alcançada por aquele que consegue fixar sua mente na forma pessoal de Deus e, com grande convicção espiritual, dedica-se a adorá-lO, ocupando-se constantemente em prestar-Lhe serviço devocional amoroso. Portanto, é preciso compreender que aqueles que não adoram diretamente a Suprema Personalidade de Deus estão tentando atingir a meta suprema, porém, através de um processo indireto, e por isso, tudo se torna muito mais difícil e problemático. Na verdade, antes de chegar ao ponto de se render ao serviço amoroso ao Senhor, existem muitas austeridades e penitências envolvidas para se realizar o Senhor como a Superalma localizada em tudo. Deve-se considerar que uma pessoa comum não é capaz de interromper todas as atividades práticas dos sentidos, pois isto exige muita renúncia e desapego. Sendo assim, para os seres corporificados, torna-se imprático adotar este processo de realização impessoal. Eles sentem muito mais facilidade em substituir suas ocupações materiais por atividades devocionais, tais como preparar um altar em casa e estabelecer uma adoração diária para um quadro ou uma deidade do Senhor Krishna. Assim, a pessoa poderá se dedicar a limpar e decorar o altar com amor, cozinhar alimento para oferecer ao Senhor e depois desfrutar dos restos deixados chamado prasadam. Além disso, ela poderá se ocupar em cantar canções devocionais para o prazer do Senhor e convidar seus amigos para que, juntos, possam estudar a literatura devocional e desfrutar da bem-aventurança da vida espiritual. Certamente, tais atividades devocionais estão na mais elevada plataforma espiritual, mas, ainda assim, podem ser executadas com facilidade e naturalidade por qualquer pessoa. Além disso, aqui o Senhor Krishna está prometendo que pessoalmente Se encarrega da tarefa de tirar da existência material tal pessoa, levando-o sem demora à Sua própria morada eterna e suprema. Pérola 65. DIFERENTES SISTEMAS DE AUTO-REALIZAÇÃO (versos 8 a 12) 8. Fixa tua mente em Mim, a Suprema Personalidade de Deus, e ocupa toda a tua inteligência em Mim. Assim, não haverá dúvida alguma de que viverás sempre em Mim. 9. Meu querido Arjuna, ó conquistador de riquezas, se você não pode fixar sua mente em Mim sem se desviar, então, segue os princípios reguladores que fazem parte da bhakti-yoga. Desenvolva deste modo um desejo de Me alcançar. 10. Se não podes praticar as regulações que fazem parte da bhakti-yoga, então, simplesmente tenta trabalhar para Mim. Porque, trabalhando para Mim, chegarás à fase perfeita. 11. Se, entretanto, és incapaz de trabalhar nesta Minha consciência, então, tenta agir renunciando a todos os resultados de seu trabalho e procure situar-te no eu. 12. Se não podes adotar esta prática, então, ocupa-te no cultivo do conhecimento. Entretanto, melhor do que o conhecimento é a meditação, e melhor do que a meditação é a renúncia aos frutos da ação, pois, com esta renúncia, pode-se alcançar paz de espírito.

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O apego transcendental ao Senhor é um produto do amor espiritual, o que é natural para todos os seres vivos. No entanto, este amor está no estado latente e a essência de todo o processo da consciência de Krishna consiste em revivê-lo. Como a mente e os sentidos estiveram ocupados em assuntos e prazeres mundanos por muito tempo, o praticante de bhakti precisa, acima de tudo, purificá-los. Por isto, aqui o Senhor recomenda: “Se não puderes fixar tua mente em Mim, então tenta purificar teus sentidos”. Existem dois estágios de serviço devocional, ou bhakti-yoga. No estágio mais elevado, o devoto manifesta seu apego ao Senhor e possui sentimentos amorosos espirituais. Para tal devoto avançado em bhakti, torna-se natural e espontâneo fixar a mente no Senhor sem o menor desvio; e, nesta condição, ele é considerado o maior de todos os yogis. No segundo estágio, o devoto ainda é um neófito, pois não consegue espontaneamente manter seus pensamentos fixos na consciência de Krishna. Ele precisa urgentemente de um mestre espiritual, o qual o orientará a seguir as regras e regulações que acabarão por eliminar a sua má tendência de ocupar os sentidos em gozo material. Além de ocupá-lo em ouvir constantemente as escrituras devocionais, tais como o Bhagavad-gita e o Srimad-Bhagavatam, o mestre espiritual irá orientá-lo a buscar associação dos devotos, adorar a Deidade do Senhor, visitar os lugares sagrados e cantar os santos nomes, especialmente o maha-mantra Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare, Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare – isto tudo certamente irá ajudá-lo no processo de fixar a mente no Senhor. Mas, se tal pessoa não conseguir seguir as instruções devocionais dadas pelo mestre espiritual, ela poderá se purificar aceitando um trabalho de acordo com sua natureza e utilizar os frutos de seu esforço honesto em ajudar a propagação da ciência da consciência de Krishna. Com isto, ela irá ser conduzida cada vez mais em direção à perfeição. Se, de qualquer maneira, ela estiver impedida de trabalhar para a missão do Senhor, devido a outros compromissos, então ela deve desenvolver propensão a atividades filantrópicas e beneficentes e, para sua purificação, executar algum sacrifício, quer seja de seu dinheiro ou de seu tempo. A verdade é que o Senhor aqui está mostrando Sua magnanimidade e está autorizando diferentes processos para a nossa purificação. Deve ficar claro que o ideal é alcançar absorção completa no Senhor em consciência de Krishna e esta é também a meta. De modo que todas estas atividades mencionadas pelo Senhor, incluindo o processo mecânico de meditação, devem ter como propósito reviver nosso ainda adormecido amor por Deus. Pérola 66. AS QUALIDADES DOS DEVOTOS (versos 13 a 20) 13-14. Aquele que não é invejoso, mas é um amigo bondoso para todas as entidades vivas, que não se considera proprietário e está livre do ego falso, que é equânime tanto na felicidade quanto na aflição, que é tolerante, sempre satisfeito, autocontrolado e ocupa-se em serviço devocional com determinação, tendo sua mente e inteligência fixas em Mim – semelhante devoto me é muito querido. 15. Aquele que não põe ninguém em dificuldade e a quem ninguém perturba, que é equânime na felicidade e na aflição, no medo e na ansiedade, Me é muito querido. 16. Meu devoto, que não depende do curso em que as atividades habitualmente se desenvolvem, que é puro, perito, despreocupado, livre de todas as dores, e não luta para obter algum resultado, Me é muito querido. 17. Aquele que não se alegra nem se magoa, que não se lamenta nem deseja, e que renuncia tanto às coisas auspiciosas quanto às inauspiciosas – semelhante devoto Me é muito querido.18-19. Aquele que é igual para os amigos e inimigos; que é equânime na honra e na desonra, calor e frio, felicidade e aflição, fama e infâmia; que está sempre livre da associação contaminadora, sempre silencioso e satisfeito com qualquer coisa, que não se importa com nenhuma residência; que está fixo em conhecimento e se ocupa em serviço devocional – semelhante pessoa me é muito querida. 20. Aqueles que seguem este caminho imperecível do serviço devocional e que se ocupam com plena fé, fazendo de Mim a meta suprema, são muitíssimos queridos a Mim. Podemos analisar aqui as diferentes qualificações divinas dos devotos puros do Senhor. Por estar sempre atuando na base de sua consciência de Krishna, o devoto é sempre calmo e paciente. Ele sempre se sente contente com qualquer coisa que, pela misericórdia do Senhor, recebe ou deixa de receber. Ele é imperturbável por que tem plena convicção de que o Senhor é seu verdadeiro benquerente e tudo que acontece é dado pelo Senhor para o seu próprio benefício espiritual. Porque não possui desejos materiais, ele nunca sente inveja de ninguém. Por que vê todos os seres como partes integrantes do Senhor, o devoto puro se coloca na posição de servo espiritual de todos e, por isso, ele é um amigo perfeito. Ele se identifica como uma alma espiritual eterna e não dá muita atenção às dualidades deste mundo que se apresentam como bom ou mau, prazer e sofrimento, etc. Porque vive sempre absorto em consciência de Krishna, ele está sempre satisfeito e seus sentidos não estão interessados em coisas mundanas. Na verdade, sua mente e inteligência estão fixas no serviço devocional para a satisfação do Senhor. Ele é

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sempre manso e humilde, e não se esforça excessivamente por conseguir facilidades temporárias materiais. Ele utiliza seu tempo para cultivar sua consciência de Krishna e permanece imperturbável. Por sentir plena satisfação interior, o devoto não se lamenta pela perda das coisas materiais e não se entusiasma com qualquer ganho material, pois nada disso interfere na sua satisfação interior. Para ele, todos são iguais e não existe o conceito de amizade ou inimizade materiais com ninguém. Ele nunca se associa com pessoas ou situações que possam prejudicar sua consciência de Krishna e é sempre muito silencioso. Por outro lado, quando existe uma boa oportunidade, o devoto está sempre muito inspirado a glorificar o Senhor e descrever Suas qualidades divinas para o benefício dos ouvintes. Ele está sempre rendido ao Senhor e tem plena convicção de que o caminho do serviço devocional é superexcelente e é o único caminho que pode outorgar a meta suprema da vida.

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CAPÍTULO XIII: A Natureza, o Desfrutador e a Consciência Pérola 67. O CAMPO DAS ATIVIDADES E SUAS INTERAÇÕES (versos 1 a 7) 1-2. Arjuna disse: Ó meu querido Krishna, quero saber sobre a natureza (prakriti), o desfrutador (purusha), o campo (kshetra) e o conhecedor do campo (kshetrajña), e sobre o conhecimento (jñanam) e o objeto do conhecimento (jñeya). A Suprema Personalidade de Deus disse: Este corpo, ó filho de Kunti, chama-se o campo, e quem conhece este corpo chama-se o conhecedor do campo. 3. Ó descendente de Bharata, deves entender que, em todos os corpos, Eu também sou o conhecedor, e compreender este corpo e seu conhecedor chama-se conhecimento. Esta é a Minha opinião. 4. Agora, por favor, ouve enquanto faço uma breve descrição deste campo de atividade e de seus elementos constituintes, e enquanto descrevo quais são suas mudanças, qual a fonte que o origina, quem é este conhecedor do campo de atividades e que influências ele exerce. 5. Em vários escritos védicos, diversos sábios descrevem este conhecimento sobre o campo de atividades. O Vedanta-sutra o apresenta de maneira especial, ao fazer um extenso raciocínio sobre a causa e o efeito. 6-7. Os cinco grandes elementos, o ego falso, a inteligência, o imanifesto, os dez sentidos e a mente, os cinco objetos dos sentidos, o desejo, o ódio, a felicidade, o sofrimento, o agregado, os sintomas vitais e as convicções – todos estes são considerados, em resumo, o campo de atividades e suas interações. Neste capítulo, o Senhor Krishna faz uma distinção bastante clara entre o corpo, o proprietário do corpo e a Superalma. O corpo material é chamado aqui de kshetra, que significa campo, por que de fato o corpo é o campo das atividades da entidade viva. Ele obtém o seu kshetra, ou corpo material específico, conforme sua capacidade e desejo de assenhorear-se da natureza material. A entidade viva que está habitando temporariamente neste corpo deve compreender que este corpo nada mais é do que uma cobertura temporária da alma. Compreendendo isto ele se torna um kshetrajña, um conhecedor do campo, pois entende que a alma é simplesmente a proprietária temporária dele. Dentro deste kshetra habita um outro ser que é transcendental e é conhecido como Paramatma, ou Superalma, que é o supremo conhecedor. Portanto, verdadeiro conhecimento implica em compreender a alma individual como um elemento eterno, distinto do corpo material temporário, e, ao mesmo tempo, compreender a Superalma que habita todos os diferentes corpos. Esta Superalma será descrita com mais detalhes nos versos seguintes. Ela é a fonte de todo o conhecimento e também a própria meta do conhecimento. Aqui se define com pormenores o campo de atividades (o qual é composto de vinte e quatro elementos) no qual a entidade viva irá agir. Os cinco grandes elementos são a terra, a água, o fogo, o ar e o éter. Os cinco sentidos para se adquirir conhecimento são os olhos, os ouvidos, o nariz, a língua e a pele. Os cinco sentidos funcionais são a voz, as pernas, as mãos, o ânus e os órgãos genitais e os cinco objetos dos sentidos são o olfato, o paladar, a forma, o tato e o som. Além destes vinte itens existe o ego falso, a inteligência, a mente e os modos da natureza em seu estado imanifesto. Portanto, se alguém faz um estudo analítico mais profundo destes vinte e quatro itens que são mencionados resumidamente aqui no Bhagavad-gita, ele poderá entender perfeitamente bem o campo de atividades. Pérola 68. O VERDADEIRO CONHECIMENTO (versos 8 a 12) 8-12. Humildade; modéstia; não-violência; tolerância; simplicidade; aproximar-se de um mestre espiritual genuíno; limpeza; firmeza; autocontrole; renúncia ao objeto de gozo dos sentidos; ausência de ego falso; a percepção segundo a qual o nascimento, a morte; a velhice e a doença são condições desfavoráveis; desapego; estar livre do enredamento com os filhos, esposa, lar e o resto; equanimidade diante de acontecimentos agradáveis e desagradáveis; devoção constante e imaculada a Mim; aspirar a viver num lugar solitário; afastar-se da massa geral das pessoas; aceitar a importância da auto-realização; e empreender uma busca filosófica da Verdade Absoluta – declaro que tudo isto é conhecimento, e algo diferentes disto é ignorância. Depois de explicar o campo de atividades da entidade viva e suas interações, o Senhor declara aqui que, através do conhecimento, pode-se escapar do enredamento produzido pelos vinte e quatro elementos. Este verso menciona, portanto, vinte qualidades que constituem o verdadeiro conhecimento – qualidades estas que podem ser comparadas a diferentes degraus para se chegar a perfeição, ou seja, a compreensão sobre a Verdade Absoluta.

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A humildade e a modéstia constituem a base do processo, pois enquanto a pessoa tiver a pretensão absurda de julgar-se Deus, a pessoa nem sequer poderá iniciar-se no cultivo do verdadeiro conhecimento. O abc da filosofia é compreender que somos muito mais do que meros corpos materiais temporários. Por isso, quem tem percepção espiritual de que é uma alma eterna torna-se verdadeiramente humilde e modesta, pois, para tal pessoa, qualquer coisa que se refira ao corpo – quer seja honra ou desonra – é completamente inútil. Portanto, como parte do processo de se obter conhecimento, deve-se perder completamente o anseio pelo falso prazer de ser glorificado pelos outros. Uma pessoa que age com conhecimento nunca causa sofrimento a ninguém, pois sua relação com tudo e todos é espiritual e bem aventurada. Tendo como meta evidente o cultivo do conhecimento, a pessoa aprende a suportar as dualidades naturais que se apresentam neste mundo e não se abala diante dos impedimentos materiais que se interpõem no caminho do avanço espiritual. A ignorância nos faz imaginar tantos deveres relacionados com este corpo e nos faz buscar garantias falsas neste mundo, mas uma pessoa em conhecimento toma outra atitude. Ela não perde tempo com tais coisas ilusórias. Ela leva uma vida simples e utiliza seu tempo em assuntos transcendentais. Com foi explicado no Quarto Capítulo, só se pode obter conhecimento perfeito de um mestre espiritual genuíno – um verdadeiro representante da sucessão discipular. Por isso, aceitar o mestre espiritual submissamente é considerado um item essencial na aquisição do verdadeiro conhecimento. Além de estar sempre internamente limpo, devido a meditação, o estudo dos Vedas e ao cantar dos santos nomes, tal discípulo mantém-se sempre limpo e asseado. Sua determinação é resoluta, pois nenhum fator material pode interromper o fluxo de seu cultivo espiritual. Ele está pronto para aceitar qualquer coisa que seja favorável para seu avanço espiritual e, ao mesmo tempo, não hesita em rejeitar as coisas desfavoráveis. Quanto ao gozo dos sentidos, ele aceita aquilo que é suficiente para manter-se saudável e não perde seu tempo vivendo em função da mente e sentidos materiais. Tal pessoa possui grande ímpeto para a vida espiritual, pois tem uma compreensão clara da situação miserável da alma eterna que está se sujeitando uma e outra vez ao ciclo de nascimento, velhice, doença e morte. Sua meta, portanto, é recuperar seu corpo espiritual e retornar à morada suprema de Deus, onde não ocorre nenhuma destas misérias corpóreas. Por isto, tal pessoa é desapegada dos prazeres deste mundo, e mesmo que tenha afeição natural pela família, ele utiliza isto para criar uma atmosfera consciente de Krishna em seu lar e não para gozo pessoal dos sentidos. E se, na verdade, sua família é desfavorável ao seu avanço espiritual, isto fará com que sua afeição e apego desapareçam completamente. Estando fixa no serviço devocional ao Senhor, tal pessoa está sempre em contato com a energia espiritual e, com isto, está sempre internamente feliz. Por isso, ela mantém-se equânime diante dos reveses materiais característicos deste mundo. Ela não se associa com pessoas de mentalidade mundana e, devido a estar fixa no processo de auto-realização, ela evita ambientes conturbados onde exista aglomeração de materialistas barulhentos. Ela não permite que suas práticas espirituais sejam prejudicadas. Agindo desta maneira, portanto, tal pessoa desenvolve cada vez mais sua convicção espiritual e eleva-se certamente a uma plataforma de conhecimento verdadeiro e permanece sempre absorta no serviço devocional amoroso ao Senhor. Devemos concluir que o conhecimento perfeito é propriedade dos devotos imaculados do Senhor. Para outros, ele é sempre inacessível. Pérola 69. A SUPERALMA ONIPENETRANTE (versos 13 a 18) 13. Passarei agora a explicar o conhecível, conhecendo o qual saborearás o eterno. Brahman, o espírito, que não tem começo e é subordinado a Mim, situa-Se além da causa e do efeito deste mundo material. 14. Em toda a parte estão Suas mãos e pernas, Seus olhos, cabeças e rostos, e Ele tem ouvidos em toda parte. É deste modo que a Superalma existe, penetrando tudo. 15. A Superalma é a fonte que origina todos os sentidos, no entanto, Ele é desprovido de sentidos. Ele é desapegado, embora seja o mantenedor de todos os seres vivos. Ele transcende os modos da natureza, e ao mesmo tempo é o senhor de todos os modos da natureza material. 16. A Verdade Suprema existe fora e dentro de todos os seres vivos móveis e inertes. Porque é sutil, Ele está além do poder visual ou cognoscitivo dos sentidos materiais. Embora longe, longe, Ele também está perto de todos. 17. Embora pareça estar dividido entre todos os seres, a Superalma nunca Se divide. Sua situação é sempre a mesma. Embora Ele seja o mantenedor de toda entidade viva, deve-se compreender que Ele devora e desenvolve tudo. 18. Ela é a fonte de luz em todos os objetos luminosos. Ele está além da escuridão própria da matéria e é imanifesto. Ele é o conhecimento, o objeto do conhecimento e a meta do conhecimento. Ele está situado nos corações de todos. Embora a entidade viva seja considerada kshetrajña, o conhecedor do campo, deve-se compreender que o

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principal conhecedor não só do campo, mas de todas as coisas, é o Senhor Supremo, ou a Superalma onipenetrante. A criação, a manutenção e a destruição de tudo estão sempre sob Seu controle, pois Ele é o mantenedor de todas as entidades vivas. Sua refulgência é ilimitada e Ele é a fonte de luz de todos os objetos luminosos, tais como o Sol e a Lua. Dentro de cada corpo existe uma alma individual situada no coração, e a influência desta alma individual se limita no corpo específico que ela adquiriu. Portanto, a alma individual não pode dizer que suas mãos, pernas, olhos, etc., estão em todos os lugares. Isto significa que ela existe sob condições limitadas e sua posição não é suprema. Esta é a diferença entre a Superalma e a alma individual. A Superalma pode estender Suas cabeças, mãos, olhos, pernas, etc., ilimitadamente. De fato, como se afirma aqui, a potência da Superalma é ilimitada. Embora sempre permaneça em Sua própria morada, Ela pode estar ao mesmo tempo em todos os lugares. O sentidos das entidades vivas são materiais e, dessa maneira, têm um alcance limitada e defeituoso. Mas, o Senhor não possui sentidos materiais limitados. Isto significa que Suas pernas não são como as nossas, e Ele pode viajar para qualquer lugar sem restrição alguma. Por que Sua visão é espiritual e infinita, Ele é capaz de ver tudo: passado, presente e futuro. Tendo ouvidos em todo lugar, Ele sempre ouve as orações feitas pelas almas rendidas. Ao mesmo tempo, onde quer que esteja, Ele pode saborear as oferendas que são feitas com devoção pelos Seus devotos puros, pois Sua boca está em todo lugar. Embora Ele esteja em Sua morada, que é muitíssimo distante de nós, Ele está, ao mesmo tempo, dentro de nós. Na verdade, ninguém está mais próximo que Ele. Certamente, enquanto estivermos contaminados materialmente, não podemos ver nada disso. Mas, quando nossos sentidos forem purificados pelo processo transcendental do serviço devocional, poderemos vê-lO o tempo todo. Devemos admitir, portanto, que existem dois conhecedores do campo – a alma individual e a Superalma, o Supremo conhecedor. Pérola 70. A ENTIDADE VIVA E A NATUREZA MATERIAL (versos 19 a 22) 19. Assim descrevi sucintamente o campo de atividades (o corpo), o conhecimento e o conhecível. Só Meus devotos podem compreender isto na íntegra e então alcançar Minha natureza. 20. Deve-se entender que a natureza material e as entidades vivas não têm começo. As transformações por que elas passam e os modos da matéria são produtos da natureza material. 21. Está dito que a natureza produz todas as causas e efeitos materiais, ao passo que a entidade viva é a causa dos vários sofrimentos e prazeres deste mundo. 22. Dessa forma, a entidade viva dentro da natureza material segue os caminhos da vida, desfrutando os três modos da natureza. Isto decorre de sua associação com essa natureza material. Assim, ela se encontra com o bem e o mal entre as várias espécies de vida. Aqui se afirma que somente os devotos podem compreender a diferença entre o corpo, o conhecimento e o objeto do conhecimento. Outros são incapazes de compreender. O verdadeiro conhecimento é chegar a compreender que todos são servos eternos do Senhor. Isto certamente nos levará a praticar sinceramente o serviço devocional, o qual, por sua vez, é o próprio resultado último de todo conhecimento. Quanto mais o devoto puder compreender que Krishna é tudo, mais ele irá atingir o verdadeiro conhecimento, e, como se afirma no Décimo Capítulo, os demais detalhes sobre o conhecimento serão internamente revelados pelo Senhor. Através do conhecimento transmitido neste capítulo, pode-se compreender que o campo (ou o corpo) é constituído de natureza material, ao passo que a entidade viva, a alma, é energia espiritual pura. Ambos são eternos e fazem parte da energia do Senhor. Antes deste cosmo ser manifestado, tanto a energia material quanto a entidade viva já existiam em seu estado latente. A energia material é considerada inferior, por que não possui vida própria. Ela depende da interação dela com a entidade viva. Porém, como uma energia superior do Senhor, a entidade viva não ganha nada em interagir com a energia material inferior. Ela não precisa entrar em contato com este mundo material, podendo viver uma vida eternamente perfeita na residência do Senhor. No entanto, quando se sente atraída pelo brilho ilusório desta energia material, ela inicia uma árdua luta pela existência e passa a viver sob a influência dos três modos da natureza material, à saber, ignorância, paixão e bondade. Pérola 71. A PRESENÇA DA SUPERALMA (versos 23 a 31) 23. Contudo, neste corpo há outrem, um desfrutador transcendental, que é o Senhor, o proprietário supremo, que age como o supervisor e permissor e que é conhecido como Superalma. 24. Aquele que compreende esta filosofia que trata da natureza material, da entidade viva e da interação dos modos da natureza com certeza alcançará a liberação. Ele não

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voltará a nascer aqui, não importa qual seja sua posição atual. 25. Alguns percebem a Superalma dentro de si através da meditação, outros, através do cultivo de conhecimento, e outros, através do trabalho sem desejos fruitivos. 26. E há também aqueles que, embora não sejam versados em conhecimento espiritual, passam a adorar a Pessoa Suprema após ouvirem outros falarem a respeito dEle. Por causa de sua tendência de ouvir as autoridades, eles também transcendem o caminho de nascimentos e mortes. 27. Ó principal dos Bharatas, fica sabendo que tudo o que existe, seja móvel ou inerte, é apenas uma combinação do campo das atividades e do conhecedor do campo. 28. Aquele que vê que a Superalma acompanha a alma individual em todos os corpos, e que compreende que a alma e a Superalma dentro do corpo destrutível jamais são destruídos, vê de verdade. 29. Aquele que vê a Superalma igualmente presente em toda a parte e em cada ser vivo não se degrada por sua mente. Assim, ele se aproxima do destino transcendental. 30. Quem pode ver que todas as atividades são executadas pelo corpo, que é uma criação da natureza material, e vê que o eu nada faz, vê de verdade. 31. Quando um homem sensato deixa de ver diferentes identidades conseqüentes a diferentes corpos materiais e vê como os seres se expandem por toda a parte, ele alcança a concepção Brahman. A entidade viva é parte integrante eterna do Senhor, de modo que existe um relacionamento íntimo de amizade entre ambos. Mas por que tem a tendência de ignorar este relacionamento com o Senhor e procura agir com independência, a entidade viva é chamada de energia marginal. Isto significa que ela tem a opção de situar-se na energia espiritual ou na energia material. Quando tenta dominar a energia material, a entidade viva sujeita-se a uma luta incansável e fica presa às condições indesejáveis dos modos da natureza material. Portanto, devido à Sua misericórdia, o Senhor deseja salvá-la desta situação artificial e, para levá-la de volta à energia espiritual, Ele permanece situado em seu coração como a Superalma dando-lhe internamente valiosas instruções e externamente aparece neste mundo para transmitir o conhecimento transcendental do Bhagavad-gita. Munida então deste conhecimento, a entidade viva se qualifica para libertar-se da ilusão e ingressar na atmosfera espiritual. Compreendendo estas instruções confidenciais contidas no Bhagavad-gita, ela situa-se em sua posição verdadeira e eterna e adota a consciência de Krishna. Neste caso, a mente aos poucos se desapega do gozo material dos sentidos e se volta para a manifestação do Senhor como a Superalma. Infelizmente, na sociedade moderna não há educação em assuntos espirituais. De qualquer modo, mesmo se um estudante retardatário se inclinar ao processo de ouvir das autoridades espirituais comentarem acerca do conhecimento transcendental, há toda a possibilidade de fazer um grande avanço. Especialmente nesta atual era de Kali, Sri Chaitanya Mahaprabhu enfatizou a associação com os devotos com o propósito de ouvir sobre o Senhor e cantar o maha-mantra Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare, Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare. Isto irá nos ajudar a transcender o caminho de nascimentos e mortes. Pérola 72. OS OLHOS DO CONHECIMENTO (versos 32 a 35) 32. Aqueles com a visão de eternidade podem ver que a alma imperecível é transcendental, eterna e situada além dos modos da natureza. Apesar do contato com o corpo material, ó Arjuna, a alma nada faz nem se enreda. 33. O céu, devido a sua natureza sutil, não se mistura com nada, embora seja onipenetrante. De modo semelhante, a alma situada na visão Brahman não se identifica com o corpo, embora esteja nesse mesmo corpo. 34. Ó filho de Bharata, assim como o Sol ilumina sozinho todo este Universo, do mesmo modo, a entidade viva, sozinha dentro do corpo, ilumina o corpo inteiro através da consciência. 35. Aqueles que com os olhos do conhecimento vêem a diferença entre o corpo e o conhecedor do corpo, e podem também compreender o processo que consiste em libertar-se do cativeiro da natureza material, alcançam a meta suprema. Como discutimos anteriormente, ao buscar associação espiritual e começar a ouvir sobre o conhecimento transcendental das fontes certas, a pessoa dirige-se ao destino supremo. Para tal pessoa, este Capítulo Treze é bastante valioso, pois, estudando-o com a ajuda de um mestre espiritual, pode-se entender claramente a distinção entre o corpo, o proprietário dele e a Superalma onipresente. Tal conhecimento transcendental é realmente essencial, pois revela o processo de se libertar do cativeiro da natureza material. Portanto, uma pessoa dotada deste conhecimento adquire uma visão de eternidade, compreendendo bem que este corpo é simplesmente energia material e que é a alma que ilumina e dá vida ao corpo, exatamente como o Sol ilumina e dá vida ao Universo. Uma pessoa com visão de

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eternidade não se identifica com este corpo e permanece dentro dele sem se contaminar com a mentalidade corpórea. Assim como o ar pode entrar na água, no excremento ou em qualquer lugar e não se misturar com nada disso, a entidade viva dotada de olhos do conhecimento, mantém-se sempre à parte das atividades materialistas. Tal pessoa de consciência purificada permanece em sua identidade espiritual e vê com visão de igualdade todos os seres vivos, quer se encontrem em corpos de semideuses, seres humanos ou animais inferiores.

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CAPÍTULO XIV: Os Três Modos da Natureza Material Pérola 73. A SABEDORIA SUPREMA (versos 1 a 4) 1. A Suprema Personalidade de Deus disse: Volto a te expor esta sabedoria suprema, o melhor entre todos os conhecimentos, conhecendo a qual todos os sábios atingiram a perfeição suprema. 2. Fixando-se neste conhecimento, a pessoa pode alcançar a natureza transcendental, igual à Minha. Nessa situação, ela não nasce no momento da criação nem é perturbada no momento da dissolução. 3. A totalidade da substância material, chamada Brahman, é a fonte de nascimento, e é esse Brahman que Eu fecundo, possibilitando os nascimentos de todos os seres vivos, ó filho de Bharata. 4. Ó filho de Kunti, deve-se compreender que é com o nascimento nesta natureza material que todas as entidades vivas, em todas as espécies de vida, tornam-se possíveis, e que Eu sou o pai que dá a semente. Como discutimos anteriormente, este mundo é uma combinação entre a alma espiritual e o corpo material. Existem os vinte e quatro elementos materiais que compõem a natureza material e são chamados de mahat-brahma, ou o grande Brahman. Esta natureza material pode ser comparada ao ventre de uma grande mãe e o Senhor é comparado ao Pai Supremo que fecunda a semente (na forma de entidades vivas) na natureza material. Dessa maneira, as diferentes entidades vivas surgem em várias espécies de vida de acordo com suas atividades passadas e, devido a associação com os modos da natureza material, elas se tornam enredadas neste mundo material. Isto significa que qualquer candidato ao desenvolvimento espiritual tem de conhecer estes modos, saber como eles atuam e aprender a livrarse deles. Evidentemente, ninguém pode compreender claramente isto através de seu simples esforço intelectual. O próprio fato de estar influenciado pelos modos da natureza já desqualifica alguém para entender este tópico tão importante que aqui é descrito aqui como “o melhor entre todos os conhecimentos”. Além disso, a importância deste capítulo é tamanha que, para despertar-nos maior interesse, o Senhor afirma que muitos sábios alcançaram a perfeição por conhecer este tema. Portanto, só mesmo uma pessoa que já esteja livre da influência destes três modos é que pode compreender este conhecimento perfeitamente e pode transmiti-lo sem a menor distorção. Aqui, portanto, iremos constatar que praticamente só o Senhor Krishna está nessa posição transcendental, por isso Ele está diretamente nos outorgando tal conhecimento sublime. Qualquer conhecimento obtido neste mundo está sob a influência dos três modos da natureza, mas o conhecimento do Bhagavad-gita é conhecimento completamente transcendental por que foi transmitido pela Transcendência Suprema, e este conhecimento tem como propósito nos colocar exatamente nesta mesma posição. Pérola 74. AS QUALIDADES DOS MODOS DA NATUREZA (versos 5 a 18) 5. A natureza material consiste em três modos – bondade, paixão e ignorância. A entrar em contato com a natureza, ó Arjuna de braços poderosos, a entidade viva eterna condiciona-se a esses modos. 6. Ó pessoa virtuosa, o modo da bondade, sendo mais puro que os outros, ilumina, livrando a pessoa de todas as reações pecaminosas. Aqueles que estão situados neste modo condicionam-se a uma sensação de felicidade e conhecimento. 7. O modo da paixão nasce de desejos e anseios ilimitados, ó filho de Kunti, e por causa disso a entidade viva corporificada está presa às ações fruitivas materiais. 8. Ó filho de Bharata, fica sabendo que no modo da escuridão, nascido da ignorância, todas as entidades vivas corporificadas ficam iludidas. Os resultados deste modo são a loucura, a indolência e o sono, que atam a alma condicionada. 9. Ó filho de Bharata, o modo da bondade condiciona o homem à felicidade; a paixão o condiciona à ação fruitiva; e a ignorância, cobrindo seu conhecimento, o ata à loucura. 10. Às vezes, o modo da bondade se torna preeminente, derrotando os modos da paixão e da ignorância, ó filho de Bharata. Às vezes, o modo da paixão sobrepuja a bondade e a ignorância, e outras vezes a ignorância derrota a bondade e a paixão. Dessa maneira, há sempre competição pela supremacia. 11. As manifestações do modo da bondade podem ser experimentadas quando todos os portões do corpo são iluminados pelo conhecimento. 12. Ó melhor entre os Bharatas, quando há um aumento do modo da paixão, desenvolvem-se sintomas de grande apego, atividade fruitiva, esforço intenso e anseio incontroláveis. 13. Quando predomina o modo da ignorância, ó filho de Kuru, manifestam-se escuridão, inércia, loucura e ilusão. 14. Quando alguém morre no modo da bondade, ele atinge os planetas superiores puros, onde residem os grandes sábios. 15. Quando alguém morre no modo da

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paixão, ele nasce entre os que se ocupam em atividades fruitivas; e quando morre no modo da ignorância, nasce no reino animal. 16. O resultado da ação piedosa é puro e se diz que está no modo da bondade. Mas a ação feita no modo da paixão resulta em miséria, e a ação executada no modo da ignorância resulta em tolice. 17. Do modo da bondade, desenvolve-se o verdadeiro conhecimento; do modo da paixão, desenvolve-se a cobiça; e do modo da ignorância, desenvolvem-se a tolice, a loucura e a ilusão. 18. Aqueles situados no modo da bondade gradualmente elevam-se aos planetas superiores; aqueles no modo da paixão vivem nos planetas terrestres; e aqueles no abominável modo da ignorância descem para os mundos infernais. Como ficará bastante claro neste capítulo, a natureza material influencia todas as entidades vivas de três diferentes modos: bondade, paixão e ignorância. Sob a influência do modo da bondade, uma pessoa sente maior sensação de felicidade e naturalmente sente-se atraída pelo avanço em conhecimento. Ela gradualmente se livra das atividades pecaminosas e, conseqüentemente, de suas reações, o que faz com que ela não sinta tanto as misérias deste mundo. Isto, na verdade, se torna até um problema para ela, por que ela acaba ficando induzida a se sentir superior aos outros. Devido ao conhecimento superior adquirido, tais pessoas têm a forte tendência de ficarem orgulhosas de suas posições e, assim, permanecem atadas de alguma maneira a este mundo material. Elas não sentem necessidade de tentarem libertar-se do cativeiro material e, por isso, ficam reencarnando em diferentes espécies de vida sob a influência da bondade. Devido à ilusão que a energia material lhes impõe, elas pensam que uma vida como cientista, filósofo ou poeta é agradável e não consideram que a verdadeira meta da vida é ser transferidos ao mundo espiritual. O modo da bondade é considerado o mais puro de todos e quanto mais aumenta sua influencia na pessoa, mais ela se torna limpa interna e externamente. Sua visão se torna cada vez mais correta e seus sentidos, tais como o paladar e a audição, mais refinados. Além disso, se a pessoa abandona o seu corpo sob a influencia do modo da bondade, ela será promovida aos planetas superiores, onde o desfrute dos sentidos é celestial. Uma entidade viva sob a influência do modo da paixão tem grande anseio pelo prazer material. Assim, a principal característica da paixão é a atração entre o homem e a mulher. Uma pessoa na paixão tem a tendência de trabalhar arduamente e deseja constituir uma família feliz, com filhos belos e muitas condições propícias ao desfrute. Ela é geralmente muito apegada ao poder, prestígio e falsas honrarias e por isso tem que viver o tempo todo com bastante ansiedade. A característica da paixão é que uma pessoa sob sua influência nunca se sente feliz com a posição adquirida, pois suas propostas de gozo dos sentidos são intermináveis. Pode ser que esta pessoa declare ser feliz, mas sua felicidade é ilusória e só existe dentro de sua mente. Ela não pára de desejar e, por isso, acaba envolvendo-se com uma vida miserável. Tal pessoa apaixonada está sempre presa a uma vida de cobiça excessiva e, mesmo que tenha condições financeiras favoráveis para o desfrute, ela não pode experimentar tal felicidade por que não possui paz de espírito. Ela vive traçando planos e projetos para conseguir muito dinheiro e tem de se submeter a um constante esforço físico excessivo. Se uma pessoa, portanto, abandona seu corpo sob a influência da paixão, possivelmente ela voltará à forma humana de vida no planeta terrestre. Logicamente, isto irá depender do acúmulo de atividades piedosas ou pecaminosas que tenha executado. O modo da ignorância é exatamente o oposto do modo da bondade – nada de conhecimento, nada de limpeza e nada de felicidade. A influência da ignorância degrada a pessoa, levando-a à loucura, e tal pessoa não pode entender as coisas como elas são. Tais pessoas são preguiçosas e relutam muito em receber qualquer instrução superior. Elas nem sequer são ativas com as pessoas no modo da paixão. Pelo contrário, sob a influência da ignorância, uma pessoa é indolente e tem grande propensão ao uso de drogas, bebidas alcoólicas e é muito adicta ao sono excessivo. Uma característica da ignorância é a propensão a entregar-se à matança de animais com o único propósito de satisfazer a exigências da língua. Certamente, o abate de animais inocentes é o mais grosseiro ato de ignorância. Na ignorância, a pessoa não é capaz de planejar sua vida e não tem metas superiores. Ela nunca se esforça para obter nada e é uma pessoa tola e sem inteligência. Suas atividades acabam resultando em miséria e uma pessoa que morre na ignorância perde a oportunidade que a vida humana lhe oferece e é forçada a nascer no reino animal ou em planetas infernais. Pérola 75. O SENHOR É SEMPRE TRANSCENDENTAL (versos 19 a 20) 19. Quando alguém vê corretamente que em todas as atividades o único agente que está em ação são estes modos da natureza e quando conhece o Senhor Supremo, que é transcendental a todos estes modos, ele então alcança Minha natureza espiritual. 20. Quando é capaz de transcender estes três modos associados com o corpo material, o ser corporificado pode

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libertar-se do nascimento, da morte, da velhice e dos sofrimentos que são inerentes a eles, e mesmo nesta vida pode gozar o néctar. Aqui se explica que, mesmo estando neste mundo material, uma pessoa poderá permanecer transcendental aos modos da natureza. Para isso, é necessário desenvolver sua consciência de Krishna. Como foi mencionado anteriormente, uma pessoa em consciência de Krishna desenvolveu uma visão diferente a respeito deste mundo, pois foi dotada com olhos de conhecimento. Tal pessoa compreende muito bem que o ser vivo não é o autor de suas atividades. Ela compreende que o ser vivo recebeu um corpo de acordo com seu karma e, assim, é forçado a agir conduzido pelos modos da natureza que ele adquiriu. Por isto, uma pessoa em consciência de Krishna segue as instruções dadas pelo Senhor no Capítulo Sete, onde se afirma que somente tornando-se uma alma rendida ao Senhor é que se pode superar a influência dos modos da natureza. Isto significa, portanto, que se quisermos nos livrar da influência dos modos da natureza, teremos que reconhecer o Senhor Supremo como a fonte transcendental de conhecimento e nos render a Ele. Esta rendição nos coloca além da influência material e nos permite saborear a felicidade natural da vida espiritual. Em outras palavras, o problema não se limita em estar neste mundo ou não; ou em se ter ou não um corpo material. O problema reside na forma que estamos utilizando este corpo ou no tipo de atividades que estamos executando neste mundo. Se utilizamos este corpo material a serviço do Senhor e ajustamos nossas atividades para Sua satisfação, certamente estaremos livre do enredamento material e iremos saborear o néctar espiritual da vida sublime em consciência de Krishna. Pérola 76. OS SINTOMAS DA PESSOA TRANSCENDENTAL (versos 21 a 25) 21. Arjuna perguntou: Ó meu querido Senhor, através de quais sintomas reconhece-se quem é transcendental a estes três modos? Qual é seu comportamento? E como ele transcende os modos da natureza? 22-25. A Suprema Personalidade de Deus disse: Ó Filho de Pandu, aquele que não odeia a iluminação, o apego e a ilusão quando estão presentes nem os deseja quando desaparecem; que não se abala nem se perturba com quaisquer das reações das qualidades materiais, permanecendo neutro e transcendental; sabendo que os modos é que são ativos; que está situado no eu e tem o mesmo comportamento diante da felicidade e sofrimento; que olha para um torrão de terra, uma pedra e um pedaço de ouro com a mesma visão; que é igual para o desejável e o indesejável; que é estável, igual no louvor e na repreensão, honra e desonra; que dá o mesmo tratamento tanto ao amigo quanto ao inimigo; e que renunciou a todas as atividades materiais – diz-se que essa pessoa transcendeu os modos da natureza. Como um estudante bastante qualificado, Arjuna revela aqui o seu desejo de compreender os sintomas de uma pessoa transcendental aos modos da natureza material, qual o comportamento desta pessoa e como ela consegue atingir esta plataforma transcendental de existência. Este tema é muito importante para alguém que queira atingir esta condição de vida espiritual, pois, a não ser que saiba as respostas a estas perguntas, ele não terá um ponto de referência. O Senhor Krishna começa explicando que uma pessoa que transcendeu os modos da natureza é livre da inveja. Como já foi afirmado, neste mundo existem diferentes classes de pessoas. Na bondade, as pessoas tornam-se iluminadas; na paixão, elas são muito apegadas às coisas materiais e na ignorância são tolas e iludidas, mas uma pessoa transcendental não se importa com isto. Ela nem inveja alguém que esteja materialmente bem situado e nem odeia uma pessoa com características nefárias. Ela permanece neutra, pois sabe que tudo está sendo conduzido pela influência da natureza material. Mesmo que alguém, sob a influência da energia ilusória do Senhor, coloque-se numa posição de como amigo ou inimigo, uma pessoa na plataforma transcendental dá a ambos o mesmo tratamento amistoso. Ser criticado ou elogiado neste mundo é inevitável, mas uma pessoa transcendental está numa condição de existência plena e não ganha nada ao ser elogiada e nem perde nada ao ser criticada. Por isso, ela nunca se abala diante das dualidades deste mundo. Certamente, tal pessoa está muito além das atividades materiais e suas reações e sempre permanece desapegada e mansa diante de qualquer coisa que aconteça. Por estar em consciência de Krishna, tal pessoa atingiu igualdade com Krishna. Por isso, ela nunca se deixa afetar diante das condições políticas e sociais e não tem necessidade de obter nada deste mundo, quer seja lixo ou ouro. Pérola 77. A CONDIÇÃO DA EXISTÊNCIA LIBERADA (versos 26 a 28) 26. Aquele que se ocupa em serviço devocional pleno e não falha em circunstância alguma transcende de imediato os modos da natureza material e chega então ao nível de Brahman. 27.

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E Eu sou a base do Brahman impessoal, que é imortal, imperecível e eterno e é a posição constitucional da felicidade última. Aqui encontramos a resposta do Senhor à pergunta de Arjuna de como uma pessoa consegue transcender os modos da natureza material. Tal pessoa terá que tirar sua consciência das atividades materiais e transferi-la para as atividades relacionadas com Krishna. Esta atividade de intercâmbio amoroso entre o Senhor e Seu devoto é conhecida como bhakti-yoga, ou serviço devocional, e é o único meio de se alcançar a plataforma transcendental. O Senhor é transcendental aos modos e se uma pessoa se absorve no serviço ao Senhor e se une à Ele com devoção, certamente ocupará uma posição transcendental semelhante. No entanto, o Senhor especifica aqui que tal serviço devocional tem que estar em seu estado pleno, o que significa que o devoto não deve prestar serviço ao Senhor com propósitos materiais. Na verdade, para se prestar serviço devocional ao Senhor, o devoto precisa estar na plataforma transcendental conhecida como Brahman ou, em outras palavras, precisa estar livre das contaminações materiais, tais como a especulação filosófica e os interesses fruitivos. O Senhor é o Param Brahma, ou seja, o supremo Brahman, e o devoto deve atingir a qualificação de Brahman para se relacionar com o Senhor. Este conceito de Brahman é considerado a primeira etapa no serviço devocional. Além deste nível de Brahman, pode-se expandir a compreensão até se chegar ao estágio do Paramatma, ou Superalma, e, ao progredir ainda mais, chega-se à percepção de Bhagavan, ou a Suprema Personalidade de Deus. Mas, como Bhagavan Sri Krishna é a base deste Brahman, o devoto pode atingi-lo naturalmente, caso se ocupe completamente em Seu serviço devocional. Na verdade, no Srimad-Bhagavatam se afirma que mesmo chegando ao estágio de Brahman impessoal, a pessoa estará correndo grande risco de cair de sua posição transcendental, caso não continue progredindo até a realização final da Pessoa Suprema, Sri Krishna. Aqui se afirma que este Brahman é eterno e imperecível. Deve ficar claro, portanto, que a felicidade eterna e imperecível proveniente deste Brahman também está incluída no serviço devocional ao Senhor.

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CAPÍTULO XV: A Yoga da Pessoa Suprema Pérola 78. A FIGUEIRA-DA-BENGALA DO ENVOLVIMENTO MATERIAL (versos 1 a 4) 1. A Suprema Personalidade de Deus disse: Afirma-se que existe uma figueira-da-bengala imperecível, cujas raízes ficam para cima e os galhos para baixo e cujas folhas são os hinos védicos. Quem conhece esta árvore é um conhecedor dos Vedas. 2. Os galhos desta árvore se estendem para baixo e para cima, nutridos pelos três modos da natureza material. Os brotos são os objetos dos sentidos. Esta árvore também tem raízes que descem, e estas estão atadas às ações fruitivas da sociedade humana. 3-4. Não se pode perceber a verdadeira forma desta árvore neste mundo. Ninguém pode compreender onde ela acaba, onde começa, ou onde ela se alicerça. Mas com determinação deve-se derrubar com a arma do desapego esta árvore fortemente arraigada. Em seguida, deve-se procurar aquele lugar do qual ninguém volta após ter chegado lá e render-se a esta Suprema Personalidade de Deus de quem tudo começou e de quem tudo emana desde tempos imemoriais. Este mundo material é tão complexo que é comparado aqui com uma grande figueira-da-bengala. De fato, o desejo é a causa do enredamento da alma neste mundo, por isso o desejo é comparado à raiz dessa grande árvore do envolvimento material sem fim. Neste mundo, há ilimitadas possibilidades de gozo dos sentidos e, por isso, a possibilidade de enredamento também não tem fim. O ser vivo vagueia de galho em galho, ou seja, transmigra de uma forma para outra, mantendo sempre interesse em dominar a natureza material. Às vezes, devido ao seu bom karma material, ele se eleva aos planetas celestiais e, às vezes, o seu mal karma o leva a situações bastante miseráveis em planetas ou corpos inferiores. Mas, como os galhos desta árvore se estendem para baixo, o ser vivo na maioria das vezes é forçado à descer neles para tentar colher seus frutos e, assim, se posiciona de maneira bastante perigosa. Na verdade, esta mundo material, que é aqui comparado a esta árvore sem fim, é um reflexo da verdadeira árvore da morada suprema do Senhor, a qual se encontra no céu espiritual. Enquanto se mantiver neste mundo material, o ser vivo não poderá compreender esta morada suprema, como é explicada neste capítulo. Para isto, ele terá que se desapegar das atividades ilusórias deste mundo. O Bhagavad-gita foi transmitido pelo Senhor Krishna para que todos tivessem a oportunidade de aceitar o caminho perfeito do desapego deste mundo, que não passa de um reflexo do mundo espiritual visto às avessas. O tema principal do Bhagavadgita é, portanto, a bhakti-yoga, ou o processo de transferirmos nossos apegos para o serviço à Suprema Personalidade de Deus. Pérola 79. A MORADA SUPREMA (versos 5 a 8) 5. Aqueles que estão livres do falso prestígio, da ilusão e da falsa associação, que compreendem o eterno, que se enfastiaram da luxúria material, que estão livres das dualidades manifestas sob a forma de felicidade e sofrimento, e que com toda a lucidez sabem como se render à Pessoa Suprema alcançam este reino eterno. 6. Essa Minha morada suprema não é iluminada pelo Sol ou pela Lua, nem pelo fogo ou pela eletricidade. Aqueles que a alcançam jamais retornam a este mundo material. Nos versos anteriores o Senhor Krishna recomenda que devemos desenvolver interesse em buscar a morada eterna suprema e render-se à Suprema Personalidade de Deus. Agora, portanto, Ele passa a explicar como se efetua o processo de rendição. Primeiramente, o Senhor afirma que temos que nos livrar das garras da ilusão. Na verdade, este tema é o ponto central do Bhagavad-gita. Como já foi explicado, as entidades vivas são partes integrantes do Senhor e, dessa maneira, são consideradas Suas energias divinas. Porém, ao desejarem dominar a natureza material, elas ficam sob as garras da energia material ilusória e não conseguem superar sua influência. É preciso, portanto, aceitar o serviço devocional e, desse modo, atrair a misericórdia do Senhor, que é o único que pode conceder a liberação à alma condicionada. A aceitação do serviço devocional só se torna possível para uma pessoa que, devido a inteligência, tenha se tornado verdadeiramente humilde e tenha se livrado do orgulho absurdo de se julgar o Senhor da natureza material. Antes disso, não há como se iniciar no processo de rendição. Como foi explicado no Capítulo Sete, o necessitado, o aflito, o inteligente e o curioso que executaram atividades piedosas se voltam para a adoração do Senhor. De modo geral, quando as dificuldades surgem nas vidas dessas pessoas piedosas, eles não encontram outra alternativa além de buscar abrigo no serviço devocional do Senhor. Entretanto, aqueles que estão acumulando ações impiedosas não podem se aproximar do Supremo. Ao contrário disso, tais pessoas impiedosas permanecem associadas com as

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atividades falsas da energia ilusória material e nunca se rendem ao Senhor. Na verdade, a menos que a pessoa tenha a misericórdia do Senhor, ela não poderá admitir e entender que este mundo material é um lugar perigoso, cheio de calamidades. O sintoma de uma pessoa verdadeiramente inteligente é que ela desiste de fazer planos para ajustar-se permanentemente a essas calamidades materiais. Ao mesmo tempo, tal pessoa compreende que enquanto estiver neste mundo terá que se deparar com os inevitáveis infortúnios, os quais são considerados como estímulos positivos para o progresso na compreensão espiritual. Compreendendo sua posição como alma espiritual eterna, a pessoa deve manter-se transcendental às aparentes calamidades materiais, as quais são comparadas a um pesadelo. Num sonho, por exemplo, o homem pode ter a sensação que um tigre o está engolindo. Certamente, ele sofrerá com isto. Porém, assim como este ‘tigre’, o sofrimento material é ilusório, pois trata-se unicamente de um pesadelo. Já que são ilusórias, as calamidades desse mundo só poderão afetar a pessoa que não compreendeu a natureza ilusória deste mundo material. Aquele que não se rende ao Senhor, portanto, não pode compreender a verdadeira essência deste mundo. Deste modo, ao invés de dedicar sua vida ao Senhor, uma pessoa tola prefere buscar sua felicidade neste mundo cheio de perigos. Ela não têm informação da morada do Senhor, a qual é eterna e plenamente bem aventurada, sendo livre de qualquer vestígio de calamidades. Este mundo material é comparado a um oceano turbulento, o qual deve ser cruzado o mais rápido possível. A conclusão é que, enquanto estivermos neste oceano, sempre estaremos numa posição perigosa, à mercê das ondas violentas. Mesmo que estejamos num grande e resistente barco, a qualquer momento poderá surgir um imprevisto e teremos que nos deparar com as situações mais adversas. Por isso, a nossa única preocupação deveria ser como atravessar o mais rápido possível este oceano de perigos. O Srimad-Bhagavatam explica que quem se refugia no Senhor está aceitando o barco mais adequado para cruzar o oceano da ignorância. Se uma pessoa aceita o abrigo dos pés de lótus do Senhor, ela poderá cruzar o oceano de existência material, assim como pode-se saltar facilmente as águas que ficam acumuladas nas covas criadas pelas pegadas de um bezerro. O destino final deve ser permanecer com o Senhor em Sua residência, que nada tem a ver com o lugar onde existe perigo à cada passo. Já que, enquanto estivermos neste mundo não poderemos evitar suas adversidades, devemos, então, com ou sem elas, cantar Hare Krishna e dedicar-nos ao desenvolvimento de nossa consciência de Krishna para retornarmos ao mundo espiritual, onde tudo é iluminado pela potência interna do Senhor. Pérola 80. A LUTA DA ENTIDADE VIVA CONDICIONADA (versos 7 a 11) 7. As entidades vivas neste mundo condicionado são Minhas eternas partes fragmentárias. Por força da vida condicionada, elas empreendem árdua luta com os seis sentidos, entre os quais se inclui a mente. 8. Assim como o ar transporta os aromas, a entidade viva no mundo material leva de um corpo para outro suas diferentes concepções de vida. Com isso, ela aceita uma espécie de corpo e ao abandoná-lo volta a aceitar outro. 9. A entidade viva, aceitando esse outro corpo grosseiro, obtém um certo tipo de ouvido, olho, língua, nariz e sentido do tato, que se agrupam ao redor da mente. Ela então desfruta um conjunto específico de objetos dos sentidos. 10. Os tolos não conseguem compreender como a entidade viva pode abandonar seu corpo, nem conseguem entender a espécie de corpo que ela usufruirá sob o encanto dos modos da natureza. Mas aqueles cujos olhos estão treinados em conhecimento pode ver tudo isto. 11. Os transcendentalistas diligentes, que estão em auto-realização, podem ver tudo isto com bastante clareza. Mas aqueles cujas mentes não são desenvolvidas e que não estão situados em auto-realização não podem ver o que está acontecendo, mesmo que tentem. Os filósofos impersonalistas acreditam erroneamente que ao alcançar a liberação, a alma individual irá se fundir no Supremo e perderá sua individualidade. Eles se confundem ao julgarem que a individualidade da alma é uma condição temporária e que só se manifesta na fase condicionada. Nesta passagem, portanto, o Senhor Krishna não apoia esta teoria inventada que acredita que a alma tenha se fragmentado num determinado momento de sua existência. Pelo contrário, o Senhor enfatiza aqui que a individualidade do ser vivo é eterna. O ser vivo é, portanto, uma parte fragmentária eterna do Senhor. O oceano possui infinitas gotas d’água e todas estas gotas d’água são qualitativamente idênticas ao oceano. Similarmente, mesmo sendo uma parte integrante infinitesimal do Senhor, a entidade viva em seu estado original possui todas as Suas qualidades, só que em proporção infinitamente inferior. No entanto, ao abusar de sua independência parcial, a entidade viva acaba se transferindo ao mundo material e recebe um corpo temporário. Estando coberta, portanto, pelo ego falso, inteligência, mente e sentidos materiais, a entidade viva originalmente bem aventurada depara-se com uma situação de sofrimento artificial. Envolvendo-se com atividades materiais, a alma permanece sempre sujeita às reações materiais

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e se vê forçada a transmigrar interminavelmente de um corpo para outro. O corpo sutil é composto de mente, inteligência e ego falso e este corpo sutil detém as concepções que a entidade viva desenvolveu na sua vida e as transporta para o próximo corpo. Isto não significa que seu próximo corpo será necessariamente um corpo humano. Por exemplo, se a entidade viva adultera sua consciência com qualidades caninas ou felinas, certamente seu próximo corpo será de cão ou gato. Como já discutimos anteriormente, a consciência é um elemento originalmente puro, como a água. No entanto, se misturarmos alguma tintura na água, ela irá mudar de cor. A consciência original é absolutamente pura e é chamada de consciência de Krishna, mas, ao se misturar com certas qualidades materiais, ela sofre uma transformação. Devido à consciência transformada, irá manifestar-se com um certo tipo de mentalidade material, o que vai resultar num corpo material que se coadune com seu estado específico de consciência. Ao dedicar-se ao estudo profundo do Bhagavad-gita e submeter-se a um treinamento sob a guia do mestre espiritual, uma pessoa pode entender completamente estes fenômenos. Mas uma pessoa comum, sem treinamento espiritual, não pode compreender como a alma abandona o corpo e qual será o corpo que ela irá obter na próxima vida. Pérola 81. A PRESENÇA TODO-ABRANGENTE DO ABSOLUTO (versos 12 a 15) 12. O esplendor do Sol, que dissipa a escuridão de todo esse mundo, vem de Mim. O esplendor da Lua e o esplendor do fogo também vêm de Mim. 13. Eu entro em cada planeta, e por intermédio de Minha energia eles permanecem em órbita. Eu Me torno a Lua e desse modo forneço o suco da vida a todos os vegetais. 14. Nos corpos de todas as entidades vivas, Eu sou o fogo da digestão e Me uno ao ar vital, que sai e que entra, para digerir as quatro espécies de alimentos. 15. Estou situado nos corações de todos, e é de Mim que vêm a lembrança, o conhecimento e o esquecimento. Através de todos os Vedas, é a Mim que se deve conhecer. Na verdade, sou o compilador do Vedanta e sou aquele que conhece os Vedas. Mesmo que tenha uma boa visão, uma pessoa não poderá enxergar nada se ela estiver num lugar escuro. A ignorância é comparada à escuridão e conhecimento à luz, de modo que, como discutimos nos versos anteriores, a pessoa precisa ser treinada em conhecimento espiritual para poder enxergar as coisas como elas são. Uma pessoa que tenha se submetido ao treinamento adequado por um mestre espiritual autêntico pode compreender que tudo vem da Suprema Personalidade de Deus. O sol ilumina todo o Universo e devemos compreender que a luz do Sol deve-se à refulgência espiritual que emana do Senhor. A Lua é a responsável por nutrir os alimentos e torná-los saborosos e suculentos, além de distribuir seu brilho agradável a todos. Portanto, a Lua é uma das manifestações da bondade do Senhor. O elemento fogo tem uma importância fundamental para a sociedade humana. É somente devido a ele que podemos preparar alimentos cozidos e podemos fabricar tantas utilidades para o nosso desenvolvimento progressivo. Já que ninguém poderia viver sem a ajuda do Sol, da Lua ou do fogo, devemos refletir e compreender que sem a misericórdia do Senhor não poderíamos sequer nos manter vivos. Como a Superalma localizada, o Senhor penetra todos os átomos, todas as entidades vivas, todos os planetas e, finalmente, todos os universos. Tudo é sustentado unicamente devido a presença do Senhor em tudo. Assim como um corpo específico é mantido e sustentado pela presença da alma individual, todos os diferentes planetas também podem flutuar e permanecer em órbita unicamente devido à presença do Senhor. Sob a ação de Sua força e energia, todas as coisas móveis e inertes permanecem em seus devidos lugares. Segundo as escrituras ayur-védicas, existe um fogo no nosso estômago que é o responsável por digerir os alimentos. Como o bom funcionamento do aparelho digestivo é considerado o principal fator que determina a saúde, devemos compreender que sem a ajuda do Senhor, não poderíamos estar desfrutando da vida. Existem quatro tipos de alimentos – aqueles que são sorvidos, aqueles que são mastigados, aqueles que são lambidos e outros que são chupados. De qualquer modo, o Senhor é o responsável por digerir todos estes alimentos e por transformá-los em força vital. Com o propósito de nos iluminar em conhecimento perfeito, diferentes textos védicos apresentam elaboradamente cada um destes temas para dar ênfase no desenvolvimento espiritual gradual. Devemos ser conscientes também que os próprios Vedas são a manifestação do Senhor na forma do conhecimento perfeito. Nos Upanishads se afirma que todos os quatro Vedas – Rig Veda, Yajur Veda, Sama Veda e Atharva Veda – emanam da respiração da grandiosa Personalidade de Deus. Portanto, além de Se converter nos próprios Vedas, o Senhor, sob Sua encarnação como Vyasadeva, torna-Se também o compilador dos Vedas. Sabemos que depois de compilar o Vedanta-sutra, Vyasadeva pôs-se a escrever um comentário sobre esta obra, conhecido como Srimad-Bhagavatam. De modo que, além de compilador, o Senhor é o único verdadeiro conhecedor dos Vedas. Ele está dentro de todos os seres vivos como a Superalma onipresente e está

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sempre dando orientações para todos, além de testemunhar os trabalhos de todos. Como esquece de tudo o que aprendeu na vida passada, o ser vivo recebe internamente do Senhor o conhecimento necessário para reiniciar suas atividades a partir do ponto onde ele atingira na vida passada. Assim, além de sofrer ou gozar neste mundo conforme o que lhe é imposto pelo Senhor, todos recebem a oportunidade de compreender os Vedas. Caso uma pessoa leve a sério o conhecimento védico, o Senhor internamente a ajudará, dando-lhe a inteligência necessária para que tal pessoa possa compreender os temas transcendentais védicos. Aqui se afirma também que o propósito de se estudar os Vedas é compreender a Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna. O estudo do Bhagavad-gita nos leva a esta compreensão. Podemos concluir que o Bhagavad-gita é a literatura que apresenta a essência de todo o conhecimento védico, pois ele é apresentado diretamente pelo próprio Senhor, o qual nos deixa claro que a função principal dos Vedas é elevar o estudante védico ao serviço devocional amoroso à Sri Krishna, a Suprema Personalidade de Deus. Pérola 82. A PESSOA SUPREMA (versos 16 a 20) 16. Há duas classes de seres, os falíveis e infalíveis. No mundo material, toda entidade viva é falível, e no mundo espiritual, toda entidade viva se chama infalível. 17. Além desses dois, há também a maior personalidade viva, a Alma Suprema, o próprio Senhor imperecível, que entrou nos três mundos e os mantém. 18. Porque sou transcendental, situado além do falível e do infalível, e porque sou o maior, sou celebrado tanto no mundo quanto nos Vedas como essa Pessoa Suprema. 19. Quem quer que, sem duvidar, conheça-me como a Suprema Personalidade de Deus, é o conhecedor de tudo. Ele, portanto, se ocupa em pleno serviço devocional a Mim, ó filho de Bharata. 20. Esta é a parte mais confidencial das escrituras védicas, ó pessoa impoluta, e está sendo revelada por Mim. Quem quer que compreenda isto se tornará sábio, e seus esforços redundarão em perfeição. Podem-se dividir as inúmeras entidades vivas em duas categorias – as falíveis e as infalíveis. As entidades vivas falíveis são aquelas que entraram em contato com a energia material e, como foi falado anteriormente, estão deparando-se com uma luta inglória, munidas dos cinco sentidos e a mente. No entanto, aqueles que permanecem unidos com a Suprema Personalidade de Deus são chamados infalíveis. Permanecer unido com o Senhor significa manter-se espontaneamente ocupado no serviço do Senhor com amor e devoção. A base desta união amorosa, portanto, é o amor puro que existe eternamente entre o ser vivo e o Senhor. Os filósofos impersonalistas não conseguem compreender este tema, o qual é considerado por todas as escrituras védicas como o mais confidencial. Estes filósofos mal informados não conseguem compreender que esta união com o Senhor não elimina a existência da personalidade. Eles pensam erroneamente que, para unir-se com o Senhor, a entidade viva precisa necessariamente eliminar seu ego. Até certo ponto, eles estão certos, pois, por tratar-se de um relacionamento imaculado, é evidente que o relacionamento entre o ser vivo individual e o Senhor é absolutamente desprovido de ego material. O que eles não podem compreender é que, através de bhakti, ou serviço devocional, duas coisas maravilhosas ocorrem simultaneamente. Por um lado, através de bhakti experimentamos a eliminação completa do ego material impuro – o ego falso que nos força a identificar-nos com o corpo material temporário. E, por outro lado, manifestamos o ego espiritual puro – o ego que nos enche de conhecimento pleno, eternidade e bem-aventurança. Este ego espiritual é a condição da própria alma em seu estado puro original – uma alma eternamente devotada ao serviço amoroso do Senhor. A conclusão é que devemos compreender que esta união amorosa entre o ser vivo e o Senhor só se torna possível através de um relacionamento interpessoal transcendental. Esta é a essência de bhakti, e é considerado o mais secreto de todos os conhecimentos. A compreensão do aspecto impessoal de Deus é a primeira percepção espiritual. Certamente, tal percepção também é importante, mas devemos estar certos de que, se simplesmente nos limitarmos a compreender que tudo que existe não passa de uma energia divina de Deus, estaremos ainda munidos de um conhecimento parcial e incompleto. Progredindo ainda mais, existe o estágio onde se realiza o segundo aspecto do Senhor, a Superalma localizada. Neste estágio pode-se realizar a presença do Senhor em todo e qualquer átomo e passa-se a buscar um relacionamento com Ele internamente no coração, através da yoga e da meditação. Depois deste grande passo no despertar da consciência de Deus, devemos prosseguir ainda mais para podermos alcançar a percepção máxima, a percepção acerca da Pessoa Suprema, a Personalidade de Deus. Desse modo, o conhecedor imperfeito satisfaz-se simplesmente com a compreensão de que tudo é energia de Deus ou, no máximo, de que o Senhor é tão poderoso que está presente no coração de todos como a Superalma. Aqui, portanto, se afirma que o conhecedor de tudo conhece o Senhor como a Pessoa Transcendental Suprema e dedica toda a sua energia a prestar-Lhe serviço amoroso, ouvindo, cantando, lembrando, oferecendo preces, servindo

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os pés de lótus do Senhor e adorando-O como um servo completamente rendido. Esta atitude de serviço devocional, faz com que tal devoto se livre completamente de toda contaminação material, tornando-se automaticamente perfeito.

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CAPÍTULO XVI: As Naturezas Divinas e Demoníacas Pérola 83. A NATUREZA DIVINA (versos 1 a 3) 1-3. A Suprema Personalidade de Deus disse: Destemor, purificação da própria existência; cultivo de conhecimento espiritual; caridade; autocontrole; execução de sacrifícios; estudo dos Vedas; austeridade; simplicidade; não-violência; veracidade; estar livre da ira; renúncia; tranqüilidade; não gostar de achar defeitos; compaixão para com todas as entidades vivas; estar livre da cobiça; gentileza; modéstia; firme determinação; vigor; clemência; fortaleza; limpeza, estar livre da inveja e da paixão pela honra – estas qualidades transcendentais, ó filho de Bharata, existem nos homens piedosos dotados de natureza divina. Ao situar-se na natureza divina, os seres vivos progridem no caminho da liberação. Por outro lado, sob a influência dos modos inferiores da paixão e ignorância, os seres vivos permanecem atados às ações fruitivas e aos desejos materiais luxuriosos distanciando-se cada vez mais do caminho verdadeiro. Aqui, portanto, o Senhor inicia este capítulo enumerando as qualidades transcendentais existentes nos homens piedosos dotados de natureza divina. Tais qualidades servem como referências importantes para aqueles que querem progredir rumo ao caminho da liberação última. Embora, de um modo geral, a vida material crie situações bastante temerosas, uma pessoa influenciada pela natureza divina mantém-se numa condição onde o temor não existe. Isto se deve à sua consciência de Krishna, pois uma pessoa que permanece consciente de que tudo está sob pleno controle do Senhor e que nunca se esquece que o Senhor é o seu verdadeiro benquerente, consegue manter-se sempre livre de qualquer ansiedade ou temor. Tal pessoa busca constantemente a sua própria purificação e, por isso, aceita de bom grado tudo o que acontece como misericórdia do Senhor. Ela está sempre ocupada em estudar as escrituras védicas autorizadas sob a guia de um mestre espiritual fidedigno, compreendendo que este é o único meio correto de se cultivar conhecimento transcendental. Na verdade, sem estar munido de verdadeiro conhecimento védico ninguém pode realizar-se espiritualmente, como pensam os falsos filósofos de hoje em dia que vivem inventando seus próprios processos inúteis. Além disso, tal pessoa é verdadeiramente caridosa, pois está sempre entusiasta em transmitir seus conhecimentos e percepções espirituais, os quais ela compreende que são a única panacéia para as almas condicionadas. Mantendo-se constantemente em consciência de Krishna, tal pessoa dotada de qualidades divinas nunca se afasta do serviço do Senhor, ocupando seu corpo, sentidos, mente e inteligência em atividades espirituais práticas. Cantando regularmente o maha-mantra Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare, Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare, tal pessoa pratica o sacrifício que as escrituras védicas prescrevem especificamente para esta era que é repleta de trevas e ignorância. Vivendo sob as instruções do mestre espiritual, a pessoa leva uma vida de verdadeira disciplina e austeridade e seguindo as instruções de uma alma auto-realizada como o mestre espiritual, sua vida se torna simplificada evitando assim envolver-se com uma série de atividades fruitivas que certamente causariam sofrimentos futuros. Tal pessoa age sempre como um benquerente espiritual de todos e nunca comete ofensas verbais ou físicas para ninguém. A ocupação constante no serviço devocional torna uma pessoa livre da cobiça e desejos sensuais e, como resultado, tal pessoa permanece automaticamente livre da ira e da violência e está sempre tranqüila, gozando da paz interior. Por estar realmente preocupada com seu avanço espiritual, tal pessoa não tem interesse em buscar defeitos nos outros. Ao contrário das moscas que estão sempre buscando a ferida e o excremento, uma pessoa dotada de qualidade divina é como uma abelha, pois só se interessa pelo mel e pelo néctar. Pérola 84. A NATUREZA DEMONÍACA (versos 4 a 12) 4. Orgulho, arrogância, presunção, ira, rispidez e ignorância – estas qualidades pertencem àqueles cuja natureza é demoníaca, ó filho de Pritha. 5. As qualidades transcendentais conduzem à liberação, ao passo que as qualidades demoníacas levam ao cativeiro. Não se preocupe, ó filho de Pandu, pois você nasceu com as qualidades divinas. 6. Ó filho de Pritha, neste mundo há duas espécies de criaturas. Uma é chamada divina e a outra, demoníaca. Já me detive a explicar-lhe as qualidades divinas. Agora ouça enquanto falo sobre as características demoníacas. 7. Aqueles que são demoníacos não sabem o que se deve fazer e o que não se deve fazer. Neles não se encontram limpeza, comportamento adequado nem verdade. 8. Eles dizem que este mundo é irreal e sem nenhum fundamento; que é produzido do desejo sexual e tem como causa apenas a luxúria. Dizem que não há Deus no controle. 9. Seguindo essas conclusões, os demoníacos sem saber o que fazer e sem nenhuma inteligência, ocupam-se em

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atividades prejudiciais e hediondas que só servem para destruir o mundo. 10. Refugiando-se na luxúria insaciável e absortos na presunção própria do orgulho e do falso prestígio, os demoníacos, nesta ilusão, estão sempre comprometidos com o trabalho sujo atraídos pelo impermanente. 11-12. Eles acreditam que satisfazer o sentidos é a necessidade primordial da civilização humana. Com isto, até o fim da vida sua ansiedade é imensurável. Presos a uma rede de centenas de milhares de desejos e absortos na luxúria e na ira, eles recorrem a meios ilegais para obter o dinheiro que investirão no gozo dos sentidos. Há duas classes de homens no mundo: a dos demônios e a dos semideuses. Enquanto os semideuses se interessam pela elevação da sociedade humana, os demônios se interessam na elevação física e material e, por isso, são muito orgulhosos de suas aquisições materiais. Aqui se explica também que os demônios são influenciados pela ignorância e isso significa que, mesmo quando se dedicam a ocupação de filósofos, o fazem de um modo totalmente arrogante. Às vezes, eles são chamados de filósofos impersonalistas, por que sentem grande prazer em desencaminhar as pessoas inocentes alegando que Deus está morto. Na melhor das hipóteses, ou seja, quando não são capazes de “matar” Deus, tentam aleijá-lO alegando que o Senhor não tem cabeça, forma, existência, pernas etc. A ira que possuem dentro de si é muito grande e, por isso, os demônios sempre anseiam por uma sociedade em que Deus não esteja no centro, facilitando assim o gozo dos seus próprios sentidos desenfreados. De um modo geral, os demônios não conhecem as regras escriturais. Mas, caso as conheçam, eles não têm a menor inclinação por segui-las. Por isto, eles são sujos física, mental e intelectualmente. Eles não estão interessados em nenhuma boa instrução. A prova disto é que, se alguém lhes oferece alguma boa instrução, eles ficam irados e se põem a blasfemar ou atacar o instrutor. Desse modo, a natureza demoníaca é a causa do verdadeiro sofrimento do ser vivo. Não aceitando a existência de um Deus criador e controlador, os demônios concluem que este mundo não passa de uma fantasmagoria e que tudo é irreal. Não diferenciando entre espírito e matéria, os demônios acreditam que a existência da alma está fora de cogitação. Perdidos em suas especulações alucinógenas, os demônios entregam-se a atividades sexuais promíscuas e condenam qualquer proposta de autocontrole ou restrição dos sentidos. Eles não possuem bom senso e vivem inventando novidades tecnológicas para aumentar o gozo dos seus sentidos, pois consideram que seus inventos infernais são sinais de progresso da civilização humana. Embora possuam poderes maravilhosos e, as vezes, até sobrenaturais para criar maravilhas materiais, as pessoas demoníacas são sempre elementos perturbadores da sociedade. Por exemplo, uma certa classe de cientistas criaram, por exemplo, as armas nucleares que têm causado um verdadeiro pânico na sociedade humana. Pérola 85. UMA CONDIÇÃO DE EXISTÊNCIA ABOMINÁVEL (versos 13 a 20) 13-15. O ser demoníaco pensa: “Tanta riqueza eu tenho hoje, e vou ganhar mais conforme meus planos. Tenho tanto agora e isto aumentará mais e mais no futuro. Matei esse meu inimigo, e meus outros inimigos também serão mortos. Eu sou o senhor de tudo. Eu sou o desfrutador. Sou perfeito, poderoso e feliz. Sou o homem mais rico, rodeado por parentes aristocráticos. Não há ninguém tão poderoso e feliz como eu. Executarei sacrifícios, farei alguma caridade, e com isso, ficarei contente”. Dessa maneira, eles são iludidos pela ignorância. 16. Assim perplexos diante de tantas ansiedades e presos numa rede de ilusões, eles se apegam demasiadamente ao gozo dos sentidos e caem no inferno. 17. Acomodados e sempre cínicos, deixando-se iludir pela riqueza e pelo falso prestígio, eles às vezes orgulhosamente executam sacrifícios apenas de nome, sem seguirem nenhuma regra ou regulação. 18. Confundidos pelo ego falso, força, orgulho, luxúria e ira, os demônios passam a invejar a Suprema Personalidade de Deus, que está em seus próprios corpos e nos corpos dos outros, e blasfemam contra a religião verdadeira. 19. Aqueles invejosos e canalhas, que são os mais baixos entre os homens, eu perpetuamente os arrojo no oceano da existência material, onde assumiram várias espécies de vida demoníaca. 20. Submetendo-se a repetidos nascimentos entre as espécies de vida demoníaca, ó filho de Kunti, tais pessoas jamais conseguem aproximar-se de Mim. Aos poucos, elas afundam-se na mais abominável condição de existência. Nascimento numa família importante, riqueza, beleza física e inteligência materiais são resultados das boas atividades executadas em vidas passadas. No entanto, ao obter tais qualidades materiais, a pessoa que está sob a influência do modo inferior da ignorância se torna intoxicada pelo orgulho material e acaba intensificando suas propensões demoníacas. Devido a este mesmo orgulho, o ser demoníaco acredita

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unicamente em seu próprio esforço e não admite nenhum arranjo da lei do karma por trás do resultado positivo de suas atividades atuais. Na verdade, está fora de sua capacidade compreender que tudo o que ele possui não passa do resultado de suas atividades passadas. O ser demoníaco possui um desejo incontrolável de obter cada vez mais dinheiro e, por este motivo, não hesita em agir de maneira ilegal, e não se preocupa em prejudicar os demais. Influenciado pela natureza demoníaca, o ser demoníaco está sempre absorto em pensamentos de “eu e meu”. Ele não aceita a presença da Superalma dentro de seu coração agindo como testemunha e permitidor supremo, pois acredita ser completamente independente. Quem é demoníaco, portanto, sentese livre para fazer qualquer coisa que lhe propicie gozo dos sentidos. Vivendo em função de seu desfrute material, ele considera que as pessoas que lhe ajudam a gratificar seus sentidos são amigos, enquanto que as pessoas que prejudicam seu gozo dos sentidos são inimigos e, como se afirma aqui, se tais inimigos se colocam como um empecilho na sua vida, ele não tem a menor hesitação em matá-los. Desse modo, os seres demoníacos têm muitos inimigos e, às vezes, podemos observar isto entre indivíduos, famílias, sociedades, nações etc. Em outras palavras, o desejo incontrolável de gozo dos sentidos explica a ausência de paz deste mundo. Características que se destacam nos seres demoníacos são suas qualidades de hipocrisia e cinismo. Por isto, as vezes observamos que tais seres assumem papéis de pregadores de religiões inventadas por eles mesmos e, como o propósito de explorar as pessoas inocentes, tornam-se peritos em espetáculos teatrais que, infelizmente, são considerados pelas pessoas tolas como verdadeiros princípios religiosos. Entretanto, em suas vidas pessoais, pode-se observar uma vida materialista e hedonista que ocupa o lugar do conhecimento transcendental e renúncia ao gozo pessoal dos sentidos, que são as verdadeiras qualidades da pessoa religiosa. Quando não são muito fanáticos e incisivos em exigir que todos sigam o caminho criado por eles, tais farsantes costumam propagar que todos podem seguir qualquer caminho que criarem; e que não existe um verdadeiro caminho a se seguir. Eles não têm a menor fé nas escrituras védicas e sempre se opõe a supremacia de Sri Krishna, a Pessoa Suprema. Mas, ainda assim, seu nascimento seguintes irá depender da decisão dessa Pessoa Suprema que aqui revela que os lançará no oceano abominável de existência material, obtendo formas inferiores e ainda mais demoníacas. Pérola 86. OS TRÊS PORTÕES QUE CONDUZEM AO INFERNO (versos 21 a 24) 21. Há três portões que conduzem a este inferno – a luxúria, a ira e a cobiça. Todo homem são deve afastar-se destes desvarios, pois eles conduzem à degradação da alma. 22. O homem que escapou a estes três portões do inferno, ó filho de Kunti, executa atos que conduzem à autorealização e aos poucos atinge o destino supremo. 23. Aquele que põe de lado os preceitos das escrituras e age conforme os próprios caprichos não alcança a perfeição, a felicidade nem o destino supremo supremo. 24. É Através das normas dadas nas escrituras que se deve, portanto, entender o que é dever e o que não é dever. Conhecendo essas regras e regulações, todos devem agir de modo a elevarem-se gradualmente. Depois de revelar qual o resultado final da vida do ser vivo sob a influência da natureza demoníaca, o Senhor aqui explica que os portões da luxúria, ira e cobiça representam a fase inicial desta situação abominável de existência. Como foi elaboradamente explicado no final do Capítulo Três, o ser vivo é originalmente pleno de conhecimento transcendental, mas ao interagir com a paixão material neste mundo, ele entra em contato com o seu maior e mais pecaminoso inimigo: a luxúria, a qual nunca se satisfaz. Na verdade, esta luxúria não passa do reflexo pervertido do sentimento puro de amor a Deus. No entanto, quando a alma cobiça possuir um corpo material, o Senhor dá-lhe permissão de habitar neste mundo e, como resultado, ele se vê influenciado pelo modo da paixão que transforma o seu sentimento original e puro de amor a Deus num desejo incontrolável de desfrutar do corpo material, o qual inclui os sentidos, a mente, a inteligência e ego materiais. Porém, quando a luxúria material não é satisfeita, a alma corporificada se vê sob a influência da ira que a mantém ainda mais enredada neste mundo material. Portanto, o Senhor Krishna recomenda a execução de atos que nos possa conduzir a auto-realização espiritual. Para isto, existem a escrituras védicas e suas regras e regulações que normatizam a vida humana e nos eleva, em última análise, à auspiciosa consciência de Krishna. Portanto, todo o método apresentados pela literatura védica visa elevar gradualmente o praticante do modo da ignorância para a paixão; da paixão para a bondade e, finalmente, da bondade material para a bondade espiritual – consciência de Krishna. Certamente, ao passar pelas diferentes fases de purificação, o seguidor védico consegue gradualmente abandonar as atividades pecaminosas e, naturalmente se distancia da luxúria, cobiça e ira, alcançando uma plataforma de vida pura, sob a influencia da bondade espiritual, quando a

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execução do serviço devocional se torna o centro de sua própria vida. Evidentemente, existem diversas regras e regulações recomendadas para as diferentes classes de pessoas, quer sejam elas chefes de família ou renunciados, simples trabalhadores ou intelectuais. Porém, considerando a grande dificuldade que as pessoas desta atual era de Kali têm para adotarem métodos purificatórios mais complexos, o Senhor Chaitanya, a encarnação misericordiosa do Senhor para esta era, veio facilitar o processo pedindo que todos se purificassem simplesmente cantando o maha-mantra Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare, Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare.

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CAPÍTULO XVII: As Divisões da Fé Pérola 87. AS TRÊS CATEGORIAS DE FÉ (versos 1 ao 4) 1. Arjuna perguntou: Ó Krishna, em que situação ficam aqueles que não seguem os princípios da escritura, mas adoram segundo sua própria imaginação? Estão eles em bondade, paixão ou ignorância? 2. A Suprema Personalidade de Deus disse: Conforme os modos da natureza adquiridos pela alma corporificada, sua fé pode ser de três espécies – na bondade, na paixão ou na ignorância. Agora ouça enquanto falo sobre isso. 3. Ó filho de Bharata, conforme sua existência sob os vários modos da natureza, o homem desenvolve determinada espécie de fé. Conforme os modos com os quais conviveu, o ser vivo tem uma fé específica. 4. Os homens no modo da bondade adoram os semideuses; aqueles que estão no modo da paixão adoram os demônios; e aqueles que vivem no modo da ignorância adoram fantasmas e espíritos. No final do capítulo anterior, o Senhor deixou claro que as pessoas de natureza demoníacas podem se libertar da situação abominável que se encontram, seguindo os métodos prescritos nas escrituras védicas com fé e convicção. No entanto, a fé específica de cada um depende do resultado acumulado das atividades que a pessoa executou em muitas vidas prévias, o que também define a influência específica que ela receberá dos modos da natureza material. Considerando tudo isto, Arjuna no início deste capítulo levanta uma importante questão. Ela quer saber qual a posição das pessoas que não têm conhecimento perfeito e que não seguem os princípios das escrituras védicas, mas, com boa intenção, executa um tipo de adoração criado por elas mesmas. Elas poderão alcançar a perfeição da vida? Tal adoração está na ignorância, paixão ou bondade? Em resposta a esta inteligente pergunta, o Senhor Krishna apresenta este Décimo Sétimo Capítulo. Ficou bastante claro que o ser vivo tem se associado com a natureza material por muitas vidas e, conforme esta associação, ele desenvolve uma mentalidade específica sob a influência dos modos da natureza material. No entanto, com a associação de pessoas iluminadas em conhecimento védico, especialmente com um mestre espiritual auto-realizado, tanto sua natureza quanto sua mentalidade poderão mudar, e ele poderá avançar em qualidades divinas e espirituais e recuperar sua natureza constitucional, a qual é completamente transcendental a influência dos três modos da natureza material. Uma vez situado nesta posição transcendental, costuma-se dizer que tal pessoa está em bondade pura, ou bondade espiritual, estando assim purificada e qualificada para compreender a verdadeira natureza da Suprema Personalidade de Deus. De outro modo, sob a influência da ignorância, paixão ou mesmo bondade material, a pessoa manifestará um tipo de fé sujeita a contaminação do modo (ou, dos modos) da natureza que a está exercendo influência. Por isso, existem diferentes espécies de fé e, conseqüentemente, diferentes classes de religião correspondentes aos modos materiais da natureza. Embora a Suprema Personalidade de Deus seja o verdadeiro e perfeito objeto de fé e o objeto máximo de adoração, ainda assim, a grande maioria das pessoas, estando contaminados pelos modos da natureza material, não pode compreender e aceitar este fato. Sob a influência do modo da bondade, as pessoas geralmente adoram os semideuses, tais como Shiva, Indra, Surya etc., em troca de benefícios pessoais. O modo da paixão induz a pessoa a adorar seres humanos demoníacos, tais como políticos poderosos, militares ou mesmo artistas e esportistas; e, finalmente, no modo da ignorância, se executa adoração aos seres fantasmagóricos e maus espíritos. Pérola 88. AUSTERIDADES E PENITÊNCIAS DEMONÍACAS (versos 5 a 6) 5-6. Aqueles que se submetem a rigorosas austeridades e penitências não recomendadas nas escrituras, executando-as por orgulho e egoísmo, que são impelidos pela luxúria e apego, que são tolos e que torturam os elementos materiais do corpo bem como a Superalma que mora no interior deste, devem ser conhecidos como demônios. Os homens demoníacos pensam que, ao criarem suas próprias austeridades e penitência, conseguirão fazer com seus inimigos ou adversários sejam conquistados e, sob a influência da ignorância e paixão mundanas, praticam a autotortura. Porém, as escrituras védicas não recomendam austeridades ou penitências para a obtenção de propósitos de interesses pessoais. A prática de jejum é um bom exemplo disto, pois o seu verdadeiro propósito é a purificação e o avanço espiritual, e nunca deve ser utilizada para um fim político ou interesse social. Além disso, as escrituras nos orientam que a prática de jejum deve ser executada em dias específicos e sob certas condições auspiciosas e não quando se bem entenda. Portanto, o jejum que não visa exclusivamente o avanço espiritual e que não é normatizado pelas escrituras é uma

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verdadeira perturbação para a sociedade e é uma prática característica dos demônios. Além de insultar a Personalidade de Deus, o compilador dos Vedas, o jejum não recomendado nas escrituras, perturba a Superalma que habita o corpo. Pérola 89. AS TRÊS CLASSES DE SACRIFÍCIOS E ALIMENTOS (versos 7 a 13) 7. Mesmo o alimento que cada pessoa prefere é de três espécies, conforme os três modos da natureza material. O mesmo se aplica aos sacrifícios, às austeridades e à caridade. Agora ouça enquanto falo sobre as distinções que há entre eles. 8. Os alimentos apreciados por aqueles que estão no modo da bondade aumentam a duração da vida, purificam a existência e dão força, saúde, felicidade e satisfação. Semelhantes alimentos são suculentos, gordurosos, saudáveis e agradáveis para o coração. 9. Alimentos que são muito amargos, muito acres, salgados, quentes, picantes, secos e ardentes são apreciados por quem está no modo da paixão. Tais alimentos causam sofrimento, miséria e doença. 10. Alimento preparado mais do que três horas antes de ser ingerido, alimento insípido, decomposto e putrefato, e alimento que consiste em refugos e substâncias intocáveis atrai aqueles que estão no modo da escuridão. 11. Dos sacrifícios, é da natureza da bondade o sacrifício que por uma mera questão de dever é executado conforme as direções das escrituras por aqueles que não desejam nenhuma recompensa. 12. Mas deves saber que o sacrifício executado em troca de algum benefício material, ou por causa do orgulho, ó principal dos Bharatas, está no modo da paixão. 13. Considera-se que todo sacrifício executado sem que se levem em consideração as direções das escrituras, sem que se distribua prasadam (alimento espiritual), sem que se cantem os hinos védicos, sem que se remunerem os sacerdotes e sem que se tenha fé, está no modo da ignorância. A alimentação exerce uma influência definitiva nas pessoas, por isso, os Vedas prescrevem a alimentação perfeita para que se possa, através dela, avançar rumo ao caminho da auto-realização espiritual. Evidentemente, a alimentação adequada é aquela que está sob a influência do modo da bondade, pois além de aumentar a duração da vida e dar força ao corpo, o alimento no modo da bondade purifica a mente, e, uma vez logrando-se a purificação da mente, pode-se mais facilmente exercer controle sobre ela. A alimentação no modo da bondade, portanto, não visa o mero gozo do sentido da língua de um modo inconseqüente. A pessoa no modo da bondade regula a qualidade e a quantidade da sua alimentação e não cai vítima dos ditames da língua. Sua alimentação básica são os grãos integrais, frutas, vegetais e os produtos lácteos, os quais fornecem a gordura animal e eliminam a prática subumana e abominável da matança dos animais. Uma consideração igualmente importante é a consciência na qual se prepara o alimento, pois o estado de consciência da pessoa no momento do preparo é, até certo ponto, transmitido para a alimentação. Para que, portanto, a alimentação seja pura e cumpra seus verdadeiros propósitos, a pessoa de estar com seu corpo limpo externamente e com sua mente pura, absorta em pensamentos divinos – isso é o modo da bondade. No entanto, existe o alimento transcendental, ou seja, o alimento em bondade pura. Este alimento é considerado o alimento supremo e é conhecido como prasadam, a misericórdia do Senhor. Quando a pessoa preparar o alimento não para seu próprio gozo dos sentidos, mas para comprazer o Supremo e segue o padrão puro de alimentação estabelecido na literatura védica (isto é, não utiliza carnes, peixes, ovos ou bebidas alcoólicas) e, ao mesmo tempo, oferece-o com devoção ao Senhor, tal alimento torna-se completamente transcendental e, além de extremamente saboroso e apreciável por todos, fonte de grande inspiração espiritual e purificação mental. O ideal é que a pessoa absorva-se em cantar o maha-mantra Hare Krishna enquanto cozinha, pois isto ajudará a pessoa a ter sua mente limpa e controlada. Ao contrário da alimentação no modo da bondade que produz saúde ao corpo, os alimentos no modo da paixão causam sofrimento e, posteriormente, doenças. Tais alimentos são picantes e apimentados, exageradamente salgados e muito amargos. Apesar disto, quando não são misturados com as substâncias abomináveis do modo da ignorância (especificamente, carne, peixes e ovos) eles podem ser purificados e oferecidos ao Senhor, tornando-se prasadam, pois dependendo da condição física de uma determinada pessoa, as vezes tais alimentos agem como remédios. No entanto, os alimentos no modo da ignorância devem ser considerados intocáveis, tais como a carne animal e as bebidas alcoólicas. Basicamente, os alimentos no modo da ignorância nunca são frescos, exalam mau odor, estão num estado de decomposição e, por isto, exercem uma péssima influência para aqueles que o ingerem, aumentando ainda mais sua propensão às atividades influenciadas pela ignorância. Aqui também se faz menção dos diferentes modos que se executa sacrifícios. Basicamente, a pessoa no modo da bondade executa sacrifício sem esperar alguma recompensa material. Ela possui fé no Senhor e

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executa os deveres religiosos encontrados nas escrituras que foram adotadas por ela. Independente do resultado, tal pessoa civilizada visita o templo ou a igreja de uma forma discreta e faz sua adoração regulada ao Senhor de maneira respeitosa e honesta. No entanto, no modo da paixão, a pessoa também adora o Senhor, mas não possui desapego. Tal pessoa invertem sua posição com a posição de Deus. Em outras palavras, ela quer que Deus a sirva e está sempre à espera de promoções materiais. No modo da paixão, tem-se muito orgulho de ter-se adotado uma posição religiosa e busca-se prestígio com isto e, na maioria dos casos, o modo da paixão faz com que a pessoa aja de modo sentimental ou fanático. No modo da ignorância, a situação ainda é pior. Neste caso, o executor de sacrifício age segundo sua própria determinação, pois não aceita (e, muito menos, segue) a direção de nenhuma escritura. Executado sem nenhuma fé, tais sacrifícios são típicos das pessoas no modo da ignorância. Pérola 90. AS AUSTERIDADES DO CORPO, DA MENTE E DA FALA (versos 14 a 19) 14. A austeridade do corpo consiste em adorar o Senhor Supremo, os brahmanas, o mestre espiritual e os superiores, tais como o pai e a mãe, e em limpeza, simplicidade, celibato e nãoviolência. 15. A austeridade da fala consiste em proferir palavras verazes, agradáveis, benéficas e que não perturbam aos outros, e também em recitar regularmente a literatura védica. 16. E satisfação, simplicidade, gravidade, autocontrole e purificação da existência são as austeridades da mente. 17. Estas três espécies de austeridade, executadas com fé transcendental por quem não espera benefícios materiais mas que atua apenas por amor ao Supremo, chamam-se austeridades em bondade. 18. Afirma-se que a penitência executada por orgulho e com o intuito de ganhar respeito, honra e adoração está no modo da paixão. Não é estável nem permanente. 19. Penitência executada por tolice, com autotortura ou visando a destruir ou ferir os outros se diz que está no modo da ignorância. O verdadeiro propósito das austeridades é afastar a pessoa gradualmente de uma vida desregulada de gozo dos sentidos e, para que isto seja possível, o Senhor aqui enfatiza a importância das austeridades do corpo, da mente e da fala. Deve-se, portanto, utilizar o corpo especialmente para se prestar respeito ao Senhor e aos Seus representantes, tais como os brahmanas, o mestre espiritual e os nossos pais. Quanto ao respeito aos pais, isto é mais do que óbvio, já que sem a união deles, o nosso corpo não existiria. No entanto, a obtenção de um corpo físico é só o começo, pois tem-se que submeter ao segundo nascimento, que é dado pelo mestre espiritual, ou guru, através da iniciação espiritual. Sem aceitar a iniciação de um mestre espiritual, não se torna possível um cultivo perfeito de conhecimento e não se pode sair da plataforma material de existência. Portanto, com respeito e consideração, deve-se oferecer respeitos e reverências ao mestre espiritual e vê-lo como um importante representante de Deus. Os sacerdotes brahmanas são a classe de pessoas sob a influência da bondade e se responsabilizam também pela disseminação do conhecimento védico, por isto sua função é altamente respeitável. No corpo social, eles representam a cabeça da sociedade e é dito que o Senhor ministra instruções através das bocas dos brahmanas. O modo de adoração a Deus mais adequado para esta era de Kali é o canto constante dos Seus santos nomes, especialmente o canto do maha-mantra Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare, Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare que limpa o coração de toda a poeira do materialismo que se acumulou em nossos corações por vidas. Simplicidade significa que não se deve perder tempo com a obtenção desnecessária de diferentes parafernálias para o gozo dos sentidos. Devemos executar nosso dever da melhor maneira possível e não se deixar levar pela expectativa de resultados positivos. Deve-se, portanto, depender da misericórdia do Senhor. O corpo material está sempre exigindo gozo dos sentidos, especialmente o prazer sexual. No entanto, para uma pessoa que aceita a auto-realização espiritual como a meta da vida, tal prazer sexual é considerado um verdadeiro empecilho por que intensifica a identificação com o corpo material. O ideal é uma vida de castidade, livre de atividades sexuais. Mas também aceita-se a hipótese de uma vida de celibato, onde a vida sexual é permitida dentro de um casamento com o propósito de estabelecer uma família pura em consciência de Krishna, pois o casamento verdadeiramente religioso presta-se a regular a mente para outorgar a paz necessária para o avanço espiritual. A tendência da fala é muito forte e o seu bom ou mau uso produz resultados diferentes como, por exemplo, construir ou destruir amizades, inspirar ou desmotivar pessoas e, finalmente, iluminá-las ou obscurecê-las. Por isso, o Senhor aqui faz menção da importância da austeridade da fala. O mais importante é praticar a veracidade falando apenas aquilo que se encontra nas escrituras autorizadas. Por este motivo, compreende-se que, antes mesmo de falar, a pessoa tem que praticar a austeridade de ouvir de fontes autorizadas e, ao mesmo tempo, não dar sua própria interpretação baseada em interesses pessoais. A pessoa deve ser cautelosa em não agitar a mente dos outros, prejudicando o processo natural

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de avanço espiritual que cada um se encontra e, além disso, deve se preocupar em apresentar as coisas de uma forma agradável e doce. A mente deve ser treinada para ser uma aliada à pessoa no processo de purificação da consciência de Krishna. Para isto, é importante que se busque satisfação espiritual nas atividades da consciência de Krishna, evitando ao máximo o gozo mundano dos sentidos. Evidentemente, a mente está sempre interessada em prazer. Mas, devemos aprender a manter a mente satisfeita com um modo de vida simples, cultivando pensamentos elevados, pois faz parte do conhecimento espiritual a percepção de que, quanto mais nos absorvermos em gozo dos sentidos, mais nossa mente ficará insatisfeita. A vida moderna é um exemplo adequado para isto, onde criou-se um sem fim de objetos para o prazer dos sentidos. No entanto, as mentes dos homens modernos estão mais insatisfeitas e descontroladas do que nunca. A conclusão é que devemos executar todas estas austeridades (do corpo, da fala e da mente) para progredirmos em consciência espiritual e, assim, alcançarmos resultados permanentes. De outro modo, mesmo estas austeridades serão inúteis no que diz respeito ao progresso espiritual, caso sejam executadas por uma questão de orgulho, materialmente motivadas ou com interesses demoníacos. Pérola 91. AS TRÊS CLASSES DE CARIDADES (versos 20 a 22) 20. A caridade dada por dever, sem expectativa de recompensa, no local e hora apropriados e dada a alguém digno, está no modo da bondade. 21. Mas a caridade executada com expectativa de alguma recompensa, ou com desejo de resultados fruitivos, ou com má vontade, diz-se que é caridade no modo da paixão. 22. E a caridade executada em lugar impuro, em hora imprópria e feita a pessoas indignas ou sem a devida atenção e respeito diz-se que está no modo da ignorância. A caridade é uma prática importante e saudável e pode nos ajudar muito no processo de auto-realização. No entanto, é preciso aprender a praticá-la com completa discriminação. O ideal é praticar a caridade para as pessoas renunciadas, pelo prazer de vê-las ocupadas exclusivamente no serviço devocional ao Senhor. Além disso, tal caridade deve estar isenta de expectativa de recompensa pessoal, pois esta atitude caracteriza o modo da paixão. Existem vários lugares sagrados de peregrinação e geralmente é lá que encontramos as pessoas adequadas para receberem caridade. Por outro lado, a caridade feita aos brahmanas e vaishnavas sempre é recomendada, pois, devido a suas ocupações espirituais constantes, suas presenças auspiciosas transformam qualquer lugar mundano em um lugar de peregrinação. A execução de caridades em troca de elevação aos planetas celestiais superiores ou em troca de resultados fruitivos não é recomendada nas escrituras e também nunca se deve executar austeridades apenas por ordem de alguém ou com má vontade. Fazer doações à pessoas ocupadas no gozo dos sentidos e em atividades pecaminosas é ignorância e não é benéfica nem para quem executada tal caridade, nem para quem a recebe. Pelo contrário, torna-se um estímulo para o incremento de mais atividades pecaminosas. O ideal, portanto, é executar caridades para os devotos do Senhor ocupados em propagar Suas glórias. Neste caso, o resultado se torna absolutamente positivo e toda a sociedade ganha com isto. Na verdade, a caridade espiritual é considerada a atividade mais auspiciosa para um ser humano, através da qual pode-se distribuir literatura transcendental, alimento espiritual, prasadam, ou os santos nomes do Senhor, especialmente o maha-mantra Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare, Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare. Neste caso, pode-se distribuir tais caridades em quantidades profusas, e sem a menor discriminação quanto a qualificação dos recebedores, pois trata-se de um conceito diferente, baseado no sentimento transcendental de compaixão e misericórdia a todos os seres vivos. Pérola 92. AS PALAVRAS SAGRADAS “OM TAT SAT” (versos 23 a 28) 23. Desde o começo da criação, as três palavras “om tat sat” foram usadas para indicar a Suprema Verdade Absoluta. Estas três representações simbólicas eram usadas pelos brahmanas enquanto cantavam os hinos dos Vedas e durante os sacrifícios que eles executavam para a satisfação do Supremo. 24. Portanto, para alcançar o Supremo, os transcendentalistas, empreendendo a execução de sacrifícios, caridade e penitências conforme as regulações das escrituras, inicialmente sempre pronunciam o om. 25. Com a palavra tat, deve-se executar várias espécies de sacrifício, penitência e caridade sem desejar resultados fruitivos. O propósito dessas atividades transcendentais é livrar-se do enredamento material. 26-27. A Verdade Absoluta é o objetivo do sacrifício devocional, e é indicada pela palavra sat. O executor deste sacrifício também é chamado “sat”, assim como o são todas as obras de

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sacrifício, penitência e caridade que, em harmonia com a natureza absoluta, são executadas para agradar à Pessoa Suprema, ó filho de Pritha. 28. Tudo aquilo que é feito como sacrifício, caridade ou penitência sem fé no Supremo, ó filho de Pritha, é impermanente. Chama-se asat e é inútil tanto nesta vida quanto na próxima. Estas três palavras, om tat sat, são freqüentemente encontradas nos hinos védicos e se referem especialmente a Verdade Absoluta, a Suprema Personalidade de Deus. Desse modo, depois de explicar as diferentes divisões da fé baseadas nas características dos três modos da natureza, aqui o Senhor conclui que as austeridades, penitências, caridades, etc., devem ser oferecidas a om tat sat, ou seja, à Pessoa Suprema, para se estabelecerem no modo da bondade espiritual, além de qualquer influência na energia material ilusória. Mesmo o senhor Brahma, o primeiro criatura do universo, ao executar sacrifícios pronunciou estas três palavras sagradas para indicar que a meta de seus esforços era satisfazer a Divindade Suprema. Estas três palavras são pronunciadas para invocar o Senhor Supremo e se referem aos seus santos nomes. Desse modo, na literatura védica acrescenta-se o primeiro objetivo om quando se pronuncia um hino védico ou o santo nome do Senhor Supremo como, por exemplo, o mantra, om namo bhagavate vasudevaya: “Reverências a Suprema Personalidade de Deus Onipresente”. A palavra tat indica que, como segundo objetivo, devemos oferecer todos os nossos esforços ao Senhor, caso queiramos nos livrar de todo enredamento material. Finalmente, através da palavra sat, o terceiro objetivo fica ainda mais claro: somente o Senhor é o objeto de nosso sacrifício. A conclusão é que devemos executar nossas atividades em nome da Suprema Personalidade de Deus: om tat sat e entrarmos em harmonia com a natureza absoluta garantindo, assim, a perfeição em todas as nossas atividades. Para aperfeiçoar completamente nossa vida, coroando nossos esforços de verdadeiro êxito, devemos sempre vibrar om tat sat pois, tudo que é feito sem buscar a satisfação do Senhor, quer seja caridade, sacrifício, etc., produz um resultado sem o menor valor espiritual, tanto para esta vida quanto para a próxima.

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CAPÍTULO XVIII: A Perfeição da Renúncia Pérolas 93. O PROPÓSITO DA RENÚNCIA (versos 1 a 6) 1. Arjuna disse: Ó pessoa de braços poderosos, desejo compreender o propósito da renúncia e da ordem de vida renunciada (sannyasa), ó matador do demônio Keshi, Senhor dos sentidos. 2. A Suprema Personalidade de Deus disse: A renúncia a atividades que se baseiam no desejo material é o que os grandes eruditos chamam de ordem de vida renunciada (sannyasa). E abdicar os resultados de todas as atividades é o que os sábios chamam de renúncia (tyaga). 3. Alguns homens instruídos declaram que todas as espécies de atividades fruitivas devem ser abandonadas porque são defeituosas, mas outros sábios argumentam que os atos de sacrifício, caridade e penitência jamais devem ser abandonados. 4. Ó melhor dos Bharatas, agora ouça o que tenho a dizer sobre a renúncia. Ó tigre entre os homens, as escrituras afirmam que há três categorias de renúncia. 5. Os atos de sacrifício, caridade e penitência não devem ser abandonados, ma sim executados. Na verdade, sacrifício, caridade e penitência purificam até as grandes almas. 6. Todas essas atividades devem ser executadas sem apego nem expectativa alguma de resultado. Elas devem ser executadas por uma simples questão de dever, ó filho de Pritha. Esta é Minha opinião final. Em todos os capítulos do Bhagavad-gita, o Senhor dá importância especial ao processo de serviço devocional e agora, neste capítulo, encontramos o resumo de toda esta ciência devocional. Desse modo, como não podia deixar de ser, as instruções finais do Bhagavad-gita concentram-se em torno do tema da verdadeira renúncia. Em outras palavras, com exceção das atividades da consciência de Krishna, deve-se abandonar todo e qualquer interesse por resultados mundanos. Por isto, se menciona aqui que tanto os sacrifícios, quanto as caridades e penitências que purificam o coração nunca devem ser abandonados, pois eles produzem avanço espiritual devendo ser praticados em todas as fases da vida. É importante entender que, embora as opiniões sobre o tema da renúncia se diferem bastante, aqui a própria Suprema Personalidade de Deus dá Seu parecer, o qual deve ser considerado por nós como definitivo. A conclusão é que deve-se estimular qualquer caridade, austeridade ou penitência que possa conduzir uma pessoa direta ou indiretamente à consciência de Krishna e este é o critério mais elevado e mais objetivo de ocupação religiosa. Pérolas 94. COMO PRATICAR A RENÚNCIA (versos 7 a 13) 7. Nunca se deve renunciar aos deveres prescritos. Se, por causa da ilusão, alguém renuncia a seus deveres prescritos, diz-se que semelhante renúncia está no modo da ignorância. 8. Todos que abandonaram seus deveres prescritos por serem problemáticos ou por medo de desconforto físico renunciaram sob a influência do modo da paixão. Tal ato jamais conduz à elevação decorrente da renúncia. 9. Ó Arjuna, quando alguém executa seu dever prescrito só porque deve ser feito, e renuncia a toda a associação material e a todo o apego ao fruto, diz-se que sua renúncia está no modo da bondade. 10. O renunciante inteligente, situado no modo da bondade, que não detesta o trabalho inauspicioso nem se apega ao trabalho auspicioso, não tem nenhuma dúvida sobre o trabalho. 11. De fato, é impossível para um ser corporificado renunciar a todas as atividades. Mas quem renuncia aos frutos da ação é que renunciou de verdade. 12. Para quem não é renunciado, as três espécies de frutos da ação – desejáveis, indesejáveis e mistos – germinam após a morte. Mas aqueles que estão na ordem de vida renunciada não experimentam este resultado sob a forma de sofrimento e prazer. Renunciar no modo da ignorância significa renunciar os deveres prescritos. Por exemplo, os pais de uma criança têm o dever de protegê-la e educá-la material e espiritualmente, mas caso esteja no modo da ignorância, os pais se tornam irresponsáveis e deixam de cumprir este importante compromisso. Tal renúncia está no modo da escuridão. A pessoa sob a influência da paixão é muito instável. As vezes, quando a situação lhe é conveniente, a pessoa apaixonada dedica-se entusiasticamente ao cumprimento de seus deveres. Mas, quando a situação se torna difícil, problemática ou desconfortável, ela tem a tendência de abandoná-los. Isto é um exemplo típico de renúncia influenciada pela paixão. Mas, o Bhagavad-gita nos ensina o tempo que devemos agir com conhecimento perfeito, executando nossos diferentes deveres o melhor possível e, ao mesmo tempo, nos mantendo desapegados do resultado final. Essa é a característica do modo da bondade. Tal pessoa mantém-se estável o tempo todo, independente das diferentes situações externas que possam surgir. Se a

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situação se torna desfavorável, por exemplo, ela não age de má vontade ou fica se lamentando ou resmungando. E quando as condições favoráveis se apresentam, ela tampouco se sente excessivamente jubilosa. Sua inteligência é pura e nunca se altera devido às condições externas. Como o Senhor Krishna já havia explicado no Capítulo Três, Ele aqui novamente enfatiza que ninguém consegue livrar completamente da ação. Desse modo, a idéia de renunciar a todo tipo de trabalho é falsa e imprática. Na verdade, em vez de abandonar o trabalho em nome da assim chamada renúncia, deve-se abandonar, isso sim, o fruto do trabalho. A idéia é que executando o trabalho da melhor maneira possível e, ao mesmo tempo, oferecendo o fruto ao Senhor, atinge-se a plataforma pura e perfeita da renúncia. Isto irá manter uma pessoa livre do compromisso de permanecer neste mundo material, ou seja, livre do desfrute ou sofrimento dos resultados dos seus atos. Pérola 95. DIFERENTES CAUSAS DA AÇÃO (versos 13 a 18) 13. Ó Arjuna de braços poderosos, segundo o Vedanta existem cinco causas que levam à concretização de todos os atos. Agora ouça enquanto falo sobre isto.14. O lugar onde ocorre a ação (o corpo), o executor, os vários sentidos, as muitas diferentes espécies de esforço e, por fim, a Superalma – estes são os cinco fatores da ação. 15. Qualquer ação certa ou errada que um homem execute através do corpo, da mente ou da fala é causada por estes cinco fatores. 16. Portanto, aquele que se considera o único executor e não leva em consideração os cinco fatores com certeza não é muito inteligente e não pode perceber as coisas como elas são. 17. Aquele que não é motivado pelo ego falso, cuja inteligência não está enredada, embora mate homens neste mundo, não mata. Tampouco fica preso a suas ações. 18. O conhecimento, o objeto do conhecimento e o conhecedor são os três fatores que motivam a ação; os sentidos, o trabalho e o autor são os três constituintes da ação. Aqui o Senhor cita a filosofia Vedanta para explicar sobre as cinco causas que determinam uma ação. Compreendendo-as, pode-se obter sucesso em todo tipo de atividade. O corpo onde a alma habita é conhecido como o lugar onde ocorre a ação e a alma que está vivendo temporariamente nele é chamada de executora. A alma também utiliza os diferentes sentidos como seus instrumentos de ação, por isso, os sentidos são também um importante fator. Ao mesmo tempo, o grau de esforço ou desempenho durante qualquer atividade tem sua importância, mas, finalmente, a vontade da Superalma é certamente o fator determinante mais decisivo. O que se chama comumente de consciência de Krishna significa simplesmente agir sob a direção da Superalma, A qual que habita no coração do ser vivo como o amigo mais bondoso. Agindo-se, desse modo, sob Sua direção transcendental, a pessoa nunca se prende a nada, pois ela se livra do risco de agir sob sua própria responsabilidade. Uma pessoa desprovida de conhecimento espiritual não compreende a presença da Superalma no coração dos seres vivos e, por isso, nunca poderá agir corretamente. Na verdade, ela se julga o autor de suas próprias atividades e é sempre motivado pelo ego falso. Aqui também se explica que existem três fatores que motivam a ação: o conhecimento, o objeto do conhecimento e o conhecedor; e os três fatores que constituem a ação: os sentidos, o trabalho e o autor. O conhecedor é a pessoa que, de algum modo, obteve algum tipo de conhecimento e, desse modo, estabeleceu um objetivo em particular. Assim, ele passa a agir com a ajuda de seus sentidos. Quando a pessoa é iluminada pelo conhecimento transcendental, ela e torna um verdadeiro conhecedor da verdade e seus objetivos são espirituais. Desse modo, ele passa a agir sob a guia da Superalma e seus sentidos permanecem sob completo controle tornando-o um instrumento do Senhor, e não um simples autor egoísta. Pérola 96. AS TRÊS CLASSES DE CONHECIMENTO (versos 19 a 22) 19. Conforme os três diferentes modos da natureza material, há três classes de conhecimento, ação e executor da ação. Agora ouça enquanto falo sobre elas. 20. Você deve compreender que está no modo da bondade aquele conhecimento com o qual se percebe uma só natureza espiritual indivisa em todas as entidades vivas, embora elas se apresentem sob inúmeras formas. 21. Você deve entender que está no modo da paixão aquele conhecimento com o qual se vê em cada corpo diferente um diferente tipo de entidade viva. 22. E diz-se que está no modo da ignorância aquele conhecimento pelo qual alguém se apega a um tipo específico de trabalho como tudo o que existe, sem ter a compreensão da verdade, além de ser muito escasso.

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Como podemos constatar, os três modos da natureza material estão sempre interagindo com os seres vivos em todos os seus momentos, lugares e circunstâncias. A pessoa no modo da bondade, por exemplo, desenvolve verdadeiro conhecimento e desenvolve uma visão equânime. Em outras palavras, ela pode reconhecer a presença da mesmíssima qualidade da alma espiritual em todos os diferentes seres. Isto significa que, independente da espécie na qual um ser vivo possa estar vivendo temporariamente, quer esteja ele num vegetal, inseto, réptil, aquático ou humano, a alma é da mesma qualidade e, ao mesmo tempo, possui sua individualidade eterna. No entanto, sob a influência do modo da paixão, a pessoa acredita que, mesmo que exista a alma, elas são de diferentes qualidades. Em outras palavras, ela acha que as almas que habitam os seres inferiores são diferentes daquilo que ela chama de “almas humanas”. Infelizmente, esta filosofia influenciada pela paixão serve muitas vezes para justificar uma mentalidade violenta e predatória contra seres vivos inocentes. Na ignorância, a situação ainda é pior, pois a pessoa nem sequer acredita na existência da alma. Na verdade, o dito conhecimento de uma pessoa no modo da ignorância é inútil, pois gira em torno simplesmente de seus confortos físicos e satisfações corpóreas grosseiras. Pérola 97. A AÇÃO E SUAS DIVISÕES (versos 23 a 25) 23. Diz-se que está no modo da bondade aquela ação que é regulada e que se executa sem apego, sem amor nem repulsa e sem desejo de resultados fruitivos. 24. Mas a ação executada com grande esforço por alguém que busca satisfazer seus desejos, e efetuada por causa de uma sensação de ego falso, chama-se ação no modo da paixão. 25. A ação executada em ilusão, que não leva em conta os preceitos das escrituras, e em que não há preocupação com cativeiro futuro ou com violência ou sofrimento causados aos outros diz-se que está no modo da ignorância. A influência exercida pelos três modos da natureza nas diferentes ações dos seres vivos é também muito forte. O executor da ação sob a influência da bondade, por exemplo, se caracteriza pela sua estabilidade. Agindo impulsionado pelo desejo de comprazer o Senhor, o executor da ação na bondade executa seu dever da melhor maneira possível. Além disso, seus hábitos de vida são regulados pelas escrituras e, embora seja uma pessoa paciente e tolerante, sua determinação é firme e constante. No modo da paixão, o executor é movido pelo desejo de lucro e resultados materiais pessoais e suas ações são empreendidas com um esforço exagerado causando uma grande sensação de ego falso. E, no modo da ignorância, as ações são ilusórias e não fazem o menor sentido. Tais ações não estão sob a direção de nenhuma escritura religiosa autorizada e é sempre inconsequente e prejudicial. Além disso, no modo da ignorância existe uma forte tendência de agindo violentamente e causando sofrimentos às pessoas alheias. Como foi falado diversas vezes, o devoto do Senhor, no entanto, é transcendental aos modos da natureza material. Estando acima do ego falso e orgulho materiais, o devoto age com pureza. As dificuldades podem surgir a qualquer momento, porém, no êxito ou no fracasso; no sofrimento ou na felicidade, ele entrega os resultados ao Senhor e continua feliz e satisfeito cantando Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare, Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare. Pérola 98. O EXECUTOR E SUAS DIVISÕES (versos 26 a 28) 26. Aquele que executa seu dever sem entrar em contato com os modos da natureza material, sem ego falso, com grande determinação e entusiasmo, e sem se deixar levar pelo sucesso ou pelo fracasso diz-se que é um trabalhador no modo da bondade. 27. O trabalhador que se apega ao trabalho e aos frutos do trabalho, desejando gozar esses frutos, e que é cobiçoso, sempre invejoso, impuro e que se deixa afetar pela alegria e tristeza, diz-se que está no modo da paixão. 28. O trabalhador que sempre está ocupado em trabalho que vai de encontro aos preceitos das escrituras, que é materialista, obstinado, trapaceiro e perito em insultar os outros, e que é preguiçoso, sempre desanimado e irresoluto diz-se que é um trabalhador no modo da ignorância. A determinação e o entusiasmo firme e constante são características evidentes do modo da bondade. Além disso, no modo da bondade o trabalhador é sempre imperturbável, devido a ausência de luxúria e cobiça. Ainda assim, o trabalhador na bondade tem seu programa de trabalho regulado, pois não utiliza seu valioso tempo só para o trabalho. Ele reserva parte de seu tempo para cultivar conhecimento e para se dedicar a auto-realização espiritual. No modo da paixão, o trabalhador manifesta características diferentes. Sob sua influência, o trabalhador

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no modo da paixão se apega exageradamente ao seu trabalho como se fosse a coisa mais importante da vida. Na verdade, o seu tempo todo é utilizado para o trabalho e ele mal tem tempo para comer e descansar em paz. Sendo um materialista obstinado, o trabalhador na paixão se apega aos filhos e esposa além do limite prescrito pelas escrituras, mas, ainda assim, tem pouco tempo para se associar com eles. Ele possui uma forte tendência a invejar os outros trabalhadores que são mais bem sucedidos economicamente do que ele, ou que tenham um maior padrão de conforto. Isso geralmente o leva a buscar dinheiro através de meios ilegais e ilícitos. O trabalhador na ignorância é o mais tolo entre todos e, apesar de também ser materialista, ele está geralmente desanimado e sob a influência da preguiça, e sua determinação é completamente fraca. Ele não possui o menor interesse de conhecer e seguir as escrituras religiosas, pois é uma pessoa obstinada e ofensiva aos demais. Como se não bastasse, além dessas más qualidades, o trabalhador no modo da ignorância se atrai por trabalho sujo e nunca perde uma oportunidade para enganar os outros, fazendo trapaças para agir satisfazer os seus desejos mundanos. Pérola 99. A DIVISÃO DA COMPREENSÃO E DA DETERMINAÇÃO (versos 29 a 35) 29. Ó conquistador de riquezas, agora por favor ouça enquanto lhe falo pormenorizadamente sobre as diferentes espécies de compreensão e determinação, segundo os três modos da natureza material. 30. Ó filho de Pritha, esta compreensão pela qual se sabe o que deve ser feito e o que não deve ser feito, o que se deve temer e o que não se deve temer, o que prende e o que liberta, está no modo da bondade. 31. Ó filho de Pritha, a compreensão que não pode distinguir entre religião e irreligião, entre ação que deve ser feita e ação que não deve ser feita, está no modo da paixão. 32. A compreensão que considera a irreligião como religião e a religião como irreligião, que age sob o encanto da ilusão e da escuridão e se esforça sempre na direção errada, ó Partha, está no modo da ignorância. 33. Ó filho de Pritha, a determinação que é inquebrantável, que através da prática de yoga ganha muita firmeza e controla então as atividades da mente, vida e sentidos, é determinação no modo da bondade. 34. Mas a determinação pela qual o homem se atem aos resultados fruitivos da religião, do desenvolvimento econômico e do gozo dos sentidos é da natureza da paixão, ó Arjuna. 35. E a determinação que não pode transpor o sonho, o medo, a lamentação, a melancolia e a ilusão – tal determinação ininteligente, ó filho de Pritha, está no modo da escuridão. A determinação de uma pessoa em executar um determinado tipo de trabalho está sempre relacionado com o nível de compreensão que ela atingiu. Por isso, o Senhor Krishna prefere tratar destes dois assuntos conjuntamente. Saber o que se deve ser feito e o que se deve ser evitado não é uma simples questão de inteligência. Primeiramente, a pessoa precisa conhecer as direções das escrituras autorizadas para, além disso, executar suas ações baseadas nestas direções. Uma pessoa no modo da bondade age desta maneira. No entanto, no modo da paixão, mesmo uma pessoa dita inteligente está sempre confusa no que diz respeito à execução correta de seus verdadeiros deveres, quer sejam sociais ou espirituais. Devido ao fato dela não conhecer as direções das escrituras, independente de qualquer esforço ou boa intenção, ela acaba pecando por não possuir verdadeira referência. Existem também as pessoas que, sob a influência do modo da ignorância, invertem o verdadeiro significado das coisas. Tais pessoas trilham naturalmente o caminho inverso. Para elas, a verdadeira religião é rejeitada como irreligião, e as coisas importantes da vida são deixadas de lado, enquanto elas se ocupam em coisas inúteis e inconsequentes. Geralmente, a pessoa no modo da bondade pratica yoga e executa métodos que possam ajudá-la a controlar a mente e os sentidos. Deste modo, o verdadeiro interesse da vida humana pela auto-realização é sempre incrementado e a pessoa não desperdiça seu tempo com atividades banais. A pessoa no modo da paixão, no entanto, não consegue entender o verdadeiro sentido da yoga, mesmo que a pratique. Tal pessoa apaixonada está demais interessada em gozo dos sentidos e desenvolvimento econômico para entender que a verdadeira prática da yoga se destina a fixar-se na compreensão da Alma Suprema. Finalmente, no modo da ignorância só existe ilusão. Por isto, uma pessoa ignorante vive melancólica e só sabe se lamentar. Sua ilusão é tão grande que ela se contenta em passar a vida simplesmente sonhando e acaba não utilizando seu tempo em coisas realmente objetivas. Pérola 100. A DIVISÃO DA FELICIDADE (versos 36 a 39) 36. Ó melhor dos Bharatas, agora por favor ouça enquanto falo sobre as três espécies de felicidade que levam a alma condicionada a desfrutar e que às vezes lhe trazem o fim de todo o

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sofrimento. 37. Aquilo que no começo pode parecer veneno, mas que no final é tal qual néctar e que causa o despertar da auto-realização diz-se que é felicidade no modo da bondade. 38. A felicidade que deriva do contato dos sentidos com seus objetos e que parece néctar no começo mas no final é um veneno diz-se que é da natureza da paixão. 39. E se diz que a felicidade que é cega para a auto-realização, que é ilusão do começo ao fim e que surge do sono, da preguiça e da ilusão é da natureza da ignorância. A verdadeira felicidade é a felicidade espiritual. Porém, não devemos pensar que, enquanto esteja na condição de alma condicionada, uma pessoa pode desfrutar desta verdadeira felicidade neste mundo. Presa dentro de seu corpo específico, ela não pode manifestar sua verdadeira natureza plena. Ela primeiramente precisa se livrar da identificação com o ego falso para, como o próximo passo, parar de agir em função do corpo e, finalmente, iniciar suas atividades de serviço devocional para ir se purificando gradualmente de todo tipo de ilusão. Enquanto isto, dependendo da influência específica que estiver recebendo da natureza material, a pessoa experimenta diferentes graus de felicidade material. A felicidade experimentada por uma pessoa que está se despertando para a auto-realização é uma felicidade no modo da bondade. A satisfação de ter encontrado um caminho autêntico de vida espiritual compensa qualquer tipo de sacrifício ou austeridade que se tenha que aceitar. Na verdade, quando a pessoa realmente chegou ao ponto de levar a sério seu caminho espiritual, as diferentes regras e deveres são executados com prazer. É como um criança que realmente chegou ao ponto de se alfabetizar. Para ela, frequentar a escola e fazer seus deveres escolares é motivo de grande prazer, mesmo que, como sabemos, ela terá que sacrificar seu tempo que anteriormente era utilizado com brincadeiras infantis. Para uma pessoa no modo da paixão, prazer significa simplesmente ter êxito em colocar os sentidos em contato com objetos dos sentidos prazerosos. Por exemplo, uma pessoa no modo da paixão se sente feliz quando pode saborear alimentos saborosos, mesmo que, o resultado final disto, seja a causa de doenças. A atividade sexual é muito preeminente entre as pessoas no modo da paixão, por isto elas se sentem felizes em se relacionarem sexualmente com o sexo oposto. Evidentemente, no começo, o prazer sexual pode revelar-se como agradável. Com o passar do tempo, no entanto, a influência da paixão faz com que o assim chamado prazer sexual assuma características indesejáveis. O casal acaba se odiando e se separando, e tudo se torna motivo de grande ansiedade e lamentação – isso para não falar da consequência do rompimento do compromisso familiar que gera outras conseqüências indesejáveis. A felicidade da pessoa no modo da ignorância é caracterizada pela inatividade. Quanto menos responsabilidade ou compromisso uma pessoa na ignorância tiver, mais feliz ela se sentirá. Pérola 101. O TRABALHO EOS MODOS DA NATUREZA (versos 40 a 44) 40. Aqui ou entre os semideuses nos sistemas planetários superiores, não existe ser algum que esteja livre destes três modos nascidos da natureza material. 41. Os brahmanas, os kshatriyas, os vaishyas e os shudras distinguem-se pelas qualidades que, de acordo com os modos materiais, são nascidas de sua própria natureza, ó castigador do inimigo. 42. Tranquilidade, autocontrole, austeridade, pureza, tolerância, honestidade, conhecimento, sabedoria e religiosidade – são estas as qualidades naturais com as quais os brahmanas agem. 43. Heroísmo, poder, determinação, destreza, coragem na batalha, generosidade e liderança são as qualidades naturais das atividades dos kshatriyas. 44. A agricultura, a proteção às vacas e o comércio são as atividades naturais dos vaishyas, e os shudras devem executar trabalho e serviço para os outros. Todo ser vivo nasce como uma certa quantidade de inteligência, saúde, beleza etc. Portanto, baseados nessas qualidades, todos devem aceitar uma posição ocupacional de acordo com sua condição social. Por exemplo, os brahmanas são a classe inteligente da sociedade e, por isso, são considerados a cabeça do corpo social. No entanto, mesmo sendo dotada de muita inteligência, uma pessoa terá que se submeter a um rigoroso treinamento sob a orientação do mestre espiritual autêntico para tornar-se um brahmana qualificado e situar-se realmente no modo da bondade. Um brahmana é também conhecido como dvija, que significa “duas vezes nascido”. O primeiro nascimento é meramente biológico e não determina se a pessoa é inteligente ou não. O segundo nascimento está relacionado com a aceitação de um guru, ou mestre espiritual fidedigno. Colocando-se sob as instruções do guru, a pessoa aceita uma vida disciplinada, o que caracteriza sua posição de discípulo. Aprendendo o significado dos textos védicos, a pessoa desenvolve sua verdadeira inteligência pura e as qualidades divinas mencionadas aqui, tais como tranquilidade, autocontrole e tolerância naturalmente se manifestam em tal pessoa. Na verdade, uma pessoa que aceita um mestre espiritual autêntico e segue suas instruções com respeito e dedicação, é

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realmente afortunada e sua vida se torna decorada com tais qualidades divinas. Os kshatriyas são a classe administrativa da sociedade e representam os braços do corpo social. Eles são líderes naturais, no entanto, é de se esperar que eles exerçam sua liderança governo sob a orientação dos brahmanas, evitando assim que o modo da paixão estrague tudo. Os kshatriyas também recebem o segundo nascimento, porém, eles recebem um treinamento específico para proteger as leis do dharma e amparar aqueles que foram lesados pelo adharma. Os vaishyas são a classe mercantil e representam o estômago da sociedade. Eles têm uma inclinação toda especial pelo acúmulo de riquezas. Porém, isto não é o mesmo que ganância material ordinária, pois um verdadeiro vaishya é também dedicado à caridade aos brahmanas renunciados e ocupados em propagar o conhecimento védico. E, finalmente, os shudras, a classe trabalhadora, representa as pernas da sociedade, devendo se ocupar auxiliando as demais ordens sociais. Portanto, nestes versos, o Senhor afirma mais uma vez que os três modos da natureza estão exercendo sua influência implacável em todos os setores da sociedade. Pérola 102. A PERFEIÇÃO NA EXECUÇÃO DO DEVER (versos 45 a 49) 45. Sujeitando-se às qualidades de seu trabalho, cada um pode tornar-se perfeito. Agora por favor ouça enquanto falo como é que alguém pode tomar essa atitude. 46. Prestando adoração ao Senhor, que é a fonte de todos os seres e que é onipenetrante, o homem pode atingir a perfeição através da execução de seu próprio trabalho. 47. É melhor alguém dedicar-se à sua própria ocupação, mesmo que venha a executá-la imperfeitamente, do que aceitar alguma ocupação alheia e executá-la com perfeição. Os deveres prescritos conforme a natureza da pessoa nunca são afetados por reações pecaminosas. 48. Todo empenho é revestido de algum defeito, assim como o fogo é coberto pela fumaça. Por isso, ninguém deve abandonar o trabalho nascido de sua natureza, ó filho de Kunti, mesmo que esse trabalho seja cheio de defeitos. 49. Quem é autocontrolado e desapegado e não se interessa por nenhum prazer material pode obter, pela prática da renúncia, a fase perfeita mais elevada: estar livre de reação. Acabamos de analisar as qualidades naturais com as quais as diferentes classes sociais exercem seu trabalho. Aqui, portanto, o Senhor Krishna explica que todos podem alcançar a perfeição de suas vidas simplesmente compreendendo a natureza onipenetrante do Senhor e prestando-Lhe adoração. Quando se compreende claramente que todo ser vivo é parte integrante do Senhor, passa-se compreender também o significado da ocupação em consciência de Krishna. Em outras palavras, não importa a natureza específica através da qual alguém se ocupa socialmente. Ele deve aceitar tal ocupação e executá-la o melhor possível. Além disso, os frutos de tal ocupação devem ser oferecidos para o prazer do Senhor e não para seu próprio gozo dos sentidos. Esta é considerada a perfeição da execução do trabalho. Na realidade, quando alguém se ocupa dentro da sua natureza, ela permanece tranquila e satisfeita, quer seja como um brahmana ou shudra, ou mesmo um chefe de família ou renunciado. Quando, porém, a pessoa abandona seu dever específico e tenta ocupar uma posição que não condiz à sua natureza, ela age contra os preceitos védicas e sua vida será coberta de erros. Portanto, o Senhor afirma aqui que, mesmo imperfeitamente, a pessoa deve executar seus deveres e seguir sua própria natureza. Agindo dessa forma e oferecendo seu trabalho ao Senhor, chegará o dia em que tal pessoa se aperfeiçoará até o ponto máximo. Esta instrução é especificamente muito significativa para Arjuna, o qual estava diante de um grande dilema. Sem dúvida, o dever de Arjuna como um kshatriya de defender o dharma ia contra o bem estar de parte de sua família, a qual estava defendendo o exército oponente. Apesar disso, o Senhor Krishna esclarece aqui para Seu discípulo e amigo Arjuna que neste mundo, quando se analisa as coisas do ponto de vista material, não existe perfeição absoluta. O próprio fogo, que é considerado um dos elementos mais puros, é revestido pela fumaça, um elemento muitas vezes indesejável. No entanto, mesmo que as vezes a fumaça cause algum tipo de incômodo, não devemos deixar de usar o fogo e muito menos ele vai deixar de cumprir seu papel apesar das condições incômodas criadas pela fumaça. A essência de tudo é, portanto, agir para satisfazer o Senhor Supremo, tomando todo o cuidado possível para não utilizarmos isto para justificar nossos desejos pessoais. Apesar de existirem situações no cumprimento de nosso dever que poderíamos considerar perturbadoras, ainda assim, devemos continuar fixos em nossa ocupação, sem abandoná-la caprichosamente. Agindo deste modo estaremos compreendendo as coisas do ponto de vista espiritual e estaremos criando condições para, assim, alcançarmos o estágio perfeccional supremo. Pérola 103. A ETAPA PERFECTIVA SUPREMA (versos 50 a

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50. Ó filho de Kunti, aprenda comigo como é que, seguindo o método que agora passo a resumir, alguém que conseguiu esta perfeição pode alcançar a fase de suma perfeição, o Brahman, a etapa do conhecimento mais elevado. 51-53. Tendo uma inteligência que o purifica e controlando a mente com determinação, abandonando os objetos de gozo dos sentidos, estando livre do apego e do ódio, aquele que vive num lugar isolado, que come pouco, que controla seu corpo, mente e poder de fala, que está sempre em transe e que é desapegado, livre do ego falso, da falsa força, do falso orgulho, da luxúria, da ira e que deixou de aceitar coisas materiais, que está livre da falsa idéia de propriedade e é pacífico – este com certeza elevou-se à posição de auto-realização. 54. Aquele que está situado nessa posição transcendental compreende de imediato o Brahman Supremo e torna-se completamente feliz. Ele nunca se lamenta nem deseja ter nada e é equânime para com todas as entidades vivas. Nesse estado, ele passa a Me prestar serviço devocional puro. Evidentemente, as pessoas comuns ficam surpresas com a descrição dada aqui pelo Senhor que informa o método para se desapegar do mundo do gozo dos sentidos. No entanto, tudo isto foi elaboradamente explicado no decorrer do Bhagavad-gita e, novamente aqui no final desta obra filosófica, o Senhor descreve este mesmo método resumidamente. Primeiramente, Ele fala sobre a purificação através da inteligência. Ou seja, o primeiro passo é se aproximar de um guru autêntico que siga o sistema de parampara e receber dele instruções transcendentais sobre o conhecimento védico, pois ninguém deve tentar extrair seus próprios significados das escrituras, enquanto se baseia em seu conhecimento imperfeito mundano. O verdadeiro guru nunca faz malabarismos de palavras, pois ele é competente o suficiente para ensinar o discípulo a trilhar o verdadeiro caminho. Na verdade, sem a ajuda de um guru auto-realizado, a pessoa continuará especulando filosoficamente vida após vida, sem chegar a uma conclusão final. Se o discípulo for sincero e seguir as instruções do guru, ele se elevará a o plano de conhecimento perfeito que se manifestará pelo desapego às atividades de gozo dos sentidos. Somente ingressando nesta fase elevada de vida espiritual, é possível entrar nas complexidades da ciência de Deus, e não através de conhecimento gramatical ou especulação acadêmica. Estando desapegado dos prazeres inferiores dos sentidos, tal pessoa se situa no modo da bondade, onde as dualidades de apego ou ódio não atuam. Estando livre do conceito corpóreo, ela leva uma vida simples e tranquila e prefere manter-se introspectiva, procurando viver num lugar mais silencioso, favorável às práticas espirituais. Sua vida é disciplinada, e ela diminuiu suas propensões materiais corpóreas, tais como comer, dormir, falar, etc. Tal estágio de vida perfeita é chamada tecnicamente de brahma-bhuta, ou seja, o estágio onde a pessoa se situa no transe da auto-realização e não desperdiça seu tempo valioso com atividades insensatas. Não devemos pensar que esta fase brahma-bhuta significa tornar-se uno com o Absoluto e perder a individualidade. Para deixar este ponto claro, aqui se afirma que, neste estágio, a pessoa atinge a unidade máxima, praticando serviço devocional puro ao Senhor. Em filosofia, isto significa achintya-bhedabhedatattva, ou seja, a pessoa nesta fase espiritual elevada torna-se una com o Senhor no sentido de que ela alcançou a mesma natureza do Senhor, mas, ao mesmo tempo, a distinção entre Senhor e servo é eternamente mantida. Neste caso, a pessoa sente-se plenamente feliz e nunca encontra motivos para se lamentar ou desejar qualquer outra coisa. O Senhor é a fonte e o reservatório de todo o prazer e praticar serviço devocional puro em plena concepção de unidade significa mergulhar num inesgotável oceano de bem-aventurança. Pérola 104. O CONHECIMENTO MAIS CONFIDENCIAL (versos 55 a 62) 55. É unicamente através do serviço devocional que alguém pode compreender-Me como sou, como a Suprema Personalidade de Deus. E quando, mediante essa devoção, ele se absorve em plena consciência de Mim, ela pode entrar no reino de Deus. 56. Embora ocupado em todas as espécies de atividades, Meu devoto puro, sob Minha proteção, alcança por Minha graça a morada eterna e imperecível. 57. Em todas as atividades conte apenas comigo e sempre trabalhe sob Minha proteção. Nesse serviço devocional, seja plenamente consciente de Mim. 58. Se você se tornar consciente de Mim, superará por Minha graça todos os obstáculos da vida condicionada. Entretanto, se não trabalhar com essa consciência, mas agir com ego falso e deixar de Me ouvir, você estará perdido. 59. Se você deixar de agir segundo Minha direção e não lutar, então seguirá uma orientação errada. Por sua natureza, você terá de se ocupar na luta. 60. Sob a influência da ilusão, você está agora recusando a agir segundo a Minha direção. Mas, compelido pelo trabalho nascido de sua própria natureza, você acabará fatalmente agindo,

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ó filho de Kunti. 61. O Senhor Supremo está situado nos corações de todos, ó Arjuna, e está dirigindo as andanças de todas as entidades vivas, que estão sentadas num tipo de máquina feita pela energia material. 62. Ó descendente de Bharata, renda-se completamente a Ele. Por Sua graça, você vai obter paz transcendental e a suprema e eterna morada. O conhecimento transcendental tem três divisões: o conhecimento do aspecto impessoal de Deus, o conhecimento das Superalma onipenetrante e o conhecimento da Personalidade de Deus. Dos três, o conhecimento transcendental sobre a Personalidade de Deus é superior e tem importância especial, pois só pode ser obtido através do serviço devocional. De fato, pelo desempenho do serviço devocional puro, a pessoa pode conhecer o Senhor como Ele é, e, assim, receber a permissão de entrar em diferentes graus de associação direta com o Senhor. A associação mais elevada e gloriosa com o Senhor torna-se possível em Goloka Vrindavana, o planeta supremo. A descrição de Goloka Vrindavana, onde o Senhor Se diverte com suas consortes, as gopis, e Seus animais prediletos, as vacas surabhi, é dada no texto conhecido como Brahma-samhita, considerado pelo Senhor Chaitanya como o texto mais autêntico dentro desta linha. Pode ser que, por meio de nosso esforço pessoal, aproximemo-nos do Senhor, mas o objetivo final só poderá ser alcançado pela Sua misericórdia. Desse modo, o devoto mantém-se humilde e devotado ao Senhor, ocupando-se vinte e quatro horas em atividades espirituais. Ele está sempre ouvindo e cantando sobre o Senhor, meditando nEle, oferecendo-Lhe orações ou executando diversos serviços práticos. Estas ocupações devocionais práticas revestem o devoto com uma proteção espiritual, defendendo-o do contato com a energia ilusória inferior. Livrando-se, portanto, da influência da energia ilusória, o devoto puro atinge um estágio tão elevado de consciência de Krishna que, praticamente, não existem mais problemas no curso de sua vida. Seguir diretamente a instrução do Senhor é, indubitavelmente, a posição mais segura possível e Arjuna estava tendo esta grande oportunidade diante dele. A instrução dada pelo Senhor é que Arjuna deveria lutar simplesmente por uma questão de dever, enquanto, ao mesmo tempo, deveria manter sua consciência espiritual. Como um guerreiro verdadeiro, para Arjuna a luta era algo completamente natural. No entanto, por fraqueza, ele temia a morte de seus parentes e, por ignorância, achava que, se lutasse, estaria agindo pecaminosamente. Seu ponto de vista estava influenciado pela ignorância, pois ele estava desconsiderando a presença da Suprema Personalidade de Deus no Campo de Kurukshetra, o que tornava tudo auspicioso. Portanto, o Senhor Krishna enfatiza para seu amigo Arjuna que se ele relegasse a direção dada por Ele, Arjuna estaria agindo sob a influência da ilusão. Na verdade, a situação criada era tão envolvente que de fato não existia a possibilidade de Arjuna se afastar completamente da batalha. Mesmo que isto viesse a acontecer, devido à sua própria natureza, Arjuna acabaria não suportando ficar de fora da batalha como um covarde. De fato, só restava a Arjuna seguir as instruções impecáveis dadas pelo Senhor Krishna e, assim, se tornar famoso não apenas como um verdadeiro guerreiro, mas também como um devoto glorioso. Pérola 105. A INSTRUÇÃO SUPREMA (versos 63 a 65) 63. Assim, Eu lhe expliquei o conhecimento bem mais confidencial. Delibere sobre isto detidamente, e então faça o que você deseja fazer. 64. Porque você é Meu queridíssimo amigo, estou falando para você Minha instrução suprema, o mais confidencial de todos os conhecimentos. Ouça enquanto falo isto, pois é para seu benefício. 65. Pense sempre em Mim e converta-se em Meu devoto. Adore-Me e ofereça-Me suas homenagens. Assim, você virá a Mim impreterivelmente. Eu lhe prometo isto porque você é Meu amigo muito querido. O Senhor acabara de transmitir para Arjuna o conhecimento mais confidencial: simplesmente renda-se ao Senhor Supremo e alivie-se de todas as misérias causadas pela vida material. Na verdade, render-se ao Senhor é o interesse supremo de todo ser vivo, pois somente nesta posição de servo rendido ao Senhor, o ser vivo pode se situar numa condição de felicidade plena. Quem não está em consciência de Krishna está sempre ansioso na luta pela existência material. Tal pessoa é sempre arrastada pelo ego falso e, mesmo estando presa às leis materiais, julga-se independente e livre para tomar suas próprias decisões. Isto é ilusão. Mas, quando age em consciência de Krishna, o ser vivo se volta para seu melhor e verdadeiro amigo. Desse modo, o próprio Senhor Krishna atua diretamente como seu benquerente e toma conta de seu conforto em todos os aspectos. Como foi falado no final do Capítulo Seis, o devoto imaculado está sempre pensando em seu amo, o Senhor Krishna, dentro do coração. Por isso, ele mantém-se intimamente ligado ao Senhor. Este estágio no qual o devoto está sempre absorto em pensamentos sobre o Senhor de uma forma espontânea é a plataforma

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devocional mais elevada. O Bhagavad-gita também explica que aqueles que não chegaram a este nível, podem manter-se em consciência de Krishna executando seus deveres e oferecendo os frutos em sacrifício ao Senhor. De qualquer modo, se a pessoa mantém-se simplesmente glorificando o Senhor cantando Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare, Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare, ela avançará em direção à consciência de Krishna. Esta é a última fase das instruções do Senhor no Bhagavad-gita, e as pessoas inteligentes devem levá-las muito a sério. As primeiras instruções confidenciais do Senhor começam com o conhecimento do eu. O próximo passo é a compreensão acerca de Deus, que é chamado de conhecimento mais confidencial. Atingindo esta fase, a pessoa passa a se comportar como um devoto e aprende a ajustar suas vida de uma tal maneira que sua consciência de Krishna adormecida possa ser despertada. Tais atividades ajustadas para o cultivo da consciência de Krishna são chamadas de serviço devocional e baseiam-se no amor a Deus. Tais atividades são transcendentalmente naturais e espontâneas, ao contrário da natureza da rotina das práticas de karma-yoga, jñana-yoga ou dhyana-yoga. No Bhagavad-gita, portanto, encontramos diferentes instruções para diferentes categorias de pessoas. Há descrições sobre os deveres dos chefes de famílias, dos renunciados, dos kshatriyas ou brahmanas, aceitação do guru, meditação, etc. Entretanto, quando alguém chega ao ponto de se entregar ao Senhor e passa a serví-lO com amor espontâneo, compreende-se que ela foi capaz de assimilar a essência de todo o conhecimento não apenas do Bhagavad-gita, mas, também, de todos os Vedas. Neste Capítulo Dezoito fica claro que o êxito completo no caminho espiritual é obtido pela consciência de Krishna, o processo mais elevado de yoga. No Capítulo Seis, o Senhor explicou o processo de dhyana, ou meditação, para Arjuna, que o rejeitou. Na verdade, a despeito de todo o encanto na prática da yoga mística, é muito difícil que um homem comum possa praticá-la. Isto significa que, por incrível que pareça, o mais elevado processo de yoga também se tornou, especialmente nesta era, como o mais fácil – simplesmente fixar a mente no Senhor enquanto se canta o maha-mantra Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare, Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare. Devemos, portanto, ser práticos e objetivos, não desperdiçando nosso tempo valioso unicamente com cursos de posturas ióguicas ou ginásticas. Evidentemente, isto tem seu valor à nível físico e mental, mas não se trata de verdadeira yoga. Aqui o Senhor diz claramente que a consciência de Krishna é a yoga mais elevada, pois em consciência de Krishna o devoto passa a agir sob as ordens de Krishna, além da plataforma material. No começo, o devoto segue as instruções do guru, que é o meio transparente no qual o Senhor Se manifesta. À medida que avança em fé e conhecimento, as percepções espirituais e sentimentos devocionais afloram no devoto e o processo se torna ainda mais firme e consistente. Neste ponto, o devoto passa a receber instruções diretas da Superalma que está dentro dele, ao passo que, externamente, continua sendo auxiliado pelo mestre espiritual. Esta é a perfeição do processo da yoga dada no Bhagavad-gita. Pérola 106. A PERFEIÇÃO DA RENÚNCIA (versos 66 a 69) 66. Abandona todas as variedades de religião e simplesmente rende-te a Mim. Eu te libertarei de todas as reações pecaminosas. Não temas. 67. Este conhecimento confidencial jamais pode ser explicado àqueles que não são austeros, nem devotados, nem se ocupam em serviço devocional, e tampouco a alguém que tenha inveja de Mim. 68. Para aquele que explica aos devotos este segredo supremo, o serviço devocional puro está garantido, e no final, ele voltará a Mim. 69. Não há neste mundo servo que Me seja mais querido do que ele, tampouco jamais haverá alguém mais querido. Se, ao estudar o Bhagavad-gita, alguém decide dedicar sua vida a Krishna, tal pessoa se livra imediatamente de todas as reações pecaminosas. Este é o verdadeiro princípio religioso que todos devem seguir. Pode ser que alguém estude toda a literatura védica, mas não possa compreender este princípio transcendental, por que, na verdade, trata-se de um conhecimento confidencial que não é apanágio de todos. O próprio Arjuna havia afirmado que nem mesmo os semideuses dos planetas celestiais podem compreender este tópico muito bem, muito menos os seres humanos. A única maneira de ter acesso a ele, como ficou claro em todo o Gita, é através do representante especial do Senhor, um mestre espiritual completamente auto-realizado e devotado ao Senhor. O mestre espiritual tem a capacidade de iluminar o discípulo, tornando-o perfeito ao convencê-lo que a essência da vida religiosa está em cumprir as ordens da Suprema Personalidade de Deus. Deve-se entender claramente que o mestre espiritual é o representante do Senhor e, desse modo, não há diferença entre satisfazer o mestre espiritual ou o Senhor, pois tanto ele quanto o Senhor Krishna falam os mesmos ensinamentos transcendentais. Satisfazendo-se o guru, satisfaz-se também o Senhor.

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O cativeiro material é decorrente do fato de se ter executado atividades pecaminosas passadas. Mas, ninguém precisa ficar preocupado com tal cativeiro material, pois o Senhor assegura que pessoalmente cuidará de Seu devoto, salvando-o das reações pecaminosas. Uma vez que o Senhor cancelará o karma passado, é melhor que a pessoa aceite a guia do mestre espiritual e se preocupe unicamente com a boa execução do seu serviço devocional e confie na misericórdia do Senhor. Ao moldar sua vida de acordo com as instruções do mestre espiritual, a pessoa passa a levar uma vida austera e disciplinada. A raiz da existência material é a ignorância, a qual se manifesta como indiferença ao serviço devotado ao Senhor. Esta indisposição à execução do serviço devocional se deve ao ego falso, o qual é movido pela inveja do Senhor e está sempre querendo colocar sua vítima na posição de controlador ou desfrutador independente. O mestre espiritual, portanto, ilumina o verdadeiro discípulo sobre sua posição como servo do Senhor e o instrui a ocupar-se corretamente, eliminando, assim, a ignorância e o ego falso de seu discípulo. Por explicar as complexidades do serviço devocional ao discípulo e desvendar os mistérios sobre a ciência de Deus, o mestre espiritual presta o mais valioso de todos serviços e, por isso, é considerado como o servo mais querido do Senhor. Na verdade, ocupa a posição mais gloriosa neste mundo alguém que se dedica a criar oportunidades para ajudar as pessoas a se livrarem da existência material e a se tornarem conscientes de Krishna. Isso é completamente aprovado pelo Senhor Chaitanya, que ordenou a todos que primeiramente se purificassem, aceitando este movimento para a consciência de Krishna, e, depois disso, o divulgassem por todo o mundo. Tal ocupação constitui a verdadeira atividade beneficente e torna tal pessoa reconhecida pela Suprema Personalidade de Deus. Pérola 107. A ILUSÃO DE ARJUNA É DISSIPADA (versos 70 a 73) 70. E declaro que aquele que estuda esta nossa sagrada conversa adora-Me com sua inteligência. 71E aquele que ouve com fé e sem inveja livra-se das reações pecaminosas e alcança os planetas auspiciosos onde residem os seres piedosos. 72. Ó filho de Pritha, ó conquistador de riquezas, será que ouviste isto com a mente atenta? E acaso tua ignorância e ilusões já se dissiparam? 73. Arjuna disse: Meu querido Krishna, ó pessoa infalível, agora minha ilusão se foi. Por Tua misericórdia, recuperei minha memória. Agora me sinto firme e não tenho dúvidas e estou preparado para agir segundo Tuas instruções. A melhor maneira de purificar a inteligência é ocupá-la no estudo do Bhagavad-gita. A função da inteligência é discriminar entre o certo e o errado, o que deve ser feito e o que não deve ser feito, o que libera e o que enreda. No entanto, a alma condicionada está sujeita a tantas ilusões e erros que tem grande dificuldade em fazer uso correto de sua inteligência. Na verdade, como foi explicado pelo Senhor no Capítulo Três, a inteligência do ser vivo neste mundo está sempre contaminada pela influência do modo da paixão. Agindo em parceria com a mente luxuriosa, a inteligência da alma condicionada está sempre ocupada em fazer planos para o gozo dos sentidos. O Bhagavad-gita, portanto, foi falado pelo Senhor para livrar a pessoa desta propensão material. Recebendo este conhecimento absoluto, a pessoa se ilumina à ponto de reduzir gradualmente todas as suas reações pecaminosas passadas, assim como o fogo reduz a lenha em cinzas. Desse modo, como parte do dever de mestre espiritual de Arjuna, o Senhor Krishna pergunta se ele realmente havia se purificado através do conhecimento transcendental e tinha se livrado das dúvidas e da ignorância. Caso contrário, Ele estaria pronto a repetir novamente este conhecimento. Em resposta à pergunta do Senhor, Arjuna mostrou-se pronto para, finalmente, executar seu dever com conhecimento transcendental. As palavras finais de Arjuna são maravilhosas e servem-nos como grande exemplo. Como vimos durante todo o Bhagavad-gita, Arjuna mostrou ser um perfeito estudante. Seu primeiro exemplo foi ainda no começo do Segundo Capítulo (verso sete) quando Arjuna admitiu sua fraqueza e incapacidade de resolver seu grande dilema. Neste momento, ele se aproximou do Senhor Krishna com atitude humilde e pediu ajuda. Ele se colocou na posição de uma alma rendida, um discípulo confuso e desejoso de ser iluminado. Como sabemos, o Senhor tentou corrigir a mentalidade materialista de Seu discípulo, derramando-lhe muitas classes de conhecimentos transcendentais. Ainda assim, Arjuna mostrou que não era uma pessoa desequilibrada e fanática, pronta a aceitar toda e qualquer instrução sentimentalmente. Completamente livre de atitude desafiadora, mas, ao mesmo tempo, revelando um interesse genuíno em compreender a verdade, Arjuna foi revelando ao seu mestre espiritual qualquer dúvida que surgisse no transcurso da conversa transcendental. Por outro lado, o Senhor revelou o exemplo perfeito de um mestre espiritual imaculado, dando respostas perfeitas com muita inteligência e paciência para eliminar as dúvidas de Seu discípulo sincero. Agora, finalmente, Arjuna deixa claro que toda a sua ilusão material foi dissipada e ele atribui isto à misericórdia do Senhor. Na verdade, Arjuna recobrou sua consciência de

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Krishna e pôde entender que além, de amigo e mestre espiritual, o Senhor Krishna era a infalível Suprema Personalidade de Deus que todos devem adorar e obedecer completamente. Desse modo, Arjuna situou-se firmemente em sua posição constitucional de servo do Senhor e manteve-se firme para executar seu dever prescrito de participar da batalha no sagrado campo de Kurukshetra e, assim, ajudar o Senhor na Sua missão de proteger os devotos e aniquilar os indivíduos indesejáveis. Pérola 108. O ÊXTASE DE SAÑJAYA (versos 74 a 78) 74. Sañjaya disse: Assim foi que ouvi a conversa entre duas grandes almas, Krishna e Arjuna. E tão maravilhosa é esta mensagem que os pêlos de meu corpo estão arrepiados. 75. Pela misericórdia de Vyasa, ouvi diretamente do senhor de todo o misticismo, Krishna, estas palavras muito confidenciais que Ele mesmo estava dirigindo a Arjuna. 76 Ó rei, à medida que vou recordando este magnífico e santo diálogo transcorrido entre Krishna e Arjuna, sinto prazer e a cada momento fico emocionado. 77. Ó rei, ao lembrar a maravilhosa forma do Senhor Krishna, sinto uma admiração cada vez maior e me regozijo repetidas vezes. 78. Onde quer que esteja Krishna, o Senhor de todos os místicos, e onde quer que esteja Arjuna, o arqueiro supremo, com certeza também haverá opulência, vitória, poder extraordinário e moralidade. Esta é a minha opinião. A conclusão do Bhagavad-gita não poderia ser outra: onde quer que o Senhor Krishna, a fonte de todo o conhecimento e misericórdia, estiver presente, e onde quer que se encontrar um seguidor perfeito do Senhor, como Arjuna, certamente tudo será vitorioso e auspicioso. Arjuna é aqui chamado de arqueiro supremo não apenas por sua habilidade em manejar seu arco Gandiva, mas também devido à sua capacidade de estabelecer-se firmemente fixo na meta mais elevada, a consciência de Krishna. Como um estudante perfeito, Arjuna pode entender que, além da Batalha de Kurukshetra na qual ele teria que participar, existia uma outra batalha, a batalha interior, cujos inimigos haviam se posicionado estrategicamente dentro dos sentidos, da mente e da inteligência materiais. Como foi explicado no Terceiro Capítulo (versos 37-40), o verdadeiro inimigo da alma condicionada é a luxúria, a qual não passa de um reflexo pervertido do amor puro por Deus. Impulsionado pela luxúria, um ser vivo rejeita as instruções dadas pelo Senhor, quer sejam através do mestre espiritual, das escrituras védicas ou da Superalma onipresente. A luxúria ilude o ser vivo, fazendo-o julgar-se independente do Senhor. Esta luxúria é também responsável pelas atividades pecaminosas do ser vivo que, incapaz de refrear o impulso de seus sentidos materiais, ocupa-se em toda classe de atividades mundanas. Os Upanishads fazem uma excelente comparação entre a condição de um passageiro dentro de uma carruagem e a situação da alma condicionada dentro de um corpo. Lá se explica que, assim como uma carruagem é arrastada por cinco cavalos, o corpo é arrastado pelos cinco sentidos. As rédeas desta carruagem do corpo é a mente, a qual mantém-se conectada com os cavalos dos sentidos. A posição da inteligência é a de condutora da carruagem, enquanto a alma espiritual é simplesmente o seu passageiro. Como sabemos, o Senhor Krishna estava atuando simplesmente como o condutor da carruagem do guerreiro Arjuna. Isto por que Ele sabia que Arjuna teria dificuldades de controlar os “cavalos” dos sentidos. Neste mesmo capítulo, o Senhor afirmou que os seres vivos estão sentados numa máquina feita de energia material, ou seja, o corpo material, enquanto Ele Se senta no coração e põe-Se à dirigir. Deste modo, alcança a perfeição no estudo do Bhagavad-gita aquele que passa a aceitar o Senhor como o condutor de sua vida. Isto significa que sua vida passa a ser dirigida pelos ensinamentos dados pelo Senhor no Bhagavad-gita. Na verdade, o Bhagavad-gita foi falado pelo Senhor não apenas para eliminar a ilusão de Arjuna. O Bhagavad-gita visa o benefício de todas as pessoas, em todas as épocas e condições. Sendo a essência do conhecimento védico, Ele foi apresentado pelo Senhor especialmente para as pessoas desta era de Kali, as quais têm pouquíssimo tempo para dedicar-se às vastas pesquisas dos textos védicos, tais como os Puranas, Upanishads e Vedanta-sutra. É importante entendermos também que a verdadeira posição de Arjuna era transcendental, ou seja, ele era um devoto puro do Senhor que simplesmente representou o papel de uma alma condicionada materialmente. Portanto, os problemas que surgiram no coração de Arjuna existem nos corações de todos os seres corporificados. Desse modo, o mesmo apego ao conceito corpóreo que fez com que Arjuna se esquecesse do controle supremo do Senhor e caísse em profunda lamentação acontece com as almas que estão neste mundo. Além disso, a mesma fraqueza no cumprimento do dever, o temor à morte, e outras diferentes agonias mentais que não passam de manifestações da ilusão se apresentam freqüentemente nos seres corporificados. O propósito do Bhagavad-gita é fornecer instruções claras e objetivas para todos e é um livro prático que deve ser consultado em todos os momentos críticos da vida. Assim como o próprio Senhor, o Bhagavad-gita é

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nosso melhor amigo e pode nos consolar em todos nossos momentos de fraqueza, nos elevando ao nível de bem-aventurança espiritual. Certamente, estudando profundamente o Bhagavad-gita, iremos encontrar sempre as melhores soluções para qualquer tipo de problema. As palavras finais do Bhagavad-gita são faladas por Sañjaya. Como podemos lembrar, o Bhagavad-gita começa com a pergunta do rei Dhritarastra para Sañjaya. Ele queria especificamente saber qual seria o resultado da grande batalha entre seus filhos e os filhos de seu falecido irmão Pandu. Portanto, aqui Sañjaya definitivamente responde ao rei: os Pandavas, sob o comando de Arjuna sairão completamente vitoriosos, devido especialmente à proteção do infalível Senhor Krishna. Na verdade, neste momento final do Gita, Sañjaya mal pode se controlar. Completamente maravilhado com o que acabar de escutar, os pêlos de seu corpo ficam eriçados e ele fica profundamente emocionado. Tudo indica aqui que Sañjaya também alcançou o estado mais elevado de consciência, ficando em êxtase por ter tido a oportunidade de ouvir o maravilhoso e transcendental diálogo entre Krishna e Arjuna. Esta é a característica do Bhagavadgita. O Senhor é tão misericordioso que está Se oferecendo a todos através desta grande literatura. Isto significa que, mesmo estando fora de nossa visão atual, a associação com Ele pode ser possível através da leitura do Gita. Portanto, devemos concluir com muita segurança que, se estudarmos minuciosamente o Bhagavad-gita coma ajuda do mestre espiritual genuíno, poderemos alcançar a perfeição no conhecimento e obteremos o mesmo benefício que Arjuna obteve na presença pessoal do Senhor. O Bhagavad-gita é, portanto, considerado como uma poderosa encarnação sonora do Senhor, pois não há diferença entre o Bhagavad-gita e o próprio Senhor em pessoa, assim como não há diferença entre o Senhor e Seus santos nomes, Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare, Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare. Om Tat Sat.

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