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Efeitos da Lei Maria da Penha

segunda-feira 18 de setembro de 2006

Para advogados, a Lei Maria da Penha contribuiu para o reconhecimento legal
da evolução do conceito de família, incluindo aquela formada por pessoas do
mesmo sexo

No dia 7 de agosto de 2006, foi sancionada a lei n.º Lei 11.340, que pune a
violência doméstica e familiar contra a mulher e recebeu o nome de "lei Maria
da Penha" como forma de homenagear a pessoa símbolo da luta contra a
violência familiar e doméstica. Maria da Penha Fernandes foi vítima de duas
tentativas de homicídio por parte do ex-marido e ficou paraplégica. A punição
do agressor só veio 19 anos e 6 meses depois.

Além de criar mecanismos necessários à punição, a lei traz um avanço ao
considerar que a sua aplicação independe da orientação sexual das pessoas
envolvidas.

Os advogados Iglesias Fernanda de Azevedo Rabelo e Rodrigo Viana Saraiva,
em artigo publicado no site Jus Navigandi explicam que a doutrina e a
jurisprudência admitem a união homoafetiva, respeitando-se os requisitos da
união estável, como entidade familiar. No entanto, não havia uma lei federal
que permitisse uma interpretação nesse sentido.

Em seu artigo 5º, a lei Maria da Penha veio, segundo eles, suprir a lacuna da
legislação, reconhecendo uma situação que já está presente na sociedade. "A
legislação apenas acompanha essa evolução para permitir que, na ausência de
sustentação própria, o Estado intervenha para garantir a integridade física e
psíquica dos membros de qualquer forma de família".

Leia a íntegra do artigo de Iglesias Fernanda de Azevedo Rabelo e Rodrigo
Viana Saraiva

Conheça a íntegra da Lei Maria da Penha (em PDF nesta página)

Veja o que diz o art. 5º:

"Art. 5º Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica e familiar
contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause
morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou
patrimonial:

I - omissis

II - no âmbito da família, compreendida como a comunidade formada por
indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais,
por afinidade ou por vontade expressa;

III - em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha
convivido com a ofendida, independentemente de coabitação.

Parágrafo único. As relações pessoais enunciadas neste artigo independem de
orientação sexual."

1 - Introdução

A união de pessoas do mesmo sexo tem recebido certa proteção, na medida
em que se apresenta com os requisitos de uma união estável. No entanto, essa
proteção advém de uma construção jurisprudencial [01] e doutrinária, que
flexibilizaram ainda mais o conceito de família, para abranger os casais
homossexuais com ou sem filhos.

No Brasil, essa questão não havia sido enfrentada pela via legislativa, tanto
que a doutrina moderna lamentou o fato do Código Civil de 2002 não ter
disciplinado a união homoafetiva.

Nesse contexto, a Lei Maria da Penha apresenta um avanço em relação ao
Direito Civil legislado e em consonância com a atual discussão doutrinária e
jurisprudencial. Isso porque o seu art. 5º contém uma carga ideológica
inovadora, por permitir uma interpretação de reconhecimento da entidade
familiar entre pessoas do mesmo sexo.

Antes de analisarmos a inovação acima mencionada, convém trazer uma
rápida abordagem acerca da evolução das formas familiares.

2 - Evolução das formas familiares

O conceito de família representa a plurivalência semântica, que é um fenômeno
normal do vocabulário jurídico, ou seja, vários juristas, de diferentes épocas e
lugares, apresentaram diferentes definições sobre família. Com o passar do
tempo, sempre se desatualizavam. No Brasil, até a idéia de família expressa
pelo atemporal Clóvis Beviláqua (1976) não se apresenta compatível com a
realidade. Afirma o civilista que a família "É o conjunto de pessoas ligadas pelo
vínculo de consangüinidade, cuja eficácia se entende, ora mais larga, ora mais
restritamente, segundo as várias legislações. Outras vezes porém, designa-se,
por família, somente os cônjuges e a respectiva progênie". Conforme será
demonstrado a seguir, esse conceito, apegado à consangüinidade, não tem
respaldo na realidade atual.

Durante séculos, a família fora um organismo extenso e hierarquizado. Em
terra brasilis, esse modelo é bem ilustrado por Gilberto Freire (2004), em sua
obra Casa Grande & Senzala, ao apresentar a família patriarcal. A família

brasileira apresentava um caráter nitidamente extenso, submetendo-se seus
membros à autoridade soberana do pai. Em torno dele, girava toda a vida
familiar. O patriarca constituía o centro de gravidade de seus domínios e das
pessoas que os habitavam. (FREYRE, 2004)

Antes de chegarmos na família monogâmica, formas mais antigas existiram,
como a família consangüínea, a família punaluana, a família sindiásmica ou de
casal e a família patriarcal. (MORGAN, 1970:56-57).

O antigo Código Civil brasileiro (Lei 3.071, de 1º de janeiro de 1916), apesar de
sua qualidade técnica, foi elaborado ainda sob a influência do individualismo
que comungava com o modelo de família patriarcal. Dessa forma, para o
Direito, o conceito de família esteve sempre ligado a dois elementos
fundamentais: consangüinidade e casamento formal e solene.

No entanto, a partir da segunda metade do século XIX, a família patriarcal foi
se esvaecendo. O processo de urbanização acelerada, os movimentos de
emancipação das mulheres e dos jovens, a industrialização e as revoluções
tecnológicas, as profundas modificações econômicas e sociais ocorridas na
realidade brasileira e as imensas transformações comportamentais havidas
puseram fim à instituição familiar nos moldes patriarcais, para surgir uma
instituição organizada com base no modelo nuclear, restrita a um número
reduzido de pessoas. A família extensa foi eliminada pela família nuclear,
especialmente nas grandes cidades do País. Além disso, difundiram-se novos
arranjos familiares, desvinculados da união legal.

Com o advento da Constituição Federal de 1988, sensível à nova realidade, a
proteção assegurada ao casamento, foi estendida à família. A CR/88 trouxe o
conceito de "entidade familiar (art. 226, §§3º e 4º); instituiu novas regras para o
instituto do divórcio (art. 226, §6º); apregoou a equiparação dos cônjuges em
direitos e deveres (art. 226, §5º); previu o planejamento familiar (art. 226, §7º) e
a assistência à família (art. 226, §8º), além de instituir a absoluta igualdade
entre os filhos. Trouxe, ainda, um rol exemplificativo de entidades familiares,
quais sejam, a instituída pelo casamento, pela união estável e a família
monoparental.

Todavia, o casamento não deixou de ser a forma clássica para se constituir
família. Logicamente, não é, atualmente, a única forma de vida familiar. Acerca
da primazia do casamento na geração de relações familiares, apregoa Caio
Mário da Silva Pereira (2004:24):

"É o casamento que gera as relações familiares originariamente. Certo é que
existe fora do casamento, produzindo conseqüências previstas e reguladas no
Direito de Família. Mas, além de ocuparem plano secundário, e ostentarem
menor importância social, não perdem de vista as relações advindas do
casamento, que copiam e imitam, embora a contrastem freqüentemente. A
preeminência do casamento emana substancialmente de que originam dele as
relações havidas do casamento, como a determinação dos estados regulares e

que são consideradas ameaçadoras para alguns. Associados aos resultados da evolução da engenharia genética permitiram o rompimento do paradigma: casamento. estudiosos do Direito de Família. defendem ser a mesma um . Romperá definitivamente com aquela complementaridade tradicionalmente necessária entre sexualidade e procriação". a realidade nos mostra uma outra noção de família. O que muda são apenas as formas de sua constituição. Lugar do pai. onde cada um de seus membros ocupa um lugar definido. 227. especialmente. entretanto. O que é confirmado por Pereira (2004: 30) ao afirmar que "A família está se transformando sob os nossos olhos". sem. primordialmente. desta ou daquela forma. Não significa que crise ou abolição da família. Para ele. sexo e procriação. de acordo com as diferentes culturas. o movimento de mulheres e a disseminação dos métodos contraceptivos concretizaram o que Juliet Mitchell (1972. 1972: 273). visualizada no instituto da Adoção. mulheres e crianças de todas as idades. tanto que o Estatuto da Criança e do Adolescente prevê a existência da família substituta. que todas as pesquisas sociológicas mostram que a família é amada. Nas palavras de Roudinesco (2003:199) "a família do futuro deve ser mais uma vez reinventada". Roudinesco (2003:198) afirma que as novas formas de unidade familiar. onde são reconhecidos outros arranjos familiares (MITCHELL. (PEREIRA. Por outro lado. sonhada e desejada por homens. A família é. dos filhos. uma estruturação psíquica. A explicação para essas transformações nos é fornecida pelo psicanalista francês Jaques Lacan. novos doutrinadores. muito embora. Afirma ainda. da mãe. como Vilela (1979) e Pereira (1975). mas sim uma pluralidade de instituições. ainda que casados solenemente. que ela sempre existiu e continuará existindo. são os que a sociedade primordialmente considera. Tanto é. estarem necessariamente ligados biologicamente ou por qualquer ato formal. a Constituição de 1988 tenha proibido quaisquer designações discriminatórias (art. Por isso é que ela se apresenta das mais variadas formas.paragonais que. No entanto. uma mulher e filhos. de todas as orientações sexuais e de todas as condições. que afirma ser a família um fenômeno cultural e não natural. a família não se constitui apenas de um homem. 1995) A opinião de que a família é um fenômeno natural é sedimentada no mundo jurídico. O que deve ser frisado é que a questão da família vai além de sua positivação nos ordenamentos jurídicos. não impedem que a família seja reivindicada como o único valor seguro ao qual ninguém quer renunciar. sem excluírem outros. §6º)". em qualquer tempo ou espaço. O elemento da consangüinidade deixou de ser fundamental para a constituição da família. 263/264) afirmou sobre a conquista da pílula anticoncepcional: "libertará as experiências sexuais das mulheres de muitas ansiedades e inibições que sempre as afligiram. Com todos esses avanços.

A realidade demonstra que a unidade familiar não se resume apenas a casais heterossexuais. levou um tiro enquanto dormia. sendo que o agressor alegou que houve uma tentativa de roubo. o Código Penal e a Lei de Execução Penal. compor uma estruturação familiar. altera o Código de Processo Penal. 3 . duas semanas depois de regressar do hospital. não é necessário laço biológico" e. dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher. que é célula básica da sociedade. foi sancionada a lei n. faz-se necessária a lei jurídica para sobrevivência do próprio indivíduo e da sociedade.2006. Maria da Penha sofreu um segundo atentado contra sua vida: seu ex-marido. que só o homem deu. Ela é uma estruturação psíquica. "Lei Maria da Penha" No dia 7 de agosto de 2006. de uma fêmea e de filhos. tentou eletrocutá-la enquanto se banhava.340. É na família que se estrutura o sujeito e estabelecem-se as primeiras leis psíquicas.Breves considerações acerca da Lei 11. A estrutura familiar é algo complexo que precede o Direito e que este procura legislar no sentido de proteger esse instituto. Em decorrência do tiro. nos termos do § 8º do art. é que nos diferencia dos outros animais e que nos permite constituir uma família. aquela mulher sofreu duas tentativas de homicídio por parte do ex-marido. ficou paraplégica. Como se não bastasse. e dá outras providências". que "cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Pereira. 226 da Constituição Federal. Maria da Penha Fernandes. na ausência de sustentação própria. com valorização de cada membro.340.º Lei 11. . o Estado intervenha para garantir a integridade física e psíquica dos membros de qualquer forma de família. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. Primeiro. A família é fonte de companheirismo e afeto. seguindo o entendimento de Lacan. explica que a família "não se constitui de um macho. sabendo de sua condição.fenômeno cultural. A legislação apenas acompanha essa evolução para permitir que. ainda durante o período de recuperação. ou melhor.08. Em breves linhas. Para se ocupar o lugar do pai. as uniões homoafetivas já galgaram o status de unidade familiar. da mãe ou do filho. símbolo da luta contra a violência familiar e doméstica. de 07. Quando estas se ausentam. a decorrência desse passo para o simbólico. para permitir o desenvolvimento da personalidade de todos. Esta lei recebeu o nome de "lei Maria da Penha" como forma de homenagear a mulher. da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir. onde cada membro tem um lugar definido.

mas que extrapolam a estrutura normativa. não havia uma lei federal que permitisse uma interpretação nesse sentido. também. foi expresso por Caio Mário da Silva Pereira (2004:3): "Desta feita. respeitando-se os requisitos da união estável. pelo Centro pela Justiça pelo Direito Internacional (CEJIL) e pelo Comitê Latino-Americano de Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM). Diante da denúncia. . 4 . Mirando ao longe as modificações que se faziam necessárias. optou pelo esforço de buscar um questionável equilíbrio em meio às controvérsias já enfrentadas pela Doutrina e pela Jurisprudência no dia-a-dia dos Tribunais. uma inovação legal quanto às formas familiares já positivadas. 2006) A sanção dessa lei representa. No entanto. juntamente com a vítima. a resistência do legislador brasileiro em enfrentar a questão da união homoafetiva. a estrutura social concebida como sistema de relações jurais entre pessoas versus aspectos da vida social não-redutíveis a ela. a fim de mitigar a tolerância estatal à violência doméstica contra a mulher no Brasil. recomendou a continuidade e o aprofundamento do processo reformatório do sistema legislativo nacional. principalmente após o advento do Código Civil de 2002. a doutrina e a jurisprudência admitem a união homoafetiva. que dentre outras constatações. Essa situação injusta provocou a formalização de denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA – órgão internacional responsável pelo arquivamento de comunicações decorrentes de violação desses acordos internacionais. é realçada por Viveiros de Castro e Benzaquém (1989:133): "A antropologia vem-se debatendo nos braços de uma dicotomia: o ‘direito’ versus o ‘afeto’. um avanço na proteção da mulher vítima de violência familiar e doméstica. que nada versou sobre o tema.A punição do agressor só se deu 19 anos e 6 meses após o ocorrido. assim. incluindo-se. A existência de relações constituídas com base no afeto. a Comissão da OEA publicou o Relatório nº 54. isto é. (ALVES.Inovação legal no conceito de Família Conforme já afirmado. preferiu recuar numa atitude marcada pela dificuldade de confrontar-se com o novo". Sua coragem não foi suficiente para impulsioná-lo aos avanços dos sistemas jurídicos mais adiantados. Até o advento da lei Maria da Penha. como entidade familiar. de 2001. o legislador demonstrou nítido esforço em adaptar-se às novas conquistas.

independentemente de coabitação. um apresenta a violência no contexto da relação homossexual feminina. Vainfas (1997:130) relata. sobretudo depois que Isabel. em seu art. 5º supriu a lacuna legislação da seguinte forma: "Art. Francisca Luiz a interpelou na porta da casa onde moravam e começou a gritar: "Velhaca! Quantos beijos dás a seu coxo e abraços não me dás um!? Não sabes que quero mais um cono (vagina) do que quantos caralhos aqui há?!".no âmbito da família. Dentre os relatos apresentados pelo autor. na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida.em qualquer relação íntima de afeto. estabelecida entre Isabel "a do veludo" e sua parceira." Nesse sentido. com base em documentos do Tribunal do Santo Ofício. sofrimento físico. era negra forra que também viera do Porto. Descontrolada. pegando Isabel pelos cabelos e arrastando-a porta adentro com pancadas e bofetões. No Brasil. O romance parece ter sido muito difícil. em condutas individualizadas e processos que transgrediam as fronteiras da estrutura normativa". que são vistas. tudo à vista dos vizinhos. abandonada pelo marido. com aceitação do público. lesão.omissis II .consistindo em sentimentos e emoções. Quando ela voltava de um de seus encontros. discutidas e influenciam grande parte da população brasileira. resolveu sair com um homem. quando não já amantes. esse assunto já foi retratado. Francisca Luiz: "Francisca Luiz. 5º Para os efeitos desta Lei. sua parceira. Parágrafo único. sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial: I . As relações pessoais enunciadas neste artigo independem de orientação sexual. Francisca passou dos insultos às vias de fato. "a do veludo". tanto que reproduzido nos meios de difusão cultural." (grifou-se) . a lei Maria da Penha. a existência de lesbianismo já no Brasil colonial. compreendida como a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados. unidos por laços naturais. em novelas. Eram amigas do Porto. III . Nesse cenário. por afinidade ou por vontade expressa. Tornou-se motivo de escândalo público. a lei Maria da Penha reconheceu uma situação que já está presente na sociedade. e continuariam a sê-lo na Bahia. configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte. e abrigaria Isabel por algum tempo.

pois uma mulher vítima de violência familiar pela sua parceira não poderia obter a proteção legal. ambas têm um vínculo íntimo sólido. Dessa maneira. Além disso. Ademais. Inclusive. Dessa forma. permite uma interpretação no sentido de englobar um casal homossexual. o que não permite excluir qualquer entidade que preencha os requisitos da afetividade. com a exclusão legal de reconhecimento da união homoafetiva entre mulheres. nos termos do art. na medida em que não elencou todos os . extirpou qualquer possibilidade de interpretação diversa da aqui estabelecida. tem especial proteção do Estado". 226 da CR/88 "A família. o parágrafo único do art. especificamente o casal composto por mulheres. 5º assegura que "as relações pessoais enunciadas neste artigo independem de orientação sexual". que as uniões homoafetivas são constituídas por vontade expressa. o rol constitucional não é exauriente. portanto. com envolvimento sexual e afetivo tal qual um casal heterossexual. para sanar qualquer dúvida. que. mesmo que o Direito não as reconheça como tal.O reconhecimento legal da família constituída por vontade expressa. portanto. Uma interpretação sistemática do inciso II com o parágrafo único do mesmo artigo 5º permite afirmar que a lei reconheceu a união homoafetiva entre mulheres. Reforçado encontra-se. O relato de Alves demonstra a existência da manifestação de vontade expressa na constituição da relação homoafetiva feminina. logo. Constata-se. III. Alves (2006) preleciona que "são elas. mas à margem da lei. cônjuges "autoconsiderados". admitir de forma contrária poderia levar ao absurdo da hipocrisia. perante si mesmos e perante a sociedade. o afeto não se restringir às uniões entre pessoas do sexo oposto. por analogia. Ademais. a família é entendida com um núcleo de afetividade. também haverá de ser aplicado aos casais homossexuais do sexo oposto. Corroborando esse entendimento. as uniões homoafetivas. Isto porque esse tipo de união apresenta-se como uma relação íntima de afeto. Acerca da situação até então vigente. no presente caso. Paulo Luiz Lobo (2002:95) assegura que a enumeração constitucional é meramente exemplificativa. de forma expressa. elas o fazem. O legislador. por mais que abrangente. o que as inclui na previsão legal retro citada. também estão englobadas pela presente lei. Essa interpretação está em consonância com a previsão constitucional de proteção à família nos termos do art. as mesmas vontades e os mesmos interesses que o fariam um casal heterossexual. estabilidade e ostensividade. Hoje. portanto. os casais homossexuais conjugam o mesmo afeto. porque. base da sociedade. os mesmos planos comuns. 5º. entre mulheres. a previsão legal da nova forma de entidade familiar acima expressa. mediante ato voluntário de manifestação de vontade".

hoje. Essa autoridade do homem/marido sempre foi respeitada de forma que a Justiça parava na porta do lar. dessa maneira. é constantemente reinventada e. que mantêm uma relação pautada pelo afeto. como fruto da cultura. como de fato é. como um fator cultural. permitia o direito de dispor do corpo. é incompatível com a natureza afetiva da família. conseqüentemente. . os relacionamentos de pessoas do mesmo sexo. além de inovar no conceito de família. A autoridade do marido. no moldes da família patriarcal. Dessa forma.Conclusão A lei Maria da Penha. Conceber apenas a família nuclear composta pelo casal heterossexual e filhos como o único modelo de família aceitável. assim. Assim sendo. A noção de família como núcleo de afetividade e base da sociedade deve ser encarada. da saúde e até da vida da sua esposa. além de significar um avanço para romper com os preconceitos existentes. se reiventa para propiciar o alcance da felicidade de seus membros. e a polícia sequer podia prender o agressor em flagrante. a lei institucionaliza uma situação inegável e com clara constatação fática. merecem a devida proteção e reconhecimento previstos na CR/88. rompe com a dicotomia público/privado evidenciada pelo antigo ditado "em briga de marido e mulher. que é o art. concebidos por pais desvairados e mães errantes. dos arranjos familiares. Efetivamente. poderá denunciar as agressões sem temer que encontrará com o agressor no dia seguinte e poderá sofrer conseqüências ainda piores. Aceitar novos modelos familiares não significa dizer que a família será destruída. O espaço doméstico que estava destinado exclusivamente à mulher era inatingível. ninguém bota a colher". a família. 226 da CR/88. bárbaros bissexuais ou delinqüentes da periferia. 5. na medida em que a mulher ficará a salvo do agressor e.arranjos familiares merecedores de proteção. O conservadorismo do legislador brasileiro quanto à evolução no conceito de família representa a influência daqueles pessimistas que pensam que a civilização corre o risco de ser engolida por clones. como se o que acontecesse dentro da casa não interessasse a ninguém. No tocante ao reconhecimento legal de uniões homoafetivas femininas. a legislação deve acompanhar a evolução da sociedade e. E. também. Isso gerou um sentimento de impunidade pela violência doméstica. A família homoafetiva é uma realidade. Um conservadorismo que fecha os olhos para a realidade e se omite em dar sustentação ao instituto já previsto na norma inclusiva. considera-se que a lei Maria da Penha representa um marco na proteção da família e um resgate da cidadania feminina.

XVIII e XIX). Disponível in http://www. sem uma reflexão crítica. sintoniza com a intenção dos casais homoafetivos em abandonar os nichos da segregação e repúdio. Julgado em 10/06/2005). Tribunal de Justiça do RS.tj. Exatamente por serem excepcionais essas normas. Finalidade louvável. desde que afirmados e provados os pressupostos próprios daquela entidade familiar. incide o princípio de hermenêutica (“as exceções devem ser interpretadas restritivamente”) que proíbe a utilização da analogia para criar novas discriminações a favor da mulher ou de quem quer que seja. sem dúvida. foi promulgada com o objetivo manifesto de “coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher” (art. Quarto Grupo de Câmaras Cíveis. A ação declaratória é o instrumento jurídico adequado para reconhecimento da existência de união estável entre parceria homoerótica. POR MAIORIA. PREENCHIMENTO DOS REQUISITOS. pois nos incita ao simples adesismo.rs. em busca da normalização de seu estado e igualdade às parelhas matrimoniadas.340. sua duvidosa constitucionalidade.br/site_php/jprud2/ementa.Nota 01 EMENTA: AÇÃO DECLARATÓRIA.gov. 7°. seu texto contém armadilhas totalitárias que serão analisadas neste artigo. A Lei 11. A Constituição de 1988 é peremptória ao determinar que “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações” (art. Porém.php. . UNIÃO ESTÁVEL. em uma situação dessas. Porém. Lei Maria da Penha e a criminalização do masculino A chamada "Lei Maria da Penha" tem sido aclamada de modo quase unânime pela doutrina nacional. de 7 de agosto de 2006. a advertência de Nelson Rodrigues de que “a unanimidade é burra”. 5°. A sociedade moderna. EMBARGOS INFRINGENTES ACOLHIDOS. vem logo à mente. Acesso em 25 de agos. Relator: José Carlos Teixeira Giorgis. A lei contém diversos problemas que merecem uma análise mais profunda da doutrina e da jurisprudência. Obviamente. CASAL HOMOSSEXUAL. CABIMENTO. mercê da evolução dos costumes e apanágio das decisões judiciais. a própria Constituição prevê exceções a favor da mulher. como a licença-maternidade gozada nem tempo superior à licença-paternidade (art. I). RECONHECIMENTO. Em primeiro lugar. 2006. o que a tornou motivo de aclamação praticamente unânime da doutrina nacional. 1°). (SEGREDO DE JUSTIÇA) (Embargos Infringentes Nº 70011120573.

Em quatro linhas. exploração e limitação do direito de ir e vir”. chantagem. o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8. o inciso trata de uma miríade de condutas que causem “dano emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações”. Vejamos exemplos banais dos extremos a que pode chegar essa definição: “explorar” tem vários significados e um deles é “abusar da boa-fé ou da . da lei. A violência psicológica é de ação livre. sabe-se que a lei não tem palavras inúteis. A despeito de a ameaça e o constrangimento estarem previstos como crimes no Código Penal. ridicularização. e o Estatuto do Idoso (Lei 10. só pode ser excepcionado pela própria Constituição.741/2003) [2]. Chega a ser risível o art. as outras condutas são conceituadas de modo excessivamente aberto. Se um neófito em Direito examinar a lei. Aliás. criam-se novas diferenciações. ou seja. a lei dos crimes de preconceito (Lei 7. ressalte-se. manipulação. A pretexto de combater a discriminação. 6°. utilizar os artigos citados é um verdadeiro desafio hermenêutico! Porém. Ora. 2° ao dispor que “toda mulher. porém. se fizéssemos uma interpretação literal. em flagrante violação ao princípio da taxatividade [3]. 7°. como o Estatuto do Índio (Lei 6. constrangimento.716/1989) [1]. vigilância constante. enumera um rol exemplificativo de condutas: “ameaça. mas... a criminalização do homem enquanto tal encontra-se especificamente no art. que define uma das modalidades da violência doméstica e familiar contra as mulheres: a chamada “violência psicológica”.Esse é o mesmo raciocínio utilizado em diversas leis que visam proteger os “direitos das minorias”. nesses casos. isolamento.069/1990). insulto. humilhação. a lei chega a dispor que a violência doméstica e familiar contra a mulher constitui uma forma de violação aos direitos humanos. pode ser cometida por qualquer meio que possa atingir os resultados previstos.001/1973). vai imaginar que acabou de ser criada uma realidade inteiramente nova para a mulher. II. chegaríamos à surreal conclusão de que a lei equiparou a mulher ao ser humano! No art. goza dos direitos fundamentais inerentes à pessoa humana”. A lei. perseguição contumaz. em flagrante desrespeito ao princípio da igualdade que.

como negros. crianças. . índios. como a conduta do homem que não lava a louça suja. A pretexto de proteger a mulher. com suas costumeiras pretensões totalitárias. nos dias de hoje. ser homem pode ser um crime. chega-se à conclusão de que a essência do delito reside numa característica do autor. adolescentes e. homossexuais. É nítida a semelhança com a ideologia marxista: basta trocar “homem adulto e branco” por burguesia e todos os outros por proletariado. [6] Assim. considera como crime o preconceito contra homossexuais. O Estado. ser punido por atos que inevitavelmente ocorrem no cotidiano de um casal. que explica a pena”. biológica ou psicológica. a “condição moralmente inferior” do homem pode ser “compensada” pelo fato de que a lei o considera também como uma vítima! [1] Ressalte-se que o Projeto de Lei 5003-B/2001. a lei considera-a como incapaz de cuidar de sua higidez mental [5]. Enfim. que precisam de proteção. entra na vida familiar e disciplina o que é ou não permitido. Estendendo ao extremo esta segunda opção. doutrina segundo a qual o delito: “Constitui o signo ou sintoma de uma inferioridade moral. Nesses casos. Em princípio. Os primeiros são os homens adultos e “brancos” e os oprimidos são todo o resto. em um futuro próximo. exceto se pertencer a alguma minoria legalmente protegida. o homem que ri de alguma atitude de sua mulher está cometendo violência doméstica. Da mesma.. De repente. [2] É interessante verificar a ideologia implícita nessas leis: existem opressores e oprimidos.. idosos. significa penalizar o homem como tal e não os fatos em si. caçoar” [4]. já aprovado na Câmara dos Deputados. podendo ser “ferida em sua auto-estima” por qualquer palavra ou atitude dissonante do companheiro! A aplicação literal desse dispositivo levará inevitavelmente ao “Direito Penal do Autor”. forma “ridicularizar” significa “zombar. pequenos atritos diários podem ser considerados crimes ou dar ensejo a indenizações por dano moral.situação especial de alguém”. O termo é tão vago que pode significar qualquer coisa. o ato é apenas uma lente que permite ver alguma coisa daquilo onde verdadeiramente estaria o desvalor e que se encontra em uma característica do autor.

Abordada pela reportagem do JC. Promessas. A cada 15 segundos uma mulher é espancada no Brasil. uma agressão verbal. Com a garantia de que seu nome seria mantido em sigilo. ameaças de morte. Um tapa. só nos primeiros cinco meses de 2004. diariamente. apresenta uma vida marcada por humilhações. ela começa a contar sua história. uma média de 50 mulheres procuram. Depois passou a ser agredida fisicamente. Clara só conheceu nos primeiros dois anos da união. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). um beliscão. Clara (nome fictício). mostram que no Brasil 29% das mulheres já foram violentadas física ou sexualmente. Em tom de desabafo. “Até grávida eu apanhava”. um olho roxo. Reconciliação. Sua fala é de medo e desesperança. Casamento com amor e respeito. Pela primeira vez decidiu ir à Delegacia da Mulher de Bauru. legislação. Entre estas agressões estão desde ferimentos por armas. que considerava a mulher casada como uma pessoa relativamente incapaz. uma vez que são raros os casos de mulheres das classes média e alta que denunciam a violência. de São Paulo. no entanto. chutes. Os números não revelam. Clara não espera nem pelas perguntas e. de 2005. há 25 anos vive na gangorra da agressão e reconciliação. [5] É inevitável a lembrança do Código Civil de 1916. as mulheres por detrás dos números vivem uma situação muito parecida. Interromper este ciclo depende de diversos fatores que passam por questões relacionadas à educação. Em Bauru. “Nem dormir mais eu durmo direito. “Ele (marido) me mata”. mapa estatístico preparado pela Comissão da Mulher Advogada da Ordem dos Advogados do Barsil (OAB) de São Paulo revela que foram registrados mais de 132 mil casos de violência contra a mulher. condições socioeconômicas. inclusive com a instituição do dote. até serem arrastadas pelo chão. para que as pessoas saibam exatamente o que é proibido. dois filhos. a dimensão real do problema. a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) para denunciar algum tipo de violência. a lei penal deve prever com exatidão a conduta incriminada. de acordo com o Instituto Patrícia Galvão. numa torrente de palavras e emoções. 44 anos.[3] De acordo com esse princípio. conta. declarações de amor. No Estado de São Paulo. levar socos. entre outras. só concordou em dar entrevista se sua identidade não fosse revelada. independentemente de viverem em condições de pobreza ou de situações financeiras mais favoráveis. No entanto. Tenho que guardar as facas de casa”. “Não agüento mais ser humilhada e espancada”. que deveria ser protegida. A agressão verbal também é constante e apesar de não deixar .

de “ô”. uma espécie de autorização dela para que a investigação seja iniciada. menos de 10% procuraram serviços especializados de saúde ou segurança. Clara “agüentou” calada as agressões do marido. esta já existente há 2500 anos nos continentes antigos. com dois filhos pequenos. A delegada da DDM. Os filhos pequenos. não contaram a ninguém sobre a violência que sofreram. ‘da superioridade do homem’. “Ele não me chama pelo nome. a mulher precisa retornar à delegacia para que seja feito o termo circunstanciado. Cássia Regina Cancian Machado. segundo a delegada. trabalhando como doméstica. Questionada sobre porque não se separou do marido. tinha o medo: “Ele sempre disse que me mataria. trabalhando como empregada doméstica e convicta de que casamento é para o resto da vida. se ele não me matar antes”. me chama de bruxa. 60% nunca deixaram o lar. ela resolveu dar um basta. “Na maioria dos casos que chegam à delegacia. A deplorável prática da violência contra a mulher Direcionado à divulgação de dados grotescos da ainda prática da violência contra a mulher nos dias de hoje. em função das agressões sofridas. onde a mulher era vista . A maioria chega convicta de que não irá mais suportar tanta agressão e humilhação. os maridos agressores são os provedores dos lares”. eu não sou cavalo”. De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). afirma. nem por uma noite. pois encontramos raízes deletérias deste triste acontecimento desde o primeiro alicerce fundado na construção da falsa ideologia. até então aceita. e sem esperanças de que o marido possa mudar. Hoje com os filhos maiores. mas desiste no meio do caminho. Elas desistem. e em média. a mulher demora 10 anos para pedir ajuda pela primeira vez. Clara levou mais de duas décadas até ter coragem para procurar a Delegacia de Defesa da Mulher de Bauru. “Eu me separo. fere a alma de Clara. em 2005. não é de hoje que a imposição a uma subordinação da mulher em todos os seus aspectos seja por todos conhecida. Para que a denúncia se transforme em um processo. 25% do total de 29% das mulheres agredidas no Brasil. Sem dúvida. Até hoje ele diz que se sofrer algum processo ele incendeia a casa comigo e os nossos filhos dentro”.marcas no corpo. como se sustentaria? Junto aos problemas financeiros que viriam junto com a separação. um já adulto. ela responde com outra pergunta: “Mas para onde eu ia?”. na maioria dos casos porque não têm como se sustentar sozinhas. Sem ter para onde ir. afirma que 60% faz o boletim de ocorrência e não retorna. Ela é apenas uma das 50 mulheres que chegam todos os dias à delegacia.

a violação à mulher é considerada apenas como sendo um crime moral e não como um atentado à integridade física. extraímos dados provenientes sobre a violência física e moral a que a mulher ainda atualmente vem sofrendo na sociedade hodierna. Segundo a Revista Veja. idade ou classe social para se materializar. na Birmânia e em Bangladesh. quase fazendo com que acreditemos que não são praticados por outras pessoas. Por meio de um breve estudo. ou ainda em Serra Leoa que. caracterizando-se como a expressão mais vil do reduzido ’status’ feminino em todos os povos. o que chega a ser considerado pouco perto de países como o Paquistão. onde cerca de 8 mulheres são transgredidas por dia e 70% a 95% já foram vítimas de violência doméstica. toleram ou mesmo justificam diversas e diferentes atrocidades que são endereçadas contra a mulher. em matéria datada do mês de dezembro do ano de 1999. Entretanto. a cada 18 minutos uma mulher é agredida. acintosos e por demais cruéis. Os exemplos colocados a seguir e retirados da citada reportagem. Não nos olvidemos ainda de citar que nos continentes asiático e africano. Nos Estados Unidos da América. a mulher é obrigada a usar a burca em todos os momentos e por toda a vida. ou quiçá pioraram. de forma geral. várias culturas ainda aprovam.apenas como um objeto ou um mero brinquedo de luxo. mesmo diante desse reprovável quadro de ululantes absurdos. é praticada a mutilação genital em infantes sem sequer . na Índia. são deploráveis. em tempo de guerra civil. fruto de normas de conduta distorcidas a respeito do papel e das responsabilidades de homens e mulheres na sociedade. 5 mulheres são queimadas por dia. e sim. e em algumas comunidades islâmicas nos EUA e no Canadá. por monstros ou entidades do mal que resolveram passar por nosso planeta apenas para espalhar barbaridades e atos insanos incomensuráveis. faz com que as tropas rebeldes tenham a desumanidade de compelir as mulheres à escravatura sexual. os indicativos de violência contra a mulher mudaram pouco. pois é consenso geral de que tais agressões não escolhem raça. No Afeganistão. Mencionem-se ainda. em relação aos dias de hoje. em Marrocos. países como a África do Sul onde as mulheres são consideradas seres inferiores. sendo essas atitudes. as mulheres são queimadas com ácido devido às disputas de dotes. Infelizmente não paramos por aí. para dizer o mínimo. outros seres humanos.

Mais de 114 milhões de mulheres no mundo sofreram algum tipo de mutilação sexual. . tal mutilação. . 90% das mães entre 12 e 16 anos foram estupradas. a cada seis minutos. .Nos EUA. uma é estuprada. .Dois terços dos 885 milhões de analfabetos adultos recenseados pelo Fundo das Nações Unidas para a Educação (Unesco) são mulheres. . na extirpação parcial ou total dos órgãos genitais femininos. . .No Paraguai.Na França.Segundo a Associação Médica dos EUA. Austrália e Nova Zelândia. a um custo de US$ 44 milhões ao país.Em Lima (Peru).A violência contra a mulher é maior na América Latina. 95% das vítimas de violência são mulheres. . cinco por minuto. América do Norte. em 2002.Na Índia. África. temos a destacar com repúdio os seguintes dados coletados pela Universidade Federal da Bahia: . as agressões de maridos somente são punidas se a mulher ficar incapacitada por mais de 30 dias. consistindo. A lei não se aplica às mulheres nas mesmas circunstâncias. 51% sofrem agressões dos próprios maridos. pela Delegacia da Mulher do Distrito Federal. 9 mil mulheres são assassinadas ao ano porque o dote não é suficiente. Em uma outra pesquisa feita em 1990 pela Organização das Nações Unidas e. a violência doméstica atinge de 2 a 4 milhões de mulheres: são 21 milhões de hospitalizações. uma mulher é espancada. .serem observados procedimentos básicos de higiene ou utilizada alguma espécie de anestesia. . A cada 18 minutos. a lei perdoa maridos que matam mulheres flagradas em adultério. quase um terço das 77 mil mulheres de menos de 50 anos que atuam nas forças armadas sofreu estupro.Na Bolívia. São seis mil por dia. Os dados catastróficos não param por aí.

um em cada cinco dias de falta no trabalho feminino é conseqüência da violência doméstica. como no caso de países como o Congo Oriental e Afeganistão.Em Uganda. só em Portugal as mulheres são mais espancadas que as suecas. Em períodos de guerra. Mencione-se que. um terço das mulheres diz apanhar dos maridos. relações sexuais forçadas e constrangimento psicológico – é também uma das maiores da Europa. na África.. No mundo. . na Europa. assim. o dobro da média européia e um índice encontrado com maior facilidade em países menos desenvolvidos. A reportagem noticia que em 2003. onde a violência contra a mulher – incluindo aí espancamento doméstico. quatro homens religiosos devem testemunhar para dizer se houve penetração. namorado e toda sorte de ex. de acordo com um relatório da Anistia Internacional. em 40% o número oficial de casos de violência contra as mulheres. o depoimento da mulher pode ser considerado ''sexo ilícito'' e ela pode ser condenada à morte. Mais recentemente verificamos.No Paquistão. como o Brasil. Informa ainda que quatro em cada dez suecas. as mulheres suecas não tem coragem para denunciar as agressões que sofrem dentro de casa. é sabido que a violência contra a mulher aumenta. pela mesma Revista Veja. em casos de estupro. a lei reconhece ao homem o direito de bater na mulher. Nas zonas rurais. Em que pese o quadro cruel relatado. suportando caladas tal situação para preservar a imagem de pessoa forte e independente que construíram na sociedade. em algum momento da vida. Se as acusações não forem comprovadas. . . 50% das agressões que chegaram ao conhecimento da polícia se referiam a surras aplicadas por marido. É citada a Suécia. as mulheres são vendidas para casar com desconhecidos. tendo aumentado nos últimos quinze anos. aduzindo que as conseqüências do estupro e da violência doméstica para a saúde das mulheres são próximas aos efeitos das doenças cardiovasculares e mais expressivas que as encontradas para todos os tipos de câncer. representando. sendo usada até como tática de guerrilhas entre os povos. já foram agredidas por homens. datada de abril de 2005. desta feita por meio de matéria bastante atual. dados aterradores de países tidos como avançadíssimos em todos os sentidos.Na China. De acordo com estatísticas.

sendo que somente 27 têm leis contra assédio sexual. O número de vítimas de maus-tratos continua a aumentar de forma assustadora e. retrucar. aliado ao fato de que apenas 44 países aprovaram legislação contra a violência doméstica. ed. fev. Bem. Tentativas de suicídio foram relatadas por 39% das entrevistadas e 24% passaram a fazer uso de ansiolíticos. segundo a Fundação Perseu Abraão e o Instituto Patrícia Galvão em pesquisa recente. o Brasil é o país que mais sofre com a violência doméstica. hoje. mulheres que sofrem violência doméstica podem apresentar quadros de ansiedade. De acordo com artigo publicado na Revista de Saúde Pública. No caso do Brasil possuímos dados igualmente graves. perdendo 10. consoante percebemos então. o que não mais podemos aceitar no mundo moderno em que vivemos. raça. sendo que os transtornos mais freqüentes são verificados entre mulheres vítimas do próprio parceiro. pois. cremos que a violência contra a mulher não respeita fronteiras de classe social. o grave problema da violência contra a mulher pode e deve ser considerado como uma questão de saúde pública. o problema é tão grave que virou também questão de saúde pública.5% dos casos de violência física contra mulheres. Os maus-tratos seqüenciais podem produzir efeitos permanentes na auto-estima e qualidade de vida da mulher. De acordo com pesquisadores da Universidade do Ceará. religião ou idade.5% do seu PIB. no âmbito jurídico certos avanços foram conseguidos pela mulher. tais como: foi retirado o conceito de mulher honesta .metade das portuguesas já foram surradas pelo menos uma vez na vida. 2005. Aqui desobedecer ao marido. fazendo com que elas apontem nestas pesquisas que o problema que mais as afligem hoje é a violência doméstica. fobias e depressão. Em que pesem estas tristes alegações. questionar o cônjuge a respeito de dinheiro ou mulheres ou até sair de casa sem a sua permissão. recusar sexo. a cada 15 segundos uma mulher é agredida em razão do uso abusivo de bebida alcoólica ou por ciúme doentio de certos homens. são motivos considerados como sendo ‘razoáveis’ servindo de desculpa para injustas e ilícitas agressões contra a mulher. falhar no cuidado das crianças ou da casa. frisando que em 85. os próprios parceiros são os agressores. Diante da apresentação desta análise. além de uma violação explícita dos direitos humanos. não preparar a comida a tempo.

é um fracasso”. "a violência. do Planejamento e todas as entidades protetivas existentes. o estudo sobre as mulheres foi uma questão ausente na historiografia. pois a maior parte daqueles que praticam estas violências costumam sofrer pouca ou nenhuma punição. enquanto o homem resplandece e age. Modificar o ignorante entendimento da subordinação de gênero requer uma ação conjugada e seriamente articulada entre os programas dos Ministérios da Justiça. sob qualquer forma que se manifeste. do turismo sexual com menores. pois. que tais políticas públicas devem visar o mesmo desiderato. Durante muito tempo. A violência contra a mulher Durante muito tempo. É assustador o número de ocorrências praticadas contra as mulheres. aprovado o fim do dote obrigatório e. citando o filósofo francês Jean-Paul Sartre. da Saúde. há muito mais ainda o que se avançar. Para enfrentarmos esta cultura machista e patriarcal são necessárias políticas públicas transversais que atuem modificando a discriminação e a incompreensão de que os Direitos das Mulheres são também Direitos Humanos. ao final. elas são as águas estagnadas. algumas vezes em consideração aos filhos . mais recentemente. da mutilação genital feminina. sendo que muitas não são levadas a conhecimento da autoridade competente. Voltada ao silêncio da reprodução materna na sombra da domesticidade. da Educação. Voltada ao silêncio da reprodução materna na sombra da domesticidade. muitas vezes por constrangimento. fiscalizando o fiel cumprimento destas políticas citadas. Diga-se. conquistas estas obtidas por intermédio de muito esforço e luta em prol da classe feminina.para vítimas de abuso sexual. enquanto o homem resplandece e age. Todavia. efetivada a criminalização do tráfico de mulheres. o estudo sobre as mulheres foi uma questão ausente na historiografia. foi incluída no Código Penal em vigor a violência doméstica. a equidade entre homens e mulheres. sem nos esquecermos que o objetivo maior somente será cumprido com a plena e total participação da sociedade civil como um todo. elas são as águas estagnadas. destarte. constituindo. qual seja. um caminho digno e sério para alterar a violência em geral e de gênero em particular.

sobretudo o que devem fazer. não é senão a tradução redobrada das relações das mulheres com a vida e o espaço público. consolar.que não gostariam de ver seus pais presos. . procurando deixá-la a vontade para que me relatasse espontaneamente o seu problema e na maioria das vezes a situação já ocorre de longa data.os campos que abordam são os da ação e do poder masculino. Os vestígios sobre as mulheres encontrados na história. fazer-se amar.excluída à margem . foi criada para investigar crimes contra mulheres ocorridos naquele município. Na minha profissão de policial civil. a mulher é tida como objeto . A multiplicação destes discursos. mas sim de olhar dos homens que governam a cidade. Dentro da história. honrar. a qualquer hora. na calada da noite. a mulher continuava amando seu companheiro. na frente dos filhos e até mesmo na rua a mulher é violentada em toda a sua honra e dignidade. diz incansavelmente o que são as mulheres. e. as vezes desde a época da união. inúmeras ocorrências desse gênero chegou ao meu conhecimento. No município de Almirante Tamandaré . são deveres da mulher em todas as épocas. sucinta idênticos estereótipos. aguardar o marido. O registro primário do que elas fazem e dizem é mediatizado pelos critérios de seleção dos que estão no poder. numa demonstração de fidelidade e que lhe custava muito caro. constróem a sua memória e geram os seus arquivos. tornar a vida do homem agradável. ser útil. excluindo elucidações românticas. a escassez de informações concretas e circunstanciadas é suplantada pela abundância das imagens e dos livros e dos discursos. e ao perguntar a vítima o motivo pelo qual tolera a situação a tanto tempo. ou por motivos íntimos e particulares da própria vítima. até CPI. só quem acompanhou ou passou por este tipo de problema. Da antigüidade até nossos dias. amparar a vítima com todo o respeito. em vinte e um anos de serviço.Pr. não provém delas. percebi que apesar de todo aquele sofrimento. e sempre procurei. Esta exclusão. de Tito Livio aos modernos historiadores. cuidar.. pode ter idéia de como é constrangedora tal situação e que quase sempre acontece por motivos banais.

A exclusão do sacrifício e da participação do sexo feminino no meio religioso. companheira ou mãe. A mulher lutou tanto e continua lutando pelo reconhecimento de seus direitos e apesar de já haver conquistado o seu espaço em boa parte. e que a ordem sucessória é primordial. para mostrar que o sexo frágil é também o sexo de força da sabedoria e do amor. A mulher conseguiu evoluir através dos tempos tanto no sentido de mãe. a definição da cidadania e o adultério como exclusão definitiva da mulher no meio social. Isso faz supor que todo o sistema. relativamente a todas as capacidades femininas. de uma educação voltada para o lar e na lenta emergência de novas atitudes do domínio do corpo. tanto na idade Antiga e como na Idade Média. esposa e profissional. A inferioridade da mulher é reforçada quando o marido trata como uma criança grande que precisa ser cuidada e "guardada" dos olhos dos outros homens. tanto Romano como na Idade Média e Moderna (baseado no direito absoluto do pater familis) foi construído para mostrar que as mulheres eram parcelas anônimas e sem importância de famílias maiores. de vencer. faziam com que a mulher sentia- se rejeitada. perdoar.Igualmente redobrado é o discurso do direito romano no que fundamenta o papel ocupado pelas mulheres de transmitir a legitimidade.099/95 . continua sem saber fazer uso de seus direitos conquistados. pelo significado do amor . porque era considerada um ser não digno de participar ativamente das atividades religiosas. porque quase nunca era reconhecido o sexo feminino na esfera da cidadania. talvez pela sua grande capacidade de amar. A violência contra a mulher no âmbito familiar vista sob a ótica da Lei 9. com toda sua delicadeza feminina em dom herdado pela divindade.a conseqüência e não a causa do casamento. muitas ainda dependem do homem. como esposa. para a tentativa de preservação de si mesmas. O destino da mulher casada é marcado pela procriação de uma descendência legítima. As mulheres são também as resignadas que aceitam as outras. As conseqüências sociais e éticas sobre a vida das mulheres são traduzidas: pela idade de casamento. Mas sabemos que ainda a mulher tem muito para percorrer até atingir seus mais íntimos desejos.

A violência alcançou nos últimos anos índices alarmantes na chamada “família moderna”. Na grande maioria dos casos a violência dentro de casa se dá pelo poder que. elementos definidores do que seja infração de menor potencial ofensivo. 21). Assim. art. caput). O artigo 61 da Lei 9. são de competência dos Juizados Especiais Criminais os delitos tipificados na Lei Penal cujas penas máximas não ultrapassam dois anos. A violência sofrida pela mulher no âmbito familiar apresenta-se de forma cada vez mais intensa e as consequências lesivas à sociedade hodierna são notórias. ou seja. aliás.099/95. observados os requisitos ali mencionados será oferecida proposta de transação . o legislador buscou através da instituição dos Juizados Especiais Criminais desprestigiar a aplicação da pena de prisão. Neste contexto surgiram os Juizados Especiais Criminais instituídos pela Lei 9. ainda hoje. o mesmo ocorrendo com o art.Analisa a posição da vítima da violência doméstica frente a Lei 9. No âmbito da violência doméstica incluem-se ameaça (CP.099/95. também nas relações intrafamiliares. vale dizer. lesão corporal leve (CP.099/95 que apresenta uma solução formal quanto ao procedimento relegando a vítima a um papel secundário. Na verdade. de menor gravidade. nasceram justamente com o intuito de desafogar os presídios abarrotados.259/2001. Buscou o legislador a utilização de um procedimento simples e célere e a aplicação de penas com caráter ressocializador [1]. o homem acredita exercer sobre a mulher. evitando-se a aplicação da pena privativa de liberdade aos infratores que praticaram delitos chamados de “menor potencial ofensivo”. 129. Nas ações públicas incondicionadas nos termos do artigo 76 da Lei 9. estes os mais freqüentes nas ocorrências policiais. 147). o quantum da cominação genérica para a pena máxima. 2. como não poderia deixar de ser.º da Lei nº 10. vias de fato (LCP. já que a Lei Federal mais nova previu como infração de menor potencial ofensivo os delitos cujas penas não excedam a 02 (dois) anos.099/95 trata da conceituação de crimes de menor potencial ofensivo para efeito da competência dos Juizados Especiais Criminais. art. A sociedade atingida no seu íntimo reclamou do direito uma atuação para a solução do conflito estabelecido. art. As transformações sociais ocorridas com base na “evolução” do ser humano influenciaram.

o que significa dizer que o destino do procedimento instaurado será dado por opção da vítima que manifestará o seu desejo em audiência preliminar. Ciente das possibilidades a vítima. o autor do fato e a vítima. caso não manifeste a vontade de representar neste prazo será automaticamente arquivado. contado a partir do conhecimento da autoria do crime. nos termos do artigo 38 do CPP e 103 do CP. ao comparecer à audiência de que trata o art. o juiz esclarecerá sobre a finalidade da audiência apresentando quatro opções à escolha da vítima: a) não renunciar ao direito de representação contra o autor do fato. em regra. c) renunciar ao direito de representação. presentes à audiência preliminar o representante do Ministério Público. Normalmente as partes envolvidas. “retirar a queixa”.penal ao autor do fato. 72 da Lei nº 9. na grande maioria dos casos. eis que não encontrou a prestação jurisdicional que ansiava e necessitava renunciando ao seu direito. o chamado “prazo decadencial”. o seu desejo é resgatar a normalidade da convivência . não solucionam o conflito. Nos termos do artigo 72 da referida lei. 74). ou seja. A vítima da violência doméstica reluta em recorrer ao aparato policial e só o faz quando já não encontra outra saída. as opções destinadas à escolha da vítima não condizem com o seu anseio. primeiro porque não encontrou na Lei a opção que esperava. d) representar contra o autor do fato. a maioria dos delitos ocorridos em decorrência da violência doméstica. este. e. ou seja. opta por aguardar o prazo decadencial.099/95. deixar o procedimento aguardando. entretanto reservar-se-á no direito de oferecer tal peça no prazo que a lei lhe concede. diante das opções que o Judiciário lhe oferece se vê decepcionada e resolve muitas vezes. b) entabular uma composição civil com o autor do fato visando o ressarcimento de prejuízos que este lhe tenha causado em razão do delito praticado (art. por até seis meses. na expressão popular. e. as ações são de natureza pública condicionada à representação. eis que. Entretanto.

saído praticamente ileso. [2] Há que se observar ainda aqueles casos em que a lei não permite a transação penal ou que o autor do fato não aceita a proposta ofertada pelo Ministério Público. diante do resultado obtido pela sua iniciativa em buscar o Judiciário.familiar. sem solucionar o conflito e mais vulnerável ainda a novas agressões. Não é difícil concluir que a mulher já agredida e humilhada dentro de casa. ao final. a que mais lhe favorece “aparentemente”. Neste caso. mas sim uma segurança a ser fornecida pelo Estado. Entretanto. . não proporciona à vítima a sensação de reparação pelo mal sofrido. porque já que não encontrou na Justiça a solução do seu problema tem ainda a esperança de que o autor retome um comportamento em prol da família. ao final das contas. vai se sentir mais uma vez vitimizada diante de seu agressor que se vangloria de suas atitudes por ter. mesmo assim. Das opções fornecidas à vítima. é a possibilidade de representação contra o autor do fato. nos dizeres populares. designada audiência de instrução e julgamento. Manifestando o desejo de representar criminalmente contra o autor do fato. segundo. lhe concede um “benefício” onde será feita a proposta de transação penal. “sua ficha continua limpa”. o Ministério Público no seu mister. e. que pode realizar-se independentemente de sua vontade. A vítima da violência doméstica não busca uma reparação civil. percorridos os trâmites legais. Daí surge outra questão. Mas. e. pior ainda. havendo condenação. Constata o autor do fato que a Lei lhe permite a cada cinco anos a “barganha” da prática de um delito pelo pagamento de uma “cesta básica”. e disposto a prosseguir na sua prática ilícita.099/95. o resultado é uma pena restritiva de direitos podendo consistir em prestação de serviços à comunidade ou ainda convertida em prestação pecuniária. Ela volta para o convívio com o agressor. § 2º da Lei 9. O acordo entre o Ministério Público e o autor do fato já popularmente conhecido como o “pagamento de cesta básica”. ela não retorna ao Judiciário para representar porque sabe que não encontrará a solução pacificadora do seu conflito. A vítima não tem qualquer interferência na proposta de transação. observado o disposto no artigo 76. benefício algum trará à vítima que não será ressarcida em seu íntimo pelo mal sofrido. o gravame para o autor do fato é a integração de seu nome no rol dos culpados. onde será oferecida denúncia.

o autor do fato tem ainda a seu favor a possibilidade de suspensão condicional do processo mediante as condições previstas no § 1º do mesmo artigo. A construção de um pensamento jurídico renovado que busque a pacificação dos conflitos em detrimento das soluções apenas formais dos procedimentos capazes de pacificar a convivência entre vítima. resulta em elaboração de Boletins de Ocorrências. antes de tudo. A violência doméstica é caracterizada pela habitualidade. enfim. Observa-se uma mobilização em torno do conflito estabelecido. como visto.099/95. não oferece à vítima a solução do seu conflito porque não dispõe do instrumento adequado para tanto. Tem-se. audiências no Judiciário. O sistema penal. quando chega às portas do Judiciário o conflito já perdura dentro de casa durante anos e continuam as vítimas convivendo com seus agressores. a dinamização do conceito de dignidade humana e o pleno exercício da cidadania. que a faz sentir relegada a um papel secundário eis que não recebeu proteção e menos ainda solução adequada à sua situação. além de descumprir seu papel de ressocialização destinou a vítima da violência doméstica a um plano secundário. todo o sistema voltado para uma questão que acaba por encontrar ao final apenas uma solução formal. .Conforme artigo 89 da Lei 9. O resultado é que a vítima volta para o convívio familiar e sabe que vai lidar com o conflito agora agravado pelos acontecimentos sem que o Poder Público lhe ofereça qualquer alternativa compatível com sua expectativa de obter apoio moral. intimações. O sistema. impondo à vítima um sentimento de descaso da Justiça em relação ao seu problema. agressor e sociedade. são opções que pressupõem. uma vez que a Justiça Criminal é ineficaz ao fazê-lo. assim. a necessidade de buscar opções renovadas de solução dos conflitos intrafamiliares. A solução dada é apenas formal quanto ao procedimento. TCO's nas Delegacias.

salvo para os fins previstos no mesmo dispositivo. O processo perante o Juizado Especial orientar-se-á pelos critérios da oralidade. vulgarmente conhecida como "Lei Maria da Penha". a OEA responsabilizou o Estado brasileiro por negligência e omissão em relação à violência doméstica. o Juiz aplicará a pena restritiva de direitos ou multa. A Lei recebeu tal nome. . 62. sempre que possível. em relação às políticas públicas para enfrentar a violência doméstica no Brasil. Art. § 4º Acolhendo a proposta do Ministério Público aceita pelo autor da infração.099/95. Não obstante. que passaram a aplicar penas mais severas a homens que praticassem crimes domésticos contra mulheres. recomendou ao Brasil várias medidas para casos como o de Maria da Penha e. A Lei Maria da Penha e seus dispositivos nada democráticos Disserta sobre a Lei 11. Ele atirou friamente em suas costas deixando-a paraplégica. economia processual e celeridade. e não terá efeitos civis.340/06. objetivando. Em 2001. alterando o Código Penal Brasileiro. torna-se mister a fala do saudoso dramaturgo Nelson Rodrigues de que “a maioria é burra”. cabendo aos interessados propor ação cabível no juízo cível. [2] Lei 9. Eis que então.[1] Lei 9. após várias agressões por parte de seu marido. Foi um importante passo para o enfrentamento da violência contra a mulher. em homenagem a Maria da Penha. analisando seus artigos e relacionando-os à Constituição Brasileira. recebendo apoio quase que unânime de toda doutrina jurisprudencial. o Código de Processo Penal e Lei de Execução Penal. conformamos com o simples adesismo.099/95. sendo registrada apenas para impedir novamente o mesmo benefício no prazo de cinco anos. foi vítima de tentativa de homicídio. Art. A Lei 11. mais conhecida como “Lei Maria da Penha”. informalidade. 76. também. que não importará em reincidência. a reparação dos danos sofridos pela vítima e a aplicação de pena não privativa de liberdade. sem preocuparmos com a crítica. pois quando nos deparamos com algo unânime. E mais. entrou em vigor no dia 22 de setembro de 2006. a lei entrou em vigor.340. a qual no ano de 1983. vinte e três anos depois do crime.§ 6º A imposição da sanção de que trata o § 4º deste artigo não constará de certidão de antecedentes criminais.

com todo respeito e a devida vênia. sabe-se que a Lei não dispõe palavras inúteis.. de fato. além de representar um grande desafio para os doutrinadores. a liberdade. como a ameaça. o desenvolvimento. 141 da LCP (Lei de Contravenções Penais).Feita uma breve retomada histórica. e outras como a violência psicológica. e que antes desta Lei. De acordo com a Constituição. representantes do povo brasileiro. não é observado no Artigo 1º da Lei supramencionada “Esta Lei cria mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher. entre elas algumas que já estão tipificadas em outros Artigos do Código Penal Brasileiro. sob a proteção de Deus. quando uma Lei é criada. parece que a estamos comparando a mulher ao ser humano.. é normal que surjam pequenos atritos. fundada na harmonia social e comprometida. entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e . goza de direitos fundamentais inerentes à pessoa humana. destarte. o constrangimento.” Neste mesmo diploma. o Artigo 5º. o que.. cremos que a mesma deveria ser aplicada de forma igualitária a homens e mulheres. somos uma sociedade pluralista. o bem- estar. os quais certamente terão grande dificuldade para analisar artigos tão supérfluos.. seria gafe deixar de ressaltar que vivemos em um Estado Democrático de Direito. O mesmo ocorre quando se observa o Artigo 6º “A violência doméstica e familiar contra a mulher constitui uma das formas de violação dos direitos humanos. A Lei Maria da Penha discrimina um rol de atitudes praticadas pelo homem que são consideradas crimes. mas ao dizer que “Toda mulher. com a solução pacífica das controvérsias. na ordem interna e internacional. a humilhação e o insulto. reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um ESTADO DEMOCRÁTICO. diz que “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações”. pluralista e sem preconceitos. 140. onde cada cidadão possui crenças e valores divergentes.”.. a segurança. I. como reza o preâmbulo de nossa Lei Maior: “Nós. passarei a uma análise mais crítica acerca da Lei 11.340.. Quando ocorre a convivência (frequência de ato íntimo e mútuo).” Logo no Artigo 2º. promulgamos.” Chega a ser cômico. Primeiramente. a IGUALDADE e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna. 139. respectivamente nos Artigos 147 do CPB. que trata dos direitos fundamentais do homem. ela era apenas um bicho. destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais.

diminuição da auto-estima. subtração. a esfera pública entra na esfera privada e começa a regulamentar sobre coisas que não são da sua competência. considerando-se que tão-somente os recursos previstos no ordenamento jurídico. minha eventual esposa escorregar e eu achar engraçado correrei risco de ser preso? O que dizer do inciso IV do Artigo 7º “a violência patrimonial. e até as famosas cláusulas pétreas Artigo 60 § 4º “Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: I . secreto. Prova disso é que temos um Código Penal e um Código de Processo Penal capengas.”.a forma federativa de Estado. criador do AI-5 (Ato Institucional nº5). sem o consentimento da mulher. e criados em consonância com o procedimento legislativo estabelecido. por conseguinte. com a possibilidade de aumento (1/3) de pena no caso deficiente físicos. destruição parcial ou total de seus objetos”. como será que o nosso ilustríssimo legislador analisou o fato de usarmos. e um Código de Processo Civil da década de 70. IV .o voto direto. abalando a mulher emocionalmente e.a separação dos Poderes. Artigo 129 § 11. E diante do exposto. então quer dizer que se. podem ser utilizados com o fim de se reformar as decisões judiciais” (Elias Marques Medeiros Neto). um cartão de crédito em conta conjunta? Pelo que parece. no âmbito familiar. promulgado no apogeu da ditadura militar. resulta à possibilidade de 03 anos de reclusão. podendo chegar a três anos de reclusão. explicitamente. mas se o contrário acontecer. no mesmo prisma.os direitos e garantias individuais. entendido como “explícita proibição à criação de novos recursos pelas partes. O grande problema. zombar alguém. II . por ninguém mais. entendida como qualquer conduta que configure retenção. sendo . onde o Estado entra na vida das pessoas. políticos. temos uma Constituição completamente destoante que entrou em vigor no ano de 1988. III . jorrando direitos fundamentais. Importante não deixar de ressaltar que esta Lei atribui uma pena relativamente alta. caracterizaria um crime de violência doméstica. a qual. sociais. entre outros. em minha opinião. ridicularizar significa caçoar. ambos da década de 40. pois o simples fato de o homem chegar tarde a casa depois do serviço. ninguém menos que Emílio G. as mulheres podem retirar dinheiro do banco sem o consentimento do marido. diminuindo a sua auto-estima. universal e periódico. frutos do governo de Getúlio Vargas (Estado Novo). que foi um instrumento de poder que deu ao regime militar poderes absolutos e cuja primeira conseqüência foi o fechamento do Congresso Nacional por quase um ano. é que ainda colhemos frutos de um passado recente. Médici. viola o principio da taxatividade.

Por advento das denúncias proferidas pela prática de violência doméstica contra Maria da Penha Maia Fernandes que . de sua dignidade e do respeito aos Direitos Humanos fundamentais. A mulher espera ansiosa os poucos dias que a separa do reconhecimento de seus direitos enquanto pessoa. uma clara proteção à pluralidade. os idosos (Estatuto do Idoso). bem como uma reforma por parte da jurisprudência. e não como se vê. mas é a lei) sem pensar que a sociedade muda constantemente. tendo-a sempre como a fonte supra para qualquer decisão. acredito que a Lei Maria da Penha arrebenta o princípio da taxatividade e da legalidade. o simples fato de ser homem passará a ser crime. até que surja uma Lei para nos proteger. Artigo 60 § 1º.340.º. especulado. as mulheres (Lei Maria da Penha). assim como existem Leis que protegem os Índios (Estatuto do Índio). entre outras.ressalvado que "A Constituição não poderá ser emendada na vigência de intervenção federal. Digo o mesmo para os magistrados. Estamos falando da Lei 11. ou já conhecida como Lei Maria da Penha. entendido como o mais importante do Direito Penal.Como combater os retrocessos com avanços Trata dos conflitos contidos na Lei 11. Inciso XXXIX. Deste modo. daqui a alguns dias. burramente colocando uma Lei infraconstitucional acima da Lei constitucional. Nova Lei sobre a violência doméstica . entendo que necessitamos urgentemente de uma reforma em nossos Códigos procedimentais. Oxalá tenha contribuído para uma melhor análise da Lei 11. as crianças (Estatuto da Criança e do Adolescente).340/06 (Lei Maria da Penha) e ensina o leitor a lidar com as imperfeições legislativas. Tal nomenclatura se deve ao fato do Brasil ter sido o primeiro País condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA).340/2006. “dura Lex sed Lex” (a lei é dura. que por serem nossos representantes que exercem autoridade judiciária. Finalizando. Se continuarmos na mesma direção. na Constituição em seu artigo 5. necessitam atuar consoante a Lei Maior. outrossim. que insiste manter uma análise fria da lei. de estado de defesa ou de estado de sítio”.

Não é novidade alguma o descaso com que as autoridades brasileiras tratavam a questão da violência doméstica. §9° do Código Penal Brasileiro que prevê pena máxima não inferior a dois anos (redação da Lei dos Juizados Especiais Federais de 2001). enquanto ela dormia lhe “presenteando” com uma paraplegia irreversível. Nesses casos é possível a comutação da pena de detenção pela transação penal. . qual seja. E exemplos é que não faltam.099/95. Até 22 de setembro aos praticantes de violência doméstica restará usufruir do procedimento responsável pela banalização da violência doméstica. Ao agressor o que aconteceu? Depois de mais vinte anos finalmente houve a condenação de Heridia Viveros em setembro de 2002. Em pouco mais de dez anos os Juizados Especiais Criminais avocaram a competência para os casos de violência doméstica.340/06. em regime fechado. A competência foi definida através do artigo 129. o pagamento de multa. O tema foi tratado até no horário nobre na novela Mulheres apaixonadas. A balança da justiça parece que vai ter um equilíbrio. e o resultado foi o mais danoso possível para a mulher. Beneficiado pelo regime prisional brasileiro o infrator cumpriu. Devido aos problemas estruturais da nação os Juizes optaram que o dinheiro que deveria ser pago pelo infrator deveria ser convertido no pagamento de cestas básicas a serem entregues a entidades carentes. a possibilidade de transação penal prevista pelo artigo 89 da Lei 9. o que se pode espera de um país que consagrou o jargão “em briga de marido e mulher não se mete a colher”? 2006 representa um marco para a mulher. menos de um terço da pena de dez anos de prisão. Através dos artigos 17 e 44 da Lei 11. Providências: nenhuma. ou seja.culminaram com um tiro desferido por seu marido. a competência para os crimes de violência doméstica não poderá mais ser dos Juizados visto que a pena foi aumentada para três anos. A relação de agressão e punição tão banalizada finalmente será coibida. Afinal. Eis o surgimento das mal fadadas cestas básicas como pagamento de violência doméstica. o mais recente foi a esposa do ator Kadu Moliterno na Revista de maior circulação nacional com um olho roxo sob o título: ele sempre me bateu.

Neste caso temos um grande perigo. Eis o grande problema. Como o leitor pode perceber é fácil encontrar imprecisões legislativas que poderiam inviabilizar a aplicabilidade da própria legislação. porque como ficará o recurso de uma ação cível advinda de violência domestica? Será encaminhada a esfera criminal? O legislador foi completamente silente. Apesar de ser silente quanto à violência doméstica contra os homens. ou seja. parágrafo único). ainda que forçada do legislador. Um dos grandes avanços da nova lei é a previsão expressa de que a mulher deve estar acompanhada de um advogado em todos os atos processuais (art. bem como a proteção à mulher agredida por outra mulher (relações homossexuais previstas no art. Ademais temos de citar também o completo desconhecimento do legislador em formular tal alternativa. em assegurar uma efetiva proteção à mulher. Assim haverá informação e consciência dos atos praticados por ela ao longo do processo. a se ver obrigado a atender primeiramente os processos de violência doméstica o Juiz poderá abrir uma grande brecha no que tange a prescrição dos demais processos. Além disso. Uma grande melhoria foi a devolução de poder à autoridade policial que agora poderá investigar. vamos demonstrar onde se encontram os avanços.E justamente ao tirar a competência dos Juizados Especiais o legislador causou o maior desastre legislativo por uma questão simplista: prevê a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher. determina em seu parágrafo único o direito de preferência sobre as ações de violência doméstica em relação às demais. 27). fazer inquirições ao agressor. que enquanto não existirem serão substituídos na relação processual pelas varas criminais. . 5°. este não é a nossa pretensão. Louvamos a iniciativa. Outras conquistas foram a reafirmação dos Direitos e garantias individuais da mulher no artigo 3°. à vítima culminando com um inquérito policial que deverá ser apreciado pelo Juiz em até 48 horas (em caso de medidas de urgência). Entretanto. O artigo 33 prevê a competência às varas criminais para questões tanto criminais quanto cíveis.

que é a competência. como em todas as leis feitas às pressas caberá à jurisprudência e à doutrina produzirem material para suprir as lacunas existentes na lei. Sem. Mas. Desprezar os progressos que a lei contém é admitir um retrocesso que a mulher não pode admitir muito menos os operadores do direito. que os Juizados Especiais Cíveis e Criminais mudem sua nomenclatura para Juizados Especiais e de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher. Este é um novo começo e a maior conquista será da mulher. se fazer ausente. O que se faz pungente é um programa de reciclagem e reeducação dos Magistrados para abolirem o vício da transação e tratarem as mulheres com as garantias que lhe são devidas. contudo. enquanto não forem criados os Juizados próprios. dentre outros.O escopo da Lei é a formação e conscientização do agressor numa nítida consciência que o legado de agressões somente deixara de existir com o transcurso do próprio tempo. Com isso prevê a mantenedura da unidade familiar e a redução de novos casos. 8°. Além disso. IX). Para tanto é preciso aproveitar toda a estrutura dos Juizados que abrangem quase todo o território nacional. pois prevê a implementação de disciplinas curriculares de Direitos Humanos e de combate à violência doméstica (art. prevê a formação de programas de recuperação e reeducação do agressor (art. 45). Então para que não percamos as inovações trazidas acima. A lei contém um grande problema. Viva Maria da Penha! .