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No início era...

o frio

O
dramático relato que aí segue conta a
da carioca que vos fala, quando se
defrontou com o terrível aquecimento a
carvão, que nos dias de hoje ainda grassa na cidade de
Berlim, mesmo do lado ocidental. No original, essa era
parte de uma carta enviada para casa, cujo único
comentário de mamãe foi: que trabalheira, não? “Deixa
eu contar umas coisas que vocês não conhecem. Por
exemplo, a história do aquecimento, que eu, aliás, nunca
li em lugar nenhum e acho que seria importante divulgar,
porque é uma coisa que milhares de pessoas têm que
fazer todo dia - não estou exagerando, porque com o frio
não dá prá agüentar. Imaginem uma geladeira recoberta
de azulejos com uma grelha em baixo - gente!, que
descrição do cacete! É exatamente isso. Então, você
acende com o fósforo (eu uso o isqueiro, que tive que
aprender a manejar com a mão esquerda) dois
quadradinhos de uns 2 cm de lado, feitos de um tipo de
compensado. Depois, põe uns pedaços de madeira
cortada com uns 15 cm de comprimento e uns 2 cm de
espessura, alternando, na horizontal e na vertical, como
se fosse uma fogueirinha. Ali em cima você põe os
danados dos briquets, que são uns tijolos de carvão
pretos, pesando cerca de meio quilo cada um. Eles são
depositados do mesmo jeito, tipo um jogo da velha, dez
de cada vez, e quando estão incandescentes você pode
fechar a saída de ar. Senão fizer isso, a fumaça e os
gases tóxicos ficam dentro de casa e é perigoso. Cada
remessa gera entre 10 e 12 horas de calor. Acabo de
descobrir que a tal saída de ar é fundamental. Eu pus
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uns briquets prá queimar no quarto, tem feito frio à noite,


e abri a saída de ar em cima (é só virar uma chavinha)
mas! esqueci de abrir uma portinha de entrada de ar que
fica embaixo da porta da grelha. Resultado: sem a
corrente de ar, os briquets não pegam fogo e nada feito.
Deu pra entender? Outra coisa importante é retirar as
cinzas, que têm cor de serragem e consistência de talco.
Qualquer movimento brusco e a porra toda voa. Um
espirro seria fatal! Tem que retirar a cinza praticamente
toda vez que põe uma remessa nova. Eu, nos primeiros
dias, me sentia tão mal, porque era encostar na porta
das cinzas (a mesma da entrada de ar) pra me lembrar
dos judeus cremados em massa na Segunda Guerra.
Agora a má impressão já passou. A gente acostuma.
Mas tem muito alemão, como o Hans, por exemplo, que
sempre morou em casa com aquecimento e nunca
precisou sequer aprender como é que se faz a coisa. Eu
já entendi. No banheiro, pra tomar banho quente, é a
mesma coisa, só que quatro briquets chegam e não tem
que controlar a passagem de ar - é aberto direto. Lavar
louça é com água gelada mesmo. Outra coisa
importante sobre os briquets, e que explica uma
expressão idiomática. Um sinônimo para dinheiro, em
alemão, é carvão. Eles dizem: não tenho mais carvão, o
carvão acabou, etc. Agora o porquê: encomendei 250
kg, ou seja, dez amarrados com 45 briquets cada um.
Paguei mais 40 marcos (o carvão custou 160) só pra
trazer aqui no quarto andar, que corresponde ao terceiro
daí porque o primeiro deles é o nosso térreo. Eu não
suspendo um amarrado sequer de 25 kg sem perder as
pregas. Mas o cara que veio entregar - um coroa - subiu
cinco vezes ininterruptas com dois amarrados de cada

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vez. Ou seja, 50 kg nas costas, fora a caixa de madeira


onde colocava a carga, que devia pesar aí mais uns 3
kg, pelo menos. Depois da primeira subida eu já fiquei
agoniada porque o homem bufava muito. Meu cabelo
ficou em pé quando eu percebi que ele não ia fazer uma
pausa. Eu corria da porta pra janela, de onde via ele
pegar a carga no caminhão, feito uma doida, esperando
ele cair de cansaço a qualquer momento. O super-
homem não é lenda, ele existe e entrega carvão aqui em
Kreuzberg, o bairro dos turcos onde eu vim parar - mais
sobre os turcos na próxima carta, eu ainda estou
pesquisando. O louco era o barulho que o homem fazia,
e que foi aumentando, à medida que ele ia se cansando
mais. Bufos e suspiros profundos, ele ia repetindo, “ô, ja,
ô, ja”, (é o ia deles, o sim, que se escreve com jota).
Então, o bicho andando, subindo e descendo e
gemendo, “ô, ja”, se eu ouvisse de olhos fechados, diria
que era o super-homem transando, juro! Se eu tivesse
pedido mais dois amarrados tinha matado o homem. É
um negócio desumano. Eu quase pedi desculpas por ter
comprado o carvão. Será que ele faz isso o dia inteiro,
todo dia? Podia, por exemplo, dar a bunda no cais de
Hamburgo, que seria um serviço mais levinho... Agora, o
detalhe: ofereci água e ele não quis. Porém, fiquei tão
em choque que esqueci de dar gorjeta ao homem! Vou
queimar num forno desses no inferno.”

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Ônibus número 100

V
amos pegar o ônibus número
100 andando, ali pela
Bötzowstraße. A direção é S-
Bahnhof + Zoo. Depois da Friedrichshain, ele
vira na Otto-Braun- e na Mollstraße, onde
passa o bonde. Daqui um cadinho está na
Alexanderplatz e aí começam as atrações.
Suba para o andar de cima, que é
muito mais bonito. Corra pra pegar um dos
quatro lugares na frente. Não deixe que os
japoneses vençam você pelo número nem os
italianos pelo volume. É, continua persistindo
alguma coisa do tempo da guerra, sem
dúvida, continua tudo igual, as formigas
míopes japonesas embarcando junto com as
matracas italianas na viagem do alemão.
Um pouquinho antes da catedral, que
fia do lado direito de quem vai, tinha um
parque de diversão com tudo a que se tem
direito, inclusive diversão, graças às barracas
de comida, é claro, mas você demorou muito
e já desmontaram tudo. Atravesse a rua de
novo e pegue o barco com vista panorâmica
que faz o mesmo trajeto por via fluvial e, por
que não dizer, de costas, já que você ouviu
dizer que é possível ver todos os monumentos
pela parte de trás.
Lado esquerdo, Rathaus e depois uma
praça com a Deutsche Oper. Lado direito, a
universidade Humboldt, sempre alegre por

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causa dos estudantes que se defendem


vendendo de tudo, desde uma banquinha de
livros usados que nunca leram, mas
recolheram no porão de casa, até singelos
muffins a dois marcos a unidade. Você tinha
passado nesse instante mesmo na porta do
museu histórico, mas isso não faz seu gênero.
Você não pensa em descer do ônibus ainda,
daquele lugarzinho que o japa está doido pra
pegar, não senhor.
Você está no Unter den Linden, o nome
impressiona, mas é só uma avenida, por que
não dizer, chocha. No final dela, à esquerda,
estão reformando o Hotel Adlon, onde Greta
Garbo pode ter dito sua célebre frase, “I want
to be alone”, algum camareiro esclerosado
pode confirmar. Ah, quase passava
despercebido, mas ali na frente está o cartão
postal de Berlim: o Brandenburger Tor, o
Portão de Brandenburgo. Por favor, olhe em
volta primeiro pra ver se tem algum alemão
perto, antes de fazer cara de muxoxo.
O ônibus número 100 dobra à direita e
passa pelo Reichstag, aquele prédio mesmo
que o maluco do Christo empacotou há cerca
de um ano. O prédio continua meio
embrulhado, só que agora por conta das
obras de restauração. Alemão tem mania de
restauração, como você sabe. Tanto que uma
das áreas mais importantes da fronteira entre
as duas Alemanhas, o muro que foi
derrubado, mas nunca esteve tão in, a tal da

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terra de ninguém, enorme e décadas ociosa,


acaba de virar o maior canteiro de obras de
que se tem notícia, na Potsdamer Platz. Pra
onde você olha, um trator, um buraco,
geralmente cheio d’água porque chove pra
caramba, fios e vergalhões amarrados em
feixes e mais feixes como se fossem palha,
umas centenas de cordas vermelhas
sustentando com perfeição de nado
sincronizado um poste de ferro que até ontem
não estava ali, vai ver, tiraram do parque de
diversão (?).
Um trecho insípido, mato, mato, verde,
verde, nem adianta arriscar um olhar
comprido pros lados do castelo Bellevue
porque não é permitida a visita. Bandeira no
alto significa que o presidente está em casa.
As esculturas modernas e os cartazes
convocando para a exposição de arte africana
não são suficientes pra fazer você descer na
Haus der Kulturen der Welt. E ali adiante, de
repente, a tentação em forma de anjo, vai ser
difícil resistir, porque você conseguiu, você
chegou à Siegessäule!
É o monumento mais bonito de Berlim,
embora seja uma lembrança de guerra da
Prússia. Lá no meio da Großer Stern a
imagem dourada do triunfo que não lhe é
estranha, caso você tenha visto o filme do
Wim Wenders, que você nunca lembra o
nome. A anja, na verdade é uma ela, pasme,
você, para quem anjo não tem sexo, também

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é chamada de Viktoria ou de Elsie. Quando


você saltar lá, na volta, e estiver de língua de
fora bem distante ainda do topo vai ler num
vão da escada: Jacko, I came here just to
shout out that you are not alone! Incrível, a
popularidade desse moço, o Michael Jackson
...
Em frente, em frente, como esse trecho
é meio morto você pode aproveitar pra rir um
pouco, prestando atenção nos turistas
embolados nas escadas do ônibus. O certo é
subir pela da frente, cuida pra não bater com
o chifre no teto baixo, sentar quietinho e
reparar na instrução de que é para descer
pela escada de trás. Alemão é fogo! O ônibus
mais parece a torre de babel e o cartaz é
monoglota, o turista não entende alemão e a
maioria quer descer pela escada da frente,
que é mais perto dos camarotes, claro!
Em caso de permanência prolongada
em Berlim, cedo você vai descobrir que o
ônibus número 100 é o seu melhor amigo.
Pára a intervalos curtos, passa toda hora,
inclusive de noite, e leva você pra
absolutamente toda parte que lhe interesse ir.
Ali do lado direito você está na porta do
Aquarium e do Zoo, mas corre o risco de os
pandas terem ido tirar férias noutras bandas -
é uma tristeza aquelas jaulas vazias!
Adiante, a Kaiser-Wilhelm-Gedächtnis-
Kirche - não tente articular esse nome sem
um café reforçado - que os alemães decidiram

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deixar como estava e construir uma igreja


moderna na frente. A igreja bombardeada é
muito mais bonita, além do mais a nova tem
um inquietante cheio de cloaca, o mesmo,
desconfia-se, que aflige os ascensoristas do
elevador que leva você ao topo da torre de
televisão, lá na Alexanderplatz, mas não se
deve dar muito destaque a esses bastiões da
modernidade.
Dentro da Kaiser-Wilhelm-Gedächtnis-
Kirche tem um museu mostrando o antes, o
durante e o depois. Impressiona ver a imagem
do Cristo onde era o altar, o braço direito está
faltando, não sei se é bom eles terem deixado
assim. Alguma coisa contra São Pedro?
Depois reclamam do tempo.
Ah, sim, paralelo fica o
Kurfürstendamm, ou o Ku’damm, para os
íntimos. A única atração é a loja de
departamentos KaDeWe, ou melhor, a
entrada, onde fica um recepcionista usando
fraque e cartola, tem que ver, dá vontade de
tomar a cartola dele. Mas o ônibus segue em
frente, destemido, aturando turistas nacionais
e estrangeiros, sem saber quais os piores, e o
ponto final é logo ali na frente. Atravesse a rua
e pegue de novo, na volta o trajeto é igual,
mas nem pense em ir até o final da linha,
porque ele segue em direção à Prenzlauer
Allee e termina na Michelangelostraße, que,
apesar do nome do gênio, é uma desolação.

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Campinas, filial Berlim

E
les não são de Governador Valladares
também não foram para Boston, mas o
da história é igual. De dez anos pra cá,
formou uma verdadeira colônia de campineiros em
Berlim. Já são mais de cem pessoas e eles mesmos se
espantam quando se esbarram na capital da Alemanha.
Os números oficiais falam de dois mil brasileiros na
cidade, mas deve haver, pelo menos, o dobro.
Coincidência ou não, o certo é que fica mais fácil, entre
outras vantagens, pedir emprestada uma xícara de
açúcar - principalmente para não melar a caipirinha com
o açúcar da Alemanha, que é meio esquisitão.
O pioneiro da onda Campinas é Jassa Mariano.
Aos 14 anos, ele saiu da sua cidade natal e foi correr em
São Paulo. Aos 20 anos se sobressaía entre os grandes
do atletismo dos anos 80, como Robson Caetano. À
procura de patrocínio, cada um foi para um lado. Jassa
escolheu e adotou a Alemanha em outubro de 1987,
mas acabou abandonando o esporte. “Até me
estabelecer, fiz de tudo. Fui garçon, lavador de pratos,
mas a coisa engrenou mesmo quando entrei para o
ramo da gastronomia, trabalhando num hotel.” Em
menos de 10 anos, ele é o dono do seu próprio
restaurante, o Taba, que fica na Chausseestraße 106, e
que nesse meio tempo já se chamou, primeiro, Som
Tropical, e depois, Beco.
Entusiasmado pelo progresso do irmão, há seis
anos o professor de educação física Paulo Mariano
repetiu o roteiro. Atualmente ele é um dos preparadores
físicos da seleção de atletismo de Berlim. Os dois se

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casaram com mulheres alemãs, tiveram filhos. Só que


Jassa se separou e mudou também de atividade. Ele
agora apenas supervisiona o restaurante e então sobra
tempo para fazer o que mais gosta: já compôs mais de
oitenta músicas e o primeiro cd sai daqui a dois meses
na Alemanha, Dinamarca e até o fim do ano no Brasil.
Marianos, primos e amigos estão sempre em
trânsito no aeroporto de Tegel. Numa das viagens de
férias ao Brasil, Paulo convenceu João Eduardo
Albertini, camarada desde o ginásio, a tentar a sorte na
Europa. Formando em pedagogia, João faz de tudo, e
consegue até trabalhar na profissão. O tempo é dividido
entre a atividade de dj no Taba, faxinas regulares e
agora ele está substituindo uma amiga alemã, dando
aula num colégio de primeiro grau. Até ponta no filme
Kondom des Grauens, A camisinha do mal, que foi
inspirado numa história em quadrinhos, João já fez. Só
depois de dois anos longe de casa é que ele vai receber
a visita mais esperada: “Até que enfim, meus pais estão
vindo.”
Nos primeiros anos de Alemanha, quando o
contato com o esporte ainda era mais intenso, Jassa
chegou a viajar algumas vezes para Campinas,
acompanhando corredores do atletismo de Berlim. Numa
dessas excursões, Maria Rosa da Costa conheceu um
atleta alemão e rolou um namoro. O romance não durou,
mas a paixão pela Alemanha está aí até hoje. Já são
três temporadas de seis meses em três anos e ficar
definitivamente vai depender só de uma boa oferta de
emprego e de mais um pequeno detalhe: “Estou fazendo
um curso para aprender direitinho alemão.”

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O charme dos berlinenses também foi irresistível


para a advogada Rosemery dos Santos. Cinco anos
atrás, em Campinas, ela conheceu um repórter que
trabalhava como freelance para o tablóide TAZ. Hoje os
dois estão casados e a filha Louise vai completar três
meses. Para investir na relação, a moça deixou família e
emprego no Brasil, mas deu um jeito de garantir alguma
infra-estrutura na Alemanha. Com muito sacrifício
conseguiu uma bolsa de estudos em direito internacional
na Technische Universität. Quanto à vida social, Rose
acha graça da quantidade de ex-vizinhos que encontrou
em Berlim. “O grande lance da cidade é justamente
esse: tem gente do mundo inteiro, mas por que tanto
campineiro, eu juro que não sei.”
Outra que se surpreendeu ao dar de cara com a
vizinhança foi a dona de casa Aparecida de Fátima
Alves. Ela foi reconhecida por uma irmã da Rose quando
jantava fora com o marido. Cida mora em Berlim há três
anos e não troca a cidade nem por Campinas. Casada
há quase dez anos com um engenheiro italiano que
conheceu em casa - ele trabalha na multinacional
contratada para construir o Túnel do Magalhães - Cida já
morou na Itália, na Dinamarca e também em Munique,
onde fica a maior colônia brasileira da Alemanha, mas é
em Berlim que ela se sente bem. “Eu tenho cara de
turca, mas nem isso é problema.”
Não chega a surpreender que o ponto de encontro
para campineiros e brasileiros em geral, tanto os que
moram quanto os que passam por Berlim, seja o
restaurante Taba. Ali se mata a saudade do aipim frito,
do pudim de Leite Moça, do guaraná Antártica e
principalmente da música brasileira ao vivo. Na melhor

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tradição da troca de presentes comum entre os índios da


Amazônia, na taba berlinense o vai e vem de
mercadorias também é intenso, quando não curioso:
“Uma vez meus pais me mandaram goiabada, que eu
adoro, pela Rejane”, conta João. “Uma lata de 5 kg!”

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TV

A
tv é diferente e o jornalismo também.
falta das convulsões, pequenos graves
dramas sociais do cotidiano de casa,
tempo e mais espaço para simplesmente contar as
coisas. A mão, por exemplo. Um especial no canal B1
contando tudo, desde a cirurgia de mão, o que uma
amputação representa, quiromantes, tudo junto num
variado cardápio que dificilmente poderia deixar algum
pedido frustrado.
Mas nem foi com a mão que começou o meu
banquete televisivo de ontem. Um clic no controle
remoto, no canal 1, a carinha de um coala. Um bicho
distante, visto em álbum de figurinhas ou de pelúcia
atrás de uma vitrine. Perguntem-me o que quiserem
sobre o coala: agora eu sei. Dorme entre 18 e 20 horas
por dia, desafia a sorte se alimentando exclusivamente
de folhas de eucalipto, escolhendo sabe-se lá como as
menos tóxicas, até o sexo entre eles eu vi. Os filhotes!
Outros animais que compartilham a floresta de
eucaliptos na Austrália, tão pouco conhecida em termos
científicos quanto a nossa Amazônia.
Acompanhei o filme da NDR até o fim, depois caí
num jornalístico tipo boulevard, o Fakt, que escolhe
cinco ou seis temas para uma hora de programa, coisas
que estão rolando, atuais, mas não fica só naquela
pincelada - pra não chamar de lambuzada! - dos nossos
melhores telejornais. Pra entender, é só imaginar um
Globo Repórter fatiado: mais democrático do que o

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original, servido inteiro prum único freguês, ou do que o


telejornal à francesa, onde vale o “salve-se quem puder”.
Sabor da pizza: homicídios de crianças
relacionados ao satanismo, com direito a imagens
verdadeiras de missas negras. A matéria do dia de hoje,
tratada na véspera: a crise dos trabalhadores de carvão,
com entrevista ao vivo com o ministro da economia,
Rexrodt, se explicando ou tentando explicar a demissão
provável de 60 mil pessoas. No fim, um filme mucho loco
sobre clonagem, em que a apresentadora do jornal
pergunta no fim: está na dúvida se é verdade?
Pois é, será que eu aprendo alguma coisa assim?
Será que eu consigo espaço pra fazer justamente aquilo
que é o sonho de consumo de nós, jornalistas
brasileiros? Ir um pouco mais fundo no tema, digamos
até a endoderme, já estava bom. Coisa que demande
uma pesquisinha honesta, sem que pra isso você
precise se mudar para uma temporada na Biblioteca
Nacional. Acho que está pintando uma oportunidade...
boa... de aprender a fazer o serviço sem pressa, com
uma preocupação estética, igual a eles.
Acompanhamos.

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O Carnaval das Culturas

C
omo cheguei atrasada, só consegui
participar do segundo Carnaval das
Culturas, promovido em Berlim
desta vez entre os dias 16 e 18 de maio. As estatísticas
indicam a presença de 430.000 imigrantes de mais de
180 países nesta metrópole, o principal fator, na minha
modesta opinião, pela transformação da cidade numa
sopa de entulho de sabor incomparável. Nem no metrô
de Nova Iorque encontrei tamanha mistura de sotaques,
e agora já consigo até acertar de que país os
passageiros vêm, quando escuto uma conversa em
polonês ou russo. Pois então, o carnaval é organizado
desde 1996 pela Oficina das Culturas, sem restrição de
nacionalidade, credo ou cor.
Cada grupo escolhe um tema - às vezes tem até
carro alegórico - e sai pelo bairro de Kreuzberg usando
playback ou músicos tocando ao vivo. Este ano, foram
69 agremiações inscritas com 2.700 participantes, só do
Brasil os seguintes nomes: Afoxé Loni Iabás,
Amasonia (a digressão ortográfica é uma auto-
homenagem da organizadora), Boi da Caipora Doida,
Capitães de Areia, Cara de Alegria/Terra Brasilis,
Ramba-Samba e Samberra, fora os de outros países,
mais assustadores, como o 39 Locos, Pakistan
Express ou o Teatro Grottesco Di Mina Tinaburri.
Diversos palcos espalhados pelas redondezas, para os
shows das mais diversas bandas, complementaram a
programação de três dias.

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Mas o ponto alto mesmo foi o desfile, que saiu às


11 horas de domingo da Waldemarstraße, percorrendo a
Oranienstraße, dobrando na Wiener- e retornando pela
Reichenberger Straße, num circuito que levava, em
média, quatro horas e meia sob um sol de 35°C. Os
participantes, desacostumados do calor carnavalesco,
chegavam ao final do trajeto completamente esfalfados,
o que posso garantir com conhecimento de causa.
Porque essa jornalista saiu logo no primeiro grupo, do
Afoxé Loni, levando vantagem do desfile ter sido
organizado em ordem alfabética.
Fui parar naquele afoxé por absoluto acaso.
Contrariando a regra da isenção jornalística, fiquei
completamente envolvida logo no primeiro ensaio,
realizado no Percussion Art Center. Minha idéia era
apenas entrevistar o idealizador do projeto, Murah
Soares, um sotero-paulistano que assumiu, talvez com
os orixás, a incumbência de espalhar os ritmos afro-
brasileiros pela desengonçada Alemanha. Ali descobri
que o ritual é uma homenagem às entidades femininas
das águas, em especial à Mamãe Oxum, que rege as
fontes de água doce, e por sinal é minha mãe de
cabeça.
Aprendemos todos juntos a cantar em iorubá, com
a mesma dificuldade, brasileiros, alemães, italianos e
etc, tropeçando toda hora no ô-ye-ye-ye-wo-wo, ô-ye-ye-
ye, oryioiô. Já os movimentos suaves das águas fluíram
com a mesma leveza entre os bailarinos em geral,
independente da origem. Os dois últimos ensaios, no
Viktoria Park, onde inclusive nos apresentamos na
véspera do grande dia, arrancaram aplausos de uma
platéia acidental e empolgadíssima.

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Fotos, slides e reportagens na televisão


denunciaram trajes diferentes entre os participantes.
Isso se deveu ao fato de quem nem todos dispunham
dos 170 marcos cobrados para as roupas das baianas,
nem dos 90 pedidos aos homens. Assim, meu colega
Bernd, um engenheiro especializado em aparelhos
médicos, levou a máquina de costura que pouco antes
encontrara em perfeito estado no lixo lá para minha
casa, no quarto andar, onde confeccionamos nossas
fantasias, com a ajuda da Lúcia, que deu um apoio no
corte do tecido. A iniciativa, aliás, nos salvou, porque o
costureiro Zezé não conseguiu terminar as encomendas
a tempo e teve gente sem a roupa para sair no carnaval.
Tirando a falta de agogôs, a Banda Tetê, da
percussionista Christa, não fez feio, e no auge do
desfile, invadido em certos trechos por foliões mais
exaltados, tivemos a honra de ter desfraldada a bandeira
nacional por orgulhosos compatriotas à frente do grupo,
o que não chegou a prejudicar a evolução de nossas
singelas coreografias. No front, duas figuras se
destacavam: Dona Neusa, baiana legítima, que
combinou a visita aos netos com a participação no
afoxé, e Annette, uma ruiva com cabelo rastafári, que
perseguiu o Olodum na maior fissura pela turnê que
fizeram na Alemanha o ano passado, desde que foi
contaminada pelo batuque no primeiro espetáculo em
Berlim.
Na noite daquele domingo, nenhum de nós faltou à
apresentação programada para a Kulturbrauerei, oito da
noite. Pelo contrário, a maioria já estava esperando,
derribada, do lado de fora, os braços roxos do atrito com

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

os vasos de flores, ansiosa pelo prazer de continuar a


dançar. Ano que vem tem mais.
Festas populares

T eve festa junina ontem, véspera de


Pedro, no Schmiedehof em
funcionava uma fábrica de cerveja
Schultheiss, uma das preferidas aqui em Berlim. A
informação consta dos folhetos de propaganda da festa
junina e eu não entendo por quê. Não consigo imaginar
os apreciadores da Schultheiss indo buscar a cerveja na
fábrica. O folheto também prometia uma quadrilha,
definida como uma dança que narra a história de amor e
de paixão, à moda dos nordestinos. Essa eu perdi. Não
fui, primeiro porque pensei: vou encontrar gente que
conheço e, com o meu astral desses dias, não estou
muito a fim. Depois eu pensei: mas festa tem que ter
companhia, então também não vou, porque não vai ter
ninguém: vai estar todo mundo na Christopher-Street-
Day. Uma vez por ano as lésbicas e os gays (ou será
que eu deveria escrever os gays e as lésbicas,
respeitando a tradição do ladies first?) desfilam pelo
centro da cidade numa espécie de carnaval, travestidos
ou não, esse ano teve uma bandeira enorme do arco-íris
- que é o símbolo do homossexualismo assumido, para
quem ainda não sabe - tipo aquela que abrigou patriotas
e patriotas (sorry, mas a palavra não tem masculino) em
frente ao Palácio do Planalto anos atrás. A intenção era
a mesma, a defesa dos direitos. Na tv, sei lá qual o
canal, porque eu não dou descanso ao controle remoto,
um pai suspeito (!) de camisa amarela (!) careca de

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

óculos (!) elogiava o desfile e daqui mais uma rodada


pelos botões do controle estão ele e o filho adolescente
na tela. “Tirando umas piadinhas, nunca tive problemas,
desde que assumi ser gay.” Lembrei de repente da festa
junina. É, não deve ter ninguém conhecido mesmo, deve
estar todo mundo no trenzinho dos gays.
Como não sou caipira nem sapatão, fui visitar a 9ª
Exposição de Caricaturas sobre a reunificação em
Alexanderplatz - não perco uma boa exposição na
cidade, porque jornalista não paga. Só a satisfação de
dar uma carteirada já vale, por mais imbecil que seja o
programa. Realmente, tinha muitas charges engraçadas.
Mas o interessante mesmo foi o público: ninguém ria.
Ninguém ria até que chegou uma mulher de cabelo
preto, tipo a Mortícia da Família Adams, e começou a rir
alto, comentando cada piada com o namorado gorducho,
que usava um colete de couro. Pronto! Parecia até que
tinham anunciado por um alto-falante invisível: “Tudo
bem, pessoal, já que vocês pagaram seis marcos pela
entrada podem rir, não é muito mas, vá lá. A jornalista,
que entrou sem pagar, faça o favor de continuar de
boquinha calada!” Ou então como se tivesse aparecido
um maestro espiritual que estivesse regendo as risadas.
Sim, porque ninguém ria ao mesmo tempo. Tinha que
esperar o riso do outro acabar pra começar o seu.
Vamos rir sim, mas organizadamente. “Ou tem alguém aí
pensando que está em casa?” Quando me dei conta,
estava indo embora sem ver os trabalhos expostos no
andar de cima. Pra mim a exposição perdeu a graça.

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Povo de rua

B
erlim até que é legal. O que estraga é
tem muito exu. Quer um exemplo?
Hitler, que se não está mais fazendo
compras no Ku’Damm1 nem às margens do lago em
Wannsee planejando exterminar judeus se faz presente
nas muitas encruzilhadas dessa cidade mal-
assombrada. Com tanta obra, toda hora tem alguém
encontrando minas e granadas da Segunda Guerra,
prontas pra explodir, outro dia até o presidente Roman
Herzog teve que sair às pressas do Palácio Bellevue
pros peritos removerem uma bombinha que estava no
quintal. Mas, voltando aos exus. A começar pelos
bêbados, é uma loucura a quantidade de homens que
andam na rua com a latinha de meio litro de cerveja na
mão. Às vezes a mulher acompanha, na mamadeira da
criança que está no carrinho é servida a Coca-Cola, pra
ela já ir treinando no vício. São mais de cem grupos
diferentes dos Alcoólicos Anônimos na cidade, mas,
justiça seja feita, há grupos em outras línguas para os
exus regenerados ou em regeneração de outras pátrias.
Uns três ou quatro. Em espanhol, inglês, polonês e
iugoslavo. Isso mesmo, em iugoslavo. A velha Iugoslávia
faz uns anos que acabou mas os bebuns iugoslavos
nunca estiveram melhor. Como todo mundo sabe, onde
há exus, não faltam pomba-giras. As daqui, meio
branquelas e sem charme, mas devidamente
espalhafatosas e escandalosas no falar e no vestir. Já
não fosse o cabelo azul, verde, roxo, rosa-choque, ou
todas as cores juntas, elas ainda se dão ao desfrute de
fazer um visual bem desgrenhado, quando não apelam

21
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

pra um dreadlock, que também entre os homens por


aqui vem ganhando muitos adeptos. Na roupa, nada
combina com nada. Estampado com listra é um must. O
importante é que seja vulgar, como o palavreado da
ordinária. Isso se ela estiver acompanhada, geralmente
de um cachorro de raça não identificável. Caso esteja
sozinha, a pomba-gira berlinense sempre dá um jeito de
chamar a atenção com um detalhe ou outro em que
ninguém tinha pensado antes. Tipo: colocar mais de um
brinco na orelha. Quinze de cada lado, para ser mais
exata. Ontem mesmo passei por uma que tinha as duas
orelhas cravejadas de pérolas “para o seu amor passar”
- a língua, talvez. Parecia que tinha saído de um filme de
ficção científica. Que tal uma argolinha de prata no nariz
à moda dos touros? Ou então um piercing bem
colocado. No umbigo... na asa esquerda do nariz, na
sobrancelha direita, no queixo, no pau do nariz - uma
bolinha de metal de cada lado - e na língua. Esse você
só descobre se ficar olhando muito e aí ela fizer careta
mostrando a língua pra você. Tem também a novidade
das pálpebras pretas. Se você estiver interessado, é fácil
e indolor (diferente dos acessórios pendurados pelo
corpo e das tatuagens múltiplas que cobrem pernas e
braços e cabeças dos homens e mulheres que não
resistiram à tentação ao passar em frente a algum dos
inúmeros estúdios de tatuagem espalhados pelas
esquinas de Berlim - assim é mais difícil resistir, quando
você já tinha esquecido da idéia dá de cara com outro
estúdio! Ou então aquele cartazinho no vagão do
metrô...) Até eu já estou bolando um modelo pra mandar
fazer no antebraço, algo no estilo pulseira kamayurá, sei
lá. Posso até aproveitar uma das minhas visitas a

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Hamburgo, afinal, foi nessa cidade portuária que abriram


o primeiro tattoo studio do mundo ocidental, no início do
século passado. Basta pegar um crayon ou um kajal e
pintar de preto tudo que estiver entre o seu olho e a
sobrancelha. Pintar a sobrancelha é opcional. O
contraste com a cara das branquelas é um escândalo,
não tem quem não olhe. Outro dia até vi uma que pintou
a sobrancelha em triângulo, tipo maquiagem de palhaço.
Só estava faltando o nariz vermelho. Em algumas
pomba-giras, a maquiagem é mais ou menos normal,
mas você jura que a qualquer momento vai escorrer um
fiozinho de sangue pelo canto da boca. Só não acontece
porque ninguém se lembrou de abrir uma rede de
aviários pela cidade. Mesmo assim, dia desses vi uma
mulher, aqui na esquina da minha rua, com uma galinha
depenada pendurada nas costas. Que mau gosto pra
uma mochila de plástico! Mas, voltando pela segunda
vez aos exus, é enorme a quantidade de mulambos que
você encontra, principalmente no metrô. Ano passado
viajei com um farrapo alemão que mendigava em canto
gregoriano, tinha que ver! Ouvi dizer que no S-Bahn até
que não aparece muito, deve ser porque os vândalos da
extrema direita preferem viajar com esse metrô de
superfície. Assim eles podem cobrir uma área de
atuação maior: além de dar porrada em desabrigado e
em estrangeiro durante a viagem, eles sempre podem
saltar para pegar mais algum que apareça lá fora. Até
agora não encontrei nenhum skinhead, só alguns punks,
que também me metem medo, embora me contaram que
punks e skinheads duelam até a morte, com ou sem a
presença de reforço policial ou coalisão de políticos,
caso se esbarrem na rua. Um skin é facilmente

23
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

reconhecível pelo corte de cabelo onde foi-se o cabelo e


só ficou corte, pelas botinas com cadarços coloridos,
geralmente mencionados pelas vítimas no tribunal como
a última coisa que eles viram antes de entrar em coma
quando os skins pisotearam a cara deles, e pelos tacos
de beisebol mirando a sua testa. A diferença entre os
punks e os skins é ideológica: os punks defendem a
careca também, mas só dos lados, e essa é a
explicação sociológica do corte moicano. Os skinheads
fazem a linha radical, preferem arrasar por completo
com as cabeleiras e com os asilos de imigrantes.
Diariamente são noticiados os casos de incêndios “por
causas desconhecidas” em qualquer prédio onde vivam
estrangeiros, se for um asilo, melhor, mas igrejas
também são alvos visados. Em dias de bom humor, os
garotos só picham as paredes com suásticas, mas
também pode acontecer, numa hora de grana curta, um
ou outro incendiozinho num abrigo para doentes
mentais, como há quatro semanas em Leipzig, onde o
processo já foi devidamente arquivado pelas
autoridades, sem que se apontasse os culpados, apesar
dos oito mortos. Nesse casso teria sido injusto acusar os
skins, pode muito bem ter sido qualquer outra das muitas
falanges de exus da cidade: há também os que comem
criancinha no sentido bíblico e as que estão apenas
pensando em economizar os impostos da comunidade,
por exemplo. Mas, voltando aos U-Bahn, no metrô a
gente dá de cara com muita gente de todas as idades
falando sozinha. Eu estava voltando de uma entrevista
na periferia quando um cara de macacão, entre 40 e 50
anos, se sentou bem na minha frente - dependendo do
vagão é tão aconchegante como se você tivesse pedido

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

uma mesa pra quatro, só que não tem a mesa - e ficou


me encarando. A mim, propriamente, não, ele ficou
encarando os meus peitos. E além disso não tirava a
mão do bolso. Longe de saltar, me levantei e fui para a
porta. Passamos num túnel - até então estávamos num
trecho a céu aberto - e nos três segundos em que tudo
ficou negro eu já estava com o joelho em posição de
ataque. Ele também levantou e ficou na porta, do outro
lado, me olhando. Corri e fui olhando pra trás desde que
desci na Schönleinstraße até chegar na minha casa, 88
degraus acima do nível do mar. Por segurança, passei a
correntinha na porta até o dia seguinte.

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Vive la différence!

C
oisas que aqui são diferentes. As
veículos não têm sirene nem placa
A maior parte dos prédios não têm
Pegar um carrinho de supermercado, só enfiando uma
moeda de um marco ou um chip do mesmo tamanho,
que custa um marco e cinqüenta, para soltar a
correntinha de segurança - se quiser levar as compras
até o carro, deixa 50 marcos de depósito. As contas não
têm data de vencimento. Ônibus, bonde e metrô não têm
roleta, mas você paga multa de 60 marcos se for pego
sem o bilhete. As ruas começam e terminam no mesmo
ponto, ou seja, a numeração dos prédios cresce até a
metade no fim da rua e depois vem voltando. Taí um
bom exemplo da imutabilidade das coisas por aqui. Em
caso de necessidade, repete-se o número do prédio com
uma letra. Eu, por exemplo, moro na Boppstraße 9A.
Praticamente não existe interfone e os apartamentos são
identificados pelo nome do morador na campainha.
Quem mora clandestino, como a minha vizinha do
primeiro andar, está correndo risco até em receber
contas e cartas - não, ela não é estrangeira, é só uma
estudante de veterinária com grana curta. Qualquer
pessoa, estrangeira ou não, quando se muda tem que
procurar um determinado departamento para dar baixa
no endereço antigo e informar o novo - isso facilita o
trabalho da polícia, se precisa encontrar alguém. Qual
terá sido o truque da Kristine?, preciso perguntar.
Serviços, tirando a figura conhecida do berliner
Schnauzer - que numa tradução livre significa o típico
berlinense rabujento, são deploráveis. A agência

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Hermannplatz do Deutsche Bank, por exemplo, funciona


de 9 às 15h30 segundas e quartas-feiras, de 9 às 18h às
terças e quintas e de 9 ao meio-dia às sextas-feiras. O
atendimento ao público na Freie Universität Berlin é às
segundas e terças de 9h30 às 12h30 e às quintas de 15
às 18h. Não sei como ainda não inventaram um rodízio
para o correio, os supermercados e os banheiros
públicos.

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

O verão mandou dizer que não vem

O
temporal que escureceu Berlim em
duas horas da tarde só faz confirmar o
todo mundo já desconfiava, mas
tinha coragem de dizer em voz alta, com medo de ser
2
taxado de Stasi : esse ano, mais uma vez, o verão não
vem. Sabe como é, esses imprevistos de última hora...
Se tem gente pensando em voltar o quanto antes para
Mallorca - esse ano os alemães literalmente invadiram a
ilha, chegando a 315 mil pessoas num único fim de
semana! - por aqui tem também quem se alegre pelo
fato de que em Berlim não vai fazer sol nem calor. Eu,
por exemplo. Não sou Stasi nem fiquei maluca, mas
acontece que, no meu entender, há mais desvantagens
do que vantagens num verão berlinense. De manhã fez
sol e como tive que ir à redação pude notar as bruscas
mudanças climáticas na cabeça das pessoas que vivem
aqui. Começando pelo bairro de Kreuzberg, a terceira
maior cidade turca, depois de Istambul e Ankara, as
mulheres continuam deixando praticamente só os olhos
de fora, cobertas e recobertas com camadas e mais
camadas de panos e véus, a maior parte de negro. Nem
no dia do melhor humor é possível acreditar uma dessas
sofredoras contente. Você entra para comprar umas
garrafas de água mineral no Penny Market, que é o
mercado mais barato - aliás, acaba de me ocorrer que o
primeiro nome até que me é familiar, só que no plural - e
dá de cara com um corvo gigantesco do seu lado,
geralmente dando sopapo em menino, que esses
turquinhos começam cedo fazendo barganha. Bom, mas
voltando ao principal: se as turcas não tomarem pelo

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

menos um banho por turno de oito horas, não dá pra


conviver, quando elas tirarem a roupa. Outra
curiosidade, que aliás explica o fenômeno de que um
alemão possa ser imediatamente identificado em
qualquer trópico pelo detalhe de usar sandália com meia,
é a seguinte: como estão acostumados o ano inteiro a
ter que vestir uma roupa por cima da outra por causa do
frio, no calor essa gente não tem a flexibilidade de
apenas vestir uma única peça de roupa. Assim, esteja o
sol de rachar, o alemão mais das vezes vai estar
usando, ainda que camiseta, mas uma por cima da
outra. Raras exceções, há quem se vista
exageradamente de menos para sentir melhor o verão.
Uma loura de vestido comprido que foi para o mesmo
prédio que eu ia chamando a atenção de quem vinha em
sentido contrário e eu não entendia por quê, já que
estava atrás dela. Deve ser um puta decote, pensei.
Depois nos cruzamos num corredor e foi esclarecida a
dúvida: ela estava sem sutiã e aqueles peitos enormes
desciam despudoradamente até a altura do estômago.
Distúrbios visuais dá pra encarar, corvos, pelancas e
canelas brancas, mas quando o direito do outro invade o
seu território olfativo, aí é truque baixo. O alemão que
toma banho todo dia, que atire a primeira pedra. É uma
minoria. No frio, até que passa, porque com muita roupa
os odores da transpiração ficam restritos à esfera
privada. Mas, no calor! Todo mundo de suvaco de fora!
As mulheres no melhor estilo Gabriela, cravo e canela,
com axilas peludas, que retêm mais o odor. Sem banho!
No ônibus não tem janela. No metrô fechado é a própria
câmara de gás. E como eles ainda levam o cachorro,
que só toma a metade do número de banhos do dono ao

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

ano - ou seja, um em cada estação do ano - a vontade


que dá é de ir a pé. A mãe de um amigo, uma senhora
perfumada de seus 60 anos, me contou que quando era
criança ela e os irmãos só tomavam banho às sextas-
feiras. A mãe enchia um bacião e colocava na cozinha,
porque no tempo dos penicos não existia o que hoje se
conhece como banheiro. Repito: ela tem 60 anos. E
pensa que o filho toma banho todo dia. Duas vezes por
semana, se tanto. Sabonete ele comprou um, já faz um
ano, e ainda está lá, pela metade. Mas esse relato dos
banhos semanais não é o único que me impressionou.
O marido da minha amiga Francesca, o arqueólogo
Dr.Pause, de quem aliás fui madrinha de casamento no
ano passado, fez muito juz ao seu título acadêmico ao
me confiar os seguintes achados: no século passado, no
tradicional banho da semana, existia uma hierarquia.
Enchia-se o tal bacião de água quente e primeiro o pai
tomava banho. Aliás, só ele, de acordo com nossos
padrões modernos de banhos individuais. Porque depois
entrava a filha mais velha e em seguida as mais novas.
Os próximos, com a água já mais para morna, fora a
sujeira, eram os garotos, também em ordem
decrescente de idade. Por último vinha a mãe, que com
tamanha falta de prestígio dificilmente ousaria
providenciar outra água para o próprio banho. Pensando
bem, até que o individualismo contemporâneo tem lá
suas vantagens - ou tem aí algum reacionário a favor
dos velhos banhos coletivos? Outro caso, dessa vez
familiar, diz respeito à irmã da avó do Dr.Pause.
Preguiçosa desde mocinha, ela preferia colocar as
blusas usadas para arejar ao invés de ter o trabalho de
lavá-las. A tática vinha funcionando bem, até que

30
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

inventaram as fibras sintéticas, como o nylon, que além


de não compactuar com o delito inclusive seguram mais
a inhaca. Mas essas são águas passadas. O bom
mesmo é aproveitar o clima quase carioca dos barzinhos
e cafés com gente bonita nas mesas que invadem as
calçadas enquanto o sol prestigia, o que em geral vai até
quase 10 horas da noite. A vantagem é que, do lado de
fora, o ar circula. Porque, nos dias de hoje, tirando
alguns carros, nenhum lugar aqui tem ar refrigerado. Se
esquenta um pouquinho mais, europeu ou não, o povo
sua. Sem banho... Quem achar que eu estou
exagerando pode vir conferir. Não admira o verão
mandar dizer que não vem.

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Choco

C
onheci Kristina o ano passado, quando
estive a primeira temporada em Berlim.
namora um artista plástico que eu
no vôo da vinda para a Alemanha. Só nos vimos uma
noite, porque toda vez que eu combinava algum
encontro com o Shanti - o nome verdadeiro dele é
Sebastião! - acontecia alguma coisa e dava tudo errado.
No princípio eu não entendi direito o porquê. Depois
percebi que os dois, juntos, se transformam em figuras
absolutamente caóticas e, nesse aspecto, se
completam 100%. Personagens noturnos, também
tínhamos um certo problema de horário, já que eu sou
uma criatura tipicamente diurna. Posso dizer até mais:
quando tem luz do sol, pra mim é dia, embora isso em
Berlim, nessa época do ano, é meio dureza. Escurece lá
pelas 10 e amanhece por volta das 4. Acordo cada dia
mais cedo, mas às 22h, invariavelmente, já estou na
cama. Chegar à meia-noite acordada, no meu caso, só
com os amigos do peito ou então se o namorado der o
ar da sua graça. Kristina tem mesmo um ar de ser da
noite: muito pálida, magérrima, cabelos ruivos escorridos
e uma voz de penumbra. Preciso tomar cuidado com o
que escrevo, ela fala um excelente português, por conta
do tempo em que esteve no Brasil pesquisando o Santo
Daime. Foi lá que os dois se conheceram, ele um mulato
de cabelo encacheado, uma voz lindíssima e um talento
enorme para a pintura, de quem ainda vai se ouvir falar
muito. Pois então. Convidei Kristina, prudentemente,
para vir à minha casa, prevendo um possível bolo -
menos mal para ficar esperando. Ela apareceu com

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

pouco atraso e, no final do jantar - um macarrão


amalucado feito a quatro mãos que dificilmente vamos
conseguir repetir - quando ofereci as opções de
sobremesa, acabei topando com uma das histórias mais
interessantes que já me chegaram aos ouvidos. Assim
que eu mencionei a palavra chocolate, os olhos de
Kristina brilharam à luz de velas (parecia até que eu
tinha oferecido sangue! Talvez esse trecho entre
parênteses precise ficar de fora dos originais, em nome
do bom entendimento bilateral entre nossas
embaixadas...) Eu tinha ganho uma caixa com seis
bombons finíssimos recheados de nozes, avelãs e
marzipan. Examinando a caixa, como quem entende do
assunto, Kristina disse: eu já trabalhei nessa fábrica, fica
perto da casa dos meus pais, em Stuttgart. Eu quis
saber mais, já que ela faz curso de etnografia, e
etnografia e confeitos são dois ramos de estudo
completamente distintos. Então ela fez uma pausa
solene e me contou. “Sou dependente de chocolate.
Quando começo a comer, não consigo parar. Quanto
mais chateada eu estiver, mais eu como.” De fato. Não
sobrou nenhum bombom. “Pensando nisso, decidi testar
os meus limites, para saber quem era mais forte: eu ou a
vontade de comer chocolate. Procurei a fábrica e, por
puro acaso, fui designada para a seção de pacotes
especiais. Eu passava o dia inteiro sozinha numa sala,
preparando cestas com os sortimentos mais finos. Como
ninguém estava olhando, eu comia em média 2 kg de
chocolate por dia. Sei disso porque eu usava uma
balança para pesar as quantidades que ia colocar nas
cestas. Depois de duas semanas, nas quais eu engordei
9 kg, não me restava alternativa a não ser pedir

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

demissão. O chocolate me venceu.” Olhei para os


bracinhos finos de Kristina e tentei imaginá-la com 9 kg a
mais. “E ninguém percebeu?”, continuei. “Não”, disse na
sua aura zen habitual, “ninguém falou nada.” “Você não
ficou doente, não teve diarréia?” Nada. O mais
interessante é que Kristina faz o tipo adepta das terapias
alternativas, chás, produtos naturais e carne branca.
Igualzinha à Susanne que, dia desses, visitei em
Hamburgo. “Que é isso aí na sua orelha?”, perguntei,
vendo uns pontos de metal brilhando no meio da sua
cabeleira loura. “Agulhas permanentes de acupuntura,
vou ficar com elas duas semanas.” “Dói?” “Só um
pouquinho.” Aquilo me deu tanto nervoso que eu quase
não consegui terminar meu espinafre com cenouras, as
batatas jovens com casca e as salsichas de tofu, que ela
havia preparado com tanto carinho para o almoço. “Está
usando por quê?” “Contra dependência.” Dependência?
“É, sou dependente de chocolate. Antes passei por uma
desintoxicação de seis semanas, comendo praticamente
nada na clínica, e quando cheguei em casa minha
primeira providência foi comer duas barras de uma vez.”
É barra... Durante a sobremesa, a filhinha dela,
Vivianne, 3 anos incompletos, só lambeu a cobertura
das bananas com chocolate. Ah, os hormônios!

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

No sol

E
stou sentada aqui fora na grama
sol. Agora há pouco passou um sujeito
bicicleta cantando É de manhã. O sol e
canção quase me fazem desacreditar de que estou em
Berlim. Acabo de ler duas cartas de amigos vindas do
Brasil, ambas contando de problemas no trabalho ou da
falta de emprego. Penso como aqui é tão seguro ir pra
qualquer canto de bicicleta e de como se manter vivo é
relativamente mais fácil e então surge uma pontinha de
vontade de ficar aqui para sempre. Existem alternativas
que podem garantir a permanência de um estrangeiro na
Alemanha. Só que tudo me cheira meio a engôdo. Uma
possibilidade é se inscrever como aluno em alguma
universidade, pagar a taxa de 100 marcos por semestre
e com isso garantir o status de estudante. Que significa:
ofertas melhores de trabalho, desconto em transporte
coletivo e entretenimento, o visto enquanto durar o
estudo. Como a maioria sequer vai à aula, a
permanência é ilimitada. Conheço uma moça de
Campinas, que como eu também já passou dos 30, que
vive desse jeito há mais de 6 anos em Zurique. Agora
ela está vindo para Berlim, aplicando o mesmo golpe. Eu
até cheguei a pensar no assunto, só que iria tentar
mesmo fazer um mestrado. Fui à Freie Universität Berlin.
Lá recebi uma senha com o número 828. O mostrador
estava em 121. Logo, a estrutura aqui também tem
falhas e, o pior, falhas disfarçadas num elenco em que
ninguém admite a sua existência. Chega uma
funcionária mal educada e me manda entrar na sala,
garantindo que está fazendo uma concessão, porque já

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

atendeu o 830 há muito tempo. Eu argumento dizendo


que não acredito, ainda mais que tem uma menina lá
fora com o 829, e de qualquer maneira o erro foi do
colega dela que distribui as senhas no andar térreo.
Peço para ela examinar meus documentos e ver se está
faltando alguma coisa. Apesar de eu ter a tradução
juramentada do meu certificado de bacharel em
jornalismo com todas as matérias e notas discriminadas,
ela quer meu histórico escolar do 2° grau. Eu argumento
que estou interessada num mestrado, e que, portanto, a
universidade deveria verificar o meu rendimento no
curso de graduação, e não no 2° Grau. Ela está
irredutível. Eu abro mão de pedir que me enviem de
casa o tal papel pelo fax, de qualquer maneira ia ser só
uma série de confrontações como essa dali pra diante,
coisa que estou impedida de fazer em respeito aos meus
cabelos brancos. Saio da sala xingando a funcionária,
cujo único prazer na vida é brincar de exercer o poder
contra os inferiores - no caso, os estudantes que
dependem da colaboração dela - de vaca velha. A
menina com o número 829 deixa um rapaz sem senha
passar a frente dela porque sente o clima. Outra
possibilidade, mas fácil, seria encontrar um viado cuja
família sonha em que ele se case de branco e fazer uma
proposta indecente. Conheço casos e mais casos, até
de viados brasileiros casados com alemãs. O casamento
pode acontecer na base da amizade ou como um acordo
comercial, em que o preço de tabela custa entre 8 e 10
mil marcos para que o alemão ou a alemã efetive o
contrato com brasileiros, cubanos ou estrangeiros de
outros países em desenvolvimento. Como se vê, viado e
sacanagem, aqui, é o que não falta. O casamento

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

garante o visto de permanência, caso não apareça


nenhum problema nos três primeiros anos. Mas existe
um outro tipo de risco para quem busca essa alternativa.
Se o marido ou a esposa encher o saco nesse meio
tempo consegue, sem a menor dificuldade e gastando
alguns dos marcos que antes embolsou, que as
autoridades deportem o cônjuge o mais depressa
possível. Por essas e outras, apesar da vida mansa, do
pouco de sol e do É de manhã ainda não reuni motivos
suficientes para me fazer apelar assim.

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Os fora da lei

U
ma boa opção de transporte em Berlim
quase centenário metrô. A rede bem
esse nome: são dezenas de linhas de
Bahn e S-Bahn, metrô e metrô de superfície,
respectivamente, fora a oferta de ônibus e Straßenbahn,
que seria o nosso bonde. Uma passagem comum, que
se compra normalmente nos automáticos, dá direito a
andar em tudo isso. O bilhete mais simples vale para
viajar durante duas horas e custa 3 marcos e 60
centavos. Eu costumo comprar o bilhete mensal,
chamado de Umweltkarte, ou bilhete do meio-ambiente,
apesar de ele não ter nada de ecológico, que custa 93
marcos. Contando assim, parece simples, mas não é.
Existem inúmeras variações, bilhetes para categorias
especiais e para aposentados, obviamente com
diferença de preços, que incluem as seguintes opções:
bilhete semanal, bilhete que permite transportar bicicleta,
cachorro, carrinho de bebê (ou tudo ao mesmo tempo
agora), bilhete que possibilita levar dois acompanhantes
(só falta incluir um drinque grátis) durante o fim de
semana, e vai por aí. Outro complicador é que, desde o
1° de março, a cidade foi dividida em três áreas e as
tarifas ou são para as regiões A e B ou B e C, a última
mais longe do centro, tipo viagem a Potsdam, uma
cidade vizinha e bem popular graças ao museu e aos
jardins de Sanssouci. O bom do metrô é que, por todo
lado, tem cartazes mostrando as estações e além disso
uma voz anuncia, como num aeroporto, em que estação
se está chegando e quais são as conexões dali. Tudo
muito organizado para esse bando de preguiçosos

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

distraídos do Primeiro Mundo. Um dado curioso é que


algumas estações têm nomes pitorescos, ou, por que
não dizer, comprometedores, como Karl-Bonhoeffer-
Nervenklinik, e nem é preciso saber alemão pra entender
que o nome se refere a uma clínica de nervos. Para
quem pensa que o povo aqui é mais civilizado e sempre
viaja direitinho, sinto informar que os primeiros a dar o
(mau) exemplo são mesmo os alemães. Não que os
estrangeiros sejam mais santinhos: conheço um cubano
que junta as multas de cada vez que foi surpreendido
viajando irregular numa verdadeira ata. Também é
engraçado, por exemplo, de repente ir pegar o metrô
com o Murah, meu professor de dança afro-brasileira,
que de repente anuncia - Ah! vou schwarz mesmo.
Schwarz significa negro ou, neste caso, no negro, sem
pagar. Soa muito legal, considerando que o Murah é a
maior neguinha. Aconteceu de eu receber a visita de um
casal de amigos, Ruth e Matthias, vindos de Mainz.
Estudantes, eles estão sempre economizando. Em vez
de comprar o bilhete que vale para o dia inteiro e custa 7
marcos e 50 eu sugeri o seguinte: que cada um
comprasse o bilhete de duas horas mas não pusesse na
maquininha que marca a data e o horário em que se
começou a usar. Esse é um truque manjado, mas se um
controlador pega você, sempre acaba engolindo a
desculpa de que “na pressa, o senhor sabe, eu esqueci”.
No metrô não tem roleta ou qualquer outro dispositivo
que garanta que o malandro vai pagar a passagem. É
tudo aberto. A jogada é mesmo dar multas. Quem for
pego sem bilhete válido viajando irregular tem que pagar
multa de 60 marcos. Para descobrir os trapaceiros,
andam uns controladores vestidos à paisana que só

40
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

faltam gozar quando anunciam alto que é para mostrar o


bilhete. Essa prática até gera uma certa confusão entre
os passageiros. Sim, porque depois que ele grita o bom
dia você não sabe se é um controlador ou mais um
Obdachlose tentando lhe empurrar o tablóide dos sem-
teto. O que vem depois do bom dia é que decide se você
vai ser escorraçado ou se vai querer escorraçar alguém.
Mas voltando ao domingo passado. Pegamos um S-
Bahn em Alexanderplatz para ir ao mercado das pulgas
em Tiergarten. No caminho, todo mundo saltou em
Friedrichstraße, menos nós, eu achei estranho, mas logo
entrou mais gente. Só percebi o que tinha acontecido
quando reconheci, pela paisagem, que estávamos
voltando para Alexanderplatz. Obras - estão em toda
parte - obrigavam a fazer baldeação e eu não percebi.
Decidimos voltar no próximo S-Bahn e foi aí que deu a
merda. Eu me lembrei de repente de que, quando
saímos de casa, nós só estávamos planejando passear
pelo canal e eu fui sem bolsa. Meu bilhete do meio
ambiente estava dentro da bolsa em casa e eu dentro do
S-Bahn, com algum dinheiro, mas nenhum documento.
Eu rezei pra não pintar nenhum controle e, é óbvio, foi
justamente o que aconteceu. Em Hackescher Markt, dois
sujeitos anunciaram a vistoria e foram para a ponta do
vagão. Meus amigos e eu estávamos sentados naqueles
lugares para quatro pessoas, duas de frente para as
outras duas, e do meu lado uma moça com cabelo verde
bandeira - cabelo colorido por aqui é muito comum entre
a juventude, os rapazes também aderiram, só que por
motivos de tradição, no mais das vezes desfilam com os
cabelos azuis. Então, nós gelamos e ela se levantou,
indo para o outro extremo do vagão, já que a falta de

41
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

janelas e as portas automáticas impedem que alguém


salte do trem em movimento, seguindo o primeiro
impulso nessa situação. Ruth e Matthias mostraram os
bilhetes e o cara mandou saltar para colocar na
maquininha. Eu disse que o meu bilhete estava em casa
e ele pediu um documento, pensando em me mandar
uma intimação pelo correio. eu teria que provar, sabe
Deus como, que tinha o bilhete, ou pagar a multa.
Quando eu disse que não tinha nada à mão, ele ficou
meio desbundado e não sabia o que fazer. Mandou o
colega cuidar do caso. Muita audácia a minha, sem
bilhete, nem documento. Saltamos na próxima estação,
meus amigos validaram os bilhetes, mas o comparsa
dele não deixou a gente voltar pro trem. Nem explicou a
proibição. Ele estava mais ocupado com a garota do
cabelo verde, que permaneceu absolutamente cool.
Salta! Não salto! O cara tentou agarrar o braço dela e
levou um safanão. Nós aproveitamos o buxixo e fomos
saindo de fininho, bem dissimulados, antes que os
controladores se mancassem meu respeito e
decidissem me levar embora a ferros. Eu fiquei
absolutamente irada e, para acalmar os nervos, meus
amigos e eu tomamos uma decisão que seria a mais
esperada de pessoas adultas numa situação como essa:
fomos tomar um Cornetto. Degustado o sorvete,
voltamos para a estação, onde não havia nem sombra
de bate-boca nem pista de cabelo verde ou de qualquer
outra cor que evidenciasse maiores tumultos. A
contragosto, comprei um bilhete de duas horas e
seguimos viagem. Recentemente presenciei a ação mais
enérgica de três controladores contra um magrela na
estação de Schönleinstraße: o rapaz alegava que não

42
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

precisava de bilhete porque está cumprindo o serviço


militar, mas desconfio de que aqueles controladores - um
homem e duas coroas - não tinham registro dessa
especificação nos seus autos e não acreditaram nele.
Como o cara se recusou a saltar, foi chamado reforço
policial e o contraventor devidamente arrastado para fora
do vagão, com o uso e o abuso de violência, bem do
jeitinho que a Anistia Internacional vem denunciando
contra a polícia na Alemanha, e que bem parece um
resquício do nacional socialismo. Os passageiros,
surpreendentemente, esperaram calmamente que
fossem cumpridas as determinações da lei. Nem uma
voz sequer se levantou para mandar “tocar essa porra
que eu tenho horário, meu irmão”, como provavelmente
teria acontecido no Brasil. Organização ou medo? Toda
vez que eu conto como é o nosso sistema de metrô no
Brasil, com as catracas e roletas, os olhinhos dos
alemães brilham de felicidade. Eles acham o máximo
esse sistema e garantem que a tal liberdade vigiada,
com tudo aberto e olhos atrás da sua nuca, não está
com nada. Os bilhetes por aqui estão cada vez mais
caros. São os salários dos controladores e agentes de
segurança - que desfilam com os cachorros de focinheira
pra lá e pra cá - o aparelho de repressão do estado, cuja
demanda cresce mais e mais, em proporção ao sempre
maior número de passageiros viajando fora da lei.

43
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Classificados

S
abine 32 anos/1,70 m, morena, magra,
dois filhos, um deles deficiente, procura
companheiro para a vida a dois. Favor
foto. Caixa Postal BA-28640.

Tomo café com a torradeira, paquero o rádio, antes que


eu comece um relacionamento com a geladeira estou
procurando alguém. Tenho 52 anos e 1,77m. Coragem,
senhoras. Fotos são bem vindas. Caixa Postal BA-
28683.

Homem, 57 anos, 1,72m, 66 kg, morando em Lankwitz,


procura mulher até 50 anos. Pode morar na minha casa.
Serve se vier de país da cortina de ferro, mulher de cor
ou prostituta. de preferência com peito grande e peluda.
Caixa Postal BA-28279.

Cego, 37 anos, 1,72m, 72 kg, bonito, boa aparência,


bom humor, cabelo e olhos escuros, da Pérsia,
inteligente, aberto, procura mulher simpática e bonita a
partir de 25 anos para relacionamento sério, futuramente
filhos. Você tem que enxergar 100% e cuidar dos
impostos. A dois a vida é melhor. Caixa Postal BA-
28466.

Morar separados e, ainda assim, ser um casal.


Engenheiro, 71 anos, 1,75m, viúvo, simpático,
cuidadoso, habilidoso, caseiro, vivo. Tel: 214-1661
diariamente de 11-20h, Appelt-Partner-Service, Martin-
Luther-Straße 8.

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Esses e outros anúncios apareceram na edição de 9 de


julho de 1997 no jornal Berliner Abendblatt, na seção
De coração para coração. No jornal, no rádio, nas
revistas, na tv, o que não falta são programas de
programas para os corações solitários. Paquera na rua,
por outro lado, praticamente não existe. Nos bares, o
que mais se vê são mesas só com mulheres ou só com
homens. Amigos casados me contam que, depois de
terem arranjado a terceira namorada, a mulher foi
embora levando os filhos. Tudo muito estranho. A
impressão é de que as pessoas desaprenderam o
romance. Isso, para não mencionar o amor. Pela rua,
homens mais velhos acompanhados de mulheres mais
estrangeiras, brasileiras, tailandesas, polonesas, porque
as alemãs, em primeira instância, consideram uma
abordagem ou como insulto ou como assédio sexual e
preferem manter o título de feministas a fraquejar em
proveito de uma boa trepada.

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Um camarada

C
onheci Claus R. no dia 26 de maio de
quase um mês depois de ter procurado
escritório de tradutores e intérpretes
Transword. Os magros rendimentos como repórter
freelance me fizeram procurar uma alternativa de
trabalho e eu saí ligando para os números que encontrei
nas páginas amarelas, até que uma senhora chamada
Frau Kurse se apiedou de mim e marcou uma entrevista.
Meu formulário de inscrição foi encaminhado para o
Claus, que estava procurando alguém para fazer revisão
dos textos dele em português.
Depois de bater um papo comigo pelo telefone com
aquele sotaque característico lusitano, veio o Claus a
minha casa às duas da tarde daquela segunda-feira me
trazendo de cara um buquezinho de Maiglocken, uma
flor que só existe no mês de maio e tem um perfume
maravilhoso. A primeira encomenda era uma tradução
sobre umas gruas para enrolamento de cabos e ia servir
para instruir os operários portugueses, que junto com os
poloneses praticamente tomam conta de todos os
canteiros de obra da cidade, pelo simples fato de que
aceitam ganhar até 5 marcos a hora, enquanto o
operário alemão prefere o desemprego a se deixar
explorar e não aceita menos do que o triplo.
Uma semana depois, Claus veio buscar o trabalho
e novamente me trouxe um agrado: preparei um
Nescafé para acompanhar as fatias de Apfelstrudel que
ele havia comprado. Mais uma vez, Claus se demorou
bastante e na segunda visita eu já tinha contado
bastante da minha vida e do Brasil, e também já sabia

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

muito sobre ele. Casado, com 43 anos, a filha mais


velha Manuela com 23 e a mais nova Nadja com 16
anos, morando em Strausberg, na periferia de Berlim,
Claus aprendeu português no tempo em que foi militar
na extinta RDA. O intercâmbio com outros países
comunistas, como Angola e Moçambique, criou a
necessidade de tradutores e intérpretes de português.
Quando o muro caiu, Claus decidiu partir para a carreira
solo. Mas ele até já tinha antecedentes subversivos e
xenófilos: a mãe fez questão de que o nome dele fosse
escrito com C, contrariando a norma alemã do Klaus
com K.
A cada visita, Claus procurava se inteirar das gírias
em brasileiro: Semana que vem, eu pinto por aqui.
Deposito a sua grana assim que eu receber pelo
trabalho. A gente costumava rir muito e Claus sempre
tentava me passar uns telefones que pudessem servir de
pautas. Desgraçadamente, nunca nenhuma rendeu
matéria. Claus esteve em Londres e como sabia que eu
estava de olho numa vaga na redação brasileira da BBC
aproveitou os contatos que tinha com um deputado
inglês viado, ex-repórter da rádio, para tentar me dar
uma força. Como tinham acabado de contratar duas
pessoas, a tentativa também não deu em nada.
Na segunda revisão que eu fiz, como ele tinha
pressa, ficou sentado esperando, enquanto eu conferia a
tradução sobre moinhos de cereais. Até hoje não sei o
que vem a ser Buchweizen, misteriosamente traduzido
como fagopiro no dicionário Langenscheidt. Claus me
trouxe cerejas e ameixas, Claus com seus olhos
castanhos e cabelo grisalho, passaria no Brasil por um

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

português de fala mansa. Claus entrou de férias e me


convidou para ir conhecer a casa e a esposa dele.
Levei duas horas para chegar a Strausberg, porque
em alguns trechos o S-Bahn passa só a cada 40
minutos. Eles moram num conjunto habitacional de
cômodos minúsculos que foi construído há 20 anos para
as famílias dos oficiais. O assunto principal da conversa
foram as diferenças entre a Alemanha Oriental e a
Alemanha Acidental, que é o país que apareceu com a
unificação. Como no caso de Claus e Bärbel, era comum
os jovens se casarem e terem filhos cedo, a prática era
incentivada pelo estado com mimos como, por exemplo,
a regalia de 5 mil marcos no nascimento de uma criança.
A média dos salários era de apenas 500 marcos. O
bônus, os pais podiam trocar nas lojas por mercadorias
para o bebê ou mesmo para mais conforto na casa,
como uma tv. Casais com filhos também tinham mais
facilidade de conseguir um apartamento maior, no caso,
de três cômodos.
Depois da unificação, aumentou na Alemanha
Acidental o ódio aos estrangeiros. E porque aumentaram
também os impostos para a ajuda solidária ao lado de lá,
os estrangeiros mais discriminados são justamente os
alemães orientais. Sete anos atrás, os salários os
servidores passaram a corresponder a 78% do que
ganhavam os funcionários públicos da Alemanha rica.
Hoje o percentual chega a 84%, mas os impostos,
aluguéis e preços em geral são os mesmos para os dois
lados. A tendência é que chegue a igualar nos 100% lá
3
pelo ano 2.000, mas até então os ossis saem perdendo.
Habituados a esperar pelo menos doze anos por um
Trabi ou um Wartburg, que eram os únicos carros do

48
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

comunismo, hoje muitos já aposentam o carro de


papelão e compram um de verdade, caso possam se dar
ao luxo. Ninguém mais precisa inscrever os filhos recém-
nascidos na lista de espera, como antigamente,
pensando em dar um automóvel de presente quando ele
atingisse à maioridade.
Os filhos de hoje, no entanto, também não são
mais os mesmos. Manuela fez um profissionalizante
como vendedora em livraria e se contenta em viver
modestamente com o namorado no bairro de
Friedrichshain, antiga Berlim Oriental. Nadja, 7 anos
mais nova, adolescente pós-reunificação, é uma filha do
capitalismo e está escolhendo um curso universitário
onde possa fazer carreira e com o salário mais bem
pago que conseguir encontrar.
Passeamos Claus, Bärbel e eu pela aldeia de
Strausberg. Uma solitária rua, com não mais de 200 m,
continua concentrando todas as lojas da localidade. Um
lago, tipo cartão postal canadense, rodeado de
pinheiros, faz daquela paisagem a única coisa
interessante na região Em Strausberg prevalecem os
enganos, a começar pelo próprio nome da cidade, cuja
origem remonta aos tempos da ocupação eslava. O
nome original tinha justamente a ver com o lago, bem
comprido, e a palavra significava vagem. Com o passar
dos séculos, no entanto, o som mais parecido lembrava
Strauß, que em alemão tanto significa buquê de flores
quanto avestruz, numa alusão a sua cauda. A ave
aparece serelepe no brasão da cidade, sem que um
exemplar sequer jamais tivesse posto as patas em solo
strausberguense.

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Disputas mais atuais dizem respeito a casas


abandonadas. Nos anos socialistas, os proprietários não
tinham o suficiente para apagar os impostos nem para
fazer a manutenção dos imóveis da família. Por isso,
preferiam viver de aluguel a 10 marcos por mês e
repassar o patrimônio para as gulosas mãos do estado.
Derrubado o muro, mais dinheiro em caixa, os antigos
proprietários ou herdeiros agora brigam na justiça pela
reintegração de posse daquelas casas cinzentas e
caindo aos pedaços. em cada esquina, ou em
quarteirões inteiros, paredes feitas de barro e estuque,
antes mesmo de o Brasil ser descoberto, e que
agüentaram séculos de economia de mercado, mas não
sobreviveram a pouco mais de 40 anos de comunismo,
estão detrás dos cordões de isolamento. Não podem
mais ser recuperadas. O valor que elas têm hoje está
longe do tombamento, só importa a valorização do
terreno.
Como me contou o casal de amigos, cada
pedacinho das redondezas tem história. A mansão da
caderneta de poupança, onde os camaradas sempre
economizavam o pouco que sobrava e que não foi
extinta na nova Alemanha, é a mais rica de Strausberg.
O edifício-garagem recém-construído fica a poucos
metros das cabines para o banho no lago, uma casa
amarela de madeira que está lá desde 1908, e que mais
parece saída de um filme de Monsieur Hulot. Só no ano
passado Claus e Bärbel descobriram que por trás de um
tapume na rua principal ficava o jazigo de uma cervejaria
abandonada, nos últimos anos recuperada por um
italiano, que ali abriu o restaurante mais chique da
cidade. Menos sorte teve o centro de esportes para a

50
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

juventude, única opção de lazer além do lago nos anos


de arrocho, que foi desocupado pelos poderes da
reunificação para ficar vazio e desmoronando.
Terminado o tour, tomamos eu e Claus uma bomba
de sorvete, enquanto Bärbel se contentava apenas com
um berliner Weiße, que é uma mistura de cerveja com
xarope de fruta que os alemães qualificam,
invariavelmente, como erfrischend, o que significa
resfrescante. De volta à casa deles, fiquei fazendo hora
até o próximo S-Bahn e admirando os belos entalhes de
madeira espalhados pela sala, verdadeiras obras de
arte, todos presentes dos dirigentes africanos, como
Samora Machel, que Claus conheceu pessoalmente em
Moçambique. A marca da queimadura do carpete,
escondida debaixo de um tapetinho redondo, eu só
fiquei conhecendo porque os donos da casa fizeram
questão de me mostrar, às risadas, contando que a
marca indelével ficara como lembrança de um dos
aniversários de Claus. Manuela colocou no bolo uma
daquelas velas fogos-de-artifício e quando o pai
assoprou já ia provocando um incêndio na casa. Esse é
o camarada Claus: adora revelar o que outros preferem
deixar, escondido, debaixo do tapete...

51
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Fronteiras do passado

A
mais longa galeria de arte ao ar
livre do mundo tem 1,3 km de
comprimento e já era famosa
antes de existir. Até 9 de novembro de 1989,
a East-Side-Gallery era apenas mais um
pedaço do internacionalmente conhecido
Muro de Berlim, que dividiu a cidade durante
quase 30 anos. Quando a reunificação do
país já estava em pauta, o Governo da então
Alemanha Oriental retirou 300 pedaços do
muro, cada um com 1,20 m por 3,60 m de
altura, para presentear personalidades ou
organizações mundialmente reconhecidas,
dentre eles o Papa João Paulo II e a CIA. Dos
155 quilômetros originais, sobraram de pé
apenas alguns trechos pequenos, como o que
fica na Niederkirchnerstraße ou no
Invalidenfriedhof, o resto foi derrubado e
reutilizado para fazer aterros. Salvaram-se
apenas os pedacinhos, de procedência
duvidosa, ainda hoje vendidos como
souvenirs e os mil e trezentos metros da East-
Side-Gallery, na Muhlenstraße, entre a
Oberbaumbrücke e a Hauptbahnhof, graças à
intervenção de uma escocesa chamada
Christine Mc Lean. Na época ela trabalhava
no Conselho Britânico, que aliás ficava em

52
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Berlim Oriental, e teve a idéia de preservar o


monumento onde artistas de todo mundo
pudessem deixar para a posteridade
mensagens de liberdade.
Mas, desde o começo, o resquício do
muro da vergonha pareceu interessar mais
aos estrangeiros do que aos próprios
alemães. Tanto que os 118 artistas que
participaram do projeto praticamente tiveram
que se auto-financiar ou recorrer a empresas
patrocinadoras, disfarçando para isso
propaganda embutida nos painéis. Apesar da
East-Side-Gallery ser hoje atração turística,
não há verbas públicas destinadas para a sua
preservação. Parodiando o Presidente
Kennedy, que se declarou um berlinense na
visita à cidade dividida, em 1963, muitos
visitantes não resistem à tentação de deixar
sua marca e acabam escrevendo mensagens,
do tipo “Bob esteve aqui”, quando não
enchem tudo de grafitti. Pior situação é a de
um painel, em particular, que vem sofrendo
perseguição, tanto da extrema esquerda
quanto da extrema direita, desde que foi
pintado pela primeira vez, sete anos atrás.
Niemandsland, que até agosto de
1995 se chamava Vaterland, foi idealizado
pelo pintor e fotógrafo Günther Schäfer, de 43
anos, quando o muro ainda era jovem. O
alemão tinha então 19 anos e ficou
impressionado com uma carta de despedida
que o avô de sua mulher escreveu para a

53
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

esposa, onde se desculpava pela opção que


tinha feito: “Como soldado alemão não sou
capaz de tirar a vida dos judeus neste campo
de concentração para onde fui mandado. Por
isso, os oficiais decidiram me executar.” A
“tela” de 11 m, que se chamava “pátria” e foi
rebatizada como “terra de ninguém”, na
verdade é uma provocação, onde o artista
fundiu as bandeiras da Alemanha e de Israel
numa só. “Minha idéia era simbolizar a
unificação e a integração, em contraponto ao
fascismo crescente no mundo”, explica
Schäfer, que se dividia entre Nova Iorque e
Frankfurt, e acabou tendo que montar casa
também em Berlim. Acontece que o alemão
precisou refazer o painel nada menos do que
dezesseis vezes ao longo dos últimos anos,
porque não demora muito Niemandsland
acaba sendo alvo de novo de pichações
políticas.
Como por exemplo em setembro de
1993, na noite seguinte ao acordo de paz
firmado em Washington entre Yasser Arafat e
Ithzak Rabin, quando fundamentalistas
árabes picharam os nomes do hamas e do
hezbolah sobre a bandeira. Schäfer já perdeu
a conta das vezes em que recebeu ameaças
anônimas, mas não se assusta. Pelo
contrário: desde o início ele sempre facilitou a
tarefa dos extremistas, colocando seu
endereço completo embaixo da pintura.
“Mesmo que eu tenha que refazer o trabalho

54
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

cinqüenta vezes, não importa”, garante,


lembrando que a obra ganha sempre uma
nova versão. É que Schäfer não retira a tinta,
e em vez disso pinta sempre por cima daquilo
que encontrou, deixando o painel cheio do
que chama de “cicatrizes”.
A pintura mais polêmica, que fica a
poucos metros do metrô de Warschauer
Straße, nasceu entre os dias 16 e 18 de
março de 1990, quando Günther Schäfer
pensou em chamar a atenção de uma outra
data, o 9 de novembro. Afinal, o Pogrom,
também conhecido como a Noite dos Cristais,
em que foi incendiada a principal sinagoga da
cidade, aconteceu em 9 de novembro de
1938. Coincidentemente ou não, a queda do
muro aconteceu 51 anos depois, em 9 de
novembro de 1989. A ironia é que durante
quase três décadas, o Muro de Berlim tenha
feito parte das manchetes internacionais,
contando das atrocidades por trás da cortina
de ferro, e que transformado numa galeria de
arte aberta 24 horas, com entrada franca,
tenha caído no esquecimento.
Desde 13 de agosto de 1961, cerca de
60 mil pessoas foram condenadas por tentar
fugir ou colaborar com fugas da Alemanha
Oriental. Os fugitivos tinham que amargar 16
meses nos cárceres do comunismo, enquanto
que quem colaborava era punido com até
quatro anos de detenção. Caso o réu fosse
considerado culpado por organizar

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

sistematicamente as fugas, a pena imposta


era confinamento domiciliar em caráter
perpétuo. Túneis, engenhocas e balões para
as fugas agora fazem parte de um passado
que só não desapareceu por completo graças
ao Museu do Muro, em Checkpoint Charlie,
que era o ponto americano da fronteira e o
mais importante para troca de prisioneiros
entre as duas Alemanhas. Mas a memória dos
mortos, como Peter Fechter, o rapaz de 18
anos que em 17 de agosto de 1962 sangrou
até a morte fuzilado junto ao muro até receber
a ajuda de seus carrascos, 50 minutos depois,
continua esquecida, como esquecidos os
nomes das cruzes em frente ao Reichstag.
Apesar das cores, a East-Side-Gallery está
cinzenta. Parece que a arte também não
supera a vida.

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Triângulos

A
s moscas alemãs voam diferente das
moscas brasileiras. Não foi ninguém
contou, eu mesma vi e acompanhei o
moscas e mais moscas aqui na sala do meu
apartamento na Boppstraße, esquina com o cinema
Moviemento, na Kottbusser Damm. Isso para vocês
terem uma idéia do quanto eu andei ocupada! As
moscas elas só começaram a aparecer no verão, que
não tem nada de quente e corresponde apenas aos
meses de junho a setembro. Esses insetos urbanos
gostavam de estacionar pendurados de cabeça pra
baixo na borda do lustre da sala, uma cúpula cor de
cobre por fora e branca por dentro, que exibia várias
pintinhas pretas ao redor, deixando advinhar para o que
é que as moscas estacionam. Pois então, quando não
estavam defecando na borda do meu lustre, as moscas
costumavam ficar voando ali por perto e eu fiz a
tremenda descoberta: elas voam em forma de triângulos.
Agora mesmo tem uma ali, deixa eu acompanhar um
pouco pra ver como eu explico isso. Vamos dizer que ela
voa para frente, o que não dura mais do que dois
segundos, isso porque parece que ela esqueceu alguma
coisa e resolveu voltar, então se atira para um lado num
ângulo de 120° e vai em frente, pra dali a pouco se
esquecer do que tinha esquecido e dar outra guinada,
que parece levá-la dali a dois segundos ao mesmo ponto
de partida. Ficou claro? A mosca voa lento, mas quando
lembra que se esqueceu se arremete com tal fúria para
outra direção, e segue voando lento, só a quebra da
trajetória é rápida. Vocês devem estar pensando, será

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

que essa mulher não tem nada melhor pra fazer? Não,
não tenho. E realmente acho que o vôo de uma mosca
alemã é impressionante. Sabem aqueles jogos de pinball
em que a bolinha sai quicando quando bate nos
obstáculos? Então, é a mesma coisa. Mosca de país
desenvolvido curte trigonometria. Mosca teutônica voa
em forma de polígono. Ela só se engana um pouquinho
voando na triangular. Se voasse fazendo um quadrado,
tinha tudo a ver com o povo daqui...

***

Não tenho máquina de lavar e considero que seria


pedir demais que eu lavasse a roupa de cama curvada
na banheira - os apartamentos por aqui são um pouco
rudimentares, não têm área de serviço, quarto de
empregada pra gente atulhar quinquilharias (deve ser
porque ninguém tem empregada) e muito menos tanque.
Por isso, a única solução é ir até o Waschsalon, de
quem já se disse ser um lugar solitário. Procede. Na
porta da lavanderia, cartazes informam
antissepticamente tudo que se precisa saber: 6 kg de
roupa por 6 marcos. Horário de 6 às 23 h. Lá dentro
apura-se um pouco mais. A permanência nas
dependências do Waschsalon é restrita aos clientes. É
proibido ingerir bebidas alcóolicas. Considerando a
atmosfera de floresta tropical, quente e úmida, que é
garantida pela enorme quantidade de máquinas de lavar,
não admira que um ou outro sem-teto pense em buscar
o abrigo da lavanderia para degustar sua cervejinha,
principalmente se lá fora estiver caindo uma nevasca. O
Waschsalon dá mesmo um certo conforto pra gente,

58
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

parece o grande útero. Você entra, joga suas porcarias


pra lá e depois de meia hora pode ir pra casa saltitando,
sem ter feito o menor esforço, com tudo limpinho. Mas
costumam acontecer contratempos. A começar pelo
níquel. Sim, porque você precisa de um níquel que vai
acionar o funcionamento da máquina. Para isso, é
preciso inserir ou seis moedas de um marco ou uma de
5 marcos mais uma de 1 marco e apertar um botãozinho
do automático. Por um buraco sai o níquel e por outro o
sabão em pó. Em teoria. Pode acontecer de só sair o
sabão e o níquel ficar lá dentro. Nessa hora, a reação
dos usuários, que no caso do Waschsalon podem ser
das mais variadas nacionalidades, inclusive alemães das
castas inferiores, é a mesma. Socos e pontapés nas
máquinas, devidamente acompanhados das mais
terríveis imprecações intraduzíveis. Às vezes, a máquina
até cospe o níquel com um invariável “vá lá”, outras
vezes não adianta. Pior é que o usuário do Waschsalon
já chega um tanto quanto irritado. Já foi um saco arranjar
o dinheiro trocado numa terra em que, se você pensar
em pedir isso a qualquer comerciante, ele ameaça
chamar a polícia. Eu sempre apelei para algum truque,
comprando por exemplo no Rudi’s Reste Rampe, que é
o mafuá mais vagabundo da área e ideal para comprar
aquelas lembrancinhas, um molho de macarrão que
custa 1 marco e pagando com uma nota de 20, só pra
conseguir as moedas trocadas. Em caso de o níquel
não sair, você encontra escondidinho do lado um
formulário em que faz uma reclamação por escrito e
manda para Hamburgo. Uma velhota me garantiu que
você recebe o dinheiro de volta - só não explicou como,
se é por depósito bancário da irrisória quantia ou o quê.

59
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Também tem um número de telefone de emergência na


parede, desconfio que seja da central em Hamburgo, o
que não ajuda muito, caso a sua roupa de baixo tenha
ficado irreversivelmente trancafiada na máquina número
8. Atenção para não esquecer de colocar a canequinha
amarela embaixo da culatra por onde desce o sabão em
pó. Senão você passa a vergonha de ter que meter a
mão no sabão e recolher o que não caiu no chão.
Centrífugas e secadoras, o funcionamento é o mesmo.
Só que custam apenas 1 marco, mas mesmo assim eu
nunca usei, prefiro pendurar a roupa em casa. Um
grande rolo de pastel serve para esticar a roupa das
mais preguiçosas, que têm ojeriza a um bom ferro de
passar. Eu não, eu até me divirto com ele. Dali pra
frente, vem a parte fácil. Cada máquina tem uma
plaquinha com as instruções passo a passo. 1-Coloque a
roupa na máquina. 2-Escolha o programa (com ou sem
pré-lavagem - neste caso, você tem que dividir um terço
do pó na abertura n° 1 e dois terços na n° 2 para repartir
o sabão). 3-Escolha a temperatura (pode contar que
alguma velha impertinente vai gritar lá do canto que a
temperatura é de 60 graus, se desconfiar que você
escolheu 40 para a roupa de cama). 4-Inserir o níquel. 5-
Fechar a porta da máquina. 6-Apertar o start. Pronto. A
porta só abre de novo quando o mostrador apresentar
00 e demora de 20 a 30 minutos, dependendo da
quantidade de roupa que você entupiu lá dentro. O mais
desagradável que pode acontecer é você descobrir,
quando chegou em casa, que tem alguma coisa
faltando. Da primeira vez foi um sutiã branco, que deixou
viúva uma calcinha bem jovem. Da segunda, o pé
esquerdo da minha meia soquete pintadinha que eu

60
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

amava tanto. Da terceira, um pé da meia com barra de


coração. Deve haver algum risco de a máquina escoar
as peças pequenas junto com a água na hora do
enxagüe. Um verdadeiro Triângulo das Bermudas, pelo
menos das calcinhas, tangas e cuecas.
Já presenciei e vivenciei experiências as mais
variadas nessas meias horas de Waschsalon. Como, por
exemplo, no dia em que um turco, ou talvez ele fosse um
curdo?, cismou de me presentear com uma latinha de
Coca-Cola e ficava repetindo um gesto, a mão elevada
ao peito, que se estendia em minha direção. Alguma
coisa no melhor estilo “de mim pra você”. Ou então a
discussão entre um casal bebendo cerveja e a mulher
que era sérvia ou bósnia ou croata e berrava “é proibido
beber aqui dentro”, provavelmente pensando no
imprestável do marido que a essa hora esperava o
almoço refastelado no sofá e munido também da sua
latinha, e o casal respondia que “é proibido brincar com
os carrinhos de carregar a roupa”, enquanto os filhos da
dita asilada promoviam um rally em volta da mesa
central. Também teve o dia em que eu, que geralmente
só aproveito pra ler o jornal, levei um livrinho de bolso
que foi presente da minha amiga Birgit. Muito bom o
Cartões de viagem em prosa, de Truman Capote, que
hoje exibe, além de um rasgo na parte inferior da
lombada, ostensivas marcas de dentes na capa de trás.
O sujeitinho estava aos gritos quando eu entrei na
lavanderia. O pai, um marroquino dos seus vinte e
poucos anos, o souvenir de viagem que a mãe, uma
alemã na casa dos quarenta, provavelmente arrematara
alguns verões atrás. O pirralho, de quem não entendi o
nome, apesar de repetidas vezes balbuciado, veio logo

61
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

para o meu lado, assim que eu me sentei pra ler. Mal se


lembrava da briga que acabara de obrigá-lo a recolocar
os sapatos. Ele se arrastou pelo chão e no banco à
minha esquerda até eu olhar para ele. Segurou minha
mão, me arrancou o livro, me olhou com aqueles olhos
escuros e pestanudos e me sorriu com uma boca
bangüela. Tremendo paquerador. Sem conseguir ler
qualquer coisa, devia ter lá pelos 5, 6 anos, ele logo
descobriu uma nova serventia para o livrinho de bolso:
partí-lo ao meio, um mister universo mirim com sua lista
telefônica. Os pais conversavam aliviados por alguns
momentos sem se dar conta do vandalismo. Diversas
vezes tirei com cuidado meu livro das mãos do menino,
repetindo que não o comesse, livros não são para
comer, mas sim para serem lidos. A fera cravou os
dentes em Truman Capote e depois ficou me
perguntando quem ele era, apontando para a fotografia
3x4 estampada na contra-capa. Quando por fim ele
rasgou um pedaço, eu não me controlei mais: enfiei-lhe
a mão na cara. Suave, mas com firmeza. Na mesma
hora, ele soltou o livro. Mas continuou ali do lado, me
olhando, sondando. Esperando. Quando a mãe, de
quem ele vai ver nunca levou aquela providencial
palmada, foi verificar a roupa na secadora, ele dedurou:
mãe, a moça me deu um tapa na cara. Eu reagi de
pronto: ah, é? Então por que você está de mão dada
comigo? A mãe deu um risinho de quem finge que não
acredita em lorota de criança, mas bem torcendo por
dentro pra ter sido verdade, e disse que ele era um
conquistador. De qualquer maneira, ele estava mais
calmo quando eu fui embora e até me pediu um beijo, de
tão apaixonado. Mas essas aventuras amorosas estão

62
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

pra acabar. Para o mês, me mudo pra um apartamento


com máquina de lavar.
Credo

U
m maestro paulista, meu conhecido, na
companhia de quem apurei meu
entendimento de óperas e concertos
teatros berlinenses, me passou uma vez um libreto com
a programação anual da Deutsche Oper Berlin. Foi ali
que eu encontrei o nome do coreógrafo Roberto de
Oliveira, a quem havia entrevistado dois anos antes no
Rio, e que imediatamente pareceu ser uma boa fonte.
Realmente. O Roberto, o Antônio Gomes e o Rodrigo
Pederneiras, do Grupo Corpo, estavam naquelas
semanas conseguindo um verdadeiro feito para a arte
brasileira. Pela primeira vez na história, um balé
concebido exclusivamente por coreógrafos brasileiros ia
ser apresentado na Europa.
Claro que os três mosqueteiros contavam com a
ajuda de um quarto, nesse caso o próprio diretor de balé
da Deutsche Oper Berlin, o californiano Richard Cragun,
autor da idéia. Sem querer criar limitações místicas ou
religiosas, Credo deveria se tornar uma noite positiva,
em que o público voltasse para casa mais otimista. “Hoje
em dia, principalmente aqui na Europa, ninguém acredita
em mais nada. É importante resgatar a crença em si
mesmo, nas relações amorosas, seja lá o que for. De
estresse e problemas, todo mundo anda cheio”,
comentou o americano.
Quando ofereci a pauta na redação, ela foi
sumariamente executada por um pelotão de fuzilamento:
“isso aí pode até ser notícia no Brasil, aqui, não

63
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

interessa.” Só que, dois dias antes da estréia, a colega


Anne Winter, que era a única redatora legal, me liga
pedindo a matéria. O jeito foi acompanhar o ensaio
geral, com toda a tensão que ele traz, e fazer o possível
para entrevistar os artistas. No palco, se revezaram
cenários por completo diferentes. Primeiro o guarda-
roupa com 150 casacos da coreografia Awakening, de
Roberto de Oliveira. As almas desciam do teto do palco,
penduradas em casulos, que na verdade eram sacos de
dormir, representando a reencarnação. Cada casaco era
um corpo material e, apesar da ajuda de anjos da
guarda, quanto mais vestida uma pessoa, maior o
isolamento do seu semelhante - numa alusão clara de
Roberto ao jeitão reservado dos europeus, e que
contraria o credo interior desse carioca, segundo o qual
só conseguimos encontrar-nos uns nos outros.
Em Uma outra luz, o balé de Antônio Gomes,
inspirado na música de Arvo Pärt, o cenário escolhido
foi um triângulo simbolizando o equilíbrio entre o bem e o
mal. Um posicionamento neutro, provavelmente
inspirado na neutralidade da Suíça, país em que esse
paulista vive há 17 anos, e individualista, em que cada
um precisa encontrar-se dentro de si mesmo. Outra
descoberta de Antônio: em prol da técnica esmerada, o
bailarino europeu acaba sacrificando justamente um dos
maiores atrativos da dança, que é a espontaneidade da
intuição:”Mesmo antes de começar a se mexer, já existe
uma tentativa de organizar os movimentos”, lembra ele.
Longe dessas influências, no entanto, porque é o
único que nunca viveu fora do Brasil, o mineiro Rodrigo
Pederneiras desenvolveu uma linha purista, que por
sinal foi a que mais empolgou o público nos ensaios. O

64
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

cenário rural de Alluvium, ou aluvião, dava a impressão


de que olhar para o fundo do palco era entrar numa
cesta. Sem juízo de valor, o rio se tornava o movimento
contínuo da vida, com suas construção e descontrução
permanentes. Mais uma vez, a música de Uatki, esse
quarteto inclassificável que, não contente em fazer
música, faz também os instrumentos. Ao se escutar o
som trabalhado, a diferença do ritmo brasileiro salta aos
ouvidos, mas também aos olhos: nota-se o esforço de
bailarinos japoneses, escandinavos e até latinos para
reproduzir a estrutura que conhecemos como herança
genética e reconhecemos pelo popular nome de ginga.
Pena que a beleza dessas informações tenha
ficado de fora naquele sábado, estréia de Credo, para
os ouvintes da MultiKulti. A má vontade da redatora-
chefe, mais o caos dos horários de edição impediram
que a matéria ficasse pronta. Deve ser por isso que
essa, em especial, é uma das minhas matérias
radiofônicas preferidas: contar de Credo nunca é
demais.

65
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

O que poderia ter sido

E
ssa não é a história na íntegra, mas
poderia ter sido. Os ingredientes estão
lá: um homem, uma mulher, romance e
música. Digamos que esta seja uma versão possível,
bem mais interessante do que a original. O homem - um
alemão - e a mulher - uma brasileira - se conheceram
num congresso em Zurique. Foi tesão à primeira vista,
segundo relato dos colegas dele. Viveram um romance
intenso que durou, cinematograficamente, nove
semanas e meia de amor, nem um dia a mais, nem a
menos, e terminou nalgum mês perdido pelo ano de
1994. O triste desfecho se deu numa segunda-feira.
Encontraram-se para jantar e em seguida a morena
bonita pediu que o rapaz a levasse para casa. Fugindo
do normal, ela estava muito calada aquela noite,
enquanto ele adivinhava o que viria a caminho, as gotas
de suor na testa brilhando sob o candelabro, mas
tentando o tempo inteiro espantar essas abominações
da cabeça. Só que raras são as vezes em que os maus
pressentimentos não se concretizam e aquela noite não
foi uma exceção. Quando chegaram na casa dela,
Cláudia disparou: está tudo acabado. Pode ir embora e
não me apareça mais. Esqueça que eu existo. Michael
gelou dentro das calças, segurou-se disfarçadamente na
parede e, tentando manter a pose de macho, disse, com
um sorrisinho nervoso: o que é isso, você bebeu
demais? E ela: estou indo para a Inglaterra na quinta-
feira, consegui o emprego de tradutora. Ele, que sequer
foi informado de que a moça se candidatara, reagiu:
mas, e eu? Você fica aí, né, cuidando da sua vidinha,

66
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

dos seus projetos, que eu vou cuidar da minha. Michael


só não bateu com o carro porque à noite as ruas de
Zurique são vazias, mas mesmo assim ele tirou um fino
do bonde das 11. Durante semanas, lutou com os
programas do computador, que não reagiam ao único
comando que ele conseguia digitar: C - L - Á - U - D - I -
A enter. Mas o tempo foi passando e Michael, sofrendo
de amor, agarrou-se desesperadamente a uma outra
paixão, mais antiga e mais constante: a música.
Dali três anos o alemão tinha conseguido reunir
todas as condições necessárias para gravar seu primeiro
cd. Das mais de 80 músicas compostas ao longo de 15
anos, desde quando ainda era o adolescente que fez
faculdade na Austrália, Michael selecionou 12 canções
para o seu, enfim, primeiro disco. Montou uma pequena
banda, incluiu algumas faixas instrumentais e quem
ouvisse lembrava, em algum canto entre uma colcheia e
uma semifusa, do The dark side of the moon, nos bons
tempos do Pink Floyd. O carro-chefe do cd era a faixa-
título Rainy Monday, que contava de uma separação
numa certa segunda de chuva, da garganta apertando
quando o carro parou num sinal vermelho e a amada
destilava as últimas gotas de sua presença radiosa no
banco do carona. Michael era um homem da informática
e, pior, um homem da informática sensível. Rainy
Monday tinha que ser interpretada em português, senão
não tinha graça, era a homenagem última àquele
rebolado carioca pelo qual ele ainda suspirava tanto.
Quando já organizava as datas para a viagem à
Budapeste, onde os estúdios só custam a metade do
preço, Michael ouviu dizer que Cláudia estava na cidade,
vivendo com um português. Deixou a vergonha de lado -

67
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

na despedida Cláudia recorrera à justificativa clássica de


que ele “de qualquer maneira não era lá muito bom de
cama mesmo”, e ligou para a amada, pedindo um último
favor. Se ela podia traduzir pra ele uma letra de música.
Sem dar muita conversa pelo telefone, Cláudia topou.
Ela pôs o fone no gancho e fez uma rápida retrospectiva.
Lembrou primeiro da ansiosa atuação de todas as vezes
de Michael na cama, que nunca esperava por ela.
Depois lhe veio à memória como ele era pão duro, da
surpresa na tarde em que ele pagou as duas entradas
para o cinema, da relutância em geral em dar a ela uma
carona pra casa, apesar da alegada paixão. Não restava
dúvidas, Cláudia ainda estava ressentida. Ela até
acreditou, no início, quando ele disse que estava
apaixonado, e por isso também tentou se apaixonar,
mas não foi possível. Cláudia sabia que ele sofreu com a
separação, não por causa dela, Cláudia, mas apenas
pelo que ele estava perdendo. Michael nunca percebeu
nada disso, a falta de sutileza dele não captara as tantas
mensagens de SOS que Cláudia, ainda no começo da
relação, tentou lhe mandar.
Em 10 minutos ela estava com a cópia da letra nas
mãos, que acabara de chegar pelo fax. Essa foi a versão
que Michael gravou em Budapeste, um misto de
sofrimento e sotaque na voz, no verão de 1997:

Sem pressa, o carro começa a andar


pelas ruas, que eu conheço muito bem
estou aqui na praia, de frente pro mar
a carrocinha de cachorro-quente, a areia e mais
ninguém.

68
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Sem pressa, minha cabeça quer olhar


uns corpos lindos, que eu conheço muito bem
bundas bronzeadas que insistem em chegar
e todo dia minha boca de água enchem.

Um pão, o molho e a mostarda


aqui na praia é melhor que a minha mansarda
um gringo pede um refrigerante
é pungado ali mais adiante
na zona sul a vida é bem mais animada.

Tirando um guarda, ninguém mais me cumprimenta


e o vira-lata, que aparece todo dia
sempre acaba demonstrando
que até a salsicha dele é mais vistosa do que a minha.

Sem pressa, meus dedos agarram o ferro


da carrocinha, que eu vou empurrar dali
um rastro de chapinhas de garrafa me persegue
eu não ligo, isso é coisa pro gari.

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Holocausto

H
olocausto = palavra grega que significa
que queimou até as cinzas.
Quando cheguei a Berlim ainda era o
inverno. Tomar banhos diários numa casa com
aquecimento a carvão não é a coisa mais agradável do
mundo, mas mesmo assim não abri mão, nem um dia.
São essas coisas que refletem a cultura da gente.
Imaginar um dia sem banho pra mim seria horrível. O
processo demorava algumas horas e eu tive que
continuar com ele para o banho, mesmo depois que não
precisava mais acender o fogo na sala para esquentar o
ambiente. No banheiro tinha uma espécie de fornalha,
onde se coloca primeiro um acendedor - que é um
pedaço de compensado ou de um giz embebido em
querosene - onde se ateou fogo e por cima pitocos de
madeira e por último os tijolos negros de carvão. Para
não congelar de frio, me acostumei a encher a banheira
com água quente e espuma pra tomar o banho e acabei
mantendo o hábito depois que o tempo esquentou.
Chuveiro só nos dias em que recebia visita, em que se
toma banho com pressa pra liberar o banheiro. De resto,
eu ficava todo dia pelo menos 30 minutos na banheira,
brincando com a espuma, feito criança. Vou sentir falta a
partir da semana que vem, quando passo a dividir o
apartamento de uma estudante. Duvido que ela vai ter
entendimento para as minhas incursões aquáticas.
Acender o fogo é uma coisa bonita, ele tem uma luz
laranja, diferente da luz azulada de quando se acende o
fogão a gás para cozinhar. Além disso, faz um som
muito interessante enquanto está queimando. Acredito

70
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

que isso também deve atrair aos incendiários urbanos.


Praticamente todos os dias, tem pelo menos uma
notinha, quando não duas, contando de mais um
incêndio em Berlim na página dedicada aos crimes na
cidade. Em geral, são prédios onde moram estrangeiros
ou asilos. A maior parte das vítimas tem que ser levada
para o hospital por causa da inalação de fumaça. A
notícia termina, invariavelmente, dizendo que a causa do
incêndio é desconhecida. Foi isso o que eu vim
acompanhando meses e meses com minha assinatura
de jornal. Estremecendo cada vez que aparecia um
endereço aqui no bairro dos turcos. Até que, semana
passada, saiu uma matéria grande no Tagesspiegel,
falando do incendiário que em menos de um mês
colocou fogo em 16 prédios em Kreuzberg. Tinha até
uma cópia do retrato falado que fizeram dele. Confesso
que muitas noites vou dormir pensando no assunto.
Afinal, eu moro aqui no mesmo bairro visado dos turcos,
felizmente os nomes nas caixas de correio denunciam
vizinhos alemães. Os “acidentes” acontecem sempre de
madrugada e, ao que parece, ficam por isso mesmo.
Daqui do quarto andar, eu só iria conseguir sair com a
ajuda dos bombeiros que, aliás, não têm boa fama. As
pessoas com quem comentei sobre os incêndios
disseram que é comum esses lunáticos trabalharem na
própria corporação. Não tem fogo, a gente arranja um.
Por sorte, meu próximo apartamento fica no segundo
andar.

71
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Humanismo em grande
angular

N
ão é de hoje que a sensibilidade
do artista vem tentando retratar
um tipo de beleza que só existe
no trabalho - os estivadores de Portinari que o
digam! Para 4/5 da humanidade,
principalmente no hemisfério sul, a máxima do
“ganharás o pão com o suor do próprio rosto”
está na ordem do dia e, por isso, a mais
recente exposição fotográfica de Sebastião
Salgado na capital da Alemanha vem bem a
calhar. Para reunir o registro histórico de 400
fotos em preto e branco que é
Trabalhadores, o retratista mais famoso da
atualidade rodou nada menos que 26 países,
entre 1986 e 1992, no seu melhor estilo, que é
se dando o tempo necessário para, primeiro,
entender, e só então fotografar. Uma boa
mostra desse tour de force vai estar no
Instituto Cultural Brasileiro em Berlim, de
24 de outubro a 28 de novembro, enquanto o
mestre faz do Cairo um dos cenários do seu
projeto mais recente: grandes migrações pelo
mundo, a ser apresentado na virada do
milênio.
A linguagem utilizada por Sebastião
Salgado não poderia ser mais incisiva, dentro
da sua militância pela arte engajada. Olhar
para aqueles homens cobertos de petróleo

72
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

nos campos do Kuwait é de fazer qualquer


motorista sentir uma ponta de remorso. Ainda
mais se o carro dele for uma Mercedes.
Outras emoções afloram quando a gente olha
para os cortadores de cana de Cuba e, se não
fosse a legenda, jurava que a foto tinha sido
tirada antes da Revolução. Porque não há
diferença. O menino que cresceu numa
fazenda de Aimorés, MG, onde o tempo
parecia que nunca ia passar, hoje usa uma
câmera fotográfica para mostrar que esse é
justamente o dilema para milhões de pessoas
nesse mundão afora. Parabólica e internet
chegam na casa do vizinho, enquanto eu
continuo aqui, segurando enxada e facão.
Nessa verdadeira arqueologia da era
industrial, sob o ponto de vista dos países
ditos desenvolvidos, é claro, cabe a pergunta
se ela ainda virá dar o ar de sua graça e
libertar homens e mulheres escravizados pela
pobreza. Assim como Karl Marx, Sebastião
Salgado ficou e fica o tempo todo se
perguntando, e também aos visitantes da
exposição, através das fotos, o que, diabos,
será trabalho, como dividí-lo, valorizá-lo e,
mais que tudo, torná-lo digno do ser humano.
Não há lugar para miséria na arte do melhor
fotógrafo contemporâneo. O que aparece, em
vez disso, é o capricho estético e o
questionamento social diante dos modelos,
pelos quais um sentimento de admiração
supera qualquer vestígio de pena.

73
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Vai ver que Sebastião Salgado foi tão


feliz na realização do ensaio fotográfico de
Trabalhadores por ser ele mesmo um bom
representante da categoria. Para o affair atual
com as migrações, por exemplo, ele se
infurnou na biblioteca das Nações Unidas, em
Nova Iorque, e no centro de documentação de
refugiados, em Genebra, durante pelo menos
seis meses, até ficar satisfeito e saber tudo o
que queria. Escreveu então um projeto com
30 páginas, relatando guerras, genocídios,
catástrofes naturais ou qualquer coisa que
motive fugas em massa, antes de partir para
fotografar em quatro dezenas de países. Mas
tanto empenho tem lá suas compensações:
ele é provavelmente o único fotógrafo que tem
um projeto desse porte financiado por oito das
principais revistas do mundo, como a Rolling
Stone e a Paris Match, equipamento
completo da Leica à disposição, além de
material fotográfico doado pela Kodak, só
para lembrar o xodó alemão pela fotografia,
que nessa temporada em Berlim vai ter um
prato cheio.

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

No oficial

P
restação de serviços é uma coisa que,
na Alemanha, se confunde e se perde
exagero da burocracia. No Brasil, seria
inimaginável pensar que alguém simplesmente feche o
seu comércio por várias semanas e para isso pendure
apenas um cartazinho na porta, dizendo: estamos de
férias entre 15 de junho e 7 de julho. Só falta escrever
“volte sempre”. Tempo suficiente para que se perca a
clientela. Mas acontece. Imagine-se, então, o que é
permanecer legal num país como esse. O meu caso é
um bom exemplo. Levei quase um mês pra acertar a
papelada. A primeira parada era o Meldestelle, onde eu
deveria comparecer com o contrato de aluguel e o
passaporte. Os horários de atendimento, como sempre,
um pouco confusos: segundas, terças e quintas de 7h30
às 14h, quartas de 13h às 19h, sextas de 7h30 ao meio-
dia. Informação pelo telefone, sempre ocupado, é quase
impossível. Pena, porque seria útil saber a qual escritório
da rede se dirigir. Depende da circunscrição do bairro
em que você está morando. Que você só fica sabendo
qual é se for até um escritório. Provavelmente o errado,
como também me aconteceu. Contando assim não
parece ser nenhum problema. O detalhe é que as salas
de espera fervilham de gente. Com duas horas de
expediente, as senhas, que você retira de um automático
assim que chega - se for malandro o suficiente pra
perceber qual é a jogada, porque não tem nenhum
funcionário a quem perguntar - já passaram do 150. Um
mostrador eletrônico na parede vai mudando o número
das senhas e informando do lado a que sala se dirigir.

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Tudo muito organizado e impessoal. A princípio não


entendi o porquê é assim e o porquê de tão cheio. Até
que um conhecido, dono de uma imobiliária, me
explicou. “Não é só para estrangeiro não, eu também
teria que ir lá, se tivesse me mudado.” Acontece que
qualquer um que se mude para a Alemanha ou dentro
dela, de um estado para outro ou na mesma cidade,
tanto faz: mudou de endereço, tem que comunicar.
Dessa forma, o aparelho de estado exerce um controle
total - mas não absoluto, porque tem gente que dribla a
estrutura - sobre os cidadãos. Uma justificativa é de que,
em caso de homens que tentam sumir para não pagar a
pensão dos filhos, fica fácil a justiça ir atrás dele cobrar.
Bem, vencida a etapa da Meldestelle, um estrangeiro
tem que procurar o Landeseinwohneramt, levando
consigo: o comprovante do Meldestelle com o endereço
reconhecido, passaporte, duas fotos e contrato de
trabalho. Ali não é possível esperar sentado, pelo menos
na chegada, embora fosse muito necessário. Às 7h da
manhã, a fila diária já é de cerca de 200 pessoas e
quem chega às 9h, pensando que dá tempo de ser
atendido até meio-dia, corre o risco de ir embora de mão
abanando. O estrangeiro recebe uma senha de acordo
com a inicial do sobrenome, se ainda não tiver acabado.
Depois, segue para uma sala com o tal mostrador e aí já
pode esperar sentado, cerca de três horas de relógio,
rezando para o burocrata atrás da porta não empombar
com nenhum carimbo ou documento. No contato cara a
cara, você descobre que já está fichado: são arquivos
com pastas e mais pastas, sabe-se lá o quê já
escreveram a seu respeito. Dali você é encaminhado
para uma outra sala, de onde é mandado pagar mais

76
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

uma taxa no andar de cima, um carimbo no passaporte e


pronto, nem doeu. Quando se despede, o burocrata lhe
dá um adeusinho e comunica, com uma certa ponta de
sadismo: a permissão de trabalho pode ser renovada. E
passar por tudo isso de novo? Nem pensar. Descobri
hoje no jornal que prostituição é uma atividade
oficialmente reconhecida e, portanto, recolhedora de
impostos. Qual será o controle para saber se uma puta
está escamoteando, dizendo que atende 3 fregueses por
noite, 4 no fim de semana, quando na verdade trepa o
dobro? Questões insondáveis.

77
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Vida cristã

N
a terça-feira, 10 de junho, às sete e
noite, o Padre Fernando*, de São
ser o convidado especial da igreja
evangélica de Philippuskirche. Mais uma vez, como há 3
anos, ele vai contar da Ação Social Franciscana do
Brasil, através da qual ele ampara 1.500 crianças. Ano
passado, as despesas chegaram a 350 mil reais. O
orçamento deste ano vai dobrar, porque todo dia
aparece uma criança nova. E como o auxílio dos cofres
públicos é mínimo, no final das contas tem muito menino
de rua de São Paulo sobrevivendo de doações
estrangeiras.
Às vezes o padre Fernando parece um político, às
vezes um pai, a aparência rigorosa e o aperto de mão
forte contrastando com a mansidão do olhar. O negro de
cabelos brancos fala das crianças como se elas fossem
suas e luta pela educação, pela alimentação e também
para que estejam a salvo dos esquadrões da morte.
Geralmente, o extermínio dos meninos de rua da área é
encomendado pelos comerciantes como forma de coibir
o assalto a lojas, ou então pelos donos do tráfico, como
queima de arquivo. Por apenas 40 reais, um matador
executa o menino de rua. E quando o padre Fernando
começou a ampliar sua atuação missionária do lado de
fora da igreja, no ano de 1990, contou 42 vítimas num
período de não mais que 7 meses. Ele ainda se lembra
de cada uma das crianças que perdeu para a violência
em Campo Limpo.

78
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

“Aos 7 anos de idade já tem criança arrebanhada


pelo tráfico organizado para fazer avião, entregando a
droga, porque justamente os menores têm uma
aparência mais inocente diante dos policiais. O
problema é que logo elas começam também a consumir.
Com 15, 16 anos, já chegaram a uma posição
importante na hierarquia do crime. Essa máfia é
tenebrosa e, quando se chega a esse ponto, não há
mais volta. É um círculo vicioso de dinheiro, sangue e
lágrimas. E morte. As crianças têm que morrer porque
sabem demais. Muitas delas me procuraram, pouco
antes da execução, para pedir perdão a Deus. O
impressionante é que nenhuma delas jamais revelou o
nome do provável matador.”
O franciscano jamais recebeu sequer um centavo
da Igreja Católica. Felizmente, em Berlim, ele pode
contar com a ajuda de seus amigos evangélicos,
voltados para um pensamento ecumênico, como o casal
Meckel-Marks. Os dois conheceram o padre no Brasil
em 1992, quando adotaram os dois primeiros de seus
cinco filhos. De tão impressionados com a militância
cristã do padre Fernando, fundaram um grupo de
assistência na igreja de Philippuskirche, em Friedenau. E
para a dona de casa Sigrum Meckel-Marks é uma
verdadeira honra poder oferecer estadia ao ilustre
visitante.
“Nós sabemos que, infelizmente, são poucas as
crianças abandonadas do mundo que têm a sorte de
conseguirem uma adoção. A maioria delas fica
esquecida pelas ruas, são 20 milhões em todo o mundo,
8 milhões só no Brasil. Através desse projeto, tentamos

79
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

pelo menos dar uma chance aos meninos de rua que


não têm outra opção.”

Com as doações do exterior, o Padre Fernando


garante o café da manhã e o almoço das crianças e
também que todas vão à escola. O resto do dia elas
passam com o padre e só voltam para casa para dormir.
Como ele acredita que “criança também precisa brincar”,
é isso o que os menores fazem, além do dever de casa
e de aprender artesanato. A partir dos 14 anos, começa
o ensino profissionalizante, com uma enorme variedade
de opções nas oficinas: curso de mecânica, bombeiro
eletricista, serralheiro, técnico em desenho, corte e
costura, auxiliar de escritório e informática. São 70
profissionais envolvidos no projeto, entre psicólogos,
dentistas e educadores, todos pagos. O padre lamenta
que não haja voluntários, mas pior ainda é saber que os
recursos do governo, tantas vezes prometidos, sempre
desaparecem nos tortuosos caminhos da corrupção e da
burocracia. Até verba aprovada pelo Congresso para a
Ação Social já sumiu.
“Eu me sinto mal, de ter que vir para a Europa,
porque no Brasil eu não consigo ajuda. Há 4 anos, o
Congresso aprovou um orçamento de 20 milhões de
reais, que foram embolsados pelos próprios
parlamentares, como se tivessem sido doados para as
minhas crianças. Só fiquei sabendo meses depois,
quando a fiscalização me pediu a prestação de contas.
Para conseguir provar que nunca tinha recebido esse
dinheiro, eu tive que solicitar uma confirmação por
escrito do banco. Até hoje, ninguém foi punido.”

80
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Apesar das dificuldades, o franciscano não pára.


Seu próximo objetivo é terminar as obras da casa de três
andares em Campo Limpo, na periferia de São Paulo, e
construir um centro para o abrigo e reabilitação de
jovens dependentes de drogas.

81
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Verdades absolutas

Q
uando eu contei a tal história de
que, estando no metrô, a gente
nunca sabe se quem está
chegando pela frente é um controlador ou um
Obdachlose, fiquei meio na dúvida se estava
ou não exagerando. Aliás, eu vivo por aí
conferindo se os meus vereditos sobre Berlim
estavam mesmo corretos. Até agora, está
batendo. E hoje eu confirmei mais um, num
lance absolutamente delicioso. Foi assim. Fui
entrevistar o pintor naif - e, diga-se de
passagem, ele também é um homem naif! -
Chico Laranjeira e, na volta, me aparece um
cara no S-Bahn, pequenino, mas com a pose
peculiar dos Controlleurs: Ausweis! A palavra
significa documento, mas é o que os
controladores geralmente gritam, para o
pessoal mostrar a passagem. Todo mundo
deu aquele pinote peculiar e eu já estava
metendo a mão na bolsa, quando ele tirou da
sacola um exemplar do segundo jornal dos
sem-teto de Berlim, chamado Straßenfeger.
“Agora que passou o susto, podem relaxar!
Quem de vocês vai querer a edição dessa
semana?”, saiu falando, satisfeito, com a cara
de quem estava se divertindo muito. Todo
mundo comprou, e os passageiros que não

82
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

compraram deram assim mesmo a ele os tais


dois marcos, que costuma-se explicar, ficam
metade para o vendedor e metade para a
associação. Valeu a brincadeira e mais ainda
não ter que escutar a mesma lenga-lenga de
colegas menos criativos. Mea culpa, não
comprei, porque ando sem grana, mas bem
que deu vontade.

83
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Vista do canal

C
ontar das minhas relações de trabalho
rádio MultiKulti é passar raspando
incidente diplomático mas, vá lá. Para
começar, alguém devia ter me dito que eu ia ter
descontados na fonte 21,5% de impostos. O que perfaz
a absurda quantia de 160 marcos, ou 100 reais
limpinhos por matéria! Acho que nem no Brasil se paga
tão mal. Um cidadão que critique o estado poderia
justificar a mesquinharia, dizendo que a rádio é estatal
(lembro que cada pessoa que tem uma tv e um rádio
paga 30 e poucos marcos por mês de imposto só para
manter as emissoras públicas, taí um outro
procedimento maluco de se inscrever e cancelar com
formulários, de dar arrepios na coluna!). Somos uma
horda de nababos, os jornalistas brasileiros, e não
sabíamos! Afora os bolsos vazios, o que incomodou
mesmo foram as relações pessoais. Experimente abrir a
boca para dar bom dia a qualquer redatora no horário da
manhã e será devidamente rechaçado com um sonoro
“não posso falar agora”, só porque o programa Metro vai
ao ar de 12 às 14h e todo dia nenhuma delas sabe com
que diabos vai conseguir dar conta do trabalho. Comigo
aconteceu de ser recusada, depois de me oferecer para
fazer uma matéria absolutamente imbecil, a título de que
não ia saber. Isso na frente de um monte de colegas,
invariavelmente alemães, porque na rádio multicultural
apenas eu vinha do exterior, durante uma das reuniões
de pauta. Tudo bem. Quem se importa com a escola de
palhaços da Anatólia? Eu até já sabia que a região fica
em algum lugar da Turquia. Como os cisnes aqui do

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Landwehrkanal, que perseguem os patos só porque eles


são menores, assim é o relacionamento entre redatoras
e repórteres na SFB4. Pautas que eu vi serem
aproveitadas por emissoras concorrentes foram
sumariamente recusadas quando eu sugeri. Matérias
editadas por mim, regravadas, com a seguinte
justificativa: “você leu o texto muito devagar”.
Comentários desonrosos sobre o meu sotaque carioca e
o erre fraco: eu sou brasileira, mas deveria falar como
uma berlinense, wah4? “Você descreve pouco.” Eu
descrevi mais. “Agora você escreveu um perfil.” A coisa
nunca estava a contento. Um cisne persegue o outro e a
redatora Gunda L. entrou de licença com uma crise de
hipertensão. Não duvido, mas também me asseguraram
que é comum um redator freelance ser colocado de
molho de tempos em tempos, só para lembrá-lo onde é
o seu lugar. Um pato rouba o horário de edição de outro
pato, como aconteceu comigo, e fica por isso mesmo.
Você liga para o diretor da emissora pedindo uma
entrevista, ele jura que telefona de volta no mesmo dia e
jamais retorna a sua ligação. Você se queixa de que há
três semanas todas as suas sugestões de pauta são
inexplicavelmente recusadas e tem que escutar que “é
assim mesmo”. Não importa nada como é que você vai
pagar as suas contas. Impressoras que não imprimem,
gravadores com defeito, editores de som mal-
humorados. Fitas com programas desaparecidas. Cisnes
e patos precisam ser lembrados de que o canal é de
todos. E também dos pardais, como eu, ainda menores,
que vivem à margem, porém mais sossegados. E nunca
perdem uma apresentação daquele famoso balé, com
música de Tchaikowsky, onde um redator estrebucha no

85
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

final.

86
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Manchetes

T
ão ocupada eu tenho estado em
para a posteridade como acabei me
uma genuína berliner Schnauzer - no
já destoava da paisagem com meu jeitão rabugento -
que quase me esquecia de mencionar o que os jornais
noticiam por aqui. Três assuntos principais vêm se
arrastando há meses e estão quase todo dia, em forma
de guisado e de picadinho, requentados nos jornais. O
primeiro, e mais importante, é a discussão da reforma
fiscal, que se debate - no sentido físico do termo - no
congresso sem chegar a nenhuma mudança de vulto,
por enquanto. O pior ainda está por vir. Para não entrar
na ladainha do que são os impostos na Alemanha, vou
direto ao ponto, citando o exemplo da colega Gunda L.
Trabalhando como redatora freelance na rádio
MultiKulti, ela tem um honorário de 300 marcos por dia,
o que corresponde a 200 reais. Duzentos vezes 5 dá mil
reais por semana ou 4 mil por mês, o que faria da
redatora um tremendo baú, não fosse sua tendência
para um iminente ataque de nervos e o fato de que ela
não trabalha diariamente, devido a normas internas.
Acontece que Gunda é solteira, obviamente, e não tem
filhos. Por isso, a parte que cabe ao leão - ou quem sabe
eu deveria dizer urso, para caracterizar mais a cidade de
Berlim, ou até mesmo a águia para contextualizar que o
assalto aos bolsos privados acontece em escala
nacional, taí um bom terno de grupo: águia, leão e urso -
é de nada mais, nada menos, 50%. Dá pra imaginar uma
coisa dessas? Você trabalha e tem que pagar metade do
seu salário de impostos. É dureza. Se a tal reforma fiscal

87
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

sair por completo, os impostos vão aumentar ainda mais.


O do seguro de saúde e os remédios, que gota a gota
foram aprovados, já subiram. Aproveitando a localização
privilegiada do país, tem muito alemão que só trabalha
aqui e prefere morar nas cidades francesas ou suíças,
ou fazer compras na Polônia, para fugir dos impostos.
Bem, a segunda manchete diz respeito à reforma
ortográfica, cujo objetivo seria facilitar a escrita do
alemão. Assim se aceita escrever, por exemplo, uma
palavra com três efes juntos, como Schifffahrt - antes um
dos efes do navio caía e a travessia ficava mais leve. A
grita contra a reforma fica por conta dos livros escolares,
que vão ter que ser reimpressos por completo, com
custos elevadíssimos. O terceiro tema foi a inundação
que ocorreu na fronteira com a Polônia, região da antiga
RDA. A cidade mais atingida foi Frankfurt (Oder), onde o
rio Oder ultrapassou em mais de 6 metros o nível
normal. Breve intervalo para mencionar duas
curiosidades. Oder quer dizer ou, a conjunção alternativa
- nome estranho para um rio, oder5? Para diferenciar de
Frankfurt am Main, cidade bem mais conhecida, se faz
nesse caso a referência ao nome do rio, como no caso
de Limburg an der Lahn, Halle an der Saale, etc., etc.
Voltando ao que interessa. Durante um mês inteirinho
era ligar a televisão e dar de cara com entrevistas ao
vivo das áreas inundadas. Ninguém agüentava mais ver
os repórteres, que já são meio chatos, toda hora de
galochas. Pior é que eles não têm prática de fazer
entradas ao vivo e então era o maior desastre. Como na
tv ORB, em que o rapaz esqueceu o nome de uma
terceira cidade inundada e, sem conseguir localizar de
cara onde era mesmo que tinha escrito o nome na folha

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

que lhe tremia na mão, berrou: Ai!, meu Deus, como era
mesmo o nome?” Ou então com a clássica tomada de
camponeses e soldados enchendo o saco juntos, no
total foram usados 9 milhões de sacos de areia para
conter a força da água. Mesmo assim, teve gente que
perdeu tudo, principalmente na Polônia, que contabilizou
48 mortos. Notícias de primeira página, porém de curta
duração, disseram respeito aos esportes. O time de
basquete Alba Berlin andou aí marcando as suas cestas
e Jan Ulrich foi o vencedor da maratona ciclística de
vários dias pela França - apesar de nascido numa
cidadezinha chamada Merdingen. Os telespectadores e
ouvintes não podiam mais ouvir dizer de novo que ele
estava competindo com o gelbe Trikot, o que significa,
de camisa amarela, enquanto os colegas da equipe se
mantinham fiéis ao cinza e rosa choque da
patrocinadora Telekom. Acontece que Ulrich é um cara
antenado a ponto de perceber a tempo que o canarinho
é quem leva, inspirado na melhor tradição futebolística
da terrinha. Aliás, falando de futebol, o time berlinense
Hertha passou da segunda para a primeira divisão - a
rede de metrô e S-Bahn já está sendo ampliada nas
redondezas do Olympiastadion, aquele mesmo onde o
velocista Jesse Owens fez Hitler ver a coisa preta e
acabou virando nome da principal avenida que leva ao
estádio, para atender aos aficionados do esporte.
Detalhe: numa partida onde o time apenas empatou com
o Dortmund em 1 x 1, semanas atrás, não se falava em
outra coisa. Parecia até que tinha levado o título de
melhor clube do mundo, como o Mengão em 81. Deu até
peninha!

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Papel, penico & cocô

P
apel - O carioca que conseguir se
caminhando com um pacote de 8 rolos
papel higiênico debaixo do braço no
da cidade, à vista de todo mundo, merece um tapinha
nas costas. Tanto quanto eu me lembro, por aí nós
costumamos ser mais discretos, no que diz respeito aos
nossos hábitos sanitários e não saímos submetendo a
nossa preferência pelo fino ou pelo grosso, pelo picotado
ou pela folha dupla, à aprovação geral. Em outras
palavras, o vizinho não precisa ficar sabendo que hoje
você comprou de novo mais 16 rolos, porque você
acondiciona os pacotes direitinho dentro da sacola de
plástico, misturados lá com umas latas de óleo e uns
pacotes de macarrão. Mas aqui é um bando de
desavergonhados. É comum dar de cara com um sujeito
de terno e gravata ou uma dona de salto alto,
ostentando displicentes o precioso carregamento,
completamente às claras. A desculpa deve ser de que o
fardo não cabe nem nas maiores sacolas de plástico que
são vendidas no supermercado. Não sei como ainda
nenhuma dessas malucas daqui inventou de pendurar
um ob na orelha. De repente, no barzinho, pede licença
para ir ao banheiro e volta sem o brinco, seria o máximo
do blasé! No caso do papel higiênico do Penny Markt,
que lamentavelmente não é o mercado de órgãos
masculinos, já que aqui o produto anda em falta, a
situação beira mesmo o ridículo. O nome do papel
produzido pela cadeia de supermercados foi escolhido,
sem dúvida nenhuma, por algum pervertido: Happy End.
Isso lá é nome para papel higiênico?

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Penico - Coisas que um alemão leva na bolsa toda


vez que sai de casa. Uma garrafa de vidro com um litro
de água mineral com gás, que ele vive bebericando,
quem vê pensa que se trata de uma travessia do Saara.
Um livro com pelo menos 450 páginas, capa dura, bem
pesado, que ele também lê aos pouquinhos entre duas
estações de metrô. Gordas pastas de arquivo, bastante
disseminadas entre profissionais liberais e estudantes.
Uma echarpe bem comprida, que no inverno é de lã e no
verão de tecido - nunca vi tamanha síndrome para não
resfriar a porcaria da garganta. Tem uns matulões, de
tão grandes, que você jura que o cara costuma andar
pra lá e pra cá, aproveitando que já tem celular, com a
lista telefônica. O certo é que o alemão não tem medo
de pegar no pesado. Além de praticar caminhadas
quilométricas no seu tempo livre, ele não se poupa o
sacrifício que é ter sempre à mão tudo aquilo que
necessita. Geralmente a quinquilharia é entulhada
numas bolsas de couro - outro material não resistiria ao
peso - que lembram os alforjes dos nossos não menos
destemidos cangaceiros. O hit do momento é a chamada
bolsa de carteiro, um matulão de 40 x 40 cm que tem
uma aba cobrindo. O único problema com os bolsões,
além de causar desvio da coluna, é que eles
freqüentemente são deixados no chão, claro, há que se
compreender, são tão pesados! O sujeito está na
plataforma esperando o metrô, taca a bolsa com a maior
ignorância, que lhes é peculiar, naquele chão imundo.
Ele entra no vagão, larga a bolsa entre os pés. De
repente, lembra que já tem mais de meia hora desde
que molhou o bico da última vez, e então lá vai a bolsa
com aquele fundo sujo pra cima das calças, no colo. Eu

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

acho isso impossível. As mulheres não são menos


descuidadas. Mas, afinal, é para isso que existe a
máquina de lavar.

Cocô - Além dos mapas e cartazes e letreiros


espalhados em toda a rede de transporte público, por
aqui é comum uma voz anunciando a próxima parada,
inclusive nos ônibus. O sistema deve ter sido implantado
pensando nos cegos, da mesma maneira que o
luminoso mostrando a próxima estação deve alertar aos
surdos. Pois bem, no metrô, quando você se aproxima
de uma estação, ouve o seguinte: dong, dong, e então o
nome, na voz de uma mulher tipo a Iris Lettieri, quente,
veludosa e tranqüila, que de quebra ainda lhe informa as
conexões possíveis: “Alexanderplatz, conexão com o S-
Bahn, U2 e U5 - isso se você estiver no U8, a linha oito
do metrô, que é a da minha casa. Na linha dois, que eu
pego para a redação, tem uma parada chamada
Kaiserdamm e foi ali que eu descobri a dona da voz
gravada em todo o sistema - estou pensando em
qualquer dia desses saltar só pra ver como é a cara
dela. O fato é que eu só fiz a descoberta porque em
cada estação fica um funcionário uniformizado,
geralmente numa cabine, que anuncia invariavelmente,
sempre com a mesma seqüência de comandos pelo
microfone. Ruhleben (é o destino final da linha),
zurückbleiben. Quer dizer que ele viu que todo mundo já
entrou no trem e quem chega a partir daquele momento
tem que esperar pelo próximo. Então começa uma
sirene que faz blib, blib, blib e uma luz vermelha que
pisca em cima de cada porta enquanto ela fecha. O
maior esquema para nenhum pastel ficar com a bunda

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

presa do lado de fora antes de o trem arrancar. Mas não


adianta nada. Virou, mexeu, tem um que vê o trem
parado e desabala correndo e se atira pra dentro, até
parece que são brasileiros, executivo, velhota, mulher
com carrinho de bebê, é tudo igual. Dia desses,
aconteceu justamente na estação de Kaiserdamm e
então ouvi aquela voz tão familiar berrando num tom
completamente inusitado, humano, emputecido:
zurückbleiben, eu já falei que é pra zurückbleiben.
Tomara que nenhum desses pirados que, vez por outra,
também por aqui, amanhecem dizendo que hoje é o
grande dia e pulam espetacularmente nos trilhos à
chegada do metrô, resolva praticar seu suicídio
exibicionista justamente na estação de Kaiserdamm.
Acho que os nervos esfalfados da tal mulher isto-é-uma-
gravação de certo não agüentariam o baque.
Observação: Para quem está admirado de eu dizer que
o chão é sujo, lembro que na estação de Bülowstraße o
cheiro de urina é tão forte que não fica devendo nada
aos piores becos do centro do Rio. Dento da própria
estação até que nem é tão ruim, porque toda noite, lá
pelas 8 horas, aparece um funcionário pra fazer a
limpeza. O sistema é muito divertido e atrai a atenção de
todo mundo que esteja esperando pelo metrô. Ele joga
um pouco de pó verde no chão e sai varrendo com um
vassourão, dando uma espécie de pulinhos, chega lá na
ponta faz a curva e continua empurrando o pó pra frente,
que vai ficando cada vez mais preto. O ritual é
verdadeiramente hipnótico e além disso ninguém é louco
de desviar a atenção, deixando os pés na frente do robô,
senão é varrido sem a menor piedade.

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Rescaldo

E
nquanto esperava meus amigos Birgit e
que vinham me visitar no último fim de
semana no meu apartamento grande,
aproveitei para assistir televisão. Duas vezes Birgit me
ligou no meio do caminho, fazendo o mesmo
desagradável comunicado: estamos presos no
engarrafamento. Em vez de 6 horas, a viagem de Mainz
a Berlim acabou levando 10. Até que eles chegassem,
esfalfados mas ainda assim de bom humor, à meia-noite
de sábado, o jeito de manter meus diurnos olhos abertos
foi mesmo ir zapeando. Nessa noite, em que não vi nada
do início ao fim, parei primeiro num filme preto e branco
com Ricardo Montalbán, ainda com cara de garoto,
sobre um monge que levitava. Não apenas qualquer
acessório, ele fazia subir mesmo o corpo todo. Quando a
inquisição do invejoso patrão da Ilha da Fantasia, que no
papel de abnegado monge não era capaz de fazer subir
coisa alguma, começou a me encher o saco, mudei para
um filme de guerra, também preto e branco, gravado
sabe Deus quando. Acreditem, o filme de guerra era a
coisa mais animada naquela noite de sábado. Era isso
ou então uns programas de debates infindáveis sobre
calotes ou impostos, o que dá na mesma, ou pior,
programas de Volksmusik, que é a música sertaneja
daqui - não queiram ouvir, que dirá ver, as bandinhas
com todo mundo vestidinho de tirolês! Isso num sábado
à noite é de brochar qualquer marido o resto do fim de
semana. Fiquei tão impressionada que desta vez sim me
preocupei em apurar o nome do filme. Comentei com
meu amigo Dirk e pela descrição ele me disse que podia

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

ser o Im Westen nichts Neues. De fato, recortei no


jornal do dia o tijolinho da programação com o título e a
seguinte descrição: filme americano anti-guerra. Cheguei
a ficar na dúvida se era realmente esse o filme que eu vi,
já que ele não era dublado, e sim falado em alemão no
original. Seja como for, o trecho a que eu assisti
mostrava um bando de estudantes que era seduzido
pelo carteiro da rua - os cinéfilos que me perdoem se
não era o carteiro, e sim outro conhecido qualquer, mas
eu peguei o filme começado - para se alistar. Na
caserna, o falso amigo se revelou como o mais tirânico
comandante de guarnição e obrigava os rapazes a um
treinamento horroroso. Até aí, estava pitoresco, os
rapazes ansiosos para irem à luta, já que qualquer
inimigo seria melhor do que o carteiro. Mas depois, com
as imagens do front tão realistas, os ataques noturnos, o
confinamento em trincheiras por causa dos bombardeios
e gente tendo crise nervosa trancafiada lá dentro,
baionetas em ação, eu não agüentei e mudei de canal,
para não ficar ainda mais deprimida. Eu já começava a
ter os piores pensamentos, via o mundo tomado pelo
mal, meus amigos presos nas ferragens do carro em
algum quilômetro distante de alguma rodovia, acho que
faz diferença assistir a um filme de guerra estando em
Berlim: a guerra parece mais real. Se for realmente um
filme americano, o Nada de novo no ocidente tem o
mérito de parecer muito mais autêntico do que o comum
do gênero. Não me surpreenderia se soubesse que o
roteiro foi escrito por alguém que lutou na segunda
guerra mundial pela Alemanha, justamente por causa do
enfoque inusitado que o filme tem. Muito diferente de um
outro com a Marlene Dietrich, a atriz berlinense mais

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

famosa do mundo, que ainda não virou nome de rua em


sua terra natal, e do qual obviamente eu também não sei
o nome. Nessa história, Dietrich se finge de má sem ser
para salvar o namorado americano num julgamento em
que ele é acusado de assassinato. Assim que é
declarado inocente, ainda no tribunal, faz questão de
desfilar com a namorada nova na cara dela e acaba
levando uns balaços da louraça belzebu, que não ia
engolir a traição. Mas tudo isso só pra contar um detalhe
do filme, com o qual eu me identifiquei muito. Aliás, foi
nesse pedaço que eu peguei. Um casa em ruínas, onde
o americano foi visitar a alemã levando uns agrados,
como café, açúcar, cigarros, chocolate e tal, de olho
numa recompensa qualquer, o que vai bem de encontro
com o mau caratismo masculino ainda em vigor. Marlene
então vai ferver água para fazer um café e, surpresa! Ela
usa uma caçarolinha igual a que eu tenho usado aqui
em Berlim, porque não tenho chaleira. Achei o máximo!
Quando eu fervo água só pra mim, até que vai. Mas a
partir de duas xícaras, freqüentemente eu passo
vergonha, derramando água fervendo a poucos
centímetros da orelha dos meus convidados e alagando
o chão, e então já venho logo com o pano, dizendo que
aproveito pra reforçar a faxina. No fundo, até que a
minha panelinha tem alguma coisa de poético, de
cinematográfico, alguma coisa de novidade para os
meus amigos contarem aos amigos deles, enquanto
estiverem tomando um café preparado com o seguro e
monótono auxílio de um esnobe Wasserkocher, uma
chaleira elétrica que se dá ao desplante de desligar
sozinha. Mas para quem acredita que o rescaldo da
guerra só rendeu alguns sucessos de bilheteria quero

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

lembrar que, por aqui, há nos dias de hoje mais do que


apenas a discussão de quem é que vai reclamar o ouro
que os nazistas roubaram e os suíços malocaram,
fingindo de inocentes. Na esquina da Hobrechtstraße,
que é a rua do correio, com a Sonnenallee, a Avenida do
Sol, em frente ao posto de gasolina, dei de cara dia
desses com uma coisa absolutamente inédita: uma
placa de metal com a foto de um casal, ela de vestido
xadrez cintado e uma flor na gola, olhando para o
marido, bem mais alto, de terno e gravata listrada, e o
seguinte texto:

Aqui ficava a casa e o consultório do ginecologista


Benno Heller (29.9.1894 - início de 1945) e da sua
esposa e colaboradora Irmgard Heller, nascida Strecker
(30.1.1895 - 15.9.1943). Este casal fez parte da
resistência contra o regime nacional socialista. Sua
orientação política e humanidade não permitiram que
eles apenas assistissem à expulsão e ao extermínio dos
judeus. Eles fizeram de tudo para salvar vidas humanas.
A si mesmos, no entanto, não conseguiram salvar.

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Vagando

E
u tinha apenas ido jantar com um
velho amigo, dado a sorte de
encontrar, por mero acaso, o
restaurante Tres Pesos numa noite em que o
apetite era de comida mexicana, para pouco
depois duvidar da mesma sorte, já que a
comida não era lá das melhores, e na volta
para casa entrei num S-Bahn na estação do
zoológico. Foi um corte, com uma lâmina
tanto rápida quanto afiada, entrar naquele
vagão... De lembranças do nosso romance
tumultuado a conversas engraçadas, eu
mergulhei num compartimento que quase não
enxergava direito, porque fazia frio e a
respiração das pessoas embaçava os vidros
pelo lado de dentro.
Policiais vestidos em uniforme de
choque, verde musgo, capacete, protetor
contra gases, e o ar de quem está pronto para
qualquer coisa, guardavam cada porta, aos
pares. Dentro do trem, torcedores e mais
torcedores, jovens ou não, alcoolizados ou
não, homens ou não, voltando de uma partida
de hockey em que o time da casa, Eisbären,
aparentemente tinha sido o campeão da noite.
Praticamente não havia mais lugar, acho que
só entrei, sem perceber o que estava fazendo,
porque um casal atrás de mim forçou
passagem. Agora eu estava ali dentro da

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

boca do lobo, com uma sensação de perigo,


um tanto quanto deslocada da euforia geral.
Fora os casacos e camisas, eram os
echarpes com o urso mascote e as cores azul,
vermelha e branca que uniformizavam aquela
turba. Eu já tinha passado por alguns,
invariavelmente fazendo arruaça, quando
entrei na estação, rapazes com latas de
cerveja na mão, carregando no sotaque,
gritando alto, os donos da cidade naquela
noite de 4º C. Como se alguém no mundo
tivesse o menor interesse em tomar seu
lugar... Eu fiquei de pé junto de um rapaz
muito alto, a cara esburacada pela acne de
outros anos, que incitava os companheiros
sentados em algum lugar atrás de mim.
De onde eu estava, só podia ver três
rostos: o do homem de olhos castanhos, que
entrou com a esposa junto comigo, um
pedaço da cara da policial, que ainda era uma
menina, e a garota careca de bochechas
redondas, que felizmente trazia um exemplar
do Tagespiegel debaixo do braço - não
consigo sentir medo de quem quer que seja,
tanto quanto ele me pareça um leitor assíduo
de jornal. E justo enquanto eu pensava na
divisão crescente entre pessoas que raspam o
cabelo para se diferenciar das outras, o altão
do meu lado, parecendo ler meus
pensamentos, abordou o tema, sugerindo que
um dos colegas adotasse um corte de cabelo
mais de acordo com o da gangue.

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Lembro vagamente de uma história em


que Brecht falava da disputa entre duas
sociedades imaginárias, os cabeças redondas
e os cabeças pontudas, parece que mais
alguém andou lendo a história ao avesso e
lançando moda, já que ainda não se inventou
nenhum método para alterar o formato do
crânio humano. De qualquer forma, a tensão
já ia longe quando entrou, na estação de
Friedrichstraße, uma dupla de outra falange,
não menos assustadora, porém socialmente
mais fraca do que os garotos da direita. As
atenções, que até então estavam voltadas
para a cantoria - hinos de vitória, altos brados,
eu aguçando os ouvidos para ver se
encontrava ali alguma palavra que se
parecesse com estrangeiros ou exterminar -
se voltaram em uníssono para o casal.
Duas figuras encapotadas, vestidas de
preto dos pés à cabeça, porque o chapéu dela
e a cartola dele também eram pretos,
entraram com seu negro cachorro e se
posicionaram como puderam. Na mesma hora
um dos torcedores começou a reclamar que o
cachorro estava muito perto e o altão do meu
lado começou a provocar. Um dos policiais se
colocou entre o mendigo e o cara que estava
reclamando, dando uma piscadinha simpática
para a colega, a mocinha de olhos azuis, só
pra descontrair e, como que para dizer, “ei,
pessoal, afinal, todo mundo aqui é humano”.

100
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

O mendigo se virou para conversar com


a namorada, bem mais alta que ele, e vi que
lhe faltava um dente da frente. Uma parte da
minha alma, que certamente aprecia contos
de terror, especulou se não teria sido
arrancado por um soco da direita. Ele não
aparentava medo, pelo contrário, parecia um
cristão novo que tivesse abraçado uma
missão de sair pelo mundo para virar mártir.
Mas, por favor, não aqui nesse vagão, não
esta noite, em que eu estava até de bem com
a vida. “Já que você gosta de fazer
propaganda, devia fazer direito. Aí em cima
está faltando uma suástica”, reclamou o altão,
fazendo referência aos bottons que o
maltrapilho usava presos na cartola. Um coro
se entitulava hooligans quando eu
desembarquei em Alexanderplatz para
continuar viagem no metrô. Lembrei que,
pouco antes, meu amigo me garantira que a
xenofobia, por aqui, é coisa das classes
sociais mais baixas. Infelizmente, as mesmas
que constituem a maioria esmagadora da
população.

101
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Exatidões

T
ive que correr a Hamburgo e não
força de expressão: um intervalo de três
pernoites, entre o dia 30 de julho e o dia
de agosto, quando já tinha deixado o apartamentão e
ainda não podia vir pro outro apartamento, graças ao
telefonema e ao convite da minha querida amiga
Susanne. Comprei um dia o jornal - e não me perguntem
de novo o nome, minha cabeça sofre de um vendaval
crônico em que pouca coisa pára em pé - e ali, na
página da previsão do tempo, me deparei com um dado
instigante. Cem anos atrás, em 31 de julho de 1897,
pleno verão europeu, a temperatura máxima na cidade
foi de 21ºC e a mínima de 13ºC. Aquilo me fez pensar.
Todo jornal mais caduco tem lá a sua coluna onde
aparece o que publicou há não sei quanto tempo, mas
geralmente são notícias, não a meteorologia! A
centenária curiosidade não significa necessariamente
uma habilidade alemã para o perfeccionismo. Não,
amigos, fujam desse engano! Na última reunião de pauta
o companheiro Harald Neckermann, repórter respeitado,
comentou que na Alemanha os carros nacionais são
considerados pouco sólidos, afirmação que ninguém
discutiu. Se eu contasse às personalidades históricas,
como Bismarck e, por que não?, Hitler, o que é que esse
povo anda aprontando por aqui, eles não iam acreditar e
certamente se justificariam dizendo: tá vendo por que é
que estrangeiro bom é o que fica detrás da fronteira?
Nossos lourinhos só aprendem o que não presta! Em
poucos meses, eu colecionei alguns bons exemplos da
retórica possível desses governantes. Um dos mais

102
Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

banais diz respeito ao calçamento. Em vários pontos da


cidade, onde estão sendo feitas calçadas novas, o
revestimento que está sendo usado são, nada mais,
nada menos, do que as nossas muito conhecidas pedras
portuguesas - incrível, não é? Desconfio que nem em
Lisboa se usa mais pedra portuguesa. Os alemães ainda
acreditam que é possível pregar as danadas no chão,
nós brasileiros não, nós somos a vanguarda das
calçadas e partimos pros materiais alternativos. Eu até
cheguei a pensar em avisar ao peão que estava lá
suando, fazendo a calçada, que era trabalho perdido,
mas depois pensei que o caso não me dizia respeito. Por
falar em construção, o brasileiro que eu conheço que
mais fatura aqui em Berlim é justamente do ramo. Mário,
um baiano de Salvador, que chega a fazer 9 mil marcos
por mês, o que dá cerca de 6 mil reais, trabalha
justamente colocando piso, instalando aquecimento,
essas coisas. Voltando aos alemães, saiu a lista
telefônica nova no mês de maio. Procurando o telefone
de um curso profissionalizante, sobre o qual fiz uma
matéria para a rádio, obviamente tentei primeiro a lista
nova. Liguei para o número e apareceu a gravação: Kein
Anschluß unter dieser Nummer. Não tem linha com esse
número. Liguei para o 01188 e pedi a informação, me
deram outro número que também não era. O jeito foi ir
até o endereço que, felizmente, aparecia correto na lista
- aliás, foi no caminho que vi o tal homem colocando as
pedras portuguesas. Chegando lá, descobri que estavam
em férias, o que quer dizer que só consegui entrevistar
os aprendizes de mestre cuca um mês depois. No fim,
deu tudo certo. Agora, a melhor mesmo aconteceu com
a minha conta de telefone. Depois que me mudei final de

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

julho, acreditava que receberia a última conta, como


todos os meses, em agosto, e então podia voltar para o
Brasil com a consciência limpa por ter pago as minhas
dívidas. Em vez da conta, recebi no novo endereço uma
carta da Telekom explicando que, por detalhes
administrativos, eu só receberia a conta no mês
seguinte. Acontece que em setembro eu já vou estar
meio longe. Então, procurei o centro administrativo da
Telekom aqui perto. Um cartaz na porta de vidro da
entrada avisava que o atendimento aos clientes essa
terça-feira não seria possível porque estava havendo
uma reunião interna. Voltei no dia seguinte e só então o
homem e a mulher na recepção me informaram que ali
só se atende a empresas, não a pessoas físicas. Peguei
a bicicleta e me encaminhei bufando para a Karl-Marx-
Allee, onde a funcionária, ao se inteirar do meu caso,
primeiro fez um discurso, dizendo que a Telekom tinha
que tomar jeito, que assim não era possível, que toda
hora aparecia gente de bem querendo saldar as contas
e a estrutura não era capaz de agilizar um simples
extrato para pagamento. Quando ela finalmente se
acalmou, me deu o seguinte conselho: se eu fosse você,
não pagava porcaria nenhuma, ia embora e pronto.
Levei um choque, sem dúvida Bismarck e Hitler tinham
razão, tamanha transformação na mentalidade de um
povo só podia mesmo ser influência dos estrangeiros,
um comportamento desses! Por sorte da Telekom - cujo
nome, aliás, sempre me lembra uma meleca enorme, já
que quando criança eu também chamava meleca de
teleca, por aqui eles chamam de Puppe, boneca, sabe-
se lá por quê - tinha um rapaz turco em início de carreira
e doido pra prestar serviço que resolveu ligar para a

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

central. Meio burrinho, só depois que tinha dado o


primeiro telefonema é que ele entendeu que eu não
podia ter feito ligações em agosto porque já não morava
mais naquele endereço. Mesmo assim, ele disse que ao
meu saldo devedor de 110 marcos e 19 centavos do dia
4 de agosto, poderia, talvez, ser acrescido um sei-lá-o-
quê que nem ele mesmo sabia. Se esse fosse o caso,
completou ele, lampeiro, eu receberia no mês seguinte
um bônus para descontar na próxima conta. Eu disse:
que próxima conta, meu amigo, se eu estou dizendo que
vou embora da Alemanha?, dando uma pressão para
resolver logo o caso. Ele respondeu: se um dia a
senhora voltar... a senhora também pode repassar o
bônus para um parente, para uma pessoa amiga aqui
em Berlim... E a funcionária, uma coroa gordinha, de
olhinhos verdes e óculos dourados, pra completar seu
olhar abrasileirado, junto de mim, instigando: não paga,
não paga! Mas eu não quero cair na lista negra, sabe-se
lá, daqui a pouco eu volto, peço uma linha telefônica e a
Telekom nega por causa da dívida. Que nada, deixa
isso pra lá, repetia ela. Fui embora com a cabeça
confusa, esperando o tal extrato para pagamento que
me foi prometido para dali a dois dias, e que nunca
chegou. Pelo menos, o meu calote foi tratado por vias
oficiais. É... a última coisa que eu esperaria encontrar
em terras teutônicas seria a velha técnica do pendura.

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Personalidades

N
os piores dias de crise que eu precisei
passar aqui na Alemanha, experimentei
fenômeno que até então desconhecia.
Nesses dias, em que eu mal conseguia suportar a dor de
um coração partido e a constatação de que o trabalho
não ia ser tão fácil quanto eu imaginava - e isso
justamente por causa do jeito das pessoas - muitas
vezes eu me sentei numa pedra ou num banco de praça
para chorar. Acho que daria até para fazer um tour com
um guia explicando: aqui nessa pedra, senhores, em
frente a Haus der Kulturen der Welt6, ela se sentou para
chorar na desavença inaugural com a MultiKulti, isso foi
logo no primeiro fim de semana. Ou então: este é o
banco da Theodor-Heuss-Platz em que foram
derramadas copiosas lágrimas por causa de um certo
Joãozinho S. Chorar alivia na hora, mas os problemas
mesmo eu tive que digerir de outra maneira,
trabalhando, me divertindo, estando com amigos. Só que
enquanto você não está bem, podem aparecer alguns
efeitos colaterais, além de ocasionais gritarias e
chiliques esparsos. No meu caso, foi uma tontura sem
precedentes. Vai ver eu fiquei intoxicada pelos
problemas, é, vai ver que foi isso. Parecia que eu vivia
uma interminável ressaca, da qual eu já desconfiava, e
constatei de verdade depois de uns 3 ou 4 encontrões
com os batentes das portas. Sim, era isso: eu havia me
tornado a mulher que não consegue passar pela porta.
Meu apartamento antigo tinha espaço de sobra, eu
mirava, firmava o passo e... bump! Lá estava eu de novo
com o chifre numa esquadria. Comecei a ficar

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

preocupada, seria labirintite?, até que, por acaso, dei de


cara com uma matéria no Tagesspiegel falando
justamente do assunto, dizendo que o fenômeno tinha
causas emocionais, um desequilíbrio na alma
provocando um reflexo no corpo. Entender o que estava
acontecendo foi o melhor tratamento, dali pra frente a
coisa só fez melhorar. Uma das pessoas que mais me
ajudou, ou melhor, a primeira, foi uma cubana
maravilhosa chamada Yovanna. Nós só tínhamos nos
visto uma vez, quando eu fiz uma entrevista sobre um
show onde ela foi a coreógrafa. Aconteceu de Yovanna
me ligar justo no dia em que eu estava, não chorando,
mas, aos gritos. Yovanna ficou tão assustada que todo
dia me ligava, até que uma semana depois veio almoçar
comigo. Então nós descobrimos muitas afinidades:
temos a mesma idade e problemas semelhantes para
viver na terra natal, apesar de que os nossos países
tenham regimes de governo radicalmente opostos, mas
os problemas sociais se encontram justamente nesses
extremos. Minha amiga é formada em educação física,
com especialização em terapia de reabilitação, mas
como certificados cucarachas não são reconhecidos na
purista Alemanha, ela sobrevive com algum show -
Yovanna dança feito uma pluma! - ou mesmo fazendo
limpeza. Para poder ficar aqui, se casou com um amigo,
que é homossexual, embora como eu é claro que ela
sente falta de um companheiro de verdade. Yovanna
também já comeu muito feijão com arroz e os sonhos e
desejos ela endereçava às estrelas do nosso pródigo
céu latinoamericano. Ela jura que muitos dos pedidos
viraram verdade. Já que na ilha, naqueles anos, não
havia ainda a condescendência de hoje com a religião,

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Yovanna se agoniava de perguntar à mãe: mãe, me


conta, eu fui batizada? Ou posso morrer pagã, de uma
hora para a outra? Ela tanto encheu o saco da mulher,
que não dizia palavra para não aborrecer o marido, tanto
procurou, que acabou encontrando o registro de batismo
numa minúscula capelinha. Graças a Yovanna, fiz uma
das matérias mais interessantes da temporada,
contando da situação dos cubanos que vivem neste país
e são obrigados a pagar uma espécie de visto mensal,
para o qual geralmente não sobra nada do apertado
orçamento, se quiserem visitar a família. Os cubanos
são muito parecidos com os brasileiros e se orgulham
disso. Eles adoram as novelas brasileiras, especialmente
com a Glória Pires e a Regina Duarte, nossa música,
são alegres e têm um humor refinado. Só foi meio difícil
para entrevistar o Ernesto porque ele fala alemão com
um sotaque tão engraçado que, mesmo contando dos
problemas mais graves, eu tinha vontade de rir. Não
agüentei quando ele chamou os colegas de faxina de
faule Sau, cuja tradução seria porca preguiçosa, mais ou
menos. Outra figura que me ajudou muito, contando dos
seus problemas amorosos com o marido sueco, sem
que eu precisasse contar dos meus, foi meu professor
de dança afro-brasileira, o talentosíssimo paulista baiano
Murah Soares. O aniversário dele, em maio, foi uma das
melhores festas que eu já fui na minha vida. Só tinha
gente que dança, um montão de alunos, e o brunch se
estendeu por 12 horas, em que os pés de valsa não
sentaram um segundo. Ver o Murah executando a dança
dos orixás, acompanhado pelo Dudu Tucci nos
atabaques, é uma dádiva divina. O preto roda só a
cabeça com tal velocidade que você jura que ela vai

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

soltar e sair rolando pelo chão da sala a qualquer


minuto. Vou sentir falta do amigo e das aulas e das
conversas, ele tem sempre histórias excelentes. “Minha
avó era do Quênia e foi para o Brasil depois que se
casou com um francês. Foi ela quem me criou. O canto
pros santos, por causa do sotaque, ela ensinava pra
gente tudo errado. Eu pequeno chegava no terreiro
cantando aquela confusão doida e quando o povo me
consertava eu dizia: minha ‘vó é mãe de santo, ela veio
da África e foi ela quem me ensinou assim e então deve
de estar certo.” Mais uma amiga de todas as horas é a
Kristine, filha de um alemão com uma norueguesa, que
tem o sangue mais quente do que o meu. Estudante de
veterinária, conheci Kristine no dia em que ela, morando
no primeiro andar do mesmo prédio onde eu morava,
estava no meio da escada com seu cachorrão preto -
Tchaba nasceu na Hungria e eu fiquei completamente
apaixonada pelos seus olhos de mel desde o primeiro
instante - e uma lata de ração na mão. “Você tem um
abridor de latas que possa me emprestar?, ele está
ficando impaciente.” Olhei de novo pro tamanho do
cachorro e, temendo pelas minhas orelhas, atendi
prontamente. Fomos juntas a festas e aos mais variados
programas. Graças a ela encontrei esse apartamento
onde estou agora. Kristine já me ofereceu ficar na casa
dela, se eu quiser voltar para Berlim, ela vai fazer um
estágio fora da cidade e só volta no início do ano que
vem. Um outro amigo, que não pode ficar de fora dessa
galeria, é o Dietmar, redator do Meridien, um programa
musical da MultiKulti, mais conhecido pelos colegas
como Félix. Ele me levou de graça a shows fantásticos.
Assistimos, por exemplo, ao show da Noa, a filha de

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

iemenitas crescida em Nova Iorque que tem voz de fada


mas toca atabaque feito uma feiticeira. Ou vários
7
espetáculos no Tempodrom da série Cubaníssimo, um
mês inteirinho dedicado a grupos cubanos, como o
Vocal Sampling, onde os caras cantam tão bem à capela
que você nem dá falta dos instrumentos. Quando
perguntei a origem do seu codinome, ele precisou voltar
aos tempos de colégio e falar da autora da façanha. No
ginásio, Dietmar era absolutamente discriminado porque
vinha de uma aldeiazinha, até o dia em que uma aluna
nova apareceu. “Ela usava um cabelo bem curtinho,
tinha um nariz enorme, mas um corpo muito bonito. E
um charme natural que encantava a todo mundo,
inclusive o diretor do colégio. Ela começou a se
interessar por mim e logo me disse: a partir de hoje você
passa a se chamar Félix.” De fato, foi assim que uma
colega cumprimentou o meu baixinho amigo naquela
tarde em que estávamos tomando novamente um
Milchkaffee no Viena. “O mais interessante”, me disse
ele, sorrindo, “é que desse dia em diante os colegas
passaram a me aceitar melhor. Ah!, e o nariz dela
também, em pouco tempo, já não parecia mais tão
grande assim.” Para mim, esses não são apenas seres
humanos comuns, são personalidades. Com pessoas
assim, passa o que eu vi numa instalação de arte em
frente à estação de Dammtor, em Hamburgo, e que
infelizmente não pude fotografar porque estava de
carona com meu bom amigo Florian. Uma artista
mexicana colocou fardos de palha da altura de pessoas
no gramado onde os judeus eram reunidos para serem
transportados de trem aos campos de concentração. Os
fardos, à mercê do tempo, foram sendo espalhados pelo

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

vento e pela chuva até sumirem por completo. Ali a


sulamericana prestava a sua homenagem aos
refugiados da Segunda Guerra, que em grande parte
desapareceram mas também acabaram se espalhando -
teria esse verbo uma origem na palavra palha? - pelo
mundo. Com as personalidades também é assim. A
gente conhece e leva um pedacinho bom delas pra onde
quer que vá. .

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Meio cheio, meio vazio

D
ia desses, passava eu pela
quando uma voz esbravejando chamou
minha atenção. Era um tocador de
primeiro que eu vi em Berlim nessa temporada, e ele não
parecia lá muito contente da vida. “Vocês estão todos
mortos! Todos mortos e não sabiam” , gritava o velho
com aquele chapeuzinho côco peculiar, para a sorte dos
passantes ele deixou o mico em casa, senão ia chover
banana podre em cima de todo mundo, tamanha a fúria.
Preocupada com a repercussão do ataque feroz do
ambulante contra a freguesia, a vendedora de girassóis,
uma senhora de rostinho amável, tratou de acalmá-lo
com incentivos e gracejos. Aos poucos o homem
começou lá a girar sua manivela e voltou a si. Então fui
eu que saí dali com aquelas palavras na cabeça. Claro
que eu sabia do que é que ele estava falando. Melhor do
que ninguém, um tocador de realejo deve poder avaliar a
quantas anda o otimismo da localidade. Ele ali suando a
camisa pra repartir sua musiquinha circense, instalar
uma atmosfera festiva, e nego - nego não, que o pessoal
aqui está mais para barata descascada - e branco só
passa de cara amarrada, chutando lata, e olha que
estava fazendo tempo bom. Essa frieza de quem já
morreu e não sabe, de quem já não consegue mais se
emocionar, não é exclusividade dessa capital somente.
Embora eu ache que aqui ela ultrapassa a média das
metrópoles mundiais, apesar do estonteante berliner
Flair. No fundo, a reação do tocador de realejo, que
levou o pessimismo dos outros para o lado pessoal -
quando provavelmente esse estado de espírito tem

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

muito mais a ver com o Theo Waigel e os impostos! - a


mim me parece familiar. Eu também já me senti assim
algumas vezes. É tudo uma questão de enfoque, como
quem olha para uma garrafa com o vinho pela metade e
em vez de dizer que ela está meio cheia prefere dizer
que ela está meio vazia. Isso que eu estou escrevendo
aqui, agora, usando esse computador Atari e uma
impressora ancestrais que me emprestou o meu bom
amigo e imbatível cinegrafista Dieter, e que me custa um
certo controle dos nervos, é um bom contexto para
explicar a questão. Sim, embora eu precisasse dizer que
o meu saco está meio cheio, procuro inverter a regra e
dizer que ele ainda está meio vazio a ponto de aturar as
lancinantes dificuldades. Esse teclado não tem os
nossos acentos nem cedilha. Depois de eu ter escrito
tudo, tenho que diminuir um pouco o tamanho da janela
pra poder ver, na tela de baixo, alguns dos caracteres
que posso substituir para melhorar um pouquinho o texto
e me aproximar do que se chama português. Aí vou
clicando em cima do ç, do ô, do ê, do é, do à, do ã e do
õ. O resto, com os acentos agudos importantíssimos e
que tanto enobrecem as nossas oxítonas, paroxítonas e
proparoxítonas, pode esquecer que não tem. Nem
rezando um Pai Nosso e duas Ave Marias. No fim, dou
um comando para formatar de novo o texto, que a essa
altura já está com mais de 40 páginas, e o burraldo, não
sei por quê, simplesmente ignora que eu já gravei as
correções anteriores e toda vez fica me perguntando as
mesmas divisões de sílabas: in-cendiozinho, enter, es-
trangeiros, enter, in-variavelmente também aparece,
invariavelmente, enter, an-tissepticamente e depois in-
traduzíveis, daí pra frente graças a Deus só as palavras

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

novas que eu tiver escrito. Haja nervos e música de


realejo! Algumas notas da mesma melodia a gente
acaba encontrando de outra maneira no dia a dia, caso
tenha o ouvido treinado para escutá-las. Como no
domingo passado. Sábado à noite, eu estava num Imbiß,
uma lanchonete, aqui em Kottbusser Damm, onde se
pode degustar iguarias como bolinho de bacalhau e
empadinha de palmito, quando entra o mestre de
capoeira Chocolate, com suas tranças rastafári, de
camisa vermelha e calça branca, como um bom crioulo
no fim de semana. “Vai ter roda amanhã, no Ku’damm
às 3 e no Viktoria Park às 7.” Boa neta de baiano, não
perco uma roda de capoeira. À tarde, depois da dança
do ventre, subiu no palco a tal roda com,
lamentavelmente, apenas 4 capoeiristas, tinha que ver.
Um tocava o berimbau, outro o pandeiro, o terceiro o
atabaque, enquanto o quarto jogava sozinho, e eles iam
alternando os instrumentos, de modo a, vez por outra,
conseguir ter dois jogando, como reza a boa tradição de
Angola. Terminada a roda, Chocolate me confirmou a
próxima e disse que deixava o meu nome na entrada
para eu não ter que pagar o ingresso de 8 marcos, antes
de sumir com a câmera na mão: alguém tinha dito a ele
que Michael Jackson em pessoa estava na área,
disfarçado, e o negão não podia deixar passar a
oportunidade de se deixar fotografar do lado da
neguinha mais famosa do planeta. Lá fui eu de bicicleta
para o Viktoria Park. Estacionei no restaurante Gólgota e
comecei minha via crucis a pé, já que o caminho é todo
cheio de ladeiras. E nada de achar a tal roda de
capoeira. Eu zanzando num gramado enorme, me
achando a anta das antas, incapaz de seguir o chamado

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

de um bom berimbau, me olha uma moça e pergunta,


em alemão: você também está procurando a capoeira?
Vamos procurar juntas. A certa altura, chegamos a ser
enganadas, perseguindo um determinado batuque, que
logo descobrimos estar vindo do micro system de uns
bichos-grilos enganadores. Dali a pouco, encontramos
um casal, pelo qual eu já tinha passado, uma ruiva e um
rapaz de bermuda, que eram amigos da Anja, a primeira
que me abordou, e que todos também tinham acreditado
na tal conversa da amiga deles, uma tal de Maggie, de
que ia deixar o nome na bilheteria, etc, etc. Quando não
restava mais nenhum canto inexplorado do parque,
desisti de procurar e fui buscar a bicicleta. Voltei para me
despedir do pessoal e encontrei a galera jogando
frisbee, esporte com o qual o meu único contato tinha
sido para uma matéria da MultiKulti. Vamos jogar.
Ficamos ali, os 4, absolutos desconhecidos, pulando pra
lá e pra cá, tirando fino das famílias de turcos e dos
punks berlinenses que se amarram com similar devoção
no clima riporonga dum domingão num gramado a céu
aberto. Aquilo foi apenas um acontecimento amistoso
que dispensou apresentações, as crianças em nós que
se reuniram para brincar. Outro lance maneiro aconteceu
na quarta-feira passada, quando chegou a minha colega
de apartamento, três semanas depois de eu ter estado
morando aqui sozinha. Tina estuda arquitetura e esbanja
simpatia. Quando viu minhas condições terceiro
mundistas de trabalho com o computador, afora os
acentos agudos, dos quais ela nunca ouviu falar, porque
eu estava escrevendo com o equipamento em cima de
uma mesinha de centro, sentada num tamborete, tratou
de resolver imediatamente o problema. Montou dois

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

cavaletes com uma tábua servindo de tampo, quem


olhasse diria que só estão faltando os operários de obra
em cima, e num certo sentido até que é mesmo uma
construção, onde as palavras vão sendo colocadas
como tijolos, uma a uma. Não mais dores no peito, que
me davam a impressão permanente de estar tendo um
ataque de angina pectoris! Nem mais dores nas costas,
onde eu parecia sofrer de uma lordose incurável! Agora
dá até gosto de sentar em frente ao monitor e ficar horas
e horas escrevendo minhas bobagens. Só que também
não sobra muito tempo mais: em uma semana, devo
estar sentada nalgum hotel de conexão espanhol,
apelando mesmo para a lapiseira de guerra, que é velha,
mas pelo menos nunca me criou problema com a
acentuação.

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

Programa de anjo

N
os outrora aguerridos céus de Berlim
hoje os anjos. Mesmo com as asas
anjos se reconhecem no Carnaval das
Culturas, em Kreuzberg. Tiram fotos uns dos outros,
combinam de ir tomar um guaraná, mas como chegam
duas horas antes de o bar abrir, acabam indo fazer um
8
programa alternativo e vão baixar no Tacheles . Anjos
viajam quase sempre de bicicleta e domingo de manhã,
em vez de ir à missa, fazem um programa de paraíba e
se encontram no parque, em frente à fonte
Märchenbrunnen, para tomar o café da manhã, onde
9
não faltam garrafinhas one-way de Sekt . Numa tarde de
sol de quarta-feira, que é o dia da semana dedicado ao
anjo da guarda, anjos vão visitar o cemitério dos judeus
em Weißensee, mas chegam duas horas atrasados e
encontram as portas fechadas. Então decidem ir fazer
um programa de índio, indo se deitar no gramado junto
ao lago, depois de molhar os pés na água fria, sem se
cortar nos cacos de vidro espalhados para impedir a
entrada dos banhistas. Só os anjos são capazes de
reconhecer o anagrama em que o nome de Lúcifer foi
usado para denominar o grupo principal do Santo Daime
e se presenteiam mutuamente com os nomes, uns dos
outros, escritos em chinês. Anjos não dispensam um
programa legal, aproveitando que o Cirque du Soleil
está na cidade para desfrutar com Alegria da elegância
e do humor que lhes é peculiar. Na mesma noite, anjos
jantam berinjela com polenta e salada de laranja,
fazendo o maior esforço pra não tomar o sorvete cor de
rosa da sobremesa antes do prato principal. Nem antes,

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

nem depois da comida, os anjos rezam agradecendo


pelo alimento e, em vez disso, lêem uma história
escolhida ao acaso do seu grosso livro de contos de
fada. Os anjos amam, mais que tudo, as crianças. Eles
conversam com as mães quando elas ainda não estão
certas de que querem os seus bebês e se alegram
enormemente quando se confirma a notícia de que
agora é tarde e os bebês estão a caminho. Anjos tratam
dos doentinhos no hospital. As crianças sempre são o
tema preferido das suas conversas: “Lembra daquele
pilantrinha da lavanderia? Hoje eu vi ele de novo,
primeiro não reconheci direito porque ele está com um
corte moderno de cabelo, mas quem mais iria estar ali
descendo, em plena hora do rush, pela escada rolante
de subida em Hermannplatz?” Ou então: “Tinha um
moleque atravessando a Pflügerstraße de quatro! Só pra
não tirar os patins dos pés! A rua é de paralelepípedo,
senão como é que ele ia conseguir? Mas eu dei uma
mãozinha!” E ainda: “Três crianças grandinhas
brincavam de advinhas com a mãe na linha oito sem
conseguir matar a charada. De repente, o pequenininho
sentado com a mãe do outro lado grita bem alto:
motocicleta! A resposta é motocicleta! Esse vai longe...”
Anjos não dispensam um programa imperdível e sexta à
noite vão ao Olympiastadion assistir ao futebol. Nessas
ocasiões, sempre têm no bolso uma nova piada: “Um
londrino, um carioca e um berlinense iam ser executados
na guilhotina. Perguntaram ao londrino se ele queria ser
guilhotinado com a cabeça para cima ou para baixo e ele
respondeu - para baixo, como prova de amor a minha
terra. O carrasco solta a lâmina, zzzzzzz, pac (vocês
precisam ver a performance e a sonoplastia dos anjos

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

nessa parte!) a guilhotina não funciona, e como só pode


ser obra do destino, o londrino recebe uma indulgência.
Depois vem o carioca, que declara: quero morrer
olhando para cima, pensando em Deus, que também é
brasileiro. Novamente desce a lâmina, zzzzzzz, pac, deu
defeito outra vez, o carioca também é posto em
liberdade. Por último vem o berlinense e lhe perguntam
se ele quer morrer olhando para cima ou para baixo. Ele
responde, já bastante alterado: pra mim, dá na mesma
merda, mas que ninguém fique aí pensando que vai me
enrolar como a esses estrangeiros babacas, primeiro
vocês vão consertar essa porcaria!” Anjos morrem de rir
da mesma piada várias vezes e vão pensando nela
enquanto cruzam as mil pontes da cidade. Anjos
constróem suas camas a meio metro do teto e não raro
dispensam a roupa de cama. Numa noite de verão, os
românticos anjos ficam com a cabeça cheia de imagens
cinematográficas e vão dormir no telhado, fazendo seu
ninho a 5 passos da borda do prédio de 5 andares. No
céu a lua parece uma fatia de queijo cheddar e então os
anjos apenas fazem um programa. Primeiro se amam
por trás, como os gatos, já que gatos, eles mesmos,
também enxergam no escuro. Quando chega a manhã,
os anjos descem para casa, tomam seu banho e
continuam sua vida, misturados com homens e
mulheres, e tomando o cuidado de nunca marcar um
encontro na Potzdamer Platz, que é o maior canteiro de
obras da Europa. Anjos costumam chegar de 10 a 15
minutos atrasados e, às vezes, isso se torna um
problema na convivência com os humanos mais
pontuais, não necessariamente alemães, mas também
baianos berlinenses. Só de olhar, os anjos sabem dizer

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Berlim, 40 Graus - Sandra Oswald

se estão diante de um ossi ou de um wessi10, e não


escondem sua preferência pelos primeiros. Eles
mesmos vêm das mais distintas bandas do céu e da
terra. Os anjos têm cachos dourados ou voz de
riachinho. Os anjos amam. Os anjos se amam.

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