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Orientações curriculares para a educação pré-escolar


e supervisão: um estudo com educadoras de infância cooperantes
Olga Ludovico . oludovico@ualg.pt . Escola Superior de Educação da Universidade do Algarve

Introdução Tais dimensões remetem-nos para o pro- entre outras (Fernandes, 2001), é também de-
Este artigo tem como principal objectivo cesso de formação, que se deve configu- terminante na forma como o educador gere a
procurar contribuir para a reflexão acerca rar como um continuum necessariamente sua prática pedagógica.
do modo como a publicação e utilização contextualizado das práticas da profissão, Garantir o domínio de saberes científicos
das Orientações Curriculares para a Educa- tendo também como princípio, como refere de referência implica, por um lado, que o
ção Pré-Escolar concorreram para algumas Garcia (1999, p. 29), que “aprender a ensinar modo como a relação com esses saberes
mudanças a nível da supervisão da prática [deve ser] realizado através de um processo se estabelece seja intelectualmente activo,
pedagógica dos cursos de formação inicial em que o conhecimento prático e o conhe- preciso, rigoroso e crítico e, por outro, que
de educadores de infância. cimento teórico possam integrar-se num se ensine explicitamente a usar e a mobilizar
Constitui o mesmo uma breve síntese dos currículo orientado para a acção”. O acesso os saberes na análise reflexiva das práticas
aspectos mais significativos de um estudo, aos mecanismos necessários para gerir com (Roldão, s.d.)
de natureza qualitativa, interpretativa e qualidade este processo passa por um bom Estas são responsabilidades também ine-
heurística, protagonizado por quinze educa- domínio da informação e dos saberes de re- rentes à acção do supervisor, na medida
doras cooperantes da ESE da Universidade ferência, que permitam ao indivíduo dominar em que ele, como alguém mais experiente e
do Algarve, que constituiu a nossa Disser- os códigos, tornando-se capaz de desenvol- informado, ao orientar, também influencia,
tação de Mestrado. ver saberes e competências no contexto da competindo-lhe ajudar o aluno estagiário a
acção profissional. desenvolver-se e a aprender (Alarcão e Ta-
1. Alguns pressupostos teóricos Importa, pois, ter presente que a formação vares, 1987).
É consensual que as Orientações Curricu- dos educadores de infância implica, acima de Situamo-nos, deste modo, no quadro de um
lares, tal como refere Stenhouse (1975, cit. tudo, desenvolver pessoas, pessoal e profis- processo supervisivo que reconhece a impor-
in Silva, 1996, p. 55), se constituem como sionalmente competentes, aos níveis cogni- tância da dimensão técnica, mas também a
“um instrumento de apoio à investigação, tivo, afectivo, de colaboração, cooperação e importância de a desenvolver num contexto
reflexão e desenvolvimento do trabalho de trabalho em equipa, não esquecendo as reflexivo e num ambiente afectivo-relacional
do educador que lhe [permitem] ir com- qualidades de organização, estruturação e em que cada um dos actores tem um papel
preendendo e melhorando a sua prática criatividade. Por conseguinte, configura-se participativo e activo, que contribui para o
profissional”. Na verdade, alguns dos seus como imperativo promover uma formação crescimento do outro num ambiente de fran-
pressupostos, como a não prescrição, a fle- humana, científica pluridimensional, realista queza, autenticidade e empatia (Gonçalves e
xibilidade, a abrangência, a possibilidade de e prática (Cró, 1998). Gonçalves, 2002).
fundamentar diferentes opções educativas Do mesmo modo, na formação inicial será
e, por conseguinte, várias perspectivas e/ determinante apetrechar os futuros profis- 2. Aspectos metodológicos
ou dimensões curriculares, tornam possível sionais com saberes de referência, sólidos, no Os pressupostos atrás enunciados constitu-
ao educador fundamentar as decisões so- plano científico-profissional, estruturantes e íram o ponto de partida para um estudo de
bre a sua prática e, deste modo, sustentar mapeadores do campo de conhecimento pro- natureza qualitativa, que, como anteriormen-
o planeamento e a avaliação do processo fissional, dotando-os de “competências de te referimos, teve como protagonistas quinze
educativo. produção articulada de conhecimento profis- educadoras de infância cooperantes da ESE
Neste contexto, de entre as inúmeras si- sional gerado na acção e reflexão sobre a ac- de Faro, junto das quais realizámos entrevis-
nergias que concorrem para a passagem da ção, teorizado, questionante e questionável, tas semiestruturadas, cujos protocolos foram
teoria à prática das Orientações Curriculares, comunicável e apropriável pela comunidade sujeitos a análise de conteúdo, o que possibi-
destaca-se, em primeiro lugar, o papel do de profissionais” (Roldão, 2001, p. 13). litou a emergência de categorias, cuja leitura
educador enquanto gestor do currículo. Atri- Perspectiva-se, assim, a formação de um pro- compreensiva nos permitiu realizar a análise
buir ao educador tal responsabilidade impli- fissional autónomo e competente, capaz de interpretativa de dados, que, de seguida e em
ca formá-lo segundo princípios assentes na lidar e partilhar diferentes quadros teóricos e parte, apresentamos.
articulação e interacção das diversas compo- de se apoiar na construção de saberes para
nentes e dimensões necessárias a um bom repensar e recriar a prática. 3. Alguns dados mais significativos
desempenho profissional, nomeadamente as Nesta linha de pensamento, defendemos O estudo mostra-nos como as educadoras de
que respeitam às teorizações sobre a prática que a formação é um importante eixo de infância que nele participaram representam
reflexiva e ao saber profissional contextua- intervenção, pois ao potenciar perspectivas as Orientações Curriculares, que conceptua-
lizado, bem como à incorporação adequada de análise crítica susceptíveis de produzir lizam como “linhas orientadoras, directrizes,
de saberes e saber fazer. mudanças pessoais, sociais e institucionais, linhas mestras para a sua prática” e que as

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e supervisão: um estudo com educadoras de infância cooperantes

consideram como um documento flexível e Em termos pessoais, verificam-se conse- Na verdade, o discurso das entrevistadas in-
orientador das práticas educativas, atribuin- quências bastante significativas, na medida dica que passou a haver, após a publicação
do-lhe grande importância, nomeadamente em que a sua utilização parece ter determi- do documento, uma maior intencionalida-
no que se reporta à visibilidade socioeduca- nado uma maior motivação das educadoras, de, quer das práticas educativas, quer das
tiva da educação pré-escolar, à valorização da que passaram a sentir-se mais seguras e, práticas de supervisão. Estas terão deixado
imagem profissional do educador e à qualida- portanto, mais conscientes da necessidade de ser, como refere Oliveira-Formosinho
de da educação pré-escolar. de desenvolver uma prática pedagógica, que, (2002) tão “imediatistas”, “espontaneístas”,
No que respeita às mudanças provocadas, numa perspectiva sistémica, procura envol- “ocasionais” e “pontuais”, isto é, demasiado
verifica-se que, embora grande parte das ver, de forma intencional, os diferentes siste- dependentes do decorrer do dia-a-dia, de-
educadoras entrevistadas considere que as mas que fazem parte da vida da criança. masiado emergentes e, consequentemente,
Orientações Curriculares não determinaram No entanto, ao tentarem pôr em prática os sem objectivos claramente definidos.
alterações na sua prática pedagógica, um ou- princípios enunciados nas Orientações Cur- De facto, para as protagonistas do estudo,
tro grupo aponta mudanças ao nível da plani- riculares, a estas educadoras depara-se-lhes as Orientações Curriculares alteraram positi-
ficação, da organização e gestão do ambiente com dificuldades de vária ordem, a saber: vamente a forma de entender e conceber o
educativo, da fundamentação – que passou a) falta de formação sobre o documento, processo supervisivo, nomeadamente torna-
a ser mais rigorosa e consistente – e, ainda, que lhes dificulta o transferirem para a prá- ram mais fácil a comunicação com os inter-
da articulação com o primeiro ciclo, ao nível tica os pressupostos nele contemplados; venientes no processo de supervisão, bem
da transição. b) dificuldades directamente relacionadas como terão ajudado a perceber o que se
Quanto às mudanças provocadas na pessoa com o contexto em que desenvolvem a sua pretendia no estágio, pelo que todo o pro-
da educadora, prendem-se as mesmas com actividade profissional e que, por vezes, as
uma maior valorização do seu trabalho, bem impedem de agir da forma que lhes parece
como na relação de trabalho com as famílias, mais adequada;
o que terá contribuído para melhorar a ima- c) as recentes mudanças vividas no sistema
gem social da educação pré-escolar. educativo, mais concretamente ao nível da
As protagonistas identificaram ainda mu- gestão dos estabelecimentos educativos, que
danças ao nível da instituição, mais concre- parece impedir que as educadoras ponham
tamente no seu posicionamento perante as em prática alguns princípios veiculados no
questões de carácter educativo. documento das Orientações Curriculares.
Como aspectos inovadores das Orientações No que concerne às repercussões no pro-
Curriculares, emergem, sobretudo, o grande cesso de supervisão, o estudo mostra-nos
investimento na avaliação e na reflexão sobre haver uma relação entre o conhecimento
a prática, a valorização da possibilidade dada das Orientações Curriculares e a importân-
às educadoras de gerirem o ambiente educa- cia que lhes é atribuída e o modo como as
tivo, a valorização do trabalho com as famílias protagonistas concebem e orientam o pro-
e, ainda, o lugar central que é dado à criança cesso de supervisão, inferindo-se das suas
no processo de ensino-aprendizagem. palavras:
No que respeita ao “uso” das Orientações - constituírem as Orientações Curriculares
Curriculares na prática pedagógica, em ter- um referencial teórico para a prática educa-
mos genéricos, constata-se que as educa- tiva que terá ajudado ou facilitado a melhor
doras entrevistadas recorrem ao documento entender o processo de supervisão e clarifi-
sobretudo para organizar/sistematizar o tra- cado o papel e as funções do supervisor;
balho, quer ao nível da planificação, quer na - terem as mesmas ´fornecido` matéria que
elaboração dos diferentes projectos a realizar terá ajudado as supervisoras cooperantes a
na instituição, ou seja, para se orientarem, ou definirem um “currículo da supervisão” (Oli-
esclarecerem dúvidas, e, ainda, para funda- veira Formosinho, 2002);
mentarem as suas opiniões ou decisões nas - terem as Orientações possibilitado a clarifi-
mais diversas situações – na realização de cação dos objectivos da prática pedagógica e
trabalhos, na relação com as famílias ou na também da supervisão, bem como os meios
elaboração de documentos. para os prosseguir.

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cesso se tornou mais claro e consistente. cação como na argumentação das decisões supervisoras cooperantes. Uma formação
Por outro lado, o estudo torna também tomadas, ou, ainda, no tipo de ajuda e que incorpore as experiências e aprendiza-
patente que as protagonistas encaram a acompanhamento às alunas estagiárias. gens anteriores destas profissionais e que
supervisão como um acto profissional, que facilite o seu desenvolvimento profissional,
se baseia, sobretudo, numa relação de aju- Considerações finais com influência necessária no desenvolvi-
da, que implica uma reflexão constante e O estudo possibilitou-nos uma percepção mento e aprendizagem das crianças e alu-
partilhada, que é sustentada por processos mais concreta do modo como as educa- nos estagiários.
de interacção pedagógica contextualizados doras cooperantes utilizam as Orientações Deste modo, torna-se necessário estreitar a
e que assenta num conjunto de pressu- Curriculares para a Educação Pré-Escolar na ligação entre a escola de formação e o local
postos que têm por fundamento teórico sua prática, bem como compreender qual a de estágio, recorrendo a estratégias que fa-
os princípios enunciados nas Orientações influência do seu conhecimento no modo cilitem a reconstrução do conhecimento e o
Curriculares. como concebem e desenvolvem a supervi- desenvolvimento dos seus actores e poten-
Esta investigação torna, ainda, evidente são. Por outro lado, permitiu-nos confirmar ciem a criação de alternativas com um refe-
que as supervisoras sentem dificuldades o papel determinante da supervisora coo- rencial teórico comum, bem como articular
que se prendem, sobretudo, com a falta de perante no desenvolvimento dos futuros a formação dos supervisores cooperantes
formação na área da supervisão, acerca das educadores de infância. com a formação dos futuros educadores,
Orientações Curriculares, o que, por conse- Estas constatações acentuam a necessida- uma e outra desenvolvendo-se sob os mes-
quência, lhes causa insegurança, principal- de de um maior investimento, por parte das mos princípios teóricos e estratégicos.
mente em termos teóricos, tanto na justifi- instituições formadoras, na formação das

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