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Leitor iniciante

Leitor em processo

Leitor fluente

ANGELA-LAGO

Um ano danado de bom!
ILUSTRAÇÕES DA AUTORA

PROJETO DE LEITURA
Maria José Nóbrega
Rosane Pamplona

qualquer um que soubesse ler e conheces- se o que as palavras significam estaria apto a dizer em que lugar estão a andorinha e o sabiá. A compreensão vai depender. É como se o texto apresentasse lacunas que devessem ser preenchidas pelo trabalho do leitor. 2 . portanto. o que não está escrito. Por essa concepção. e muito. também. Lemos o que está nos intervalos entre as palavras. pode ler sozinha. Mas será que a resposta a estas questões bastaria para assegurar que a trova foi compreendida? Certa- mente não. no texto. Isso porque muitos dos sentidos que depreendemos ao ler de- rivam de complexas operações cognitivas para produzir inferências. nas entrelinhas. pois os sentidos estariam lá. muitos pensam que. Andorinha vai e volta. Meu amor não quer voltar. isto é. Sem dúvida. lemos. De Leitores e Asas MARIA JOSÉ NÓBREGA “Andorinha no coqueiro. qual dos dois pássaros vai e volta e quem não quer voltar. uma vez que a criança te- nha fluência para decifrar os sinais da escrita. do que o leitor já souber sobre pássaros e amores. boa parte das ativida- des que são realizadas com as crianças nas séries iniciais do Ensino Fundamental têm como finalidade desenvolver essa capacidade. bastando colhê-los.” [ [ N uma primeira dimensão. ler pode ser entendido como de- cifrar o escrito. compreender o que letras e outros sinais gráficos representam. Ingenuamente. Sabiá na beira-mar.

“vão e voltam”. e que o sabiá está na beira-mar. mas não quer voltar. Ele sabe o lugar em que está a andorinha e o sabiá. Petrópolis. E interpreta a partir de onde os pés pisam. a dor-de-cotovelo pelo abandono e. como diz Leonardo Boff*. 2001). Os horizontes de quem escreve e os de quem lê podem estar mais ou menos próximos. percebemos a comparação entre a andorinha e a pessoa amada: ambas partiram em um dado mo- mento. Apesar de não estar explícita. 3 . Leonardo Boff. quer seja esta vivida pessoalmente ou “vivida” através da ficção.. mas diferentemente destas. mas não sei onde está meu amor que partiu e não quer voltar. legitimamente. sem nenhuma esperan- ça de encontrar a resposta no texto: por que ele ou ela não “quer” voltar? Repare que não é “não pode” que está escrito. cumplicidade por estarmos distantes de quem amamos. seu amor foi e não voltou. observa que as andorinhas migram. O “eu” é muito possessivo e gosta de controlar os passos dele ou dela. As leitu- ras produzem interpretações que produzem avaliações que reve- lam posições: pode-se ou não concordar com o quadro de valores sustentados ou sugeridos pelo texto. descobriremos um “eu” que as- socia pássaros à pessoa amada. etc. mas a pessoa amada “não quer voltar”. Os horizontes de um leitor e de outro podem estar mais ou menos próximos. desilusão por não acreditarmos mais no amor. esperança de encontrar alguém diferente. O que teria provo- cado a separação? O amor acabou. Se retornarmos à trova acima. é “não quer”. podemos indagar. Apaixonou-se por outra ou ou- tro? Outros projetos de vida foram mais fortes que o amor: os estu- dos. Quem produz ou lê um texto o faz a partir de um certo lugar. Editora Vozes. isto quer dizer que poderia. O assunto da trova é o relacionamento amoroso. Se refletirmos a respeito do último verso “meu amor não quer voltar”. o texto ficaria mais ou menos assim: Sei que a andorinha está no coqueiro. Se todos estes elementos que podem ser deduzidos pelo trabalho do leitor estivessem explícitos. diferentes emoções podem ser ativadas: alívio por estarmos próximos de quem amamos.” A águia e a galinha: uma metáfora da condição humana (37a edição. como controla os da andorinha e do sabiá? ___________ * “Cada um lê com os olhos que tem. Observo que a andorinha vai e volta. percebemos a opo- sição entre elas: a andorinha retorna. a carreira. dependendo da experiência prévia que tivermos a respeito do assunto.. Apesar de também não estar explícita. a partir de onde estão seus pés e do que vêem seus olhos.

ler na dimensão que descrevemos é uma aprendiza- gem que não se esgota nunca. mobilizamos nossas experiências para compreendermos o texto e apreciarmos os recursos estilísticos utilizados pelo au- tor. Se levamos alguns anos para aprender a decifrar o escrito com autonomia. num tom machista.. [ [ DESCRIÇÃO DO PROJETO DE LEITURA UM POUCO SOBRE O AUTOR ] Contextualiza-se o autor e sua obra no panorama da literatura para crianças. PROPOSTAS DE ATIVIDADES ] a) antes da leitura Ao ler. podemos antecipar muito a respeito do desenvolvimento da história. poderíamos dizer que a mulher fez muito bem em abandonar alguém tão controlador. Está instalada a polêmica das muitas vozes que circulam nas prá- ticas sociais. o enredo e seu desenvolvimento. porque senão voa. pois para alguns textos seremos sempre leitores iniciantes. antecipando a temática. o pro- fessor poderá identificar que conteúdos das diferentes áreas do conhecimento poderão ser explorados. Folheando o livro. A partir deles. sustentar que mulher tem de ser mesmo conduzida com rédea curta. RESENHA ] Apresentamos uma síntese da obra para permitir que o pro- fessor. por exemplo. COMENTÁRIOS SOBRE A OBRA ] Procuramos evidenciar outros aspectos que vão além da trama narrativa: os temas e a perspectiva com que são abordados. que recursos lingüísticos poderão ser explorados para ampliar a competência leitora e escritora do aluno. cer- tos recursos expressivos usados pelo autor. num tom mais feminista. numa rápida leitura preliminar. Quem é esse que se diz “eu”? Se imaginarmos um “eu” mascu- lino. que temas poderão ser discutidos. poderíamos. possa considerar a pertinência da obra levando em conta as ne- cessidades e possibilidades de seus alunos. 4 ..

focalizando aspectos que auxiliem a construção dos significados do texto pelo leitor.  Caracterização da estrutura do texto. ]  do mesmo autor  sobre o mesmo assunto  sobre o mesmo gênero 5 . bem como deba- ter temas que permitam a inserção do aluno nas questões con- temporâneas.  Ampliação do trabalho para a pesquisa de informações com- plementares numa dimensão interdisciplinar ou para a pro- dução de outros textos ou. para produções criativas que contemplem outras linguagens artísticas.  Antecipação de conteúdos do texto a partir da observação de indicadores como título (orientar a leitura de títulos e subtítulos).  Compreensão global do texto a partir da reprodução oral ou escrita do texto lido ou de respostas a questões formula- das pelo professor em situação de leitura compartilhada.  Apreciação dos recursos expressivos mobilizados na obra. As atividades propostas favorecem a ativação dos conhecimen- tos prévios necessários à compreensão do texto.  Explicitação das opiniões pessoais frente a questões polêmicas. b) durante a leitura São apresentados alguns objetivos orientadores para a leitura.  Leitura global do texto. aprofundar o estudo e a reflexão a respei- to de conteúdos das diversas áreas curriculares.  Identificação das articulações temporais e lógicas responsá- veis pela coesão textual.. os personagens. c) depois da leitura Propõem-se uma série de atividades para permitir uma melhor compreensão da obra. ainda. o conflito). ilustração (folhear o livro para identificar a loca- lização.  Identificação dos pontos de vista sustentados pelo autor. LEIA MAIS.  Explicitação dos conhecimentos prévios necessários para que os alunos compreendam o texto..  Explicitação dos conteúdos que esperam encontrar na obra levando em conta os aspectos observados (estimular os alu- nos a compartilharem o que forem observando).

Bolonha e outras cidades. o homem. No meio do caminho. publicado em 1980. então as três mais velhas fugiram. participou de exposições em Bratislava. Já recebeu importan- tes prêmios nacionais e internacionais e foi a candidata brasileira ao Prêmio Hans Christian Andersen de Ilustração em 1990 e em 1994. Seu livro de es- tréia foi Sangue de barata. deixando-a para trás. a outra. Tóquio. Ciências Sociais e Psicopedagogia Infantil. algumas fora do Brasil. Além dos seus próprios livros. eventualmente. RESENHA Há muito tempo um homem branco comprou. afundou na terra e virou árvore. com o coração pesado. uma irmã virou passarinho. Trabalha para diversas editoras. a terceira chorou tanto que suas lágrimas viraram um rio. dormiu profundamente e as irmãs resolveram fugir. Belgrado. Logo. saiu de graça. Barcelona. Como ilustra- dora. no porto. quatro irmãs como escravas. Um ano novo danado de bom! ANGELA-LAGO UM POUCO SOBRE A AUTORA Nascida em Belo Horizonte. meio embriagado. textos de outros autores. As três irmãs resolveram. Angela-Lago é formada em Artes Plásticas. presentear a irmãzinha: aquela 6 . Munique. A mais nova. Dedica- se a escrever e ilustrar livros para crianças. Na hora de pegar a irmãzinha. esta começou a chorar muito. Paris. em 1945. então. Num suspiro profundo. ilustra. MG. que era ainda um bebê. o remorso tomou conta de- las.

Além do texto escrito. fa- zendo de cada página uma pintura que amplia os sentidos da obra. ela adquiriu a capacidade de voar e voou alto. COMENTÁRIOS SOBRE A OBRA Essa história reconta. dos traços. o peixe de prata e. guardou os presentes. de forma poética. O outro filho pôs o peixe de prata na água para dar cria e ter muitos peixes. Invejosos. a partir da escolha das cores. Um tempo depois. mas o filho mais novo. É assim que nesse livro temos uma narra- tiva de escravidão e de libertação em que o afeto de quatro irmãs é o ingrediente de união entre elas. que adivinhou tratar-se de suas irmãs. De repente uma pena. as quatro dançaram e festejaram o reencontro. Ao chegar. vol- tou para casa. que a levou embora. a delicada ilustração e o projeto gráfico do livro nos propiciam outras leituras. mas. Por isso. a que se tornou árvore deu-lhe uma laranja de ouro e a que se transfor- mou em rio. A escrava ape- nas pegou a pena vermelha e guardou-a perto do coração. mas ela se transformou num laranja comum. a floresta até que. Não teve sorte: o peixe de prata virou também um peixe comum. para a escrava. Guiada por um passarinho. o feitiço se quebrou e elas voltaram a ser o que eram: princesas africanas. Consolando-se com os presentes. É assim que o texto visual é ela- borado. No dia de ano-novo. tor- na-se o mais afortunado. procurou a pena pela casa. a ave parou perto de um rio e de uma árvore. jogaram-na ao vento. ao final. um peixe de prata. com receio de voar. A menina. A herança dos mais velhos é aparentemente mais valiosa. sua mulher não gostou nem um pouco de cuidar de mais uma criança. o casal resolveu dar os presentes para os três: a laranja de ouro foi para o filho mais ve- lho. que virou pássaro jogou-lhe uma linda pena vermelha. fugiu. Ao amanhecer. quando acordou. porém. num Natal. atravessou a serra. Como não a encontrou. Nessa noite. o homem procu- rou inutilmente as escravas. ven- do a cidade. os irmãos aproveitaram um cochilo da ga- rota e roubaram-lhe a pena. aparentemente menos favorecido. da ilustração. os dois irmãos resolveram agir: o mais velho abriu a laranja de ouro para tirar suas sementes e fazer um laranjal. levando o bebê. o que lhes parecia não ter valor — a pena vermelha. finalmente. Quando gritou “irmãs”. uma laranja de ouro e um peixe de prata caíram no colo da garota. um motivo presente em muitos contos tradicionais: o de irmãos que recebem uma heran- ça. os barcos etc. para o segundo. Ambiciosos. Em todo caso. 7 . de manhã tinha várias histórias para contar. pois já tinha dois filhos.

O SEGUNDO FILHO . 8 . Peça aos alunos que leiam o livro. A TERCEIRA IRMÃ . em outras versões.... retomando dois momentos importantes do enredo: A PRIMEIRA IRMÃ AFRICANA TRANSFORMOU-SE EM . A SEGUNDA IRMÃ ... Quem pode contar uma história sobre herança.. da natureza ou de coisas... cujos traços não são reproduções exatas das pessoas... Peça aos alunos que prestem atenção nas ilustrações do livro. anotando a presença especial do número três... Nessa história isso acontece em dois fatos: as três irmãs mais velhas que se transformam em três elementos da natu- reza e os dois filhos do homem e da mulher. terras e cavalo. Depois da leitura: 1. Pluralidade cultural Público-alvo: leitor fluente PROPOSTAS DE ATIVIDADES Antes da leitura: 1. Converse com os alunos sobre os temas do livro. tornando-o.. incluindo a escrava menor que os receberão como presentes. inclusive.. Mas o gato recebido pelo mais novo faz toda a diferença na vida de seu dono... Durante a leitura: 1... Peça aos alunos que completem a tabela a seguir. um nobre.. castigo? Alguém se lembra da história de O Gato de Botas? Ela tem muita semelhança com o livro de Angela-Lago. mas apenas sugerem aquilo que representam. História Temas transversais: Ética. Áreas envolvidas: Língua Portuguesa...... A PEQUENA ESCRAVA . merecimento. O FILHO MAIS VELHO GANHOU DE PRESENTE .... 2.. pois o gato foi a herança do filho mais novo... Educação Artística.. sorte. Os outros irmãos receberam bens aparente- mente mais valiosos: moinho e burro.

38). atra- vés da sombra projetada. há uma página toda sem nada escrito. a terceira. Nas páginas 20 e 21. escravas e. libertas. ao final. lembrando uma carta enigmática. a sugestão é de fechamen- to do livro. há uma ilustração que lembra as páginas de um livro sendo aberto e. em árvore. em rio. Nas páginas 24 e 25. as palmeiras reproduzidas na moldura fazem parte do cenário no qual o “branco preguiço- so” passa para comprar escravos. 3. contextualize os episódios narrados abordando as questões relativas ao período da escravidão no Brasil. Nessas páginas. Por exemplo. Aprecie com os alunos alguns recursos visuais da narrativa: Na página 4. quando o narrador conta que a escrava me- nor descobriu que podia voar e voou longe. Quando a garota fugiu para procurar sua pena. o número 7 está sendo levado pela irmã que se trans- formará em uma árvore. 4. Onde estão os números das páginas? Diferentemente do conven- cional. a ilustração sugere ao leitor a visão que a garota teria. o narrador pergunta: “O que ela podia fazer?”. Como que esperando uma resposta do leitor. Angela incorpora os números à própria ilustração. As personagens da história são princesas africanas tornadas. vestida de vermelho. 9 . o número 5 está na mão do homem branco que comprou as quatro irmãs. andou e andou muito: da página 26 até a página 34.2. há muita ilustração e pouco texto. Por exem- plo. de amarelo. elementos da ilustração se inserem no meio do texto escrito. posteriormente. Convide os alu- nos a localizarem as páginas em que isso ocorre (páginas 5. porque acabou a história. quando a pequena procura pela pena verme- lha por toda casa e não encontra. 23. em que se narra a transformação das três irmãs tomadas de arrependimento. a segunda. sugerindo que ali está o espa- ço para o leitor responder. 18. em contraposição à pequenez da garota. Nas páginas 10 e 11. 13. a ilustração acrescenta. vendo a cidade e os barcos. E as demais? Em algumas passagens. Discuta como o reen- contro das quatro irmãs é festejado com dança e canto. na página 39. O que corresponde às páginas se sobrepõe a uma espécie de mol- dura em que Angela aplica um motivo extraído da ilustração da história. 17. 19. transformou-se em pássaro. de azul. olhando a cidade de cima. Esse recurso contribui para construir a idéia de imensidão da floresta. 36. no meio dela. nas páginas 4 e 5. depois. outros elementos que auxiliam na iden- tificação de cada uma das irmãs: a primeira. Se desejar.

... Veja se os alunos perceberam que ambos são coerentes com a narrativa. SOBRE O MESMO GÊNERO E ASSUNTO • O Gato de Botas –– recontado por João de Barros. São Paulo.5.. já se sentia completamente perdida quando ouviu um passari- nho: — Em frente! Ou seria “enfrente”? Não sei.” Conversem sobre as diferenças de sentido entre “em frente” e “en- frente”. Editora RHJ • Indo não sei aonde buscar não sei o quê — Belo Horizon- te.. Editora Moderna • Sua Alteza a Divinha — Belo Horizonte. Editora Melhoramentos • Uma palavra só — São Paulo. 1. Editora RHJ 2. Editora Iluminuras . Editora Moderna • Contos de Fadas –– Jacob e Wilhelm Grimm. Editora Moderna • ABC doido — São Paulo. LEIA MAIS. Edi- tora Companhia das Letrinhas • Tampinha — São Paulo. DA MESMA AUTORA • Sete histórias para sacudir o esqueleto — São Paulo. Releia com os alunos o trecho (página 28): “. São Paulo..

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