O crescimento do cristianismo: um sociólogo reconsidera a história

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Julio Fontana

Rodney Stark conta que sempre foi um aficionado pela história, mas, ao longo de boa parte de sua carreira, jamais havia considerado a possibilidade de trabalhar diretamente com dados históricos. Confessa que estava satisfeito por ser um sociólogo e por empregar seu tempo tentando formular e testar, com maior rigor, teorias concernentes a uma série de tópicos, muitos dos quais envolvendo a sociologia da religião. Esse quadro mundou quando leu o livro Os primeiros cristãos urbanos,1 de Wayne A. Meeks. Confesso que a minha idéia acerca do cristianismo primitivo também mudou muito após a obra de Meeks. Apesar de Stark trabalhar com as ferramentas da ciência social, seu livro foi escrito para o público leigo, ou seja, qualquer um é capaz de entender os pensamentos do autor e, mais importante, refletir sobre os mesmos. No primeiro capítulo, Stark já corrige uma falsa impressão, ou melhor, um falso dado: que o cristianismo cresceu milagrosamente. Ele mostra que esse crescimento é muito facilmente explicado analisando uma série de fatores que podem ter contribuído para tal. Outra conclusão importante a que chegou Stark — a que eu também já havia chegado — é que o crescimento do cristianismo não se deve a um intenso trabalho missionário, e sim ao contato entre cristãos e seus respectivos círculos de relações, sejam elas de parentesco, amizade ou profissionais. No segundo capítulo, Stark mostra que é errôneo achar que o cristianismo era um movimento de despossuídos. Isso não é verdade, como também mostrou Meeks na obra já citada. Entre os cristãos também havia uma pequena quantidade de representates das classes mais privilegiadas. Creio, até, que a maior parte dos documentos cristãos produzidos no decorrer da Idade Antiga foram oriundos das penas dessa classe privilegiada. No terceiro capítulo, Stark corrige um erro histórico, o papel da participação dos judeus. Stark diz que o judeo-cristianismo desempenhou um papel central até muito tempo depois no crescimento do cristianismo — que, além de os judeus da diáspora terem proporcionado as bases iniciais para o crescimento da Igreja durante o século I e o inicío do II, continua-

ram representando uma fonte significativa de cristãos convertidos pelo menos até o século IV —, e que o judeo-cristianismo era ainda significativo no século V. No quarto capítulo, Stark, inova nas pesquisas acerca do cristianismo primitivo, pelo menos naquilo de que tenho conhecimento. Ele mostra que a atitude dos cristãos diante das epidemias que assolaram o Império Romano influenciou bastante para o crescimento do cristianismo. É um capítulo impressionante, que mostra que a compaixão manifestada pelos cristãos durante essas epidemias foi o verdadeiro “programa”2 missionário da Igreja. No quinto capítulo, Stark acompanha as recentes pesquisas sobre o cristianismo dos primórdios e aponta a influente participação das mulheres para o êxito do cristianismo. Graças a Deus, neste século, estamo-nos libertando do tradicional patriarcalismo e descobrindo o importante papel das mulheres nas grandes realizações da humanidade, inclusive o cristianismo. Como Lucas mesmo já mostra, sem as mulheres o cristianismo não teria chegado aos nossos dias. Acho que esse dado deve ser considerado quando falamos de ordenação de mulheres. No sexto capítulo, Stark segue uma pesquisa inciada por Meeks na década de 19803 e mostra que o cristianismo se instalou, principalmente, nos grandes centros urbanos. A razão para isso é que, quanto mais urbana a região, mais altas são as taxas de informalidade. É nas grandes cidades “que tudo acontece”, até hoje é assim. Sendo assim, o cristianismo constituiuse movimento urbano e, como podemos observar, o Novo Testamento foi estabelecido pelas cidades. No sétimo capítulo, Stark mostra-nos como era um grande cidade no Império Romano. Ele corrige aquela impressão tradicional de que as cidades romanas eram melhores do que as medievais. Isso não é verdade. A sua densidade demográfica era alta. As pessoas viviam amontoadas umas sobre as outras. Privacidade? Nem pensar. Num mesmo cômodo dormiam diversas pessoas, por isso, durante o dia, todos iam para as ruas. As ruas eram lotadas. Destarte, não era difícil reunir um grande número de ouvintes para um discurso. A miséria era grande e o número de doenças também.

Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura - Ano II, n. 10

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São Paulo. Stark corrige a tradição de que grande foi o número de mártires cristãos. Stark diz. eu sou cristão!”. até mesmo aos seus inimigos. o 13o apóstolo. totalmente desprovida de etnicidade.4 Para explicar isso ele utiliza conceitos como sacrifício e estigma: Primeiro: por exigir níveis mais elevados de estigma e de sacrifício. o cristão deve amá-la também. Tem tudo para satisfazer os teólogos e estudantes de teologia que almejam aprofundar seus conhecimentos acerca dos inícios de nossa fé. A origem da moralidade cristã e O mundo social dos primeiros cristãos. Eles eram reconhecidos onde iam. O livro de Stark mostra quão ineficazes são esses programas. também. somente conheço Ernest Renan que tenha proposto algo parecido. Clara. auto-explicativa e muito profunda.No oitavo capítulo. não utilizavam programas evangelísticos apurados. Stark aponta algumas das contribuições que o cristianismo trouxe àquela civilização. que uma importante contribuição do cristianismo como movimento de revitalização foi o oferecimento de uma cultura coerente. Suas atitudes evangelizavam. de Rodney Stark. devem ser tomados como modelos de evangelizadores. li sob essa. Outro ponto que quero destacar é a aplicação dos dados fornecidos por este livro na área de evangelismo. Martin Claret. que. 10 93 . havia uma relativa liberdade religiosa. mudam totalmente a tradicional visão que tínhamos do cristianismo primitivo. entre outros métodos modernos. O último capítulo é uma breve reflexão sobre a virtude. Destarte. No penúltimo capítulo.Ano II. Outros fatores também devem ser considerados. e que essa liberdade foi fator preponderante para o crescimento do cristianismo. Posso dizer. sociais e religiosos para seus membros. 263 pp. De tudo o que expus sobre o livro O crescimento do cristianismo. como eles eram verdadeiramente. também. em virtude do reconhecido sucesso. porque eram atitudes de um cristão. no decorrer do Império Romano. eles tiveram grande importância para o crescimento do cristianismo. acho que o livro de Stark pode ser lido sob diversas óticas. Paulinas. se Deus ama a humanidade. os grupos religiosos induzem níveis em média mais altos de comprometimento e de participação do membro. como a idéia de misericórdia. os grupos religiosos conseguem gerar maiores benefícios materiais. não precisavam. Segundo: por exigir níveis mais elevados de estigma e de sacrifício. Rodney. Eram cristãos aqueles que desejassem ser. só posso afirmar que ele. A Editora Paulus já nos disponibilizou três obras de Meeks: Os primeiros cristãos urbanos. Ciberteologia . particularmente. todos são bem-vindos. que foi um dos melhores livros que já li. ou seja. no decorrer do Império Romano. Jamais. Não acredito que tenha sido intencional os cristãos terem adotado tal postura durante as epidemias. Stark mostra que. o crescimento de novas religiãos é extremamente difícil. Vale a pena ler o seu livro Paulo. Onde o Estado se acha preparado para perseguir duramente quaisquer desafiadores do culto ou dos cultos convencionais. Os primeiros cris- Notas * 1 2 3 4 STARK. juntamente com a obra de Meeks. Muitos livros que estão sendo publicados sobre evangelismo propõem programas cada vez mais complicados para fins de missão e evangelização. Aqueles que desejavam ser cristãos procuravam o caminho para tal. houve uma perseguição generalizada aos cristãos e o número de mártires pode ter sido bem menor do que se tem cogitado até hoje. eles agiam naturalmente. São Paulo. tãos. Stark diz que. O crescimento do cristianismo: um sociólogo reconsidera a história. 2005. não precisavam dizer: “Olhem só. A obra de Stark é empolgante. 2006. n. ou seja.Revista de Teologia & Cultura . Eu. Outro fator é o vigor da organização ou das organizações religiosas tradicionais com as quais as novas religiões devem competir. Em outras palavras: o cristão deve amar a todos. mesmo sendo o número de mártires bem reduzido. não era necessário um trabalho fundado em teorias psicológicas de indução. Antes de Meeks.

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