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Humanização do Atendimento em Saúde

Antes do século XVIII, ou seja, antes do positivismo, o hospital era essencialmente uma instituição de
assistência dirigida aos pobres, já que os ricos levavam os recursos médicos para suas casas. Apesar de ser uma
instituição de assistência, o hospital servia também como recurso de exclusão social, pois, o pobre, como pobre,
tinha necessidade de assistência e, se fosse também doente, poderia ter alguma doença contagiosa, logo, poderia
ser perigoso. Além disso, o pobre poderia estar louco, ou seja, oferecer mais perigo ainda. Por conta disso o
hospital existia tanto para acolher esses pobres, quanto para proteger a sociedade do perigo que ele representa.

De certa forma, não se pretendia a cura para o usuário do hospital até o século XVIII, mas sim uma assistência
material e espiritual, em alguns casos pretendia-se dar os últimos cuidados ou o último sacramento.

Depois do século XVIII, com a explosão do conhecimento e da técnica, com o aprimoramento crescente dos
meios de diagnóstico e tratamento, houve uma inversão no papel dos hospitais, quase ou tão incômoda quanto à
situação anterior, ou seja, ao se abordar técnica e cientificamente a doença, confortar e consolar o doente passou
a ser coisas do passado. Evidentemente que todos sempre quiseram evitar a doença e a morte, em qualquer
época histórica, mas entre o sofrimento e a morte pode ser que essa seja menos temida que aquele. Pelo que se
sabe da realidade dos pacientes, tem sido muito freqüente ouvir nos corredores dos hospitais em alto e bom
som, que não se teme tanto a morte, em si mesma, quanto a dor e os sofrimentos relacionados ao processo de
morrer.

Evidentemente também, as pessoas sempre procuraram o hospital para cura de seus males e alívio de seu
sofrimento, não necessariamente nessa ordem. De qualquer forma, trata-se de uma busca de alívio, de
preservação da vida, de restituição da saúde e melhoria do conforto pessoal. Mas essa problemática da dor e do
sofrimento não é uma simples questão técnica, pois a intencionalidade solidária, fraterna e confortadora
depende mais de uma atitude do caráter do que do conhecimento. Muito embora a ciência contribua,
sobremaneira, para soluções eficientes aos problemas de saúde, o sofrimento humano diz muito mais respeito à
ética que à técnica.

Trazendo essa questão aos exemplos atuais, citamos algumas situações muito constrangedoras no cotidiano dos
hospitais. Se no século XVIII as pessoas ofereciam atenção e cuidados humanos aos pacientes porque a ciência
não podia oferecer mais nada, hoje a ciência tem muito a oferecer, mas as pessoas não oferecem mais nada além
da técnica.

Temos atendido na psiquiatria seqüelas emocionais bastante mórbidas de tratamentos realizados em UTIs. A
maioria dos profissionais desses ambientes privilegia a técnica em franco desprezo para com a questão humana.
O conforto emocional dos pacientes é sistematicamente ignorado em favor dos dados objetivos do equilíbrio
hidroeletrolítico, do traçado eletrocardiográfico, da eletroforese das proteínas, da pressão venosa central, da
gasometria e outros parâmetros importantes, mas dispensáveis se a pessoa deixa de ter vontade de viver.

O tecnólogo da saúde, embevecido pelos conhecimentos que acredita possuir não se obriga mais a dar
satisfações ao paciente e aos familiares do estado de saúde, prognóstico e evolução. Parece que o conhecimento
tornou essas pessoas herméticas ao cidadão comum.

O Hospital Depois do Século XVIII

A visão marcantemente biológica (positivista) fez com que profissionais de saúde considerassem como
sofrimento exclusivamente o padecimento físico, deixando de considerar o sofrimento global da pessoa. Esse
cientificismo costuma adotar a curiosa posição de "não permitir" o sofrimento subjetivo ao paciente, já que os
conhecimentos objetivos sobre determinada doença definem tecnicamente o tanto de sofrimento que o paciente
"deve e pode se permitir". De acordo com os manuais de medicina, não aparecendo na tomografia ou no ultra-
som nada de anormal, a dor ou mal estar "estão proibidos".

Por outro lado, o doente passou a representar algo além de uma pessoa digna de atenção, de cuidado e
assistência. O doente passou a ser um instrumento de aprendizagem, de estatística, de pesquisa, passou a
representar uma fonte de recursos econômicos para a instituição (veja a questão das poucas altas nos finais de
semana, quando os hospitais não podem ficar com leitos vagos), um argumento político de algum ministério,
uma possibilidade financeira da administração hospitalar e assim por diante.

Sem dúvida nenhuma os avanços do conhecimento e da técnica têm forte repercussão na área da saúde, tanto no
diagnóstico como no tratamento, tanto na prevenção como na cura das doenças, tudo isso refletindo diretamente
no conforto pessoal, na qualidade de vida e na longevidade das pessoas. Entretanto, o avanço tecnológico trouxe
consigo também um aspecto frio e mecânico, maquinal, reducionista e algo desumano na relação entre as
pessoas. A crítica ao positivismo é que ele ensinou a todos o preço das coisas, mas não ensinou a ninguém o
valor das coisas. Talvez tenha sido um mal necessário.

A ética atual discute, sem conclusão alguma, se do positivismo para cá o ser humano pode usufruir de maior
felicidade. Obviamente devem ter melhorado as condições de vida, pois, inegavelmente, há uma brutal
diferença entre extrair um dente hoje e no século passado, assim como também é diferente a expectativa média
de vida entre meados do século XX e hoje, mas a questão da felicidade em si é bastante diferente.

Atualmente as conseqüências do desenvolvimento da tecnologia no relacionamento entre as pessoas estão sendo


detectadas, estudadas e enfrentadas, buscando-se um equilíbrio capaz de dosar o uso dos equipamentos
sofisticados e de última geração e o relacionamento humano entre as pessoas, buscando um equilíbrio entre o
mecanicismo frio da técnica, entre os cálculos complicados da economia e entre o utilitarismo das coisas, com a
compreensão das necessidades afetivas das pessoas, enfim procurando equilibrar a idéia dos preços com a noção
de valores.

Um lado positivo do reducionismo moderno talvez tenha sido a aquisição de conhecimentos especializados. Na
área da saúde a especificidade do conhecimento originou as especialidades médicas, com conhecimentos mais
aprofundados sobre partes menores do ser humano (daí o termo reducionismo). A vantagem foi o conhecimento
maior e mais específico, a desvantagem foi a eventual perda da noção de conjunto e integração.

Nas outras áreas, a vantagem do reducionismo foi a discussão dos papéis profissionais, resultando nas
definições, especificações e atribuições de cada profissional; do médico, do enfermeiro, assistente social,
psicólogo, nutricionista, terapeuta ocupacional e todos os demais trabalhadores da saúde contribuindo para a
melhoria das condições e qualidade no atendimento.

Por conceito, origem e vocação a medicina e outras áreas relacionadas ao atendimento à saúde devem
representar uma parte da ciência essencialmente humanística. Isso quer dizer que será desejável partir-se de uma
visão global do ser humano, deixando de lado a concepção dualista que entende a pessoa como sendo apenas
dotada de corpo e espírito mas, sobretudo, compreender a pessoa como uma unidade indissolúvel.

Neste contexto, as enfermidades, transtornos, distúrbios, doenças, enfim, de quaisquer processos mórbidos
deverem ser abordados não apenas através do órgão da pessoa, mas também e principalmente, através daquilo
que ela tem de mais humano: seu componente afetivo e emocional. Também o tratamento e atenção a quaisquer
desses estados mórbidos devem considerar outros elementos humanos além da fisiopatologia. Além de
científica, além de naturalista, a assistência à saúde deve ser fundamentalmente humanista.

É fundamental, sobretudo, que o profissional de saúde deixe de considerar apenas a doença e se aplique em
cuidar do doente, da pessoa que, circunstancialmente, está sofrendo. Além da dimensão física, a pessoa deve ser
atendida também em seu componente social, psíquico e emocional.

A Desumanização do Atendimento (ou do Relacionamento)

As raízes da ciência atual tiveram sustentação substancial no positivismo (séc. XVIII), que possibilitou o
avanço galopante do conhecimento e hoje não se questiona o fato da tecnologia médica ter tido avanços
inimagináveis, criando as principais condições que mudaram o estilo de vida das pessoas.
Na saúde, com o avanço das descobertas científicas, o hospital passa de uma instituição aonde se vai para
morrer, para uma instituição onde se pretende a cura. Mas, socialmente, a instituição hospitalar representa uma
espécie de microcosmo que reflete a sociedade geral. Ali, no hospital, encontramos em doses variadas o que a
sociedade tem de mais nobre, bonito e incrível, bem como o que há de mais triste, degradante e violento. Nesse
microcosmo social que é o hospital encontramos o santo e o bandido, e nem sempre o bandido morre no final.
Encontramos o cristão voluntarioso, caridoso, atencioso e o ateu, técnico científico e eficiente do qual não se
pode prescindir. Vemos a criança, que tende a exaltar sentimentos e monopolizar atenções e o velhinho que luta
para viver, com seus 90 anos, embora a sociedade (e o próprio hospital como reflexo) não lhe sorria mais tanto.

No hospital a humanização é ameaçada pela própria incongruência do destino, das pessoas e das circunstâncias.
Ali existem tanto as jovens mulheres querendo ser mães e não podem por problemas de esterilidade, como as
outras que, sendo férteis, desperdiçam vidas e promovem abortos. No hospital há pessoas lutando com todas as
forças para viver e há também os médicos ocupados em salvar aqueles que acabam de fazer de tudo para tirar a
própria vida. Existem, como em toda sociedade, os histéricos que ludibriam e passam na frente de crianças com
queimaduras, existem médicos, como tantos outros profissionais, que ocultam a competência quando o dinheiro
é pouco, existem os técnicos de laboratório que fazem greve, os diretores que aferem lucro e os contadores que
fraudam a previdência....

Mas tem também as irmãs de caridade que consolam, bombeiros que fazem partos na ambulância... Enfim, o
hospital representa a sociedade e não costuma ser nem mais nem menos desumanizada que esta.

Assim sendo, ao se falar da desumanização das instituições de saúde, devemos lembrar que essas instituições,
como quaisquer outras, refletem a problemática daquilo que acontece em nossa sociedade. Se pretendermos
alguma coisa mais séria e profunda em relação ao tratamento que se dispensa às pessoas na área da saúde,
devemos buscar antes, na sociedade, as raízes da desumanização dos contactos interpessoais. A humanização da
instituição da saúde deve passar, obrigatoriamente, pela humanização maior e condicionante de toda a
sociedade.

Afinal, o que é ser um profissional humanizado?

Em razão do desenvolvimento tecnológico na medicina, em particular, alguns aspectos mais sublimes do


paciente, tais como suas emoções, suas crenças e valores, ficaram em segundo ou terceiro planos. Apenas sua
doença, objeto do saber cientificamente reconhecido, passou a monopolizar a atenção do ato médico, portanto,
com esse enfoque eminentemente técnico a medicina se desumanizou.

Humanizar o atendimento não é apenas chamar a paciente pelo nome, nem ter um sorriso nos lábios
constantemente, mas, além disso, também compreender seus medos, angústias, incertezas dando-lhe apoio e
atenção permanente.

Humanizar também é, além do atendimento fraterno e humano, procurar aperfeiçoar os conhecimentos


continuadamente é valorizar, no sentido antropológico e emocional, todos os elementos implicados no evento
assistencial. Na realidade, a Humanização do atendimento, seja em saúde ou não, deve valorizar o respeito
afetivo ao outro, deve prestigiar a melhoria na vida de relação entre pessoas em geral.

Entre os tópicos importantes na humanização do atendimento em saúde escolhemos alguns, poucos, mas
relevantes, para registrar aqui; o interesse e competência na profissão, o diálogo entre o profissional e o usuário
e/ou seus familiares, o favorecimento de facilidades para que a vida da pessoa e/ou de seus familiares seja
melhor, evitar aborrecimentos e constrangimentos e, por fim o respeito aos horários de atendimento.

É claro que o tema aqui abordado é Humanização do Atendimento em Saúde, entretanto, tomando-se por base
esses cinco quesitos, quem não gostaria de vê-los humanizados em todas as dimensões da vida em sociedade e
não apenas no atendimento em saúde. Não encontramos razões plausíveis para que o apelo de humanização seja
exclusivo para área de saúde, já que essa área é tão carente em humanização quanto às demais.
De modo geral algumas atitudes são diretamente relacionadas ao que se pretende com a Humanização do
atendimento:

1 . - Aprimorar o conhecimento científico continuadamente é uma conseqüência do interesse e competência.


Entretanto, o conhecimento continuamente adquirido deve o mais global possível, objetivando sempre atender
as necessidades gerais dos pacientes, ao invés de se limitar exclusivamente à questão física ou específica da
especialidade.

Na oncologia, por exemplo, entre outras especialidades, a abordagem da dor e do conforto do paciente deve
acontecer paralelamente à utilização dos mais recentes avanços terapêuticos. Devem-se atender também outros
aspectos da qualidade de vida, como por exemplo, os efeitos colaterais do tratamento oncológico, a qualidade
do sono do paciente, seu estado afetivo, sua sexualidade, apetite, estética, etc. Não se pretende, com isso, que o
oncologista tenha todos esses conhecimentos, mas que seja sensível a ponto de facilitar para que o paciente
conte com todos esses recursos.

2 . - Aliviar sempre que possível, controlar a dor e atender as queixas físicas e emocionais. A atenção
emocional diz respeito à compreensão sensível das queixas do paciente, mesmo que estas não tenham base
fisiopatológica ou anatômica. O que está em questão não são os limites dos livros de fisiopatologia, mas sim, a
representação da realidade pelo paciente, suas vivências e seu estado existencial atual.
O alívio global do paciente nem sempre se proporciona exclusivamente com analgésicos ou outras intervenções
técnicas. Para o conforto global é imprescindível o bem estar afetivo, o qual pode envolver a companhia
constante de familiares, à atuação de terapeutas, uso de medicamentos antidepressivos e ansiolíticos e outros
recursos psicoterápicos e ocupacionais necessários.

3. - Oferecer informações sobre a doença, prognóstico e tratamento. Os profissionais da saúde não devem
economizar palavras ou qualquer outra forma de comunicação. O silêncio do profissional é uma das mais
importantes queixas dos pacientes e familiares em relação ao mau atendimento. Diante de um profissional
calado e silencioso o paciente pode fantasiar para pior o seu estado de saúde, agravando assim seu estado
emocional e, conseqüentemente, orgânico. As dúvidas e a carência de informações são as principais causas de
não aderência ao tratamento e de procedimentos incorretos por parte dos pacientes, familiares e/ou cuidadores.
A falta de diálogo com o profissional da saúde pode ser iatrogênico.

Não raras vezes ouvimos de pacientes que o simples contacto com o médico (ou outro profissional da saúde) foi
suficiente para que começasse a melhorar. Essa melhora deve-se ao diálogo, à empatia e à comunicação lenitiva
do profissional da saúde.

4. - Respeitar o modo e a qualidade de vida do paciente. O tratamento médico deve, prioritariamente, ser
uma atitude que visa melhorar a qualidade de vida do paciente, portanto, qualquer limitação ao seu estilo de
vida imposta pelo tratamento deve ser evitada (desde que o estilo de vida em questão não seja o objeto do
tratamento, como por exemplo, alcoolismo).

Alguns profissionais costumam ser insensíveis à esses valores, priorizando seus tratamentos em detrimento da
qualidade de vida do paciente. Eles exigem que o paciente seja adequado ao tratamento e não ao contrário, o
que seria desejável. O paciente não tem problemas que contra-indiquem o uso social de uma taça de vinho.
Então, o médico deve procurar preferir os medicamentos que não comprometam esse agradável e sadio hábito.

Nunca me esqueço do hospital onde trabalhava, cujas enfermeiras acordavam os pacientes em sono profundo, às
23 horas, para tomarem o medicamento (sonífero) para dormir. Outro autoritarismo médico que costuma ignorar
totalmente a qualidade de vida dos pacientes é o hábito de marcar exames que exigem jejum para os horários da
tarde, submetendo o paciente a sofríveis horas de fome.

Essas atitudes podem sugerir, às vezes, que a comodidade do médico acaba resultando em grave desconforto ao
paciente. Também é o caso, por exemplo, das noções de horário e de desconforto que parecem não existir em
alguns colegas médicos. Pacientes são submetidos a esperas intermináveis pelo atendimento, em franco
desrespeito aos seus direitos.
5. - Respeitar a privacidade (e dignidade) do paciente. Tem sido tênue os limites entre tudo o que o paciente
deve se submeter para melhorar e facilitar o trabalho do médico ou profissional de saúde e aquilo que o
profissional quer que o paciente faça apenas para seu conforto e comodidade.

Existem em determinados hospitais algumas roupas padronizadas para pacientes que aniquilam totalmente sua
dignidade, deixando à mostra sua intimidade para pessoas que nem estão envolvidas na questão do diagnóstico
e tratamento. Existem privações, proibições e restrições hospitalares que não resistem ao mínimo
questionamento de um simples "porque não posso?".

Nunca esqueço uma conhecida minha que, estando prestes a ser operada de varizes no tornozelo, foi submetida
à tricotomia pubiana (raspagem dos pelos) porque havia uma "norma" dizendo: - para cirurgias de varizes, deve
ser feita a tricotomia. Seria de se perguntar se para varizes do esôfago também deveriam ser raspados pelos
pubianos. Ora, essa atitude corresponde a mandar raspar a cabeça de todos que forem submetidos à extração
dentária.

Algumas atendentes de laboratório mandam o paciente voltar no dia seguinte porque não obedeceram ao jejum
e, portanto, não podem retirar o sangue para o exame. E adotam esse procedimento para qualquer exame,
mesmo que a alimentação não interfira neste determinado exame.

Muitas vezes percebemos que um pouco de disposição e boa vontade evitaria que o paciente perdesse a viagem,
evitaria que ele voltasse mais uma vez para atendimento.

6. - Compreender a importância de se oferecer ao paciente um suporte emocional adequado. É alta a


porcentagem de pessoas que pioram o quadro e as queixas depois de conversarem com profissionais da saúde,
quando a conversa é destituída da sensibilidade necessária ao bem estar emocional e afetivo do paciente. Essa
frigidez emocional, comum em ambientes que deveriam confortar, pode resultar em agravamento dos sintomas,
desenvolvimento de depressão e ansiedade que comprometem enormemente a recuperação.

Ficar lembrando que tal procedimento costuma ser muito doloroso, que tudo depende da biópsia, que isso não
costuma ter cura, que as seqüelas são terríveis, e coisas do gênero não contribuem em nada, muito pelo
contrário. Não é necessário mentir para que o paciente se sinta bem, mas escolher as palavras para transmitir a
verdade é uma questão de vocação, sensibilidade e bom senso. O segredo para um bom diálogo, é imaginar
como você gostaria que um profissional em seu lugar dissesse para a senhora sua mãe.

Para o suporte emocional é importante favorecer algumas preferências do paciente que não comprometem em
nada o andamento do tratamento, como por exemplo, em relação aos acompanhantes, às visitas e outros hábitos
costumeiros. Isso tudo, ou seja, a introdução de recursos mais próximos do cotidiano das pessoas, tais como
músicas, vídeos, filmes, apresentações, atividades artísticas, lazer, etc, suaviza a característica fria da atenção à
saúde e melhora o estado emocional. São mundialmente reconhecidos os benefícios dos "hospitalhaços" e afins
na convalescença dos pacientes internados.

7. - A instituição deve oferecer condições de trabalho adequadas ao profissional de saúde. O grau de ansiedade,
frustração e descontentamento do profissional (em qualquer área) tende a repercutir em seu trabalho. Há
instituições de atendimento à saúde já considerada humanizadas, porém, algumas vezes essa humanização diz
respeito exclusivamente à melhorias da estrutura física dos prédios. Evidentemente que a estrutura física dos
imóveis é bastante relevante, mas a humanização da instituição vai, além disso.

Quando a instituição não oferece condições satisfatórias para seus profissionais, há um risco bastante
aumentado do atendimento não se processar satisfatoriamente. Também todo o sistema está envolvido. O
sistema deve atender a instituição em suas necessidades básicas administrativas, físicas e humanas.

Perspectivas Institucionais de Humanização do Atendimento em Saúde


Em 1995 houve uma publicação da revista Veja, matéria de capa, intitulada: UTI, o corredor da vida e da morte.
A matéria chocou os profissionais da saúde, pois trazia depoimentos de pessoas que preferiam morrer a terem
que se submeter a alguma terapia intensiva, como foi o caso do intelectual Darci Ribeiro.
Alguns projetos de humanização vêm sendo desenvolvidos há alguns anos, em áreas específicas da assistência,
por exemplo, na saúde da mulher, da criança, entre outros. Atualmente têm sido propostas diversas ações
visando à implantação de programas de humanização nas instituições de saúde, especialmente nos hospitais, tal
como o Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar (PNHAH) do Ministério da Saúde em
2000, com o objetivo de promover uma mudança de cultura no atendimento de saúde no Brasil (veja abaixo).

São vários os projetos e ações que desenvolvem atividades humanizadoras ligadas a artes plásticas, música,
teatro, lazer, recreação, incluindo iniciativas do Ministério da Saúde no sentido de valorizar atitudes
humanizadas.

Para que o trabalho de um profissional seja eficiente e ao mesmo tempo humanizado, em qualquer área e não
apenas médica, são necessários conhecimento, qualidade técnica e, indubitavelmente, uma boa qualidade de
inter-relação humana. Em medicina, a qualidade exige o desenvolvimento de conhecimentos e de capacidade
técnica mas, para a qualidade de inter-relação humana o médico precisa reconhecer e lidar com os aspectos
emocionais do paciente, isto é, precisa desenvolver atitudes eficientes e humanas em sua tarefa assistencial.

As atuais condições do exercício da medicina não têm contribuído para a melhoria do relacionamento entre
médicos e pacientes, nem para o atendimento humanizado e de boa qualidade. E esse quadro atual se estende
também a outros profissionais da área de saúde.

As dificuldades de humanização começam pelo lado do paciente. É fundamental considerar, para a


humanização do atendimento, se o paciente está inserido em um contexto pessoal, familiar e social satisfatório.
Esse contexto é indispensável até para a adesão ato tratamento, para a procura do serviço de saúde, para
acompanhamento do tratamento.

Em segundo, a assistência à saúde deve priorizar as necessidades pessoais e sociais do paciente. Há um bom
número de médicos que diagnosticam muito bem e prescrevem tratamentos primorosos, entretanto, não têm a
mínima noção (e pior, a mínima preocupação) em saber se o paciente pode adquirir os medicamentos. Como
costumam dizer, esse problema não é deles.

Ainda tem a questão primordial da instituição. Na instituição interatuam as necessidades de quem assiste e de
quem é assistido e a satisfação de quem é atendido, infelizmente, depende, antes, da satisfação de quem atende.

Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar

Foi criado em 1997 pelo Ministério da Saúde um Programa Nacional de Educação Continuada em Dor e
Cuidados Paliativos para os Profissionais da Saúde. Isso visava uma abordagem não apenas técnica, mas
sobretudo humana para a questão do sofrimento. Essa preocupação era mais voltada aos pacientes oncológicos,
pois, as dores oncológicas representam 5% das dores crônicas. Os estudos têm apontado que a dor oncológica
não tem sido adequadamente controlada, não por falta de recursos terapêuticos, mas por avaliação imprecisa do
quadro de dor e utilização inadequada do arsenal terapêutico disponível e subvalorização das necessidades do
paciente.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que 4,5 milhões de pacientes em países em desenvolvimento e
desenvolvidos morrem anualmente sem receber tratamento da dor e sem que lhes sejam considerados outros
sintomas tão prevalecentes quanto a dor e que também causam sofrimento.

Em 2000, o Ministério da Saúde, sensibilizado pelo número significativo de queixas dos usuários referentes aos
maus tratos nos hospitais, tomou a iniciativa de convidar profissionais da área de saúde mental para elaborar
uma proposta de trabalho voltada à humanização dos serviços hospitalares e de saúde. Estes profissionais
constituíram um Comitê Técnico que elaborou um Programa Nacional de Humanização da Assistência
Hospitalar (PNHAH), com o objetivo de promover uma mudança de cultura no atendimento de saúde no Brasil.

O PNHAH propõe um conjunto de ações integradas que visam mudar substancialmente o padrão de assistência
ao usuário nos hospitais públicos do Brasil, melhorando a qualidade e a eficácia dos serviços hoje prestados por
estas instituições. Seu objetivo fundamental é aprimorar as relações entre profissionais de saúde e usuários, dos
profissionais entre si, e do hospital com a comunidade.
A implantação do Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar foi resultado do esforço
integrado do Ministério da Saúde, Secretarias estaduais e municipais e entidades da sociedade civil. De 2000 ao
final de 2002, o Programa deveria ter atingido um conjunto de cerca de quatrocentos e cinqüenta hospitais.

Através de normas e orientações o PNHAH se propunha a promover uma requalificação dos hospitais públicos,
valorizando assim a dimensão humana e subjetiva presente em todo ato de assistência à saúde. Com este intuito,
o Ministério da Saúde concederia o título de "Hospital Humanizado", pelo prazo de um ano, aos hospitais cujo
padrão de assistência e funcionamento global estejam em conformidade com os indicadores de humanização e
os princípios e diretrizes do PNHAH.

O Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais foi um dos primeiros hospitais a fazer parte,
oficialmente e sistematicamente, do Programa Nacional de Humanização na Assistência do Ministério da
Saúde. Ainda em 2000, foi formada no HC da UFMG uma comissão para sua viabilização e o Programa foi
instituído pela Diretoria.