Fórum Social Mundial

Cândido Grzybowski Flávia Mattar Gustavo Marin João Sucupira Leonardo Méllo Silvana De Paula Vívian Braga

Futebol globalizado
Fábio Sá Earp

Governo Lula
Sonia Fleury

Entrevista
Dodô da Portela

DEMOCRACIA VIVA

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Cândido Grzybowski
Sociólogo, diretor do Ibase

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lância cívica sobre a democracia em ação entre nós. Democracia, para o Ibase, são direitos civis e políticos plenos. É ideal e vivência prática, como processo em permanente construção da sociedade historicamente possível. Olhar a democracia em ação é uma forma de agir criticando, para extrair o máximo de possibilidades dos limites reais. Este número da Democracia Viva vem a público num momento em que nossos contrastes como sociedade são mais evidentes, ao menos para os olhares mais atentos. Temos o carnaval, com sua explosão de criatividade, alegria e afirmação de uma identidade político-cultural que ninguém consegue destruir. Somos nós, curtindo-nos como somos, mesmo nas piores adversidades, como nos anos de chumbo. Na outra ponta, temos os 40 anos do início da ditadura militar no Brasil. Por mais que queiramos esquecer os tristes anos, como lembra Álvaro Caldas, ainda não botamos a limpo o que foi a tortura política entre nós para extrair a delação. Estamos pagando caro por isso. A crônica de Alcione Araújo é reveladora da tragédia que se abate sobre nós até hoje. Alguém, sem nome, vive e morre. Triste herança no cotidiano de nossa atitude complacente com o terror. A democracia não aguenta isso. Explorar e expor nossos contrastes é uma maneira de olhar sobre os limites e possibilidades da democracia. Seja no futebol – artigo de Fábio Sá Earp –, seja no samba – a entrevista com Dodô da Portela e o ensaio fotográfico de Cris Veneu, com texto de Fátima Pontes. Mas a contradição opera no centro do governo Lula, como mostra Sonia Fleury, alertando sobre os cenários possíveis neste segundo ano de “esperança esgarçada”. O olhar irrequieto e provocador de Democracia Viva acolhe o discurso radicalmente democrático em defesa do feminismo de Ana Veloso. No âmbito internacional, a edição traz o artigo de Carlés Riera sobre Barcelona. A cidade espanhola é uma referência do urbanismo mundial, mas ainda não conseguiu superar o desafio de alcançar uma integração onde caibam o respeito à diversidade e à cultura, além da sustentabilidade Logo após o Fórum Social Mundial, em Mumbai, na Índia, a revista do Ibase não poderia deixar de ser o espaço de ressonância deste que é, indiscutivelmente, o portador da maior onda de cidadania planetária jamais vista. No calor do que ocorreu em Mumbai, diferentes impressões de pessoas do Ibase que lá estiveram. Além disso, temos o artigo de Gustavo Marin. Trata-se de um primeiro balanço, feito no calor da hora, instigante, apontando fraquezas e debilidades do FSM em sua quarta edição – mostrando de forma cabal uma vontade de superar o déficit de globalidade, tanto geográfica como social. Voltaremos a Porto Alegre em 2005 precisando dar um enorme salto de qualidade em termos propositivos e de estratégias de ação. Democracia Viva atende claramente a sua missão, trazendo tudo isto para debate público. Mas precisamos de vocês, leitor e leitora, para que exerçamos nosso papel de vigilantes da democracia. Ajudem-nos na tarefa de radicalizar o debate entre nós! A democracia e a cidadania no Brasil agradecem.

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oderíamos resumir a missão da revista Democracia Viva em exercer uma vigi-

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ARTIGO

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Ibase – Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas
Av. Rio Branco, 124 / 8º 20148-900 Rio de Janeiro/RJ Tel.: (21) 2509-0660 Fax: (21) 3852 3517 ibase@ibase.br - www.ibase.br

40 anos do golpe militar, um legado que ainda paira sobre nós
Álvaro Caldas NACIONAL

Conselho Curador
Regina Novaes João Guerra Carlos Alberto Afonso Moacir Palmeira Jane Souto de Oliveira

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Governo Lula: continuísmo no primeiro ano. Mudanças no segundo?
Sonia Fleury VARIEDADES

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ENTREVISTA

Direção Executiva
Cândido Grzybowski Francisco Menezes Jaime Patalano

Dodô da Portela

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Réquiem sem lágrimas
Alcione Araújo ESPORTE

CRÔNICA

Coordenadores(as)
Erica Rodrigues Iracema Dantas Itamar Silva João Roberto Lopes Pinto João Sucupira Leonardo Méllo Moema Miranda Núbia Gonçalves

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Grandezas e misérias do futebol globalizado
Fábio Sá Earp INTERNACIONAL

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Desenvolvimento urbano em Barcelona: conflito de vizinhança e consenso midiático
Carlés Riera PELO MUNDO ENTREVISTA RESENHAS FÓRUM SOCIAL MUNDIAL

Assessora da Direção Executiva
Maria Nakano

CULTURA

Do samba

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DEMOCRACIA VIVA ISSN: 1415149-9 Diretor Responsável
Cândido Grzybowski

Dodô da Portela

Conselho Editorial
Alcione Araújo Ari Roitman Eduardo Henrique Pereira de Oliveira Jane Souto de Oliveira Regina Novaes Rosana Heringer

Estamos mais fortes
Gustavo Marin OPINIÃO IBASE

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Impressões de Mumbai

Coordenação Editorial
Iracema Dantas

Cândido Grzybowski, Vívian Braga, João Sucupira e Flávia Mattar 54

Subeditor
Marcelo Carvalho

Notas de pesquisa
ESPAÇO ABERTO

INDICADORES

Revisão
AnaCris Bittencourt Marcelo Bessa

Silvana De Paula e Leonardo Méllo 60

Assistentes Editoriais
Flávia Mattar Jamile Chequer

O discurso feminista na esfera pública
Ana Veloso CULTURA

68 76

Produção
Geni Macedo

Do samba Marco

Distribuição
Maria Edileuza Matias

ÚLTIMA PÁGINA

Projeto Gráfico
Mais Programação Visual

Diagramação
Imaginatto Design e Marketing

Foto da Capa
Cris Veneu

Fotolitos
Rainer Rio

Impressão
SRG Gráfica e Editora

Tiragem
4.300 exemplares

democraciaviva@cidadania.org.br

ARTIGO
Álvaro Caldas*

40 anos do

golpe militar,
um legado que ainda paira

sobre nós

Num angustiado ensaio escrito em meio ao espanto e à indignação provocados pela revelação dos porões da guerra da Argélia, Jean Paul Sartre advertiu que “a tortura não é civil nem militar, nem tampouco especificamente francesa, mas uma praga que infecta toda nossa era”. Naquele momento, entre 1957 e 1958, a população francesa tomou conhecimento de que o exército francês e as forças policiais da colônia empregaram sistematicamente a tortura no enfrentamento aos rebeldes argelinos, levando a uma comoção generalizada.

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A R T I G O

Pesquisa realizada pelo Datafolha publicada em fevereiro deste ano revelou que 24% da população paulistana admite a prática de tortura física para que pessoas suspeitas confessem seus crimes

Até então, no mundo chamado civilizado, acreditava-se que o emprego da tortura constituía uma aberração de governos psicóticos e degenerados, sem apoio popular, bárbaros e déspotas não esclarecidos que violavam todos os princípios de justiça e de direito universalmente reconhecidos. A praga antevista por Sartre alastrouse na década seguinte. Dessa vez, tendo os governos ditatoriais da América Latina como centro de uma nova fase de expansão e recrudescimento da tortura como método rotineiro e institucionalizado de repressão praticado pelo Estado. Esses governos contavam com a cobertura e o ostensivo apoio técnico e financeiro da CIA, agência do governo norte-americano e de outros Estados liberal-democráticos, todos considerados civilizados. Até mesmo o know-how francês adquirido na Argélia foi transferido. Gestada nos porões da ditadura militar, essa infecção constitui um dos seus legados mais nocivos à sociedade brasileira; seus tentáculos criaram raízes e se espalharam, aproveitando-se do ambiente propício ao abuso de autoridade, à impunidade, à corrupção e à violência policial. A ditadura durou mais de 20 anos. Parte do seu acervo de arbitrariedades com muitos dos seus crimes – incluindo a localização dos corpos dos desaparecidos políticos –, continua até hoje trancada nos arquivos militares. Quando se fala em tortura, não se trata de desmandos de meia dúzia de policiais e oficiais subalternos. Prática institucionalizada pelo regime ditatorial, a tortura tornou-se um poderoso instrumento da política repressora do Estado, que se provou eficiente e eficaz, à custa de muitas vidas, de centenas de pessoas mortas e desaparecidas, de terríveis seqüelas, físicas e morais. No solitário e abjeto

embate que se trava numa prolongada sessão de suplícios, o torturador não se contenta com a rendição da pessoa torturada, e l e a l m e j a a p o s s a r- s e d e s u a a l m a , despojá-lo de seus valores, tornar-se dono de sua voz para transformá-lo num delator. O carrasco sevicia, humilha e administra a dor para arrancar uma informação, num sádico ritual que pode terminar com um cadáver em suas mãos. No Brasil, ainda não fizemos uma discussão para passar a limpo essa história, o que significa que estamos aptos a repeti-la, como de fato se repete país afora. Relatório recente da Organização das Nações Unidas (ONU) confirma que a tortura policial corre solta nas delegacias de polícia e penitenciárias do país. No Rio, vale lembrar dois casos de impacto registrados pela imprensa. Em outubro do ano passado, Chan Kim Chang, comerciante chinês naturalizado brasileiro, foi preso no aeroporto internacional Tom Jobim e levado por agentes federais para o presídio Ary Franco. Três dias depois, foi deixado em coma no hospital Salgado Filho. Para a polícia, o chinês causou uma lesão em si mesmo. Policiais suspeitos foram afastados de suas funções, mas as investigações ainda não chegaram ao fim e à punição dos policiais delinqüentes. Em outro caso, ainda mais recente, o estudante de fisioterapia Rômulo Batista de Melo, 21 anos, foi preso no dia 21 de janeiro de 2004 em Cabo Frio, sob acusação de roubo de carro. Seis dias depois, seu corpo, com marcas de tortura e sevícias, foi entregue à família. Relatório policial informa que ele causou as lesões em si mesmo. Quem não se recorda de que o jornalista Wladimir Herzog, assassinado pelo DOI-Codi em São Paulo, em outubro 1975, foi dado como suicida? Os casos de tortura e morte integraram-se à rotina das delegacias de polícia, com graves conseqüências para a sociedade. Pesquisa realizada pelo Datafolha publicada em fevereiro deste ano pela Folha de S.Paulo revelou que 24% da população paulistana admite a prática de tortura física para que pessoas suspeitas confessem crimes. Num país que manteve o regime de escravidão até o fim do século XIX, a aberração da tortura pode vir a se tornar aceitável, diante de uma política de Estado que ora se omite, ora a utiliza para seus fins ilegítimos.

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40 ANOS DO GOLPE MILITAR, UM LEGADO QUE AINDA PAIRA SOBRE NÓS

Barbárie em questão
A guerra da Argélia reabriu uma ferida. As primeiras vítimas da tortura naquele país foram os revolucionários árabes que lutavam pela independência, ou seja, os estrangeiros, os “outros”, os negros, os oprimidos, pondo em xeque o problema geral das políticas de colonização européia. A incômoda presença da barbárie no centro da Europa causou escândalo e o caso teve enorme repercussão. Em grande parte porque o ressurgimento da tortura no século XX era visto como um fenômeno confinado e restrito a algumas formas de governos ditatoriais, de características aberrantes e manipuladoras, como foram os casos da Alemanha nazista e a selvageria stalinista na União Soviética e seus estados satélites. A França levantou-se, indignada. Como fora possível chegar até aquele ponto? Após 1957, quando as denúncias se intensificaram na imprensa, a mobilização de repúdio da sociedade cresceu e contribuiu para a queda da Quarta República e, logo a seguir, para a independência da Argélia, em 1962. O povo francês orgulhava-se do caráter humanitário e legal de suas instituições e não estava preparado para acreditar que oficiais de seu exército fossem capazes de dependurar um prisioneiro no pau-de-arara. Abriu-se um debate nacional, envolvendo políticos, sindicalistas, jornalistas e intelectuais do porte de Sartre e de Albert Camus, este um pied noir, nascido na Argélia. A imprensa teve papel relevante, contribuindo para revelar a extensão e gravidade dos fatos, com a comprovação de que as autoridades francesas, militares e membros da polícia utilizaram a tortura não apenas contra argelinos mas também contra cidadãos e cidadãs franceses. No mesmo ensaio, que serviu de prefácio ao libelo “La question”, de Henri Alleg, citado no livro Tortura, do historiador norte-americano Edward Peters, Sartre exteriorizou o seu horror: Em 1943, na rua Lauriston, o quartel-general da Gestapo em Paris, os franceses gritavam de agonia e dor e toda a França podia ouvi-los. Naqueles dias as conseqüências da guerra eram incertas e não queríamos pensar no futuro. Apenas uma coisa parecia impossível em quaisquer circunstâncias: que algum dia homens agindo em nosso nome fizessem outros gritar daquela forma.

Museus do terror
Na América Latina, o violento legado dos anos de terror com seu séqüito de tortura, assassinatos, execuções e desaparecimentos permanece à sombra e ainda não foi inteiramente revolvido. Com o fim das ditaduras militares no Brasil, Uruguai, Chile e na Argentina, dramas pessoais foram expostos, mas a ação criminosa e terrorista dos Estados continua encoberta. São segredos militares que permanecem fechados. Há indícios de que os ventos começam a mudar na Argentina. O presidente Néstor Kirchner anunciou que o prédio da temida Escola de Mecânica da Marinha (Esma), principal centro de tortura durante a ditadura, será transformado em museu para preservar a memória das pessoas presas políticas mortas e desaparecidas. Exemplo que o governo brasileiro poderia seguir, transformando em museu e abrindo ao público as instalações do DOI-Codi no Rio de Janeiro,

no 1 o Batalhão de Polícia do Exército, rua Barão de Mesquita, na Tijuca, com os fantasmas que habitam seus porões. Não tivemos um movimento de massa de repúdio à praga da tortura porque não se deu à opinião pública informações sobre a profundidade da infecção. A covardia e os interesses de uma parte da sociedade, que transitou da ditadura para a democracia mantendo postos no poder e nas Forças Armadas, e uma imprensa que não se empenhou em recuperar esse passado maldito contribuíram para que o povo brasileiro, e demais povos latino-americanos, não tivessem essa informação, como a população francesa pôde ter no caso da Argélia. Aqui não se criam recordações, é uma terra sem coisas passadas. As bandeiras de denúncia, os cartazes com as pessoas mortas e desaparecidas e o grito “tortura nunca mais!” continuaram como se ainda ditadura fosse, nas mãos de grupos politizados, entidades de

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A R T I G O

* Álvaro Caldas
Jornalista, professor e escritor. Autor de Tirando o capuz (Codecri, 1980), que será relançado no primeiro semestre de 2004 pela editora Garamond

Todos os “aparelhos” eram devidamente equipados com os prosaicos e terríveis instrumentos necessários a seu infame e árduo trabalho. Poucas pessoas no Brasil conhecem de fato essa história. Quando são informados, os jovens abrem a boca horrorizados

anistia, mães, avós e familiares, ou seja, em seus pequenos guetos, como se ainda vigorasse o regime de opressão e essas fossem bandeiras da esquerda, de alguns revanchistas, e não uma questão de interesse de toda a sociedade. Já diziam os gregos que, diante de tragédias e crueldades incomuns, as pessoas, para ganhar coragem, sempre costumam repetir que “já viram coisas piores”, quando deveriam dizer que “o pior está por vir”. Entre nós, a imagem da tortura praticamente ficou reduzida a um interrogatório de delegacia policial, durante o qual são aplicadas rotineiramente umas porradinhas, uma extravagância do Dops praticada por delegados. O mais famoso deles, Sérgio Fleury, um facínora cínico, morreu prematuramente, ainda durante a ditadura, num estranho acidente em seu barco, para satisfação dos responsáveis maiores, os militares, que haviam criado o monstro.

Tudo se passou muito perto

Vista sob essa ótica deformada pelos tempos de censura, a tortura virou sinônimo de “maus tratos”, um detalhe menor da “guerra suja”, expressão que iguala todas as pessoas na mesma vala, torturadores e combatentes, afinal anistiadas juntas. Porém, a ditadura brasileira e suas congêneres institucionalizaram, de fato, a tortura e a utilizaram como uma poderosa arma a serviço do Estado para difundir o terror, o medo, obter informações e eliminar seus adversários políticos. E o fez com grande eficiência, numa ação integrada denominada Operação Condor. Os oficiais militares recrutados para compor suas equipes receberam tratamento de elite, salári-

os e soldos extras, benefícios familiares, além de clandestinidade, impunidade, proteção e verbas secretas. Também foram treinados em cursos e escolas especializadas, uma delas mantida pela CIA no canal de Panamá. A ainda recente experiência francesa na guerra da Argélia foi muito bem-vinda. O regime destinou a esses seletos grupos de foras-dalei espaços invioláveis dentro de seus quartéis e em delegacias, com direito a casas e sítios clandestinos, como a famosa “Casa do terror”, em Teresópolis. Todos os “aparelhos” eram devidamente equipados com os prosaicos e terríveis instrumentos necessários a seu infame e árduo trabalho. Poucas pessoas no Brasil conhecem de fato essa história. Quando são informados, os jovens abrem a boca horrorizados. Na Casa do terror, os carrascos não teriam testemunhas. Somente os deuses e algumas pessoas desmemoriadas sobreviventes daquelas oficinas de tortura. Mas tudo se passou muito perto, do nosso lado. Como na rua Lauriston, em Paris, onde franceses gritaram de agonia e de dor, muitos brasileiros gritaram de dor e agonia no 1o Batalhão da PE, rua Barão de Mesquita, centro de operações do DOI-Codi no Rio, e também nos porões de uma tranqüila delegacia policial na rua Tutóia, bairro do Paraíso, em São Paulo, sede da temível Oban (Operação Bandeirantes), ou em tantos outros lugares no país onde essa praga confortavelmente se instalou. E com ela o sádico, cruel, covarde e rotineiro exercício da macabra exploração do corpo nu da pessoa torturada pelo torturador, à procura dos pontos sensíveis de dor e de sua rendição física e moral. Naquela assombrada casa de pessoas mortas onde reina o terror e o tempo não passa, o torturador busca infatigavelmente extrair – esse é o verbo – aquela informação que a pessoa torturada resiste em lhe dar, numa penosa negociação cujo preço é a dor. Uma brutal negociação que se desenrola em meio a gritos, choques, porradas, execuções simuladas, queimaduras, afogamentos, estupros, fobias, humilhação, desespero, suor, dejetos e sangue. Agonia e morte de muitas pessoas, seus cadáveres. Esse é o passado que precisamos passar a limpo. Para livrar a sociedade dessa praga, é indispensável remover os escombros deixados pela ditadura. Quarenta anos decorridos desde o golpe militar de 1964, o abominável legado ainda paira sobre nós.

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DEMOCRACIA VIVA Nº 20

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Apoio

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NACIONAL
Sonia Fleury*

NACIO
Governo

Lula:

O presidente Lula foi eleito por uma ampla coalizão, que somou aos votos tradicionais da esquerda os de outros setores descontentes com o modelo político liberal. Neste último grupo, incluem-se empresariado, industriais e a classe média. Sob o lema “A esperança venceu o medo”, o novo governo tomou posse prometendo mudanças com segurança, demonstrando o amadurecimento político do líder sindical que organizou a resistência da classe operária aos governos militares e fundou o Partido dos Trabalhadores (PT). Internacionalmente, a vitória de um governo de esquerda no Brasil representou a possibilidade de construção de uma alternativa à globalização subordinada aos interesses da especulação financeira. A vitória de Lula só pode ser explicada como resultado da política liberal implantada pelo governo anterior, que provocou um desmonte simultâneo nos canais de representação da burguesia e da classe trabalhadora. É nos marcos da crise de hegemonia do modelo liberal vigente na década de 1990 que se constrói um projeto alternativo de poder. A eleição de

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continuísmo no no segundo?
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primeiro ano. Mudanças
Lula representaria, portanto, a possibilidade de unir os interesses do capital produtivo e do sindicalismo em torno de um projeto de desenvolvimento nacional, alterando a atual correlação de forças e, assim, reduzindo a margem de manobra do capital financeiro e sua voracidade devastadora da economia nacional. O novo governo recebeu uma herança econômica amarga de seus antecessores, com a economia crescendo cerca de 1% ao ano, incapaz, portanto, de criar empregos para uma nova geração de trabalhadores e trabalhadoras. O crescimento do desemprego e da informalidade no mercado de trabalho, a vulnerabilidade da economia, o crescimento exponencial da dívida como porcentagem do Produto Interno Bruto (PIB), o desmonte do aparato estatal desenvolvimentista por meio de privatizações dos ativos públicos e a incapacidade de desenvolver mecanismos de regulação foram legados da política liberal. O investimento social realizado, capaz de melhorar os indicadores sociais, não reduziu a concentração da renda, fato que tem gerando uma explosão sem precedentes da violência urbana.

Economia vulnerável
Neste contexto, e para gerar condições de governabilidade, armou-se uma ampla coalizão liderada por dirigentes do PT, mas com uma composição diversificada, que se refletiu na contraditória composição do Ministério de Lula. Nesse sentido, é lapidar a afirmação de frei Beto, assessor do presidente, ao afirmar que o PT havia chegado ao governo, mas não ao poder. Mesmo assim, a especulação financeira se fez sentir imediatamente após a eleição, gerando uma sensação de perda de controle da estabilização econômica gerada a altos custos no governo anterior, mas mantendo a economia completamente vulnerável. Apesar de Lula ter se apresentado como candidato responsável, que respeitaria os contratos firmados e manteria a estabilidade financeira, a especulação

* Texto apresentado na jornada “Um ano de governo Lula: oportunidades e desafios”, promovido pela Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape) – Fundação Getúlio Vargas, Universitat Pompeu Fabra e Fundación Cidob, em Barcelona, Espanha, em 1 o de dezembro de 2003.

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N A C I O N A L

Foi marcado um tento pelo governo ao convocar governadores para negociar as reformas. No entanto, a recessão econômica aumentou a tensão política

financeira que se seguiu à sua vitória fez com que o dólar disparasse e a estimativa internacional do risco de investir no Brasil subisse vertiginosamente. A opção por uma política econômica ortodoxa, dando continuidade àquela assumida pelo governo anterior em consonância com as metas acordadas com o Fundo Monetário Internacional (FMI), foi adotada com vistas a estabilizar a economia e restaurar a credibilidade ameaçada no mercado financeiro internacional. Sem recursos para investir em políticas públicas, o governo se dedicou a cortar gastos e aumentar as exportações, aumentando o superávit primário, em um esforço gigantesco para gerar divisas e pagar juros da dívida pública. As conseqüências foram devastadoras: o desemprego atingiu níveis assustadores, a economia entrou em recessão, a indústria ficou estagnada, empresariado e classe trabalhadora já não suportavam a absurda taxa de juros e a demanda diminuiu no mercado interno. Nesse contexto, o governo encaminhou ao Congresso as propostas de reforma previdenciária e tributária, ambas voltadas para promoção do ajuste fiscal e aumento da credibilidade internacional do governo. O processo de negociação dessas reformas evidenciou algumas das principais qualidades e deficiências do governo. Por um lado, o governo Lula inovou ao instituir diferentes instâncias de negociação das reformas, seja com a sociedade civil, no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, seja com os governos estaduais. Dessa forma, deu maior densidade ao processo democrático, reduzindo as pressões de congressistas por barganhas de cargos e verbas públicas para aprovar as reformas. Por outro lado, prisioneiro da armadilha da política econômica e do mercado financeiro internacional, reduziu a reforma da seguridade social a um ajuste fiscal, diminuindo os gastos estatais com o

funcionalismo público. Dessa forma, deixou de formular uma proposta para as carreiras do Estado e perdeu a oportunidade de criar mecanismos de inclusão no sistema de proteção social de 60% da força de trabalho que se encontra no mercado informal de trabalho. Conseqüentemente, promoveu a ruptura com aliados históricos, como sindicatos e funcionalismo público, e gerou fissuras na sua base parlamentar de apoio, passando a depender dos votos da oposição para aprovação das reformas.

Ano de tensões
O primeiro ano do governo Lula caracterizouse por continuísmo na política econômica ortodoxa, inovações no estilo e instituições políticas, impasses em virtude das contradições internas ao governo e uma ousada política externa. As primeiras tensões se fizeram sentir no interior do próprio PT, caracterizado tanto pela disciplina partidária como por seus compromissos ideológicos e programáticos, ao ter de apoiar medidas de reforma encaminhadas pelo presidente ao Congresso, em franca contradição com todo o ideário político daquele partido. As opções de solidarizarse com o governo, crescer como partido e descaracterizar-se ideologicamente ou desidentificar-se com o programa governamental e isolar-se são tensões permanentes desse dilema. Dadas as características do presidencialismo de coalizão vigente no sistema multipartidário do Brasil, associado a baixo compromisso programático dos partidos, porém com fortes controles das bancadas pelas lideranças no Congresso, a aprovação das propostas do governo depende da negociação com as lideranças parlamentares. Para tanto, é crucial a posição articuladora desempenhada por líderes do PT no Congresso, fortemente identificados com as propostas governamentais, mas em franca contradição com as bases do partido e com os movimentos sociais que tradicionalmente o apoiaram. O governo também procurou construir sua maioria por meio da negociação com governos estaduais, reconhecendo a importância política que tradicionalmente tiveram no controle das bancadas estaduais no Congresso. Foi marcado um tento pelo governo ao convocar governadores para negociar as reformas. No entanto, a recessão econômica aumentou a tensão política, com os governos estaduais reivindicando compensações

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GOVERNO LULA: CONTINUÍSMO NO PRIMEIRO ANO. MUDANÇAS NO SEGUNDO?

financeiras por meio da reforma tributária, de tal forma que essa negociação terminou sendo inócua e os conteúdos centrais da reforma foram postergados. A perspectiva de gerar uma nova institucionalidade, capaz de permitir espaços públicos de negociação e concertação, marcou como inovadora a gestão Lula no seu primeiro ano de governo. A construção de um novo contrato social, capaz de impulsionar um projeto de crescimento nacional com inclusão social requer a formação de um novo bloco dirigente para o país, segundo palavras do ministro Tarso Genro. Para tanto, o governo Lula adotou uma estratégia de concertação social, inovando nos mecanismos institucionais de negociação e argumentação entre sociedade civil e governo, que, no entanto, se encontram limitados pela política de contenção do gasto público estatal. Cada vez mais, as lideranças comprometidas com um projeto nacional estão convencidas de que os instrumentos de reativação da economia, capazes de induzir o crescimento, deveriam ser o gasto e o crédito públicos, combinados com a redução substancial da taxa de juros e a estabilização da taxa cambial. Os eixos para os quais deveriam ser orientadas essas medidas seriam os da ampliação do superávit comercial e os investimentos públicos na infra-estrutura econômica e social. O próprio governo, em seu plano plurianual, assume essa mesma perspectiva, em franco desacordo com a política posta em prática pelo Banco Central e pela Fazenda, cujos cortes orçamentários têm como esteio o acordo com o FMI. Contradições também se acentuam na área relacionada à produção agrícola e ao meio ambiente, com relação à liberação ou não da soja transgênica para plantação e comercialização. Em um lado, encontra-se o Ministério da Agricultura, cujo titular representa os interesses do setor agroexportador, atual responsável pelo superávit na balança comercial, e, no outro lado, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, figura histórica das lutas dos movimentos sociais nessa área. Todas essas tensões implicaram um congelamento da gestão pública, mesmo em áreas prioritárias para o governo, por serem emblemáticas, como o programa Fome Zero. Também nesse campo social o governo atual segue a perspectiva de refilantropização da política social, à margem da institucionalidade das políticas universalistas criadas com

a Constituição Federal de 1988. Em muitos momentos, evidencia-se uma perspectiva que identifica desenvolvimento com crescimento e cidadania com consumo, retroagindo em relação ao padrão constitucional que reconhece os direitos de cidadania e inova na criação de mecanismos de co-gestão das políticas sociais.

Morte súbita
Se o primeiro ano foi caracterizado pela continuidade nas políticas econômicas e sociais, caberia perguntar quais as chances de que uma ruptura seja introduzida a partir do segundo ano de governo. Se a estratégia de dar continuidade foi justificada como a única forma de evitar a morte súbita do governo, a incapacidade de implementar as mudanças para as quais a população lhe atribuiu um mandato seria razão suficiente para caracterizar a morte lenta do governo. À medida que as expectativas populares não se realizaram, houve aumento da pressão dos movimentos sociais, especialmente dos setores vinculados a trabalhadores e trabalhadoras sem terra e, na área urbana, a sem teto. O recrudescimento dos conflitos com morte no campo, das invasões das terras indígenas, da violência urbana e do desrespeito aos direitos humanos cobra medidas imediatas para buscar reduzir a secular e estrutural iniqüidade na distribuição tanto da renda como dos bens públicos no Brasil. Impossibilitado de atuar de forma efetiva na redistribuição da renda, em função das restrições econômicas das quais não consegue se libertar, o governo tem buscado marcar sua gestão por meio de medidas de combate à corrupção, construção de uma política e um sistema nacional de segurança pública e uma política externa autônoma.

A perspectiva de gerar uma nova institucionalidade, capaz de permitir espaços públicos de negociação e concertação, marcou como inovadora a gestão Lula no seu primeiro ano de governo

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* Sonia Fleury
Professora da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), onde coordena o Programa de Estudos da Esfera Pública, e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. sfleury@fgv.br

Na política externa, o Brasil enfrentouse com a questão da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), cuja agenda inicial favorecia os interesses dos Estados Unidos em detrimento dos demais países. Com habilidade, a diplomacia brasileira negocia acordos com países membros do Mercosul em uma estratégia que reduz a hegemonia norte-americana na Alca, ao transferir temas polêmicos para negociações conjuntas ou multilaterais. No entanto, a capacidade de dar continuidade a essa política externa autônoma dependerá, sem dúvida, da legitimidade do governo no exercício interno do poder.

Possíveis cenários
O ano de 2004 será um ano importante por várias razões: em primeiro lugar, porque já não se poderá tributar a política atual à herança recebida do governo anterior; em segundo, porque será ano de eleições municipais; e, em terceiro, porque existe uma forte mobilização da sociedade civil, tanto fruto dos mecanismos de participação já existentes como daqueles introduzidos por este governo. O primeiro cenário possível é aquele desenhado pelo governo, no qual o país sairia da recessão e iniciaria um ciclo virtuoso de crescimento econômico, com investimentos partilhados por Estado e iniciativa privada. Esse cenário de crescimento econômico é divisado por alguns em relação aos indicadores de reaquecimento da produção industrial nos dois últimos meses, tanto do setor exportador como daquele responsável pela produção de bens para o consumo do mercado interno. A suposição de manutenção de uma política macroeconômica ortodoxa, com alguma pequena flexibilidade dada pelas condições de negociação do acordo com o FMI seria compensada por uma política mesoeconômica heterodoxa, com mecanismos que já estão sendo implementados de expansão do crédito popular. O ano seguinte seria ainda de política de contenção e de arrumação da casa, com o aprofundamento da revisão do papel das agências reguladoras e fortalecimentos dos instrumentos de planejamento e investimento público. A viabilidade de ser esse um cenário mais ou menos positivo e provável dependerá da capacidade, a ser demonstrada, de reação do setor produtivo, especialmente daquele que absorve mais mão-de-obra. Por outro

lado, sem uma redução dos juros e sem aumento do investimento público em expansão da infra-estrutura econômica e social, será difícil viabilizar uma retomada consistente do crescimento. Um cenário oposto, pessimista, vê na continuidade da política econômica ortodoxa a manutenção das condições de asfixia da capacidade produtiva nacional, com aumento do desemprego e do desespero. Dada a enorme solidariedade das lideranças sindicais e partidárias com o presidente Lula, poderia ocorrer um aprofundamento do distanciamento entre bases e lideranças, que já se fez sentir por ocasião da reforma previdenciária. Nesse caso, os canais democráticos de canalização de interesses e agregação de preferências se encontrariam com o sentido invertido, de cima para baixo, deslegitimando não só o governo como também as instituições da democracia. O “estouro da boiada” ocorreria quando as massas passassem a atuar por conta própria, à revelia das lideranças, gerando uma situação de ingovernabilidade. Um terceiro cenário identifica a manutenção da política econômica ortodoxa como um limite para que o governo possa atender às expectativas que o elegeram. Nesse cenário, os setores organizados da sociedade, empresariado, sindicalistas, movimentos sociais, partidos políticos e a própria burocracia passariam a cobrar, cada vez mais, os compromissos assumidos em campanha. O que diferencia esse cenário do anterior não é a identificação da manutenção da atual política econômica como restritiva, mas a convicção de que as instituições democráticas não serão afetadas. Ao contrário, o revigoramento das demandas sociais passaria pelos canais institucionais, fortalecendo-os. Considerando que este é um governo que sabe responder às demandas e pressões políticas, espera-se que possa redirecionar sua política econômica em consonância com as expectativas sociais. Todos esses cenários serão fortemente afetados pela conjuntura econômica internacional, pelo prestígio do governo no exterior e pelas condições de governabilidade na América Latina. Internamente, uma combinação do primeiro cenário com o terceiro seria mais provável que a ocorrência do segundo. Do desempenho da economia e da reação da sociedade organizada dependerá o grau das mudanças no segundo ano do governo Lula.

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V A R I E
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Flávia Mattar Colaboraram: Elaine Ramos e Jamile Chequer

Chope com cidadania
A ONG gaúcha Nuances – grupo pela livre orientação sexual – iniciou em Porto Alegre a distribuição de mensagens conscientizadoras em bolachas personalizadas de chope. Desenhos e cores chamativas foram utilizados como linguagem visual. Mais de 30 mil já estão decorando as mesas de bares, boates, saunas, videolocadoras, livrarias etc. Foram criados quatro modelos bem-humorados de bolachas. Duas mulheres, segurando suas escovas de dentes, trazem a mensagem “Quem casa quer casa! – Os direitos civis são de todas e todos”. Um homem, com uma garrafa em uma das mãos e uma camisinha na outra, observado por olhares ‘gulosos’ de outros homens, passa o seguinte recado: “O de bêbado não tem dono, mas tem camisinha! – Sexo seguro é prazer sem medo”. Em uma referência às dificuldades enfrentadas por homossexuais para a adoção de crianças, foi feita a brincadeira “Troque seu cachorro por uma criança pobre! – Adoção é um direito cidadão”. E, para chamar a atenção contra o preconceito que ronda as relações inter-raciais, existe a mensagem “Melancia com leite vai bem, também! – Diversidade é democracia. Bom proveito!”.

Trovador do samba
Angenor de Oliveira (1908–1980) – que ficou conhecido como Cartola por ter o hábito, quando pedreiro, de usar um chapéu-coco para que o cimento não grudasse em seus cabelos –, ao longo de 72 anos de vida, compôs cerca de 500 canções, sozinho ou em parceria. A grandeza de seus versos e melodias é tamanha que até hoje suas músicas são regravadas por diversos(as) intérpretes. Além do legado de suas composições, o mestre ainda nos deixou a escola de samba Estação Primeira de Mangueira, à qual não só deu o nome como também determinou suas cores. Para quem dizia que o verde e rosa não combinavam, retrucava: “Ora, o verde representa a esperança, o rosa representa o amor. Como o amor pode não combinar com a esperança?”. Mesmo tendo declarado à revista Manchete (3/12/1977) que “quem gosta de homenagem póstuma é estátua”, é impossível não continuar a reverenciar a sua arte, patrimônio cultural brasileiro. O Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro apresentará, até 28 de março, o espetáculo teatral Obrigado, Cartola (direção de Vicente Maiolino e texto de Sandra Louzada). O musical ganhou de presente samba inédito de Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho. Vale a pena conferir.

Bota pra quebrar
Mulheres quebradeiras de coco babaçu da região do Médio Mearim, no Maranhão, acionaram o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para denunciar os problemas que a produção de carvão com a queima de cocos inteiros poderiam acarretar. Segundo a Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão (Assema), a empresa Cosima, que nega as acusações, já teria instalado 40 fornos no município de Lago da Pedra. Em termos ambientais, as mulheres chamaram a atenção para as derrubadas e o envenenamento das palmeiras de coco babaçu e para o fato de não existir legislação que proteja esse bem natural. Em reunião com o Ibama, ficou acordado que deputados federais e estaduais seriam procurados pelas quebradeiras para tentar acabar com essa lacuna legal. Também estaria em jogo o sustento de muitas chefes de família, que extraem subprodutos do coco babaçu para aumentar sua fonte de renda. Produzem farinha do mesocarpo – que serve como complemento alimentar –, óleo para cosméticos e azeite comestível, além de carvão, utilizando apenas a casca do coco. “A empresa tira a possibilidade de as mulheres aumentarem a sua renda queimando os cocos inteiros, para a produção de carvão em escala industrial”, denuncia Maria de Jesus Brinjelo, coordenadora adjunta da Assema.

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D A D E S
D A D E S
Arte kusiwa reconhecida
As expressões orais e o grafismo dos(as) Waiãpi, que habitam terras no Amapá, na divisa com a Guiana Francesa, foram declarados patrimônio oral e imaterial da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). A indicação partiu do Museu do Índio/ Fundação Nacional do Índio (Funai) e foi apoiada pelo Ministério da Cultura. Registrada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), desde dezembro de 2002, como Patrimônio Cultural Brasileiro, a arte kusiwa revela padrões gráficos, com infinitas combinações, que são utilizados em pinturas corporais, trançados e decoração de artefatos. Os traços, representando animais e objetos do uso cotidiano, são feitos com tintas em cuja composição estão sementes de urucum, gordura de macaco, suco de jenipapo verde e resinas perfumadas. O status de patrimônio imaterial da humanidade poderá proteger os grafismos e saberes orais dos(as) Waiãpi do uso abusivo da sociedade não-indígena para fins comerciais e publicitários. Além disso, poderá elevar a auto-estima desse povo e o desejo dos(as) mais jovens de continuar fortalecendo sua tradição e expressão cultural.

Conferência contra a fome
A II Conferência de Segurança Alimentar e Nutricional, que acontece de 17 a 20 de março, em Olinda, Pernambuco, cumprirá o importante papel de propor diretrizes para um plano nacional sobre o tema. O evento acontecerá em um momento de decisões no país, como a discussão sobre o Plano Nacional de Reforma Agrária, novo Plano de Safra e as negociações internacionais do acordo agrícola. Esses elementos terão boa influência nas discussões de cerca de 800 delegados e delegadas e de 200 integrantes do governo e do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). “Espero que as diretrizes estabelecidas na conferência tenham um bom impacto nas definições do país”, anima-se Francisco Menezes, diretor do Ibase e integrante do Consea. A conferência terá 17 grupos temáticos para o aprofundamento de um amplo leque de temas. Dentre os mais controversos, Renato Maluf, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e integrante do Consea, destaca os transgênicos. “Certamente é um ponto de debate e polêmica. O Consea tem uma posição de favorecer o debate e desejamos que a conferência também seja assim”, diz.

Academia sertaneja
Será inaugurada em agosto a Universidade Federal do Vale São Francisco (UFVSF), com sede em Juazeiro (BA) e Petrolina (PE). A nova universidade incentivará projetos que visem à solução de problemas socioeconômicos que afetam a população pobre da região do semi-árido. O professor José Weber Freire Macedo, reitor da Universidade Federal do Espírito Santo e gestor da implantação da nova federal, declarou que a idéia é destinar 50% das vagas para candidatos(as) oriundos(as) de escolas públicas. Mas alerta que a decisão final ficará a cargo do Conselho Federal de Educação. O concurso público para o preenchimento do corpo docente será entre abril e junho. “Já na seleção, o candidato a professor da UFVSF deverá apresentar um projeto social a ser desenvolvido com os alunos na comunidade”, explica Macedo.

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Réquiem sem lágrimas
Tenho em mãos o documento oficial de uma página. No alto, em letras grandes em negrito, lê-se “República Federativa do Brasil” encimando as Armas da República. Abaixo, em letras menores, “Estado do Rio de Janeiro”. Em tipos manuscritos, lê-se “Mauro S. Dias”, encimando quatro linhas de letras miúdas: “Registrador e Notário da Décima Quarta Circunscrição do Registro Civil das Pessoas Naturais e Tabelionato. Freguesia de Madureira – Sétima Zona. Matriz: Rua Dagmar da Fonseca, 118 – Madureira. Filial: Rua Doze de Fevereiro, 427 – Loja A – Bangu”. Após triplo espaço, lê-se, em negrito: “Certidão de Óbito”. Em seguida, o texto: Certifico que à fl. 227 do livro n o: C-0182 do registro de óbitos, sob o número de ordem 85607, foi lavrado o óbito de um corpo falecido aos 30 dias do mês de julho do ano de 2003, em hora ignorada, no(a) rua Virgílio Filho s/no, Costa Barros, do sexo masculino, filho de pais desconhecidos, com a idade ignorada, profissão ignorada, Estado Civil ignorado, residência ignorada, natural de região ignorada. Ignora-se a existência de filhos, ignora-se a existência de bens, ig-

nora-se a existência de testamento, ignora-se se era eleitor. Causa mortis: indeterminada em razão de intensa carbonização. Médico atestante: Dr(a). Nilo Jorge R. Gonçalves; Local do sepultamento: Cemitério de Irajá. Declarante: Fabiano Silva dos Santos. Observações: Registro feito a 01 dia do mês de agosto do ano de 2003. Guia: 189 – 39ª DP. Eu, [assinatura ilegível], declaro que o referido é verdade e dou fé. Ao acabar de ler isso, caro amigo ou cara amiga, fiquei como você: pasmo, incrédulo, chocado. De alma aturdida e espírito desarrumado. O que pensar primeiro? Nem sei. Para começar, o primeiro impulso de brasileiro: suspeitar da autenticidade do documento. Porém, está na minha mão, e recebi de fonte limpa – jornalista que busca alguém com quem compartilhar sua perplexidade. É um documento autêntico e legal. Tem as Armas da República e está assinado pelo responsável que, diz aqui, dá fé – tem, pois, fé pública. Mas, pensando bem, dá fé exatamente de quê? De que nada sabia da criatura que se foi? Da própria ignorância? Imagino que um atestado de óbito deveria informar quem morreu, de que morreu, como é o corpo do morto, seus parentes, endereço etc. Para que servirá um documento que informa que ignora tudo do morto e das circunstâncias da morte? De tudo, restam apenas três informações: homem, morreu, queimado.

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O que pretendia a autoridade ao exarar – como se diz no jargão dela – um tal documento? Tripudiar? O único documento que restou do morto registra a sua morte e nada da sua vida. Talvez seja rotineira a macabra ironia. Para a burocracia oficial, que costuma exigir que o cidadão vivo prove que existe, deve ser natural que um morto não tenha provas de que existiu. Há, porém, um insofismável corpo. Ele grita no seu silêncio. Para mim, para você, caro leitor ou cara leitora, e para o mundo, alguém morreu e não sabemos quem. Como pode isso acontecer na era da Internet, em plena sociedade de informação? Acredite: agora que o sei, em absoluta indigência e total anonimato, surge imensa vontade de tê-lo conhecido. Ninguém registrou queixa do desaparecimento nem foi reclamar o corpo ou identificá-lo. Não é nada, não é nada, era um cidadão. Seria branco? Negro? Índio? Japonês? Seria um brasileiro? Estrangeiro, incógnito no Brasil? Um espião? Será que morreu queimado – viveu o inferno na Terra – para não restar despojos? Esteve entre nós deliberadamente incógnito? Ninguém verteu uma lágrima em sua memória. Não se ouviu um “Descansou, coitado”, ou “É uma grande perda”, ou ainda “Que Deus o tenha”. Quem seriam seus pais, seus irmãos? Não teria uma família? Foi sem deixar filhos, netos, nenhuma descendência? Não é nada, não é nada, era um indivíduo.

Passou por aqui sem deixar rastros nem pegadas, partiu sem deixar vestígio. Passou, e o mundo não deu pela sua presença. Ninguém sentiu a sua falta? Será que não tinha sequer parentes distantes? Não é nada, não é nada, era um homem. Esteve entre nós e partiu sem que tivéssemos a chance de ouvi-lo, abraçá-lo, quem sabe convidá-lo a sentar-se à mesa, como se faz com um irmão. Será que ninguém o amou? Ninguém o amava? Esposa, namorada, ninguém? Um vizinho não lhe teria acenado nunca? Um cão não lhe teria seguido os passos alguma vez, ainda que escorraçado em seguida? Não é nada, não é nada, era um ser humano. Ninguém indagou dos seus sonhos, desejos, saudades? Ninguém mirou o fundo dos seus olhos (azuis? Verdes? Negros? Castanhos?) para saber da sua alma – pelos olhos, opacos, brilhantes, radiantes, calorosos, tristes, frios, a alma fala. Será que viajou, visitou cidades, fez amigos, divertiu-se? Seria analfabeto e só viu a montanha, a árvore, a água do rio, ou foi um iniciado que entendeu a metáfora do mundo que repousa na vida letrada? Um óbito não basta atestar. Há que investigar, revelar, desvelar, conhecer, respeitar. Não é nada, não é nada, num só corpo carbonizado morreram um cidadão, um indivíduo, um homem, um ser humano. E um pouquinho de todos e todas nós.

Alcione

Araújo

alcionaraujo@uol.com.br

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ESPORTE
Fabio Sá Earp*

ESPOR
e misérias do

Grandezas

globalizado

futebol

O futebol é uma das poucas atividades em que se cumpriu integralmente a promessa da globalização – a extinção das fronteiras para o capital e para todas as mercadorias, incluindo a força de trabalho. Jogadores de futebol pertencem, juntamente com cientistas, artistas, executivos internacionais e alguns poucos outros profissionais, ao núcleo de privilegiados que consegue ganhar a vida em um mercado verdadeiramente mundial. Esse é um segmento do mercado de trabalho caracterizado pela meritocracia, em que as firmas precisam de trabalhadores e trabalhadoras capazes de criar o novo. Enquanto cientistas e executivos são

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produzidos em série pelas universidades, artistas e jogadores são artesãos dotados de habilidades inatas do tipo que “não se aprende na escola”, as quais lhes permitem oferecer espetáculos. 1 Esses trabalhadores da indústria do espetáculo são raros – portanto, são muito mais caros. Quanto ganham essas pessoas privilegiadas? A maior parte das estrelas de primeiríssima linha do futebol mundial recebe aproximadamente US$ 500 mil por mês. Esse é o caso do nosso Ronaldo, do francês Zidane, do português Figo e do espanhol Raul. O italiano Del Piero e o holandês Kluivert ganham US$ 750 mil; já o inglês Beckham é o recordista com US$ 850 mil. Jogadores em início de carreira e de pouco prestígio jamais receberão menos de US$ 3 mil. 2 É o bastante para fazer a cabeça de multidões de jovens para quem o mercado de trabalho raramente reserva mais de uma centena de verdinhas. Nossos jovens desempregados podem sonhar, mas dificilmente chegarão a esse paraíso. O mercado de trabalho para jogadores de futebol que recebem salários como esses dificilmente ultrapassará, em todo o mundo, 20 mil vagas. No Brasil, os clubes da primeira divisão empregam aproximadamente 1.500 atletas, dos quais a metade na categoria iniciante (“júnior”). Existem 353 jogadores brasileiros registrados atuando no exterior; 3 supondo a existência de outros tantos jogadores mais jovens ainda não registrados, podemos imaginar que existam aproximadamente 700 brasileiros defendendo seu lugar ao sol nos gramados estrangeiros. Muitos desses jogadores ocupam posição de grande destaque. Quando fizemos nossa pesquisa, eram nossos patriotas os artilheiros dos campeonatos espanhol (Ronaldo), alemão (Ailton), italiano (Adriano) e português (Derlei). 4 Mas tal prestígio não se restringe aos atletas que atuam no exterior; as seleções brasileiras vivem o melhor período de sua história. Somos o único país que já deteve ao mesmo tempo as copas do mundo de todas as categorias (adultos, sub-20 anos e sub17 anos). Nas três últimas copas que disputou, a seleção principal venceu duas e, na outra, ficou em segundo lugar. Há uma década, o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking da Federação Internacional de Futebol (Fifa), por ser a seleção de melhor aproveitamento em todas as partidas. Temos todas as razões para ufanismo no futebol, no qual somos indubitavelmente os melhores do mundo. Exceto uma: a população brasileira raramente assiste aos espetáculos desses artistas dos gramados. Sim, pois um quinto dos nossos jogadores – os melhores – se exibem em campeonatos a que só assistimos pela TV paga (canais ESPN). Apenas nos jogos das seleções brasileiras podemos assistir a eles ao vivo ou pela TV aberta. Isso acontece porque, enquanto nossos craques se deram excepcionalmente bem com a globalização e a Confederação Brasileira de Futebol soube adaptarse aos novos tempos, os clubes brasileiros estão completamente falidos. Chafurdam na pior crise de toda a sua história e não conseguem pagar nem à previdência social – muito menos segurar os jogadores medianamente competentes, capazes de inserção internacional. Para entender como chegamos a esse ponto, é preciso retroceder e examinar a história do futebol no Brasil.

1 Não se trata de excluir o trabalho de aprimoramento dos jogadores realizados pelos clubes, apenas deixar claro que, uma vez realizado o mesmo trabalho, o talento inato continua gerando jogadores melhores. 2 As estimativas estão no site Football Transfers Information, obtidas em 26 d e o u t u b r o d e 2 0 0 3 , em <www.footballtransfers.co.uk/ contracts/wages>. 3 Dados de Leonardo Ramalho, obtidos em 26 de outubro de 2003 em <www.planeta.terra. com.br/esporte/rsssfbrasil/ miscellaneous/brazilplayinworld. htm>. 4 Dois meses e meio depois, quando estas linhas foram redigidas, três deles mantinham a liderança da artilharia. Apenas Adriano perdeu a posição, em função da crise que atingiu seu clube por conta do escândalo que abalou a firma patrocinadora, a Parmalat.

Massas urbanas e espetáculos
O futebol acompanhou a industrialização e a urbanização da economia brasileira, que proporcionaram massas urbanas ávidas por

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E S P O R T E

O Brasil tem uma das melhores seleções de futebol desde 1930, quando ocorreu a primeira Copa do Mundo; na verdade, foi o único país a comparecer a todas as 17 copas já realizadas
5 Alguns saudosistas talvez ainda se recordem dos versos que embalavam a programação esportiva: “Quem gosta de cerveja/bate o pé/reclama/ Quero Brahma!/Quero Brahma!” ou “Barba feita/com Gillette azul/é perfeita/com Gillette monotech/alegria/faço a barba todo dia/com a Gillette azul!”. 6 O caso paradigmático foi o de Didi, então tido como o melhor jogador do mundo, que não se adaptou à dureza dos treinamentos na Espanha, pois, em suas palavras, “treino é treino, jogo é jogo”. Raros casos de adaptação foram Canário, Evaristo, Valdo, Julinho, Mazzola e Amarildo – não por coincidência, mera meia dúzia.

espetáculos que lhes permitissem transmutar frustrações e ódios sociais em rivalidades simbólicas entre grupos de identidade esportiva. As torcidas foram a identidade social pela qual pudemos deixar de ser nativos ou migrantes, pobres ou ricos, brancos ou mestiços de diversas misturas, dos bairros nobres ou suburbanos, no turbilhão cultural que foi o Brasil na segunda metade do século XX. Todos e todas nós, ao longo da vida, mudamos de moradia, de bairro, de emprego e de profissão, votamos em diferentes candidatos e partidos, acreditamos em diferentes utopias. Mas uma coisa não muda: a paixão pelo clube de futebol e a identidade com seus demais torcedores. Foram esses apaixonados que pagaram, com seus ingressos, os estádios e os salários dos jogadores. Mas foram ainda muitos mais aqueles que aprenderam a torcer a distância, pelo rádio – programação de baixíssimo custo para a indústria cultural, capaz de assegurar uma audiência predominantemente masculina, atraindo anunciantes como as grandes cervejarias e lâminas de barbear, que sustentaram a incipiente produção de jingles.5 Além dos jogos, os noticiários esportivos, os comentários, tudo aquilo que transformava um mero jogo de 90 minutos em um espetáculo permanente e quase sagrado, integrante de uma cultura esportiva capaz de dar sentido à vida e ordenar a passagem do tempo – a semana entre um jogo e outro, os anos de uma competição para a seguinte (“Lembra, foi naquele ano em que o Flamengo ganhou com um gol do Valido feito com a mão...”). O Brasil tem uma das melhores seleções de futebol do mundo desde 1930, quando ocorreu a primeira Copa do Mundo; na verdade, foi o único país a comparecer a todas as 17 copas já realizadas. Desde 1950, disputamos como real candidato ao

título e, em 14 competições, ganhamos cinco e tivemos dois vice-campeonatos – estivemos em metade das finais. Nenhuma outra seleção tem esse retrospecto, sequer parecido.

Lei do Passe
Os jogadores que despontaram para o sucesso surgiram de clubes organizados em campeonatos locais hierarquizados. Até 1966, apenas as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo tinham os pré-requisitos para o sucesso: torcidas dispostas a pagar e estádios capazes de acomodá-las. Em cada uma dessas capitais, havia quatro clubes com torcidas expressivas (chamados “grandes”), que efetivamente competiam pelos títulos, e uma dúzia de times sem torcida, que eram meros participantes (chamados “pequenos”). Os pequenos (aí incluídos os principais clubes das demais capitais brasileiras) não arrecadavam o suficiente para cobrir suas despesas e só sobreviviam graças ao último traço do trabalho servil existente no país, a Lei do Passe do jogador de futebol. Essa lei consistia no fato de que um atleta só podia atuar por um clube se não estivesse mais ligado a nenhum outro. Ou seja, depois de começar em um clube, o jogador dependia da autorização do mesmo para continuar exercendo sua profissão em um novo empregador. O clube só liberava o atleta se recebesse uma quantia em dinheiro – a “venda do passe”. Os clubes pequenos eram fábricas de jogadores a serem vendidos aos clubes grandes. À proporção que esse mercado se desenvolvia, os clubes grandes passavam a gastar cada vez mais com passes e salários de jogadores, excedendo o que arrecadavam nas bilheterias. Para equilibrar as finanças, recorriam às famosas excursões – jogos amistosos (isto é, de exibição, não de competição) realizados no exterior e pagos em preciosos dólares. Quanto mais a seleção brasileira obtinha resultados, mais os nossos clubes eram convidados a exibir os craques consagrados pela camisa amarela – Pelé, Garrincha, Didi etc. Alguns desses jogadores eram negociados e se transferiam para clubes no exterior, mas eram muito poucos, pois os brasileiros dificilmente se adaptavam à vida noutro país. 6

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GRANDEZAS E MISÉRIAS DO FUTEBOL GLOBALIZADO

Mercado futebolístico
Na época do “milagre econômico”, foi política dos governos militares descentralizar o futebol, mediante a construção (ou o incentivo à construção) de grandes estádios nas principais capitais. Com grandes bilheterias, os clubes locais conseguiam competir pelos grandes jogadores e, assim, entrar para o panteão do futebol brasileiro. Foi assim que as cidades de Belo Horizonte e Porto Alegre forneceram cada uma dois grandes clubes ao recém-criado campeonato brasileiro, e também foi desse modo que Salvador, Recife e Curitiba forneceram mais uns tantos clubes de porte médio. Estava criado um mercado nacional para o espetáculo futebolístico. Na década de 1970, não exportávamos jogadores: apenas craques em fim de carreira iam como uma espécie de embaixadores do futebol tentar popularizar o esporte em novos países (como Pelé, nos Estados Unidos, e Rivelino, na Arábia). A razão é que os clubes europeus desenvolviam políticas protecionistas, dificultando a importação para dar oportunidade ao surgimento de talentos nacionais. A xenofobia revelou-se inútil (quando o Brasil decaiu, ascendeu a Argentina, único país capaz de produzir craques em quantidade e qualidade comparáveis aos nossos) e foi sendo paulatinamente suavizada ao longo da década de 1980. Foi então que os melhores jogadores brasileiros tomaram o rumo da Europa – Zico, Sócrates, Falcão, Cerezo e Júnior. No início da década de 1990, o futebol europeu sofreu uma profunda modernização administrativa, com um aumento das receitas resultante da venda de campeonatos para a televisão (sobretudo TV paga), do licenciamento de marca e de venda antecipada de carnês de ingressos. Ao mesmo tempo, reduziam-se as barreiras à entrada de atletas, em parte como resultado da mobilidade de cidadãos da União Européia. Foi assim que, na década de 1990, criou-se o mercado globalizado do futebol, ora em expansão para a Ásia, com o Japão e a Coréia do Sul já consolidados e sendo a China a próxima fronteira. O enorme aumento do poder aquisitivo dos clubes europeus foi sentido pelos clubes brasileiros, que não puderam mais reter jogadores de seleção no país. Com o tempo, nem mais os reservas da seleção aqui

permaneciam. Mas a evasão de atletas foi muito menor do que poderia ter sido em função de duas barreiras: a Lei do Passe, que restringia o direito de trabalho, e a política de valorização cambial da primeira etapa do Plano Real. Aliás, com o real valendo um dólar, não faltaram empresas multinacionais dispostas a investir em clubes brasileiros, pensando em obter ganhos semelhantes aos do mercado europeu. Foi possível repatriar jogadores, tendo sido Romário o caso mais conhecido. É bastante provável que as experiências modernizantes tivessem acabado pelo caráter predatório da administração dos clubes, freqüentemente caso de polícia. Mas não vale a pena perder muito tempo com isso porque duas mudanças decisivas sepultaram essa fase do futebol brasileiro. A primeira foi uma mudança jurídica, a eliminação da Lei do Passe, após uma agonia prolongada; agora, o clube só pode reter os direitos sobre o atleta durante a vigência do contrato. Livres dos clubes, os jogadores colocaram seus destinos nas mãos de agentes (os famosos “empresários”), que os colocam em clubes em troca de uma comissão – algo semelhante ao que ocorre no boxe e no mundo artístico. A segunda foi uma mudança macroeconômica, a política de flutuação cambial, que nos trouxe a um patamar sustentável de um dólar por três reais. A conseqüência de ambas as mudanças é que os jogadores estão livres para emigrar e que mesmo salários baixos em dólar convertem-se em valores extremamente elevados a essa taxa de câmbio. E existe uma categoria de agentes especializados, autorizados pela própria Fifa, em colocar jogadores em contato com os novos clubes; com isso, muitos clubes estrangeiros podem comprar um craque brasileiro. Agora, não é mais

O enorme aumento do poder aquisitivo dos clubes europeus foi sentido pelos clubes brasileiros, que não puderam mais reter jogadores de seleção no país. E nem mais os reservas da seleção aqui permaneciam

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E S P O R T E

* Fabio Sá Earp
Professor do Instituto de Economia da UFRJ e organizador do livro Pão e circo: fronteiras e perspectivas da economia do entretenimento (Razão Cultural, 2002). E-mail: saearp@ie.ufrj.br

Só nas situações de desespero nos dispomos a aceitar soluções inovadoras. A situação dos clubes brasileiros já é suficientemente desesperadora para permitir o experimento

apenas o Real Madrid que tem dois jogadores brasileiros: o Milan tem três; a Roma, o Sporting Lisboa e o Lyon têm quatro cada; o Borussia Dortmund, cinco; e o Benfica, outros seis. Mas não são somente os grandes clubes que têm essa possibilidade: o Bolívar boliviano, o CSKA búlgaro e o Portimonense português também têm quatro jogadores brasileiros cada um, o Chernomoritz russo e o Chombuk Hyundai têm cinco e o recordista é o modestíssimo Nacional, de Portugal, que conta com nove jogadores brasileiros. Essa fuga de atletas prejudicou a qualidade dos espetáculos apresentados no mercado interno, e o público se retraiu, reduzindo as receitas de bilheteria. Os grandes clubes brasileiros viram-se incapazes de sequer pagar salários em dia, o que aumentou ainda mais o êxodo. Os clubes que têm sorte conseguem receber alguma coisa pela saída dos jogadores com contratos em andamento que estejam sendo pagos em dia; mas a maioria chafurda impotente na própria agonia. Ou seja, todos os clubes do país transformaram-se em “pequenos”, incapazes de se sustentar com suas receitas próprias e de manter seus principais jogadores.

Qual a saída?
Existe uma solução vazia, repetida como um mantra, que é a profissionalização do futebol brasileiro. Nada contra, mas não se espere que daí venha a solução. Se triplicarem suas receitas, os grandes clubes passarão a receber em torno de US$ 2 milhões mensais – o que não dá para sustentar um clube de segunda divisão na Europa e que não é nada diante de uma dívida como a do Flamengo, que se diz alcançar US$ 80 milhões. A verda-

7 IBOPE, “Pesquisa Personalizada/Opinião Pública/Times de Futebol”, obtido em 09/01/2004 em <www.ibope. com.br/opp/pesquisa/ o p i n i a o p u b l i c a / torcidasfutebol_jan03.htm>

de é que, com esta taxa de câmbio, não existe alternativa de mercado capaz de salvar o futebol brasileiro. Mas, felizmente, existem alternativas fora das fronteiras do mercado. Não se trata de intervenção estatal, pois ninguém de sã consciência pensaria em proibir a saída de jogadores ou em destinar recursos públicos aos clubes. A alternativa é algo que já acompanhava a humanidade desde seu nascedouro, muitíssimo antes da invenção de mercados e de Estados: a dádiva, com a qual se sustentam museus e sociedades beneficentes. A melhor forma é criar uma sociedade de amigos que capte doações e as direcione para a finalidade desejada – doações que podem ser obtidas até por telefone. No caso do futebol, as contribuições não podem ser feitas mediante doações diretas aos clubes porque os dirigentes da maior parte deles não gozam da confiança de suas torcidas. As sociedades de amigos precisam ser dirigidas por pessoas de idoneidade moral inquestionável e ter suas contas publicadas mensalmente na imprensa. Pensemos em torcedores ilustres que poderiam aceitar trabalhar de graça: no Rio de Janeiro, pessoas como o tricolor Chico Buarque, o vascaíno Sérgio Cabral, o rubronegro Zico, o botafoguense Armando Nogueira e muitos outros... E só devem liberar recursos para finalidades específicas, mês a mês, fora do controle dos dirigentes de clubes, destinando metade dos recursos para dívidas trabalhistas e previdenciárias, enquanto elas existirem. Vejamos o potencial deste sistema, que pode ser administrado por um convênio com um banco. O Flamengo tem 25 milhões de torcedores; 7 se apenas um décimo deles doar mensalmente R$ 10 (preço de uma arquibancada no último campeonato), teremos mais de US$ 8 milhões por mês, ou US$ 100 milhões por ano – o que é suficiente, por exemplo, para pagar todas as suas dívidas. Parece mágica, mas é mera canalização da paixão. Só nas situações de desespero nos dispomos a aceitar soluções inovadoras. A situação dos clubes brasileiros já é suficientemente desesperadora para permitir o experimento do novo. Ou então, caso permaneça a miséria atual de nossos clubes, que pelo menos se barateie a TV paga, para que possamos assistir ao nosso melhor futebol – nos campos europeus.

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O Jornal da Cidadania é distribuído para pessoas que têm pouco ou nenhum acesso à informação crítica e comprometida com a democracia. Nossos leitores e leitoras são, especialmente, estudantes e professoras e professores de escolas públicas de todo o país. Mas também trabalhadoras e trabalhadores urbanos e rurais, líderes comunitários(as), moradoras e moradores de comunidades pobres. São 60 mil exemplares distribuídos gratuitamente. Participe de mais esta iniciativa do Ibase. Você pode ajudar com contribuições financeiras ou organizando um núcleo de distribuição.

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INTERN
INTERNACIONAL
Carlés Riera*

Desenvolvimento urbano em

Barcelona:

conflito de vizinhança e consenso midiático
Barcelona está se convertendo, talvez já o seja, em uma referência do urbanismo mundial, tanto pela sua tradição vanguardista como por seu atual crescimento, de grande projeção midiática, e por sua arquitetura, tão valorizada entre as elites dessa disciplina. No entanto, a aposta pelo crescimento sem perder a identidade de cidade compacta, os objetivos da integração e da coesão do conjunto da cidade compatíveis com a diversidade funcional e de bairros, as respostas ao desafio da sustentabilidade e o horizonte de uma representatividade regional e global da cultura e do conhecimento superam em importância o potencial de seus projetos arquitetônicos mais singulares.

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ACIONAL
Apesar dessa fama, de grande atratividade turística, o desenvolvimento urbano de Barcelona não foi levado a cabo sem uma polêmica cidadã. A maior parte dos projetos de transformação e crescimento da cidade enfrentou críticas e freqüentes oposições e mobilizações populares, encabeçadas, principalmente, pelo movimento de vizinhança.1 Entretanto, os sucessivos governos locais conseguiram, quase sempre, criar um clima de consenso final, baseado na coesão das elites, econômicas, intelectuais e culturais, que produziram uma opinião pública de apoio ao desenvolvimentismo da cidade e ao seu papel de liderança internacional em certos aspectos e momentos, resultando em notável adesão e compromisso entre os setores populares, apoiados nas melhorias dos bairros e na identificação com uma cidade que tem condição de protagonista. Vejamos alguns dos principais processos pelos quais passaram esse desenvolvimento e sua legitimação. juntamente com sua importância política e cultural catalã, de forma determinante para o seu desenvolvimento. Com o aparecimento das administrações democráticas, administradores(as) progressistas das cidades deram seu apoio e resposta à forte pressão que a sociedade civil havia exercido para recuperar Barcelona urbanisticamente no regime político anterior. Em um primeiro momento, atuaram em pequenos locais urbanos, praças e parques e, depois, ampliaram sua intervenção para escalas maiores de reequilíbrio de áreas obsoletas ou de reequilíbrio entre regiões da cidade. Posteriormente, em outubro de 1986, Barcelona foi escolhida para organizar os Jogos Olímpicos de 1992. Mais de 6 bilhões de euros investidos no total da operação e, em determinados períodos, mais de 12 milhões de euros diários dão uma idéia da magnitude das atuações e da aceleração no processo de implementação. Esse fenômeno excepcional e outros que, ao longo da história recente de Barcelona, foram ocorrendo em intervalos de 40–50 anos (1888, 1929 e 1953) representaram saltos qualitativos e quantitativos na transformação da cidade. Atualmente, o Fórum 2004 das Culturas e a chegada do trem de alta velocidade legitimam novas atuações de transformação e crescimento da cidade em grande escala, que atraem investimento e novas oportunidades para atuações urbanísticas e arquitetônicas singulares. Novamente, reproduz-se o ciclo de oposição de vizinhança, diálogo e legitimação midiática a cargo das elites. Na requalificação de Barcelona, busca-se novamente, como já haviam feito os planejadores das expansões do século XIX, as áreas comuns entre a arquitetura e o urbanismo, trabalhando com a especificidade da cidade mediterrânea. A realidade construída da Barcelona compacta permitia e permite intervir na chamada escala intermediária. Essa escala é reivindicada como ponte entre as decisões programáticas e as estruturais. É a consideração da cidade por partes que permite soluções formais bem especificadas e de qualidade. É o chamado “urbanismo urbano”, do Laborató-

Transformação urbana
Na região metropolitana de Barcelona, diferentemente do que aconteceu na maioria das cidades européias e americanas – que viram como seus centros urbanos mudavam criando downtowns metade centro de negócios (em que os fragmentos mais qualificados destinam-se a serviços financeiros, serviços empresariais, sedes representativas das grandes instituições etc.), metade centros de marginalização onde vão parar as minorias étnicas, desempregados(as), pessoas mais velhas sem possibilidades, marginalizados(as) e alguns grupos liberais de classe média –, esse processo foi apenas parcialmente limitado, renovando e revitalizando o centro e também as periferias compactas do município barcelonês. As causas dessa tendência são diversas e devem ser entendidas no contexto histórico em que se produzem e na intenção que faz com que Barcelona se dirija para sua recuperação de maneira decidida. O peso de Barcelona em seu contexto metropolitano e regional e sua progressiva importância internacional contribuíram,

1 Na Espanha, movimento de vizinhança (movimiento vecinal) corresponde a um conjunto de organizações entre pessoas que vivem em um mesmo bairro. O objetivo é levar reivindicações, propostas e sugestões a autoridades locais. Também pode ser denominado movimento de base (movimiento de base).

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rio de Urbanismo de Barcelona (1984), que se caracteriza pela localização dos aspectos vinculados ao desenho em escala urbana. A Carta de Atenas propõe, para o caso do projeto urbano, que o impacto da intervenção a médio prazo possa ser previamente estimado. O valor do projeto de requalificação urbana será dado pela aceitação dos agentes sociais e econômicos e pelo processo de revalorização da cidade que se transforma e se atualiza em si mesma.

As construções realizadas sobre edifícios já existentes e a exploração máxima de todos os espaços disponíveis formam a chamada favelização vertical

Centro histórico

O processo de renovação do centro histórico de Barcelona é um exemplo de trabalho multidisciplinar e de participação do tecido social, que supera necessariamente a realidade urbanística do projeto urbano e que, em certas ocasiões, não em todas as necessárias, modula, transforma e acomoda diferentes pontos de vista. A Cidade Velha, como seu nome indica, é a parte mais antiga da cidade. Até o século XIX, a atual superfície da Cidade Velha representava a totalidade do território urbano de Barcelona. Com o Plano Cerdà, executado durante a segunda metade do século XIX, a cidade rompe sua terceira muralha e se estende até se unir com os povoados vizinhos. Essa brecha permite um êxodo da população que possui os meios suficientes para fazê-lo: a aristocracia e a burguesia se instalarão, assim, nos bairros em construção do Eixample. É aí que parece começar o processo de segregação urbana e de marginalização do espaço abandonado pelas camadas abastadas. No início do século XX, a construção do metrô e as obras realizadas em função da Exposição Universal de 1929 atraem uma importante onda de imigração. Numerosos(as) cidadãos(ãs) de toda a Espanha partem em direção a Barcelona e se instalam principal-

mente na Cidade Velha. Eles(as) iniciam um processo de certa especialização ocupacional nesses bairros, com a acolhida de recémchegados(as) à cidade e sua progressiva integração no seio da estrutura urbana. Durante muito tempo, os bairros da Cidade Velha sofreram um importante processo de degradação física. De sua longa história e de sua forte densidade demográfica, em certas épocas, nasceu um tecido urbano muito heterogêneo. As construções realizadas sobre edifícios já existentes e a exploração máxima de todos os espaços disponíveis – pátios internos, terraços sobre os telhados, celeiros transformados em habitações – chegam a formar a chamada favelização vertical. Além disso, proprietários(as), em virtude do constante aumento da demanda, optaram pela subdivisão dos apartamentos que possuíam, aumentando, assim, a rentabilidade de sua propriedade, sem realizar obras de manutenção e de melhoria dos edifícios. A tudo isso cabe acrescentar uma falta de investimento por parte dos poderes públicos no tocante à conservação das infra-estruturas urbanas e à manutenção dos serviços sociais. No fim da década de 1980, a administração empreendeu políticas de reformas urbanísticas (os Planos Especiais de Reforma Interna/Peri), destinadas a frear os fenômenos de degradação. Cada plano de reestruturação foi objeto de uma mobilização seguida de uma negociação das associações de bairro. Isso explica, em parte, a lentidão de sua implantação e de sua execução. Os diferentes Peris da Cidade Velha são apresentados como uma alternativa aos planos anteriores de reformas urbanas, bloqueados por causa de sua impopularidade. Em vez de proceder a uma terceirização do setor – substituindo numerosas moradias por escritórios – e em vez de mudar a textura do tecido social, os novos projetos permitiriam que os(as) habitantes e suas atividades econômicas não-marginais permanecessem na região. Esse processo, no entanto, não alcançou plenamente seus melhores objetivos, e o resultado atual inclui uma forte tendência à terceirização, uma progressiva substituição de habitantes de camadas populares por classes médias e regiões de forte marginalização ligadas a novos(as) habitantes provenientes da imigração, alguns(mas) dos(das) quais em ascensão social. Essa situação incorpora também uma estrutura fortemente intercultural, valorada por uns(umas) e questionada por outros(as).

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DESENVOLVIMENTO URBANO EM BARCELONA: CONFLITO DE VIZINHANÇA E CONSENSO MIDIÁTICO

Conflito e participação
A história urbanística da cidade está ligada a um ciclo constante de iniciativa urbanística municipal, protesto cidadão, negociação e legitimação midiática do projeto estratégico com apoio das elites. Se, em um primeiro momento, as reivindicações estavam ligadas às necessidades imediatas e fáceis de justificar, tanto diante de vizinhos(as) como das autoridades, com o passar do tempo as demandas tornaram-se mais complexas, e embora os movimentos sociais urbanos não tenham gerado “movimentos de massa” como se esperava, acabaram influindo decisivamente na construção física da cidade. Depois de fazerem frente às necessidades imperiosas (expropriações, falta de moradias), passaram a reivindicar uma certa qualidade de vida e acabaram exigindo – com maior ou menor acerto – uma qualidade na forma, um determinado desenho. Conjuntamente, as discussões geradas pela mobilização cidadã e a demanda de participação democrática na redação do planejamento urbano questionaram também a função de urbanista como projetista da nova cidade e remodelador(a) da existente. O(a) técnico(a) se viu obrigado(a) a reconsiderar seu papel e situar-se, em certo casos, como redator(a) e planejador(a) de uma proposta que não pode remediar uma pressão reivindicativa e, em outros casos, como impulsionador(a) dessa pressão. Ficou demonstrado que não se pode prescindir do(a) usuário(a) se realmente se pretende construir uma cidade para todos(as). Em Barcelona, ainda que se tenha chegado a dialogar mais facilmente com vereadores(as) e prefeitos(as) nas administrações democráticas, a resposta das associações de vizinhança à pergunta sobre se realmente havia ocorrido uma mudança importante em sua forma de participação na construção da cidade é negativa. A democracia atual foi verdadeiramente participativa até o fim ou somente se limitou a escutar as petições com uma atitude de superioridade? No momento da realização das obras, o governo local impôs seus critérios com um bom desenho, mas prescindindo das expectativas de vizinhos(as)? As associações de vizinhança, embora reconhecendo as grandes realizações e melhorias nos bairros, reafirmam as críticas, insistindo na existência de um despotismo ilustrado no urbanismo barcelonês dos últimos anos.

A recente transformação da cidade de Barcelona é de uma evidência indiscutível e com grande consenso sobre o fato de que as mudanças eram imprescindíveis e inadiáveis e sobre as melhorias alcançadas em escala global e de bairros. Entretanto, é óbvio que ainda falta muito a ser feito, tanto no plano físico (construtivo) como no social. Mas as discrepâncias aparecem em torno da questão sobre se foi feito ou não tudo o que era necessário e da maneira adequada e, sobretudo, em relação ao projeto estratégico de cidade, progressivamente elitista, dual, turística, multicultural e metropolitana.

Balanço das reivindicações

Um trabalho de campo em 49 associações de bairro permitiu o preenchimento, com mais ou menos dados, de 550 fichas de reivindicações com uma repercussão física sobre o território. Entre toda a informação sistematizada, foram analisados os tipos de reivindicações, correlacionando-as com o tempo e o local, o processo temporal entre reivindicação e realização e a correspondência entre o solicitado e o conseguido, tanto a partir do que poderíamos chamar de pequena escala de satisfação do(a) usuário(a) como a partir do parâmetro em grande escala da incidência na construção da cidade. A informação e a análise foram ordenadas em quatro âmbitos. 1. Urbanização As reivindicações para uma melhoria da urbanização básica aparecem na etapa inicial do movimento em todos os bairros periféricos, sejam polígonos ou núcleos marginais, geralmente unidos com a reivindicação de condicionamento da moradia, e constatam a ínfima qualidade das atuações construtivas da década de 1950 à de 1970. Além disso, era imprescindível para o progresso de um bairro conseguir um sistema de esgotos,

A democracia atual foi verdadeiramente participativa até o fim ou somente se limitou a escutar as petições com uma atitude de superioridade?

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luz, água ou asfalto. A exigência dessas necessidades propiciou a coesão necessária para o surgimento dos movimentos sociais urbanos. Na década de 1970, os serviços mínimos foram conseguidos ou estava formulada sua reivindicação, e as petições de urbanização eram, na verdade, de reurbanização, ou seja, existia uma estrutura básica, ruas ou praças, que necessitava uma remodelação ou um melhor aproveitamento. O planejamento de demandas de reurbanização se manteve quase constante ao longo dos anos. Algumas dessas reivindicações originaram as associações de vizinhança, e a maioria teve uma importância muito relevante para a manutenção do caráter do bairro ou para a recuperação de sua identidade. A oposição aos planos parciais fortaleceu as associações de vizinhança, que conseguiram passar da defesa dos habitantes afetados à racionalização das atuações. A partir de 1973, foram registradas as primeiras denúncias de irregularidades urbanísticas, um tipo de ação que predominou até 1978 e que, além dos resultados positivos de vigilância e controle das imobiliárias, parou ou modificou uma série de construções de grande impacto. Continuaram os de-

bates sobre o Plano Geral Metropolitano e sobre os Peris dos diferentes bairros com resultados desiguais. 2. Patrimônio O patrimônio é entendido como tal a partir de duas variáveis. Por ser de titularidade pública, será necessário zelar pela manutenção da propriedade, evitando-se a alienação ou reclamando-se o uso público dos terrenos ou edifícios. Ou, por seu valor cultural – os casos mais numerosos –, será necessário resgatar ou conservar certos edifícios privados, pelo interesse cultural ou artístico, ou, então, reclamar a manutenção ou a reposição de monumentos. As reivindicações de patrimônio foram habitualmente acompanhadas de propostas de reutilização para equipamentos urbanos e de produção dos espaços públicos e sempre tiveram um valor simbólico agregado. Tais equipamentos e espaços foram apresentados como sinais de identidade do bairro e, em alguns casos, acabaram por ser considerados mais como um valor patrimonial exclusivo do próprio bairro, acima de seu serviço ao conjunto da cidade. Apesar de tudo, esse tipo de reivindicação foi de grande utilidade para a

Balanço desigual
Embora seja verdade que o movimento de vizinhança tenha alcançado a dignificação urbana dos bairros, assim como um clima de concertação e uma tendência redistributiva e integradora no crescimento da cidade, ele não conseguiu uma participação e uma influência efetivas no desenvolvimento estratégico de Barcelona, que ficou nas mãos do consenso das elites políticas, técnicas e econômicas. Isso significa um modelo de adesão construído midiaticamente que reforça mais a aceitação difusa de uma ordem do que a verdadeira coesão. Progressivamente, a cidade se desarticula socialmente sob a aparente comunhão com o projeto de cidade terciária, cultural, metropolitana e tecnocrática. Cada vez mais coexistem diversas redes urbanas e sociais. Atualmente, Barcelona já está no limite de sua capacidade de extensão urbana no território. E é por isso que já faz tempo que está intervindo de forma muito ativa na configuração de uma conurbação metropolitana com os municípios de seu entorno e tentando salvar as barreiras físicas que fragmentam essa grande rede urbana. Reivindicações locais, ecológicas e de conceito urbano que propõem idéias mais redistributivas e sustentáveis tentam frear ou limitar tal projeto. De outra parte, projeto do Fórum 2004 e a chegada do trem de alta velocidade completam as grandes intervenções urbanísticas no solo que não estavam redefinidas. Essas atuações receberam críticas relacionadas à sua visão especulativa e elitista. O fato é que Barcelona encarece, a moradia é inacessível e as classes populares devem ir embora ou ocupar redutos de baixa qualidade habitacional. Provavelmente, só quando Barcelona encontrar seus limites – e se o movimento social urbano for capaz de renovar suas forças –, poderá ser reconsiderado o sentido de suas futuras transformações, já em escala metropolitana, a partir de uma verdadeira participação no estratégico.

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DESENVOLVIMENTO URBANO EM BARCELONA: CONFLITO DE VIZINHANÇA E CONSENSO MIDIÁTICO

reconstrução de Barcelona e, sobretudo, teve a função de catalogação e revalorização de alguns edifícios de notável interesse arquitetônico e de conservação total ou parcial da arquitetura industrial, a qual constitui um referencial histórico para o conjunto da cidade e não somente para os bairros tradicionais onde está localizada. 3. Produção do espaço público A reivindicação do espaço público tem sido predominante na história do movimento social urbano. No caso das áreas verdes e dos equipamentos urbanos, dos quais Barcelona está muito necessitada, o tema anima e oferece grandes possibilidades de estender as lutas de vizinhança, chegar a todas as imediações, à imprensa e às autoridades competentes. Se a essas circunstâncias somarmos a tão citada revisão do Plano Geral Metropolitano (PGM), será possível compreender que a maioria das reivindicações foi formulada entre 1974 e 1980. A subdivisão dessas reivindicações em dois grandes blocos, áreas verdes e equipamentos urbanos, mostra o predomínio das demandas de equipamentos e, dentro destas,

as escolas e as creches. A partir de 1970, aparecem as primeiras demandas de equipamentos esportivos, assim como as primeiras demandas de equipamentos sanitários, sociais, cívicos e culturais. 4. Serviços públicos Desde a reivindicação inicial de um mercado até a oposição a um aterro sanitário, a demanda de bombeiros e a supressão de torres de alta tensão cruzando um bairro, passando pela demanda de transporte público, tudo isso se trata de mobilizações para converter os bairros em território urbano conectado e de qualidade. Tais mobilizações tiveram uma grande repercussão na idéia de uma cidade integrada, redistributiva e policêntrica, assim como na construção de uma forte identidade de bairro.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DOMINGO I CLOTA, Miquel; BONET I CASAS, Maria Rosa. Barcelona i els moviments socials urbans. Barcelona: Editorial Mediterrània, 1998. MONNET, Nadja. La formación del espacio público: una mirada etnológica sobre el Casc Antic de Barcelona. Barcelona: Catarata, 2002. PALENZUELA, Salvador Rueda. Ecologia urbana: Barcelona i la seva regió metropolitana com a referents. Barcelona: Beta, 1995.

* Carlés Riera
Sociólogo, membro da Associação Desarrollo Comunitario

O RELATÓRIO 2003 DO OBSERVATÓRIO DA CIDADANIA TRAZ O CENÁRIO DE 15 PAÍSES, ENFOCANDO A PRIVATIZAÇÃO DOS SERVIÇOS PÚBLICOS ESSENCIAIS E OS PREJUÍZOS QUE VÊM ACARRETANDO PARA AS POPULAÇÕES MAIS POBRES. O CAPITULO BRASILEIRO ENFATIZA OS SEGUINTES TEMAS: GÊNERO E AGRICULTURA FAMILIAR, COMBATE À AIDS, RACISMO, PROTEÇÃO SOCIAL E DIREITOS, DESIGUALDADES E POLÍTICA, ECONOMIA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS. O CD-ROM QUE ACOMPANHA A PUBLICAÇÃO TRAZ ESTATÍSTICAS QUE MOSTRAM O AVANÇO E O RETROCESSO DOS PAÍSES EM RELAÇÃO ÀS METAS DA ONU E TAMBÉM AS EDIÇÕES COMPLETAS EM ESPANHOL E INGLÊS, COM AVALIAÇÃO DE 181 PAÍSES.

Pedidos de exemplares ao Ibase: (21) 2509 0660 ou www.ibase.br

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Jamile Chequer

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Encontro cidadão
Entre os dias 21 e 24 de março de 2004, Gaborone, capital da Botsuana, será a sede da 5a Conferência Mundial da Civicus – uma aliança internacional, fundada em 1993, para a representação cidadã com a participação de mais de cem países. Os eventos anteriores aconteceram na Cidade do México, Budapeste, Manila e Vancouver. O objetivo desse encontro é articular a sociedade civil, pesquisadores(as), ativistas, agências de desenvolvimento etc. e estimular a troca de informações sobre atividades de sucesso e desafios presentes em suas organizações e sociedades. Além disso, o encontro pretende descobrir maneiras de fortalecer as organizações da sociedade civil, trabalhar para a justiça social e qualificar a participação cidadã. “Agindo juntos para um mundo justo” é o tema principal. Mas HIV/Aids, juventude, grupos marginalizados, entre outros assuntos, estarão perpassando todos os eventos da conferência.

Festival de peso
O Annual Kora Music Awards está na oitava edição. Comparável ao Grammy nos Estados Unidos e ao Brits, na Grã-Bretanha, o evento – que aconteceu em dezembro em Johanesburgo, África do Sul – teve, em 2003, 29 categorias, 15 a mais que a segunda edição do Kora. E uma novidade do prêmio foi que as categorias de “Melhor artista feminino” e “Melhor artista masculino” foram votadas por telefone. Só entre os(s) quenianos(as), foram 11 os(as) indicados(as). O queniano E-Sir, que faleceu em meados do ano passado, foi representado por sua mãe. Uganda participou com três músicos que concorreram na categoria “Melhor músico do Leste da África”. Oliver Mtukudzi, do Zimbábue, ganhou dois dos prêmios mais cobiçados: “Melhor artista masculino do Sudeste da África” e “Lifetime Achievement”. Alguns artistas aproveitaram o momento para falar sobre a Aids. Foi o caso do ganhador do “Melhor artista masculino do Oeste da África”, Ghana´s Kojo Antwi. Ele lembrou que a pandemia atinge o continente de forma brutal e pediu que o uso da camisinha seja uma prática das pessoas que fazem sexo.

Liberdade, liberdade
A organização Freedom House lançou o relatório Liberdade no Mundo – 2003. Dentre os destaques na análise feita sobre o grau de democracia nos países, está a Iugoslávia pós-Milosevic, que aumentou sua atividade cívica e livre expressão da mídia. No fim de 2002, 89 países eram considerados livres, com mídia independente, abertura para oposições políticas, clima de respeito e uma significante vida cívica. Em 2003, esse número aumentou por quatro. “Isso significa que tanto o número como a proporção de países livres (46%) são os maiores da história dessa pesquisa”, aponta o documento. São 55 países parcialmente livres, quatro menos que no ano anterior. Constatou-se que 1.293 bilhão de pessoas (20,87% da população mundial) vivem em um ambiente de corrupções, restrições étnicas e religiosas e pouca força das leis. E são 48 países sem liberdade, com 2.186 bilhões de pessoas (35,28% da população mundial). O relatório também chama a atenção para o fato de que países de maioria mulçumana na Ásia, Oriente Médio e África têm apresentado progressos. “Isso contradiz algumas afirmações de que os ensinamentos islâmicos são contrários ao desenvolvimento democrático”, finaliza.

www.civicus.org

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Ainda os transgênicos
A União Européia (UE) e os Estados Unidos estão em uma acirrada batalha por causa dos transgênicos. Em dezembro, mais uma vez, a Comissão Européia anunciou que os(as) especialistas da UE não autorizaram a comercialização do milho BT-11. Agora, está com os ministros da UE a responsabilidade de manter a proibição ou não aos organismos geneticamente modificados (OGMs), que vêm sendo banidos do continente desde 1999. Na verdade, a autorização pode não ter saído por falta de quórum. A UE é formada por 15 países. Segundo o jornal Le Monde, Espanha, Irlanda, Reino Unido, Holanda, Suécia e Finlândia deram o aval para a comercialização. Alemanha, Bélgica e Itália se abstiveram e França, Áustria, Luxemburgo, Dinamarca, Portugal e Grécia votaram contra. Entre satisfeitos(as) e insatisfeitos(as) com a decisão, vieram os aplausos da ONG Amigos da Terra.

Cenário mundial
As Nações Unidas divulgaram, recentemente, relatório com projeções da população mundial para 2300. Mapearam cinco possíveis cenários mundiais. Todas as projeções apontam um declínio na natalidade depois de 2050 e um conseqüente aumento da expectativa de vida. Também nesses cenários, a imigração internacional é considerada inexistente depois de 2050. No cenário médio, em 2075 a população mundial será de 9,2 bilhões. Em 2175, esse número diminuirá para 8,3 bilhões, e, por causa do aumento da fertilidade, em 2300, a população será de 9 bilhões. Os países em desenvolvimento serão responsáveis por 7,7 bilhões de pessoas em 2300. China, Estados Unidos e Índia continuarão sendo os países mais populosos, sendo que a Índia, em 2050, terá mais habitantes que a China. O documento mostra também uma numerosa população mundial com 80 anos ou mais. Em 2300, a expectativa é de que haja mais de 1,5 bilhão de pessoas, 17% da população mundial. Hoje, essa população corresponde a apenas 1%. O relatório conclui que a sociedade futura terá de dar mais valor às contribuições das pessoas mais velhas para garantir que elas continuem ativas e engajadas.

De olho nas atrocidades
A Human Rights Watch (HRW) lançou recentemente uma publicação sobre direitos humanos e conflitos armados. São 407 páginas, divididas em 15 estudos. Um deles narra a situação da Chechênia, onde direitos humanos estariam sendo esquecidos com a desculpa da “luta contra o terror”. Outro estudo diz que forças aliadas estão “perdendo a paz” no Afeganistão e um terceiro fala sobre a Iugoslávia e mostra como ainda há insegurança, discriminação trabalhista e problemas de justiça que servem como barreiras para o retorno de refugiados(as). Como resultado, a “limpeza étnica” continua expressiva em alguns locais. O Iraque é o foco da publicação. “O governo Bush não pode justificar a guerra como uma intervenção humanitária, assim como Tony Blair”, disse o Kenneth Roth, diretor executivo do HRW. “Essas intervenções devem ser reservadas para acabar com uma iminente ou constante carnificina. Não podem ser usadas tardiamente tendo como causa atrocidades que foram ignoradas no passado”, advertiu.

www.hrw.org

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ENTRE VISTA
ENTREVISTA

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Dodô da Portela
O Rio de Janeiro não seria o mesmo sem alguns de seus ícones. Contar a história de um deles é recriar a cidade, é acrescentar um pouco mais de vida à heróica cidade de São Sebastião. Conversar com Dodô da Portela é percorrer a trajetória da escola, berço de Paulinho da Viola, Monarco, Natal e Paulo da Portela, é rejuvenescer o Rio de Janeiro. Dodô foi escolhida pela diretoria da escola de Oswaldo Cruz para ser a madrinha da bateria, substituindo a apresentadora de TV Adriane Galisteu. Significaria uma volta às raízes no carnaval carioca? O tempo dirá. Maria das Dores Rodrigues, seu verdadeiro nome, foi porta-bandeira no primeiro campeonato da Portela em 1935, função que exerceu até 1966. É muito querida na escola. Conversar com ela na quadra é tarefa quase impossível, a todo momento é interrompida por alguém que a saúda, pedindo a bênção. A memória de Dodô não se restringe à Portela. De Barra Mansa – sua cidade natal – ao Rio, conta com desenvoltura como era sua vida no interior, sua chegada ao bairro carioca da Saúde, o período Getúlio Vargas etc. E um pouco do difícil cotidiano da cidade hoje.

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E N T R E V I S TA

Há quanto tempo mora na cidade do Rio?
Dodô da Portela – Tenho 84 anos e moro na Saúde há 80 anos. Sou de Barra Mansa, vim para cá com 4 anos, com a mamãe, seis irmãos e mais três sobrinhos que a mamãe criava. Fomos direto para a Saúde, onde moramos em um quarto de um beco. Mamãe veio para o Rio porque em Barra Mansa não tinha emprego para os rapazes.

lhor o meu pai dava para ela. Mas, depois, meu pai começou nas andanças dele e minha mãe teve que virar lavadeira.

Eles se separaram?

Dodô da Portela – Não, nunca se separaram. Minha mãe, dona Otília, era de igreja. Olha a minha casa, cheia de santo... Lá na Portela quem cuida de santo sou eu. Meu pai, seu Tibúrcio, era de baile. Puxei aos dois, né?

E seu pai?

Sua mãe era religiosa, católica, e seu pai era boêmio?

Dodô da Portela – Papai nunca morou no Rio, vinha de oito em oito dias. Ele ficou em Barra Mansa. A família do meu pai era melhorada; da minha mãe, não. Ele trabalhava na estrada de ferro e também era comissário de polícia. Ele podia dar ordem de prisão; se tivesse uma briga ou qualquer coisa, ele podia prender. Achavam que a gente era rica. Por causa disso, eu e meus irmãos não ganhávamos nada no colégio, nem merenda, nem uniforme. Nossa casa em Barra Mansa, mamãe dizia, era enorme: tínhamos nossos quartos e duas salas. Quando inventaram o gramofone, meu pai comprou logo. Só rico tinha gramofone, e meu pai comprou para a minha mãe. Tudo de me-

Dodô da Portela – Isso mesmo. Para meu pai, mulher tinha que ter as cadeiras largas. Minha mãe falava que, por isso, ele corria atrás das andanças. O meu pai que abriu o primeiro clube de baile, de gafieira, lá em Barra Mansa. O nome era Pensão, defronte ao Jardim Macaco. Meu pai era um negro bonito à beça. Não faltava mulher para ele, mas faltavam as coisas pra gente; foi assim que a mamãe virou lavadeira. Não tenho nenhum retrato dele na parede porque eu era tão apegada que prefiro nem ficar olhando... A mesma coisa é com minha mãe e com meu crioulo, meu marido: tenho fotos, mas não boto na parede. Sempre fui muito ligada à família. Todo final de ano vou para Aparecida, como ia antes com minha mãe.

A senhora ainda vai a Barra Mansa?

Dodô da Portela – Sempre vou. Batizei uma escola de samba lá, tenho parentes que ainda moram na cidade. A casa onde a gente morava ainda existe. Está escrito até hoje: Vila Otília.

Voltando à época que a senhora chegou ao Rio, como era a vida?

Dodô da Portela – Para mim, estava tudo bom, eu era criança. Mas lembro que, aqui na Saúde, era bem diferente. Se chegasse uma criança perto de um malandro quando ele estava trabalhando – porque pra ele era trabalho –, ele ralhava com ela e mandava chamar o pai. Quando o pai vinha, perguntava: “Por que deixou seu filho por aí?”. Se aparecesse uma menina grávida e a mãe dela falasse que o rapaz não queria casar, a coisa complicava: era “ou casa ou morre”. A lei era assim. Agora, com o dinheiro, tudo mudou. Mudou muito. Naquela época, não tinha tanta violência. Hoje, tem tanta criança pequena envolvida...

Mas nem a polícia era violenta?

Dodô da Portela – A polícia não subia o morro; era tudo mais calmo. Agora, os policiais acham que é só no morro que tem violên-

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cia. E é aqui que eles vêm procurar. Esquecem que lá embaixo também tem violência. Fui criada aqui e via que um tomava conta do outro direitinho. Havia respeito entre nós. Tinha muita festa; era raro o sábado em que não havia um casamento! Depois, fui crescendo e comecei a entender um pouco mais do lugar onde vivia. Foi aqui no Rio que tirei meus documentos. Minha carteira tem a assinatura do Getúlio Vargas. Quando ele entrou no poder, mamãe tirou nossas carteiras para a gente poder trabalhar. Me lembro de que, quando o Getúlio veio para o poder, foi uma fofoca danada. Diziam até que ele tinha vindo a cavalo, mas eu não acredito. Foi nessa época que fui para a Portela.

minha idade para o juiz de menor; disse que eu tinha 19 anos.

O Paulo da Portela?

E como foi sua ida para a Portela?

Dodô da Portela – Eu trabalhava como empacotadora em uma fábrica de cartonagem na Visconde da Gávea, 121. Tinha uns 13 para 14 anos. Lá também trabalhava a Dora, que era a rainha da Portela na época. Antigamente, as escolas de samba tinham um concurso para escolher a rainha e também a princesa; era uma forma de angariar dinheiro com a venda dos votos. Na hora do almoço, só dava Portela! E quem não era portelense virava por causa da Dora! As moças que trabalhavam lá cantavam sambas da Portela, uma batucava na mesa, umas começavam a sapatear, outras dançavam. Eu, que já gostava, passei a adorar. E isso era todo dia: batendo aqui, cantando lá... O patrão vinha de pontinha de pé nas escadas para ver e ralhar com a gente. Quando uma escutava e sentava, todo mundo sentava. Quando ele chegava ao sobrado, não tinha mais barulho. Aí ele olhava e dava aquele sorriso. Sabia que a gente só estava sentada por causa dele. Quando ele descia, começava o batuque de novo... Eu não batucava nada, só dançava. Eu trabalhava de guarda-pó, mas, na hora do almoço, tirava o avental, colocava no cabo da vassoura e começava a rodar. A Dora começou a dizer que eu levava jeito para porta-bandeira. Mas foi só com 15 anos que eu fui à Portela. A Dora disse que a porta-bandeira estava faltando e me levou à quadra. Foi quando eu conheci o Paulo da Portela. Quando cheguei lá, o Paulo logo disse: “Ela é muito criança, não pode sair”. Não podia mesmo, mas eu fui a primeira menor a sair numa escola de samba.

Dodô da Portela – Ele mesmo. Mas, antes, ele disse ao seu Antônio, que era o mestre-sala da Portela: “Veja se essa menina dá para porta-bandeira”. Fomos para a rua ensaiar na mesma hora. Rapidinho, seu Antônio me explicou o que eu tinha que fazer a cada sinal: quando jogava o lenço para cima, quando esticava a mão, quando pedia minha mão – até hoje é tudo na base dos sinais. Quando acabamos o ensaio, seu Antônio me levou de volta ao Paulo da Portela e disse: “Essa menina vai ser uma grande porta-bandeira”. Na época, a Portela não tinha uma quadra tão grande como hoje; era a Portelinha: uma casa de família que só dava mesmo para guardar os instrumentos da bateria e os troféus. A gente nem podia sambar ali, a gente ensaiava na rua.

Onde?

Dodô da Portela – Na Estrada do Portela, em Madureira. Começava 8 horas da noite e acabava meia-noite. Em dia de ensaio, eu saía do trabalho e ia para casa me arrumar e encontrar com minha mãe. Era ela quem me levava para a Portela porque eu era menor e, naquela época, menor não andava sozinho na rua, senão a polícia levava. Mas, antes de ir para a Portela, a gente rezava o terço. Eu fazia tudo rápido e dizia para a mamãe: “Já estou com o terço na mão”. Se eu rezasse sozinha, ela sabia que eu ia pular alguma coisa. Depois da reza, a gente pegava o bonde, saltava em Madureira e andava até a Portelinha.

Os policiais acham que é só no morro que tem violência. E é aqui que eles vêm procurar. Esquecem que lá embaixo também tem violência

O fato de ser tão jovem não fez com que sua família tentasse impedir sua entrada na escola?

Mas ninguém sabia da sua idade?

Dodô da Portela – Desfilei a primeira vez em 1935. É só fazer as contas...Ele aumentou

Dodô da Portela – Até que não, mas minha mãe sempre ia junto. Mas eu tinha que rezar o terço antes! Acho que vem daí esse meu gosto pelos santos. Nisso puxei à mamãe. Mas já disse que também saí ao

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com alegorias de carabina, ajoelhadas e apontando para a comissão julgadora dizendo: “pau na justiça”! Ficamos em sexto lugar! Foi uma briga danada!

Que ano foi isso?

Dodô da Portela – Não sei, não me lembro. Mas lembro que foi por causa disso que o Paulo deixou a Portela. Na verdade, tiraram ele. Não podiam fazer uma coisa dessas com o fundador da escola! Até diziam que ele podia continuar indo à Portela, mas seus companheiros não podiam entrar. Isso levou ele à morte. Antigamente, as escolas de samba eram muito rigorosas.

E ele continuou freqüentando a Portela?

Dodô da Portela – Não, ele foi para a Lira do Amor; quando morreu, não estava na Portela. Mas, no enterro dele, eu estava lá segurando a bandeira da nossa escola.

Na época do Paulo da Portela, a escola não tinha nenhum tipo de patrono?

papai: minha canela não pode ouvir um samba. Eu sempre dizia que o culpado era o papai. Sou mesmo uma mistura do meu pai e da minha mãe. Sempre gostei de ir a bailes; minhas irmãs nunca foram desse jeito. E eu enterrei todo mundo e ainda estou aqui! Às vezes, fico pensando: “Será que tenho mesmo 84 anos?”. Eu até olho os documentos para ver se tenho mesmo essa idade toda. Todo mundo diz que não parece. Eu vejo senhoras que dizem ter 70 anos e nunca saem dos 70! Muita gente mente a idade...

Dodô da Portela – O que tinha era o Livro de Ouro, onde as pessoas assinavam suas doações. O dinheiro arrecadado era para fazer os carros alegóricos e vestir a bateria. Porta-bandeira e mestre-sala se vestiam por conta própria.

Como foi a emoção do primeiro desfile, em 1935?

Que outras lembranças a senhora tem do Paulo da Portela?

Dodô da Portela – Ele foi o primeiro sambista que viajou para fora do país. Nessas viagens, ele levava o nome da Portela. Quando ele chegava, já vinha com o samba pronto para a escola. Enquanto ele não chegava, a gente ensaiava com sambas de outros compositores. Mas o Paulo sempre chegava e concorria com o samba dele. Mas, em certo ano, ele estava em São Paulo e, quando chegou, a gente já estava na Central indo para a Praça Onze desfilar, já era carnaval! Ele ensinou o samba para as pastoras ali mesmo, só que elas não entenderam o samba direito. No refrão a gente tinha que falar “glória pra justiça”. Só que, na hora, saiu “pau na justiça”! As pastoras

Dodô da Portela – Eu, com 84 anos, sei lá como fiquei naquele dia! Acho que foi muito grande, que eu me lembre; e ninguém me tira esse prazer porque eu dei essa vitória à Portela. Nenhuma escola tinha ganho na Praça Onze, e eu, no meu primeiro desfile como porta-bandeira, dei esse título à Portela. Foi o meu ponto que fez a Portela desempatar com a Mangueira. E não tinha essa história de escolinha, era com a gente mesmo. Em dias que não tinha ensaio na escola, quando eu chegava em casa a mamãe até escondia as vassouras. Eu enrolava um pano no cabo e rodava! Haja espelho e lâmpada! Mamãe ficava tiririca... Na Portela, sempre foi tudo muito emocionante... A cada novo campeonato, os compositores me carregavam no colo. O resultado era na hora e os jurados não ficavam longe como hoje. Eles olhavam e pegavam na bandeira, botavam a mão na roupa da portabandeira e do mestre-sala, olhavam toda a nossa elegância. Nós dois não podíamos de jeito nenhum dar as costas para os jurados, a gente tinha que dançar olhando e sorrindo

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para eles. Hoje, tem mestre-sala e porta-bandeira que só rodam e nem sabem por que estão rodando... A verdadeira rodada da porta-bandeira, três para direita e três para esquerda, só quem faz sou eu e a Vilma, ninguém mais faz. A maioria só faz aquele pião, não acompanha nem a bateria. Era muito mais bonita uma dança de porta-bandeira e mestre-sala. Os mestres-salas de agora gostam de pular. Os únicos que ainda fazem da maneira antiga são o Peninha, da Estácio, e o Chiquinho, da Imperatriz Leopoldinense. No meu tempo, a gente ia e voltava; agora, é tudo correndo. Mas isso é por causa do relógio também. O próprio pessoal da harmonia manda a escola correr.

A senhora nunca ganhou dinheiro com o samba?
Dodô da Portela – Não, até agora. Tenho uma butique lá na quadra que seu Carlinhos [Carlinhos Maracanã, presidente da Portela] mandou fazer pra mim. É só. Pode perguntar a qualquer pessoa. Para mim, ter essa butique na quadra da Portela é um troféu, o troféu de que eu gosto mais.

A senhora tem aposentadoria também?

Que outras mudanças ocorreram nas escolas de samba?

Dodô da Portela – Tenho! E eu não trabalhava? Quando me casei, meu crioulo queria me tirar do emprego, mas eu já tinha muito tempo de serviço. Conversei, levei ele; sabe como é, mulher leva o homem. Eu fiquei e me aposentei; tenho a minha aposentadoria e tenho a pensão dele.

Dodô da Portela – A ala das baianas! Antigamente, iam para a ala das baianas as senhoras que não podiam sair em alas, não tinham mais pique. Agora, a ala está cheia de meninas novas, que só querem sair de baiana para não pagar a fantasia. Como é que essas senhoras estão se sentindo? Com 65 anos, já são cortadas. Não me conformo de ver uma senhora se queixando que foi cortada da ala das baianas. Na Portela, elas vão para a minha butique falar sobre isso. Sou do tempo em que as baianas eram as senhoras da escola. Era uma ginga diferente. Agora, os diretores querem que as baianas suspendam os pés. Baiana não suspende o pé, por isso se usava chinelo. Hoje estão desfilando até de sandálias.

Mas, apesar disso, a senhora nem pensa em deixar a escola.

Dodô da Portela – Eu vou deixar por quê? Já estou velha, vou deixar por que se eu gosto da Portela? Lá todos me respeitam.

Quem é a melhor porta-bandeira da atualidade?

Dodô da Portela – Na minha opinião, são várias: a Maria Helena, da Imperatriz, a Selminha, da Beija-flor. E tem também a Mariazinha, que era da Vila Isabel; mas ela está cega, não dança mais.

A senhora desfilou a vida inteira só pela Portela. Mas, nos carnavais atuais, mestre-sala e porta-bandeira mudam bastante de escola, não?

Dodô da Portela – Sim, mas antigamente não tinha dinheiro, agora tem. Agora é outro departamento. Eu não ganhava dinheiro nem para fazer minha roupa, minha roupa era feita com o dinheiro do meu trabalho.

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Como a senhora se tornou madrinha da bateria?
Dodô da Portela – Nem sei direito como foi! Só sei que recebi um telefonema do Marquinhos, assessor do seu Carlinhos, dizendo: “Vou te falar uma surpresa, a senhora agora é madrinha da bateria”. Eu falei: “Você não sabe que eu tenho mais de 80 anos? Sou velha, como você fica dizendo que sou madrinha de bateria?”. Claro que eu pensei que ele estava caçoando de mim. Todo mundo sabe que as madrinhas de bateria são modelos, meninas novas. Antigamente, era diferente, mas madrinha de bateria nunca foi velha.

Como era antigamente?

Seu marido também tentou tirá-la da escola?
Dodô da Portela – Quando éramos noivos, meu crioulo até me levava. Ele trabalhava no cais e já me conheceu como porta-bandeira. Ele dizia para mim: “Não sei se eu trabalho hoje”. Eu dizia: “Te espero até 9 horas. Se não vier, eu vou sair”. Nunca enganei. Ele sabia. Mas, depois que casamos, não sei o que deu nele, e ele não queria mais que eu fosse. Ele foi até fazer queixa para minha mãe e meu pai. Um dia meu pai chegou e falou: “Dodô, deixa a bandeira”. Eu disse: “Deixo não”. E nunca deixei.

Dodô da Portela – Era uma menina do local, da escola, mas era uma menina nova. Só que ela não vinha nua; aliás, nem passista vinha nua. Mas depois resolveram tirar as meninas da escola e botar modelo.

O que a senhora acha disso?

Dodô da Portela – Para mim, tem que ser menina da escola. Mas a verdade é que tiraram quase toda a gente da escola. Até para subir no carro tem que ser menina bonita, modelo. A única escola que não tem muito essa diferença é a Beija-Flor. A Mangueira também valoriza muito as pessoas do local; tanto que, para ser porta-bandeira ou mestre-sala, tem que morar lá no morro.

A senhora vai sozinha na frente da bateria? E a senhora acha que essa atitude da Portela pode significar uma volta às origens da escola?

Ele era do samba?

Dodô da Portela – Era! Era mangueirense. Nós nos conhecemos num baile lá no Irajá; eu tinha 20 e poucos anos; era muito bonita. Eu gostava muito de ir aos bailes...

Dodô da Portela – Iremos eu e a rainha, uma menina da comunidade.

Era ciúme então?

Dodô da Portela – Ciúme nada; não queria mesmo, só isso. Depois desistiu.

Naquela época não era tão comum uma jovem ir sozinha a bailes, não? O que as pessoas falavam?

Dodô da Portela – Ninguém falava nada. Ou eu não prestava atenção. Eu queria mesmo era dançar, gostava de ir à Elite [tradicional gafieira do Centro do Rio]. Entrava em qualquer gafieira. Usava sapato alto e minha roupa não era uma roupa comum; quem é de escola de samba se veste diferente pra ir ao baile.

Dodô da Portela – Pode ser um exemplo para as outras escolas. Sou uma das mais velhas do samba. Vocês já viram uma mulher de 84 anos na escola de samba se rebolando? É difícil! Na bateria é só homem, com uma senhora é mais respeito, eles não vão me dizer piada, eles não vão me agarrar. É outro respeito, lá todo mundo me chama de madrinha.

A senhora é muitíssimo admirada e respeitada no mundo do samba. Mas, fora dele, já houve algum fato que a discriminasse por ser mulher e negra?

A senhora tem filhos(as)?

Dodô da Portela – Criei uma sobrinha porque a mãe dela morreu de parto, era minha irmã. Mas filho meu, não tive. Acho que por causa da Portela.

Dodô da Portela – Quando os desfiles de escola de samba começaram, os brancos não se metiam. As mães nem deixavam que as meninas brancas falassem com a gente, não podiam nem encostar. Mulher de samba, mulher de gafieira e mulher que trabalhava na fábrica não

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prestava! Eu fazia isso tudo... E me casei direitinho. Mas a idéia era que a gente não prestava. Lembro de uma música que diz: quando uma escola de samba passa, parece até que sacudiu um pé de jamelão; só preto. Mas, mesmo nessa época, branco namorava negra. Não casava, mas namorava. Até hoje não mudou muito, né?

Mas, pessoalmente, já sentiu algum tipo de discriminação?

é. Até os americanos dizem que no Brasil não tem branco! Mesmo nas famílias de branquinhos – assim, igual a vocês – tem um preto lá no fundo do baú. A verdade é essa, mas quem é que vai dizer? Todo mundo sempre está querendo clarear... E que negócio é esse de falar que o Brasil foi descoberto pelos brancos? Descobriu nada, tinha terra e tinha índio! A nossa língua é guarani, é de índio, não é o português.

Participaram desta entrevista: Elaine Ramos, Iracema Dantas e Marcelo Carvalho

Fotos: Vanor Correia

Dodô da Portela – Em lugar nenhum. Se eu sei que em alguns lugares eu não vou ser bem recebida, por que iria? Sou muito assim.

Quais seriam esses lugares?

Algumas igrejas evangélicas têm ido ao sambódromo em grandes evangelizações. O que a senhora pensa disso?

Dodô da Portela – Antigamente, por exemplo, o único clube de futebol onde entrava preto era o Vasco. No Fluminense, no Flamengo, no Botafogo, nesses clubes só entrava pra jogar. Não podia fazer outra coisa. Então, o que eu iria fazer lá? Para levar um não? Não sou melhor do que ninguém, mas ninguém faz pouco caso de mim; é ruim de fazer!

A senhora acompanhou a discussão sobre as cotas para alunos(as) negros(as)?

Dodô da Portela – Claro! Todo mundo tem que ter direito a estudar, mas depende de outras coisas. Lembro que, lá em Barra Mansa, tinha um rapaz negro que estudou, fez faculdade. Ele, apesar de toda a separação que existe, foi em frente e se formou médico, um médico muito bom. Mas é raro. Quando um negro entra para um departamento, mesmo que saiba mais que os brancos, quem fica é o branco; o negro sai.

Dodô da Portela – Esse negócio de dizer que eles estão salvos e a gente não me deixa danada. Quando vejo sambista deixando o samba e entrando pra Igreja, digo logo: é dinheiro, é dinheiro! E ainda tem gente que larga de comprar um pão para levar dinheiro para a Igreja. Veja só: tem um programa que passa depois da meia-noite, com uma loura, que tem cada coisa... Ela diz que é evangélica... Ah, cai fora! Pelo menos os católicos dão esmola, eles não dão nada... Por isso, eu digo: “Deixa eu assim mesmo”, né, São Sebastião?

E por que o negro sai?

Dodô da Portela – Porque é preto! Já viu preto mandar em branco? Já viu branco aceitar isso? É difícil para um preto! Eu conheço a mãe do Edson Santos [vereador pelo PT-RJ], a dona Elza. Ela já desfilou comigo na Ala das Damas do Samba e sempre diz que ele apanhou muito porque, quando era estudante, só andava no meio dos brancos fazendo política. Ela não queria que nenhum branco fizesse pouco caso dele. Eu digo para a Elza: “O seu filho ainda vai ser presidente”. Ele luta bastante pelos negros, tanto que já foi até candidato a senador. Ele perdeu voto para o pessoal da Bíblia, mas tomara que seja presidente um dia.

Então, a senhora acha que o Brasil é um país racista?

Dodô da Portela – É racista, sim. Não era pra ser, porque está cheio de crioulo aqui, mas

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O medo na cidade do Rio de Janeiro
Vera Malaguti Batista Editora Revan 272 págs. As décadas de 1980 e 1990 serão reconhecidas pela historiografia, no futuro, como a época da grande vitória da reação burguesa contra os movimentos políticos de esquerda. A derrota se deu no campo das experiências de governos de esquerda (socialismo real ou socialdemocracia) e nas respostas teóricas aos dilemas da sociedade contemporânea. Diante disso, esboçaram-se, entre intelectuais de esquerda, três comportamentos: os que rapidamente se entregaram aos novos tempos e suas vicissitudes antiutópicas e pós-tudo; os que ficaram reafirmando o passado como uma entidade mítica, sem que nele fossem identificados erros de qualquer ordem; e os que se puseram a pensar na perspectiva de atualizar a crítica ao capitalismo numa de suas fases mais predatórias e

destrutivas. Vera Malaguti Batista se inscreve no seleto círculo do último grupo, e seu novo livro O medo na cidade do Rio de Janeiro é uma importante contribuição para refletir sobre os motivos por que as mudanças sociais são sempre adiadas em nosso país. Sobretudo, o que acontece com uma sociedade onde essas mudanças permanecem por séculos bloqueadas. A autora traça um paralelo entre o século XIX e as três últimas décadas do século XX. O primeiro quadro se desenha no contexto da sociedade escravocrata do Império e do medo constante de uma rebelião dos de baixo como elemento determinante no DNA político das classes dominantes. O segundo é o Brasil das políticas de desmonte do Estado dos anos recentes, com o crescimento impressionante da violência nossa de cada dia e sua transformação em notícia de primeira página de todos jornais. O aspecto de convergência seria a relação subordinada com a dinâmica mundial de acumulação de capital, por meio da economia agrária de então ou de um parque industrial complexo e incompleto, infenso a uma economia política que pudesse transformar os ganhos com a modernização em amplas conquistas de cidadania. O resultado dessa condição é o cultivo permanente do medo como estratégia de dominação. Assim, o que poderia ser visto como arbitrário nesses paralelos históricos ganha uma proximidade desconcertante. O grande medo do século XIX – que Vera constrói a partir da Revolta dos Malês, na Bahia, em 1835 – era uma resposta à crise do Primeiro Império, forma acabada da frustração de todos os sonhos de uma independência que representasse a formação de uma nação livre e autônoma. Portanto, aquela conjuntura de instabilidade da década de 1930 – também sacudida pela Cabanagem no Pará, entre outras revoltas populares – indica o quanto

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era insuportável para as classes subalternas a continuidade da estrutura colonial, mesmo que em nova chave política. O apelo ao medo em torno de um inimigo perigoso e desconhecido é quase igual nos tempos de Feijó e nos de FHC. Porém, para os dias de hoje, a origem dessa velha e requentada estratégia de poder está no golpe de Estado de 1964. Em sua história desses dois momentos dos medos cariocas, o argumento novo que a autora mobiliza para a compreensão dos modos das nossas revoluções passivas, como diria Carlos Nelson Coutinho, é o papel que exercem o sistema penal e o discurso criminológico em tais ocasiões. Sabemos, ao menos desde a grande obra de Rusche e Kirchheimer (Punição e estrutura social), que o sistema punitivo de uma sociedade é um poderoso aparato disciplinador das classes subalternas. Mas, em países onde a dominação política pôde se realizar predominantemente pela via da persuasão, esse aparato perdeu sua função ainda no início do século XX. (É certo que essa afirmação merece ressalvas nos anos mais recentes com o que Loïc Wacquant tem chamado de Estado penal nos Estados Unidos. Mas isso apenas esclarece a natureza política da transição por que estão passando as sociedades dos países centrais.) Em países periféricos, a criminalização dos pobres é uma constante que pode ser compreendida como contraponto da ausência desde sempre do Estado de bem-estar social, donde o uso da força como via privilegiada de dominação de classe. Dessa forma, o direito penal é um dos componentes “ontológicos” da ideologia da classe dominante brasileira – com toda a crueldade desses homens cordiais, essa face perversa da frieza e desprezo com os de baixo. Se as viradas de mesa nas regras do jogo democrático já são uma praxe dessa elite, e tais golpes foram escrutinados e denunciados pelas esquerdas; os crimes cotidianos – verdadeiros

genocídios, como a cifra de 40 mil mortes violentas por ano no Brasil, atingindo, sobretudo, jovens negros – com que essa classe impõe literalmente a ferro e fogo a ordem e o progresso (não é um notável acaso que o alcaide condottieri da protofascista guarda municipal do Rio de Janeiro recupere nas placas de suas obras essa consigna?) estão completamente silenciados. A própria esquerda, na sua maioria formada pelos filhos da classe média branca, tende a ignorar esse tema, talvez por julgar que ele não faça parte da luta pela radicalização da democracia. Com tal comportamento, apenas revela sua total subordinação a pensadores de outros países e uma incompreensível alienação diante dos componentes materiais, isto é, étnicos – julgaria redundante o termo se não fosse uma questão teórica de primeira ordem em nosso país – das classes populares. O Medo na cidade do Rio de Janeiro é uma corajosa escavação nas ruínas resultantes desse processo histórico. Um passeio pela alma de uma sociedade que não quer se saber assustadoramente deformada. Torna-se uma contribuição importante não apenas por trazer uma nova luz ao modelo em que as classes dominantes preparam as contra-revoluções no Brasil como também por apontar que não há neutralidade possível diante das ações do sistema penal contra as pessoas pretas e pobres. Nesse campo, alinhava-se a unidade entre racismo e repressão como o componente que, em última instância, faz que os perdedores sejam sempre os mesmos. Exatamente esses que o medo do primeiro governo de esquerda eleito democraticamente neste país fará que vejam o futuro como uma permanência do passado. Marildo Menegat Professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ

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A aventura da forma: urbanismo e utopia em Volta Redonda
Alberto Lopes Editora E-papers 188 págs. A aventura da forma: urbanismo e utopia em Volta Redonda é fruto da dissertação de mestrado de Alberto Lopes. Embora seja denso, o livro, longe de ser um texto hermético, feito para doutos, é fácil de ser lido. O texto reflete a complexidade da perguntaproblema, do objeto e do caminho percorrido para desvelá-los. A densidade do livro se revela na interface do objeto construído. O recurso à história e à geografia, sem jamais abandonar o campo do urbanismo, mostra um pesquisador maduro com suas fontes e opções teórico-metodológicas. Assim, o texto flui a partir do contexto do Estado Novo. As construções simbólicas do estado de exceção de Vargas são decodificadas

no estímulo ao novo – nem sempre associado ao moderno – e ao simultâneo resgate e construção da identidade brasileira. O novo dizia respeito às esferas administrativa, produtiva, política, social, territorial e urbana. Já o redescobrimento do Brasil não seria simplesmente uma volta nostálgica ao passado, mas a simbiose do passado, cuidadosamente selecionado, com esse novo patrocinado pelo Estado. Nesse ambiente, deve ser entendida a construção de Volta Redonda. Mas o que interessa em Volta Redonda? A unidade produtiva da usina, o projeto urbanístico ou a cidade? A resposta do autor é clara: tudo o que ao projeto se associava. Lopes se detém na atmosfera da era Vargas para situar a construção de Volta Redonda no contexto da reorganização do território, da urbanização crescente e das articulações políticas em torno dos principais personagens que emergiam no novo campo profissional que se consolidava: o urbanismo moderno. Por isso, o fácil entendimento da relação existente entre a marcha para o Oeste, as construções da Central do Brasil, do Palácio Capanema, do Ministério da Fazenda e a abertura da Avenida Presidente Vargas no Rio de Janeiro, a construção de Goiânia, a criação da Liga Nacional contra o Mocambo e a invenção de um novo lugar exemplarmente imaginado para ser Volta Redonda. Para dar conta desse desafio, o autor faz um pequeno histórico da ocupação do lugar para, então, nos contar a trama política por trás da escolha do local do projeto. No terceiro capítulo, faz um breve passeio pelo pensamento urbanístico moderno para chegar a Tony Garnier (1869–1948). O modelo da cidade industrial desse renomado urbanista francês é dissecado de forma a nos mostrar a analogia existente com o plano de Volta Redonda. O instigante foi

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a acuidade de Lopes em tratar dessa influência, acentuando a característica utópica de ambos os projetos. Essa influência pode ser buscada na expressão física dos projetos, mas extrapola a materialidade dos planos. A dimensão social é examinada a partir da interseção da análise da cidade industrial de Garnier, da trajetória profissional de Attílio Corrêa Lima (1901–1943), autor do plano de Volta Redonda que havia estudado na França entre 1927 e 1931, e principalmente das conjunturas do período analisado. Assim, o livro não é sobre a história de Volta Redonda e muito menos sobre a implantação da usina siderúrgica, mas sobre a relação entre a forma da cidade e os seus processos sociais. Ocorre que os processos sociais não são dependentes exclusivamente das formas espaciais que os sustentam, o que tende a desmistificar o discurso social e político fundador do projeto. Não surpreende, portanto, a tensão existente entre a preferência de Corrêa Lima por habitações coletivas e a concepção vitoriosa da diretoria da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em relação às habitações individuais. A luta entre o novo e o passado, rapidamente transformado em velho – devendo, portanto, ser descartado –, expressou-se de formas diferenciadas ao longo do tempo. Se o novo, em alguns momentos, serviu-se do velho, rapidamente o velho passou a se servir do novo. Entre as experiências relatadas no livro, há casos de moradores e moradoras que criavam boi e porco em edifícios de apartamentos planejados para ensejar a nova ordem. Longe de pensar o texto como uma crítica contundente ao ideário do urbanismo moderno, o livro explora a poderosa relação entre o Estado e a cidade, em termos de políticas públicas e projetos, ao longo do tempo. A relação entre a usina e a cida-

de era visceral. Assim, Volta Redonda emerge como um projeto ufanista de Estado, onde a cidade real se encontraria suspensa no tempo. Ela se realizaria no devir sem o passado, tendo o presente como uma forma inacabada. Na expectativa do projeto, esse futuro desejado estava chegando e o passado indesejado estava sendo definitivamente morto. Por fim, a questão desafiadora que envolve a busca de uma filiação entre a cidade industrial de Garnier e a Volta Redonda de Corrêa Lima não se resolve com as similaridades dos traçados e dos desenhos propostos, como explicitou o autor, pois, entre o lápis e o papel do projeto, há o espaço de tudo aquilo que não está explícito no plano. Mas isso nos traz outras perguntas. O modelo de Garnier teria uma dimensão democrática que o plano de Corrêa Lima não contemplava? Como seria possível buscar essa filiação em meio a uma encomenda feita por uma ditadura? Por tudo isso, a leitura desse livro torna-se obrigatória. A aparente narrativa linear torna o texto leve, mas não esconde essas questões. São elas que nos aproximam das Fedoras, de Italo Calvino, pois a aventura da forma se confunde com a aventura da cidade e da vida. Lucia Silva Mestre em Planejamento Urbano e Regional (Ippur/UFRJ) e doutora em História Social (PUC/SP). Autora de Verão de 1930/31: tempo quente nos jornais do Rio (PMCRJ, 2003) e História do urbanismo no Rio de Janeiro: administração municipal, engenharia e arquitetura dos anos 20 à ditadura Vargas (E-papers, 2003).

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FÓRUM
Gustavo Marin*

FÓRUM SOCIAL MUNDIAL
SOCIAL MUNDIAL

fortes
Depois do Fórum Social Mundial 2004 (FSM), em Mumbai, na Índia, em janeiro, a sociedade civil mundial já não é mais a mesma ou, pelo menos, a dinâmica iniciada no primeiro FSM de Porto Alegre mudou profundamente, fortalecendo-se de forma notável. De agora em diante, Mumbai está inscrita na agenda cidadã mundial iniciada em Seattle ou, como dirão algumas pessoas, na África do Sul, em 1994, com a queda do apartheid. Daqui para frente, quando se falar do Fórum de Mumbai, estará sendo evocado um evento efervescente, popular, inédito na curta história dos movimentos altermundialistas.
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Estamos mais

A tentativa de mundializar realmente o FSM e fazê-lo crescer além de suas raízes brasileiras deu resultado, pois a busca de uma verdadeira mundialização das resistências e a elaboração de vias alternativas ante a globalização capitalista apontam justamente para o fortalecimento das lutas de todos os atores, tanto no Norte como no Sul e, também, no Leste e no Oeste. Depois de Mumbai, Porto Alegre está mais forte do que antes. Graças à tenacidade de organizadores e organizadoras hindus e, principalmente, graças à forte presença e à arte de viver dos hindus que coordenaram esse evento, todos e todas somos agora mais fortes do que antes. Depois dessa primeira constatação, são muitas as lições aprendidas que podemos citar. A primeira delas é que, quando um grupo de cidadãos e cidadãs se envolve em uma nova ação, procurando abrir novos caminhos para fazer avançar um processo mundial e isso acontece, propiciando um processo aberto e transparente, apesar da diversidade (ou deveríamos dizer graças à diversidade?) de seus membros, essa ação tem muita chance de ter êxito. Se, além disso, há uma ajuda em outras regiões do mundo a partir de pessoas que oferecem suas experiências e manifestam sua solidariedade mediante sua presença e apoio, as possibilidades de sucesso são ainda maiores. É preciso dizer que, como toda aventura humana, o FSM de Mumbai foi possível graças a um grupo relativamente pequeno de homens e mulheres da Índia, apoiado por pessoas de outras regiões do mundo que, progressivamente, foram ampliando o processo até envolver centenas – ou milhares – de organizadores e voluntários.1 Os métodos e as práticas de organização dos Fóruns Sociais, uma vez que se baseiam na Carta de Princípios e pregam a abertura e a transparência, diminuem os riscos de controle por parte de um pequeno grupo. Outra lição é que, acima de tudo, o Fórum de Mumbai foi uma manifestação popular, uma manifestação do povo. Comparado com Porto Alegre, e principalmente com os Fóruns europeus, que mobilizaram principalmente setores da classe média, em Mumbai foi amplamente majoritária a presença de “intocáveis”, de camponeses, de organizações de mulheres e jovens e de pessoas visivelmente pobres. O Fórum não só se tornou mais “mundial”, como também mais “social”. Um aprendizado foi que o Fórum 2004 também reuniu culturas e práticas muito diversas. Em Mumbai, vieram à tona várias ten-

sões próprias de qualquer encontro desse porte. Essas tensões podem ser fonte de enriquecimento individual e coletivo. Também podem aumentar as distâncias existentes entre os diversos setores que compõem a dinâmica altermundialista e, a longo prazo, enfraquecer o processo empreendido. Entre essas tensões, pode ser identificada a separação entre as atividades organizadas de forma centralizada e as atividades autogeridas pelos diversos grupos, redes, sindicatos, associações etc. Era um tanto patético ver as salas com 4 mil cadeiras para os painéis e com 10 mil para as conferências ocupadas por 100 ou 200 pessoas. A sensação de vazio era evidente. Essas salas dispunham de serviços de tradução simultânea, áudio e vídeo próprios das grandes conferências, mas para um público que não estava lá, enquanto muitos dos seminários e das oficinas autogeridas (cerca de mil) eram mais animados e participativos. Essa divisão, que já tinha sido notada em Porto Alegre, entre uma cultura que se expressa mediante o discurso emitido (freqüentemente a partir de cima) diante de um público que só pode aplaudir e outra cultura que favorece o diálogo, o intercâmbio de experiências e o debate sobre as idéias e as propostas foi, em Mumbai, uma evidência indiscutível. Como corolário, pode-se acrescentar que as atividades autogeridas, ao terem como referência um grupo, uma associação ou uma rede com base na Índia, foram muitas vezes as mais numerosas. Em outras palavras, nos Fóruns Sociais as atividades “lançadas” de cima não funcionam. Outra divisão flagrante era a que existia entre as pessoas que se manifestavam nas ruas, freqüentemente gritando slogans e tocando tambores, e as que discutiam nas salas de reuniões. Era um pouco estranho ver, por um lado, os grupos que tentavam se fazer ouvir dizendo “aqui estamos” mediante slogans e tambores e, por outro, aqueles que, laboriosamente, procuravam se fazer ouvir por meio dos idiomas, em inglês, híndi, marati, chinês, francês, espanhol, português etc. A diversidade é uma característica importante dos Fóruns Sociais e, em Mumbai, era muito clara e evidente. Mas, se não há diálogo entre as diferentes culturas, a diversidade pode se transformar em um diálogo de surdos e fazer com que as pessoas não se encontrem. “Domesticar” a interculturalidade requer tempo, não é algo que se possa improvisar. Não há dúvida de que é preciso deixar espaço para o imprevisível e que se esteja aberto diante das

1 O artigo “Deux ans défforts pour um Forum ‘made in India’”, do jornalista Laurence Caramel, publicado no L e Monde de 16 de janeiro de 2004, traz informações sobre os antecedentes do FSM na Índia.

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FÓRUM

SOCIAL

MUNDIAL

diferentes expressões culturais, mas, ao mesmo tempo, é necessário preparar os encontros entre culturas diversas. Caso contrário, acabam surgindo mal-entendidos. 2 Outra contradição diz respeito aos meios de expressão. Há pessoas que se expressam por meio do discurso e da escrita e há aquelas que o fazem por meios artísticos. Durante o Fórum de Mumbai, houve 5 mil manifestações artísticas nas ruas, algumas delas não registradas na programação. Essas manifestações aconteciam nas esquinas ou nas áreas próximas aos estandes. As manifestações do tipo “teatro de rua” ou corais a céu aberto eram verdadeiras oficinas temáticas onde eram tratados os mais diversos temas, tais como o comércio justo ou a exclusão das mulheres, com uma qualidade tão pertinente quanto a das oficinas e, às vezes, até mais. Podemos dizer que essa contradição não é, na verdade, uma contradição. No entanto, o diálogo e a articulação entre as formas de intercâmbio baseadas no discurso e as que se baseiam em diversas expressões artísticas ainda continuam sendo tarefas incompletas.

Desafios históricos e políticos
Para refletir sobre os desafios históricos e políticos, falta algo mais que o espaço de um artigo redigido logo depois do Fórum. Muitas publicações divulgadas durante o Fórum da Índia já trazem alguns dados esclarecedores sobre essas questões. Por exemplo, é cada vez

mais forte a convicção de que é necessário atravessar o umbral e entrar em uma nova etapa. Enquanto o fim da Guerra Fria e a queda do Muro de Berlim pareciam pressagiar uma nova organização mundial fundada sobre o multilateralismo internacional baseado no direito e na democracia, a realidade é que assistimos a um panorama bem diferente: o do reinado absoluto do império norte-americano sobre o restante do mundo. A globalização neoliberal estende sem cessar seus tentáculos por todos os cantos do planeta e só faz ampliar as desigualdades entre pessoas pobres e ricas, entre o Sul e o Norte. O panorama mundial no início do século XXI, e ainda mais depois de 11 de setembro de 2001, caracterizase pela passagem de uma globalização neoliberal (na qual a vontade de potência se mantinha dentro dos limites marcados pela Guerra Fria) para uma mundialização/globalização neo-imperial (na qual a lógica de guerra se junta à lógica da competência, mostrando claramente os interesses dos Estados Unidos e seus aliados). A história nos ensinou que todos os impérios caem. Mas também nos ensinou que podem durar muitos séculos! Não estamos agora no início do império norte-americano, tampouco estamos diante de sua crise final ou de sua queda iminente. Até agora os impérios não detiveram a história. Mas o império norte-americano comporta uma característica singular e, nesse sentido, nos confronta com um desafio histórico:

Visibilidade e legibilidade de debates e propostas
Atualmente, já se admite com facilidade que os Fóruns não devem terminar com declarações finais. Por outro lado, é humanamente impossível querer redigir uma só declaração comum e final. Essa prática, claramente inscrita na Carta de Princípios do FSM, foi uma das chaves do sucesso. Entretanto, ainda existe uma tarefa pendente no que diz respeito ao desenvolvimento de meios que permitam ter uma visão global e facilitem uma legibilidade, evidenciando a riqueza dos debates e das propostas. Já no primeiro Fórum em Porto Alegre, em janeiro de 2001, houve tentativas de documentação e sistematização das idéias pensadas nos Fóruns, mas a inevitável improvisação fez que ficassem poucos indícios da memória da primeira edição. Em 2002, foi feito um novo esforço, e os debates e as propostas surgidos nas conferências puderam ficar registrados e foram publicados diretamente no site. Para a terceira edição de 2003, foi implementado um mecanismo mais consistente. 3 Nos diversos Fóruns continentais e temáticos, foram levadas adiante iniciativas semelhantes. Esperemos agora os informes do Fórum de Mumbai.4 Essa tentativa de conservar a memória dos Fóruns não se trata, em absoluto, de uma questão de nostalgia. Uma dinâmica sem memória corre o risco de diluir-se ou de que sua história seja escrita por outros. O trabalho de memória, documentação e sistematização é essencial para valorizar a riqueza intercultural, social e política, trazida pelo público participante. Esse esforço permite trazer à luz as novas idéias, as novas alternativas que os atores sociais estão implementando para fazer frente e se sobrepor, dia após dia, às políticas impostas pelos donos da globalização neoliberal e neo-imperialista. Os trabalhos de memória, documentação e sistematização são assumidos, de agora em diante, por um crescente número de equipes. As comissões de conteúdo e metodologia do Conselho Internacional também começaram a se envolver. A capacidade de inovação para que os programas e os métodos dos próximos Fóruns sejam realmente inovadores e participativos será uma das chaves para que a dinâmica altermundialista possa continuar fazendo caminho.

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ESTAMOS MAIS FORTES

o modo de produção e de consumo e o sistema científico e técnico que implementou atentam contra a própria condição humana. E não somente pelos prejuízos que infligem ao meio ambiente, mas também à vida, pelas mudanças que podem introduzir na espécie humana. Não é simplesmente uma questão de modos de produção e de consumo. Tem algo a ver com a essência da condição humana, e isso está em perigo. Sabemos, agora, que o império atravessa crises econômicas recorrentes, mas passa de uma crise para outra. Até se poderia dizer que é um império que se alimenta de crises. Até agora sempre conseguiu se salvar. Naturalmente, deixa atrás de si uma situação econômica e social pior do que a provocada por um terremoto: sociedades cada vez mais destroçadas, cada vez mais fragmentadas, onde as desigualdades e as exclusões se agravam. Também atravessa crises de governança: há muito tempo se diz que a reforma do sistema das Nações Unidas é uma necessidade evidente, mas o fato é que isso nunca acontece. O sistema de segurança internacional se tornou mais obsoleto e, além disso, por estar sob a tutela do império norte-americano, representa um perigo para a segurança e o entendimento entre as nações. Além do mais, o império tenta impor um novo marco, ideológico e religioso, mediante verdadeiras cruzadas que só fazem aumentar os fanatismos religiosos. Esse império tem uma característica especial. Todos a tiveram, mas esse é um verdadeiro especialista: cada vez que há uma crise, reage fazendo uma guerra. É um império guerreiro que atua pela força violenta e impõe guerras, como é o caso da última, que atualmente vivemos no Iraque. Mas também há outra característica singular na atual situação que não podemos deixar de mencionar, que é o grande aumento da violência espetacular por parte de grupos que atuam em rede. Chegamos a um ponto em que todos os anos são comemorados os grandes atentados que vêm matando milhares de pessoas. Daqui em diante viveremos um período em que todos os anos estaremos relembrando massacres. Esse é um traço particular de nossa época: o império norte-americano se impõe, mas por meio de explosões, como acontece não só no Iraque, mas também no mundo árabe, nas grandes cidades do Norte e em algumas do Sul. Nesse contexto, já que é nele que devemos nos situar, estamos entre a espada e a parede? Por um lado, um

império que impõe uma lógica de “pax americana” por meio da guerra e do modo de organização social e política que ela envolve e, por outro lado, grupos que organizam atentados reiteradamente, sem esquecer todas as redes mafiosas – essas redes clandestinas que regem a vida de milhões de seres humanos que sobrevivem em condições semelhantes às da escravidão. Dentro dessa lógica (se é que isso pode ser chamado de lógica), a sociedade civil que está surgindo e que tentamos desenvolver não pode ser tomada como refém. Está claro que temos avançado desde a queda do Muro de Berlim ou desde o fim do apartheid na África do Sul. Tem sido dada prioridade a novos valores e a uma relação de respeito entre homens e mulheres, e também foi empreendida uma nova relação entre a humanidade e a biosfera. Na última década, havíamos avançado na questão dos direitos humanos. Por um momento, acreditamos que Pinochet seria julgado! Foi possível constituir um Tribunal Penal Internacional e houve um desenvolvimento de importantes redes. Centenas de encontros foram realizados. Produzimos dezenas de cadernos de propostas. Todos os avanços são significativos. Os Fóruns Sociais e as diferentes alianças são importantes. A pergunta continua sendo: como vamos fazer para que esses Fóruns e essas alianças estejam à altura da situação? Poderemos fazer com que o império caia? Seremos capazes de fazer que a humanidade saia da situação de estar entre a espada e a parede? O século XXI deverá ser um século de grandes transformações, tanto no que se refere à nossa maneira de pensar, como de sentir, de produzir, de consumir, de nos comunicar e nos governar. Cada um de nós sabe disso, mas, ao estarmos isolados, sentimo-nos paralisados pela nossa própria impotência. É preciso reagir contra essa impotência, e essa reação está se manifestando de diferentes maneiras no mundo inteiro. Para fazer frente a esse desafio, há um amplo debate de idéias e propostas, desenvolvido no processo gerado pelos Fóruns Sociais e pelas diferentes dinâmicas cidadãs em muitas regiões do mundo. A partir daí, podem e devem surgir não só respostas às perguntas anteriores, mas também contribuições para abrir, desde já, novas perspectivas para que a humanidade possa viver em paz. Em nossos dias, esse desafio se tornou uma questão de vida e morte.

* Gustavo Marin
Aliança para um Mundo Responsável, Plural e Solidário Fundação Charles Léopold Mayer gustavo@alliance21.org

2 Sobre esse tema, no marco do Diálogo Intercultural entre a Índia e a China, coordenado pela Aliança para um Mundo Responsável, Plural e Solidário e apoiado pela Samvad Indian Foundation, pela Universidade de Jinan, em Guangdong, e pela Fundação da Juventude da China, com o apoio da FPH (Fundação Charles Léopold Meyer), uma delegação da China, com 15 pessoas, participou do FSM de Mumbai. O grupo chinês tomou a iniciativa de chegar à Índia uma semana antes, encontrar-se em Pune e no estado de Maharastra com outros colaboradores e organizar junto com eles várias oficinas durante o Fórum (em chinês, híndi, marati e inglês). A Carta de Princípios do FSM tinha sido traduzida para o chinês. A preparação da presença chinesa no Fórum ocorreu com meses de antecedência, e um trabalho de imersão prévia permitiu superar eventuais mal-entendidos e favorecer os vínculos – ainda que incipientes – entre aqueles dois países, que são os mais povoados do mundo e, além disso, vizinhos. 3 O Ibase, em nome da Secretaria Internacional, mobilizou várias dezenas de pesquisadores e pesquisadoras. Essa iniciativa foi reforçada pela equipe de apoio para a sistematização (“mapeadores”), coordenada pela Aliança para um Mundo Responsável, Plural e Solidário, com o apoio da FPH. Foi publicada uma coleção de cinco volumes em português e divulgado um CD-ROM em quatro idiomas, com todos os informes e as análises da terceira edição do Fórum (conferências, painéis, atividades autogeridas, mesas de diálogo e controvérsia e pesquisas sobre o perfil de participantes). 4 Françoise Fuegas, da equipe de documentação e sistematização que havia trabalhado em Porto Alegre, em 2003, começou um primeiro trabalho que se propõe a dar legitimidade aos temas apresentados no FSM de Mumbai. Trata-se de uma análise baseada nas palavras-chave da base de dados do FSM na Índia (The top ten keywords of the WSF and the main keywords by continents), que pode ser encontrada em: <http://allies.alliance21.org/ fsm/article.php3?id_article=231>.

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IBASE
OPINIÃO

Mumbai
O Fórum Social Mundial 2004 despertou diferentes sentimentos entre aqueles(as) que estiveram em Mumbai. Especialmente para integrantes do Ibase, que acompanham o Fórum desde as primeiras edições em Porto Alegre, o impacto de conviver com uma desigualdade tão diferente da brasileira – ainda que não se trate de qualificá-la como mais ou menos grave que a nossa – fez despertar questionamentos sobre os caminhos que levam à construção de um outro mundo. Democracia Viva traz alguns relatos dos(as) que durante seis dias puderam acompanhar mais uma edição de pleno exercício da cidadania planetária.
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Impressões de

Artífices de um mundo diferente
Cândido Grzybowski Sociólogo, diretor do Ibase
O Fórum Social Mundial (FSM) adquiriu uma nova e importante faceta: mostrou ser de dimensões universais. Como mobilização da emergente e diversa cidadania planetária, continua crescendo – quase 120 mil participantes mobilizados(as) pela idéia de que, diante da globalização dominante e suas mazelas, “outro mundo é possível”. À primeira vista, uma cacofonia. A Índia em si mesma, com mais de 1 bilhão de seres humanos, é um mundo diverso, falando muitas línguas – mais de 40, das quais quase a metade é oficial –, com suas castas, com a exclusão social de dalits e quase 300 milhões vivendo na indigência. No outro extremo, cerca de 200 milhões integrados ao mercado globalizado. O impacto é atordoante, cultural e politicamente, ainda mais para olhos aguçados de ativistas de um emergente movimento de dimensões planetárias. Inevitavelmente, somos levados(as) a nos perguntar se fazemos o bastante, se nos indignamos suficientemente diante da desumanidade a que muitas mulheres e homens, crianças e idosos(as) são condenados(as) e se estamos sendo verdadeiramente radicais nas propostas de mudança. Mais de 20 mil dalits participaram, dando uma dimensão bem popular ao FSM. Juntou-se aos indianos e indianas uma rica expressão dos povos da Ásia, além de europeus e européias e norte-americanos(as), africanos(as) e latino-americanos(as). Destacou-se o fato de haver 480 brasileiras e brasileiros participantes, número maior do que aqueles(as) da Ásia no FSM de 2003, em Porto Alegre. O Nesco Ground – as construções de uma indústria siderúrgica falida, na periferia de Mumbai, adaptadas ao FSM, com salas improvisadas à base de bambu e divisórias, teto e piso de pano rústico – tornou-se a expressão plena do que está de alguma forma de fora da globalização: gente em carne e osso, mas comungando de um mesmo ideal de liberdade e dignidade humanas acima do mercado. O êxito do Fórum Social Mundial em Mumbai deve ser medido pela adesão política, de mente e coração, no sonho e com vontade, à sua mensagem. A cacofonia foi, na verdade, uma pujante demonstração da diversidade de sujeitos sociais que aderem à idéia e querem ser artífices de um mundo diferente, onde a referência sejam todos os direitos humanos para todos os seres humanos. Se, até 2003, éramos dominantemente latinos(as), agora somos mais universais, bem implantados na Ásia, onde vive metade da humanidade. O FSM passou a ser assumido como espaço de expressão de identidades e propostas de amplos setores populares. Foi um enorme salto de qualidade na superação do déficit geográfico e social em termos de sujeitos portadores do FSM. As novas linguagens e a necessidade de tradução, que faça a liga da igualdade na diversidade, são o desafio político e cultural maior que emerge de Mumbai. A força de novas linguagens, exprimindo identidades não-reconhecidas e direitos negados – entre os quais sobressaíram os movimentos dos dalits –, somando-se à onda ascendente clamando por outro mundo, foi a tônica das múltiplas marchas no FSM. A poeirenta rua principal foi transformada em avenida da cidadania planetária, das 8 horas da manhã às 10 horas da noite. Esse foi o epicentro do FSM, em Mumbai. Não foi preciso entender literalmente o que diziam as marchas, bastava render-se ao seu simbolismo, cheio de denúncias e afirmações. A elas se somaram e por elas foram requalificados os grandes atos (conferências, painéis e mesas-redondas) sobre militarismo, unilateralismo e guerra, sobre o poder global opressor e as trincheiras de resistência, sobre os movimentos pela paz. No meio, o laboratório vivo de mais de mil seminários e oficinas, a seu modo desencontrados, mas afirmativos da possibilidade de iniciar aqui e agora a construção de outro mundo. No fim, foi um Fórum que impactou pelo que carrega de surpreendente. Diante da crise em que se debate a ordem dominante do direito quase exclusivo do capital, a adesão à mensagem de que “um outro mundo é possível” é uma garantia da pujança da onda de cidadania. Precisamos transformá-la em força de reconstrução de um mundo solidário, democrático e sustentável, para nós e para as gerações futuras. Essa é a principal lição a se extrair de Mumbai.

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Do calor dos temperos às mãos geladas das crianças que passam fome
Vívian Braga Antropóloga, pesquisadora do Ibase
Pela manhã, já se sentia aromas de curry, cominho, gengibre, alho, mostarda, tamarindo e chile misturados ao cheiro do café servido no hotel. Ao fazer o pedido, brasileiros(as) que não queriam se enveredar pela cozinha indiana defendiam-se com um sonoro “no spice”. Mas o alerta não surtia efeito. Mesmo assim seus pratos vinham apimentados. Parece que a comida dizia: “O que vocês estão pensando?! Não vou mudar porque querem”. Seria esse um sinal de resistência à massificação do gosto, sutilmente tramada pelos chefes dos restaurantes de Mumbai? À tarde, era a vez das comidas vendidas nos Food Counters do Nesco Ground. A inusitada montanha de pastéis fritos na hora e empilhados uns sobre os outros chamava a atenção – não só pelo modo de preparo, mas também pela sensação que despertavam. Pareciam deliciosos. Aliás, em Mumbai consome-se bastante óleo, muitas comidas são fritas, e as massas dos pães são oleosas. Os doces não fogem à regra. Porém, não são exageradamente doces, como os do Brasil. Para saber se esse é um aspecto cultural ou se alguma onda light tomou conta dos doces indianos, há de se pesquisar um pouco mais. Curiosamente, uma dieta com alimentos bastante engordurados e doces com pouco açúcar produz uma população muito elegante. Homens e mulheres são, em sua maioria, magros. Cabe também ressaltar o tamanho das porções servidas – das sopas, dos pratos principais ou dos acompanhamentos – bem reduzidas se comparadas ao modo brasileiro da mesa farta. As frutas também reinam nos cardápios e no cenário de algumas ruas da cidade. Barracas delas fazem lembrar do Brasil. Isso remete às cores, que estão por toda parte, predominantemente nas mulheres e nas comidas. Nesse sentido, é possível arriscar alguma associação. A cultura hindu impressiona pela riqueza dos detalhes nos ornamentos das mulheres. Independentemente de sua condição social, elas estão sempre enfeitadas com pulseiras, braceletes, brincos, colares, tecidos e cores, muitas cores. A comida indiana também. Tanto os membros da casta mais baixa como os da mais alta consomem alimentos multicoloridos. À noite, nos restaurantes, a ausência de alguns itens alimentares no cardápio indiano e o alto preço das bebidas alcoólicas é uma constante. Provavelmente, isso se relaciona às restrições alimentares da religião hindu. Hindus não comem carne de vaca, queijo nem consomem bebidas com álcool. Nessa viagem gastronômica, não se pode negligenciar um outro tipo de ausência e privação, da qual padecem mulheres e crianças. A fome e a desnutrição são males que acinzentam a riqueza colorida da culinária indiana. Em Mumbai, a desnutrição materno-infantil está por toda parte e, por toda parte, crianças e mulheres aglomeramse em volta de estrangeiros(as), tocandolhes os braços, as pernas, as mãos, os pés, em busca do que comer. Quando levam suas pequenas mãos geladas à boca, tocam também o coração e a alma de quem as observa. Como acontece em todo lugar onde o capitalismo impera, há aqueles(as) que ganham com a tragédia humana. Por toda parte, está à venda um tipo de leite especial, não por acaso o mesmo que é pedido. Vendido em lojas que mais parecem farmácias, esse alimento, ao ser encarado como único remédio contra a fome e a desnutrição, naturaliza a situação vivida por milhares de indianos e indianas. Quando a realidade se impõe desse modo, não há como fugir. Nessas horas, todos(as) somos iguais. E se aprende que ser humano(a) é mais do que se comover com os gestos desesperados de quem tem fome. Humano(a) é aquele(a) que sente o toque das crianças e mulheres em busca da sobrevivência como um tapa na cara. Na Índia, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, ser humano é se indignar e se envergonhar ao perceber que ainda não se fez o bastante

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IMPRESSÕES DE MUMBAI

Uma cara popular
João Sucupira Economista, coordenador do Ibase

Muitos aspectos poderiam ser ressaltados para retratar o que foi o Fórum Social Mundial 2004 (FSM). Porém, um dos que mais chamaram a atenção foi, sem dúvida, a presença marcante dos movimentos sociais de base. A diversidade desses movimentos agindo de forma organizada, criativa e vibrante, não só das diversas regiões da Índia, mas dos demais países, principalmente asiáticos, deu ao Fórum uma nova cara. Uma cara popular. Ao mesmo tempo em que representantes de organizações de cidadania ativa, de outras entidades da sociedade civil, pesquisadores(as) da academia e estudantes discutiam em oficinas e seminários, manifestações com palavras de ordem e cartazes tomavam conta das “ruas” do imenso espaço do Fórum. Aos berros, manifestantes agitavam a bandeira da igualdade como parte da luta pela transformação da sociedade. As distintas formas de reivindicações e de agir – pequenas passeatas, teatro de rua, grupos de dança e música – tinham em comum a perspectiva de que todos(as) aqueles(as) “sem poder” ou “sem privilégio” podem lutar para mudar o mundo. Os dalits marchavam com a esperança de romper com as tradições arraigadas e a hierarquia de poder. Percebia-se claramente naqueles rostos uma vontade imensa de expressar sua condição de ser humano que lhes é historicamente negada. Eram tantos os motivos para denúncias que até o local do estande reservado para venda e exposição de materiais dos dalits recebeu crítica. “Por que nossos estandes estão sempre perto dos banheiros?”, questionava um dos cartazes. Coreanos(as) denunciavam a política governamental de expulsão de imigrantes e de seus familiares – filhos(as) nativos(as) – que vivem no país há muito tempo, mas não possuem documentação de permanência no país. Tibetanos(as) expressavam o horror e a humilhação da intervenção chinesa em seu território. Organizações de vários países exigiam a saída de norte-americanos(as) do Iraque. A figura caricaturada do presidente

Bush lembrava a opressão do império explorador. Enfim, a favor da liberdade e da paz, podiam se ouvir vozes nas mais diferentes línguas. Em todo seu desenrolar, o Fórum aglutinou forças. Era comum encontrar pessoas que, mesmo não fazendo parte de um determinado grupo, se engajavam na luta pela emancipação de um povo ou contra uma guerra. Negros(as) se misturavam em passeatas de tailandeses(as). Pessoas do Norte da Europa, vestidas a caráter, tentavam acompanhar o ritmo dos tambores de grupos indígenas. Uma verdadeira babel, mas com muita harmonia apesar dos diferentes códigos, símbolos e etnias. Em Mumbai, o(a) “cidadão(ã) do mundo” não atuou apenas nas questões localizadas, mas fez parte de redes internacionais ligadas a grandes temas como justiça, igualdade e paz. As manifestações não se dirigiam necessariamente a esse ou àquele governo. Em seu centro, estavam homens e mulheres: a figura do(a) cidadão(ã). O FSM 2004 deixará marcas profundas na história dos movimentos sociais indianos, tanto por seu significado geral na trajetória das lutas pela cidadania como por ter sido um período de questionamento das próprias relações entre eles. Deixará marcas também em todos(as) que desconfiavam da continuidade da realização de Fóruns em âmbito regional ou mundial. Definitivamente, os discursos e debates deixaram de ser o único caminho para o exercício da luta pelos direitos que acontecerá nos próximos Fóruns.

Percebia-se claramente naqueles rostos uma vontade imensa de expressar sua condição de ser humano que lhes é historicamente negada

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O P I N I Ã O

‘Perdida’ em Mumbai
Flávia Mattar Jornalista, editora do IbaseNet <www.ibase.br>

Trabalhar como jornalista no Fórum muitas vezes causa certa frustração. A sensação é a de que nunca será possível traduzir nos textos que escrevemos a diversidade de um processo como esse

Foi com entusiasmo – e também temor – que recebi a notícia de que faria a cobertura jornalística para o Ibase do Fórum Social Mundial 2004. Lembro do frio na barriga que senti no dia da abertura do evento, enquanto me preparava para pisar pela primeira vez no Nesco Ground, espaço destinado à realização do Fórum. Além da vontade de ver de perto o despertar do FSM, tinha duas preocupações. Uma delas era a babel que esperava encontrar na quarta edição do evento – e que, de fato, acabei encontrando. Outra era fazer sozinha a cobertura de um evento tão grande. Era grande a cacofonia presente, não só em termos de línguas como também de linguagens – as pessoas que se manifestavam constantemente nas ruas do Nesco usavam e abusavam de formas de comunicação que pudessem sensibilizar o maior número possível de participantes. Mesmo quando os(as) participantes falavam inglês, os sotaques eram tão variados que muitas vezes preju dicavam o entendimento. Mas o problema maior era quando nos deparávamos com situações como a que vivi no segundo dia do evento, quando optei por assistir a uma atividade sobre os dalits, casta dos “intocáveis”.

Com meu gravador, bloco de anotações e caneta, sentei-me em uma das cadeiras de um dos grandes halls disponíveis às atividades da grade principal. Infelizmente, a única língua que se falava na mesa era o híndi. Uma das responsáveis pela tradução, vendo a interrogação em meu rosto, aproximou-se e disse, em inglês: “O equipamento falhou”. Tendo entendido a mensagem, percebi que não daria conta dessa tarefa específica. Também causou preocupação o fato de ter a missão de cobrir um evento que esperava no mínimo 75 mil pessoas, oferecendo cerca de 1.200 atividades, sem contar com a usual parceria de outros colegas de profissão do Ibase. Trabalhar como jornalista no Fórum, ao mesmo tempo em que causa prazer, muitas vezes causa certa frustração. A sensação é a de que nunca será possível traduzir nos textos que escrevemos a diversidade de um processo como esse. Outro fantasma constante é a impressão de que podemos estar no local errado, na hora errada. Ou seja, algo mais importante e interessante pode estar ocorrendo sem que estejamos presentes. Um colega de profissão tentou me acalmar dizendo: “Em um evento desse tamanho, nossas escolhas acabam sendo meio aleatórias”. Passados os sustos iniciais e criadas estratégias de trabalho durante os seis dias do FSM 2004, foi possível não só cumprir a tarefa, mas também me emocionar com depoimentos como o da feminista Irene Khan, de Bangladesh, que denunciou o uso do estupro como arma de guerra, levando ao conhecimento das pessoas presentes histórias de mulheres, com nome e endereço, vitimizadas por esse abuso. Foi possível também trocar olhares fraternos com indianas que demonstravam carinho por mulheres ocidentais, como eu, solicitando dedicatórias em seus cadernos e fotografias para registrar o encontro da diversidade em algum outro lugar, além da lembrança.

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IMPRESSÕES DE MUMBAI

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INDICADORES
Silvana De Paula* e Leonardo Méllo**

Notas de pesquisa
Uma celebração da diversidade e da tolerância em relação à diferença – essa é sempre a constatação forte que fazemos quando participamos de uma edição do Fórum Social Mundial (FSM). Nos eventos que ocorreram no Brasil e no que aconteceu este ano em Mumbai, na Índia, a manifestação da diversidade foi a marca do FSM, sua marca fundante e sua vitalidade. Na Índia, a magnitude da diversidade foi ainda mais expandida do que nos anos anteriores, de modo que a gama extremamente plural de categorias sociais e de setores da sociedade civil que se fez presente significa, com toda certeza, um novo aporte para a diversidade, que é a meta constituinte do Fórum. Um novo aporte e, conseqüentemente, novos desafios. Ainda no começo, em 2001, o FSM foi pensado primordialmente como um evento, um acontecimento em oposição ao Fórum Econômico Mundial. Uma manifestação cujo objetivo era dar lugar à multiplicidade de vozes discordantes da hegemonia de um pensamento único, como princípio de ação no mundo, e da globalização neoliberal, como processo político, social e econômico.

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Desde aquele FSM, no conjunto das atividades foram denunciadas e discutidas as várias formas e facetas do processo de exclusão promovido pelo ambiente monolítico preconizado pela idéia de consenso – cada vez mais claramente um eufemismo para a predominância de um único pensamento – e pelas regras do jogo político e econômico impetradas pelas agências internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Banco Mundial (BM). A repercussão da experiência do Fórum logo se fez sentir. Cada vez com mais nitidez, delineava-se que o FSM não era apenas um evento, mas, sim, um processo. Um processo pelo qual os diversos setores das sociedades civis podiam discutir desde questões locais até questões transnacionais. O documento intitulado Carta de Princípios 1 desde o início estabelecia os parâmetros desse processo, que contou com a participação de 20 mil pessoas no FSM de 2001, 50 mil no de 2002, 100 mil em 2003 e, estimativamente, 150 mil pessoas este ano na Índia. Entretanto, nem sempre esses momentos foram documentados; nem sempre os conteúdos das discussões empreendidas no conjunto das atividades dos FSMs foram registrados, de modo a conformar uma memória do processo do Fórum. É bem verdade que muitos livros sobre as experiências dos FSMs foram escritos, mas esses livros são autorais. Somente em 2003 as instâncias organizadoras do FSM decidiram documentar os eventos anuais. Tal demora não se explica tanto pela falta de interesse por esse tipo de iniciativa. Mais do que isso, explica-se pela dificuldade de se encontrar uma forma de fazer registros oficiais sem, com isso, ferir uma das regras pilares da Carta de Princípios: a não-formulação ou enunciação de qualquer “resultado final” ou “conclusão”, ou, ainda, “resolução final” ou “proposição oficial” em relação às discussões encaminhadas nas diversas atividades que tinham lugar durante um dos FSMs. Assim, foi preciso que a preocupação de acompanhar sistematicamente o Fórum ficasse metodologicamente assegurada como registro, como documentação, e que jamais resvalasse para a avaliação dos conteúdos das atividades compreendidas no FSM. Nesses termos, no ano de 2003, no terceiro FSM, fo-

ram empreendidos: a) pesquisa sobre o perfil dos(as) participantes; b) registro das atividades autogeridas; c) sistematização dos conteúdos dos painéis; d) registro das mesas de diálogo e controvérsia; e) transcrição das conferências proferidas. 2 Em 2004, no evento realizado em Mumbai, a proposição era dar continuidade a esse tipo de iniciativa por meio de uma sondagem entre os(as) participantes acerca dos temas que julgassem importantes para serem discutidos no âmbito do FSM. O fundamento dessa pesquisa coincide com o próprio fundamento do FSM: num espaço dessa natureza, todas as vozes devem ser ouvidas. Assim, assume-se como imprescindível saber o que as pessoas presentes nesse tipo de espaço têm interesse em discutir. Essa perspectiva visa evitar o descolamento entre os temas selecionados para discussão ao longo da série de Fóruns nacionais e regionais e os temas que as pessoas que freqüentam o Fórum priorizam discutir. Ao mesmo tempo, evidentemente, esse tipo de sondagem alimenta a organização temática de Fóruns futuros – nacionais, regionais, temáticos, bem como o de âmbito mundial. Foi com esse horizonte que se procedeu à consulta/sondagem 3 no FSM-Índia, cuja realização foi deliberada pelo Conselho Internacional e conduzida pelo Ibase. O instrumento para essa enquete foi um questionário elaborado de modo a contemplar:4 1) caracterização do(a) entrevistado(a); 2) questões de intensidade de importância sobre 43 temas extraídos do conjunto das discussões empreendidas nos Fóruns anteriores – mundiais, regionais, nacionais e temáticos; 3) questões abertas, nas quais o(a) entrevistado(a) nomeava assuntos considerados por ele(a) como não contemplados na lista de temas mencionada; dentre a totalidade dos temas – isto é, os apresentados no questionário mais os por ele(a) sugeridos –, o(a) entrevistado(a) hierarquizava até cinco deles, de acordo com sua concepção de ordem de prioridade. É sobejamente reconhecido que as pessoas do país que sedia o FSM e dos países mais próximos constituem a maior parte da população que dele participa. Para contornar esse viés, ou seja, evitar que nossa sondagem ecoasse o predomínio de vozes asiáticas e, sobretudo, a posição dos(as) indianos(as) acerca dos temas que os(as)

1 A Carta de Princípios pode s e r l i d a n o s i t e < w w w. forumsocialmundial.org.br>. 2 IBASE. Coleção Fórum Social Mundial 2003. Rio de Janeiro: Ibase, 2004. (5 volumes). 3 Qualificar essa consulta como sondagem é de extrema importância, pois uma consulta, a rigor, implicaria, de acordo com a própria dinâmica do FSM, a instituição de um amplo processo de discussão sobre o assunto, no âmbito do qual todas as pessoas seriam instadas a manifestar suas posições. Já a adição do atributo de sondagem justifica metodologicamente o procedimento de survey balizado por regras de constituição de universo e de amostragem sancionadas na prática de pesquisa. 4 O questionário foi elaborado no Brasil durante o mês de dezembro de 2003 e primeira semana de janeiro de 2004.

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O acampamento de Mumbai foi fundamentalmente um espaço de discussão, um espaço de fórum

5 Gostaríamos de agradecer a Kamal Chenoy pelo apoio e pelo eficaz encaminhamento de contatos que viabilizou a condução do nosso trabalho em Mumbai. Somos também imensamente gratos ao professor doutor Sharit Bhomit, da Universidade de Mumbai. O professor Sharit foi de suma importância no recrutamento dos(as) estudantes e foi incansável em divulgar entre os(as) alunos(as) da Universidade de Mumbai e do Tata Institute of Social Sciences a relevância da consulta e a importância de participarem dela. Sua generosidade para conosco materializou-se de várias outras maneiras, seja viabilizando salas na Universidade de Mumbai para nossas reuniões, seja colocando-nos em contato com seus(suas) colegas, e até tomando parte em algumas das nossas sessões de treinamento dos(as) estudantes – apesar de sua agenda ser extremamente ocupada, dada sua participação muito ativa tanto na universidade como no FSM. 6 Os(as) estudantes são da Universidade de Mumbai e do Tata Institute of Social Sciences e são alunos(as) de graduação ou pós-graduação em cursos como Sociologia, História, Ciência Política, Psicologia, Filosofia, Geografia e Serviço Social. 7 Queremos agradecer o acesso aos dados oficiais de registro no FSM-Índia. Também somos muitíssimos gratos a Katherine (escritório do FSM – Índia) e a Pieter (Acampamento da Juventude – Índia) pela ajuda na operacionalização do acesso a tais dados.

entrevistados(as) consideravam importantes na agenda de discussão do FSM, foi adotado o sistema de cotas. Assim, a aplicação do questionário obedeceu à regra segundo a qual, dado o número de inscritos(as), foram predeterminadas uma quantidade de entrevistados(as) indianos(as), outra para os(as) asiáticos(as), exceto indianos(as), e uma terceira cota de entrevistados(as) oriundos(as) dos demais países. Tal cota também combinou o tipo de inscrição/registro com que o(a) entrevistado(a) tornava-se participante do Fórum, a saber: delegado(a)/ participante; observador(a)/passe diário; e acampado(a) (Acampamento da Juventude). Em linguagem estatística, as cotas resultaram da operação de uma matriz cujas coordenadas eram 3 por 3 – três tipos de origem/nacionalidade e três tipos de inserção. O trabalho na Índia teve início em 10 de janeiro de 2004, 5 a partir de quando 67 estudantes universitários(as)6 foram recrutados(as) e treinados(as) para a aplicação do questionário. Ainda durante essa primeira semana, foi feita uma aplicação piloto do questionário no campus da Universidade de Mumbai. Em virtude do feedback desse piloto, assim como em razão dos dados oficiais obtidos no escritório do FSM-Índia e no Acampamento da Juventude, 7 o questionário foi adaptado de modo a facilitar sua inteligibilidade, aplicação e eficácia em relação aos propósitos a serem por intermédio dele atingidos. Foram aplicados 3.891 questionários. No momento, ainda se desenvolve a fase de processamento das informações levantadas, não sendo possível, portanto, apresentar neste artigo um quadro mais acabado dessas informações. Contudo, algumas considerações sobre o processo de sondagem devem ser socializadas, já que elas, além da enquete, falam também do FSMÍndia – ainda que dentro dos limites do provisório, ou seja, nos limites de um trabalho em andamento.

Perspectiva de comparação
Um primeiro aspecto a ressaltar é que a primeira parte do questionário – caracterização do(a) entrevistado(a) – foi elaborada de modo a permitir uma comparação potencialmente muito interessante com os dados levantados pela pesquisa realizada em 2003 sobre o perfil dos(as) participantes do FSM de Porto Alegre. Mais especificamente, poderemos estar cotejando o tipo de inserção do(a) entrevistado(a) em termos de ocupação, escolaridade, filiação a partido político, participação em organização e/ou movimento social, áreas de atuação das organizações e movimentos de que participam, entre outros. Contudo, ao mesmo tempo em que há elementos de comparabilidade por semelhança entre as duas investigações, há também aqueles que podem nos permitir uma comparação por diferença, de modo a tornar possível acompanhar as especificidades entre as duas experiências que foram objeto dessas investigações. Nesse contexto, vale ressaltar o caso do Acampamento da Juventude. À primeira vista, os dados oficiais de registro prévio dos(as) acampados(as) no FSM-Índia parecem bastante irrisórios diante da magnitude do Acampamento da Juventude do Fórum de 2003, em Porto Alegre. Para termos uma idéia, basta saber que na véspera do início do evento em Mumbai, isto é, em 15 de janeiro, pouco mais de 2.500 pessoas estavam registradas no acampamento. Entretanto, é preciso destacar três pontos. O primeiro, salientado pelo coordenador das inscrições no acampamento, diz respeito à tendência das inscrições serem feitas “em cima hora”, pois as pessoas chegavam a Mumbai, já com o Fórum começando. O segundo e mais importante diz respeito à concepção do Acampamento da Juventude no FSM-Índia. À diferença da experiência brasileira – na qual o acampamento era simultaneamente local de acomodação e de atividades –, o acampamento de Mumbai foi fundamentalmente um espaço de discussão, um espaço de fórum, por assim dizer. Os espaços destinados à acomodação e ao dormitório foram os numerosos campings distribuídos pela cidade de Mumbai. Assim, o registro no Acampamento da Juventude na experiência indiana dizia respeito, sobretudo, à participação prioritária nas atividades

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NOTAS DE PESQUISA

programadas no âmbito do acampamento, ou seja, seminários, debates, atos, conferências, shows etc. É bem verdade que o crachá do acampamento facultava livre acesso das pessoas ao espaço do Fórum e viceversa. Mas isso se relaciona ao terceiro ponto: a localização do acampamento e a localização do FSM. Diferentemente do que aconteceu em Porto Alegre, quando os locais eram vizinhos, em Mumbai o Acampamento da Juventude ficava no Colégio Dom Bosco, situado em Matunga, área diametralmente oposta a Goregoon, bairro que abriga o Nesco Ground, onde ocorreu o FSM. Isso pode nos levar a aceitar a possibilidade de que as pessoas terem se inscrito prioritariamente em Nesco Ground. Desse modo, poderiam igualmente participar do acampamento. Essa hipótese poderia explicar o movimento das pessoas no acampamento, ou seja, o fato de que o fluxo de participantes adensava-se a partir do fim da tarde, quando justamente as atividades no Nesco Ground estavam terminando, alcançando seu ponto máximo à noite. As características específicas do Acampamento da Juventude em Mumbai definiram uma estratégia também especial para a condução da sondagem. Havia sempre duas equipes de pesquisadores(as) trabalhando: uma cuidava da aplicação dos questionários no acampamento, a outra ficava encarregada do mesmo procedimento em Nesco Ground. Tal estratégia foi operacionalizada por meio do deslocamento do coordenador ou da coordenadora da pesquisa (às vezes ambos) para o acampamento e, simultanemente, pelo expediente de termos uma supervisora permanente, escolhida no âmbito da equipe, no acampamento e outra, também escolhida entre os(as) estudantes, em Nesco Ground.

Rotina de pesquisa
Um segundo aspecto que vale ser registrado, considerando sua grande eficiência para essa sondagem, diz respeito à rotina de trabalho adotada – foram dois andamentos diferentes: o do primeiro dia e o dos demais. Nosso cronograma de trabalho era cumprir nossa cota nos dias 17, 18 e 19 de janeiro; e, por garantia, reservar o dia 20 para preencher eventuais lacunas do cumprimento dessas cotas. Para o dia 21 foram programados: o pagamento – sim-

bólico – de entrevistadores(as); a emissão dos certificados de participação na pesquisa; e a entrega, por parte de entrevistadores(as), de relatórios qualitativos individuais, nos quais eles(as) deveriam descrever suas experiências como participantes da sondagem, assim como emitir seus comentários acerca da condução do trabalho, incluindo sugestões e observações que julgassem pertinentes. É um prazer noticiar que o cronograma funcionou melhor do que o esperado, que tudo resultou muito a contento. O primeiro dia foi acordado entre coordenador, coordenadora e pesquisa dores(as) como um dia especial. Desnecessário dizer que todos(as) estavam excitadíssimos(as) com a “estréia”, depois de dias de treinamento, da aplicação do teste piloto do questionário, dos ajustes etc. Igualmente merecedor de nota é o fato do grande entusiasmo que sempre marcou a participação de todos(as) nesse trabalho – esse entusiasmo disseminado no grupo era emocionante. Para o dia 17 de janeiro, o dia especial de “estréia”, foram marcados dois encontros com toda a equipe. No primeiro, logo pela manhã, foram recapitulados os pontos-chave do trabalho e saldadas eventuais dúvidas. Também foram distribuídos aos(às) pesquisadores(as) os crachás, os questionários e as cotas de entrevistados(as), tudo num clima em que todos(as) se sentiam “prontos(as)” para começar e, como já dito, entusiasmados(as). Divididas as duas equipes – Acampamento da Juventude e Nesco Ground – foi dado início ao trabalho, tendo já acertado um encontro de fim de expediente, no Nesco Ground. A idéia desse encontro era fazer um balanço da estréia na aplicação dos questionários e ajustar eventuais problemas. Para os demais dias, a rotina foi pautada pelo encontro matinal, antes do início dos trabalhos, quando era feito um breve balanço do

As características específicas do Acampamento da Juventude em Mumbai definiram uma estratégia também especial para a condução da sondagem

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Os dados que oferecemos a seguir são provisórios. Todavia, oferecem um desenho ainda que tosco das pessoas que estiveram presentes no FSM-Índia, mais precisamente dos países com maior número de inscrição

dia anterior, possibilitado pela verificação feita pelo coordenador e pela coordenadora todas as noites, com os questionários em mãos. Em concordância com esse balanço, eram feitas recomendações e solicitações específicas. Os questionários eram distribuídos, as equipes começavam a trabalhar e cada entrevistador(a), depois de ter cumprido sua cota, entregava o seu lote de questionário às supervisoras ou ao(à) coordenador(a). Após isso, ele(a) estava liberado(a) para participar das atividades do FSM – isso, vale mencionar, constituiu também uma grande e muito apreciada “mais-valia” do trabalho. Essa rotina garantiu, a um só tempo, tanto a efic á c i a d a s o n d a g e m como o estabelecimento de uma atmosfera de troca entre todos(as), um clima estimulante de engajamento, de verdadeira equipe, que permeou todo o período de trabalho. Os relatórios individuais confirmam essa avaliação. Por essa razão, constituem um rico material a ser analisado em algum momento deste processo – muito possivelmente após a apuração dos dados levantados pelos questionários.

Registros de ontem e de hoje

As informações levantadas a partir dos questionários aplicados nessa sondagem estão em fase de apuração. Assim, os dados que se seguem têm por base apenas os números o fi ci a i s fo rnecid os p elo escritório do FSM em Mumbai acerca dos registros, das inscrições feitas até 15 de janeiro, véspera, portanto, da abertura do Fórum. Isso significa dizer que os dados que oferecemos a seguir são provisórios. Todavia, oferecem um desenho – ainda que tosco – das pessoas que estiveram presentes no

FSM-Índia, mais precisamente dos países com maior número de inscrição/registro naquele Fórum. A equipe responsável por proceder aos registros no escritório do FSM-Índia trabalhou com as seguintes categorias de inscritos(as): • participantes e organizadores(as) de eventos: inscritos(as) que vinham por intermédio de organização; • participantes individuais: inscritos(as) que se apresentavam individualmente, isto é, sem ser por intermédio de organização; • observadores(as): políticos(as), representantes de organismos, como FMI e BM, que tinham direito à presença, mas não tinham direito à voz. Eram, então, por definição, espectadores(as); • passe livre: quem adquiriu um passe, à entrada – no guichê de registro (registration desk) –, mediante o qual tinha acesso às atividades do Fórum por um dia. Era também, por definição, espectador(a); • acampados(as). Aos(às) que são familiarizados(as) com as categorias de inscrição utilizadas nos Fóruns anteriores, não é difícil reconhecer na primeira categoria empregada no procedimento de registro em Mumbai – participantes que se inscrevem por intermédio de organização – o que anteriormente era denominado “delegado(a)”. Com esse critério, foi adotado, no questionário, o termo delegado(a). Para diferenciar esse tipo de inscrito(a) daquele que se registrou sem ser por intermédio de organização, ou seja, aquele que se apresentou como indivíduo, incorporamos o termo “participante”. É pertinente observar dois aspectos: 1) ambos(as) – delegado(a) e participante – têm efetiva participação no Fórum, seja como membro de mesa, conferencista, organizador(a) de evento etc. Daí, o denominador comum entre eles(as), ou a categoria englobadora, ser “participante”; 2) a distinção entre eles(as) – se participam do Fórum por intermédio de organização ou não – fica explicitada em questão da primeira parte do questionário, relativa à caracterização do(a) entrevistado(a), onde é inquirido se o(a) entrevistado(a) pertence a alguma organização ou movimento social etc.

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NOTAS DE PESQUISA

Quanto à categoria “observador(a)”, foi obedecida a definição feita pela equipe local responsável pelos registros e, portanto, mantida a categoria. Todavia, dado que seu traço distintivo em relação aos(às) participantes – delegados(as) e participantes individuais – é precisamente o fato de ser espectador(a), permitiu-se aproximar essa categoria com a de passe diário no questionário. Também a distinção entre eles(as) é facultada pela primeira parte do questionário, a que trata da caracterização do(a) entrevistado(a) e na qual, como dito anteriormente, é perguntado se o(a) entrevistado(a) pertence a alguma organização ou movimento social etc. Um segundo quadro de dados que podemos apresentar com base nos registros oficiais anteriores ao início do FSM-Índia refere-se à origem geográfica, por assim dizer, de previamente inscritos(as). É importante lembrar algo que já foi mencionado anteriormente: com o intuito de não supervalorizar a opinião de indianos(as) – já que as pessoas de nacionalidade indiana compunham a maioria das presentes ao Fórum –, foi adotado o sistema de cotas. A classificação de nacionalidade para cotas resultou nas seguintes categorias: indiano(a); asiático(a), exceto indiano(a); outros(as). Precisamente porque o questionário prescreve a explicitação do país de origem das duas últimas categorias – asiático(a), exceto

indiano(a); e outros(as) –, foi possível um pequeno desdobramento dos dados de registro prévio (Tabela 1). É preciso reiterar, enfaticamente, que os dados aqui apresentados são extremamente provisórios. Sua fonte são registros que, embora oferecidos pelo escritório do FSM-Índia, são anteriores ao evento. Por isso, são passíveis de atualizações potencialmente significativas. Como também já foi assinalado, ainda está sendo feita a análise do retorno provido pelos 3.891 questionários aplicados. Aguarda-se ainda o fechamento final dos dados de registro oficial do FSM-Índia. Nesse contexto, o que neste artigo é apresentado constitui um “aperitivo”, por assim dizer, do campo da consulta/sondagem empreendida. O desejo é que estas notas funcionem como convite ao(à) leitor(a) para acompanhar o andamento e os desdobramentos desse trabalho. Para acrescentar um pouquinho mais de condimento a tal convite, pode-se dizer que, daquilo que já foi manuseado em relação às questões abertas do questionário, foram apurados mais de mil – sim, mais de mil – novos temas que os(as) entrevistados(as) propuseram para serem discutidos no âmbito do processo do Fórum Social Mundial. Certamente, uma contribuição de peso está para surgir no processo do FSM e na sua próxima edição, em 2005.

* Silvana De Paula
Consultora do Ibase e coordenadora da pesquisa FSM 2004

**Leonardo Méllo
Coordenador do Ibase e da pesquisa FSM 2004

Tabela 1 Porcentagem da origem geográfica das pessoas registradas – inscrição prévia – em % Índia Outros(as) Ásia – exceto indianos(as) África América Latina Oceania Europa, Estados Unidos e Canadá 50 39 11 10 10 10 9

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ESPAÇO
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Ana Veloso 1 *

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O discurso feminista na esfera pública
Uma das maiores contribuições que o feminismo, como projeto político e pensamento crítico, trouxe para a humanidade foi o questionamento do modelo patriarcal de construção de sociedade, que destinava às mulheres o lugar de coadjuvantes do processo histórico, restringindo a existência da condição feminina à esfera privada. Ao propor uma transformação nas relações de gênero e a igualdade e a liberdade para a mulher, o feminismo a credenciou como sujeito político. A ruptura de uma identidade socialmente imposta, que limitava o acesso das mulheres à esfera pública, foi outra conquista do feminismo, como resgata a socióloga Maria Betânia Ávila (2000) ao analisar a produção da filósofa Hannah Arendt:
1 A autora também é “Jornalista Amiga da Criança”, título concedido, em dezembro de 2003, pela Agência Nacional dos Direitos da Infância (Andi).

Penso que, desta forma, se viabiliza o que Arendt (1988) definiu como o direito a ter direitos, uma vez que a conquista dos direitos exige um sujeito que anuncie

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ABERTO
seu projeto e tenha ação na esfera política, participando, assim, do conflito, que deve ser inerente à democracia, e instituindo, como parte desse conflito, a luta contra as desigualdades a que estão sujeitas.
Espaço onde se intensificavam as desigualdades e a subordinação feminina, a esfera privada surgiu como conceito na Antigüidade clássica, na vigência da suposta democracia grega, na qual o acesso à pólis só era permitido para os cidadãos de direitos, ou seja, os homens. A noção de liberdade estava condicionada à vivência no espaço público. O privado, no entanto, não se constituía em local de expressão da intimidade para as mulheres, mas, ao contrário, o da privação de direitos, fundamentado em uma relação hierárquica e de opressão. Escravos e mulheres eram tidos como desprovidos de desejos e necessidades. Eram invisíveis socialmente, pois o que acontecia no privado não tinha significado político. O termo “público”, para Arendt, significa: Em primeiro lugar, que tudo que vem a público pode ser visto e ouvido por todos e tem a maior divulgação possível. Para nós, a aparência – aquilo que é visto e ouvido pelos outros e por nós mesmos – constitui a realidade. Em comparação com a realidade que decorre do fato de que algo é visto e escutado, até mesmo as maiores forças da vida íntima – as paixões do coração, os pensamentos da mente, os deleites dos sentidos – vivem uma espécie de existência incerta e obscura, a não ser que, e até que, sejam transformadas, desprivatizadas e desindividualizadas, por assim dizer, de modo a se tornarem adequadas à aparição pública. (Arendt, 1991, p. 60) público e convocando-as a dar visibilidade para suas reivindicações. Nasce, para a pesquisadora Jane Mansbridge (apud Castells, 1999), o que viria a se tornar um “movimento criado de forma discursiva”, mas que não fixou sua ação apenas na argumentação política. Para além de soltar a voz das mulheres, o movimento propunha atitudes políticas radicais. O debate feminista era uma forma de se contrapor publicamente ao sistema patriarcal. Para tanto, as feministas questionaram as relações entre os sexos masculino e feminino, estabelecidas com bases na secular submissão das mulheres. Mas não bastava apenas conquistar a esfera pública. Ao politizar a vida privada, as feministas lançaram luz sobre temas até então intocáveis ou obscurecidos pelo Estado e pela Igreja. Foi nesse momento que incentivaram o debate acerca de algumas questões – como planejamento familiar e cuidado com os(as) filhos(as) – e, posteriormente, trataram dos direitos sexuais como expressão da liberdade feminina. A saída para o espaço público trouxe inúmeras conquistas para as mulheres, tais como a criação de postos no mercado de trabalho e em instâncias de poder político. A máxima “nosso corpo nos pertence” foi o mote da década de 1960, quando as primeiras reivindicações pela inclusão do tema direitos reprodutivos em discussões internacionais vieram à tona. Era a vez das mulheres reivindicarem seu espaço na cena pública como sujeitos políticos. Stuart Hall (1997) vê no feminismo um dos movimentos da chamada “modernidade tardia”, ao lutar pelo reconhecimento de uma identidade feminina, também tendo relação direta com o descentramento conceitual do sujeito cartesiano e sociológico: O feminismo questionou a clássica distinção entre o “dentro” e o “fora”, o “privado” e o “público”. O slogan do feminismo era: “o pessoal é político”. Ele abriu, portanto, para a contestação política, arenas inteiramente novas de vida social: a família, a sexualidade, o trabalho doméstico, a divisão doméstica do trabalho, o cuidado com as crianças etc. Ele

Explosão do feminismo
Movimento que toma maior fôlego a partir da década de 1960, o feminismo trouxe à tona discussões em torno da vida pública e privada, instigando as mulheres a ocupar o espaço

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ESPAÇO
E S PA Ç O ABERTO

ABERTO
Não se trata simplesmente de que elas continuem privadas, mas de que elas são ativamente privatizadas, mantidas no nível do privado. (apud Silva, 1999, p. 49)

também enfatizou, como questão política e social, o tema da forma como somos formados e produzidos como sujeitos generificados. Isto é, ele politizou a subjetividade, a identidade e o processo de identificação (como homens/mulheres, mães/pais, filhos/filhas). (Hall, 1997, p. 49)

Esfera pública
Local de embates políticos e espaço fundamental para a democratização da vida cotidiana, a esfera pública desponta como locus privilegiado para quem pretende ascender ao poder ou para quem não quer abrir mão dele. Isso acontece porque também é por meio dela que se constroem e legitimam discursos. Ela funciona como vitrine da vida social. E ninguém melhor do que a imprensa para fazer sua refração. Não seria exagero dizer que a mídia detém grande poder de sedução e influência sobre a sociedade justamente por fazer a mediação entre a esfera pública e a privada, ou melhor, por sua capacidade de reproduzir, para um grande número de espectadores, algum fato social. A sociedade, ao que parece, procura reafirmar sua identidade por meio da necessidade de exposição da intimidade. A exibição do que, até poucos anos, era considerado exclusivo da vida privada tem sido comum em um mercado ávido por novidades. De programas de auditórios, nos quais se discute a vida de estrelas televisivas, ao simulacro de programas como Big Brother Brasil. A idéia é alimentar a cultuada sociedade do espetáculo. Vale tudo para conquistar os 15 minutos de fama, e a máxima “ser é ser percebido”, de Berkeley, nunca fez tanto sentido. Até as discussões políticas têm seu eco ampliado via imprensa. É a alta visibilidade que diversos atores/atrizes sociais perseguem, como forma de participar do mundo público, com existência reconhecida e voz legitimada. Isso também justifica a crescente importância que a sociedade deposita nos veículos de comunicação. Neles, discursos podem ser simulados, editados e transformados. As possibilidades são infinitas. Isso encanta, seduz e fascina. Nesse contexto, a exassessora do Senado Federal, Maristela Bernardo, colabora: “A mídia é cada vez mais o que restou do espaço público. É o maior campo de mediação de poderes e conflitos,

Não seria exagero dizer que a mídia detém grande poder de sedução e influência sobre a sociedade justamente por fazer a mediação entre a esfera pública e a privada

Apesar de ter dado largos passos rumo à politização da esfera privada, a conquista da esfera pública ainda é um desafio para as feministas. Talvez porque “a esfera pública, tanto na dimensão do Estado como em outros planos, onde também se processam os conflitos políticos, ainda se constitui como um espaço social onde as desigualdades de gênero, de classe, de orientação sexual e de raça estão presentes” (Ávila et al., 2001). Entre as dificuldades enfrentadas pelo movimento feminista em ascender à esfera pública, está a necessidade de romper com a construção histórica que coloca a casa, o lar e a família como únicos espaços possíveis para a existência cotidiana da condição feminina. Não tem sido fácil, para as mulheres, o convívio social em meio à dicotomia entre o público e o privado, principalmente porque sua manutenção no ambiente doméstico fundamenta o poder patriarcal e nem todas as suas aspirações sociais aparecem na arena pública. Richard Johnson entende o poder como um elemento de análise nesse debate, chamando a atenção para sua presença implícita na relação entre as duas esferas: Existem, naturalmente, profundas diferenças em termos de acesso à esfera pública. Muitas das preocupações sociais não ganham absolutamente qualquer publicidade.

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um espaço de competição. Estar na mídia é sinônimo de existir” (apud Oliveira, 1997). O debate entre a íntima relação entre as esferas privada e pública é de grande interesse para a comunicação, uma vez que, na sociedade moderna, a indústria cultural estende seu domínio para a produção de novos sentidos da vida privada. Na era da sociedade midiática, a vida privada se constituiu em um novo bem de consumo. Uma das contribuições mais importantes a respeito dos conceitos de esfera privada e esfera pública ou espaço público (Öffentlichkeit) é abordada pelo filósofo Jürgen Habermas em sua obra de estréia, Mudança estrutural na esfera pública, de 1962, que se tornou uma importante referência para a teoria e a filosofia política contemporâneas. Os conceitos trazidos na publicação foram reformulados nas três décadas seguintes a partir de novas reflexões do autor, especialmente sobre a teoria da ação comunicativa e sobre as inter-relações entre os campos da moral, do direito e da política.Na obra, Habermas coloca a mídia no centro das discussões sobre a refuncionalização da esfera pública, entendendo-a como uma das suas principais expressões: “A refuncionalização do princípio da esfera pública baseia-se numa reestruturação da esfera pública enquanto uma esfera que pode ser apreendida na evolução de sua instituição por excelência: a imprensa”. (Habermas, 1984, p. 213) É central, nas formulações de Habermas, o surgimento de uma arena onde cidadãos privados se colocam como públicos para debater questões e influenciar processos de decisão política. Esse local se constitui fora da vida doméstica, da Igreja e do governo. Em acordo com as teorias da cultura das massas, o filósofo e principal representante da segunda geração da Escola de Frankfurt reconhece a centralidade dos mass media nas sociedades contemporâneas. Ele propõe uma análise crítica sobre o funcionamento dos veículos de comunicação, dos oligopólios e da publicidade, estimulando reflexões sobre a formação de consenso na opinião pública. Nas produções de Habermas, também notamos sua preocupação em estudar a emissão e a recepção das mensagens difundidas pela imprensa e a introdução do conceito de cidadãos(ãs) como consumidores(as).

As maiores críticas ao trabalho de Habermas se fundamentam na defesa de inadequação histórica do seu conceito de esfera pública burguesa, que, embora idealmente universal, excluía as mulheres, a população de baixa renda, as pessoas que não tinham acesso à educação e as minorias étnicas. Outra observação ao seu trabalho é feita por teóricos(as) que o acusam de não reconhecer o papel de esferas públicas alternativas, formadas por segmentos da sociedade civil. João Correia, no seu artigo “Novo jornalismo, CMC e esfera pública”, entende que o espaço público estaria, então, midiatizado, existindo no cenário de uma esfera pública plural e multifacetada, também compreendida como um local privilegiado de disputa e afirmação de direitos e cidadania. Nessa eclética cena cultural, emergem os movimentos da sociedade civil que reivindicam, cada vez mais, o reconhecimento de sua ação política e a inserção do seu discurso na cena pública, a exemplo dos grupos de gays e lésbicas, de defesa dos direitos das populações negras, dos(as) idosos(as) e de portadores(as) de necessidades especiais. Todos anseiam por mais do que visibilidade. Querem, na verdade, que suas propostas possam ser assimiladas pela opinião pública para formar uma opinião positiva acerca do que defendem e conquistar simpatia e apoio de outros segmentos para sua causa. Nesse contexto, é importante resgatar o pensamento de E. Katz sobre a interface da ação política desses movimentos com a mídia: “O funcionamento das novas formas de cidadania e, conseqüentemente, os resultados dessa luta simbólica estão cada vez mais relacionados com os media, sendo que a opinião pública não tem necessariamente de se fazer apesar da presença dos media, mas com recurso a eles” (Katz, 1995, p. 85).

O debate entre a íntima relação entre as esferas privada e pública é de grande interesse para a comunicação. Na era da sociedade midiática, a vida privada se constituiu em um novo bem de consumo

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Mulheres e mídia
Consciente da lógica da indústria cultural, que tem na imprensa seu motor difusor, o movimento de mulheres entendeu que, para sair das margens da sociedade e legitimar seu discurso perante a opinião pública, precisava conquistar novos espaços. Seria necessário, como diz a socióloga Fátima Jordão (1999), “encarar a mídia como campo de ação política”. Isso significa dizer que, para entrar nesse cenário, onde os valores patriarcais são reproduzidos, desigualdades de gênero são perpetuadas, e o corpo da mulher e sua sexualidade são comercializados como objetos de consumo, seria preciso reunir argumentos para, por exemplo, desconstruir o sexismo presente nas redações. Para tanto, o movimento precisa entender a lógica social da globalização (MacLuhan, 1960), sabendo, ainda, que a incorporação de seu projeto político em instâncias da esfera pública está intimamente relacionada com sua capacidade de conquistar espaço na mídia. Autores como Thompson, Spink e Guiddens entendem que, atualmente, a imprensa tem um papel fundamental na análise das relações sociais dinâmicas do mundo moderno. Para eles, a mídia aponta para um novo olhar do que se considera “o público e o privado”, entendendo a ética como uma nova instância de regulação social. (Medrado & Lira, 1999)
2 Uma tendência crescente no movimento é a inserção de feministas em espaços antes considerados “do governo” ou “institucionais”. Se, no fim da década de 1970, o movimento de mulheres lutou contra “Estados” repressivos, atualmente é grande a atuação nesses espaços, que não necessariamente são “de governo”. E isso esteve em evidência nas discussões das conferências internacionais de Pequim, na China, e do Cairo, no Egito. Essa participação acarreta a assimilação do discurso feminista em diversos segmentos da sociedade, até ampliando a visibilidade das proposições e teorias do movimento. 3 Trata-se de um documento produzido por um grupo internacional de mulheres envolvido na área de saúde, a partir de conceitos fundamentais de acordos assinados na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (1994) e na IV Conferência Internacional da Mulher (1995).

falar “em sua própria voz”, assim, simultaneamente, construindo e expressando a própria identidade cultural através do idioma e do estilo. (apud Moreiras, 2001, p. 89)
Apesar de ter protagonizado experiências exitosas no diálogo com a mídia nos últimos anos, demonstrando preocupação em interagir de forma qualificada com ela, o movimento feminista ainda não desenvolveu uma política de comunicação nem um trabalho contínuo com vistas ao estabelecimento de relações mais permanentes com a imprensa. No entanto, nem a timidez do movimento em lidar com a mídia, nem a falta de uma estratégia política de diálogo permanente com os veículos de comunicação impossibilitaram a incorporação das formulações feministas por distintos(as) atores/atrizes. A dinâmica das relações sociais nos espaços públicos contribuiu para que possamos, atualmente, encontrar referências feministas em artigos de jornais, entrevistas de parlamentares, advogados(as), profissionais de saúde e até em documentos de governos.2 Mesmo tendo a “autoria” teórica e conceitos próprios sobre questões relacionadas, por exemplo, à saúde e aos direitos sexuais e reprodutivos, muitas vezes o movimento não conseguiu fazer sua defesa mais veemente nos embates com a mídia. A atuação ainda acontece de forma restrita e descontinuada, sem a preparação de argumentos convincentes, perdendo terreno e enfraquecendo a afirmação de ações favoráveis à ampliação e à garantia desses direitos. Uma contradição se apresenta entre o discurso e a prática do movimento, uma vez que reconhece a suposta atração que a mídia exerce sobre a opinião pública, mas não sabe como interagir com ela. Esse é um reconhecimento que se explicita nas recomendações contidas na publicação Hera: Health, empowerment, rights & accountability – Saúde, empoderamento, direitos e responsabilidade (1999).3 O documento sugere ações, com diretores(as), gerentes e funcionários(as) de empresas de comunicação, que reforcem a importância dos direitos reprodutivos e sobre o papel de cada um(a) na difusão de informações confiáveis nessa área. Outro documento que traz uma série de sugestões sobre a ampliação dos debates em torno da democratização dos meios de comunicação e a atuação do movimento de

Para as mulheres, que enfrentam dilemas oriundos da dinâmica e tensa relação entre o privado e o público, expressar suas idéias e opiniões, exercendo sua liderança em espaços públicos, ainda é um grande desafio. No entanto, é cada vez maior a participação delas no poder. Isso exige, em contrapartida, maior habilidade para difundir seu discurso. Ao que parece, as feministas, ao longo dos últimos anos, estão procurando dar maior visibilidade à sua intensa produção teórica. Isso nos leva a concluir que o movimento vem internalizando alguns pontos convergentes com o pensamento de Nancy Fraser:

As esferas públicas não são só arenas para a formação da opinião discursiva, além disso, elas são arenas para a formação e o desempenho de identidades sociais [...]. Participar significa ser capaz de

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mulheres nesse campo é o balanço nacional Políticas públicas para as mulheres no Brasil 5 anos após Beijing, da Articulação de Mulheres Brasileiras. A publicação ressalta a necessidade da criação de mecanismos democráticos de monitoramento, pela sociedade brasileira, da transmissão de mensagens que agridem a cidadania das mulheres, além da qualificação feminina para atuar em canais de TV e rádios comunitárias. E ainda recomenda: “É preciso desenvolver uma política para o estímulo à capacitação de mulheres no jornalismo escrito, na televisão, no rádio e na internet” (Oliveira, 1999, p. 160). O trecho citado indica que, embora a performance feminista seja acanhada nos veículos de comunicação, o movimento enxerga esse campo como setor de concentração de poder e importante influência social. Dialogar com a mídia de forma planejada também fez parte do processo de empoderamento das mulheres e pode se constituir numa ação estratégica de advocacy. Nesse sentido, as etapas do Curso Nacional de Advocacy Feminista em Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos, realizadas, respectivamente, em 1999 e 2001, tiveram, no programa, debates em torno de estratégias de intervenção política das mulheres nos veículos formais e comunitários de comunicação, contando, para tanto, com a significativa contribuição e participação de jornalistas da Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos.4 Mas o desafio não é só melhorar o diálogo com os meios. As feministas também voltam seus olhos para o machismo presente nas redações, que pode originar em coberturas que desqualificam a população feminina, imputando-lhes papéis sociais depreciativos. Um sexismo explicitado, ainda, na discreta participação de mulheres nos cargos de decisão desses veículos,5 o que, para a feminista Maria Cristina Quevedo (1996), é expressivamente combatido no capítulo “La mujer y los medios de difusíon”, contido na Plataforma de Ação da IV Conferência Internacional da Mulher (1995).

Fala pública feminina
Uma nova revolução começou a tomar forma dentro do feminismo nos últimos anos, quando estratégias nacionais de acesso do discurso feminista à esfera pública tiveram inegável impacto na opinião pública. Duas articulações

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feministas elevaram o status do sujeito político feminista a formador de opinião. São elas: a Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos (Rede Feminista de Saúde) e a Rede de Mulheres no Rádio. A Rede Feminista de Saúde fomentou, nos últimos anos, intensos debates públicos sobre questões centrais da agenda do movimento, demarcando sua posição diante de questões polêmicas, como o aborto. A rede também foi pioneira em promover debates entre feministas e jornalistas, ao realizar, entre 1997 e 1999, seminários regionais que, além de diagnosticar ruídos na comunicação entre ativistas e profissionais de imprensa, forneceram subsídios tanto para melhorar a cobertura da mídia como para qualificar a participação das mulheres organizadas em programas de rádio e televisão. Os encontros resultaram na publicação do livro Mulher e mídia, uma pauta desigual?, editado em 1997. Outra estratégia de grande êxito na promoção de ações afirmativas voltadas ao incremento da participação das mulheres na mídia foi a formação da Rede de Mulheres no Rádio, ainda na década de 1990. A rede reúne quase 400 integrantes de todos os pontos do país. Sua tessitura está se consolidando, atualmente, por meio da Rede Cyberela, um projeto do Cemina – Comunicação, Educação e Informação em Gênero, que prima pela inclusão digital de mulheres por meio da veiculação de programas de rádio via Internet. A paixão das integrantes da rede pelo rádio tem possibilitado o exercício da fala pública na mídia para centenas de mulheres, numa intensa troca de relatos, histórias de vida e articulação de ações políticas e campanhas em prol do pleno exercício da cidadania feminina em todo o país.6 Integrante da rede, o Centro de Mulheres do Cabo, uma ONG feminista sediada em Pernambuco, entendeu, ainda em 1995,

Dialogar com a mídia de forma planejada também fez parte do processo de empoderamento das mulheres e pode se constituir numa ação estratégica de advocacy

4 Os dois documentos elaborados a partir das discussões e conteúdos do curso de advocacy trazem recomendações expressas e até dicas sobre como lidar com a mídia para estimular as feministas a pensar em uma forma de comunicação política. 5 Nos últimos anos, as redações têm demonstrado mais disponibilidade para as mulhere s . E m Pe r n a m b u co , p o r exemplo, alguns cargos de direção estão em mãos femininas, mas, ao mesmo tempo, isso não significa que as redações tenham incorporado “o olhar que transforma” nem que levem em consideração a eqüidade de gênero em suas práticas.

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* Ana Veloso
Mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), bolsista do programa Gênero, Ação, Reprodução e Liderança da Fundação Carlos Chagas e integrante da equipe técnica da ONG feminista Centro das Mulheres do Cabo.

que o rádio poderia ser um grande aliado para o movimento feminista e o combate às desigualdades de gênero na Zona da Mata Sul de Pernambuco.7 A entidade produz, em parceria com os centros de mulheres das cidades de Palmares, Joaquim Nabuco e Água Preta, o programa Rádio Mulher. Fenômeno de público, o Rádio Mulher ocupa o terceiro lugar de audiência na região e o primeiro lugar na preferência do público no seu horário de veiculação, entre as 11 horas e o meio-dia. Totalmente produzido por mulheres, o programa vai ao ar, ao vivo, três vezes por semana, na rádio Quilombo FM. 8 As iniciativas citadas demonstram que as feministas estão atentas para a importância da difusão de suas idéias por meio da mídia, como forma de emplacar mensagens na esfera pública. No entanto, até 2002, o movimento se ressentia de uma ação concreta e ousada que habilitasse suas ativistas a enfrentar debates políticos em entrevistas nos veículos de comunicação. Não havia, ainda, uma ação voltada para a potencialização de porta-vozes para intervir na lógica das coberturas de imprensa, pautando assuntos do seu interesse. Para passar de receptor passivo da mídia a agente de mudança, de acordo com Fátima Pacheco Jordão (1999), o movimento precisa não somente interagir seu fazer político com a mídia, mas “fazer política de modo comunicacional”.

Porta-vozes feministas
Em Pernambuco, as mulheres começaram a dialogar mais intensamente com a imprensa ao denunciar o sexismo nos meios de comunicação de massa na década de 1980. No entanto, a promoção de ações afirmativas, principalmente no campo da saúde, dos direitos sexuais e reprodutivos e do combate à violência, valorizando os veículos de comunicação como um caminho rápido e eficaz para atingir a opinião pública, ainda se ressentia de estratégias de continuidade que primassem pela politização do discurso.
6 Tudo isso convergindo para o sítio <www.radiofalamulher. org.br>. 7 Região marcada por uma história de ocupação de terra e monocultura da cana-deaçúcar. 8 Também pode ser ouvido por intermédio do sítio da ONG<www.mulheresdocabo. org.br>.

Isso acontece porque o movimento de mulheres, por sua própria falta de prontidão, tem dificuldades em lidar com a velocidade das emissoras de rádio e televisão comunitárias ou comerciais. Por isso, acaba perdendo oportunidades de desencadear discussões políticas e difundir argumentos. Outro fator preponderante para a suposta falta de espaço sempre foi a resistência das feministas em se relacionar mais intensamente com a mídia. Uma coisa é certa: qualificar a fala pública das suas líderes é primordial para o movimento. E também é essencial, uma vez que o discurso não fica no ar. Necessita de atrizes empoderadas para a sua propagação. No seu texto preparatório ao curso nacional de advocacy feminista, a psicóloga Suely Oliveira (1999) atesta que a liderança não é só um talento natural. Ela também afirma que um dos desafios do feminismo é formar as mulheres, capacitando tecnicamente suas líderes, para que possam ter êxito em suas missões: planejamento estratégico de ações, bom discurso e fala pública, boa capacidade de argumentação, relação habilidosa com a mídia, enfim, potencializar e desempenhar cada uma das habilidades da liderança. Nem a invisibilidade na esfera privada nem a superexposição dos holofotes da mídia na esfera pública. Ao entender a importância da qualificação para esse diálogo com a sociedade, mediado pelos meios massivos, o movimento conquistará novos aliados e aliadas para seu projeto político que visa à transformação das relações sociais e à democratização da vida cotidiana. Acreditamos que quem tem uma proposta ousada como essa não se contentará em ser apenas uma fonte reconhecida pela opinião pública. Ao compreender que qualquer transformação cultural em curso no Brasil precisa levar em conta os veículos de comunicação, o movimento apresenta as mulheres como sujeitos políticos com habilidade para imprimir seu discurso na esfera pública, lançando o olhar feminista para a mídia como “locus privilegiado da ação política” (Jordão, 1999).

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ESPAÇO

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Ação inédita
O Fórum de Mulheres de Pernambuco, em intercâmbio com a Rede Feminista de Saúde, decidiu investir na potencialização da fala pública de suas militantes por meio do projeto Mídia Advocacy – Qualificando Porta-Vozes Feministas de Pernambuco para dialogar com a imprensa. 9 Trata-se de uma ação inédita em comunicação que, além de habilitar feministas para lidar com a mídia, prima pelo seu aprofundamento teórico em temas relacionados com saúde, direitos reprodutivos e direitos sexuais. A primeira edição do Mídia Advocacy começou em março de 2003 e vai até março de 2004 e também tem o apoio da Ação Mundo Solidário – Projetos na América Latina (ASW).10 O projeto vem sendo desenvolvido com 25 mulheres líderes de organizações feministas e de grupos comunitários de oito municípios da Região Metropolitana do Recife, Zona da Mata Sul e do sertão pernambucano. A metodologia prevê discussões sobre o papel dos veículos de comunicação, troca de experiências por meio de vivências, exercícios de argumentação, de fala pública e media training. A idéia é fortalecer o discurso feminista não apenas para “figurar” na esfera pública e conquistar espaço. O projeto pretende, ainda, orientar as participantes sobre a lógica e o funcionamento dos veículos de comunicação de modo que elas passem a interagir com profissionais de imprensa e suas opiniões influam nas coberturas jornalísticas de temas de interesse do movimento. Em âmbito nacional, o movimento comemora o surgimento do Instituto Patrícia Galvão, uma ONG criada em 2002 por ativistas e feministas que atuam no campo da comunicação em todas as regiões do país. Entre seus objetivos, o instituto pretende “colaborar para a promoção e a construção de uma imagem da mulher na mídia que seja mais adequada à realidade das brasileiras e que reflita o crescente reconhecimento dos direitos humanos das mulheres”. Trata-se de uma grande contribuição para o feminismo brasileiro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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10 O Fórum de Mulheres de Pernambuco está negociando a continuidade da execução da proposta em 2004 com a ActionAid e com o Dia Mundial de Oração – Comité Aleman. FEV 2004 / MAR 2004

9 O projeto vem sendo coordenado pela autora deste artigo como parte de suas atividades como bolsista do programa de Gênero, Reprodução, Ação e Liderança, da Fundação Carlos Chagas, com o apoio da Fundação MacArthur e em parceria com a ONG feminista SOS Corpo – Gênero e Cidadania.

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CULT
CULTURA
Fátima Pontes *

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URA
samba
O olhar de Cris Veneu1 pousa vibrante e emocionado sobre as representações do samba. É como se repetisse os versos da canção De volta ao samba de Chico Buarque, “Acenda o refletor / Apure o tamborim / Aqui é o meu lugar / Eu vim”. Ver fotos de sambistas, violões, estandartes é, sobretudo, sentir as intensidades da cultura de um povo. Mas é também constatar que o samba pode ser uma importante e bela fonte criadora de imagens. Elas nos contam uma história. Melhor, várias histórias. Assim como as letras dos grandes sambistas expressam os múltiplos aspectos da vida – o sentir, o lutar, o sofrer, o sobreviver –, as fotos nos mostram recortes da emoção humana no essencial momento da manifestação da arte, levando-nos a compreender a nossa própria trajetória.
1 Cris Veneu é carioca. Vem desenvolvendo esse trabalho há sete anos, onde lida com sensações particulares sobre o samba, criando sempre no limite fronteiriço entre o fotojornalismo e sua subjetividade, convidando cada um(a) a fazer sua própria incursão nesse universo. As fotos que ilustram esse texto são fruto da exposição individual Do Samba, ocorrida no primeiro sábado de fevereiro de 2004, no Espaço Bananeiras, em Santa Teresa, Rio de Janeiro.

Do

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C U LT U R A

Produzir arte e cultura também é conhecer a si mesmo, saber o que é urgente e necessário para nós mesmos. O nosso lugar. E a fotografia nos revela por meio do samba – arte visceral – esse nosso lugar cultural e humano.

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DO SAMBA

A fotografia que revela a relação do sambista com o estandarte de sua escola nos remete aos aspectos de reverência e adoração, fazendo-nos pensar o quanto é imprescindível e essencial a emoção na vivência da arte.

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C U LT U R A

Reconhecemo-nos em cada uma dessas fotos. Percebemos nelas elementos de resistência e renovação nas imagens de jovens que juntam ao tradicional uma estética mais ousada, porém permeada pelo caráter de resistência de um fazer artístico e cultural cultivado apaixonadamente pelas pessoas mais velhas.

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C U LT U R A

Músicos, pandeiros e violões. O samba traduzido em imagens propicia um ouvir e sentir diferentes, pois são olhos e coração que definem, agora, seu sentido.

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DO SAMBA

* Fátima Pontes
Escritora, professora de literatura inglesa. Fotos: Cris Veneu

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