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ANÁLISE DO DISCURSO:

PRESSUPOSTOS E HISTÓRIA DA DISCIPLINA

A Análise do Discurso trata do discurso através de uma compreensão da língua como


resultado da materialidade da ideologia. O discurso é visto como uma mediação
necessária entre o homem e a realidade natural e social. Assim, o trabalho simbólico da
AD está na base da produção da existência humana, como diz Orlandi:

A primeira coisa a se observar na Análise do Discurso é que ela não trabalha


com a língua enquanto um sistema abstrato, mas com a língua do mundo, com
maneiras de significar, com homens falando, considerando a produção de
sentidos enquanto parte de suas vidas, seja enquanto sujeitos seja enquanto
membros de uma determinada forma de sociedade (ORLANDI, 2005: 15).

A AD não trata o discurso como transmissão de informação, não há linearidade na


disposição dos elementos da comunicação, para ela o discurso realiza um processo de
significação; é dada em funcionamento na linguagem, uma relação de sujeitos e sentidos
afetados pela língua e pela história, formalizando assim uma constituição de sujeitos e
produção de sentidos com efeitos múltiplos e variados. Pode-se entender o discurso
como efeito de sentidos entre locutores.

A disciplina Análise do Discurso nasce na França em fins da década de 1960, época que
coincide com o auge do estruturalismo, como paradigma de formatação do mundo, das
idéias e das coisas para toda uma geração da intelectualidade francesa. O principal
articulador, o filósofo Michel Pêcheux, tinha um objetivo bem definido quando dá
início ao desenvolvimento desse projeto. Sua intenção era intervir teórica e
cientificamente no campo das ciências sociais, mais especificamente no da psicologia
social, pois como diz Ferreira:

A Análise do Discurso nasceu em uma zona já povoada e tumultuada – de


um lado, numa esquina, ocupando quase todo o quarteirão – a lingüística; na
outra ponta espaçoso, o materialismo histórico, e no meio dividindo o espaço
lado a lado com a psicanálise, a teoria do discurso. Portanto, essa contigüidade,
esse convívio fronteiriço entre análise do discurso e psicanálise vem de longe,
vem desde o início. Tais vizinhas, contudo, ainda que bastante próximas
guardam distância e não confundem seus espaços comuns – são íntimas, mas
nem tanto, donde há “estranha intimidade” (FERREIRA, 2005: 213).

As ciências sociais estão na extensão das ideologias que se desenvolveram em contato


com a prática política, cujo instrumento é o discurso. Para Agustini (apud FERREIRA,
2005), Pêcheux sabia que a teoria do discurso não pode ocupar o lugar do Materialismo
Histórico e da Psicanálise; mas que pode intervir em seu campo. A partir desse
pressuposto, ele provocou uma fissura teórica e científica no campo das ciências sociais,
em particular, no campo da Psicologia Social, quando tomou o discurso e a teoria do
discurso como lugares possíveis de intervirem teoricamente. Tomando emprestados
conceitos de outras regiões de conhecimento para produzirem a AD, do Materialismo
Histórico, da Lingüística (como ciência-piloto das ciências humanas e que tinha
condições de fornecer aos estudiosos da nova corrente as ferramentas essenciais para
análise da língua) e da Psicanálise, foi criada a disciplina através de conceitos
reinventados.

Assim, a proposta de um novo objeto chamado discurso surgiu com Michel Pêcheux
em sua tese Análise Automática do Discurso. Nessa época, ele trabalhava em um
Laboratório de Psicologia Social e sua idéia era a de produzir um espaço de reflexão
que colocasse em questão a prática elitista e isolada das Ciências Humanas da época,
sugerindo que as ciências se confrontassem.

Primeira fase da Análise do Discurso: máquina discursiva


Dado como conhecimento para o estudo das três fases que atravessam a Análise do
Discurso, Mussalim (2004: 118) propõe procedimentos para fazer as análises:

1. Seleciona-se um corpus fechado de seqüências discursivas;

2. Faz-se a análise lingüística de cada seqüência, considerando as construções sintáticas


(de que maneira são estabelecidas as relações entre os enunciados) e o léxico
(levantamento de vocabulário);

3. Passa-se à análise discursiva, construindo sítios de identidades a partir da percepção


da relação de sinonímia (substituição de uma palavra por outra no contexto) e de
paráfrase (seqüências substituíveis entre si no contexto);

4. Procura-se mostrar que tais relações, de sinonímia e paráfrase, são decorrentes de


uma mesma estrutura geradora do processo discursivo.

Sabe-se então que essa primeira fase da AD (AD– 1) é conhecida como máquina
discursiva, mais comumente chamada de AAD (análise automática do discurso), por
estar ligada a um período muito marcado, ou seja, a uma estrutura que é responsável
pela geração de um processo discursivo a partir de um conjunto de argumentos e de
operadores responsáveis pela construção e transformação das proposições, concebidas
como princípios semânticos que definem, delimitando um discurso.
Assim, para a AD – 1, cada processo discursivo é gerado por uma máquina discursiva, o
que provoca um assujeitamento do sujeito à maquina discursiva. Esse sujeito é
submetido às regras específicas do discurso que enuncia.

A esse respeito afirma Paul Henry (apud FERREIRA, 2005: 14):

O sujeito é sempre, e ao mesmo tempo, sujeito da ideologia e sujeito do desejo


inconsciente e isso tem a ver com o fato de nossos corpos serem atravessados
pela linguagem antes de qualquer cogitação (HENRY, 1992: 188).

Conclui-se que, nessa primeira fase, quem de fato fala é uma instituição, ou uma teoria,
ou ainda, uma ideologia.

Segunda fase da análise do discurso: formação discursiva

Michel Foucault, na sua apropriação do conceito de formação discursiva, propõe essa


como sendo o dispositivo que vai desencadear o processo de transformação na
concepção do objeto de análise da AD-2. A formação discursiva (FD), segundo
Foucault, é:

Um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e


no espaço que definiram em uma época dada, e para uma área social,
econômica, geográfica ou lingüística dada, as condições de exercício da função
enunciativa (apud MUSSALIM, 2004: 119).

Para AD-2, a FD tem um espaço que vem a ser atravessado por outras FDs, aquela FD
determina o que pode/deve ser dito a partir de um determinado lugar social. Ela será
invadida por elementos que vêm de outro lugar, de outras FDs. Segundo Mussalim
(2004: 119), o espaço de uma FD é atravessado pelo “pré-construído”, ou seja, por
discursos que vieram de outro lugar e que são incorporados por ela numa relação de
confronto ou aliança. Para Mussalin, o papel do analista do discurso é descrever como o
espaço de uma FD foi atravessado por outras FDs, buscando estabelecer as regras de
formação de cada uma. Assim, para a AD-2, o objeto de análise é as relações entre as
máquinas discursivas.

Como diz Mussalim (2004), o papel do sujeito nessa segunda fase da AD sofre uma
alteração. O sujeito passa a ser concebido como aquele que desempenha diferentes
papéis de acordo com as várias posições que ocupa no espaço interdiscursivo. O sujeito
do discurso ocupa um lugar de onde enuncia, e é este lugar, entendido como a
representação de traços de certo lugar social, que determina o que ele pode ou não dizer.
Esse sujeito, ocupando o lugar no interior de uma formação social, é dominado por uma
determinada formação ideológica que preestabelece as possibilidades de sentido de seu
discurso.

Terceira fase da análise do discurso: o interdiscurso

Na análise de Mussalim (2004), os diversos discursos que atravessam uma formação


discursiva não se constituem independentemente uns dos outros, mas se formam de
maneira regulada no interior de um interdiscurso. Será então, a relação interdiscursiva
que estrutururá a identidade das FDs em questão. Nessa nova concepção do objeto de
análise, interdiscurso, o procedimento de análise por etapas, explode definitivamente.
Com a AD-3, o sujeito sofre um deslocamento que inaugura uma nova vertente. Para
Possenti (2002), a concepção de sujeito é definida de forma um pouco menos
estruturalista. Afirmando-se, assim, na AD-3, o primado do interdiscurso sobre o
discurso, com um sujeito heterogêneo, clivado e dividido entre o consciente e o
inconsciente. O primeiro perde a sua centralidade quando o segundo passa a fazer parte
de sua identidade.

Conforme procuramos expor nos fundamentos do materialismo histórico na Análise do


Discurso, o cenário da concepção marxista trouxe uma visão sobre a relação da
produção material na formação da estrutura social, política e econômica do homem.
Partindo dessa concepção é que os teóricos estudiosos da AD passaram a analisar o
funcionamento da linguagem através da ideologia e a passagem dessa na materialização
da linguagem para estruturá-la no processo de significação. Pode-se dizer que a
ideologia é a condição para a constituição do sujeito e dos sentidos. Assim, não há
sujeito sem ideologia; o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia para que se
produza o dizer.