HISTÓRIA DA MAÇONARIA

AUTORIA DE: IVÁN HERRERA MICHEL – Gran Logia Del Norte de Colômbia TRADUZIDO POR: MAURÍCIO DE O. KROPIDLOFSCKY – Grande Loja Unida do RGS - BR

Este livro é dedicado às Maçonarias, sem restrições de nenhuma classe.

Edição Virtual: Darío Gómez Tafur. Janeiro de 2007

Conceito capa: Iván David e Lucy Michel Herrera Palácio • Revisão dos textos originais em espanhol: José Morales Manchego Mestre em História da Universidade Externato da Colômbia e da Academia Colombiana de História. • • Primeira edição impressa: 1.000 exemplares, dezembro de 2004. Segunda edição impressa: 1.000 exemplares, maio de 2006.

Made in Barranquilla, Colômbia • Esta edição virtual vertida ao idioma português, novembro de 2007.

Made in Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.

HISTÓRIA DA MAÇONARIA
Autoria de: Iván HERRERA MICHEL – Gran Logia del Norte de Colômbia Traduzido por: Maurício DE O. KROPIDLOFSCKY – Grande Loja Unida do Rio Grande do Sul - Brasil

IVÁN HERRERA MICHEL – Currículo Maçônico Escritor Maçom progressista iniciado na Maçonaria em 1983. Na sua qualidade de Grande Inspetor Geral da Ordem e membro ativo do Supremo Conselho do Grau 33 para a Colômbia, fundado em 1833, atualmente desempenha o cargo de Grande Orador desta alta Potência Maçônica. Ocupou o cargo de Grão Mestre da Grande Loja Maçônica do Norte da Colômbia, com sede no Oriente de Barranquilla, República da Colômbia, durante o período constitucional e estatutário 1998 – 1999, e foi o primeiro Secretário Geral da Conferência Maçônica Americana – COMAM – do ano 2004 até 2005. Igualmente, foi eleito para a dignidade de Deputado do Grão Mestre dessa Grande Loja Maçônica para o período 2006 – 2007 sendo seu cargo atualmente. Ivan Herrera Michel participou dos Colóquios e Assembléias Gerais do CLIPSAS celebrados no Canadá, Grécia, Turquia, Brasil, Ilha de Guadalupe e Chile, aonde apresentou exposições e coordenou mesas de trabalho. Em missão oficial e fraternal, visitou as Grandes Lojas Maçônicas de Porto Rico, Uruguai e Argentina. Autor, em companhia de Javier Otaola, Ex-Grão Mestre da Grande Loja Maçônica Simbólica da Espanha e Ex-presidente do CLIPSAS, do livro Um Olhar à Maçonaria Atual (2002). Diretor-fundador da revista Prancha Maçônica, que é publicada pela Grande Loja Maçônica do Norte da Colômbia desde o ano de 2000. Membro do Conselho de Redação da revista O Missionário, publicada desde 1992, a Sociedade Irmãos da Caridade, entidade de solidariedade social fundada em 1867 e integrada por Maçons da Grande Loja Maçônica do Norte da Colômbia. Colaborador, prefaciador e articulista de diversas publicações Maçônicas impressas na Internet. Conferencista em diversos foros e encontros Maçônicos colombianos. Maçom de escol. Vice-Presidente mundial de CLIPSAS gestão 2007-2010.

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MAURÍCIO DE O. KROPIDLOFSCKY – Currículo Maçônico. (Entusiasta e dedicado estudioso das coisas da Maçonaria) Simbolismo Iniciado em 01-06-93, Elevado em 07-12-93 e Exaltado em 06-05-94 – GLMERS - Grande Loja do Rio Grande do Sul – cadastro maçônico 11016.118 Instalado em 23-09-94 – G.O.B. – Grande Oriente do Brasil – cadastro maçônico 177.635 -Venerável Mestre até 21-7-99 – GORGS - Grande Oriente do RGS – cadastro maçônico 9.888, de onde saiu portando Quite e Placet. -Palestrante itinerante – GORGS -Investido Grão-Mestre em 27-07-2002 Filosofismo Grau 4 em 11-03-1995 – Sup.’.Cons.’. do RGS do 4º ao 33º do REAA – GORGS – C.I.M. 6.597 Grau 33 em 26-07-2003 – Sup.’.Cons.’. do REAA – M.Grosso do Sul – GLUMS – C.I.M. 01.0378.01 Títulos e comendas - Medalha Bento Gonçalves - GORGS - Reconhecimento Maçônico - GORGS - Benemérito da Ordem - GORGS Fundação de organizações maçônicas Foi mentor, fundador ou idealizador das seguintes: Lojas: “dos Alquimistas” no GOB-RS, “dos Alquimistas”, “Acrópole” e “Athenas” no GORGS; York 7, Construtores Sociais e São Jorge na Grande Loja Unida do RJ. Obediência: Grande Loja Unida do Rio Grande do Sul, sendo seu 1º Grão-Mestre e patrocinando a criação e fundação de 12 novas Oficinas, inclusive fora do Estado do RGS e fora do Brasil. Confederação: COMUB – Confederação da Maçonaria Universal Unida no Brasil, tendo sido seu 3º Presidente. Conduziu, presidindo, mais de 100 sessões magnas de todos os tipos, dando à Luz um numero superior a 250 novos Irmãos; tendo, como “afilhados maçons”, mais de 80 destes, em todas as Obediências do Estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Portador, guardião e fiel depositário da “chama votiva” da Grande Loja Unida do RGS.

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CONTEÚDO
PRÓLOGO À EDIÇÃO VIRTUAL PRÓLOGO À SEGUNDA EDIÇÃO IMPRESSA PRÓLOGO À PRIMEIRA EDIÇÃO IMPRESSA A PRÉ-HISTÓRIA MAÇÔNICA A GÊNESE ROMANA DEPOIS DE ROMA O ELO LOMBARDO DA ILHA DE COMO O PERÍODO MONACAL A PROTO-HISTORIA MAÇÔNICA OS CONSTRUTORES SE TORNAM SECULARES APARECEM OS GRÊMIOS DE COMERCIANTES OU GUILDAS OS GRÊMIOS DE ARTESÃOS A HISTÓRIA MAÇÔNICA O ELO TRABALHADOR DE PEDREIRA-FRANCO-MAÇOM (SÉCULOS XIV A XVI) O GRÊMIO QUE SE CONVERTEU EM MAÇONARIA OPERATIVA O SÉCULO XVII NASCE A MAÇONARIA ESPECULATIVA O SÉCULO XVIII A ALVORADA DA MAÇONARIA MODERNA AS CONSTITUIÇÕES DE ANDERSON A MAÇONARIA NA ESCÓCIA EM 1717 EXPANDE-SEA MAÇONARIA MODERNA SURGEM OS RITOS A MÚSICA MAÇÔNICA MUSEOLOGIA MAÇÔNICA O AVENTAL NEM SEMPRE FOI IGUAL O SÉCULO XIX A LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA E A AUTONOMIA DAS GRANDES LOJAS MAÇÔNICAS AS GRANDES LOJAS MAÇÔNICAS PRINCE HALL OU DE NEGROS NOS ESTADOS UNIDOS A FILANTROPIA AMERICANA OS LANDMARKS O SÉCULO XX OS OITO PONTOS DE LONDRES A DISCREPÂNCIA NA ATUALIDADE O PARADIGMA DA REGULARIDADE AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS CONCEITUAIS DE HOJE MAÇONARIA LIBERAL VERSUS REGULAR NO SÉCULO XX TROCANDO DE GEOGRAFIA: ÁSIA E ÁFRICA A QUESTÃO DO GÊNERO NA MAÇONARIA OS MAÇONS HOMOSSEXUAIS O QUE HOJE DESUNE A MAÇONARIA LATINO-AMERICANA O FUTURO O DARWINISMO SOCIAL

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PRÓLOGO DA EDIÇÃO VIRTUAL

Não temos o menor interesse em obter ganhos econômicos com a presente edição virtual, portanto ela é oferecida ao cyber espaço sem nenhum tipo de restrição, para que possa ser copiada ou reproduzida, parcial ou totalmente, por qualquer meio ou método. A redação básica deste texto é fruto de um pouco mais de um ano de trabalho; os dados resultam de muitos anos de colecionar livros, apontamentos, recortes, fotocópias de revistas e periódicos, leituras, entrevistas de autores, visita em bibliotecas públicas e privadas, traduções ao castelhano, consultas na Internet, conversações com especialistas em diferentes disciplinas, conversações com Masonas e Maçons de múltiplas nacionalidades, etc. Tudo provém de uma “gaveta de alfaiate” que organizei, com honestidade e sem prejuízos, para que este não seja um livro de meras divulgações, mas sim um texto de história. O que é realmente meu é o enfoque do livro - que é o resultado da visão que adquiri em mais de 23 anos de vivência Maçônica -, assim como o espírito didático liberal sem verdades oficiais, nem dados velados, ocultos ou “tratados”. Cada dado do livro “HISTÓRIA DA MAÇONARIA” foi verificado objetivamente e submetido ao exame da razão. Quando encontrei um debate a respeito de uma hipótese histórica, assim me manifestei, e às vezes que me deparei com um detalhe que não pude confirmar com outras fontes historiográficas, abstive-me de consigná-lo. De todos os modos, este trabalho é uma visão que se tem “do meu lado do balcão”. Também, quis que o livro fosse para além de um manual de história. Redigi-o de forma não muito extensa e acessível a todos, me apoiando permanentemente em fontes reais, para que seja lido em um vôo de avião de uma hora, ou para ser levado a praia, ou para que o gravem em um meio eletrônico sem que ocupe mais de um Megabyte; ou para que o leiam um capítulo por noite, ou para que o afixem em um blog e o baixem rapidamente. Também procurei que qualquer que seja a forma eletrônica de tê-lo, transportá-lo ou o dá-lo de presente, não signifique uma distribuição de bens maior que 1 (um) centavo de dólar norte americano. Tampouco é um texto para especialistas, senão um bom resumo para aprendizes que estão formando uma primeira idéia do que é a Instituição a que vão dedicar no futuro seu tempo e parte do seu dinheiro, já que só com conhecimentos e sensibilidades sólidas e verazes, por parte de seus novos agentes, pode a Maçonaria sustentar seu futuro. Entretanto, os estudiosos encontrarão muitas pistas para aprofundar, já que as chaves da Maçonaria transcendem as fronteiras ideológicas geracionais, e em conseqüência o futuro, devemos defini-lo com antecipação de uma imagem que seja respeitada pela sociedade.

O Autor Dezembro de 2006

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PRÓLOGO DA 2ª EDIÇÃO IMPRESSA

No ano 2004 completou 120 anos de fundação da primeira e mais prestigiosa Loja Maçônica de Investigação do mundo, a qual leva por nome “Quatuor Coronati” nº. 2076 e está jurisdicionada desde seu inicio à Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra, com sede em Londres. Em dezembro de 2005, esta Oficina Maçônica publicou a edição número cento e vinte, de seu influente anuário “Ars Quatuor Coronatorum”, que recolhe os trabalhos adiantados de investigação histórica de seus membros durante o ano que culmina. As razões que motivaram a criação de uma Loja Maçônica dedicada exclusivamente à investigação da história da Maçonaria seguem sendo válidas apesar do passar do tempo. Basicamente, surgiram da confrontação de mentalidades formadas à luz dos novos descobrimentos da ciência, com os antigos relatos místicos da Ordem. A história é a seguinte: Quando a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra surgiu da fusão de 1813 da Grande Loja Maçônica da Inglaterra, fundada em 1705, na cidade de York, e da Grande Loja Maçônica de Londres criada em 1717 na cidade do mesmo nome, considerou-se necessário fazer uma nova revisão no ritual e nas Constituições de Anderson. Esta iniciativa se pensava levar à prática dividida em duas partes, seguindo a estrutura original. Com as reformas de 1738, que por um lado continham as regulações, nas quais a Grande Loja Maçônica, suas Lojas Maçônicas subordinadas e seus membros deviam ser governados pelo outro, relatavam uma história mítica da Maçonaria apoiada no texto bíblico. A parte que continha as reformas às regulações foi passada em 1815, e a que revisava a história da Ordem nunca foi publicada. A versão oficial inglesa da história da Ordem, portanto, seguiu sendo a de 1723, que remontava até Adão, lançando como resultado aquilo que a partir de 1813 fez com que surgissem entre os Maçons fortes dúvidas a respeito da autenticidade de algumas de suas partes. Nessa época, para o meio maçônico não existia uma alternativa científica para a versão de Anderson. Ela era tão verídica como o era a Bíblia como expediente histórico, o qual não foi seriamente desafiado a não ser até 1850 quando Charles Darwin fez reparos à versão bíblica da origem do homem e à cronologia de Usher que era geralmente aceita. Para os anos 1860´s, e inclusive dois últimos dos 1850´s, já se tinham transcorrido um largo período do estabelecimento dos novos rituais posteriores à fusão de 1813 e alguns Maçons estudiosos já estavam preparados, para questionar o expediente mítico de Anderson e oferecer hipóteses alternativas sobre a origem da Maçonaria, apoiados em um terreno muito mais sólido.

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O Manuscrito ou Poema Regius é um manuscrito medieval (Séc. XIV) que se refere ao negócio da construção em pedra. A primeira notícia pública deste documento foi dada por J. O. Halliwell, em 1839, quando apresentou um escrito, intitulado On The Antiquity of Free Masonry in England diante da Sociedade de Antiquários. Em 1840 se publicou uma reimpressão com o título História Precoce da Maçonaria na Inglaterra que hoje repousa no Museu Britânico. Em 1859, o Museu Britânico adquiriu o Manuscrito de Cooke, outro texto medieval do século XIV, considerado posterior ao Regius, que também se ocupava do negócio da construção e estava em mãos privadas. Este novo documento, conhecido graças a Matthew Cooke, um colecionador Maçônico, foi publicado pelo Museu Britânico em um fac-símile em 1861, sob o título Historia e Artigos da Maçonaria. Embora os Manuscritos Regius e o de Cooke se relacionem com o negócio da construção, são muito diferentes em estilo e há diferenças fundamentais de conteúdo. Na edição de 1738 das Constituições de Anderson, o autor faz referência ao feito de que as cópias “das velhas constituições góticas” formaram a base do livro de Anderson. Estes documentos, denominados Old Charges (Antigos Deveres), eram pouco conhecidos durante algum tempo. Mas já em 1860 uns vinte exemplares se difundiram. Os estudiosos logo viram as semelhanças entre o estilo e o conteúdo do Manuscrito de Cooke e o estilo geral contido nas cópias existentes dos Antigos Deveres. Havia também diferenças materiais, mas as semelhanças eram suficientemente grandes para considerar seriamente que houvesse uma conexão entre o manuscrito medieval e as cópias do século XVII dos Antigos Deveres. Então, através dos comentários de Anderson, tentou-se conectar estes documentos com a Maçonaria, como modo propício para formular uma teoria que sustentara que a Maçonaria inglesa tinha derivado da arte operativa da Idade Média. Alguns historiadores perceberam esta hipótese como possível, mas era difícil de provar. De qualquer forma, este interesse crescente, a partir desse momento foi chamado Arqueologia Maçônica pela definição que traz o Concise Oxford Dictionary, 5° ed., da palavra Arqueologia: Estudo das antiguidades, especialmente do período pré-histórico. Entretanto, esta não era a única teoria proposta pelos investigadores, como demonstram os documentos conservados até então, já que agora havia alternativas aos mitos de Anderson que eram sustentados com evidências firmes. Desta forma nasceu na Inglaterra a Escola Autêntica dos historiadores Maçônicos, preparada para aceitar somente o que se podia apoiar em evidência apropriada. Rapidamente esta forma de enfocar a história da Ordem se propagou pelo mundo Maçônico, e veio complementar aquela

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escola que o alemão Carl Christian Krause tinha impulsionado na primeira década do século XVIII em Dresden, na Alemanha, que sustentava que se devia buscar a origem da Franco-Maçonaria nas corporações e sociedades de arquitetos da antiga Roma e não em antigos mistérios de civilizações muito longínquas no tempo. Foram figuras emblemáticas desta corrente de historiadores, os destacados intelectuais Ignacio Fessler, Juan Gottlieb Fichte, Federico Schroder, Federico Mossdorf e Juan Augusto Schneider, que sustentavam firmemente em seus escritos que a Maçonaria possuía uma origem medieval e corporativa. Quanto aos escritores vivos que pertencem a esta escola se destacam em idioma inglês o britânico Robert Lomas e John Hamill; em língua francesa o ex Grão-Mestre do Grande Oriente da França Alain Bauer, Jean Pierre Bacot, Eugenn Lennnhoff, e Jean Palau; e em idioma castelhano os espanhóis Javier Otaola e Amando Furtado, o chileno residente em Israel, Leão Zeldis, e o argentino Eduardo E. Callaey. Especial menção merece o escritor francês Daniel Beresniak, falecido na noite de 27 de abril do ano 2005 em Paris, na França, uma noite ao sair de uma Sessão em que se celebravam seus 50 anos de Iniciação Maçônica. Na mesma direção apontam as conclusões dos estudos que adiantam os centros para a investigação sobre a história da Maçonaria das universidades de Zaragoza na Espanha, Sheffield na Inglaterra e de Sorbonne de Paris na França, integrados por historiadores alheios à Ordem. Este livro foi escrito com perspectiva histórico-científica, e com essa mesma linha de pensamento mostra o rumo real que tomou a Ordem na atualidade, sem esconder nem manipular dados e tendências. Por último, tenta ler racionalmente, os “sinais da estrada” com o ânimo de oferecer uma visão séria de futuro. A circunstância de se haver esgotada a primeira edição de 1.000 exemplares deste livro, levou a publicação de uma segunda a pedido de muitos Maçons e as opiniões amáveis de alguns não Maçons. A reprodução de parte dele em algumas revistas e a recomendação "boca a ouvido" em diferentes cidades, é uma amostra de que os Maçons estão preparados para assumir a realidade da Instituição a qual eles pertencem. De todos os modos, estas páginas contêm uma revisão meticulosa de sua primeira edição, assim como uma ampliação que acreditamos útil para uma melhor captação da paisagem histórica da Maçonaria e de seu fenômeno sociológico.

O Autor - maio de 2006

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PRÓLOGO À PRIMEIRA EDIÇÃO IMPRESSA AO FALAR DA MAÇONARIA... ...costuma-se cair em generalizações, que terminam fomentando debates bizantinos. Os tópicos que se tornam mais difíceis de conciliar são os referentes a o que é ou não é Maçonaria, qual sua verdadeira história, qual sua filosofia e seu dever no mundo atual; qual é (ou deveria ser) a relação interna da mulher, até onde chegam suas relações com a política e a religião, e qual é a legitimidade Maçônica do paradigma da “Regularidade”. Como conseqüência destas dificuldades, assume-se “verdades” genéricas que são repetidas e propagadas até o infinito em documentos oficiais e textos categóricos, nos quais não se esclarece que são provenientes de uma corrente doutrinária específica, nem que as afirmações que se sustentam sozinhas são válidas para um setor da Ordem e não para outros. Desenhando-se, logicamente, um mapa conceitual afastado da realidade. A Internet facilitou o conhecimento da diversidade existente, fazendo um aporte importante aos Maçons e não Maçons interessados em conhecer além do paroquial, quais são as verdades efetivas, e os alcances do fenômeno sociológico que se conhece como Maçonaria. Afirma-se usualmente, quando o tema é objeto de discussão, que a Maçonaria de hoje, também chamada Franco-Maçonaria, e distinguida com o adjetivo de Especulativa, por seu afastamento das práticas arquitetônicas em altares de uma exclusiva atividade intelectual, descende da Maçonaria Operativa. Ela não seria, nem mais nem menos, que uns grupos de construtores formalmente organizados chamados Lojas Maçônicas – e que é um vocábulo derivado do italiano - Loja Maçônica - que a sua vez significava câmara, melhor dizendo, salão destinado às reuniões – com o propósito de monopolizar os contratos arquitetônicos da Europa renascentista. Ali, esses Maçons Operativos organizavam os trabalhos, estudavam os avanços das obras, os contratos, as finanças, o desempenho dos diferentes trabalhadores, incorporavam novos pedreiros, pagavam-lhes os salários aos Companheiros ou Oficiais, etc.; quer dizer, faziam o mesmo que hoje fazem os arquitetos em umas casinhas de madeira ou de bloco, ou contêiner, levantados ao pé dos edifícios em construção. Se alguém deseja ver alguma descendência real dessas “Lojas Maçônicas” no mundo contemporâneo, pode ir muito facilmente à construção de um novo edifício em sua cidade; e, ainda hoje, para que um estranho ao grupo construtor possa entrar nela, deve identificar-se, mostrar o motivo que o leva até lá e quais são suas intenções. A isso chamam os Maçons de “telhamento” ou “trolhamento” e as razões pelas quais ainda se procede assim são as mesmas de antes: garantir tanto a segurança dos trabalhos, como a dos trabalhadores e a dos materiais armazenados.

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A diferença com os dias atuais, consiste em que nessas Lojas Maçônicas Operativas, ao tempo que se discutiam os trabalhos arquitetônicos, se praticavam formalidades de traço religioso. A razão deste marcado catolicismo, encontra-se na circunstância de que estavam totalmente imersas na cristandade católica européia, que era sua ancestral fonte de ganhos. Naturalmente não admitiam, em seu seio, protestantes nem hereges, por temor de perder seu principal cliente, e, de passagem, padecer a sorte brutal que proporcionava a igreja Católica aos que se separavam de seus intuitos. A gênese destes grupos de trabalho, que se dedicavam à construção na Europa e que, de acordo à tradição, derivaram no que é hoje a Maçonaria, encontra-se entrelaçada remotamente com os corpos de arquitetos que acompanhavam as Legiões Romanas do século VII antes da era atual. Posteriormente, no século VI, com uns arquitetos que se localizaram em uma ilha do lago Como, ao norte da Itália, em seguida com os monges Beneditinos do VII ao XII, e, por último, com os grêmios de construtores que cultivaram a arte e o negócio da edificação na Europa na baixa Idade Média e no Renascimento. As organizações de arquitetos e pedreiros que construíram a Muralha da China na Ásia, a cidade Sagrada de Machu Pichu no Peru, as Pirâmides do Egito, o Templo de Ouro na Tailândia, as Pirâmides maias no México, os Jardins Suspensos da Babilônia no Iraque, os Templos Kmer na Birmânia, o Colosso de Rhodes na Grécia, a Mesquita de Aqsa na Palestina, ou o Taj Mahal na Índia, nada têm a ver com as organizações de arquitetos que povoaram de catedrais o velho mundo; e que com o tempo evoluíram até converter-se no que hoje conhecemos como Maçonaria. A incorporação à Maçonaria das tradições e os discursos metafísicos de povos originários do Oriente médio, África do Norte e Ásia Central, assim como de suas explicações cosmológicas, é um fenômeno especulativo que começou após as Lojas Maçônicas Operativas. Para citar um só exemplo, com o Rito Escocês Antigo e Aceito majoritariamente praticado no mundo, o qual não possuindo antecedentes na Maçonaria Operativa, se perfilou sozinho a partir dos célebres discursos de Sir Ramsay de 1736 e 1737 em Paris. Nesta época se afirmou, pela primeira vez na história, que a Maçonaria descendia primeiro dos mistérios do antigo Egito, e, logo depois, dos monges guerreiros e conquistadores conhecidos como os Templários, que em segredo teriam sobrevivido na Escócia da matança ordenada em 1307 por Felipe IV o Belo, Rei da França, e pelo Papa Clemente V. Os Maçons Operativos não praticavam Rito algum, pelo menos de acordo com a concepção moderna do termo. Muito ao contrário das explicações bíblicas, esotéricas e legendárias sobre a origem e o desenvolvimento histórico da Ordem, este livro esboça, na linha do tempo, a resenha das associações européias, pré-Maçônicas e Maçônicas, das longínquas origens de Roma até o convulsionado século XXI, limitando-se à versão suportada documentalmente com rigor científico. Isto quer dizer, conta a história real da Maçonaria. O Autor Dezembro de 2004

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A PRÉ-HISTÓRIA MAÇÔNICA A GÊNESE ROMANA A história é inevitável. Isaías Berlin Na parte central da península itálica, em uma área de terras pantanosas que cruzava antigamente o rio Tíber, perto de sua desembocadura, sobressaíam-se umas colinas cobertas de bosques. Em uma dessas elevações, depois conhecida como o Monte Palatino, estabeleceu-se em meados do século VIII antes da era atual, um povo composto por agricultores e boiadeiros, entre os quais deviam existir também mercadores. Esse pequeno povoado chegaria algum dia a se converter em nada menos que Roma, a “Cidade Eterna” berço do império Romano. Posteriormente, diversos autores recolheram e deram forma literária às antigas lendas a respeito da fundação da cidade, que se fixou convencionalmente no ano 753 antes de nossa era. Entre elas, a de que o fundador da cidade, Rômulo, descendente do herói troiano Enéas, foi amamentado em sua infância, junto com seu irmão Remo, por uma loba que se converteu no símbolo daquela urbe. De acordo com as fontes tradicionais, sete reis governaram a cidade ao longo de dois séculos e meio, durante os quais o território dominado pela incipiente Roma foi crescendo paulatinamente. Os quatro primeiros: Rômulo, Numa Pompilio, Túlio Hostilio e Anco Marcio, parecem ser puramente legendários, e, tanto seus nomes como seus feitos devem ter sido inventados e/ou narrados vários séculos depois da época institucional. Os três últimos, Tarquino o Velho, Sérvio Túlio e Tarquino o Soberbo, cuja existência está mais documentada, teriam sido etruscos, e seus governos teriam se estendido ao longo da maior parte do século VI antes da era atual. A monarquia etrusca coincidiu com um avanço cultural e econômico notável: os romanos, povo de mentalidade prática, adotaram o alfabeto grego, que modificaram até criar o alfabeto latino, que posteriormente utilizaria grande parte das línguas do mundo. Tanto os etruscos do norte como os gregos do sul influíram enormemente na formação de uma cultura especificamente latina. A lenda quer que seja Numa Pompilio, suposto segundo Rei de Roma, quem organize o exército e crie os célebres Colégios de Arquitetos atribuídos às Legiões Romanas que estiveram acantonadas no Oriente Médio. Segundo o relato, estes Colégios foram fundados pelo legendário rei Numa Pompilio no século VII antes da era atual, a quem se atribui que em seu afã de acabar com os rivais dentro do reino, estabeleceu uma religião comum e dividiu aos cidadãos em cúrias e clãs; o mesmo fez com os artesãos, a quem agrupou em corporações sob o nome de Collegia ou Colégios (Collegia Artificum). A cada colégio foram atribuídos os artesãos de uma profissão particular, e à cabeça deles estavam os Colégios de Arquitetos (Collegia Fabrorum). Seguidamente, as colonizações romanas eram levadas a cabo pelas Legiões do exército. Cada uma delas dotada com um Colégio que a acompanhava em suas campanhas com o objetivo específico de que, quando se sucedesse a colonização de um novo território, estes corpos

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especializados permanecessem ali para lançar a semente da civilização romana, construindo caminhos, pontes, aquedutos, quartéis, casas e templos. Em nosso parecer, qualquer que tenha sido a origem destes Colégios, a organização deles era muito similar a das posteriores Lojas Maçônicas da baixa Idade Média e do Renascimento europeu. Vejamos: Três conformavam um Colégio, que era regido por um Magister ou Mestre, os oficiais imediatos eram dois Decuriones ou Guardiões, análogos aos Vigilantes Maçônicos, pois cada Decúrio presidia uma seção do Colégio. Havia outros oficiais, tais como: um Escriba ou Secretário, que lavrava o registro de seus procedimentos, um Thesaurensis ou Tesoureiro, a cargo do fundo da comunidade e um Tabulários ou Arquivista. Como nestes colégios se combinava a adoração religiosa com os trabalhos do ofício, em cada um havia um Sacerdos ou Sacerdote que dirigia as cerimônias religiosas. Outra analogia com a organização Maçônica era que os membros de um Colégio estavam divididos em Seniores ou Superiores diretores do ofício equivalente aos Mestres, e em Jornaleiros e Aprendizes, análogos aos Companheiros e Aprendizes Maçons. Em seus arquivos se encontrou que tinham formalidades semi-religiosas e atribuíam interpretações simbólicas a suas ferramentas de trabalho, tais como o esquadro, o compasso, o nível e o prumo. Os membros dos Colégios praticavam seus ritos, e, com o transcorrer do tempo, foram iniciando militares, chegando a ser o teatro de todas as iniciações e doutrinas secretas, mesclando-se assim seus ritos com os dos palestinos e dos mitraicos que os soldados de Tito e Vespasiano tinham aprendido, enquanto estiveram acantonados na Pérsia. Mas, basicamente, seu sistema de doutrina era pitagórico.

DEPOIS DE ROMA O mundo ocidental não demorou a mudar. No século IV, Roma adota como religião oficial o cristianismo, e no V, os clãs germânicos saqueiam a cidade. A invasão dos ostrogodos no século VI, a seguinte ocupação bizantina e a destruição associada a estes movimentos contribuíram a precipitar a queda, a redução da população da cidade e a culminação do império. Durante um milênio, os Colégios romanos se desenvolveram, cresceram e se expandiram junto com o império, estabelecendo-se em todos seus domínios. Em cada um deles construíram aquedutos, muralhas, fortificações, edifícios governamentais, templos e pontes. Ainda se podem observar, da Espanha a Turquia e do norte da África ao Reino Unido, os vestígios de seu trabalho construtor. Ao cristianizar-se Roma, o trabalho civilizacional dos Colégios decaiu. De fato, a arquitetura se concentrou no sucessivo, principalmente, em converter as grandes edificações do império em igrejas cristãs. As bibliotecas e sedes de governos civis foram adotadas no culto da nova religião dominante. A ordem era: Um Só Reino. Um Só Rei. Uma Só Religião. O que ficava dos Colégios no resto da Europa desapareceu finalmente com as invasões bárbaras, embora na parte oriental do império continuasse a atividade arquitetônica cristianizada.

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Entre o fim dos Colégios e o surgimento das primeiras associações de decifração de escritos antigos, corporativas de construtores, a arquitetura pré-românica fica por conta, inicialmente, de uns construtores privilegiados radicados em uma ilha fortificada de um lago do norte da Itália denominado Como. Da tardia atividade construtora dos novos monges beneditinos, de Cluny e Cistercienses, em ordem de aparição na história, antes de desembocar nas Guildas medievais e nas posteriores Lojas Maçônicas Operativas, desaparecidas nos séculos XVI e XVII, para supostamente dar passagem à Maçonaria Especulativa ou Moderna, por um lado, e às escolas e faculdades de arquitetura por outro.

O ELO LOMBARDO DA ILHA DE COMO Logo depois da queda do império Romano, no norte da península itálica se estabelece no século IV o povo germânico dos Lombardos, ocupando a região das atuais províncias italianas de Bérgamo, Bréscia, Como, Cremona, Mantua, Milão, Pavía, Sondrio e Varese, aonde fundou um reino que sobreviveu até o século VIII. A esta zona ainda se conhece com o nome de Lombardia. Os Lombardos constituíram-se em um povo que invadiu e conquistou o norte da Itália durante três séculos, converteu-se ao cristianismo e adotou o latim como língua diária, sendo finalmente derrotado por Carlos Magno no ano 774 e assimilado pelos habitantes dos territórios ocupados. Na Lombardia, perto da borda sul dos Alpes e antes de chegar ao piedemonte, encontra-se na província de Como um lago do mesmo nome em forma de Y. É o mais profundo dos lagos alpinos, e seus limites estão definidos por profundos vales de falésias que foram produzidas durante a formação dos Alpes. Dado que seus leitos foram comprimidos e erodidos por glaciações posteriores, sua elevação é de 198 metros sobre o mar e conta com partes desse leito a 200 metros sob o nível do Mediterrâneo. Hoje em dia, o lago Como é um idílico pólo de atração turística e nenhum material lembra que no século VI, um grupo de imigrantes construtores originários de diferentes partes da Europa se radicou em uma de suas ilhas, que na ocasião se achava fortificada. Estes construtores adquiriram fama e passaram à história como os Magistri Comacini, e a eles se atribui à difusão de um estilo italiano pré-românico amplamente difundido na Alemanha, França, Inglaterra e Espanha. Pouco a pouco, estes construtores foram ganhando em prestígio e autonomia, como consta em um antigo documento do ano 643, atribuído ao rei lombardo Rotary, no que se encontram consignados uns privilégios outorgados à corporação de arquitetos da ilha de Como. Leader Scott, em seu livro The Catedral Buildres: The Story of a Great Masonic Guild, expõe a tese de que os Magistri Comacini constituem o elo que une os antigos Colégios romanos com as Guildas (Grêmios) de ofícios medievais, e, portanto, são os verdadeiros precursores da organização social que em seguida se conheceria como Maçonaria. Ludovico Antonio Muratori, arqueólogo e crítico literário do século XVIII, afirma que a reputação destes Construtores de Como era de tal natureza, que arquitetos de toda a Europa e Ásia Menor se dirigiam a sua ilha fortificada para obter instrução.

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HISTÓRIA DA MAÇONARIA
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Não devemos desprezar o fato que a história dos construtores europeus em geral, e a da Maçonaria em particular, nasceu e evoluiu ao lado dos marcos civilizacionais que serviram simultaneamente de gênese e desenvolvimento dos atuais estados desse continente.

O PERÍODO MONACAL A partir do século V - período em que entrava em colapso o império romano - tornou-se moda entre os jovens cultos de famílias patrícias instalarem-se longe das cidades formando pequenos grupos dedicados à oração e ao estudo: são os monajos – monges – que durante os séculos VI, VII e VIII floresceram em toda a concha mediterrânea, sobremaneira na ocidental. A intenção principal era afastar-se da agitação da cidade e da corrupção dos líderes da igreja Católica romana. Um destes monges é Benito, originário de uma distinta família da cidade da Nursia, na Itália central. Ele, depois de fundar doze monastérios, no princípio do século VI na cidade de Subiaco, perto de Roma, retirou-se às ruínas de uma antiga edificação, situada em uma colina de onde domina a cidade italiana de Cassino, ao noroeste de Nápoles; que tinha servido de residência a Nerón e do Templo de Apolo, para fundar no ano 529 um monastério denominado, precisamente por sua localização, de Montecassino. Este chegaria a constituir-se no mais importante da Europa ocidental durante vários séculos. Uma lenda conta que durante sua construção se deram vários sinais sobrenaturais, como por exemplo, que vários monges não podiam mover uma pedra que se encontrava no topo por mais esforços que fizessem. Chegou São Benito, rezou, e a pedra perdeu seu imenso peso. “Era o Maligno, embora eles não o vissem” conta São Gregório Magno. Logo aumentaram os seguidores de Benito e, dado que as comunidades se compunham sempre de um pequeno número de membros, não demoraram em criar outros centros de retiro. Benito da Nursia foi considerado fundador do Monacato no Ocidente, por isso foi posteriormente canonizado pela igreja Católica. Com o fim de manter a unidade entre as diferentes comunidades, surgidas todas de um mesmo tronco comum, Benito elaborou uma série de normas que se constituíram as regras da Ordem e que teriam uma importância decisiva na atitude dos monges e dos centros monacais durante a Idade Média. Benito dava uma importância fundamental ao livro, à leitura e à cópia e conservação de manuscritos: ordenava de forma detalhada às horas que deviam dedicar-se ao estudo e à leitura, e como se organizaria o trabalho nos monastérios para poder satisfazer a demanda constante de manuscritos. A inclinação decidida e enérgica ao trabalho levou estes monges a incursionar nos ofícios mais diversos. Um deles foi o da construção, retomando a partir do século IX a qualidade de centros construtores, que tinham ficado órfãos com o desaparecimento dos Magistri Comacini. Seu maior período de esplendor se deu na Idade Média, de tal forma que para o século XIV a contribuição da Ordem Beneditina à história da Europa ocidental era 24 Papas, 200 cardeais, 7.000 arcebispos, 15.000 bispos, 1.560 Santos canonizados e 5.000 beatos, e, no plano secular, 20

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imperadores, 10 imperatrizes, 47 reis e 50 rainhas. Todo um recorde de poder e riqueza jamais superado. No princípio, os monges Beneditinos se aplicaram à tarefa de construir canais de irrigação, aquedutos, muralhas de contenção e pequenas obras civis nos povos próximos a seus monastérios. Com o tempo, e à medida que foram adquirindo riquezas e influência, foram passando à edificação de prédios maiores até concentrarem-se na construção de Igrejas, catedrais, etc., em um estilo que logo se encontrava em Roma e denominou-se Românico, tendo seu maior auge nos séculos IX a XII. Em seguida viriam os monges de Cluny, Cistercienses, etc. Este impulso construtor trocaria a face da Europa. Primeiro com o estilo Românico, e depois com o Gótico.

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A PROTO-HISTÓRIA MAÇÔNICA:

O trabalho afasta do vício, o fastio e a miséria. Refrão árabe OS CONSTRUTORES SE TORNAM SECULARES Sob a proteção dos abades encontramos as primeiras evidências de uma pré-maçonaria primitiva, fruto da renovação do conhecimento e as técnicas da construção, em momentos em que tal como diz J. G. Findel: “... ao lado dos monges arquitetos apareceram arquitetos laicos...”. Estes homens, dedicados ao ofício de construir, ligados em princípio às ordens monásticas, principalmente às de Cluny e Del Cister, organizam-se nas primeiras associações corporativas. É o momento da aparição dos antecedentes das corporações da baixa Idade Média, das que evoluíram à Maçonaria Operativa. Das primeiras preocupações destas associações de construtores está a de dotar-se, em princípio, de um estatuto pelo qual se repartiam as cargas de trabalho, organizavam a incorporação de novos membros, fixavam o pagamento e indenizava-se solidariamente pelas perdas que pudessem sofrer em suas propriedades, etc. Estas normativas sempre foram acompanhadas com uma história do grêmio que lhes servia de inspiração e guia religiosa.

APARECEM OS GRÊMIOS DE COMERCIANTES OU GUILDAS No alvorecer da baixa Idade Média, como produto do crescimento comercial que acompanhou à mudança de milênio, e o crescimento do tamanho e a importância das cidades e vilas, aparecem na vida econômica européia, uns agrupamentos sociais, caracterizados pela busca comum de um interesse mercantil específico, denominadas Grêmios. Estes novos agentes econômicos se dividiam de acordo à classificação por estamento da sociedade em Grêmios de Comerciantes e posteriormente Grêmios de Artesãos, e sua vigência na Europa manteve-se do século X até o XVII. Entretanto, durante os séculos XI e XII, estas organizações não são totalmente independentes. Os Estatutos pelos quais se deviam reger eram impostos pelo poder político municipal e sua autonomia só era para as questões da arte que praticavam. Em princípio, a atividade destes Grêmios era um tanto sedentária e se encontrava focalizada em um determinado centro urbano com tímidas projeções às cidades vizinhas. Com a dinamização do comércio, pouco a pouco, começam a organizarem-se caravanas ou expedições comerciais a locais cada vez mais longínquos, sob a liderança de um chefe e o cumprimento de uns

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regulamentos, que estabeleciam normas de socialização, mútua ajuda frente aos perigos que pudessem apresentar-se, e formas de dirimir os conflitos internos. Estas expedições comerciais se conheceriam nos países de fala germânica como Guildas e/ou Hansas, e no sul da Europa como Caritas ou Fraternitas. O normal é que as largas viagens compartilhadas, o interesse comum em um ganho econômico e a convivência permanente fizesse com que entre os membros destes Grêmios se produzisse uma fecunda amizade que se estenderia aos seus círculos sociais e familiares. É precisamente em um documento originário de uma Guilda, do ano 1292, quando se menciona pela primeira vez o termo “Loja Maçônica”, fazendo referência ao local de reunião de seus membros. Assim organizados, os Grêmios de Comerciantes vão ganhando em monopolização de sua respectiva atividade mercantil e em importância frente aos senhores feudais, que até então concentravam todo o poder nas cidades. Este poder se exerceu cada vez mais sem timidez, de tal forma, que com o passar dos anos controlaram os bens de produção e a comercialização dos produtos. Aos comerciantes que não eram membros do Grêmio cobravam maiores impostos. Os que pertenciam a ele adquiriam influência política e realizavam alianças com comerciantes de outros centros de produção ou comercialização, obtendo a penetração em outros mercados e o aumento de lucros. Nos séculos XIV e XV, os Grêmios de Comerciantes enfrentaram sua maior ameaça: apareceram os Grêmios de Artesãos, os quais terminaram monopolizando a produção e venda de bens, desenvolvendo como conseqüência a perda de protagonismo e importância dos primeiros, até que finalmente desapareceu o controle que tinham sobre o comércio e se extinguiram no final da Idade Média.

OS GRÊMIOS DE ARTESÃOS Também conhecidos como Corporações de Ofícios. São entidades associativas ou societárias que aparecem na Europa do século XII, sobretudo na Itália, Alemanha e França, como uma resposta de contestação ao monopólio dos Grêmios de Comerciantes e com o ânimo de defender-se precisamente deles. Na Itália são conhecidos como Arte, na Alemanha como Zünft ou Innung, e na França como Corporation de Métier. A maioria dos Grêmios de Artesãos era constituída por homens, como correspondia à cultura cristã medieval em que os varões possuíam e exerciam muitos mais direitos do que chegaram a ter as mulheres. Entretanto, em uma sociedade solidamente categorizada existiam ofícios reservados para as mulheres, como por exemplo, os relacionados com o bordado e o tecido. Foram famosas as Corporações de Tecelãs no século XV, das que inclusive se desprende na aparência um ramo Maçônico possuidor de um rito derivado das ferramentas do bordado e não daquele da construção. Em alguns Grêmios de Artesãos cujos ofícios tradicionalmente eram desempenhados por homens, era lícito admitir mulheres, como um privilégio especial outorgado às viúvas e órfãs dos membros que houvessem falecido ou em virtude de uma circunstância excepcional.

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Estas Corporações de Ofícios se estabeleceram ao redor do castelo feudal ou nos subúrbios das cidades para realizar atividades artesanais. Em seu apogeu, tiveram grande influência política e social, e ao que consta, sua origem primitiva se encontra nas Confrarias religiosas fundadas inicialmente com o propósito de venerar ao santo padroeiro dos ofícios. Por exemplo, o dos joalheiros em torno do culto de São Ives. O ponto crítico se apresentou quando começaram a preocupar-se com as necessidades econômicas dos confrades. Pouco a pouco estes Grêmios de Artesãos foram concentrando o monopólio de seus ofícios, que chegaram a exercer um poder absoluto em muitas cidades européias, e estratificaram seus membros de acordo a suas destrezas e conhecimentos em três classes: Aprendiz, Companheiro ou Oficial e Mestre. O artesão que não pertencesse ao Grêmio dominante não podia fazer seu trabalho naquela jurisdição. A voz forte nos Grêmios de Artesãos, era dos Mestres, que mais que funcionários, eram proprietários da unidade econômica, das matérias primas e controlavam a comercialização do produto. Estes Mestres tinham tantos Aprendizes e Oficiais como o aconselhassem as necessidades dos trabalhos contratados. Uma Oficina era ao mesmo tempo uma escola. Dentro do Grêmio de Artesãos, os Aprendizes se iniciavam no ofício pela mão do Mestre e, enquanto durava o processo de aprendizagem, só recebiam comida e alojamento. Muitas vezes viviam na mesma casa ou oficina do Mestre. Quando o Mestre considerava que o Aprendiz já tinha assimilado o que lhe correspondia, convertia-o em Oficial com um salário fixo, para posteriormente, mediante a execução de um trabalho, que se denominava Obra Mestra, acessar a categoria de Mestre. Naturalmente, os Mestres não estavam ansiosos por aumentar sua competência e ceder parte do mercado que dominavam, por isso cada vez mais os entraves e as provas eram mais difíceis de superar para os Oficiais. Com o tempo, já nos séculos XIV e XV, os Oficiais foram confabulando, para exigir maiores salários e condições de trabalho, chegando até o extremo de inclusive organizar greves. Destas Associações de Oficiais dos Grêmios de Artesãos se diz que são os antecedentes mais diretos dos sindicatos. Os Grêmios de Artesãos chegaram a estabelecer condições ao mercado a partir de seu posicionamento monopolístico: preço único de bens e serviços, salários regulados, margens de utilidade controladas, jornada trabalhista, e padrões de quantidade e qualidade dos produtos a elaborar e preço dos bens e serviços finais. Isto trouxe consigo a eliminação da competência e o não melhoramento de técnicas. Por exemplo: Por volta do ano 1300 o Grêmio dos Tintureiros da cidade de Derby, na Inglaterra, tinha obtido que ninguém mais pudesse tingir dentro de um raio de 10 léguas à volta. No século XIV os Grêmios de Artesãos participavam do poder político das cidades cujo comércio tinha controlado. E o assunto não é de pouca monta já que para a mesma época em Paris existia mais de 130 Grêmios de ofícios, entre eles o dos Médicos. Para um maior controle sobre as Corporações de Ofício, cada uma delas se organizava sobre uns Estatutos, os quais procuravam principalmente assegurar umas relações comerciais

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monopolistas e reduzir a iniciativa individual, o livre comércio e o desenvolvimento da indústria independente. Os Estatutos assinalavam, na maioria dos casos, as seguintes prescrições, redigidas em uma linguagem religiosa de corte judeu-cristã, de acordo com o contexto social da Idade Média, aonde o cristianismo possuía um grande poder político e econômico: 1) 2) 3) 4) 5) 6) 7) Hierarquização da Corporação nos níveis de Mestre, Companheiro (Oficial) e Aprendiz; Regulamentação das relações de trabalho, com ênfase na proteção do Mestre; Proibição do trabalho noturno para garantir a qualidade do produto; Descanso dominical por razões religiosas; Proibição do trabalho a domicilio para não fomentar a competência; Fixação dos salários aos Companheiros; e Desenho de um rígido sistema de valores, relacionados com a moral pública e privada de seus membros.

O monopólio dos Grêmios de Artesãos começa a decair com o advento do capitalismo como novo sistema econômico que permite a produção a maior escala, favorecendo-se de passagem a criação de mais canais livres de distribuição e novas técnicas impulsionadas pela maior competência entre atores de diferentes mercados. Os Grêmios de Artesãos foram desaparecendo, ou sobrevivendo ao incorporar novos membros que sem serem operários do respectivo Ofício, se desempenhavam trabalhos, profissões ou ofícios relacionados com o objeto inicial do Grêmio, tais como fornecedores de materiais ou insumos, advogados, médicos do grêmio, empreiteiros, etc. Quer dizer, que entre o século XVI e começos do XVIII, só sobreviviam na Europa os Grêmios de Artesãos que tomaram a decisão de transformar-se em associações econômicas setoriais. Entre eles, alguns Grêmios de Construtores, chamados também Maçons, devotos de São João Batista, que foram admitindo em seu seio durante todo o século XVI a membros não pedreiros na qualidade de “Aceitos”. Um exemplo ilustrativo a respeito da forma em que funcionava no Renascimento a habilitação dos novos Mestres e sua vinculação aos Grêmios o constitui a preparação de Leonardo Da Vinci para contratar legalmente em Florença. Fruto dos amores juvenis de um futuro notário da República de Florença, com uma humilde camponesa e, adotado posteriormente, pelo matrimônio de seu próprio pai à idade de quatro anos, Leonardo ingressou em 1465, com 13 anos de idade, na qualidade de aprendiz, à Oficina de Andrea de Verrochio, um dos maiores artistas florentinos.

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Verrochio, por sua vez, tinha começado sua vida de Mestre como ourives, mas depois de ter trabalhado em Roma para o Papa Sixto IV, radicou-se em Florença e montou uma Oficina que lhe proporcionou dinheiro e fama. Além de limpar e assear a Oficina, Leonardo devia preparar as pranchas para pintar, moer as terras e pigmentos, preparar o verniz e realizar todos os tipos de trabalhos mecânicos. Leonardo contou com a sorte de preparar-se em uma Oficina polivalente, pois ao influente mestre Verrochio lhe confiavam a elaboração de objetos de bronze e prata, baixos-relevos para altares, esculturas, pinturas religiosas, etc. Incluso trabalhos de engenharia e arquitetura. A esfera de cobre dourada que coroa a cúpula da catedral Santa Maria del Fiore, a protetora de Florença, é fruto de sua afamada Oficina, e a Leonardo correspondeu aplicar a solda da obra. Em 1472, Leonardo Da Vinci terminou seu período de aprendizagem e se inscreveu como Mestre na Corporação de Pintores de Florença. Profissionalmente já estava habilitado para receber encargos e montar sua própria Oficina. Desde aí em diante, seu prestígio e dom natural o levariam a receber múltiplos e variados encargos. Seus principais clientes foram os endinheirados monastérios, os Médicis de Florença, os Sforza de Milão, os invasores franceses, os Papas, os republicanos de Veneza, e finalmente o Rei da França. Como se observa facilmente pelo exemplo de Leonardo, os Mestres, assim como suas Oficinas e os Grêmios aos quais pertenciam, contavam com o privilégio de exercer seu ofício livremente e de maneira franca, sem estar atados aos avatares políticos. Esta era uma característica das Oficinas e Grêmios dedicados à construção, em razão de que deviam deslocar-se continuamente de uma região à outra para cumprir com seus encargos, souberam capitalizar com acréscimo.

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A HISTÓRIA MAÇÔNICA

Estuda o passado, se queres prognosticar o futuro Confúcio

O ELO TRABALHADOR DE PEDREIRA FRANCO-MAÇOM (SÉCULOS XIV A XVI) No século XIV apareceu na Inglaterra o Poema ou Manuscrito Régio ou Manuscrito do Halliwell (1380) e o Manuscrito Cooke (1420) que são reputados como a compilação essencial dos antigos preceitos Franco-maçônicos comunicados oral e reservadamente entre os membros da Fraternitas e o elo fundamental entre as antigas associações de cortadores de pedra e trabalhadores de pedreira e a Maçonaria Operativa. Paralelamente, na Alemanha são escritos os Estatutos dos Trabalhadores de pedreira Alemães (1459), o qual nos leva a considerar o nascimento da Maçonaria Operativa em um amplo espaço geográfico europeu. Os documentos anteriores dos Grêmios de Construtores em realidade pertencem ao que denominamos a Protomaçonaria Operativa. E neste ponto, devemos remeter necessariamente ao leitor, para uma ampla compreensão da complexa evolução da Maçonaria, ao excelente livro Antigos Documentos da Maçonaria, publicado pela Grande Loja Maçônica do Norte da Colômbia, com sede capital em Barranquilla, no ano 2004; o qual contém uma recopilação completa de regulamentações relacionadas com a Ordem do século IX até 1717, elaborada pelo ex-grão Mestre e tratadista Maçônico Mario Morales Charris. Estas leituras, além disso, são a prova real de que desde os começos medievais da Maçonaria existe um “Código Moral Maçônico”, em principio com acento religioso, que em essência se mantém, embora agora, com um enfoque apoiado em valores. De acordo com o Poema ou Manuscrito Régio se proíbe de maneira absoluta admitir como Aprendizes aos Escravos e aos Inválidos e se fazem repetidas referências à fraternidade entre “irmã e irmão” prescrevendo-se expressamente que se deveria pagar “bem e lealmente” ao “homem e mulher fosse quem fosse”. Nem no Poema ou Manuscrito Régio ou Manuscrito do Halliwell, nem no Manuscrito Cooke, nem tampouco nos Estatutos dos Trabalhadores de pedreira Alemães, aparece referência alguma à Lenda de Hiram tal como a conhecemos hoje, nem ao trabalho em presença de um livro sagrado, nem à invocação ao Grande Arquiteto do Universo. Entretanto, estes documentos trazem um relato fantástico da história da geometria e a construção, que em realidade não resiste a mais ligeira análise histórica, mas que deu pé a uma tradição mágica que se tomou freqüentemente ao pé da letra. Tampouco se faz referência aos “Altos Graus”, os quais se introduziram em meados do século XVIII à Maçonaria Especulativa e não têm nada que ver com a Operativa. Em 1459 se reuniram no Regensburgo os Mestres trabalhadores de pedreira de Estrasburgo, Constanza, Berna, Colônia e outras cidades alemãs, e aprovaram um texto conhecido como Regulamentos da Associação de Lojas Maçônicas de Construtores. Esta associação se tem como o

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antecedente mais antigo, documentado, da federação de Lojas Maçônicas que séculos mais tarde se conhecerá com os títulos de Grande Loja Maçônica e Grande Oriente. Um ponto importante para ressaltar é que no Poema ou Manuscrito Régio inglês e no documento alemão Regulamentos da Associação de Lojas Maçônicas de Construtores, tem-se aos “Quatro Santos Coroados” (Quatuor Coronati), como os Santos patrões das corporações de construtores, coincidência em que se vê um enlaçamento entre os trabalhadores de pedreira alemães e os ingleses. A diferença consiste em que na seqüência os documentos alemães, além disso, trarão a invocação à trindade cristã (pai, filho e espírito santo) e à virgem Maria. A invocação aos dois São João – o Batista e o Evangelista – brilha por sua ausência nos textos iniciais da Maçonaria Operativa. Sobre estes Santos coroados, e sua lenda, vejamos o que diz o tratadista José Schlösser, da Grande Loja Maçônica de Israel, (Obediência fundada sobre as colunas da antiga e extinta Grande Loja Maçônica da Palestina), em um estudo que aparece amplamente difundido na Internet, intitulado Quatuor Coronati - a Lenda dos Quatro Mártires Coroados, que foram Nove, relato que transcrevemos completo por sua importância e evocação patronal na Maçonaria Operativa da França, Alemanha e Inglaterra até o século XVII:

“... Os Cinco Cláudio, Nicóstrato, Sinforiano, Castorio (e o ajudante deste último, Simplício) eram cristãos secretos e destacados operários nas pedreiras de pedra de Diocleciano, na Panonia, região do médio Danúbio. A lenda adiciona o romântico detalhe de que seu excelente trabalho se explicava porque era feito em honra a Deus. Recordemos que Diocleciano foi imperador romano do ano 284 aos 305 d. C. e que reorganizou o Império de acordo a um sistema hierárquico, a Tetrarquia. Seu genro, e em seguida Imperador, Valério Maximiliano Galerio o provocou a desatar uma dura perseguição contra os cristãos. Diocleciano ordenou a estes peritos que esculpissem uma estátua em honra a Esculapio (deus pagão da medicina, filho de Apolo). Firmes em sua fé, eles se negaram, perdendo o favor do imperador. Foram condenados a uma horrível morte: os encerrou vivos em ataúdes de chumbo, lançando-os ao rio em 8 de novembro do ano 287 D.C.(?). Um correligionário escondeu os restos em sua própria casa. Os Quatro Quando Diocleciano retornou a Roma edificou um templo para o culto de Esculapio, ordenando que os soldados romanos e especialmente os Milicianos de Roma lhe rendessem culto e queimassem incenso diante de sua imagem. Quatro soldados cristãos que se negaram foram açoitados até morrer e seus corpos jogados aos cães. Os cadáveres de Severus, Severianus, Corpophorus e Victorinus – nomes como seriam conhecidos posteriormente – foram, entretanto resgatados e enterrados junto aos outros Santos.

Os Nove

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Continua a lenda contando que passaram doze anos e o Bispo edificou em memória dos nove uma Igreja com o nome de Quatro Mártires Coroados. Como o diz o título, os Quatro Mártires foram em realidade nove.

Veneração Os relatos dizem que as “relíquias” dos Santos foram depositadas na Igreja: serra, martelo, maço, compasso e esquadro (os grêmios de carpinteiros também tinham a estes Santos por Patronos; recordemos que, grande parte dos edifícios da época se construía com madeira). Estas mesmas ferramentas junto a uma coroa e à imagem de um cão ou um lobo (que recusaram comer os corpos e os defenderam de outros carniceiros) formam a insígnia dos Santos. A igreja Católica dedicou em 8 de novembro para homenageá-los e os santificou. São Jerônimo (Sofronio Aurélio Jerônimo, autor da versão latina “Vulgata” da Bíblia, 347420) já se refere a eles.

Maçonaria Em séculos posteriores (VI) organizam-se os Collegia Fabrorum: seus integrantes ocupavam a retaguarda dos exércitos romanos que destruíam, na sua passagem, tudo existente em suas ações de conquista pela Europa, Ásia e o norte da África. A missão dos “collegiati” era a de reconstruir. dentro desses Collegii, venerou-se a memória dos Santos e suas ferramentas se converteram em seus emblemas. Ao simples efeito informativo e, se queríamos aceitar uma linha de continuidade, muitas vezes argumentada, mas totalmente infundada, entre feitos históricos cuja origem, causa e estrutura são totalmente distintos, caberia mencionar que os Mestres “Comacinos” (arquitetos isolados no Lago de Como na época em que se desagrega o Império, legendários precursores dos Maçons medievais), o franco (francos: clãs da Germânia, hoje a Alemanha), Carlos Magno (742814), Imperador do Ocidente (800), o Reino Germânico (843), o Sacro Império Romano (962), foram às pontes pelos que passou a lenda para chegar aos “Freemasons” ingleses (S. XII, “guildas”, que para agradar à Igreja se colocavam sob o amparo de um Rei ou um Santo) e aos “Steinmetzen” (trabalhadores alemães de pedreira) da idade Média (S. XII, que sob a mestria de Erwin de Steinbach construíram a Catedral de Estrasburgo), que adotaram os Quatuor Coronati como Santos patronos do Grêmio Operativo.

Documentos O “Manuscrito Régio” é o mais antigo documento normativo Maçônico conhecido até agora conhecido, data de 1380 e foi encontrado por Jones O. Halliwell, de quem leva seu nome, em 1839. É um poema de 794 versos contendo ricas lições éticas e harmonizados ensinos de tolerância e fraternidade, sugerindo uma ponte entre a Maçonaria Operativa, a que se refere, e a Especulativa que praticamos. Seu título é “Hic Incipiunt Constitutiones Artis Geometrae Secundum Euclidem”. Em sua conclusão diz: “Roguemos agora ao Deus Todo-Poderoso e a sua mãe a doce Virgem Maria, que nos ajudem a observar estes artigos e estes pontos em todas suas partes, como o fizeram outras vezes os Quatro Coroados, Santos mártires, que são a glória da comunidade. Bons Maçons, eleitos, também eles foram escultores e entalhadores de pedra. Eram operários dotados de todas as virtudes. O imperador os chamou perto de si lhes mandou que lavrassem a imagem de um falso deus e que a adorassem como se fora o Deus supremo...”. Após relatar a lenda, diz: “Sua festa se festeja oito dias depois da de Todos os Santos...”.

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Os “Estatutos dos Trabalhadores de pedreira Alemães”, constituições dos Steinmetzen (Grêmio de Construtores germanos) jurados na Assembléia da Ratisbona (Regesburg, Alemanha) em 1459, e aprovados posteriormente pelo imperador Maximiliano I, começa com a seguinte invocação: “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e de nossa Mãe a graciosa Maria, e de seus Santos servidores, os Quatro Mártires Coroados de perdurável memória”.” A existência simultânea da Lenda nestes dois documentos constitui uma prova determinante da origem comum da Maçonaria Operativa na Inglaterra e o continente.

O GRÊMIO QUE SE CONVERTEU NA MAÇONARIA OPERATIVA Do amplo e variado espectro corporativo da baixa Idade Média e do Renascimento, ressalta com luz própria, para efeitos de determinar a evolução da Maçonaria Operativa, o Grêmio de Construtores de que descende. Estes Grêmios de Construtores, seguindo o desenvolvimento econômico geral do final do Feudalismo e do começo do Capitalismo na Europa, em princípio o foram à maneira do dos Comerciantes, denominados Guildas e Hansas no norte e centro do continente, e Caritas ou Fraternitas, no sul. Posteriormente, e com a chegada dos Grêmios de Artesãos, os construtores também se independizaram do monopólio das Guildas, criando Corporações de Ofícios conhecidas como Corporazioni de Liberi Muratori, na Itália, e Steinmetzen, na Alemanha. No século XI as construções européias, especialmente as cristãs, elevaram-se para o alto. São exemplos paradigmáticos desta efervescência arquitetônica, sem precedente no Ocidente, na Espanha as Igrejas de São Isidoro de Leão, a Catedral de Jaca e a de Santiago de Compostela; na Inglaterra as Igrejas normandas construídas depois do ano 1066; na Alemanha Hirsau, Spira e o grupo de Colônia; na Itália a Catedral de Pisa, São Marcos de Veneza e a Catedral de Modena; além disso, do grande número das começadas na França. Henri Tort Nougues, em La Ideia Maçônica, Ensaio sobre uma Filosofia da Maçonaria (Edições Kompás, Barcelona) afirma que “... A liberdade de exercer um ofício estava sujeita a uma regulamentação rigorosa. Distinguiam-se dois tipos de ofícios: os ofícios regrados e os ofícios jurados. Os ofícios regrados estavam regidos pela autoridade pública, que promulgava uma regulamentação a que teria que se submeter querendo exercer estes ofícios. Os ofícios jurados constituíam uma espécie de corpo autônomo; a admissão nestes ofícios estava condicionada à prestação de um juramento. Os Franco-maçons pertenciam à categoria de “ofício jurado” e obtinham sua permanência mediante juramento...”. Este impulso renovador cria a necessidade de contar com organizações capazes de deslocar mestres do ofício, oficiais e aprendizes, de todo tipo, que fossem de uma vez eficientes ao momento de mobilizar quantidades de matérias primas maiores do acostumado e levantar edifícios com dimensões jamais concebidas na Europa. Os homens que se desagradam adquirem uma vantagem com a que não contam quem não o faz: ver o mundo além de sua paróquia natal.

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Não será demais anotar, que esses homens que se internavam na terra para elevar dali seus encargos, fazendo soar o cinzel sob o martelo, não conheciam o relato legendário que o monge Walafrid Strabón tinha escrito sobre Hiram, e que hoje é tão caro à Maçonaria, nem prestavam seus juramentos sobre a Bíblia. Para tais efeitos se costumava utilizar unicamente os estatutos da Loja Maçônica. Walafrid Strabón - de quem tão pouca menção se faz nos textos Maçônicos apesar de ser o autor da lenda mais difundida da Ordem – foi um monge beneditino nascido no ano 1808 na cidade de Suabia (em, Schwaben) localizada ao sul da Alemanha, no estado da Baviera, e falecido no mesmo local em 849, aos 41 anos de idade. Sua principal preocupação constituiu em simplificar as expressões e posturas corporais no momento de entrar nas Igrejas e ao rezar. Durante sua vida Strabón chegou a ocupar o cargo de Abade de Reichenau, uma formosa ilha alemã localizada no lago Constance, que ainda preserva as ruínas de um monastério beneditino, baseado em 724, que exercitou notável influência religiosa, intelectual e artística. As Igrejas de Santa Maria e São Marcus, São Pedro e São Paulo, e a de São Jorge, construídas principalmente entre os séculos nove e doze proporcionam uma boa visão da precoce arquitetura monástica medieval na Europa central. As pinturas que ainda adornam suas paredes testemunham uma atividade artística impressionante e explicam por que a ilha é chamada “a dos monges pintores”, e o conjunto justifica plenamente que a UNESCO a tenha declarado Patrimônio da Humanidade no ano 2000. Como bem o recorda o estudioso Maçom Rafael Fulleda Henríquez, de acordo com os documentos históricos que se possui, é no século XIV que se começa a chamar de Franco-maçons aos construtores que se achavam associados em Grêmios, e generaliza-se a palavra Loja Maçônica para designar o local aonde eles se reuniam. E é seu caráter itinerante que coloca a estes construtores fora do controle municipal e lhes dá um perfil e uma expressão diferente da dos outros Grêmios. Naturalmente, estes homens não podiam ser nem escravos nem servos, mas sim “Livres” e donos de seu destino pessoal. Portanto, a Loja Maçônica Operativa e seus Maçons são desde o começo um fenômeno econômico de origem urbana, sem restrição política territorial, que se desenrola ao compasso que o faz a burguesia. O historiador Paul Johnson, em sua obra Catedrais da Inglaterra, Escócia e Gales, (Weindenfeld & Nicolson, Londres, 1993, P. 134) sustenta que “... todos os artesãos medievais tinham segredos relativos a seus ofícios, mas os Maçons eram decididamente obsessivos com os seus, dado que associavam espiritualmente as origens de sua corporação com o “mistério” dos números. Tinham uma idéia pseudo-científica desenvolvida em torno dos números, as proporções e os intervalos, e memorizavam séries de números para tomar decisões e traçar suas linhas. Como no antigo Egito – outra cultura de pedra esculpida – eles tinham uma tradição de “oficina” muito forte e regras estabelecidas para qualquer contingência estrutural... Transmitiam seus conhecimentos verbalmente e os aprendiam de cor, escrevendo no papel o menos possível. Os manuais de construção não existiram até o século XVI”. Eduardo E. Callaey, sustenta em sua obra Monges e Trabalhadores de pedreira, uma Aproximação às Origens da Franco-maçonaria (Editorial Dunken, Buenos Aires, 2001) o seguinte: “... Embora no principio não seja fácil estabelecer as diferenças entre os Franco-maçons e os Grêmios de Ofício, logo eles seguirão rumos distintos na medida que estes últimos se constituirão como estruturas associativas destinadas a defender o monopólio e o interesse particular de grupos específicos, geralmente ligados a âmbitos geográficos determinados. Em troca, os Franco-maçons tomarão adicionalmente um rol diferente ao se assumir como depositários de uma tradição milenar e atribuir-lhe a tarefa de imprimir, através da pedra, uma mensagem destinada a elevar o homem sobre si mesmo, trazendo-o para um precoce renascimento que influirá

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dramaticamente na remodelação social... Existe, a priori, uma diferença fundamental: os Franco-maçons trabalham para as gerações que vêm. Os que trabalham nos alicerces das grandes catedrais sabem que não as verão com seus olhos. E aqueles que assistem ao final das obras, trabalham sobre pedras que poliram mãos de irmãos de gerações anteriores e que jamais os conhecerão...”. Tudo marchava bem no princípio. O crescimento da economia e do comércio nas cidades e vilas permitia que os Companheiros, uma vez completada sua capacitação, acessassem ao nível de Mestre, sem que estes se preocupassem com a competência. Mas as condições começam a trocar e com elas as preocupações dos Mestres estabelecidos. Nas palavras do historiador Henri Pirenne (História Econômica e Social da Idade Média, Fundo de Cultura Econômica, México, 1996, P. 150) “... Entre os Mestres artesãos e os aprendizes ou os companheiros, o acordo tinha durado enquanto estes tinham podido facilmente elevar-se à condição de Mestres. Mas o dia em que tendo deixado de aumentar a população, os Grêmios se viram obrigados a estabilizar, por assim dizer, sua produção, a aquisição da mestria se tornou mais difícil. A tendência a reservála às famílias que a detinham se manifestou por toda sorte de medidas: prolongação da aprendizagem, aumento das taxas que se devia pagar para obter o título de Mestre, necessidade da Obra Mestra como garantia da capacidade de quem aspirava a dito título. Numa palavra: cada grêmio de artesãos se convertia pouco a pouco em uma capela egoísta de patronos que só desejavam transmitir a seus filhos ou a seus genros a clientela de suas pequenas oficinas... Não é de surpreender, pois, que se observe desde meados do século XIV, entre os aprendizes, e sobre tudo, entre os companheiros que perdiam a esperança de melhorar sua condição, um descontentamento que se revela por constantes solicitudes de aumento de salário, e, enfim, pela reivindicação de participar ao lado dos Mestres no governo do Grêmio...”. Complementa a respeito, Eduardo E. Callaey, em sua obra já citada Monges e Trabalhadores de pedreira, uma Aproximação às Origens da Franco-maçonaria (Editorial Dunken, Buenos Aires, 2001) que se ocupa igualmente do que chama “A Rebelião dos Companheiros”: “... Surgem então algumas associações específicas de Aprendizes e Companheiros cujo principal objetivo é o de se proteger da exploração exercida pelos Mestres. A mais famosa destas associações é a que aparece na França com o nome do Compagnonnages em que alguns autores encontraram certo ponto de contato com a Franco-maçonaria. Na Alemanha serão conhecidas como Gesellenverbände”. Durante o transcurso do século XVII, os Franco-maçons que se achavam organizados nas Lojas Maçônicas, começaram a receber em seu seio, novos membros que não praticavam o ofício da construção, mas que sim estavam relacionados com ele. Era natural que no princípio começassem recebendo carpinteiros, vidreiros, ferreiros, transportadores, etc., até que finalmente, os novos Maçons ampliaram os requisitos de admissão, trocando em conseqüência o caráter da Loja Maçônica e o de seus membros, aos que só ficava a linguagem instrumental, das ferramentas de desenho e de construção do ofício original, dotadas de novidades contidas. Por alguma razão, estes Maçons não construtores, advertiram que o sistema moral e ético, e o modo de comunicação do conhecimento nas velhas Lojas Maçônicas Operativas, podia-se adaptar a um novo método de construção pessoal e social, e formaram, sabendo ou não, o que dali para frente se conheceu como Lojas Maçônicas Especulativas, mais aptas para a formação intelectual geral do indivíduo e da sociedade, do que para o exercício da arquitetura. Estas novas Lojas Maçônicas

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Especulativas, abertas assim aos cidadãos burgueses em geral, propagaram-se rapidamente pela Inglaterra, França, Alemanha e Espanha.

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O SÉCULO XVII

Procuremos mais ser pais de nosso futuro, que filhos de nosso passado. Miguel de Unamuno

NASCE A MAÇONARIA ESPECULATIVA Alguns historiadores consideram que os primeiros Maçons especulativos foram os Templarios sobreviventes à matança do rei Felipe o Belo da França e o Papa católico Clemente V, ordenado em 1307 e levado a cabo até 1314, em que morre na fogueira seu Grão-Mestre Jacques de Molay, com o fim de se apoderarem dos bens e posses da afortunada e bastante independente Ordem do Templo e ressaltar a muita mais dócil Ordem de Malta. Segundo esta hipótese, alguns Templarios fugiram às Altas Terras de Escócia para receber proteção do rei Robert Bruce, e se vincularam à economia local, em especial ao Grêmio dos Construtores. Este encontro Templário/Construtores faz com que os Grêmios de Construtores Escoceses adquiram características cavalheirescas que não existiam no continente europeu. Finalmente, Sir William Sinclair de Rosslyn, em 1737, renunciou ao privilégio hereditário de sua família de dirigir a Maçonaria Operativa nessa nação e submeteu seu nome à votação para o cargo de Grão-Mestre, resultando eleito. Desde aí à frente a Maçonaria escocesa se vincularia a corrente geral da história. Por outra parte, existe a tese sustentada que no ano 1435, funcionava no sudoeste da Inglaterra uma Loja Maçônica que era integrada por membros que não praticavam o ofício da construção, mas sobre esta notícia não existem maiores fontes documentários. Também se conta com a inscrição que em seu jornal pessoal fizera o célebre antiquário e heraldista Elias Ashmole, fundador do Museu Ashmolean em Oxford, Inglaterra, sobre o ingresso de seu sogro, que não era construtor, numa Loja Maçônica em Warrington, Cheshire, Inglaterra, em 16 de outubro de 1646. Igualmente se sustenta que no ano de 1517, em Paris, França, constituiu-se uma “Loja FrancoMaçônica” de caráter nitidamente especulativo, sob a direção do gênio Leonardo da Vinci, e a proteção do rei Francisco I. A história é a seguinte: Morto Leonardo em Paris, em 1519, sua iniciativa especulativa derivaria, quatro anos mais tarde, em 1523, em uma “Assembléia Geral de Franco-Maçons” franceses em que se lembraram uns princípios e uma organização básica, sobre a qual vale a pena deter-se por quanto representa uma nova orientação ideológica, liberal e progressista, no seio da Maçonaria, ao lhe atribuir à Ordem uma finalidade filosófica e científica. O texto desta novidade normativa é como segue: Princípios Básicos Constitutivos da Franco-Maçonaria Universal, aprovados em A Assembléia Geral de Franco-Maçons que se reuniu em Paris no ano de 1523.

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Da Loja Maçônica Franco-Maçônica e seus membros 1. Sete ou mais Franco-Maçons, devidamente capacitados, reunidos sob a abóbada celeste, a coberto da indiscrição profana, para discutir e resolver livremente, por maioria de votos, os assuntos que lhes interessem coletivamente, formam uma Loja Franco-Maçônica, similar às da Maçonaria Operativa. 2. Os trabalhos numa Loja Maçônica se verificam durante as horas livres de ocupação dos reunidos, e, preferivelmente, entre o meio-dia e a meia noite, sob a direção de um Mestre Aprovado (Presidente) e dois Zeladores, também Passados (Vice-presidentes). As reuniões se efetuavam diante dos utensilios de trabalho conhecidos, colocados no Ara do Meio na forma costumeira, estando resguardado o ingresso ao recinto da reunião por um Guardião seguro e resolvido, e um Perito telhador/trolhador dos visitantes. Todos os que desempenham cargos são eleitos por maioria de votos dos Franco-Maçons reunidos, seja para uma Assembléia ou para um período determinado por eles. 3. Os Franco-maçons reunidos numa Loja Maçônica, de acordo com as regras e costumes conhecidos desde tempos muito antigos, podem, com prévia averiguação em relação aos candidatos, Iniciar aos profanos nos Mistérios (Segredos) da Franco-Maçonaria e examinar aos Aprendizes e Companheiros para elevá-los aos graus de capacitação superiores imediatos, tirando deles a promessa de fidelidade na forma costumeira, diante dos utensilios simbólicos do Trabalho e da Ciência e lhes comunicando os sinais, os toques e as palavras secretas de reconhecimento e de socorro, universais entre os Franco-Maçons. 4. É costume antigo, firme e inviolável, não admitir como Franco-Maçons os seus inimigos naturais que são: os clérigos das religiões, os possuidores de títulos e privilégios das castas da nobreza e os homens que têm convicções contrárias aos princípios básicos da Franco-Maçonaria, salvo nos casos de rebeldia destes contra a ideologia dos grupos mencionados. 5. Não se admitem como Franco-maçons os escravos, os menores de idade e os incapacitados física e mentalmente. 6. União, Solidariedade e Cooperação são os princípios de organização interna da Franco-maçonaria Universal. 7. A inclinação ao estudo e trabalho, a vida e costumes sãos e normais, o comportamento decoroso, o tratamento fraternal entre os associados da Franco-Maçonaria, a preocupação constante pelo progresso e bem-estar do gênero humano e sua própria perfeição, são atributos de um bom FrancoMaçom. 8. Para possuir os direitos completos do Franco-Maçom dentro dos agrupamentos e dentro do povo Maçônico em geral, é indispensável e imprescindível escalar os três Graus de capacitação de Aprendiz, de Companheiro e de Mestre, e conhecer em essência a Lenda não alterada da Maçonaria Antiga em relação à Construção do Templo de Salomão; contribuir

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economicamente para o sustento de seus agrupamentos; assistir regularmente aos trabalhos da Loja Maçônica; preocupar-se com os irmãos doentes, perseguidos ou cansados e em desgraça e por seus familiares; ajudar aos irmãos viajantes e não abusar da confiança de ninguém. 9. São direitos essenciais de um Franco-Maçom: A. Voz e voto numa Loja Maçônica e na Assembléia Geral (Grande Loja Maçônica) dos Mestres Maçons; B. Eleger e ser eleito para todos os cargos dentro de seus agrupamentos; C. Pedir a revisão dos acordos tomados numa Loja Maçônica diante da Assembléia Geral dos Mestres Maçons; D. Exigir numa Loja Maçônica a responsabilidade dos eleitos no desempenho de seus cargos; E. Pedir justiça Franco-Maçônica em casos de conflitos entre os associados às Lojas Maçônicas afins; F. Formar triângulos e estrelas para trabalhar Maçonicamente nos lugares onde não é possível reunir-se numa Loja Maçônica por causas de força maior; G. Desfrutar de socorro, ajuda e proteção mútuo entre os Franco-Maçons; H. Visitar as Lojas Maçônicas ideologicamente afins e ocupar os postos correspondentes a seu grau de capacitação, prévia identificação de sua qualidade de Franco-maçom em forma costumeira e segura; e I. Pedir o Certificado de Retiro da Loja Maçônica sem explicação de causas, estando em pleno gozo de seus direitos. 10. São deveres primitivos dos Franco-Maçons, lutar: A. Pelo reconhecimento do princípio da separação da filosofia da teologia; B. Pela liberdade de pensamento e de investigação científica; C. Pela aplicação do método científico experimental na filosofia; D. Pelo intercâmbio dos conhecimentos e das práticas entre os homens, para o bem próprio e da humanidade; E. Pela liberdade de consciência religiosa e a proibição absoluta aos clérigos das religiões de se misturarem nos assuntos políticos; F. Pela abolição dos privilégios das castas da nobreza e do clero;

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G. Pela proibição de empregar aos escravos nos ofícios dos homens livres; H. Pelos direitos dos povos de se governarem livremente, segundo suas leis e costumes; I. Pela abolição dos Tribunais especiais de justiça do clero e das castas da nobreza, e o estabelecimento dos Tribunais comuns, de acordo com os costumes e leis dos povos. 11. Outras disposições Constitucionais: A. Toda Loja Franco-Maçônica é soberana, não pode misturar-se nos assuntos internos de outras Lojas Maçônicas, nem elevar a graus de capacitação superiores aos Aprendizes e Companheiros filiados a outras Lojas Maçônicas sem seu consentimento ou a solicitude delas; B. Um pacto entre as Lojas Maçônicas significa a Cooperação e não a renúncia total ou de parte de sua soberania; C. Sete ou mais Lojas Franco-Maçônicas de um território determinado podem formar uma Federação (Grande Loja Maçônica) e três ou mais Federações podem se unir numa Confederação; D. Para conservar intactos os princípios de União, Solidariedade e Cooperação não é recomendável a formação de duas Federações ou Confederações sobre o mesmo território; E. A Assembléia Geral dos Mestres Maçons é a autoridade Suprema do território de uma Federação, dita as leis, nomeia e controla seu Governo Federal e elege seus representantes e formam parte da Assembléia da Confederação; F. Todo Franco-Maçom capacitado, eleito para um cargo ou representação, é responsável diante de seus eleitores e pode ser destituído por eles em qualquer momento; G. Entre os Franco-Maçons e suas associações não podem existir diferenças apoiadas na distinção de raças, cor ou nacionalidade; H. Os princípios de Universalidade, Cosmopolitismo, Liberdade (não escravidão), Igualdade (diante das possibilidades) e Fraternidade (como base de relações entre os homens) são as metas da Franco-Maçonaria; I. Como produto do pensamento filosófico-progressista, os conceitos básicos da Franco-Maçonaria são sagrados e invioláveis. Estes preceitos não podem estar em contraposição com os progressos das Ciências nem com as idéias avançadas de épocas posteriores; portanto, os Franco-Maçons não podem tergiversá-los nem omiti-los, sem perder sua qualidade de progressistas e de FrancoMaçons; “Pelo triunfo da Verdade, cientificamente demonstrável, pelo progresso do Gênero humano, pela União, a Solidariedade e Cooperação entre os Franco-Maçons, e pela fraternidade Universal.”

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A esta incipiente Maçonaria Especulativa de perfil progressista, adogmática e liberal, pertenciam grandes homens da época da dimensão de Francisco Melzi, Andrea de Sarto, Juan Rozzo, Primacio e Juan Cousin entre os pintores; Benbenuto Cellini, Germán Pitou, Juan Guorejou, Pedro Betemps, Filiberto Delorme e Juan Lescot entre os arquitetos; Guillermo Pelicer, Pedro Dinamarquês e Jorge Lelve entre os escultores, Julio César Escalígero, José Justo Escalígero, Roberto Etiene, Juan Andrés de Lascaris, Guillermo Budé e Miguel Servet, entre os homens de ciência. No ano 1651, quando se consolidou a República na Grã-Bretanha e Carlos II fugiu para a Holanda, a Franco-maçonaria inglesa se reuniu em Londres, para proclamar o triunfante Oliver Cromwell como seu máximo dirigente. Nesta reunião se adotaram os Princípios básicos da Francomaçonaria, aprovados em Paris em 1523, com muito poucas mudanças se lhes deu a denominação de Carta de Constituição da Franco-maçonaria Inglesa, sendo à frente reconhecidos como “Limites” ou “Landmarks” em substituição daqueles. A intenção inicial era, de comum acordo com o Cromwell, promover a laicidade e a República na Inglaterra, mas a posterior restauração da Monarquia e a chegada dos Hannnover deram um enfoque novo à Ordem no Reino Unido, herdado dos países anglo-saxões e os que estão sob sua influência. Diga-se de passagem, a reforma inglesa de 1651 modificou o artigo 10 dos Princípios básicos da Franco-maçonaria, acrescentando-lhe os seguintes literais: J. Pela implantação da educação laica nas escolas; K. Pela abolição da escravidão humana; e L. Pela abolição da monarquia e o estabelecimento da república.

De todos os modos, dentro do desenvolvimento linear da Maçonaria Especulativa, e fazendo abstração – com certa licença – das iniciativas escocesas, inglesas e francesas mencionadas, tem-se como a primeira incorporação provada de um não construtor a uma Loja Maçônica, a que corresponde ao ano 1600, em Edimburgo, Escócia, quando a St. Mary Chapel Lodge N° 1, incorporou em suas reuniões a John Boswell, que era uma pessoa relacionada com o trabalho que se fazia, de tal forma que suas opiniões podiam contribuir ao objeto social do mesmo. Tampouco entrou em igualdade de condições com os outros. Chamou-lhe Maçom “Aceito”, e isto era um equivalente ao que hoje chamamos Membro “Honorário”. Esta novidade na admissão dos novos membros, em um grêmio de construtores que até a data tinha sido excludente com respeito ao ingresso de pessoas de outros ofícios, no interesse de proteger seus ganhos profissionais, converte-o em uma associação econômica setorial, mais funcional para a contratação de novas obras de arquitetura, que a forma anterior. E aqui começou uma mudança na Maçonaria, inicialmente impossível de prever em suas conseqüências, mas que ao final a salvou do desaparecimento: surgiu o germe da Maçonaria Especulativa, que levou a que com o passar do século seguinte alguns pensadores se refugiassem nessas Lojas Maçônicas contra os embates da ordem estabelecida e o pensamento único.

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Basta imaginar um pouco, em benefício da exposição, o que seria hoje esse casebre, que servia de ponto de reunião ao Grêmio; próxima à construção de um novo edifício, servia de refúgio para as reuniões dos intelectuais de esquerda. A polícia os busca, os governantes os perseguem e grande parte da sociedade não está de acordo com suas idéias e proceder, mas eles, ali, por alguma razão legal, estariam a salvo de aplainamentos, operativos, etc. Diferente destes tempos, naqueles, os casebres chamados Lojas Maçônicas brindavam imunidade aos que procuravam nelas estar a salvo/coberto, em razão, precisamente, dos privilégios que os construtores organizados tinham acumulado durante séculos em sua proveitosa relação com as casas reinantes e os líderes católicos. Os Maçons das novas Lojas Maçônicas Especulativas seguiam estruturados em dois níveis a semelhança de seus antecessores Operativos. Ou seja: Aprendizes e Companheiros. Ambos os coletivos, sob a autoridade de um funcionário administrativo denominado “Mestre”, também em analogia com o antigo chefe da unidade produtiva que lhes serve de gênese. As reuniões desta nova categoria de Maçons não se faziam frente a um livro sagrado, nem nelas se recebiam juramentos sobre a Bíblia, nem se mencionava a lenda de Hiram, nem sequer se usavam espadas distintivas das atribuições reais ou simbólicas de seus funcionários, nem ninguém afirmava que descendiam dos Templarios nem muito menos faziam alarde de gestos e gestuais cavalheirescos. Isso viria mais tarde. Naturalmente, nessas reuniões não se falava de reforma agrária, nem de redistribuição de receita nem da propriedade privada, que agora oferece até a igreja Católica, nem do proletariado operário, nem das massas camponesas; ao fim e ao cabo ainda faltavam quase dois séculos para que Marx escrevesse O Capital, quase três para que os bolcheviques tomassem o poder na Rússia, Mao fizesse a Revolução Cultural na China, e quase quatro para o assalto de Fidel Castro ao Quartel Moncada, a Guerra Fria, o Foquismo de Che Guevara, e para que a Conferência Episcopal de Medellín de 1968, em desenvolvimento da abertura aos novos tempos (Aggionarmento) do Concílio Vaticano Segundo, aprovasse a Opção Preferencial por quão pobres deu lugar à Teologia da Liberação, que a sua vez produziu uns que outros desmandos revolucionários e um Malhetaço de Roma que deixou os líderes desse movimento praticando “Votos de Silêncio”. E o que é mais ininteligível para os economistas de hoje: ninguém tinha ouvido falar de um tal Keynes, e muito menos de uma leitura monetarista da inflação e emprego. Naquelas Lojas Maçônicas, um membro protegido da ação possessiva do trono e do altar, recomenda a outro, e este a outro mais, e assim sucessivamente, até que surgiram problemas com os construtores e demais artesãos, que certamente não queriam ouvir falar de autonomia pessoal, nem do discurso do Método de Descartes, nem de Racionalismo, nem de Locke, e aos que ainda lhes intranqüilizava, que se falasse mal do Rei, e dos Papas e Bispos em volta. Eles eram gente singela, de vida singela e honorável, que ganhavam a vida honestamente, gozavam de bom prestígio na sociedade e não queriam problemas com a autoridade do Rei nem com a igreja Católica que, desde séculos, tinham sido seus principais clientes e fonte de ganhos.

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Ninguém os tinha convencido – e até se riam – se lhes contassem que um Maçom estrangeiro de apelido Mackey ia sustentar dois séculos mais tarde (em realidade, com muito êxito) que na antigüidade existia um funcionário Maçônico que se titulava Grão-Mestre, que nas Lojas Maçônicas nunca se aceitariam mulheres e que os Landmarks eram 25. Havia-se burlado a candura do futuro. A seguinte evolução adaptativa no tempo foi a criação de Lojas Maçônicas integradas exclusivamente por Maçons “Aceitos”, nas que não participavam os construtores. Aí terminaram de nascer os Maçons Especulativos e se salvou a Maçonaria. Já que de haver-se contínuo com a cômoda sobrevivência da tradição, as escolas e Universidades de Arquitetura, sobretudo as de Milão, lhes tivessem feito perder importância, como em efeito aconteceu, ao não haver a necessidade de filiar-se a uma Loja Maçônica para ganhar a vida ou fazer fortuna construindo edifícios, fossem estes religiosos, civis ou militares. A Grã-Mestra da Grande Loja Maçônica Simbólica Espanhola, Ascensión Tejerina (2000/2006), comenta esta evolução da seguinte maneira: Já no século XVI a construção de catedrais, grandes monumentos e palácios começam a deixar de ser a aspiração máxima das classes dominantes, quer dizer, o clero e a nobreza (entre outras razões, porque não podiam financiar-se). Ao mesmo tempo, as necessidades de obras menores e obras civis aumentavam grandemente devido ao advento da burguesia. Construía-se mais, mas não se necessitavam para estas obras os grandes conhecimentos dos Maçons tradicionais. Conseqüentemente, as Lojas Maçônicas dos Maçons operativos começaram a adoecer devido à falta de encargos. É durante este largo período de quase dois séculos de decadência da Maçonaria chamada “Operativa” que se gesta, de maneira totalmente fortuita e não premeditada, a outra Maçonaria chamada “Especulativa”, que é a que atualmente conhecemos. Em efeito, nestas Lojas Maçônicas, em desprestigio, de Maçons operativos, começam a admitir pessoas de relevo social, intelectuais, artistas, etc. que, sem estarem diretamente vinculadas com o mundo da construção, interessam-se pelo valor pedagógico, moral e intelectual que estas Lojas Maçônicas, por sua especial metodologia de trabalho, detêm. Também ganham acolhida nestas oficinas, membros de algumas organizações iniciáticas que tiveram que se dissolver por verem-se perseguidas pela Inquisição. Um lento processo de substituição se vai operando que comporta todo um trabalho de sintetização simbólica de todos os elementos cotidianos do trabalho operativo, dos rituais de iniciação até as ferramentas e procedimentos da construção. Este fenômeno se dá simultânea e Paralelamente em toda a Europa sem que haja, em princípio, nenhuma intenção de homogeneizar os conteúdos nem de assegurar a sobrevivência destas escolas de fraternidade. É dentro do marco desta dinâmica darwinista institucional, ou de seleção social, em que terá que se localizar tanto a análise do por que não desapareceu a Maçonaria no século XVIII, como o estudo a respeito das características eficientes que necessariamente possuirão quem sobreviva ao século XXII. Entretanto, e como costuma acontecer, nem todas as Lojas Maçônicas Operativas evoluíram e tornaram-se Especulativas ou desapareceram languidamente por falta de trabalho. Algumas

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sobreviveram ainda cultivando o mesmo que faziam antes de ser criada a primeira Grande Loja Maçônica, quer dizer, dedicadas ao negócio econômico da construção com Ritos pré-especulativos. No mês de setembro do ano 2004, aparece à luz pública na cidade de San Juan, Porto Rico, um excelente livro escrito por Edgar Martinez Masdeu, Grão-Mestre da Grande Loja Maçônica Mista de Porto Rico (antes, Grande Loja Maçônica Nacional de Porto Rico), intitulada Maçonaria para não Iniciados, que traz notícias da Maçonaria Operativa que sobreviveu até nossos dias com o nome em inglês de Worshipful Society of Freemasons, Rough Mason, Wallers, Slater, Paviors, Plaisterers, and Brick Layers”. Em castelhano: “Respeitável Sociedade de Franco-maçons, Pedreiros Mestres de Obra, Edificadores de Muros, Pizarreros, Pavimentadores, Yeseros e Ladrilleros”. Esta Obediência possui um elaborado sítio Web que pode ser consultado facilmente através de qualquer buscador e como é fácil supor não é “reconhecida” pela Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra, nem pelo meio centenário de Grandes Lojas Maçônicas anglo-saxãs dos Estados Unidos da América. A história que traz o estudioso Edgar Martinez em sua obra, cuja leitura recomendou, é a seguinte: “A criação da “Worshipful Society” se fundamenta nas investigações de Clemente E. Stretton quem dedicou muitos anos de sua vida a estudar os vestígios dos trabalhos operativos. No princípio do século XX eram ativas muito poucas lojas Maçônicas operativas. A sociedade é governada por uma Grande Assembléia com sede em Londres que é presidida por três Grão-Mestres. Em 21 de maio de 1913 se reconstituiu a “Worshipful Society” no Beford House em Londres. Quando a sociedade se reuniu em setembro de 1999 tinha um corpo de membros de 1.697 Irmãos e 51 Assembléias das quais 13 estavam na Austrália e 4 na Nova Zelândia.” “O Rito da Maçonaria Operativa regido pela “Worshipful Society” tem 7 graus e se trabalha neles em forma descendente, ou seja, do sétimo ao primeiro, que são: VII Três Ruling Mestre VI Mestre Certificado V Intendente e Superintendente IV Super Companheiro Erector III Super Companheiro II Companheiro I Aprendiz “Outras diferenças, para assinalar algumas, por curiosidade, são que os três Mestres se sentam no Ocidente (para ver nascer o sol pelo Oriente); o Primeiro Vigilante se senta ao Leste para destacar ao sol ocidente; o Segundo Vigilante se senta ao norte para destacar ao sol no zênite”.

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O SÉCULO XVIII

Uma Loja Maçônica deve procurar a heterogeneidade, não deixar instalar uma ideologia obrigatória, franquear os limites, e constranger aos homens e aos deuses a negociar Daniel Beresniak

A ALVORADA DA MAÇONARIA MODERNA Comecemos pelo princípio da Maçonaria Moderna, vendo como de um pouco completamente irregular surgiu o fenômeno sociológico que foi a Maçonaria Moderna há apenas três séculos, com seus grandes acertos, seus desacertos, e suas colossais divisões internas. Discute-se muito entre os historiadores, a exata participação que teve no nascimento da Maçonaria Moderna a influência doutrinária da tolerância e a amplitude intelectual de que fazia gala no século XVII uma sociedade inglesa denominada Royal Society, que congregava entre seus membros o mais amadurecido mundo intelectual inglês, entre eles o matemático e físico Sir Isaac Newton e Sir André de Ramsay, que seria na França um dos fundadores longínquos e indiretos do Rito Escocês Antigo e Aceito. De tal tamanho é a polêmica, que se encontra submetida à revisão a própria evolução linear da Franco-maçonaria Operativa à Maçonaria Especulativa. A Royal Society é uma instituição que ainda existe no Reino Unido, e é um dos maiores centros científicos do mundo. Seus membros incluem hoje vários homens e mulheres de ciência que ganharam o Prêmio Nobel, tais como Paul Nurse (por suas investigações sobre o câncer) e Peter Mansfield (que trabalha sobre o desenvolvimento das imagens de ressonância magnética). Igualmente, são membros da Royal Society o matemático e físico Stephen Hawking y Tim Berners Lee, inventor da world wide Web (Internet). Hoje em dia, a Royal Society é uma associação que se encontra completamente independizada da Maçonaria, e sua missão é nitidamente científica. A Sociedade apóia, economicamente, muitos dos melhores cientistas do Reino Unido como parte de sua missão de promover a ciência, e atualmente financia 1.600 deles cada ano com salários, bolsas de estudo, viagens ou doações de equipamentos. Igualmente concede 10 medalhas, 5 prêmios e 8 pergaminhos em honra a excelência em vários campos da ciência, a engenharia e a tecnologia. A Real Sociedade cada ano elege seus novos membros, originários do Reino Unido e suas nações associadas (Commowealth), escolhidos daqueles que contem com um sólido prestígio internacional no mundo da ciência, a engenharia e a medicina, o qual se considera uma alta honra e o maior “tapa nas costas” que um cientista pode receber, superado somente pelo Prêmio Nobel. Também elege a uns poucos membros estrangeiros. A história da Royal Society está intimamente entrelaçada com a história da ciência na Inglaterra e Escócia desde 1660. E pelos mesmos caminhos com a da Maçonaria desse reino do

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século XVII em seu interesse de apoiar as ciências experimentais. Suas origens parecem estar em uma instituição conhecida como “Invisible College” integrada por uns filósofos Maçons que começaram a se reunir em meados dos anos 1640´s para discutir as idéias de Francis Bacon. Mas, sua data oficial de fundação corresponde aos 28 de novembro de 1660, quando 12 homens – todos eles membros da Maçonaria – se reuniram no Gresham College, depois de uma conferência de Christopher Wren, professor de astronomia nessa instituição educativa, com o fim de fundar um Colégio para promover o ensino experimental da física e da matemática. Este grupo incluiu o mesmo Wren, Roberto Boyle, Juan Wilkins, Sir Robert Moray, e William, Visconde da Brouncker. A Sociedade acordou reunir-se semanalmente para apresentar os avanços dos experimentos adiantados e discutir assuntos científicos. O primeiro Curador de Experimentos foi Robert Hooke e Moray foi o encarregado de apresentar ao Rei Carlos II esta empresa e obter sua aprovação e patronato. Este monarca de acordo à tradição dos Estuard´s durante o século XVII se fez iniciar na Maçonaria. O nome da Royal Society apareceu pela primeira vez em uma publicação de 1661, mas foi numa Carta Real de 1663 em que aparece nomeada como “The Royal Society for Improving Natural Knowledge” (Real Sociedade para a Promoção do Conhecimento Natural), e sua primeira sede esteve localizada no mencionado Gresham College, em Londres, aonde iniciou rapidamente uma biblioteca e um depósito ou museu de espécimes de interesse científico. A Royal Society é em princípio uma associação dirigida a agrupar intelectuais e homens de ciência sem importar seu pensamento religioso, político, filosófico ou sua raça e seu caráter liberal fica definido pelas palavras de Thomas Sprat, um de seus fundadores e seu primeiro historiador, em sua obra The History of The Royal Society of London, Aparecida em 1667, em favor de “uma união entre manuais e intelectuais”, na qual sustentava: “... Temos assim uma visão excepcional da nação inglesa, ao saber que homens de pensamentos e de modos de vida antagônicos esquecem seus ódios e se reúnem para o progresso da ciência. Pois, o soldado, o comerciante, o mercador, o erudito, o gentleman, o cortesão, o presbiteriano, o papista, o livre pensador e os adeptos da religião oficial abandonaram seu fazer específico e trabalhavam com serenidade na prática e no espírito...”

Depois do grande incêndio de Londres de 1666, a Sociedade se mudou durante alguns anos para Arundel House, lugar em Londres dos Duques de Norfolk. E não foi, a não ser até 1710, sob a Presidência do Sir Isaac Newton, que a Sociedade adquiriu sede própria, em Crone Court. A partir de 1662 começou a publicar livros, de forma tão bem-sucedida que a Philosophical Transaction (Memórias Filosóficas) que edita é atualmente a publicação científica de maior antigüidade contínua do mundo. À exemplo da Maçonaria, por princípio, os membros da Sociedade escolhem por cooptação a seus novos companheiros, mas no começo os critérios para esta eleição não estavam muito definidos e a maioria deles não eram profissionais científicos. Em 1731 uma nova regulamentação estabeleceu que cada candidato devia ser proposto por escrito e apadrinhado por dois membros ativos que o apoiassem. Estes documentos ainda

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sobrevivem e permitem dar uma olhada às razões pelas que se fazia a eleição e os critérios de seleção. Em 1780, sob a Presidência do Sir Joseph Banks (1778/1820), que a exerceu até sua morte, a Sociedade variou sua orientação para uma combinação que favorecia tanto os trabalhos profissionais científicos como os dos aficionados. Esta visão decresceu em popularidade durante a primeira metade do século XIX, até que finalmente em 1847 se decidiu que à frente os novos membros seriam escolhidos com apôio em seus trabalhos científicos. Este novo enfoque para o profissional contribuiu significativamente para que a Sociedade, pouco a pouco, se convertesse inteiramente em uma academia de científicos. O governo reconheceu isto em 1850 outorgando uma doação à Sociedade de 1.000 Libras Esterlinas para assisti-los em suas investigações e comprar equipamentos. Daí em diante começou uma relação muito próxima com o governo que não implicou, em nenhum momento, que a Sociedade diminuíra sua autonomia essencial. Em 1857 a Sociedade se mudou uma vez mais para Burlington House no Piccadilly, e durante a seguinte centúria seu pessoal cresceu rapidamente obrigando-a a mudar-se de lugar, portanto, em 1967 se deslocou para sua atual sede no Carlton House Terrace, também em Londres, com um pessoal que agora cresceu a 120 membros, todos trabalhando pelo futuro da Royal Society em seu rol de academia científica independente. Seu atual Presidente desde ano 2000 é Lorde (Robert) Mai of Oxford. Voltando para os séculos XVII e XVIII, temos que o Dr. John Campbell (1708/1775), em seu artigo sobre o antiquário e membro da Royal Society Elias Ashmole, que apareceu em 1747 na Biographica Britannica, sustenta que numerosos manuscritos reunidos por este, com a intenção de escrever uma história da Maçonaria entre os séculos XIV e XVII, desapareceram em 26 de janeiro de 1679 quando um incêndio destruiu o Middle Temple da Royal Society onde tinha seu gabinete: “No que concerne à história antiga dos Franco-maçons, em relação à qual estamos desejosos de saber o que se conhece com certeza, posso lhes dizer somente que, se nosso digno irmão Elias Ashmole tivesse levado a bem seu projeto, nossa fraternidade se teria achado com respeito a ele tão devedora como os membros da muito nobre Ordem da Jarretera.” Em 1714, paralelamente a chegada dos Hannover ao trono britânico, uns sete senhores que não eram Maçons, reunidos com outros que o eram, mas ao parecer todos sócios da Royal Society, lhes ocorreu um dia em Londres, na taberna Goose and Gridiron Ale House, no St Paul’s Churchyard, constituir-se por si e diante de si como Loja Maçônica com o nome da taberna aonde se reuniam. É difícil precisar qual era a intenção inicial da iniciativa. Tinham descoberto algo atrativo no método de ensino que se dava no interior das Lojas Maçônicas a partir das ferramentas da alvenaria? Não. Parecia-lhes que os debates deveriam ter dois níveis, dependendo do nível intelectual dos sócios? Não. Era uma simples travessura intelectual, surgida ao calor de umas boas taças? Tampouco. Então?

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Da publicação da primeira edição deste livro em dezembro de 2004, é freqüente que alguns Maçons não relacionados com ambientes científicos, que tiveram a amabilidade de ler a obra, me interroguem a respeito da “Royal Society”. E este não é um detalhe de pouca monta, posto que a procedência espúrea é a base da sinalização da irregularidade de origem, que anota a Grande Loja Maçônica de Londres. Uma das duas Obediências que em 1813 fundaram a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra (United Grand Lodge of England – UGLE), que hoje pretendem dispersar “regularidade” pela via de seu reconhecimento unilateral a outras grandes Lojas Maçônicas do mundo. O ponto essencial a ter em conta, é que uns Maçons impulsionaram e criaram em 1660 a Royal Society, e que por sua vez, quando ocupava a Presidência desta Sociedade Sir Isaac Newton (1703/1727), alguns de seus membros Maçons e não Maçons inventaram a Grande Loja Maçônica de Londres, no marco da disputa surgida pela chegada ao trono da Inglaterra, em 1714, de George I, pertencente à dinastia estrangeira alemã dos Hannover, o qual precisou enfrentar desde o começo a oposição aguerrida de escoceses, não poucos ingleses e irlandeses, os Maçons e os católicos, que queriam ver governando Jacob, último da dinastia Estuard, conhecido como o Velho Pretendente. O fato político real consistia em que – em palavras do ilustrado Maçom Gabriel Dávila Mejía – “O problema que enfrentaram os Hannover com a Maçonaria é que o grêmio se desenvolveu como uma organização Jacobita (relativa a Jacob Estuard), então observaram as tradições Maçônicas como uma ameaça para a estabilidade de sua linhagem.” Por efeito dominou, nesta disputa se encontravam em perigo os membros da Royal Society em virtude da dupla militância que possuía a maioria. É neste contexto, em que a decisão política dos Maçons ingleses e os membros da Royal Society consistiu em criar distância com respeito a seus Irmãos que apoiavam a Casa Estuard – circunstância, que freqüentemente se pagava com a vida – fundando uma Grande Loja Maçônica em Londres em 24 de junho de 1717 partidária do Rei Hannover, enfrentada à Maçonaria tradicional que já contava com ramos na França, Holanda, Irlanda, Escócia e as colônias britânicas da América do Norte, e por reflexo colocar a boa cobrança a Royal Society da animada aversão real. Os historiadores se referem a estas duas linhas evolutivas da Ordem como “Maçonaria Hannoveriana” e “Maçonaria Jacobita”. A primeira se tornaria em Maçonaria na Grã-Bretanha, ao tempo que se eliminaria à segunda. A sua vez, a “Jacobita” – já sem este mote – ao longo dos anos mil e setecentos se estenderia primeiro a França, Holanda e Espanha, e dali, contagiado seu ideário com o liberalismo francês, difundir-se-ia por todo mundo até chegar a América Latina em princípios do século XIX a lombo de cavalo dos movimentos independentistas. Mas esta conversão de jacobitas em jacobinos é outra história. De todas as maneiras, temos que se reconhecer que a decisão inovadora de Londres tornou possível o nascimento de uma Maçonaria que nessa cidade reunisse antigos inimigos políticos e acadêmicos com a finalidade de estudar e cultivar as ciências experimentais e a filosofia, sob a premissa de proibir em seu seio as discussões sobre assuntos de Estado e teologia.

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Por outra parte, e dito seja a maneira de ilustração, desde 1371, quatorze Estuard dirigiram a Escócia consecutivamente, e os últimos seis também reinaram simultaneamente na Inglaterra, até quando a coroa passou à Casa Hannover. O fato de que os Estuard fossem protetores da Maçonaria na Escócia e que se iniciaram nela seus últimos reis, desde que Jacob I o fez em 1601, gerou que a Ordem fora incondicional com essa linhagem quando perdeu o reino em 1714. Por esta via, desde 1714 na linguagem Maçônica, os termos “Escocês” e “Antigo” ressaltam o passado escocês da Maçonaria em contraste com o relato oficial inglês que sustenta que a Maçonaria moderna nasce em Londres em 1717 da conjunção de quatro Lojas Maçônicas. Versão que contou com muita difusão já que como recorda Robert Lomas em seu livro O Colégio Invisível - O papel da Maçonaria no Nascimento da Ciência Moderna (Impressões Gráficas de Arte Mexicana, S. A. do C. V., México D. F. 2003): “a história é escrita pelos vencedores”. Esta anedota, que em outro contexto poderia ser uma má piada, foi em realidade o evento que deu o pontapé inicial à Maçonaria Moderna, e da qual quer fazer emanar a Regularidade. Os inovadores iniciais convocaram a outros cinco grupos de leigos em Maçonaria que se definiam a si mesmos como “homens livres e de bons costumes”, para estudar a possibilidade de criar uma associação que combinasse a estrutura organizacional e a linguagem arquitetônica das Grandes Lojas Maçônicas que já existiam em Escócia, Irlanda, e na mesma a Inglaterra, na cidade dos York, com a característica adicional de ser um ponto de encontro neutro de pessoas de diferentes ideologias, a semelhança do que então praticava a Royal Society nessa cidade. Dois grupos não estiveram de acordo e se apartaram desde o começo da iniciativa, e os outros quatro se declararam a si mesmos como Lojas Maçônicas e fundaram a Grande Loja Maçônica de Londres em 1717. Essas quatro “Lojas Maçônicas” fundadoras – saídas do nada – se denominaram: O Ganso e a Grelha (Goose and Gridiron), A cabeça da rainha (Queen´s head), A Macieira (Apple tree), e O copo e as Uvas (Rummer and grapes), tomando como nome o das tabernas aonde se reuniam para comer e beber. Em princípio a Grande Loja Maçônica de Londres não tinha um objetivo transcendental. Seus fundadores não aspiravam mais à frente que eleger um Grão-Mestre que servisse de líder e reunirem-se duas vezes ao ano nos dias dos solstícios do verão e de inverno. Mas o primeiro era afastar-se dos Jacobitas. Os primeiros Grão-Mestres da Grande Loja Maçônica de Londres foram: a) Anthony Sayer, eleito em 1717, por um ano, que teve que jurisdicionar duas novas Lojas Maçônicas. b) George Payne, eleito por um ano em 1718 e 1720, era um antiquário que reuniu uma importante coleção de documentos antigos das Lojas Maçônicas Operativas, e proferiu com apoio neles 39 Regulamentos Gerais. Em 1721 encomendou a James Anderson, Pastor presbiteriano e membro da Royal Society que à ocasião oficiava de guia religioso um dos grupos fundadores, a revisão destes Regulamentos com o fim de dotar a Grande Loja Maçônica de um corpo normativo que regulasse seus trabalhos. Encargo que cumpriu em

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três meses e seu resultado foi submetido a uma Comissão de estudo, para que fosse finalmente aprovado e publicado em 1723 sob o título de A Constituição dos Francomaçons durante a Grande Mestria de Felipe, Duque do Wharton. c) Teófilo Désaguliers, eleito em 1719, participou ativamente no estudo dos 39 Regulamentos Gerais. Era genro de James Anderson, membro da Royal Society, cientista destacado e Pastor anglicano. Juan, Duque de Montagu, eleito em 1721 e reeleito em 1722, de seu trabalho se destaca a intenção de converter à nova Grande Loja Maçônica em um corpo regulador, atraindo de passagem a Lojas Maçônicas se localizadas fora de Londres.

d)

e) Felipe Wharton, eleito em 1722. No momento de sua ascensão a Grande Mestria contava com 23 anos de idade, gozava de um péssimo prestígio social, e a monarquia britânica protestante lhe acabava de outorgar o título de Duque por sua bem-sucedida campanha de extermínio de católicos na Irlanda. Correspondeu-lhe em sorte a aprovação definitiva e a publicação de A Constituição dos Franco-maçons, conhecida após como As Constituições de Anderson. Felipe de Wharton morreu na indigência no Convento de Bernardine, na Cataluña, Espanha, em 31 de maio de 1731, logo depois de ter ajudado a difundir a Maçonaria Hannoveriana na França e Espanha, país aonde também foi seu primeiro Grão-Mestre. Ainda repousam seus restos ali, embora hoje do lado exterior dos muros do Convento por quanto o general Francisco Franco em sua obsessão antimaçônica os fez desenterrar da “terra Santa”. Desta história resultou que os artigos 1° e 2° das célebres Constituições de Anderson, de 1723, que definem à Maçonaria Moderna, são uma cópia idêntica a seus pares da Constituição da Royal Society. Posteriormente estas Constituições de Anderson foram reformadas em 1738. Vejamos:

AS CONSTITUIÇÕES DE ANDERSON Em 17 de janeiro de 1723 na capital do Reino da Grã-Bretanha, a Grande Loja Maçônica de Londres aprovou um Regulamento interno, conhecido como As Constituições de Anderson, pela qual guiar seus trabalhos, ordenar as relações entre os Maçons, e oferecer uma história da Maçonaria, a que remontava literalmente até Adão e Eva no Paraíso Terrestre. As Constituições de Anderson contavam com 92 páginas que foram publicadas pela imprensa de William Hunter, por encargo do John Senex e John Hooke; estavam divididas em quatro partes, assim:

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a) Primeira Parte: Contém uma série de preceitos ou Deveres de um Franco-maçom e conta uma história da arte da Maçonaria da Criação, apoiada no relato bíblico e na cronologia do Bispo irlandês James Usher, quem concluiu em 1650, em seu livro Anais do Mundo que de acordo com o início do ano judeu, a criação do mundo ocorreu às três da tarde da segunda-feira 23 de outubro do ano 4000 antes de Cristo. Em 1701 se inseriu esta cronologia na versão autorizada inglesa da Bíblia. Não querendo contrariar seus deveres de pastores anglicanos e presbiterianos nem a versão bíblica oficial inglesa, os ministros religiosos que redigiram as Constituições de Anderson foram fiéis a ela e elaboraram em conseqüência uma história da arte da construção de acordo. Daqui nasce o costume de datar os textos Maçônicos acrescentando 4.000 ao número de anos do calendário gregoriano; e ainda hoje, muitos textos da Ordem estão sendo datados com apoio na cronologia de Usher. Por exemplo, o ano 2006 da era comum corresponderia aos 6006 Maçônico, ou Ano da Verdadeira Luz como se está acostumado a denominar. Nesta primeira parte, Anderson redigiu uma história da arte da construção que começa com a identificação de Adão como o primeiro Maçom que existiu, segue com Caim, e continúa sua genealogia, passando por Noé e Abrahão, Assíria, os israelitas invadindo Canaã, as Pirâmides do Egito, Moisés, Salomão, seu Templo, Hiram, Grécia, Pitágoras, os romanos, os bárbaros e por último sua terra natal Bretanha. b) Segunda Parte: contém os chamados Old Charges (Antigos Deveres) ou Leis Fundamentais. O nome original completo deste parágrafo é o Das Antigas Leis Fundamentais ou Regras para os Franco-maçons, Tiradas dos Antigos Documentos das Lojas Maçônicas de Ultramar, da Inglaterra, de Escócia e da Irlanda, para uso das Lojas Maçônicas de Londres, as que devem ler-se sempre na Cerimônia de Recepção de um Novo Irmão e sempre que o Mestre entender oportuno. c) Terceira Parte: Reúne os 39 Antigos Regulamentos Gerais, compilados por George Payne.

d) Quarta Parte: Contém as aprovações respectivas e quatro cantos Maçônicos. Esta codificação tem-se universalmente como o ponto de partida formal do Direito Maçônico moderno. Um ponto importante a destacar constituem-no as discussões que se apresentaram com freqüência a respeito dos alcances que se deve dar às expressões “estúpido ateu” e “libertino irreligioso” contida na redação do primeiro artigo das Constituições de 1723, e em suas modificações de 1738 e 1813. Uma posição a respeito nega o acesso à Ordem aos ateus e a quem não é fiel praticante de uma religião, e outra sustenta que os que não devem ingressar na Maçonaria são os “estúpidos” e os “libertinos”, independentemente de se forem crentes, ateus, agnósticos, religiosos ou irreligiosos. E aqui sim cabem todos, sempre que forem “bons e leais, quer dizer, homens de honra e de probidade, qualquer que seja a diferença de seus nomes ou de suas convicções”.

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Desde o começo se viu como a principal causa de inquietação a oferta à redação deste primeiro artigo das Constituições de Anderson, a qual conduziu a Londres no ano 1738 a reformá-lo buscando um texto mais apropriado ao que se entendia como obrigações dos Maçons. Um ponto nevrálgico no desenvolvimento da legislação da Maçonaria especulativa constitui o fato histórico de que em 1738 a Maçonaria de Londres se estendeu pela Escócia e Irlanda e atravessou o Canal da Mancha para a Europa continental, encontrando-se fortemente implantada em várias nações e organizada a partir da normativa inicial. Portanto a reforma de 1738 só teve aplicação na Inglaterra e nas Obediências que daí em diante lhe derivaram ou a adotaram. Ao fim e ao cabo, a nova norma de conduta se redigiu sob o título de Deveres de um Francomaçom: Extraído dos Antigos Registros das Lojas Maçônicas de Ultramar e Aquelas da Inglaterra, Escócia e Irlanda, para o Uso das Lojas Maçônicas de Londres. Posteriormente, em 1813, no marco da fusão das duas Grandes Lojas Maçônicas inglesas que deu origem à Unida da Inglaterra, revisou-se de novo a passagem da modificação de 1738 e se redigiu um novo. O resto das Constituições de Anderson passaram impunemente os exames ingleses de 1738 e 1813. Cabe esclarecer que constitui um erro lhes dar caráter universal e imutável às disposições enunciadas ou, o que é pior, lhes outorgar uma antigüidade de tempos remotos que estão longe de possuir. Para uma maior ilustração do leitor, transcrevemos seguidamente os preceitos contidos na primeira parte das Constituições de Anderson:

I. O QUE SE REFERE A DEUS E À RELIGIÃO O Maçom está obrigado, por vocação, a praticar a moral e se compreender seus deveres, nunca se converterá em um estúpido ateu, nem em um homem imoral. Ainda quando nos tempos antigos os Maçons estavam obrigados a praticar a religião que se observava nos países onde habitavam, hoje se acreditou mais oportuno, não lhe impor outra religião que aquela em que todos os homens estão de acordo, e deixar completa liberdade respeito a suas opiniões pessoais. Esta religião consiste em ser homens bons e leais, quer dizer, homens de honra e de probidade, qualquer que seja a diferença de seus nomes ou de suas convicções. Deste modo a Maçonaria se converterá em um centro de união e no meio de estabelecer relações amistosas entre gente que, fora dela, tivessem permanecido separados entre si. MODIFICAÇÃO DE 1738: Um Maçom está obrigado por seu título, a obedecer à lei moral tanto quanto um verdadeiro noaquita e se compreende bem a profissão, ele não será nunca um ateu estúpido, nem um libertino irreligioso nem atuará contra sua consciência. Nos tempos antigos, os Maçons cristãos eram chamados a atuar de acordo com os costumes cristãos de cada país onde eles viajavam. Mas a Maçonaria existente em todas as nações, até de religiões diversas, leva a que os Maçons adiram à religião segundo a qual todos os homens estão de acordo (deixando a cada Irmão suas próprias opiniões), quer dizer, ser homens de bem e leais, homens de honra e de probidade, qualquer sejam os nomes, religiões ou confissões que ajudem a distingui-los; pois todos se articulam sobre os três artigos de Noé,

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suficientes para preservar o fundamento da Loja Maçônica. Deste modo a Maçonaria é o centro da união e o feliz meio de unir às pessoas, que, de outro modo, teriam permanecido perpetuamente desconhecidas entre si. MODIFICAÇÃO DE 1813: No que diz respeito a Deus e a Religião, um Maçom está obrigado, por seu título, a obedecer a lei moral e se compreender bem a Arte, ele não será jamais um ateu estúpido nem um libertino irreligioso. De todos os homens, ele deve compreender melhor que Deus vê de maneira diferente que o homem, pois o homem vê a aparência externa, no entanto Deus vê o coração. Um Maçom está, em conseqüência, restrito a não atuar nunca contra os mandatos de sua consciência. Qualquer que seja a religião do homem ou sua maneira de adorar, não está excluído da Ordem, considerando que ele acredita no glorioso arquiteto do céu e da terra e que ele pratica os deveres sagrados da moral. Os Maçons se unem aos homens virtuosos de todas as crenças no laço sólido e agradável do amor fraternal, que lhes ensina a ver os enganos da humanidade com compaixão e a esforçar-se pela pureza de sua própria conduta, de demonstrar a alta superioridade da fé particular que eles professem.

II. DA AUTORIDADE CIVIL, SUPERIOR E INFERIOR O Maçom deve ser uma pessoa tranqüila, submetida às leis do país onde esteja estabelecido e não deve tomar parte nem deixar-se arrastar nos motins ou conspirações forjadas contra a paz e contra a prosperidade do povo, nem mostrar-se rebelde à autoridade inferior, porque a guerra, a efusão do sangue e os transtornos, foram sempre funestos para a Maçonaria. Assim é que na antigüidade, os reis e os príncipes se mostraram muito bem dispostos para com a sociedade, pela submissão e a fidelidade de que os Maçons deram constantemente prova no cumprimento de seus deveres de cidadão e em sua firmeza para opor sua conduta digna às calúnias e acusações de seus adversários; esses mesmos reis e príncipes não desdenharam de proteger aos membros da corporação e de defender a honra de quão mesma sempre prosperou nos tempos de paz. Seguindo essas doutrinas, se algum Irmão se convertia em perturbador da ordem pública, ninguém devia lhe ajudar na realização de seus propósitos, pelo contrário, devia ser comparecido com um ser desgraçado. Mas só por este feito e ainda quando a confraria condenasse sua rebelião para evitar dar ao governo motivo algum de suspeita ou de descontentamento, sempre que o rebelde não pudesse ser censurado de outro crime, não podia ser excluído da Loja Maçônica, permanecendo invioláveis suas relações com esta Loja Maçônica e os direitos de que como Maçom gozava. III. DAS LOJAS MAÇÔNICAS A Loja Maçônica é o lugar onde os Maçons se reúnem para trabalhar, e por extensão se dá este nome a toda assembléia de Maçons constituída; todos os Irmãos devem formar parte de uma Loja Maçônica e submeter-se a seus regulamentos particulares e aos regulamentos gerais. As Lojas Maçônicas são particulares ou gerais e o melhor meio de as distinguir nestes dois distintos caracteres é lhes visitar e estudar os atuais regulamentos das Lojas Maçônicas Gerais ou Grandes Lojas. Antigamente os Mestres e os membros destas Lojas Maçônicas, não podiam ausentar-se, nem deixar de assistir a suas sessões quando eram convidados, sem incorrer em um castigo severo, a menos que fizessem conhecer aos Mestres e aos Inspetores, as causas que lhes tinham impedido de cumprir com este dever. As pessoas que queriam ser admitidas na qualidade de membros das Lojas Maçônicas deviam ser pessoas boas e leais, livres de nascimento, de idade madura e razoável e de boa reputação; era proibido admitir na Maçonaria, escravos, mulheres e homens imorais, cuja conduta fora motivo de escândalo.

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HISTÓRIA DA MAÇONARIA
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IV. DOS MESTRES, INSPETORES, COMPANHEIROS E APRENDIZES Entre os Maçons, as preferências não se podem fundar exclusivamente no verdadeiro mérito pessoal. Deve-se cuidar com especial atenção de que, quando proprietários dispõem as construções, serão servidos a sua completa satisfação; deve procurar-se que os Irmãos não tenham porquê envergonhar-se de suas obras, e que a Real Associação não perca a consideração de que goza. Por esta razão, os Mestres e Inspetores devem ser escolhidos tendo em conta mais que sua idade, seus méritos pessoais. É impossível tratar todas estas coisas por escrito. Cada Irmão deve estar em seu lugar e aprender estes princípios segundo o método adotado em cada confraria; deve, entretanto, se ter em conta pelos aspirantes que nenhum Mestre pode aceitar um Aprendiz, se este não lhe apresentar suficientes obras, se não for um jovem perfeito, sem deformidade física alguma e sem defeito que lhe faça incapaz de instruir-se em sua arte, de servir a seu Mestre e de chegar a ser por sua vez um Irmão e Mestre, quando tiver transcorrido o tempo de seu Aprendizado. Deve ser também, filho de pais honrados, para que se possuir outras qualidades possa chegar a obter o posto de Inspetor, ou de Mestre de uma Loja Maçônica, de Grande Inspetor e de Grão-Mestre de todas as Lojas Maçônicas, segundo seu mérito e virtudes. Os Inspetores têm que ser membros da corporação e os Mestres deviam desempenhar antes o cargo de Inspetor. Os Grandes Inspetores têm que ter sido Mestres de Lojas Maçônicas, e enfim, para ocupar o posto de Grão-Mestre tem que possuir o caráter perfeito do Maçom. O Grão-Mestre deve ser nobre de nascimento, ou ocupar uma posição excepcional, de uma educação perfeita, ou um sábio distinto, um arquiteto hábil, um hábil filho de pais honrados, e, além disso, as Lojas Maçônicas devem reconhecer nele um mérito real, e para que possa preencher os deveres de seu cargo de um modo mais perfeito, lhe autoriza para designar e nomear um deputado que deve ser ou ter sido Mestre de uma Loja Maçônica Particular; o Deputado do Grão-Mestre tem o dever de realizar todos os atos que são da competência do Grão-Mestre, seu superior, nas ausências deste ou por seu delegado. Todos os Irmãos estão obrigados a emprestar obediência a todos estes regulamentos e a todos os governantes superiores e ajudantes da Antiga Loja Maçônica, em seus diversos empregos, com relação às antigas leis e regulamentos, e executar as ordens com respeito, afeto e atividades.

V. DO REGULAMENTO DA CORPORAÇÃO DURANTE O TRABALHO Durante os dias úteis de trabalho, todos os Maçons devem trabalhar lealmente, para que possam desfrutar do melhor no dia de festa; o Companheiro de mais conhecimentos e experiência deve ser eleito na qualidade de Mestre ou Superintendente dos trabalhos da construção dispostos pelo proprietário, e os que trabalham sob suas ordens devem lhe chamar Mestre. Os Companheiros devem evitar toda inconveniência desonesta e o de tratar-se com nomes pouco decentes, intitular-se-ão, mutuamente, Irmãos ou Companheiros e conduzir-se-ão, cortesmente, não só dentro como fora da Loja.

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O Mestre deve empreender os trabalhos do proprietário nas condições mais justas e eqüitativas, e empregar o que a este pertença, como se tratasse de seus próprios bens; e não dar a cada Aprendiz ou Companheiro mais salário que o que realmente mereça. Mestres e Maçons, todos devem ser fiéis ao proprietário que os ocupa e paga religiosamente seu salário, e executar seus trabalhos. Nenhum Irmão deve mostrar-se ciumento da prosperidade de outro, nem atormentá-lo ou procurar separá-lo de seu trabalho quando é capaz de executá-lo, porque ninguém pode terminar um trabalho começado por outro em condições tão vantajosas como o que o começou, e não possuir um conhecimento profundo dos planos e desenhos da construção. Se um Inspetor dos trabalhos elege-se entre os Companheiros, deve ser fiel ao Mestre e aos Companheiros; em ausência do Mestre, velará cuidadosamente, dos interesses do proprietário, pela boa execução dos trabalhos, e seus Irmãos devem obedecer-lhe. Todos os Maçons receberão seu salário com reconhecimento, sem falações nem observações e não abandonarão o seu Mestre até que a obra termine. Deve ambientar-se na obra os Irmãos jovens, para que aprendam a empregar bem os materiais e para que por meio deste fraternal ensino se consolide entre eles a mais estreita amizade; todos os empregados utilizados para os trabalhos, devem ser passados pela Grande Loja. Nos trabalhos exclusivos da Maçonaria, não deve empregar-se nenhum jornaleiro e os mesmos Mestres, não devem trabalhar a não ser com seus Companheiros, a não ser que para isso obrigue uma premente necessidade; tampouco poderão comunicar seus ensinos aos operários que não pertençam a sociedade.

VI. DA CONDUTA Na Loja Maçônica Organizada Não se deve instruir comissão particular alguma, nem cercar negociação sem ter obtido a autorização do Mestre; não deve tratar-se nenhuma questão inoportuna ou inconveniente; nem interromper a palavra do Mestre ou dos Inspetores ou de qualquer Irmão que sustente diálogo com o Mestre. Tampouco devem empregar-se frases jocosas enquanto a Loja Maçônica se ocupa de assuntos sérios, nem usar em momento algum uma linguagem pouco honesta, e em todas as ocasiões deve dar-se ao Mestre, aos Inspetores e Companheiros, o termo do respeito que merecem, e que todos o devem. Caso alguém apresente uma queixa contra um Irmão, o culpado deve submeter-se ao julgamento e à decisão da Loja Maçônica, que é o tribunal real, a menos que corresponda seu conhecimento a Grande Loja Maçônica. Em tais casos deve cuidar-se de que não interrompam por estas causas os trabalhos do proprietário, e se chegasse a ocorrer uma suspensão forçosa, deve tomar uma decisão compatível às circunstâncias. Tampouco se deve recorrer aos tribunais de justiça para ventilar assuntos da Maçonaria, a não ser que a Grande Loja Maçônica reconheça e declare ser de indispensável necessidade.

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Conduta que se deve observar quando a Loja Maçônica esteja fechada, mas estão ainda reunidos os Irmãos. Os Irmãos podem dedicar-se a prazeres inocentes, e regulares, mutuamente, segundo os meios de cada um, mas procurando evitar os excessos de todo gênero, sobre tudo na mesa. Também devem abster-se de dizer e de fazer coisa alguma que poderia ferir ou quebrar a boa harmonia que entre todos deve reinar sempre; por esta razão, não devem levar-se a estas reuniões, ódios privados sem motivo algum de discórdia e, sobretudo, devem evitar-se absolutamente as discussões sobre religião e política, sobre nacionalidade, posto que os Maçons, como antes dissemos, não professam outra religião que a universal, e que pertencem a todos os povos, a todas as línguas, e são inimigos de toda empresa contra o governo constituído; a falta de observância destes preceitos, foram e serão sempre funestos para a prosperidade das Lojas. Em todo tempo, a observância deste artigo do regulamento, impôs-se com grande severidade, e mais especialmente depois da reforma da igreja Anglicana, quando o povo inglês se retirou e separou da comunidade da igreja Romana.

Regras de conduta, quando os Irmãos se encontram fora da Loja Maçônica e sem a presença de estranhos Devem cumprimentar-se amigavelmente, e conforme está disposto, dar o nome de Irmãos, comunicar-se reciprocamente as notícias que possam lhes ser úteis, tomando cuidado de não ser observados nem ouvidos; devem evitar toda pretensão de elevar-se sobre outros, e dar a cada um a manifestação de respeito que se outorgariam a qualquer que não fosse Maçom; porque mesmo que todos os Maçons em qualidade de Irmãos estão na mesma altura, a Maçonaria não despoja a ninguém das honras de que goza antes de ser Maçom, antes pelo contrário, aumenta estas honras, principalmente quando se mereceu pelo bem da confraria, que deve honrar a aqueles que são credores, e anatematizar os maus costumes.

Conduta que deve observar-se diante dos que não são Maçons Devem os Maçons ser circunspetos nas palavras e suas obras, a fim de que os estranhos, até os mais observadores, não possam descobrir o que não é oportuno que aprendam; algumas vezes deve aproveitar o rumo que toma a conversação, para fazer recair esta na confraria, e fazer com tal motivo seu elogio.

Regras de conduta que devem observar-se pelos Maçons em sua própria casa e entre seus vizinhos Os Maçons devem conduzir-se como convém a um homem prudente e moral, e não se ocupar dos assuntos da Loja Maçônica com a família, com os vizinhos, com os amigos; e não perder de vista, em nenhum caso, que a honra própria e o da confraria estão unidos; isto, por razões que não podemos expor aqui, não devem descuidar de seus próprios interesses, permanecendo ausente de sua casa depois das horas da Loja Maçônica; evitem-se igualmente a embriaguez e os maus costumes, para que não se vejam abandonadas as próprias famílias, nem privadas daquilo que têm direito a esperar dos Maçons, e para que estes não se vejam impossibilitados para o trabalho.

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Conduta que deve observar-se com um Irmão estrangeiro É preciso lhe perguntar com precaução e do modo que a prudência lhes aconselhe, a fim de evitar o que, baixo falsas aparências, sejam enganadas, lhe rechacem com desprezo e tomem cuidado de não fazer nenhum sinal de reconhecimento. Mas se descobrirem que é um verdadeiro Irmão, devem tratá-lo como tal, e se tiver necessidade, devem lhe procurar socorro ou lhe indicar os meios de obter esses socorros. Devem procurar-lhe em alguns dias de trabalho, para que possa instalar-se; de todos os modos não estão obrigados a fazer por ele mais do que seus recursos lhes permitam, devendo tão somente preferir a um Irmão pobre que seja um homem honrado, a outra qualquer pessoa que se encontre em iguais condições. Enfim, devem lhes conformar a todas estas prescrições, assim como a quantas lhes comuniquem por outro conduto; devem praticar a caridade fraternal, que é a pedra fundamental, a chave, o alicerce e a glória de nossa confraria; devem evitar toda questão, toda discórdia, todo propósito calunioso, toda maledicência; não permitir que em sua presença se ataque a reputação de um Irmão respeitável, em tal caso defendê-lo para lhe emprestar este serviço em tanto que o permitam sua honra e seus interesses; e se algum Irmão lhe prejudica de qualquer modo, devem levar sua queixa a sua Loja Maçônica ou a do dito Irmão, apelando se for preciso a Grande Loja Maçônica na assembléia trimestral, e em último termo à assembléia anual, segundo o bom e antigo costume observado por nossos antepassados em todos os países. Não devem tentar processo algum, a menos que o caso não se possa resolver de outra forma, e devem acolher com deferência os conselhos amistosos do Mestre e de seus Companheiros, se tratarem de lhes evitar que compareçam em juízo diante de estranhos; em todo caso, devem procurar apresentar todos os meios para facilitar a ação da justiça, a fim de que possam lhes ocupar com toda tranqüilidade dos assuntos da confraria. Quanto aos Irmãos e Companheiros que tenham entre si algumas diferenças, os Mestres e os Irmãos pedirão conselho aos Irmãos que conheçam o direito, para oferecer um acerto amistoso, que as partes em litígio aceitarão com reconhecimento. Se estes meios produzem ressaltos, aceitar-se-á sem demora a entrar na disputa; mas reprimindo toda animosidade, toda cólera, abstendo-se de fazer ou de dizer coisa alguma que possa machucar a caridade fraternal ou interromper a reciprocidade das boas relações, com objetivo de todos sintam a influência benfeitora da Maçonaria. Deste modo obraram sempre, desde o começo do mundo, todos os bons e fiéis Maçons e assim obrarão os que nos sucedam no futuro.

A MAÇONARIA NA ESCÓCIA EM 1717 É um fato geralmente aceito pelos historiadores que as Grandes Lojas Maçônicas Especulativas atuais devem sua estrutura ao sistema de Lojas Maçônicas aprovado em 28 de dezembro de 1598, em Edimburgo, Escócia, em uma reunião de Mestres Maçons Operativos, convocada e presidida por William Schaw, Mestre de Obras e representante da Coroa em todas as construções oficiais durante o reinado do Jacob VI da Escócia e I da Inglaterra. Este novo esquema de funcionamento das Lojas Maçônicas foi recolhido em um documento conhecido após como Estatutos de Schaw e pode ser consultado no excelente livro Documentos

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Antigos da Maçonaria, publicado pela Grande Loja Maçônica do Norte da Colômbia no ano 2004, que já citamos em páginas anteriores. Nestes Estatutos se dispõe pela primeira vez na história uma aliança de Lojas Maçônicas, criase um parlamento superior a elas, institui-se um funcionário executivo geral de superior nível hierárquico, que em princípio se chamou Vigilante Geral, e se ordena que cada Loja Maçônica leve um registro escrito de suas atividades. Posteriormente, a Grande Loja Maçônica da Inglaterra, fundada na cidade de York em 1705, herdeira das velhas Lojas Maçônicas Operativas, recolhe a forma organizativa dos Estatutos de Schaw, mas denomina Grande Loja Maçônica à federação de Lojas Maçônicas e Grão-Mestre a seu máximo dirigente. Ainda hoje em dia uma Grande Loja Maçônica ou um Grande Oriente não é mais que uma Federação de Lojas Maçônicas. E por lógica, as associações destas se denominam Confederações. Doze anos depois, em 1717, ao criar-se a Grande Loja Maçônica de Londres se duplica o esquema estrutural da cidade de York, com a diferença de que a respeito dela não se encontraram evidências que permitam sustentar a presença, em alguma de suas quatro Lojas Maçônicas fundadoras, de um só Maçom Operativo. Quer dizer, de um homem que tenha ganhado o pão diário, no negócio da construção. Nesta ocasião, a situação na Escócia era muito diferente. Em 1717 existia pelo menos vinte Lojas Maçônicas ao longo de seu território. Funcionavam Lojas Maçônicas em Edimburgo, Kilwinning, Inverness, Dundee, Stirling, Perth, Aberdeen, Glasgow, e outras cidades menores do país. Entretanto, não se deve entender que estas Lojas Maçônicas escocesas eram a contraparte daquelas quatro Lojas Maçônicas especulativas de Londres, posto que a maioria ainda estava integrada em sua totalidade por membros operativos, quer dizer, por homens que ganhavam a vida na exploração da edificação. Por volta de 1717, o uso da pedra como material de construção na Inglaterra tinha sido substituído em grande parte pelo tijolo, pelo menos no que concerne a edifícios destinados a servir de residências familiares, o qual deu lugar ao declínio do negócio dos Maçons. Mas este não era o caso da Escócia, onde a pedra continuou sendo utilizada como o principal material de construção, e, em conseqüência, o mercado da Maçonaria seguiu sendo ativo e brindando emprego no país. Como resultado, as Lojas Maçônicas continuaram prosperando. Isto explica, em grande parte, o porquê das Lojas Maçônicas operativas escocesas seguirem sendo ativas, depois de que suas similares inglesas tenham começado a declinar. Não obstante o anterior, algumas dessas Lojas Maçônicas escocesas contavam com um reduzido número de membros não operários, quer dizer, de pessoas que não tinham nenhuma conexão com o negócio da edificação, e que tinham ingressado na Loja Maçônica por curiosidade, como membros honorários, ou talvez como patrão.

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Prova disso, é que até 1717 a Loja Maçônica de Edimburgo (St. Mary Chapel), tinha admitido a quantidade de oitenta e oito "não operários" em seu quadro de membros, desde 1634, e a Loja Maçônica de Aberdeen tenha aceitado uns doze universitários antes de 1670. Mas, no entanto, há que se esclarecer, que em nenhuma destas Lojas Maçônicas os "não operários" tomaram o controle antes de 1717. Um caso isolado constitui-se numa Loja Maçônica que funcionou em Haughfoot, desde 1702 até 1764, onde se constatou que nenhum de seus membros era operário. A gente pode supor que uma Loja Maçônica de tal condição tenha sede em uma cidade importante, mas o fato real é que Haughfoot era então uma aldeia pequena e longínqua na fronteira entre Escócia e a Inglaterra. Uma população pequena, afastada do centro de poder econômico e político, contasse com uma Loja Maçônica especulativa em pleno funcionamento é um dos mistérios da Maçonaria escocesa ainda não iluminado suficientemente pelos historiadores. Uma explicação poderia ser a de que, abandonado o objeto social inicial, por ter desaparecido os contratos de construção, a Loja Maçônica manteve-se, seja por inércia ou por apego a um passado que evocava com orgulho o costume de reunir-se periodicamente; evoluindo com o passar do tempo para uma espécie de reunião que se ocupava de assuntos diferentes que lhe chamavam sua atenção. Em todo caso, o negócio da construção na Escócia estava sob o maior controle central na Inglaterra. Os estatutos de Schaw de 1598 e 1599 mencionam três Lojas Maçônicas em Edimburgo, Kilwinning e Stirling, que estavam sob o poder central e a supervisão do Rei da Escócia, da mesma forma que às obras nessas três regiões do país. De outras fontes, parece provável assumir que sobre as Lojas Maçônicas no St. Andrews, Dundee e, possivelmente, Aberdeen, no nordeste do país, exercia-se um controle similar. A admissão de não operários nas Lojas Maçônicas escocesas é algo que ainda se está investigando. No início, deu-se provavelmente como um gesto de agradecimento dirigido a uma pessoa que tinha devotado uma boa quantidade de trabalho à Loja Maçônica e, por lógica, de utilidades pecuniárias. Mais adiante pôde ter sido por curiosidade ou possivelmente por um desejo nostálgico de pertencer a uma organização que estava em certo perigo. É possível que um motivo distinto atraísse aos primeiros não operários às Lojas Maçônicas, mas o certo é que os investigadores seguem esquadrinhando as razões pelas quais começaram a mudar as Lojas Maçônicas, lenta, mas seguramente, de uma arte operativa para uma sociedade especulativa. Por volta de 1717, o processo de conversão das Lojas Maçônicas operativas nas Lojas Maçônicas especulativas na Inglaterra tinha avançado o suficiente para permitir a fundação de uma Grande Loja Maçônica especulativa, que era uma organização absolutamente desconhecida até então. Na Escócia o processo não tinha avançado de forma igual, e não foi senão até 1736 que os não operários se encontravam bastante fortes para fundar uma Grande Loja Maçônica de Escócia a semelhança da especulativa de Londres.

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Estas circunstâncias, unidas à chegada dos Hannover ao trono de Grã-Bretanha, em 1714, que viam a Maçonaria como uma aliada tradicional de seus rivais, confabulavam para a aparição da novidade especulativa inglesa que formalizava a distância com os Maçons escoceses. Em 1717, as Lojas Maçônicas operativas escocesas estavam principalmente integradas por construtores em pedra, e contavam com uma minoria de não operários. Se atemos às evidências registradas nas atas das Lojas Maçônicas, necessariamente devemos concluir que somente se trabalhava em dois Graus (Aprendiz e Companheiro). Para estes anos, à Maçonaria escocesa tinha surgido um ramo especulativo que se transladou a França e Holanda e que girava ao redor da aspiração de Jacob Estuard de recuperar o poder no Reino Unido. Este novo ramo continental da árvore escocesa era essencialmente especulativo e teria uns desenvolvimentos inesperados nos próximos séculos. Por sua parte, as Lojas Maçônicas escocesas em 1717 exerciam um controle considerável sobre os contratos no negócio da construção, em alguns aspectos equivalentes a uma união corporativa moderna. Cobravam as dívidas, ocupavam-se das viúvas e os órfãos de seus membros, e exerciam controle sobre o tipo de edifícios erigidos dentro dos limites da cidade. Além da Loja Maçônica em Haughfoot, as Lojas Maçônicas escocesas de 1717 não permitiam que seus membros não operários tivessem voz no funcionamento da Loja Maçônica. Não foi, por exemplo, mas sim até 1728 que a Loja Maçônica de Edimburgo elegeu um não operário para ocupar um cargo nela. Outra diferença com o que ocorria na Inglaterra, é que as Lojas Maçônicas escocesas em 1717 não se reuniam em tabernas, mas sim em escritórios e edifícios especiais. Alguns deles ainda sobrevivem, embora muito poucos seguem servindo de ponto de reunião a uma Loja Maçônica. Um destes edifícios, conhecido como St. John Chapel, consagrado na primeira metade do século XVIII, é o mais antigo em funcionamento do mundo. Hoje pertence à Loja Maçônica Canongate Kilwinning nº. 2 e é um lugar que esteve sem trocar por mais de duzentos e cinqüenta anos. Muitos dos outros velhos edifícios das Lojas Maçônicas escocesas do século XVII se derrubaram em nome do progresso. Para citar um só caso, tivemos que o salão no qual se reunia a Loja Maçônica de Edimburgo (St. Mary Chapel) foi demolido em 1787, depois de ter sido construído em 1504. As Lojas Maçônicas escocesas não parecem ter tido documentos equivalentes aos famosos “Antigos Deveres” (Old Charges), que tiveram tão alta estima na Inglaterra. Por outra parte, as cópias dos Estatutos de Schaw e das Cartas de St. Clair devem ser colocadas junto com as cópias dos Antigos Deveres ingleses, já que, em honra à verdade, são documentos de igual ou superior categoria histórica. Fica muito por estudar e esquadrinhar na história da Maçonaria no Reino Unido, à luz de suas conjunturas históricas e das lutas pelo trono entre as dinastias Tudor, Estuard e Hannover, que se deram nos séculos XVII e XVIII. Já que se os Hannover não chegaram ao trono da Grã-Bretanha em 1714, a história da Maçonaria seria distinta. Eles e seus partidários não só trocaram o rumo da Ordem, mas também, além disso, falsearam sua história pretérita, propagaram e dividiram, no compasso de seus interesses imperiais.

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EXPANDE-SE A MAÇONARIA MODERNA Com o passar do século XVIII, no velho continente torna-se moda o idioma inglês, e em parte isto facilita a rápida criação de Lojas na Europa. A curiosidade do público anglófilo é considerável e a predisposição favorável de numerosos membros eruditos da sociedade faz que a nova instituição se desenvolva e se expanda pelo mundo inteiro em umas poucas décadas. Em 1730 a Grande Loja Maçônica de Londres possuía cerca de 100 Lojas Maçônicas jurisdicionadas na Inglaterra e no país de Gales, e tinha começado a incursionar no exterior ao fundar Lojas Maçônicas em Madrid e Calcutá. Entretanto, criaram-se Grandes Lojas Maçônicas separadas na Irlanda (1725) e na Escócia (1736). O primeiro Maçom da Casa Real inglesa foi iniciado em 1737 quando ingressou Frederick Lewis, Príncipe de Gales, filho do rei George II, e na seqüência a relação da Maçonaria inglesa com a realeza foi estreita até nossos dias. Isso determinou o que os Maçons ingleses sejam bons súditos e não bons republicanos. Ainda hoje, é tão marcada a identificação com o regime monárquico da Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra, que o tratamento protocolar correto para seu Grão-Mestre é “Sua Alteza Real Príncipe Edward George Nicholas Paul Patrick, Duque do Kent, Grão-Mestre”. Um pouco exótico em países de tradição republicana e democrática. O Duque de Kent, de acordo a informação obtida na página Web de sua Obediência, nasceu em 1935, e foi educado na exclusiva escola de Eton e em Le Rosey, na Suíça. É primo da Rainha Isabel II. Seu pai que foi Grão-Mestre entre 1939 e 1942 foi o quarto filho do Rei George IV, e sua mãe, a Princesa Marina, era filha do Príncipe Nicolás da Grécia. O Duque de Kent é Grão-Mestre da Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra desde 1967, e de acordo com os usos e costumes, quando este cargo é ocupado por um membro da família real, se nomeia um funcionário anexo, com o título de Pró Grão-Mestre, que o substitui em ocasiões especiais. Atualmente este cargo é desempenhado por Spencer Douglas David Compton, 7º Marquês de Northampton, outro nobre aristocrata. A aparição da Grande Loja Maçônica de Londres em 1717 colide em seguida com a oposição da Grande Loja Maçônica da Inglaterra fundada na cidade de York, em 1705, de onde é objetada sua origem não definida e lhe acusa de falsear a tradição, já que esta última se considera a “Mais Antiga e Honorável Fraternidade de Maçons Livres e Aceitos da Inglaterra” desta forma sua existência derivaria diretamente de Lojas Maçônicas legítimas – essas sim, herdeiras e continuadoras daquelas dos construtores, que foram admitindo, através do século XVII, Maçons Aceitos – e não estranhos a elas. Por esta razão a qualificavam como Moderna. A Grande Loja Maçônica da Inglaterra, com sede em York acusava especificamente a de Londres de não trabalhar de acordo com as velhas instituições estabelecidas pelo príncipe Edwin em York no ano 926, do que tampouco existe evidência histórica sobre sua real existência.

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Nesta situação vivida, não se reclama nenhuma condição de “Regularidade”; mas se apela à antigüidade e à venerabilidade, como indicadores de encadeamento entre as antigas Oficinas Operativas e as novas Lojas Maçônicas de Maçons Aceitos. A nódoa que se fazia era que nem a nova Grande Loja Maçônica de Londres, nem seus Maçons tinham correspondência com o passado da Ordem como elos de uma mesma cadeia. Em 1738, começa a perfilar-se a apresentação atual da Maçonaria Moderna. O Grau de Aprendiz se divide para converter-se em dois: Aprendiz e Companheiro, o primeiro argumento de um discurso ético, e o segundo relacionado com a ciência; e o Grau que vinha se conhecendo como de Companheiro já fazia seis séculos, passava de segundo para converter-se no terceiro grau com o nome de Mestre. Igualmente se adota para este último a lenda de Hiram, e o novo líder da Loja Maçônica se titula Venerável Mestre. Assim se pretende dar um matiz religioso e aprofundar a relação da Ordem com os relatos bíblicos. O historiador Daniel Beresniak, do Grande Oriente da França, sustenta que até 1773, o título de “Mestre de Loja Maçônica” era freqüentemente de índole patrimonial. Vendiam-se e compravamse Patentes de Mestres nas Grandes Lojas Maçônicas exatamente igual às “Provisões” que se adquiriam no poder público para desempenhar cargos judiciais e militares. Em 1773, data da fundação do Grand Orient de France (Grande Oriente da França), estabeleceu-se o princípio, hoje uniformemente admitido, de “não reconhecer como Venerável Mestre de uma Loja Maçônica alguém mais que ao Mestre elevado a essa dignidade pela eleição livre dos membros da Loja Maçônica” (artigo IV, seção I, Título I das Constituições do Grande Oriente da França). O Grande Oriente da França nasce como um corpo poderoso, influenciado pelas luzes filosóficas e diversas culturas especulativas. Hoje sabemos que não existiu um complô Maçônico na origem da Revolução Francesa, mas reconhecemos que muitos Franco-maçons tiveram participação nos eventos dela, e que a influência das idéias debatidas nas Lojas Maçônicas foi significativa. Estes rastros Maçônicos na Revolução também se refletem nos modelos de funcionamento e em muitos dos sinais simbólicos adotados pelas novas instituições. Além disso, La Marselhesa, uma canção composta pelo Maçom Rouget de Lisle, transforma-se no hino nacional da França. A estruturação do corpo Maçônico francês no Grand Orient de France, em 1773, permitiu federar, harmonizar e codificar todas as estruturas e usos vigentes, o que constituiu um avanço considerável, decidido democraticamente pelos delegados das Lojas Maçônicas. A grande maioria destes últimos se unificam sob os auspícios da Obediência, exceto uma «Grande Loge de Clermont» que, rechaçando especialmente a eleição dos Veneráveis Mestres, seguirá sozinha seu caminho durante vários anos para finalmente fundir-se com a Obediência em 1799, depois dos acontecimentos revolucionários. O termo “Venerável”, para distinguir ao presidente de uma Loja Maçônica, é de origem francesa e muito provavelmente vem da linguagem eclesiástica. Introduziu-se com muito êxito na Maçonaria quando ocupava a Grande Mestria da Grande Loja Maçônica da França o neto de Luis

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XIV, Luis de Bourbon, Conde de Clermont, que ocupou esse cargo desde o ano de 1743 até 1771. Quer dizer, durante os anos de efervescência francesa em que se definiram a maior quantidade das características que possui a Maçonaria que nos chegou até os dias atuais. Na segunda metade do século XVIII, na França, a Maçonaria deixa de ser um Clube de homens ilustrados para, contaminada com as idéias dos enciclopedistas, converter-se em caixa de ressonância do Século das Luzes, participando das concepções que deram pé à Revolução Francesa, e na possibilidade de nuclear a um grupo meritório de jovens pertencentes à burguesia nativa americana, para que a partir de seus próprios talentos e com a ideologia libertária que se veiculava às Lojas Maçônicas continentais européias, independizaram a quase todo o continente americano nas duas últimas décadas do século XVIII e as duas primeiras do XIX. O costume inicial, na primeira metade do século XVIII, era o de colocar às Lojas Maçônicas o mesmo nome do local aonde se reuniam. Um exemplo adicional ao inglês constitui-se o da primeira Loja Maçônica especulativa fundada na Espanha, a qual recebeu o título de Loja Maçônica de Las Três Flores de Lis, devido a taberna em que se congregava na rua Larga de São Bernardo número 17, de Madrid. É na França, aonde se começam a batizar as Lojas Maçônicas com nomes evocadores de um valor, um personagem ou um acontecimento. Difundida a nova Maçonaria na França, em plena efervescência emancipadora do século XVIII, a Ordem é submetida a um período de grandes inovações. Por volta de 1740 chegam a ela algumas correntes de pensamentos herméticos e de influência cavalheiresca e monástica com um grande impacto, o qual vai derivar, no emprego da espada nas cerimônias, a mudança na solenidade da iniciação (de um juramento acontece um psicodrama), e no enriquecimento lingüístico do discurso Maçônico. Também se conferem à cerimônia de recepção inovações fundamentais: gabinete de reflexão, viagens e provas pelos elementos, trocam o avental, o caminhar esquadrejado, etc. A criatividade dos Maçons na França – sejam franceses, ingleses ou escoceses residentes em Paris – da metade do século XVIII, é tão fecunda que aparece uma grande diversidade de Ritos. A Maçonaria vive sua liberdade maior, e se criam Lojas Maçônicas com perfis específicos e fins próprios: surgem as acadêmicas, femininas, militares, navais, itinerantes, políticas, mistas, etc. É o período de maior esplendor especulativo da Ordem, no qual se adotam (ou se contribui com seu fortalecimento) as idéias liberais, e a liberdade de pensamento e de consciência, que foram seu orgulho, até que chegam os anglo-saxões, do princípio do século XIX, com suas pretensões de instaurar um pensamento único. Enquanto isso, na Inglaterra, no ano de 1760, a Grande Loja Maçônica de Londres, acolhendo a proposta de William Preston, leva a cabo outra reforma quanto aos utensílios das Lojas Maçônicas que seria fonte de azedas discussões entre os Maçons do mundo inteiro, até nossos tempos: adota como uma das luzes das Oficinas a Bíblia. Na Maçonaria Operativa não se encontram vestígios de que se trabalhasse frente à Bíblia nem frente a um “Livro da Lei Sagrada”. Nem sequer era utilizado no momento de prestar o juramento de ingresso. No entanto, encontram-se referências documentais a respeito da dotação das Lojas Maçônicas de um “Livro da Lei”, o qual continha os Antigos Deveres e as regras – os Old Charges –

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sobre os quais prestavam seu juramento os Franco-maçons Operativos. Quer dizer um pouco mais secular e irreligioso. Nem nas Constituições de Anderson de 1723, nem nas reformas de 1738, menciona-se algo sobre a presença de um “Livro Sagrado” nas Lojas Maçônicas. Nos altares dos Franco-maçons Operativos só se encontravam os utensílios de trabalho: a régua, o esquadro e o compasso. Estas eram suas luzes e se constituíam em ferramentas indispensáveis para as reuniões. O historiador O. Wirth, citado pelo estudioso Álvaro Díaz Romero, afirma com acerto “que a Bíblia conserva todo seu prestígio diante daqueles espíritos religiosos que procuram nela a palavra de Deus, fazendo dela, ao mesmo tempo, a guia infalível de sua fé; mas semelhante veneração está muito longe de poder impor-se racionalmente e constitui uma característica anglo-saxã da que não participam as raças latinas. Os Maçons anglo-saxões quiseram ter sua Maçonaria particular e renunciaram ao universalismo proclamado em 1723”. Por outro lado, Sergio Casanova, destacado psiquiatra, catedrático universitário e membro da Grande Loja Maçônica Central da Colômbia, com sede na capital de Bogotá, recomenda frente às inquietações surgidas em torno de colocar o livro principal das religiões em lugar destacado das Lojas Maçônicas: “Não há resposta certa. Mas não devem os Maçons prolongar por mais tempo o uso de um livro e um conceito que não nos pertence”. Na segunda metade do século XVIII, a Maçonaria inglesa viveria uma experiência que marcaria seus destinos para sempre, assim como sua relação com a Maçonaria estrangeira. A esteira da Revolução Francesa de 1789 levou o Parlamento de Londres à aprovação de uma série de leis dirigidas a conter as idéias libertárias e antimonárquicas francesas, assim como aos sindicatos, clubes políticos e organizações subversivas. De acordo com informação oficial do Grande Oriente da França nesse país funcionavam em 1789 cerca de 3.000 Lojas Maçônicas que agrupavam a um pouco mais de 30.000 Maçons, o qual para a época era um número importante. Em 1799, o Parlamento britânico proibiu categoricamente as reuniões daqueles grupos que pedissem a seus membros tomar um juramento ou uma obrigação, entre eles a Maçonaria. Para conjurar o perigo de extinção, Earl de Moira (Grão-Mestre da Grande Loja Maçônica de Londres) e o Duque de Athol (Grão-Mestre da Grande Loja Maçônica da Inglaterra) usaram sua proximidade com a nobreza e a aristocracia inglesa e visitaram o primeiro-ministro (William Pitt, que não era Maçom) para lhe explicar que a Maçonaria era partidária da lei e da autoridade legalmente constituída e que se dedicava ao trabalho caridoso. Conseqüentemente, a Maçonaria foi eximida dos termos da lei mencionada da condição de que cada secretaria das Lojas Maçônicas, uma vez ao ano, fornecesse à autoridade local a lista de seus membros junto com suas idades, profissões e endereços. Essa disposição que continuou vigente até 1967, em que foi rescindida pelo Parlamento, obrigou à Maçonaria inglesa a não ser progressista, servir aos interesses do império britânico, apoiar a monarquia, manter boas relações com a igreja Anglicana, e a distanciar-se da Maçonaria que propugna pela liberdade, a igualdade e a fraternidade, cujo eixo conceptual se situa nos avatares da Revolução Francesa e a independência das colônias americanas. Desde então no Reino Unido existiu desconfiança para com os Maçons já que consideram os súditos britânicos que poderiam estar atuando em assuntos públicos em desenvolvimento de acordos secretos. Esta circunstância sempre foi uma pedra no sapato para os maçons ocupam cargos oficiais.

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Recentemente, e com um grande desdobramento, o periódico inglês The Times, em sua edição do dia 6 de abril de 2006, publicava a notícia de que o Tribunal Supremo da Grã-Bretanha, por intermédio do juiz Timothy Newman, determinou no dia anterior em uma sentença histórica, que a Maçonaria não provoca conluio de poderes na tomada de decisões. Para o magistrado britânico, aqueles Maçons que exerçam funções públicas não devem deixar de tomar decisões quando tratarem casos em que se vejam envoltos outros Maçons e, além disso, negou que os mecanismos discretos desse grupo sejam uma influência negativa para a sociedade, afirmando no veredicto que “A Maçonaria não é uma religião e embora seus membros se chamam entre eles ‘Irmãos Maçons’, estão sujeitos às leis e princípios britânicos”. É de esperar que esta falha do Tribunal Supremo da Grã-Bretanha outorgue maior margem política e social aos Maçons ingleses para fazer as mudanças urgentes que eram exigidas e que já eram comuns em outras latitudes. Mas, em realidade do que ocupavam nas Sessões esses Maçons do princípio do século XVIII quando não existiam nem os manuais de Lavagnini, nem as enciclopédias de Lorenzo Frau Abrines e Albert Gallatín Mackey, nem as publicações de André Cassard, nem se tinham inventado os Ritos, nem a Bíblia estava em frente a eles, nem ninguém falava de Hiram, nem se usavam espadas com atitudes cavalheirescas? Os Livros de Atas, conservados até a data nos mostram que as Pranchas apresentadas – inclusive pelos aprendizes – tratavam das idéias em voga entre os pensadores do princípio do século XVIII: a felicidade, a virtude, a sociabilidade, e nada se menciona sobre o templo de Jerusalém ou o caso de Hiram. Terá que esperar até a segunda metade do século XVIII, na França, e a multiplicação dos altos graus para ver a chegada à Ordem de várias correntes esotéricas, assim como a versão que sustenta que a Maçonaria Moderna descende da Ordem dos Templários que assolou e sangrou a Palestina do século XII em nome da cristandade ocidental européia dirigida pelo Papa católico, como hoje também o faz o exército americano para apropriar-se da riqueza dos povos do Oriente Médio, a custa de afogar em seu próprio sangue a seus legítimos proprietários. A irrupção dos denominados “Altos Graus” correspondentes ao Rito Escocês Antigo e Aceito, que é o mais difundido geograficamente pelo mundo, podemos situá-la (nos permitindo certa licença porque o tema é matéria de discussão) a partir dos dois célebres discursos, escritos com grande e duvidoso rigor histórico, por Sir Ramsay*, que introduziu o que poderíamos chamar a “Hipótese Templaria”, a qual resultou ser muito mais atrativa para a nobreza do século XVIII que o caráter burguês das antigas Corporações de Ofício. O primeiro destes dois discursos foi pronunciado em 1736 na Loja Maçônica parisiense St. Thomas nº. 1, que é a primeira fundada na França por nobres ingleses em 1725. O segundo, em 1737, lida diante de uma assembléia geral da Ordem francesa. Dentro do sistema de 33 Graus do Rito Escocês Antigo e Aceito têm um claro matiz Templário os Graus 18, 25, 26, 27 e 30, e influências visíveis os Graus 16, 17, 29 e 32. Em total 9 Graus de 33, o que representa cerca de 30% de seu conteúdo.

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SURGEM OS RITOS A efervescência criativa do século XVIII trouxe também consigo uma organização do método Maçônico que não tinha existido antes. A aceleração no crescimento do número das Lojas Maçônicas e do número dos Maçons, sobretudo na França, Espanha e Alemanha, levou às Oficinas homens provenientes de diversos extratos ideológicos, que vão das metafísicas até às racionais. Na França, os partidários da família real escocesa dos Estuard, deslocados do trono inglês pelos Hannover, e emigrados a Paris, foram os grandes impulsionadores dos chamados “Altos Graus” Maçônicos. De fato, às Lojas Maçônicas em que se praticavam os mesmos, começaram a ser conhecidas como “Escocesas” e correspondiam ao que hoje denominamos, dentro do Rito Escocês Antigo e Aceito, Lojas Maçônicas de “Perfeição”. Para ser admitido em uma dessas Lojas Maçônicas Escocesas, na segunda metade do século XVIII se requeria não só ser membro ativo de uma Loja Maçônica simbólica, mas, além disso, ter desempenhado, pelo menos, um de seus três cargos principais. Pela circunstância particular de que tradicionalmente os Mestres Maçons Escoceses costumavam usar a cor vermelha, esta cor passou a ser o das Lojas Maçônicas Escocesas, e como os Mestres ingleses se decoravam com um cordão azul se foi generalizando a denominação de Lojas Maçônicas Azuis para as que se ocupavam dos três primeiros Graus simbólicos. O costume chegou até o século XXI. Desta forma chegaram à Ordem os Rosa-cruzes, os que afirmavam descender dos Templários, os que vinham de brigar com os padres, os nitidamente racionais, os platônicos, os pitagóricos, os da Cabala, os dionisíacos, os herdeiros dos Mistérios de Isis e Osíris do antigo o Egito, os iluminados, os alquimistas, os hugonotes, os teósofos, os ateus, os deístas, os teístas, os agnósticos, e um largo etcétera. O certo é que nenhuma destas correntes de opinião esotérica, e de crenças ou não crenças, sobre a mortalidade ou imortalidade da vida, ou sobre a existência de uma alma que sobrevive à morte biofísica, ou sobre uma figura suprema criadora, controladora e/ou reguladora do universo, nasce e surge da Maçonaria, mas sim chegam a ela tardiamente como por inundação, e lhe incorporam como um afluente o faz a um rio. A forma em que a Maçonaria do século XVIII solucionou as diferenças conceituais de seus membros, em meio deste oceano ideológico, foi estruturando espontaneamente sistemas de Graus, mais ou menos ecléticos, com conteúdos diferentes aos três que acabava de conceber, cada um com uma orientação específica e um encadeamento particular. Pouco a pouco, estes Graus, e seus sistemas, foram-se juntando até que finalmente se nuclearam em associações denominadas Ritos, com diferentes extensões. Existem, e existiram após, Ritos de 3, 5, 7, 9, 33, 99 Graus, etc. O termo Rito deriva etimologicamente da palavra latina Ritus, que designava um formalismo ou algo convencional. Desde a antigüidade existiam algumas práticas às quais impunham que fossem realizadas solenemente com o fim de que se gravassem na imaginação. Os governantes

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procuravam a repetição de gestos, coros, sinais, símbolos, palavras, canções, etc., para criar condicionamentos uniformes na realização de práticas coletivas denominadas Ritos. Na história se conhecem ritos religiosos, jurídicos, militares, familiares, morais, etc., entre outros. A Maçonaria não escaparia a esta disciplina. Um Rito, para ser eficaz na transmissão de uma influência, deve conter fórmulas e processos vivenciais que dêem ritmo e harmonia, assim como consistência, permanência, unidade, pertinência e particularização, além de condições e experiências grupais sensitivas. A Maçonaria, desde a metade da década de 30 do século XVIII, até os dias de hoje, concebeu uma grande quantidade de Ritos com o fim de atender umas determinadas circunstâncias históricas e sociais, ou interiorizar em seu seio diversas correntes metafísicas, políticas, monacais, laicas e cavalheirescas em moda entre a classe alta da época, a qual as introduziu à Ordem ao ingressar massivamente às Lojas Maçônicas. Havia mais linhagem para os Maçons, se a Ordem descendia dos Templários, e anteriormente dos mistérios do antigo o Egito, que se fosse uma derivação dos prosaicos grêmios de pedreiros e construtores. Um Rito Maçônico é um conjunto sistemático de cerimônias e entrelaçamentos de concepções. Eles têm variado de acordo com um período histórico, uma conotação, um objetivo e uma temática, considerados por seus praticantes. Dos Ritos que chegam ao século XXI, os mais difundidos no mundo, são o Escocês Antigo e Aceito, o de York, o Francês, o Francês Moderno, o Schröeder, o do Memphis-Mizraim, o de Adonhiram, o Emulation, o dos Cavaleiros do Oriente e o de Heredom. Igualmente existem Ritos nacionais como o Brasileiro, o Eclético Lusitano e o Mexicano. Alguns destes Ritos possuem variações menores e/ou adaptações geográficas e culturais. Também existem muitas Grandes Lojas Maçônicas que sustentam que não praticam nenhum Rito. Entretanto, os Ritos mais praticados hoje em dia, tendo em conta o número de Maçons que o observam, são o de York e o Emulation, os quais se mantêm focalizados no mundo anglo-saxão. Não obstante, o mais difundido geograficamente no planeta é o Escocês Antigo e Aceito. Os Ritos distintivos das duas Obediências simbólicas mais emblemáticas da Ordem do século XVIII são: a) Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra: Pratica o Rito Emulation (Rito de Emulação) estruturado em 1816 e 1823, que é o oficial após e tem a característica de que só foi publicado por escrito no ano 1969. Antes dessa data devia se observar de cor. Segundo o Ex-presidente do CLIPSAS e ex-Grão-Mestre da Grande Loja Maçônica Simbólica da Espanha, Javier Otaola “este Rito representa uma corrente praticista muito do gosto anglo-saxão, influenciada pelas Igrejas Reformadas e o humanismo filantrópico individualista”. Grande Oriente da França: Pratica oficialmente o Rito Francês, chamado Francês Moderno desde princípios do século XIX. Foi estruturado inicialmente dos anos 1740, codificado e adotado em 1786 e impresso em 1801. Na segunda metade dos anos decimonônicos, assim como em 1935 foi reformado duas vezes, igual a 1970, quando lhe simplificaram as provas e

b)

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as viagens. Este Rito é o mais antigo da Europa continental. O mesmo J. Otaola afirma que é “uma corrente racionalista que aproxima da ciência e ao progresso através de distintas fases: a espiritualista (Newton, Goethe...), a racionalista crítica (Kant), a positivista (Comte), que se vão imbricando sucessivamente”. E já que mencionamos os perfis dos Ritos Francês Moderno e Emulation, terminamos o tema comentando que o autor mencionado sustenta igualmente que o Escocês Antigo e Aceito “representa uma corrente esotérica que recolhe toda a tradição dos Mistérios antigos e das tradições esotéricas”. Muitos Ritos existiram por breves períodos de tempo e se deixaram de praticar. Muitos outros mantêm suas tradições quase inalteradas. Estima-se que existiram cerca de 250. Não obstante, independentemente das relações entre os corpos que administram os Ritos e as Grandes Lojas Maçônicas, dentro do marco de suas orientações particulares, todos eles foram criados por Maçons que defenderam e propagaram a Ordem por toda a Terra, procurando converter a seus Irmãos em pessoas melhores que possam melhorar, a sua vez, à sociedade.

A MÚSICA MAÇÔNICA Durante o desenvolvimento da Maçonaria Operativa, quer dizer, antes do século XVIII, a música Maçônica foi escrita para celebrar aos Santos patrões dos diferentes corpos do ofício, assim para animar aos Maçons durante a execução de seus trabalhos. Daquela produção melódica ainda se podem encontrar rezas nos trabalhos das Lojas Maçônicas ao redor do mundo inteiro. Entretanto, é necessário esperar até 1723, com a promulgação das Constituições do Anderson, para descobrir as primeiras canções impressas da Maçonaria Especulativa, o que não quer dizer que antes dessa data não existissem. Depois de 1723 a música e a canção Maçônica florescem destinada a recrear e ambientar as histórias e as lendas da Maçonaria, e, sobretudo a animar os ágapes posteriores à culminação dos Trabalhos. Estas canções estão compostas de acordo com os ares da moda e são essencialmente destinadas ao desfrute e o regozijo, celebrando de passagem as qualidades dos diretores da Loja Maçônica (algumas vezes a de suas damas) culminando geralmente com um convite a brindar por eles. Destacaram-se no século XVIII como compositores de música Maçônica Jean Christophe Naudot, Luis Nicolás Cleramboult, François Girourt, e sobremaneira Wolfgang Amadeus Mozart, quem outorga à música Maçônica carta de nobreza compondo verdadeiras obras mestras. No extremo Maçônico produtivo se encontra W. A. Mozart, com onze peças magistrais compostas especialmente para a Ordem. Agora bem, que características deve possuir uma boa canção Maçônica? A resposta é singela: Que o autor, seja Maçom ou não, brinde em sua composição um ar portador de emoção e que graças à letra, à música e/ou a voz do cantor, transcenda-se as diferentes fases de uma cerimônia Maçônica.

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As letras sempre fazem referência aos valores morais ou às qualidades Maçônicas. Os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade, ao tempo que se convertiam na divisa da República Francesa eram promulgados nas Lojas Maçônicas e se encontram no texto de suas canções, ao lado de símbolos essenciais da Maçonaria, tais como o compasso, o esquadro, a pedra bruta e esculpida, o cinzel, etc. Os estudiosos têm observado que existem modos musicais Maçônicos. Por exemplo: a tonalidade do Mi bemol maior levando três bemóis, seria Maçônica sob a explicação de que o simbolismo da Ordem faz freqüentemente referência ao número três. É evidente que os compositores Maçônicos, Mozart em particular, introduziram com êxito alusões simbólicas relacionadas com a Maçonaria em suas composições. Por exemplo: Não existe dúvida de que dentro do adágio da abertura de La Flauta Mágica, cujo libreto escreveu o Maçom Enmanuel Schikaneder, Mozart, com a repetição de três vezes três acordes, quis representar ritmicamente a bateria do Grau de Aprendiz do Rito Francês. Não obstante o anterior, os especialistas reconhecem que não se pode compor música Maçônica fazendo a um lado a inspiração melódica para elaborar uma construção matemática ou geométrica, sob pretexto de refletir o simbolismo Maçônico, já que só assim se obtém uma penosa ensambladura musical do mais curioso efeito; e isso contradiz o princípio geral de que a música durante as reuniões Maçônicas deve acima de tudo levar ao ouvinte uma emoção que complemente os conteúdos do método de construção Maçônica. Muitos músicos de renome foram Maçons, entre eles além dos nomeados: I. J. Pleyel, Johan Christian Bach, Jean Sibelius, Franz Joseph Haydn, Felix Mendelssohn Bartholdy, Hector Berlioz, Nicolo Paganini, Franz Liszt e John Philip Souza, entre os clássicos, assim como cultores da música popular da dimensão de Duke Ellington, Nat “King” Cole, Louis Armstrong e Carlos Gardel, a quem lhe celebrou um cerimonial Maçônico de honras fúnebres em Medellín ao dia seguinte de seu trágico acidente aéreo, em 24 de junho de 1935. Cabe destacar que muitos dos músicos que receberam a iniciação Maçônica não compuseram obras para serem interpretadas com fins Logiais, embora durante sua passagem pela Ordem com freqüência deleitaram aos assistentes, aos ágapes com o exercício fraternal de seu talento. Portanto, sua música não pode ser considerada como Maçônica. Em Barranquilla, devem-se ressaltar as reuniões fraternais no pátio da casa do Ir:. Cipriano Guerreiro Basanta, localizada no bairro O Recreio, que não só deleitava aos Maçons com a prática mestra do saxofone, mas sim, além disso, compôs o único “Hino ao oriente de Barranquilla” de que se tenha notícia, o qual foi gravado sob sua batuta pela orquestra dos Irmãos Martelo. Mas já no âmbito da música Maçônica propriamente dita, o Maçom Bernard Murocciole, barítono da Ópera de Paris, recomenda como as mais belas canções da Maçonaria Especulativa de todos os tempos o seguinte ramalhete de sete obras mestras usadas nas Lojas Maçônicas: 1. “Hino ao sol” (As Índias Galantes). Letra: Louis Fuzeliers. Música: Jean Philippe Romeau. 1735.

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“Que a fraternidade…” (Ou heileges Bond…) k148. W. A. Mozart. 1784. “Enlacemos nossas mãos…” (Losst uns mit…) K623. Letra: Giesecke. Música: W. A. Mozart. 1791. “Ode à Fraternidade” (Ode to Fraternity) Opus 113. Letra: Samuli Sorio. Música: Jean Sibelius. 1927. “Hino do Grande Oriente da França” (Francmason, mês Freres). Letra: Michel Gonet. Música: Pierre Chaine. 1973. “O Grial” (Le Chevalier Vermail). Letra: Gerard Gefen. Música: Claude Ricard. 1982. “A Quete” (L’homme da Mancha). Letra: Joe Darion. Música: Milch Leigh. 1965.

4.

5.

6. 7.

MUSEOLOGIA MAÇÔNICA Nos últimos tempos tem havido um interesse considerável entre os investigadores sociais a respeito da história e as reais influências da Maçonaria. Universidades na Inglaterra, Espanha e França, entre outros países, organizaram cursos dirigidos a estudantes de ciências sociais, e historiadores independentes, estão se ocupando do tema cada vez com maior insistência. Uma das limitantes na investigação destes Maçonólogos é a escassez de fontes primárias com que se encontram e o desaparecimento progressivo de muitas das que sobreviveram até nós. Por outra parte, as coleções privadas SUELEN não serem acessíveis, nem sequer para os Maçons em geral. É um fato certo o que muitos velhos documentos e objetos relacionados com a Maçonaria, arquivados nas Grandes Lojas Maçônicas, perderam-se por negligência ou falta de compreensão do que é um patrimônio histórico e de sua funcionalidade para a investigação. Contudo, muitos deles aparecem ocasionalmente em “mercados de pulgas” ou antiquários, e são adquiridos por Maçons cujas famílias, no momento de sua morte, não lhes dão nenhum valor. Os ratos e traças, o fogo ou o cesto do lixo são destinos freqüentes para as pequenas coleções particulares, e, por esta via, perdem-se velhos livros, cerâmicas, cristais, objeto de cenário, jóias, cartas, diplomas, documentos etc., que seria útil exibir a Maçons e estranhos. Os seres humanos procuraram sempre representar aquilo que lhes é importante, ou do que acreditam que é parte de sua essência, ou do que esperam ou sentem algo, ou aquilo para o que estão dispostos a dedicar seu tempo. Este desejo se estende das pinturas nas cavernas pré-históricas até os movimentos criativos mais modernos. Os Maçons não são a exceção, já que a Ordem, nos quatro últimos séculos, foi parte da construção cultural em muitas nações do ocidente aonde exerceu numerosas influências.

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Até se pode afirmar que existe uma arte Maçônica que produziu obras singulares na escultura, a cerâmica, a música, os entalhes em madeira e pedra, a pintura, o desenho, a joalheria, a ourivesaria, a arquitetura, a ópera, o teatro, o mobiliário, etc., que proporcionam ao observador uma experiência que pode ser de ordem estética, emocional e/ou intelectual. Este novo interesse das ciências sociais na Maçonaria, gerou o surgimento de Museus Maçônicos em várias partes do mundo, o reforço dos que já existem e até uma Associação deles na Europa, o qual representa uma melhor oportunidade para compreender a história da Ordem. É decana nesta disciplina, a Grande Loja Maçônica da Escócia, cujo Museu, fundado em 1807, atualmente está aberto ao público todo o ano de segunda-feira à sexta-feira, das 9:30 da manhã até 4:30 da tarde. Outro Museu Maçônico de obrigatória visita na Europa pertence ao Grande Oriente da França, e está se localizado em sua sede do 16, Rue Cadet – 75439 Paris Cedex 09, o qual conserva, entre outras coisas, a Loja Maçônica em que trabalhou Voltaire, numerosas porcelanas finas de temática Maçônica, Aventais e ornamentos pessoais de grandes Maçons da história e uma coleção realmente impressionante. Em 1940 quando as tropas Nazistas ocuparam Paris, Hitler ordenou levar a Berlim os arquivos do Grande Oriente da França. À queda do Nazismo os russos por sua vez o deslocam a Moscou a serviço da KGB. Finalmente, no ano 2000, logo depois de largas negociações com o governo russo voltam para seio do Grande Oriente da França 120 metros lineares de arquivos de quatro níveis que ainda estão sendo estudados e classificados em Paris. O museu do Grande Oriente da França foi baseado em 1889, e só deixou de estar aberto ao 2 público durante os anos da 2ª guerra mundial. Hoje possui 800 m de exposições permanentes com 2 2 10.000 peças de várias coleções, outros 400 m dedicados a exposições temporárias, 400 m mais para uma biblioteca Maçônica que contém 23.000 títulos e um arquivo histórico, e finalmente 350 2 m dedicados a escritórios e serviços gerais. A simples entrada custa no encerramento da edição deste livro, 2 euros, e 5 euros com guia especializado. Em 1989, o Dr. Rolf Ullman, ex-Grão-Mestre da Grande Loja Maçônica de Antigos, Livres e Aceitos Maçons da Alemanha, e de uma vez Presidente do Museu Maçônico Alemão, em conjunto com o Herbert Schneider, Diretor dessa mesma galeria, celebraram uma reunião executiva no Bayreuth, Alemanha, na qual criaram a Associação de Museus, Livrarias e Arquivos Maçônicos da Europa (Association of Masonic Museums, libraries and Arquive in Europe - AMMLA), instituição que depois celebrou Congressos anuais em que se discutiu com amplitude matérias de interesse comum, o qual conduziu à realização de importantes exposições em Viena, Áustria, Bruxelas, Bélgica e Tours, na França. Para o Congresso do ano 2006 se fixou o mês de junho simultaneamente nas cidades de Viena e Budapeste. Os arquivos da AMMLA estão a disposição dos investigadores de todo o mundo, e sua sede, será, em um futuro próximo, o European Masonic Research and Documentation Center (Centro Europeu de Investigação e Documentação Maçônica), localizado-se na cidade de Tours, França, aonde já celebrou uma exposição internacional de 15 de junho aos 8 de setembro de 2002, levada a cabo em

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seu célebre Château. Atualmente ali se exibe uma exposição permanente dirigida a estudantes e investigadores. Por sua vez, nos Estados Unidos destacam com luz própria os museus Maçônicos abertos ao público localizados nas instalações do George Washington Masonic National Memorial, na cidade da Alejandría, Virginia, o Museu Maçônico do Rito Escocês de Herança Nacional, em Lexington, Massachusetts, o Masonic Memorial Auditorium And Peace Chapel e o Jardim Internacional da Paz, em Manitoba, North Dakota, na fronteira entre os Estados Unidos e Canadá (consta de 450 hectares em USA e 800 adjacentes em chão canadense), sustentado pelo Grande Capítulo da Ordem das Estrelas do Oriente, e o edifício sede do Supremo Conselho para o Sul de USA, localizado em Washington D.C., o qual foi construído em 1911 a um custo de dois milhões de dólares tomando como modelo o Mausoléu de Halicarnaso na Turquia. Todos estes museus se encontram certificados pela Associação Americana de Museus. Em Nova Iorque, igualmente funciona como museu o Masonic Hall. Um edifício de 19 andares construído em 1910, na 6ta. Avenida com a rua 23, Oeste, em Manhattan, de propriedade de uma das 27 Grandes Lojas Maçônicas que trabalham nessa cidade, o qual mostra ao público 14 luxuosas Lojas Maçônicas. Cada uma diferente das outras, com um esbanjamento de riqueza impressionante, ressaltando entre elas o Templo principal da Grande Loja Maçônica que ocupa os andares três e quatro, desenhado ao estilo Art Nouveau do artista Louis Comfort Tiffany (18481933). Entretanto, poderiam ser, por si só, motivo de interesse especial para visitantes as Lojas Maçônicas deste edifício construídas ao modo arquitetônico Americano, Capitular, Gótico, Imperial, Francês, Colonial, Dórico, Dórico Francês, Jacobino, Corintio, Renascentista, Jônico e Holandês. Sem contar com a formosa Livraria Maçônica Robert R. Livingston que é outra jóia digna de admirar. Na Colômbia não abundam as Lojas Maçônicas que possam remontar sua história até meados do século XIX, e de fato o corpo Maçônico mais importante para a investigação histórica do pensamento político colombiano é o Supremo Conselho do Grau 33° para a Colômbia, dada sua fundação nos começos da República, em 1833 e seus antecedentes que se remontam até a Venezuela de 1824. Desafortunadamente, na tentativa de fazê-lo desaparecer que se vive no país da década dos oitenta do século passado, as chamas serviram de instrumento a seus detratores, e da mesma forma sucedeu com os piromaníacos de Alejandria, perdeu-se para sempre um arquivo de valor incalculável. Não obstante, algumas Grandes Lojas Maçônicas contam com amostras antigas, que, de fato, não estão em capacidade de conservar adequadamente. E embora queiram as conservar demonstrando um orgulho compreensível, este sentimento não consulta a conservação dos objetos. Outra ameaça adicional, consiste na freqüente mudança de funcionários das Grandes Lojas Maçônicas, e com eles a atenção a um mesmo tópico. Igualmente, é compreensível a defesa de uma certa independência na posse das lembranças próprias, assim como o exercício de uma vaidade local, mas a insistência em conservar inadequadamente a posse de objetos de valor histórico é contraproducente no passar do tempo. O primeiro que se precisa compreender, é que o depósito de objetos em uma biblioteca ou Museu devidamente constituído não necessariamente significa a perda da propriedade sobre os

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mesmos. Este é um receio comum, e a desconfiança nas outras Grandes Lojas Maçônicas é outro obstáculo que se teria que superar. Em nosso país, é difícil que uma Grande Loja Maçônica credite tanta familiaridade entre seus pares, para lhe confiar objetos que lhe são valiosos, já seja por sua importância no estudo do passado ou porque recorda a um membro distinto ou um acontecimento importante. Tampouco abundam nelas museólogos ou bibliotecólogos. E salvo o caso da Grande Loja Maçônica do Norte da Colômbia, com sede no Barranquilla, que conta com o único Museu Maçônico da Colômbia, sob o encargo do ex-Grão-Mestre Alberto Donado Comas, e a Sereníssima Grande Loja Maçônica Nacional da Colômbia, com sede em Cartagena, as demais não estão em condições econômicas de confrontar os gastos requeridos. Também é digno de destacar a admirável coleção privada que conseguiu reunir Jairo Escobar Arregocés, membro ativo da Loja Maçônica “Cosmo e Sabedoria nº. 9”, com sede em Riohacha. Nestas condições e, para conciliar a necessidade de um Museu Maçônico na Colômbia com os avatares internos da Ordem, o realmente viável seria confiar em um museu que tenha sede na capital do país (como por exemplo, o Museu Nacional) a organização de uma sala especial a que com grandeza todas as Grandes Lojas Maçônicas que trabalham no país, assim como os maçons o desejem, doem ou depositem seus objetos e documentos de interesse artístico ou histórico para a Ordem, com o fim de que sejam expostos à cidadania em geral. São muitas as vantagens que ofereceria a realização de um Museu Maçônico global, e não fracionado em pequenas memórias, para a construção de uma história da Colômbia em que caiba publicamente a Maçonaria, e para a aquisição de conhecimentos sobre um dos principais focos ideológicos dessa história. Também, é possível que se construa um imaginário nacional Maçônico e uma memória coletiva que complemente e dê maior alcance ao que se criou tendo como eixo central à obra de Américo Carnicelli.

O AVENTAL NEM SEMPRE FOI IGUAL No século XVIII também se apresenta uma variação do Avental que usavam os Maçons, sobre o que não existem dúvidas de seu uso a partir dos trabalhadores da construção na Idade Média e do Renascimento. Igualmente há evidências de que o Avental operativo era feito com a pele de um animal, provavelmente de ovelha, e era grande o bastante para cobrir ao Maçom dos pés à cabeça. Uma correia de couro ao redor do pescoço o sustentava e à altura da cintura outra permitia atá-lo ao corpo. Embora o uso deste Avental rústico permanecesse por muitos séculos, o Avental tecido e adornado usado pelos Maçons modernos é comparativamente recente. Data do século XVIII. Provavelmente, a primeira referência oficial à vestimenta Maçônica se encontra na sétima cláusula das Regulações Gerais, sancionada pela Grande Loja Maçônica de Londres em 1721, mas teremos que esclarecer que ali não se mencionam Aventais especificamente.

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As representações mais longínquas na Maçonaria moderna se encontram em uma gravura de Antony Sayer, primeiro Grão-Mestre da Grande Loja Maçônica de Londres em 1717, e na ilustração do frontispício do primeiro livro das Constituições de 1723, elaborado por John Pene. No primeiro, somente a parte superior do Avental é visível, e se observa levantada uma espécie de abeta. No segundo caso um ajudante está levando uns Aventais grandes que têm umas tiras largas que parecem ser de couro e capazes de cobrir a um homem do peito aos tornozelos. O modo de atar-se destes Aventais é o dos Maçons operativos, método que continuou inclusive quando eram elaborados de seda e/ou de linho. O uso do Avental de couro não desapareceu tão facilmente, apesar da utilização de materiais mais suaves – possivelmente a partir de 1740 –. Sobreviveu até pelo menos 1811. A evidência disto é a referência ao Avental encontrada nas atas da Grande Loja Maçônica de Londres de 17 de março de 1731: “o Grão-Mestre e os guardas das Lojas Maçônicas particulares podem alinhar seus Aventais de couro brancos com a seda branca, e podem pendurar suas jóias nas cintas brancas sobre seus pescoços”.Esta regulação foi repetida na reforma constitucional inglesa de 1738 e em suas seguintes edições, incluída a do Noorthouck (1784), que era a anterior a de 1815. Não há consenso sobre quando os Aventais largos começaram a deixar de serem usados, mas deve ser na década de 30 do século XVIII, a julgar pelas lâminas e retratos da época. No princípio a abeta aparece nas ilustrações colocada para cima, mas logo este costume variou. A abeta foi cortada ou usada para baixo. Entretanto, é evidente que nos primeiros tempos da Maçonaria moderna os Aventais foram desenhados para serem usados com a abeta para cima, para que esta fosse contida por meio de uma CASA a um botão costurado na capa ou o colete. Muitos destes velhos Aventais têm uma CASA na abeta, mas parece ter existido uma tendência entre os Maçons mais importantes a usar a abeta para baixo ou a dispensá-la por completo. Na França, os Companheiros levavam a abeta flexível e ao parecer grampeada à jaqueta (L’Ordre dê Francos Maçons Trahi, 1745, pág., 116, e Os Franco-maçons Ecrasés, 1747, pág. 221). Na ata da cerimônia de Posse da Loja Maçônica Parisina Salomón em Toda Sua Glória, em 1766, o Venerável Mestre consignou: “... o Grão-Mestre desfez a asa flexível de meu Avental que estava atado a um dos botões de meu colete, e me disse que na qualidade de Venerável Mestre, eu estava em liberdade de permitir que caísse...” A partir de 1731 o Avental começou a assumir uma forma mais cortesã. O couro foi substituído por tecidos: seda, cetim, veludo, linho e camurça mais suave. A abeta adquiriu uma forma triangular ou semicircular. A parte inferior do Avental foi cortada com cuidado, cantos foram arrumados geralmente para dar igualmente uma forma semicircular, e as correias de couro foram substituídas pelas cintas. Alguns Maçons “Modernos”, opondo-se ao Avental de trabalho dos operários, introduziram um novo modo de usá-los: ao reverso, a peça maior era contida ao abdômen e a abeta se localizava para baixo, para deixar claro que não eram Maçons Operativos. Este uso durou pouco.

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Muitos dos Aventais tecidos, bordados e pintados eram feitos em casa, e adornados com desenhos simbólicos. A partir de 1760 apareceram os Aventais impressos e gravados, muitos deles eram coloridos posteriormente à mão. A tendência a adornar os Aventais Maçônicos com desenhos simbólicos começou nos anos 1730’s, e entre 1740 e 1790 esta prática chegou a ser muito comum. A tinta índia, a pintura e o bordado foram utilizados usualmente para esta ornamentação. Os desenhos mais populares incluíram geralmente um olho, duas colunas, o mosaico e o compasso. Em 1892 H. Rylands, membro da Loja Maçônica de Investigação Quatuor Coronati nº. 2076, jurisdicionada a Grande Loja Maçônica Unida e Inglaterra, publicou no Ars Quatuor Coronatorum um ensaio resumindo assim a situação: “. . . por volta de 1784 se apresentou uma grande redução do tamanho do Avental. . . tinha existido durante muito tempo uma lassidão considerável a respeito. . . e não havia nenhuma disposição a respeito de sua uniformidade. Sempre e quando o material fora branco, em sua frente se permitiu que se adornasse com um grande número de símbolos, às vezes não Maçônicos, com tal de que não se coincidisse com as insígnias e distintivos dos Grandes Oficiais, que utilizavam um cós púrpura em seus Aventais. . . O tamanho se reduziu cada vez mais fazendo-se mais pequeno. . . estava absolutamente dentro da criatividade de cada Maçom o inventar para si quase qualquer Avental que lhe satisfizera.” No Reino Unido, entre os “Antigos” se converteu em uma prática comum desenhar ou pintar em seus Aventais os emblemas de sua Grande Loja Maçônica, e nas vestimentas dos “Modernos” se adotou o mesmo costume; de fato, estes fizeram ornamento de maior liberdade nos desenhos e o uso de adornos que seus rivais. A situação chegou a tal extremo que em 2 de setembro de 1772, o Grão-Mestre de Londres prescreveu que “é de público conhecimento que vários Irmãos apareceram ultimamente em público com o cordão e a franja de ouro, junto com muitos adornos em seus Aventais, o qual é contrário à dignidade, a propriedade e aos antigos costumes da Ordem, por isso resolvo e peço que no futuro nenhum Irmão, exceto as Grandes Dignidades, aparecerá com cordão de ouro, franja de ouro, bordado de ouro, ou qualquer material que se assemelhe ao ouro, em suas vestimentas ou ornamentos Maçônicos”. Esta medida só afetou a utilização do ouro, mas não prescreveu a uniformidade do desenho. Ao expandir-se a Ordem por todos os continentes e florescer numerosos Ritos e formas de Maçonaria, foram aparecendo muitas classes de Aventais, embora todos do tipo pequeno que se impôs com o passar do século XVIII. Hoje os encontramos quadrados e arredondados, de fundo azul, verde, branco, amarelo, arroxeado, etc.; com uma jóia distintiva do cargo que se ocupa na Loja Maçônica ou com a decoração própria de um Grau; com a abeta para cima ou para baixo. Alguns são simplesmente decorativos (possuem cintas, borlas, rebordos coloridos, franjas, rosetas, paisagens, lentejoulas), e outros mostram que seus donos ostentam uma grande vaidade. Também se podem obter através de armazéns especializados, comerciantes varejistas, mandados a elaborar e pela Internet em lojas virtuais. De todos os modos, há consenso a respeito de que de todos estes Aventais representam, simbolizam e são emblemas do trabalho.

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O SÉCULO XIX

É bom ser igual, mas é melhor ser livre.

A LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA E A AUTONOMIA DAS GRANDES LOJAS MAÇÔNICAS A discrepância entre as duas Grandes Lojas Maçônicas inglesas (Grande Loja Maçônica da Inglaterra fundada na cidade de York em 1705, e a Grande Loja Maçônica de Londres fundada em Londres em 1717), prolonga-se até 1813, quando se unem para dar lugar a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra. Nesta ocasião a nova Obediência faz reformas às Constituições de Anderson as tornando mais deístas. Na seqüência o que fazem os ingleses, é pretender que toda a Maçonaria mundial acate o que eles acordaram, e aceitem de passagem sua primazia hierárquica mantidas na falsidade de que a Grande Loja Maçônica de Londres foi primeira a instalar-se na história. Direito de primogenitura, que ninguém na Maçonaria tinha ouvido falar até então. Como é natural esta pretensão, só prospera entre aqueles que tinham um interesse particular em subordinar-se a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra; então Londres procede a ofender e desqualificar a Maçonaria que se pratica na Europa Continental, principalmente a Maçonaria política da França e a aristocrática alemã, por não se sujeitar a seus ditames. Desde então, as diferenças conceituais políticas em torno de temas muito sensíveis para o império Britânico como são a defesa que faz a Maçonaria francesa do ideal da República, da democracia liberal e da laicidade, vão criando distância entre as duas Maçonarias situadas lado a lado do Canal da Mancha. Finalmente, as relações são rompidas abruptamente pela Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra ao aprovar o Grande Oriente da França em 1877 uma alteração radical de sua Constituição, para a liberdade de consciência, aprofundado em 1884 com a mudança de seus rituais. Em ambas as oportunidades, se aprovou que fora opcional a crença em Deus e na imortalidade da alma por parte dos Maçons, assim como o uso da Bíblia nas Sessões, e a invocação ao Grande Arquiteto do Universo. O novo texto constitucional francês rezava: «A Maçonaria tem por princípios a absoluta liberdade de consciência e a solidariedade humana. Não exclui a ninguém por razão de seu credo». A partir do rompimento, a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra organizou todo um sistema discriminatório internacional de reconhecimentos e regularidades que chegou até hoje. Já neste tema da liberdade de consciência, convém deter-se um pouco, pela transcendência que reveste para o desenvolvimento da Ordem, nas palavras do Pastor protestante Federico Desmons ao propor à Assembléia Geral do Grande Oriente da França levada a cabo em Paris em 1877, a supressão da obrigatoriedade da crença em Deus: Pedimos a supressão desta fórmula porque se for embaraçosa para o Veneralato e para as Lojas Maçônicas, não o é menos para os profanos que, animados de sinceros desejos de formar parte de

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nossa grande e bela Instituição, generosa e progressista, vêem-se detidos por esta barreira dogmática que sua consciência não lhes permite saltar. Pedimos a supressão desta fórmula porque nos parece extra, inútil e estranha ao objeto que persegue a Maçonaria. Quando uma sociedade de sábios se reúne para estudar uma questão científica se sente obrigada a pôr na base de seus Estatutos uma fórmula teológica qualquer? Não, isto não se faz. Os sábios estudam a ciência independentemente de toda idéia dogmática ou religiosa. Por que não se deve fazer o mesmo em Maçonaria? É que seu campo não é bastante vasto, seu domínio o suficientemente extenso, para que não lhe seja necessário pôr pé sobre terreno que não seja o seu? Deixemos aos teólogos o cuidado de discutir os dogmas, deixemos às Igrejas autoritárias os cuidados de formular seus parâmetros, mas que a Maçonaria fique no que deve ser, quer dizer, em uma Instituição aberta a todos os progressos, a todas as idéias morais elevadas, a todas as inspirações amplas e liberais. Que não descenda jamais à arena ardente das discussões teológicas que não contribuíram jamais – acreditem no que lhes digo – mais que turbulências e perseguições. Que se guarde muito bem a Maçonaria de querer ser uma Igreja, um Concílio, um Sínodo, porque todas as Igrejas, todos os Concílios, todos os Sínodos foram violentos e perseguidores! E isto por ter querido ter sempre o dogma como base. O dogma que por sua natureza é essencialmente inquisidor e intolerante. Que a Maçonaria, pois, abata-se majestosa por cima de todas estas questões de seitas ou Igrejas, que domine em toda sua altura as discussões, que permaneça sendo o vasto abrigo sempre coberto a todos os espíritos generosos e valentes, a todos os investigadores da verdade, conscienciosos e desinteressados, a todas as vítimas, enfim, do despotismo e da intolerância. A Resolução do Grande Oriente da França, em realidade foi o resultado de uma larga discussão que começou quando ela mesma trocou sua Constituição em 1849 para estabelecer, como requisito para ser admitido na Maçonaria, a crença do candidato em Deus e na imortalidade da alma. Costuma-se citar como ponto de partida final para a aprovação da reforma constitucional de 1877 a seguinte anedota, que narra assim o historiador Maçom Eugenn Lennnhoff: Em 1875, o bispo Dupanloup solicitou baixa na Academia, em protesto pela eleição do eminente positivista Littré, autor do Dicionário Etimológico, e solicitou ingressar no Grande Oriente da França. Perguntado antes da iniciação se acreditava em Deus, respondeu: Um sábio da antigüidade, a quem um rei perguntou o mesmo, refletiu durante muitos dias, e nunca se sentia capacitado para responder. Eu vos rogo que tampouco de mim exijam afirmação nem negação. A ciência não nega uma Causa primitiva, porque não acha em parte alguma nada que a negue nem a demonstre. Todo saber é relativo. Cada vez achamos novas essências e leis primitivas cujo muito profundo fundo desconhecemos.

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Quem resolutamente diga que não é crente nem ateu, nada faz a não ser demonstrar sua incompreensão do problema da origem e fim das coisas. Dois anos mais tarde o Grande Oriente suprimiu a fórmula do “Grande Arquiteto do Universo”. O clérigo protestante Desmons tinha defendido a proposição encaminhada a esta supressão, alegando a necessidade de que o princípio da liberdade de consciência ficasse expresso tão claramente como fosse possível. Isto teve efeito mediante esta fórmula. O Pastor protestante Frederic Desmons também propôs em 1869, em uma Convenção do Grande Oriente da França, a Iniciação feminina sendo rechaçada pelo máximo corpo legislativo dessa Obediência, o Conselho da Ordem. Não obstante, a partir dessa data se tomou o costume de convidar a mulheres conferencistas a suas instalações, entre elas à prestigiosa jornalista Maria Desraime em 1868 a falar sobre os direitos da mulher, que em 14 de janeiro de 1882 seria Iniciada na Loja Maçônica “Librepenseurs” da cidade do Pecq, França, jurisdicionada por então a Grande Loja Maçônica Simbólica Escocesa. Quando na Convenção de 1877 Frederic Desmons foi eleito Grão-Mestre do Grande Oriente da França, esqueceu sua iniciativa de 1869 sobre as damas e se concentrou em aprofundar a laicização da Maçonaria Francesa. Um exemplo atual do pensamento Maçônico contrário, nos traz a Revista D¨FRENTE, da Guatemala, em que aparece uma entrevista, concedida por Carlos Sandoval Cardona, Grão- Mestre da Grande Loja Maçônica da Guatemala, dentro do marco da reunião da Conferência Maçônica Americana (CMI) celebrada de 5 a 9 de abril de 2006 em Tegucigalpa, em que afirma em termos absolutos que um dos princípios básicos da Maçonaria é acreditar em Deus e na imortalidade da alma, adicionando piedosamente a seguir: Eu, por exemplo, sou católico, e devoto do Senhor de Esquipulas. Diga-se de passagem, e por mera informação, o Senhor de Esquipulas é o nome como se conhece usualmente a Santo Cristo Negro de Esquipulas, um doloroso crucifixo milagroso do século XVI, objeto de peregrinações e turismo religioso, que segundo a tradição, da noite para o dia, apareceu completamente escuro “graças a um milagre que Deus fez para agradar a seus filhos do povo de Esquipulas”, situado a 220 quilômetros de Tegucigalpa na parte sudeste do departamento de Chiquimula, República da Guatemala, perto da fronteira com a Honduras. Aqui encontramos uma constante da paisagem Maçônica internacional: cada Maçonaria se parece com o país onde está situada já que está necessariamente permeada pelos valores fortes da cultura local. A decisão da Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra de romper relações com o Grande Oriente da França, encontra-se emoldurada dentro do governo conservador de Vitória I, Rainha da Grã-Bretanha e Irlanda (1837-1901) e Imperatriz da Índia (1876-1901), e seus interesses imperiais de relacionamento com as castas reinantes e religiosas européias. Com efeito, a eleição de Albert Edward, príncipe de Gales (posteriormente Rei Edward VII) como Grão-Mestre em 1874 deu grande impulso à Maçonaria inglesa. O príncipe desde muito cedo entendeu o enorme benefício que podia reportar ao império uma instituição que como a Maçonaria

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podia centralizar as classes dirigentes das colônias. Aparecia regularmente em público, tanto na Inglaterra como em suas viagens ao exterior, como Grão-Mestre ao colocar as pedras da fundação de edifícios, pontes, estaleiros e Igrejas, com cerimonial Maçônico. Sua presença assegurou publicidade à Ordem e os relatos das reuniões Maçônicas em todos os níveis, apareciam regularmente na imprensa nacional, local e estrangeira. A Maçonaria estava constantemente diante do olhar público e os Maçons eram conhecidos em suas comunidades como pessoas caridosas. Em 1814 a Grande Loja Maçônica contava com 637 Lojas Maçônicas e em 1901, quando o príncipe Albert renunciou a Grande Mestria para converter-se em Rei, possuía 2.850, estendidas principalmente nas colônias britânicas e em países aonde vivia um número importante de ingleses. Como a Argentina, por exemplo. Naturalmente, o herdeiro da coroa não podia aparecer em público presidindo uma instituição que se assumia como arcabouço dela a liberdade de consciência e a defesa da república. Os alcances reais da decisão de abrir o pórtico aos não crentes e os ímpetos libertários dos Maçons franceses acusados de antimonarquia seguiam sem harmonizar com o complexo xadrez geopolítico da era vitoriana. A solução foi declará-los “irregulares” e só estabelecer relações com as Grandes Lojas Maçônicas que aceitassem sua potestade regulamentadora.

AS GRANDES LOJAS MAÇÔNICAS PRINCE HALL OU DE NEGROS NOS ESTADOS UNIDOS Enquanto na Europa a Maçonaria inglesa e francesa, discutiam ao redor dos interesses imperiais, o republicanismo, a laicidade e a liberdade de consciência, na Maçonaria dos Estados Unidos da América, apresentava-se uma tendência segregacionista (muito norte-americana) que representa a maior vergonha da Ordem em toda sua história. Ao final do século XVIII, Prince Hall, um Maçom de raça negra, fundou uma Loja Maçônica, em Boston, com Carta Patente expedida pela Grande Loja Maçônica da Inglaterra, que representou a materialização do sonho da incorporação sistemática de homens de cor livres à Ordem no hemisfério ocidental. Era um grande passo no longo e doloroso caminho da luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Esta iniciativa não agradou aos Maçons anglo-saxões dos Estados Unidos, em especial aos dos Estados escravagistas sulinos. À medida que o fenômeno da segregação racial se aprofundava na União, as Grandes Lojas Maçônicas de brancos ecoavam da discriminação. Então, por reação, criaram-se as Grandes Lojas Maçônicas de negros que hoje sendo 51 – uma por cada estado da União – se intitulam Prince Hall, em honra a seu fundador, e trabalham independentemente. O pólo da segregação racial dos Maçons norte-americanos, no século XIX e grande parte do XX, localizou-se na cidade de Charleston, no estado da Carolina do Sul, um dos portos de maior atividade do sudeste dos Estados Unidos. Charleston tinha contado com um passado de riquezas e de luxo no século XVIII, mas a partir de 1800, sua economia se concentrou nos cultivos de algodão, e a mão de obra negra escrava era o pilar de sua economia agrícola.

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Em 31 de maio de 1801, em Charleston, criou-se o Supreme Council, 33°, Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry, Southern Jurisdiction, United State of America, com sede atual no 1733, NW, da cidade de Washington, D.C. 20009 – 3103, o qual passa hoje por ser o mais antigo em existência. A qualidade simultânea de seus integrantes de cidadãos sulinos, financistas e Maçons, fez que para a Maçonaria a segregação racial fosse uma posição natural e institucional, ao longo de todo este século e parte do seguinte. Foram feitos distintivos desta infâmia os seguintes: a) Em 1843, no importante porto de Baltimore, no Estado de Maryland, com a intenção de excluir da Maçonaria às Grandes Lojas Maçônicas Prince Hall, aprovou-se a “Doutrina Americana” mediante a qual não poderiam funcionar duas Grandes Lojas Maçônicas em um mesmo estado. Em conseqüência a Maçonaria Prince Hall se declarava irregular e as visitas a suas Oficinas proibidas. O conceito territorial excludente se extrapolou à Maçonaria de outros quadrantes, e é, na atualidade, e por outros motivos, uma das principais fontes de conflitos Maçônicos do terceiro mundo; Proibiu-se a iniciação de negros nas Grandes Lojas Maçônicas regulares da América do Norte; Albert Pike, o Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do Grau 33° para a Jurisdição Sul dos Estados Unidos, durante 32 anos, desde 1859 até 1891 quando morreu aos 82 anos de idade, Albert Pike, redigiu o manual de procedimento da Ku Klux Klan; O Supremo Conselho do Grau 33º para a Jurisdição Sul dos Estados Unidos e grande parte das Grandes Lojas Maçônicas de brancos da União, apoiaram a Ku Klux Klan publicamente até a década dos anos 50 do século XX, e ainda hoje 80% delas não têm relações com as Grandes Lojas Maçônicas Prince Hall; O Supremo Conselho para o Distrito Sul dos Estados Unidos, e grande parte das Grandes Lojas Maçônicas de brancos da União ajudaram para que a Suprema Corte promulgasse em 1896 a decisão do caso Plessy Vs. Ferguson, a qual se reputa como o suporte legal e jurídico da segregação na União.

b)

c)

d)

e)

No caso Plessy Vs. Ferguson o assunto que se discutiu era a determinação de se lhe podia pedir aos negros que abordaram um vagão de ferrovia distinto do dos brancos. A Suprema Corte expressou – com oito votos a favor e um contra – claramente o princípio “separado, mas igual” como a base para conservar a prática. O caso enviou o sinal de que o costume de tratar a negros e brancos de maneira diferente não se interromperia. O magistrado John Marshall Harlan, manifestou seu desacordo argumentando que “a Constituição é daltônica”. Quase 60 anos depois, em 1954, a Suprema Corte trocou de parecer. No caso Brown, o máximo tribunal constitucional dos Estados Unidos sustentou que as escolas públicas que praticavam a segregação racial violavam de maneira deliberada a cláusula de proteção igualitária da Décima quarta Emenda. O acontecimento que motivou esta nova decisão da Suprema Corte se apresentou em 1948, em Topeka, Kansas.

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Em setembro desse ano, o pastor Oliver Brown tratou de inscrever a sua pequena filha Linda em um colégio localizado a umas poucas quadras de sua casa, recebendo como resposta a negação da quota por ser de raça negra. Como a separação entre brancos e negros era completamente ajustada à lei desde 1896, o pastor Brown devia inscrever a sua filha em uma escola para negros localizada a cinco milhas de distância de sua residência. Mas, não conforme, demandou e ganhou o caso em 17 de maio de 1954. Embora nesta nova decisão, a Suprema Corte não se pronunciou sobre a segregação racial nos restaurantes, parques, banhos públicos, etc., e só se limitou a abolir a mesma nas escolas, se sustentou que a segregação praticada em 21 estados era inconstitucional, a qual na prática jogou por terra a decisão do caso Plessy Vs. Ferguson de 1896. A visão do Magistrado Harlan de 1896 em relação à Constituição ficava reivindicada, e embora a sentença de 1954 só se referia de maneira direta às escolas da cidade de Topeka, Kansas, o princípio que expressava chegava a cada escola pública da nação. Além disto, o caso debilitou a segregação em todos os empenhos governamentais e colocou à nação em um novo rumo para tratar a todos os cidadãos por igual. Hoje a Maçonaria Prince Hall dos Estados Unidos conta com perto de 500.000 membros ativos, que ainda não são medidos nos censos elaborados pelos Maçons norte-americanos brancos, apesar de que possuem meia centena de Grandes Lojas Maçônicas, que agrupam cerca de 4.500 Lojas Maçônicas. Entre os Maçons Prince Hall destacados nos Estados Unidos, podem contar o Ir. Martin Luther King, clérigo e prêmio Nobel da Paz, e um dos principais líderes do movimento para a defesa dos direitos civis e importante defensor da resistência não violenta à repressão racial em USA. Igualmente se distinguem Alexander T. Augusta, o primeiro afro-americano que dirigiu um hospital nos Estados Unidos; Marion Barry, ex-prefeito de Washington, D.C.; Henry Blair, o primeiro negro em receber uma patente de marca americana; Nathaniel Nat King Cole, conhecido cantor de porte internacional; Martin R. Delany, primeiro Negro a matricular-se em Harvard e o primeiro em alcançar uma alta graduação no Exército Norte-americano; Duke Ellington, cantor e diretor de orquestra; Alex Haley, escritor; Jesse Jackson, respeitado pacifista e líder político; Dom King, promotor de Boxe; Lewis Howard Latimer, inventor do filamento de carvão para a luz; Daniel Hale Williams, primeiro cirurgião em realizar uma cirurgia de coração aberto, e Sugar Ray Robinson, campeão de Boxe de peso pesado; entre muitos outros. Na Maçonaria anglo-saxã, e na estrutura de valores dos anglo-saxões dos Estados Unidos, existem fortes razões de racismo e conservadorismo, muito enraizadas, que não permitem maior espaço para a adoção de decisões históricas, e que em vez de corrigir desaforos estenderam a exclusão para os Maçons latinos imigrantes da América do Norte, sem restrições de se são regulares ou não. E nem pensar da discriminação de gênero.

A FILANTROPIA NORTE-AMERICANA Um rasgo muito importante da Maçonaria, claramente visível, constitui-se a beneficência e a fundação de instituições de solidariedade social. E, embora o fenômeno seja universal, a filantropia Maçônica dos Estados Unidos constitui um exemplo paradigmático.

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Desde que nessa nação se criou sua primeira Loja Maçônica com o nome de St. John, na Tur Tavern na Philadelphia em 24 de junho de 1731, somente 14 anos depois da fundação da Grande Loja Maçônica de Londres, a Maçonaria desse país se distinguiu, primeiro pelos membros dos pais fundadores da União e em seguida por ser considerada como uma instituição filantrópica e caritativa que afirma reunir a crentes de diferentes confissões, embora na prática existam muito poucos que não sejam cristãos. A criação em 1776 e a posterior formalização em 1784, por parte da Grande Loja Maçônica de Londres, da African Lodge nº. 459, que deu origem à Maçonaria de negros conhecida como PRINCE Hall (pelo nome de seu primeiro Grão-Mestre), vinculada ainda com a luta pelos Direitos Civis dos afro-americanos nessa nação, não trocaria essa imaginária. No século XXI chegam ao redor de 600 Grandes Lojas Maçônicas com assento principal no território americano. Algumas delas possuem Lojas Maçônicas que funcionam permanentemente ou em forma transitória no estrangeiro. Para citar somente dois exemplos de muitos: a) na ilha de Sant Martin, no Caribe Francês, trabalha uma Loja Maçônica PRINCE Hall integrada por habitantes locais; e b) no Iraque, vinculada a 42ª Divisão de Infantaria do Exército de ocupação americana chegada ao Oriente Médio dentro da Operação Iraquiana Freedom III, funciona, sob dispensa de 3 de maio de 2005 da Grande Loja Maçônica de Nova Iorque, a Currently Land, Sea and Air Lodge nº. 1, com um quadro de membros de 30 Maçons, a qual tem autorização para realizar Iniciações, Aumentar Salários e elevar Companheiros ao Mestrado Maçônico. Na Maçonaria americana se destaca como rasgo distintivo de seu acionar, a promoção do amor ao país, a devoção a seus ideais, o culto a seus heróis e a prática da filantropia. Tudo isso de maneira pública e desinibida. Os Maçons elevaram monumentos públicos, como o Obelisco em Washington D.C. e o espetacular George Washington Masonic National Memorial em Alejandría, Virginia. Igualmente, doaram grandes somas de dinheiro como o aporte de dois milhões de dólares que em 18 de fevereiro de 1986 fizeram para a restauração da Estátua da Liberdade em Nova Iorque, ou a de um milhão e meio que empregaram em 1996 na reconstrução – pedra por pedra – do National Memorial Arch, no Vale Forge, Pennsylvania. São muitos os exemplos. No que se refere à solidariedade frente a tragédias nacionais a ajuda nunca se fez esperar. Em fins do ano de 2005, a Maçonaria realizou doações e organizou coletas com destino aos flagelados pelos furacões Katrina e Rita no Golfo do México. As somas arrecadadas por este meio não se totalizaram, mas se estima que alcançaram vários milhões de dólares. Outra forma de contribuir é através da mão de obra gratuita. À Administração de Hospitais de Veteranos os Maçons norte-americanos doam mais de 500.000 horas de trabalho ao ano. Não obstante o anterior, aonde realmente se distinguem os Maçons americanos é em suas estruturas filantrópicas, o qual é um fenômeno que se desenrolou desde finais do século XIX. Uma lista parcial das instituições inclui clínicas, centros de atenção às desordens infantis de linguagem e leitura, museus, fundações de atenção ocular, atenção odontológica, e investigações médicas em esquizofrenia, câncer, arteriosclerose, Alzheimer e distrofia muscular. São muitas as organizações fundadas pela Maçonaria e dirigidas diretamente por ela que atualmente estão tratando de aliviar a dor dos mais necessitados. Possivelmente, em Barranquilla a

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mais conhecido sejam os Shriners, posto que na década dos sessenta do século passado se pensou em abrir um de seus centros hospitalares nesta cidade. A regra reitora dos Shriners pode ser emblemática da filantropia Maçônica em geral: “nenhum menino será atendido se sua condição de paciente pode ser substancialmente ajudada ou seu tratamento facilitado por outra instituição ou por sua família. Do contrário, o tratamento completo será completamente grátis”. A forma em que funcionam e se financiam os Shriners é emblemática de como o fazem as demais empresas de beneficência da América do Norte. Seus recursos provêm das contribuições de seus próprios membros e de circos, espetáculos, doações e heranças. Desta maneira se constituíram uma transferência de bens, direitos, dinheiro e serviços que supera a faixa de um bilhão e meio de dólares, quantidade que se incrementa cada ano e cujos rendimentos financeiros servem para suportar o orçamento de operação dos 22 hospitais, que somados ultrapassam os seiscentos e cinqüenta milhões de dólares anuais. Para a admissão nos hospitais ortopédicos dos Shriners, por exemplo, o interessado deverá encher os formulários especiais de inscrição. Podem-se obter em um Templo ou clube Shriners, ou escrevendo aos hospitais do Shriners (P.O. Box 31356, Tampa, FL 33631), ou chamando à linha gratuita para a remissão de meninos (nos Estados Unidos: 18002375055. No Canadá: 18003617256. No México: 6622141839). Os formulários de inscrição devidamente diligenciados devem ser enviados ao hospital mais próximo do Shriners. Entretanto, estes trâmites não se aplicam para os casos de emergência, como por exemplo, os meninos com queimaduras de mais de 35% da superfície corporal ou que tenham em perigo a vida. Nestes casos os hospitais Shriners se encarregam do traslado do paciente até o centro de atenção, se assim o requererem as circunstâncias. Mas existe muita mais filantropia institucional. Vejamos uma rápida apresentação de algumas das mais importantes organizações Maçônicas dos Estados Unidos que se ocupam disso, eleitas tendo em conta o tamanho de sua contribuição: Shriners. Foi fundada em 1872. Seu nome completo é Council of the Ancient Arabic Order Nobres of the Mystic Shrine, mas é mais conhecido como Shriners. Em 1920 aprovaram a criação de um hospital infantil gratuito o qual foi inaugurado em 1922 no Shreveport, Louisiana, e o primeiro Instituto para Meninos Queimados em Galveston, Texas, em 1966. Uma década depois tinham fundado mais 13 e hoje contam com 20 centros hospitalares gratuitos de primeira categoria nos Estados Unidos, um em Montreal, Canadá, e outro na cidade do Hermosillo, México, dirigidos à atenção infantil especializada em ortopedia, problemas de coluna vertebral e queimaduras. O tratamento inclui a dotação de prótese. Scottish Desafie Clinic and Center. Esta associação foi criada em 1950, como um programa dirigido especialmente a atender desordens de linguagem em meninos. Sua razão social é Scottish Desafie Center for Childhood Language Disorders. Possui centros médicos e adianta programas especiais que atendem meninos em idade pré-escolar com dificuldades para falar ou aprender a ler

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ou escrever. A iniciativa, que começou em Avermelhado hoje possui em toda a nação 163 clínicas de quarto nível. Order OH the Amaranth. Foi fundada em 1873. Sua principal obra de filantropia na atualidade é a Amaranth Diabetes Foundation. Nos últimos 30 anos a Ordem doou perto de três milhões de dólares para a investigação em diabetes e se encontra associada a American Diabetes Association. Grotto. Foi fundado em 1889. Seu nome completo é Supreme Council, Mystic Order Veiled Prophets of the Enchanted Realm. Mas se identifica usualmente como Grotto. Atualmente seu programa bandeira consiste na atenção odontológica gratuita a meninos necessitados através de uma associação denominada Grottos of North America, e adicionalmente assiste a pacientes com paralisia cerebral, distrofia muscular, retardo mental e miastenia grave. Seus programas odontológicos são atendidos localmente por voluntários conhecidos como Doutores de Sorrisos. Além disso, conta com dois centros de tratamento: um no Illinois Masonic Medical Center em Chicago, e outro no Medical College of Ohio em Toledo. Certas ocasiões, Grotto assina convênios com hospitais importantes para executar seu trabalho filantrópico. Tall Cedars of Lebanon. Foi fundado em 1902. A agenda desta Ordem, desde 1951 está centrada em contribuir com outros programas filantrópicos. Assim doou milhões de dólares especialmente à investigação científica na área da distrofia muscular infantil. Tão somente desde 1983, o meio destas doações está na ordem do milhão de dólares anuais. Adicionalmente, contribui a centros de reabilitação Maçônicos e não Maçônicos, hospitais e outorga bolsas de estudo escolar. Kosair Charities. Foi fundada em 1923. Sua missão após foi prover saúde de alta qualidade a meninos necessitados. Em maio de 1926 foi inaugurado o Kasair Crippled Children Hospital em Louisville, Kentucky, com 50 camas, o qual rapidamente se converteu no primeiro em tratamento de polio na região. Vencida a polio, o edifício do velho hospital foi completamente renovado e convertido no moderno Kosair Children´s Hospital, através do qual hoje se abastecem os mais avançados tratamentos pediátricos nos Estados Unidos, e se contribuiu desde 1981 com mais de 50 milhões de dólares em saúde a indigentes. Knight Templer Eye Foundation. Foi fundada em 1955, com o fim de promover investigações, brindar tratamento e hospitalização na área de oftalmologia pediátrica, a meninos que não possam costear uma atenção médica especializada. Após atendeu mais de 50.000 casos. Camp Chicota. É um parque do verão construído em um terreno de 60 hectares no Evangeline Parish, Louisiana, em cumprimento de um projeto que em 1963 se impôs a Fundação Maçônica PRINCE Hall para a Juventude (PRINCE Hall Masonic Youth Fund). Está dotado de estacionamentos, auditórios, cafeteria, restaurante, dormitórios, piscinas, quadras de esportes de diferentes esportes, ginásio, e todas as facilidades para uma experiência no campo. Conta além com lacunas e um rio. Cada semana do verão, a organização PRINCE Hall convida a 125 jovens a desfrutar de suas instalações. São muito diversos os campos de ajuda das 600 Grandes Lojas Maçônicas norte-americanas e demais instituições Maçônicas como a Eastern Star, fundada em 1855; White Shrine de Jerusalém, em 1894; National Sojournen, em 1919; a International Order of DeMolay for Boys, em 1919; a International

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Order of Job´s Daughter, em 1920; International Order of Raimbow for Girl, em 1922; e um largo etcetera. Fica no tinteiro uma lista tão larga como meritória. No ano de 1995 segundo dados compilados pela Associação de Serviços Maçônicos da América do Norte (The Masonic Service Association of North America) a filantropia da Ordem nos Estados Unidos contribuiu com 750 milhões de dólares, quer dizer, algo mais de dois milhões de dólares diários, distribuídos assim: Doações a Hospitais não Maçônicos Casas, Hospitais, etc., Maçônicas US$ 476.512.844 US$ 225.669.231 US$ 31.472.909 US$ 7.123.000 US$ 5.379.609 US$ 3.717.050 63.5% 30% 4% 1% 1% 0.5% Investigações Médicas Estudos Escolar e Infância Serviços Sociais Museus e Edif. de Interesse, abertos ao público

TOTAL US$ 749.875.443 100% Como é lógico, neste quadro não aparecem incluídas as contribuições menores da Maçonaria, impossíveis de quantificar, nem o efeito multiplicador do exemplo dos Maçons na sociedade em geral, o qual converte à Ordem num motor capitalista de beneficência e desenvolvimento, orientado a quem mais o necessita. Ainda mantendo a cifra disponível, e sobre a base de um milhão de Maçons em USA, tem-se que ali o contribua com social per capita anual da Ordem em 1995 foi de 750 dólares. Ou seja, ao redor de 1.600.000 pesos colombianos do ano 2005 por Maçom ao ano, contribuição, que na Colômbia só é superada pela contribuição anual à comunidade, per capita, que fazem os Maçons da Grande Loja Maçônica do Norte da Colômbia que integram a Sociedade Irmãos da Caridade, em Barranquilla. Outros estão muito longe.

OS LANDMARKS Em meados do século XIX, também nos Estados Unidos, inicia-se uma marcada tendência, entre os estudiosos, para definir os exatos limites do fenômeno da Maçonaria, quer dizer àquelas premissas que, não se cumprindo, trocariam a natureza e essência da Ordem. O exercício intelectual consistia em estabelecer a ciência certa quais são esses lindeiros (Landmarks) dos que se falava de maneira abstrata em muitos documentos escritos depois das Constituições de Anderson. A primeira lista dos Landmarks que se redigiu na história contava dezesseis e corresponde à publicada por Robert Morris, da Grande Loja Maçônica de Minnesota, em sua obra Jurisprudência Maçônica, no ano 1856. Antes dessa data não se conhece listagem alguma. Do excelente trabalho elaborado pelo Maçom Augusto Donado, da Grande Loja Maçônica Nacional da Colômbia, com sede no Oriente de Barranquilla, resumimos as seguintes características e funções dos Landmarks, as quais relacionamos assim:

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Características dos Landmarks • Essencialidade: Que denota que se trata de umas regras que contêm valores culturais, sociais, éticos, jurídicos e políticos que expressam o fundamental da instituição Maçônica. Preexistência: Indica que sendo derivado da própria natureza da Maçonaria não necessitam nem para sua existência, nem para sua vigência das codificações ou normas positivas da instituição, por isso não requerem estar escritos nem codificados. São subordinantes: Já que são regras superiores, ou principal, com importantes conseqüências no sistema jurídico da Ordem Maçônica, por quanto significam as diretrizes imodificáveis da mesma e a dinâmica coesão do conjunto de constituições, estatutos e regulamentos Maçônicos que lhe estão sujeitos fazendo desse ordenamento jurídico um corpo lógico e racional. Universalidade: Assinala sua referência geral às atividades, finalidades e razão de ser da instituição Maçônica, porque os antigos limites procedem de uma apreciação objetiva e institucional e constituem uma preceptiva comum da denominada Maçonaria universal. Imutabilidade: Expressa a condição de permanência que possuem os Landmarks assim que cumprem uma missão garantidora e de preservação da essência da Maçonaria; caso se alterarem estes antigos limites se teria conseqüências sérias na natureza da instituição Maçônica que se transformaria em outra coisa, deixaria de ser o que foi, é, e seguirá sendo.

Funções dos Landmarks Tem que ver com as tarefas que cumprem dentro da organização do sistema jurídico e que são basicamente: • Função fundamentadora: Indiscutivelmente, qualquer atividade, obra, projeto ou missão que se contemple dentro da organização Maçônica, deve ser fundada nos Landmarks para que surja em consonância com a realidade essencial da Maçonaria e não em contrapartida desta, mantendo-se em seus valores. Função interpretadora: Estes princípios constituem referências imprescindíveis e valiosas guias no entendimento e fixação do alcance e limites das regras escritas ou dos antigos usos que constituem a doutrina Maçônica. O trabalho hermenêutico ou de interpretação é uma tarefa permanente dos aplicadores da lei Maçônica. Função integradora: Permite solucionar sob a reta orientação de suas luzes, todas aquelas situações nas quais se evidencia a ausência de uma normatividade reguladora, que se requeira para resolver uma situação concreta. Juridicamente se fala dos vazios legais que se desprendem da inegável realidade que na dinâmica das instituições sociais transborda permanentemente a lei escrita. Função reguladora: Neste sentido os Landmarks ao conter os princípios fundamentais faz possível, junto com a utilização de outras regras lógico-racionais, a construção de mecanismos de regulação

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não previstos no direito positivo. Solução que desta forma será acorde, conforme e correspondente com um sistema geral de direito Maçônico presidido hierarquicamente pelos antigos limites. • Função limitadora: Constitui uma importante tarefa de fixação de lindeiros, que permitem estabelecer corretamente aquilo que lhe é de sua natureza à ordem Maçônica e aquilo que a transbordando fica por fora e lhe é alheio. Não se poderia por via de exemplo, na elaboração de uma constituição, estatuto ou regulamento, criar uma norma que brigara com algum Landmark, por exemplo, que estabelecesse, violando o princípio da igualdade dos seres humanos, alguma forma de discriminação de gênero ou raça ou contra algum grupo de pessoas.

São muitos os autores e as Grandes Lojas Maçônicas que tentaram redigir ou adotar uma lista de Landmarks, “verdadeiros”, e resultaria muito extenso relacioná-los. Também muitas Grandes Lojas Maçônicas, entre elas a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra, descartam o que se possa fazer uma lista deles e não consideram válida nenhuma das que se tentaram. A maneira de ilustração do que pode ser uma experiência acadêmica Maçônica interessante e esclarecedora, pode-se começar o estudo com os seguintes relacionados, os quais só têm o mérito de terem sido redigidos por Maçonólogos destacados. Muitos destes “Landmarks” são evidentemente falsos à luz da história da Ordem, apesar de que gozam de um importante acatamento dentro da Maçonaria Regular. A) Conforme Roscar Pound os Landmarks são sete: 1. Crença em Deus. 2. Crença na imortalidade da alma. 3. Um livro da lei como parte indispensável do material de trabalho cada Loja Maçônica. 4. A lenda do terceiro grau. 5. Segredo. 6. O simbolismo da arte da construção. 7. Que o Maçom tem que ser homem livre e de idade viril. B) 1. 2. 3. Segundo Alexander Bacon os Landmarks são três: A crença em Deus e na imortalidade da alma como elemento religioso da Maçonaria. Um código apoiado nos ensinos das Sagradas Escrituras, como elemento moral da Maçonaria. A divisão da Maçonaria em somente 3 Graus. A Loja Maçônica é fonte de todo governo Maçônico. A suprema autoridade reside nas Lojas Maçônicas que estabelecem seu próprio governo como elemento democrático da Maçonaria.

Segundo A.S. McBride os Landmarks são doze, agrupados em quatro segmentos, cada um de três parágrafos: Usos que distinguem o mundo Maçônico do profano: A. B. C. A maneira de reconhecer-se seus membros. A reserva das reuniões das Lojas Maçônicas. A qualificação dos candidatos.

C)

Usos que marcam os graus de Maçonaria:

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A. B. C.

Um modo secreto de reconhecer os membros de um mesmo Grau e distinguir-se dos Graus superiores. As reservas das reuniões de um Grau em relação aos membros de um Grau inferior. As condições requeridas para a exaltação de um Grau a outro. Usos que marcam as diversas cerimônias:

A. B. C.

Os pontos principais na abertura dos trabalhos. Os principais pontos da iniciação, filiação e exaltação. Os principais pontos da consagração, instalação, pedra fundamental e serviço fúnebre.

Usos que marcam as faculdades e deveres dos oficiais, os direitos dos oficiais e os direitos e deveres dos membros: A. B. C. D) 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. Faculdades e deveres do Grão-Mestre e dos Grandes Oficiais da Grande Loja Maçônica. As faculdades e deveres do Venerável e oficiais de uma Loja Maçônica. Direitos e deveres dos membros sem cargo. Segundo John Simond os Landmarks são quinze: Acreditar na existência de um ser supremo e na imortalidade da alma. A lei moral, que entre outras coisas prescreve a caridade, a honradez, laboriosidade, moderação, é a regra e guia de todo Maçom. Respeito e obediência à lei civil do país e aos estatutos e regulamentos Maçônicos da jurisdição em que o Maçom resida. O candidato tem que ser livre de nascimento, maior de idade e são ao solicitar seu ingresso à Ordem. Os modos e meios de reconhecimento e os ritos dos três graus da antiga Ordem Maçônica. Não apelação contra a decisão do Venerável Mestre ou do Vigilante que o substitua. Ninguém poderá ser eleito Venerável Mestre de uma Loja Maçônica regular sem ter desempenhado durante um ano o cargo de Vigilante. O Maçom recém iniciado não só é membro da Loja Maçônica que o iniciou mas sim também é membro de toda a família Maçônica e portanto tem o direito de visitar maçônicamente todas as Lojas Maçônicas exceto quando a visita ameace perturbar a harmonia ou interromper os trabalhos da Loja Maçônica que se propõe visitar. A prerrogativa do Grão-Mestre de presidir toda reunião Maçônica dentro do território de sua jurisdição e de conferir graus a primeira vista em uma Loja Maçônica regular e outorgar licença para formar novas Lojas Maçônicas. Ninguém poderá ser iniciado em Maçonaria, mas sim em uma Loja Maçônica regular devidamente reunida, depois da solicitude do candidato aceito unanimemente por escrutínio, exceto quando o iniciar, à primeira vista, o Grão-Mestre. A votação por bolas deve ser rigorosamente secreta. Uma Loja Maçônica não pode processar o seu Venerável Mestre. Todo Maçom está sujeito às leis e regulamentos da jurisdição em que resida embora seja membro de uma Loja Maçônica de outra jurisdição. Toda Loja Maçônica tem direito de estar representada na Grande Loja Maçônica e de instruir a seus representantes.

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15. O geral propósito e organização da Maçonaria, tal como a herdamos de nossos antepassados, temos que conservá-la intacta e transmiti-la em perpetuidade a nossos sucessores. E) 1) 2) 3) 4) 5) 6) 7) 8) 9) 10) 11) l2) 13) 14) 15) 16) 17) 18) 19) 20) 21) 22) 23) 24) 25) Segundo Albert Mackey os Landmarks são vinte e cinco: Nossos modos de conhecimento são inalteráveis. A Maçonaria se divide unicamente em três Graus: Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom. A lenda do Terceiro Grau é inalterável. O governo supremo da fraternidade está presidido por um oficial chamado Grão-Mestre, eleito entre os membros da Ordem. É uma prerrogativa do Grão-Mestre presidir qualquer Assembléia Maçônica. É prerrogativa do Grão-Mestre conceder dispensa de interstícios para conferir graus em qualquer tempo incompleto. É prerrogativa do Grão-Mestre conceder dispensas para abrir ou manter Lojas Maçônicas. É prerrogativa do Grão-Mestre fazer Maçons à vista. Todos os Mestres Maçons têm a obrigação de congregar-se em Lojas Maçônicas. O Governo da Fraternidade, quando se congrega em Lojas Maçônicas, exerce-se por um Venerável Mestre e dois Vigilantes. É dever de todas as Lojas Maçônicas quando se congregam, estarem protegidas de toda indiscrição de profanos. Todo Maçom tem direito a ser representado e a dar instruções a seu representante, nas Assembléias das que forme parte. Todo Maçom pode apelar a Grande Loja Maçônica das decisões de seus Irmãos congregados em Lojas Maçônicas. Todo Maçom em uso pleno de seus direitos, pode visitar qualquer Loja Maçônica regular. Nenhum visitante desconhecido pode penetrar nas Lojas Maçônicas sem ser cuidadosamente telhado/trolhado. Nenhuma Loja Maçônica pode intervir nos negócios de outras Lojas Maçônicas. Todo Maçom está sob o domínio das Leis e regulamentos da jurisdição em que resida, embora não seja membro das Lojas Maçônicas da Obediência. As mulheres, os coxos, aleijados, os escravos, mutilados, os menores de idade e os anciãos não podem ser iniciados. É imprescindível, para todo Maçom a crença na existência de um princípio criador ou de Deus. Todo Maçom deve acreditar na ressurreição a uma vida futura. Um livro da Lei, não deve faltar nunca em uma Loja Maçônica quando trabalha. Todos os Maçons são iguais. A Maçonaria é uma sociedade secreta. A Maçonaria foi fundada como ciência especulativa sobre uma arte operativa, tomando simbolicamente os usos desta arte. Nenhum destes Landmarks poderá ser trocado nunca no mais mínimo.

O investigador Rodolfo Mantilha Jácome, Diretor da Revista Solidariedade, que publica a Loja Maçônica Solidariedade nº. 12, jurisdicionada à Grande Loja Maçônica dos Andes, com sede na cidade da Bucaramanga, em um artigo publicado inicialmente em seu nº. 54, e, ao encerramento de

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edição deste livro, no sítio Web da Grande Loja Maçônica Ocidental da Colômbia, com sede capital na cidade do Cali, Colômbia, sustenta a respeito dos Landmarks, os Usos e os Costumes da Maçonaria: “Os tradicionalmente apresentados como Landmarks, como a lista do Mackey e outras similares, revistam ser antigos Usos ou Costumes, mas não Landmarks ou Princípios Gerais de Direito Maçônico, pois não reúnem as características já cotadas para estes. Nesse sentido, a crença no Grande Arquiteto do Universo e a regra da exclusão das mulheres, são Antigos Usos, mas não Landmarks. Podem ser eliminados, sem que se afete a essência da Ordem. Entretanto, as regras anteriores, isto é, a crença no Grande Arquiteto do Universo, e a exclusão das mulheres das Lojas Maçônicas, SUELEN revistam fazer parte dos estatutos de reconhecimento, o qual implica que para variá-los deve procurar uma modificação destes estatutos, o qual é mais um problema de direito interpotencial Maçônico ou de diplomacia Maçônica.”

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O SÉCULO XX

Os da escadaria podem aplaudir enquanto os dos camarotes basta com que façam soar suas jóias John Lennon OS OITO PONTOS DE LONDRES Das diferenças entre a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra e o Grande Oriente da França, no século XIX, como extensão da rivalidade entre os dois impérios coloniais, é de onde nascem as concepções de “Regular” e de “Irregular” que ainda hoje dividem a Ordem, e que foram aprofundadas por Londres com a expedição dos oito pontos de 1929, e uma tímida reforma deles em 1989. Até então, o adjetivo Regular, em Maçonaria (e em gramática) significava outra coisa muito distinta. Estes polêmicos oito pontos, expedidos pela Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra, em 1929, sob o título de Princípios Básicos para o Reconhecimento de Grandes Lojas Maçônicas, que deve cumprir a Grande Loja Maçônica que deseje ser reconhecida por ela como regular são os seguintes: 1. Regularidade de origem. Toda Grande Loja Maçônica deverá ser regularmente estabelecida por uma Grande Loja Maçônica reconhecida ou por três ou mais Lojas Maçônicas regularmente constituídas. A crença no Grande Arquiteto do Universo e em sua vontade revelada, deve constituir uma obrigação essencial da admissão de seus membros. Todos os iniciados devem tomar sua obrigação ante a vista do Volume da Lei Sagrada, aberto, de conformidade com a consciência particular da pessoa que seja iniciada. Os membros da Grande Loja Maçônica e de suas Lojas Maçônicas particulares serão exclusivamente varões e a Grande Loja Maçônica não deve manter relações Maçônicas de nenhuma espécie, com Lojas Maçônicas mistas ou Obediências que aceitem a mulheres entre seus membros. A Grande Loja Maçônica deve ter jurisdição soberana sobre as Lojas Maçônicas sob sua obediência; portanto deve ser responsável, independente e com governo próprio, com uma só e indiscutível autoridade sobre os três Graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom em toda sua jurisdição e não deve, em nenhum caso, estar sujeita a compartilhar dita autoridade com um Supremo Conselho ou com qualquer outra Potência que reclame algum controle ou supervisão sobre estes Graus. As três grandes luzes da Franco-maçonaria (o Volume da Lei Sagrada, o Esquadro e o Compasso) devem sempre estar presentes quando a Grande Loja Maçônica ou suas Lojas Maçônicas subordinadas, estejam trabalhando, sendo primeira entre elas o volume da Lei Sagrada. As discussões sobre religião ou política nas Lojas Maçônicas, devem ser estritamente proibidas. Os princípios dos antigos LANDMARKS e os Usos e Costumes da fraternidade, devem ser estritamente observados.

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Estes Princípios Básicos foram revisados e redigidos novamente pela Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra no ano 1989, ficando assim:

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Para ser reconhecida como regular pela Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra, uma Grande Loja Maçônica deve cumprir as seguintes normas: 1) A Grande Loja Maçônica deve estar legalmente estabelecida por uma Grande Loja Maçônica Regular ou por três Lojas Maçônicas particulares ou mais, cada uma delas garantida por uma Grande Loja Maçônica Regular. Ela deve ser verdadeiramente independente e autônoma, e ter autoridade indisputável sobre a Maçonaria Simbólica (quer dizer, sobre os Graus simbólicos de Aprendiz Aceito, Companheiro da Arte e Mestre Maçom) dentro de sua jurisdição, e não ser dependente, de maneira nenhuma, de algum outro poder ou corpo Maçônico. Todo Maçom de sua jurisdição deve ser varão, e nem eles nem as Lojas Maçônicas devem ter contato Maçônico com Lojas Maçônicas que admitam mulheres como membros. Os Maçons de sua jurisdição devem acreditar em um criador supremo. Todo Maçom de sua jurisdição deve tomar suas obrigações sobre ou à vista de um volume da Lei Sagrada (quer dizer, a Bíblia) ou o livro que ele considere sagrado. As três “Grandes Luzes” da Maçonaria (quer dizer, o volume da Lei Sagrada, o Esquadro e o Compasso) devem estar expostos quando a Grande Loja Maçônica ou suas Lojas Maçônicas subordinadas se encontrem abertas. As discussões sobre religião e política nas Lojas Maçônicas devem ser proibidas. Ela deverá aderir-se aos princípios estabelecidos e aos Usos (os antigos LANDMARKS) e Costumes da Ordem, e insistir em que eles sejam observados em suas Lojas Maçônicas.

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Da leitura nas entrelinhas, comparativa, dos textos dos “Princípios Básicos” de 1929 e de 1989, desprendem-se, três conclusões importantes, que, entretanto passam usualmente desapercebidas: Embora a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra não reconheça ainda a alguma Obediência Mista ou Feminina, ao não estar já expressamente proibido fica a possibilidade de fazê-lo no futuro. A proibição só permanece para as Lojas Maçônicas e os Maçons, não para a Grande Loja Maçônica. É um grande avanço na busca da igualdade. b) A obrigação da fé em um Deus e em sua vontade revelada inscrita na Bíblia é substituída pela simples crença em um “Criador Supremo”. Este passo também constitui um avanço importante no caminho da tolerância. c) Igualmente, observa-se que na redação de 1989, os “Usos” se consideram mesmo os “LANDMARKS”, claramente diferenciados dos “Costumes”. Esta sutileza desconhece tacitamente todas as listas de LANDMARKS que circulam pelo mundo Maçônico e introduz a discussão um conceito novo por via de autoridade. Ficam, pois, abertas para o futuro as portas dos relacionamentos Maçônicos formais da Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra com as Grandes Lojas Maçônicas que avançaram pelos caminhos das duas maiores tendências da Ordem nos séculos XIX e XX: a incorporação da mulher aos trabalhos Maçônicos e a liberdade de consciência. A redação original, em inglês, aprovada em 1989, dos 8 Princípios Básicos para o Reconhecimento de Grandes Lojas Maçônicas, de acordo com o Year Book, que publica anualmente a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra, é textualmente a seguinte: a)

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To be recognised as regular By the United Grand Lodge of England, a Grand Lodge must meet the following standards. • It must have been lawfully established by a regular Grand Lodge or by three or more private Lodges, each warranted By a regular Grand Lodge. It must be truly independent and selfgoverning, with undisputed authority over Craft –or basic– Freemasonry (exemplo. the symbolic degrees of Entered Apprentice, Fellow Craft and Master Mason) within its Jurisdiction and not subject in any other way to or sharing power with any other Masonic body. Freemasons under its Jurisdiction must be men, and it and its Lodges must have no Masonic contact with Lodges which admit women to membership. Freemasons under its Jurisdiction must believe in ao Supreme Being. All Freemasons under its Jurisdiction must take their Obligations on or in full view of the Volume of the Sacred Law (exemplo. the Bible) or the book held sacred By the man concerned. The three ‘Great Lights’ of Freemasonry, (exemplo. the Volume of the Sacred Law, the square and the Compasses) must be on display when the Grand Lodge or its subordinate Lodges are open. The discussion of religion and politic within its Lodges must be prohibited. It must adere to the established principles and tenets (the ‘Ancient LANDMARKS’) and customs of the Craft, and insist on their being observed within its Lodges.

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Uma informação pouco difundida nos países aonde os paradigmas Maçônicos masculinos criaram escola, é a que se relaciona com as Maçonas britânicas. As Obediências que admitem mulheres, mais importantes no Reino Unido, são: 1) Ordem Maçônica Mista Internacional “O Direito Humano”: sua primeira Loja Maçônica nas ilhas foi fundada em 26 de setembro de 1902 por Annie Besant e levou por distintivo o “do nº. 6 Human Duty”. Hoje suas Oficinas estão organizadas em uma “Federação Britânica” que, de 24 a 26 de junho de 2005, foi anfitriã no Hotel Slough/Windsor Marriott, de Londres, de um concorridíssimo Colóquio Maçônico Internacional. Embora pareça difícil de acreditar por estas latitudes, as exposições ali apresentadas podem ser consultadas na Revista da Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra Freemasonry Today. Honourable Fraternity of Ancient Freemasons (Honorável Fraternidade de Antigos Francomaçons): foi criada no ano de 1913 como uma Grande Loja Maçônica feminina. É a de maior projeção social filantrópica.

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Order of Ancient, Free and Accepted Masons for Men and Women (Ordem de Antigos, Livres e Aceitos Maçons para Homens e Mulheres): foi criada em Londres em 1925. Grand Lodge of Freemasonry for Men and Women: é uma Obediência Maçônica mista fundada em 18 de fevereiro de 2001 que apesar de sua pouca antigüidade iniciou trabalhos com grande força.

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Convém nos deter um pouco na feminina Honorável Fraternidade de Antigos Franco-maçons (HFAF), por ser a de maior numero de membros, a mais antiga e a que maiores relacionamentos institucionais possui com a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra. Embora esta Obediência derivasse da Loja Maçônica nº. 6 Human Duty logo se viu que a iniciativa era muito francesa para o gosto anglo-saxão, por isso um grupo de Maçonas desta Obediência se separou e fundou uma Grande Loja Maçônica. De acordo a sua própria definição a HFAF é uma Grande Loja Maçônica organizada por mulheres e para mulheres, fundada em 1913, e acessível às mulheres de qualquer raça ou religião que possam professar uma crença em um ser supremo e se guiem por valores morais e espirituais. Esta Ordem possui muitas Lojas Maçônicas ao largo da Inglaterra e na Ilha de Man, assim como no norte em Carlisle, ao sul perto de Brighton and Bourn, e ao oeste no Cotswolds. Igualmente possui uma Loja Maçônica em Gibraltar e duas na Espanha. De comum acôrdo com os Maçons da Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra, fez grande ênfase no exercício da caridade. No momento do fechamento da edição deste livro a HFAF se encontrava concentrada na aquisição de equipamentos para dar tratamento contra o câncer, preferivelmente a mulheres e meninos. No ano 2004 estas Maçonas ajudaram a muitos hospitais e orfanatos, em especial a Langden Foundation, o Southend Hospital, a Marie Curie Hospice, o St. Francis Hospice, o National Hospital for Neurology and Neurosurgery, o Royal Free Hospital, o Teenage Cancer Trust, a Essex Air Ambulance e a Haven House Hospice. Igualmente no ano 2005, o principal esforço das Maçonas da Honourable Fraternity of Ancient Freemasons esteve dirigido a ajudar às vítimas do tsunami que devastou parte do continente asiático. Não obstante, também apoiaram os trabalhos da Haven House Hospice, o Essex Air Ambulance e o Teenage Cancer Trust. A primeira Grã-Mestra da Honourable Fraternity of Ancient Freemasons foi Elizabeth Boswell Reid, que exerceu o cargo desde 1913 até 1933. As três primeiras Lojas Maçônicas foram a Estabilidade nº.1, Sabedoria n°.2 (mais adiante trocou seu nome para Fidelidade), e Força nº.3. Sua primeira sede esteve localizada no Caxton Hall, Westminster, depois no St Ermins, Westminster, logo, em 1947 se mudaram para o Clive Court, Kensington, em 1955 se deslocaram aos 68 Great Cumberland Place, e desde ano 2005 se encontram no 402 Finchley Road, Childs Hill, London NW2 2HR. Telefone 020 7443 5268, email: info@hfaf.org . Apesar desta história que já vai cumprir um século a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra expediu em 10 de março de 1999 o seguinte comunicado:

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“Existem na Inglaterra e no País do Gales pelo menos duas Grandes Lojas Maçônicas somente para mulheres. Exceto porque esses corpos admitem mulheres, eles são, assim que pôde ser comprovado, no resto, regulares em sua prática. Também há um que admite homens e mulheres como membros. Eles não são reconhecidos por esta Grande Loja Maçônica e as visitas mútuas não podem ter lugar. Existem, entretanto, discussões com as Grandes Lojas Maçônicas de mulheres sobre temas de mútua preocupação. Os Irmãos estão, portanto, em liberdade de explicar aos não Maçons, quando lhes perguntarem, que a Maçonaria não está limitada aos homens (embora esta Grande Loja Maçônica não admita mulheres). Informação adicional sobre estes corpos pode ser obtida escrevendo a Grande Secretaria. Este Escritório também está inteirado de que existem outros corpos não diretamente imitativos da pura e antiga Maçonaria, mas que levam implícita a Franco-maçonaria, tal como a Ordem das Estrelas do Oriente. Os membros desses corpos, a assistência a suas reuniões e a participação em suas cerimônias é incompatível com a qualidade de membro desta Grande Loja Maçônica.” O texto original em inglês, proferido pela Grande Secretaria da Grande Loja Maçônica Unida de Londres é o seguinte: Statement issued by UGLE 10th March 1999 There exist in England and Wales at least two Grand Lodges solely for women. Except that these bodies admit women, they are, sou far as can be ascertained, otherwise regular in their pratique. There is also one which admits both men and women to membership. They are not recognized By this Grand Lodge and intervisitation may not take place. There are, however, discussions from time que to time with the women’s Grand Lodges on matters of mutual concern. Brethren are therefore free to explain to nonMasons, if asked, that Freemasonry is not confined to men (even though this Grand Lodge does not itself admit women). Further information about these bodies may be obtained by writing to the Grand Secretary. The Board is also aware that there exist other bodies not directly imitative of pure Ancient Masonry, but which By implication introduz Freemasonry, such as the Order of the Eastern Star. Membership of such bodies, attendance at their meetings, or participation in their ceremonies is incompatível with membership of this Grand Lodge. A DISCREPÂNCIA NA ATUALIDADE Na atualidade, a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra, embora organicamente tenha nascido em 1813, da fusão já comentada, remonta oficialmente sua antigüidade a 1717, reconhece como texto inicial da Ordem as reformas às Constituições do Anderson de 1738, e suas relações inter-obedenciais as define à luz de seus oito pontos de 1929, com as reformas de 1989. Às Grandes Lojas Maçônicas que se comprometam a cumprir com estes oito pontos a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra as reconhecerá como “Regulares”. Às que não o façam – sob a pena de “cair em irregularidade”– as Grandes Lojas Maçônicas regulares nem sequer poderão lhe dar oficialmente o tratamento de Maçons, de acordo a uma norma inglesa ainda vigente denominada «Objetivos e Relações da Arte». Frente a isto, o Grande Oriente da França, que é a Potência Maçônica da qual nasce a resposta contestatória ao absolutismo inglês, afirma que nascendo organicamente em 1738 e politicamente em 1773, é a obediência mais antiga das existentes, se refere permanentemente às Constituições de Anderson de 1723 como documento institucional da Maçonaria moderna, e em suas relações inter-

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obedenciais tem como norma de conduta o respeito ao específico de cada Grande Loja Maçônica ou Grande Oriente. Portanto, atuando dentro das exigências inglesas, tem muita razão o Ex-soberano Grande Comendador do Supremo Conselho Colombiano do Grau 33°, fundado em 1985, Ilust:.Pod:.Ir:. Ramiro Arteta Guzmán, quando, em uma carta dirigida ao Maçonólogo Gustavo Medina Díaz, da Grande Loja Maçônica da Colômbia, que circulou profusamente, reclamando-lhe que os Maçons Regulares não devem dar tratamento Maçônico aos Maçons Progressistas. Esta é uma das fatalidades da Maçonaria. As Grandes Lojas Maçônicas que se prezam como Regulares não são autônomas nem soberanas embora assim o proclamem e conste em seus estatutos, e este é um tema sobre o qual terão que trabalhar cedo ou tarde. Nenhuma Grande Loja Maçônica das que se proclamam como Regulares, pode, sem cair em irregularidade, reconhecer formal e oficialmente a um Maçom, a uma Maçona ou a uma Grande Loja Maçônica que não tenham relações diplomáticas com a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra. Para tal efeito, se necessitaria que primeiro a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra revogue unilateralmente o documento chamado Objetivos e Relações da Arte, que estabelece a proibição. Em seguida, com apoio nesta nova situação normativa a Confederação Maçônica Interamericana (CMI), deverá reformar o pertinente em seus Fundamentos para um Direito Maçônico Interpotencial; e depois, só depois, a Confederação Maçônica Colombiana (CMC), poderá fazer o próprio com os requisitos imprescindíveis que estabelece o artigo 4° de seus Estatutos para as Grandes Lojas Maçônicas que atualmente desejem ser consideradas como regulares. Por último, cada Grande Loja Maçônica poderá, se assim o desejar, estabelecer relações e assinar Tratados de Paz e Amizade com Grandes Lojas Maçônicas progressistas. E quando, ao fim, os nove planetas se encontrem alinhados, terá que lutar com a famosa frase de “se fulano entrar por uma porta eu saio pela outra”. Ou, com que algum sábio teime em que os outros devem primeiro renunciar aos Graus Escocistas, ou exija isso que chamam em Barranquilla alguns Maçons Regulares: A união de todos os bens da Maçonaria. Mas, se por alguma estranha razão fraternal, alguma Grande Loja Maçônica Regular soberanamente se afasta destes requerimentos diplomáticos de relacionamento que lhe impõem e se atreve a assinar um Tratado de Paz e Amizade com uma Grande Loja Maçônica que não o seja, expõe-se a perder a seus amigos tradicionais Regulares e a ser excluída das confederações às que pertence. Mas enquanto se pretenda unicamente explicar os benefícios da Regularidade nos termos que elas a entendem oficialmente, assim ganham, separando do avanço da razão e os Direitos humanos nas oficinas, estarão perdendo todos. E em matéria grave. Uns por não avançar e os outros por retroceder. Nesta ordem de idéias, temos que o Grande Oriente da França baseado em 1738, seria a Potência Maçônica mais antiga das que existem hoje, e que a “Regularidade” é um termo técnico diplomático com que a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra qualifica desde finais do século XIX às Grandes Lojas Maçônicas com as quais decide estabelecer relações interpotenciais. Embora estas relações se encontrem em um ponto morto.

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As discussões a respeito da liberdade de consciência e de pensamento, reativadas em todas partes pelas diferenças entre Londres e Paris, como resultado da laicização das constituições e os rituais na França, constituiu-se em um grande estímulo para que com o passar do século XX a Maçonaria que se define como liberal adogmática e/ou progressista, tenha girado com ênfase para a laicidade de seus símbolos e decorações Logiais, demonstrando uma grande autonomia intelectual. Por exemplo: às novas dignidades, oficiais, os recipiendários de muitas Grandes Lojas Maçônicas e Grandes Orientes na América, Europa, África e Ásia, não toma um Juramento (afirmação que se faz pondo a Deus como testemunha ou invocando algo sagrado), mas sim lhes escuta suas Promessas (expressão da vontade de dar ou fazer algo), e as Lojas Maçônicas podem trabalhar em presença de um livro considerado sagrado, a constituição política do país, um livro em branco representando a consciência limpa do Maçom, a Declaração dos Direitos humanos, o Regulamento da Loja Maçônica, a Constituição da Grande Loja Maçônica, a Carta Patente da Oficina, um livro sobre a história da Maçonaria, ou qualquer outro texto, que represente a intenção ética, filosófica ou histórica da orientação ideológica do método de construção da Grande Loja Maçônica de que se trate.

O PARADIGMA DA REGULARIDADE Em realidade, o termo “Regular” provém do latim Regularis, que a sua vez deriva da palavra “Regula”, que significava regra, e se emprega para toda associação que da precoce Idade Média se constituiu a partir de uma “Regra” ou regulamento inicial. A esse tipo de associações unidas por uma Regra em comum lhes denomina Ordem, e as Ordens que se mantêm fiéis a essa Regra se conhecem como “Regulares”. A história conheceu as de tipo monásticas, místicas, militares, mendicantes, de cavalaria e Maçônicas, entre muitas outras. Historicamente, a “Regularidade” é um conceito mais que tudo religioso, cuja origem documentada parece derivar-se dos “Preceitos” (Praeceptum) promulgados por São Agustín no Monastério de Hipona no ano 397. Posteriormente as mais importantes para a cristandade serão as “Regras” de São Basílio, Bispo da Cesarea, as de Pacomio no Egito, as dos Quatro Pais da Abadia de Lérins, no século V, e a de São Benito reconhecida no ano 816 no Concílio de Aquisgrán. Em seguida, nos Concílios de Letrán de 1123, 1139, 1179 e 1215, a igreja Católica unificará as “Regras” a partir das de São Agustín, São Benito e São Basilio, às que se acrescentarão a “Regra” de São Francisco de Assis em 1223. Unicamente os Jesuítas não respeitaram esta disposição obtendo um reconhecimento posterior para sua “Regra”. Em conclusão: uma associação se constitui como uma Ordem, quando possui uma Regra, e, então, diz-se que essa Ordem é “Regular” por quanto se ajusta a suas disposições institucionais, que no caso da Maçonaria seriam os LANDMARKS. E aqui torna a surgir uma grande confusão inoperante. Para não ir muito longe, desde ano 1000 de nossa era até 1723, em que se expedem as Constituições de Anderson, os Maçons e seus antecessores construtores tiveram mais de 15 regulamentos conhecidos, sem contar os que o mesmo Anderson destruiu. Cada escola de arquitetura, cada corporação de pedreiros, fossem alemãs, italianas, inglesas, portuguesas ou

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francesas, tinham seu próprio “Regulamento” interno a partir do qual se constituíram e se poderiam definir como “Regulares”. O ponto crítico se apresenta quando no século XIX a uns Maçons ilustres lhes deu de redigir os que eles acreditavam que deviam ser os LANDMARKS corretos para todos os Maçons do mundo. E aí ardeu Troya. Ainda uma parte das Grandes Lojas Maçônicas “Regulares” da América Latina, sob a influência das Grandes Lojas Maçônicas Anglo-saxãs dos Estados Unidos, não puderam quitar-se dos 25 que redigiu Albert Gallatín Mackey em 1864 nos Estados Unidos, apesar de seu anacronismo manifesto e sua inconveniência evidente. O curioso do caso é que, como vimos, a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra não tem incorporado a sua normatividade nenhuma listagem de LANDMARKS; para eles as únicas normas para avaliar se uma Grande Loja Maçônica é “Regular” ou não são seus oito pontos de 1929, com as reformas de 1989. E ponto. E mais, como vimos em páginas anteriores, em sua última redação de 1989 esclarece expressamente que os “Antigos LANDMARKS” e os “Usos” são o mesmo. Os defensores do status quo, apoiados na lista de Mackey, sustentam contra toda evidência que cada um de seus 25 mandamentos redigidos como LANDMARKS são de uma antigüidade incontestável; o qual é uma falsidade que não resiste a mais ligeira análise histórica. Por exemplo: Não só existe ampla e suficiente documentação que prova que nas velhas Lojas Maçônicas Operativas trabalhavam aleijados, coxos, anciões, mutilados e mulheres, mas sim a mesma existência de um funcionário denominado “Grão-Mestre” se dá pela primeira vez em 1717 como conseqüência da fundação espúrea da Grande Loja Maçônica de Londres; antes dessa data, e desde 1598, o dirigente ou líder de uma Federação de Lojas Maçônicas se denominava “Vigilante Geral” e para esse então só existiam os Graus de “Aprendiz” e “Companheiro”. E mais, ninguém na Maçonaria encenava a lenda de Hiram. Esta lenda de Hiram só chega à Maçonaria em meados do século XVIII; não existem menções à morte de Hiram, como parte do ritual Maçônico, em documentos anteriores a esta centúria; e se atribui a um monge beneditino do século IX chamado Walafrid Strabón sua redação na forma que a conhecemos, tomando como base as tradições hebréias do Antigo Testamento (1 Reis 5; 2 Crônicas 3). A história, como ciência, progride. Continuamente surgem novas investigações cujas hipótese se contrapõem às vezes com a visão romântica de nossas origens. E não é uma decisão fácil escolher entre a análise científica e a magia das lendas em instituições que como a Maçonaria descansam sobre as profundas raízes psicológicas do rito. Não obstante o anterior, as Grandes Lojas Maçônicas que giram ao redor das decisões inglesas sustentam que a “Regra” a seguir para a definição de uma Grande Loja Maçônica como “Regular” é a observância dos oito pontos de Londres de 1929 e suas modificações de 1989, recolhidos nas diversas confederações regulares. É uma confusão sobre a qual não se pronunciam oficialmente as Grandes Lojas Maçônicas “Regulares” e sobre a qual existe uma espécie de pacto tácito de não questionar formalmente “por prudência” e para não colocar em perigo a tão apreciada “Regularidade”. Sobra mencionar que este tema está proscrito das conclusões das reuniões da CMI, apesar de que quando ocasionalmente algum assistente o traz para colação corre o perigo de que lhe respondam como o fizeram a um

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Grão-Mestre Regular da Colômbia no ano 2003: “Irmão, eu acredito que você se equivocou de Maçonaria”. Então temos, para resumir, que os verdadeiros LANDMARKS modernos, cuja não observação total ou parcial desune aos Maçons são os oito pontos em menção. De nenhuma “antigüidade incontestável” se trata. Só isto: um requisito diplomático de relacionamento promulgado unilateralmente por uma Grande Loja Maçônica monárquica, dogmática e conservadora que utilizou à Maçonaria como mais um instrumento da política colonial do império britânico. O paradoxal do caso, é que ainda desaparecendo o interesse geopolítico de fazer uso da Maçonaria para centralizar a classe dirigente local colaboracionista das colônias, o conceito de “Regularidade” sobrevive nas relações diplomáticas interpotenciais a partir do desconhecimento geral de sua origem e sentido real, e/ou os conflitos internos Maçônicos que se vivem em cada país. Isto também é uma herança britânica muito comum. Para aprofundar a análise, temos outro enfoque interessante sobre os alcances do conceito de Regularidade que brinda o Maçom equatoriano Guillermo Fuchslocher, em um ensaio intitulado “Sumário do Rito Francês Moderno”, elaborado em dezembro de 1998 para a Biblioteca Maçônica Mauro Pinto, da cidade da Quito. Vejamo-lo: No idioma castelhano se entende por “regularidade” a exata observância de uma “Regra”, entendida esta como a lei ou o preceito universal que deve observar um “corpo religioso”. Mas para a Maçonaria não é o mais adequado, ao menos em forma generalizada, que lhe atribua a posse de uma Regra, mas sim devemos considerar os distintos “Lindeiros”, termo próprio de construtores para referir-se às marcas de separação entre o Maçônico e o profano; e também as Declarações de Princípios, Constituições e Estatutos, documentos mais acorde com a época atual e com organizações democráticas. Nesta perspectiva, uma análise detida nos leva a concluir que não existe uma norma superior única que seja regente de toda a Maçonaria, mas sim normas superiores de cada Rito e Obediência, pelo que constituem exemplos: os LANDMARKS da Maçonaria inglesa, aparentemente inspirados na Constituição de Anderson de 1723, com suas reformas conservadoras de 1738, concretizados nas normas de reconhecimento de 1929 e sua atualização de 1989; os Antigos Lindeiros do Rito Primitivo da França, emitidos em Paris em 1523 e reformados em Londres em 1651; as Grandes Constituições de 1786 e suas reformas do Convento da Lausanne de 1875, da Confederação de Supremos Conselhos do Rito Escocês Antigo e Aceito; os Cinco Princípios de 1825 que constituem os Antigos Limites do Rito Nacional Mexicano; e as Declarações de Princípios, Constituições e Estatutos de todas as obediências que estabeleceram a estes documentos como sua lei Maçônica suprema. É compreensível que a Maçonaria inglesa, que teve como antecedente formativo uns grêmios-confradías católicos e que se caracteriza por sua religiosidade, entenda a regularidade na forma tradicional religiosa e que, devido à natureza do sistema jurídico inglês, não haja coincidência exata de qual é o conteúdo da “Regra” a seguir e, portanto, a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra se viu obrigada a emitir umas “Normas de Reconhecimento” que pretendem incorporar o fundamental do que, em critério desta obediência, ela abrange. (...)

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Sobre tudo em terra francesa, o histórico Grande Oriente da França velou por sua soberania e, portanto tiveram sim cuidado as possíveis desqualificações inglesas por sua forma de entender, praticar e regular a Maçonaria, sem que por isso deixe de ser regular, quer dizer sujeita a uma “Regra”, mas a sua própria Regra, que não foi outorgada ou herdada, mas sim livre e democraticamente acordada e atualizada, quer dizer, sua Constituição. Entretanto, tanto a forma inglesa como a francesa de entender a Maçonaria se estenderam pelo mundo. A primeira o tem feito por meio de “Patentes”, herança de uns costumes monárquicos que nos vêm de épocas nas quais os direitos, entre eles o de livre associação, não eram reconhecidos como inerentes à qualidade humana, mas sim se adquiriam por concessão graciosa de monarcas e poderosos. A segunda surgiu de forma mais natural e nem sempre devido à influência francesa, mas sim em exercício da soberania de cada potência. Quando o que distingue são as patentes e as atitudes imperialistas e coloniais, uma só potência impõe às outras sua forma de ver as coisas; mas quando prima a liberdade e o respeito, surgem as organizações internacionais em que cada potência integrante atua em igualdade de condições que as demais e entre todas procuram linhas de entendimento comum. (...) Um caso paradigmático que ilustra esta forma de conceber uma soberania Maçônica livre de ingerências externas o oferecem os cinco pontos que regem o Rito Nacional Mexicano, aprovados em 22 de agosto de 1825. Eles são: 1) O Rito Nacional Mexicano é livre e independente como a nação mexicana; 2) O Rito Nacional Mexicano consta de um Supremo Grande Oriente e de uma Grande Loja Maçônica, sob cédulas próprias e legalizadas; 3) Os graus simbólicos serão três (Aprendiz, Companheiro e Mestre); e os altos graus serão seis com as denominações que depois se adotaram de Mestre Aprovado, Cavaleiro do Segredo, Cavaleiro da Águia Mexicana, Perfeito Artífice, Grande Juiz e Grande Inspetor da Ordem;

4) Em cada estado da República se instalaria uma Grande Loja Maçônica composta pelo menos de 5 lojas Maçônicas; e 5) Trabalhar-se-á pelo melhoramento do homem e suas virtudes, em altares da sabedoria, a concórdia e a fraternidade. Em desenvolvimento desta iniciativa, a primeira Grande Loja Maçônica Nacional Mexicana se instalou em 26 de março de 1826, com o nome de La Luz, e ficou conformada por cinco Lojas Maçônicas, ou seja: A Anahuacense, Igualdade, Despreocupação Indiana, Luz Mexicana e a Loja Maçônica Independência, em que foi iniciado Benito Juarez. Em nosso país, uma vez dissolvida a Gran Colômbia, a Ordem procurou fortalecer sua soberania Maçônica ao fundar em 1833 um Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito de cobertura nacional, separando-se do de Caracas do qual dependia desde o ano de 1824. Em um primeiro momento o novo ente criou quatro Lojas Maçônicas (duas em Cartagena, uma em Santa Marta e uma em Riohacha), e posteriormente muitas outras ao longo de toda a geografia colombiana e da centroamérica. Entretanto, no caminho se adotaram as regras subordinantes anglo-

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saxãs tanto na franja simbólica como na dos Altos Graus, variando-se na propensão liberal de estirpe francesa que tinha ficado patenteado com o reconhecimento do Grande Oriente da França.

AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS CONCEITUAIS DE HOJE Abstração feita da desigual diplomacia “regular” da Ordem, que não é consubstancial com ela, mas sim um subproduto da tentativa de assumir uma liderança excludente por parte da Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra e das Grandes Lojas Maçônicas Anglo-saxãs dos Estados Unidos da América, contra as Grandes Lojas Maçônicas que praticam a liberdade de consciência, e/ou admitem mulheres, negros ou incapacitados funcionais, suportado localmente por pequenos interesses submissos, no mundo se foram conformando áreas conceituais. Três são as concepções Maçônicas que do século XIX se diferenciam segundo as condições de implantação, a história e a religião dominante da população em que se desenvolvem. Elas vão determinar as relações inter-obedenciais e os critérios para determinar a Regularidade. Podemo-las agrupar da seguinte maneira: a) a dos países escandinavos e Prússia, aonde a Maçonaria é cristã protestante e conservadora; a do Reino Unido e os países de língua inglesa, seja a de Maçons brancos ou a de negros, aonde ela é considerada como uma instituição filantrópica e caridosa que afirma reunir os crentes de diferentes confissões, embora na prática exista poucos que não são cristãos. Neste grupo, destaca-se o amor ao país e a devoção a seus ideais que professam os americanos e o apoio dos ingleses aos interesses do império britânico; e c) a da Europa continental e a inicial da América Latina, aonde a Ordem se localiza nos rastros da Revolução Francesa, a independência das nações americanas, a referência aos Direitos humanos, a exigência opcional na crença em um Deus e na imortalidade da alma, e uma opção laica e progressista, sobre tudo nos países de maioria católica, que a hostilidade da igreja Católica ajudou a fortalecer. Este setor da Ordem possui valores mais universais que os dois anteriores, por isso foi o mais permeado pelo ingresso da mulher. Naturalmente, este quadro é esquemático, e, na prática, várias concepções podem coexistir em uma mesma Grande Loja Maçônica. A grandes rasgos, cada grupo se move como placas tectônicas na Maçonaria, e todos de uma vez enfrentam com diferentes respostas a chegada maciça da mulher à Ordem. Para citar um só caso: o Grande Oriente Latino-americano – G.O.L.A. – em uma reunião de seu Grande Conselho da Ordem celebrada em maio de 2004, deixou de definir-se como uma Obediência mista para no sucessivo fazê-lo como uma Grande Loja Maçônica de pessoas.

b)

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Indiscutivelmente é uma resposta que a sociedade atual admira e respeita mais que a teoria que sustenta que a Maçonaria é uma Ordem conformada exclusivamente por homens, aonde as mulheres só podem adiantar obras benéficas de apoio. E nisto há algo crucial, porque da forma como percebo o mundo contemporâneo à Maçonaria dependem as possibilidades de que ela progrida. Se essas qualificações forem favoráveis, cresce significativamente a probabilidade de contar com mais e melhores aspirantes. Se não, o futuro se faz mais difícil de prever. Algo muito parecido se pode afirmar das tendências esotéricas e racionais que coexistem ao interior da Ordem. Algumas pessoas que vêm de contextos intelectuais e acadêmicos de preocupações sociais e métodos científicos se ficaram mudos ao iniciarem-se em uma Loja Maçônica mística cujos trabalhos se movem ao redor das antigas tradições egípcias, Rosa-cruzes, órficas, pitagóricas, cabalísticas, etc. Igualmente, Maçons com inclinações esotéricas a passam renegando porque a Maçonaria não se dedica inteiramente a estes trabalhos iniciáticos e se distrai com assuntos de interesse social que consideram impróprios dos estudos tradicionais. Este amálgama é difícil de entender para um estranho à Ordem, mas não para os maçons que convivem com elas sem maiores problemas fraternais. Alguns aprendem a conviver dentro da Ordem com essa parte “inesperada” da Maçonaria e outros simplesmente optam por retirar-se buscando outros campos mais afins com o sua na sociedade civil. Deve-se avaliar seriamente muitas das obras que efusivamente se recomendam aos aprendizes. Uma coisa é ensinar os conteúdos dos símbolos e a forma subjetiva em que devem ser interpretados de acordo a uma particular conformação psicológica e intelectual, em desenvolvimento do método de construção Maçônica; e outra muito distinta é ler os famosos Manuais de Magister, que não contribuem de forma mais efetiva a respeito do fundamental para um Maçom, tal como a liberdade de pensamento e de consciência, a autonomia pessoal, a tolerância frente ao que é sensatamente tolerável, o “combate ativo contra o mal”, o uso da razão e a educação do intelecto. Os proselitismos ideológicos, políticos, metafísicos, teosóficos, tradicionalistas, esotéricos, místicos, cabalísticos, pitagóricos, órficos, dionisianos, religiosos, teológicos, ou de qualquer outra índole, correspondem a outros espaços mais específicos de doutrinação. O realmente Maçônico é o ponto de encontro neutro e respeitoso de pessoas que pensem e tenham (ou não tenham) crenças distintas, e é o que permite enriquecer-se com o contato com o diferente. Esta é a virtude que diferencia o método de construção Maçônico do rol do mesmo cidadão em outras sociedades filantrópicas, organizações não governamentais (ONG), clubes de serviços, reuniões, etc. De todos os modos, o historicamente comprovado, é que a associação que se criou em Londres em 1717 tem uma vocação inteiramente secular. As Constituições de Anderson não possuem nenhuma referência esotérica nem nelas se fala de Iniciação.

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MAÇONARIA LIBERAL VERSUS MAÇONARIA REGULAR NO SÉCULO XX No século XX, a Maçonaria, dividida entre Regular ou Dogmática, e Liberal ou Progressista marcha cada uma por seu próprio caminho rivalizando permanentemente. Entretanto, a roda da fortuna girou contra as Maçonarias Liberais da Europa continental durante a Segunda guerra mundial e os anos que a antecederam. Em 1925, as duas Obediências italianas são disolvidas pelos fascistas; a associação Maçônica Internacional criada em 1903 desaparece. Igualmente, a Maçonaria é proscrita na Alemanha em 1933, em Portugal e na Turquia em 1935, na Romênia e Polônia em 1937, na Áustria e Checoslovaquia em 1938 e na Espanha em 1939. Enquanto a Maçonaria Regular inglesa e norte-americana permanece indiferente frente ao destino fatal da Maçonaria Liberal e adogmática européia, a guerra vai fazer desaparecer as da Bélgica, Yugoslavia, Bulgária e Grécia, e levar quase até a extinção a da França. Os Maçons nos países dominados pela Alemanha Nazista, a Itália Fascista e a Espanha Franquista foram encarcerados, assassinados e seus bens confiscados. Um verdadeiro cataclismo viveu a Maçonaria da Europa continental durante as duas guerras mundiais. Mais à frente ainda: a Maçonaria Regular inglesa fecha o Pórtico de seus Templos aos Maçons da Europa continental que vinham fugindo da catástrofe. Em total 14 países europeus têm que esperar até a década do 50 para reconstruir o ideário Progressista da Maçonaria. Em meio deste redemoinho europeu a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra decide, como o mais conveniente para ela, marcar ainda mais a diferença com a Maçonaria Progressista promulgando unilateralmente os oito Princípios Básicos para o Reconhecimento de Grandes Lojas Maçônicas em 1929. Um detalhe muito romântico que ainda lembra esta época desgraçada para a Maçonaria européia é o seguinte: em 1934, quando Adolfo Hitler assume o poder, na Alemanha se intensifica a perseguição contra a Maçonaria, então, para se identificar, em segredo, nos locais públicos e nos campos de concentração os Maçons adotam uma flor conhecida como “Não me esqueça” (“The forget me not”), em substituição do esquadro e do compasso. Mais à frente este adorno é lembrado àqueles valentes que ressaltaram sua condição Maçônica em circunstâncias difíceis e é freqüente encontrá-lo na lapela das vestimentas de muitos Maçons de hoje. Uma vez mais, dizimada em seus membros, confiscados ou destruídos seus edifícios, com uma economia precária, e ainda com os restos da propaganda anti-Maçônica firmemente enraizada no povo, e como se fosse pouco, com a anti-fraternal agressão da Maçonaria Dogmática anglo-saxã, que com o mote de Irregular procurava, e ainda busca, desqualificar e desconhecer seus trabalhos Maçônicos, a Maçonaria Liberal se recupera para ser o fenômeno que hoje tem em xeque ideológico a Regular. É neste contexto internacional que em 1961 nasce em Bruxelas, Bélgica, o Centre de Liaison et d´Information des Puissances Maçoniques Signataires de l´Appel de Strasbourg (CLIPSAS), que assinalaria um novo rumo e um novo sonho ao futuro da Ordem no mundo.

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O caminho para a recuperação da fortaleza perdida foi extremamente difícil para a Maçonaria européia do segundo post guerra. Em realidade, isto só se consolida no final da década dos anos sessenta do século XX. Na versão em castelhano de sua página Web o Grande Oriente da França relata a grandes brados seus TRAJINAR rasgos transportar de depois da Segunda guerra mundial, da seguinte maneira: “A Franco-maçonaria francesa fica de pé lentamente depois da Liberação. As dificuldades estão vinculadas em grande parte ao fracasso da fusão do GODF e a Grande Loja Maçônica da França - GLDF (rechaçada pela Assembléia desta última), ao envelhecimento dos grupos dirigentes das Lojas Maçônicas e das obediências e à gravidade dos problemas. Confinada entre o gaullismo e o comunismo (cuja expansão ao Este reduz ainda mais seu território de influência no exterior), freqüentemente percebida como retrógrada, bombardeada por forças centrífugas, demorará mais de quarenta anos em reencontrar aos membros que tinha antes da guerra. ”Este período está marcado por um lento retorno ao simbolismo, iniciado em princípios de século sob a influência de irmãos, tais como O. Wirth ou Gloton. Esta corrente ganha terreno no último terço do século XIX, embora no GODF menos que em outros. É um fenômeno novo por seus conteúdos, com referências históricas (os “antigos mistérios” evocados a partir do século XVIII) e contribui com esotéricos já conhecidos antes do pensamento Maçônico, mas que igualmente formam parte dos novos dados. Esta evolução gera efeitos e aspectos negativos. Os aportes extraídos das ciências sociais, o caráter introspectivo de certos testemunhos e alguns dos ecos das novas correntes esotéricas contribuem ao enriquecimento. Mas também constatamos que aquilo que ao princípio estava destinado a ser um complemento, em uma cultura forte marcada por muitos outros aspectos, freqüentemente tende a erigir-se como verdade exclusiva. A Vulgata simbolista oferecida freqüentemente tende ao monopólio e a evitar o real. Para compensar uma perda de identidade e de utilidade, nega-lhe à Maçonaria a possibilidade de figurar na História, argumentando que é impossível encontrar sua Tradição. A tentação é grande nesta ótica de fazer do ritual uma fórmula mágica, algo definitivo. ”Na segunda metade do século XX surgem numerosas evoluções. A aceitação de mulheres na Maçonaria francesa, o envelhecimento da instituição, a expansão do recrutamento de classes médias mais instruídas (que tinham evoluído bastante em sua relação com as ideologias e a política), e o fim do rol dos ditos tradicionais (tão educativos como integradores) das Lojas Maçônicas, são fenômenos de larga duração. Vale esclarecer também que durante algumas décadas existiu um complexo de “regularidade” para a Maçonaria anglo-saxã (atualmente em decadência) que conduziu, de fato, a que uma parte da Franco-maçonaria seja captada por tendências mercantilistas e reacionárias. Finalmente, a divisão da Obediência que tinha começado em finais do século XIX se acelerou durante a segunda metade do século. Depois da criação da Grande Loge Féminine de France, em 1945, e da Grande Loge Traditionnelle Symbolique “Opera”, em 1958, a fragmentação em pequenas unidades Obedenciais já não cessaria: Grande Loge Féminine de Memphis Misraim, Loge Nationale Française, Grande Loge Mixte Universelle, Grande Loge Mixte de France, etc. Também surgem muitas outras estruturas mais ou menos Maçônicas. O Grand Orient do France, órgão regulador da Maçonaria de um ponto de vista histórico, reconhece hoje (em 2002) a Oitar (Ordem Tradicional Iniciática da Arte Real), o Grand Prieuré des Gaules, a Grande Loge Française de Memphis Misraim e estuda a possibilidade de relacionar-se com a GLISRU (Grande Loja Maçônica Independente e Soberana dos Ritos Unidos) e a GLMS (Grande Loja Maçônica Mista Suíça).

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”A partir do ano 2000, todas as obediências francesas, à exceção da GLNF, se reúnem em um espaço flexível denominado Maçonaria Francesa. Por último, durante este meio século no qual a Franco-maçonaria francesa se reconstruiu e em seguida tomou forma paulatinamente em vésperas do século XXI, o perfil interno das Lojas Maçônicas troca. enfatiza-se em especial a “qualidade de vida” do grupo. As Lojas Maçônicas, mais numerosas na atualidade que faz um século mas de menor tamanho, ainda estão mobilizadas pela reflexão e as lutas humanistas, mas estão menos envoltas em questões diretamente políticas. Estas insistem sobre a assiduidade e a qualidade da relação entre os membros que as compõem.” Em princípios da década dos anos noventa do século XX, em seguida do colapso da União Soviética, as agências de segurança russas desclassificam em Moscou volumosos arquivos correspondentes às Grandes Lojas Maçônicas e aos Grandes Orientes da Europa continental, os quais foram transladados a essa capital durante a Segunda guerra mundial e o período conhecido como da “Guerra Fria”. Esses arquivos contêm objetos de coleção de interesse Maçônico, bibliotecas com milhares de livros antigos sobre a Ordem, correspondência, e material histórico documental. Quando essa recuperação da memória coletiva acabar, os estudiosos do desenvolvimento da Ordem e de suas relações com a sociedade em geral, contarão com uma das maiores fontes bibliográficas que sobreviveram ao passar dos tempos. Hoje em dia, graças a este renascer da Maçonaria Liberal, e de suas idéias e esforços, potencializada pelos modernos meios de comunicação em uma sociedade mais aberta, começou-se a dispor de uma nova literatura científica Maçônica, apoiada em documentos que foram aparecendo com o tempo e com os quais não contavam nem Lorenzo Frau Abrines, nem Aldo Lavagnini, nem Findel, nem Mackey, para citar tão somente a uns poucos de nossos mais consultados autores tradicionais. Certamente o futuro contará com novas “verdades”, já que a veracidade de uma afirmação sempre depende dos níveis de informação com que se contem. Neste novo contexto, hoje a Maçonaria Regular do velho mundo se reúne anualmente em uma organização chamada Conferencia Maçônica Européia e, por sua parte, a Liberal da Europa se congrega em uma Associação Maçônica Liberal (AMIL). Que derivou no SIMPA. Igualmente existem a Conferência de Grandes Lojas Maçônicas do Mediterrâneo, a dos Bálcãs, CATENA, (que agrupa às Grandes Lojas Maçônicas Mistas), a Associação de Grandes Lojas Maçônicas Femininas, os encontros de Luxemburgo, os encontros da Maçonaria Latina em Bruxelas, que é intercontinental, etc. Por outra parte, é de ressaltar que a Maçonaria Regular não participou dos grandes acontecimentos sociais e políticos de que se orgulha a Ordem do século XVIII. E mais, na maioria dos casos, as Grandes Lojas Maçônicas regulares, atuaram em defesa dos interesses do império britânico e contra a adoção dos princípios democráticos e republicanos que propugna o setor que se orienta pelo pensamento Maçônico de origem francesa, no qual sim cabe, sob a premissa da tolerância, a discussão política e religiosa. Em palavras do escritor Francisco Espinar Lafuente (Esquema Filosófico da Maçonaria), os fatos históricos nos que os Maçons progressistas participaram são os seguintes: • A Ilustração no período dos Estados Absolutistas (entre 1750 e 1800).

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A Revolução norte-americana cujo símbolo é o Maçom George Washington. A Revolução Francesa e sua expansão através de Napoleão. A independência da Ibero-América (1810-1825). A luta contra os impérios, monarquias e estados absolutistas (séculos XIX e XX). A abolição da escravidão. A unificação da Itália com a supressão dos Estados Pontifícios. A secularização das Universidades e das ciências. O laicismo no ensino (1890-1918). A Sociedade de Nações (1919-1939). A Organização das Nações Unidas (desde 1945). A descolonização na Ásia e na África desde 1950 (data de independência da Índia).

Tanto a Revolução Francesa, como a independência da América a lideraram os agora chamados Maçons “Irregulares” ou “Liberais”. De tal forma que os Jacobinos de Paris, Miranda, Bolívar, San Martín, O’Higgins, etc., foram iniciados em Lojas Maçônicas políticas, já que a finalidade única e exclusiva do levantamento de suas colunas era o debate e a ação política. Portanto, não é ruim não pertencer ao setor da Maçonaria que se autodenomina “Regular”, a qual, tendo um nascimento irregular, sempre representou uma propensão ao absolutismo ideológico ao interior e por fora da Ordem. E se este matagal de “Regularidades” e “Irregularidades” fosse pouco, tem-se adicionalmente que descendendo a Maçonaria moderna daquela Grande Loja Maçônica de Londres de 1717, e nisso não existe discussão alguma, todas as subseqüentes se encontram tingidas da mesma “Irregularidade de Origem”. Mas para falar a verdade, a Maçonaria Regular inglesa e americana – esta última agrupada na Conferência de Grãos-Mestres da América do Norte – não se encontra imóvel e parece que giram influenciadas pelo espírito dos tempos para as Obediências liberais, e que uma tímida abertura se inicia. Por exemplo, a Grande Loja Maçônica de Antigos Livres e Aceitos Maçons da Alemanha, a Grande Loja Maçônica da Áustria e a Grande Loja Maçônica Alpina, de reconhecido pensamento Liberal e Progressista, foram reconhecidas recentemente por Londres, da mesma forma que 18 Grandes Lojas Maçônicas PRINCE Hall (de negros) nos Estados Unidos. Em desenvolvimento desta nova abertura, a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra reconheceu como regulares nos Estados Unidos, ao encerramento desta publicação, paralelamente

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com a Grande Loja Maçônica Anglo-saxã do mesmo estado e território, às Grandes Lojas Maçônicas PRINCE Hall do Arizona, Califórnia e Hawai, Colorado, Connecticut, Illinois, Indiana, Iowa, Maryland, Massachusetts, Minnesota, New México, New York, Ohio, Oregon, Pennsylvania, Virginia, Washington e Wisconsin. Também começam a se ver relacionamentos formais entre Grandes Lojas Maçônicas norteamericanas de brancos com as de negros, antagônicas há mais de 200 anos. Ao mesmo tempo, é digno de destacar o Encontro de 24 a 27 de junho de 2004, em Havana, Cuba, com que se celebrou o bicentenário da fundação da primeira Loja Maçônica nessa nação, a qual levava por nome o de Templo das Virtudes Teologais, com a presença de Grandes Lojas Maçônicas Não Regulares e Regulares pertencentes a CMI, cuja Segunda Zona celebrou uma reunião ali aproveitando sua presença comum nos festejos. Uma das Pranchas que se leram no encontro de Havana se referiu à situação a que se enfrentam os Maçons latino-americanos Regulares imigrantes aos Estados Unidos e Canadá que querem vincular-se à Maçonaria Regular destes países. Não são aceitos pelas Grandes Lojas Maçônicas Regulares, em que pese a que muitas vezes, além dos documentos regulamentares, levam até uma carta de apresentação assinada e selada por seu Grão-Mestre de origem. Esta é outra amostra das discriminações sociais e étnicas das Grandes Lojas Maçônicas Anglo-saxãs da América do Norte e é a razão pela qual nasceu em 1931 a Sereníssima Grande Loja Maçônica de Língua Espanhola para os Estados Unidos da América, com sede capital na cidade de Nova Iorque. Assim é, que mal fazem os Maçons regulares da América Latina lhe prometendo a seus novos iniciados que vão ser tratados como iguais pelas 51 Grandes Lojas Maçônicas americanas que aparecem no livro List of Lodge. Só os permitem de visita e a maioria das vezes não perguntam a que Grande Loja Maçônica pertencem. Existe reciprocidade. Pronunciar-se-á algum dia a CMI por esta discriminação que faz a seus membros? Está claro que os Maçons americanos, orgulhosos de ter contado entre suas colunas com governadores, congressistas e presidentes, não querem relacionar-se com os Maçons pedreiros, bombeiros, encanadores, pintores e limpadores latino-americanos, assim estes, em seus países de origem tenham praticado uma profissão honorável, ou se tenham asilado nessa nação pelas razões dolorosas que os latino-americanos conhecem bem. Os Maçons americanos e canadenses regulares vêem os Maçons latino-americanos potencialmente perigosos para seu status quo e não aptos para sua elegante vida social anglo-saxã. Diante desta situação, as Grandes Lojas Maçônicas de fala hispânica dos Estados Unidos e Canadá se encontram organizando uma confederação que as agrupe para trabalhar em temas comuns e defender-se da agressão fratricida dos regulares. Pode-se falar deste assunto tão importante em uma Conferência Mundial de Grandes Lojas Maçônicas Regulares? Não. Porque é um tema polêmico.

TROCANDO DE GEOGRAFIA: ÁSIA E ÁFRICA No outro lado do mundo, nos países situados ao leste da antiga Cortina de Ferro, incluindo a China, as Maçonarias inglesas e da Europa ocidental Regulares, encontram-se em competição com

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as Liberais, sejam elas masculinas, femininas ou mistas, das mesmas nações, para semear nos países ex-comunistas, Lojas Maçônicas dotadas de suas respectivas orientações ideológicas. Essa é a nova fronteira da Maçonaria européia, e está indo bastante bem para todos a julgar pela quantidade de colunas levantadas. Na África, apresentam-se igualmente as mesmas diferenças, herdadas dos europeus. Nas antigas colônias inglesas, a Maçonaria Regular é forte, e nas antigas colônias francesas, portuguesas e italianas, a Maçonaria Liberal se encontra muito ativa. Casualmente, neste último setor da Ordem no continente negro as Obediências Progressistas se reúnem desde 1992 em uma associação Maçônica denominada Encontros Fraternais e Humanitários da África e Madagascar (REFRHAN, por suas siglas em francês). E quanto à Maçonaria que se agrupa virtualmente em Lojas Maçônicas, chats, grupos, blogs, etc., na Internet, a experiência representa uma necessária evolução e adaptação da Ordem nos novos tempos. Internet é um lugar onde estão ocorrendo coisas interessantes e muito importantes.

A QUESTÃO DO GÊNERO NA MAÇONARIA O século XX se inicia com um acontecimento importante por seus efeitos no interior da Ordem: a mulher se incorpora totalmente aos trabalhos da Maçonaria Especulativa em igualdade de condições com o homem. Embora o fenômeno não seja novo – já existiam antecedentes importantes na Maçonaria Especulativa do século XVIII, especialmente na França e Espanha – e contava com precedentes inegáveis de 6 séculos de antigüidade na Maçonaria Operativa – o Manuscrito Régio de 1380 o menciona – as características, a força e a difusão maciça que cobrou a iniciação feminina com o passar do século XX, converte-o no grande acontecimento do século. O detonante desta nova adaptação da Maçonaria às novas condições sociais, constituiu-o a iniciação da prestigiosa jornalista e feminista Marie Desraime na Loja Maçônica Os Librepensadores de Perq, localizada em Perq, uma pequena cidade perto de Paris, França, em 14 de janeiro de 1882. Quatro meses depois, diante da polêmica desatada pela novidade lhe suspendia a qualidade de Maçona. Diante disto, Maria Desraime de 68 anos de idade com a colaboração do Dr. George Martín, médico e conselheiro municipal de Paris pelo Radicalismo, de 48 anos, fundou em 4 de abril de 1893, a Ordem Maçônica Mista Internacional O Direito Humano, que hoje conta com perto de 30.000 membros pertencentes em quase 2.000 Lojas Maçônicas, em 75 países de todos os continentes; e que por outra parte, gerou quase um milhão de Maçons e Maçonas partidários da misticidade trabalhando sem problemas em múltiplas Obediências mistas e femininas, nos principais Ritos Maçônicos. A primeira Grande Loja Maçônica de mulheres criada no mundo foi a Grande Loja Maçônica Feminina da Romênia, em 1922, e a segunda, a Grande Loja Maçônica Feminina da França em 1945, de muito maior projeção e atividade internacional, por isso está acostumada a encontrar-se na literatura histórica da Ordem que a francesa foi a pioneira. A Loja Maçônica Os Librepensadores de Perq, era uma das doze Lojas Maçônicas que se retiraram do Grande Oriente da França em 8 de agosto de 1880 para fundar a Grande Loja

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Maçônica Simbólica Escocesa. Inicialmente redigiu seus regulamentos de tal forma que permitissem a iniciação de mulheres, mas ao não ser autorizados estes Regulamentos por sua Obediência, em um ato de rebeldia decidiu iniciar a Marie Desraime, trocando para sempre o rumo da Maçonaria. A Ordem Maçônica Mista Internacional O Direito Humano, deixa a opção de suas Lojas Maçônicas jurisdiccionadas o trabalhar “À Glória do Grande Arquiteto do Universo” e/ou “Ao Progresso da Humanidade”, e se declara “respeitosa ao laicismo e de todas as crenças relativas à eternidade ou não eternidade da vida” esclarecendo que “seus membros procuram acima de tudo, concretizar na Terra e para todos os humanos o máximo desenvolvimento moral e intelectual”. Igualmente elevaram a mandato constitucional o que os princípios e o método de trabalho adotado são os das Grandes Constituições de 1786, revisadas pela convenção dos nove Supremos Conselhos do Rito Escocês Antigo e Aceito que foram representados em Lausanne, Suíça, em 22 de setembro de 1875 (Ordem Maçônica Mista Internacional O Direito Humano. Constituição Internacional, Artigos. 3 a 8, 2002). Na cúspide da estrutura organizacional da Ordem Maçônica Mista Internacional O Direito Humano, encontra-se o Supremo Conselho de Soberanos Grandes Inspetores Gerais da Ordem Maçônica Mista Internacional “O Direito Humano” baseado em 11 de maio de 1899, integrado por Maçons e Maçonas possuidores do Grau 33° do Rito Escocês Antigo e Aceito, por um dignitário com o título de “Muito Ilustre Presidente Grão-Mestre da Ordem” e também “Muito Poderoso Soberano Grande Comendador”. As Lojas Maçônicas não se federam em Grandes Lojas Maçônicas, mas sim em Jurisdições, sob a direção de um Delegado do Supremo Conselho, caso exista a circunstância de que trabalhem, em um mesmo país, pelo menos duas Lojas Maçônicas e 20 Mestres Maçons. Mas se trabalharem em uma mesma nação um mínimo de cinco Lojas Maçônicas Simbólicas com cem membros então se constitui uma Federação. Em 1902 se fundou a primeira Loja Maçônica do “Direito Humano” na Grã-Bretanha, em 1903 nos Estados Unidos e em 1919 na América Latina. O impacto da incorporação maciça da mulher à Ordem a partir da iniciativa de Perq foi tal, que, um século depois, em pleno século XXI, muitas Grandes Lojas Maçônicas e Grandes Orientes masculinos ainda não se sobrepõem, nem aceitam a realidade de um fato que já está consumado. Para citar somente um exemplo no século XXI da não assimilação da experiência Maçônica feminina, pode-se trazer para conto um artigo aparecido na seção Nacional da edição dominical do periódico O Mercúrio – o de maior circulação no Chile – correspondente ao dia 23 de maio de 2004, no qual aparece uma entrevista, com foto incluída, de Jorge Carvajal Muñoz, Grão-Mestre da Grande Loja Maçônica do Chile – que é a que observa nesse país as regras diplomáticas Anglosaxãs – no qual ressalta com orgulho, como conclusões da VII Conferência de Grandes Lojas Maçônicas Regulares do mundo, “a necessidade de ampliar os horizontes da Tolerância no mundo; de acrescentar os foros do Laicismo com um estado neutro em matéria religiosa; e a de humanizar a globalização”. Ao final da entrevista, o jornalista desobedientemente interroga ao Grão-Mestre Carvajal sobre o encontro internacional de Grandes Lojas Maçônicas masculinas, femininas e mistas que se celebrou em Santiago desde dia 19 até 23 de maio – se referia a 43° Assembléia Geral do CLIPSAS – e o único que atina a responder tão alto dignitário da Maçonaria chilena, diante de um público de várias centenas de milhares de leitores deste século XXI, como se dele dependesse que a mulher entre à Maçonaria, é que “fazer ingressar a mulher na Maçonaria seria fazê-la viver sob a sombra

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de uma árvore muito frondosa”. É difícil precisar exatamente a que árvore frondosa fazia referência, mas assiste o consolo aos Maçons progressistas, para não sofrer de pena alheia, de que a sociedade civil, diante de tamanho anacronismo, devia pensar que é esta uma das muitas declarações cifradas que só os maçons entendem. Oxalá fosse assim... Não existem maiores razões para esperar que o novo Grão-Mestre da masculina Grande Loja Maçônica do Chile, Juan José Oyarzún, eleito e empossado no dia 25 de junho de 2006, para um período de quatro anos, em substituição do Jorge Carvajal, trabalhe para trocar a discriminação de gênero que pratica sua Obediência, apesar de ter declarado à imprensa nesse mesmo dia, que "A Grande Maçonaria não tem uma filosofia. Cria em seus homens um sistema filosófico que vai evoluindo de acordo aos tempos atuais. Estamos na entrada do terceiro milênio e do Século XXI. Nossos homens devem adaptar-se ao mundo que vem". O que dizer da Maçonaria mista, que está presente em mais de 60 países do mundo? E da feminina, que atua como por espelho e não admite aos homens? Da existência atual destas Grandes Lojas Maçônicas femininas, e de Lojas Maçônicas independentes ou jurisdiccionadas a elas, que assim discriminam aos homens, existem dados certos nas seguintes 42 nações: França, Inglaterra, Bélgica, Suíça, Espanha, Luxemburgo, Letônia, Lituânia, República Tcheca, Itália, Polônia, Rússia, România, Bulgária, Servia, Líbano, Alemanha, Grécia, Hungria, Turquia, Portugal, Ilha Mauricio, Marrocos, Togo, Camarões, Costa de Marfim, Gabão, Congo, Benin, Senegal, Guadalupe, Martinica, Venezuela, Brasil, Porto Rico, Haiti, México, Chile, Peru, Bolívia, Estados Unidos e Canadá. Nenhuma delas de adoção e a maioria praticando o Rito Escocês Antigo e Aceito em primeiro lugar, e o Rito Francês em segundo. Para facilitar a propagação da tendência feminina no mundo se dispôs por parte de algumas Grandes Lojas Maçônicas Femininas o mecanismo de criar Lojas Maçônicas chamadas Itinerantes que viajam ao lugar em que existem mulheres com desejos de ingressar na Ordem, iniciam-nas, aumentam-lhes o Salário, exaltam-nas, e quando existe a possibilidade de Levantar as Colunas de uma Loja Maçônica Justa e Perfeita, fazem-no sob sua jurisdição. Em seguida esperam que a nova Oficina cresça, ajudam-lhes a criar duas ou mais Oficinas, para finalmente fundar uma nova Grande Loja Maçônica Feminina. Entre as mais ativas nesta política, parece estar a Loja Maçônica Rosa dos Ventos, criada em Paris em 12 de março de 1978, sob os auspícios da Grande Loja Maçônica Feminina da França, que se dedica à iniciação de mulheres em todo o planeta. O impulso da Maçonaria Feminina é tão forte, que só na década de 70 do século XX se levantaram as Colunas de 76 Lojas Maçônicas deste uso no território da França, e ao fechar o ano 2005 a principal Obediência Feminina francesa contava com 11.500 Maçonas ativas, um número quatro vezes superior ao do total de todos os maçons que ostenta a Colômbia, e maior que o do número de Maçons dos 5 países independizados por Simón Bolívar. Em Paris, no ano de 1982, as Grandes Lojas Maçônicas Femininas da Alemanha, Bélgica, França, Itália, Portugal, Suíça e Grécia, criaram o Centro de Enlace Internacional da Maçonaria Feminina (Centre do Liaison International da Masonnerie Femenine – CLIMAF), o qual vem se reunindo pontualmente cada dois anos, aumentando sempre o número de Grandes Lojas Maçônicas participantes. Na data de sua fundação CLIMAF acordou que seu objetivo seria o de “... criar para as Obediências membros um espaço de reflexão e de ação comum para promover os valores da Franco-maçonaria universal”.

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Das Maçonas que foram orgulho da Ordem e emprestaram suas luzes à humanidade, podemos destacar no século XIX à escritora francesa e defensora dos direitos dos trabalhadores e a igualdade da mulher Floresce Tristan, e a anarquista e heroína do povo de Paris Louise Michel; no século XX se distinguem com luz própria a franco-americana cantora, bailarina, defensora dos direitos civis dos negros e membro da resistência francesa na Segunda guerra mundial, Josephine Baker, assim como o primeiro latino-americano em receber o Prêmio Nobel de Literatura, a chilena Gabriela Mistral. E na Colômbia? Em Bogotá existem três Lojas da Ordem Maçônica Mista Internacional O Direito Humano: 1.314, “Liberdade”; 1.814, “Sol do Oriente”; 1.820, “Sol da Colômbia”. Igualmente trabalham na cidade de Pereira duas: 1.545, “Jacques de Molay” e 1.796, “Estrela do Sul”. E em Barranquilla recentemente deu-se um novo impulso à Loja Maçônica 1.477 “Luz do Caribe”. Cabe esclarecer que nesta Obediência o número vai antes do nome. Destas Lojas Maçônicas a Respeitável Loja Maçônica nº. 1.314, “Liberdade” de Bogotá, fez 25 anos, nos dia 7 de janeiro de 2006, de atividade ininterrupta. Segundo dados apresentados pelo estudioso Maçom Adriano Moreno Weinstein, em Bogotá foi fundada em 1937 uma Loja Maçônica Mista do Direito Humano, intitulada nº. 623 “Sol da Colômbia J. B. Cunha”, em honra do José Basileo Cunha Zeledón, o Maçom costa-riquenho que impulsionou a criação de Lojas Maçônicas do “Direito Humano” no Caribe, a partir da Loja Maçônica nº. 621 “Saint Germain” fundada em São José da Costa Rica em 1919. Em seguida viriam outras em Cuba, El Salvador, Nicarágua, Colômbia e Panamá. Esta Oficina colombiana aparece também no livro Le Droit Humain International 1913-1947 De l’éveil à la mise em oeuvre, escrito por Marc Grosjean, ex-Grão-Mestre do Direito Humano e publicado por Editions Detrad aVs, Paris, 2002.

Considera-se que esta Loja Maçônica funcionou provavelmente em 9 de abril de 1948 quando a repressão conservadora na Colômbia gerou tais temores entre os Maçons de Bogotá, que preferiram não se reunir de novo em Oficina, e, ao parecer, à data desta edição já não existiam sobreviventes do grupo inicial de Maçons que trabalhou na pioneira Loja Maçônica. A última que se conheceu foi a Maçona Corina Martinez que já faleceu. Precisamente, nos anos 1990 Corina Martinez e alguns outros Maçons entregaram uma série de Aventais e decorações pertencentes a dita Loja. Destas relíquias, hoje repousam no Museu da sede principal do Direito Humano em Paris um jogo de Aventais de Aprendiz, de Companheiro e de Mestre, assim como um par de Aventais de graus Escoceses que eram usados pelos Maçons da dita Loja Maçônica. O resto do objeto de cenário doado, junto com alguma documentação, está em poder da atual Loja Maçônica 1.820, “Sol da Colômbia”, para preservar a memória daquela primeira Loja Maçônica desaparecida. Também é digno de se destacar que em Cali funcionou por mais de uma década a partir de 1982, a Loja Maçônica mista nº. 1.329 “Fraternidade do Ocidente”, igualmente jurisdicionada ao “Direito Humano”, a qual chegou a trabalhar no Templo da Grande Loja Maçônica Ocidental da Colômbia localizado na carreira 4 nº. 839, andar 13, Edifício Benjamim Herrera, dessa cidade.

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Por outra parte, o Grande Oriente Latino-americano – GOLA – possui uma Loja Maçônica em Pereira, denominada “Fraternidade Lauterina” nº. 33, a qual por sua vez com um Triângulo em Santa Marta. Em 1999 ingressa na Colômbia, da mão das Grandes Lojas Maçônicas Regulares de Bogotá e Bucaramanga, a Ordem das Estrelas do Oriente (Eastern Star). Esta Ordem não é Co-maçonaria, como se afirma com freqüência. Nem tampouco Maçonaria de Adoção; embora tenha se derivado da Maçonaria de Adoção francesa de 1850. Dezessete anos depois da fundação do Supremo Conselho Neogranadino, hoje do Grau 33 para a Colômbia, e 135 anos antes da do Supremo Conselho Colombiano do Grau 33°. Em 1855, a Ordem das Estrelas do Oriente criou seus próprios rituais Maçônicos e atualmente há no mundo um pouco mais de dois milhões de mulheres filiadas realizando uma obra filantrópica e de ajuda social, superior, por exemplo, a de toda a Maçonaria masculina colombiana, acrescentados regulares e progressistas. A idéia dominante na Colômbia, entre as Grandes Lojas Maçônicas masculinas, é que a Ordem das Estrelas do Oriente na prática não vá além de um voluntariado de senhoras cuja missão principal seria a de dar apoio aos trabalhos filantrópicos das Obediências Regulares integradas por seus maridos, pais e irmãos carnais, das quais, a mais antiga da Colômbia, a Regular de Barranquilla, com muita dificuldade alcança a metade de sua antigüidade. Até Américo Carnicelli, o mais importante historiador Maçônico colombiano, inexplicavelmente omitiu nas 1.020 páginas dos dois tomos de sua obra titulada História da Maçonaria Colombiana a existência da mencionada Loja Maçônica mista jurisdiccionada à Ordem Internacional Mista “O Direito Humano”; que na década de 30 e 40 do século XX trabalhou no mesmo templo da carreira 5° com Rua 18 de Bogotá, no que ele mesmo usava, no lugar que ainda é sede da Grande Loja Maçônica da Colômbia, a qual ele também pertencia. Mas esta não é a única Maçonaria feminina nascida na América do Norte que recebe um tratamento discriminatório por parte das Grandes Lojas Maçônicas masculinas a cujo lado geralmente coexiste. Também está a Ordem da Rainha do Sul, a do Amaranth, As Filhas do Nilo, As Filhas de Jó, As Filhas do Arco íris, As Filhas do Deserto, As Filhas de Isis, As Filhas de Osíris, As Filhas da Acácia em Cuba, etc. A história registra com assombro algumas discussões, entre sábios, que tiveram efeitos reais catastróficos. Uma delas é sobre o sexo dos anjos enquanto caía Bizâncio, outra se ocupou em determinar a ciência certa quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete; e enquanto se discutia no Vaticano se os aborígines americanos tinham alma, 90 milhões deles morriam nas mãos de quem não tinha a paciência de esperar a decisão. No Colóquio do CLIPSAS em Santiago do Chile, correspondente ao ano de 2004, o GrãoMestre do Grande Oriente da Suíça, Heinz E. Mühlethaler trouxe para contar em sua brilhante exposição o seguinte comentário: um estudo muito documentado dos peritos da Agência Nacional Aeroespacial dos Estados Unidos (NASA) determinou que segundo o peso, o tamanho, as

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características da superfície, a freqüência, a velocidade e a forma da batida das asas, a temperatura corporal, o desenho aerodinâmico, e sua energia potencial, o colibri não poderia voar; mas como ele não está ciente, ou não presta a menor atenção à tão importante conclusão, continua voando. Isso mesmo está passando com a Maçonaria Liberal. A história da Maçonaria registrará as discussões muito documentadas de quem ainda pergunta se pode haver uma ou várias Grandes Lojas Maçônicas em um mesmo território, ou se os coxos e as mulheres podem ser Maçons, ou se os Maçons podem visitar-se livremente ou não. Galileo diria de novo com ironia: “... e, entretanto, se move”. Não obstante o anterior, na Colômbia há Maçons importantes que afirmam com uma grande solenidade, contra toda evidência, que em nenhum país do mundo existe mais de uma Grande Loja Maçônica, e em consideração disso expõem que as Obediências atuais devem agrupar-se em uma só para estarem afinadas com todas as nações do planeta. Como já se viu isto, não só não é certo mas também é a prova real de que em nossa nação existem Maçonarias com a frivolidade própria de pequena monta. Só nos Estados Unidos trabalham cerca de 600 Grandes Lojas Maçônicas, e no México e Brasil ao redor de 150 em cada país. Enquanto isso, o desobediente colibri segue voando... A história perguntará sem lugar a dúvidas, sobre a classe de associação que é a Maçonaria contemporânea, e sobre a competitividade ideológica dela no mundo de hoje. O sério da questão, é que a resposta, qualquer que seja, está-se escrevendo desde já, a duas mãos, com a tinta indelével do fratricídio e a de nobres encontros fraternais em que grande parte dos Maçons se cuida de assistir para não irregularizar-se. E enquanto isso, o condenado colibri segue voando...

OS MAÇONS HOMOSSEXUAIS Costumam afirmar os escritores de ficção científica que a realidade em ocasiões excede à imaginação. Isto sucedeu em uma Loja Maçônica masculina de Paris, no mês de março do ano de 2005, quando um Irmão Maçom ativo notificou à Oficina que um tratamento hormonal e uma cirurgia maior o tinham trocado de homem para mulher, e que uma cirurgia facial de feminilização tinha culminado a inovação. O problema surgiu por que as leis da França penalizam fortemente a discriminação de gênero. Como expulsar esta nova mulher sem que, legalmente, se declare nula a decisão? De acordo com dados científicos, pelo menos 5% da totalidade dos homens e mulheres se desenvolvem como homossexuais, e procurarão casais de seu mesmo sexo e/ou gênero, deste modo eles terão uma identidade de gênero normal como homens ou mulheres respectivamente, como a grande maioria dos heterossexuais. Sobre uma população total de 6.500 milhões de habitantes na terra, estamos falando de um mínimo de 325 milhões de homossexuais. Sobre esta base demográfica e quanto à discussão sobre a presença da mulher nas Lojas Maçônicas em igualdade de condições com os homens, parecia difícil de conciliar para muitas Grandes Lojas Maçônicas masculinas. No dia 9 de setembro do ano de 2006, a Agência France Press

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(AFP) anunciava para todos seus abonados no mundo inteiro a celebração por parte da Grande Loja Maçônica Feminina da França (GLFF) de uma “Cerimônia Solene de Reconhecimento Conjugal” de um casal de lésbicas, em que a Maçona, professora de uns sessenta anos de idade, manifestava à agência noticiosa que “Fazemos isto porque este gesto tem alcance político, para nos aproximar a igualdade dos direitos, sem nenhuma exclusividade" acrescentando a seguir que "Não há perseguição ou exclusão na GLFF, mas não há posição a respeito e nossa idéia busca que o casal homossexual seja normalizado ". À cerimônia assistiram uma grande quantidade de Maçons e Maçonas de outras Grandes Lojas Maçônicas e Grandes Orientes que com sua presença ratificaram um conteúdo mais inclusivo que o tradicional para a liberdade e em relação às diferenças. Embora a notícia tenha surpreendido pela novidade do tema, colocaram sobre a mesa o velho tabu da Ordem da existência de homossexuais de ambos os sexos em suas colunas. Já fazia um ano e motivada por múltiplas discussões a respeito, a mesma GLFF tinha aprovado uma reforma constitucional para que os casais de lésbicas pudessem participar destes tipos de cerimônias sem nenhum problema. A verdade é que sempre existiram Maçons homossexuais. A Ordem usualmente se orgulha em público da qualidade de Maçom de Federico II, Rei da Prússia, a quem lhe atribui à redação das Grandes Constituições pelas que se rege o Rito Escocês Antigo e Aceito, apesar de sua indisfarçável conduta homossexual. Igualmente, honram-se os Maçons de ter contado em de suas fileiras de homossexuais da dimensão de Leonardo dá Vinci e Oscar Wilde, entre muitos outros. Sem contar, com que em cada Grande Loja Maçônica se sustenta em voz baixa à qualidade de gay de alguns de seus membros. Mas, é na França aonde a Maçonaria levou mais longe a tolerância frente aos gays e as lésbicas. Ali existe, há vários anos, uma associação denominada “Os Filhos do Cambaceres” (Les Enfants de Cambacérès) integrada por homossexuais, de ambos os gêneros, que pertencem a diferentes Grandes Lojas Maçônicas, a qual honra a memória do Maçom homossexual Jean Jacques Regis de Cambacérès, (1753 – 1824), Duque de Parma, Arquiduque do Império, segundo cônsul da República francesa, depois de 18 de brumario, de 1799 a 1804, membro da Academia da França, jurisconsulto destacado e dos autores principais do Código Civil Napoleônico ao qual ele também redigiu seu prólogo. Jean Jacques Regis de Cambacérès, em sua vida Maçônica desempenhou a dignidade de GrãoMestre adjunto do Grande Oriente da França de 1806 até 1815, período no qual se criaram 1.200 Lojas Maçônicas sob sua influência, e, além disso, foi membro do Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito. “Os Filhos de Cambaceres” em sua página Web manifestam que esse agrupamento é: “... uma fraternidade Maçônica interobedencial que brinda um espaço de liberdade de expressão e de oportunidades para os Maçons e Maçonas gays e lésbicas na França. Ela trabalha sobre diferentes reflexões com o fim de promover suas idéias de progresso e de tolerância.”

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“Depois de vários anos, um grupo de Maçons procurou um lugar para que, em plena liberdade de expressão, possam abordar um tema que toca suas próprias vidas privadas e que não podem expressar, sem dificuldade, em suas respectivas Lojas Maçônicas: o homossexualismo.”

O QUE HOJE DESUNE A MAÇONARIA LATINO-AMERICANA As três mais importantes associações Maçônicas latino-americanas são a Confederação Maçônica Interamericana (CMI), que é a mais antiga e só agrupa Grandes Lojas Maçônicas “Regulares”, a Confederação Maçônica Americana (COMAM), que reúne as Grandes Lojas Maçônicas de todo o continente sem restrição de nenhum tipo, e a Confederação Interamericana de Maçonaria Simbólica (CIMAS), que como a anterior tampouco exclui a Grandes Lojas Maçônicas e ostenta a mais absoluta liberdade de consciência. Entre estas duas últimas existem excelentes relacionamentos. Também existem outras de alcance regional, como a Confederação Maçônica Bolivariana (CMB), e a Confederação Maçônica de Centro-América e o Caribe (COMACAC); e de alcance nacional como a Confederação de dez Grandes Lojas Maçônicas do Peru. No México se reúnem anualmente várias associações correspondentes aos vários grupos em que está dividida a Ordem nessa nação, e no Brasil sucede algo similar. Mas, em geral, pode-se afirmar que a Maçonaria latino-americana está dividida principalmente pela defesa que vai além do dogma, que faz o setor regular dela, de três paradigmas fundamentalistas, mediante os quais um grupo de Grandes Lojas Maçônicas regulares, associados na CMI, exclui (e se exclui também) a cerca de 500 Grandes Lojas Maçônicas e Grandes Orientes que trabalham do Rio Bravo até a Patagônia. Esses três paradigmas, cuja observância é a base do cisma, são: 1) A adoção irrestrita da “Doutrina Americana” da Territorialidade aprovada em Baltimore, USA, em 1843; 2) A adoção dogmática, sem discussão, da listagem dos LANDMARKS propostos por Albert G. Mackey nos Estados Unidos em 1864; e 3) A adoção total dos oito pontos de Londres, de 1929, com a nova redação de 1989. É algo paradigmático sobre o que não podem negociar os Maçons Regulares e sobre o que está construído internacionalmente seu sistema de valores: zero mulheres, zero coxos, zero não crentes, zero não relacionados com Londres, zero política, zero religião, zero outra Grande Loja Maçônica em “seu” território, e total acatamento ao que disponha a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra. A história deste posicionamento é a seguinte: Em pleno século XX, um grupo de Grandes Lojas Maçônicas com sede nos países do sul e centro do continente americano, conformou na década de 40, no Chile, a Confederação Maçônica Interamericana (CMI), organização que, diante da

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incapacidade intelectual, ou a falta de vontade de apresentar uma proposta latino-americanista, ou a alienação Maçônica induzida pela geopolítica internacional, localiza-se na área de influência anglo-saxã – em um século que indiscutivelmente é anglo-saxão – adotando de um princípio como próprios os oito pontos de Londres e iniciando um grande esforço internacional para implantar a Maçonaria “Regular”, desqualificando de passagem à Maçonaria “Liberal”, a qual ofendem com o mote de “Irregular”. Qualquer debate sério relacionado com a Maçonaria “Liberal” fica proscrito e as visitas às Oficinas progressistas proibidas. Para escorar o anterior, a CMI proclama dentro de seus Fundamentos para um Direito Maçônico Interpotencial, aprovados para reger as relações entre suas Grandes Lojas Maçônicas membros, em seu numeral primeiro, que “as potências que aspirem a manter-se dentro de um regime jurídico de relação, deverão cumprir e aceitar os seguintes requisitos: regularidade de origem, isto é, cada Grande Loja Maçônica deverá ter sido legalmente estabelecida por uma Grande Loja Maçônica devidamente reconhecida por três ou mais lojas Maçônicas Regularmente constituídas em território que não esteja na jurisdição de uma Grande Loja Maçônica Regular”. Com esta medida zelosamente guardada fecha-se o círculo “Regular” da Maçonaria estabelecida no Centro, América do sul e o Caribe. Logicamente, esta obrigação não gera efeitos Maçônicos nas relações entre as demais Grandes Lojas Maçônicas e Grandes Orientes latino-americanos e seus pares no mundo inteiro. Na Colômbia, as Grandes Lojas Maçônicas pertencentes à CMI foram vinculadas à escola inglesa da “Regularidade”, e a seu círculo excludente na América Latina, a cada nova Grande Loja Maçônica que se criava, para que em seguida a Confederação Maçônica Colombiana (CMC), vigiasse mutuamente com o fim de que nenhuma além do projeto “Regular”. Tão rigorosa é a prevenção a seguir, que no artigo 4° dos Estatutos da CMC se consignou expressamente o que “as Grandes Lojas Maçônicas Confederadas não poderão manter relações de amizade com corpos Maçônicos que não estejam integrados em sua totalidade por Maçons Regulares”. Em realidade, esta é uma delegação da soberania das Grandes Lojas Maçônicas a favor de um ente suprapotencial; e na prática, esta norma é pedra angular da divisão da Maçonaria, já que as Grandes Lojas Maçônicas que não são “Regulares” não estão dispostas oficialmente a desmontar-se, retroceder ideologicamente e entregar seus bens. Paralelo com esta limitação, a Maçonaria Regular norte-americana e seus seguidores no resto do mundo, adotaram a “Doutrina Americana”, aprovada na Convenção Maçônica de Baltimore de 1843. Segundo este acordo, simultaneamente, poderiam trabalhar em um mesmo território Lojas Maçônicas federadas a uma mesma Grande Loja Maçônica. O contrário seria considerado “Invasão Territorial” e conduziria a irregularidade da Obediência “invasora”. A Convenção de Baltimore levou a cabo na cidade do mesmo nome, de 8 a 17 de maio de 1843, no Masonic Hall, em Saint Paul Street, com a assistência de 16 das 23 Grandes Lojas Maçônicas Anglo-saxãs, que para a época existiam nos Estados Unidos, sob a Presidência do Grão-Mestre da Grande Loja Maçônica da Virginia, John Dove. O tema central o constituiu o estabelecer uma “uniformidade no trabalho Maçônico”. Esta tese da territorialidade exclusiva, espúrea em Maçonaria até então, foi observada com rigor pelas Grandes Lojas Maçônicas “de brancos” norte-americanos, e não pela Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra, que conta com Lojas Maçônicas Simbólicas fora desse país, atuando

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simultaneamente com a Grande Loja Maçônica Regular nativa. Como vimos à intenção primitiva dos norte-americanos era segregar às Grandes Lojas Maçônicas PRINCE Hall dos Estados Unidos por estar integradas por negros. Por seu lado, e contrários ao cumprimento da Teoria da Territorialidade americana, a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra conta atualmente com 804 Lojas Maçônicas localizadas fora de seu território nacional. Na América se encontram 108 delas, das quais 21 trabalham na América do sul: 10 no Brasil, 9 na Argentina, 1 no Uruguai e outra no Chile. De igual maneira a Grande Loja Maçônica da Escócia possui 3 Lojas Maçônicas no Chile. Sobre esta “invasão territorial” a CMI nunca se ocupou, apesar de defender com muita ênfase a teoria da “Territorialidade Exclusiva” em seus países, como condição inegociável para o reconhecimento de uma Grande Loja Maçônica como Regular. E muito menos, as Grandes Lojas Maçônicas Regulares do Brasil, Argentina, Uruguai e Chile, por temor a que a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra lhes negue o reconhecimento, passando então a serem consideradas irregulares e expulsas por seus pares da CMI. O paradoxal do caso é que as Grandes Lojas Maçônicas regulares do sul e centro da América, todas elas, definem-se orgulhosamente como Potências Maçônicas “livres, independentes, autônomas e soberanas” que não são “dependentes, de maneira nenhuma, de algum outro poder ou corpo Maçônico”. É um assunto comum que as Grandes Lojas Maçônicas que pertencem a CMI mantenham relações tensas e pouco fraternais com aquelas Grandes Lojas Maçônicas de seus próprios países que não o estão. Em realidade, isto é conseqüência lógica de sua pretensão antifraternal de que desapareçam as outras Grandes Lojas Maçônicas. Um exemplo adicional, facilmente reconhecível por qualquer Maçom latino-americano, a respeito da antimaçonaria que se projeta da CMI, brinda-o a situação da Ordem no Peru. No país dos Incas existem na atualidade 10 Grandes Lojas Maçônicas, das quais a Grande Loja Maçônica do Peru é a única associada a CMI. As outras nove conformaram em 28 de março de 1992 a “Confederação de Grandes Lojas Maçônicas do Peru” (CONFEGLOMAS). Elas são: a Grande Loja Maçônica Oriental do Peru, a Sereníssima Grande Loja Maçônica Nacional do Rito Escocês Antigo e Aceito do Peru, a Grande Loja Maçônica Regular de Antigos Livres e Aceitos Maçons da República do Peru, a Grande Loja Maçônica do Norte do Peru, a Grande Loja Maçônica Austral do Peru, a Grande Loja Maçônica do Sul do Peru, a Grande Loja Maçônica do Centro do Peru, a Grande Loja Maçônica Ocidental do Peru, e a Grande Loja Maçônica Constitucional dos Antigos Livres e Aceitos Maçons da República do Peru. No mês de janeiro do ano 2006, reunida na cidade de Iquitos (Peru), a Confederação de Grandes Lojas Maçônicas do Peru, fez pública a seguinte Declaração de Huancayo, que se explica por si só; e que transcrevemos por conter elementos comuns com outros países. DAS MUITO RESPEITÁVEIS GRANDES LOJAS MAÇÔNICAS CONFEDERADAS DO PERÚ ÀS MUITO RESPEITÁVEIS GRANDES LOJAS MAÇÔNICAS DO MUNDO

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M:. RR:. IIR:., RR:. e QQ:.IIR:. S:.F:.U:. L:.I:.F:. A Confederação de Grandes Lojas Maçônicas do Peru, entidade com personalidade jurídica, de Direito privado, é uma Instituição Maçônica constituída como órgão aglutinador e coordenador das Grandes Lojas Maçônicas de Maçons livres e soberanos, constituídas no território do Peru, sob os influxos da Moral e da Razão, mantendo rigorosamente o caráter e a Tradição Maçônica fundamentada nos Landmark e nas antigas Grandes Constituições e Regulações Gerais da Ordem, usos e costumes da Maçonaria Universal, seguindo o exemplo de valiosos IIR:. que iniciaram a descentralização da Maçonaria Peruana lá pelo ano 1962. Frente às arbitrariedades e prepotências da Grande Loja Maçônica da Av. Corpac, autonomeada “Grande Loja Maçônica do Peru”, toda vez que peca de arrogância e pomposa soberba ao pretendê-la única e exclusiva Instituição Maçônica dentro do território de nosso amado Peru; arbitrariedades e prepotências que reincide novamente, como ao longo da história da Maçonaria Peruana, esta vez contra a Grande Loja Maçônica do Centro do Peru, conotada Instituição Maçônica de nossa Confederação de Grandes Lojas Maçônicas do Peru. Reafirmamos que: A Franco-Maçonaria é uma instituição essencialmente filosófica, Iniciática e progressista, que tem por objeto a busca da verdade, o estudo da Ética, a prática da Moral, a Solidariedade, trabalhando pelo melhoramento material e moral da humanidade. Tendo como princípios a TOLERÂNCIA e o RESPEITO MÚTUO, emoldurados dentro de uma absoluta Liberdade de Consciência. Os Deveres emanados da Constituição de Anderson de 1723 são os únicos Marcos reguladores aos quais podem sentir-se vinculados universalmente todas as potências Maçônicas, sem admitir jamais, a existência de nenhuma autoridade Maçônica superior. Nem a Grande Loja Maçônica da Inglaterra, nem a Grande Loja Maçônica da Av. Corpac, nem nenhuma outra têm o direito de estender seus princípios de regularidade, aplicando-os unilateralmente segundo seu critério, alienando a condição de Maçons aos Irmãos que regularmente a obtiveram segundo os deveres e regulações antes mencionados. E pior ainda, se entendermos, como deve ser, que o ser Maçom é uma maneira de ser, entender e viver a vida que NUNCA poderá ser cooptada para todos aqueles que têm feito de nossa Augusta Instituição, carne de sua carne, sangue de seu sangue e ossos de seus ossos. A Maçonaria peruana não poderá desenvolver seus postulados em um marco de exclusões e de uma pretendida hegemonia territorial, que não representa todas as aspirações que contempla a pluralidade da família Maçônica peruana. Portanto declaramos o seguinte: Lamentamos e rechaçamos energicamente a atitude não fraterna do M:.R:.Ir:. Tomás Álvarez Manrique em seu intento de desestabilizar a Grande loja Maçônica do Centro do Peru.

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A suposta identificação da Grande Loja Maçônica da Av. Corpac, com a Justiça e de defesa dos Direitos humanos, contradiz-se com a ação de seu G:.M:. que, fazendo mau uso das contribuições das Lojas Maçônicas cativas de províncias, viaja com uma comitiva pelo país perturbando a paz e harmonia com promessas e migalhas de poder, semeando a discórdia nas Lojas Maçônicas que livremente se separaram de seu patrocínio tratando de destruir as Grandes Lojas Maçônicas Confederadas do Peru, que sempre serão livres e soberanas. A Grande Loja Maçônica da Av. Corpac, não pode limitar a liberdade dos IIr:. que voluntariamente se desfiliaram dela, lhes impingindo adjetivos e ameaçando tomar represálias. Que é inaceitável a ingerência de organismos internacionais supramaçônicos como CMI, CMB nos assuntos da Maçonaria Peruana. Reafirmamo-nos na Declaração de Trujillo, de 31 de outubro 2005; como expediente da II CONVENÇÃO DAS GG:.LL:.MM:. do Peru (CONFEGLOMAS, Peru), grande evento ao qual foi convidada a Grande Loja Maçônica da Av. Corpac, como verdadeira amostra de abertura, de fraternidade e respeito. Finalmente, insistimos aos IIr:. confederados a manterem-se dignos e firmes no processo de construção de uma Maçonaria mais justa e solidária em nosso país, em consonância com o processo de descentralização político-administrativa, de afirmação e reconhecimento da pluralidade sociocultural de nossos povos. (Fdo.) Kember Mejía Carhuanca Presidente CONFEGLOMAS, Peru. (Fdo.) Pedro Andrés Zavaleta Callegari. Sec:. do CONFEGLOMAS, Peru IQUITOS, Janeiro 2006 e:.v:. Agora, para a devida compreensão da literatura produzida pela Maçonaria “Regular” convém ter claro que, quando se utilizam as palavras: mundial, universal, nacional, regional, local, etc., em realidade se está fazendo referência unicamente à Maçonaria “Regular” que trabalha no contexto geográfico a que se refere o texto, já que um costume muito arraigado, rara vez inobservado, obriga a invisibilizar totalmente às outras Grandes Lojas Maçônicas e Grandes Orientes que ali funcionam, principalmente se forem mistas ou femininas. Igualmente, ressalta dos congressos internacionais das Grandes Lojas Maçônicas Regulares, que sempre designa uma comissão de censura para estudar as exposições dos participantes e adverte expressamente que não fará leitura às que contenham temas polêmicos. Com esta disciplina se proscreve das discussões a liberdade de pensamento e de consciência, e, se evita a evolução desse setor da Maçonaria. Prova desta norma, constituiu-se, em Santiago do Chile, a VII Conferência Mundial das Grandes Lojas Maçônicas Regulares, celebrada de 5 a 9 de maio de 2004, que assim o anunciou nos convites emitidos para assistir ao evento. Contra esta forma de se dividir a Ordem, conspiram constantemente os meios de comunicação, e em especial a Internet, ilustrando aos novos Maçons que, graças a isso, encontra-se em uma fraternidade muito mais informada e inclusiva.

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Para falar a verdade, cada vez é mais difícil defender a teoria que se sustenta que ser “Regular” constitui uma melhor e mais legítima forma de “ser” Maçom; já que o que vai ficando claro, é que a “Regularidade”, concebida na forma exposta, contém um retrocesso ideológico impossível de aceitar para um livre pensador, além de ser a principal fonte de conflito entre os Maçons e Maçonas do mundo inteiro. O FUTURO

Interessa-me o futuro porque é o local onde vou passar o resto de minha vida. Woody Allen O DARWINISMO SOCIAL. LENDO OS SINAIS DA ESTRADA O mundo pelo qual transitou a Maçonaria durante três séculos já não existe Somente nos Estados Unidos o setor Regular da Maçonaria decaiu desde 1960 até o ano 2000 em 75%, quer dizer que de 4.000.000 de membros que tinha nesse então, solo conta hoje com escassos um milhão de Maçons. É uma verdade inquestionável que a Maçonaria Regular, vem em franco declive. E aqui incluo não só aos que aparecem no Livro List of Lodge dos Maçons anglo-saxões americanos e aos que aparecem no Year Book de Londres, mas sim a todos aqueles, que embora “Irregulares” por não aparecer neles, também praticam um estilo de Maçonaria dogmática e excludente, de corte Regular. Atualmente, o discurso Maçônico “Liberal” abriu passagem no espaço Maçônico Regular. O obstáculo na América Latina, e, por conseguinte na Colômbia, ao momento de levá-lo a prática por parte dessas Grandes Lojas Maçônicas, é que nestas, a definição como “Regular”, nos termos acordados por Londres, e impostos pela CMI e a CMC impõe-lhes limites ideológicos difíceis de superar. Seus dirigentes possuem muitas idéias fixas e suas colocações, tem uma grande quantidade de preconceitos. Simultaneamente os Maçons progressistas, pelo fato de sê-lo, requerem o contínuo aprofundar no estudo das novas correntes de pensamento, na busca de serem melhores interlocutores da sociedade contemporânea, e por que não, líderes na discussão dos grandes temas da sociedade das comunicações em que se transformou a humanidade. Eles, ao menos, criadores de espaços de debate dirigidos a ela, sobre as novas escravidões, como o vício, as drogas psicoativas, o alcoolismo, o tabagismo, o consumismo, a violência intrafamiliar, o ataque à ecologia, a propriedade intelectual sobre a biodiversidade, o maniqueísmo na bioética, as enfermidades sociais, o pensamento único, o fundamentalismo cristão e islâmico, a estupidez maciça que oferecem à imprensa, o rádio e a televisão, a diminuição da solidariedade social, o solapamento das bases da democracia, a permanência das monarquias que ainda subsistem, os direitos das minorias, a debilitação do Estado, o abandono da educação laica, os “Paraísos Fiscais”, etc. Ainda há muito tecido por cortar.

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Muito ao contrário do que se observa no mundo Maçônico “Regular”, observando as notícias, se nota que a Maçonaria “Liberal”, e aqui ficam incluídas principalmente as Grandes Lojas Maçônicas Mistas e Femininas, está crescendo exponencialmente, quer dizer multiplicando-se pelo seu próprio número. Inclusive, se nota como algumas Grandes Lojas Maçônicas “Regulares” têm feito trânsito para a mais absoluta liberdade de consciência e apresentam um grande dinamismo para a tendência liberal. É o que chama o instruído Maçom Jaime Castilla Camacho, as “tendências inevitáveis”. Um ponto digno de mencionar nesta modernização doutrinal é a modificação que a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra introduziu em seu sistema ritual em 1983 ao eliminar de suas liturgias toda menção a uma sanção física pelo descumprimento dos deveres Maçônicos. Desde essa data seus sinais evocam valores, mas não castigos. Outra atualização significativa nós encontramos na revisão que no ano 2005 levou a cabo o Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito da Maçonaria para a Jurisdição Sul dos Estados Unidos da América, sobre os rituais redigidos por Albert Pike, que vinha praticando desde a segunda metade do século XIX. Os novos textos preservaram a rica linguagem e o drama original, mas simplificaram e condensaram os trabalhos, eliminando o que se considerou material repetitivo. Assim, obteve-se, nas palavras de Ronald A. Seale, Soberano Grande Comendador, em seu relatório bienal do período 2003-2005, uma “melhor apresentação das cerimônias”. Os Maçons também são filhos de sua cultura nacional. Por exemplo, na Colômbia, só em 1991, obteve-se a igualdade legal da mulher e do homem graças à incorporação na Carta Magna dos Direitos humanos de 1948 na qualidade de Princípios Fundamentais. Entretanto, a igualdade social total ainda não chegou, apesar de que houve avanços importantes. Ao fim e ao cabo a Colômbia foi o último país latino-americano em outorgar o direito ao voto à mulher. A Maçonaria Regular colombiana, como muitas outras, tornou-se autista e prisioneira do passado por conta da “Regularidade”, e nela se repetiram, em privado e em público, as mesmas mentiras, tantas vezes, que terminaram por converter-se em verdades e dogmas inquestionáveis, chegando a ponto de que ainda existem Maçons que, do Or:. Et:. a governam no essencial e no doutrinário. Às novas Grandes Lojas Maçônicas, originárias de cismas operadas em Grandes Lojas Maçônicas Regulares, geralmente a liberdade de consciência os encontra em sua busca de fortalecer a auto-estima Maçônica institucional. É um ganho inesperado, que lhes gera grandes discussões internas, já que existe uma força inercial para os paradigmas da Regularidade que pouco a pouco vai se diluindo. Este encontro ideológico oferece oportunidades intelectuais e questiona paradigmas, e, como se fora pouco, as notícias que chegam pela Internet os deixam surpreendidos, porque lhes mostra, em toda sua dimensão, o quanto se atrasaram e qual é a dimensão da provocação que têm frente a si, qual seja, não só entregar uma boa Maçonaria às próximas gerações, mas também contar nas Oficinas com umas próximas gerações a quem entregar-lhe

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Uma vez neste ponto, terá que entender o jovem profissional de 25 a 35 anos de idade, que cursou uma pós-graduação que lhe outorgou um título recente, concernente com as necessidades atuais da sociedade, e possui conhecimentos em tecnologias variadas que não existiam tão somente faz uns poucos anos. Qualquer que seja a profissão deste novo ator social geralmente está cifrando suas expectativas em projetos de vida transcendentes mais transparentes, mais respeitosos com as mulheres e os deficientes, e mais abertos ao conhecimento científico que o que a Maçonaria Regular está oferecendo às Lojas Maçônicas, os quais lhes parecem muito anacrônicos e obsoletos. O futuro será daquelas Maçonarias que possam configurar suas regras e gerar ofertas Maçônicas que sejam palatáveis; e nesta direção, é importante conhecer o cliente, que no caso da Maçonaria é a sociedade profana real, e não uma bolha ideológica. Uma regra evolutiva indiscutível sustenta que: só o funcional se conserva no tempo. Preocupada com estes temas, recentemente a Grande Loja Maçônica Unida da Inglaterra, viuse na necessidade de contratar uma empresa assessora de imagem para rebater a diminuição de suas Iniciações e o pouco atrativo que encontra hoje a Maçonaria praticada sob o esquema “Regular”, frente aos novos projetos de vida familiar e social, aonde os Clubes só para Homens tendem a desaparecer. Desde 1961 existe CLIPSAS, que é uma associação Maçônica que propõe entre seus membros a possibilidade, para falar a verdade, exótica na Maçonaria Regular, de praticar a igualdade, a tolerância, a aceitação da diferença, e a sensatez pela qual sempre perguntaram, a que sempre quiseram e a qual desbloqueia a fraternidade que reclamam. Para persuadir alguns Maçons de abandonar séculos de tradicional divisão entre o homem e a mulher, ou entre regulares e irregulares, ou sobre os LANDMARKS que adotaram, não serve praticar o enfoque usual de elaborar Pranchas e discutir o tema nas Lojas Maçônicas. Requer-se ser proativo e tomar decisões de maioria. O consenso só se dá entre pusilânimes e não entre homens de intelecto cultivado. O normal entre estudiosos e pensadores é o desacordo nas perspectivas adotadas e nas conclusões a que se chegue. Chega um cidadão comum às colunas da Maçonaria Regular, iludido em encontrar um espaço para discutir temas que lhes são intelectualmente atrativos e importantes e o que encontra? Encontra, usualmente, uns senhores “boa vida” que se tomam a sério a si mesmos, que cada vez que fazem uso da palavra falam de “Regularidades” e “Irregularidades”, que se referem em termos depreciativos a outros setores Maçônicos, e que praticam muitas vezes um verdadeiro culto à personalidade de alguns outros Maçons. Outros mais, são como beatos das liturgias Maçônicas. E outros ainda, acreditam ser o umbigo moral e intelectual do mundo. E, embora se reconheça a boa fé no que fazem e uma inclinação geral ao conhecimento, à filosofia liberal e à conversação inteligente e faiscante, de todos os modos, são vistos como coisas do passado. Claro que, em honra à verdade, seria injusto não reconhecer que esse Aprendiz também encontrará algumas conversas que o reconfortem, condizentes com as expectativas que tinha no momento de sua Iniciação. Da mesma maneira podemos observar que uma ameaça muito distinta enfrenta a Maçonaria que se nega ser funcional, ideologicamente, na era atual. E esta consiste no fato inegável que a

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proposta que encheu de glória durante os séculos XVIII a XX a Ordem, corresponde à etapa da humanidade conhecida como Modernismo. Esta forma de conceber o mundo pertence às Reformas Liberais da Alemanha, o lema de Fraternidade, Liberdade e Igualdade da Revolução Francesa, a Independência da América, o Liberalismo político, as reivindicações nacionalistas, e a fundação de Clubes de Serviços como o Rotary, o dos Leões, etc. Atualmente, os grandes temas da Modernidade se encontram em crise frente a uma nova concepção da maneira ética de relacionar os homens em sociedade, que se deu em chamar pós-modernidade. O de hoje é o includente, o multicultural, o multiético, o plural e a revisão dos paradigmas. Frente à correlação histórica do pensamento Maçônico com a Modernidade e a perda de vigência desta, durante o transcurso do século XX, a Maçonaria conta com uma destreza que se esqueceu no caminho das exclusões e que lhe permitiria sobreviver como algo atual, mais à frente do fim da modernidade, e é o fato que das Constituições de Anderson se define expressamente como “ponto de encontro daqueles que, de outra forma não se conheceram” e o de servir para “unir o que está disperso”. É muito provável que seja esta a qualidade que brinde maiores e melhores oportunidades à Maçonaria para a congregação de novos homens e mulheres livres e de bons costumes destes tempos. Esta visão inclusiva é a que deve apontar a Ordem para apresentar à sociedade um projeto Maçônico sensato de construção individual e coletiva.

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ANEXO

DA ORQUESTRA DO TITANIC À REVOLUÇÃO DA TOLERÂNCIA* Grãos-Mestres e Grãs-Mestras, Irmãos e Irmãs, Há 400 anos, e a partir de sua experiência em múltiplas nações, a Ordem Maçônica vem acumulando uma grande experiência, assim como uma agregação cultural e filosófica que dificilmente se encontra em outra instituição. Embora para falar a verdade, este acumulado está centrado, em uma alta percentagem, na cultura ocidental já que os referentes nativos das civilizações árabes, orientais, africanas e ameríndias são realmente alheios a nosso acervo doutrinário modernista. Tanto é assim, que em muitos dos países destas regiões a Maçonaria é vista por amplos setores da população nacional como um instrumento histórico de penetração cultural e domínio colonial. Em um contexto globalizado e globalizante, como o pós-moderno que nos coube, está agregação, amalgamada em diferentes doses por toda a Terra, constitui em si mesmo uma oportunidade para a eficiência da Ordem, por quanto contamos entre nós com mentalidades abertas às novas compreensões e conhecimentos, assim como uma tendência inercial à dinâmica intelectual. Mas, não podemos esquecer que igualmente encontramos dentro da Ordem, Obediências paralisadas diante da impossibilidade real de assimilar uma mudança civilizacional que cada dia é mais vertiginosa e incontrolável. Para citar um só exemplo desta dinâmica incontrolável, e do tamanho do novo cenário de conhecimentos em que nos toca atuar, podemos trazer para contar, que a edição dominical do New York Times contém mais informação que tivesse podido acumular qualquer de nossos antepassados ao longo de toda sua vida, e que existem menos adiantamentos tecnológicos entre Cristóvão Colombo e nós que os que existirão entre nós e nossos filhos. As tradições e correntes de pensamentos espiritualistas, iniciáticos, esotéricos e metafísicos, de diversas antiguidades e origens, que em doses diferentes se incorporaram a alguma das formas atuais de conceber a Maçonaria - e que coexistem com a visão racionalista – contribuem com uma óptica que cada vez mais está sendo ultrapassada pela evolução das formas sociais da humanidade e estão atraindo, cada vez menos, livres pensadores às nossas Lojas Maçônicas. Não obstante o anterior, o fato certo e incontrovertível, é que do século XVIII - em que nasceu a Maçonaria Especulativa - o mundo seguiu rodando e a humanidade evoluindo. Darwin publicou A Origem das Espécies, Einstein deu a conhecer a Teoria Geral da Relatividade, vieram-se duas guerras mundiais, inventou-se o rádio, o televisor, o cinema, o computador, Internet, o avião, o foguete, as bombas atômicas e as mal chamadas bombas inteligentes; a mulher se igualou ao homem em seu desempenho social, e as neurociências fisiológicas e químicas lhe arrebataram à filosofia, a religião e a psicologia, o estudo dos sentimentos, as emoções, a consciência e o ego.

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O mundo de passagem se converteu em uma “Aldeia Global”. O homem chegou à Lua, decifrou o genoma humano e se confirmou que somos primos muito próximos do chimpanzé e do orangotango, e um pouco mais longínquos das árvores, e de todos os modos, literalmente falando, feitos da mesma matéria e da mesma energia que as estrelas. O sistema solar está infestado de satélites de exploração, a medicina descobriu as terapias genéticas, as possibilidades terapêuticas da clonagem, as células-tronco e os transplantes de órgãos; os meninos de hoje aprendem nas escolas mais coisas, e com muito diferentes enfoques, que as que aprendemos nós. Qualquer bacharel de hoje é multilíngüe, e sabe de espermatozóides, óvulos, AIDS e preservativos, do primário; e entendem – para horror nosso – que a homossexualidade é uma opção que pertence à área do livre desenvolvimento da personalidade e não uma aberração moral. E, além disso, estudam, como se fosse o mais natural do mundo disciplinas tão novas para nós, como a telemática, a robótica e a informática. Tudo isto, em um mundo altamente digitalizado que, pela primeira vez na história da humanidade, jovens integram a nova geração desde muito cedo, sabem muito mais que a anterior a respeito dos mais avançados adiantamentos tecnológicos e científicos. Quer dizer, que o futuro chegou-nos, sem que nos déssemos conta e resultou ser muito mais futurista do que nos tínhamos sequer imaginado. Realmente, estamos imersos no que os estudiosos chamam a terceira grande revolução da humanidade, considerada como as anteriores pelo tamanho do impacto em seu suceder. A primeira se deu no Neolítico quando o homem se tornou sedentário e descobriu a agricultura e a domesticação de animais; a segunda se deu no século XVIII quando se inventou a máquina a vapor, e aí estiveram os Maçons, se ajustando às novas mudanças e liderando os pensamentos progressistas; e a terceira é a que vivemos caracterizadas por aplicações não imaginadas do desenvolvimento da ciência e da tecnologia em todos os campos do saber da vida cotidiana. Para citar um só exemplo da rapidez com que avança a ciência e a tecnologia, basta-nos recordar que de acordo com o resultado de uma investigação realizada no ano 2003 pela Universidade da Califórnia em Berkeley a quantidade de conhecimento em poder do homem se duplicou entre os anos 2000 e 2002. E a aceleração deste fenômeno determinará que no ano 2020 o conhecimento humano se duplique a cada 72 horas. Temos desta forma, uma era vertiginosa denominada pós-modernidade em que estamos irremediavelmente imersos. E muito acertado se encontrava Jorge Valdivia, da Grande Loja Maçônica Mista do Chile, em um artigo de sua autoria titulado “Globalização e Maçonaria”, quando afirmou que, além disso, “a pós-modernidade é uma reação de desencanto para os objetivos e promessas não cumpridas pela modernidade, que se caracterizou como um amplo fenômeno crítico e dissolvente dos valores fortes do modernismo”. O ponto nevrálgico é que os sistemas de valores da Maçonaria, na maioria de suas formas atuais, estão unidos umbilicalmente com os dessa modernidade que agora desencanta. Quer dizer que, à primeira vista, os Maçons de hoje navegam como passageiros de um Titanic que irremediavelmente está afundando. Frente às mudanças de paradigmas que implicam esta dinâmica, grande parte da Maçonaria em especial a que se define como Regular - encontra-se em crise porque não sabe o que fazer. Diante da ausência de competitividade ideológica de seu discurso, opta por ensimesmar-se, e baterse em retirada à contemplação passiva do ideário que animou aos grandes homens do passado, atirando-lhe a culpa da falta de elasticidade e progressismo dos 25 LANDMARKS de Mackey, ou a qualquer outra listagem de LANDMARKS, ou circunstância tradicional. Em conseqüência, o número de suas Iniciações diminui e os membros abandonam as Lojas Maçônicas. Uns, por

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saturação; outros, pela busca de novas provocações intelectuais, mais de acordo com as novas sensibilidades e compreensões; uns mais, por questões de saúde; e outros, finalmente, por passarem ao oriente Eterno. Uns mais, porquê não dizê-lo, não sabem como explicar a seus próximos as exclusões e anacronismos de uma Instituição, na qual ingressaram, imaginando que a mesma era progressista. Faz tão somente 15 dias, aqui mesmo em Santiago do Chile, reuniu-se a VII Conferência Mundial de Grandes Lojas Maçônicas Regulares sob a premissa expressa de que nenhum Maçom introduzisse em seus trabalhos um tema polêmico, e se designou para tal efeito um Comitê de Censura prévia das exposições. É a orquestra do Titanic, tocando com fleumática dignidade no meio do naufrágio. Frente a esta ordem de idéias temos a importância da Ordem para a sociedade, e a da contribuição de suas Lojas Maçônicas, devemos localizá-la em sua capacidade de atuar como receptáculo comum para diferentes formas de pensamento e ideologias, e, na disciplina da Tolerância que ela exige como requisito para o encontro do diferente. E aqui entra a questão da dicotomia que se apresenta entre quantos maçons desejam conservar intacto o modo antigo de entender a Tolerância, limitado ao político e ao religioso, que já não alcança o suficiente para os novos líderes sociais. Os Maçons que reclamam uma nova leitura moral do conceito de Tolerância com o fim de estendê-lo às diferentes sensibilidades pós-modernas, ou ao que Javier Otaola chama com acerto “as grandes questões morais, políticas e ideológicas do século XXI que vão afetar nosso entendimento do sujeito humano e, portanto, da sociedade”. Um chileno extraordinário, Pablo Neruda, no ano 1971, ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, disse em Estocolmo algo da poesia que perfeitamente se pode afirmar da Maçonaria. Para este efeito, nos vamos permitir parafraseá-lo da seguinte maneira: ”... nenhum Maçom – ele disse: poeta – tem mais inimigo essencial que sua própria incapacidade para entender-se com os mais ignorados e explorados de seus contemporâneos; e isto rege para todas as épocas e para todas as terras”. Não obstante o anterior, a Maçonaria também conta com fortalezas a partir da utilização idônea das ferramentas da pós-modernidade. Hoje em dia, a utilização da Internet está construindo à Ordem um novo imaginário coletivo, unindo muitas memórias fragmentadas, que antes tão somente constituíam tradições locais ou regionais de limitados alcances. Deste fenômeno, indubitavelmente, está surgindo uma nova consciência do Maçônico e de seus desafios e oportunidades, tanto nos espaços progressistas e liberais, como nos regulares, que servirão de chocadeira às novas ações. Queridos Irmãos e Irmãs: quaisquer que sejam as orientações que estamos vendo desaparecer e surgir no interior da Ordem, o que está claro é que os Maçons não têm a capacidade absoluta de mudar a sociedade atual para adequá-la inteiramente aos nossos sonhos. E isto não é mau. A Maçonaria, entendida como uma instituição que gira ao redor de um eixo central que é a Tolerância, não nos oferece que adotemos um sistema de idéias determinado, mas sim convida a não impor a ninguém nosso particular sistema de idéias. Em realidade, hoje são muito mais funcionais para as remodelações sociais os partidos políticos, as ONG, a opinião pública e os fatores

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econômicos de poder. O importante, é que temos que viver dentro e de acordo com a diversidade que existe, com absoluta responsabilidade individual, social e de espécie. Esta é a questão principal. Hoje observamos novas formas associativas da Maçonaria Liberal, o CLIPSAS que nos congrega e o Fórum Reform, com sede na Alemanha, são apenas dois exemplos muito conhecidos. Sua presença é forte na Internet, e o fácil acesso a suas reflexões é a principal ameaça para a Maçonaria tradicionalista e dogmática, que vê como as idéias Maçônicas que conhecemos como progressistas se mencionam e discutem em suas Lojas Maçônicas com maior freqüência. O invisível se tornou visível. Agora, se assumirmos a devida perspectiva histórica, notaremos como a Maçonaria Especulativa - ao contrário do que sucede em muitas de nossas Maçonarias atuais, que apóiam sua apresentação nas imagens do passado - em seus primeiros 300 anos, quer dizer, mais ou menos de 1600 a 1900, apresentava-se diante da crítica profana a partir das executórias contemporâneas de alguns Maçons particularmente ativos em sociedade, seja no político, no científico, no artístico e até no esportivo. A Maçonaria, naquelas épocas, encontrava-se imersa em uma revolução cultural da Tolerância, que ainda se encontra inacabada, e que está longe de ser ganha. Para falar a verdade, nem sequer a ganhamos no interior da Ordem. Irmãos e Irmãs: para falar a verdade, é muito difícil de culminar esta revolução da cultura da Tolerância frente ao diferente, que fez sua a Maçonaria faz já quase 4 séculos, mas a sociedade e a Maçonaria sim vão ganhar muitíssimo, na prática, se cada Obediência e cada Maçom em particular, nesta era de definições pós-modernistas, tenta na medida de suas possibilidades. ... Ou em palavras de Albert Camus, dedicam-se a “inventar no planeta uma paz que não seja a da servidão”. Eis aqui uma maneira de ir da teoria à prática.

Muito obrigado

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