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ARTIGOS

Perversão e ética na clínica psicanalítica

Silvia Lira Staccioli Castro
Mestranda em Psicologia Clínica na PUC-Rio.
Psicanalista
Endereço: R. Vilhena de Moraes 100, bl.4/403,
Barra da Tijuca – Cep: 22793-900
e-mail: silviaflira@yahoo.com.br

Ana Maria Rudge
Professora do Programa de Pós-graduação e do
Curso de Graduação em Psicologia da PUC-Rio
Membro Psicanalista da Sociedade de
Psicanálise Iracy Doyle
Pesquisadora do CNPq
Rua Marquês de São Vicente, 225 - Gávea -
22543-900
Rio de Janeiro - RJ - Tel. (021) 3114 1184 / FAX
3114 1187
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RESUMO
O artigo examina a noção de perversão em psicanálise,

78 REVISTA MAL-ESTAR E SUBJETIVIDADE / FORTALEZA / V. III / N. 1 / P. 78 - 95 / MAR. 2003

78 . referring to the polimorf perverse character of the infantile sexuality. In the clinical scene. na metapsicologia freudiana. como o de que o perverso não está sujeito à angústia e é inacessível ao tratamento psicanalítico. Palavras-chave: perversão. whose paradigm is fetishism. III / N. Several theoretical contributions to the subject are examined. in Freudian Metapsychology. that they are not acessible to psicanalytic treatment. Algumas formas em que o analista pode ser afetado pelas manobras do discurso perverso são examinadas. Some places where the analyst may be placed by the perverse REVISTA MAL-ESTAR E SUBJETIVIDADE / FORTALEZA / V. São examinadas proposições sobre o tema. em uma reflexão que tem como foco a clínica psicanalítica. like the one that asserts that those patients are not subject to anxiety and. que dá conta de uma sintomatologia peculiar. angústia. recusa. duas diferentes acepções do termo perversão: uma de alcance estrutural. referente ao caráter perverso polimorfo da sexualidade infantil. é como um discurso perverso na transferência que a perversão é examinada. There are. incluindo as lacanianas que promoveram grande avanço ao estudo.ARTIGOS PERVERSÃO E ÉTICA NA CLÍNICA PSICANALÍTICA questionando certos mitos. including the lacanians. No cenário clínico. fetichismo. 2003 79 . Distingue-se. which promoted a great advance in this field. Este discurso. e outra. busca do interlocutor que ateste a eficácia da insubmissão à Lei. the other one.95 / MAR. This speech. e visa contribuir para esclarecer o encaminhamento que pode ser dado pelo analista ao tratamento destes pacientes. cujo paradigma é o fetichismo. two different meanings for the term perversion: one structural. consequently. engendrada pela recusa frente à castração. 1 / P. refers to a specific sintomatology which is produced by the disavowal of castration. it is as a perverse discourse in transference that perversion is considered. looks for an interlocutor who certifies the effectiveness of the unsubmissiveness to the Law. performative par excellence. performativo por excelência. castração. ABSTRACT The article examines the notion of perversion in psychoanalysis. questioning certain myths.

as perversões ganharam importância na medida em que foram trazidas à alçada do conhecimento científico. Como conseqüência. de “anomalia sexual” em algo que se situaria no âmbito da normalidade. no que diz respeito a este tema. visto que. se encontram muitas referências à nosografia psiquiátrica da época. transformando-a. Outros. é necessário remontar à primeira concepção elaborada por Freud nos primórdios da psicanálise. portanto. já que as perversões sexuais deixaram de ser vistas como desfaçatez e passaram a ser compreendidas como doenças.ARTIGOS SILVIA LIRA STACCIOLI CASTRO E ANA MARIA RUDGE discourse maneuvers are examined. e defini-la com maior precisão no campo da psicanálise. in a reflection that has as its main focus the psicanalytic clinic and tries to clarify how the analyst should deal with the treatment of these patients. Keywords: perversion. disavowal. representou uma grande mudança histórica. castration. anxiety. 78 . tornando-se a referência maior no estudo deste tema (Lanteri-Laura. Para problematizar a perversão. a medicina moderna se apropriou das perversões sexuais. por trás do que era considerado como um desvio no comportamento sexual. visto que Freud teve que se apoiar nesta literatura psiquiátrica. como fonte de saber para a nova ciência que tencionava criar. A busca de uma motivação orgânica. A importância deste estudo se deve a uma possível zona de imprecisão. ao tomar a perversão como paradigma para caracterizar a sexualidade infantil. em sua obra. como Lanteri-Laura (1979). III / N. 1 / P. 1979). fetishism. Vários autores acentuam o grande corte que Freud teria operado em relação às concepções anteriores. 2003 . e esta transposição de uma 80 REVISTA MAL-ESTAR E SUBJETIVIDADE / FORTALEZA / V. Cabe revisar o conhecimento sobre as perversões sexuais difundido na época em que Freud iniciou seus estudos. Impulsionada por uma demanda do direito positivista. consideram que o corte empreendido pelo pai da psicanálise com a psiquiatria não teria sido tão radical.95 / MAR. localizada na fronteira entre a psicanálise e o discurso médico. A perversão ganhou na psicanálise outro estatuto que não aquele que a medicina lhe concedera.

que são um pressuposto necessário da definição de perversão como desvio.157). a perversão designava a qualidade da sexualidade infantil. perdem sua sustentação dentro do enfoque psicanalítico da perversão. apesar de Freud ter se utilizado do conhecimento produzido pela psiquiatria moderna. abordou o tema de forma inédita e subversiva. III / N. cujo texto de referência é Três ensaios sobre a sexualidade infantil (1905/1996a). No primeiro momento de construção teórica freudiana. 1919/1996c). mas. 1 / P. Freud inicialmente localizou a etiologia da perversão sexual no adulto. como um saber inato. Daí o célebre axioma de que “a perversão é o negativo da neurose” (Freud. foi revista em 1919. Quando Freud caracteriza a sexualidade infantil como polimorfa e perversa. 1905/1996a. que categorizava as perversões como tipos de anomalia. o que o destinaria ao laço social. Portanto. por isto mesmo. e caracterizada como perversa polimorfa. 78 . e determinaria a importância fundamental das primeiras experiências e relações na constituição de sua sexualidade e psiquismo. 1908/1996b). não se manteve em suas fronteiras. p. Apoiado neste pressuposto. foi universalizada e tomada como o solo em que se constitui a própria sexualidade adulta. devido às numerosas formas de satisfação. na qual prevalecem as pulsões anárquicas e desorganizadas. No espaço em que o instinto no animal. através do recalque de certos componentes. A atividade sexual habitualmente praticada pelas crianças. quando um novo REVISTA MAL-ESTAR E SUBJETIVIDADE / FORTALEZA / V. As normas quanto ao que seria a conduta sexual sadia. não há mais um objeto pré-determinado e natural para a pulsão sexual: estes objetos são contingentes como as primeiras experiências que os determinaram.ARTIGOS PERVERSÃO E ÉTICA NA CLÍNICA PSICANALÍTICA noção para um campo teórico diverso não se faz sem uma transformação. Freud valorizou a precariedade do equipamento inato de adaptação do bebê. no artigo intitulado Uma criança é espancada: uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais (Freud. numa fixação em uma pulsão parcial especialmente intensa que. garantiria a tendência biológica para a adaptação. teria escapado do recalque.95 / MAR. pelo contrário. A tese inicial. 2003 81 . de que as fantasias que são recalcadas na neurose são atuadas sem culpa e conscientemente na perversão (Freud.

e. Fetichismo: paradigma da perversão Tendo desenvolvido a equivalência simbólica entre fetiche e pênis da mãe (1910/1996d) e apresentado a recusa como o mecanismo psíquico operador desta equação (1923/1996e). 1927/1996f). em estado livre” (Lacan. Freud localizará a organização psíquica perversa como uma forma de se posicionar em relação ao complexo de Édipo (1919/1996c). a perversão propriamente dita está para além de um desvio de objeto sexual. não se deve mais entender que o que é recalcado na neurose “esteja a céu aberto na perversão. ela não está mais acompanhada do adjetivo sexual. p.208). A posição neurótica de submissão à castração. Embora a concepção da perversão. característica da sexualidade infantil. com o qual o sujeito estabelece uma relação de exclusividade e fixação. 2003 . como Freud pensara em 1905. não era mais possível admitir como critério de diferenciação entre neurose e perversão. diante da castração. tão comumente relatada na clínica. 115). como expressão de um infantilismo sexual ainda possa ser encontrada até os dias de hoje. 1956-1957/ 1995a. para evitar a angústia de castração (Freud. Além disso. na própria metapsicologia freudiana se diferenciam a perversão polimorfa. Nesta via. 1919/1996c. Freud constatou que a fantasia de espancamento. mais precisamente. em que os desejos edipianos são transformados através do recalque e/ou 82 REVISTA MAL-ESTAR E SUBJETIVIDADE / FORTALEZA / V. 78 . assim como outras “fixações perversas análogas” (Freud. de certa maneira.95 / MAR. “cicatrizes” deixadas pelo processo. eram apenas resíduos do conflito Edípico. daquela que é efeito da posição do sujeito que. escolhe recusá-la. 1 / P. Dessa forma. III / N. Nesse novo contexto. respectivamente.ARTIGOS SILVIA LIRA STACCIOLI CASTRO E ANA MARIA RUDGE panorama se configurou pela investigação da fantasia perversa construída na análise de neuróticos. sequer poderia ser compreendida como manifestação de sexualidade infantil não recalcada. Desta vez. o caráter inconsciente ou consciente das fantasias. p.

já que a castração era negada na mulher e. e igualmente a falta. pode-se concluir que o fetichista não apenas recusa. neste sistema. dissimular o pênis. Dessa maneira. ainda que Freud não o tenha comentado. identificado-se com ela (Valas. 1990. Uma aversão aos órgãos sexuais femininos nunca se acha ausente no fetichista. ao mesmo tempo em que se feminiliza. 156) para manter este saber afastado. O fetiche deste homem era um suporte atlético que também podia ser usado como calção de banho. Mantendo a mãe fálica. Contra a ameaça de castração. por função. pois o perverso não tem uma percepção alterada da realidade: o saber sobre a vagina permanece mesmo naquele que o recusa. recusando-a através da instituição do fetiche. Freud deixa claro que a recusa não deve ser confundida com uma manobra psicótica. Assim sendo. A operação de construção do fetiche se funda no deslocamento do interesse pelo pênis para outra parte do corpo. mas também admite a castração. solução de compromisso frente à angústia de castração. 1994). p. o menino poupa seu próprio pênis. Dessa maneira. Ademais. ela permanece como um “stigma indelebile” REVISTA MAL-ESTAR E SUBJETIVIDADE / FORTALEZA / V.95 / MAR. 1 / P. eliminando. 1927/1996f. a diferença sexual. 2003 83 . símbolo do pênis da mãe. é uma das possibilidades de saída do complexo de Édipo. tendo como função subjetiva preservar a crença no pênis da mãe. representada no homem.100). sem que uma anule a outra. III / N. 78 . p. neste caso. não vigora o princípio da não-contradição. o menino elimina a diferença sexual. ao mesmo tempo. destrói a prova da possibilidade de castração. alternam no inconsciente duas representações opostas: “a mãe (mulher) tem pênis” e “a mãe (mulher) não tem pênis”. o objeto tinha. mas não a única. o que faz necessária a realização de “uma ação muito enérgica” (Freud. havia. uma espécie de travestismo. fato que neutraliza a angústia. pois. Trata-se de uma formação defensiva inconsciente. o sujeito pode reagir contrafobicamente (Assoun.ARTIGOS PERVERSÃO E ÉTICA NA CLÍNICA PSICANALÍTICA sublimação. Segundo Valas (1990). desse modo. Um caso clínico apresentado por Freud em 1927 ilustra bem esta dinâmica.

ARTIGOS SILVIA LIRA STACCIOLI CASTRO E ANA MARIA RUDGE (Freud. Novo paradigma da perversão Lacan (1956-1957/1995a) localizou o surgimento das perversões num momento em que a mãe é objeto de amor tanto do menino como da menina. III / N. pela recusa da castração e. pelo recalque da recusa (Rosolato. Recalque e recusa não são exclusivas. o perverso precisa recusar as mais simples observações do cotidiano. mas estão presentes ambos no fetichismo. A mulher se torna tolerável como objeto sexual. e sua atividade em prol da recusa. num momento posterior. pelo contrário. p. p.157) da incidência do recalque. Ironicamente.. controle. 1967. na medida em que esta falta é recoberta. É o esforço defensivo contra o desejar que promove a incessante atividade (.197).). Para manter-se protegido da angústia. o perverso tem um enorme trabalho. 84 REVISTA MAL-ESTAR E SUBJETIVIDADE / FORTALEZA / V.. 1964/1998a).. surgindo nas várias formas de sedução. 1956-1957/1995a. p.9). e que ele qualificou como “pré-edipiano” (Lacan.95 / MAR. Constitui-se. é freqüentemente interpretada como efeito de um compromisso com o desejo. 1927/1996f.6-7). O perverso trabalha para não desejar. mas esta observação pode ser ampliada para os efeitos da recusa à castração de modo geral: Para obter esse efeito [que a angústia não sobrevenha]. Lacan compara o masoquista a um burro de carga (Lacan. e isto exige dispêndio de grande soma de energia. A cisão do eu que resulta disto é uma fenda que nunca se fecha. etc. 1 / P. da qual o fetiche fazia parte. no plano imaginário. mascarada pela ilusão. A perversão se constitui em dois tempos: num primeiro momento. 1940[1938]/1996g). o que permite ao fetichista escapar do homossexualismo. Esta cisão pode envolver uma clivagem da própria vida. mas. da qual todo o seu esforço é para se evadir (Rudge. 2003 . cuja lembrança encobridora é a última imagem da mãe fálica. aumenta conforme o tempo passa (Freud. é o inverso. p. 78 . 1999. já que o desejo remete para a angústia de castração.

o pai exerce sua função simbólica ao provar para o filho que possui o objeto real que a mãe deseja. Na neurose. demonstra o quanto esta recusa não anula. existe uma Lei inscrita. 1963/1998b). 1999. assim. 2003 85 . como Clavreul (1967).793). um equivalente do bem no sentido kantiano. trata-se mais de um desafio. mas também quanto ao desejo e.95 / MAR.230). por sua própria reiteração cotidiana. na recusa. Quando o plano da relação simbólica suplanta o da relação imaginária. 1 / P.)”(Roudinesco et Plon. a angústia de castração que está instalada. afirmam taxativamente que. Em seu texto Kant com Sade. a criança se recusa a saber sobre a diferença sexual e a admitir a falta. A insistência sintomática na transgressão. o verdadeiro. O Outro. Trata-se de um Deus obscuro.. o sujeito não se submete à Lei paterna. Assim. o reconhecimento da castração da mãe. Na perversão. cuja castração é recusada. Ser-em-suprema-maldade.. Inscreve. III / N. sem dúvida. quanto àquilo que lhe falta” (Ibid. no sentido sadiano. Dessa maneira. ao qual aludiu Sade em sua obra. o Outro é alguém que possui “o falo. assumirá formas variadas. permite ao sujeito se confrontar com sua própria falta. o pênis real” (Ibid. na vassalagem fálica que o reduz a um objeto.ARTIGOS PERVERSÃO E ÉTICA NA CLÍNICA PSICANALÍTICA uma relação enganadora. na qual o filho oferece à mãe a possibilidade (irreal) de satisfazê-la: “não somente como criança. de uma vez por todas. 7).213) e não mais um objeto imaginário. interditando a mãe ao filho. p. p. já que. Alguns autores. que faz do perverso um “objeto eterno” (Lacan. 1997. a primeira Lei. a que funda todas as demais. revelando a este a sua falta e seu equívoco quanto ao lugar que pensava ocupar na dinâmica do desejo da mãe. 78 . o que recoloca o papel fundamental do masoquismo em toda perversão” (Rudge. o fetiche se torna o símbolo de seu drible sobre a castração. p. “Lacan fez do mal. Este Deus maldoso é um espectador muito especial para quem a vocação para a cena do perverso é endereçada: “supereu cruel. REVISTA MAL-ESTAR E SUBJETIVIDADE / FORTALEZA / V. p... este Outro primordial. para dizer tudo. Na verdade. para mostrar que a estrutura perversa se caracteriza pela vontade do sujeito de se transformar em objeto de gozo oferecido a Deus (. de forma diversa.

a recusa tem como efeito neutralizar a angústia que poderia advir da relação amorosa com o outro. enquanto o masoquista exibe-se abertamente como objeto. no sadismo.(Lacan. realmente. tanto mais satisfatório quanto é inanimado. como vimos. Amar um chinelo é. Em segundo lugar. faz da angústia da vítima uma condição absolutamente exigida” (Ibid. o objetivo de suscitar a angústia no outro é bem mais explícito do que no masoquismo: “tão pouco escondido que vem antecipadamente na fantasia. há duas diferenças a assinalar entre eles. Lacan enfatiza que tanto o sádico como o masoquista. III / N. Esta condição também vigora para o masoquista. Do mesmo modo. 85). se oferecem como instrumento de gozo do Outro. Primeiramente. p.202). ele ficará muito tranqüilo. é mais garantido. O fim último do rito sádico não é causar sofrimento. embora inconsciente para ele. p.. 1956-1957/1995a. o sádico ignora que trabalha para um Deus obscuro. O ato perverso não é.ARTIGOS SILVIA LIRA STACCIOLI CASTRO E ANA MARIA RUDGE Nessa medida. ter o objeto de seus desejos ao alcance. o próprio sujeito diz que encontrou finalmente seu objeto. a qual. O enigmático desejo sádico é apreensível apenas por seu efeito. que é submeter o outro e provocar sua angústia.95 / MAR. mas.112). Um objeto desprovido de qualquer propriedade subjetiva. mas radicalizar a divisão do outro (Lacan (1962-1963/1995b). a atuação de uma fantasia de desejo que seria inconsciente na neurose. como seu “fetiche negro” (Lacan. p. busca erradicar o desejo. 1964/1998a. pelo contrário. No fetichismo. seu objeto exclusivo. intersubjetiva. Entretanto. p. Esta posição de objeto diz respeito à perversão em geral. 78 . certo de não sofrer decepção por parte dele. 1 / P. colocando-se em posição de objeto.175). 1962-1963/1995b. não castrado. o sádico desempenha este papel de forma inconsciente. É isso o que o masoquista também 86 REVISTA MAL-ESTAR E SUBJETIVIDADE / FORTALEZA / V. ao menos. Assim. pois enquanto na primeira o sujeito se coloca como “objeto de uma vontade outra”. De fato. na segunda se sustenta como desejante (Lacan. se a analisamos. até mesmo transubjetiva. já que este implica a castração. 2003 . perversão e fantasia se contrapõem.

e caracterizado por seu aspecto performativo. Entretanto. não se pode esquecer que. fundado na recusa da castração. no qual o perverso costuma ser um mestre. III / N. o fim e a morte. 78 . recusando.6). p. 2003 87 . provoca o constrangimento de seu algoz. em que o perverso razão diz e desdiz. o que provoca em Deleuze (1983) o comentário de que a vítima educa seu carrasco. Embora o perverso tenha preservado inabalável o narcisismo REVISTA MAL-ESTAR E SUBJETIVIDADE / FORTALEZA / V. 1980). desta forma. embora de maneira bastante menos óbvia. mas não tem intenção alguma de honrar suas promessas. consiste em produzir a ilusão de um enunciado que só se refere a ele mesmo (Felman. Que o domínio permanece nas mãos do masoquista é o que se pode depreender do papel do contrato. 1962- 1963/1995b). basta recorrer à literatura libertina assinada por Masoch (1870/1983). Além do mais. é vilipendiado e penalizado. O truque da sedução. que deve ser assinado pela parceira e do qual constam. Brincar com os performativos é uma das formas de transgredir a lei. o período de duração do vínculo e os castigos a serem aplicados. Discurso perverso: recusa em ato A clínica psicanalítica é o território para circunscrevermos o discurso perverso. qualquer coisa que lhe poupe angústia na situação em que estiver envolvido. em última instância. apenas se diverte com a propriedade auto- referente de seus enunciados e com a satisfação narcísica do interlocutor que se compraz com a imagem ideal de si que o sedutor lhe oferece. Como exemplo. sonho de toda mulher porque nada lhe falta (Lacan. já que ele é quem apanha. a cisão do eu instaurada pela recusa “fundamentaria uma labilidade argumentativa. por sua força de ação. Para mencionar o grande sedutor. A promessa apresenta-se como um dos seus principais modus operandi. sem compromisso com o que enunciou” (Rudge. que deu nome ao quadro na nosografia psiquiátrica. 1999. enumerados em todos os detalhes. talvez sem mentir.ARTIGOS PERVERSÃO E ÉTICA NA CLÍNICA PSICANALÍTICA busca. descumprindo o pacto firmado. parasita o performativo pela repetição infinita. 1980). o tempo.95 / MAR. desta maneira. 1 / P. a castração (Felman. Assim. Don Juan não mente.

enquanto algo de inesperado não lhe retira o tapete de sob os pés. as insígnias que porta (Clavreul. na escolha do parceiro. principalmente de respeitabilidade.133). 1 / P. mesmo inocente. ele precisa de quem lhe ateste o sucesso de sua recusa à castração. o discurso perverso precisa da lei. Bem diferente do neurótico. Como pontuou Zalcberg (1995.90): “O perverso necessita da materialização dessa imagem [falo] como suporte de seu ser. para que o outro se encontre extraído de seu sistema e para que ele tenha acesso a um gozo cujo domínio o perverso se vangloria de ter. (Clavreul. assuma a culpa. 88 REVISTA MAL-ESTAR E SUBJETIVIDADE / FORTALEZA / V. especialmente se sujeito a sentimentos depressivos e de desvalia. seus valores. 2003 . em qualquer circunstância. e que o do masoquista é o sádico. se um dos seus traços é desafiá-la. o que ele consegue preservar é apenas a ilusão de ser completo. Sem chegar a tais extremos.ARTIGOS SILVIA LIRA STACCIOLI CASTRO E ANA MARIA RUDGE vinculado aos seus órgãos sexuais. 78 . é um neurótico que se encaixa bem nesse papel. O discurso perverso busca unificar a imago de si e retomar a experiência de onipotência desfrutada pelo eu ideal (sentimento que sabe perdido por sua confrontação com a castração). p. que o que continua sendo mais importante para o perverso é o fato de o Outro estar comprometido. o fracasso. através da identificação com o falo do Outro. o perverso também procura um parceiro que. III / N.95 / MAR. a fragilidade e a incompetência. 1967). 1967. Para que sua performance seja bem-sucedida. ou seja. p. que busca esse sentimento através de seus ideais. para que cada nova experiência represente uma devassidão. desmentindo o que aparece na cadeia significante sob a forma de falta”. é um equívoco crer que o par do exibicionista é o voyeur. no entanto. Também interessa para o perverso. digamos. de uma forma que lhe garante um revestimento narcísico muito mais denso que o do neurótico. inscrito o suficiente nas referências comuns. sua virtude. Por isso. Afinal de contas. Geralmente.

é fácil cair nos extremos: numa posição moralizante por um lado e perversa por outro. a defesa contra a castração está. III / N. como apontou Clavreul (1967). de formas muito angustiantes para o analista.95 / MAR. Portanto. O analista é solicitado como participante do ato perverso que se reproduz em análise. se a castração é recusada. há indícios de que a angústia não pode ser neutralizada de forma total. sujeita a fracassar. quando o analisando se oferece como REVISTA MAL-ESTAR E SUBJETIVIDADE / FORTALEZA / V. Para delegar ao analista a angústia de castração. e são até muito comuns. Isto se dá. pois. é porque ela foi inscrita e reconhecida. das “mais depravadas e híbridas” (apud Helsinger. a todo o momento. assim que se dê o deslocamento da libido que caracteriza o estabelecimento da transferência. como no caso relatado por Dor. 78 . o caminho fica livre para a emergência de angústia. é possível refletir sobre as peculiaridades de um discurso perverso e sua manifestação na clínica. É evidente que há grandes empecilhos ao trabalho psicanalítico. pois. Quando a vida impõe fracassos às estratégias da recusa. o discurso perverso poderá buscar acirrar sua divisão. p.133). A aposta na vacilação deste arranjo defensivo contra a angústia faz crer que a clínica da perversão não se reduz a impasses. 2003 89 . pois a tolerância a uma certa dose de angústia é necessária para o trabalho de elaboração. e esta tolerância pode se mostrar muito reduzida. Não há dúvidas de que eles existem. Sabe-se que o discurso perverso invoca cumplicidade quanto a sua insubmissão à castração. às vezes. 1 / P. o que não deixará de ocorrer na análise. em que um paciente lhe disse que sua filha era uma de suas parceiras sexuais. 1996.ARTIGOS PERVERSÃO E ÉTICA NA CLÍNICA PSICANALÍTICA Considerações finais Através da discussão desenvolvida sobre a função simbólica do fetiche e sua relação com a recusa da castração. O manejo da transferência é extremamente delicado. Apesar de a constituição do fetiche e outras manobras da recusa produzirem um triunfo sobre a castração. A vontade de gozo perversa envolverá o analista.

Quando o desejo está obturado pela “consistência do gozo” (Miller. 1 / P. 78 . 2001. G. não se deve desconsiderar o sofrimento de um sujeito condenado à repetição do sintoma. 9-49). Rio de Janeiro: Zahar. Desta forma. F.39). Se o analista deve ocupar. (1990). RS: Artes Médicas. In J. Clavreul. Apesar destes obstáculos na clínica ressaltados nos parágrafos acima. a recusa tem como conseqüência que não se vai buscar análise com uma demanda de saber sobre o desejo. que se colocam como deficitários na medida em que procuram pelo objeto perdido (Miller. 1996) graças ao sucesso da recusa. ao invés de repetir. Por outro lado. P. Aulagnier- Spairini. 1996. G. J. Perrier. um estranhamento em relação ao lugar que ocupa diante do Outro. (1990). p.Valabrega. no analisando. esse lugar de objeto ou de instrumento de gozo. São Paulo: Papirus.-P. (1994). Esta é a posição dos neuróticos. O analista é retirado do lugar de sujeito-suposto-saber e colocado no de sujeito-suposto-gozar. O casal perverso. Porto Alegre. posição que. e é por este caminho que o tratamento deve ser conduzido. Clavreul. para fazer revelar ao analisando a sua verdade. Rio de Janeiro: Taurus. Quando dizer é fazer. o lugar de causa do desejo. o paciente deve elaborar. o que talvez a análise possa fazer é suscitar. Helsinger. Apresentação de Sacher-Masoch . A impostura perversa. o analisando pode disputar o lugar de semblante de objeto a. 90 REVISTA MAL-ESTAR E SUBJETIVIDADE / FORTALEZA / V. III / N. Le fétichisme.ARTIGOS SILVIA LIRA STACCIOLI CASTRO E ANA MARIA RUDGE “instrumento de gozo no próprio cenário analítico” (Helsinger. (1995). cujo desejo é aniquilado. L. 2003 . Referências André. Paris: Presses Universitaires de France. S. P-L. Rosolato & J. 2001). Assoun. O desejo e a perversão (pp. na clínica. o discurso perverso obstrui esta operação. (1983).95 / MAR. J. no discurso analítico. Como nos ensinou Freud. é o do analista. Austin. Deleuze.

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