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RESENHA: GÊNESE DOS DISCURSOS

Giane Taeko Mori RODELLA (FFLCH/USP)

1. Introdução

O professor Dominique Maingueneau ensina Ciências da Linguagem na
Universidade de Paris XII-Val-de-Marne e pesquisa os fenômenos da enunciação, com
ênfase no discurso. Dentre as diversas obras que publicou, é autor de Gênese dos
Discursos, a qual, como em seus trabalhos recentes, se volta para a teoria dos discursos
constituintes.
Esta resenha da citada obra tem o intuito de propagar pontos da teoria que
merecem ser refletidos.

2. Contato com a obra
Gênese dos Discursos, publicada em língua nacional no ano de 2008, com
tradução de Sírio Possenti, professor de Análise do Discurso na UNICAMP, é uma obra
fundamentada em algumas ideias de M. Foucault e na esteira de produção dos trabalhos
baseados em Pêcheaux. Nessa linha de raciocínio, Maingueneau propõe uma teoria que
procura contemplar alguns aspectos da discursividade que são afetados pelo além da
relação direta entre a língua e a história, conforme afirma o próprio tradutor na
apresentação.
A título de esclarecimento, na introdução, o analista francês define a concepção
de discurso a ser utilizada em sua teoria: “(...) uma dispersão de textos, cujo modo de
inscrição histórica permite definir como um espaço de regularidades enunciativas.”
(Maingueneau, 2008, p. 15). Essa concepção se insere, portanto, em objetos que se
estabelecem como integralmente linguísticos e integralmente históricos. Como unidades
constituídas por sistemas significantes e de enunciados, esses objetos se vinculam à
semiótica textual e ao motivo que a história fornece para as estruturas de sentido que os
mesmos manifestam.
Nesta perspectiva, a obra objetiva situar-se na teorização do funcionamento
discursivo e sua inscrição histórica, “procurando pensar as condições de uma
‘enunciabilidade’ passível de ser historicamente circunscrita”. (Maingueneau, 2008, p.
17).
Dirigindo críticas aos estruturalistas, o autor argumenta que estudar o discurso
não é deter-se em amontoados de vocabulários, sentenças e regras, mas que isso
depende da compreensão a cerca de uma Semântica Global que analisa as dimensões
textuais como extratos paralelos e existencialmente interdependentes. Ideia que parte da
gênese constitutiva do discurso e sua relação com o interdiscurso.

das auto-correções. 6ª. 22) faz supor que a formação discursiva revela-se. nos termos de Maingueneau. intitulado “Primado do interdiscurso”. e o analista o faz. Maingueneau (2008. 2008. Partindo dessas hipóteses. uma competência discursiva é o modelo que concebe esse sistema de restrições. faz-se necessário. O autor ainda acrescenta que a abordagem feita opõe “um sistema de restrições de boa formação semântica (a formação discursiva) ao conjunto de enunciados produzidos de acordo com esse sistema (a superfície discursiva)”. o filósofo Bakhtin que afirma na relação com o Outro o fundamento da discursividade. . p. p. a característica da constituição discursiva baseada na constituição semântica faz parecer que isso é um processo de tradução. o que dá conta de explicar esse interdiscurso é a proposta do sistema de restrições semânticas globais. então. a prática discursiva não deve ser entendida de maneira restrita a conjuntos de enunciados. Todorov (1981) é citado porque defende o princípio dialógico pelo caráter constitutivo da interação enunciativa. 20) Diante disso. pensando na constituição interdiscursiva assim. Maingueneau retoma o tratamento do fenômeno chamado de hipertextualidade pelo teórico da literatura. 4ª. também como uma prática intersemiótica. A partir deste arcabouço. A noção do primado do interdiscurso. 7ª. como um esquema de correspondência entre campos à primeira vista heterônimos. o analista francês discorre. o “Outro” se define de duas formas: por uma heterogeneidade “mostrada”. sete hipóteses levantadas se tornam responsáveis pelo norteamento dos capítulos desenvolvidos posteriormente. 2ª. (Maingueneau. ou. do Campo do Discurso e do Espaço Discursivo. um quadro metodológico e um domínio de validade. sobre os termos que desenvolve. ou por uma heterogeneidade “constitutiva”. Para ele. são: 1ª. 3ª. Fundamentado em conceitos de G.. das palavras entre aspas etc. É importante saudar também. portanto. finalmente. mas. que apreende sequências delimitadas as quais mostram sua alteridade através do discurso citado. insere-se na perspectiva da heterogeneidade constitutiva porque apreende os elos da relação intrínseca do “Mesmo” do discurso com seu “Outro”. Na mesma esteira dessas reflexões. o analista francês distingue o que entende pelo “Outro”. Gennete. uma interincompreensão regulada. 3. o interdiscurso é formado no meio de três instâncias: do Universo Discursivo. que não deixa marcas visíveis que possam ser apreendidas por uma abordagem linguística em sentido restrito. permear os capítulos desenvolvidos pelo autor evocando os pontos principais. Segundo Maingueneau. a heterogeneidade constitutiva pôde encontrar nas estruturas teóricas de Bakhtin. então. Posicionamento Crítico No capítulo 1. então. para dar sequência ao desenvolvimento da teoria da semântica global. Em suma. Para ele. o discurso deve ser compreendido em sua prática discursiva. precedência do interdiscurso sobre o discurso e a pertinência do espaço das trocas entre os vários discursos convenientemente escolhidos. muito mais precisos. 5ª.

A gênese do discurso. E tal compreensão se processa considerando-se os fundamentos semânticos de um discurso. julga relevante pôr em relação. p. 52). 2008. portanto. essas regras se impõem aos indivíduos que tentam falar nesse campo discursivo. p. portanto. “‘Concorrência’ deve ser entendida (. pelo teórico. submetidos a restrições específicas que fazem com que esses enunciados façam parte desse ou daquele discurso”. sua definição e relação com seu Outro. 35). entre discursos que possuem a mesma função social e divergem sobre o modo pelo qual ela deve ser preenchida” (Maingueneau.” (Maingueneau. Seria o interdito de um discurso. é chamado de Competência Discursiva. através do trio terminológico explicitado anteriormente. o interesse do analista do discurso pelo ED se destaca porque é em função das priorizações históricas e relevantes determinadas a partir desse que a pesquisa progride com afirmações ou refutações enunciativas dentro das delimitações do CD. delimitam-se reciprocamente em uma região determinada do UD. portanto. significa apenas “o horizonte a partir do qual serão construídos domínios suscetíveis de ser estudados. Para ele. há uma associação discursiva inevitável.. Em outras palavras. No capítulo 2. assim descrito. além das restrições de ordem histórica. é impossível dissociar sua interação de seu funcionamento. dentro dessa compreensão analítica. Todo discurso. o autor chama de “direito” e “avesso” indissociáveis. E esse “Outro” seria um “eu” do qual o enunciador discursivo procura se separar constantemente.. p. diante de seu propósito. a neutralidade aparente etc. para o autor a . 2008. Considerando a noção das restrições específicas da citação anterior. 2008.. 37) A partir do instante em que os componentes do discurso do Outro é refutado no enunciado.. No entanto. p. que em sua teoria funciona como um filtro de pertinências sêmicas para que o discurso seja constituído em sua prática e espaço. p. Com relação às regras da formação discursiva. é composta. p. até porque o discurso não possui uma “língua” específica. O Universo Discursivo (UD) é um conjunto finito de formações discursivas de todos os tipos que interagem numa conjuntura dada. Maingueneau (2008. 34) O Espaço Discursivo (ED) é identificado isoladamente no CD como um “subconjunto de formações discursivas que o analista . 2008. Nessa perspectiva. 47) alerta que construir a gramática de um discurso é algo ambicioso demais. Compreendendo o ED que se reconhece o Primado do Interdiscurso. os ‘campos discursivos’. e isso.) tanto o confronto aberto quanto à aliança. é dialógico em seu enunciado. Maingueneau (2008. que “(.. “Uma competência discursiva”. o analista francês apresenta o Sistema de restrições Semânticas. O processo da formação discursiva. 33) O Campo Discursivo (CD) representa o conjunto de formações discursivas que se encontram em concorrência. Foucault afirma que elas existem exteriormente a mentalidade ou a consciência dos indivíduos.” (Maingueneau. “mas enunciados gramaticais do português.) circunscreve justamente o dizível insuportável sobre cujo interdito se constituiu o discurso” (Maingueneau. acredita que é necessário fazer intervir restrições de ordem sistêmica..

poder fazer comparações com a teoria da Semiótica Tensiva sobre os aspectos. além de. tal comparação abandonaria o objetivo dessa resenha. Nesse sentido. ter a capacidade de identificar em sua própria produção os enunciados de outrem. que faz lembrar a atual noção de Tonicidade e Andamento. postulada por Jacques Fontanille e Claude Zilberberg 1.competência discursiva se configura num enunciador do discurso através de alguns fatores. da teoria da Semiótica Tensiva. como pertencentes a sua própria formação discursiva. ser capaz de produzir um número ilimitado de enunciados inéditos pertencentes a essa formação discursiva. “mesmo que esses dois aspectos sejam. focalizam-se as regularidades interdiscursivas historicamente definidas e não se necessita descrever a semelhanças entre as trajetórias biográficas dos indivíduos que formam o conjunto dos enunciadores efetivos desse ou daquele discurso. Luiz Tatit e Waldir Benvidas. Na relação de Tonicidade e Andamento da Semiótica Tensiva. neste momento. 2001. o comentário é apenas a título de futuras reflexões. ele apresenta o modelo do discurso jansenista. Pensando assim. C. modos e tensões que são produzidos pelos efeitos de sentido de um discurso. o autor inicia a aplicação de sua teoria ao espaço discursivo compartilhado pelo jansenismo e humanismo devoto. de traduzir esses enunciados nas categorias de seu próprio sistema de restrições. 1 FONTANILLE. no quadro do ED. . Portanto. toda novidade causa um impacto que é marcado pela acentuação tônica no eixo do tempo que se projeta no eixo do espaço. tais como: mostrar ser capaz de reconhecer enunciados como “bem formados”. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP. & ZILBERBERG. J. freqüentemente associados pelos historiadores. não se restringe às grades da tradição gramatical. o que importa para o analista do discurso é a homogeneidade da formação discursiva e não a biográfica. mas. no entanto. Tradução de Ivã Carlos Lopes. com justiça.” (Maingueneau. 2008. a competência deve ser pensada como competência interdiscusiva. pode acessar por outros critérios além dos textuais. também. Desse ponto em diante. 56) Antes de partir para a análise de um corpus. Tensão e Significação. isto é. pois. Primeiramente. a aptidão de interpretar. o que Maingueneau supõe ser: a aptidão para reconhecer a incompatibilidade semântica de enunciados da ou da (s) formação (ões) do ED que constitui (em) seu Outro. Porque por essa competência discursiva. O ponto de partida da análise deste modelo é a oposição primitiva: Concentração VS Expansão. À medida que a novidade se repete e vai se transformando em rotina há o relaxamento que faz deslizar a percepção do fato a um andamento gradativo. Maingueneau evidencia que a posição de um analista do discurso é mais confortável que a do linguista. formações discursivas que tenham sido configuradas por incidências históricas. Desse modo. ideia proveniente da Semiótica das Paixões de Greimas. a princípio em marco de contração. é possível que se possa construir uma leitura comparativa entre a teoria da Análise do Discurso que propõe a compreensão do sentido como célula de uma Semântica Global e na alçada da descrição a respeito do ponto de partida de um discurso. p.

a operação Concentração produz o sema /Consistência/ entendida como “firmeza”. “Nos textos. Vale citar na íntegra as considerações de Maingueneau sobre este olhar analítico duplo comparativo entre o discurso fundador e o discurso derivado. Seguindo esse raciocínio. Voltando ao discurso jansenista na visão da teoria mangueneauniana. “Uma operação de ‘Harmonização’. 66) O submodelo registrado como M1 (jansenista) se associa a sua respectiva função. que preza. como mencionado. (Maingueneau. 2008. pois este segundo modelo deriva-se do primeiro apresentado anteriormente de maneira regrada. que por sua vez. os semas “positivos”. a sociedade. p. o sema da /Pontualidade/. porque M2 também possui uma noção de “Ordem” e não está submetido ao “Enfraquecimento”. Nesse entrelace ficam asseguradas as condições de competência discursiva. tem como operação única a “Concentração” enquanto que M2 opera pela “Harmonização” fundamentada na noção de “Ordem”. intelectual. a partir de M1”. pelo fechamento de uma relação de /Identidade/ e de /Alteridade/ com objeto de valor “Deus”. Cada discurso. com os quais constituem oposições elementares. em seu respectivo “simulacro” opera em relação de contrários pela oposição do “discurso-agente”. 2008. nenhum domínio do universo natural. Maingueneau afirma que esses semas “são indissociáveis de seus contrários. “dureza”. 65) A inserção de E revela que os valores de C só podem ser percebidos em sua força total com a valorização positiva e paralela dos semas enfraquecidos pela determinação dos semas que compõem C. 2008. M1. permite gerar os semas de M2+. 67) Em modo de contrariedade com o ponto Concentração do M1. espiritual está excluído. p. a “espacialidade” e o “número”. portanto. em M2 a partida é a noção da Ordem. “A diversidade dos semas de que assim se dispõe permite descrever mais adequadamente a riqueza do sentido manifestada”. 67) Entre M1 e M2 não existe simetria perfeita entre os dois. Nesta noção não é preciso haver contradição entre /Identidade/ - /Alteridade/ e /Mistura/. Em outras palavras. registrada como H. um jardim. o discurso novo. uma obra polifônica. a Concentração do discurso é acentuada pelo fechamento e valorização deste em detrimento dos valores ligados à Expansão. na “mobilidade relativa” e na “intensidade relativa”. portanto. segundo o autor. Igualmente. essa noção de “Ordem” se atualiza de maneira extremamente variada: o corpo humano. (Maingueneau. o modelo do discurso Humanista Devoto.. (2008. p. insere-se na Concentração que opera sobre a “relação”. p.” (Maingueneau. Os semas produzidos pela Concentração são os valorizados pelo discurso jansenista. A Concentração aplicada sobre o eixo da Espacialidade faz produzir. começa-se formalizar a ideia da construção do interdiscurso. a saída para a compreensão do modelo. composta por um conjunto de semas.. . o “ponto” é a noção máxima da concentração de um espaço qualquer. todavia esses últimos só serão estabelecidos após a introdução de uma nova operação chama ‘Enfraquecimento’ e registrada como E”. Segundo ele. no espaço discursivo. ou seja.. reflete-se na “consistência relativa”.

2008. com bases em Humbolt. 77) atribuindo certas filiações e recusando outras. garantia da presença e de um corpo” (Maingueneau. 91). 87) A legitimação do dizer do destinador é reforçada pela ideia da dimensão “institucional” que caracteriza a fundamentação de um discurso. “todo campo discursivo define certa maneira de citar os discursos anteriores do mesmo campo” (Maingueneau. sendo que cada discurso define o estatuto que o enunciador deve se atribuir e o que deve atribuir a seu destinatário para legitimar seu dizer. sua ação é perceptível em todos os pontos do texto” (Maingueneau. uma hierarquia dos temas não tem grande interesse: já que o conjunto da temática se desdobra a partir dele. ele aborda a noção da Intertextualidade. “a fé em um discurso supõe a percepção de uma voz fictícia. “do ponto de vista de um sistema de restrições global.) (Maingueneau. p. Para o autor. longe de ser um aparecimento quase absoluto contra o pano de fundo de um conjunto ilimitado de possíveis. a respeito do “ritmo” e “andamento” nos remete fortemente às terminologias da Semiótica Tensiva. Em suas palavras. p. Este modo de enunciação supõe um “ritmo” e um “andamento” para a discusivização. que é chamada de modo de enunciação por Maingueneau. por exemplo.. o autor afirma que não é possível caracterizar um discurso pelo número “x” de palavras que forma a sua parte gráfica. 2008. Nessa concepção a “energeia” é mais enfatizada que o “ergon”. é regida por um princípio dinâmico que rege o conjunto dos planos de uma língua. assim. 2008. A linguagem. Quanto aos temas. 2008. também componente característico do entendimento da Semântica Global. p. . Distinguindo intertexto de intertextualidade. Sobre a dêixis enunciativa. o autor afirma que “os diversos modos da subjetividade enunciativa dependem igualmente da competência discursiva. 88). É o estabelecimento de uma cena e uma cronologia conformes às restrições da formação discursiva. Na abordagem do estatuto do enunciador e do enunciatário. sob o título. p. dando um toque particular para explanar melhor a concepção do funcionamento da Semântica Global. 74 – grifo nosso) Passando para o Capítulo 3.. essa se refere à instauração espaciotemporal que “cada discurso constrói em função do seu próprio universo” (Maingueneau. Com relação ao vocabulário. Maingueneau retoma algumas terminologias conhecidas no âmbito da Teoria Literária. p. Observando o discurso associado a uma dêixis e a um estatuto de enunciador e enunciatário também evoca uma “maneira de dizer”. 2008. Novamente a associação desses termos.” (Maingueneau. o analista afirma que o primeiro é o conjunto de fragmentos citados efetivamente enquanto que o outro se trata de dois tipos de relações intertextuais que a competência discursiva define como legítimas. Dissecando os desdobramentos da teoria. Primeiramente. “Uma semântica Global” o autor afirma que este modo de pensar o discurso não privilegia seus planos porque os entende tanto na ordem do enunciado quanto no da enunciação. 2008. concreta. se [constitui] regularmente por uma transformação relativamente simples de estruturas constituídas (. 81). p.

reivindicados.. tal como o constrói a formação discursiva. 2008. 2008.. 99 e 100) No capítulo 5. (Maingueneau. de fato. E num nível mais superficial. nosso projeto supõe (. p. “o ‘recorte discursivo’ se exerce num nível fundamental. negando-o. (Maingueneau. se liga diretamente a ideia da interdiscursividade. capítulo. enfim.” (Maingueneau. 2008. À medida que um discurso deriva de um fundador. os semas “negativos”. Por isso. p. a última característica a ser notada na compreensão do fenômeno da Semântica Global é o modo de coesão. 94). atravessando as divisões em gêneros constituídos. 2008. condições posta através do “filtro” discursivo para uma formação discursiva “atrair” a inscrição de um sujeito nela. 124) A instituição representa. rejeitados. p. portanto. a passagem de um discurso a outro é um ponto crucial porque a transição é acompanhada por uma mudança na estrutura e no funcionamento dos grupos que gerem esses discursos. Maingueneau realça a intertextualidade externa e interna que implica um modo de coexistência dos textos em um discurso dado. segundo o autor. a discursividade deve ser pensada como elemento de uma “rede que rege semanticamente” as diversas . de outro. Para ele. os semas “positivos”. intitulado “Do discurso à prática discursiva”. Finalmente. partindo do princípio da semântica global fundamentalmente dialógica. enquanto o discurso se desenvolve sobre as próprias categorias que estruturaram essa organização” (Maingueneau. de estruturar o argumento. O modo de coesão recobre outros fenômenos diversos como o recorte discursivo e os encadeamentos. o “encadeamento do discurso” abrange os modos de construções de cada parágrafo. o microcosmo de um Universo inteiro. e não a instituição em si. No capítulo 4. Em suas palavras. este se mantém numa relação estrita de compreensão “sem compreensão”. É a própria possibilidade dessa articulação que nos interessa. A cada posição discursiva se associa um dispositivo que a faz interpretar os enunciados de seu Outro traduzindo-os nas categorias do registro negativo de seu próprio sistema.) a rejeição de uma concepção sociológica “externa”. procurando articular discurso e instituição através de um sistema de restrições semânticas comum. Maingueneau reafirma que o espaço discursivo ou a rede de interação semântica provoca a polêmica porque a enunciação conforme as próprias regras de formação e a não compreensão destas regras por outro lado são faces do mesmo fenômeno. No universo discursivo. p. Nesse sentido. “A polêmica como interincompreensão”. há uma interdependência entre a vocação enunciativa e a semântica discursiva. Cada discurso repousa. Atrelado a este fator está a vocação enunciativa. “A organização dos homens aparece como um discurso em ato. Segundo o autor. Em suas palavras. os diversos aspectos da discursividade tendem a ser gradativamente rearticulados num fechamento discursivo. sobre um conjunto de semas repartidos em dois registros: de um lado. Logo. 128) Ainda sobre a prática discursiva. de passar de um tema para outro. o analista francês assevera que os discursos se desdobram em espaços institucionais que transmitem a sensação da neutralidade por estar num campo de representação próprio da produção. Nesse sentido a imbricação de um discurso com uma instituição é uma tendência a prevalecer cada vez mais.

evidentemente. p. documentos. “a formação discursiva não será mais apreendida em sua associação com certo campo. p. evidentemente. Dentre estes. e a instituição. 160) Chamando a atenção para a necessidade da criação de uma teoria que descreva com mais precisão os resultados obtidos com a aplicação do modelo da Semântica Global e seu funcionamento com as conjunturas históricas.).instâncias que compõe o discurso. focado não é o discurso. Assim. pictóricos etc. diferentemente de textos como testamentos. o teórico sugere a extensão da análise do discurso do modelo jansenista e humanista devoto à leitura de obras pictóricas. Desde então. (Maingueneau. o objeto a ser estudado. que até aqui era defendida apenas com base em seus enunciados. analisar o discurso desses tipos de textos implica em um empecilho. vale destacar a ênfase dada a respeito do que ele chama de “discurso abstrato”. Champaigne (1602-1674) “Ceia de Emaús” (atribuído a). mas como um esquema de correspondência. as respectivas telas: Ticiano. filosóficos.) (Maingueneau. para retormar a expressão de M. pois os mesmos parecem ser construídos sem laços imediatamente associáveis às circunstâncias historicamente “reais”. 2008.) De um lado.. Maingueneau direciona a obra para a conclusão. 159) Por isso que. de modo titubeante para os olhos de um semioticista. a prática discursiva. aponta alguns pontos intrigantes de sua própria formulação teórica. com relação aos textos de discurso abstrato. supõe que se possa proceder à leitura mais abrangente possível desses textos através do sistema de restrições semânticas (. mas.) o mesmo sistema de restrições torna possível a produção tanto de obras geniais quanto medíocres. de outro.. afirmando que quando se relaciona conjuntos textuais e conjunturas históricas toca-se imediatamente na noção de ‘ideologia’.. nunca se consegue ultrapassar essa noção (. (Maingueneau. mas. definir em virtude de quais propriedades tal edifício.. “Um esquema de correspondência”... poderão ser considerados como pertencentes a tal prática discursiva não esgota. um dos pontos mais sensíveis das ciências humanas (. “Os peregrinos de Emaús” (1535- 1540) e J. suas possibilidades hermenêuticas. e não apreendemos globalmente o discurso atribuindo-lhe dessa maneira um responsável”. Em sua concepção. no caso. tal sinfonia. Foucault”. de modo modesto (palavras do autor).. p. p. tal quadro. 2008. com louvável esforço. Talvez. a construção desse modelo de análise põe em evidência uma conexidade entre funcionamento institucional e funcionamento discursivo.. No capítulo 6. 2008. Em suas palavras. 162) . “Uma prática intersemiótica”. o autor faz uma crítica à escola francesa da análise do discurso. representados pelos textos religiosos.-B. “a maior parte da superfície discursiva permanece ininterpretável. sem.. dispor de uma teoria do conjunto sobre a inscrição sócio-histórica dos discursos. relatos. panfletos etc. Nesse aspecto. a difusão e o consumo do discurso. não se dispõe de esquematizações satisfatórias de seu funcionamento (. (Maingueneau. isto é. 143) No último capítulo.. 2008.. o autor afirma que a possibilidade de integrar textos não lingüísticos a uma prática discursiva.

Referência Bibliográfica MAINGUENEAU. 178) Diante do exposto até aqui e da limitação de comentários mais aprofundados. 177) Retomando a noção das unidades semânticas e sua tomada interna separada de um externo. (Maingueneau. Tradução de Sírio Possenti. Maingueneau finaliza a obra com a seguinte assertiva: no espaço discursivo. essa abordagem se torna mais complexa porque não se trata de tomar posições em campo de olhar filosófico. o discurso se encontra engajado em uma reversibilidade essencial com grupos. mas. com outros campos. 2008. instituições. São Paulo: Parábola. Se uma dessas condições faltar. .. o Mesmo se constitui no Outro. Dominique. procurar na relação com o “Outro” e nas diferenças e semelhanças emergentes dessa relação. Gênese dos Discursos. p. Não há imagem simples que torne isso visível”. com os isomorfismos em cuja rede ele foi envolvido. e. ela não pode suscitar uma ressureição. com o espaço discursivo no interior do qual se constitui. a identidade de uma posição enunciativa se desfaz. o encontro equilibrado entre a conjunção entre a histórica e a concretização do discurso. o fora investindo o dentro. 4. é importante ressaltar que a obra Gênese dos Discursos deve ser estudada com mais cuidado. pois pode ser a mola propulsora para se pensar em tirar proveito das reflexões a cerca da Semântica Global em conjunto com a Semiótica Tensiva. pelo próprio gesto de expulsá-lo. é que o autor reconhece a necessidade de se abordar o discurso como analista do mesmo e não como filósofo. aquela a cujo serviço foram incorporadas. e. igualmente. 2008. Outro fator de destaque. p. (. com as instituições através das quais se desenvolveu. Para ele. O discurso sempre se confunde com sua emergência histórica. (Maingueneau 2008.. A reedição das obras humanistas devotas faz delas um fragmento de uma nova formação discursiva. Vale citar ainda que. propondo algumas soluções para os problemas assinalados pelo autor.) através de seu sistema de restrições.