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OS MECANISMOS DO STRESS

Trabalho realizado por: Catarina Beleza

DEFINIÇÃO DE STRESS Nas sociedades actuais o termo “stress” tornou-se vulgar, atingindo cada vez mais pessoas de diferentes faixas etárias. A constante e acelerada mutação, as exigências de adaptação às inúmeras mudanças, o facto de constantemente sermos bombardeados com diferentes tipos de estímulos em simultâneo, exaurindo os nossos sentidos e atordoando o nosso sistema nervoso, são alguns dos factores que contribuem para a emergência e manutenção do stress. Por outro lado, e também devido aos modos de vida actuais – alimentação incorrecta, agressões aos ritmos biológicos, etc. – a nossa capacidade de resistência ao stress diminuiu, dificultando o restabelecimento do equilíbrio interior chamado “homeostase” por Cannon, ou constância das condições de vida no meio interior por Claude Bernard. A vida tornou-se demasiado acelerada para o ritmo do corpo humano. Mas o que é então o stress? Um leigo poderá defini-lo em termos de pressão, tensão, forças externas desagradáveis ou como resposta emocional. Laconicamente poderíamos defini-lo como a reacção física ou mental a um estímulo (stressor) ou citando o Professor Hans Selye – que em 1936 sugeriu pela primeira vez o uso da palavra stress como termo médico1 – “ uma resposta não especifica do organismo a qualquer estimulo” (cit por Comby, B., 2002, p.24). Poderá ser considerado uma espécie de mecanismo de defesa face a situações de perigo. O stress bem gerido não é negativo, mas inerente e indispensável à vida, no entanto, se for extremo e prolongado os mecanismos de gestão – uma série de alterações bioquímicas - que são accionados e de que falaremos mais adiante podem ser bastante prejudiciais. Hans Selye diferenciou dois tipos de stress: distress, o stress desagradável, aquele que está na origem das doenças de adaptação (como as úlceras gástricas ou duodenais, perturbações psicológicas, etc.), e o eustress, o stress agradável e curativo (por exemplo quando se está apaixonado, ganhar algum jogo). OS MECANISMOS DO STRESS O que se passará no organismo durante os períodos de stress? Maniguet (1994) no seu livro “Les énergies du stress” fala-nos de uma série de reacções complexas, geneticamente programadas, que se desencadeiam sem o nosso conhecimento, cada vez que a nossa integridade corporal ou o nosso equilíbrio psicológico é ameaçado. Estas reacções referem-se ao conceito de “Síndroma de Adaptação Geral”(SAG) proposto por Selye, e são controladas pelas glândulas adrenais. Estas glândulas situam-se acima dos rins e são compostas por duas partes distintas: a medula e o córtex

“Originalmente, stress era um termo metalúrgico referente à força que um objecto inanimado exercia contra outro” (Levy, 2001, pp. 17)
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(Murray, M., 1994). O SAG engloba três fases cronológicas, em função da duração da agressão: 1ºFase de Alarme: ocorre como resposta inicial ao stress, corresponde às adaptações neuro-hormonais relacionadas com a resposta de combate ou fuga – necessária à sobrevivência, mobilizando o organismo para a actividade física imediata. Esta fase inclui duas sub-fases: a reacção ao choque, ou seja, a reacção inicial ao agente nocivo com vários sintomas característicos como a taquicardia, baixa de tónus muscular e abaixamento da temperatura e da pressão sanguínea. A segunda sub-fase, fase de contra-choque, consiste na fase de reacção marcada pela mobilização das forças defensivas em que o córtex adrenal e a secreção das hormonas adrenocorticóides aumentam; 2º- Fase de Resistência: permite que o organismo se adapte, com uma recuperação ao nível das glândulas hormonais e das reservas energéticas - pode durar mais ou menos tempo em função da reacção inicial de alarme, do estado fisiológico do sujeito – o prolongamento da reacção de resistência aumenta o risco de desenvolvimento de doenças e leva à terceira fase (Murray, 1994 e Maniguet, 1994); 3º- Fase de Exaustão: o organismo fatigado já não consegue responder, esgotou todas as suas reservas, pode manifestar-se com um colapso total das funções corporais ou de órgãos específicos. Entre as causas possíveis, citamos a perda de iões de potássio e depleção dos glicocorticóides adrenais 2 , como a cortisona (Murray, 1994). Pode ter como consequência a morte - por exemplo um naufrago que desiste de lutar - ou a depressão. Vimos que em segundos todo o organismo está prevenido, desencadeando-se uma série de mudanças fisiológicas - os músculos contraem-se, a pressão sanguínea aumenta, etc. – bioquímicas – segregação de determinadas hormonas e alterações ao nível dos iões de sódio e potássio e eléctricas (descreveremos mais à frente). O sistema nervoso assegura o bom funcionamento do organismo, recebe, organiza e transmite toda a espécie de informações. Podemos distinguir o sistema nervoso voluntário, de que estamos conscientes, formado essencialmente pelo córtex cerebral e o sistema nervoso vegetativo ou autónomo que sem uma intervenção consciente, regula o sistema cardíaco, os mecanismos da digestão, etc. Este último é constituído por duas redes independentes: o simpático e o parassimpático. Metaforicamente podemos chamar ao simpático o acelerador – ordena a libertação de adrenalina e noradrenalina - uma vez que acelera o metabolismo: aumenta a pressão arterial, o ritmo cardíaco e o ritmo da respiração, controla as reacções de combate e de fuga (Servan-Schreiber, 2003). Quando há stress, por exemplo quando alguém nos agride o acelerador é accionado distribuindo rapidamente sangue bem oxigenado para que o organismo possa fazer face à agressão. Inversamente o travão, ou seja, o parassimpático abranda o ritmo cardíaco, a pressão arterial, etc. O equilíbrio nervoso resulta de uma subtil alternância entre o acelerador e o travão; nos mamíferos, estes dois sistemas estão em constante equilíbrio, contribuindo para uma adaptação fácil e veloz às mutações
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Estimulam a conversão de proteína em energia

(Servan-Schereiber, 2003). O simpático consome as reservas que o parassimpático vai reconstituindo. Segundo Comby (2002) o stress relaciona-se com um excesso de actividade do simpático e incapacidade por parte do parassimpático de o acompanhar. O complexo hipotalâmico-hipofisário tem um importante papel. O hipotálamo é uma estrutura do Sistema Nervoso Central responsável pela regulação de funções básicas à manutenção e sobrevivência do organismo. Este induz respostas orgânicas a agentes stressores (por exemplo) que permitem que o organismo se adapte e mantenha a homeostasia. Após um ruído violento, por exemplo, a informação chega ao hipotálamo, que estimula o sistema nervoso simpático. A camada interna das glândula adrenais, passa a segregar catacolaminas (Comby, 2002). A adrenalina acelera o ritmo cardíaco, aumenta a pressão arterial e transforma uma parte das reservas de glicogénio do fígado em glicose imediatamente disponível. Concomitantemente o hipotálamo alerta a hipófise, que, por sua vez, alerta o sistema hormonal e provoca a segregação de cortisona pela camada externa das glândulas adrenais. A cortisona permite, nas horas que se seguem, reconstituir as reservas do fígado por decomposição de proteínas. Em casos de períodos de stress repetidos, como vimos anteriormente, pode produzir emagrecimento, debilitação do sistema imunitário.

Figura 1 – Comby, 2002, pp. 54

Uma vez que o cérebro é movido a electricidade, a acção do stress modifica, também, o registo das ondas eléctricas do cérebro num electroencefalograma. Desde a criação do primeiro EEG, os cientistas que investigam e estudam as ondas cerebrais dividiram-nas em 4 frequências distintas: beta, alfa, teta e delta. Os cinco sentidos físicos estão associados com o funcionamento cerebral na frequência beta (14 a 100 Hz). O ritmo alfa (8 a 13 Hz) traduz um estado mental de calma com um efeito benéfico sobre o stress, está relacionado com a meditação, o relaxamento. Os ritmos teta (4 a 8 Hz) e delta correspondem ao sono profundo e muito profundo (Silva, J., 1998/ Comby, B., 2002). Uma vez que o ritmo alfa está associado ao domínio do parasimpático sobre o simpático, pode ser bastante útil na prevenção de doenças provocadas pelo descontrole dos mecanismos do stress.

Em jeito de conclusão, do ponto de vista biológico as nossas reacções a estímulos adversos não evoluíram a par com a evolução tecnológica. O que se verifica é que o nosso organismo continua a desencadear respostas de combate e fuga como nos primórdios da antropologia onde era necessário conviver com inúmeros perigos, como por exemplo lidar com animais ferozes, era a lei do mais forte, a selecção natural de Darwin. Então o que acontece realmente? Acontece que os seres humanos só têm disponível esta resposta para fazer face ao stress e assim com a aceleração quotidiana de que somos vítimas, como referimos logo no início, os mecanismos que supostamente deveriam controlar o stress, estão constantemente a ser accionados e acabam por se descontrolar sendo extremamente nocivos a longo prazo. Citando Levy (2001, pp.18) “quando a adrenalina está constantemente a ser bombeada para os nossos sistemas, acabamos num vaivém endócrino.”

BIBLIOGRAFIA

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Comby, B. (2002). Controlo do Stresse por Métodos Naturais. Cascais: Editora pergaminho; Levy, L. (2001). Dispa o seu stress. Lisboa: Editorial Bizâncio; Maniguet, X. (1994). Les Énergies du stress. Paris: Éditions Robert Laffont; Murray, M. & Pizzorno, J. (1994). Enciclopédia da Medicina Natural. São Paulo: Andrei Editora Ltda; Servan-Schreiber, D. (2003). Curar- o stress, a ansiedade e a depressão sem medicamentos nem psicanálise. Lisboa: Publicações Dom Quixote; Silva, J. (1998). O Método Silva: desenvolvimento mental e controle do stress. Oeiras: Megatendências.