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Considerações sobre “A Formação do Espírito Científico”, de

Gaston Bachelard

Anderson Nogueira de Lima – Graduando em Engenharia de Produção – FEN/UERJ Página | 1


(andersonlima79@gmail.com)

Professora Elena Garcia

Disciplina: IFCH 03-02087 – Filosofia da Ciência III

Nesta obra, publicada em 1938, Gaston Bachelard faz uma narrativa das dificuldades
encontradas pelos cientistas do século XVII e XVII no estudo das ciências. À mentalidade
dominante na comunidade científica desta época, Bachelard chama de “espírito pré-científico”.
Baseados em empirismo, o autor cita vários experimentos ditos científicos, além de suas
conclusões, para ilustrar os obstáculos epistemológicos que limitaram a produção de uma
ciência como concebemos hoje. Neste texto, farei considerações sobre algum dos aspectos
trabalhados no livro, além de um paralelo com outros autores quando oportuno.

Um dos primeiros bastiões defendidos por Bachelard é a dificuldade em ser fazer


ciência. Não falando em erros experimentais, limitações organolépticas ou de tempo. Mas sim,
de a partir do experimento, gerar conhecimento a partir da compreensão do fenômeno em
questão. Deve-se despir de todo conhecimento pessoal acerca de tal fenômeno, assim como
pré-julgamentos e o desejo da resposta que convém. Determinada a metodologia e executada,
o fenômeno deve ser contemplado como a manifestação última da natureza, cuja avaliação
deve ser feita por meio de variáveis objetivas e claras. De outro modo, podemos cair na
armadilha do empirismo.

Robert Pirsig, em seu livro “Zen e a arte da manutenção de motocicletas (ZAMM)”,


discute sobre a validade do método científico nesta obra que discute os aspectos subjetivos e
objetivos da Qualidade, numa história baseada em fatos reais. Sobre o empirismo ele diz que
“Caso se creia no empirismo, o primeiro problema que se apresenta é o da ‘substância`. Se todo
o nosso conhecimento vem dos dados sensoriais, o que é exatamente essa substância que
supostamente emite os próprios dados sensoriais? Se você tentar imaginar o que é essa
substância, considerada como separada da sensação, há de ver-se pensando no nada absoluto”.

Ou seja, a realidade objetiva é construída a princípio com a dependência dos nossos


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sentidos. Considerando a necessidade de abster-se de experiência anteriores, como fazer que
estes dados simplesmente não sejam inconscientemente cruzados e que se privilegie
determinados pontos de vista? Uma tentativa de esclarecer essa questão será feita adiante,
após ilustrarmos algumas das peças que a tentativa de compreender o mundo nos prega: os
obstáculos epistemológicos. E sim, uma tentativa, visto que o texto não tem a pretensão de
achar uma resposta definitiva para tal problema.

O pensamento científico como entendemos hoje se baseia num algoritmo relativamente


simples, que busca a repetibilidade de resultados dentro de situações controláveis e variáveis
mensuráveis. Dado uma manifestação da natureza qual procuramos compreender, a princípio
se formula uma hipótese. Ilustraremos a explicação com o experimento clássico que
desmistificou por alguns anos a teoria da geração espontânea: da carne, surgiam vermes. Seria
uma propriedade de a matéria putrefada gerar vida? XXX, ao observar o fenômeno, formulou
uma hipótese contrária ao conhecimento da época. Os vermes são larvas de mosca, que vêm
dos ovos que foram depositados na carne. Ou seja, caso se evite que moscas depositem ovos
na carne, vermes não aparecerão. A experiência consistia em deixar a carne dentro de um
recipiente fechado, e o resultado obtido foi a ausência de vermes. Porém, os defensores da
geração espontânea diziam que o recipiente fechado privou a carne de experimentar o efeito
vital do ar. Este efeito vital era resultado de experimentos empíricos, sendo explicado com
precisão tal que sua experimentação prática seria inviável. Porém, a experiência original foi
modificada: ao invés de fechar hermeticamente o recipiente, foi colocado um tecido de tramas
grandes o suficiente para garantir a circulação do ar, porém com dimensões que evitavam a
entrada de moscas. O resultado foi a ausência de vermes, após dias de experimento.

A partir da observação inicial de que eram as moscas as verdadeiras “geradoras” de


larvas, o experimento teve sucesso em provar que caso esses insetos não entrem em contato
com a carne, esta não apresentará larvas. Uma versão do experimento mais atualizada
consistiria em três recipientes:

1) Recipiente aberto = grupo controle (resultado propositalmente positivo)


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2) Recipiente hermeticamente fechado = ensaio em branco (resultado propositalmente
negativo)

3) Recipiente fechado com tecido = grupo experimental (resultado onde se analisa a


variável desejada)

A partir da observação, formulou-se uma hipótese: resultado de uma análise preliminar


ao experimento, uma suposição sobre o funcionamento do modelo mental construído pelo
cientista. Para que esta hipótese se torne uma teoria ou lei, esta deve ser provada pela
experiência realizada. A partir de um questionamento o mais simplificado possível, constrói-se
os três grupos experimentais, e observam-se os resultados. A comparação entre o grupo
controle com o ensaio e o branco responderia ao questionamento original. Caso o resultado
não responda o questionamento, deve ser elaborada outra hipótese, e esta retestada até que
seja respondida.

Podemos entender o método científico como algoritmo de verificação de consistência,


que privilegia a repetibilidade de resultados. Já o pensamento pré-científico se vale da
experiência pessoal, que não é controlada. Um contemporâneo de XXX chegou a publicar uma
receita de como “gerar” filhotes de camundongo. Bastava deixar uma camisa suada e algumas
gramas de gérmen de trigo dentro de um armário, e ter-se-ia pequenos roedores. Hoje em dia
nós podemos mentalmente prever qual foi a origem dos camundongos obtidos, porém, numa
época qual a experiência pessoal era mais valorizada que a experimentação controlada, uma
personalidade de perfil confiável poderia provar praticamente qualquer coisa.

Apresento um mapa conceitual do método científico:


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Dos N exemplos da aplicação do conhecimento pré-científico que Bachelard nos dá,


usaremos alguns como exemplos para explicar determinados obstáculos epistemológicos.

Um dos maiores obstáculos é se desvencilhar de todo o conhecimento anterior que se


tem do fenômeno e fora constituído de experiências não controladas. De outro modo, acaba-
se por formular hipóteses inconsistentes, que dão origem a modelos mentais errados, e que a
por não possuir uma relação contextual com a realidade, geram dados inconsistentes quando
são confrontados com os dados obtidos na experimentação.

Antes de prosseguir, é necessário justificar a utilização de modelos mentais para a


formulação de hipóteses. Até a mais simples situação experimental possui complexidade
suficiente para que não possamos concebê-la por completo. Para que possamos formular
hipóteses, é necessário que se modele mentalmente o problema. O procedimento é
válido,desde que tenhamos a noção exata das limitações que nosso modelo possui,e sua
infliuência no experimento. Tomemos como exemplo a experiência da geração de larvas. Um
dos pressupostos que tivemos foi de que a trama do tecido utilizado era pequena o suficiente
para que as moscas não entrassem no recipiente. Ou seja, no nosso modelo mental de
experiência, não havia mosca em tamanho suficiente para entrar. O experimentador não
precisou enumerar todas as espécies de insetos que pudessem transitar por ali, nem fez uma Página | 5
análise estatística com os tamanhos possíveis. Já a presença de moscas em condições de
colocar ovos é garantida pelo grupo controle: cujas condições eram idênticas ao grupo
experimental,exceto pela malha, ou seja, pela impossibilidade das moscas entrarem em
contato. A utilização de modelos mentais também serve para simplificar um problema, ainda
que mais aspectos da sua natureza sejam conhecidos e passíveis de análise. Um exemplo seria
os exercícios de física ministrados para os aunos do ensino médio. Os exercícios clássicos
envolvendo polias desprezam a massa da corda e o atrito do eixo da polia. Esses efeitos são
compreendidos, porém, necessitam de um ferramental matemático robusto , o cálculo integral
e diferencial. Como os alunos do ensino médio não tem estes conceitos matemáticos, o
problema é simplificado: a diminuição da precisão dos resultados compensam, pois o aluno
pode compreender como outras variáveis do fenômeno influenciam nos resultados.

Uma das principais distorções da modelagem de um problema é a tendência à


generalização de um princípio. Segundo Bachelard, os autores pré-científicos acreditavam que
leis generalistas teriam uma validade maior. Resultava da busca por uma lei única, a descoberta
de uma ordem universal que regeria todos os fenômenos. Teorias particulares seriam
remendos no tecido uno da realidade. O método científico eventualmente encontra leis
similares. Como exemplo, temos a Lei de Coulomb e a Lei da Gravitação Universal.

Eq.1 - Lei de coulomb

A intensidade da força observada entre duas cargas elétricas é dada pela constante
k=4πε0, a carga q de cada corpo e o quadrado da distância d.
Eq.2 - Lei da Gravitação Universal

A intensidade da força observada entre dois corpos quaisquer é dada pela constante
G=6,67x10-11 Nm2/kg2, a massa de cada corpo e o quadrado da distância d.
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A semelhança entre tais leis é tal qual que um pensador pré-científico poderia a partir
desta dizer que sua validade é aumentada,e ainda tentar aplicar um formato parecido a outros
fenômenos. Porém, para o cientista atual, o que valida tais leis é o método pelo qual foram
desenvolvidas.

Esse desvio tendencioso do resultado da reflexão pré científica tem motivos menos
nobres: a justificativa de um princípio em que se acredita pode distorcer a interpretação da
realidade para que seja validado. É citado como exemplo as experiências de McBride, que após
testar corpos do reino vegetal e animal,conclui após observar sua putreção que a retirada do ar
(pertencente ao reino mineral) é a causa da perda da rigidez. Então, ao fazer o ar borbulhar em
uma solução alcalina, observa a precipitação de cristais de carbonato de cálcio a partir desta
reação em meio aquoso:

H2O + CO2  H2CO3

CaOH + H2CO3  CaCO3 + H2O

O Gás carbônico presente no ar reage com a água formando um ácido fraco, o ácido

carbônico. Este reage com o hidróxido de cálcio,que por ser insolúvel em água, forma uma série

de cristais brancos, uma névoa leitosa na solução. Porém, McBride afirma que isto é a

manifestação do ar fixo, que leva a solução para um estado de repouso e coesão.


Bachelard, ao narrar as diversas experiências sobre fermentação, que acabou tendo seu

significado pervertido a uma série de eventos distintos, afirma que “se tudo fermenta, acaba

sendo sem interesse”. Talvez tal afirmação tenha sido feita diante da problemática das
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generalizações e tenha turvado a visão do autor. Vários fenômenos que tem extensão ampla

são objeto de estudo até hoje. A oxidação é um destes fenômenos. Numa atmosfera altamente

oxidante como a nossa, até o metal não resiste ao tempo.Decomposição de alimentos, morte

celular, o próprio processo de combustão, tudo tem influência das reações de oxidação, e seu

estudo é realizado por diversas áreas. Sua importância econômica dispensa maiores

explicações, sendo assim, creio que um fenômeno amplo tem sim sua importância, seu

interesse.

A própria palavra pode ser um obstáculo ao estudo seguindo a filosofia pré-científica.

Estudos com esponjas são apresentados por Bachelard. A partir de um modelo mental da

experiência de uma esponja absorvendo água, uma série de outros fenômenos completamente

distintos é analisada. A utilização de modelos não exatamente perfeitos para explicar certos

fenômenos é até certo ponto útil,como no exemplo da simplificação dos exercícios de física.

Mas o que os pensadores pré-científicos faziam era praticamente uma materialização da

metáfora, distorcendo a construção do conhecimento. O metal passa a ser uma esponja para

eletricidade. Então, possui poros por onde esta se aloja.

É curiosa a afirmação de Bachelard ao refutar que um metal possui poros. Porém,

técnicas de microscopia identificaram a descontinuidade da matéria até mesmo no mais

delicado cristal.A princípio, pode-se imaginar que Bachelard cometeu um erro. Porém,se
consideradas as limitações tecnológicas da época, ele está correto: se seu ferramental não

detecta descontinuidade na superfície de um metal polido, deve ser considerada sua

inexistência. Se formos esperar para termos uma modelagem perfeita de um problema, não
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teríamos começado sequer uma experiência.

A atribuição de qualidades transcendentais a matéria também constitui de um

obstáculo epistemológico. O pensamento pré-científico costumava atribuir a certos materiais

propriedades que eram deduzidas não experimentalmente,mas sim por associação simbólica.

O Ouro,devido ao seu brilho, poderia ser associado á pureza,nobreza, santidade...e por isso,

anularia os efeitos da escuridão, da putrefação,da corrupção. Este pensamento simbólico pode

soar medieval, mas até hoje influencia as pessoas. Clínicas utilizam fios de ouro para realizar

operações plásticas, o que se baseia no uso simbólico desde raro metal, associado à beleza mais

uma vez. O uso de aço cirúrgico seria perfeitamente possível,mas não teria o mesmo apelo

comercial.

A “abertura” da substância, expressão que se usa na química analítica até hoje,

significava desmanchar o corpo, ou solubiliza-lo. Todas estas propriedades simbólicas poderiam

ser acessadas a partir do interior da susbstância. Provavelmente, foram influenciados pela

observação da oxidação natural presente superfícies metálicas.

Os odores também tem um apelo simbólico muito grande. Por não identificarem os

vapores do odor em microscópio,se atribui a este uma natureza etérea, quase mística. Eliminar

o cheiro de um remédio era destruir suas propriedades inatas,lhe tirar a energia. O mesmo

raciocínio é utilizado pra justificar o elixir amargo,o remédio que faz as chargas arderem: Se
produzem sensações intensas, então estão embuídos da energia necessária para que repare o

corpo e a alma.

Dentre os exemplos citados e tantos outros, é fácil perceber que a maioria pode ser Página | 9

observada no cotidiano atual, por um cidadão do século XXI. Tal fenômeno poderia ser

entendido como uma falha dos sistema educacional,que apesar de ter aumentando o volume

de informação transmitido nas últimas décadas, não conseguiu incorporar na mente do cidadão

comum a metodologia de raciocínio científico.

Seria o destino do pensamento científico ficar enclausurado nos muros da academia?

Ou talvez acreditar nesta metodologia exige tanta fé quanto acreditar num deus? A ciência

moderna também tem seus dogmas. Tenho conhecimento da discussão de mesa de bar entre 2

professores, um deles acreditava na criação do universo por Deus, e o outro, um biólogo

defendia que toda criatura viva que existe hoje veio de um evento aleatório, uma organização

singular de moléculas orgânicas,que depois de milhares de anos de evolução chegou aos dias

de hoje com a propriedade única que chamamos de vida. Aquele que acreditava na criação

divina disparou:” Acreditar que uma entidade criou a vida exige tanta fé quanto acreditar que o

acaso a criou.”

Segundo Bachelard, Marat afirmando sobre dois corpos, “..quando encosta no outro, só

resfria se absorver o fluido ígneo que este outro corpo desprende”. Ora,que tolice,fluido ígneo?

Esta explicação poderia se tornar modernamente correta se no lugar do fluido colocássemos

“energia cinética”,e invertêssemos o sentido deste escoamento. Sabemos que a energia

cinética está associada À vibração das moléculas, e que esta em nível molecular é percebida
como energia térmica, temperatura. Mas a ciência moderna não define exatamente o que é

energia. Então,qual a diferença do nosso fluido ígneo pra energia térmica? Um referencial

teórico mais trabalhado?


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Pessoalmente, eu comecei a questionar sobre a validade da metodologia científica

quando li o ZAMM, de Robert Pirsig. Uma das passagens que ilustra seu ataque Às bases desta

metodologia vem a seguir:

“No começo,ele formulou uma lei(...)´O número de hipóteses racionais capazes de

explicar qualquer fenômeno dado é infinito(´....).Se o método científico tem o objetivo de

escolher uma entre várias hipóteses,e se o numero de hipóteses cresce mais rápido do que a

capacidade do método experimental de desembaraçá-las, fica claro que jamais será possível

testar todas as hipóteses. Se todas as hipóteses não podem ser colocadas à prova, não são

conclusivos os resultados do experimento; e, assim, o método científico fica aquém do seu

objetivo de provar irrefutavelmente um conhecimento.”

Por mais que consideremos a evolução epistemológica da metodologia que hoje

chamamos de ciência, assim como seus avanços, é claro que há limitação. Por isso, a filosofia

nunca deve se cansar de atacar essas bases,expor suas vergonhosas fraquezas e questionar

incessantemente se há uma maneira nova de ser gerar conhecimento. Assim como podemos

ter certeza que chegamos a um ponto acima dos nossos amigos empiristas dos séc. XVI, os

mesmos podiam olhar com a mesma postura para os alquimistas do séc. XI. Apesar de crer que

não há maneira melhor de se resolver um problema , abandono o método científico,apenas por

um momento: acredito no futuro, haverá outra maneira de fazer ciência.


Bibliografia
BACHELARD, G. A Formação do Espírito Científico. 1º Edição. ed. [S.l.]: Contraponto, 1938.

PIRSIG, R. M. Zen e a Arte da manutenção de motocicletas. 1º edição. ed. [S.l.]: Livraria Martins Fontes
Editora, 1974.
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Software utilizado para o mapa conceitual. Cmap Tools. Baixado em

http://cmap.ihmc.us/download/