Patañjali e o Yoga ± Textos de Apoio Desde a época das Upanishads (primeira grande corrente filosófica da Índia, o berço dos

Vedas), a índia só esteve verdadeiramente preocupada com um único tema: a estrutura da condição humana, a análise rigorosa dos diversos condicionamentos do ser humano. Não procuraram chegar a uma explicação precisa e coerente do homem (como se processou no ocidente no séc. XIX com base nos condicionamentos hereditários e sociais) mas antes perceber até onde se estendiam as zonas condicionadas do ser humano e ver se existiria alguma coisa para além desses condicionamentos. Os grandes obstáculos à vida ascética (devota, iluminada, sagrada) e contemplativa provinham da actividade do inconsciente, dos ³ samskâra´ e dos ³vâsanâ´ (impregnações, resíduos, latências) que se designam por conteúdos e estruturas do inconsciente. O importante para o conhecimento não era conhecer estas latências, mas dominá -las, trabalhar sobre os conteúdos do inconsciente para os ³queimar´ (sublimar). ³Os obstáculos (ao samádhi/iluminação) são: a incultura, o egoísmo, a exaltação das paixões, a aversão injustificada e o excessivo apego à vida ´(Yoga Sútra, 2,3). As expressões de apego são denominadas kleshas (fontes de angústia) pois estas resultam em todos os casos no acumular de vivências aflitivas. Somente com a libertação desse s kleshas é que o yoguin pode interromper a corrente kármica (a lei da acção e reacção) e libertar -se além da condição humana. ³O resíduo kármico tem ou é acompanhado por tendências e disposições (samskâra) de vários tipos, incluindo no mínimo dois tipos de vestígios (vâsanâ), um dos quais, se e quando activado produz uma recordação da acção originadora, e outro que, se e quando activado produz certas aflições (kleshas). Estes kleshas são concepções erróneas que caracterizam o pensamento daqueles que estão envolvidos em actividades intencionais e são elas as responsáveis pelo facto da pessoa estar em cativeiro, isto é, estar continuamente a produzir resíduos kármicos.´ (Potter, Karl. Karma and Rebirth in Classical Indian Tradition, 1980, Berkeley) . Patãnjali descobriu cinco matrizes produtoras de estados psicomentais (citta vritti): a standardização ou o idealizável (prámana); a concepção errónea (viparyaya); a imaginação sem base factual (vikalpa); o sono e a ausência de ideias e experiências (nidrá); e a memória (smrti). Patañjali enumera de seguida as cinco causas para que as cittavrtti causem sofrimento, aflições (kleshas): a ignorância (avidyá); o sentimento de individualidade ( asmitá); a paixão e o apego ( rága); o aborrecimento, a aversão (dvesha); e o amor pela vida, vontade de viver, e o medo da morte (abhinivesha) (Yoga Sútra 2,3 e o comentário de Vyása). Todos os vrittis produzem sofrimento, aflições (kleshas), a vida humana na sua totalidade é dolorosa.

São inapreensíveis. difíceis de controlar e dominar. mostrar o seu poder. A conquista dessa liberdade absoluta constitui o objectivo de todas as filosofias e técnicas místicas indianas. a ³potencialidade´ carateriza a sua dinâmica e obriga-os a manifestarem-se e a actualizarem-se sob a forma de actos de consciência . As latências querem sair à luz. alabdha bhúmikatva (falta de concentração ou de linearidade mental de forma que a realidade não é . bhránti dárshana (conhecimento inválido. considerando o subconsciente a matriz e receptáculo de toda a acção. a consciência desvinculada das suas estruturas psicofisiológicas e do condicionamento temporal. gestos e intenções egoístas. Chitta Viksepa ± As Distracções e Obstáculos do Yoguin Patañjali focou ainda as distracções e obstáculos ( chitta viksepa) que prejudicam e perturbam o sucesso na prática do aspirante a yoguin. Torna-se inútil tentar modificar os estados de consciência (cittavritti) enquanto não se controlarem e dominarem as latências psic omentais (vásaná). a consciência do ³libertado´ (ou liberado). aniquilar o fluxo psicomental. e é o corte deste fluxo que as técnicas yoguicas se propõem a fazer. historicamente e etnicamente. de saciedade. quando o desejo possui a mente). ou transmigração kármica. é indispensável cortar-se o circuito subconsciente-consciente. costumes e cultura. de multiplicação. a série infinita dos cittavritti. pramáda (indiferença ou insensibilidade). O Yoga ilumina o circuito que une consciente e subconsciente. A resistência que o subconsciente opõe a todo o acto de renúncia ou de iluminação é o sinal do medo sentido por este (subconsciente) que as latências (vásaná) ainda não manifestadas possam falhar o seu destino. mas foi sobretudo através de uma das múltiplas formas de yoga que a Índia acreditou poder assegurá -la. de geração em geração. tornar-se estados de consciência. entenda-se como aquele que conseguiu desligar -se da temporalidade e conhece portanto a verdadeira e inefável liberdade.Patañjali descreve os vásaná como ³sensações subconscientes específicas´. Os vásana transmitem-se hereditariamente. vem do subconsciente e ao subconsciente regressa (graças às ³sementes´ kármicas. definir a sua individualidade. actualizar-se. Uma das maiores descobertas da Índia é a ³consciência-testemunha´. ilusório). ser aniquiladas antes de terem tido te mpo de emergir e actualizar-se. pela linguagem. ter uma forma. Estes alimentam sem cessar o fluxo psicomental. alásya (preguiça). a vida é uma descarga contínua de vásaná que se manifestam através dos vritti. avirati (sensualidade. Tudo o que quer manifestar -se. styána (falta de disposição mental para trabalhar). dominado pela ³sede do fruto´. pelo desejo de auto -satisfação. vásaná). Estes são: vyádhi (doença que perturba o equilíbrio do corpo físico). samshaya (dúvida ou indecisão). ³Os vásaná têm origem na memória´ (Vyása).

porque conduzem ao sofrimento.). Qualquer dárshana expressa o desejo do Homem de escapar à tríplice miséria: o sofrimento celeste (provocado por acção divina. No entanto. porque é o lugar da dor. a guerra. os sentidos. o seu foco no sofrimento universal. as mordidas de cobras. é o substrato: ³aquilo que não se poderia ver. uma ignorância de ordem metafísica. mas sim da ignorân cia. etc. mas pelo que as visões são vistas. daurmansya (desespero). a falta de alimento. não qualquer ignorância. mas antes como uma necessidade cósmica. gera sofrimento: ³O corpo é dor.). as percepções são sofrimento. mas o sofrimento é considerado como condição sine qua none para a libertação. 2. ao contrário de todos os outros seres. shvása prashvása (respiração irregular). as más gestões políticas e sociais que influenciam toda a Humanidade. A Dor Universal Qualquer sistema de pensamento ( dárshana) pós-Upanishads encontra a sua razão de ser. emocional e/ou energética. o Espírito O Ser ou Espírito (purusha) é uma realidade única.´(Anirudha. existem ainda mais quatro distracções: dukha (dor ou miséria). O purusha é o catalisador químico de todo o conhecimento e existência. o homem tem a capacidade de transcender efectivamente a sua condição e abolir o sofrimento. angamejayatva (falta de estabilidade e firmeza física). No entanto. a instabilidade mental. e o sofrimento interior ou orgânico (a doença. de durar (esta realidade efémera é entendida como devir) implica sofrimento. etc.). mas a ignorância da verdadeira natureza do espírito. o simples facto de existir no tempo. pela acção do homem e dos intervenientes naturais. anavasthitattva (instabilidade em permanecer focado após prática continuada). universal e eterna. o Si. a ignorância que nos leva a confundir o espírito com a experiência psicomental. mas graças ao qual o pensamento . dramaticamente implicada na ilusão temporal da Criação (máyá). o próprio prazer é sofrimento porque é seguido de sofrimento. tsunamis. os objectos. perante este cenário pouco atraente ve rifica-se que nenhuma filosofia indiana conduz ao desespero. resumindo. furacões. seja de que natureza for.1). O sofrimento não é algo que esteja apenas relacionada com o homem. A experiência humana. tempestades. A miséria da vida humana não advém de nenhum castigo divino nem de um pecado original. etc. que escapa ao controle do Homem: desastres naturais. O Ser. ou até as picadas de mosquito. O seu valor reside na capacidade que têm de libertar o homem da ³dor´.perceptível). nos comentários aos Sâmhkya Sútras. aquilo que o pensamento não poderia pensar. tendo assim um valor estimulante e positivo. Agora. o sofrimento terrestre (causado pela natureza.

3).pensa. Uma vez que o intelecto ( buddhi) não é mais do que um produto refinado da prakrti (natureza. ³Assim como uma flor se reflecte num cristal. dimensões. A primeira etapa da conquista do conhecimento consiste em negar que o espírito tenha qualquer atributo. como pode este associar-se a algo como a experiência psicomental. porque ultrapassa a capacidade da compreensão humana. a parte mais subtil e transparente da vida mental. Os estados de consciência são produto da prakrti e não podem manter qualquer relação com o espírito pois este está por natureza acima (ou desapegado) de qualquer experiência. 1. uma correspondência simpática entre o Si e o intelecto. No entanto.´ (Gaudapáda. Purusha é absoluto.41). e pensar que esse ³eu´ se refere ao . Purusha é eternamente livre: ³Purusha é aquele que não pode nascer nem ser destruído. ³eu conheço´. Querer encontrar uma solução histórica para algo que não tem princípio nem fim não somente será inútil como é de todo uma infantilidade. Dizer e pensar ³eu quero´. ele é de certa forma. qualidades ou desejos. autónomo e impassível. o espírito dispõe de um conhecimento ininterrupto. conhece o conhecimento. irredutível. apesar deste permanecer imóvel. a inteligência humana não pode interpretar ou conceber outro tipo de fenómenos que não os que como ela façam parte da série infinita de criações da massa primordial (prakrti). o intelecto ( buddhi) na sua forma de pura luminosidade (sattva)tem uma qualidade específica: a de ref lectir o espírito. É uma ilusão pensar que o espírito é dinâmico só porque a experiência mental o é. Quando a flor se move. desprovido de atribu tos. 1. Mándúkhya Káriká. que não é escravizado nem activo. indissociável. ³eu sofro´. e não é totalmente diferente de buddhi (conhecimento) porque embora sendo puro. Seria ignorância atribuir ao cristal as qualidades da flor (forma.32 ± comentário da Mándúkhya Upanishad). Esta concepção levanta uma dúvida: então se o espírito é eterno. Para se ter conhecimento de causa acerca de algo transcendente à vida teria de se ter ao dispor um instrumento de conhecimento que transcendesse também a condição humana. vida). Na realidade trata-se de uma situação ilusória. que não está sedento de liberdade nem libertado . 2. O Conhecimento. a sua imagem move-se no cristal. 7.´(Kena Upanishad. mas o purusha não é semelhante nem diferente dela: não é semelhante à inteligência porque não é modificado pelo conhecimento sempre mutável dos objectos. 1. e todos os seus dramas e sofrimentos? Como é possível tamanha relação? Tanto o Sâmkhya c omo o Yoga consideram este problema insolúvel.5-6). ³Quem conhece o átman atravessa o oceano do sofrimento ´ (Chândogya Upanishad. A compreensão do mundo exterior é possível graças à reflexão do purusha na inteligência. aquilo por que tudo se manifesta e que por nada é manifestado. cores). a inteligência reflecte o purusha´ (Yoga Sútra.

prazer. não se dão em separado. o objectivo e o subjectivo: quando o equilíbrio é dominado por sattva. são anulados. embora em proporções desiguais. excreção).espírito é viver na ilusão e prolongá -la. A prakrti apresenta-se na sua origem como uma massa energética denominada mahat (o grande). Os gunas e a prakrti são uma e a mesma coisa. de essência psicológica. A partir do momento em que compreendemos que o Si é livre. seja qual for a sua natureza. O conhecimento é um despertar que revela a essência do Si. locomoção. Os gunas têm um carácter duplo: podem ser interpretados num sentido objectivo. desenvolvem-se os sentidos cognoscitivos (jñanendriya: visão. os núcleos genéticos do mundo físico. Destes tanmâtra derivam os átomos e moléculas que dão origem aos organismos vegetais e animais. desprovida de experiência pessoal mas possuindo a consciência obscura de ser um ego). O valor destes é real. criam -se os elos kármicos. Estes permitem a natureza manifestar-se de três formas diferentes: sattva (modalidade da luminosidade e da inteligência). rajas (modalidade da energia motora da actividade mental). paladar e tacto) e a mente (manas). a natureza real. água. audição. olfacto. como subjectivo. fogo. constituindo fenómenos do mundo externo. É esta desigualdade que permite o aparecimento de fenómenos. . eterno e inactivo. cria-se um ³momento´ no circuito da energia cósmica. mas esta realidade não tem nada em comum com o purusha. quando o equilíbrio é dominado por tamas. a prakrti passa do estado de mahat para o ahamkâra (o ego. biológicos ou psicomentais eles exist em os três simultaneamente. Desencadeia-se uma força determinada ou semeia-se outra. Tal conhecimento verdadeiro e absoluto não deve ser confundido com a actividade intelectual. e tamas (modalidade da inércia estática e obscuridade psíquica). desejos e pensa mentos já não nos pertencem. servindo este último de elo entre a actividade perceptiva e a actividade biomotora. em todos o s fenómenos físicos. dinâmica e criativa possui três formas de ser. mas revela de forma imediata a realidade. ar. constituindo fenómenos do mundo interior. desenvolvem-se os sentidos conativos (karmendriya: palavra. quando o equilíbrio é dominado por rajas. não produz nada. Daqui a prakrti evolui em duas direcções opostas. que supostamente é eterna e ininterrupta. a dor e os sentimentos. terra). . aprendizagem. A Substância e a Estrutura A substância primordial (prakrti ou prakriti). mas pela revelação. Arrastada pelo impulso da evolução . psicomental. não se obtém pela experiência. que se conhecem como gunas (os três são conhecidos como triguna). perdem o seu valor. desenvolvem-se os cinco elementos primordiais (tanmâtra: éter. caso contrário toda a existência seria eterna.

pelo medo do fim e da morte. Os gunas impregnam todo o universo e estabelecem uma simpatia orgânica entre a humanidade e o Cosmos. só é feliz aquele que perdeu toda a esperança: ³Porque a esperança é a maior das torturas que existe. Estas soluções que passam pelo desapego psicomental. o sofrimento permanece pois é um facto cósmico. o trilho da hiperconsciência (Samádhipádah). mas perde o seu significado. Patañjali. A esperança prolonga e agrava até a miséria humana. o autor dos Yoga Sútras Os Yoga-Sútra consistem em 4 capítulos. pelo apego à vida e aos be ns materiais e aos frutos da acção. para a obtenção da libertação absoluta a personalidade deverá ser sacrificada. . citado pelo comentador Mahadeva Vedántin em Sâmkhya Sútra. o terceiro de 55 sútras trata dos poderes maravilhosos (Vibhútipádah). Moksha. Nirvana ± Significado da Libertação Com efeito. Quando o homem se liberta da sua personalidade condicionada pela efemeridade natural. Samádhi. sendo estas duas entidades penetradas pelo mesmo sofrimento existencial e servindo ambas o mesmo espírito absoluto. A libertação não elimina a dor. e deixa de ser o actor da sua vida para passar a ser um instrumento da acção absoluta. O libertado em vida pode estender a sua esfera de acção tanto quanto desejar pois ele já não age como um ³eu-próprio´. e o desespero a maior das felicidades ´ (Mahábhárata. ou livros (páda): o primeiro. a diferença entre o Cosmos e o Homem é apenas uma diferença de grau e não de essência. emocional e experiencial podem parecer pessimistas ao homem ocidental para quem a personalidade é o pilar basilar de toda a moral em sociedade.Desta forma. De facto. a partir deste momento deixam de se criar novos núcleos kármicos. mas uma vez que a personalidade é a responsável pela produção do sofrimento e do drama humano. 2). o segundo. O sofrimento extingue -se a si mesmo a partir do momento em que compreendemos que este é exterior ao espíri to e que só diz respeito à personalidade humana. ela apenas nega a sua existência como parte do espírito. a libertação (moksha) não é mais que a tomada de consciência de uma situação pré-existente. este elimina o sofrimento da sua existência pois passa a viver em pleno a sua consciência cósmica. estranho ao mundo e determinado por um destino ininteligível à condição humana. os estados de consciência e a inteligência são frutos de uma única e mesma substância. é o capítulo sobre o êxtase yoguico . o corpo do homem. com 51 aforismos (sútra). e o quarto e último. mas como um simples instrumento impessoal do Si. é na verdade uma libertação da ideia do mal e da dor que advém da ignorância. 4. com 55 aforismos denominase de Sádhanapádah (capítulo da realização/prática).

III desta era. aparigraha (não possuir). os quais passaremos a apresentar: 1.o Kaivalyapádah (capítulo da libertação/isolamento). Os outros quatro yamas são consequências naturais da não violência. De qualquer forma. II A. no III ou mesmo no V da nossa era. autor do Grande Comentário Mahábháshya sobre o clássico de gramática escrito por Pánini.C. ou emocional) a si mesmo. asteya (não roubar). São cinco as prescrições. boca (vak). pernas e pés (pada). órgãos sexuais (upashta: yoni na mulher. refreamentos que pretendem purificar o yoguin na sua mente e emoção. nada se sabe de concreto acerca dele. Patañjali. satya (verdade). est a polémica é irrelevante pois o seu mérito é reconhecido por ele ter sistematizado um conhecimento anterior a ele com muitos milhares de anos.YAMA Controle ou Domínio. que viveu no séc. Prescrições universais. Quanto ao autor.. não se sabe sequer se viveu no séc. humanos. Alguns comentadores indianos identificam -no como Patañjali o gramático. e alguns ocidentais afirmam que ele terá vivido por volta do ano 400 D. Outros autores referem-no como Patañjali o médico. mas todas elas conduzirão sempre à primeira aqui apresentada.C.. com 34 sútras que retratam questões já desenvolvidas nos capítulos anteriores.. que até então tinha vindo a ser transmitido de geração em geração através do sistema chamado parámpará (tradição oral). O que importa verdadeiramente é que a mensagem dos yoguis da antiguidade continua a ser transmitida nos dias de hoje graças a Patañjali. que teria vivido séc. e linga no homem)e órgãos excretores (páyu). a não violência. ao próximo ou a qualquer ser vivo. animais ou plantas. entende -se como não matar.II A. são prescrições éticas. autor do tratado Charaka Samhitá sobre medicina ayurvédica.C. bramacharya (não desvirtuar a sexualidade). Este aborda-se no início da prática. psicomental. Ashtanga Yoga ± Os Oito Membros do Yoga Patañjali estruturou nos Yoga Sútra um sistema de yoga com 8 membros bem definidos. Os yamas desempenham o controle dos impulsos naturais que se manifestam através dos cinco karmendriya (órgãos de acção): braços (páni ou bahu) e mãos (hasta). na sua postu ra e acção. Ahimsá. sob qualquer forma: ahimsá (não violência). eliminando a subjectividade que se manifesta do egocentrismo. não agredir nem causar qualquer tipo de dor ou violência ( seja esta de natureza física. . preparando o yoguin para os estágios/membros seguintes no Yoga.

portanto brahmacharya não significa a repressão do divino mas sim o encontro do caminho (acharya) para o divino (brahma). pode ser interpretado como total e absoluta abstinência do acto sexual. o não desvirtuar a sexualidade. sendo económico quanto à excreção do sémen. seja pelo roubo directo ou por estratégias mais ardilosas para obtenção fácil e rápida de lucros desmedidos que desequilibram a balança das necessidades humanas. a exploração. de uma forma geral. Aparigraha. a sua energia é a expressão da energia divina (shákti). Sacrifica-se a verdade pela entronização do amor compassivo. Isto é uma forma degradante de violência sobre si mesmo ou sobre o próximo. Poupar no orgasmo para ganhar na concentração das ojas shákti (energias mentais. mas por eliminar totalmente o impulso de apoderar-se de objectos. a poluição sexual não só no físico. não roubar. Se a humanidade não se tentasse apoderar daquilo que é de todos. espirituais). mas na mente e na emoção.Satya. não roubar. Ao observar este yama. às relações afectivas e emocionais. não cobiçar ou invejar bens ou conquistas do próximo. Desviar-se desta prescrição é manter o abuso. existências. violência. e tudo aquilo que ele necessita realmente vem ter a si a seu tempo. o yoguin simplifica ao máximo a sua vida. Em ambos casos pretende-se por meios distintos conter a energia vital e geradora. Um consegue enganar quem quiser. consiste em fazer coincidir pensament os. haveria bastante para cada um de nós viver. nestas situações a verdade deve ser sacrificada pela manutenção do bem -estar e de ahimsá. ideias prestígio ou mérito alheios. ferir. ou a não dissipação da energia sexual através do orgasmo. È outra das formas de asteya. como por exemplo alguém que procura vingar se de outra pessoa punindo-a fisicamente e pergunta-nos se a vimos passar ou sabemos onde se encontra. nas suas relações com o próximo e consigo mesmo. palavras e acções. pois aquele que acumula e se apropria indevidamente de qualquer valor. faltar com a verdade hipocritamente a quem desta necessita. é enganar. Bramacharya. a não possessividade. traduz-se como generosidade e desapego em relação aos bens materiais. a aberração. a verdade. tirando -o desonestamente dos demais. evitando a falsidade e a mentira em todas as suas formas. violentar subtilmente alguém que precisa da verdade. Passa não somente por não roubar. Falar a verdade é agir em nome do amor com passivo ao próximo. No entanto existem verdades que podem magoar o próximo por serem expressas sem caridade ou por terem um propósito sórdido. O sexo é algo divino. só não consegue enganar a sua própria consciência. pois causa dano à vítima. a não violência. Qualquer furto é himsá. não tomar como seus os frutos da acção. O praticante . potencia a criação. Asteya. Os lucros excessivos são também agressões e constituem violência. desapego aos frutos da acção. a degradação. a fim de preservá-la para a sua evolução no sádhana (prática) e na vida em geral.

Sauchan é também a eliminação das impurezas do pensamento e da emoção. da auto-aflição de violência física e psíquica. encontra-se internamente intoxicada. 43). Santosha. a purificação. tapas (austeridade ou esforço sobre si próprio). querer possuir ou controlar os objectos exteriores. tornando-o compassivo e tolerante. consiste em cultivar um estado interior de permanente alegria. Uma pessoa que se alimente de animais. tenderá mais facilmente a ter tendências bruscas ou agressivas por ter no seu corpo toxinas que são próprias às espécies animais que dependem da agressividade para bem da sua existência. o seu egoísmo. Um praticante de tapas desenvolverá uma resistência que o fortifica para lidar com as maiores dificuldades da vida. as relações ou o próximo é uma forma de violência sobre si mesmo e sobre outrem. da inveja. Os tapas podem ser de 3 ordens: do corpo. especialmente carnes. a consagração a íshvara. Uma mente que não está contente não se consegue concentrar ou realizar. Estar contente implica menos uma pessoa violenta na sociedade. pacífico. santosha (contentamento). inclui a realização de diversas técnicas de purificação interna e externa. ouvidos (shrotra). ascese. O objectivo desta disciplina é proporcionar um estado de purificação que permite ao praticante ter o controlo do seu corpo. Apegar-se aos objectos da mente ou das relações. pelo uso de palavras . Estes cumprem a função de domínio sobre os cinco órgãos da percepção ( jñanendriya): olhos (chakshu). Uma pessoa contente é uma pessoa pacífica e paciente. romper com os limites impostos pela percepção limitada da realidade. e que tenha situações de prisão de ventre. Esta atitude potenciará bastante o progresso da prática. tornando-se forte e destemido. da ansiedade. 2. A purificação conduz assim também á não violência. nariz (ghrána). independentemente de factores externos. livre da insegurança. swádhyáya (estudo de si próprio e da metafísica do yoga). Sauchan.desenvolve a capacidade de permanecer satisfeito com aquilo que lhe acontece no seu dia-a-dia. 2. Tapas é o calor. As prescrições compreendem 5 disciplinas: sauchan (purificação). NYAMA As prescrições psicofísicas. determinação. o arquétipo do yoguin perfeito. o que conduz ao aperfeiçoamento da sensibilidade corporal ´ (Yoga Sútra. e íshvara pranidhána. O controlo sobre os sentidos conduz à organização da vida pessoal do praticante. e queimando também os seus desejos. língua (rasana) e pele (spárshana). austeridade. é reforçar a ilusão da posse. purificação e extermínio das impurezas. ambições ou fraquezas. que dão ao yoguin um estado de limpeza dos elementos do corpo físico denso ( bhúta shuddhi). o contentamento. a conduta individual do yoguin. da fala. força de vontade e esforço sobre si próprio: ³Tapas produz a destruição das impurezas.

Corpo. ÁSANA Este é o terceiro membro do yoga. A prática de ásana não se centra no culto do corpo. Este é um processo de auto-educação. é o modelo ideal. As acções espelham melhor a personalidade de uma pessoa do que as suas próprias palavras. A prática de íshvara pranidhána consiste em adoptar esse modelo como objecto de meditação para alcançar a iluminação. Aquele que possui o verdadeiro conhecimento da sua vida retirou por completo a violência da sua esfera de acção. Íshvara pranidhána é a consagração a Íshvara. reflectindo a divindade em si mesmo. a repetição de um mantra para fins de meditação também é considerado swádhyáya. Pressupõe entregar as acções e seus frutos a uma vontade superior à própria. A sua prática conduzirá o praticante a tirar o melhor proveito e a apreciar da melhor forma o seu próprio destino. equilíbrio. desta forma. A prática de ásana desenvolve a estabilidade e a saúde do corpo. a aplicação prática desse conhecimento e a observação atenta da mesma. não actuam . Uma postura estável e agradável produz o equilíbrio mental e previne a instabilidade da mente. e a leveza dos membros. um exemplo a ser seguido pelo praticante.não ofensivas nem agressivas. do intelecto e da alma. 3. quando o yoguin permanece tranquilo e contente. o samádhi. Íshvara é como o sol. preferindo um discurso compassivo e amoroso. Alarga os horizontes do intelecto e estimula a prática das técnicas. é antes um trono de contemplação e meditação acerca dos seus sentidos. ásana ou postura psicofísica. revendo -o e completando-o continuamente. O mantra japa. Quem o pratica lê e escreve o seu próprio livro da vida. Prazer e sofrimento devem curvar-se perante o conhecimento supremo e ser atribuídos a Íshvara. mantendo o corpo livre de doenças. entendido como o arquétipo do yoguin perfeito. paciência. Desta forma. o yoguin aprende a arte de dedicar as suas acções à energia per si de todas as acções. mente. Swádhyáya é o estudo sobre si mesmo e sobre a metafísica do yoga. nem narcisismo nem frustração. rejubilado no equilíbrio e controlo da sua mente. para não desenvolverem nem apego nem a perda. A sua prática desenvolve agilidade. emoção e espírito são um só. Exercitam todos os músculos. nervos e glândulas no corpo. debaixo deste ne nhuma outra luz é grandiosa e toda a es curidão se desvanece. abrange o autoconhecimento através da reflexão sobre a sabedoria das escrituras. resistência e grande vitalidade . acerca da mente. e mental. o corpo torna-se um veículo para o espírito. onde o professor e o aluno são unos na mente e partilham de amor e respeito mútuos. falar sobre o conhecimento que produ z a ascese. Desta forma. O conhecimento entra directamente na corrente sanguínea e passa a fazer parte da vida do ser.

Alguns adquirem os seus nomes inspirados na vegetação (vrksha ± árvore. Alguns ásanas são nomeados em homenagem a heróis lendários ( Virabhadra ± O Guerreiro. outros representam alguns deuses e avatares do panteão hindu ( Ganesh ± Deus Elefante. Com a prática continuada de ásana. há várias formas de definirmos sukham: felicidade. kúrma ± tartaruga). assumindo infinitas formas. estão em pe rmanente e constante transformação. outros em aves (mayúra ± pavão. outros em animais aquáticos ou anfíbios ( matsya ± peixe. da maneira mais . crescimento. O ser. todos respiram o mesmo espírito universal ( purusha). Por outro lado. o seu corpo. O verdadeiro ásana é aquela postura em que o pensamento de Brahma flui incessante e sem esforço na mente do praticante. uma simples passagem de um plano de consciência para outro plano mais subtil. desenvolvimento. padma ± lótus). sólido. 46). Krishna). Nos dias de hoje as pessoas envelhecem e degradam -se bastante nos últimos anos de vida. devemos ir até a origem da questão: sthira significa firme. menos doloroso. Não há dúvida. fluído ou agradável. então que deve mos construir o ásana primeiramente. ushtra ± camelo). Hanuman ± O Deus Macaco. e os últimos momentos de vida são longinquamente dolorosos e perpetuados pela doença até ao último momento. ³Shtirasukham ásanam´(Yoga Sútra. passam por um processo de nascimento. outros nos seres rastejantes (bhujang ± serpente). independentemente da criatura. toda a gama da criação desde o insecto mais baixo à forma de vida mais perfeita. Para encontrar a maneira correcta de interpretar este sútra.separadamente. filho de Parvati e Shiva. e neste caso particular. Por este meio o yoguin entende que a forma mais elevada é a do ser sem forma (o Si). maturação. filho do Vento). fácil. ma ntendo o funcionamento vital saudável até o seu último suspiro. como torna o processo da morte mais simples. outros nos quadrúpedes (svána ± cão. perdendo a total qualidade de vida. e a prática de ásana transporta-nos para essa consciência absoluta. O yoguin percebe pela prática de ásana que a sua mente não deve descuidar ou tomar irrelevante qualquer forma de vida. ³Ásana é a postura firme e confortável´. Patañjali coloca primeiramente o termo sthiram. vrischika ± escorpião). hamsa ± cisne). outros em insectos (shalabha ± gafanhoto. Os nomes dos ásanas são significativos e ilustram o princípio evolucionário. 2. e não só torna a vida mais longa e tranquila. e naturalmente morre« a prática de ásana permite que este processo efémero seja efectuado da forma mais consciente e equilibrada possível. vivendo em necessidade de apoio extremo e sofrimento. ou mesmo o estado embrionário ( garbhapinda ou bala ± embrião/bebé). mais confortável. a morte torna-se um processo simples e rápido.

respiração. energia. no intuito de limitar a actividade da consciência exclusivamente na essência da imagem contemplada. PRÁNAYÁMA Este anga centra-se sobre a expansão e o domínio da bioenergia através do desenvolvimento de técnicas respiratórias. Portanto. Somente depois vem sukham. Prána significa alento. Estes ritmos respiratórios fortalecem o sistema respiratório. o conforto. dos órgãos internos. controle. Sukham não pode ser mole. PRATYÁHÁRA Expansão. domínio. o praticante desenvolve uma busca no auto -exame de si mesmo. Pránayáma é então a ciência da respiração.firme. retenção ou pausa. alegria. 4. O kumbakha é . Para ultrapassar a atracção pelos objectos externos cuja sensualidade capturam os seus sentidos. apresenta -se como uma forma adequada de traduzir o termo. Ne sta fase. 6. tamas) na natureza humana. músculos. força vital. desenvolve -se a concentração da mente e dos sentidos num só ponto ( ekagráta). o praticante deve atrair à sua mente com devoção total (bhakti) a origem criadora que deu forma a todos os objectos. já que sukham significa mesmo felicidade. articulaçõ es). de natureza iluminada. Tal acção romperá a visão dual na mente do yoguin. Quando a retenção é feita sem ar nos pulmões. tonificam o sistema nervoso. É a faculdade de libertar a actividade sensorial do domínio das imagens ou objectos exteriores. rechaka (exalação ou expiração ± esvaziamento dos pulmões). e kumbakha (reter ou aguentar o ar dentro dos pulmões). abstracção ou retracção dos sentidos. suprimindo a entrada de ar. conduzind o o praticante à libertação dos opostos e à concentração na totalidade da alma universal. 5. Esta prática produz ainda a lubrificação e limpeza dos tecidos (pele. o denominado de shuniaka. Representa também a alma como corpo subtil oposto ao corpo denso. e das nádi. e levará no final à ascenção da manifestação sáttvica. Quando o desejo e a ansiedade diminuem. e ayáma significa expansão. a mente liberta -se e torna-se um veículo para a concentração. agradável. rájas. o corpo energético por onde flui a energia vital (prána). Na prática de pránayáma identificamos 3 diferentes fases da respiração e desenvolve-se conhecimento e experiência no controlo e expansão das mesmas fases: púraka (inalação ou inspiração ± encher os pulmões de ar). DHÁRANA Neste membro do yoga. Tal prática motivará o equilíbrio dos triguná (sattva. e reduzem a ansiedade. seria ilógico uma vez que sthiram significa firme.

SAMÁDHI O último membro apresentado no sistema de Patañjali . apenas um profundo silêncio consegue transmitir a essência do samádhi. ekágra (atenção. tornando-se luz para si e para os outros. totalmente alerta. 7. onde se manifesta exclusivamente um sentimento de felicidade e paz. ou estar conscientem ente sem forma alguma em toda a existência. A meditação é o resultado espontâneo da concentração da consciência e c onstitui a preparação essencial para atingir o estado de samádhi (libertado). 8. entre o observador e o observado. a sua prática conduz à libertação da sua forma mortal para entronar todas as formas existentes. o yoguin passa para um estado em que o corpo e os sentidos estão repousados como se estivessem a dormir. A mente encontra-se agrupada em 5 estados mentais: ksipta (dispersão. também a mente brilha continuamente quando focada no espírito universal. a mente adquire a forma do objecto que contempla. no entanto ele atravessou para além da consciência. as faculdades mentais e a razoabilidade estão alertas como se estivessem despertas. Neste momento ele liberta-se do karma e torna-se um jivana mukta (uma alma liberada). múdha (loucura. foco). da verdade e de uma alegria inalterável. e niruddha (anulação da mente. está totalmente consciente. consiste em deter as flutuações da consciência através da sua saturação na contemplação de um objecto. distracção). o yoguin concentra-se sobre o AUM. então utiliza toda a sua concentração para esse objectivo. Tal como uma garrafa de água adquire a forma do seu recipiente. DHYÁNA A meditação contemplativa. O AUM é a essência de todas as coisas. a iluminação. . O yoguin descobre através de dhyána a sua luz interior. Existe apenas a experiência da consciência. viksipta (agitação. concentração. Para atingir o ekagráta. Tal como uma lâmpada eléctrica brilha ininterruptamente quando os filamentos mantém a corrente ininterrupta. entorpecimento. No pico da meditação. O yoguin partiu do mundo material e mergulhou na eternidade. Não existe diferença entre o conhecedor e o conhecido. não existem pensamentos que descrevam este estado nem palavras que possam articular a experiência. negação). Atinge-se um estado de consciência absoluta. estupidez). do intelecto e do ego. sem qualificação possível. unidade com o divino).praticante que tiver uma mente focada desenvolve poderes intelectuais superiores e sabe exactamente o que pretende.

Patañjali e o Yoga. (1966). PEDRO KUPFER. Relógio de Água Editores. Yoga Sútra. Desde já os meus agradecimentos e reverências a estes mestres cuja contribuição e inspiração nos permite reconhecermos o caminho do conhecimento nas nossas vidas e práticas. as quais desde já recomendo para aprofundar o conhecimento nestes temas aqui desenvolvidos: B K S IYENGAR. 1966. George Allen & Unwin (Publishers) Limited. . 2000. Santa Maria da Feira. PATAÑJALI. São Paulo.Estes textos foram produzidos e adaptados com base nas seguintes obras bibliográficas apresentadas em baixo. MIRCÉA ELIADE. 1999.Yoga Dipika. Great Britain. Guia de Meditação. Câmara Brasileira do Livro. Light on Yoga. Brasil.

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