A mulher gorda, mais do que o homem, é segregada e anulada.

Mas o peso que mais a incomoda não é aquele registrado na balança — é o da consciência. Quase inevitavelmente, as explicações dadas para a gordura apontam para o fracasso da própria mulher em controlar seu peso, seu apetite e seus impulsos. As mulheres que sofrem do problema da compulsão de comer (que ataca quase todas as gordas) suportam uma dupla angústia: sentem-se desajustadas socialmente e acreditam ser as únicas culpadas por isso. Devido à ansiedade que isso acarreta e ao fato de que as diversas soluções oferecidas às mulheres no passado não as satisfizeram, tornou-se necessário o desenvolvimento de uma nova psicoterapia que lidasse com o problema da compulsão de comer, dentro do contexto do movimento de libertação da mulher. É que se torna cada dia mais claro que a gordura é uma questão feminista. Ela é um problema social, nada tem a ver com a falta de controle ou de força de vontade da mulher, mas pode se tornar uma curiosa forma de protesto. Este livro não diz o que a mulher deve fazer para emagrecer. Ele trata de ajudá-la a conviver com o seu corpo, a aceitá-lo sem culpa, a perder o peso da consciência. A melhor maneira de emagrecer, como fica claro nestas páginas, é sentir-se desobrigada de fazê-lo. Ao examinar os motivos que levam as mulheres a engordar, Susie Orbach acaba por analisar a própria situação da mulher na sociedade. "O fato de a compulsão de comer", explica ela, "ser um problema majoritariamente feminino indica que está relacionada à vivência de ser mulher na socieda-

de. Assim, podemos entender o ato de engordar como algo preciso e intencional; é um desafio dirigido, consciente ou inconscientemente, à estereotipagem de papéis sexuais e a vivências de feminilidade culturalmente definidas. A gordura", continua, "é uma resposta à desigualdade dos sexos. Representa sentimentos de mulheres que raramente são examinados, muito menos tratados." O enfoque terapêutico aqui, diferentemente de outros programas de emagrecimento, não reforça os papéis sociais opressores que, de saída, levam as mulheres a comer compulsivamente e, em seguida, à gordura. O que Susie Orbach faz neste seu revolucionário trabalho — fruto de pesquisa entre mulheres de todas as classes, entre os dezessete e os 65 anos — é um convite à libertação, ao fim da escravidão das mulheres, de sua submissão às dietas e às indústrias de moda que, primeiro, estabelecem imagens ideais e, em seguida, incitam-nas a se encaixar nessas imagens. Gordura é uma questão feminista, um livro surpreendente e extremamente consciente, escrito por uma psicoterapeuta praticante, ensina, na verdade, a mulher a perder peso sentindo prazer com a comida, com a vida e consigo mesma, livrando-a do círculo vicioso dieta/abuso. Co-fundadora do Women's Center Institute, em Nova York, e do Women's Therapy Center, em Londres, Susie Orbach é especialista no tratamento da compulsão de comer. Com este trabalho, ela torna obsoletos todos os livros de dieta para emagrecer.

Tradução de CINTHIA BARKI

Título original norte-americano FAT IS A FEMINIST ISSUE

Copyright © 1978 by Susie Orbach

Direitos de publicação exclusiva em língua portuguesa em todo o mundo adquiridos pela DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A. Rua Argentina 171 — 20921 Rio de Janeiro, RJ — Tel.: 580-3668 que se reserva a propriedade literária desta tradução Impresso no Brasil PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL Caixa Postal 23.052 — Rio de Janeiro, RJ — 20922
Impresso por Gráfica Portinho Cavalcanti Ltda. Rua Santana, 136/138 (edifício próprio) Tel.: 224-7732 (PABX) Rio de Janeiro — RJ

Para, Eleanor Anguti, Carol Bloom e Lela Zaphiropoulos

Sumário

Prefácio à edição brasileira
Chovia e fazia frio em Londres. Já estava andando há algumas horas quando enfim encontrei a livraria que estava procurando. Sister Right, era o nome. Uma livraria feminista. Fui observando os títulos, selecionando livros que julgava serem interessantes. De repente, um me chamou atenção: Gordura é uma questão feminista. Juntei-o aos outros, mas a proposta do livro me intrigava. As chamadas diziam: "Emagreça sem fazer regime", um livro antidieta, e outras coisas do gênero. Como havia engordado demais durante o inverno londrino, dei-me conta do quanto é difícil pertencer ao mundo maravilhoso dos magros. Você cai no círculo vicioso terrível do engorda/sente culpa/come com culpa/engorda/se pesa/fica aflito/jejua/segue tudo quanto é regime que aparece pela frente e assim por diante. Gordura é uma questão feminista é um livro intrigante que questiona as causas da sua gordura e leva você a refletir sobre ela e sobre o fato de estar gordo. A autora parte do princípio de que existe um desejo interno e inconsciente de ser gordo, e que você faz uso da gordura por algum motivo.
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Numa abordagem individual e social bastante profunda, o livro prende e provoca, e confesso que houve momentos em que eu o odiei. É claro, ele mexeu muito comigo, pois várias situações relatadas me serviram como uma luva. Através do livro, e com muita reflexão posterior, fui descobrindo e combatendo as causas da minha gordura, e hoje mantenho um peso considerado normal para a minha estatura e idade. Agradeço imensamente à Editora Record, pois foi quem acreditou no livro e resolveu editá-lo aqui no Brasil. Espero que a sua trajetória por estas páginas também seja esclarecedora e frutífera, como o foi para mim e para milhares de leitores nos Estados Unidos e na Europa. A autora fez a parte dela; eu, como agente e admiradora de suas idéias, fiz a minha de trazer o livro até você. O resto está em suas mãos. Boa leitura! Sílvia Rocha setembro de 1986.

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Prefácio
Em março de 1970, fui ao Alternate U, na Sexta Avenida, na altura da rua 14, na cidade de Nova York, inscrever-me em um curso sobre compulsão de comer e auto-imagem, somente para mulheres. Entrei numa sala abarrotada com quarenta mulheres, gordas e magras, que falavam sobre seus corpos e hábitos alimentares. Carol Munter, a organizadora do grupo, visivelmente encantada com a afluência de pessoas, sugeriu que nos dividíssemos em quatro grupos. Era a primeira vez, desde o começo do movimento de libertação da mulher, que mulheres ousavam aparecer em grupos de debates que tratavam especificamente de imagem corporal. O tema do curso dava a impressão de ser algo burlesco: feministas preocupadas com a aparência! Naquela época costumávamos rejeitar os ideais masculinos veiculados pela propaganda e pelo cinema e que ditavam nossa aparência. Éramos aparentemente felizes vestindo nossos jeans e camisetas. Não tínhamos o hábito de conversar com nossas amigas sobre roupas ou forma física; na verdade, havia uma sensação de alívio generalizada, podíamos ficar à vontade com nossas roupas e corpos e não precisávamos preocupar-nos com o que era especialmente ligado à moda, provocante, ou atraente. Vestíamos as roupas da rebelião e não ligávamos para o que os outros pudessem pensar. Ou será que ligávamos?
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Antes que formássemos os grupos, Carol Munter mencionou duas coisas: a primeira, que conhecia uma pessoa que havia perdido muito peso sem fazer dieta; a segunda, que havia montado um espelho de quatro lados num closet ali perto. Quem quisesse podia ir lá, sozinha, olhar-se pelos quatro lados o tempo que fosse preciso. Carol achava que duas coisas podiam ser a solução para a perda de peso: não fazer dieta e aceitar a si mesma. Mal prestei atenção. Pensava: O que estou fazendo aqui? Sempre me olho no espelho, não tenho medo de fazer isso... Sou mais magra do que algumas delas, será que as outras mulheres vão me aceitar? Nosso grupo marcou um novo encontro para a semana seguinte e nos separamos. Estava confusa, havia esperado por um debate sobre padrões de nutrição nos Estados Unidos e no Terceiro Mundo, ou talvez um exame das indústrias da moda e de alimentos, ou algo sobre a incidência da obesidade nos "países ricos". Vacilava em examinar o assunto da compulsão de comer fora do contexto de uma linguagem política, linguagem que colocava a família como o ponto de articulação entre o patriarcado e a sociedade ocidental. Estava perturbada, mas agarrei-me ao slogan de que o individual é político. Não teria voltado, salvo por um motivo. Apesar do malestar e da necessidade de comparar-me às outras mulheres, sentia também um alívio extremo em fazer parte de um grupo de mulheres, gordas e magras, onde todas eram comedoras compulsivas. O problema estava identificado e talvez não me devesse sentir tão envergonhada. Há um ano, aproximadamente, vinha falando bastante sobre assuntos muito pessoais em grupos de conscientização e de repente fiquei muito animada quando Carol propôs que tratássemos do mesmo modo uma questão que havia permanecido tão oculta e íntima. Deixei o grupo seis meses depois. Não me considerava mais uma comedora compulsiva e consegui estabilizar-me em um peso que achei aceitável. Ele ultrapassou um pouco aquele das minhas antigas fantasias do gênero Twiggy. A
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comida não me apavorava mais e podia viver em paz com meu corpo. Isso ainda me deixa surpresa, diante daqueles dez anos tão sofridos de dietas, abusos e ódio de mim mesma. O que aconteceu então, no grupo, que causou essa transformação? Na verdade, muita coisa. Formamos um grupo convencional de mulheres e, uma a uma, fomos compartilhando nossos sentimentos a respeito de nossos corpos, atratividade, comida, modo de comer, magreza, gordura e roupas. Relatamos minuciosamente casos de dietas anteriores e contamos histórias horripilantes de médicos, psiquiatras, clubes de dieta, hotéis de emagrecimento e jejuns. Conhecíamos o suficiente para saber que todas as nossas tentativas anteriores de chegar ao peso e à forma certos haviam fracassado. Perguntávamos a nós mesmas por que queríamos nossos corpos tão em forma e o que havia de tão poderoso naquele tipo específico de aparência para que tivéssemos todas tentado e conseguido perder peso dezenas de vezes. Não entendíamos por que não conseguíamos nos livrar "dele", por que, toda vez que quase atingíamos nosso objetivo, "ele" voltava furtivamente, ou por que sempre saíamos do regime. Por que vivíamos tão atormentadas com nossas proporções e formas? Começamos a formular novas perguntas e a nos deparar com novas respostas. Formávamos um grupo de ajuda mútua quando a força do movimento de libertação da mulher nos estimulou a repensar muitos conceitos pre-estabelecidos. O poder criativo do movimento preparou um solo fértil onde as idéias feministas, alimentadas e desenvolvidas em inúmeros grupos de conscientização, em passeatas e manifestações e em campanhas políticas organizadas, encontraram novas aplicações e utilidades. A compulsão de comer era um dos campos onde essas idéias podiam ser aplicadas. A compulsão de comer é uma atividade muito penosa e, aparentemente, autodestrutiva. Mas o feminismo ensinounos a desconfiar de rotulações deste gênero. Ensinou-nos que certas atividades que parecem ser autodestrutivas são, invariavelmente, adaptações, tentativas de enfrentar o mundo. Em nosso grupo, viramos às avessas nossas idéias for13

temente arraigadas sobre dietas e magreza. Carol lembrounos de sua amiga que perdera peso sem fazer dieta. Aos poucos e com insegurança, paramos com nossas dietas. Nada horrível aconteceu. Meu mundo não desabou. Carol levantou a questão principal: talvez não quiséssemos ser magras. É claro que eu queria ser magra, eu seria... As reticências ficaram com a resposta. Eu magra seria diferente de quem eu era. Decidi que não queria ser magra, não havia nada de mais nisso. Os homens ficam mexendo com a gente, viramos objetos sexuais. Não, decididamente não queria ser magra... Desenvolvi um novo raciocínio político para não ser magra — não me tornaria aquilo que as revistas de moda queriam que eu fosse. Era uma beatnik judia e seria zaftig* Relaxei, comi o que quis e vesti as roupas que tinham a ver comigo. Sentime até mesmo um pouco prosa. Ignorava as colunas de dieta dos jornais, apreciava as diferentes fases gastronômicas pelas quais passava e andava pelas ruas sentindo-me cada vez mais confiante. No entanto, aquelas reticências continuavam a me perturbar. Por que tinha medo de ser magra? Comecei a visualizar as coisas que me apavoravam. Ao mesmo tempo que as confrontava, perguntava a mim mesma como o fato de ser gorda poderia me ajudar naquelas situações? O fato de ser magra me causaria mais dificuldades em quê? Quando a imagem da minha personalidade gorda e magra se fundiu, comecei a perder peso. Fiquei extremamente satisfeita em ter um corpo no qual me sentia bem e em não estar mais obcecada com relação à comida. Prometi a mim mesma que não seria eu a responsável por me privar das comidas de que gostava. Aprendera uma lição decisiva: era a mesma pessoa, gorda ou magra. Satisfeita, deixei o grupo. Juntas havíamos desenvolvido uma teoria e uma prática que faziam sentido. Eu e Carol continuamos a ajudar outras mulheres a resolver esse problema. Orientamos grupos. Tornamo-nos terapeutas e trabalhamos com mulheres em grupos e individualmente durante cinco anos.

'Pessoa gorda em ídiche. (N. do T.)

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Este livro é uma tentativa de compartilhar esse trabalho. É minha visão do que aprendemos no primeiro grupo, com os grupos subseqüentes e no tratamento de mulheres individualmente, que dividiram seu problema da compulsão de comer conosco. Como tal é necessariamente limitado; seu alcance não é suficiente para fornecer um quadro abrangente sobre a compulsão de comer, mas aponta para aspectos que não foram notados por aqueles que trabalham nesse campo. As observações e insights foram colhidos junto a mulheres dos Estados Unidos, Canadá e Inglaterra. Todas brancas e na faixa etária dos dezessete aos sessenta e cinco anos. Estão incluídas avós e mulheres solteiras. Pertencem à classe operária, classe média e classe média alta. Desejaria imensamente que este livro tivesse alguma utilidade para um público mais amplo, principalmente para mulheres negras e latinas, mas reconheço que suas vivências culturais são diferentes daquelas de onde essas idéias se desenvolveram, e talvez não tenham muito a acrescentar-lhes. Muitos já se ocuparam do estudo da compulsão de comer, como psiquiatras, psicanalistas, psicólogos, médicos, nutricionistas e endocrinologistas1. De modo geral, lidam com o problema ou tentando eliminar a obesidade ou tratando das causas subjacentes à ansiedade que gera a compulsão de comer. Esta nunca foi definida com precisão, mas para mim e para as mulheres com as quais trabalhei ela significa o seguinte: Comer quando a fome não é fisiológica. Sentir-se descontrolada com relação à comida, entrando para valer na dieta ou na comilança. Despender muito tempo com pensamentos e preocupações relacionados à comida e à gordura. Procurar ansiosamente, na dieta da moda, informações essenciais.
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Sentir-se péssima por não ter controle. Sentir-se péssima em relação a seu corpo. Nosso enfoque tem sido o de ver a compulsão de comer tanto como sintoma quanto como um problema em si mesmo. É sintoma no sentido em que aquele que come por compulsão não sabe como lidar com aquilo que está por trás deste comportamento e apela para a comida. Por outro lado, a síndrome da compulsão de comer se propagou de tal maneira e é tão dolorosamente absorvente que deve também ser abordada diretamente como um problema. Conseqüentemente, tratamos de ambos os aspectos. Examinamos e desmistificamos o sintoma para descobrir o que está sendo manifestado no desejo de ser gorda, no medo da magreza e na vontade de se fartar e de passar fome. Ao mesmo tempo, tentamos intervir diretamente para que os sentimentos e o comportamento com relação à comida possa modificar-se. Os problemas subjacentes devem ser revelados e distinguidos, mas não necessariamente trabalhados. A perspectiva é sempre a de perceber as dimensões sociais que levam as mulheres a optar pela compulsão de comer como uma adequação à pressão sexista da sociedade contemporânea. Estamos cientes de que a preocupação contemporânea com a magreza é nova e restringe-se aos países ocidentais que aparentemente não sofrem de escassez de alimentos. A produção de alimentos desses países está quase toda nas mãos de empresas multinacionais2. Dominam totalmente o mercado, desde comidas com "alto teor de proteínas", "vitaminadas" e "integrais", a doces dietéticos, geléias, sorvetes, leites e refrigerantes. Às mulheres, as compradoras mais importantes de alimentos, é oferecida uma escolha aparentemente ampla. Elas têm de fazer escolhas inteligentes para a saúde e o bem-estar de suas famílias. Ao mesmo tempo, toda mulher se defronta incessantemente com imagens de magreza e de boa forma e com recomendações para comer sensatamente, perder peso e ter uma vida feliz. Esta
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preocupação geral com a magreza atinge tanto mulheres, como homens, e as pessoas são, muitas vezes, induzidas a emagrecer quando não estavam anteriormente com excesso de peso. Deste modo tem início um ciclo de privação de comida e de compulsão de comer. As mulheres são especialmente suscetíveis a esses apelos em favor da perda de peso porque são educadas para adaptar-se a uma imagem de feminilidade que confere importância ao peso e à forma. Somos ensinadas a nos enquadrar e a nos destacar ao mesmo tempo — mensagem realmente contraditória. Os homens estão sendo cada vez mais atingidos por esse tipo de pressão e, apesar de ter trabalhado com muitos homens, não tentei formular uma teoria que descreva como o sexismo afeta o peso masculino. Este livro foi escrito como um manual de auto-ajuda. No entanto, alguns terapeutas talvez queiram incorporar este método a seus trabalhos com comedores compulsivos3. Espero que a experiência aqui relatada e vivida pelas mulheres tenha algo a dizer a todas aquelas que sofrem do problema da compulsão de comer. Susie Orbach Londres, 1978

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Introdução
A obesidade e o comer em excesso juntaram-se ao sexo como questões fundamentais nas vidas de muitas mulheres hoje em dia. Estima-se que nos Estados Unidos 50% das mulheres têm excesso de peso. Todas as revistas femininas publicam uma coluna de dieta. Médicos e clínicas de emagrecimento prosperam. Nomes de comidas dietéticas fazem agora parte de nosso vocabulário comum. A boa forma física e a beleza são, hoje em dia, o objetivo de todas as mulheres. Ao mesmo tempo que essa preocupação com a gordura e com a comida tornou-se tão comum que passamos a aceitá-la sem questionamentos, ser gorda, sentir-se gorda e a compulsão de comer em excesso são, na verdade, experiências sérias e dolorosas para as mulheres que as vivem. A mulher gorda é segregada e anulada. Quase inevitavelmente, as explicações dadas para a gordura apontam para o fracasso da própria mulher em controlar seu peso, seu apetite e seus impulsos. As mulheres que sofrem do problema da compulsão de comer suportam uma dupla angústia: sentem-se desajustadas socialmente e acreditam-se as únicas culpadas. O número de mulheres que têm problemas com peso e que comem por compulsão é grande e vem aumentando.
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Devido à ansiedade que isso acarreta e ao fato de que as diversas soluções oferecidas às mulheres no passado não funcionaram, tornou-se necessário o desenvolvimento de uma nova psicoterapia que lidasse com o problema da compulsão de comer, dentro do contexto do movimento de libertação da mulher. Esta nova psicoterapia representa um reexame feminista da psicanálise tradicional. Um enfoque psicanalítico tem muito a oferecer para. uma solução dos problemas da compulsão de comer. Este enfoque nos fornece meios de investigar as raízes do problema em nossas primeiras vivências. Mostra-nos como formamos nossa personalidade adulta, principalmente nossa identidade sexual — como uma menina recém-nascida tornase moça e depois mulher e como um menino recém-nascido torna-se rapaz e depois homem. O insight psicanalítico nos ajuda a compreender o que significa ser gorda e comer em excesso para cada mulher individualmente, através da explicação de seus atos conscientes ou inconscientes. No entanto, um enfoque baseado exclusivamente na psicanálise clássica, sem a perspectiva feminista, é insuficiente. Desde a Segunda Guerra Mundial, a psiquiatria, de modo geral, tem dito às mulheres infelizes que sua insatisfação representa uma incapacidade em resolver o "complexo de Édipo". A gordura feminina tem sido diagnosticada como um sintoma obsessivo-compulsivo relacionado à separação-individuação, narcisismo e desenvolvimento de ego insuficiente1. Ser gorda é encarado como um desvio e uma maneira de afastar os homens. O comer em excesso e a obesidade foram reduzidos a falhas de caráter, em vez de serem entendidos como a expressão de vivências dolorosas e conflituosas. Além disso, em vez de tentar descobrir e enfrentar os sentimentos desagradáveis das mulheres com relação a seus corpos ou com relação à comida, os profissionais se preocuparam com o problema de como torná-las magras. Assim, depois que psiquiatras, analistas e psicólogos fracassaram, cientistas começaram a procurar respostas biológicas e até mesmo genéticas para explicar a obesidade. Nenhum destes enfoques têm tido resultados con20

vincentes e duradouros. Nenhum deles chegou aos pontos fundamentais do problema da compulsão de comer que estão enraizados na desigualdade social da mulher. Uma visão feminista do problema da compulsão de comer da mulher é essencial se quisermos superar o enfoque ineficaz do tipo que diz que a culpa é da vítima2 e o insatisfatório modelo de tratamento de adaptação. Enquanto a psicanálise fornece meios valiosos de descobrir as origens mais profundas da ansiedade, o feminismo faz questão de dizer que essas dolorosas vivências pessoais advêm do contexto social onde as meninas nascem e dentro do qual crescem e se tornam mulheres. O fato da compulsão de comer ser um problema majoritariamente feminino indica que está relacionada à vivência de ser mulher em nossa sociedade. O feminismo demonstra que ser gorda representa uma tentativa de romper com os estereótipos sexuais da sociedade. Assim, podemos entender o ato de engordar como algo preciso e intencional; é um desafio dirigido, consciente ou inconscientemente, à estereotipagem de papéis sexuais e a vivências de feminilidade culturalmente definidas. A gordura é um mal social; a gordura é uma questão feminista. A gordura não tem a ver com falta de controle ou falta de força de vontade. A gordura tem a ver com proteção, sexo, criação, força, limites, maternidade, estabilidade, afirmação e raiva. É uma resposta à desigualdade dos sexos. A gordura hoje representa sentimentos de mulheres que raramente são examinados, muito menos tratados. Embora tornar-se gorda não altere as raízes da opressão sexual, um estudo das causas subjacentes ou da motivação inconsciente que leva as mulheres a comer compulsivamente pode indicar novas possibilidades de tratamento. Nosso enfoque terapêutico, diferentemente de outros programas de emagrecimento, não reforça os papéis sociais opressores que levam as mulheres, de saída, à compulsão de comer. O que acontece com a posição social da mulher, que a leva a reagir engordando? A justificativa ideológica atual para a desigualdade dos sexos formou-se baseada no conceito das diferenças inatas
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entre homens e mulheres. Somente as mulheres podem dar à luz e amamentar seus bebês e, dessa forma, forma-se uma relação de dependência primária entre mãe e filho. Embora esta capacidade biológica seja a única diferença genética conhecida entre o homem e a mulher3, ela serve de base para uma divisão desigual do trabalho, do poder, dos papéis e das expectativas entre os sexos. A divisão do trabalho está institucionalizada. A capacidade da mulher de reproduzir e alimentar relegou-a ao cuidado e à socialização das crianças. A relegação da mulher aos papéis sociais de esposa e mãe tem muitas conseqüências significativas que são, em parte, responsáveis pelo problema de gordura. Em primeiro lugar, para se tornar esposa e mãe ela tem de ter um homem. Conseguir um homem é visto como um objetivo quase inatingível, porém essencial. Para conseguir um homem, a mulher deve aprender a se ver como um artigo, uma mercadoria, um objeto sexual. Grande parte daquilo que ela sente e da sua identidade depende de como ela se vê e é vista pelos outros. Como diz John Berger em Ways of Seeing: "Os homens agem, as mulheres aparecem. Os homens olham as mulheres. As mulheres se vêem sendo olhadas. Isto determina não somente quase todas as relações entre homens e mulheres, 4 como também a relação das mulheres consigo mesmas ." Essa ênfase à aparência como aspecto principal da existência da mulher torna-a extremamente autocrítica. Exige que ela se ocupe com uma imagem de si mesma que os outros achem agradável e atraente — imagem que transmita imediatamente que tipo de mulher ela é. Ela tem de se observar e avaliar, examinando cada detalhe de si mesma como se estivesse sendo julgada de fora. Tenta encaixar-se na imagem de feminilidade exibida em cartazes, jornais, revistas e na televisão. Os meios de comunicação apresentam a mulher ou dentro de um contexto sexual, ou dentro da família, refletindo os dois papéis estabelecidos para ela: o
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primeiro, como objeto sexual, o segundo, como mãe. Ela é criada para "agarrar" um homem com sua boa aparência e boas maneiras. Para fazer isso ela deve parecer atraente, natural, sensual, sexy, virginal, inocente, confiável, ousada, misteriosa, coquete e magra. Em outras palavras, ela oferece sua auto-imagem ao mercado do casamento. Como mulher casada, sua sexualidade será sancionada e alguém se responsabilizará por suas necessidades econômicas. Terá alcançado o primeiro degrau da feminilidade. A partir do momento que se ensinou às mulheres ter uma visão exterior de si mesmas enquanto pretendentes aos homens, elas se tornaram escravas das imensas indústrias de moda e dieta que, primeiro, estabelecem imagens ideais e, em seguida, incitam-nas a se encaixar nessas imagens. A mensagem é clara e enfática: o corpo da mulher não lhe pertence. O corpo da mulher, do jeito que é, não satisfaz. Tem de ser magro, sem pêlos supérfluos, desodorizado, perfumado e vestido. Deve adequar-se a um tipo físico ideal. A família e a socialização escolar ensinam as meninas a se enfeitar do modo certo. Além disso, o trabalho não tem fim, pois essa imagem muda a cada ano. No início dos anos sessenta, a única maneira de sentir-se aceita era ser magérrima, ter o busto achatado e cabelos longos e lisos. A primeira exigência era conseguida quase passando fome, a segunda enfaixando o busto com uma bandagem, e a terceira, passando-se os cabelos a ferro. Em seguida, no início dos anos 70, a aparência ideal era ter cabelos encacheados e seios volumosos. Altas e magras num ano, pequeninas e discretas no seguinte, as mulheres são continuamente manipuladas por imagens de uma feminilidade exemplar extremamente fortes porque são apresentadas como a única realidade. Aquelas que não levam em conta essas imagens, correm o risco de serem rejeitadas. As mulheres são estimuladas a amoldar-se, a ajudar a economia através do consumo incessante de bens e roupas rapidamente inutilizados pela moda da estação seguinte. Atrás de tudo isso, uma indústria de dez bilhões de dólares aguarda para remodelar os corpos de acordo com a última moda. Deste modo, espera-se
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que as mulheres moldem-se a um padrão externamente definido e sempre em mutação. Mas tais modelos de feminilidade são sentidos como irreais, assustadores e inatingíveis. Formam um quadro que está muito longe da realidade do dia-a-dia das mulheres. O que persiste nessas imagens é que a mulher tem que ser magra. Para muitas mulheres, comer compulsivamente e ser gorda tornou-se um meio de evitar ser vista como mercadoria ou como a mulher ideal: "Minha gordura diz 'dane-se' para todos aqueles que me querem como mãe perfeita, namorada, empregada e prostituta. Veja-me como eu sou, não como deveria ser. Se você está realmente interessado em mim, pode fazer um esforço para passar através das camadas de gordura e descobrir quem eu sou." Assim, a gordura expressa uma revolta contra a falta de poder da mulher, contra a pressão de ter de parecer e agir de uma determinada forma, e contra o fato de ser julgada por sua capacidade ou não de criar uma imagem de si mesma. Tornar-se gorda é, portanto, uma resposta da mulher à primeira etapa do processo de desempenhar um papel social estabelecido, que exige que ela se amolde a uma imagem imposta externamente para conseguir um homem. Mas um segundo estágio acontece depois que ela alcança este objetivo, após tornar-se esposa e mãe. Para uma mãe, as necessidades de todos os outros vêm em primeiro lugar. As mães são gerentes não remuneradas de pequenas organizações, fundamentais, complexas e exigentes. Podem não ter controle sobre os acordos financeiros desta minicorporação ou sobre as principais decisões a respeito de sua localização ou gestos de capital, mas geralmente controlam as operações do dia-a-dia. Para garantir sua sobrevivência, estima-se que a mãe trabalha dez horas por dia (dezoito, se trabalhar fora), garantindo a compra e o preparo da comida, a arrumação das roupas, brinquedos e livros das crianças e que as coisas do pai estejam sempre em ordem. Ela torna a casa habitável, limpa e confortável; faz o trabalho de relações públicas organizando o horário em que a família vai dedicar-se a parentes e ami24

gos; fornece os serviços de baby-sitter e de motorista para seus filhos. Enquanto somos bebês e crianças, cuidam de nós. No entanto, quando adultas, espera-se das mulheres que alimentem e limpem não somente seus bebês, como também seus maridos, e somente depois, elas mesmas. Neste papel as mulheres se sentem especialmente coagidas a apelar para a comida. Após o nascimento de cada bebê, o peito e as mamadeiras tornam-se questões centrais. Geralmente a mãe é levada a sentir-se insegura com relação à sua competência no desempenho de seu trabalho básico. No hospital, o bebê é pesado depois de cada mamada para se checar se o peito da mãe tem leite suficiente. Pediatras e livros que ensinam a cuidar de bebês bombardeiam a nova mãe com conselhos autoritários mas divergentes sobre, por exemplo, horário fixo de alimentação ou determinado pela necessidade do bebê, receitas de mamadeiras, ou sobre o início da alimentação sólida. À medida que as crianças crescem, continua-se a chamar a atenção da mulher sobre sua incapacidade de proporcionar uma alimentação satisfatória. A indústria de alimentos, ao preço de bilhões de dólares por ano, aconselha-a como, quando e o que dar àqueles que estão entregues a seus cuidados. A propaganda a induz a oferecer cafés da manhã nutritivos, salgadinhos para beliscar e jantares saudáveis. A obsessão dos meios de comunicação com o bom cuidado da casa e, especialmente, com uma boa comida e alimentação, serve de termômetro para aferir o desempenho sempre sofrível da mulher. Essa obsessão estabelece as regras para a preparação da comida, de modo que a dona-de-casa é exposta a uma lista tão contraditória de permissões e proibições, que é um verdadeiro milagre conseguir fazer algo, seja o que for, na cozinha. Não é de surpreender que uma mulher aprenda rapidamente a não confiar mais em sua intuição, seja para alimentar sua família, seja para sentir quais são suas próprias necessidades quando se alimenta. Durante o período da vida dedicado à criação dos filhos a mulher está constantemente assegurando que a vida dos outros decorra tranqüilamente. Faz isso sem pensar se25

riamente que está trabalhando num emprego de tempo integral. Sua própria vivência do dia-a-dia é como parteira das atividades dos outros. Enquanto prepara os filhos para se tornarem futuros trabalhadores e possibilita a seu marido ser um produtor "eficiente", seu papel é o de produzir e reproduzir trabalhadores. Nesta posição, ela está constantemente dando, sem receber, o crédito que confirmaria seu valor social. Em uma sociedade capitalista todos são definidos pe-o trabalho. Homens de negócio, de carreira universitária ou profissionais têm mais status do que pessoas que trabalham na produção ou em serviços gerais. O trabalho feito em casa pela mulher entra nesta última categoria. Apesar de ser geralmente descrito como subalterno, de ser considerado criativo, de ser menosprezado por ser fácil, ou de ser venerado como algo divino, o trabalho da mulher é visto como se existisse fora do processo de produção e é, por isso, desvalorizado. As mulheres, como grupo, têm menos liberdade de expressão do que os homens de sua mesma classe social. Por mais oprimidos que possam ser por uma classe social, os homens detêm mais poder que as mulheres. Todo homem tem de ser cauteloso com o patrão. Toda mulher tem de ser cautelosa temendo a reprovação de seu homem. As normas e pontos de vista atuais são masculinos. As mulheres são vistas como sendo diferentes das pessoas normais (que são os homens), são vistas como o "outro" 5 . Não são aceitas em termos de igualdade com os homens. Sua plena identidade não tem a aprovação da sociedade onde crescem. Isto acarretará uma confusão para as mulheres. Estão presas ao papel de estranhas e, no entanto, lhes é delegada a responsabilidade de garantir a produtividade das vidas dos outros. Visto que as mulheres não são aceitas como seres humanos em termos igualitários e, no entanto, espera-se que assim mesmo dediquem enorme energia às vidas dos outros, as distinções entre suas próprias vidas e as dos que estão próximos podem tornar-se pouco claras. Confundir-se com os outros, alimentar os outros, não saber como formar um
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espaço para si mesmas, são assuntos freqüentes das mulheres. As mães estão constantemente dando de si e alimentando o mundo; as necessidades dos outros vêm em primeiro lugar. Não é de surpreender que elas se sintam confusas com relação a suas próprias necessidades físicas e que tenham poucas maneiras de perceber seus interesses próprios. Uma forma de dar para si e de se preencher é através da comida. "Como muito porque estou sempre me abastecendo para a luta do dia-a-dia. Cuido de minha família, de minha mãe e de quem faça parte do meu dia. Sinto-me vazia em dar tanto de mim, por isso como para preencher os espaços e sentir-me forte para continuar a dar de mim para o mundo." A gordura resultante tem a função de formar o espaço que as mulheres anseiam. É uma tentativa de responder à pergunta: "Se estou sempre me dando para todos, onde é que começo e termino?" Queremos ser e parecer sólidas. Queremos ser maiores do que o permitido pela sociedade. Queremos ocupar tanto espaço quanto o outro sexo. "Se me tornar tão grande quanto um homem, talvez seja levada a sério como um homem." O que acontece com a mulher que não se encaixa nesse papel social? Apesar da imagem de objeto sexual ideal e de mãe supercompetente ser difundida socialmente, ela não só é limitadora e inatingível, como também incapaz de corresponder, hoje em dia, à realidade da vida de inúmeras mulheres. A verdade é que atualmente a maioria das mulheres ainda se casa e tem filhos. Mas muitas também continuam a trabalhar fora depois do casamento, quer para satisfazer necessidades econômicas, quer para tentar romper com os limites de seu papel social. As mulheres estão sempre fazendo malabarismos com os inúmeros aspectos de suas personalidades, que são desenvolvidos e expressados, com muito custo, diante desse cenário hostil. Nesse contexto, assim como muitas mulheres engordam em primeiro lugar como uma tentativa de evitar sua transformação em objetos sexuais no começo de sua vida adulta, muitas outras permanecem gordas como um meio de neutralizar sua identidade sexual aos olhos de outros que são importantes
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para elas na medida em que suas vidas evoluem. Deste modo podem esperar serem levadas a sério em sua vida profissional fora do lar. Não é comum, para as mulheres, serem aceitas por sua competência nesse terreno. Quando emagrecem, isto é, quando começam a se parecer com mulheres autênticas, percebem, de repente, que estão sendo tratadas frivolamente por seus colegas do sexo masculino. Quando as mulheres são magras, são tratadas com frivolidade: uma profissional magra, sexy e incompetente. Mas, se uma mulher emagrece, ela própria talvez ainda não consiga separar essa magreza da sexualidade que já vem estabelecida, e que a define como incompetente. É difícil adaptar-se a uma imagem idealizada pela sociedade (a de pessoa magra), sem também transformar-se na outra imagem (a de mulher sexy). "Quando estou gorda sinto firmeza. Sempre que emagreço sinto que estou sendo tratada como uma bonequinha que não sabe nada de nada." Vimos como a gordura é uma rejeição simbólica das limitações do papel da mulher, uma adaptação que muitas mulheres fazem na penosa tentativa de levar adiante suas próprias vidas em meio às limitações impostas por sua função social. Mas para entendermos um pouco mais sobre o modo como o excesso de peso e, em especial, o comer em excesso atuam nas vidas das mulheres, temos de examinar o processo através do qual lhes é ensinado inicialmente seu papel social. É um processo complexo e irônico, pois as mulheres são preparadas para essa vida de desigualdade por outras mulheres que, elas próprias, sofrem as limitações dessa vida: suas mães. A perspectiva feminista mostra que a compulsão de comer é, na verdade, uma manifestação das complexas relações entre mães e filhas. Se o papel social da mulher é o de tornar-se mãe, a criação — a alimentação da família no sentido mais amplo do termo — é seu trabalho fundamental. De modo geral, é somente dentro da família que uma mulher possui algum poder social. Sua competência como mãe e sua capacidade de ser um apoio afetivo para a família define-a e fornece-lhe . um contexto reconhecido onde existir. Para a mãe, uma par28

te fundamental do papel materno consiste em ajudar a filha, assim como sua mãe fez com ela, a fazer uma suave transição para o papel social feminino. Com a mãe a menina aprende quem ela própria é e pode ser. A mãe fornece um modelo de comportamento feminino e dirige o comportamento da filha de um modo específico. Mas o mundo que a mãe deve apresentar à filha é um mundo de relações de desigualdade, entre pais e filhos, autoridade e falta de poder, homem e mulher. A criança é exposta ao mundo das relações de poder através de uma unidade que, ela própria, produz e reproduz talvez como a mais fundamental dessas desigualdades. Dentro da família incute-se um sentimento de inferioridade nas meninas6. Embora seja óbvio que o processo de crescimento de meninos e meninas é imensamente diferente, pode estar menos claro que, para preparar a filha para uma vida de desigualdade, a mãe tente conter os desejos desta de ser um ser humano forte, autônomo, auto-suficiente, enérgico e produtivo. Desde muito cedo a menina é encorajada a aceitar essa ruptura em seu desenvolvimento e é orientada a lidar com essa perda através do desvio de sua energia para o cuidado dos outros. Suas próprias necessidades de apoio afetivo e de crescimento serão satisfeitas se ela puder convertê-las em dar de si aos outros. Enquanto isso, ensina-se os meninos a receber apoio afetivo mas não a saber devolver esse tipo de cuidado e amor. Portanto, quando uma jovem finalmente obtém a recompensa social do casamento, descobre que ele raramente lhe fornece os cuidados de que ainda precisa, nem tampouco uma oportunidade para a sua independência e o autodesenvolvimento. Ser mulher é viver na tensão de dar de si e não receber; e mães e filhas envolvidas neste processo que leva a isto estão, inevitavelmente, fadadas à ambivalência, dificuldade e conflito. Se a questão for abordada sob o ponto de vista da mãe, o processo de conduzir a filha para a feminilidade adulta é ambivalente por diversas razões. A primeira é a questão da independência. A mãe, que foi preparada para uma vi29

da de doação, julga que sua função de alimentar, criar e educar os filhos está cumprida — função esta que faz parte integrante do êxito de seu papel social. Ela precisa que precisem dela e realmente se realiza como uma "boa mãe" alimentando cuidadosamente sua filha. Deste modo, as mães querem e não querem que suas filhas as deixem. Querem, porque o papel materno também exige que preparem as filhas para a independência final: fracassar nessa área é fracassar na sua condição de mãe. Por outro lado, o êxito nessa área assinala o fim da maternidade. Vimos que, dos limitados papéis acessíveis às mulheres neste século, a maternidade é o único onde elas têm poder legítimo. Portanto, seu êxito pessoal em ser mães resulta na perda de poder. Seu êxito pessoal é um beco sem saída; não resulta na criação de um novo papel, igualmente poderoso. A ambivalência das mães é, no entanto, mais dolorosa ainda porque querem e não querem que suas filhas sejam como elas. A filha que é igual à mãe está, de certo modo, dando validade à vida dessa mãe. Mas a vida da mãe continua a ser uma vida sem validade e, o fato da filha reproduzir o modo de vida da mãe não pode ser nada além da perpetuação da falta de poder. Em seu amor pela filha, a mãe deve querer, inevitavelmente, uma vida diferente para ela. Apesar disso, elas podem ter sentimentos ambivalentes com relação às novas oportunidades acessíveis a suas filhas, e que elas próprias não tiveram. Podem ter inveja dessas oportunidades e medo do bem-estar de suas filhas num mundo que elas consideram hostil às mulheres, ao mesmo tempo que sentem uma satisfação indireta com a ambição e o sucesso de suas filhas. Enquanto a mãe deve ser mãe, a filha pode ser ambiciosa e participante no mundo. Examinemos agora tais conflitos sob o ponto de vista da filha. As filhas querem e não querem deixar as mães. A filha que vai embora é aquela que se torna independente, faz parte do mundo, "acontece" como mulher adulta. No entanto, essa mesma autonomia causa problemas. Como vimos, a independência no mundo ainda não é uma op30

ção para as mulheres adultas. As filhas têm sentimentos ambivalentes com relação a suas oportunidades no mundo; são mal preparadas para assumi-las, como aprenderam, tanto da cultura em geral, quanto de suas próprias mães. As filhas se identificam com a falta de poder das mães enquanto mulheres em uma sociedade patriarcal. Foram criadas para serem como suas mães. Mas querem, ao mesmo tempo, ser e não ser iguais às mães. Embora se identifiquem com suas mães enquanto mulheres, como aquelas que dão de si e que cuidam dos outros, é provável que desejem, apesar disso, ter uma outra vivência da condição de mulher. Ao partir, ao sair fora do papel feminino estabelecido, é possível que a filha sinta que está traindo a mãe, ou se destacando com relação a ela, fazendo "melhor" do que ela. Pode também ficar apreensiva por estar pisando em um terreno movediço e não explorado. Além disso, se a filha se identifica com a falta de poder da mãe, é possível que ache que seu papel é o de cuidar dela — dar-lhe o amor, o cuidado e o interesse que ela nunca recebeu. Torna-se a mãe de sua mãe? Partir será uma dupla traição. Como chegarão a se expressar na gordura, na comida e na alimentação tais ambivalências e conflitos? Como cada mulher adulta que sofre da compulsão de comer expressa o que aconteceu consigo em relação à sua mãe? É óbvio que a alimentação desempenha um papel elementar na relação entre a mãe e a criança, não importando seu sexo. Dentro de toda a gama de funções relativas à criação que se espera das mães, a alimentação física é a mais fundamental — na verdade, instintiva. O peito da mãe fornece alimento para as crianças praticamente sem qualquer ato consciente desta, enquanto que todas as outras funções relativas à criação, como a doação vital de apoio afetivo, têm de ser aprendidas. Em virtude da ambivalência sentida em relação à filha, a disposição da mãe em lhe dar uma criação sensível, física e emocionalmente, pode ser abalada. Os bebês do sexo masculino e feminino vivenciam suas primeiras relações de amor com a mãe, mas muito cedo esta nega um certo
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grau de apoio e sustentação à filha, a fim de ensinar-lhe os caminhos da condição de mulher. Isso traz conseqüências específicas. Em Little Girls7, Elena Gianini Belotti refere-se a um estudo sobre posturas e procedimentos maternos na alimentação de bebês. Em uma amostragem de bebês de ambos os sexos, havia 99% de meninos amamentados para 66% de meninas. As meninas eram desmamadas significativamente mais cedo que os meninos e passavam 50% de tempo a menos sendo alimentadas (no caso da alimentação através do peito e de mamadeiras, isto significava que eram menos alimentadas do que os meninos). Deste modo, as filhas são, geralmente, mais mal alimentadas e recebem menos atenção e sensibilidade do que precisam. A alimentação física insensível e inadequada é mais tarde associada inconscientemente a uma alimentação afetiva insatisfatória. Embora inconscientemente a mãe possa não estar criando adequadamente sua filha, é com muita relutância que abre mão de alimentá-la. Na ausência de um papel alternativo, pode tornar-se pouco nítida a diferença entre ela e a criança, agora fora do útero. É possível que veja a criança como um produto, uma posse ou uma extensão sua. Assim, a mãe tem interesse em manter o controle sobre quanto, o quê e quando a criança come. Precisa encorajar essa dependência inicial para garantir sua própria sobrevivência social. Pode existir muita ambivalência com relação à alimentação e à criação. Uma mãe deve certificar-se de que a filha não está sendo alimentada em excesso, para que não se torne gulosa e gorda — horrível destino para uma garota. Deve garantir-lhe uma aparência saudável — normalmente associada à forma arredondada — e precisa que a criança dependa dela; pois quem mais será se não for vista como mãe? Contudo, pode também não gostar dessa dependência que a prende, a suga e impede de canalizar suas energias em outra direção. Por último, deve preparar a filha para criar e alimentar outra pessoa — um futuro filho, amante, marido ou os pais. Deve ensiná-la a preocupar-se
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em alimentar e criar outros, pagando por isso o preço de não se desenvolver plenamente. Enquanto isso, pelo lado da filha, na medida em que passa de criança a mulher, sua própria alimentação pode tornar-se uma resposta simbólica à privação, tanto física quanto simbólica, que ela sofreu na infância, uma manifestação da falsa intimidade com a mãe. Na medida em que se torna mais desenvolvida, a criança começa a alimentar-se sozinha e a escolher seus próprios alimentos, criando e desenvolvendo um sentimento de independência com relação à mãe. Mas essa ruptura causa conflitos para a filha. Por um lado, ela quer ir embora e aprender a cuidar de si mesma; por outro, essa capacidade de cuidar de si mesma lhe parece uma rejeição à mãe. Esta rejeição assume um significado profundo em virtude da limitação social do papel da mulher na sociedade patriarcal. Se a mãe não é necessária como mãe, quem será ela? A filha sente-se culpada por destruir o único papel da mãe. Enquanto procura por apoio afetivo em outras relações sociais, é possível que continue a sofrer privações, já que seu parceiro geralmente não aprendeu a dar de si. Começa a comer à procura de amor, consolo, calor humano e apoio — em busca daquela coisa indefinível que parece sempre faltar. A compulsão de comer torna-se um meio de manifestar os dois lados do conflito. Ao comer em excesso, a filha pode estar tentando rejeitar o papel da mãe e ao mesmo tempo estar lhe censurando pela criação deficiente que recebeu; ou pode estar tentando manter um sentimento de identidade com a mãe. A cultura popular está repleta de testemunhos sobre o valor simbólico que a comida e a gordura assumem entre mães e filhas. Em Lady Oracle, por exemplo, Margaret Atwood mostra como a gordura da filha torna-se uma arma na luta contra a mãe. Quando a mãe dá a Joan uma mesada para que compre roupas, como um meio de incentivá-la a emagrecer, esta compra propositalmente aquelas que mais destacam sua forma e, finalmente, com a compra de um casaco verde-limão, consegue levar sua mãe às lágrimas:
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Minha mãe nunca havia chorado na minha frente e eu estava assustada, mas ao mesmo tempo radiante com essa prova do meu poder, meu próprio poder. Tinha-a derrotado; nunca deixaria que ela me transformasse em sua imagem, magra e bela.

De modo semelhante, no filme, Lembranças, quando a mãe critica a forma da filha, esta lhe responde irada que a gordura é sua, que é a única responsável por ela e que isso é uma coisa que a mãe também não lhe pode tirar. As mulheres empenhadas no exame da relação entre a compulsão de comer e suas mães conseguiram perceber o seguinte:
Minha gordura diz à minha mãe: "Sou forte. Posso me proteger. Posso sair para o mundo." Minha gordura diz à minha mãe: "Olhe para mim. Sou uma atrapalhada; não sei cuidar de mim. Você ainda pode ser minha mãe." Minha gordura diz à minha mãe: "Vou sair para o mundo. Não posso levar você comigo, mas posso levar uma parte sua, que está ligada a mim. Meu corpo vem do seu. Minha gordura está ligada a você. Deste modo posso ainda ter você comigo." Minha gordura diz à minha mãe: "Estou lhe deixando mas ainda preciso de você. Minha gordura lhe mostra que não sou realmente capaz de tomar conta de mim."

Para a comedora compulsiva a gordura tem um significado muito simbólico, que faz sentido dentro de um contexto feminista. A gordura é uma resposta às inúmeras demonstrações de opressão de uma cultura sexista. A gordura é um meio de dizer "não" à falta de poder e à autonegação, a uma expressão sexual limitadora que exige que as mulheres tenham uma determinada aparência e ajam de um modo determinado, e a uma imagem de feminilidade que define um papel social específico. A gordura ofende os ideais ocidentais de beleza feminina e toda mulher "com excesso de peso", enquanto tal, abala o poder da cultura popular em nos tornar meros produtos. A gordura também
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revela a tensão da relação mãe/filha, relação que ficou incumbida da feminização da mulher. É inevitável que esta relação seja difícil dentro de uma sociedade patriarcal, porque exige que as mães, já oprimidas, tornem-se as mestras, aquelas que preparam e reforçam a opressão que a sociedade infligirá sobre suas filhas. Embora a gordura desempenhe a função simbólica de rejeitar o modo como a sociedade desfigura a mulher e suas relações com os outros, especialmente na relação crucial entre mães e filhas, engordar continua sendo uma tentativa insatisfatória e infeliz de solucionar esses conflitos. É um preço muito penoso a se pagar, esteja a mulher tentando amoldar-se às expectativas da sociedade, ou tentando formar uma nova identidade. Quando algo está "errado" deste modo, pode-se esperar por um desequilíbrio psicológico e uma reação. Poucas coisas poderiam estar mais "erradas" do que a tentativa que uma cultura patriarcal faz de inibir os desejos de uma jovem de ser criativa e de se expressar, de pressioná-la quase exclusivamente em direção a atividades, pensamentos e sentimentos limitados, relacionados ao gênero feminino. O desenvolvimento psicológico da mulher é estruturado de modo a prepará-la para uma vida de desigualdade, mas essa camisa-de-força não é aceita com facilidade e, invariavelmente, provoca uma "reação". Os distúrbios psicológicos, em geral, alteram as funções fisiológicas de uma pessoa: a capacidade de comer, de dormir, de falar e de ter vida sexual. Sou de opinião que uma das razões pelas quais encontramos tantas mulheres sofrendo de distúrbios ligados ao modo de comer dá-se porque a relação social entre o alimentador e o alimentado, entre mãe e filha, impregnada como está de ambivalência e hostilidade, torna-se um mecanismo apropriado para causar distorção e revolta. O exame dos significados simbólicos da gordura nos dá um insight das vivências das mulheres em uma cultura patriarcal. A gordura é uma adaptação à opressão das mulheres e como tal pode ser uma solução pessoal insatisfatória e um ataque político ineficaz. Nossa terapia da compulsão
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de comer diz respeito a esse problema, e é dentro de um contexto feminista que será desenvolvido nos capítulos que se seguem.

O que significa a gordura para a comedora compulsiva?
Muitos comedores compulsivos subestimam a relação que existe entre modo de comer e forma física. A comedora compulsiva geralmente sente seu modo de comer como caótico, descontrolado, autodestrutivo e como um exemplo de falta de força de vontade. No entanto, afirma ao mesmo tempo que, na verdade, simplesmente gosta de comer muito e, se é gulosa demais é para seu próprio bem, e que se não fosse pelos quilos e centímetros que esse comer lhe acrescenta, estaria muito satisfeita. Algumas mulheres dizem que, se ao menos existisse uma pílula mágica que as deixasse comer e comer sem parar e, ao mesmo tempo, continuar com a forma ideal, seriam bastante felizes. Na verdade, algumas têm feito o bypass* para conseguir isso. Está claro, portanto, que as pessoas realmente percebem que existe uma relação entre comer em excesso e a obesidade e tentam, por meio de vários esquemas de privação, controlar-se ao máximo para não engordar demais. No entanto, o fundamental nessa relação, do ponto de vista do rompimento do círculo de se comer compulsivamente e fazer dieta, é algo muitas vezes negligenciado ou mal compreendido, tanto pelas próprias comedoras compulsivas, como por aqueles que tentam ajudá-las. Trata-se da idéia de que a compulsão de comer está ligada ao desejo de ser gorda. Ora, essa questão não é muito óbvia e pode ser difícil de ser entendida. Entretanto, é imprescindível que

*Um desvio para diminuir a superfície de contato entre o alimento e a mucosa jejunal, diminuindo a absorção. (N. do T.) 36

nos reportemos a ela para tentarmos entender a imutabilidade da relação aparentemente bizarra que as comedoras compulsivas mantêm com a comida. Comer por compulsão é uma atividade extremamente penosa. Por trás das piadas autodepreciativas encontra-se uma pessoa que sofre imensamente. Grande parte de sua vida está centrada na comida, o que pode e não pode comer, o que vai ou não vai comer, o que comeu ou não comeu, e o que comerá ou não comerá mais tarde. É típico que não deixe nada no prato e se flagre comendo, tanto na hora das refeições, como durante o dia inteiro, tarde ou noite. Quase sempre come às escondidas, ou com amigas que também comem, ao passo que em público é uma profissional da dieta e muito admirada por sua abstinência. Se sente vontade de comer uma torta, vai à padaria e finge que a torta de queijo que está comprando é para sua filha ou para uma amiga, manda embrulhar e só ousa comê-la abertamente quando sente que não pode ser vista por ninguém. Ou então, compra um doce, esconde-o no bolso, e o coloca furtivamente na boca, enquanto dirige ou anda pela rua. A obsessão pela comida traz consigo uma carga enorme de auto-aversão, ódio e vergonha. Tais sentimentos surgem da sensação de não se ter controle com relação à comida, e as comedoras compulsivas ensaiam inúmeras maneiras de se disciplinar. Muitas pensam que se não tiverem acesso à comida estarão bem. Por esse motivo, quando uma comedora compulsiva mora sozinha, os armários da cozinha e a geladeira provavelmente contêm somente o gênero mais frugal de comida. A cozinha parece quase medicinal com leite desnatado, ricota, refrigerantes dietéticos e gelatinas para "enganar" o estômago. Alison, uma zoóloga de vinte e nove anos, explicou quais as ciladas contidas em seu sistema de proibir a presença de comidas gostosas em seu apartamento. Acordou no meio da noite e sentiu uma forte vontade de comer. Havia se empanturrado a noite inteira, portanto não havia sobrado praticamente nada em seu apartamento, exceto um pouco de cereal. Nas duas últimas semanas não tirara do
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pensamento uns biscoitos com pedacinhos de chocolate que havia feito para Greg, seu vizinho do andar de cima. Ele saíra de férias e Alison sabia que haviam sobrado alguns biscoitos, porque ao regar suas plantas reparou na lata pousada na bancada da cozinha. Levantou-se, pegou as chaves do apartamento dele, encontrou os biscoitos e ficou lá até comê-los todos. Achava que não podia comer só um ou dois porque não seria o bastante e se comesse um número considerável Greg iria perceber que estavam faltando alguns, quando retornasse. A solução de Alison foi ficar no apartamento gelado de Greg, e comer todos os biscoitos na esperança de que, ao retornar, Greg não se lembrasse deles. Se a comedora compulsiva mora com outras pessoas é bem provável que a cozinha esteja repleta de comidas apetitosas que nega a si mesma ou sente que deveria negar. Helen, 50 anos e mãe de dois filhos, vem vigiando seu peso nos últimos 30 anos e fica tão apavorada com a comida de sua casa que combinou com o marido que ele trancasse a porta da cozinha à noite. Possui uma máquina de fazer café perto da cama, aipo com cenouras no gelo e é expulsa da cozinha em todas as ocasiões, salvo quando prepara as refeições da família, ou quando come sua versão dietética destas. Sua situação é somente um exemplo extremo do que passam muitos comedores compulsivos em suas tentativas de ficar longe da comida. Helen levou o problema para o marido, mas para Alison era extremamente importante que ninguém soubesse que ela comia daquela maneira. Muitas mulheres que sofrem do problema da compulsão de comer acham humilhante que outros pensem que são gordas em virtude da quantidade daquilo que comem. Não suportam que os outros estabeleçam uma relação entre ingestão de comida e forma física. Isto explica, em parte, o lado público do comedor compulsivo, parcimonioso ao comer. Outras mulheres sentem isso de outro modo. Um método novo e muito divulgado para controlar o peso é o de costurar os maxilares. As mulheres que empreenderam esse tratamento são extremamente gordas — bem acima de 110 quilos. Enquanto seus dentes es38

tão apertados com anéis e atados com arame, elas se mantêm com uma dieta líquida. Uma vez por semana os anéis são afrouxados para que possam escovar os dentes. Tais maneiras de enfrentar a situação, apesar de particularmente exageradas, captam bem o desespero que sentem muitos comedores compulsivos e ilustram como a compulsão de comer é um hábito penoso e imensamente difícil de ser abandonado. Quando as pessoas repetem atos que lhes causam muito sofrimento, procuramos descobrir os motivos. Rotular, por exemplo, tal comportamento simplesmente de autodesírutivo não aumenta a compreensão das forças que estão por trás da compulsão de comer. Pelo contrário, o hábito será julgado negativamente e isso fornecerá ainda mais uma razão para que o comedor compulsivo assuma uma postura autodepreciativa que é aliviada somente com outro abuso ou com mais um esquema para perder peso. Sabemos por experiência própria que, antes que um hábito, no caso, comer por compulsão, possa ser abandonado, seus motivos têm de ser investigados. Como afirmei anteriormente, engordar é um ato preciso e intencional relacionado com a posição social da mulher. Antes que a compulsão de comer possa ser abandonada, deve-se investigar os significados da gordura para a própria mulher. A compulsão de comer, ao ser abandonada, certamente fará com que ela se estabilize num peso menor. Para poder sentirse à vontade com este novo peso estável e, o que é mais importante, com sua forma física reduzida, a comedora compulsiva precisa entender qual era o interesse prévio em ter excesso de peso e em ficar obcecada com o que comia. Se puder compreender como a gordura lhe era conveniente poderá começar a abandoná-la. Neste capítulo descreverei seis importantes etapas pelas quais os grupos passam: 1 — Demonstrar que a comedora compulsiva tem interesse em ser gorda. 2 — Mostrar que esse interesse é, em grande parte, inconsciente.
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3 — Exercícios específicos são feitos para trazer o assunto à consciência da mulher. 4 — Uma vez reconhecido o interesse em ser gorda, podem ser investigados os significados para cada mulher, individualmente. 5 — Em seguida, perguntamos se a gordura faz o que se espera que faça. 6 — Ajudamos cada mulher a reincorporar aspectos de si mesma, e que ela atribuía anteriormente somente à gordura. A gordura possui conotações tão negativas em nossa cultura que é difícil imaginar que alguém possa ter interesse em engordar. Ser gorda significa entrar no metrô e ficar preocupada se você caberá no espaço que lhe é destinado. Ser gorda é comparar-se a todas as outras mulheres e procurar por aquelas cuja própria gordura faça com que você se sinta à vontade. Ser gorda é ser expansiva e jovial para compensar aquilo que você acha que são suas deficiências. Ser gorda é recusar convites para ir à praia ou dançar. Ser gorda significa ser excluída da cultura de massa contemporânea, da moda, esportes e da vida ao ar livre. Ser gorda significa ser um constante constrangimento para você mesma e para seus amigos. Ser gorda significa preocupar-se cada vez que há uma câmera fotográfica à vista. Ser gorda significa ter vergonha de existir. Ser gorda significa ter de esperar ser magra para poder viver. Ser gorda significa não ter necessidades.
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Ser gorda significa estar constantemente tentando perder peso. Ser gorda significa cuidar das necessidades dos outros. Ser gorda significa nunca dizer "não". Ser gorda significa ter uma desculpa para o fracasso. Ser gorda significa ser um pouco diferente. Ser gorda significa esperar pelo homem que a amará apesar da gordura — o homem que abrirá caminho através das camadas de gordura. Ser gorda, hoje em dia, significa ouvir as amigas dizerem que "os homens estão por fora" antes mesmo de você ter tido a chance de averiguar. Acima de tudo, a mulher gorda quer se esconder. Paradoxalmente, seu destino na vida é ser eternamente notada. Tais concepções populares sobre a gordura, apesar de corretas, mostram um quadro incompleto do que sente a comedora compulsiva. Existe também um saldo positivo que devemos investigar no fato de ser gorda. Não estou querendo dizer que o desejo de ser gorda é consciente. Na verdade, poderia afirmar que as pessoas não têm quase consciência dele, e não é nada fácil discutir o assunto em teoria. Nos grupos fazemos o seguinte exercício para obtermos insights de algumas das maneiras como a gordura nos pode ser conveniente. Proponho que você feche os olhos por dez minutos e peça para que alguém leia o seguinte exercício de imaginação: Imagine-se numa situação social... pode ser no trabalho, em casa, numa festa, ou qualquer outro lugar... repare no que você está vestindo... se está sentada ou de pé... com quem você está falando ou tem alguma afinidade... Agora, imagine-se engordando nessa mesma situação social...
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você agora está bem gorda... Qual a sensação?... Repare no que você está vestindo... se está sentada ou de pé... Repare em todos os detalhes desta situação... como se dá com as pessoas ao seu redor?... Está participando ativamente ou sente-se excluída?... Tem de fazer mais ou menos esforço?... Veja agora se você consegue detectar alguma mensagem que essa pessoa muito gorda que é você tem a dizer para o mundo. .. Você consegue ver alguma maneira de como isso lhe pode ser conveniente?... Você consegue ver alguma vantagem em ser gorda assim nesta situação?... Quando damos este exercício para os grupos, obtemos uma variedade de respostas, muitas das quais já se podem esperar. Como por exemplo, a sensação de ser um monstro, uma intrusa ou uma figura disforme, ou achar que todo aquele que se aproxima o faz por pena ou porque é também um monstro. Porém, o mais significativo é que as pessoas conseguem descobrir um novo significado para a gordura. Para algumas a fantasia desperta sentimentos de confiança e firmeza, como se a gordura representasse uma força concreta. Outras se sentem muito seguras em ser gordas, como se isso fosse uma desculpa para o fracasso, e que ao se preocupar com a forma física não têm de pensar em outros possíveis problemas em suas vidas. Algumas mulheres sentem que ser gorda as protege, na medida em que lhes permite conter seus sentimentos; outras afirmam sentir-se à vontade com sua forma avantajada e calor humano, e que têm muito amor para dar aos outros. Entretanto, as maiores vantagens que as mulheres vêem em ser gordas estão ligadas à proteção sexual. Ao se vir gorda, geralmente uma mulher é capaz de se assexualizar; a gordura a impede de se considerar uma pessoa que tem sexualidade. Depois do exercício, muitas afirmam sentir-se à vontade numa festa, sem achar que estão em exibição, ou que têm de competir, mas que podem conversar tranqüilamente com as amigas. Outras sentem que a gordura as distingue do tipo de mulher pela qual possuem sentimentos ambivalentes — aquela que vêem como egocêntrica, superficial e fútil. Outras
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sentem que podem manter-se firmes e manter acuados os intrusos indesejados. Muitas mulheres sentem alívio em não ter que se conceber como pessoas que têm sexualidade. A gordura as retira da categoria de mulher e as coloca no estado andrógino de "amigonas". Na medida em que as pessoas nos grupos vão, pouco a pouco, sendo capazes de incorporar tais vantagens e aspectos positivos em sua concepção de gordura, começam a desenvolver uma auto-imagem diferente. A imagem da gordura, então, não fica mais sendo unilateralmente negativa, implacavelmente ligada a uma concepção feia. Em vez de se considerarem incorrigíveis, incapazes ou intencionalmente destrutivas, conseguem ver que a compulsão de comer tem um propósito, uma função. Na medida em que essa função se torna mais clara, é possível serem mais generosas consigo mesmas, considerar a compulsão de comer e o esforço de engordar como um modo de lidar com situações particularmente difíceis. A compulsão de comer pode então ser considerada como uma tentativa de se adaptar a um conjunto de circunstâncias, em vez de ser um comportamento irracional e "louco". Gostaria de examinar agora o motivo pelo qual essas imagens de formas avantajadas são tranqüilizadoras. Por que as mulheres afirmam sentir-se mais capazes quando são gordas? Muitas mulheres sentem que as expectativas sociais que se têm delas são inatingíveis, irreais, indesejáveis, difíceis de suportar e opressivas. Uma das principais expectativas está ligada à crença de que a mulher deve ser, por um lado, harmoniosa, atraente e uma espécie de ornamentação ambiental e, por outro, deve fazer todo o árduo trabalho concreto de criar os filhos, administrar o lar e, ao mesmo tempo, manter um emprego fora de casa. Para muitas mulheres, o tipo físico da musa tímida e recatada, que sorri pudicamente por trás de pálpebras abaixadas, é muito frágil e delicado para realizar as tarefas diárias do dia-a-dia, que são de sua responsabilidade. Assim, para essas mulheres, a gordura representa estabilidade e força. Harriet, 35 anos, que
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trabalha para a comunidade e mora com o marido e dois filhos, contou o seguinte: "Tinha a sensação de que a gordura me dava força e presença física no mundo. Permitia-me fazer tudo o que tinha de fazer. No exercício de imaginação, me vi em meu escritório, sentada à minha mesa, ocupando um espaço enorme. Sentia-me capaz de fazer tudo que precisava — desafiar meu patrão e lutar com mais eficácia pela comunidade para a qual trabalho. Senti minha força ao exagerar meu tamanho. Então, na minha fantasia, fui para casa e, tendo plena consciência do meu corpanzil, ocorreu-me que estava entrando numa situação hostil e que usava minha gordura como couraça. Ao entrar em casa lembrei-me das coisas que tinham de ser feitas lá, e que executo pessoalmente ou designo a outras pessoas. Isso tudo me dá muita raiva, por me sentir muito mandona, e certamente também porque o terreno do lar me pertence — e não por escolha. Então, vejo a gordura nessa situação fazendo com que me sinta como um sargento — grande e autoritário. Quando faço esse exercício de imaginação e me vejo magra, o que me ocorre imediatamente é como me sinto frágil e pequena, quase como se fosse desaparecer ou ser levada pelo vento." Barbara, 27 anos, desenhista de capas de livros, falou sobre as maçantes expectativas de muitos de seus colegas de trabalho do sexo masculino. Sentia que seu volume e solidez representavam uma necessidade de ser vista como um ser humano produtivo, e não como um complemento decorativo para o ambiente. Sempre que sua aparência estava ligeiramente sexy — isto é, quando estava magra — sentia que seus colegas reagiam somente a seu aspecto sexual. Sentia isso, tanto como um apelo assustador, como também um desvio de seu trabalho. Assim como acontece com muitas mulheres, levar o trabalho a sério era uma luta muito difícil para Barbara. Tinha crescido com a idéia de que trabalharia por alguns anos após os estudos e depois se casaria e teria filhos. Mas as idéias mudaram e por volta da época em que saiu da faculdade, quis trabalhar para fazer carreira e não como tapa-buraco. Não era uma decisão simples;
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sentia-se muito apoiada em sua mudança de opinião, porque todas as suas amigas também estavam investindo no trabalho como parte fundamental de suas vidas. Mas Barbara estava em conflito com relação a sua capacidade de ser uma boa profissional, não porque seu trabalho artístico fosse irregular, de segunda linha ou insatisfatório, mas porque estava lutando contra a idéia inconsciente de que se levar a sério na vida profissional não era uma coisa certa. No grupo, conseguimos mostrar esse conflito e Barbara viu como era difícil ser magra e com sexualidade no trabalho, porque ela própria e seus colegas contribuíam para torná-la fútil. Sentia que a única maneira de se apegar àquele aspecto seu relacionado a uma carreira, era através da posse de uma camada extra que cobrisse sua feminilidade. Como disse: "A gordura fazia com que me sentisse como um dos rapazes." No grupo, trabalhamos também para mostrar o conflito que Barbara sentia em relação aos diferentes modelos de comportamento feminino adulto; aquele com o qual ela cresceu, calcado não só na vida de sua mãe, como também numa concepção popular de feminilidade corrente nos anos 50 e início dos 60; e num modelo que ela e suas contemporâneas lutavam para sistematizar, uma visão da condição da mulher menos limitante e que atacava as próprias raízes da opressão da mulher dentro da família. Este conflito é, por experiência própria, difícil e penoso para muitas mulheres e não é do tipo que será solucionado pela súbita luz de um insight. Nos grupos é importante compreender que o objetivo não é, necessariamente, solucionar este ou qualquer outro conflito que possa estar nas raízes da compulsão de comer. Entretanto, é importante que venha à luz, que a mulher entenda que ele existe e que comer compulsivamente não fará com que desapareça — poderá talvez encobri-lo. A gordura é um substituto menos ameaçador com o qual se preocupar. Mas a questão decisiva é fazer com que a mulher reconheça o conflito, para que ele não precise ser manifestado indiretamente e se esconda daquela que o vive. Este reconhecimento torna-se então uma poderosa
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arma na luta contra a compulsão de comer. É muito tranqüilizador descobrir que existem fortes razões para explicar por que se come de um modo aparentemente inexplicável. Isso nos fornece ferramentas; deste modo, quando Barbara, por exemplo, reparava que estava cometendo um abuso, podia perguntar-se o que a estava realmente perturbando. Se não conseguisse obter nenhuma resposta imediata, faria uma recapitulação de seu dia, ou dos acontecimentos que a levaram a cometer o abuso, para ver se havia ocorrido qualquer incidente que resumisse seu conflito a respeito de sua identidade como mulher no mundo. Deste modo, podia decodificar seu próprio comportamento. Isto lhe deu a oportunidade de agir em benefício próprio, e pôde passar para uma etapa seguinte e se perguntar se o fato de ser gorda naquela circunstância particular iria realmente ajudá-la. Assim, um dos significados da gordura é o da necessidade que a mulher tem de ser reconhecida no contexto do trabalho. Mas existe uma outra questão que surge com freqüência e que é quase diametralmente oposta a essa. Acontece que as fantasias das pessoas com relação à gordura são muito diferentes e que até para uma mesma pessoa a gordura pode assumir uma variedade de significados. Barbara, por exemplo, podia ver como fazia uso da gordura no seu empenho de ser levada a sério no trabalho, mas descobrimos, ao mesmo tempo, que sua gordura simbolizava o medo de ser bem-sucedida, tanto no trabalho, como nos namoros. Seu medo do sucesso, é claro, provinha em grande parte da posição social da mulher jovem atual, que cresceu recebendo mensagens contraditórias a respeito daquilo que pode realizar. Sair fora do que foi planejado é assustador. Um mecanismo útil e de proteção é antever o fracasso; na opinião de Barbara, o peso em excesso servia de justificativa caso não fosse bem-sucedida no amor e no trabalho. Descobriu que não suportava a idéia de que sua vida profissional e afetiva pudesse não ser satisfatória, já que se havia empenhado a possuir ambas. Tinha certeza de que, se ocorresse um fracasso em algum desses terrenos, ele seria
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atribuído a uma fraqueza do seu caráter. Esta idéia, por sua vez, gerava tanto sofrimento que ela então se concentrava em seu peso como desculpa para um aventual fracasso. Enquanto estivesse com excesso de peso e o amor e a carreira não estivessem indo como esperava, podia ficar imaginando que se fosse magra tudo estaria dando certo. Assim, esta fantasia lhe permitia exercer algum controle sobre sua situação por imaginar que com uma estimulante perda de peso ela pudesse ser capaz de se afinar socialmente com as mulheres no trabalho e com os homens nas relações afetivas. No caso de Barbara, a gordura estava a serviço de dois objetivos distintos, se bem que um tanto contraditórios. Em primeiro lugar, a gordura lhe fornecia um modo de mostrar competência no trabalho; em segundo lugar, se não fosse bem-sucedida em sua vida profissional ou amorosa podia culpar o excesso de peso. Quando essas duas questões vieram à tona durante a terapia, Barbara pôde ver que engordar fora uma adaptação pessoal que fizera ao tentar enfrentar uma situação muito difícil. Além de poder revelar o conflito, conseguiu ver o dilema de uma atual jovem mulher de carreira e percebeu que tinha de negar ou resolver as dificuldades encarando-se sem intermediários. Outras mulheres no grupo se identificaram com o que Barbara estava vivendo e, na medida em que começaram a compartilhar suas dificuldades, romperam com seu isolamento individual e com sentimentos de impotência que, em parte, as tinham levado a engordar. O fracasso e o sucesso são conceitos poderosos em nosso mundo. Muito cedo assimilamos a idéia de que foram estabelecidos limites para as coisas acessíveis e aprendemos a competir pelo que está por perto. Se formos bem-sucedidas seremos recompensadas; caso contrário, nosso destino será sofrer. Quando somos muito jovens fica difícil ver como o jogo é marcado ou a favor de quem ele está, e a competição parece justa — sendo o fracasso ou o sucesso atribuídos à culpa ou ao mérito do indivíduo. Na medida em que nos tornamos mais velhos, podemos questionar os
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pressupostos fundamentais dessa luta desordenada, ou mesmo como o bolo está dividido, seja através do número de notas 10 numa classe, ou através da própria divisão do trabalho. Mas as idéias assimiladas e estruturadas na personalidade custam a morrer e parecem estar encerradas em lugares inacessíveis. Embora possamos rejeitar a noção de competição em virtude dos efeitos devastadores que ela produz nas relações entre as pessoas, assim como na política mundial, podemos, não obstante, descobrir que estamos sendo competitivos involuntariamente. Os sentimentos de competição são desencadeados em situações de escassez onde não há o bastante para todos, ou onde somente um determinado número de pessoas pode ser recompensado. O receio de uma possível exclusão ou recusa pode fomentar, quer um desejo de competir individualmente por um pouco da escassa matéria, quer a descoberta em conjunto de um meio de se lidar com a escassez. Outra alternativa é a opção de abandonar a competição. De modo geral, enquanto crescemos, somos encorajados a competir com os outros. No colégio isto se manifesta através das notas, ou pelo time que torcemos, ou por nossa classificação na turma. Mas as meninas e os meninos, as mulheres e os homens são treinados para enfrentar a escassez e a competição de maneiras diferentes. O clichê "deixe o rapaz ganhar o jogo" representa um aspecto da competição entre mulheres e homens. Aprendemos que, se existe um jogo entre os sexos no qual uma das partes tem de perder, podemos ter certeza de que seremos essa parte. Em geral, os homens são ensinados a competir com outros homens por empregos e por status. Obtêm prestígio no mundo do trabalho sendo melhores do que outros homens, e avaliam seu sucesso comparando-o com o dos outros. Apesar de também existirem mulheres no mundo do trabalho, os homens raramente são encorajados a competir com elas, porque têm a tendência de não levar muito a sério a presença da mulher em territórios masculinos tradicionais. Do mesmo modo, as mulheres são fortemente desencorajadas a competir com os homens, ou umas com as outras, no trabalho. Elas são forçadas a competir entre si
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pelo homem que ajudará a vencedora a garantir sua posição social. O sucesso de uma mulher no mundo continua a ser visto amplamente como um reflexo do status do marido. Nessa luta pela sobrevivência social, as mulheres competem essencialmente baseadas na atração sexual, enquanto que outros aspectos de sua personalidade são vistos como atributos a serem exibidos no empenho de conseguir um homem. O movimento de libertação da mulher desafia esse sistema de valores, tanto para as mulheres, quanto para os homens. No entanto, nós que estamos na casa dos vinte anos. ou mais, crescemos com esses valores e idéias e, apesar de estarem eles sendo abalados, continuam, não obstante, a desempenhar um papel significativo em nossas personalidades. Geralmente não nos damos conta do quanto fazem parte de nós. Ao percebermos tais sentimentos competitivos nós os achamos repugnantes e inadequados em um mundo em transformação e tentamos suprimir, esconder ou ignorá-los. Admitir toda uma série de sentimentos competitivos é difícil para muitas mulheres e, em geral, tentamos encobri-los tornando-nos gordas. A gordura desempenha várias funções relacionadas a esse fato. 1 — Fornece espaço e proteção para os sentimentos. Sem a gordura é provável que uma mulher tenha a preocupação inconsciente de que seus sentimentos ficarão à mostra. Não haveria dificuldade em emagrecer se os sentimentos competitivos, não achando um lugar onde se esconder, simplesmente desaparecessem. Mas problemas como esse nunca desaparecem simplesmente; são ou fortemente reprimidos e voltam sob outra forma; ou são intensificados e ficam totalmente à mostra; ou são reconhecidos com o potencial de serem elaborados. 2 — A sensação de ser imensamente gorda, do "tamanho de um bonde", acaba com a possibilidade de competir, já que todos sabem que "as gordas não podem vencer e, na verdade, nem estão no mesmo jogo".
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3 — No próprio ato da compulsão de comer — o caminho mais comum de se engordar — pode-se estar tentanto encobrir sentimentos competitivos que foram instigados. Além do que, vemos a dupla função da compulsão de comer embotar um sentimento difícil de se enfrentar, e fornecer um meio para que a energia que se encontra por trás da preocupação (no caso, sentir-se competitiva) seja utilizada no problema mais conhecido, que é a forma física. A compulsão de comer também pode ser útil em outras circunstâncias, como, por exemplo, quando as mulheres têm medo de demonstrar certas emoções. Elas têm medo de demonstrar sentimentos tais como a raiva, porque são considerados inadequados para mulheres, sendo que muitas delas já foram agredidas ao expressá-los. A preparação para uma vida de desigualdade leva inevitavelmente muitas mulheres a nutrir tais tipos de sentimentos turbulentos que são, por isso mesmo, inaceitáveis socialmente. Além das dificuldades relativas à competição, onde se espera que as mulheres percam em todos os terrenos, exceto o sexual, onde têm de conseguir um homem para poder passar à condição de adultas, outros sentimentos engendrados por situações sociais podem ser absorvidos pela gordura. A raiva é uma emoção especialmente difícil de ser aceita pelas mulheres dentro de si mesmas. Jennifer tem 48 anos e é professora em Londres. É casada e tem dois filhos de 18 e 20 anos, respectivamente. Competente profissionalmente e bastante reconhecida por seu trabalho em educação de grupos urbanos minoritários, seu problema de compulsão de comer começou quando se casou. Jennifer é órfã e foi criada por muitos pais adotivos diferentes. Nunca se sentiu segura ou amada em nenhum dos lares onde esteve e, aos dezoito anos, ganhou uma bolsa de estudos para a universidade, abandonando assim, para sempre, seus últimos pais adotivos. Nessa época, estava realmente responsável por si e não precisava fingir que havia alguém para cuidar dela. Sentia-se bastante forte, capaz de lutar, e lembra-se de ter
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sentido alívio, principalmente por não ter que fingir gratidão por cada grama de atenção recebida. Morava com outras moças e sentia bastante inveja de suas vidas familiares. Aos 25 anos casou-se com Doug, um desenhista, e pela primeira vez encontrou-se num ambiente familiar estável. Jennifer decidiu trabalhar por cerca de dois anos para que os dois se pudessem sentir mais seguros financeiramente. Foi nessa época que reparou estar se preocupando em demasia com o que comia, e seu peso começou a variar descontroladamente. Ela sabia que, em geral, alguns problemas psicológicos se manifestam através do ganho ou da perda de peso, mas simplesmente não conseguia entender o que estava acontecendo, porque pela primeira vez sentia que sua vida fazia algum sentido, e sentia uma segurança que nunca imaginou poder sentir algum dia. Suas duas gestações processaram-se com relativa tranqüilidade. Jennifer tirou quatro anos de licença do trabalho de professora e depois passou por um treinamento adicional antes de retomar um emprego de período integral. Sua família permaneceu na mesma vizinhança por vinte anos e ela conseguiu fazer algumas sólidas amizades e desenvolver, como ela mesma disse, "um verdadeiro sentimento comunitário". Mas continuou a comer de um modo que achava muito desagradável, beliscando e se empanturrando alternadamente. Só conseguia interpretar este comportamento como a expressão de seu sentimento de insatisfação com relação à sua criação. Percebeu que estava continuando o modelo anterior de cuidar de si de um modo irregular. Este insight deu-lhe algum alívio, mas seu problema de comer continuou mesmo assim. No decorrer da terapia fizemos um exercício de imaginação, colocando Jennifer, gorda e magra, com seus pais adotivos, em um mesmo lugar. Ao responder a uma pergunta sobre o que a sua gordura tinha a dizer aos inúmeros pais adotivos, Jennifer foi subitamente tomada por intensos sentimentos de raiva. Percebeu que a gordura representava todos os sentimentos venenosos e peçonhentos que acumulara através de todos aqueles anos de mudanças de um lugar para outro. Sentiu que, se a gordura pudesse
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falar, soltaria frases odientas e raivosas para todos aqueles que pensaram haver cuidado dela. Sua gordura era um meio de manter-se calada sobre tais sentimentos, mas também a sentia como uma acusação aos cuidados insatisfatórios dados por esses pais que tivera. Na medida em que o assunto foi sendo mais discutido, disse que sem a gordura ninguém saberia que havia sofrido, e as pessoas acreditariam que ela podia simplesmente viver a vida despreocupadamente, como se fosse uma pessoa qualquer. Uma vez admitidos esses sentimentos de raiva, grande parte da compulsão de comer fez sentido. Ela começou a notar que, sempre que sentia raiva das crianças, do trabalho, ou de Doug, ia correndo comer para engolir seus sentimentos. Sentir raiva era correr um risco — toda vez que sentia raiva, ouvia uma espécie de gravação interior que repetia: "Meninas boazinhas não sentem raiva. Seja grata ou será jogada fora." Na verdade, foram essas as frases que lhe foram ensinadas muito cedo. Manifestar raiva ou contrariedade num lar adotivo era inaceitável e implicava não só a exclusão do sexo feminino, como também o medo do abandono e a rejeição. Se sentisse raiva de seus pais adotivos, seria mandada embora. A descoberta das raízes da compulsão de comer atenuou a situação para Jennifer. Começou a permitir-se sentir raiva abertamente e arcar com as conseqüências, em vez de engoli-las. Tomou consciência também da ansiedade ligada ao grau de insegurança sentida dentro da própria família, como se o fato de manifestar desprazer por algo pudesse fazer com que fosse jogada fora. Sentia-se segura com Doug em quase todos os níveis, e foi, na verdade, esta segurança que permitiu que aquela raiva e ódio antigos não tardassem a se manifestar — se bem que indiretamente. Jennifer foi pega em uma nova situação. Quando menina tinha de agüentar e calar a boca. Não podia demonstrar raiva ou revolta. Quando conseguiu deixar esses lares insatisfatórios e formar sua própria família, sentiu-se mais segura e com controle da situação, mas compreensivelmente trouxe as inseguranças do passado consigo. A parte que ela sentia segura com Doug, com a carreira e com as crianças lhe dava
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condições suficientes para rejeitar o passado terrível que tivera, mas ela não era capaz de fazer isso abertamente, e expressava aquele sentimento de rejeição comendo compulsivamente. No caso de Jennifer, a gordura era uma resposta tardia a uma série de situações familiares extremamente precárias onde sofreu privações. Somente quando estabeleceu sua própria família, foi que percebeu que estava comendo irregularmente e começou a ver a balança oscilar como um ioiô. Este modelo — envolver-se obsessivamente com comida depois de acontecimentos perturbadores do passado — é muito conhecido. Parece existir um mecanismo psicológico que funciona do seguinte modo para algumas pessoas: uma menina cresce num ambiente difícil, mas precisa sobreviver a isso conservando-se intacta o máximo possível para conseguir sair fora. Qualquer manifestação de esgotamento ou fraqueza só prolongará o confinamento e tornará a fuga mais difícil. Todas as suas forças são utilizadas para poder agüentar as terríveis circunstâncias e preparar a saída. Finalmente, ela deixa esse ambiente e se coloca num lugar mais seguro. Quando começa a relaxar nessa segurança recém-encontrada e deixa suas defesas afrouxarem, todos os sentimentos deploráveis do passado terão a oportunidade de aparecer. Ela abandonou uma situação, mas isso não significa que seus sentimentos tenham sido deixados para trás. A proteção e a segurança da nova situação provocam um processo de desintoxicação. Mas tais sentimentos são muito fortes e, em geral, extremamente dolorosos, e é provável que o organismo humano reaja através da tentativa de continuar a afastá-los. No caso de alguém que comece a comer compulsivamente nesse estágio; dá-se que os sentimentos estão surgindo mas são sentidos como perigosos demais para serem confrontados. A mulher começa a comer compulsivamente para anestesiar esses sentimentos e cobri-los com uma camada de gordura. Tais sentimentos não chegam a ser manifestados e resolvidos, em vez disso transformam-se num sintoma, que depois tem de ser desmistificado, antes que se consiga expulsá-lo.
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Gostaria de discutir agora por que é tão difícil para as mulheres manifestar raiva. No caso de Jennifer havia uma ameaça de expulsão explícita, caso ela manifestasse raiva por aquilo que lhe proporcionavam, mas em geral as mulheres são energicamente desencorajadas a manifestar raiva, ódio, ressentimento e hostilidade. Somos criadas para sermos recatadas e aceitar, sem queixas, o que nos dão. Nós todas aprendemos que as meninas são feitas de açúcar, melado e tudo que é delicado. Assim, tentamos com todas as forças não demonstrar raiva, ou mesmo senti-la em nós mesmas. Quando nos revoltamos e demonstramos descontentamento, aprendemos que somos más e gananciosas. Quer percebamos ou não, ensinam-nos a aceitar uma cidadania de segunda classe. O status secundário completa-se quando nossa raiva nos é negada. A raiva é um meio que as pessoas têm de contestar as injustiças, em qualquer nível — seja a raiva da criança como reação a um pai punidor, seja a raiva coletiva de mulheres que brigam para terem suas creches reformadas. Mas existem poucos modelos a serem seguidos, de mulheres que se sentem no direito de sentir raiva. Na verdade, acho que a maioria de nós fica bastante atemorizada diante de uma mulher irada — cena bastante incomum. A raiva, enquanto emoção legítima para muitas mulheres, não tem validade cultural. As meninas são encorajadas a chorar se não obtêm o que querem, em vez de protestar com raiva; "Calma, calma, querida". Na peça de Edward Albee, Quem Tem Medo de Virgínia Woolf, Martha, a esposa irada que protesta contra a vida de casada, é retratada como prostituta e megera. Grande parte da cultura popular dá mostras do valor negativo colocado na raiva feminina. Portanto, não é surpresa alguma descobrir que para muitas mulheres a motivação inconsciente que está por trás do fato de engordar é a fuga da raiva. Neste caso, o significado simbólico da gordura é um "dane-se". Por trás da repressão da raiva encontra-se uma das questões atuais mais importantes para as mulheres. Engordar para manifestar raiva, para poder dizer "dane-se", é
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somente parte de um problema mais amplo. Manifestar raiva é um ato de afirmação. A afirmação para as mulheres é difícil. Pense nestas típicas situações: Ann está extremamente cansada após um longo dia de trabalho. Pretende passar a noite sozinha, e somente descansar, ver televisão e ler. Seu vizinho, Jack, telefona e lhe pergunta se poderia tomar conta das crianças por uma hora, enquanto ele e a esposa vão até o supermercado. Ann acha que deve ajudar, mas sabe, de experiências passadas, que dificilmente será pelo tempo combinado e que perderá a noite inteira. Vai com relutância até o vizinho. Jack e Penny voltam às 23:30. Foram ao supermercado e ao cinema. A essa altura Ann está com raiva, mas culpa a si mesma por ter aceitado cuidar das crianças sem antes ter estabelecido as condições. Vai para casa resmungando e come. Bill e Roz haviam combinado ir ao cinema. Bill telefona do trabalho para Roz para verificar se pode trazer alguns amigos para o jantar. Roz, que já havia começado a cozinhar, aceita sua decisão como um fato consumado e relutantemente concorda, achando que não tem o direito de recusar. Entra na cozinha, bate com as coisas enquanto prepara o jantar, sentindo-se mal-humorada. Pensa que Bill esqueceu do encontro para o cinema e se sente rejeitada. Sente-se usada por ele enquanto cozinha, mas ao mesmo tempo culpada por ser tão mesquinha e pouco espontânea. Enquanto cozinha não pára de beliscar e, quando Bill e os amigos se sentam para o jantar, ela começa a comer com sofreguidão, a essa altura com raiva por causa de sua incapacidade de, antes de mais nada, poder se colocar em primeiro lugar. Ern ambas as situações, Ann e Roz sentem que não têm o direito de pedir o que realmente querem. Ann tem medo de estabelecer os limites de seu próprio altruísmo e Roz não luta por si mesma e pelo cinema combinado. Ambas se cul55

pam por não se terem afirmado e também por não terem um mínimo de egoísmo, até mesmo para saber quais as necessidades que vêm em primeiro lugar. As duas comem seus sentimentos desagradáveis em vez de voltar-se para a difícil questão da afirmação. Sentem-se mais seguras usando suas bocas para alimentar-se do que para falar e se afirmar. Pensam que a gordura está falando por elas, embora o sofrimento impeça que as palavras saiam. Nada disso é consciente, as sementes deste comportamento foram plantadas na relação mãe-filha, na qual a mãe encoraja a criança a adotar modos gentis. A mãe prepara a filha para uma vida onde as decisões mais importantes serão feitas para ela, em vez de por ela. Ensinam a menina a aceitar que suas necessidades vêm em segundo lugar, e que calar é mais seguro do que se afirmar. Conseqüentemente as mulheres ficam confusas e temerosas em agir em seu próprio interesse. A pessoa que o faz, em geral, parece agressiva, e isso tem conotações tão negativas para a mulher, que assumir uma postura de aquiescência dá a impressão de ser menos perigoso. Desse modo, as mulheres fazem uma grande confusão entre comportamento não-assertivo, comportamento assertivo e comportamento agressivo. O súbito aumento de cursos e livros de auto-ajuda para treinar a afirmação dá provas da amplitude deste problema. Houve também, no passado, conseqüências lamentáveis para as mulheres que se arriscaram a sair da linha. Foram acusadas de castradoras ou dominadoras quando tentaram afirmar seus direitos. Há, além do mais, outras conseqüências do comportamento não-assertivo que aumentam o problema. Se a pessoa não é treinada para afirmar-se, fica muito difícil definir quanto dar ou não aos outros. De modo geral, ensinam-se às mulheres nutrir o mundo. Como diz a psicanalista Mercy Heatley, as mulheres fazem o papel de "plantas usadas para o tratamento de esgotos" para a família e, como tais, estão sempre dando de si emocionalmente aos outros. Ao discutir o que a gordura e a comida simbolizavam para si, muitas mulheres descreveram-nas como uma espécie de "combustível para a caldeira", um depósito particular ao
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qual podem recorrer quando precisam ser abastecidas, para que continuem a alimentar os outros. Para algumas, no entanto, a gordura aí representa uma rejeição exatamente desse tipo de assistência dada aos outros. Na mente da mulher, o excesso de peso é um aviso aos outros para que se mantenham afastados e não peçam nada, quase algo assim como "será que você não percebe que já carrego demais nas minhas costas para ter que me preocupar com qualquer outra pessoa?". Para outras, ela é uma declaração que engloba esses dois sentimentos — a gordura é a manifestação de um potencial amorfo, tanto para absorver, quanto para repelir apelos vindos de fora. Assim, a gordura expressa a tentativa de separar-se dos outros, embora, ao mesmo tempo, simplesmente por seu tamanho, a mulher abarque tudo ao seu redor. É como se ela pudesse se encarregar das necessidades de todos sem deixar que isso a atinja de verdade — o peso atua como um amortecedor para os outros e como uma almofada para que não se abale muito. Como disse ao discutir as respostas às fantasias com relação à gordura, a vantagem que as mulheres viam, com maior freqüência, em serem gordas, estava ligada à proteção sexual. É quase como se, através dos aspectos protetores da gordura, as mulheres estivessem dizendo que têm de negar a própria sexualidade para que possam ser vistas como pessoas. Expor sua sexualidade significa que os outros lhes negarão sua condição de pessoa. Na adolescência espera-se que as meninas transfiram seu interesse de amizade com rapazes para interesses sexuais — aprendem um ritual chamado encontro. Esta súbita mudança pode ser terrível e difícil de se enfrentar. Como relatou Mary, uma médica de vinte e sete anos: "Quando tinha seis ou sete anos, as meninas e os meninos brincavam juntos. Depois nos separaram e até os onze anos o contato com eles foi bastante limitado, principalmente porque fui para uma escola só de meninas durante aquele período. Então, com doze anos, entrei para uma escola mista aguardando com prazer a hora de brincar novamente com eles. Suas brincadeiras pareciam ser mais animadas e eu realmente sentia falta das artes que
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eles aprontavam. No entanto, algo estranho parecia acontecer; em vez de nos divertirmos juntos, éramos obrigadas a nos arrumar bem bonitas e a colecionar encontros. Essa era a maneira que tínhamos de continuar a estar com os meninos. Mas junto a isso recebíamos uma série de regras a respeito de como beijar e tocar — tinha a impressão de que para poder brincar com os colegas eu tinha de fazer um esforço fora do comum. Isso era muito desconcertante, não porque não gostasse de beijar, na verdade eu gostava, mas porque de repente parecia que meninas e meninos eram realmente diferentes e tinham de se relacionar dentro de regras rígidas. Era realmente muito perturbador para todos nós e desde então tudo pareceu piorar. Os esportes foram divididos, e ficamos com o maravilhoso trabalho de animar os rapazes. Fiquei achando que, se a vida de adulta era isso, conservaria minha gordura de bebê e tentaria evitar toda essa história de encontros." Dessa forma, Mary passou os quinze anos seguintes, como disse, "com um ligeiro excesso de peso". Notou no decorrer da terapia que seus abusos de comida ocorriam quase invariavelmente quando se encontrava em situações onde havia possibilidades ligadas ao terreno sexual. Empanturrava-se, por exemplo, antes de ir a uma festa e convencia-se de que era muito gorda para ser considerada como uma pessoa que tinha sexualidade. Isso lhe dava uma espécie de conforto para poder se relacionar com as pessoas na festa — mulheres e homens — à sua maneira, em vez de baseada no valor de troca de seu corpo. O exemplo de Mary mostra claramente que a gordura é vista como se pudesse fornecer, para as mulheres, um meio de afastar os aspectos sexualizantes e, por conseguinte, competitivos, que existem nos relacionamentos. Essa divisão sexual tem conseqüências de longo alcance. Muitas mulheres compartilham o sentimento de que ser gorda é um meio de destacar-se na multidão, de ser notada, de ser diferente, sem ter de se arrumar tanto quanto acham que as mulheres magras e atraentes o fazem. Muitas mulheres mencionaram que ser do sexo femi58

nino era uma decepção para seus pais. Rita se lembra de se ter empenhado muito em comer com a finalidade de ficar de um tamanho avantajado e assim poder provar sua existência. Surpreendentemente, parou de cometer abusos pela primeira vez quando engravidou. Quando carregou uma vida dentro de si, sentiu que tinha uma grande prova do seu direito de existir. Se podia reproduzir, tinha um papel verdadeiro como mãe, mesmo que como criança não se tivesse sentido querida. Essas várias explicações a respeito dos significados que se encontram por trás da gordura, que vão desde comer como proteção a comer como expressão da raiva, não vão necessariamente resolver a questão para todos aqueles que acham que possuem esse problema. A síndrome da compulsão de comer, da compulsão de fazer regime, de ganhar e perder peso, está tão propagada e, num certo sentido, é uma preocupação tão absorvente em si mesma, que pode ficar difícil sair dela um mínimo que seja para perceber exatamente o que está causando em você. De certo modo, a compulsão de comer cria um belo mundo isolado: ficar pensando obsessivamente em como se é horrível por comer em excesso leva a sentimentos de auto-aversão; tais sentimentos não têm por onde sair e são rapidamente encobertos ou entorpecidos através da ingestão de comida, ou expulsos pela fantasia da reencarnação depois que o projeto para uma nova dieta tiver sido feito. Todos os sentimentos negativos são utilizados para fazer queixas e sentir ódio de si mesma por causa da forma física e dos hábitos alimentares, e a gordura proporciona um assunto menos ameaçador com o qual se preocupar do que outros possíveis problemas. Embora a gordura tenha um significado para você hoje, é possível que ela tenha tido um outro bem diferente quando apareceu pela primeira vez. Em outras palavras, os primeiros motivos e a força motora que estão por trás do impulso de engordar podem ter adquirido um significado bastante diferente daquele que tem no presente, portanto é geralmente muito proveitoso olhar para o passado e ver como o fato de engordar ajudou as pessoas
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numa determinada época de suas vidas. Para introduzir essa informação nos grupos nós realmente ponderamos os relatos para podermos descobrir quando o "problema" teve início pela primeira vez. Gostaria de ilustrar essa questão esboçando alguns casos de mulheres com as quais trabalhei. Algumas dessas primeiras causas que delinearei terão um conteúdo nitidamente feminista, em outras ele estará menos explícito, embora em cada exemplo ficará óbvio o que significou o desenvolvimento da personalidade feminina para cada uma das mulheres cujas vidas descreverei. Rea era filha única. Seus pais tinham grandes expectativas a seu respeito, tais como uma formação universitária de destaque, sociabilidade e beleza. Sentia-se pressionada por apelos para ser a criança feliz e perfeita, e pensava que não tinha muito espaço para desenvolver sua própria independência. Engordou bastante na adolescência e foi a este período que nos reportamos quando ela veio para a terapia, quando estava por volta dos trinta anos. Sua gordura começou a fazer sentido quando foi colocada ao lado da intensa preocupação dos pais com seu êxito. Rea não se via cornos mesmos olhos que seus pais a viam. Sentia-se incompetente. Achava que era uma pessoa egoísta. Sentia que não podia dar conta das exigências feitas por seus pais, e que se tornaria cada vez mais incompetente. Sua gordura expressava tanto o ressentimento por ter de ser perfeitíssima, como a necessidade de esconder e conter a pessoa má que sentia ser internamente. Temia ser magra porque sentia que seria então tudo o que seus pais queriam; teria de se encaixar na imagem criada por eles, não teria um eu próprio. Jane, uma secretária jurídica de 55 anos, engordou após a morte de sua mãe. Até os 25 anos tinha sido bastante magra e razoavelmente despreocupada com sua imagem corporal. Era filha única, seu pai morrera quando ela era adolescente, e tinha muito apego à mãe. Casou-se aos 22 anos, mas logo depois Tom, seu marido, foi mandado para o exterior, lutar na Segunda Guerra Mundial. Quando
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sua filha, Carol, tinha 18 meses, Tom voltou da guerra. Aproximadamente um ano depois, a mãe de Jane morreu de câncer. Durante o ano e meio que precedeu sua morte ela perdeu muito peso exibindo uma aparência doentia e magra. Quando Jane terminou o luto oficial começou a engordar. Por volta dos 27 anos pesava de 11 a 13 quilos a mais do que jamais pesara antes, exceto durante a gravidez. Ficou bastante espantada com o aumento de peso, mas logo o atribuiu à falta de exercício após o nascimento de Carol. Os amigos achavam que talvez tivesse gostado tando da gravidez que seu excesso de peso era um desejo de querer ter a aparência de estar sempre grávida. Mas essa explicação não fazia sentido para ela, porque sua gravidez não tinha sido fácil. Naquela época, um psiquiatra amigo explicou que Jane desejava aparentar uma gravidez para poder obter a atenção e os elogios de Tom, que ela não tivera na época em que realmente tinha estado grávida. O peso persistiu e finalmente, como os padrões da moda e da saúde exigiam magreza, Jane começou a ronda das dietas e médicos de regime. Aparentemente tinha uma vida familiar razoavelmente satisfatória — ela e Tom se gostavam de verdade e Carol, sua filha única, continuou a manter contato com eles depois que cresceu e saiu de casa. Entretanto, Tom contou que quase toda noite Jane chamava, em seu sono, por sua mãe. Durante a terapia essa informação dada por Tom foi detalhadamente discutida. Jane conseguiu entender que seu excesso de peso tinha muita relação com a perda de sua mãe, como disse: "Minha mãe morreu tragicamente de câncer. Estava muito magra antes de morrer. Desde então, tive necessidade de ter um tamanho grande, acho que tinha medo que se ficasse magra iria desaparecer ou morrer como ela." O confronto com a morte da mãe e com seus próprios medos, que associavam a magreza à morte, permitiu que Jane definisse uma forma física na qual se sentisse bem física e psicologicamente. O que aconteceu mais tarde foi que ela não sentiu mais vontade de ser tão esbelta quanto queria, e conseguiu estabilizar seu peso em 7 quilos a menos do que pesara antes.
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A morte tem sido um fator determinante da gordura para outras mulheres com que trabalhei. Sheila, 28, anos estudante de pós-graduação, perdeu o irmão mais velho, Ivan, quando ele tinha 12 anos e ela 10. A partir dessa data começou a engordar e, no grupo, descobrimos que para ela a origem do fato de engordar tinha dois significados diferentes. Sheila sentia que se tivesse um corpo grande seria possível carregar o irmão consigo. Lembrou-se de que realmente gostava de ficar com ele e que brincavam muito juntos. Ivan era o orgulho e a alegria da família, primogênito e homem, e esperava-se que satisfizesse as aspirações dos pais. Cerca de dois anos após sua morte, nasceu mais uma filha, Maureen. Sheila sentiu muita responsabilidade pelo fato de ser tanto uma pequena mãe para Maureen, como um filho para seus pais. Para ela, um filho representava algo muito diferente do que ser uma filha. Era preciso ser muito boa nos esportes, sair-se bem nos estudos universitários e planejar uma carreira bem-sucedida da qual seus pais pudessem orgulhar-se. Por ser uma filha, esperava-se que tivesse uma educação escolar razoável, mas uma carreira não deveria vir antes de uma vida amorosa bem-sucedida. Na adolescência era levada a jogos de futebol pelo pai. Ela gostava de ter uma boa relação com o pai, coisa que não tivera antes da adolescência. Na terapia, o que veio à tona foi um sentimento de culpa por sentir-se bem, por poder receber tanto do pai. Imaginava que se seu irmão estivesse vivo nada disso aconteceria. Simbolicamente achava que o segundo significado de sua gordura era o de apagar suas curvas — torná-la menos feminina, para que pudesse ficar mais parecida com seu lado filho. Quando emagreceu, nos anos que se seguiram, carregou consigo esse mesmo desejo de ter a aparência de um garoto, estava sempre chateada porque ainda tinha quadris e seios e não alcançava a forma andrógina desejada. Sheila estava tentando lidar com o problema de como ser o filho adolescente e a mãezinha. Esta última característica aparece em muitas meninas de idade ainda menor que a de Sheila. Geralmente espera-se que uma filha de sete anos
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seja a pequena ajudante ou substituta da mãe, para tomar conta dos bebês que nascem depois dela. Melinda, filha mais velha de uma família de sete irmãos, lembra-se de que os primeiros anos de sua infância tinham sido felizes, tempos em que brincava com seu irmão mais velho. Quando tinha sete anos, sua mãe teve mais um filho. Para Melinda foi como se fosse o fim da infância; além de ter de dividir a mãe com mais uma criança, esperava-se que desempenhasse tarefas de adulto, o que, de fato, fez. Na medida em que mais e mais bebês iam chegando, Melinda tornou-se uma segunda mãe para eles, de modo que, quando saiu de casa, aos dezoito anos, se sentia bastante treinada para formar sua própria família. No entanto, em vez disso, engordou muito e explicou que se assumisse um jeito de mãe dedicada, pessoas perceberiam que ela não estava disponível de jeito nenhum. Por ora já tinha o seu quinhão! As mulheres que têm de desempenhar o papel de mãe muito cedo ensinarão suas filhas a se privar e a se negar. Tanto Florence como sua filha Laura tinham problemas relacionados à compulsão de comer. Segundo a ideologia de Florence, comer guloseimas era um prazer — na verdade, um prazer repugnante. Achava indecente abandonar-se a qualquer forma de prazer, especialmente os corporais. Comida e sexo eram coisas sedutoras e excitantes, mas deviam ser mantidas a distância. Florence comia frugalmente durante o ano inteiro. Quando abusava, nas férias, sentia-se culpada e, ao voltar, internava-se imediatamente na Clínica de Dieta Mayo para perder o que engordara. Tinha uma força de vontade férrea e muito autocontrole, mas morria de medo de comida. O marido escondia doces no porta-luvas do carro, e ela julgava que a vontade que ele tinha de comer sobremesas era sinal de fraqueza de caráter. Laura revoltou-se contra esse código de autonegação. Desprezava a mesquinhez que a mãe tinha para consigo mesma e a definia como magra por compulsão. Achava que nunca se per63

mitira ter prazer com comida ou sexo. Laura escolheu o caminho oposto e tentou obter prazer com ambas as atividades. No entanto, já que a comida e o sexo eram vividos no seu íntimo com um ouvido aberto às intromissões da mãe, Laura não conseguia controlar as coisas como gostaria, e seu modo de comer expressava essas tensões. No grupo aprendeu a comer somente para si mesma e para seu próprio prazer, sem precisar ficar enorme para provar que sua mãe tinha razão. Não precisava ser marginalizada por sua própria forma física para poder dar prazer a si mesma. Em virtude da posição que, em geral, a mulher assume dentro da família, as mães também se negam em situações onde não há o bastante para todos. Numa situação de escassez fazem o possível para que o marido e os filhos tenham de tudo. Se uma mãe não consegue colocar na mesa comida suficiente sente-se um fracasso. Quando os preços disparam, a mãe que tenha uma renda fixa terá cada vez menos para gastar com as compras da família e, apesar de compartilhar essa situação com todas as outras donas-de-casa ela será a única a enfrentar a família, as queixas e decepções se a comida não estiver à altura. Durante os anos da depressão, na década de 1930, essa situação era bastante crítica: o dinheiro era pouco e nunca havia comida suficiente na mesa. As mães que contam sobre essa época dizem que tinham de se privar, para que o resto da família pudesse ter o suficiente — podiam sempre dar um jeito, elas não estavam na escola usando seus cérebros ou pelas ruas todos os dias procurando trabalho, por isso achavam absolutamente certo que se sacrificassem. Carolyn, uma das filhas dessa época, que mais tarde engordou, disse: "Na época da depressão eu era jovem. Minha mãe passava fome e fazia o possível para arranjar alguma comida para nós, crianças, o que era muito difícil. Quando me casei, pela primeira vez na vida não faltou comida, e acho que hoje em dia como para me proteger daqueles horríveis sentimentos de fome que tive quando criança."
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Rose, filha de Carolyn, nascida no final da Segunda Guerra Mundial, lembra-se das brigas que tinha com a mãe, caso não comesse o bastante — recorda-se de todas as colheradas que comeu pelas crianças pobres da Europa, sem nunca entender como poderia ajudá-las comendo mais. Rose foi bem magra até os 17 anos, época em que saiu de casa para viajar pela Europa. Quando retornou, seus pais saudaram-na com satisfação por ter ela engordado. Ela, entretanto, estava muito infeliz com todo aquele tamanho — sentia que isso a deixava parecida demais com eles. Ficou presa à síndrome dieta/abuso pelos 12 anos subseqüentes. Durante sua terapia foram examinadas as seguintes questões. Quando morava em casa, ser magra era uma maneira de se revoltar contra os pais. Ambos tinham não só excesso de peso, como também a estimulavam constantemente a comer. Quando saiu de casa engordou para expressar seu conflito por ter abandonado os pais. A gordura era um modo de carregar consigo uma parte da vida familiar - os pais. Um dos momentos mais decisivos de sua terapia foi o processo de finalização. A essa altura, Rose havia perdido aproximadamente 11 quilos e se estabilizado em um peso que se ajustava à sua estrutura óssea. A expectativa de sua separação do analista e da gordura trouxe à tona questões relacionadas a brigas que tivera na infância para separar-se de sua mãe. Para Rose, essas brigas com relação à comida simbolizavam suas tentativas de se virar sozinha, de definir-se e de ficar mais independente com relação à mãe. Quando o conflito veio à luz, isto é, tanto seu interesse em formar uma identidade própria quanto seu medo de fazê-lo em virtude dos perigos sociais e psicológicos que percebia caso se separasse da mãe — pôde sentir firmeza pela primeira vez em determinar sua própria alimentação. Seu corpo então pôde expressar para si mesma uma sensação mais forte de independência; era definido, auto-suficiente e não "pura gordura, grudado à mãe como uma coisa pegajosa". A forma física pode assumir significados diferentes para cada mulher. No caso de Rose, ser gorda era ficar empacada, capitular, significava aceitar todas as colheradas a mais
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de comida que não quis; no caso de Barbara, era uma tentativa de assexualizar-se diante dos colegas de trabalho; para Harriet, representava força e solidez; para Jane, raiva, e assim por diante. A gordura pode assumir não só significados diferentes para cada mulher, como também esses significados terão maior ou menor importância de acordo com o momento. No início de um grupo de comedores compulsivos é provável que uma mulher veja a gordura somente enquanto símbolo visual de tudo aquilo que não gosta em si mesma. Irá descrevê-la como a medonha manifestação de tudo aquilo que sente internamente como feio e horrível. A gordura, ao mesmo tempo, esconde e expõe aquilo que ela sente como terrível. Na medida em que o grupo adquire continuidade e outras mulheres compartilham suas histórias, essa mesma mulher poderá perfeitamente ser capaz de separar essa gordura de uma descrição da feiúra, e proceder ao exame de alguns dos meios através dos quais a gordura lhe foi conveniente no passado. Poderá ver que a gordura era uma tentativa de se proteger em meio a um difícil conjunto de circunstâncias. Quando passar a aceitar conscientemente esse aspecto da gordura, poderá utilizar o impulso de autoproteção de um modo diferente. Quando puder entender que engordou como reação à mãe, à sociedade, a várias situações, poderá começar a eliminar o julgamento de que isto tenha sido bom ou ruim. Simplesmente foi. É extremamente penoso e difícil, se não impossível, mudar, se temos uma auto-imagem negativa. Uma compreensão da dinâmica que está por trás do ato de engordar pode ajudar a eliminar esse julgamento. Quando ele é abandonado e você está pronta para aceitar que a gordura simplesmente foi, pode passar a formular a seguinte pergunta: "Isso tem alguma utilidade para mim agora?" É necessário, para aqueles que trabalham com a área do inconsciente, explicar a existência de uma vida inconsciente que possui sua própria força e símbolos. Esses símbolos, em seguida, devem ser traduzidos para a linguagem do cotidiano para poderem ser examinados. Então, como
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pessoas conscientes, devemos intervir para questionar os medos e fantasias racionais e aparentemente irracionais que emergem dos sonhos e motivos. Coloquei-me numa situação onde pedi ao leitor que considerasse o fato de que a compulsão de comer está ligada a um desejo inconsciente de engordar. Demonstrei também que para se abandonar a gordura essa motivação devia ser exposta. No entanto, pretendo mostrar agora que a função protetora supostamente desempenhada pela gordura está longe de ser verdadeira. Na verdade, a gordura em si mesma não realiza o trabalho a que se propõe. Ao atribuir à gordura um poderoso papel protetor, uma mulher se coloca numa posição onde ter uma vida sem a gordura equivale a ter uma vida sem defesas. Isso é, de fato, um pensamento assustador. Nosso objetivo é o de fornecer uma outra opção à comedora compulsiva: a de ver que os atributos que ela supõe estarem presentes em seu peso, são, ao invés, características que ela própria possui, mas que atribui à gordura. Ao analisar vários aspectos das histórias das mulheres com as quais trabalhei, afirmei que a descoberta do significado da gordura leva, subseqüentemente, a uma reconsideração do fato de saber se realmente a gordura em si mesma é aquilo que afasta as pessoas, as torna assexuadas, ajuda a conter os sentimentos de raiva (mágoa, decepção), ou é algo que proporciona segurança. Se, na verdade, não é a própria gordura que faz tudo isso, mas, pelo contrário, o próprio indivíduo, duas perguntas se colocam: 1 — Como e por que a mulher se absteve desse seu poder e o atribuiu exclusivamente à gordura? 2 — Como pode ela reaver esse poder para senti-lo como parte integrante de seu eu essencial — quem ela é? Isto é, para quando abandonar o peso, não abandonar os principais meios que utiliza de lidar com o mundo. A primeira pergunta diz respeito a uma questão de importância crucial que surge com a socialização das mulheres. As mulheres são sistematicamente desencorajadas a
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assumir responsabilidades por inúmeras atividades, ações, e mesmo pensamentos. Os homens, ao mesmo tempo, não só agem por elas, como também descrevem sua vivência. Embora a vivência da mulher seja extremamente rica, raramente é descrita ou se faz ouvir. Somente na literatura as mulheres conseguiram se expressar com firmeza e ter um público abrangente. Nas áreas onde as mulheres, quase sem exceção, assumiram enorme responsabilidade — na criação dos filhos, na educação e na administração do lar — suas ações continuam a ser vistas como indefinidas e imprecisas, porque são descritas como naturais e inevitáveis. Se é natural, tem de ser feito. Se é natural, não vale. Portanto, é desvalorizado. Ora, o paradoxo reside no fato de que na verdade muitas das mulheres descritas neste capítulo desafiaram esse estereótipo de feminilidade. Saíram deliberadamente para o mundo e assumiram responsabilidades que extrapolam a esfera das expectativas relacionadas a seu papel. Mas ficaram presas a um sentimento do eu que nega seu poder e essa autodesvalorização parece inexplicável a menos que seja considerada como uma conseqüência de se viver em uma cultura que recusou o poder social à mulher e o demonstra através da negação e da punição àquelas que transgridem os papéis sociais estabelecidos. Não é difícil ver como uma mulher pode assumir uma auto-imagem que esteja em sintonia com a idéia da falta de poder da mulher. Ao fazê-lo ela se acostuma à idéia de que não é ela quem tem diretamente o poder, mas sua gordura "sem dono". Se o poder de manter as pessoas afastadas depende dela e não simplesmente de sua gordura, ficará então mais responsável por si mesma. Se se torna mais responsável por si mesma e age mais para si mesma de uma determinada maneira, poderá alcançar o que deseja? Ou será punida e rejeitada pelos outros por ter ousado definir-se, em vez de satisfazer as expectativas que os outros têm em relação a ela? Há mais um paradoxo contido na comedora compulsiva que quando se imagina magra se vê como a mulher sensual, fortemente atraente. Na medida em que adere à imagem da mulher sensual magra — que lhe é oferecida persistentemente
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pelos meios de comunicação de massa — ela se esforça para alcançar o poder ilusório que esta imagem promete mas não confere. É precisamente o não reconhecimento da pessoa, na imagem sensual magra, que faz com que ela rejeite, inconscientemente, essa magreza. Para muitas mulheres, "magra = sexy = poderosa" é um sentimento que não dura mais do que o fugaz momento da entrada triunfal, o impacto inicial. Depois disso, sua imagem é desapropriada, é traduzida para "magra = sexy = sem poder", e, ao mesmo tempo, ela não conseguirá dar conta de ser magra, sexy e responsável. É com a questão decisiva de como pode a mulher definir e lidar com sua própria sexualidade que se está geralmente lutando no dilema gordura/magreza, A falta de apoio para uma redefinição é aquilo que faz com que a mulher abra mão de seu próprio poder e o delegue à gordura. Isso então passa a ser uma explicação tanto para a ocorrência do sintoma, como para sua persistência. Abandonar um sintoma e tomarposse do poder atribuído a ele significa levar-se a sério. Levar-se a sério tem sido um negócio arriscado para as mulheres. Vale a pena lembrar aqui que tanto no esforço para se amoldar ao comportamento feminino adequado, quanto no de rejeitá-lo, a mulher paga um preço muito alto. A questão que se coloca diante de nós é a de saber se devemos nos arriscar a ser punidas por nos revoltarmos, ou aceitarmos ser punidas por seguir os papéis femininos. Como muitas mulheres disseram, as próprias palavras "mãe" e "esposa" evocam autonegação, enquanto que as imagens alternativas de mulheres — mulheres que fazem carreira, mães solteiras, lésbicas — provocam hostilidade e marginalização. Tendo descrito as convenções através das quais as mulheres têm sido forçadas a existir, acho que fica esclarecida a razão de nossa escolha de algo que aja por nós — a gordura. A reapropriação do seu poder (temporariamente atribuído à gordura) exige uma reavaliação de você mesma. Essa mesma reavaliação produz uma mudança ao nível do consciente, e com o conhecimento do que foi deixado para trás podemos lentamente incorporar em nossa nova auto-ima69

gem aquilo que nos pertence. A partir do momento que nos apropriamos do poder da gordura, podemos abandoná-la.

O que significa a magreza para a comedora compulsiva?
Sabemos que toda mulher quer ser magra. Nossas imagens de feminilidade são quase sinônimo de magreza. Se formos magras seremos mais saudáveis, mais leves e menos limitadas. Nossa vida sexual será mais tranqüila e satisfatória. Teremos mais energia e vigor. Poderemos comprar belas roupas e enfeitar nossos corpos, ganhando a aprovação do namorado, da família e dos amigos. Seremos aquela mulher do anúncio que leva uma vida boa; poderemos projetar uma série de imagens — atléticas, sensuais ou elegantes. Seremos um bom exemplo para nossos filhos. Nenhum médico jamais brigará conosco novamente para perdermos o peso excedente. Seremos admiradas. Seremos belas. Jamais sentiremos vergonha de nossos corpos, seja na praia, numa loja, ao comprarmos alguma roupa, ou em um carro lotado. Seremos magras o suficiente para poder sentar nos joelhos de alguém e graciosas o bastante para dançar. Se nos destacarmos na multidão isso acontecerá porque somos encantadoras e não "repulsivas". Poderemos nos sentar confortavelmente em qualquer posição, sem nos preocupar em esconder a flacidez. Suaremos menos e teremos um cheiro gostoso. Nos sentiremos muito bem quando formos a festas. Poderemos comer em público sem nos preocupar com a desaprovação dos outros. Não precisaremos arranjar desculpas por gostar de comida. Tais imagens e desejos bombardeiam diariamente nossa consciência. Todas nós, ao nos vermos magras, podemos achar algo de positivo com o qual nos identificar. Quando estamos gordas ansiamos pela magreza, assim como ansiamos pela comida procurando nela a solução de nossos inúmeros problemas.
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Mas a verdade é que, embora muitas de nós desejem ser magras, milhares de mulheres continuam a ter excesso de peso, ou a ficar preocupadas com a forma física. Uma das teses que este livro defende não é uma coisa evidente. As mulheres têm medo de ser magras; a gordura tem suas finalidades e vantagens. Nossa experiência mostra que muitas mulheres têm um verdadeiro medo de ser magras. Conscientemente a mulher quer ser magra, mas sua forma física não corresponde a esta intenção e mostra que, se por um lado a gordura desempenha um papel ativo em nossas vidas, a magreza se encontra na outra face da moeda. A gordura desempenha uma função protetora para a comedora compulsiva; ser magra é uma condição temível — a mulher fica exposta àquelas mesmas coisas das quais tentou escapar, inicialmente, quando engordou. Para assimilar essa idéia, proponho que você feche os olhos por dois minutos e pense numa situação social em que se encontrou hoje. Qualquer acontecimento no trabalho, nas compras ou em casa. Pense agora, com cuidado, no que aconteceu nessa situação específica... Repare no que você estava vestindo... se estava de pé ou sentada, e como estava se relacionando com as pessoas... Estava participando ativamente ou sentia-se excluída?... Perceba o máximo de detalhes possíveis... Imagine-se agora magra, exatamente na mesma situação... Repare especialmente naquilo que você está vestindo e como se sente com seu corpo. Está sentada ou de pé?... Como está se relacionando com as pessoas?... Repare em especial se existe alguma diferença no modo como você se relaciona com os outros agora... Sente-se mais ou menos incluída?... Está sendo muito solicitada?... Quando estiver familiarizada com os detalhes da situação, veja se você consegue perceber qualquer tipo de sentimento negativo que o fato de ser magra possa provocar em você. Há alguma coisa de temível com relação a ser magra nesse lugar?
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Quando as mulheres dos grupos com os quais trabalho fazem esse exercício de imaginação ficam, em geral, muito surpresas com o tipo de coisas que descobrem a respeito de si mesmas. Após um alegre sentimento inicial por se verem magras, entram em contato com sentimentos e idéias associados à magreza, tais como: 1 — Sentem-se frias e incapazes de dar de si. 2 — Sentem-se ossudas, com as formas, definidas demais e voltadas para dentro. 3 — Sentem-se admiradas a ponto de provocar expectativas nos outros. Sentem que não conseguirão manter as pessoas afastadas — especialmente aquelas que despertam interesse sexual. 4 — Não sabem lidar com seus próprios desejos sexuais; sentem-se livres para ter uma sexualidade, mas inseguras com relação ao que isso possa implicar. 5 — Sentem que detêm muito poder. 6 — Não sabem estabelecer limites à sua volta e sentem-se invadidas pela atenção dos outros, porque não saberão dar um fim a ela. Preocupam-se com o lugar que ocupam nessa nova admiração. 7 — Não se sentem bem entre outras mulheres que lhes lançam olhares competitivos. 8 — Preocupam-se com a necessidade de ter tudo resolvido — de ter suas vidas arranjadas. Sentem que não existem mais desculpas para as dificuldades que têm de enfrentar em suas vidas. Sentem que terão de abandonar todo o sofrimento que a gordura representava. Ficam especialmente apreensivas em pensar que quando forem magras não haverá espaço para a tristeza e ninguém notará sua carência. É muito importante compreender que a preocupação com a forma física do modo como se expressa nesses itens é uma idéia fixa para as mulheres, porque essas imagens são os únicos modelos de comportamento feminino aceitos socialmente.
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Gostaria de examinar esses itens, um a um, e explicar por que tais medos são tão comuns quando as mulheres fazem esse exercício de imaginação. 1 — É muito comum o medo de que a magreza corresponda à frieza emocional. Sabemos que nossas identidades são profundamente formadas em torno do modelo da mulher que dá de si e que cuida dos outros. O sentimento de frieza e de não poder dar de si entra em conflito direto com essa noção fundamental que aprendemos quando meninas. Quantas de nós podem tranqüilamente aceitar que existem lados nossos que rejeitam essa mulher que dá de si e que nutre os outros? O medo de ser fria é muito grande porque raramente nos permitimos mostrar esse lado de nossas personalidades. Annie, uma professora e futura avó, de 58 anos, disse: "Toda minha vida empenhei-me para criar ao meu redor um ambiente acolhedor e afetuoso. Se me imagino magra agora, sinto-me fria e gelada, como uma versão definhada de mim mesma. Sinto que não me ajustaria à minha vida. Seria como parar de ser cheia de vida, acolhedora e generosa, que é como me vejo agora." Do mesmo modo como pensamos que se comermos uma bala acabaremos comendo o pacote inteiro, achamos que se demonstrarmos um pouco de frieza seremos pessoas frias. Cuidar dos outros e dar de si são coisas que se esperam de nós, e, além do mais, coisas que esperamos de nós mesmas. Muitas de nossas relações cotidianas giram em torno de nossa aptidão em nutrir os outros. Ser fria, mesmo que temporariamente, é praticamente negar nossa identidade sexual. 2 — Ser ossuda e ter formas muito definidas causa problemas porque estamos por demais acostumadas a ter nossas personalidades definidas por nós. Quero dizer com isso que ajustamos nossas antenas às expectativas que os outros fazem de nós, porque nossa posição social nos desestimulou a que formássemos nossas próprias identidades. Somos definidas para nos ajustar aos estereótipos fe73

mininos tradicionais. Quando lutamos por uma autodefinição, deparamo-nos com curiosidade, falta de apoio e até hostilidade. Diane, uma psiquiatra canadense que estava fazendo terapia porque comia por compulsão, expressou um medo comum. Temia que se fosse magra as pessoas poderiam pensar que ela realmente só estava interessada em si mesma e em mais ninguém. Ficar magra e bonita (em sua mente as duas coisas vinham juntas) significava ser fútil e voltada para si mesma, já que a magreza era algo que dava muito trabalho de se conseguir. Diane sentia que a gordura encobria sua vaidade; se fosse magra isso ficaria à mostra. Já que o trabalho de Diane era ajudar os outros, a idéia de que pudesse ficar muito voltada para si mesma a apavorava. Seu mal-estar era de um tipo muito conhecido para muitas mulheres. Crescemos para nos preocupar com os outros e, em geral, sentimo-nos culpadas quando reparamos que temos nossas próprias necessidades, desejos e interesses que realmente vêm em primeiro lugar. Para Diane, o dilema era bastante grave e ela reparou que logo antes das sessões com seus pacientes entupia-se de biscoitos. Com este ato sentia estar realizando duas coisas: a certeza de que continuaria a ser gorda — o que para ela significava ser estável e ser uma pessoa confiável — e estaria evitando demonstrar estar voltada para si mesma quando estivesse com um paciente. Ao se entupir de biscoitos, abafava seus sentimentos. 3 — Ser admirada também não deixa de ter suas dificuldades. Se somos admiradas quando estamos magras, em geral sentimos que nossos corpos é que estão sendo apreciados. O corpo da mulher é sua principal qualidade; a comparação de seu corpo com os corpos das outras mulheres é um fator muito importante para a determinação de seus sentimentos. Sua aparência determinará, em parte, a escolha de namorados e de um marido. É importante que cause boa impressão com sua aparência numa medida bem maior do que sua cara-metade masculina. Isso, é claro, é uma postura ridícula — ser valorizada tendo como base a última moda em atração sexual. E o que dizer sobre nossa parte ativa
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e pensante? Assim, ser magra traz consigo apreensões a respeito de se saber se seremos vistas como pessoas inteiras ou simplesmente por nossas características sexuais. 4 — O desejo de ser uma pessoa que tem sexualidade é uma faca de dois gumes. Por um lado, muitas mulheres associam a magreza ao fato de serem desejadas sexualmente, e sentem ter mais domínio na escolha dos parceiros. Sendo magras acham legítimo selecionar as pessoas que lhes interessam; sendo gordas, acham que têm de esperar pelo homem ou mulher que se esforçará para atravessar as camadas de gordura e encontrar a pessoa que está atrás delas. Por outro lado, muitas mulheres temem a sexualidade recémdescoberta que a magreza promete. Muitas acham que terão atitudes diferentes das que têm normalmente em seu comportamento sexual. Uma das preocupações que volta e meia aparece nos grupos é a seguinte: "Se ficar magra e muito atraente talvez sinta atração por outros homens além de meu marido e não quero pôr nossa relação em risco." Temos tão pouco poder de decisão com relação à definição de nossa sexualidade que, conseqüentemente, fica muito difícil sentir, e mais ainda agir, sobre aquilo que queremos sexualmente. Uma mulher com a qual trabalhei explicou detalhadamente: "Se ficar menos volumosa, as pessoas me verão mais, ficarei exposta. O que ficará exposto será a minha sexualidade. A gordura, eu escondo por trás da alegria e finjo que não tenho sexualidade. Magra, revelo uma sexualidade amorfa e meio solta, porque fico magra tão raramente que não consigo me acostumar a me sentir bem com minha própria sexualidade." Imagens de sexualidade feminina são difundidas em cartazes, na televisão e no cinema. Anúncios de carros e tratores mostram mulheres expostas sobre as mercadorias. A sexualidade feminina transforma-se num produto aos olhos, tanto dos homens quanto das mulheres. O significado desta última questão traz mais uma dificuldade. Os objetos sexuais dos homens são as mulheres.
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Entretanto, os objetos sexuais das mulheres são também as mulheres, pois a sexualidade é normalmente apresentada através de imagens femininas. Portanto, as mulheres ficam confusas se não se encaixarem na imagem que foi estabelecida para elas. Se uma mulher não se parece com aquela outra cheia de vitalidade sexual que está no anúncio, ou na página de moda, como pode ousar ter uma sexualidade? Mas por que a magreza se revela como um problema de sexualidade? Para muitas, a resposta se encontra no fato de que o peso tem sido vivenciado como um modo de se evitar a sexualidade. Embora o ato de evitar a sexualidade seja uma solução muito dolorosa, pode, no entanto, ser uma opção mais segura para as mulheres que temem que se forem magras serão desejáveis sexualmente. Como fazemos com todas as fantasias ligadas à magreza, trabalhamos, nos grupos, novas maneiras de dizer "não" e "sim" à sexualidade, para que possamos ter qualquer peso e, ao mesmo tempo, continuar a lutar para definir nossas necessidades sexuais. Desse modo, se a gordura tem sido uma maneira de dizer "não" ao sexo, devemos aprender a usar nossas bocas para falar e afirmar esse "não", em vez de esperar que o mundo magicamente entenda que a comida que acabamos de colocar em nossas bocas é uma tentativa de dizer "não". A boca tem duas funções importantes — permitenos falar e comer. Por vezes, os comedores compulsivos afligem-se porque não a sabem usar com a primeira destas finalidades. 5 — Há também níveis mais profundos de resistência para se ser magra. Um dos medos que muitas mulheres descobrem associar à magreza é o de sentir-se com muito poder. Em nossa cultura, desde muito cedo ensina-se às meninas que seu papel na vida é o de ser a companheira e auxiliar de um homem poderoso. Seu próprio senso de identidade desenvolver-se-á a partir da situação do marido; será a esposa e mãe carinhosa, e o poder por trás do homem. As meninas são persistentemente desencorajadas a ter um poder próprio, fora do papel materno. Ser magra, para mui76

tas mulheres, significa sair-se bem demais e ultrapassar sua posição social. O poder apresenta à mulher três problemas inter-relacionados: o primeiro tem origem em imagens culturais de mulheres poderosas; o segundo, no modo como as meninas são criadas; e, o terceiro, nas conseqüências reais ou imaginárias de se ter poder. Os poucos exemplos conhecidos que temos de mulheres poderosas têm sido ou equiparados à destruição, como é o caso de Helena de Tróia e Cleópatra, ou têm estado ligados a imagens de homens castrados, como Maggie, de Maggie and Jiggs.* A mãe toda-poderosa só detém poder enquanto mãe. No momento em que o pai volta para casa, reapropria-se da autoridade de sua esposa. Assim, uma menina aprende sobre o poder de um modo confuso; o poder de sua mãe, o poder feminino, é negado pelo do pai, mas o poder do pai, o poder masculino, em geral é equiparado à desumanidade e à competição. Ao crescer, a menina aprende a se conformar com uma cidadania de segunda classe. Sua mãe lhe ensina a ceder aos outros (como ela própria faz com seu marido), e a esperar que eles definam a forma de seu mundo. Os conceitos de feminilidade impedem que se pense em si mesma como poderosa e eficiente porque, para uma mulher, "poderosa" significa "egoísta" — agir para si mesma significa tirar dos outros. As mulheres correm o risco de ficar socialmente isoladas caso se tornem muito poderosas. Se uma mulher é poderosa e pode cuidar de si mesma é provável que se aflija, achando que não precisará de mais ninguém, e que se tornará muito auto-suficiente e só. Este medo é fomentado pelas reações dos outros. Os homens geralmente reagem contra o esforço que uma mulher faz para ter seu próprio poder — "O que ela precisa é de um homem." Freqüentemente as próprias mulheres são menos en* Personagem dominadora que aparece em uma história em quadrinhos de jornais americanos. (N. do T.j

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corajadoras ainda para aquelas que tentam agir em benefício próprio. Podem sentir-se ameaçadas, invejosas ou traídas. Deste modo, se ultrapassarmos nossa posição social, concebendo-nos, a princípio, como poderosas e, em seguida, agindo como tais, podemos nos sentir ameaçadas. Trabalhar esse problema faz parte integrante dos grupos. Investigamos a razão pela qual as mulheres foram ensinadas a aceitar esse papel secundário e examinamos a estrutura de poder de cada família individualmente, ou das redes de ensino. 6 — Um medo muito complexo que as mulheres invariavelmente sentem está centrado na questão dos limites femininos. A literatura psicanalítica está repleta de referências ao problema das mulheres com a demarcação de limites. O que se quer dizer com limites é a quantidade de espaço que se ocupa no mundo — onde se começa e onde se termina. A razão pela qual as questões relacionadas aos limites são tão difíceis para as mulheres tem suas raízes sociais no desenvolvimento de uma psicologia feminina. Sabemos que o papel feminino exige que a mulher seja aquela que nutre, que cuida dos outros e que dá apoio afetivo aos que lhe são próximos. Deve fundir seus interesses com os interesses dos outros e procurar sua realização adaptando suas necessidades e desejos aos outros — em especial aos namorados e às crianças com quem têm uma relação mais íntima. É enfaticamente dissuadida a desenvolver sua autonomia econômica e emocional. Ser gorda representa tanto o esforço de fundir-se com os outros, como, paradoxalmente, de formar uma parede impenetrável em torno de si mesma. De modo análogo, muitas mulheres associam a magreza a questões de limite. Se a gordura tem sido um modo de representar sua condição de separada e seu espaço, sem ela a mulher sentir-se-á muito vulnerável e sem defesas. Maggie, uma balconista de 38 anos, relatou o seguinte: "Se não tiver todo esse peso sobre mim as pessoas chegarão perto demais e não terei nenhum controle ou proteção." Os desenhos abaixo talvez ilustrem como essas questões são vivenciadas.
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Na figura A, a mulher é gorda e sente que seu eu verdadeiro existe em algum lugar por baixo da gordura. A gordura fornece uma proteção física contra a vulnerabilidade que ela pensa ter. Ela imagina que se perder peso estará perdendo uma camada de proteção contra o mundo. A perda dos limites fixos do eu produz mais um dos estados aterradores que as mulheres têm associado à perda de peso. Esse pavor que uma mulher pode sentir é o medo de ser invadida pelos outros. É provável que a gordura lhe tenha permitido manter uma certa distância das pessoas. Imagina que tudo isso está relacionado à gordura, que são as próprias pessoas que não se aproximam dela, e que ela não tem quase nenhum direito de se aproximar das pessoas. Assim, uma mulher se atormentará ao pensar que quando for magra as pessoas vão invadir os limites de seu espaço e penetrarão nela. Mais uma vez vemos que a condição física da gordura ou da magreza tem sido o modo através do qual as comedoras compulsivas lidam com as dificuldades em suas relações sociais. 7 — Uma questão extremamente difícil para a mulher é a da competição. Elas têm sido forçadas a competir entre si para poder conseguir o homem que, presume-se, cuidará delas e, principalmente, legitimará sua sexualidade. Esta
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competição entre as mulheres é extremamente feroz e penosa, mesmo que só tenha uma atuação em nivel inconsciente. Faz com que nos avaliemos umas às outras a fim de que nos possamos sentir mais ou menos tranqüilas quando formos nos relacionar com os outros. Ao chegarmos a uma festa, começamos inadvertidamente a nos classificar por nossa atratividade em relação às outras mulheres. Isso é parte tão integrante de nossa cultura que está até mesmo institucionalizado. Talvez a forma mais degenerada que isso assuma seja o Concurso de Miss Universo, no qual as mulheres competem baseadas em sua beleza e personalidade. Muitas mulheres engordam como tentativa de evitar esses penosos sentimentos competitivos. O vislumbre de uma volta à magreza desmascara os impulsos competitivos. Muitas não estão seguras de como lidarão, seja com seus próprios desejos competitivos, seja com a animosidade que imaginam irão despertar nas outras mulheres. 8 — Finalmente, mais um dos medos expressados com freqüência associado à magreza fica bem delineado na declaração feita por Penny, uma professora de 24 anos. Ela sentia que havia muitas coisas em sua vida que não estavam indo muito bem, apesar de sentir prazer com seu trabalho, com suas amizades e com seus relacionamentos afetivos. Imaginava que se perdesse 5 quilos tudo em sua vida correria tranqüilamente. A razão de alguma coisa não dar certo, segundo ela, era o excesso de peso. Na medida em que nos aprofundamos na questão, descobrimos que a imagem que ela tinha da magreza expressava competência e confiança. Não deixava espaço para que nada desse errado em sua vida — como poderia haver algum problema se fosse magra? Se fosse magra, caso sentisse dor e tristeza não saberia como expressá-las. Compreendeu que o peso em excesso era uma desculpa para explicar por que as coisas pareciam não estar indo bem. Sem esta desculpa temia não ser capaz de assumir o controle por sua vida do modo como as mensagens que havia assimilado dos meios de comunicação lhe prometiam. Como disse: "Se for magra como realmente pen80

so que quero ser terei que fazer tudo conforme manda o figurino!" Antes de começar a mostrar mais detalhadamente a vivência real das comedoras compulsivas quando emagrecem, é importante assinalar que tanto as imagens quanto as vivências da magreza contêm mensagens contraditórias. As mesmas mulheres podem atribuir angústias divergentes à gordura e à magreza. Uma mulher pode dizer: "Se ficar magra vou me sentir fraca como se fosse desaparecer." Seu eu gordo imagina que o peso lhe dá força e estabilidade. Entretanto, podemos também descobrir que para essa mesma mulher, a magreza tem também a conotação de um tipo de força rija, e que a gordura é seu extremo oposto, uma característica indefinível e flácida — uma geléia mole. Imagens contraditórias são familiares a todos nós em nossas atividades diárias. O que em geral é menos compreendido é que as comedoras compulsivas tenham sentimentos contraditórios a respeito da forma física. Nutricionistas, psicólogos, médicos e as colunas de dieta e beleza das revistas femininas raramente levantam a questão que consideramos fundamental para se quebrar o círculo de engordar e emagrecer, abusar e fazer regime. Em geral, acontece que as experiências passadas de perda de peso e emagrecimento das comedoras compulsivas foram muito difíceis. Existem muitas razões para isso que serão examinadas mais adiante, mas em primeiro lugar faremos algumas observações preliminares que nos podem fornecer um contexto para a compreensão dessas várias razões. As imagens negativas associadas à magreza são, em sua maior parte, inconscientes. Isto significa que não são imediatamente acessíveis às pessoas no estado de vigília. Os exercícios de imaginação contidos neste livro ajudam a fornecer pistas para que possamos descobrir mais coisas sobre as idéias que temos e das quais geralmente não temos consciência. As idéias inconscientes têm tanta força na existência cotidiana das pessoas quanto os desejos conscientes, os pensamentos e as ações que colocamos em prática. O in81

consciente é uma parte ativa de todos nós e quando tentamos modificar nosso comportamento ou nossos sentimentos e não obtemos êxito, procuramos descobrir as razões que estão impedindo nosso caminho. Os fatores sociais são determinantes decisivos nisso e nunca devem ser subestimados, mas nossa intenção inconsciente — formada pela repressão de desejos inaceitáveis socialmente — é algo que se interpõe persuasivamente e da qual não se escapa a um ajuste de contas. Ao nos dirigirmos às questões da forma física e da auto-imagem nos grupos, nosso objetivo é o de ajudarmo-nos umas às outras a realizar o trabalho emocional necessário para que, desta vez, a magreza seja compreendida com todas as suas ramificações, e que os perigos imaginados sejam minimizados. Isto significa que estaremos trabalhando com as seguintes finalidades: (1) Investigar as idéias que as mulheres fazem em nível consciente e inconsciente sobre a magreza e a gordura. (2) Separar essas idéias dos estados corporais, para que as inúmeras propriedades que o indivíduo atribui a seu tamanho sejam conferidas diretamente a si mesmo e não a seu eu magro ou gordo. (3) Fornecer meios alternativos às mulheres, que não incluam o de comer, através dos quais possam se proteger, afirmar e definir. Os diversos medos da magreza sentidos pelas comedoras compulsivas baseados em suas experiências passadas de emagrecimento estão centrados num determinado número de itens. Mas um dos principais sentimentos, conpartilhado por praticamente todas, seja qual for sua psicologia individual, está focalizado no significado básico de se perder peso através de dietas. Geralmente, o único modo que a comedora compulsiva encontra para perder peso é através de uma severa restrição alimentar. Sua forma física é uma questão tão crucial que, ao apelar para uma dieta, atribui a ela o poder de fazer coisas fantásticas para si. Na verdade, muitas mulheres relatam que uma vez tomada a decisão de fa82

zer uma dieta, é tão grande a quantidade de energia psíquica exigida para realmente mobilizá-las e para regulá-las drasticamente, que se sentem maravilhosas, puras, perfeitas, quase como se estivessem embriagadas. Nada as perturba até que rompam a dieta e comecem as recriminações. Tendo deificado a dieta, seu rompimento assinala a volta ao estado tortuoso da compulsão de comer. Para uma mulher, a vivência da privação enquanto está de dieta opera em dois níveis. O que produz o estado de euforia, permite-lhe que continue a dieta sentindo-se virtuosa e que despreze seu modo de comer anterior. Mas em um outro nível, ter que comer baseada em regras e regulamentos é um aviso constante à comedora compulsiva de que não é uma pessoa confiável. Deste modo, quando emagrece, a sensação de ter um tamanho normal e de ser como todo mundo só é conseguida à custa de sua permanência na prisão da dieta compulsiva, e da vigilante luta para manter acuado o monstro da compulsão de comer. Essa batalha para eliminar os abusos de comida coloca a mulher num estado extremamente precário. Fica preocupada como nunca com aquilo que pode ou não entrar em sua boca, e faz com que raramente sinta confiança no fato de que essa dieta, em particular, terminará com seu problema de comer. Seus dias e suas noites não ficam menos repletos de angústias com relação à alimentação e à forma física. Se a vida para a comedora compulsiva é sentida como um processo de comer contínuo, então a dieta existe fora da vida e é sentida como irreal. O vício persiste junto com suas obsessões concomitantes: "Será que resistirei àquelas batatas fritas e sobremesas?" "Será que poderei comer aquilo que Joyce preparou para o jantar, ou será que engorda demais?" Essa tensão é acrescentada ao sentimento de falta de confiança com relação a sua capacidade de manter a dieta, uma vez perdido o peso. O espectro do corpo imenso está sempre rondando. A comedora compulsiva não desenvolve a confiança de que permanecerá magra. Torna-se uma pessoa magra, alguém que se parece e age diferentemente daquele eu gordo, mas é uma nova mulher, que não se co83

nhece muito bem. É alguém em quem não se sente segura em confiar ou realmente conhecer, porque se sente insegura com relação ao tempo em que permanecerá magra. Se habitualmente passa dois meses por ano magra, faz dieta durante um mês, e os outros nove permanece gorda, fatalmente sentirá mais familiaridade com seu eu gordo. Realmente não acredita que seu eu magro ficará por perto muito tempo, por isso desenvolverá uma relação de desconfiança com relação a ele. Assim, sua vida como pessoa magra tem uma característica de precariedade que não leva a um sentimento de autoconfiança. Há, além de tudo isso, um novo corpo a se carregar, uma versão menor de si mesma. (Tendemos a nos sentir tão pequenos com relação a nossa influência sobre o mundo, especialmente as mulheres, que a redução de nossa presença física é sentida quase como algo grotesco.) Ligada a essa falta de familiaridade com o corpo, vem uma mudança drástica na auto-imagem da mulher. Muitas mulheres contam que usaram roupas bastante diferentes das que costumavam usar, não simplesmente por causa do tamanho que vem escrito na etiqueta, mas também em virtude do estilo que escolheram. A perda de peso manteve a promessa de pôr em prática certas características da maneira de se vestir que elas negavam a si mesmas enquanto pessoas gordas. Como, por exemplo, vestir-se de modo atraente, idéia que é tabu para a maioria das mulheres com excesso de peso. "Se sou gorda, devo ser horrorosa e não mereço ter roupas bonitas." Já que se vestiam de uma maneira diferente quando magras, também agiam de um modo diferente com relação aos outros, mas descobriam que não estavam bem preparadas para lidar com as reações que provocavam. Kate, uma estudante universitária de antropologia, descobriu que certa vez, quando estava magra, foi a uma festa usando jeans apertados com uma blusa de algodão transparente (em lugar de suas costumeiras túnicas fechadas sobre calças), e suas amigas, embora a princípio lhe elogiassem e apoiassem, pareciam ficar apreensivas quando seus maridos e na84

morados se aproximavam dela. Kate ficou nervosa, temendo que elas pudessem ficar com ciúmes e parassem de gostar dela, mas não sabia como afastar seus maridos. No grupo, analisamos os diversos significados dessa nova maneira de se vestir. No final, Kate decidiu que quando perdesse peso novamente correria o risco de sentir-se bem e sensual em suas roupas sem ter de ameaçar as amigas. Resolveu partilhar a nova e frágil aceitação de seu corpo com elas, e garantiu-lhes que não estava interessada em seus namorados. Isto também a ajudou a esclarecer a confusão que fazia entre vestir-se sensualmente e vestir-se sexualmente. Imagem corporal e proteção são coisas muito importantes. Nos grupos tentamos tratar esses dois problemas do seguinte modo: os membros do grupo são encorajados a aceitar os aspectos físicos da gordura. A auto-aceitação é a tarefa-chave no grupo; sem isto, a perda de peso e a eliminação do vício não deixarão de ser temporários. Nosso objetivo é alcançar um estado em que as mulheres possam realmente sentir que têm a posse de sua gordura e entender os diversos significados atribuídos a ela. Quando emagrecerem poderão usar esses significados na medida em que precisarem. Não acharão que estão perdendo uma camada protetora, poderão crescer em seus próprios corpos e então sentirão que os possuem por inteiro tendo assim condições de reduzi-los. Os diagramas abaixo poderão ajudar a mostrar o processo que temos em vista nos grupos.

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ficílima tarefa da auto-aceitação, da preparação para um novo corpo esbelto e de uma nova auto-imagem. Tenha em mente que, antes de perder alguma coisa você tem, primeiro, de possuí-la. Você deve, em primeiro lugar, aceitar seu corpo com toda a sua dimensão, antes que possa perdê-lo. O ponto de partida é um espelho que dê para se ver de corpo inteiro e que não distorça a imagem. Os membros do grupo reservam um tempo todos os dias — no início, talvez alguns minutos — para observar seus corpos. A maioria das comedoras compulsivas tem muita consciência do aspecto de seus rostos, mas não em relação ao resto de seus corpos. O que tentamos fazer neste exercício é observar nossos corpos. Usamos o espelho para nos olhar sem fazer julgamentos da imagem que vemos. Isso é um projeto amedrontador e difícil para muitas mulheres, porque costumamos fazer caras feias e julgamentos nas poucas ocasiões em que realmente vemos nossos corpos por inteiro. Estamos bastante familiarizadas em evitar visões que possivelmente não serão aceitas, como quando andamos com a cabeça baixa ao passar por vitrines de lojas para não olhar, sem querer, para nós mesmas e assim desencadear sentimentos negativos. Assim, ao fazer o exercício, pedimos à mulher que olhe inicialmente para sua imagem refletida como se estivesse olhando para uma obra de arte, uma escultura, por exemplo, para conhecer suas dimensões e textura. Deve olhar para descobrir onde começa e termina; onde estão suas curvas e saliências; as variações de cores que existem. A mulher deve experimentar fazer isso em várias posições, diferentes, começando em pé, em seguida sentada — sem ter de esconder a metade de seu corpo — e, finalmente, ficando em pé de perfil. Algumas pessoas têm mais facilidade em fazer esse exercício estando vestidas; outras acham mais prático fazê-lo nuas. Começamos então com o que é sentido como mais confortável e ficamos assim até que a mulher possa ter a experiência de se olhar no espelho sem ter de imediatamente desencadear sentimentos de repulsa. A segunda etapa no exercício do espelho visa ajudá-la a sentir que ela existe através de todo seu corpo. Muitas mu86

lheres sentem a gordura como algo que as circunda, dentro do que seu eu verdadeiro está contido ou, alternadamente, que sua gordura as persegue e ocupa muito mais espaço do que realmente o faz. Por isso, quando uma mulher está diante do espelho, deve-se enfatizar nessa parte do exercício, o fato de que se sinta através de todo seu corpo. Ela segue o percurso de sua respiração, que vai dos pulmões para todo o corpo. As coxas gordas que poderá querer rejeitar fazem parte de seu corpo tanto quanto seus pulsos, que parecem bem mais aceitáveis. Tenta ver todas as partes de seu corpo ligadas entre si. Começa com os dedos dos pés e se lembra de que os dedos dos pés estão ligados aos pés, e os pés aos tornozelos e os tornozelos às pernas, e assim por diante. Isso lhe fornecerá uma visão do corpo como um todo funcional. Começará a sentir que ela existe através da gordura. Esse novo enfoque tem mais uma função. Se você consegue sentir que existe através da gordura, então, quando emagrecer, não sentirá que perdeu uma camada protetora; sentirá que seu tamanho foi reduzido. Isto acontece porque, se você pode se sentir por inteiro através da gordura, então tudo aquilo que você é faz parte de você. Ao abrir mão do tamanho você está fazendo uma troca — a gordura pelo seu próprio corpo, e isso é poder. Vale a pena repetir aqui os desenhos, porque ajudam na compreensão do que queremos obter ao reduzir a discrepância entre o eu gordo e o pequeno eu físico interno. Visamos a uma condição onde a seqüência eu-gorduramundo seja substituída por eu-mundo.

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Como mencionei acima, as mulheres contavam que, quando emagreciam, permitiam-se vestir roupas muito diferentes daquelas que usavam quando achavam que seus corpos estavam inaceitavelmente grandes. É provável que a comedora compulsiva tenha, no mínimo, três guarda-roupas. Geralmente consistem em uma ou duas roupas escuras que a cobrirão completamente quando estiver com seu peso máximo; algumas roupas meio indefiníveis para quando estiver com um peso médio; e roupas da época em que esteve magra, ou de quando ficará magra, que tendem a ser mais afinadas com a moda, variadas, permitindo maior expressividade. É quase certo que as roupas de tamanho maior estarão restritas ao que é oferecido pelas lojas e por aquilo que a comedora compulsiva acha que é permitido usar. Quando se examinam os cabides que contêm tamanhos de 48 e 50 para cima, nota-se que há muito menos variedade do que os que contêm os tamanhos 40 e 42. Os tabus nas mentes das pessoas contra cores fortes, listras horizontais e um bom desenho de estilista para pessoas gordas, correspondem ao que é oferecido pelas lojas. De modo geral, as roupas baratas e que estão na moda não se encontram acima do tamanho 44. Portanto, não é de surpreender que quando uma mulher emagrece tente projetar imagens diferentes através do modo de se vestir, porque pela primeira vez tem acesso direto a um outro tipo de roupa. Entretanto, é também verdade que enquanto não aceitar o tamanho de seu corpo, usará roupas que o escondam e que não chamem atenção. O objetivo inicial dos grupos é fazer com que cada mulher tenha uma aceitação maior de seu corpo. Sem isso, afirmamos que a perda de peso será temporária, porque continuará a desencadear sentimentos amedrontadores. Para evitar esse estado fazemos um trabalho preparatório nas áreas da forma física, da imagem corporal e do modo de vestir. Incentivamos as mulheres a jogar fora, dar ou trocar com outros membros do grupo, todas as roupas de seus armários que não lhes cabem no momento. Isto significa que cada manhã, em vez de confrontar-se com três conjuntos de roupas (de fato, três pessoas diferentes dentro do ar88

mário) e torturar-se com relação às roupas "magras", que estão sempre esperando para atacar, estarão olhando para aquelas que lhes servem. Grande parte da auto-imagem negativa da comedora compulsiva se expressa através da maneira como se veste e do modo como se conduz. Isso faz então com que o ódio de si mesma cresça em espiral. Uma mulher com quem trabalhei disse: "Sinto vergonha de meu corpo e procuro escondê-lo do melhor modo possível dentro de um camisão. Então percebo que também não gosto das minhas roupas e acabo sentindo um duplo ódio de mim mesma." É quase inevitável que esses sentimentos de autorejeição levam a comedora compulsiva a se entupir de comida para mitigá-los e certamente em seguida recomece com as recriminações e resoluções de começar mais uma dieta. Uma vez esvaziado o armário, estamos prontas para dar o segundo passo. Trata-se de fazer experiências com suas várias imagens e modo de vestir, expressá-las já, e não ficar esperando até que fique magra para poder vestir os tipos de roupa nos quais você se imagina magra. Não é crime nenhum vestir uma blusa, camisa ou suéter quando se está com excesso de peso. Raramente você parecerá mais gorda estando com a forma mais definida. Esta última idéia é um equívoco que fazemos, ao supor que roupas soltas nos fazem parecer mais magras do que roupas justas. Talvez estas últimas chamem mais atenção, apenas. Se isso acontecer, você terá a oportunidade de trabalhar sobre as reações a uma das conseqüências imaginadas do fato de ficar magra. É melhor testar e sentir isso enquanto você tem a proteção da gordura. É importante testar suas idéias a respeito das imagens que você quer expressar, para descobrir o que realmente a faz sentir-se bem e o que a assusta. Nos grupos as mulheres obtêm feedback das imagens que projetam; podem discutir se existe uma discrepância entre o que desejam projetar e o que estão realmente projetando. Os membros do grupo podem também ajudar-se mutuamente a fazer compras de roupas e de tecidos1, tendo assim um dia real ou imaginário onde poderão ter uma opinião verdadeira a respeito de suas compras e de companheirismo.
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O trabalho com o espelho e com o modo de vestir são então, por enquanto, duas das técnicas básicas usadas no grupo tanto para ajudar as mulheres a aceitar sua forma física atual, como para prepará-las para ter uma menor. Além disso, incentivamos os membros do grupo a adotar uma auto-imagem próxima daquela que imaginam que terão quando estiverem magras. Isto tem seu lado físico e seu lado emocional, e um dos objetivos do grupo é trabalhar nestes diferentes níveis simultaneamente. Um outro exercício preparatório que empregamos é o de imaginar não só aquilo que você pretende projetar quando estiver magra, através de seu modo de vestir, como também através da atitude corporal e igualmente da postura. Muitas mulheres relatam que quando estiveram magras anteriormente, sentavam-se, ficavam de pé e dançavam de um modo muito diferente, geralmente adotando uma postura mais descontraída. Essas diferentes posturas produziam uma série de resultados, alguns dos quais faziam com que se sentissem bem e outros não. Os mais penosos estavam relacionados principalmente às reações dos outros, e as mulheres descobriam que não sabiam como lidar com isso. Engordar novamente era a única opção. O exemplo de meu trabalho com Janet pode descrever com precisão sua verdadeira experiência de tornar-se magra no passado. Janet tem 26 anos e trabalha como assistente social em um centro de ajuda a viciados em drogas. Cresceu no Brooklyn e é a filha mais velha de três irmãos de uma família judia. Tinha um peso normal até os 13 anos. Sua mãe tinha um ligeiro excesso de peso e vez por outra preocupava-se em fazer regime. Em geral, à mesa do jantar, ela comia uma versão moderada da refeição da família — sem batatas ou sobremesas. Quando o corpo de Janet começou a se desenvolver em corpo de mulher, engordou cerca de 7 quilos. Sentiu-se muito mal com relação às mudanças que estavam ocorrendo em seu corpo e foi procurar orientação em revistas para meninas adolescentes, para saber como lidar com essa nova forma e com os sentimentos angustiantes que acompanhavam a puberdade. Sentia-se atraída por
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artigos que tinham títulos tais como "como ter o aspecto de uma adolescente feliz"; ou "como enfrentar as mudanças que estão ocorrendo em seu corpo". Por trás dos títulos acolhedores esses artigos continham uma mensagem horripilante. Janet chegou à conclusão de que havia algo indiscutivelmente errado com sua forma e foi-lhe dito que a resposta estava no controle de peso. Assim tiveram início treze anos de dietas e abusos. A única maneira de extravasar os primeiros sentimentos de pavor e ansiedade que Janet sentia com relação às mudanças que estavam ocorrendo em seu corpo era através dessas revistas. Não havia outro lugar onde pesquisar sobre as mudanças violentas, a perturbação e o medo que estava sentindo sobre menstruação, sutiãs e pêlos púbicos. Na verdade, seu primeiro contato com a própria menstruação foi muito confuso. Apesar de estar preparada para o acontecimento e por isso não ter sentido medo logo de início quando o sangue veio, não pôde entender a reação de sua mãe. Ao lhe contar, recebeu um tapa no rosto2 e os parabéns. Mais tarde, ouviu por acaso a mãe telefonar a amigos da família, para anunciar orgulhosamente que Janet agora era uma mulher. Assim, sua iniciação à condição de mulher foi acompanhada por um ato de violência. Era difícil para ela juntar o tapa com os parabéns. A idéia de que tinha feito algo errado, ou de que estava tudo errado, serviu de base para que se agarrasse àqueles artigos e anúncios que diziam que a solução dos fracassos estava em se alcançar a forma física correta. A primeira da série de dietas fez com que se sentisse extremamente bem. Sentiu-a como se fosse um ato de independência da família. Podia decidir o que comer, em vez de comer o que era servido à mesa. A dieta tinha uma dupla finalidade. Podia testar e transformar seu corpo e marcar sua separação da família. Teve um bom desempenho nos estudos e partiu para a universidade e o curso de pós-graduação. A primeira vez que encontrei Janet, ela estava trabalhando há dois anos, tinha um grande círculo de amizades, do qual faziam parte algumas amigas íntimas, e estava morando há aproximadamente dois anos com Alan, um arquiteto. Com ape91

nas uma exceção sentia-se bastante satisfeita com sua vida; era muito ativa, sociável e competente no trabalho. A única exceção era sua obsessão com peso, dietas e forma física. Ela tinha 1,57m de altura e se sentia gorda com 58 quilos. Muitas vezes, por meio de dieta, conseguira reduzir seu peso para 50 quilos que, no entanto, só eram mantidos por poucos meses. Seu peso naquele momento não estava muito longe do máximo que já atingira. No decorrer da terapia tentamos reconstituir as diferentes épocas em que seu peso aumentou e diminuiu. Como esbocei acima, discutíamos detalhadamente os sentimentos originais que a impeliam na direção da síndrome dieta/abuso. Fizemos duas importantes descobertas. A primeira foi que, muitas vezes, Janet engrenava numa dieta e, ao perder peso, sentia-se suficientemente atraente para envolver-se sexualmente com homens. A duração dessas relações variava, mas seu modo de comer passava inevitavelmente por três fases quando estava envolvida sexualmente. A primeira, que durava aproximadamente uma semana, caracterizava-se por uma impressionante falta de interesse por comida. Essas eram as únicas ocasiões, desde os treze anos, que Janet lembrava-se de não estar realmente obcecada com o que comia. Comia muito pouco, sem se dar conta, em especial, do sabor daquilo que estava comendo. A duração da segunda fase variava. Com Alan, conseguiu manter a dieta razoavelmente bem, por cerca de três meses, com uma variação de peso insignificante, mas com uma considerável obsessão e preocupação pela comida, tendo os dias definidos como "bons" ou "maus" — de acordo com o que ingeria. Após três meses, saíram de férias juntos e Janet liberou as proibições que fazia com relação à quantidade daquilo que comia, embora sua obsessão continuasse com a mesma intensidade. Intimamente, julgava ela, continuava a se preocupar ou a se elogiar de acordo com aquilo que passava por sua boca. Estava decidida a fazer dieta quando voltasse das férias. Mas, naquele momento, passou a comer uma grande variedade de comidas, especialmente aquelas das quais se privara durante os meses anteriores. Quando voltou com Alan para Nova
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York, havia engordado o suficiente para se convencer de que ainda precisava de mais uma dieta. Nos quinze meses seguintes seu peso subiu e desceu como um ioiô, e ela foi ficando cada vez mais aborrecida e descrente com todos esses métodos para emagrecer. Dessa forma, um dos padrões seguidos era: da perda de peso para o envolvimento sexual e daí para a recuperação do peso. As outras ocasiões em que emagreceu corresponderam a grandes mudanças em sua vida — o ingresso no curso secundário, a saída de casa para a universidade, a saída da universidade para os empregos temporários durante o verão, o começo do ano em que trabalhou entre a universidade e o curso de pós-graduação e a volta a Nova York para trabalhar no centro de ajuda a viciados. Cada uma destas ocasiões representou uma independência crescente e autonomia. Enfrentou-as com segurança e com um corpo esbelto, e ficava muito perplexa por não saber por que o impulso de comer compulsivamente retornava logo após se haver estabelecido nos novos ambientes. Durante a terapia, Janet descreveu as vivências que tinha de suas relações sexuais, e de novos lugares, empregos e desafios relativos aos estudos. O que começou a emergir foi que tinha muito mais dificuldades com relação a questões ligadas à separação e à sexualidade do que se havia dado conta. Pôde ver que, com relação à sua vida sexual, acreditava ser aceita em função de uma determinada aparência visual e por ser magra. Recebia muitas propostas sexuais e, apesar de apreciá-las, sentia-se ameaçada — não sabia como afastar as pessoas. Também não sabia se internamente tinha a sexualidade que projetava externamente, porque nas épocas em que engordava não se sentia, de modo algum, como uma pessoa que tivesse sexualidade, e sentia que os homens não se interessavam sexualmente por ela. Além disso, tinha medo de se tornar incontrolavelmente promíscua se permanecesse sempre magra. A atitude da mãe com relação a ela também causava sofrimento e confusão. Enquanto no passado a encorajara a fazer regime, fazia agora comentários sobre sua aparência abatida dizendo que as93

sim ela iria desaparecer. Janet não se tinha tornado a filha magra e bonita que a mãe quisera, e ficava magoada com a ambivalência desta com relação a sua recém-encontrada auto-aceitação. Ficava também atordoada com as reações dos homens; não era possível agradar à sua mãe e aos homens ao mesmo tempo. Na medida em que fomos examinando cada um de seus sentimentos, Janet percebeu como se sentia vulnerável por ser uma mulher magra. Sentiu que se transformara naquilo que os outros a incentivaram a ser, por um lado deparou-se com a desaprovação de sua mãe, e por outro com um grande interesse sexual por parte dos homens. Percebeu que se sentia incapaz de lidar com esses dois tipos de atenção. A desaprovação da mãe não fazia sentido para ela e sentia raiva como se tivesse sido traída. Sentia-se incapaz de lidar com todo o assédio sexual que recebia e achava que não tinha como responder "sim" ou "não" de um modo que correspondesse a seus próprios desejos. Achava que não tinha meios de selecionar as pessoas que lhe interessavam, mas o que era mais perturbador é que achava que agora possuía um belo corpo que tinha de projetar a sexualidade que ela havia ocultado nas épocas de excesso de peso. Ao lidar com a questão da separação, Janet percebeu que ao assumir os novos desafios no colégio, na universidade e no trabalho, ficava de fato muito preocupada com as expectativas que os outros tinham a seu respeito. Enfrentara suas ansiedades mantendo-se firme, fazendo uma dieta rigorosa. Ao entrar para a faculdade projetou uma imagem e se esforçou para acreditar nela — expressava independência, competência, interesse e entusiasmo por tudo. Por debaixo dessa imagem construída e da dieta se encontravam seus medos de incompetência, solidão, tédio e insegurança. Raramente permitia-se senti-los por mais de um instante e impôs a si mesma a tarefa de viver de acordo com sua auto-imagem idealizada de pessoa magra. No momento em que se deu conta de como tinha sido pouco generosa consigo mesma nas épocas em que esteve magra, percebeu o enorme investimento que fazia para ser
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magra toda vez que engordava. Ser magra era uma condição onde não cabiam dor e enganos, e representava independência e sexualidade. Durante a terapia trabalhamos para fazer com que Janet reconhecesse que suas vivências passadas como pessoa magra tinham sido assustadoras, Tendo visto isso, Janet passou a procurar por aspectos seus deixados para trás na gordura. Começou a incorporá-los à idéia de si mesma como pessoa magra. Aprendeu a ser incisiva para poder dizer "sim" ou "não" em situações de assédio sexual ou outras mais, em vez de permanecer como a vítima de sua forma física. Encarou os sentimentos que pareciam inaceitáveis quando ficava magra e começou a encará-los diretamente, em vez de escondê-los dentro da gordura, para que quando emagrecesse novamente pudesse ter a certeza de poder expressá-los sem rodeios e não precisar se preocupar em arranjar um lugar onde escondê-los. Deu a si mesma a possibilidade de ser magra e de ter conflitos; e de aceitar que quaisquer conflitos que tivesse com a mãe, com sua sexualidade, com sua raiva ou com o que quer que fosse, todos podiam existir como fazendo parte dela magra. Isso não significava ter resolvido todas as dificuldades, mas sim têlas reconhecido e aceitado. Significava abandonar a idéia de que ser magra equivalia a achar que sua vida tinha de dar certo o tempo todo. O progresso real da terapia de Janet não teve, é claro, o desenvolvimento linear do modo ordenado como descrevi acima, com uma questão se desdobrando após a outra. Os insights e as percepções chegam subitamente, desaparecem e voltam novamente. É somente através do trabalho com nossas fantasias, com uma lenta perda de peso, com abusos intermitentes e com o difícil trabalho de se pôr à prova os insights em situações que causem medo, que o quadro ficará completo. A terapia de Janet durou quatorze meses, após os quais livrou-se totalmente da compulsão e emagreceu. Seu peso estabilizou-se entre 50 e 52 quilos. Algumas sessões de revisão confirmaram que a compreensão de Janet sobre sua própria vivência de comer tinha-lhe per95

mitido manter, permanentemente, o peso desejado. Encontrara meios mais diretos e incisivos de lidar com os problemas da sexualidade e da feminilidade, que não fossem através da forma física. Assim sendo, para Janet, o trabalho sobre os significados da gordura e da magreza deu-lhe a oportunidade de mudar sua auto-imagem. Ela preencheu a lacuna que havia entre suas fantasias a respeito de como seria como pessoa magra e de como era na realidade. Este exame e, em seguida o abandono das fantasias a respeito da magreza, lhe permitiram abrir mão de expectativas não realistas relacionadas à mudança de personalidade. Como já vimos, as mulheres temem, inconscientemente, ser magras. Se a pessoa é magra, espera-se que siga a norma. Se a pessoa é magra outros irão equiparar a adequação à forma física com a adequação ao comportamento feminino estereotipado. Se a pessoa é magra, como pode autodefinir-se? São precisamente essas confusões que impedem que muitas mulheres se conservem magras, e são essas questões latentes que precisam ser confrontadas para que uma mulher possa vivenciar a escolha de ser magra e de ser ela mesma. É muito difícil desembaraçar os fios que puxam as mulheres para a magreza numa semana, e para a gordura na semana seguinte. Através do esclarecimento dos conflitos, tentei identificar as diversas razões de se temer a magreza. Uma questão importante que precisa ser confrontada individualmente é a seguinte: "Como serei aquela que quero ser, se aparentar o que devo aparentar?" Levar essa pergunta em consideração é algo essencial e muito útil, no que diz respeito às soluções para ser uma mulher magra em nossa cultura.

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A vivência da fome para a comedora compulsiva
As mulheres que encontro já tentaram emagrecer de inúmeras maneiras tais como hipnose, Vigilantes do Peso, médicos de regime, comprimidos à base de celulose, moderadores de apetite, diuréticos, Comedores Exagerados Anônimos e até macumba. Todos esses métodos são esquemas externos. O consumo de alimentos é limitado e algumas comidas específicas como sorvetes, bolos e pães são proibidas. Tudo isso está baseado no princípio de que se você reduzir seu consumo de calorias (ou consumo de carboidratos) você emagrecerá. As dietas vão desde a Dieta da Água de Stillman, à dieta do dr. Atkins e da Clínica de Dieta Mayo, Dieta da Banana, Dieta para os que Bebem. Milhões de dietas e milhares de pessoas fazendo dieta. Milhões de dólares também: dez bilhões de dólares são gastos anualmente pelo público americano para emagrecer e permanecer magro1. Essa quantidade de dietas e de esquemas de redução de peso possuem duas coisas em comum. Em primeiro lugar, uma taxa arrasadoramente alta de reincidência. As pessoas que fazem dieta emagrecem aos montes, mas a partir do momento que têm de conservar seu peso, seu êxito é menos extraordinário2. Há poucas estatísticas, mas se sabe que as taxas de manutenção de peso sejam escandalosamente baixas. A segunda característica que esses esquemas têm em comum é o de que reforçam a compulsão e os estereótipos culturais relacionados à magreza e à gordura. Nenhum desses planos dirige-se às questões fundamentais que estão por trás da compulsão de comer. Duas dessas questões são: a vivência da fome e a necessidade de pôr um fim ao vício da comida. As pessoas gordas não têm tanta consciência do mecanismo real da fome quanto as que não são comedoras compulsivas, as de "peso normal"3. Isso significa que os comedores compulsivos não utilizam seus ronronantes estômagos para lhes dizer quando comer. O ato
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de comer fica tão impregnado de outros significados, que uma resposta imediata a um estômago que sente fome é algo fora do comum. De fato, uma das características da compulsão de comer é a de se comer de tal modo que nunca se sinta fome física. O estigma social ligado às pessoas com excesso de peso acentua o problema. As pessoas gordas em nossa cultura sentem a questão do seguinte modo: "A gordura é ruim, devo sempre tentar emagrecer e, de modo nenhum, apreciar a comida." Em geral, os comedores compulsivos dividem a comida em duas categorias: as "comidas boas" e as "comidas más". Todas as dietas funcionam baseadas no princípio de que a comida é perigosa. Somente através da privação rigorosa o comedor compulsivo poderá se redimir, emagrecer e começar a gozar a vida. Desse modo, o mecanismo da fome sobre o qual as pessoas que comem "normalmente" se apóiam fica distorcido. Anos a fio comendo com culpa e esquemas de privação gigantescos fazem com que o comedor compulsivo fique bastante fora de contato com a vivência da fome e com a capacidade de satisfazê-la. As distorções no processo do ato de comer causam confusão para a comedora compulsiva, enquanto que a infinidade de esquemas para redução de peso infantilizam-na e reduzem a um mínimo o controle sobre sua própria alimentação. Como bem sabe todo aquele que já fez algum tipo de regime, a estrutura da dieta é rígida. As dietas transformaram-se em camisas-de-força morais que aprisionam o comedor compulsivo. Ao voltar-se para a dieta, toda a compulsividade evidente no ato de comer em excesso passa a ser canalizada para uma nova obsessão — manter-se na dieta. Siga essas regras, coma o que as autoridades mandam. Acima de tudo, faça aquilo que as mulheres sabem fazer melhor — prive-se. Mesmo as pseudodietas liberais ("Coma gordura e emagreça", "Saboreie a quantidade de comida e legumes que quiser") baseiam-se numa estrutura que priva a mulher do direito sobre seu próprio corpo. "Coma bananas sete vezes por dia; pese 115g de peixe e 85g de queijo ralado; beba um copo de suco de laranja coado por dia e
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café ou chá à vontade; use sempre a mesma tigela e coma com pauzinhos japoneses; coma sempre no mesmo lugar e à mesma hora; tome sempre um café da manhã reforçado; coma amido, corte a gordura; corte a gordura, mas coma alimentos com alto teor de proteínas; emagreça e arranje/segure seu homem." Mas nunca, nunca se liberte ou descubra o que você gosta de comer, quando e como. Fundamentalmente o comedor compulsivo conhece duas realidades: comer por compulsão (sem controle) ou fazer regime por compulsão. Ser um comedor compulsivo significa ser um viciado em comida. Os comedores compulsivos anseiam tão desesperadamente por comida quanto um viciado anseia por heroína ou um alcoólatra por bebida. Gastam grande parte de sua energia lutando contra o vício. Estão sempre fazendo regimes ou jejuns ou tentando usar um substituto para a droga — a ricota. Enquanto o viciado em drogas e o alcoólatra não lutam continuamente contra a heroína ou a bebida, o comedor compulsivo fica preso numa relação antagônica com a comida que tanto deseja. Enquanto o viciado passa horas tentando arranjar o dinheiro e a pessoa que lhe venda sua próxima dose, o comedor compulsivo dedicará o mesmo tipo de energia psíquica arquitetando o que comer ou não. No final assim como a heroína "escraviza" o viciado em drogas e a bebida "embrutece" o alcoólatra, também o abuso de comida "narcotiza" o comedor compulsivo. Um aspecto curioso relacionado ao vício da comedora compulsiva é que vendo sua cozinha ou a maneira como come em público, tem-se a impressão de que certas comidas são consideradas ilegais. A presença de determinadas comidas é tão rara e seu consumo tão clandestino, que será perdoado aquele que pensar que são dadas penas criminais pela posse e consumo de algumas delas. É como se pudéssemos classificá-las considerando sundaes e batatas fritas como delitos graves; bananas e cremes como contravenções e a comida, em geral, como uma transgressão. De fato, uma conhecida organização de emagrecimento classifica a comida exatamente dessa maneira. Algumas comidas são legais e
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podem ser comidas ininterruptamente e sem limite de quantidade, outras são ilegais e devem ser comidas com restrições. Desse modo, a comedora compulsiva é estimulada a ditar sua própria sentença penal, e ao fazê-lo estará enfrentando o mundo de uma forma muito parecida à do viciado em drogas ou à do alcoólatra. Esta tensão transforma a comida num inimigo ou num mal a ser evitado constantemente, embora, ao mesmo tempo, proporcione prazer e consolo, não obstante efêmeros. Diferentemente de outros viciados, a comedora compulsiva pode, entretanto, sentir um alívio temporário quando não come. Não comer significa que está sendo "boa" e evoca imagens instantâneas de recompensas que virão com a magreza. Contrariamente a imagens populares de gulodice, a comedora compulsiva tem muito medo da comida e do que esta lhe pode causar. Retratar-se por pequenos intervalos é um meio de se isentar da responsabilidade por aquilo que entra em sua boca. A comida é uma droga, é um veneno, serve para manter-nos vivos, é asfixiante, é torturante, mas é muito raramente vista como um aspecto da vida essencial e prazeroso. O grande apetite da comedora compulsiva nasce desse medo da comida. Ela pode comer uma grande quantidade de comida. Em geral não sentirá o sabor das três caixas de biscoitos, dos dez talos de aipo, dos quatro sacos de batatas fritas e da pizza congelada que pode consumir de uma só vez. O alimento é comido com tanta culpa que o prazer fica limitado. A sensação de insaciabilidade é muito forte e ela se entupirá de comidas aparentemente insossas como cereais secos, durante um abuso. A comida tem de ser rapidamente ingerida para deixar de ser perigosa. Uma vez consumida, a crise passa e a comedora compulsiva ficará com as conhecidas sensações desagradáveis que se seguem a um abuso. Comer por compulsão significa comer sem levar em consideração os sinais fisiológicos que apontam a fome. As pessoas que nunca tiveram dificuldades em distinguir as dores da fome aceitam naturalmente que seus corpos estão pedindo comida nessas ocasiões. Podem ficar bastante sur100

preendidas com o grau de má utilização que o comedor compulsivo faz desse mecanismo. Para este último, é igualmente espantosa a idéia de que as pessoas que não têm dificuldades com relação à comida possam confiar em seus estômagos para que estes lhes digam o quê, quanto e quando comer. A comida assume tantos significados adicionais para o comedor compulsivo que já perdeu, faz tempo, sua relação biológica. A palavra "fome", em geral, tem a conotação de desejo de comer. O corpo está exaurido e precisa de alimentação. Em sua forma extrema a fome transforma-se em inanição. No cenário ocidental atual, a satisfação da fome é uma prática social. Embora haja controvérsias sobre o que exatamente constitui a fome e sobre o que controla o apetite e a satisfação, fica surpreendentemente claro que o comedor compulsivo raramente come como resposta aos sinais de seu estômago que indicam a fome.4 Na verdade, quando apresentamos esse fato como um importante meio para se livrar da síndrome, as pessoas ficam ansiosas para entrar novamente em contato com aspectos de seus corpos há muito tempo ignorados. Enquanto rejeitamos o próprio corpo, estamos nos alienando com relação a ele. Isso faz com que seja muito difícil ser receptiva aos sinais vindos do corpo. Se você nunca sentiu seu corpo como bom ou aceitável, mas como desajeitado, não atraente ou de algum modo desagradável, acreditar naquilo que ele diz é um salto considerável, é como se estivéssemos sob o domínio de um território inimigo. Ouvir um corpo que tem sido constantemente uma colônia inconveniente é possuir este corpo. Possuir o próprio corpo significa levar a sério suas necessidades e não levar em conta muitos dos valores externos e medidas com os quais se tentou moldá-lo. A desfiguração do mecanismo da fome não tem uma origem muito clara, e é provável que se inicie muito cedo na vida. O que fica claro é que muitas mulheres jovens começam a adulterar esse mecanismo na época da puberdade, no esforço de transformar seus corpos. Talvez uma analogia torne esse processo de desfiguração mais nítido para aquelas que têm
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muita dificuldade de enfrentar a fome e uma reação adequada a ela. Tomemos como exemplo uma coceira na garganta. Esta sensação será aliviada com a tosse. Um espirro é precedido por uma ligeira irritação nas narinas. Tais reações são praticamente involuntárias e somente algumas pessoas precisam estar freqüentemente negando a vontade de tossir ou de espirrar nas raras ocasiões em que será uma questão de boa educação fazer isso, e mesmo assim em caráter passageiro. Temos um outro exemplo onde nossa atuação já não é tão automática: quando nossa bexiga está cheia e precisamos aliviar a pressão. Aqui também a maior parte das pessoas já cresce com a segurança de saber quando ouvir os sinais de que precisa urinar e a quantidade varia consideravelmente. Algumas vezes há muita pressão na bexiga, outras vezes menos, mas a informação de que precisamos aliviá-la é claramente acessível. Essas três funções físicas são auto-reguladoras e sua satisfação depende do reconhecimento dos sinais. Isso também é verdade com relação ao mecanismo da fome. O bebê tem a capacidade de desenvolver uma relação harmoniosa com suas várias necessidades corporais. Ele aprende a identificar os sinais da fome e se sente satisfeito quando é alimentado adequadamente. A segurança de que será satisfeito é formada pela interação positiva com o ambiente. Quando a criança chora de fome e é alimentada ou chora porque precisa de afeto e é levada ao colo, está obtendo assim uma resposta adequada a seus sinais e na medida em que se desenvolve vai se sentir segura tanto em reconhecer quanto em satisfazer suas necessidades. Muitas mulheres que sofrem de problemas ligados à compulsão de comer sentem-se inseguras para poder reconhecer os sinais da fome e, em seguida, comer para satisfazê-los. O processo da fome foi não só violentado através de anos de dietas e abusos, como também o modo de comer do período que antecede a puberdade é, em geral, lembrado como desvirtuado, perturbado e conflituado. Investigando o passado, podemos verificar que os primeiros
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sinais de necessidades corporais de uma mulher com a qual isso ocorre, foram mal interpretados por sua mãe, de modo que tem-se como resultado confusões a respeito de uma série de sensações físicas. Por exemplo, se toda vez que uma criança chora obtém como resposta a comida, então esta passa a representar algo consolador. Entretanto, se a fralda do bebê precisa ser trocada, ou se ele está pedindo algum tipo de contato físico, alimentá-lo não lhe dará nem satisfação, nem consolo, nem deixará que crie confiança em seu próprio corpo. A alimentação, como resposta a outras necessidades corporais, aliena a criança com relação a seu corpo e diminui a capacidade do indivíduo de reconhecer tanto a fome como a satisfação. Essa primeira desfiguração pode muito bem ser um fator que contribui para a sensação de mal-estar de muitas mulheres com relação a seus próprios corpos; mal-estar esse que se torna muito fácil de ser manipulado pela sociedade que dita nossa aparência e nos dita o que comer. Os sinais externos tornam-se poderosas fontes de confiança na ausência da sensação de segurança de que podemos cuidar de nossas próprias necessidades. Planos de dietas e padarias competem com a mesma força quando uma mulher está em busca de informações a respeito de como cuidar de si mesma. Em geral, as comedoras compulsivas descrevem seu modo de comer atual de um modo que confirma nossa impressão de que a sensação de satisfação da infância foi adulterada. Daphne, uma bibliotecária de 32 anos, descrevia seu modo de comer como sendo, em grande parte, a busca de algo que estava faltando. "Quando vou até a geladeira tenho bastante consciência de que na verdade não estou procurando por comida, mas sinto como se estivesse indo atrás de uma peça que está faltando." Esta peça que está faltando vem a ser uma sensação de desconforto e de insegurança pelo fato de não saber se poderá suprir suas necessidades satisfatoriamente. Esse discurso sobre a fome e a desfiguração de seu mecanismo não foi feito com a intenção de culpar as mães por não interpretarem corretamente os sinais corporais de seus
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filhos. É verdade que, no papel de principais responsáveis, geralmente o fazem, mas uma explicação que pare aqui deixa escapar questões cruciais que afetam todas as mulheres. A questão está mais em se saber por que as mães alimentam as crianças quando não é isso que elas podem estar querendo. Por que será que há sempre comida à mão para ser oferecida quando a criança demonstra mal-estar? Quais as forças sociais que produzem esse tipo de comportamento materno? Procuramos a resposta na posição social da mulher. É no papel de mãe que a mulher é inequivocamente aceita. É no papel de mãe que ela é aconselhada a ser atenciosa e cuidadosa com seu filho. Quase todas nós crescemos numa época em que o cuidado das crianças era visto como incumbência das mães. Elas eram vistas como sendo as únicas que podiam cuidar satisfatoriamente das crianças e formar o vínculo emocional considerado crucial para um desenvolvimento "saudável". No entanto, apesar de ser considerado como a figura essencial na vida diária do bebê, a mãe não é vista como uma especialista na criação da criança. Pelo contrário, é estimulada a recorrer à autoridade de um imenso leque de especialistas — pediatras, psicólogos infantis, analistas, nutricionistas — que lhe dizem como, quando e o que deve dar ou não como alimento a seu filho. A maioria dos "peritos" se contradiz na medida em que a moda na criação de crianças se modifica e as diferentes disciplinas se apressam em adaptar suas teorias às ideologias dominantes. Desse modo, por um lado a mãe é aclamada como a única principal responsável apta para o cargo, mas por outro lado, é considerada como insuficientemente preparada para enfrentar esse trabalho e deve assim confiar nas opiniões conflitantes dos "peritos". Se é nessas condições que se torna mãe e começa a cuidar de seu filho, não é de surpreender que passe a não confiar em suas próprias reações aos sinais deste. Alternadamente deificada e desvalorizada, é difícil para ela sentir-se segura com relação a suas próprias reações. Pode-se perfeitamente imaginar como essa insegurança é prontamente reforçada ainda mais pelas con104

seqüências de um papel materno imposto. Como mãe, terá uma chance única de imprimir sua marca na formação de um aspecto de sua vida (através do filho). Isso pode desencadear na mãe sentimentos de prazer, insatisfação, medo, insegurança, ressentimento ou de entusiasmo que são, em seguida, expressados através de seu contato com o filho. O medo que uma mãe tem de ser deficiente pode fazer com que superalimente automaticamente seu filho toda vez que ele chora, assim como seu ressentimento por ser sua única ama pode fazer com que o negligencie. Mas pode existir mais um fator em causa: quando uma criança chora e expressa sua angústia e, como imagina a mãe, seu desamparo, ela pode se ver como o responsável que deve reagir a isso, mas também é provável que venha a evocar seus próprios sentimentos dolorosos de privação da infância. Se nós somos "mães deficientes", somos também filhas de "mães deficientes", que por sua vez foram também filhas. Se a desfiguração prematura da relação de alimentação é atribuível às forças sociais presentes na relação mãe/filha, então isso será também verdadeiro para nossas mães enquanto filhas, e para as mães de nossas mães enquanto filhas. Enquanto a cultura patriarcal exigir que as mulheres criem suas filhas para aceitarem uma posição social inferior, o trabalho da mãe estará carregado de tensão e confusão que, em geral, se manifestam no modo como mães e filhas interagem com relação à questão da comida. A sensação de fome não é, então, o motivo que leva a comedora compulsiva a comer. Ela não vivência sua maneira de comer como auto-reguladora, mas sim como um tipo de força externa que a tenta, agrada e trai. Uma vez com excesso de peso, provavelmente adota uma postura que diz que não está autorizada a comer, como se à gordura restassem somente desculpas, ou como se as pessoas gordas só tivessem o direito de existir se não comessem. Os gordos entram numa categoria que está bem à parte do resto da população. Embora os anunciantes nos seduzam para comer cada vez mais, as colunas de dieta, os médicos, as revistas de moda e os amigos aconselham aos que têm excesso
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de peso a restringir seu consumo alimentar. Mas dizer a uma comedora compulsiva para controlar algo que ela sente não poder controlar produz o efeito de fazê-la sentir-se impotente e culpada; impotente por ser aparentemente tão incapaz, e culpada por qualquer coisa que coma. Esta culpa dificulta mais ainda a descoberta daquilo que gostaria de comer, porque fica com a idéia fixa naquilo que deve ou não deve comer. A comida é algo a ser temida, e comer equivale a cometer um pecado, pois a pessoa se sente extremamente não merecedora e sem direito algum. O ato de comer se dará rapidamente e quase sempre de modo furtivo. A vivência da comedora compulsiva está contida em um dos seguintes casos: 1 — A COMIDA COMO ACONTECIMENTO SOCIAL: "Nunca sinto fome na hora do jantar, mas gosto que todos comam juntos porque assim parece que formamos uma família feliz. A hora das refeições é significativa não pela comida, mas pela aparência de união familiar." 2 — A FOME DA BOCA: "Realmente preciso colocar algo na boca apesar de não estar sentindo fome no estômago." 3 — COMER PROFILATICAMENTE: "Não estou com fome no momento, mas talvez sinta fome daqui a umas duas horas e não consiga arranjar nada para comer, então é melhor comer alguma coisa agora." 4 — A COMIDA MERECIDA: "Tive um dia terrível. Acho que posso me alegrar um pouco com um bom lanche." 5 — O PRAZER GARANTIDO: "Comer guloseimas é a única maneira que tenho de dar a mim mesma um verdadeiro prazer. O único que sei me dar." 6 — COMER POR NERVOSISMO: "Simplesmente tenho que comer alguma coisa. Com o que vou me empanturrar?" 7 — COMER PARA COMEMORAR ALGO: "Tive um dia tão incrível que um saco de batatas fritas provavelmente não me fará mal."
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8 — COMER POR TÉDIO: "Não estou com vontade de fazer nada no momento... Vou preparar um bom sanduíche." Na dieta por compulsão também não existe resposta à fome fisiológica. A pessoa que faz a dieta come em função de um conjunto de regras que diz quais as comidas permitidas e as proibidas; come em horários fixos e com pouca consideração por aquilo que seu corpo quer e quando quer. Trabalhamos partindo da premissa de que as comedoras compulsivas realmente não se permitem comer, e conseqüentemente estão ou se empanturrando ou se privando. Toda vez que uma comedora compulsiva começa uma dieta está dizendo a si mesma que há algo de errado consigo, portanto precisa se privar. Ela vê seu eu atual como algo repreensível, então decide punir-se através da negação. Desse modo, raramente se permite ter o prazer imediato que a comida pode proporcionar. Forma-se um círculo vicioso. Embora possa comer qualquer coisa que esteja a seu alcance quando não está de dieta, não terá, entretanto, nenhum prazer com a comida por medo de uma privação iminente. "Hoje comi vinte biscoitos em dez minutos. Amanhã começarei uma dieta em que não poderei comer biscoito algum, por isso tive de comer todos hoje, antes de começar a me tornar boazinha." Ao mesmo tempo, os vinte biscoitos são também uma revolta contra a sensação de não ter direito algum e contra a privação. A síndrome dieta/abuso pode ser rompida pela comedora compulsiva quando começar a se ver como uma pessoa "normal", e considerar a gordura como nada além de uma palavra descritiva, sem conotações positivas ou negativas. Se puder se sentir "normal", poderá então começar a comer como uma pessoa "normal". Isso significa aprender a reconhecer a diferença entre a fome verdadeira e a fome psicológica e comer de acordo com isso. Significa comer o suficiente para satisfazer a fome e comer qualquer tipo de comida que satisfaça essa fome específica (seja com salgadinhos ou com um bife). Afinal de contas, as pessoas que não têm o problema da compulsão de comer não se pri107

vam de comida voluntariamente. Ao observar o modo de comer das pessoas que não sofrem com relação à comida, é interessante notar como é variado o leque de comidas que realmente comem e como seu consumo diário pode estar em discordância com concepções a respeito de "dietas saudáveis". É importante perceber também que essas pessoas ocasionalmente comem em excesso por prazer. Já que esse modo de comer não é um substituto de outras necessidades, não possui conotações adicionais. O que estamos tentando eliminar é a compulsão impulsiva a se empanturrar ou a passar fome, e não estabelecer as quantidades "certas" do consumo alimentar. Descobrir o que, quando e quanto você gosta de comer não é tão fácil como parece. Ademais, a pressão das indústrias da dieta e da moda, que gastam somas de dinheiro incalculáveis para garantir que as mulheres não decidam por si mesmas o que gostariam de comer ou vestir, reforça a idéia de que a comedora compulsiva é irresponsável, não tem controle, é negligente e odienta. Em nível psicológico, a vivência das dores da fome pode ser muito assustadora. Parte desse medo vem da ansiedade com relação à própria capacidade de poder satisfazer a fome física. "Se não estou me empanturrando ou passando fome, o que devo fazer? Como vou saber a quantidade certa do que comer? Talvez nunca queira parar." Um outro fator que causa medo está relacionado ao desafio do conceito da "mulher-criança". Pois, se você pode reagir aos sinais da fome que seu corpo realmente transmite, isto a coloca numa situação onde você provavelmente poderá se satisfazer e começar a entrar em harmonia com seu corpo. A idéia de ser capaz de cuidar de si mesma faz com que você comece a ver a mulher como um adulto, com os direitos e os privilégios que os outros adultos (os de sexo masculino) possuem. Isto significa levar a sério suas próprias necessidades e esforçar-se para satisfazê-las. A mulher é criada para concordar e satisfazer as necessidades dos outros. A luta para se conseguir saber aquilo que você quer ou precisa comer modifica suas reações com relação às ne108

cessidades dos outros. Na medida em que você começa a acreditar na sua capacidade de se alimentar, encontra um solo firme para se posicionar com mais clareza com relação às necessidades dos outros. "Se posso cuidar de minha própria alimentação, e dizer 'sim' ou 'não' àquilo que quero ou não, poderei então manifestar, para mim mesma e para os outros, desejos em outras áreas e me sentirei mais responsável por outros setores de minha vida." Ser capaz de agir de acordo com as próprias necessidades, é uma experiência inusitada e tremendamente negada à mulher em nossa cultura. Quando a comedora compulsiva se imagina como uma mulher adulta magra, estado em que supõe que tudo em sua vida entrará nos eixos, ela tem de se adaptar a uma imagem de feminilidade, em vez de sentir confiança em quem ela é. Embora se trate de uma fantasia, é, no entanto, uma idéia forte e assustadora: "Se sou magra e me pareço com uma mulher 'verdadeira', então tenho que ser produtiva, enérgica, inteira e afetuosa." A luta para se conseguir ser mulher e autodefinida é dura e recebe pouco apoio para que possa expressar a verdadeira condição da mulher como pessoa. Em nosso trabalho passamos muito tempo revelando e desmistificando as inúmeras fantasias associadas à gordura e à magreza. Ao mesmo tempo, trabalhamos juntas o lado técnico, aprendendo novas maneiras de encarar a comida e a fome. As etapas aqui esboçadas começam com a idéia de que não iremos julgar coisa alguma que possamos vir a comer. Para ser mais precisa, iremos observar nossa maneira de comer. Aprender a não julgar aquilo que se come não é muito fácil. Os anos gastos no esforço de seguir as regras não desaparecem rapidamente. Observar um lado do eu que foi inúmeras vezes rejeitado exige uma grande dose de auto-aceitação. Desligar-se de seus juizes — mães, revistas femininas, maridos, namorados, amigos, médicos e nutricionistas — exige a confiança no próprio eu. Estar num grupo com outras mulheres que estão passando pelo mesmo processo pode ser algo de muita ajuda e apoio.
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O primeiro passo é aprender sobre seus padrões alimentares. Isto quer dizer, localizar com precisão os momentos em que você se sente especialmente vulnerável às tentações da comida, e reparar em todas as ocasiões em que está tranqüila com relação a ela. Através da anotação de seu consumo alimentar durante um pequeno período você estará tanto colhendo dados, com também desenvolvendo um senso de si mesma enquanto observadora. Nesta condição, você poderá começar a ver que existe uma parte sua que come e outra que faz outras coisas, como observar. Terá então se libertado da idéia de se ver como uma pessoa obcecada por comida. Você estará pronta para passar a ser uma pessoa "normal" que age como uma pessoa "normal". Agora vamos ao segundo passo. Passamos da observação à ação. Em primeiro lugar começamos a identificar a diferença entre a fome da boca e a fome do estômago. Experimente ficar sem comer por algumas horas até que sinta algumas sensações de fome em seu corpo. É bem provável que as sinta no estômago, embora algumas pessoas as sintam no peito ou na garganta. Quando sentir a diferença entre os dois tipos de fome, veja como se sente por alguns minutos. É algo tranqüilizador, ou é assustador? Você associa lembranças agradáveis ou desagradáveis a isso? Geralmente os primeiros sentimentos percebidos a partir da fome do estômago produzirão associações dolorosas que você sentirá necessidade de examinar com o grupo, ou sozinha. Mimi, uma mulher com a qual trabalhamos, descobriu que quando se permitia sentir as dores da fome, entrava em contato com toda uma outra série de emoções corporais que havia conseguido esconder de si mesma com êxito. Sentia sua sexualidade. Tais sentimentos sexuais faziam-na sentir-se muito mal, porque havia chegado ao ponto de ver a sexualidade como algo pecaminoso, ou não condizente consigo mesma. Ao conversar sobre o que isso podia significar ela conseguiu separar as dores da fome, da sexualidade geradora de culpa. Uma outra mulher, Betty, lembrou-se de que na infância havia passado fome, numa época em que não havia comida suficiente na mesa. E Marta, que era obriga110

da pela família a comer, descobriu que as sensações de fome expressavam uma capitulação à conjuntura alimentar desta. O processo de trabalho com esses casos foi enriquecido com uma compreensão feminista dos problemas específicos que cada uma delas expressava. Por exemplo, ao examinar a resposta de Mimi a seus sentimentos ligados à sexualidade, investigamos a razão e o modo pelo qual ela aprendeu que o sexo era pecado tanto para si, quanto para as outras mulheres. Ao examinar a fome de Betty em sua infância, trouxemos para primeiro plano o penoso destino das mães que se privam quando não há comida suficiente, e encorajam seus filhos a comer. Betty descobriu que na verdade se negava mais do que o necessário, através de uma identificação com a mãe por ocasião da reunião da família à hora das refeições. Ser mulher significava se autonegar. A capitulação de Marta à mesa refletia uma ambivalência com relação a sua separação da família, dificuldade especialmente acentuada para as mulheres que tradicionalmente deixam a família ao se casar. Perceber como tais fatos estão relacionados pode ser um modo de se obter pistas úteis para se chegar às raízes de sua própria história com relação à comida. Em última instância, quando você tiver aprendido a dar a seu corpo exatamente o que ele quer, poderá ser capaz de aguardar com prazer as dores da fome, porque isso será um aviso de que seu corpo está pedindo uma coisa gostosa. O próximo passo é comer, o máximo que for possível, somente quando sentir fome de estômago. Não se preocupe muito com isso no início, porque é inevitável que qualquer pessoa que tenha uma história de compulsão de comer, ocasionalmente coma por fome de boca. Mas tente começar a ver seu corpo como um instrumento bem afinado que gosta de ser tratado com carinho. Quando está com muita fome, é provável que queira bastante comida; quando a fome é leve, vai querer menos. De acordo com isso, tendo aprendido sobre a fome do estômago, tente determinar exatamente que tipo de comida ou líquido seu corpo está pedindo. Isto é, uma vez tendo sentido as dores da fome, tente
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imaginar que tipo de comida(s) poderá satisfazer essa fome específica. Às vezes será muito fácil, e você saberá de imediato o que está querendo, mas, em geral, principalmente em virtude dos anos de "devo e não devo" e de regimes, você poderá não saber e, nesse caso, talvez sinta que um rápido exercício de imaginação seja de grande auxílio. Feche os olhos e pergunte a si mesma: "Que tipo de sensação física estou tendo e qual a melhor maneira de satisfazê-la? Será que estou querendo alguma coisa torradinha, salgada, puxa-puxa, molhada, doce? Certo, quero umas batatas fritas. Vou imaginar que estou comendo algumas. Não, não é isso. Que tal um pouco de chocolate...?" Desse modo, antes de comer o alimento você provavelmente já terá imaginado o que irá sentir quando ele for ingerido. Sinta a sopa descer pela garganta, mastigue as nozes, sinta o cheiro do pão fresco na sua imaginação. Encontre as comidas que estejam de acordo com seu estado de espírito e coma-as. Coma a quantidade que seu corpo está pedindo. Saboreie realmente cada bocado. Deleite-se. É muito freqüente não aparecer comida alguma com clareza e isso pode significar duas coisas. Você estará com fome, mas não consegue descobrir exatamente o que tem vontade de comer. Coma um pouco de algo de que gosta e espere até conseguir receber uma mensagem mais nítida. Você talvez tenha deixado a fome crescer tanto que seu estômago está dando pulos e não sabe como ser acalmado. Em outras ocasiões é provável que você não esteja com fome de comida e será importante "alimentar-se", mais adequadamente, com um abraço, um choro, um banho, uma conversa ao telefone, ou uma corrida. Se o que você está querendo é uma outra coisa, a comida não satisfará seu desejo original. No máximo poderá dar um alívio temporário com relação a sentimentos que estão querendo se insinuar. O mais perturbador é que comer nessas ocasiões serve para mascarar outras vontades e afasta você ainda mais da capacidade de cuidar de si mesma. Localize qual a necessidade emocional que você está pedindo para a comida satisfazer por você e pergunte-se se, de fato, isso funciona. No mo112

mento em que você descobrir como esse funcionamento é insatisfatório, comece a pensar em maneiras alternativas de lidar com suas necessidades. Se você está acostumado a comer compulsivamente em épocas de muitos transtornos, será reconfortante saber que pode se alimentar de acordo com a fome e deixar um espaço para preencher a angústia. Como diz Carol Bloom em seu manual de treinamentos5: "A maioria dos comedores compulsivos aumenta seu consumo não-nutritivo durante épocas de stress, o que, freqüentemente, faz com que se sintam muito pior. Não comer durante esse período (quando você não quer) reforçará mais uma vez a mensagem 'Eu posso cuidar de mim, posso dar a mim o apoio de que preciso'. É um modo de não abandonar a si mesmo quando as coisas ficam difíceis." Para muitas pessoas certas comidas têm significados especiais e estão associados a determinados estados de espírito e lembranças. Alguns gostam dos efeitos tranqüilizadores da sopa quando estão se sentindo tensos, de cenouras quando estão com raiva, ou de suco, quando estão se sentindo com energia. Embora não esteja sugerindo que você desabafe sua raiva numa cenoura, em vez de expressá-la em outro lugar, a comida pode, não obstante, expressar alguma coisa. A questão principal é que você se deixe mimar pela comida, que faça com que cada sensação do comer seja uma sensação agradável, que veja sua fome de estômago como um sinal para um próximo deleite. Não se preocupe com horários de refeições ou com refeições equilibradas. Nós não acreditamos em comidas boas ou más. Acreditamos que nossos corpos podem nos dizer o que comer, como conseguir um consumo alimentar equilibrado em termos nutricionais, e como emagrecer. O corpo é um sistema auto-regulador, se for deixado livre para funcionar. Não estamos preocupados com o valor das calorias e dos carboidratos. Tome uma pílula de um composto vitamínico todos os dias, até sentir que seu corpo é tão auto-regulador como afirmamos que pode ser. Certamente tais propostas — coma quando sentir fome, coma o quanto quiser — podem parecer um novo con113

junto de regras a serem seguidas. Em certo sentido isso é verdade. Mas nós as vemos mais como diretrizes de grande auxílio destinadas a fazer com que você confie em seus processos corporais, fazendo com que elas não sejam sentidas como obrigações, mas como orientações, até que você passe a sentir total confiança em si mesma. Em certo sentido, as etapas esboçadas acima não são mais do que uma descrição detalhada do que se passa com quem come "normalmente". Prestar atenção nos detalhes do modo de comer é um primeiro passo em direção a uma relação "normal" com a comida. Do mesmo modo que se pode dizer "sim" a uma determinada comida, existe também a possibilidade de se dizer "não" a certas outras, em outras ocasiões. Dizer "não" é um grande meio para se chegar à autodefinição, mas pressupõe a capacidade de poder dizer "sim" de um modo saudável e sem culpa. Algumas sugestões a mais para desmistificar a comida podem ser úteis. Experimente deixar um pouco de tudo o que você comer ou beber no prato, xícara ou copo. Isto tem dois objetivos. Por um lado, fará com que você tenha mais controle sobre a comida e reduzirá a sensação de insaciabilidade; e, por outro, permitirá que você rejeite a comida. Na medida em que se sentir mais à vontade, poderá definir com precisão a quantidade de comida que deseja. Este exercício ajudou Elizabeth, 38 anos, mãe de três filhos e que foi criada na Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial. Ajudou-a a romper com um padrão que ela havia formado no passado quando tentava deixar alguma coisa no prato. Lembrava-se da imagem da mãe, de pé a seu lado dizendo-lhe para não deixar nem uma migalha porque os soldados haviam arriscado as vidas tentando arranjar comida para ela. A comida era racionada, as guloseimas raras, e Elizabeth tinha sempre a impressão de não saber quando comeria novamente. Experimente abastecer sua casa com as "comidas más", aquelas que lhe atraem e dão medo. Uma mulher com a qual trabalhei foi convencida a manter ingredientes suficientes
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para setenta e cinco sundaes, com todos os acompanhamentos. Quando lhe disseram pela primeira vez para encher a geladeira com sorvete, caldas, castanhas e cremes ela exclamou: "Mas assim vou comer tudo!" A idéia lhe parecia extremamente pecaminosa. Alguém mostrou-lhe que, se mantivesse provisões suficientes para um pequeno exército e pudesse provar a si mesma que não ia querer consumir tudo de uma só vez, iria se sentir com muito mais poder e com mais controle sobre a comida. Aprendeu a gostar do sorvete e a tratá-lo como a um amigo que se visita quando se quer, em vez de vê-lo como um inimigo a ser conquistado. Teve também todo o cuidado em ter sempre o bastante de sua marca e sabor favoritos. Se você realmente está com vontade de tomar sorvete de café, a calda de chocolate que está na geladeira passa a ser um substituto medíocre. Vale mais a pena sair para comprar exatamente aquilo que se quer, do que simplesmente comer qualquer coisa que esteja por perto. As únicas restrições a esse plano encontram-se no terreno econômico. É triste sentir um forte desejo de comer um bom salmão defumado quando seu bolso só dá para comprar algo mais barato. Mas pense realmente no seguinte. Quanto dinheiro você costumava gastar com comidas dietéticas, livros de dieta e com os abusos? Nos grupos fazemos um jogo que ajuda a pôr em evidência determinadas comidas e a acabar com a idéia de que é perigoso ter comidas gostosas em casa. Imaginamos que temos um quarto especial repleto com nossas comidas favoritas, e vemos como seria a sensação de estar cercado por todas essas maravilhosas possibilidades para o paladar. Em nossa imaginação vemos como seria esta sensação. É reconfortante ou assustador ter todas essas delícias na palma da mão? Quando a maior parte das pessoas tem o vislumbre inicial, ficam nervosas. "Nunca sairei de lá! Ficarei sempre comendo!" Mas, depois de um ou dois minutos com a fantasia, descobrimos que as pessoas se sentem seguras e protegidas com toda aquela comida ao redor. Descobrem até mesmo que têm outras coisas a fazer, do que preparar e
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comer a comida. Se a comida está lá, se sabem que nunca mais irão se privar dela através das próprias mãos, poderão então começar a tratar dos assuntos da vida e começar a comer para viver, em vez de viver para comer. Todo o trabalho que você fizer para definir a fome e para aprender a satisfazê-la pode ser acompanhado por um exame dos problemas psicológicos que prejudicam sua capacidade de satisfazer suas necessidades alimentares. Por exemplo, se você tem dificuldade em permitir-se sentir fome facilmente, fique atenta tanto às sensações físicas de seu corpo, como também aos fatores psicológicos que a impedem de ouvir o que ele está pedindo. Os problemas psicológicos vão desde as dúvidas com relação a sua capacidade de nutrir-se e do que isso significa, até o fato de querer saber quem detém o poder que está sendo ameaçado, se você passa a cuidar de si. Uma mulher descobriu que, na medida em que começou a levar suas necessidades a sério e a saber exatamente quais eram, partiu para o questionamento de seu papel na família, que era o de cuidar das necessidades de todos os outros e de ignorar as suas próprias. Colocar-se em primeiro lugar no setor da comida foi no início problemático. Tinha a impressão de estar abandonando os filhos. Descobriu depois que, na medida em que se permitia comer o que queria, a família inteira tornou-se mais independente nesse setor. A hora das refeições transformou-se num ato bem menos tenso. Cada membro da família entrava na cozinha para fazer algo que queria, e apesar de haver um certo caos enquanto todos faziam experiências e bagunça lá dentro, no final cada um conseguiu definir-se melhor a respeito de seu consumo alimentar e, como aconteceu mais tarde, assumiu maior responsabilidade em outras áreas do trabalho doméstico. Algumas pessoas descobrirão que, na medida em que começarem a se sentir menos viciadas na comida em geral, certos alimentos continuarão a possuir propriedades "mágicas". Uma mulher de quem tratei comia doces intermitentemente o dia inteiro enquanto trabalhava. Descobrimos que seu consumo de doces estava ligado à tentativa de tor116

nar-se uma pessoa doce, tornar-se "boazinha" quando, na verdade, estava sentindo muita raiva. Apenas achava que "As mulheres não devem se zangar; não fica bem. É melhor que me torne doce e suave." O que acontecia é que sentia raiva toda vez que seu patrão a tratava de um modo abertamente humilhante. Apesar de ser paga para fazer pesquisa, esperava-se também que se dispusesse a "servir". Esperava-se que fizesse o café e as honras da casa aos inúmeros clientes do sexo masculino que iam ao escritório. Tais expectativas eram exemplos da desigualdade sexual que tem lugar com tanta freqüência em escritórios e ela, como muitas outras mulheres, ficava conflituada e sentia raiva quando era "feminilizada" daquela maneira. No grupo fizemos um trabalho de dramatização para torná-la mais incisiva com seu patrão e discutir com ele outras alternativas para o preparo do café. Quando alcançou uma posição mais igualitária no trabalho, não sentiu mais tanta necessidade de entupir-se de doces furtivamente. Isso não quer dizer que sua raiva tenha desaparecido. É inevitável que haja atritos enquanto existirem patrões, mas a raiva foi reconhecida e validada em si mesma pelo grupo, e então separada da ação de comer. De tudo que disse é importante lembrar que nosso objetivo não é, em primeiro lugar, a perda de peso. O objetivo é fazer com que a comedora compulsiva rompa o vício que a torna dependente da comida. Embora a perda de peso seja geralmente um sinal importante de que o vício terminou, nosso principal interesse é que você comece a sentir-se mais tranqüila com relação à comida. Não é uma coisa que se deva forçar. O problema que procuramos resolver é o do vício da comida. A obsessão prolongada com relação à perda ou ganho de peso obstrui o processo de se aprender a gostar da comida e de comer aquilo que seu corpo está pedindo. Apesar deste processo não ser um atalho mágico, sua filosofia proporciona uma base para que possamos ter uma relação mais descontraída e natural com a comida e com nossos corpos.

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Auto-ajuda
Se você se considera uma comedora compulsiva, as chances são de que conheça outras mulheres na mesma situação. Na verdade, é provável que você tenha feito dietas, jejuns ou abusado junto com as amigas, embora a compulsão de comer seja sentida como uma atividade solitária e até mesmo masturbatória. As mulheres que sofrem do problema da compulsão de comer tendem a procurar outras que demonstrem compaixão e compreensão por elas, e a verdade é que as únicas pessoas que podem realmente sentir isso são as que têm o mesmo problema. Se você não se sente próxima de alguém que tenha esse mesmo problema, coloque um aviso na sua universidade, centro comunitário ou centro feminino, para poder entrar em contato com outras pessoas que eventualmente estejam interessadas em formar um grupo de auto-ajuda. Se você está relutante em trabalhar em grupo, os exercícios apresentados podem ser feitos facilmente só por você. No entanto, acho sinceramente que você deve procurar trabalhar em grupo pelas razões que serão detalhadas abaixo. Existem várias razões para se trabalhar o problema em grupo. Algumas práticas e outras relacionadas à natureza do próprio problema. Em termos práticos, não há pessoal suficiente fazendo esse tipo de trabalho que satisfaça a procura e o interesse por uma terapia individual que lide com o problema da compulsão de comer. Na medida em que as pessoas que tiveram o problema e passaram pela terapia começarem a iniciar um trabalho com outras, haverá mais opções para aquelas que preferem um esquema individual. No momento, porém, gostaria de esboçar as vantagens do trabalho em grupo e propor um modelo para um grupo de auto-ajuda. Para aquelas que não tiveram amizades solidificadas em cima das mesmas obsessões alimentares, encontrar-se com pessoas que compartilhem do mesmo problema pode vir a ser um imenso alívio. Poder encontrar e conversar com outras mulheres sobre esse problema pode ajudar a aliviar
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aquelas horríveis sensações de ser um monstro isolado e um fracasso. Mesmo para aquelas que já tiveram conversas intermináveis com as amigas sobre obsessões alimçntares, é provável que os primeiros bate-papos se tenham limitado exclusivamente a assuntos ligados a dietas ou a alimentos dietéticos. Juntar-se a outras mulheres para examinar explicitamente sua relação com a gordura e a magreza pode vir a ser uma experiência reconfortante e que transmite segurança. Para algumas mulheres é como se estivessem despindo a fantasia. Pode ser especialmente o caso daquelas que conseguiram dar um jeito de manter seu peso dentro da norma cultural, para que ninguém percebesse seu problema. Para outras, há o alívio de ter um ambiente onde existem apoio e espaço para extravasar o tormento e a dor ligados a uma vida que gira em torno da comida. Não precisam inventar desculpas para seu tamanho, ou para sua obsessão com a comida, têm a oportunidade de ser sinceras com relação às penosas estimativas que fazem todas as vezes em que colocam alguma coisa na boca, e com relação ao terror que sentem todas as manhãs ao imaginar se aquele será um "dia bom" ou um "dia mau". Não precisam fingir que comem como passarinhos. Têm a chance, possivelmente, pela primeira vez na vida, de discutir abertamente sobre seu modo de comer e examinar os sentimentos complexos que têm com relação a seus corpos. Para todas, no grupo, este é possivelmente o primeiro lugar em que já estiveram onde não precisam desculpar-se por existirem. Acima de tudo, o grupo oferece ajuda para se superar um problema que pode parecer impossível de se resolver sozinha. Além de romper o isolamento há muitas outras maneiras através das quais a solução em grupo pode ser benéfica. Dentro do grupo todos têm o mesmo problema e por isso, apesar de ser a compulsão de comer a razão que leva as pessoas a se unir, por meio dessa reunião, o grupo pode fornecer um meio de realizar uma mudança na auto-definição de cada membro. O que quero dizer com isso é que por estarmos em um grupo que nos aceita na qualidade de comedora compulsiva, podemos ultrapassar uma limitada
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concepção do eu enquanto comedor a compulsiva. Na medida em que se conseguem ver outras comedoras compulsivas ou mulheres gordas com outros atributos que não a gordura, e se consegue perceber que a gordura não tem nada a ver com valores, tais como beleza, criatividade, energia ou solicitude, estes mesmos valores poderão começar a ser vistos na própria pessoa. Por exemplo, quando o membro do grupo, Joy, pode ver um outro membro, Mary, como uma mulher gentil, ágil e firme, pode então olhar mais além de sua auto-definição de pessoa gorda e ver que também tem qualidades adicionais. Pode então começar a ampliar sua visão da gordura para que esta não desencadeie automaticamente uma resposta de repulsa ou rejeição. A gordura poderá então ser vista como um entre vários adjetivos que se podem agregar a outros adjetivos — belo, gracioso, horrível, medonho, educado, agradável ou generoso. A gordura é vista simplesmente como uma parte de si mesma, e não como a única característica que define a pessoa. As pessoas são mais do que qualquer uma de suas partes ou mesmo do que a soma de todas as suas partes. Se você se concentra em sua barriga grande, você é, apesar disso, mais do que uma barriga grande. No entanto, se você foi definida pelos outros ou definiu-se a si mesma somente como alguém que possui um tamanho específico — e esta definição teve conotações negativas, como se dá com o adjetivo "gordura" — então será difícil que essa parte não pareça estar dominando. É fundamental que se amplie a definição do eu para que inclua outras propriedades além da gordura. Isso porque, no momento de se abandonar a gordura, você não estará jogando fora toda a sua pessoa (o que é um medo conhecido), porque você é mais do que a gordura. Joan achava que a gordura era a única coisa totalmente sua que tinha na vida. Apegava-se tenazmente a seu peso excessivo temendo que se o perdesse, se abandonasse sua gordura, perderia a própria essência. O grupo foi extremamente importante para ela, porque foi forçada a se ver através dos olhos dos outros — outros que aceitavam seu tamanho e buscavam caracte120

rísticas adicionais para defini-la. Reconhecer a singularidade dos outros membros do grupo, a configuração especial de suas personalidades, que os fazia ser o que eram. Pôde ver como tais características eram conservadas através das variações de peso no decorrer da terapia, e pôde assim perceber sua própria singularidade e individualidade essenciais, que não estavam alicerçadas em sua gordura. Além disso, o grupo desempenha outras importantes funções. A gordura transmite mensagens ao mundo externo. Por exemplo, quando discutem sobre o comportamento assertivo, muitas mulheres não sabem dizer um "sim" ou um "não" categóricos. Têm a fantasia de que a gordura está fazendo isso por elas. No contexto do grupo, onde a gordura de cada uma assume um significado diferente, fica perfeitamente demonstrado que fazer com que a gordura fale por você não passa necessariamente a mensagem. Certamente, também no caso de um comportamento não assertivo fora do grupo, raramente a gordura consegue desempenhar o trabalho que se supõe que deva, não obstante a fantasia persista. Dentro do grupo a pessoa pode não só começar a se expressar de um modo mais categórico, como tem de fazê-lo. Se não for claramente formulado o significado mágico da gordura de cada uma, nunca desaparecerá a fantasia. Os membros do grupo podem apoiar-se mutuamente no esforço de fazer a troca — você tem um fórum para usar sua boca para falar e dizer o que quer, sente ou pensa, em vez de continuar na esperança de que a gordura faça isso por você. Correr riscos dessa natureza geralmente é mais fácil em grupo. Os membros do grupo que se sentem especialmente não assertivos podem usá-lo para experimentar meios de se afirmar. O grupo pode proporcionar um feedback preciso e estímulo. No trabalho individual o feedback ficaria necessariamente limitado. Ao falar sobre imagens ligadas à magreza, algumas mulheres expressam fantasias do tipo: "Quando for magra serei competente, atraente, inteira, terei bons relacionamentos... serei perfeita." Os membros do grupo podem se ajudar mutuamente a contestar expectativas tão irreais como essas —
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podem demonstrar, a partir de sua própria história passada, que houve ocasiões em que estiveram magras e que a vida não era uma maravilha, e nem era fácil o tempo todo. Isso poderá então ajudar a que as outras abram mão de noções de perfeição que se apóiam numa corrida contra si mesmas e a qual fatalmente se perde. Mas talvez um fato que possa ser útil é o de que, provavelmente, os membros do grupo terão corpos diferentes e que haverá uma ou duas mulheres que representam o peso ideal das outras. Estas mulheres, as magras por compulsão, por assim dizer, conseguiram manter o problema dentro de limites físicos e são tão magras quanto a cultura exige que as mulheres sejam. Além disso, descobriram que pelo fato de serem magras as coisas não decorrem com tranqüilidade em suas vidas, e isso pode ser uma lição de extrema utilidade para aquelas que imaginam que o fato de ser magra significa que tudo está bem. Emagrecer será então visto simplesmente como emagrecer e não como a proclamação de uma transformação completa da própria vida. Do mesmo modo como ajuda as mulheres a se redefinirem, o grupo também é valioso porque fornece um meio franco de se lidar com a própria compulsão de comer. Dentro de um grupo de comedoras compulsivas, a atenção está sempre focalizada naquilo que a gordura ou a magreza estão expressando na vida da pessoa naquele momento, no seu passado, ou no aqui e agora do grupo. É como se as funções protetoras da gordura, por terem sido discutidas e examinadas no grupo, perdessem ali seu poder, e os membros tivessem de procurar por novos meios de se proteger sem apoiar-se nela. Isto proporcionará um aprendizado, no qual os membros do grupo poderão ver que possuem outros mecanismos de proteção que não a gordura. Essa constatação torna o abandono da gordura bem menos assustador. Inevitavelmente, durante a vida do grupo, as pessoas terão formas físicas diferentes em diferentes ocasiões. Podese notar, desta maneira, que uma pessoa pode emagrecer e nada de terrível acontecer necessariamente. Por exemplo,
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Jill e Margot, que tinham formas diferentes, temiam ambas sua própria "promiscuidade" caso perdessem peso. No caso das duas, o período em que ficavam magras era uma época de intensa atividade sexual. No decorrer da terapia ambas perceberam quão assustadora haviam sido essas experiências ligadas à magreza/sexualidade e passaram a ver que antes de emagrecer novamente teriam que garantir a si mesmas que uma atividade sexual ardente não acompanha necessariamente a magreza. Margot emagreceu muito em primeiro lugar. Continuou a se assegurar que podia ser magra sem ter de expressar sua sexualidade enquanto sentisse medo. Enquanto isso, Jill começou a incorporar a sexualidade a sua vida para poder abandonar a idéia de que o sexo estava reservado somente para as épocas em que estava magra, quando se assustava com seu interesse sexual. Quando Jill percebeu a recém-descoberta seletividade de Margot sentiu-se muito encorajada. Conseguiu perceber que não mais havia uma ligação entre sexo e peso dentro de um modelo de privação/abuso do tipo "muito gorda para trepar", ou "magra e promíscua". Jill e Margot então aprenderam, uma com a outra, importantes lições através de suas ações. Jill viu que alguém com quem se identificava fortemente podia conseguir algo que parecesse ser quase impossível anteriormente — Margot conseguira emagrecer sem se tornar promíscua. Do mesmo modo, Margot aprendeu com Jill que era possível ter sexualidade com qualquer peso. Isto foi especialmente reconfortante porque Margot queria engravidar e tinha associado muitos de seus medos relacionados à gravidez e à maternidade à idéia de que não poderia manter relações sexuais nesse estado, porque estaria tão enorme, que se tornaria indesejável sexualmente. A capacidade de Jill de ter uma vida sexual estando com um peso muito maior do que ambas haviam pensado ser possível ajudou Margot a reformular suas idéias a respeito de sexualidade e forma física. Conseguiu perceber que a forma de Jill não era um empecilho à sua sexualidade e atratividade, e encorajou-se com isso. Outros tipos de ajuda podem surgir do trabalho em gru123

po e estes ficarão patentes quando o modelo de auto-ajuda for detalhado. Neste momento, contudo, gostaria de desdobrar algumas propostas que podem ajudar a formação de um grupo. Segundo experiência própria, o número de pessoas em um grupo não deve ser pequeno demais. Um grupo ideal deveria ter de cinco a oito membros. Já que o grupo leva algum tempo para estabilizar o número de seus participantes — alguns sempre tendem a abandoná-lo ou a afastar-se — inicialmente será uma boa idéia formá-lo com um número ligeiramente superior ao desejado. Idade, forma física ou formação cultural parecem não fazer muita diferença para o resultado do grupo. É claro que a semelhança ou diferença desses fatores se expressará através das qualidades características e da sensibilidade de qualquer grupo. É importante que se estabeleça um tempo de duração para as sessões, que não varie a cada semana. Cerca de duas horas e meia é um tempo razoável para um grupo de oito pessoas, ou uma hora e meia no caso de cinco pessoas. E importante que se preestabeleça o tempo de duração das sessões. Em primeiro lugar, como acontece com qualquer grupo terapêutico, ficam estabelecidas aquelas horas especiais durante as quais o grupo se concentrará intencionalmente no problema psicológico que estiver em questão. O horário da sessão não deve ficar impreciso, porque a questão de definição — começo e fim — e decisiva para os comedores compulsivos, sob todos os aspectos. Em segundo lugar, se o horário for claramente definido, provavelmente cada membro tentará obter do grupo sistematicamente aquilo de que precisa. Isto reduzirá a sensação de insaciabilidade e insatisfação que os comedores compulsivos sentem. Estas sessões assumirão então um significado maior, já que lhes é dedicado um tempo especial dentro da rotina diária das coisas. Torna-se a hora da semana que está garantida para a reflexão e a análise. É bem provável que todas venham para o grupo com a expectativa e o desejo de que a participação nele produzirá uma perda de peso fabulosa e instantânea. Embora seja
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difícil eliminar tais pensamentos, deve-se enfatizar o fato de que a perda de peso não é a finalidade imediata. O objetivo do grupo é eliminar a relação viciada formada com a comida, e as diretrizes que se seguem apontam para esse fim. Ao alcançar esse objetivo, o grupo achará proveitoso abordar o problema simultaneamente em dois níveis. O primeiro é o da investigação dos significados simbólicos da gordura e da magreza para os indivíduos do grupo. No segundo nível, trabalhamos novas maneiras de encarar a comida e a fome. Mas antes de entrar em detalhes sobre os primeiros encontros, darei um aparte importante sobre o que entendo por processos psicológicos. Qualquer sintoma, tal como a compulsão de comer, existe por uma boa razão. Não produzimos sintomas a não ser que tenhamos outras vias para expressar a angústia. Não é prudente esforçar-se para eliminá-los, sem que se obtenha uma introvisão de suas origens e finalidades. Além disso, a não ser que se criem estratégias alternativas para se lidar, com os conflitos que os sintomas encobrem, o indivíduo pode sentir-se bastante desamparado. Isto pode acarretar uma situação perigosa onde, num caso extremo, o indivíduo cria um novo sintoma. Se simplesmente eliminamos um sintoma, como a compulsão de comer, estamos não só depreciando-o, afirmando que se trata de um pouquinho de loucura que precisa ser extirpada cirurgicamente, como também estamos correndo o risco — precisamente por conta de sua importância — de fazer uma "troca de sintomas". Não é muito proveitoso abandonar a compulsão de comer em uma determinada semana, e ser atacada por um novo sintoma (como a insônia ou a ansiedade) mais tarde. O que estou tentando dizer aqui é que é provável que surja ansiedade se uma mulher começa a fazer todo tipo de coisa que imaginou fazer quando emagrecesse, sem que saiba exatamente o que a incomoda nessas situações. Sem ter o peso como um apoio pode vir a sentir-se indefesa e amedrontada. Se não está mais comendo para mitigar esses sentimentos e não consegue contê-los, pode perfeitamente convertê-los em ansiedade. Estou usando a ansiedade aqui para expressar um estado grave de in125

quietação e de desamparo, no qual o indivíduo é aparentemente incapaz de intervir em benefício próprio. A ansiedade é uma resposta a um sentimento inaceitável, amedrontador e esmagador. O indivíduo acha que a ansiedade, apesar de perturbadora, é mais segura do que o fato de ter de suportar a emoção ou o acontecimento que a desencadearam. Por exemplo, Sara tinha um medo tremendo de seus sentimentos de raiva e imaginava que poderiam matá-la. Temia que, se se permitisse entrar em contato com sua raiva por mais de um segundo, esta poderia atingir a família e os amigos e aniquilá-los. Esta fantasia é muito comum entre as mulheres e deve-se em grande parte ao tabu contra a livre expressão da raiva feminina. Sara passou então a sentir medo da própria raiva e, em vez de ser capaz de conviver um pouco com a fantasia, tornou-se ansiosa. O diagrama abaixo talvez possa explicar melhor o processo. Quando Sara conseguiu aceitar que o exame de sua fantasia não significava levá-la a cabo — simplesmente porque sentia vontade de atacar todo mundo, não era preciso que o fizesse —, sua ansiedade terminou. Aceitou sua raiva, que ia e vinha, e sentiu que a dominava. Esta digressão sobre a ansiedade ajuda a explicar como uma rápida negação da compulsão de comer pode acarretar a transferência do mesmo sintoma alienado para outro lugar, a não ser que seja suficientemente investigado e incorporado. Sinto, portanto, que devo enfatizar algumas questões:
UM SENTIMENTO INACEITÁVEL DE RAIVA SE INSINUA EM SARA

FANTASIAS DE INTENSA RAIVA COM RELAÇÃO AOS OUTROS

SARA FICA COM MEDO DE SUA RAIVA

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1 — O abandono da gordura é um processo gradual que requer, ao mesmo tempo, um trabalho sobre as emoções. 2 — Os aspectos amedrontadores do abandono da gordura devem ser encarados. 3 — Devem-se estabelecer modos alternativos de se lidar com o problema. 4 — Os conflitos relacionados ao modo de comer e ao peso devem ser expostos. Essas advertências não querem dizer, no entanto, que seja necessário reestruturar toda a personalidade antes que o sintoma — tal como o da compulsão de comer — possa ser eliminado. Sabemos por experiência própria que de acordo com o que está escrito acima, a compulsão de comer pode ser abandonada e que, quando aprendemos a cuidar de nós mesmas na área de comida, temos como resultado uma enorme autoconfiança. Quando começamos os grupos de auto-ajuda, adotamos a seguinte estrutura para o primeiro encontro. O tempo é dividido em duas partes, sendo a primeira dedicada a uma investigação preliminar dos significados simbólicos da gordura e da magreza para cada mulher individualmente. A segunda parte é dedicada à discussão sobre a comida. Já que, provavelmente, isto estará acontecendo sem um líder para o grupo, talvez seja útil que um dos membros faça com antecedência uma gravação do exercício de imaginação que se segue, para que todos possam participar do encontro do grupo. Se você resolver gravá-lo, faça boas pausas no lugar das reticências. O exercício inteiro deve levar cerca de 15 minutos de tempo de leitura. Pede-se aos membros do grupo que mantenham todas as imagens em suas mentes durante esse tempo, após o qual compartilharão suas vivências entre si. Coloque-se da maneira mais confortável possível... Feche os olhos... Imagine-se numa festa... Você está engordando. .. Você está bem gorda agora... Qual a sensação?... Pres127

te atenção no ambiente... Como se sente com relação a ele?... Que tipo de festa é essa?... Que tipo de atividades estão ocorrendo?... Repare se está sentada, de pé, ou andando por ali... O que está vestindo e como se sente com relação a suas roupas?... O que elas expressam ?... Observe todos os detalhes da situação... Como está interagindo com as outras pessoas da festa?... Está só, ou está conversando, dançando, ou comendo com os outros?... Sente-se uma participante ativa, ou sente-se excluída?... Está tomando a iniciativa para entrar em contato com os outros, ou são eles que a estão procurando ?... Veja agora o que essa ' 'gorda" que é você está dizendo para as pessoas da festa... Tem alguma mensagem especifica?... Ser gorda nessa situação a ajuda de algum modo?... Veja se consegue superar prováveis sensações de repugnância, para poder localizar algum tipo de vantagem em ter essa forma na festa... Imagine agora que toda a gordura está se soltando e derretendo, e nessa fantasia você está tão magra como sempre desejou... Você está na mesma festa... O que está vestindo agora?... O que essas roupas transmitem a seu respeito?... Como se sente em seu corpo?... Como está se dando com as pessoas da festa?... Sente-se mais, ou menos excluída agora?... As pessoas se aproximam de você, ou é você que está tomando a iniciativa?... Que tipo de contato está mantendo com os outros?... Veja se consegue localizar qualquer coisa assustadora com relação a ser magra na festa... Veja se consegue ultrapassar o pensamento de que tudo é incrível, e reparar se existe algum tipo de dificuldade que possa estar tendo por estar tão magra... Volte agora a ser gorda na festa... Agora magra novamente... Fique alternando as duas imagens e, principalmente, repare nas diferenças... Quando estiver pronta, abra os olhos... Agora ande pela sala e compartilhe sua fantasia. Descobrirá que descrevê-la no tempo presente contribui para intensificar a vivência. Por exemplo, "A minha fantasia é de que estou numa festa na praia, é um dia de muito calor e estou usando uma saída de praia atoalhada por cima do maiô,
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tentando não chamar atenção, sinto-me desajeitada..." Não se preocupe se as fantasias das outras pessoas forem, ao mesmo tempo, muito divergentes e contraditórias; a semelhança de temas surgirá no devido tempo. Certifique-se de usar o "eu" para poder dar a cada pessoa espaço para descrever sua vivência em suas próprias palavras. As generalizações a partir de vivências individuais podem causar atritos desnecessários, se forem feitas prematuramente. O exercício introduz de um modo concreto os conceitos esboçados no livro. Inevitavelmente você descobrirá imensas diferenças na sua auto-imagem gorda e magra. Pode descobrir, por exemplo que na fantasia em que está gorda, você está sentada batendo um papo com outra pessoa, enquanto na fantasia em que está magra você é uma pessoa extremamente espirituosa e o único centro das atenções; ou então está sozinha, quando gorda, e dançando com todos, quando magra. As imagens em que está magra talvez correspondam à concepção popular da magreza discutida anteriormente, ou a suas próprias vivências como magra. Ao discutir suas fantasias, tenha em mente o tipo de pessoa que você acha que deveria ser, ou irá tornar-se, quando estiver magra. Depois de permanecer um pouco com a imagem, veja como ela corresponde à sua personalidade. Você, como magra, sente-se uma estranha, ou como comentam algumas mulheres, sente-se tão radicalmente diferente de sua auto-imagem, que chega a achar que possui duas personalidades distintas — uma gorda e outra magra. Em nosso grupo, levantamos as seguintes questões, tanto no primeiro encontro, como nos subseqüentes, porque chegam bem ao âmago da questão de como se achar outros meios de proteção que sejam tão eficazes quanto o peso: 1 — Que aspecto meu, que veio à tona em minha fantasia como gorda, devo prometer manter comigo quando for magra? 2 — O que achei de assustador na minha fantasia como gorda que devo prometer a mim mesma não ter de pôr em prática quando emagrecer?
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Maureen, um membro do grupo, em sua fantasia estava sentada com uma outra pessoa quando estava gorda, e, quando magra, tinha-se tornado uma pessoa extremamente espirituosa. Na medida em que começou a investigar as características associadas a esses dois estados reparou na segurança e tranqüilidade que sentia enquanto conversava com a amiga, por oposição ao jeito impulsivo e inseguro quando estava sendo extremamente espirituosa. Através do reconhecimento dos fatores negativos associados à magreza, e das vantagens da gordura, Maureen percebeu que para conseguir emagrecer de um modo permanente, teria de aceitar a possibilidade de que ela, magra, poderia não brilhar, necessariamente, o tempo todo. Viu que sua concepção da magreza, embora fosse superficialmente agradável e compensadora, discordava muito da visão de seu eu como gorda, e que a perda de peso não significava uma mudança total de personalidade. E isso nem era possível ou desejável. Ter de brilhar o tempo todo para alguém que aprecia uma conversa descontraída é algo não realista. É precisamente esse conceito de um eu modificado que traz o peso de volta, porque é extremamente estressante tentar ser alguém totalmente diferente quando magra. Assim, Maureen teve de prometer a si mesma que, se tinha de perder peso, não tinha também de perder aquele seu lado que apreciava um bate-papo descontraído. Teve de levar em conta a possibilidade de que sua vontade de conversar, por exemplo, não era um atributo da gordura, mas um aspecto de sua personalidade. Do mesmo modo, teve de levar em conta que seu lado que queria ser uma pessoa extremamente espirituosa não tinha de esperar para aparecer somente quando estivesse magra. O excesso de peso não impossibilita ninguém de ser "a estrela". Não significa que se tenha de ficar nos bastidores esperando que a magreza nos traga ao palco. Usei o exemplo de Maureen por dois motivos: não só em virtude da freqüência com que aparece, como também para definir o tipo de questionamento a ser seguido. Obviamente, nem todas se irão deparar com uma nítida discrepância entre as duas auto-imagens, como gorda e magra,
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num primeiro encontro. O exercício de imaginação fornece um meio para que a comedora compulsiva enriqueça sua visão a respeito do significado da gordura e da magreza para si mesma. Em seguida, podemos começar a nos perguntar que tipos de expectativas irreais estão ligadas à magreza, e o que imaginamos ter de abrir mão quando formos magras. Tais questões são precisamente as que precisam ser continuamente levantadas no grupo, e que ajudam a desenvolver uma auto-imagem que não varie com a forma física. Depois que todas tiverem compartilhado suas fantasias e talvez visto as ameaças que sentem em comum, passamos a examinar o trabalho prático do grupo com relação a maneiras de encarar a comida e a fome. Fazemos mais uma viagem-fantasia de 15 minutos, que tem como objetivo realçar os sentimentos atuais relativos à comida e, ao mesmo tempo, propor novas alternativas. Grave-o numa fita ou peça para que alguém o leia, enquanto o grupo se coloca o mais confortavelmente possível: Feche os olhos... Gostaria que você imaginasse agora que está em sua cozinha... Olhe em sua volta e anote toda a comida que há por lá... na geladeira... nos armários... na lata de biscoitos... no freezer... Provavelmente não é difícil formar uma imagem completa porque você, sem dúvida, sabe onde estão todas as coisas, como guloseimas ou comidas dietéticas... Olhe em volta e veja que efeito isso produz em você... Causa dor ver como são patéticas as comidas que estão lá, que você mantém lá, ou se permite comer?... Veja o que sua cozinha diz a seu respeito... Vá agora a seu supermercado favorito, ou shopping, ou a algum lugar onde haja uma grande variedade de lojas sob um mesmo teto — quitanda, açougue, loja de doces, leiteria, padaria, rotisserie — e gostaria que imaginasse que tem uma quantidade ilimitada de dinheiro para gastar... Pegue uns dois carrinhos de supermercado e encha-os com suas comidas favoritas... Vá e venha pelos corredores, ou de balcão em balcão, e selecione cuidadosamente as comidas mais apetitosas... não faça economia... se gosta de torta de queijo,
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leve várias, o suficiente para sentir que não há como comer tudo de uma só vez ... certifique-se de levar exatamente aquelas que você realmente gosta... Não há pressa, você tem muito tempo para comprar tudo aquilo que quiser... Dê uma olhada no maravilhoso rol de comidas prontas e encha seu carrinho... Certifique-se de que tem tudo de que precisa e, em seguida, tome um táxi com seus sacos de comida e vá para casa... Não há ninguém em casa e não haverá ninguém por perto até o final do dia, a casa — principalmente a cozinha — é toda sua, para o seu prazer... Leve a comida para a cozinha e encha todos os espaços com ela... Como se sente cercada por toda essa comida só para você?... Sente isso como um pecado, ou como uma coisa muito alegre?... Sente-se tranqüilizada ou amedrontada com essa abundância de comida só para você?... Simplesmente fique com a comida e sinta os diferentes estados de espírito que surgem... lembre-se de que ninguém a perturbará, a comida está lá só para você, desfrute-a como quiser... Veja se consegue relaxar sabendo que nunca mais se privará... Agora, quero que você vá até a rua colocar uma carta na caixa do correio... Como se sente com relação a sair de casa e deixar toda a comida?... Tem uma sensação gostosa de que quando voltar ela ainda estará lá para você, intacta?... Ou será que é um alívio afastar-se dela?... Você agora já enviou a carta e está a caminho de casa ... Ao abrir a porta lembre-se de que a comida está toda lá, somente para você, e ninguém irá perturbá-la... Qual a sensação de estar de volta junto à comida?... Se antes sentiu-se tranqüilizada, continua a sentir-se assim? Se sentiu-se amedrontada, consegue descobrir alguma coisa reconfortante por estar na cozinha com toda essa comida?... Volte lentamente a esta sala, sabendo que sua cozinha está repleta de comidas deliciosas e que ninguém as tirará de você... e, quando estiver pronta, abra os olhos... As respostas a essa viagem imaginária variam enormemente, mas como você verá raramente provocará outra coisa além de reações insólitas. Estas vão desde imensas sensa132

ções de alívio por se ter tanta comida à disposição e por se ter permissão de desfrutá-la, a sensações de horror, medo e preocupações sobre a capacidade real de se estar num quarto com toda aquela comida, ímpetos de jogá-la fora ou arremessá-la pela cozinha, até mesmo à vontade de deitar-se entre ela. Para muitas mulheres a ida até a caixa do correio provoca um alívio desejado, em virtude da sensação de claustrofobia por estar cercada de comidas "tentadoras"; para outras, é como se fosse feito um intervalo tranqüilo naquela cozinha transformada num belo ambiente nutridor. A fantasia indica com exatidão nossas mais profundas preocupações relacionadas à comida, e propicia um bom ponto de partida para uma discussão a respeito do quanto exatamente as comedoras compulsivas se privam do prazer da comida, e até que ponto a comida foi transformada num inimigo. Ao veicular uma idéia que conota permissividade com relação à comida, estamos tentando atacar a concepção que diz que se somos comedoras compulsivas ou temos excesso de peso, devemos nos privar da comida. A idéia básica a ser transmitida é, na verdade, exatamente a oposta e baseia-se no desafio à premissa de que a comedora compulsiva nunca se permite comer realmente. Está sempre atuando a partir de um modelo que diz: "Estou muito gorda, devo negar a mim mesma determinadas comidas." Isto estabelecerá um paradigma a partir do qual ela estará ou fazendo dieta, ou comendo muito com a finalidade de se preparar para começar uma dieta no dia seguinte, quando deverá se tornar uma pessoa "boa". A dieta, invariavelmente, será rompida por um abuso, dificilmente desfrutado por ter um aspecto impulsivo e de coisa roubada. Seguir-se-á então um período de "modo de comer caótico" e, finalmente, um novo plano de dieta, como está ilustrado no quadro abaixo. Nenhuma dessas maneiras de comer contém em si uma atitude positiva com relação à comida, apenas estão baseadas numa luta frenética para se controlar o consumo de alimentos. Essa luta ininterrupta para se controlar o consumo alimentar é um fator que impulsiona a compulsão de comer.
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O objetivo de nosso método é redefinir, para a comedora compulsiva, tanto a função da comida como seu direito a ela. As pessoas precisam de comida para viver. A comida é uma fonte de vida e não algo a ser evitado. Enquanto houver fartura

a comida poderá ser desfrutada. Essa idéia, embora esteja longe de parecer algo revolucionário, assume um ar desconcertante para quem vem usando a comida com outras finalidades. No devido tempo discutirei meios de se pôr em prática esse método, mas o importante no primeiro encontro é que os membros do grupo compartilhem suas vivências diárias e medos com relação à comida. Este é, então, um esboço para o primeiro encontro. As sessões subseqüentes se beneficiarão do trabalho persistente nos dois níveis — as vivências que as pessoas tiveram com a comida naquela semana e assuntos relacionados à gordura e à magreza, embora o tempo para se fazer isso não precise estar rigidamente estruturado. Os grupos de auto-tjuda que começamos têm um dever de casa na primeira semana — fazer uma tabela da comida. O objetivo desta tabela é selecionar alguns dos temas que reaparecem continuamente quando você se dá conta de estar comendo embora sabendo que a fome não é física. Mantenha um registro nestas linhas na primeira semana. A finalidade da tabela é observar seu modo de comer e não julgá-lo. Através das anotações na tabela você poderá começar a ter uma idéia do tipo de padrão que está ligado a seu modo de comer. Você sente que come de maneira
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caótica, ou com alguma coerência? Alguma comida em especial parece satisfazê-la? Qual a sensação de perceber que seu consumo alimentar está tão restringido ao "devo isso, não devo aquilo"? O bolo de chocolate e o sorvete, às três da madrugada, não estavam bem mais gostosos do que o peixe com espinafre na hora regulamentada do jantar? Vamos lá, não foi mesmo um sacrifício ter de comer aquele hamburger com salada para conseguir chegar ao sundae que você realmente queria?

Além de descobrir o que a tabela revela sobre o consumo alimentar real, é também proveitoso considerar as circunstâncias em que você come habitualmente. Come sozinha? Às escondidas? Nunca marca encontros para refeições comemorativas? Come com as "amigas cúmplices" em restaurantes? Ou em casa, na mesa? Ou andando pela casa? Direto da geladeira? Na cama? Assistindo à televisão? Observe quando, como e o que você come e quando, como e de que você gosta mais. Talvez descubra que comer sozinha a preocupa tanto que é mais agradável sentar-se numa mesa bem-posta ou talvez descubra que gosta de um show de variedades com um livro aberto, música tocando e a comida no centro de tudo. Repare também nos registros da coluna "Sentimentos que vieram antes de comer". Vê alguma coerência naquilo que desencadeia o ato de comer quando não está especialmente com fome? Consegue localizar as emoções específi135

cas que acha difíceis de serem enfrentadas e que a empurram para a geladeira? Em nossos grupos muitas mulheres citam o tédio, a raiva, a decepção e a solidão como desencadeadores do ato de comer. Para outras, comer é uma espécie de pontuação entre várias atividades onde a comida marca o começo e o fim das diferentes fases do dia. Outras mulheres percebem que comem para se gratificar. A comida proporciona — embora de modo fugaz — um oásis de prazer em um dia que, de outro modo, seria muito difícil. Como disse Isabel: "Se não soubesse que ia comer umas bombinhas de creme durante o dia, não consigo imaginar como poderia ter acesso ao prazer." Ao examinar esse seu comentário, começou a lidar com várias questões. Por que sua vida estava estruturada de modo tal que a impedia de ter outros "acesos ao prazer"? O que significa o prazer para ela? Tinha direito a ele? Se esperava que os outros lhe dessem prazer estaria arriscando a não consegui-lo? Deveria, portanto, controlá-lo para certificar-se de que o obteria? Que outras coisas lhe proporcionariam igual prazer? Tinha sempre vontade de comer bombinhas de creme por prazer, quando sentia fome, ou existiam outras atividades que também lhe davam prazer? Tais perguntas são colocadas no trabalho de investigação. Isabel não é incentivada a abrir mão de suas bombinhas de creme. Muito pelo contrário, o objetivo do grupo é fazer com que desfrute a comida de um modo mais harmônico, para que, toda vez que comer, possa estar se dando um prazer — não comer alguma coisa realmente gostosa é desperdiçar uma ocasião de comer. O grupo incentiva Isabel a pensar sobre o conceito que ela faz do prazer e a imutabilidade de sua crença de que ninguém, além dela mesma, pode lhe dar prazer. Este comportamento, apesar de intrínseco a ela, é também uma proteção contra o medo de que os outros possam vir a decepcioná-la — deixá-la na mão. Proporcionar prazer a si mesma a torna menos vulnerável enquanto imagina que a gordura mantém o mundo afastado. Essa dificuldade ligada ao prazer é familiar a muitas mulheres e cala fundo à dor que sentem em relação ao ato de receber. É nesse nível que as perguntas têm de ser feitas. Nas
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primeiras sessões, enquanto estão se conhecendo umas às outras, algumas perguntas superficiais farão com que surjam informações valiosas tanto a respeito do comportamento dos membros do grupo, como da motivação que está por trás dele. Além de discutir a tabela da comida no segundo encontro (aliás, esta pode ser usada, vez por outra, para ajudá-la a verificar como e o que você tem comido), vocês podem começar a andar pela sala e a partilhar suas histórias relacionadas ao peso, umas com as outras. O importante aqui não é saber quantos quilos você estava pesando numa determinada época, mas as circunstâncias da sua vida durante as diversas oscilações de peso. Observe os períodos em que seu peso subiu usando um álbum de retratos da família, se achar proveitoso, para estimular a memória. É bastante provável que, em seu grupo, as pessoas estejam incluídas num leque de etapas de ganho de peso como a infância, a adolescência, a saída de casa, o casamento, o divórcio, a gravidez, ou o momento de os filhos saírem de casa. Dê a si mesma bastante tempo para assimilar essas histórias e, se necessário, estenda-se a várias sessões, para que possa aprender tanto os detalhes como as características da própria relação que você teve no passado com seu corpo e com a comida. Certifique-se de discutir a participação de sua família no seu consumo alimentar. Alguém mais na família tem ou teve algum problema relacionado ao modo de comer? Quais as regras tácitas e os regulamentos relacionados à comida? Qual era o significado da hora das refeições em sua família? Havia harmonia na hora das refeições ou tensão? Havia comida suficiente ou alguns alimentos eram proibidos e comidos somente longe de casa? Sua mãe lhe ajudava a fazer regime ou desencorajava seus esforços? Seu marido lhe dava força para emagrecer ou a "tentava" com comidas proibidas sempre que você estava realmente de regime? Havia mensagens contraditórias das pessoas próximas a você que julgavam a sua magreza ou gordura? Você achava que tinha de ser magra para alguém? Na medida em que o grupo prossegue e você se dedica a determinar seu próprio consumo alimentar, observe co137

mo as pessoas importantes em sua vida continuam a desempenhar um papel relacionado a você e à comida. Talvez perceba que sua obsessão com relação à comida se alastrou a ponto de conseguir fisgá-los ao seu modo de comer, e assim eles são realmente seus juizes, ou você imagina que sejam. Será muito importante, de agora em diante, que você seja a única responsável por seu modo de comer. Isto vai significar o seguinte: 1 — Descompromissar-se com relação a quando e o que os outros querem comer. 2 — Ousar acreditar que você pode começar a cuidar de seu próprio modo de comer. 3 — Livrar-se da pessoa a quem você designou o papel de juiz. Se seu namorado foi aliciado para ajudá-la a não comer as "comidas más" no passado, e se quando se sentavam para jantar sua presença a impedia de se empanturrar, reivindique esse poder para si mesma, mas desta vez não para mantê-la afastada do perigoso hábito de comer, mas sim para ajudá-la a discriminar e selecionar as comidas das quais realmente gosta. Muitas pessoas com quem trabalhei perceberam que seus maridos as encorajavam a comer muito, embora ao mesmo tempo manifestassem interesse em corpos esbeltos e com uma boa forma. Isso não diferia muito da atitude de suas mães, com seus insistentes "coma, coma, criança", ou "agora uma colherzinha pra titia" ou "só mais um bocadinho para as pobres crianças famintas da Europa!" Tais frases eram pronunciadas com tanta pena e insistência que era praticamente impossível negar, apesar de as crianças estarem quase botando tudo para fora. Rejeitar a comida era como rejeitar a mãe. Em outras ocasiões, essas mesmas mães imploravam às filhas para terem cuidado com o que comiam, caso contrário seus corpos ficariam deformados, ou tentavam limitar a comida quando estas estavam maiores do que o tamanho "aceitável".
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Obtenha o máximo de informações possível a respeito dos padrões alimentares do passado, e como estão relacionados à sua vivência atual com relação à comida. Para aquelas que foram superalimentadas por suas mães, pensem no que passa por suas mentes quando já estão satisfeitas o suficiente para não poder comer nem mais uma colher, mas ainda se entopem com mais comida. O que significaria parar quando está satisfeita? Enquanto vai e volta por suas vivências passadas e presentes com a comida, tenha em mente que estamos tentando contestar a idéia de que o comedor compulsivo não tem direito à comida. Em nossa opinião ele tem pavor de comida (já que a investiu de atributos mágicos como, por exemplo, ser um consolo contra a solidão, o tédio, a raiva ou a depressão, é difícil vê-la simplesmente como comida, uma fonte de nutrição) e está constantemente comendo, ou evitando comer como uma reação a esse pavor. Simplesmente porque você sente não ter controle quando está perto de comida, isso não significa que não tenha direito a comer. Muitas mulheres dizem que lhes parece extremamente difícil encarregar-se de sua própria alimentação porque, apesar de terem sido responsáveis pela alimentação dos outros, sentem que abdicaram da única área em que poderiam assumir responsabilidades por si mesmas. Temem não conseguir ousar, ou mesmo não saber como ser tão interessadas em si mesmas. É importante lembrar que embora a compulsão de comer seja sentida como uma abdicação, ela é, no entanto, um ato preciso pelo qual a pessoa é responsável. Os significados que se encontram por trás da compulsão de comer talvez não estejam nítidos e assim você fica com sensações de não ter controle, ou de estar à mercê da comida, mas esta é a vivência consciente e no nível inconsciente essa atividade tem uma finalidade. Se você puder pensar em transformar essa responsabilidade pela comida num esforço deliberado para reparar quando sente fome e quais os tipos de comida está querendo, poderá encarar com mais confiança muitas situações sociais que pressupõem a comida. Alguns dos medos comuns que aparecem nos grupos
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estão relacionados a questões práticas como, por exemplo, a de garantir sua provisão de comida se você mora com outras pessoas. No grupo, será útil examinar a situação real. Você mora com a família, em comunidade ou com companheiros de quarto? A comida é comprada e consumida em conjunto, a hora do jantar é a única ocasião em que a família se reúne? A partir desse tipo de informação surgirão alternativas. Entre elas, manter uma prateleira na geladeira somente para você e pedir às outras pessoas da casa que reponham imediatamente o que utilizaram; não fazer as compras em conjunto, ou separar semanalmente uma determinada quantia de dinheiro do orçamento doméstico para si mesma, para desse modo garantir a compra daquilo que você deseja; explicar ao pessoal da casa que você já passou um mau bocado por conta da comida e está tentando aprender alguma coisa sobre as necessidade reais de seu corpo. Conseqüentemente poderá vir a comer de um modo pouco ortodoxo e que eles façam o favor de abster-se de fazer comentários a respeito. Outra situação que aparece com muita freqüência, é a de se ter um jantar na casa de alguém. Os membros do grupo, em geral, ficam alarmados diante dessa situação. Propomos várias estratégias possíveis: não assumir, por um tempo, compromissos sociais para a hora das refeições onde não possa escolher a comida; se se tratar de um amigo íntimo, é provável que ele ou ela já a tenha acompanhado em suas várias dietas e atendido a suas instruções a respeito de comidas permitidas. Se for esse o caso, será uma vantagem para você dizer a seu amigo que seu novo interesse pela comida talvez faça com que você não coma de tudo e que espera que ele compreenda. Se sentir fome algum tempo antes da hora de sair, coma somente um pouco, em resposta a ela. Deste modo, ela ainda estará por perto uma hora mais tarde. Acima de tudo, lembre-se de que você tem o direito de comer, por pior que se sinta com relação a você mesma e a seu corpo. Simplesmente porque usou a comida, no passado, com outras finalidades que não as fisiológicas, isso não significa que tenha de se privar daqui por diante.
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Na medida em que o grupo progride você vai querer combinar os vários exercícios que estão contidos no corpo deste livro. 1 — O trabalho com o espelho — onde você está tentando construir a imagem que inclua a gordura, páginas 85/87 2 — Vestir-se para o agora — não esperar até que esteja magra para se expressar, páginas 87/89 3 — Deixar comida no prato, páginas 113/115 4 — Fazer de sua cozinha um supermercado, páginas 127/128 Os exercícios acima aumentarão sua consciência corporal e ajudarão a auto-aceitação. Como salientei antes, a posse de seu próprio corpo, que inclui a gordura, é um fator fudamental no preparo de uma vida com um peso menor. Será muito importante para você sentir que seu corpo tem poder com qualquer tamanho e que você pode se comunicar através do seu modo de usá-lo. Uma questão freqüentemente levantada através deste livro diz respeito ao modo como as mulheres imaginam que sua gordura mantém as pessoas afastadas. É quase como se sua gordura andasse na frente anunciando ao mundo a aversão que sentem por si mesmas. Nosso objetivo é criar uma confiança para manter as pessoas afastadas (se é isso que se deseja) que esteja baseada em uma auto-aceitação, e não em uma auto-aversão. Quanto mais você for o seu corpo, mais poderá dizer "não" com todo o seu ser. Desse modo, a gordura perde uma de suas funções, já que a capacidade de afastar as pessoas será atribuída a você e não exclusivamente à gordura. Para ajudar a aumentar a aceitação e o conhecimento de seu corpo, você pode começar a pensar nele, não simplesmente como um estômago ou uma boca, mas como um todo orgânico. Tente sentir a ligação entre as partes de seu corpo; sinta-o como um todo. Vocês podem experimentar fazer desenhos não assinados de vocês mesmas dentro do grupo, que em seguida podem ser passados adiante para que as pes141

soas tentem adivinhar de quem se trata. Já que a maior parte dos componentes do grupo tenderá a se representar de um modo impreciso, principalmente nas primeiras etapas, os outros poderão ajudar a corrigir essas percepções por meio de uma reformulação com relação às poses, proporções e posturas ilustradas nos desenhos. Fotos tiradas com uma polaroid podem também ser usadas para fornecer um insight na maneira como a pessoa se projeta. Na medida em que se tornar cada vez mais familiarizada com seu corpo, poderá jogar fora a balança. A balança é mais uma daquelas medidas externas usadas para aferir seu desempenho. Os comedores compulsivos estão freqüentemente agarrados à balança. Todas as manhãs, ou todas as noites, temos o ritual da avaliação; a pessoa descobre se foi "boa" ou "má". Os quilos da sabedoria, no passado, nos deram o direito de cometer um abuso ou de passar fome. Em geral, para o comedor compulsivo, a balança é o verdadeiro juiz. Se você se comportou bem (emagreceu) então ela a deixa comer. Se você se comportou mal (engordou) ela a lança numa depressão somente aliviada por um abuso ou mais um plano para emagrecer. Por isso, no lugar dessa tortura que acontece duas vezes por dia e de suas ansiedades concomitantes, tentamos desenvolver uma familiaridade com nossos corpos, para que as sensações possam vir de dentro e não de fora. A balança tornou-se mais um fator de avaliação externo que pode ser dispensado pelas mulheres. O exercício com o espelho pode nos ajudar a obter uma autolegitimidade (na verdade, uma dura luta contra as mensagens das revistas femininas que determinam nossa aparência, sentimentos e peso) e a começar a confiar em nosso próprio julgamento de nós mesmas. Com relação às partes específicas de seu corpo que a afligem, experimente fazer o exercício de imaginação em que se vê gorda e magra, focalizando essas partes em particular. Por exemplo, se sente um ódio imenso por suas coxas, imagine que as tem gordas e em seguida que tem as coxas ideais e examine os significados destes dois diferentes estados corporais. Uma mulher com a qual trabalhei, que desejava ter coxas mais finas, descobriu que
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a gordura que tinha em torno delas era como uma espécie de cerca em volta de sua vagina. As coxas côncavas que ansiava ter, na verdade, faziam-na sentir-se vulnerável, como se não existisse uma proteção contra sua sexualidade. Através do trabalho com as fantasias conseguiu aceitar a "gorda coxa odiada" e vê-la como um meio usado para lidar com sua sexualidade. Na medida em que foi emagrecendo, começou a descobrir outros meios de expressar seu interesse ou falta de interesse em contatos sexuais. Para outras mulheres, seios ou estômagos volumosos simbolizavam uma coisa na vida consciente e outra coisa bem diferente quando faziam os exercícios com as fantasias. Os insights que obtinham habilitavam-nas a rever os meios limitados com os quais se comunicavam com seus corpos. Nos grupos, ou sozinha diante de um espelho, você pode fazer experiências com diferentes projeções de aspectos de sua personalidade através de sua postura. Experimente uma série de expressões sexuais — projete-se como ardorosa, tímida, retraída ou ativa. Ao preparar-se para ser magra, sem que isso signifique "tenho de ser maravilhosa, competente, bela e inteligente", passe alguns minutos por dia imaginando-se magra enquanto executa tarefas rotineiras. Isso pode ser feito quando estiver guiando o carro para o trabalho, nos contatos sociais, no trabalho ou em casa, ao ir às compras, ou tente acordar sentindo-se magra. Fique atenta especialmente para qualquer tipo de dificuldade que possa haver pelo fato de estar magra nessas rotinas diárias. Se achar as situações assustadoras, tente investigar exatamente o que lhe está causando medo e depois discuta essas sensações com o grupo. Em seguida, tente sentir-se magra sem que a isso se associem entusiasmos ou medos. Repare no seu modo de andar, ficar de pé ou sentar-se quando está magra e tente incorporar essas diferentes posturas em seu corpo atual. Se for um salto muito grande, imagine-se com cinco quilos a menos, em vez de tão radicalmente magra. Esta imagem talvez seja mais acessível e não haverá muita discrepância em se sentir com uma diferença de cinco quilos. Quando isso acontecer é sinal de que você está pronta para emagrecer
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um pouco. Provavelmente seu corpo indicará esse fato exigindo menos comida. Nesses momentos em especial, você gostará de tornar o processo mais rigoroso — certificando-se de comer exatamente aquilo que quer e parando precisamente quando estiver satisfeita. Muitas comedoras compulsivas não estão familiarizadas com a sensação de saciedade que não as fazem sentir-se empanturradas. Para começar essa experiência corporal coma um bocado daquilo que você deseja, tendo a certeza de sentir o sabor enquanto a comida desce. Em seguida, deixe de lado a comida por quinze minutos e ocupe-se com outra coisa. Depois de uma meia hora veja como seu corpo está se sentindo. Se sentir fome ou estiver se sentindo vazia, continue a comer o que achar que pode saciar essa fome. Se se sente confortável é sinal de que está bem satisfeita e pode esperar até o próximo aviso da fome. Se tiver certeza de que vai se permitir comer sempre que sentir fome e de que dará a si mesma a comida que quiser, descobrirá que não há tanta necessidade de se empanturrar. Quando seu corpo então indicar que não está querendo muita comida, é sinal que está na hora de emagrecer um pouco. Apesar das enormes variações de pessoa para pessoa, tenho observado que nas primeiras etapas os membros do grupo tendem a estabilizar o peso ou a engordar ligeiramente. Para aquelas que realmente engordam, isso não deve ser um sinal de alarme, mas uma oportunidade de sentir o que significa a gordura. É uma chance de abraçar toda a gordura antes da despedida final. Na medida em que emagrece você vai notar que talvez esteja propensa a emagrecer um pouco e permanecer assim por um tempo. É como se seu corpo ficasse parado enquanto você executa a próxima etapa do trabalho emocional investigando fantasias do tipo: "Quem serei?" "Quem não vai gostar se eu emagrecer?" "Como me protegerei se tiver cinco quilos a menos?" Nos capítulos anteriores afirmei que a gordura tem muito a ver com o conflito da autodefinição e da afirmação e que um dos medos associados à magreza é o de que a pessoa ficará calma, leve e poderá ser carregada pelo vento.
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O trabalho corporal descrito acima certamente ajudará a pessoa a viver em seu próprio corpo e a assim usá-lo melhor no cotidiano, mas os exercícios adicionais para serem feitos em casa e que se destinam ao problema da falta de direito que em geral as mulheres sentem, também provarão ser úteis. Estes exercícios estão agrupados, sem muito rigor, dentro do tópico da afirmação e resultam dos esforços de se definir o próprio consumo alimentar. Tente dizer "sim" para algo que você deseja todos os dias. Pode ser alguma coisa que somente envolva você como, por exemplo, um banho de espuma, ler um livro, dar uma volta a pé ou escrever uma carta. No momento em que aprender a dizer "sim", estará realizando muitas coisas. Entre as principais estará dizendo que tem o direito de decidir as coisas por você mesma. Isso, por sua vez, produz uma certa dose de autoconfiança e faz uma fissura numa auto-imagem muito negativa. Quando conseguir dizer "sim" a um banho, poderá também dizer "sim" a um lanche, quando sentir vontade. Quando aprender a dizer "sim" terá a possibilidade de dizer "não". Pense em algum acontecimento onde disse "sim" mas realmente queria ter dito "não". Repasse-o lentamente em sua mente, mas retire o "não" e expresse o sentimento verdadeiro. Repare na sensação que isso provoca. O que põe em risco por dizer "não"? Agora tome consciência de quantas vezes você se depara com situações desse tipo. Comece a dizer "não" a algumas coisas — por menores que sejam — quando começar a dizer "sim" a outras. Desenvolva um senso de responsabilidade. Isto será transposto para a comida — a capacidade de dizer "sim" e "não" e talvez, o que é mais importante, dará a você uma nova maneira de usar sua boca para se expressar. O exercício de imaginação que alterna a gordura e a magreza contido nas páginas 143 e 144 pode ajudar a descobrir o que é que diferentes formas físicas significam para os membros do grupo individualmente, em diferentes circunstâncias. Alguns tópicos que você poderá achar proveitosos de se discutir são: O que a gordura e a magreza expressam para você que vive nessa cultura; o que a gordu145

ra e a magreza têm a ver com a sexualidade, com a raiva, com a competição, com sua mãe, seu pai, ou com seus filhos. Acrescente à fantasia-padrão uma pessoa ou situação específica, e retire daí as questões, conforme forem ocorrendo para cada pessoa. Por exemplo, "coloque-se da maneira mais confortável possível... imagine que está com sua mãe/pai/marido... você está bem gorda..." Pode acontecer que em alguns grupos somente algumas pessoas falem ou poderá descobrir que a "gordura" funciona no grupo do mesmo modo como o faz fora dele. Se um determinado membro cometeu vários abusos durante a semana, poderá sentir que tem mais direito ao tempo do grupo: "Se estou mais gorda, então estou pior do que todas e tenho o direito a muito mais atenção"; ou se um membro do grupo vem emagrecendo regularmente poderá sentir que não tem direito a esse tempo: "Se estou magra, é porque devo ser perfeita e não preciso de nada." A mulher que está emagrecendo poderá começar a comer em excesso para assegurar seu lugar no grupo. Há situações em que aqueles que tiverem mais dificuldades durante a semana ficam com mais tempo para si e os que tiverem uma semana relativamente fácil ficam calados; se isso acontecer você pode pensar em instituir a "regra dos doze minutos", que significa que cada membro terá assegurados para si doze minutos de tempo de trabalho para discutir o que desejar com relação à comida, gordura ou magreza. Deste modo, não se reforçará nenhuma fantasia — nem a de que a magreza está ligada à falta de necessidades, nem a de que a gordura está ligada à insaciabilidade. Em um grupo de auto-ajuda, algumas pessoas terão um papel mais atuante do que outras. No entanto, é o grupo como um todo que assume a responsabilidade de trabalhar junto, selecionando os exercícios, os locais de encontro e os horários. Talvez seja proveitoso fazer um rodízio semanal para que, cada vez, uma pessoa diferente fique encarregada de preparar os exercícios, controlar o tempo e dar início aos encontros. Não obstante, isso não é essencial, e cada grupo pode desenvolver seus próprios padrões.
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A auto-ajuda é um estimulante conceito a ser posto em ação. O potencial para se aprender o que é verdadeiramente útil para você é imenso e, livre de idéias preconcebidas a respeito daquilo que deve ou deveria acontecer, ele abre o caminho para a experimentação criativa, a avaliação e o crescimento. As diretrizes acima visam a ajudá-la a prosseguir no caminho que nossa experiência mostrou-nos ser útil, mas não pretendem, de modo algum, suprimir a energia e a imaginação que você ou seu grupo sentem para poder investigar aspectos da compulsão de comer e da auto-imagem que não foram aqui detalhadas.

Anorexia nervosa
Existe uma complexa e obscura doença ligada ao modo de comer, intimamente associada à compulsão de comer, chamada anorexia nervosa. É também caracterizada por restrições impostas pela própria pessoa ao consumo alimentar, pelo medo e pavor de comida e por um obsessivo — embora dissimulado — interesse em comida. Contudo, diferentemente dos comedores compulsivos, os que sofrem de anorexia nervosa expressam sua obsessão com a comida tornando-se extremamente magros — ao ponto de definhar e, às vezes, até mesmo morrer de fome. Esta forma extrema de passar fome deliberadamente é caracterizada pela luta em se transcender os sinais da fome. Tem início, em geral, quando se segue rigidamente uma dieta, começada porque o anoréxico em potencial se acha gordo. Do mesmo modo que o comedor compulsivo, muitos anoréxicos se entregam a abusos exagerados. A vergonha e a auto-aversão que se seguem impelem-no a jejuar, vomitar ou a tomar laxantes para purgar seu corpo da comida ingerida. Quando come novamente tem de imediato a sensação de estar cheio e assim o consumo alimentar é mantido em um nível mínimo, até que se deflagre mais um empanturramento aparentemente incontrolável. A perda de
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peso é impressionante e, por sua vez, dá origem a uma grande variedade de sintomas. As pessoas anoréxicas não menstruam, sofrem em geral de insônia e prisão de ventre, têm hipersensibilidade ao calor e ao frio, pêlos em excesso pelo corpo, a cor e a textura dos cabelos, unhas e pele se modificam, a pulsação é lenta e a transpiração abundante. Todo esse mal-estar é suportado no esforço para se alcançar o objetivo assolador — tornar-se magra. Embora a idéia do interesse em ser gorda possa ser difícil de ser apreendida, poucas pessoas sentiriam dificuldade em entender o interesse que há em ser magra, porque ele se amolda às expectativas sociais que existem com relação às mulheres. É também muito fácil entender que 90% dos anoréxicos clinicamente diagnosticados sejam mulheres, e uma das pessoas que pesquisam essa área1 afirma que a definição da anorexia nervosa deveria se limitar a uma síndrome clínica específica que ocorre em meninas na pré-adolescência e na adolescência. É o fato de ser a anorexia nervosa um problema quase exclusivamente feminino, que se liga tão intimamente à compulsão de comer e à obesidade. Pois se os homens sofressem do mesmo problema em um grau semelhante, procuraríamos uma outra explicação. Mas o medo da obesidade, a obsessão com a comida, o ato de comer escondido e furtivamente e o interesse em alimentar os outros, leva-nos a identificar o comportamento como tendo suas origens nas condições sociais das mulheres em nossa sociedade. A anorexia nervosa e a compulsão de comer são as duas faces de uma mesma moeda. Quando evita tão radicalmente a comida, a anoréxica está reagindo às mesmas condições opressivas das comedor as compulsivas. É importante mencionar que embora tenha tido pouca experiência direta com anoréxicas, fui procurada por muitas mulheres que sofrem do problema, e que ao lerem as opiniões de Munter e Orbach a respeito da compulsão de comer se identificaram muito com elas. Assim, o que tenho a dizer está baseado nas minhas leituras de trabalhos2 sobre anorexia nervosa e em discussões com mulheres que
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sofreram do problema, e não em uma experiência clínica prolongada. Meu interesse em tocar na questão da anorexia neste livro, dá-se na medida em que pode trazer uma luz para o problema da compulsão de comer, que é seu extremo oposto. Uma interpretação feminista da anorexia ratifica o enfoque usado sobre a compulsão de comer. Tanto as anoréxicas como as comedoras compulsivas cometem abusos e passam fome. Entretanto, a anoréxica passa fome por períodos prolongados, podendo sustentar-se por um dia inteiro simplesmente com um ovo e um biscoito, e ocasionalmente irrompe num abuso, que é, em seguida, purificado por um jejum ainda mais rigoroso, por limpezas através de laxantes, vômitos ou lavagens..Esta maneira de comer como um passarinho é o reflexo de uma cultura que exalta a magreza e a fragilidade nas mulheres. Muitas mulheres apontam o começo de sua anorexia como uma reação exagerada às dietas e aos ideais femininos da adolescência. Como aconteceu com as comedoras compulsivas, ao sentir que havia algo errado no período da adolescência, procuravam a resposta na biologia individual. Seus corpos se estavam modificando, criando curvas e se tornando mais cheios, assumindo uma forma de mulher. Elas não tinham controle sobre essas mudanças corporais — não sabiam se teriam seios pequenos e quadris largos, ou se seus corpos finalmente terminariam iguais aos das adolescentes das revistas de moda. Tais mudanças radicais provocavam nas jovens sensações de confusão, medo e impotência. Esses corpos que se modificavam estavam associados a uma condição que se modificava na vida do lar, na escola e com os amigos. Um corpo com curvas significava a adoção da identidade sexual da menina adolescente. É a época de um intenso interesse pela aparência, época em que as garotas aprendem a ardilosa lição de não revelar seu verdadeiro eu aos garotos, seja na quadra de tênis, na escola, ou em conversas sobre assuntos do coração. Essas novas regras e regulamentos que dirigem o comportamento, e as mudanças bombásticas que ocorrem estão completamente fora de sintonia com aquilo que
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foi aprendido anteriormente, e os sentimentos a que dão origem são extremamente confusos. Várias mulheres disseram, ao rever essa época de suas vidas — época em que estavam em crescimento e, no entanto, realmente pararam de comer — que era tal o seu desacordo com tudo o que estava ocorrendo, que abdicar da comida era um meio imensamente satisfatório de ter o controle da situação. Ao superarem as dores da fome estavam ganhando terreno na luta com seus corpos em desenvolvimento, aparentemente independentes. Estavam tentando ter o domínio sobre suas formas e necessidades físicas. Sentiam seu poder em sua capacidade de ignorar a fome. Entretanto, esse poder de superar a fome vai gerar uma contradição, porque na própria tentativa de ser forte a anoréxica fica tão fraca que se torna menos independente, e mais dependente. Precisa mais dos cuidados e da atenção dos outros em virtude de seu estado físico enfraquecido. Esta modificação apresenta mais um dilema. Como escrevem Rosie Parker e Sara Mauger, "para um número muito grande de mulheres, a manipulação do próprio corpo é, em geral, o único meio que têm de obter um sentimento de realização. O laço entre status social e magreza é, ao mesmo tempo, real e imaginário. É real porque as pessoas gordas são discriminadas; é imaginário porque a magra e delicada imagem ideal da feminilidade somente aumenta a sensação de ineficiência da pessoa".3 Esta última afirmação talvez seja o ponto essencial da questão. A anorexia reflete uma ambivalência com relação à feminilidade, uma revolta contra a feminização, e em sua forma específica, expressa tanto a rejeição como uma amplificação da imagem feminina. A recusa da comida, que torna a menina extremamente magra, achata suas curvas, numa negação da condição feminina essencial. Ao mesmo tempo, essa magreza parodia a delicadeza feminina. É como se a anoréxica estivesse com um pé em cada terreno — no da menina/menino pré-adolescente, e no da jovem mulher atraente. Isso também se repete na compulsão de comer. Para algumas mulheres que comem por compulsão,
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o peso em excesso também é uma tentativa de anular as curvas do corpo feminino, o que traz, em sua esteira, conseqüências sociais aterradoras. Mary, que tinha o problema da compulsão de comer, começou a comer em excesso na adolescência e explicou, numa percepção tardia, que estivera tentando suavizar suas curvas. A "gordura de neném" que adquiriu deixava-a relativamente afastada do terreno das meninas e de seus encontros e rituais de beleza concomitantes. Podia se ver como mais uma das colegas — em vez de parceira em potencial para encontros. Para ela, o período da pré-adolescência estava associado a uma espécie de igualdade, onde as crianças eram meramente crianças e podiam fazer mais ou menos as mesmas coisas. Sua gordura era uma tentativa inconsciente de esconder suas curvas, do mesmo modo como a anoréxica que passa fome tenta disfarçar sua forma, desfazendo-a de sua matéria. Na imagem ultrafeminina da mulher delicada que geralmente as anoréxicas projetam, há ainda mais um paralelo com a comedora compulsiva. O tamanho avantajado de certas mulheres se ajusta a um outro estereótipo feminino, no caso o da supermãe que dá tudo de si, nutre, é confiável, zelosa, carinhosa e que se destaca nas habilidades femininas de zelar pelos outros, de preparar a comida e de dar abraços gostosos. Este aspecto da gordura é, para algumas mulheres, uma imagem relativamente positiva, à qual podem se agarrar, porque pelo menos é uma imagem aceita e não cheira a monstruosidade, no entanto é em si mesma problemática, porque é um prolongamento da capacidade que a mulher tem de reproduzir o papel de mãe do mundo. As mães do mundo alimentam eternamente os outros e conseqüentemente sentem uma fome imensa. As jovens delicadas são admiradas e paparicadas — assim diz o mito — e não precisam consumir muito, talvez porque não precisem dar muito. O sucesso de sua feminilidade está em que são os outros que cuidam delas e as mimam, e não o contrário. O esforço de equilibrar essas duas atitudes, a da ultrafeminilidade e a da rejeição à feminilidade, está relaciona151

do a mais um aspecto da síndrome à qual já foi dada muita atenção. Trata-se da imensa energia e atividade do anoréxico. Essa atividade se expressa em uma compulsão em sairse bem nos estudos, destacar-se nos esportes e de ficar ligado a qualquer preço. Muitas pessoas conhecem a sensação de virar a noite, e o tipo de energia tensa que isso desencadeia. É uma sensação semelhante à hiperatividade que os anoréxicos freqüentemente sentem por meses a fio. Essa agitação é, em parte, motivada por um desejo esmagador de emagrecer ainda mais, queimando o máximo de calorias possível. Uma visão feminista apresenta mais uma causa que está na origem do problema. O esforço da jovem em se ocupar de quantas atividades puder é uma proteção contra uma exclusão pressentida na passagem à condição de mulher porque, ao projetar seu futuro, vê que o mundo está formado por homens que são recompensados por participar dele e de mulheres que estão, ou excluídas das atividades do mundo ou, o que é mais desonesto, incluídas mas não recompensadas. Por meio de suas atividades e ocupações frenéticas, parece que está tentando ampliar sua definição, para que ultrapasse aquela aprovada por seu papel social. Esforça-se para causar alguma impressão num mundo hostil a seu sexo. Esta intensa atividade repercutirá penosamente na reação de algumas anoréxicas, cujo senso frágil do eu as leva a se retirar do mundo público para seus quartos, ressaltando assim a invisibilidade da mulher. Para a comedora compulsiva o efeito é invertido. Aquela que é externamente supereficiente, uma mediadora e executante segura, que resolve todos os assuntos e carrega o mundo nas costas, é a ampliação da mulher enquanto peito do mundo. Ao mesmo tempo, isso acentua a invisibilidade da mulher. Aquela geléia mole incapaz de se mover — uma fantasia conhecida de que falam muitas comedoras compulsivas — é análoga à intensa atividade da anoréxica e seu sentimento de um eu ineficiente. Tais imagens convergentes exigem uma reconsideração sobre as origens da anorexia e, como já vimos, da compulsão de comer. Mara Selvini Palazzoli4 afirma que a mu152

dança de uma sociedade agrícola para uma sociedade industrial na Europa, teve uma profunda influência sobre a estabilidade da família patriarcal e que a jovem anoréxica é uma ameaça a esse conservadorismo duradouro. Hilde Bruch5 volta-se para atitudes sociais atuais com relação à forma física e examina até que ponto "o conceito de beleza em nossa sociedade e nossa preocupação com a aparência ajudam a formar o quadro. A obsessão do mundo ocidental pela esbelteza, a condenação do excesso de peso em qualquer nível por ser indesejável e feio, podem muito bem ser consideradas como uma deturpação do conceito de corpo, no entanto dominam nossa vida atual." Outros fatores sociais são descritos, tais como a observação feita por Peter Daily6 sobre as mães de muitas anoréxicas como sendo pessoas frustradas, daí terem ambições para as filhas, mas sua relação com a condição social das mulheres na sociedade não é examinada. Determinar essas causas com exatidão pode ser extremamente útil. Entretanto, restam ainda algumas perguntas a serem respondidas. Por que isso acontece? Por que algumas mães são dominadoras? Por que a sociedade ocidental está obcecada com a esbelteza? Por que a família patriarcal resiste tão fortemente às mudanças? Que pressupostos fundamentais de nossa sociedade estão contestando as mulheres com problemas ligados ao medo de comer? Em que medida, através do mau uso que fazem do mecanismo da fome e da formação de seus corpos, estão essas mulheres se impedindo de expressar seus sentimentos? Se este é um estado psicológico que atinge as mulheres, qual seria a resposta social adequada? Não deveria um tratamento incluir o reconhecimento dos fatores sociais que levam as mulheres à compulsão de comer e à anorexia nervosa? Como vimos antes, as sociedades ocidentais modernas têm expectativas claras e fazem proibições muito definidas com relação aos deveres da mulher. Esperam que ela seja delicada, recatada, dedicada, passiva, receptiva no lar e, acima de tudo, atraente. São dissuadidas de serem ativas, incisivas, competitivas, gordas e, acima de tudo, sem atrativos.
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Não ser atraente é não ser mulher. No caso da compulsão de comer, a estratégia que algumas mulheres usam para lidar com esses estereótipos repressores é tornar-se gorda para poder preencher um espaço no mundo; tornar-se gorda para fugir a uma sexualidade que já vem incluída. Para a comedora compulsiva, a comida está impregnada de significados altamente simbólicos, que refletem os problemas com os quais as mulheres se deparam ao lidar com um papel social opressivo. Embora as anoréxicas tenham adotado a estratégia oposta, a de passar fome deliberadamente, as semelhanças com a compulsão de comer não deixam dúvidas de que a posição social da mulher está refletida tanto no comportamento da anoréxica quanto no da comedora compulsiva. As anoréxicas partilham com as comedoras compulsivas um desejo consciente de não serem notadas. Geralmente ficam nervosas quando entram numa festa, temendo que as atenções se voltem para elas. Em vez de engordar para esconder o verdadeiro eu por debaixo das camadas de gordura, a anoréxica torna-se literalmente transparente. Mas essa transparência acaba chamando mais atenção do que uma mulher de peso "normal" poderia chamar. A diferença fundamental é que o interesse que a mulher muito magra (e a com excesso de peso) de fato provoca é de outra natureza do que aquele que uma mulher de forma "normal" pode provocar. A avaliação superficial feita tanto pelos homens como pelas mulheres coloca a anoréxica (e a obesa) fora da condição de objeto sexual. Isso significa, em sentido amplo, que será descartada pelos homens e que as outras mulheres poderão ficar descansadas com sua presença. A anoréxica será vista como uma figura patética ou alguém que provoca compaixão, mas em seu empenho aparentemente narcisista de ser ultrafeminina ela consegue, curiosamente, destruir suas características sexuais. Além disso, duas maneiras relacionadas de se entender esta preocupação em ser notada se apresentam. A primeira se reflete no repetido tema da invisibilidade da mulher — a magreza exagerada é talvez a mais perfeita expressão da ausência/presença da mu154

lher. Esta invisibilidade forçada, por sua vez, leva a um desejo de ser aceita e notada pelo que se é, em vez de ter de parecer, de ser perfeita e satisfazer as expectativas dos outros. Este desejo, fortemente sentido e raramente satisfeito não tem outra opção senão a de ser reprimido e transformado em seu extremo oposto — o medo de ser notada, que em sua forma específica faz com que a anoréxica fique em evidência. O desejo de ser aceita origina-se, para muitas mulheres, no sentimento de não ser desejada e, por conseguinte, de não ter valor. Isso pode estar explícito: "Queríamos, na verdade, um menino." Ou pode vir com a decepção que a mãe sente ao dar à luz uma filha. Seja explícito ou implícito, o fato é que muitas comedoras compulsivas e muitas anoréxicas contam que suas mães expressavam muita ambivalência com relação a sua própria existência. Dizer que se queria um menino é dizer à filha que ela a decepcionou. É curta a distância entre a sensação de não ter realizado as expectativas da família e a de sentir-se um fracasso. Por sua vez, o fracasso gera sensações de não se ter direito a nada. Na puberdade, quando fica claro que uma menina é uma menina, os sentimentos entre mãe e filha podem se tornar tão pungentes que as duas atividades entram em conflito para a menina. Ela recusa a comida numa tentativa de fenecer, não existir, para agradar a mãe através de seu desaparecimento. Ao mesmo tempo, a raiva que a filha sente por não ter sido querida por si mesma, por não ter tido uma mãe com a qual se identificar — como pode haver identificação com uma mãe que se auto-rejeita, sem também se adotar uma auto-imagem de rejeição — é expressa pela recusa em receber a única coisa que a mãe dá com constância — comida. Em um misto de raiva e recato a adolescente engasga na primeira garfada ou se sente satisfeita depois de comer muito pouco. Está rejeitando o que a mãe lhe dá e ferindo-a do modo mais intenso que conhece, enquanto realiza, simultaneamente, aquilo que imagina ser o desejo da mãe, isto é, desaparecer. A pressão que leva muitos pais a desejar bebês do se155

xo masculino é, por si própria, conseqüência de se viver em um mundo que confere menos poder social às mulheres. Uma trágica repercussão da posição social da mulher é a de que, ao transmitir a cultura de uma geração à outra, a mãe tem o terrível trabalho de preparar sua própria filha para aceitar uma vida construída sobre uma cidadania de segunda categoria. É no aprendizado de identidade do gênero — isto é, o que significa ser uma menina e, em seguida, uma mulher neste mundo — que encontramos nosso lugar na sociedade. O que define essa identidade do gênero vai variar com relação à classe e às restrições culturais, de modo que o significado de ser uma operária na Bulgária será bem diferente do significado de ser uma enfermeira nos Estados Unidos, mas ambas as mulheres terão se tornado adultas através de uma concepção do eu baseada em modelos do comportamento feminino existentes, que primeiro assimilam de suas mães. É no ensino dessa identidade do gênero que explodem as tensões da relação entre mãe e filha e as mensagens conflitantes sobre a condição de adulta da mulher são incorporadas pela jovem. Um dos aspectos desta tensão que parece ser especialmente pertinente às anoréxicas é a preocupação de ter decepcionado a mãe por ter sido uma menina. Ela se sente como uma insegura e segunda colocada, com um precário direito de existir. Esta inquietação com relação ao direito de existir está também ligada a aspectos da anorexia relacionados ao destaque nos estudos e ao bom desempenho. Muitas mulheres relataram que sua necessidade de sobressair nos estudos era uma reação ao sentimento de que, se falhassem, decepcionariam seus pais. Se não o fizessem, poderiam ser aceitas — como disse, com amargura, uma mulher anoréxica: "Tinha de ter um bom desempenho, não era aceita simplesmente pelo que eu era, enquanto meu irmão era aceito e era um delinqüente!" Na vida desta mulher não havia nada explicitamente formulado em relação ao fato de não ser desejada ou querida, o que havia era um sentimento que ela captara, ligado ao que sentia com relação ao tratamento dado a seu irmão. O fato de serem tra156

tados de forma diferente em virtude de suas idades não bastava para explicar os sentimentos que tinha com relação a si mesma, e as atitudes de sua mãe a seu respeito. A única maneira de entender essa enorme diferença de tratamento e os sentimentos extremamente dolorosos de não ser aceita era vê-los como fazendo parte da decepção de seus pais com seu sexo. Nos últimos trinta anos, uma das diferenças mais gritantes entre a criação de meninas e meninos surgia na época da adolescência, quando estas deviam ser puras e estes deviam adquirir experiência sexual. O sexo era indiscutivelmente mau para as meninas e bom para os meninos. Para as primeiras parecia que só os meninos podiam ganhar nesse jogo: ou eles eram bem-sucedidos e adquiriam experiência, ou eram tranqüilizados pelo fato de haver ainda muito tempo pela frente. De fato, havia até mesmo uma categoria especial de mulheres que fornecia essa experiência para os meninos. Para as meninas, não havia como vencer. Se você "transasse" era má, suja, impura. Pensarem "transar" não era muito melhor também. Se você não "transasse" era xingada pelos rapazes, mas se o fizesse iria adquirir má reputação. As mulheres se preparavam para o casamento com muitos anos de antecedência e a sua atividade sexual, até que ele chegasse, deveria ser mantida dentro de limites definidos. Tendo isso como pano de fundo, não é possível surpreender-se com o fato de que as jovens ficassem terrivelmente confusas com relação a sua sexualidade, vendo-a, por um lado, com um mal, uma coisa perigosa e explosiva e, por outro, como poderosa, gloriosa e desejável. Deste modo, a sexualidade fica estranhamente desencorporada da pessoa. É um lado da jovem que precisa ser vigiado em qualquer situação, quase como se fosse uma entidade independente que ela deve manter sob controle. Essa visão alienante da sexualidade, da qual as mulheres estão lutando para se libertar, pode lançar uma luz sobre a ambivalência que sente tanto a anoréxica como a comedora compulsiva com relação à sexualidade. A desfiguração de uma função corporal básica é transferida para outra que também é básica — a
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fome. Através da deformação da forma física que se segue e da manipulação das sensações da fome, a anoréxica e a comedora compulsiva indiciam intensamente a cultura sexista. A jovem se retira dá única arena sexual disponível e teme que, caso expresse o que sente em termos sexuais, todo seu mundo desabará. Quando recua diante de uma identidade sexual a jovem anoréxica está indicando as dificuldades dos vários aspectos da condição de mulher. A identidade sexual é um aspecto da identidade do gênero, de modo que na rejeição dos modelos de sexualidade rejeita-se, simultaneamente, os modelos de feminilidade. É com este dilema que se deparam muitas mulheres e ele vem expresso tanto através dos significados simbólicos da magreza, como pela recusa do alimento feito pela anoréxica. Por conseguinte, para a anoréxica, a recusa do alimento é uma maneira de dizer "não", uma maneira de rejeitar. É seu modo de demonstrar força. Por outro lado, a magreza também expressa sua fragilidade e debilidade, sua confusão a respeito da sexualidade e sua vontade de desaparecer. Para a comedora compulsiva o quadro está invertido, a gordura expressa rejeição, proteção e força e o incessante consumo de comida simboliza a capitulação. Em ambas as reações vemos adaptações a um papel feminino de parâmetros muito limitados. Ambas as síndromes expressam a tensão com relação à aceitação e à rejeição das coações feitas pela feminilidade. O interessante na comparação dessas duas reações é observar exatamente onde convergem e onde diferem. Uma área onde há uma diferença marcante se encontra na postura daquelas que sofrem nos dois extremos do processo. Para a anoréxica, seu problema é uma questão para discussão pública. É um assunto muito particular que ela não reconhece como um problema, porque ela mesma vê sua recusa em comer como uma tentativa de controlar sua situação, controle este que parece precário e que poderia estar sendo ameaçado se fosse discuti-lo. O que é bastante diferente do que sentem as comedoras compulsivas, que não
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consideram seu comer em excesso como um ato deliberado, mas como algo que acontece apenas quando estão sem controle. Sentem-se muito contentes em discutir sobre essa força externa e invasora, e geralmente iniciam conversas sobre seu "problema". Isto pode ser explicado, em pnrte, pelo fato de que a presença social para se ser magra é tão forte que as comedoras compulsivas sentem que têm de dar uma desculpa para sua forma. A anoréxica, por mais que se veja gorda, está, na verdade, amoldando-se à exigência que a sociedade faz para que as mulheres sejam magras. Paradoxalmente, o público não especializado encara a anorexia nervosa com muita seriedade, enquanto vê a compulsão de comer como o comportamento de uma pessoa gulosa e que se excede. Entretanto, como já vimos antes, essas duas atividades são reações extremamente penosas para as quais se voltam as mulheres em seu esforço de causar alguma impressão sobre seus mundos.

Questões médicas
A tese deste livro é que a compulsão de comer nas mulheres é uma reação à sua posição social. Como tal, continuará a ser um problema nas vidas das mulheres enquanto existirem condições sociais que criem e estimulem a desigualdade dos sexos. Qualquer tratamento para mulheres com excesso de peso deve observar esse fato. Quando uma mulher consulta um clínico geral em virtude de seu problema de peso, este quase que invariavelmente lhe diz que faça uma dieta. A seus olhos está claro que esta paciente come demais e para emagrecer deve comer menos. Esta é exatamente a mesma opinião que está implícita em todas as dietas que são jogadas no mercado todos os dias. O médico não tem nem tempo, nem interesse para investigar por que essa mulher começou a engordar. Nenhum conselho a respeito de dietas poderá ajudar uma mulher a emagrecer permanentemente se as verdadeiras causas não forem reconhecidas e trabalhadas.
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A formação médica atual está-se tornando cada vez mais técnica — notas altas em matérias científicas tornaram-se essenciais para qualificar a pessoa a entrar na faculdade de medicina e, uma vez lá, a ênfase é dada ao enfoque técnico. Geralmente não se vê o lado humano da medicina. Isto quer dizer que os médicos são treinados para saber usar complexos aparelhos e manter-se em dia com pesquisas básicas. Não adquirem a sensibilidade para reconhecer o que, em geral, incomoda seus pacientes. Por esse motivo, muitas mulheres se vêem diante de um rosto impassível quando fazem uma visita ao médico, para emagrecer. Os médicos não são menos suscetíveis do que as outras pessoas às idéias culturais a respeito da beleza e da magreza e, geralmente, sentem-se no direito de tecer comentários sobre a forma física de sua paciente, mesmo quando seu problema clínico não tem relação com isso. Como disse uma mulher, "sempre fazem com que me sinta culpada, como uma menina malcomportada, por ter comido demais". Segurando mais uma receita com uma dieta, são logo enviadas de volta a seus lares e trabalhos e aos problemas que lá enfrentam — problemas que, antes de mais nada, foram a causa de sua gordura. Mas as mulheres agora sabem que dietas e culpas não funcionam, quer venham de médicos, quer de revistas. Algumas talvez fiquem desesperadas para encontrar uma causa fisiológica para sua persistente gordura. Podem ir mais além, a um especialista que trata de obesidade e cujo interesse é afirmar que existem fatores biológicos que a originam. Quando uma mulher vai a um especialista está procurando entender melhor o assunto; pode estar pensando, "se existe uma causa clínica para minha gordura, então não há muito que eu possa fazer. Ficarei gorda, mas as pessoas reconhecerão que não é minha culpa". Nos últimos anos têm-se feito muitas pesquisas sobre as causas de obesidade. Embora tenham sido poucas as teorias totalmente incorporadas à prática da instituição médica, a publicidade que tiveram e a esperança que instilaram nas pessoas com excesso de peso, levam-me a discutir aqui as mais populares.
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Médicos e pesquisadores que têm uma visão mecanicista do corpo humano descrevem-no como um conjunto de órgãos (fígado, coração, cérebro), tecidos (músculos, tecido nervoso, ossos) e células (nervosas, musculares e sangüíneas). Os órgãos são compostos por vários tipos de células e estas são descritas como pequenas fábricas bioquímicas que trabalham para manter a boa saúde do organismo. Esta visão permitiu o desenvolvimento de uma concepção da obesidade como um fenômeno físico. No corpo existe tecido entre os órgãos, como entre os vários grupos de músculos ou de ossos e músculos, que é chamado de tecido conectivo. Este tecido conectivo tem a capacidade de acumular a gordura que o corpo não usa. É chamado de tecido adiposo e consiste em células que recebem o nome de células de gordura. É esse modelo de acumulação de gordura nessas células que tem despertado a atenção de muitos pesquisadores da área médica.
A TEORIA DAS CÉLULAS DE GORDURA —

Há dez anos Hirch e Knittle' desenvolveram um método para contar o número e medir o tamanho das células de gordura através de uma amostra de tecido adiposo. Afirmaram que a obesidade na infância vinha acompanhada de um aumento no número desse tipo de células do corpo, que não diminuíam através de dietas feitas mais tarde na vida. As próprias células podem reduzir de tamanho quando a pessoa emagrece, mas é como se ficassem paradas aguardando para serem novamente preenchidas. Uma pessoa extremamente obesa pode ter cerca de cinco vezes mais o número normal de células de gordura. Esta teoria explica a razão pela qual as pessoas com excesso de peso têm dificuldade em manter o peso baixo após a dieta.
AS
T E O R I A S B I O Q U Í M I C A S — O funcionamento das células depende da natureza das reações químicas que nelas ocorre. Todas as reações químicas do corpo — a transformação de comida em energia, o dispêndio da energia nos exercícios, toda a atividade humana, enfim, dependem da

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presença de enzimas. Enzimas são moléculas de proteínas que ajudam a reação química sem serem consumidas. Toda reação química no corpo tem uma enzima que lhe está associada. Estudos com bactérias mostraram que as enzimas são formadas com a ajuda de informações armazenadas nos genes. Por conseguinte, segundo essa perspectiva, é natural que se veja uma explicação genética para a obesidade. Os indivíduos obesos são vistos como possuidores de genes ligeiramente diferentes dos genes de pessoas não obesas. Esses genes diferentes resultam então em enzimas ligeiramente diferentes. São estas as enzimas que participam das reações químicas relacionadas ao armazenamento de gordura do corpo. A pessoa obesa é descrita como sendo aquela que possui enzimas diferentes e disso resulta que seus corpos reagem à gordura diferentemente dos corpos das pessoas não obesas.
AS TEORIAS GENÉTICAS — Relacionado ao enfoque bioquí-

mico, está o enfoque genético. O enfoque genético mais geral não especifica necessariamente onde ocorre a variação genética, mas simplesmente formula uma hipótese de que ela existe, quer nas enzimas, no sistema nervoso, ou no sistema hormonal do corpo. Esta abordagem conduz a estudos que mostram que "a obesidade se dá dentro da família.2" Uma nova teoria genética3 afirma que as pessoas gordas não comem necessariamente mais do que as magras. O argumento diz que em sociedades agrícolas de subsistência, o padrão alimentar é o da festa e jejum e que aqueles que têm a capacidade de armazenar eficazmente a energia em excesso e de liberá-la para o trabalho físico têm melhores chances de sobrevivência. Nas sociedades afluentes onde existe um abastecimento regular e suficiente de comida, o corpo não necessita armazenar e liberar energia do mesmo modo. Além disso, já que tendemos a ser mais sedentários, queimamos menos dessa energia em excesso. Simulações feitas por computador do padrão do acúmulo de gordura e magreza nos adultos são oferecidas como provas para uma visão biologicamente determinista, que diz que, embora até
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pouco tempo atrás fosse funcional ter-se uma tendência inerente para a gordura, hoje em dia o funcional é se ter uma predisposição para a magreza.
A TEORIA
R E L A C I O N A D A À I N S U L I N A — Quando se come açúcar e proteína, as células de Langerhans, que são grupos de células no pâncreas, produzem um hormônio char mado insulina. A insulina é uma proteína vital que as células precisam absorver para utilizar o açúcar como fonte de energia. Se houver um excesso de glicose na corrente sangüínea, este será transformado em energia armazenada ou gordura. Se um corpo não produz insulina suficiente, o açúcar e o carboidrato se acumularão no sangue e não fornecerão energia para manter os processos corporais e o crescimento. Isto é o diabetes. Dois terços dos diabéticos são obesos e este fato tem levado alguns pesquisadores a se indagar se existe uma relação entre essas duas condições. A teoria do hiperinsulinismo supõe que o corpo produz muita insulina que pode, por sua vez, induzir insensibilidade ao hormônio4. Esta última opinião foi popularizada pelo dr. Atkins5. Ele chama a insulina de "hormônio que faz engordar" e afirma que sua presença em excesso estimula a pessoa a comer mais para manter o equilíbrio. Ele vê a insulina como o laço fundamental entre o excesso de peso, a baixa taxa de açúcar no sangue e o diabetes.

— A teoria neurológica simples focaliza o sistema regulador do corpo. Supõe-se que uma região no cérebro, o hipotálamo, seja o ponto onde se processam as mensagens mandadas pela fome. Um centro de saciedade no hipotálamo informa quando a pessoa está satisfeita. Foi formulada a hipótese de que, se houver lesões nessa área neurológica, a pessoa não saberá qual o momento que deve parar de comer. Um recente estudo feito em ratos com lesões ventromedianas do hipotálamo — que aumentam a capacidade de comer, atrasam a capacidade de sentir a saciação e causam a obesidade — mostrou várias deficiências de motivação, como a incapacidade do rato em armaA TEORIA NEUROLÓGICA
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zenar a comida. Esta incapacidade de armazenar comida levou os pesquisadores a formar um paralelo com a motivação humana e a sugerir que a obesidade causa a pobreza.6 Para outros pesquisadores, o hipotálamo não é tão fundamental para a regulação da fome. No entanto, o princípio básico permanece o mesmo. Existe a hipótese de que uma deficiência do organismo em regular a fome seja a causa de se comer em excesso. A falha de algumas dessas teorias está em que não oferecem uma maneira de determinar se as diferenças observadas nas reações humanas entre pessoas obesas e não obesas causam a obesidade ou são devidas a ela. A teoria das células de gordura tem sua aplicação limitada, já que a alta proporção destas células na primeira infância ocorre somente em casos de obesidade extrema. O tratamento de adultos que foram crianças obesas não impede a perda de peso e a estabilização.7 As teorias genéticas mais gerais ficam abaladas porque a semelhança observada na família também se aplica ao modelo ambiental.8 A teoria evolutiva funcional fica enfraquecida porque o autor subestima as taxas admissíveis de mudanças genéticas que ocorrem com o tempo.9 A teoria da lesão no hipotálamo descreve, em primeiro lugar, o comportamento dos ratos em termos humanos e, ao fazer isso, cai na armadilha de supor que as observações do comportamento animal sejam análogas às do comportamento humano.10 No entanto, o que é mais crítico são os tipos de tratamento que derivam dessas hipóteses. Prometem, através de uma compreensão da fisiologia humana, criar uma substância (um medicamento, por exemplo) que possa derreter as células de gordura, reparar o mecanismo da saciedade no hipotálamo, ou permitir que o organismo da pessoa utilize com mais eficácia seu consumo de gordura e açúcar. Este procedimento pode ser visto no tratamento de diabetes. A incapacidade do organismo de produzir insulina suficiente é corrigida através de injeções diárias dessa substância. Um tratamento semelhante para a compulsão
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de comer, ou seu efeito mais comum — a obesidade —, satisfaz um desejo geralmente expresso de que a gordura possa sumir num piscar de olhos através de uma pílula, e que seremos tão magras quanto quisermos. A história de pesquisas médicas divergentes, feitas nos últimos setenta e cinco anos, torna improvável a existência de tal substância. Os tratamentos geralmente procurados e usados estão concentrados em três áreas principais: a terapia com remédios, as cirurgias e a terapia através de dietas.
T E R A P I A C O M R E M É D I O S — Um dos métodos de tratamento da obesidade tem sido o de se receitar a tiroxina, hormônio secretado pela glândula tireóide. Supõe-se que a tiroxina "acelere o metabolismo" e assim faça com que 0 corpo desgaste mais rapidamente a comida. São duvidosos os efeitos a longo prazo desse tratamento, pois ele se apóia em doses muito elevadas de hormônio. Como tal, é potencialmente perigoso, porque pode prejudicar o funcionamento normal da tireóide, que é muito delicado. Outras duas drogas são empregadas no tratamento da obesidade. Chamam-se anorexígenos. Num grupo encontram-se os supressores do apetite, popularmente conhecidos como anfetaminas ou bolinhas. Os aspectos estimulantes e causadores de vício desta droga já foram bem documentados, assim como o foi a necessidade do paciente de consumir dosagens cada vez mais fortes para conseguir permanecer sem apetite. No outro grupo estão drogas como a flenfuramína, cujo objetivo é produzir sensações de saciedade e inibir a síntese dos triglicerídeos.

A

AS CIRURGIAS —

Mais assustadoras são os métodos de tratamento que tentam contornar o problema através da cirurgia. O bypass jejuno-ileal* é uma operação em que parte do intestino delgado é inativado, para que a comida não

*Um desvio para diminuir a superfície de contato entre o alimento e a mucosa jejunal, diminuindo a absorção. (N. do T.) 165

possa ser absorvida normalmente. Geralmente realizada em casos de doenças inflamatórias graves e em câncer dos intestinos, essa cirurgia tem sido realizada em casos de obesidade extrema nos últimos vinte anos. Seus efeitos colaterais têm sido exaustivamente estudados. Entre os problemas relatados está o do ajuste psicológico. Em um estudo sobre a evolução dos pacientes," trinta e dois em quarenta passaram por diferentes crises associadas à perda de peso. Entre elas, sem que isso cause surpresa, estão problemas de auto-afirmação, perda de identidade e perda de limites. Um outro pesquisador relata12 que continuou existindo uma superestimação da forma física por mulheres, dois anos após realizada a operação e de uma perda de peso médio de 45 a 50 quilos. Um método ainda mais abertamente mecanicista é a remoção cirúrgica das células de gordura. Fez-se um experimento13 onde três pacientes foram submetidas a uma dieta de emagrecimento e, quando atingiram o peso "normal" foram retiradas de 47 a 60% das "células de gordura em excesso". Uma paciente sofreu uma trombose, outra recuperou 37 quilos três anos depois e a outra mantém "uma dieta rigorosa e segue regularmente um programa extenuante de exercícios físicos".
A TERAPIA ATRAVÉS DA DIETA —

A dieta continua sendo o principal tratamento receitado pelos médicos. Pesquisadores da área médica investigam o teor da relação entre vários alimentos e oferecem seus planos de dieta de acordo com isso. Comparado aos outros tratamentos, a dieta parece ser um método mais ameno e inofensivo, mas não difere, em princípio, das terapias mais radicais com drogas ou cirurgias. É como se o corpo humano fosse o paralelo biológico de um automóvel. A obesidade é vista como um mau funcionamento biológico, assim como um carro que consome muita gasolina. Os significados humanos da gordura e da magreza e as conseqüências e causas sociais da compulsão de comer não têm lugar dentro deste pensamento. Apesar de não ser meu propósito criticar os profissio166

nais que se dedicam à saúde humana, é importante observar que a profissão médica como um todo possui uma infeliz história de envolvimento direto com a opressão das mulheres em nossa sociedade. O trabalho de Barbara Ehrenreich e Deirdre English14 mostrou que a profissão médica se estabeleceu nos Estados Unidos diante da oposição de curandeiros dedicados e informados cuja maioria era composta de mulheres. Recentemente, grupos de saúde da mulher — destacando-se o Boston Women's Health Book Collective15 — vêm repensando questões médicas sob uma perspectiva feminista e estão empenhados em compartilhar e divulgar o tipo de informação que as mulheres precisam saber sobre seus corpos. As atividades de alguns destes grupos de mulheres têm encontrado oposição por parte das autoridades. Houve um caso em que as mulheres que participavam de um grupo de auto-ajuda na Califórnia16 foram processadas (embora sem êxito) por introdução vaginal ilegal. O que é lamentável com relação às opiniões médicas atuais é sua hegemonia em áreas como a da compulsão de comer, onde as causas originárias e os problemas possuem aspectos sociais essenciais que devem ser entendidos para que possa haver eficácia no tratamento e nas intervenções. Mesmo diabéticas com excesso de peso podem ser comedoras compulsivas e este problema deve ser tratado em conjunto com problemas clínicos. Na última década temos assistido a uma crescente e significativa tendência a se pensar que a ciência e a medicina possam resolver problemas fundamentados social e economicamente. A medicina é apresentada como aquela que pode curar, e a ciência, como a verdade. Reina uma nova religião — a ideologia da ciência17. Esta nova ideologia supõe que a ciência seja neutra e sem valores. Mulheres e homens vestidos de branco trabalham distanciados em laboratórios, à procura da verdade e do progresso. Os médicos pesquisadores são não só pessoas que buscam a verdade, mas também humanos, já que seu trabalho está diretamente relacionado à saúde humana. Poucos se preocupam em sa167

ber quem está financiando suas pesquisas e estabelecendo as prioridades. Em vez disso, pede-se ao público que aceite novos entorpecentes tecnológicos para tratar de problemas do comportamento humano. Um passar de olhos em revistas médicas revela essa atitude em uma outra área. É típico ver o retrato de uma atormentada mulher de seus quarenta anos, curvada sobre uma mesa, dentro de uma cozinha abagunçada. O anúncio diz em letras grandes: "A droga X vai ajudá-la a aliviar a tensão para que possa enfrentar melhor as coisas." Numa letra menor, menciona a conhecida situação da mulher deprimida que está na menopausa, que se sente sem vida e sem energia agora que seus filhos abandonaram o ninho. O anúncio recomenda a psicotrópico X para reduzir a ansiedade. Os médicos que em geral são homens sobrecarregados de trabalho e não são formados para ver os problemas sociais que criam a angústia em suas pacientes, e que provavelmente também nunca a sentiram, recomendam tranqüilizantes e drogas psicoativas para levantar o ânimo dessas mulheres, de modo a que possam funcionar razoavelmente bem de novo, para poder limpar suas cozinhas e não ser uma amolação para ninguém. A causa social subjacente da angústia não é vista. Uma medicação é oferecida e as mulheres são drogadas. A compulsão de comer é um protesto individual contra a desigualdade dos sexos. Como tal, as intervenções médicas aqui detalhadas não fazem parte da solução, mas sim do problema. A situação exige uma reorientação fundamental da educação médica e científica, uma organização e uma prática que estejam baseadas nas reivindicações do movimento de saúde da mulher.

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Notas
Prefácio 1 — Ver o capítulo sobre as questões médicas. A psicoterapia analítica vê o comportamento relacionado ao modo de comer como um sintoma que desaparecerá quando o verdadeiro trauma for esclarecido. Não tem tido nenhum êxito sensacional em tratar o sintoma, mesmo nos casos em que a pessoa que procura a terapia o faz querendo focalizar a compulsão de comer como sendo o problema. 2 — Ver, por exemplo: Science for People 34 (inverno 1976-7). Uma discussão sobre a relação entre a oferta de alimentos, a política de agricultura mundial e a exploração dos recursos do Terceiro Mundo. Disponível na British Society of Social Responsibility in Science, 9 Poland Street, London W.l, Inglaterra. Science for the People 7 (março 1975) 3 — É importante, neste caso, que os terapeutas sejam extremamente sensíveis ao modo de comer de suas clientes e lhes forneçam um lugar onde possam se sentir aceitas enquanto estiverem se auto-rejeitando em virtude da compulsão de comer. É importante também procurar por mecanismos de transferência tanto no grupo, como nas sessões individuais.
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Introdução 1 — Ver, por exemplo: G. Bychowski, "Neurotic Obesity," The Psychology of Obesity, ed. N. Kiell (Springfield, Illinois, 1973) Ludwig Bingswanger, "The Case of Ellen West," Existence, ed. Rollo May (Nova York, 1958). 2 — William Ryan, Blame the Victim (Nova York, 1971). Este livro mostra como se acaba por culpar as vítimas da opressão, em vez de seus perpetradores. 3 — Dorothy Griffiths e Esther Saraga, "Sex Differences in a Sexist Society". Estudo lido na International Conference on Sex-role Stereotyping. British Psychological Society, Cardiff, Wales, Julho 1977. 4 — John Berger et al., Ways of Seeing (Londres, 1972) p. 47. 5 — Simone de Beauvoir, The Second Sex (Londres, 1968). 6 — Discussões sobre esse assunto podem ser vistas em: Juliet Mitchell, Psychoanalysis and Feminism (Nova York, 1974). Phyllis Chesler, Womem and Madness (Nova York, 1972). 7 — D. Brunet e I. Lezine, "I Primi Anni del Bambino". Citado em Elena Gianini Belotti, Little Girls (Londres, 1975), pp. 32-4. Embora realizado na Europa, este estudo não exclui sua relevância no contexto americano. O livro faz uma das descrições mais cuidadosas da socialização de meninas e do significado da primeira relação de alimentação ligada ao sexo. 8 — Margaret Atwood, Lady Oracle (Londres, 1977), p. 88. O que significa a magreza para a comedora compulsiva? 1 — Sharon Rosenburg e Joan Weiner, The Illustrated Hassle-Free Make Your Own Clothes Book (São Francisco, 1971). 2 — Trata-se de um costume judaico da Europa Oriental que visa a trazer um pouco de cor às maçãs do rosto. 170

A vivência da fome para a comedora compulsiva 1 — A indústria da dieta é extremamente lucrativa. Para estatísticas financeiras ver: Natalie Allon, "The Stigma of Overweight in Everyday Life". John E. Fogarty Center for Advanced Study in the Health Sciences. Vol. II, parte II. National Institute of Health, Bethesda, Md. Edited by George A. Bray. DHEW publication. U. S. Govt. printing office. Outubro 1-3, 1973, pp. 83-102. 2 — As organizações da dieta não liberam números relativos a reincidência. No entanto, várias fontes estimam que isto ocorra em 95% dos casos. Ver Aldebaran, "Fat Liberation — A Luxury", State and Mind 5 (Junho-Julho 1977): 34. 3 — Stanley Schachter, "Obesity and Eating", Science 161 (1968): 751. 4 — Discussões sobre este assunto podem ser vistas em: A.J. Stunkard e H.M. McClaren, "The Results of Treatment for Obesity", Archives of Internai Medicine 103 (1959): 79. Stanley Schachter, "Some Extraordinary Facts About Obese Humans and Rats", American Psychologist 23 (1971): 129. Stanley Schachter, "Obesity and Eating", Science 161 (1968): 751. 5 — Carol Bloom, "Training Manual for the Treatment of Compulsive Eating and Fat". Master's thesis, State University of New York at Stony Brook (1976). Anorexia nervosa 1 — Mara Selvini Palazzoli, "Self Starvation" (Londres, 1974), pp. 24-5. 2 — Discussões úteis sobre anorexia nervosa podem ser vistas em: Rosie Parker e Sara Mauger, "Self Starvation", Spare Rib 28 (1976). Marlene Boskind-Lodahl, "Cinderella's Stepsisters: A Feminist Perspective on Anorexia Nervosa and Bulimia", Signs 2 (inverno, 1976): 342-56.
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Mara Selvini Palazzoli, Self Starvation (Londres, 1974). Hilde Bruch, Eating Disorders (New York, 1973). Peter Daily, Anorexia Nervosa (Londres, 1969). Anna Freud, "The Psychoanalytic Study of Infantile Feeding Disturbances", The Psychoanalytic Study of the Child //(Londres, 1946). 3 — Parker e Mauger, Self Starvation. 4 — Palazzoli, Self Starvation, pp. 224-52. 5 — Bruch, Eating Disorders. p. 88. 6 — Daily, Anorexia Nervosa pp. 93-4. Questões médicas 1 — J. L. Hirch e J. Knittle, "Cellularity of the Obese and Nonobese Adipose Tissue'', Federation Proceedings of the American Society for Experimental Biology 29 (1970): 1516. 2 — W. B. Kannel and T. Gordon, "Some Determinants of Obesity and Its Impact as a Cardiovascular Risk Factor", in Recent Advances in Obesity Research, ed. Alan Howard (Londres, 1975), p. 14. (Mais adiante citado como Recent Advances.) 3 — H. E. Dugdale, e P. R. Payne, "The Pattern of Lean and Fat Deposition in Adults", Nature 266 (Março, 1977): 349. 4 — H. Keen, "The Incomplete Story of Obesity and Diabetes", in Howard, Recent Advances. 5 — R. C. Atkins, Dr. Atkins Diet Revolution (Nova York, 1972). 6 — L. J. Herberg, K.B.J. Franklin e D. N. Stephens, "The Hypothalamic 'Set Point' in Experimental Obesity", in Howard, Recent Advances. I — Hilde Bruch, Eating Disorders (Nova York, 1973), p. 36. 8 — Michael Schwartz e Joseph Schwartz, "No Evidence for Heritability of Social Attitudes", Nature 255:429. 9 — A. Cooke et al., "The New Synthesis Is a Old Story", New Scientist 70 (1976). 10 — Ibid. 11 — E. Espmark, "Psychological Adjustment Before and
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After Bypass Surgery for Extreme Obesity, a Preliminary Report", in Howard, Recent Advances p. 242 12 — R.C. Kalucy et al., "Self Reports of Estimated Body Widths in Female Obese Subjects with Major Fat Loss Following Ileo-jejunal Bypass Surgery", in Howard, Recent Advances p. 331. 13 — J.G. Kral e L.V. Sjorstrom, "Surgical Reduction of Adipose Tissue Hypercellularity", in Howard, Recent Advances, p. 327. 14 — Barbara Ehrenreich e Deirdre English, Witches, Midwives and Nurses (Nova York, 1973). 15 — The Boston Women's Health Collective, Our Bodies, Ourselves (Nova York, 1973). 16 — Peoplev. Carolyn Aurillia Downer LAMC 31426942 (1972). 17 — R.M. Young, "Science is Social Relations", Radical Science Journal. 5 (1977): 65.

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