Copyright © 1976, Ruth Rocha

Capa e ilustrações: Adalberto Cornavaca

Todos os direitos reservados com exclusividade pela SALAMANDRA CONSULTORIA EDITORIAL S.A. Av. Nilo Peçanha, n° l55/510 — centro ~ CEP 20.020 Tel.: 240-6306 Rio de Janeiro, RJ.

Este livro foi impresso na LIS GRAFICA E EDITORA LTDA. Rua Visconde de Parnaíba, 2.753 - Belenzinho CEP 03045 - São Paulo - SP - Fone: 292-5666 com filmes fornecidos pelo editor.

Ruth Rocha

Marcelo, marmelo, martelo
e outras histórias

Marcelo vivia fazendo perguntas a todo mundo: — Papai, por que é que a chuva cai? — Mamãe, por que é que o mar não derrama? — Vovó, por que é que o cachorro tem quatro pernas? As pessoas grandes às vezes respondiam. Às vezes, não sabiam como responder. — Ah, Marcelo, sei lá...

menino! — E a fruta não podia chamar Marcelo. — Por que é que não escolheram marmelo? — Porque marmelo é nome de fruta. martelo não é nome de gente! É nome de ferramenta. Marcelo cismou com o nome das coisas: — Mamãe.Uma vez. — E por que é que não escolheram martelo? — Ah. meu filho.. Marcelo foi o nome que eu e seu pai escolhemos. por que é que eu me chamo Marcelo? — Ora.. e eu chamar marmelo? .

— E por que é que esse tal de latim não botou na mesa nome de cadeira. papai. e na parede nome de bacalhau? — Ai. Marcelo. meu Deus. Marcelo.No dia seguinte. na cadeira nome de parede. latim é uma língua muito antiga. lá vinha ele outra vez: — Papai. este menino me deixa louco! . — Puxa. do latim? E latim é língua de cachorro? — Não. vem do latim. por que é que mesa chama mesa? — Ah.

eu acho que o tal de latim botou nome errado nas coisas. Por exemplo: por que é que bola chama bola? .Daí a alguns dias. Marcelo estava jogando futebol com o pai: — Sabe. papai.

O pai de Marcelo ficou atrapalhado.— Não sei.. não é? — Ah.. sim. e bolo? — Bolo também é redondo. não lembra? — Lembra. Marcelo. essa não! Mamãe vive fazendo bolo quadrado. mas.. . acho que bola lembra uma coisa redonda..

porque é redonda. Mas bolo nem sempre é redondo. não cadeira. está tudo errado! Bola é bola. eu só vou falar assim". por exemplo. lógico! Também. agora.E Marcelo continuou pensando: "Pois é. Devia chamar sentador. E travesseiro? Devia chamar cabeceiro. que não quer dizer nada. Cadeira. E por que será que a bola não é a mulher do bolo? E bule? E belo? E bala? Eu acho que as coisas deviam ter nome mais apropriado. .

quer me passar o mexedor? — Mexedor? Que é isso? — Mexedorzinho.. ora! Que está no suco-da-vaqueira. Quem é que entende este menino? .Logo de manhã. menino! — Suco de vaca. — Papai. me dá o suco de vaca? — Que é isso.. — Isso é leite. você quer dizer. Marcelo. de mexer café. — Ah. colherinha. Marcelo começou a falar sua nova língua: — Mamãe.

ninguém se entende. papai.O pai de Marcelo resolveu conversar com ele: — Marcelo. filho.. senão.. todas as coisas têm um nome. — Não acho. menino! Que coisa mais feia! — Está vendo como você entendeu. . E todo mundo tem que chamar pelo mesmo nome porque. Por que é que eu não posso inventar o nome das coisas? — Deixe de dizer bobagens.. tenho muito que fazer.. papai? Como é que você sabe que eu disse um nome feio? O pai de Marcelo suspirou: — Vá brincar.

. Depois. E Marcelo continuava inventando: — Sabem o que eu vi na rua? Um puxadeiro puxando uma carregadeira. à sua moda. O pai e a mãe de Marcelo se olhavam e não diziam nada.Mas Marcelo continuava não entendendo a história dos nomes.. . o puxadeiro fugiu e o possuidor ficou danado. Chegava em casa e dizia: — Bom solário pra todos. E resolveu continuar a falar.

.. com essa mania de inventar nomes para as coisas. quando começarem as aulas? Esse menino vai dar trabalho. eu estou muito preocupada com o Marcelo.. Conversou com o pai: — Sabe. . Coisa de criança.. Você já pensou. — Que nada.. Laura! Isso é uma fase que passa..A mãe de Marcelo já estava ficando preocupada. João.

— que era como ele chamava o dia e a noite. ... E os pais de Marcelo morriam de vergonha das visitas.. Quando vinham visitas.. Marcelo só cumprimentava dizendo: — Bom solário. bom lunário. era um caso sério.Mas estava custando a passar.

Alguém jogou uma ponta de cigarro pela grade. o Godofredo.. e o cachorro de Latildo.Até que um dia. E Marcelo só chamava a casinha de moradeira. tinha uma linda casinha de madeira que Seu João tinha feito para ele. e foi aquele desastre! . E aconteceu que a casa do Godofredo pegou fogo.. O cachorro do Marcelo.

papai. menino? Não estou entendendo nada! — A moradeira. está uma branqueira danada! Seu João percebia a aflição do filho. Fala direito! — Embrasou tudo.. papai. embrasou a moradeira do Latildo! — O quê. embrasou. mas não entendia nada. papai. Marcelo.Marcelo entrou em casa correndo: — Papai. — Eu não sei o que é isso... ..

.. Era um montão de brasas. já era tarde. desapontadíssimo. A casinha estava toda queimada. mesmo! . E Marcelo. O Godofredo gania baixinho.Quando Seu João chegou a entender do que Marcelo estava falando. disse para o pai: — Gente grande não entende nada de nada.

. E o pai do Marcelo olhou pra mãe do Marcelo. . meu filho. A gente faz uma moradeira nova pro Latildo. E o pai do Marcelo falou: — Não fique triste. E a mãe do Marcelo disse: — É sim! Toda branquinha.Então a mãe do Marcelo olhou pro pai do Marcelo. com a entradeira na frente e um cobridor bem vermelhinho..

E agora. naquela família.. todo mundo se entende muito bem. E nem estão se incomodando com o que as visitas pensam.. O pai e a mãe do Marcelo não aprenderam a falar como ele. mas fazem força pra entender o que ele fala. .

Você gostou do fim da história? Se você fosse o autor. como é que você gostaria que a história acabasse? Por que é que você não escreve a história de um menino. mostre sua história à sua professora. que também inventou um jeito diferente de falar? Depois. . ou de uma menina.

.

Gabriela levada. menina encapetada... Ô. .Gabriela menina.

Gabriela sapeca: — Menina. Gabriela serelepe: — Menina. não. não. para onde vai essa rua? — A rua não vai. a gente é que vai nela. os outros é que me chamam Gabriela. Gabriela na escola: . como é que você se chama? — Eu não me chamo.

pé de alface tem calos? Gabriela era quem inventava as brincadeiras . céu da boca tem estrelas? — Professora.— Gabriela. eu só queria saber quem foi que cobriu. Gabriela não deixava a professora em paz: — Professora. quem foi que descobriu o Brasil? — Ah. professora. isso é fácil. barriga da perna tem umbigo? — Professora.

— Vamos brincar de amarelinha? Todo mundo ia. Foi aí que mudou. — Vamos brincar de pegador? Todos concordavam. a Teresinha. Todos queriam brincar com Gabriela. . para a mesma rua da Gabriela.

Teresinha estudiosa.Teresinha loirinha. Que belezinha.. Os amigos vinham contar a Gabriela: .. bonitinha. arrumadinha. Teresinha. vestida de cor-de-rosa.

Gabriela já estava enciumada: — Grande coisa. — Teresinha tem uma caixinha de música. cachos! Bananeira também tem cachos! Gabriela não queria nem ver Teresinha: .— Teresinha tem um vestido com rendinha. — Teresinha tem cachos no cabelo.

— Mas você nunca falou com ela. só vive estudando. Gabriela. de tanto que falavam da .— Menina enjoada. Deus me livre! — Mas ela é boazinha — os meninos diziam. não suja o vestido. — Boazinha. pronto! Mas Gabriela já estava impressionada. não sabe correr. Não falei e não gostei. nada! Ela é sonsa. — Não interessa.

eu queria uma caixinha de música. E Gabriela começou a se olhar no espelho e achar o seu cabelo muito sem graça: — Mamãe. eu queria fazer cachos nos cabelos. — Mamãe.Teresinha. E Gabriela começou a se modificar. . — Mamãe. eu queria um vestido cor-de-rosa.

à noite. E. Os amigos vinham chamar Gabriela: . quietinha. De tarde. Ficava sentadinha. no recreio. fazendo tricô. Gabriela não pulava corda e nem brincava de esconde-esconde. muito em segredo.Na escola. Gabriela enchia a cabeça de papelotes para encrespar os cabelos. Gabriela não ia mais brincar na rua para não sujar o vestido.

. menina? Você não tem nada para fazer agora. respondia: — Eu já estou crescida para essas brincadeiras. A mãe de Gabriela estranhava: — Que é isso. com ares de gente grande. E Teresinha? .. E Gabriela. vamos andar de bicicleta? — Agora eu não posso — respondia Gabriela.— Gabriela. — Preciso ajudar a mamãe.

Mas. — Gabriela usa rabo-de-cavalo para o cabelo não atrapalhar. Teresinha respondia com pouco-caso: — Que menina mais sem modos! Deus me livre.O que é que estava acontecendo com Teresinha? Teresinha só ouvia falar de Gabriela: — Gabriela é que sabe pular corda. Teresinha pedia: . — Gabriela só usa calças compridas.. quando as crianças saíam..

pulando corda e amarelinha. eu quero umas calças compridas. na primeira vez que as duas se encontraram. sapatos de . a turma nem queria acreditar. Teresinha treinava. de cabelos cacheados. Gabriela. fazendo pose de moça. E. no fundo do quintal.— Mamãe. E. para ir brincar na rua. como Gabriela.

pulseirinha. As duas se olharam. . vestido todo bordado. comportadíssima. desconfiadíssimas. levadíssima. no começo. Gabriela empurrando o carrinho da boneca. Teresinha pulando sela. assoviando.

começaram a rir porque estavam mesmo muito engraçadas. .Depois.

.

e até já está aprendendo a fazer suas gracinhas. embora seja ainda a campeã de bolinha de gude. E cada uma aprendeu muito com a outra.Agora. já sabe andar de bicicleta. . pular amarelinha. Teresinha e Gabriela são grandes amigas. embora seja ainda uma boa aluna na escola. E Teresinha. Gabriela sabe a lição de história do Brasil.

quando a professora perguntou a Teresinha: — Minha filha. o que você vai ser quando crescer? Teresinha não teve dúvidas: — Vou ser grande. ué! .Ontem.

Com todas as qualidades que você gosta.Você acha que foi bom ou que foi ruim Terezinha e Gabriela ficarem amigas? Você também tem amigos diferentes de você? O que é que você aprende com eles? E eles? O que é que eles aprendem com você? Invente um amigo que você gostaria de ter... — Por que todo mundo tem defeitos. e com alguns defeitos também. .

.

Ele é um amigo legal. O nome dele era Carlos Alberto. Mas ele não foi sempre assim. . E não se chamava Caloca. não. Antigamente ele era o menino mais enjoado de toda a rua.Este é o Caloca.

do começo. . mas acho que é porque ele era o dono da bola. Mas me deixem contar a história.E sabem por que ele era assim enjoado? Eu não tenho certeza.

E tinha bicicleta. de verdade. Caloca só não tinha amigos. com farol e buzina. Os brinquedos que Caloca tinha. vocês não podem imaginar! Até um trem elétrico ele ganhou do avô. carrinhos de todos os tamanhos e uma bola de futebol. Mas futebol ele tinha que jogar com a gente. e tinha tenda de índio. Não deixava ninguém brincar com os brinquedos dele.Caloca morava na casa mais bonita da nossa rua. porque futebol não se pode jogar sozinho. . Porque ele brigava com todo mundo.

toda vez que a gente ia jogar com Caloca. jogo é jogo. Mas. mas não é a mesma coisa. — Espírito esportivo.O nosso time estava cheio de amigos. tenha espírito esportivo.. Era só o juiz marcar qualquer falta do Caloca que ele gritava logo: — Assim eu não jogo mais! Dá aqui a minha bola! — Ah. Bom mesmo é bola de couro. meu nome é Carlos Alberto! . não vá embora. O que nós não tínhamos era bola de futebol. Caloca.. — E não me chame de Caloca. nada! — berrava Caloca. Só bola de meia. acontecia a mesma coisa. como a do Caloca.

Carlos Alberto estava sempre procurando encrenca: . Mas os treinos nunca chegavam ao fim. A coisa começou a complicar mesmo. A gente precisava treinar com bola de verdade para não estranhar na hora do jogo. quando resolvemos entrar no campeonato do nosso bairro. Carlos Alberto acabava com tudo que era jogo.E. assim.

treino. eu não trago a bola! E quando não se fazia o que ele queria. já se sabe. vou embora! — Se o treino for muito cedo.— Se o Beto jogar de centroavante. levava a bola embora e adeus. . eu não jogo! — Se eu não for o capitão do time.

que era o secretário do clube. zangado. vermelhinho de raiva: — A bola é minha. Cada vez que ele se zanga. eu carrego quantas vezes eu quiser! — Pois é isso mesmo! — disse o Beto. com a bola debaixo do braço. resolveu fazer uma reunião: — Esta reunião é pra resolver o caso do Carlos Alberto. . — É por isso que nós não vamos ganhar campeonato nenhum! — Pois. carrega a bola e acaba com o treino. Carlos Alberto pulou.Catapimba. azar de vocês. eu não jogo mais nessa droga de time. que nem bola tem! E Caloca saiu pisando duro.

Todas as vezes que o Carlos Alberto fazia isso. nós estávamos por aqui com ele. A primeira vez que ele veio ver os treinos. ele acabava voltando e dando um jeito de entrar no time de novo. Mas. daquela vez. . ninguém ligou.

ele puxou conversa: — Que tal jogar com bola de meia? Xereta deu uma risadinha: — Serve. . Mas ninguém disse nada. com a bola debaixo do braço como sempre.Ele subiu no muro.. Quando o Xereta passou por perto.. e ficou esperando que alguém pedisse para ele jogar.

. O time inteiro do Faz-de-Conta correu atrás dele e ele só não apanhou porque se escondeu na casa do Batata. nós ouvimos dizer que o Carlos Alberto estava jogando no time do Faz-de-Conta.Um dia. como fazia conosco. se deu muito mal.. A primeira vez que ele quis carregar a bola no melhor do jogo.. Mas foi por pouco tempo. que é um time lá da rua de cima.

Ele batia bola com a parede. depois de três dias. Apareceu lá no campinho. A gente passava pela casa dele e via. o Carlos Alberto não agüentou mais.Aí. o Carlos Alberto resolveu jogar bola sozinho. Acho que a parede era o único amigo que ele tinha. Mas eu acho que jogar com a parede não deve ser muito divertido. Porque. .

por quê? — Você sabe muito bem. só se você der a bola para o time de uma vez. — Ah. No melhor do jogo você sempre dá um jeito de levar a bola embora. eu empresto a minha bola.— Se vocês me deixarem jogar. só quando vocês me amolam. essa não! Está pensando que eu sou bobo? . — Ué. — Nós não queremos sua bola. — Pois é por isso mesmo que nós não queremos. — Eu não. não.

E Carlos Alberto continuou sozinho. No domingo. lá veio ele com a bola debaixo do braço. Mas eu acho que ele já não estava gostando de estar sempre sozinho. Na segunda. ele convidou o Xereta para brincar com o trem elétrico. me chamou para brincar de índio. E. Na terça. mais ou menos no meio do treino. . na quarta. levou o Beto para ver os peixes na casa dele.

Agora. — Mas eu quero dar a bola ao time.— Oi. . De verdade! Nós todos estávamos espantados: — E você nunca mais pode levar embora? — E o que é que você quer em troca? — Eu só quero jogar com vocês. você apareça em outra hora. que tal jogar com uma bola de verdade? Nós estávamos loucos para jogar com a bola dele. Carlos Alberto. turma... Mas não podíamos dar o braço a torcer. nós precisamos treinar — disse Catapimba. — Olha.

Carlos Alberto estava outro. O final do campeonato estava chegando e nós precisávamos recuperar o tempo perdido.Os treinos recomeçaram. . Jogava direitinho e não criava caso com ninguém. animadíssimos.

todo mundo se abraçou.E. pessoal. A gente gritava: — Viva o Estrela-d'Alva Futebol Clube! — Viva! — Viva o Catapimba! — Viva! — Viva o Carlos Alberto! — Viva! Então. quando nós ganhamos o jogo final do campeonato. o Carlos Alberto gritou: — Ei. não me chamem de Carlos Alberto! Podem me chamar de Caloca! .

Escreva o diário do Caloca.Faça de conta que Caloca tinha um diário. desde que ganhou a bola até que deu a bola ao time. E conte como é que o Caloca se sentia. Você já deu alguma coisa sua a seus amigos? .

Related Interests