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LÍNGUA GREGA
Visão Semântica, Lógica, Orgânica e Funcional

Volume I
Teoria

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HENRIQUE MURACHCO

LÍNGUA GREGA
Visão Semântica, Lógica, Orgânica e Funcional

Volume I
Teoria

discurso editorial

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Copyright © by Henrique Murachco, 2001
Nenhuma parte desta publicação pode ser gravada,
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reproduzida por meios mecânicos ou outros quaisquer
sem a autorização prévia da editora.

Produção gráfica: Logaria Brasil®


Projeto gráfico, editoração e capa: Guilherme Rodrigues Neto
Tiragem: 2.000 exemplares

Ficha catalográfica: Sonia Marisa Luchetti CRB/8-4664


M972 Murachco, Henrique
Língua grega: visão semântica, lógica, orgânica e
funcional / Henrique Murachco. – São Paulo: Discur-
so Editorial / Editora Vozes, 2001.
2 v.

ISBN v.1: 85-86590-22-3


ISBN v.2: 85-86590-23-1

1. Língua Grega Clássica 2. Semântica I. Título

CDD 481
481.7
485

discurso editorial
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Agradeço:
Ao Prof. Robert H. AUBRETON
Mestre e amigo.
Todos nós de Letras Clássicas lhe devemos muito,
e eu, quase tudo.

A todos os meus inumeráveis alunos, colegas e amigos


de todos os lugares, de todas a idades,
que me proporcionaram o prazer de servir.
Com um amor de amigo enorme.

A France, Cristina, Sílvia e Karine, esposa e filhas,


começo, fim e razão de tudo,
pelo silencioso afeto,
conivência afetuosa e compreensão paciente.
A Jean Baptiste e Arthur Aymeric,
meus netos, raios de sol.
A Heloísa, minha neta, nos dedos-rosa da aurora.
Por existirem.

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Introdução:
Guia do leitor

Depois de ter escrito e reescrito cerca de 600 laudas, depois de ter


lido e relido, sempre com a preocupação de encontrar uma falha, um va-
zio, um lapso, e depois das cobranças dos alunos, ex-alunos, que nunca
são “ex-”, e sobretudo de meus colegas, sento-me à frente do computa-
dor para escrever uma ou a “introdução” ao meu trabalho, que, também,
devido à cobrança desses “amigos”, acabou sendo a tese de doutoramento.
Vou conseguir? O tempo dirá.
Como começar? Pelo começo!
O começo, perdido no tempo, situa-se em 1969, quando a reforma
curricular do Curso de Letras introduziu as matérias optativas. Essas
matérias visavam a um fim preciso: abrir os horizontes dos alunos; não
deixá-los presos a esquemas fechados.
Viu-se então que o interesse pela Antigüidade Grega, pela Litera-
tura Grega e pela Língua Grega era grande, e o número de interessados
foi crescendo.
Mas, como fazer para que essa passagem de um, dois, três e até no
máximo quatro semestres pudesse deixar uma marca, ou, melhor dizen-
do, para que professor e aluno não ficassem com a sensação de terem
perdido seu tempo, e para que os créditos obtidos pelos alunos não se
assemelhassem a tantos outros, em que, de um lado, se finge que se ensi-
na e, de outro lado, se finge que se aprende: dá-se um programa de um
manual; repete-se em aula o que está escrito nele, sem comentário e sem
contestação, e cobra-se no fim do semestre numa prova, em que o aluno
devolve o que recebeu. E essa devolução em geral assume um sentido

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denotativo; isto é, devolve-se de fato! O aluno vai embora com seus cré-
ditos e o professor fica com a sensação de tarefa terminada.
Mas, como minha postura na sala de aula sempre foi de diálogo,
de querer saber se o aluno entendia ou não o que eu tentava passar-lhe,
surgiram as primeiras perguntas e contestações, e aí começaram as primei-
ras “apostilas” com redação pessoal, diferente dos manuais e gramáticas.
Mas, o que se dizia e se discutia na sala de aula era muito diferente
do que as “apostilas” traziam; ou melhor, o que se dizia na sala de aula
era não só diferente, mas muitas vezes mais extenso e variado do que o
que estava na apostila. E as “edições” das apostilas foram se sucedendo
em folhas avulsas, sempre com a intenção de servir aos alunos.
Nunca tive a idéia de escrever um método ou uma gramática de
grego. Não era necessário! Havia tantas gramáticas no mercado! Todas
elas lastreadas em tradição multissecular!
Era um respeito quase ou mais que religioso que me impedia dis-
cuti-las e muito menos criticá-las. Eu mesmo devia meus conhecimen-
tos de grego a elas.
Quantos helenistas não deviam seu sólido saber a elas?
Mas eu não encontrava nelas as respostas às perguntas que os alu-
nos faziam: por que essa função se exprime por esse caso e aquela pelo
outro. O que significa “nominativo”? O que significa “acusativo”? Por
que o sujeito “vai” para o nominativo e o objeto direto “vai” para o acu-
sativo? Por que a relação de lugar “para onde” vai também para o acusati-
vo? Não é uma relação adverbial?
Fui buscar essas explicações nas gramáticas. Passei pelas gregas (a
lista delas está na Bibliografia); passei pelas latinas, pelas portuguesas,
pelas francesas e sempre encontrei as mesmas coisas: uma nomenclatura
fixa, com algumas variações superficiais, mas definindo e delimitando de
uma maneira autoritária e final que as relações das palavras na frase esta-
vam definidas e que o que o aluno deve fazer é aprendê-las de cor e, pelos
exercícios, fixá-las na mente até que fiquem automáticas.
Todas as gramáticas são descritivas, historicistas, formalistas,
prescritivas.
Ao criticá-las não quero desmerecê-las. Elas prestaram relevantes
serviços à evolução cultural do Ocidente. Elas são preciosas sobretudo
porque nos conservaram e passaram centenas de documentos, de textos,
de testemunhos antigos, em todas as línguas. É um material imenso que
está à nossa disposição.

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introdução: guia do leitor 11

Não quero discutir as metodologias e didáticas modernas, atuais,


que usam de inúmeros instrumentos para o ensino de idiomas: desde a
hipnopedia até as muitas variantes dos audiovisuais. Elas são destinadas a
alunos e aprendizes de diversas idades: desde a pré-escola (jardim da in-
fância) até a adultos, que, de repente, precisam do inglês, do francês, do
castelhano, do alemão “instrumental”.
Mas nenhum desses métodos entra em profundidade na língua;
nenhum deles faz “pensar a língua”. Todas as abordagens das gramáticas
e métodos tradicionais abordam o estudo das línguas de fora para dentro,
isto é, da teoria para a prática, do abstrato para o concreto. Nós achamos
que dessa maneira estamos na “contramão”.
As escolas despejam sobre as crianças uma série de conhecimentos
abstratos, transformados em “regras”, muito antes de as crianças terem a
capacidade de abstração. É por volta dos 12 aos 14 anos que o adolescen-
te se torna capaz de pensamento abstrato.
Ora, desde a alfabetização até as regras de gramática, de acentua-
ção, ortografia, são formas de conhecimento abstrato, “arbitrário”, dizem
alguns, que a criança acaba “aprendendo” de cor, e devolvendo de cor,
mas não entendendo 1.
Na Grécia, a gramática surgiu no período alexandrino, depois das
conquistas de Alexandre Magno e da formação do seu império que não
chegou a comandar; mas o grande feito de Alexandre foi o de tornar a
língua grega a língua comum (² koin¯ glÇtta) de todo o Mediterrâ-
neo, o que vale dizer, de todo o mundo antigo conhecido, ocidental, bem
entendido. E a gramática do grego foi concebida para que estrangeiros,
isto é, os não gregos, aprendessem a língua de todos.
Pensou-se então em regras práticas: um conjunto de informações
necessárias para que o falante de outra língua aprendesse rapidamente a
língua grega.
Essa é a origem da gramática descritiva. Ela dispensa o “porquê”;
quer ser prática, objetiva.

1 Em grego a raiz may- desenvolve o verbo many‹nv, que significa em primeiro


lugar “eu entendo”, e daí, naturalmente, o significado se ampliou para “eu apren-
do”. Aprender, então, pressupõe necessariamente entender.

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A gramática de Dionísio Trácio é herdeira dessa gramática pri-


meira. Ela é descritiva e já contém alguns vícios de nomenclatura, que os
gramáticos latinos herdaram quando a traduziram, adaptaram e adotaram
para o latim.
Durante a exposição das diversas partes deste trabalho, vamos co-
mentar essa nomenclatura, como, por exemplo, a expressão “subjunti-
vo”, para um modo que nem sempre exprime uma subordinação.
Mas os autores gregos, Platão, Aristóteles e outros, não estuda-
ram a língua grega pela gramática. Mas sabiam muito bem a lingua grega!
Muito mais do que isso: transformaram-na num instrumento perfeito,
para exprimir com perfeição todos os matizes do pensamento humano.
Como, então, eles aprenderam a língua?
Não vamos tratar disso com pormenores. Não é o tema deste tra-
balho. Mas não podemos furtar-nos de reproduzir a fala de Protágoras,
quando explica a Sócrates, a função da educação 2:
“Começando desde a tenra infância até o fim da vida (os pais) ensi-
nam e exortam.
Assim que uma criança compreenda o que é dito, tanto a ama, quanto
a mãe, o pedagogo e até o próprio pai discutem a respeito dela, de modo a que
o menino seja o melhor possível; a cada gesto, a cada palavra eles dão lições
demostrando que isto é justo, aquilo é injusto, isto é bonito, isto é feio e que
isto é permitido aquilo é proibido e faz isto, não faças aquilo. E se ele obedece
de boa vontade, (...) se não, eles o endireitam com ameaças e com pancadas,
como a uma vara torta e curva.
Depois disso, ao enviá-lo à escola, eles têm em vista mais cuidar do
bom comportamento das crianças do que das letras e da cítara. Os mestres se
encarregam dessas coisas, e quando, por sua vez, as crianças entendem as letras
e passam a entender os escritos, como antes a fala, eles, os mestres, dispõem
sobre as carteiras, para ler, os poemas dos bons poetas e os obrigam a aprender
de cor aqueles nos quais se encontram muitos preceitos, muitas digressões (nar-
rativas), muitos conselhos e muitos elogios dos homens antigos bons, a fim de
que o menino, por emulação, os imite e procure tornar-se igual a eles.
Os citaristas, por sua vez, empreendem outras coisas desse tipo; eles se
preocupam com a moderação e para que os jovens não se dirijam para o mal.

2 Platão, Protágoras, 325c5-326e6.

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Além disso, quando os meninos aprendem a tocar cítara eles ensinam poemas
de outros poetas bons, os líricos, acordando-os ao som da cítara e condicionam
as almas dos meninos a se habituarem com os ritmos e com a harmonia para
que eles sejam mais calmos e para que, tornando-se mais bem ritmados e mais
harmoniosos, eles se tornem aptos para a fala e para a ação; pois toda a vida
do homem precisa de bom ritmo e de harmonia...”
Pelo que se vê, a língua era aprendida nos textos e pelos textos.
Essa passagem de Protágoras nos dá ainda outra idéia: que o me-
nino ateniense, depois de aprender muitos textos dos poetas épicos (Ho-
mero e Hesíodo) e dos poetas líricos, que eram de toda a Grécia, ao pas-
sar para as aulas de ginástica, ele não é mais um menino ateniense, ele é
um menino grego! A unidade da Grécia, desde o Ponto Euxino até Mar-
selha e mesmo às Colunas de Heraclés, se fez pela língua. Os Jogos Olím-
picos a cada 50 lunações eram a expressão dessa Grécia3.
Foi essa a “gramática” de Platão, Aristóteles, Lísias, Demóstenes,
Górgias e outros.
Mas, a gramática pensada para os estrangeiros passou também a
ser empregada nas escolas, e os meninos do período alexandrino, aos pou-
cos, passaram a ter que aprender, além dos textos dos poetas, também as
regras de gramática.
É essa a origem da gramática descritiva e impositiva, prescritiva.
Ela se manteve intocável durante séculos; até agora mesmo. Como
exemplo poderíamos citar Konstantinos Láskaris, um dos intelectuais bi-
zantinos que emigraram para Nápoles, por ocasião da tomada de Cons-
tantinopla pelos turcos em 1453. Convidado por um nobre milanês para
ensinar a língua grega para suas filhas, escreveu uma gramática, em 1476.
A base dela é a de Dionísio Trácio, com alguns acréscimos, mas
sem aprofundar nada. Até os paradigmas são os mesmos!
No correr deste trabalho aludiremos muitas vezes a esses fatos, para
o que, antecipadamente, pedimos desculpas. Mas é vício de professor. A
repetição à exaustão acaba por prevalecer. Além disso, essa desordem, se
não foi pretendida no início, acabou prevalecendo, como uma conseqüên-

3 Conclui-se daqui que as diferenças dialetais, que as gramáticas valorizam tanto,


eram sentidas como meras variantes da língua, sem nenhuma dificuldade de en-
tendimento e de fixação.

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14 introdução: guia do leitor

cia natural do meu trabalho que foi se desenvolvendo de uma maneira


artesanal, diária, geralmente na sala de aula. E a cada nova abordagem
esbarrávamos nos mesmos problemas de sempre: descritivismo, falta de
explicação e falta de coerência.
Nosso objetivo nesta Introdução (é preciso uma introducão! uma
introdução é preciso!) é tentar guiar o leitor pelo nosso caminho e du-
rante o percurso mostrar-lhe que a língua grega é de uma coerência to-
tal, a começar pelo enunciado, que é a base de todo o sistema.

O que é o enunciado?
Podemos chamá-lo de frase, oração, período, discurso etc. O enun-
ciado é uma palavra ou um conjunto delas que exprime um pensamento
inteiro, acabado.
A base do enunciado é, como já disse, a essência (oésÛa) e o
predicado (kathgorÛa, kathgñreuma)4. Em outros termos: o sujeito
(tò êpokeÛmenon), o de que se diz alguma coisa e o verbo (=°ma), o
que é dito daquele de que se diz alguma coisa.5
O enunciado é a base do discurso. Ele repousa sobre dois pilares: o
sujeito e o predicado; o substantivo e o verbo; a essência e a ação.
O sujeito deve ser, necessariamente, um substantivo (êpokeÛme-
non) e o predicado deve ser, necessariamente, um verbo (=°ma). Não há
enunciado sem sujeito e predicado. É uma impossibilidade funcional,
lógica, semântica.
O enunciado, então, só é completo se contém sujeito e predicado,
num encadeamento de dependência: um não existe sem outro; a noção
do sujeito supõe o predicado e a noção do predicado supõe o sujeito 6.

4 Isto está na primeira obra do Órganon, de Aristóteles, chamada “As categorias”;


na verdade são: uma “essência – oésÛa”, e nove “categorias – predicados”. O mes-
mo acontece no enunciado: o sujeito: êpokeÛmenon – oésÛa, e “=°ma – kath-
gorÛa / kathgñreuma”.
5 O significado de “verbo” nesta dicotomia “sujeito/verbo” não significa “ação” mas
“resultado da ação”, isto é: o que é dito. O sufixo -ma significa resultado da ação,
contrapondo-se ao sufixo -siw , que significa a ação, (sufixo -ção em português).
6 Às vezes pode acontecer que o sujeito ou o verbo não estejam expressos. Isso fez
alguns gramáticos criarem as frases chamadas “nominais” / “frases sem verbo”, ou

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Mas o sujeito pode vir modificado, ampliado, enriquecido e o pre-


dicado pode vir também modificado, ampliado, enriquecido. O sujeito
pode ter adjunto adnominal (epíteto), predicativo, aposto, e o predicado
(verbo) precisa ter sujeito, agente ou paciente; ele pode ser também am-
pliado, modificado, enriquecido, completado; pode ter advérbio (que é o
adjetivo do verbo), pode ter complemento direto, pode, com a ajuda da
preposição, exprimir relações espaciais etc.
Todas essas relações dentro do enunciado estão encadeadas orga-
nicamente, logicamente, como os elos de uma corrente, com todos os
elementos formando um todo e cada elemento ligado e dependente de
um e ligando e condicionando um outro. Assim, se identificarmos um
desses elementos, nós teremos o fio da meada ou um elo da corrente, e
por ele podemos chegar a outros e a todos.
Essa identificação se faz através do sujeito e do verbo, essencial-
mente, e a seguir entre substantivos e verbos, no caso de desdobramen-
tos de sujeito e predicado.
Em grego nós temos a tarefa facilitada pela identificação formal
das funções dos nomes. Eles estão em determinados casos, que corres-
pondem a determinadas funções. Rigorosamente, sem desvios. Basta iden-
tificarmos os casos para identificarmos as funções.
Identificada a função, passamos a procurar o que determinou essa
função: se é sujeito, porque está no nominativo, vamos procurar o verbo
que fala do sujeito; se o verbo está na voz ativa ou média, o sujeito é
agente; se está na voz passiva, o sujeito é paciente. Se está na voz ativa ou
média, e o verbo é incompleto, isto é, transitivo, vamos buscar o seu com-
plemento que estará no caso semanticamente compatível com a relação
com o verbo. Se o verbo está na voz passiva, o sujeito é paciente de um
ato verbal desencadeado por um agente externo, que é o agente da passi-
va. E assim por diante. Os elementos acessórios, adjetivos e advérbios,
serão reconhecidos a seu tempo.
Mas, para dar instrumentos para que o estudante de grego identi-
fique as partes, é preciso que ele aprenda a flexão dos nomes e dos ver-
bos, para que possa identificar exatamente a função dos nomes e a voz, a
pessoa, o modo, o aspecto do verbo.

as frases só com verbos. Na verdade o verbo está implícito nas “frases nominais”, e
o sujeito está implícito nas frases “verbais”.

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16 introdução: guia do leitor

São a flexão nominal e a flexão verbal.


Não vou chamá-las de “declinação” para os nomes e “conjugação”
para os verbos.
Vou chamá-las de flexão nominal e flexão verbal. O leitor encon-
trará, no correr da obra, a justificativa dessa opção.
No momento, basta dizer que os nomes7 e verbos flexionam-se com
base numa parte fixa, que eu denomino “tema”.
Na flexão dos nomes, se a sucessão de casos é sobre o tema, não
existe, ipso facto, um caso que se possa chamar “reto”, que seria o ponto a
partir do qual os outros se sucederiam, numa espécie de escada declinante
(declinação) a que se deu o nome de caso oblíquo.
O tema nominal, enquanto não receber o caso (a ptÇsiw, desi-
nência) que lhe determine a função, está fora do enunciado e contém
nele apenas o significado virtual da palavra. Assim nyrvpo- encerra o
significado de “homem, ser humano”; mas, quando recebe o -n, que é a
marca do acusativo, ele recebe a função de completar o significado de um
verbo, ou uma função análoga. Este é um fato da língua grega. Não é
regra. Por isso não tem exceção.
Começaremos por definir o que entendemos por caso, e o que cada
caso representa. Procuraremos, a partir da relação significante-significa-
do, explicar e justificar os nomes dos casos e mostrar que o nome que
receberam corresponde às funções que eles exercem.
Na medida em que formos explicando e identificando os casos, ire-
mos arrolando exemplos hauridos em dezenas de gramáticas, procurando
mostrar sempre que há uma coerência semântica no uso dos casos e que
o uso deles é orgânico, lógico, semântico.
Não há regras; isto é, não há interferências externas, abstratas (as
regras são interferências externas e abstratas). Há uma organicidade coe-
rente, forte, contínua. Por isso a abundância de exemplos.
O leitor verá também que tivemos sempre a preocupação de tradu-
zir os exemplos da maneira mais linear, concreta, denotativa, procurando
sentir as relações. Não nos preocupamos com o estilo. Não é nem o mo-
mento nem o lugar para isso.

7 Entendo por “nomes”, como Dionísio Trácio, tanto os substantivos como os ad-
jetivos e os dêiticos todos (comumente chamados de pronomes-adjetivos).

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Mostraremos que o nominativo se chama assim porque identifica


o sujeito e as relações secundárias do sujeito.
Mostraremos também que o nominativo é um caso: isto é, recebe
uma ptÇsiw que corresponde à sua função, e que a denominação “caso
reto” é contraditória nos seus próprios termos. Se é “caso” não é reto e se
é “reto” não é caso. Mostraremos também que essa denominação tem
origem de má leitura da visão dos estóicos na relação do sujeito agente
ôryñw, ereto, reto, em condições de agir, e sujeito paciente êptÛow, dei-
tado, supino, passivo.
A partir da idéia de uma posição reta, ereta do sujeito agente, deu-
se o nome de reto ao caso.
É uma visão meramente formal, externa, mas que teve desdobra-
mentos ruins, porque permitiu a visão de outros casos, que caíam, que
“declinavam” do caso reto, isto é, casos oblíquos. Daí se originou todo o
sistema de declinações, que consideramos falso.
Aproveitaremos o espaço para mostrar o que entendemos por
“tema”.
Mostraremos também que o vocativo não é um caso, porque não
tem função e que, coerentemente, tem desinência zero, isto é, é o pró-
prio tema. Diremos também que o vocativo “toma emprestado” as desi-
nências do nominativo, quando a manutenção do tema em consoante,
com a apócope delas, menos o -w, -r, -n, descaracteriza fonética e se-
manticamente a palavra.
Por isso desdobraremos as explicações sobre o genitivo e acusativo.
Separaremos no acusativo a relação do verbo transitivo (incom-
pleto) com o seu complemento (termo do ato verbal) e a relação espacial
“para onde”, expressa com o auxílio das preposições.
Mostraremos também que no acusativo sempre está a idéia de mo-
vimento, quer na sua expressão concreta, espacial, quer nas expressões me-
tafóricas de expressão de duração de tempo e nas extensões referenciais,
que costumamos chamar de “acusativo de relação” ou adverbial: “accusa-
tivus graecus” das gramáticas latinas.
Demostraremos também que o nome “acusativo” não vem de caso
da causa, culpa, mas caso da procura, da busca.
No genitivo identificaremos a relação nominal de definição, restri-
ção, delimitação (complemento ou adjunto adnominal) como no genitivo
latino, e a relação espacial de lugar “de onde” expressa por preposições (abla-
tivo latino) e ainda, por analogia, incluiremos a relação do agente da pas-

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18 introdução: guia do leitor

siva, que é uma relação de origem, separação; por isso é relação de geniti-
vo com preposição (ablativo latino com preposição).
Mostraremos também o valor semântico das relações do genitivo
nas “regências” de alguns verbos, como os verbos que significam poder,
domínio, privação, necessidade, desejo, aspiração etc. Insistiremos mui-
to sobre este fato da língua: os casos não são determinados por uma re-
gra exterior, mas pelas relações semânticas entre as partes, sobretudo entre
verbos e nomes.
Definiremos o dativo como o caso da dação, interesse, atribuição,
lateralidade, simultaneidade, exatamente como o dativo latino. Não acei-
tamos a inclusão das relações de instrumental e locativo sob a denomi-
nação de “dativo” por contradição nos próprios termos.
Separaremos esses dois casos, embora os três tenham a mesma
desinência. Nisto seguimos uma sugestão preciosa de Quintiliano.
Mostraremos que o locativo é a expressão do lugar “onde”, com a
idéia de estabilidade, de ausência de movimento. Ela pode ser concreta ou
metafórica. Os exemplos confirmarão essas afirmações. Mostraremos tam-
bém, pelos exemplos, que nos casos de dúvida, pela proximidade dos sig-
nificados entre a noção de lateralidade e de locativo, o próprio texto dará
a resposta certa.
Definiremos também o instrumental como o objeto inerte (que não
age por si) pelo qual passa o ato verbal desencadeado por um agente que
não ele, o instrumento.
Mostraremos também que a distinção entre o “instrumental” ou
“complemento de instrumento ou meio” e o “agente da passiva” não só
passa pela identificação formal (lugar de onde, expresso pelo genitivo com
êpñ), mas também, e sobretudo, pela relação semântica.

Passaremos então para a parte formal, falando em primeiro lugar


da flexão nominal.
A gramática da língua grega divide os nomes em declinações. São
três (no latim são cinco).
A primeira declinação, análoga à latina, contém os nomes que fa-
zem o genitivo singular em -aw/-hw (a latina faz em -ae).
A segunda declinação, análoga à latina, contém os nomes que fa-
zem o genitivo singular em -ou (a latina faz em -i).
A terceira declinação, análoga à latina, contém os nomes que fa-
zem o genitivo singular em -ow (a latina faz em -is).

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Mas há inúmeras exceções: na primeira, os nomes masculinos em


-a/-h fazem o genitivo singular em -ou; na terceira, temos nomes fa-
zendo o genitivo singular em -ouw, em -vw etc.
Cremos que a melhor forma de encarar a flexão dos nomes é ver
neles, como Aristóteles viu (Poética, 20), um composto de duas partes: o
tema e a desinência, isto é, uma parte fixa e outra móvel.
À parte fixa damos o nome de “tema” e à parte móvel damos o
nome de “casos”, para a flexão nominal.
A partir daí basta acrescentar os diversos casos, conforme as fun-
ções que os nomes exercerem no enunciado, para termos a flexão deles.
Um estudo detalhado, mais profundo, poderá constatar que o gru-
po de casos (desinências nominais) é um só, e que as diferenças que apre-
senta para os nomes de tema em vogal e para os nomes de temas em con-
soante ou semivogal são aparentes e são produto de acidentes fonéticos.
No momento, vamos manter os dois grupos: nomes de tema em
vogal e nomes de tema em consoante e semivogal 8.
Veremos que podemos construir toda a flexão dos temas em vogal
a partir de um quadro de desinências.
As dificuldades que surgirão serão de natureza fonética e não
morfológica, que são conseqüências das alterações, acomodações fonéti-
cas que acontecem na junção dos temas às desinências. Elas serão desta-
cadas e explicadas sempre que aparecerem 9.
É por isso que iniciamos o trabalho com uma introdução sobre o
sistema fonético da língua grega, mostrando todos os acidentes fonéticos
que acontecem nos encontros dos sons: vogal + vogal, consoante +
consoante.
Essas alterações fonéticas são constantes, mas não se deve temê-
las. Elas têm causas físicas, fisiológicas, concretas e acontecem no apare-
lho fonador, no momento da articulação dos diversos sons no ponto de

8 As semivogais são: o -i / u , e o -j / W , que são sentidas mais como consoantes do


que como vogais. A prova é que nos temas verbais terminados em semivogais, a
primeira pessoa do indicativo infectum é -v como nos verbos de tema em
consoante.
9 Essas explicações estarão também no quadro geral sobre o alfabeto e os sons, no
início deste trabalho.

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20 introdução: guia do leitor

articulação e modo de articulação. Constataremos também que essas al-


terações fonéticas são comandadas por duas “leis”: a lei do menor esfor-
ço e a competência lingüística e preservação semântica.
Constataremos também que, se os componentes são os mesmos, o
resultado é sempre o mesmo. É uma questão orgânica, natural.
Não há regras nem exceções.
Devemos insistir, contudo, que não estaremos escrevendo um “tra-
tado de fonética grega”, mas, com finalidade exclusivamente prática, es-
taremos registrando e explicando os vários acidentes fonéticos que acon-
tecem na flexão nominal e verbal.
Ao tratarmos dos nomes de temas em vogal, apresentaremos um
quadro geral das desinências com explicação detalhada de cada acidente
fonético e, a seguir, para facilitar a consulta, apresentaremos vários qua-
dros de flexão, sempre com as explicações necessárias.
Teremos sempre em mente que a flexão nominal e também a ver-
bal são um sistema de construção, de montagem. Nunca pediremos ao
aluno que decore paradigmas, embora não sejamos contra a que o aluno
monte o seu, a partir da identificação das duas partes da palavra: tema e
desinência.
Não faremos distinção entre substantivos, adjetivos, dêiticos (pro-
nomes-adjetivos na nomenclatura corrente). Não há razão para isso, na
medida em que a flexão se faz sobre tema e desinência, que são expres-
sões de funções.
No grupo dos nomes de temas em consoante ou semivogal come-
çaremos por traçar um quadro das desinências e a seguir mostraremos
como elas se acoplam aos diversos temas.
Constataremos que a flexão desses nomes todos é absolutamente
regular e que todos os problemas que surgem são acidentes fonéticos que
se originam desse acoplamento das desinências aos temas. Mas todos são
explicáveis e serão explicados.
Daremos a seguir vários quadros de flexão dos diversos temas, como
um referencial seguro para o leitor.

A seguir abordaremos a flexão verbal


Começaremos por afirmar que no verbo grego há apenas dois fatos
importantes: o aspecto e o modo. Diremos que o tempo medido, cursi-
vo, determinante está fora da forma verbal. Ele é o enquadramento do
ato verbal.

mur01.p65 20 22/01/01, 11:35


introdução: guia do leitor 21

Por isso a noção de tempo só se exprime pelo indicativo: a marca do


passado não é uma desinência, mas uma forma exterior ao tema, e se usa
apenas no indicativo.
Não há tempo nos outros modos verbais.
A partir da idéia de que uma forma gramatical, nominal ou verbal
é semântica e sintaticamente autônoma, estudaremos os três aspectos
verbais (que denominamos “tempo interno do verbo”), servindo-nos de
inúmeros exemplos e frases que fomos buscar nas gramáticas.
Mais uma vez não seremos econômicos. Acreditamos que é pela
repetição que se aprende.
Tentaremos explicar o infectum, que, quase sempre, faremos acom-
panhar da palavra “inacabado”, mostrando o leque de seus significados,
que não são divergentes; todos mantêm a idéia da continuidade do pro-
cesso verbal, desde a entrada no processo, até as relações de repetição,
hábito etc.
O leitor verá nos exemplos que há uma coerência semântica
completa.
Estudaremos também o aoristo, que à primeira vista parece difícil,
mas se identificarmos no aoristo a “raiz-tema”, isto é, o ponto de partida
para o infectum e o perfectum, veremos mais uma vez que a relação
significante-significado é muito clara.
Mostraremos que há dois aoristos no indicativo: um que é o ato
verbal na sua essência, sem nenhuma conotação temporal, usado nas ex-
pressões de caráter geral, máximas e provérbios (aoristo gnômico), e que
há o aoristo “narrativo, pontual, enquadrado”; dentro de um quadro nar-
rativo, que dá o enquadramento temporal, o aoristo “pontual” que expri-
me os fatos isolados, que incidem, “pontuam” a linha narrativa. A deno-
minação de aoristo “pontual” é sugestiva, na medida em que ele incide
sobre o processo narrativo, exprimindo apenas o ato verbal isolado, sem
idéia de duração ou acabamento.
Mostraremos também que, por coerência semântica, o tema do
aoristo é a base para a formação dos temas do Infectum-Inacabado e do
Perfectum-Acabado.10

10 Ao introduzirmos o estudo das flexões faremos menção especial para esses fatos.

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22 introdução: guia do leitor

Mostraremos que o perfeito, perfectum “acabado” também faz jus


ao nome: exprime o ponto de chegada do ato verbal, do processo interno
do verbo, sem indicação de tempo externo.
Mostraremos também que o perfeito mais antigo é o perfeito mé-
dio, intransitivo, que dá a idéia de resultado; o perfeito passivo deriva
dessa idéia. O perfeito ativo é mais recente; é menos usado e tem confli-
tos semânticos com algumas formas em alguns verbos.
Mostramos também que, como o infectum tem o passado expres-
so pelo imperfeito e o aoristo tem o passado expresso pelo aoristo enqua-
drado, narrativo, o passado do perfeito é expresso pelo mais-que-perfeito.
Mostraremos que não há outros modos no passado; só o indicativo.
Ao tratarmos da morfologia dos aspectos, veremos em primeiro
lugar que o infectum-inacabado, quando não tem o tema igual ao do
aoristo, ele o tem alargado, ampliado, por prefixos (redobro), infixos e
sobretudo sufixos formadores. Nós vemos nisso uma nítida relação de
significante e significado. O tema do infectum-inacabado nunca é me-
nor11 do que o do aoristo. Isso não é mero acaso.
Começaremos apresentando o quadro geral das desinências, que são
poucas, e mostraremos que não há desinências especiais para esse ou aquele
tema verbal, e que a opção para -v ou -mi da 1a pessoa da voz ativa é
mero problema fonético: os temas em consoante e semivogal optam pelo
-v, e os temas em vogal optam pelo -mi.
Constataremos também que as desinências não pertencem a esse
ou àquele quadro ou paradigma; elas pertencem, “são propriedades” das
pessoas gramaticais. Isso é significativo e importante e explica por que o
grego não usa o sujeito-pronome. É que as desinências o representam
suficientemente.
Cada pessoa gramatical tem “suas” desinências:

11 Salvo alguns raros casos, antigos na língua, como ³gagon. Ver na flexão do aoristo.

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introdução: guia do leitor 23

Quadro das desinências verbais

1ª pessoa sing. ativa prim. -v/-mi


secund. -m >-n (>a depois de consoante)
média/ pas. prim. -mai
secund. -mhn
2ª pessoa sing. ativa prim. -si / w
secund. -w
média/ pas. prim. -sai
secund. -so
3ª pessoa sing. ativa prim. -ti
secund. -t
média/ pas. prim. -tai
secund. -to
1ª pessoa pl. ativa prim. -men
secund. -men
média/ pas. prim. -meya
secund. -meya
2ª pessoa pl. ativa prim. -te
secund. -te
média/ pas. prim. -sye
secund. -sye
3ª pessoa pl. ativa prim. -nti
secund. -n (sa-n)
média/ pas. prim. -ntai
secund. -nto

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24 introdução: guia do leitor

As desinências do imperativo apresentam apenas um problema: o


imperativo singular (o verdadeiro, original, primeiro), na voz ativa do in-
fectum, seria de desinência zero, naturalmente.12 Mas os temas em con-
soante e semivogal precisaram de uma vogal de apoio -e que, por analo-
gia, os outros verbos usam; krÛne/tÛ-ye-e > tÛ-yei.
No aoristo sigmático singular da voz ativa e média, usam-se anti-
gas fórmulas, mas são de 2ª pessoa -so-n / -sai. E no aoristo passivo
singular toma-se emprestada a desinência do locativo -yi sobre o tema de
aoristo passivo.
Observe-se ainda a sintonia ou sinfonia fonética entre as consoan-
tes das pessoas gramaticais e as desinências:
1 o -m- dos pronomes de 1ª pessoa e o -m da primeira pessoa:
no singular:
me/mou/moi → -m-> -n/-mi/-mai/-mhn 13;
No plural, ²meÝw – ²m¡terow → -m-
2 o -s- das 2as pessoas correspondem a tu > su → -w/-sai/-so
3 o -t- das 3 as pessoas do singular tñw e do plural (com -n- epentético) →
-ti / -t/-nt/ntai/-nto
tñw é um antigo dêitico empregado por Homero e Heródoto com
significado de “este”, um anafórico; e aï é um conetivo anafórico “tam-
bém, por sua vez” são os formadores do “pronome” de 3ª pessoa, na ver-
dade um dêitico: aï – tñw > aétñw.

Ao tratarmos da morfologia do aoristo, veremos que há um aoristo


flexionado sobre a própria raiz do verbo. Chamaremos esse aoristo de
aoristo de “raiz-tema”. É o aoristo que as gramáticas denominam “aoris-
to segundo ou aoristo temático”. São denominações impróprias: a pri-
meira porque é meramente administrativa, pois as gramáticas estudam o

12 Faria contraponto com o vocativo, que é o gancho do diálogo apenas; não tem
função e por isso não tem desinência (caso).
13 ¤gÅ é absoluto; não tem plural nem feminino, e as “flexões” dele são sobre tema

diferente. Mas a variante -v de primeira pessoa não deve ser mera coincidência.

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introdução: guia do leitor 25

aoristo sigmático antes desse aoristo; a segunda, como já dissemos, por-


que confunde vogal temática com vogal de ligação.
Diremos também que esse aoristo de raiz-tema é o mais antigo
por razões semânticas e arrolaremos uma lista de verbos homéricos, to-
dos com significados dos atos primeiros, essenciais, concretos, do ser
humano.
Estudaremos a seguir o aoristo em -h, que na origem tem um sig-
nificado médio, intransitivo e depois serviu para exprimir a voz passiva,
sobretudo dos verbos de tema em soante-líqüida, fazendo contraponto
com outra característica da passiva, mais tardia e mais forte, que passou a
ser a paradigmática, -yh- / syh.
Falaremos a seguir do aoristo e do futuro sigmáticos.
Embora o aoristo sigmático esteja presente nos textos homéricos,
sua criação certamente é recente. Mas, por ser uma marca forte, acabou
prevalecendo e passou a ser o aoristo-referência, e todos os verbos “no-
vos” que foram sendo criados passaram a ter o aoristo sigmático.
Dentro do aoristo sigmático mostraremos o tratamento fonético
que ele sofre depois de temas em soante-líqüida: l, m, n, r.
Vincularemos a flexão do futuro à do aoristo, mostrando que, por
razões semânticas, o futuro não poderia ser construído sobre o tema do
infectum-inacabado.
Provaremos também que morfologicamente ele se constrói sobre o
tema do aoristo.

Ao tratarmos do perfectum-acabado, mostraremos que formalmente


ele se constrói sobre o tema do aoristo; falaremos sobre o redobro e suas
variantes e mostraremos que cronologicamente o perfeito médio-intran-
sitivo é anterior ao passivo, que se serviu de suas desinências, e que o
perfeito ativo é o mais recente.
Diremos também que o perfeito ativo é mais difícil de formular
em português, e que, estatisticamente, é o menos freqüente.
Ao pensarmos em português, temos dificuldades em diferenciar um
pretérito perfeito simples de um aoristo narrativo (pontual). A diferença
existe, mas só o contexto nos pode esclarecer.
O imperativo perfeito ativo, embora formalmente possível, exige
uma operação mental complexa: a noção do acabado, perfeito não se co-
aduna com a noção eventual do imperativo. Não temos lembrança de a
termos encontrado em textos.

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26 introdução: guia do leitor

Passamos então a estudar os modos, numa seqüência que mante-


remos sempre: indicativo, subjuntivo, optativo, imperativo, particípio e
infinitivo.
O estudo dos modos em grego é precedido de algumas considera-
ções sobre os modos em português e latim. Mostraremos que a nomen-
clatura referente aos modos é discutível, e que esse problema já está em
Dionísio Trácio, em sua gramática que já sofre os vícios da gramática
descritiva, que deixa de lado a relação significante-significado.
Explicaremos os modos a partir de seus nomes.
É preciso ter em mente, antes de tudo, que o uso desse ou daquele modo
num enunciado qualquer depende do emissor da mensagem, ele é o “dono”
da mensagem, e de como ele quer que o receptor a receba. Estamos fa-
lando de uma mensagem “pensada” coerente, é claro.
Essa observação é muito importante porque, sempre que pensa-
mos em estudar os modos verbais de determinada língua, pensamos na
“sintaxe” dos modos. Essa visão a partir do abstrato para o concreto é a
causadora principal da dificuldade do entendimento e do emprego dos
modos em qualquer língua.
Nós entendemos, e a prática na sala de aula nos confirmou, que as
palavras são autônomas, as expressões, quer verbais quer nominais, têm
um significado em si mesmas e por si mesmas e dentro do enunciado são
elos da cadeia e são interdependentes; o que os comanda é a linha se-
mântica do enunciado, que é o que o emissor elaborou ou está elaboran-
do em sua mente e está transmitindo ao receptor da maneira que ele quer
que o receptor a aceite. A interpretação e o entendimento dos modos
empregados depende desse diálogo direto, sem intermediários, entre “lei-
tor > texto”. Entendemos por “texto” o próprio emissor.
É por isso que não teremos um capítulo de “Sintaxe dos Modos”
ou “Sintaxe do Subjuntivo, ou do Optativo” etc. ou da “Sintaxe das Ora-
ções Temporais, Causais, Relativas, Participiais, Infinitivas.
Os inúmeros exemplos que arrolaremos nos levarão a entender os
modos gregos. Mostraremos, por exemplo, que um subjuntivo é eventual,
e em português se traduz pelo presente ou futuro do subjuntivo quer ele
esteja numa oração final, temporal, causal, modal etc.

Mostraremos que o indicativo é o modo da realidade objetiva e subje-


tiva e, por coerência, ele é também o modo da irrealidade. Exemplificaremos
com algumas frases, estabelecendo as correspondências em português.

mur01.p65 26 22/01/01, 11:35


introdução: guia do leitor 27

O grego usa o mesmo modo, indicativo, quer na realidade objetiva


ou subjetiva enunciativa, quer na irrealidade supositiva, hipotética de
presente e de passado, em que usa, respectivamente o imperfeito e aoris-
to indicativos, apenas marcados por “eޔ na condicionante e “n” na
condicionada.
O português emprega o indicativo para a realidade objetiva ou sub-
jetiva enunciativa presente; para a irrealidade presente, usa o imperfeito
do subjuntivo com marcador “se” na condicionante e o condicional sim-
ples sem marcador na condicionada; e, para a irrealidade passada, o por-
tuguês usa o mais-que-perfeito do subjuntivo com o marcador “se” na
condicionante e o condicional composto, sem marcador, na condiciona-
da. Ver exemplos nas páginas 251 e 267.

Diremos também que a denominação subjuntivo/ conjuntivo é


imperfeita, porque sugere que é o modo da subordinação, quando a su-
bordinação é apenas uma parte de seu significado: nas expressões de de-
liberação, exortação, pedido (voto), não há subordinação. Ela só está pre-
sente na suposição da probabilidade, futura, com o se, ou caso, no caso de,
quando na condicionante e subjuntivo presente ou futuro, e geralmente
futuro (indicativo) sem nada na condicionada; nas construções de finali-
dade, ou se usa para que, a fim de que e o subjuntivo presente ou a cons-
trução para com infinitivo.
Insistiremos no sentido da eventualidade do subjuntivo. O subjun-
tivo é o modo do eventual, do provável, do fato futuro não determinado.
É uma espécie de modo da antecipação.
Portanto, a tradução em português será ou pelo subjuntivo pre-
sente ou pelo subjuntivo futuro ou pelo infinitivo precedido de para.
Essa eventualidade, no entanto, não é sentida em português no
uso do quando eventual, isto é, quando exprime o fato repetido como pre-
sente: cada vez que, sempre que. O português usa o indicativo. O grego
não. Usa coerentemente o subjuntivo, isto é, o eventual, porque, na me-
dida em que um fato é sucessivo, repetido, ele não é um fato só, isto é,
não é delimitado, e por isso o uso do indicativo é impróprio.
Esse sentido da eventualidade, fato futuro, explica o uso de desinências
primárias para todo o subjuntivo.

Ao tratarmos do optativo, diremos que é o modo da possibilidade ou


da afirmação atenuada e que em português nós o traduziremos ou pelo

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28 introdução: guia do leitor

imperfeito do subjuntivo ou pelo condicional simples, que são os modos que


exprimem em português a possibilidade e a afirmação atenuada. Diremos
que a denominação imperfeito do subjuntivo é imprópria, porque o optativo
é o modo da possibilidade, do possível, da transmissão da afirmação de
terceiros, do voto negativo, incerto, da imprecação negativa, incerta, ten-
dente à irrealidade.
Esse sentido de possível, de incerteza, aproxima o optativo mais do ir-
real do que do real ou eventual. Isso explica o uso de desinências secundárias
em todo o optativo.

Ao tratarmos do modo imperativo, diremos que é o modo do diálo-


go, que é bipolar, horizontal, “singular” na relação eu/tu e que, por isso
mesmo, mais uma vez, a denominação “imperativo” não corresponde exa-
tamente ao seu significado. Nem sempre, ou quase nunca, o “imperati-
vo” contém uma ordem.
Mostraremos também que os outros imperativos são formações
analógicas e que há dois imperativos: os de 2 as pessoas (tu e vós), que
denominamos imperativo direto e os de 3as pessoas, também analógicos,
que denominamos imperativo indireto, porque a 3ª pessoa não está no eixo
do diálogo e a mensagem é dada indiretamente.

Ao tratarmos do particípio, mostraremos a riqueza do uso do par-


ticípio em grego. Cada aspecto tem três particípios: da voz ativa, média e
passiva: são doze (infectum, aoristo, futuro, perfeito), e cada um com
três formas: masculino, feminino e neutro. São então, ao todo, trinta e
seis particípios. Formalmente são trinta, porque no infectum e perfectum
a voz média e a voz passiva têm a mesma forma
Mostraremos as correspondências em português, que não são cla-
ras por causa da invasão do gerúndio, que ocupou as funções do particí-
pio da voz ativa.
Em grego, o particípio é um verbo-adjetivo; é disso que ele tira seu
nome metox®, participação. Ele tem formas nominais, mas funcionamen-
to e natureza verbal: ele pode ser adjunto adnominal (epíteto), predicativo
(aposto, conjunto), pode ser substantivado, mas não perde sua natureza
verbal e pode ter objeto direto, pode exprimir relações de espaço, como o
verbo de que ele é a expressão nominal.

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introdução: guia do leitor 29

O infinitivo é o último item desta seqüência, mas ele já terá sido


tratado em parte no capítulo do infectum-inacabado, na voz ativa, por-
que, como noção substantiva do verbo, isto é, um substantivo, pode exer-
cer todas as funções de um substantivo, e mostraremos como o infinitivo
grego descarrega todas as funções e todos os casos no artigo, contraria-
mente ao latim que, não tendo artigo, foi obrigado a criar “casos” para o
infinitivo, e o gerúndio representa esses casos; e que, em português, o
gerúndio representa os casos instrumental e locativo (raramente o geni-
tivo-ablativo).
Mas, também no infinitivo, o grego é mais rico do que o latim e o
português: cada aspecto tem três infinitivos: ativo, médio e passivo:
infectum, aoristo, futuro e perfeito. São 12 infinitivos, com seu signifi-
cado próprio. Na verdade são então, ao todo, 12 infinitivos, semantica-
mente, mas morfologicamente, formalmente, são 10, uma vez que no in-
fectum e no perfectum a voz média e a voz passiva têm a mesma forma.

Completaremos a série falando dos adjetivos verbais em -tñw, -


t®, -tñn, que correspondem aos adjetivos de sufixo bilis, e, em latim, e
-vel, em português: “o que pode ser feito”; e -t¡ow, -t¡a, -t¡on, que cor-
respondem aos adjetivos de sufixo -ndus, a, um do gerundivo em latim, e
em português ao sufixo erudito -ndo do gerundivo latino, com o signifi-
cado de “o que deve ser feito”, ambos construídos sobre o tema verbal puro,
isto é, sobre o tema do aoristo.

Depois da flexão nominal e verbal, passaremos a tratar das


“Invariáveis”.
Na verdade elas são a conexão na relação substantivo/verbo; elas
são “circum-stanciais”, periféricas, “peritta۔.
Começaremos pelas preposições e mostraremos que todas elas são
advérbios com significado espacial. Não há nenhuma preposição com signi-
ficado temporal.
Mostraremos também, individualmente, que os casos que as pre-
posições “regem” são decorrentes da relação espacial que elas determi-
nam e que, por “regerem” mais de um caso, não mudam necessariamente
de significado, que permanece o mesmo, concreto, espacial. O que pode
acontecer é elas serem usadas em outro plano, metafórico, figurado, mas,
a relação espacial metafórica sendo a mesma, o caso será o mesmo. Há

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30 introdução: guia do leitor

uma coerência total nessas construções. Mas para demostrá-la foram pre-
cisos inúmeros exemplos que fomos buscar em várias gramáticas.
A seguir abordaremos as conjunções e conetivos em geral, que a
gramática grega denomina “sændesmoi”, “amarrações”.
Mostraremos que o que chamamos de “partículas” são, na base,
conetivos da oralidade, que permaneceram na mente do homem grego.
Por coincidência, nos textos em que a oralidade está mais presente, como
no teatro ou nos diálogos de Platão, há mais desses conetivos do que nos
textos de Aristóteles, por exemplo. Mas eles são mais instrumentais e
marcadores, e por isso é difícil identificar neles um significado próprio,
independente, permanente. Eles são mais conotativos. Os inúmeros exem-
plos mostrarão isso com bastante clareza.
Mas não estudaremos as partículas separadas das conjunções; elas
estarão na mesma lista, por ordem alfabética.
Nas conjunções propriamente ditas, vemos “amarrações” entre fra-
ses, enunciados. Também aí, por meio de inúmeros exemplos, mostrare-
mos que as conjunções não “regem” esse ou aquele modo verbal. Elas
têm um significado próprio e o modo verbal é decorrente de como o enunciado
é passado do emissor para o receptor: se há uma realidade ou irrealidade é o
indicativo; se há uma eventualidade, o modo é o subjuntivo ou futuro; se
há uma possibilidade, ou atenuação da mensagem, o modo é o optativo.
A seguir estudaremos os advérbios propriamente ditos; eles dife-
rem das preposições, antigos advérbios, na medida em que não exigem
uma relação espacial depois deles; são usados de maneira absoluta. Eles
são os “adjetivos do verbo”, isto é, do =°ma, “o que é dito do sujeito”.
Eles são basicamente circunstanciais: modais, instrumentais, tem-
porais e espaciais, em suas várias relações de acusativo, genitivo e locati-
vo, e por isso muitos deles são formas petrificadas desses casos.

É este o roteiro da exposição de nossa teoria sobre a língua grega.


Mas esta teoria quer ser essencialmente prática, porque foi da prá-
tica que ela nasceu, durante anos sucessivos, em que nenhuma aula sobre
um determinado ponto foi igual à anterior ou à posterior. Além disso, a
prática, isto é, o ensino foi a razão e causa deste nosso trabalho.
Por isso, apresentaremos aqui também a parte didática, na qual fo-
ram aplicadas todas estas idéias sobre o funcionamento da língua grega.
Até agora ela foi apresentada nas diversas versões de nossas “apos-
tilas”, na qual era apresentada a teoria e a prática, isto é, as frases que

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introdução: guia do leitor 31

deviam ser traduzidas. Mas a teoria que estava nessas apostilas ou era su-
mária ou estava em processo de elaboração, e por isso nós solicitávamos
aos alunos que usassem a página anterior em branco para anotar nossa
exposição oral que às vezes até contrariava a escrita.
As frases foram reunidas enfocando um ponto determinado da
matéria, que foi dividida em unidades didáticas, ou módulos, na seguinte
ordem:

A/ Flexão dos nomes de tema em vogal e formas do verbo ser. São os


Textos I e II.
Neles estão substantivos, adjetivos e dêiticos em -o e -a/-h nos
diversos casos, menos no acusativo, porque os verbos de ação serão dados
a seguir.14
Mas a “tradução” dessas frases não é um fim em si; ela só tem sen-
tido se o enunciado foi entendido no relacionamento de suas partes. Por
isso deve-se agir da forma seguinte:
• copiar o texto, mas só a frase que vai trabalhar15;
• identificar o sujeito e o verbo, e os outros casos, relacionando estreita-
mente caso e função. Por isso deve-se deixar uma linha em branco e
registrar isso nessa linha;
• só então traduzir, coerentemente com a análise feita.

As palavras estão no vocabulário de mais ou menos 5.000 palavras,


que foi preparado para isso.
Traduzida essa frase, veremos a seguir propostas de versão, ou de
uma frase imitando ou parodiando a que acabamos de traduzir, ou ainda

14 Procuramos registrar apenas frases abonadas, isto é, frases de autores gregos ou da


tradição grega. Frases pensadas e enunciadas em grego. Isto é extremamente im-
portante: o aluno sente que está penetrando num mundo diferente e que esse mundo
o envolve.
15 A transcrição manual é extremamente importante, essencial. Esse primeiro conta-

to concreto com o texto tem um efeito muito importante, não só completando a


alfabetização do estudante, mas familiarizando-o com o texto: a partir daí o texto
grego não será o estranho com quem se bate ou de quem se foge.

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32 introdução: guia do leitor

veremos alguns sintagmas em português, em que veremos as mesmas pala-


vras que acabamos de usar na tradução. Poderá ainda haver uma proposta
para manipular, transformar a frase, quer passando-a para o singular ou
para o plural, ou ainda mudando-a da voz ativa para a passiva e vice-versa.
Esses exercícios complementares, que foram denominados versão
e ginástica nas edições anteriores, têm o objetivo de fazer fixar não só os
casos da flexão nominal e as desinências da flexão verbal, mas sobretudo
fazer fixar um vocabulário básico.
Na versão teremos em português todas ou quase todas as frases
que foram traduzidas do grego, mas em forma de glosa: muda-se o verbo,
mudam-se as relações entre os nomes, muda-se o número. A versão visa
a que se vejam as relações da língua a partir do lado do leitor. Na frase
expressa em grego, ele tem os casos para os quais precisa encontrar a fun-
ção; na frase expressa em português, ele deve identificar a função para lhe
aplicar o caso correspondente.
A versão tem também outra finalidade: fazer a revisão da frase gre-
ga que acabou de ser traduzida, para se identificar nela a glosa em portu-
guês. Isso propicia ver pelo menos duas vezes as palavras empregadas, fi-
xar o significado delas e assim guardá-las mais facilmente na memória.

A ginástica, isto é, exercício com os sintagmas, é apresentada em


duas partes:
• a primeira compõe-se basicamente de sintagmas das relações nominais
que se encontram nas frases traduzidas. De novo, somos levados a reler
as frases, identificar as palavras e dar-lhes o caso compatível com a fun-
ção que ele identifica no sintagma.
O objetivo dessa ginástica é familiarizar o leitor com o sistema de
casos da língua grega e ajudá-lo a identificar sempre a relação função-
caso / caso- função;
• a segunda parte consiste em registrar em grego algumas das frases tra-
duzidas, pedindo ao leitor passá-las para o plural, se estão no singular,
e vice-versa; passar para a voz passiva e vice-versa; passar as formas ver-
bais do presente para o imperfeito ou futuro etc.
O objetivo dessa ginástica é obrigar o leitor a voltar uma terceira
vez para as frases traduzidas, propiciando-lhe novo contato com as pa-
lavras e as formas, ajudando-o a adquirir vocabulário e firmeza e cons-
ciência no uso das formas nominais.

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introdução: guia do leitor 33

B/ Todas as formas do infectum dos verbos são introduzidas nos Tex-


tos Gregos II, III e IV, sempre com nomes de temas em vogal.
O modelo de tradução é o mesmo, mas, além do acusativo, entram
aí todos os verbos, tanto em -v quanto em -mi. Aliás, mostramos que a
divisão tradicional em duas categorias de verbos, com desinências di-
ferentes não é verdadeira. A única desinência diferente é a da 1ª pessoa
da voz ativa, e isso decorre de fator fonético: os temas em consoante e
semivogal têm a desinência -v, e os de temas em vogal têm a desinência
-mi.
Nesses dois grupos de textos usamos todas as formas do infectum
das três vozes e de todos os modos, menos o particípio ativo, por ser um
nome de tema em consoante do qual ainda não se viu a flexão.
Segue-se o mesmo esquema e traduzem-se as formas verbais de-
pois de identificá-las e analisá-las; mas a tradução parte do texto, isto é, do
significado da forma dentro do enunciado.
Cada um desses textos vem seguido de uma versão e de ginástica
com os mesmos objetivos dos textos I e II.

C/ As formas do imperfeito de todos os verbos estão nos Textos III e


IV que introduzimos evidentemente depois de explicarmos a construção
do passado em grego.
Novamente, passamos pela tradução das frases e depois pela versão
e ginástica.
Nesse ponto o leitor se surpreende e pergunta a razão por que o
grego não tem imperfeito do subjuntivo.
Com o texto IV, termina o Módulo I do curso.
Em geral ele é dado em um semestre.

D/ A flexão dos nomes de temas em consoante e semivogal dá início ao


Módulo II.
Damos o quadro geral das desinências e solicitamos ao leitores o
trabalho de acoplar essas desinências aos diversos temas.
A primeira dificuldade é encontrar o tema: na maior parte dos
nomes, o registro no genitivo singular ajuda a identificá-lo; mas nos te-
mas em -w, -W, -j não.
Os Textos Gregos V e VI contêm essencialmente nomes de temas
em consoante e semivogal e as formas do infectum dos verbos (presente e
imperfeito), em todos os modos.

mur01.p65 33 22/01/01, 11:36


34 introdução: guia do leitor

Não introduzimos aí o futuro, como fazem as gramáticas, porque o


futuro é construído sobre o tema do aoristo.
O “ritual” com os Textos Gregos V e VI é o mesmo dos outros: o
aluno faz a tradução, depois a versão e ginástica. Os objetivos também
são os mesmos.

E/ O aoristo vem a seguir nos textos que denominamos Exercícios de


aoristo e futuro, que seriam os Textos Gregos VII e VIII.
O “ritual” é o mesmo, mas, além da tradução, pede-se que se iden-
tifique o tema verbal, para que se acostume com a idéia de que o verda-
deiro tema verbal é o aoristo; a seguir pede-se que se construa o infectum
a partir do aoristo. Percebe-se então com mais clareza que há uma rela-
ção estreita de significante e significado nas formas verbais. Usa-se para
isso todo o quadro denominado Formação dos temas do infectum.
As diversas formas de aoristo que estão nessa série de frases levam
o estudioso a identificar e se familiarizar com todos os aoristos e futuros
nas três vozes e em todos os modos. Nunca a partir de paradigmas, mas a
partir das frases, que apresentam as formas como elementos semântica e
sintaticamente autônomos.
Acontece então que, por iniciativa própria, o estudioso apresenta
diversas construções do verbo grego, a partir do tema do aoristo!
Isto mostra que, afinal, ele está entendendo a estrutura da flexão
verbal!

F/ O perfeito. Finalmente, temos os Exercícios sobre o tema do perfeito.


Inicialmente houve uma introdução, em que ficou demonstrado
que o perfeito, por ser um resultado presente de um ato passado, é um
estado presente e que, por conseguinte, o perfeito médio-intransitivo
teria sido o mais antigo, do qual derivou o passivo e finalmente cons-
truiu-se o ativo.
São os Textos Gregos IX e X.
O estudioso começa por transcrever e traduzir as frases, tendo em
vista sobretudo a identificação das formas verbais no perfeito. Ele en-
contra as várias formas do perfeito, que estão explicadas no manual, e vai
tentando traduzir uma a uma essas formas para o português.

mur01.p65 34 22/01/01, 11:36


introdução: guia do leitor 35

Depois de cada frase vêm a Versão e a Ginástica. Mas, já, junto


com o perfeito, estará enfrentando textos de autores, sobretudo de Platão,
cuja tradução e leitura são instigantes e gratificantes.
É esse o projeto! Foi esse o projeto!

Resta ver agora se na teoria ele se justificou. A prática, ao que pa-


rece, o aprovou!

mur01.p65 35 22/01/01, 11:36


36 o alfabeto grego

O alfabeto grego
Signo grego som Denominação Exemplos fonéticos
A- a16 a lfa álpha altar, fada
B-b b b°ta béta belo, bolo
G-g gue g‹mma gáma gato, guerra
D-d d d¡lta délta dado, dedo
E-e e ¦ cilñn e psilón17 mesa, medo
Z-z dz z°ta dzéta Zeus (Dzeus/Zdeus)
H-h é ·ta éta atleta, tese
Y-y th y°ta théta th (ingl. thing)
I -i i ÞÇta ióta nada
K-k k k‹ppa kápa Kant, Kent
L-l l l‹mbda lámbda lado, lido
M-m m mè mû mês, mal
N-n n nè nû nada
J, j ks jÝ ksî axioma
O-o o ö mikrñn o mikrón tolo
P-p p pÝ pî pedra
R-r r /rh =ñ rhô rei, rato (vibrante)
S - s, w18 s (ç) sÝgma sîgma sal, ser (sempre ç)
T-t t tau tau tarde
U-u y ë cilñn y psilon hypnose (u francês)
F-f ph fÝ phî fuga
X-x kh xÝ khî kháris
C-c ps cÝ psî psicose
V-v ó Î m¡ga o méga hora

16 A fonte grega utilizada neste livro é a Athenian.


17 Nós não seguimos a denominação tradicional dos grafemas gregos e, o, v, respec-
tivamente êpsilon, ômikron e ômega; preferimos denominá-los pelo que eles são:
e psilón, e simples, desguarnecido, o mikrón, o pequeno, curto, breve e o méga, o
grande, longo.
18 O s- usa-se no início e no meio das palavras, e -w no final.

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o alfabeto grego 37

Exercício de leitura e transcrição:


Leia com auxílio da transcrição em caracteres latinos as palavras abai-
xo, todas existentes em português, e a seguir transcreva-as em caracteres gre-
gos; os acentos na transcrição em português são para auxiliar a leitura: o acento
circunflexo não indica vogal fechada, que não existe em grego.19

†Omhrow Hómeros filanyrvp¤a


filanyrvpÛa philanthropía
tr‹peza trápeza drçma
drma drâma
sbestow ásbestos biograf¤a
biografÛa biographía
biblÛon biblíon grafÆ
graf® graphé
gumn‹sion gymnásion g°nesiw
g¡nesiw génesis
dhmokratÛa demokratía diãgnvsiw
di‹gnvsiw diágnosis
y°atron
y¡atron théatron labÊrinyow
labærinyow labyrinthos
ˆciw
öciw ópsis metaforã
metafor‹ metaphorá
éj¤vma
ŽjÛvma aksíoma z“on
zÒon zôion/zôon
b¤ow
bÛow bíos Ïbriw
ìbriw hybris20
=inok°rvw
=inok¡rvw rhinokéros =eËma
=eèma rheûma
”dÆ
Äd® oidé/odé cuxÆ
cux® psykhé
xaraktÆr
xarakt®r kharaktér »keanÒw
Èkeanñw okeanós
naËw
naèw naûs fainÒmenon
fainñmenon phainómenon
eÈgenÆw
eégen®w eugenés ploËtow
ploètow ploûtos
êggelow
ggelow ángelos êgkura
gkura ánkyra
lãrugj
l‹rugj lárynks Àra
Ëra hóra
kr¤siw
krÛsiw krísis F¤lippow
FÛlippow Phílippos
˜moiow
÷moiow hómoios da¤mvn
daÛmvn daímon
Ïmnow
ìmnow hymnos =uymÒw
=uymñw rhythmós
_ppopÒtamow
ßppopñtamow hippopótamos m›mow
mÝmow mîmos
stoikÒw
stoikñw stoikós énvmal¤a
ŽnvmalÛa anomalía
diãlogow
di‹logow diálogos _ppÒdromow
ßppñdromow hippódromos
mousikÆ
mousik® mousiké klinikÒw
klinikñw klinikós
Spãrth
Sp‹rth Spárte sf›gj
sfÝgj sphînks
Ka›sar
KaÝsar Kaîsar ékrÒpoliw
Žkrñpoliw akrópolis

19 Há um equívoco quando se fala de vogais fachadas em grego: v / h são vogais


longas, articuladas, abertas; mas e /o são breves, simples, soltas não articuladas, e
não são necessariamente fechadas.
20 O -y- não comporta acento nas línguas modernas.

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38 o alfabeto grego

fvsfÒrow
fvsfñrow phosphóros polÊglvttow
polæglvttow polyglottos
§pitãfiow
¤pit‹fiow epitáphios §p¤gramma
¤pÛgramma epígramma
=eumatismÒw
=eumatismñw rheumatismós a_morrag¤a
aßmorragÛa haimorragía
profulatikÒw
profulatikñw prophylatikós YeÒdvrow
Yeñdvrow Theódoros
d°rma
d¡rma dérma Ípote¤nousa
êpoteÛnousa hypoteínousa
kubernetikÆ
kubernetik® kybernetiké ÉAy_nai
ƒAy°nai Athénai
lÒgow
lñgow lógos nÒmow
nñmow nómos
kan_n
kanÅn kanón k¤nhma
kÛnhma kínema
k¤nhsiw
kÛnhsiw kínesis kvmikÒw
kvmikñw komikós
diskobÒlow
diskobñlow diskobólos kunikÒw
kunikñw kynikós
gevrgikÒw
gevrgikñw georgikós c¤ttakow
cÛttakow psíttakos
parãdojow
par‹dojow parádoksos duspec¤a
duspecÛa dyspepsía
kÊklvc
kæklvc kyklops fãntasma
f‹ntasma phántasma
paxÊdermow
paxædermow pakhydermos k°ntaurow
k¡ntaurow kéntauros
sËrigj
sèrigj syrinks fÒrmigj
fñrmigj phórminks
sÊgxronow
sægxronow synkhronos lÆyh
l®yh léthe
kay°dra
kay¡dra kathédra xrusostÒmow
xrusostñmow krysostómos
boukolikÒw
boukolikñw boukolikós aÂma
aåma haîma
±x_
±xÅ ekhó ˆnoma
önoma ónoma
·ppow
áppow híppos ¥liow
´liow hélios
¹m_numow
õmÅnumow homónymos xrusãnyemon
xrus‹nyemon khrysánthemon
mayhmatikÒw
mayhmatikñw mathematikós t°tanow
t¡tanow tétanos
tuf_n
tufÅn typhón èrmon¤a
rmonÛa harmonía
p°ntaylon
p¡ntaylon péntathlon metevrolog¤a
metevrologÛa meteorología
mËyow
mèyow mythos yumÒw
yumñw thymós
éylhtÆw
Žylht®w athletés lurikÒw
lurikñw lyrikós
gevmetr¤a
gevmetrÛa geometría ériymhtikÆ
Žriymhtik® arithmetiké
politikÒw
politikñw politikós pÒliw
pñliw pólis
biblioyÆkh
biblioy®kh bibliothéke ékrobãthw
Žkrob‹thw akrobátes
êtomow
tomow átomos éster¤skow
ŽsterÛskow asterískos
Ùbel¤skow
ôbelÛskow obelískos éstronom¤a
ŽstronomÛa astronomía
épolog¤a
ŽpologÛa apología tragƒd¤a
tragÄdÛa tragoidía /tragodía
kvmƒd¤a
kvmÄdÛa komoidía/ _larÒw
ßlarñw hilarós
komodía
despñthw
despÒthw despótes yÅraj
y_raj thóraks
kat‹logow
katãlogow katálogos dÛskow
d¤skow dískos
fil‹nyrvpow
filãnyrvpow philánthropos ceudÅnumow
ceud_numow pseudónymos
must®rion
mustÆrion mysteríon kataklusmñw
kataklusmÒw kataklysmós
diãlektow
di‹lektow diálektos aÈtÒxyvn
aétñxyvn autókhthon
…roskÒpow
Éroskñpow horoskópos strathgÒw
strathgñw strategós
aÈsthrÒw
aésthrñw austerós ÍpokritÆw
êpokrit®w hypokrités

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o alfabeto grego 39

lejikñn
lejikÒn leksikón b‹rbarow
bãrbarow bárbaros
tojikñw
tojikÒw toksikós yrñnow
yrÒnow thrónos
seismñw
seismÒw seismós prñblhma
prÒblhma próblema
fr‹siw
frãsiw phrásis ôbolñw
ÙbolÒw obolós
dñgma
dÒgma dógma Perikl°w
Perikl_w Periklés
Pl‹tvn
Plãtvn Pláton Svkr‹thw
Svkrãthw Sokrátes
Dhmosy¡nhw
Dhmosy°nhw Demosthénes Al¡jandrow
Al°jandrow Aléksandros
Diog¡nhw
Diog°nhw Diogénes EéklÛdhw
EÈkl¤dhw Euklídes
Puyagñraw
PuyagÒraw Pythagóras ƒArxim®dhw
ÉArximÆdhw Arkhimédes
LevnÛdaw
Levn¤daw Leonídas ƒAxilleæw
ÉAxilleÊw Akhilleús
PrÛamow
Pr¤amow Príamos ƒAristot¡lhw
ÉAristot°lhw Aristotéles
Milti‹dhw
Miltiãdhw Miltiádes ƒOdusseæw
ÉOdusseÊw Odysseús
ƒAgam¡mnvn
ÉAgam°mnvn Agamêmnon Sofokl°w
Sofokl_w Sophoklés
Jenof_n
XenofÅn Ksenophón ƒAristof‹nhw
ÉAristofãnhw Aristophánes
Zeèw
ZeËw Zeûs PoseidÇn
Poseid«n Poseidón
„Erm°w
ÑErm_w Hermés …Arhw
ÖArhw Áres
ƒApñllvn
ÉApÒllvn Apóllon †Hfaistow
ÜHfaistow Héfaistos
†Hra
ÜHra Héra Dhm®thr
DhmÆthr Deméter
ƒEstÛa
ÉEst¤a Estía ƒAfrodÛth
ÉAfrod¤th Aphrodíte
…Artemiw
ÖArtemiw Ártemis ƒAy®na
ÉAyÆna Athéna
KliÅ
Kli_ Klió Melpom¡nh
Melpom°nh Melpoméne
OéranÛa
OÈran¤a Ouranía Eét¡rph
EÈt°rph Eutérpe
Tercixñrh
TercixÒrh Terpsikhóre KalliÅph
Kalli_ph Kalliópe
YalÛa
Yal¤a Thalía ƒEratÅ
ÉErat_ Erató
PolumnÛa
Polumn¤a Polymnía

ZEUS ZEUS POSEIDVN


POSEIDVN POSEIDON
ERMHS HERMES ARHS
ARHS ARES
APOLLVN APOLLON HFAISTOS
HFAISTOS HEPHAISTOS
HRA HERA DHMHTHR
DHMHTHR DEMETER
AFRODITH APHRODITE ARTEMIS
ARTEMIS ARTEMIS
AYHNA ATHENA KLIV
KLIV KLIO
MELPOMENH MELPOMENE OURANIA
OURANIA OURANIA
EUTERPH EUTERPE TERCIXORH TERPSIKHORE
KALLIVPH KALLIOPE YALIA
YALIA THALIA
ERATV
ERATV ERATO POLUMNIA
POLUMNIA POLYMNIA

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40 o alfabeto grego

Normas de transliteração
Para comodidade do aluno, transcrevemos a seguir as Normas de
transliteração de palavras do grego antigo para o alfabeto latino acor-
dadas pela Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos, com algumas dis-
cordâncias de nossa parte, expressas nas Observações.
Signo grego Denominação Signo latino Exemplos
A, a lfa - alfa A, a Žg‹ph - agápe
Ai, & ióta suscrito ai ›dv/idv - ádo / áido
B, b b°ta - beta B, b b‹rbarow - bárbaros
G, g g‹mma - gama G, g gevrgñw - georgós
gg gama nasal ng ggelow - ángelos
gk nk ögkow - ónkos
gj nks s‹lpigj - sálpinks
gx nkh gxein - ánkhein
D, d d¡lta - delta D, d dÛkh - díke
E, e ¦ cilñn - e psilón E, e eàdvlon - êidolon
Z, z z°ta - dzéta/ zéta Z, z z®thsiw - zétesis
H, h ·ta - éta E, e ´liow - hélios
Hi, ú ióta suscrito ei cux» / cux°i - psykhé / psykhéi
Y, y y°ta - théta Th, th yeñw - theós
I, i ÞÇta - ióta I, i Þd¡a - idéa
K, k k‹ppa - kápa k kakñn - kakón
L, l l‹mbda - lámbda L, l l¡vn - léon
M, m mè - mü / my M, m marturÛa - martyría
N, n nè - nü / ny N, n nñmow - nómos
J, j jÝ - ksi Ks, Ks julñn - ksylón
O, o ö mikrñn - o mikrón O, o ôlÛgow - olígos
P, p pÝ - pi P, p potamñw - potamós
„R-, =- =Ç - rhô (inicial) Rh, rh =uymñw - rhythmós
-r- rÇ - rô (interno) R, r Žriymñw - arithmós
S, -s-, -w sÝgma - sîgma S, s SfÝgj - Sphînks
T, t taæ - tau T, t taèrow - taûros

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o alfabeto grego 41

U, u ï cilñn - y psilón Ü, ü læra - lyra / lüra


au au aég® - augé
eu eu eéagg¡lion - euangélion
hu eu héj‹mhn - euksámen
ou ou ploètow - ploûtos
ui ui ußñw - huiós
F, f fÝ - phi Ph, ph f‹rmakon - phármakon
X, x xÝ - khi Kh, kh x‹riw - kháris
C, c cÝ - psi Ps, ps cux® - psykhé
V, v v m°ga - o mega O, o Èmñw - omós
Vi, Ä ióta suscrito oi tragÄdÛa - tragoidía/
tragvidÛa - tragoidía
ƒ espírito brando -.- ôrg® - orgé
„ espírito rude h ßstorÛa - historía
Mantêm-se os acentos agudo, grave e circunflexo na forma e nos
locais em que se encontram em grego, mas, respeitando-se a acentuação
diacrítica do português.
Por exemplo, os nomes gregos z°ta, ·ta, y°ta levam acento
circunflexo em grego não por terem vogais fechadas, mas por serem lon-
gas (abertas). Acentuá-las com circumflexo em português induziria o lei-
tor de língua portuguesa a pronunciá-las fechadas. Seria um erro. Por
isso empregamos o acento agudo. Não é o caso de S, sÝgma, sîgma, que
poderá receber o circumflexo no -i-, e de ploètow, ploûtos, sem trans-
tornos para a leitura.
Exemplo:
tÒ tñjÄ önoma bÛow, ¦rgon d¢ y‹natow
tôi tóksoi ónoma bíos érgon dè thánatos
Ao arco o nome é vida, a obra, morte (Heráclito)
Observações:
l. O leitor deve ter notado que, na transcrição para caracteres latinos, há, no
português e no latim, um deslocamento da vogal tônica:
a) nas palavras gregas oxítonas de mais de duas sílabas, como, metafor‹
a transcrição para o português se faz para “metáfora”, proparoxítona;
b) nas palavras gregas oxítonas de duas sílabas, como “Ód®”, a transcri-
ção para o português se faz para “ode”, paroxítona;

mur02.p65 41 22/01/01, 11:36


42 o alfabeto grego

c) nas palavras gregas proparoxítonas de três sílabas com a penúltima lon-


ga, ŽjÛvma, a transcrição para o português se faz para “axioma”, pa-
roxítona e as com a penúltima breve metafor‹ se faz para proparo-
xítona. A explicação está na prosódia latina, intermediária entre o gre-
go e o português, porque:
• O latim não tem acentos.
• O latim não tem oxítonas; por isso desloca a tônica das oxítonas
gregas de três sílabas para proparoxítonas:
é o caso de metafor‹ > metáfora;
e das oxítonas gregas de duas sílabas para paroxítonas:
é o caso de: Ód® > ode;
• Nas palavras latinas de mais de duas sílabas, a posição da tônica é
determinada pela quantidade da penúltima sílaba:
se a penúltima é longa, a palavra é paroxítona,
ŽjÛvma (penúltima longa) > axioma;
se é breve, a palavra é proparoxítona:
Žkrñpoliw (penúltima breve) > acrópole.

2. Particularidades da sonoridade e representação gráfica das letras gregas:


a) O som do G, g, gáma, se produz no pálato, isto é o céu, ou véu da
boca; por isso ora é denominado gutural, ora palatal ora velar. Os lingüistas
preferem denominá-lo “velar”; nós o denominaremos palatal ou velar. A
dificuldade está em lê-lo corretamente na transcrição de g¡now,
gÛgnomai, isto é, seguido de -e- e -i-. Genos soa “guenos” e gígnomai soa
“guígnomai”.
b) A seqüência de um gama velar e uma outra consoante velar, sem vogal
intermediária, leva necessariamente a primeira velar a sair pelas fossas
nasais. Daí a existência do “g” nasal.
c) A transcrição do J, j , ksi, deve ser exatamente k + s, que é seu verda-
deiro som: a transcrição por “x”, dadas as várias pronúncias do x em por-
tuguês, leva a pronúncias equivocadas.
d) Ultimamente os editores dos textos gregos preferem o iota adscrito, e
por isso é pronunciado; os textos mais antigos, antes dos anos 50, trazem o
iota suscrito, não pronunciado. Pura convenção.
e) É preferível a transcrição do u em “y” e não em “u”, porque este y cha-
mado “y grego” evoluiu para “i” em grego.
f) O ditongo "ou é apenas formal; não se lê como ditongo, o que é muito
incômodo; lê-se como um “u” longo (-ou- francês).

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o alfabeto
alguns dados
grego
de fonética aplicada 43

Alguns dados
de fonética aplicada
Considerações gerais

No curso deste trabalho, ao tomar contato com as flexões nominal


e verbal, o leitor verá repetidas vezes referências a alterações fonéticas
que as formas nominais e verbais sofrerão.
Verá também que essas alterações ou acidentes fonéticos serão apre-
sentados como normais, como se o autor supusesse que o leitor conhe-
cesse fonética grega.
Esse comportamento pode ser explicado pela experiência que o
autor adquiriu na sala de aula. Ao apresentar o sistema das “declinações”
e “conjugações” da língua grega, o autor constatou que estaria repetindo
as lições multisseculares de latim e grego, em que se apresentam os es-
quemas numa certa ordem e o aluno decora um a um os paradigmas (de-
clinações e conjugações) de flexão nominal e verbal, independentes um
do outro. E, ao notar que há “quebras” na sucessão das desinências, a
gramática e o professor afirmam que é uma regra da língua e que se deve
aprender assim. Os alunos mais curiosos e teimosos iam procurar o por-
quê, isto é, as explicações, nos tratados de fonética histórica ou de mor-
fologia histórica, que são recentes.
Mas, ao estudar durante anos a fio a língua grega e também du-
rante anos a ensinar (o que é a mesma coisa que aprender), tentamos nos
colocar do outro lado da sala, isto é, do ponto de vista do aluno, e perce-
bemos que devíamos explicar-lhe que uma língua é um conjunto de si-
nais que têm a finalidade de comunicar, que uma língua é um idioma,
isto é, a identificação cultural de um povo e que, por isso mesmo, ela é
um todo sólido, concreto, orgânico, lógico, coerente, que o falante ad-
quire, conserva e vigia, porque é o elemento de sua identificação dentro
do grupo, e que qualquer alteração, qualquer atentado que ela sofre, ime-
diatamente é sentido e expulso como um elemento perturbador.
Nós sentimos isso na língua grega, que é a língua de uma civiliza-
ção extraordinária, toda ela construída na oralidade. Toda a tradição cul-

mur02.p65 43 22/01/01, 11:36


44 alguns dados de fonética aplicada

tural grega foi transmitida oralmente, desde a tradição oral anterior aos
poemas homéricos, os próprios poemas homéricos, as obras de Hesíodo,
a introdução do alfabeto (séc. VIII e VII a.C.) e os líricos, para não ultra-
passarmos o século VI a.C. Mas, mesmo depois da introdução do alfabe-
to, os meios de transmissão da palavra escrita eram extremamente raros e
caros. A oralidade e a memória eram as grandes “armas” para a transmis-
são e conservação do conhecimento.
É o que vemos na língua grega: uma língua só, com variantes lo-
cais, mas que todos os gregos entendiam, durante os Jogos Olímpicos,
por exemplo. É essa língua que o menino ateniense vai aprender ao de-
corar passagens de Homero, Hesíodo e dos líricos na casa do mestre,
segundo diz Protágoras (Platão, Protágoras, 325c6-326c6). E quando, de-
pois de saber de cor esses poemas, aprender a cantá-los ao som da lira ou
da cítara, o menino vai para o mestre de ginástica, ele não é um menino
só ateniense, circunscrito ao ambiente familiar, ele é um menino grego.
E é esse o sentimento que o acompanha a vida toda.
Essa transformação, essa inserção do menino, do efebo, e depois
do adulto, na nação grega, foi feita pela língua grega.

Pois bem, acreditando nessa coerência lingüística, nós começamos


a passar aos alunos uma nova visão da língua grega.
Constatamos que o sistema de flexão da língua grega é simples,
orgânico e lógico.
A flexão (nominal ou verbal) se constrói sobre uma parte fixa, que
vamos chamar de tema, e outra parte variável, que vamos chamar de
desinências21.
Nós não vamos usar as expressões “declinação” nem “conjugação”,
porque não vamos adotar a idéia de que existe um caso “reto” (que seria o
nominativo) e outros oblíquos.
Não há um caso reto, e por isso não há casos oblíquos.
Os nomes se compõem de duas partes: de um tema, que é a sede
do significado, em que o nome está em estado virtual, isto é, sem função,

21 Para Aristóteles, todas as "quebras" no final das palavras são ptÅseiw, que os
gramáticos latinos traduziram por "casus". Mas a tradição da gramática ocidental
reservou a palavra "caso" para a flexão nominal, com certa ampliação do significado
no sistema das "declinações".

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alguns dados de fonética aplicada 45

até que receba uma ptÇsiw, isto é, um “casus”, uma desinência, que lhe
dá essa função dentro do enunciado.
A flexão dos nomes é simples: consiste na identificação desse tema
e na aplicação das desinências que correspondam à função que o nome
exercerá no enunciado. Veremos isso na Flexão nominal.
A flexão verbal segue o mesmo modelo: haverá um tema, sede do
significado virtual, e o sistema de desinências (são poucas) que darão ao
tema a pessoa, a voz (sujeito agente ou paciente), o número (se é singu-
lar, dual ou plural) e o modo. Veremos isso na Flexão verbal.
Tanto a flexão nominal quanto a flexão verbal são absolutamente
regulares, normais. Bastaria, então, conhecer as ptÅseiw/casus/desi-
nências nominais e verbais (que são muito poucas) e aplicá-las aos temas
nominais ou verbais.

Há, contudo, um elemento complicador: a transformação fonética


que a língua grega sofreu no correr dos séculos. Não vamos falar aqui de
sua derivação de um tronco indo-europeu e suas opções fonéticas; vamos
falar nas modificações internas da língua grega e sobretudo dos proble-
mas fonéticos que surgiram na aplicação dessas ptÅseiw/casus/desinên-
cias que são vocálicas, semivocálicas ou consonânticas, a temas também
vocálicos, semivocálicos e consonânticos.
O encontro, por exemplo, de um tema vocálico com uma desinên-
cia vocálica recebe tratamentos diversos segundo os dialetos. O jônico, o
dórico e o eólico, por exemplo, admitem hiatos; o ático, no entanto, opta
pela contração.
Também os encontros entre temas consonânticos com desinências
consonânticas apresentam problemas: ou as consoantes se acomodam,
assimilam, dissimilam, ou sofrem síncope dependendo das condições, ou
vão buscar uma vogal para ajudar a pronunciar os encontros consonânticos
difíceis. Essa vogal se chama vogal de ligação ou vogal de apoio.
Mas precisamos ter em mente que o que preside às modificações
em todas as línguas, e a língua grega não é exceção, são dois princípios,
contraditórios mas harmônicos: de um lado o princípio da facilidade, que
poderíamos chamar de praticidade, acomodação ou mesmo preguiça, que
os filólogos acordaram em denominar lei do menor esforço e, de outro
lado, o significado da forma, a semântica, isto é, o fundamento do exer-
cício da língua, que é a comunicação.

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46 alguns dados de fonética aplicada

Todo e qualquer ser humano, que usa da fala, quer comunicar al-
guma coisa, e da maneira mais clara e prática possível. Esse princípio é
ainda mais fundamental na transmissão oral: a relação entre o emissor e
receptor da mensagem é momentânea, fugaz; então a maior brevidade e
clareza são indispensáveis. É evidente que o código dos dois (emissor/
receptor) deve ser o mesmo, e bem conhecido. Vemos, então, que clareza
(significado) e praticidade (lei do menor esforço) se vigiam mutuamente.
As transformações e simplificações só se admitem quando não des-
caracterizam as formas e a mensagem. Teremos ocasião de repetir isso inú-
meras vezes no curso da apresentação das flexões. Mas esses comentá-
rios, repetidos, exageradamente, propositadamente repetidos, estão
dispersos.

Vamos agora agrupá-los num espaço apropriado, para que o leitor


tenha sempre onde buscar uma explicação, uma referência.
Finalmente, nós não nos incomodamos em usar uma terminologia
técnica ortodoxa. Não tivemos a intenção de fazer tratado de fonética ou
fonologia. Respeitamos a nomenclatura tradicional na medida em que
ela é significante, mas usamos do vocabulário do cotidiano para mostrar
que essas modificações fonéticas são absolutamente normais, fisiológi-
cas, concretas. Elas acontecem no aparelho fonador, isto é, na boca, la-
ringe, fossas nasais, pulmões etc. A experiência na sala de aula nos mos-
trou que os alunos não só aceitam essas explicações, mas não querem
outras.
Por isso vamos, neste capítulo, apresentar foneticamente a língua
grega.
Vamos, a seguir, estudar todos os elementos (stoix¡a) do alfabe-
to grego, primeiro individualmente quanto à pronúncia e depois nas suas
combinações entre si, nos seus diversos encontros: vogal com vogal; con-
soante com vogal; soante com vogal, soante com soante, consoante com
consoante.
Esses encontros às vezes apresentam certas dificuldades que as gra-
máticas tentam resolver enquandrando-as nas “leis fonéticas” que apre-
sentam, mas não comentam.
Faremos algo parecido, mas insistiremos, como estamos fazendo
em todo este trabalho, em não abusar do vocabulário “técnico”, preferin-
do o uso de expressões do cotidiano, e procuraremos mostrar sempre que

mur02.p65 46 22/01/01, 11:36


alguns
as vogais
dados de fonética aplicada 47

esses fenômenos são naturais; acontecem e são produzidos na boca, que


chamamos aparelho fonador, acima mencionado.

É preciso ter em conta que a língua grega foi transmitida por via
oral. Não havia outro registro. A escrita entrou tardiamente, quando já
havia uma larga tradição cultural e literária.
Então, essas modificações fonéticas que constatamos foram aceitas
e transmitidas “porque” ou “quando” não causavam dano à mensagem,
isto é, ao conteúdo da mensagem, e sobretudo não causavam dano à in-
tegridade da língua grega, que era o fator de unificação daquele povo.

As vogais
As vogais são modificações do som glotal, que é produzido pelas
cordas vocais superiores ou inferiores, com o sopro mais ou menos forte
que vem dos pulmões.
Essas cordas vocais, obedecendo à vontade, ora se aproximam, ora
se afastam; se se aproximam, comprimem o ar e produzem um som que
se pode chamar de som glotal; se se afastam, o ar sai livre sem ser modi-
ficado e não produz som. A esse som glotal, produzido pelas cordas vo-
cais, chamamos vogais. Como diz Aristóteles (Poética, 1456b): ¤sti tò
fvn°en m¢n neu prosbol°w ¦xon fvn¯n Žkoust®n... “a vogal é
o que tem um som audível sem aplicação” (sem articulação, isto é, sem
aplicação da língua ou dos lábios).
Conforme é a abertura ou o fechamento do aparelho fonador (boca),
no sentido vertical ou horizontal, é produzido esse ou aquele timbre da
vogal.
Os timbres extremos das vogais gregas são: a, da abertura máxima
e u, i, mínima, próxima à glote. O -i- é a vogal mais fraca; é a última das
vogais. Da posição máxima do a, posição anterior, da frente, até a míni-
ma, posterior de u, i, há uma progressão de fechamento das vogais: as
variantes do som o velares, redondas, e as variantes do som e glotais late-
rais (palatais).
Além de diferença de timbre, o grego reconhecia uma diferença de
duração nas vogais: uma vogal longa tinha a duração de duas breves.

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48 as vogais

Essa duração de tempo era também sentida como um desdobra-


mento do tom: uma elevação da voz na primeira metade da vogal (ársis) e
uma posição (thésis). Nós, que falamos as línguas ocidentais, não temos
mais ouvido para sentir essas mudanças de tonalidade, e por isso mesmo
somos incapazes de produzi-las.
Os timbres e e o têm grafias diferentes para longa e breve: e/h;
o/v; os outros a, u, i, não; os gramáticos as chamam de dÛxrona, “de
dois tempos”, ou ŽmfÛbola, “ambíguas”, e para serem reconhecidas gra-
ficamente eram marcadas pelos sinais: m‹kron longo -, e br‹xia, bre-
ve ­, curto.
Os fonemas vocálicos em grego são 12:
a /a, e / e/ h, o /o /v, i / i, u /u.22
Além disso eles podem ser aspirados 23 ou não.
A marcação da aspiração das vogais iniciais das palavras teve altos e
baixos. Com a adoção do alfabeto jônico pelo ático empregava-se a letra
H para indicar o pneèma dasæ, spiritus asper, espírito rude, “sopro for-
te”, para marcar a aspiração. Posteriormente os gramáticos alexandrinos
passaram a usar a metade esquerda do H, que foi se simplificando até ser
representado por um sinal que se assemelha ao nosso apóstrofo, que usa-
mos para marcar elisão, mas em sentido esquerda/direita. E por uma es-
pécie de “isonomia” passaram a marcar também, com a outra metade do
H, a ausência de aspiração, ou pneèma cilñn, spiritus lenis, espírito leve,
suave, doce.
A representação gráfica das vogais foi tirada do alfabeto fenício, do
nome de alguns sons de consoante, ausentes no grego: aleph > A, het >
H, yod > I, ayin > O, waw > Y. No início, havia só uma letra para o som
e. Foi em Mileto que começou o uso do H para o e longo, aberto, e
depois, por analogia, criou-se V para o longo, aberto.

22 Devemos considerar os timbres do a longo e breve; do e breve e longo ei; do o


breve e longo ou; do i breve e longo e do u breve e longo com diferenças de
timbre imperceptíveis para nós.
23 O termo aspirado se presta a confusão, porque o ato de aspirar é chupar o ar. O

termo gramatical vem do latim ad spiratum, isto é soprado para (em cima) de spiritus,
sopro. Então teremos vogais e consoantes aspiradas, isto é, sopradas, acompanha-
das de uma lufada de ar. Todas as vogais podem ser sopradas e as consoantes oclusivas
surdas (mudas), p, k, t.

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as vogais 49

Os ditongos
Segundo A.C. Juret, “o ditongo é um timbre em movimento”. É
uma espécie de deslocamento do som vocálico de uma posição de abertu-
ra, para a de fechamento; o ponto extremo do ditongo é a posição u/i,
que são chamadas semivogais. Por isso se diz que o ditongo são dois sons
pronunciados em uma só emissão de voz.
Na composição do ditongo a vogal é protática e a semivogal é
hipotática24.
São basicamente 12, assim definidos pelos gramáticos antigos:
1. difyñggoi katŒ krsin - “ditongos por fusão” (uma só emissão de
voz); por isso são chamados kæriai, principais, e são:
au, eu, ou, ai, ei, oi (o u soa “u” em au, eu, ou).
O ditongo “ou” soa “u”;
em português: au, eu, ou (u), ai, ei, oi.
2. difyñggoi katŒ di¡jodon - “ditongos pela saída”, porque a vogal
protática sendo longa, a voz permanece mais tempo sobre ela e só no
fim (saída) é que vai para a hipotática, e são:
hu, vu, ui (u longo).
Para os gramáticos, esses ditongos são kakñfvnoi, cacófonos, e
os primeiros “katŒ krsin” são eëfvnoi, êufonos.
3. difyñggoi katƒ ¤pikr‹teian - ditongos por dominação, porque
“prevalece o som de uma vogal só, a que se ouve”. São:
hi, vi, ai (a longo).
O enfraquecimento do -i- desses ditongos já é completo desde o
IV séc. a.C. e passou a ser subscrito a partir do séc. XII:
o -hi- se tornou e aberto25;
o vi se tornou ó aberto (desde 150 a.C.);
o ai se tornou a longo (desde 100 a.C.).

24 O verdadeiro ditongo começa com vogal e termina na semivogal (i/u); é o que


alguns chamam de "ditongo decrescente"; o chamado "ditongo crescente", isto é,
semivogal seguida de vogal é um hiato, e não ditongo.
25 No dialeto ático já se pronunciava e se escrevia “-ei” no séc. V. A maioria dos

escritores dessa época escreve assim.

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50 as vogais

As edições recentes dos textos gregos restabeleceram a grafia anti-


ga, com o -i- adscrito e não subscrito, e nas salas de aula voltou a pro-
núncia cacofônica.

Alternância vocálica
Chama-se alternância vocálica (metafonia/apofonia) a alteração do
timbre vocálico que se verifica no corpo de uma palavra, em suas diversas
partes (raiz/tema, sufixos, desinências), ligada aos diversos aspectos do
significado que ela assume. Essas alterações nunca acontecem juntas, isto
é, presas a um paradigma. Elas são sempre isoladas e na maior parte das
vezes acontecem na raiz ou no tema (radical).
Essa alternância não é exclusiva da língua grega. Muitas línguas
antigas e mesmo as modernas as têm. Assim, em português, o verbo fa-
zer sofre alternância vocálica em faço, fazemos, fiz, fez, feito.
A alternãncia pode ser qualitativa (variação do timbre), como fiz/
fez/faço; e quantitativa (variação da duração - longas/breves), como em
fez/feito, em português.

1. Alternância qualitativa:
Em grego temos três graus de alternância vocálica, na alternância
qualitativa; é o que se chama de vocalismo;
• vocalismo o (grau fraco);
• vocalismo e (grau forte), e
• vocalismo zero (reduzido), corresponde à ausência de vogal.

Assim os diversos temas dos verbos:


-gn-/gen-/gon- tornar-se, vir a ser
gÛ-gn-o-mai eu me torno, venho a ser (presente, infectum)
¤-gen-ñ-mhn eu me tornei, aconteci (aoristo)
g¡-gon-a eu me tornei, nasci, sou (perfeito)
leip-/lip-/loip- deixar, abandonar
leÛp-v eu deixo, abandono (presente, infectum)
¤-lip-o-n eu deixei, deixo (aoristo)
l¡-loip-a eu deixei (perfeito)

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as vogais 51

Alternância também na flexão dos nomes:


T. - p‹tr- / p‹ter-
toè patr-ñw - do pai (gen.)
tòn pat¡r-a - o pai (acus.)
T. - genes-
tò g¡now - a raça (nom. voc. acus.)
toè g¡nes-ow > g¡neow > g¡nouw - da raça (gen.)
T. - nyrvpo-
õ nyrvpo-w - o homem (nom.)
Î nyrvpe - ó homem (voc.)

2. Alternância quantitativa:
É a alternância de duração (quantidade da vogal: longa/breve):
fhmÜ/ fam¢n digo / dizemos
tÛ-yh-mi / tÛ-ye-men coloco / colocamos
dÛ-dv-mi / dÛ-do-men dou / damos

3. Observação:
Na flexão nominal dos nomes e adjetivos de tema em soante / líqüida,
há uma falsa alternância vocálica; nos temas masculinos e femininos em vogal
breve, essa vogal se alonga no nominativo singular e permanece breve nos ou-
tros casos. É um fato normal, porque no nominativo masculino e feminino o
alongamento se faz compensando a apócope do sigma, marca do nominativo
dos seres animados, sobretudo dos masculinos. Não se trata pois de alternância
vocálica.

T. =°tor N. =®tvr o orador;


T. daÝmon N. daÛmvn o nume;
T. poim¡n N. poim®n o pastor;

Mas, quando o tema é longo, não há alternância vocálica;


T. ŽgÅn N. ŽgÅn a luta.

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52 as vogais

Vogal de ligação ou de apoio


É um recurso de que lançam mão todas as línguas, e não só a gre-
ga, para desfazer encontros consonânticos difíceis e que não devem se
confundir, fundir ou assimilar, para não descaracterizar a palavra.
A vogal de ligação isola as duas consoantes e facilita a pronúncia.
O -a- epentético que as raizes e temas trilíteres desenvolvem antes
da líqüida (visto acima) é um exemplo disso.
T. stl ¤-st‹l-h-n eu fui enviado
T. fyr ¤-fy‹r-h-n eu fui destruído
T. Žnr Žnr-sin > Žn-d-r-sin > Žndr‹-sin aos homens26
As vogais de ligação básicas do grego são: e /o e às vezes -h- (no
latim são i/u e e antes do -r).
É importante lembrar que as vogais de ligação ou de apoio não fazem
parte do corpo da palavra, como as vogais temáticas. Elas são meros re-
cursos fônicos de que a língua oral faz uso sempre e na medida em que
precisa delas.
Elas também não são elementos da flexão; não são desinências nem su-
fixos que, no sistema verbal, indicam a relação da pessoa gramatical com o
verbo, ao indicarem o singular/plural, a voz (ativa/média/passiva) e o modo.
Por exemplo, nos verbos de tema em consoante ou semivogal (cha-
mados verbos em -v), a vogal de ligação se faz presente em todo o infec-
tum-inacabado porque as desinências são consonânticas ou em soante
(semivogal)27; e, por analogia, também no futuro ativo e médio por causa
da introdução da marca do futuro -s-.
f¡r-o-men nós portamos
¤-f¡r-e-te vós portáveis
f¡r-o-i-e-n eles portassem, portariam
læs-o-men nós desligaremos
læs-e-sye vós desligareis para vós

26 Nesse caso, o que vemos é uma consoante de ligação. O -d- se desenvolve natural-
mente entre o ponto de articulação do -n- e do -r-. O castelhano e o francês tam-
bém desenvolvem um d epentético na flexão verbal: je viendrais < venirais; yo
viendria < veniria.
27 As semivocálicas são sentidas como consonânticas.

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as vogais 53

Mas no aoristo ativo e médio, a vocalização da desinência -n, (-s-n


> sa), no perfeito ativo (-k-n > ka), dispensa a vogal de ligação.
¤-lus-n > ¦-lu-sa eu desliguei, eu desligo
¤-læ-sa-men nós desligamos
¤-lu-s‹-meya nós desligamos para nós
l¡-lu-kn > l¡-luka eu completei o ato de desligar, eu desliguei
le-læ-ka-men nós completamos o ato de desligar, desligamos

Na característica do aoristo passivo (-h-/yh-), a presença da vogal


também dispensa a vogal de ligação:
¤-dñ-yh-sye vós fostes dados, sois dados
¤-st‹l-h-men nós fomos enviados, somos enviados

Mas, nas formas do perfeito médio-passivas, a língua prefere o en-


contro entre as consoantes:
p¡-prag-tai > p¡-prak-tai ele foi feito, está feito
t¡-trib-sai > t¡-tricai tu foste esmagado, estás esmagado
pe-peÛy-meya > pe-peÛs-meya nós fomos convencidos, estamos convencidos

Mas, na 3a pessoa do plural:


p¡-prag-ntai > pepr‹g-a-tai, eles foram, estão feitos;
o -n- interconsonântico se vocaliza em -a-.

Essa é a opção que encontramos nos líricos e em Heródoto; o di-


aleto ático construiu uma forma analítica, em lugar de vocalizar o -n-
interconsonântico:
pe-prag-m¡noi, ai, a eÞsin eles foram, estão feitos

Veremos isso com mais detalhes quando tratarmos da flexão verbal.

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54 as vogais

Encontro de vogais
O encontro de vogais é chamado hiato, isto é, vácuo, vazio; para todos
os gramáticos o hiato é uma cacofonia e a tendência geral é eliminá-lo.
Essa é a tendência no dialeto ático; nos dialetos jônico, dórico e
eólico o hiato permanece. 28
No grego ático há três maneiras de eliminar um hiato:
a) pela elisão da vogal anterior; um sinal ƒ apóstrofo, no lugar da vo-
gal elidida, registra o fato;
b) pela crase (fusão) de duas vogais entre duas palavras diferentes (entre
a última da anterior e a primeira da seguinte; é indicada por um
sinal ƒ igual ao apóstrofo, colocado sobre a vogal resultante da fu-
são, chamado de coronis/corônide.
c) pela contração, que é a redução do hiato que se encontra no meio
da palavra.
Elisão: (¦kyliciw)
Na seqüência de duas palavras: a anterior terminando em vogal e a
seguinte começando por vogal, pode-se dar uma elisão, que é a apócope
(corte) da vogal final da palavra anterior. Nesse caso essa apócope é mar-
cada pelo apóstrofo.
1. Em geral a vogal elidida é uma breve; raramente um ditongo, e o
-u- jamais se elide.
ŽllŒ ¤gÅ > Žllƒ ¤gÅ mas eu
Žpò ¤moè > Žpƒ ¤moè de mim, a partir de mim
2. Pode acontecer uma elisão invertida: em lugar de elidir a vogal fi-
nal da palavra anterior elide-se a vogal inicial da seguinte. Esse pro-
cesso se chama aférese (ŽfaÛresiw), isto é, retirada.
É rara e em geral só se usa na poesia e nos diálogos.
Î naj > Î ƒnaj ó senhor, ó chefe
Î Žgay¡ > Î ƒ gay¡ ó meu caro (bom)
ŽgorŒ ¤n ƒAy®naiw > ŽgorŒ ƒn ƒAy®naiw mercado em Atenas

28 A conservação ou não do hiato é uma questão de “idiotismos”. Podemos estabele-


cer um paralelo: o dialeto ático tende a reduzir os hiatos, como o português; o
dialeto jônico não se incomoda tanto com os hiatos, como o castelhano.

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as vogais 55

3. Pode acontecer que haja mais de uma elisão. Também é um caso


raro: só na poesia ( por necessidades métricas) e nos diálogos rápi-
dos, sobretudo em Aristófanes.
poè ¤sti õ Ploètow > poè ƒ syƒ õ Ploètow; onde está Plutos?
µ ¤pÜ ŽspÛdvn > µ ƒpƒ ŽspÛdvn ou sobre os escudos
4. Pode acontecer, raramente também, a elisão de um ditongo (tam-
bém nos mesmos casos dos anteriores; poesia e diálogos).
boælomai ¤gÅ > boælomƒ ¤gÅ sou eu que quero
5. Quando a palavra seguinte começa por vogal aspirada e a consoante
anterior da vogal elidida for uma oclusiva, essa oclusiva, em conta-
to com a vogal aspirada, se torna aspirada:
Žpò ²mÇn > Žpƒ ²mÇn > Žfƒ ²mÇn de nós, a partir de nós
metŒ ²mÇn > metƒ ²mÇn > meyƒ ²mÇn conosco
nækta ÷lhn > næktƒ ÷lhn > nækyƒ ÷lhn a noite inteira
6. A conjunção ÷ti e as preposições perÛ e prñ nunca sofrem elisão,
mas prñ + e sofre contração prñu

Crase (fusão): (krsiw)


É um processo semelhante ao da elisão; na seqüência de duas pala-
vras, a anterior terminada em vogal e a seguinte iniciada por vogal, a úl-
tima vogal da palavra anterior se funde com a primeira vogal da palavra
seguinte, formando uma unidade fônica (uma longa ou um ditongo).
A crase (krsiw - mistura, fusão) é marcada por um sinal seme-
lhante ao apóstro sobre a vogal resultante da fusão. Esse sinal se chama
coronis, ou corônide (korvnÛw - ganchinho).
kaÜ ¤gÅ > kŽgÅ e eu (por minha vez)
¤gÆ oämai > ¤gÙmai quanto a mim, eu acho
¤gÆ oäda > ¤gÙda eu sei
toè Žndrñw > tŽndrñw do homem, do marido
kalòw kaÜ Žgayñw > kalòw kŽgayñw belo e bom
tŒ aét‹ > tŽut‹ as mesmas coisas
õ Žn®r > õn®r* o homem, o marido
kaÜ õ > xÈ e ele
kaÜ êpñ > xépñ e sob (por)
tò ßm‹tion > yoÞm‹tion a veste, o manto
* não há lugar para a corônide; o espírito rude ocupa o lugar dela.

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56 as vogais

O -i- do primeiro elemento sofre síncope, o do segundo permane-


ce, subscrito (ultimamente se usa adscrito), no caso de vogal longa. No
caso acima ele é adscrito (forma ditongo).
A crase se usa regularmente para reunir uma palavra pouco impor-
tante a uma outra com a qual ela faz uma unidade semântica.
A palavra resultante tem um acento só: o do segundo elemento
Pode-se ver que a crase é um recurso que facilita a métrica.

Eufonia
Quando, para a harmonia e o fluxo da frase, não há interesse nem
em elisão nem em crase na seqüência de uma palavra terminada em vogal
e outra iniciada por vogal, usa-se um -n eufônico no final da palavra an-
terior para evitar o hiato e por isso a elisão ou crase.

Isso acontece com freqüência:


• na 3 a pessoa do singular e plural dos verbos:
¤sti / ¤stin é
eÞsi / eÞsin são
¦krine / ¤krinen ele julgava
• no dativo, locativo e instrumental plural dos nomes em consoante ou
semivogal:
sÅmasi / sÅmasin aos corpos, pelos corpos
Þsxæsi / Þsxæsin às forças, pelas forças
eàkosi / eàkosin vinte
Diante de pontuação e em fim de frase usa-se o -n (para proteger a
vogal).
É importante lembrar que esse -n não faz parte da desinência.
Há outros casos de consoantes eufônicas:
oìtvw assim, dessa maneira diante de vogal
oìtv diante de consoante
oé não diante de consoante surda ou sonora
oéx diante de consoante ou vogal aspirada
oék diante de vogal não aspirada
¤k de dentro de diante de consoante
¤j diante de vogal

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as vogais 57

Contração
Na flexão verbal e nominal, quando um tema vocálico se encontra
com uma vogal de ligação, formando um hiato, no dialeto ático esse hia-
to é eliminado pela contração; no jônico não.
A contração se faz da maneira seguinte:
1. a contração de duas vogais breves resulta numa longa;
2. uma vogal longa absorve a breve e o resultado é uma longa;
3. quando duas vogais longas se seguem, abrevia-se a vogal anterior, que
depois se contrai com a seguinte.

Damos a seguir o quadro das contrações:


a+a> e + e > ei o + o > ou
a+e> e+a>`h o + a>v
a + ei > &/ai e + ai > ú/hi o + h>v
a+o>v e + o > ou o + e > ou
a+v>v e+v>v o + ei > oui > oi
a + oi > Ä/vi e + oi > oui > oi o + oi > oui > oi

É preciso ter sempre em mente:


1. que uma contração é um segundo tempo: isto é, antes da forma con-
trata existiu a não-contrata; a reconstrução e registro dela ajudam a
encontrar a acentuação correta;
2. que a contração é um fenômeno físico, fisiológico, que se processa no
aparelho fonador, governado sempre pela lei do menor esforço;
3. que uma vogal tônica, quando absorvida, leva consigo a tonicidade;
quando a vogal absorvida não é tônica, o acento permanece no lugar,
se as normas da acentuação permitirem.
fil¡-ei > fileÝ ele ama
fÛle-e > fÛlei ama (tu)
tim‹-ei > tim˜/ timi ele honra
tÛma-e > tÛma honra (tu)

mur02.p65 57 22/01/01, 11:36


58 as vogais

4. que duas vogais do mesmo timbre resultam numa longa do mesmo


timbre:
e + e > ei29,
o + o > ou,
a +a > a
5. que duas vogais de timbre diferente têm o seguinte tratamento:
5a) na sucessão a > e / e > a, predomina o timbre da vogal anterior:
a + e >  longo
e+a>h
Mas a + h > h
5b) quando uma das vogais é de timbre “o” o resultado da contração é
de timbre “o”.
a+o>v
e + o > ou
o + o > ou
e + oi > oui > oi
Mesmo no encontro de um “o” breve e um -h- ou um -a- longo o
“o” breve será absorvido pela longa, mas imporá seu timbre: didñhte >
didÇte - que vós deis, se derdes.
6. Não há contrações especiais, exceções, etc. Não há diferenças nas con-
trações de formas nominais ou verbais.
Sempre que os ingredientes fonéticos forem os mesmos a resul-
tante fonética será a mesma
Todos os casos de contração que acontecem nas flexões nominal e
verbal serão assinalados no momento em que acontecerem.

Alteração de vogais
Em determinadas posições, as vogais podem alterar a quantidade e
o timbre:
1. Quando duas vogais longas se seguem, a vogal anterior se abrevia. É um
produto da lei do menor esforço. Acontece com mais freqüência no
ático:

29 E não em -h-, que é de timbre aberto.

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as vogais
consoantes 59

basil®-W-vn > basil®-vn > basil¡vn30 dos reis


te-y®-úw > tey¡úw > tey»w sejas colocado
te-y®-v-men > tey¡vmen > teyÇmen sejamos colocados
2. Quando uma vogal longa é seguida de uma breve, em geral há uma troca
de posições.
Chama-se metátese de quantidade;
pñlh-ow > pñlevw da cidade
basil°-W-ow > basil°ow > basil¡vw do rei
3. Uma vogal longa se abrevia quando, numa mesma sílaba, é seguida de
um grupo formado de soante (l, m, n, r, W) e oclusiva ou -s (Lei de
Osthoff).
lu-y®-nt-vn > luy¡ntvn dos que foram desligados
b®-nt-vn > b‹ntvn dos que caminharam
gnÅ-nt-vn > gnñntvn dos que tomaram conhecimento
basil®-W-w > basil¡uw > basileæw o rei

As consoantes
Elas são sæmfvna, isto é, com-soantes, que “soam junto”.
Aristóteles (Poética, 1456b) começa por chamá-las “áfonas = mudas” 31:
“... fvnon d¢ tò metŒ prosbol°w kayƒ aêtò mhdemÛan ¦xon
fvn®n, metŒ d¢ tÇn ¤xñntvn tinŒ fvn¯n gignñmenon Žkous-
tñn.” “... mudo (áfono, mudo) é o que não tem nenhum som por si pela
aplicação (dos lábios e da língua) mas que se torna audível com alguns que
têm som.” Ver, também, Platão, Crátilo, 424c.

30 Depois da síncope do W em posição intervocálica, só se contraem as vogais do mes-


mo timbre.
31 Mais uma vez Aristóteles vê bem as coisas, embora não tenha a etiqueta de

gramático, filólogo ou lingüista. ƒAfvnon quer dizer "sem som", portanto, mudo.
Vamos tratá-las assim: mudas, e não surdas.

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60 as consoantes

Podemos classificá-las segundo:


1. o modo de articulação: de acordo com a maneira com que o som é
produzido:
1.1. pelo sopro, que escapa de repente, do canal propositadamente fe-
chado e comprimido: oclusivas (explosivas): p, b, f, m; t, d, y, n;
k, g, x,
1.2. pelo ar comprimido, pressionado, que escapa aos poucos: constri-
tivas, fricativas, sibilantes: W, s;
2. o ponto de articulação, isto é, de acordo com o ponto, o lugar do
aparelho fonador, em que se produz o som:
labiais (na junção dos dois lábios): p, b, f, m;
dentais ou linguodentais (nos alvéolos dos dentes ou na junção da
língua com os alvéolos dos dentes): t,d,y,n;
velares 32 (na junção da glote com a abóboda bucal, “céu da boca”):
k, g, x.
3. Segundo o ponto de vista do som glotal, as consoantes podem ser:
mudas (sem nenhuma vibração glotal): p, f, t, y, k, x, ou
sonoras (acompanhadas de vibração glotal): b. d, g.
Há duas oclusivas sonoras nasais: m (labial), e n (dental ou línguo-
dental).
As oclusivas sonoras eram chamadas de m¡sai, médias, medianas,
pelos antigos, por causa da menor energia na articulação, isto é, oclusão
menos forte do que a das mudas.
As oclusivas mudas eram chamadas de cilaÛ, desguarnecidas, sim-
ples, porque desprovidas de qualquer acompanhamento de vibração glotal;
e quando acompanhadas de um sopro de ar, chamavam-se das¡ai, “pe-
ludas” aveludadas, espessas, isto é, revestidas. São as que chamamos de
“aspiradas”, do latim ad spirare - “soprar a, para”, isto é, “assopradas, so-
pradas”. São: f, y, x; em caracteres latinos: ph, th, kh.

32 Esses sons são chamados guturais pelos gramáticos. É uma denominação que per-
siste há muito tempo e que se repete por rotina. Não há razão de chamá-los gutu-
rais porque não são produzidos na garganta e sim na região da glote e palato duro
(céu da boca). Os lingüistas atuais preferem denominá-las velares, de “véu palatino
= céu da boca”.

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as consoantes 61

As constritivas, por pressionarem o ar contra as paredes do apare-


lho fonador, são também chamadas de:
• fricativas, por “apertarem, esfregarem” a saída do ar;
• sibilantes, pelo ruído que produzem, próximo ao de um assobio.
Não são nem labiais nem labiodentais. Em português e em latim
são o f e o v, que Quintiliano chama de tristes et horridae, quibus Graecia
caret 33 (10.10, 28).
Há uma dental, ou linguodental: -s- (ss/ç, em português). Ela é
muda.
Aristóteles (Poética, 1456b) diz que ela e o -r- são: “²mÛfvnon
tò metŒ prosbol°w ¦xon fvn¯n Žkoust®n, oåon tò S kaÜ R.”
“Semivogal (meio muda) é o que, com a aplicação (articulação), tem som
audível, como o S e R...”34
O -s- diante de uma consoante sonora se sonoriza: Smærna, tam-
bém escrito Zmærna.
Entre as constritivas podemos incluir o -r- e -l- (vibrantes).
O -z- foi sempre considerado consoante dupla.
Dionísio Trácio e Dionísio de Halicarnasso atestam as pronúncias
[zd] e [z] no grego clássico, mas desde o século IV estabiliza-se uma pro-
núncia [z] e [zz].
No latim arcaico transcreve-se [ss]: mza > massa.
O -r- era vibrante e pronunciado mais com a ponta da língua e
alvéolos dos dentes. Não são sons guturais, palatais ou velares.
Dionísio de Halicarnasso diz: “tò d¢ R (¤kfvneÝtai) t°w glÅs-
shw kraw Žporrapizoæshw tò pneèma kaÜ pròw tòn oéranòn
¤ggçw tÇn ôdñntvn Žnistam¡nhw” - “o R se pronuncia com a ponta
da língua empurrando o ar e se colocando na direção do céu (da boca)
junto aos dentes” (De comp. verb., 79R).
Essa vibração da ponta da língua faz um movimento de ar intenso,
o que dá a impressão de consoante “soprada, ou assoprada”; é por isso
que o -r- também é considerado aspirado, e, nas palavras com -r- inicial,
põe-se um espírito rude: =eèma e se transcreve em português: rheuma.

33 “tristes
e horríveis, de que a Grécia carece”.
34 Alguns gramáticos incluem nessa categoria, além dessas duas, as outras líqüidas
(l, m, n) e as consoantes duplas (z, c, j). As líqüidas também são conhecidas por
soantes ou consoantes-vogais.

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62 as consoantes

O -l- se pronunciava com a parte anterior da língua aplicada atrás


dos alvéolos. No português do Brasil, o modelo desse -l- seria o da pro-
núncia do sul, sobretudo do Rio Grande do Sul. É sempre consoante,
jamais vocalizado.

As soantes
É um nome genérico dado a algumas consoantes que ficam numa
zona limítrofe entre consoantes e vogais. O grego herdou do indo-euro-
peu duas soantes: uma labiovelar, de som próximo do -u-, denominada
digama pela representação gráfica de dois gamas superpostos: W, que os
especialistas chamam de waw/vau, e outra, linguopalatal, de som próxi-
mo do -i-, representada por um j, e por isso denominada yod. Elas tam-
bém são chamadas de semivogais, provavelmente, porque em determina-
das posições, sobretudo depois de consoantes, se vocalizam em -u- e -i-
respectivamente.35
As vibrantes -r- e -l- e as oclusivas sonoras nasais -m- e -n- tam-
bém são chamadas de soantes ou líqüidas, mas seu uso mais geral é como
consoantes.

O -r- e o -l-, quando se encontram numa seqüência de três con-


soantes, desenvolvem um -a- epentético, como:
ndrsin > Žndr-‹-sin aos homens
¦stlhn > ¤st-‹-lhn eu fui enviado
¦fyrka > ¦fy-a-rka eu destruí, corrompi

As soantes l, m, n, r, seguidas de -s-, provocam a síncope do -s-


e, por compensação, alongam a vogal anterior. Isso acontece sobretudo
no aoristo sigmático dos verbos de tema em soante/líqüida:
¦-stel-sa > ¦steila eu enviei, envio
¦-fyer-sa > ¦fyeira eu destruí, eu destruo
¦-nem-sa > ¦neima eu distribuí, distribuo
¦-men-sa > ¦meina eu permaneci, permaneço

35 O -u- e o -i- também são chamados de semivogais, quando se juntam a vogais para
formarem ditongos.

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as consoantes 63

Mas na flexão nominal o sigma do dat. loc. instr. plural -si não
sofre síncope, provavelmente para não confundir-se com o dat. loc. instr.
singular -i.
Assim:
=®tvr - =®tor-i - =®tor-si o orador - ao orador - aos oradores

O -n- :
• ou desenvolve um -a- ou -h- epentéticos quando numa posição depois
ou entre consoantes oclusivas:
yn-tñw > yn-h-tñw mortal
yn-tñw > y-‹-natow morte
may > ma-n-y-n-v > many-‹-nv eu entendo eu aprendo
• ou vocaliza-se em-a- entre oclusivas:
pe-pr‹g-ntai > pepr‹gatai foram feitos, estão feitos
• ou, em posição final, vocaliza-se depois de consoante:
1. na 1a pessoa do singular do aoristo sigmático:
¦-lu-s-n > ¦lusa eu desliguei, desligo
2. na 1a pessoa do singular do perfeito ativo:
l¡-lu-k-n > l¡luka eu desliguei, terminei o ato de desligar
3. no acusativo singular e plural dos temas em consoante:
kñrak-n > kñraka corvo
kñrak-nw > kñrakaw corvos
Essas soantes/líqüidas quando em posição final, depois de vogal,
permanecem, menos o -m, que passa a -n.

O yod (j) e o digama/waw/vau (W) sofrem tratamentos diferentes


conforme a posição antes ou depois de consoante:
1. Em posição inicial:
1.a. o yod (j) cai (aférese) e é substituído (compensação) por uma
aspiração, peæma dasæ, spiritus asper, espírito rude:
jñw > ÷w que (relativo)
jhpar > ¸par fígado
1.b. o digama/waw/vau (W) também cai (aférese), mas nem sempre é
substituído por aspiração:
Wesp¡ra > ¥sp¡ra (vesper em latim) tarde, véspera
Wergon > ¦rgon (work inglês, werk alemão) obra, trabalho

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64 as consoantes

2. Em posição intervocálica:
2.a. O yod (j) sofre síncope e as vogais postas em contato se contraem:
tim‹-j-v > tim‹v > timÇ eu honro
2.b. O digama/waw/vau (W) sofre síncope e as vogais postas em
contato:
• quando do timbre -e- se contraem:
basileWew > basil¡ew > basileÝw os reis (nom.)
• no caso de outros timbres, o hiato permanece:
boWñw > boñw do boi, da vaca
basil®Wa > basil®a > basil¡a o rei (acus.)

3. Em contato com consoantes:


3.a. O yod (j): depois de consoantes:
• depois de uma oclusiva dental (t,y) ou velar, muda ou aspira-
da (k,x ), se funde com ela e produz o som soante -ss-
(jônico), ou -tt- (ático):
m¡lit-ja > m¡lissa / m¡litta abelha
ful‹k-jv > ful‹ssv / ful‹ttv eu vigio
• depois de uma oclusiva dental ou velar, (g, d) funde-se com
ela e produz z
stÛg-jv > stÛzv eu marco
¤lpÛd-jv > ¤lpÛzv eu espero
• depois de oclusiva labial, muda, sonora ou aspirada (p, b, f)
> pt:
kræp-jv > kræptv eu cubro, eu escondo
bl‹b-jv > bl‹ptv eu causo dano, eu prejudico
t‹f-jv > y‹ptv eu enterro
• depois de um -l-, o -j- se assimila (> -ll-)
Žl-jow > llow outro
st¡l-jv > st¡llv eu envio
• depois de -n-, -r-, o yod se vocaliza em -i- e sofre metátese
(desloca-se para o tema):
mñr-ja > mñria > moÝra o destino, o quinhão
m¡lan-ja > m=lania > m¡laina negra
fy¡r-jv > fy¡riv > fyeÛrv eu destruo, corrompo
t¡n-jv > t¡niv > teÛnv eu estico, tendo

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as consoantes 65

3.b O W digama (waw/vau):


• diante de consoante:
vocaliza-se em -u-
basil¡W-w > basileæw rei, senhor
bñW-w > boèw boi, vaca
• depois de consoante:
sofre síncope, se em situação interna, e, no ático, não provoca
alongamento compensatório da vogal anterior; no jônico sim:
kñrW-a > kñra (att.) / koærh (jôn.) a jovem, menina-moça
j¡nW-ow > j¡now (att.) / jeÝnow (jôn.) o estrangeiro, hóspede
gñnWata > gñnata (att.) /goænata (jôn.) joelhos
• se em situação final, vocaliza-se em -u-:
stW > stu a cidadela, o centro

Encontro de consoantes
Quando duas consoantes se encontram entre duas palavras que se
seguem ou no corpo mesmo da mesma palavra (na junção do tema com
as desinências, nominais ou verbais), podem acontecer conflitos quanto
ao ponto ou modo de articulação.
Como no caso dos encontros entre vogais, também esses conflitos
são resolvidos pela lei do menor esforço, sempre num processo de aco-
modação, de facilidade, temperada pelo conteúdo semântico, que não pode
sofrer danos.
Vamos ver os diversos conflitos dos encontros entre consoantes:

Oclusiva + s:
1. Para as labiais e velares o alfabeto grego já tem uma letra própria (con-
soante composta):
• labiais: p, b, f + s > c
• velares: k, g, x + s > j
2. As dentais seguidas de s acomodam-se ao s (assimilação), por causa
da proximidade do ponto de articulação, produzindo dois ss que de-
pois se reduzem a um:
• t, d, y + s > ss > s

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66 as consoantes

3. O -t- em posição desinencial seguido de -i- átono se enfraquece e se


torna fricativo-sibilante > -s- , e, a seguir, se em posição intervocálica,
esse -s- sofre síncope, mas só quando a vogal anterior é de ligação e
breve.
• A vogal de ligação longa, característica do subjuntivo, tam-
bém provoca a síncope do -s- intervocálico.
f¡r-e-ti > f¡resi > f¡rei ele porta, carrega
f¡r-h-ti > f¡rhsi > f¡rhi > f¡rú ele porte, carregue
mas, se a vogal é temática, não há síncope:
dÛ-dv-ti > dÛdvsi. ele dá
• A vogal temática e o consciente lingüístico impedem a evolu-
ção (síncope do -s-), para não descaracterizar a forma, mas:
f¡r-o-nti > f¡ronsi > f¡rousi eles portam, carregam
O -s- ficou em posição intervocálica após a síncope do -n-; uma
simplificação maior levaria à descaracterização da forma.

Oclusiva seguida de oclusiva:


As oclusivas das desinências são apenas duas: -t, -m.
O -n desinencial se vocaliza em -a, depois de consoante ou soante.
1. Oclusiva labial ou velar, sonora ou aspirada, seguida de -t sofre uma
assimilação parcial: perde a sonoridade ou a aspiração:
t¡-trib-tai > t¡trip-tai foi esmagado, está esmagado
g¡-graf-tai > g¡graptai foi escrito, está escrito
t¡-tag-tai > t¡taktai foi ordenado, posto em fileiras
·rx-tai > ·rktai foi comandado, está governado
2. Oclusiva labial, muda, sonora ou aspirada seguida de -m se assimila >
mm:
t¡-trib-mai > t¡trimmai fui esmagado, estou esmagado
g¡-graf-mai > g¡grammai fui escrito, estou escrito
l¡-leip-mai > l¡leimmai fui abandonado, estou abandonado
3. Oclusiva labial ou velar, muda ou sonora, seguida de -y sofre uma as-
similação parcial, contamina-se da aspiração:
¤-tr¡b-yh > ¤tr¡fyh foi esmagado
¤-p¡mp-yh > ¤p°mfyh foi enviado
¤-pr‹g-yh > ¤pr‹xyh foi feito
¤-ful‹k-yh > ¤ful‹xyh foi vigiado

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as consoantes 67

4. Oclusiva dental muda, sonora ou aspirada seguida de outra dental se


dissimila em -s :
¤-ceæd-yhn > ¤ceæsyhn eu fui enganado
¤-pe¤y-yhn > ¤peÛsyhn eu fui persuadido
¤-anæt-yh > ±næsyh foi completado
Žnæt-tñw > Žnustñw completado, completável
Exclui-se o duplo -tt- que é a variante ática do -ss-, resultado do
encontro entre velar e -j-, yod, como:
pr‹g-jv > pr‹ssv / pr‹ttv eu faço
m¡lit-ja > m¡lissa / m¡litta abelha
5. Oclusiva dental seguida de -m se enfraquece numa assimilação parcial,
passando a -s-:
p¡-peiy-mai > p¡peismai eu fui, estou persuadido
¦-ceud-mai > ¦ceusmai eu fui, estou enganado
6. Oclusiva velar, sonora ou aspirada, seguida de -t se assimila parcial-
mente, ficando muda:
p¡-prag-tai > p¡praktai foi feito, está feito
¦-arx-tai > ·rk-tai foi governado, está governado
7. Oclusiva velar muda, ou aspirada seguida de -m, se assimila parcial-
mente, recebendo a sonoridade do -m:
de-dÛvk-mai > dedÛvgmai fui perseguido, estou perseguido
pe-fælak-mai > pefælagmai fui vigiado, estou vigiado

Oclusiva sonora ou aspirada, precedida de nasal:


1. nasal antes de labial > -m:
¤n-pÛptv > ¤mpÛptv eu caio dentro
gr‹f-ma > gramma letra (coisa escrita)
sun-fvnÛa > sumfvnÛa symphonia > sinfonía
2. nasal antes de dental > -n:
¤n-tÛyhmi > ¤ntÛyhmi eu coloco em, eu imponho
3. nasal antes de velar > -g:
¤n-kalæptv > ¤gkalæptv eu escondo em
sun-kaleÝn > sugkaleÝn chamar junto, convocar
4. nasal antes de vibrante r / l > rr/ll:
sun-l¡gein > sull¡gein reunir
sun-=®gnumi > surr®gnumi romper, co-rromper

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68 as consoantes

Supressão de consoantes
1. Uma palavra grega não pode terminar por uma consoante, a não ser
por -n, -r e -w (-c, -j), as outras sofrem apócope.
É por isso que vemos muitas palavras neutras de nominativo em
vogal, mas de tema em consoante, sobretudo -t
T : svmat-, nom. sing.: sÇma, mas nom. pl.: sÅmat-a
A razão disso é que o neutro tem desinência zero no nominativo,
isto é, é o próprio tema. E se o tema termina em qualquer consoante que
não seja n, r, w, essa consoante em posição final cai.
Apenas a preposição ¤k / ¤j e a negação oé / oék / oéx mantêm
a oclusiva final, por eufonia.
2. Um s- inicial sofre aférese (prócope) diante de vogal ou -r.;
2.1. diante de vogal, foi substituído pelo espírito rude:
sWaduw > sadæw > dæw / ²dæw doce, suave (latim, suauis)
s¡pomai > §pomai eu acompanho (latim, sequor)
2.2. diante de -r- cai simplesmente:
sr¡v > =¡v eu fluo (a água)
2.3. Diante de uma nasal o -s- sempre cai:
smÛa > mÛa uma
smikrñw > mikrñw pequeno
3. O -s- entre duas consoantes sofre síncope:
p¡-peiy-sye > p¡peiyye > p¡peisye fostes, estais convencidos
p¡-prag-sye > p¡pragye > p¡praxye fostes, estais feitos
t¡-trib-sye > t¡tribye > t¡trifye fostes, estais esmagados
4. Na flexão verbal, em posição desinencial intervocálica, sendo a ante-
rior vogal de ligação, o -s- sofre síncope, provocando um hiato, que,
no ático é reduzido pela contração.
No jônico, o hiato permanece.
faÛn-e-sai > faÛneai -jônico- tu apareces
faÛn-e-sai > faÛneai > faÛnhi -ático- tu apareces
> faÛnú/-ei
¤-yaum‹sa-so > ¤yaum‹sao -jônico- tu admiraste, tu admiras
¤-yaum‹sa-so > ¤yaum‹sv -ático- tu admiraste, admiras
¤-yaum‹z-e-so > ¤yaum‹zeo -jônico- tu estavas admirando
¤-yaum‹z-e-so > ¤yaum‹zou -ático- tu estavas admirando
faÛn-e-so > faÛneo -jônico- aparece, manifesta-te
faÛn-e-so > faÛneo > faÛnou -ático- aparece, manifesta-te

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as consoantes 69

4.1. mesmo se a vogal de ligação é longa, como a característica do


subjuntivo v, h, h, v, h, v, o -s- intervocálico sofre síncope:
faÛn-h-sai > faÛnhai > faÛnhi/faÛnú apareças
4.2. Mas, quando a vogal anterior é temática ou no caso dos futuros
de vogal longa, não há a síncope do -s-.
• quando a vogal é temática:
dÛdv-ti > dÛdv-si ele dá
tÛyh-ti > tÛyh-si ele põe
• quando a vogal de ligação epentética é longa no futuro:
may > may-®-somai eu hei de aprender
A síncope do -s- mutilaria completamente a forma.
• também no futuro e aoristo dos verbos denominativos de tema em vo-
gal: (vogal temática alongada)
tim®sv eu honrarei
dhlÅsv eu revelarei
poi®sv eu farei
Nesses casos a síncope do -s- tornaria o futuro exatamente igual
ao presente e afetaria o significado.

5. Na flexão nominal, nos nomes de tema em -s, sempre que em posição


intervocálica, o -s- sofre síncope e o hiato resultante é reduzido por
contração no ático, e permanece no jônico.
g¡nes-ow > g¡neow > g¡nouw do gênero, da raça
kr¡as-ow > kr¡aow > kr¡vw da carne
aÞdñs-ow > aÞdñow > aÞdoèw do pudor
Svkr‹tes-ow > Svkr‹teow > Svkr‹touw de Sócrates
Žlhy¡s-a > Žlhy¡a > Žlhy° coisas verdadeiras
nyes-a > nyea > nyh flores
Nos exemplos acima, a forma intermediária é jônica.

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70 as consoantes

Supressão da aspiração
1. Sempre que duas sílabas subseqüentes começam por consoante aspira-
da, uma delas, geralmente a primeira, é substituída pela muda corres-
pondente:
¤-y¡-yh-n > ¤-t¡-yhn eu fui colocado, sou colocado
É uma espécie de dissimilação, comandada pela lei do menor es-
forço; é uma simplificação (psilose). Pronunciar duas sílabas seguidas
começadas por aspirada “soprada” exige esforço!
2. Quando numa flexão, verbal ou nominal, uma consoante aspirada, por
motivos fonéticos, tem a muda36 assimilada, a aspiração se desloca para
a consoante mais próxima compatível com a aspiração, ou mudando o
espírito suave em rude da vogal anterior.
-T. trix- cabelo, pelo
Nom. sing. trÛx-w > yrÛj,
D.L.I. pl. trix-sÛ > yrijÛ
mas: trix-ñw, trix-Û, trÛx-ew, trix-Çn, trÛx-aw
-T. sx- eu seguro, eu tenho
Pres. sex-v > §xv > ¦xv
Fut. ¦x-s-v > §jv
-T. tref- eu nutro, alimento
Pres. tr¡f-v
Fut. tr¡f-s-v > yr¡cv,
Aor. ¦-tref-sa > ¦yreca
-taxæw, æ veloz
Comp. y‹ttvn, on mais veloz

36 Deve-selembrar sempre que as consoantes aspiradas são as consoantes oclusivas


mudas: t, k, p, que se tornam respectivamente y, x, f.

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aasacentuação
consoantes 71

A acentuação
I. Natureza do acento
Nas palavras de mais de uma sílaba, com significado próprio, as
vogais não eram pronunciadas na mesma elevação de voz. Segundo
Dionísio de Halicarnasso, essa elevação era de uma quinta (De comp. verb.,
11). Platão, em Crátilo, 416b fala de rmonÛa - ajuste, acordo.
Usavam-se também as palavras tñnow - esticamento, tensão de uma
corda, e prosÄdÛa - canto, para falar dessa modulação de vogais.
Aristóteles, Poét., 20, Platão, Crátilo, 399b, Dionísio Trácio, Bekker,
II, 629, 27 falam, do acento ôjæw - agudo, pontudo, e baræw - grave, pesado.
Uma sílaba não acentuada se dizia grave, bareÝa; uma sílaba acen-
tuada com acento agudo se dizia ôjeÝa - aguda; uma sílaba acentuada com
o acento circunflexo se dizia, perispvm¡nh, esticada por cima, ou tam-
bém dÛtonow, de dois tons, m°sh, média ou ôjubareÝa, tônica-grave.
Havia apenas dois acentos: o acento agudo, em forma de ponta de
agulha, “ ´ ” tñnow ôjæw ou prosÄdÛa ôjeÝa, canto (entonação) agu-
do, e tñnow perispÅmenow, acento esticado por cima, envolvente: cir-
cunflexo. Esse acento marcaria os dois tons da vogal longa: o primeiro,
em elevação (rsiw) de baixo para cima, inclinado para a direita, e a se-
guir o segundo, marcando a posição (y¡siw), descendo em plano inclina-
do para a esquerda. Isso daria um “chapéu” que equivale ao nosso acento
circunflexo “ ^ ”. A seguir passou-se a esticá-lo e arredondá-lo nas extre-
midades, para diminuir o ângulo. Hoje, muitas vezes, na pressa e no des-
cuido, fazemos um traço que se assemelha ao nosso til. Isso às vezes con-
funde o principiante e fá-lo pensar que o grego tem vogais nasais.
Na escrita erasmiana37, que o mundo ocidental segue desde o sé-
culo XVI, todas as palavras gregas são acentuadas. E, como os nossos

37 Não há nenhum sinal de acentuação nas inscrições gregas. Nos manuscritos em


geral, o emprego dos sinais de pontuação data das edições de Aristarco da Samotrácia
(215-143 a.C.) e de Aristófanes de Bizâncio (257-180 a.C.), que inventou não só
os sinais de acentuação, mas também o espírito e a pontuação. A intenção era
sempre diacrítica, isto é, evitar confusão na leitura das palavras e dos textos.

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72 a acentuação

ouvidos não mais estão preparados para a variação de tonalidade, as síla-


bas marcadas por um acento são sílabas tônicas.

Os acentos são:
1. Agudo “ ´ ”, que pode aparecer nas três posições finais de uma palavra
e sobre vogais breves ou longas e ditongos; proparoxítonas (antepenúl-
tima sílaba), nyrvpow, homem; paroxítonas (penúltima sílaba),
nñmow, costume, lei, e oxítonas (última sílaba), Žgor‹, mercado,
praça.
2. Circunflexo “ ^ ”, que pode aparecer nas duas posições finais de uma
palavra, mas só sobre vogais longas ou ditongos: properispômenas (pe-
núltima sílaba), dÇron, dom, presente, e perispômenas (última síla-
ba), ¤n t» Žgor˜, no mercado.
3. Grave “ ` ”, que não é um acento propriamente dito; ele é um acento
substituto: só é usado nas palavras oxítonas, substituindo o acento agudo
no meio da frase, para marcar seqüência; kalòw kaÜ Žgayñw belo e bom.
Os gramáticos antigos chamavam isso de “baritonização da tônica
final”.
Como já dissemos, os acentos podem combinar com os espíritos:
õ nyrvpow o homem
² ìbriw o descomedimento, a desmedida
¤n Ú em que

II. Posição do acento:


1. Os acentos são usados de conformidade com sua natureza:
• o agudo, por marcar uma só unidade de tempo: pode ser usado
sobre uma vogal breve ou sobre uma longa ou ditongo;
• o circunflexo, por se estender sobre dois tons, só pode ser usado
sobre uma vogal longa ou um ditongo.
2. A sílaba tônica não pode recuar além do terceiro tempo, a contar do
fim da palavra38.

38 Esses“tempos” são unidades tônicas. A vogal da sílaba intermediária nas palavras


de três ou mais sílabas sempre conta um tempo, ou uma unidade tônica, mesmo se
longa ou ditongo: nyrvpow, o homem, ou ¦mpeirow, o continente.

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a acentuação 73

3. Para efeito de acentuação, em grego, o que determina a posição da


tônica (e do acento) é a quantidade da última sílaba:
3.1. se a vogal é longa ou ditongo39, conta dois tempos, ou unidades
tônicas40;
3.2. se a vogal é breve, conta um tempo, ou uma unidade tônica;
3.3. As sílabas não finais, mesmo longas, contam um tempo para
efeito de acentuação: nyrvpow.
4. Nas formas verbais, segundo os gramáticos, o acento tem uma tendên-
cia regressiva, isto é, tende a fugir da última sílaba.
Na verdade, se aceitarmos a idéia de que a tonicidade tem uma re-
lação com a ênfase, essa “tendência regressiva” seria apenas a busca do
tema, que é a “base, o núcleo do significado”.
5. Nas formas nominais, segundo os gramáticos, o acento permanece, na
medida do possível, na posição do nominativo singular.
Uma observação se faz necessária: essa afirmação de que “as formas
nominais mantêm, na medida do possível, a posição (da tônica) do no-
minativo singular” é talvez cômoda, mas repousa sobre a idéia do “caso
reto”, que já demostramos que não existe. O que existe de fato é que os
temas nominais podem ser oxítonos, paroxítonos ou proparoxítonos.
Por exemplo, SÅkrates - é um tema proparoxítono e se torna
paroxítono em todos os casos, por causa das desinências que recebe, me-
nos no vocativo, em que é o próprio tema. No nominativo singular não
recebe desinência, mas alonga a vogal do tema, deslocando a tônica, e é
paroxítono.
Contudo, para efeitos práticos, essa “regra” funciona bem e está
consagrada pelo uso. O nominativo, por ser o caso da nomeação, da de-
nominação, da identidade, passa a ser também o “caso da representação”.
Os nomes e adjetivos não são apresentados sob forma temática (sem fun-
ção), mas na forma da identificação, isto é, no nominativo. É o que ve-

39 Os ditongos finais -ai / -oi são considerados breves para efeito de acentuação
(não na métrica), menos as formas do optativo læsai, eu desligaria, desligasse, po-
deria desligar, e nos locativos oàkoi, em casa. Os -i i- do locativo e do optativo são
longos.
40 Quando usamos a palavra tempo queremos dizer “unidade tônica”.

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74 a acentuação

mos nos dicionários e gramáticas. O acompanhamento do genitivo, já


dissemos, é mero recurso didático-formalista, para que o leitor enquadre
o nome na “declinação” a que o nome pertence.
Neste trabalho nós não seguimos essa regra; nós trabalhamos a
flexão nominal e verbal a partir do tema.
No nosso vocabulário, contudo, submetemo-nos à tradição, que é
irreversível. 41
Como o nosso trabalho tem um objetivo mais prático, didático,
pedagógico, vamos tratar desse assunto em outra ocasião.

Vamos adotar então a afirmação de que os nomes (substantivos,


adjetivos, dêiticos) mantêm, na medida do possível, a tônica na posição
do nominativo singular.
Portanto, o avanço ou o recuo do acento, quer nas formas nomi-
nais, quer nas formas verbais, depende da variação de quantidade da últi-
ma sílaba.
Assim: õ nyrvpow o homem, o ser humano
nom.s. õ nyrvpow nom. e voc.pl. nyrvpoi
voc.s. Î nyrvpe
acus.s. tòn nyrvpon acus.pl. toçw ŽnyrÅpouw
gen.s. toè nyrÅpou gen.pl. tÇn nyrÅpvn
dat.loc.instr.s tÒ ŽnyrÅpÄ dat.loc.instr.pl. toÝw ŽnyrÅpoiw.

O acento circunflexo, por marcar sílaba longa ou ditongo, isto é,


duas unidades tônicas, não pode ser usado em penúltima sílaba em uma
palavra em que a final é longa, porque marcaria uma quarta unidade tôni-
ca, que não existe,
Assim: tñ dÇron: o dom, o presente
nom.voc.acus.sing. tò dÇron
gen.sing. toè dÅrou
dat.loc.instr.sing. tÒ dÅrÄ
nom.voc.acus.pl. tŒ dÇra
gen.pl. tÇn dÅrvn
dat.loc.instr.pl. toÝw dÅroiw

41 Pretendemos no vocabulario registrar o tema T, depois da entrada dos nomes no


nominativo e genitivo.

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a acentuação 75

Para efeito de marcação e leitura, diremos que toda sílaba acentu-


ada é tônica e inversamente toda sílaba tônica é acentuada. Toda pala-
vra grega é acentuada (salvo algumas palavras átonas – enclíticas ou pro-
clíticas – em determinadas posições).
Quanto à posição do acento, as palavras gregas são:
• oxítonas, se levam o acento agudo na última sílaba;
• paroxítonas, se levam o acento agudo na penúltima sílaba;
• proparoxítonas, se levam o acento agudo na antepenúltima sílaba;
• perispômenas, se levam o acento circunflexo na última sílaba;
• properispômenas, se levam o acento circunflexo na penúltima sílaba.

Regras práticas (resumo):


1. Toda a acentuação grega se baseia no princípio dos três tempos, isto é,
cada terceiro tempo deve ser acentuado; (corresponderia mais ou me-
nos ao que nós temos em português: o último acento é o da proparo-
xítona; não há nada além dele).
2. O que comanda a posição e a natureza do acento é a quantidade da
última sílaba.
3. Para efeito de acentuação, a última sílaba conta um tempo, se é breve, e
dois tempos, se é longa. A natureza da penúltima sílaba nos trissílabos,
para efeito de acentuação, não é levada em conta; vale sempre um tempo.
4. A sílaba tônica nunca recua mais do que três tempos da final.
5. Os ditongos são naturalmente longos; excluem-se os ditongos -ai/oi
em posição final absoluta, isto é, não seguidos de -w. Isto acontece nos
nomes em -o, a, h, por analogia com o nominativo singular, sobretu-
do nos proparoxítonos e properispômenos.42

42 Menos no locativo oàkoi porque o -i- do locativo é longo e na terceira pessoa do


singular do optativo aoristo læsai, porque o -i-, marca do optativo, é longo.

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76 a acentuação

As enclíticas
O que são as palavras enclíticas? São as palavras “encostadas”, “dei-
tadas em, apoiadas em”, isto é, palavras que, desprovidas de tonicidade
própria, na prosÄdÛa canto da frase, precisam se “encostar” na palavra
precedente, anterior, para formar uma unidade tônica, prosódica.
Por serem “en-clíticas”, isto é, “encostadas em”, elas não podem
começar uma frase.
São enclíticas:
1. as formas flexionadas do pronome da 1a e da 2a pessoa do singular:
mou / sou de mim / de ti
moi / soi me, a mim / te, a ti
me / se me / te
2. Os indefinidos correspondentes aos advérbios interrogativos de lugar
e tempo e aos dêiticos interrogativos de identidade, qualidade, quan-
tidade/dimensão, idade:
tÛw; quem? tiw alguém, algum,
poÝow; de que qualidade? poiow* de alguma/certa qualidade
pñsow; de que dimensão? posow de alguma/certa dimensão
pñsoi; quantos? posoi uma certa quantidade
phlÛkow; de que idade phlikow de certa/alguma idade
pñterow; quem dos dois? poterow algum dos dois
poè; / poyÛ; onde? pou/poyi em algum lugar, de algum modo
pñyen; de onde? poyen de algum lugar
poÝ; para onde? poi para algum lugar
p»; por que meio? como? pú por algum meio, de algum modo
pÇw; como? pvw/pv de algum modo, de alguma maneira
pñte; quando? pote um dia, certa vez
3. As partículas:
ge, yen, nu(n), per, te, toi

* As palavras enclíticas de duas sílabas fazem recair a tonicidade sobre a última síla-
ba; assim, mesmo não acentuadas, elas se pronunciam como oxítonas:
tinñw, poiñw, posñw, posoÛ.

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a acentuação 77

4. As formas verbais de e‰nai (ser), e fãnai (falar), do presente do indi-


cativo, menos a 2a pessoa do singular.
eÞmi, eä, ¤sti(n), ¤smen, ¤ste, eÞsi(n)
fhmi, f»w, fhsi(n), famen, fate, fasi(n)

Acentuação das enclíticas


Na medida em que uma enclítica é uma “encostada em”, “apoiada
em”, na palavra anterior, ela passa a fazer corpo inteiro com ela, para efeito
de prosódia e de acentuação.43
Por isso:
1. Depois de uma oxítona ou perispômena a enclítica não se acentua:
Žn®r tiw um certo homem
Žgayñw ¤stin é bom
ŽndrÇn tinvn de alguns homens
Não há baritonização da oxítona (acento grave) porque ela passa a
fazer parte de uma unidade prosódica, e fica numa posição interna e os
três tempos são respeitados.
2. Depois de uma paroxítona, a enclítica de duas sílabas é acentuada na
final, para evitar que haja três sílabas seguidas átonas;
lñgou tinñw, de um (certo) discurso
lñgvn tinÇn de uns certos discursos
fÛloi eÞsÛn são amigos
Mas, se a enclítica for monossilábica ela fica sem acento; porque a
unidade prosódica é normal (três sílabas = três unidades):
lñgow tiw um certo discurso (como se fosse uma proparoxítona)
3. Depois de uma proparoxítona ou properispômena, a enclítica obriga a
proparoxítona e properispômena a ter um acento agudo de apoio em
posição de oxítona, para restabelecer uma unidade prosódica normal,
evitando a seqüência de três sílabas átonas.
nyrvpñw tiw um certo homem (nom.)
nyrvpñn tina um certo homem (acus.)
dÇrñn ti um certo presente
dÇr‹ tina alguns (certos) presentes

43 Nada mais é do que a lei dos três tempos, isto é, das três unidades tônicas, porque
a enclítica faz uma unidade prosódica com a palavra anterior.

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78 aaacentuação
pontuação

As proclíticas
As proclíticas são palavras monossilábicas (em geral partículas) que
se apóiam na palavra seguinte, na frente, formando com ela uma unidade
prosódica.
São as seguintes:
1. Os artigos masculino e feminino no singular e no plural:
õ / oß - ² / aß
2. As preposições: ¤n - em, eÞw/¤w - para, ¤k/¤j - de
3. As conjunções: eÞ - se, Éw - para, como
4. A negação: oé / oék / oéx

A pontuação
Os antigos não usavam sinais de pontuação; as partículas, herança
viva da língua oral, serviam para marcar as divisões e a entonação do discurso.
O uso da pontuação se desenvolveu muito tardiamente, com a in-
trodução da escrita minúscula.
Os textos gregos editados a partir do sécula XV são pontuados de
conformidade com as regras e os hábitos da língua do editor (francês,
inglês, italiano, alemão, holandês).
Não há regras gregas de pontuação.
Os sinais de pontuação usados na escrita erasmiana são os seguin-
tes, fazendo equivalência com o português:
1. Ponto final “ . ” = igual ao português;
2. vírgula “ , ” = igual ao português;
3. ponto alto “ : " em grego = ; ponto e vírgula em português;
4. ponto alto “ : " em grego = : dois pontos em português;
5. ponto e vírgula “ ; ” em grego = ? ponto de interrogação em português;
6. ponto e vírgula “ ; ” em grego = ! ponto de exclamação em português.

mur02.p65 78 22/01/01, 11:36


Flexão nominal
Não é nosso objetivo discutir aqui as diversas teorias lingüísticas
sobre a flexão nominal e verbal. Há muitas delas, todas respeitáveis, in-
teressantes, importantes mesmo. Mas fazem parte das teorias sobre a ori-
gem da linguagem; não cabem num trabalho que quer ser especialmente
prático e objetivo.
Nossa intenção é oferecer os meios mais rápidos e racionais de
aprender a língua grega.
Nos mais de trinta anos de magistério, sempre tentando trazer à
sala de aula um clima de aprendizado e não de magistério, colocando-nos
ao lado do aluno, sentindo o lado de lá, fomos tentando encontrar cami-
nhos. Mas todos eram barrados pelo esquema tradicional, descritivista e
prescritivista da gramática do grego.
E o mesmo esquema descritivista está na gramática do latim, pri-
meiramente herdeira da grega, cujo modelo era a gramática alexandrina
de que o exemplo mais conhecido é a Gramática de Dioníso Trácio, e, a
seguir, sobretudo a partir da divisão do Império Romano, com a domi-
nação do latim como língua única no Ocidente. Com a queda do Impé-
rio Romano no séc. V, a Igreja Romana recebeu a herança e durante 10
séculos dominou todo o cenário cultural do Ocidente. O latim passou a
ser a língua da Igreja e da administração e o acesso à cultura se fez por
intermédio do latim, que se aprendia em manuais e gramáticas que ti-
nham como modelo a Gramática de Donato, que também é descritiva e
prescritiva. Essa tradição se manteve em todo o Ocidente até nossos dias.
Mas, nos dias de hoje, o acesso ao latim e sobretudo ao grego não
se faz mais aos 10 ou 11 anos de idade, que era a idade do ingresso em
um Seminário ou Colégio. O método era basicamente o mesmo e a dis-
ciplina e a palmatória enquadravam os mais rebeldes. O seminarista leva-
va uma “vantagem”: ele ouvia latim o dia todo, quer durante a missa quer
no canto gregoriano quer na sala de aula. No fim de sete anos, até os
menos dotados acabavam aprendendo latim, por “osmose”.
Nossa experiência se fez com ingressantes na Universidade, e de-
pois com pós-graduandos e profissionais, sem que tivessem a menor idéia
do que sejam casos e declinações, ou com pessoas mais maduras até de

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80 flexão nominal

mais de 80 anos: matemáticos, historiadores, lingüistas, médicos, advo-


gados e outros que querem ler no original os textos básicos do seu cam-
po do saber.
Aos poucos, então, foi surgindo este método, que tem como ca-
racterística principal encontrar a razão das coisas; enfrentar a língua gre-
ga na sua organicidade e funcionalidade.
Costuma-se dizer que as línguas clássicas indo-européias (sânscrito,
grego, latim, chamadas línguas mortas) e algumas modernas, como as
línguas eslavas, são línguas sintéticas, por trazerem no corpo da palavra,
embutidas ou agregadas, certas modificações formais que refletem modi-
ficações semânticas, sobretudo no que diz respeito às relações sintáticas,
isto é, suas funções dentro do enunciado.
Por outro lado, as línguas modernas, derivadas das antigas, são
chamadas analíticas, por sofrerem poucas e pequenas modificações for-
mais e porque exprimem as relações sintáticas, quer pelo uso de preposi-
ções quer pela própria ordem das palavras na frase, na qual a anterior do-
mina, “rege”, a seguinte; isto na relação dos nomes entre si – comple-
mentos nominais ou adjuntos adnominais, na relação entre nomes e
verbos –, sujeito agente/paciente, objeto direto/indireto, nas relações
adverbiais marcadas por preposições ou advérbios.
Nas relações nominais, o determinado vem sempre antes do deter-
minante: método de grego, agradável ao ouvido. Esse é um traço comum
nas línguas latinas; nas línguas germânicas, mesmo nas que não têm de-
clinação, o determinado pode vir depois do determinante, sobretudo nas
relações de partitivo, posse, origem etc.
Nas relações entre verbo e nome, a ordem analítica prevalece: o
sujeito vem antes do verbo e o objeto vem depois do verbo, quer na rela-
ção de objeto direto, quer nas relações com a ajuda de preposições; eu
comprei um livro ou eu gosto de ler ou eu andei pela cidade.
Assim, O homem persegue o lobo e O lobo persegue o homem são
frases rigorosamente iguais quanto aos componentes, mas completamen-
te distintas quanto à mensagem. Na primeira, o homem é sujeito, porque
é o assunto da frase, porque é aquilo de que se fala (sujeito lógico) e é
sujeito gramatical, porque é sujeito lógico1 e porque pratica (sujeito agen-

1 Um dos fundamentos deste tabalho é exatamente a visão concreta, objetiva, lógi-


ca, coerente dos fatos da língua. O próprio termo sujeito < subjectum < êpokeÛmenon

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flexão nominal 81

te, voz ativa) a ação de perseguir, que se completa no lobo (termo da ação
verbal), chamado objeto direto.
Na segunda frase, acontece exatamente o contrário; as funções se
invertem: o que o lobo era na primeira frase, objeto direto, por vir depois
do verbo transitivo perseguir e por completar-lhe o sentido, passa a ter a
função de homem, que na primeira era sujeito e estava antes do verbo e
agora é objeto direto, por estar depois de perseguir e por completar-lhe o
sentido. Nas línguas analíticas, como o português, as funções de sujeito
e objeto direto são identificadas pelas posições respectivamente antes ou
depois do verbo; daí a necessidade da análise lógica para se entrar no
significado das frases. No grego, essas duas frases podem ser expressas
mantendo-se as palavras (sujeito, verbo e objeto direto) na mesma posi-
ção. O que vai mudar são as desinências. Assim nas frases „O lèko-w
diÅkei tò-n nyrvpo-n e Tò-n lèko-n diÅkei õ nyrvpo-w, as
posições de lèko-w / lèko-n e nyrvpo-w / nyrvpo-n são as mes-
mas, mas as funções, caracterizadas pelas desinências -w/-n, são diferentes.
Nessas duas frases, com dois nomes de tema em -o, Žnyrvpo- e
luko-, a desinência -w do nominativo identifica o sujeito õ lèkow, na
primeira, e õ nyrvpow, na segunda; e a desinência -n do acusativo
identifica o objeto direto nyrvpon, na primeira e lèkon, na segunda.
Entre os sujeitos-nominativo lèkow e nyrvpow e os objetos diretos-
acusativo lèkon e nyrvpon está o verbo diÅkei, terceira pessoa do
singular do presente do indicativo da voz ativa de diÅkv, eu persigo. Ao
perguntarmos ao verbo quem persegue?, obteremos a resposta õ lèkow /
õ nyrvpow, isto é, no nominativo, porque o nominativo é o caso da
nomeação, da denominação, da identificação, daquilo de que se trata: õ
lèkow diÅkei, o lobo persegue e õ nyrvpow diÅkei, o homem persegue.
Temos agora dois elementos essenciais do enunciado: o sujeito e
o verbo, sujeito e predicado: aquilo de que se diz alguma coisa ou aquilo
que diz alguma coisa daquilo de que se diz alguma coisa. Mas imediata-
mente constatamos que um dos elementos está incompleto: õ lèkow
diÅkei / õ nyrvpow diÅkei “o lobo persegue / o homem persegue”,

é um conceito concreto: “o que está disposto embaixo, disposto sob os olhos, o que está
na mesa, submetido a exame”. É aquilo de que se trata. Essa aplicação do conceito
de sujeito lógico para sujeito gramatical começou com os estóicos e se desenvolveu
no período alexandrino.

mur03.p65 81 22/01/01, 11:36


82 flexão nominal

mas persegue quem?, persegue o quê? isto é, em quem ou em quê o ato


de perseguir, desencadeado respectivamente pelos sujeito-agente-nomi-
nativo lobo - õ lèkow - e pelo sujeito-agente-nominativo homem - õ
nyrvpow - se completa? A resposta é tòn nyrvpon / tòn lèkon,
isto é, o complemento, o termo do ato verbal, o complemento-objeto
direto de perseguir vai para o acusativo. E a gramática portuguesa chama
essa relação de objeto direto, porque não há entre ele e o verbo que ele
completa nenhum elemento intermediário (preposição). A supressão da
palavra complemento da nomenclatura da gramática portuguesa empobre-
ceu-lhe o significado; nós preferimos manter a denominação complemen-
to objeto direto e complemento objeto indireto. 2
Essas duas frases, em grego, podem ser expressas de várias maneiras:
„O lèkow diÅkei tòn nyrvpon.
Tòn nyrvpon diÅkei õ lèkow.
Tòn nyrvpon õ lèkow diÅkei.
DiÅkei tòn nyrvpon õ lèkow.
DiÅkei õ lèkow tòn nyrvpon.
„O lèkow tòn nyrvpon diÅkei.
Em todas essas variantes o significado do enunciado é o mesmo: o
lobo persegue o homem.
O que pode variar aí é apenas a ênfase que o enunciante queira dar
a essa ou aquela palavra. É uma questão de estilo. Mas essa liberdade tem
seus limites que são: a lógica e o significado do enunciado. Por exemplo:
nós podemos ver que em nenhuma das variantes os artigos se separaram
dos nomes. O verbo não se coloca entre o artigo e o nome, porque o
artigo é um adjunto adnominal e por isso deve ficar colado ao nome.
Por isso, a afirmação de que no grego e no latim a posição das pa-
lavras é livre é um exagero. Não é bem assim. Cada língua tem o seu
caráter, o seu ritmo de elocução, a sua modulação, a sua prosódia, sobre-
tudo na expressão oral (as literaturas grega e latina, sobretudo a grega,
são basicamente orais); há sempre a intenção, a necessidade de comuni-
car, de enfatizar esta ou aquela palavra, e a posição das palavras na frase é
um dos recursos da expressão.

2 Veremos, contudo, que as expressões “objeto direto, objeto indireto” em nada aju-
dam a compreensão do discurso. São meramente descritivas, formalistas.

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flexão nominal
nominal: casos e funções 83

Casos e funções
Pelo exposto, concluímos que, enquanto as línguas analíticas ex-
primem as relações sintáticas basicamente pela ordem das palavras na frase
e pelas preposições, o grego as exprime pelos casos.
A gramática tradicional afirma que o sânscrito tem 8 casos, o gre-
go tem 5 e o latim tem 6.
É uma visão meramente descritivista. A primeira impressão que o
aluno tem é que o número de casos é diretamente proporcional à com-
plexidade das estruturas da língua estudada, o que daria, em escala de-
crescente, o sânscrito, o latim e o grego. É um erro. Nossa experiência
mostra que a complexidade dessas línguas se manifesta ao estudioso não
na quantidade de casos, mas na falta de clareza de definição do que é um
caso. Os casos correspondem a funções; o enunciante associa os dois de
maneira concreta, numa relação estreita entre significante e significado;
ele pensa na função e depois no caso, isto é, na forma. E, se algumas
formas – morfemas, desinências – exprimem mais de uma função, ele
não se espanta porque em sua língua há inúmeras formas e sons conver-
gentes, mas os elementos denotativos, circunstanciais, contribuem para
a compreensão do enunciado.
Assim, em grego, as relações de dativo, de instrumental e de loca-
tivo são expressas pela desinência -i, e o falante grego, como os falantes
das línguas modernas, como as eslavas, não tem dificuldade em entender
e se fazer entender, mesmo no plano da oralidade.
Mas os gramáticos, querendo classificar, organizar e ordenar os fa-
tos da língua, por causa da desinência -i que eles viram primeiramente
no dativo (caso epistolar ou da atribuição), catalogaram junto com o dativo
duas outras relações completamente distintas: o instrumental e o locativo
e criaram essas “pérolas semânticas” dativo-instrumental e dativo-locativo.
Essas expressões são contraditórias nos seus próprios termos e passam a
idéia da arbitrariedade da nomenclatura gramatical, em que não existiria
nenhuma relação de significante-significado.
Mas o aluno brasileiro, e também o de todas as línguas ocidentais,
está disposto a engolir mais essa definição gramatical. Aliás, ele está acos-
tumado a receber obedientemente, passivamente, como dogmas, tudo o
que dizem as gramáticas, e no seu subconsciente está registrado que não
se deve querer entender a gramática: ela se deve aprender e pronto. Há

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84 flexão nominal: casos e funções

sempre uma “autoridade” que não convém contestar. Por isso, nunca lhe
passou pela cabeça que há uma relação de significante e significado em
tudo o que dizemos. Voltaremos ao assunto na explicação dos casos.

O que é caso? Vem do latim casus: “queda, quebra”, do verbo cadere,


“cair”. Mas toda a nomenclatura gramatical latina, e conseqüentemente
a portuguesa, é uma tradução, um decalque da nomenclatura grega, que
se encontra na Gramática de Dionísio da Trácia (séc. II-I a.C.).
A palavra ptÇsiw, casus, “queda, quebra”, já foi empregada por
Aristóteles nas Categorias, I, 10, quando quer caracterizar a substituição
sufixal dos derivados. É uma visão plástica da palavra, em que se vê uma
parte fixa, invariável (tema) e uma parte final “quebradiça”, que se subs-
titui em cascata declinante. Daí o nome klÛsiw - declinatio - declina-
ção que se deu à sucessão dos diversos casos. A imagem que se queria
passar era a de um ponto fixo: caso reto, e casos oblíquos, descendentes
dele. Essa denominação de caso reto ôry¯ ptÇsiw foi pensada pelos
estóicos, talvez por associarem o sujeito agente com a voz ativa que eles
denominam ôry® “ereta, vertical”, por oposição à voz passiva êptÛa “der-
rubada, deitada, supina”. 3 Há ainda outras explicações para isso, todas
muito imaginativas. Cremos que o nominativo foi visto como caso reto
porque é a relação direta da “identificação”, daí da “nomeação”, da “deno-
minação” daquilo de que se fala; é a relação primeira, direta, entre o sig-
nificado e o significante. 4
Como as palavras caso, flexão, declinação vêm do latim, também os
nomes dos casos têm a mesma origem: do grego, pelo latim. São uma
tradução linear, literal do grego, com um cuidado muito grande de não
dissociar o significado do significante.
Esses nomes não são meramente funcionais; eles significam, eles
definem as relações, isto é, as funções das palavras na frase.

3 A posição ereta é a posição do sujeito agente e a deitada, supina, passiva é a posição


do sujeito paciente. A posição ôry® é a posição do sujeito.
4 Convém notar, contudo, que a gramática de Dionísio Trácio já é descritivista, so-
bretudo na denominação dos modos verbais. E foi assim que os latinos a recebe-
ram e passaram para nós.

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flexão nominal: casos e funções 85

Uma vez criado o termo em grego e traduzido para o latim, defi-


nindo quase sempre de uma maneira concreta e clara as relações e fatos
gramaticais, o seu uso se generalizou.
Mas, aos poucos, perdeu-se o vínculo com o grego e também com
o significado etimológico, denotativo. A rotina do ensino gramatical es-
vaziou essas palavras de seu sentido, tornando-as termos absolutos, re-
presentando apenas uma série de regras, transformando o estudo da lín-
gua em mero exercício formal, calcado na memorização e na submissão a
paradigmas, que eram apresentados fechados, prontos. Ao aluno cabia
apenas aprendê-los de cor e não discuti-los e nem entendê-los.

Cremos que há uma outra maneira de abordá-los. As palavras são


identificáveis semanticamente pelo tema e funcionalmente pela flexão (ca-
so-desinência). É o que vamos tentar.

O tema
Mas, o que é tema? Todas as gramáticas gregas falam de declinação
atemática ou temática, de aoristo temático e atemático etc. Não vamos en-
trar em discussão com as várias interpretações lingüísticas da palavra tema.
Vamos tentar entendê-la no seu significado etimológico, denotativo, e
vamos ver sua funcionalidade no sistema de flexão da língua grega.
A palavra tema vem da raiz the, yh do verbo tÛ-yh-mi, eu coloco,
em ponho, mais o sufixo -ma, que é o resultado da ação. Significa, então:
o que está colocado, posto diante de.
É assim que entendem, por exemplo, Quintiliano, IV, 2, 28 (tema
ou raiz de uma palavra) e Apolônio Díscolo, Sintaxe, 53, 4 (a palavra que
serve para formar uma outra, como mfv para Žmfñterow. Aqui ele
entende tema como base para um sufixo gramatical -terow, a, on que
acrescenta uma idéia de comparação ao significado constante do tema.

Poderíamos chamar os sufixos de derivacionais semânticos, isto é,


que ampliam, diminuem ou modificam o significado. Já Aristóteles em
Categorias, I, 10, registra as ptÅseiw em grammatikñw/grammatik®,
ŽndreÝow/ŽndreÛa.
As ptÅseiw derivacionais, chamadas sufixos, se dividem em:

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86 flexão nominal: casos e funções

a) sufixo nominal alterando o significado:


deil-ñw - covarde
² deil-Ûa - a covardia (a qualidade do covarde)
b) sufixo nominal alterando o gênero:
p‹nt-w > pw - todo
pant-ya > psa - toda
c) sufixo nominal alterando o grau:
sofñw - sábio
sof-Återow - mais sábio
sof-Åtatow - o mais sábio
d) sufixo verbal alterando o aspecto:
• de tema verbal puro: - prag - fazer, agir
tema do infectum(inacabado): prag-yv > prattv - eu faço, eu ajo.
• de tema nominal: - onomat - nome
verbo denominativo: ônomat-yv > ônom‹zv - eu nomeio, denomino.

Na flexão nominal e verbal (declinação e conjugação) acontece a


mesma coisa: sobre um tema, acrescentam-se as várias desinências ou
morfemas que dão ao significado-base a idéia de função na flexão dos
substantivos, adjetivos e pronomes, e pessoa, voz, modo, aspecto na fle-
xão dos verbos. Isso quanto aos sufixos gramaticais.
Essas ptÅseiw da flexão são chamadas casos (desinências/morfe-
mas) para os substantivos, adjetivos e pronomes e desinências (morfe-
mas), para os verbos. Mas todas se acrescentam ao tema, que é a parte
fixa, sem quebra, tanto dos verbos quanto dos substantivos, adjetivos ou
pronomes.
Esse acréscimo, contudo, se faz respeitando-se as leis da fonética
de cada língua (o grego no nosso caso):
• nos casos de desinências vocálicas acrescentadas a temas em vogal, há o
recurso da elisão ou contração (crase);
• nos casos de desinências consonânticas (as verbais),
• quando acrescentadas a temas vocálicos, há a combinação natural
fazendo sílaba normalmente;
• quando acrescentadas a temas consonânticos servem-se de uma
vogal de apoio ou de ligação.
Aliás, a denominação de declinação ou conjugação “temática” ou
“atemática” da gramática tradicional é imprópria. Ela surgiu provavel-

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flexão nominal: casos e funções 87

mente da confusão que se estabeleceu entre vogal temática e vogal de


apoio ou de ligação. Uma coisa é a vogal temática, isto é, que faz parte do
tema, sobre o qual se acrescentam as desinências, como em logo-w o
tema é vocálico porque termina em -o, mas em læ-o-men temos três par-
tes: o tema lu-, a desinência da primeira pessoa do plural da voz ativa do
indicativo presente -men, e a vogal de ligação -o-.

A vogal de ligação não faz parte necessariamente das desinências;


ela não é um morfema. Sua função é fonética; ela só aparece quando ne-
cessária, para evitar conflitos fonéticos indesejáveis entre consoantes 5. Ela
nunca aparece entre vogais por desnecessária, mas às vezes permanece ao
lado de semivogais, como vimos em læ-o-men. É que, para todo o siste-
ma do infectum dos verbos em -v cujos temas são quase todos conso-
nânticos, a língua criou essa vogal de ligação o / e para evitar o conflito
entre a consoante final do tema e as consoantes das desinências. A per-
manência da vogal de ligação nos verbos de tema em semivogal indica
que, nesses casos, a “semivogal” é sentida como “semiconsoante” e, ao
lado da vogal desinencial ou de ligação, ela é mais “con-soante” 6; aliás o
número de verbos de tema em semivogal é reduzido.
E quando a língua, a partir de temas nominais terminados em vo-
gal, criou verbos com o sufixo -j- como filej-, nikaj-, dhloj-, que se
tornaram temas do infectum e evoluíram para fil¡v > filÇ, tim‹v >
timÇ, dhlñv > dhlÇ.
Na flexão de todo o sistema do infectum, esse j também foi sentido
como consoante, por isso recebe a desinência -v- na 1a pessoa e sofreu
síncope em posição intervocálica entre a vogal temática e a vogal de
ligação.

5 Quem determina a presença ou não da vogal de ligação é o consciente lingüístico,


que vigia sobretudo o significado. Quando uma acomodação entre consoantes
descaracteriza o significado, torna-se necessária a vogal de ligação. Veremos isso
muitas vezes no correr deste trabalho.
6 Aliás, a seqüência fonética “i/u + mi” é extremamente incômoda; a acomodação
com o -v é bem mais fácil e natural. É por isso também que os verbos que têm
um sufixo -numi / -nnumi no infectum têm uma variante em “æv”, como deÛknumi
/ deiknæv.

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88 flexão nominal: casos e funções

A síncope desse j provocou o surgimento do hiato que o dialeto


ático reduziu pela contração. As gramáticas chamam esses verbos de “con-
tratos”, mas, na verdade, eles só são “contratos”, isto é, têm formas con-
tratas apenas no sistema do infectum, “inacabado”, por causa da síncope
desse j, formador do tema do infectum. Nos outros temas (aoristo/futuro
e perfeito) a vogal temática é alongada.

Os casos: definições
N OMINATIVO: ƒOnomastik¯ ptÇsiw (önoma - ônom‹zv). Nomina-
tiuus casus (nomen - nominare) - nome-nomear, nominativo.

É o “caso” da denominação, da nomeação, da identidade, da identi-


ficação. É o caso do nome como ele é, na sua expressão referencial. É o
de que se fala; é o assunto, o sujeito lógico, e daí sujeito gramatical: tò
êpokeÛmenon - subjectum - o que jaz em baixo, o que está disposto em
baixo.
O nominativo é então o caso do sujeito e das relações secundárias
do sujeito, isto é, da expansão do sujeito nas relações adjetivas,
• quer na idéia de colagem, em que a noção adjetiva faz um todo
com o nome: o cavalo branco, isto é, o epíteto, o adjunto adnominal,
• quer na relação de atribuição, isto é, uma idéia de qualidade ou
estado atribuída, aplicada, em função de atributo; mas, nesse caso,
não há idéia de colagem; daí a necessidade do verbo de ligação.
Em grego, aliás, sobretudo até a época clássica, não se usa o ver-
bo de ligação nas relações ditas predicativas: õ nyrvpow
politikòn zÒon - o homem (é) um ser (vivente) da pólis (urbano
- político).
Essa idéia de atribuição pode ser percebida também nas
aposições: õ lñgow, m¡gistow tærannow - A palavra (discurso/
razão), o maior senhor ou õ lñgow m¡gistow tærannow - A
palavra é o maior senhor.

A proximidade conceitual e semântica entre um predicativo e o


aposto faz com que, com freqüência, não seja fácil estabelecer distinção
entre um e outro. Só o contexto resolverá o problema. Torna-se uma
questão conotativa.

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flexão nominal: casos e funções 89

A identificação e o emprego do nominativo são de fundamental


importância para a compreensão do enunciado, porque se trata do sujei-
to, isto é, do assunto. As relações secundárias do sujeito (adjunto
adnominal, predicativo, aposto) complementam essa identificação.
O emprego do nominativo é pouco complexo, mas às vezes
surpreende.
Contudo, o nominativo não identifica apenas o sujeito lógico,
conceitual, sintático, gramatical do enunciado: o amigo é fiel, õ fÛlow
pistñw / pistòw õ fÛlow. Por ser o caso da identificação, da denomi-
nação, ele é empregado naturalmente também em sintagmas, em cita-
ções, em enumerações, como: os amigos fiéis: oß pistoÜ fÛloi.
Nos exemplos a seguir, vamos registrar alguns desses empregos:
1. Em títulos de obras, inscrições, relações, listas:
Nef¡lai - As Nuvens (de Aristófanes)
Sf°kew - As Vespas (de Aristófanes)
t‹de par¡dosan:... st¡fanow... fi‹lai...
Eles ofereceram estas coisas: diadema... taças
KallistÆ NikofÛlou
Cálisto, filha de Nicófilo (inscrição tumular)
2. Em citações e predicação:
Žn¯r genñmenow proseÛlhfe t¯n tÇn ponhrÇn koin¯n
¤pvnumÛan sukof‹nthw - tendo-se tornado homem, ele adotou a
denominacão comum dos malfeitores: “sicofanta”
toçw ¦xontaw tòn shmnòn önoma toèto tò kalñw te
kŽgayñw - os que têm o nome respeitável de “belo e bom”
mèw kaÜ gal° m¡lleiw l¡gein; - “ratinho e doninha” queres dizer?
Žllƒ ´de m¡ntoi m¯ l¡ge - Mas, então, não digas “esta”
3. Nas enumerações:
TŒ d¢ t°w pñlevw oÞkodom®mata... toiaèta [÷ra] propæ-
laia... stoaÛ... Peiraieæw... (Dem., 23, 207)
[olha] as edificações da cidade tais como: os propileus... os pórti-
cos... o Pireu...
tÛyhmi dæo... poihtik°w eàdh: yeÛa m¢n kaÛ ŽnyrvpÛnh...
[t¡xnai]
Eu coloco duas formas de arte poética: a divina e a humana

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90 flexão nominal: casos e funções

llouw dƒõ... NeÝlow ¦pemcen: Sousisk‹nhw, PhgastagÆn


AÞguptogen®w, ÷ te t°w ßerw M¡mfidow rxvn... (Ésq.,
Pers., 33)
Nilo enviou ainda outros: Susískanes, Pegastágon da estirpe de Egi-
to, e o governante da sagrada Mênfis...
4. Predicativo de indefinido:
n°sow dendr®essa, yeŒ dƒ ¤n dÅmata naÛei
uma ilha coberta de árvores, uma deusa dentro tem habitação.
5. Em posição de anacoluto:
Oß fÛloi... tÛ f®somen aétoçw eänai;
Os amigos... o que diremos serem eles?
Às vezes confundindo-se, aparentemente, com o vocativo:
‰V t‹law ¤gÅ;
Infeliz que eu sou!
Dæsmorow;
Coitado! [tu és]
Sx¡tliow;
Infeliz! [tu és]
„O paÝw, Žkoloæyei deèro;
Tu, o escravo, acompanha aqui!
‰V fÛlow;
ó, amigo! [tu, o amigo!]
FÛlow, Î Men¡lae;
Amigo, ó Menelau!
dialegñmenow aétÒ ¦doj¡ moi... (Platão, Apol., 21c)
conversando com ele, pareceu-me...
Ferr¡fatta d¡, polloÜ m¢n kaÜ toèto foboèntai tñ öno-
ma (Platão, Crát., 412c)
Ferréfatta, muitos temem esse nome.
Prñjenow d¢ kaÜ M¡nvn... p¡mcate aétoçw deèro (Xen., An.,
2, 5, 37)
O Proxeno e Mênon... enviai-os para cá.
Em geral todos esses empregos do nominativo próximos do vocativo
são demonstrativos, afirmativos.

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flexão nominal: casos e funções 91

6. É também o que acontece nas interpelações, em que se aponta com o


dedo o objeto do chamado. Nas exclamações, o nominativo caracteri-
za, o vocativo se dirige, chama, o acusativo enche o objeto de emoção e o
genitivo dá a fonte da esfera da emoção.
Nesses casos, muitas vezes o emprego do nominativo se confunde
com o do vocativo :
Oðtow, s¡ kalÇ;
Tu aí, é a ti que estou chamando!
‰V oðtow, oðtow, OÞdÛpouw;
Ei, tu, tu aí, o Édipo!
nyrvpow ßerñw;
santo homem! (é um santo homem)
l°row;
bobagem!
Î mÇrow;
que bobo!
Î d¡spotƒ naj... lamprñw tƒ aÞy®r; (Aristóf., Nuvens, 1168)
ó senhor patrão! e brilhante éter!
7. Em aposição a um vocativo ou em lugar dele:
õ paÝw, Žkoloæyei deèro (Aristóf., Rãs, 521)
Tu, o escravo, vem para cá!
‰V Falhreæw, ¦fh, oðtow ƒApollñdvrow, oé perimeneÝw;
(Platão, Banq., 172a)
Ó o de Falera, tu (esse) aí, Apolodoro! não vais esperar?
Prñjene kaÜ oß lloi oß parñntew †Ellhnew, oék àste ÷ ti
poieÝte; (Xen., An., 1, 5, 16)
Proxeno (embaixador), e vós os outros gregos presentes, não sabeis o
que estais fazendo?
sæ dƒ, ¦fh, õ tÇn „UrkanÛvn rxvn, êpñmeinon (Xen., An.,
4, 5, 22)
E tu, disse ele, o comandante dos Hircânios, espera!
àyi m¢n oïn sæ, ¦fh, õ presbætatow, kaÜ ÞÆn taèta l¡ge
(Xen., An., 4, 5, 17)
Vai tu, então, o mais velho, e indo, dize [diz] essas coisas

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92 flexão nominal: casos e funções

kaÜ p‹ntew d¢ oß parñntew kaÜ oß Žpñntew fÛloi, xaÛrete;


(Xen., An., 8, 7, 28)
E todos vós, os amigos presentes e ausentes, salve!
8. O sujeito de um verbo finito, na voz ativa, média ou passiva, está sem-
pre no nominativo.
Kñnvn... ¤nÛkhsen
Kónon... obteve a vitória.
Na voz passiva o predicativo do sujeito vai para o nominativo. Em por-
tuguês costuma-se uni-lo ao sujeito por uma preposição como, por, de.
„O Kèrow ¼r¡yh basileæw
Ciro foi eleito rei.
Al¡jandrow Ènom‹zeto yeñw
Alexandre era chamado [de] deus.

Há também quem afirme que o nominativo não é um caso, talvez


por influência do registro tradicional dos nomes, no nominativo e genitivo
e dos adjetivos no nominativo nos dicionários e nas gramáticas. A forma
do nominativo seria a forma-referência, e o genitivo enquadraria o nome
nos diversos paradigmas (declinações).
Não concordamos.
O nominativo é um caso porque tem desinência7, e por isso tem
uma função. Essa confusão entre nominativo, caso-referência, identifican-
do-o com o tema dos nomes, dá origem à maior parte das dificuldades que
os alunos têm para aprender a flexão dos nomes em grego e em latim.
Contudo, os dicionários e as gramáticas estão aí. Vamos respeitá-
los, embora não concordando.
A desinência básica do nominativo dos seres animados (masc. e
fem.) é -w. Ela está:
• nos nomes masculinos e femininos de temas em consoante e semivogal
(a III declinação),
• nos nomes masculinos e femininos de tema em -o,
• nos nomes masculinos de tema em -a / -h.

7 A apresentação clássica dos nomes, quer nas gramáticas, quer na entrada dos dicio-
nários se faz pelo nominativo e genitivo. O genitivo identifica a declinação a que a

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flexão nominal: casos e funções 93

Os nomes de tema em soante ou líqüida substituem o -w pelo alon-


gamento da vogal temática.
Os femininos de tema em -a / -h não têm desinência no nomi-
nativo, e os neutros, por serem inanimados, sem identidade própria, têm
desinência zero no nominativo.
Não há neutros de temas em -a / -h; os de tema em -o também
não têm desinência. A “desinência” -n dos neutros em -o seria, na opi-
nião dos gramáticos, um empréstimo do acusativo masculino. Pensamos
que isso é improvável8. Nas palavras fortes como os dêiticos esse -n não
aparece, por dispensável.
É o caso de tñ, toèto, tñde, ¤keÝno, llo, aétñ.
Aliás, os neutros não têm declinação própria: fora do nominativo-
vocativo-acusativo, em que se apresentam na sua forma de tema, os ou-
tros casos se flexionam como os dos seres animados. Os neutros de tema
em consoante, soante ou semivogal não têm desinência; eles se enunciam
pelo próprio tema.

V OCATIVO : Kletik¯ ptÇsiw (kal¡v) - Vocatiuus casus (uocare).

É o ato de chamar. O vocativo não é propriamente uma função;


não faz parte do mecanismo da frase; é exterior a ela. É uma espécie de
interjeição, um chamado, um aceno; é o “gancho” do diálogo, que é bi-
polar, singular. É próprio da oralidade. E a língua grega é coerente ao
representá-lo sem ptÇsiw, isto é, sem desinência. Além disso, o vocativo
autêntico é só o singular. A pluralidade se criou por expansão, por ana-
logia, como veremos mais tarde. Por isso também o vocativo é pobre em
relações complementares (quase não tem predicativo e o aposto descamba
freqüentemente para o nominativo); só o adjunto adnominal (epíteto),
por se colar ao nome, fica no vocativo.

palavra pertence. Mais nada, tanto em latim quanto em grego. Cremos que se re-
gistrássemos entre parênteses o tema ajudaríamos muito mais o estudioso.
8 É mais provável que esse -n seja eufônico, isto é, vem apenas para proteger a vogal
átona final, como em ¤sti (-n), eÞsi(-n), ¦lue(-n).

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94 flexão nominal: casos e funções

1. Usa-se o vocativo apenas nos diálogos e nas interpelações (que são uma
forma de diálogo). Em geral aparece a interjeição Î, que precede o
nome:
[Î] ndrew dikastaÛ;
Senhores juízes!
Î Žndrew ƒAyhnaÝoi;
Cidadãos [varões] Atenienses!
ŽeÜ ÷moiow eä, Î ƒApollñdvre (Plat., Banq., 173d)
Tu és sempre semelhante, Apolodoro! 9
Î fÛle FaÝdre; (Plat., Fedro, 277a)
Ó amigo Fedro!
Î b¡ltiste SÅkratew;
Ó excelente Sócrates!
2. Contudo, às vezes, a interjeição pode vir entre o vocativo e seu atributo:
megalopñliew Î Sur‹kosai; (Pínd., Pít., 2, 1)
Grande cidade, ó Siracusa!
xaÝre, p‹ter , Î jeÝne; (i, 408)
Salve, pai, ó hóspede!
fÛlow Î Men¡lae (D, 189)
Ó amigo Menelau! [Menelau, meu amigo!]
3. Algumas vezes a interjeição é omitida, para dar mais vivacidade ao dis-
curso. Demóstenes ora emprega a interjeição ora não, dependendo da
ênfase que quer dar ao discurso.
lhreÝtƒ ƒAyhnaÝoi; (Dem., 8, 31)
Estais dizendo bobagens, atenienses.
…Andrew ƒAyhnaÝoi é mais freqüente do que Î ndrew ƒAyhnaÝoi.
Platão usa mais com a interjeição do que sem.

9 O uso da interjeição Î é constante. No Banquete, há 70 casos de Î e apenas 8


sem a interjeição. No Protágoras, por volta de 100 vocativos com nomes próprios
são precedidos de Î.

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flexão nominal: casos e funções 95

4. A posição do vocativo não é necessariamente no começo da frase. Pode


vir posposto.
aìth m¡n ¤stin, Î TÛmarxe, Žndròw Žgayoè ŽpologÛa
(Ésquines, 1, 122)
É essa, ó Timarco, a defesa de um homem de bem.
5. Vocativo nas exclamações e imprecações:
„Her‹kleiw;
Ó Heraclés!
Î Zeè kaÜ yeoÛ;
Ó Zeus e deuses!
Î Zeè basileè;
Ó Zeus rei!
Î Zeè DÛkh te Zhnòw „HlÛou te fÇw;
Ó Zeus, Justiça de Zeus e Luz do Sol!
6. Predicativo do vocativo:
ŽntÜ gŒr ¤kl®yhw …Imbrase ParyenÛou (Teócr., 17, 66)
Tu foste chamado, Ímbraso, em lugar de Parthênios
ÞÆ ÞÆ dæsthne sæ, dæsthne d°ta diŒ pñnvn p‹ntvn faneÛw;
Ai! ai! infeliz, tu, tendo aparecido (que apareceste) infeliz através
de todos os sofrimentos!

Por não ser função, o vocativo não é caso, isto é, não tem desinên-
cia própria. É o próprio tema. Mas ele está intimamente ligado ao nomi-
nativo, que é o caso da nomeação; ele não existe, ou está implícito, por
exemplo nos pronomes pessoais, nos adjetivos possessivos, nos demons-
trativos, por razões semânticas, é claro.
Essas categorias são identificadoras, com funções próximas das do
nominativo.
Nos nomes femininos de tema em -a / -h, ele é igual ao nomina-
tivo e é o próprio tema nos masculinos.
Nos nomes de tema em -o, ele é o próprio tema, mas com vocalismo
-e nos masculinos e femininos e é igual ao nominativo nos neutros.
Nos nomes neutros de tema em consoante, soante e semivogal, ele
é igual ao nominativo, e nos masculinos e femininos ele é ou o próprio
tema, ou é igual ao nominativo.

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96 flexão nominal: casos e funções

Quando o vocativo dos nomes masculinos e femininos é o próprio


tema?
Todas as vezes em que o enunciado do tema, em posição de
vocativo, não descaracteriza foneticamente o nome. Isto acontece com os
nomes de tema em consoante.
Ora, nós sabemos que a língua grega mantém poucas consoantes
em posição final: apenas -w, -n, -r. As outras todas caem.
Assim g¡rvn, ontow o ancião, cujo tema é g¡ront - faz o voca-
tivo g¡ron. Na verdade deveria ser g¡ront, mas o -t em posição final
não se sustenta em grego, contrariamente ao que acontece no latim.
Mas em aäj, aÞgñw a cabra, o vocativo deveria ser aäg que é o seu
tema; mas o -g em posição final também não se sustenta. Então tería-
mos um vocativo -aä, o que mutilaria e descaracterizaria semanticamen-
te a palavra. Nesses casos, o consciente lingüístico, isto é, a inteligência
da língua, que visa sempre ao significado, vem em socorro à palavra e lhe
empresta a desinência do nominativo, caso que semanticamente lhe é
próximo, e temos o vocativo aäj, igual ao nominativo.
Mas ela não usa do mesmo recurso em paÝw, paidñw. O tema, e
por conseguinte o vocativo, é paÝd; mas o -d em posição final sofre
apócope, ficando a forma paÝ. O que ficou é representativo do núcleo
semântico e a língua o mantém assim.
Essa “regra” de que o vocativo ora tem forma própria ora é igual ao
nominativo nunca foi e nem será bem explicada pelas gramáticas 10. E o
resultado disso, tanto em grego quanto em latim, são as listas de exce-
ções, ou então soluções mais cômodas de gramáticos como Konstantinos
Lascaris, que registra dois vocativos para muitas palavras, como pñli e
pñliw.
As desinências do vocativo plural são todas iguais às do nominati-
vo. O vocativo plural se fez por analogia, por extensão. O vocativo au-
têntico, original, funcional é o singular, horizontal, bipolar.

10 A razão é que as gramáticas vêem “declinações”, a partir do “caso reto - nominati-


vo”; nós vemos um tema, que contém o significado, e casos que lhe acrescentam
funções.

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flexão nominal: casos e funções 97

A CUSATIVO: AÞtiatik¯ ptÇsiw (aÞt¡v-aÞtÛa) - Accusatiuus, causatiuus


casus (ad-causare).

A gramática tradicional diz que é o caso do objeto direto, que se


caracteriza pela ausência de conetivo (preposição) entre o verbo transiti-
vo e o seu complemento.
É uma visão formalista, imperfeita e inútil, porque não leva em
conta a relação semântica. Ela não cobre, por exemplo, esse casuísmo
gramatical que costumamos chamar de “objeto direto preposicionado”,
como amar a Deus, amar ao próximo. Esse uso se localiza em toda a Ibéria,
sobretudo no castelhano. Na verdade esse a não seria propriamente uma
preposição mas uma espécie de vogal de apoio. A preposição a em prin-
cípio traz a idéia de referência ou de relação espacial ou equivalente, o
que não existe nesse caso.

Cremos que, se derivarmos aÞtiatik® do verbo aÞt¡v eu procu-


ro, busco, exijo, poderemos explicá-lo satisfatoriamente. A derivação de
aÞtÛa “causa”, por ser abstrata, não é suficiente e destoa do conjunto das
denominações dos outros casos, que são concretas.
Dionísio Trácio e depois alguns seguidores, como Apolônio Dís-
colo e Querobosco, afirmam que usamos o acusativo quando solicitamos
(aÞtoæmenoi) alguém: “Eu te (acus.) peço um livro (acus.)”. Te e livro
são causativos como em “Eu acuso Aristarco (acus.)”. Isso nos parece uma
justificativa a posteriori, baseada em uma observação parcial e superficial
dos mecanismos da língua. Contudo, o objeto de busca é também o ob-
jeto da causa; é natural, então, que esses dois termos se confundam e
façam surgir a idéia de culpa e daí a idéia de acusação.
É o que acontece com os verbos transitivos que, por serem incom-
pletos, partem à busca de seu complemento; esse complemento é o ter-
mo, término do processo verbal; o ato verbal se completa, se fecha nele.
A denominação de transitivo exprime bem esse fato.11
Essa busca do “complemento” pode ser verificada também nos ver-
bos chamados de movimento ou de direção. A única diferença é que,
nesse caso, há uma relação espacial.

11 A idéia de movimento é uma constante em todas as relações do acusativo.

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98 flexão nominal: casos e funções

Nas frases Eu vou à cidade / Eu amo a cidade, a palavra cidade é


termo, complemento tanto de amo quanto de vou. Há uma diferença
apenas: vou, por exprimir uma idéia de espaço, precisa de uma preposi-
ção 12. Mas a relação é a mesma, isto é, completar o verbo, e por isso
também o caso é o mesmo.
Nem sempre há coincidência entre o ponto de vista do português
e o ponto de vista do grego no entendimento da transitividade dos verbos.
Em português prevalece a análise formal: identifica-se o objeto
direto pela ausência da preposição depois do verbo “regente”, e a presen-
ça da preposição identifica o objeto indireto. Isso em pouco ou em nada
contribui para o entendimento do enunciado; ao contrário, às vezes até
confunde. É que em português, nos verbos denominativos de expressão
dos sentidos ou de ajuda, utilidade, proveito, conserva-se no verbo a es-
trutura do complemento nominal, com as preposições de e a; assim: ter
gosto de, para gostar de, ser agradável a, para agradar a, fazer o bem a,
dizer bem ou mal de são preferidos a beneficiar, bem-dizer, maldizer, que,
aliás, assumem significados diferentes.

Em grego, a identificação do acusativo (objeto direto) se faz pelo


significado, tendo em vista o processo verbal em seu seguimento até sua
realização e complementação no objeto, que é o termo do processo verbal.
Por exemplo, as idéias contidas nos verbos de expressão dos senti-
dos, de ajuda, utilidade etc., mesmo compostos, são entendidos como
processos verbais transitivos e se completam no objeto direto (acusati-
vo); mas, se a mesma idéia é expressa por um adjetivo ou substantivo, o
complemento nominal vai para o caso de sua relação. Assim:
Èf¡limñw tini - útil a alguém (dat., mas.)
ÈfelÇ tina - eu ajudo, auxilio alguém (acus.)

Como dissemos, nem sempre o ponto de vista grego coincide com


o ponto de vista português. Por causa de um processo diferente de for-
mação de palavras, muitas vezes uma visão de dativo (atribuição) em por-
tuguês é vista como acusativo (termo do ato verbal) em grego.

12 As preposições são advérbios de significado espacial. Por isso, em grego, quando


há uma relação espacial ela é expressa por uma preposição.

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flexão nominal: casos e funções 99

Alguns exemplos ilustram esse fato:


Grego Em português
ÈfelÇ, ônÛnhmÛ tina eu sou útil a / ajudo
eéergetÇ tina eu faço bem a / beneficio
eï poiÇ, kalÇw poiÇ tina eu faço o bem a
eï l¡gv, kalÇw l¡gv tin‹ falo bem de
lany‹nv tin‹ eu escapo a, me escondo de
ŽmænomaÛ tina eu me defendo de, afasto
aÞdoèmai tin‹ eu me envergonho, respeito
bl‹ptv tin‹ eu causo dano, prejudico
ŽdikÇ tina faço injustiça a
kakÇw poiÇ tina faço mal a
kakÇw l¡gv tin‹ falo mal de
ful‹ttomaÛ tina eu me guardo de, evito
ömnumaÛ tina eu juro por (em relação a)
aÞsxænomaÛ tina eu me envergonho (diante) de
foboèmaÛ tina eu tenho medo de, temo
timvroèmaÛ tina eu me vingo de

O acusativo sintático, como termo ou complemento dos verbos de


ação, ditos transitivos, como eu amo a cidade, ou analógico a ele, como o
termo do complemento nominal de um adjetivo que exprime qualidade,
ou de um verbo que exprime um estado, que os gramáticos chamam de
acusativo de relação, podem se situar na mesma idéia de movimento.
Alguns também o chamam de acusativo adverbial, talvez por vir expresso
pelo neutro de alguns adjetivos e substantivos, como prÇton, em pri-
meiro lugar, primeiramente, deæteron, em segundo lugar, (em) segundo.
Algumas vezes também, ele é expressso pelo plural neutro de um
adjetivo de sentido geral, como “todo, outro, muito”, em que se sente
um substantivo implícito, não expresso.
É como se o adjetivo funcionasse como predicativo desse subs-
tantivo objeto omitido. Assim:
ƒOlæmpia nikn vencer (uma modalidade esportiva)
(ƒOlumpik¯n nÛkhn nikn) em Olímpia
²dç geln rir doce (em relação a algo bom)
deinŒ êbrÛzein ofender (com ofensas) graves

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100 flexão nominal: casos e funções

p‹nta nikn vencer em tudo ( em todas as coisas)


oéd¢n frontÛzein pensar nada (em nenhuma coisa)
tlla (tŒ lla) quanto ao resto (a outras coisas)
oéd¡n em nada (a nenhuma coisa)
prÇton / tò prÇton em primeiro lugar (quanto à primeira coisa)
tò p‹lai / tò palaiñn antigamente (quanto à coisa antiga)
Žrx®n quanto ao começo, para começar,
antes de tudo
Žrx¯n oé/m® para começar não, de início não
tŒ poll‹ muitas vezes, quanto a muitas vezes,
freqüentemente
t¡low/tò t¡low quanto ao fim, em último lugar, finalmente
/tò teleutaÝon
prñteron antes (disto), primeiramente
toénatÛon (tò ¤nantÛon) ao contrário
t¯n eéyeÝan em linha reta, direto, em frente
toèton tòn xrñnon por) aquele tempo, naquele tempo
tò nèn / tŒ nèn quanto ao momento presente,
em relação às coisas de agora
tò loipñn quanto ao resto, daqui para frente
t¯n taxÛsthn (õdñn) à maneira mais rápida

Podemos incluir também nesse acusativo de relação o acusativo


de objeto interno, isto é, o complemento da mesma raiz do verbo ou de
significado próximo, que pode acontecer até com verbos intransitivos.
Em português também existe esse uso. Por exemplo viver a vida.
Também a expressão de extensão, distância, trajeto, percurso no
espaço e duração no tempo se exprimem pelo acusativo, uma vez que está
implícita a idéia de movimento.
dein¯n nñson noseÝn
adoecer de grave doença (obj. interno)
b¡ltiñn ¤sti sÇma µ cux¯n noseÝn - (Men.)
É melhor sofrer no corpo do que na alma [em relação a]
noseÝn nñson ŽgrÛan - (Sóf.)
sofrer de uma doença cruel [em relação a (objeto interno)]

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flexão nominal: casos e funções 101

k‹mnein t®nde t¯n nñson (Eur.)


sofrer dessa doença [em relação a (objeto interno)]
zÇ bÛon moxyerñn
eu vivo uma vida miserável (obj. interno)
lagÆ bÛon ¦zhw
tu vivias uma vida de lebre (obj. interno)
koim®yhsan xalk¡on ìpnon
eles adormeceram de um sono (de) bronze [eles dormiram um sono de
bronze (obj. interno - metonímia)]
¤n MarayÇni m‹xhn nikn
vencer a batalha em Maratona (obj. interno)
pñdaw Èkçw ƒAxilleæw (Hom.)
Aquiles rápido nos pés, quanto aos pés, em relação aos pés.
Svkr‹thw toënoma
Sócrates de nome, Sócrates quanto ao nome, em relação ao nome.
Žn¯r tŒ met¡vra frontist®w (Plat.)
homem pensador em relação aos fenômenos celestes (obj. interno).
deinñw eÞmi taæthn t¯n t¡xnhn (Plat.)
eu sou hábil nessa arte, em relação a essa arte (obj. interno)
õ nyrvpow tòn d‹ktulon ŽlgeÝ
esse homem tem dor de dedo [tem dor quanto ao dedo, em relação ao
dedo].
Žpetm®yhsan tŒw kefal‹w (Xen.)
eles foram cortados em relacão às cabeças. [Eles tiveram as cabeças
cortadas].
M¡letñw me ¤gr‹cato t¯n graf¯n taæthn. (Plat.)
Méletos me moveu esse processo [em relação a mim].
toèton tòn trñpon
em relação a essa maneira, dessa maneira
tÛ;
em relação ao que? por quê”?
tÛna trñpon:;
em relação a que maneira? de (por) que maneira.

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102 flexão nominal: casos e funções

O acusativo ilativo ou de direção, extensão ou movimento no es-


paço, também pode ser usado como duração, extensão no tempo, e, nes-
se caso, por ser uma noção menos concreta, dispensa a preposição.
T°w „Ell‹dow oé meÝon µ mæria st‹dia ŽpeÝxon
Estavam distantes da Grécia não menos do que 10.000 estádios.
Ceudñmenow oédeÜw lany‹nei polçn xrñnon
Mentindo ninguém se esconde [por] muito tempo.
treÝw ÷louw m°naw par¡meinen
Ele estacionou [por] três meses inteiros.
oéd¡pv eàkosin ¦th gegonÅw
Nascido ainda não vinte anos [nascido um tempo de ainda não vinte anos].
trÛthn ²m¡ran ´kv
É o terceiro dia que eu cheguei [passaram dois dias da minha chegada].
pn ¸mar ferñmhn
Eu era transportado o dia todo [ao longo de].

Esse mesmo mecanismo de relação se encontra também nos ver-


bos que exprimem duas ações: uma sobre a pessoa e outra sobre a coisa.
As gramáticas grega e latina falam de verbos de “duplo acusativo” com
“objeto direto” e “objeto indireto”. A portuguesa os chama ou de bitran-
sitivos ou de transitivos relativos. Cremos que também esse “acusativo
da coisa” poderia ser entendido como um acusativo de relação.
did‹skv tin‹ ti
Eu ensino algo a alguém pode ser entendido como eu ensino alguém
em (relação) a alguma coisa.
aÞtÇ, ¦romai, ¤rvtÇ tin‹ ti
Eu peço, eu exijo, eu pergunto, alguma coisa a alguém, ou alguém
em alguma coisa.
¤kdæv tin‹ ti
Eu desvisto alguém de alguma coisa (em relação a).
¤ndæv tin‹ ti
Eu visto alguém de alguma coisa (em relação a).
kræptv tin‹ ti
Eu escondo algo de alguém [algo em relação a alguém].

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flexão nominal: casos e funções 103

pr‹ttomai tin‹ ti
Eu exijo algo de alguém [faço exigência em relação a algo].

Podemos incluir aqui também alguns verbos que significam nome-


ar, escolher, eleger, ver como. O segundo acusativo é na verdade um predi-
cativo do objeto direto:
Oß ƒAyhnaÝoi tòn Perikl¡a eálonto strathgñn.
Os atenienses elegeram Péricles (como) comandante.
TÛ toèto l¡geiw ;
Tu dizes isso o quê? O que é isso que dizes?

Essa visão metafórica do movimento, que sentimos como uma re-


lação, está também numa construção bastante freqüente em grego e em
latim. É uma espécie de anacoluto construído a partir de uma apóstrofe,
num movimento do pensamento dirigido a alguém, em que há uma elipse
do verbo, cujo sentido está implícito no gesto:
s¢ d®, s¢ t¯n neæousan ¤w p¡don k‹ra
fºw µ katarn» m¯ dedrak¡nai t‹de;
Ei! tu!, tu que estás inclinando a cabeça para o chão, confirmas ou
negas ter praticado estas coisas? (Sóf.) [É a ti que me refiro, tu
que...]

No latim também:
Me, me, adsum qui feci
In me convertite ferrum... (Virg.)
Eu?! Eu?! eu, que fiz, estou aqui
Dirigi contra mim a lança...

É o mesmo acusativo que se usa nas interjeições ou imprecações:


n¯ DÛa; por Zeus!
me miserum! - coitado de mim.

Nas línguas modernas também existe essa construção, embora o


caso acusativo não se identifique formalmente. Mas no francês sim:
Moi? Je n’en sais rien!
Eu? eu não sei de nada!
Moi é o acusativo latino me.

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104 flexão nominal: casos e funções

G ENITIVO: - É a genik¯ ptÇsiw - genitivus casus, genitivo.

A primeira referência que se viu foi a de “filho de, ou oriundo de”


que era, e em muitas culturas ainda o é, o modo de identificação das pes-
soas. É provável que o nome genik® tenha surgido daí, da palavra g¡now
- família.
A segunda referência, não menos freqüente e concreta foi a de pos-
se 13; daí também o nome kthtik® ptÇsiw - caso possessivo - que al-
guns lhe deram; de ktÇmai - eu adquiro, eu possuo.
O nome genitivus casus, decalque latino de genik¯ ptÇsiw, levou
também alguns a verem no genitivo o caso-origem, isto é, o caso que
enquadrava os nomes em seu paradigma de flexão, na sua declinação.
É assim que nós aprendemos nas gramáticas do latim e do grego.
No latim, as “5 declinações” se identificam pela desinência do ge-
nitivo singular -ae, -i, -is, -us, -ei e, no grego, as “3 declinações” se iden-
tificam pelos genitivos -aw/hw, -ou, -ow. Daí também é o uso de, nos
dicionários e gramáticas, registrar o enunciado dos substantivos no
nominativo e genitivo singular para indicar a sua declinação. Veremos
adiante que não foi exatamente uma boa solução.
Mas, se adotarmos a expressão genik¯ ptÇsiw - genitiuus casus
no seu significado denotativo, etimológico, como caso da origem, vere-
mos que é correto. A metáfora e a metonímia se encarregam de ampliar o
seu significado.
É a relação de origem, em todos os sentidos, concreto ou abstrato:
origem, ponto de partida, parte de, proveniência, separação, afastamento, ca-
rência, necessidade, diferença, superioridade, inferioridade, definição, deli-
mitação, restrição, anseio, desejo, dominação, começo etc.
As gramáticas detalham um sem número de genitivos, fazendo dis-
tinção entre genitivo “regido” por adjetivos e substantivos e genitivos
“regidos” por verbos e preposições. Não estão erradas, mas, com excesso
de detalhes, elas obscurecem o aspecto semântico que é o principal. Se

13 O genitivo na idéia de “posse” pode ser sentido como um “partitivo”, isto é, de


mim, de ti; supõe a idéia de “partilha”, “parte que me cabe”; é uma relação subs-
tantiva em que há uma delimitação. O objeto possuído é “parte” do todo: “possui-
dor e posse”.

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flexão nominal: casos e funções 105

observarmos bem o significado de todos esses genitivos, verificaremos


que todos eles têm um significado próximo, concreto ou abstrato; a li-
nha semântica se mantém, incólume, com variações metafóricas.
Nós aprendemos que o genitivo é o caso das relações com de. É
correto mas incompleto. A preposição de, latina, na origem, tem o signi-
ficado de separação, de cima para baixo; mas o significado se expandiu
para significar qualquer separação. E é assim que em português ela é usa-
da nas relações nominais (complemento nominal ou adjunto adnominal);
é um uso correto, porque nesses casos de definição, delimitação, determi-
nação, restrição, o sentido de separação permanece.
No latim, o genitivo se restringe a essas relações nominais.
É, portanto, o genitivo restritivo, delimitativo do complemento
terminativo, do complemento nominal, do adjunto adnominal com to-
das as variantes semânticas de origem, de filiação, de posse, de matéria,
de lembrança, de esquecimento, de causa, de preço, de valor, de qualida-
de, de matéria, de conteúdo, de parte.

Assim mesmo, importa menos a forma do que o significado. Por


exemplo, nas relações de comparativo de superioridade ou inferioridade,
o grego usa o genitivo no segundo elemento, porque uma superioridade
ou inferioridade é uma diferença; o latim exprime essa relação pelo
ablativo.
Nas relações de superlativo relativo, em grego, tanto podemos ver
a separação como uma relação partitiva: “o maior de todos, dentre todos”
quanto à relação de superioridade e diferença. Em latim, a relação partitiva
é expressa pelo genitivo e a segunda, de superioridade, pelo ablativo. 14
O mesmo acontece com os verbos.
Sempre que o significado sugere uma idéia de separação, ausência,
carência, parte, como: desejar, carecer, lembrar-se, esquecer-se, ter falta de,
começar, mandar, dominar, leva-se o complemento para o genitivo. Em
português, temos de na maioria desses casos, com a idéia de partitivo co-
mo: começar, gozar de, provar de, degustar, tocar e alguns verbos que ex-
primem a percepção pelos sentidos, como ouvir, sentir.

14 Em grego, essas duas relações se exprimem pelo mesmo caso: genitivo.

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106 flexão nominal: casos e funções

Nesses casos o que se sente não é o todo, mas uma parte. A relação
semântica é importante. Contudo, não é uma regra absoluta; o contexto
nos dirá, e também a presença ou não do artigo; a ausência do artigo
exclui a visão do todo; ouvir barulho (genitivo partitivo) e ouvir o barulho
(complemento objeto direto-acusativo) 15:
pñnoi ‘ptontai toè sÅmatow os trabalhos atingem o corpo
(tocam = parte de)
geæesyai m¡litow provar mel
geæesyai toè melitow provar do/desse mel
Žkoæein t°w s‹lpiggow ouvir a trombeta
(o som da trombeta)

Os verbos cujo significado é mandar, dominar levam para o genitivo


o seu complemento. À primeira vista é estranho para nós. Mas, se consi-
derarmos bem, veremos que a relação de poder é uma relação de superio-
ridade, de diferença. Mais uma vez é o conteúdo semântico que prevalece.
As mesmas relações de origem, ponto de partida etc, mas concre-
tas, espaciais ou temporais se exprimem pelo genitivo com preposição.
As preposições são, na verdade, advérbios com significado espacial, que
delimitam a relação espacial. Essas relações espaciais de separação, origem,
o latim as leva para o ablativo. O grego, ao contrário, as leva todas, concre-
tas ou abstratas, para o genitivo com preposição. Algumas gramáticas de-
nominam esse caso de genitivo - ablativo.
A denominação genitivo-ablativo é confortável e semanticamente
correta, porque exprime o ponto de partida ou separação espacial ou
temporal.
É um conceito híbrido greco-latino.
Já vimos no acusativo de direção e extensão e veremos com o
locativo e o instrumental que as preposições acrescentam às relações sin-
táticas a idéia do concreto, do espaço e do tempo (a relação temporal é
uma metáfora da espacial).
Todas as preposições são antigos advérbios e têm um significado-
base espacial. A palavra preposição do grego prñyesiw e do latim prae-
positio tem cunho descritivista. Diz apenas que é uma y¡siw prñ, isto é,

15 Em português é difícil entender assim. A análise formal prevalece sobre a semântica.

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flexão nominal: casos e funções 107

uma posicão diante de. Não se pensa na relação semântica, que é o essen-
cial. É o que acontece nos compostos, tanto substantivos quanto adjeti-
vos ou verbos.
A língua grega os considera sempre como unidades autônomas,
semanticamente independentes, e o resultado final é a somatória do sig-
nificado das partes.
¤ntÛyhmi é igual a tÛyhmi ¤n eu ponho em, eu imponho
eÞs‹gv é igual a gv eÞw eu conduzo para, eu induzo
¤j‹gv é igual a gv ¤k eu tiro de dentro, eu exijo
A relação espacial irá respectivamente para o locativo, acusativo e
genitivo-ablativo, e os complementos dos verbos irão para o acusativo, nos
exemplos acima, ou para o caso que o significado pedir.
A relação genitivo-ablativo está também muito clara na função do
agente da passiva, tanto em grego (genitivo) quanto em latim (ablativo).
O ponto de vista do ato verbal em relação ao sujeito é diferente: o sujeito
não domina, não exerce, não desencadeia o ato verbal; ele não é ativo,
não é o agente; ele é passivo, paciente, receptor, inerte. Mas ele é sujei-
to; é dele que se fala.
O ato verbal é desencadeado fora, distante do sujeito, por um agente,
sob a ação de uma força externa e recai sobre o sujeito, que é o centro, o
assunto da oração, que recebe, aceita, sofre o ato verbal.
O grego tem consciência desse espaço imaginário percorrido pelo
ato verbal, desde o ponto em que foi desencadeado sob o efeito de -êpñ-
dessa força, desse agente: genitivo espacial (lugar de onde).
O latim também registra esse espaço imaginário entre o ponto de
partida (agente) e o ponto de chegada (paciente) do ato verbal: a / ab +
ablativo.

D ATIVO: É a dotik¯ ptÇsiw (dÛdvmi) - dativus (dare) casus, “dandi


casus” de Varrão.

É o caso da “dação”, da atribuição.


Acreditamos que, mais uma vez, a relação significante-significado
prevaleceu. Querobosco (I, ll, l8) o denomina caso epistolar, porque “se
usa quando alguém dá ou envia algo”. Mas, numa definição mais tardia
encontramos uma interpretação bem mais coerente: Dativus aliquid ex-

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108 flexão nominal: casos e funções

trinsecus addi demonstrat vel accedere: “O dativo demostra que algo de fora
se junta ou é acrescentado” (Ars Anonyma Bernensis, séc. VIII-IX).
É uma definição interessante que enfatiza a relação significante-
significado. A metáfora e a metonímia fazem o resto. Mas ela é também
abrangente, porque, a partir da idéia de “ser acrescentado ou se juntar
a”, podemos enumerar as relações de amizade, hostilidade, utilidade, pro-
veito, interesse, comunidade, ajuda, agrado, serviço, servidão, afinidade, se-
melhança, contigüidade, horizontalidade, igualdade, comparação, lateralidade,
interesse, paralelismo, simultaneidade etc.
É esse o dativo propriamente dito em grego e em latim.

Mas, os gramáticos, por causa do morfema -i, que era também o


do instrumental e do locativo, pensaram que era mais fácil e prático juntar
as três relações sob a mesma desinência e denominação e fizeram a fusão.
Querendo facilitar, eles complicaram e passaram para a cabeça dos alunos
a idéia e a certeza de que a gramática não se entende, ela se estuda e se
aprende de cor, e de que é inútil tentar entender a nomenclatura grama-
tical. O arbítrio prevalece.
Ora, em todas as línguas, qualquer analfabeto e qualquer criança
sabe que há palavras que soam igual mas que têm significados diferentes.
O contexto esclarece e define.
Em latim, o genitivo singular e o nominativo e vocativo plural dos
nomes em -o são em -i; o genitivo, o dativo singular e o nominativo e
vocativo plural dos nomes em -a são em -ae, e assim por diante. E nin-
guém pensou em dar um nome só a todas essas funções!
É que isso não foi pensado na relação do instrumental e locativo ,
que são conceitos do indo-europeu, que está muito longe, na poeira do
tempo.
Temos uma prova disso em Quintiliano, segunda metade do séc. I
d.C. (cerca de 30-100 d.C.), que sente o problema e não sabe como
resolvê-lo. Mas, honesto, como todo bom professor, sugere ao leitor,
também professor, que atente para o fato:
Quaerat (magister) etiam sitne apud Graecos uis quaedam sexti casus
et apud nos quoque septimi; nam quum dico hasta percussi non utor ablatiui
natura nec si idem Graece dicam datiui.
Procure (o mestre) também se entre os gregos existe uma certa necessi-
dade de um sexto caso e também entre nós a de um sétimo; pois quando eu

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flexão nominal: casos e funções 109

digo atingidos pela lança, eu não me sirvo da natureza do ablativo nem se eu


disser o mesmo em grego, do dativo. Quint., Inst. Orat., I, IV, 26.
O que fez falta a Quintiliano foi o chamado “termo técnico”. Mas
nós o temos. É o instrumental.
Não é o termo técnico, escravizante, que os manuais nos passam,
mas o termo exato, significante dessa função, distinta do dativo na sua
essência, mas igual na sua forma.
O instrumental tem sua origem na questão p» em grego e qua em
latim.
A idéia primitiva é “por onde, por que”. O instrumento ou meio
seria o objeto ou ser inerte, que não exerce o ato verbal, mas é por ele
que o ato verbal passa: ele não pratica a ação porque é ou está inerte (um
ser animado também pode ser instrumento). Não se usa preposição por-
que a idéia de espaço não é concreta, é muito tênue; na verdade a idéia de
instrumento está mais próxima da idéia de meio, de modo.
Por isso o grego, para exprimir a idéia de espaço concreto percorrido
ou atravessado, passa a usar a preposição di‹ (com acusativo), e o latim per.
Na prática, o reconhecimento das relações do dativo, do instru-
mental e do locativo se faz pelo significado e não pela forma, nem pela
categoria da palavra “regente”, quer ela seja substantivo, adjetivo, verbo
ou preposição.

Exemplos do uso do dativo:


² toè yeoè dñsiw ²mÝn
a doação (dação) da divindade para nós
² toÝw fÛloiw bo®yeia
o socorro aos amigos
² mvrÛa dÛdvsi ŽnyrÅpoiw kak‹
a loucura dá males aos homens
oék ¦stin oédeÜw ÷stiw oéx aêtÒ fÛlow
não há ninguém que não seja amigo a si mesmo
¤n taèya KærÄ basÛleia ·n kaÜ par‹deisow
Naquele lugar era para Ciro [Ciro tinha] um palácio real e um parque.
treÝw yugat¡rew eÞsÛ moi
três filhas são para mim [eu tenho...]

mur03.p65 109 22/01/01, 11:36


110 flexão nominal: casos e funções

önom‹ ¤stÛ moi MenÛppow


o nome para mim é Menipo [o meu nome é Menipo / eu tenho o
nome Menipo]
m®thr moÛ ƒAfrodÛth
a mãe para mim é Afrodite [minha mãe é Afrodite / eu tenho como
mãe Afrodite]
xr®simoi t» pñlei
úteis à cidade
oß aétoÜ öntew ¤keÛnoiw
os que eram/são os mesmos que aqueles
dÇron tÒ oàkÄ
um presente para o lar
rpag¯n kusÛn
uma presa para os cães
oã ¤moÜ eënoi
os que me são favoráveis
Žporoènti d¢ aétÒ pros¡rxetai Promhyeæw
a ele (que estava) em dificuldade aproxima-se Prometeu
oé tÒ patrÜ kaÜ t» mhtrÜ mñnon geghn®meya
nós não nascemos só para o pai e para a mãe
õ p‹ppow moÛ Žp¡yanen
morreu-me o avô / meu avô morreu
kaÛ moi m¯ yorub®shte
e não me façais barulho
Î m°ter Éw kalñw moi õ p‹ppow;
mãe, como me é belo o avô! como é belo o meu avô!
·lyon ‘ma t» ²m¡r&
eles chegaram junto com o dia
oÞmvg¯ õmoè kvkæmasin
gemidos junto com gritos
oß P¡rsai kaÜ oß sçn aétoÝw
os Persas e os com eles
sçn toÝw yeoÝw
com os deuses

mur03.p65 110 22/01/01, 11:36


flexão nominal: casos e funções 111

sæneimi (eÞmi sæn), sumf¡rv (f¡rv sæn) ktl, “regem” o dativo


de companhia, ou comitativo (simultaneidade).
Não se trata de uma regra da gramática, mas de uma exigência ba-
seada na coerência, na relação semântica.

L OCATIVO - responde à pergunta onde? A referência é sobre o lugar em


que se está ou em que se comete um ato; é estático, concreto, espacial:
responde à questão “onde?”, poè; em grego, e ubi? em latim.

A idéia de espaço se transfere (metáfora) para a idéia de tempo,


também estático, isto é, um espaço, um momento do tempo.
O uso da preposição se faz necessário sempre que se quer enfatizar
ou precisar o espaço.
Nas relações de tempo seu uso é menos freqüente.
Há sobrevivências do locativo indo-europeu em -i em latim e em
grego, como:
domi em casa
ruri no campo
Romai > Romae em Roma
oàkoi em casa
Em grego há um antigo sufixo -yi que Homero usa, mas deixou de
ser usado no ático.
t» trÛtú Ër& na (pela) terceira hora
t» êsteraÛ& no dia seguinte
taætú t» ²m¡r& nesse dia
tet‹rtÄ ¦tei no quarto ano

ƒEn ¦tesin ¥bdom®konta ¤j°n soi Žpi¡nai


nos 70 anos (no espaço de) era-te permitido (possível) emigrar (Pl.,
Críton)
ƒEn nuktÜ boul¯ toÝw sofoÝsi gÛgnetai
De noite (na noite) o conselho acontece aos sábios
¤n t» „Ell‹di / ¤n KæprÄ
na Grécia, em Chipre

mur03.p65 111 22/01/01, 11:36


112 flexão nominal: casos e funções

¤n psi eédñkimoi öntew


entre todos (no meio de) sendo ilustres
oß ¤n t¡lei öntew
os que estão no cargo
¤n tÒ aétÒ
no mesmo (tempo, fato, lugar)
¤n trisÜn ²m¡raiw
em três dias (no espaço fechado de)

O locativo “regido” por verbos compostos deve ser entendido a


partir do significado. A composição se faz de uma forma coerente e lógi-
ca; deve haver compatibilidade semântica entre a preposição (que traz a
idéia espacial) e o verbo, que não pode ter idéia de movimento. Se jun-
tarmos o significado da preposição ao significado do verbo não precisa-
mos de regra de “regência”. Saberemos que é o locativo.
Assim:
¦neimi -eÞmi ¤n eu estou dentro, estou em -locativo
p‹reimi -eÞmi par‹ estou ao lado de, estou presente -locativo

Às vezes, por causa do significado do verbo, não é fácil fazer dis-


tinção entre dativo e locativo:
¤pidÛdvmi -dÛdvmi ¤pÛ eu dou em cima; eu dou além, eu acrescento.
Aqui é nítida a idéia de acrescentar; daí o dativo prevalece. Resta
ver, no entanto, se no contexto não há uma relação espacial, quando o
locativo prevaleceria.16

16 Assim ŽpodÛdvmi eu dou a partir de, eu atribuo (um nome a). Nas Categorias,
Aristóteles o emprega com o significado de atribuir (dar) um nome a. Nesse caso,
a idéia contida na preposição a partir de, de está implícita, mas não é relevante; a
idéia de “dação” é mais forte e o caso então é dativo.

mur03.p65 112 22/01/01, 11:36


flexão nominal: casos e funções 113

I NSTRUMENTAL : exprime o meio ou o instrumento com que um ato é


cometido.

Ele tem sua origem na questão p» ; “por onde, por que?”


O meio ou o instrumento não age; ele é inerte, e por isso se usa com
seres não dotados de vontade própria, como espada, cajado, dinheiro, pedra
etc. Mas às vezes um ser dotado de vontade própria pode ser usado como
instrumento. As gramáticas dizem que o soldado é considerado um ins-
trumento nas mãos do comandante. Sempre foi. Mas, quando o soldado
age por vontade própria, quando ele mata o comandante, não é mais mero
instrumento, é um agente da passiva: “O comandante foi morto pelo solda-
do”. Mas um ser animado, uma pessoa pode servir de instrumento para um
crime, para uma intriga. Nesses casos o indivíduo se torna mero instrumento.
Essa idéia de passagem do ato verbal contida na questão p» preva-
leceu a tal ponto que a expressão de trânsito, percurso, travessia, passou
a ser expressa pela preposição di‹ em grego e per em latim.
Não é muito fácil, também, separar, com clareza, a idéia de meio
ou instrumento da idéia de maneira, modo.
O modo, a maneira podem ser considerados como uma metáfora
do meio ou instrumento. Daí o caso ser o instrumental.
As gramáticas falam de “dativo” de instrumento, de causa, de modo,
de medida e até de diferença!
Nos exemplos a seguir, extraídos de Kaegi, todos eles podem ser
entendidos como instrumental.
OédeÜw ¦painon ²donaÝw ¤kt®sato
ninguém adquiriu glória com prazeres
Xr®setai ²mÝn õ basileçw ÷ ti ’n boælhtai
o rei se servirá de nós naquilo que (em relação ao que) queira [que
quiser]
oé mñnÄ rtÄ z» õ nyrvpow
nem só de pão vive o homem
eénoÛ&, ìbrei, fyñnÄ, fñbÄ poieÝn ti
fazer alguma coisa por [com] benevolência, por insolência, por inveja,
por medo

Causa?! Não!! É mero instrumento.

mur03.p65 113 22/01/01, 11:36


114 flexão nominal: casos e funções

Podemos observar o mesmo nos exemplos seguintes:


ƒAboulÛ& t‹ poll‹ bl‹ptontai brotoÛ
Os mortais são prejudicados na maior parte das vezes pela falta de
vontade/empenho
XalepÇw ¦feron oß stratiÇtai toÝw paroèsi pr‹gmasin
Os soldados tiveram problemas pelos [com os] acontecimentos presentes

A idéia de causa, por ser abstrata, é sempre metafórica, secundária;


ela é abs-tracta.

A idéia de modo, maneira também deriva da idéia de instrumento,


meio:
toætÄ tÒ trñpÄ dessa maneira
oédenÜ trñpÄ de maneira nenhuma
taætú t» gnÅmú dessa opinião
p‹sú t¡xnú kaÜ mhxan» por toda arte e engenho
pantÜ sy¡nei com todo o empenho
tÒ önti ¦rgÄ pelo ato que é - na realidade

Alguns adjetivos no “dativo”, isto é, instrumental-modal, passaram


a ser empregados isoladamente e são por isso vistos como advérbios; nesses
casos prevaleceu o significado do adjetivo sobre o do substantivo, que
passou a ser omitido, ficando implícito, como:
dhmosÛ& público/a; publicamente; em público
taf» dhmosÛ& com / em obséquias públicas
ÞdÛ& em particular, em privado
koin» em comum

A idéia de medida, de comparação (igualdade), do quanto (preço)


também é uma expressão do instrumental:
pollÒ kreÝtton muito (em muito) melhor
ôlÛgÄ ¤l‹ttouw triakosÛvn pouco (em pouco) menos do que trezentos
polloÝw ¦tesi ìsteron muitos anos depois
pñsÄ ¤stÛn; quanto é? (por quanto?)
÷sÄ... tosoætÄ quanto (mais)... tanto (mais)

mur03.p65 114 22/01/01, 11:36


flexão nominal: casos
os gêneros
e funções 115

Os gêneros
No sânscrito, no grego e no latim são três:
Žrsenikñn, masculinum, masculino;
yhlikñn, femininum, feminino e
oéd¡teron, m¡son, neutrum, neutrius generis, neutro.

Na verdade, o neutro não é propriamente um gênero, mas sim uma


ausência de gênero. Isso lembra certamente o gênero anímico: a referên-
cia da dualidade macho/fêmea.
Os seres inanimados se definiam por analogia; mas nem sempre a
analogia agiu com coerência, porque os critérios de observação variam
segundo o momento, o meio, isto é, a cultura.
No grego há uma certa coerência, mas numa divisão binária: gêne-
ro animado/gênero inanimado.
Essa diferença aparece na declinação: o neutro não tem a caracte-
rização do nominativo do gênero animado, que é basicamente -w.
O nominativo dos neutros é o próprio tema.
Isso é claro nos nomes de tema em consoante ou semivogal; nos
de tema em -o, sobretudo nos de sílaba final átona, para protegê-la, a
língua “toma emprestado o -n do acusativo”17, segundo os gramáticos.
Mas esse -n tem uma função eufônica ou prosódica, como acontece nos
dativos plurais e nas terceiras pessoas dos verbos quando em final de fra-
se ou antes de palavras iniciadas por vogal, para proteger a vogal final
átona (não há neutro em -o oxítono).
É o que acontece nos neutros em -o.
A explicação a posteriori de que esse -n seria um empréstimo do
acusativo não é muito satisfatória.
Nos demonstrativos, que são palavras fortes, essa proteção é dis-
pensada:
Assim temos: tñ, autñ, tñde, toèto, llo, ¤keÝno, ktl.

17 Por ser oéd¡teron = nenhum dos dois, o neutro não tem desinências próprias:
desinência zero nos casos síntáticos (N.V.A.) e desinências emprestadas dos gêne-
ros animados nos outros casos.

mur03.p65 115 22/01/01, 11:36


116 flexão
flexão
nominal:
nominal:
casos
osenúmeros
funções

Os números
Os números, ŽriymoÛ, são três:
õ ¥nikñw, singularis, singular;
õ duikñw, dualis, dual;
õ plhyuntikñw, pluralis, plural.

O singular e o plural não trazem nenhuma dificuldade. É a mesma


idéia que temos em português.
Mas a língua grega tinha um dual, isto é, a designação do par, do
casal, de uso bastante restrito. Usava-se apenas nos casos em que se que-
ria insistir na concomitância de dois: dois olhos, duas mãos etc.
Os gramáticos afirmam que o dual deixou de ser usado bastante
cedo.
Não é bem verdade. Usava-se sempre que necessário: na lingua-
gem afetiva e quando se queria precisar a dualidade.

mur03.p65 116 22/01/01, 11:36


aflexão
flexãonominal:
nominal:casos
os temas
e funções
nominais 117

A flexão nominal:
os temas nominais
Definidos os casos, as funções, os gêneros, os números, vamos pas-
sar aos modelos, paradigmas de flexão.
Em grego podemos dividir os nomes em dois grandes grupos:
• nomes de tema em vogal;
• nomes de tema em consoante e soante/semivogal.

Temas em vogal
• temas em -o
• temas em -a/h
Os de temas em -o são:
• masculinos: õ lñgow-ou - a palavra, o discurso
• femininos: ² õdñw-oè - o caminho
• neutros: tò t¡knon-ou - a criança, o filho
Não há distinção formal entre os masculinos e femininos (gênero
anímico), mas os femininos são pouco numerosos.
Os temas em a/h são:
• femininos: ² kefal®-°w a cabeça
² Žgor‹-w a praça, o mercado
² paideÛa-aw a educação
² glÅtta-hw a língua
• masculinos: õ polÛthw-ou o cidadão
õ neanÛaw-ou o rapaz, o jovem
adjetivos qualificativos de tema em -o
dêiticos de tema em -a / -h
• adjetivos qualificativos:
dÛkaiow dikaÛa dÛkaion justo
mikrñw mikr‹ mikrñn pequeno
kalñw kal® kalñn belo, bom
dikow dikow dikon injusto, injusta

mur03.p65 117 22/01/01, 11:36


118 a flexão nominal: os temas nominais

• dêiticos:
õ - ² - tñ o, a (artigo)
÷de - ´de - tñde este, esta, isto
oðtow - aìth - toèto esse, essa, isso
¤keÝnow-¤keÛnh-¤keÝno aquele, a, aquilo
aétñw-aét®-aétñ ele, o mesmo
llow-llh-llo outro, outra

Notas:
1. A lista dos dêiticos (demonstrativos) não é completa, mas representativa;
2. Os adjetivos podem ter três formas: uma para cada gênero (adjetivos
triformes); e duas formas: uma para o masc./fem., e outra para o neu-
tro (adjetivos biformes); esses são basicamente os compostos.

Observações:
A variação -a / -h do feminino dos adjetivos se identifica da se-
guinte maneira:
• os de vogal temática precedida de semivogal i / u e r fazem o femini-
no em -a: dikaÛa, mikr‹
• os de vogal temática precedida de qualquer outra consoante o fazem em
-h: kal®
Essa norma é válida também para os nomes. Entretanto, há alguns
nomes em que podem conviver o vocalismo -a e -h, como peÝna / peÛnh
a fome, dÛca / dÛch a sede.
Outros ainda, apesar de terem a vogal temática precedida de con-
soante, mantêm o vocalismo -a no nom., voc., e acus. singular e -hw no
genitivo, -ú no dat. instr. loc.
A gramática os chama de nomes em -a impuro ou misto. Ex.:
N.dñja, V.dñja, A.dñjan, G.dñjhw, D.L.I. dñjú
Todo o plural dos nomes de tema em a/h é em -a.
Há ainda alguns nomes próprios de origem dórica que mantêm o
vocalismo -a em toda a flexão, como:
N.L®da, V.L°da, A.L®dan, G.L®daw, D.L.I. L®d&:
Leda, mãe de Castor e Pólux, Helena e Clitemnestra;
e Filom®la - rouxinol.

mur03.p65 118 22/01/01, 11:36


a flexão nominal: os temas nominais 119

Outros ainda, de origem jônica, mantêm o vocalismo -h em toda a


flexão apesar de terem a vogal temática precedida de -r.
² rrh - hw (rsh) a face
² ¦rsh - hw o orvalho
kñrh - hw a menina-moça, a jovem
Essa variação a/h é, como vimos, de origem dialetal dórica-jônica.
O dialeto ático, que estudamos aqui, vem da Ática, região em que
se localizava Atenas, e formou-se basicamente no século V, numa fusão
do dialeto jônico e dórico. Atenas se situa ao longo de uma linha imagi-
nária norte-sul que separa a zona oeste de dialeto dórico da zona leste de
dialeto jônico. Plutarco diz que Teseu reconheceu as fronteiras da Jônia
e da Dórida ao erigir uma estela perto de Megara, fazendo gravar no lado
oeste “Aqui termina a Dórida e começa a Jônia e do lado leste, “Aqui
termina a Jônia e começa a Dórida”.
Assim mesmo, o vocalismo dórico é muito presente no dialeto ático;
o vocalismo jônico penetrou quer pela proximidade geográfica quer pela in-
fluência dos sábios que acorreram, sobretudo das costas da Ásia Menor, para
Atenas, que depois de duas vitórias contra os Persas passou a exercer uma
liderança política, econômica e intelectual sobre todo o mundo grego.
O ático é o grego literário por excelência. É a língua de Platão, de
Aristófanes, de Ésquilo, de Sófocles, de Eurípides, de Lísias, de Isócra-
tes, de Iseu, de Demóstenes, de Ésquines, de Aristóteles, de Tucídides,
de Xenofonte, para citar os principais.
Posteriormente, com a constituição fugaz do império de Alexan-
dre e posterior divisão em três, entre seus sucessores, o dialeto ático pas-
sou a ser a língua comum ² koin¯ glÇtta, do Mediterrâneo, desde o
Ponto Euxino até o Egito e as Colunas de Heraclés (Gibraltar).
A expressão koin® tem sido usada para identificar a língua dos tex-
tos bíblicos - o Antigo e o Novo Testamentos. Não é exato; as expres-
sões grego bíblico, latim bíblico são bastante discutíveis.
A koin® é também a língua do comércio, da diplomacia, das rela-
ções entre os homens em todo o Mediterrâneo oriental, e foi por essa
razão que os rabinos decidiram traduzir os livros da religião judaica para
a língua comum, para que os judeus da diáspora tivessem acesso a eles na
única língua que conheciam, o grego.
Mas o ático literário não perdeu o prestígio; ele continuou a ser a
língua da excelência, a língua padrão, que serviu de modelo para todos os

mur03.p65 119 22/01/01, 11:36


120 a flexão nominal: os temas nominais

escritores em língua grega, desde o período alexandrino até o fim do Impé-


rio Bizantino, em l453. Ainda hoje, a kayar¡ousa é uma tentativa de ma-
nutenção do ideal ático.

Quadro geral das desinências


Temas em - o Temas em -a/-h
Casos Masc./fem. Neutros Fem. Masc.
Singular
Nom. -o-w -o-n -a/ h -aw/hw
Voc. -e - * -o-n -a/-h -a/-h
Acus. -o-n -o-n -a-n/-h-n -a-n/h-n
Gen. -o-sjo** -o-sjo -a-w/hw -ou (-a dórico)
Dat. -o-i > vi /Ä -o-i > vi /Ä -a-i > &/h-i / ú -a-i > &/h-i / ú
Loc. -o-i > vi /Ä -o-i > vi /Ä -a-i > &/h-i / ú -a-i > &/h-i / ú
Instr. -o-i> vi / Ä -o-i > vi /Ä -a-i > &/h-i / ú -a-i > &/h-i / ú
Plural
Nom. -o-i -a -a-i -a-i
Voc. -o-i -a -a-i -a-i
Acus. -o-n-w > ouw -a -a-n-w > aw -a-n-w > aw
Gen. -o-vn > vn -o-vn> vn -‹-svn > -‹-svn> ‹vn/Çn
> ‹vn/Çn***
Dat. -o-is(in) -o-is(in) -a-is(in) -a-is(in)
Loc. -o-is(in)**** -o-is(in) -a-is(in) -a-is(in)
Instr. -o-is(in) -a—o-is(in) -o-is(in) -a-is(in)
Dual
N.V.A. -v -v -a -a
G.D.L.I. -oin -oin -ain -ain

* O vocativo é o próprio tema (desinência zero); nos masc. e fem. em -o a vogal


temática sofre alternância vocálica -o/-e.
** -o-sjo > ojo > oio : no jônico (vocalização do j e síncope do -s-);
-ojo >- oo > ou / v : no ático (síncope do j e contração).
*** desinência do demonstrativo (forte).
**** -o-i-si -/ -a-i-si - antigo instrumental indo-europeu > -oiw /-aiw no ático.

mur03.p65 120 22/01/01, 11:36


a flexão nominal: os temas nominais 121

Esse é o quadro básico da flexão dos nomes de tema em vogal.


Podemos observar que a vogal temática sofre algumas alterações:
Nos nomes de tema em -o:
• no vocativo sing. do masc./fem., que tem desinência zero, o que houve
foi apenas metafonia, isto é, alteração de timbre -o/e.
• No genitivo sing. deu-se o seguinte:
-o-sjo > ojo > oio > oo >ou.
Esta é a explicação mais aceita.
Há algumas variantes dialetais -v / -oio. A última (jônica) é cons-
tante em Homero; no ático prevalece a forma contrata -ou.
• No dat. loc. instr. singular o -i é longo; houve então uma metátese de
quantidade; a seguir o -i, que se tornou breve, passou a figurar em po-
sição subscrita. Recentemente voltou a se grafar adscrito.
• No acus. plural -onw houve a queda do -n- antes do -w e a natural com-
pensação pela ditongação em -ouw.
• No gen. plural dos temas em -o houve a elisão e não contração da vogal
temática antes da vogal longa da desinência.
• No dat. loc. instr. plural a desinência plural -oisin é constante em Ho-
mero, Heródoto e nos poetas líricos. O ático generalizou o uso de -oiw.
• O neutro, como já dissemos, não tem desinências próprias. O -a do
nom. voc. acus. plural não é uma desinência, mas a marca do coletivo
indoeuropeu. Vemo-la também em latim.
O -n dos mesmos casos no singular tem mera função prosódica e
eufônica.
Os outros casos são iguais aos do masc./fem.
Nos nomes de tema em -a/-h:-
• O vocativo singular de todos esses nomes, inclusive dos masculinos é
em -a. Às vezes, alguns nomes próprios masculinos em -h mantêm
essa vogal alternando com o vocativo em -a: ƒAtreÛda - ƒAtreÛdh.
• No dat. loc. instr. sing. deu-se o mesmo que nos nomes de tema em -
o:- metátese de quantidade e posição subscrita do -i.
Nos temas de vogal longa aparentemente o -i- se abreviou e se
subscreveu. 18

18 Aparentemente, apenas. O que houve foi o seguinte: a vogal longa antes do -i-
longo se abreviou e a seguir houve metátese de quantidade, naturalmente, e o -i-,
agora breve, se subscreveu ou se adscreveu.

mur03.p65 121 22/01/01, 11:36


122 a flexão nominal: os temas nominais

• No dat. loc. instr. plural deu-se o mesmo que nos nomes de tema em -
o (-aisi > -aiw).
• A desinência -svn do genitivo plural é um empréstimo da flexão dos
dêiticos; o -s- encontrando-se em posição intervocálica sofre uma sín-
cope, provocando o hiato entre a vogal temática -a e-vn (-‹-svn >
‹vn) que no ático se contrai > Çn.
É essa a razão do “deslocamento” da tônica no genitivo plural dos
nomes de tema em -a/-h, de temas paroxítonos e proparoxítonos:
glÇtta > glvtt‹-svn > glvtt‹vn > glvttÇn
g¡fura > gefur‹-svn > gefur‹vn > gefurÇn19
• O nominativo singular dos masculinos tem -w.
• O genitivo singular dos masculinos é em -ou e não em-aw/hw como
se espera (no dialeto dórico é -a). Seria um empréstimo da desinência
do artigo masculino; certamente por razões de clareza, para não con-
fundir com o nominativo singular.

Nota importante:
Nos quadros de flexão das páginas seguintes, o aluno encontrará as
palavras flexionadas em sua forma final. Em alguns casos a separação en-
tre vogal temática e desinência é complicada, como ficou demonstrado
no quadro geral das desinências. Seguiremos então o costume, destacan-
do as variações visíveis da flexão, separando vogal temática da desinência,
quando for possível. Convém no entanto não esquecer que a flexão é uma
combinação de temas e desinências, o “caso” dos nomes.

19 As gramáticas tradicionais criaram uma regra: “todos os nomes da 1a declinação


grega têm o genitivo plural perispômeno”. É mais fácil mostrar como aconteceu. É
mero problema fonético.

mur03.p65 122 22/01/01, 11:36


a flexão nominal: os temas nominais 123

Quadro de flexão: masculinos em -o

T. dÛkaio- lñgo- õ dÛkaiow lñgow o discurso justo


T. Žgayñ- nyrvpo- ô Žgayòw nyrvpow o homem bom

Singular Nom. õ dÛkaio-w lñgo-w õ Žgayò-w nyrvpo-w


Voc. Î dÛkaie lñge Î Žgay¡ nyrvpe
Acus tòn dÛkaio-n lñgo-n tñn Žgayò-n nyrvpo-n
Gen. toè dikaÛ-ou lñg-ou toè Žgay-oè ŽnyrÅp-ou
Dat. tÒ dikaÛ-Ä lñg-Ä tÒ Žgay-Ò ŽnyrÅp-Ä
Loc. tÒ dikaÛ-Ä lñg-Ä tÒ Žgay-Ò ŽnyrÅp-Ä
Instr. tÒ dikaÛ-Ä lñg-Ä tÒ Žgay-Ò ŽnyrÅp-Ä
Plural Nom. oß dÛkaio-i lñgo-i oß Žgayo-Ü nyrvpo-i
Voc. Î dÛkaio-i lñgo-i Î Žgayo-Ü nyrvpo-i
Acus. toçw dikaÛ-ouw lñg-ouw toçw Žgay-oçw ŽnyrÅp-ouw
Gen. tÇn dikaÛ-vn lñg-vn tÇn Žgay-Çn ŽnyrÅp-vn
Dat. toÝw dikaÛo-iw lñgo-iw toÝw Žgayo-Ýw ŽnyrÅpo-iw
Loc. toÝw dikaÛo-iw lñgo-iw toÝw Žgayo-Ýw ŽnyrÅpo-iw
Instr. toÝw dikaÛo-iw lñgo-iw toÝw Žgayo-Ýw ŽnyrÅpoi-w
Dual N.V.A. tÆ dikaÛ-v lñg-v tÆ Žgay-Æ ŽnyrÅp-v
G.D.L.I. toÝn dikaÛo-in lñgo-in toÝn Žgayo-Ýn ŽnyrÅpo-in

mur03.p65 123 22/01/01, 11:36


124 a flexão nominal: os temas nominais

Quadro de flexão: femininos em -o

T. =adÛa- õdñ- ² =adÛa õdñw o caminho fácil


T. dein®- nñso- ² dein¯ nñsow a doença perigosa

Singular Nom. ² =adÛa õdñ-w ² dein¯ nñso-w


Voc. Î =adÛa õd¡ Î dein¯ nñse
Acus. t¯n =adÛa-n õdñ-n t¯n dein¯-n nñso-n
Gen. t°w =adÛ-aw õd-oè t°w dein-°w nñs-ou
Dat. t» =adÛ-& õd-Ò t» dein-» nñs-Ä
Loc. t» =adÛ-& õd-Ò t» dein-» nñs-Ä
Instr. t» =adÛ-& õd-Ò t» dein-» nñs-Ä
Plural Nom. aß =adÛa-i õdo-Û aß deina-Ü nñso-i
Voc. Î =adÛa-i õdo-Û Î deina-Ü nñso-i
Acus. tŒw =adÛa-w õd-oæw tŒw deinŒ-w nñs-ouw
Gen. tÇn =adi-Çn õd-Çn tÇn dein-Çn nñs-vn

Dat. taÝw =adÛa-iw õdo-Ýw taÝw deina-Ýw nñso-iw


Loc. taÝw =adÛa-iw õdo-Ýw taÝw deina-Ýw nñso-iw
Instr. taÝw =adÛa-iw õdo-Ýw taÝw deina-Ýw nñso-iw
Dual N.V.A. tŒ =adÛ-a õd-Å tŒ dein-Œ nñs-v
G.D.L.I. taÝn =adÛa-in õdo-Ýn taÝn deina-Ýn nñso-in

mur03.p65 124 22/01/01, 11:36


a flexão nominal: os temas nominais 125

Quadro de flexão: neutros em -o

T. kalñ- t¡kno- tò kalòn t¡knon - a bela criança


T. diko- dÇro- tò dikon dÇron - o presente injusto

Singular Nom. tò kalò-n t¡kno-n tò diko-n dÇro-n


Voc. Î kalò-n t¡kno-n Î diko-n dÇro-n
Acus. tò kalò-n t¡kno-n tò diko-n dÇro-n
Gen. toè kal-oè t¡kn-ou toè ŽdÛk-ou dÅr-ou
Dat. tÒ kal-Ò t¡kn-Ä tÒ ŽdÛk-Ä dÅr-Ä
Loc. tÒ kal-Ò t¡kn-Ä tÒ ŽdÛk-Ä dÅr-Ä
Instr. tÒ kal-Ò t¡kn-Ä tÒ ŽdÛk-Ä dÅr-Ä
Plural Nom. tŒ kal-Œ t¡kn-a tŒ dik-a dÇr-a
Voc. Î kal-Œ t¡kn-a tŒ dik-a dÇr-a
Acus. tŒ kal-Œ t¡kn-a tŒ dik-a dÇr-a
Gen. tÇn kal-Çn t¡kn-vn tÇn ŽdÛk-vn dÅr-vn
Dat. toÝw kalo-Ýw t¡kno-iw toÝw ŽdÛko-iw dÅro-iw
Loc. toÝw kalo-Ýw t¡kno-iw toÝw ŽdÛko-iw dÅro-iw
Instr. toÝw kalo-Ýw t¡kno-iw toÝw ŽdÛko-iw dÅro-iw
Dual N.V.A. tÆ kal-Æ t¡kn-v tÆ ŽdÛk-v dÅr-v
G.D.L.I. toÝn kalo-Ýn t¡kno-in toÝn ŽdÛko-in dÅro-in

mur03.p65 125 22/01/01, 11:36


126 a flexão nominal: os temas nominais

Nomes e adjetivos “contratos” de tema em -o


Alguns nomes e adjetivos, todos antigos na língua, têm uma vogal
o/e antes da vogal característica do tema e assim são encontrados sem
contração em Homero, Heródoto e nos poetas anteriores ao século V,
isto é, anteriores à formação do dialeto ático.
õ plñow a navegação õ nñow a inteligência
õ Ždelfid¡ow o sobrinho õ =ñow a corrente, a torrente
õ xnñow a pluma tò kan¡on o cesto
tò ôst¡on o osso Žplñow não navegável
xrus¡ow de ouro eënoow de bom caráter, amável
Žrgur¡ow de prata

No ático, esses hiatos se reduzem por contração em ditongos ou


vogal longa:
oo > ou =ñow > =oèw ea >h xrus¡a > xrus»
eo > ou ôst¡on > ôstoèn ea >a Žrgur¡a > Žrgur*
ev > v ôst¡v > ôstÇ ooi > oÝ =ñoi > =oÝ
ov > v =ñv > =Ç eoi > oÝ xrus¡oi > xrusoÝ

* Quando a vogal pré-temática é precedida de vogal ou de r, a contração se faz em -


a; nos outros casos, a contração se faz em h.

mur03.p65 126 22/01/01, 11:36


a flexão nominal: os temas nominais 127

Quadro de flexão:

T nño- õ nñow a inteligência, o pensamento (só singular)


T =ño- õ =ñow a torrente, corrente (só plural)
T ost¡o- tò ôst¡on o osso
T xrus¡o- xrus¡ow de ouro

S. Nom. õ nño-w > noèw tò ôst¡o-n > ôstoèn xrus¡o-w > xrusoèw
Voc. Î nñe > noè Ù ôst¡o-n > ostoèn xrus¡o-w > xrusoèw
Acus. tòn nño-n>noèn tò ôst¡o-n > ôstoèn xrus¡o-n > xrusoèn
Gen. toè nñ-ou > noè toè ôst¡-ou > ôstoè xrus¡-ou > xrusoè
Dat. tÒ nñ-Ä > nÒ tÒ ôst¡-Ä > ôstÇ xrus¡-Ä > xrusÒ
Loc. tÒ nñ-Ä > nÒ tÒ ôst¡-Ä > ôstÇ xrus¡-Ä > xrusÒ
Instr. tÒ nñ-Ä > nÒ tÒ ôst¡-Ä > ôstÇ xrus¡-Ä > xrusÒ

Pl. Nom. oß =ño-i > =oÝ tŒ ôst¡-a > ôst xrus¡-a > xrus°
Voc. Î =ño-i > =oÝ Î ôst¡-a > ôst xrus¡-a > xrus°
Acus. toçw =ñ-ouw > =oèw tŒ ôst¡-a > ôst xrus¡-a > xrus°
Gen. tÇn =ñ-vn > =Çn tÇn ôst¡-vn > ôstÇn xrus¡-vn > xrusÇn
Dat. toÝw =ño-iw >=oÝw toÝw ôst¡o-iw > ôstoÝw xrus¡o-iw > xrusoÝw
Loc. toÝw =ño-iw > =oÝw toÝw ôst¡o-iw > ôstoÝw xrus¡o-iw > xrusoÝw
Instr. toÝw =ño-iw >=oÝw toÝw ôst¡o-iw>ôstoÝw xrus¡o-iw > xrusoÝw

D. N.V.A. tÆ =ñ-v > =Ç tÆ ôst¡-v > ôstÇ xrus¡-v > xrusÇ


G.D.L.I. toÝn =ño-in > =oÝn toÝn ôst¡o-in > ôstoÝn xrus¡o-in > xrusoÝn

mur03.p65 127 22/01/01, 11:36


128 a flexão nominal: os temas nominais

“Declinação” flexão ática

Alguns nomes e adjetivos em -o, também antigos, têm em posição


pré-temática uma vogal longa, mas essa vogal não absorveu a vogal
temática breve por causa da presença do digama, permanecendo o hiato
nos dialetos jônico, eólico e dórico.
No ático, no entanto, sempre que houver uma seqüência vogal lon-
ga-vogal breve haverá uma metátese de quantidade.
Assim: ho > ev / ao > av.
nhWñw > nh-ñw > neÅw o templo
lhWñw > lh-ñw > leÅw o povo
álhWow > álh-ow > álevw propício / homérico álaow
´Wow > ´-ow > §vw , ² aurora
taWñw > ta-ñw> taÅw, õ pavão
ŽnÅghWon > ŽnÅghon > Žnñgevn, tñ a sala de jantar
Men¡lhWow > Men¡lhow > Men¡levw, õ Menelau
s‹Wow > s‹ow > sÇw / sÇow são, salvo
pl¡vw cheio, repleto (por analogia)
A vogal temática, tornando-se longa, altera todo o relacionamen-
to com as desinências, mas dentro dos padrões fonéticos do ático.
As formas originais, sem metátese, são encontradas em Homero,
Heródoto e nos líricos.
Alguns nomes já têm um -v temático e se declinam também den-
tro dos padrões fonéticos do ático 20.
lagvñw - oè, õ > lagÅw a lebre
k‹lvw -ou, õ > k‹lvw a corda, o cabo
‘lvw-ou ² > ‘lvw terreiro (redondo) de bater trigo,
o disco solar ou lunar.
…Ayvw-ou, õ > …Ayvw o monte Athos

20 Nunca é demais lembrar que a língua é anterior à gramática. É um truísmo, sim,


mas ninguém se lembra disso. Os chamados modelos lingüísticos nos passam para-
digmas bem montados, segundo os quais uma língua é um sistema ao qual se deve
submeter. Não. Existe um organismo, uma consciência, uma inteligência que domi-

mur03.p65 128 22/01/01, 11:36


a flexão nominal: os temas nominais 129

Na flexão de todos esses nomes, o v temático absorve as vogais


breves das desinências, prevalecendo naturalmente o timbre -o, como se
dá também no casos de tema em -o breve.

Quadro de flexão:
T nhñ- nhñw > neÅw o templo
T ®o- ´ow > §vw aurora
T álho- álhow > álevw propício (ático)
/ álao- > álaow (Homero)

Singular Nom. nhñ-w > neÅw ´o-w > §vw álho-w > álevw
Voc. nhñ-w > neÅw ´o-w > §vw álh-ow > álevw
Acus. nhñ-n > neÅn ´o-n > §vn álh-on > álevn
Gen. nh-oè > neÅ ´-ou > §v álh-ou > álev
Dat. nh-Ò > neÐ ´-Ä > §Ä ßl®-Ä > ßl¡Ä
Loc. nh-Ò > neÐ ´-Ä > §Ä ßl®-Ä > ßl¡Ä
Instr. nh-Ò > neÐ ´-Ä > §Ä ßl®-Ä > ßl¡Ä
Plural Nom. nho-Û > neÐ ´o-i > §Ä álho-i > áleÄ
Voc. nho-Û > neÐ ´o-i > §Ä álho-i > áleÄ
Acus. nh-oæw > neÅw ´-ouw > §vw ßl®-ouw > ßl¡vw
Gen. nh-Çn > neÇn ´-vn > §vn ßl®-vn > ßl¡vn
Dat. nho-Ýw > neÐw ´o-iw > §Äw ßl®o-iw > ßl¡Äw
Loc. nho-Ýw > neÐw ´o-iw > §Äw ßl®o-iw > ßl¡Äw
Instr. nho-Ýw > neÐw ´o-iw > §Äw áßl®o-iw > ßl¡Äw
Dual N.V.A. nh-Å > neÅ ´-v > §v ßl®-v > ßl¡v
G.D.L.I. nho-Ýn > neÒn ´o-in > §Än ßl®o-in > ßl¡Än

na as relações do discurso, mas no nível do concreto, a partir dos elementos. Vi-


mos, na flexão dos “contratos”, como as formas se desenvolvem individualmente,
dentro dos padrões da língua. Não há palavras contratas, há formas contratas. Aqui
também, na chamada declinação ática, vai acontecer o mesmo.

mur03.p65 129 22/01/01, 11:36


130 a flexão nominal: os temas nominais

Observação: Os gramáticos prescrevem a manutenção da tônica na posi-


ção do nominativo singular. Isso pode ser verdadeiro para os oxítonos e
paroxítonos. Assim mesmo nós poríamos acento circunflexo no dat. loc.
instr. dos temas oxítonos. Nos temas proparoxítonos álhow > álevw ve-
ríamos formas paroxítonas no:
gen. singular: ßl®ou > ßl¡v
dat. loc. instr. singular: ßl®Ä > ßl¡Ä
acus. plural: ßl®ouw > Þl¡vw
dat. loc. instr. plural: ßl®oiw > ßl¡Äw.

Nós sabemos que, no caso de contração entre vogais, a vogal tôni-


ca leva a tonicidade para o ditongo ou a vogal longa resultante:
tim‹-v > timÇ eu honro
tim‹-o-men > timÇmen nós honramos
poi¡-o-men > poioèmen nós fazemos
poi¡-e-te > poieÝte fazei, vós fazeis

Nos casos de metátese de quantidade, contudo, não acontece o


mesmo; permanece a tonicidade original, já que não se trata de contra-
ção. Temos um exemplo bem conhecido:
pñlh-ow > pñlevw da cidade

Contudo é mais cômodo servir-se da analogia, como no caso do


genitivo plural: pñlevn – das cidades, que deveria ser: pol¡-j-vn >
pol¡vn.

mur03.p65 130 22/01/01, 11:36


a flexão nominal: os temas nominais 131

Quadro de flexão dos nomes femininos


de tema em -a puro

T oÞkÛa- ² oÞkÛa a casa T xÅra- ² xÅra o país, a terra


T n¡a- n¡a nova, jovem T ski‹- ² ski‹ a sombra
T mikr‹ mikr‹ pequena T g¡fura- ² g¡fura a ponte

S. Nom. ² oÞkÛa xÅra n¡a ski‹ mikrŒ g¡fura


Voc. Î oÞkÛa xÅra n¡a ski‹ mikrŒ g¡fura
Acus. t¯n oÞkÛa-n xÅra-n n¡a-n ski‹-n mikrŒ-n g¡fura-n
Gen. t°w oÞkÛ-aw xÅr-aw n¡-aw ski-w mikr-w gefær-aw
Dat. t» oÞkÛ-& xÅr-& n¡-& ski-˜ mikr-˜ gefær-&
Loc. t» oÞkÛ-& xÅr-& n¡-& ski-˜ mikr-˜ gefær-&
Instr. t» oÞkÛ-& xÅr-& n¡-& ski-˜ mikr-˜ gefær-&
Pl. Nom. aß oÞkÛa-i xÇra-i n¡a-i skia-Û mikra-Ü g¡fura-i
Voc. Î oÞkÛa-i xÇra-i n¡a-i skia-Û mikra-Ü g¡fura-i
Acus. tŒw oÞkÛa-w xÅra-w n¡a-w ski‹w mikr‹-w gefæra-w
Gen. tÇn oÞki-Çn xvr-Çn ne-Çn ski-Çn mikr-Çn gefur-Çn
Dat. taÝw oÞkÛa-iw xÅra-iw n¡a-iw skia-Ýw mikra-Ýw gefæra-iw
Loc. taÝw oÞkÛa-iw xÅra-iw n¡a-iw skia-Ýw mikra-Ýw gefæra-iw
Instr. taÝw oÞkÛa-iw xÅra-iw n¡a-iw skia-Ýw mikra-Ýw gefæra-iw
D. N.V.A. tŒ oÞkÛ-a xÅr-a n¡-a ski-‹ mikr-Œ gefær-a
G.D.L.I. taÝn oikÛa-in xÅra-in n¡a-in skia-Ýn mikra-Ýn gefæra-in

mur03.p65 131 22/01/01, 11:36


132 a flexão nominal: os temas nominais

Quadro de flexão dos nomes femininos


de tema em -h e -a impuro

T nÛkh- ² nÛkh a vitória T dñja- ² dñja a glória, opinião


T tim®- ² tim® a honra T dein®- dein® valente, perigosa
T kal®- kal® bela T y‹lassa- ² y‹latta o mar
S. Nom. ² nÛkh tim® kal¯ dñja dein¯ y‹latta
Voc. Î nÛkh tim® kal¯ dñja dein¯ y‹latta
Acus. t¯n nÛkh-n tim®-n kal¯-n dñja-n dein¯-n y‹latta-n
Gen. t°w nÛk-hw tim-°w kal-°w dñj-hw dein-°w yal‹tt-hw
Dat. t» nÛk-ú tim-» kal-» dñj-ú dein-» yal‹tt-ú
Loc. t» nÛk-ú tim-» kal-» dñj-ú dein-» yal‹tt-ú
Instr. t» nÛk-ú tim-» kal-» dñj-ú dein-» yal‹tt-ú
P. Nom. aß nÛka-i tima-Û kala-Ü dñja-i deina-Ü y‹latta-i
Voc. Î nÛka-i tima-Û kala-Ü dñja-i deina-Ü y‹latta-i
Acus. tŒw nÛka-w tim‹-w kal‹-w dñja-w deinŒ-w yal‹tta-w
Gen. tÇn nik-Çn tim-Çn kal-Çn doj-Çn dein-Çn yalatt-Çn
Dat. taÝw nÛka-iw tima-Ýw kala-Ýw dñja-iw deina-Ýw yal‹tta-iw
Loc. taÝw nÛka-iw tima-Ýw kala-Ýw dñja-iw deina-Ýw yal‹tta-iw
Instr. taÝw nÛka-iw tima-Ýw kala-Ýw dñja-iw deina-Ýw yal‹tta-iw
D. N.V.A. tŒ nÛk-a tim-‹ kal-‹ dñj-a dein-Œ yal‹tt-a
G.D.L.I. taÝn nÛka-in tima-Ýn kala-Ýn dñja-in deina-Ýn yal‹tta-in

Algumas observações sobre a flexão dos femininos em a/h:


1. A variação a/h só existe no singular; o plural é todo em -a.
2. Todos os oxítonos no nom. sing. têm acento circunflexo no genitivo e
dat. loc. inst. singular e plural.
Nos outros casos eles mantêm o acento agudo.
3. Todos esses nomes têm o genitivo plural perispômeno (p. 122).
4. O -a do nominativo singular dos nomes femininos é longo, mas é breve nos
derivados com o sufixo -ia / eia. Não há uma regra precisa sobre o assunto.
5. O -a temático dos adjetivos cujo masculino e neutro são de tema em -o é
longo, por analogia com o -a dos nomes femininos: dÛkaiow, dikaÛa,
dÛkaion - jiow, ŽjÛa, jion.

mur03.p65 132 22/01/01, 11:36


a flexão nominal: os temas nominais 133

6. Um grande número de substantivos e adjetivos femininos se forma com o


sufixo -ja / es-ja > -eia de -a breve, sobre temas em soante / consoante:
eégen¡s- eégenew-ja eég¡neia berço nobre, nobreza
pant- pant-ja psa toda
melit- melit-ja m¡lissa abelha
maxar- maxar-ja m‹xaira a faca
glvx- glvx-ja glÇtta língua
Žmil- Žmil-ja ŽmÛlla a peleja
melan- melan-ja m¡laina preta
mor- mor-ja moÝra o destino

7. Um outro grupo se forma com o sufixo em -a longo:


-ia / -sÛa / -tÛa
Em geral são nomes abstratos e significam a qualidade ou o conceito do
tema do adjetivo:
kakñw, mau kakÛa, maldade, vício
oäkow, casa oÞkÛa, habitação
ggelow, mensageiro ŽggelÛa - notícia
ŽgÅniow, combatente ŽgvnÛa, rivalidade
jiow, digno ŽjÛa, dignidade
deilñw, covarde deilÛa, covardia
m‹rtuw, o testemunha marturÛa, o testemunho

8. Em geral os nomes cuja vogal temática é precedida de vogal ou -r mantêm


o -a (Žgor‹, mikr‹); e aqueles cuja vogal temática é precedida de qual-
quer consoante menos -r a têm em -h (kefal®, dein®).
Alguns, no entanto, mesmo com a vogal temática precedida de conso-
ante, mantêm o -a, como dñja, glória, opinião, =Ûza, raiz, mas fazem o
genitivo e dativo (loc. instr.) em -hw, -ú:
dñja - dñja - dñjan - dñjhw - dñjú
=Ûza - =Ûza - =Ûzan - =Ûzhw - =Ûzú

9. A desinência -aw < -anw do acusativo plural é longa (alongamento com-


pensatório); por isso provoca deslocação do acento nos proparoxítonos e al-
teração nos properispômenos.
m¡litta > melÛtta
glÇtta > glÅttaw

mur03.p65 133 22/01/01, 11:36


134 a flexão nominal: os temas nominais

10. Os adjetivos cuja vogal temática é precedida de qualquer consoante menos


-r fazem o feminino em -h; e aqueles, cuja vogal temática é precedida
de vogal ou -r, fazem o feminino em -a longo. Por isso os adjetivos pro-
paroxítonos no masculino e neutro se tornam paroxítonos no feminino.
dÛkaiow - dikaÛa - dÛkaion: justo
§terow - ¥t¡ra - §tero(n): outro, alter

Quadro de flexão dos masculinos


de tema em -aw/-hw

T naæta- / naæth- õ naæthw o nauta, marinheiro


T mayht‹- / mayht®- õ mayht®w o aprendiz, o discípulo
T neanÛa- õ neanÛaw o rapaz, o jovem
T ƒAtreÛda- /ƒAtreÛdh- õ ƒAtreÛdhw O Atrida, o filho de Atreu

S. Nom. õ naæth-w mayht®-w neanÛa-w ƒAtreÛdh-w


Voc. Î naèta mayht‹ neanÛa ƒAtreÝda / -h
Acus. tòn naæth-n mayht®-n neanÛa-n ƒAtreÛdh-n
Gen. toè naæt-ou mayht-oè neanÛ-ou ƒAtreÛd-ou
Dat. tÒ naæt-ú mayht-» neanÛ-& ƒAtreÛd-ú
Loc. tÒ naæt-ú mayht-» neanÛ-& ƒAtreÛd-ú
Instr. tÒ naæt-ú mayht-» neanÛ-& ƒAtreÛd-ú
P. Nom. oß naèta-i mayhta-Û neanÛa-i ƒAtreÝda-i
Voc. Î naèta-i mayhta-Û neanÛa-i ƒAtreÝda-i
Acus. toçw naæta-w mayht‹-w neanÛa-w ƒAtreÛda-w
Gen. tÇn naut-Çn mayht-Çn neani-Çn ƒAtreid-Çn
Dat. toÝw naæta-iw mayhta-Ýw neanÛa-iw ƒAtreÛda-iw
Loc. toÝw naæta-iw mayhta-Ýw neanÛa-iw ƒAtreÛda-iw
Instr. toÝw naæta-iw mayhta-Ýw neanÛa-iw ƒAtreÛda-iw
D. N.V.A. tÆ naæt-a mayht-‹ neanÛ-a ƒAtreÛd-a
G.D.L.I. toÝn naæta-in mayhta-Ýn neanÛa-in ƒAtreÛda-in

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a flexão nominal: os temas nominais 135

Algumas observações sobre a flexão dos masc. em -aw/-hw:


1. O plural dos masculinos é todo em -a, igual ao dos femininos.
2. O vocativo singular dos nomes comuns (em -aw ou -hw) é em -a breve, e
provoca alteração na acentuação; o dos nomes próprios em -hw é em -h.
3. O genitivo singular é um empréstimo do artigo masc. (tema em -o).
Como nos nomes de tema em -o, há também alguns nomes e adjetivos
que têm uma vogal pré-temática e ou a, formando hiato com a vogal temática,
que o ático reduz pela contração.
Em princípio fazem a contração em a os que têm essa vogal precedida
de r; os outros fazem a contração em h:
mnaa- ² mn - mnw a mina, (quantia de dinheiro)
gal¡h- ² gal°-°w a doninha, o gambá
suk¡h- ² suk°-°w a figueira
g¡a- ² g°-°w a terra
bor¡a- õ bor¡aw -bor¡ou o vento norte, boreal
borr- õ borrw, borr o vento norte, boreal
ƒAyhn‹a- ƒAyhn-w Atena
„Erm¡h/„Erm¡a- „Erm°w-„Ermoè Hermes
Aß „HermaÝ estátuas de Hermes:
só o busto. São as Hermas
Žrgur¡a > Žrgur argêntea, prateada, de prata
xrus¡a > xrus° áurea, dourada, de ouro
kuan¡a > kuan° azul escuro
xalk¡a > xalk° de bronze
plñh > pl° simples, não composta,
não múltipla
diplñh > dipl° dupla, dobrada
triplñh > tripl° tripla, tríplice

mur03.p65 135 22/01/01, 11:36


136 a flexão nominal: os temas nominais

Quadro de flexão:

T. g¡a ² g° a terra
T. mn‹a ² mn a mina
T. Žrgur¡a Žrgur prateada, de prata
T. xrus¡a xrus° dourada, de ouro
T. „Erm¡a „Erm°w Hermes

Singular Nom. g° mn Žrgur¡a >  xrus¡a > ° „Erm°-w


Voc. g° mn Žrgur¡a >  xrus¡a > ° „Erm°
Acus. g°-n mn-n Žrgur¡a-n > n xrus¡a-n > °n „Erm°-n
Gen. g°w mnw Žrgur¡a-w>w xrus¡a-w > °w „Ermoè
Dat. g» mn˜ Žrgur¡& > ˜ xrus¡& > » „Erm»
Loc. g» mn˜ Žrgur¡& > ˜ xrus¡& > » „Erm»
Instr. g» mn˜ Žrgur¡& > ˜ xrus¡& > » „Erm»
Plural Nom. mna-Ý Žrgur¡a-i > aÝ xrus¡a-i > aÝ „Erma-Ý
Voc. mna-Ý Žrgur¡a-i > aÝ xrus¡a-i > aÝ „Erma-Ý
Acus. mn-w Žrgur¡a-w > w xrus¡a-w > w „Erm-w
Gen. mnÇn Žrgur¡vn > Çn xrus¡vn > Çn „ErmÇn
Dat. mna-Ýw Žrgur¡a-iw > aÝw xrus¡a-iw > aÝw „Erma-Ýw
Loc. mna-Ýw Žrgur¡a-iw > aÝw xrus¡a-iw > aÝw „Erma-Ýw
Instr. mna-Ýw Žrgur¡a-iw > aÝw xrus¡a-iw> aÝw „Erma-Ýw
Dual N.V.A. mn Žrgur¡a >  xrus¡a> „Erm
G.D.L.I. mn˜n Žrgur¡a-in>˜n xrus¡a-in>˜n „Erm˜n

mur03.p65 136 22/01/01, 11:36


a flexão nominal: os temas nominais 137

Os adjetivos de tema em vogal


Embora já tenhamos visto a flexão de alguns adjetivos de temas
em vogal junto com os nomes, vamos reapresentá-los num quadro em
conjunto.

Quadro de flexão de adjetivos de tema em -o/-a:

T n¡o-, n¡a-, n¡o- n¡ow, n¡a, n¡on novo, jovem


T mikrñ-, mikr‹-, mikrñ- mikrñw, mikr‹, mikrñn pequeno

S. Nom. n¡o-w n¡a n¡o-n mikrñ-w mikr‹ mikrñ-n


Voc. n¡e/n¡o-w n¡a n¡o-n mikr¡ mikr‹ mikrñ-n
Acus. n¡o-n n¡a-n n¡o-n mikrñ-n mikr‹-n mikrñ-n
Gen. n¡-ou n¡-aw n¡-ou mikr-oè mikr-w mikr-oè
Dat. n¡-Ä n¡-& n¡-Ä mikr-Ò mikr-˜ mikr-Ò
Loc. n¡-Ä n¡-& n¡-Ä mikr-Ò mikr-˜ mikr-Ò
Instr. n¡-Ä n¡-& n¡-Ä mikr-Ò mikr-˜ mikr-Ò
P. Nom. n¡o-i n¡a-i n¡-a mikro-Û mikra-Û mikr-‹
Voc. n¡o-i n¡a-i n¡-a mikro-Û mikra-Û mikr-‹
Acus. n¡-ouw n¡a-w n¡-a mikr-oæw mikr‹-w mikr-‹
Gen. n¡-vn ne-Çn n¡-vn mikr-Çn mikr-Çn mikr-Çn
Dat. n¡o-iw n¡a-iw n¡o-iw mikro-Ýw mikra-Ýw mikro-Ýw
Loc. n¡o-iw n¡a-iw n¡o-iw mikro-Ýw mikra-Ýw mikro-Ýw
Instr. n¡o-iw n¡a-iw n¡o-iw mikro-Ýw mikra-Ýw mikro-Ýw
D. N.V.A. n¡-v n¡-a n¡-v mikr-Å mikr-‹ mikr-Å
G.D.L.I. n¡o-in n¡a-in n¡o-in mikro-Ýn mikra-Ýn mikro-Ýn

mur03.p65 137 22/01/01, 11:36


138 a flexão nominal: os temas nominais

Quadro de flexão dos adjetivos de tema em -o/-h:

T mñno-, mñnh-, mñno- mñnow, mñnh, mñnon só, sozinho, único


T deinñ-, dein®-, deinñ- deinñw, dein®, deinñn valente, terrível, forte

S. Nom. mñno-w mñnh mñno-n deinñ-w dein® deinñ-n


Voc. mñne mñnh mñno-n dein¡ dein® deinñ-n
Acus. mñno-n mñnh-n mñno-n deinñ-n dein®-n deinñ-n
Gen. mñn-ou mñn-hw mñn-ou dein-oè dein-°w dein-oè
Dat. mñn-Ä mñn-ú mñn-Ä dein-Ò dein-» dein-Ò
Loc. mñn-Ä mñn-ú mñn-Ä dein-Ò dein-» dein-Ò
Instr. mñn-Ä mñn-ú mñn-Ä dein-Ò dein-» dein-Ò
P. Nom. mñno-i mñna-i mñn-a deino-Û deina-Û dein-‹
Voc. mñno-i mñna-i mñn-a deino-Û deina-Û dein-‹
Acus. mñn-ouw mñna-w mñn-a dein-oæw dein‹-w dein-‹
Gen. mñn-vn mon-Çn mñn-vn dein-Çn dein-Çn dein-Çn
Dat. mñno-iw mñna-iw mñno-iw deino-Ýw deina-Ýw deino-Ýw
Loc. mñno-iw mñna-iw mñno-iw deino-Ýw deina-Ýw deino-Ýw
Instr. mñno-iw mñna-iw mñno-iw deino-Ýw deina-Ýw deino-Ýw
D. N.V.A. mñn-v mñn-a mñn-v dein-Å dein-‹ dein-Å
G.D.L.I. mñno-in mñna-in mñno-in deino-Ýn deina-Ýn deino-Ýn

mur03.p65 138 22/01/01, 11:36


a flexão nominal: os temas nominais 139

Graus dos adjetivos

O comparativo e o superlativo dos adjetivos são expressos em gre-


go por sufixos que se acrescentam ao tema.
Os sufixos são:
-tero (-terow, a, on) / -ion (-ivn, ion) para o comparativo 21;
-tato (-tatow, h, on) / -isto (-istow, n, on) para o superlativo.

Assim: em -terow, a, on, - tatow, h, on

Tema Comparativo Superlativo


koèfow - leve koufo-* koufñterow,a,on koufñtatow,h,on
‘giow - santo agio-** giÅterow,a,on giÅtatow,h,on
glukæw - doce gluku- glukæterow,a,on glukætatow,h,on
m¡law - preto melan mel‹nterow,a,on mel‹ntatow,h,on
eéseb®w - piedoso eésebew- eéseb¡sterow,a,on eéseb¡statow,h,on

Alguns adjetivos em -aio suprimem a vogal temática antes dos


sufixos:
geraiñw - velho geraÛterow,a,on geraÛtatow,h,on***
²suxaÝow - tranqüilo ²suxaÛterow,a,on ²suxaÛtatow,h,on
palaiñw - antigo palaÛterow,a,on palaÛtatow,h,on
sxolaÝow - ocioso sxolaÛterow,a,on sxolaÛtatow,h,on

21 A flexão dos comparativos e superlativos não apresenta problemas, porque são ad-
jetivos ou de tema em vogal ou de tema em consoante, e cada tema recebe seus
casos “sufixos” (ptÅseiw).
* quando a vogal da sílaba pretemática é longa, a vogal temática se mantém inalterada;
** quando a vogal da sílaba pretemática é breve, a vogal temática é alongada.
*** não é impossível encontrar: geraiñterow/geraiñtatow; é uma questão da
lei do menor esforço.

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140 a flexão nominal: os temas nominais

Alguns outros seguem o mesmo modelo, aceitando o ditongo:


eëdiow - sereno eédi-aÛ-terow,a,on eédi-aÛ-tatow,h,on
àsow - igual Þs-aÛ-terow,a,on *Þs-aÛ-tatow,h,on
m¡sow - do meio mes-aÛ-terow,a,on mes-aÛ-tatow,h,on
öciow - tardio ôci-aÛ-terow,a,on ôci-aÛ-tatow,h,on
plhsÛow - vizinho plhsi-aÛ-terow,a,on plhsi-aÛ-tatow,h,on

Outros fazem em -Ûsterow - -Ûstatow, com a elisão da vogal


temática:
l‹low - tagarela lal-Ûsterow,a,on lal-Ûstatow,h,on
kl¡pthw - ladrão *klept¡sterow,a,on klept-Ûstatow,h,on
ptÇxow - mendigo ptvx-Ûsterow,a,on *ptvxÛstatow,h,on

A maioria dos adjetivos em -vn, -on, antes do sufixo -terow,a,on


/-tatow,h,on, tem um infixo -es-:
eédaÛmvn - feliz eédaimon-¡s-terow,a,on eédaimon-¡s-tatow,h,on
sÅfrvn - sensato svfron-¡s-terow,a,on svfron-¡s-tatow,h,on

Também os adjetivos de tema em -oo- fazem o comparativo e o


superlativo com esse infixo: -es-terow,a,on - -es-tatow,h,on, com as
contrações normais:
ploèw - simples T ploo- ploæsterow,a,on ploæstatow,h,on
eënouw - cordato T eënoo- eénoæsterow,a,on eénoæstatow,h,on

Os sufixos -terow,a,on/-tatow,h,on se apõem a algumas partí-


culas interrogativas, pronomes, advérbios ou preposições formando adje-
tivo comparativo 22:
pñ-terow - quem dos dois? êp¡r-terow - superior
§terow,a,on - um dos dois (alter) êp¡r-tatow - supremo (ìpatow)
prñ-terow - primeiro, anterior ìsterow - posterior
¦sxatow (¤j) - o último, derradeiro ìstatow - último

22 O comparativo é basicamente uma relação entre dois.

mur03.p65 140 22/01/01, 11:36


a flexão nominal: os temas nominais 141

O sufixo -terow,a,on aparece também na formação do possessivo


dos pronomes pessoais no plural:
²meÝw nós ²m¡terow,a,on nosso
êmeÝw vós êm¡terow,a,on vosso
sfeÝw eles sf¡terow,a,on de si mesmos
mfv ambos Žmfñterow,a,on de ambos
oédeÛw ninguém oéd¡terow nenhum dos dois
mhdeÛw ninguém mhd¡terow nenhum dos dois

Poucos adjetivos fazem o comparativo em -ion e o superlativo em


-isto:
kakñw - mau kakÛvn,on k‹kistow,h,on
aÞsxrñw - torpe, feio aÞsxÛvn,on aàsxistow,h,on
¤xyrñw - inimigo ¤xyÛvn,on ¦xyistow,h,on
²dæw - prazeroso ²dÛvn,on ´distow,h,on
m¡gaw - grande meÛzvn,on m¡gistow,a,on
oÞktrñw - deplorável oàktistow
taxæw - veloz y‹ssvn,on (-ttvn) t‹xistow,h,on
kalñw - belo kallÛvn,on k‹llistow,h,on
=–diow - fácil =–vn,on =˜stow,h,on

mur03.p65 141 22/01/01, 11:36


142 a flexão nominal: os temas nominais

Alguns adjetivos (poucos) formam o comparativo e superlativo


sobre temas alternativos e que não se usam no grau normal. Seriam for-
mas supletivas23. Ver à página 195.
Tema Comparativo Superlativo
Žgayñw - bom amen- ŽmeÛnvn,on
ar- ristow,h,on
belt- beltÛvn,on b¡ltistow,h,on
kret-/krat- kreÛssvn-on (-ttvn) kr‹tistow,h,on
lv- lÐvn,on lÒstow,h,on
kakñw - ruim kako- kakÛvn,on ‘k‹kistow,h,on
xer-/xeir- xeÛrvn,on xeÛristow,h,on
²k- ´ssvn,on (-ttvn) ´kistow,h,on
mikrñw - pequeno mikro- mikrñterow,a,on mikrñtatow,h,on
me- meÛvn,on
ôlÛgow - pouco oligo olÛgistow,h,on
¤laxu- ¤l‹ssvn,on (-ttvn) ¤l‹xistow,h,on
polæw - muito ple-/pol- pleÛvn,on pleÝstow,h,on
pl¡vn,on

A flexão dos comparativos em -ivn, ion apresenta certas formas


sincopadas: síncope do -n- temático intervocálico e posterior contração
das vogais em hiato: kakÛvn, k‹kion - pior.
Singular Plural
m./f. neutro m./f. neutro
N. kakÛvn k‹kion kakÛonew > kakÛouw kakÛona > kakÛv
V. k‹kion k‹kion kakÛonew > kakÛouw kakÛona > kakÛv
Ac. kakÛona > kakÛv k‹kion kakÛonew > kakÛouw kakÛona > kakÛv
G. kakÛonow kakÛonow kakiñnvn kakiñnvn
D.L.I. kakÛoni kakÛoni kakÛosi kakÛosi

23 Na verdade, seriam formas independentes, com significado próprio, que pela pro-
ximidade semântica passaram a figurar no quadro dos comparativos e superlativos
de alguns adjetivos, que não criaram comparativos e superlativos “normais”, por-
que já existiam esses outros. Seriam redundantes.

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a flexão nominal: os temas nominais 143

Observações:
As formas sincopadas são as mais usadas, mas só se encontram nos
casos “sintáticos”: nom., voc., acus.
Qualquer adjetivo no grau normal e no comparativo ou superlati-
vo pode ser usado como advérbio. Na verdade, trata-se mais de um
predicativo do infinitivo sujeito, nas orações ditas de verbo impessoal.
Contudo, quando usados adverbialmente, eles se comportam assim:
normal: o neutro singular do adjetivo deinñn
comparativo: o neutro singular do comparativo deinñteron
superlativo: o neutro plural do superlativo deinñtata

Adjetivos numerais
Os indicadores de número são os seguintes:
1. cardinais: são adjetivos, mas só os 4 primeiros cardinais têm flexão;
2. ordinais: são adjetivos triformes.
Além deles, o grego tem os multiplicativos adverbiais formados com
o sufixo -kiw.
Para registrar os cardinais, os gregos usavam as letras do alfabeto:
• as 9 primeiras para as unidades a =1; b =2;
• as 9 seguintes para as dezenas i = 20, k = 30;
• as nove restantes para as centenas r = 100, s = 200.
Os números até 999 têm no alto à direita um sinal ´:
• a´ (1).
Os números superiores a 999 têm esse índice em baixo à esquerda:
• ,a (1000).

Quando o número contém várias unidades só a última unidade re-


cebe o sinal (ápice) à direita; avmb€ = 1842.

Ver o quadro dos numerais nas páginas seguintes.

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144 a flexão nominal: os temas nominais

Sinais Cardinais Ordinais Advérbio num.

a€ 1 eåw,mÛa,§n prÇtow,h,on ‘paj


b€ 2 dæo deæterow,a,on dÛw
g€ 3 treÝw, trÛa trÛtow.h,on trÛw
d€ 4 t¡ssarew,a (-tt-) t¡tartow,h,on tetr‹kiw
e€ 5 p¡nte p¡mptow,h,on pent‹kiw
w€ 6 §j §ktow,h,on ¥j‹kiw
z€ 7 ¥pt‹ §bdomow,h,on ¥pt‹kiw
h€ 8 ôktÅ ögdoow,h,on ôkt‹kiw
y€ 9 ¤nn¡a ¦natow,h,on ¤n‹kiw
i€ 10 d¡ka d¡katow,h,on dek‹kiw
ia€ 11 §ndeka ¥nd¡katow,h,on ¥ndek‹kiw
ib€ 12 dÅdeka dvd¡katow,h,on dvdek‹kiw
ig€ 13 triskaÛdeka triskaid¡katow,h,on triwkadek‹kiw
id€ 14 tessareskaÛdeka tessarakaid¡katow,h,on tessaradek‹kiw
ie€ 15 pentekaÛdeka pentekaid¡katow,h,on pentekaidek‹kiw
iw€ 16 ¥kkaÛdeka ¥kkaid¡katow,h,on ¥kkaidek‹kiw
iz€ 17 ¥ptakaÛdeka ¥ptakaid¡katow,h,on ¥ptakaidek‹kiw
ih€ 18 ôktvkaÛdeka ôktvkaid¡katow,h,on ôktvkaidek‹kiw
iy€ 19 ¤nneakaÛdeka ¤nneakaid¡katow,h,on ¤nneakaidek‹kiw
k€ 20 eàkosi eÞkostñw,®,ñn eÞkos‹kiw
l€ 30 tri‹konta triakostñw,®,ñn triakos‹kiw
m€ 40 tessar‹konta tessarakostñw,®,ñn tessarakont‹kiw
n€ 50 pent®konta penthkostñw,®,ñn penthkont‹kiw
j€ 60 ¥j®konta ¥jhkostñw,®,ñn ¥jhkont‹kiw
o€ 70 ¥bdom®konta ¥bdomhkostñw,®,ñn ¥bdomhkont‹kiw
p€ 80 ôgdo®konta ôgdohkostñw,®,ñn ôgdohkont‹kiw
q€ 90 ¤ne®konta ¤nehkostñw,®,ñn ¤nehkont‹kiw
r€ 100 ¥katñn ¥katostñw,®,ñn ¥katont‹kiw
s€ 200 diakñsioi,ai,a diakosiostñw,®,ñn diakosi‹kiw
t€ 300 triakñsioi,ai,a triakosiostñw,®,ñn triakosi‹kiw
u€ 400 tetrakñsioi,ai,a tetrakosiostñw,®,ñn tetrakosi‹kiw
f€ 500 pentakñsioi,ai,a pentakosiostñw,®,ñn pentakosi‹kiw
x€ 600 ¥jakñsioi,ai,a ¥jakosiostñw,®,ñn ¥jakosi‹kiw
c€ 700 ¥ptakñsioi,ai,a ¥pakosiostñw,®,ñn ¥ptakosi‹kiw

mur03.p65 144 22/01/01, 11:36


a flexão nominal: os temas nominais 145

v€ 800 ôktakñsioi,ai,a ôktakosiostñw,®,ñn ôktakosi‹kiw


Q 900 ¤nakñsioi,ai,a ¤nakosiostñw,®,ñn ¤nakosi‹kiw
,a 1000 xÛlioi,ai,a xiliostñw,®,ñn xili‹kiw
,b 2000 disxÛlioi,ai,a disxiliostñw,®,ñn disxili‹kiw
,g 3000 trisxÛlioi,ai,a trisxiliostñw,®,ñn trisxili‹kiw
,d 4000 tetrakisxÛlioi,ai,a tetrakisxiliostñw,®,ñn tetrakisxili‹kiw
,e 5000 pentakisxÛlioi,ai,a pentakisxiliostñw,®,ñn pentakisxili‹kiw
,w 6000 ¥jakisxÛlioi,ai,a ¥jakisxiliostñw,®,ñn ¦jakisxili‹kiw
,z 7000 ¥ptakisxÛlioi,ai,a ¥ptakisxiliostñw,®,ñn ¥ptakisxili‹kiw
,h 8000 ôktakisxÛlioi,ai,a ôktakisxiliostñw,®,ñn ôktakisxili‹kiw
,y 9000 ¤nakisxÛlioi,ai,a ¤nakisxiliostñw,®,ñn ¤nakisxili‹kiw
a 10000 mærioi,ai,a muriostñw,®,ñn muri‹kiw
b 20000 dismærioi,ai,a dismuriostñw,®,ñn dismuri‹kiw
g 30000 trismærioi,ai,a trismuriostñw,®,ñn trismuri‹kiw
d 40000 tetrakismærioi,ai,a tetrakismuriostñw,®,ñn tetrakismuri‹kiw
e 50000 pent‹kismærioi,ai,a pentakismuriostñw,®,ñn pentakismuri‹kiw
r 1000000 ¥katontakismærioi,ai,a
¥katontakismuriostñw,®,ñn
¥katonmuri‹kiw

Notas:
1. Para registrar 6, usa-se o stigma w€, interrompendo-se a seqüência nor-
mal do alfabeto (seria o z)24:
• para registrar 90, usa-se o kopa q€;
• para registrar 900, usa-se o sampi Q.
2. Os cardinais compostos de dois números podem ser expressos de três
maneiras:
25 - ke €- eàkosi kaÜ p¡nte
25 - ke € - p¡nte kaÜ eàkosi
25 - ke €- eàkosi p¡nte

24 Contudo, para numerar os cantos da Ilíada e da Odisséia, usa-se o alfabeto normal:


o Canto VI da Ilíada é Z e o Canto VI da Odisséia é z. É uma convenção: os
cantos da Ilíada são marcados com as letras maiúsculas do alfabeto grego, e os da
Odisséia, com as minúsculas.

mur03.p65 145 22/01/01, 11:36


146 a flexão nominal: os temas nominais

Mas, em vez de acrescentar a unidade à dezena, usa-se também o


processo de diminuição da dezena subseqüente:
49 - my´ - pent®konta ¥nòw d¡ontow / muiw deoæshw = 50
faltando um / uma; (reduzida de particípio = genitivo absoluto).
49 - mh´ - pent®konta duoÝn deñntoin / duoÝn deñntoin
pent®konta = faltando dois para 50 / dois para 50.
Em geral, esse sistema só se usa com as duas últimas unidades da
dezena.
3. Os ordinais compostos podem ser expressos de três maneiras:
25 - p¡mptow kaÜ eÞkostñw
25 - eÞkostòw p¡mptow
25 - eÞkostòw kaÜ p¡mptow
4. Os adjetivos múltiplos se constroem acrescentando-se os sufixos -
ploèw,°,oèn / -pl‹siow,a,on.
ploèw,°,oèn simples
diploèw,°,oèn dipl‹siow,a,on duplo
triploèw,°,oèn tripl‹siow,a,on triplo
5. Acima de 10.000, usam-se ou os compostos com mærioi,ai,a com o
advérbio multiplicativo, ou o substantivo muri‹w-‹dow, ², a miríade.
50.000 - pentakismærioi,ai,a / p¡nte muri‹dew
6. Há também outros substantivos numerais, construídos por analogia
com muri‹w-‹dow.
mon‹w-‹dow ² a mônade / mônada, a unidade
tri‹w-‹dow, ² a tríade
dek‹w-‹dow, ² a décade,década
¥katont‹w-‹dow,² a centena
xili‹w-‹dow, ² o milhar
7. Os quatro primeiros números cardinais são declináveis (em português,
só os dois primeiros variam e, em latim, os três primeiros).

mur03.p65 146 22/01/01, 11:36


a flexão nominal: os temas nominais 147

Quadro paradigmático:

T. ¥n- mia eåw, mÛa, §n


T. duo dæo
T. tri- treÝw, trÛa
T. tessar / tettar- t¡ssarew,a

m. f. n. m. f. n. m. f. n. m. f. n.
N. eåw mÛa §n dæo treÝw trÛa t¡ssar-ew / -a
V.
A. §n-a mÛa-n §n dæo/dæv treÝw trÛa t¡ssar-aw / -a
G. ¥n-ñw miw ¥n-ñw duo-Ýn tri-Çn tri-Çn tess‹r-vn
D.L.I. ¥n-Û mi˜ ¥n-Û duo-Ýn/du-sÛ tri-sÛ tri-sÛ t¡ssar-si

7. Sobre eåw, mÛa, §n, um,uma, flexionam-se:


oédeÛw, oédemÛa, oéd¡n, nenhum, nenhuma, ninguém, nada, e sua
variante: mhdeÛw, mhdemÛa, mhd¡n.
N. oédeÛw oédemÛa oéd¡n
V.
A. oéd¡n-a oédemÛa-n oéd¡n
G. oéden-ñw oédemi-w oéden-ñw
D.L.I. oéden-Û oédemi-˜ oéden-Û

8. O grego também possui um numeral dual, de uso específico mas cons-


tante: mfv, ambos os dois, ambo, em latim, e ambos, em português.
Flexiona-se como dæo:
N.A. - mfv
G.D.L.I. - ŽmfoÝn

Há também um adjetivo derivado, possessivo:


Žmfñterow,a,on - de ambos, de cada um dos dois

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148 a flexão nominal: os temas nominais

Relativos
O grego tem três relativos básicos (anafóricos), que podemos defi-
nir assim:

Grego Português Latim


÷w, ´, ÷ que relativo de identidade qui, quae, quod
oåow, oáa, oåon qual relativo de qualidade qualis, e
÷sow, ÷sh, ÷son quanto relativo de dimensão, valor quantus, a, um
÷soi, ÷sai, ÷sa quantos plural do anterior,
relativo de quantidade quot

O relativo absoluto, de identidade, é ÷w, ´, ÷, que e tem como


antecedentes ÷de, ´de, tñde, este, esta, isto, oðtow, aìth, toèto, esse,
essa, isso, e ¤keÝnow, ¤keÛnh, ¤keÝno, aquele, aquela, aquilo ou qualquer
nome; os outros têm como antecedente um dêitico de qualidade ou de
dimensão, de tamanho ou de quantidade respectivamente.

Quadro de flexão dos relativos

T jo-/ja- ÷w, ´, ÷ que (qui, quae, quod)


T oßo-/a- oåow, oáa, oåon qual (qualis, e)
T õso-/a- ÷sow, ÷sh, ÷son quão grande (quantus,a,um)
T õso-/a- ÷soi, ÷sai, ÷sa quantos (quot)

S. N. ÷-w ´ ÷ oåo-w oáa oåo-n ÷so-w ÷sh ÷so-n


V.
A. ÷-n ´-n ÷ oåo-n oáa-n oåo-n ÷so-n ÷sh-n ÷so-n
G. oð ¸w oð oá-ou oá-aw oá-ou ÷s-ou ÷s-hw ÷s-ou
D. Ú Ã Ð oá-Ä oá-& oá-Ä ÷s-Ä ÷sú ÷s-Ä
L. Ú Ã Ð oá-Ä oá-& oá-Ä ÷s-Ä ÷sú ÷s-Ä
I. Ú Ã Ð oá-Ä oá-& oá-Ä ÷s-Ä ÷sú ÷s-Ä

mur03.p65 148 22/01/01, 11:36


a flexão nominal: os temas nominais 149

P. N. o-á a-á ‘ oåo-i oåa-i oå-a ÷so-i ÷sa-i ÷s-a


V.
A. oìw ‘w ‘ oá-ouw oáa-w oå-a ÷s-ouw ÷sa-w ÷s-a
G. Ïn Ïn Ïn oá-vn oá-vn oá-vn ÷s-vn ÷s-vn ÷s-vn
D. o-åw a-åw o-åw oáo-iw oáa-iw oáo-iw ÷so-iw ÷so-iw ÷so-iw
L. o-åw a-åw o-åw oáo-iw oáa-iw oáo-iw ÷so-iw ÷so-iw ÷so-iw
I. o-åw a-åw o-åw oáo-iw oáa-iw oáo-iw ÷so-iw ÷so-iw ÷so-iw
D. N.V.A. Ë ‘ Ë oá-v oá-a oá-v ÷s-v ÷s-a ÷s-v
G.D.L.I. o-ån a-ån o-ån oáo-in aáa-in oáo-in ÷so-in ÷sa-in ÷so-in

Notas:
1. Os relativos podem vir reforçados com o sufixo -per, (às vezes -ge ) -
precisamente, exatamente:
÷sper, ´per, ÷per exatamente que
oáosper, oáaper, oáonper exatamente qual
÷sosper, ÷shper, ÷sonper exatamente quanto
2. Nas expressões:
kaÜ ÷w, e ele
¸ dƒ ÷w, e ele disse,
trata-se de uma antiga forma de artigo, com valor demonstrativo,
anafórico (este, esse). Heródoto o emprega com freqüência.
3. O relativo ÷w, ´, ÷ se compõe também com os indefinidos:
tiw, ti - poiow,a,on, - posow,posh, poson - phlikow, h, on
para exercerem duas funções:
a) de interrogativos indiretos de identidade, qualidade, dimensão/quan-
tidade e idade, sobretudo nas interrogativas indiretas:
- eÞp¡ moi : tÛw eä; - Dize-me: - quem és? (interrogação direta)
- oék oäda ÷stiw eä. - Eu não sei quem és. (interrogação indireta)
b) de relativo indefinido:
mak‹riow ÷stiw oésÛan kaÜ noèn ¦xei - feliz quem (qualquer
um que) tem posses e juízo.

Veremos isso com mais detalhes no quadro dos correlativos (p. 162).

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150 a flexão nominal: os temas nominais

Quadro de flexão dos dêiticos

T o-, h-, to- (-de) ÷de, ´de, tñde* este, esta, isto
T oðto-/ toèto-, aìth-, oðtow, aìth, toèto esse, essa, isso
T ¤keÝnow-, h-, o-** aquele, aquela, aquilo

Sing. Nom. ÷de ´de tñde oðtw aìth toèto


Voc.
Acus tñnde t®nde tñde toèto-n taæth-n toèto
Gen. toède t°sde toède toæt-ou taæt-hw toæt-ou
Dat. tÒde t»de tÒde toæt-Ä taæt-ú toæt-Ä
Loc. tÒde t»de tÒde toæt-Ä taæt-ú toæt-Ä
Instr. tÒde t»de tÒde toæt-Ä taæt-ú toæt-Ä
Plural Nom. oáde aáde t‹de oðto-i aìta-i taèt-a
Voc.
Acus. toæsde t‹sde t‹de toæt-ouw taæta-w taèt-a
Gen. tÇnde tÇnde tÇnde toæt-vn taut-Çn toæt-vn
Dat. toÝsde taÝsde toÝsde toæto-iw taæta-iw toæto-iw
Loc. toÝsde taÝsde toÝsde toæto-iw taæta-iw toæto-iw
Instr. toÝsde taÝsde toÝsde toæto-iw taæta-iw toæto-iw
Dual N.V.A. tÅde t‹de tÅde toæt-v taæt-a toæt-v
G.D.L.I. toÝnde taÝnde toÝnde toæto-in taæta-in toæto-in

* Na verdade, é a flexão do artigo seguido de -de.


** Flexão como os adjetivos triformes em -o / -a/-h.

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a flexão nominal: os temas nominais 151

Notas:
1. Há uma outra construção, analógica a ÷de, ´de, tñde, com a partícu-
la restritiva-enfática -ge com o artigo õ, ², tñ > ÷ge, ´ge, tñge,
com significado paralelo, e com a flexão só do artigo.
2. • O significado de ÷de, ´de, tñde corresponde ao demostrativo lati-
no hic, haec, hoc, e ao portugês: este, esta, isto, isto é, referente à 1a
pessoa e aos advérbios aqui, agora.
É catafórico: - minha opinião é esta: (a que vou expor)
• O significado de oðtow, aìth, toèto corresponde ao demons-
trativo latino iste, ista, istud, e ao português esse, essa, isso, referen-
te à 2a pessoa e ao advérbio aí. Também, como em latim e portu-
guês, às vezes é usado com sentido depreciativo.
É essa! (aponta-se com o dedo)
É anafórico: é essa a minha opinião (a que acabei de expor)
• O significado de ¤keÝnow, h, o corresponde ao demonstrativo lati-
no ille, illa, illud, e ao português aquele, aquela, aquilo, referente à
3a pessoa e ao advérbio lá.
3. Tanto ÷de, ´de, tñde quanto oðtow, ‘uth, toèto são às vezes re-
forçados com o sufixo -i (locativo), que, ou substitui a vogal final bre-
ve: - õdÛ, ²dÛ, todÛ, este aqui ou se acrescenta à vogal longa: - aêthÛ,
essa aí, toutouÛ, desse aí e à consoante final: - oêtosÛ, esse aí (nom.)
toutonÛ, esse aí (acus.).
4. Os demostrativos de identidade ÷de, ´de, tñde e oðtow, aìth,
toèto se compõem também com outros demonstrativos:
• de qualidade: toÝow,a,on de tal qualidade, tal
• de dimensão: tñsow,h,on de tal dimensão, de tal valor, tanto
• de quantidade: tñsoi,ai,a de tal quantidade, tantos
• de idade: thlÛkow,h,on de tal idade 25
para fazer os seguintes demonstrativos compostos:

25 Esses demostrativos simples são usados por Homero, Hesíodo e pelos líricos; na
prosa e no ático só se usam as formas compostas (4.1 e 4.2).

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152 a flexão nominal: os temas nominais

4.1. com ÷de, ´de, tñde


toiñsde, toi‹de, toiñde desta qualidade
tosñsde, tos°de, tosñde deste tamanho, deste valor
tosoÛde, tosaÛde, tos‹de desta quantidade, tantos
thlikñsde, telik°de, telikñde desta idade
4.2. com oðtow, aìth, toèto
toioètow, toiaæth, toioèto dessa qualidade, desse tipo
tosoètow, tosaæth, tosoèto desse tamanho, desse valor
tosoètoi, tosaètai, tosaèta dessa quantidade
thlikoètow, thlikaæth, thlikoèto dessa idade
5. Alguns outros adjetivos considerados demonstrativos (catafóricos) po-
dem ser listados aqui, mas se declinam normalmente como nomes de
temas em -o para o masculino e o neutro e -a/-h para o feminino:
llow,h,o outro, outra (entre vários) alius
§terow,a,on outro (de dois) alter
§kastow,h,on cada, cada um
¥k‹terow,a,on cada um dos dois
6. O grego tem também um demonstrativo de relações mútuas, chamado
recíproco. Em português, a expressão dessa idéia passa pelo processo
analítico: - uns os outros, uns dos outros, uns aos outros.
Só tem o plural e o dual, evidentemente; e não tem nominativo
naturalmente.
Plural Ac. Žll®louw,aw,a uns os outros (obj. d.)
Gen. Žll®lvn uns dos outros
D Žll®loiw,aiw,oiw uns aos outros
L. Žll®loiw,aiw,oiw uns nos outros
I. Žll®loiw,aiw,oiw uns pelos outros
Dual Ac. Žll®lv,a,v uns os outros (obj. d.)
G.D.L.I. Žll®loin,ain,oin uns dos/aos/pelos outros

No nominativo não aparece a reciprocidade, mas a alternativa;


llow m¢n... llow d¢ (dentre muitos): um... outro
llow m¡n oänon llow dƒ ìdvr pÛnei
um bebe vinho, outro, água
§terow m¢n... §terow d¢ (de dois): um... outro

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a flexão nominal: os temas nominais 153

Interrogativos e indefinidos

1. O grego tem vários pronomes interrogativos:


a) de identidade:
-tÛw, tÛ ; quem? o quê? quis, quae, quid, quod?
-pñterow,a,on; quem (qual) dos dois?
b) de qualidade:
-poÝow, poÛa, poÝon; qual? de que qualidade? qualis, quale?
c) de dimensão, valor (sing.):
-pñsow, pñsh, pñson; quanto? quão grande? de que valor?
quantus, a, um?
d) de quantidade (pl.):
-pñsoi, pñsai, pñsa; quantos? quot?
e) de idade (tamanho):
-phlÛkow,h,on; de que idade? (tamanho)?
f) de origem:
-podapñw,®,ñn; de que país?
Com exceção de tÛw, tÛ, (T tin-), todos os outros são de tema em
-o para o masculino e neutro e -a / -h para o feminino, e por isso não
apresentam nenhuma dificuldade de flexão.
2. Para cada interrogativo há um correspondente indefinido, como em por-
tuguês: - quem? / alguém, algum.
Em grego, esses indefinidos são os próprios interrogativos, mas na
versão átona, enclítica, enquanto os interrogativos são tônicos.
Os de uso mais freqüente são:
Interrogativos Indefinidos
tÛw, tÛ quem? o quê? tiw, ti alguém, algum, algo
poÝow,a,on qual? poiow,a,on um qualquer
pñsow,h,on de que tamanho? posow,h,on de um tamanho qualquer
pñsoi,ai,a quantos? posoi,ai,a uns tantos
3. Os pronomes indefinidos (átonos) são enclíticos e se pronunciam como
tais, dentro do ritmo da frase. Mas os de duas sílabas soam como se
fossem oxítonos:
sofistaÛ tinew; - são uns sofistas! / (sophistaí tinés)/

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154 a flexão nominal: os temas nominais

4. Esses indefinidos se compõem com o relativo ÷w, ´, ÷ e se empregam


quer como interrogativos indiretos, quer como relativos indefinidos:
de identidade, ÷stiw, ´tiw, ÷ti, que, qualquer um
de qualidade, õpoÝow,a,on, de qualquer qualidade
de dimensão, õpñsow,h,on, de qualquer dimensão
de quantidade, õpñsoi,ai,a, de qualquer quantidade
de idade, õphlÛkow,h,on, de qualquer idade
de origem, õpodapñw,®,ñn, de qualquer origem
Veremos com mais detalhes no quadro dos correlativos (p. 162).

Quadro de flexão:
T. tin- tÛw, tÛ quem? o que?
T. tin- tiw, ti alguém, alguma coisa
Interrogativo Indefinido
m. f. n. m. f. n.
Sing. Nom. tÛ-w tÛ tiw ti
Voc.
Acus tÛn-a tÛ tina ti
Gen. tÛn-ow / toè tÛn-ow / toè tin-ow / tou tin-ow / tou
Dat. tÛn-i / tÒ tÛn-i / tÒ tin-i / tÄ tin-i / tÄ
Loc. tÛn-i / tÒ tÛn-i / tÒ tin-i / tÄ tin-i / tÄ
Instr. tÛn-i / tÒ tÛni- / tÒ tin-i / tÄ tini- / tÄ
Pl. Nom. tÛn-ew tÛn-a tin-ew tin-a
Voc.
Acus. tÛn-aw tÛn-a tin-aw tin-a*
Gen. tÛn-vn tÛn-vn tin-vn tin-vn
Dat. tÛ-si tÛ-si ti-si ti-si
Loc. tÛ-si tÛ-si ti-si ti-si
Instr. tÛ-si tÛ-si ti-si ti-si
Dual N.V.A. tÛn-e tÛn-e tin-e tin-e
G.D.L.I. tÛn-oin tÛn-oin tin-oin tin-oin

* As gramáticas registram uma forma alternativa tta. Não acreditamos que seja o
caso, isto é, uma forma alternativa, sincopada, ser igual ou maior do que a normal.
Veremos ‘tta por ‘tina < ‘ tina. É mais coerente.

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a flexão nominal: os temas nominais 155

Quadro de flexão:

T. õ-, ²-/- tin- ÷stiw, ÷ti: o que, qualquer

masc. fem. neutro


Sing. Nom. ÷-s ti-w ´ ti-w ÷ ti
Voc.
Acus ÷-n tin-a ´-n tin-a ÷ ti
Gen. oð tin-ow/÷tou ¸s tin-ow oð tin-ow/÷tou
Dat. Ú tin-i / ÷tÄ Ãtin-i Ú tin-i / ÷tÄ
Loc. Ú tin-i / ÷tÄ Ã tin-i Ú tin-i / ÷tÄ
Instr. Ú tin-i / ÷tÄ Ã tin-i Ú tin-i / ÷tÄ
Pl. Nom. oá tin-ew aá tin-ew ‘ tin-a / ‘tta
Voc.
Acus. oìs tin-aw ‘s tin-aw ‘ tin-a/‘tta
Gen. Ïn tin-vn Ïn tin-vn Ïn tin-vn
Dat. o-ås ti-si a-ås ti-si o-ås ti-si
Loc. o-ås ti-si a-ås ti-si o-ås ti-si
Instr. o-ås ti-si a-ås ti-si o-ås ti-si
Dual N.V.A. Ë tin-e ‘ tin-e Ë tin-e
G.D.L.I. o-ån tin-oin a-ån tin-oin o-ån tin-oin

Notas:
1. O pronome indefinido átono tiw, ti ficou em posição enclítica; os
acentos são do relativo ÷w, ´, ÷n.
2. Todos esses relativos indefinidos podem receber mais um sufixo de
indeterminação (-oun / -d®pote / -d®); nesses casos a indetermi-
nação fica mais generalizada:
õstis-oèn / õstis-d®pote / õstis-d® qualquer um, seja qual for
õpoter-oèn seja qual for dos dois
õpoios-oèn /-d® /-d®pote seja de que qualidade for
õposos-oèn /-d®/ -d®pote seja do tamanho que for
õpñsoi-oèn /-d® /-d®pote sejam quantos forem

mur03.p65 155 22/01/01, 11:36


156 a flexão nominal: os temas nominais

3. Há um outro indefinido, de uso poético, arcaico, deÛna, um tal, um


qualquer, de aparência neutro e indeclinável nos três casos sintáticos
do singular; no plural há uma variação masc.fem./neutro. Mas é teó-
rico; seu uso quase exclusivo é nos três casos sintáticos do singular:

Singular Plural
masc./fem. neutro masc./fem. neutro
Nom. deÛna deÛna deÝnew deÝna
Voc.
Acus. deÛna deÛna deÛnaw deÝna
Gen. deÝnow deÝno deÛnvn deÛnvn
Dat. deinÛ deinÛ deisÛ deisÛ
Loc. deinÛ deinÛ deisÛ deisÛ
Instr. deinÛ deinÛ deisÛ deisÛ
Observação: embora classificado como indefinido ele vem
freqüentemente precedido de artigo õ, ², tñ.
4. Há alguns adjetivos que são difíceis de enquadrar: ou entre os determi-
nativos, dêiticos, ou entre os indefinidos. Além disso, convém estar
atentos para sua função ou de mero adjunto adnominal ou com o nome
implícito, elíptico.
Assim:
• §kastow,h,on cada um, cada:
¥k‹sth pñliw - cada cidade
• ¥k‹terow,a,on cada um dos dois:
¥kat¡ra ² xeÛr - cada uma das duas mãos
• lloi outros
• oß lloi os outros (adj. substantivado), os outros (a outra parte):
² llh „Ell‹w - a outra Grécia (adjetivo, adjunto adno-
minal) - o restante da Grécia.
• §terow,a,on um dos dois, alter
• õ §terow,a,on aquele dos dois (adjetivo substantivado)
Atenção às crases: elas são estranhas:
toè ¥t¡rou > yat¡rou
tÒ ¥t¡rÄ > yat¡rÄ
tŒ §tera > y‹tera
tò §teron > y‹teron

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a flexão nominal: os temas nominais 157

• ¦nioi, ai, a alguns


• pw, psa, pn todo, qualquer
pw nyrvpow todo homem, qualquer homem
• oëtiw, oëti (oë-tiw, oë-ti) - não alguém, não algo = ninguém,
nada; Odisseu no canto IX da Odisséia.
• oédeÛw, oédemÛa, oéd¡n (oud¡ eåw) - nem um, nem uma = nin-
guém, nada.

Quadro de flexão:

T. ¤keÝno- ¤keÛnh- ¤keÝno- ¤keÝnow, ¤keÛnh, ¤keÝno aquele, aquela, aquilo


T. aétñ-, aét®-, aétñ- aétñw, aét®, aétñ mesmo (ipse), ele, ela

Sing. Nom. ¤keÝno-w ¤keÛnh ¤keÝno aétñ-w aét® aétñ


Voc.
Acus. ¤keÝno-n ¤keÛnh-n ¤keÝno aétñ-n aét®-n aétñ
Gen. ¤keÛn-ou ¤keÛn-hw ¤keÛn-ou aét-oè aét-°w aét-oè
Dat. ¤keÛn-Ä ¤keÛn-ú ¤keÛn-Ä aét-Ò aét-» aét-Ò
Loc. ¤keÛn-Ä ¤keÛn-ú ¤keÛn-Ä aét-Ò aét-» aét-Ò
Instr. ¤keÛn-Ä ¤keÛn-ú ¤keÛn-Ä aét-Ò aét-» aét-Ò
Pl. Nom. ¤keÝno-i ¤keÝna-i ¤keÝn-a aéto-Û aéta-Û aét-‹
Voc.
Acus. ¤keÛn-ouw ¤keÛna-w ¤keÝn-a aét-oæw aét‹-w aét-‹
Gen. ¤keÛn-vn ¤kein-Çn ¤keÛn-vn aét-Çn aét-Çn aét-Çn
Dat. ¤keÛno-iw ¤keÛna-iw ¤keÛno-iw aéto-Ýw aéta-Ýw aéto-Ýw
Loc. ¤keÛno-iw ¤keÛna-iw ¤keÛno-iw aéto-Ýw aéta-Ýw aéto-Ýw
Instr. ¤keÛno-iw ¤keÛna-iw ¤keÛno-iw aéto-Ýw aéta-Ýw aéto-Ýw
Dual N.V.A. ¤keÛn-v ¤keÛn-a ¤keÛn-v aét-Å aét-‹ aét-Å
G.D.L.I. ¤keÛno-in ¤keÛna-in ¤keÛno-in aéto-Ýn aéta-Ýn aéto-Ýn

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158 a flexão nominal: os temas nominais

Notas:

1. aétñw,®,ñ substitui ou é usado como 3a pessoa ou como aposto de


outras:
a) no nominativo, como aposto do sujeito implícito, reforçando a
identidade:
aétòw ¦fa [ele] mesmo, em pessoa, dizia [disse]
(expressão que os pitagóricos usavam)
aétòw ¤rÇ [eu] mesmo direi
aétoÜ perÜ eÞr®nhw ¤chfÛsasye
[vós] mesmos votastes a respeito da paz.
Nesses casos é fácil reconhecer a pessoa gramatical que está
implícita observando a desinência do verbo.
b) nos outros casos substituindo o dêitico de 3a pessoa:
kaÜ sç öcei aétñn também tu o verás
õ pat¯r aétoè o pai dele
aétoÝw ¤rÇ eu lhes direi
2. Quando precedido de artigo, aétñw,®,ñ se comporta como um adje-
tivo substantivado e significa o mesmo (e não outro), e em aposição
significa o próprio, em pessoa.
aétòw aétoÝw tŒ aétŒ ¤rÇ
eu mesmo (aétòw) lhes (aétoÝw) direi as mesmas (tŒ aétŒ) coisas
õ yeòw õ aétñw a divindade em pessoa, a própria divindade
Nesse caso, no singular, há inúmeras crases resultantes do encon-
tro do artigo com o pronome (p. 55).
No plural não há contrações, nem crases, salvo no neutro do
N.V.A.: tŒ aét‹ > taét‹.

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a flexão nominal: os temas nominais 159

Quadro de flexão de õ aétñw

Sing. Nom. õ aétñw ² aét® tò aétñ > taétñ(n)


Voc.
Acus. tòn aétñn t¯n aét®n tò aétñ > taétñ(n)
Gen. toè aétoè > taétoè t°w aét°w toè aétoè > taétoè
Dat. tÒ aétÒ > taétÒ t» aét» > taét» tÒ aétÒ > taétÒ
Loc. tÒ aétÒ > taétÒ t» aét» > taét» tÒ aétÒ > taétÒ
Instr. tÒ aétÒ > taétÒ t» aét» > taét» tÒ aétÒ > taétÒ

Pl. Nom. oß aétoÛ aß aétaÛ tŒ aét‹ > taét‹


Voc.
Acus. toçw aétoæw tŒw aét‹w tŒ aét‹ > taét‹
Gen. tÇn aétÇn tÇn aétÇn tÇn aétÇn
Dat. toÝw aétoÝw taÝw aétaÝw toÝw aétoÝw
Loc. toÝw aétoÝw taÝw aétaÝw toÝw aétoÝw
Instr. toÝw aétoÝw taÝw aétaÝw toÝw aétoÝw

Dual N.V.A. tÆ aétÅ tŒ aét‹ tÆ aétÅ


G.D.L.I. toÝn aétoÝn taÝn aétaÝn toÝn aétoÝn

mur03.p65 159 22/01/01, 11:36


160 a flexão nominal: os temas nominais

O mesmo acontece com os casos oblíquos dos pronomes pessoais


reflexivos no singular, quando aétñw,®,ñ está em aposição, significando
mesmo. São crases ou elisões.

1a pessoa do s. Ac. me mesmo (o.d.) ¤m¢ aétñn> ¤mautñn


Gen. de mim mesmo ¤moè aétoè > ¤mautoè
Dat. a mim mesmo ¤moÜ aétÒ > ¤mautÒ
1a pessoa do p. Ac. nos mesmos (o.d) ²mw aétoæw
Gen. de nós mesmos ²mÇn aétÇn
Dat. a nós mesmos ²mÝn aétoÝw
2a pessoa do s. Ac. te mesmo (o.d.) s¢ aétñn > saétñn
Gen. de ti mesmo soè aétoè > sautoè
Dat. a ti mesmo soÜ aétÒ > saétÒ
2a pessoa do p. Ac. vós mesmos êmw aétoæw
Gen. de vós mesmos êmÇn aétÇn
Dat. a vós mesmos êmÝn aétoÝw
3a pessoa do s. Ac. se mesmo (o.d.) ¥-aétñn,®n,ñ > ¥autñn,®n,ñ /
aêtñn,®n,ñ
Gen. de si mesmo ¥-autoè,°w,oè > ¥autoè,°w,oè /
aêtoè,°w,oè
Dat. a si mesmo ¥-autÒ,»,Ò > ¥autÒ,»,Ò /
aêtÒ,»,Ò
3a pessoa do p. Ac. se mesmos ¥-autoæw,‹w,‹ > ¥autoæw,‹w,‹ /
aêtoæw,‹w,‹
Gen. de si mesmos ¥-autÇn > ¥autÇn /
aêtÇn
Dat. a si mesmos ¥-autoÝw,aÝw,oÝw> ¥autoÝw,aÝw,oÝw
/aêtoÝw,aÝw,oÝw
Dual N.V.A. os dois mesmos ¤-autÅ,‹,Å > ¥autÅ,‹,Å /
aêtÅ,‹,Å
G.D.L.I. dos/aos 2 mesmos ¥autoÝn,aÝn,oÝn > ¥autoÝn,aÝn,oÝn
/aêtoÝn,aÝn,oÝn

mur03.p65 160 22/01/01, 11:36


a flexão nominal: os temas nominais 161

Os correlativos
A palavra correlativo não deve nos prender ao quadro deles. Cada
uma dessas palavras tem seu significado e função próprias. Contudo, há
uma linha racional, semântica, relacional, que pode ser vista no processo
de composição (prefixação e sufixação).
Assim, de um interrogativo direto, vamos ao indireto e daí ao inde-
finido e ao demonstrativo, que sugere o relativo e finalmente o relativo
indefinido.
O quadro da página seguinte é ilustrativo de coerência semântica e
formal.

mur03.p65 161 22/01/01, 11:36


mur03.p65

162
Interr. Diretos Interr. Indir. Indefinidos Demonstrativos Relativos Relativos Indef.
tÛw,tÛ ÷stiw, ´tiw, ÷ti tiw, ti ÷de,´de,tñde ÷w ,´, ÷ ÷stiw, ´tiw, ÷ti
oðtow, aëth, toèto ÷sper,
¤keÝnow,h,o ´per, ÷sper õstisoèn,
õstisd®
÷per õstisd®pou
quem? o que? quem, o que alguém, algo este, esse, aquele que qualquer que
162

poÝow, a, on õpoÝow, a, on poiow, a, on toÝow, toiñsde, toioètow oåow, a, on õpoÝow


qual? qual de certa qualidade tal, desta, dessa qual. qual de qualquer
qualidade
pñsow, h, on õpñsiw, h, on posow, h, on tñsow, tosñsde,
tosoètow ÷sow, õpñsow
quanto? quanto, de algum tam./ tanto, deste tamanho/valor quanto seja de que tam. for

a flexão nominal: os temas nominais


de que valor de que valor val., um quanto, desse tamanho/valor quão grande for
ou tamanho? ou tamanho de certo tam./valor qq. que seja o tam.
pñsoi ; õpñsoi posoi tñsoi ÷soi õpñsoi
quantos? quantos uns tantos tantos quantos seja quantos forem
phlÛkow ; õphlÛkow phlikow thlÛkow thlikñsde ²lÛkow õphlÛkow
thlikoètow
de que idade? de que idade de alg. idade desta id.; dessa id. que idade de qualquer idade
que seja
22/01/01, 11:36

pñterow ; õpñterow poterow õ §terow õpñterow


quem/ quem/ alg. dos dois um dos dois qualquer 1 dos 2
qual dos dois? qual dos dois
¥k‹terow
cada 1 dos 2, nenhum dos 2
podapñw ; õpodapñw pantodapñw õpodapñw
de que país? de que país de todo país de qualquer país
que seja
a flexão nominal: os temas nominais 163

Pronomes pessoais
São os verdadeiros pronomes, isto é, vêm em lugar do nome; nem
anafóricos nem catafóricos. Eles têm origem na oralidade e são basica-
mente de 1 a e 2a pessoas: eu, tu, numa linha horizontal, direta, binária e
singular. Os outros pronomes: 1 a e 2a pessoas do plural são analógicas; o
mesmo se pode dizer do dual.
O único e verdadeiro pronome (ŽntinvmÛa) é ¤gÅ, eu, que não
tem gênero, nem plural (“nós” não significa vários “eu”) e não tem deri-
vados (as formas de outras funções se constroem sobre uma outra raiz:
¤gÅ eu sujeito nominativo
¤m¡ me objeto direto acusativo
¤moè de mim complemento/adjunto adnominal genitivo
¤moÛ a mim, mim, me complemento/adjunto adnominal dativo

A segunda pessoa tu, sæ, tu, o outro pólo do diálogo, também


não tem gênero nem número (“vós” não significa vários “tu”), mas tem
as formas oblíquas construídas sobre a mesma raiz:
sæ tu sujeito nominativo
s¡ te objeto direto acusativo
soè de ti complemento/adjunto adnominal genitivo
soÛ a ti, te complemento/adjunto adnominal dativo

As 3as pessoas, singular e plural, estão fora do eixo do diálogo; são


dêiticos. É essa a origem dos “pronomes” das 3 as pessoas, desde o grego e
latim até às línguas modernas.
Em grego, o sistema de flexão verbal era suficientemente forte para
dispensar a menção do pronome pessoal agente ou paciente sujeito, a não
ser que se quisesse insistir sobre a pessoa, ela e não outra: - sou eu que...,
és tu que... (e não outro).26

26 Ver a identificação das pessoas gramaticais nas desinências verbais à p. 23.

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164 a flexão nominal: os temas nominais

Quadro de flexão dos pronomes pessoais

Primeira pessoa
Singular Plural
Nom. ¤gÅ eu ²meÝw nós
Voc.
Acus. ¤m¡ / me me ²mw nos
Gen. ¤moè / mou de mim ²mÇn de nós
Dat. ¤moÛ / moi a mim ²mÝn a nós
Loc. ¤moÛ / moi em mim ²mÝn em nós
Instr. ¤moÛ / moi por mim ²mÝn por nós
Dual
N.V.A. nÅ / nÇi nós dois
G.D.L.I. nÒn / nÇin a, de nós dois
Segunda pessoa
Singular Plural
Nom. sæ tu êmeÝw vós
Voc.
Acus. s¡ / se te êmw vos
Gen. soè / sou de ti êmÇn de vós
Dat. soÛ / soi a ti êmÝn a vós
Loc. soÛ / soi em ti êmÝn em vós
Instr. soÛ / soi por ti êmÝn por vós
Dual
N.V.A. sfÅ / sfÇi vós dois
G.D.L.I. sfÒn / sfÇin a, de vós dois

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a flexão nominal: os temas nominais 165

Notas:

1. As variantes não acentuadas, por serem átonas, são enclíticas e menos


fortes.
2. A forma antiga do pronome de 2a pessoa é tæ (latim tu).
3. Como já foi visto, não há pronomes pessoais de 3 a pessoa. Ela está
fora do eixo do diálogo. Então, naturalmente é um dêitico, anafórico.
Em grego é o dêitico oðtow, aìth, toèto - esse, essa, isso e
aétñw, ®,ñ - mesmo, o mesmo, o próprio que o substituem. Uma ex-
plicação possível da origem de aétñw é:- aé - por sua vez, também +
to, esse, aquele.27 Vejam-se as notas no quadro das flexões dos dêiticos.
4. Às vezes, para dar ênfase à pessoa, em oposição a outra ou outras, usa-
se acrescentar a partícula restritiva, enfática -ge.
¦gvge - eu, por mim ; ¤moÛge dokeÝ - a mim, pelo menos, parece
5. Em grego, como em latim, línguas de larga tradição oral, as expres-
sões de tratamento são em 2 a pessoa (singular e plural).
As expressões de tratamento em 3 a pessoa têm origem litúrgica,
palaciana, subserviente e servil e se baseiam no receio da abordagem
direta. Em alguns países e regiões de língua portuguesa e castelhana,
esse tratamento prevalece e lembra as relações senhoriais de uma socie-
dade escravocrata. A pñliw grega não concebia essas expressões de
tratamento.
6. Em Homero, existe um pronome de 3a pessoa, salvo no nominativo, e
é considerado reflexivo, com significado forte.
A partir dele a língua usa às vezes uma forma não reflexiva, fraca,
enclítica.

27 É a hipótese de A. Meillet, Traité de Grammaire Comparée du Grec et du Latin,


p. 741.

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166 a flexão nominal: os temas nominais

Quadro de flexão do pronome de 3a pessoa

Singular Plural Dual


N.V.
A. §, mÛn se, o, a sf¡aw, sf¡ se, os, as sfv¡
G. eåo ,§o, eð, §yen dele sfeÛvn, sf¡vn deles sfvÝn
D.L.I. oå, ¥oÝ lhe sfÛsi, sfÝ lhes sfvÝn

No ático e na prosa jônica houve uma simplificação desse quadro.

Singular Plural
N. sfeÝw - eles mesmos (suj.)
A. § < sWe se sfw se mesmos (o.d.)
G. oð de si (sui) sfÇn de si mesmos
D. oå / oß a si mesmo (sibi) sfÛsi a si mesmos

Mesmo assim, essas formas, sozinhas, se usam pouco; em geral vêm


enfatizadas pelo pronome em aposição aétñw,®,ñ, nas segundas e so-
bretudo na 3a pessoa, que é o uso mais comum, com valor reflexivo, isto
é, quando o ato retorna ao seu agente.

„O sofòw ¤n aêtÒ perif¡rei t¯n oésÛan. (¥-autÒ)


O sábio leva nele mesmo sua riqueza
ƒOr¡sthw feægvn ¦peisen ƒAyhnaÛouw ¥autòn kat‹gein.
Orestes, estando no exílio, persuadiu os Atenienses de trazê-lo de
volta.
GnÇyi sautñn. (se-aétñn)
Conhece te a ti-mesmo.
Tòn fÛlon pròw ¥autòn ¦labe. (¥-aétñn)
Ele pegou o amigo para junto de si.
L¡gousi ÷ti metam¡lei aêtoÝw (¥-aétoÝw)
Eles afirmam que [isso] lhes traz preocupação.

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a flexão nominal: os temas nominais 167

Temas em consoante e soante/semivogal

Pertencem a este grupo todos os substantivos masculinos, femini-


nos e neutros e todos os adjetivos e dêiticos cujo tema termina em con-
soante ou soante/semivogal.
Qualquer consoante pode servir de tema, menos m, j, c; as soantes/
semivogais são: i, u, W, j.

Quadro geral das desinências

Masc./Fem. Neutros
Singular
Nom. -w/alongamento da vogal temática Tema puro/desinência zero
Voc. Tema puro/desinência zero
/igual ao nom. Tema puro/desinência zero
Ac. -n > a Tema puro/desinência zero
Gen. -ow -ow
Dat. -i -i
Loc. -i -i
Instr. -i -i
Plural
Nom. -ew -a
Voc. -ew -a
Ac. -nw > aw / enw> eiw -a
Gen. -vn -vn
Dat. -si -si
Loc. -si -si
Instr. -si -si
Dual
N.V.A. -e -e
G.D.L.I. -oin -oin

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168 a flexão nominal: os temas nominais

Notas:

1. Como se pode notar, apenas duas desinências são consonânticas: o no-


minativo singular masc./fem.: -w e o dat./loc./inst. plural: -si.
O acusativo sing. e plural masc/fem. não é consonântico; ele é em
líqüida/soante -n que se vocaliza em -a sempre que, em posição final,
vem depois de consoante (patrÛd-n > patrÛda) e sofre síncope, quan-
do precedido de vogal e seguido de -w (Þxyæ-nw > Þxyæw).
Isso nos leva a concluir que a flexão desses nomes é bastante fácil:
basta acrescentar as desinências vocálicas aos temas em consoante, com
que fazem sílaba, e aos temas em semivogal, com que fazem ditongo.
2. Nas desinências em consoante (-w/-si), o encontro das consoantes te-
máticas com essas desinências se resolve observando-se as normas fo-
néticas comuns. Mostraremos isso em detalhe nos quadros de flexão.
3. Nos nomes de tema em u- (Þxyu-), o nominativo plural Þxyæ-ew pode
se contrair em Þxyæw; o mesmo acontecendo no acusativo plural Þxyæ-
nw em Þxyæw.
Nesses dois casos há o alongamento compensatório do u. Nesse
caso normalmente o acento deveria ser circunflexo, em se tratando de
sílaba final longa. Mas, por convenção, não se acentuam com circun-
flexo os acusativos plurais longos, mesmo com sílaba final tônica:
õdoæw, deinoæw, Žgor‹w, kefal‹w.
4. As gramáticas registram desinências iguais em -eiw para o nominativo
e acusativo plural em alguns nomes e adjetivos: pñleiw - ŽlhyeÝw.
Na verdade, o ditongo -ei nos dois casos é um resultado aparente-
mente igual, mas produto de componentes diferentes.
a) No caso do Nom. pl. pñleiw, é o resultado da contração de e-e:
pñlejew > pñle-ew > pñleiw.
O -j- em posição intervocálica sofre síncope, pondo em contato
duas vogais, que o ático reduz em ditongo.
b) No caso do Acus. pl., pñleiw é o resultado da vocalização do -j-
antes de consoante e posterior síncope do -n- diante de -w-:
pñlej-nw > pñleinw > pñleiw.
c) No caso do Acus. pl. ŽlhyeÝw, a evolução é a seguinte:
Žlhy¡s-nw > Žlhy¡nw > ŽlhyeÝw.

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a flexão nominal: os temas nominais 169

Síncope das duas consoantes -sn- antes do -w e alongamento com-


pensatório da vogal anterior.
5. Os nomes de tema em es- (g¡nes-, Žlhy¡s-, SÅkrates-), ao rece-
berem uma desinência vocálica, sofrem a síncope desse -s- e põem em
contato duas vogais, formando um iato, que, no dialeto ático, é redu-
zido por contração:
g¡nes-a > g¡nea > g¡nh
Svkr‹tes-ow > Svkr‹teow > Svkr‹touw
6. Os nomes de tema em nt- têm dois tratamentos diferentes no nomi-
nativo singular masculino:
a) os nomes de tema em -ont- (l¡ont-,) e os particípios do infec-
tum em -ont- (læ-o-nt-), ao receberem o -w do nominativo mas-
culino singular, sofrem apócope do -w e do -t-, e, por compensa-
ção, alongam a vogal do tema:
T. l¡ont- l¡ont-w l¡vn
T. læ-o-nt- læ-o-nt-w lævn.28
b) os outros temas em -nt-, ao receberem -w no masculino, sofrem a
síncope29 do -nt- antes do -w e, por compensação, alongam a vo-
gal do tema:
T. gÛgant- gÛgantw > gÛgaw
T. læ-sa-nt- læsantw > læsaw
T. lu-y®-nt- luy®ntw > luy¡ntw > luyeÛw
T. deÛk-nu-nt- deiknæntw > deiknæw
(as vogais a, i, u têm o mesmo registro, quer sejam longas quer sejam breves).
7. No dativo plural, as consoantes -nt- do tema sofrem síncope 30 antes
do -si e alongam, por compensação, a vogal anterior:
T. l¡ont- l¡ont-si > l¡ousi
T. læo-nt- læont-si > læousi
T. gÛgant- gÛgant-si > gÛgasi
T. lu-y®-nt- luy¡nt-si > luyeÝsi
T. deÛk-nu-nt- deÛknunt-si > deÛknusi.

28 Uma outra hipótese é que o -t do tema em posição final sofre apócope e a seguir
a vogal anterior se alonga no nominativo masc./fem., como os temas en -n.
29 Sucessivamente do t e do n.

30 Sucessivamente do t e do n.

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170 a flexão nominal: os temas nominais

8. Os nomes masculinos e femininos de tema em líqüida (n, r) alongam


a vogal do tema no nominativo:31
T. =°tor- õ =®tvr =®torow o orador
T. daÝmon- õ daÛmvn daÛmonow o nume
9. Alguns nomes em líqüida têm o tema longo: ŽgÅn- ŽgÇn-ow. Nes-
se caso, naturalmente, constroem toda a flexão sobre o tema longo:
T. ŽgÅn- : Nom. s. õ ŽgÅn
Dat. pl. toÝw ŽgÇnsi > ŽgÇsi
10. No dativo/locativo/instrumental plural os nomes em -n depois de vo-
gal temática breve sofrem síncope do -n antes do -si, sem alongarem
a vogal anterior:
T. daÝmon - Nom.s õ daÛmvn Gen.s toè daÛmon-ow D.L.I.pl. toÝw daÛmosi;
T. lim¡n - Nom.s õ lim®n Gen.s toè lim¡n-ow D.L.I.pl. toÝw lim¡si
Mas, quando houver síncope de -nt-, o alongamento compensa-
tório é natural, por serem duas as consoantes suprimidas:
T. l¡ont- õ l¡vn toÝw l¡ont-si > l¡ousi
T. luy¡nt- luyeÛw toÝw luy¡nt-si > luyeÝsi
11. Os neutros não têm desinência própria (desinência zero). Nos casos
sintáticos do singular (nom., voc., acus.) mantêm “desinência zero”,
isto é, o próprio tema.
Nos casos concretos do singular e plural (gen., dat., loc., instr.)
usam as desinências do masc./fem.
O -a do nom., voc., acus. plural é a marca do coletivo indo-europeu.
Uma vez reconhecido o tema do substantivo ou adjetivo e identi-
ficado seu gênero, não será difícil flexionar todos esses nomes.
As “irregularidades” que acontecem são problemas fonéticos que
se resolvem no aparelho fonador, dentro das normas fonéticas do
grego.

31 Seria uma espécie de compensação pela queda do -w final, que é a marca do nom.
masc./fem.

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a flexão nominal: os temas nominais 171

Exercício prático de identificação dos temas

Instruções:
1. Na primeira coluna está o genitivo singular 32.
Isolada a desinência do genitivo, em princípio, teremos o tema.
Convém notar, contudo, que, em algumas palavras, a desinência
do genitivo singular sofre alterações fonéticas, como nos temas em -w,
W, e j.:
T. g¡nes- g¡nes-ow > g¡neow > g¡nouw do gênero, da raça
T. steW- steW-ow > ste-ow > stevw da cidadela
T. pñlj-, ej-, hj- pñlhj-ow > pñlh-ow > pñlevw da cidade
Esse fato dificulta a identificação do tema.
2. Na segunda coluna está o nominativo singular:
Se é igual ao tema, trata-se de um neutro, porque o neutro tem
desinência zero no nom. sing.
Os neutros de tema em oclusiva não a mantêm em posição final:
T. sÇmat- sÅmat-ow tò sÇma o corpo
T. luy¡nt- luy¡nt-ow luy¡n desligado, solto
a) Os neutros de tema em -w e em -r têm a vogal anterior ao -s-
breve, por serem o próprio tema, contrariamente aos masculinos
e femininos que a têm longa:
T. g¡nes- g¡nes- ow > g¡nouw tò g¡now raça, gênero
T. SÅkrates- Svkr‹tes-ow > Svkr‹touw õ Svkr‹thw Sócrates
T. Žlhy¡s- (masc. e fem.) Žlhy®w, real, verdadeiro
(neutro) Žlhy¡w
b) Se tem um -w combinado ou não com outra consoante oclusiva:
T. fl¡b- > fleb-ñw fl¡c, ² a veia
T. aäg- > aÞg-ñw aäj, ² a cabra
T. lamp‹d- > lamp‹d-ow lamp‹w, ² a tocha, archote
trata-se de um masculino ou feminino.

32 Mantivemos essa norma tradicional, porque é assim que as gramáticas e dicioná-


rios registram os nomes, para indicar a que “declinação” pertencem. Cremos que,
ao lado disso, deveríamos registrar os temas.

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172 a flexão nominal: os temas nominais

c) Se a vogal temática está alongada:


T. =°tor > =®tor-ow =®tvr, õ o orador
T. l¡ont- > l¡ont-ow l¡vn, õ o leão
T. poim¡n > poim¡n-ow poim®n, õ o pastor
trata-se de um nome masculino ou feminino de tema em líqüida -
r, -n ou -ont
d) Se tem um -w acrescentado à semivogal do tema:
T. Þxyæ- > Þxyæw-æow, o o peixe
T. á- > áw, ßñw, ² a força
trata-se de um masculino ou feminino em -i / -u
3. Na terceira coluna está o vocativo singular.
Rigorosamente, deve ser o tema puro (desinência zero) igual ao da
primeira coluna, porque o vocativo não é caso e por isso não deve ter
desinência (desinência zero).
Se o vocativo for igual ao nominativo, é porque o tema é em con-
soante, e a apócope dela em posição final descaracterizaria fonética e
semanticamente o nome 33.
4. Na quarta coluna está o dativo, loc., instr., plural.
O encontro da desinência -si com o tema deve produzir os mes-
mos resultados fonéticos que no nominativo singular do masc. e fem.
a) nos temas em -r, o -si se adapta normalmente; =®tor-si;
b) nos temas em -n há a síncope dessa consoante sem mais conse-
qüências; T. ²gemñn- ²gemñn-si > ²gemñsi
c) nos temas em -nt há síncope dessas duas consoantes e alonga-
mento da vogal anterior. T. l¡ont- l¡ont-si > l¡ousi
d) nos temas em oclusivas labiais e velares, o -w da desinência resulta
em c com as labiais e j com as velares; com as dentais há a assi-
milação da dental >ss e posterior redução >s;
e) nos temas em -s, há a duplicação >ss e posterior redução >s.

33 Ver explicação mais detalhada no capítulo da flexão nominal (p. 95-6).

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a flexão nominal: os temas nominais 173

Gen. sing. Nom. sing. Voc. sing. Dat. pl.

paid-ñw paÝw paÝ paisÛ menino, menina


fleb-ñw fl¡c fl¡c flecÛ a veia
gup-ñw gæc gæc gucÛ o abutre
kat®lif-ow kay°lic kay°lic kay®lici o sótão
aÞg-ñw aäj aäj aÞjÛ a cabra
fælak-ow fælaj fælaj fælaji o vigia
g¡ront-ow g¡rvn g¡ron g¡rousi o ancião
læont-ow lævn lèon læousi desligante
læont-ow lèon lèon læousi desligante
önt-ow Ên ön oïsi quem é - masc.
önt-ow ön ön oïsi o que é - neut.
ôdñnt-ow ôdoæw ôdñn ôdoèsi o dente
pant-ñw pw pn psi todo homem - masc.
pant-ñw pn pn psi toda coisa - neut.
deiknænt-ow deiknæw deiknæn deiknèsi mostrante - masc.
deiknænt-ow deiknæn deiknæn deiknèsi mostrante - neut.
luy¡nt-ow luyeÛw luy¡n luyeÝsi desligado - masc.
luy¡nt-ow luy¡n luy¡n luyeÝsi desligado - neut.
gÛgant-ow gÛgaw gÛgan gÛgasi gigante
læsant-ow læsaw lèsan læsasi tendo desligado - m.
læsant-ow lèsan lèsan læsasi tendo desligado - n.
=®tor-ow =®tvr =°tor =®torsi o orador
gast¡r-ow gast®r g‹ster gast¡rsi o estômago
yhr-ñw y°r y°r yhrsÛ a caça, presa, fera
aÞy¡r-ow aÞy®r aÞy¡r aÞy¡rsi o éter
n¡ktar-ow n¡ktar n¡ktar n¡ktarsi o néctar
l-ñw ‘lw ‘lw lsÛ o sal
fr¡at-ow fr¡ar fr¡ar fr¡asi o poço
´pat-ow ¸par ¸par ´pasi o fígado
gra-ñw graèw graè grausÛ a velha
m‹nte-vw m‹ntiw m‹nti m‹ntesi o adivinho
pel¡ke-vw p¡lekuw p¡leku pel¡kesi o machado
st-evw stu stu stesi a cidadela
p®x-evw p°xuw p°xu p®xesi o côvado

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174 a flexão nominal: os temas nominais

Gen. sing. Nom. sing. Voc. sing. Dat. pl.

²d¡-ow ²dæw ²dæ ²d¡si suave, doce - masc.


²d¡-ow ²dæ ²dæ ²d¡si suave, doce - neut.
bay¡-ow bayæw bayæ bay¡si profundo
tax¡-ow taxæw taxæ tax¡si rápido
Èk¡-ow Èkæw Èkæ Èk¡si veloz
tri®r-ouw tri®rhw trÛhrew tri®resi trirreme
Svkr‹t-ouw Svkr‹thw SÅkratew Sócrates
Dhmosy¡n-ouw Dhmosy¡nhw Dhmñsyenew Demóstenes
Prajit¡l-ouw Prajit¡lhw PrajÛtelew Praxíteles
g¡n-ouw g¡now g¡now g¡nesi gênero, raça
b‹y-ouw b‹yow b‹yow b‹yesi profundidade
ìc-ouw ìcow ìcow ìcesi altura
Žlhy-oèw Žlhy®w Žlhy¡w Žlhy¡si verdadeiro - masc.
Žlhy-oèw Žlhy¡w Žlhy¡w Žlhy¡si verdadeiro - neut.
sun®y-ouw sun®yhw sun°yew sun®yesi habitual - masc.
sun®y-ouw sun°yew sun°yew sun®yesi habitual - neut.
ceud-oèw ceud®w ceud¡w ceud¡si falso - masc.
ceud-oèw ceud¡w ceud¡w ceud¡si falso - neut.
ceæd-ouw ceèdow ceèdow ceædesi a mentira
„Hrakl¡-ouw „Hrakl°w „Hr‹kleiw Heraclés
aÞd-oèw aÞdÅw aÞdoÝ respeito, pudor
peiy-oèw peiyÅ peiyoÝ persuasão
±x-oèw ±xÅ ±xoÝ eco
Lht-oèw LhtÅ LhtoÝ Letô - Latona
Sapf-oèw SapfÅ SapfoÝ Safo
kr¡-vw kr¡aw kr¡aw kr¡asi carne
g®r-vw g°raw g°raw g®rasi velhice
g¡r-vw g¡raw g¡raw g¡rasi dom, presente
Žndr-ñw Žn®r ner Žndr‹si varão
gunaik-ñw gun® gænai gunaijÛ mulher
ƒApñllvn-ow ƒApñllvn …Apollon Apolo
…Ar-evw …Arhw …Arew Ares
D®mhtr-ow Dhm®thr D®mhter Deméter
Di-ñw Zeæw Zeè Zeus

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a flexão nominal: os temas nominais 175

Gen. sing. Nom. sing. Voc. sing. Dat. pl.

´rv-ow ´rvw ´rvw ´rvsi herói


m‹rtur-ow m‹rtuw m‹rtu m‹rtusi testemunha
k¡rat-ow k¡raw k¡raw k¡rasi chifre, ala
k¡r-vw k¡raw k¡raw k¡rasi chifre, ala
ne-Åw naèw naè nausÛ nau
ôneÛrat-ow önar önar ôneÛrasi sonho
PoseidÇn-ow PoseidÇn Pñseidon Poseídon
ê-oè êñw ê¡ êoÝw filho
ê¡-ow/êi¡-ow êñw ê¡ ê¡si filho
xeir-ñw xeÛr xeÛr xersÛ mão
xer-ñw xeÛr xeÛr xersÛ mão
kont-ow kvn kon kousi invito - masc.
kont-ow kon kon kousi invito - neut.
¥kñnt-ow ¥kÅn ¥kñn ¥koèsi voluntário
xari¡nt-ow xarieÛw xari¡n xarieÝsi grato, gracioso
xari¡nt-ow xari¡n xari¡n xarieÝsi grato, gracioso
t¡ren-ow t¡rhn t¡ren t¡resi tenro - masc.
t¡ren-ow t¡ren t¡ren t¡resi tenro - neut.
didñnt-ow didoæw didñn didoèsi dante, dando - masc.
didñnt-ow didñn didñn didoèsi dante, dando - neut.
lamp‹d-ow lamp‹w lamp‹w lamp‹si tocha
örniy-ow örniw örni örnisi pássaro, ave
frontÛd-ow frontÛw frontÛ frontÛsi mente, pensamento
sÅmat-ow sÇma sÇma sÅmasi corpo
x‹rit-ow x‹riw x‹ri x‹risi graça, favor
ŽgÇn-ow ŽgÅn ŽgÅn ŽgÇsi liça, combate
lim¡n-ow - lim®n lim¡n lim¡si porto
Žhdñn-ow ŽhdÅn Žhdñn Žhdñsi rouxinol
=in-ñw =Ûw =Ûw =isÛ nariz
eédaÛmon-ow eédaÛmvn eëdaimon eédaÛmosi contente, feliz
l¡ont-ow l¡vn l¡on l¡ousi leão
m¡lan-ow m¡law m¡lan m¡lasi negro - masc.
m¡lan-ow m¡lan m¡lan m¡lasi negro - neut.
meÛzon-ow meÛzvn meÝzon meÛzosi maior - masc.

mur03.p65 175 22/01/01, 11:36


176 a flexão nominal: os temas nominais

Gen. sing. Nom. sing. Voc. sing. Dat. pl.

meÛzon-ow meÝzon meÝzon meÛzosi maior - neut.


²dÛon-ow ²dÛvn ´dion ²dÛosi mais suave - masc.
²dÛon-ow ´dion ´dion ²dÛosi mais suave - neut.
del¡at-ow d¡lear d¡lear del¡asi isca
p¡rat-ow p¡raw p¡raw p¡rasi limite, fim
kñrak-ow kñraj kñraj kñraji corvo
ŽlÅpek-ow ŽlÅphj ŽlÅphj ŽlÅpeji raposa
§lminy-ow §lmiw §lmiw §lmisi lombriga
kten-ñw kteÛw kt¡n ktesÛ pente
Èt-ñw oïw oïw ÈsÛ ouvido
nakt-ow naj na naji senhor
²gemñn-ow ²gemÅn ´gemon ²gemñsi comandante, guia
mhn-ñw m®n m®n mhsÛ mês, lua
ŽktÝn-ow ŽktÝn ŽktÝn ŽktÝsi raio
nukt-ñw næj næj nujÛ noite
flog-ñw flñj flñj flojÛ chama
¤sy°t-ow ¤sy®w ¤sy°w ¤sy°si veste, roupa
‘rmat-ow ‘rma ‘rma ‘rmasi carro, carruagem
g‹lakt-ow g‹la g‹la g‹laji leite
m¡lit-ow m¡li m¡li m¡lisi mel
dñrat-ow dñru dñru dñrasi lança
d‹kru-ow d‹kru d‹kru d‹krusi lágrima
pur-ñw pèr pèr pursÛ fogo
gñnat-ow gñnu gñnu gñnasi joelho
kñruy-ow kñru kñru kñrusi elmo, capacete
kleid-ñw kleÛw kleÛ kleisÛ chave
Ž¡r-ow Ž®r Ž¡r Ž¡rsi ar
Þxyæ-ow Þxyæw Þxyæ Þxyæsi peixe
bñtru-ow bñtruw bñtru bñtrusi cacho de uva
n¡ku-ow n¡kuw n¡ku n¡kusi morto, cadáver
su-ñw sèw sè susÛ porco
mu-ñw mèw mè musÛ rato, camondongo
x¡lu-ow x¡luw x¡lu x¡lusi tartaruga
dru-ñw drèw drè drusÛ carvalho

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a flexão nominal: os temas nominais 177

Gen. sing. Nom. sing. Voc. sing. Dat. pl.

pÛtu-ow pÛtuw pÛtu pÛtusi pinheiro


krat°r-ow krat®r krat®r krat°rsi vaso, cratera
gumn°t-ow gumn®w gumn®w gumn°si ginasta
pñle-vw pñliw pñli pñlesi cidade
dun‹me-vw dænamiw dænami dun‹mesi potência, força
ìbre-vw ìbriw ìbri ìbresi insolência
AÞyÛop-ow AÞyÛoc AÞyÛoc AÞyÛoci Etíope
Žndri‹nt-ow Žndri‹w Žndri‹n Žndrisi estátua
…Arab-ow …Arac …Arac …Araci Árabe
¤l¡fant-ow ¦lefaw ¦lefan ¤l¡fasi marfim, elefante
patr-ñw pat®r p‹ter patr‹si pai
mhtr-ñw m®thr m°ter mhtr‹si mãe
yugatr-ñw yug‹thr yægater yugatr‹si filha
basil¡-vw basileæw basileè basileèsi rei
ßer-¡vw ßereæw ßereè ßereèsi sacerdote
bo-ñw boèw boè bousÛ boi, vaca
kun-ñw kævn kævn kusÛ cão, cadela
trix-ñw yrÛj yrÛj yrijÛ cabelo
ki-ñw kÝw kÝw kisÛ caruncho de trigo
teÛx-ouw teÝxow teÝxow teÛxesi parede, muralha
pel‹g-ouw p¡lagow p¡lagow pel‹gesi o mar
ny-ouw nyow nyow nyesi a flor
brab-¡vw brabeæw brabeè brabeèsi árbitro
drom-¡vw dromeæw dromeè dromeèsi corredor
fæs-evw fæsiw fæsi(w) fæsesi natureza
sin‹p-evw sÛnapi sÛnapi sin‹pesi mostarda
stÛmm-evw stÛmmi stÛmmi stÛmmesi antimônio
pep¡r-evw p¡peri p¡peri pep¡resi pimenta

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178 a flexão nominal: os temas nominais

Quadro geral das dificuldades fonéticas

Temas em Tema Nom. sing. D.L.I. pl.


velar (a) T. fulak- o vigia fælaj fælaji
T. aig- a cabra aäj aÞjÛ
T. onux- a unha önuj önuji
labial (b) T. gup- o abutre gæc gucÛ
T. fleb- a veia fl¡c flecÛ
T. kathlif- o porão, sotão kat°lic kat®lici
dental (c) T. xarit- o favor x‹riw x‹risi
T. paid- menino (a) paÝw paisÛ
T. orniy- a ave örniw örnisi
T. svmat- o corpo sÇma sÅmasi

(a) Nominativo singular e dat. loc. instr. plural sigmáticos, combi-


nando com a velar do tema: g, k, x - w > j
(b) Nominativo singular e dat. loc. instr. plural sigmáticos, combi-
nando com a labial do tema: b, p, f - w > c
Não há neutro de tema em labial
(c) Nominativo singular masc./fem. e dat. loc. instr. plural sigmáticos
(a dental do tema se assimila e cai):
d,t,y -w > ss > w.
Nos neutros, a dental temática em posição final no nomina-
tivo singular sofre apócope: sÅmat > sÇma;
no dat. loc. instr. plural a dental do tema se assimila:
sÅmat-si > sÅmassi > sÅmasi.

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a flexão nominal: os temas nominais 179

Temas em Tema Nom. sing. D.L.I. pl.


líqüida -r (a) =htor- o orador =®tvr =®torsi
¦ar- a primavera ¦ar ¦arsi
r/er (b) patr- o pai pat®r patr‹si
líqüida -n (c) hgemon- o comandante ²gemÅn ²gemñsi
poimen- o pastor poim®n poim¡si
Žgvn- o combate ŽgÅn ŽgÇsi

(a) Alongamento compensatório da vogal temática no nom. sing.


masc./fem.; (=°tor- > =®tvr) desinência zero nos neutros
(¦ar).
(b) A flexão se faz sobre tema em vocalismo zero (patr-) no genitivo
(patr-ñw), dat. loc. e instr. sing. (patr-Û) e sobre vocalismo -
e- nos outros casos, (p‹ter, pat¡r-a, pat¡r-ew. pat¡r-aw,
pat¡r-vn) e alongamento da vogal temática no nom. sing.
(pat®r).
No dat.plural uma vogal epentética -a- desfaz a seqüência
das três consoantes -trs- (patrsi > patr‹si).
(c) Alongamento compensatório da vogal temática no nom. sing.
masc. e fem. e síncope do n antes do s no dat. loc. instr. plural.

Temas em -nt-
Tema Nom. sing. D.L.I. pl.
-nt (a) gigant- gigante gÛgaw gÛgasi
luyent- desligado luyeÛw (masc.) luyeÝsi
luyent- desligado luy¡n (neutro) luyeÝsi
deiknunt- que mostra deiknæw deiknèsi
ont (b) leont- leão l¡vn l¡ousi
luont- que desliga lævn (masc.) læousi
luont- que desliga lèon (neutro) læousi

(a) Síncope das dentais -nt- diante do -w, no nominativo singular


masc. com alongamento compensatório da vogal temática, o mes-
mo acontecendo no dat. loc. instr. plural masc. e neutro.

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180 a flexão nominal: os temas nominais

• Apócope da dental final no nominativo singular neutro


(luy¡nt > luy¡n).
(b) • Alongamento da vogal temática no nominativo singular mas-
culino (síncope de -tw) leontw > l¡vn, læontw > lævn
• Apócope da dental final no nominativo do neutro (desinência
zero) lèont- > lèon; no dat. loc. instr. plural, síncope das den-
tais -nt- antes do -s, com alongamento compensatório da vogal
temática (o > ou).

Temas em Tema Nom. sing. D.L.I. pl.


-s genes- a raça g¡now (neutro) g¡nesi
kreas- a carne kr¡aw (neutro) kr¡asi
aidos- o pudor aÞdÅw (fem.) *aÞdñsi
Svkrates- Sócrates Svkr‹thw (masc.)
alhyes- verdadeiro Žlhy®w (masc.) Žlhy¡si
alhyes- verdadeiro Žlhy¡w (neutro) Žlhy¡si

* aÞdñsi: é uma forma teórica (pudor, respeito não tem plural).

• Nos substantivos neutros de tema em -es: alternância fonética -ow nos


casos sintáticos do singular e -es nos outros casos e no plural.
• Nos adjetivos neutros de tema em -es não há alternância vocálica.
• Nos substantivos e adjetivos masculinos e femininos de tema em -s-:
alongamento da vogal temática no nominativo singular.

Em toda a flexão dos substantivos e adjetivos de tema em -s, o s


em posição intervocálica sofre síncope e, no ático, as vogais em contato
se contraem; no jônico não.

mur03.p65 180 22/01/01, 11:36


a flexão nominal: os temas nominais 181

Temas em Tema Nom. sing. D.L.I. pl.


u (a) ixyu- peixe Þxyæw Þxyæsi
j/ej/hj (b) polj- cidade pñliw pñlesi
hW (c) fonhW- assassino foneæw foneèsi
-W/eW (d) taxeW-/taxW- rápido taxæw taxeèsi

(a) Contração possível e freqüente no nominativo plural masc. e fem.


(Þxyæew > Þxyèw) e síncope do n antes do s no acusativo plural
(Þxyænw > Þxyæw).
(b) 1. vocalização do j final e não intervocálico (nom., voc., acus.
sing.):
nom.: pñliw - voc.: pñli / pñliw - acus.: pñlin
2. síncope do j intervocálico:
dat. sing.: poleji > pñle-i > pñlei
3. síncope do j intervocálico e metátese de quantidade:
gen. sing.: pñlhjow > pñlhow/pñlevw
4. síncope do j intervocálico e contração das vogais do mesmo
timbre:
nom. pl.: pñlejew > pñleew > pñleiw
5. vogais de timbre diferente não se contraem:
gen. pl.: pñlejvn > pñlevn (ditongação de -evn por ana-
logia com o gen. sing.)
6. Vocalização do j depois de consoante e síncope do -n antes do -w:
acus. pl.: pñlejnw > pñleinw > pñleiw
(c) 1. o W seguido de consoante se vocaliza em -u.
2. metátese de quantidade: longa + breve > breve + longa.
fonhuw > foneæw
3. as vogais do mesmo timbre se contraem; as outras não.
4. no D.L.I. do singular fon®Wi > fon®i; na seqüência de duas
longas, a anterior se abrevia:
fon®i > fon¡i> foneÝ
(d) temas em W com vocalismo zero/e
1. vocalismo zero nos casos sintáticos do singular (nom., voc., acus.).
2. vocalismo e nos outros do singular e em todo o plural
3. vogais de tibre diferente não se contraem. O W não intervocá-
lico ou em posição final se vocaliza em u.

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182 a flexão nominal: os temas nominais

Observação:
As informações necessárias para a flexão dos nomes em consoante e
semivogal estão aí. Contudo, há uma lista de alguns nomes que apresentam
uma certa anormalidade. Não são propriamente irregularidades; são algu-
mas formas que evoluíram foneticamente e ficaram petrificadas, ao lado de
outras; mas são muito poucas e estão no quadro prático de reconhecimento do
tema e na lista dos heteroclíticos (p. 216).

Quadros de flexão:
1. Nomes de tema em oclusiva velar:

T. fælak- õ fælaj fælakow o vigia


T. s‹lpigg- ² s‹lpigj s‹lpigg-ow a trombeta
T. önux- ² önuj önux-ow a unha, a garra
T. b°x- ² b°j bhx-ñw a tosse
T. trÛx- ² yrÛj trix-ñw o cabelo

Sing. Nom. fælaj s‹lpigj önuj b°j yrÛj


Voc. fælaj s‹lpigj önuj b°j yrÛj
Acus. fælak-a s‹lpigg-a önux-a b°x-a trÛx-a
Gen. fælak-ow s‹lpigg-ow önux-ow bhx-ñw trix-ñw
Dat. fælak-i s‹lpigg-i önux-i bhx-Û trix-Û
Loc. fælak-i s‹lpigg-i önux-i bhx-Û trix-Û
Instr. fælak-i s‹lpigg-i önux-i bhx-Û trix-Û
Pl. Nom. fælak-ew s‹lpigg-ew önux-ew b°x-ew trÛx-ew
Voc. fælak-ew s‹lpigg-ew önux-ew b°x-ew trÛx-ew
Acus. fælak-aw s‹lpigg-aw önux-aw b°x-aw trÛx-aw
Gen. ful‹k-vn salpÛgg-vn ônæx-vn bhx-Çn trix-Çn
Dat. fælaji s‹lpigji önuji bhjÛ yrijÛ
Loc. fælaji s‹lpigji önuji bhjÛ yrijÛ
Instr. fælaji s‹lpigji önuji bhjÛ yrijÛ
Dual N.V.A. fælak-e s‹lpigg-e önux-e b°x-e trÛx-e
G.D.L.I. ful‹k-oin salpÛgg-oin ônæx-oin b®x-oin trÛx-oin

mur03.p65 182 22/01/01, 11:36


a flexão nominal: os temas nominais 183

Notas:

1. Velar seguida de sigma (g,k,x + w > j), no nominativo singular e dat.


loc. instr. plural.
2. Sempre que, na flexão, a aspirada do tema (aqui é x) é seguida de sigma,
ela perde a aspiração, e a consoante surda que fica combina com o sigma,
sendo representados pela consoante dupla j. trÛx-w > yrikw > yrÛj.
3. Nesses casos, a aspiração se desloca para a primeira consoante compatí-
vel (trix-/yrÛj/ yrijÛ) (dissimilação). Contudo, quando esse deslo-
camento descaracteriza a palavra, a compensação não se faz: b°j -
bhxñw (e não *f°j).
4. A palavra gun® - gunaik-ñw (T. gunaik-) desloca a tônica para a
posição de oxítona no genit. e dat. loc. instr. singular e plural como os
monossílabos e faz o nominativo singular -k (desinência zero), o que
reduz o tema a gunai, por causa da apócope do -k final; essa é a for-
ma do vocativo: gænai. O nominativo singular gun® é uma variante
oxítona do tema.
5. Todas as palavras de temas monossilábicos deslocam a tônica para uma
posição de oxítonos ou perispômenos no dat. loc. instr. e gen. singu-
lar e plural.
6. Não há neutros de tema em oclusiva velar.

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184 a flexão nominal: os temas nominais

2. Nomes de tema em oclusiva labial:

T. …Arab- õ …Arac …Arab-ow o árabe


T. gèp- õ gèc gup-ñw o abutre, gavião
T. fl¡b- ² fl¡c fleb-ñw a veia
T. kat°lif- ² kay°lc kat®lif-ow o sótão
T. AiyÛop- õ AÞyÛoc AÞyÛop-ow o etíope

Sing. Nom. …Arac kay°lic AÞyÛoc fl¡c gèc


Voc. …Arac k‹y°lic AÞyÛoc fl¡c gèc
Acus. …Arab-a kat®lif-a AÞyÛop-a fl¡b-a gèp-a
Gen. …Arab-ow kat®lif-ow AÞyÛop-ow fleb-ñw gup-ñw
Dat. …Arab-i kat®lif-i AÞyÛop-i fleb-Û gup-Û
Loc. …Arab-i kat®lif-i AÞyÛop-i fleb-Û gup-Û
Instr. …Arab-i kat®lif-i AÞyÛop-i fleb-Û gup-Û
Pl. Nom. …Arab-ew kat®lif-ew AÞyÛop-ew fl¡b-ew gèp-ew
Voc. …Arab-ew kat®lif-ew AÞyÛop-ew fl¡b-ew gèp-ew
Acus. …Arab-aw kat®lif-aw AÞyÛop-aw fl¡b-aw gèp-aw
Gen. ƒAr‹b-vn kathlÛf-vn AÞyiñp-vn fleb-Çn gup-Çn
Dat. …Araci kay®lici AÞyÛoci flecÛ gucÛ
Loc. …Araci kay®lici AÞyÛoci flecÛ gucÛ
Instr. …Araci kay®lici AÞyÛoci flecÛ gucÛ
Dual N.V.A. …Arab-e kat®lif-e AÞyÛop-e fl¡b-e gèp-e
G.D.L.I. ƒAr‹b-oin kathlÛf-oin AÞyiñp-oin fl¡b-oin gæp-oin

Notas:
1. O vocativo singular é igual ao nominativo.
É que o vocativo de desinência zero terminaria nas oclusivas p, b,
f, que, em posição final, sofreriam apócope com a conseqüente desca-
racterização fonética e semântica da palavra.
2. A alternância t/y em kay°lic corresponde à alternância f/c da
desinência: assimilação da consoante surda p e deslocamento da aspi-
ração sobre a dental próxima t > y.

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a flexão nominal: os temas nominais 185

3. Nomes de tema em dental (masc./fem.):

T. paÝd- õ/² paÝw paid-ñw o menino, menina


T. patrÛd- ² patrÛw patrÛd-ow a pátria
T. ¦rid- ² ¦riw ¦rid-ow a disputa, briga, rixa
T. x‹rit- ² x‹riw x‹rit-ow a graça, o favor
T. örniy- ²/õ örniw örniy-ow o pássaro, a ave
T. neñtht- ² neñthw neñtht-ow a mocidade, juventude

Sing. Nom. paÝw patrÛw ¦riw x‹riw örniw neñthw


Voc. paÝ patrÛ ¦ri x‹ri örni neñthw
Acus. paÝd-a patrÛd-a ¦rin x‹rin örnin neñtht-a
Gen. paid-ñw patrÛd-ow ¦rid-ow x‹rit-ow örniy-ow neñtht-ow
Dat. paid-Û patrÛd-i ¦rid-i x‹rit-i örniy-i neñtht-i
Loc. paid-Û patrÛd-i ¦rid-i x‹rit-i örniy-i neñtht-i
Instr. paid-Û patrÛd-i ¦rid-i x‹rit-i örniy-i neñtht-i

Pl. Nom. paÝd-ew patrÛd-ew ¦rid-ew x‹rit-ew örniy-ew neñtht-ew


Voc. paÝd-ew patrÛd-ew ¦rid-ew x‹rit-ew örniy-ew neñtht-ew
Acus. paÝd-aw patrÛd-aw ¦rid-aw x‹rit-aw örniy-aw neñtht-aw
Gen. paid-Çn patrÛd-vn ¤rÛd-vn xarÛt-vn ôrnÛy-vn neot®t-vn
Dat. paisÛ patrÛsi ¦risi x‹risi örnisi neñthsi
Loc. paisÛ patrÛsi ¦risi x‹risi örnisi neñthsi
Instr. paisÛ patrÛsi ¦risi x‹risi örnisi neñthsi

Dual N.V.A. paÝd-e patrÛd-e ¦rid-e x‹rit-e örniy-e neñtht-e


G.D.L.I. paÛd-oin patrÛd-oin ¤rÛd-oin xarÛt-oin ôrnÛy-oin neot®t-oin

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186 a flexão nominal: os temas nominais

Notas:

l. O vocativo singular tem normalmente desinência zero; contudo, pode-


remos encontrá-lo, com certa freqüência, igual ao nominativo (ver p.
184, nota 1 - flexão dos temas em labial).
2. Os nomes de -i- temático e pré-desinencial átono (¦riw, x‹riw, örniw)
sofrem a síncope da consoante dental antes do -n e fazem o acusativo
como se fossem de tema em -i. ¦rin - x‹rin - örnin, e os de -i- temá-
tico e pré-desinencial tônico mantêm a dental patrÛdn > patrÛda.
3. No plural, a palavra örniw se encontra em duas variantes nos casos
sintáticos: örniyew / örneiw.
4. Também têm tema em dental:
T. ¦rvt- õ ¦rvw ¦rvtow o amor
T. ßdrÇt- õ ßdrÇw ßdrÇtow o suor
T. xrvt- õ xrÇw xrvtñw (variante xrojñw) a pele
T. g¡lvt- õ g¡lvw g¡lvtow (variante g¡lojow) o riso
5. Também têm tema em dental:
T. nukt- ² næj nukt-ñw a noite
T. nakt- õ naj nakt-ow o senhor, soberano
As formas “estranhas” do nom. sing. e dat. loc. instr. plural se ex-
plicam foneticamente:
Nom. sing. nukt-w > nukw > næj nakt-w > nakw > naj
Voc. sing. næj (seria: nu (nukt > nuk > nu)) nakt > nak > na / naj
D.L.I. plural nukt-si > nuksÛ > nujÛ nakt-si > naksi > naji
No nominativo singular e dativo plural, a dental -t se assimila ao
-s que, em contato da gutural -k, é representado pelo j.
No vocativo singular nakt > na há apócope sucessiva das con-
soantes finais.
6. O vocativo singular é o próprio tema que sofre apócope da consoante
final, mas sempre que isso represente uma descaracterização fonética
(e semântica) da palavra, a opção é sempre pela analogia com o nomi-
nativo. É o caso, por exemplo, em neñthw. A consoante final oclusiva
do vocativo de desinência zero neñtht- cairia; daí a opção por neñthw.

mur03.p65 186 22/01/01, 11:36


a flexão nominal: os temas nominais 187

4. Nomes neutros de tema em dental:

T. stñmat- tò stñma stñmat-ow a boca


T. m¡lit- tò m¡li m¡lit-ow o mel
T. pr‹gmat- tò prgma pr‹gmat-ow o fato, o feito,
o negócio, a coisa
T. g‹lakt- tò g‹la g‹lakt-ow o leite
T. ´pat- tò ¸par ´pat-ow o fígado
T. ìdat- tò ìdvr ìdat-ow a água

S. Nom. stñma m¡li prgma g‹la ¸par ìdvr


Voc. stñma m¡li prgma g‹la ¸par ìdvr
Acus. stñma m¡li prgma g‹la ¸par ìdvr
Gen. stñmat-ow m¡lit-ow pr‹gmat-ow g‹lakt-ow ´pat-ow ìdat-ow
Dat. stñmat-i m¡lit-i pr‹gmat-i g‹lakt-i ´pat-i ìdat-i
Loc. stñmat-i m¡lit-i pr‹gmat-i g‹lakt-i ´pat-i ìdat-i
Instr. stñmat-i m¡lit-i pr‹gmat-i g‹lakt-i ´pat-i ìdat-i

P. Nom. stñmat-a m¡lit-a pr‹gmat-a g‹lakt-a ´pat-a ìdat-a


Voc. stñmat-a m¡lit-a pr‹gmat-a g‹lakt-a ´pat-a ìdat-a
Acus. stñmat-a m¡lit-a pr‹gmat-a g‹lakt-a ´pat-a ìdat-a
Gen. stom‹t-vn melÛt-vn pragm‹t-vn gal‹kt-vn ²p‹t-vn êd‹t-vn
Dat. stñmasi m¡lisi pr‹gmasi g‹laji ´pasi ìdasi
Loc. stñmasi m¡lisi pr‹gmasi g‹laji ´pasi ìdasi
Instr. stñmasi m¡lisi pr‹gmasi g‹laji ´pasi ìdasi

D. N.A.V. stñmat-e m¡lit-e pr‹gmat-e g‹lakt-e ´pat-e ìdat-e


G.D.L.I. stom‹t-oin melÛt-oin pragm‹t-oin gal‹kt-oin ²p‹t-oin êd‹t-oin

Notas:

1. Os temas em -mat- (prgma-tow) são bastante numerosos e incon-


táveis; são substantivos deverbais, construídos sobre o tema verbal puro
do aoristo, e significam o resultado da ação.
Em princípio, qualquer tema verbal pode produzir um nome em -
mat.

mur03.p65 187 22/01/01, 11:36


188 a flexão nominal: os temas nominais

2. O tema galakt- está incluído entre os temas em dental porque de


fato o é; contudo há um duplo acidente fonético com ele no dativo
plural: a dental, em contato com o sigma, se assimila e sofre síncope:
(galakt-si > galaks-si g‹lak-si); a seguir, a gutural, em con-
tato com o sigma, é expressa pela consoante dupla -j- (galak-si >
g‹laji). Ver næj e naj na página anterior.
No nom. voc. acus. singular que é o tema puro g‹lakt, as con-
soantes finais sofrem apócope sucessivamente:
g‹lakt > g‹lak > g‹la.
3. Não é demais lembrar que, pelo fato de a desinência do nominativo
singular neutro ser zero, os temas de neutros em -t sofrem apócope
dessa consoante nos casos sintáticos do singular:
stñmat > stñma a boca
m¡lit > m¡li o mel
prgmat > prgma o fato, a ação
g‹lakt > g‹lak > g‹la o leite
4. Há um certo número de temas em -t (todos primitivos, neutros e de
significado concreto, por serem nomes de objetos do cotidiano), que
compensam a desinência zero do nominativo singular e a apócope da
dental, acrescentando uma das três consoantes finais que não sofrem
apócope, o -r certamente por analogia com ² d‹mar-d‹mart-ow, a
mulher, senhora, dona, e também por causa do vogal temática a.
Em geral são paroxítonos:
T. fr¡at- fr¡ar fr¡at-ow poço
T. del¡at- d¡lear del¡at-ow isca
T. ŽleÛfat- leifar ŽleÛfat-0w ungüento
T. eàdat- eädar eàdat-ow alimento
T. st¡at- st¡ar st¡at-ow toucinho, banha, graxa, sebo
T. ´pat- ¸par ´pat-ow fígado

Mas,
ìpar (indecl.) visão, constatação com os olhos
y¡nar y¡nar-ow palma da mão
¦ar ¦ar-ow / ·r-·r-ow primavera
n¡ktar n¡ktarow néctar
têm a flexão normal em -r que é o próprio tema.

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a flexão nominal: os temas nominais 189

5. Os de vocalismo em o preferem recorrer à consoante do mesmo


ponto de articulação (-t > -w).
T. fvt- tò fÇw fvt-ñw luz
T. Èt- tò oïw Èt-ñw ouvido, orelha
T. lelukñt- lelukÅw lelukñt-ow que acabou de desligar
(part. perfeito masc.)
T. lelukñt- lelukñw lelukñt-ow que acabou de desligar
(part. p. neutro)
Mas tò ìdvr ìdat-ow T. ìdr- > * ìdar / ìdvr, (como
´par, ´patow?) a água, e não *ìdvw.
6. Há também alguns poucos que, em lugar de acrescentar uma consoante
para proteger a vogal do tema, preferem a troca da vogal como se flexio-
nassem sobre dois temas. Ver na lista dos heteroclíticos à página 216.
Assim:
gñnu - gñnat-ow - joelho
dñru - dñrat-ow - lança
São lembranças de formas homéricas (eólico-jônicas) gonWatow
/dorWatow > goænatow /doæratow (jônicas)
7. Alguns ainda, optando pela consoante do mesmo ponto de articulação:
k¡raw-k¡ratow - chifre, ala
p¡raw-p¡ratow - termo, limite
acabam por criar, no singular, duas flexões paralelas: uma sobre o tema
em -t, e outro sobre o tema em -w.
N.V.A. p¡raw p¡raw
G. p¡ras-ow > p¡raow > p¡rvw p¡rat-ow
D.L.I. p¡ras-i > p¡rai > p¡r& p¡rat-i

No plural predominam os temas k¡rat-, p¡rat-.

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190 a flexão nominal: os temas nominais

5. Nomes de tema em -nt

T. l¡ont- õ l¡vn l¡ontow o leão


T. gÛgant- õ gÛgaw gÛgantow o gigante
T. luy¡nt- luyeÛw luy¡ntow tendo sido desligado (part.aor.pas.)
T. xari¡nt- xarÛeiw xarÛentow gracioso, grato, agradável
T. deiknænt- deiknæw deiknæntow demostrante, o que demostra

S. Nom. l¡vn gÛgaw luyeÛw xarÛeiw deiknæw


Voc. l¡on gÛgan luy¡n xarÛen deiknæn
Acus. l¡onta gÛgant-a luy¡nt-a xarÛent-a deiknænt-a
Gen. l¡ont-ow gÛgant-ow luy¡nt-ow xarÛent-ow deiknænt-ow
Dat. l¡ont-i gÛgant-i luy¡nt-i xarÛent-i deiknænt-i
Loc. l¡ont-i gÛgant-i luy¡nt-i xarÛent-i deiknænt-i
Instr. l¡ont-i gÛgant-i luy¡nt-i xarÛent-i deiknænt-i
P. Nom. l¡ont-ew gÛgant-ew luy¡nt-ew xarÛent-ew deiknænt-ew
Voc. l¡ont-ew gÛgant-ew luy¡nt-ew xarÛent-ew deiknænt-ew
Acus. l¡ont-aw gÛgant-aw luy¡nt-aw xarÛent-aw deiknænt-aw
Gen. leñnt-vn gig‹nt-vn luy¡nt-vn xari¡nt-vn deiknænt-vn
Dat. l¡ousi gÛgasi luyeÝsi xarÛeisi deiknèsi
Loc. l¡ousi gÛgasi luyeÝsi xarÛeisi deiknèsi
Instr. l¡ousi gÛgasi luyeÝsi xarÛeisi deiknèsi
D. N.A.V. l¡ont-e gÛgant-e luy¡nt-e xarÛent-e deiknènt-e
G.D.L.I. leñnt-oin gig‹nt-oin luy¡nt-oin xar¡nt-oin deiknænt-oin

Notas:

1. Pelo que se pode observar, sempre que há uma síncope de -nt- antes
de -w, há um alongamento compensatório da vogal anterior:
-antw > aw -antsi > asi
-entw > eiw -entsi > -eisi
-untw > uw, untsi > usi -ontsi > ousi

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a flexão nominal: os temas nominais 191

Há apenas um tratamento especial: o nominativo singular mascu-


lino dos temas em -ont-:
Onde nós esperávamos -ouw temos -vn.
l¡ontw- > l¡vn
læontw- > lævn
Convém lembrar, entretanto, que isso acontece somente em posição
final e com temas paroxítonos ou proparoxítonos.
Mas odñnt- (dente), tema oxítono, tem as duas formas no nomi-
nativo singular:
ôdoæw (a mais usada) e ôdÅn; o vocativo é ôdñn.
2. As gramáticas registram variantes para o dativo plural:
xarÛent-si > xarÛeisi / xarÛesi
3. Sobre esses modelos de tema em -nt se flexionam todos os particípios
ativos em -nt e também o particípio aoristo passivo (que usa desinên-
cias ativas).

Nomin. Gen.
T. lè-o-nt- > lævn læont-ow (masc.) desligante, desligando,
que desliga
T. lè-o-nt- > lèon læont-ow (neutro) desligante, desligando,
que desliga
T. lè-s-o-nt- > læs-vn læsont-ow (masc.) havendo de desligar,
que haverá de desligar, que desligará
T. lès-ont- > lèson læsont-ow (neutro) havendo de desligar,
que haverá de desligar, que desligará
T. læ-sant- > læsaw læsant-ow (masc.) tendo desligado
T. lu-sa-nt- > lèsan læsant-ow (neutro) tendo desligado
T. lu-yh-nt- > luyeÛw luy¡nt-ow (masc.) tendo sido desligado
T. luy®nt- > luy¡n luy¡nt-ow (neutro) tendo sido desligado
T. stal-®-nt- > staleÛw stal¡nt-ow (masc.) tendo sido enviado
T. stal®nt- > stal¡n stal¡nt-ow (neutro) tendo sido enviado

A forma neutra desses particípios é o próprio tema com a apócope


da dental final.

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192 a flexão nominal: os temas nominais

4. Diferentemente do latim e das línguas românicas, o grego tem o par-


ticípio feminino ativo, que se constrói com o sufixo -ja sobre o tema
do particípio masculino.
luont-ja > luontia > luonsia > luonsa > læousa-shw desligante,
que desliga
lusont-ja > lusontia > lusonsia > lusonsa > læsousa-shw havendo de desli-
gar, que desligará
lusant-ja > lusantia > lusansia > lusansa > læsasa-shw que desligou,
tendo desligado
luyent-ja > luyentia > luyensia > luyensa > luyeÝsa-shw que foi desliga-
da, tendo sido
desligada
stalent-ja > stalentia > stalensia > stalensa > staleÝsa-shw que foi enviada,
tendo sido envia-
da, enviada

Os particípios femininos são de tema em -a impuro;


(genitivo em -hw)

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a flexão nominal: os temas nominais 193

6. Nomes de tema em -n
T. daÝmon- õ daÛmvn daÛmon-ow o nume
T. delfÝn- õ delfÝn delfÝn-ow o delfim
T. poim¡n- õ poim®n poim¡n-ow o pastor
T. m®n- õ m®n mhn-ñw o mês, a lua
T. ŽgÅn- õ ŽgÅn agÇn-ow a luta, a liça, o combate
T. †Ellhn- õ †Ellhn †Ellhn-ow o grego, o heleno
S. Nom. daÛmvn delfÝw poim®n m®n ŽgÅn †Ellhn
Voc. daÝmon delfÝn pom¡n m®n Žg‘Ån †Ellhn
Acus. daÛmon-a delfÝn-a poim¡n-a m°n-a ŽgÇn-a †Ellhn-a
Gen. daÛmon-ow delfÝn-ow poim¡n-ow mhn-ñw ŽgÇn-ow †Ellhn-ow
Dat. daÛmon-i delfÝn-i poim¡n-i‘ mhn-Û ŽgÇn-i †Ellhn-i
Loc. daÛmon-i delfÝn-i poim¡n-i‘ mhn-Û ŽgÇn-i †Ellhn-i
Instr. daÛmon-i delfÝn-i poim¡n-i‘ mhn-Û ŽgÇn-i †Ellhn-i
P. Nom. daÛmon-ew delfÝn-ew pom¡n-ew m°n-ew ŽgÇn-ew †Ellhn-ew
Voc. daÛmon-ew delfÝn-ew pom¡n-ew m°n-ew ŽgÇn-ew †Ellhn-ew
Acus. daÛmon-aw delfÝn-aw poim¡n-aw m°n-aw ŽgÇn-aw †Ellhn-aw
Gen. daimñn-vn delfÛn-vn poim¡n-vn mhn-Çn ŽgÅn-vn „Ell®n-vn
Dat. daÛmosi delfÝsi poim¡si mhsÛ ŽgÇsi †Ellhsi
Loc. daÛmosi delfÝsi poim¡si mhsÛ ŽgÇsi †Ellhsi
Instr. daÛmosi delfÝsi poim¡si mhsÛ ŽgÇsi †Ellhsi
D. N.A.V. daÛmon-e delfÝn-e poim¡n-e m°n-e ŽgÇn-e †Ellhn-e
G.D.L.I. damñn-oin delfÛn-oin pom¡n-oin m®n-oin ŽgÅn-oin „Ell®n-oin

Notas:
1. Há temas em vogal breve e temas em vogal longa; os de vogal breve
alongam-na no nominativo singular e constroem o restante sobre tema
breve: os de vogal longa não a alteram ao longo da flexão.
A vogal longa do nominativo singular masculino seria uma com-
pensação pela ausência do -w. Mas em:
T. kten-w kteÝw kten-ñw pente
T. ¥n-w eåw ¥n-ñw um, (cardinal masc.)
T. =in-w =Ýw =in-ñw nariz
houve a síncope do -n- pré-sigmático e alongamento compensatório da vogal.
2. No D.L.I. plural o -n temático sofre síncope antes de -si sem nenhu-
ma alteração na vogal anterior.

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194 a flexão nominal: os temas nominais

7. Adjetivos de tema em -n (masc./fem. e neutro)

T. sÅfron- sÅfrvn, sÇfron prudente, moderado


T. t¡ren- t¡rhn, t¡ren delicado, tenro, mole
T. m¡lan- m¡law, m¡lan negro, preto

m./f. neutro m./f. neutro m./f. neutro


S. Nom. sÅfrvn sÇfron t¡rhn t¡ren m¡law m¡lan
Voc. sÇfron sÇfron t¡ren t¡ren m¡la(n) m¡lan
Acus. sÅfron-a sÇfron t¡ren-a t¡ren m¡lan-a m¡lan
Gen. sÅfron-ow sÅfron-ow t¡ren-ow t¡ren-ow m¡lan-ow m¡lan-ow
Dat. sÅfron-i sÅfron-i t¡ren-i t¡ren-i m¡lan-i m¡lan-i
Loc. sÅfron-i sÅfron-i t¡ren-i t¡ren-i m¡lan-i m¡lan-i
Instr. sÅfron-i sÅfron-i t¡ren-i t¡ren-i m¡lan-i m¡lan-i

P. Nom. sÅfron-ew sÅfron-a t¡ren-ew t¡ren-a m¡lan-ew m¡lan-a


Voc. sÅfron-ew sÅfron-a t¡ren-ew t¡ren-a m¡lan-ew m¡lan-a
Acus. sÅfron-aw sÅfron-a t¡ren-aw t¡ren-a m¡lan-ew m¡lan-a
Gen. svfrñn-vn svfrñn-vn ter¡n-vn ter¡n-vn mel‹n-vn mel‹n-vn
Dat. sÅfrosi sÅfrosi t¡resi t¡resi m¡lasi m¡lasi
Loc. sÅfrosi sÅfrosi t¡resi t¡resi m¡lasi m¡lasi
Instr. sÅfrosi sÅfrosi t¡resi t¡resi m¡lasi m¡lasi

D. N.A.V. sÅfron-e sÅfron-e t¡ren-e t¡ren-e m¡lan-e m¡lan-e


G.D.L.I. svfrñn-oin svfrñn-oin ter¡n-oin ter¡n-oin mel‹n-oin mel‹n-oin

Notas:
1. A alternância longa/breve da vogal temática identifica o masculino e o
neutro (longa para o m./f. e breve para o neutro).
2. Os adjetivos em -vn/-on são biformes.
3. Mas os adjetivos em -hn/-en, -an/an fazem o feminino com o sufixo
-ja:
t¡ren-ja > t¡renia > t¡reina-hw
m¡lan-ja > m¡lania > m¡laina-hw
Esses femininos são temas em -a impuro e assim se declinam.

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a flexão nominal: os temas nominais 195

4. Declinam-se também sobre o modelo acima um certo número de ad-


jetivos biformes em -vn/-on com significado comparativo, que não
têm grau normal do mesmo tema e, supletivamente, servem de com-
parativos para esses (ver p. 142).
São os seguintes:
Tema masc./fem. neutro
ameinon ŽmeÛnvn meinon melhor, mais nobre
areion ŽreÛvn reion melhor, mais nobre (poét.)
beltion beltÛvn b¡ltion melhor, de mais valor
kreitton kreÛttvn kreÝtton melhor, mais forte
kresson kreÛssvn kreÝsson variante da anterior
lÄon lÐvn lÒon melhor, mais útil
algion ŽlgÛvn lgion mais doloroso
kakion kakÛvn k‹kion pior, mais vicioso
xeiron xeÛrvn xeÝron inferior
hsson ´ssvn ·sson menor, mais fraco, inferior
kallion kallÛvn k‹llion mais belo
meion meÛvn meÝon menor, mais curto, breve
¤l‹sson ¤l‹ssvn ¦lasson menos numeroso, menor
pleion pleÛvn pleÝon mais numeroso, maior
pleon pl¡vn pl¡on variante ática do anterior
=&on =–vn =˜on mais fácil
exyion ¤xyÛvn ¦xyion pior, mais inimigo, repugnante
meizon meÛzvn meÝzon maior, mais volumoso
E ainda alguns comparativos de adjetivos de temas em -u;
²dion ²dÛvn ´dion mais doce, mais agradável
taxion taxÛvn t‹xion‘ mais rápido
yatton y‹ttvn ytton variante do anterior
yasson y‹ssvn ysson variante do anterior
5. É muito comum encontrarmos algumas formas contratas desses adje-
tivos por causa da síncope do -n- intervocálico.
As mais constantes são as do acusativo singular e plural masc./fem.,
e neutro e nominativo plural masc./fem. e neutro.

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196 a flexão nominal: os temas nominais

beltÛona > beltÛv ac.sing. masc./fem. e n.v.ac. neutro pl.


beltÛonew > beltÛouw n.v.masc./fem. pl.
beltÛonaw > beltÛvw/beltÛouw ac.masc.fem. pl. (ver p. 142)
6. Os nomes próprios em -on - T. …Apollon-, T. Pñseidon-, T.
ƒAg‹memnon- e outros fazem o nominativo singular longo, paroxítono
e o vocativo, que é o próprio tema, proparoxítono;
T. …Apollon- voc. -…Apollon nom. -ƒApñllvn
T. Pñseidon- voc. -Pñseidon nom. -PoseÛdvn
T. ƒAg‹memnon- voc. -ƒAg‹memnon nom. -ƒAgam¡mnvn
O mesmo acontece com os adjetivos de mais de duas sílabas:o no-
minativo singular é longo, paroxítono e o vocativo, que é o próprio
tema, proparoxítono:
T. kakñdaimon- voc. -kakñdaimon nom. -kakodaÛmvn
T. eëdaimon- voc. -eëdaimon nom. -eédaÛmvn
T. pragmon- voc. -pragmon nom. -Žpr‹gmvn
7. ² Pnæj, Puknñw - a Pnix, local das assembléias,
sofre metátese das consoantes do tema no nom. e voc. singular; o tema
é Pækn- (²)
Pnæj, Ï Pnæj, t®n Pækna, t°w Puknñw, t» PuknÛ
8. õ Žr®n, Žrn-ñw - o cordeiro,
tem o tema ren/rn; então teria o nom. e voc. sing. respectiva-
mente Žr®n - ren que quase não são usados, sendo substituídos por
Žmnñw; mas todos os outros casos flexionam normalmente sobre o
tema arn-
Sing. õ Žr®n (õ Žmnñw), Î ren (Žmn¡)
mas: tòn rna, toè Žrnñw, tÒ ŽrnÛ
Pl. oß rnew, Î rnew, toçw rnaw, tÇn ŽrnÇn, toÝw Žrn‹si
(homérico rnessi).
9. õ / ² fr®n - fren-ñw - a mente, o coração (tema:-fren- / frn-)
tem flexão normal sobre o tema fren-;
apenas no D.L.I. plural podemos encontrar uma variante sobre o tema
frn- frn-si > frasÛ (vocalização do n).

mur03.p65 196 22/01/01, 11:37


a flexão nominal: os temas nominais 197

8. Nomes e adjetivos de tema em -r e -l

T. fvr- õ fÅr fvr-ñw


o gatuno, mão leve, ladrão
T. =®tor- õ =®tvr =®tor-ow
o orador
T. y®r- õ y®r yhr-ñw
o animal selvagem, bicho,
caça, presa
T. gast¡r- ² gast®r gast¡r-ow o estômago
T. pator- Žp‹tvr Žp‹tor-ow sem pai

masc./fem. neutro
S. Nom. fÅr =®tvr y®r gast®r Žp‹tvr pator
Voc. fÅr =°tor y®r g‹ster pator pator
Acus. fÇr-a =®tor-a y°r-a gast¡r-a Žp‹tor-a pator
Gen. fvr-ñw =®tor-ow yhr-ñw gast¡r-ow Žp‹tor-ow Žp‹tor-ow
Dat. fvr-Û =®tor-i yhr-Û gast¡r-i Žp‹tor-i Žp‹tor-i
Loc. fvr-Û =®tor-i yhr-Û gast¡r-i Žp‹tor-i Žp‹tor-i
Instr. fvr-Û =®tor-i yhr-Û gast¡r-i Žp‹tor-i Žp‹tor-i

P. Nom. fÇr-ew =®tor-ew y°r-ew gast¡r-ew Žp‹tor-ew Žp‹tor-a


Voc. fÇr-ew =®tor-ew y°r-ew gast¡r-ew Žp‹tor-ew Žp‹tor-a
Acus. fÇr-aw =®tor-aw y°r-aw gast¡r-aw Žp‹tor-aw Žp‹tor-a
Gen. fvr-Çn =htñr-vn yhr-Çn gast¡r-vn Žpatñr-vn Žpatñr-vn
Dat. fvr-sÛ =®tor-si yhr-sÛ gast¡r-si Žp‹tor-si Žp‹tor-si
Loc. fvr-sÛ =®tor-si yhr-sÛ gast¡r-si Žp‹tor-si Žp‹tor-si
Instr. fvr-sÛ =®tor-si yhr-sÛ gast¡r-si Žp‹tor-si Žp‹tor-si

D. N.A.V. fÇr-e =®tor-e y°r-e gast¡r-e Žp‹tor-e Žp‹tor-e


G.D.L.I. fÅr-oin =htñr-oin y®r-oin gast¡r-oin Žpatñr-oin Žpatñr-oin

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198 a flexão nominal: os temas nominais

Notas:

1. Há apenas um nome de tema em -l- : ‘lw-l-ñw (l-), õ - o sal


(tema l).
2. Há também alguns neutros:
y¡nar-y¡nar-ow, (tñ) palma da mão
¦ar-¦ar-ow / ·r-·r-ow primavera
·tor-³tor-ow pulmão, coração (sede dos sentimen-
tos e da inteligência) (ver p. 197).
3. A flexão de ² xeÛr, xeir-ñw, que apresenta inúmeras variantes em
todos os casos, pode ser vista como se tivesse dois temas:
S. P. D.
N. xeÛr /x®r xeÝr-ew / x¡r-ew xeÝre / x¡re
V. xeÛr / x¡r xeÝr-ew / x¡r-ew “ “
A. xeÝr-a / x¡r-a xeÛr-aw / x¡r-aw “ “
G. xeir-ñw / xer-ñw xeir-Çn / xer-Çn xeir-oÝn / xer/oÝn
D. xeir-Û / xer-Û xeir-sÛ / xer-sÛ “ “
L. xeir-Û /xer-Û xeir-sÛ / xer-sÛ “ “
I. xeir-Û / xer-Û xeir-sÛ / xer-sÛ “ “
Todas as variantes são possíveis.
4. O substantivo õ m‹rtuw, m‹rturow, a testemunha, embora de tema
em -r, por analogia com os nomes em -uw, faz o nominativo singular
m‹rtuw e o dat. plural m‹rtusi.

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a flexão nominal: os temas nominais 199

9. Nomes de tema em -r / -er

T. p‹tr-/p‹ter- õ pat®r patr-ñw o pai


T. m®tr-/m®ter- ² m®thr mhtrñw a mãe
T. nr-/ner-/ndr- õ Žn®r andr-ñw ovarão, marido
T. ster- õ Žst®r Žst¡r-ow a estrela, astro
T. yægatr-/yægater- ² yug‹thr yugatrñw a filha

S. Nom. pat®r m®thr Žn®r st®r yug‹thr


Voc. p‹ter m°ter ner ster yægater
Acus. pat¡r-a mht¡r-a ndr-a Žst¡r-a yugat¡r-a
Gen. patr-ñw mhtr-ñw Žndr-ñw Žst¡r-ow yugatr-ñw

Dat. patr-Û mhtr-Û Žndr-Û Žst¡r-i yugatr-Û


Loc. patr-Û mhtr-Û Žndr-Û Žst¡r-i yugatr-Û
Instr. patr-Û mhtr-Û Žndr-Û Žst¡r-i yugatr-Û
P. Nom. pat¡r-ew mht¡r-ew ndr-ew Žst¡r-ew yugat¡r-ew
Voc. pat¡r-ew mht¡r-ew ndr-ew Žst¡r-ew yugat¡r-ew
Acus. pat¡r-aw mht¡r-aw ndr-aw Žst¡r-aw yugat¡r-aw
Gen. pat¡r-vn mht¡r-vn Žndr-Çn Žst¡r-vn yugat¡r-vn
Dat. patr‹-si mhtr‹-si Žndr‹-si Žstr‹-si yugatr‹-si
Loc. patr‹-si mhtr‹-si Žndr‹-si Žstr‹-si yugatr‹-si
Instr. patr‹-si mhtr‹-si Žndr‹-si Žstr‹-si yugatr‹-si
D. N.A.V. pat¡r-e mht¡r-e ndr-e Žst¡r-e yugat¡r-e
G.D.L.I. pat¡r-oin mht¡r-oin ndr-oin Žst¡r-oin yugat¡r-oin

mur03.p65 199 22/01/01, 11:37


200 a flexão nominal: os temas nominais

Notas:

1. Essas são as formas mais usadas. No entanto, poderemos encontrar


outras variantes; é como se fossem duas declinações paralelas: uma
sobre o tema de vocalismo zero e outra de vocalismo e.
nr- ner o varão
p‹tr- p‹ter o pai
m®tr- m®ter a mãe
yægatr- yægater a filha
2. No D.L.I. desses nomes, construído sobre o tema em vocalismo zero,
para quebrar a seqüência de três consoantes, desenvolveu-se um a
epentético.
Žndrsi > Žndr‹si 34 mhtrsi > mhtr‹si
patrsi > patr‹si yugatrsi > yugatr‹si
gastrsi > gastr‹si Žstrsi > Žstr‹si
3. Dhm®thr se declina assim:
Dhm®thr, D®mhter, D®metra, D®metrow, D®metri.
4. O tema do nome ² d‹mar-d‹mart-ow - mulher é em dental; a for-
ma d‹mar é usada só no nominativo e vocativo singular.
É a redução fonética de d‹mart-w > d‹marw > d‹mar.
5. Também são em dental alguns neutros como ·par-´pat-ow já in-
cluídos no quadro dos temas em dental (ver p. 188).

34 Na seqüência -nrs- desenvolveu-se um -d- epentético. Ver p. 44, nota.

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a flexão nominal: os temas nominais 201

10. Nomes e adjetivos de tema em semivogal: -u/- i

T. Þsxæ- ² Þsxæw Þsxæ-ow a força


T. kÛ- õ kÛw ki-ñw o caruncho (de cereal)
T. ƒErinæ- ² ƒErinæw ƒErinæ-ow a/as Eríneas
T. d‹kru- ² d‹kruw d‹kru-ow a lágrima
T. sæ- õ/² sèw/ðw su-ñw/êñw a porca, o javali
T. àdri- àdriw àdri- ow perito, hábil

masc./fem. neut.
S. Nom. Þsxæw kÛw ƒErinæw d‹kruw sèw àdriw àdri
Voc. Þsxæ kÛ(w) …Erinu(w) d‹kru sè(w) àdri àdri
Acus. Þsxæ-n kÛ-n ƒErinæ-n d‹kru-n sè-n àdri-n àdri
Gen. Þsxæ-ow ki-ñw ƒErinæ-ow d‹kru-ow su-ñw àdri-ow àdri-ow
Dat. Þsxæ-i ki-Û ƒErinæ-i d‹kru-i su-Û àdri-i àdri-i
Loc. Þsxæ-i ki-Û ƒErinæ-i d‹kru-i su-Û àdri-i àdri-i
Instr. Þsxæ-i ki-Û ƒErinæ-i d‹kru-i su-Û àdri-i àdri-i

P. Nom. Þsxæ-ew kÛ-ew ƒErinæ-ew d‹kru-ew sè-ew àdri-ew àdri-a


Voc. Þsxæ-ew kÛ-ew ƒErinæ-ew d‹kru-ew sè-ew àdri-ew àdri-a
Acus. Þsxæw kÛ-aw ƒErinæw d‹kruw sèw àdri-aw àdri-a
Gen. Þsxæ-vn ki-Çn ƒErinæ-vn dakræ-vn su-Çn ÞdrÛ-vn ÞdrÛ-vn
Dat. Þsxæsi ki-sÛ ƒErinæ-si d‹kru-si su-sÛ àdri-si àdri-si
Loc. Þsxæsi ki-sÛ ƒErinæ-si d‹kru-si su-sÛ àdri-si àdri-si
Instr. Þsxæsi ki-sÛ ƒErinæ-si d‹kru-si su-sÛ àdri-si àdri-si

D. N.A.V. Þsxæ-e kÛ-e ƒErinæ-e d‹kru-e sè-e àdri-e àdri-e


G.D.L.I. Þsxæ-oin kÛ-oin ƒErinæ-oin dakræ-oin sæ-oin ÞdrÛ-oin ÞdrÛ-oin

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202 a flexão nominal: os temas nominais

Notas:

1. A forma do acusativo plural em geral aparece contrata, construída so-


bre -unw/inw; as do nominativo plural também podem se contrair:
Acus. Pl. Nom. Pl.
Þsxæ-nw > Þsxèw Þsxæ-ew > Þsxèw
ki-nw > kÝw kÛ-ew > kÝw
àdri-nw > àdri-iw àdri-ew > àdriw
d‹kru-nw > d‹kruw d‹kru-ew > d‹kruw
ƒErinæ-nw > ƒErinèw ƒErinæ-ew > ƒErinèw
2. O nome d‹kruw no plural aparece de preferência na forma neutra:
d‹krua.
3. Não são numerosas as palavras de tema em -u/-i.
As mais usadas são as seguintes:
pñtriw-iow . ² a potranca kn°siw-iow, ² a coceira, a raspagem
Þxyæw-æow, õ o peixe bñtruw-uow, õ o cacho de uva
mèw-muñw o ratinho drèw-druñw, ² o carvalho
o camundongo
n¡kuw-uow, õ o cadáver x¡luw-uow, ² a tartaruga, a cítara
pÛtuw-uow, ² o pinheiro öfruw-uow, ² a sobrancelha
¦gxeluw-uow, ² a enguia* xlamæw-æow, ² a veste, o manto**
* Há um plural ¤gx¡leiw sobre um tema ¤gxeleW-
** Há variantes em dental xlamæw-xlamæd-ow, bñtruw-bñtrud-ow
4. A palavra ² oäw, oÞ-ñw - a ovelha, tem o tema ôWi-.
O -W- intervocálico sofre síncope: ôWi > ôi.
Portanto, é um tema em -i, perfeitamente regular:
Singular Plural Dual
Nom. ôWi-w > oäw ôWi-ew> oäew
Voc. ôWi > oä / oäw ôWi-ew > oäew
Acus. ôWi-n > oän ôWi-nw > oänw > oäw ôWi-e > oäe
Gen. ôWi-ñw > oÞñw ôWi-Çn > oÞÇn
Dat. ôWi-Û > oÞÛ > ôÛ ôWi-sÛ > oÞsÛ ôWi-oin > oÞoÝn
Loc. ôWi-Û > oÞÛ > ôÛ ôWi-sÛ > oÞsÛ
Instr. ôWi-Û > oÞÛ > ôÛ ôWi-sÛ > oÞsÛ

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a flexão nominal: os temas nominais 203

11. Substantivos e adjetivos de tema em -es (masc./fem.)

T. trÛhres- ² tri®rhw - ouw a trirreme


T. aÞdñs- ² aÞdÅw-oèw o respeito, pudor, vergonha
T. Žlhy¡s- Žlhy®w, ¡w real, verdadeiro (masc./fem.)

masc./fem.
S. Nom. tri®rhw aÞdÅw Žlhy®w
Voc. trÛhrew aÞdñw Žlhy¡w
Acus. tri®res-a > ea > h aÞdñs-a > ña > Å Žlhy¡s-a > ¡a > °
Gen. tri®res-ow > eow > ouw aÞdñs-ow > ñow > oèw Žlhy®s-ow > ¡ow > oèw
Dat. tri®res-i > ei aÞdñs-i > ñi > oÝ Žlhy¡s-i > ¡i > eÝ
Loc. tri®res-i > ei aÞdñs-i > ñi > oÝ Žlhy¡s-i > ¡i > eÝ
Instr. tri®res-i > ei aÞdñs-i > ñi > oÝ Žlhy¡s-i > ¡i > eÝ

P. Nom. tri®res-ew > eew > eiw Žlhy¡s-ew > ¡ew > eÝw
Voc. tri®res-ew > eew > eiw Žlhy¡s-ew > ¡ew > eÝw
Acus. tri®rew-nw > enw > eiw Žlhy¡w-nw > ¡nw > eÝw
Gen. trihr¡s-vn > ¡vn > Çn Žlhy¡s-vn > ¡vn > Çn
Dat. tri®res-si > tri®resi Žlhy¡s-si > Žlhy¡si
Loc. tri®res-si > tri®resi Žlhy¡s-si > Žlhy¡si
Instr. tri®res-si > tri®resi Žlhy¡s-si > Žlhy¡si

D. N.A.V. tri®res-e > ee > ei Žlhy¡s-e > Ž > eÝ


G.D.L.I. trihr¡s-oin > ¡oin > oÝn Žlhy¡s-oin > ¡oin > oÝn

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204 a flexão nominal: os temas nominais

Notas:

1. Os nomes masculinos e femininos de temas em -w alongam a vogal te-


mática breve no nominativo singular:
aÞdñw > aÞdÅw ; SÅkratew > Svkr‹thw ; trÛhrew > tri®rhw.
2. Alguns nomes próprios, compostos com o sufixo derivado de kl¡ow <
kl¡Wow - glória, renome, têm esse sufixo no vocalismo -ew-, (como
nyes-/ nyow, tais como:
T. PerikleWew Perikl°w Péricles
T. „HrakleWew „Hrakl°w Héracles - Hércules
T. SofokleWew Sofokl°w Sófocles
Declinam-se normalmente com temas masculinos em -e.
Nom. Perikl¡Whw > Perikl¡hw > Perikl°w
Voc. PerÛkleWew > PerÛkleew > PerÛkleiw
Acus. Perikl¡Wew-a > Perikl¡ea > Perikl¡a
Gen. Perikl¡Wes-ow > Perikl¡eow > Perikl¡ouw
Dat. Perikl¡Wes-i > Perikl¡-ei > PerikleÝ
5. Alguns nomes próprios de tema em -w, como Svkr‹thw, Demos-
y¡nhw, ƒAristof‹nhw, às vezes, por analogia com os temas em vogal
-a/-h masculinos (-hw/-aw), fazem o acusativo singular em -n (-hn),
ao lado do acusativo normal: -es-a > ea > h.
Svkr‹thw Svkr‹th e Svkr‹thn
Demosy¡nhw Demosy¡nh e Demosy¡nhn
ƒAristof‹nhw ƒAristof‹nh e ƒAristof‹nhn

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a flexão nominal: os temas nominais 205

12. Nomes e adjetivos neutros de tema em -w

T. nyes- tò nyow nyouw a flor


T. kr¡as- tò kr¡aw kr¡vw a carne
T. Žlhy¡s- lhy¡w real, verdadeiro (neutro)

S. Nom. nyow kr¡aw Žlhy¡w


Voc. nyow kr¡aw Žlhy¡w
Acus. nyow kr¡aw Žlhy¡w
Gen. nyes-ow > eow> ouw kr¡as-ow> aow> vw Žlhy¡s-ow> ¡ow> oèw
Dat. nyes-i > ei kr¡as-i > ai / & Žlhy¡s-i > ¡i > eÝ
Loc. nyes-i > ei kr¡as-i > ai / & Žlhy¡s-i > ¡i > eÝ
Instr. nyes-i > ei kr¡as-i > ai / & Žlhy¡s-i > ¡i > eÝ

P. Nom. nyes-a > ea > h kr¡as-a > aa > a lhy¡s-a > ¡a > °
Voc. nyes-a > ea > h kr¡as-a > aa > a lhy¡s-a > ¡a > °
Acus. nyes-a > ea > h kr¡as-a > aa > a lhy¡s-a > ¡a > °
Gen. Žny¡s-vn > ¡vn > Çn kre‹s-vn > ‹vn > Çn Žlhy¡s-vn > ¡vn > ‘Çn
Dat. nyes-si > nyesi kr¡as-si > kr¡asi Žley¡s-si > Žlhy¡si
Loc. nyes-si > nyesi kr¡as-si > kr¡asi Žley¡s-si > Žlhy¡si
Instr. nyes-si > nyesi kr¡as-si > kr¡asi Žley¡s-si > Žlhy¡si

D. N.A.V. nyes-e > ee > ei kr¡as-e > kr¡ae > kr¡a Žlhy¡s-e > ¡e > eÝ
G.D.L.I. Žny¡s-oin > ¡oin > oÝn kre‹s-oin > ‹oin > Òn Žlhy¡s-oin > ¡oin > oÝn

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206 a flexão nominal: os temas nominais

Notas:

1. A característica maior desses nomes (substantivos, adjetivos) é a sín-


cope do -w temático sempre que se encontrar em posição intervocálica.
O hiato resultante do encontro das vogais, no ático resulta em contra-
ção; no jônico e eólico o hiato permanece.
2. Nos casos nom. voc. ac. do singular os nomes neutros de tema em -ew
sofrem metafonia alternando a vogal do tema de e para o: nyew-/
nyow. Os outros casos do singular e todo o plural flexionam sobre o
tema nyes-.
3. Dois nomes neutros de tema em dental: p¡raw - p¡rat-ow termo,
limite e k¡raw - k¡rat-ow chifre, ala, por causa da opção do nomina-
tivo singular p¡raw e k¡raw, em lugar de p¡ra e k¡ra, que seriam
normais com a apócope do -t, têm duas flexões paralelas no singular:
uma analógica à de kr¡aw e outra em dental (ver o paradigma das den-
tais, p. 189).
4. Os adjetivos de tema em -w são biformes: o masculino/feminino tem a
vogal do tema alongada no nominativo singular: - Žlhy®w, e o neutro
mantém a vogal do tema breve em toda a flexão: Žlhy¡s-.
5. Sobre o modelo kr¡aw declinam-se alguns nomes neutros antigos e
de significado especial:
tò br¡taw a estátua, (ídolo) de madeira
tò oïdaw o solo, o piso, o chão
tò kn¡faw as trevas, a escuridão
tò s¡law o brilho, o esplendor (que ofusca)
tò d¡maw o corpo
tò s¡baw o prodígio, a veneração
tò t¡raw o prodígio, o monstro
tò d¡paw a taça
Desses nomes, alguns às vezes fazem a flexão com vocalismo -e-
(kn¡faw, oïdaw, br¡taw), e outros, por causa do significado, só se
usam nos casos sintáticos do singular (nom., voc. e acus.), o que leva
os gramáticos a classificá-los como indeclináveis.

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a flexão nominal: os temas nominais 207

13. Nomes de tema em -j

T. pñlj-/pñlej-/pñlhj pñliw - pñlevw, ² a cidade


T. peiyñj- peiyÅ-peiyoèw, ² a persuasão

Flexão de ² pñliw ² peiyÅ


S. Nom. pñlj-w > pñli-w peiyoj‘.> peiyÅi / peiyÐ / peiyÅ
Voc. pñlj > pñli (w) peiyñj > peiyoÝ
Acus. pñlj-n > pñli-n peiyñja > peiyña > peiyÅ
Gen. polhj-ow > pñlhiow peiyñjow > peiyñow > peiyoèw
> pñlhow > pñlevw
Dat. polej-i > pñle-i > pñlei peiyñji > peiyoÝ
Loc. polej-i > pñle-i > pñlei peiyñji > peiyoÝ
Instr. polej-i > pñle-i > pñlei peiyñji > peiyoÝ

P. Nom. polej-ew > pñleew > pñleiw


Voc. polej-ew > pñleew > pñleiw
Acus. polej-nw > pñleinw > pñleiw
Gen. polej-vn > pñlevn
Dat. polej-si > pñlesi
Loc. polej-si > pñlesi
Instr. polej-si > pñlesi

D. N.A.V. polej-e > pñlee > pñlei


G.D.L.I. polej-oin > pol¡oin

Notas:

1. O -j depois de consoante se vocaliza; entre vogais sofre síncope e, no


ático, vogais do mesmo timbre se contraem.
nom. sing. pñlj-w > pñliw
voc. sing. pñlj- > pñli / pñliw
acus. sing. pñlj-n > pñlin
nom. pl. pñlej-ew > pñleew > pñleiw

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208 a flexão nominal: os temas nominais

2. No ático, sempre que houver uma seqüência de vogal longa + vogal


breve, há uma metátese de quantidade; mas a posição da tônica fica
inalterada:
gen. sing. - pñlhj-ow > pñlhow > pñlevw
3. Há muitas variantes da flexão de pñliw; há mesmo uma que se flexio-
na sobre o tema poli- sem nenhuma complicação fonética:
Singular: pñliw - pñli(w) - pñlin - pñliow - pñlii > pñli
Plural: pñliew - pñliew - pñli-nw > póliw/ pñliaw - polÛvn - pñlisi
Outras duas variantes arcaicas são as seguintes:
tema poli- para os três casos sintáticos do singular e polh para os
concretos e para o plural:
Singular: pñliw - pñli(w) - pñlin - pñlhow - pñlhi
Plural: pñlhew - pñlhew - pñlhaw - pol®vn - pñlhsi
4. Esse modelo é importante porque é sobre ele que se flexionam, além
de alguns temas nominais antigos na língua, também todos os nomes
deverbais em -siw, que significam a ação do verbo. Esses são tão incontá-
veis quanto os deverbais em ma com quem fazem contraponto.
Alguns temas nominais:
öfiw-evw, ² a serpente
sÛnapi-evw, tñ a mostarda
ìbriw-ìbrevw, ² o descomedimento
m‹ntiw-evw, õ o adivinho
p¡peri-evw,tò a pimenta
Alguns deverbais:
dænamiw-evw,² potência, força
fæsiw-fæsevw, ² a natureza
t‹jiw-evw, ² (tag-) a fileira, ordem
pr‹jiw-evw,² (prag-) o ato, a ação
öciw-evw, ² (op-) a visão, o exame
pñsiw-evw, ² (po-) a bebida (a ação)
dñsiw-evw, ² (do-) a dação, o dom
y¡siw-evw, ²(ye-) a posição, a tese
5. Todos esses nomes são construídos sobre o tema verbal puro (aoris-
to), porque significam a realização do ato verbal em si.
Em princípio todos eles podem ser traduzidos por nomes de sufixo
-ção, do latim -tione.

mur03.p65 208 22/01/01, 11:37


a flexão nominal: os temas nominais 209

6. Poucas palavras seguem modelo peiyñj-> peiyÅ; em geral são nomes


próprios e mitolóligos, arcaicos em geral; os mais importantes são as
seguintes:
feidÅ-feidoèw, ² a poupança
±xÅ-±xoèw, ² Eco (ninfa), o eco
DhÅ-Dhoèw, ² Deméter
LhtÅ-Lhtoèw Letô, Latona
PuyÅ-Puyoèw, ² Pythô, a pytonisa
„HrÅ-„Hroèw, ² Herô
GorgÅ-Gorgoèw, ² Gorgô, Gorgona
MhtrÅ-Mhtroèw, ² Metrô
SvsÅ-Svsoèw, ² Sosô
ƒIÅ-ƒIoèw, ² Iô
SapfÅ-Sapfoèw, ² Safo
DidÅ - Didoèw Dido
KalucÅ- Kalucoèw Calipso

14. Nomes masculinos de tema em -hW

T. basilhW / basileW õ basileæw - basil¡vw o rei

Singular Plural
N. basil®W-w > basil®uw > basileæw basil®Wew > basil®ew > basil¡hw
> basil°w/bassileÝw
V. basil®W > basil®u > basileè basil®Wew > basil®ew > basil¡hw
> basil°w/bassileÝw
A. basil®W-n > basil®a > basil¡a basil®Wnw > basil®aw > basil¡aw
G. basil®W-ow > basil®ow > basil¡vw basil®Wvn > basil®vn > basil¡vn
D. basil®W-i > basil®i > basileÝ basil®Wsi > basil¡Wsi > basileèsi
L. basil®W-i > basil®i > basileÝ basil®Wsi > basil¡Wsi > basileèsi
I. basil®W-i > basil®i > basileÝ basil®Wsi > basil¡Wsi > basileèsi

Dual
N.V.A. basil®We > basil®e > basil¡h
> basil°/basileÝ
G.D.L.I. basil®Woin > basil®oin > basil¡oin

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210 a flexão nominal: os temas nominais

Notas:

1. O W seguido de consoante se vocaliza em -u.


2. Metátese de quantidade: longa + breve > breve + longa.
3. Depois da síncope do W as vogais do mesmo timbre se contraem; as
outras não.
4. No D.L.I. do singular basil®Wi > basil®i > basil¡i > basileÝ na
seqüência de duas longas, a anterior se abrevia:
5. Sobre o modelo basil®W- declinam-se inúmeras palavras masculinas
de profissões, alguns nomes geográficos e patronímicos.
6. Alguns nomes próprios e nomes masculinos de profissão ou atividade:
ƒAxilleæw - ¡vw Aquiles
ƒOdisseæw - ¡vw Odisseu, Ulisses
Eéboeæw - ¡vw Euboeu, habitante da Eubéia
Promhyeæw - ¡vw Prometeu
Peiraieæw - ¡vw Pireu (o porto)
ßppeæw - ¡vw o cavaleiro
goneæw - ¡vw, õ o genitor, o pai
goneÝw - ¡vn, oß os pais
lieæw - ¡vw, õ o pescador
brabeæw - ¡vw, õ o árbitro
nomeæw - ¡vw, õ o pastor
foneæw - ¡vw, õ o assassino
xoeæw - ¡vw, õ a coé, medida para líqüidos
ßereæw - ¡vw, õ o sacerdote - que cuida do sagrado
¥rmhneæw - ¡vw, õ o intérprete
suggrafeæw - ¡vw, õ o historiador, escritor
dromeæw - ¡vw, õ o corredor, o correio
São menos numerosos os nomes que seguem o modelo do neutro
stu (item l5) como:
² p¡lekuw - evw o machado T. p¡lekW-, p¡lekeW-
õ p°xuw - evw o côvado T. p°xW-, p°xeW
tò pÇu - evw o rebanho T. pÇW-, pÇeW- (ver p. 178,
quadro das dificuldades fonéticas)

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a flexão nominal: os temas nominais 211

15. Nomes de tema em W / eW

T. ŽstW- / ŽsteW- tò stu stevw a cidadela, o centro, a sé


T. grhW—/graW- ² graèw gra-ñw a mulher velha (jônico grhèw)
T. boW- õ / ² boèw bo-ñw o boi, a vaca

S. Nom. stW > stu graW-w > graèw boW-w > boèw
Voc. stW > stu graW > graè boW > boè
Acus. stW > stu graW-n > graèn boW-n > boèn
Gen. steW-ñw > stevw graW-ñw > grañw boW-ñw > boñw
Dat. steW-i > stei graW-Û > graÛ boW-Û > boÛ
Loc. steW-i > stei graW-Û > graÛ boW-Û > boÛ
Instr. steW-i > stei graW-Û > graÛ boW-Û > boÛ

P. Nom. steW-a > stea / h graW-ew > grew boW-ew > bñew
Voc. steW-a > stea / h graW-ew > grew boW-ew > bñew
Acus. steW-a > stea / h graW-nw > graèw boW-nw > boèw
Gen. ŽsteW-vn > stevn graW-vn > graÇn boW-vn > boÇn
Dat. steW-si > stesi graW-sÛ > grausÛ boW-si > bousÛ
Loc. steW-si > stesi graW-sÛ > grausÛ boW-si > bousÛ
Instr. steW-si > stesi graW-sÛ > grausÛ boW-si > bousÛ

D. N.A.V. steW-e > stee > stei graW-e > gre boW-e > bñe
G.D.L.I. Žst¡W-oin > Žst¡oin graW-oin > graoÝn boW-oin > booÝn

Notas:

1. O -W-intervocálico sofre síncope:


gen. sing. dat. sing nom. pl. gen. pl.
steWow > steow; steWi > ste-i > stei steWa steWvn
> stea / sth > stevn
graWñw > grañw graWÛ > graÛ gr‹Wew > gr‹ew graWÇn
> graÇn
boWñw > boñw boWÛ > boÛ bñWew > bñew boWÇn > boÇn

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212 a flexão nominal: os temas nominais

Se não é intervocálico, vocaliza-se em -u-:


acus. pl. dat. loc. inst. pl.
graWnw > gr‹unw > graèw graWsÛ > grausÛ
bñWnw > bñunw > boèw boWsÛ > bousÛ
mas Žst¡Wsi > Žst¡si
2. Das vogais que formam hiato após a queda do -W-, só as de timbre -e-
podem sofrer contração; com as outras o hiato se mantém.
3. Os genitivos singular e plural stevw - stevn são analógicos aos
genitivos pñlevw - pñlevn.
4. Sobre esse modelo declinam-se também os adjetivos de tema em -W/
eW no masculino e neutro.

16. Adjetivos de tema em W- / eW

T. ²dW-/²deW-. Fem. ²deÛa ²dæw - ²deÛa - ²dæ agradável, doce

masc. fem. neutro


S. Nom. ²dWw > ²dæw ²deÝa ²dW > ²dæ
Voc. ²dW > ²dæ ²deÝa ²dW > ²dæ
Acus. ²dWn > ²dæn ²deÛan ²dW > ²dæ
Gen. ²d¡W-ow > ²d¡ow ²deÛaw ²d¡W-ow > ²d¡ow
Dat. ²d¡W-i > ²deÝ ²deÛ& ²d¡W-i > ²deÝ
Loc. ²d¡W-i > ²deÝ ²deÛ& ²d¡W-i > ²deÝ
Instr. ²d¡W-i > ²deÝ ²deÛ& ²d¡W-i > ²deÝ
P. Nom. ²d¡W-ew > ²d¡ew > ²deÝw ²deÝai ²d¡W-a > ²d¡a
Voc. ²d¡W-ew > ²d¡ew > ²deÝw ²deÝai ²d¡W-a > ²d¡a
Acus. ²d¡W-nw > ²d¡nw > ²deÝw ²deÛaw ²d¡W-a > ²d¡a
Gen. ²d¡W-vn > ²d¡vn ²deiÇn ²d¡W-vn > ²d¡vn
Dat. ²d¡W-si > ²d¡si ²deÛaiw ²d¡W-si > ²d¡si
Loc. ²d¡W-si > ²d¡si ²deÛaiw ²d¡W-si > ²d¡si
Instr. ²d¡W-si > ²d¡si ²deÛaiw ²d¡W-si > ²d¡si
D. N.A.V. ²d¡W-e > ²d¡e > ²deÝ ²deÛa ²d¡W-e > ²d¡e > ²deÝ
G.D.L.I. ²d¡W-oin > ²d¡oin ²deÛain ²d¡W-oin > ²d¡oin

mur03.p65 212 22/01/01, 11:37


a flexão nominal: os temas nominais 213

Nota:

1. Vocalismo zero nos casos sintáticos do singular (nom., voc., acus.).


2. Vocalismo e nos outros do singular e em todo o plural.
3. Vogais de timbre diferente não se contraem.
4. Os femininos são formados sobre o tema do masculino eW com o sufi-
xo -ja: ²deW-ja > ²deuia > ²deÝa. São temas em vogal.
Eis alguns adjetivos que seguem esse modelo:
´misuw, ²mÛseia, ´misu meio, meia, metade
glukæw, glukeÝa, glukæ doce
bayæw, bayeÝa, bayæ fundo, profundo
eéræw, eéreÝa, eéræ largo, ancho
y°luw, y®leia, y°lu feminino
ôjæw, ôjeÝa, ôjæ pontudo, agudo
bradæw, bradeÝa, bradæ lento, vagaroso, lerdo
taxæw, taxeÝa, taxæ rápido
Èkæw, ÈkeÝa, Èkæ veloz
baræw, bareÝa, baræ pesado, grave
braxæw, braxeÝa, braxæ curto, breve
paxæw, paxeÝa, paxæ espesso, grosso

mur03.p65 213 22/01/01, 11:37


214 a flexão nominal: os temas nominais

17. Adjetivos de temas em W / o /a

polæw - poll® - polæ - muito, numeroso (T. polW-/pollo-/pollh-)

Singular Plural
Nom. polW-w > polæw poll® polW >polæ polloÛ pollaÛ poll‹
Voc. polW > polæ poll® polW > polæ polloÛ pollaÛ poll‹
Acus. polWn > polæn poll®n polW > polæ polloæw poll‹w poll‹
Gen. polloè poll°w polloè pollÇn pollÇn pollÇn
Dat. pollÒ poll» pollÒ polloÝw pollaÝw polloÝw
Loc. pollÒ poll» pollÒ polloÝw pollaÝw polloÝw
Instr. pollÒ poll» pollÒ polloÝw pollaÝw polloÝw

Dual
N.A.V. pollÇ poll pollÇ
G.D.L.I. polloÝn pollaÝn polloÝn

Nota:
Esses adjetivos (²dæw, ²deÝa, ²dæ - polæw, poll®, pollæ) cha-
mados mistos, por flexionarem o masculino e o neutro sobre um tema e o
feminino sobre outro, assustam às vezes o estudante, que está acostuma-
do a estudar toda a flexão sobre paradigmas fechados, estáticos ou em
cascata. Mas, para se libertar dessas amarras, basta atentar para o fato de
que toda a flexão, quer nominal, quer verbal repousa sobre um tema.
Cada nome, cada verbo tem seu tema independente, e é sobre ele
que se faz a flexão.
Há outros adjetivos que têm um tema comum para o masculino e
neutro, e outro, derivado do primeiro, para o feminino, de tema em -a.
Eis alguns deles:
T. xarÛent- xarÛeiw, xarÛeissa, xarÛen
gracioso, delicado, agradável
T. m¡gan- m¡gaw, meg‹lh, m¡gan grande
T. f¡ront- f¡rvn, f¡rousa, f¡ron particípio infectum de f¡rv portar
T. luy¡nt- luyeÛw, luyeÝsa, luy¡n particípio aoristo passivo de læv
soltar
T. læsant- læsaw, læsasa, lèsan particípio aoristo ativo de læv soltar
T. lelukot- lelukÅw, lelukuÝa, lelukñw part. perf. ativo de læv soltar

mur03.p65 214 22/01/01, 11:37


a flexão nominal: os temas nominais 215

18. Nomes de tema em -vW

T. ´rvW- õ ´rvw ´rvow o herói


T. dmÅW- õ dmÅw dmvñw o escravo, o criado
T. p‹trvW- õ p‹trvw p‹trvow o tio ou o avô paternos

S. Nom. ´rvWw > ³rvw dmÅWw > dmÅw p‹trvWw > p‹trvw
Voc. ´rvW > ´rv dmÅW > dmÅ p‹trvW > p‹trv
Acus. ´rvWa > ´rva/´rv dmÅWa > dmÅa p‹trvWa > p‹trva
Gen. ´rvWow > ´rvow dmvWñw > dmvñw p‹trvWow > p‹trvow
Dat. ´rvWi > ´rvi dmvWÛ > dmvÛ p‹trvWi > p‹trvi
Loc. ´rvWi > ´rvi dmvWÛ > dmvÛ p‹trvWi > p‹trvi
Instr. ´rvWi > ´rvi dmvWÛ > dmvÛ p‹trvWi > p‹trvi

P. Nom. ´rvWew > ´rvew dmÇWew > dmÇew p‹trvWew > p‹trvew
Voc. ´rvWew > ´rvew dmÇWew > dmÇew p‹trvWew > p‹trvew
Acus. ´rvWaw > ´rvaw dmÇWaw > dmÇaw p‹trvWaw > p‹trvaw
Gen. ²rÅWvn > ²rÅvn dm‘vWvn > dmÅvn patrÅWvn > patrÅvn
Dat. ´rvWsi > ´rvsi dmvWsÛ > dmvsÛ p‹trvWsi > p‹trvsi
Loc. ´rvWsi > ´rvsi dmvWsÛ > dmvsÛ p‹trvWsi > p‹trvsi
Instr. ´rvWsi > ´rvsi dmvWsÛ > dmvsÛ p‹trvWsi > p‹trvsi

D. N.A.V. ´rvWe > ´rve dmÇWe > dmÇe p‹trvWe > p‹trve
G.D.L.I. ²rÅWoin > ²rÅoin dmÅWoin > dmÅoin patrÅWoin > patrÅoin

Notas:

O W - 1. em posição final ou antes de consoante sofre síncope;


- 2. em posição intervocálica, sofre síncope.

Outros nomes que seguem o mesmo modelo:


T. m®trvW- õ m®trvw m®trvow o tio ou o avô materno
T. MÛnvW- õ MÛnvw MÛnvow Minos, rei de Knosos
T. g¡lvW- õ g¡lvw g¡lvow / g¡lvtow o riso

mur03.p65 215 22/01/01, 11:37


216 a flexão nominal: os temas nominais

Nomes heteroclíticos
Há finalmente alguns nomes que têm certas variantes em algumas
formas, como se flexionassem sobre dois temas distintos.
Em geral não são duas flexões paralelas; são algumas formas
paralelas.
Vamos relacioná-los em ordem alfabética, apresentando as formas
na ordem convencionada neste trabalho: nominativo, vocativo, acusati-
vo, genitivo e dat./loc./inst.
São os seguintes:
…Arhw - …Arevw, õ - Ares (Marte) T. …Ares- / …AreW-
N. …Arhw
V. …Arew / …Areu
A. …Arh / …Arhn
G. …Arevw
D. …Arei
gñnu - gñnatow, tñ - o joelho, T. gñnW- / gonat-
Sing. Pl.
N. gñnu, N. gñnata,
V. gñnu, V. gñnata,
A. gñnu, A. gñnata
G. gñnatow G. gon‹tvn
D.L.I. gñnati D.L.I. gñnasi
Dual gñnate
gon‹toin
d‹kru - uow, tñ - a lágrima, T. d‹kru-
Sing. Pl.
N. d‹kru N. d‹krua
V. d‹kru V. d‹krua
A. d‹kru A. d‹krua
G. d‹kruow G. dakrævn
D.L.I. d‹krui D.L.I. d‹krusi / dakræoiw
Dual d‹krue
dakræoin

mur03.p65 216 22/01/01, 11:37


a flexão nominal: os temas nominais 217

d¡ndron - ou, tñ - a árvore, T. dendro- / d¡ndres-


Sing. Pl.
N. d¡ndron N. d¡ndra / d¡ndrea
V. d¡ndron V. d¡ndra / d¡ndrea
A. d¡ndron A. d¡ndra / d¡ndrea
G. d¡ndrou G. d¡ndrvn / d¡ndrevn
D.L.I. d¡ndrÄ / d¡ndrei D.L.I. d¡ndroiw / d¡ndresi
Dual d¡ndre
d¡ndroin
dñru -atow, tñ - a lança, T. dñru-/dorat-
Sing. Pl.
N. dñru N. dñrata
V. dñru V. dñrata
A. dñru A. dñrata
G. dñratow / dorñw G. dor‹tvn
D.L.I. dñrati / dorÛ D.L.I. dñrasi
Dual dñrate
dor‹toin
Zeèw - Diñw, õ - Zeus, T. ZeW- / DiW- / Z°n-
Sing.
N. Zeèw N. Z°n,
V. Zeè V. Z°n,
A. DÛa A. Z°na
G. Diñw G. Zhnñw
D.L.I. DiÛ D.L.I. ZhnÛ
kleÛw - kleidñw, ² - a chave, T. kleid- / kleW-
Sing. Pl.
N. kleÛw N. kleÝdew / kleÝw
V. kleÛ, V. kleÝdew / kleÝw,
A. kleÝda / kleÝn A. kleÝdaw / kleÝw
G. kleidñw G. kleidÇn
D.L.I. kleidÛ D.L.I. kleisÛ
Dual kleÝde
kleidoÝn

mur03.p65 217 22/01/01, 11:37


218 a flexão nominal: os temas nominais

kævn - kunñw, õ / ² - o cão, a cadela, T. kæon- / kæn-


Sing. Pl.
N. kævn N. kænew
V. kæon V. kænew
A. kæna, A. kænaw
G. kunñw, G. kunÇn
D.L.I. kunÛ D.L.I. kusÛ
Dual kæne
kunoÝn
lw - low, õ / ² - a pedra, lasca, T. laWa-/ laW-
Sing. Pl.
N. l‹aw / lw N. lew
V. lw V. lew
A. lan / ln A. l,aw
G. low G. l‹vn
D.L.I. li D.L.I. l‹esi / l‹essi
Dual le
l‹oin
önar - ôneÛratow, tñ - o sonho, T. öneirat- / ôneiro-
Sing. Pl.
N. önar / öneirow N. ôneÛrata,
V. önar / öneire, V. ôneÛrata,
A. önar / öneiron A. ôneÛrata,
G. ôneÛrou / ôneÛratow, G. ôneir‹tvn,
D.L.I. ôneÛrati / ôneÛrÄ D.L.I. ôneÛrasi / ôneÛroiw
Dual ôneÛrate
ôneir‹toin

mur03.p65 218 22/01/01, 11:37


a flexão nominal: os temas nominais 219

öxow-ou, õ / öxow-ouw, tñ - o carro, T. öxo- / öxes-

T. öxo-
Sing. Pl.
N. öxow N. öxoi,
V. öxe V. öxoi,
A. öxon A. öxouw
G. öxou G. öxvn
D.L.I. öxÄ D.L.I. öxoiw
Dual öxv
öxoin

T. öxes-
Sing. Pl.
N. öxow, N. öxea > h
V. öxow, V. öxea > h
A. öxow, A. öxea > h
G. öxes-ow > öxeow > öxouw G. ôx¡s-vn > ôx¡vn > ôxÇn
D.L.I. öxes-i > öxei D.L.I. öxes-si > öxesi
Dual öxee > ei
ôx¡oin > oxoÝn

pr¡sbuw - pr¡sbevw, õ - o ancião,


T. presbW- presbeW/ presbeut®-/-‹-
Pl. - os embaixadores
Sing. Pl.
N. pr¡sbuw / presbeut®w N. pr¡sbeiw / presbeutaÛ,
V. pr¡sbu / presbeut‹ V. pr¡sbeiw / presbeutaÛ
A. pr¡sbun / presbeut®n A. pr¡sbeiw / presbeut‹w,
G. pr¡sbevw / presbeutoè G. pr¡sbevn / presbeutÇn
D.L.I. pr¡sbei / prsbeut» D.L.I. pr¡sbesi / presbeutaÝw
Dual pr¡sbee / presbeut‹
presb¡oin / presbeutaÝn

mur03.p65 219 22/01/01, 11:37


220 a flexão nominal: os temas nominais

pèr - purñw, tñ - o fogo,


Pl. (fogos de bivaque, fogueira) T. pèr-
Sing. Pl.
N. pèr N. pur‹,
V. pèr V. pur‹
A. pèr A. pur‹
G. purñw G. purÇn
D.L.I. purÛ D.L.I. pursÛ
Dual père
puroÝn

skñtow-ou, õ / skñtow-ouw, tñ - as trevas,


T. skoto- / skotes-
T. skñto-
Sing. Pl.
N. skñtow N. skñtoi,
V. skñte, V. skñtoi,
A. skñton A. skñtouw
G. skñtou G. skñtvn
D.L.I. skñtÄ D.L.I. skñtoiw
Dual skñtv
skñtoin

T. skñtes-
Sing. Pl.
N. skñtow, N. skñtes-a > skñtea > skñth
V. skñtow, V. skñtes-a > skñtea > skñth
A. skñtow, A. skñtes-a > skñtea > skñth
G. skñtes-ow > skñteow > skñtouw G. skot¡s-vn > skot¡vn > skotÅn
D.L.I. skñtes-i > skñtei D.L.I. skñtes-si > skñtesi
Dual skñtee > ei
skotoÝn

mur03.p65 220 22/01/01, 11:37


a flexão nominal: os temas nominais 221

skæfow-ou, õ / skæfow-ouw, tñ - a taça, T. skæfo- / skæfes-


T. skufo-
Sing. Pl.
N. skæfow N. skæfoi,
V. skæfe V. skæfoi,
A. skæfon A. skæfouw
G. skæfou, G. skæfvn
D.L.I. skæfÄ D.L.I. skæfoiw
Dual skæfv
skæfoin

T. skæfes-
Sing. Pl.
N. skæfow N. skæfes-a > skæfea > skæfh
V. skæfow V. skæfes-a > skæfea > skæfh
A. skæfow A. skæfes-a > skæfea > skæfh
G. skæfes-ow > skæfeow > skæfouw G. skuf¡s-vn > skuf¡vn > skufÇn
D.L.I. skæfes-i > skæfei D.L.I. skæfes-si > skæfesi
Dual skæfee > ei
skufoÝn

êiñw - êioè, õ - o filho, T. êio- / êieW /êiW-


Sing. Pl.
N. êiñw N. êioÛ / êieÝw
V. êi¡, V. êioÛ / êieÝw
A. êiñn / êi¡a A. êioæw / êieÝw / êi¡aw
G. ußoè/êi¡ow/êiñw G. êiÇn / êi¡vn
D.L.I. êiÒ / êieÝ D.L.I. êioÝw/ êi¡si
Dual êi¡e/êieÝ
êi¡oin

mur03.p65 221 22/01/01, 11:37


222 a flexão nominal: os temas nominais

Nomes que só têm plural:

ƒAy°nai - Çn, aß Atenas, a cidade, T. ƒAyhna-


N. ƒAy°nai,
V. ƒAy°nai,
A. ƒAy®naw,
G. ƒAyhnÇn,
D.L.I. ƒAy®naiw.

oß ¤tesÛai - Ûvn os ventos etésios, T. ¤tesÛa-


aß Panay®naiai - Çn As Panatenéias (festas), T. Panay®naia-

Só nom. voc. e acus.

õ lÛw, o leão (poético)


Î lÛw, tòn lÛn

Nomes indeclináveis:

tò d¡maw (poét.) o corpo (ver p. 188-9)


tò öfelow o proveito, a utilidade
tò ðpar a visão

Por serem neutros podem servir aos casos sintáticos: nom., voc., acus.
Os nomes das letras do alfabeto:
tò lfa, tò b°ta ktl.
Os números cardinais de 5 a 100:
p¡nte (5), d¡ka (10), §ndeka (11), pentekaÛdeka (15),
¥katñn (100).

mur03.p65 222 22/01/01, 11:37


O verbo grego
Preliminares

É conhecida a ojeriza que o estudante de grego sente diante do


sistema complicado da conjugação dos verbos gregos. Ele tem a sensação
de estar pisando terreno movediço, que cede sempre lá onde ele pensa
poder apoiar-se. Ele não vê coerência; por toda a parte é o arbítrio, são
regras e sobretudo exceções.
O recurso é apelar para os métodos de memorização até que tudo
entre na cabeça, pronto para ser usado. Mas, mesmo assim, permanece a
insegurança. Quando ele vai enfrentar um texto, além do dicionário, é
indispensável a presença de uma gramática.
Qual é a causa disso?
Não é difícil responder. É a incoerência do modelo “descritivista”
e “prescritivista” da flexão verbal e nominal, que desconhece a base de
qualquer sistema de flexão, que é a identificação das duas partes:
• o tema, a parte fixa sobre a qual giram as desinências (o tema
nominal contém o significado virtual do nome, o tema verbal
contém o significado e o aspecto do verbo),
• as desinências (ptÅseiw, casus), que dão a função ao nome, e a
pessoa, o número, a voz e o modo ao verbo.
No caso do verbo, o grande erro da gramática foi o de construir
todo o sistema de flexão sobre o infectum, que é uma forma modificada,
complexa, e por isso não pode ser ponto de partida para todo o sistema,
porque, em geral modificada, o obriga a produzir exceções.
O ponto de partida para a flexão verbal deve ser o tema verbal puro,
isto, é o tema aoristo do verbo. É nele que está a essência do significado
e é a partir dele que derivam os dois outros temas: o do infectum e o do
perfectum 1. Veremos isso pormenorizadamente à medida que estudar-
mos cada tema.

1 É bom lembrar sempre que o tema é a parte fixa, sede do significado, sobre o que
se sucedem as desinências. Se o tema absoluto, puro do verbo, é o tema do aoristo,

mur04.p65 223 22/01/01, 11:37


224 o verbo grego

Como são três os aspectos: aoristo, infectum e perfectum, três tam-


bém são os temas sobre os quais se constrói a conjugação verbal em gre-
go. São temas “aspectuais” e não temas temporais (tempos primitivos da
gramática tradicional).
O tempo delimitador dos fatos não está no verbo. O tempo está no
enquadramento do ato verbal.
Ele é exterior ao verbo.
Aqui caberia observar o que diz Aristóteles (Poética, 20, 8), quan-
do se refere ao nome (önoma) e ao verbo (=°ma):
“…Onoma dƒ¤stÜ fvn¯ sunyet¯ shmantik¯, neu xrñnou,
¸w m¡row oéd¡n ¤sti kayƒaêtò shmantikñn: ¤n gŒr toÝw
diploÝw oé xrÅmeya Éw kaÜ aétò kayƒaêtò shmaÝnon, oåon
¤n tÒ YeodÅrÄ tò “dÇron” oé shmaÛnei.
„R°ma d¢ fvn¯ sunyet¯ shmantik¯ metŒ xrñnou ¸w oéd¢n
m¡row shmaÛnei kayƒaêtò Ësper kaÜ ¤pÜ tÇn ônom‹tvn:
tò m¢n gŒr “nyrvpow” µ “leukòn” oé shmaÛnei tò tñte,
tò d¢ “badÛzei” µ “beb‹dike” prosshmaÛnei tò m¢n tòn
parñnta xrñnon tò d¢ tòn parelhluyñta”.
“Nome é um som composto, significante, sem tempo, de que nenhuma
parte por si mesma é significativa; pois dos duplos não nos servimos como o
mesmo tendo um significado por si mesmo, como em Teodoro o “doro” (dom,
dádiva) não tem significado.
Verbo é um som composto, significante com tempo de que nenhuma
parte por si mesma é significativa, como acontece também nos nomes; pois,
por um lado “homem” e “branco” não significam quando (= nesse tempo); por
outro, está andando e acabou de andar anunciam um o tempo presente, o
outro, o tempo decorrido”. (Arist., Poét., 1457a10-1457a18).
Nas expressões “com tempo” e “sem tempo”, Aristóteles não se
refere ao tempo externo, medido, determinado, mas sim ao tempo que a
elocução porta consigo ou em si mesma. O nome não tem tempo próprio;
não porta a noção de tempo em si mesmo. O verbo sim, porque o verbo
é um processo (os exemplos de Aristóteles não são com verbos de estado).

que em geral coincide com a raiz, os temas do infectum e do perfectum são radi-
cais, isto é raiz modificada.

mur04.p65 224 22/01/01, 11:37


o verbo grego 225

Nos dois exemplos temos um infectum = inacabado; badÛzei e o


perfectum = acabado: beb‹dike. Curiosamente Aristóteles não exem-
plifica aqui com um aoristo.
É que o aoristo não tem processo verbal, ou melhor, o processo verbal
não chega a eclodir; é o ato verbal em seu estado “pontual”; não tem “tempo
interno”, que é o desenvolvimento da ação verbal.
No infectum e no perfectum há um processo, há um “tempo inter-
no”, há um desenvolvimento da ação.
Também as expressões tòn parñnta xrñnon e tòn para-
lhluyñta são expressões de tempo relativo (o tempo que corre e que
acabou de correr) no próprio ato; o ponto de referência (enquadramento
do ato verbal) está fora.
Se Aristóteles tivesse a intenção de referir-se a um passado, teria
utilizado uma forma com o aumento ¤-, que ele conhecia e usava; é, aliás,
o que ele faz logo adiante (1457a18-23), em que ele chama de ptÇsiw
tanto a flexão do nome (casos) quanto a flexão do verbo:
“PtÇsiw dƒ ¤stÜn ônñmatow µ =®matow, ² m¢n katŒ tò
toætou µ toætÄ shmaÝnon kaÜ ÷sa toiaèta ² d¢ katŒ
tò ¤nÜ µ polloÝw, oåon nyrvpoi µ nyrvpow ² d¢ katŒ
tŒ êpokritik‹, oåon katƒ¤rÅthsin µ ¤pÛtajin: tò gŒr
¤b‹disen; µ b‹dize ptÇsiw =®matow katŒ taèta tŒ eàdh
¤stÛn”.
“Caso é de nome ou de verbo; um segundo o que significa: desse ou a
esse e quantas coisas desse tipo; outro, segundo um ou muitos, como homens e
homem; outro segundo as expressões dos personagens, como numa interroga-
ção ou numa determinação; pois “ele caminhou?” ou “caminha” é uma flexão
(caso) do verbo, segundo essas formas”.
Aqui, o exemplo no indicativo aoristo ¤b‹disen interroga sobre
um ato cometido num ponto qualquer do tempo passado; o aumento re-
vela isso. No outro b‹dize, é apenas a emissão de uma ordem de início
da ação: entra no ato de caminhar.
A única marca de tempo que a língua grega possui é o que cha-
mam de aumento, que marca o passado e se antepõe ao tema verbal, com
uso restrito ao indicativo, porque a marcação ou delimitação do tempo é
uma noção dêitica, demonstrativa, objetiva. Por isso é natural que a língua
grega exprima essa relação somente pelo indicativo. Esse aumento (e-)
seria um antigo advérbio de tempo, independente, e passou a ser usado

mur04.p65 225 22/01/01, 11:37


226 o verbo grego

como prefixo nos tempos da elaboração dos poemas homéricos. Na Ilíada


e na Odisséia o seu uso é ainda hesitante. Ora aparece ora não, sem uma
linha de coerência: freqüentemente por razões de metrificação.

Os aspectos verbais:
tempo interno do verbo
Inacabado (infectum)

É o ato verbal que começou e está em movimento, na sua realiza-


ção, em pleno processamento. Pode conter a idéia de hábito, iteração, fre-
qüência, desdobramento, amplificação; pode dar a idéia de início do processo
verbal e também da continuidade. Pode ser presente ou passado (imperfeito).
Convém lembrar que, quando dizemos “presente” não pensamos
em tempo absoluto, mas em tempo relativo a um ponto, a um espaço e a
um tempo. O nome “presente” é um particípio presente e por isso traz a
idéia de simultaneidade; o nome “imperfeito” exprime um processo (ain-
da) não acabado: passado em relação ao presente e presente, simultâneo a
um processo (ato verbal) no passado.
A marca do passado está no aumento e só existe no indicativo: a
noção de tempo é uma noção concreta, real; por isso não pode ser expressa
por outro modo que não seja o modo da realidade, da afirmação, que é o
indicativo. Isso está claro em todos os textos gregos, se nós os lermos
diretamente, não contaminados pela gramática.
De início não nos parece uma tarefa fácil desligarmo-nos da noção
de tempo; todos nós temos a cabeça cheia de presentes, perfeitos, imperfei-
tos, mais que perfeitos do subjuntivo etc. da gramática portuguesa. Em to-
das essas expressões aprendemos e entendemos que está embutido o tem-
po. Em grego não! Na gramática grega, isto é, na língua grega, não há
imperfeito do subjuntivo, pretérito perfeito do subjuntivo e mais-que-perfeito
do subjuntivo.
Fora do indicativo, as formas verbais só exprimem idéias de aspecto
(tempo da ação) e modo.

mur04.p65 226 22/01/01, 11:37


o verbo grego 227

Por isso, elas nos parecem difíceis de traduzir. Mas, partindo do


indicativo, vamos registrar alguns exemplos que as gramáticas nos forne-
cem, dando-lhes uma tradução bem linear.
No infectum-inacabado há freqüente confusão com os termos pre-
sente - imperfeito. É que ambos exprimem atos durativos, e a idéia de tem-
po que nos transmitem é a de um tempo referencial, não absoluto; há
um ponto de referência para o presente (simultaneidade no presente) e
um ponto de referência para o imperfeito (simultaneidade no passado). É
o paratatikòw xrñnow, isto é, o “tempo esticado ao lado de” dos es-
tóicos. No presente e imperfeito (tema do infectum-inacabado) podere-
mos ver, nos exemplos a seguir, a idéia do permanente que inclui um
passado recente (atos freqüentes, repetição, costume) e uma projeção para
um vir a ser imediato (início ou tentativa “de conatus”, esforço, e conti-
nuidade da ação). Com freqüencia não é fácil distinguir essas idéias numa
só forma verbal.

Significados do infectum
1. Uma ação que se desenvolve no momento em que estamos falando,
que começou há pouco mas que continua ou que está começando no
momento em que se fala;
DareÛou kaÜ Parus‹tidow gÛgnontai paÝdew dæo
(Xen., An., 4, 7, 7)
De Dario e Parisátis nasceram [e estão vivos] dois filhos.
¤peid¯ ¤ggçw ·san ¤mpÛptousin (Tuc., 2, 81, 5)
como estavam próximos, caem em cima.
ßketeæom¡n se p‹ntew
nós todos te suplicamos [estamos suplicando].
oäda ÷ti pollŒ paraleÛpv (Isócr., 16.22)
eu sei que deixo [estou deixando] passar muitas coisas.
(aqui há uma combinação do perfeito oäda, acabado e do presente
paraleÛpv, ingressivo-simultâneo)
taèta gr‹fv
eu escrevo essas coisas [estou escrevendo, entro no ato de escrever].

mur04.p65 227 22/01/01, 11:37


228 o verbo grego

oïtiw me kteÛnei (Hom.)


“ninguém” está me matando.
ƒAgam¡mnvn jia dÇra dÛdvsin (Hom.)
Agamêmnon dá [oferece, vai dar, está dando-entra no ato de dar]
presentes dignos [de valor].
yaum‹zv
eu me espanto [estou me espantando-entro no ato de ...].
peÛyv
eu tento convencer [eu entro no ato de convencer].
¤japat˜w me, Î fÛltate „IppÛa; (Plat., Híp. Men., 369e)
tu estás me enganando [tentando me enganar, tu me enganas] ca-
ríssimo Hípias!
Éw ¤xyroçw Žllƒ oé pros®kontaw (²mw) Žpñllusi (Is., 5, 30)
Ele nos arruina [está tentando nos arruinar] como [se fôssemos]
inimigos e não parentes.
p¡peismai ¤gÆ ¥kñnta mhd¡na ŽdikeÝn ŽnyrÅpvn Žllƒ
êmw oé peÛyv (Plat., Apol., 37a)
Eu estou convencido que nenhum homem/nenhum dos homens
comete injustiça voluntariamente mas a vós eu não convenço [não
consigo convencer, não estou convencendo].
¤peid¯ ¤teleæthse DareÝow Tissaf¡rnhw diab‹llei tòn
Kèron
Assim que Dario morreu, Tissafernes calunia [começa a caluniar,
se põe a caluniar] Ciro.

2. Uma ação que começou há pouco ou que se inicia, mas que continua
ou que se tornou ou se torna um hábito, que se repete, ou uma afir-
mação que vale para todos os tempos. Acontece sobretudo com ver-
bos em cujo significado não se percebe a separação de início pontual e
continuidade da ação.
nikÇ = eu venço = venci = eu sou vencedor

mur04.p65 228 22/01/01, 11:37


o verbo grego 229

Žpagg¡lete ƒAriaÛÄ ÷ti ²meÝw nikÇmen basil¡a kaÜ oédeÜw


²mÝn ¦ti m‹xetai. (Xen., An., II, 1, 4)
anunciai (começai a anunciar) a Arieu que nós vencemos o rei [so-
mos vencedores] e que ninguém mais nos combate [está lutando
contra nós].
A diferença está no significado dos dois verbos vencer e combater.

²ttÇmai (a) = eu sou o vencido = sou derrotado = estou sendo vencido.


ŽdikÇ (e) = eu sou o culpado = sou o réu.
diÅkv (aétñn) = eu sou o acusador (no tribunal) = entro no ato de
acusar.
gr‹fomai (autñn) = eu movo um processo = eu acuso (no tribu-
nal) = sou o acusador = entrei e estou no ato de acusar.
feægv = eu estou banido, exilado = estou no exílio, eu me exilo.
´kv = eu estou aqui = eu cheguei, estou chegando, chego.
oàxomai / oàxetai = estou / está viajando = parti, partiu.
Žkoæv = eu ouço (ouvi) dizer = corre o boato que.
puny‹nomai = eu tenho a informação que.

Yemistokl¡a oék Žkoæeiw ndra Žgayòn gegonñta kaÜ


KÛmvna kaÜ Milti‹dhn kaÜ Perikl¡a toutonÜ tòn nevstÜ
teteleuthkñta oð kaÜ sç Žk®koaw;
tu não ouves dizer [não sabes] que Temístocles veio a ser um ho-
mem de bem e também Címon e Milcíades e esse Péricles, esse
recentemente falecido de que também ouviste.
¦sti yeñw
existe uma divindade.
„HsÛodñw fhsin: ¦rgon dƒ oéd¢n öneidow ŽergÛa d¡ tƒ öneidow
Diz Hesíodo: atividade nenhuma é castigo, mas castigo é inatividade.
Pl‹ttvn did‹skei ÷ti
Platão ensina (contínuo) que.
Xenofñnta ŽnagignÅskv
eu leio Xenofonte [estou lendo e sempre leio].

mur04.p65 229 22/01/01, 11:37


230 o verbo grego

p‹ntew tòn Svkr‹thn gantai


todos admiram Sócrates.
‘panyƒ õ limòw gluk¡a pl¯n aêtoè poieÝ
a fome torna todas as coisas doces, menos ela mesma.
PloÝon ¤w D°lon ƒAyhnaÝoi p¡mpousin
Os Atenienses enviam [costumam enviar todos os anos] uma em-
barcação para Delos.
õrÇmen t¯n m¡littan ¤fƒ ‘panta blast®mata kayÛzousan
nós vemos [costumamos ver] a abelha pousando sobre todas as plantas.
õ Svkr‹thw ¦fh: “oß n¡oi poll‹kiw ¤m¢ mimoèntai kaÜ
¤pixeiroèsin llouw ¤jet‹zein”
Sócrates dizia: “os jovens muitas vezes me imitam e tomam nas mãos
excitar os outros”.
p‹ntew oß tÇn ŽrÛstvn PersÇn paÝdew ¤pÜ taÝw basil¡vw
yæraiw paideæontai. (Xen., An., I, 9, 3)
todos os filhos dos nobres persas são educados às portas do rei.
oéd¢n yaumastñn, Î ndrew ƒAyhnaÝoi, m¯ taétŒ ¤moÜ kaÜ
Dhmosy¡nei dokeÝn: oðtow m¢n ìdvr ¤gÆ dƒ oänon pÛnv
nada há de se admirar, cidadãos de Atenas, de as mesmas coisas
não parecerem bem a mim e a Demóstenes; eu bebo vinho e ele,
água.
mñliw fikneÝsye ÷poi ²meÝw p‹lai ´komen (Xen., Cir., I, 3, 4)
vós chegais [estais chegando] com dificuldade onde nós há muito
chegamos [acabamos de chegar]

3. Um ato por vir, que se inicia - iniciará- imediatamente e continuará:


eÞ aìth ² pñliw lhfy®setai ¦xetai kaÜ ² psa SikelÛa
(Tuc., VI, 91, 2)
se essa cidade é tomada [for tomada], a Sicília toda está presa [será].
dÛdvmÛ soi Î Kère taæthn gunaÝka ¤m¯n oïsan yugat¡ra
(Xen., Cir., VIII, 5, 19)
Eu te dou [estou dando, entro no ato de dar, vou te dar], Ciro,
essa mulher que é minha irmã.

mur04.p65 230 22/01/01, 11:37


o verbo grego 231

õ Kèrow eäpen: ƒAllƒ ¤pÛ ge toætouw ¤gÆ aétòw par¡rxo-


mai (Xen., Cir., VII, 1 ,2)
Ciro disse: Mas, contra esses aí eu mesmo marcho [vou marchar].
¤peÜ dƒ ¤genñmhn õ pat¯r kteÛnei me (Eur., Fen., 1600)
depois que eu nasci [desde que] meu pai me mata [está me matan-
do, vai me matar].
lÛssomai sƒ êp¢r cux°w kaÜ goænvn (Hom., X, 339)
eu te suplico [estou te suplicando] pela tua alma e pelos teus joe-
lhos [sobre]
pollŒ gƒ ¦th ³dh eÞmÛ ¤n t» t¡xnú (Plat., Prot., 317c)
muitos anos já estou [e continuo] nesta arte.
oé sæ gƒ ¦peita Tud¡ow ¦kgonñw ¤ssi (Hom., E, 813)
tu não és , depois disso, filho de Tideu! [não continuas sendo]
õ pñlemow oéd¡nƒ ndrƒ ¥kÆn aßreÝ ponhrñn, ŽllŒ toçw
xrhstoæw (Sóf., Fil., 436)
a guerra por sua vontade não escolhe nenhum homem vil, mas os
melhores.
sç t¯n ¤m¯n gunaÝka kvlæeiw ¤m¡... ¤pÜ Sp‹rthn gein;
(Aristóf., Tesm., 918)
tu me impedes [estás tentando me impedir] de levar minha mulher
para Esparta?!

Todas essas situações podem se repetir no imperfeito do indicativo


(o imperfeito não tem outros modos):
a) ação passada vista em sua extensão (duração)
taèta l¡gousa ¤n¡due tŒ ÷pla kaÜ lany‹nein m¢n ¤pei-
rto, ¤leÛbeto d¢ aét» tŒ d‹krua katŒ tÇn pareiÇn
(Xen., Cir., 6, 4, 3)
enquanto dizia essas palavras [essas coisas dizendo] ela vestia as ar-
mas e tentava esconder, mas escorriam-lhe as lágrimas pelas faces.
pemfyeÜw di¡tribe parŒ Lus‹ndrÄ treÝw m°naw (Xen., Hell.,
2, 2, 16)
[tendo sido] enviado, ele passou [começou a passar] três meses jun-
to a Lisandro.

mur04.p65 231 22/01/01, 11:37


232 o verbo grego

Kl¡arxow sun®gagen ¤kklhsÛan tÇn strativtÇn: kaÜ


prÇton m¢n ¤d‹krue polçn xrñnon ¤stÅw: oß d¢ õrÇntew
¤yaæmazon kaÜ ¤siÅpvn: eäta ¦leje t‹de: (Xen.)
Clearco reuniu a assembléia dos soldados; e aí, primeiro, de pé,
chorava [pôs-se a chorar] por muito tempo; e os que o viam fica-
ram admirados [entraram no ato de admirar] e em silêncio; a se-
guir ele disse estas coisas:

b) ação passada concomitante a um outro fato passado:


Kèrow ¤jelaænei ¤pÜ potamòn pl®rh Þxyævn meg‹lvn oîw
oß Særoi yeoçw ¤nñmizon.
Ciro chega a um rio repleto de grandes peixes que os Sírios consi-
deravam deuses.
÷te Žp¡ynúsken ·n ¤tÇn Éw tri‹konta (Xen., An., 2.6.20)
No momento em que ele estava morrendo, ele tinha por volta de
trinta anos.
² ²met¡ra pñliw pròw ¶n Žfiknoènto prñteron ¤k t°w
„Ell‹dow aß presbeÝai (Ésquin., Contr. Ctes., 134)
nossa cidade para a qual antes chegavam [vinham, costumavam vir]
delegações de toda a Grécia.
Svkr‹thw oék ¦pinen eÞ m¯ dicÐh
Sócrates não bebia, a não ser que tivesse sede.
¤peid¯ d¢ ŽnoixyeÛh (tò desmvt®rion) es»men (Plat., Fedro, 59e)
depois que [a prisão] se abria nós entrávamos [costumávamos entrar].
¤klegñmenow tòn ¤pit®deion ¦paien n (Xen., An., 2.3.11)
separando o mais próximo ele batia [começava a bater].
oëpote meÝon Žpestratopedeæonto oß b‹rbaroi tÇn
„Ell®nvn ¤j®konta stadÛvn (Xen.)
Os bárbaros nunca acampavam [costumavam acampar] a menos de
sessenta estádios dos gregos.
öfra m¢n ±Çw ·n kaÜ Ž¡jeto ßeròn ¸mar tñfra m‹lƒ Žmfo-
t¡rvn b¡leƒ ´pteto, pÝpt¡ te lañw. (Hom.)
enquanto durava [era] a manhã e crescia o divino dia, durante esse
tempo intensamente de ambos os lados os dardos golpeavam e o
povo caía.

mur04.p65 232 22/01/01, 11:37


o verbo grego 233

c) esforço, começo e continuidade ou repetição da ação no passado


N¡vn ¦peiyen aétoçw Žpotr¡pesyai: oã d¢ oéx êp®kouon.
(Xen., Cir., V, 5, 22)
Nêon tentava convencê-los a voltar; e eles não lhe obedeciam.
¦peiyon aétoçw kaÜ oîw ¦peisa toætouw ¦xvn ¤poreuñmhn,
(Xen., An., VI, 5, 27)
eu tentava convencê-los e tendo esses, os que eu convenci, iniciei a
marcha.
di¡fyeiron prosiñntew toçw stratiÅtaw kaÜ §na ge
loxagòn di¡fyeiran (Xen., An., V, 7, 25)
aproximando-se dos soldados eles tentavam corrompê-los [corrom-
piam-nos] e até um capitão eles corromperam.
Žpvllæmeya
nós estávamos perdidos [corríamos perigo].
¤pnÛgeto
ele estava se afogando [ia se afogar].
paredæeto eÞw Pelopñnhson (Dem., Cor., 79)
ele se introduzia [procurava entrar] no Peloponeso.
¤sp¡ndonto ŽnaÛresin toÝw nekroÝw mayñntew d¢ tò Žlhy¢w
¤paæsanto (Tuc., 3, 244, 3)
Eles estavam empenhados no recolhimento dos mortos, mas, ten-
do-se informado da verdade, renunciaram.

d) dois imperfeitos seguidos não marcam simultaneidade da ação pas-


sada (que seria expressa pelo particípio presente) mas sim uma ação
passada antes da outra:
Žnemimn®skonto kaÜ Éw yæein ¤n AélÛdi tòn ƒAghsÛlaon oék
eàvn (Xen., Hell., 3, 3, 5)
Eles se lembravam também como em Aulis eles não tinham deixa-
do (ação durativa e não pontual) Agesilau oferecer sacrifício.
Algumas vezes, ao narrarmos um fato passado, para darmos mais
ênfase à narrativa, usamos o presente, como para pôr diante dos olhos do
ouvinte/leitor o fato narrado. É o que as gramáticas chamam de presente
histórico.

mur04.p65 233 22/01/01, 11:37


234 o verbo grego

Ele marca, na verdade, concomitância com o fato narrado.


Heródoto (I, 10) diz que Giges, por insistência de Candaules, vai
ver a mulher deste se despir antes de se deitar. A narrativa é feita no
imperfeito e aoristo; mas na hora de o intruso esgueirar-se para fugir,
Heródoto escreve:
kaÜ ² gun¯ ¤por˜ min ¤jiñnta
e a mulher o avista saindo (J. Humbert, 234).
yn¹skei gunaikñw... dñlÒ... Aàgisyow d¢ basileæei (Eur., El., 9-11)
ele [Agamêmnon] morre por um ardil da mulher, e Egisto é rei
[reina].
keÛnh gŒr Êles¡n nin eÞw TroÛan tƒgei (Eur., Héc., 268)
é ela que o perdeu e o leva para Tróia.

Aoristo
É o ato verbal em sua essência, expresso pelo tema verbal puro
(freqüentemente a própria raiz), sem contornos, sem limites. É usado:
(1) nas máximas e provérbios (aoristo gnômico, não enquadrado) e
(2) nos quadros narrativos em que enumera fatos isolados (pontuais) que
incidem sobre a linha do processo narrativo (aoristo narrativo, enquadrado).

1. Exemplos do primeiro uso


gnÇyi sautñn
Conhece-te a ti mesmo.
=Åmh met‹ fron®sevw Èf¡lhsen
força com sabedoria ajuda [é útil] (Isócrates).
mikròn ptaÝsma di¡luse p‹nta
pequeno acidente estraga tudo.
ùw m¡n tƒaÞd¡setai koæraw Diòw sson Þoæsaw,
tòn d¢ m¡gƒÊnhsan, kaÛ tƒ¦kluon eéjam¡noio (Hom., K, 509)
quem respeitar as filhas de Zeus que chegam perto, esse elas o pro-
tegem muito e o ouvem suplicante [tendo suplicado].

mur04.p65 234 22/01/01, 11:37


o verbo grego 235

oédeÜw ¦painon ²donaÝw ¤kt®sato


ninguém adquire elogio com prazeres.
tÒ xrñnÄ ² dÛkh p‹ntvw ·lyƒ Žpotisam¡nh
com o tempo [pelo tempo] sempre chega a justiça vingadora.
kaÜ bradçw eëboulow eålen taxçn ndra diÅkvn
até o lento, quando quer, perseguindo, pega o homem veloz.
tŒw tÇn faælvn sunousÛaw ôlÛgow xrñnow di¡lusen
um tempo curto dissolve as sociedades dos levianos.
k‹tyanƒ õmÇw ÷ tƒ Žergòw Žn¯r ÷ te pollŒ ¤orgÇw (Hom.)
morre igualmente o homem inativo e o que fez muitas coisas.
k‹llow xrñnow Žn®lvsen
o tempo destrói a beleza.
tò dokeÝn eänai kalòn kŽgayòn tòn lñgon pistñteron
¤poÛhsen
o fato de parecer belo e bom [o parecer belo e bom, ter boa repu-
tação] faz o discurso mais acreditável.

Esse uso do aoristo, expresso em português pelo presente sim-


ples, não indica duração, hábito ou continuidade do ato verbal, mas ver-
dades gerais e é por isso denominado aoristo gnômico pelas gramáticas,
de gnÅmh - gnÇmai, máxima, provérbio.

2. No segundo uso, como foi assinalado, dentro de um quadro narrativo,


o aoristo exprime um ato isolado, pontual no passado, igualmente sem
nenhuma conotação de duração, continuidade ou término do ato ver-
bal. É uma enumeração de fatos isolados, “pontuando” o fio narrativo:
“Hoje eu fui à cidade, almocei, comprei livros, encontrei amigos e fui
à escola”. Todos são aoristos, enquadrados no passado pela palavra
“hoje”, isto é: até este momento. Em português ele corresponde ao
nosso pretérito simples do indicativo.
É o aoristo que podemos chamar de narrativo, enquadrado. Apa-
rece às vezes com conjunções ou com advérbios, que não “regem” o
aoristo, mas apenas situam o ato verbal no tempo. Não se trata de uma
regra gramatical, mas de uma relação normal, semântica, orgânica, ló-
gica. As conjunções ou os advérbios mais comuns neste caso são:

mur04.p65 235 22/01/01, 11:37


236 o verbo grego

¤peÛ, Éw, ÷te - quando;


¤peid® (t‹xista) ¤peÜ prÇton - logo que, assim que;
§vw, ¦ste, m¡xri - até que (trataremos disso no capítulo dos invariáveis).

DiŒ mikròn ¤polem®sate


Entrastes em guerra por pequena coisa (o ato em si).
Peisistr‹tou teleut®santow „IppÛaw ¦sxe t¯n Žrx®n
(Arist.)
Tendo morrido Pisístrato Hípias obteve o poder (o ato em si).
¤gÆ ·lyon, eädon, ¤nÛkhsa, (Apiano)
Eu vim, vi, venci.
Fica bem claro, desse último exemplo, que o uso do indica-
tivo exprime o carácter da simples enumeração de fatos isolados, pon-
tuais, no passado, sem marcar anterioridade de um em relação ao
outro (a anterioridade seria expressa pelo particípio aoristo ou por
um advérbio de tempo). É uma sucessão natural dos fatos, expres-
sa pelo conteúdo semântico dos verbos.
Esse emprego do aoristo como ato isolado dentro de um
processo narrativo explica o aumento e- (marca do passado) que
ele recebe no indicativo e que permanece no aoristo gnômico.

Danaòw ¤j AÞgæptou fugÆn …Argow kat¡sxen (Isócr., El.


de Hel., 6)
Dânaos tendo fugido do Egito se apoderou de Argos (fato isolado
no passado, sem idéia de duração).
Polem‹rxÄ par®ggeilan oß Tri‹konta tò ¤pƒ ¤keÛnvn
eÞyism¡non par‹ggelma (Lísias, Contr. Erat., 17)
Os 30 deram a Polemarco a ordem habitual naqueles casos (ato
momentâneo, pontual, isolado).
metŒ t¯n ¤n KorvneÛ& m‹xhn oß ƒAyhnaÝoi ¤j¡lipon t¯n
BoivtÛan psan
depois da batalha na Coronéia os atenienses abandonaram toda a
Beócia (fato isolado, sem idéia de duração ou resultado).

mur04.p65 236 22/01/01, 11:37


o verbo grego 237

PausanÛaw ¤k LakedaÛmonow strathgòw êpò „Ell®nvn


¤jep¡mfyh metŒ eàkosi neÇn Žpò Peloponn®sou, jun¡pleon
d¢ kaÜ ƒAyhnaÝoi tri‹konta nausÜ kaÜ ¤str‹teusan ¤w
Kæpron kaÜ aét°w tŒ pollŒ katestr¡canto
Pausânias foi enviado [como] comandante (fato pontual) pelos He-
lenos de Lacedemônia, a partir do Peloponeso, com 20 navios; na-
vegavam (ação concomitante) também conjuntamente Atenienses
com trinta navios e partiram (fato pontual) para Chipre e submete-
ram (fato pontual) a maior parte dela.
Tojik¯n kaÜ Þatrik¯n kaÜ mantik¯n ƒApñllvn Žneèren.
Apolo inventou a arte do arco, a médica e a divinatória (mera men-
ção do ato pontual no passado).
Éw õ Kèrow ¾syeto kraug°w, Žnep®dhsen ¤pÜ tòn áppon
Ësper ¤nyousiÇn
Assim que Ciro ouviu [percebeu] (fato momentâneo, pontual) o
alarido, saltou (fato pontual, isolado) sobre o cavalo como inspira-
do pela divindade. (Os dois atos são aoristo narrativo, porque en-
quadrados no passado.)
oß Peloponn®sioi ôlÛgon m¢n xrñnon ¦meinan, ¦peita de
¤tr‹ponto ¤w tòn P‹normon ÷yenper Žnhg‹gonto.
os Peloponésios permaneceram por pouco tempo; a seguir toma-
ram a direção de Panormos exatamente de onde reconduziram.
O último verbo poderia ser entendido em português como mais-
que-perfeito do indicativo. Em grego, não; o mais-que-perfeito do indica-
tivo grego nos daria a idéia de uma situação (resultado) no passado. Não é
o caso; são três atos isolados no passado (aoristo narrativo).
Basileçw ¤peÜ ·lye t‹xista ¤piy¡syai toÝw polemÛoiw
¤k¡leusen
o rei assim que chegou, imediatamente mandou atacar os inimigos
(dois atos isolados).
¦deisan polloÜ kaÜ ¦feugon eÞw t¯n y‹lattan (Xen., An., 6.6.7)
muitos ficaram com medo (fato isolado da ação de ficar com medo
= aoristo pontual) e se puseram a fugir para o mar (início e conti-
nuidade do ato de fugir = imperfeito).

mur04.p65 237 22/01/01, 11:37


238 o verbo grego

¤peid¯ Yhseçw ¤basÛleuse ¤w t¯n nèn pñlin oïsan p‹ntaw


sunÐkise (Tuc., 2, 15, 2)
quando Teseu se tornou rei ele fez todos coabitarem na cidade agora
existente (fatos vistos isolados, como um todo pontual e não na
sua realização).
ßeròn katest®santo oðper ¤poi®sato t¯n eéx®n (Isócr.,
Evág., 15)
Eles erigiram um templo exatamente no lugar em que ele fez [fize-
ra] a oração.
Dois fatos isolados no passado, sem nenhuma intenção de marcar
anterioridade de um em relação ao outro; a anterioridade está no contex-
to (a anterioridade seria expressa pelo particípio aoristo na secundária e o
resultado, pelo mais-que-perfeito).

toçw ¤k SerreÛou teÛxouw ¤j¡ballen oîw õ êm¡terow stra-


thgòw ¤gkat¡sthsen (Dem., Fil., 3, 15)
Ele se pôs a expulsar (início da ação que continuou - imperfeito) da
fortificação de Sereion os que o vosso comandante lá instalou (num
determinado momento: não relação direta de anterioridade; em
português poderíamos usar o mais-que-perfeito “tinha instalado/
instalara” sem a idéia de resultado no passado).
Kèron metap¡mpetai ¤k t°w Žrx°w ¸w aétòn satr‹phn
¤poÛhsen (Xen.)
Ele revoca Ciro do governo de que o fez [fizera] sátrapa. (São dois
fatos isolados: um isolado no passado = ¤poÛhse e outro presente
= metap¡mpetai, e não “tendo feito sátrapa o revocou”; a anterio-
ridade neste caso estaria expressa por um particípio aoristo, e um
mais-que-perfeito: resultado no passado).

mur04.p65 238 22/01/01, 11:37


o verbo grego 239

Acabado (perfectum)
É o ato acabado. Perfeito. É o resultado presente de um ato que
terminou. Sem conotação temporal nem espacial externa ou delimitada.
A conclusão do processo verbal é interna.
É o ato verbal que está completo e cujo resultado perdura até agora.
1. Resultado presente: perfeito
eàrhka - eu disse: já disse, acabei de dizer
eìrhka encontrei (afinal), achei
t¡ynhke ele morreu > está morto
m¡mnhmai estou lembrado (veio-me à memória)
k¡krage ele gritou - deu um grito, acabou de dar
¤spoædaka estou cheio de ardor (enchi-me de...)
ölvla perdi-me, estou perdido, arruinado
teyoræbhmai estou cheio de confusão, estou confuso
oäda eu vi > eu sei (resultado)
teyaæmaka eu me espantei > estou espantado
bebÛvke viveu (não mais está vivo), uixit
d¡doika estou cheio (tomado) de temor > eu temo
¤piteyæmhka Žkoèsai
fiquei cheio de ardor [estou cheio] de ouvir [estou desejoso de ouvir].
pefñbhmai tŒw oÞkeÛaw martÛaw µ tŒw tÇn ¤nantÛvn
dianoÛaw
estou [fiquei] com medo mais de nossas próprias falhas do que dos
projetos dos adversários.
³dh gŒr tet¡lestai ‘ moi fÛlow ³yele yumñw (Hom).
agora já acabou [ já se realizou, está realizado] o que meu querido
coração queria.
² pñliw ¦ktistai parŒ tÇn KorinyÛvn
a cidade foi fundada (o resultado está aí) pelos [da parte dos]
Coríntios.
tŒ xr®mata toÝw plousÛoiw ² tæxh oé dedÅrhtai ŽllŒ
ded‹neiken
aos ricos a Fortuna não deu de presente os bens, mas emprestou-os.

mur04.p65 239 22/01/01, 11:37


240 o verbo grego

õ pñlemow p‹ntvn ²mw Žpest¡rhken kaÜ gŒr penest¡rouw


pepoÛhke
a guerra nos privou [e estamos privados] de tudo; na verdade nos
fez mais pobres [e estamos pobres].
lñgow l¡lektai pw
todo o discurso [já] está dito.
² ŽtajÛa polloçw ³dh ŽpolÅleken (Xen., An., 3.1.38)
a desordem já arruinou muitos (resultado constatado; o emprego
do “jᔠreforça o sentido do ato terminado).
oß pefilosofhkñtew (Plat., Féd., 69b)
os que assumiram a qualidade de filósofos [e continuam sendo].
oämai sumf¡rein bebouleèsyai kaÜ pareskeu‹syai (Dem.,
Quers., 3)
Eu acho ser conveniente a deliberação já estar tomada [ter sido to-
mada] e os preparativos já feitos.
tŒw llaw politeÛaw eìroi n tiw metakekinhm¡naw kaÜ ¦ti
kaÜ nèn metakinoum¡naw (Xen., Rep. dos Lac., 15,1)
poder-se-ia achar as outras constituições que já sofreram modifica-
ções [já modificadas = part. perf. pass.] e que ainda agora estão so-
frendo modificações [estão sendo modificadas = part. pres. pass.].
beboæleusye oéd¢n aétoÜ prÜn µ gegenhm¡non µ gignom¡non
ti pæyhsye. (Dem., Fil., I, 41)
vós mesmos sobre nada deliberastes [não terminastes a deliberação]
antes de vos informardes ou que algo já aconteceu (gegenhm¡non,
part. perf.) ou estava acontecendo (gignom¡non, part. pres.).
² f‹lagj diaspasy®setai eéyçw kaÜ toèto ŽyumÛan poi®sei
÷tan tetagm¡noi eÞw f‹lagga taæthn diesparm¡nhn õrÇsin
(Xen., An., 4.8.10)
imediatamente a tropa será dispersada e isso provocará perda de
coragem quando, depois de [já] terem sido arranjados (tetagm¡noi,
part. perf. pass.) em fileiras, virem a tropa dispersada [dispersa]
(diesparm¡nhn, part. perf. pass.).
Neste exemplo o quadro imaginado é futuro (eventual), mas o va-
lor do part. perf. continua o mesmo, isto é, o resultado da ação.

mur04.p65 240 22/01/01, 11:37


o verbo grego 241

¤Œn toèto nikÇmen p‹nta ²mÝn pepoÛhtai


caso vençamos isso [se vencermos isso], tudo está feito [fica feito]
para nós (quadro futuro, eventual).
²g®sato aétoÝw Žn¯r P¡rshw doèlow gegenhm¡now tÇn
¤n Žkropñlei tinòw frourÇn (Xen., Cir., 7, 2, 3)
guiou-os um homem persa que se tinha tornado (e era ainda; gege-
nhm¡now, part. perf.) servo de um dos que eram vigias da cidadela.
taèta ¦lege spoud‹zousa tÒ ³yei Ëstƒ ¤m¢ taèta
pepeÝsyai
ela dizia essas coisas com ar tão sério que eu me convenci delas [fi-
quei convencido, na ocasião].

2. Resultado passado: mais-que-perfeito (só indicativo):

÷te ·lye õ fÛlow ¤gegr‹fein t¯n ¤pistol®n


Quando [no momento em que] chegou o [meu/nosso] amigo, eu
[ já] tinha escrito/escrevera a carta.
² OÞnñh ¤teteÛxisto kaÜ aétÒ frourÛÄ oß ƒAyhnaÝoi
¤xrÇnto (Tuc.)
Enoé estava cercada [tinha sido] de muralhas e os Atenienses se
serviam da própria guarnição.
©n ·n xvrÛon metrñpoliw aétÇn: eÞw toèto p‹ntew suner-
ru®kesan (Xen., An., 5.3.3.)
havia um só lugar, metrópole [capital] deles; para lá todos tinham
acorrido.
oé polçn Žn®lvse xrñnon Žllƒeéyçw ¤pepeÛkei (Ésquines,
C. Tim., 57)
ele não gastou muito tempo; ao contrário, rapidamente já tinha
persuadido.
eéyçw tÇn sukofantoæntvn tòn KrÛtona Žnhur®kei
pollŒ Ždik®mata (Xen., Mem., 2, 9, 5)
rápido ele [ já] tinha descoberto muitas injustiças dos que calunia-
vam Críton.

mur04.p65 241 22/01/01, 11:37


242 o verbo grego

¦legon ÷ti ƒAriaÝow pefeugÆw ¤n tÒ staymÒ eàh metŒ tÇn


llvn barb‹rvn ÷yen t» proteraÛ& Ërmhnto (Xen., An.,
2, 1, 3)
diziam que Arieu estaria refugiado [teria-se refugiado, e estava] jun-
to com os outros bárbaros no posto de onde no dia anterior eles
tinham atacado.
eðde lelasm¡now ÷ssƒ ¤pepñnyei (Hom.)
ele dormia, esquecido (lelasm¡now, part. perf. méd.) do que ti-
nha sofrido (¤pepñnyei, mais que perf. ativo).
¤n toÝw Dr‹kontow nñmoiw mÛa ‘pasin Ëristo toÝw
mart‹nousi zhmÛa: y‹natow
nas leis de Drácon uma só pena estava determinada [tinha sido
determinada] para todos os delinqüentes: morte.
¤peÜ ‘paj ³rjanto êpeÛkein, taxç d¯ psa ² Žkrñpoliw
¦rhmow tÇn polemÛvn ¤geg¡nhto
assim que, por uma vez, começaram a se retirar, rapidamente a ci-
dadela toda ficou [tinha ficado e estava] vazia de inimigos.
feægousin eÞw tòn staymòn ¦nyen Ërmhnto
eles fogem [estão fugindo] para a parada de onde tinham atacado.

3. Resultado futuro: Futuro perfeito (um ato estará terminado em uma


situação futura). Construído sobre o tema do perfeito, o seu uso não é
freqüente e é quase sempre empregado na voz passiva; é raro na voz
ativa.
oìtvw oß pol¡mioi pleÝston ¤ceusm¡noi ¦sontai (Xen., An.,
3, 2, 31)
dessa maneira os inimigos de preferência estarão enganados [esta-
rão numa situação de terem sido enganados].
pw õ parÆn fñbow lelæsetai
todo o medo presente estará dissipado [terá sido].
’n taètƒ eÞdÇmen tŒ d¡onta ¤sñmeya ¤gnvkñtew
se soubermos essas coisas [caso saibamos], estaremos em situação de
conhecedores do que é necessário.

mur04.p65 242 22/01/01, 11:37


o verbo grego 243

¤moÜ d¢ leleÛcetai lgea lugr‹ (Hom.)


os tristes sofrimentos me terão abandonado.
¤Œn taèta pr‹júw toÝw m¢n polemÛoiw ¤piteteixikÆw ¦sú,
filÛan d¢ pñlin diasesvkÅw, eékle¡statow d¢ ¦sú
se executares essas coisas [caso executes] tu te terás fortificado di-
ante dos inimigos, tu terás salvo uma cidade amiga e serás muito
glorioso.
fr‹son ÷ ti me deÝ poieÝn kaÜ pepr‹jetai
dize-me o que me é preciso fazer e estará feito.
÷te pei p‹nta pepraxÆw ¦somai
quando [no momento em que] partires eu já terei executado tudo
[estarei numa situação de ter executado].
÷tan Žkoæsúw toè salpigktoè lelukñtew ¤sñmeya
quando ouvires [caso ouças] o tocador de trombeta estaremos soltos
[estaremos em situação de termo-nos livrado].
toÝw kakoÝw memÛjetai tŒ ¤syl‹
com as coisas más estarão misturadas [terão sido] coisas boas.

mur04.p65 243 22/01/01, 11:37


244 o verbo grego: os modos

Os modos
É a maneira como se realiza o ato verbal.
É uma visão externa do processo verbal.
É uma “species”, como diz Varrão.
A palavra “aspecto” caberia melhor ao modo do que ao que con-
vencionalmente chamamos aspecto. O modo, na verdade, é um “eädow”
isto é, uma aparência, uma forma exterior.
O modo depende do enunciante, que imprime ao processo verbal a
sua vontade, a sua visão, a sua intenção. Ele passa ao receptor uma reali-
dade vista à maneira pela qual ele quer que o receptor a aceite.
Há quatro modos verbais em grego.

Indicativo

Exprime a realidade objetiva, como ela é de fato, e a realidade


subjetiva, como ela é no entendimento do emissor, mas que não o é ne-
cessariamente na mente do receptor.
São as chamadas proposições enunciativas em que há uma declara-
ção, uma afirmação:
As uvas estão verdes, diz a raposa - realidade subjetiva
As uvas estavam verdes, diz o narrador - realidade objetiva 2
Do mesmo modo que o indicativo exprime a realidade, ele o faz
também com a irrealidade objetiva ou possível.
Não há dúvidas na irrealidade subjetiva ou objetiva:
As uvas não estão / não estavam maduras.
Mas,
Se as uvas estivessem maduras eu as comeria (não estão maduras e
eu não as como/comerei) - irrealidade hipotética presente.
Se as uvas tivessem caído no chão a raposa as teria comido (não
caíram no chão e a raposa não as comeu) - irrealidade hipotética passada.

2 Há inúmeros exemplos do indicativo real, na p. 248, entre outras.

mur04.p65 244 22/01/01, 11:37


o verbo grego: os modos 245

Nesses dois casos o grego emprega:


• o indicativo imperfeito no primeiro caso (irrealidade hipotética
presente), tanto na condicionante (prótase) quanto na condicio-
nada (apódose).
Há coerência, porque, se o indicativo exprime a realidade, ipso
facto deve exprimir também a irrealidade.
• o indicativo aoristo no segundo caso (irrealidade hipotética pas-
sada), tanto na condicionante (prótase) quanto na condicionada
(apódose).
Como no caso da irrealidade presente, também aqui o uso do
indicativo é semanticamente coerente.

Apenas o grego usa eÞ para introduzir a condicionante (prótase) e


n para introduzir a condicionada (apódose).
Em português clássico ou erudito, o emprego do indicativo nas fra-
ses acima não é raro. O que mudou foi apenas o uso, que revestiu a irrea-
lidade de uma atmosfera nebulosa expressa pelas formas “passadas” do sub-
juntivo e pelo condicional, que, veremos mais adiante, são o optativo grego.
Mas, se disséssemos “Se as uvas eram (estavam) maduras eu as co-
mia” (Não estão e eu não as como), não estaríamos incorrendo em erro.
Os exemplos a seguir (cerca de 70) têm por objetivo ressaltar que
o indicativo exprime a certeza, a realidade em qualquer tipo de enuncia-
do (consecutivo, causal, real, irreal, modal, concessivo) e que ele vale por
si mesmo e não porque o enunciado está classificado neste ou naquele
modo sintático.
Nos exemplos arrolados a seguir poderemos constatar que em gre-
go, em qualquer contexto em que esteja, o indicativo é a expressão do real
ou do irreal, indicados de várias maneiras, com a partícula (conjunção)
supositiva eÞ e a partícula potencial n.

Expressão da irrealidade:

êpñ ken talasÛfron‹ per d¡ow eåle


o medo teria [poderia ter] se apoderado até de um corajoso (mas
não se apoderou; irreal do passado: indicativo aoristo).

mur04.p65 245 22/01/01, 11:37


246 o verbo grego: os modos

basileçw smenow ’n toçw ƒAyhnaÛouw eÞw t¯n summaxÛan


prosed¡jato
O rei teria [poderia ter] aceito com prazer os Atenienses na alian-
ça (mas não aceitou; irreal do passado: indicativo aoristo).
ƒEgÆ dƒ ¤boulñmhn ’n aétoçw Žlhy° l¡gein (Lísias)
Eu queria [quereria] que eles estivessem dizendo a verdade. [Eu os
queria estarem dizendo a verdade (mas não estão).]
Eà ti eäxon ¤dÛdoun n.
Se eu tivesse algo eu daria. [Se eu tinha eu dava; mas não tenho.]
EÞ m¯ ³lyete ¤poreuñmeya ’n ¤pÜ tòn basil¡a (Xen.)
Se vós não tivésseis chegado nós estaríamos marchando contra o grande
rei. [Se vós não chegastes nós não estávamos marchando. Mas vós
chegastes e nós estávamos marchando contra o rei.]
Oék ’n n°son ¤kr‹tei eÞ m® ti kaÜ nautikòn eäxen (Tuc.)
Ele não estaria dominando a ilha se não tivesse algo e também uma
esquadra. [Mas ele está dominando a ilha e tem a esquadra.]
…Wietñ tiw n
Alguém poderia acreditar [não acredita].
TÛ sig˜w; oék ¤xr°n sign (Eur.)
Por que silencias? Não deverias [devias] silenciar.
Pèr ’n oé par°n (Sóf)
O fogo faltava. [estaria faltando, às vezes, freqüentemente]. (o ’n
marca o enfraquecimento da afirmação)
„R®matƒ ’n bñeia dÅdekƒ eäpen (Aristóf.)
E lá disse ele [teria dito] uma dúzia de palavrões [do tamanho de
um boi] (o ’n marca a atenuação da afirmação).
Eàye soi tñte sunegenñmhn (Xen.)
Oxalá eu tivesse encontrado contigo então! [mas não me encontrei.]
Eàye m®poyƒ ´marten
Oxalá ele nunca tivesse falhado! [mas falhou]
Freqüentemente nas exclamativas, ou interrogativas que exprimem
ou perplexidade ou uma descrença (irrealidade latente), o indicativo con-
corre com o optativo, segundo o grau de firmeza ou dúvida do enunciante.

mur04.p65 246 22/01/01, 11:37


o verbo grego: os modos 247

DiŒ toçw Žnyistam¡nouw êmeÝw ¤st¢ sÇoi: ¤peÜ diŒ gƒ êmw


aétoçw p‹lai ’n ŽpolÅleite (Dem.)
É por vossos adversários que estais sãos e salvos, porque por vós
mesmos já há muito estaríeis arruinados (causa, fato real).
ƒEpisteuñmhn êpò tÇn LakedaimonÛvn: oé gŒr n me
¦pempon pròw êmw (Xen.)
Eu tinha a confiança dos Lacedemônios [era acreditado por], por
que se não, eles não me enviariam para vós (real e depois irreal do
presente).
¦nya d¯ ¦gnv n tiw
Naquele momento alguém poderia ter tomado conhecimento [mas
não tomou (irreal do passado = indicativo aoristo)].
ƒAllƒ Êfele Kèrow z°n;
Ah! se Ciro estivesse vivo! [mas não está (irreal do presente = indi-
cativo imperfeito)].
Sun¡bh “ m®potƒ Êfele (sumbaÛnein)
Aconteceram as coisas que não deveriam [não deviam acontecer].
±boulñmhn n
eu quereria / quisesse eu / eu queria [mas não quero] (irreal do pre-
sente / potencial = indicativo imperfeito).
±dun‹mhn n
eu poderia / pudesse eu [mas não posso] (irreal do presente / poten-
cial = indicativo imperfeito).
E mais algumas expressões de uso muito constante:
¤j°n seria (era) preciso, permitido, possível
eÞkòw ·n seria (era) natural, verossímil, justo
kalÇw eäxen seria (era) bonito
kalÇw ·n seria (era) bonito
jion ·n seria (era) digno
dÛkaion ·n seria (era) justo
¦dei seria (era) preciso
¤xr°n seria (era) bom, útil, preciso
pros°ke(n) seria (era) conveniente, decente
Êfele(n) seria (era) útil (ajudaria)

mur04.p65 247 22/01/01, 11:37


248 o verbo grego: os modos

Expressão da realidade:

Mas o uso desses mesmos verbos no presente, aoristo e futuro do


indicativo sem n exprime uma realidade. São enunciativas, afirmativas,
declarativas.
T°w Žret°w ßdrÇta yeoÜ prop‹roiyen ¦yhkan
Na frente da virtude [excelência] os deuses colocaram o suor.
‰Arƒ oïn m¯ kaÜ ²mÝn ¤nantiÅsetai; (Xen.)
Será então que ele não se oporá também a nós? (o futuro “indicati-
vo” exprime sempre uma certa antecipação da certeza)
…Allo ti µ dianoeÝ ²mw Žpol¡sai; (Plat.)
É outra coisa ou ele medita [trama] nos arruinar? [não é verdade
que?] (indicativo real)
TÛw soi dihgeÝto ; µ aétòw Svkr‹thw;
Quem te dizia isso? ou [não é?/a não ser] o próprio Sócrates? (in-
dicativo real)
TÛ ŽdikhyeÜw ¤pibouleæeiw moi;
Prejudicado em quê tu estás tramando [tramas] contra mim?
Pñyƒ “ xr¯ pr‹jete; ¤peid‹n ti g¡nhtai; (Dem.)
Quando fareis o que é preciso? (ind. real) Depois que algo aconte-
cer [aconteça]? (eventual)
Oéd¢n ÷ ti m¯ ¤rg‹thw ¦sú (Luc.)
Tu não serás nada que não mão-de-obra (eventual com grau de
certeza).
deÝ prò toè polemeÝn ¤sk¡fyai tÛw êp‹rjei paraskeu¯ tÒ
genhsom¡nÄ pol¡mÄ
É preciso, antes de empreender a guerra, já ter refletido que recur-
sos estarão à disposição para a guerra vindoura.
jion (¤sti) êmw mou Žkoèsai
é justo vós me ouvirdes.
…Hretñ me tÛw eÞmÛ. [eàhn]
Ele me perguntou quem eu sou [seria]

mur04.p65 248 22/01/01, 11:37


o verbo grego: os modos 249

Oäsya Eéyædhmon õpñsouw ôdñntaw ¦xei; (Plat.)


Sabes quantos dentes tem Eutidemo?
DokÇ moi Žkoæein.
Eu pareço estar ouvindo. [Parece-me que ouço.]
DokeÝ moi mart‹nein.
Tu me parece errar. [Parece-me que está errando.]
L¡gv ÷ti yeñw ¤stin.
Eu digo que existe um deus.
Oäda ÷ti yeñw ¤stin.
Eu sei que existe um deus.
XaÛrv ÷ti eédokimeÝw (Plat.)
Eu me alegro [por] que tens boa fama.
Oék aÞsxænomai eÞ tÇn nñmvn ¦latton dænamai. (And.)
Eu não sinto vergonha se tenho menos poder do que as leis.
Oäda ÷stiw eä
Eu sei quem tu és.
ƒAnerÅta aétòn pñteron boæletai m¡nein µ oë. [µ m®]
Pergunta-lhe de novo se ele quer ficar ou não.
TÛ gŒr ¾dh eà ti kŽkeÝnow eäxe sid®rion; (Lísias)
Pois em que eu sabia se também ele tinha um punhal?
Leæsete oåa pròw oávn ŽndrÇn p‹sxv; (Sóf.)
Vede que coisas diante de que homens eu estou sofrendo.
ƒHrÅta §kaston eà tina ¤lpÛda ¦xei.
Ele interrogava a cada um se tinha [tem] alguma esperança.
Oék oädƒ ÷pvw ’n ¦prajen. (Isócr.)
Eu não sei como ele agiu [teria agido]
Foboæmeya m¯ Žmfot¡rvn ‘ma ²mart®kamen (Tuc.)
Nós temos receio que falhamos nos dois objetivos [na realidade já
falhamos].
Eéyçw Žnast‹w, oìtv deèro ¤poreuñmhn (Plat.)
Assim que me levantei [direto tendo-me posto de pé] pus-me a
caminho daqui.

mur04.p65 249 22/01/01, 11:37


250 o verbo grego: os modos

Oéd¢n llo ¦xv eÞ m¯ toèto.


Não tenho nada outro a não ser [senão] isso (realidade).
ƒEp¡pese xiÆn pletow Ëste Žp¡kruce tŒ ÷pla (Xen.)
Caiu uma neve abundante que cobriu as armas [a tal ponto que
(consecutiva, fato real)].
Tosoætou d¡v ôrgÛzesyai Ëste kaÜ eéfraÛnomai.
Careço tanto de me irritar que até estou contente. (consecutiva, fato real)
„UmÝn p¡mcv ndraw oátinew summaxoèntai (Xen.)
Eu vos enviarei homens que combaterão junto [para combaterem
junto]. (consecutiva, fato real)
TÛw oìtv maÛnetai ÷stiw oé boæletaÛ soi fÛlow eänai; (Xen.)
Quem está delirando a tal ponto que não quer ser teu amigo?! (con-
secutiva, fato real)
Oàontai politikoÜ eänai ÷ti ¤painoèntai épò tÇn pollÇn.
(Plat.)
Porque são elogiados pela massa eles se crêem homens de estado. [eles
crêem ser homens] (causa, fato real)
Oék ·n kr®nh ÷ti m¯ mÛa ¤n t» Žkropñlei (Tuc.)
Não havia fonte a não ser uma na acrópole. (fato real)
EÞ kaÜ m¯ bl¡peiw froneÝ ÷mvw (Sóf.)
Mesmo se és cego, assim mesmo tu pensas. (concessiva,fato real)
AÞsxunoÛmhn toèto õmologeÝn ¤peÜ polloÛ g¡ fasin (Plat.)
Eu me envergonharia de admitir isso uma vez que [se] muitos afir-
mam [afirmem]. (concessiva, fato real)
Taèta ¤poÛoun m¡xri skñtow ¤g¡neto (Xen.)
Eles ficaram fazendo essas coisas até que chegou a noite.
Nèn ¤peÜ p¡nhw geg¡nhmai (Xen.)
Agora porque [depois que] fiquei pobre...
Oék ³yele feægein prÜn ² gun¯ aétòn ¤peisen (Xen.)
Ele não queria evadir-se antes que a mulher o persuadiu. [até que].
L¡ge d¯ t¯n ¤pistol¯n ¶n ¦pemce FÛlippow (Dem.)
Dize, então, a mensagem que Felipe enviou.

mur04.p65 250 22/01/01, 11:37


o verbo grego: os modos 251

Nèn eÞl®famen ù p‹lai kaÜ polloÜ tÇn sofÇn zhtoèntew


prÜn eêreÝn kateg®rasan (Plat.)
Nós agora entendemos [captamos] o que há muito muitos sábios
envelheceram procurando antes de encontrar.
†Wsper tŒ xalkeÝa plhg¡nta ±xeÝ kaÜ oß =®torew oìtv
(Plat.)
Como os objetos de bronze ressoam quando batidos, assim tam-
bém os oradores.
†OsÄ mllon pisteæv êmÝn tosoætÄ mllon ŽporÇ.
(Plat.)
Quanto mais eu confio em vós tanto mais fico sem saída [em
dificuldade].
SoÛ sumf¡rei tŒ aétŒ kaÜ ¤moÛ.
A ti interessam as mesmas coisas que a mim.
Yaumastòn poieÝw ùw oéd¢n dÛdvw (Xen.)
Ages de maneira estranha, tu que não nos dás nada.
ˆA m¯ oäda oéd¢ oàomai eÞd¡nai (Plat.)
Aquilo que por acaso não sei nem mesmo acho que sei. [não julgo
saber].

Expressão da condição:

No item “irrealidade” há inúmeras frases hipotéticas, condicionais,


supositivas. O uso do modo depende do significado da condição; se é
real, é indicativo (eÞ), se é irreal, indicativo (eÞ - n); se potencial, o
optativo (eÞ - n); se eventual, o subjuntivo ou futuro (eÞ - ¤‹n).

EÞ Žn‹gkh ¤stÜ m‹xesyai deÝ paraskeu‹sasyai (Xen.)


Se é necessário lutar [entrar na luta] é preciso preparar-se. (exprime
um fato afirmativo, da realidade subjetiva)
EÞ m¯ kay¡jeiw glÇssan ¦stai soi kak‹ (Eur.)
Se não retiveres [caso não retenhas] a língua, desgraças vão te acon-
tecer. (suposição eventual, com grande certeza)

mur04.p65 251 22/01/01, 11:37


252 o verbo grego: os modos

EÞ m¢n oïn taèta l¡gvn diafyeÛrv toçw n¡ouw taètƒ’n


eàh blaber‹ (Plat.)
Se dizendo [ao dizer] essas coisas eu corrompo os jovens, então es-
sas coisas seriam danosas. (condição real no primeiro verbo; no se-
gundo o optativo atenua a conclusão)
PollŒ eÞpeÝn ’n ¦xoien oß ƒOlænyioi nèn “ tñtƒ eÞ proeÛdonto
oék ’n ŽpÅlonto (Dem.)
Os Olíntios poderiam dizer agora (potencial - atenuação da afir-
mação) muitas coisas que, se tivessem previsto antes, não teriam su-
cumbido. (irreal do passado)
Oék ¤dænatƒ’n pr‹ttein “ ¤boæleto (Xen).
Ele não podia [poderia] fazer o que queria [quisesse].
ôlÛgou t¯n pñlin eålon
Por pouco [faltou pouco, de pouco] eles tomaram a cidade.
O emprego do indicativo é coerente: ele sempre exprime a realida-
de objetiva ou subjetiva e também a irrealidade objetiva ou subjetiva (em
português às vezes sob forma supositiva).

Observação importante:
Nas orações supositivas (hipotéticas), a idéia de tempo não está presente
nem no indicativo; o que há é apenas o aspecto; mas, quando o tema de qual-
quer aspecto recebe o aumento ¤- passa a exprimir o passado de cada um deles:
o passado do presente: imperfeito, aumento anteposto ao tema do
infectum;
o aoristo narrativo (enquadrado ou pontual): (pretérito simples
em português) ou aoristo gnômico (presente simples em português),
aumento anteposto ao tema do aoristo;
mais-que-perfeito: passado do perfeito (mais-que-perfeito simples
ou composto em português), aumento anteposto ao tema do perfectum.
Outros exemplos de indicativo podem ser encontrados no capítulo
que trata dos aspectos verbais. O objetivo do grande número de exem-
plos é insistir no valor semântico autônomo das formas verbais. O
enquadramento sintático leva a esquemas formalistas, que provocam a
criação de regras de regência e de correlação complexas, quando é muito
mais facil se ater ao significado intrínseco da forma verbal.

mur04.p65 252 22/01/01, 11:37


o verbo grego: os modos 253

Subjuntivo

Exprime o fato eventual, provável, futuro. O nome “subjuntivo” ou


“conjuntivo” cobre apenas uma parte do significado: quando exprime uma
finalidade ou um fato futuro dependendo de uma eventualidade. Na pro-
posição independente ele é volitivo (pedido, conselho) deliberativo,
desiderativo, que são as várias facetas da eventualidade.
Trouxe água para que bebas. - final
Se trouxeres água eu beberei - eventual
Caso tragas água eu beberei - eventual
Quando (sempre que) os homens bebem eles são ricos, ajudam os ami-
gos, são felizes - eventual
O subjuntivo exprime também a exortação e a deliberação (que são
fatos eventuais, futuros).
Corram que chegarão a tempo - exortativo
Vamos mais depressa? - deliberativo
O que farei? O que faremos? - deliberativo
Por exprimir um fato eventual, provável, futuro ou uma antecipação
não há em grego o perfeito, o imperfeito e o mais-que-perfeito do subjuntivo
que não exprimem eventualidade. Por isso devemos traduzir o subjunti-
vo grego ou pelas formas do subjuntivo presente, do subjuntivo futuro ou
pelo infinitivo preposicionado (para) ou com conjunção (a fim de / que).
É inútil procurar outras traduções para o subjuntivo grego; a idéia
do eventual-futuro permanece. Não é por mero acaso que em grego não
haja subjuntivo futuro.
Sempre que leio Homero, eu sinto prazer.
Esse “indicativo” leio, na medida em que não é uma realidade obje-
tiva única, mas um fato repetido, ou seja, eventual, o grego, coerente-
mente, o exprime com ¤‹n/n e subjuntivo. Em português poderíamos
chamá-lo de “indicativo eventual”
Outra observação incontestável: as desinências do subjuntivo são
primárias, qualquer que seja a voz e o aspecto. É que a noção da eventu-
alidade tem o presente como ponto de partida e as desinências primárias
são do presente e do eventual, que é uma antecipação do futuro.

mur04.p65 253 22/01/01, 11:37


254 o verbo grego: os modos

No latim, o eventual se exprime pelo presente do subjuntivo ou


pelo futuro (indicativo).
Em grego há tantos subjuntivos quantos são os aspectos e vozes,
mas, como já foi dito, não há subjuntivo futuro! Seria redundante.
As três formas do subjuntivo são:
• Subjuntivo presente (tema do infectum, inacabado): entrada no
ato verbal
• Subjuntivo aoristo (tema do aoristo): isolado, pontual
• Subjuntivo perfeito (tema do perfectum): ato verbal acabado.
Não há idéia de tempo no subjuntivo.

1. Nas orações independentes

a) Deliberativo
PerÜ toætvn d¢ l¡gvn pñyen rjvmai;
E falando a respeito dessas coisas, de onde eu começarei? [vou co-
meçar = incipiam] (subj. aoristo = apenas o ato verbal)
tÛ d¢ prÇton l¡gv; (Plat., Górg.)
O que direi [vou dizer, dicam] primeiro? (subj. pres. = entrada no
processo verbal)
PoÝ tr‹pvmai;
Para onde eu me dirijo? [Para onde eu vou me dirigir? Para onde
me viro?] (subj. aoristo = apenas o ato verbal)
Eàpvmen µ sigÇmen;
Vamos falar [falaremos] ou permanecemos [permaneceremos] ca-
lados? (Eàpvmen, subj. aoristo = apenas o ato verbal; sigÇmen,
subj. pres. = entrada no ato verbal)
PoÝ katafeægvmen;
Para onde vamos fugir? [iniciar a fuga?] (subj. pres. = entrada no ato
verbal)
Boælei soi ônom‹zv toçw ¥pt‹ sofoæw;
Queres [que] eu te cite [nomeie] os sete sábios? (subj. pres. = inicie
o ato de citar)

mur04.p65 254 22/01/01, 11:37


o verbo grego: os modos 255

Boælei soi ônom‹sv toçw ¥ptŒ sofoæw;


Queres [que] eu te cite os sete sábios? (subj. aoristo = ato pontual
de citar)
– PÇw s¢ keÛrv;
– SivpÇn.
– Como vou fazer tua barba? (subj. pres.)
– Calado.
toèton eÞr®nhn gein ¤gÆ fÇ pròw êmw;
eu vou dizer para vós que esse homem está em paz?

b) Exortativo: exortação, persuasão positiva ou negativa. Pode ser ligada


a tonalidades de imperativo, no seu sentido de modo do diálogo e não
da ordem ou proibição.
F¡re àdvmen eà ti ¤dÅdimon ² p¡ra ¦xei.
Vamos, vejamos [vamos ver, veremos] se tua sacola tem algo co-
mestível. (subj. aor. = o ato pontual de ver)
…Ivmen d¯ kaÜ m¯ m¡llvmen ¦ti;
Vamos indo e não mais hesitemos! (subj. pres.)
…Ivmen;
Vamos! [Eamus!] (subj. pres. = entrada no ato)
…Age d®, àdv;
Vamos lá! que eu veja! (subj. aor.= ato pontual)
yumÒ g°w perÜ t°sde maxÅmeya kaÜ perÜ paÛdvn yn®skvmen;
Com coragem lutemos por esta terra e morramos pelos nossos fi-
lhos! (subj. pres.= iniciemos a luta e morramos)
FeidÅmeyƒ ŽndrÇn eégenÇn, feidÅmeya;
Poupemos, poupemos os homens nobres! (subj. pres.= vamos poupar)

c) Desiderativo (positivo ou negativo)


M¯ lÛan pikròn eÞpeÝn  (Dem.)
Que não seja muito duro [azedo] de dizer!
M¯ yorub®shte;
Não façais barulho! (subj. aor. = o ato verbal em si)

mur04.p65 255 22/01/01, 11:37


256 o verbo grego: os modos

M¯ oék  didaktòn Žret®. (Plat.)


Que a virtude não seja algo ensinável! (subj. pres. = não há noção
aorista do ser, mas pode haver a noção eventual)
M¯ poi®súw;
Não faças! (subj. aor. = o ato em si)
Mhd¢n Žyum®shte §neka tÇn gegenhm‹tvn;
Não vos desencorajeis diante do que aconteceu! (subj. aor. = o ato
em si)
MhdenÜ sumforŒn ôneidÛsúw;
A ninguém desejes desgraças! (subj. aor. = o ato em si)
MhdeÜw yaum‹sú;
Ninguém admire! (subj. aor.= o ato em si)
MhdeÜw êpol‹bú me boælesyai layeÝn. (Plat.)
Que ninguém suspeite que eu quero [estou querendo] dissimular.
(subj. aor. = o ato em si)
SiÅpa, mhd¢n eàpúw n®pion; (Aristóf.)
Cala-te, não digas nenhuma bobagem! (subj. aor.)
m®pv ¤keÝse àvmen, prÑ g‹r ¤stin, ŽllŒ deèro ¤janas-
tÇmen eÞw t¯n aél®n (Plat., Prot., 311a)
Não vamos ainda para lá, pois ainda é cedo, mas levantemo-nos
aqui e vamos para o quintal

2. Nas orações dependentes

a) Intenção, finalidade: fato futuro, eventual

Conjunções usadas ána, Éw para que, que > subj.


para > inf.
÷pvw (n) de modo a que

Kr‹zv ána mou Žkoæú.


Estou gritando para que ele me ouça. [passe a me ouvir] (subj. pres.)

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o verbo grego: os modos 257

Kñsmiow àsyi ÷pvw m¯ kol‹zú.


Sê bem comportado para que [de modo a que] não sejas punido. [pas-
ses a ser punido] (subj. pres.)
Toçw n¡ouw eÞw paidotrÛbou p¡mpousin ána sÅmata
beltÛv ¦xvsin. (Plat.).
Eles mandam os jovens ao mestre de ginástica para que tenham os
corpos melhores. [passem a ter, e mantenham] (subj. pres)
DeÝ tòn dhmotikòn ŽndreÝon eänai ána m¯ parŒ toçw
kindænouw ¤gkataleÛpú tòn d°mon. (Ésquines)
É preciso o representante do povo ser corajoso para que não o aban-
done nas situações de perigo. (subj. pres.= idéia permanente)
†Opvw m¯ Žpoy‹nú ßk¡teuen. (Lísias)
Ele suplicava para não morrer [para que não morresse] (subj. aor. =
o ato em si)
M¯ fyñnei toÝw eétuxoèsin m¯ dok»w eänai kakñw.
Não inveja [invejes] os felizes para que não pareças mau. [fiques
parecendo] (subj. pres.)
Toçw fÛlouw eï poÛei ána aétòw eï pr‹ttúw.
Faze [faça] o bem/sê benfazejo a teus amigos para que tu mesmo
passes bem. (subj. pres. = entrada na ação)
L¡gv soi t‹de ÷pvw ’n m¯ ¤pil‹yú.
Eu te digo estas coisas para que não te esqueças. [de modo a que
não esqueças] (subj. aor.= o ato em si)
…Eprassen ÷pvw pñlemow g¡nhtai. (Tuc.)
Ele trabalhava para que a guerra aconteça (subj. aor= o ato em si)
ƒEpimelÅmeya ÷pvw ’n oß n¡oi mhd¢n kakourgÇsin. (Plat.)
Tomemos cuidado para que [de modo a que] os jovens não façam
nenhum mal. (subj. pres. = entrem no ato de)
Eélaboè m¯ p¡súw;
Toma cuidado [para que] não caias! (subj. aor. o ato em si)
SugxvrÇ ána soi xarÛsvmai. (Plat.)
Concordo [acompanho] para que te agrade [para te agradar]. (subj.
aor. = o ato em si)

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258 o verbo grego: os modos

b) Circunstâncias temporais de indeterminação (fato repetido no pre-


sente ou no futuro) temporais, hipotéticas, relativas.
A partícula por excelência do eventual é ¤‹n / ³n / n, se, no
caso de, caso, e ela pode vir enfatizando outras conjunções ou adverbios:
÷tan (÷te n) quando (eventual) - sempre que
¤p®n (¤peÜ n), desde que, depois que, assim que, a partir
¤peid‹n (¤peid® n) do momento em que (eventual)
§vw, ¦ste, m¡xri (n) até que, até
¤n Ú (n) em que, no que, enquanto
¤j oð, Žfƒ oð (n) do que, a partir do que, desde que
prÛn (n) antes, antes que

Não há necessidade de pormenorizar se a oração é causal, tempo-


ral, final, concessiva ou condicional, embora seja útil para a compreensão
do contexto; mas não se trata de “regência”; desde que há uma eventua-
lidade ela é expressa pelo subjuntivo. É o que importa.

Toçw llouw õrÇ toçw kinduneæontaw ¤peidŒn Îsi perÜ


t¯n teleut¯n t°w ŽpologÛaw ßketeæontaw. (Isócr.)
Eu vejo os outros acusados, quando [sempre que] estão perto do
fim da defesa, suplicantes. (subj. pres. = fato em si: eventual; indi-
cativo em português.).
Tò g¡now tÇn Yr&kÇn ¤n Ú ’n yars®sú fonikÅtatñn
¤stin. (Tuc.)
A raça dos Trácios, no que [enquanto, sempre que] está segura é
muito sanguinária. (subj. aor. = fato em si: eventual)
Tò tettÛgvn g¡now g¡raw toètƒ ¦labe ›dein §vw ’n
teleut®sú. (Plat.)
O gênero das cigarras recebeu esse dom de cantar até que morra
[até morrer]. (subj. aor. = o ato em si = eventual)
„O m¢n oïn Pl‹ttvn fhsÜ tñte tŽnyrÅpeia kalÇw §jein
÷tan µ oß filñsofoi basileæsvsi µ oß basileÝw filo-
sof®svsin. (Pol.)
Pois bem, Platão diz que os negócios dos homens estarão bem na-
quele momento em que [quando, sempre que] ou os filósofos reina-
rem ou os reis filosofarem. (subj. aor.)

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o verbo grego: os modos 259

ƒEŒn gŒr ¤m¢ ŽpokteÛnhte oé =&dÛvw llon toioèton


eêr®sete. (Plat.)
Na verdade, se vós me matardes [caso me mateis] não facilmente
achareis um outro igual. (subj. aor.)
ƒƒEŒn zht»w kalÇw eêr®seiw. (Plat.)
Se procurares [caso procures] bem, acharás. (subj. aor.)
‡An glaçj Žnakr‹gú, dedoÛkamen. (Men.)
Uma coruja pia e estamos com medo. [Se uma coruja pia estamos
com medo.] (subj. aor = o ato em si)
‡Hn ¤ggçw ¦lyú y‹natow oédeÜw boæletai yn¹skein. (Eur.)
Se a morte chega perto, ninguém quer morrer. [caso chegue, sem-
pre que] (subj. aor. = o ato em si)
Oé mñnon ¤n t»de t» pñlei dænatai pr‹ttein ÷ ti boælh-
tai Žllƒ ¤n p‹sú t» „Ell‹di. (Plat.)
[Péricles] pode fazer o que quer [por acaso queira] não só nesta
cidade, mas em toda a Grécia. (subj. pres. = fato habitual)
M¯ Žp¡lyhte prÜn ’n Žkoæshte moè. (Xen.)
Não vades [não vos retireis] antes que me ouçais. [de me ouvir] (subj.
aor. = o ato em si)
ƒApñmnusi mhd¢n pr‹jein prÜn ’n t¯n toè †Ektorow ke-
fal¯n ¤pÜ tòn toè Patrñklou t‹fon ¤n¡gkú. (Ésquines)
[Aquiles] jura nada fazer [que nada fará] antes que traga [que trou-
xer, de trazer] a cabeça de Heitor sobre o túmulo de Pátroclo. (subj.
aor. = o ato em si)
†Otan keleæsú, ¤Œn keleæsú, ù ’n keleæsú pr‹jv.
Quando ele manda [sempre que mande], se ele mandar [caso ele
mande], o que ele mandar [o que mande], farei. (subj aor. = even-
tual = o ato em si, pontual)
†Otan keleæú, ¤Œn keleæú, ÷ ti ’n keleæú pr‹ttv
Quando ele manda [sempre que] se ele manda, o que ele manda/
mande eu faço. (subj. pres. = eventual, fato repetido, habitual; in-
fectum, entrada e permanência no ato verbal)
ƒEpeidŒn diapr‹jvmai ´jv. (Xen.)
Quando [depois que] terminar eu virei. (subj. aor., o ato em si)

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260 o verbo grego: os modos

ƒEpeidŒn t‹xista ßppeæein m‹yúw diÅjei yhrÛa.


Imediatamente assim que aprendas [aprenderes] cavalgar persegui-
rás animais selvagens. (subj. aor. = o ato em si)
oß oÞnoxñoi ¤peidŒn didÇsi t¯n fi‹lhn eÞw t¯n ŽristerŒn
xeÝra ¤gxe‹menoi katarroroèsin. (Xen.)
Os escanções, assim que eles entregam a taça, derramando na mão
direita eles engolem. (subj. pres. = fato repetido, habitual)
ƒEgÅ se oék¡ti Žf®sv prÛn n moi “ êp¡sxhsai ŽpodeÛjúw
Eu não te deixarei partir antes que me mostres o que prometeste.
(subj. aor. = o ato em si)
Periiñntew aétoè diatrÛcvmen §vw ’n fÇw g¡nhtai. (Plat.)
Passemos o tempo dando voltas no mesmo lugar, até que a luz [o
dia] apareça. (subj. aor. = o ato em si)
Strateæontai õpñtan tiw aétÇn d¡htai. (Xen.)
Eles se engajam no exército quando [sempre que] alguém precisa
[precise] deles. (subj. pres. = ato habitual)
Poi®somai t¯n ŽpologÛan Éw ’n dænvmai. (Lísias)
Farei a defesa como puder. [como possa]. (subj. pres.)
EŒn Levkr‹thn Žpolæshte prodidñnai t¯n pñlin
chfieÝsye. (Lísias)
Se absolverdes [caso absolvais] Leócrates vós votareis trair [estar tra-
indo] a cidade. (subj. aor., o ato em si)

c) Interrogativas indiretas com idéia de eventualidade


Chamamos “interrogativas indiretas” as interrogativas dependentes,
isto é, as orações completivas subordinadas com significado interrogativo:
Direta : “Quem fez isto?”
Indireta: “Quero saber quem fez isto.”

„OrÇ se Žporoènta poÛan õdòn ¤pÜ tòn bÛon tr‹pú.


Eu te vejo hesitante que caminho tomar [tomes] na vida. (subj. aor.
= o ato em si)

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o verbo grego: os modos 261

D¡doika m¯ oé ¤pilayÅmeya t°w oàkade õdoè.


Tenho receio de que não nos esqueçamos do caminho para casa. (subj
aor. =o ato em si)
M®thr ¤n oàkoiw, ¶n sç m¯ deÛsúw, (Sóf.)
Minha mãe está nos aposentos; não a temas! (subj. aor. = o ato em si)
DeÛdv: m® ti p‹yhsi; (Hom.)
Estou com medo; que ele sofra algo! (subj. aor.= o ato em si)
Sæ m¢n Žpñstixe, m® ti no®sú †Hrh; (Hom.)
Tu, fica distante; que Hera não pense algo! (subj. aor.= o ato em si)
Foboèmai m¯ toèto Žlhy¢w Â.
Temo que isso seja verdade! (subj. pres. = seja e permaneça)

Optativo

Exprime, no presente, a possibilidade (possível), a afirmação atenu-


ada, o voto não realizável (irreal do presente) ou o voto possível e, no pas-
sado, o fato repetido e a afirmação atenuada ou opinião de terceiros.
Se eu fosse rico ajudaria os outros - fato possível 3
Se eu pudesse estaria viajando - impossível presente
Eu diria / poderia dizer - afirmação atenuada
Ah se eu fosse rico! voto não realizável
Sempre que os homens se reuniam (reunissem) prejudicavam-se
mutuamente - fato repetido no passado.
Vemos que essas noções se exprimem em português pelo imper-
feito do subjuntivo ou pelo condicional simples (futuro do pretérito em
algumas gramáticas).

3 Em português, a forma do possível (fato possível) e irreal do presente é a mesma.


Em grego, o irreal do presente se exprime por eÞ + impf.- n + impf.; o fato pos-
sível (possível) por eÞ + opt. - n + opt.

mur04.p65 261 22/01/01, 11:37


262 o verbo grego: os modos

1. Desejo, voto possível

• optativo às vezes precedido de eàye, eÞ gŒr, Éw. A negação é m®


porque não é realidade objetiva.

A margem entre o voto possível, mera possibilidade e o realizável,


na imaginação, é extremamente frágil e movediça. Muitas vezes só o con-
texto e sobretudo o significado da mensagem podem definir. Na expres-
são oral, é uma questão de entonação. De qualquer maneira prevalece o
sentido possível, do fato possível, simples operação do espírito.
Quando o voto é irrealizável, em que está patente a irrealidade, o
modo é o indicativo (imperfeito ou aoristo). Ver página 245.

‰W paÝ, g¡noio patròw eétux¡sterow;


Menino, pudesses tu ser [oxalá fosses] mais feliz do que teu pai!
(opt. aor. = o ato em si, mero voto)
M® moi g¡noiyƒ “ boælomƒ Žllƒ “ sumf¡rei;
Que não me acontecesse [pudesse acontecer] o que eu quero, mas o
que é útil! (opt. aor. = o fato em si, mero voto)
Eàye fÛlow ²mÝn g¡noio; (Xen.)
Ah, se pudesses [tu poderias] tornar-te nosso amigo! (opt. aor. o
fato em si, voto possível)
M¯ g¡noito;
Ah, que isso não acontecesse! (opt. aor. o fato em si, mero voto)
Eï pr‹ttoimi;
Ah, que eu pudesse estar bem! (opt. pres. = entrar no ato, mero voto)
‰W basileè, m¯ eàh Žn¯r P¡rshw ÷stiw soi ¤pibouleæsei; eÞ
dƒ ¦sti Žpñloito Éw t‹xista; (Heród.)
Ó rei, pudesse não existir um homem persa para conspirar contra ti!
mas se existe, que ele perecesse [pudesse perecer] o quanto antes!
(opt. pres. idéia permanente - opt. aor. = o ato em si, mero voto)
ƒApñloio Î pñleme; (Aristóf.)
Que morresses [pudesses tu morrer] ó guerra! (opt. aor. = o ato em
si, mero voto)

mur04.p65 262 22/01/01, 11:37


o verbo grego: os modos 263

Toèto m¯ g¡noito, Î p‹ntew yeoÛ; (Sóf.)


Que isso não acontecesse [pudesse acontecer], ó deuses todos! (opt.
aor. = o fato em si)
Eàye m®pote gnoÛhw ùw eä; (Sóf.)
Ah, que nunca soubesses [oxalá nunca soubesses] quem és! (opt. aor.
= o ato em si)
EÞ gŒr genoÛmhn ŽntÛ sou nekrñw; (Eur.)
Ah, se eu pudesse morrer em teu lugar! (opt. aor. = o fato em si)
†Ote keleæoi, eÞ keleæoi ÷ ti keleæoi ¦pratton.
Quando [sempre que] ele mandava [mandasse], se ele mandava
[mandasse] o que [quer que] ele mandava [mandasse] eu executava.
(opt. pres. = fato habitual)
PÇw n tiw ‘ ge m¯ ¤pÛstaito taèta sofòw eÞh; (Xen.)
Como (seria possível) que alguém poderia ser [fosse] hábil naque-
las coisas que não conhecesse? (pÛstaito, opt. perf. = estado, resul-
tativo - (eàh opt. pres. = idéia permanente)
TeynaÛhn ÷te moi mhk¡ti taèta m¡loi; (Mimn.)
Pudesse eu estar morto quando essas coisas não mais me interessas-
sem! (TeynaÛhn, opt. perf. = ato acabado - m¡loi, opt. aor. = o ato
em si)

2. Afirmação atenuada

a) Com ’n: suaviza a afirmação, transformando a realidade ou a ordem


em mera possibilidade. É de uso freqüente na transmissão de opinião
de terceiros.
…Isvw n tiw eàpoi;
Talvez [certamente] alguém diria. [poderia dizer, dirá] (opt. aor. o
ato em si)
XvroÝw ’n eàsv; (Sóf.)
Tu poderias entrar! [Por que não entras?! Entre!] (opt. pres. entrar
na ação)

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264 o verbo grego: os modos

†Wra ’n eàh suskeu‹zesyai;


Seria o momento de preparar-se. [Talvez fosse, seja] (opt. pres. =
idéia permanente)
…Enya svfrosænhn katam‹yoi n tiw. (Xen.)
Lá [então] se poderia aprender a moderação. (opt. aor. = o ato em si)
Poè d°tƒ ’n eäen oß j¡noi; (Sóf.)
Onde, então, estariam os estrangeiros? [poderiam estar, estão]. (opt.
pres. = permanecer)
tÛ ’n ÈfeloÝmi [ÈfeloÛhn] soi ;
Em que eu te poderia ser útil? (opt. pres. = entrada no ato)
TÛnaw êpò tÛnvn eìroimen ’n meÛzona eéergethm¡nouw µ
paÝdaw êpò gon¡vn ;
Quem nós poderíamos encontrar beneficiados em maiores coisas por
quem a não ser [do que] os filhos pelos pais? (opt. aor. = o ato em si)

b) Podemos encontrar também o emprego do optativo, embora sem n,


nas orações dependentes de verbos declarativos, de expressão de von-
tade ou de medo e em geral na caracterização do que se chama discur-
so (interrogação) indireto. O verbo da principal em geral está no pas-
sado. O optativo pode substituir qualquer outra forma verbal da
completiva.
A gramática diz que esse uso não é obrigatório e o denomina de
optativo oblíquo ou de subordinação.
Não se trata de regra; trata-se da vontade do enunciante de ama-
ciar, suavizar o conteúdo da mensagem contida na oração subordinada.
O contexto do passado enfraquece a afirmação dando-lhe um as-
pecto nebuloso, de incerteza e, nesse caso, o optativo é o modo ideal.
(Em português esses matizes se exprimem pelas formas do condicio-
nal simples ou composto.)
…Elege ÷ti p¡nhw eàh.
Ele afirmava que era pobre. [Seria pobre, isto é, é ele que dizia,
não eu.] (opt. pres. = qualidade permanente)
…Elege ÷ti p¡nhw ·n.
Ele afirmava que era pobre. [De fato era. Eu concordo.] (indicati-
vo imperfeito, modo da realidade)

mur04.p65 264 22/01/01, 11:37


o verbo grego: os modos 265

ProselyÆn tÒ strathgÒ ¤d®lvsa ÷ti ¤strateum¡now


eàhn [·n] ³dh.
Tendo-me aproximado do comandante, revelei a ele que eu já te-
ria feito campanha. [tinha feito]. (opt. perf. = fato realizado)
Sfñdra pi¡saw aétoè tòn pñda ¾reto eÞ aÞsy‹noito
[¼syeto]. (Plat., Fédon)
Tendo-lhe apertado fortemente o pé, perguntou se estaria sentin-
do [se sentia]. (opt. pres. = simultaneidade do ato)
ƒEk¡leuse l¡gein ÷ ti gignÅskoi
Mandou [o] dizer o que estava sabendo [o que estaria sabendo, o
que soubesse] (opt. pres. = fato permanente)
Oäsya ¤pain¡santa †Omhron ƒAgam¡mnona Éw basileçw
eàh Žgayñw.
Tu sabes que Homero elogiou Agamêmnon [dizendo] que [na opi-
nião de Homero] ele era [seria] um bom rei. (opt. pres. = permanente)
ƒEfoboènto m® ti p‹yoi.
Eles temiam que ele sofresse algo. (opt. aor. = o ato em si)
ƒEpÛstasye, Ëste k’n llouw eÞkñtvw n did‹skoite.
(Xen.)
Vós sabeis, e assim talvez poderíeis ensinar [estar ensinando] os ou-
tros. (conseqüência possível, opt. pres.)
…Hretñ moi ÷stiw ’n eàhn.
Ele me perguntou quem eu seria [era] (opt. pres. = permanente)
ƒHrÅta §na §kaston eà tina ¤lpÛda ¦xoi (¦xei).
Ele passou a perguntar a cada um se tinha [se teria] alguma espe-
rança. (opt.pres. naquele momento, estado permanente)
ƒEpemeleÝto ÷pvw m¯ ŽsitoÛ pote ¦sointo. (Xen.)
Ele cuidava para que [de modo a que] eles não pudessem haver de
ser um dia (futuro) privados de alimentos (opt. fut.)
Sunevnoènto tòn sÝton ánƒ Éw ŽjiÅtaton êmÝn pvloÝen.
(Lísias)
Eles compravam o trigo em grande quantidade para que vos vendes-
sem [para vos vender] o mais caro possível. (opt. aor. = o ato em si)

mur04.p65 265 22/01/01, 11:37


266 o verbo grego: os modos

ƒEk‹kizon tòn Perikl¡a ÷ti oék ¤pej‹goi. (Tuc.)


Eles xingavam Péricles porque ele não saía -estava saindo- para ata-
car. (opt. pres. = fato habitual)
Svkr‹thw õpñte ŽnagkasyeÛh p‹ntaw ¤kr‹tei pÛnvn.
(Plat.)
Sócrates cada vez que foi [ fosse] forçado ele superava todos bebendo
[na bebida]. (opt. aor. = o ato em si)
Periem¡nomen §vw ŽnoixyeÛh tò desmvt®rion. (Plat., Fédon)
Nós ficamos esperando até que fosse aberta a prisão [se abrisse]. (opt.
aor. = o ato em si)
Svkr‹thw oék ¦pinen eÞ m¯ dicÐh. (Xen.)
Sócrates não bebia se não tivesse [tinha] sede. (opt. pres. = fato
habitual)
ƒEfobeÝto m¯ oé dænaito ¤k t°w xÅraw ¤jelyeÝn. (Xen.)4
Ele temia que não pudesse sair do país. (opt. aor. = o ato em si)
XenofÇn ¦legen ÷ti ôryÇw ¼tiÇnto, kaÜ aétò tò ¦rgon
aétoÝw marturoÛh. (Xen.)
Xenofonte afirmava que eles tinham feito a acusação corretamente
e que a própria obra [era] lhes seria testemunha. (opt. pres. = fato
simultâneo)
„H m®thr dihrÅta tòn Kèron pñteron boæloito [boæ-
letai] m¡nein µ Žpi¡nai.
A mãe perguntou [perguntava: entrada no ato verbal] a Ciro se ele
queria [quereria, estaria querendo] ficar ou partir. (opt. pres. simul-
taneidade do ato)
Oämai ’n ²mw toiaèta payeÝn oåa toçw ¤xyroçw oß yeoÜ
poi®seian. (Xen.)
Eu creio sofrer tais quais os deuses fariam sofrer os nossos inimi-
gos. (opt. aor. = o ato em si)

4 Nos verbos de temor está implícita uma idéia do não eventual; por isso, em grego,
eles vêm acompanhados do m®, como se estivesse “colado “ ao verbo; a segunda
negação pertence ao verbo complemento.

mur04.p65 266 22/01/01, 11:37


o verbo grego: os modos 267

„O Dionæsiow pròw tòn puyñmenon eÞ sxol‹zoi eäpe:


“Mhd¡pot¡ moi toèto sumbaÛh;”
Dionísio disse a alguém que procurava saber se ele estava [estaria]
de folga: “Isso jamais me acontecesse!” (opt. pres. = ato simultâneo,
durativo - opt. aor. = o ato em si)
TÛw oìtvw Þsxuròw ùw limÒ kaÜ =Ûgei dænaitƒ ’n maxñmenow
strateæesyai; (Xen.)
Quem é forte a tal ponto que pudesse [poderia] fazer uma expedi-
ção militar combatendo com fome e com frio? (opt. pres.)
†Witini ¤ntugx‹noien p‹ntaw Žp¡kteinon. (Tuc.)
Com qualquer um que encontrassem [encontravam] eles matavam
todos. (opt. pres. fato repetido)

c) Um optativo futuro poderia, à primeira vista, parecer uma contradi-


ção, uma vez que o futuro é um eventual. O que acontece, no entanto,
e só nas orações dependentes num quadro de passado, é o enfraqueci-
mento, a atenuação do conteúdo do verbo. Esse optativo é denominado
oblíquo ou de subordinação e se usa sem partícula. É uma superposi-
ção de modos: um enfraquecimento ou do indicativo ou do subjunti-
vo/futuro eventual.
†O ti poi®soi [poi®sei] oék eäpe.
Ele não disse o que faria [fará]. (opt. fut. = o ato em si)

3. Nas orações supositivas

Não se trata de um esquema rígido de correlação obrigatória de


tempos (não há tempo fora do indicativo e modos), mas sim da tonalida-
de, isto é, do modo como é sentida e transmitida a mensagem, na supo-
sição (condicionante) e na conseqüente (condicionada). O “modo” é pre-
cisamente como o enunciante sente e transmite a mensagem. Trata-se
de mera suposição.
Alguns exemplos serão suficientes.
EÞ sÅsaimi sƒ, eàsei moi x‹rin; (Eur.)
Se eu te salvasse, tu me serás grato? (opt. aor. = o ato em si, possível)

mur04.p65 267 22/01/01, 11:37


268 o verbo grego: os modos

Oék ’n forhtòw eàhw eÞ pr‹ssoiw kalÇw (Ésquines)


Tu não serias suportável se estivesses bem (opt. pres. = fato habitual,
possível)
EÞ ¤moÜ pisteæoiw oék ’n m¡noiw ¤ny‹de.
Se acreditasses em mim não permanecerias aqui. (opt. pres. = conti-
nuidade do ato, possível)
ƒEgÆ aÞsxunyeÛhn n eÞ diƒ llo ti svzoÛmhn µ diŒ toçw
lñgouw. (Isócr.)
Quanto a mim, eu sentiria vergonha se eu fosse salvo por outra coisa
que por meus discursos. (opt. aor. = o ato em si; opt. pres. = agora,
entrada no ato, possível nos dois casos)
EÞ boæloio Þatròw gen¡syai tÛ ’n poioÛhw;
Se quisesses tornar-te médico o que farias? [se estivesses com von-
tade - estarias fazendo: opt. pres. = possível]
ƒAdikoÛh ’n ÷stiw toèto poioÛh.
Cometeria uma injustiça aquele que [quem] fizesse isso. [estaria
cometendo, estaria fazendo: opt. pres. = possível]
Oék ’n g¡nointo pñleiw eÞ olÛgoi aÞdoèw kaÜ dÛkhw met¡-
xoien. (Plat., Prot.)
Não aconteceriam cidades se poucos tivessem sua parte de respeito e
justiça. (opt. aor. = o fato em si; opt. pres. = o fato permanente;
possível)
ƒAllƒ eà moÛ ti pÛyoio: tñ ken (’n) polç k¡rdion eàh. (Hom.)
Ah, se tu pudesses crer em mim! Isso seria muito mais vantajoso!
(opt. aor. = o ato em si; opt. pres. = idéia permanente)
PÇw n mƒ Ždelf°w xeÜr perist¡laien n
Como [seria] se a mão de minha irmã fizesse as obséquias! (opt. aor.
= o ato em si)

As denominações gramaticais mais uma vez não correspondem ao


significado das formas. Num paralelismo: “Eu afirmo que irei.” // “Ele
afirmou que viria.”. Não há o paralelo “futuro do presente” e “futuro do
pretérito”; o que há no segundo elemento é o enfraquecimento da afirma-
ção, uma afirmação de um terceiro que não se realizou. É um modo e não
um tempo! Denominar “viria” futuro do pretérito é desconhecer o signi-

mur04.p65 268 22/01/01, 11:37


o verbo grego: os modos 269

ficado da forma verbal. A denominação tradicional de “condicional sim-


ples”, embora não perfeita porque nem sempre exprime uma condição,
não é tão contraditória como “futuro do pretérito”. Seria preferível chamá-
la de “possível”.
Nas frases arroladas acima, o “futuro do pretérito” não apareceu
nenhuma vez. E nem poderia aparecer!
Em grego há tantos optativos quantos são os aspectos e vozes.
Optativo presente: tema do infectum, inacabado
Optativo futuro: tema do aoristo
Optativo aoristo: tema do aoristo
Optativo perfeito: tema do perfectum, acabado

Por exprimir possibilidade, irrealidade presente e afirmação atenu-


ada o optativo se serve de desinências secundárias, as mesmas do passado
(imperfeito, aoristo narrativo e mais-que-perfeito).

Não há idéia de tempo no optativo.

Imperativo

É o modo do diálogo direto (segunda pessoa) e indireto (terceira


pessoa - subjuntivo em português).
Exprime a mensagem direta, o gancho do diálogo, o chamamento
e também, subsidiariamente, a ordem.
O imperativo tem desinências próprias, que se repetem em todos
os aspectos. Ver p. 338-40.
Em grego há tantos imperativos quantos são os aspectos e vozes:
Imperativo presente: tema do infectum, inacabado);
Imperativo aoristo: tema do aoristo)
Imperativo perfeito: tema do perfectum, acabado
Não há idéia de tempo no imperativo: só de aspecto.
Não há imperativo futuro (impossibilidade semântica), e o impe-
rativo perfeito ativo também é de um emprego muito raro.

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270 o verbo grego: os modos

Apenas o imperativo ativo singular, o único autêntico e original,


que se exprime pelo próprio tema verbal, como em latim e português,
apresenta alguns problemas fonéticos.
Læete tòn aÞxm‹lvton.
Soltai o prisioneiro. [agora] (imp. pres. entrada na ação)
„UmeÝw deÛjate ´ntina gnÅmhn ¦xete perÜ tÇn pragm‹-
tvn. (Lísias)
Vós revelai que opinião tendes a respeito dos fatos. (imp. aor. o ato
em si > pontual)
Toçw m¢n yeoçw foboè toçw d¢ gon¡aw tÛma toÝw d¢ nñmoiw
peÛyou. (Isócr.)
Teme os deuses, honra os pais, obedece às leis [agora e sempre]. (imp.
pres. ordem permanente)
Žn‹gnvyi tòn nñmon
lê a lei (imp. aor. o ato em si > pontual);
p¡mcon tŒ ÷pla; ¤lyÆn lab¡;
Entrega as armas! Vem e pega!
l¡ge §teron nñmon (Lísias)
[e agora] lê a outra lei [passa a ler: imp. pres.]
SkopeÝte d¯ kaÜ logÛsasye toèto. (Dem.)
Observai (imp. pres. entrai no ato ) então, e refleti isso (imp. aor. o
ato em si).
Boælou dƒ Žr¡skein psi m¯ sautÒ mñnon;
Quere agradar a todos; não só a ti! (imp. pres. entrada no ato).

A ordem negativa, proibição, também se exprime pelo imperati-


vo (negação m®), diferentemente do português que usa sempre o subjun-
tivo exortativo.
M¯ yorubeÝte;
Parai esse barulho! [estão fazendo barulho: imp. pres.]
M¯ peÛyesye toÝw Žnosivt‹toiw Tri‹konta; (Xen.)
Não obedecei [obedeçais] a esses infames Trinta! (imp. pres. entra-
da no ato)

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o verbo grego: os modos 271

MhdeÜw êmÇn prosdokhs‹tv llvw; (Plat.)


Ninguém de vós prejulgue de outra maneira! (imp. aor. o ato em si)
MhdeÜw nomis‹tv; (Xen.)
Ninguém acredite! (imp. aor. o ato em si)
MhdeÜw toèto leg¡tv;
Ninguém diga [dirá] isso. (imp. pres. entrada no ato)

O subjuntivo às vezes pode substituir o imperativo, sobretudo na proi-


bição. Na verdade, passa a ser um pedido, uma súplica, que é uma anteci-
pação, um eventual.
SiÅpa; mhd¢n eàpúw n®pion; (Aristóf.)
Cala-te! (imp. pres. entrada no ato). Não digas nenhuma bobagem!
(subj. aor. pedido, o ato em si)
MhdeÜw yaum‹sú; (Dem.)
Ninguém se admire! (subj. aor. pedido, o ato em si)
M¯ yorub®shte;
Não façais barulho! (subj. aor. o ato em si)
M® me Žpol¡shte ŽdÛkvw; (Lísias)
Não me arruineis injustamente! (subj. aor. o ato em si)

Algumas vezes, no enunciado de uma ordem ou exortação, o grego


emprega o imperativo de alguns verbos como interjeição;
àyi; (Þ¡nai - ir) : vai!
ge - gete (gein - conduzir, levar) : vamos! (toca!)
f¡re - f¡rete (f¡rein - portar, levar) : vamos! (em frente!)

Essas formas são como interjeições introdutórias para ordem ou


exortação.
àyi; nèn parÛstasyon; (Aristóf.)
Vamos lá! apresentem-se os dois! (imper. pres. entrada no ato)
F¡re; ¤kpæyvmai; (Eur.)
Vamos! que eu me informe! (imper. presente, mera chamada de
atenção)

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272 o verbo grego: formas nominais

Formas nominais do verbo


O particípio

1) Definição

É o verbo-adjetivo de uso intenso em grego. O fato de a idéia do


verbo estar associada à forma e idéia nominal dá-lhe um significado mais
concreto.
Todos os aspectos e todas as vozes têm o seu particípio, contrari-
amente ao latim que só tem um particípio ativo (infectum) e o supino,
que deu origem ao particípio perfeito passivo.
Para nós há uma dificuldade inicial em entender o uso do particí-
pio grego.
É que em grego, por ser um adjetivo, o particípio se comporta como
tal: assume o caso do substantivo de quem é adjunto ou predicativo e é
triforme; isto é, tem uma forma para cada gênero. No latim e no portu-
guês o particípio presente ativo é uniforme.
Além disso, em português, por causa da invasão das formas do ge-
rúndio na voz ativa, portanto sem gênero e sem número e com significa-
do circunstancial (adverbial), é compreensível uma dificuldade de enten-
dimento inicial.
Esse significado circunstancial, adverbial decorre do significado do
particípio “presente”, isto é, infectum, inacabado, do processo verbal no
seu curso. É o significado do aspecto verbal. Mas, esse significado se deixa
contaminar pela idéia de locativo-temporal e instrumental, pela idéia de
extensão no tempo e no espaço, do locativo-temporal, e pela idéia de
passagem do ato verbal pelo objeto inerte, do instrumental:
Eu vejo o menino corrente = correndo = a correr
No grego e no latim é um predicativo do objeto direto. Em portu-
guês, semanticamente também é, mas gramaticalmente é um adjunto
adverbial e formalmente é invariável na voz ativa. Já foi diferente: “Como
se a não tivera merecida” (Camões).
Por ser um adjetivo em sua forma, ou melhor, em suas formas, o
particípio grego, quer ativo, quer médio, quer passivo, é triforme (mas-
culino, feminino e neutro) e varia no singular e plural, concordando sem-
pre com o substantivo em gênero, número e caso.

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o verbo grego: formas nominais 273

Em português o particípio da voz ativa foi substituído pelo gerún-


dio, que é invariável. Só o particípio passivo varia: masculino e feminino,
singular e plural.
Assim5:
õr˜w tòn ndra tr¡xonta : Vês o homem correndo (corrente)
õr˜w t¯n gunaÝka tr¡xousan : Vês a mulher correndo (corrente)
õr˜w tò t¡knon tr¡xon : Vês a criança correndo (corrente)
õr˜w toçw ndraw tr¡xontaw : Vês os homens correndo (correntes)
õr˜w tŒw gunaÝkaw trexoæsaw : Vês as mulheres correndo (correntes)
õr˜w tŒ t¡kna tr¡xonta : Vês as crianças correndo (correntes)

Do mesmo modo que, em grego, nas seis frases acima, o particí-


pio, predicativo do objeto direto, variou e concordou em gênero, número e
caso com o objeto direto, e, com as mesmas funções, ele permaneceu inal-
terado em português, assim também acontecerá quando o particípio es-
tiver em função predicativa do sujeito (particípio conjunto, segundo as
gramáticas):
õ Žn¯r tr¡xvn ¦pesen o homem correndo (corrente, enquanto corria)
caiu
² gun¯ tr¡xousa ¦pesen a mulher correndo (corrente, enquanto corria)
caiu
tò t¡knon tr¡xon ¦pesen a criança correndo (corrente, enquanto corria)
caiu
oß ndrew tr¡xontew ¦peson os homens correndo (correntes, enquanto corriam)
caíram
aß gunaÝkew tr¡xousai ¦peson as mulheres correndo (correntes, enquanto
corriam) caíram
tŒ t¡kna tr¡xonta ¦peson as crianças correndo (correntes) caíram

Os dois quadros acima ilustram apenas as relações formais do parti-


cípio-adjetivo; neles o verbo empregado, tr¡xv - eu corro, é intransitivo.

5 As frases a seguir são meras construções gramaticais; não são de autor nenhum. O
leitor não deve esperar nelas nenhuma mensagem filosófica.

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274 o verbo grego: formas nominais

Mas, como o próprio nome exprime, metox® - participação, o par-


ticípio é nome (adjetivo) quanto à forma, mas não perde sua natureza
verbal e suas relações com o sujeito e complementos se mantêm intactas:
ele pode ser ativo, médio e passivo. E, se é transitivo, continua a procu-
rar ( aÞt¡v - eu busco) o seu complemento (termo do ato verbal).
Por exemplo, na frase:
pw nyrvpow ´detai tò fÇw õrÇn
todo homem sente prazer vendo a luz.
tò fÇw, a luz, é objeto direto de õrÇn, que está no particípio pre-
sente, nominativo masculino singular, porque é aposto do sujeito pw
nyrvpow.
Então, uma forma nominal do verbo (verbo adjetivo) é adjetivo em
suas formas e verbo em seu significado e rexão.

2) Aspecto e tempo no particípio

a) Generalidades:

Em grego há tantos particípios quantos são os aspectos e vozes.


Sobre cada tema podem ser construídos os particípios ativo, médio e
passivo.
O que os particípios têm de próprio é o aspecto, isto é o tempo
interno do processo verbal:
O particípio não tem tempo próprio, mas sim tempo relativo:
• o construído sobre o tema do infectum (inacabado) marca simultanei-
dade com o verbo da principal;
• o construído sobre o tema do aoristo marca anterioridade em relação
ao verbo da principal, se é pontual, aoristo, ou posterioridade em rela-
ção ao verbo da principal, se depende de verbo de movimento e inten-
ção (vontade);
• o construído sobre o tema do perfectum (acabado) mantém seu signi-
ficado próprio de ato acabado, terminado, sem nenhuma relatividade.

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o verbo grego: formas nominais 275

b) Particípio presente:

Sobre o tema do infectum (inacabado), construímos os particípios


ativo, médio e passivo: mesmas desinências para médio e passivo;
Voz Tema Formas: m., f., n. Significado
ativo læ-o-nt- lævn, læousa, lèon desligante-desligando, que desliga,
que está desligando
médio lu-o-meno- luñmenow,h,on desligante-desligando para si, que
desliga para si, que está desligando
para si
passivo lu-o-meno- luñmenow,h,on que está sendo desligado, que é
(o mesmo da voz média) desligado, desligado
Ver no quadro de flexão do particípio o comportamento dos temas
em vogal (verbos em -mi).
O particípio construído sobre o tema do infectum (inacabado) não
exprime tempo absoluto, mas um tempo relativo: a simultaneidade de tem-
po com o verbo principal, qualquer que seja o tempo deste.
Oék ¦sti m¯ nikÇsi svthrÛa.
Não existe salvação para os que não vencem. [estão vencendo]
KaÛper p‹nu ŽndreÝow Ên nikhy®sú
Mesmo sendo [ainda que sejas] muito corajoso serás vencido.

c) Particípio aoristo:

Sobre o tema do aoristo, que serve também para o futuro, cons-


truímos os particípios ativo, médio e passivo do aoristo e do futuro:
Voz Tema Formas: m. f. n. Significado
aoristo
ativo: lu-sa-nt- læsaw, læsasa, lèsan tendo desligado, que desligou
médio: lu-sa-meno- lus‹menow,h,on tendo desligado para si, que desli-
gou para si
passivo: lu-yh-nt- > luyeÛw, luyeÝsa, luy¡n tendo sido desligado, que foi des-
luyent- ligado
stal-h-nt staleÛw, staleÝsa, tendo sido enviado, que foi enviado
stal¡n

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276 o verbo grego: formas nominais

Voz Tema Formas: m. f. n. Significado


futuro:
ativo: lu-s-ont- læsvn, læsousa, havendo de desligar, que
lèson desligará
médio: lu-s-o-meno- lusñmenow,h,on havendo de desligar para si,
que desligará para si
passivo: lu-yh-s-o-meno- luyhsñmenow,h,on havendo de ser desligado, que
será desligado
stal-h-s-o-meno- stalhsñmenow,h, on havendo de ser enviado, que
será enviado

O particípio construído sobre o tema do aoristo não exprime uma


idéia de tempo absoluto, mas um tempo relativo, isto é, a anterioridade
em relação ao verbo principal, qualquer que seja o tempo deste.
O particípio construído sobre o tema do futuro não exprime uma
idéia de tempo absoluto, mas um tempo relativo, isto é, a posterioridade
em relação ao verbo principal, qualquer que seja o tempo deste.
Via de regra o particípio futuro se encontra como complemento
de verbos de movimento ou intenção, às vezes precedido de Éw (para),
sempre com a idéia do eventual.

d) Particípio perfeito:

Sobre o tema do perfectum (acabado) construímos os particípios


perfeitos ativo, médio e passivo (mesmas desinências para o médio e
passivo):
Voz Tema Formas: m. f. n. Significado
ativo: le-lu-kot- lelukÅw, lelukuÝa, que terminou o ato de desligar,
lelukñw que desligou
médio: le-lu-meno- lelum¡now, h, on que terminou o ato de desligar
para si, que acabou de desligar
para si
passivo: le-lu-meno- lelum¡now, h, on
(o mesmo que o médio) que foi e está desligado, desligado
O particípio construído sobre o tema do perfeito exprime o ato
acabado, terminado (idéia de aspecto e não de tempo).

mur04.p65 276 22/01/01, 11:37


o verbo grego: formas nominais 277

3) Concordância do particípio

O particípio grego é um adjetivo; não podemos nos esquecer disso


nunca. Por isso, salvo em situações em que está substantivado, concorda
com o referente (substantivo ou equivalente).
O elenco abaixo, com todos os usos do particípio, permitirá ao lei-
tor constatar a veracidade dessa afirmação.
As traduções que daremos serão quase sempre lineares, visando
sempre à relação significante-significado. O fato de estarem fora do uso
atual não impedirá o aluno de entendê-las e substituí-las por constru-
ções equivalentes atuais.
Não levaremos em conta também o enquadramento das orações
com particípio ou gerúndio nas diversas categorias da sintaxe tradicional,
por entendermos que elas, as reduzidas de particípio ou gerúndio, valem
por si mesmas. A sintaxe (=coordenação) delas é interessante mas não
essencial.
Se tivermos sempre presente na memória o que foi exposto sobre
o significado linear dos particípios e se observarmos a concordância deles
com os nomes a que se referem, não teremos grandes dificuldades em
assimilar a “sintaxe do particípio”.
O uso do particípio grego corresponde, grosso modo, às orações
reduzidas de gerúndio no presente (voz ativa e passiva = amando / sendo
amado) e reduzidas de particípio no passado (voz ativa e passiva = tendo
amado / tendo sido amado) em português.
A diferença (e daí a dificuldade) está em que, em português, o ge-
rúndio é invariável na voz ativa e variável na voz passiva, e, em grego, o
particípio, quer ativo, médio ou passivo é um adjetivo e por isso concor-
da com o seu referente (sujeito ou complemento), numa espécie de apo-
sição (por vir em geral depois).
No caso de omissão do sujeito em grego, o gênero e número são
identificados pelas formas do particípio, que têm os três gêneros em to-
das as vozes e aspectos.
pw nyrvpow ´detai tò fÇw õrÇn
todo homem sente prazer vendo [ao ver] a luz (p. pres. aposto do
sujeito masculino)

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278 o verbo grego: formas nominais

ChfÛsasye tòn pñlemon m¯ fobhy¡ntew tò aétÛka deinñn.


(Tuc.)
Votai a guerra, não tendo temido o perigo imediato [não temei e
votai; votai sem temer]. (p. aor. aposto do sujeito do verbo: vós,
sujeito masculino)
‡Hn eérey»w ¤w t®nde m¯ dÛkaiow Ên. (Sóf.)
Se fores encontrado não sendo justo para esta. (p. pres. aposto do
sujeito: tu, masc.)
P‹reimi õplÛtaw ¦xvn ¥katñn. (Xen.)
Eu me apresento tendo 100 hoplitas [com 100 hoplitas]. (p. pres
aposto do sujeito: eu, masc.)
Deipn®santew Žpelaænete. (Xen.)
Tendo jantado, parti. [Parti depois de jantar.] (part. aor. aposto do
sujeito: vós, masc.)
Oék ’n dænaio m¯ kamÆn eédaimoneÝn. (Eur).
Tu não poderias não tendo trabalhado [sem penar] ser feliz. (part.
pres. aposto do sujeito: tu, masc.)
Sun¡lyomen ôcñmenoi.
Nós nos reunimos para ver. [havendo de ver] (part. fut. aposto do
sujeito: nós, masc.)
eäpe gel‹saw
Ele riu e disse. [tendo rido] ele disse (p. aor.suj. masc. sing.)
¦tuxen ¤lyÅn
tendo vindo por acaso, [por acaso ele veio] (p. aor. suj. masc. sing)
¦layen ¤lyÅn
passou desapercebido tendo chegado [chegou sem ser percebido] (p.
aor. suj. masc. sing.)
Lúzñmenoi zÇsin. (Xen.)
Eles vivem [saqueando] saqueantes. [Vivem de saque]. (p. pres. suj.
masc. pl.)
ƒElaænvn Õxeto.
Ele partiu cavalgando. (part. pres. suj. masc. sing.)

mur04.p65 278 22/01/01, 11:37


o verbo grego: formas nominais 279

ƒEm‹xonto ‘ma poreuñmenoi. (Xen.)


Eles combatiam marchando [enquanto marchavam]. (part. pres. suj.
masc. pl.)
Eéyçw meir‹kion Ên...
Desde a adolescência [imediatamente em sendo adolescente] (part.
pres. suj. masc. sing.)
ƒApeÛxonto kerdÇn aÞsxrŒ nomÛzontew eänai. (Xen.)
Eles se abstinham de lucro, julgando ser vergonhoso [porque jul-
gavam]. (part. pres. suj. masc. pl.)
„Ww Žphllagm¡noi tÇn kakÇn ²d¡vw ¤koim®yhsan. (Xen.)
Porque estavam afastados [tinham sido afastados] dos perigos, re-
pousaram com prazer. (part. perf. passivo suj. masc. pl.)
ƒWrxoènto Ësper lloiw ¤pideiknæmenoi. (Xen.)
Eles dançavam como se oferecendo em espetáculo aos outros. (part.
pres. suj. masc. pl.)
OàetaÛ ti eÞd¡nai oék eÞdÅw. (Plat.)
Ele crê que sabe algo [mesmo] não sabendo. (part. perf. suj. masc.
sing.)
Sullamb‹nei Kèron Éw ŽpoktenÇn. (Xen.)
Ele prende Ciro para matá-lo. [havendo de matar] (part. fut. suj.
masc. sing.)
T¯n pñlin labÆn ¤sælhse.
Tendo tomado a cidade, ele saqueou. [Ele tomou e saqueou.] (part.
aor. masc. sing.)

O particípio em função de aposto ou de predicativo concorda com


o referente em qualquer caso, mesmo se o referente está implícito.
Toèton oédeÜw xaÛrvn Ždik®sei. (Plat.)
Esse aí ninguém maltratará de alegre [alegrando-se] (part. pres. suj.
masc. sing.)
ƒEpÜ xÛoni pesoæsú
sobre a neve que caiu [tendo caído] (part. aor. - pred. do locativo)

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280 o verbo grego: formas nominais

MetŒ Surakoæsaw oÞkisyeÛsaw (Tuc.)


Depois de Siracusa tendo sido fundada. [depois da fundação de]
(part. aor. pas. pred. do acus.)
Prò ²lÛou dænontow.
Diante do sol que se punha [pondo-se] (part. pres. pred. do gen.).
†Ama ²lÛÄ Žnat¡llonti
Junto com o sol se levantando (part. pres. pred. do dat.)
Oék ¦sti toÝw m¯ nikÇsi svthrÛa. (Xen.)
Não há salvação aos que não vencem [que não estão vencendo] (part.
pres. masc. pl. pred. do dat. referente implícito)
DuoÝn kakoÝn oédeÜw tò meÝzon aßreÝtai ¤jòn tò ¦latton.
(Plat.)
De dois males ninguém escolhe o maior, sendo possível [escolher]
o menor. (part. pres. predicativo do sujeito oracional)
OéxÜ ¤sÅsam¡n se oåñn te øn kaÜ dunatñn. (Plat.)
Nós nem mesmo te salvamos [isso] sendo viável e sendo possível.
(part. pres. predicativo do sujeito oracional)
†Hdesye...Éw periesom¡nouw ²mw tÇn „Ell®nvn. (Her.)
Vós sentis prazer... em nós havendo de dominar os gregos. (part.
fut. predicativo do objeto direto)
Oß k‹mnontew stratiÇtai ¤koim®yhsan. (Xen.)
Os soldados que estavam cansados [estando cansados] deitaram-se
(part. pres. adj. adn.)
Tòn ßeròn kaloæmenon pñlemon. (Tuc.)
A guerra que chamam santa. [que está sendo chamada] (part. pres.
pas. - adj. adn.)
„O kateilhfÆw kÛndunow t¯n pñlin. (Dem.)
O perigo que surpreendeu [terminou o ato de] a cidade. (part. perf.
adj. adn.)
Aß prò toè stñmatow n°ew naumaxoèsai. (Tuc.)
Os navios que estavam combatendo diante da entrada [do porto].
(part. pres. adj. adn.)

mur04.p65 280 22/01/01, 11:37


o verbo grego: formas nominais 281

² ônomazom¡nh ŽndreÛa
a chamada [que chamamos, que está sendo chamada, que costumam
chamar] coragem (part. pres. pass. adj. adn.)
² nèn kaloum¡nh „Ell‹w
a chamada agora Grécia [que chamamos] (part. pres. pass. adj. adn.)
² MÛdou kaloum¡nh kr®nh
a fonte chamada [que chamamos, costumamos chamar] de Midas.
(part. pres. pass. adj. adn.)
oß strathgoÜ oß oék Žnelñmenoi toçw ¤k naumaxÛaw nekroçw
¤krÛyhsan
Os comandantes que não recolheram [os não tendo recolhido] os
cadáveres da batalha naval foram julgados. (part. aor. substantivado,
aposto do sujeito)
pñliw eéreÛaw guiŒw ¦xousa
uma cidade que tem [tendo] ruas largas (part. pres. apost do suj.)
MetŒ taèta Žfiknoèntai Žgg¡llontew. (Isócr.)
Depois disso chegam pessoas anunciando [anunciantes] (part. pres.
apost. do suj.)
m¡mnhso nyrvpow Ên
lembra-te que és homem, [seres humano; sendo homem] (part. pres.
pred. do sujeito)
oß pleÝstoi oék aÞsy‹nontai diamart‹nontew
a maioria não percebe que se engana [que está se enganando, fa-
lhando] (part. pres. pred. do sujeito)
Pl¡omen ¤pÜ pollŒw naèw kekthm¡nouw. (Xen.)
Nós navegamos contra possuidores [que adquiriram] de muitas naus.
(part. perf. subst. compl. preposicionado; acus. de direção)
mhd¡pote metem¡lhs¡ moi sig®santi, fyegjam¡nÄ d¢
poll‹kiw (Plat.)
jamais eu me arrependi de ter ficado quieto, mas freqüentemente
de ter falado [arrependeu-me (latim: paenituit me) tendo silencia-
do.. tendo falado] (part. aor. pred. do dat.)

mur04.p65 281 22/01/01, 11:37


282 o verbo grego: formas nominais

gnÇte ŽnagkaÝon øn êmÝn Žndr‹sin ŽgayoÝw gÛgnesyai


(Tuc.)
sabei que vos é necessário tornar-vos homens de bem [sendo-vos
necessário] (part. pres. pred. do obj. dir. oracional)
¤mautÒ sænoida oéd¢n ¤pistam¡nÄ
eu sei comigo mesmo não saber nada [não sabendo nada] (part. perf.
apost. de dat. comitativo)
¥autòn oédeÜw õmologeÝ kakoèrgow Ên [kakoèrgon önta]
ninguém concorda [confessa] que é malfeitor [sendo ele malfeitor]
(part. pres. apost. do suj: Ên ; pred. do obj. dir.: önta)
diat¡lei me ŽgapÇn
ele continua a me amar [amando-me] (part. pres. apost. do suj)
paæsate tòn ndra êbrÛzonta
fazei cessar a insolência desse homem [sendo insolente, cometendo
insolência] (part. pres. pred. do obj. dir.)
m¯ k‹múw fÛlon ndra eéergetÇn
não te canses de fazer o bem a um homem amigo [fazendo o bem]
(part. pres. pred. do suj.)

O particípio, por ser adjetivo, pode ser substantivado (particípio


com artigo) qualquer que seja seu aspecto ou voz.Tem gênero e número
próprios, e assume os casos das funções que tem na frase.
Nesses casos ou se traduz por uma oração relativa adjetiva:
-õ l¡gvn - o que está falando, o falante, (p. pres.); ou por um substan-
tivo, caso exista: o orador (de momento).
oß rxontew:
os que estão no poder, no comando, ou os arcontes, os governantes.
(também em português se deu a substantivação do particípio!)
eÞsÜn oß oÞñmenoi
há [existem] os que crêem [os crentes] (p. pres.)
tÛw ’n pñliw êpò m¯ peiyom¡nvn loÛh;
que cidade poderia ser tomada por não obedientes! [que não obede-
cem!] (sem artigo por ser indeterminado). (p. pres.)

mur04.p65 282 22/01/01, 11:37


o verbo grego: formas nominais 283

tò sumf¡ron: o que traz proveito, o juro, o lucro (p. pres.)


tò pros°kon: o que convém - o conveniente, o dever (p. pres.)
oß ¤rgasñmenoi: os que vão trabalhar, cultivar, os havendo de tra-
balhar (p. fut.)

„O mhd¢n eÞdÆw oéd¢n mart‹nei.


O que sabe nada [o ignorante] em nada se engana. (part. perf. esta-
do atual, resultante)
Oß grac‹menoi tòn Svkr‹thn: Os acusadores de Sócrates [os
que acusaram]. (p. aor. anterioridade)
„O tuxÅn: O que apareceu; o que [por acaso] chegou. (part. aor.)
oß pros®kontew: os “com-venientes”, os chegados, os parentes
(part. pres.)
tò m¡llon: o que está para, o por vir [porvir] (part. pres.)
tŒ m¡llonta: as coisas que estão para vir, o futuro (part. pres.)
Pw õ boulñmenow: todo o que quer [que está querendo] (part.
pres.)
ƒEn°san ¤n t» xÅr& oß ¤rgasñmenoi. (Xen.)
Havia no país os que haveriam de cultivar [os futuros cultivadores;
os havendo de cultivar]. (part. fut. sujeito)
Oédƒ õ kvlæsvn par°n. (Sóf.)
Nem mesmo estava presente o que haveria [o havendo de] de impe-
dir. (part. fut. sujeito.)
Diƒ ¤ndeÛan toè yerapeæsontow. (Isócr.)
Por carência de quem haveria [do havendo de] de tratar. (part. fut.
comp. nom.)
„H pñliw ¦rhmow ·n tÇn Žmunoum¡nvn. (Xen.)
A cidade estava carente de defensores [dos havendo de defender, que
haveriam de defender]. (part. fut. comp. nom.)

mur04.p65 283 22/01/01, 11:37


284 o verbo grego: formas nominais

4) Funções do particípio

Ele pode ter todas as funções do adjetivo e do nome, como já vimos.


Nos exemplos acima vimo-lo como substantivo nas funções de su-
jeito e objeto e como adjetivo nas funções de aposto (conjunto), adjunto
adnominal, predicativo do sujeito e predicativo do objeto direto.
São notáveis certas construções que, em português, usam o infini-
tivo com preposição (em ou de) ou gerúndio do verbo complemento, e,
em grego, exprimem a mesma idéia pelo particípio em função predicativa
ou apositiva.

a) Particípio nas orações completivas

Há um grande número de verbos neste caso, sobretudo os que sig-


nificam: maneira de ser, determinada ou indeterminada
estar no começo ou no fim
cessar
estar cansado de fazer bem ou mal a
ser superior ou inferior em
sentir alegria, tristeza, vergonha em ou de.
É na verdade uma função predicativa.
O uso do particípio em lugar do infinitivo se explica porque o par-
ticípio exprime o ato verbal de maneira concreta e delimitada; o infiniti-
vo tem um significado aberto e indefinido. Em português, encontramos
o gerúndio ou o infinitivo preposicionado.

Principais verbos que exprimem:


• maneira de ser, estado
di‹gv eu permaneço (fazendo)
diagÛgnomai eu fico continuamente (fazendo)
diatelÇ(e) eu chego ao fim (fazendo)
d°low, fanerñw eÞmi eu sou evidente (fazendo)
lany‹nv eu passo desapercebido (fazendo)
tugx‹nv eu me encontro por acaso (fazendo)
faÛnomai eu me manifesto, apareço (fazendo)
fy‹nv eu me antecipo (fazendo)

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o verbo grego: formas nominais 285

„EptŒ ²m¡raw p‹saw maxñmenoi diet¡lesan


Eles passaram todos os sete dias combatendo [combatentes; a com-
bater]. (part. pres.)
ToÝw summ‹xoiw pistoÜ öntew diam¡nomen.
Nós permanecemos [sendo] fiéis aos aliados. (part. pres.)
diatelÇ eënoian ¦xvn êmÝn
Eu continuo tendo [a ter] benevolência para convosco (part. pres.)
pñlemon ¦xvn di‹gei (tòn bÛon) õ tærannow
O tirano passa a vida tendo guerra [fazendo, a fazer] (part. pres.)
…Efyhsan toçw Persaw Žfikñmenoi eÞw t¯n pñlin
Eles se anteciparam aos Persas chegando à cidade [tendo chegado:
part. aor.]
Fy‹ne toçw fÛlouw eéergetÇn
Antecipa beneficiando os amigos. [sê o primeiro a beneficiar] (part.
pres.)
Oék ’n fy‹noiw l¡gvn.
Tu não te anteciparias em falar [falando, já não seria sem tempo
de falares] (part. pres.)
Oék ¦fyasan t¯n Žrx¯n katasxñntew kaÜ YhbaÛoiw eéyçw
¤peboæleusan.
Eles não se anteciparam tendo tomado o poder e imediatamente
conspiraram com os Tebanos [apenas tomaram o poder] (part. aor.)
…Elayen ²mw Žpodr‹w
Ele passou desapercebido de nós tendo escapado. [ele escapou sem
que nós tivéssemos percebido] (part. aor.)
ƒEl‹nyanon aêtoçw ¤pÜ tÒ lñfÄ genñmenoi
Eles passavam desapercebidos deles mesmos chegando ao topo da
colina. [eles chegavam ao topo da colina sem perceber] (part. aor.)
…Etuxen ²mÇn ² ful¯ prutaneæousa.
Aconteceu [por acaso] a nossa tribo estar exercendo a função de
prítane. [por acaso nossa tribo exercia a função de prítane] (part.
pres.)

mur04.p65 285 22/01/01, 11:37


286 o verbo grego: formas nominais

TÛw ¦tuxe paragenñmenow;


Quem encontrou-se por acaso tendo estado presente? [quem por acaso
esteve presente?] (part. aor.)
ˆO m¡n ¤sti faneròw ¤kbŒw ¤k toè ploÛou kaÜ oék eÞsbŒw
p‹lin.
É evidente ele tendo saído da embarcação e não tendo entrado de
novo. [É manifesto que ele saiu da embarcação e não entrou de
novo] (part. aor.)
¤oÛkate turannÛsi mlon µ politeÛaiw ²dñmenoi
Vós pareceis tendo prazer mais com tiranias do que com governos
populares (part. pres.)
toèto tò str‹teuma ¤l‹nyane trefñmenon
esse exército passava desapercebido sendo sustentado. [esse exército
era sustentado secretamente] (part.pres.)
Ùnto ŽfaneÝw eänai Žpiñntew
Eles acreditavam estar invisíveis saindo (part. pres.)
Douleævn sautòn l¡lhyaw
Tu passas desapercebido de ti mesmo sendo escravo [tu és escravo
sem perceberes] (part. pres.)

• começar, sofrer, cansar-se de (processo da ação)


Žn¡xomai eu agüento, eu suporto (fazendo)
Žpagoreæv eu desisto de (fazendo)
rxomai eu começo a (fazendo)
k‹mnv eu me canso de, eu cesso (fazendo)
paæomai, l®gv eu paro, eu cesso de (fazendo)
Oëpote ¤pauñmhn êmw oÞktÛrvn.
Eu não parava de vos lamentar. [lamentando] (part. pres.)
M¯ k‹mnúw fÛlon ndra eéergetÇn
Não cesses de fazer o bem a um amigo querido [fazendo o bem].
(part. pres.)
Paæsomai toçw ¤xyroçw gelÇntaw.
Eu farei os adversários pararem de rir. [rindo] (part. pres.)

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o verbo grego: formas nominais 287

oß ƒAyhnaÝoi ¤m¢ êp°rjan dika poioèntew


Os atenienses começaram primeiro fazendo-me injustiça (part. pres.)
ƒHrxñmeya dialegñmenoi.
Começávamos a dialogar [dialogantes] (part. pres.)
oß Lakedaimñnioi oék ¤paæsanto tŒw pñleiw kakÇw
poioèntew
Os lacedemônios não pararam de prejudicar [prejudicando] as cida-
des. (part. pres.)
„H pñliw oéd¡pote ¤kleÛpei toçw teleut®santaw timÇsa
A cidade nunca deixa de honrar [honrando] os finados (part. pres.)

• verbos com sentido de estar certo ou errado, fazer o bem ou o mal,


ser superior ou inferior a
aÞdoèmai (e) eu tenho pudor em (fazendo)
aÞsxænomai eu sinto vergonha, pudor em
ŽdikÇ(e) eu sou injusto em (fazendo)
ŽganaktÇ(a) eu me irrito, acho ruim
ŽgapÇ(a) eu gosto (de fazer) fazendo
mart‹nv eu ajo mal, eu falho, peco em
xyomai eu me indigno, acho ruim
´domai eu tenho prazer em (fazendo)
²ttÇmai(a) eu sou inferior em
kakÇw poiÇ(e) eu faço (ajo) mal em (fazendo)
kalÇw (eï) poiÇ(e) eu faço (ajo) bem em (fazendo)
karterÇ (e) eu agüento, suporto (fazendo)
kratÇ(e) eu domino em (fazendo)
leÛpomai eu fico para trás em
lupoèmai (e) eu me aflijo em (fazendo)
nikÇ(a) eu venço em (fazendo)
st¡rgv eu gosto (de fazer) fazendo
xalepÇw f¡rv eu suporto mal (fazendo)
xaÛrv eu me alegro em (fazendo)

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288 o verbo grego: formas nominais

ƒAdikeÝte pol¡mou rxontew kaÜ spondŒw læontew


Vós agis mal [sois injustos] ao começar a guerra e romper os trata-
dos [começando e rompendo entrada no ato verbal]
†Hdomai Žkoævn sou fronÛmouw lñgouw.
Sinto prazer ouvindo palavras sábias de ti (simultâneo)
diŒ tÛ metƒ ¤moè xaÛrousÛ tinew diatrÛbontew; ÷ti xaÛrousi
¤jetazom¡noiw toÝw oÞom¡noiw eänai sofoÝw.
Por que alguns se alegram entretendo-se comigo? porque se alegram
em pesquisar [pesquisando] com os que são considerados sábios.
pw Žn¯r ´detai tò fÇw õrÇn
todo homem sente prazer vendo a luz (simultâneo)
õ d¢ fresÜ t¡rpetƒ Žkoævn (Hom.)
ele se alegrava na mente ouvindo [ao ouvir, em ouvir, em ouvindo,
enquanto ouvia]
kalÇw ¤poÛhsaw proeipÅn
fizeste bem tendo falado antes [em falar antes, em ter falado antes]
kreÛssvn ·sya mhk¡tƒ Ìn µ zÇn tuflñw
tu eras melhor não mais existindo do que vivendo cego [se não mais
existisses do que se vivesses cego]
¤moÜ xarÛzou Žpokrinñmenow
sê-me agradável respondendo-me [em responder]
karterÇ Žkoævn
eu agüento escutando [escuto pacientemente]
aÞsxænomai toèto l¡gvn
eu sinto vergonha dizendo isso

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o verbo grego: formas nominais 289

b) Particípio predicativo de sujeito oracional

Podemos incluir nessa construção de “particípio conjunto” aquilo


que as gramáticas denominam de “acusativo absoluto”: na verdade são
sujeitos oracionais em que o particípio aparece como predicativo do sujeito
- neutro, naturalmente.
A confusão se originou disto: o nominativo do particípio neutro é
igual ao acusativo.
Vejamos os exemplos:
¤jòn eÞr®nhn gein oédeÜw pñlemon aßr®setai.
sendo permitido conduzir a paz, ninguém escolherá a guerra.
¤jñn é nominativo neutro, predicativo do sujeito que é a frase toda.
DuoÝn kakoÝn oédeÜw tò meÝzon aßreÝtai, ¤jòn tò ¦latton
(Plat.)
De dois males [entre dois males] ninguém escolhe o maior, sendo
permitido [escolher] o menor. (duoÝn kakoÝn é um dual)
poll‹kiw ¤jòn êmÝn pleonektèsai oék ±yel®sate
muitas vezes sendo-vos possível ficar grandes, não quisestes.
oß Surakoæsioi kraug» oék ôlÛgú ¤xrÇnto Ždænaton øn
¤n nuktÜ llÄ tÄ shm°nai (Plat.)
os Siracusanos se serviam de não pouco alarido, sendo impossível
fazer sinais durante a noite com um outro meio.
oéd¢ dÛkaiñn moi dokeÝw ¤pixeireÝn prgma, sautòn
prodoènai, ¤jòn svy°nai
Não me pareces estar fazendo um negócio justo ao te entregares,
sendo possível ser salvo.
oéxÜ ¤sÅsam¡n se oåñn te øn kaÜ dunatñn (Plat.)
Nós não te salvamos, mesmo sendo viável e possível.
d°lon gŒr ÷ti oäsya toèto, m¡lon g¡ soi
Pois é evidente que tu sabes isso, sendo tua preocupação.
eÞrhm¡non dƒaétaÝw Žpantn, ¤ny‹di eìdousi koéx ´kousin
(Aristóf.)
(mesmo) estando dada a ordem de as mulheres se reunirem, elas
estão dormindo e não vêm.

mur04.p65 289 22/01/01, 11:37


290 o verbo grego: formas nominais

sundñjan tÒ patrÜ kaÜ t» mhtrÜ gameÝ t¯n Kuaj‹rou


yugat¡ra
tendo parecido bem igualmente ao pai e à mãe, [Ciro] casa-se com a
filha de Ciáxares (part. aor. neutro, pred. do suj.).

São bastante freqüentes essas construções de particípio neutro com


função predicativa. As mais comuns são as seguintes:
aÞsxròn ön sendo feio, vergonhoso
ŽnagkaÝon ön sendo inevitável, forçoso
dedogm¡non dokÇ(e) tendo-se chegado à conclusão
dñjan dokÇ(e) tendo parecido (bem)
dokoèn parecendo bem
dunatñn/Ždænaton ön sendo possível/impossível
d¡on (d¡v) sendo necessário, preciso
eÞrhm¡non tendo sido dito, está dito
¤nñn (¦neimi), parñn (p‹reimi) sendo possível, permitido
kalÇw parasxÅn tendo sido oportuno
legñmenon sendo dito, correndo o boato de que
metam¡lon havendo arrependimento de
m¡lon (m¡lomai) havendo o cuidado
par¡xon (par¡xv) sendo oportuno
pr¡pon (pr¡pv) sendo decente
pros°kon (pros®kv) sendo conveniente
prostaxy¡n (prost‹ttv) tendo sido estabelecido

Em todas essas construções, que correspondem às reduzidas de ge-


rúndio ou de particípio em português, quer na voz ativa, média ou passi-
va, basta traduzirmos os particípios em seu verdadeiro sentido e teremos
o significado claro. Todos os particípios gregos são adjetivos e concor-
dam com o sujeito, de quem são aposto e com os objetos de que são
predicativos, em gênero, número e caso.
Esse “particípio conjunto” (= predicativo ou do sujeito da princi-
pal ou do sujeito/objeto da subordinada completiva) pode ser visto tam-
bém em uma série de orações subordinadas, complementos de verbos que
exprimem percepção pelos sentidos ou pela mente:

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o verbo grego: formas nominais 291

ŽgnoÇ(e) eu ignoro, eu desconheço (que)


Žkoæv eu ouço (que)
lÛskomai eu me convenço (sou cooptado)
aÞsy‹nomai eu percebo, eu sinto
(Žpo)faÛnv eu revelo, anuncio
gignÅskv eu tomo conhecimento
deÛknumi eu mostro, demonstro (que)
dhlÇ(o) eu mostro, eu revelo
(¤j)agg¡llv eu anuncio, denuncio
¤jel¡gxv eu convenço, eu provo
eêrÛskv eu acho, encontro
¤pilany‹nomai eu esqueço de (que)
¤pÛstamai, oäda eu sei (que)
katalamb‹nv eu compreendo, depreendo, percebo
lamb‹nv eu “pego”, percebo, entendo
many‹nv eu entendo (que)
m¡mnhmai eu me lembro, estou lembrado
jænoida ¤mautÒ tenho consciência que (sei comigo mesmo que)
õrÇ(a) eu vejo (que)
periorÇ(a) eu deixo passar
puny‹nomai eu venho a saber, eu me informo
sunÛhmi eu entendo, eu percebo

A lista não é exaustiva, mas contém a maioria dos verbos de per-


cepção pelos sentidos ou pela inteligência.
A expressão do objeto direto (ou indireto) desses verbos pelo parti-
cípio (geralmente predicativo do objeto direto) deve ser entendida a par-
tir do significado deles e do tipo de ação que eles exercem sobre o obje-
to: o campo da percepção é limitado e dinâmico e só uma forma verbal
ao mesmo tempo processante e nominal, limitada e dinâmica, pode ex-
primir essa relação. Daí o uso necessário do particípio.
Contudo, quando o objeto de alguns desses verbos não é fechado,
circunscrito, com verbos de ligação, que acrescentam idéia de qualidade
ou estado, esse objeto, ou oração objetiva é expresso por um infinitivo,
com o sujeito dele no acusativo. Veremos nos exemplos que seguem:

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292 o verbo grego: formas nominais

Éw eädon aétoçw pel‹zontaw, oß leúlatoèntew eéyçw Žf¡n-


tew tŒ xr®mata ¦feugon
Assim que os viram se aproximando [aproximantes, que se aproxi-
mavam] os saqueadores rapidamente, jogando [tendo jogado] os
objetos, fugiram.
Xersñnhson kat¡maye pñleiw §ndeka µ dÅdeka ¦xousan
Ele veio a saber que Quersoneso tinha onze ou doze cidades
³kous‹ pote Svkr‹touw perÜ fÛlvn dialegom¡nou
Ouvi certa vez Sócrates discutindo sobre amigos.
³kouse Kèron ¤n XilikÛ& önta
Ouviu que Ciro estava na Cilícia.
¤peidŒn aÞsy‹nhsye ¤moè ¤pitiyem¡nou toÝw tò d¡jion k¡raw
tñte kaÜ êmeÝw kayƒêmw ¤pixeireÝte.
Quando perceberdes que eu estou fazendo carga sobre os da ala di-
reita, então, também vós, por vós mesmos, tomai iniciativa.
pesñnta BrasÛdan oß m¢n ƒAyhnaÝoi oék aÞsy‹nontai oß d¢
plhsÛon rantew Žp®negkan
Os atenienses não percebem que Brásidas caiu [tendo caído Brási-
das], mas os que estavam perto tendo-o levantado levaram-no.
toÝw ¤pixeir®masin ¥Årvn oé katoryoèntew kaÜ toçw
stratiÇtaw Žxyom¡nouw t» mon», (Tucid.)
[Os atenienses] viam não prosperantes com as iniciativas e os solda-
dos aborrecidos com a demora.
Žmfñterƒ oïn oäde kaÜ aêtòn êmÝn ¤pibouleænta kaÜ êmw
aÞsyanom¡nouw. (Dem.)
Ele sabe as duas coisas: que ele próprio está conspirando contra vós e
que vós estais percebendo.
¤mautÒ gŒr sun»dein oéd¢n ¤pistam¡nÄ (Plat.)
Pois eu sabia em minha consciência [era ciente] que nada sabia
[nada sabendo].
¤gÆ oëte m¡ga oëte smikròn jænoida ¤mautÒ sofòw Ên
(Plat.)
Por mim, eu sabia comigo mesmo que eu nem em pouco nem em
grande [coisa] era sábio [sendo].

mur04.p65 292 22/01/01, 11:37


o verbo grego: formas nominais 293

¤keÝnoi junÛsasi Mel®tÄ m¢n ceudom¡nÄ ¤moÜ d¢ Žlh-


yeæonti (Plat.)
Esses aí têm consciência com Meletos que ele está mentindo e co-
migo que estou dizendo a verdade.
mas,
Žkoæv eänai ¤n tÒ strateæmati ²mÇn „RodÛouw
Ouço existirem ródios em nosso exército.

c) Genitivo absoluto

Há ainda algumas construções de orações reduzidas de gerúndio


ou de particípio, em que a oração participial ou gerundiva está isolada
(ab-soluta) da oração principal por ter um sujeito diferente, solto, à par-
te, ab-soluto.
De fato, são dois assuntos diferentes, dois sujeitos independentes,
embora semanticamente interligados. A denominação “absoluto” é de cu-
nho formalista; registra apenas a ausência do conetivo.
Essa separação, essa independência, essa soltura, quando expressa
por uma oração reduzida de particípio é chamada pelos gramáticos de “ge-
nitivo absoluto”, isto é, solto, desligado em grego, e “ablativo absoluto”
em latim.

Nesses casos o grego e o latim têm um tratamento especial: pelo


fato de as orações subordinadas (participiais ou gerundivas) estarem dis-
tantes, separadas (ab-solutas) da oração principal, o grego põe o particí-
pio e seu agente (na voz ativa e média), ou seu paciente (na voz passiva)
no genitivo, e o latim põe o particípio ou gerúndio no ablativo (genitivo
e ablativo, repectivamente, sendo os casos de separação “ab-solutos”).
ƒEpi Kærou basileæontow.
Em Ciro reinando [reinante, enquanto reinava, durante o reina-
do]. (part. pres. aposto)
¼syñmhn aétÇn oÞom¡nvn eänai sofvt‹tvn (Plat.)
Eu percebia que eles acreditavam [eles acreditando] ser os mais sá-
bios [que eram muito sábios] (part. pres.)

mur04.p65 293 22/01/01, 11:37


294 o verbo grego: formas nominais

Diabebhkñtow ³dh Perikl¡ouw ¤w Eëboian ±gg¡lyh aétÒ


÷ti M¡gara Žf¡sthken. (Tuc.)
Tendo já Péricles atravessado para a Eubéia, foi-lhe anunciado que
Megara estava separada (distante).
xalepòn ÷ron ¤piyeÝnai taÝw ¤piyumÛaiw êphretoæshw
¤jousÛaw
É difícil pôr um limite às paixões havendo excesso de riqueza [exis-
tindo recursos, possibilidade].
oék ’n ·lyon deèro êmÇn m¯ keleus‹ntvn
eu não teria vindo aqui se vós não tivésseis ordenado [vós não tendo
ordenado].
Kèrow Žn¡bh ¤pÜ tŒ örh oédenòw kvlæontow (Xen.)
Ciro chegou ao topo da colina sem que ninguém o impedisse [nin-
guém o impedindo].
tÇn svm‹tvn yhlunom¡nvn kaÜ aß cuxaÜ polç Žrrvstñ-
terai gÛgnontai (Xen.)
Os corpos efeminando-se também as almas se tornam muito mais
fracas.
Éw ²dç tò z°n m¯ fyonoæshw t°w tæxhw
como é agradável viver quando a Fortuna não tem inveja! [a Fortu-
na não tendo inveja]
shmany¡ntvn ÷ti pol¡mioÛ eÞsin ¤n t» xÅr&, ¤jebo®yei.
(Xen.)
Tendo sido dados indícios de que os inimigos estavam [estão] no
país, partiu em socorro.
Prospesñntow ußòn gegon¡nai tÒ basileÝ. (Plat.)
Tendo caído [a notícia] de ter nascido um filho ao rei.
¤j°n soi ¥koæshw t°w pñlevw toèto poi°sai (Plat.)
Era [te] possível, a cidade estando conivente, fazer isso.
Kærou basileæontow oß P¡rsai ¤kurÛeusan tÇn M®dvn
Ciro reinante [durante o reinado de Ciro], os Persas dominaram
os Medos.

mur04.p65 294 22/01/01, 11:37


o verbo grego: formas nominais 295

Druòw pesoæshw pw Žn¯r juleæetai


O carvalho tendo caído [caído o carvalho, depois que o carvalho caiu]
qualquer homem faz lenha.
toætvn Žnagignvskom¡nvn pros¡xete tòn noèn
essas coisas sendo lidas - enquanto são lidas! - prestai atenção.
Perikl¡ouw ²goum¡nou pollŒ kaÜ kalŒ ¦rga ŽpedeÛjanto
oß ƒAyhnaÝoi
Péricles dirigente [sob a direção de, no governo de Péricles], os Ate-
nienses produziram muitas e belas obras.
g¡noitƒ ’n pn yeoè texnvm¡nou
A divindade dando condições, tudo poderia acontecer.
ŽpopleÝ oÞk‹de kaÛper m¡sou xeimÇnow
Ele embarca para casa, mesmo sendo pleno [no meio do] inverno.
oé deÝ ŽyumeÝn Éw oék eét‹ktvn öntvn ƒAyhnaÛvn
Não é preciso perder ânimo como os Atenienses não estando bem
organizados.
¤gÆ toætouw eárhka lñgouw oéx Éw oédemiw llhw ¤noæ-
shw ¤n toÝw pr‹gmasi svthrÛaw ŽllŒ boulñmenow (Isócr.)
Eu pronunciei esses discursos não (por) não havendo na situação
presente nenhuma outra salvação, mas porque eu queria [querendo].
polloÛ kat¡bhsan kaÜ ‘te yevm¡nvn tÇn ¥taÛrvn poll¯
filoneikÛa ¤gÛgneto
Muitos desceram [à arena] e [porque] os companheiros estando assis-
tindo, originou-se uma grande emulação.

d) O particípio com conetivo

Como em português, em que as reduzidas de gerúndio e particípio


podem ser modificadas por uma conjunção que explicita o conteúdo da
subordinada, assim também, em grego, o particípio pode vir modificado
por uma conjunção que faz lembrar o modo que seria empregado se a
oração permanecesse conjuncional.

mur04.p65 295 22/01/01, 11:37


296 o verbo grego: formas nominais

• a idéia de causa (causal)


conjunções: ‘te, oåon, oåa d®, (causa real, objetiva) Éw, (causa sub-
jetiva, pessoal) Ësper (lat. quod).
A conjunção nem sempre é expressa.
sunetòw pefukÆw feège t¯n panourgÛan
Tendo nascido inteligente, evita a malvadeza [porque nasceste in-
teligente, inteligente de nascença] (p. perf.)
Kèrow, ‘te paÝw Ìn kaÜ filñkalow kaÜ filñtimow, ´deto
t» stol». (Xen.)
Ciro, sendo criança e amante de belas coisas e de honras, comprazia-
se com roupas [porque era] (p. pres.: simultaneidade com ação do
verbo principal)
Éw oïn Žphllagm¡noi tÇn kakÇn ²d¡vw ¤koim®yhsan
(Xen.)
Como se livrados de todos os males eles adormeceram com prazer
[porque, como se] (p. perf. pas.: resultado da ação)
†Ate ¤jaÛfnhw ¤pipesñntew pollŒ Žndr‹poda ¦labon
Tendo-se precipitado [caído em cima] de repente, fizeram muitos
prisioneiros. [porque se precipitaram] (p. aor.: anterioridade)

• a idéia de tempo (temporal)


conjunções: ‘ma - ao mesmo tempo; eéyæw, aétÛka - imediatamente;
metajæ - nesse meio tempo, nesse intervalo; ¦ti - ainda; Ëw - assim que.
A conjunção nem sempre é expressa.

²dç svy¡nta memn°syai pñnvn (Eur.)


É agradável tendo sido salvo lembrar-se dos sofrimentos [depois de
ter sido salvo] (p. aor. pass. anterioridade)
‘ma poreuñmenoi ¤m‹xonto
Ao mesmo tempo que marchavam, lutavam [marchando] (part. pres.
simultaneidade)
metajç deipnoèntew ¤jan¡sthsan
enquanto almoçavam, levantaram-se [levantaram-se no meio da re-
feição, almoçando] (p. pres. simultaneidade)

mur04.p65 296 22/01/01, 11:37


o verbo grego: formas nominais 297

eéyçw paÝdew öntew


desde a infância [direto sendo crinças] (part. pres. simultaneidade)
pollaxoè me ¤p¡sxe l¡gonta metajæ (Plat.)
Muitas vezes [em muitas passagens] ele se intrometeu, enquanto eu
falava [interrompeu minha fala, eu falando] (part. pres. simultaneidade)
Íw ra fvn®saw Žpeb®seto (Hom.)
assim que disse isso, foi embora [tendo dito] (part. aor.: anterioridade)

• a idéia de finalidade (final)


Expressa-se pelo particípio futuro só ou com a conjunção: Éw se-
guida do particípio futuro = idéia de eventualidade:
sun®lyomen ôcñmenoi
Nós nos reunimos para ver [viemos havendo de ver]
sullamb‹nei Kèron Éw ŽpoktenÇn
Ele manda prender Ciro para matá-lo [havendo de matar]
oß ƒAyhnaÝoi pareskeu‹zonto Éw polem®sontew
Os atenienses estavam se preparando para a guerra [para guerrear;
havendo de guerrear]
kataskecom¡nouw ¦pempe tÛ pr‹ttoi Kèrow
Ele enviou batedores [os havendo de observar] o que Ciro estava fazendo

• a idéia de concessão (concessiva)


conjunções: kaÛper, kaÛ - ainda que, mesmo se, mesmo
÷mvw kaÛ - mesmo que
polloÜ gŒr kaÜ öntew eégeneÝw eÞsi kakoÛ
Muitos, com efeito, mesmo sendo de boa origem, são maus (part.
pres., estado permanente)
EÞs®lyete êmeÝw kaÛper oé didñntow nñmou
Vós chegastes, mesmo a lei não permitindo. (part. pres.)
sumbouleæv soi kaÛper neÅterow Ên (Xen.)
estou te aconselhando, mesmo sendo mais jovem (part. pres.)
kaÛper p‹nu Žgayòw Ên (Plat.)
mesmo sendo muito bom (part. pres.)

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298 o verbo grego: formas nominais

• a idéia de condição (condicional)


conjunções: eÞ = se > supositivo potencial; ¤‹n = se> supositivo even-
tual na condicionante (prótase - subordinada) e n na condicionada
potencial ou futuro na condicionada eventual (apódose - principal).
dÛkaia dr‹saw summ‹xouw §jeiw yeoæw
Tendo agido bem [tendo praticado coisas justas] terás os deuses alia-
dos [caso ajas bem, tendo agido bem] (part. aor. anterioridade em
relação ao verbo principal e o eventual por ser uma proposição futura)
FÛlippow PoteÛdaian dunhyeÜw ’n aétòw ¦xein eÞ ¤boul®yh
ƒOlunyÛoiw par¡dvken. (Dem.)
Felipe, tendo podido [teria podido], se assim o quisesse, manter Poti-
deia, entregou-a aos Olíntios. (part. aor. com ’n = irreal do passado)
oék ’n dænaio m¯ kamÆn eédaimoneÝn
Tu não poderias ser feliz não tendo feito esforço [caso não tenhas
feito, se não fizeres] (part. aor.= anterioridade = irreal do passado)
fanerñw ¤sti toèto oék ’n poi®saw eÞ m¯ katoryÅsein
³lpizen
É evidente ele não ter feito isso [não tendo feito] se não esperasse
haver de dar certo. [é evidente que ele não teria feito] (part. aor.=
anterioridade, irreal do passado)
ƒEgÅ eÞmi tÇn ²d¡vw ’n ¤legj‹ntvn eà tÛw ti m¯ Žlhy¢w
l¡goi. (Plat.)
Sou dos que prazerosamente teriam refutado [mas não refutei] se al-
guém não dissesse a verdade. (part. aor., irreal do passado)
Oék ’n ·lyon deèro êmÇn m¯ keleus‹ntvn
Eu não teria vindo aqui se vós não tivésseis mandado [vós não ten-
do mandado] (part. aor., irreal do passado).

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o verbo grego: formas nominais 299

Infinitivo

É o verbo-substantivo. É a noção substantiva do ato verbal, tam-


bém de uso intenso em grego por trazer um significado mais concreto ao
ato verbal.
O infinitivo não é uma forma verbal propriamente dita; semanti-
camente é a virtualidade, a essência, a noção substantiva do verbo (pro-
cesso ou estado). Por isso ele é um substantivo e se comporta como tal.
A denominação “infinitivo” é mero decalque do grego Žpar¡m-
faton, que os gramáticos latinos traduziram por “infinitiuus”, isto é
inflexionável. É assim que deve ser entendido no latim e nas línguas ro-
mânicas, por oposição aos modos finitos, isto é flexionáveis. É uma deno-
minação de cunho descritivista. Mas ela é verdadeira só no grego; não o
é nem em latim nem nas línguas românicas.
O termo grego Žpar¡mfaton não é formalista, é semântico;
significa: “que não diz a partir de si mesmo”, “que não define claramen-
te”, não determinativo ou indicativo, isto é, nele mesmo ele não tem re-
lação nem com o agente ou paciente. Ele não é =°ma, isto é, não tem as
desinências pessoais que referem ao [são a marca de] sujeito agente ou
paciente.
Essa denominação, contudo, foi perdendo seu conteúdo semântico
também no grego, porque no grego o infinitivo é verdadeiramente infle-
xionável, visto que o grego tem artigo e que todas as funções exercidas
pelo infinitivo, que é verbo-substantivo, são expressas pela flexão do artigo.
Como substantivo, o infinitivo pode ter todas as funções do substan-
tivo, mas ele é invariável, não tem casos (daí a denominação de “infinito”
invariável por oposição às formas “finitas” variáveis). É que no grego os
casos do infinitivo se exprimem pela flexão do artigo, diferentemente do
latim. O latim não tem artigo e por isso se viu diante da necessidade de
criar uma ptÇsiw, um caso para o verbo-substantivo, sobretudo nas re-
lações concretas, criando as formas do gerúndio.
complemento de direção -ndum
lugar onde -ndo
lugar de onde -ndo
instrumental -ndo
complemento limitativo (nominal) -ndi

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300 o verbo grego: formas nominais

Em grego, por causa da existência do artigo, o infinitivo pode ser


usado nas três vozes: ativa, média e passiva e nos três aspectos: infectum,
aoristo e futuro e perfectum, porque o artigo assume todos os casos.
Em latim, o uso do infinitivo/gerúndio só se encontra na voz ativa
e nos depoentes, que são verbos de voz média, portanto ativos, mas só no
infectum.
Os outros infinitivos só se usam nos casos sintáticos (nom. e acus.
de obj. direto); as funções expressas no grego pelo acusativo de direção e
pelo ablativo e instrumental são expressas em latim pelo supino (-tu /
tum).
Nas línguas românicas, só restam as funções circunstanciais, ad-
verbiais -ndo (menos no francês, que usa a forma invariável do particípio
ativo do infectum -nt mas o chama de “gérondif ”).
Podemos então formar um quadro da flexão do Infinitivo.
Português Grego Latim
Nom. (o) escrever (tò) gr‹fein scribere
Voc.
Acus. (o.d.) escrever (tò) gr‹fein scribere
Acus. (dir.) para escrever eÞw tò gr‹fein ad scribendum
Gen. de escrever toè gr‹fein scribendi
Dat. ao escrever 6 tÒ gr‹fein scribendo
Loc. no escrever 7 ¤n tÒ gr‹fein in scribendo
em escrevendo
Instr. pelo escrever tÒ gr‹fein scribendo
escrevendo
Abl. de escrever 8 Žpò toè gr‹fein a scribendo

6 É o dativo de complemento nominal; por exemplo: semelhante, igual ao escrever.


7 A gramática latina nos passou as relações de locativo e instrumental incluídas no
ablativo. Nós já vimos que é um erro. Ao dizermos que em escrever/em escrevendo é
um locativo, estamos pensando na relação concreta, espacial - dentro do ato de es-
crever. Como se trata de um infectum, inacabado, a relação de duração > tempo é
natural; por isso, na medida em que é uma incidência num processo, o locativo
nesse caso tem um sentido temporal.
8 O ablativo (separativo/de onde) significa eu venho de escrever, do ato de escrever.

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o verbo grego: formas nominais 301

Pode-se ver que, em português, o gerúndio ablativo é menos fre-


qüente do que o locativo/temporal e instrumental.
Há muita coerência nesses dois casos, porque a noção temporal de
duração e instrumental de passagem do ato verbal pelo instrumento inerte
combinam com o aspecto do infectum-durativo-presente, do ato verbal em
seu desenvolvimento. A do ablativo, que é a noção de separação, ponto
de partida, é menos natural.
Só existe gerúndio no presente (infectum, inacabado, durativo).
Em grego há tantos infinitivos quantos são os temas; são três os
temas, um para cada aspecto - infectum, perfectum, aoristo, e futuro,
que é um desdobramento do aoristo e construído sobre o mesmo tema.
E cada tema tem infinitivos das três vozes. Os infinitivos médios e passi-
vos no infectum e no perfectum são formalmente idênticos.
Há quatro infinitivos em grego:
• Infinitivo presente (tema do infectum, inacabado) ativo e médio /passivo;
• Infinitivo aoristo (tema do aoristo) ativo, médio e passivo;
• Infinitivo futuro (tema do aoristo) ativo, médio e passivo;
• Infinitivo perfeito (tema do perfectum, acabado) ativo e médio /passivo.
Não há idéia de tempo no infinitivo; prevalece a noção de aspecto.

• o infectum (presente-inacabado) traz a idéia de ato em desenvolvimen-


to e simultaneidade com o verbo principal.
• o aoristo (pontual) traz a idéia absoluta, pura do ato verbal; mas, num
contexto narrativo, pode exprimir uma anterioridade em relação ao verbo
principal (fato isolado, pontual).
• o futuro, sempre dependente de verbos de vontade ou intenção ou mo-
vimento, remete o ato absoluto, puro, para frente.
• o perfectum (acabado) exprime o término (ativo e médio) e o resultado
da ação (passivo).

Resumindo, o infinitivo grego é um substantivo verbal neutro sin-


gular que pode ser declinado com o artigo.
Por conseguinte:
1. Ele não tem adjunto adnominal (epíteto), mas é modificado pelo ad-
vérbio; (a “qualidade” de um processo ou estado é uma idéia de modo/
instrumento).

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302 o verbo grego: formas nominais

2. Todas as suas funções como nome são expressas pela flexão do artigo,
já que ele é indeclinável (infinito).
3. Sendo verbo, ele pode ter sujeito, predicativo, complementos, e pode
ser sujeito e predicativo, porque é substantivo. Nesse caso o predicativo
é neutro, porque o infinitivo é um substantivo neutro (isto é, não tem
gênero); e pode ter complementos, porque não perde sua natureza verbal.

Empregos do Infinitivo:

I. O infinitivo é substantivo e verbo

O fato de o infinitivo ser substantivo e verbo permite que ele te-


nha todas as funções do substantivo semanticamente compatíveis e que
ao mesmo tempo ele possa ser o núcleo de uma oração a que chamare-
mos de infinitiva.

1. O infinitivo como verdadeiro substantivo: teríamos o equivalente portu-


guês: “o pôr-do-sol”, “o comer”, por exemplo.
ŽnyrÅpvn ¤stin tò mart‹nein
o errar é [próprio] dos homens (suj. de ¤stin)
2. O infinitivo como mero enunciado da ação: “precisa comer para viver”.
¤pÛstamai neÝn
eu sei nadar (inf. comp. obj. dir.)
3. O infinitivo como núcleo de uma oração infinitiva: neste caso, ele tem
um sujeito, expresso ou não, mas diferente do verbo ou da oração da
qual depende:
“Vejo os homens correr”. O verbo vejo é o verbo principal, cujo su-
jeito não expresso é eu; os homens é sujeito de correr; os homens correr
é oração infinitiva complemento de objeto direto de vejo.
oék Žn¡meinen ²m¡ran gen¡syai
ele não esperou o dia acontecer (²m¡ran gen¡syai é complemen-
to da principal cujo sujeito é ele; ²m¡ran é sujeito de gen¡syai e
está no acusativo)

mur04.p65 302 22/01/01, 11:37


o verbo grego: formas nominais 303

Não há diferenças essenciais nestas três construções; porém é pre-


ciso fazer algumas observações a respeito da oração infinitiva:
a) Numa grande maioria de casos ela é uma completiva, e o sujeito do
infinitivo é geralmente o complemento de objeto direto do verbo prin-
cipal: vejo os homems - cumprindo a ação de - correr, daí é normal o
uso do acusativo no sujeito da oração infinitiva.
T°w Žret°w oéd¡na deÝ Þdivteæein (Plat.)
É preciso ninguém ser leigo da virtude (suj. de deÝ )
b) O que reforça esta idéia de primazia de relação do sujeito da oração
infinitiva com o verbo principal são os casos ditos de atração de casos:
nèn soi ¦jesti ŽndrÜ [ndra] gen¡syai 9
Agora te é possível tornares-te homem (atração de caso: gen¡syai
é inf. suj. de ¦jesti, seu predicativo: ŽndrÜ está no mesmo caso
que o comp. de atrib. soi do verbo ¦jesti, o sujeito acusativo de
gen¡syai não sendo expresso)
c) O predicativo do sujeito do infinitivo terá normalmente o mesmo caso
(eventualmente o mesmo número e gênero se for adjetivo) que o su-
jeito do infinitivo
strathgoè ¤sti maxom¡nou [maxñmenon] ŽpoyaneÝn
é [dever] do comandante morrer lutando (inf. suj. de ¤sti; maxo-
m¡nou é predicativo de strathgoè complemento de ¤sti e su-
jeito, no genitivo, de ŽpoyaneÝn)
4. Tanto o infinitivo como a oração infinitiva se comportam como um
substantivo neutro singular e, se tiverem um predicativo adjetivo, ele
será neutro singular.
tò ceædesyai aÞsxrñn ¤stin
(o) mentir [ser mentiroso] é feio (suj. de ¤stin)
As completivas se constroem com o predicativo do objeto direto
ou predicativo do sujeito, se o sujeito da completiva e o da principal é
o mesmo; nesse caso o sujeito da completiva nem sempre é expresso;
e quando o é, seu caso depende de sua função: se predicativo do sujei-

9 Neste exemplo e no seguinte o normal seria ndra predicativo do sujeito implí-


cito se é maxñmenon.

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304 o verbo grego: formas nominais

to da principal, o caso é nominativo, se predicativo da subordinada


completiva objetiva direta, o caso é acusativo.
¤keÝnoi [oß P¡rsai] ¤pÜ tÒ sÛtÄ oàontai deÝn frñnimoi kaÜ
m¡trioi faÛnesyai
Eles [os Persas] crêem ser necessário mostrarem-se sensatos e come-
didos às refeições [no comer]. (o suj. de oàontai (principal) e de
faÛnesyai é o mesmo: e faÛnesyai é o sujeito de deÝn que é
objeto de oàontai; o sujeito de faÛnesyai é nominativo e não
acusativo = frñnimoi kaÜ m¡trioi são predicativos do sujeito de
faÛnesyai no nom.).

II. Funções do infinitivo e da oração infinitiva


Dentro da frase, o infinitivo e a oração infinitiva podem ter todas
as funções do substantivo; vejamo-las.

1. Infinitivo sujeito:
a) Freqüentemente ele é sujeito da oração inteira.
As gramáticas o apresentam como sujeito de “verbos ou expres-
sões impessoais”10, como:
gÛgnetai - ¤g¡neto acontece, aconteceu
deÝ (d¡on ¤stin) é preciso, é dever
diaf¡rei difere, importa (interest)
dokeÝ parece (bem), agrada (placet)
¦nestin está em, é possível
¦jesti (¦sti) é possível, é permitido
p‹restin a ocasião se apresenta, é possível
pr¡pei, pros®kei convém (decet)
sumbaÛnei sucede (que) acontece
sumf¡rei é útil, proveitoso, bom
xr® é bom, é necessário (opus est, oportet)

10 Admitir a impessoalidade é admitir a possibilidade de um enunciado sem sujeito,


isto é, sem essência. O que acontece é que o sujeito do verbo “impessoal” é o
enunciado todo; por isso o verbo está na terceira pessoa.

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o verbo grego: formas nominais 305

Com predicativos neutros (adjetivos):


Ždænaton / dunatñn impossível, possível
dÛkaion justo
¤pÛdojon presumível
¤pit®deion vantajoso, conveniente
kalñn / aÞsxrñn belo, feio
oåon possível, viável
¦sti / ·n / ¦stai / eàhn: é, era, será, seria

tò froneÝn eédaimonÛaw prÇton êp‹rxei


O pensar a felicidade é a coisa que está em primeiro lugar (suj. de
êp‹rxei)
tò mart‹nein (aétoçw) ŽnyrÅpouw öntaw oéd¢n yaunastñn
O falharem sendo homens, em nada é admirável (suj. de yau-
mastñn [¤stin])
tò tŒw ²donŒw feægein kalñn ¤stin
O evitar [fugir de] os prazeres é belo (suj. de kalñn ¤stin)
tò kalÇw z°n xalepñn
O viver bem é difícil (suj.de xalepñn [¤stin])
sumbouleuñmey‹ soi tÛ xr¯ poieÝn (Xen.)
Nós estamos nos aconselhando contigo [sobre] o que é preciso fazer.
(suj. de xr¯ )
Xr¯ m®te xrhm‹tvn feÛdesyai m®te pñnvn (Plat.)
É preciso não poupar despesas nem sacrifícios (suj. de xr¯)
¦doj¡ moi eÞw lñgouw soi ¤lyeÝn (Xen.)
Pareceu-me [bem] vir para uma conversa contigo (suj. de ¦doje)
Žpi¡nai ¦jestin
É permitido [possível] ir embora (suj. de ¦jestin )
ŽeÜ kr‹tistñn ¤sti tŽlhy° l¡gein
É sempre muito melhor dizer a verdade (suj. de ¤sti )

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306 o verbo grego: formas nominais

õmoÛvw aÞxrñn Žkoæsanta xr®simon lñgon m¯ mayeÝn kaÜ


didñmenñn ti Žgayòn parŒ tÇn fÛlvn m¯ labeÝn (Isócr.)
É semelhantemente feio não entender tendo ouvido uma palavra
útil quanto não aceitar alguma coisa boa dos amigos (infinitivos
sujeitos de. aÞxrñn [¦stin])
¦doj¡ moi m¯ sÛga tò ploèn poieÝsyai
Pareceu-me bem [eu decidi] não fazer a viagem em segredo. (inf.
suj. de ¦doj¡)
¦doje pleÝn tòn ƒAlkibi‹dhn
Decidiu-se Alcibíades embarcar. [pareceu bem] (inf. suj. de ¦doje)
aÞsxròn tÒ parñnti kairÒ m¯ xr°syai
É uma vergonha não se apropriar da ocasião que se apresenta [do
momento presente] (inf. suj. de aÞsxròn ¤stin).
DeÝ se yeoseb° eänai
É preciso tu seres piedoso [que sejas] (inf. suj. de deÝ).
xr° toçw eï pr‹ttontaw t°w eÞr®nhw ¤piyumeÝn (Isócr.)
É preciso os que estão bem desejar [em] a paz (suj. de xr° )
xr¯ tolmn xalepoÝsin ¤n lgesi keÛmenon ndra
É preciso o homem encontrando-se em dores cruéis ter coragem
(suj. de xr¯ )
kaÜ †Ellhni kaÜ barb‹rÄ ¤g¡neto Žd¡vw poreæesyai
Aconteceu ao grego e ao bárbaro viajar sem temor (suj. de ¤g¡neto)
dokeÝ d¡ moi kaÜ Karxhdñna m¯ eänai (Plut.)
Parece-me [sou de opinião] também Cartago não existir [não de-
ver] (suj. de dokeÝ )
oék ¦stin eêreÝn bÛon lupon oédenÛ (Eur.)
Não é possível [permitido] a ninguém encontrar uma vida sem so-
frimento. (suj. de oék ¦stin)
oé d®pou tòn rxonta tÇn Žrxom¡nvn ponhrñteron
pros®kei eänai (Xen.)
Não é sem dúvida conveniente o comandante ser pior do que os
comandados (suj. de pros®kei)

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o verbo grego: formas nominais 307

‰W Zeè labeÝn moi g¡noito aétòn Éw ¤gÆ boælomai


Ó Zeus, pudesse me acontecer eu pegá-lo, como desejo! (suj. de
g¡noito)
jun¡bhn Ëste pol¡mou mhd¢n ¦ti ‘casyai mhdet¡rouw
(Tuc.)
Aconteceu de nenhum dos dois [inimigos] em nada acenderem a
guerra [recomeçarem a guerra]. (suj. de ‘casyai )

b) As construções em que o adjetivo aparece em função predicativa do sujeito


oracional, com o verbo em 3a pessoa, são freqüentemente substituídas
por uma expressão em que o adjetivo é predicativo do sujeito do verbo ser
e o infinitivo (ou oração infinitiva) é complemento do adjetivo:
Î Prñdike, sòw SimvnÛdhw polÛthw : dÛkaiow eä [dÛkaiñn
¤stin] bohyeÝn tÒ ŽndrÛ. (Plat.)
Pródico, Simônides é teu concidadão; és justo ajudares o homem
[é justo tu ajudares] (compl. nom. de dÛkaiow eä)
dÛkaiñw eÞmi zhmioèsyai [dÛkaiñn ¤stin ¤m¢ zhmioèsyai] (Xen.)
Eu sou justo em ser castigado. [é justo eu ser castigado / estar
sendo castigado] (compl. nom. de dÛkaiñw eÞmi )
ndraw tinŒw Žp¡kteinan oé polloçw oã ¤dñkoun ¤pit®deioi
eänai êpejairey°nai = oîw ¤dñkei ¤pit®deion eänai êpejai-
rey°nai. (Tuc.)
[Os 400] mataram alguns homens, não muitos, os que pareciam
ser convenientes para serem eliminados [os que pareciam convenien-
tes de serem eliminados] (compl. nom. de ¤pit®deioi eänai)
¤pidojñw eÞmi tuxeÝn t°w tim°w taæthw [¤pidojñn ¤stin ¤m¡]
(Isócr.)
eu sou provável de encontrar essa honraria [é provável eu encon-
trar] (compl. nom. de ¤pidojñw eÞmi)

c) Encontramos essa mesma construção com substantivos em função de sujei-


to ou predicativo; nesse caso eles mantêm o próprio gênero. Em portu-
guês, às vezes somos tentados a usar o infinitivo como complemento
nominal (= é hora de sair) ou sujeito (comandar a frota duas vezes não
era costume...)

mur04.p65 307 22/01/01, 11:37


308 o verbo grego: formas nominais

kÛndunñw ¤stin há risco de, há perigo de


nñmow ¤stin é costume, é norma
Ëra / kairñw ¤stin é hora, é o momento (de)

ƒAllŒ gŒr ³dh Ëra Žpi¡nai./ Žpi¡nai Ëra ¤stin/


Mas já é hora de ir embora (compl. nom. em português).
Ëra ²mÝn bouleæesyai (Xen.)
É tempo [hora de] para nós deliberarmos [estar deliberando] (compl.
nom. em português)
oé gŒr nñmow aétoÝw dÜw tòn aétòn nauarxeÝn (Xen.)
Não é costume entre eles [de] o mesmo [homem] comandar a frota
duas vezes.

2. Predicativo (aposto = particípio conjunto) do sujeito da frase principal:


O sujeito nem sempre é expresso quando o sujeito do verbo prin-
cipal e do infinitivo é o mesmo.
ŽdikeÝsyai nomÛzei êfƒ²mÇn [aétñw]
Ele pensa estar sendo prejudicado por nós (pred. do suj. de nomÛzei).
oß oÞnoxñoi f‹skontew eänai [oß f‹skontew oÞnoxñoi eänai]
Os que diziam ser escanções (pred. do suj. de f‹skontew).
ŽpallageÜw toætvn tÇn faskñntvn dikastÇn eänai
Liberado desses que diziam ser juízes (pred. do suj. de faskñntvn).

3. Infinitivo complemento do objeto direto e orações completivas.

a) Complemento de verbos enunciativos, declarativos

a.1) Infinitivo
PeÛyesyai many‹nein
Aprender a obedecer (obj. dir. acus.).
aétò tò Žpoyn¹skein oédeÜw fobeÝtai
O morrer mesmo (obj. dir. acus.) ninguém teme.

mur04.p65 308 22/01/01, 11:37


o verbo grego: formas nominais 309

tŒ purŒ oék ¦fh ÞdeÝn (aétñw)


Ele não disse ter visto a fogueira [ele negou ter visto].
Kèrow êp¡sxeto ŽndrÜ ¥k‹stÄ dÅsein p¡nte mnw [aétñw]
Ciro prometeu haver de dar cinco minas a cada homem [que daria].
õmologÇ d¢ sƒŽdikeÝn (¤gÅ)
Concordo ser-te injusto [que eu estou / estar prejudicante]
õmologeÝw oïn perÜ ¤m¢ dikow gegen°syai;
Tu concordas ter-te tornado injusto a meu respeito?

a.2) Oração infinitiva, ou substituindo o indicativo


tò proeid¡nai tòn yeòn tò m¡llon kaÜ tò prosshmaÛnein
Ú boæletai kaÜ toèto p‹ntew kaÜ l¡gousi kaÜ nomÛzousin.
O fato de a divindade prever o porvir e assinalar além do mais an-
tecipadamente com o que ela quer, também isso todos afirmam e
pensam. (obj. dir. de kaÜ l¡gousi kaÜ nomÛzousin. - ou aposto
de isso, ele mesmo obj. dir. de kaÜ l¡gousi kaÜ nomÛzousin; po-
sição de anacoluto).
¤rvtÅmenow d¢ podapòw eàh, P¡rshw m¢n ¦fh eänai
Sendo perguntado de que país era [seria], disse ser Persa [que era
Persa] (obj. dir. de ¦fh).
tòn kalòn kŽgayòn ndra kaÜ gunaÝka eédaÛmona eänai
fhmi, tòn de dikon kaÜ ponhròn ylion. (Plat.)
O homem e a mulher belo[s] e bom[s] eu afirmo ser[em] feliz[es];
o injusto e malvado, infeliz (obj. dir. de fhmi).
¤k®ruje d¢ labñntaw tŒ ÷pla kaÜ tŒ skeæh toçw stra-
tiÅtaw ¤ji¡nai
[Anaxíbio] fez anunciar que os soldados pegassem as armas e baga-
gens e partissem [tendo pegado... partirem] (inf. obj. dir. de ¤k®ruje).
sofist¯n ônom‹zousi tòn ndra eänai
Chamam esse homem de ser sofista (inf. obj. dir. de ônom‹zousi).

mur04.p65 309 22/01/01, 11:37


310 o verbo grego: formas nominais

b) Complemento objeto de verbos volitivos


Na expressão de um desejo ou de um ato de vontade (verbos volitivos),
o objeto se exprime com o infinitivo ou com uma oração infinitiva.
Substitui ou o subjuntivo ou o optativo.

b.1) Infinitivo
ßk¡teue m¯ aétòn ŽpokteÝnai (Lís.)
Ele me suplicava não matá-lo (inf. aoristo obj. dir. de ßk¡teue).
kalÇw Žkoæein mllon µ plouteÝn y¡le (Men.)
Deseja [tu] antes ser louvado que ser rico (inf. obj. dir. de y¡le).

b.2) Oração infinitiva


taæthn t¯n xÅran ¤p¡trece diarp‹sai toÝw †Ellhsin Éw
polemÛan oïsan. (Xen.)
[Ciro] destinou aos gregos saquearem aquele país por ser inimigo
[sendo país inimigo] (obj. dir. de ¤p¡trece).
keleæv se ¦rxesyai
Eu te ordeno vir (obj. dir. de keleæv).
tÛw se kvlæsei deèro badÛzein;
Quem te impedirá de vir aqui? (obj. dir. de kvlæsei )
Kèrow ¤k¡leuse g¡furan zeugnænai
Ciro ordenou construir [unir] uma ponte (obj. dir. de ¤k¡leuse).
perainÇ soi sign
Estou te aconselhando calar [que cales] (obj. dir. de perainÇ)
õ fñbow tòn noèn ŽpeÛrgei m¯ l¡gein “ boæletai
O medo impede o intelecto de exprimir o que quer (obj. dir. de
ŽpeÛrgei).
(Kl¡arxow) toçw õplÛtaw ¤k¡leusen aétoè meÝnai tŒw
ŽspÛdaw pròw tŒ gñnata y¡ntaw, (Xen.)
[Clearco] ordenou aos hoplitas permanecer no mesmo lugar colocan-
do os escudos diante dos joelhos (inf. aoristo obj. dir. de ¤k¡leusen).
Žpeiloèsi BoivtoÜ ¤mbaleÝn eÞw t¯n ƒAttik®n (Xen.)
Os Beócios ameaçam invadir a Ática (obj. dir. de Žpeiloèsi).

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o verbo grego: formas nominais 311

c) Completivas (objeto direto) de verbos que enunciam um julgamento, um


ponto de vista, uma necessidade, uma possibilidade. Substitui o indicati-
vo, ou o subjuntivo/futuro no caso da eventualidade ou o optativo no
caso da possibilidade.

c.1) Infinitivo

polloè moi dokÇ deÝn tŒ êm¡tera ¦xein (Isócr)


Eu pareço faltar por muito de ter as vossas coisas [parece que me
falta muito de ter as vossas coisas] (inf. obj. dir. de dokÇ)
nomÛzei ŽdikeÝsyai
Ele considera [estar sendo] injustiçado. (obj. dir. de nomÛzei)
mikroè ¤d¡hsen õ Eé‹goraw Kæpron ‘pasan katasxeÝn
[mikroè ¤d¡hsen tòn Eé‹goran]. (Isócr.)
Evágoras faltou por pouco de se apoderar de toda Chipre (inf. obj.
de ¤d¡hsen)
oék Õmhn katƒŽrxŒw êpò soè ¥kñntow eänai ¤japathy®-
sesyai, Éw öntow fÛlou. (Plat.)
No começo eu não pensava ser [possível] eu haver de ser enganado
por ti voluntariamente, sendo amigo. (obj. dir. de Õmhn - futuro
eventual)
Aß ponhrÛai tÇn faskñntvn eänai sofistÇn (sofistaÛ)
As malvadezas [vícios] dos que diziam ser sofistas (inf obj. dir. de
faskñntvn)
ômnæasi m¯ t¯n t‹jin leÛcein
Eles juram não abandonar [haverem de] as fileiras. (obj. dir. de
ômnæasi, futuro > intenção, eventual)
¤lpÛzei dunatòw eänai rxein (rjesyai)
Ele espera ser capaz de comandar [haver de comandar] (obj. dir. de
¤lpÛzei, futuro > eventual)
¦doja Žkoèsai
Eu pareci ouvir. [Pareceu-me ouvir; parece que ouvi] (obj dir. de
¦doja)

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312 o verbo grego: formas nominais

c.2) Oração infinitiva

Õmhn t¯n ¤mautoè gunaÝka pasÇn svfronest‹thn eänai


tÇn ¤n t» pñlei. (Lís.)
Eu acreditava que minha mulher era [minha mulher ser] a mais
bem comportada de todas as da cidade (obj. dir. de Ömhn).
nomÛzv eänai yeoæw
Eu creio existirem deuses [que existem deuses] (obj. dir. de nomÛzv).
oämaÛ se sofòn eänai
Eu creio [acho] que és sábio [seres sábio] (obj. dir. de oämaÛ)
¤dÛdaske toçw paÝdaw m¯ ceædesyai
Ele ensinava os filhos [a] não serem mentirosos [não mentir] (inf.
obj. dir. de ¤dÛdaske )
d¡omai êmÇn m¯ yorubeÝn
Eu vos peço não fazer[des] barulho (inf. obj. dir. de d¡omai)
boælomaÛ s¡ moi §pesyai
Eu quero que tu me sigas [tu me seguires] (inf. obj. dir.)
eäpon tŒ teÛxh kayeleÝn
Eles disseram [para] destruir as muralhas (inf. obj. dir. de eäpon)
pisteævn yeoÝw pÇw oék eänai yeoçw ¤nñmizen;
Acreditando nos deuses, como ele pensava não existirem deuses?!
(inf. obj. dir. de ¤nñmizen)
oék ³lpizon [¤kpeseÝsyai] ¤kpeseÝn [’n] tòn Perikl¡a
Eles não esperavam Péricles cair [que P. caísse; na queda de Péri-
cles; que Péricles poderia cair] (inf. obj. dir. de ³lpizon, futuro >
eventual)
oék ¤lpÛzete aétoçw d¡jasyai [d¡jesyai] ²mw
Vós não esperais eles nos aceitar [que eles nos aceitem; aceitarão;
haverem de aceitar] (inf. obj. dir. de ¤lpÛzete futuro > eventual)
¤lpÛzv oéd¢ toçw polemÛouw meneÝn ¦ti.
Eu espero que os inimigos não mais haverem de esperar[nos] [espera-
rão]. (inf. obj. dir. de ¤lpÛzv futuro > intenção)

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o verbo grego: formas nominais 313

÷ ti ’n poi»w nñmizƒõrn yeoæw tinaw


O que quer que faças considera alguns deuses estarem vendo [que
alguns deuses estão vendo]. (inf. obj. dir. de nñmize)
oß ²gemñnew oë fasin eänai llhn õdñn
Nossos guias afirmam que não há outro caminho [negam haver
outro caminho = negam existir um outro caminho] (inf. obj. dir. de
fasin)

d) Complemento dos verbos que significam poder ou ter a faculdade de, estar
em condições de, saber, fazer de maneira a (que), obter, conseguir.

d.1) Infinitivo
m¡lleiw t¯n cux¯n t¯n sautoè parasxeÝn yerapeèsai
ŽndrÜ sofist»; (Plat.)
Estás disposto a entregar [tu vais entregar] tua própria alma para
cuidar a um homem [que é um] sofista? (obj. dir. de m¡lleiw)
oé dænamai m¯ geln
Eu não posso não rir (inf. comp obj. dir.)
¤pÛstamai ¤pistateÝn
Eu sei comandar (inf. comp. obj. dir.)
eéyçw paÝdew öntew many‹nousin rxein te rxesyai
Desde crianças [logo sendo] eles aprendem a mandar e ser manda-
dos (inf. comp obj. dir.)
oék aß trÛxew poioèsin aß leukaÜ froneÝn
Não são os cabelos, os brancos, que fazem pensar (inf. obj. dir.
poioèsin)
Oß †Ellhnew ¤bñvn Žllhloiw m¯ yeÝn drñmÄ Žllƒ ¤n t‹jei
§pesyai
Os gregos gritavam uns aos outros de [para] não entrarem corren-
do, mas [para] seguirem em fileiras. (inf. obj. dir. de ¤bñvn)
¤poÛhse tòn t°w KilikÛaw rxonta Su¡nnesin m¯ dænasyai
katŒ g°n ¤nantioèsyai KærÄ poreuom¡nÄ ¤pÜ basil¡a.

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314 o verbo grego: formas nominais

Fez com que o governador da Cilícia Siníesis não pudesse [não


poder] opor-se a Ciro que marchava [marchando], por terra, contra
o rei. (inf. obj. dir. de dænasyai )
oék ’n ¦xoimi toèto Žpò stñmatow eÞpeÝn
Eu não poderia dizer isso de boca [de cor] (inf. obj. dir.)
ƒAllŒ, mŒ tòn DÛa, ¦fh, oék ’n ¦xoimÛ soi oìtvw ge Žpò
stñmatow eÞpeÝn
Mas, por Zeus, disse ele, eu não poderia dizer-te assim de boca
[de memória]. (inf. comp obj. dir. de ’n ¦xoimÛ > atenuação da
afirmação)

d.2) Oração infinitiva


diepr‹jato p¡nte m¢n strathgoçw Þ¡nai,
Ele conseguiu [fez] cinco comandantes irem [que fossem] (inf. obj.
dir. de diepr‹jato)

4. O infinitivo com valor de possível (com n): o significado possível


do infinitivo é marcado por n; indica também a atenuação da afir-
mação (=condicional ou imperfeito do subjuntivo em português).
Sçn êmÝn ’n oämai tÛmiow eänai ÷pou Î.
Em vossa companhia eu creio que poderia ser estimado onde eu
estiver, [onde esteja]. (inf. comp obj. dir. de oämai > eventual)
nomÛzv, êmÇn ¦rhmow Ên, oék ’n ßkanòw eänai ¤xyròn
Žl¡jasyai (Xen.)
Eu considero, sendo eu privado de vós, não ser capaz, [que, sendo
eu privado de vós, não seria capaz] de afastar o inimigo. (inf. comp.
> possível)
m‹lista oämai ’n soè puy¡syai
Eu creio que poderia ser informado sobretudo de [por] ti (inf. obj.
dir. de oämai > possível)

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o verbo grego: formas nominais 315

dokoÝt¡ moi polç b¡ltion ’n perÜ toè pol¡mou bou-


leæsasyai eÞ tòn tñpon t°w xÅraw pròw ¶n polemeÝn
¤nyumhyeÛhte.
Vós me pareceis poder deliberar muito melhor a respeito da guerra
[poderíeis deliberar] se vós refletísseis no espaço de terreno do país
contra o qual guerreais. (inf. obj. dir. de dokoÝt¡ > possível)
P¡rsai oàontai toçw ŽxarÛstouw kaÜ perÜ yeoçw ’n m‹lis-
ta ŽmelÇw ¦xein kaÜ perÜ gon¡aw, kaÜ patrÛda kaÜ fÛlouw.
Os Persas pensam que os ingratos tanto se descuidariam [poderiam
descuidar] dos deuses quanto dos pais, da pátria e dos amigos (inf.
obj. dir. de oàontai > possível)
¤nñmizon parŒ KærÄ öntew ŽgayoÜ Žjivt¡raw ’n tim°w
tugx‹nein µ parŒ tÒ basileÝ
Eles achavam que, sendo bons ao lado de Ciro, poderiam encontrar
honra maior do que junto ao rei [dos Persas]. (inf. obj. dir de
¤nñmizon > possível)
Kèrow eÞ ¤bÛv ristow ’n dokeÝ rxvn ’n gen¡syai (¤gÛgneto)
Ciro, se vivesse, parece que se tornaria o melhor dos governantes.
(inf. obj. dir. de dokeÝ > irreal do presente)
eÞ xrus°n ¦xvn ¤tægxanon t¯n cux¯n, Î KalÛkleiw, oék
’n oàei smenon eêreÝn toætvn tinŒ tÇn lÛyvn oåw basa-
nÛzousi tòn xrusòn, t¯n ŽrÛsthn; (Plat.)
Se por acaso eu tivesse a alma de ouro, Cálicles, não seria agradável
poder encontrar [que eu pudesse encontrar] uma daquelas pedras, a
melhor, que testam o ouro? (inf. suj. de oàei > irreal do presente)

5. Infinitivo e oração infinitiva complemento nominal.


Com adjetivos que significam: (tornar, ser) apto a, bom de, bom
para, difícil de, agradável a, digno de, capaz de, suficiente para etc. que
em português exigem uma preposição antes do infinitivo (compl. no-
minal), em grego fazem a relação direta: complemento nominal sem
preposição.
Na verdade são as várias maneiras do acusativo de relação. Ver
acusativo de relação.

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316 o verbo grego: formas nominais

ßkanòw Žn¯r diagnÇnai (Plat.)


Um homem capaz de discernir [de julgar] (compl. nom. de ßkanòw,
quanto a, em relação a).
õpñsoi ßkanoÛ eÞsi tŒw Žkropñleiw ful‹ttein
Quantos são suficientes para montar guarda nas cidadelas (compl.
nom. de ßkanoÜ).
oß l¡gein deinoÛ
Os aptos [que são aptos, capazes de] a falar. (compl. nom. de deinoÛ).
¦toimòw ·n peisy°nai
Ele estava pronto para ser persuadido [obedecer] (compl. nom. de
¦toimow).
oß sofistaÜ ßkanoÜ ·san makroçw lñgouw kaÜ kaloçw eÞpeÝn
Os sofistas eram capazes de pronunciar longos e belos discursos
(compl. nom. de ßkanoÜ).
ôjætatoÛ ¤ste gnÇnai tŒ =hy¡nta
Vós sois muito perspicazes em entender o que foi dito [as coisas
ditas] (compl. nom. de ôjætatoÛ.)
xalepòn eêreÝn
Difícil de encontrar (compl. nom. de xalepòn).
ƒArk‹w tiw ƒAræstaw önoma fageÝn deinñw
Um arcádio chamado Aristas, terrível para comer [grande comilão]
(compl. nom. de deinñw).
deinòw gŒr oänow kaÜ palaÛesyai baræw, (Eur.)
Pois perigoso é o vinho e pesado de ser combatido (compl. nom. de
baræw).
gun¯ eéprep¯w ÞdeÝn
Mulher bem conveniente de ver (compl. nom. de eéprep¯w).
Kl¡arxow õrn stugnòw ·n kaÜ t» fvn» traxæw, (Xen.)
Clearco era triste de ver e de voz rude (compl. nom. de stugnòw).
·n d¢ Yemistokl°w mllon ¥t¡rou jiow yaum‹sai, (Tuc.)
Mais do que outro Temístocles era digno de admirar (compl. nom.
de jiow).

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o verbo grego: formas nominais 317

õ xrñnow braxçw ŽjÛvw dihg®sasyai


O tempo é curto para discorrer dignamente (compl. nom. de braxçw).
¦fh ²g®sesyai dunat¯n kaÜ êpozugÛoiw poreæesyai õdñn
Ele afirmou haver de guiar [que guiará] por um caminho possível até
para bestas de carga passarem. (or. inf. compl. nom. de dunat¯n)
jiñw ¤stin ¤pain¡sai
Ele é digno de elogio [de alguém elogiar] (compl. nom. de jiñw)
pñteron tò parŒ soÜ ìdvr yermñteron pieÝn ¤stin µ tò
¤n ƒAsklhpioè;
Será que tua água [da tua casa] é mais quente para beber do que a
do templo de Asclépios? (compl. nom. de yermñteron)
oÞkÛa ²dÛsth ¤ndiaitsyai
Casa muito agradável de se viver [passar o tempo] (compl. nom. de
²dÛsth)

6. Outras funções expressas pelos mais variados casos do infinitivo.


Já vimos o infinitivo e a oração infinitiva como sujeito, como pre-
dicativo, como complemento objeto direto, como complemento no-
minal de adjetivos, em construção direta.
O grego pode construir diretamente diversas funções do infiniti-
vo, usando o verbo no caso sintaticamente conveniente, e exprime-as
pela flexão do artigo, enquanto o latim e o português as expressam
pelas diversas formas do gerúndio ou do infinitivo preposicionado.
Mas, quando for semanticamente indispensável, o grego também
pode usar o infinitivo preposicionado.

a) Genitivo
• Complemento de substantivos
paÝdew êmÝn ôlÛgou ²likÛan ¦xousi paideæesyai, (Plat.)
Vossos filhos de [de pouco falta terem] pouco têm idade de serem
instruídos (inf. compl. nom. de ²likÛan)
¤keÝ ski‹ tƒ ¤stÜ kaÜ pneèma m¡trion kaÜ pña kayÛzesyai µ
’n boulÅmeya katakliy°nai, (Plat.)
Lá há sombra e uma brisa comedida e relva para sentar e, se qui-
sermos, para deitar. (compl. nom.)

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318 o verbo grego: formas nominais

Ëra bouleæsasyai
É hora de deliberar (compl. nom. de Ëra)
² proyumÛa toè l¡gein / toè ÞdeÝn
A ambição [desejo] de falar/de ver (compl. nom. de proyumÛa)
tò eï pr‹ttein parŒ t¯n ŽjÛan Žform¯ toè kakÇw
froneÝn toÝw Žno®toiw gÛgnetai
O ser bem-sucedido, contrariamente à honra, torna-se aos estul-
tos um incentivo de pensar mal (infinitivo comp. nom.).
eï àsyi ÷ti tò ceudñmenon faÛnesyai m‹llista ¤mpodÆn
gÛgnetai ŽnyrÅpoiw toè suggnÅmhw tugx‹nein
Saibas [sabe tu] bem que o fato de se revelar mentiroso [aparecer
mentindo] se torna para os homens um maior obstáculo de en-
contrar perdão (compl. nom.).

• Genitivo-ablativo
MÛnvw tò lústikòn kay¹rei ¤k t°w yal‹sshw toè tŒw
prosñdouw mllon Þ¡nai aétÒ. (Tuc., 1.6)
Minos limpava [passou a eliminar] do mar a pirataria em troca de
[por causa de] entrarem mais recursos para ele. (gen-abl.-const. dir.)
tŒw aÞtÛaw toè pol¡mou proëgraca toè m® tina zht°sai
(Tuc.)
Eu escrevi as causas da guerra antes de alguém não procurá-las.
(gen. separ. / causa / em troca de)
êp¢r toè m¯ doènai dÛkhn
Por (em favor de) não ser sentenciado (gen.- abl. de separ.)

• Dativo
eÞ d¢ m¯ tò aétñ ¤sti tò eänai tÒ gen¡syai, (Plat., Prot., 340c)
se o ser não é a mesma coisa que o tornar-se (vir a ser)

b) Instrumental
FÛlippow kekr‹thke tÒ prñterow pròw toçw polemÛouw
Þ¡nai
Felipe venceu pelo fato de marchar [por marchar, ir primeiro contra
os inimigos]. (inf. instr.)

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o verbo grego: formas nominais 319

nÛkhson ôrg¯n tÒ logÛzesyai kalÇw


Vence a cólera raciocinando bem [pelo raciocinar, instr.]
Kèrow diŒ tò filomay¯w eänai [tÒ filomayeÝ eänai ] pollŒ
toçw parñntaw ŽnhrÅta.
Ciro, por ser desejoso de aprender perguntava muitas coisas aos pre-
sentes (instr > causal).

c) Locativo
pròw tÒ mhd¢n ¤k t°w presbeÛaw labeÝn toçw aÞxmalÅ-
touw ¤k tÇn ÞdÛvn ¤lus‹mhn
além de nada receber da embaixada [literal. em cima de = loc.] eu
resgatei os prisioneiros [a partir] de meus próprios recursos.
¤n tÒ §kaston dikaÛvw rxein ² politeÛa sÅzetai
No cada um governar com justiça a administração é salva (loc.)

d) Acusativo de relação
tò d¢ nèn eänai t¯n sunousÛan dialæsvmen (Plat.)
Quanto a agora [por ser agora] interrompamos nosso encontro.

e) Acusativo de direção:
A idéia de finalidade, conseqüência, destinação de uma ação, tam-
bém pode ser expressa pelo infinitivo ativo com os verbos que signifi-
cam: destinação, fim, escolher para, pedir para, dar para, enviar para, dei-
xar para, encarregar de (no latim freqüentemente se usa o particípio fu-
turo passivo).
Com verbos de movimento ou intenção também é freqüente a cons-
trução com o futuro ativo com ou sem Éw / ána
pròw tò metrÛvn deÝsyai kalÇw pepaÛdeumai
Fui [estou] bem educado para necessitar de coisas comedidas (acus.
de direção, intenção)
pñroi pròw tò polemeÝn
Recursos para fazer a guerra (acus. de direção, intenção)

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320 o verbo grego: formas nominais

pasÇn pñlevn ƒAy°nai m‹lista pefækasin ¤n eÞr®nú


aëjesyai
De todas as cidades, Atenas sobretudo nasceu para crescer na paz
(finalidade, const. direta)
kraug¯n poll¯n ¤poÛoun kaloèntew Žll®louw Ëste kaÜ
toçw polemÛouw Žkoæein. (Xen.)
Eles faziam um grande alarido ao se chamarem mutuamente a ponto
de os inimigos ouvirem. (comp. da princ. introduzido por Ëste)
·lye zht°sai
ele veio pesquisar (finalidade, const. direta)
eálonto Drakñntion Sparti‹thn drñmou tƒ ¤pimelhy°nai
kaÜ toè ŽgÇnow prostat°nai.
Eles escolheram [elegeram] o espartano Dracôntio para se encar-
regar da corrida e presidir à luta. (intenção, finalidade)
ƒArist‹rxÄ ¦dote ²m¡ran Žpolog®sasyai (Xen.)
Concedestes a Aristarco um dia para fazer a defesa (intencão, finalidade)
par¡xv ¤mautòn t¡mnein tÒ ÞatrÒ
Ofereço-me [apresento] ao médico para cortar (intenção, finalidade)
par¡dvka aétòn paideæein
Entreguei-o para educar (intenção, finalidade)
pieÝn didñnai
Dar de beber [para beber] (finalidade)
P‹ntew aÞtoèntai toçw yeoçw tŒ faèla Žpotr¡pein
Todos suplicam aos deuses afastarem as coisas ruins (intenção)
…Elegñn soi m¯ gameÝn
Eu te dizia para não casar. (intenção)
D¡omai êmÇn m¯ ŽkoèsaÛ mou.
Eu vos peço não me ouvirdes (intenção)
Perikl°w ²r¡yh l¡gein (Tuc.)
Péricles foi escolhido para falar [na ocasião]. (intenção, finalidade)
oänon ¤gxeÝn pieÝn
servir vinho para beber (intenção, finalidade)

mur04.p65 320 22/01/01, 11:37


o verbo grego: formas nominais 321

jun¡bhsan toÝw Plataieèsi paradoènai sfw aétoçw kaÜ


tŒ ÷pla xr®sasyai ÷ ti ’n boælvntai. (Tuc.)
[Os Tebanos] chegaram a um acordo de eles mesmos se entrega-
rem aos Plateenses e de (os Plateenses) se servirem das armas em
(relação ao) que quisessem (intenção, finalidade)
õ rxein aßreyeÛw
o escolhido para comandar (intenção, finalidade)
taæthn t¯n xÅran ¤p¡trece diarp‹sai toÝw †Ellhsin Éw
polemÛan oïsan. (Xen.)
[Ciro] confiou aos gregos saquearem aquele país por ser inimigo
[sendo país inimigo]. (intenção, finalidade)

III. Infinitivo com valor verbal


O Infinitivo pode ser o elemento de uma oração independente ou
principal, substituindo outros modos.

1. Infinitivo com valor imperativo (exclamativo), comum nas saudações


e nas imprecações:
trap¡zaw eÞsf¡rein; (Aristóf.)
Trazer as mesas! [tragam/trazei as mesas]
Toèto parƒ êmÝn aétoÝw bebaÛvw gnÇnai; (Dem.)
Conhecer isso seguramente em vós mesmos [na vossa cabeça]!
Em¢ payeÝn t‹de; (Ésq.)
Eu sofrer isto?!
ToioutonÜ tr¡fein kæna; (Aristóf.)
Alimentar esse cachorro!? [um cachorro desses?!]
Tò ¤m¢ deèro tuxeÝn;
O encontrar-me lá?!
yarsÇn nèn, Diñmhdew, ¤pÜ TrÅessi m‹xesyai; (Hom.)
Força [vamos!] aí, Diomedes, [ao]combater com os troianos!

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322 o verbo grego: formas nominais

yeoÜ polÝtai m® me douleÛaw tuxeÝn; (Ésq.)


Deuses da cidade! que eu não caia [não me deixeis cair] em escravidão!
tò gŒr Žntil¡gein tolmn êmw; (Aristóf.)
E vós ousar[des] me contradizer.

2. Infinitivo absoluto ou livre ou independente, isolado, sem ligação sin-


tática aparente (às vezes com a conjunção Éw, como, por assim dizer).
Em geral ele se encontra num enclave (frases intercaladas, explica-
tivas, restritivas, entre vírgulas).
É um uso comum em todas as línguas modernas: por isso não nos
deve espantar.
Daremos a seguir as expressões mais comuns:
Éw ¦pow eÞpeÝn para usar dessa expressão, por assim, dizer
(ut ita dicam)
Éw suntñmvw eÞpeÝn para dizer em resumo (ut breviter dicam)
Éw plÇw eÞpeÝn para dizer simplesmente
Éw eÞpeÝn para dizer, por (assim) dizer
Éw sunelñnti [moi] eÞpeÝn para dizer em poucas palavras (para eu resu-
mir em poucas palavras)
Éw gƒ ¤n ²mÝn eÞr°syai para ser dito entre nós
Éw ¤moÜ dokeÝn pelo que me parece (para me parecer)
tò ¤pƒ¤moÜ eänai pelo que depender de mim
÷son g¡ mƒeÞd¡nai o quanto eu estar sabendo (o que depende)
÷sa dokeÝn aétÒ o quanto lhe parecer
Éw eÞk‹sai como é a parecer, a figurar, imaginar
nèn ÞdeÝn a ver agora
¥kÆn (¥kñntew)eänai por vontade, voluntariamente
katŒ toèto eänai“ por ser assim (conforme isso)
tò nèn eänai por ser agora
mikroè (ôlÛgou) deÝn por faltar pouco, faltando pouco
Éw Žlhy¢w eÞpeÝn para dizer a verdade
Éw oêtvsÛ Žkoèsai por (para) ouvir assim

mur04.p65 322 22/01/01, 11:37


o verbo grego: formas nominais 323

ƒAlhy¡w ge, Éw ¦pow eÞpeÝn, oéd¢n eÞr®kasin


[de] verdadeiro, por assim dizer, eles nada disseram
Tò ¤pƒ¤keÛnoiw eänai ŽpolÅlate
O estar sobre eles [de vos apoiardes] vós estáveis perdidos.
¦jv t°w oÞkoum¡nhw ôlÛgou deÝn p‹shw meyeist®kei (Ésquines)
fora de toda a terra habitada pouco falta [faltar] que [Alexandre]
tivesse ultrapassado.
oé fÛloiw oéd¢ j¡noiw ¥kÆn eänai g¡lvta par¡xeiw (Xen.)
não ser por vontade que tu fazes rir amigos ou hóspedes
pÇw dokeÝ l¡gein; - Eï ge, ¦fh õ Men¡jenow, Ëw ge oêtvsÜ
Žkoèsai (Plat.)
Como lhe parece dizer? - Bem, disse Menexenos, pelo menos ao
ouvir dessa maneira
KaÜ st®lh §sthke parŒ tòn naòn gr‹mmata ¦xousa: ßeròw
õ xÇrow t°wƒArt¡midow: tòn d¢ ¦xonta kaÜ karpoæmenon
t¯n m¢n dek‹thn katayæein ¥k‹stou ¦touw, ¤k d¢ toè
perittoè tòn naòn ¤piskeu‹zein: ¤Œn d¡ tiw m¯ poi» taèta,
t» yeÒ mel®sei. (Xen)
Há uma coluna junto ao templo tendo esses dizeres: “é sagrado o
terreno de Ártemis; [dever é de] o que o possui e usufrui consagrar
a cada ano o dízimo; do restante fazer a manutenção do templo; se
alguém não fizer essas coisas, a deusa se ocupará”. [caberá à deusa].

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324 a flexão verbal

A flexão verbal
Como conclusão do que acabamos de expor, podemos afirmar sem
receio de errar que há dois elementos essenciais no verbo grego: o aspec-
to (tempo interno) do verbo e o modo (visão externa).
Vimos também que três são os aspectos do verbo: o aoristo, o in-
fectum (inacabado) e o perfectum (acabado).
Vamos ver agora como esses três elementos se exprimem formalmente.
Constataremos que, coerentemente, o aoristo, por ser o primeiro
aspecto, o aspecto-base, tem sua forma coincidente com o tema verbal
puro. Ele é “Ž-ñristow”, isto é não definido, não determinado, não
limitado, tanto semanticamente quanto formalmente. Veremos isso com
clareza, quando tratarmos dos quadros de flexão do aoristo, que chama-
remos de “raiz-tema” e que as gramáticas tradicionais chamam de aoristo
II ou aoristo temático. No aoristo de “raiz-tema” a flexão se faz sobre a
própria raiz, sem modificação nenhuma. É a raiz flexionada; isto é, a raiz
é o tema e sobre ela se juntam as ptÅseiw.
Mas, ao lado desse aoristo de raiz-tema, a língua grega criou uma
característica formal para identificar o aoristo: foi o -s- que se juntou ao
tema. Esse aoristo chamado “sigmático” revelou-se muito produtivo,
porque era mais cômodo e evidente, na medida em que é expresso por
uma forma concreta. Por isso, aos poucos, ele foi se firmando até tomar
o lugar do outro, de raiz-tema, o primeiro e mais antigo. Em Homero,
os dois aoristos já convivem e, no dialeto ático, só se conservam alguns
aoristos homéricos de raiz-tema. Todos os verbos que se foram criando
passaram a servir-se do aoristo sigmático.11

11 Ao lado desse aoristo em -s-n > -sa, a língua criou um outro, tomando de em-
préstimo o -k-, marca do perfeito ativo, mas só para os verbos de raiz-tema
monossilábicos: yh-, dv-,sth-, ². Esses temas deveriam flexionar-se como ¦-
gnv-n, mas esse -k- só é usado no singular, com o tema longo; e se mantém
talvez pelo fato de o tema ser monossilábico, e as desinências de uma só letra (n, w,
t). No plural, com as desinências silábicas, não há mais necessidade do k/ka.

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a flexão verbal 325

Mas essa característica formal, -s-, se junta ao tema verbal puro e


não ao tema do infectum como a gramática insinua. Isso deve ficar bem
claro na mente do estudioso, porque é o que acontece de fato. Acrescen-
tar uma característica de aoristo a um tema de infectum ou perfectum
seria uma incongruência, uma contradição nos próprios termos. E não
há incongruência, não há contradição nos sistemas de flexão nominal e
verbal da língua grega. Há muita coerência, organicidade, lógica; a uni-
dade semântica entre significante e significado é total.

Já vimos, na flexão nominal que os “casos” são a marca das funções


dos nomes: não há nada de artificial, de arbitrário; há uma coerência to-
tal. Confirmaremos isso no capítulo das preposições.
Vamos demonstrar agora essa mesma coerência semântica na rela-
ção das formas verbais.
Sendo o aoristo o tema-base, os outros dois aspectos se constroem
a partir do tema do aoristo. São “radicais” no sentido denotativo; isto é:
são derivados da raiz, que é a raiz-tema.
Por conseguinte, toda a flexão verbal grega repousa sobre esses 3 temas:
1. tema do aoristo: aoristo puro-gnômico ou aoristo pontual-narrativo
(passado); sobre esse tema formou-se a flexão do futuro, que tem sua
origem no desiderativo (subjuntivo eventual). Veremos isso mais tar-
de quando tratarmos da formação do futuro. Por ora fique claro apenas
que o futuro se constrói sobre o tema do aoristo.
2. tema do infectum: infectum, inacabado: presente e passado (imperfei-
to); é construído sobre o tema verbal puro (aoristo) ou, em alguns
casos, é igual ao tema do aoristo.
3. tema do perfectum: acabado, perfeito e passado (mais-que-perfeito);
também é construído sobre o tema verbal puro (aoristo)

O tema essencial, primeiro, é o tema do aoristo.


Os outros, ou são iguais ao do aoristo (nos verbos “paradigmáticos”,
“regulares”), ou são diferentes; e, nesse caso, para maior:
• no infectum (inacabado) ele é ampliado, alongado, inchado, ou por meio
de prefixos (redobro em -i-), ou de infixos, geralmente nasais, ou de
sufixos (-(i)sk-).
• no perfectum (acabado) ele recebe um redobro em -e ou equivalente.

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326 a flexão verbal

Toda a flexão dos verbos gregos é construída sobre esses temas:


1. Sobre o tema do infectum se constroem todos os modos e todas as
vozes e o passado (imperfeito) do infectum;
2. Sobre o tema do aoristo se constroem todos os modos e todas as vozes
do aoristo e todos os modos e todas as vozes do futuro;
3. Sobre o tema do perfectum se constroem todos os modos e todas as
vozes e o passado (mais-que-perfeito e futuro perfeito) do perfectum.
Não há exceções. Não há irregularidades.
Sobre os temas dos aspectos o verbo grego recebe as desinências 12
(primárias ou secundárias/ativas ou médio-passivas) e as características
modais (morfemas).
Na tradição, os verbos gregos, para efeito de flexão, se dividem em
dois grupos: verbos em -v e verbos em -mi.
Na verdade não se trata de duas categorias de verbos. A única dife-
rença está na primeira pessoa da voz ativa, em que, como em latim -o / -
m, no grego a variante é -v / mi.
As diferenças de flexão, muito poucas, são acidentes fonéticos, e se re-
duzem praticamente ao sistema do infectum.

12 As desinências (ptÅseiw) pessoais são as expressões das relações das pessoas com
o verbo; são bem características e intransferíveis.

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a flexão verbal 327

Quadro das desinências verbais

• Primárias - para o presente real, eventual e futuro


• Secundárias - para o passado, potencial e irreal

Pessoa Primárias Secundárias Imperativo

Ativas:
Singular la mi/v13 n/a
2a si -w/sya tema/yi/w
3a ti (t) tv
Plural la men/mew men
2a te te te
3a nti nt ntvn
Dual 2a ton thn ton
3a ton thn tvn/
tvsan
Médias*:
Singular 1a mai mhn
2a sai so so
3a tai to syv
Plural 1a meya/mesya meya/mesya
2a sye sye sye
3a ntai nto syvn
Dual 1a meyon meyon
2a syon syon
3a syhn syhn syvn/
syvsan

* A voz passiva não tem desinências próprias; por isso se serve das desinências mé-
dias. Então há formas médio-passivas, não uma voz médio-passiva.
13 Faremos a demostração da evolução fonética na medida em que apresentarmos os

quadros de flexão.

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328 a flexão verbal

O aoristo passivo, sobre o qual se constrói o futuro passivo, se for-


mou com o sufixo -h-/-yh-/-syh-.

As desinências e suas particularidades

1. No quadro da página anterior, as desinências aparecem como elas são,


sem alterações. As alterações acontecem no momento em que as desi-
nências se colocam frente a frente com os temas verbais e a eles se
juntam: por exemplo, o encontro de um tema verbal terminado em
consoante e uma desinência iniciada por consoante; o aparelho fonador
faz as adaptações necessárias. O mesmo processo se dá quando um tema
verbal vocálico se encontra com uma desinência também vocálica.
São alterações fonéticas normais, freqüentes em todas as línguas.
Elas serão explicadas quando aparecerem.

2. Como deve ter sido notado no quadro, só há desinências ativas e mé-


dias; não há registro de desinências passivas. É que a voz passiva apa-
receu tardiamente e se serviu das desinências médias.
No infectum (inacabado) e no perfectum (acabado) não há distinção
de formas entre passiva e média.
No sistema do aoristo, só o futuro passivo usa das desinências mé-
dias, além da característica da passiva:
-h-/-yh-/-syh-.
o futuro médio difere do futuro passivo pela ausência da caracte-
rística da passiva: -h- / -yh- / -syh-
o aoristo passivo se constrói com a característica da passiva -h- / -
yh- / -syh- e se serve de desinências ativas.

3. Fazem a 1 a pessoa da voz ativa em -v:


a) todos os verbos de tema em consoante, quer primitivos quer
derivados:
f¡r-v, eu porto,
many‹n-v, eu entendo, eu aprendo,
gignÅskv, eu tomo conhecimento.

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a flexão verbal 329

b) os verbos de tema em semivogal (i, u, W, j) - a semivogal (soante)


é sentida mais como semiconsoante:
tÛ-v, eu honro,
yæ-v, faço fumaça, eu ofereço sacrifício,
deik-næ-v, eu mostro.

Fazem a 1 a pessoa em -mi:


a) os verbos de tema monossilábico em vogal longa:
dÛ-dv-mi, eu dou,
tÛ-yh-mi, eu coloco,
á-sth-mi, eu ponho de pé,
á-h-mi, eu lanço.
O redobro em -i é uma característica desses verbos, provavelmente
por serem monossilábicos; e o seu uso só no infectum é significante;
é uma espécie de reforço ou uma compensação.
b) os verbos que recebem infixo -nu- / nnu
deÛk-nu-mi, eu mostro,
zÅ-nnu-mi, eu cinjo.
c) os verbos que recebem infixo -nh- também monossilábicos
d‹m-nh-mi, eu domo.
d) quatro verbos sem redobro nem infixo:
fh-/ fami eu me manifesto, eu digo,
±- ±mi eu digo,
ei-/i- eämi eu vou, estou indo,
es-/-s- eÞmi eu sou.14

14 Como podemos sentir, a opção pela 1a pessoa -v / -mi é de ajuste do aparelho


fonador; mesmo nos temas em i- e -u a opção pelo -v é uma solução de facilidade.
São mais fáceis as ditongações -iv e -uv do que -imi ou -umi. É por isso também
que a língua criou, para os verbos que recebem o sufixo -nu / -nnu, uma flexão
paralela em -uv.

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330 a flexão verbal

4. Vogal de ligação
a) No sistema do infectum (inacabado) uma vogal de ligação se faz
presente nos verbos de 1 a pessoa em -v, porque são temas em
consoante ou semivogal.
Mas, nos verbos derivados de nomes com tema vocálico, como
tima-j-v, dhlo-j-v, e nos derivados com o sufixo -ej, como fil-
ej-v, o -j- em posição intervocálica sofre síncope, tornando vocáli-
cos os temas: tima-, dhlo-, file-.
O encontro dessa vogal temática com a vogal de ligação produz
um hiato, que o dialeto ático reduz numa contração.
As gramáticas dão o nome de “contratos” a esses verbos. Não é
bem assim. Eles têm formas contratas só no sistema do infectum, exata-
mente por causa da presença da vogal de ligação, que, depois da sín-
cope do -j-, faz hiato com a vogal temática. Essa vogal de ligação é:
e antes de todas as consoantes orais;
o antes das consoantes nasais m/n.
f¡r-o-men nós portamos
f¡r-e-te vós portais/portai vós
tim‹j-o-men > tim‹-o-men > timÇmen nós honramos
tim‹j-e-te > tim‹-e-te > timte vós honrais/honrai vós
dhlñj-e-te > dhlñ-e-te > dhloète vós revelais/revelai vós

5. Em situação desinencial, depois de vogal de ligação, na flexão verbal e


nominal, o -s- em posição intervocálica sofre síncope, e as vogais
remanescentes formam um hiato, que, no ático, é reduzido em uma
contração.
læ-e-sai > læeai > læhi / læú (ei) és desligado
g¡nes-a > g¡nea > g¡nh as raças
læ-e-so > læeo > læou sê desligado
stel-¡s-v > stel¡v > stelÇ eu enviarei

Mas não há síncope do -s- depois de uma vogal temática longa:


y®-s-v eu colocarei
dÅ-s-v eu darei
st®-s-v eu porei de pé
´-s-v eu lançarei

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a flexão verbal 331

ou breve
tÛ- ye-sai tu és colocado
d¡-do-sai tu és dado
á-sta-sai tu és posto de pé
á-e-sai tu és lançado
mas no imperativo singular médio-passivo há síncope do -s- depois de
vogal temática e contração subseqüente, nos verbos de tema vocálico,
por analogia com os verbos de tema em consoante (p. 339).
b) No aoristo, futuro e perfeito de temas em consoante, o grego
usa a vogal de ligação: -h-
may-®-s-o-mai eu entenderei, eu aprenderei
me-m‹y-h-ka eu entendi, eu aprendi
Nesses casos não há síncope do -s- intervocálico; mas no futuro
em -es- dos temas em soante, o -s- encontrando-se depois de vogal
de ligação breve sofre síncope:
stel-¡s-o-men > stel¡omen > steloèmen - enviaremos
O -s- intervocálico depois da vogal de ligação longa, marca do sub-
juntivo, também sofre síncope nos verbos de tema em consoante,
soante e semivogal:
læ-h-sai > læhai > læhi / læú - tu és desligado

6. O -n, precedido de uma consoante, vocaliza-se em -a.


Em situação desinencial final:
patrÛd-n > patrÛda a pátria (acus.)
l¡ont-n > l¡onta o leão (acus.)
¤-lus-n > ¦lusa = aoristo eu desligo / desliguei
l¡lu-k-n > l¡luka = perfeito eu completei o ato de desligar

Em situação interna, o -n-


ou se vocaliza em -a-:
g¡grap-ntai > gegr‹patai foram escritos, estão escritos
ou desenvolve um -a- epentético:
may- > manyn- > manyan-v eu entendo, eu aprendo

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332 a flexão verbal

7. Na seqüência nts, há síncopes sucessivas das dentais:


- nts > ns > s
e um alongamento compensatório da vogal anterior 15:
- o em ou;
- e em ei;
e as outras vogais a, i, u em sua longa correspondente do mesmo timbre.
f¡r-o-nti > f¡ronsi > f¡rousi ( -nti > -nsi) eles portam
l¡ont-si > l¡onsi > l¡ousi aos leões
luy¡nt-si > luy¡nsi > luyeÝsi aos que foram desligados
gÛgant-si > gÛgansi > gÛgasi aos gigantes
¥lmÛny-si > ¥lmÛnsi > ¥lmÝsi às lombrigas
deiknænt-si > deiknænsi > deiknèsi aos que mostram

8. A língua grega só mantém três consoantes em posição final: n, r, w.


As outras todas caem (menos na negação oék / oéx e na preposição
¤k / ¤j).
No quadro das desinências secundárias ativas mantemos o (-t) em
posição final; é mera reminiscência. Mas é para explicar a vogal de li-
gação -e-.

9. O -n no final das 3as pessoas do singular das desinências secundárias


ativas (-e-n) e plural das desinências primárias ativas dos verbos (nti >
ousin/asin), bem como no dativo plural em -sin, é mero registro
eufônico e se usa ou no fim da frase, Žgayñw ¤stin, ou no meio,
¤stin Žgayñw, quando a palavra seguinte começa com vogal, para
evitar hiato ou elisão; mas, se a palavra seguinte começa com consoan-
te, ele não aparece, ¤sti kalñw.

15 Esse “alongamento compensatório”, que os estudantes têm dificuldade de enten-


der, nada mais é do que a permanência da duração da vogal que sustenta duas ou
mais consoantes com ela, e, depois da síncope das consoantes, o consciente
lingüístico mantém a duração da vogal. É uma espécie de memória.

mur05.p65 332 22/01/01, 11:37


a flexão verbal 333

10. Nos verbos, os encontros consonânticos acontecem ou entre o s


que caracteriza o aoristo e o futuro com os diversos temas verbais con-
sonânticos, ou entre o k que caracteriza o perfeito e mais-que-perfeito
com os diversos temas verbais consonânticos.
Convém notar que todas essas alterações não são problemas grama-
ticais, morfológicos. São problemas meramente fonéticos, que se produ-
zem no aparelho fonador e nele mesmo são resolvidos. Não é porque se
trata de um substantivo, adjetivo ou verbo que os problemas são di-
ferentes; são exatamente os mesmos e são resolvidos da mesma ma-
neira, porque são fonéticos e são resolvidos foneticamente.

Alguns problemas fonéticos


Vejamos os encontros mais comuns:

l. Encontros de consoantes 16:


a) oclusiva + s = assimilação da oclusiva
labiais b-p-f + s > c blab-s-v> bl‹cv prejudicarei
velares g-k-x + s > j g-s-v > jv conduzirei
dentais d-t-y + s > s* peiy-s-o-mai > peissomai > peÛsomai obedecerei
* Dental antes de s se assimila em ss e se reduz a s.
b) oclusiva + k = aspiração da oclusiva (síncope da dental)
labiais b,p,f + k .> f b¡-blab-ka > b¡blafa prejudiquei
velares g,k,x + k > x p¡-prag-ka > p¡praxa fiz
dentais d,t.y + k > k* p¡-peiy-ka > p¡peika convenci
* Dental sofre síncope antes de k.
c) oclusiva + t = assimilação da oclusiva
labiais b,p,f + t > pt b¡-blab-tai > b¡blaptai foi, está prejudicado
velares g,k,x + t > kt p¡-prag-tai > p¡praktai foi, está feito
dentais d,t,y + t > st p¡-peiy-tai > p¡peistai foi, está convencido

16 Esses encontros consonânticos foram tratados no Capítulo “Fonética Aplicada”.


Mas achamos conveniente expô-los aqui sucintamente, mais próximos dos qua-
dros de flexão. Os exemplos contêm formas nominais e verbais justamente para
mostrar que não são problemas morfológicos mas simplesmente fonéticos.

mur05.p65 333 22/01/01, 11:37


334 a flexão verbal

d) oclusiva + m = assimilação da oclusiva


labiais b,p,f + m > mm t¡-trib-mai > t¡trimmai fui, estou esmagado
velares g,k,x + m > gm p¡-prag-mai > p¡pragmai fui, estou feito
dentais d,t, y + m > sm p¡-peiy-mai > p¡peismai fui, estou convencido

2. Encontros de vogais: os mais freqüentes


a + e > a* o + e > ou
a+o>v o + o > ou
e + a > h* o + oi >oi (ooi > oui > oi)
e + e > ei o + ei > oi (oei > oui > oi)
e + o > ou** a, e, o + v > v***
e + oi > oi (eoi > oui>oi)
* no encontro de a-e/e-a prevalece o timbre da vogal anterior: a-e > a; e-a > h.
** em todos os encontros vocálicos em que aparecem as vogais o/v prevalece o
timbre “o” na contração resultante;
*** uma vogal longa absorve a vogal breve (o timbre -o prevalece sempre).

Além do s, que caracteriza o aoristo ativo e médio e o futuro ati-


vo, médio e passivo, e do k que caracteriza o perfeito ativo, isto é, carac-
terísticas de aspectos, o verbo grego tem também uma forma de caracte-
rizar os modos.

Características dos modos

• O INDICATIVO não tem característica especial, porque exprime a identi-


dade e a própria realidade da ação. É o modo predominante, referencial,
da realidade imediata, do significado positivo, e por isso o próprio enun-
ciado das formas é a sua representação. Fala-se de um “morfema zero”
no indicativo.
Sobre o tema de cada aspecto, acrescentam-se as desinências pri-
márias ou secundárias, ativas ou médias (passivas) e, se necessárias, as
vogais de ligação no infectum dos verbos de tema em consoante ou
semivogal.

mur05.p65 334 22/01/01, 11:37


a flexão verbal 335

• O SUBJUNTIVO tem como característica a vogal de ligação longa na se-


qüência: o,e,e,o,e,o > v,h,h,v,h,v, que é:
a) • ou a própria vogal de ligação (no infectum) nos verbos de tema
em consoante ou semivogal:
ind. f¡r-o-men portamos, levamos
ind. fer-ñ-meya somos levados
subj. f¡rvmen portemos, levemos
subj. fer-Å-meya sejamos levados
b) • ou, nos verbos de tema em vogal, (verbos em -v) em contração
com a vogal temática:
ind. fil¡-o-men > ‘filoèmen amamos
ind. file-ñ-meya > filoæmeya somos amados
subj. fil¡-v-men > filÇmen amemos
subj. file-Å-meya > filÅ-meya sejamos amados
c) • ou, nos verbos de tema em vogal (verbos em -mi):
ind. tÛyhsi > tÛyhi >tÛy úw/hiw colocas
ind. tÛye-men colocamos
ind. dÛdv-si ele dá
ind. dÛdo-men damos
subj. tiy¡-h-si>tiy¡hi>tiy°iw/tiy»w coloques
subj. tiy¡-v-men > tiyÇmen coloquemos
subj. didñ-h-si>didñhi>didÇi/didÒw ele dê 17
subj. didñ-v-men> didÇmen demos
d) • ou nos temas do aoristo passivo:
ind. ¤læyh-n fui, sou desligado
ind. ¤-st‹l-h-n fui, sou enviado
subj. luy®-v> luy¡v> luyÇ18 seja desligado
subj. stal®v> stal¡v> stalÇ seja enviado

17 Nos encontros vocálicos que resultam em contração, sempre que houver uma vo-
gal de timbre -o-, o timbre -o- prevalece, mesmo que a outra vogal de outro tim-
bre seja longa; o resultado nesse caso é -v.
18 No dialeto ático, na seqüência de duas vogais longas, a longa anterior se abrevia.

mur05.p65 335 22/01/01, 11:37


336 a flexão verbal

e) • ou ainda, nos temas do aoristo sigmático (que não têm vogal de


ligação) acrescentam-se diretamente as desinências primárias:
ind. ¦lusa19 desligo, desliguei
ind. ¤-lu-s‹-mhn desligo, desliguei para mim
subj. læ-s-v desligue
subj. læ-s-v-mai desligue para mim
Por ser eventual, isto é, fato futuro, o subjuntivo grego tem sem-
pre desinências primárias e se traduz em português ou pelo “presente do
subjuntivo” ou pelo “futuro do subjuntivo”; no latim e nas outras línguas
românicas, pelo “presente do subjuntivo ou pelo “futuro do indicativo”.
O subjuntivo não exprime tempo; somente o aspecto, o que deve
ser levado em conta na tradução.

• O OPTATIVO tem como característica essencial o -i- / -ie /ih 20, que se
acrescenta ao tema do aspecto correspondente:
No sistema do infectum (inacabado), no perfectum (acabado) ativo
e nas formas do futuro (ativo, médio ou passivo) e no aoristo de raiz-
tema ele vem acompanhado de uma vogal de ligação permanente: o-i:
ativo médio passivo
infectum læ-oi-mi lu-oÛ-mhn
futuro læs-oi-mi lus-oÛ-mhn luyhs-oÛ-mhn

perfeito lelæk-oi-mi.
aoristo de raiz-tema àd-oi-mi Þd-oÛ-mhn
Ver quadros de flexão: infectum, p. 341-69; futuro, p. 459; perfei-
to, p. 509; aoristo, p. 426.

19 A construção do subjuntivo revela a origem do futuro: antigo desiderativo (even-


tual) e a desinência primária se acrescenta diretamente ao tema; não como o indi-
cativo, que, por ser passado, teve a desinência secundária -n vocalizada em -a > sa.
20 É bom lembrar que esse -i- do optativo é longo; isso é importante para a acentuação.

mur05.p65 336 22/01/01, 11:37


a flexão verbal 337

• No aoristo sigmático ativo e médio o -i- do optativo se acrescenta ao


próprio tema do aspecto, sem vogal de ligação, por desnecessária, dada
a presença do -a.
læ-sa-i-mi - lu-sa-Û-mhn desligaria, desligaria para mim.
Ver quadros de flexão, p. 445.

• No aoristo passivo, (a marca do aoristo passivo é vocálico -h- /-yh-) o


-i- do optativo se acrescenta à marca da voz passiva na variação longa-
singular / breve-plural -ih/i:
lu-yh-Ûh-n > lu-ye-Ûh-n - seria desligado
lu-ye-Ý-men seríamos desligados
Ver quadro de flexão, p. 477 e 479.
O mesmo acontece no infectum de todos os temas vocálicos (ver-
bos em -mi):
tiye-Ûh-n, ye-Ûh-n / tiye-Ý-men, ye-Ý-men
dido-Ûh-n, do-Ûh-n / dido-Ý-men, do-Ý-men;
ße-Ûh-n, e-áh-n / ße-Ý-men, e-å-men
Ver quadros de flexão, p. 347 e 360.
Os verbos denominativos de tema em vogal com sufixo -j-, na
voz ativa do infectum, mantêm a vogal de ligação única -o- e fazem o
optativo em -oi- ou o-Ûh-n.
tim‹j- = tim‹j-oi-mi > tim‹-oi-mi > timÒmi /
timaj-o-Ûh-n > tima-o-Ûh-n > timÅihn/timÐhn
fil¡j- = fil¡j-oi-mi > filoÝmi > fil¡-oi-mi > filoÝmi /
filej-o-Ûh-n > file-o-Ûh-n > filoÛhn
dhlñj- = dhlñj-oi-mi > dhlñ-oi-mi > dhloÝmi /
dhloj-oÛh-n > dhlo-oÛh-n > dhloÛhn
Ver quadros de flexão, p. 376, 381, 383, 386, 388, 391 e 393,
respectivamente.
Mas na voz média (passiva) constroem o optativo de uma só manei-
ra: com a característica -i- em vocalismo zero e vogal de ligação única -o-.:
tim‹j- = timaj-o-Û-mhn > tima-o-Û-mhn > timÅimhn / timÐmhn
poiej- = poiej-o-Û-mhn > poie-o-Û-mhn > poiouÛmhn > poioÛmhn
dhlñj- = dhloj-o-Û-mhn > dhlo-o-Û-mhn > delouÛmhn > dhloÛmhn
Ver quadros de flexão p. 375, 390 e 385, respectivamente.

mur05.p65 337 22/01/01, 11:37


338 a flexão verbal

O optativo, por ser o modo do fato possível ou da atenuação da


afirmação, isto é, mais próximo da irrealidade, tem desinências secundá-
rias 21 e se traduz em português ou pelo “imperfeito do subjuntivo” geral-
mente na prótase (desejo irrealizável-irreal do presente) ou “condicional
simples” na apódose (fato possível ou afirmação atenuada).
O optativo não exprime tempo; somente o aspecto, o que deve ser
levado em conta na tradução.

•O IMPERATIVO tem suas desin