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O Empadão Literário

Centro Acadêmico “XI de Maio”


CAXIM – 2009

Faculdade de Direito
Universidade Federal de Goiás
“Empadão,
Guariroba,
Pequi,
Goiás Velho.
- Olha o Bolinho de Arroz!”

[Cadê?... / Carla Carneiro (2°A)


1° Folhetim de Poesias
da Faculdade de Direito – 1983]
ÍNDICE

Apresentação histórica ................................................... 9


Manifesto do Empadão Literário .................................... 11
Devaneios Urbanos ........................................................ 13
Um nato gênio e sua mater dolorosa .............................. 15
Validade ......................................................................... 18
Atum.............................................................................. 20
Resposta do Réu ............................................................ 23
Do Aproveitamento! ....................................................... 25
De como surgiu um banco na
praça vereador Santelmo Alves Pereira ......................... 27
Filosofando no Box ........................................................ 32
O Gosto do Amor ........................................................... 33
Vínculos ......................................................................... 34
Breve história de um bem-te-vi de vida curta ................. 35
O homem que queria saber de tudo ................................ 36
A insanidade da crença .................................................. 38
O prelúdio de uma hecatombe ........................................ 39
Diálogos gregos ............................................................. 40
Bocejos da Razão .......................................................... 41
Tempo Curvo ................................................................. 42
O encosto vontade ......................................................... 43
Bricolagem de coisas escritas anteriormente .................. 44
Aula de gramática .......................................................... 46
Progressiva Loucura do
Verso ao Inverso (meta-no-físico) .................................. 47
Corpo ............................................................................. 50
Eu .................................................................................. 51
(Des) razão .................................................................... 52
Sui caederes .................................................................. 53
Pequeno ......................................................................... 55
S O S ............................................................................. 57
Quisera Eu ..................................................................... 59
Verdades ........................................................................ 60
Confissão ....................................................................... 61
Membros ....................................................................... 63

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APRESENTAÇÃO HISTÓRICA

1º Folhetim de Poesias da Faculdade de Direito Publicado em 1983.

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MANIFESTO DO EMPADÃO LITERÁRIO

O empadão, ao contrário do que relatam nossas efusivas avós


goiandeiras, é fruto da desvalida condição do sertanejo. Num dia
obtuso de planalto central, a matrona do lar, velha e feia, sob os
reclames intransigentes do marido e de seu estômago (cuja dilatação,
apesar da pobreza, lhe conferia uma respeitável protuberância
abdominal), achou por bem juntar tudo o que lhe viesse à
racionalíssima mente de cozinheira e levar ao forno. O recheio do
primeiro empadão de todas as eras recentes era composto de:
1) pelotinhas gordurosas recobertas por vísceras de porco,
alimento conhecido tradicionalmente pelo epíteto de “linguiça”
2) o que sobrou da última galinhada (outro goianidade cuja
legítima história ainda será desvendada por esse periódico)
3) a Gueroba
4) mais pedaços aleatórios de frango
5) o Pequi
6) componentes diversos.
Em razão da estranha aparência do composto, a velha
idealizou um tampo fixo que evitaria julgamentos precipitados. De
fato, consentem nossas respeitáveis madamas acerca do caráter
blasfematório dos modernos empadões destampados. Após levar
o composto ao forno por não mais que quarenta e cinco minutos, a
mulher exclamou, de braços eretos e as mãos abertas, com a
tonalidade dos profetas: “Eu o nomeio Empadão”.

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Toda essa história, impertinente ao tom político característico
dos manifestos, não parece vir a calhar com o que possamos pretender
como ideário dos que assinam os frangos, linguiças, guerobas, pequis,
milhos e componentes diversos a seguir. O leitor, que não é ingênuo,
por certo acabou de nos compreender. Não pretendemos oferecer
aos senhores e senhoras o mais bem temperado pedaço de frango, a
mais depurada porção de linguiça, ou a mais suculenta polpa do pequi.
O nosso empadão, o literário, é como o arroubo da senhora da
pequenina história: são fragmentos inesperados de ideias colhidas ao
acaso, misturadas, pensadas, temperadas, levadas ao forno e servidas
ainda fumegantes aos caros leitores.
Que se sirvam, pois, dessas empadonices de palavras,
empadonicamente borbulhantes das mais ricas e apimentadas
empadonímias, empadáforas, empadonâncias e empadações. Se as
empadonadas ingeridas causarem qualquer tipo de enjoo estomacal,
não se faça o leitor de rogado! O convidamos a regurgitá-las todas da
maneira que lhe for aprazível.
Empadaforicamente, sirvam-se à vontade.
De modo a tornar mais político o nosso manifesto, pensamos
nesse final alternativo que deverá ser lido em substituição ao final
anterior após uma nova leitura de todo o texto.
“Por fim, uma máxima verdadeiramente digna de um manifesto:
Que viva o empadonismo!”

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DEVANEIOS URBANOS

Pedro era um jovem alto e magro, com cabelos castanhos e


olhos com cor de avelã, não era propriamente bonito, mas tinha um
conjunto agradável aos olhos. Enfim era um tipo normal com algo de
atraente, o que lhe tornava interessante.
Para ele isso não tinha muita importância, não era do tipo galante.
Tanto que muitas vezes, as pessoas julgavam que a impressão de
atraente que ele passava, não era mais que impressão mesmo. Errado!
Não é que ele não fosse interessante, a verdade é que estas mesmas
pessoas é que não lhe inspiravam qualquer interesse e então não
havia porque se manter assim com elas. Digamos que foi o jeito que
ele encontrou de se livrar de alguém dando a ilusão de que fora
dispensado.
Nesse dia ele voltava para casa cansado e sonolento, ia olhando
pela janela a figura imponente de um grande muro branco, meio
encardido e com grandes letras ou mesmo símbolos pichados em sua
superfície, contudo os cacos de vidro em seu topo, postos para proteger
seja lá o que for que estivesse lá dentro, refletiam o a luz do pôr-do-
sol dando ao muro uma certa altivez.
No interior do ônibus ele estava sentado, havia poucas pessoas,
o que era estranho pelo horário. Ele achava fascinante a solidão que
um ônibus vazio era capaz de despertar nas pessoas. A sua volta
ninguém sorria ou conversava. Todos absurdamente concentrados
em si, olhando para dentro de si mesmos, olhando para o nada,
provavelmente tentando fugir das suas próprias vidas.

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Só ele olhava pra fora, não da janela, mas de si, e talvez por isso
lhe pareceu que só ele tenha notado ela entrar. “Linda” pensou. Uma
bela jovem acabara de adentrar o veículo, era aparentemente mais
velha e mais alta que ele, tinha lindas sobrancelhas perfeitamente
arqueadas que lhe serviam de moldura aos olhos, e ressaltavam a beleza
destes. Seus cabelos eram incrivelmente negros e lhe caiam como um
véu de seda em torno do rosto que era magro e bem desenhado. Ela
era surpreendentemente bonita e elegante para um ônibus. Pedro a
fitava de cima à baixo, e parou absorto quando seu olhos se encontraram.
Fitaram-se por alguns instantes, receando afastar os olhos, como em
uma competição para descobrir de quem era o olhar mais forte.
Por fim ela cedeu, esquivando o olhar. Pedro pensou que ela o deixara
ganhar ou talvez que o interesse que ele sentira não fosse recíproco. Estava
errado. Agora ela vinha em sua direção, parecia deslizar, então parou alguns
bancos a sua frente, e seus olhos voltaram a lhe procurar.
E por fim, ele desejou pela primeira vez ser realmente
interessante à alguém. Em seus olhos agora, era evidente faíscas de
desejo. Nos dela apenas possibilidade. Mas no final foi ela que sorriu,
ou será que foi ele? Em fim um deles sorriu e o outro não deixou o
primeiro sem resposta. E era isso que importava.
Ela então voltou a deslizar ao seu encontro. Ele parecia não
acreditar seu coração estava disparado. Ela se pôs ao seu lado, em pé,
ele ia levantar quando repentinamente houve um tremor. O ônibus devia
ter passado sobre algo que fez todos balançarem e mais importante fez
as pernas delas vacilarem deixando-a cair em seu colo.
Voltaram a se fitar por pouco tempo, seus olhos fecharam. A
pouca distância agora parecia atrair suas bocas, que lutavam inutilmente
tentando se afastar, como se quisessem adiar o prazer com o intuito de
torná-lo ainda mais prazeroso. Por fim cederam e se encontraram.
Houve então um novo tremor que de súbito o fez abrir os olhos.
Acordado, Pedro acabava de perceber, havia perdido o ponto.
CRISTIANO REIS

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UM NATO GÊNIO E SUA MATER DOLOROSA

Assim são as gentes, meros animais, ditos racionais e inteligentes


e reis da criação, mas em sua riqueza pobres são, não enxergam a
existência do próximo, do seu comum, estão sós, acima de tudo na
natureza, livres de toda moral, porém escravos de outras coisas menos
complicadas. Mas deixemos disso, que é um tanto antiestético, e
também porque quero contar um conto contado há tempos incontáveis,
não por estarem longe nas trevas do passado, mas perto demais para
estarem claros na memória desta besta civilizada.
Disse-me vovó, a paterna, esse caso dum bebê, história que
não acredita nem quem vê, mas na qual ela creu só de lhe contarem,
na qual o rebento nascia e já no mundo a boca metia, a reclamar dos
males do nascimento, sair dum mundo mais calmo que um convento.
Que bosta, mãe, dissera o moleque do que decerto nesta vida lhe
estaria destinado. Queria ficar dentro de você, senhora. Pobre da
dona, endoidou na mesma hora. E o menino a ter pouca sorte, no
prazo de mês encontrou a morte. Nascido já genial teve tal inópio
final. Ela, vovó, afirmou-me que o caso era verdadeiro. Impressionou-
me sua certeza e confiança da ocorrência do fato semimitológico,
mas vá lá, aceita-se tudo como realidade enquanto estamos diante de
seu narrador e queremos nos fazer ser lembrados como simpáticos e
discretos. Seja-me perdoado a minha aparente falsidade, que não é
nada mais do que cuidado em não me expor como cético, o que não é
muito bem visto entre os mais crentes nas realidades etéreas. É-me
interessante fazer ser notado o quanto é misticista o povo interiorano
brasileiro, no caso, os goianos, mas também os brasileiros do litoral e

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os metropolitanos. A mentalidade latino-americana é tradicionalmente
supersticiosa, dada sua origem europeia catolicíssima e pouco culta,
sua raiz ameríndia da idade da pedra-polida adoradora dos elementos
naturais, e finalmente a leva africana que, vinda nos cruéis navios
negreiros para dar trabalho de graça aos luso-brasileiros, nos legou
seus mitos e costumes animistas. Impossível não ser uma cultura
religiosa, para não dizer supersticiosa. Contudo o sincretismo fez a
nós, latinos e brasileiros, ricos em fontes culturais e até um pouco
mais tolerantes culturalmente, assegurando-se, porém, o etnocentrismo,
que esse é difícil de superar.
Voltando-me, ou melhor, voltando-nos, tu, caro leitor, e eu, ao
anterior relato, o do menino gênio, que no útero materno soube aprender
a utilizar o ar atmosférico para produzir e reproduzir sons e fonemas
do dialeto de seus pais. Como o recém nato seria capaz de controlar
suas tão jovens e nunca utilizadas cordas vocais e língua? É curioso
por demais que eu informe aos olhos que distraio que ao contar à
minha outra avó, a materna, do tal caso do menino que nasceu palrador
ela afirmou, muito séria, a fitar o chão com um olhar absolutamente
desligado deste mundo presente, que seu pai, meu bisavô, contou-lhe
uma história parecida e que era verdade mesmo.
Estou acuado por todos os genes? Meu sangue está
inevitavelmente carregado deste extinto animal e humano, se é que
há alguma diferença entre esses dois adjetivos, que é a crendice cega
nas determinações alheias? Vovó, a materna, não duvida, longe dela,
de seu bom e honrado pai, que Deus o tenha. Que me, ou nos resta
fazer, senão acreditar? É um instinto, não é?
Mas basta de interrogações, que é hora de parar de perguntar e
começar a pensar, será? Opa, lá vai outra inquirição na vez das respostas,
se é que essas existem. O caso é interessante, sim, muito, pois não é um
caso isolado, pode ser uma epidemia, meninos nascem a falar e as pessoas
acreditam em chuvas de canivetes. Não falta de maneira alguma religiões,
filosofias e ideologias para atrair fiéis neste mundo. Diálogo mortal e
cabal. É um caso de paroxismo da doença, razão cega para viver, logo

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hão de nascer mais crianças tagarelas. Pena é que todas morrem depois
de algum tempo de vida, talvez elas, inteligentíssimas que seriam, nos
poderiam dar umas dicas de como melhorar este mundo do qual tão
pouco apreciaram. Sorte delas ou nossa?
WENDEL ROSA

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VALIDADE

Uma certa pessoa me disse uma vez que tudo na vida tem um
prazo de validade, do iogurte light de ameixa à nos mesmos. A diferença
está só na repercussão que o expirar dessa validade tem sobre nossas
vidas. Por exemplo, um igurte light de ameixa já tem gosto de estragado
desde a fabricação. Então, tirando um efeito colateral ou outro, é
basicamente a mesma coisa.
Agora quando nós somos o produto em questão, é que as coisas
começam a complicar. Quero dizer, eu não posso me fechar numa
caixinha da Tetra Park e esperar que os efeitos da idade não pesem
sobre mim. Porque eles vão. E não adianta se fechar hermeticamente,
nem acompanhado de cremes anti-rugas, nem mesmo de
conservantes.
A questão é, se você já tem quarenta anos, não adianta mais
esperar qua as coisas funcionem como funcionavam aos vinte. Muito
menos que elas estejam no mesmo lugar. Eu confesso que demorei
um pouco pra entender isso. Mas quando o seu cirurgião plástico te
diz que se ele esticar mais um pouco, seu umbigo vai parecer mais
um terceiro mamilo. Bem, digamos que...hum...você não tem muito
escolha.
Mas pode ser que seja nesse momento que você consiga dar a
volta por cima. Ou não. Sempre há aqueles que preferem ficar
repetindo pra si mesmo “Eu não tô tão mal. Tem gente que tem
cinquenta!”. De certa forma isso pode ser bastante funcional, desde
de que não se tenha a intenção de chegar até os cinquenta, é claro.

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Agora se você decide encarar os fatos, e de alguma forma,
tentar superá-los. Seu primeiro passo será se olhar no espelho e
procurar ver mais do que possíveis áreas de preenchimento. Tentar
se ver, sem se preocupar se a luz te favorece. Tentar entrar em sintonia
com seu eu interior, e acredite, isso implica mais do que simplesmente
começar a fazer yoga.
Na verdade isso é bem mais complicado. Tanto que no começo
eu até me perguntava como a ciência podia se preocupar tanto com
buracos negros e coisas do tipo, se não conseguia fazer coisas básicas,
como descobrir a fôrmula da coca-cola ou ajudar pessoas em crise a
superar problemas da idade. Foi ai que eu percebi que talvez fosse
ainda mais impressionante que com tantos buracos negros por ai,
pessoas como eu se preocupassem com crises de idade. Cheguei a
me sentir meio fútil, sabe?! Mas isso, até o dia em que inspirado pela
ciência, comecei a ler um artigo sobre degeneração tecidual em
organismos pluricelulares. E percebi que de maneira geral era
exatamente com aquilo que eu me preocupava, só que a um nível
particular, do tipo, a degeneração dos meus tecidos! Com isso resolvi
deixar a ciência de lado. Mas as vezes ainda me pego pensando sobre
a coca-cola.
Depois da ciência, resolvi me apegar a religião. Mas logo desisti.
Acho que Deus tinha mais com o que se preocupar também, afinal é
ele quem faz os buracos negros! E além disso, é tanta gente tentando
falar com ele, que provavelmente meu requerimento seria desviado e
acabaria se perdendo em uma espécie de arquivo morto celestial.
Então, acabei voltando pra mim. E por fim achei que seria
interessante se eu também procurasse outras coisas com o que me
preocupar. Até porque acho que no final não é o prazo que importa,
mas aquilo que você faz nele. E além disso se no final você não
gostar do resultado ninguém vai te devolver o dinheiro de volta como
fazem com o iogurte.
CRISTIANO REIS

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ATUM

Acordou com um rosto sublime e em segundos transformou-


se numa morta viva. É que sonhava protagonista de alguma novela
das oito, mas quando despertou para a realidade seus olhos
enxergaram o inferno. Tava lá, ao seu lado, na sua cama, roncando,
nu, empestando o quarto dela, aquele saco de gordura que diziam
ser seu marido.
Era domingo, o pior dia da semana, o dia em que ele estava
em casa. Para constatar o quão infeliz era a aquela vida de merda
junto ao traste começou a observá-lo. A cabeça enorme, as orelhas
de abano, as marcas de espinhas e cravos, as olheiras escuras, a
pele morena-amarelada como a de um doente. Seus olhos arderam
e pensou que choraria de tristeza, mas talvez fosse só o bafo que o
babão exalava. Os peitos, quase mamas de tanta flacidez, escorriam
pelos lados e aquela gigantesca barriga surgia logo abaixo deles,
cabeluda, o umbigo sumindo profundo naquela imensidão. Olhou o
pênis e embora fosse digno de compaixão sentiu apenas nojo.
Pequeno e muito mais escuro que qualquer outra parte do corpo, lá
estava, flácido, e ela nem se recordava e nem tinha saudade de
encontrá-lo em outro estado.
Conformada, já havia aprendido a encontrar prazer em outras
coisas, beber vinho barato, sonhar, paquerar o colega de serviço, assistir
novela, comer as coxinhas da padaria que ela gostava, e principalmente
se lembrar dos antigos namorados. Lembrou-se do pênis rosa e
cheiroso do Roberto. Afundada em lembranças acabou por cheirar o

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membro indesejado e não sentiu o perfume do Beto, mas sim o cheiro
de urina velha do monstro. Salivou a boca, sentiu o perigo, correu ao
banheiro, mas não vomitou. Lavou o rosto, respirou fundo e escutou
que ele também já estava de pé.
Encontrou-o no sofá da sala que com o passar dos anos,
acostumado com o peso do homem, exibia no seu centro aquele
desnível natural. Tava lá, assistindo televisão com o mesmo calção de
futebol verde cintilante que ele usava todos os domingos desde que
se conheceram. A princípio lhe caía muito bem no corpo forte e jovem,
mas agora já gasto, um trapo brilhante, ainda que com os elásticos
relaxados mais parecia um short apertado, as banhas cheias de estrias
derramando dos lados. Estava distraída na terrível visão quando ele
lhe interrompeu para lhe pedir a única coisa que pedia sempre, o
maldito sanduíche de atum com muita cebola.
Ela tinha inveja das mulheres que gostavam do domingo. Tinha
inveja até da vizinha que apanhava do marido. Apanhava, mas
cozinhava um feijão que ele divulgava na rua como o melhor feijão do
mundo. Apanhava, mas dormia com um homem que cheirava bem e
que a fazia gritar para a vizinhança inteira ouvir. Já ela, a única coisa
que ele lhe pedia era aquele maldito sanduíche com muita cebola,
apenas para feder mais e lembrar-lhe quão inútil ela era.
Ela cortava a cebola e por instantes esqueceu-se do martírio.
Adorava aquela faca. (Ele achou a compra um desperdício, era uma
faca como qualquer outra, apenas custava mais caro, mas ela notou o
corte, o fio e a firmeza do cabo e até mesmo para contrariá-lo, fê-lo
pagar pelo utensílio). As fatias da cebola pareciam previamente
cortadas, se partiam ao toque mais leve da faca que deslizada numa
fluidez e era tão lindo aquilo e tão prazeroso que quando se deu conta
já havia cortado mais que o necessário.
Parou surpresa, algo parecia errado. O metal brilhante, as
lágrimas dela e da cebola. Não escutava nada, as coisas pareciam
mais imóveis que de costume, ela não respirava, não sentia frio ou

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calor, sequer sentia ter um corpo. Então um som mais alto que qualquer
outra coisa ouvida antes preencheu toda a casa e tocava dentro dela
e em todos os lugares, constante e ritmado, um coração. Não era ela,
era ele, batendo, pulsando, tão alto, tão insuportável que vibrava as
paredes, as prateleiras, o corpo dela e a faca, e a enlouquecia de dor,
e a sufocava. Não conseguia pensar, não conseguia mover-se, gritava
paralisada, mas não se ouvia, sentia que ia morrer e tinha de fazê-lo
parar. Ela tinha de fazê-lo parar, e fez.
SALMA JORDANA

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RESPOSTA DO RÉU

Sabe, eu sempre me considerei um cara insensível, frio e


calculista. Era uma fachada para a minha sobrevivência (entenda
isso como você quiser). Essas duas palavras (fria e calculista) precisam
realmente ficar acompanhadas, senão perde a graça. Eu sou realmente
assim. Você não percebeu? Eu também não sou uma pessoa imbuída
de bons sentimentos. Eu sempre digo para todo mundo que, no
capitalismo prevalece o lucro, a propriedade, a lei, a jurisprudência, a
doutrina (o Direito!), por isso não há muito espaço para bons
sentimentos. A era da cristandade já passou. Ora, dizia o Tom Zé, “vá
me lamber tradução intersemiótica”. O capitalismo me degenerou,
porque “o monstro Sist é retado”, já diria Raulzito. E eu, para “entrar
no buraco dos ratos” tive que transar com os ratos. Aí fiquei assim
porque o meio me corrompeu.
E essa calmaria externa; estresse interno. Sou uma faísca
procrastinadora de um forte clamor.
Entre o sono e o sonho,
Entre mim e o que em mim me suponho,
Corre um rio sem fim
(Fernando Pessoa)
Realmente! Há um rio sem fim... Entre mim e o que me
suponho. Há um rio sem fim de realidades e entendimento. Suponho
amar. Também amo você (???). Tenho afeto, ternura, carinho. Amar
não é copular, muito menos ter exclusividade, muito menos ter idéias

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próximas, muito menos passar o dia juntos, muito menos, muito menos
(!). Não muito menos, em verdade; muito diferente, de fato. Que
fingidas virtudes! Meu aguilhão nem são as virtudes. Mas meu laurel
é a sinceridade, pelo menos comigo. Pelo menos comigo. Pelo menos
comigo! Meu ego, mesmo inflado, é capaz de não ser unânime, posto
que se assim o fosse seria burro. E como sou um poço de virtudes
errantes, encaro com naturalidade os alheios fingimentos samaritanos.
Reconheço. Não valho à pena! Não peço seu sentimento. Tome seu
óbolo para si. Não quero migalhas.
A repulsa foi uma resposta de última gota; de acontecimentos
bobos. Senti, a priori, que você ergueu suas mãos e bateu com força
em mim. Tempestade em copo d’água; nem minha nem sua, talvez!
Não tenho nada com sua rejeição, nem sou obrigado a suportá-la.
Não a desfira contra mim. Pode parecer que estou bravo por dizer
isso. Na verdade estou muito sereno. Tomo para mim minha mágoa.
Tome para si a sua. Mas enfim, não posso fingir e acreditar que você
seja uma pessoa sem valor. Insurjo-me contra qualquer possibilidade
de me afastar de você. Sua importância sempre será conservada.
Reabramos as janelas da alma! Tá, eu até gosto de você... (???).
LUCAS CARVALHO DE OLIVEIRA

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DO APROVEITAMENTO!

A cerveja veio como uma noiva para celebrar meu dia cansativo.
Olhei a garçonete e fiquei paralisado. Que menina simpática! Blusinha e
calça coladinha aguçando o desejo. Que simpatia! Olhei-la de cima em
baixo expressando minha cobiça. Minha vontade era entregar-me à
luxúria. Mas minha racionalidade me segurou; que foi ratificada com o
preço exorbitante da long neck. Poxa vida! Oito reais dariam para comprar
umas cinco ou seis no supermercado. E aí, você vem sempre aqui? (...).
Sem comentários. Mas aprovo o plano de gestão... Se possível
em lugares “interessantes”, como no carro, no cine, no parque, no
ônibus vazio à meia-noite, na escada do prédio, no lote baldio, na
construção abandonada, na garagem, no elevador sem câmera, enfim.
Não consigo explicar meu desejo por lugares “diferentes do usual”.
Mas caso quiser, podemos ir a um lugar mais calmo. Tem um na
Amaral Gurgel que é discreto, limpinho e barato. Vamos?
Acho tão bonitinho as vogais prolongadas que você usa. Elas
transmitem seu bom-humor. E você ainda chega assim sorrindo.
Parece que estamos em um campo de girassóis. A primavera insiste
em nos acompanhar. Sorrateira! Salvei-lhe de uma tragédia cotidiana.
Achamo-nos! Imagine se nós nos perdêssemos? Seria o fim. Qual o
seu nome mesmo? Não, amor, não quero apenas me aproveitar de
você. Que alucinação! Não faria isso com você. Relaxe! Fique à
vontade! Os nervos estão à flor da pele... Calma! Estou aqui para lhe
proteger. Abrace-me forte. Ah! Delícia! Venha, fique aqui comigo.
Tire isso, está lhe fazendo mal. Melhor agora! Vamos. Hummm. Isso.
(...) Não! Não faça nada. Nada aconteceu. Nem nos conhecemos.

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Você ainda tem meu número gravado no seu celular. Quando for eu,
não atenda! Posso não ter crédito, ou estar descrédito. Sabe como é,
né?!
LUCAS CARVALHO DE OLIVEIRA

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DE COMO SURGIU UM BANCO NA PRAÇA
VEREADOR SANTELMO ALVES PEREIRA

O banco da praça vereador Santelmo Alves Pereira nasceu de


um dia estúpido. O nome emprestado à praça resume sua minigância;
assim sucedeu-se na sessão da câmara que a batizou:
- Continuando com a pauta, temos uma praça no bairro da
vitória que carece de um nome. A comissão apresentou o nome do
falecido vereador Santelmo Alves Pereira.
- Só curiosidade vossa excelência, a quem se refere esse nome,
não me recordo agora de cabeça.
- Desculpe senhor vereador, estamos apenas seguindo a ordem
alfabética do rol dos vereadores em mandato no ano de 1963.
- Ah.
A praça vereador Santelmo Alves Pereira era uma praça feia.
Carecia dos mínimos atrativos destinados a uma praça de periferia.
Não havia bancos, postes de iluminação, gramado seco, sequer as
instalações de um antigo pit-dog fechado pelo desinteresse dos
moradores locais. Em verdade, a praça, se assim podemos dizer, foi
construída sem motivo aparente. Não havia um fluxo intenso de
veículos que tornasse imprescindível a construção de um cruzamento,
faltava-lhe uma grande concentração residencial que pudesse garantir
votos ao prefeito. A praça era assim: um círculo com 13 metros e 40
centímetros de diâmetro (conforme rígidas especificações dos órgãos
de planejamento urbano da prefeitura), meio-fio desgastado de 8
centímetros de altura que cercava uma área coberta por pó vermelho
e poucos punhados de grama seca e baixa. Cortava-lhe a Rua Padre

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Azevedo e ao seu redor havia duas residências baixas, uma
diagonalmente posta à outra. Na paisagem prevaleciam terrenos
cercados por arames farpados, resquícios das intermediações entre a
cidade e a zona rural. Por sobre o meio-fio estava recostada uma
placa velha com os dizeres Edson automóveis.
Essa descrição um tanto descuidada não nos seria de grande
serventia se esse não fosse o cenário de nossa interessante história e
de como surgiu um reduzido banco na praça vereador Santelmo Alves
Pereira.
Em um obsessivo meio-dia de março, um dia verdadeiramente
chato e sem atrativos, sentou-se no meio-fio da praça um homem. O
suor abundante em seu rosto e roupas indicava que havia caminhado
sob o sol por um longo período. Com a cabeça curvada e as mãos
presas ao abdômen, o homem permaneceu imóvel durante alguns
minutos. Em seguida ergueu o rosto vagarosamente; suas pálpebras
cerradas sob a intensa claridade e a poeira suspensa no ar. Fitou a
paisagem que o rodeava e curvou-se novamente. Após recuperar por
completo o fôlego, ergueu-se com visível dificuldade e voltou a se agachar
sob uma súbita tontura que o prostrara. Respirou fundo e decidiu encarar
o cenário inóspito. A descrição oferecida ao leitor anteriormente é
suficiente para esgotar as possibilidades que aquele lugar oferecia. Um
quadro verdadeiramente abestalhado. O homem sentou-se no pó.
Pediremos licença à paciência do leitor por um breve momento,
mas é oportuno descrever o incrível ritual a que o homem se submeteu
para sentar-se. Erigindo os braços à sua frente, o homem curvou-os
com extrema lentidão até retesá-los rente ao tórax; em seguida flexionou
os joelhos na metade da velocidade com que fizera o movimento anterior
erguendo a cabeça até fixar os olhos exatamente no horizonte.
Permaneceu nesta posição por um instante, inspirou profundamente e
deixou o corpo cair docemente sobre a poeira macia. Ao cair no solo, o
corpo do homem permaneceu oscilando exatamente como uma daquelas
cadeiras de balanço de nossas avós. Após equilibrar-se, curvou
novamente a cabeça e em seguida executou um movimento de meia-

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lua com os braços, tocando o solo com a ponta dos dedos. Usando
somente os dedos como apoio, empurrou todo o corpo até encontrar-se
novamente numa posição de equilíbrio, desta vez sentado.
Imóvel estava, imóvel ficou. O homem recusava ferozmente,
em sua letargia ascética, até mesmo os entretenimentos ocasionais a
que recorremos em momentos de profundo fastio, como arremessar
pedrinhas na maior distância que conseguirmos ou dialogar com os
mosquitos. Talvez houvesse transcorrido um longo período ou cinco
minutos, na verdade o tempo certamente se deteve naquele lugar em
respeito à contemplação do homem; mas enfim algo novo surgiu na
paisagem. Um senhor bastante idoso trajado com o rosto de um
deputado na camiseta despontou bem longe, na rua plana sobre um
passinho lerdo e sobranceiro. O homem inclinou a cabeça em direção
ao senhor que passava e o manteve sob seu olhar fixo ao longo de
todo o trajeto. O senhor passava despreocupadamente ao seu lado e
só o avistou a poucos metros de distância. Sem se deter por nenhum
instante, o velho relanceou-lhe os olhos e fixando a cabeça no caminho
à sua frente começou a gritar com a entonação dos feirantes a anunciar
suas mercadorias: “Manga quente! Manga quente! Manga quente!”.
O homem fitou o senhor pateteando pelo resto do caminho até
que sua voz não fosse mais ouvida. Levou uma das mãos ao rosto
apertando-o fortemente como se quisesse certificar que sua face ainda
era a mesma. Um calafrio percorreu-lhe a espinha aguçando os
adormecidos sentidos do homem sentado no pó; julgou-a procedente
de um sentimento de repulsa que num instante havia se apoderado
dele. Tão logo se sentiu invadido por essa sensação tratou de afastá-
la num resmungo rude contra seu próprio ego. Haveria de contemplar
ainda um pouco mais, haveria.
Na residência à sua vista que poderia ser expressa num desenho
infantil com três retas, uma voz de mulher rude e levemente estridente
praguejava contra alguém que se encontrava na casa. O homem não
se preocupou em compreender o que ali se passava, mas não conteve
o espanto ao ver um grande saco de estopa sendo arremessado pela

29
janela sem vidros, acompanhado por berros de algumas vozes. O
motivo da discórdia encontrava-se do que se podia deduzir, em um
hábito de outro morador da casa de trazer objetos velhos encontrados
na rua e espalhá-los no quintal sem prévia autorização da mulher. As
únicas frases inteiramente decifradas pelo homem eram as seguintes:
- Ara! Num tá vendo que serve pra vender na distribuidora? Ara!
- Serve sua mãe pra vender ali homi! Semana passada cê voltou
com essa tralha de lá sem faltar nada do que tinha levado.
Essa pequena cena não entretinha o homem sentado no pó. Seu
desgosto crescia suavemente enquanto o sol maquinava certas
alucinações comuns aos que o desafiam sobre o planalto central. O
velho enxotado de seu lar resmungava entre dentes cerrados e maldizia
a mulher que tão rudemente desmentia suas expectativas. Voltaria à
distribuidora no dia seguinte e gastaria trinta por cento do dinheiro
recebido em cachaça. Rodeou a praça vereador Santelmo Alves Pereira
e ao completar a terceira volta partiu em silêncio e decidiu que somaria
outros trinta por cento à conta inicial. Não notou o homem sentado no
pó.
O homem voltou a sentir estranhos tremeliques beliscando seu
corpo. Posicionou o polegar de sua mão direita sob o céu da boca
pressionando-a bruscamente, enquanto o restante da mão cingia a parte
superior da testa. Com a mão esquerda puxava o maxilar como se
tentasse evitar que sua boca se fechasse e não mais abrisse. Vencida
essa singular situação, o homem foi assaltado por uma crise de espirros
enérgicos que o deixaram vermelho, com as narinas dilatadas. As feições
de seu rosto se enrijeceram como se ele fosse subitamente acometido
de uma prisão intestinal; pairando destacado do restante da face estava
um sorriso estreito e suplicante. O homem parecia sofrer de grave
moléstia; curvava os membros de seu corpo a uma posição que nenhum
músculo poderia alcançar e se contorcia muito estranhamente. Após
algum tempo imóvel ele pareceu voltar a si. Soprou o ar pesadamente
e emitiu um barulho rouco, abafado. Esse refluxo de energias deu-lhe

30
forças para mais um ruído, que começava em um uivo agudo e terminava
em um resmungo opressivo. O homem arfava intensamente e
resfolegava o ar que ainda lhe restara nos pulmões.
Ao redor de si o tempo caminhava em perfeito juízo. Em mais
uma mostra de profunda austeridade, o que quer que o observasse se
manteve em silêncio. O homem concluía pensamentos fabulosos
enquanto seu corpo procurava uma posição de estabilidade. Concluiu
num átimo que existiam diversos tempos entrecruzando seu corpo e
que talvez ele não se encontrasse onde deveria estar. Observou que
poderia tomar uma xícara de café se assim o quisesse e que seria
servido de imediato se assim ordenasse. Consumou tudo o que era
inconcluso e decidiu que já era hora.
Endireitou o tronco, o pescoço e a cabeça rente ao solo apoiando-
se no braço esquerdo. Inclinou o corpo até que seus olhos apontassem
diretamente para o centro do céu, mantendo os braços fixos ao solo.
Certificou-se da precisão de seus movimentos; os braços levemente
encurvados, o corpo perfeitamente alinhado da cabeça aos joelhos, as
pernas fixas ao solo inclinadas na exata medida que o mantivesse nivelado.
As feições do homem se transformaram; agora era taciturno, como se
talhado em pedra. A musculatura tornou-se rija e fria e as articulações se
enrijeceram de tal forma que não puderam mais ser flexionadas. O sangue
no interior do homem deixou de fluir e como tal, seu corpo tornou-se frio.
Os traços de seu rosto se uniformizaram ao restante do corpo que ganhou
uma cor como a da madeira recém polida. Passou-se um dia.
O homem se tornara um banco de praça.
Os poucos transeuntes que por ali passavam não se
aperceberam do pequeno banco que estava na praça. Apenas o velho
que anunciava efusivamente suas idéias notou aquele novo adorno e
deixou de gritar naquele dia. Poucos se sentaram no desconfortável
banco da praça vereador Santelmo Alves Pereira. E os que assim
fizeram estavam cansados do sol.
GUSTAVO GARCIA

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FILOSOFANDO NO BOX

Tomar banho todos os dias é a mais importante regra de higiene


pessoal (e de bom convívio social, diga-se de passagem). Gosto de
segurança na limpeza. Água e sabão em abundância não bastam.
Uma boa esponja é fundamental. E não me venha com a tecnologia
das “redinhas” ou cerdas especiais, em casa usa-se a tradicional.
Primeiro molha-se tudo. Shampoo duas vezes e condicionador por
cinco minutos. Cabeça descansa, vai-se para o corpo. A esponja já
esta pronta para o serviço. Gorda de água. Inchada. Pingando. Penso
em como seria fácil ter um “coração-esponja”. Sonhos-frustrados-
palavras-não-pensadas-porém-ditas-amores-mal-resolvidos. A água
não habitaria os olhos nem encharcaria a memória daquele que tem
um “coração-esponja”. Um simples apertão. Um ralo. Uma esponja
seca e pronta pra outra. Seguro a minha esponja como quem segura
o coração de toda uma via. Onde diabos deixei minha toalha?

CAROL SALVADOR

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O GOSTO DO AMOR

Dizia o sapo para uma borboleta que voava:


- Você é tão linda,
A borboleta então, toda lisonjeada e com um sorriso sublime,
retrucou-lhe:
- Você é tão feio.
O sapo então engoliu a borboleta com sua enorme língua e
disse:
-Tinha gosto de verme.

GUILHERME MARTINS

33
VÍNCULOS

E minha vida salivou naqueles dias. Meu queixo todo babado


denunciava minha entrega. Eu realmente não queria dormir. Você
não deveria dormir. É no sono que tiramos o foco um do outro. É no
sono que não precisamos de ninguém. E eu preciso de você para
continuar flutuando. Você me aninhou. E eu esqueci todo o resto. Eu
era a criança olhando curiosamente qualquer objeto colorido e brilhante.
Desfocando o óbvio. Olhei você. Decorei você. Sua barba preta com
cabelinhos dourados. Seus lábios grossos. Seu beijo molhado. Sua
pele branca. Sua bunda gostosa. Seu corpo enorme. E eu pequenininha
dentro do seu abraço. Sua mão macia que encaixava a minha.
Suávamos a linha do amor. E eu senti seu coração batendo nas minhas
costas. E me comovi com o que você é. Sua calma acalmando minha
ansiedade. Decorei seus sorrisos. E me vislumbrei com seus carinhos.
E na loucura do seu habitat pude voltar para dentro de mim. Meu
ponto final é você.
P OLLY

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BREVE HISTÓRIA DE UM
BEM-TE-VI DE VIDA CURTA

O bem-te-vi era um pássaro bacana. Tinha emprego fixo, carro


da moda e o que fazer aos domingos. Gostava de emprestar dinheiro
a seus amigos boêmios em troca de algumas andorinhas perdidas e,
vez ou outra, acreditava em finais felizes. Mas como todo bom bem-
te-vi, entediou-se. No fundo sabia que podia queria arriscar vida nova
namorar tempo era curto era preciso se apressar andorinha a voar
pimba. Fez o que podia não podia feriu saiu ferido perdeu tudo vida
besta. O bem-te-vi era um pássaro bacana. Mas bico com bico não dá.
CAROL SALVADOR

35
O HOMEM QUE QUERIA SABER DE TUDO

eu precisava ler todos os livros do mundo. precisava saber tudo.


existiam páginas e páginas por aí sem sequer serem vistas por
mim, como podia eu não saber o que estava escrito nelas? e se
fosse algo importante? a vida é uma só, não haveria outra
oportunidade.
lia um livro, depois outro, depois outro. nas poucas vezes
que saía de casa, procurava as experiências mais escrotas
possíveis. a ideia era passar por coisas que ninguém tinha
passado, juntá-las com um conhecimento que também
ninguém tinha.
um dia comecei a pensar sobre o que chamam de amor e
cheguei a conclusões inusitadas. a partir de então, sempre que
alguém falava “amor”, eu pensava em uma coisa e as pessoas
em outra. com o tempo, foi assim com todas as palavras. já
não falava a mesma língua.
se eram ideias e experiências que ninguém nunca havia tido, é
claro que não criaram palavras pra expressá-las. então fui
inventando, aos poucos, meu próprio vocabulário.
não deu certo. Borges disse uma vez que as palavras são
símbolos pra memórias compartilhadas. ninguém compartilhava
das minhas memórias. por isso, ouviam o som sair da boca,
mas não podiam associar com nada. era impossível entender
seu significado.

36
perdi meu emprego. fiquei aos cuidados de familiares. pensaram
que eu tinha virado um surdo-mudo ou algo assim. fui levado a
vários médicos, especialmente neurologistas. “ - ele só solta
ruídos, doutor.” “- já vimos muitos casos assim, senhora.”
e eu, depois de aprender tanta coisa, não pude imaginar que
me tratariam feito um idiota. quem sabe saber tudo seja mesmo
uma burrice, bom pra aprender.
VALÉRIO LUIZ

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A INSANIDADE DA CRENÇA

Tanta lucidez causa-me vertigem. E tudo que assemelha ao


ultra-romantismo atrai-me com força de abismo. A prisão antecede a
fuga. Prisão com chão de barro que clama túneis. Minha maior
insanidade não durou mais que 30h totais dentro de um ônibus. Não
foi ter tragado um dia antes do meu vestibular. Não é ter tentado
perder a virgindade com uma cenoura. Não é sentar no chão do
banheiro todo domingo e imaginar chuva lá fora. Minha maior
insanidade foi ter ficado 30hs totais dentro de um ônibus por
ACREDITAR no amor. Foi ter tragado antes do vestibular por
ACREDITAR que passaria. Foi ter tentado com uma cenoura por
ACREDITAR que sou mesmo auto-suficiente. Foi sentar no chão do
banheiro por ACREDITAR que o chuveiro ligado é chuva. E você,
garotinha descolada, que repete frases feitas e não dá conta de
relativizar o amor, o vestibular, a virgindade, seus pais. Você chora
depois das 30hs totais dentro de um ônibus porque ao final não existiu
o amor; por ter passado no vestibular; por sentir dor quando a ponta -
a pontinha- da cenoura penetrou; por ver que chuveiro ligado não é
chuva???? E eu, garotinha cool, choro até morrer quando percebo
que o abismo é mais atraente que minha cama depois do almoço,
ligado meu ar condicionado na temperatura certa.
P OLLY

38
O PRELÚDIO DE UMA HECATOMBE

Seus projetos eram intenções que não necessariamente


precisariam se concretizar. Pode-se dizer que, enquanto estivessem
no plano das idéias, aí sim estariam existindo de fato. Logo depois os
projetos perderiam consistência, seriam misturados a novos desejos,
deixados descansar na sombra de um esquecimento momentâneo para
logo depois regressar sob a forma de um novo mesmo projeto de
sempre. Diferente, mas o mesmo. Inédito, ainda assim guardando a
mesma finalidade que a primeira vista não se vê, da segunda não se
percebe, na terceira não chama a atenção, e assim, tantas vezes se
repetindo, que por fim mostra-se evidente. As velhas intenções de se
mudar o rumo do palpável finalmente se dissolveram e deram lugar
ao seu objetivo concreto. Ao sentir que este seria o momento que há
anos esperava, ao ter certeza que todos os fatores necessários
estavam ali presentes, desapertou a gravata vermelha, abriu as janelas
do 17º andar e contemplou pela primeira vez o mundo que já não era
mais o mesmo.
SAULO

39
DIÁLOGOS GREGOS

rodinha, conversa, e o papo caiu pra um lado metafísico.


acidentes acontecem.
de repente falo uma coisa e você outra. quem está certo? o
certo é que ninguém quer ficar por baixo, pro inferno com o
resto. é pra lá que foi minha fé na discussão de alguma ideia.
ler um livro hoje. ler de novo amanhã. depois associar com
aquele de anteontem e assim vai... devagar... saber alguma
coisa é coisa lenta. sistemática.
você sabe mais que eu. claro, lê três num dia, amanhã mais
três, depois a orelha de mais cem. lê rápido, não associa com
nada, não monta um pensamento. mais vale cem orelhas do
que um livro inteiro, é certo.
assim, pra qualquer assunto você tem uma orelhinha na manga.
“ já leu Aldous Huxley?”, se não, perdi, desinformado do caralho.
sempre enfia um argumento de autoridade no meio. melhor se for
Sartre ou Nietzsche, pra fazer o povo sentir que já devia ter lido.
nunca diz que não conhece uma banda ou que não viu um filme.
você conhece e viu tudo. ai, sua cabeça parece um amontoado
horroroso de merda. sem raciocínio, só memória.
não preciso que me informe das coisas, tenho google em casa. “já
leu George Orwell?”. enfia o Orwell no cu, pedante filho da puta.
VALÉRIO LUIZ

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BOCEJOS DA RAZÃO

A vida tem pressa. Seu ritmo não está conforme a dança. Você
quer ir longe, mas não vai além da esquina.
O seu dia cabe em uma semana. E quando a hora é livre o
tempo morre na preguiça. Vencer o tédio é pra poucos.
O tumulto das coisas confunde: vai acabar com a energia antes
da chegada. O desfecho sempre sai pior que a encomenda. Se
o sonho é alto, o tombo é maior.
Pálido, cansado, apático, mas a vaidade é grande. Com uma
idéia fixa e sorte, quem sabe depois de morto você vira gênio.
Das milhares de coisas a fazer nasce a vontade de fazer nada.
O final de semana sempre vem, ainda bem. Aí pensar demais
vai dando um sono.
Preguiça é sintoma.
JACKELINE SCARPELLI

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TEMPO CURVO

Sete e meia, a luz vence as cortinas. Você perdeu a hora de


novo. O corpo fica imóvel, tentando levantar. Resta a decisão: dormir
ou despertar.
Nesse tempo há espaço pra xingar o despertador, o fabricante
do despertador, o garimpeiro que tirou o metal do despertador e todos
os seus descendentes até a quinta geração.
Ignorar as horas é atraente, um sonolento desafio à ordem.
Quem sabe inspire outros, sua foto saia na capa do jornal...
Não, já foram mais cinco minutos. Uma pessoa atrasada não
chega a tempo do sucesso: a cama o chuta pra fora, uma roupa
qualquer se veste em você, o tênis velho já é quase um pé.
Corre, corre! Faça promessas de pontualidade, produtividade,
exercícios diários, dieta saudável. Ao atalhar pela praça, a vida escorre
pelo verde das folhas. O relógio não faz sentido.
Ei, você está muito atrasado... Foda-se!
JACKELINE SCARPELLI

42
O ENCOSTO VONTADE

Hoje acordei numa paz impressionante. Deve ser as boas


novas. Finalmente consegui me livrar sentimentalmente de um dos
encostos que estão me incomodando, a vontade. Fiz a egípcia para o
encosto. Quando a responsável pela vontade veio conversar comigo,
apenas ensinei-lhe como fazer o download do corel, declinei-me de
uma viagem e falei-la de uma irritante dor de cabeça. Nas recentes
outras interações eu, gentio cego, aguardava ansioso pela epinafia.
Voltei a enxergar. E como me sinto bem por isso! E ainda saí da
história muito bem. É muito fácil não magoar as pessoas. Talvez elas
insistam em magoar você, apesar de seu carinho, simpatia, dedicação
íntima. Acredito, em síntese, que o encosto nos deixa cego. A culpa é
toda dela! Temos vontade de fazer coisas que nos agradem, mas não
a nossos próximos. Acabar com a vontade enquanto encosto é o melhor
remédio para a evolução afetiva. A vontade só é boa quando (não é)
recíproca.
LUCAS CARVALHO DE OLIVEIRA

43
BRICOLAGEM DE COISAS
ESCRITAS ANTERIORMENTE

Somos todos simbologicamente transexuais.


Até porque deus é um luxo que eu não me permito.
Tenho uma mania burra de reducionismos.
Eu nunca vou conseguir explicar o mundo em aforismos.
Sou ansiosa demais para vestir-me do passado.
Não descarto a importância dos gregos, mas sinceramente
sempre preferi desconstruções.
Os meus romances são atípicos demais, ao final não passam
de maltratações.
Sou apegada, confesso, ainda guardo caroços de azeitona,
melancia, guardanapo de bares e cafés, entradas de cinema,
papéis de balas... Enfim, lixo!
Tenho medo de perder a memória, por isso é tão difícil dormir.
A melhor coisa para tudo é respirar.
Respiro!
Eu ainda posso experimentar o resto que sobra do mundo.
Eu não tenho resiliência afetiva.
Depois do filme e da dor de cabeça infernal, a Paula me
explicou: racionalize os limites do seu individualismo. Eu cheguei
ao limite e ela entendeu.

44
80% das universitárias não sabem o que é um orgasmo. Ou
seja, elas fingem.
Tenho receio de desejar ser do lar.
Nunca fiz questão de ser “mulher de Atenas”.
Feliz sou eu, por evitar a maioria de meus semelhantes.
O sertanejo antes de tudo é um forte, só porque não conhece
carnaval.
Meu novo mantra: “Tô me guardando pra quando o carnaval
chegar”.
P OLLY

45
AULA DE GRAMÁTICA

Sabe, não consigo entender o porquê de tudo isso. Parece-me


que é um drama muito forçado. O pronome oblíquo é colocado antes,
em próclise, ou depois, em ênclise, da locução verbal. Talvez seja um
problema de auto-estima. Não sei. Só se coloca o pronome oblíquo
entre a locução verbal se o verbo principal estiver no infinitivo ou no
gerúndio. Só sei que gosto muito dele, mas não sei o que fazer. A
gramática moderna não implica com a próclise. Você a utiliza se quiser,
na verdade. Eu também não entendi a atitude dele. Mas em concursos
conservadores, quando aparecer alguma palavra atrativa, usa-se
próclise. São elas: palavras negativas, advérbios, pronomes relativos,
pronomes indefinidos, pronomes demonstrativos, preposição seguida
de gerúndio e conjunção subordinativa. Eu contextualizei e perguntei
depois para as outras pessoas e todas me deram razão. Não se inicia
oração com pronome oblíquo nem depois de vírgula que, por exemplo,
indique um vocativo. Peça desculpas mesmo que não seja sua culpa.
Não vá ficar de mal por uma bobagem. Quando o verbo estiver no
infinitivo ou no gerúndio também se usa a ênclise. Não me desculparei
porque não fiz nada de errado. Eu que deveria estar magoado. Por
fim a mesóclise, se o verbo estiver no futuro do pretérito (far-xx-ia)
ou no futuro do presente (far-xx-ei). Kkkkkkk. Não, você não deveria
estar magoado. Essas coisas acontecem mesmo. Foi só um
desentendimento bobo. Não entendo você ser esse menino racional
que fica pensando numa bobagem como essa.
LUCAS CARVALHO DE OLIVEIRA

46
PROGRESSIVA LOUCURA DO VERSO AO
INVERSO (META-NO-FÍSICO)

Os neurônios se desco-nec-tam...
Os hormônios se ...re-in-tegram.
E minhas formas de pensar
Vão pensar em suas formas.

A cabeça gira...
A cabeça gira... A cabeça gira...
A cabeça gira...

Ao despi-la de suas roupas,


Me despi lá da razão;
Ao despir-me de umas roupas,
Percebi que a razão
Foi só outra roupa a ser despida.

A cabeça gira...
A cabeça gira... A cabeça pira...
A cabeça gira...

47
Digo que não tem sentido
Ter sentido o que eu digo
Se ligo palavras com a língua
Pra ligar línguas sem palavras...
...Num beijo...
Vejo o tempo do meta-físico
Que tem por meta o físico,
Eu vejo a leva do eu-lírico
Que leva o eu do lírico.

A cabeça gira...
A cabeça pira... A cabeça pira...
A cabeça gira...

Os neurônios se ...re-co-nectam.
Os hormônios se desin-te-gram...
E minhas formas de pensar
Vão pensar em formar frases...
...Sinapses...
Penso em coisas pra viajar
Pra longe das coisas que penso,
Pois se é louco sem o senso pensar,
Pôr-se bem louco é pensar no senso.

A cabeça gira
A cabeça pira... A cabeça pira...
A cabeça pira...

48
Quando os neurônios se desco-nec-tam...
Só têm que ter sentido as sensações;
Quando ...re-co-nectam-se os neurônios,
As sensações têm que ter sentido...
...Nisso...
Reviro um traço do eu incerto,
Certo que traço no eu poesia;
E revira-se tanto até o verso
Que até o verso de tonto se revira.

A cabeça pira...
A cabeça pira... A cabeça pira...
A cabeça pira...
VALÉRIO LUIZ

49
CORPO

Eu vivo por aí, pelas sensações,


Sentindo o aroma do mundo pairando pelo éter,
Leve e fecundo,
Como um gozo forte de presença.
Aí na frente,
Levanta-se essa massa potente,
Colorida, palpável, fria e úmida,
Contendo tudo o que sou de vida,
De sobra e de passagem.

Sinto o mundo com o corpo,


Estendido inteiro sobre tudo,
Até que não reste nada,
Nem do tempo,
Nem da possibilidade,
Nem de todo o âmbito da luz.
Como um sentimento de não viver, mas de ser vivido.
JOÃO DA CRUZ

50
EU

Sou aquela que deseja


Tudo e nada
Mordo como quem beija
Alma inacabada

Sedenta de infinito
Do terror, me resta o grito
Angustiante
Melancólico
Bucólico
Errante!

As coisas são assim...


Chorar já não posso
Será esse meu fim?
CAROL SALVADOR

51
(DES) RAZÃO

Pingos ácidos da alma


Acumulam uma realidade que mastiga e cospe
O mínimo de paz que ainda me resta
Na amplitude de minha insignificância
Sinto que a razão passa, fluida, por entre os dedos
Atormenta-me a liberdade que a loucura me dá.
CAROL SALVADOR

52
SUI CAEDERES

Não há mais tempo.


O Espelho está quebrado.
E o sangue ainda escorre.

Os cacos ainda cortam


Ainda ferem, ainda falam.
Cicatrizes, caos e cortes.
[é o que dizem.

A porta já não abre


E a janela está fechada,
Mas não adianta nada.
[no Inferno não há saídas.

As paredes ainda brancas


Estão frias, mortas,
Estão pálidas.

53
Não adianta dormir.
A noite não tem fim.
E o chão está frio.

Não há mais nada além dos cacos,


Além do sangue.
Não há mais Espelho
Não há mais tempo
Não há você.

Diga-me:
Em que lágrima eu te deixei?
[morrer.
GUILHERME MARTINS

54
PEQUENO

A maior das alegrias


É saber que há vida além de minha consciência,
que é tão pequena,
tão apertada,
e desconfortável.

Dentro dela,
Cabe um mundo inteiro de onisciência presumida,
O tempo todo de toda uma existência,
A completude dos valores que toldam meus limites.

E comprime,
Como se tudo que valesse a pena, ou a vida,
Estivesse contido nesse recipiente doloroso,
denso e enxuto como um cadáver mumificado.

55
E é assim que às vezes, e só às vezes,
Dou-me conta do microscópico tamanho que tenho
caso me visse da grandeza das coisas de lá de longe,
que reduz a um ínfimo projeto tudo aquilo que agoniza
em nome de metas, problemas, alegrias, corpo e tempo,
e me reduz a um só valor, parco e evanescente, como um sonho
fútil.
Felizmente eu não sou muito.
JOÃO DA CRUZ

56
S
SOS
S

O que é a Língua
Senão o que
Se fala?

Se há “pra” para o para


Se há “trem” para coisa

Diga-me
Me diga:

Que Língua se fala


Senão a que sai
Da boca?

57
Se há muita
Ou
Se há pouca
A gente é o que se fala
Se o que se fala sai da boca,
Ou
Somos o que diz
A Língua Regra
do Correta –Boca ?

Se tem “menos” lá pra gente


Se há nós para o status
O que de fato será

Certo ?
O que de fato é
Errado ?
GUILHERME MARTINS

58
QUISERA EU

Quisera eu mais do sobre tua beleza falar;


Quisera eu mais do que intocáveis palavras pronunciar;
Quisera eu mais do que ter de ti um simples sorrir;
Quisera eu mais do que o calor do toque de tuas mãos sentir.

Pena que isso seja um vão querer;


Pena que minha presença nem chegas a realmente perceber.
Não existo verdadeiramente para ti;
No máximo, quando para mim olhas, para o nada é que sorri.

Somente me vês como um bom amigo,


Como alguém que não passa de um pegar na mão,
E, além de amizade, nada mais queres ter comigo.

Uma chance peço para mostrar o que sente meu coração;


Deixe-me ser mais que simplesmente um amigo,
E ensinar-te-ei o que é uma grande e verdadeira paixão.
MERCDIONY LUCAS

59
VERDADES

Minha mãe não é mais virgem!


Pois surpreenda-te então
Mas a tua também não!
Sentes alguma vertigem?
Deverias, meu amigo
Pois o teu humilde umbigo
Não é o eixo deste mundo
A verdade dói-nos fundo!
Mas alguém sempre nos fala
Que a democracia é falha
Que o mundo é uma bola
E no espaço gira e rola
Que tudo em nossa mente
É um conflito inconsciente
Que o amor, sublime amor
Mora próximo da dor
Mas o que mais me deixa triste
É que Papai Noel não existe.
JOÃO FRANCO NETO

60
CONFISSÃO

Eu não sei por que às vezes falo coisa por coisa


Num cantar estouvado, preso, confuso e passado.
São coisas, penso eu, que vêm da alma.
Frutos de um estrago feito e não consertado.

Por vezes me lembro que meus versos não eram assim;


Tão ébrios, tão tolos, tão fracos;
Meus versos cantavam sons sem começo nem fim.
Eram perfumes de raros os frascos.

Agora já nem bem sei o que são


Talvez quartetos rimados que se passam e vão,
Não são como outrora que marcavam a história.
Agora já bem sei: são restos da memória.

Pensar em compor eu já não penso,


Passeio em idéias, momentos,
Por vagos a inúteis pensamentos.
Passados, perdidos; restos do meu tempo.
GUILHERME MARTINS

61
62
MEMBROS

ESCRITORES

CAROL SALVADOR .......................... 7° período - Noturno


CRISTIANO REIS ............................... 1° período - Noturno
GUILHERME MARTINS ................... 5° período - Matutino
GUSTAVO GARCIA .......................... 5° período - Matutino
JACKELINE SCARPELLI ................. 5° período - Matutino
LUCAS CARVALHO ......................... 7° período - Matutino
JOÃO FRANCO .................................. 3° período - Noturno
JOÃO DA CRUZ ................................ Professor
MERCDIONY LUCAS...................... 3° período - Matutino
POLLYANA DI BRITO ROCHA ........ 3° período - Noturno
SALMA JORDANA .......................... 10° período - Noturno
SAULO PAULO ................................. 5° período - Matutino
VALÉRIO LUIZ ................................. 7° período - Matutino
WENDEL ROSA BORGES ................ 1° período - Matutino

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COLABORADORES

ELTON OLIVEIRA AMARAL ......... 5° Período - Matutino


HUGO XAVIER .................................. 5° período - Matutino
TATIANA BRAGA ............................ 5° Período - Matutino

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