MÁRCIA DE OLIVEIRA ESTRÁZULAS

A COMUNIDADE ESPIRITUAL “FIGUEIRA”: A INFLUÊNCIA DE TRIGUEIRINHO SOBRE O “EU” (SELF) DE SEUS SEGUIDORES

1 EDIÇÃO

2010

Copyright © 2011 by Márcia de Oliveira Estrázulas Todos os direitos para o BRASIL e países de lingua portuguesa reservados e protegidos pelas leis em vigor, em cada um deles, sobre DIREITOS AUTORAIS a Márcia de Oliveira Estrázulas. Nenhuma parte desse livro poderá ser reproduzida ou transmitida, sejam quais forem os meios empregados: eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros. A responsabilidade total e integral sobre o conteúdo deste livro é da autora. Capa: Márcia de Oliveira Estrázulas Impresso no BRASIL Contato: Márcia de Oliveira Estrázulas marciest@terra.com.br SOBRE A FORMAÇÃO DA AUTORA MÁRCIA DE OLIVEIRA ESTRÁZULAS: - LICENCIADA EM ESTUDOS SOCIAIS - LICENCIADA EM CIÊNCIA SOCIAIS - BACHAREL EM CIÊNCIAS SOCIAIS - ESPECIALISTA EM METODOLOGIA DO ENSINO SUPERIOR - MESTRE EM CIÊNCIAS SOCIAIS - EMPRESÁRIA DESDE 1989 NO RAMO DE PERFUMARIA - ESPECIALISTA: EM CULTURA(ARTE E CIÊNCIA DOS PERFUMES); - EM MARKETING(MERCADO DE LUXO DE PERFUMES); - EM MERCHINDISING DE PERFUMES.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Dedico esta dissertação aos meus pais, Daniel e Eny, aos quais devo tudo, aos quais amo profundamente, e a meu sobrinho e afilhado, Marcelo, na esperança de despertar seu interesse pela pesquisa.

AGRADECIMENTOS
Ao Prof. Dr. Roberto Ramos, professor do Doutorado da Faculdade de Comunicação Social - PUCRS (Famecos-PUCRS), que me recomendou ao Mestrado de Ciências Sociais – PUCRS; À Profª. Dra. Merli Leal Silva, professora coordenadora do Curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Metodista – IPA, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e do PGCOMPUCRS, que me incentivou a fazer o mestrado e me indicou ao PGCS-PUCRS; Ao Prof. Me. Eduardo Pedro Corsetti, professor de Ciências Políticas da UFRGS, que me recomendou ao PGCS; Ao Prof. Dr. Glênio Nicola Povoas, professor da Famecos, pela cópia do filme de Trigueirinho “Bahia de todos os Santos” (1960) e pelas cópias da revista “Anhembi” de crítica de cinema editada pela USP; Ao Prof. Dr. Hélio R.S. Silva, professor convidado do PGCS, por ter despertado em mim a admiração por Erving Goffman e pelo interacionismo simbólico, além de suas ricas orientações extra-oficiais; Ao Prof. Dr. João Luís Medeiros, ex-professor convidado do PGCS, pelo incentivo, consideração e orientações; Ao Prof. Dr. Ricardo Mariano, professor permanente do PGCS, excelente ouvidor, mediador e coordenador; Ao Prof. Dr. Édson Gastaldo, professor do PGCS–UNISINOS, pelas orientações e por seu parecer sobre as alterações requeridas pela Banca, mesmo sem termos nos conhecido pessoalmente; Agradeço ao ex-colega, ex-vice reitor da UNISC, Me. Marcos Moura Batista dos Santos, atual Coordenador do Departamento de Antropologia da UNISC, por seu parecer sobre as alterações requeridas pela Banca; Agradeço ao ex-colega, Me. João Paulo Cunha, professor de política da graduação da UFRGS, por seu parecer das alterações sugeridas pela Banca;

À professora Dra. Mª Suzana Arrosa Soares, professora do PGCS-UFRGS, pelo seu parecer e consultoria em relação as alterações sugeridas pela Banca; Ao Prof. Me. Celso Dias, professor da FACCAT, pela orientação providencial e apoio emocional; À Profª. Me. Ivone Bengochea, professora da Faculdade São Judas Tadeu, por sua ajuda metodológica e didática na apresentação oral; Ao Prof. Dr. José Rogério Lopes, professor do PGCS-UNISINOS, pela disposição em contribuir, mesmo sem nos conhecermos pessoalmente até o momento da Banca. Ele é um mestre que não só transmite conhecimento, mas ensina pelo próprio exemplo. Esta é a verdadeira maestria, uma vocação que me re-encantou pelo ofício do educador; Agradeço ao Professor Dr. Léo Peixoto Rodrigues, pela sua reorientação em relação as alterações sugeridas pela Banca; Ao tempo, o melhor dos mestres, senhor da razão e da justiça; AO MEU MESTRE, MESTRE DOS MESTRES, MESTRE DOS ANJOS E DOS HOMENS.

NOTA DO AUTOR
Este livro é a publicação na íntegra da Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Ciências Sociais, pelo Programa de Mestrado em Ciências Sociais, área de concentração “Organizações e Sociedade”, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Como tal, este trabalho é uma pesquisa metodológica científica cujo fim não é pessoal com relação à pessoas ou fatos, apenas uma análise comportamental cinetífica. MÁRCIA DE OLIVEIRA ESTRÁZULAS

SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ............................................................ 13 2 A COMUNIDADE “FIGUEIRA” ..................................... 29 2.1 A COMUNIDADE FIGUEIRA E ASPECTOS DA TRAJETÓRIA DE SEU LÍDER ............................................................... 30 2.1.1 A Fundação da Comunidade “Nazaré” ................. 34 2.2 A ESTRUTURA ORGANIZACIONAL DE “FIGUEIRA”, ASPECTOS LOGÍSTICOS, MATERIAIS, ETC. .................... 37 2.2.1 Estrutura Física: Sede, Casas, Setores, Monastérios, Redes de Serviço no Brasil e no Exterior ....................... 40 2.2.2 Organização Administrativa, Hierarquia, Categoria de Membros, Atividades, etc. ............................................. 44 2.2.3 Forma de Subsistência, Trabalho Voluntário e Gratuito ..................................................................................... 47 2.3 CULTURA ESPIRITUAL DE “FIGUEIRA” ..................... 50 2.4 CONCLUSÃO ........................................................... 55 3 ERVING GOFFMAN - O INTERACIONISMO SIMBÓLICO COMO MARCO PARA A ANÁLISE DOS RITOS DA INSTITUIÇÃO E DOS RITOS DA INTERAÇÃO ........................................ 57 3.1 ERVING GOFFMAN - UMA VIDA MESCLADA COM SUA VISÃO TEÓRICA ............................................................ 57 3.2 INTERAÇÃO SOCIAL ................................................ 68 3.1.1 A persuasão entre atores sociais .......................... 72 3.1.2 Instituições Totais ................................................ 75

3.1.3 Comunidade desviante ......................................... 84 4 MÉTODO DE GOFFMAN E SUA APLICAÇÃO NA INTERAÇÃO SOCIAL DE “FIGUEIRA”.................................................. 89 4.1 PROCEDIMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS ...... 89 4.2 A PESQUISA DE CAMPO SEGUNDO O MÉTODO DE GOFFMAN ..................................................................... 92 4.3 CATEGORIAS DE ANÁLISE DOS RITOS DA INSTITUIÇÃO DIMENSIONADAS COMO categorias ABSORVENTES ..... 95 4.3.1 Anotações das observações de campo dos ritos da instituição já categorizadas .......................................... 97 4.4 CATEGORIAS SOBRE OS RITOS DE INTERAÇÃO DIMENSIONADAS COMO categorias CONVERGENTES 113 4.4.1 Roteiro dramático de uma instituição total ........ 115 4.4.2 Conclusão .......................................................... 126 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................. 127 REFERÊNCIAS ............................................................. 135

1 INTRODUÇÃO
Esta dissertação tem como objetivo apresentar o estudo da comunidade “Figueira”. Para tanto foram organizados cinco capítulos. A introdução é o primeiro. No segundo há o histórico de “Figueira”. Traçamos a trajetória pessoal do fundador da comunidade, trazendo à luz alguns dados da sua biografia, sua formação de diretor de cinema no Brasil e no exterior, seus trabalhos e obras na área, seus sucessos e fracassos profissionais até a desistência da carreira de cineasta e a posterior fundação da comunidade “Nazaré”, de onde foi excluído pelo próprio grupo devido à sua forma de administrá-la. Após sair da “Nazaré”, Trigueirinho funda a comunidade “Figueira”, uma organização ainda mais fechada que a “Nazaré”. Concomitantemente à administração de “Figueira”, Trigueirinho escreveu dezenas de livros com profecias do fim do mundo e o resgate da terra com ajuda de extraterrestres. Hoje vive isolado. Depois, apresentamos a comunidade “Figueira”, propriamente dita, sua localização geográfica, o número aproximado de residentes, objetivo principal, extensão territorial, sua fauna e flora, um panorama geral das atividades cotidianas e os perfis das pessoas que podem participar das rotinas e tarefas. A estrutura física da comunidade, a utilização do espaço geográfico tem relação com a organização espiritual e hierárquica. A organização hierárquica segue o modelo de pirâmide. O líder vitalício Trigueirinho fica no topo (o profetismo tornou-se sua forma de ascendência), os grupos externos e itinerantes na base e, intermediando ambos, os coordenadores mais próximos do líder. Descrevemos a sede, as atividades e funções das casas na área urbana, dos setores e monastérios nas áreas rurais e dos grupos itinerantes do Brasil e exterior que se hospedam e participam das atividades da comunidade “Figueira”. A divisão de trabalho, de tarefas e de atividades, descrita neste trabalho, é conseqüência do desenvolvimento da organização. Uma característica a se destacar são os conflitos decorrentes do

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choque de valores do grupo de residentes internos e do grupo externo itinerante. Outro fator que desencadeia divergências é o interesse do grupo estar acima das individualidades. Também o modo como as tarefas devem ser executadas e o tempo de duração das mesmas são previstos pelo grupo de coordenadores internos, sem espaço para criatividade, liberdade de escolha e livre-arbítrio, aos grupos de externos itinerantes. Também apresentamos as formas de subsistência da comunidade: produção agrícola para subsistência; troca do excedente; doações de alimentos, remédios, equipamentos, roupas, dinheiro, etc.; mão-de-obra voluntária e gratuita; venda de livros, fitas k-7, cds, fitas de vídeo (VHS). Descrevemos a cultura espiritual de “Figueira”, o eremitério, onde vivem os eremitas em reclusão; seus monastérios femininos e masculinos, reclusos e semi-reclusos; as regras, normas, disciplinas e hábitos advindos da atividade espiritual; a formação ou requisitos dos monges, oblatos, zeladores, sacerdotes, seres-espelhos, residentes, aspirantes e instrutores são outras peculiaridades aqui esclarecidas. Estivemos pessoalmente em “Figueira”, e constatamos que lá residem mais ou menos trezentas pessoas. Sua base é a vida grupal, há pessoas de todas as idades e nacionalidades com diferentes vivências. “Figueira” tem como principal objetivo ser uma escola de formação e instrução espiritual. Como um centro espiritual, cultiva o serviço e a vida espiritual. As terras de “Figueira” localizam-se na cidade de Carmo da Cachoeira, interior de Minas Gerais, região sudeste do Brasil. Sua área geográfica é, atualmente, uma fazenda de uns cem hectares. “Figueira” possui fauna e flora abundantes, plantações para subsistência, casas para alojamento dos visitantes, bibliotecas para estudo, locais para curas alternativas, laboratórios artesanais e oficinas de trabalho, obras e manutenção. Os alojamento são simples, tanto nas casas da cidade, quanto nas da fazenda, e são distribuídos aos visitantes pela secretaria geral conforme a disponibilidade e necessidades das tarefas internas. Não era e não é permitido, no período em que nos hospedamos ali, chamadas telefônicas e contatos externos considerados

desnecessários por parte da administração. Não são permitidos telefones celulares, filmadoras, máquinas fotográficas ou gravadores. Os residentes optaram pelo celibato. Os hóspedes ou visitantes são obrigados a assumir essa condição enquanto permanecem no local. Enquanto os visitantes estão ocupando os quartos, são proibidas visitas ao recinto íntimo. Em “Figueira” não se estimulam intimidades e vínculos emocionais. O alimento é disponibilizado, de acordo com as estações do tempo, é plantado em “Figueira” organicamente e sem agrotóxicos. Os frutos da terra não são comercializados e nenhum dos voluntários que participam dessas tarefas é remunerado. As refeições são vegetarianas e integrais, sem laticínios, açúcar refinado, sal, alho, cebola, temperos, café, bebidas alcoólicas ou refrigerantes. Não são usadas bebidas alcoólicas, drogas ou fumo. Os que se hospedam em “Figueira” devem levar roupas simples para trabalhos, agasalhos para trabalhos noturnos ou matinais, relógio para cumprir a agenda de tarefas, despertador para acordar cedo, lanterna para trabalhos noturnos e para falta de luz e demais objetos pessoais. O vestuário deve ser discreto. As tarefas compõem-se de limpeza de casa, preparo de alimentos, desidratação de legumes e frutas, trabalhos na padaria, lavanderia, marcenaria e manutenção, horticultura, jardinagem, plantios e colheitas em geral. Mutirões para aberturas de estradas, radioamadorismo para contatos de emergência, apicultura, edição e difusão de livros, folhetos, boletins e gravações, recepção de hóspedes, além de atendimento a pessoas necessitadas. Todas as atividades são grupais, os estudos e as tarefas são desenvolvidos nas áreas de trabalho. Aos semi-internos, hóspedes, visitantes itinerantes são distribuídos tarefas que devem ser realizadas nos seus devidos setores. As tarefas começam antes que o dia amanheça e seguem até à tardinha. Bem cedo, o grupo todo coopera na limpeza básica dos ambientes. Só depois é que é servido o café da manhã. Há refeições ao meio-dia e à noite. O recolhimento para o sono deve iniciar-se às 20h30min. O silêncio deve ser respeitado a partir das 21h30min. As palestras com Trigueirinho acontecem semanalmente, em especial, no dia da vigília mensal, nos encontros de oração e nas

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reuniões dos monastérios. Os encontros do setor saúde (médicos e terapeutas) realizam-se também semanalmente. Os encontros de oração ocorrem três vezes ao ano. Como fomos, por várias vezes, à “Figueira”, constatamos que há uma organização física por setores. São duas áreas, uma urbana e uma rural na fazenda. A urbana situa-se geograficamente na cidade de Carmo da Cachoeira, interior de MG. Encontra-se ali a Casa 1, que foi a primeira sede no início em 1987. Ela é designada secretaria geral de “Figueira”, coordena e distribui tarefas. Na área rural, há uma fazenda de mais ou menos cem hectares e há um setor que chama-se “Vida Criativa”, onde são feitos plantio de hortas, colheita e armazenamento. Em “Figueira” há, atualmente, sete monastérios. Alguns são reais, físicos, com localização geográfica precisa, onde vivem os residentes internos; outros são virtuais, ainda não se materializaram fisicamente, não têm localização geográfica, são considerados um “modo de vida”, uma filosofia, sem precisar de um local físico concreto propriamente dito: O monastério 1 é feminino, semi-recluso. Localiza-se na fazenda e é chamado Figueira 1 ou F1. Ali há o pátio com uma área aberta e outra reclusa, sendo esta última o local onde residem monjas, que são desestimuladas a ter qualquer contato social com o grupo semi-interno e com o próprio grupo interno. O monastério 2 é masculino, semi-recluso. Localiza-se na fazenda e é chamado de Figueira 2 ou F2. Há uma área reclusa, onde ficam os monges. O monastério 3 é misto, eremítico (recluso).Figueira 3 ou F3 localiza-se na fazenda. É designado eremitério, onde atualmente reside Trigueirinho e mais duas pessoas. Este trio vive como eremita e não tem contato social com o grupo interno, muito menos com o grupo externo ou semi-interno. Dos três, apenas Trigueirinho pode transitar livremente por qualquer setor ou ter contato social com quem bem lhe aprouver. São permitidos retiros eremíticos em “Figueira”. O interessado deve levar uma barraca e sua própria alimentação, pois ficará no eremitério sem contato com ninguém. O monastério 4 é misto, externo. Localiza-se na casa 4, que fica na cidade de Carmo da Cachoeira.

O monastério 5 é misto, externo. Localiza-se em F1 na fazenda. O monastério 6 é misto, domiciliar. Localiza-se em cidades distantes da fazenda “Figueira”. O monastério 7 é misto, itinerante. Localiza-se em cidades distantes da fazenda “Figueira”. A organização “Figueira” está aberta para pessoas abnegadas e úteis que formam grupos que poderiam ser denominados de semiinternos ou itinerantes, hóspedes, visitantes, simpatizantes, colaboradores, adeptos, discípulos ou redes de serviço. Hospedam-se em “Figueira” para ouvir as palestras de Trigueirinho. Compram livros, executam tarefas, em troca, “Figueira” fornece comida para o corpo e “alimento” para o espírito. Percebemos, nas vezes em que visitamos “Figueira”, que Trigueirinho, devido à sua personalidade forte e a seu carisma, possui ascendência sobre o grupo, está, portanto, no topo da pirâmide hierárquica. Trigueirinho, por ser cineasta, por viajar pelo mundo, teve uma vida intelectual, uma cultura mais vasta que os integrantes de seu grupo, adquiriu mais conhecimentos, mais poder intelectual. A “poder do saber”, de maior soma de conhecimentos, levou-o a se tornar líder, superior em relação às pessoas do seu grupo, podendo assim atrair, em torno de si, quantidade de simpatizantes e a organizar comunidades. A grande profecia de Trigueirinho, hoje considerado um profeta pelo seu grupo, fala sobre a “Operação Resgate” da raça humana. Ela salvará o seu grupo do fim do mundo. Porém para que essas pessoas sejam resgatáveis precisam passar por uma mudança de comportamento. Essa mudança de padrão de personalidade têm como finalidade torná-lo humilde, sem liberdade de escolha, sem livre-arbítrio. Dessa forma passam a aceitar, acatar ordens e funções alheias à sua natureza individual egoísta e a atender aos objetivos do coletivo, do grupo, e não aos da sua individualidade. Percebemos que os internos de “Figueira” não lidam com dinheiro, nem conhecem o valor a moeda nacional. A organização “Figueira”, por sua vez, dispõe de meios para a obtenção de recursos para a consecução de suas metas. Uma das formas de arrecadar recursos é através de mão-de-obra voluntária e gratuita, além de

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contribuições voluntárias. Outra maneira é o cultivo agrícola para subsistência própria. A produção excedente é trocada na cidade de Carmo da Cachoeira por gêneros alimentícios que estejam faltando. Há, atualmente, poucos residentes em “Figueira”. Não há um número maior porque, segundo Trigueirinho, no atual momento da civilização, poucas pessoas conseguem libertar-se, liberar-se do compromisso com a sociedade. A estrutura, a engrenagem da presente civilização continua exercendo grande influência. Algumas têm, portanto, que se despojar de encargos e desvincular-se de tendências retrógradas e antiquadas, segundo Trigueirinho, para corresponder ao que é exigido do residente. Esta postura emergirá da renúncia das ambições e satisfações pessoais em função da coletividade. Os que aspiram à vida no local são chamados aspirantes. Eles devem ter uma disposição para seguir, sem reservas, com abnegação, com desapego, de forma altruísta e impessoal, o caminho do serviço. O aspirante deve deixar de lado o orgulho e o preconceito para servir à humanidade. Deve aprender que a sujeição a uma organização, a uma ordem, às regras, às normas, a determinadas condutas é necessária para um trabalho evolutivo e que, impostas num ambiente, servem de exemplo aos demais. O terceiro capítulo tem o objetivo de contextualizar, compreender e explicar a organização “Figueira”. Para tanto utilizamos, como referencial teórico e metodológico, o interacionismo simbólico. Neste viés estão as pesquisas de Erving Goffman, autor que enfoca as interações entre atores sociais. Num primeiro momento, há a biografia de Erving Goffman, o explica e justifica temas e conceitos teóricos próprios. Assim, alguns dados biográficos ajudam a entender como a obra deste autor reproduz o status social dele. Uma pesquisa científica nunca é totalmente dissociada da formação de classe que lhe preexiste, de tal maneira que a obra encerra sempre a marca da trajetória social do seu autor. Traçamos os princípios e paradigmas do interacionismo simbólico, dando especial relevância aos conceitos teóricos do livro “A representação do Eu na Vida Cotidiana”. A abordagem dinâmica

constitui uma preocupação dos sociólogos e antropólogos, por isto optamos por embasar o presente estudo neste referencial teórico. Joas (1999) sustenta que a teoria deve ser desenvolvida a partir das observações das interações dos atores sociais na vida real. A finalidade desta pesquisa é mostrar o que os atores sociais realmente fazem em determinados contextos, em processos observáveis de interação. O interacionismo simbólico é uma escola da microssociologia* e introduz um objeto novo, a situação de interação. Dentro desta visão, a sociologia das organizações sugere que o funcionamento de uma organização torna-se viável com a existência de um processo flexível e permanente de negociação entre os vários atores sociais interessados na forma de divisão do trabalho. A principal tarefa da sociologia das organizações, dentro da visão do interacionismo simbólico, é a reconstituição dos processos interacionais, definidos e desdobrados no tempo. A tese central que o sustenta é a da conversação diplomática, o que mantém a instituição contínua da sociedade. O que tem por objetivo manter a continuidade da instituição da sociedade. (JOAS, 1999) Segundo Joas (1999), a interação social é um processo que condiciona o comportamento humano. O ator social tem um “eu” (self), que se torna objeto para si mesmo, comunica-se consigo próprio e age em relação a si. O “eu” (self) precisa de uma visão reflexiva; o ator social, através de um processo de self-interaction, interage com o mundo e com outros. Nessa interação, define o significado das coisas. Por isso há influência das pesquisas dessa corrente na antropologia e na sociologia. Sua tarefa central é identificar o que na sociedade condiciona os comportamentos individuais do ator social, o que nele faz diferença para aspectos coletivos da sociedade. O quanto o comportamento individual, a interação social e o ator social são afetados pela estrutura social e também como os atores sociais podem, através de seus comportamentos, individual
* Referimo-nos à microssociologia para apontar diferentes vertentes teóricas que surgem após a crise dos clássicos, sobretudo Durkheim e Weber nas primeiras décadas do século xx. A microssociologia desenvolveu-se sobretudo no interior da escola de Chicago onde surgiram vertentes tais como o evolucionismo psicológico, quantativismo, condutivismo.

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e coletivo, alterar as estruturas em que atuam. Não é possível conceber o ator social sem a sociedade e a sociedade sem o ator social. Os dois são gerados na interação. Há influência do ator social na sociedade e vice-versa. A partir da interação, a natureza dual da relação ator social e sociedade gera o processo de individualização que é derivado da socialização (JOAS, 1991). Goffman delimita um campo de estudo propriamente sociológico centrado nas situações, na análise das relações sociais em termos de ações recíprocas. Em seu estudo sobre os rituais de interação, examina o trabalho de construção da face (GOFFMAN, 1999). O termo face é determinado pelos valores percebidos numa interação com o ator social. A face dá indícios da identidade, do self formado por características sociais reconhecidas e aceitas pelo grupo de atores sociais. As regras do grupo determinam as faces apresentadas em interação. O livro “A Representação do Eu na Vida Cotidiana” serve de orientação para estudar a vida social sob o ponto de vista da manipulação da impressão aplicável a qualquer estabelecimento social concreto, poderia servir como uma referência a ser utilizada no estudo de casos da vida social institucional. Um estabelecimento social é qualquer lugar no qual se realiza regularmente uma forma particular de atividade. Nesse espaço há uma equipe de atores que, em conjunto, apresenta-se à platéia utilizando regras de comportamentos social. Há uma região onde é preparada a representação. Também há uma área onde essa encenação é apresentada. A entrada nessas regiões é vigiada para evitar que a platéia ou o auditório veja os bastidores. Entre os membros da equipe há certa conivência, fidelidade, lealdade, vigilância para que os segredos que possam prejudicar a representação não venham a público. O ponto de vista do livro “A Representação do Eu na Vida Cotidiana” é o de uma representação teatral, na qual se utilizam premissas, axiomas, princípios de caráter dramatúrgico. No palco se apresentam simulações. O ator social se apresenta sob uma máscara de um personagem social para personagens sociais, projetados por outros atores sociais, a platéia social.

Em quarto lugar, buscamos na obra de Goffman, publicada no livro “Prisões, Manicômios e Conventos”, trazer à luz as categorias de análises que poderiam definir as instituições totais. A característica marcante de uma instituição total é o condicionamento da vida dos indivíduos através da imposição de regras internas para as interações. Neste ambiente institucionalizado, a face, o “eu”, o self, a identidade é ameaçada ou deteriorada, podendo ser estigmatizada por parte ou por todos os membros do grupo do qual o ator social faz parte, mesmo que não apresente características físicas que incentivem tais atitudes. Em termos conceituais mais detalhados, limitam suas próprias atividades num único espaço físico, é um mesmo local de moradia e trabalho, e as regras de comportamento condicionam a identidade ideológica e filosófica do grupo. Existe um fechamento em relação à sociedade. Goffman (1999) diz que há importância sociológica nas pesquisas das instituições totais, porque são locais de condicionamento dos atores sociais. Normas coletivas e compulsórias condicionam o comportamento interacional daqueles que pertencem ao grupo. Também é um objetivo da instituição total transformar o ator social num ser o mais próximo possível da perfeição idealizada. Goffman (1999) explica que as normas culturais condicionam como os atores sociais devem agir quando inseridos num determinado grupo social. Ao se fazer parte de uma instituição qualquer, um novo processo de socialização é iniciado, porque começa um processo de adaptação com caráter permanente a seus padrões de interação. Podemos observar como um ator social condiciona sua conduta de acordo com as circunstâncias. Isto se explica pelo fato de o ator social ser flexível e ter a capacidade de se adaptar ao meio social e cultural. O contexto e a conjuntura social condicionam a atitude e até o pensamento, porque a instituição exerce domínio sobre o “eu” (self) ou personalidade dos seus membros, condicionando sua ideologia, cultura, costumes, hábitos, conduta e postura. Por último, buscamos delinear, superficialmente, o perfil daqueles que se identificam com comunidades desviantes, os estigmatizados, divergentes, outsiders, liminares, retraídos, marginais,

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deslocados, rebeldes, perdidos, desenraizados, minorias, artistas, etc. Durante a mudança do século XX para o XXI, houve um período de transição. Dentro desse contexto surgiu Trigueirinho re-anunciando a Era de Aquário, um movimento tão diverso quanto a contracultura da década de 1960, e com raízes na New Age. Trigueirinho anunciava em suas profecias que a transição para o milênio aquariano, de amor e fraternidade, seria plena de violência e riscos para os espiritualmente despreparados. Por outro lado, os que estivessem em harmonia com a operação resgate, liderada por ele, ingressariam numa nova era de iluminação espiritual e seriam orientados por seres intra-terrenos, superiores e avançados, emissários de uma civilização extra-terrestre, cujas espaçonaves eram os OVNIS, ajudariam a criar uma nova civilização. Contemporaneamente não existe mais a identificação física do estigma, mas existem os estigmatizados. São aqueles que por algum motivo não são aceitos em determinada comunidade, porque se afastam das expectativas sociais, culturais, econômicas, intelectuais, físicas, etc.Suas resignações sociais podem se manifestar como um mecanismo de fuga e abandono da sociedade, convergindo para comunidades desviantes (GOFFMAN, 1988), onde entram em contato com seus semelhantes formando uma sub-cultura. Os desviantes sociais, descreve Goffman (1988), orgulham-se de sua rebeldia e evitam as divergências (Velho, 1974), restringindo-se à proteção auto-defensiva de viverem isolados numa subcomunidade. Ali não se sentem mais deslocados como na sociedade aberta. Sentem-se melhores, superiores, exemplos e modelos de vida para os atores sociais da sociedade aberta, assim atraem mais simpatizantes. Turner (1974) diz que a communitas é formada por um conjunto de atores sociais concretos e idiossincrásicos que, apesar de serem diferentes quanto ao físico e às personalidades, são iguais do ponto de vista da humanidade comum a todos. Buscam uma transformação e encontram algo profundamente comunal e compartilhado: sua alma ou humanidade, sua ‘comum unidade’. No quarto capítulo, descrevemos o método de pesquisa, criado por Goffman, para observar de forma participativa as interações. Em primeiro lugar, descrevemos o procedimento teórico -

metodológico Goffminiano utilizado na pesquisa de campo em “Figueira”. Em segundo lugar, tomamos ciência desta comunidade por intermédio da cadeira de cinema, da Faculdade de Comunicação Social da PUCRS (FAMECOS-PUCRS). Trigueirinho foi um diretor premiado na fase do Cinema Novo brasileiro, em 1960, com o filme “Bahia de todos os Santos”. Em terceiro lugar, é importante ressaltar que esta pesquisa é pioneira. Não existiam estudos, ensaios, artigos, textos acadêmicos anteriores sobre esta organização. Tivemos, pois, que desbravar um novo caminho de pesquisa e construir um novo saber, um novo conhecimento. O ineditismo tornou-a trabalhosa. Levamos seis anos para realizá-la. Tivemos paradas que foram muito frutíferas, pois procuramos pôr em prática o que o sociólogo Domenico de Masi chamou de ócio criativo, isto é, utilizar o tempo de lazer, o tempo recreativo para criar, produzir sem pressão, sem estresse. Por curiosidade, um exemplo do esforço que fizemos: Há um livro chamado “Internados”, de Goffman, editado em Buenos Aires, pela Amorrortu Editores. Na época, estava esgotado na editora, não foi encontrado na Feira Internacional do Livro de Porto Alegre em novembro de 2006. Não estava disponível na biblioteca da PUCRS, UFRGS, Ulbra nem Unisinos. Nenhum dos professores do PGCS, nem os sebos de Porto Alegre, RS, possuíam um exemplar original ou cópia de tal livro. Somente encontramos um exemplar, de 1972, em um sebo de São Paulo, SP, através da internet e enviado via sedex. Esperamos que esta dissertação possa servir de referência para posteriores estudos e aprofundamentos sobre o mesmo tema. Podíamos ter optado pelo viés do ‘messianismo’, ou, pelo viés do ‘poder’, estudado por Foucault, ou, ainda, do mesmo autor , o viés de ‘vigilância e punição’. Ainda, poderíamos ter optado, pelo ponto de vista do ‘líder carismático’, de ‘communitas e liminaridade’ estudado por Victor Turner, pelo recorte do ‘desvio de divergência’ de Gilberto Velho, etc, mas escolhemos o Interacionismo Simbólico e a trilogia de Goffman que trata das instituições totais, da representação do “eu” na vida cotidiana e do estigma. Goffman, em sua tese de doutorado na comunidade das Ilhas Shetland, construiu sua própria metodologia. Apresentou-se aos

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moradores das Ilhas como um estudante universitário que desejava obter informação direta sobre a economia insular. Ele se colocou no próprio espaço da pesquisa de campo, ou seja, no espaço das interações dos moradores. Ali pôde perceber o infinitamente pequeno, o evidente e o óbvio. Não utilizou questionários, gravador, câmera de filmar. Tomava algumas notas escondidas. Mais tarde, já conhecido e mais “participante observador” do que “observador participante”, vai simplesmente reviver as interações e relatálas no seu diário elaborado à noite no silêncio do seu quarto. Goffman teve a oportunidade de obser var as crises interacionais que surgem, por vezes, no meio de pequenos grupos de atores sociais. Ele participava de atividades mais informais e observou as interações em forma de conversa. A interação, objeto da atenção de Goffman, denominava-se conversacional. Goffman observou a interação que ocorrem nos espaços cotidianos e excluiu a preocupação com as características macrossociológicas da comunidade. Excluiu traços que distinguiam esta ilha de uma outra e examinou as interações que se assemelhavam às dos lugares mais impessoais da vida moderna. Goffman rejeitou o tempo e o espaço, anulou a tradição da história. Dessa forma isolou as característica do homem interacional puro. Ele observou as interações mais impessoais das Ilhas Shetland, o resto não lhe interessava. Isto justificava sua posição, de que o seu estudo se desenrolou na comunidade das Ilhas Shetland, mas não era um estudo da comunidade das Ilhas Shetland. Através de indícios sutis das interações, Goffman captou a lógica do ato de encenação, o conjunto de estratégias para exibir uma imagem social que valorizava o ator, que causava uma boa impressão, que distinguia um do outro, aspectos por vezes despercebidos pelos leigos e que não eram considerados relevantes pela maioria dos sociólogos. No entanto, esses detalhes modificaram o pensar sociológico no mundo. Sua pesquisa etnográfica do hospital psiquiátrico para doentes mentais Santa Elizabeth colaborou para deflagrar a luta antimanicomial no mundo. A junção do sociólogo e do etologista serviu como uma vantagem a mais para Goffman. A linguagem do corpo ,em interação, que se observava nas ruas estava conectada

aos contextos antropológicos de todas as interações sociais e isso se tornou um critério de julgamento das formas institucionais de controle social e dos esquemas explicativos da socialização. Este estudo das instituições totais e, particularmente, do mundo dos atores sociais, denominados por nós como hóspedes e/ ou visitantes itinerantes da comunidade “Figueira”, tem como um dos seus interesses principais avaliar, o mais possível, a versão sociológica do “eu” (self) em interação na organização “Figueira”. Ao contrário de Goffman, acentuamos nesta pesquisa o mundo do ator social não-internado, dos hóspedes e/ou visitantes itinerantes que se hospedam em “Figueira” e que, ao interagirem com os atores sociais ou residentes permanentes – fazendo parte ou não da equipe dirigente –, entram em conflito em função de diferentes personalidades, comportamentos, interesses, objetivos, hábitos, costumes, usos, criando-se, assim, um clima constante de conflito, discórdia, etc. Apresentamo-nos como colaboradores e ficamos hospedados como alguém que simpatizava com a cultura espiritual proposta no local, mas evitamos a intimidade e a amizade, até porque esta conduta é condenada. Colocamos-nos no próprio espaço das interações, no campo de pesquisa propriamente dito, para fazer uma observação participante das interações, para verificar como a integração faz a vida social acontecer. Procuramos nos integrar à vida cotidiana para observar as interações. Não pudemos usar gravadores, filmadoras, nem fotografar. Estes instrumentos são proibidos. Também não fizemos questionários, porque chamaria muita atenção e tiraria a espontaneidade, a naturalidade das pessoas analisadas. Tomávamos, inicialmente, pequenas notas aqui e acolá escondidas. Mais tarde, tomávamos notas, no quarto, mesmo estando, quase sempre, em quartos coletivos. Hospedados e vivendo no meio deles, tivemos a oportunidade e o privilégio de presenciar comunicações, interações e conversas cotidianas interessantes e bastante elucidativas da sua cultura ímpar ou singular. Queremos informar que fizemos uma observação participante das interações que se passam na comunidade “Figueira”, portanto não realizamos um estudo, propriamente dito, da comunidade “Figueira.” Por esta razão, não pesquisamos as características

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macrossociológicas, não levamos em conta o tempo, a história, mas somente estudamos o espaço e os traços que caracterizam esta comunidade. Procuramos examinar as interações impessoais que podem ocorrer por divergências nas relações de poder. Portanto, coletamos informações da organização “Figueira” seguindo, passo a passo, o método criado por Goffman. Foram seis observações participantes ao todo no campo de pesquisa. O tempo de permanência é determinado por eles. A primeira foi nas férias acadêmicas de verão, porque, obviamente, tínhamos mais tempo e porque nesta época afluem mais atores sociais à “Figueira”. Realizou-se no primeiro semestre de 2001, em janeiro, por dez dias consecutivos; a segunda, nas férias acadêmicas de inverno, também por termos mais tempo, e também por irem mais pessoas para lá nessa ocasião, portanto realizou-se no primeiro semestre de 2001, em julho, por quinze dias consecutivos; a terceira observação foi no primeiro semestre de 2002, em julho, também nas férias acadêmicas de inverno, por sete dias consecutivos; a quarta, no primeiro semestre de 2004, nas férias acadêmicas de verão, em fevereiro, por quinze dias consecutivos; a quinta foi no primeiro semestre de 2006, em fevereiro, nas férias acadêmicas de verão, por sete dias consecutivos. A sexta e última foi no primeiro semestre de 2006, em julho, por cindo dias. Além disso, fizemos duas pesquisas de campo na comunidade Nazaré, situada na cidade de Nazaré Paulista, interior do Estado de São Paulo, as quais se realizaram nas férias de verão do ano 2003, mais precisamente em janeiro, por uma semana, retornando novamente em fevereiro por quinze dias. Fizemos várias outras pesquisas de campo nos subgrupos ou rede de serviço de Porto Alegre. Realizamos reuniões com atores sociais do grupo e fizemos algumas observações participativas nas audições públicas. Também pesquisamos a bibliografia, exclusivamente utilizada para consulta interna, do grupo de “Figueira” e das redes de serviço, pesquisamos a bibliografia das obras publicadas por Trigueirinho, algumas indicações bibliográficas apontadas pelo próprio Trigueirinho em seus escritos tais como: ‘Revistas de Sinais’, ‘Jornais de Sinais’, ‘Boletim de Sinais’, textos e artigos na internet, seu filme “Bahia de todos os Santos”, seus VHS,

cds, fitas k-7, seus artigos críticos publicados na Revista “Anhembi”, editada pela USP, algumas críticas especializadas em cinema sobre sua obra. Quase todas as fontes citadas estão anexadas para futuras consultas, já que seria muito dispendioso em termos de tempo e muito oneroso deslocar-se até “Figueira”, além de toda uma burocracia para entrar lá. Conforme Becker (1977) aconselha, esclarecemos que a pesquisa foi feita sob o ponto de vista de hóspedes e/ou visitantes. Este autor enfatiza que a neutralidade ideal nas pesquisas científicas dificilmente é atingida, tornando assim necessário informar de qual ponto de vista nos situamos. A presente pesquisa, portanto, foi feita buscando compreender os atores sociais denominados hóspedes e/ou visitantes itinerantes que permanecem temporariamente em “Figueira” e que, ao interagirem com os residentes ou internos, sejam auxiliares ou coordenadores, entram em conflito em função da sujeição hierárquica. Isto gera um clima de tensão permanente, pois as disciplinas, normas, regras e tarefas impostas pelo grupo de “Figueira”, liderado por Trigueirinho, condicionam o seus “eus” (self) ou personalidades. Quanto às instituições totais, Goffman (1999) salienta que há um interesse sociológico no estudo delas, porque condicionam os atores sociais. Regras e normas condicionam o comportamento e o que devem pensar coletivamente em virtude de pertencerem ou não àquele grupo específico. Nossa tese é que “Figueira” pode ser classificada, parcialmente, como uma instituição total por possuir muitas características inerentes a esse fenômeno. O mais importante é a percepção do seu condicionamento sobre o “eu” (self), sobre o comportamento, o pensamento e até os sentimentos dos que estão ligados a ela direta ou indiretamente. Numa terceira instância, definimos as categorias de análise dos ritos da instituição e dos da interação, as quais foram extraídas do referencial teórico. As categorias definidas na “representação dos atores sociais” são convergentes às categorias absorventes das instituições totais. A seguir, fizemos um quadro de categorias de análises fundamentadas no livro “A Representação do Eu na Vida Cotidiana”, tais como: manipulação da impressão; representação; regiões e comportamento regional/estabelecimentos soci-

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ais; região frontal/região de fachada; região posterior/fundo/bastidores; equipe; platéia/observador; segredos; papéis discrepantes; princípio norteador. As interações dos atores sociais foram examinadas tomando por base a interpretação teatral, a representação, o desempenho de um papel e/ou simulação de caráter dramatúrgico. A “representação dos atores sociais” e as características da instituição total, no contexto do Interacionismo Simbólico, pressupõem que a situação da interação, a circunstância, o espaço das controvérsias (os quais têm muita importância para a sociologia) não deveriam dissociar os ritos de interação e os da instituição. No caso estudado da comunidade de “Figueira”, não se observou tal dissociação entre os ritos. Alguns aspectos foram apresentados separadamente apenas para fins analíticos. Em quarto lugar, listamos o material empírico e o classificamos em categorias. Por fim, analisamos as observações de campo que estão divididas em ritos da instituição e ritos de interação e fazemos algumas considerações finais em forma de análise do material relacionado às categorias. Mesmo conhecendo o fato de que existem muitas críticas às instituições totais nesta contemporaneidade, a importância deste estudo, vincula-se ao fato de que: ainda existem instituições totais no âmbito das organizações sociais que podem ser consideradas, mesmo que parcialmente, ou em alguma medida, em instituições totais. Neste sentido, é o Interacionismo Simbólico de Erving Goffman que pode e deve ser utilizado como referência teórica para o conhecimento de tais instituições em detrimento dos estudos contemporâneos sobre religião.

2 A COMUNIDADE “FIGUEIRA”
O presente capítulo tem como objetivo apresentar a comunidade “Figueira”, para tanto foram organizados subcapítulos. Primeiro, traçamos a trajetória pessoal do fundador, mostrando alguns dados da sua biografia, sua formação de diretor de cinema no Brasil e no exterior, seus trabalhos e obras na área, seus sucessos e fracassos profissionais até a desistência da carreira de cineasta e a posterior fundação da comunidade “Nazaré”, de onde foi excluído devido à sua forma absolutista de administrá-la. Após sair da “Nazaré”, Trigueirinho funda a comunidade “Figueira”, uma organização ainda mais fechada que a “Nazaré”. Em segundo lugar, apresentamos a comunidade “Figueira”, sua localização geográfica, o número aproximado de residentes, seu objetivo principal, sua extensão territorial, sua fauna e flora, um panorama geral de suas atividades, seu cotidiano, suas rotinas e tarefas, quais são os perfis das pessoas que poderiam participar dessas atividades diárias. A estrutura física da comunidade e a utilização do espaço geográfico têm relação com a organização espiritual e hierárquica. A organização hierárquica segue o modelo de pirâmide. O líder vitalício Trigueirinho no ápice (o profetismo tornou-se sua forma de poder), os grupos externos e itinerantes na base e, intermediando ambos, os discípulos, os adeptos e os coordenadores mais próximos do líder. Descrevemos a sede, as atividades e funções das casas na área urbana, dos setores e monastérios nas áreas rurais e dos grupos itinerantes do Brasil e exterior que se hospedam e participam das atividades da comunidade “Figueira”. A divisão de trabalho, de tarefas e de atividades, descrita neste trabalho, é conseqüência do aumento da organização. Uma característica a se destacar são os conflitos decorrentes do choque de valores do grupo de residentes e do grupo externo itinerante. Outro fator que desencadeia divergências é o interesse do grupo estar acima das individualidades. O modo como as tarefas obrigatórias

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devem ser executadas e o tempo de duração das mesmas são impostos pela administração e pelo grupo de residentes aos grupos de externos itinerantes sem espaço para criatividade, liberdade de escolha e livre-arbítrio. Também apresentamos as formas de subsistência de “Figueira”: produção agrícola para subsistência; troca do excedente; doações de alimentos, remédios, equipamentos, roupas, dinheiro, etc.; mão-de-obra voluntária e gratuita; venda de livros, fitas k-7, cds, fitas de vídeo (VHS). Numa terceira parte, focalizamos a cultura espiritual de “Figueira”, o eremitério, onde vivem os eremitas em reclusão; seus monastérios, feminino e masculino, reclusos e semi-reclusos; as regras, normas, disciplinas e hábitos advindos da atividade espiritual; a formação ou requisitos dos monges, oblatos, zeladores, sacerdotes, seres-espelhos, residentes, aspirantes e instrutores. Por último, apresentamos a conclusão.

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2.1 A COMUNIDADE FIGUEIRA E ASPECTOS DA TRAJETÓRIA DE SEU LÍDER “Figueira” é uma organização liderada por José Hipólito Trigueirinho Netto. Ele nasceu em São Paulo, no ano de 1929. Seu pai era um coronel do exército e professor de português. Segundo José Inácio de Melo Souza (2003), pesquisador da Cinemateca Brasileira, Trigueirinho iniciou a carreira de diretor na Companhia Vera Cruz como auxiliar do produtor Alberto Cavalcanti. Costumava freqüentar a casa de Cavalcanti em São Bernardo do Campo - SP, onde ele e vários intelectuais conversavam sobre o destino do cinema brasileiro. Seu estudo de cinema foi no Centro de Estudos Cinematográficos do Museu de Artes de São Paulo. Trigueirinho auxiliou o diretor Adolfo Celi no filme “Caiçara”. Foi crítico de cinema e escrevia artigos para a revista “Anhembi” especializada em cinema (editada pela Faculdade de Comunicação e Artes da USP). Nas críticas de cinema que escrevia para a revista, sempre se colocava contra o imperialismo norte-americano e sua indústria cinematográfica. Ajudou em roteiros de documentários; escreveu um roteiro de propaganda para o Jockey Clube de São Pau-

lo. Em 1953, ganhou uma bolsa de estudos do Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro para o Centro Sperimentale de Cinematografia, em Roma. Trigueirinho morou na Itália de 1953 a 1958, cinco anos, portanto, embora apenas três fossem suficientes para obter o diploma de diretor de cinema. Em 1956, colaborou nos “argumentos cinematográficos” da equipe brasileira de produção internacional coordenada por Joris Ivens, Die Windrose. Escreveu um “argumento cinematográfico” para “Roma de Notte”, outro para “Estate Romana”, e fez o roteiro de “Epoca Bella”. O roteiro de “Bahia de todos os Santos” (1959/1960), seu longametragem premiado, foi escrito nessa mesma época, concorrendo ao Prêmio Fábio Prado, enquanto Trigueirinho realizava na Itália o documentário “Nasce un Mercatto”. Visando ao prêmio Fábio Prado, em 1958, para melhor roteiro do filme “Bahia de todos os Santos”, Trigueirinho retornou ao país para finalização do filme. No segundo semestre, trabalhou na Rex Filme. “Bahia de todos os Santos” foi filmado com Jurandir Pimentel (ator que cometeu suicídio após sua atuação em “Bahia”).
Em quatro de setembro de 1958, Trigueirinho solicitou financiamento de dois milhões de cruzeiros ao Banco do Estado de São Paulo (Banespa), que foi negado. Em quatorze de maio de 1959, foi pedido, diretamente ao presidente do banco Banespa, o reexame do roteiro. A Comissão de Moral e Costumes da Confederação das Famílias Cristãs, que era uma espécie de comissão de censura, colaborou no reexame do roteiro e concluiu que o mesmo não deveria ser censurado, mas salientava o fato de o filme poder se tornar grosseiro se não fossem subtraídas algumas palavras tais como: “Que merda; tem ainda bons peitos; as brancas gostam de ir pra cama com negro; mas é virgem?; espera que eu vou mijar”. Para fazer essas modificações, era necessária a concordância de Trigueirinho, a qual se deu por carta em nove de junho de 1959: Desnecessário seria dizer que, sendo a minha intenção realizar um documento cinematográfico limpo, despido de qualquer intuito menos limpo, capaz de

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vir a representar, em verdade, uma película de cunho altamente social, estou disposto a exibir, de acordo com a sugestão da Confederação das Famílias Cristãs, os ‘rushes ’(tomadas), na proporção em que a fita for rodada (TRIGUEIRINHO apud SOUZA, 2003, p. 7).

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Uma semana após a carta de Trigueirinho, o Banespa concedeu-lhe o empréstimo de dois milhões de cruzeiros. Com o governo da Bahia, Trigueirinho conseguiu passagens de avião gratuitas para o elenco e técnicos, bem como a cooperação da Polícia Militar para acomodação do grupo e, ainda, suporte nos translados na cidade e arredores. As filmagens foram feitas em Salvador entre novembro de 1959 e janeiro de 1960. O custo final do filme foi quatro milhões de cruzeiros. Por esse motivo foi necessário um pedido de empréstimo suplementar de um milhão. A necessidade de mais recursos devia-se, também, ao convite para exibição do filme na XXI Mostra Internacional de Veneza, que começaria em agosto do mesmo ano. Esta participação em Veneza não se concretizou. Trigueirinho pretendia enviar o filme para os festivais de São Francisco, Berlim e Karlovy-Vary, mas a Divisão Cultural vetou sua participação no exterior. Em novembro de 1961, o Banco do Estado enviou a Trigueirinho a cobrança do título de dois milhões de cruzeiros, vencido em doze de setembro de 1960. “Bahia de todos os Santos” somou-se à lista de empréstimos insolventes da Carteira de Cinema Nacional. “Bahia de todos os Santos” atraiu cerca de trezentos mil espectadores somente na cidade de São Paulo, mas eram necessários novecentos mil para não haver prejuízo. A demora para saldar a dívida com o banco era conseqüência da espera por vaga nos cinemas para veiculação de filmes não-comerciais, rotulados como cult pelos exibidores. “Bahia de todos os Santos” estreou em setembro de 1960, em Salvador, mas somente em março de 1961 entrou em cartaz em São Paulo. No circuito de Belo Horizonte, seis meses depois. Trigueirinho era tido no meio cinematográfico como um cineasta promissor, Alguns críticos cinematográficos, professores, produtores apostavam na sua carreira. Por anos, ele foi identificado como um discípulo do mestre Cavalcanti. Os estudos de Trigueirinho no Centro Sperimentale forneceram-lhe knowhow teóri-

co. Ele era um intelectual afinado com a vanguarda cinematográfica, o viés rosselliniano. Trigueirinho seguiu, no filme “Bahia de todos os Santos”, as mesmas preocupações com a estética barroca de Roberto Rossellini e Frederico Fellini. Segundo confirma em suas palavras, em 1961:
[...] esses homens (Cavalcanti e Rossellini) contribuíram para que eu me dedicasse de corpo e alma ao cinema. Mas, se sua linguagem fosse reconhecida em minha fita, isso significaria falta de perfeita assimilação de minha parte. Cultura é exatamente aprender o máximo, manifestando-se em seguida através de recursos próprios. Seria absurdo imitar Rosselini e Cavalcanti, já que, no que se propuseram exprimir, eles foram completos (TRIGUEIRINHO apud SOUZA, 2003).

O roteiro transcorria no período ditatorial, salientando o candomblé, o sindicalismo, a greve e a questão racial. Tinha um cunho sociológico ao captar o homem baiano em suas raízes, levantando o problema da miscigenação, contextualizando a questão do homem e do humanismo, desenvolvendo uma vertente do cinema moderno: o documentário social (SALLES, 1988). Enquanto filmando, criou um novo paradigma para alguns críticos e futuros cineastas em Salvador, para os quais “Bahia de todos os Santos” se tornaria inspiração. O diretor Trigueirinho tende a um existencialismo. A busca do homem rosselliniano de profundas raízes religiosas. Em termos de religião, Trigueirinho não se declarava católico, tinha interesse pelo hinduísmo. Foi administrador de um ashram (comunidade espiritual hinduísta formada em torno de um guru) do indiano Sri Aurobindo, em Salvador. Também não era partidário dos cultos afrobrasileiros. Traduzia um realismo social na sua concepção do homem ilustrada em obras como “Francisco, Arauto de Deus” e “Romance na Itália”. Também expressava uma modernidade em outros aspectos. Seguia a escola neo-realista, a improvisação com atores nãoprofissionais, o que favorecia uma maior criação artística. No rotei-

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ro, apareciam cenas de homossexualismo, relações ilícitas, diálogos chulos, cenas realistas (Miss Collins em camisola). Eram filmes proibidos para menores de dezoito anos. Para os adultos, talvez fossem uma contribuição intelectual. Para os cultos, talvez fornecessem uma visão real da Bahia e para os incultos, mostravam a problemática do mulato, da miscigenação. Trigueirinho prometeu a filmagem do romance de Mário de Andrade “Amar Verbo Intransitivo”, mas parou em um único longametragem:
Com o abandono da carreira por Trigueirinho, várias perguntas ficaram sem ser respondidas, como, por exemplo, qual o papel do homossexualismo na construção de um personagem como Tonio, ator protagonista do filme “Bahia de todos os Santos”? O complexo sexual poderia ser um sentimento de divisão na identidade nacional do cineasta, dividido entre dois países, o Brasil e a Itália... (SOUZA, 2003).

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Após desistir do cinema, Trigueirinho gerenciou grupos de recursos humanos em hotéis, onde foi treinador de ‘maîtres’ no SENAC/SP, foi administrador do ashram-comunidade do guru indiano Sri Aurobindo em Salvador. Trigueirinho ainda fundou comunidades alternativas. Primeiro, a comunidade “Nazaré Paulista”, depois “Figueira”. Concomitantemente, escreveu dezenas de livros com profecias do fim do mundo e o resgate da terra com ajuda de extraterrestres. 2.1.1 A FUNDAÇÃO DA COMUNIDADE “NAZARÉ” Antes de fundar “Figueira”, Trigueirinho criou a comunidade “Nazaré”, onde estivemos pessoalmente por duas vezes, na cidade de Nazaré Paulista, interior de São Paulo. Inicialmente, o centro da comunidade “Nazaré”, construído em terreno doado a Trigueirinho em comodato, foi chamado de Comunidade Nazaré (Anexo A) e era um local de retiro espiritual (SILVEIRA, 2003).

Para organizar “Nazaré”, Trigueirinho utilizou como base o mesmo modelo de organização da Fundação “Findhorn”, a qual fica ao norte da Escócia. Ele convidou Sara Marriot, escritora americana, que residia em “Findhorn”, para conhecer a comunidade “Nazaré”. Sara permaneceu mais uma temporada, somente em 1983, decidiu fiar e morar na comunidade “Nazaré”. Assim, “Nazaré” passou a contar com uma co-administradora que seguia também o modelo de “Auroville”, comunidade criada por Sri Aurobindo na cidade de Pondicherry, Índia. Organização esta que foi, também, co-administrada pela artista plástica francesa Mira Alfhassa. A comunidade “Nazaré” é uma organização não-governamental (Ong). Conta com mão-de-obra e contribuições voluntárias (GOHN, 2000). A Ong tem um centro de vivências onde se realizam workshops e palestras terceirizados, parte do lucro destas terceirizações serve para a auto-manutenção. A comunidade “Nazaré” localiza-se numa área de proteção ambiental(APA), porque havia problemas ambientais existentes na região, esta era uma área de devastação permanente.Mas apesar disso, pode-se encontrar uma variedade de animais e plantas. Há poucos anos, a comunidade “Nazaré emprestou parte de suas terras para o Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) objetivando contribuir para a sustentabilidade ecológica local (PÁDUA, 2003). “Nazaré” também é um centro ecumênico. Por lá circulam pessoas de várias religiões, cor, raça, sexo, idade, status social ou econômico e provenientes de várias cidades do Brasil e de várias nacionalidades. Na comunidade, há horta e pomar, onde são plantadas verduras, legumes e frutas sem agrotóxicos. A alimentação é vegetariana e natural. Há um jardim de ervas com estufa para secagem das mesmas que servirão para tinturas de chás medicinais. Nesta área, há flores de diversas áreas geográficas do mundo e um jardim de inverno. Na parte construída, há copa e cozinha industrial, uma padaria que abastece o local, sala de vídeo, sala de artes e costura, além de lavanderia. Também uma sala de cura para massagens, uma sala de música e outra de estudos. Ainda há uma oficina de ferramentas, uma despensa e um centro comunitário onde as pessoas se reúnem. Os quartos são individuais, alguns com banheiros

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privativos A maioria dos banheiros é coletiva. Há uma sala zen especial para meditações que são feitas em conjunto três vezes ao dia e, finalmente, uma biblioteca esotérica com vários títulos em inglês, pois a mesma foi organizada por Sara Marriot. Segundo alguns integrantes antigos do grupo, houve uma rebelião, com o apoio de Sara Marriot, contra a administração radical e centralizadora de Trigueirinho, não lhe restando outra opção que a de se retirar. Assim, em 1987, Trigueirinho cria e funda a comunidade”Figueira”, situada em Carmo da Cachoeira - MG, sai definitivamente de “Nazaré”. Quem ficará à testa da administração de “Nazaré” será Sara Marriot até abril de 1999, quando esta retorna ao seu país de origem, Estados Unidos da América. Em dois de novembro de 2000, com noventa e cinco anos de idade, faleceu. Desde sua fundação, “Nazaré” recebe pessoas de várias cidades do Brasil e do exterior. A sua finalidade é ser uma escola de educação informal. Hoje, a comunidade tornou-se uma Universidade da Luz, a Uniluz, e continua prestando serviços através de diversos workshops, cursos e vivência, a principal vivência é a de residência temporária, que possibilita experienciar, residir e estudar no seu campus. A Uniluz é um laboratório experimental de convivência grupal, coletiva e cooperativa, a experiência de viver valores humanos no cotidiano estimula o trabalho voluntário, exercitar-se a responsabilidade social. A interação se dá de forma saudável, propiciandose uma vivência e experiência ecológica interna e externa. “Nazaré Uniluz” é uma Ong que pratica a sustentabilidade do viver em coletivo, em grupo. As interações se constroem e são potencializadas nos encontros teóricos-experenciais, comprometendo-se dessa forma com a sustentabilidade ecológica do planeta (SILVEIRA, 2003).

2.2 A ESTRUTURA ORGANIZACIONAL DE “FIGUEIRA”, ASPECTOS LOGÍSTICOS, MATERIAIS, ETC. Estivemos pessoalmente em “Figueira” e constatamos que lá residem aproximadamente trezentas pessoas, tendo como principal objetivo a formação e instrução espiritual. As terras de “Figueira” localizam-se na cidade de Carmo da Cachoeira, interior de Minas Gerais, região sudeste do Brasil. Sua área geográfica era originalmente uma fazenda de uns cem hectares. Recentemente, Trigueirinho adquiriu mais terras. “Figueira” possui bosques, lagos, matas naturais, plantações, casas para alojamento, estudos, cura, laboratórios artesanais e oficinas de trabalho. Não está ligada a doutrinas, seitas, religiões nem instituições. Sua base é a vida grupal. Cultiva o serviço e a vida espiritual. Lá encontramos pessoas de todas as idades e nacionalidades com diferentes vivências. As tarefas do dia-a-dia são vistas como sagradas. Não era e não é permitido, no período em que nos hospedamos ali, chamadas telefônicas e contatos externos considerados desnecessários por parte da administração. Não estimulam intimidades e vínculos emocionais. Por essa razão, parentes e amigos, em geral, ficam hospedados em áreas distintas. Existem pouquíssimas crianças, porque devem estar prontas para cuidar de si mesmas sem a presença dos pais e sem dar muito trabalho. São acompanhadas com atenção pelos encarregados das áreas. Eles até permitem que menores de idade hospedem-se em “Figueira” e participem dos trabalhos, desde que com o conhecimento e a autorização escrita dos responsáveis. Os residentes optaram pelo celibato. Os hóspedes ou visitantes são obrigados a assumir essa condição enquanto permanecem no local. As acomodações são simples e rústicas, tanto nas casas da cidade quanto nas da fazenda, e são designadas aos visitantes pela secretaria geral de “Figueira” conforme as necessidades das tarefas internas e a disponibilidade de alojamentos. Enquanto os visitantes estão ocupando os quartos, proíbem-se visitantes ao recinto íntimo. O alimento servido é disponibilizado, de acordo com as estações do ano, é cultivado organicamente e sem agrotóxicos. As re-

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feições são vegetarianas e integrais, sem laticínios, açúcar refinado, sal, alho, cebola, temperos, café ou refrigerantes. Não são usadas bebidas alcoólicas, nem drogas, nem fumo. Os produtos da terra não são comercializados e nenhum dos colaboradores que compartilham de suas metas é remunerado. Come-se ao redor de bufetes e senta-se fora da mesa em bancos ou cadeiras, em silêncio. Depois, cada um lava os utensílios utilizados. Para solicitar uma temporada, participar de algum treinamento ou seminário, ou em qualquer estudo, ou mesmo para uma simples visita é preciso seguir certa burocracia: avisá-los com antecedência prévia e aguardar resposta, pois não permitem a presença de pessoas sem a devida autorização. Os que se hospedam em “Figueira” devem levar roupas de banho, roupas simples para trabalhos na lavoura, horta, pomar, estradas, agasalhos para trabalhos noturnos ou matinais, relógio para cumprir a agenda de tarefas, despertador para acordar cedo, lanterna para trabalhos noturnos e para falta de luz e demais objetos pessoais. O vestuário é sóbrio e discreto. Não se permitem maquiagens, decotes, saias curtas, vestidos curtos, roupas transparentes, shorts, calça de cintura baixa, miniblusa, saltos altos, etc. Não se permite uso de perfumes, incensos, telefones celulares, filmadoras ou máquinas fotográficas. Também não se podem usar gravadores. Todas as atividades são grupais, os estudos e as tarefas são desenvolvidos nas áreas de trabalho. Aos semi-internos, hóspedes, visitantes são distribuídos trabalhos compulsórios diversos, feitos nos setores (serão explicados posteriormente). As tarefas começam antes que o dia amanheça e seguem até 17h30min. Compõem-se de limpeza de casa, preparo de alimentos, desidratação de legumes e frutas, trabalhos na padaria, lavanderia, marcenaria e manutenção, horticultura, jardinagem e plantios e colheitas em geral, mutirões para aberturas de estradas, radioamadorismo para contatos de emergência, apicultura, edição e difusão de livros, folhetos, boletins e gravações, recepção de hóspedes, além de atendimento a pessoas necessitadas. Às seis horas, o grupo todo em conjunto coopera na limpeza básica dos ambientes. O café da manhã é às 7h30min. Há refeições às doze e dezoito horas. O recolhimento

para o sono tem início às 20h30min. O silêncio deve ser feito em especial a partir das 21h30min. Palestras com Trigueirinho realizam-se às quartas-feiras e aos sábados, às dezessete horas; aos domingos, às 11h30min; no dia da vigília mensal às dezessete horas; nos encontros de oração e nas reuniões dos monastérios às seis horas e às 13h30min. Os encontros do setor saúde realizam-se às quartas-feiras às nove horas pelos médicos e terapeutas. Os encontros de oração ocorrem três vezes ao ano. Nestes encontros, há uma palestra com Arthur (nome espiritual do “braço direito” de Trigueirinho), às seis horas. As reuniões do monastério são feitas no segundo fim de semana do mês. Às vezes, são realizados, durante o ano, treinamentos e seminários na área da saúde, alimentação, socorro e sobrevivência em momentos de catástrofes. Há em “Figueira” uma vigília permanente, uma espécie de meditação, que é feita dia e noite num bosque de eucaliptos. Os participantes revezam-se de duas em duas horas. Também, uma vigília mensal realizada por todo o grupo na última quarta-feira do mês, ocasião em que se dedicam ao silêncio reflexivo. Neste dia, acontece uma palestra às nove horas com Arthur e uma com Trigueirinho às dezessete horas. Em ocasiões especiais, mantras são entoados (Anexo B), sons sem lógica ou sentido. O único lazer e atividade cultural é o coral (Anexo C), com execução de peças criadas pelo próprio grupo. Criou-se um novo idioma, chamado por eles de Irdin. É mântrico, sem significação, o que importa é o som utilizado em repetições orais e no coral que há em “Figueira”. Segundo Trigueirinho:
Irdin, idioma cósmico, usado nos universos confederados. Revestido de forma adequada ao estado de consciência do planeta onde se manifesta. Exprime a essência criadora e arquétipos da evolução. Como vibração, está na origem e na base de todos os idiomas. Palavras e símbolos em irdin unificam consciências, mundos e ciclos evolutivos. Podem surgir espontaneamente no interior do homem em decorrência da sua sintonia com a Lei e com a supraconsciência. É uma comunicação com a vida maior, a Vida Cósmica, e apre-

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senta-se a nós nesta época em especial à medida que transcendemos as fronteiras da mente. Em “Figueira”, a maioria dos mantras foi concebida em irdin (TRIGUEIRINHO, 1997, p. 220).

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Também há em “Figueira” tratamentos para revitalização e cura por meio de medicamentos sutis, homeopatia, florais, chás de ervas e procedimentos terapêuticos como compressas, enemas (colonterapia), desintoxicação, cuidados com a coluna, etc. Esses tratamentos são disponibilizados aos que necessitam de cuidados médicos leves. Há uma unidade específica, chamada “abrigo”, que atende pessoas traumatizadas ou excluídas pelo caos social, pessoas que procuram equilíbrio e paz. “Figueira” não é clínica médica, mas lá há médicos voluntários que também se hospedam e prestam serviços com sua especialidade. “Figueira” não é um centro de reabilitação, por este motivo não aloja dependentes de álcool, fumo ou drogas. Eles tampouco têm estrutura para atender casos psiquiátricos (Anexo D). 2.2.1 ESTRUTURA FÍSICA: SEDE, CASAS, SETORES, MONASTÉRIOS, REDES DE SERVIÇO NO BRASIL E NO EXTERIOR Constatamos que existe uma organização física por setores, a qual se divide em duas áreas, uma urbana, localizada na cidade de Carmo da Cachoeira, interior de MG; e uma rural, na fazenda. Na área urbana situa-se, geograficamente, a casa 1, primeira sede em 1987 e chama-se secretaria geral, pois coordena e distribui tarefas; a casa 2 é uma espécie de ambulatório; a casa 3 é um local para hóspedes; a casa 4, ou central de atendência (Anexo E), recebe e distribui doações de remédios, gêneros e roupas e coordena o abrigo, que atende pessoas necessitadas; a casa 5 é o apiário. Na área rural, há uma fazenda de aproximadamente cem hectares. No setor da “vida criativa” são feitos o plantio e colheita, há uma lavanderia, padaria, cozinha e marcenaria, setor de manutenção, silo para armazenamento de alimentos, estufa para sementes e setor de ferramentas para horta e pomar. Há também um labirin-

to de pedra, onde as pessoas fazem caminhadas reflexivas e terapêuticas. Em “Figueira” há, atualmente, sete monastérios, alguns são reais, físicos, localizam-se gepgraficamente em “Figueira” mesmo, onde vivem os residentes internos; outros são virtuais, não estão materializados, não possuem uma existência concreta, não tem localização física, nem geográfica, pois são um modo de vida, uma filosofia, são um estado de consciência, segundo Trigueirinho, sem precisar de um local físico e/ou geográfico propriamente dito: O monastério 1 é feminino, semi-recluso. Ali há a prática do yoga (significa religare ou religação na língua hindi) da entrega, agrega personalidades com perfil espiritual ou linhagem dos seres-espelhos, seres que devem espelhar na matéria o arquétipo espiritual puro. Localiza-se na fazenda e é chamado Figueira 1 ou F1. Também no F1 existe, com a colaboração de médicos e dentistas semi-internos, um laboratório que produz remédios homeopáticos e florais, um consultório dentário e um ambulatório. Ali há um pátio, tipo um jardim de inverno, com uma área aberta e outra reclusa, sendo esta última o local onde residem monjas, que são desestimuladas a ter qualquer contato social com o grupo semiinterno e com o próprio grupo interno. O monastério 2 é masculino, semi-recluso, onde se pratica o yoga da igualdade. Agrega pessoas com o perfil espiritual ou linhagem dos sacerdotes. Localiza-se na fazenda e é chamado de Figueira 2 ou F2. Há uma área reclusa, onde ficam os monges do sexo masculino e uma área aberta, onde se realiza plantio e colheita de ervas aromáticas, temperos, verduras, leguminosas e cereais. O monastério 3 é misto, eremítico (recluso). Neste pratica-se o yoga da totalidade. Agrega pessoas com o perfil espiritual ou linhagem dos contemplativos. ‘Figueira 3’ ou F3 localiza-se na fazenda. É designado eremitério, onde atualmente reside Trigueirinho e mais duas pessoas, uma ex-freira católica já acostumada com a clausura e/ou vida reclusa e Arthur. Lá ninguém possui sobrenome, todos foram rebatizados com novos nomes. Este trio vive como eremita e não tem contato social com o grupo interno, muito menos com o grupo externo ou semi-interno. Dos três, apenas Trigueirinho pode transitar livremente por qualquer setor ou ter

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contato social com quem bem lhe aprouver. São permitidos retiros eremíticos em áreas de silêncio, junto à natureza. A pessoa deve levar uma barraca e sua própria alimentação, pois ficará no eremitério sem contato com ninguém. Arthur sai, esporadicamente, para dar palestras internas. Ninguém do grupo de internos pode entrar no eremitério. Se quiserem morar lá, deverão viver uma vida isolada do grupo principal. O monastério 4 é misto, externo, pratica-se o yoga da ação abnegada. Agrega pessoas com o perfil espiritual ou linhagem dos guerreiros. Localiza-se na casa 4, que fica na cidade de Carmo da Cachoeira. O monastério 5 é misto, externo, pratica o yoga da cura. Agrega pessoas com o perfil espiritual ou linhagem dos curadores. Localiza-se em F1 na área rural da fazenda. O monastério 6 é misto, domiciliar, pratica o yoga do coração. Agrega pessoas com o perfil espiritual ou linhagem dos instrutores. Localiza-se em cidades distantes da fazenda “Figueira”. O monastério 7 é misto, itinerante, pratica o yoga do fogo. Agrega pessoas com o perfil espiritual ou linhagem dos governantes. Localiza-se em cidades distantes da fazenda “Figueira”. (Anexo F). A organização “Figueira” está aberta para quem se comporte de maneira adequada, dócil, obediente, abnegada, submissa, subserviente, subalterna, subordinada e, ainda, mostre-se útil. Esses grupos podem ser denominados semi-internos ou itinerantes. Eles se hospedam para ouvir as palestras de Trigueirinho que são chamadas de partilha. Compram livros e, em troca, “Figueira” fornece comida e “alimento” para o espírito. O grupo visitante executa tarefas compulsórias, na maioria braçais, designadas conforme as necessidades e sem prévio acordo com a coordenação geral. “Figueira” conta com uma equipe de supervisores que coordena os setores e zela pelo exato cumprimento (em tempo e perfeição) dessas tarefas (Anexo G). O somatório dos grupos de visitantes ou itinerantes compõe uma “Rede de serviços” no Brasil e no exterior que tendem a multiplicar-se. Para participar de uma, é necessário dedicar-se voluntariamente a assuntos práticos e operacionais. Trabalhos grupais dão origem às redes que nas horas de caos e catástrofes estarão prepa-

rados para se defrontar com situações que os levarão a uma atuação prática de socorro. Precisarão contribuir para a sobrevivência coletiva, minimizar o sofrimento alheio e, segundo eles, auxiliar muitos seres a passarem em harmonia para outros mundos ou planos de existência. Os membros de uma “Rede de serviços” são das mais diversas origens. São estimulados a interiorizar-se e a buscar conhecimento através do estudo espiritual. Cada um tem tarefas específicas a cumprir como, por exemplo, a sintonização de mantras, etc., mas forma com os demais um conjunto. Nem sempre devem se tornar numerosas. Não são criadas para entrar em disputas, discussões ou polêmicas. São campos de prática para autoconhecimento e para transformações pessoais e, portanto, coletivas (Anexo H). No Brasil, são extensões e/ou prolongamentos de “Figueira” e estão subordinadas à administração da comunidade. É principalmente com a mão-de-obra, voluntária e gratuita desses grupos externos, semi-internos ou itinerantes que “Figueira” se mantém produtiva, pois seguidamente são convocados para mutirões e reuniões em regime de internato em Carmo da Cachoeira. As necessidades internas são supridas com o dinheiro de doações destas pessoas. Com o excedente, eles ajudam pessoas carentes com doações de remédios, roupas e alimentos. A rede de serviços de “Figueira” tem prolongamentos e/ou grupos no Céu Azul, Rua Astolfo Bueno, 20, em Belo Horizonte, Minas Gerais - Cep 31545-350; Granja Vianna, Rua Otelo Zeloni, 333 - Cep 06351-160 Carapicuíba, SP; São Carlos, Rua Abrahão João, 1114, Jd. Bandeirantes, São Carlos, SP (Anexo H). “Figueira” tem contatos para informações no Brasil em Atibaia (SP); Belo Horizonte (MG); Brasília (DF); Campinas (SP); Campo Grande (MS); Curitiba (PR); Fortaleza (CE); Gov. Valadares (MG); Jundiaí (SP); Londrina (PR); Montes Claros (MG); Porto Alegre (RS); Recife (PE); Ribeirão Preto (SP); Rio de Janeiro (RJ); Salvador (BA); São Carlos (SP); São Paulo (SP); Vitória (ES). Em Porto Alegre, há cinco grupos: a) grupo de audições públicas quinzenal – às segundas-feiras, às 19h30min b) grupo de sintonia (mantras) semanal – às terças-feiras, às 18h30min; c) grupo de sintonia (atributos do monastério) semanal, às quartas-feiras, às

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15h30min; d) grupo de estudos semanal, às quintas-feiras, às 20h; e) grupo de audições públicas quinzenal, aos sábados, às 14h30min. O grupo principal em Porto Alegre situa-se na Rua São Benedito, 815, loja 05 - Bairro Jardim do Salso (Anexo I). As redes de serviço no exterior estão localizadas em várias cidades da Argentina – Ciudad de Buenos Aires; Buenos Aires, Mar Del Plata; Chaco-Fontana; Corrientes; Córdoba; Mendonza; Formosa; Misiones - Posadas; Rio Negro - Viedma; Santa Fé-Santo Tomé. Há rede de serviços na Austrália – cidade de Sidney; Canadá – cidade de Victória; as redes de serviço do Chile estão centralizadas em Santiago; Equador –cidade de Quito; Espanha – cidade de Barcelona e Cáceres; Estados Unidos – cidade de Tahlequah e Trumansburg; Inglaterra – cidade de Berks; Paraguai – cidade de Assunção; Portugal – cidade de Colares, cidade de Oeiras, cidade do Porto; Suécia – cidade de Estocolmo; Uruguai – cidade de Montevidéu; Venezuela – cidade de Caracas.

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2.2.2 ORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA, HIERARQUIA, CATEGORIA DE MEMBROS, ATIVIDADES, ETC. Percebemos, nas vezes em que visitamos “Figueira”, que Trigueirinho, devido sua personalidade forte e carisma que lhe outorga poder (WEBER, 1979), alcançou ascendência sobre seu grupo, portanto, está no topo da pirâmide hierárquica. Teve uma vida mais variada que os integrantes de seu grupo, adquiriu maior soma de conhecimentos, mais poder intelectual, mais oratória. Era cineasta, viajou pelo mundo. A posse de mais conhecimentos levou-o a se tornar líder, levou-o a um lugar superior ao comum das pessoas do seu grupo, reunindo em torno de si simpatizantes e organizando comunidades há vinte anos(desde 1987), como o caso de “Figueira”. Já “Nazaré” tem vinte e cinco anos(desde 1982). A grande profecia de Trigueirinho, hoje considerado um profeta com vários livros escritos, fala sobre a operação resgate da raça humana, que salvará o seu grupo do fim do mundo. Para que essas pessoas sejam resgatáveis precisam passar por uma mudança de comportamento e sujeitarem-se a um ritual de passagem (TURNER, 1974), a uma disciplina, a um treinamento, a um ades-

tramento, a um condicionamento, a uma subordinação, a uma reeducação, a uma desconstrução, a uma desprogramação, a uma despersonalização, a uma purificação, a uma mortificação, a uma domesticação, a uma homogeneização, a um despojamento, a um nivelamento, a uma modelagem, a uma uniformidade, a uma igualdade, até chegar à santidade, à perfeição moral do ser humano. O resgate e mudança de padrão de personalidade têm como finalidade torná-los humildes, modestos, dóceis (FOUCAULT, 1979), úteis, maleáveis, obedientes, submissos, subservientes, flexíveis, sem liberdade de escolha, sem livre-arbítrio, para que aceitem, acatem ordens e funções alheias à sua natureza vocacional e atendam aos objetivos do coletivo e não da sua individualidade. As relações de Trigueirinho com o grupo que dirige estão estreitamente ligadas às suas qualidades carismáticas e proféticas (QUEIROZ, 1977). Desse modo, consegue que os internos e externos de “Figueira” cumpram suas normas, regras quotidianas, e trabalhem em atividades gratuitas e voluntárias com o fim coletivo de transformação dos que transitam por ali em seres humanos resgatáveis. São os colaboradores semi-internos, externos, itinerantes, autoconvocados ou visitantes que fazem parte das redes de serviço. Os grupos externos, visitantes, itinerantes são supervisionados, vigiados (FOUCAULT, 1984), controlados por um grupo de supervisores, por coordenadores de setores e por colaboradores internos com o intuito de sujeitá-los, submetê-los, condicioná-los, dominá-los para que sejam obedientes, dóceis e úteis às atividades e tarefas necessárias à manutenção de “Figueira”. Obviamente, há um permanente conflito (VELHO, 1989) entre os desejos, hábitos, necessidades, características e comportamentos resultantes da interação entre colaboradores internos e externos. O interesse do grupo está acima das individualidades. O indivíduo encontra-se subordinado a determinações coletivas, senão haverá sanções privando sua independência, seu livre-arbítrio. Os supervisores ou colaboradores são os indivíduos mais chegados a Trigueirinho. Ajudam ativamente e, em geral, também são dotados de certas virtudes carismáticas. Também ministram palestras e servem de intermediários entre Trigueirinho e o restante do

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grupo, portanto dispõem de certo poder: são reconhecidamente discípulos de Trigueirinho Dr. José Maria Clemente (médico) e Arthur. Trigueirinho e os coordenadores procuram organizar os colaboradores internos e externos, constituindo-os em uma sociedade com direitos e obrigações estabelecidos de acordo com as instruções dadas por Trigueirinho, que modela, de certa forma, a comunidade que o cerca. A quantidade de funções impõe divisão de trabalho e, conseqüentemente, o aparecimento de uma série de colaboradores internos e externos. Como não pode assumir sozinho as múltiplas tarefas do setor espiritual e temporal, Trigueirinho divide-as com os coordenadores. Assim, há um tipo único de estrutura social, com três camadas superpostas, com Trigueirinho no ápice, os externos ou semi-internos ou redes de serviço na base. Intermediário a ambos, está um grupo de coordenadores internos mais chegados, escolhidos por Trigueirinho, pessoas de confiança. A divisão do trabalho é condição indispensável para que a comunidade se discipline e possa partir para o resgate do mundo, através da “Operação resgate”. Os coordenadores dos setores de “Figueira”, por sua vez, estão constantemente sendo mudados por Trigueirinho. Há uma rotatividade, um rodízio de funções (GOFFMAN, 1999) com o intuito de evitar apego às tarefas, cultivar o desapego entre os colaboradores e não permitir a possível formação de clãs, como os que surgiram na Comunidade Nazaré, resultando na exclusão de Trigueirinho. A centralização (CROZIER,1981) das decisões de Trigueirinho acarretam a falta de comunicação interna. Há uma barreira entre Trigueirinho e o grupo menos próximo de forma a não se desenvolver clãs que venham a se insurgir contra a liderança dele. Suas ordens não podem ser, portanto, criticadas e/ou contrariadas. Os colaboradores são condicionados a não se comunicarem. Uma das maiores regras em “Figueira” é o silêncio. Também há um isolamento que priva os colaboradores de iniciativa e criatividade, porque estão submetidos às regras impostas que regulam a função, o comportamento, as operações e a forma de realizá-la, seu modo operativo único ao qual devem conformar-se. A ordem do seu desenvolvimento já está especificada. Tudo está

previsto com bastante exatidão, portanto não há espaço para a iniciativa pessoal ou para o livre-arbítrio. Para Trigueirinho, o livrearbítrio gera um estado caótico, egoísta. Os colaboradores, para serem salvos e resgatados, devem ceder e entregar seu livre-arbítrio à sua autoridade (HOBBES, 1974). Trigueirinho torna os limites de “Figueira” muito precisos em função de experiências negativas passadas que o excluíram da comunidade “Nazaré”. Por isso, os indecisos não podem ser aceitos. Todos os membros devem manifestar zelo no desempenho dos deveres. Se um membro recusa obediência, a salvação do grupo todo é posta em perigo, em jogo. Assim, uma das grandes preocupações de Trigueirinho é dar ênfase aos limites do grupo, preservando os integrantes do contato nocivo com as pessoas com ideais contrários. Isto, em parte, determina a segregação do grupo em relação à sociedade global. “Figueira”, sob a égide de um novo código cultural, subverte a ordem social estabelecida, fazendo normas que contrariam a sociedade estruturada. Com isso, o grupo interno, que possui idéias que conflitam com os valores da sociedade maior, gera tensão e discordância permanentes com o grupo de externos quando interagem (JOAS,1999;MERTON,1968). 2.2.3 FORMA DE SUBSISTÊNCIA, TRABALHO VOLUNTÁRIO E GRATUITO Percebemos, nas vezes em que visitamos “Figueira”, que os internos não conhecem o valor do dinheiro, não lidam com ele, nem conhecem a moeda nacional atual. Só alguns poucos administram contas bancárias. São os que trabalham na secretaria, que fica na Casa 1, na área urbana. Eles precisam, eventualmente, sair para realizar compras para os que permanecem na fazenda, os quais não podem sair nunca, nem em feriados, nem de férias, etc. Embora os internos desconheçam valores monetários, a organização, por sua vez, dispõe de meios para a obtenção de recursos para a consecução de suas metas. Uma das formas de arrecadá-los é através de mão-de-obra voluntária e gratuita, além de contribuições voluntárias. Outra forma são os cultivos agrícolas para subsis-

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tência própria. A produção excedente é trocada na cidade de Carmo da Cachoeira por gêneros alimentícios que estejam faltando. Para se manter economicamente “Figueira” tem, também, como um de seus meios de vida, a venda de livros. Possui uma editora própria – Irdin Editora Ltda. (Anexo J) - São Paulo - CGC 01303476/0001-64, sem fins lucrativos. Atualmente, estão em circulação, dois milhões – segundo Trigueirinho – de exemplares no Brasil, em Português, pelas editoras Pensamento, Nova Cultural, Círculo do Livro e Irdin; e em espanhol, na Argentina, pela Editora Kier. Parte dessa obra começa a ser lançada em inglês pela Irdin Editora, e em francês pela Éditions Vesica Piscis. A Irdin também comercializa 572 gravações feitas ao vivo de palestras de Trigueirinho. Em todos os setores, há expositores e preços à mostra, induzindo à compra por impulso de livros. Abaixo, está transcrito um pedido de colaboração para o setor de difusão de livros e fitas (Anexo K):

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O setor de Difusão de Livros e Fitas de “Figueira” tem como meta (...) a venda de livros e fitas (...) Nossa proposta para o corrente ano de 2001 é a seguinte: levantar recursos para vendas por preços simbólicos de 14.500 livros de Trigueirinho, cujo total é R$ 64.000,00; 1.350 livros do Dr. José Maria Campos (Clemente), cujo custo total é de R$15.000,00. Formas de participar: comprar livros e doá-los por iniciativa individual (...) Qualquer quantia é bem-vinda.

Também são vendidos em “Figueira” fitas de vídeo (VHS), cds, fitas k-7 com gravações ao vivo das palestras de Trigueirinho para divulgação da obra dele. Além disso, têm sido organizadas audições dessas fitas em outras cidades, complementando essa divulgação. Também há, às dezessete horas, aos domingos, uma partilha de Trigueirinho numa rádio da internet, chamada Rádio Mundial FM 95. 7 AM 660. Pode-se escutá-la no site www.radiomundial.com.br (Anexo L). Outra forma de “Figueira” manter-se produtiva dá-se pela presença dos meeiros (Anexo N). Os residentes internos e os grupos de itinerantes não conhecem profundamente as técnicas de agricultura. Os meeiros conhecem e fazem um trabalho cooperativo.

Os participantes dessas frentes de trabalho, em geral camponeses, reúnem-se com os responsáveis pelo setor de plantios para o planejamento do ano agrícola. A partir daí, cada um assume a sua parte. A maioria encontra nessa cooperação uma forma de complementar seus meios de subsistência, enquanto outros se colocam como voluntários pela simples oportunidade de ajudar o próximo. Usam técnicas naturais de cultivo e abastecem-se de alimentos sadios, sem circulação de dinheiro. Devidamente processadas, frutas da região são conservadas para consumo durante o ano todo. Parte do grupo de “Figueira” dedica-se ao trato das árvores frutíferas, ao passo que as famílias dos meeiros elaboram os produtos e os embalam para armazenagem. Grãos como arroz, milho e feijão são semeados após o devido preparo da terra feito por tratores, enquanto mutirões formados por meeiros e membros do grupo de residentes e visitantes encarregam-se das capinas e colheitas. Abóbora, amendoim, batata, inhame, mandioca e milho foram incluídos nesses plantios a pedido dos próprios meeiros. Recentemente, outras atividades são oferecidas a eles nos mesmos moldes, tais como a produção de leite de soja e a confecção e conserto de roupas. O setor de plantios e sementes, com a ajuda dos colaboradores, residentes ou visitantes que se apresentam, cuida do cultivo de alimentos não apenas para hóspedes e moradores, mas também para famílias carentes da região. O volume de tarefas realizadas por esse setor é considerável, e nelas procura-se preservar as sementes originais, respeitar a vida do solo e da natureza em geral. Em 2002, foram produzidas 77 toneladas de grãos, além de hortaliças e frutas de modo natural e sem agrotóxicos. Ainda, para manter sua fazenda produtiva, “Figueira” conta com a mão-de-obra voluntária de grupos urbanos de serviço. São grupos rotativos provenientes de cidades próximas chamados também de redes de serviço. Eles fazem mutirões para tarefas variadas, como construções e aberturas de estradas e produção orgânica. Não há pagamento de taxas para nenhuma atividade nem para hospedagem. Isso pode ocorre devido ao trabalho voluntário e gratuito de todos os grupos que também fazem doações espontâneas em dinheiro, roupas, gêneros alimentícios, remédios ou equi-

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pamentos, etc. Com relação às doações, apresentamos transcrição de carta-aberta (Anexo N) dirigida aos colaboradores, solicitando contribuições e/ou doações:
Aos colaboradores de “Figueira” (...) faz-se notar que algumas providências devem ser tomadas para que a água não venha a faltar em “Figueira” (...) A ampliação do sistema de abastecimento de água pressupõe, entre outros itens: a construção de um novo reservatório com capacidade de 500 mil litros, para suprir F1 (Figueira 1 – monastério feminino) e F3 (Figueira 3 – eremitério), no valor aproximado de R$ 80.000,00 (2001). A instalação de quatro rodas de água, com suas respectivas barragens, para completar o bombeamento sem uso de eletricidade. Bombas e 4.500 m de tubulações e conexões, tanto para interligar a rede de abastecimento das áreas recém-incorporadas com a já existente, quanto para redimensionar a rede atual. A concretização desse importante projeto custará aproximadamente R$ 250.000,00 (2001). Estamos, pois, levando ao conhecimento de todo o grupo essas necessidades prementes. Qualquer colaboração é preciosa e pode expressar-se de várias formas: apoio interno, participação na execução das tarefas do setor água, apresentação de idéias e soluções técnicas ou ajuda financeira. Para remessa de dinheiro, pode-se usar a conta 01139-3, Banco Itaú, Agência 3204, de Carmo da Cachoeira/MG, em nome de Berkman Mendonça Santos e/ou Vera Lúcia Pereira.

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2.3 CULTURA ESPIRITUAL DE “FIGUEIRA” Soubemos, a partir de entrevistas informais com Trigueirinho, que o desenvolvimento dos monastérios (Anexo O) deveria passar por três etapas distintas: - A fase inicial, fundação para a energia espiritual se materializar em nível físico; - A fase intermediária, expansão da energia espiritual já estabelecida. Essa é a etapa vivida no momento, a de captação de novos colaboradores;

- A fase de realização, elevação da energia espiritual, que translada a atividade espiritual para os planos interiores da vida. Estão previstos sete monges, sete oblatos e sete zeladores para cada monastério. Na etapa inicial, foi criado o grupo de oblatos (Anexo F), que prossegue colaborando na construção e no desenvolvimento dos monastérios em todos os seus níveis. Os oblatos praticam a vida espiritual em meio aos afazeres do mundo e na vida cotidiana. Oblatos são leigos que se oferecem para servir em ordem monástica, abnegadamente, sem se ater a estruturas rígidas, nem a formalizações supérfluas. Um oblato deve ter como função colaborar diretamente na construção e no desenvolvimento de um monastério. Oblato não é só um posto, título ou posição dentro da divisão de trabalho grupal, é uma tarefa. Auto-afirmação, orgulho, idiossincrasias e vaidade não devem interferir na sua tarefa, cujas bases são o altruísmo, despojamento, o desapego e a prontidão ao serviço impessoal para atender aos objetivos espirituais do grupo. Anonimato e silêncio são as características requeridas à personalidade do oblato. Também o recato, a simplicidade no falar e no agir e a alegria são qualidades que nele devem ser incentivadas. Na atual etapa intermediária, foi criado o grupo de zeladores (Anexo P). Cada monastério contará com sete zeladores. Um zelador pode servir a vários monastérios ao mesmo tempo. Ele é um defensor do plano espiritual. De maneira especial, segue a via do despojamento e dedica-se a suprir tudo e todos incondicionalmente. O zelador deve inspirar-se nos que se devotam incondicionalmente à vida de serviço. Na sua tarefa, descobre a diferença entre o vazio humano e a palavra viva que provém da alma. Proferir a palavra é para ele um objetivo maior, o qual vai desenvolvendo ao praticar a ação correta. “Figueira” acolhe seres com vocação sacerdotal. A atividade sacerdotal (Anexo Q), para eles, é interior e desvinculada de organizações cristalizadas e formalizadas. Por isso, quase sempre trabalham livre de instituições e raramente sua obra é percebida pelos sentidos externos dos demais. Ela é silenciosa e discreta. A

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ordenação sacerdotal não é um fato externo. Não se usa um hábito, refere-se à vida do espírito. O sacerdócio não pode ser ensinado em seminários espirituais da civilização profana e secular, tampouco pode ser outorgado pelos homens. Os denominados seres-espelhos (Anexo R) que ali se encontram devem captar e refletir as energias e leis espirituais. O serespelho capta os arquivos do akasha, o inconsciente coletivo, imaginário ou arquétipos. Todo ser-espelho chega à revelação da existência desse arquivo. No akasha estão registradas as informações sobre o universo. Teresa d’Ávila ou Santa Teresa de Jesus, carmelita natural da cidade de Ávila na Espanha, fundadora dos carmelitas descalças, é considerada, por Trigueirinho e pelo seu grupo, um ser-espelho e nela muitos têm, em “Figueira”, se espelhado, se inspirado, como modelo de um ser espiritual perfeito, um caminho de perfeição como dizia ela em suas obras. Há, atualmente, poucos residentes no local. Não há um número maior porque, segundo Trigueirinho, no atual momento da civilização poucas pessoas conseguem libertarem-se, liberarem-se do compromisso com a sociedade. A estrutura, a engrenagem da presente civilização continua exercendo grande influência sobre as pessoas. Alguns têm, portanto, que se despojarem de encargos e desvincularem-se de tendências retrógradas e antiquadas, segundo Trigueirinho, para ajudar no que é exigido ao residente de “Figueira”. Esta postura emergirá da renúncia a ambições e satisfações próprias em função da coletividade. O residente (Anexo S) deve viver suas provas de renúncia, humildade, humilhação, abnegação em silêncio, sem tagarelice, sem choro, sem emoções, sem dor. Ao cultivar o silêncio, perceberá que tanto as experiências positivas como as negativas são fontes de aprendizado e evolução. O residente deve viver com simplicidade e em simplicidade. Também deve ordenar e organizar-se no dia-a-dia de tal forma que não tenha dispersões de energia. Para o residente, as atividades diárias e as provas que advêm do seu cumprimento são oportunidades de transformação, por isso deve imprimir uma energia ou qualidade de desapego e renúncia em tudo o que faz, realizando as tarefas que lhe cabem com dedicação, abnegação e livre de preocupação com os resultados. O residente deve ser um apoio. Trabalhando

em grupo, realiza o necessário à vida espiritual e presta serviços em conjunto com muitos colaboradores. No grupo de “Figueira”, amplo e diversificado, o residente representa um catalisador, uma força conjunta voltada para o serviço ao mundo. Um residente deve renunciar às delícias, ao conforto, aos prazeres da vida. Não deve se envolver com as coisas materiais. Não deve se apegar ao sono. Deve ser grato pelo alimento que recebe e pelo qual trabalha, por pior que seja, e deixar de lado a murmuração, a queixa, a lamúria. Deve empregar bem o seu tempo e prescindir de consolo. Vários trabalhos grupais servem a todos os reinos (Anexo T), seja animal, vegetal, mineral, humano, angelical, etc. Trabalhos de plantios, cuidados com animais, atendimentos às pessoas necessitadas, cura, publicações, entre muitos outros, realizam-se dessa maneira altruística e abnegada. Essas atividades, em geral, são feitas em rodízio, segundo as necessidades do momento. Colaboradores (Anexo U) que moram em diversos lugares vêm participar delas. Médicos, dentistas e outros profissionais prestam assistência ao grupo de modo gratuito. Todos compartilham o mesmo ritmo diário de trabalho e estudos. O “Abrigo” (Anexo V) está a cargo da coordenação da casa 4, ou central de atendência. Presta serviço aos que foram excluídos ou querem se excluir da sociedade comum. A energia do local possibilita prestar serviço altruístico, livre dos apegos que limitam o trabalho em grupo. No “Abrigo”, deve-se trabalhar com dinamismo, mas sem estresse e sem interferir no caminho dos outros. Também não se deve buscar reconhecimento para não reforçar o egoísmo, porque esta atitude torna-se um obstáculo à vida grupal. A colaboração é necessária, pois a tarefa deverá cumprir-se conforme planejada pelo grupo. A função do “Abrigo” é ajudar todos a se libertarem, desvencilharem-se, desapegarem-se da sociedade. Muitos dos que se aproximam estão para se libertarem e necessitam de coragem, ajuda e reforço. Os que servem devem estar prontos para apoiar os que passam por tragédias coletivas, porque a contaminação do planeta se agrava, segundo Trigueirinho, e o efeito das atuais explosões nucleares pode tirar o planeta de sua órbita gravitacional não fosse a intervenção das tempestades e dos fortes ventos. As forças da natureza se ativarão para facilitar o trabalho

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de transformação da Terra. Alto é o nível de radiação nuclear que a envolve, e as cidades já estão se tornando inabitáveis. Os que aspiram à vida em “Figueira” são chamados de aspirantes (Anexo W). Eles devem ter disposição para seguir, sem reservas, com abnegação e desapego, de forma altruística e impessoal, o caminho do serviço. O aspirante deve deixar de lado o orgulho e o preconceito para servir a humanidade. Deve aprender que a sujeição a uma organização, a uma ordem, às regras, às normas, a determinadas condutas é necessária a um trabalho evolutivo e que, imposta num ambiente, serve de exemplo aos demais. Perceber que sem elas, o trabalho espiritual não pode sobreviver aos freqüentes ataques de forças contrárias, destrutivas. O aspirante deve reconhecer que o condicionamento a uma disciplina hierárquica (Anexo X) é imprescindível para a transcendência do egoísmo e das preferências de natureza mental e emocional individuais em detrimento das coletivas e grupais. Quando o egoísmo é transcendido e as preferências individuais superadas, surge a disciplina grupal e coletiva. As regras externas tornam-se então menos conflitantes. Enquanto o egoísmo existir, o aspirante sabe que o abandono da obediência em muito prejudicaria o seu serviço e colaboração. Ordem, disciplina e obediência devem fazer parte da vida do aspirante, revelando uma maneira flexível, meiga e cordata de viver. Ele deve tratar a natureza, as casas, os objetos e seres vivos com cuidado, mas sem objetivo de posse ou propriedade. Mesmo não sendo dono, não deve desperdiçar. Deve saber que cada coisa tem seu lugar e valor e usá-las com bom senso. A desordem e a má utilização são incorreções, imperfeições inaceitáveis. A vigília (Anexo Y) é um ritual para promover a atitude de meditação, reflexão ou contemplação. Períodos de vigília criam intensa concentração de força que alinha o propósito da consciência ou personalidade com o da alma. Calma, paz, harmonia e relaxamento se estabelecem no ser em vigília, porque a ansiedade por resultados desaparece, as dúvidas da mente dissolvem-se. Os residentes e colaboradores revezam-se voluntariamente de duas em duas horas durante as 24 horas do dia para realizá-la. Na última quarta-feira do mês, o grupo todo, durante o dia inteiro, dedica-se à vigília, ao silêncio interno e externo. Nesse dia, há duas partilhas

reflexivas a cargo de Trigueirinho. Em “Figueira”, há por parte de alguns poucos, Trigueirinho, Arthur e Clemente, a tarefa de instrução (Anexo Z), que vem a ser uma educação adequada às necessidades. Deve levar em consideração a globalidade do ser e o universo em que ele se encontra (Trigueirinho é considerado um instrutor). O instrutor deve saber que o seu trabalho é ajudar os demais a realizarem seus potenciais, suas vocações, suas capacidades latentes, seus propósitos existenciais, seus destinos. A cada instrutor corresponde um grupo que, para evoluir, usufrui da energia que é canalizada por seu intermédio. A instrução não é uma atividade acadêmica, restrita e limitada, mas diz respeito a todos os que querem evoluir transcendendo os paradigmas impostos pela sociedade. Enquanto a educação diz respeito aos níveis da personalidade, a instrução diz respeito à alma e ao espírito. Instrução não é somente doutrinação, mas deve estimular que cada um encontre o conhecimento dentro de si mesmo. 2.4 CONCLUSÃO “Figueira” rompeu com os princípios fundamentais da sociedade, abolindo a propriedade, o casamento e a família. Tornou-se um espaço comunitário singular, indiferente ao Estado. É uma comunidade composta de indivíduos semelhantes que formam uma subcultura. A comunidade evoluiu para um estado monástico com o tempo e o aumento do número de residentes. Em “Figueira” se confunde submissão com santidade, humilhação com humildade, pois deve se sujeitar à autoridade de Trigueirinho e demais coordenadores. O aspirante que deseja viver em “Figueira”, portanto pelas suas regras, deve devotar-se inteiramente ao serviço pela autodisciplina, oração e trabalho. Devem viver uma vida em comunhão, desapegar-se da família, condicionarse à pobreza, desapegar-se do dinheiro e da propriedade privada, abster-se do sexo, conseqüentemente do casamento, e de alimentos de origem animal. Obedecer aos superiores, restringir a conversa e observar o silêncio. A liberdade, o livre-arbítrio e a privacidade são suprimidos em favor da coletividade.

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3 ERVING GOFFMAN - O INTERACIONISMO SIMBÓLICO COMO MARCO PARA A ANÁLISE DOS RITOS DA INSTITUIÇÃO E DOS RITOS DA INTERAÇÃO
O presente capítulo tem o objetivo de contextualizar, compreender e explicar a organização “Figueira”. Para tanto, utilizamos, como referencial teórico e metodológico, o interacionismo simbólico, porque neste viés situam-se as pesquisas de Erving Goffman, autor eleito em função do seu foco nas interações entre atores sociais. Num segundo momento, há a biografia de Erving Goffman e a sua criação de temas e conceitos teóricos próprios. Em terceiro lugar, traçamos os conceitos, os princípios e paradigmas do interacionismo simbólico, dando especial relevância aos conceitos teóricos da interação social escritos no livro “A Representação do Eu na Vida Cotidiana”. Em quarto lugar, buscamos na obra de Goffman “Prisões, Manicômios e Conventos”, trazer as categorias de análises que podem definir as instituições totais: um mesmo local de moradia e trabalho; fechamento em relação à sociedade; regras, normas; coação, controle, vigilância; liberdade, livre-arbítrio; despojamento, nivelamento; papel subalterno humilhante; incompatibilidade com a vida familiar; desconstrução do eu (self); desculturação; purificação; acomodação, sujeição. Por último, buscamos delinear, superficialmente, o perfil daqueles que se identificam com comunidades desviantes, estigmatizados, divergentes, outsiders, liminares, retraídos, marginais, deslocados, rebeldes, perdidos, desenraizados, minorias, artistas, etc. 3.1 ERVING GOFFMAN - UMA VIDA MESCLADA COM SUA VISÃO TEÓRICA O histórico da construção da personalidade de um autor é fundamental para a compreensão da sua obra. Assim, alguns dados biográficos ajudam a entender a formação intelectual de Erving

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Goffman: “(...) a reconstituição das ‘forças formadoras de hábitos’ de um autor é essencial para compreensão da sua obra” (WINKIN, 1999, p.7). “A obra de Goffman é uma autobiografia” (WINKIN, 1999, p. 13), pois ele reproduz nos seus escritos o seu status social. Uma pesquisa científica nunca é totalmente dissociada da formação de classe que lhe preexiste, de tal maneira que uma obra científica encerra sempre a marca da trajetória social do seu autor:
(...) pode-se considerar conjuntamente os recursos retóricos característicos da obra de Goffman e os esquemas predominantes na sua recepção por um público científico. Essa consideração conjunta permitiria ver mais de perto, no detalhe, o jogo das figuras do autor que fazem sua aparição no lance de leitura. Talvez essa atenção ao detalhe possa contribuir para compreendermos melhor as suposições que fazemos, na nossa sociedade, sobre esse deus oculto, o autor, já tantas vezes banido, mas que retorna sempre, com a força redobrada dos mitos (MALUFE, 1992, p. 134).

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A biografia de Goffman sugere um estudo de caso que elucidaria a história da sociologia americana nos anos que sucederam a Segunda Guerra Mundial. Inicialmente, é a história de um outsider (Becker, 1977) geográfica e socialmente, de um intelectual que na sua geração subiu ao topo da sua área, tanto institucional (faculdades de renome, foi presidente da “American Sociological Association”), quanto cientificamente. Esteve no rol, por anos, dos dez autores mais citados do Social Science Citation Index: “A obra de Goffman será, tal como a de Freud, a história autobiográfica de uma ascensão social” (WINKINN, 1999, p.16). Erving Goffman nasceu dia 11 de junho de 1922, em Mannville, Alberta. Passou sua infância e os primeiros anos de adolescência em Dauphin, ao norte de Winnipeg. Seus pais, Max e Ann, nasceram na Rússia, Ucrânia. Dauphin é uma das primeiras colônias ucranianas de Manitoba, constitui-se, na sua maior parte, de uma comunidade de mercadores judeus que são, ao mesmo tempo, acolhidos e discriminados. Goffman cresceu nesse ambiente de oposição camuflada.

A família de Goffman mantém relação com a comunidade judaica da metrópole de Winnipeg. A irmã de Goffman, de nome Frânces, destaca-se, em Winnipeg, na carreira teatral. Goffman reúne-se a ela em 1936, com quatorze anos, quando é admitido na “Saint John’s Technical High School”, uma escola progressista que acolhia em seu estabelecimento os filhos de imigrantes judeus. Goffman, na “Saint John’s”, é um brilhante e mau aluno, concomitantemente. Em 1939 ele foi admitido na Universidade de Manitoba, em Winnipeg. Como matéria principal, elege a química. A sociologia ainda não existia na Universidade de Manitoba naquela época. O que nos pareceu mais relevante na sua biografia foi sua experiência de cinema, em 1943, na “National Film Board” (NFB), produtora de documentários em Otawa, coordenada por John Grierson. Nessa ocasião, ele aprendeu as técnicas dos especialistas na arte de representar. Nesta fase, formam-se os primeiros hábitos, a base intelectual do Goffman, observador de planos, sua compreensão cinematográfica da realidade. Desvenda a arte de iludir, percebe que a vida social não é tanto um teatro, mas uma cena dramatúrgica, um filme em montagem. Assim ele decodificará a vida cotidiana em cenas, em grandes planos de um detalhe, em jogos de campo/cantracampo entre observador e observado, como se estivesse realizando filmes documentais. Aliás, ele produziu, através da escrita, documentários na sua vida restante. Goffman tem uma forma de observar muito visual, baseada no detalhe que revela o conjunto ou o todo. Faz-se necessário ter um senso de observação, ter um “olho clínico” para praticar a sociologia etnográfica, e a vivência no “National Film Board” lhe oportunizou esse treinamento e conhecimento. Goffman baseia todas as suas pesquisas, ensaios, estudos, inspirado pelo cinema. Suas obras são, fundamentalmente, visuais. Encontramos na obra, o Goffman do “National Film Board”, aquele que adora ir ao cinema, o cinéfilo, que ilustra as suas palestras com diapositivos que colecionou na sua vida cotidiana, quantidades de fotografias, retiradas de revistas. Goffman revelou-se cinéfilo, num longo artigo de 1975, o qual se tornou um livro em 1979: Gender Advertisements. O livro foi fundamentado num con-

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junto de fotografias de publicidade que mostram as posições nas quais as mulheres são, sistematicamente, expostas ao consumidor. A aprendizagem racional da profissão de sociólogo é uma segunda vertente intelectual de Goffman, que se tornou amigo de um jovem produtor do “National Film Board”, no decorrer do verão de 44, Dennis Wrong. Este termina, na Universidade de Toronto, a licenciatura em Sociologia. Ele convida Goffman para visitá-lo. Goffman aceita o convite. Foi exatamente na época de início das aulas. Aproveitou a ocasião e conseguiu uma autorização para freqüentar disciplinas isoladas, com as quais, talvez, poderia obter um diploma de sociologia. Marcaram a sua vocação de sociólogo dois professores e uma jovem estudante. O slogan de Charles William Norton Hart, “tudo é socialmente determinável”, não mais o abandonará. Ele era coordenador dos cursos de sociologia da universidade, antropólogo formado por Radcliff-Brown em Sidney, viveu entre 1928 e 1930, numa tribo aborígene, os Tiwis, que habitavam a ilha Bathurst, norte da Austrália. Ele era meio exótico e excêntrico, tinha uma unha comprida no dedo mindinho direito, como sinal da sua iniciação na comunidade tribal. Goffman o admirou. Não só a sua unha, mas todo o seu estilo pedagógico fascinou o jovem Goffman. Aprofundou-se, de 1944-1945, na leitura do “Suicido” de Durkheim, que não estava ainda traduzido. É assim que Goffman se iniciou na sociologia. Ray Birdwhistell, o segundo professor, o inicia na antropologia. É um jovem antropólogo de vinte e seis anos que, após terminar sua tese, deu o curso “Relação entre Cultura e Personalidade”, na Universidade de Chicago. Ele incentivou os alunos a lerem muitos livros. A singularidade da sua pedagogia estava na maneira como ele lhes fazia compreender que a instância entre a cultura e a personalidade é o corpo. A cultura é algo que se incorpora ao corpo nos trejeitos, no seu modo de portar e comportar. Dessa forma, os alunos viam-no e ouviam-no andar, caminhava como um ator, imitava o modo de falar do sul, do norte, imitava um cawboy do oeste. Ele fazia um show à parte da sua aula – com o único intuito de ensinar e fazer com que os alunos compreendessem que o social se infiltra, se imiscui nas mínimas atitudes, nas

ações corriqueiras, cotidianas. Por isso, até os gestos são suscetíveis de análise sociológica similar à das instituições. A observação de índices corporais permitem classificar os seus portadores segundo a tipologia warneriana, é isto o que ensinava Birdwhistell aos estudantes, levando-os a um pub perto do campo universitário e pedindo-lhes que determinassem a classe social dos clientes através do modo como andavam e através da sua maneira de beber e fumar. Goffman apaixonou-se por esta pedagogia didática. Concomitantemente, a esta aculturação intelectual, Goffman viveu uma vida boêmia e política intensa junto a um grupo de estudantes vindos do oeste do Canadá. Neste meio conheceu Elizabeth (Liz) Bott, uma estudante de psicologia que se interessava por antropologia. Liz e Erving foram amigos inseparáveis. A fama de intelectual de Goffman começou a repercutir no meio estudantil. Achavam-no um gênio estranho, surpreendente, também pela inteligência vivaz de suas observações lógicas. Era uma pessoa iluminada, com presença de espírito e, isso, por vezes, incomodava muito, provocava ciúmes e inveja. Uma outra característica presente na sua biografia: Goffman lia bastante. Licenciou-se em junho de 1945, em sociologia, época em que estava em desenvolvimento a etapa intelectual de Goffman, a do aprendizado racional da profissão. Já estavam adquiridas as motivações para a leitura intensiva, essencial para um futuro investigador. Os livros-fetiche apareceram: “Busca do tempo perdido”, por exemplo. Surgiram os mestres do pensamento também: Durkheim, Radcliffe-Brown, Warner. Mas, também, mais sutilmente, Freud e Parsons. Goffman não era casado, ainda, e seus pais financiavam-lhe os estudos, não precisava trabalhar, ao contrário de muitos dos seus colegas. Dessa forma, ele pôde entrar para a Universidade de Chicago, para o departamento de sociologia, em setembro de 1945, onde foi submetido a uma imensa quantidade de mais ou menos duzentos estudantes. A Universidade de Chicago centrava-se no mestrado e doutorado. Era essencialmente uma universidade de investigação. Os cursos eram em forma de seminários. O objetivo proposto aos es-

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tudantes era passar nos exames gerais, para tanto, todos os meios eram auxiliares: os cursos, no departamento ou fora, as conferências oferecidas aqui e ali, e, sobremaneira, as leituras pessoais e as discussões entre colegas. Os estudantes egressos, que foram à guerra e retornaram, ingressando na Universidade de Chicago, queriam queimar etapas. Eram, na sua maior parte, de origem humilde, maduros, mais velhos e quase todos casados. Tinham anos a resgatar econômica e intelectualmente. Este meio ambiente, esse contexto e circunstâncias de trabalho desconcertaram o jovem Goffman que não tinha nenhuma experiência da guerra e do mundo, tinha apenas 23 anos. Por isso, os dois primeiros anos em Chicago foram muito duros para ele. Estava angustiado, escrevia com muita dificuldade, entregava os seus trabalhos fora de prazo e faltava às aulas. Os seus professores não estavam muito satisfeitos com ele, alguns desejavam afastá-lo. No entanto, ele pareceu ultrapassar a crise e impôs-se, pouco a pouco, junto aos colegas e professores, a partir de 1947. Quase todos os seus conhecidos eram judeus que, em quase sua totalidade, viriam a se tornar nomes da sociologia americana conhecidos nacional, senão internacionalmente. Naquela época, seus colegas estavam ainda longe de prever seu sucesso profissional, mas quando, durante um encontro, alguém perguntou: “Quem será célebre daqui a vinte anos?”, responderam, sem dúvida, com unanimidade: “Erving!” A frase quase profética traduziu bem a impressão que os amigos tinham de Goffman. O seu intelecto, aparentemente, impressionou-os de uma maneira ou outra. Os amigos tornaram-se os primeiros professores de Goffman em Chicago. Todos liam muito. Gustav Ichheiser deu um curso de Sociologia da Religião em Chicago e tornou-se uma das fontes de inspiração de Goffman, que também se entusiasmou pelo filósofo Kenneth Burke, de quem aprendeu o modelo “dramatúrgico” das relações humanas de que os homens encarnam papéis, mudam-nos, participam neles. Goffman referiu-se ao professor Everett Cherrington Hughes como tendo sido o seu santo patrono em Chicago, uma das filiações intelectuais dele. Com ele aprendeu a importância dos dados. Essas são mais

duas chaves para compreender a obra de Goffman. Por volta de 1935, o professor Lloyd Warner estimulou Goffman a ler e utilizar os estudos de Henry Murray, psicólogo junguiano que construiu o Teste de Apercepção de Temas (TAT), o qual, com a ajuda de antropólogos, tenta separar as variações culturais e sociais dos determinantes da personalidade. No final de 1949, percebeu-se a clara influência desta bibliografia na tese de mestrado, de Goffman, com o seguinte título: “Algumas características das respostas a experiências representadas por imagens”. Este foi o primeiro trabalho escrito de Goffman. Antes de tudo, na primeira parte da tese provou o seu conhecimento sobre o TAT: história, objetivos, potencialidades e limites do teste foram analisados num estilo sóbrio e denso. Explicou, na segunda parte, como entrou em contato com os seus sujeitos por telefone, segundo a técnica clássica da “bola de neve”: um nome leva a outro. Na terceira parte havia uma surpresa: Goffman esboçou a sua própria interpretação sociológica, pôs de lado o quadro psicológico realista no qual se analisam habitualmente as respostas às imagens do TAT, fundamentou-se em Whorf, Sapir, Burke e Cassirer, entre outros. Goffman pretendeu abarcar o “real”, com suas teorias de “pequeno alcance”, o momento no qual se diluem os conceitos, o real que se encontra por trás das situações particulares que os dados mostram, a realidade dos mecanismos e engrenagens que originam as condutas e comportamentos, que darão origem a ordem social. O ano de 1949 foi também o ano de partida para Edimburgo e Ilhas Shetland. Lloyd Warner estava, de novo, por trás desta viagem. Na Universidade de Edimburgo, ainda em 1949, abriram um departamento de antropologia social e seu diretor pediu a um dos seu velhos conhecidos, que lhe enviasse um bom doutorando que pudesse dinamizar a nova estrutura. Warner sugeriu o nome de Goffman, que aceitou o convite e aí chegou em outubro de 1949. Goffman desempenhou todas as tarefas que se esperava de um assistente, oficialmente colocado como monitor em antropologia social. Mais tarde, chegou à Universidade de Edimburgo um sociólogo chamado Tom Burns que estava elaborando uma teoria

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das “relações de troca”, a hipótese era de que os membros de qualquer interação mantinham a polidez entre si para evitar choques. Essa possibilidade seduziu Goffman, que pensando sobre ela dirigiu-se às Ilhas Shetland, norte da Escócia, onde, entre dezembro de 1949 e maio de 1951, fez seu campo de tese de doutorado. Percebeu-se, ainda, nesta pesquisa, a influência de Lloyd Warner, seu orientador. Obviamente, porque o especialista das pequenas comunidades semi-rurais americanas não tinha desistido do sonho de qualquer antropólogo: estudar uma cultura insular tal como as pesquisadas por Malinowski, as Ilhas Trobriand e, por Radcliffe-Brown, as Ilhas Andaman. Goffman construiu a sua própria metodologia. Ele se apresentou aos moradores como um estudante universitário que desejava apenas obter informações sobre a economia da agricultura insular. Ele procurava tornar-se simpático, assim teve o privilégio de poder observar os conflitos interacionais que surgiam, por vezes, no meio desses grupos de atores sociais. Porém, os locais de observação que escolheu não lhe proporcionaram entrar na estrutura social da ilha, somente entrou nas atividades de lazer extracotidianas reservadas a alguns privilegiados: a vida no hotel, as partidas de bilhar, os serões. Mas é justamente aí, nessas atividades cotidianas, que ele vai observar as interações em forma de conversa. As atividades mais mundanas de um universo interacional essencialmente familiar são o objeto da atenção de Goffman, as quais ele chama de conversacionais: “...essa técnica estilística de Goffman como a capacidade para fazer que um instante banal e insignificante na vida de uma pessoa se transforme em uma experiência memorável (para o leitor)” (ANDACHT, 2004, p.130). O que Goffman fez foi observar o desenrolar da comunicação interativa na atmosfera dos espaços. A expressão de si, que se tornava a impressão para o outro, era passível de ser manipulada propositalmente, com o fim de desinformar o seu interlocutor que podia agir de modo similar. Goffman pretendeu examinar as interações sociais que se assemelhavam mais às dos lugares mais impessoais da vida moderna. Assim, qualquer interação, torna-se um constante jogo de dissimulação e de enganar, demonstrando uma sintomatologia soci-

al:
O projeto de Goffman aparece, assim, como uma sintomatologia social, como uma desmedicalização destes sintomas, cujas raízes Freud mergulhara no inconsciente deixando ver nelas os fundamentos sociais e culturais. Quando Goffman invoca os lapsos freudianos para dizer que ‘neste jogo quem descobre é freqüentemente melhor do quem dissimula’, está a dialogar com a psicanálise, reconhecendo-lhe o poder de revelação, mas pensa acrescentar-lhe uma dimensão sociológica (...) Goffman fala do social onde Freud fala do inconsciente (WINKIN, 1999, p. 70-71).

Em 1955 viveu ao ritmo dos acontecimentos quotidianos em um enorme hospital psiquiátrico, Santa Elizabeth, com mais de sete mil camas. De certa maneira retoma o processo utilizado na sua tese de doutorado. Em 1956, publicou uma primeira versão de “A Representação do Eu na Vida Cotidiana”. Organiza o livro, que se torna um novo alicerce conceitual: a famosa linguagem do teatro (cenário, representação, papel, etc.) o qual tornou Goffman conhecido e que lhe valeu a denominação de primeiro representante da análise dramatúrgica. O livro popularizou-se e difundiu-se nas massas estudantis. Em 1959, Goffman estava intelectualmente amadurecido; a sua intelectualidade e cultura estavam na sua plenitude. Publicou obras nas quais constatou que é na interação com o outro que se situa a dificuldade, não na própria pessoa. Em 1961, publicou “Asylums” e, em 1963, “Estigma”:
Goffman permite que os leitores ‘vejam por si mesmos’, que detectem por sua própria conta os padrões que ele deseja tornar notáveis e salientes.Tais técnicas persuasivas ou de predisposição tornam fácil para os leitores ‘chegar as suas próprias conclusões’ - conclusões inteiramente de acordo com aquelas requeridas por Goffman. Esta é a qualidade sedutora da prosa de Goffman; é muito fácil ler as coisas à sua maneira (WATSON, 2004, p. 92).

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Segundo Malufe (1992), Erving Goffmam desfrutou de um privilégio de ser reconhecido em vida. Seus primeiros escritos fo-

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ram tidos como algo novo e valioso. Dentro e fora dos círculos profissionais da sociologia, foi forte o impacto dos seus escritos. Sua ascensão profissional foi rápida e esse próprio sucesso acabou por transformar-se em problema para todos os críticos e resenhadores, porque ele sempre foi polêmico ao longo dos seus trinta e tantos anos de vida acadêmica. Milhares de exemplares dos seus livros foram lidos em vários idiomas. O seu sucesso popular veio, surpreendentemente, associado a um interesse acadêmico, um tipo de associação mais comum de se ver no campo da literatura do que no das ciências humanas e sociais:
Se a leitura de Goffman é, ao mesmo tempo, fascinante e desconcertante é porque, sem jamais se afastar dos princípios do ofício do sociólogo, ele convida a comparar o incomparável, a mudar constantemente o vocabulário descritivo para que se possa permanecer o mais perto possível da experiência individual da vida social (JOSEPH, 2000, p. 11).

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Recebeu, em 1961, uma das maiores condecorações no meio profissional, a MacIver Award. Foi autor de onze livros, dentre os quais o maior best-seller da história da sociologia, “A Representação do Eu na Vida Cotidiana”, traduzido em quinze idiomas, com vendagem de mais de dois milhões de exemplares. A doença o vitimou quando estava ocupando o mais alto posto na hierarquia da sociologia acadêmica - a presidência da “American Sociological Association”. Morreu em 1982, aos sessenta anos e no apogeu da carreira. Velho (2004) explica que as pesquisas de Goffman começaram a ser mais divulgadas no Brasil por volta dos anos 60. A sociologia, no país, possuía naquele momento o marxismo e o estruturalismo como referência. O nacionalismo e o regime militar não estimulavam a divulgação de pesquisadores norte-americanos. Nos anos que se sucederam ao golpe de 64, a tendência era discriminar a produção norte-americana, tratada como empiricista. Antropólogos e profissionais da área psicológica passam a se interessar por Goffman mais para o fim da década de sessenta, a partir de maio de 1968. Há uma mudança e a valorização de outros tipos de cultura. É a época da contracultura, de estilos alterna-

tivos, aumentando o interesse por uma análise política do cotidiano. Assim há uma abertura maior em relação a estudos classificados de forma pejorativa como microssociologia. Começam a ser editados alguns de seus livros. Cresce o interesse por Goffman, aumentando com isso a aproximação entre antropólogos e a área psicológica. Goffman demonstrou um interesse pela vida cotidiana e a análise do cotidiano em uma perspectiva sócio-antropológica e das relações interpessoais, por isso incentivaram-se pesquisas e investigações interdisciplinares... “Goffman e Becker (...) não viam como barreiras os limites acadêmicos entre sociologia e antropologia. Atravessavam-nos e consideravam-nos desnecessários ou até fonte de mal-entendidos” (VELHO, 2004, p.41). Goffman tinha interesse por situações humanas particularmente penosas e empregava procedimentos não-convencionais de pesquisa ou rigor analítico. Na sua produção percebe-se a presença marcante de um diálogo com os clássicos através de alusões. Sem assumir uma postura erudita, possui uma linguagem acessível e trabalhada:
A questão relativa aos costumes sociais da linguagem foi importante para ele em todo o seu percurso (...) Se a linguagem é, para ele, um objeto de estudo fundamental, é também o seu principal instrumento de trabalho. É que Goffman escreve de uma maneira requintada, e este requinte irá aumentando à medida que a sua obra se constrói. Ele esculpe literalmente os seus textos, não por preocupação estética, mas para exprimir com a maior concisão possível, toda a complexidade da realidade social (WINKIN, 1999, p. 98).

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O trabalho de Goffman, segundo Gastaldo (2004), evidenciava aspectos da vida rotineira que não eram relevantes para as ciências sociais, mas ofereceram uma contribuição valiosa. “Sua descrição etnográfica de um hospital para doentes mentais deflagrou a luta antimanicomial no mundo” (GASTALDO, 2004, p. 9). O ponto de vista de Goffman passava despercebido para os leigos, mas modificou o olhar e o pensar sociológico sobre as interações, “sobre o deslocamento dos pedestres, sobre a ocupação social dos espaços públicos, sobre a atuação de vigaristas,

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mendigos, loucos, espiões e jogadores” (GASTALDO, 2004, p.9). Sua obra contém força até os dias atuais. Vinte e quatro anos depois de sua morte, os temas e os conceitos desenvolvidos por ele ainda estão em voga: “(...) é pelo estudo das civilidades da vida cotidiana que a sociologia de Goffman irrompe no debate das ciências sociais” (JOSEPH, 2000, p.14). Através das interações sociais, ele percebia a lógica da representação, captava as estratégias que os atores sociais simulavam para moldar sua imagem social: os sujeitos sociais se exibiam, encenavam, para impressionar, para se valorizar. Bordieux (2004) afirma que a pesquisa de Goffman consistia em olhar de perto a realidade social e de se colocar no próprio espaço das interações. A totalidade perfaz a vida social. Ele fez com que a sociologia valorizasse o infinitamente pequeno, o evidente e óbvio, tornando-se, dessa forma, uma referência para sociólogos, psicólogos, psicossociólogos e sociolingüistas.

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3.2

INTERAÇÃO SOCIAL

Com o objetivo de inserir o Interacionismo Simbólico na perspectiva do campo organizacional e no contexto da pesquisa social, utilizamo-no como referencial teórico, porque seu foco são os processos de inter-ação social. A abordagem dinâmica constitui uma preocupação dos sociólogos e antropólogos. Segundo Joas (1999), o Interacionismo Simbólico sustenta que a teoria deve ser desenvolvida observando-se as interações dos atores sociais na vida real. A partir desse ponto de vista, a finalidade da pesquisa será mostrar o que os atores sociais realmente fazem em determinados contextos, em processos observáveis de interação entre eles:
Ao lado das entidades constitutivas da sociologia, que são o coletivo (grupo, classe, população) e o indivíduo (ator, agente, sujeito), a microssociologia introduz, pois, um objeto novo, a situação de interação (JOSEPH, 2000, p.11).

Para esta teoria, as organizações não são regidas por regras únicas. As ações que a organização realiza são passíveis da interferência do ator social. A reflexão e o diálogo são necessários para a modificação de regras e normas e, também, para a sua manutenção e reprodução. A continuidade das organizações, para o interacionismo, está estritamente ligada à sua reprodução na ação. Seus objetivos organizacionais estão sujeitos a contradições, apresentam caráter condicional, transitório e podem assumir muitas formas diferentes: “A existência das organizações depende de sua contínua reconstituição na ação; se reproduzem na ação e por meio dela” (JOAS, 1999, p. 162). Dentro desta visão, a sociologia das organizações sugere que o funcionamento de uma organização torna-se viável com a existência de um processo flexível e permanente de negociação entre os vários atores sociais interessados na forma de divisão do trabalho. “(...) o princípio geral proposto por essa sociologia das organizações: elas devem ser concebidas como ‘sistemas de negociação contínua’” (JOAS, 1999, p. 162). A principal tarefa de uma sociologia das organizações é a reconstituição dos processos interacionais, definidos e desdobrados no tempo. A tese central é a da conversação diplomática, a qual mantém a instituição contínua da sociedade. De outra forma, esse processo encontraria o obstáculo de ser mal-entendido: “(...) de maior alcance é a tese de que praticamente todos os tipos de ordem social serão mal-interpretados se o papel dos processos de negociação não for considerado.” (JOAS, 1999, p.163) O ponto de vista teórico do interacionismo simbólico de Joas (1999) é que a interação social é um processo que molda o comportamento humano. O ator social tem um “eu” (self) que se torna objeto para si, se comunica consigo e age em relação a si: “O self para Mead surge e se desenvolve no processo da experiência dos indivíduos e suas ações, portanto no espaço das interações sociais.” (BAZZILLI et al., 1998, p. 59). O “eu” (self) precisa de uma visão reflexiva; o ator social, através de um processo de self-interaction, interage com o mundo, com outros e nessa interação define o significado de coisas: “Exige-se

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reflexão e diálogo não apenas para modificação de regras e normas, mas também para sua manutenção e reprodução” (JOAS, 1999, p. 162). Existem axiomas que definem a teoria do Interacionismo Simbólico, quais sejam:
Os atores sociais interagem tendo por referencial o significado que as coisas têm para eles (casa, carro), até mesmo pessoas (colega ou porteiro), categorias de indivíduos (simpático, antipático), instituições (faculdade ou prefeitura), virtudes (sinceridade, integridade); O significado destas coisas surge da interação social entre atores sociais. O mundo simbólico (o simbólico não é resultado nem do sujeito consigo, nem do sujeito com o objeto) é construído nas interações entre dois ou mais atores sociais. O momento no qual surge o “eu”, ou self, é um processo social que envolve a interação de atores sociais, o “eu”, ou self, surge através da relação com atores sociais. Os atores sociais se condicionam mutuamente. A individualidade é baseada nas interações e aquilo que o “eu”, ou self, faz é condicionado por aquilo que o ‘nós’ constrói socialmente; Através de um processo interpretativo desenvolvido pelas pessoas em interação, estes significados são modificados. Num primeiro momento, o ator social estabelece para si mesmo os simbolismos com os quais tem relação, especifica os significados que têm sentido para ele, depois seleciona, reagrupa e transforma-os de acordo com o ponto de vista da situação na qual ele se encontra e que está relacionado com suas ações;

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Quadro 1 - Axiomas que definem a teoria do Interacionismo Simbólico

Essas premissas oferecem uma percepção da sociedade formada por atores sociais que se engajam em atividades e/ou funções ao interagirem uns com os outros. Os atores engajados em ações dão início à vida social. A sociedade é vista como existindo em ação. As premissas anteriormente elencadas configuram-se uma linha de pensamento com um núcleo teórico comum, com uma identidade acadêmica: “Goffman (...) faz das interações sociais o objeto da sociologia como ciência específica.” (JOSEPH, 2000, p. 17) Por isso há relevância e influência das pesquisas dessa corrente na antropologia e sociologia, pois sua tarefa central é identificar o que na sociedade causa influência nos comportamentos individuais do ator social, assim como o que no ator social faz diferença para aspectos coletivos da sociedade. O quanto o comportamento individual, a interação social e o ator social são afetados pela es-

trutura social e também como os atores sociais podem, através de seus comportamentos, individual e coletivo, alterar as estruturas em que atuam. Não é possível conceber o ator social sem a sociedade e a sociedade sem o ator social, os dois são gerados na interação. Há influência do ator social na sociedade e vice-versa. A partir da interação, a natureza dual da relação ator social e sociedade gera o processo de individualização, que é derivado da socialização (JOAS, 1991). Smith (2004, p. 56) delineia os axiomas sociológicos que Goffman diz serem necessários para que a ordem social de interação face a face ocorra (Quadro 2):
1º O ator social encontra-se na presença dos outros atores sociais, fornece informações através da fala ou, de forma subjetiva, as transmite pela própria pessoa, ou são incorporadas e evidentes para todos ou para alguns; 2º O ator social é um receptor e emissor ao mesmo tempo, delimitando a capacidade de levar em consideração a atitude dos outros atores sociais presentes; 3º O ator social tentará filtrar a informação que fornece de forma a manipular, influenciar e controlar a sua exibição.

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Quadro 2 - Axiomas sociológicos da interação face a face

Conclui Smith (2004, p. 56) que para que haja interação face a face, os atores sociais devem ser capazes de sondar, monitorar os outros atores sociais, captar as atitudes dos outros atores sociais e controlar as informações sobre si mesmos. Em seu estudo sobre os rituais de interação, Goffman examina o trabalho de construção da face (GOFFMAN, 1999). Face significa os valores percebidos numa interação com o ator social. A face dá indícios da observação da identidade, do self, o qual é formado por características sociais reconhecidas e aceitas pelo grupo de atores sociais. As regras do grupo de atores sociais é que determinam a aceitação das faces em interação. Numa instituição total, a face, o “eu”, o self, a identidade é ameaçada ou deteriorada, podendo ser estigmatizada por parte ou por todos os membros do grupo de atores sociais, mesmo que a pessoa não apresente características físicas que induzam tal estado. Os egressos de uma instituição total não estão em condições de recompor a face em função de uma

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situação psicológica pouco favorável que viveram e também pelas condições sociais a que estavam submetidos. 3.2.1 A PERSUASÃO ENTRE ATORES SOCIAIS O livro “A Representação do Eu na Vida Cotidiana” pode servir como uma orientação. A partir dele é possível estudar a vida social do ponto de vista sociológico da manipulação da impressão, aplicável a qualquer estabelecimento social concreto. Poderia ser uma referência a ser utilizada no estudo de casos da vida social institucional. Um estabelecimento social é qualquer lugar no qual se realiza regularmente uma forma particular de atividade. Nesse espaço, há uma equipe de atores sociais que, em conjunto, apresenta-se à platéia utilizando regras de comportamentos sociais como decoro e polidez. Há uma região onde é preparada a representação, chamada de fundos. Também há uma onde essa encenação é apresentada, chamada região de fachada. A entrada nessas regiões é vigiada para evitar que a platéia ou auditório veja os bastidores. Entre os membros da equipe de atores sociais há certa conivência, fidelidade, lealdade, vigilância para que os segredos que possam prejudicar a representação não venham a público. Há certo consenso entre a equipe de atores sociais e a platéia para manter certo nível de concordância. Inconscientemente pode haver oposições, discordâncias, aparecendo assim papéis discrepantes como atores sociais ‘estranhos’ ao grupo. Eles são acolhidos como simpatizantes, mas na realidade visam apenas obter informações comprometedoras dos bastidores. O ponto de vista do livro “A Representação do Eu na Vida Cotidiana” é o de uma representação teatral, na qual se utilizam premissas, axiomas, princípios de caráter dramatúrgico. No palco, simulações são apresentadas. O ator social apresenta-se sob uma máscara de um personagem social para personagens sociais, projetados por outros atores sociais, a platéia social. Um estudo sobre as manifestações dramáticas certamente poderá sugerir um modelo de explicação sobre os momentos em que se deve sorrir, chorar, entonar, gesticular, etc., como ato de

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significação social. A expressão dramática, do ponto de vista social, não segue a norma da racionalidade, mas a de reconhecimento mútuo dos atores sociais sobre formas de vestir, gesticular, entonar, sorrir, chorar e assim por diante. A ação dramatúrgica abrange os seguintes momentos: o palco; ator (papéis sociais); o texto; as cenas; os meios de expressão. Todos, atores sociais, platéia e estranhos utilizam-se de técnicas para salvar o espetáculo, por essa razão é importante selecionar membros leais, disciplinados, discretos e uma platéia sem criticidade ou discernimento. Interação para Goffman (1999) é a influência recíproca dos atores sociais sobre as ações dos outros atores sociais. O papel social pode ser definido como a promulgação de direitos e deveres ligados a uma determinada situação social. Para Goffman (1999), há duas fontes de informação sobre o outro na representação. Uma é quando se tem alguma idéia de quem é a outra pessoa. A outra vai depender da comunicação que fluir na situação – a partir de sua conduta e aparência, supondo base na experiência anterior, confiando no que ele diz ou em documentos. Goffman (1999) diz, em seus estudos interacionistas, que todo ator social, em qualquer interação social, representa um papel, exibe-se aos outros atores sociais de forma estudada, planejada, estratégica, domina as opiniões e conceitos que possam ter dele. Para realizar esse intuito, utiliza-se de certos meios para representar sua performance, seu personagem diante de um público. Ele conhece a arte da persuasão, do contrário seus objetivos verdadeiros se desmascaram, se desnudam, se desvelam. Goffman (1999) diz que o método do diretor ou ator social em questão, visa garantir o mínimo de deslizes durante a representação como, por exemplo, a habilidade para encarnar o personagem e seu papel de forma espontânea, evitando gestos involuntários, a presença de espírito e de palco, o saber incitar e acolher brincadeiras da platéia, se resguardando emocionalmente, essas são habilidades que servem para poder contornar as situações de interação dramatúrgica que, ocasionalmente, podem ocorrer durante a representação. O ator ou diretor social é também

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alguém que possui autocontrole dramatúrgico, com um método e/ ou metodologia que comanda a expressão do rosto e da voz, dissimula a emoção real e simula uma emoção fictícia. Goffman (1999) diz que a vida pregressa de um líder espiritual, por exemplo, pode conter alguns segredos, mistérios, que se forem expostos ao domínio público, desacreditariam ou, no mínimo, enfraqueceriam a representação do seu papel social de líder e, conseqüentemente, as pretensões relativas à sua liderança, que como ator social ou diretor estava tentando projetar. Esses segredos podem envolver fatos escusos, bem dissimulados ou estigmas que todo mundo percebe, mas aos quais ninguém se refere. Segundo Goffman (1999), o ator social ou diretor prudente seleciona, estrategicamente, o tipo de público crente, puro, sem críticas, sem reflexão, sem consciência, sem informação, sem lógica, sem racionalizações, que não tenha pensamento livre e criativo, enfim, que não provoque contrariedades em termos da apresentação que o ator social ou diretor deseja encenar. Que não lhe coloque em xeque, não o exponha ao ridículo, não o desmascare, não o desmoralize, etc., só assim poderá ter êxito e iludir, do contrário, como diz Cohn, será desmascarado:
Se falha o êxito, seu domínio oscila (...) quando decaem (...) a fé dos que crêem em suas qualidades de líder, então seu domínio também se torna caduco (...) a autoridade carismática baseia-se na crença no profeta (...) e com eles cai (COHN, 1979, p.136-7).

Goffman (1999) salienta que, se o público tiver que assistir a apenas uma ligeira e breve palestra, apresentação, encenação, a possibilidade de uma situação constrangedora será relativamente pequena e será seguro, para o ator social ou diretor manter uma fachada falsa. Há uma técnica padronizada e defensiva de proteção. Ela neutraliza o risco ou probabilidade de se criar condições que favoreçam a intimidade entre atores sociais que interagem (Goffman, 1999). Os segredos são informações negativas. O ‘especialista num serviço’, como um diretor social ou cineasta, por exemplo, infor-

ma-se do drama particular dos atores sociais. Ele tem uma visão da coxia, dos bastidores, observa de camarote o que se passa, realmente, na vida íntima de cada um. Percebe o que eles tentam camuflar, com máscaras sociais engendradas estrategicamente, até como defesa dos seus pontos fracos e vulneráveis. Ele se informa de tudo a respeito dos outros. Essa informação é um poder, porém os outros não conhecem a sua real e verdadeira personalidade. Goffman (1999) diz que qualquer tipo de representação terá diferentes impactos, dependendo do modo como é dramatizada. Para tanto, estará camuflada de meios eficientes de exibição. Assim, a forma mais objetiva de poder é, freqüentemente, um meio eficiente de comunicação que funciona, principalmente, como uma representação para iludir o público. 3.2.2 INSTITUIÇÕES TOTAIS Goffman (1999) diz que há relevância sociológica nas pesquisas das instituições totais, porque são locais de condicionamento dos atores sociais, onde regras e normas de interação social coletiva e compulsória condicionam o comportamento interacional daqueles que pertencem ao grupo em interação com os atores sociais ou residentes permanentes. Também é um objetivo da instituição total a transformação do ator social num ser mais próximo de um ideal de perfeição... “Já se sugeriu também que um freqüente objetivo oficial é a reforma dos internados na direção de algum padrão ideal” (GOFFMAN, 1999, p. 70). Segundo Goffman (1999), as normas culturais condicionam como os atores sociais devem agir, socialmente, quando inseridos num determinado grupo social. As instituições totais limitam suas próprias atividades num único espaço físico, e as regras de comportamento garantem a identidade ideológica e filosófica do grupo:
A adoção das atitudes gerais de um grupo constitui parte essencial da organização do self, em seu sentido mais complexo, pois provoca no indivíduo o sentimento de pertencer a uma comunidade ao se apropri-

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ar, em sua experiência, de valores institucionalizados por essa comunidade (BAZILLI et al., 1998, p. 68).

Ao se fazer parte de uma instituição qualquer, um novo processo de socialização é iniciado, porque adere-se a seus padrões de interação. Podemos observar como um ator social modifica sua conduta de acordo com as circunstâncias. Isso se explica pelo fato de o ator social ser flexível e ter a capacidade de se adaptar ao meio social e cultural. O contexto, a conjuntura social influencia a atitude e, até, o pensamento do ator social, porque a instituição exerce seu domínio sobre o “eu” (self) ou personalidade dos seus membros, condicionando sua forma de pensar, sua ideologia, sua cultura, seus costumes, seus hábitos, sua conduta, sua postura:
Freqüentemente, pode-se observar como uma pessoa muda de comportamento, de acordo com as diversas situações dadas. Isto pode ser explicado pelo fato de fazer parte do indivíduo assumir papéis ou condutas adaptativas ao contexto social (BAZILLI et al., 1998, p. 63).

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A instituição é organizada por grupos e constituída pelas reações dos atores sociais em reciprocidade com as reações idênticas dos outros atores sociais, tal como a lei da física “uma ação provoca uma reação na mesma intensidade e sentido contrário”. Elas formariam as reações em cadeia entre atores sociais, os quais recebem estímulos sociais e que, por sua vez, constituem as instituições sociais. Portanto, o domínio ou controle social numa instituição total pode esmagar o “eu” (self) ou aniquilar sua personalidade, sua autoconsciência, porque se utiliza de normas e regras reacionárias, opressivas, estereotipadas e ultraconservadoras. Possui uma forma administrativa rígida e inflexível. Condiciona os “eus” (selfs) submetidos à sua organização de maneira a inibir ou coibir qualquer indício de comportamento e pensamentos criativos diferentes daqueles por elas instituídos. Somente as instituições totais suprimem a divisão entre as diferentes facetas da vida social e condicionam a participação do ator social sob uma única e mesma autoridade.

Todas as instituições têm tendência ao isolamento, umas mais que outras. Algumas estão abertas para quem se comporte de maneira servil, outras restringem a freqüência. Algumas são mais fechadas e nelas há uma obstaculização à interação social com o mundo aberto, com proibições à saída dos seus membros. Tais locais Goffman (1999) denominou instituições totais:
Usando a linguagem neutra que constrói para discutir as instituições totais, Goffman isola uma classe de objetos sociais que têm características bem definidas em comum, características essas que são empiricamente observáveis e que podem ser conectadas umas às outras em padrões verificáveis. Ele sabe fazer ciência (BECKER, 2004, p. 109).

As instituições totais podem ser classificadas em cinco categorias, segundo Goffman (1999): 1º - As que têm por finalidade cuidar de pessoas incapazes e que não apresentam uma ameaça à sociedade: casas para cegos, velhos, órfãos e indigentes; 2º - As que têm por finalidade cuidar de pessoas incapazes que são de maneira não-intencional uma ameaça à sociedade: sanatórios para hansenianos, tuberculosos, hospitais psiquiátricos; 3º - As que têm por finalidade isolar pessoas que intencionalmente são uma ameaça à sociedade: cadeias, penitenciárias, campos de prisioneiros de guerra, campos de concentração; 4º - As que têm por finalidade fundamentalmente instrumentar, treinar para uma tarefa específica ou trabalho: quartéis, navios, escolas internas, campos de trabalho, colônias, kibutz; 5º - Por último, as que têm por finalidade instruir religiosos. Servem, também, de refúgio do mundo: abadias, mosteiros, conventos e outros claustros como monastérios, comunidades alternativas, etc. Em todos os diferentes tipos, o ator social direcionado para o trabalho na sociedade aberta será desmoralizado pelo sistema da

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instituição total, porque é incompatível com a estrutura básica de trabalho e pagamento da sociedade aberta e/ou externa a ela:
Em algumas instituições, existe uma espécie de escravidão, e o tempo integral do internado é colocado à disposição da equipe dirigente. Neste caso, o sentido do eu de posse do internado pode tornar-se alienado em sua capacidade de trabalho (GOFFMAN, 1999, p. 21).

As instituições totais também são incompatíveis com a família, um pilar fundamental da sociedade aberta. Há vida comunitária, mas não há vida doméstica, familiar:
Independentemente do fato de determinada instituição total agir como força boa ou má na sociedade civil, certamente terá força, e esta depende em parte da supressão de um círculo completo de lares reais ou potenciais (GOFFMAN, 1999, p. 2).

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A instituição total suprime as distâncias físicas de locais apropriados e separados fisicamente para lazer, trabalho ou família. Todas essas instâncias da vida cotidiana são realizadas num mesmo espaço e sob uma mesma e única autoridade. As atividades cotidianas são feitas em companhia de grupos, e as tarefas não permitem usar criatividade. Não se respeitam as necessidades humanas individuais e todas as atividades são realizadas em conjunto. O desenvolvimento das tarefas é planejado e imposto, hierarquicamente, através de normas, regras, com o fim de atender às necessidades da instituição. Como há um contingente muito grande de atores sociais, faz-se necessário que haja supervisão e/ou coordenação, com o intuito de coagir todos a realizarem, em tempo e qualidade, o que foi determinado pela autoridade mentora. Por isso, as tarefas são examinadas, vistoriadas, avaliadas. O ator social interno é comumente condicionado por um processo sociológico de despojamento da identidade, para tanto sofre constantes humilhações, degradações, profanações do seu “eu” (self). A carreira, a vida familiar, as ocupações terapêuticas e a educação do ator social interno são interrompidas, criando-se, assim, um

estado estigmatizado e não há alívio momentâneo de tensões, como uma vida cultural (estudo, cinema, show, teatro, circo, espetáculo), social (bailes, reuniões, festividades), afetiva (família, amigos, vizinhos, colegas), sexual (parceiro(a)), lazer (rádio, TV, internet, telefone), viagens, passeios, livre-arbítrio, necessidades individuais, cidadania, diretos humanos, dignidade, criatividade, comunicação, interação:
Nas instituições religiosas, podemos encontrar teorias sofisticadas do ponto de vista sociológico quanto à necessidade de purificação da alma e penitência através da disciplina da carne (...) Nos conventos, encontramos teorias sobre a forma em que o espírito pode ser fraco e forte, e as formas em que seus defeitos podem ser combatidos (GOFFMAN, 1961, p. 72-309).

Nas instituições totais há sempre um grupo de atores sociais que tem contato restrito com o mundo externo. São os supervisores que, parcialmente, por questões de trabalho, são obrigados a ter contato superficial com o mundo externo. Até mesmo a interação entre os grupos de atores sociais internos residentes e os supervisores é restrita. A lacuna, o vazio, o hiato entre os dois grupos de atores sociais é um aspecto central da instituição total. No entanto, Goffman (1961) diz que há uma permeabilidade entre os padrões sociais das instituições totais e os da sociedade aberta, sendo que ambos influenciam-se mutuamente. Para se definir uma instituição como total, segundo Goffman (1999), ela tem que ser local de residência e trabalho, ao mesmo tempo, num único espaço físico. Deve abrigar e obrigar a convivência entre atores sociais em posição de igualdade, por um espaço de tempo razoável. Eles são confinados, enclausurados, internados, reclusos, fechados e isolados e não há quase interação social entre si e, muito menos, interação com o mundo aberto. O normal na sociedade aberta é que os atores sociais tenham diferentes locais para trabalhar, morem em locais diferentes do seu trabalho e convivam com seus familiares em outros locais ainda mais diferenciados, tenham seu lazer em locais específicos, onde possam encontrar atores sociais diferentes. Mas na instituição to-

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tal, segundo Goffman (1999), esse espaço físico que divide ou separa essas diferentes esferas ou áreas da vida diária são suprimidos. Todas as atividades são realizadas num mesmo local e sob uma mesma administração, portanto essa é uma das características que serve para defini-la. Segundo Goffman:
Uma instituição total pode ser definida como um local de residência e trabalho, onde grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, levam uma vida fechada e formalmente administrada (GOFFMAN, 1999, p.11).

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As tarefas diárias são obrigatórias e hierarquicamente impostas. São realizadas em conjunto, ou seja, com um contingente de atores sociais tratados de forma padronizada, sem levar em consideração suas diferenças, criatividades e seus livres-arbítrios, além de se estabelecer horários meticulosos para execução dessas mesmas tarefas, que são impostas com a finalidade de atender aos objetivos e interesses planejados racionalmente pela direção da instituição. Através de seus estudos, Goffman (1999) percebeu que, habitualmente, parece haver uma diferença entre as normas e regras instituídas pela sociedade aberta e as restritivas instituídas pela instituição total. Talvez, o ator social que não se adapte ao sistema de regras instituídas por uma instituição total possa não ser considerado inadaptado pela sociedade aberta, na qual ele agirá como um ator social comum, porque as regras limitadoras instituídas por uma instituição total qualquer não são comumente e/ou universalmente aceitas. As relações nas instituições totais são sempre de superioridade e subordinação, onde há a expectativa social que o ator social superior exerça controle sobre o comportamento do ator social subordinado (por ordens, proibição, etc). Assim, a desobediência ao comando de uma autoridade, na instituição total, pode resultar em sanções:
(...) fazer com que todos façam o que foi claramente indicado como exigido, sob condições em que a infra-

ção de uma pessoa tende a salientar-se diante da obediência visível e constantemente examinada dos outros (GOFFMAN, 1999, p. 18).

As normas e regras instituídas são aplicadas aos atores sociais ligados a ela mais ou menos contra a sua vontade e sem o seu consentimento. A capacidade de fazer regras e de aplicá-las a outros atores sociais representa essencialmente um poder, uma imposição, um domínio, um controle, porque são impostas, hierarquicamente, de cima para baixo. Goffman (1999) diz que o controle, a vigilância, a fiscalização a que são submetidos os atores sociais são características desses organismos. Há uma coação ou coerção permanente nas interações dos atores socais. Observa Goffman (1999) que estes são espaços ímpares onde se criam formas de interações sociais ‘sui generis’, adequadas exclusivamente a esse respectivo local: “O controle de muitas necessidades humanas pela organização burocrática de grupos completos de pessoas (...) é o fato básico das instituições totais” (GOFFMAN, 1999, p. 18). Ao contrário do que acontece na sociedade aberta, salienta Goffman (1999), as comodidades ou conforto material como objetos de consumo, um banho quente, uma cama macia, roupas de qualidade, lavada e passada, preferências alimentares ou objetos de higiene pessoal são suprimidos ao se residir, permanente ou temporariamente, numa instituição total ou fechada. O ator social não tem opção de escolha, não tem livre-arbítrio, porque não tem poder para tanto:
Um conjunto de bens individuais tem uma relação muito grande com o eu. A pessoa geralmente espera ter certo controle da maneira de apresentar-se diante dos outros. Para isso precisa de cosméticos e roupas (...) em resumo, o indivíduo precisa de um ‘estojo de identidade’ para o controle de sua aparência pessoal (GOFFMAN, 1999, p. 28).

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O residente de uma instituição total, segundo Goffman (1999), tem sua interação social restringida ao mundo confinado, isolado, enclausurado, recluso da instituição fechada. Ele se submete, assim, a uma desprogramação, a uma despersonalização de sua iden-

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tidade anterior e é programado e reeducado pelo grupo de atores sociais coordenadores que o supervisionam, vigiam, controlam, fiscalizam. Há, como conseqüência, um despojamento, um nivelamento, porque o ator social perde sua referência e identidade. Há um processo que obriga o residente a evitar problemas maiores, os quais teria, certamente, se tentasse impor sua vontade. Então ele se cala, abre mão dos seus direitos, vontades e preferências para se proteger de possíveis sanções e represálias. Nas instituições totais, ainda observa Goffman (1999), há um método, um processo, um sistema de coação ou coerção que constitui formas para obrigar todos residentes realizarem tarefas serviçais como afazeres domésticos, obrigando-os a submeterem-se a um papel indigno, subalterno, humilhante, subserviente, etc. Outra característica das instituições totais é a abolição da vida familiar. Turner (1974) ratifica essa idéia, pois sublinha que a vida em comunidades fechadas rompe com as premissas, com os pilares da sociedade aberta, tais como o casamento, o sexo, a família, a propriedade privada, etc. Para Goffman (1999) há, nas instituições totais, um processo de violação ao “eu” (self), no sentido de não se permitir liberdade, privacidade, livre-arbítrio, preferência, escolha em relação a seus bens. O ator social perde, assim, sua identidade, dignidade e cidadania, situação esta que tem, como conseqüência, um enfraquecimento, até uma involução irrecuperável do seu processo de aprendizagem mental, da sua educação intelectual, da sua vida profissional, do seu amadurecimento emocional, da sua auto-estima, da sua valorização e amor próprio:
Segundo a perspectiva ‘meadiana’, há instituições sociais opressivas, estereotipadas e ultraconservadoras. Essas instituições, em sua forma rígida e inflexível, atuam sobre os selfs envolvidos com ou submetidos a sua organização de maneira a inibir qualquer expressão de condutas e pensamentos diferentes daqueles por elas instituídos (BAZILLI et al., 1998, p. 95).

O processo dessociativo ou de associalização do ator social, diz Goffman (1999), é tão profundo que a interação com os atores

sociais do mundo aberto gera processos de pânico, estresse, angústia, ansiedade, depressão e medo, dificultando sua readaptação à sociedade, tornando-se, portanto, um ator anti-social. Normalmente, as instituições, para alcançarem seus objetivos, precisam impor certas normas e regras. O ator social, no decorrer da sua vida, pode pertencer a várias instituições sociais formadas por atores sociais ligados por parentesco, por interesses materiais ou por objetivos espirituais. Em todas as instituições sociais, ele ingressa voluntariamente e delas se retira quando bem desejar, sem que ninguém possa coagi-lo a permanecer, mas do estigma de ter feito parte de uma instituição total, o ator social não se libertará jamais, porque a influência sobre o seu “eu” (self) torna-o substancialmente muito diferente dos demais atores sociais da sociedade aberta. Pelo menos foi essa uma das constatações de Goffman:
Podemos passar agora para uma consideração da angústia da liberação (...) Um fator que tende a ser mais importante é a desculturação, a perda ou impossibilidade de adquirir os hábitos atualmente exigidos na sociedade mais ampla (GOFFMAN, 1999, p. 69).

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Alguns atores sociais que seguem, por vocação, a vida religiosa e entram para uma instituição espiritual de clausura, submetem-se, voluntariamente, às humilhações do “eu” (self), preferem uma vida ascética de flagelação, de mortificação com fins de purificação espiritual e transcendência do ego. Já os atores sociais que vivem na sociedade aberta se incomodariam com o fato de terem seus cabelos raspados. Isso seria tomado como uma violação à sua integridade física. Mas o monge pode se agradar disso, mesmo que seu corpo seja violado e sua aparência fique desfigurada. Por este e muitos outros motivos, alguns atores sociais convergem para instituições totais que servem de refúgio e fuga do mundo, como abadias, mosteiros, conventos, claustros, ashrams (comunidade liderada por um guru - no oriente) e monastérios:
(...) instituições religiosas que lidam apenas com aqueles que acham que foram chamados e, destes voluntá-

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rios, tomam apenas aqueles que parecem os mais adequados e mais sérios nas intenções. Em tais casos, a conversão parece já ter ocorrido e apenas restará mostrar ao neófito ao longo de que linhas poderá melhor autodisicplinar-se (GOFFMAN, 1961, p. 328).

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Numa sociedade aberta, quando um ator social tem que aceitar ordens que invadem sua individualidade, sua privacidade, liberdade e livre-arbítrio, ele tem certa autonomia para reagir e defender-se, nem que seja só em termos de expressão facial. Ele tem certa válvula de escape, pode externar mal-humor, reagir com indelicadeza, mostrar má vontade, agir com fingimento, utilizarse de certa hipocrisia, tornar-se cínico, irônico, fazer caretas escondidas, sussurrar palavrões ditos em voz baixa. Nas instituições totais, qualquer comportamento semelhante é passível de sanções e represálias. Este poder de pressão, coação, através da representação, é dramatizado por meios eficazes para sua comunicação e terá diferentes efeitos, dependendo do modo como é dramatizado. A forma de poder mais direta atua, principalmente, como uma representação para iludir a platéia e é, freqüentemente, uma forma de comunicação. 3.2.3 COMUNIDADE DESVIANTE Durante a mudança do século XX para o século XXI, houve um período de transição (MORIN, 1996) e incertezas, quando surgiu a dialética entre o presente e o futuro, uma mudança de paradigmas. Foi o fim das certezas até no campo científico, como bem se refere Ilya Prigogine no título de um livro seu muito conhecido nos meios científicos, “O fim das certezas” (PRIGOGINE, 1996): “As pessoas necessitam de algo que as tranqüilize com relação às incertezas da vida” (WEBER, 2000, p. 212). Dentro desse contexto surgiu Trigueirinho re-anunciando a era de Aquário num movimento tão diverso quanto a contracultura da década de 1960, que tinha suas raízes na New Age. Trigueirinho anunciava em suas profecias que a transição ao milênio aquariano, de amor e fraternidade, seria plena de violên-

cia e riscos para os espiritualmente despreparados. Mas, por outro lado, os que estivessem em harmonia com a operação resgate liderada por ele ingressariam numa nova era de iluminação espiritual, orientados por seres intraterrenos, superiores e avançados, emissários de uma civilização extraterrestre, cujas espaçonaves eram os ovnis, ajudariam a criar uma nova civilização:
Se dezenas de escatologistas mostraram estar errados, a resposta não é que um deles mostrará estar certo um dia, mas que muitos deles revelaram-se influentes demais - destrutivos, construtivos, inspiradores, consoladores - e que é tolice os historiadores rejeitá-los ou, pior ainda, não tomar conhecimento deles (WEBER, 2000, p. 248).

A confusão, a incerteza e a insegurança nas relações sociais, segundo Gilberto Velho (1974), fez com que alguns atores sociais se sentissem perdidos. Eles poderiam ter optado por um comportamento de adaptação aos valores culturais, que no entender de Merton (1968) chamava-se ‘retraimento’. Eram atores sociais que se adaptavam mal aos objetivos culturais da sociedade, não compartilhavam e repudiavam a escala comum de valores, os objetivos culturalmente preestabelecidos. Estavam à margem. ‘Outsider’ de acordo com Becker (1977). Os seus comportamentos não se ajustavam às normas sociais:
(...) os desviantes intra-grupais, desviantes sociais, os membros de minorias e as pessoas de classe baixa algumas vezes, provavelmente, se verão funcionando como indivíduos estigmatizados, inseguros sobre a recepção que os espera na interação face a face, e profundamente envolvidos nas várias respostas a esta situação (GOFFMAN, 1988, p. 157).

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O termo estigma na Grécia descrevia os sinais no físico utilizados para identificar o escravo, o traidor ou o criminoso. Contemporaneamente não existe mais a identificação física do estigma, mas existem os estigmatizados. São aqueles que por algum motivo não são aceitos em determinada comunidade, porque se afastam das expectativas sociais, culturais, econômicas, intelectuais, físicas, etc. Os sentimentos destes são de fracasso e derrota.

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Suas resignações sociais podem se manifestar como um mecanismo de fuga e abandono da sociedade, convergindo para comunidades desviantes (GOFFMAN, 1988), onde entram em contato com seus semelhantes formando uma subcultura. “Teoricamente, uma comunidade desviante poderia vir a desempenhar para a sociedade em geral algumas das funções desempenhadas por um desviante intragrupal para o seu grupo” (GOFFMAN, 1988, p. 156). Segundo Goffman (1988), os que se juntam numa subcomunidade podem ser classificados como desviantes sociais e sua vida em comum, em conjunto, pode ser denominada comunidade desviante ou destoante. Atores sociais que negam a ordem social e se engajam coletivamente numa subcomunidade formam uma subcultura. Estes atores não possuem motivação de progredir segundo os valores aprovados pela sociedade. Por exemplo, um ator social solteiro que não deseja constituir família pode ingressar numa subcomunidade que se rebela contra o sistema familiar: “(...) optaram fugir da ordem social ligada ao status e adquiriram os estigmas dos mais humildes (...) e subalternos em qualquer ocupação casual de que se incumbam. Valorizam mais as relações pessoais do que as obrigações sociais” (TURNER, 1974, p. 138):
O estresse da vida industrial induz um número cada vez maior de cidadãos a acalentar a idéia de um retorno ao ritmo lento da sociedade rural, sem o tráfego e as corridas frenéticas entre a casa, o escritório, os cursos e supermercado (DOMENICO DE MASI, 2006, p. 66).

Os desviantes sociais, descreve Goffman (1988), orgulham-se de sua rebeldia e evitam as divergências (Velho, 1974), restringindo-se à proteção autodefensiva de viverem isolados numa subcomunidade. Ali não se sentem mais deslocados como na sociedade aberta. Sentem-se melhores, superiores, exemplos e modelos de vida para os atores sociais da sociedade aberta e angariam simpatizantes e adeptos:
Os profetas e os artistas tendem a ser pessoas liminares ou marginais, ‘fronteiriços’ que se esforçam com veemente sinceridade por libertar-se dos clichês

ligados às incumbências da posição social e à representação de papéis (TURNER, 1974, p. 155).

Turner (1974) diz que a ‘communitas’ era formada por um conjunto de atores sociais concretos e idiossincrásicos que, apesar de serem diferentes quanto aos seus físicos e personalidades, eram iguais do ponto de vista da humanidade comum a todos. Buscavam uma transformação profunda, onde encontravam algo profundamente comunal e compartilhado: sua alma ou humanidade, sua ‘comum unidade’.

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4 MÉTODO DE GOFFMAN E SUA APLICAÇÃO NA INTERAÇÃO SOCIAL DE “FIGUEIRA”
Num primeiro momento, descrevemos o método de pesquisa criado por Goffman, para observar de forma participativa as interações. Em segundo lugar, descrevemos o procedimento teóricometodológico utilizado na pesquisa de campo em “Figueira” de acordo com a metodologia Goffminiana. Numa terceira instância, definimos as categorias de análise dos ritos da instituição e dos ritos da interação extraídas do referencial teórico. Em quarto lugar, listamos o material empírico e o classificamos em categorias. Por fim, fazemos algumas considerações finais. 4.1 PROCEDIMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS Tomamos ciência da comunidade “Figueira” por intermédio da cadeira de cinema da Faculdade de Comunicação Social da PUCRS (FAMECOS). Trigueirinho é conhecido neste meio, porque foi um diretor premiado na fase do Cinema Novo brasileiro, em 1960, com o filme “Bahia de todos os Santos”. É importante ressaltar que esta pesquisa sobre “Figueira” é pioneira. Não existiam estudos, ensaios, artigos, textos acadêmicos anteriores sobre esta organização. Desbravamos um novo caminho de pesquisa e construímos um novo saber, um novo conhecimento. O ineditismo tornou-a trabalhosa. Levamos seis anos para realizá-la. Tivemos paradas que foram muito frutíferas, pois procuramos pôr em prática o que o sociólogo Domenico de Masi chamou de ócio criativo, isto é, utilizar o tempo de lazer, o tempo recreativo para criar, produzir sem pressão, sem estresse. Esperamos que todo esse trabalho sirva para amenizar posteriores estudos e aprofundamentos sobre o mesmo tema. Talvez por ser uma pesquisa pioneira, ela sirva de referência. Poderíamos optar pelo viés do ‘messianismo’ estudado pela

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Maria Queiroz, pelo recorte do ‘poder’ ou ‘vigilância e punição’, estudado por Foucault, pelo viés do ‘líder carismático’ pesquisado por Max Wever, pelo recorte de ‘comunidade’ e ‘liminaridade’ estudado por Victor Turner, pelo viés do ‘desvio de divergência’, pesquisado por Gilberto Velho, pelo recorete das organizações nãogovernamentais (ongs), estudas pela Maria da Glória Gohn, pelo viés da psicologia ou teologia, etc., mas optamos pelo Interacionismo Simbólico e pela trilogia de Goffman que trata das instituições totais, da representação do “eu” na vida cotidiana e do estigma. Procuramos, então, seguir a metodologia de pesquisa utilizada por Goffman. WINKIN (1999) disse que Goffman, em sua tese de doutorado na comunidade das Ilhas Shetland, construiu sua própria metodologia.
No trabalho de análise, a abordagem dramatúrgica é um meio de ordenar as informações (...) Método que possibilita descrever as técnicas de manipulação da impressão, com suas várias inter-relações dentro do ambiente, observando os possíveis problemas de identidade (BAZILLI et al., 1998, p. 126).

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Goffman apresentou-se aos moradores das Ilhas Shetlands como um estudante universitário que desejava obter informação direta sobre a economia insular. Ele se colocou no próprio espaço da pesquisa de campo, ou seja, no espaço das interações dos moradores. Ali pôde perceber o infinitamente pequeno, o evidente e o óbvio. Procurou tornar-se tão aceitável quanto possível aos habitantes das ilhas, não lhes colocando muitas questões e não os observando com os olhos arregalados. Não utilizou questionários, gravador, câmera de filmar. Tomava algumas notas escondidas durantes alguns acontecimentos públicos. Mais tarde, já conhecido e mais participante observador do que observador participante, vai simplesmente reviver as interações e relatá-las no seu diário elaborado à noite no silêncio do seu quarto. Goffman teve a oportunidade de observar as crises interacionais que surgem, por vezes, no meio desses pequenos grupos de atores sociais. Ele participava das atividades mais informais. Durante estas atividades, observou as interações em forma de conversa.

A interação, que é objeto da atenção de Goffman, denominase conversacional. Ele observou o desenrolar da comunicação na atmosfera dos espaços cotidianos e afastou toda a preocupação com as características macrossociológicas da comunidade. Eliminou todo interesse pelos traços que distinguiam esta ilha de uma outra e começou a examinar as interações sociais que se assemelhavam às dos lugares mais impessoais da vida moderna. Rejeitou o tempo e o espaço, anulou a tradição da história, evitando a intimidade e a amizade. Com isto, criou as condições do homem social puro, do homem interacional puro. Verificou as condutas mais impessoais das Ilhas Shetland. O resto não lhe interessava. Isto justificava sua posição de que o estudo se desenrolou na comunidade das Ilhas Shetland, mas não era um estudo da comunidade das Ilhas Shetland. Através de indícios simples nas interações, este pesquisador captou a lógica do ato de encenação, o conjunto de estratégias para exibir uma imagem social que valorizava o ator, que causava uma boa impressão, que distinguia um do outro. Ele tinha especial predileção pelas interações humanas no cotidiano, aspectos por vezes despercebidos pelos leigos e que não eram considerados relevantes pela maioria dos sociólogos. No entanto, esses detalhes modificaram o pensar sociológico no mundo. “Goffman emprega procedimentos não-convencionais de pesquisa ou rigor analítico, possui uma linguagem acessível e trabalhada literariamente” (MALUFE, 1992, p. 16). Pelo menos sua descrição etnográfica sobre o hospital psiquiátrico de doentes mentais Santa Elizabeth colaborou para deflagrar a luta antimanicomial no mundo:
Ele descreve e analisa práticas sociais de encarceramento e degradação que repelem e mesmo enojam muitos leitores, e que nos provocam sentimentos de vergonha, por vivermos em uma sociedade na qual tais coisas aconteceram e continuam a acontecer. Suas descrições detalhadas e completas tornam impossível ignorar a existência continuada dessas atividades organizadas e socialmente aceitas, e têm, ocasionalmente, instigado tentativas de reformá-las (BECKER, 2004, p. 103).

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“Goffman realizou um duplo trabalho: o do etnógrafo e o do sociólogo” (JOSEPH, 2000, p. 35). A fusão do sociólogo e do etologista serviu como uma vantagem a mais para o sociólogo, uma vez que a linguagem do corpo que via nas ruas estava conectada com os contextos antropológicos de todas as interações sociais. Tornava-se, assim, um critério de julgamento das formas institucionais de controle social e dos esquemas explicativos da socialização:
A proposta de Goffman é que se examine a organização da experiência social, em termos de certos princípios básicos que estejam simultaneamente presentes, tanto na organização dos próprios eventos como na organização do nosso envolvimento subjetivo neles - princípios básicos aos quais nós recorremos sempre que procuramos uma resposta para a pergunta: ‘O que é isto que está acontecendo aqui?’ (MALUFE, 1992, p. 21).

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4.2 A PESQUISA DE CAMPO SEGUNDO O MÉTODO DE GOFFMAN Este estudo das instituições totais e, particularmente, do mundo dos atores sociais, denominados por nós como hóspedes e/ ou visitantes itinerantes da comunidade “Figueira”, tem como um dos seus interesses principais avaliar, o mais possível, a versão sociológica do “eu” (self) em interação nesta organização. Ao contrário de Goffman, acentuamos o mundo do ator social não-internado, dos hóspedes e/ou visitantes itinerantes que se hospedam em “Figueira” e que, ao interagirem com os atores sociais ou residentes permanentes – fazendo parte ou não da equipe dirigente –, entram em conflito em função de diferentes personalidades, comportamentos, interesses, objetivos, hábitos, costumes, usos, criando-se, assim, um clima constante de conflito, discórdia, etc. Apresentamo-nos como colaboradores e ficamos hospedados em “Figueira” como alguém que simpatizava com sua cultura espiritual, mas evitamos a intimidade e a amizade, até porque estas condutas são condenadas. Colocamos-nos no próprio espaço das

interações, no próprio campo de pesquisa propriamente dito, para fazer uma observação participante das interações, para verificar como a integração faz a vida social acontecer. Procuramos nos integrar à vida cotidiana sem chamar a atenção e acompanhar o óbvio, o corriqueiro, o pequeno, o evidente, o cotidiano, etc. Não pudemos usar gravadores, filmadoras, nem fotografar. Estes instrumentos são proibidos. Também não fizemos questionários, porque chamaria muita atenção e tiraria a espontaneidade, a naturalidade das pessoas analisadas. Tomávamos, inicialmente, pequenas notas aqui e acolá escondidas. Mais tarde, já mais acostumados com a rotina, tomávamos notas à noite, no quarto, mesmo estando, quase sempre, em quartos coletivos. Hospedados e vivendo no meio deles, tivemos a oportunidade e o privilégio de presenciar comunicações, interações e conversas cotidianas interessantes e bastante elucidativas da sua cultura ímpar ou singular. Queremos informar que fizemos uma observação participante das interações que se passam na comunidade “Figueira”, portanto não realizamos um estudo, propriamente dito, da comunidade “Figueira.” Não pesquisamos as características macrossociológicas da comunidade, não levamos em conta o tempo, a história, mas somente estudamos o seu espaço e traços característicos. Procuramos examinar as interações impessoais que podem ocorrer numa comunidade por divergências nas relações de poder. Portanto, coletamos informações da organização “Figueira” seguindo, passo a passo, o método criado por Goffman. A comunidade “Figueira” localiza-se na área rural e urbana, na cidade de Carmo da Cachoeira, Estado de Minas Gerais. Foram seis observações participantes ao todo no campo de pesquisa. O tempo de permanência em “Figueira” é determinado por eles. A primeira foi nas férias acadêmicas de verão, porque, obviamente, tínhamos mais tempo e porque nesta época afluem mais atores sociais ao local. Realizou-se no primeiro semestre de 2001, em janeiro, por dez dias consecutivos; a segunda, nas férias acadêmicas de inverno, por termos mais tempo e por irem mais pessoas para lá nesta época, portanto realizou-se no primeiro semestre de 2001, em julho, por quinze dias consecutivos; a terceira observa-

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ção foi no primeiro semestre de 2004, em julho, também nas férias acadêmicas de inverno, por sete dias consecutivos; a quarta, no primeiro semestre de 2005, nas férias acadêmicas de verão, em fevereiro, por quinze dias consecutivos; a quinta foi no primeiro semestre de 2006, em fevereiro, nas férias acadêmicas de verão, por sete dias consecutivos. A sexta e última foi no primeiro semestre de 2006, em julho, por cindo dias. Além disso, fizemos duas pesquisas de campo na comunidade Nazaré, situada na cidade de Nazaré Paulista, interior do Estado de São Paulo, as quais se realizaram nas férias de verão do ano 2003, mais precisamente em janeiro, por uma semana, retornando novamente em fevereiro por quinze dias. Fizemos várias outras pesquisas de campo nos subgrupos ou rede de serviço de Porto Alegre. Realizamos reuniões com atores sociais do grupo e fizemos algumas observações participativas nas audições públicas. Também pesquisamos a bibliografia, exclusivamente utilizada para consulta interna, do grupo de “Figueira” e das redes de serviço, pesquisamos a bibliografia das obras publicadas pelo Trigueirinho, algumas indicações bibliográficas apontadas pelo próprio Trigueirinho em seus escritos tais como: ‘Revistas de Sinais’, ‘Jornais de Sinais’, ‘Boletim de Sinais’, textos e artigos na internet, seu filme “Bahia de todos os Santos”, seus VHS, CDS, fitas k-7, seus artigos críticos publicados na Revista ‘Anhembi’, editada pela USP, algumas críticas especializadas em cinema sobre sua obra. Quase todas as fontes citadas estão anexadas. Consideramos necessária sua anexação para futuras consultas de pesquisadores que não disponham de tempo ou condições financeiras para ir até “Figueira”. Conforme Becker (1977) aconselha, esclarecemos que a pesquisa foi feita como hóspedes e/ou visitantes. Este autor enfatiza que a neutralidade ideal na pesquisa dificilmente é atingida, assim se torna necessário dizer em qual ponto de vista nos situamos:
Na verdade seria possível fazer uma pesquisa que não seja contaminada por simpatias pessoais e políticas? Proponho argumentar que isso não é possível e, portanto, que a questão não é se devemos ou não tomar partido, já que inevitavelmente o faremos, mas sim de que lado estamos nós (BECKER, 1977, p. 122-36).

A presente pesquisa foi realizada buscando compreender os atores sociais denominados hóspedes e/ou visitantes itinerantes que permanecem temporariamente em “Figueira” e que, ao interagirem com os residentes ou internos, sejam auxiliares ou coordenadores, entram em conflito em função da sujeição hierárquica. Isto gera um clima de tensão permanente, pois as disciplinas, normas, regras e tarefas impostas pelo grupo de “Figueira”, liderado por Trigueirinho, interferem no “eu” (self) ou personalidade deles. Goffman (1999) salienta que há um interesse sociológico nas pesquisas sobre instituições totais, porque nestes espaços, as regras e normas condicionam, obrigatória e compulsoriamente, como os atores sociais devem pensar, comportar-se e interagir coletivamente, em virtude de pertencerem ou não àquele grupo específico. Nossa hipótese é que “Figueira” possa ser classificada parcialmente como uma instituição total por possuir muitas características semelhantes às das instituições totais. O mais importante é a percepção de que essa sua forma de administrar pode condicionar o “eu” (self), o comportamento, o pensamento e até os sentimentos dos que estão ligados a ela direta ou indiretamente. 4.3 CATEGORIAS DE ANÁLISE DOS RITOS DA INSTITUIÇÃO DIMENSIONADAS COMO CATEGORIAS ABSORVENTES As categorias absorventes das instituições totais tendem a absorver em si os sujeitos por processos de socialização, apartação, inclusão, identificação, etc. Estas categorias absorventes baseiam-se em interações que anulam a intersubjetividade nas interações.
(...) toda institución absorbe parte del tiempo y del interés de sus miembros (...) la tendencia absorbente o totalizadora está simbolizada por los obstáculos que se oponen a la interacción social con el exterior y al éxodo de los miembros (GOFFMAN, 1972, p. 17-18).

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As instituições totais podem ser classificadas em cinco categorias, segundo Goffman (1999):
1ª - As que têm por finalidade cuidar de pessoas incapazes e que não apresentam uma ameaça à sociedade: casas para cegos, velhos, órfãos e indigentes; 2ª - As que têm por finalidade cuidar de pessoas incapazes que são de maneira não-intencional uma ameaça à sociedade: sanatórios para hansenianos, tuberculosos, hospitais psiquiátricos; 3ª - As que têm por finalidade isolar pessoas que intencionalmente são uma ameaça à sociedade: cadeias, penitenciárias, campos de prisioneiros de guerra, campos de concentração; 4ª - As que têm por finalidade fundamentalmente instrumentar, treinar para uma tarefa específica ou trabalho: quartéis, navios, escolas internas, campos de trabalho, colônias, kibutz; 5ª - Por último, as que têm por finalidade instruir religiosos. Servem, também, de refúgio do mundo: abadias, mosteiros, conventos e outros claustros como monastérios, comunidades alternativas, etc.

Quadro 3 – Categorias das Intituições Totais-Goffman

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ANÁLISE A comunidade “Figueira”, que serve de objeto para esta pesquisade para sua operação;, pode ser enquadrada tanto na quarta, quanto na quinta das categorias. Na quarta, pelo fato de se organizar como uma fazenda com produção própria, que conta com mão-de-obra voluntária e gratuita para sua operação, isto é, semelhante ao que acontece em um kibutz. Enquadra-se de maneira mais enfática na quinta, na medida em que nesta há um monastério (um masculino e um feminino, um eremitério misto, com a finalidade de instruir religiosos, também de servir de refúgio do mundo) sendo, ao mesmo tempo, uma comunidade alternativa.

a.As instituições totais limitam suas próprias atividades, funções e tarefas dentro de um mesmo espaço físico, e as normas de conduta garantem a identidade do grupo. b.As instituições totais são espaços de condicionamento de atores sociais, onde regras e normas de interação social, seguidas de forma coletiva e compulsória, modelam o comportamento interacional daqueles que fazem parte do grupo. c.Ao fazer-se parte das instituições totais, adere-se a novos padrões de interação. Um novo processo de socialização é iniciado. O ator social assume o novo código de comportamento, porque se adapta ao novo conceito interacional. d.As instituições totais influem na conduta do ator social, exercem seu controle sobre o comportamento, tornando-se um fator determinante no pensamento do ator social. e.As instituições totais são reacionárias, opressivas, estereotipadas, ultraconservadoras. Através do controle podem esmagar o ator social ou aniquilar sua individualidade, podendo vir a perder sua consciência reflexiva. f.Existem instituições totais como abadias, mosteiros, conventos, claustros, monastérios, comunidades religiosas que têm por finalidade instruir religiosos, servem de refúgio do mundo. g.Nas instituições totais, há uma invasão ao “eu” (self) do residente, que é desprogramado, despersonalizado de seu “eu” (self) anterior, reprogramado e reeducado pelo grupo de residentes que o supervisionam, vigiam, fiscalizam e controlam. h.Nas instituições totais, há um processo de desconstrução do “eu” (self). Não se permite ao ator social ter uma vida individual. Ele é despojado de seus bens, de suas preferências, de seus gostos, de suas escolhas, de seu livrearbítrio, de sua liberdade, de sua identidade, de sua personalidade, de seus direitos humanos, de sua cidadania, ocasionando uma involução no seu desenvolvimento educacional, profissional, emocional, de sua auto-estima, autovalorização e amor próprio.

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Quadro 4 - Categorias de análise dos ritos da instituição

4.3.1 ANOTAÇÕES DAS OBSERVAÇÕES DE CAMPO DOS RITOS DA INSTITUIÇÃO JÁ CATEGORIZADAS

1ª ANOTAÇÃO DE OBSERVAÇÃO PARTICIPATIVA Observamos uma hóspede visitante, de nacionalidade Argentina, afirmar que ficou em “Figueira” durante vinte dias. Tentou sair antes do tempo acordado, mas não conseguia passagem de retorno. Disse que não sentia mais seu corpo, que ele não respondia mais ao seu comando de tão cansada que estava. Já não tinha

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mais reflexos, porque era obrigada a acordar, algumas vezes, às quatro horas para ir trabalhar na horta e pomar com frio e chuva. Ela afirmou, também, que dos vinte argentinos que a acompanharam em “Figueira”, todos saíram antes do tempo acordado com o setor de hospedagem, porque não agüentaram o regime de trabalho e horários estabelecidos. Essa observação pode ser classificada, de acordo com a taxonomia anteriormente apresentada na categoria “e”, a qual diz o seguinte: “As instituições totais são reacionárias, opressivas, estereotipadas, ultraconservadoras. Através do controle podem esmagar o ator social ou aniquilar sua individualidade, podendo vir a perder sua consciência reflexiva.” ANÁLISE Em “Figueira”, conforme foi observado, e em sintonia com as categorias de Goffman, pode-se perceber uma rigidez em termos de horários, normas e regras impostas, hierarquicamente, pelo grupo dirigente. Este grupo é composto pelos residentes auxiliares e pelos residente-coordenadores, objetivando atender às necessidades de “Figueira”. 2ª ANOTAÇÃO DE OBSERVAÇÃO PARTICIPATIVA Observamos no dia da vigília mensal – um dia dedicado ao silêncio externo e interior, que todos eram obrigados a participar – , Trigueirinho falar sobre a necessidade de lavar os pecados no ritual de lava-pés. Também se observou uma visitante dizer que estava entusiasmada, a qual falou ao Trigueirinho que desejava lavar não só os seus pés, mas todo seu corpo e todos os seus pecados. Pretendia fazer isto na cachoeira que existia na zona rural da cidade de Carmo da Cachoeira. No mesmo dia, porém mais tarde, uma das coordenadoras, ex-professora universitária do Rio de Janeiro, disse-lhe que não era permitido, ir tomar banho na cachoeira ou ir à cidade, e fazer atividades independentes do grupo. Essa observação pode ser enquadrada na categoria “a” das classificação apresentada, a qual diz o seguinte: “As instituições

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totais limitam suas próprias atividades, funções e tarefas dentro de um mesmo espaço físico e as normas de conduta garantem a identidade do grupo”. ANÁLISE Além das regras estabelecidas pela coordenação, o próprio grupo atua como um fator de condicionamento de comportamento em “Figueira”. Isto se deve ao fato de que o interesse do grupo está acima das individualidades, portanto o ator social encontra-se subordinado ao condicionamento coletivo, do contrário teria conflitos passíveis de sanções que restringiriam sua independência, liberdade e livre-arbítrio. Os supervisores de “Figueira” tentam dirigir as atividades dos atores sociais subalternos por meio da persuasão, manipulação, punição, coerção e ameaça. Demonstram o que querem impor como padrão, e mostram, sutil e ameaçadoramente, o que farão caso isto não seja cumprido em tempo, qualidade e quantidade. 3ª ANOTAÇÃO DE OBSERVAÇÃO PARTICIPATIVA Percebemos, em determinado momento, uma colaboradora falar que já não afluíam mais pessoas, em “Figueira”, como antigamente. A maioria desistia de retornar, porque não suportava tantas normas, regras, horários, trabalhos pesados e alguns tratamentos humilhantes por parte dos residentes. Essa observação pode ser classificada na categoria “g”: “Nas instituições totais, há uma invasão ao “eu” (self) do residente, que é desprogramado, despersonalizado de seu “eu” (self) anterior, reprogramado e reeducado pelo grupo de residentes que o supervisionam, vigiam, fiscalizam e controlam.” ANÁLISE Há em “Figueira” a adoção de regras e normas que são mais restritivas em relação às da sociedade aberta. Isto se expressa, como

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já foi destacado, em horários e tarefas que conflitam com o ritmo da vida fora da comunidade. Além da rigidez das normas, observase uma dinâmica, previamente estabelecida, que impede a flexibilização da forma de realizar as coisas de forma criativa. Como nas demais instituições totais, estas estratégias objetivam condicionar os partícipes, submetendo-os à vontade coletiva. 4ª ANOTAÇÃO DE OBSERVAÇÃO PARTICIPATIVA Observamos uma visitante dizer que achou a comida horrível, não tinha sal, açúcar, tempero. O caldo do feijão era aguado, o arroz integral era grudado, o pão integral era duro, alguns legumes não eram cozidos e servidos crus e com casca, o café da manhã era um caldo de polenta aguada, não serviam leite, manteiga, iogurte, queijo, nada de origem animal. Serviam apenas no café da manhã: chá verde, pão integral com uma pasta de soja salgada, chamada missô. A dieta de “Figueira” é vegetariana, sem sal, sem açúcar, sem temperos, sem óleo, sem carne, ovos, laticínios e café preto. Não se pode beber bebida alcoólicas ou fumar. Como não mastigavam, alguns tiveram, em função disto, seus dentes afrouxados. Os participantes faziam as refeições em silêncio, sentados fora da mesa e com os pratos apoiados nas pernas. Essa observação pode ser inserida na categoria “h”, que descreve o seguinte: “Nas instituições totais, há um processo de desconstrução do “eu” (self). Não se permite ao ator social ter uma vida individual. Ele é despojado de seus bens, de suas preferências, de seus gostos, de suas escolhas, de seu livre-arbítrio, de sua liberdade, de sua identidade, de sua personalidade, de seus direitos humanos, de sua cidadania, ocasionando uma involução no seu desenvolvimento educacional, profissional, emocional, de sua auto-estima, autovalorização e amor próprio.” ANÁLISE O ambiente nas refeições coletivas difere bastante do das nossas refeições rotineiras. Em “Figueira”, as pessoas não interagem,

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não se cumprimentam, não se olham, não conversam, não se comunicam, ou seja, não confraternizam. Comem sentados em bancos fora da mesa, apoiando os pratos nas pernas, sem a opção de escolha do tipo de dieta e da forma de prepará-la. 5ª ANOTAÇÃO DE OBSERVAÇÃO PARTICIPATIVA Uma outra visitante relatou que estava saindo da casa 1, (localizada na cidade de Carmo da Cachoeira, onde fica a secretaria geral), em direção à casa 4 (prédio da central de atendência, os dois prédios localizam-se na esquina do mesmo quarteirão), quando deparou-se com uma visão chocante, segundo o ponto de vista dela: viu um caminhão estilo pau-de-arara, com residentes vestidas com roupas rurais de trabalho, em silêncio, de cabeça baixa, enfileiradas nos bancos laterais da carroceria do caminhão coberto por lona. Assemelhavam-se, segundo ela, àqueles caminhões do exército que carregam soldados para manobras militares. Estavam rumando para o campo. Para a hóspede visitante, pareciam ir para um ‘campo de concentração’ e de ‘lavagem cerebral’. Ela afirmou que nunca esqueceu a imagem, a qual ficou gravada na sua retina. Imagem que a fez se dar conta do que ocorreria em relação ao seu futuro se ficasse ali como residente. Enquadramos esta observação na categoria “g”, a qual diz o seguinte: “Nas instituições totais, há uma invasão ao “eu” (self) do residente, que é desprogramado, despersonalizado de seu “eu” (self) anterior, reprogramado e reeducado pelo grupo de residentes que o supervisionam, vigiam, fiscalizam e controlam.” ANÁLISE Os atores sociais de “Figueira”, em quase todos os momentos se movimentam em grupos. Eles são coordenados por uma equipe supervisora, que não se preocupa somente em auxiliar ou orientar, mas controlar, vigiar, intimidar para a realização de tarefas compulsórias. Este comportamento de passividade pode ser observado não só nas atividades laborais, como em muitos outros mo-

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mentos do cotidiano. 6ª ANOTAÇÃO DE OBSERVAÇÃO PARTICIPATIVA Percebemos que, em “Figueira”, os internos e os visitantes não vêem televisão, não assistem a peças de teatro, espetáculos ou shows, não lêem jornais ou revistas, não freqüentam uma escola formal, não convivem com parentes ou amigos. Devem observar o silêncio, portanto não costumam conversar entre si ou comunicar-se com o grupo de semi-internos e colaboradores externos. Não ganham salário, por isso não podem comprar roupas ou objetos de higiene pessoal. Ganham-nos por doações sem opção de escolha. Não têm férias, não têm acesso à comunicação por fax, telefone celular ou internet (esses aparelhos são restritos à secretaria e não podem ser usados particularmente). Não têm feriados, mas têm folga uma vez por semana. Apesar de terem um único dia de folga, mesmo assim são convocados neste dia para fazer plantões. Acrescido a isto, este dia é destinado ao estudo obrigatório, qual seja, participar das palestras de Trigueirinho pela manhã e outra à tarde à cargo do setor de cura. Essa observação pode ser classificada na categoria “c”, a qual diz o seguinte: “Ao fazer-se parte das instituições totais, adere-se a novos padrões de interação. Um novo processo de socialização é iniciado. O ator social assume o novo código de comportamento, porque se adapta ao novo conceito interacional”. ANÁLISE O interno de ‘Figueira’ parece tornar-se mais vulnerável e frágil por não ter interação com a sociedade aberta. Fica solitário e isolado do que acontece no mundo, sem apoio da família e parentes, sem contato com seu bairro, vizinhos, ambiente de trabalho, amigos, etc. Esta forma de vida, marcada pela reclusão, sintetiza a total ausência de cidadania. Os internos não possuem relações trabalhistas e, assim sendo, não podem fazer greve, não têm seguro-

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desemprego, não recebem hora extra ou aposentadoria. Também não possuem propriedade privada, dormem em quartos comunitários e são celibatários. Mais do que isso, algumas práticas, sob o ponto de vista dos direitos humanos, são desconsideradas. 7ª ANOTAÇÃO DE OBSERVAÇÃO PARTICIPATIVA Uma visitante informou-nos que permaneceu trinta dias em “Figueira” e que quase enlouqueceu sem poder falar, sem dialogar, sem sexo. Disse que quando retornou à sua casa, quase não conseguia se comunicar com sua própria família. Podemos classificar esta observação na categoria “d”, que afirma o seguinte: “As instituições totais influem na conduta do ator social. Exercem seu controle sobre o comportamento, tornando-se um fator determinante no pensamento do ator social”. ANÁLISE A maior regra em “Figueira” é fazer silêncio interno e externo. A interação entre membros é totalmente desestimulada. Assim sendo o próprio diálogo – como forma de compreensão das coisas do mundo – é terminantemente reprimido. Outra forma de interação fundamental para o crescimento humano, o sexo, é proibido e mesmo o afeto não é incentivado. Enfim, a comunicação entre os membros não é estimulada. 8ª ANOTAÇÃO DE OBSERVAÇÃO PARTICIPATIVA Também observamos uma outra visitante dizer que tentou várias vezes morar em “Figueira”, mas não conseguiu se adaptar. Afirmou não estar preparada, psicologicamente, para tanto, pois alguns mudam de nome, são rebatizados. Também não comemoram datas históricas, feriados cristãos, aniversários, etc. Esta observação pode ser classificada na categoria “f ”, a qual diz o seguinte: “Existem instituições totais como abadias, mosteiros, conventos, claustros, monastérios, comunidades religiosas que

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têm por finalidade instruir religiosos, servem de refúgio do mundo”. ANÁLISE “Figueira” exige um comprometimento de seus simpatizantes ou aspirantes maior que o normal nas instituições comuns, restringindo-lhes a interação social existente internamente e com o restante da sociedade aberta. Como prova da renúncia a sua personalidade, identidade social, eles são rebatizados, recebendo a partir de então um novo nome. Outras marcas da vida social são negligenciadas, pois não comemoram datas históricas, feriados cristãos, aniversários, etc. 9ª ANOTAÇÃO DE OBSERVAÇÃO PARTICIPATIVA

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Em relação a esta colaboradora, acima referida,observou-se que ela era muito lenta ao movimentar-se, falava baixo e muito pouco. Percebia-se no seu comportamento e no dos demais, uma maneira singular de ser. Muitas vezes, no ônibus que se viajava de São Paulo a Carmo da Cachoeira, onde os passageiros em geral não se conheciam, que os atores sociais que iam para “Figueira” se reconheciam entre si, apenas pela forma de se comportar, pelas atitudes, pelo modo de falar, andar, vestir, etc. Essa observação pode ser classificada na categoria “c”, a qual diz o seguinte: “Ao fazer-se parte das instituições totais, adere-se a novos padrões de interação. Um novo processo de socialização é iniciado. O ator social assume o novo código de comportamento, porque se adapta ao novo conceito interacional”. ANÁLISE A finalidade de “Figueira”, juntamente com a instrução espiritual, é fazer com que o simpatizante ou aspirante à vida espiritual desfaça-se das suas origens culturais e sociais e assuma, total e integralmente, a cultura do grupo. Isto transparece na forma de

pensar, falar, agir, trajar dos simpatizantes da ideologia. 10ª ANOTAÇÃO DE OBSERVAÇÃO PARTICIPATIVA Observamos um residente, que há seis anos vivia na primeira comunidade fundada por Trigueirinho, “Nazaré”, afirmar ter sido monge zen-budista. Morou por um tempo num mosteiro zen com um sistema muito rigoroso. Disse que esteve, por uns dias, em “Figueira”, e que o colocaram para limpar calhas, telhados, colher goiabas. Essas tarefas não o incomodaram. Achou a comida horrível e gostou das palestras, ou melhor, partilhas de Trigueirinho. Essa observação pode ser classificada na categoria “f ”, a qual diz: “Existem instituições totais como abadias, mosteiros, conventos, claustros, monastérios, comunidades religiosas que têm por finalidade instruir religiosos. Servem de refúgio do mundo”: ANÁLISE A informalidade de regras que existiam no início de sua fundação, tal como em “Nazaré”, foi se alterando com o aumento do grupo e com a criação de um monastério. Com o tempo e aumento de números de simpatizantes, “Figueira” tornou-se uma instituição mais estruturada que “Nazaré”. Assim “Figueira” não representa um lugar de privações para as pessoas que já viveram em instituições semelhantes. A adaptação a este ambiente, como de “Figueira”, é mais fácil para as que já tiveram outras experiências em outras comunidades fechadas ou, então, apresentam predisposição para este modo de vida. 11ª ANOTAÇÃO DE OBSERVAÇÃO PARTICIPATIVA Através de pesquisa de campo realizada, no grupo de “Figueira”, em Porto Alegre, uma colaboradora itinerante disse-nos que a primeira e última vez que foi à “Figueira”, colocaram-na para pegar lenha empilhada no chão e depois colocá-la num caminhão. Isso durante uma jornada de dez dias consecutivos, por um perío-

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do de oito horas por dia. Ela disse que não se sentiu humilhada por ser uma tarefa menor, mas ficou preocupada pelas conseqüências físicas, uma vez que não estava condicionada àquele tipo de atividade. Não era má vontade sua, mas apenas precaução no sentido de não provocar dores musculares, o que poderia ser uma conseqüência natural. Então comunicou à coordenação, do setor responsável pela tarefa, que pretendia ir embora (para tanto era necessário autorização, não se podia simplesmente sair), tendo em conta que não era bem visto solicitar troca de tarefa, fato este que poderia parecer um ato de rebeldia. Surpreendentemente, eles recusaram sua saída antecipada e a colocaram em outras tarefas domésticas, tais como limpar latrinas. Em poucos dias, trocaram-na de vários setores. Ela cumpriu todas as suas outras obrigações, e achou que tudo havia se normalizado e que o incidente da troca havia sido esquecido. Porém, este fato foi usado como argumento posterior para negar-lhe novos períodos de hospedagem, alegando que a mesma não se adaptava ao sistema. Essa observação pode ser classificada na categoria “b”, a qual diz o seguinte: “As instituições totais são espaços de condicionamento de atores sociais, onde normas e regras de interação social, seguidas de forma coletiva e compulsória, modelam o comportamento interacional daqueles que fazem parte do grupo”. ANÁLISE Os atores sociais ligados ao grupo são privados de iniciativa e criatividade em “Figueira”. Estão submetidos às regras impostas que regulam sua função, seu comportamento, sua operacionalização, sua forma de realização. Já estão especificados o modo operativo único, ao qual têm que se conformar, e a ordem do seu desenvolvimento. Tudo está previsto com bastante exatidão. Não há espaço para iniciativa pessoal, criatividade ou o livrearbítrio. Outro aspecto, enfatizado por esta informante, é a imposição de tarefas físicas pesadas, bem como de tarefas consideradas humilhantes como, por exemplo, limpar as latrinas de uso coletivo. Com a imposição destas tarefas, procura-se cultivar a humildade e

a subserviência. 12ª ANOTAÇÃO DE OBSERVAÇÃO PARTICIPATIVA Observamos uma visitante dizer que estranhou o ambiente afetivo frio e resolveu, numa certa manhã, não tomar o café. Ficou no quarto choramingando. Surpreendeu-se com a entrada, intempestiva, da coordenadora no seu quarto, dizendo que ali não havia espaço para emocionalismos, nem para manifestações de caráter individualizado. Todas as atividades eram obrigatórias e feitas em grupo. A visitante achou aquela atitude, da coordenadora, uma invasão à sua privacidade, ao seu livre-arbítrio, à sua liberdade de escolha e uma falta de sensibilidade em relação aos seus sentimentos. Essa observação pode ser classificada na categoria “h”, a qual diz o seguinte: “Nas instituições totais, há um processo de desconstrução do “eu” (self). Não se permite ao ator social ter uma vida individual. Ele é despojado de seus bens, de suas preferências, de seus gostos, de suas escolhas, de seu livre-arbítrio, de sua liberdade, de sua identidade, de sua personalidade, de seus direitos humanos, de sua cidadania, ocasionando uma involução no seu desenvolvimento educacional, profissional, emocional, de sua auto-estima, autovalorização e amor próprio.” ANÁLISE Na sociedade aberta, os atores sociais têm o direito de escolher o que querem tomar no café da manhã, ou até liberdade de não tomá-lo. Em “Figueira”, segundo nossas observações, até esta simples escolha pessoal é problematizada. Ou seja, até nas mais rotineiras atividades, as preferências e gostos pessoais devem ser sublimados em prol do coletivo. Teoricamente, tal procedimento é compreensível, mas para tanto é necessário um exercício de entrega, de aprendizado, e de prática cotidiana, por um largo período de tempo.

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13ª ANOTAÇÃO DE OBSERVAÇÃO PARTICIPATIVA Observamos Trigueirinho dizer, em várias partilhas, que é muito simples trabalhar em grupo. É fácil se há desapego do conflito. Os conflitos são diluídos em função do serviço, que o grupo presta, de transmutação dos conflitos planetários. A forma de escrever, em “Figueira”, é grupal. O grupo espiritual pode suportar mais energia que um indivíduo. O grupo espiritual não é horizontal. O apego dentro do grupo espiritual pode impedir o indivíduo de contatar uma energia superior impessoal, por isso há que se viver, sem conflito, uns com os outros. Isto é consciência grupal. O cumprimento das tarefas, num grupo espiritual, precisa de um indivíduo que coopere sem crítica, sem resistência, sem rejeição. Para o grupo funcionar, é preciso que todos estejam afinados com o propósito do grupo. Ninguém deveria estar num grupo coagido. Deve estar por livre vontade, e cumprir assim integralmente a proposta. Para que um grupo como “Figueira” realize suas tarefas é preciso evitar contatos físicos, alimentação carnívora, contato com pessoas que não estejam afinadas com a purificação do grupo. Devese preservar o grupo da curiosidade e atenção dos outros, porque a atitude, das pessoas do grupo, torna-se estranha para os que vêm de fora visitá-lo. A maior chave para essa preservação é o silêncio. Há um esforço para que uma nova consciência, espiritual futura, vá se implantando na Terra. Consciência esta que inspirou a construção de “Figueira”. Leva muitos anos para trabalhar e viver grupalmente. É preciso não ter senso de posse individuais, sem necessidades, ser flexível, ajustável. “Figueira” é para ser um laboratório para todo esse processo de transcender o livre-arbítrio. Livre-arbítrio é uma característica puramente mental e racional. Com a escolha, a mente vai aprendendo a discernir. Só depois de bem desenvolvida a mente é que ela vai abrir mão do livre-arbítrio, para ser regida por uma vontade superior, impessoal e transcendental. Essa observação pode ser classificada na categoria “h”, a qual diz o seguinte: “Nas instituições totais, há um processo de desconstrução do “eu” (self). Não se permite ao ator social ter uma

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vida individual. Ele é despojado de seus bens, de suas preferências, de seus gostos, de suas escolhas, de seu livre-arbítrio, de sua liberdade, de sua identidade, de sua personalidade, de seus direitos humanos, de sua cidadania, ocasionando uma involução no seu desenvolvimento educacional, profissional, emocional, de sua auto-estima, autovalorização e amor próprio.” ANÁLISE Conflitos em função de divergências fazem parte da natureza humana, porém em “Figueira”, esta natureza humana é lapidada diariamente com o intuito de condicionar o caráter individual, objetivando homogeneizá-lo. Eles pretendem uma mutação genética; a criação de uma nova raça sem livre-arbítrio, segundo profetiza Trigueirinho na “Operação resgate”. 14ª ANOTAÇÃO DE OBSERVAÇÃO PARTICIPATIVA Observamos uma hóspede visitante dizer que, em seu horário livre das tarefas de “Figueira”, foi para a biblioteca. Os residentes não lêem livros que não sejam espirituais, os quais já foram, previamente, selecionados por Trigueirinho na montagem da biblioteca, que se localiza na área urbana, na casa 1, onde fica a secretaria e a recepção. Lá havia um tapete com almofadas para que os hóspedes se deitassem e lessem relaxadamente. Também havia um outro hóspede visitante, do sexo oposto, heterossexual, consultando livros, lendo, etc. Esta hóspede disse que se deitou de bruços, no tapete, ficando com as nádegas voltadas para cima. Era uma posição sensual, embora sua roupa fosse discreta. Ela estava ao mesmo tempo recostada nas almofadas. Para sua surpresa, percebeu que o coordenador (homossexual) da casa 1 entrou e permaneceu lá até ela sair. Ele parecia ter o intuito de vigiá-los, no sentido de não permitir uma aproximação de caráter, aos olhos dele, sexual. Essa observação pode ser classificada na categoria “g”: “Nas instituições totais, há uma invasão ao “eu” (self) do residente, que é desprogramado, despersonalizado de seu “eu” (self) anterior,

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reprogramado e reeducado pelo grupo de residentes que o supervisionam, vigiam, fiscalizam e controlam.” ANÁLISE Em relação à biblioteca, só podem ser encontrados livros espirituais esotéricos previamente selecionados por Trigueirinho, evitando assim a pluralidade de pensamento e opiniões. Na atmosfera de “Figueira”, há certa repressão do desejo sexual. Neste sentido, há um comportamento que busca homogeneizar os sexos, evitando qualquer manifestação que possa despertar o desejo e o erotismo. 15ª ANOTAÇÃO DE OBSERVAÇÃO PARTICIPATIVA Um dentista, homossexual, que sentou ao nosso lado no ônibus, de volta de Carmo de Cachoeira para São Paulo, contou-nos que era constantemente vigiado no quarto, nas tarefas, nas vigílias, nas partilhas, nas horas livres, nas refeições. Ele percebeu que havia uma repressão, de forma a evitar contatos, de ordem afetiva ou sexual. Essa observação pode enquadrada na categoria “g”: “Nas instituições totais, há uma invasão ao “eu” (self) do residente, que é desprogramado, despersonalizado de seu “eu” (self) anterior, reprogramado e reeducado pelo grupo de residentes que o supervisionam, vigiam, fiscalizam e controlam.” ANÁLISE Alguns sentimentos mais íntimos dos colaboradores, visitantes ou itinerantes são incompreensíveis ao grupo de residentes. Parece haver um conflito permanente entre os desejos, hábitos, necessidades, características e comportamentos dos colaboradores visitantes ou itinerantes e os interesses dos auxiliares residentes e coordenadores residentes de “Figueira” que reprimem as manifestações emocionais dos colaboradores visitantes ou

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itinerantes. Parece haver um controle, inclusive, dos hábitos higiênicos dos residentes. Dentro dos sanitários, há regras escritas sobre não dar descarga à noite, para não fazer barulho; juntar os fios de cabelos que caem no ralo do box do banheiro; passar rodo no chão do box do banheiro, após utilizar o chuveiro; não colocar absorvente ou papel no vaso sanitário. Parece que nem mesmo na hora de satisfazer suas necessidades biológicas, o residente de tem total privacidade, livre-arbítrio ou liberdade. Não tem privacidade, não fica a sós relaxadamente. 16º DEPOIMENTO DE UM MÉDICO PSIQUIATRA QUE TINHA UMA PARENTE QUE FOI AMIGA ÍNTIMA DE TRIGUEIRINHO “Minha tia o conheceu na Associação Palas Athena em São Paulo. Ele era contra o homossexualismo e até mesmo criticava essa opção sexual”. Esse depoimento pode ser classificado na categoria “h”, a qual diz o seguinte: “Nas instituições totais, há um processo de desconstrução do “eu” (self). Não se permite ao ator social ter uma vida individual. Ele é despojado de seus bens, de suas preferências, de seus gostos, de suas escolhas, de seu livre-arbítrio, de sua liberdade, de sua identidade, de sua personalidade, de seus direitos humanos, de sua cidadania, ocasionando uma involução no seu desenvolvimento educacional, profissional, emocional, de sua auto-estima, autovalorização e amor próprio.” ANÁLISE Os residentes de “Figueira” demonstram atitudes e comportamentos dominadores, enquanto nos visitantes há um componente de submissão ao se sujeitarem a algumas condutas impostas pelos residentes. Estes, por sua vez, também sofrem humilhações impostas pelos coordenadores que se sujeitam a Trigueirinho. As humilhações representam, simbolicamente, um ritual de destruição do “eu” (self), uma purificação preparatória à entrada em “Figueira”.

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17ª ANOTAÇÃO DE OBSERVAÇÃO PARTICIPATIVA Ouvimos Trigueirinho aconselhar, em uma de suas partilhas, que os homossexuais, que visitam “Figueira”, deveriam deixar de ter relações sexuais e aderir ao celibato. Os internos são celibatários. Todos ficam em quartos coletivos com pessoas do mesmo sexo, o que reprime intimidades e atividades sexuais entre atores sociais ou solitárias, pois não há privacidade. Essa observação pode ser classificada na categoria “h”, a qual diz o seguinte: “Nas instituições totais, há um processo de desconstrução do “eu” (self). Não se permite ao ator social ter uma vida individual. Ele é despojado de seus bens, de suas preferências, de seus gostos, de suas escolhas, de seu livre-arbítrio, de sua liberdade, de sua identidade, de sua personalidade, de seus direitos humanos, de sua cidadania, ocasionando uma involução no seu desenvolvimento educacional, profissional, emocional, de sua auto-estima, autovalorização e amor próprio.”

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ANÁLISE Dentro de um único e mesmo grupo espiritual, como o de “Figueira”, o residente perde o poder de pensar com vigor, criatividade e originalidade. Ele é forçado a configurar-se a um âmbito estreito, privado dos resultados estimulantes da vida no mundo. Não pode ter desejo, nem vontade de sair dos limites impostos pelo seu próprio grupo de atores sociais, avaliar outras idéias e experimentar outros ideais. Também não pode beneficiar-se de outros insights. Há certa aceitação, sem crítica, das idéias e ideais do grupo. Suas idéias ficam congeladas em dogmas, e o grupo espiritual começa a gerar certo fanatismo e sectarismo. 18ª OBSERVAÇÃO PARTICIPATIVA Observamos que as mulheres, residentes de “Figueira”, não pintam as unhas, não usam vestidos, saias, bermudas, shorts, miniblusas ou calças de cintura baixa. Não depilam as axilas ou pernas, não se maquiam, não usam bijuterias, não se perfumam,

não arrumam o cabelo, o qual não têm brilho pela ausência de cosméticos. Usam o cabelo curtíssimo, quase zero. Essa observação pode ser classificada na categoria “c”, a qual diz o seguinte: “Ao fazer-se parte das instituições totais, adere-se a novos padrões de interação. Um novo processo de socialização é iniciado. O ator social assume o novo código de comportamento, porque se adapta ao novo conceito interacional.” ANÁLISE Os residentes e os colaboradores, itinerantes, de “Figueira” não possuem status, propriedades, roupa indicativa de classe social ou papel social. Não há nada que possa distingui-los uns dos outros. Assim, há um nivelamento, homogeneidade, uniformidade e igualdade. O que torna seus comportamentos submissos, subservientes. Devem obedecer e acatar a ordens e funções arbitrárias. Perdem seu “eu”, seu self, sua identidade, sua personalidade. Morrem para a vida material e deverão renascer, para o espírito, com novos valores. 4.4 CATEGORIAS SOBRE OS RITOS DE INTERAÇÃO DIMENSIONADAS COMO CATEGORIAS CONVERGENTES As categorias definidas na representação dos atores sociais são convergentes às categorias absorventes das instituições totais. As categorias da interação face a face, dentro do projeto de pesquisa, convergem em torno das categorias da instituição. As categorias convergentes das interações face a face são resultantes dos processos de interação e constituem fatos de socialização, porque tendem a aproximações, a produzir sentidos. A seguir fizemos um quadro de categorias de análises, fundamentadas no livro “A Representação do Eu na Vida Cotidiana” tais como: manipulação da impressão; representação (fachada pessoal, realização dramática, idealização, manutenção do controle expressivo, mistificação, atributos e práticas defensivas); regiões e comportamento regional/estabelecimentos sociais; região frontal/região

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de fachada; região posterior/fundo/bastidores; equipe; platéia/observador; segredos (indevassáveis, estratégicos, íntimos); papéis discrepantes (delator, farol/cúmplice do ator, agente, intermediário/mediador); princípio norteador (ruptura na interação social, ruptura na estrutura social, ruptura na personalidade do indivíduo). As categorias advindas das interações dos atores sociais tiveram por base a interpretação teatral, uma representação, um desempenho de um papel e/ou simulação, de caráter dramatúrgico.
1. Manipulação da impressão: controle do ator social sobre as impressões que os outros possam ter dele. 2. Representação: atividade, exercendo influência, de um ator social nos observadores. 2.1. Fachada pessoal: cenário em torno do ator social. 2.2. Realização dramática: exagero na representação, objetivando impressionar a platéia. 2.3. Idealização: tentar parecer melhor do que se é. 2.4. Manutenção do controle expressivo: controle dos gestos involuntários que possam qualificar a representação como falsa, atos falhos, gafes. 2.5. Mistificação: proteger o ator, criando distância social e uma ‘aura ‘ de mistério. 2.6. Atributos e práticas defensivas: a) fidelidade dramatúrgica, não revelar segredos da equipe; b) disciplina dramatúrgica, autocontrole, domínio da voz e rosto, distância emocional; c) circunspeção dramatúrgica, prudência na escolha da platéia, na escolha de membros da equipe social de atores. 3. Regiões e comportamento regional/estabelecimentos sociais: lugar ou espaço onde se realizam atividades de forma regular. 3.1. Região frontal/região de fachada: onde ocorre a representação do ator/ equipe social de atores. 3.2. Região posterior/de fundo/bastidores: local que o público não tem acesso, e o ator pode ser informal e relaxar, sem representar um papel. 4. Equipe: qualquer grupo de atores sociais que contracenam uma rotina particular. 5. Platéia/observador: grupo de observadores da atuação dos atores sociais. 6. Segredos: informações destrutivas. 6.1. Indevassáveis: fatos incompatíveis com a imagem que quer passar. 6.2. Estratégicos: revelado em hora apropriada de forma a surpreender a platéia. 6.3. Íntimos: marca ou estigma ou carimbo ou rótulo que o identifica como ator diferente da platéia.

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7. Papéis discrepantes: atores sociais com informações destruidoras e comprometedoras ao espetáculo. 7.1. Delator: finge ser membro, tem acesso aos bastidores e a informações negativas, podendo revelar a trama do espetáculo à platéia. 7.2. Farol/cúmplice do ator: atores sociais que fingem ser platéia, mas fazem parte realmente da equipe de atores sociais. 7.3. Agente: crítico que qualifica o nível da representação. 7.4. Intermediário/mediador: um ator social que finge ser fiel à platéia e, ao mesmo tempo, fiel à equipe de atores sociais, mas só é fiel aos seus interesses próprios. 8. Princípio norteador: acordo tácito, um consenso entre atores e platéia. 8.1. Ruptura na interação social: embaraço nas interações das equipes sociais, criando um clima insustentável. 8.2. Ruptura na estrutura social: comprometimento na representação social do ator que compromete toda equipe social a qual pertence. 8.3. Ruptura na personalidade do indivíduo: descrédito na sua personalidade.

Quadro 5 - Categorias de análise dos ritos da interação dimensionadas como categorias convergentes

4.4.1 ROTEIRO DRAMÁTICO DE UMA INSTITUIÇÃO TOTAL Dada a escolha do nosso referencial teórico, bem como o tipo de observação que realizamos na nossa pesquisa de campo, estamos preferindo – neste sentido, seguir mais adequadamente, o ponto de vista de Goffman – chamar as anotações da nossa observação de campo de “cenas de interação”. 1ª CENA DE INTERAÇÃO: Quando vão assistir às palestras de Trigueirinho, os residentes adotam uma circunspeção dramatúrgica: fecham os olhos enquanto ele fala, demonstrando que suas palavras têm prioridade sobre a imagem, ou seja, têm poder; ficam de cabeça abaixada por todo o tempo da sua palestra em sinal de humildade; não conversam entre si ou com os visitantes itinerantes, oferecem um modelo de conduta a ser seguido, de silêncio, de circunspeção, ou melhor, de introspecção. Eles poderiam ser considerados co-atores, coadjuvantes, coniventes ou comparsas sociais.

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Essa observação pode ser classificada nas seguintes categorias: “1.”: “Manipulação da impressão: controle do ator social sobre as impressões que os outros possam ter dele.”; “2.5.”: “Mistificação: proteger o ator criando distância social e uma aura de mistério.”; “2.1.”: “Fachada pessoal: cenário em torno do ator social.”; Outro enquadramento possível é na categoria “2.6.”: “Atributos e práticas defensivas: a) fidelidade dramatúrgica, não revelar segredos da equipe; b) disciplina dramatúrgica, autocontrole, domínio da voz e rosto, distância emocional; c) circunspeção dramatúrgica, prudência na escolha da platéia, na escolha de membros da equipe social de atores.” ANÁLISE Com o intuito de transformar o mundo com a operação resgate, Trigueirinho e o grupo de atores sociais de “Figueira” precisam contar com o esforço de seus simpatizantes, por isso desempenham um papel ativo. Como são responsáveis pelo sucesso, são co-atores sociais, coadjuvantes. 2ª CENA DE INTERAÇÃO: Em “Figueira”, observamos que há atitudes diferentes dos atores sociais nos bastidores e na região de fachada. Uma diferença comportamental na região dos bastidores. De um lado, há a situação que é ensaiada e por outro, a que é encenada. A entrada para as regiões mais íntimas é proibida. Essa observação pode ser enquadrada na categoria “3.1.”: “Região frontal/região de fachada: onde ocorre a representação do ator/equipe social de atores. Também diz respeito à categoria “3.2.”: “Região posterior/de fundo/bastidores: local que o público não tem acesso, e o ator pode ser informal e relaxar, sem representar um papel”.

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ANÁLISE A finalidade, provavelmente, é impedir que os expectadores vejam os atores sociais em atitudes espontâneas e compartilhem uma intimidade que “Figueira” não deseja estimular. Há um controle, um domínio dos bastidores, além do domínio, óbvio, da região de fachada. 3ª CENA DE INTERAÇÃO: Ainda observamos, nas regiões de bastidores, que entre os atores sociais residentes de “Figueira” prevalece a familiaridade e a solidariedade. A categoria “6” descreve essa situação: “Segredos - informações destrutivas.” A “6.1.” explica esse comportamento: “Indevassáveis - fatos incompatíveis com a imagem que quer passar”. A observação também pode ser classificada na categoria “6.3.”, a qual diz o seguinte: “Íntimos - marca ou estigma ou carimbo ou rótulo que o identifica como ator social diferente da platéia.” ANÁLISE Os residentes de “Figueira” guardam segredos, que são partilhados de comum acordo entre si, que poderiam enfraquecer, desvalorizar e menosprezar sua representação. Estes segredos são o suporte das crenças que mantêm a existência e o funcionamento de “Figueira”, conferindo-lhe uma aura de mistério. 4ª CENA DE INTERAÇÃO: Observamos que Trigueirinho, talvez, evita o constrangimento com possíveis críticas ao selecionar, previamente, as perguntas que deseja responder. Elas são colocadas, estrategicamente, num escaninho antes de Trigueirinho iniciar sua palestra, que se desenrola sempre por um mesmo período de uma hora apenas. Essa observação pode ser classificada na categoria “2.3.”, a

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qual diz: “Idealização: tentar parecer melhor do que se é”. A observação pode também ser classificada na categoria “2.4.”, que afirma: “Manutenção do controle expressivo: controle dos gestos involuntários que possam qualificar a representação como falsa, atos falhos, gafes. A observação também pode ser classificada na categoria “2.5.”, a qual menciona: “Mistificação: proteger o ator criando distância social e uma aura de mistério”. A observação também pode ser classificada na categoria “2.6.”, que afirma: “Atributos e práticas defensivas: a) fidelidade dramatúrgica. Não revelar segredos da equipe; b) disciplina dramatúrgica, autocontrole, domínio da voz e rosto, distância emocional; c) circunspeção dramatúrgica, prudência na escolha da platéia, na escolha de membros da equipe social de atores”. ANÁLISE Uma representação breve e perguntas previamente selecionadas pode evitar o descrédito dos líderes carismáticos ou messiânicos, cujas crenças e fé dos seus adeptos dependem. Elas não podem oscilar, têm que ser inabaláveis. Esta forma de representação impede qualquer tipo de dissonância que poderia abalar a credibilidade e a sustentabilidade da sua encenação. 5ª CENA DE INTERAÇÃO: Uma visitante confidenciou-nos ter visto dois coordenadores de setores diferentes de “Figueira” conversarem descontraidamente entre si. Esboçavam expressões de gracejo. Porém, quando perceberam sua presença não consentida, automaticamente retomaram suas posturas formais e reassumiram seus papéis com ares de circunspeção. À noite, quando todos estavam dormindo, os residentes iam sorrateiramente até a cozinha para comer e conversar. Atitudes contrárias às regras aplicadas aos atores sociais visitantes ou itinerantes de silêncio, de respeitar e observar os horários das refeições. Esta observação pode ser enquadrada nas seguintes categorias “3.1.”: “Região frontal/região de fachada: onde ocorre a repre-

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sentação do ator/equipe social de atores”; “3.2”: “Região posterior/ de fundo/bastidores: local onde o público não tem acesso, e o ator pode ser informal e relaxar sem representar um papel; “2.4”: “Manutenção do controle expressivo: controle dos gestos involuntários que possam qualificar a representação como falsa: atos falhos, gafes; “6.”: “Segredos: informações destrutivas”; “6.1.”: “Indevassáveis: fatos incompatíveis com a imagem que quer passar”; “6.3”: “Íntimos: marca ou estigma ou carimbo ou rótulo que o identifica como ator diferente da platéia”; “7.”: “Papéis discrepantes: atores sociais com informações destruidoras e comprometedoras ao espetáculo.” ANÁLISE É bem nítida a separação entre o local onde é representado o drama, a peça, quer dizer, o palco das ações e o local da coxia, onde há um relaxamento na representação de um papel formal. Nos momentos em que a observação externa não é visível, a encenação se desfaz, e até mesmo os coordenadores podem ser surpreendidos em atitudes informais. 6ª CENA DE INTERAÇÃO: Em várias incursões à “Figueira”, observamos que a coordenação dos setores está constantemente mudando. Há um rodízio de pessoas na coordenação, nas funções, nos locais de dormitório. Isto ocorre com o intuito de evitar o apego às tarefas, a proximidade entre as pessoas, o relacionamento, a integração, a comunicação, a intimidade entre os residentes e os itinerantes e, ao mesmo tempo, cultivar a impessoalidade e o desapego às pessoas. As seguintes categorias explicam este comportamento: “1.”: “Manipulação da impressão: controle do ator social sobre as impressões que os outros possam ter dele”; “6.”: “Segredos: informações destrutivas”; “7.”: “Papéis discrepantes: atores sociais com informações destruidoras e comprometedoras ao espetáculo”; “7.1”: “Delator: finge ser membro, tem acesso aos bastidores e a informações negativas, podendo revelar a trama do espetáculo à pla-

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téia”. ANÁLISE A força de trabalho, de “Figueira”, só é possível se os atores sociais estiverem presos no seu sistema de sujeição, e os seus corpos se tornem servis e submissos. As necessidades, atividades e tarefas são instrumentações políticas cuidadosamente organizadas, calculadas e utilizadas de forma a mascarar a realidade. A sujeição é obtida pela ideologia religiosa estrategicamente pensada, agindo sobre os seus corpos, sobre as suas personalidades e até mesmo nas suas almas, no seu íntimo, sem, no entanto, fazer uso de violência ou de armas. Assim, os residentes condicionam os visitantes para que ajam de forma igual. Os seus comportamentos são previamente decididos e há, portanto, uma flexibilidade adaptativa dos corpos. Variação contínua, mudança constante, rotativa, periódica e permanente de tarefas, funções, coordenações, setores, atividades, etc., evitando, com isso, propiciar meios que induzam à intimidade, à interação, à comunicação, à amizade, ao relacionamento dos residentes com os visitantes e itinerantes. Há uma rotatividade do público itinerante, das tarefas e atividades designadas, das ocupações, das funções da coordenação e de espaços ou setores físicos tanto para residentes, como para os itinerantes. A mudança constante das funções e locais de atuação dos coordenadores se deve à intenção de que estes não criem cumplicidade entre si e com os visitantes. Isto poderia condicionar um relaxamento nas relações que devem ser pautadas pela austeridade. 7ª CENA: COMENTÁRIO DE ARTIGO ACESSADO EM JUNHO DE 2003 A seguir comentário do Cipfani, um site de pesquisas ufológicas, sobre o artigo publicado em seu próprio site, “Trigueirinho explora a credulidade alheia”, de autoria do historiador com título de Mestre pela Faculdade de Ciências e Letras de Assis, campus local da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Cláu-

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dio Tsuyoshi Suenaga, onde editores do Cipfani identificam a técnica de proteção defensiva para evitar perguntas de cunho crítico:
Por duas ocasiões tivemos contato pessoal com o “Picaretólogo” Trigueirinho. Em uma das vezes, durante suas palestras, proferida no Minascentro, enchemos duas folhas com “dúvidas”, pois ele responderia a elas no final. As perguntas deveriam ser por escrito, colocadas em uma cesta. Para nossa surpresa, NENHUMA das perguntas foi respondida. Tentamos perguntar oralmente, mas ele se recusou a responder. Tentamos abordá-lo pessoalmente no final da palestra, e fomos repelidos pelos “fiéis” gorilas que o acompanhavam (SITE DO CIPFANI, 17/06/2003).

Esse artigo enquadra-se em várias categorias, a saber: “2.5”: “Mistificação: proteger o ator criando distância social e uma aura de mistérios”; “2.4”: “Manutenção do controle expressivo: controle dos gestos involuntários que possam qualificar a representação como falsa: atos falhos, gafes; “2.6”: “Atributos e práticas defensivas: a) fidelidade dramatúrgica; não revelar segredos da equipe; b) disciplina dramatúrgica, autocontrole, domínio da voz e rosto, distância emocional; c) circunspeção dramatúrgica, prudência na escolha da platéia, na escolha de membros da equipe social de atores”. ANÁLISE Alguns líderes espirituais, carismáticos, messiânicos, não se predispõem a tratar com diferenças de comportamento e pensamento. Eles tendem a encarar a divergência como um perigoso ataque às suas convicções. Este tipo de liderança não aceita a diversidade e a democracia. Por esta razão, evita o diálogo, a crítica e o questionamento sobre suas convicções e pregações. 8ª CENA: ARTIGO ACESSADO EM JUNHO DE 2003 Cláudio Tsuyoshi Suenaga, em seu artigo publicado no site do Cipfani, intitulado “Trigueirinho Netto explora a credulidade alheia”

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denuncia a persuasão de Trigueirinho para cooptar mão-de-obra voluntária e obter lucro com isto:
A idéia de explorar a credulidade mística e a falta de senso crítico da massa só veio mais tarde, quando já havia abandonado o cinema. Não obstante, os conhecimentos adquiridos com a técnica cinematográfica certamente lhe foram úteis para que fraudasse todas as fotos de discos voadores que ilustram seus livros. Sim, porque suas naves espaciais não passam de fontes de luz convencionais, fotografadas com longo tempo de exposição ou mediante movimentos aleatórios de câmera. Trigueirinho manipula os fiéis com a mesma habilidade com que manipula os negativos das suas fotos falsas (ANEXO AAF) (SUENAGA, 2003).

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Dentre as categorias de análise, este artigo enquadra-se nas seguintes: “1.”: “Manipulação da impressão: controle do ator social sobre as impressões que os outros possam ter dele”; “2.1.”: “Fachada pessoal: cenário em torno do ator social”; “2.”: “Representação: atividade, exercendo influência de um ator social nos observadores”; “2.2”: “Realização dramática: exagero na representação objetivando impressionar a platéia”; “2.5”: “Mistificação: proteger o ator criando distância social e uma aura de mistério”; “6.2”: “Estratégicos: revelado em hora apropriada de forma a surpreender a platéia.” ANÁLISE Trigueirinho, tendo sido diretor e cineasta, disse que os mesmos conhecem muito bem a necessidade de satisfazer a exigência de um público desorientado, e o meio mais fácil e rápido para isto seria o da criação de mitos. Portanto, um especialista, um expert, um connaisseur, um diretor, um cineasta conhece as ferramentas e técnicas de autocontrole dramatúrgico, de domínio da expressão do rosto, de domínio da voz, de dissimulação, de como esconder a emoção verdadeira e simular uma representação falsa, de como manipular e persuadir as impressões dos expectadores da platéia.

9ª CENA: ARTIGO ACESSADO EM JUNHO DE 2003 Prof. Cláudio Suenaga percebeu a técnica de persuasão de Trigueirinho:
Trigueirinho continua arrebanhando milhares de fiéis que, através de seus livros, chegam a formar grupos que se dedicam a propalar seus ensinamentos ou pregações. Nada mais do que uma mistura barata de literatura mística, teosófica e esotérica devidamente distorcidas para que atendam a seus propósitos, ou seja, continuar arrebanhando milhares de fiéis que compram mais livros, formam novos grupos e propalam seus ensinamentos que irão continuar atraindo mais incautos engordando sem parar a conta bancária do guru (SUENAGA, 2003).

As categorias que explicam a opinião acima sobre Trigueirinho são as seguintes: “1.”: “Manipulação da impressão: controle do ator social sobre as impressões que os outros possam ter dele”; “2.1”: “Fachada pessoal: cenário em torno do ator social”; “2.5”: “Mistificação: proteger o ator criando distância social e uma aura de mistério”; “4.0”: “Equipe: qualquer grupo de atores sociais que contracenam uma rotina particular.” ANÁLISE A idéia de fim de mundo que Trigueirinho profetiza não é nova. Foi imortalizada na obra de Tomas Morus, “Utopia”. Na concretização da cidade santa e sagrada de “Figueira”, inicia-se um paraíso terreno, uma ilha paradisíaca, uma sociedade perfeita. Porém uma comunidade perfeita precisa contar com atores sociais perfeitos. Por isso os que aspiram a esse mesmo ideal devem se submeter, se sujeitar a um condicionamento de purificação, uma santificação, uma transformação pessoal. Segundo Trigueirinho, se apenas 10% da humanidade aceitar se sacrificar voluntariamente através da “Operação resgate”, profetizada por ele, então a humanidade, como um todo, será salva, resgatada.

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10ª CENA: ARTIGO DO MESTRE SUENAGA SOBRE A TÉCNICA DE PERSUASÃO DE TRIGUEIRINHO ACESSADA EM OUTUBRO DE 2006
(...) afirma Trigueirinho, que se diz contatado por ets e escolhido para uma missão importante: conscientizar a humanidade a respeito de seus vizinhos(...)Os ufólogos ortodoxos torcem o nariz e têm argumentos para não crer nas predições de Trigueirinho, mas isso não o impede de continuar suas afirmações(...)Trigueirinho foi duramente criticado por ufólogos de todo país, em especial os da revista UFO, em 1995. Nessa ocasião, no auge de sua fama como escolhido de ets, já tinha vários livros publicados e um vasto esquema mercadológico de palestras por todo o Brasil, onde apresentava suas teorias. Seus livros foram objeto de suspeita principalmente por trazerem, em suas capas, fotos com luzes noturnas não identificadas que Trigueirinho descrevia como sendo extraterrestres e pertencentes aos seus amigos de outros planetas. As imagens não resistiram a uma mera análise e resultaram em falsificações grosseiras de pontos de luz urbanos, flagrados com lentes especiais e em circunstâncias extraordinárias. As capas de seu livro são bonitas, mas não são ufos, declarou o ufólogo paulista e também co-editor de UFO Marco Antônio Petit (ANEXO AA) (SUENAGA, 2006).

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Esse artigo pode ser classificado na categoria “2.3”: “Idealização: tentar parecer melhor do que se é”; e na “2.5” que menciona: “Mistificação: proteger o ator criando distância social e uma aura de mistério.” ANÁLISE Historicamente, muitos profetas são emocionalmente instáveis, e este desequilíbrio contribuiu, em grande parte, para seu sucesso. Muitos deles revelaram-se influentes demais, tal como Antônio Vicente Maciel, o “Conselheiro”. Sua imagem foi imortalizada por Euclides da Cunha no célebre livro “Os Sertões”, onde ele descreve o líder de “Canudos” como um demente, um desequilibrado, um manipulador, que arrebanhou um exército de gente aves-

sa ao trabalho. Também em sua versão romanceada de “Canudos”, “A Guerra do Fim do Mundo”, o peruano Mario Vargas Llosa pinta imagem semelhante, a do beato enlouquecido, porque o “Conselheiro”, de “Canudos”, começou a pregar depois da desilusão com a esposa, que o abandonou para morar com um cabo de milícia. 11ª CENA: ENQUETE PUBLICADA NA INTERNET, NO SITE GEOCITIES.COM/VITALUXBRASIL/REL ATÓRIO, EDITOR ALDO NOVAK, EDIÇÃO Nº 2000, ACESSADO EM 06 DE OUTUBRO DE 2006; E, TAMBÉM, NO SITE VIGILIA.COM.BR/ SESSÃO.PHP°CATEG=0&ID=342, EDITADO PELA REVISTA VIGÍLIA, EDITORIAL NOVA ONDA COMUNICAÇÃO, ACESSADO EM 06/10/006 Uma enquete realizada pelo Grupo de Estudos Ufológicos da Baixada Santista (GEUBS) revela a opinião dos pesquisadores dedicados à ufologia no Brasil a respeito do grau de credibilidade de alguns dos casos mais famosos de contatos com ovnis e extraterrestres da ufologia mundial. Foram consultados cinqüenta pesquisadores, 10% do total de ufólogos considerados ‘ativos’ no Brasil. Na enquete, os pesquisadores deram notas de 0 a 10. Escore de 0,00 a 1,99: casos sem nenhuma credibilidade, considerados as grandes fraudes da ufologia mundial. Segundo a pesquisa, não existe absolutamente nada que seja digno de confiabilidade nestes casos. Os casos que receberam nota zero até 1,99 não são considerados sérios. Trigueirinho afirma estar em contato com seres intraterrenos e extraterrestres de universos paralelos. Ele teve um escore final de 1,36. Essa enquete pode ser classificada na categoria “6.”: “Segredos: informações destrutivas”; também pode ser classificada na categoria “6.1.”: “Indevassáveis: fatos incompatíveis com a imagem que quer passar”; categoria “7.”: “Papéis discrepantes: atores sociais com informações destruidoras e comprometedoras ao espetáculo.”

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ANÁLISE A enquete apresentada ,e que atribui à ufologia de Trigueirinho os mais baixos escores, prende-se ao fato de a ufologia deste ser considerada mística, isto é, não se enquadra nos parâmetros mínimos do rigor científico. 4.4.2 CONCLUSÃO O elo entre o viés da “representação dos atores sociais” e o da “instituição total”, no contexto da teoria do interacionismo simbólico, é que a situação da interação, a circunstância, o espaço das controvérsias (os quais têm muita importância para a sociologia) não deveriam dissociar os ritos de interação dos ritos da instituição. No caso estudado da comunidade de “Figueira”, não se observou tal dissociação entre os ritos de interação e os da instituição. Alguns aspectos foram apresentados separadamente apenas para fins analíticos.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
O tema desta pesquisa é pioneiro, inédito e dessa forma esperamos que possa servir de ponto de partida para posteriores estudos e aprofundamentos sobre temas afins. Este estudo da comunidade “Figueira” como exemplo de uma instituição total e, particularmente, o mundo dos atores sociais tinha como um dos seus interesses principais apresentar uma versão sociológica do “eu” (self) em interação. Diferentemente de alguns pontos de vista de Goffman, acentuamos o mundo do ator social não-internado que se hospeda em “Figueira”. Estes, ao interagirem com os internos, entram em conflito em função de diferentes condicionamentos, criando-se, assim, um clima constante discórdia. Eles entram em divergência em função da sujeição hierárquica do grupo de “Figueira”, por sua vez, liderado por Trigueirinho. Elas geram uma atmosfera de divergência permanente pela interferência ao “eu” (self) de cada um. Portanto, há um interesse sociológico nas pesquisas sobre instituições totais, porque nestes espaços, as regras e normas condicionam como os atores sociais devem interagir coletivamente em virtude de pertencerem a um grupo específico. O funcionamento de “Figueira” confirma nossa hipótese de que esta comunidade pode ser classificada, parcialmente, em alguma medida, como uma instituição total por possuir algumas características similares àquelas estudadas por Goffman. Também se verificou que a forma como é administrada “Figueira” condiciona o “eu” (self), o comportamento, o pensamento e até os sentimentos dos que estão ligados a ela direta ou indiretamente. As categorias definidas na “representação dos atores sociais” são convergentes às categorias absorventes das instituições totais. As categorias das instituições totais convergem com as das categorias da interação face a face, sobretudo porque, as tendências absorventes destas instituições, funcionam nas interações e anulam a intersubjetividade por processos de apartação ou isoladamente principalmente. O elo entre elas é que a situação da

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interação(a qual têm muita importância para a sociologia) não deveria dissociar os ritos de interação dos ritos da instituição. No caso estudado da comunidade de “Figueira”, não se observou tal dissociação entre os ritos de interação e os da instituição. Alguns aspectos foram apresentados isoladamente apenas para fins analíticos. As categorias convergentes nas interações face a face são resultantes dos processos de interação e constituem fatos de socialização. São convergentes, porque possibilitam aproximações. Todas as instituições tendem a atrair para si os sujeitos por processos de socialização, apartação, inclusão, identificação e outros. Nas instituições totais, essa absorção é mais acentuada. Dentro desse contexto da transição do século XX para o século XXI, surgiu Trigueirinho re-anunciando a Era de Aquário. Esta transição passoupor uma fase em que a insegurança nas relações sociais fizeram com que alguns atores sociais ficassem perdidos, fracassados, derrotados e suas resignações sociais podiam se manifestar em fuga e abandono da sociedade, quando convergiam para comunidades desviantes. Ali entravam em contato com seus semelhantes formando uma sub-cultura. Os desviantes sociais evitavam as divergências, restringindo-se à proteção auto-defensiva de viverem isolados numa sub-comunidade, onde não se sentiam mais deslocados como na sociedade aberta. Sentiam-se melhor que os da comunidade aberta, superiores, exemplos e modelos de vida, angariando simpatizantes. Trigueirinho anunciava em suas profecias que a transição ao milênio aquariano seria plena de riscos para os espiritualmente despreparados. Mas, por outro lado, os que estivessem em harmonia com a operação resgate, liderada por ele, ingressariam numa nova era de iluminação espiritual, uma nova civilização. Em relação à “Operação resgate”, como já dito anteriormente, tinha por objetivo salvar o grupo de “Figueira” do fim do mundo. Porém para que cada um deles fosse resgatável, precisaria passar por uma mudança de comportamento, isto é, teria que se sujeitar a um condicionamento. Esse resgate e condicionamento da personalidade teriam como finalidade torná-lo sem livre-arbítrio, para que acatassem ordens e funções alheias à sua natureza vocacional e atendessem aos objetivos do coletivo e não aos da

sua individualidade. Concluímos que Trigueirinho exerce poder, devido à sua personalidade e carisma, o que desperta o fascínio e o deslumbre nos simpatizantes. Assim adquiriu ascendência sobre um grupo de simpatizantes que agruparam em torno dele e consegue com que os grupos de pessoas internas e externas de “Figueira” trabalhem em atividades e tarefas gratuitas e voluntárias com o fim coletivo de transformação e resgate dos seres humanos que transitam por “Figueira”. Nessa “Operação resgate”, oss supervisores ou coordenadores são os indivíduos mais próximos de Trigueirinho. Ajudam ativamente e em geral também são dotados de certas virtudes carismáticas. Ministram palestras e servem de intermediários entre Trigueirinho e o restante do grupo, portanto dispõem de certo poder. Procuram organizar os colaboradores internos e externos, constituindo-os numa sociedade com direitos e obrigações estabelecidos de acordo com as instruções que condicionam a comunidade. A quantidade de tarefas fez com que surgisse a divisão de trabalho e, conseqüentemente, a necessidade do aparecimento de uma série de colaboradores internos e externos. Trigueirinho não pode assumir sozinho a comunidade, por isto divide as tarefas com os coordenadores. Assim desenvolveu-se em “Figueira uma hierarquia, um tipo único de estrutura social, com três camadas superpostas. Trigueirinho no topo, os externos ou redes de serviço na base, e intermediando a ambos um grupo de coordenadores internos mais próximos: os escolhidos por Trigueirinho. A divisão do trabalho é uma condição necessária para que a comunidade se desenvolva e possa partir para o resgate do mundo. Os coordenadores dos setores estão constantemente sendo mudados por Trigueirinho. Há uma rotatividade, um rodízio de funções com o objetivo de evitar apego às tarefas, cultivar o desapego entre os colaboradores e impedir a possível formação de focos de rebeldia, como surgiram na Comunidade Nazaré, resultando na exclusão de Trigueirinho. A centralização das tomadas de decisões em Trigueirinho acarreta uma falta de comunicação interna. Trigueirinho torna os limi-

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tes de “Figueira” muito precisos em função de experiências negativas do seu passado que o excluíram da Comunidade Nazaré, por isso os indecisos não podem ser aceitos. Todos os membros devem manifestar zelo no desempenho dos deveres. Se um membro recusa obediência, a salvação do grupo todo é posta em perigo, em jogo. Uma das grandes preocupações de Trigueirinho é dar ênfase aos limites do grupo, preservando os integrantes do contato nocivo com pessoas com ideais contrários. Isto, em parte, condiciona a segregação do grupo em relação à sociedade global. Assim, em “Figueira”, há uma permanente divergência resultantes da interação entre colaboradores internos e externos, porque o interesse do grupo está acima das individualidades. O indivíduo encontra-se subordinado a uma determinação coletiva, agindo em contrario a elas, poderia haver sanções privando sua independência, liberdade, livre-arbítrio. Os colaboradores são condicionados a não se comunicarem, como já foi dito anteriormente, uma das maiores regras em “Figueira” é o silêncio interno e exterior. Por isso, há um isolamento que priva os colaboradores de iniciativa e criatividade, porque estão submetidos às regras, às operações e a forma de realizá-las que condicionam o seu comportamento. Seu modo operativo único ao qual devem condicionar-se e a ordem do seu desenvolvimento já estão especificados. Tudo está previsto com bastante exatidão, portanto não há espaço para a iniciativa pessoal ou para o livrearbítrio. Para Trigueirinho, o livre-arbítrio gera um estado caótico. Os colaboradores, para serem salvos e resgatados, devem entregar-se à sua autoridade. Vários trabalhos grupais realizam-se dessa maneira abnegada: oblatos são leigos que se oferecem para servir no grupo de “Figueira” abnegadamente. Auto-afirmação, orgulho, idiossincrasias e vaidade não devem interferir na sua tarefa, cujas bases são o despojamento, o desapego e a prontidão ao serviço impessoal para atender aos objetivos coletivos do grupo. O zelador segue a via do despojamento e dedica-se a suprir tudo e todos incondicionalmente. O zelador deve se inspirar nos que se devotam incondicionalmente à vida de serviço.

Há, atualmente, poucos residentes em “Figueira”, porque, segundo Trigueirinho, no atual contexto social, poucas pessoas conseguem liberar-se do compromisso com a sociedade. A estrutura, a engrenagem da sociedade continua exercendo grande atração sobre as pessoas. Alguns devem, portanto, se despojarem de encargos e desvincularem-se da sociedade, segundo Trigueirinho, para ajudar no que é exigido aos residentes de “Figueira”. Esta postura resultará da renúncia a ambições, desejos e satisfações próprias em função da coletividade. O residente deve vivenciar suas provas de renúncia, humildade, humilhação, abnegação em silêncio, sem tagarelice, sem choro, sem emoções, sem dor. Para o residente as provas, que advêm do cumprimento das tarefas diárias, são oportunidades de transformação, por isso, devem cultivar a virtude ou qualidade de desapego e renúncia em tudo o que faz, realizando as tarefas que lhe cabem com abnegação. Um residente deve renunciar às delícias, ao conforto, aos prazeres da vida. Deve deixar de lado a murmuração, a queixa, a lamúria, deve prescindir de consolo. Há em “Figueira” uma atividade chamada de abrigo que possibilita prestar serviço livre dos apegos que limitam o trabalho em grupo. Também não se deve buscar reconhecimento para não reforçar o egoísmo. Esta atitude torna-se um obstáculo à vida grupal. A colaboração é necessária, pois a tarefa deverá cumprir-se conforme planejada pelo grupo. A função do abrigo é de ajudar todos libertarem-se, desvencilharem-se e desapegarem-se da sociedade. Muitos dos que se aproximam do abrigo estão para se libertarem e necessitam de coragem, ajuda e reforço. Os que aspiram à vida em “Figueira” são chamados de aspirantes e devem ter uma disposição para seguir, sem reservas, com abnegação, com desapego, de forma impessoal, o caminho do serviço. O aspirante deve deixar de lado o orgulho e o preconceito para servir à humanidade. Deve aprender que a sujeição a uma organização, a uma ordem, às regras, às normas, a determinadas condutas são necessárias a um trabalho evolutivo e que, impostas num ambiente, servem de exemplo aos demais. O aspirante deve reconhecer que o condicionamento a uma disciplina hierárquica é imprescindível para a transcendência do egoísmo e das preferênci-

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as de natureza mental e emocional individuais em detrimento das coletivas e grupais. Só quando o egoísmo é transcendido e as preferências individuais superadas surge a disciplina grupal e coletiva. Ordem, disciplina e obediência devem fazer parte da vida do aspirante, revelando uma maneira flexível, meiga e cordata de viver. “Figueira” como já foi dito anteriormente, é um híbrido social, uma organização formal que administra uma comunidade alternativa. Os monges nunca devem entrar em interação com o grupo de colaboradores itinerantes e/ou visitantes que se hospedam em “Figueira” e, em hipótese alguma, estabelecem interação com o restante da sociedade aberta. Há um monastério feminino e outro masculino, são semi-reclusos. Vivem separados fisicamente sem muita interação com o grupo de residentes. Mais afastados e sem interagir com os itinerantes ou visitantes que se hospedam em “Figueira”. Estão sem nenhuma interação com a sociedade aberta. Eles só têm interação com o grupo de residentes em raras reuniões, excepcionalmente têm interação com o grupo itinerantes ou visitantes e jamais têm interação com a sociedade aberta. Essa falta de interação só vêm ratificar o enquadramento em parte, em alguma medida, de “Figueira” como uma instituição total, onde quase inexiste interação. Os atores sociais que almejam morar em “Figueira” devem viver em comunidade, separados da família, desapegados do dinheiro, sem posses ou propriedade privada. Devem condicionar-se à pobreza, sublimar o sexo e, conseqüentemente, abrir mão da instituição casamento, abster-se de alimentos de origem animal, ser obedientes aos seus superiores, observar o silêncio e restringir a conversa ao estritamente necessário para o andamento das tarefas. Essas são características similares às das instituições totais estudadas por Goffman. A seguir, algumas considerações breves sobre a influência dos atores sociais de “Figueira” no condicionamento “eu” (self) dos simpatizantes. O efeito dá-se sobre a reprodução dos seus valores espirituais, padronizando gestos, expressões e linguagem. Os valores culturais dos atores sociais de “Figueira” condicionam em detalhe o modo como os residentes pensam, apa-

rentemente, em relação a muitos assuntos, até mesmo estabelecem um quadro de referências, de parâmetros, de paradigmas. Os atores sociais estão alicerçados numa ideologia que molda o comportamento dos que entram em contato mais diretamente com ela, tornando-os servis. Essa marca ou estigma transparece nas atitudes dos seus atores sociais, na sua maneira de interagir, de sentar, de andar, na sua forma de comer, de falar, porque estão condicionados por uma cultura espiritual que submete o corpo à purificação moral, cultura baseada nas virtudes do tipo ideal de caráter cristão sobre as quais diz o filósofo Nietzsche serem virtudes do escravo. “Figueira” tem como objetivo principal a espiritualidade e está alicerçada numa ideologia que condiciona um comportamento servil que transparece na forma de interagir (self-interaction), de sentar, de andar, nos gestos, nas expressões, na linguagem e até na forma de comer dos atores sociais, os quais representam um “eu” (self) cotidiano humilde e modesto. Através da imposição de regras, normas e disciplinas, “Figueira” reproduz seus valores nos mínimos gestos, expressões e linguagem de forma a padronizar e homogeneizar os comportamentos, não permitindo que as pessoas vivam como quiserem, com liberdade de escolha, com livre-arbítrio, etc., criando, assim, uma comunidade de atores sociais condicionados, automatizados, fechados e segregacionistas, tal como a ficção científica do livro “O Admirável Mundo Novo”. “Figueira” rompeu com os princípios fundamentais da sociedade abolindo a propriedade, o casamento e a família. Tornou-se um espaço comunitário singular, indiferente ao Estado. É uma comunidade composta de indivíduos semelhantes que formam uma subcultura. A comunidade evoluiu para um estado monástico com o tempo e o aumento do número de residentes. Hoje lá se confundem submissão com santidade. Todos devem se sujeitar à autoridade de Trigueirinho. Os que desejam viver pelas regras de “Figueira” devem querer devotar-se inteiramente ao serviço pela autodisciplina, oração e trabalho. Devem viver uma vida em comunhão, desapegar-se da família, condicionar-se à pobreza, desapegar-se do dinheiro e da propriedade privada. Devem abster-se do

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sexo e conseqüentemente do casamento, devem obedecer aos superiores, devem abster-se de alimentos de origem animal, devem restringir a conversa e observar o silêncio. A liberdade, o livrearbítrio e a privacidade são suprimidos em favor da coletividade. “Figueira”, sob a égide de um novo código cultural, subverte a ordem social estabelecida, criando normas que contrariam a sociedade aberta. Com isso, o grupo possui idéias que conflitam com os valores da sociedade na qual se insere, gerando uma divergência permanentes entre o grupo de externos e o dos internos.

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LISTA DE ANEXOS
A. Folder “Nazaré Paulista” B. Mantras de “Figueira” C. Folder Coral D. Folder de “Figueira” E. Panfleto “A Sustentação da Central de Atendência” F1. Opúsculo “Oblatos” F. Opúsculo “Redes de Serviço” + Boletim de “Sinais” de nº 10 c/a programação dos encontros das “Redes de Serviços” em 2006 G. Boletim de “Sinais” de nº 10, pg.2. H. Mosquitinho 2006 + dois cartazes divulgando as audições de Trigueirinho em Porto Alegre, RS I. Folder de publicações da Editora Irdin + Catálogo da Editora Irdin J. Panfleto do setor de “Difusão de Livros e Fitas” K. Rádio Mundial L. Cadernos de Sinais nº 2 (1998) e Boletim de Sinais (2003) sobre Meeiros M. Carta Aberta(circular)dirigida aos colaboradores N. Opúsculo “Monastérios” F2. Opúsculo “Oblatos” P. Opúsculo “Zeladores” Q. Opúsculo “Sacerdotes” R. Opúsculo “Espelhos” S. Opúsculo “Residentes” T. Opúsculo “Reinos” U. Opúsculo “Colaboradores” V. Opúsculo “Abrigo” W. Folder “Aspirantes” X. Opúsculo “Hierarquia” Y. Opúsculo “Vigília” Z. Opúsculo “Instrução” AA.Artigo da Internet + cópias xerox de capas de alguns livros de Trigueirinho sobre ovnis

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A. Folder “Nazaré Paulista”

B. Mantras de “Figueira”

C. Folder Coral

D. Folder de “Figueira”

E. Panfleto “A Sustentação da Central de Atendência”

F. Opúsculo “Oblatos”

G. Opúsculo “Redes de Serviço” + Boletim de “Sinais” de nº 10 c/a programação dos encontros das “Redes de Serviços” em 2006

H. Boletim de “Sinais” de nº 10, pg.2, Relação de Endereços no Brasile no exterior dos Grupos das “Redes de Serviço”.

I. Mosquitinho 2006 + dois cartazes divulgando as audições de Trigueirinho em Porto Alegre, RS

J. Catálogo da Editora IRIDIN e Folder da Editora IRIDIN

K. Panfleto do setor de “Difusão de Livros e Fitas”

L. Programação da Rádio Mundial

M. Cadernos de Sinais nº 2 (1998) e Boletim de Sinais (2003) sobre Meeiros

N. Carta Aberta(circular)dirigida aos colaboradores

O. Opúsculo “Monastérios”

P. Opúsculo “Zeladores”

Q. Opúsculo “Sacerdotes”

R. Opúsculo “Espelhos”

S. Opúsculo “Residentes”

T. Opúsculo “Reinos”

U. Opúsculo “Colaboradores”

V. Opúsculo “Abrigo”

W. Folder “Aspirantes”

X. Opúsculo “Hierarquia”

Y. Opúsculo “Vigília”

Z. Opúsculo “Instrução”

AA. Artigo da Internet + cópias xerox de capas de alguns livros de Trigueirinho sobre ovnis

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