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A FALTA DE TEATRALIDADE E BOM SENSO

Milton Ferreira Verderi

Victor Hugo foi quem elevou o grotesco a categoria estética, ao defender a mistura do
sublime com o grotesco. Mas o que vem a ser uma categoria estética? Segundo Muniz
Sodré, “a categoria responde tanto pela produção e estrutura da obra quanto pela
ambiência afetiva do espectador, na qual se desenvolve o gosto, na acepção da
faculdade de julgar ou apreciar objetos, aparências e comportamentos. Para tanto,
necessita de uma organização dos elementos na criação do artista.”
O grotesco opera por rebaixamento, “suscitando riso, horror, espanto, repulsa”
No dizer de Sodré, “o grotesco é o belo de cabeça para baixo.”
Mikhail Bakhtin afirma que para entender o grotesco é necessário um mergulho na
cultura popular, que para ele é pouco estudado. Estudando a cultura popular medieval e
renascentista, ele denominou essa estética de realismo grotesco, que tem sua expressão
máxima no carnaval, que seria “a segunda vida do povo, baseada no princípio do riso. É
a sua vida festiva. O grotesco está associado a escatologia, a teratologia, aos excessos
corporais, às atitudes ridículas e a toda manifestação da paródia em que se produza uma
tensão risível, por efeito de um rebaixamento de valores.
A realidade é lúcida, cruel e risível.
O que vimos, ou nos deparamos ontem, na pró-estréia (denominado assim por Maria
Alice Vergueiro), foi simplesmente vergonhoso e grotesco, mas não no sentido das
definições dadas acima, e sim na maior falta de estudo e desrespeito ao público.
“As Três Velhas”, do Teatro Pândega (Risco Cênico) de São Paulo, com direção de
Maria Alice Vergueiro, texto de Alejandro Jodorowsky, nos leva a pensar sobre o que
estão fazendo com o teatro hoje em dia.
Vemos diretores, atores e autores se esforçando cada vez mais para nos trazer um bom
teatro de repente vemos tal aberração em nossa frente.
O texto é sobre duas marquesas gêmeas de 88 anos, fracassadas e pobres que vivem em
uma mansão sob os cuidados de sua criada.
O texto até que flui, mas a encenação é simplesmente horrível.
No início da peça, por causa da iluminação recortada, me fazendo lembrar do filme O
Gabinete do Dr. Caligari de Robert Wiene, me animou. Mas com o desenrolar da peça,
tudo foi por água abaixo.
Entendo que, depois do curta circulado no You Tube “Tapa na Pantera”, Maria Alice
realmente deveria vir com uma grande volta, pois virou ídolo dos adolescentes,
concordo plenamente em aproveitar para retornar. Mas infelizmente o que vimos foi um
retorno que não faz jus a grande atriz e diretora que é Maria Alice.
Um elenco de primeira linha como Luciano Chirolli, Henrique Stroeter, William
Amaral e a própria Maria Alice Vergueiro, sendo usados em um texto e direção
ignóbeis, que chega afrontar nossa inteligência.
Sou muito adepto do grotesco e do absurdo em cena, e comungo das idéias de tal gênero
teatral. Infelizmente, não vejo genialidade, direção, concepção na montagem de “As
Três Velhas”.
Um teatro de gincana de colégio de segundo grau – acreditem, já vi montagens belas em
tais gincanas.
Maria Alice, define o gênero da peça como “Melodrama Grotesco” e eu defino como
“Falta de Criatividade”
Infelizmente é uma peça que não recomendo, mas existe gosto para tudo.
O que seria do Azul se todos gostassem do Amarelo?