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Frank Wedekind

O Despertar
da Primavera
Uma tragédia infantil
&
Mine-Haha
ou
Sobre a educação corporal
das meninas
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O Despertar
da Primavera
Uma tragédia infantil

Tradução
Claudia Abeling
Personagens
M E L C H IOR G A B OR
S R G A B OR , seu pai
S R A G A B OR , sua mãe
W E N DL A B E R GM A N N
S R A B E R GM A N N , sua mãe
I N A M Ü L L E R , irmã de Wendla
M OR I T Z S T I E F E L
S R S T I E F E L ,* seu pai

O TTO
R OBE R T
G E OR G Z I R S C H N I T Z
E R N S T R ÖBE L todos adolescentes
H Ä N S C H E N R I L OW
L ÄMMER MEIER
M A RTH A B ES SEL
T HEA

I L S E , modelo

R E I T OR S O N N E N S T IC H [Insolação]
H U N GE R G U R T [Barriga de fome]
K N O C H E N BRUC H [Quebra-ossos]
A F F E N S C H M A L Z [Banha de macaco] todos professores
K N Ü P P E L DIC K [Cacete grosso]
Z U N GE N S C H L AG [Golpe de língua]
F L I E GE N T OD [Mata-moscas]

* No original, “Rentier Stiefel”. Rentier designa alguém que vive de rendas. – n t


H A BE B A L D , bedel
P A S T OR K A H L B AUC H [Barriga pelada]
Z I E GE N M E L K E R [Ordenhador de cabras], amigo do Sr Stiefel
T IO P R OB S T

D IETHELM
R E I N HOL D
R U PR ECH T todos internos da casa de correção
H ELMUTH
G A STON

D R P R OK RU S T E S
S ER R A LHEIRO
D R VO N B R AU S E P U LV E R [Pó efervescente], médico
O H O M E M D I S FA R Ç A D O
A D OL E S C E N T E S , vinicultores
Ao Homem Disfarçado
o autor
primeiro ato

O D espertar da P rimaver a 13
Cena 1
Sala de estar.

wendl a. Por que você deixou meu vestido tão comprido, mãe?
sr a bergmann. Você está fazendo catorze anos hoje!
w e n d l a . Se eu soubesse que você deixaria meu vestido tão comprido,
teria preferido não fazer catorze anos.
s r a b e r g m a n n . O vestido não está comprido demais, Wendla. O
que é que você quer? Não tenho culpa se minha filha fica cinco
centímetros mais alta a cada primavera que passa. Você não
pode andar por aí de vestidinho curto se já está crescida.
w e n d l a . Mas fico melhor em meu vestidinho curto do que nessa
camisola. Deixe-me usá-lo mais uma vez, mamãe! Somente du-
rante o verão. Tanto faz usar esse cilício aos catorze ou quinze
anos. Vamos guardá-lo até meu próximo aniversário; agora eu
ficaria pisando na barra.
s r a b e r g m a n n . Não sei o que dizer. Gostaria tanto que você ficasse
do jeito que está, filha. Na sua idade, as outras meninas são
desajeitadas e cheinhas. Você é o contrário. Quem sabe o que
você virá a ser quando as outras se desenvolverem?
w e n d l a . Quem sabe… talvez eu não exista mais.
s r a b e r g m a n n . Filha, filha, como você pode pensar uma coisa
dessa?
w e n d l a . Não, querida mamãe. Não fique triste!
s r a b e r g m a n n [beijando-a]. Meu único amor!
w e n d l a . Penso nisso à noite, quando não consigo dormir. Não fico
triste, e sei que até durmo melhor depois. É pecado, mamãe,
pensar nessas coisas?
s r a b e r g m a n n . Vá e pendure o cilício no armário! Vista novamente,
pelo amor de Deus, seu vestidinho curto! Vou acabar prendendo
um palmo de babado nele.

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wendl a [pendurando o vestido no armário]. Não, desse jeito eu pre-
feria logo ter vinte anos completos…!
s r a b e r g m a n n . Tomara que você não passe frio! O comprimento
do vestidinho era adequado; mas…
w e n d l a . Agora, na época do verão? Ah, mamãe, nem mesmo as
crianças pegam difteria por causa dos joelhos! Ninguém precisa
se proteger assim. Na minha idade, não se passa frio – muito
menos nas pernas. Seria melhor se eu estivesse com febre,
mamãe? Agradeça ao bom Deus por seu amor não cortar as
mangas em alguma manhã, e aparecer à sua frente sem sapatos
e meias ao anoitecer! Quando usar meu cilício, estarei vestida
como uma rainha dos elfos por baixo… Não ralhe, mamãezinha!
Ninguém vai ver.

Cena 2
Noite de domingo.

melchior. Estou entediado. Não vou continuar.


otto. Daí nós todos também teremos de parar! Você fez as lições,
Melchior?
m e l c h i o r . Continuem brincando!
m o r i t z . Aonde você vai?
m e l c h i o r . Passear.
g e o r g . Está escurecendo!
r o b e r t . Você já fez as lições?
m e l c h i o r . Por que não posso passear no escuro?
e r n s t . América Central! Luís XV! Sessenta versos de Homero! Sete
equações!
m e l c h i o r . Droga de lições.
g e o r g . Se pelo menos a redação de latim não fosse para amanhã!
m o r i t z . Não dá para pensar em nada sem que as lições entrem
no meio!
o t t o . Vou para casa.
g e o r g . Eu também, fazer as lições.
e r n s t . Eu também, eu também.

O D espertar da P rimaver a 15
robert. Boa noite, Melchior.
melchior. Durmam bem.
Todos se afastam, exceto Moritz e Melchior
m e l c h i o r . Eu gostaria de saber para que viemos ao mundo!
m o r i t z . Eu preferia ser um cavalo de carroça em vez de ir à escola!
Para que vamos à escola? Vamos à escola para sermos avaliados!
E para que somos avaliados? Para repetir de ano. Sete têm de
ser reprovados, até porque a classe acima só comporta sessenta.
Estou com uma sensação estranha desde o Natal… Que diabos,
se não fosse papai, hoje mesmo juntava minha trouxa e partia
para Altona!¹
m e l c h i o r . Vamos falar de outra coisa.
Eles dão uma volta
m o r i t z . Você está vendo o gato preto com o rabo levantado?
m e l c h i o r . Você acredita em premonição?
m o r i t z . Não sei. Ele veio de lá. Não quer dizer nada.
m e l c h i o r . Acho que é uma Caríbdes, na qual cai todo aquele que
se safou da loucura religiosa de Cila. Vamos sentar aqui debaixo
desta árvore. O vento do degelo está soprando sobre as monta-
nhas. Neste momento, eu gostaria de ser uma jovem dríade lá
na montanha, que passa a noite toda sobre as copas mais altas,
balançando e sendo ninada.
m o r i t z . Desabotoe o colete, Melchior!
m e l c h i o r . Ah! Como as roupas nos estufam!
m o r i t z . Meu Deus, está ficando tão escuro que é impossível en-
xergar um palmo diante do nariz. Onde você está, afinal? Você
também não acha, Melchior, que o sentimento de pudor no ser
humano é apenas um produto de sua educação?
m e l c h i o r . Pensei no assunto anteontem. De qualquer modo, isso
parece estar profundamente enraizado na natureza humana.
Imagine ficar completamente despido na frente de seu melhor
amigo. Você só vai conseguir se ele se despir ao mesmo tempo.
No fundo, também é uma espécie de questão de moda.
m o r i t z . Quando tiver filhos, pensei, meninos e meninas, vou

1 Altona: à época, cidade independente junto a Hamburgo e que dispunha de um


importante porto. – n t

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deixá-los dormir desde cedo no mesmo quarto, se possível na
mesma cama. Vou deixá-los se ajudarem uns aos outros a se
vestir e a se despir, de manhã e à noite; e durante o verão, tanto
os meninos quanto as meninas usarão apenas uma túnica curta
de algodão branco, com um cinto de couro. Na minha opinião,
se crescerem desse jeito, mais tarde serão mais calmos do que
acontece no geral.
m e l c h i o r . Absolutamente certo, Moritz! A única questão é se as
meninas ficarem grávidas – o que acontece?
m o r i t z . Como assim, ficarem grávidas?
m e l c h i o r . Nesse sentido, acredito em um determinado instinto.
Acho que se prendermos, por exemplo, um gato com uma gata
desde cedo, e mantivermos os dois afastados do mundo exte-
rior, isto é, se eles ficarem expostos somente a seus próprios
instintos, a gata cedo ou tarde ficará prenhe, embora nem ela
nem o gato tivessem ninguém cujo exemplo pudesse lhes ter
aberto os olhos.
m o r i t z . Afinal, nos animais isso tem de acontecer de uma maneira
natural.
m e l c h i o r . Eu acho que ainda mais com os seres humanos! Veja,
Moritz, se seus meninos dormirem na mesma cama com as
meninas e surgirem de repente as primeiras excitações mas-
culinas… eu apostaria com qualquer um…
m o r i t z . Você pode ter razão nisso. De todo o modo…
m e l c h i o r . E com suas meninas, na idade correspondente, acon-
teceria o mesmo! Não que a menina… não é possível julgar
precisamente isso… de qualquer maneira, seria de se esperar…
e a curiosidade faria sua parte, não esqueça!
m o r i t z . Tenho uma pergunta.
m e l c h i o r .Diga.
m o r i t z . Mas você vai responder?
m e l c h i o r . Claro que sim!
m o r i t z . Jura?
m e l c h i o r . Dou minha palavra. E aí, Moritz?
m o r i t z . Você já fez sua redação??
m e l c h i o r . Desembuche logo! Ninguém consegue nos ver ou ouvir
aqui.

O D espertar da P rimaver a 17
moritz. É evidente que meus filhos teriam de trabalhar durante o dia,
no quintal e no jardim, ou se distrair com jogos que demandam
esforços físicos. Eles teriam de cavalgar, fazer ginástica, escalar
e, principalmente, não dormir em colchões tão macios como
os nossos. Estamos terrivelmente suscetíveis. Acho que nem
conseguimos sonhar quando dormimos num colchão duro.
m e l c h i o r . Passei a dormir desde agora até a colheita das uvas numa
rede. Guardei minha cama atrás do fogão. Ela é de dobrar. No
inverno passado sonhei que tinha batido tanto em nosso Lolo,
até ele não se mexer mais. Esse foi meu pior pesadelo. Por que
você está me olhando desse jeito esquisito?
m o r i t z . Você já sentiu aquilo?
m e l c h i o r . O quê?
m o r i t z . Como você chamou aquilo?
m e l c h i o r . Excitações masculinas?
m o r i t z . Hum…
m e l c h i o r . Eu, sim.
m o r i t z . Eu também… … … … … … … …
m e l c h i o r . Conheço isso já faz tempo! Há quase um ano.
m o r i t z . Para mim foi como se eu tivesse sido atingido por um
raio.
m e l c h i o r . Você tinha sonhado?
m o r i t z . Muito pouco… com pernas numa roupa justa azul celeste,
que subiam a mesa do professor – para dizer a verdade, acho
que elas queriam pulá-la. Eu as vi de relance.
m e l c h i o r . Georg Zirschnitz sonhou com a mãe.
m o r i t z . Ele contou para você?
m e l c h i o r . Lá fora, na trilha!
m o r i t z . Se você soubesse o que passei desde aquela noite!
m e l c h i o r . Peso na consciência?
m o r i t z . Peso na consciência?… Medo de morrer!
m e l c h i o r . Deus do céu.
m o r i t z . Achei que ia morrer. Achei que estava doente. Só me acalmei
ao começar a escrever minhas memórias. Sim, caro Melchior,
as últimas três semanas foram um martírio para mim.
m e l c h i o r . Na minha vez, estava mais ou menos preparado. Fiquei
com um pouco de vergonha. Mas foi só isso.

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moritz. E você é quase um ano mais novo do que eu!
melchior. Eu não me preocuparia com isso. Segundo minhas
experiências, a primeira ocorrência desse fenômeno não tem
uma idade definida. Você conhece o grande Lämmermeier, com
o cabelo loiro-palha e o narigão adunco? Ele é três anos mais
velho do que eu. De acordo com Hänschen Rilow, ele até hoje
sonha apenas com tortas e geleia de damasco.
m o r i t z . Por favor! Como Hänschen Rilow pode saber disso?
m e l c h i o r . Ele perguntou para ele.
m o r i t z . Ele perguntou para ele? Eu não conseguiria perguntar isso
para ninguém.
m e l c h i o r . Mas você perguntou para mim.
m o r i t z . Ora, é verdade! Certamente Hänschen também já fez seu
testamento. Esse jogo que fazem conosco é bem estranho. E temos
de ficar gratos por isso! Não me lembro ter sentido nenhuma
ansiedade por esse tipo de excitação. Por que não me deixaram
dormir em paz, até que tudo estivesse calmo novamente? Meus
queridos pais poderiam ter tido centenas de filhos melhores.
E aqui estou, não sei como, e tenho de me responsabilizar por
isso. Melchior, você já não pensou também sobre como fomos
cair nessa esparrela?
m e l c h i o r . Você ainda não sabe como, Moritz?
m o r i t z . Como saberia? Entendo como as galinhas botam ovos, e
disseram-me que mamãe me concebeu no coração. Mas isso
é suficiente? Também me lembro de me sentir constrangido,
aos cinco anos de idade, quando a decotada dama de copas era
colocada sobre a mesa. Mas essa sensação passou. Por outro
lado, mal consigo falar com alguma menina sem pensar em
algo indecente e – eu juro, Melchior – não sei nada.
m e l c h i o r . Vou contar tudo para você. Parte das coisas que sei são
de livros, parte de figuras, parte de observações na natureza.
Você vai ficar espantado; eu me tornei ateu. Também contei a
Georg Zirschnitz! Georg Zirschnitz queria contar para Hänschen
Rilow, mas Hänschen Rilow já tinha ouvido tudo quando era
criança, de sua governanta.
m o r i t z . Eu folheei toda a edição da Pequena Enciclopédia Meyer, de
A a Z. Palavras – nada além de palavras e mais palavras! Nem

O D espertar da P rimaver a 19
uma única simples explicação. Ah, essa sensação de vergonha!
De que me adianta uma enciclopédia que não responde à ques-
tão mais importante da vida?
m e l c h i o r . Você já viu dois cachorros andando pela rua?
m o r i t z . Não!… É melhor você não me dizer mais nada hoje, Melchior.
Eu ainda tenho a América Central e Luís XV pela frente. Além
dos sessenta versos de Homero, as sete equações, a redação em
latim – amanhã eu me daria mal em tudo isso. Para me dar bem
nos estudos, preciso estar tão estuporado quanto um boi.
m e l c h i o r . Venha comigo até meu quarto. Em quarenta e cinco
minutos dou conta do Homero, das equações e das duas reda-
ções. Corrijo alguns erros bobos seus e pronto. Mamãe nos fará
uma limonada e poderemos conversar tranquilamente sobre a
reprodução.
m o r i t z . Não posso. Não posso conversar tranquilamente sobre a
reprodução! Se você quiser me fazer um favor, então me passe
suas informações por escrito. Escreva o que você sabe, de pre-
ferência resumido e com clareza. Enfie o papel entre os livros
durante a aula de educação física. Vou levá-lo para casa sem
querer. De repente, vou encontrá-lo. Não poderei deixar de passar
meus olhos cansados sobre o texto… caso seja absolutamente
necessário, você pode fazer uns desenhos também.
m e l c h i o r . Você está parecendo uma menina. Mas você é quem
manda! Para mim, é um trabalho bem interessante. Uma per-
gunta, Moritz.
m o r i t z . Hein?
m e l c h i o r . Você já viu uma menina?
m o r i t z . Sim!
m e l c h i o r . Mas toda?
m o r i t z . Todinha!
m e l c h i o r . Eu também. Assim não serão necessárias ilustrações.
m o r i t z . Durante a festa do tiro ao alvo, no museu de anatomia de
Leilich! Se alguém descobrisse, eu teria sido expulso da escola.
Bela como um dia de sol e… tão autêntica!
m e l c h i o r . Estive em Frankfurt, com mamãe, no último verão.
Você já vai, Moritz?
m o r i t z . Fazer as lições. Boa noite.
m e l c h i o r . Adeus.

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Cena 3
Thea, Wendla e Martha vêm subindo a rua de braços dados.

martha. Como a água entra nos sapatos!


wendl a. Como o vento sopra no rosto!
t h e a . Como o coração dispara!
w e n d l a . Vamos subir a ponte! Ilse diz que o rio está carregando
arbustos e árvores. Os rapazes puseram uma jangada no rio.
Parece que Melchi Gabor quase se afogou ontem à noite.
t h e a . Mas ele sabe nadar!
m a r t h a . Espero que sim!
w e n d l a . Se ele não soubesse nadar, certamente teria se afogado!
t h e a . Sua trança está se desfazendo, Martha; sua trança está se
desfazendo!
m a r t h a . Ora, deixe que se desfaça! Ela me irrita dia e noite. Não
posso usar o cabelo curto como você, não posso usá-lo solto
como Wendla, nem preso num rabo de cavalo, e em casa tenho
de andar bem penteada – tudo por causa das tias!
w e n d l a . Amanhã levarei uma tesoura à aula de religião. Enquanto
você recita “Bem aventurado o homem que não anda no conse-
lho dos ímpios…”, vou cortá-la.
m a r t h a . Deus me livre, Wendla! Papai vai me surrar e mamãe vai
me prender por três dias na despensa de carvão.
w e n d l a . Com o que ele bate em você, Martha?
m a r t h a . Às vezes acho que eles sentiriam falta de alguma coisa se
não tivessem uma filha tão traquinas quanto eu.
t h e a . Ora, menina.
m a r t h a . Você também não pôde pôr uma fita azul nas ombreiras
da camisa?
t h e a . Cetim rosa. Mamãe acha que cetim rosa combina com meus
olhos escuros.

O D espertar da P rimaver a 21
martha. O azul é que me ficava bem. Mamãe me puxou da cama
pela trança. Desse jeito… eu bati com as mãos no chão. É que
mamãe reza todas as noites conosco.
w e n d l a . Se eu fosse você, já teria fugido de casa fazia tempo.
m a r t h a . …Era isso que eu tinha metido na cabeça! Era isso! Mas
ela ia ver, ah, ela ia ver! Pelo menos aí eu não poderia acusar
mamãe…
t h e a . Hm, hm!
m a r t h a . Você imagina o que mamãe quis dizer com aquilo,
Thea?
t h e a . Eu, não. E você, Wendla?
w e n d l a . Eu teria simplesmente perguntado a ela.
m a r t h a . Eu estava no chão, gritando e chorando. Aí vem o papai.
Vapt, puxa a camisola. Eu… saio porta afora. É isso! Eles acha-
vam que eu queria sair assim para a rua.
w e n d l a . Isso não é verdade, Martha.
m a r t h a . Estava gelada. Abri a porta. Tive de passar a noite toda
dentro do saco.
t h e a . Eu nunca conseguiria dormir dentro de um saco!
w e n d l a . Eu bem que queria dormir por você no seu saco.
m a r t h a . Se ao menos não nos batessem.
t h e a . Mas a gente sufoca lá dentro!
m a r t h a . A cabeça fica de fora. Amarra-se debaixo do queixo.
t h e a . Daí eles batem em você?
m a r t h a . Não. Apenas se acontece alguma coisa especial.
w e n d l a . O que eles usam para bater, Martha?
m a r t h a . Ora… muitas coisas. Sua mãe também acha inadequado
comer pão na cama?
w e n d l a . Não, não.
m a r t h a . Acho que eles têm lá suas alegrias, embora nunca falem a
respeito. Se algum dia eu tiver filhos, vou deixá-los crescer feito
o mato em nosso jardim. Ninguém se ocupa dele, que cresce
e fica tão alto, tão denso – enquanto as rosas nos canteiros dão
flores cada vez mais mirradas no verão.
t h e a . Quando eu tiver filhos, vou vesti-los somente de cor-de-
rosa. Chapéus rosas, vestidinhos rosas, sapatos rosas. Apenas
as meias – as meias serão pretas como a noite! E quando eu

22
sair para passear, vou deixá-los caminhar na minha frente. E
você, Wendla?
w e n d l a . Como vocês sabem que terão filhos?
t h e a . Por que não os teríamos?
m a r t h a . A tia Euphemia não tem filhos.
t h e a . Boboca! Porque ela não é casada.
w e n d l a . A tia Bauer foi casada três vezes e não tem nenhum.
m a r t h a . Quando você tiver filhos, Wendla, vai preferir meninos
ou meninas?
w e n d l a . Meninos! Meninos!
t h e a . Eu também quero meninos!
m a r t h a . Eu também. Melhor vinte meninos do que três meninas.
t h e a . Meninas são tediosas!
m a r t h a . Se eu pudesse escolher, não seria menina.
w e n d l a . Acho que isso é uma questão de gosto, Martha! Agradeço
todos os dias por ser menina. Acredite, não gostaria de trocar com
nenhum príncipe. Mas por isso eu queria apenas meninos.
t h e a . Isso é bobagem, uma porção de bobagem, Wendla!
w e n d l a . Por favor, amiga, deve ser mil vezes mais arrebatador ser
amada por um homem do que por uma mulher!
t h e a . Você não está querendo dizer que Pfälle, o estagiário do guarda
florestal, ama Melitta mais do que ela o ama!
w e n d l a . Isso mesmo, Thea! Pfälle está orgulhoso. Pfälle está or-
gulhoso por ser estagiário do guarda florestal – pois Pfälle não
tem nada. Melitta está feliz porque está recebendo dez mil vezes
mais do que ela é.
m a r t h a . Você não tem orgulho de si própria, Wendla?
w e n d l a . Isso seria ingênuo.
m a r t h a . No seu lugar, eu ficaria orgulhosa.
t h e a . Veja como ela anda, como olha firme, como se comporta,
Martha! Se isso não for orgulho…!
w e n d l a . Para quê? Estou tão feliz por ser menina; se não fosse
menina, eu me suicidaria, para da próxima vez…
Melchior vem passando e cumprimenta
t h e a . Ele tem uma cabeça ótima.
m a r t h a . É assim que imagino o jovem Alexandre quando foi estu-
dar com Aristóteles.

O D espertar da P rimaver a 23
thea. Deus do céu, a história grega! Só sei que Sócrates estava num
barril quando Alexandre lhe vendeu a sombra do burro.
w e n d l a . Parece que ele é o terceiro melhor aluno da sua classe.
t h e a . O professor Knochenbruch diz que ele podia ser o primeiro,
se quisesse.
m a r t h a . Ele tem uma testa linda, mas o amigo dele tem um olhar
mais profundo.
t h e a . Moritz Stiefel? Ele é um molengão!
m a r t h a . Sempre me dei bem com ele.
t h e a . Ele constrange qualquer um que o encontre. Na festa das
crianças na casa dos Rilow, ele me ofereceu bombons. Imagine,
Wendla, estavam quentes e moles. Isso não é…? Ele disse que
os bombons estavam há um tempão no bolso da sua calça.
w e n d l a . Imagine, Melchi Gabor me disse certa vez que não acredita
em nada. Nem em Deus, nem no além. Em mais nada deste
mundo.

Cena 4
Parque na frente da escola. Melchior, Otto, Georg, Robert, Häns-
chen Rilow, Lämmermeier.

melchior. Algum de vocês sabe me dizer onde está Moritz Stiefel?


georg. Quem se importa? Ninguém se importa.
o t t o . Ele apronta tanto até que um dia vai acabar levando.
l ä m m e r m e i e r . Sei lá, não queria estar na pele dele neste momento!
r o b e r t . Que atrevimento! Uma falta de vergonha!
m e l c h i o r . Mas… mas… o que aconteceu?
g e o r g . O que aconteceu? Bem, eu digo para você.
l ä m m e r m e i e r . Eu não abri a boca.
o t t o . Nem eu. Deus me livre!
m e l c h i o r . Se vocês não falarem imediatamente…
r o b e r t . Pois bem. Moritz Stiefel entrou na sala do conselho.
m e l c h i o r . Na sala do conselho…?
o t t o . Na sala do conselho! Logo depois da aula de latim.
g e o r g . Ele foi o último; ficou para trás de propósito.

24
l ämmermeier. Ao virar o corredor, vi quando ele estava abrindo
a porta.
m e l c h i o r . Que o diabo te…!
l ä m m e r m e i e r . Tomara que o diabo não carregue o Moritz.
g e o r g . Pelo visto, o diretor não tirou a chave.
r o b e r t . Ou Moritz Stiefel tem uma chave-mestra.
o t t o . É capaz.
l ä m m e r m e i e r . Se a coisa acabar bem, ele fica de castigo num
domingo à tarde.
r o b e r t . Além de uma observação no boletim!
o t t o . Se não bombar com essa nota.
h ä n s c h e n r i l o w . Lá está ele!
m e l c h i o r . Pálido como um fantasma.
Moritz se aproxima, excitadíssimo
l ä m m e r m e i e r : Moritz, Moritz, o que você aprontou!
m o r i t z . …Nada… nada…
r o b e r t . Você está delirando.
m o r i t z . …De felicidade… de alegria… de júbilo.
o t t o . Pegaram você?
m o r i t z . Passei! Melchior! Passei! Agora o mundo pode acabar!
Passei! Quem teria acreditado nisso! Eu não estou acreditando!
Li vinte vezes! Eu não estou acreditando! Oh, Deus, é verdade,
é verdade! Passei! [sorrindo] Não sei, estou me sentindo esqui-
sito, o chão está rodando… Melchior, Melchior, você bem sabe
o que passei!
h ä n s c h e n r i l o w . Parabéns, Moritz. Que bom que você escapou!
m o r i t z . Você não sabe, Hänschen. Você nem imagina o que estava
em jogo. Há três semanas eu me esgueiro pela porta como se ela
fosse a boca do inferno. Hoje eu percebi que ela estava apenas
encostada. Acho que mesmo se me oferecessem um milhão…
nada teria me impedido! Estou no meio da sala. Abro o livro
do conselho, folheio, encontro – e durante todo esse tempo…
Estou todo arrepiado.
m e l c h i o r . …durante todo esse tempo?
m o r i t z . Durante todo esse tempo a porta atrás de mim ficou escan-
carada. Não sei como saí, como desci as escadas.
h ä n s c h e n r i l o w . Ernst Röbel também vai passar?

O D espertar da P rimaver a 25
moritz. Certamente, Hänschen, certamente! Ernst Röbel também
vai passar.
r o b e r t . Então você não leu direito. Tirando os burros, com você
e Röbel somos sessenta e um, e a sala de aula lá de cima só
comporta sessenta.
m o r i t z . Eu li tudo direitinho. Ernst Röbel vai passar assim como eu
– mas os dois com dependência. Durante o primeiro trimestre
vai ser decidido quem ficará com a vaga. Pobre Röbel! Juro que
não tenho mais medo. Dessa vez eu fui fundo demais.
o t t o . Aposto cinco marcos que você é quem vai espirrar.
m o r i t z . Você não tem nada, não quero roubá-lo. Deus, como vou
estudar a partir de hoje! Agora posso dizer – acreditem ou não –,
afinal agora tanto faz: se eu não tivesse passado, teria dado um
tiro na cabeça.
r o b e r t . Pura garganta!
g e o r g . Covarde!
o t t o . Queria ver você dar um tiro na cabeça!
l ä m m e r m e i e r . Você merece uns tapas!
m e l c h i o r [dá um tapa nele]. Vamos, Moritz. Até a casa do guarda
florestal!
g e o r g . Você acredita nisso?
m e l c h i o r . Não me importa. Deixe-os falar, Moritz! Vamos sair da
cidade!
Os professores Hungeburt e Knochenburt passam por ali
k n o c h e n b u r t . Acho inacreditável, caro colega, como o melhor
dos meus alunos possa se sentir atraído exatamente pelo pior
deles.
h u n g e b u r t . Concordo, caro colega.

Cena 5
Tarde ensolarada. Melchior e Wendla se encontram no bosque.

melchior. É você mesma, Wendla? O que você está fazendo sozi-


nha aqui? Há três horas estou andando a torto e a direito pelo

26
bosque sem encontrar ninguém, e agora você me aparece do
nada na parte mais fechada dele!
w e n d l a . Sim, sou eu.
m e l c h i o r . Se eu não soubesse que você é Wendla Bergmann, diria
se tratar de uma dríade caída dos galhos.
w e n d l a . Não, não, sou Wendla Bergmann. O que você está fa-
zendo?
m e l c h i o r . Estou pensando.
w e n d l a . E eu estou procurado rainhas-do-bosque. Mamãe quer
fazer um chá. No começo ela também queria vir, mas no último
minuto recebemos a visita da tia Bauer, e ela não gosta de fazer
caminhadas. Daí eu subi sozinha.
m e l c h i o r . Você já achou as rainhas-do-bosque?
w e n d l a . Estou com o cesto cheio. Lá debaixo das faias há tantas que
se parecem com um gramado de trevos. Agora estou tentando
sair daqui. Acho que estou perdida. Que horas são?
m e l c h i o r . Passou um pouco das três e meia. A que horas você
tem de estar de volta?
w e n d l a . Achei que já era mais tarde. Fiquei um tempão junto ao
riacho, sonhando. O tempo passou tão rápido; fiquei com medo
de já ser noite.
m e l c h i o r . Se você ainda tem tempo, vamos ficar um pouco por
aqui. Um dos meus lugares favoritos é embaixo do carvalho. Se
encosto a cabeça no tronco e olho para o céu por entre os galhos,
fico hipnotizado. O chão ainda está quente do sol da manhã. Há
semanas que quero perguntar uma coisa para você, Wendla.
w e n d l a . Mas antes das cinco preciso estar em casa.
m e l c h i o r . Vamos juntos. Pego o cesto e usamos um atalho pelo
leito do riacho, e em dez minutos estaremos na ponte! Basta
ficar ali, com a cabeça apoiada pela mão, para surgirem os
pensamentos mais bizarros…
Ambos se ajeitam debaixo do carvalho
w e n d l a . O que você queria me perguntar, Melchior?
m e l c h i o r . Ouvi dizer, Wendla, que você visita com frequência pes-
soas pobres. Que você lhes dá comida, roupas e dinheiro. Você
faz isso por vontade própria ou é sua mãe quem pede?
w e n d l a . Em geral, minha mãe é quem me pede. São famílias de
pessoas que trabalham por dia e que têm uma quantidade

O D espertar da P rimaver a 27
enorme de filhos. Muitas vezes o marido não encontra trabalho,
e daí eles passam fome e frio. E temos algumas coisas velhas
guardadas nos armários e nas cômodas, que não usamos mais.
Mas por que você está perguntando isso?
m e l c h i o r . Você gosta ou não de ir quando sua mãe pede?
w e n d l a . Claro que gosto! Como você pode questionar uma coisa
dessa?
m e l c h i o r . Mas as crianças são sujas, as mulheres estão doentes,
as casas ficam imundas, os homens detestam você, porque você
não trabalha…
w e n d l a . Não é verdade, Melchior. E se fosse verdade, aí sim que
eu não deixaria de ir.
m e l c h i o r . Como assim, Wendla?
w e n d l a . Aí sim que eu não deixaria de ir. Eu ficaria ainda mais
satisfeita em poder ajudá-los.
m e l c h i o r . Ou seja, você visita as famílias pobres por prazer?
w e n d l a . Vou porque são pobres.
m e l c h i o r . Mas se você não sentisse prazer, deixaria de ir?
w e n d l a . Não tenho culpa se isso me traz prazer.
m e l c h i o r . E você ainda vai para o céu por causa disso! Então está
certo algo que me incomoda há um mês! Qual é a culpa do egoísta
em não sentir prazer em visitar crianças sujas e doentes?
w e n d l a . Oh, você certamente teria grande prazer.
m e l c h i o r . E, no entanto, ele tem de sofrer a morte eterna por causa
disso! Vou escrever um texto a respeito e entregar ao pastor
Kahlbauch. Ele é quem provocou isso. As bobagens que ele fala
sobre a alegria da doação! Se ele não souber me responder, não
vou mais à catequese infantil e não farei a confirmação.
w e n d l a . Por que você quer aborrecer seus queridos pais? Faça a
confirmação;² não custa nada. Se não fosse pelos nossos me-
donhos vestidos brancos e as suas calças compridas, seria até
divertido.
m e l c h i o r . O autossacrifício não existe! O altruísmo não existe!
Vejo os bons se alegrarem, os maus tremerem e gemerem. Vejo

2 Na igreja evangélica de confissão luterana, no ato de confirmação, o jovem, por volta


de 13 anos, confessa publicamente sua fé, diante de Deus e da comunidade. – n t

28
você, Wendla Bergmann, balançar seus cachos e sorrir, e isso
é tão sério para mim como se eu fosse um proscrito. Wendla,
você sonhou com o quê, quando estava deitada na grama junto
ao riacho?
w e n d l a . Bobagens. Tolices.
m e l c h i o r . De olhos abertos?
w e n d l a . Sonhei que era uma criança pobre, pedinte, que ia para
a rua às cinco da manhã. Eu tinha de mendigar durante o dia
todo, na chuva e no frio, em meio a pessoas rudes e de coração
de pedra. E se eu chegasse em casa à noite, tremendo de fome
e de frio, sem o tanto de dinheiro que meu pai exigia, então
era surrada… surrada.
m e l c h i o r . Entendo, Wendla. Agradeça a essas estúpidas histórias de
crianças. Acredite, não existem mais pessoas tão brutas assim.
w e n d l a . Ah, Melchior, aí você se engana. Martha Bessel é surrada
noite após noite, e no dia seguinte dá para ver as marcas. O que
ela sofre! A gente ferve de raiva só de ouvir. Tenho tanta pena
dela que muitas vezes choro no travesseiro, no meio da noite.
Há meses que estou pensando em como ajudá-la. Eu queria
ficar no seu lugar por oito dias.
m e l c h i o r . Bastava dar queixa do pai. A filha seria tirada dele.
w e n d l a . Eu nunca fui surrada na vida, Melchior. Nem uma única
vez. Não consigo nem pensar o que é receber uma surra. Já
bati em mim mesma para saber como a gente se sente. Deve
ser uma sensação horrível.
m e l c h i o r . Não acredito que a criança melhore por causa disso.
w e n d l a . Melhore por causa do quê?
m e l c h i o r . Das surras.
w e n d l a . Com essa vara, por exemplo. Ela é resistente e fina.
m e l c h i o r . Ela tira sangue.
w e n d l a . Você a usaria para bater em mim uma vez?
m e l c h i o r . Bater em quem?
w e n d l a . Em mim.
m e l c h i o r . Que ideia, Wendla.
w e n d l a . Qual o problema?
m e l c h i o r . Fique quieta. Não vou bater em você.
w e n d l a . Mas eu estou permitindo!

O D espertar da P rimaver a 29
melchior. Nunca, garota.
wendl a. Mas eu estou pedindo, Melchior!
m e l c h i o r . Você está doida?
w e n d l a . Nunca recebi uma surra na vida.
m e l c h i o r . Se você é capaz de pedir uma coisa dessas…!
w e n d l a . Por favor! Por favor!
m e l c h i o r . Vou ensinar você a pedir [Ele bate nela]
w e n d l a . Oh, Deus. Não estou sentindo nada!
m e l c h i o r . Acredito. São tantas as suas saias…
w e n d l a . Então bata nas minhas pernas!
m e l c h i o r . Wendla! [Ele bate com mais força]
w e n d l a . Você está fazendo carinho! Só está fazendo carinho!
m e l c h i o r . Espere, sua bruxa, vou tirar o diabo do seu corpo!
Ele se desfaz da vara e bate com os punhos com tamanha
violência, que ela começa a berrar. Ele não se detém, mas
continua a bater com raiva, enquanto pesadas lágrimas escor-
rem pelo seu rosto. De repente ele se apruma, agarra a cabeça
com ambas as mãos e sai correndo para dentro do bosque,
soluçando desesperado

30
segundo ato
Cena 1
À noite no quarto de Melchior. A janela está aberta, a lâmpada
acesa sobre a mesa. Melchior e Moritz no sofá.

m o r i t z . Agora estou desperto novamente, apenas um pouco nervoso.


Mas na aula de grego eu dormi feito o Polifemo bêbado. Fico
espantado que o velho Zungenschlag não puxou minhas orelhas.
Hoje cedo quase chego atrasado. Meu primeiro pensamento ao
acordar foram os verbos em μι . Céus… Santo Deus… Diabos…
Droga, durante o café da manhã e no caminho fiquei conjugando
tanto que me senti até mal. Devo ter adormecido um pouco
depois das três. A pena manchou meu livro. A lâmpada estava
fumegando quando Matilde me acordou; os melros estavam
tão contentes cantando no sabugueiro debaixo da janela – logo
me senti melancólico. Coloquei o colarinho e passei a escova
no cabelo. Mas a gente se sente bem quando consegue ir um
pouco contra a própria natureza.
m e l c h i o r . Posso enrolar um cigarro para você?
m o r i t z . Obrigado, não fumo. Se eu continuar assim! Quero traba-
lhar e trabalhar, até os olhos saltarem da minha cabeça. Ernst
Röbel tirou seis zeros desde as férias; três em grego, dois com
o Knochenbruch; o último em história da literatura. Tirei essa
nota lastimável só cinco vezes. E, a partir de hoje, nunca mais
vai acontecer! Röbel não vai se matar. Röbel não tem pais que
sacrificam tudo por ele. Se ele quiser, pode ser mercenário,
caubói ou marinheiro. Se eu repetir, meu pai tem um infarto
e minha mãe vai para o hospício. Ninguém precisa passar por
isso! Antes das provas, supliquei a Deus que ele me deixasse
tuberculoso, mas não me fizesse beber desse cálice. Não tive,
embora eu ainda hoje enxergue a sua auréola ao longe, de

32
maneira que não consigo levantar o olhar, nem de dia nem de
noite. Mas já que tomei impulso, vou me lançar para longe. É
imprescindível, pois não consigo cair sem quebrar o pescoço.
m e l c h i o r . A vida é de uma maldade inacreditável. Eu até teria
vontade de me enforcar num galho. Onde está a mamãe com
o chá?
m o r i t z . Seu chá vai me fazer bem, Melchior. Estou tremendo. Sinto-
me estranho, enfeitiçado. Me toque, por favor. Eu vejo, escuto,
sinto com tamanha clareza – mesmo assim, tudo parece um
sonho –, tudo parece tão impressionante. Como ali o jardim se
estende sob o luar, tão quieto, tão profundo, como se fosse ao
infinito. Debaixo dos arbustos formas envoltas em véus surgem
numa velocidade febril sobre as clareiras e desaparecem na
semiescuridão. Acho que debaixo da castanheira haverá uma
reunião de diretoria. Vamos descer, Melchior?
m e l c h i o r . Vamos esperar até tomarmos o chá.
m o r i t z . As folhas estão sussurrando tanto. Parece que estou ouvindo
a falecida vovó contar, toda feliz, a história da “Rainha sem cabeça”.
Era uma vez uma rainha maravilhosa, linda como o sol, mais
linda do que todas as moças do lugar. Mas ela nasceu infeliz-
mente sem a cabeça. Ela não podia comer nem beber nada, não
podia enxergar, sorrir nem beijar. Comunicava-se com a corte
somente por meio de sua pequena e delicada mão. Batendo os
pés graciosos, declarava guerra e sentenciava mortes. Certo dia
ela foi vencida por um rei que por acaso tinha duas cabeças,
que brigavam o ano inteiro e disputavam com tanto ímpeto que
nenhuma delas conseguia se expressar. O mágico-mor da corte
pegou a menor delas e colocou-a na rainha. E veja, combinou
perfeitamente. Em seguida, o rei casou-se com a rainha, e am-
bos pararam de brigar, e ficavam o tempo todo se beijando na
testa, no rosto e na boca, e viveram mais muitos anos felizes
e alegres… Que bobagem! Desde as férias não consigo tirar a
rainha sem cabeça da minha cabeça. Se vejo uma menina bonita,
imagino-a sem cabeça – e ela logo se parece com a rainha sem
cabeça. É possível que alguém coloque uma em mim.
A Senhora Gabor entra com o chá fumegando, que coloca sobre
a mesa à frente de Moritz e Melchior

O D espertar da P rimaver a 33
senhor a gabor. Aqui, crianças, sirvam-se. Boa noite, Moritz.
Como vai?
m o r i t z . Obrigado, senhora Gabor. Estou escutando dançar lá
embaixo.
s e n h o r a g a b o r . Sua aparência não é nada boa. Você não está se
sentindo bem?
m o r i t z . Não é nada. Fui dormir um pouco tarde nas últimas
noites.
m e l c h i o r . Imagine, ele passou a noite passada trabalhando.
s e n h o r a g a b o r . Você não devia fazer uma coisa dessas, Moritz. É
preciso se cuidar. Pense na sua saúde. A escola não lhe substitui
a saúde. Vá caminhar ao ar livre! Na sua idade, isso vale mais
a pena do que um alemão correto.
m o r i t z . Caminharei ao ar livre. A senhora tem razão. Dá para es-
tudar caminhando. Como eu mesmo não pensei nisso! Mas os
trabalhos escritos tenho de continuar fazendo em casa.
m e l c h i o r . Os escritos você faz aqui; assim fica mais fácil para
ambos. Você sabe, mamãe, Max von Trenk estava de cama com
febre tifoide! Hoje ao meio-dia Hänschen Rilow saiu do leito de
morte de Trenk e foi até o reitor Sonnenstich para avisar que
Trenk tinha acabado de morrer. “E daí?”, pergunta Sonnenstich,
“você não tem que cumprir mais duas horas de castigo da semana
passada? Aqui está o bilhete para o bedel. Vamos, resolva logo
isso! A classe inteira deve participar do enterro”. Hänschen
ficou sem ação.
s e n h o r a g a b o r . Que livro é esse, Melchior?
m e l c h i o r . Fausto.
s e n h o r a g a b o r . Você já o leu?
m e l c h i o r . Ainda não cheguei ao fim.
m o r i t z . Acabamos de chegar na Noite de Valpúrgis.
s e n h o r a g a b o r . Eu teria esperado mais um ou dois anos, se fosse
você.
m e l c h i o r . Não conheço nenhum livro, mamãe, no qual encontrei
tanta beleza. Por que eu não deveria lê-lo?
s e n h o r a g a b o r . Porque você não o entende.
m e l c h i o r . Você não pode julgar isso, mamãe. Sinto muito bem que
ainda não posso assimilar o livro em toda sua profundidade…

34
moritz. Estamos lendo juntos, isso facilita em muito a compre-
ensão.
s e n h o r a g a b o r . Você já tem idade suficiente para saber o que
lhe faz bem ou não. Faça coisas pelas quais você possa se res-
ponsabilizar. Serei a primeira a reconhecer se você nunca me
der motivos para repreendê-lo por algo. Eu só queria alertá-lo
que mesmo o melhor pode ser prejudicial se ainda não se tem
a maturidade para assimilá-lo. Sempre vou preferir confiar em
você do que em quaisquer regras de educação. Se vocês pre-
cisarem de mais alguma coisa, crianças, me chame, Melchior.
Estou no meu quarto. [Sai]
m o r i t z . Sua mãe estava se referindo à história com a Gretchen.
m e l c h i o r . Nós nos detivemos apenas por bem pouco tempo
nisso!
m o r i t z . Nem mesmo Fausto teria sido mais frio a esse respeito!
m e l c h i o r . Afinal, a obra não culmina nessa infâmia! Fausto poderia
prometer se casar com a moça, poderia deixá-la depois disso,
mas não seria nem um tiquinho mais culpado no meu modo
de ver. Na minha opinião, Gretchen poderia morrer de coração
partido. Veja como todos encaram a situação de maneira tensa,
parece que o mundo todo gira em torno do p… e da v…!
m o r i t z . Sendo sincero, Melchior, é essa minha impressão, desde
que li seu texto. Ele me caiu às mãos no primeiro dia de férias.
Eu estava lendo o almanaque Plötz. Tranquei a porta e passei os
olhos rapidamente pelas linhas que ardiam, como uma coruja
assustada sobrevoa a floresta em chamas. Acho que li a maior
parte com os olhos fechados. Seus argumentos soavam como
uma série de lembranças amargas no meu ouvido, como uma
canção que alguém cantarolou feliz quando criança e que volta
a aparecer, na boca de outra pessoa, quando se está à beira da
morte. Fiquei especialmente impressionado com sua empatia
em relação à menina. Não consigo esquecer essa impressão.
Acredite, Melchior, sofrer uma injustiça é mais fácil do que
fazê-la. Submeter-se, inocente, a tal injustiça me parece ser a
imagem de toda felicidade terrena.
m e l c h i o r . Não quero receber minha felicidade como esmola.
m o r i t z . Mas por que não?

O D espertar da P rimaver a 35
melchior. Não quero nada pelo que eu não tenha lutado!
moritz. E isso ainda é prazer, Melchior?! A moça, Melchior, goza
como os deuses do céu. A moça se defende por causa de sua
natureza. Até o último instante ela não sente qualquer amar-
gura, para de repente todos os céus se irromperem dentro dela.
A moça tem medo do inferno ainda no momento em que ela
vivencia um paraíso florido. Sua sensação é tão fresca quanto
uma fonte que nasce de um rochedo. A moça pega um cálice
sobre o qual ainda não soprou nenhuma brisa terrena, um
cálice de néctar, cujo conteúdo – que queima em chamas – ela
engole… Acho que a satisfação que o homem sente nessa hora
é insípida e insossa.
m e l c h i o r . Ache do jeito que quiser, mas guarde suas opiniões. Eu
não gosto de pensar a respeito…

Cena 2
Sala de estar.

senhor a bergmann [de chapéu, mantilha; carrega uma cesta no


braço; passa radiante pela porta do meio]. Wendla! Wendla!
w e n d l a [aparece de anágua e espartilho na porta lateral à direita]. O
que foi, mamãe?
s e n h o r a b e r g m a n n . Já acordou, filha? Que bom!
w e n d l a . Você já tinha saído?
s e n h o r a b e r g m a n n . Vista-se rápido! Você precisa ir logo até a
casa da Ina, levar-lhe o cesto!
w e n d l a [que se veste enquanto isso]. Você estava na casa da Ina?
Como vai ela? Ainda não se recuperou?
s e n h o r a b e r g m a n n . Imagine só, Wendla. Essa noite a cegonha
passou por lá e lhe trouxe um menininho.
w e n d l a . Um menino? Um menino! Ah, isso é maravilhoso. Por
isso a gripe tão longa!
s e n h o r a b e r g m a n n . Um menino forte.

36
wendl a. Preciso vê-lo, mamãe. Agora sou tia pela terceira vez. Tia
de uma menina e de dois meninos.
s e n h o r a b e r g m a n n . E que meninos! É isso que dá viver tão perto
do teto da igreja! Amanhã faz apenas dois anos que ela subiu a
escada no seu vestido de noiva.
w e n d l a . Você estava lá quando a cegonha chegou?
s e n h o r a b e r g m a n n . Ela tinha acabado de levantar voo. Você não
quer usar uma rosa?
w e n d l a . Por que você não chegou lá um pouco mais cedo, ma-
mãe?
s e n h o r a b e r g m a n n . Mas eu acho que ela trouxe algo para você.
Um broche, talvez.
w e n d l a . É realmente uma pena.
s e n h o r a b e r g m a n n . Estou lhe dizendo que a cegonha lhe trouxe
um broche.
w e n d l a . Tenho broches suficientes…
s e n h o r a b e r g m a n n . Então seja grata, filha. O que você quer
mais?
w e n d l a . Eu queria tanto saber se a cegonha entrou pela janela ou
pela chaminé.
s e n h o r a b e r g m a n n . Então você precisa perguntar para Ina. Sim,
você precisa perguntar para Ina, minha querida. Ina vai explicar
direitinho. Afinal, Ina ficou meia hora conversando com ela.
w e n d l a . Vou perguntar a ela, assim que for até lá.
s e n h o r a b e r g m a n n . Mas não se esqueça, querida! Eu também
estou muito interessada em saber se ela veio pela janela ou
pela chaminé.
w e n d l a . Ou será que eu devo perguntar para o limpador de chami-
nés? Afinal, ele deve saber exatamente se ela passa por lá.
s e n h o r a b e r g m a n n . Para o limpador de chaminés, não, querida.
Não para o limpador de chaminés. O que ele vai saber a respeito
da cegonha! Ele só fica falando bobagens por aí, nas quais ele
próprio não acredita. O que você está olhando lá na rua??
w e n d l a . Um homem, mamãe – três vezes maior do que um boi!
Seus pés se parecem com lanchas!
s e n h o r a b e r g m a n n [apoiando-se na janela]. Não é possível! Não
é possível!

O D espertar da P rimaver a 37
wendl a [ao mesmo tempo]. Ele está segurando uma gaveta debaixo
do queixo, e está tocando nela “Wacht am Rhein”³. E acabou
de virar a esquina.
s e n h o r a b e r g m a n n . Você continua sendo uma criança! Como
assustar sua pobre mãe desse jeito? Vamos, pegue o seu chapéu.
Quando será que você vai ter juízo? Já perdi as esperanças.
w e n d l a . Eu também, mamãezinha, eu também. E meu juízo é algo
calamitoso. Tenho apenas uma irmã, que está casada há dois anos
e meio, eu mesma sou tia pela terceira vez e não tenho a mínima
ideia de como as coisas acontecem… Não fique brava, mamãezinha.
Não fique brava! A quem mais posso perguntar senão a você? Por
favor, querida mamãe, diga para mim. Diga, mamãezinha. Tenho
vergonha de mim mesma. Estou pedindo, mamãe, diga! Não olhe
para mim desse jeito quando faço essas perguntas. Me responda.
Como acontece? Você não pode estar falando sério quando quer
que eu acredite em cegonha aos catorze anos.
s e n h o r a b e r g m a n n . Deus do Céu, filha, como você é estranha!
Que ideias esquisitas! Não estou acreditando!
w e n d l a . Por que não, mamãe? Por que não? Não pode ser nada de
mau, já que todos ficam contentes!
s e n h o r a b e r g m a n n . Oh, Deus, me proteja! Eu não mereço… Va-
mos, filha, vista-se, vista-se!
w e n d l a . Estou indo… E se sua filha for agora perguntar ao limpador
de chaminés?
s e n h o r a b e r g m a n n . Isso é para deixar qualquer um doido! Venha,
filha, eu digo tudo para você. Eu digo tudo. Ah, Deus Todo-
Poderoso! Só não hoje, Wendla! Amanhã, depois de amanhã, na
semana que vem… quando você quiser, filha.
w e n d l a . Diga-me hoje, mamãe; diga agora. Neste minuto. Não
vou conseguir me acalmar tão já, agora que deixei você tão
desapontada.
s e n h o r a b e r g m a n n . Não posso, Wendla.
w e n d l a . Oh, mas por que não, mamãezinha! Vou me ajoelhar à sua
frente e colocar minha cabeça no seu colo. Você cobre minha
cabeça com o seu avental e começa a contar, como se estivesse

3 “Wacht am Rhein”, música de guerra alemã, xenófoba, de 1840. – n t

38
totalmente sozinha no quarto. Não vou tremer; não vou gritar;
vou aguentar com paciência o que for.
s e n h o r a b e r g m a n n . O Céu sabe, Wendla, que não sou culpada!
O Céu me conhece! Venha, em nome de Deus! Vou contar para
você, filha, como você chegou nesta Terra. Então me escute,
Wendla…
w e n d l a [debaixo do avental]. Estou escutando.
s e n h o r a b e r g m a n n [estática] Mas não vai dar, filha! Não posso
carregar essa responsabilidade! Não mereço ser colocada na
cadeia, que tirem você de mim.
w e n d l a [debaixo do avental]. Coragem, mãe!
s e n h o r a b e r g m a n n . Então escute…!
w e n d l a [debaixo do avental, tremendo]. Oh, Deus, oh, Deus!
s e n h o r a b e r g m a n n . E para ter um filho… você está me enten-
dendo, Wendla?
w e n d l a . Rápido, mamãe. Não aguento mais.
s e n h o r a b e r g m a n n . E para ter um filho… é preciso… amar o
homem… com quem casamos. Digo amar… da única maneira
que é possível amar um homem! É preciso amá-lo de todo o
coração, como – nem dá para dizer como! É preciso amá-lo,
Wendla, da maneira que você, tão jovem, ainda não é capaz…
Agora você sabe!
w e n d l a [se levanta]. Deus do Céu!
s e n h o r a b e r g m a n n . Agora você sabe o tamanho das provações
que estão à sua frente!
w e n d l a . E isso é tudo?
s e n h o r a b e r g m a n n . Juro por Deus! Agora pegue a cesta e desça
até a casa de Ina. Você vai ganhar chocolate e bolo por lá. Vamos,
deixe eu olhar mais uma vez para você – as botas de cadarço, as
luvas de seda, a blusa de marinheiro, as rosas no cabelo… mas
sua saia está ficando muito curta, Wendla!
w e n d l a . Você já trouxe carne para o almoço, mamãezinha?
s e n h o r a b e r g m a n n . Que Deus a abençoe e proteja! Vou mesmo
costurar uma bainha aí.

O D espertar da P rimaver a 39
Cena 3
[com uma luminária na mão, tranca a porta atrás de
h ä n s c h e n r i l ow
si e levanta a tampa do vaso sanitário]. Já rezou hoje, Desdêmona?
[Tira uma reprodução da Vênus de Palma Vecchio do peito] Você
não está com cara de santa, querida – contemplativa à espera
do que está para vir, como naquele doce momento da felicidade
que desabrocha, quando a vi deitada na vitrine de Jonathan
Schlesinger –, tão encantadores esses membros flexíveis, essa
curva suave dos quadris, esses seios jovens e rijos – oh, o quão
embriagado de felicidade o grande mestre deveria estar quando
a modelo de catorze anos estava deitada à sua frente no divã!
Você vai me visitar em sonho? Eu a recebo de braços abertos e
quero enchê-la de beijos, até você sufocar. Você entra comigo
como a dama entra no seu castelo abandonado. Portão e portas
abrem-se por uma mão invisível, enquanto a fonte no parque
começa alegremente a jorrar…
É assim! É assim! As terríveis batidas do meu coração dizem a
você que não estou matando por uma frivolidade. Minha gar-
ganta se fecha quando penso nas noites solitárias. Juro por Deus,
menina, que o tédio não me domina. Quem é que se gabaria
de ter se entediado de você?
Mas você suga a medula dos meus ossos, você entorta as minhas
costas, você rouba o último brilho de meus olhos jovens. Você
é demasiadamente exigente para mim em sua desumana mo-
déstia, demasiadamente exaustiva com seus membros imóveis.
Ou você ou eu! E eu ganhei a luta.
Ah, se eu quisesse enumerar aqui todas as falecidas com as quais
travei a mesma luta: Psyche, de Thumann4 – ainda um legado da

4 Paul Thumann (1834–1908), pintor alemão. – n t

40
magérrima Mademoiselle Angélique, essa cascavel no paraíso
de minha infância; Io, de Correggio; Galateia, de Lossow,5 daí
um Cupido, de Bouguereau;6 Ada, de I. van Beers7 – essa Ada
que tive de sequestrar de uma gaveta secreta da escrivaninha de
papai para introduzi-la em meu harém; uma Leda, de Makart.8
trêmula e palpitante, que encontrei sem querer entre os cader-
nos de escola do meu irmão – sete, oh florescente candidata à
morte, vieram antes de ti neste caminho para o Tártaro! Que
isso lhe sirva de consolo e não tente aumentar minha tortura
até o insuportável com esses olhares suplicantes.
Você não morre pelos seus pecados, mas pelos meus! Em legítima
defesa cometo, com o coração sangrando, o sétimo assassinato
passional. Há algo de trágico no papel do Barba Azul. Acho que
suas mulheres assassinadas não sofreram, juntas, o que ele
sofreu ao estrangular cada uma delas.
Mas minha consciência vai se acalmar, meu corpo vai se for-
talecer, se você, diaba, não mais residir no estofado de seda
vermelho de minha caixinha de joias. No seu lugar, deixarei
entrar na opulenta alcova então a Lurlei, de Bodenhausen9 ou
a Abandonada, de Linger10 ou a Loni, de Defregger11 – assim me
recuperarei mais rapidamente! Mais uns três meses, rapidinho,
e seu desnudado Josafá, ó doce alma, teria começado a derreter
meu pobre cérebro como o sol derrete um pedaço de manteiga.
Era mais que tempo da separação.
Brr! Sinto um Heliogábalo dentro de mim! Moritura me salutat!
Menina, menina, por que você está pressionando os joelhos
um contra o outro? Por que mais isso? Por causa da eternidade
imperscrutável? Um estremecimento e te liberto! Uma mani-
festação feminina, um sinal de luxúria, de simpatia, menina!
Vou te emoldurar com ouro, pendurá-la sobre minha cama!
5 Heirich Lossow (1843–1897), pintor alemão. – n t
6 Adolphe William Bouguereau (1825–1905), pintor francês. – n t
7 Jan van Beers (1852–1927), pintor belga. – n t
8 Hans Makart (1840–1884), pintor austríaco. – n t
9 Barão Cuno de Bodenhausen (1852–1931), pintor alemão. – n t
10 Friedrich Wilhelm Linger (nascido em 1787), gravador tirolês. – n t
11 Franz von Defregger (1835–1921), pintor nascido no Tirol. – n t

O D espertar da P rimaver a 41
Você não percebe que apenas sua castidade faz nascer minha
depravação? Ai, ai dos desumanos!
…Sempre se nota que ela teve uma educação impecável. Acon-
tece o mesmo comigo. Você rezou hoje, Desdêmona?
O coração se aperta dentro de mim. Bobagem! Mesmo santa
Inês morreu por causa de seu pudor e não estava bem mais
vestida do que você! Mais um beijo sobre o corpo ardente, seu
peito infantil que já se arredonda, seus joelhos docemente ar-
redondados, seus joelhos cruéis…
É assim, é assim, querida!
Não direi quem ela é, castas estrelas!
É assim!
A gravura cai; ele fecha a tampa

Cena 4
Sobre o feno. Melchior está deitado de costas sobre o feno fresco.
Wendla sobe a escada.

wendl a. Você se escondeu aqui? Todos estão à sua procura. O carro


já se foi novamente. Você precisa ajudar. Uma tempestade está
se formando.
m e l c h i o r . Saia de perto de mim. Saia de perto de mim.
w e n d l a . O que aconteceu? Por que você está escondendo o
rosto?
m e l c h i o r . Saia, saia! Vou jogar você para baixo.
w e n d l a . Agora que não saio mesmo [Ajoelha-se ao lado dele]. Por
que você não sai para o campo, Melchior? Aqui está abafado
e escuro. Mesmo se ficarmos encharcados até os ossos, qual o
problema?
m e l c h i o r . O feno cheira tão bem. O céu lá fora deve estar escuro
como uma mortalha. Só vejo a papoula luminosa sobre o seu
peito – e escuto o seu coração bater.
w e n d l a . Nada de beijos, Melchior. Nada de beijos!
m e l c h i o r . Seu coração! Ouço-o bater!
w e n d l a . As pessoas amam quando se beijam. Não, não!

42
m e l c h i o r . Oh, acredite em mim, o amor não existe! É tudo interesse,
egoísmo! Eu amo você tão pouco quanto você me ama.
wendl a. Não! Não, Melchior!
m e l c h i o r . Wendla!
w e n d l a . Oh, Melchior!… Não, não.

Cena 5
senhor a gabor [sentada, escrevendo].

Caro Moritz Stiefel!

Depois de refletir e refletir mais uma vez por 24 horas sobre
tudo o que você me escreveu, tomo a pena com o coração
pesado. Não consigo lhe arranjar a quantia para a viagem até
os Estados Unidos – juro pelo que tenho de mais sagrado. Em
primeiro lugar, não disponho de tanto; em segundo, mesmo
se o tivesse, seria talvez o maior dos pecados garantir-lhe os
meios para realizar tamanha irresponsabilidade, com tantas
consequências. Você me faria uma amarga injustiça, Moritz,
em reconhecer nessa negativa um sinal de falta de amor. Por
outro lado, seria a maior violação ao meu dever como amiga
maternal se eu também perdesse minha cabeça, levada por
sua momentânea perplexidade, e seguisse os primeiros im-
pulsos que me surgissem. Estou disposta – caso você queira
– a escrever a seus pais. Tentarei convencê-los que você con-
seguiu fazer ao longo desse trimestre o que lhe era possível,
que suas forças estão esgotadas, que um julgamento rigoroso
de sua sorte seria não apenas injustificada como principal-
mente poderia prejudicar sua saúde física e mental.
O fato de você me ameaçar indiretamente, sugerindo que
irá se suicidar caso não consiga fugir, deixou-me sincera-
mente surpresa, Moritz. Mesmo que a infelicidade seja tão

O D espertar da P rimaver a 43
ime­recida, não se deve nunca fazer uso de meios ilícitos. A
maneira como você quer me responsabilizar por um eventual
e horroroso crime, eu que sempre só lhe quis o bem, car-
rega algo que aos olhos de alguém mal-intencionado poderia
passar por chantagem. Devo confessar que você, sempre tão
cioso dos nossos deveres, seria a última pessoa de quem eu
imaginaria tal procedimento. No entanto, estou firmemente
convencida de que você ainda está sob a emoção do primeiro
susto, de modo que não consegue compreender totalmente
seu modo de agir.
Espero, confiante, que estas minhas palavras o encontrem
num estado de espírito mais razoável. Aceite as coisas como
elas são. Do meu ponto de vista, é inadmissível julgar um
jovem pelo seu boletim escolar. Temos exemplos suficientes
de maus alunos que se tornaram homens exemplares e, ao
contrário, de alunos excepcionais que não conseguiram se
sair tão bem na vida. De todo modo, asseguro-lhe que seu
fracasso, no que se refere a mim, não vai alterar seu conví­
vio com Melchior. Sempre olharei com alegria meu filho
convivendo com um jovem que ganhou toda minha simpatia,
independentemente de como o mundo quiser julgá-lo.
Assim, cabeça erguida, Moritz Stiefel. Crises semelhantes,
desse ou de outro tipo, acontecem com todos nós, e precisam
ser superadas. Se cada um logo recorresse à espada e ao ve-
neno, em breve não haveria mais gente sobre a Terra. Mande
notícias em breve, e receba os melhores cumprimentos de
quem nunca deixará de ser
sua amiga maternal,
Fanny G.

Cena 6
O jardim dos Bergmann iluminado pelo sol da manhã.

wendl a. Por que você saiu de fininho do quarto? Para procurar


violetas! Porque minha mãe me flagra sorrindo. Por que você

44
não fecha mais os lábios? Não sei. Não sei, não encontro as
palavras.
O caminho é como um tapete de pelúcia – nada de pedrinhas,
nenhum espinho. Meus pés não tocam o chão… Oh, como
dormi de noite!
Aqui eles estavam. Estou séria como uma freira durante a co-
munhão. Doces violetas! Calma, mamãezinha. Vou vestir meu
cilício. Ah, Deus, se viesse alguém que eu pudesse abraçar e a
quem pudesse contar tudo.

Cena 7
Anoitece. O céu está ligeiramente encoberto, o caminho serpen-
teia por arbustos baixos e grama. Escuta-se o murmurejar de um rio a
alguma distância.

moritz. Melhor é melhor. Meu lugar não é aqui. Eles que se batam à
vontade. Eu vou fechar a porta atrás de mim e me libertar disso.
Não estou muito interessando que fiquem me pressionando.
Não me impus. Por que me imporia agora! Não tenho qualquer
compromisso com Deus. É possível ver a situação de qualquer
ângulo, o resultado é sempre o mesmo. Meus pais me pressio-
naram. Não os responsabilizo. De qualquer modo, eles tinham
de estar preparados para o pior. Eles tinham idade o suficiente
para saber o que estavam fazendo. Eu era um bebê quando vim
ao mundo – senão seria tão inteligente para querer ser outra
pessoa. Por que tenho de pagar pelo fato de os outros já estarem
por aqui?
Eu devia ser idiota… se alguém me der um cão raivoso de pre-
sente, vou devolvê-lo. E se a pessoa não o quiser receber de
volta, então serei humano e…
Eu devia ser idiota…
Nascemos totalmente por acaso e depois de pensar muito não
deveríamos… é de matar!
O tempo, pelo menos, parece ter alguma consideração. Pois o

O D espertar da P rimaver a 45
dia inteiro pareceu que ia chover, mas não. Reina uma calma
muito rara na natureza. Em nenhum lugar algo escandaloso,
irritante. O céu e a terra são como teias de aranha transparen-
tes. E tudo parece se sentir tão bem. A paisagem é tão delicada
como uma canção de ninar – “dorme, nenê, dorme”, como a
senhorita Snandulia cantava.¹² Pena que seus cotovelos fiquem
sempre numa posição estranha! Dancei pela última vez na festa
de santa Cecília. A senhorita Snandulia só dança com bons par-
tidos. Seu vestido de seda era decotado na frente e atrás. Atrás
até a cintura e na frente até a inconsciência. Era impossível ela
estar usando uma camiseta por baixo.
………
Isso poderia prender minha atenção. Mais pela curiosidade.
Deve ser uma sensação especial – uma sensação de estar sendo
arrastado pela correnteza de um rio. Não direi a ninguém que
volto sem fazer nada. Vou fingir que participei de tudo. Há algo
de vergonhoso em ter sido ser humano sem ter conhecido a
coisa mais humana. O senhor vem do Egito, prezado senhor, e
não viu as pirâmides?!
Não quero chorar de novo hoje. Nunca mais quero pensar no
meu enterro. Melchior vai colocar uma coroa sobre meu caixão.
O pastor Kahlbauch vai consolar meus pais. O reitor Sonnenstich
vai citar exemplos da história. Provavelmente não terei uma
pedra tumular. Gostaria de uma de mármore branco como a
neve sobre um pedestal de cianita preta. Não vou sentir falta
dela, graças a Deus. Os memoriais são para os vivos, e não para
os mortos.
Acho que precisarei de um ano para me despedir mentalmente
de todos. Nunca mais quero chorar. Estou aliviado por poder
olhar para trás sem amargura. Quantas noites boas passei com
Melchior! Debaixo dos salgueiros, na casa do guarda florestal,
no caminho onde há cinco tílias, na montanha do castelo, entre
as ruínas sossegadas da construção… Quando a hora chegar,
quero fazer força e pensar em chantili. O chantili não gruda.
Ele sacia e deixa um gosto bom na boca… Também achei que

12 Fala da peça Esther, de Friedrich Wilhelm Gotter (1746–1797). – n t

46
as pessoas eram muito piores. Não encontrei ninguém que
não quisesse fazer o melhor possível. Senti pena de alguns por
minha causa.
Caminho até o altar como o discípulo na antiga Etrúria, cujo úl-
timo suspiro garante o bem-estar dos irmãos para o ano seguinte.
Aprecio cada instante do horror misterioso da partida. Soluço
de tristeza pelo meu destino. A vida me deu as costas. Do outro
lado vejo olhares sérios e simpáticos chamando: a rainha sem
cabeça, a rainha sem cabeça – compaixão, me esperando de
braços abertos… Seus mandamentos só valem para os menores
de idade; eu carrego minha alforria. O casulo desce e a borbo-
leta voa; a ilusão já não incomoda. Vocês não deveriam brincar
levianamente com a vertigem! A neblina está se dissipando; a
vida é uma questão de gosto.
i l s e [com as roupas rasgadas, um pano colorido ao redor da cabeça,
agarra-o pelos ombros, por trás]. O que você perdeu?
m o r i t z . Ilse?!
i l s e . O que você está procurando aqui?
m o r i t z . Por que você me assusta assim?
i l s e . O que você está procurando? O que você perdeu?
m o r i t z . Por que você me assusta desse jeito horrível?
i l s e . Estou vindo da cidade. Vou para casa.
m o r i t z . Não sei o que perdi.
i l s e . Então também não vai adiantar nada continuar procurando!
m o r i t z . Droga, droga!!
i l s e . Estou fora de casa há quatro dias.
m o r i t z . Silenciosa como um gato!
i l s e . Porque estou com as sapatilhas de balé. Minha mãe vai ficar
espantada. Venha até minha casa.
m o r i t z . Por onde você estava passeando?
i l s e . Na terras de Priapo!
m o r i t z . Nas terras de Priapo!
i l s e . Na casa do Nohl, do Fehrendorf, do Padinsky, do Lenz, Rank,
Spühler – de todo mundo! Ding-dong, ela vai agitar!
m o r i t z . Eles estão usando você como modelo?
i l s e . O Fehrendorf está me pintando como uma asceta. Fico sobre
um capitel coríntio. O Fehrendorf é um sujeito esquisito, estou

O D espertar da P rimaver a 47
dizendo. Da última vez pisei num tubo de tinta. Ele limpou os
pincéis no meu cabelo. Eu dei uma bofetada nele. Ele jogou a
palheta na minha cabeça. Derrubei o cavalete. Ele me seguiu
com uma vareta de pintor pelo ateliê, sobre o divã, as mesas,
as cadeiras. Atrás do fogão havia um esboço: seja bonzinho ou
eu vou rasgá-lo. Ele propôs um armistício e depois me beijou,
horrível, horrível, estou dizendo, horrível.
m o r i t z . Onde você passa a noite quando fica na cidade?
i l s e . Ontem ficamos na casa do Nohl. Anteontem na de Bojokewitsch,
e no domingo na do Oikonomopulos. Na casa do Padinsky tinha
champanhe. O Valabregez vendeu seu Doente da peste. Adolar
bebeu do cinzeiro. Lenz recitou “A infanticida”,¹³ e Adolar des-
truiu o violão. Eu estava tão bêbada que eles tiveram de me
colocar na cama. Você ainda vai à escola, Moritz?
m o r i t z . Não, não… saio neste trimestre.
i l s e . Você tem razão. Ah, como o tempo passa quando a gente ganha
dinheiro! Você ainda se lembra quando brincávamos de ladrão?
Eu, você, Wendla Bergmann e os outros, quando vocês saíam de
casa à noite e bebiam leite de cabra quente na nossa casa? O que
a Wendla está fazendo? Ainda a vi durante a enchente. O que o
Melchi Gabor está fazendo? Seu olhar ainda é tão melancólico?
Na aula de canto, ficávamos frente a frente.
m o r i t z . Ele está filosofando.
i l s e . Wendla passou na nossa casa e trouxe conservas para minha
mãe. Nesse dia eu estava na casa do Isidor Landauer. Ele pre-
cisa de mim para fazer a Virgem Maria, a mãe de Deus, com
o menino Jesus. Ele é um palerma e repulsivo. Ai, um chato.
Você está enjoado?
m o r i t z . De ontem à noite. Enxugamos feito esponjas. Fui camba-
leando às cinco para casa.
i l s e . Basta olhar para você. Havia garotas por lá?
m o r i t z . Arabella, a ninfa da cerveja, andaluza! O dono nos deixou
a noite toda sozinhos com ela.
i l s e . Basta olhar para você, Moritz. Não sei o que é ficar enjoada.
No carnaval passado, fiquei três dias e três noites sem dormir e

13 Poema de Friedrich Schiller (1759–1805). – n t

48
sem trocar de roupa. Do Redoute para o café, na hora do almoço
no Bellavista, à noite no Tingl-Tangl, mais tarde no Redoute.
Lena estava junto e a gorda da Viola também. Heinrich me
encontrou na terceira noite.
m o r i t z . Ele estava procurando por você?
i l s e . Ele tropeçou no meu braço. Eu estava deitada inconsciente na
rua, sobre a neve. Foi assim que ele me achou. Não saí de sua
casa durante duas semanas. Uma época terrível! Pela manhã
eu precisava vestir seu roupão persa, e à noite passear pelo
quarto com sua roupa preta de pajem; no pescoço, nos joelhos
e nos braços, aplicações de renda. Ele me fotografava todos os
dias, cada vez de um jeito diferente – no braço do sofá como
Ariadne, como Leda, como Ganimedes, de quatro como Nabu-
codonosor feminino. E ao mesmo tempo ele andava obcecado
por assassinar, atirar, cometer suicídio e se asfixiar. De manhã
cedo, ele carregava um revólver para a cama, carregava-o com
balas e apontava para o meu peito: uma piscada e disparo! Oh,
ele teria disparado, Moritz, ele teria disparado! Daí ele levava
a coisa na boca como se fosse uma zarabatana. Isso era para
acordar o instinto de auto-preservação. E daí – brrr – a bala
entraria nas minhas costas.
m o r i t z . O Heinrich ainda está vivo?
i l s e . Sei lá! Acima da cama havia um espelho encaixado no teto. O
quarto parecia alto como uma torre e iluminado feito um teatro
de ópera. Parecia que estávamos pendurados. Eu tinha pesa-
delos horríveis à noite. Oh, Deus, oh, Deus, que bom quando
amanhecia! – Boa noite, Ilse. Quando você está dormindo, fica
tão linda que dá vontade de matá-la.
m o r i t z . Esse tal Heinrich ainda está vivo?
i l s e . Queira Deus que não! Certo dia, quando ele foi buscar absinto,
vesti o casaco e fugi para a rua. O carnaval tinha acabado. A po-
lícia me prendeu, o que eu estava querendo vestida de homem?
Eles me levaram para a delegacia. Daí vieram Nohl, Fehrendorf,
Padinsky, Spühler, Oikonomopulos, toda a priapia, e se respon-
sabilizaram por mim. Me transportaram de fiacre até o ateliê
de Adolar. Desde então sou fiel a essa horda. Fehrendorf é um
macaco, Nohl é um porco, Bojokewitsch é uma coruja, Loison

O D espertar da P rimaver a 49
uma hiena, Oikonomopulos um camelo – por isso que os amo,
tanto um como o outro, e não quero me prender a mais ninguém,
mesmo se o mundo estivesse cheio de anjos e milionários.
m o r i t z . Tenho de voltar, Ilse.
i l s e . Venha até em casa!
m o r i t z . Para quê? Para quê?
i l s e . Tomar leite de cabra quente. Vou fazer cachinhos em você e
prender um sininho no seu pescoço. Temos ainda um cavalinho
de madeira com o qual você pode brincar.
m o r i t z . Tenho de voltar. Estou em falta com os Sassânidas, o Ser-
mão da Montanha e os paralelepípedos na consciência. Boa
noite, Ilse!
i l s e . Durma bem! Vocês ainda vão até o wigwam,14 onde o Melchi
Gabor enterrou meu tomahawk?15 Brrr! Até chegar em vocês,
estarei no meio do lixo! [Sai rapidamente]
m o r i t z [sozinho]. Só teria custado uma palavra [ele chama] Ilse! Ilse!
Graças a Deus ela não escuta mais. Não estou com disposição.
Para isso é preciso uma cabeça limpa e um coração alegre. Pena,
pena pela oportunidade.
…direi que eu tinha um imponente espelho de cristal acima da
minha cama. Que criei um potro indomável. Que a fiz desfilar
para mim no tapete, usando meias-calças de seda preta, botas
pretas de verniz, luvas pretas de suedine, gargantilha de veludo
preto. Que a estrangulei na minha loucura com a almofada. Vou
sorrir, quando estiverem falando de prazer… Vou
Gritar! Gritar! Ser você, Ilse! Priápico! Inconsciente! Você exaure
minhas forças! Essa filha da sorte, essa filha do sol, essa pros-
tituta no meu calvário! Oh! Oh!
…………
Nos arbustos da margem
Eu o reencontrei sem querer – o gramado na margem do rio.
As flores parecem ter crescido desde ontem. A vista entre os
salgueiros ainda é a mesma. O rio flui pesado, como chumbo

14 Wigwam (ou wickiup): cabana usada por certas tribos nativas norte-americanas. – nt
15 Tomahawk: arma, do tipo machadinha, dos índios norte-americanos. – n t

50
derretido. Que eu não esqueça… [Ele tira a carta da senhora
Gabor do bolso e a queima]. Como as faíscas voam – para lá e
para cá, de um lado para o outro – almas! Cometas!
Antes de queimar o papel, ainda dava para ver o gramado e
um risco no horizonte. Agora ficou escuro. Já não vou mais
para casa.

O D espertar da P rimaver a 51
terceiro ato

52
Cena 1
Sala de conferência. Nas paredes, quadros de Pestalozzi e J.
J. Rousseau. Os professores Affenschmalz, Knüppeldick, Hungergurt,
Knochenbruch, Zungenschlag e Fliegentod estão sentados em volta de
uma mesa verde, sobre a qual ardem várias chamas de gás. Na extre-
midade da mesa, numa cadeira elevada, está o reitor Sonnenstich. O
bedel Habebald está de cócoras ao lado da porta.

sonnenstich. …Algum dos senhores tem alguma observação a


fazer? Senhores! Não podemos deixar de solicitar a expulsão de
nosso culpado aluno junto ao ilustre Ministério da Cultura, e
não podemos deixar de fazê-lo pelos motivos mais graves. Não
podemos porque é preciso expiar a infelicidade e, mais ainda,
para proteger nossa instituição no futuro de ataques semelhantes.
Não podemos deixar de fazê-lo para castigar nosso culpado aluno
pela influência desmoralizadora que exerceu sobre seus colegas
de classe. E não podemos deixar de fazê-lo – e esse é o motivo
mais importante, meus senhores, e que anula qualquer objeção
– porque temos de proteger nossa instituição dos prejuízos cau-
sados por uma epidemia de suicídios, da qual já foram vítimas
diversos ginásios e que até agora resistiu a todas as tentativas
de prender os ginasianos às suas condições de existência, cons-
tituídas pela sua formação, até chegarem a ser pessoas cultas.
Algum dos senhores teria algo mais a acrescentar?
k n ü p p e l d i c k . Não posso mais omitir minha convicção de que é
hora de abrir uma janela em algum lugar.
z u n g e n s c h l a g . Re-re-reina aqui uma at-at-atmosfera das ca-ca-
catacumbas sub-sub-suberrâneas, como nas salas do tri-tri-tribunal
de câ-câ-câmera de Wetzlar.
s o n n e n s t i c h . Habebald!

O D espertar da P rimaver a 53
habebald. Às ordens, senhor reitor!
sonnenstich. Abra uma janela! Graças a Deus tem muito ar lá fora.
Algum dos senhores tem mais alguma observação?
f l i e g e n t od . Se meus colegas quiserem manter uma janela aberta,
não tenho nada contra. Quero apenas pedir para que não quei-
ram abrir a janela exatamente às minhas costas!
s o n n e n s t i c h . Habebald!
h a b e b a l d . Às ordens, senhor reitor!
s o n n e n s t i c h . Abra a outra janela! Algum dos senhores tem mais
alguma observação?
h u n g e r g u r t . Sem querer aumentar a discussão, gostaria de lembrar
que a outra janela está murada desde as férias de outono.
s o n n e n s t i c h . Habebald!
h a b e b a l d . Às ordens, senhor reitor!
s o n n e n s t i c h . Mantenha a outra janela fechada! Sou obrigado a
colocar a proposta em votação. Peço que se levantem aqueles
senhores que são favoráveis a manter aberta a única janela
possível. [Ele conta] Um, dois, três. Um, dois, três. Habebald.
h a b e b a l d . Às ordens, senhor reitor!
s o n n e n s t i c h . Mantenha a janela fechada! De minha parte, estou
convencido de que o ar não está fazendo falta aqui. Algum dos
senhores tem mais alguma observação? Senhores! Suponhamos
que deixemos de solicitar a expulsão de nosso culpado aluno
junto ao alto Ministério da Cultura, daí esse mesmo ministério
nos fará responsáveis pela desgraça ocorrida. Dos diversos gi-
násios acometidos pela epidemia de suicídios, foram suspensos
pelo Ministério da Cultura todos aqueles que contabilizaram
25% dos alunos como vítimas. Nosso dever como protetores e
guardas desta instituição é preservá-la deste golpe terrível. Dói
fundo, caros colegas, não poder admitir como atenuantes as
outras qualificações do nosso culpado aluno. Um procedimento
indulgente, que poderia justificar nosso culpado aluno, não
seria justificável diante de nossa instituição, atualmente posta
em perigo da maneira mais grave possível. Somos obrigados a
julgar o culpado, a fim de, inocentes, não nos vermos julgados.
Habebald!
h a b e b a l d . Às ordens, senhor reitor!

54
sonnenstich. Traga-o para cima.
Habebald sai
z u n g e n s c h l a g . Se a at-at-atmosfera reinante não deixa mais ou
menos a desejar, então quero propor que a outra ja-ja-janela
também seja mu-mu-mu-mu-mu-murada durante as férias de
ve-ve-verão!
f l i e g e n t od . Se o caro colega Zungenschlag não acha que nosso
lugar é ventilado o suficiente, então quero propor que o caro
colega Zungenschlag aplique um ventilador na testa.
z u n g e n s c h l a g . Não preciso ou-ou-ouvir isso. Não preciso ouvir
gro-gro-grosserias. Não sou lou-lou-louco!
s o n n e n s t i c h . Devo pedir aos colegas Fliegentod e Zungenschlag
que mantenham a compostura. Nosso culpado aluno parece
estar na escada.
Habebald abre a porta. Melchior, pálido mas sereno, entra
na reunião
s o n n e n s t i c h . Chegue mais perto da mesa. Depois que o senhor Stiefel
soube do perverso delito do filho, o desolado pai, na esperança
de dessa maneira descobrir o motivo desse ato inqualificável
do filho, vasculhou num lugar que não nos interessa qualificar
e encontrou um escrito que, embora não torne compreensível
aquele ato inqualificável, dá uma explicação infelizmente mais
do que suficiente da intensa perturbação moral do acusado.
Trata-se de um texto de vinte páginas em forma de diálogo, in-
titulado “O coito”, com ilustrações em tamanho natural, repleto
das piores obscenidades, que deveria corresponder às exigências
mais elevadas de um devasso condenável em relação a uma
leitura pornográfica.
m e l c h i o r . Eu…
s o n n e n s t i c h . Você permanece em silêncio! Depois que o senhor
Stiefel nos entregou tal texto de caráter tão questionável, e que
prometemos ao estarrecido pai encontrar seu autor a qualquer
preço, a caligrafia do manuscrito foi comparado com as caligra-
fias de todos os colegas do depravado, e depois da concordância
unânime do corpo docente, bem como em total consonância com
o parecer do nosso colega especialista em caligrafia, verificou-se
a mais indiscutível semelhança com a sua.

O D espertar da P rimaver a 55
melchior. Eu…
sonnenstich. Você permanece em silêncio! Apesar do fato contun-
dente das semelhanças reconhecidas por autoridades incontestes,
cremos poder evitar outras atitudes para, em primeiro lugar,
interrogar o culpado exaustivamente sobre o delito que lhe cabe
que atenta contra os bons costumes e que está relacionado com
a consequente motivação para o suicídio.
m e l c h i o r . Eu…
s o n n e n s t i c h . Você deve responder às questões precisas que lhe
colocarei em sequência, uma depois da outra, apenas com um
simples e direto “sim” ou “não”. Habebald!
h a b e b a l d . Às ordens, senhor reitor.
s o n n e n s t i c h . As atas… Solicito ao nosso secretário, senhor colega
Fliegentod, que registre o que dissermos da maneira mais fiel
possível. [Para Melchior] Você conhece este texto?
m e l c h i o r . Sim.
s o n n e n s t i c h . Você sabe qual é o conteúdo deste texto?
m e l c h i o r . Sim.
s o n n e n s t i c h . A letra deste texto é sua?
m e l c h i o r . Sim.
s o n n e n s t i c h . Este texto pérfido é redação sua?
m e l c h i o r . Sim. Eu lhe peço, senhor reitor, que me aponte uma
única obscenidade nele contida.
s o n n e n s t i c h . Você deve responder às questões precisas com
apenas um simples e direto “sim” ou “não”!
m e l c h i o r . Não escrevi nem mais nem menos do que aquilo que
é de seu conhecimento!
s o n n e n s t i c h . Que menino insolente!
m e l c h i o r . Eu peço que aponte um único atentado à moral no
texto.
s o n n e n s t i c h . Você está achando que estou disposto a me fazer de
palhaço às suas custas? Habebald!
m e l c h i o r . Eu…
s o n n e n s t i c h . Você tem tão pouco respeito pela honra de seus
professores, aqui reunidos, como tão pouca decência pelo sen-
timento humano, profundamente enraizado, de discrição em
relação ao pudor de uma ordem ética mundial. Habebald!

56
habebald. Às ordens, senhor reitor!
sonnenstich: É o manual Langenscheidt para o aprendizado em
três horas do volapuque16 aglutinado!
m e l c h i o r . Eu…
s o n n e n s t i c h . Peço ao nosso secretário, senhor colega Fliegentod,
que encerre a ata.
m e l c h i o r : Eu…
s o n n e n s t i c h : Você permanece em silêncio. Habebald!
h a b e b a l d . Às ordens, senhor reitor.
s o n n e n s t i c h . Leve-o para baixo!

Cena 2
Cemitério debaixo de uma chuva torrencial – O pastor Kahl-
bauch está diante de um túmulo aberto, segurando o guarda-chuva – À
sua direita está o Senhor Stiefel, o amigo dele Ziegenmelker e o Tio Probst.
À sua esquerda, o reitor Sonnenstich com o professor Knochenbruch. Gi-
nasianos fecham o círculo. Um pouco mais longe, diante de um túmulo
semi-destruído, estão Martha e Ilse.

pa s t o r k a h l b au c h .
Porque quem repudiar a graça concedida pelo
Pai eterno ao que nasceu em pecado vai morrer a morte do
espírito! Mas quem viveu e serviu o mal, de livre e espontânea
vontade, negando na carne a honra devida a Deus, esse vai morrer
a morte do corpo! Mas quem jogou fora, criminosamente, a cruz
que o Todo-Misericordioso lhe impôs pelos seus pecados, eu lhes
digo, em verdade, em verdade, esse vai morrer a morte eterna!
[Ele joga uma pá de terra na cova]. Mas nós, que continuamos o
caminho espinhoso, louvamos o Senhor, o Todo-Misericordioso,
e lhe rendemos graças por sua infinita misericórdia. Pois assim

16 Volapuque (“língua internacional”): língua artificial criada em 1880 pelo padre católico
Johann Martin Schleyer. – n t

O D espertar da P rimaver a 57
como Este sofreu as três mortes, assim o Senhor Deus conduzirá
os justos à bem-aventurança e à vida eterna. Amém.
s r s t i e f e l [com a voz embargada, joga uma pá de terra na cova]. O
garoto não era meu! O garoto não era meu! Não gostei dele,
desde pequeno!
r e i t o r s o n n e n s t i c h [joga uma pá de terra na cova]. O suicídio
como certamente a infração mais grave imaginável contra a or-
dem ética do mundo é a prova mais grave imaginável da ordem
ética do mundo, à medida que o suicida poupa a ordem ética
do mundo da sua sentença e confirma sua existência.
p r o f e s s o r k n o c h e n b r u c h [joga uma pá de terra na cova]. Devasso,
viciado, prostituído, esfarrapado e corrompido!
t i o p r o b s t [joga uma pá de terra na cova]. Nem se minha própria
mãe me dissesse eu teria acreditado que um filho poderia agir
de modo tão infame em relação aos seus pais.
a m i g o z i e g e n m e l k e r [joga uma pá de terra na cova]. Quem poderia
agir contra um pai que há vinte anos, de manhã à noite, não
pensa em outra coisa senão no bem do filho!
pa s t o r k a h l b au c h [apertando a mão do Sr Stiefel]. “Sabemos que
todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a
Deus.” 1 Coríntios 12, 15.17 Pense na mãe inconsolável e procure
substituir o que foi perdido com amor em dobro!
r e i t o r s o n n e n s t i c h [apertando a mão do Sr Stiefel]. Provavelmente
não poderíamos tê-lo passado de ano!
p r o f e s s o r k n o c h e n b r u c h [apertando a mão do Sr Stiefel]. E mesmo
se o tivéssemos aprovado, com toda certeza ele teria de repetir
na próxima primavera.
t i o p r o b s t [apertando a mão do Sr Stiefel]. Agora, sua tarefa é cuidar
sobretudo de si próprio. Você é pai de família…!
a m i g o z i e g e n m e l k e r [apertando a mão do Sr Stiefel]. Confie no que
digo! Um tempo terrível, que nos revira as tripas! Quem não
toma umas imediatamente fica com os ventrículos do coração
prejudicados.
s r s t i e f e l [assoando o nariz]. O garoto não era meu… o garoto não
era meu…

17 Este trecho é de Romanos 8:28, e o equívoco supostamente mostra o parco conheci-


mento bíblico do reverendo. – n t

58
O Sr Stiefel sai, conduzido pelo pastor Kahlbauch, reitor Son-
nenstich, professor Knochenbruch, tio Probst e amigo Ziegen-
melker. A chuva cessa
h ä n s c h e n r i l o w [joga uma pá de terra na cova]. Descanse em
paz! Saúde minhas noivas eternas, lembranças sacrificadas, e
me recomende com muita devoção ao amado Deus – oh, pobre
idiota! Eles ainda vão colocar um espantalho sobre sua cova por
causa da sua ingenuidade angelical…
g e o r g . O revólver foi encontrado?
r o b e r t . Não é preciso procurar revólver algum.
e r n s t . Você o viu, Robert?
r o b e r t . Idiota maldito, cretino! Quem o viu? Quem?
o t t o . Aí é que está! Jogaram um pano sobre ele.
g e o r g . A língua estava para fora?
r o b e r t . Os olhos! É por isso que puseram o pano.
o t t o . Medonho.
h ä n s c h e n r i l o w . Você tem certeza de que ele se enforcou?
e r n s t . Dizem que ele ficou sem a cabeça.
o t t o . Bobagem! Ridículo!
r o b e r t . Eu peguei a corda nas mãos! Nunca vi um enforcado que
não tenha sido coberto.
g e o r g . Ele não podia ter achado um jeito mais infame de se
despedir!
h ä n s c h e n r i l o w . Dizem ser bem bonito se enforcar!
o t t o . Ele ficou me devendo cinco marcos. Tínhamos apostado. Ele
jurou que iria se aguentar.
h ä n s c h e n r i l o w . Você é o culpado por ele estar estendido aí. Você
o chamou de falastrão.
o t t o . Falastrão, eu também preciso passar a noite estudando. Se
ele tivesse estudado a história da literatura grega, não precisaria
ter se enforcado!
e r n s t . Você fez a redação, Otto?
o t t o . Só a introdução.
e r n s t . Nem sei o que escrever.
g e o r g . Você não estava presente quando o Affenschmalz passou
as instruções?
hänschen rilow . Vou inventar alguma coisa a partir de Demócrito.
e r n s t . Vou procurar na enciclopédia Meyer.

O D espertar da P rimaver a 59
otto. Você já resolveu o Virgílio de amanhã?
Os ginasianos saem. Martha e Ilse chegam ao túmulo
i l s e . Rápido, rápido. Os coveiros estão chegando.
m a r t h a . Não é melhor esperar, Ilse?
i l s e . Para quê? Vamos trazer novas. Sempre novas, e mais novas!
Há o suficiente.
m a r t h a . Você tem razão, Ilse!
Ela joga uma coroa de hera dentro da cova. Ilse abre seu avental
e deixa cair uma chuva de anêmonas
m a r t h a . Vou desenterrar nossas rosas. A surra é de praxe! Aqui
elas vão crescer.
i l s e . Vou regá-las sempre que passar por aqui. Buscarei miosótis
do riacho e gladíolos de casa.
m a r t h a . Deve ficar maravilhoso. Maravilhoso!
i l s e . Eu já tinha passado pela ponte, ali, quando ouvi o estampido.
m a r t h a . Coitado!
i l s e . E eu também sei o motivo, Martha.
m a r t h a . Ele falou alguma coisa para você?
i l s e . Paralelepípedos. Mas não conte para ninguém.
m a r t h a . Eu juro.
i l s e . Aqui está o revólver.
m a r t h a . Foi por isso que não o encontraram!
i l s e . Tirei-o logo da sua mão, quando passei por lá de manhã.
m a r t h a . Me dê de presente, Ilse! Por favor, me dê o revólver de
presente!
i l s e . Não, vou guardá-lo de lembrança.
m a r t h a . É verdade, Ilse, que ele está ali dentro sem a cabeça?
i l s e . Ele deve tê-lo carregado com água. Os juncos estavam mancha-
dos de sangue. Seu cérebro estava espalhado nos salgueiros.

Cena 3
Senhor e senhora gabor.

senhor a gabor. Precisavam de um bode expiatório. Não se pode


aceitar as acusações que foram ouvidas por todo o lado. E se meu

60
filho teve a infelicidade de estar na linha de tiro desses rançosos
no momento certo, agora sou eu, sua mãe, que devo ajudar a
terminar o trabalho de seus carrascos? Deus me livre!
s e n h o r g a b o r . Fiquei observando durante catorze anos, calado,
seu interessante método educacional. Ele era contrário à minha
orientação. Sempre vivi com a convicção de que a criança não é
um brinquedo; um filho tem direito a nossa sagrada seriedade.
Mas eu me dizia que se o espírito e a graça de alguém são capazes
de substituir as bases sérias do outro, então talvez pudessem
ser aceitos. Não estou acusando você, Fanny. Mas não atrapalhe
meu caminho quando eu estiver tentando consertar o seu e o
meu erro com o garoto.
s e n h o r a g a b o r . Eu atrapalharei seu caminho enquanto houver
uma gota de sangue quente correndo nas minhas veias! Meu
filho está perdido numa casa de correção! Uma natureza crimi-
nosa pode até melhorar numa dessas instituições. Não sei. Uma
pessoa bem-intencionada se tornará um criminoso lá dentro,
assim como acontece com uma planta sem ar e sem sol. Não
sei de nenhum erro. Agradeço aos céus, hoje e sempre, pelo
fato d’Ele ter me mostrado o caminho para despertar no meu
filho um caráter direito e um modo de pensar nobre. O que ele
fez de tão terrível? Não me passa pela cabeça me desculpar por
ele – mas ele não tem culpa de ter sido expulso da escola. E se
tem culpa, então já pagou por ela. Você pode ter mais razão do
que eu. Você pode, teoricamente, ter toda razão. Mas eu não
posso deixar que meu único filho seja lançado violentamente
à morte.
s e n h o r g a b o r . Isso não depende de nós, Fanny. Esse é um risco
que assumimos com nossa felicidade. Quem não tem forças para
andar, para na metade do caminho. E, por fim, não é o pior dos
mundos quando o inevitável chega mais cedo. Que os céus nos
protejam disso! Nossa tarefa é apoiar aquele que vacila até o
momento que a razão esgotar seus métodos. Não é culpa dele
ter sido expulso da escola. Se ele não tivesse sido expulso da
escola, também não seria culpa dele. Você é condescendente
demais. Você considera uma simples curiosidade o que é um
defeito básico de caráter. Vocês, mulheres, não são capazes de
julgar essas coisas. Quem sabe escrever aquilo que Melchior

O D espertar da P rimaver a 61
escreveu precisa estar com seu íntimo corrompido. O cerne
foi afetado. Uma natureza mais ou menos sadia não aceita isso.
Não somos santos; todos nós nos desviamos do caminho reto.
Seu texto, entretanto, defende o princípio da queda. Seu texto
não corresponde a uma falha eventual; ele documenta com
uma nitidez arrepiante aquele propósito abertamente cultivado,
aquela tendência natural, aquele pendor ao imoral porque é
imoral. Seu texto manifesta aquela excepcional corrupção da
mente, que nós, juristas, chamamos de “loucura moral”. Não sei
dizer se é possível fazer algo contra seu estado. Se quisermos
manter um fio de esperança, e em primeiro lugar nossa consci-
ência imaculada como pais do acusado, então é tempo para que
nós nos dediquemos ao trabalho com decisão e toda seriedade
possível. Vamos parar de brigar, Fanny! Sinto como está difícil
para você. Sei que você o endeusa, porque ele corresponde
totalmente à sua maneira de ser. Seja mais forte do que você!
Finalmente, seja altruísta em relação ao seu filho!
s e n h o r a g a b o r . Ajuda-me, Deus, como agir diante disso! É preciso
ser um homem para poder falar dessa maneira. É preciso ser
um homem para se ofuscar tanto assim por causa de palavras
vazias! É preciso ser um homem para não enxergar aquilo que
salta aos olhos! Cuidei de Melchior de maneira consciente e
refletida desde o primeiro dia em que o percebi sensível às im-
pressões do ambiente. Afinal, somos responsáveis pelo acaso?
Amanhã pode cair uma telha sobre sua cabeça e daí vem seu
amigo – seu pai –, e em vez de se ocupar com o ferimento, ele
pisa em você! Não vou deixar meu filho ser assassinado diante
dos meus olhos. É por isso que sou sua mãe. É inconcebível!
Inacreditável! Mas o que é que ele escreveu? Não é a prova
mais cabal de sua inocência, de sua burrice, de sua ingenuidade
infantil o fato de ele ter escrito algo assim? É preciso ser des-
provido de todo conhecimento sobre o ser humano, é preciso
ser um burocrata integralmente desalmado ou muito limitado
para farejar corrupção moral por aqui! Diga o que você quiser.
Se você levar Melchior a uma casa de correção, estaremos
divorciados! E daí você vai ver se eu não consigo achar, em
algum lugar do mundo, a ajuda e os meios para tirar meu filho
de seu naufrágio!

62
senhor gabor. Você terá de se conformar – se não hoje, então
amanhã. Não será fácil para ninguém se confrontar com a in-
felicidade. Estarei ao seu lado, e quando sua coragem começar
a fraquejar, não medirei esforços e sacrifícios para aliviar o seu
coração. Vejo o futuro tão cinzento, tão nebuloso – só me falta
você ir embora também.
s e n h o r a g a b o r . Nunca mais o verei; nunca mais o verei. Ele não
vai suportar a vileza! Ele não concordará com a imundície. Ele
vai se quebrar com a opressão; o exemplo mais decepcionante
está diante dos olhos dele! E eu nunca mais o verei. Deus, Deus,
esse coração solar – seu sorriso aberto –, tudo, tudo – sua decisão
infantil de lutar corajosamente pelo que é bom e correto –, oh,
esse céu matinal que eu imprimi na sua alma como meu bem
mais precioso… Apoie-se em mim quando a injustiça clamar por
expiação! Apoie-se em mim! Faça de mim o que quiser! Carrego
a culpa. Mas tire sua mão horrível de cima da criança.
s e n h o r g a b o r . Ele se perdeu!
s e n h o r a g a b o r . Ele não se perdeu!
s e n h o r g a b o r . Ele se perdeu! Eu daria tudo para poupar seu amor
ilimitado. Hoje pela manhã veio uma mulher até mim, perturbada,
mal conseguia falar, com essa carta nas mãos – uma carta para
sua filha de quinze anos. Por curiosidade estúpida, ela a abriu.
A filha não estava em casa. Na carta, Melchior dizia à menina
de quinze anos que o que ele havia feito não o deixava em paz,
que ele tinha pecado contra ela etc. etc. etc., e que confessa-
ria tudo. Que não precisava se afligir, mesmo que sentisse as
consequências. Ele estava a caminho para conseguir ajuda; sua
expulsão deixava as coisas mais fáceis. O antigo erro poderia
levá-la à felicidade – e muito mais bobagens desse calibre.
s e n h o r a g a b o r . Impossível!
s e n h o r g a b o r . A carta é falsa. Há uma fraude no ar. Estão procu-
rando tirar vantagem de uma expulsão sabida por toda a cidade.
Ainda não falei com o garoto – mas, por favor, veja a letra! Veja
o modo de escrever!
s e n h o r a g a b o r . Uma malcriação impossível, desavergonhada!
s e n h o r g a b o r . É isso que temo.
s e n h o r a g a b o r . Não, não, nunca!
s e n h o r g a b o r . Melhor para nós. A mulher, desesperada, me

O D espertar da P rimaver a 63
perguntou o que devia fazer. Disse-lhe para não deixar a filha
de quinze anos ficar deitada em montes de feno. Felizmente
ela me deixou ficar com a carta. Se colocamos Melchior numa
outra escola, sem qualquer tipo de supervisão dos pais, em três
semanas teríamos a mesma situação – uma nova expulsão –, e
seu coração alegre se acostumaria a isso. Diga-me, Fanny, onde
devo meter o garoto?
s e n h o r a g a b o r . Numa casa de correção.
s e n h o r g a b o r . Numa…?
s e n h o r a g a b o r . …casa de correção!
s e n h o r g a b o r . Ele encontrará por lá o que não teve, injustamente,
em casa: disciplina honrada, princípios, e uma pressão moral
à qual ele terá de se submeter a todo custo. No fim das contas,
uma casa de correção não é o lugar pavoroso que você imagina.
A ênfase da instituição é o desenvolvimento de uma maneira
cristã de pensar e de sentir. O garoto finalmente vai aprender
a querer o bom em vez do interessante, e quando agir vai se-
guir a lei e não sua própria natureza. Há meia hora recebi um
telegrama do meu irmão que confirma as afirmações daquela
mulher. Melchior se abriu com ele e pediu 200 marcos para
fugir para a Inglaterra.
s e n h o r a g a b o r [cobre o rosto com as mãos]. Deus misericordioso!

Cena 4
Casa de correção – Um corredor – Diethelm, Reinhold, Ruprecht,
Helmuth, Gaston e Melchior.

diethelm. Aqui temos uma moeda de vinte pfennig!


reinhold. E daí?
d i e t h e l m . Vou colocá-la no chão. Vocês ficam em volta. Ganha
quem esporrar nela.
r u p r e c h t . Você vai participar, Melchior?
m e l c h i o r . Não, obrigado.

64
helmuth. Esse maricas!
gaston. Ele não dá mais no couro. Ele está aqui pela recreação.
m e l c h i o r [para si]. Não é inteligente eu me distanciar. Todos ficam
de olho em mim. Tenho de participar ou vão dar um fim em mim.
A prisão os torna suicidas. Se eu quebrar o pescoço, tudo bem!
Se eu escapar, também tudo bem! Só tenho a ganhar. Ruprecht
vai ficar meu amigo, ele conhece as coisas por aqui. Eu vou
contar a ele os capítulos de Tamar, nora de Judá, de Moab, de
Lot e de sua família, da rainha Vasti e da Abisague, a sunamita.
Ele tem o rosto mais infeliz da ala.
r u p r e c h t . Acertei!
h e l m u t h . Estou chegando!
g a s t o n . Depois de amanhã, talvez.
h e l m u t h . Agora! Já! Oh, Deus, oh, Deus…
t odo s . Summa – summa cum laude!!
r u p r e c h t [pegando a moeda]. Obrigado!
h e l m u t h . Dê aqui, cachorro.
r u p r e c h t . Para você, seu porco?
h e l m u t h . Abutre!!
r u p r e c h t [bate no rosto dele]. Toma! [sai correndo]
h e l m u t h [correndo atrás]. Vou matá-lo!
o s o u t r o s [também correndo]. Corre! Pega! Corre! Corre! Corre!
m e l c h i o r [sozinho, encostado na janela]. É por aqui que passa o
pararraios. É preciso enrolar um lenço ao redor. Quando penso
nela, o sangue sobe à minha cabeça. E Moritz está preso aos
meus pés como chumbo. Vou até a redação. Paguem-me por
matéria; eu faço as reportagens! Reúno notícias do dia – escrevo
– notícias locais – ética – psicofísica… Não é mais tão fácil morrer
de fome. Sopão para os pobres, restaurantes populares. A casa
tem sessenta pés de altura e o estuque está se desprendendo…
Ela me odeia – ela me odeia porque roubei-lhe sua liberdade.
Independentemente do que eu fizer, haverá o estupro. Só posso
esperar que com o passar dos anos, aos poucos… Daqui a oito
dias será lua nova. Amanhã vou lubrificar os fechos. Até domingo
preciso saber, de qualquer maneira, quem tem a chave. Na noite
de domingo, na hora da oração, o ataque epilético. É a vontade de
Deus, senão ninguém ficaria doente! Tudo está tão claro diante

O D espertar da P rimaver a 65
de mim, é como se já tivesse acontecido. Passo pela janela com
facilidade – saltar – agarrar – mas é preciso enrolar um lenço
ao redor. Lá vem o inquisidor-mor [sai para a esquerda].
Dr Prokrustes vem pela direita com um chaveiro
d r p r o k r u s t e s . Embora as janelas fiquem no terceiro andar e em-
baixo há urtigas plantadas. Mas esses degenerados lá se preocupam
com urtigas? No inverno passado um deles saiu pela claraboia e
tivemos todo o trabalho em buscá-lo, trazê-lo e enterrá-lo.
o c h av e i r o . O senhor quer a grade de ferro forjado?
d r p r o k r u s t e s . De ferro forjado. E como não dá para confiar, que
tenha rebites.

Cena 5
Um dormitório – Senhora Bergmann, Ina Müller e o médico
Dr von Brausepulver – Wendla na cama.

d r v o n b r au s e p u lv e r . Quantos anos você tem?


wendl a. Catorze e meio.
d r v o n b r au s e p u lv e r .
Prescrevo as pílulas do Dr Blaud18 há
quinze anos e já presenciei uma enorme quantidade de casos
bem-sucedidos. Prefiro-as ao óleo de fígado de bacalhau e ao
vinho ferroso. Comece com três a quatro pílulas por dia e vá
aumentando a dose o mais rapidamente possível. Prescrevi à
senhorita Elfriede, baronesa de Witzleben, aumentar uma pílula
a cada terceiro dia. A baronesa me entendeu mal e aumentou
três pílulas a cada dia. Depois de três semanas, a baronesa já
pode se deslocar com a senhora sua mãe para um pós-tratamento
em Pyrmont. Dispenso-a de passeios cansativos e refeições
extras. Mas você terá de me prometer, querida criança, a se
movimentar bastante e a pedir comida assim que voltar a sentir
vontade. Daí essas angústias vão passar logo – e a dor de cabeça,
a tremedeira, a tontura – e os terríveis distúrbios digestivos. A

18 As pílulas do médico francês Paul Blaud (1774–1858) continham principalmente sulfato


de ferro e carbonato de potássio e eram indicadas contra a anemia. – n t

66
senhorita Elfriede, baronesa de Witzleben degustou no café da
manhã, apenas oito dias depois de começado o tratamento, um
franguinho assado com batatas cozidas.
s e n h o r a b e r g m a n n . Posso oferecer-lhe uma taça de vinho, senhor
doutor?
d r v o n b r au s e p u lv e r . Agradeço, cara senhora Bergmann. Meu
carro está me esperando. Não fique tão abatida. Em poucas
semanas nossa querida pequena paciente estará bem, animada
e alegre como uma gazela. Tenha confiança. Bom dia, senhora
Bergmann. Bom dia, querida criança. Bom dia, minhas senho-
ras. Bom dia.
A senhora Bergmann o acompanha até a porta
i n a [junto à janela]. Seu plátano já está ficando colorido novamente.
Você consegue ver da cama? Uma beleza breve, que mal vale a
animação de vê-lo ir e vir. Também preciso ir embora daqui a
pouco. O Müller está me esperando diante do correio e antes
disso tenho de passar na costureira. Mucki vai ganhar suas
primeiras calcinhas, e Karl um novo agasalho de tricô para o
inverno.
w e n d l a . Às vezes fico tão feliz – tudo é alegria e o brilho do sol. Se
eu tivesse imaginado que é possível ter o coração tão contente!
Quero sair, passear pelos campos à luz do luar, procurar prímulas
ao longo do rio e me sentar às margens e sonhar… E daí vem a
dor de dente, e acho que vou morrer no dia seguinte; fico com
calafrios, minha vista escurece, e daí o monstro entra batendo
as asas. Todas as vezes que acordo, vejo mamãe chorando. Oh,
isso me dói tanto – não consigo dizer quanto, Ina!
i n a . Você quer que eu levante o seu travesseiro?
s e n h o r a b e r g m a n n [volta]. Ele acha que o vômito também vai
passar; e daí é para você se levantar à vontade… Também acho
que é melhor se você se levantar logo, Wendla.
i n a . A próxima vez que eu passar por aqui, com certeza você já vai
estar saltitando pela casa. Até logo, mamãe. Preciso ir sem falta
à costureira. Que Deus a proteja, Wendla [Beija-a]. Melhoras
rápidas, muito rápidas!
w e n d l a . Até logo, Ina. Quando você voltar, me traga prímulas.
Tchau. Mande lembranças minhas para os seus filhos.
Ina sai

O D espertar da P rimaver a 67
wendl a. O que mais ele disse, mamãe, quando ele tinha saído?
senhor a bergmann. Ele não disse nada. Ele disse que a senhorita
Witzleben também tendia a desmaiar. É quase sempre assim
na anemia.
w e n d l a . Ele disse que estou com anemia, mamãe?
s e n h o r a b e r g m a n n . Você deveria tomar leite e comer carne e
verduras quando seu apetite voltar.
w e n d l a . Oh, mamãe, mamãe, eu não acho que esteja com anemia.
s e n h o r a b e r g m a n n . Você está com anemia, filha. Fique calma,
Wendla, fique calma; você está com anemia.
w e n d l a . Não, mamãe, não! Eu sei. Eu sinto isso. Não estou com
anemia. Tenho hidropisia…
s e n h o r a b e r g m a n n . Você está com anemia. Afinal, foi isso que
ele disse, que você está com anemia. Acalme-se, filha, tudo vai
melhorar.
w e n d l a . Nada vai melhorar. Tenho hidropisia. Vou morrer, mamãe.
Oh, mamãe, vou morrer!
s e n h o r a b e r g m a n n . Você não vai morrer, filha! Você não vai
morrer… Deus misericordioso, você não vai morrer!
w e n d l a . Mas por que você está tão chorosa?
s e n h o r a b e r g m a n n . Você não vai morrer, filha! Você não tem
hidropisia. Você tem um filho, menina! Você tem um filho! Oh,
por que você fez isso comigo!
w e n d l a . Não fiz nada contra você…
s e n h o r a b e r g m a n n . Não negue, Wendla! Sei de tudo. E eu não
queria lhe dizer nada. Wendla, minha Wendla…!
w e n d l a . Mas isso não é possível, mamãe. Afinal, ainda não sou
casada…!
s e n h o r a b e r g m a n n . Deus Todo-Poderoso, sim, esse é o problema,
você não é casada! É terrível! Wendla, Wendla, Wendla, o que
foi que você foi fazer!
w e n d l a . Por Deus, eu não sei mais! Nós nos deitamos no feno… Não
amei mais ninguém no mundo a não ser você, mamãe!
s e n h o r a b e r g m a n n . Minha querida…
w e n d l a . Oh, mamãe, por que você não me contou tudo!
s e n h o r a b e r g m a n n . Filha, filha, não vamos deixar as coisas ainda
mais difíceis. Acalme-se! Tenha confiança em mim, filha! Dizer

68
essas coisas a uma menina de catorze anos! Eu podia acreditar
que o sol se apagaria, mas nunca numa coisa dessas. Agi com
você igualzinho como minha mãe agiu comigo. Oh, vamos
confiar no bom Deus, Wendla; vamos confiar na misericórdia
e fazer nossa parte. Veja, ainda não aconteceu nada, filha. E
se não nos acovardarmos, então o bom Deus não vai nos aban-
donar. Seja corajosa, Wendla, seja corajosa! Às vezes estamos
sentadas junto à janela, com as mãos no colo, porque tudo está
correndo bem, mas depois acaba acontecendo alguma coisa que
parece que o coração vai arrebentar. Por que… por que você
está tremendo assim?
w e n d l a . Alguém bateu.
s e n h o r a b e r g m a n n . Não escutei nada, querida [vai até a porta
e abre].
w e n d l a . Mas eu escutei claramente. Quem está aí fora?
s e n h o r a b e r g m a n n . Ninguém… A mãe de Schmidt, da rua do
Jardim. A senhora vem bem a calhar, mãe Schmidt.19

Cena 6
Viticultores numa vinha. O sol se põe a oeste atrás dos picos
das montanhas. Os sinos tocam no vale. Hänschen Rilow e Ernst Röbel
rolando pelo gramado seco embaixo de uma pedra saltada, na parte
mais alta da vinha.

ernst. Trabalhei demais.


hänschen. Não vamos ficar tristes. Não vamos desperdiçar nosso
tempo.
e r n s t . A gente as vê penduradas e não consegue mais – e amanhã
elas estão espremidas.
h ä n s c h e n . Não suporto nem o cansaço nem a fome.

19 No original, “Schmidts Mutter” e “Mutter Schmidtin”, provável menção à abor-


teira. – n t

O D espertar da P rimaver a 69
ernst. Ah, não aguento mais.
hänschen. Mais essas moscatéis brilhantes.
e r n s t . Não aguento mais.
h ä n s c h e n . Se eu vergar a gavinha, ela vai ficar balançando na frente
das nossas bocas. Ninguém precisará se mexer. Mordemos as
uvas e deixamos os cabinhos voltar para seu lugar.
e r n s t . Basta querer e veja só, a força desaparecida já está retor-
nando.
h ä n s c h e n . Além disso, o pôr do sol flamejante – e os sinos da noite.
Não quero muito mais para o futuro.
e r n s t . Às vezes já me vejo como um ilustre padre – com uma go-
vernanta bem-humorada em casa, uma biblioteca bem servida
e cargos e honrarias por todos os lados. Temos seis dias para
pensar e no sétimo abrimos a boca. Durante o passeio, os alu-
nos beijam nossa mão, e quando voltamos para casa o café está
passado, o bolo servido e as meninas trazem maçãs do jardim.
Você consegue imaginar algo melhor?
h ä n s c h e n . Penso em olhos semi-cerrados, lábios semi-abertos
e tapeçarias turcas. Não acredito no páthos. Veja, nossos pais
fazem de conta que estão bravos para esconder suas burrices.
Entre eles, chamam-se de idiotas, assim como nós. Sei disso.
Quando for milionário, vou erguer um monumento ao bom
Deus. Imagine o futuro como uma tigela de leite, com açúcar
e canela. Alguém a entorna e chora, o outro mistura tudo e sua.
Por que não ficar só com o melhor? Ou você não acredita que
dá para aprender isso?
e r n s t . Fiquemos com o melhor.
h ä n s c h e n . As galinhas comem o resto. Eu já me safei de tantas
confusões…
e r n s t . Fiquemos com o melhor, Hänschen! Por que você está
rindo?
h ä n s c h e n . Você está começando com isso de novo?
e r n s t . Alguém tem de começar.
h ä n s c h e n . Quando nos lembrarmos dessa noite, daqui a trinta
anos, ela vai nos parecer incrivelmente bela!
e r n s t . E como tudo acontece por si só!
h ä n s c h e n . Então, por que não?

70
ernst. Se alguém estivesse por acaso sozinho, poderia até chorar.
hänschen. Nada de tristeza! [ele o beija na boca]
e r n s t [beija-o]. Saí de casa querendo apenas falar com você e voltar
em seguida.
h ä n s c h e n . Eu estava esperando por você. A virtude tem roupas
bonitas, mas precisa de manequins imponentes.
e r n s t . Ela ainda está grande demais para nós. Não teria ficado
sossegado se não o tivesse encontrado. Amo você, Hänschen,
como nunca antes amei ninguém…
h ä n s c h e n . Nada de tristeza! Quando nos lembrarmos dessa noite,
daqui a trinta anos, talvez vamos zombar dela! Mas agora tudo é
tão bonito! As montanhas brilham; as uvas pendem nas nossas
bocas e o vento da noite afaga nas rochas como um gatinho
brincalhão que pede carinho…

Cena 7
Noite clara de novembro. As folhas secas farfalham nos ar-
bustos e nas árvores. Nuvens correm na frente da lua. Melchior salta o
muro do cemitério.

melchior [no fim do salto, do lado de dentro]. Aqui a matilha não vai
me seguir. Enquanto eles procuram nos bordéis, posso respirar
fundo e ver onde cheguei… A roupa está em farrapos, os bol-
sos estão vazios. Fico inseguro até diante dos mais inofensivos.
Durante o dia, tenho de tentar avançar pela floresta.
Derrubei uma cruz. Hoje as flores morreriam congeladas! Em
volta, a terra está nua…
No reino dos mortos!
Sair da clarabóia não foi tão difícil quanto esse caminho! Eu
não estava preparado…
Estou diante do abismo – tudo se perdeu, desapareceu. Oh, se
eu tivesse ficado lá.
Por que ela fez isso por mim? Por que não o culpado? Cuidado
incompreensível! Eu teria partido pedras e passado fome…!

O D espertar da P rimaver a 71
O que ainda me mantém de pé? Um delito após o outro. Estou
entregue ao pântano. Não tenho mais forças para me acabar…
Eu não era mau! Eu não era mau! Eu não era mau!
Nenhum mortal já caminhou com tanta inveja por sobre os
túmulos. Droga! Não tenho a coragem suficiente! Oh, se eu
ficasse louco – ainda nesta noite!
Eu preciso procurar lá adiante, debaixo dos últimos! O vento
sopra em cada pedra um som diferente – uma sinfonia angus-
tiante! As coroas podres se desfazem e balançam suas longas
fitas sobre as cruzes de mármore – uma floresta de espantalhos!
Espantalhos diante de todos os túmulos, um mais assustador do
que o outro – do tamanho de casas, por onde saem os diabos.
As letras douradas brilham tão frias… O chorão geme e passa
os dedos gigantes sobre a inscrição…
Um anjo orando – Uma placa.
Uma nuvem lança sua sombra. Como corre e chora! Como um
exército em marcha, vem do oriente. Nenhuma estrela no céu.
Sempre-vivas ao redor do jardinzinho? Sempre-vivas? Menina…

AQUI DESCANSA
NA PAZ DO SENHOR

WENDLA BERGMANN
NASCIDA A 5 DE MAIO DE 1878
MORTA POR ANEMIA
A 27 DE OUTUBRO DE 1892

BEM-AVENTURADOS OS PUROS DE CORAÇÃO…

72
E eu sou seu assassino. Eu sou seu assassino! Estou desesperado.
Não posso chorar aqui. Fora daqui! Fora!
m o r i t z s t i e f e l [com a cabeça debaixo do braço, caminha pesaroso
sobre os túmulos]. Um minuto, Melchior! Essa oportunidade não
vai se repetir tão cedo. Você não sabe o que está relacionado
ao lugar e à hora…
m e l c h i o r . De onde você vem?
m o r i t z . De lá – de lá do muro. Você derrubou a minha cruz. Estou
perto do muro. Me dê a mão, Melchior.
m e l c h i o r . Você não é Moritz Stiefel!
m o r i t z . Me dê a mão. Estou certo que você vai me agradecer. Nunca
mais será tão fácil! É um reencontro curiosamente feliz. Vim
aqui especialmente…
m e l c h i o r . Você não dorme?
m o r i t z . Não o que vocês chamam de dormir. Ficamos sentados
sobre torres de igrejas, telhados altos – onde quisermos…
m e l c h i o r . Sem descanso?
m o r i t z . Para nos divertir. Nós passeamos pelas árvores, por capelas
solitárias na floresta. Voamos sobre reuniões de pessoas, sobre
lugares onde aconteceram acidentes, jardins, locais de festa. Nas
casas, ficamos agachados nas lareiras e atrás das cortinas. Me
dê a mão. Não vivemos juntos, mas vemos e escutamos tudo o
que acontece no mundo. Sabemos que tudo o que as pessoas
fazem e desejam é uma estupidez, e rimos disso.
m e l c h i o r . E para que serve isso?
m o r i t z . Para que precisa ter serventia? Nada mais nos atinge, nem
o bem nem o mal. Estamos no alto, acima do terreno – cada
um por si. Não vivemos juntos porque temos tédio. Nenhum
de nós deseja algo que lhe possa ser tirado. Não reclamamos
nem nos regozijamos. Estamos satisfeitos conosco, e isso é tudo!
Desprezamos os vivos imensamente, quase não temos piedade.
Eles nos alegram com suas ações, porque, como viventes, não
são dignos de pena. Sorrimos nas suas tragédias – cada um por
si – e fazemos nossos comentários. Me dê a mão! Se você me
der a mão, vai cair de tanto rir com a sensação de me ter dado
a mão.
m e l c h i o r . Você não sente nojo?

O D espertar da P rimaver a 73
moritz. Estamos acima disso. Nós sorrimos! No meu enterro, estive
entre os que choravam minha perda. Diverti-me à beça. Isso é
superioridade, Melchior! Chorei como ninguém, e saí de fininho
até o muro para não ter um acesso de riso. Nossa superioridade
incontestável é realmente a única maneira de se digerir as coi-
sas… Também riam de mim, antes de eu me elevar.
m e l c h i o r . Eu não gosto quando riem de mim.
m o r i t z . Os vivos não dão qualquer pena! Admito que nunca teria
imaginado tal coisa. E agora acho inacreditável ter sido tão
ingênuo. Agora enxergo a fraude com tanta clareza que não
resta nadinha de nada. Como você consegue hesitar, Melchior!
Me dê a mão! Num piscar de olhos você estará no céu, sobre si
próprio. Sua vida é um pecado de omissão.
m e l c h i o r . Vocês podem esquecer?
m o r i t z . Podemos tudo. Me dê a mão! Podemos lamentar a juven-
tude, que acredita que sua angústia é idealismo, e a velhice, que
quebra o coração por uma superioridade estoica. Enxergamos o
imperador tremer diante de cantigas populares e os pobres de
Nápoles diante da trombeta que anuncia o juízo final. Ignoramos
a máscara do comediante e vemos o poeta colocá-la no escuro.
Vemos o satisfeito em sua mendicância, o capitalista em sua
labuta e sua carga. Observamos os apaixonados e vemos como
se ruborizam um frente ao outro, supondo que são traidores traí­
dos. Enxergamos pais pondo filhos no mundo para dizer a eles:
Como vocês são felizes por ter pais como nós!, e enxergamos os
filhos se aproximando e fazendo a mesma coisa. Conseguimos
enxergar a inocência nas suas solitárias urgências amorosas, a
prostituta barata sobre um livro de Schiller… Vemos Deus e o
diabo ridicularizando um ao outro e temos a consciência inaba-
lável de que estão ambos bêbados… Uma paz, uma tranquilidade,
Melchior! Você precisa esticar apenas o mindinho para mim.
Tão cedo você não terá outra oportunidade igual.
m e l c h i o r . Se eu apertar sua mão, Moritz, então será por desprezo
próprio. Estou me sentindo banido. O que me dava coragem
está na cova. Não me sinto digno de nobres emoções… e não
vejo nada, nada que possa se opor a minha queda. Sinto-me a
criatura mais detestável da face da Terra.
m o r i t z . Por que você está hesitante?

74
Um homem disfarçado entra
o h o m e m d i s fa r ç a do [para Melchior]. Você está tremendo de
fome. Você está sem capacidade de julgamento. [Para Moritz]
Vá embora.
m e l c h i o r . Quem é você?
o h o m e m d i s fa r ç a do . Você descobrirá mais tarde. [Para Moritz]
Suma daqui! Você não pode ficar por aqui! Por que você não
está com a cabeça?
m o r i t z . Dei um tiro em mim.
o h o m e m d i s fa r ç a do . Então fique onde é seu lugar, pois seu
tempo já passou! Não nos incomode aqui com seu cheiro de
morte. Inacreditável… veja seus dedos! Que nojo! Já estão
apodrecendo!
m o r i t z . Por favor, não me mande embora…
m e l c h i o r . Quem é você?
m o r i t z . Por favor, não me mande embora! Estou pedindo. Deixe que
eu fique mais um pouquinho por aqui, não quero atrapalhá-lo
em nada. Lá embaixo é tão horripilante.
o h o m e m d i s fa r ç a do . Então por que você fica alardeando essa
história de superioridade? Você sabe que isso é enganação – uvas
verdes! Por que você mente descaradamente, seu… fantasma! Se
você acha que recebeu um presente tão valioso, então fique com
ele. Mas cuidado com castelos construídos no ar, meu amigo…
e por favor, mantenha sua mão de cadáver longe daqui.
m e l c h i o r . Afinal, você vai me dizer quem é ou não?
o h o m e m d i s fa r ç a do . Não. Sugiro que você confie em mim. A
primeira coisa que eu faria seria cuidar do seu progresso.
m e l c h i o r . Você é… meu pai?
o h o m e m d i s fa r ç a do . Você não reconheceria seu pai pela voz?
m e l c h i o r . Não.
o h o m e m d i s fa r ç a do . O seu pai agora procura consolo nos braços
fortes da sua mãe. Eu abro o mundo para você. Sua incredulidade
momentânea é fruto dessa situação miserável. Com um jantar
quente na barriga, você vai rir dela.
m e l c h i o r [para si mesmo]. Ele só pode ser um dos diabos! [em voz
alta] Um jantar quente não vai apaziguar as culpas que recaem
sobre mim!
o h o m e m d i s fa r ç a do . Depende do jantar! Posso lhe dizer que

O D espertar da P rimaver a 75
a pequena teria dado à luz sem problemas. Sua constituição
era perfeita. Ela morreu por causa dos métodos abortivos da
senhora Schmidt. Vou levá-lo para junto dos homens. Vou dar
a você a oportunidade de ampliar seu horizonte de maneira
maravilhosa. Vou mostrar a você tudo o que é interessante no
mundo, sem exceção.
m e l c h i o r . Quem é você? Quem é você? Não posso confiar em
quem não conheço.
o h o m e m d i s fa r ç a do . Você não vai me conhecer se não confiar
em mim.
m e l c h i o r . É isso?
o h o m e m d i s fa r ç a do . Exatamente. Além disso, você não tem
alternativa.
m e l c h i o r . Eu posso dar a mão ao meu amigo aqui a qualquer
momento.
o h o m e m d i s fa r ç a do . Seu amigo é um charlatão. Quem ainda
tiver uma moeda não vai sorrir. O melhor humorista é a criatura
mais mesquinha e lamentável da criação!
m e l c h i o r . Independente do que seja o humorista, diga quem você
é senão eu darei a mão a ele.
o h o m e m d i s fa r ç a do . Então?!
m o r i t z . Ele tem razão, Melchior. Eu me gabei. Siga-o e aproveite a oca-
sião. Mesmo que ele esteja disfarçado, ao menos ele existe.
m e l c h i o r . Você acredita em Deus?
o h o m e m d i s fa r ç a do . Dependendo das circunstâncias.
m e l c h i o r . Você sabe me dizer quem inventou a pólvora?
o h o m e m d i s fa r ç a do . Berthold Schwarz, ou melhor, Konstantin
Anklitzen, que por volta de 1330 era monge franciscano em
Freiburg im Breisgau.
m o r i t z . O que eu daria para que isso não tivesse acontecido!
o h o m e m d i s fa r ç a do . Daí você teria se enforcado.
m e l c h i o r . Qual sua opinião sobre moral?
o h o m e m d i s fa r ç a do . Garoto, você acha que sou seu aluno?
m e l c h i o r . Sei lá eu quem você é!!
m o r i t z . Não briguem. Por favor, não briguem. Isso não leva a nada.
Para que estamos sentados aqui, dois vivos e um morto, às duas
da manhã no pátio da igreja, se queremos ficar brigando como

76
pinguços! Quero que seja um prazer participar dessa reunião.
Se vocês quiserem brigar, ponho minha cabeça debaixo do braço
e vou-me embora.
m e l c h i o r . Você continua o medroso de sempre!
o h o m e m d i s fa r ç a do . O fantasma não está errado. Não devemos
deixar de levar em conta nossa dignidade. Para mim, moral é
produto real entre duas grandezas imaginárias. As grandezas
imaginárias são dever e querer. O produto chama-se moral e
sua realidade é incontestável.
m o r i t z . Você poderia ter dito isso para mim antes! Minha moral me
levou à morte. E peguei na arma por causa dos meus queridos
pais. “Honre pai e mãe para que tenhas vida longa.” A Sagrada
Escritura falhou totalmente comigo.
o h o m e m d i s fa r ç a do . Não se iluda, caro amigo! Seus pais não
teriam morrido, nem você. Analisando rigorosamente, eles
teriam feito um escarcéu por uma necessidade de saúde.
m e l c h i o r . Isso pode ter lá sua razão. Mas posso lhe dizer com
certeza que se eu tivesse estendido há pouco a mão sem mais
para Moritz, a culpa seria tão-somente da minha moral.
o h o m e m d i s fa r ç a do . Por isso que você não é o Moritz.
m o r i t z . Eu não acho que a diferença seja tão grande assim – pelo
menos não tão grande para você, prezado desconhecido, não
ter se encontrado sem querer comigo naquela época, quando
eu passeava com a pistola no bolso pelos amieiros.
o h o m e m d i s fa r ç a do . Você não se lembra de mim? Você tam-
bém esteve entre a vida e a morte no último instante. Além do
mais, acho que este não é o lugar apropriado para um debate
dessa natureza.
m o r i t z . Tem razão, está esfriando, senhores! Embora tenham me
vestido com minhas roupas de domingo, estou sem camisa e
sem cueca.
m e l c h i o r . Tchau, querido Moritz. Não sei aonde esse homem está
me levando. Mas ele é um homem…
m o r i t z . Não se vingue de mim, Melchior, por eu ter tentado matar
você! Foi a velha amizade. Eu passaria a vida toda me queixando
e lamentando caso pudesse acompanhá-lo apenas por uma vez
para fora daqui.

O D espertar da P rimaver a 77
o h o m e m d i s fa r ç a do . Por fim, cada um com sua parte. Você a
consciência tranquila, de não ter nada, você a dúvida enervante
em relação a tudo. Adeus.
m e l c h i o r . Tchau, Moritz! Aceite meu sincero obrigado por ter
aparecido mais uma vez. Quantos dias alegres e descontraídos
passamos nesses catorze anos! Prometo-lhe, Moritz, indepen-
dentemente do que o futuro me reserve, mesmo que eu me
torne dez vezes outra pessoa, mesmo que eu vá para frente ou
para trás, nunca vou me esquecer de você…
m o r i t z . Obrigado, obrigado, querido.
m e l c h i o r …e quando eu for um velho grisalho, então talvez você
vá estar mais perto de mim novamente do que todos os vivos.
m o r i t z . Obrigado. Felicidades, meus caros! Não se demorem
mais.
o h o m e m d i s fa r ç a do . Venha, filho! [ele dá o braço a Melchior e se
afasta com ele dos túmulos]
m o r i t z [sozinho]. Aqui estou com minha cabeça debaixo do braço. A
lua esconde o rosto, descobre-se novamente e não parece nem
um pouco mais sábia. Assim vou voltar ao meu lugarzinho, ar-
rumar minha cruz que o bobalhão derrubou tão sem respeito, e
quando tudo estiver pronto, vou me deitar novamente de costas,
me aquecer na decomposição e sorrir…

78
Mine-Haha
ou
Sobre a educação corporal
das meninas

Tradução
Marcus Tulius Franco Morais
Em memória de minha mãe
F az oito dias hoje , por volta dessa mesma hora, que
chegando em casa fui detido no portão por um policial que só me
permitiu entrar depois de lhe provar, mostrando um cartão postal
endereçado a mim, que moro na casa dos fundos. No pátio amon-
toavam-se de dez a vinte pessoas e, em voz baixa, manifestavam as
suas opiniões e impressões. Minha vizinha de quarto, a professora
aposentada Helene Engel, de oitenta e quatro anos de idade, havia
se atirado do quarto andar. Para os presentes não havia a menor
possibilidade de se tratar de suicídio cometido em sã consciência;
antes, consideravam o ato como consequência de uma perturbação
mental, que havia se manifestado há alguns meses na senhora idosa,
com repentinas crises de medo, confusão e exaltação. Logo depois, a
ambulância chegou. Após um médico atestar o óbito, a senhora que
nos alugava os quartos achou que o mais oportuno seria transportar
imediatamente o corpo da infeliz para o necrotério.
Deve ter umas três semanas que, respondendo a minha sauda-
ção, a senhora Helene abordou-me no corredor. Disse ter lido há
pouco um livro meu, O despertar da primavera. Queria saber se eu
concordaria em submeter a minha apreciação algo semelhante que
ela havia escrito há muitos anos. Convidou-me para ir ao seu quarto;
tirou da prateleira inferior do guarda-roupa uma garrafa de vinho
tinto aberta e encheu duas taças. O manuscrito, ao qual incluo essas
observações, estava sobre a escrivaninha. Em seguida, contou-me
que seus pais haviam sido muito ricos. Contra a vontade da família
casou-se aos dezessete anos com um oficial reformado, um viúvo por
quem ela nutria uma paixão cega desde menina. Em poucos anos,
deu-lhe três filhos, que cresceram e se tornaram pessoas de bem e
respeitáveis, entretanto repousam há muito sob a terra. Quando o
marido entregou-se de vez à bebida, depois de cinco anos de casa-
mento, ela deixou-se encantar por um arquiteto muito jovem que a

M ine -H aha 83
levou para a América; no entanto, lá chegando, viu que precisava
trabalhar para sustentá-lo. Contou-me que primeiro foi empregada
doméstica, depois enfermeira e, por último, professora. Nessa época,
viveu com um músico considerado um grande gênio, que ganhava
o pão tocando piano à noite no „Melodion“ e outros cafés-concerto.
A maior parte de sua estada na América ela passou no Brasil, onde
deu aula para crianças indígenas e aprendeu a montar cavalo selva-
gem sem sela com tanta segurança quanto um filho das selvas. Essa
recordação de sua vida pareceu-me que lhe era a mais cara. Em 1871,
leu no jornal „Gartenlaube“ que seu primeiro marido havia morrido
como herói na Batalha de Gravelotte; então, voltou à Europa. Fazia
muito tempo que seus pais já não viviam. Depois da revolução
perderam a fortuna e morreram em seguida num retiro anônimo.
Primeiro, estabeleceu-se como professora particular; depois, conse-
guiu trabalho numa academia para moças. Nada pude concluir de
suas palavras sobre qualquer participação a favor da atual luta das
mulheres. Por outro lado, a origem do presente manuscrito deve
remontar à sua última atividade de ensino na Alemanha.
Este manuscrito, se não superestimo seu valor, parece-me digno
de publicação devido à singularidade de seu estilo. O subtítulo Sobre
a educação corporal das meninas é, evidentemente, meu. Penso ter
de incluí-lo porque o título Mine-Haha, tanto quanto sei, é, para falar
com franqueza, incompreensível. Espero, no entanto, que a obra
póstuma da boa senhora contenha ainda outras folhas.

84
I
Se estou decidida a contar a história da minha vida nestas
linhas não é porque me sinto com vocação para escrever. Devo dizer
que nada neste mundo me é tão execrável quanto uma escritora
arrogante. Uma mulher que ganha o sustento com seu amor tem
sempre em minha estima um lugar mais alto do que outra que se
rebaixa para escrever crônicas ou até mesmo livros. Só mesmo o
fato de a minha vida toda ter sido bem diferente da de outras mu-
lheres pode me levar a deitar no papel o que algumas vezes contei
e que, quando eu morrer, ninguém mais vai contar. Escreverei um
único livro; o mundo não precisa ficar preocupado. Tenho também
a certeza de que não o escreverei mal. Se deverá ser impresso após
a minha morte, cabe a meu filho Edgar decidir, considerando que as
precárias condições em que vive poderiam, talvez, servir de obstá-
culo a isso. Tais considerações não podem me impedir de escrever
minhas memórias e, se não me for concedido escrever para um
leitor inteligente ou uma leitora bonita, escrevo, então, para mim
mesma. Agora que as dificuldades da vida passaram e já não sinto
mais alegria, não me resta nada melhor a fazer. A única vontade que
ainda tenho neste mundo é a de não ser surpreendida pela morte
antes de ter deitado minha caneta. Agora que comecei a escrever,
receio, por isso, não encontrar descanso na Terra, vendo-me obrigada
a retomar à noite meu manuscrito inacabado.
Para dizer a verdade, não tenho grandes coisas a relatar sobre
minha primeira infância, embora minha memória remonte a muito
longe, até quase ao segundo ano de vida. De minha primeira juven-
tude não me recordo sequer de um dia de chuva. Nem consigo me
lembrar se houve algum dia frio. Durante toda minha vida, quando
pensava naqueles anos, via apenas a luz do sol caindo filtrada pelas
espessas folhagens verdes. O verde claro das folhas do alto iluminadas
é o céu, tal como o conheci primeiro. Mesmo agora, quando chego às

M ine -H aha 87
vezes a experimentar no peito um sentimento de alegria de criança,
vem logo esse verde diante dos meus olhos. O verde é para mim a
cor da felicidade, não a da esperança. Estou velha demais para ainda
imaginar a esperança entre todas as cores – não tenho motivo para
continuar nutrindo alguma espécie de esperança.
A imagem mais antiga que ficou gravada em minha memória
é a seguinte: encontro-me em cima de uma cadeira diante da ja-
nela aberta; ao meu lado, Naema cuida de mim para eu não cair.
Perguntei-lhe o nome das flores que estavam diante de nós e ela
as nomeou uma após a outra. O formoso copo-de-leite à minha es-
querda, consigo ainda vê-lo de forma tão nítida que dá vontade de
pegar. Depois segue uma longa pausa até um certo dia eu descobrir
ao lado do tanque a espessa copa das tílias que sombreavam todo
o jardim. Julian, um dos meninos mais velhos, ajoelhou-se sobre
a borda de pedra do tanque, mergulhou-me na água e me afundou.
Emergindo, chorei o quanto pude, esfreguei os olhos e olhei para
cima. Assim, vendo a folhagem filtrada pelo sol, meu coração se
encheu de enlevo a ponto de sempre me lembrar desse momento.
Nesse mesmo instante recordo-me também de ver pela primeira
vez a casa pelo lado de fora. A larga fachada branca, baixa, de um só
andar, com uma longa ala de janelas, todas com venezianas verdes
cheias de flores no parapeito. Acima, duas vezes a altura da fachada,
o telhado de ardósia inclinado desaparecendo na folhagem das ár-
vores, com manchas de musgo e uma trapeira grande exatamente
acima da porta principal. Nesse lugar sentei-me muitas vezes num
banquinho e fiz tranças de palha para os nossos chapéus de abas
largas, enquanto os meninos e as meninas menores do que eu brin-
cavam a meus pés com terra e água.
Minhas recordações tornam-se coerentes só a partir do dia em que
pela primeira vez usei sapatos, portanto, no começo do meu quarto
ano. Éramos sete, três meninos e quatro meninas, um contingente
bastante alto para um mesmo ano, pois no total éramos cerca de
trinta crianças na casa. Ella e Aspásia, duas moças mais velhas que
deixaram a casa na primavera seguinte, calçavam-nos os sapatos, e,
cheias de graça, nós nos exibíamos por todo o jardim, andando e
rangendo os seixos. Em seguida, tínhamos de nos apressar para fazer
uma fila por ordem de tamanho perto do salão de madeira, do lado
oposto à casa. Eu era a terceira por ordem de tamanho; maiores que

88
eu, dois meninos. O terceiro menino era o menor de todos. Durante
esse primeiro verão usamos sapatos só durante os exercícios, depois
de tirá-los era um alívio, pois os cordões eram amarrados tão aper-
tados que dava para sentir o menor contato com o solo. Era uma
delícia correr descalça o resto do tempo na casa e no jardim.
Gertrude aproximava-se de nós com uma vara fina debaixo do
braço. Com os cabelos negros muito lisos, os olhos brilhantes, o
rosto fino e o talhe esbelto, ela era para mim, até eu deixar aquela
casa, a representação da beleza. Mesmo em meu último ano subi
muitas vezes atrás dela até o sótão só pelo prazer de vê-la descer
a escada. Nessa época ela devia ter dezoito ou dezenove anos de
idade. Ela e Naema, um pouco mais velha, ausentavam-se um dia
inteiro a cada quatro dias. Éramos então trinta crianças com apenas
uma moça e, em geral nós, isto é, as mais velhas, tínhamos de lavar
os vestidinhos brancos, enquanto as mais jovens os estendiam em
volta do tanque para secar.
Gertrude pegou com a mão esquerda a vara de salgueiro que ti-
nha na direita e nos olhou uma após a outra, sorrindo. Depois, com
ambas as mãos, levantou o vestido tão alto que deu para ver suas
pernas até acima dos joelhos e nos mostrou como se devia andar.
Além das botas altas, amarelas, de cordão, usava meias brancas
que não lhe chegavam a meia altura das panturrilhas. Ergueu um
pouco o joelho e pousou o pé sobre a ponta; depois abaixou lenta-
mente o calcanhar, mas não antes que todo o pé, do dorso ao dedão,
formasse uma linha reta com a perna. Seu joelho cheio, redondo
mas de forma delicada, estendeu-se no mesmo instante em que o
calcanhar tocou o solo.
Todas nós tínhamos de erguer os vestidos e os segurar com as
mãos apoiadas firmes nos quadris. Então, andar tão devagar de
maneira que entre cada passo poder-se-ia dar uma volta completa
ao redor da casa. A vara tocava sem parar a ponta de nossos pés,
abaixo dos joelhos e das panturrilhas quando alguém queria abaixar
o pé rápido demais. Lora, a menor das meninas – aliás, uma criança
de extremada beleza, da qual voltarei a falar outras vezes –, quase
chorava. Ao menos tinha grossas lágrimas nas faces, mas Gertrude
lhe lançava olhares tão fulminantes que ela aprendeu logo a se
concentrar mais do que todas as outras.
Dessa maneira demos três voltas no jardim. Depois, adentramos

M ine -H aha 89
a casa pulando, tiramos os sapatos, desvencilhamo-nos dos vestidos
e corremos para o tanque o mais depressa possível. Os garotos fica-
ram de um lado do chafariz e nós do outro. Jogamos água umas nas
outras e entramos na chuva da fonte. Os peixes passavam roçando
entre nossas pernas. Era expressamente proibido pegá-los e tirá-los
da água ou maltratá-los de alguma outra forma. Algumas vezes uma
de nós escorregava no ladrilho e ia parar no fundo da água. Seguia-
se então uma gritaria. Era quase impossível se afogar porque em
nenhuma parte do tanque a profundidade ultrapassava meio metro.
Depois do banho, sentamos uma ao lado da outra na borda do tanque,
com os pés na água e ficamos nos secando.
Durante os outros exercícios, Gertrude cuidava sobretudo para
que mantivéssemos os quadris rijos ao andar. Se alguém soltasse
os quadris ou se curvasse, levava uma varada no traseiro. Dizia que
ao andar não se podia sentir o chão, não se podia sentir as pernas,
absolutamente, só se podia sentir os quadris. Os quadris são o ponto
central e ele deve permanecer imóvel. Mas todos os outros movi-
mentos do tronco, assim como os das pernas até as pontas dos pés,
deviam partir dos quadris e serem por eles impostos e dirigidos. Ela
era, sob esse aspecto, um verdadeiro modelo. Quando chegava em
algum lugar, a impressão que dava era de que seu corpo não tinha
peso. Via-se apenas as formas. E mesmo as formas eram ofuscadas
pela beleza do movimento. Diante de outras pessoas ela me pare-
cia sempre como algo que eu apenas imaginava e na realidade não
existia. De vez em quando eu piscava para ver se ela continuava
presente. Percebi, já naquela época, que todos esses exercícios eram
mais fáceis para nós, meninas, do que para os meninos, que nunca
deixaram de pensar com os seus membros. Se algumas das meninas
ficaram com os quadris largos, estou certa de que isso se deve ao fato
de que nós aprendemos, até certo ponto, a pensar com os quadris.
Desde o começo do nosso quinto ano, todas as crianças, tanto as
meninas quanto os meninos, foram solicitados para cuidar dos bebês
que chegaram à casa. Cada uma tinha um bebê para cuidar. Deram-
me uma menina, enquanto a pequena Lora, já minha amiga, ficou
com um menino. Tínhamos de manter as crianças limpas, levá-las
para passear no jardim durante o dia e, em dia de chuva, abrigar-
nos no salão de madeira, e lhes dar mamadeira; exatamente como

90
haviam feito por nós as crianças mais velhas que haviam deixado a
casa há tempos. À noite as crianças menores dormiam sob a guarda
única de Naema, enquanto nós, as mais velhas, dormíamos com
Gertrude. Quando Gertrude saía, permanecia a noite toda fora e só
voltava pela manhã, quase sempre mais amável e mais alegre do
que costumava ser.
Agora vou falar de Morni, um dos meninos mais velhos, de quem
gostei mais do que tudo, e nunca mais voltei a vê-lo. No banho, era
ele que eu via, só ele. Já estava tão crescido que a água não lhe
alcançava a cintura. Tinha os olhos tão brilhantes e magníficos que
eu o chamava sempre pelo nome só para olhar diretamente em seus
olhos. Suas costas eram muito delicadas quando se inclinava para
carregar uma criancinha na água. Lembro-me de uma vez em que
ele estava em pé na balaustrada, conversando com um amiguinho
na água. Eu estava agachada sob o chafariz com duas outras meni-
nas. Naquele instante, sorvi sua beleza em grandes tragos e, nessa
noite, dormi serenamente como se eu tivesse respirado um ar me-
lhor, mais fresco. Três semanas depois, quando uma certa manhã
Gertrude nos retirou as cobertas, a cama dele, a de um amiguinho
dele e a de outra menina estavam vazias. Nenhuma de nós ousou
fazer qualquer pergunta. Sequer falávamos sobre isso entre nós.
Então me perguntava em silêncio se aquilo seria o fim. Às vezes eu
considerava Naema e Gertrude criaturas de uma espécie superior,
que nunca haviam sido crianças como nós. Ainda assim, tive uma
sensação muito clara de que um dia precisaríamos voltar a nos ver,
sobretudo quando pensava em Morni. Como já disse, nunca mais
o vi. Durante a minha vida, mesmo nos últimos anos, várias vezes
procurei obter notícias dele. Em geral, pouquíssimas pessoas ainda
se lembravam dele. Com a idade de nove anos, logo depois de ter
sido selecionado entre os melhores, feriu-lhe a cabeça a queda de
uma barra de ginástica. Jamais o esqueci.
Durante o último ano, Gertrude nos ensinou corrida e salto. Re-
cordo-me também de uma bola grande, vermelha, que ficava no salão
de madeira, com a qual todas nós, de alguma forma, aprendemos a
andar de maneira espontânea. Eu e Lora costumávamos sentar na
bola, envolvíamo-nos num abraço tão apertado quanto possível, os
pés de uma entre os pés da outra, e colocávamo-nos em movimento

M ine -H aha 91
por entre as mesas e os bancos, atravessando todo o salão. Uma
vez passamos sobre uma criança sem que a feríssemos. Andar com
pernas de pau também estava em voga na época, mas Gertrude não
fazia caso disso. Ela não podia ver esse exercício. Dizia que era de
mau gosto e fazia mal. Em contrapartida, quando tinha tempo livre,
gostava de jogar bola com a gente. Sua brincadeira favorita, porém,
era pular corda e permitia que as meninas e os meninos participas-
sem dela, e sempre achava graça quando a roupa de alguém batia
no rosto. Ela era exímia na corda. Nenhuma de nós conseguia pular
com a velocidade que ela queria. Quando ela pulava, passava a corda
três vezes, no espaço de um salto, sob as pontas finas dos pés bem
estendidos e, no instante seguinte, com a mesma velocidade, tocava
o solo entre cada pulo. Depois não se via mais a corda e ela própria
desaparecia diante de nossos olhos.
Durante os dias quentes de verão quase não saíamos da água. Fi-
cávamos agachadas na beira do tanque ou deitadas sob o jato d’água,
deixando a chuva espirrar no rosto, sem tirar nossos chapéus de abas
largas. Nós nos vestíamos só para as refeições e as aulas. Nenhuma
de nós pensava em nadar, nem mesmo os meninos. E nem teria sido
possível numa água tão rasa. Aliás, ocorre-me só agora que Naema
e Gertrude nunca tomaram banho com a gente. Ambas andavam
sempre de braços nus, mas nenhuma de nós chegou a ver uma delas
assim como ficávamos durante o dia. Isso contribuía muito para o
respeito que nós, da mais nova à mais velha, nutríamos pelas duas
moças. Pela manhã, quando Gertrude nos descobria, estava sempre
vestida da cabeça aos pés, e nunca aparecia antes de escurecer. Uma
vez notei que ela usava uma camisola durante a noite. Sigwart, cuja
cama ficava ao lado da minha, teve uma crise respiratória. Gertrude
levantou-se e acendeu a luz. A camisola lhe alcançava os tornozelos.
Ainda a vejo segurando com suas mãos brancas a cabeça rubra do
menino. Ela lhe preparou uma compressa fria, sentou-se na beira
da cama e o tranquilizou até ele adormecer. Em seguida ela voltou
a se deitar.
Agora vamos falar das aulas. Eu sempre me alegrava quando abria
os olhos de manhã. Morni tinha ido embora; os meninos da minha
idade não tinham nada que pudesse me interessar, e assim Gertrude
era tudo o que eu conhecia de mais belo neste mundo. Mais tarde
ainda voltei a ver muitas vezes a roupa que usávamos para correr

92
e saltar, inclusive em adultos; mas, naquela época, em ninguém,
nem mesmo em Arno, com quem passei os oito dias mais felizes da
minha vida, a roupa agradava-me tanto quanto em Gertrude. Eu
ainda não tinha completado sete anos, mas guardo essa impressão
viva até hoje. Nos primeiros exercícios Gertrude costumava usar um
vestido branco que ela levantava só até os joelhos. Depois, passou a
se vestir como nós. Estava sempre prontinha; quando saía de casa
com a vara na mão chamava-nos para nos preparar. Tratávamos de
entrar logo, tirávamos os vestidinhos brancos e vestíamos as malhas,
uma fechando as costas da malha da outra. Elas não ultrapassavam
o tronco e eram fechadas entre as pernas, de maneira que as per-
nas ficavam nuas até a cintura. Gertrude passava em revista uma
após a outra, examinava se tudo estava em ordem e quase nunca
deixava de apertar um pouquinho mais a cintura de cada uma de
nós. Tínhamos de jogar a cabeça para trás tanto quanto possível
e manter as mãos cruzadas na nuca. Durante os exercícios não
podíamos tocar o solo com os calcanhares. Gertrude dizia que isso
formaria bonitas panturrilhas. Podíamos flexionar os joelhos apenas
um pouquinho e, durante o trajeto, pisar só com as pontas dos pés.
Lora e Heidi faziam isso com mestria. Quando andavam, não se
ouvia uma pedrinha se mexer. Ambas tinham as articulações finas
e os joelhos redondos, e conseguiam curvar os dedos das mãos para
trás. Muitas vezes, Gertrude as deixava dar uma volta sozinhas no
jardim. Era como se fossem levadas pelo sopro leve do ar fresco
sob as árvores. Antes que se pudesse perceber, haviam retornado
para junto de nós. Os meninos tinham as pernas mais longas e mais
finas do que nós, por isso podiam se manter melhor nas pontas dos
pés, mas quase sempre flexionavam os joelhos. No salto com pés
juntos eles eram muito superiores a nós. Ficávamos bem perto da
corda, os calcanhares erguidos, as mãos apoiadas nos quadris e os
cotovelos, o mais para trás possível. Assim tínhamos de saltar, cair
do outro lado com os joelhos completamente flexionados para, no
instante seguinte, imóveis como antes, voltar a ficar nas pontas dos
pés. Se acaso alguém desse um passinho que fosse, tomava umas
varadas daquelas de dar calafrios. Gertrude sorria sempre que batia
em alguém. Às vezes, estalava umas varadas nas próprias pernas
estendidas; quando saltava, as pontas dos pés vibravam por cima da
corda. Seus pés não se tocavam, como os de outras moças. Quando

M ine -H aha 93
ficava em pé, as pernas perfeitamente juntas, sempre ficava um
espaço entre os tornozelos. Eu adorava, sobretudo, vê-la assim de
costas. Dos calcanhares partiam duas linhas retas verticais até os
jarretes, apesar das panturrilhas cheias. Suas panturrilhas eram
tão delicadas que eu me perguntava como poderiam pés tão finos
suportar todo aquele corpo bonito. Suportavam-no mais pela força
dos ligamentos e de sua elasticidade. Gertrude não tinha quadris
exagerados, nem era gorda, mesmo de perfil. Ao contrário, de per-
fil, seu corpo parecia bem mais estreito que de frente. O tronco se
erguia garboso e independente dos quadris, como se fosse criação
própria, e os braços não perdiam em nada para as pernas quanto à
beleza e ao vigor. Gertrude estava sempre bem amarrada para nos
dar bom exemplo. Quando saía de casa e ainda estávamos brincando
no jardim, mal se podia distinguir onde terminavam suas pernas
nuas e onde começava o vestido branco. As meias brancas, única
peça que diferenciava sua roupa da nossa, nunca escorregaram sobre
as botas durante um ano inteiro, apesar dos exercícios e dos saltos.
Suas botas amarelas de cano alto pareciam sempre novas em folha,
nenhum nó nos cordões, nenhuma ruga no couro, o que não se
podia afirmar das nossas. A moça era toda bonita, o rosto também
tinha uma expressão agradável e interessante, mas seus pés, quando
estavam um ao lado do outro sobre o cascalho, eram uma obra de
arte da natureza, como não mais voltei a ver.
Recordei-me agora de outra moça da nossa idade; mas, há cerca de
dois anos, havia ido embora. Esqueci-me de seu nome. Nem sei se
algum dia uma de nós ainda dele se lembraria. Eu, Sigwart, Arthur,
Calmar, Heidi e Lora éramos então os mais velhos; três meninos e
três meninas. Nós nos esquivávamos uns dos outros. Eu tinha vergo-
nha até de falar com Lora. À noite, eu tinha medo de dormir. Naema
e Gertrude devem ter notado nossa agitação e angústia e tornaram-se
ainda mais taciturnas que outrora. Lançavam-nos olhares severos
quando nos encontravam. Assim, cada uma se escondia em seu
canto. Em segredo eu desejava que tudo isso pudesse ter um fim.
Uma noite, Naema se aproximou de minha cama, retirou a colcha
e me pegou nua. Do lado de fora, deitou-me em uma caixa estreita
e a fechou. Depois disso, não me lembro de mais nada, a não ser,
ver, de repente, a luz do dia brilhando através dos buracos da caixa.
Em seguida, a caixa foi colocada em pé e aberta. Saí.

94
II
Pegaram-me pela mão, fizeram-me andar em roda algumas
vezes, examinaram-me de todos os lados e me levaram para uma das
camas brancas da sala. Pelas janelas largas e baixas o sol espalhava
um calor suave sobre todas as camas. Tive vertigens. Uma moça
ajoelhou-se diante de mim e pôs-me meias brancas compridas, que
ultrapassavam os joelhos. Depois me vestiu uma roupinha branca,
enfiando meus braços pelas mangas; em seguida, buscou um cesto
e experimentou sapatos até encontrar alguns que me servissem.
Passou-me por cima das meias brancas um par de ligas verde-claras.
As mangas do meu vestido alcançavam os cotovelos. Os sapatos
eram amarelos, abertos até a ponta, com uma fita para amarrá-los.
Quando me levantei, ela me pôs entre seus joelhos e penteou meus
cabelos.
— Você tem os cabelos bonitos, Hidalla — disse ela.
Não pude responder. Vi o sol que se punha lá embaixo entre as
árvores e pensei que não sabia por que eu viera parar naquele lu-
gar e por que Lora e Gertrude teriam de estar lá. Uma moça abriu
a porta e perguntou se sairíamos em seguida e ajudou a outra a
trançar meus cabelos pretos. Depois levaram-me a outro aposento
onde se encontravam quatro moças sentadas à mesa coberta com
requinte. Todas estavam vestidas como eu: vestidinho branco até
os joelhos, decote quadrado na frente e atrás, mangas três quartos,
meias brancas compridas e sapatos baixos amarelos. Todas usavam
os cabelos soltos nas costas, só eu usava tranças. A moça sentada à
cabeceira da mesa pareceu-me mais séria que as demais. Teria talvez
uns treze ou quatorze anos de idade. Chegaram três de cada lado.
A que se encontrava diante de mim era uma criaturinha bonita, da
minha idade, porém loira. A que me vestiu estava sentada ao lado
da mais velha e lançou-me olhares de encorajamento por sobre a
mesa. As moças eram todas muito comedidas em seus gestos. Fala-

M ine -H aha 97
vam pouco, mas o que diziam não podia ser dito de outra maneira.
O aposento era igual ao outro: três paredes com janelas, pelas quais
atravessava o sol poente brilhando como a luz de uma lanterna. Só
uma parede divisória com porta não era transparente. Uma outra
porta de vidro, que dava para fora, encontrava-se do lado oposto, e
por esta porta entrou, carregando uma bandeja com iguarias, a mais
feia criatura que já vi. Por sorte, ela estava sempre com pressa. A
moça mais velha serviu-nos a sopa. Depois tinha legumes, ervilha
fresca com cenoura, preparados com tanto capricho como eu nunca
havia comido antes. Em seguida, serviram o assado, mas só alguns
pedaços muito pequenos. Isso é tudo o que minha memória guardou
daquela primeira noite. Devo ter adormecido outra vez à mesa.
Na manhã seguinte, ao me levantar, perguntei, conforme vim a
saber, se Lora tinha ido embora. Ninguém sabia nada sobre ela. Con-
servo ainda uma lembrança precisa do que se passou quando fomos
todas juntas tomar banho à tarde desse primeiro dia. O caminho
seguia entre as árvores altas e velhas e as campinas, algumas vezes
por sombra fresca, depois, em pleno sol. A rua era tão larga que
nós sete podíamos andar de braços dados. De quando em quando a
vista se perdia à direita e à esquerda além dos campos. De repente,
a alguma distância, descobri uma casa que não se diferenciava da
nossa em nada. Tinha também só dois andares, construída de tijolos
vermelhos e com duas fileiras superpostas de janelas largas e baixas,
coberta até o teto com ramas de vinha silvestre. No térreo havia, em
toda a volta, uma varanda de madeira. O telhado era quase plano
e da chaminé subia um filete de fumaça ao céu. Logo, o caminho
ficou mais estreito e chegamos a um bosque onde os raios de sol
não se infiltravam, depois, a uma mata fechada e baixa, onde tive-
mos de andar em fila indiana para desembocar, súbito, a plena luz.
Jamais esquecerei esse espetáculo. Entre margens verdes corria
um largo riacho. De ambos os lados, um matagal, de maneira que
o lugar parecia apartado do mundo; e, às margens do riacho, até
onde a vista alcançava, centenas de moças se despindo para tomar
banho. Muitas já estavam na água e, contra a corrente, nadavam em
nossa direção. Estávamos no outro extremo. Do lado oposto havia
um grupo de moças já se vestindo. Penduramos nossos vestidinhos
e meias em galhos de salgueiros. Blanca e Pâmela, as mais velhas,

98
pularam na água, e as outras me jogaram na direção delas. Agarrada
pelas mãos e pés fui arremessada na água. Tibum! Blanca apoiou-me
com a mão sob o ventre, deixando-me debater. A água me alcançava
o queixo, mas todas, mesmo a loirinha Filissa, sabiam nadar bem.
Blanca e Pâmela me pegaram entre elas e assim nadamos corrente
abaixo, sempre entre moças com as cabeças esticadas para fora
d’água e batendo os braços. Finalmente, chegamos a uma comporta
e a atravessamos. Sentamo-nos nas pedras grandes na parte debaixo
da comporta e deixamos a água cair sobre nós. Depois, as outras
seis, uma ao lado da outra, subiram o riacho nadando, enquanto eu
corria acompanhando-as ao longo da margem. Quando nos vestimos,
o lugar onde nos banhávamos já estava mergulhado na sombra. De
ambos os lados saía da mata uma névoa fina acima da erva, mal se
podendo avistar as moças lá embaixo no riacho.
Desde o primeiro dia puseram-me a andar com as mãos. Neste
caso, duas meninas estendiam minhas pernas para cima. Meu cabelo
alcançava o chão e o vestido caía da cintura cobrindo o tronco. Assim,
eu andava com as pernas para o alto, atravessando o aposento. Toda
tarde tinha aula de música até a hora do banho. Eu aprendia violino.
À noite, nós sempre nos reuníamos em um ambiente agradável,
exceto Blanca, que saía todos os dias após o jantar. Blanca era uma
coisinha roliça de cabelo preto, olhos escuros e lábios como uma
cereja partida, vermelha clara e sumarenta. Tinha o aspecto um
pouco pesado, como têm as moças de treze anos de idade em geral.
Seu desembaraço era admirável. Ensinava tudo aos outros. Quando
andava com as mãos, seu tronco se curvava tanto para trás, apesar
da obesidade, que as pernas avançavam horizontalmente acima da
cabeça. Ao mesmo tempo, mantinha, apesar dos fortes tornozelos,
as pontas dos pés estendidas como duas flechas e andava, sem que
os pés sequer se movessem de um lado para o outro. Acima de
tudo era uma dançarina notável. De manhã dava aula para as cinco
outras meninas, colocando-as cada uma a seu turno diante de si e
as fazendo repetir rigorosamente todos os passos e movimentos.
Todos os exercícios eram feitos no andar superior da nossa casa,
onde ficávamos em geral o dia inteiro e também à noite, quando
Blanca se ausentava, e nós, bem acomodadas, conversávamos. Era
uma única grande sala provida em toda volta de janelas largas e

M ine -H aha 99
baixas pelas quais a vinha silvestre jogava suas ramas. A fileira de
janelas era interrompida apenas no meio de uma das paredes por
uma imensa lareira que alcançava o teto. O piso era todo de tijolos
vermelhos. Entre cada par de janelas fora instalada uma lâmpada.
Muitas vezes, lembro-me de ver do jardim do Parque a nossa casa
com todas as lâmpadas acesas. Difícil conceber um espetáculo mais
solene, sobretudo quando as meninas de vestidos brancos apareciam
nas janelas abertas. Agora, imagine trinta casas iguais, espalhadas
no Parque; então, pode-se conceber quanto isso era belo e encantado
à noite. Para alcançar o aposento superior, subíamos uma escada
de madeira pelo lado de fora da casa; depois, entrando por uma
porta de vidro, tinha, exatamente em frente, a lareira e, à direita e
à esquerda, ao longo das paredes, bancos estofados de couro onde
nós, meninas, ficávamos sentadas.
Pâmela tocava bandolim; Irene, a terceira mais velha, menina
de compleição robusta, maxilar sobressaído, natureza fria e intros-
pectiva, tocava violão. Depois, Vera, dez anos incompletos, mas de
corpo tão delicado, tão suave nos gestos que, em poucos dias, eu
queria me jogar a seus pés. Suas qualidades não estavam estampa-
das no semblante como se via nas outras; mas, assim como Vera as
superava pela beleza do corpo, também dançava com mais graça
do que elas e, se não chegava a se igualar a Blanca, era só porque
exercitava-se há pouco tempo. Um dia soltei um grito. Vera estava
diante de mim e, enquanto conversava tranquila comigo, deslizou
em direções opostas os seus pezinhos elásticos nos ladrilhos lisos,
até tocar o chão com o tronco. Senti-me partida no meio. Mas com
a mesma calma, sem mover os ombros e sem dobrar os joelhos,
assim como tinha se abaixado, voltou a se levantar. Que força devia
ter seus membros jovens.
Nas aulas de música ela tocava harpa. Sua música também me
parecia mais expressiva, mais madura que a das outras. A quinta
mais velha, Melusine, franzina e diáfana, com grandes olhos azuis,
uma criatura que durante os cinco anos em que estivemos juntas
nunca me despertou o menor interesse, tocava charamela e, Filina,
loira e gordinha, batia com martelo um címbalo de quatro pernas,
enchendo de barulho a orquestra inteira. Como já disse, tive de
aprender a tocar violino porque Blanca, a violinista, ficou lá apenas
um ano.

100
Foi logo nos primeiros dias que Blanca me levou para passear
depois do almoço. Percorremos uma boa distância por uma rua larga
e empoeirada do Parque, passando diante de um grande número
de outros pavilhões e, por fim, entramos numa ampla casa branca
de um andar, que tinha uma escada externa com quatro colunas
elegantes, em volta da qual farfalhavam carvalhos da altura do céu.
Por um saguão suntuoso, iluminado do alto, Blanca conduziu-me a
um grande salão branco com janelas altas que davam para o jardim.
A primeira pessoa que vi foi Lora. Caímos nos braços uma da outra,
beijamo-nos e choramos. Em seguida, Heidi entrou acompanhada
de outra moça. Ao todo, havia trinta meninas da nossa idade e
trinta da idade de Blanca, todas de cabelos soltos, sapatos amarelos,
meias e vestidinhos brancos iguaizinhos. As mais velhas ocuparam
os divãs de veludo ao longo da parede, cruzaram decorosamente os
pés esticados e sussurravam enquanto continuávamos, em pé no
meio da sala, com a respiração suspensa. Depois, uma porta de dois
batentes se abriu à direita e Simba entrou na sala. Fiquei atordoada.
No instante seguinte, ela se encontrava entre nós.
Não será fácil para mim, agora com sessenta e três anos de idade,
reproduzir com toda intensidade a impressão que senti naquele
dia. Simba era alta e magra como um fio, mas em seu corpo não se
faziam notar as costelas, nem os tendões. Fixei-a e tive uma sensa-
ção semelhante como naquela época na noite em que sonhei com
Morni. O jeito de estender o corpo, levantar e abaixar os quadris,
a deliciosa satisfação com que jogava os ombros para trás, a suave
languidez dos membros, a flexibilidade do corpo, o prazer com que
ela parecia tomar consciência do próprio corpo, expressando-se nos
mais leves movimentos, tudo isso inebriava-me em inefáveis ven-
turas, transtornando-me de tal modo que durante dois dias vaguei
tal qual sonâmbula que, onde quer que olhasse, só via sua imagem
diante de mim.
Agora, o traje. Vejo-o como se fosse hoje e não consigo acreditar
se realmente o vi com meus próprios olhos. E isso com sete anos de
idade, quando o mundo passa por nós sem ser percebido. Como isso
era possível? Aliás, dos meus anos maduros, nada tenho a escrever
semelhante a essas maravilhas da beleza e da sensualidade. Tais
maravilhas desaparecem da minha memória no momento em que
deixei de ser criança. Será que perdi os olhos para isso ou foram as

M ine -H aha 101


aflições, as dificuldades e a paixão que me roubaram a paz neces-
sária para um prazer assim? Ou teria eu, definitivamente, elevado
o prazer pela beleza humana a um grau tão alto que ela deixou de
me tocar como algo que desejo em particular? Não sei.
Simba usava soltos os cabelos espessos e ondulados, muito pretos,
sobre as têmporas e os amarrava atrás da nuca com um nó apertado.
Tinha sobrancelhas longas e sinuosas, um nariz muito fino e sobre os
lábios o sorriso mais doloroso e ao mesmo tempo o mais suave que
já vi. Lembro-me também da ponta de sua língua que se projetava
algumas vezes como uma salamandra de fogo.
Ao redor do tronco estreito e fino, e dos ombros suaves, usava, à
moda de corpete, uma malha justa, ornada com pérolas grandes de
vidro verde-escuro, deixando livres os seios delicados, contornados
com anéis grandes, cujas pérolas eram um pouco maiores que as
do resto da peça. Usava uma calça de seda branca e, por cima, dos
quadris até o meio da coxa, uma peça de seda turca em cores claras,
com fitas verticais amarelas, vermelhas e brancas, justapostas. Na
cintura, formavam junto ao corpo um cinto fofo, com listras envie-
sadas, e as fitas caíam retas bem abertas, deixando livres as pernas
finas e brancas. Calçava sapatos macios, baixos, pretos e abertos.
Por cima de tudo usava um casaco de lã amarelo-claro, debruado de
vermelho, aberto na frente, de cima abaixo, só na cintura ajustado
por um broche. Atrás, um decote estreito aberto até a altura do cinto,
as mangas abertas até acima dos ombros e caindo em pontas finas,
forradas de pano vermelho para realçar os braços bonitos e more-
nos. Não foi menor a minha surpresa ao ver sob suas axilas, quando
ergueu os braços, dois tufos espessos de pêlos castanho-escuros. Eu
nunca havia notado isso em Naema ou em Gertrude.
Simba dava aula de dança. A cada quinzena tínhamos de nos
reunir para dançar na Casa Branca, uma menina de cada uma das
trinta casas do Parque, sempre as mais jovens. Nossas acompa-
nhantes nos conduziam apenas a primeira vez. A aula começava
com danças patéticas, nas quais nossos movimentos nunca eram
lentos o suficiente. Só no segundo ano começaram as danças mais
rápidas, quando calçamos sapatos de madeira pesados, com chumbo
dentro das solas. Isso foi tão bom para soltar as articulações, que
logo cada uma de nós pôde passar o pé com facilidade por cima da

102
cabeça das outras. As solas eram guarnecidas com feltro para abafar
o barulho nos ladrilhos coloridos. Em casa, no período da manhã,
Blanca sempre repassava comigo os exercícios novos que eu havia
aprendido com Simba. Fazia o mesmo com as cinco outras meninas
que, cada uma por sua vez, iam lá nas outras tardes e, com Simba,
encontravam-se com as companheiras da mesma idade. Como na
dança, faziam também na música. Eu tinha sempre uma tarde de
ensaio de música na Casa Branca, sete dias após o exercício de
dança. Depois, Filissa, Melusine, Vera, Irene, Pâmela e Blanca iam
para a aula de música e, catorze dias depois, eu voltava para a aula
de dança. Assim foi durante os sete anos que passei no Parque, sem
sequer uma conversa.
As aulas de música eram dadas por Cairula. Ela tocava todos os
instrumentos com mestria. Também para suas aulas, eu ia sempre
com as vinte e nove companheiras da mesma idade do Parque. Não
precisávamos levar nossos violinos porque na Casa Branca havia
todos os instrumentos em abundância. Como cada menina tinha
um caminho diferente do da outra, nós nos separávamos logo de-
pois da aula; quando muito, duas de nós podiam caminhar juntas
alguns passos. Lora morava na extremidade oposta do Parque, de
maneira que, mesmo com os encontros a cada sete dias, raras vezes
falávamos uma com a outra. Em geral, as meninas da mesma idade
quase não se conheciam. Cada uma tinha um lar e amigas na pró-
pria casa; eu tinha a Verinha, que eu adorava. Se Lora também teve
uma paixão semelhante em casa, não sei. Acho que não, pois era
antes afeita a lisonjas à sua própria pessoa. Simba simpatizou com
ela desde o primeiro dia. Lora tinha um corpo perfeito, alta para
a sua idade, bastante flexível e era mais séria e mais reservada de
natureza do que as demais. Aprendia com facilidade. Andava com
as mãos como nenhuma de nós. Na Casa Branca, havia uma bola
grande semelhante à que tínhamos no salão de madeira. Não fazia
nem seis meses que estávamos no Parque quando Lora, em cima da
bola, já andava com as mãos, as pernas projetadas para a frente e
a cabeça erguida e, sempre que possível, sorria muito animada por
entre as pontas dos pés. No violino, porém, não era tão boa assim.
Aí, eu era muito superior.
Foi ainda nos primeiros dias que, no meio da noite, levantei-me

M ine -H aha 103


assustada. Eu ouvira alguma coisa. Lá fora, já começava a clarear.
Era lua nova e um ar fresco entrava pela janela aberta. Na outra
extremidade do quarto movia-se uma silhueta branca. Era Blanca
despindo-se. Deve ter notado que eu estava acordada, passou pelas
outras camas e chegou até a minha, beijou-me e disse que eu devia
continuar dormindo tranquila. Tinha acabado de chegar em casa.
Levantou-se suspirando como se estivesse muito cansada. Sentada
em minha caminha, trançou os cabelos. Estava só de meia e sapato.
Na penumbra da madrugada, eu observava seu corpo roliço que,
ainda quase desprovido de cintura, era tão gordinho que formava
um sulco profundo acima dos quadris, mesmo quando se inclinava
apenas um pouquinho para os lados.
— Onde você esteve tanto tempo? — perguntei.
— Dançando.
— Até agora?
— Sim.
— Dançando onde?
— No teatro.
Deu-me mais um beijo, voltou para a cama nas pontas dos pés,
entrou debaixo da coberta e adormeceu. Fiquei ainda muito tempo
acordada.
De manhã era sempre Blanca que nos acordava, cinco meninas.
Aliás, exatamente como nós, ela também se dirigia à Casa Branca
algumas tardes. Era sempre às vésperas do meu dia. Quando Simba
ou Cairula tinham queixas de alguma de nós, era lá que Blanca ficava
sabendo tudo e, consequentemente, passava a exigir mais de nós nos
exercícios que fazíamos com ela. Tinha um enorme prazer em me
ouvir tocar violino. Já durante o verão, era comum tocarmos toda
a tarde em dupla, até que Vera, ou outra, voltasse para casa na hora
do banho. À noite, sentíamos muito a falta dela. Era severa e não
tolerava falta de delicadeza; no entanto, todas se sentiam melhor
quando ela estava presente.
Cairula se interessava por mim, mas eu não gostava dela. Eu prefe-
riria mil vezes cair nas graças de Simba. Quase todas me superavam
na dança. Cairula era obesa e deselegante, tomava ares afetados,
carregando nas palavras três vezes mais do que o necessário. Tinha
um rosto gordo e vermelho, cabelos pretos, cacheados e curtos e
uns olhinhos extremamente amáveis; em vez de nariz, uma cereja

104
no rosto e uma boca larga de lábios sumidos. O corpo parecia um
saco. Por sorte, usava sempre uma camisola folgada, quadriculada
com cores vistosas, dissimulando tudo de forma excepcional. Usava
pantufas de feltro para não fazer barulho durante os exercícios. Por
princípio, não usava meias; por outro lado, usava os óculos enterra-
dos no nariz de cereja. Tinha mãos comuns. O pescoço inexistente
não a impedia de usar uma corrente de ouro. Na corrente pendia o
diapasão que ela batia na cabeça para fazê-lo soar, pousando-o, em
seguida, nos dentes para poder ouvir melhor o tom.
Eu achava Cairula sem graça e desagradável. Não conseguia vê-
la sem sentir um horror mortal que, sem dúvida, eu teria experi-
mentado, caso ela algum dia tivesse a idéia de se despir na minha
frente. Porém, durante aqueles sete anos, a coisa mais feia que vi,
aliás, feíssima, foram as duas velhas que viviam no subsolo da nossa
casa e nos serviam. Devo acrescentar que foram, de fato, as primei-
ras velhas que vi na vida. Ambas faziam nossas camas de manhã,
mantinham limpa a casa, cozinhavam e lavavam nossas roupas; a
mais jovem delas e menos feia servia as refeições. Nenhuma de
nós lhes dirigia a palavra, mas desempenhavam suas tarefas de
forma impecável e não cometiam a menor falta. Estou certa de que,
se alguém tivesse que se queixar delas algum dia, seria capaz de
estrangulá-las sem cerimônia. Uma noite, após o jantar, fui fazer
um passeio com Vera ao redor da casa. Nossa conversa foi a paixão
que sentíamos por Simba.
— Você também quer ser professora de dança quando cres-
cer? — perguntei a ela.
Vera sacudiu devagarinho a cabeça e, por um instante, esboçou
um sorriso, como se imaginasse ou pressentisse alguma coisa que
temesse exprimir.
— Vera — eu disse — por favor, diga-me, você sabe o que vai acon-
tecer quando formos embora daqui?
— Como é que eu deveria saber? — replicou calmamente.
Refleti um instante. — Você não perguntou a Blanca?
— Não. Como é que Blanca deveria saber isso?
— Ela sai toda noite.
— Ela não sai. Fica somente no teatro e dança. É o que faremos
quando tivermos a idade dela. Por isso estamos estudando.
— Vera — eu disse — você já esteve também com os meninos?

M ine -H aha 105


— Sim.
— Onde estão eles?
— Não sei.
Ela disse isso com tanta serenidade, como se vivesse num outro
mundo. A lua iluminou seu rosto e deixou sua pele fina ainda mais
transparente e, seus lábios delicados, mais carnudos. Em pé, ao
seu lado, vi o sangue fluir-lhe no pescoço. Não sei que sentimento
experimentei.
— Vera — eu disse baixinho — mas você não pode ficar zangada
comigo…
— O que é agora?
— Esta noite, depois que Blanca chegar, você não quer passar para
a minha cama…
— Hidalla! — Nesse momento Vera se irritou. Espantada, olhou-me
nos olhos. Eu não sabia o que havia feito.
No mesmo momento, Margarete, a mais velha e a mais feia dos
dois monstrengos velhos, fitou-nos pela janela do porão.
— Está vendo aquela lá? — disse Vera. — Está vendo?
— Sim. O que é?
— Ela foi para a cama de uma menina quando, ainda criança, vivia
aqui. Por isso, continua aqui.
A criatura horrível se retirara.
— Por acaso, isso não é permitido? — perguntei tremendo.
— O que você pensa? Se eu fosse apanhada com você, seria afastada
de todas. Então, eu teria de trabalhar minha vida inteira e durante
a minha vida inteira jamais sairia do Parque.
Demos três voltas ao redor de casa em silêncio.
— E a outra?— perguntei, por fim, aflita.
— A outra? Tentou fugir. Tentou escalar o muro para escapar. Não
sei ao certo. A única coisa que sabemos é que Irma e Margarete
nunca saíram do Parque e jamais sairão. Por isso são tão feias.
À noite, depois dessa conversa, não consegui dormir. Quando
Blanca chegou em casa, fechei os olhos e fiquei quietinha. Eu não
deixava de pensar em Irma e Margarete. Durante os dias que se
seguiram, senti-me forçada a interpelar, em segredo, uma das duas.
Mas isso durou pouco tempo, logo voltaram a me amedrontar como
antes. De fato, tinham um aspecto assustador: rostos como casca de

106
carvalho, da qual os galhos haviam sido quebrados. Não dava mais
para concebê-las como seres humanos. Só de pensar em Cairula
tirando a roupa, dava-me um nó na garganta e eu achava que mor-
reria de nojo. Em cada uma das trinta casas havia dois exemplares
dessa espécie. Todas levavam uma vida de escrava, desprezível e
sem consolo. Nenhuma delas chegou a conhecer o mundo. Todas
haviam cometido algum tipo de transgressão durante a infância.
No outono, eu caía em estados curiosos durante algumas horas da
noite. Acordava sobressaltada por causa de algum barulho horrível
e, em seguida, ouvia unicamente zunidos e trovões a minha volta.
As primeiras vezes, gritei de medo. As seis meninas acordaram so-
bressaltadas e, com razão, ficaram zangadas comigo por tê-las inco-
modado por nada. Eram os mais suaves barulhos, um mosquito no
quarto ou o murmúrio da fonte na frente de casa que, cada vez mais
forte, soavam em meus ouvidos até rugirem como uma tempestade.
Em meio ao barulho, eu escutava as melodias que aprendera a tocar
no violino, mas, tão estridentes e agudas, como se eu tivesse uma
caixa de ressonância nos ouvidos. Bastava eu mexer a cabeça no
travesseiro, tudo ressoava como ronco de trovões distantes.
Blanca e Pâmela eram muito amáveis comigo naquele tempo.
Revezavam-se, aos pés da minha cama, e conversavam comigo baixi-
nho até eu me tranquilizar. Uma vez, Blanca, depois de dançar uma
noite inteira, adormeceu na minha cama. Quando, de manhã, eu
a vi sentada ali, decidi não dizer mais nada. As crises repetiram-se
ainda várias vezes, mas eu fazia o possível para suportá-las.
Uma dia, durante um passeio no Parque, Pâmela mostrou-me o
teatro. — Em breve terei de dançar lá, quando Blanca parar de dan-
çar — disse ela. O teatro ficava a cerca de cem passos da Casa Branca.
Era uma construção de tijolos amarelos. Uma parede circular de
três andares, com telhado, mas não tinha portas nem janelas. Mas,
naquela época, isso não me chamou a atenção. Pensei que, muito
provavelmente, deveria ter uma entrada em algum lado.
A vinha silvestre ficou rubra. Nossa casa brilhava, ao sol poente,
como um rubi. Sob as árvores frondosas o gramado estava coberto
de folhas amarelas e, à noite, caía um nevoeiro espesso, branco, que,
algumas vezes, estendia-se até a nossa casa. Todas nós ficávamos o
mínimo possível na água. A essa altura, eu tinha aprendido também

M ine -H aha 107


a nadar. Dávamos um mergulho rápido, nadávamos uma certa distân-
cia contra a corrente e voltávamos a nos vestir. A caminho de casa,
de braços dados, o céu resplandecia a nossa volta com as mais suaves
cores. Vinte anos mais tarde, quando eu tinha de criar um vestido,
cujo feitio me deleitava, eu sempre me recordava do céu daquela
época. Dessa maneira, consegui as mais belas harmonias de verde,
rosa e preto azulado. É necessário uma pele extremamente branca,
evidentemente, para poder usar um vestido desses. Não sei de uma
das minhas clientes que não a tenha. Pouco a pouco, a água do rio
ficou fria demais e, o lugar do banho, vazio e abandonado.
Na varanda, diante do nosso quarto, havia pendurado um balde
com uma ducha. De manhã, quando nos levantávamos, uma após a
outra atravessava a porta de vidro e derramava a água na cabeça. Só
quando lá fora estava gelado, traziam-nos um balde de água para o
quarto, que estava sempre quentinho porque éramos sete meninas
dormindo juntas.
Uma noite, saí sozinha pelo Parque, pouco antes do jantar. Muitas
árvores à minha volta já estavam nuas. Meu olhar estava suspenso
no horizonte, que se transformava continuamente. A cada três
passos olhava para trás para que nada me escapasse. Lembro-me
de ser assaltada por uma dor profunda, algo como ansiedade, como
nunca senti antes, uma vontade de ir embora para longe por esse
vasto mundo. Caminhando, assim, deparei com a Casa Branca e vi
algo que me encantou por muito tempo, sem conseguir saciar meu
olhar. Era um carro de quatro rodas, leve e elegante, com um cavalo
à frente. Eu já tinha visto outros cavalos atrelados às carroças de
mercadorias atravessando o Parque e parando na frente de todas as
casas para entregar provisões. Eram conduzidas por meninas mais
velhas, de casacas curtas, bombachas e botas de canhão, mas eu
nunca dera a menor importância a um daqueles animais. Dessa vez,
tive uma sensação estranha. Vi os olhos do animal e senti um ser
humano na minha frente. Meu primeiro pensamento foi Gertrude.
Essa postura dos pés era Gertrude. Esse porte soberbo eu havia visto
somente em Gertrude. Esse olhar fulgurante, o jeito de sacudir a
cabeça, tudo que eu via era Gertrude.
O assento do cocheiro estava ocupado por uma menina muito
bonita. Quando ela me viu ali, petrificada, deu estalinhos com a

108
língua e o cavalo pôs-se em marcha. Conduziu-o devagar, em círculo,
passando diante das colunas da varanda. Eu corria ao seu lado. O
espetáculo desnorteou-me. Como é que a parte anterior juntava-se
à posterior? Eram duas criaturas diferentes, que não combinavam.
Ou, talvez, por isso mesmo, concordantes. Eu achava a parte pos-
terior mais feia do que a anterior. A parte da frente atraía-me mais,
devido à sua elegância; a articulação fina das pernas, nenhuma
de nós possuía. A parte posterior do cavalo era tão gigantesca, tão
sobre-humana, que me confrangi de assombro. Entretanto, fora
os olhos e a atitude, era a parte posterior que mais me lembrava
Gertrude. Ela tinha o mesmo movimento solto e suave dos quadris,
essa força suave e segura e ainda o jeito de esfregar as coxas uma na
outra. Imediatamente, imaginei o tronco estreito de Gertrude sobre
a garupa potente, sendo que os pés também pertenciam a isso. De
repente, na parte anterior revi os meninos, com os quais aprende-
mos, com Gertrude, a saltar e a andar. Senti-me fraca. Arrastei-me,
fatigada, até chegar em casa.
Na hora do jantar, Irene contou que quatro de suas companheiras
da mesma idade tinham sido selecionadas. Irene estivera, na mesma
tarde, na Casa Branca. Tinham acabado de ter aula de música com
Cairula, quando duas senhoras de vestidos longos de seda branca
entraram na sala. Simba entrou com elas. Em seguida, as meninas
tiveram de se despir, uma de cada vez, diante daquelas mulheres
e, uma depois da outra, tiveram de andar lentamente diante delas,
atravessando a sala. Então, todas tiveram ainda de dançar e tocar uma
peça musical. Como as trinta crianças estavam em fila, as senhoras
chamaram Olesia, Thekla e duas outras meninas. Examinaram as
quatro moças dos pés à cabeça. Depois, saíram com elas e Simba.
Então, Pâmela contou o que aconteceu no ano anterior, quando
passaram pelo processo seletivo. Todas já sabiam de antemão que
a escolha cairia sobre Isabela. Blanca, que nos servia a carne, disse
que também sabia quem seria a escolhida no ano seguinte. Pâmela,
Irene, Melusine e Filissa olharam para Vera. Vera ficou vermelha até
a raiz dos cabelos. Lançou um olhar para Blanca e, imediatamente,
voltou a baixá-lo para o prato. Um sorriso delicado fez-se em seus
lábios fechados.
Sei que não perguntuei a mais ninguém sobre a razão da escolha

M ine -H aha 109


de Olesia e Isabela, e o que seria de Vera no ano seguinte. Não sei se
me comportei assim por medo ou se aprendi a sentir como as outras.
Blanca era a mais velha de nós, tinha seus treze anos de idade e
não sabia mais do que eu. Era o que eu me dizia quando me ocorria
uma idéia. Nem me lembro de ser, de alguma maneira, espicaçada
pela curiosidade nos anos posteriores. Durante o último ano que
passei no Parque, encarei minha partida com tanta indiferença e
tranquilidade como o fez Blanca.
O inverno havia chegado. Chovia todos os dias. Quando nos
dirigíamos à Casa Branca vestíamos nossos casacos de lã marrons
escuros. Na cabeça usávamos gorros de pele de cisne. De resto, nossa
roupa era igual à do verão. À noite, ficávamos sentadas em volta
da lareira vendo o fogo arder. Sentadas nos tamboretinhos, nós nos
aproximávamos do fogo tanto quanto possível; em geral, ficávamos
agachadas sob a borda da lareira. Vera costumava dançar no meio da
sala enquanto Filissa tocava címbalo. Ouvíamos os corvos grasnando
no jardim, o temporal rugindo e as árvores rangendo. Caía uma neve
fina e, quando nevava de verdade, ela derretia logo. Ainda pior era
a lama no jardim do Parque. Os caminhos viravam atoleiros. Muitas
vezes, chegamos sem sapatos na aula de dança. Só agora percebi
que o Parque encerrava em seus muros outros habitantes, além de
nós, meninas. A cada cem metros, uma lebre saltava no caminho, as
gazelas aproximavam-se de casa ao entardecer e vinham comer nas
nossas mãos. Uma noite – devia ser alto inverno – Blanca, que à tarde
estivera na Casa Branca, disse a Pâmela, quando estávamos à mesa,
que não poderia mais dançar. Pâmela pediu-lhe para a acompanhar
ao teatro na mesma noite. Após o jantar, pegaram os casacos e saíram
juntas na noite escura. No dia seguinte, Pâmela não parava de falar
da fantasia que usara, da luz clara parecendo luz do dia, de Simba,
da música repercutindo e das fantasias das outras moças. À noite,
ela saiu sozinha e Blanca nos fez companhia. Enquanto estávamos
sentadas diante da lareira na sala do andar superior, ela cortava com
cuidado, sobre os joelhos, um pedaço de linho; depois, ela mesma os
unia costurando. Tinha consigo um modelo, que ficava estendido no
chão, à sua frente. Acima da cintura, sua roupa tinha uma abertura
fechada por um zíper; abaixo, em torno de cada perna, uma renda
da largura da mão. Ela era pálida e lenta, e ia cedo para a cama.

110
No final do inverno, Pâmela já estava repleta de novas experiên-
cias teatrais. À mesa, não falavam de outra coisa. A maior parte do
tempo, ela falava com Blanca e nós ouvíamos com atenção. Como
ela dançava toda noite, passava o dia inteiro agitada. Uma vez, à
mesa, a faca e o garfo lhe escaparam das mãos e ela caiu de bruços.
De manhã, levantou-se sobressaltada, acesa, como se tivesse acabado
de se deitar. Às vezes, olhava-nos de lado, intimidada, como se não
nos conhecesse direito.
Como de costume, durante o dia Blanca exercitava conosco o que
cada uma aprendia na Casa Branca. Era muito zelosa quando dançava
com Vera. Ambas disputavam encanto e elegância. Vera oferecia,
como era de se notar, um espetáculo arrebatador. Mas Blanca podia
mais. Às vezes, apostavam uma dança para ver quem conseguia
ficar nas pontas dos pés mais tempo. Ora a vitória era de uma, ora
de outra. Depois, caíam como moscas. Como de hábito, Blanca con-
tinuava a ir toda semana à Casa Branca para fazer exercícios com as
companheiras da mesma idade que, como contava Pâmela, também
iam parando de dançar no teatro, uma depois da outra. Pâmela foi
se acostumando com isso. Ficou mais alegre e voltou a olhar sem
desembaraço à sua volta.
No Parque, brotavam as primeiras campânulas brancas. Durante
dias e noites um vento pesado e úmido rugia atravessando as árvores
nuas. Abríamos as janelas, deixávamos os casacos em casa e, muitas
vezes, voltávamos dos passeios descalças. Os primeiros raios de sol
cegavam-nos de tal forma que andávamos de olhos fechados, até
que, pouco a pouco, uma árvore depois da outra ficou verde e, por
fim, tudo pareceu recriado. Uma tarde, Blanca foi à Casa Branca e
não voltou.
Durante oito ou catorze dias, ficamos em seis. No quarto, cada
uma das meninas procurou uma cama e, à mesa, Pâmela passou
a presidir. Uma vez, tínhamos acabado de nos sentar para o jantar
quando uma caixa foi depositada na frente de casa. Corremos para
o quarto onde deixaram a caixa. Na tampa tinha o número da nossa
casa e o nome Betty. Pâmela pegou a chave e a abriu. Saiu uma
menina nua.

M ine -H aha 111


III
Narrei com minúcia o primeiro ano que passei no Parque,
posso agora ser breve sobre os anos que se seguiram. Algumas vezes
forcei um pouco a memória quanto à veracidade dos fatos, inserindo
coisas que só aconteceram mais tarde. A partir de agora, limitar-me-
ei tanto quanto possível apenas aos fatos. Em todo o caso, não vivi
muita coisa durante todos esses anos. Tudo isso são só imagens e
impressões. Naquela época – isso sei ainda muito bem – o tempo
para mim deslizava como uma lesma. Eu tinha a impressão de que
a vida toda seria daquele jeito e nunca teria fim. Éramos felizes, mas
isso era tudo. Como nada nos tirava da monotonia, crescemos e en-
gordamos. Não tínhamos outra coisa a fazer senão crescer. A dança
favoreceu o desenvolvimento do corpo e a música não requeria muita
vitalidade. Quando hoje recordo-me daqueles sete anos, parecem-me
totalmente desprovidos de dimensão temporal, como um instante,
quase como o sonho de uma única noite. Devido à ignorância com-
pleta em que vivíamos, nossa convivência era reduzida às coisas
mais elementares. Tampouco me lembro se todas as meninas do
Parque pareceram-me algum dia intelectualmente diferentes umas
das outras. Elas pensavam e sentiam de forma parecida e quando
uma abria a boca todas as outras sabiam o que tinha a dizer. Daí
falarmos muito pouco. Ninguém dizia nada durante as refeições.
Todas comiam familiarizadas com o silêncio. Apenas as diferenças
físicas distinguiam-nas. Quando uma dizia „eu“, referia-se sempre a
sua totalidade, do topo da cabeça às pontas dos pés. Pouco faltou para
sentirmos o nosso ser mais nas pernas e nos pés do que nos olhos e
nos dedos. Não retive na memória o jeito de falar de nenhuma das
meninas. Só não me esqueci de como andavam.
Pâmela andava com elegância, sem austeridade ou soberba no
movimento. Seus joelhos mostravam-se muito capazes. Quando ela
foi vista erguendo os joelhos, tinha os cantos da boca levemente er-

M ine -H aha 115


guidos e o lábio inferior sobressaía um pouquinho, como faz alguém
quando cheira uma flor. Seus ombros formavam uma linha reta e os
quadris não eram salientes. Além disso, tinha um narizinho achatado
e os olhos grandes e claros, encimados por finas sobrancelhas retas.
Tudo nela era gracioso, distinto, determinado e discreto. Passamos
um ano feliz sob a sua direção e falávamos sempre de Blanca, de
quem ela também sentia saudade, como nós. De resto, durante o
verão, o centro das atenções da casa ainda era Vera, a quem erguí-
amos os olhos cheios de adoração. Tornei-me motivo de ciúmes
para as meninas por causa de um longo passeio que fiz com Vera,
quando mal trocamos uma palavra durante o trajeto. Descemos até
o extremo do Parque onde ele se perdia no matagal, nos caniços e
o no pântano. Deparamos com um muro alto, acima do qual, pelo
lado de fora, uma sorveira brava estendia sua folhagem. Ficamos
muito tempo ali paradas, silenciosas, girando uma em volta da outra.
A caminho de casa vimos uma gazela entre os arbustos. Ela virou o
traseiro branco em nossa direção. Quando nos ouviu, saiu pulando.
Lembro-me de querer fazer amizade com ela. Ao lado de Vera eu
experimentava uma sensação festiva, querendo muito ter um com-
panheiro amoroso e encantador. No outono, aconteceu o que Blanca
previu. Vera foi selecionada e ficamos seis durante todo o inverno.
Sua dança encantadora manteve-se viva ainda por muito tempo
diante dos nossos olhos. Nenhuma de nós possuía suas articulações
delicadas, seus membros bonitos e seus movimentos respeitáveis.
Dessa época não sei nada no que se refere a Bethinha, salvo que
Pâmela lhe ensinou a tocar bandolim. Até a primavera Pâmela foi
toda noite ao teatro; depois, os sinais de maturidade apareceram e
ela foi substituída por Irene. Duas semanas depois, ela nos deixou.
Durante meu terceiro ano, Irene foi nossa instrutora. Depois da
partida de Pâmela, chegaram duas novas crianças, Amália e Milena,
e assim voltamos a ser sete. Amália tocava violão com Irene. Milena
aprendia harpa. Mas que diferença entre suas obras mal interpreta-
das e a execução perfeita de Vera!
Nesse verão, uma garotinha de uns dez anos afogou-se. Reunindo
nossas forças, nós a tiramos d’água e a estendemos na beira do rio,
mas ela não mais movia um membro. A cabeça estava inchada e as
faces ensanguentadas e arranhadas. Depois de chamá-la várias vezes

116
pelo nome, todas mantiveram-se afastadas. As meninas, inclusive
as mais jovens, fizeram um semicírculo em volta do corpo, olhando
para o lado oposto. A mais velha da casa dela comunicou o ocorrido
quando foi dançar no teatro da Casa Branca à noite. Na tarde seguinte,
quando voltamos ao local do acidente, ela tinha desaparecido.
No inverno seguinte, quando Irene não podia mais dançar, chegou
a vez de Melusine. Tinha só onze anos de idade, um ano a menos
que todas as meninas no teatro. Foi nossa instrutora durante dois
anos. Depois da partida de Irene, trouxeram uma menina chamada
Bárbara para nossa casa. Éramos agora, começando pela mais velha:
Melusine, Filissa, eu, Betty, Amália, Milena e Bárbara. Melusine
ensinava charamela a Bárbara. Eu, Filissa e Betty éramos muito
unidas. À tarde dançávamos as três juntas e, à noite, antes de Me-
lusine chegar do teatro, contávamos nossas experiências aos pés de
Simba e Cairula. Numa noite clara de inverno, atravessando uma
neve espessa, chegamos à saída do Parque. Havia uma grade alta
de ferro, dourada em cima. Através da grade dava para avistar a rua
entre dois muros altos até uma curva. Lá estava um corvo grasnando
em cima do muro. Betty tentou abrir o portão, mas estava trancado
com um ferrolho pesado.
No outono, com Melusine há dois anos na direção, chegou para
mim e as companheiras da minha idade o grande momento da sele-
ção na Casa Branca. Nunca alimentei esperança alguma, claro. Lora,
ao contrário, cobiçava visível e decididamente a honraria. Se, por
natureza, já possuía todas as qualidades, formas perfeitas e firmes,
uma pele branca imaculada, traços expressivos e extremidades de-
licadas, ainda fazia tudo o que estava ao seu alcance para aumentar
seu valor. Não havia um momento de descuido, fosse ela vista de
frente ou por trás. No decorrer dos quatro anos, seu corpo adquirira
tamanha elasticidade que não havia uma posição imaginável que
lhe fosse impossível. E nunca deixou de ser alegre, bem-humorada
e simples com as pessoas. Havia pelo menos mais três meninas, Íris,
Diotima e Selma, que disputavam com ela em tudo.
Estávamos em aula com Simba quando duas senhoras entraram
seguidas por Cairula. Cairula desfez-se em modéstia e gentilezas,
enquanto Simba continuava absolutamente calma. Tivemos de nos
despir; que sensação estranha! Embora estivéssemos habituadas

M ine -H aha 117


a nos ver nuas, nenhuma, entretanto, depois de estar no Parque,
chegou a se apresentar sem roupa na frente de adultos. Mas não
tinha muita importância, pois, dançando, nossos vestidos voavam
e, sem constrangimento, andávamos de ponta-cabeça. Mas isso nós
próprias não víamos, e ficava sempre a sensação de estar vestida.
Enquanto nos despíamos no meio da sala, eu via todas corarem o
rosto, piscarem os olhos e morderem os lábios. Tivemos de tirar
também os sapatos e as meias e colocar nossos objetos no divã.
Em seguida, chamaram uma após a outra pelo nome. Quando
chegou minha vez, meus ouvidos zuniram e, diante dos olhos, vi
labaredas rubras. Depois de andar pela sala a passos lentos, as mãos
apoiadas nos quadris, os cotovelos para trás, tive de dançar um pouco,
mas só o suficiente para me aquecer e, então, tocar uma peça mu-
sical. Mal afastei o arco, já não sabia o que tinha tocado. Depois de
nos examinar, as senhoras chamaram Diotima, Fanny, Olympia e
Selma. Olharam outra vez as meninas de frente, por trás, de ambos
os lados, apalparam os músculos, os quadris, examinaram as mãos
e os pés, inspecionaram os dentes, os cabelos, as unhas e, depois de
tudo isso, mandaram Selma de volta a seu lugar e Íris avançar. Íris
foi submetida ao mesmo exame minucioso e, depois, comparada com
Olympia. Naquele momento pude ver que Olympia era, sem dúvida,
uma menina bonita. Além disso, era a mais jovem e uma das mais
altas. Íris também foi mandada de volta, e as senhoras pediram para
Lora se aproximar. Sem uma gota de sangue no rosto, manteve-se
em pé heroicamente e ofereceu o corpo ao exame com um verda-
deiro prazer. Quando teve de mostrar os dentes, afastou os lábios,
lançando ao mesmo tempo um olhar chamejante com seus olhos
azuis-escuros, que ela até então mantivera abaixados, de maneira
tal que a senhora que a chamara não pôde firmar o olhar, voltando-
se para sua acompanhante com uma observação. O corpo de Lora
pareceu-me, nesse momento, exuberante, como se se erguesse em
orgulho ferido e quisesse mostrar-se em toda sua beleza.
As senhoras levaram consigo Diotima, Olympia, Fanny e Lora
como se encontravam, só com a roupa do corpo. Voltamos a nos
vestir e continuamos a dançar os passos habituais.
Na noite seguinte, sonhei com Lora. Chegou de casaco largo
vermelho. Nós, meninas, às centenas, formamos alas, duas filas

118
intermináveis entre as quais ela passou. Havia atingido o termo de
seu crescimento, muito alta e ainda muito mais bonita. Tinha uma
coroa de flores brancas no cabelo e, ao seu lado, um garotinho que
ela abraçava com muito carinho. Quando passou por mim, inclinei-
me e olhei sob os olhos do menino. Era Morni. Quando voltei os
olhos em direção a Lora, havia partido, deixando Morni sozinho. Não
nos entendíamos. Brigávamos muito um com o outro por qualquer
motivo e nos separávamos tristes.
Foi no meio do inverno que Melusine, depois de passar todas as
noites no teatro durante dois anos, finalmente chegou em casa com
a notícia de que não podia mais dançar. Filissa a substituiu. Filissa
era uma criatura de boa índole, muito alegre e flexível. Pena que
fosse loira. Era a única coisa que me desagradava. Na terceira noite,
chegou em casa com vergões nas pernas. Contou que Simba lhe
havia dado umas varadas. Apresentavam uma peça na qual Simba
batia numa menina e, por Filissa ser a mais nova, deram-lhe esse
papel. A peça seria ainda apresentada até a primavera, mas isso não
a incomodava. Dançava-se depois muito melhor. O teatro estava
com os lugares esgotados toda noite e, quando chegava a cena em
questão, ouvia-se as pessoas anteciparem os aplausos, vivas e outras
ovações. Em seguida, ela foi coroada rainha e, em trajes suntuosos,
carregada em um trono de ouro.
Na primavera, Melusine partiu e Lídia chegou em casa. Filissa
assumira a direção. Tudo caminhava de forma agradável sob seu
comando. Desde o primeiro dia ensinou címbalo à pequena Lídia
e, de vez em quando, as duas faziam tanto barulho, que dava para
ouvir a meia milha da casa. Ela era rude com a menina, mas de tal
forma que a garotinha se divertia. Como agora Filissa devia partilhar
a cordialidade e a atenção com todos, fiquei amiga de Betty, que
precisava de alguém a quem pudesse confiar tudo. Ela teve umas
aventuras com Cairula, que a trocou por outra que tocava bandolim
pior que ela. Antes, perdera a cabeça por uma amiga da mesma idade,
que conseguia unir os pés atrás da cabeça, envolver as coxas com os
braços e, com as mãos diante do ventre, tocar bandolim. Além disso,
essa menina conseguia andar de ponta-cabeça ainda com os pés na
nuca, de maneira que seu corpo parecia uma estrela ambulante.
Numa noite de outono, Betty chegou furiosa porque não a haviam

M ine -H aha 119


escolhido, nem sequer a estrela ambulante, mas, sim, uma criatura
arrogante e atrevida, uma bola de carne com olhos esbugalhados,
que nada tinha de humano a não ser os pés.
Depois, chegou o inverno com muita neve e caminhos irregula-
res. Uma noite, na hora do jantar, Filissa disse-me que eu deveria
acompanhá-la ao teatro.
Meu coração palpitava. Vestimos os casacos e deixamos a casa.
Como estava muito escuro, Filissa pegou-me pela mão e foi me pu-
xando. A cada passo sabia onde pousar o pé e me ajudava a saltar as
poças d’água; mesmo assim eu estava coberta de lama até os joelhos
quando chegamos na Casa Branca. O saguão estava iluminado. Des-
cemos a escada à direita e chegamos ao camarim. Lá, tirei os sapatos
e as meias, e uma senhora limpou meus pés. Em volta, meninas
sentadas saudaram Filissa e deram-lhe os parabéns. Olharam-me de
soslaio e falaram de minhas pernas.
Filissa havia me dito que eu tinha de dançar representando uma
camponesa. Levou-me para junto das meninas que tinham o mesmo
papel e deixou-me à mercê do meu próprio destino. Éramos cinco
camponesas e, entre nós, uma solista apresentada no programa do
teatro. Depois de despir-nos, tiramos nossas fantasias muito simples
de um armário na parede: um vestidinho, azul ou vermelho, que
alcançava os joelhos. Usamos também sapatos de madeira pesados
para produzir estalos no tablado. Trançamos os cabelos umas das
outras.
Naquela noite, a peça apresentada chamava-se O príncipe dos
mosquitos. Era de Ademar, que conheci pessoalmente dez anos
mais tarde, quando eu tinha vinte e dois anos de idade, e a quem
devo agradecer, no que diz respeito a minha vida profissional, pelo
estímulo e amparo. Os personagens eram os seguintes:

h ä c h i - b ü m b ü m , um velho feiticeiro
a d a , sua filha
príncipe leonor
tremor, o médico da Casa Real
v o n h e i d e b od , um fidalgo
w i n n y f r e d , uma dama da corte
l i n a , uma camponesa

120
tutos, um mosquito macho
aretusa, um mosquito fêmea
f i d a l g o s , damas da corte, camponesas e mosquitos

Aos poucos, o camarim foi se enchendo de meninas vestindo suas


fantasias. Simba encontrava-se entre nós e supervisionava tudo o
que acontecia. Eu quase não a reconheci. Ela representava o velho
feiticeiro. Usava um manto longo, feito em pregas, branco e amarelo,
coberto de hieróglifos. Usava um chapéu alto, branco e pontiagudo.
As sobrancelhas estavam pintadas de branco e do queixo lhe flutuava
uma longa barba branca. Fumava um Havana escuro e segurava
uma varinha mágica.
Depois de vestirmos nossas fantasias de camponesas e calçarmos
os tamancos de madeira, fomos nos reunir na extremidade oposta
do camarim, em volta de uma velha resmungona que pintou nossas
bochechas de escarlate. Enquanto estávamos ao seu lado, chegaram
as damas da corte; entre elas, Heidi, que fazia parte do corpo de baile
desde o outono. As damas da corte usavam sapatos de cetim branco
e vestidinhos de musselina até os pés, com dois largos suspensórios
de musselina atravessando os ombros e um penacho branco nos
cabelos. Os mosquitos e os fidalgos estavam prontinhos. As solistas
exibiam-se com as cabeças erguidas, de um lado para o outro, no
meio da multidão de dançarinas. Francisca, a mais alta das meninas,
que representava o príncipe Leonor, vestia uma malha vermelha
com um manto largo, branco, e um gorro azul sobre os cabelos ca-
cheados. Depois, sua futura esposa, a filha do velho feiticeiro, uma
moça chamada Rosalva, de vestido longo de seda branca bordado
de ouro. Durante a maquiagem, ressoava, na direção do teatro, um
ruído surdo, contínuo, de alguma coisa rolando. Uma das moças
explicou-me que era o bonde elétrico subterrâneo, o meio de trans-
porte para o público ir da cidade ao teatro à noite. Nós também nos
encontrávamos debaixo da terra. O camarim estendia-se, de um lado,
até o subsolo da Casa Branca e, de outro, até o teatro. E havia um
corredor curto e estreito que dava acesso ao palco.
Quando todas as meninas estavam vestidas e maquiadas, Simba
passou vistoriando tudo. Organizamos uma fila que ocupou todo
o comprimento do camarim. À frente, as nove solistas; atrás, os

M ine -H aha 121


fidalgos, as damas da corte, os mosquitos e eu; no último lugar, uma
camponesa. Simba passava na frente e atrás de nós. Em seguida, o
cortejo pôs-se em movimento ao longo do corredor longo e escuro,
rumo ao teatro.
Ainda me lembro do medo que senti do sapateado medonho
acima de nós e do alarido de centenas de vozes que nos alcançavam.
Estávamos no corredor escuro. Cada um dos grupos mantinha-se
reunido. Ninguém dizia uma palavra. Filissa tinha me dito que eu só
precisava prestar atenção no que faziam as outras camponesas e fazer
tudo igualzinho. Impossível ver alguma coisa do nosso lugar a não
ser os degraus brancos que davam acesso ao longo de todo o palco.
De repente, o alarido foi abafado por uma música ensurdecedora,
mesmo assim continuou e, quando a música terminou, as pessoas
falavam ainda mais alto. Em seguida, um sino ressoou e fez-se um
silêncio sepulcral. A música prosseguiu, subimos os degraus por
todos os lados e nos instalamos em volta da rampa.
Logo depois, veio a dança dos mosquitos, que não pude ver direito
naquela noite porque, no início, eu não conseguia abrir os olhos.
No nosso lugar, estávamos iluminadas por todos os lados por uma
luz ofuscante: do alto, pelo refletor grande que pendia do centro
do teto; por baixo, pela guirlanda espessa de lâmpadas na primeira
fila de assentos. A música repercutiu da galeria superior. As filas
de assentos formavam um anfiteatro e tinham, até na parte supe-
rior, grades à frente. Com a platéia escura, nunca nenhuma de nós
conseguiu reconhecer sequer uma fisionomia do público; por outro
lado, ouvíamos claramente os gritos e os aplausos até próximo do
teto em certas cenas; nos intervalos, a farra e as conversas altas e,
de quando em quando, o retinir dos copos.
Os mosquitos tinham desaparecido do palco, exceto dois que ten-
taram escapar fugindo um atrás do outro. Eram Tutos e Aretusa. Com
os cotovelos apoiados, agitavam suas asas longas e estreitas, de papel
transparente. Tão transparente como as asas, era a fantasia deles
de tule preto, que deixava à mostra, na parte inferior, os pezinhos
nus. Era uma espécie de saco fechado nos tornozelos, de tal jeito
que podiam dar apenas passos curtos. Eles tinham na cabeça um
diadema dourado com uma longa antena flexível vermelho-sangue.
O palco estava coberto com um tapete de pelúcia verde, onde crescia

122
uma macieira fina. Ao redor da árvore, os dois mosquitos dançaram
até se agarrarem e, em pé, com as asas dobradas, deram um abraço
apertado. A casa retumbou com os aplausos e os gritos de bravo.
No mesmo instante nós, as camponesas, levantamo-nos dos de-
graus da escada e sapateamos com os tamancos de madeira no tapete
de pelúcia acima da rampa iluminada e, na extremidade oposta do
palco, o príncipe Leonor entrava em cena com uma rede para caçar
borboletas. Primeiro espantou os dois mosquitos. Depois, deu-nos
as boas-vindas, apertou nossas mãos e deu uma beijoca em cada
uma de nós. Nesse ínterim, os mosquitos haviam se reencontrado,
o príncipe voltou a afugentá-los e saiu à caça deles. As camponesas
ajudaram-no. Primeiro, ele pegou Tutos, o mosquitinho macho,
segurou-o firme pelas asas e mandou duas de nós buscar uma gaiola.
As duas trouxeram do corredor uma gaiola grande de madeira com
barras douradas e o príncipe Leonor prendeu o mosquito. Depois,
pegou Aretusa e mandou uma de nós buscar um alfinete. A menina
voltou com um alfinete do tamanho de um braço. O príncipe enfiou
o alfinete pela frente, atravessando a musselina e o ventre de Are-
tusa, espetando-a diante dos olhos do amado que estava confinado
ao pé da macieira. Aretusa bateu as asas por um instante, agitou
as perninhas, virou os olhinhos e morreu. Em seguida, o príncipe
Leonor enlaçou a cintura de Lina, a solista do grupo de camponesas,
e a arrastou à força para a gaiola debaixo da macieira. Lá, deitou com
ela na grama e puxou o manto branco para se cobrirem. Fizemos
uma roda e dançamos em volta do casal. Na gaiola, o mosquitinho
macho deu de ombros. A casa voltou a tremer com o sapateado, os
aplausos e os gritos de bravo da platéia.
A essa altura, surgiu no caminho Hächi-Bümbüm, o velho feiti-
ceiro, acompanhado da filha Ada. O príncipe despachou sua amada
e as camponesas, apertou a mão do feiticeiro, caiu de joelhos diante
da filha dele e fez juras de amor, oferecendo a ela, de presente de
noivado, o mosquito aprisionado na gaiola. Ada implorou ao pai para
dar seu consentimento, caiu também de joelhos e o feiticeiro deu a
bênção ao casal. Assim terminou o primeiro ato.
Durante a última cena, as camponesas ficaram estendidas nos
degraus mais altos da escada que dava acesso ao palco, fora da
rampa. Ficamos ao nível dos espectadores sentados na primeira fila.

M ine -H aha 123


Ouvi duas vozes graves e roucas criticando minhas panturrilhas, as
primeiras vozes masculinas que ouvi na vida, e, hoje, cinquenta
e um anos depois, ainda ressoam em meus ouvidos. De repente,
atravessou-me um medo mortal. Um de meus sapatos caiu e fez um
barulho enorme nos degraus. Não mais me atrevi a mexer-me até
o final do ato. Quando a música silenciou, voltamos a nos recolher
no corredor sob a sala da platéia.
Só três anos mais tarde, quando, pela primeira vez, estive no tea-
tro como espectadora, acompanhada de Fabian, protetor e amigo de
outrora, pude ficar sabendo o porquê das apresentações teatrais. A
receita da portaria permitia prover as despesas do Parque. Naquela
noite, ocupamos o mesmo lugar em que os dois senhores fizeram
comentários sobre minhas panturrilhas. A entrada custava trinta
coroas. Quanto eu teria adorado ir ao teatro mais vezes com Fabian,
mas nossas condições não nos permitiam. Tive de ter paciência até
conquistar um lugar no mundo.
O palco circular desceu durante a pausa e foi preparado para o
ato seguinte. Quando o sino repicou, a música soou e voltamos a
nos posicionar em volta da rampa; no centro do palco havia uma
cama dourada, diante dela uma mesa comprida com talheres e, atrás,
outra mesa com a gaiola onde Tutos, o mosquitinho macho, estava
aprisionado. Um tapete turco cobria o chão.
Depois o cortejo nupcial entrou em cena; à frente, o príncipe
Leonor e a bela Ada; atrás deles, o feiticeiro Hächi-Bümbüm. Em
seguida entrou o fidalgo von Heidebod de braços dados com a dama
da corte Winnyfred. Os outros fidalgos, cada qual conduzindo uma
dama da corte, fechavam o cortejo. As meninas, que representavam
os fidalgos, usavam meias de cor rosa e sapatos pretos de fivela,
além de um fraque preto, abotoado na cintura, deixando à mostra
um colete branco com peitilho, o colarinho alto e a gravata branca.
As damas da corte surgiram com decotes na frente e atrás até a
cintura, sendo que a musselina branca não impedia que o corpo
inteiro ficasse visível. As luvas de pelica branco-gelo não faltaram
a nenhum dos convidados às bodas.
Os convivas sentaram-se à mesa. O velho feiticeiro mandou de
volta todos os pratos e, em vez de comer, fumou um Havana. Ter-
minado o repasto, os fidalgos e as damas da corte levantaram-se e

124
dançaram uma ciranda. Depois, o feiticeiro e os outros convidados
despediram-se, ficando apenas os noivos com duas damas da corte
que, primeiro, despiram a noiva e conduziram-na à cama; em seguida,
procederam da mesma maneira com o príncipe. Tanto o príncipe
quanto a jovem esposa usavam uma camisola branca guarnecida de
renda cobrindo a nudez.
As damas da corte retiraram-se, um som de flauta soou suave e
a platéia explodiu em seguidos gritos de bravo. Os noivos estavam
deitados sob uma colcha de seda vermelha. Depois que a platéia
acalmou-se, o príncipe levantou-se num salto, tirou da cama a bela
Ada pelos cabelos, arrastou-a para a gaiola dourada, deixou o mosquito
sair e prendeu sua esposa. Saiu de cena, mas voltou em seguida com
uma dama da corte, tirou-lhe os sapatos de cetim branco e, sem deixá-
la completamente nua, foi com ela para a cama. A jovem esposa batia
nas grades da gaiola feito louca. O príncipe puxou a colcha de seda
vermelha sobre si e a dama da corte, levando a platéia ao delírio.
Nesse ínterim, o mosquito aproximou-se, zunindo com suas longas
asas, e pulou na cama. O príncipe Leonor espantou-o com o lenço.
Depois, o mosquito deu voltas zumbindo no palco e esperou até que
ambos tivessem adormecido. Voou suavemente em direção à cama,
ajoelhou-se sobre a dama da corte e cravou o ferrão através da col-
cha de seda. A dama da corte saltou da cama gritando e o mosquito
escapou. O príncipe, que despertou com o barulho, quis dar mais um
beijo em sua amada, mas encontrou resistência. Ele a puxou para
a cama e notou que ela estava com a barriga inchada. Para mostrar
o inchaço, a menina colocara uma almofada sob o vestidinho en-
quanto estava debaixo da colcha. O príncipe a afugentou, jogou-lhe
as pantufas de cetim branco e saiu para buscar outra menina.
Voltou com Lina, a camponesa de tranças compridas, vestidinho
azul e tamancos de madeira. Lina teve de tirar o vestido, o príncipe
ergueu-a dos tamancos, deitou-a na cama, estendeu-se ao lado dela
e puxou a colcha de seda. Reiterados gritos de alegria em todos
os andares. A princesa voltou a bater nas grades, a música soou
no registro mais alto e o príncipe e a camponesa adormeceram
abraçadinhos.
Depois, o mosquito voltou zumbindo para a cama, debruçou-se
sobre o príncipe e picou a barriga dele através da colcha de seda.

M ine -H aha 125


O príncipe acordou, saltou da cama e viu a barriga inchada sob a
camisa, como anteriormente a da dama da corte. Na gaiola, sua
esposa aplaudiu de alegria. O príncipe cerrou os punhos, pegou a
rede para caçar borboletas, pegou o mosquito e o prendeu na gaiola
com sua esposa.
No fim do segundo ato voltamos para o corredor escuro. Não tive-
mos nada para fazer durante todo o segundo ato, a não ser ficarmos
estendidas nos degraus e mostrar os troncos nus e as panturrilhas.
Nesse meio tempo, Francisca, a menina que representava o prín-
cipe, havia se tornado para mim um ser maravilhoso e misterioso.
Francisca, como eu, não fazia a menor idéia do que estava fazendo.
Sabíamos que era proibido ir para a cama com outra pessoa. Os gritos
do público fizeram-nos entender isso. Francisca desempenhou seu
papel com tanta energia e excelência, que a emoção impediu-me de
abrir os olhos. Quando ela saiu do camarim, temi encará-la. Tinha
voltado a vestir sua fantasia, mas mantinha a barriga inchada sob a
malha vermelha. Diante do espelho, olhou-se de todos os lados, de-
pois passou entre nós com passos graciosos, procurando Winnyfred,
a dama da corte que também ainda precisava da barriga inchada
para o último ato.
A música soou e voltamos a subir os degraus. O cenário era o
mesmo. Ada, a filha do feiticeiro, continuava na gaiola com o mos-
quito. O príncipe Leonor mandou o fidalgo von Heidebod procurar
o médico da Casa Real. Na verdade, o médico era uma máscara, uma
cabeça branco-giz com uma barba preta em cima de uma cruzeta
vestida com uma toga longa. Debaixo da toga, ocultava-se a menor
de nós, e esticava os bracinhos finos pelas mangas largas e pretas.
O príncipe chamou a atenção do médico para o seu barrigão e o
barrigão da dama da corte e pediu-lhe ajuda. O médico sacudiu a
cabeça pálida e encolheu os ombros. Em seguida, o príncipe tirou
a esposa da gaiola, levantou a camisola e mostrou ao médico que a
barriga dela não estava grande, embora tivesse passado a noite com o
mosquito. Por fim, o médico decidiu fazer uma intervenção cirúrgica.
Buscou uma torneira, cravou-a na barriga do príncipe e a abriu, mas
não saiu nada. Depois disso, o príncipe sacou da espada e decapitou
o médico. A cabeça rolou no palco, o médico tombou, o príncipe
correu atrás da cabeça e a chutou de maneira que ela foi cair entre
a plateia, no alto, do quarto nível, atrás da grade dos camarotes. Em

126
seguida, ainda com a torneira na barriga, o príncipe pegou a esposa
nos braços e a levou para a cama, fez sinal ao fidalgo von Heidebod
para se aproximar e ordenou-lhe deitar-se com ela.
Então, entrou o velho feiticeiro Hächi-Bümbüm, fumando um
Havana. Sua filha lançou-se ao seu pescoço chorando. O feiticeiro
pediu explicações ao príncipe, mas o príncipe pegou-o pelo braço,
levou-o para a gaiola e o prendeu com o mosquito. Em seguida, tirou
a camisola da esposa, atirou-a ao chão, diante dos olhos do pai, e
deu ordens ao fidalgo von Heidebod para sentar-se na cabeça dela;
Winnyfred, a dama barriguda, foi obrigada a sentar-se nos pés dela.
Primeiro, o príncipe chamou as damas da corte e, uma após a outra,
fê-las passar andando por cima da princesa. Depois, chegaram os
fidalgos com meias de cor rosa e sapatos pretos de fivela e, final-
mente, ele veio procurar as camponesas. Lina dissera-me para ter
cuidado, para não pisar de fato, só fazer de conta, bastando pousar
um pé sobre o ventre dela e, com o outro, pular por cima. Tanto
antes, quanto depois, tínhamos de bater os tamancos de madeira
para fazer um barulho ainda mais alto.
Entretanto, o velho feiticeiro havia limado as grades com a varinha
mágica e saído. Tocou os pés de todas nós, inclusive os do príncipe, de
maneira que ninguém mais podia sair do lugar. Em seguida, ajudou a
filha a levantar-se, acenou ao mosquitinho macho para sair da gaiola,
cortou-lhe as asas, insuflou-lhe fumaça de tabaco, transformando-o
em um homem. Arrancou o manto e a malha do corpo do príncipe
e fez um sinal no ar, atraindo um enxame de mosquitos que se
aproximaram zumbindo; caíram sobre o príncipe e picaram-no até
ele morrer sangrando. Com a varinha mágica, o feiticeiro tocou as
mãos de todas nós que continuávamos imóveis: as damas da corte,
os fidalgos e as camponesas. Em seguida, nós nos lançamos para a
frente do palco e andamos de ponta-cabeça ao longo da rampa, por
todo o semicírculo do palco. Assim, as saias de musselina das damas
da corte caíram-lhes da cintura ao chão e, no espaço, só se viam as
pernas esticadas com pezinhos calçados com sapatinhos de cetim.
As abas dos fraques pendiam na frente da cabeça das meninas que
representavam os fidalgos. Os tamancos de madeira caíram de nossos
pés e as tranças arrastaram-se no chão. No meio dessa roda, o velho
feiticeiro mandou a filha e o novo marido para a cama.
A neve caía densa, os caminhos brilhavam e eu não ouvia meus

M ine -H aha 127


próprios passos, quando, tarde da noite, voltava sozinha para casa.
Entrei no quarto e acendi a luz. Um espetáculo singular ver as seis
meninas dormindo tão tranquilas. Eu estava gelada e escorreguei
para a cama. Mal fechara os olhos, a peça continuou. O príncipe
decapitou a princesa, os mosquitos revoaram no alto da platéia entre
os andares de camarotes sob o teto, e na manhã seguinte senti-me
tão mal e miserável como nunca antes.
A peça O príncipe dos mosquitos foi apresentada duzentas vezes.
Nas trinta últimas apresentações, representei o fidalgo von Heidebod.
Certa noite, quando eu estava de fraque, em pé nos degraus diante
do primeiro nível, ouvi uma voz atrás da grade, que fez meu coração
disparar: — Falta-lhe o melhor. No intervalo contei isso aos outros
fidalgos, entre os quais dançavam agora também Íris e Selma, mas
ainda que tivéssemos passado os primeiros anos com os meninos,
não ocorreu a nenhuma de nós o que a voz queria dizer. Dançávamos
tão às cegas todas as noites que, cada vez mais, menos nos entregá-
vamos à ilusão daquilo que estávamos representando.
Quando o espetáculo teatral O príncipe dos mosquitos deixou de
encher a casa, Simba retomou o repertório, composto com cerca de
dez peças, todas do mesmo gênero que, por ordem, alternavam-se.
Havia muito o que estudar nessa época. Simba aproveitava nossas
tardes na Casa Branca para isso. Às vezes, ensinava-nos duas peças
numa única tarde. Só no outono chegou mais uma novidade, O leão do
pântano, de um tal Donald, que foi um sucesso enquanto dancei.
Num dia bonito de primavera Filissa não voltou para casa. Nos
últimos tempos falávamos pouco uma com a outra. Parecia-me que
ela olhava para mim com inveja, como se sentisse que a época mais
bonita de sua vida tivesse passado. Tornou-se apática. Durante o dia,
mandava as outras dançarem, mas ela própria mal movia os pés.
Na primeira tarde na Casa Branca, após a partida de Filissa, Simba
pronunciou um verdadeiro discurso para mim e para minhas com-
panheiras da mesma idade, antes de começarmos a dançar. Falou
num tom tão solene, como ninguém nunca a ouvira falar antes,
com a cabeça erguida, os olhos distantes, sem agraciar uma de nós
com seu olhar.
— Este ano — disse ela — cada uma de vocês terá o dever mais
sagrado para cumprir, que nunca mais voltarão a cumpri-lo. Vocês

128
têm seis meninas em casa para cuidar. Vocês são responsáveis por
elas, para que cresçam bonitas e fortes como vocês. Vocês são res-
ponsáveis por elas para que aprendam a dançar e a se servir de seus
membros, como vocês aprenderam. Apontarei os problemas e, se
não melhorarem, vocês responderão por isso. Vocês são responsáveis
pela felicidade das seis meninas, pelo amor que possam ter por vo-
cês, sem distinção, que possam sentir-se bem em casa e que sejam,
verão ou inverno, saudáveis e alegres. É essa a responsabilidade que
vocês assumirão junto a mim.
— Este ano — prosseguiu sem nos olhar — vocês irão sofrer uma
grande mudança. A cabeça vai zunir, vocês irão sentir cansaço e
tristeza. Quando perceberem essa mudança, digam-me.
Quando terminou a aula, cada uma de nós tomou um rumo o
mais rápido possível só para ficar sozinha. As palavras de Simba
pesaram-me de tal forma, a ponto de eu querer gritar ao vento.
Após o jantar, corri o mais rápido possível para o teatro, a fim de
ver cores e ouvir música.
Sete dias mais tarde, Cairula disse-nos algo semelhante, mas sua
linguagem simplória e deselegante contribuiu apenas para enfra-
quecer a impressão que o discurso de Simba havia deixado em nós
e, então, reconciliamo-nos com tudo. Chegou a falar também da
questão da mudança, mas de uma maneira tão misteriosa, com ex-
pressões tão rebuscadas e enigmáticas, que a muito custo pudemos
conter o riso. Depois da fala de Cairula, voltamos a nos olhar umas
às outras bem mais à vontade.
Decorreram ainda uns longos dias, durante os quais, da manhã à
noite, eu mal me continha de impaciência até que, uma certa noite,
mais uma caixa foi transportada justamente para nosso quarto. Meus
braços tremiam quando a abri. Na tampa estava escrito „Arabella“.
Quando a criança saiu, senti meu sangue gelar. Durinha e sem mover
um dedo, olhou-nos espantada. Tremi a noite toda, pensando que
na manhã seguinte eu começaria a dar aula para ela.
O dia seguinte foi o mais feliz que passei no Parque. A criaturi-
nha mais doce e encantadora, de cabelos pretos cacheados e olhos
azuis, juntou-se a nós para o café da manhã. Ficamos reunidas o
dia inteiro, ocupadas com o violino que Blanca havia deixado lá
e, à tarde, na hora de tomar banho, Arabella já sabia tocar uma

M ine -H aha 129


pequena canção. Na água, eu a segurava na superfície e, quando
pela primeira vez eu a acompanhei à Casa Branca, fiquei diante de
Simba e das outras meninas tão orgulhosa de mim mesma, como
jamais ficara. Entusiasmada, eu pensava que Simba e Cairula, no
que diz respeito à garotinha, não tinham motivo algum para estarem
insatisfeitas comigo. Eu não gostava de pensar que ficaria com ela
apenas um ano.
Eu era muito severa com Betty, Amália, Milena, Bárbara e Lydia.
Não as deixava um instante livres. Betty era a que mais me incomo-
dava. Bárbara, que ainda não sabia curvar as costas, aprendeu comigo,
durante o verão, a deixar retas as pernas para o alto quando andava
de ponta-cabeça. Em seis anos aprendi a tocar todos os instrumentos
da casa. Eu tocava címbalo a quatro mãos com a pequena Lydia. As
outras tinham de dançar conforme a música.
O outono foi maravilhoso. Muito tempo depois que Amália desis-
tira da seleção, estava ainda tão quente que, à noite, eu ia ao teatro
sem casaco. Quando a primeira neve caiu, eu estava com Arabella
na galeria diante da sala de jantar. Reinava um silêncio vesperal no
Parque. Arabella contou-me a história de Leona: era uma menina
alta, usava só vestido longo, branco, e andava com uma vara na mão.
Segundo Arabella, a menina havia lhe dado umas boas varadas nas
pernas. É um milagre eu ter guardado esse nome. Enquanto Ara-
bella falava, seus lábios abriam-se e se fechavam lentamente, e ela
ficava me olhando com a carinha mais desamparada do mundo. Eu
a peguei, sentei-a ao meu lado na balaustrada e pensei: eu também
já fui desse tamanhinho.
Uma vez, a caminho de casa no meio da noite, achei que alguém
me seguia sorrateiro. Não consegui me virar. Tudo o que eu tinha
visto e ouvido deixou-me nesse estado estranho: a música, o barulho,
o figurino extraordinário. Em O leão do pântano, Íris representava um
ladrão cruel, que havia capturado a rainha e a mantinha acorrentada
na sua caverna. Eu era a rainha. Quando os ladrões chegavam em
casa, soltavam-me e me punham para dançar. Isso desorientava-
me de tal forma que, uma noite, quando entrei no quarto, senti-me
atraída pela cama de Arabella. Suas pernas delicadas desenhavam-se
sob a colcha. Depois de me despir, fiquei parada ali, ao pé da sua
cama, uma hora, talvez. Peguei as bordas da colcha da cama. De

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repente, ouvi três batidas na vidraça e, na ponta dos pés, fui para o
meu canto. Passei o dia seguinte pensando em Arabella e, à noite,
quando os ladrões me beijavam, cada um por sua vez, era Arabella
que eu via, só Arabella. Chegando em casa, já fui arrancando a roupa
para chegar depressa a minha cama quando, de repente, dei por mim
esfregando meus joelhos um contra o outro ao lado dela. „Aconteça
o que acontecer!“, pensei e levantei a colcha. No mesmo instante, a
garotinha abriu os olhos e me olhou. Debrucei-me sobre ela e a beijei.
— Quero dizer boa-noite para você — disse eu. — Continue dormindo
tranquila! — voltei para a minha cama e deitei-me.
Na manhã seguinte, ao me levantar, senti um peso terrível nos
quadris e nas pernas. Alguma coisa me puxava para baixo. Eu disse
a mim mesma que devia ser o frio. Aliás, eu me sentia muito bem.
Mas à noitinha, dançando com Amália, entendi o meu estado de
saúde. Corri à Casa Branca. Selma encontrava-se no saguão. Esse foi
um encontro estranho. Simba não nos fez muitas perguntas, apenas
nos examinou com os olhos. Depois, pegou uma vela e, subindo a
escada, precedeu-nos num pequeno aposento sob o telhado. Lá,
deu um pedaço de pano dobrado a cada uma de nós. — Aqui, cada
uma de vocês tem um modelo, mas antes experimentem para po-
derem ajustá-lo. Você, Hidalla, leva Betty ao teatro hoje à noite, e
você — dirigindo-se para Selma — você leva Dosia.
Quando eu e Selma saímos pelos fundos da varanda, a noite estava
cheia de estrelas. Ali, contemplando o céu, Selma perguntou-me:
— Hidalla, você acha que lá fora também têm estrelas?
— Eu acho que sim — respondi. — Elas espalham-se pelo céu
inteiro.
— Ah! Veremos — disse. Depois de um instante: — As pessoas no
teatro são tão alegres e riem tanto, que chego a pensar que lá fora
é ainda mais bonito do que aqui no Parque.
— Como é a roupa delas? — perguntei.
— Eu acho — disse Selma — que se vestem assim como nós no palco.
Em todo o caso, elas usam sapatos quando saem de casa.
— Sim — ponderei — caso contrário não poderiam sapatear tanto.
Conversamos ainda muito tempo. Depois, nós nos separamos
com a promessa de nos visitarmos com frequência quando nos
mudássemos de lá.

M ine -H aha 131


Na noite seguinte e pela primeira vez depois de um ano encontrei-
me com as outras meninas na frente da lareira. Amália e Milena
dançavam no meio da sala. Quando Arabella viu o pano de linho
branco, perguntou-me o que eu estava fazendo com aquilo. Então,
pensei em Blanca. Todas as noites era, para mim, como se Blanca
estivesse entre nós. De vez em quando, eu erguia a cabeça para di-
rigir a palavra a ela. Eu ainda achava Arabella bonita e encantadora,
mas não tinha força para olhar em seus olhos. Agora eu não seria
mais capaz de chegar furtivamente à cama dela. Tinha vergonha de
passar o dia dançando com as outras meninas. E tinha uma outra
coisa: de repente, meus seios ficaram tão inchados e eu tão gorda.
Sentia horror a mim mesma. Por toda a parte, sentia-me desconfor-
tável. Perdi a segurança dos movimentos. Quando tirava a roupa,
apalpava-me com raiva e não podia conceber a idéia de ser tudo
aquilo. O que eu mais queria era pegar aquela carne gorda e jogá-la
num canto. À noite na cama, eu me batia de ódio quando não me
reconhecia em meus membros obesos. Cada manhã, eu era para
mim mesma ainda mais estranha do que no dia anterior, como se
isso fosse possível. A barriga, as panturrilhas, as coxas, os seios, os
lábios, tudo em mim excedia.
Eu almejava por alguma mudança, por mais felizes que fôsse-
mos no Parque. Eu não pertencia mais a esse lugar. Eu tinha cada
dia mais confiança nas minhas companheiras da mesma idade,
enquanto as meninas da minha própria casa iam ficando cada vez
mais distantes de mim. Por ser a mais velha, toda a atenção das
outras concentrava-se em Betty, que dançava no teatro todas as
noites. Eu sentia que incomodava quando chegava nos lugares e
eu própria era a mais incomodada. Quando os dias tornaram-se
mais longos e mais ensolarados, eu pensava com frequência em
meus passeios solitários e com saudade dos tempos em que Blanca
e Pâmela aceitaram cuidar de mim com tanta dedicação. Agora eu
não tinha mais ninguém para cuidar. Arabella não tinha mais a
minha simpatia. Pouco a pouco, comecei a detestá-la por causa dos
olhos bonitos e dos membros delicados e graciosos. Eu não a via,
mesmo quando ela estava na minha frente. Sabia que estava sendo
injusta com ela, mas não conseguia me contrariar. Assim, minha
despedida do Parque foi totalmente diferente do que muitas vezes

132
eu havia pensado. Quando fui embora, não deixei nada, não tinha
nada a perder. Minha garganta ficou seca. Não senti nada. Todas as
vezes que eu ia à Casa Branca dançar, esperava que fosse a última
vez. Quando chegou a última vez, eu já estava dando por morta a
última esperança.
Era um dia sombrio de primavera com uma chuva quente re-
vigorante. Quase todas nós chegamos de casaco. O que nos fez
entender o que estava acontecendo foi a entrada de Simba no salão,
usando um vestido de seda preta, justo e elegante, em vez de seu
habitual vestido bordado de pérolas. Quando todas nós, vinte e seis
meninas, estávamos reunidas, descemos com ela para o camarim e,
atravessando a passagem subterrânea, fomos ao teatro. Lá, abriu uma
porta no corredor, que nenhuma de nós notara antes, e descemos
mais um lanço de escada. À direita e à esquerda havia bilheterias;
passamos pela larga escada em caracol. Por toda a parte ardiam
lâmpadas elétricas. Por fim, alcançamos os coches com inúmeros
lugares vazios. Depois de Simba entrar, uma campainha soou e nos
embrenhamos na escuridão.

M ine -H aha 133


IV
Ainda me lembro do dia clareando, das paredes brilhando e
da saída para além do Parque. Tínhamos uma sensação inquietante
de que algo extraordinário estava prestes a acontecer. Estávamos
sérias e olhávamos pelas janelas do trem. Em silêncio, cada uma de
nós pensava no que poderia suceder. Não é difícil imaginar que as
nossas especulações estavam muito longe de vislumbrar as monstruo­
sas surpresas que nos aguardavam. Passado algum tempo, torna-se
fácil esquecer tais sensações e admitir como natural tudo o que
acontece às pessoas. Nenhuma de nós, mulheres, encontrará ainda
hoje, quando se recordar daqueles dias de sua vida, algo de estranho
na maneira como nos deixam chegar a um mundo completamente
desconhecido, submetendo-nos às provas mais difíceis, e como nos
expõem ao desamparo, no sentido mais cruel da palavra. É aí que está
o motivo principal para eu escrever estas lembranças. Gostaria de
fazer vir à memória de meus contemporâneos os arrepios de medo,
que todas nós experimentamos outrora para a diversão de uma hu-
manidade grosseira, inconsciente e embriagada de volúpia, quando,
também, as vicissitudes extremas, nunca imaginadas, permitem-nos
recordar aqueles horrores somente com sorriso de escárnio. Talvez
a sociedade humana não seja injusta quando, pela sua educação, re-
prime em nós a manifestação prática de todas as forças, para depois,
com uma festa popular tumultuada, transformar-nos, em poucos
dias, em criaturas totalmente diferentes. Talvez eu esteja cometendo
um crime quando arrisco intervir a favor dos sentimentos delicados
inatos a todas nós. Quanto mais avanço na idade e vou ficando mais
serena, menos consigo acreditar que o mundo poderia ser, na verdade,
organizado de forma menos brutal do que é na realidade. Não quero,
aqui, apresentar proposições para corrigir faltas ou defeitos; para
tanto, minha pouca inteligência dificilmente bastaria, e o que isso
adiantaria? Por isso, as coisas seguiram o seu curso irrevogável, de

M ine -H aha 137


geração em geração, e só me defrontei com insulto e ignomínia por
parte daqueles que nunca refletiram um instante sequer a respeito
de suas próprias vidas. Por fim, eu não teria a menor dúvida de que,
para se poupar qualquer objeção sensata, ainda me chamariam de
velha louca e me meteriam num manicômio. Só o fato de os rumos
da minha vida terem sido totalmente diferentes da de todas as
outras mulheres que cresceram e foram educadas comigo já é um
bom motivo para meus juízes. Talvez me custe muito convencer o
leitor, quando eu começar a descrever minha vida naquela época, de
que os conflitos que venci na nossa sociedade, sob a autoridade das
leis sociais rígidas, só podiam acontecer a uma mulher. Entretanto,
cheguei a uma visão de mundo, talvez mediante as condições ina-
creditáveis em que vivi, na qual toda a cultura humana parece-me,
hoje, uma conquista bastante duvidosa.
Na plataforma estava o chefe da estação, de boné vermelho. Cum-
primentou Simba com profundo respeito e sorriu quando nos viu
saltando do vagão, uma depois da outra, todas de vestidinho branco.
Simba conduziu-nos à sala de espera, que estava fechada por fora, e
organizou-nos rapidamente por ordem de tamanho. Diante das portas
de vidro havia uma multidão; milhares de olhos se voltaram para nós.
Diante da porta central, as pessoas brigavam sem parar, de maneira
que foi difícil para os policiais deixar livre o acesso. Ensimesmada,
Simba andava atrás de nós de um lado para o outro, fazendo frufru
com seu vestido de seda. Olhamos fixamente os cartazes coloridos
nos muros, mas, naquela época, ignorávamos até mesmo o objetivo
daquelas letras enormes. Melanie estava próxima da porta. Era a mais
alta e a mais magra de nós, mas seu corpo tinha formas respeitáveis
naquela época. Quando mais tarde eu a reencontrei numa loja de
luvas, era pele e osso. Heidi, com quem, quando criancinha, rolei na
fonte do chafariz, era uma das menores e pelo menos tão gordinha e
roliça quanto eu. De seus olhos viam-se apenas duas fendas inchadas
e escuras como breu. No teatro, bastava ela pousar o pé na rampa
e todo mundo dava gargalhadas. Seja como for, Simba sempre lhe
dava papéis nos quais sua corpulência excessiva se impunha.
De repente, gritos ressoaram do lado de fora da antessala, as por-
tas de dois batentes foram abertas violentamente e, numa longa fila,
organizados por ordem de tamanho como nós, entraram os garotos.

138
Até a manhã seguinte, eu seria capaz de jurar que não chegamos a
olhar os garotos que se inclinaram diante de nós e a quem demos
as mãos. Simba trocou algumas palavras com o senhor de casaco
preto que conduzira o grupo; em seguida, voltou para a plataforma
sem se virar para nós. Voltei a vê-la só mais uma vez, na noite em
que estive com Fabian no teatro do Parque. O leitor ficará admirado
com os sentimentos curiosos que a pessoa dela suscitou em mim
naquela época, uma principiante na arte de viver. Ela chegou coberta
de pérolas pretas até os pés. Deve ter morrido alguns anos depois;
pelo menos, nunca mais ouvi falar dela.
Os meninos conduziram-nos pelas mãos através da multidão que
se amontoava na calçada de ambos os lados da rua. Andamos ao
ritmo da música. No começo mantive a cabeça baixa, cuidando para
não pisar nas flores que cobriam o caminho. Só depois de várias ve-
zes ser coberta de flores atiradas do alto das janelas, aventurei-me a
olhar para cima, mas o lugar profusamente enfeitado de bandeiras,
galhardetes e guirlandas, assustou-me sobremaneira. Todas as vezes
que passávamos num cruzamento de ruas sob um arco do triunfo,
meu acompanhante puxava conversa comigo. Eu não entendia uma
palavra, claro. Eu tinha absoluta certeza de que ele falava outra lín-
gua, mas o que dificultava mesmo qualquer entendimento eram os
urros de entusiasmo produzidos nas calçadas, em cima dos telhados
e sob as milhares de janelas. Como havia chovido torrencialmente
de manhã, as calçadas estavam ainda escorregadias; em todo o caso,
eu teria caído várias vezes se meu companheiro não tivesse me
amparado depressa. Íris andava na minha frente, essa imponente
criatura que dois anos antes disputara com Lora a honra de ser se-
lecionada. Ao longo de todo o caminho, ela manteve o rosto virado,
com vergonha de seu companheiro, e olhava acima das cabeças das
pessoas nas calçadas. Meus olhos pregaram em suas meias brancas,
sujas de lama até os joelhos, e vaguearam, por um instante, em
direção às bombachas brancas, às panturrilhas nuas e às botas de
cano alto, de cadarço e sem rugas no couro, do menino que levava
Íris de mãos dadas. Súbito, destacou-se do céu cinza diante de nós
o majestoso frontispício do capitólio. Nesse momento, as pessoas
amontoaram-se de tal forma que mal podíamos avançar. Passamos
espremidas por entre o destacamento de segurança e puxadas pelos

M ine -H aha 139


meninos. Quase fomos sufocados sob a chuva espessa de flores que
caiu sobre nós de todos os pontos da praça, fustigando nossos rostos.
Sentimo-nos aliviadas quando, finalmente, deixamos as grades do
portão para trás. Enquanto nós, novamente organizadas em pelotão,
atravessamos o átrio de colunas altas, meu companheiro apertou
minha mão várias vezes; eu o olhei, mas ante seus olhos abaixei
imediatamente os meus. Tive um medo louco frente à multidão fer-
vilhando no pátio dos fundos, mas agora, passando entre as tribunas
de pedra, chegamos sem empecilho ao chafariz…

140
pós-escrito

O D espertar da P rimaver a 141


C om estas pal avr as termina o manuscrito que a senhora
idosa me entregou naquela noite. A despeito de minuciosa busca,
não havia em seus papéis póstumos, os quais uma autoridade muito
amavelmente permitiu-me consultar, uma linha sequer que se refe-
risse aos acontecimentos narrados aqui. De resto, um jovem ameri-
cano explicou-me o significado do título „Mine-Haha“. É de origem
indígena e quer dizer:

água que ri

M ine -H aha 143


Nota biográfica e posfácios

Marcus Tulius Franco Morais

144
F r ank W edekind : N ota B iogr áfic a

Em 1929, Georg Pabst apresentou sua produção cinematográfica A


caixa de Pandora (Die Büchse der Pandora), inspirado na obra homô-
nima de Frank Wedekind. Na Grã-Bretanha, a cena do casamento
de Lulu com a Condessa Geschwitz foi cortada dos cento e trinta
e um minutos originais. Entre 1928 e 1935, Alban Berg compôs a
ópera Lulu, nome da protagonista da obra de Wedekind. Inacabada,
foi executada em 1937; depois, só em 1979, pois a esposa de Berg,
mulher de princípios religiosos, proibiu a execução da composição
musical.
Benjamin Franklin Wedekind nasceu a 24 de julho de 1864, em
Hannover, Alemanha. Seu pai, o médico Friedrich Wilhelm Wedekind,
era originário da Baixa Saxônia. Intelectual e democrata ferrenho,
Wilhelm participou da Revolução de 1848, porém, frustrado com a
derrota da Alemanha, buscou refúgio na América do Norte. Em São
Francisco, conheceu a cantora lírica Emilie Kammerer, alemã de
Württemberg, com quem se casou. Emilie, tal qual o marido, nutria
uma necessidade vital de liberdade, sua herança paterna.
De volta à Alemanha, não suportaram a política nacionalista de
Bismarck. Com o Império Alemão, fundado em 1871, começaram
a se impor forças seculares. A família seguiu para a Suíça, onde o
pai comprou um velho castelo, em Lenzburg, no Cantão de Argóvia,
uma região povoada de fantasmas e lendas antigas.
Frank Wedekind manifestou desde cedo interesse pela poesia,
artes plásticas, desenho e música. Passou a juventude no castelo e
nas escolas de Argóvia. Ele era o centro das atenções dos intelectuais
que se reuniam na região. Em 1884, entrou para a Universidade de
Lausanne, que frequentou apenas por um semestre. Incentivado
pelo pai, seguiu com um irmão para Munique, a fim de estudar Li-
teratura e Direito, mas mudou de idéia pouco tempo depois. Ainda
que fizesse parte do círculo de escritores socialistas, em Zurique, do
qual Gerhart Hauptmann era membro, e rodeado que fosse pelos
adeptos do Naturalismo, Wedekind tinha idéias definidas em ques-
tões de estilo, opondo-se a essa escola literária.
Os conflitos com o pai começaram cedo. O jovem escritor de-
dicava-se exclusivamente à própria obra, negligenciando a vida

145
acadêmica. Privado dos bens da família, trabalhou como agente
publicitário para a Sociedade Maggi, na Suíça. A reconciliação com
o pai permitiu-lhe retomar os estudos.
Em outubro de 1888, o pai morreu, deixando-lhe uma fortuna
considerável. Independente, abandonou a Universidade e seguiu
para Berlim, onde encontrou barreiras por questões de nacionali-
dade. Em 1889, fixou-se em Munique, onde conheceu o pintor Willi
Rudinoff, que exerceu forte influência em sua visão de dramatur-
gia. O artista apresentou a Wedekind os salões da capital bávara.
Nessa época, escreveu O mundo novo (Die neue Welt). Do outono de
1890 à Páscoa de 1891, ocupou-se com a peça teatral O despertar da
primavera (Frühlings Erwachen). No drama, jovens desabrocham
para a primavera dos sentidos e se amam no seio de uma paisa-
gem onírica, opondo-se aos preconceitos e ao conservadorismo das
Instituições. Em 1891, publicou O despertar da primavera; mas no
palco, mostrou-se inviável. O Naturalismo dominava os teatros da
Alemanha, representando os problemas sociais da época. Nessa at-
mosfera de indiferença à sua obra, Wedekind partiu para Paris, onde
conviveu com a boemia das Variétés Parisiennes e do Cirque d’Hiver,
relacionando-se com grupos circenses, cantores e refugiados políticos.
Em 1892, escreveu Fritz Schwigerling, passando a se ocupar, até 1894,
com a peça A caixa de Pandora. Em pleno Naturalismo, A caixa de
Pandora, a primeira parte da trilogia Lulu, aborda questões como a
emancipação da mulher, o casamento, a miséria do proletariado e
a diferença de classes. Distante das introspecções psicológicas, um
animal real, indômito e belo, surge em cena: a mulher, dona do seu
próprio destino. No palco do teatro alemão estreou uma liberdade
inaudita: forças sexuais como forças de uma vida forte.
Em 1894, Wedekind seguiu para Londres onde trabalhou como
secretário de Willy Gretor, um falsificador de quadros. De volta a
Paris, conheceu a intelectual alemã, nascida na Rússia, Lou Andreas-
Salomé, também conhecida como Louise von Salomé, que tinha
acabado de publicar As personagens femininas de Henrik Ibsen (Henrik
Ibsens Frauengestalten, 1892), obra feminista que veio ao encontro
das preocupações de Wedekind. Conheceu também o dramaturgo
sueco August Strindberg e Albert de Langen, futuro editor de suas
obras. Em 1895, Langen publicou a primeira parte de A caixa de

146
Pandora, intitulada O espírito da Terra (Der Erdgeist*). Na época, o
editor sentiu-se intimidado a publicar a obra completa, que só foi
impressa com o título original em 1904.
Wedekind voltou para Berlim na esperança de ver O espírito da
Terra no palco do Freie Bühne, teatro já célebre pela encenação
audaciosa de Espectros (Gengangere, 1881), de Henrik Ibsen, e das
primeiras peças de Hauptmann. Sem qualquer sucesso, voltou para
Zurique onde passou a ganhar a vida fazendo leituras públicas de
textos de Ibsen, sob o pseudônimo de Cornelius Minehaha.
A essa altura, a herança paterna havia sido consumida. Langen
fundou o Jornal Simplicissimus e, com o pseudônimo Hieronymus
Jobs, Wedekind rendeu-se ao convite do editor para colaborar no
hebdomadário liberal, satírico e erótico, ao lado de nomes como Knut
Hamsun, Heinrich e Thomas Mann, Rainer Maria Rilke, Hugo von
Hoffmansthal e Arthur Schnitzler. Nessa época, Wedekind conheceu
Frieda Strindberg, divorciada de Strindberg; dessa relação nasceu
o filho Friedrich.
As rusgas com Albert de Langen, que o explorava sem lhe as-
segurar a existência material, enxotaram-no para Munique; de lá,
seguiu com Frieda para Berlim. Sem êxito com o plano artístico e
desesperançado, procurou abrigo na casa da irmã Erika, em Dres-
den. Logo depois, recebeu de Kurt Martens, presidente da Sociedade
Literária de Leipzig, o convite para fazer leituras de seus próprios
textos naquela cidade.
Em fevereiro de 1898, foi apresentado com grande sucesso O es-
pírito da Terra, em Leipzig, no Ibsen Theater, do diretor Karl Heine.
Wedekind estreou como ator, no papel do doutor Schön, e Leonie
Taliansky, no papel de Lulu. As apresentações ininterruptas fizeram
com que o ator adoecesse, impossibilitando-o de continuar na com-
panhia teatral durante a turnê pelo norte da Alemanha.
Em abril de 1898, Georg Stollberg, diretor da Schauspielhaus, em
Munique, ofereceu a Wedekind o lugar de dramaturgo e ator. Nessa

* No Brasil, Der Erdgeist foi publicado com o título Gnomo. Tradução de Eustáquio Du-
arte e Willy Keller. s.l.: Ministério da Educação e Cultura / Serviço de Documentação
/ Departamento de Imprensa Nacional, 1961. 163 p (Coleção Teatro, [14]; direção de
José Simeão Leal).

F r ank W edekind : N ota B iogr áfic a 147


época, acusado de fazer ofensa à Majestade por ser o autor de dois
poemas satíricos publicados no Simplicissimus, fugiu para Zurique.
Os poemas ridicularizavam o Imperador Wilhelm por ocasião de
uma viagem à Palestina.
Com medo da repercussão e dos riscos, Langen afastou-se de
Wedekind, pois os poemas eram fruto de sua própria insistência.
Nessa época, Wedekind começou a escrever, entre Zurique e Paris,
O Marquês de Keith (Der Marquis von Keith). Assim que o concluiu,
compareceu, em junho de 1899, perante o tribunal de Leipzig. Por
causa dos versos difamatórios, foi condenado a sete meses de prisão
na Fortaleza de Königstein. A pena foi comutada em seis meses.
Durante os meses de reclusão, escreveu o romance Mine-Haha.
Sua estada na prisão não foi das mais desagradáveis. A esplêndida
situação da fortaleza, o Parque, no romance Mine-Haha, lembrava-
lhe Lenzburg.
Em 1900, foi para Munique para publicar O Marquês de Keith;
depois, para Leipzig, onde dedicou-se à arte dramática ao lado de
Frederic Basil. Em 1901, engajou-se no grupo de teatro Os onze
carrascos (Die elf Scharfrichter), um pequeno cabaré, em Munique.
No palco, o Liedermacher Wedekind, autor e intérprete de canções,
ganhou fama. Nessa época, escreveu Rei Nicolo, ou Assim é a vida
(König Nicolo, oder So ist das Leben).
Em dezembro de 1902, Max Reinhardt apresentou O espírito da
Terra, em seu Kleines Theater, com Gertrud Eysoldt no papel de
Lulu. A peça foi coroada de êxito. Políticos e jornalistas como Walter
Rathenau e Maximiliam Harden, de Berlim, entraram para o círculo
de Wedekind e se tornaram amigos. Karl Kraus, de Viena, também
se aproximou do escritor. Rei Nicolo foi apresentado em Munique,
sob a direção de Stollberg. Em 1903 e 1904 foram encenadas várias
peças de Wedekind. Escreveu nessa época Hidalla.
Em maio de 1904, Karl Kraus organizou em Viena uma memorável
apresentação de A caixa de Pandora, com Tilly Newes no papel de
Lulu, e Wedekind no papel de Jack, o Estripador. Tilly, uma bela atriz
austríaca de dezoito anos de idade, impressionou Wedekind. Juntos
foram para Berlim onde representaram os papéis principais de Hi-
dalla e O Marquês de Keith. Hidalla foi encenado pelo Schauspielhaus,
em Munique, sob a direção de Stollberg, com Wedekind no papel

148
de Hetmann. Escreveu Morte e demônio (Tod und Teufel), epílogo da
trilogia Lulu. Em maio de 1906, Wedekind e Tilly casaram-se. Max
Reinhardt contratou-o como ator. A caixa de Pandora foi levada a
tribunal. A Divisão de Censura do Departamento de Segurança Pú-
blica de Berlim, à qual coube julgar a peça, proibiu-a. Max Reinhardt
montou O despertar da primavera, com Wedekind como ator. A peça
foi representada trezentas e vinte e uma vezes. Morte e demônio foi
apresentada pelo Intimes Theater, em Nürnberg, sob a direção de
Emil Messthaler, com Tilly Wedekind, como Lisiska, e Wedekind,
como Casti-Piani. Escreveu a peça Música (Musik). No ano seguinte,
em 1907, escreveu a peça A Censura (Die Zensur). Música também foi
para o palco do Intimes Theater, com Wedekind no papel do doutor
Reisner. O mundo novo foi apresentado em Munique. Escreveu Oaha,
a sátira da sátira (Oaha, die Satire der Satire), uma comédia que retrata
sua experiência no jornal Simplicissimus.
Em outubro de 1906, Música foi concluída, mas censurada em
1907. A edição foi apreendida, o poeta e o editor foram acusados
de propagar obras licenciosas. Soltos em seguida, não conseguiram
impedir a destruição da edição.
O casal Frank e Tilly estabeleceu residência em Berlim. Ele
engajou-se como ator no teatro de Reinhardt e obteve reconheci-
mento representando seus próprios personagens. A apresentação
de O despertar da primavera, em novembro de 1906, teve bom êxito,
mas as divergências com o diretor Reinhardt levaram à ruptura do
projeto teatral.
No outono de 1908, o casal transferiu-se para Munique. Os últimos
anos na Bavária foram permeados com um sem-fim de viagens a
cidades alemãs, austríacas e suíças. A fama de poeta cresceu com a
de intérprete. Novos admiradores entraram para o círculo de suas
relações: o jornalista Joachim Friedenthal, professor da Universidade
de Munique, e seu futuro biógrafo, Artur Kutscher.
Em 1909, Censura foi apresentada pela Schauspielhaus, em Muni-
que, com Wedekind, como Buridan, e Tilly, como Kadidja. Escreveu
A pedra filosofal (Der Stein der Weisen). Em 1910, Fritz Schwigerling foi
apresentada em Kassel, com Wedekind no papel principal.
A essa altura sua obra perde o cunho subjetivo. Castelo Wetterstein
(Schloss Wetterstein) é o marco de uma arte objetiva. 1911 data o drama

F r ank W edekind : N ota B iogr áfic a 149


moderno Francisca (Franziska), levado para o palco do Lustspielhaus,
em Munique, sob a direção de Eugen Robert, com Wedekind no papel
de Kuns, e Tilly no papel de Franziska. Em 1913, escreveu Sansão,
ou vergonha e ciúme (Samson, oder Scham und Eifersucht), poema
dramático levado para o palco pelo Lessingtheater, em Berlim, sob
a direção de Barnowsky, com Friedrich Kavssler como Sansão, e
Tilla Durieux como Dalila.
O drama Bismarck foi escrito em 1915. Em 1916, foi apresentado
Arte e Mammon (Kunst und Mammon) pelo Kammerspiele, em Muni-
que, encenado por Erich Ziegal. Em 1917, a peça Castelo Wetterstein
foi apresentada pelo Pfauentheater, em Zurique, sob a direção de
Alfred Reucker. Escreveu Hércules (Herakles), apresentado em Mu-
nique, sob a direção de Albert Steinrick, que também representou
o papel principal.
Em 1914, a apendicite que o aniquilaria se manifestou impli-
cando inúmeras intervenções cirúrgicas. A uma delas, Wedekind
sucumbiu, a 9 de março de 1918. O dramaturgo, romancista, con-
tista, poeta, ator e cantor não conheceu o fim da guerra, nem a
revolução. A revolução que rompeu o silêncio em torno da obra
até então proibida. Tornou-se o dramaturgo alemão mais encenado.
Como Tolstoi e Strindberg, Wedekind foi um dos grandes educadores da
Europa moderna, escreveu Bertolt Brecht em Histórias do calendário
(Kalendergeschichten).

150
B arriga de F ome , B anha de M acaco , C acete G rosso \ Q uebr a
de T abu na P rimaver a

Só posso amar no superlativo.¹

Frank Wedekind chamou sua peça teatral O despertar da primavera,


escrita entre o outono de 1890 e a Páscoa de 1891, de “tragédia in-
fantil”, e, como é próprio da tragédia, aqui também há mortes: o
estudante Moritz Stiefel se suicida com um tiro na cabeça, depois
de ser reprovado na escola; Wendla Bergmann, de catorze anos de
idade, morre em consequência de um aborto, que sua mãe maqui-
nou para ela; Melchior Gabor, internado pelos pais em uma casa de
correção por “atentar contra os bons costumes”, também pensa no
suicídio, mas aqui aparece o Homem Disfarçado, que personifica a
vida, e consegue dissuadir Melchior de seu propósito.
Depois de uma editora alemã recusar a publicação da peça por
medo de problemas jurídicos, Wedekind editou-a, por conta própria,
em outubro de 1891, pela Editora Jean Gross, em Zurique, na Suíça.
O despertar da primavera foi o primeiro livro impresso de Frank
Wedekind.
A peça foi inspirada em acontecimentos reais da vida do próprio
autor. Dois de seus colegas de escola, Frank Oberlin e Moritz Dürr,
cometeram suicídio em 1883 e 1885, respectivamente. Dürr relatara
a Wedekind sua intenção de se matar, e Wedekind prometeu-lhe
escrever um drama sobre essa história.
O escritor dedica a obra aos pais e aos professores por serem,
em relação às necessidades dos jovens, distantes e negligentes. Ele
não deixa dúvida alguma quanto às responsabilidades das tragédias
apresentadas. Elas são dos adultos. O objetivo do autor, no sentido
de ilustrar e alcançar o significado social de O despertar da prima-
vera, malogrou, e, ao contrário, as instituições viram na obra uma
invasão da autoridade tradicional e a violação dos direitos inaliená-
veis da família. A sociedade do Império tomou o livro como uma
provocação.

1 Frank Wedekind ao colega de escola Adolph Vögtlin, em carta datada de julho


de 1881.

151
A relação da obra de Wedekind com a realidade é a sua particu-
laridade, como afirmou: Quase todas as cenas correspondem a um
evento real. Essas palavras de 1911 levantam questões por sua atua-
lidade. Ao lado do aspecto principal, o desabrochar dos sentidos, a
peça aborda muitos outros temas, como métodos de educação sem
violência, homossexualidade, gravidez precoce e aborto. A sexuali-
dade reprimida se expressa em desejos e ações substitutos: fantasias
sado-masoquistas e masturbações excessivas, temas tabu para a
época. Tudo que tem a ver com sexualidade é encoberto com um
simulacro. E não se fala sobre isso. Assim, a senhora Bergmann não
é capaz de explicar à filha, apesar de ela lhe ter implorado, como
é que as crianças são geradas e nascem: Mas não vai dar, filha! Não
posso carregar essa responsabilidade! Não mereço ser colocada na
cadeia, que tirem você de mim. Wendla, ingênua e inocente, dorme
com Melchior e engravida.
Para Wedekind, a escola de sua época é um estabelecimento de
adestramento, onde os alunos tratam de problemas distantes de suas
realidades. De que me adianta uma enciclopédia que não responde à
questão mais importante da vida?, diz Moritz. Os professores aparecem
pintados em cores demasiado carregadas, grotescas, identificados
como caricaturas pedagógicas e apresentados com uma linguagem
afetada, discussões retrógradas e rituais de castigo insensíveis e
ridículos. Embora o drama de Wedekind seja imbuído de uma forte
tragicidade, a peça contém aspectos cômicos, como a apresentação
satírica do mundo dos adultos, que se manifesta, entre outras coisas,
na semântica dos nomes dos professores: Insolação, Barriga de fome,
Quebra-ossos, Banha de macaco, Cacete grosso, Golpe de língua e
Mata-moscas.
Em contraposição a esse mundo burocrático dos adultos e dos
jovens envolvidos em seus problemas desesperadores, aparece Ilse,
uma moça que posa como modelo para os artistas da cidade e com
eles se diverte. Ilse é a personificação da vida boêmia, livre das pres-
sões burguesas e das concepções de moral. A única que realmente
sente tristeza pela morte de Moritz e se dispõe a cuidar do túmulo
do amigo: Vou regá-las [as rosas] sempre que passar por aqui. Buscarei
miosótis do riacho e gladíolos de casa. Construída também como projeto
social, a figura do Homem Disfarçado conquista Melchior no final

152
da peça, arrancando-o do suicídio: Vou dar a você a oportunidade de
ampliar seu horizonte de maneira maravilhosa. Vou mostrar a você
tudo o que é interessante no mundo, sem exceção. Não é por acaso que
Wedekind apresenta essa encarnação de uma atitude voltada para
a vida. A capa Art nouveau da primeira edição, que Franz Stuck
preparou segundo o projeto do escritor, mostra uma paisagem com
árvores na primavera, flores e andorinhas no céu – uma imagem
iluminada da vida, que o autor, a despeito dos momentos trágicos,
quis para a encenação da peça.
A sequência de cenas bem articuladas, o diálogo expressivo e
lírico, os elementos visionários e surrealistas escritos por Wedekind,
indicam-no como um precursor do drama expressionista. A peça só
entrou em cartaz depois de o clima social mudar, quando estudantes
organizaram-se no movimento de protesto Wandervogel² e pedago-
gos da reforma refletiram sobre mudanças do sistema educacional.
Em novembro de 1906 O despertar da primavera pôde finalmente
ser apresentado no Berliner Kammerspiel, sob a direção de Max
Reinhardt.
A peça, composta de três atos e catorze cenas, consiste quase
que inteiramente de diálogos entre adolescentes. A história gira
em torno de um grupo de jovens que se veem confrontados com
os problemas da instabilidade psicológica causada pela puberdade
e da distância que os separa da moral social ante suas curiosidades
sexuais. Wedekind aproxima-se da interioridade dos jovens de tal
forma que consegue desvelar, diante de nossos olhos, suas alegrias
e tristezas, esperanças e desesperos, lutas e tragédias.
Wendla vê-se confrontada com o prazer proibido de suas fantasias.
Ela e suas amigas são excluídas da instituição de ensino, espaço de
in-formação masculina. O caminho para o autoesclarecimento pela
leitura lhes é interditado, elas têm apenas o discurso oral para suas
dúvidas e questões. Diante de Wendla, a senhora Bergmann reporta-
se a sua mãe com a seguinte justificativa: Agi com você igualzinho

2 O movimento Wandervogel (ave migratória) congregava no início do século XX


centenas de milhares de jovens alemães. Os ideais do movimento eram viajar
a pé pelo mundo para criar e fortalecer o espírito de solidariedade das pessoas,
aproximando-as da natureza e dando-lhes outra noção do próprio corpo.

B arriga de F ome \ Q uebr a de T abu na P rimaver a 153


como minha mãe agiu comigo. Ina, irmã de Wendla, casa-se grávida.
Amanhã faz apenas dois anos que ela subiu as escadas no seu vestido
de noiva, diz a senhora Bergmann. Mas Ina já teve o terceiro filho, e
não se espera esclarecimento algum, já que ela não quer ferir, por
interesse próprio, as regras do discurso. Sou tia pela terceira vez e não
tenho a menor idéia de como as coisas acontecem, diz Wendla.
Em conversa com as amigas, Wendla imagina-se mãe de muitos
filhos e identifica-se humildemente com sua sexualidade: Agradeço
todos os dias por ser menina. Acredite, não gostaria de trocar com ne-
nhum príncipe […] Deve ser mil vezes mais arrebatador ser amada por
um homem do que por uma mulher! Propaga para suas amigas uma
modéstia feminina e só pode mostrar seu desejo sexual em código.
Em seu primeiro encontro com Melchior, ela surge como iniciadora
do contato sexual às ocultas, ao mesmo tempo que a realização de
seu desejo masoquista volta-se para ela como autopunição.
Os protagonistas de Wedekind sabem da obrigação de adotar uma
identidade sexual pré-formatada e normativa. Moritz Stiefel, de
formação burguesa, família conservadora e reacionária, vítima do
sistema de valores do Império alemão e indivíduo fronteiriço entre
os dois sexos, não consegue desenvolver uma identidade sexual
masculina codificada. Na puberdade, ele sente um medo enorme
(medo mortal) e vive perturbado com as transformações sensíveis do
próprio corpo, visto que a sexualidade impregnada de preconceitos
provoca nele imensos sentimentos de culpa. Melchior o esclarece,
dando-lhe um ensaio sobre sexualidade. Moritz, pressionado pelo
clima competitivo em que vive, fecha-se por não conseguir controlar
sua timidez nem apresentar uma produção satisfatória. Ele não é um
aluno exemplar. Por um excesso de piedade filial, Moritz se quebra
com a opressão e se suicida. Na morte, ele atravessa os limites da
diferença entre os sexos, imagina a troca dos mesmos e se transforma
em um personagem de conto de fadas: a rainha sem cabeça. Em seu
caso, a cabeça e o corpo não podem se juntar. Na construção cultural
da sexualidade, eles devem permanecer separados.
Melchior é interrogado pelos professores e pelo reitor sobre a
influência desmoralizadora que exerceu sobre seus colegas de classe
[…] Trata-se de um texto de vinte páginas em forma de diálogo, intitu-
lado “O coito”, com ilustrações em tamanho natural, repleto das piores

154
obscenidades, que deveria corresponder às exigências mais elevadas
de um devasso condenável em relação a uma leitura pornográfica. Por
essa razão, é expulso da escola. Além disso, seus pais descobrem
que ele dormiu com Wendla, engravidando-a, e decidem mandá-lo
para uma casa de correção. Fugindo de lá, Melchior dirige-se para o
cemitério, onde se encontra com Moritz morto segurando a cabeça
debaixo do braço. O diálogo com o amigo é um convite ao suicídio.
Melchior tem de decidir se quer morrer ou viver. Por fim, decidido
a viver, acompanha o Homem Disfarçado.
Na obra de Wedekind, os pais e as mães não falam a mesma
linguagem. Os pais são representantes do autoritarismo. Rentier
Stiefel renega o próprio filho: O garoto não era meu! Não gostei dele,
desde pequeno! O senhor Gabor exige obediência incondicional. As
mães são mulheres fracas, dependentes ou mesmo ausentes (a se-
nhora Stiefel), subjugadas ao domínio do homem, idealizadas e, com
isso, inofensivas. O discurso feminino e o masculino divergem no
sistema familiar. O senhor Gabor exclui sua esposa da participação
do discurso pedagógico, sustentando-se no poder patriarcal: Vocês,
mulheres, não são capazes de julgar essas coisas. Ela retruca: É preciso
ser um homem para poder falar dessa maneira.
Um complexo de fatores biológicos, sociais e morais produz um
modelo de comportamento sado-masoquista transmitido para as
crianças pelos adultos, que desempenham papéis de acordo com as
regras do jogo social. Wendla é fascinada pelas surras que Martha
leva do pai. As meninas sentem-se inferiores aos meninos, delas
espera-se que sejam passivas, escolhidas e atraentes pela beleza
e pelas roupas. Os meninos jogam a culpa no objeto que desperta
desejo sexual (Melchior expulsando o demônio do corpo de Wendla),
enquanto as meninas, desamparadas, aceitam a própria culpa como
base para o castigo. Moritz gosta de imaginar o grande prazer que as
meninas devem sentir na passividade durante as relações sexuais,
como se submetem, e, finalmente, pune a si mesmo numa descon-
trolada fusão de sadismo masculino e masoquismo feminino.
Na penúltima cena do terceiro e último ato, Hänschen Rilow
e Ernst Röbel estão deitados na grama numa plantação de uvas,
deliciando-se com a tarde, enquanto fazem planos para o futuro.
Juntos confessam amor mútuo e demonstram suas tendências

B anha de M ac aco \ Q uebr a de T abu na P rimaver a 155


erótico-homossexuais. Hänschen quer ser pastor, podendo, dessa
forma, viver com menos risco enquanto homossexual,³ e desfrutar
o trabalho e a vida. A cena rompe o silêncio das mulheres. Aqui as
coisas são nomeadas e discutidas. O nível do contato homossexual,
até então latente, associa-se com o nível da designação. O prazer
presente (essas moscatéis brilhantes) coincide com a expectativa de
futuro: Não quero muito mais para o futuro. A fantasia sexual rea-
lizada como satisfação oral (e as meninas trazem maçãs do jardim)
ou como sedução (Penso em olhos semicerrados, lábios semiabertos e
tapeçarias turcas) realiza-se na satisfação presente: Fiquemos com
o melhor, Hänschen! Por que você está rindo? Hänschen: Você está
começando com isso de novo? Ernst: Alguém tem de começar. Aqui a
homossexualidade permite prazer e saída, sem ter um final funesto,
como a sexualidade feminina. Ainda que o idílio homossexual não
possa ser tomado nem propagado como solução, desperta e perdura
como esboço de ação.
Wedekind apreende seu conhecimento psicológico da obra de
Krafft-Ebing,4 Psychopathia sexualis (1886). Krafft-Ebing destaca a
puberdade como fase decisiva do desenvolvimento na qual se dá a
definição de um caráter sexual (Geschlechtskarakter). O desenvol-
vimento é “normal” quando o sexo biológico e a identidade sexual
assumida se correspondem. Ele descreve as especificidades do mas-
culino e feminino segundo o esquema ativo-passivo/sado-masoquista.
No sadismo ele vê um desenvolvimento patológico do caráter sexual

3 Com a fundação do Império Alemão, em 1871, o rei Wilhelm I impôs as Leis de sua
terra natal, a Prússia, em todos os reinos alemães. Antes da unificação muitos deles
tinham leis liberais fundadas na tradição francesa, mas o rei obrigou-os a aceitar
o Código Criminal Germânico, incluindo o § 175, uma lei que proibia sexo entre
homens.
4 Barão Richard von Krafft-Ebing (1840–1902), psiquiatra alemão, famoso por seus
estudos pioneiros sobre sexualidade, tratou com grande interesse de homossexuais
de ambos os sexos, na época considerados criminosos. Sua obra Psychopathia sexualis,
um estudo revolucionário na ciência de patologia sexual, influenciou escritores e
filósofos, como também psiquiatras com sua visão, e ainda causou um longo e forte
impacto no desenvolvimento de percepção sexual moderna. Krafft-Ebing foi um dos
primeiros profissionais a considerar que os homossexuais eram pessoas normais com
uma sexualidade diferente.

156
masculino; no masoquismo, a degeneração doentia das características
psicológicas específicas do sexo feminino.
Na obra de Wedekind, a natureza da prosa no âmbito fictício deve
apresentar-se como sobrenatural, querendo, como resultado, que na
fantasia do espectador comecem a se desfazer as diferenças entre
moça e mulher, masculino e feminino, humano e animal.
O despertar da primavera pontua a sonhada transformação indivi-
dual como meio para a emancipação. O jovem é a unidade da raça,
e somente através de sua ilustração pode a humanidade aquinhoar-
se da herança de luta e afirmação, derrubando o que é medíocre
e sufocante e afirmando o direito à vida, à alegria. Lembramo-nos
aqui das palavras do personagem Protassov, em Os filhos do Sol, de
Górki: Os velhos têm raramente razão… A verdade está sempre com o
recém-nascido.

C acete G rosso \ Q uebr a de T abu na P rimaver a 157


M ine -H aha : O T eatro da S imul aç ão e do E stímulo

Em 1889, Frank Wedekind começou a dedicar-se ao projeto literário


Mine-Haha. Em outubro de 1895, concluiu a primeira versão. Esse
texto não chegou até os dias atuais, mas foi daí que surgiu o conto
Mine-Haha, publicado na revista Die Insel (abr–jun / 1901), com os
capítulos i–iii. Posteriormente, Wedekind incluiu no texto a narrativa
da pantomima O príncipe dos mosquitos (Der Mückenprinz), escrito
em Paris por volta de 1890, e publicou uma segunda edição, em
1903, pela Editora Albert de Langen, em Munique, agora com um
subtítulo: Mine-Haha ou Sobre a educação corporal das meninas. Das
obras póstumas de Helene Engel (Mine-Haha oder Über die körperliche
Erziehung junger Mädchen. Aus Helene Engel Nachlass). O autor
Frank Wedekind, num jogo de máscaras, aparece como o editor
das memórias da protagonista. Afora isso, Mine-Haha faz parte do
projeto de um romance maior jamais concluído, que deveria levar
o título Hidalla ou A vida de uma costureira (Hidalla oder Das Leben
einer Schneiderin).
Numa carta ao crítico literário dinamarquês Georg Brandes, datada
do dia 10 de janeiro de 1909, Frank Wedekind escreveu: Em 1895,
planejei escrever minha utopia, um romance composto de dezoito capítu-
los, dos quais apenas os três primeiros foram concluídos e editados com
o título "Mine-Haha". Anos depois, Wedekind relatou ao editor Ernst
Rowohlt: A Condessa Reventlow [conhecida na boemia de Schwabin-
ger, bairro de Munique, como a encarnação do erotismo] guardava
meus manuscritos em sua casa e os vendeu de forma ilegal […] Essa
apropriação indevida impediu-me de concluir o romance Mine-Haha.
Das mãos do próprio Rowohlt recebeu de volta o manuscrito. Sem
alterá-lo, Wedekind autorizou sua reimpressão.
Segundo o Pós-escrito do conto, Mine-Haha significa “água que ri”.
O nome foi retirado do poema A canção de Hiawatha (The song of
Hiawatha, 1855), do norte-americano Henry Wadsworth Longfellow
(1807–1882). Na canção, Minehaha é o nome de uma cachoeira e o
nome que o herói dá à esposa morta. Enquanto Longfellow desen-
volve Leitmotive como o amor cristão, a morte, a salvação, Wedekind
elabora um projeto de culto ao corpo.
O nome masculino Hidalla, que leva a protagonista de Mine-Haha,

158
provém da poesia épica do escocês James MacPherson (1736–1796),
fonte também de outros nomes que aparecem em Mine-Haha: Lora,
Morni, Selma. No cenário das epopéias celtas dos séculos ix e x, tra-
duzidas por MacPherson, Hidalla é um herói e cantor distinguido
pela beleza, cuja morte é descrita com queixumes tristes no ciclo
de poemas ossiânicos.
Os parcos dados sobre o fragmento Mine-Haha não nos permitem
determinar a estrutura e o conteúdo do texto. Sem uma introdução
sobre sua gênese, é formado de quatro capítulos que relatam estágios
da educação da narradora Hidalla, fundada nos princípios do ritmo
e da elasticidade do corpo. O processo de aprendizagem da fala e da
escrita e de uma formação nos moldes burgueses são irrelevantes.
Em Mine-Haha, a memória da protagonista Hidalla remonta ao
segundo ano de vida. Nessa época, ela vive numa casa de fachada
branca cheia de janelas floridas. O jardim é uma enorme área verde
com um bosque e um riacho. Os amiguinhos são seis meninos e
meninas que brincam sob os cuidados de duas mocinhas. O autor
deixa Hidalla, com cinco anos de idade e os sentidos deliciosamente
inebriados, exclamar ao ver um garoto um pouco mais velho: Na-
quele instante, sorvi sua beleza em grandes tragos e, nessa noite, dormi
serenamente como se eu tivesse respirado um ar melhor, mais fresco.
Apartadas do mundo, as crianças são educadas em grupos de
sete da mais tenra idade até a adolescência, num parque com trinta
casas separadas umas das outras. Lá, elas aprendem a andar, dançar,
saltar, pular corda, fazer ginástica e tocar alguns instrumentos, além
de alguns trabalhos manuais práticos, como trançar palha, lavar e
cuidar de bebês.
Com quatro anos de idade as crianças começam a educação
corporal. A professora Gertrude levantou o vestido tão alto que deu
para ver suas pernas até acima dos joelhos e nos mostrou como se devia
andar. Além das botas altas, amarelas, de cordão, usava meias bran-
cas que não lhe chegavam a meia altura das panturrilhas. Ergueu um
pouco o joelho e pousou o pé sobre a ponta; depois abaixou lentamente o
calcanhar, mas não antes que todo o pé, das costas ao dedão, formasse
uma linha reta com a perna. Seu joelho cheio, redondo mas de forma
delicada, estendeu-se no mesmo instante em que o calcanhar tocou o
solo […] Durante os outros exercícios, Gertrude cuidava sobretudo para

159
que mantivéssemos os quadris rijos ao andar. Com uma vara na mão,
as palavras da professora ganham ainda mais força.
A relação entre as crianças é toda orientada para o corpo. Devido
à ignorância completa em que vivíamos, nossa convivência era reduzida
às coisas mais elementares. Tampouco me lembro se todas as meninas
do Parque pareceram-me algum dia intelectualmente diferentes umas
das outras. Elas pensavam e sentiam de forma parecida e quando uma
abria a boca todas as outras sabiam o que tinha a dizer. Daí falarmos
muito pouco. Ninguém dizia nada durante as refeições. Todas comiam
familiarizadas com o silêncio. Apenas as diferenças físicas distinguiam-
nas. Quando uma dizia “eu”, referia-se sempre a sua totalidade, do topo
da cabeça às pontas dos pés. Pouco faltou para sentirmos o nosso ser
mais nas pernas e nos pés do que nos olhos e nos dedos. Não retive na
memória o jeito de falar de nenhuma das meninas. Só não me esqueci
de como andavam.
Com sete anos de idade, as meninas são separadas dos meninos e
vão formar grupos também de sete e viver numa casa de dois andares,
com a fachada coberta de hera, janelas amplas e uma varanda de
madeira a sua volta. Os aposentos são repletos de luz, ventilados e
aquecidos nos meses de inverno. Todas as meninas usam vestidos
brancos iguais. Toda semana um grupo de trinta crianças da mesma
idade, cada uma de uma casa, tem aula no salão da Casa Branca,
revezando dança e música.
No teatro, a dança exibe uma permuta de dançarinas. Nas coreo-
grafias que se repetem exaustivamente, cada corpo é uma variável
anunciando um treinamento a que as meninas veem-se submetidas,
diluindo, dessa forma, a capacidade intelectual individualizada, a
curiosidade, o desejo, as emoções, as relações afetivas. Proibição e
castigo são expostos na educação em Mine-Haha como estratégia
para alcançar um funcionalismo, cujos protótipos externam-se nas
professoras Gertrude e Simba. O treinamento do corpo com vara
emancipa a carne. O espírito sai no chicote.
Há uma ruptura brusca da narrativa. Os três primeiros capítulos,
com as memórias da protagonista, servem de moldura para a conclu-
são lacônica, confiando à imaginação do leitor as suas consequências.
O final é simbólico. Com a adolescência, as crianças são levadas para
a cidade, onde, aos pares, meninos e meninas, são recepcionados

160
com música por uma multidão barulhenta e invasiva. A travessia é
o ingresso na vida, iniciando-se com a união de ambos, agora, seres
jovens amadurecidos.
Em Mine-Haha é possível perceber um pouco da natureza do poeta
presente de forma suave. Com a apresentação de uma sensualidade
sofisticada, o autor ocupa-se da diversão de um determinado público
frequente em um determinado teatro. Algumas passagens textuais
são parafraseadas; para o leitor incauto, imperceptíveis. Incluo aqui
alusões, mais ou menos dissimuladas, de tendências ao sadismo, ao
masoquismo e à homossexualidade; de forma explícita, a descrição
sensual do exame das meninas pelas mulheres que as recebem
no corpo de baile; de forma deliberada, um confronto entre dois
mundos. As descrições do teatro e das peças encenadas oferecem-
nos passagens hilariantes. Para os olhos lascivos dos espectadores a
pantomima O príncipe dos mosquitos apresenta, em cena aberta, um
ato sexual. Sem eufemismo, ouvimos a fala de um deles: “Falta-lhe
o melhor”.
Mine-Haha faz algumas referências ao plano de desenvolvimento
da trama, como a seleção das meninas, a educação dos meninos, a
festa popular no capitólio, as tribunas de pedra, a fonte, o contato
mais estreito entre os meninos e as meninas fora do Parque, po-
rém elas não nos esclarecem quanto ao seu conteúdo; ao contrário,
permite-nos tão-somente um mero vislumbre da visão utópica do
autor.
O espólio de Frank Wedekind guarda dois envelopes com o título
Hidalla ou A vida de uma costureira, romance. Um deles contém o
início do quarto capítulo de Mine-Haha; o outro, uma série de pro-
jetos de capítulos, informações sobre exercícios e jogos, um índice
de nomes, desenhos de fantasias, projetos de palcos e de salas de
espetáculo.
O texto utilizado para a presente tradução foi o da edição das obras
completas de Frank Wedekind: Mine-Haha oder Über die körperliche
Erziehung der jungen Mädchen. In: Gesammelte Werke, Bd I, Verlag
Müller, München, 1912, pp 319–381. O espólio encontra-se na Biblioteca
Municipal de Munique (Stadtbibliotek München), na Alemanha.

M ine -H aha : O T eatro da S imul aç ão e do E stímulo 161


O br as de F r ank W edekind

Der Schnellmaler; oder, Kunst und Mammon \ 1889 (O pintor ágil; ou,
arte e riquezas)
Kinder und Narren \ 1891 (Crianças e loucos); reimpresso como Junge
Welt, 1898 (Mundo jovem)
Frühlings Erwachen \ 1891 (O despertar da primavera)
Fritz Schwigerling \ 1892; reimpresso como Der Liebestrank (O elixir
do amor)
Der Erdgeist \ 1895 (O espírito da Terra, reimpresso como Lulu,
1903)
Der Kammersänger \ 1899 (O cantor da corte)
Der Liebestrank \ 1899 (O elixir do amor)
Die junge Welt \ 1900 (O mundo jovem)
Der Marquis von Keith \ 1901 (O Marquês von Keith)
Karl Hetmann, der Zwergriese \ 1903 (Karl Hetmann, o gigante
anão)
Mine-Haha \ 1903
Die Büchse der Pandora \ 1904 (A caixa de Pandora)
Hidalla; oder, Sein und Haben \ 1904 (Hidalla; ou, Ser e ter)
Die vier Jahreszeiten \ 1905 (As quatro estações)
Totentanz \ 1905 (A dança da morte); reimpresso como Tod und Teufel
(Morte e demônio)
Feuerwerk \ 1906 (Fogo de artifício)
Die Zensur \ 1908 (A censura)
Musik \ 1908 (Música)
Oaha, die Satire der Satire \ 1908 (Oaha, a sátira da sátira)
Der Stein der Weisen \ 1909 (A pedra filosofal)
Schloss Wetterstein \ 1910 (Castelo Wetterstein)
In allen Sätteln gerecht \ 1910 (Bom em tudo)
In allen Wassern gewaschen \ 1910 (Banho em todas as águas)
Mit allen Hunden gehetzt \ 1910 (Matreiro)
König Nicolo; oder, So ist das Leben \ 1911 (Rei Nicolo; ou, Assim é a
vida)
Franziska \ 1912 (Francisca)
Simson; oder, Scham und Eifersucht \ 1914 (Sansão; ou, vergonha e
ciúme)

162
Felix und Galathea \ 1914 (Félix e Galatéia)
Bismarck \ 1916
Till Eulenspiegel \ 1916 (revisão de Oaha, die Satire der Satire)
Herakles \ 1917 (Hércules)
Elins Erweckung \ 1919 (O despertar de Elin)
Lautenlieder \ 1920 (Canções sacras)
Die Kaiserin von Neufundland (A Imperatriz de Neufundland). Panto-
mima, estréia em 1979

O br as completas

Kritische Studienausgabe in acht Bänden und drei Doppelbänden. Hrsg.


unter der Leitung von Elke Austermühl, Rolf Kaiser und Hartmut
Vinçon. Darmstadt 1996 (Edição crítica em oito volumes)
Gesammelte Werke. 9 Bände. München, Leipzig 1912–1921 (Obras
completas em nove volumes)
Werke in zwei Bänden. Hrsg., mit Nachwort und Anmerkungen ver-
sehen von Erhard Weidl. München 1910 (Obras em dois volumes)
Gesammelte Briefe. Hrsg. von Fritz Strich. 2 Bände. München 1924
(Correspondência completa em dois volumes)
Die Tagebücher. Ein erotisches Leben. Hrsg. von Gerhard Hay. Frank-
furt am Main. 1960 (Os diários. Uma vida erótica)

163
agradecimentos:

Elionora Silvéria da Costa


Mayra Laudanna
Ronald Polito
Eliana Silva
Vera de Souza Lima
publicações da editora luzes no asfalto:

Na Prisão / Im Gefängnis, Egon Schiele


Passagens, Willy Corrêa de Oliveira
O ruído do facão, Vânia Paula dos Santos
Barbiele, Laura Matheus

próximos lançamentos:

Poemas, Rainer Maria Rilke


Cinco advertências sobre a voragem, Willy Corrêa de Oliveira
Histórias Bíblicas, Johann Peter Hebel
Educar: Para qual sociedade?, Giulio Girardi
Lulu, Frank Wedekind
Título original: Frühlings Erwachen
Tradução: Claudia Abeling
Revisão: Marcus Tulius Franco Morais
Alexandre Barbosa de Souza
Título original: Mine-Haha oder Über die körperliche Erziehung der jungen
Mädchen
Tradução: Marcus Tulius Franco Morais
Revisão: Alexandre Barbosa de Souza
Projeto gráfico e capa: Thais Vilanova & Paulo Vidal de Castro
Foto da capa: Latinstock

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip )


(Câmara Brasileira do Livro, sp , Brasil)

Wedekind, Frank, 1864–1918.


O despertar da primavera: uma tragédia infantil e Mine-Haha, ou, Sobre a educação
corporal das meninas / Frank Wedekind. – São Paulo: Luzes no Asfalto, 2009.
Título original: Frühlings Erwachen; Mine-Haha oder Über die körperliche Erziehung
der jungen Mädchen.
O despertar da primavera: uma tragédia infantil; tradução Claudia Abeling –
Mine-Haha, ou, Sobre a educação corporal das meninas; tradução Marcus Tulius
Morais Franco.
Bibliografia.
1. Romance alemão 2. Teatro alemão I. Título. II. Título: Mine-Haha. III. Título:
Sobre a educação corporal das meninas.
09-10499 c dd -833-832

Índices para catálogo sistemático:


1. Romances: Literatura alemã 833
2. Teatro: Literatura alemã 832
i s b n : 978-85-61530-03-7

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cep01307-001 São Paulo – sp
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título O despertar da primavera &
Mine-Haha
autor Frank Wedekind
tradução Claudia Abeling &
Marcus Tulius Franco Morais
revisão Alexandre Barbosa de Souza
Marcus Tulius Franco Morais
projeto gráfico Paulo Vidal de Castro &
Thais Vilanova
formato 14 × 21 cm
número de páginas 168
tiragem 1000

este livro foi composto em veljovic e ex ponto

e impresso pela gráfica hedra

em papel polen bold 90 g


para a kadyc editorial

em março de 2010