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Clase Nº 1 (Bibliografía

)
La presente bibliografía ha sido seleccionada por Plinio Arruda de Sampaio exclusivamente para ser adjuntada en el Programa Latinoamericano de Educación a Distancia en Ciencias Sociales (PLED), en la Clase 1: “Mundialización del Capital y crisis del desarrollo nacional” del curso: “Actualidad del pensamiento critico latinoamericano”, Septiembre de 2008. Av. Corrientes 1543 (C1042AAB), Ciudad de Buenos Aires, Argentina Informes: (54-11) 5077-8024 academica-pled@cculturalcoop.org

Cómo citar: Sampaio, Jr. PAS. – ‘’Entre a Nação e a Barbárie’’ – cap. 1, p. 17 a 34 [*]

®De los autores Todos los derechos reservados. Esta publicación puede ser reproducida gráficamente hasta 1.000 palabras, citando la fuente. No puede ser reproducida, ni en todo, ni en parte, registrada en, o transmitida por, un sistema de recuperación de información, en ninguna forma ni por ningún medio, sea mecánico, fotoquímico, electrónico, por fotocopiadora o cualquier otro, sin permiso previo escrito de la editorial y/o autor, autores, derechohabientes, según el caso. Edición electrónica para Campus Virtual CCC: PABLO BALCEDO

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<<Toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada.>>, J. Guimarães Rosa

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INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho é mostrar que as obras de Caio Prado, Florestan Fernandes e Celso Furtado nos fornecem

importantes elementos para o resgate do enfoque crítico sobre a problemática do desenvolvimento nacional nas economias de origem colonial que não conseguiram superar a posição

subalterna no sistema capitalista mundial. Expoentes de uma geração de intelectuais engajados na construção da nação, suas reflexões externas enfatizam e a necessidade que de superar as as relações do

internas

perpetuam

mazelas

subdesenvolvimento e que bloqueiam a capacidade da sociedade brasileira desígnios. permite submeter A a acumulação dessa capitalista aos seus nos do

recuperação novas

perspectiva para

analítica problemas

vislumbrar

soluções

desenvolvimento nacional que pareciam já equacionados, mas que foram repostosrecolocados pela transnacionalização do

capitalismo.1 O leitor não encontrará aqui uma exegese dos autores nem uma hermenêutica dos conceitos. o ângulo Nossa intenção de foi outra.

Procuramos

aproveitar

privilegiado

observação

. Quando ressaltamos o fato de que os três autores pertencem à mesma geração queremos destacar que suas visões de mundo foram condicionadas por problemas comuns - no caso, o dilema da construção da nação. A propósito ver K. Mannheim , O problema sociológico das gerações (1952), IN: ________ FORACCHI, M.M. (Org.) Mannheim, 1982, p. 67-95. Uma visão panorâmica do pensamento brasileiro sobre os dilemas da formação do Estado nacional pode ser encontrada em IANNI, O. A Idéia de Brasil moderno, 1992.

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4 propiciado pelos desdobramentos históricos e teóricos para, respeitando o espírito de suas abordagens, buscar novas

respostas para os dilemas das populações que sofrem as agruras do capitalismo dependente. Organizamos a problemática em torno das seguintes questões: quais as estruturas e as dinâmicas responsáveis pela perpetuação da dependência?; em que

circunstâncias, a situação de dependência é compatível com o processo de construção da nação?; quais as rupturas históricas indispensáveis frente ao para a da superação da dependência?; essa ruptura e se quando, torna

perigo

“barbárie”,

inadiável? Nossa leitura pretende reconstituir a cadeia de

causalidade que caracteriza a interpretação de cada um desses autores acerca das dificuldades enfrentadas pelas sociedades dependentes para controlar o seu destino.2 O principal desafio consiste em criar as condições necessárias para que o processo de acumulação de capital fique subordinado à vontade da

2

. Nossa leitura seguirá o critério de compreensão das doutrinas econômicas, proposto por Maurice Dobb, segundo o qual, “(...) a análise teórica, (...), tem inevitavelmente a sua história causal. Tipos diferentes de história causal podem ter implicações diversas no domínio daquilo que é possível realizar e alcançar por meio de política e ação social; ela é, por conseguinte, relevante, e até fundamental, para estabelecer alternativas viáveis - se, de fato, existe qualquer alternativa viável para a estrutura socioeconômica existente - e isto inteiramente dentro dos limites do raciocínio <<positivo>> e não-normativo”, DOBB, M., Teorias do Valor e da Distribuição desde Adam Smith, 1977, p. 45. Por esse motivo, adotaremos o critério de ordenação das idéias sugerido pelo autor:”(...) é possível caracterizar e classificar teorias econômicas, mesmo as mais abstratas, conforme o modo como descrevem a estrutura e raízes da sociedade econômica, conforme o significado desse modo de descrever para o julgamento histórico e a prática social contemporânea. Com efeito, proceder deste modo é parte essencial da interpretação intelectual das teorias em questão, e do seu lugar na história das idéias; e sem essa apreciação, algo essencial faltaria na nossa compreensão de teorias particulares, tratadas isoladamente e vistas exclusivamente em termos da sua estrutura lógica interna - e a fortiori na nossa compreensão do desenvolvimento do pensamento econômico”, Teorias do Valor..., 1977, p. 52.

55 sociedade nacional. Não se trata, portanto, de discutir

5 o

desenvolvimento capitalista em si mesmo, mas de apresentar os dilemas que o as sociedades capitalismo dependentes em enfrentam de para

transformar

instrumento

aumento

progressivo da eficiência econômica e de elevação sistemática do bem-estar social do conjunto da população. O objetivo

último é estabelecer uma espécie de portulano que nos permita delimitar o campo de discussão do desenvolvimento nacional nas economias que fazem parte da periferia do sistema capitalista mundial. Isto significa compreender a natureza contraditória dos nexos entre evolução do capitalismo e formação do Estado nacional, uma problemática que se desdobra em pelo menos três dimensões: (1) uma dimensão espacial, relacionada com os

determinantes das fronteiras de uma economia nacional; (2) uma dimensão social, de associada e à natureza dos vínculos e entre uma

acumulação

capital

desigualdades

sociais;

(3)

dimensão temporal, que diz respeito aos processos técnicos e culturais responsáveis pelas mudanças qualitativas que

caracterizam o desenvolvimento capitalista. Antes de almejar conclusões definitivas, queremos definir uma pauta de questões capaz de reabrir a discussão sobre os problemas das sociedades capitalistas dependentes de origem colonial.3

. A propósito cabe lembrar a advertência de Baran, em A Economia política do crescimento [1959], “(...)Sería deseable romper com la larga tradición de la economia académica de sacrificar la importancia del tema a la elegancia del método analítico; es mejor tratar en forma imperfecta de lo que es sustancial, que llegar al virtuosismo en el tratamiento de lo que no importa”, p. 39. A mesma idéia inspira a epígrafe de seu livro: “La ciencia social necesita menos uso de técnicas elaboradas y un mayor valor para enfrentarse a los problemas centrales en vez de esquivarlos. Pero exigir

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mas bloqueia a possibilidade de o circuito fechado do subdesenvolvimento ser rompido. Interpretando as tendências do capitalismo no Brasil. . reflexão Florestan Fernandes sobre a revolução burguesa atrasada nos permite entender por que a combinação de forças produtivas em diferentes idades históricas dá às economias dependentes uma certa estabilidade. 1959.La Economia . Além da complementariedade de suas abordagens sobre a problemática do desenvolvimento. s... sociais e esto. entre 1950 e 1980.A.p. os autores compartilham uma mesma visão sobre a gravidade do momento histórico. para sobreviver como projeto nacional.. seria desconocer las razones sociales que han hecho de esta ciencia lo que es”. Finalmente. P. a contradição entre capitalismo dependente e construção da nação transformou-se do em aberto antagonismo. a teoria do subdesenvolvimento de Celso Furtado é essencial para explicar progresso a irracionalidade técnico baseado do na movimento de incorporação dos padrões de de modernização consumo das elites dominantes. a sociedade brasileira não disporia de outra alternativa senão romper com as relações econômicas. .6 A teoria econômica de Caio Prado nos auxilia a tratar a particularidade elevadíssima recorrentes da incerteza estrutural responsável e A pelas pela suas de instabilidade crises de dessas economias reversão estrutural. teria A missão o civilizatória capitalismo dependente atingido limite de suas possibilidades e. os três pensadores chegam à dramática conclusão de que. BERNAL apud BARAN.

a exacerbação das rivalidades inter-regionais. na insistência de Florestan Fernandes no caráter anti-social. em antinacional bem “A como na e antidemocrático da burguesia de Celso que a eloqüente advertência de Construção Interrompida”. Furtado. Tais constatações são perfeitamente condizentes com o que se observa no dia-a-dia da sociedade. transnacionalização do capitalismo ameaça a própria unidade do Brasil como Estado nacional. pois saltam aos olhos as evidências de que estamos atravessando um período de progressiva desarticulação dos processos responsáveis pela formação de nossa nacionalidade. o desmantelamento do aparelho de Estado e a perda da identidade cultural? Rejeitando o conformismo de quem postula que as sociedades dependentes não têm outra escolha senão aceitar as tendências espontâneas do sistema capitalista mundial. e recusando o imobilismo de quem se nega a procurar alternativas que transcendam os marcos do status quo. A urgência de uma ruptura fica evidenciada na conclamação de Caio Prado a favor da “revolução brasileira”. Florestan Fernandes e Celso Furtado abrem novas . não é isto que nos revelam a desestruturação do sistema econômico nacional. a decomposição do tecido social. brasileira. as reflexões de Caio Prado.77 culturais sistema responsáveis capitalista tanto mundial por sua posição pela subalterna 7 no das como perpetuação assimetrias herdadas da sociedade colonial. Afinal. Para os três autores. a continuidade da dependência está levando o Brasil à barbárie.

é não querer profecias verdadeiras. isso se tenha por profecia. consultar de quem não se sacrificou. O contraste entre as previsões sombrias dos pensadores do Brasil e o otimismo dos acadêmicos que vendem a ilusão de que o Brasil está ascendendo ao “primeiro mundo” nos faz lembrar o conselho do Padre Viera: “Se quereis profetizar os futuros. ficará claro que nosso destino não pode continuar nas mãos de classes dominantes aculturadas. nem se há de sacrificar. Por enquanto. uma pretensão descompassada com as necessidades do conjunto da população e com as possibilidades de uma economia dependente.8 possibilidades para o desenvolvimento das nações emergentes. o coro a favor da modernização a qualquer custo impede que a razão de nossos grandes intelectuais e as contundentes advertências de nosso cotidiano sejam ouvidas. *** . Mas. e querer cegar o presente e não acertar o futuro”. nem se sacrifica. Porém. Diante da discussão que circunscreve as opções de nossa sociedade à escolha binária entre o modernismo acelerado dos neoliberais e a nostalgia de um nacional desenvolvimentismo extemporâneo. consultai as entranhas dos homens sacrificados: consultem-se as entranhas dos que se sacrificaram e dos que se sacrificam. e o que elas disserem. cujo único projeto é viver à semelhança dos países desenvolvidos. elas representam alternativas criativas. um dia.

99 9 No Capítulo 1. Introduziremos então as particularidades das abordagens de Caio Prado. Daremos destaque às relações de causa e efeito que caracterizam suas explicações sobre as estruturas e as dinâmicas responsáveis pela continuidade do círculo vicioso do subdesenvolvimento. . faremos uma breve introdução à problemática do desenvolvimento capitalista nacional e à especificidade das dificuldades com que se defrontam as sociedades dependentes. Capítulo 2. Nossa leitura está centrada fundamentalmente na reflexão sistematizada em História e Desenvolvimento [1968]e Esboço dos Fundamentos da Teoria Econômica [1957]. No Capítulo 3. examinaremos a crise do desenvolvimento nacional decorrente da transnacionalização do capitalismo. Nos três capítulos seguintes examinaremos o modo como cada autor trata a problemática do desenvolvimento capitalista dependente. e a crise da teoria do desenvolvimento nacional. provocada pela negação Cepal. No Capítulo 4. Veremos então suas interpretações sobre a particularidade do marco histórico que propiciou o movimento de industrialização para substituição de importações na América Latina. Florestan Fernandes e Celso Furtado e procuraremos mostrar a complementaridade de seus enfoques. dos Nosso do supostos objetivo fundamentais é da economia política os da pôrcolocar em evidência e a novos de No desafios desenvolvimento analíticos nacional para carência instrumentos adequados enfrentá-los. estudaremos o modo como Caio Prado vê o substrato social das economias coloniais em transição.

atribui à analisaremos revolução o papel como Furtado cultural ponto de partida de uma ruptura com um passado indesejado que se projeta no presente e asfixia o futuro. em última instância. em que o autor consolida sua interpretação sobre as dificuldades da revolução burguesa atrasada na era do imperialismo. analisaremos a visão de Celso Furtado sobre as bases técnicas do subdesenvolvimento. que e. Introduziremos. organizaremos a discussão sobre o destino do capitalismo Veremos por dependente que estes e os desafios para sua a superação. Por fim. sociedade autores o acreditam fio da que dependente caminha sobre navalha. Tomamos como ponto básico de referência a reflexão exposta em O Mito do Desenvolvimento Econômico [1974]. Neste livro o autor consolida sua visão de que os problemas do subdesenvolvimento derivam. examinaremos a visão de Florestan Fernandes sobre os atores sociais capazes de levar às últimas conseqüências a revolução democrática e a revolução estratégico nacional. No Capítulo 5.10 examinaremos compreensão dependente. as transformações que caracterizam a revolução fundadora do Estado nacional de Caio Prado. da persistência do colonialismo cultural. . a das contribuição bases de Florestan e Fernandes do no para a sociais políticas capitalismo pensamento Apoiamo-nos fundamentalmente articulado em A Revolução Burguesa [1976]. equilibrando-se entre a Nação e a barbárie. então. na Conclusão. finalmente.

BARAN. A desarticulação das premissas históricas do regime central de acumulação é discutida por BERTRAND.Capitalismo monopolista. H. n. H.. .A Era do imperialismo. T. GALBRAITH nos fornece uma excelente descrição do funcionamento do regime central de acumulação em The New industrial State. A raiz dos problemas prende-se ao fato de que. E.. F. 7/8. 1978..CAPÍTULO 1 TRANSNACIONALIZAÇÃO DO CAPITALISMO E DILEMAS DO DESENVOLVIMENTO NACIONAL <<A liberdade é o domínio de nós mesmos e da natureza. MAGDOFF.The Climax of capitalism. AGLIETTA. a transnacionalização do capitalismo desarticulou as bases do regime central de acumulação e o particular equilíbrio de forças que assegurava a estabilidade da ordem internacional montada em Bretton Woods.. P. 1 . M. MANDEL. 1990. 1979.Regulación y crisis del capitalismo.M. em Le Regime central d’accumulation de l’aprèsguerre et la crise. 1980. A e SWEEZY. . H. 1978. 1979. Sobre o padrão de desenvolvimento do pós-guerra ver ainda.Trabalho e capital monopolista. Critique de l’économie politique. 1978. ao redefinir as fronteiras de tempo e espaço. 1967. baseado na consciência das necessidades>>. BRAVERMAN. Engels 1.Late Capitalism.1 O fim do ciclo de difusão da Segunda Revolução Industrial rompeu os parâmetros técnicos e econômicos que durante o pósguerra haviam sustentado as dinâmicas virtuosas responsáveis . A Crise do Desenvolvimento Nacional A exaustão do ciclo expansivo responsável pelo elevado dinamismo econômico do pós-guerra e a emergência de novas formas de transformação capitalista evidenciam a necessidade de se repensar o desenvolvimento nacional. P. KEMP. John K.

A propósito ver..3 O salto qualitativo na produtividade do trabalho transformou a usurpação de posições estabelecidas O em forma dominante da concorrência tecnológico e intercapitalista. COUTINHO. Praga Revista de Estudos Marxistas. 1995. 1996.. 1992. 5 e 6.. A. MADDISON.A desordem do trabalho. M.os aumentos sistemáticos de salário real e a progressiva expansão dos serviços públicos. particularmente nos complexos metal-mecânico e químico.Trabalhadores do mundo do final do século..Dynamic forces in capitalist development. e SABEL. 1991. em última análise. Economia e Sociedade. A emergência de um novo paradigma tecnológico e organizacional é uma resposta do capitalismo contemporâneo aos limites técnicos e econômicos enfrentados pelo movimento de integração dos mercados das economias desenvolvidas que impulsionou a fase final de difusão da Segunda Revolução Industrial. A exaustão do processo de difusão de progresso técnico fica caracterizada. C. L. que constituíam os carros-chefes de expansão das forças produtivas.F. financeiro da conteúdo fez eminentemente com que a concorrência introdução de inovações e a capacidade de mobilizar grandes volumes de recursos financeiros se tornassem as principais armas de controle dos mercados4 Foram estes.Métamorphoses du travail: Quête du sens. A.O Fim dos Empregos.2 e A substancial trabalho-morto efetivo da diminuição no na proporção produtivo trabalho-vivo o processo operária. J. J. 3 .The Second industrial divide – possibilities for prosperity. 69-88. Uma atualizada discussão sobre os efeitos das transformações tecnológicas no mundo do trabalho pode ser encontrada em GORZ. pela redução generalizada da produtividade industrial. PIORE. 1995. ARRIGHI. . no final dos anos sessenta e início dos setenta. G.1.A terceira revolução industrial e tecnológica.J. p. 1994.. N.12 pelo progressivo aumento dos salários reais e pela expansão do Estado de bem-estar de social. MATTOSO. os fenômenos responsáveis pelo aparecimento de desemprego estrutural e pelos processos desestruturantes que afetaram os 2 . As novas frentes de acumulação concentramse fundamentalmente nos setores de telecomunicações e informações. cap.. 1991.1. enfraqueceu poder classe desarticulando um dos principais mecanismos responsáveis pelo elevado crescimento e relativa estabilidade das economias industrializadas no pós-guerra . RIFKIN. n.

5 A integração do sistema financeiro internacional levou ao paroxismo a liberdade de movimento de capitais.1313 13 sistemas produtivos incapazes de acompanhar o novo ciclo de incorporação de progresso técnico. MICHALET.. Robert Reich tira as conseqüências do processo de transnacionalização do capitalismo para a economia dos Estados Unidos em The Work of Nations. que tendia a ultrapassar os limites das fronteiras dos Estados nacionais.The Revolt of the elites.Le Capitalisme mondial. 6. generalizando. . ele considera que o capital só pode ser considerado como um instrumento a serviço da nação quando a sociedade for capaz de: (a) evitar a dualização social. (c) manter um aparelho estatal capaz de subordinar o processo de acumulação aos desígnios da sociedade. um problema que a até então se de restringia países subdesenvolvidos: incapacidade circunscrever o circuito de valorização do capital ao espaço econômico nacional. ESTÉVEZ. Hostile brothers . LICHTENSZTEJN. a a crise do sistema das monetário economias internacional nacionais às intensificou vulnerabilidade 4 . defendendo a integração do conjunto da população no mercado de trabalho. Para Robert Reich. et al. (b) ter a primazia no que diz respeito à eficiência da força de trabalho e à qualidade da infra-estrutura econômica: e. 5 . J. C.La Technologie et l’économie. 1981. 1992.. 1981.La mondialisation du capital..6 Por fim. 1990. para as economias aos centrais. 1995. Uma crítica desta abordagem encontra-se em LASCH.Nueva fase del capital financiero. o que é condicionado pela magnitude e pela qualidade de seu mercado interno. S. Ver OECD . e CHESNAIS. A. 1992. assim como pela competitividade internacional de seu sistema produtivo. CAWSON. C. Os aumentos nas escalas mínimas de produção fizeram com que os novos processos produtivos exigissem um espaço econômico de referência mais amplo... de seu ponto de vista.). 1995. os principais responsáveis pela capacidade de cada espaço socioeconômico intensificar a densidade relativa de seu mercado interno e de aumentar a competitividade dinâmica de sua economia. o vínculo do capital com a sociedade nacional depende da importância relativa do espaço econômico nacional na concorrência intercapitalista em escala mundial. (Ed. São estes. F. Sobre as características do novo ciclo de internacionalização do capital ver. A extrema mobilidade do capital internacional comprometeu o controle das sociedades nacionais sobre as empresas transnacionais.. Por isso.. A.

G.8 A ampla disponibilidade de crédito internacional incitou os Estados nacionais a aumentar indiscriminadamente o endividamento externo.P.M.4. panics and crashes. ao implicar forte elevação na mobilidade dos capitais. . KINDLEBERGER. (b) o aparecimento de uma 7 . Donde as três particularidades monetário que caracterizam o (a) funcionamento sua do sistema internacional: extrema vulnerabilidade a crises sistêmicas. da Comunidade Econômica Européia e do Japão no processo de integração dos mercados solapa as bases materiais da hegemonia econômica norte-americana. em detrimento de ajustes reais. . L. . Como mostra a história financeira internacional. 1978. Uma análise detalhada da crise do regime monetário internacional a partir de 1971-1973 é feita por AGLIETTA. . 1977.7 criação de a de A emergência de privados ativos das dos financeiros autoridades capitais. Economia e Sociedade. A origem das dificuldades decorre do fato de que a assimetria na forma de participação dos Estados Unidos. monetárias.14 vicissitudes mecanismos do capital de internacional. F. As tendências mais recentes são sistematizadas em BELLUZZO. aumentam ainda mais a crise de confiança no sistema de relações monetárias internacionais. livres controles volatilidade potencializou reforçando a instabilidade do sistema monetário e financeiro internacional.Manias. A propósito consultar BLOCK.El Fin de las divisas claves. M. O declínio de Bretton Woods e a emergência dos mercados “globalizados”. capitais A falta a de controle dos sobre os movimentos nacionais de de solapou capacidade Estados determinar o valor da moeda. 11-20 1995. p. 8 .9 Isto permitiu aos Estados Unidos impor ao resto do mundo o ônus de financiar seu crescimento econômico e estimulou o sobreendividamento externo dos países da periferia..The Origins of international economic disorder. 1982. o que provocou uma crescente diferenciação entre países credores e devedores. C. dos juros e do câmbio. n. internacionais. Os processos de liberalização e desregulamentação dos sistemas financeiros nacionais e o desenvolvimento de inovações destinadas a minimizar os riscos macroeconômicos dos agentes financeiros. 9 . as crises de sobreendividamento externo tendem a polarizar-se em violentas oposições de interesses.

o cerne do problema está na dificuldade de harmonizar o caráter predatório da concorrência com a capacidade da sociedade nacional de preservar a coerência de seus sistemas produtivos orgânica e a reprodução as classes de mecanismos No de solidariedade entre sociais. a questão central é que a disputa pelo monopólio das novas tecnologias e pelo controle dos mercados mundiais acirrou as rivalidades entre Estados nacionais. Obrigados a concorrer . Tudo isto é agravado pelo fato de de que a das ausência políticas de mecanismos dos supranacionais coordenação econômicas países centrais reduziu o ritmo do processo de acumulação em escala mundial. No plano econômico. exacerbando as pressões para a defesa da estabilidade das moedas nacionais. os que impulsionaram centrais nefastas a têm deste que transnacionalização procurado processo. Sem questionar os do as mão mecanismos capital. plano político. e (c) a impossibilidade de conciliar a progressiva liberdade de movimento de capital com a autonomia da política econômica dos Estados nacionais. o iene e o marco alemão.1515 forte tendência ao fracionamento das relações 15 econômicas internacionais em torno de três áreas monetárias: o dólar. amenizar lançando países mais conseqüências de políticas neomercantilistas acirram o estado de “guerra econômica”. Ao intensificar a concentração e a centralização de capitais. o desenvolvimento desigual do sistema capitalista mundial provocou deslocamentos no poder econômico e político que tenderam a minar as bases do Estado nacional burguês.

O resultado mais conspícuo deste processo é a formação de três grandes blocos econômicos – o Nafta. 1994. P. liderado pelos Estados Unidos.11 Contudo. SWEEZY. Não é de estranhar que para a lógica as de do “salve-se do da quem puder” tenha Ao as contribuído debilitar a minar bases controle Estado nacional. n. e a Bacia Asiática. que se organiza em torno da economia alemã. sobre capacidade sociedade forças do mercado. melhorar a qualidade da infra-estrutura econômica e ampliar a dimensão de seus respectivos espaços econômicos. 11 . a União Européia. os Estados nacionais desencadearam uma corrida para transformar o espaço econômico ao qual se vinculam em base estratégica da concorrência intercapitalista em escala mundial. o novo padrão de transformação capitalista desarticulou as premissas econômicas e políticas que haviam possibilitado o funcionamento de sistemas econômicos nacionais . The triumph of financial capital. ao mesmo tempo..The Political economy of international relations. R. . 10 . o esforço para suplantar as vantagens concedidas pelas regiões concorrentes constitui uma verdadeira tarefa de Sísifo. como é um contra-senso imaginar que todas as economias possam ser consideradas. áreas prioritárias de interesse do capital internacional.10 Daí o incessante esforço para aumentar a produtividade da força de trabalho. para preservar a estabilidade da moeda e para defender o emprego industrial.2. que tem o Japão como pólo de aglutinação. Monthly Review.16 para atrair investimentos produtivos. 1987. Ver GILPIN.

CAMILLERI. O. 14 . as tendências que estão provocando o estilhaçamento da nação manifestaram-se com força redobrada nas regiões periféricas. p. 1996..e este é seu traço fundamental . B. .C. n. 1995. n. LAIDI. Ver também. 85-120..A Sociedade global. CHESNAIS. A desigualdade mundial na distribuição da renda e o futuro do socialismo.15 O novo marco histórico reduziu dramaticamente . 1992. . 2558. 1992. . Z. ampliando o hiato entre desenvolvidos e subdesenvolvidos.12 É neste contexto que surgem pressões para uma completa remodelação do mundo do trabalho. J. 1993.O Mundo depois da queda. REDFERN. M. R.5. 1992. . G. G. A globalização e o curso do capitalismo de fim-de-século. ver CHESNAIS. ARRIGHI.The End of sovereignty?. 1992. Economia e Sociedade. . Um resumo da discussão recente sobre o impacto do novo padrão de transformação capitalista sobre o Estado nacional pode ser encontrado em IANNI. J. (Org. In SADER. E.A. Economia e Sociedade. p. F..1717 17 relativamente autônomos. o desenvolvimento desigual do capitalismo voltou a promover uma brutal concentração espacial do progresso técnico.L’ordre mondial relâché.o grau de liberdade das economias 12 .13 Se as sociedades que fazem parte do centro capitalista revelaram ter alguma capacidade para atenuar os efeitos mais destrutivos da transnacionalização do capital sobre suas sociedades (reforçando a escala de suas economias e o alcance de suas estruturas estatais).O Longo século XX. P. 13 .Changing forms and functions of the State in an era of globalization and regionalization. . Present international patterns of foreign direct . KURZ. bem como a força arrebatadora da ideologia neoliberal e dos processos socioculturais que abalam a própria noção de identidade nacional.) . FALK.. 1995. DESSAI.14 Encerrado o ciclo de convergência tecnológica que caracterizou a difusão espacial da Segunda Revolução Industrial. Para uma interessante discussão sobre as características do padrão de acumulação emergente. A financeirização da riqueza. a crise do Estado de bem-estar social.) . 1992. ARRIGHI. 15 .O Colapso da modernidade. p. e BRAGA. JESSOP. (Org. F. 1995. 1-30. J..Global governance.2.

O padrão de internacionalização de capital do pós-guerra foi sistematizado por HYMER.18 dependentes de origem colonial. controlar empresas transnacionais das industrialização economias periféricas. S.. O objetivo destas empresas. Nesse não é contexto. A perda de controle sobre os movimentos de capitais tornou ainda mais fluídos os vínculos das empresas transnacionais com os espaços econômicos nacionais. para impulsionar o processo de consolidação de seus Estados nacionais. v. In: SEMINÁRIO A INSERÇÃO INTERNACIONAL DO BRASIL NOS ANOS 90. Por isso as transnacionais já não querem investment .16 Na era da mundialização do capital estamos assistindo a um fenômeno muito diferente: trata-se de quebrar as barreiras entre os diferentes o o objetivo processo espaços das de econômicos nacionais. 2. 1990. Por isso.. era evitar que as unidades produtivas deslocadas para a periferia sofressem a concorrência de produtos importados. 16 . . então. A situação é bem diferente da fase final de difusão do fordismo.The International operations of national . para poder explorar suas potencialidades econômicas sem que isso implique sacrifício de sua própria mobilidade espacial. mas diluir as economias dependentes no espaço do mercado global. e o ciclo de reprodução ampliada do capital produtivo tendia a circunscrever-se ao espaço econômico nacional. o processo produtivo operava sob marcos institucionais rigidamente demarcados. A política de conquista de mercados internos periféricos levava o capital internacional a exigir um espaço econômico bem delimitado. no pós-guerra. ainda que o horizonte de valorização fosse transnacional.

Revista de la Cepal.. mas 19 espaços mercantís com fronteiras permeáveis.18 A após o adversidade colapso da do contexto histórico e a foi crise intensificada do movimento União Soviética socialista. HOLLOWAY. 15-36. 1995. Espera. W. 1974. 1992. L. Não estamos mais na época da Aliança para o Progresso. 1995.Global capital. pois assim têm as grandes aos os grandes oligopólios e de internacionais acesso segmentos produtivos serviços capazes de oferecer boas oportunidades de negócios. .. M. ampla liberdade de ação para aproveitar as potencialidades de cada região como reservas de matéria-prima e como plataformas de exportação de mercadorias que requerem mão-de-obra barata.51.1919 fronteiras econômicas rigidamente definidas.La mondialisation .. 1967. a eliminação de qualquer tipo de reserva de mercado ao capital nacional. COUTINHO. n. Idem . também. T.17 O capital internacional pleiteia livre acesso às economias periféricas. p.Intégration des pays en dévelopement dans le système commercial internacional. pois assim pode decidir – em função de suas estratégias de valorização da riqueza em escala mundial – se seus mercados serão explorados mediante produtos importados ou mediante produção local.The internationalization of oligopoly capital. as nações hegemônicas passaram a exigir que os países dependentes se adaptassem incondicionalmente às suas exigências. eventos que diminuiram dramaticamente o poder de barganha das economias periféricas na ordem internacional. 17 . BONEFELD.) .. ainda. 1993. Investissement direct international.. 1992. O capital internacional espera. 1992.. (Ed. F.. Ver também. quando a firms. Idem. 18 .. Idem Promouvoir . .La technologie . national state and the politics of money. CHESNAIS. OCDE . Las transnacionales y la industria en los países en desarrollo. MORTIMORE. Sem o “fantasma comunista” para intimidá-las.

.S. na economia Cabem-lhes. NAÇÕES UNIDAS Relatório da Comissão Brutland sobre a situação do meio ambiente. International Money and the Real World. OECD. horizonte o de desenvolvimento possibilidades basicamente. 1993. agora. aceitando o triste e paradoxal papel de pulmão e lixo da civilização ocidental. DAVIDSON. 1965. C. 19. A Estratégia americana.Padrão de reciclagem da dívida externa e política econômica no Brasil. E. ROSTOW. 1988. coibir o êxodo de correntes nos países regiões migratórias centrais. ver: SAMPAIO JR. P.19 Na lógica da ordem internacional fica hoje do emergente. 19 .A. 1995. altamente e que possam o gerar instabilidade produzido aliviar estresse no pelas industrializadas ecosistema mundial. o três mundial: franquear espaço econômico à penetração do capital internacional. .W. . nações emergentes ficam sujeitas a processos de reversão neocolonial l’investissement direct étranger dans les pays en dévelopement. cap. cap. 2. P. Sobre o que a comunidade internacional espera das economias dependentes.El cambio en las políticas económicas de América Latina. 20 . 1991.A Era dos Extremos. 1992. do apoio era e de tida as como um antídoto potências dependentes revolução grandes capitalistas precisavam burguesias relativamente fortes e articuladas em escala nacional. . HOBSBAWN. nacional dos países funções excluído periféricos. . Paris.W.20 A incompatibilidade entre a natureza predatória dos conflitos que regem a reorganização da ordem internacional e a existência de uma ética de solidariedade baseada no princípio da autodeterminação dos povos e na cooperação internacional revela o que as sociedades do periféricas podem à esperar fúria as da da transnacionalização globalização e ao capitalismo.20 industrialização contra a subdesenvolvida socialista.Intégration régionale et pays en dévelopment. 1993: OMAN. dos Expostas arbítrio países ricos. WILLIAMSON. J. 1987.

D. ora a gerar as regiões megasuperávits comerciais. p. 1989. 22 .. de capitalistas qualificação que não Daí a exige de estão requisitos mão-de-obra inscritos em de e no dar infra-estrutura escalas movimento mínimas produção da anterior economia.. Sobre os pré-requisitos técnicos e econômicos para a absorção do novo padrão tecnológico.1. 1993. viabilizar a absorção de . 1992..El comportamiento de los bancos transnacionales y la crisis internacional de endeudamiento. 69-88.. 1992. destinados a pagar o serviço da dívida externa. n.. B. . SALM. 111-134. WOMACK. . J. Modernização industrial e a questão dos recursos humanos. A centrais concentração reforça seja o a de progresso técnico tecnológica na nas das economias regiões do seu dependência os de periféricas.2121 21 que desarticulam seus centros internos de decisão e quebram a espinha dorsal do sistema econômico nacional.Made in France. DEVLIN. 21 . p. FOGAÇA.La evolución del problema de la deuda externa en América Latina y el Caribe.1. R. consultar. COUTINHO. et al.22 À mercê das vicissitudes periféricas das viram-se finanças forçadas. ora a produzir megadéficits comerciais para. Economia e Sociedade. n. Economia e Sociedade. dificuldade continuidade ao processo de constituição de forças produtivas que funcionem como um todo orgânico. Sobre a estratégia dos bancos credores internacionais nas economias dependentes. TADDEI. mediante a compra maciça de produtos estrangeiros. . A. trabalho porque grau saltos produtividade relativa de aumentam obsoletização parques produtivos.21 A integração do mercado financeiro internacional reforçou a dependência financeira das economias satélites. seja porque a assimilação das estruturas difundidas pelos centros econômica.. 1990. Para uma breve discussão sobre as características do padrão tecnológico emergente.C. ver CORIAT..The Machine that changed the world. L. C. 1988. A terceira revolução . ver CEPAL . internacionais.

DRAGEL. na fase atual do processo de desenvolvimento capitalista.22 empréstimos internacionais.24 Deixadas ao livre jogo das forças de mercado.M. as forças de mercado que estão redefinindo a divisão social do trabalho vêm restringindo as indústrias das economias dependentes nos no quais aos é setores de baixo obter às conteúdo vantagens custas da tecnológico. 1994.. J.7. Economia e Sociedade.Changement technique e division internationale du travail. p. 1997. Economia e Sociedade.. a hegemonia ao da ideologia neoliberal as levou a dependência periféricas cultural paroxismo. S. J. Por fim. 1986. n. .25 Portanto. G. E. as a vontade sociedades política como meio de sem periféricas ficaram instrumento para negociar os termos de sua inserção no sistema capitalista mundial. The stratification of the world economy . n. 24 .. o papel do mercado interno como centro dinâmico da economia.P. 1994. 1990.L.. tornando ao sociedades de particularmente vulneráveis processo mercantilização difundido pelo novo padrão de desenvolvimento capitalista. H. KREGEL. . assim. e para preservar as premissas mais elementares de um Estado nacional. .A. comparativas ainda possível comércio internacional superexploração da força de trabalho e da degradação do meio ambiente. 1996. p.4. What international payment scheme would Keynes have suggested for the twenty-first century? In: SEMINÁRIO A INSERÇÃO INTERNACIONAL NO BRASIL NOS ANOS 90. n. ARRIGHI. 25 . possibilidade as de economias fuga periféricas a frente já não contam com a do para pela aceleração . MINSKY. A propósito ver debate proposto por FIORI. 29-50. 21-36. Review. 1993. MOHOUD. Riscos e implicações da globalização financeira para a autonomia de políticas nacionais. P. Compromete-se. DAVIDSON. Integração financeira e política monetária.23 construção da Negando nação. J. AMIN. 23 .3..La déconnexion.A governabilidade democrática na nova ordem econômica.

ancorada no Estado e impulsionada particularmente pelo capital às internacional. A valorização da riqueza desvinculada de avanços nas bases técnicas e financeiras do capital havia gerado um sistema produtivo que operava com baixos índices de produtividade. S. novas tendências revelou-se do sistema vulnerável capitalista mundial.27 A mudança no contexto internacional desarticulou os processos que haviam permitido a várias economias da América Latina sair de sua condição primário-exportadora e avançar na formação de uma base produtiva voltada para o atendimento de um mercado interno para nacionalmente substituição de articulado. Estudos Avançados.Quinhentos anos de Periferia. Globalização das estruturas econômicas e identidade nacional. a contradição entre dependência e desenvolvimento nacional torna-se aguda e ameaça transformarse em antagonismo aberto. A respeito.. Ao comprometer os mecanismos de transferência dos aumentos de produtividade para os salários. . A que industrialização avançava pela linha de menor resistência. a incapacidade de absorver a superpopulação excedente marginalizada acabou criando uma série de bloqueios à ampliação da capacidade de 26 . importações.estratégia que abria espaço para que se avançasse no processo de construção das bases materiais. políticas e culturais de um Estado nacional burguês. sociais. 1998 . O impacto da ordem econômica internacional sobre as economias periféricas é discutido em GUIMARÃES. elevados níveis de proteção e ínfimo grau de concorrência.16. C. n. 1992. ver FURTADO. 27 .2323 23 crescimento econômico .26 Sem possibilidade de controlar nem os fins nem os meios do processo de acumulação.P.

Para uma interessante discussão sobre a crise do Estado. J.C.28 No Brasil. 28 .A crise do Estado desenvolvimentista no Brasil. 29 . consultar FIORI. Interrompeu-se assim um longo ciclo de expansão das forças produtivas. Estudo da competitividade da indústria brasileira. de obsolescência das forças produtivas. tornou-se patente nos anos oitenta com o colapso do mercado internacional de crédito. FERRAZ. cristalizando assim a extrema heterogeneidade entre o mercado interno e o externo . Um completo balanço da situação da indústria brasileira encontra-se em COUTINHO. L. internalizado as estruturas fundamentais da Segunda Revolução Industrial e cristalizado as bases do Estado nacional burguês. 1994. de enfraquecimento da estrutura de capital das empresas nacionais e de desmantelamento do Estado desenvolvimentista.L..29 Sem condições de enfrentar os desafios da concorrência brasileira internacional.uma das características clássicas do subdesenvolvimento. A exaustão do movimento de substituição de importações deu início a um período de estagnação da renda per capita. iniciado na década de trinta. J. fica ameaçada e a o sobrevivência Estado da indústria torna-se brasileiro . a ausência de um sistema nacional de ciência e tecnologia e a inexistência de um padrão de financiamento autônomo não comprometeram a expansão das forças produtivas porque o capital internacional estava diretamente envolvido no processo de industrialização. . durante o qual a economia brasileira havia ampliado seu mercado interno. cujos primeiros sintomas começaram a aparecer na primeira metade da década de setenta. O atraso nas relações sociais não representou um empecilho ao desenvolvimento das forças produtivas porque o mercado interno era suficientemente amplo para viabilizar a assimilação das tecnologias amortizadas da Segunda Revolução Industrial e porque as exigências de qualificação da força de trabalho eram mínimas. No período do pós-guerra.24 consumo da sociedade.C. a crise do processo de industrialização.). 1986. (Org.

31 . 121-128. a subordinação da política econômica ao esquema convencional de reciclagem da dívida externa transformou a transferência de recursos reais ao exterior no principal eixo da intervenção do Estado na economia.32 Nesse período. 1989.I. L. C.Redéfinir L’État en Amérique Latine. 1988.) . Enriquecimento e Produção. 1994.Mobiliser les Investissements Internationaux pour L’amerique Latine.31 Até o início da década dos noventa. 1992. . Novos Estudos Cebrap. ao longo de toda a década dos oitenta. Idem .E. n. a diversificação do risco de suas aplicações e o fortalecimento de sua base 30 . São tais processos os principais responsáveis pela crise do padrão monetário brasileiro.G.2525 25 sujeito a processos de reversão neocolonial. para evitar uma violenta crise de . J. e PANORAMA SOCIAL DE AMÉRICA LATINA. N. Sobre o novo papel das economias latino-americanas na economia mundial. 32 ..Idem . 1993. (Org.. O padrão de reciclagem da dívida externa foi armado para viabilizar a gradativa diminuição da carteira dos bancos privados nos países devedores.S. Sobre os custos sociais do ajustamento das economias latinoamericanas.Options Stratégiques pour L’amerique Latine dans les Années 90. ver BRADFORD JR. p. O desempenho das economias latino-americanas na década de oitenta é sistematizado em CEPAL .Deuda externa y empleo (América Latina.. cujo sintoma mais conspícuo foi a dificuldade de debelar a aceleração da inflação. 1980-1986). 1981. bem como pelo apoio incondicional dado ao movimento do grande capital de fuga para a liquidez e de busca de mercados externos - (expedientes utilizados pelas grandes empresas para mitigar as incertezas provocadas pela exaustão do padrão de acumulação). que colocam em risco a própria continuidade da construção nacional. BELLUZZO. Interessante análise das raízes estruturais do processo inflacionário que acometeu as economias dependentes que mais haviam avançado na construção de um sistema econômico nacional encontra-se em ALMEIDA.El desarrollo de América Latina en los años ochenta.M. ver GARCIA.G. 1997.23.30 O impacto das novas tendências do sistema capitalista mundial sobre o Brasil foi sobredeterminado pela submissão da política econômica às pressões dos credores internacionais para que o país reciclasse a dívida externa.

1991. 4. A hipótese aqui desenvolvida é a de que foi a ação do Estado que evitou que a fuga generalizada para a liquidez provocasse uma violenta crise de liquidação de ativos produtivos.. 1997. a renegociação da dívida externa não significou a superação do estrangulamento contrapartida cambial um e o da ajuste privado não teve como da aumento competitividade dinâmica economia brasileira. O predomínio dos interesses dos grandes grupos econômicos acarretou forte assimetria na distribuição dos sacrifícios impostos pela crise do padrão de industrialização. 183-238. São Paulo em Perspectiva. L. Por isso. Novos Estudos Cebrap. ALMEIDA.. Na segunda metade da década.A..33 Contudo. 69-100. A empresa lider na economia brasileira. 1985. Recessão. Conciliar os compromissos assumidos com os credores .26 desvalorização de ativos produtivos.. 8.F. A propósito ver. 33 . p. E. v. 1989. P.. J. n. Política social e pactos conservadores no Brasil: 1964-1992. o Estado brasileiro não foi capaz de articular um plano de reorganização produtiva.L.1. e para adotando e para às recessão aberta prolongada uma resistindo pressões externas rápida liberalização da economia. A ausência de medidas compensatórias para amparar a população atingida pelo desemprego e pela aceleração dos preços.34 Esta estratégia de política econômica de capital. P. o crescente risco de que os grandes detentores de riqueza financeira fugissem concentradamente para ativos reais e para moeda estrangeira colocou a política econômica integralmente a reboque dos movimentos especulativos do mercado financeiro e dos grandes grupos exportadores. J. SAMPAIO JR. Auge e declínio da estratégia cooperativa de reciclagem da dívida externa. foram tomadas medidas destinadas a contrabalançar os efeitos da contração do mercado interno sobre a contabilidade das empresas.S.S. estatização da dívida externa e defesa artificial da rentabilidade corrente do grande capital industrial. DEVLIN. tais como estímulos às exportações. 34 . Para tanto. Estudios Cieplan. n. Ver. n..G. as autoridades econômicas sustentaram empresas medidas e artificialmente o valor evitar fortes contábil uma a de rentabilidade seus corrente das patrimônios. BRANDÃO.. pobreza e família – a década pior do que perdida. R. Economia e Sociedade. a política deliberada de arrocho salarial e o colapso da infra-estrutura de serviço público provocaram significativo aumento na exclusão social. 100-109. NOVAIS. tal estratégia se traduziu em medidas que procuravam compatibilizar a geração de megasuperávits comerciais com a preservação de um patamar de demanda efetiva suficiente para evitar crises abertas de liquidação. Na primeira metade dos anos oitenta. 17. n. La deuda externa vs. A.. el desarrollo económico: America Latina en la encrucijada. p. Para um balanço da política social do governo brasileiro ver FAGNANI. 118-135. GOTTSHALK. premido pela urgência em administrar a extrema instabilidade da economia. 1990.25. p.

.35 Mais do que isso: ao preservar os vínculos financeiros dos credores externos com os mutuários internos.A. BOMTEMPO. 35 . assumindo a forma ora de “choques” – destinados a controlar diretamente os preços e desindexar os contratos da economia. E.. quando o processo inflacionário ameaçava fugir completamente de qualquer controle –. 1988. o crescimento acelerado da dívida pública e o progressivo encurtamento do perfil de vencimento dos títulos públicos evidenciavam que a crise dos padrões de financiamento externo e interno havia internacionais com a preservação da confiança na moeda nacional tornou-se. .S. . cap. após a liberação dos preços. G. IN BATISTA JR. 36 . P.C Transferências de recursos ao exterior e substituição de dívida externa por dívida interna. particularmente com as unidades de gasto do setor público. SAMPAIO JR. pois.C.N.2727 27 tinha folêgo limitado. a aceleração inflacionaria voltava a ganhar ímpeto. Sem raio de manobra para arbitrar o nível das taxas de juros e as condições de liquidez dos ativos financeiros. A política econômica da primeira metade dos anos oitenta está sistematizada em SAMPAIO JR.Setor público nos anos oitenta: desequilíbrios e ruptura do padrão de financiamento. a estratégia de reciclagem a da dívida da da externa reforçou financeira econômica extraordinariamente internacional brasileira. ora de uma política de “coordenação” dos aumentos de preços e reindexação da economia. 1988.. 1990. P. além de agravar o atraso relativo do parque produtivo. A impossibilidade de alcançar simultaneamente essas duas metas levou à adoção de um padrão de gestão econômica que combinava a suspensão temporária dos pagamentos aos credores internacionais com a administração ad hoc da tendência à aceleração inflacionaria.. .S.Padrão de reciclagem . 3 a 7. 1988. assim. Dívida externa: por que nossos governos não enfrentam os bancos internacionais? Revista Nossa América..36 sobre influência os rumos comunidade política No final dos anos oitenta. quando. a falta de perspectiva em relação à retomada do financiamento externo. H... o principal desafio das autoridades econômicas.A.. (Org. ela acabava solapando os fundamentos dos centros internos de decisão: a saúde fiscal e a confiança na moeda nacional. P. Transferências externas e financiamento do governo federal. A relação entre ajustamento privado e desajustamento das finanças públicas é estudada em TEIXEIRA.) Novos ensaios sobre o setor externo da economia brasileira.. a política antiinflacionária ganhou um caráter paradoxal. CAVALCANTI. e BIASOTO JR.

28 atingido o clímax.M. Sobre a crise fiscal consultar. que se dá a inflexão na política econômica do início dos anos noventa. São Paulo em Perspectiva. 38 . L.P. A respeito da perda na capacidade de fazer política monetária ver ALMEIDA. P.37. quando o Brasil passou a sancionar sistematicamente as pressões liberalizantes da comunidade financeira internacional. J. n. L.M. as autoridades econômicas ficaram praticamente especulativo sem contra instrumentos a moeda para coibir É um dentro ataque dessa nacional.G. 1989.37 O agravamento da incerteza e a extrema fragilidade financeira do setor público solapou a capacidade de resistência do o Estado brasileiro diante das crescentes pressões do processo de globalização dos negócios.G.1. BELLUZZO. PARENTE. p. 1990.38 conjuntura.J. Déficit Público. Percebendo o perigo que significava continuar exigências insistindo do grande em uma política financeiro de resistência às sem capital internacional criar alternativas que apontassem para a superação do impasse gerado pela exaustão da industrialização pesada – perigo representado pela crescente presença das forças populares na vida política nacional –. A. Revista de la Cepal.G. n.. 63-75.S. Perspectivas latinoamericanas en los mercados financieros. 37 .. Crise e reforma monetária no Brasil.. BELLUZZO. Impotente ante os grandes detentores de riqueza financeira e excessivamente dependente dos setores geradores de divisas internacionais. WATKINS.. 1988. que colocava o país na iminência de uma ruptura hiperinflacionária. as classes dominantes brasileiras unificaram-se monoliticamente em torno de um objetivo comum: a promoção de uma nova rodada de modernização dos padrões de .

na privatização das empresas públicas e na desnacionalização da economia.L.3. No caso brasileiro.G. a progressiva liberalização da economia brasileira fez com que a industrialização pesada entrasse em fase terminal. PORTUGAL.. Dinâmica recente da indústria brasileira e desenvolvimento competitivo.. Gestão estatal no Brasil. M. foi implementada uma política de estabilização baseada na ancoragem da moeda nacional em uma taxa de cambio (sobrevalorizada). e Em busca do Socialismo. com um grau de urbanização equivalente ao de países 39 . F. LAPLANE. ver.40 Desde então. com um imenso contingente regionais. 1997. 1995. SILVA. SARTE. selaram um acordo de renegociação da dívida externa nos moldes do Plano Brady. desencadeando um processo de desestruturação do aparelho sistema produtivo econômico que compromete Não os é elos estratégicos imaginar do os brasileiro. Primeiro. 8198. n. A propósito da política de estabilização ver TAVARES. após a recuperação da capacidade de endividamento externo do país – fato determinado em última instância pela elevada liquidez internacional e pela diminuição do peso dos haveres no Brasil na carteira dos bancos privados internacionais –. 41 . na aceleração da abertura comercial e financeira. Segundo. M. Sobre a estratégia de liberalização da economia brasileira na década de noventa. e COUTINHO. populacional. 40 .8.C.). Alguns desses artigos foram reunidos nos livros Democracia e Desenvolvimento. J. . 1994.F. as autoridades iniciaram uma política de liberalização comercial e de abertura do sistema financeiro. sobretudo na Folha de São Paulo. A economia política do real. Economia e Sociedade. 143-182. com um com acentuadas desequilíbrio heterogeneidades secular social. seguindo o ritual imposto pela comunidade financeira internacional para a volta ao mercado de crédito externo.41 difícil efeitos desagregadores que as tendências em curso provocam em uma sociedade com um território de dimensões continentais. G. a política econômica passou a articular-se. 1995. L. 1994. A..F. p. Economia e Sociedade. desde então... 1997. (Org. Investimento direto estrangeiro e a retomada do crescimento sustentado nos anos 90. A Especialização Regressiva: Um Balanço do Desempenho Industrial Pós-Estabilização. 1997. Paralelamente. É emblemática da nova escala de prioridades das classes dominantes brasileiras a consigna do candidato Collor de Mello: “o carro brasileiro é uma carroça”. Gestão estatal no Brasil. a liberalização da economia foi implementada em dois tempos. p. e LAPLANE.2929 consumo. Idem. em função da necessidade de “ajustar” o Brasil às exigências da mundialização do capital. Florestan Fernandes fez a crônica do processo político que desembocou na liberalização da economia em artigos publicados na imprensa.39 Capitulando às recomendações do Consenso 29 de Washington. 1991. M. n.

In OLIVEIRA. O baixo dinamismo do novo modelo econômico e sua elevada instabilidade diminuíram significativamente o multiplicador de emprego dos setores mais produtivos da economia da e economia. n.Crescimento acelerado e absorção de força de trabalho no Brasil.. 19601980 y la crisis social de los 80.30 industrializados diversificado. 1988. p.A. pois. fizeram aumentar também a importância relativa do desemprego tecnológico provocado pela modernização das forças A produtivas década de e pela concorrência marcou. O.. CEPAL . 75-112.B. PORTUGAL. HENRIQUE. BALTAR. os A e com um parque industrial altamente indiscriminada liberalização efeitos altamente destrutivos da nova onda de modernização tecnológica sobre as estruturas da Segunda Revolução Industrial fizeram com que aumentasse dramaticamente a heterogeneidade estrutural da base produtiva. abertura e crise do emprego urbano no Brasil.Agricultura. revertendo o lento e tortuoso processo de formação de um mercado de trabalho articulado nacionalmente. . Estagnação da economia.E. 1996. et al. . subempleo e distribución del ingresso. A propósito ver.42 Em conseqüência.G. W.A. P. Emprego e renda na crise contemporânea no Brasil. 1983. Tal processo se consubstanciava em um padrão de absorção de mão-de-obra em que os trabalhadores expulsos do campo tendiam a ser empregados em atividades de baixa produtividade nas cidades à espera de sua eventual absorção nas atividades industriais de elevada produtividade. de uma produtos radical importados. 1994. noventa degradação do estatuto do trabalho na sociedade brasileira. RODRÍGUEZ. Economia e Sociedade. .La transformación socio-ocupacional de Brasil.6. BALTAR.. As mudanças no funcionamento do mercado de trabalho são discutidas em. J. 1986. . P. C.O mundo do trabalho: crise e mudança no final do século. a crise do padrão de industrialização pesada desarticulou um dos principais mecanismos de legitimação do status quo nas classes operárias e nas camadas mais desfavorecidas da população: a ilusão de classificação 42 .

SILVA.Descentralização e Políticas Sociais. 1996. tendem a ser desarticuladas em partes estanques. Idem. e Idem. a economia brasileira segmentar conseguem fica o sujeita a forças centrífugas entre na que tendem a espaço econômico nichos trabalho de nacional mercado regiões nova que encontrar do divisão de internacional – verdadeiras “ilhas prosperidade” que procuram aumentar seu grau de autonomia em relação ao poder central – e regiões que.B. A respeito da crise do federalismo.Empresas Estatais e Federação. R. Idem.Reestruturação internacional e repercussões inter-regionais nos países subdesenvolvidos. consultar a série organizada por AFFONSO.. Sobre os impactos territoriais. marginalizadas do comércio internacional. P.. a ruptura das bases materiais que sustentavam as correntes migratórias começou a fomentar perigosas rivalidades inter-regionais e processos ativos de segregação social.L. . 1995. 1995.3131 31 social alimentada pela elevada mobilidade social decorrente das altas taxas de crescimento econômico. exposta ao processo de mercantilização que se irradia do centro do sistema capitalista mundial. Idem. assim.43 importações O esgotamento minou. 43 . .A Federação em Perspectiva. ver CANO. 1996. 1989. 1995. processo de fechadas sobre si de mesmas. . no a pós-guerra unidade e consolidada sedimentava durante os a ditadura das que interesses oligarquias regionais baseava-se em dois pilares fundamentais: o pânico em relação à emergência do povo na política e o .B.Desigualdades Regionais e Desenvolvimento.. W.. Esboçada militar.Federalismo no Brasil: Reforma Tributária e Federação. . . . Com efeito. do o substituição fundamento material e social do pacto federativo brasileiro.A. Além de agravar a crise social no campo e na cidade.

e (3) a recomposição de um esquema regional de poder que tenha capacidade de neutralizar as poderosas forças que levam ao fracionamento da nação. que interrompem o movimento não é de construção Nessas circunstâncias. São Paulo em Perspectiva. FLORESTAN.Nem Federação nem democracia. esperar cooperação internacional.44 O segundo pilar teve que ser imolado. colocando o Brasil sob a ameaça de processos de reversão da neocolonial nação. sabedoria revelam O que não é há atalho e.32 consenso em torno da industrialização como objetivo estratégico das classes dominantes. 44 . . . *** Em suma. para que em uma um parcela nova da população de brasileira dos pudesse ingressar rodada modernização padrões de consumo. políticas Estado nacional. F. exagero afirmar que há uma incompatibilidade incontornável entre: (1) a disciplina financeira e monetária exigida pela comunidade financeira internacional. para ao não o desenvolvimento do que a desafio colossal contrário se deve convencional alardeia. a as crise bases da industrialização sociais e pesada está do comprometendo materiais. A adversidade do momento histórico e os complexos problemas com que o País se defronta nacional. (2) a reprodução de mecanismos de mobilidade social capazes de dar um mínimo de legitimidade ao sistema político.

G. 25-27. A Crise da Teoria do Desenvolvimento 33 A incapacidade de deter o processo de reversão neocolonial e de criar alternativas de participação no sistema capitalista mundial compatíveis com a continuidade do processo de construção nacional foi reforçada pela crise que abalou os alicerces da teoria do desenvolvimento.45 Na tradição que hegemonizou a reflexão crítica sobre os dilemas do desenvolvimento latino-americano. SPYBEY. Development Economics. 1990. O. . T. de Economics. C. BADIE. a crise assumiu a forma de uma profunda revisão do enfoque estruturalista da Cepal inaugurado por Raul Prebisch. 1991. development & dependency.L’évolution de la pensée économique sur le dévelopement depuis 1945.46 O núcleo central das proposições n. El desarrollo económico de América Latina y algunos de sus principales problemas.3333 2. OMAN. A crise imobilizou as forças políticas comprometidas com o processo de construção da nação. 1-66. . et WIGNARAJA. em 1949. p.1. 1992. de Deepak Lal. Social change. PREBISCH. Albert Hirschman. Le dévelopement politique. Development Birth. R. com a publicação de “El desarrollo económico de la América Latina y algunos de sus principales problemas”. Teoria do subdesenvolvimento da CEPAL. B. In: IDE. 1964. 45 . Evidenciam o ceticismo em relação às promessas desenvolvimentistas do pós-guerra os balanços feitos The de a respeito Life dos and The dilemas Death Rise das of and The economias Development Decline Poverty of of periféricas: Economics. 1994. Dudley Seers. O pensamento da Cepal é estudado com detalhe no excelente trabalho de RODRÍGUEZ. deixando as sociedades latino-americanas desarmadas para enfrentar seus dilemas históricos. p. A propósito ver. 46 . Estudios por regiones y por paises. 1981.

Prefácio. p. uma resposta às crises dos centros (duas grandes guerras mundiais e..34 de Prebisch consiste as em mostrar para que a a antinomia de Centrosistemas Periferia fechava portas construção econômicos nacionais e. de provar que não houve tal tendência espontânea à industrialização latino-americana. processo que. entre elas. Prebisch colocou a questão nos seguintes termos: “A idéia de que a tendência do capitalismo maneira em expandir-se o mundialmente traria consigo. Donde a necessidade ineludível de superar as forças externas e internas responsáveis pelo subdesenvolvimento. se confundia com a industrialização nacional. fazendo uma síntese da essência do estruturalismo. a dificuldade encontrada por vários países da região para aprofundar o processo de substituição de importações e a frustração em relação aos efeitos da industrialização sobre as bases do subdesenvolvimento latinoamericano estimularam vários economistas e sociólogos da Cepal a iniciar um vigoroso esforço de crítica aos limites da 47 . 1981. A Cepal tratou de demonstrá-lo. PREBISCH. R...47 Nos anos sessenta. que a posição subalterna no sistema capitalista mundial tenderia a conduzir as sociedades latino-americanas a um beco sem saída que comprometeria seu futuro como Estado nacional. O. a grande depressão)”. In: RODRÍGUEZ. um ato deliberado nosso. 8. foi de um espontânea. portanto. Esta última foi. . a seu ver. Na década de oitenta. Teoria do . desenvolvimento da periferia mito. pelo contrário.

. LUXEMBURGO. empresas transnacionais e estilos de desenvolvimento.N. FAJNZYLBER. iniciava-se na Cepal um movimento revisionista que. 1984. no final da década. 1964.I. 1977. influenciado pelo rápido crescimento da economia brasileira. 5-36. 1973. A reação assumiu a forma de uma negação do suposto básico da Economia Política da Cepal. [1969] e Idem.49 . Estudos Cebrap. Por ironia da História. vale destacar. A. In: LENIN Selected Works. 1976. As bases teóricas desta concepção foram estabelecidas nos trabalhos de LENIN. apontava em direção oposta ao ceticismo da ala mais crítica da instituição. A Acumulação do Capital: 48 . Auge y declinio del processo de sustitucion de importaciones.3535 industrialização para substituição de importações. 1967. quando o processo de industrialização subdesenvolvida dava seus últimos suspiros. F. No Brasil destacam-se os trabalhos de TAVARES.19.1. A. 1971. J.48 35 Esta crítica alimentou as proposições reformistas que insistiam na urgência de mudanças estruturais para superar os obstáculos que emperravam o avanço do desenvolvimento nacional. n. PINTO.9. v. 1966. V. J.. A projeção de uma conjuntura histórica muito particular como um dado de invariável que não da situação periférica levou à concepção havia incompatibilidade entre imperialismo e consolidação de sistemas econômicos nacionais. 3v. Boletin Económico de América Latina. e FURTADO.) América Latina: Ensaios de interpretação econômica.C. A concepção de imperialismo utilizada neste trabalho tem por objetivo caracterizar uma fase do desenvolvimento capitalista. v. 39-56. Imperialism. BUKARIN. 12.A. Imperialism. HOBSON. qual seja a idéia de que o desenvolvimento nacional era solapado pelas tendências centrípetas do capitalismo e pelo extremo desequilíbrio social herdado do período colonial.. VUSKOVIC. C. 1965. (Org. p.2. The Highest Stage of Capitalism. QUIJANO. [1970]. n. Entre os principais trabalhos que procuravam superar as insuficiências do enfoque estruturalista. Subdesenvolvimento e Estagnação da América Latina. Inflación: raíces estructurales. 49 . A Economia Mundial e o Imperialismo. R. p. M. Oligopólio. P. In: Serra. I. Concentración y marginalización en el desarrollo latinoamericano. Cultura y Dominación. A distribuição de renda e as opções de desenvolvimento. Revista Latinoamericana de Ciencias Sociales. n.

As idéias e seu lugar.H. CARDOSO..H. 50 . CARDOSO.Dependência revisitada. In: As Idéias. 1980. Contribuição ao Estudo Econômico do Imperialismo. 1981.36 Por um lado. A ação do empresariado local (.. 1980. Dependência e Desenvolvimento. [s. chegou-se à conclusão de que dependência e desenvolvimento poderiam marchar paralelos52. 1984. SERRA. E. J..) em primeira instância pela luta de classes e o desenvolvimento do capitalismo no interior de cada uma das formações econômicas das sociedades dependentes e. Por outro lado. FALETTO. o interesse do capital internacional em aproveitar as oportunidades de investimento geradas pelo processo de substituição de importações mediante o deslocamento de unidades produtivas – interesse associado a uma fase – específica levou à que do movimento de de que internacionalização não havia o do capital inferência pudessem obstáculos avanço da intransponíveis comprometer industrialização periférica. F. CARDOSO. marca esta inflexão no pensamento da Cepal. 52 . El Capital Financiero. por forças internas.).. consubstanciada em políticas industrializadoras e protecionistas. 51 ..].. Dependência e Desenvolvimento.. a presença de burguesias dependentes com maior capacidade de negociação no cenário internacional – fenômeno relacionado com o complexo equilíbrio geopolítico da Guerra Fria – induziu à superestimação do grau de autonomia das economias periféricas. 1970..d. p. o dinamismo da economia periférica passou a ser visto como produto de processos condicionados. Idem. Ver também. em última.. R. em primeira instância. e...) a partir da década de 1950 como consequência da própria reação local.50 No plano teórico. F.. mudou a estratégia das empresas estrangeiras (. Las desventuras de la dialética de la dependencia. F.. No plano histórico. ..H. A idéia de Cardoso é que “(. de Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto. por forças externas51. Prevalece a concepção de que o desenvolvimento do capitalismo dependente é complexamente determinado “(. em última instância.) mostrou que existiam . pelos períodos do desenvolvimento do capitalismo em escala mundial”. HILFERDING.73.

homogeneidade regional.. dentro do raio de possibilidades aberto pelo contexto externo. a idéia de que está ocorrendo um processo real de desenvolvimento econômico na periferia dependente (. harmonia e equilíbrio entre os vários ramos produtivos. criaram desafios para a antiga política antiindustrializante do capital estrangeiro.53 A mudança fundamental no modo de interpretar o grau de autonomia relativa das economias satélites no sistema capitalista mundial decorre do suposto de que.. Nas palavras de Cardoso. tornaram obsoleta a crença no papel ‘antiindustrializador’ do capital estrangeiro. pelo menos no caso dos países com importantes mercados internos potenciais”. p. bem como no deslanchar da produção de insumos industriais básicos (.) parece absurda... como se a condição periférica significasse apenas um retardo na forma de absorver as estruturas e dinamismos do capitalismo mas não possibilidades ‘técnicas’ de industrializar produtos de consumo corrente e de substituir as importações. Mas não é este o entendimento marxista sobre o que seja desenvolvimento (ou acumulação) capitalista”. 1980.. 140. . o ritmo e a intensidade das transformações capitalistas poderiam ser calibrados de dentro para fora. 1973. Daí para frente a competição pelos mercados internos dos países periféricos. Por certo. New Left Review. Idem.) insiste em que o novo caráter da dependência (a internacionalização do mercado interno que abre espaço para a industrialização das economias periféricas) não colide com o desenvolvimento econômico das economias dependentes.. p. ainda por cima. investimentos da de o avanço da acumulação e capitalista de que a sucesso industrialização industrialização era o próprio desenvolvimento.. depender 37 o de que na das sociedades de a periféricas com o estratégias estimulassem suposição asseguraria associação entrada que o de capital internacional estrangeiros. ver WARREN. quando se pensa que o desenvolvimento capitalista supõe redistribuição de renda. Ibidem. o sentido.3737 Eliminada destino a urgência de superar a dependência passava a externa. quando se interrompera o fluxo de importações. 53 . CARDOSO. D.H. desde a época da Segunda Grande Guerra. bem como a crescente internacionalização e diversificação da produção propiciada pela concorrência entre as grandes empresas oligopólicas.) e.. F. Imperialism and Capitalist Industrialization. “A tese que desejo indicar (. No mesmo sentido. A participação do estado na regulamentação econômica e na proteção dos mercados. As Idéias .. a difusão de uma ideologia favorável ao desenvolvimento. 76.

especificidade contexto respostas levou economias paulatina o o um internacional externos abrindo condicionantes dependente. (.38 comprometesse a capacidade das sociedades dependentes de controlar os fins e os meios do desenvolvimento. 11 54 . economias que as desestabilizam para que como desenvolvimento movimento das portas periféricas fosse pensado processo endógeno. das Assim. cuja eficácia revelaria a maior ou menor capacidade do Estado nacional de articular estratégias de acesso às tecnologias forças de vanguarda do o das à processo esforço de de modernização compreender dependentes diluição dos das a ao produtivas. apesar dos desvios que acabariam levando à negação do enfoque estruturalista da Cepal.H. dentro da temporalidade do sistema capitalista mundial.54 A evolução das economias dependentes passou a ser vista como uma espécie de eterno catching up. cit. Existe pois uma articulação estrutural entre o Centro e a Periferia e esta articulação é global: não se limita ao circuíto do mercado internacional. Os estudos sobre a dependência mostravam que os interesses das economias centrais (e das classes que as sustentam) se articulam no interior dos países subdesenvolvidos com os interesses das classes dominantes locais.). in CARDOSO. É importante ressaltar que. A idéia implícita é a de que. solidarizando interesses de grupos e classes externos e internos e gerando pactos políticos entre eles que desembocam no interior do estado”. Podemos sintetizar esta contribuição com as seguintes palavras de Cardoso. em sublinhar a dependência externa da economia que já fora demostrada pela Cepal.. o capitalismo dependente teria um movimento próprio que poderia se aproximar mais ou menos do padrão de desenvolvimento das economias centrais. Ela veio de outro ângulo. “A novidade das análises da dependência não consistiu. op. mas penetra na sociedade. veio da ênfase posta na existência de relações estruturais e globais que unem as situações periféricas ao Centro.. é mérito da teoria da dependência de Falletto e Cardoso o esforço de integrar os condicionantes sociais e políticos do desenvolvimento dependente ao pensamento da Cepal. p.. A evolução do movimento revisionista acabaria levando às últimas conseqüências o deslocamento da perspectiva original . F.

Esbozo de un planteamiento neoestructuralista. FFRENCH-DAVIS. no Brasil. 1988. Neoliberalismo versus neoestructuralismo en América Latina. El desarrollo desde adentro: un enfoque neoestructuralista para América Latina. 36. Generación de ventajas comparativas y dinamismo industrial. R. BITAR. FAJNZYLBER. evolución y lecciones. especialización industrial y productiva. 1988. Reflexiones sobre las especificidades de América Latina y el sudeste asiático y sus referentes en el mundo. n. Revista de la Cepal. 1988. 1990. FFRENCHDAVIS. S. 34. 1986. 1987.3939 39 da Economia Política da Cepal. 34. de um este movimento culminou cujos com a consolidação novo paradigma teórico contornos básicos foram consolidados em Transformación productiva con 55 . R. n.55 A avaliação de que a ordem internacional emergente abria importantes nichos de mercado para os produtos oriundos da periferia levou-os a adotar um receituário que defendia a inserção dinâmica das economias periféricas no sistema capitalista mundial. a crítica abriu espaço para a cristalização do neo-estruturalismo – o braço latino-americano do neoliberalismo. Transformación productiva. Idem. Competitividad internacional. F. o desdobramento da crítica polarizou-se em duas trajetórias distintas.. Revista de la Cepal.56 Capitaneado por Fernando Fajnzylber. . 56 . Revista de la Cepal. 1990. FAJNZYLBER. F. a tradição cepalina metamorfoseouse na perspectiva do capitalismo tardio – uma apologia da saga da industrialização retardatária. Idem. Curiosamente. O. 1988. La industrialización trunca de América Latina. CEPAL.). A convicção de que a não estava ao alcance da maioria dos países latin industrialização o-americanos levou os teóricos revisionistas da Cepal a abandonar o modelo de substituição de importações como paradigma que deveria orientar a política econômica dos países da região. Industrialización en América Latina: de la “caja negra” al “casillero vacío”. 1983. SUNKEL. (Ed. No interior da Cepal. n.

la 58 57 .. A premissa subjacente é que existe “(.1. . Transformación productiva con equidad..60 pleiteado nexo entre competitividade e equidade. teoricamente. um dos pontos que deveria diferenciar o neo-estruturalismo e a ortodoxia. ”. 59 . 1994. o en otras palabras. J. de caráter neo-schumpeteriano. a defender estratégias de ajuste às mudanças na economia internacional que se articulam em torno de dois objetivos básicos: a busca da competitividade internacional autêntica e o gradualismo como estratégia de enfrentamento do problema da equidade. la posibilidad de participar de la revolución tecnológica en curso”.59 A denúncia dos problemas gerados pela tendência à concentração de progresso técnico nas economias centrais abriu espaço a um detalhado receituário sobre aprendizado tecnológico endógeno.) las mejoras en la distribuición son necesarias para lograr una ampliación significativa del mercado interno.2. Sobre a integração de concepções oriundas do neo-schumpeterianismo ao arcabouço teórico do neo-estruturalismo.57 A nova Cepal passa. 60 . O.. Hacia una Estrategia de Desarrollo Autocentrado. às racionaliza inevitabilidade acomodação passiva novas tendências do sistema capitalista mundial. v. Quantum. Para um excelente balanço sobre o neo-estruturalismo consultar RODRÍGUEZ. v. Quantum. 1995.61 A importância .. abertas pela que ressalta as “janelas de O oportunidades” nova revolução tecnológica. permanece até hoje como um elo teórico perdido. 1997. 1994. para os neo-estruturalistas “(. 1990.2. 56. ver RODRÍGUEZ. Como destaca Rodríguez em “Viejas y nuevas ideas”. RODRÍGUEZ. CEPAL.) la posibilidade de un contínuo catching-up del progresso técnico por parte de las economías latinoamericanas que adopten sus recomendaciones.. O. ao aceitar de uma o mundo como ele é.58 Eliminada a preocupação com a ruptura da dependência. então. n. CEPAL: viejas y nuevas ideas. 1.40 equidad. O movimento de aclimatação dos intelectuais progressistas latinoamericanos ao liberalismo que caracteriza os novos ares do mundo foi examinado em PETRAS. n.. O. 61 . “Cepal: Viejas . p. a crítica às relações sociais responsáveis pela subordinação externa e pelas fortes assimetrias internas cedeu lugar a uma lógica conformista a que. Ensaios contra a ordem.

1988.En busca del esquivo desarrollo regional: entre la caja negra y el proyecto político. Sobre a teoria estruturalista da inflação. Quantum.6-15. 1995.62 diagnóstico da inflação estrutural como reflexo de conflitos distributivos que apontavam para a necessidade de mudanças nas estruturas da economia e da sociedade foi simplesmente abandonado. 1989. El desarrollo social en los años 90: principales opciones. consultar SUNKEL.. 39. Globalização\regionalização: o desafio para os países em desenvolvimento. 1990. Não se ignora que. Ver também. Idem.4141 decisiva atribuída pela à centralização de do Estado nacional flexíveis o grau 41 foi de de substituída defesa políticas a descentralização regional destinadas elevar autonomia das instâncias de poder infra-nacionais a fim de aumentar o seu raio de manobra para articular estratégias de inserção adaptar-se na economia às mundial do e a sua plasticidade para O exigências capital internacional. p.. CEPAL: viejas . n. sino empiricamente reconocido como un hecho negativo perdurable”. pobreza y las estrategias de desarrollo. 25 n. “(.. n. El Trimestre Económico. La inflación chilena – un enfoque heterodojo. “los documentos en que se plasma la estratégia de transformación productiva con equidad reconocen que en las economias latinoamericanas el subempleo y la informalidad urbanas subsistirán. 58.. Revista Brasileira de Comércio Exterior. de tal modo que éste no es analiticamente explicado. v.63 Ao transformar a estabilidade em condição sine qua non do crescimento. no hay en ellos un tratamiento preciso del subempleo. 1992. 62 . as proposições da Cepal sobre a importância de formas mais descentralizadas de organização do poder também levam em consideração razões de ordem social. C. Las dimensiones sociales de la transformación productiva con equidad. a su vez. Donde a sua conclusão. relacionadas com a necessidade de criar mecanismos participativos de controle sobre a ação do Estado.Políticas sociales y desarrollo social en el inicio de los años 90.. durante períodos muy prolongados. 1. A propósito consultar. In: SEMINÁRIO OPCIONES DE DESARROLLO SOCIAL PARA LOS ANÕS 90. p. as a teoria neo-estruturalista responsáveis vigente em da em um inflação última converteu estruturas concentração sociais de renda instância pela cual. v. En verdad. OMAN.2. BOISIER. S. “Sin embargo” – ressalta o autor –. Recursos humanos.. 63 . 1994. constituye una base insustituible para el aprendizaje tecnológico y para la incorporación intensa y difundida de progreso técnico”. 1994: CEPAL. Idem. Idem.) parece que la cadena equidad-mercado interno-incorporación de tecnología-transformacíon productiva se diluye en el primer eslabón”. diferentemente das recomendações oriundas dos centros hegemônicos. . O.. .

. H.. 65 . A. n. . A primazia dos objetivos estratégicos de longo prazo.65 As proposições a favor de reformas estruturais sofreram abrupto giro de perspectiva que inverteu completamente seu significado. 23. ligados à necessidade de impulsionar o desenvolvimento 4. RAMOS. Os princípios fundamentais da teoria neo-estruturalista da inflação podem ser vistos em: TAYLOR.La consolidación de la democracia y del desarrollo en Chile: desafíos y tareas. 1978.Crisis económica y políticas de ajuste. . 1993. 1986. 1990. J. 1983. Em vez de adequar o modo de organização da economia e da sociedade à necessidade de colocar a acumulação de capital à serviço do desenvolvimento nacional. F.. 1990. PINTO. n. CEPAL . PAZOS.Structuralist Macroeconomics Aplicable Models for the Third World..Estabilización y liberalización económica en el Cono Sur. J. R. P. Ver SUNKEL.. et al. Elementos estructurales de la aceleración inflacionaria... . p. El proceso de ajuste en los años ochenta: . El desborde inflacionario: experiencias y opciones..42 parâmetro consumado. 1984. ROSENWURCEL. 1984.. n.. o neo-reformismo de de subordinar uma o da Cepal passou econômico dinâmica a e no defender social a às necessidade exigências arranjo reinserção comércio internacional. p. 1973. 121140. Revista de la Cepal. FRENKEL.M. 1960. L. O.570-599. estabilización y crecimiento.. ASSAEL. e PINTO. . A. Revista de la Cepal. da e situação passou a que deveria a ser aceito como de fato enfatizar necessidade reformas institucionais que erradicassem os mecanismos de propagação do processo inflacionário – agora interpretado como produto de choques exógenos sobre o nível de preços. R.Inflación . 64 . . C. . FANELLI.Growth and structural reform in Latin America. Inflação recente no Brasil e na América Latina. MASSAD. 42. 42.... 1990. G.141-146.64 A frustração com os resultados da industrialização por substituição de importações que e o trauma os gerado sonhos pela reação contra-revolucionária abortou reformistas latino-americanos provocaram uma radical mudança de atitude no modo de a nova Cepal encarar os problemas da sociedade periférica. ZAHLER.

. mais amena e humana.. a nova perspectiva rejeitou a agenda e os termos das soluções que caracterizavam a proposta original do estruturalismo da Cepal. RODRÍGUEZ. p. Ao defender o ajustamento passivo das economias periféricas aos imperativos do processo de “globalização”. tornando-se uma alternativa heterodoxa. Teoria do Subdesenvolvimento. Profundo conhecedor dos meandros da escola da Cepal. reinserção internacional equidade distributiva: insuficiente no que tange à dinâmica perversa da heterogeneidade e o subemprego característicos do subdesenvolvimento.. o novo pensamento da Cepal nega os fundamentos da tradição desenvolvimentista latino-americana. O neo-estruturalismo renunciou. apesar de reivindicar a continuidade do enfoque estruturalista. aos dois principais objetivos que inspiravam Prebisch –construir sistemas econômicos nacionais e consolidar centros internos de decisão –. . seus excessivo efeitos no que toca sobre ao o técnico a virtuosos e a crescimento.4343 43 nacional. assim. O. As diferenças entre as doutrinas neoliberais anglo-saxã e latino-americana se reduzem fundamentalmente ao reconhecimento 66 . à lógica fria da ortodoxia.. Octavio Rodríguez pôscolocou em evidência a capitulação do pensamento neo-estruturalista ao imperialismo da racionalidade instrumental: nos seguintes termos: “Em resumo.66 Portanto. tratamos de mostrar que esta estratégia padece de um desequilíbrio progresso nas suas e a ênfases. 58. foi asfixiada pelas preocupações imediatistas com a estabilidade monetária. bem como ao complexo conjunto de medidas requerido para supera-los”..

.44 de que a condição periférica impõe a necessidade de que se estabeleçam critérios específicos para orientar a estratégia de liberalização.. n. 207-210. n..M. 1. 1994.69 Nas suas palavras. 42.. . 1990. SUNKEL. 2. 1982. perspectiva explicação uma reação às levou-se por conseqüências Faletto [1970]. . Embora a crise da economia mundial. Estamos agrupando na perspectiva do capitalismo tardio um conjunto de autores que têm uma visão comum sobre o processo de industrialização. 69 . G. L. 1981.. 1994. compartilhando o mesmo conceito de industrialização. em meados de 1970. a mesma forma de interpretar os fatores internos e externos responsáveis pelo movimento da economia brasileira e a mesma periodização do desenvolvimento capitalista no Brasil. Ler também. La Cepal y el neoliberalismo. W. cabe mencionar.. Revista de la Cepal. R. tal esforço ainda não foi sistematizado analiticamente. 52. economias contexto a O Abandonou-se dependentes internacional. Quantum.Capitalismo Tardio. AURELIANO. S. (c 1975). O. . o movimento de revisão da Economia Política da Cepal teve um desdobramento próprio.Rumos e . caracteriza explicar a de maneira paradigmática da a mudança no modo de trajetória industrialização nas economias capitalistas de origem colonial. 1988. Neoestructuralismo versus neoliberalismo en los años noventa.68 A certeza de que o salto para a industrialização pesada permitia uma nova síntese sobre as peculiaridades do desenvolvimento capitalista na América Latina a como e incentivou uma do radical movimento adaptativa últimas e ruptura das ao teórica. ZULETA. inaugurada Cardoso Capitalismo Tardio.. 68 .No limiar da industrialização.Pensamento econômico brasileiro – o ciclo ideológico do desenvolvimento. CEPAL: viejas . p. tenha incentivado uma série de trabalhos que procuravam dar conta da nova realidade. n. p.67 No caso do Brasil.. CANO.. de João Manuel Cardoso de Mello [1975]. 1985. Idem. . . “(. CARDOSO DE MELLO. Para um balanço da evolução do pensamento econômico no Brasil. Uma análise mais detalhada da questão pode ser vista em RODRÍGUEZ. ver BIELSCHOVWSKY. 1977. DRAIBE. Fajnzylber discute as diferenças que separam o neo-estruturalismo da Cepal do neoliberalismo em. periodização que os levou a concluir de que o Brasil havia terminado a revolução industrial e autodeterminado seu padrão de acumulação. O.35-54. Revista de la Cepal.Raízes da concentração industrial em São Paulo. v. Entre os trabalhos seminais da perspectiva do capitalismo tardio.Desequilíbrios Regionais e Concentração Industrial no Brasil: 1930-1970. J.) a 67 .

B. Ibidem. o nascimento tardio da indústria pesada implicava numa descontinuidade tecnológica muito mais dramática. 2v. 176. Ao contrário. p. op. . torna-se possível indicar teoricamente a direção em que se poderia repensar a história econômica dos demais países latino-americanos como a história do nascimento e do desenvolvimento de capitalismos tardios”.Ciclo e Crise. Acumulação de capital e industrialização no Brasil. o grande desafio das economias retardatárias é superar as descontinuidades técnicas e financeiras que obstaculizam o salto para a industrialização pesada. BELLUZZO. 70 . 71 .M. 1978.71 No momento final da industrialização retardatária. TAVARES.O processo de industrialização .G. 1977.. pois que controlada pelas grandes empresas oligopolistas dos países industrializados”. essencialmente.O capitalismo . LESSA.M. como ocorreu durante a Segunda Revolução Industrial..T. OLIVEIRA. em que a economia mundial capitalista já está constituída. isto é. p. É necessário.C.B. “Não basta.Desenvolvimento Capitalista no Brasil. no entanto. .T.. ver tambem.A. 1982 e 1983. TAVARES. L.. 1985. 112. cujo ponto culminante é a constituição de um departamento produtor de bens de produção.C. as economias exportadoras capitalistas nacionais.. OLIVEIRA.Considerações sobre a formação do capitalismo.72 Uma vez que tais descontinuidades não poderiam ser ultrapassadas pelo mero desdobramento do processo de metamorfoses.A estratégia de desenvolvimento (1974-1976): sonhos e fracassos. . Cardoso de Mello resumiu a questão nos seguintes termos: “Na industrialização retardatária. M. C. maciço volume de investimento inicial e tecnologia altamente sofisticada. C. cit. os obstáculos a transpor se tornariam muito mais sérios. 1985. o momento em que o capitalismo monopolista se torna dominante em escala mundial. Comparando os dilemas da industrialização retardatária com suas predecessoras. Idem. .A. . praticamente não disponível no mercado internacional. . CARDOSO DE MELLO. a saltos mais ou menos gradativos. 72 . . em desvendar os processos que explicam a internalização de mecanismos de acumulação de capital. uma vez que se requeriam agora. COUTINHO. CARDOSO DE MELLO.. J. também. É a esta industrialização capitalista que chamamos retardatária”.. C. 1985. A propósito. p. R. Já não se tratava de ir aumentando.. convir que a industrialização capitalista na América Latina é específica e que sua especificidade está duplamente determinada: por seu ponto de partida. as escalas de uma indústria existente. e por seu momento. gigantescas economias de escala.70 O novo enfoque consiste. 1978. M. admitir que a industrialização latino-americana é capitalista. 98. desde o início.4545 45 partir do estudo do capitalismo tardio mais desenvolvido da América Latina.

p... Donde o caráter providencial do processo de internacionalização dos mercados internos. momento crucial da revolução industrial. nem se poderia obter a estrutura técnica e financeira dos novos capitais a partir da diversificação da estrutura produtiva existente. que se transfere sob a forma de capital produtivo”. impotência burguesia dependente para tomar iniciativas no plano econômico deixou de ser pois um a do obstáculo intervenção capital ao do avanço Estado do na no desenvolvimento economia esforço e a de nacional. J. externos prévios de à mobilização maciça pelo e centralização de de indispensáveis e internos concentração bloco de recursos exigida investimentos pesados. participação estrangeiro 73 . .46 acumulação de capital... exigia uma <<associação>> virtuosa entre capital nacional. portanto. não poderia deixar de estar apoiada no Estado e no novo capital estrangeiro.. 118. “(.M.) a de e industrialização nascer como tinha escassas do possibilidades nacional mero desdobramento capital estrangeiro empregado nas indústrias leves: nem se dispunha de instrumentos capitais.O capitalismo . questão a à constituição do um do departamento tardio de bens de a do da perspectiva como capitalismo dos esvaziou centrais nacional problemas A desenvolvimento capitalista dependente. A expansão.73 Ao reduzir a problemática da industrialização capitalista retardatária produção. conclui-se que a internalização da indústria de bens de capital. . capital estrangeiro e Estado. CARDOSO DE MELLO. Nas palavras pesada de Cardoso de Mello.

C. uma vez concluída a revolução industrial. como único meio de subordinar o processo de acumulação a uma dinâmica de concorrência ancorada no espaço econômico nacional. O ensaio Capitalismo Associado. Capitalismo associado. pela nada entre mercado o interno e mercado tardio impediria de capitalismo concorrer. A ênfase na necessidade de o processo produtivo ficar sob controle de classes sociais nativas. por isso.74 A fé no papel construtivo do capital estrangeiro no desenvolvimento nacional baseia-se na idéia de que.G. assim. parte-se do princípio de que não há contradição irredutível entre capital nacional e capital estrangeiro que pudesse vir a comprometer a unidade da “sagrada aliança”. assim...Desenvolvimento . em capital estrangeiro – um parceiro imprescindível do capitalismo tardio. por assimetrias isso..4747 47 industrialização supririam as deficiências intrínsecas à base empresarial do capitalismo tardio.M. após a constituição de forças produtivas tipicamente capitalistas. A propósito ver. Além de reconhecer a impotência do capital nacional. DAIN. 220. substituída pela sacralização do tripé capital nacional. S. atração investimentos estrangeiros.. L. p. uma vez implantado na sociedade periférica. de Carlos Lessa e Sulamis Dain.. O capital internacional converte-se. foi. é ilustrativo da convicção de que as filiais estrangeiras teriam vindo à 74 . em igualdade de condições com as economias mais avançadas e de maior renda per capita. . LESSA. . já não existiriam externo de grandes e. o mercado interno teria se tornado um espaço estratégico da concorrência intercapitalista em escala mundial e.. A premissa subjacente é que. capital estrangeiro e Estado como única fórmula de impulsionar a industrialização pesada. In: BELLUZZO. R. o capital estrangeiro tenderia a enraizar-se no espaço econômico nacional. COUTINHO.

Como fração disporá. S. Mas como capital que se valoriza em um espaço nacional terá sua lógica macrodeterminada pelo dinamismo da economia capitalista em que penetrou. para sua valorização no espaço nacional periférico.75 Inverte-se. 119.. . em Problemas de industrializacion avanzada en capitalismos tardios y periférico.. pautando sua estratégia de valorização do capital em função das oportunidades de negócios abertas no espaço econômico nacional. como fração de um bloco de capital externo. .. dos atributos à disposição do bloco e procurará cumprir as orientações empresariais que emanam de seu sistema de decisão. C. Já não é a Nação que se ajusta às <<exigências>> do capital internacional. L. sua trajetória como capital está subordinada ao dinamismo e às especificidades do capitalismo existente naquele país... In BELLUZZO. mas exatamente o contrário: é o capital internacional que se adapta às <<exigências>> da sociedade periférica. Nesse sentido. e 75 . tem de valorizar seu capital nesse espaço. utilidades etc. Ao mesmo tempo. Capitalismo associado. passam pela forma e movimento de articulação entre a economia nacional e o sistema internacional. Isso implica o aprisionamento da fração do capital penetrante em um determinado espaço de valorização..Desenvolvimento Capitalista no Brasil. LESSA. Nenhuma filial comanda as condições de transformação de seus lucros internos – obtidos no espaço econômico nacional – em equivalente geral no mercado internacional.48 periferia para ficar.. A penetração é a expressão de um desdobramento específico da competição intercapitalista. As condições necessárias para a remessa de lucros. 1983. assim. pelo próprio fato de se haver instalado no interior do espaço nacional de acumulação. A longo prazo. no desenvolvimento nacional. Ademais. é um instrumento da estratégia de valorização do bloco como um todo. “As filiais estrangeiras não tomam decisões sem levar em conta as condições sociais e de produção nos países em que se localizam. Avaliam as estruturas de acumulação de capital. Como afirma Conceição Tavares. de diversas maneiras. p.G. é essa a motivação de sua presença. à situação prevalecente. DAIN. de proteção econômica e de poder dentro de cada espaço nacional e adamptam-se. A idéia de que o capital penetrante possa impor soberanamente suas decisões é muito duvidosa. R. COUTINHO. Lessa e Dain colocaram a questão nos seguintes termos: “A filial. A lógica da competição intercapitalista determina que é necessário defender o espaço ocupado pelos competidores”.M. o papel desempenhado pelo capital internacional.

pelo ‘racionais’ não expansão coordenados menos.. p. 42. Revista de Información y Analises de la Región..76 A ênfase em apenas um dos constrangimentos externos ao desenvolvimento bloqueiam capitalista o – – os obstáculos às a técnicos e financeiros do que acesso tecnologias abstração difundidas de outros centro que acarreta fatores solapam a consolidação das economias periféricas como espaço de reprodução ampliada do capital.. M. Economia de América Latina. M. Problemas de industrialización tardios e periféricos. TAVARES. 42. e mas apenas à medida que de sejam seus objetivos. “Si bien la atual crisis internacional parece aumentar el radio de maniobra del Estado tanto para resolver ciertos problemas de acumulación de capital. Esta idéia vinha acompanhada da interpretação de que o momento histórico tendia a reforçar o poder de barganha dos países periféricos.C.. 6. 1981.”. a extrema instabilidade que .. estejam aos simples aparentemente ou. antagônicos interesses das outras frações de capital local. Por esse motivo. a quem compete organizar o pacto de dominação que sustenta o Estado nacional” [grifos meus]. p.. portanto. 76 . como para forzar la industrialización en la dirección de los sectores de bienes de capital y ramas importantes de la industrialización . 1981. assim. a incerteza estrutural gerada pelos efeitos desestabilizadores decorrentes internacional da e extrema do mobilidade espacial do do capital de impacto desagregador processo mercantilização que se propaga do sistema capitalista mundial sobre as estruturas da economia dependente.C. Desconsidera-se. o enfoque do capitalismo tardio não explica adequadamente as assimetrias na capacidade de controlar os fins e os meios do desenvolvimento entre as economias centrais e as economias dependentes.4949 49 por sua própria dinâmica operacional. TAVARES.. Ignora-se. n. modificam desde dentro essas condições. Problemas.

de Serra e Conceição Tavares.50 caracteriza o processo de acumulação nessas regiões. o a novo econômicos enfoque reduziu a discussão do desenvolvimento nacional a uma questão pura e simples de dinâmica capitalista. deixando de lado um dos principais problemas que emperra o processo civilizatório evitar nas sociedades de reversão dependentes: estrutural a que dificuldade comprometem de a processos linha de continuidade no movimento de integração nacional. Além da Estagnação. ignorando que . A convicção de que a internalização do departamento de bens de produção é condição suficiente para assegurar a autodeterminação no processo de acumulação também esvaziou a importância da Revolução capitalista efetiva levou à Democrática nacional. excluída da da agenda questões que compõem problemática industrialização capitalista retardatária. A prioridade à integração que da a tradição desenvolvimentista atribuía superpopulação excedente no mercado de trabalho. a assim. como um dos pré-requisitos de um sistema de econômico nacional foi. marca a ruptura com o modo de interpretar as relações contraditórias entre desenvolvimento nacional e anacronismos de sociedade colonial. Ao abstrair os condicionantes especificidade socioculturais dos espaços que caracterizam nacionais. para como A premissa utilização do que problema não do do da desenvolvimento princípio formação da dos demanda mercados tratar de crença haveria incompatibilidade entre marginalidade social e aprofundamento da industrialização.

com os problemas referentes à absorção de poupanças. SERRA. O suposto é que a superexploração da força de trabalho não teria nenhuma funcionalidade para a continuidade do padrão de acumulação. 78 . TAVARES. vemo-nos obrigados a separar analiticamente os problemas da dinâmica da industrialização tardia daqueles que surgem da formação histórica de nossas sociedades nacionais”. p.77 Considerada mero resíduo da sociedade colonial. 6. 1981. nem necessariamente. p.. oportunidades de investimento etc”. para entender o quadro completo da chamada ‘heterogeneidade estrutural’ de nossas sociedades. J. A autora esclarece o divórcio entre acumulação de capital e distribuição do excedente social assim: “Los primeiros (los problemas de la dinámica de la industrialización tardia) . associada à necessidade de erradicar os anacronismos sociais.210-251.) América Latina:. conseqüência. P.A determinação dos salários e do emprego em economias atrasadas. (Org. Problemas de industrialización . escreve Conceição Tavares.. infraconsumo etc.R. pobreza absoluta passa a ser encarado como uma questão moral... 1980. 23. portanto... 79 .... ao contrário do que ocorre. TAVARES. A dicotomia entre dinamismo capitalista e capacidade de consumo da sociedade fica clara na seguinte afirmação: “Marginalidade.C.. de que a geração de escassez relativa de trabalho no segmento formal criaria condições para aumentos sistemáticos de salário real.. não constituem. 1976. problemas fundamentais para a dinâmica econômica capitalista.C. A respeito ver. J.79 77 . In: SERRA. Além da Estagnação.. Dentro desta perspectiva a pobreza relativa deveria ser enfrentada pela manipulação de duas variáveis: a aceleração do processo de acumulação de capital e a criação de um ambiente institucional que favorecesse a liberdade dos sindicatos e o efetivo cumprimento da legislação trabalhista. por exemplo. Economia de América Latina..5151 51 um dos grandes dilemas do desenvolvimento nacional consiste exatamente em conciliar valorização do capital e solidariedade orgânica entre as classes sociais. . a superpopulação excedente marginalizada do mercado de trabalho torna-se um problema desvinculado Em dos determinantes o combate do à desenvolvimento econômico. n. M. M. desemprego estrutural. em si mesmos. SOUZA. A premissa subjacente é a de que a industrialização pesada tenderia a absorver gradualmente a superpopulação excedente e.78 “Em síntese.

Los que ven la esencia del capitalismo en los fenómenos que dan lugar a la incessante renovación de tal aparato y en la continua revolución que en él se verifica. y está mucho más acá.. político y social que subsiste en nuestras sociedades. Schumpeter advertiu para a origem das confusões geradas . Dentro desta perspectiva. a técnica existente. 1174-1175. a qualidade e a quantidade de bens de capital (instalações) disponíveis. en tal modelo. no se puede borrar más de cien años de história que median entre uno y otro órdenes internacionales. [nosso grifo] Los problemas del atraso siguen centrados en la cuestión agrária..) como el mismo Keynes dice siempre se supone. en su realidad histórica. Ello limita la teoría a un análisis de los factores que determinan el mayor o menor grado de utilización de un aparato productivo existente. Schumpeter explicitou a incompatibilidade da noção de demanda efetiva para tratar problemas do desenvolvimento econômico nos seguintes termos: “(. O próprio Keynes nunca desconheceu o alcance restrito de sua teoria dos mercados. uma teoria construída para explicar fenômenos de curto prazo. que se da a través de la reproducción – en breve lapso y en un espacio económico reducido – de las bases técnicas de un sistema industrial que alcanzó un grado de desarrollo superior y transnacionalizado. da renda e da moeda.M..80 A associados existência escassez derivam del avance desigual. y periodicamente bloqueado. os gostos e hábitos dos consumidores. J. mas não custa insistir na inadequação desta categoria para tratar dos problemas do desenvolvimento econômico. os adeptos que do sobredeterminam multiplicador renda capitalismo tardio acabaram retirando de seu campo de visão os obstáculos físicos ao desenvolvimento à derivados de de constrangimentos material.A. de los efectos de la moderna transnacionalización operada a partir del segundo centro hegemónico. SHUMPETER.History of economic analysis.. “(. p. a intensidade da concorrência.52 Reduzindo a questão dos mercados a um problema de demanda efetiva – categoria construída para tratar situações de curto prazo.. lo que va mucho mais allá de su localización en la periferia del centro industrial originário. han de ser disculpados si consideran que la teoria keynesiana hace abstracción de la esencia misma del processo capitalista”. 1954. J. a desutilidade das distintas intensidades de trabalho e das atividades de direção e organização. de las fuerzas productivas capitalistas. . Em outro trabalho. a partir de sus bases nacionales de origen. Teoria geral do emprego. 1982.) la pobreza absoluta y la marginalización. caracterizadas pela presença de capacidade produtiva ociosa e estabilidade o nos parâmetros de extra-econômicos –. como secuela del propio proceso de formación histórica de ciertos Estados nacionales periféricos.. A esos desequilíbrios estructurales se les puede llamar problemas de ‘modernidad’ del capitalismo ‘tardio’“. KEYNES. (c 1936). están determinados en primera instancia por el atraso económico. del empleo y de la organización política del Estado. sin hablar de los doscientos años anteriores”. Não é o lugar de discutir o estatuto teórico da noção de demanda efetiva. que el capital físico (equipo) permanece constante tanto cualitativa como cuantitativamente. 80 . Al fin de cuentas. além da estrutura social incluídas as forças . “Adotamos como dado a habilidade e o volume existente das forças disponíveis de trabalho. que determinam a distribuição da renda nacional”.

que se encare o nível de emprego como aproximadamente proporcional a renda (produção) de modo a se determinar uma. SHUMPETER. mas também o volume e a quantidade das instalações não podem mudar. L. In: ________ . Donde sua advertência sobre o arcabouço conceitual da Teoria Geral.Dicionário de Economia Política. isto é.Crescimento e Distribuição de Renda. tão logo se determine a outra. Uma faca de frutas é um excelente instrumento para descascar um pêssego. respectivamente.. Todos os fenômenos incidentais à criação e mudanças na aparelhagem. C. das economias Abstraindo os constrangimentos objetivos que não permitem que as economias periféricas possam repetir a trajetória das economias centrais mediante a implementação de uma política de desenvolvimento racionalizando recuperador. estratégias este enfoque de acabou de adaptativas acumulação pela interpretação inadequada do princípio da demanda efetiva: “(. In: _______ . p. na melhor das hipóteses. por exemplo. A economia da demanda efetiva.) não se compreendeu bem que o modelo é rigorosamente a curto prazo e tampouco a importância desse fato para a estrutura e os resultados contidos na General Theory. aos fatores que especificariam a maior ou menor utilização da aparelhagem industrial se esta última permanecesse inalterada. ver NAPOLEONI. 270 e 274. 1970. .A.. e não somente os métodos de produção. restrição essa que Keynes jamais cansou de frisar em pontos cruciais do caminho. cap.Teorias Econômicas de Marx a Keynes. Aquele que a usa para cortar um bife deve culpar apenas a si mesmo pelos resultados insatisfatórios”. . “O que mais admiro nesse e outros arranjos conceituais é a adequação: ajustam-se ao objetivo como um paletó bem cortado se ajusta aos ombros do freguês. são.5353 53 utilização do princípio da demanda efetiva – categoria que supõe uma situação muito particular em que existe abundância econômica – para dar conta das descontinuidades estruturais no processo de mercantilização que acompanha o movimento de longo prazo do desenvolvimento dificuldades de os do capitalista capitalismo para vida o ocultou uma das a principais incapacidade periférica retardatário: da generalizar padrões de conjunto população centrais. A restrição decisiva é que não apenas as funções de produção. excluídos do exame”. 1982. Essa orientação permite simplificações que seriam sob outros aspectos inadmissíveis: admite. p.John Maynard Keynes (1883-1946). os fenômenos dominantes do processo capitalista.L. J. Evidentemente por esse motivo. O alcance do princípio da demanda efetiva é discutido por PASINETTI. a alguns anos – talvez à duração do ‘ciclo de 40 meses’ – e. 1974. 2.. em termos de fenômenos. . destarte. Para uma discussão sobre o problema da escassez na teoria econômica. eles têm utilidade limitada quando aplicados a outros que não aos objetivos específicos de Keynes. Mas limita a aplicabilidade da análise. 11 a 44.

) el tema de la organización de los mercados capitalistas y de su rápida expansión. 23. avançam nos interstícios dos espaços mercantís abertos pela conjuntura internacional. . Problemas de industrialización . impulsionado certeza de por que associadas dinâmicas o sincrônico.G.. Abandonadas as preocupações com os determinantes do processo de realização dinâmica. 1981. a questão dos mercados foi reduzida a uma questão de organização industrial. tema que envuelve la articulación dinámica entre fracciones de capital de las más diversas naturalezas y procedencias. os dilemas do desenvolvimento foram reduzidos à formação bruta de . sem questionar as bases do subdesenvolvimento. Dentro desta perspectiva.54 capital que..C. Economia de América Latina. o entendimento da internalização do departamento de bens de produção como uma espécie de etapa terminal da industrialização tardia levou ao abandono de problemas qualitativos do desenvolvimento econômico. “(. 6..M. A pesar del problema de la pobreza y la marginalización. 81 . L. em favor ao da discussão movimento de questões quantitativas.81 A idéia de que a formação e a transformação dos mercados seriam mera expressão da divisão social do trabalho significou uma radical reviravolta teórica.Valor e capitalismo.. TAVARES. Nas palavras de Conceição Tavares. n. não A macroeconômicas desenvolvimento capitalista seria obstaculizado pela insuficiência na capacidade de consumo da sociedade deslocou todas as atenções para os fatores que condicionam a organização do processo produtivo. p. Por fim... mediada por la creciente intervencion del Estado. Sobre a lógica de valorização do capital típica do capitalismo autodeterminado ver BELLUZZO. p... M. relacionados com as descontinuidades diacrônicas que caracterizam o processo de destruição criadora. la acentuada expansión del mercado interno que acompaño al proceso de industrializacíon reciente es hoy un hecho ampliamente reconocido”. endógenas. 88-109.

1985. para privilegiar os aspectos quantitativos de expansão das forças produtivas. .29-45 e 81-97. e idem.C.. Esse é o sentido dado por Conceição Tavares à idéia de “realização dinâmica” . M. . 1970. º.. PAZ. SUNKEL. em converteram-se Apagada a distinção e entre desenvolvimento produtivas desenvolvimento nacional. Ciclo . acabou implicando a exclusão dos determinantes extra-econômicos que comprometem o . relacionados com a capacidade da sociedade nacional de conciliar aumentos progressivos na eficiência econômica e elevações sistemáticas no bem-estar do conjunto da população. 82 .. e tempo econômico.83 O debate sobre os aspectos qualitativos do processo de incorporação de progresso técnico.Acumulação de Capital . .Acumulação de capital e demanda efetiva. p. Ver TAVARES. 1981..5555 capital. de que diz respeito nacional ao e encaminhamento processos revolução democrática. 83 .El subdesarrollo latinoamericano y la teoria del desarrollo. foi afastado do horizonte de preocupações teóricas. J.. os movimentos cíclicos da economia são atribuídos a problemas de desproporção no ritmo de expansão dos investimentos nos diferentes setores da economia.. A respeito da distinção entre crescimento e desenvolvimento ver. isto é. P. 1978 O tratamento da questão dos mercados também é estudado em MIGLIOLI.82 Assim. redefinida como a problemática os uma desafios questão 55 da da de industrialização industrialização acumulação de capitalista nacional capital.uma interpretação que deixa de lado o que consideramos fundamental: a discussão sobre o tipo de mercado. que se refere ao avanço do movimento de acumulação de capital. O divórcio entre dos tempo político. Seguindo a tradição dos modelos de crescimento econômico inspirados em Harrod e Domar. os fatores que explicam as mudanças qualitativas na capacidade de consumo da sociedade. a problemática do desenvolvimento confundiu-se com a discussão sobre crescimento econômico. associados à racionalidade do processo de acumulação de capital. das forças retardatária.

capitalismo das grau relativa a economias dependentes. a nova perspectiva analítica excluiu de seu horizonte de preocupações uma das características fundamentais das economias capitalistas dependentes – a necessidade funcional de combinar “atraso” e “moderno” – e seu principal corolário – a perpetuação de formas de acumulação de capital baseadas na superexploração do trabalho. levou o a só limitado do pelas suas próprias tardio a contradições.56 papel da concorrência como força propulsora do processo de incorporação de progresso técnico. Por esse motivo. a concorrência não é capaz de impulsionar a introdução de inovações radicais nas formas de organização da produção e na estrutura de mercado. no capitalismo tardio. o enfoque do capitalismo tardio desconsiderou elementos essenciais para explicar os bloqueios à monopolização do sistema do capital e – a heterogeneidade estrutural econômico para entender os obstáculos que impedem a transferência de ganhos de produtividade para os salários – a existência de uma superpopulação excedente marginalizada do mercado de trabalho. desvinculada das estruturas . Deste modo. pois. A idéia de que após a constituição de forças produtivas tipicamente capitalistas o movimento de acumulação de capital teria se tornado autodeterminado. no espaço de concorrência nacional foi do intercapitalista transformada em ancorada uma econômico deus espécie ex-machina desenvolvimento econômico. superestimar capitalistas perspectiva de autonomia Assim. Donde a impossibilidade de explicar por que.

limitando aos marcos do capitalismo dependente o raio de ação do Estado para enfrentar os obstáculos ao desenvolvimento nacional. O desafio do desenvolvimento econômico ficou massa reduzido à capacidade de capital da sociedade e de mobilizar uma em da à de de apropriada produtivo foi monetário Em para transformá-la a de ênfase acesso capital industrial. a perspectiva do capitalismo tardio acabou ocultando os mecanismos de perpetuação do capitalismo dependente e as possibilidades de sua superação. A ilusão de que o avanço da industrialização pesada conciliaria os .5757 extra-econômicas técnico tornou-se da um sociedade. Ao reificar o caráter social do processo de industrialização pesada. as formas as investigação tecnologia engenharia das economias centrais. Ao sacralizar o tripé capital nacional. A supressão das contradições entre desenvolvimento desigual e combinado e integração das nações sem os emergentes deixou o novo para arcabouço delimitar capitalista interpretativo analiticamente instrumentos limites da adequados industrialização retardatária. capazes de para estratégias o grau financeira adequar centralização do capital às exigências do padrão de acumulação do capitalismo dominante. a correlação de forças foi petrificada. movimento a incorporação regido de 57 progresso lógica canônico pela abstrata do capital. deslocada conseqüência. e para as condições macroeconômicas que sobredeterminam as oportunidades de investimentos no capitalismo retardatário. capital estrangeiro e Estado como mola propulsora da industrialização pesada.

esta démarche metodológica eliminou do horizonte de reflexão processos de mudança estrutural que transcendessem os marcos do status quo. Os sonhos gerados se pela tornado certeza de que o capitalismo levaram os brasileiro havia autodeterminado defensores da tese do capitalismo tardio à convicção de que a consolidação democracia da soberania nacional o e o enraizamento da das confundiam-se com próprio fortalecimento estruturas do capitalismo brasileiro.58 conflitos entre as classes sociais fez com que não surgisse nem a necessidade Como nem não a há possibilidade liberdade sem de o transformações conhecimento da estruturais. Assim. assim. inviabilizou o conhecimento das virtualidades inscritas no movimento histórico. necessidade. a fé no destino manifesto das economias capitalistas retardatárias que haviam conseguido instalar o departamento preocupações dependência e de com bens os de produção acabou deslocando situação as de obstáculos gerados para pela subdesenvolvimento questões relacionadas . eminentemente institucionais. e contra a proposição de que o capitalismo brasileiro estava fadado à estagnação – interpretação que fundamentava as análises de conjuntura dos defensores da luta armada na década dos sessenta –. os teóricos do capitalismo tardio propuseram a tese de que os problemas da nacionais como deveriam questões ser tratados dentro dos marcos situação. Argumentando contra a inviabilidade de uma política de distribuição de renda – idéia defendida abertamente pelo regime militar brasileiro -. e.

Sob estes parâmetros. fronteira sociedades dependentes transformou-se no esforço de evidenciar a necessidade de aproveitar as oportunidades abertas pelas estruturas existentes. A busca de espaço de liberdade ampliar a para. Ao afastar a necessidade de mudanças radicais o novo e nos pilares fundamentais do a capitalismo crítica à brasileiro. marco aos teórico transformou da irracionalidade limites industrialização subdesenvolvida como meio de consolidar um sistema econômico nacional.5959 com as potencialidades abertas pela autodeterminação 59 do processo de acumulação de capital. *** Sem instrumentos adequados para equacionar analiticamente a problemática da ruptura com as estruturas externas e internas responsáveis pelo subdesenvolvimento. na saga da industrialização tardia e na defesa de suas potencialidades como sustentáculo de uma economia autodeterminada e de uma sociedade democrática. a revisão da economia política da Cepal circunscreveu o campo de oportunidades das sociedades latino-americanas aos limites do capitalismo dependente. as opções das sociedades latino-americanas ficam restritas a diferentes . mediante de transformações possibilidades das das estruturas. As críticas passaram a concentrar-se nas políticas governamentais que desperdiçavam as oportunidades abertas pela industrialização pesada.

Ainda que se dê grande importância ao papel do Estado na definição do ritmo e da intensidade do processo de ajustamento. Dentro desse raio de manobra. expressando o pensamento econômico daqueles que defendem uma rápida adaptação às tendências do sistema capitalista mundial. a diferença entre as recomendações do neo-estruturalismo e as do neoliberalismo é muito mais uma questão de forma do que de conteúdo. a interferência no livre funcionamento do mercado é tida apenas como um . de da ao ritmo e à intensidade Embora o implementação social programa adaptação liberalização. e a perspectiva do capitalismo tardio. economia à impacto “globalização” seja mencionado como fator que não pode ser desprezado no desenho considera da que política tal econômica. Apesar da Cepal apresentar seu novo receituário como uma terceira via entre o ajustamento “puro e duro” recomendado pelo Consenso de Washington e o imobilismo representado pelos herdeiros de um Nacional Desenvolvimentismo extemporâneo. a ideologia dos setores que defendem a importância estratégica de se preservar a integridade do sistema industrial. o não neopode estruturalista preocupação comprometer o objetivo estratégico de crescente exposição da economia periférica à concorrência internacional. e (3) maior ou menor grau de controle dos centros internos de decisão. A divergência de real diz do da respeito. o neo-estruturalismo representa a ideologia dos setores “ultra-modernistas” da sociedade.60 modos de combinar: (1) maior ou menor taxa de crescimento. (2) maior ou menor grau de exclusão social.

n. Sem capitular mas às determinações sem da ordem novos internacional horizontes de emergente também vislumbrar 23. as nova orientação doutrinária sanciona docilmente tendências espontâneas da “globalização”. 57. que a estratégia não é proposta para todos.2. Quantum..1. a em fundamental aberto industrializante. Embora defenda a construção do sistema econômico nacional como objetivo estratégico da sociedade e o controle dos centros internos de decisão como o principal instrumento para alcançá-lo – preservando. antagonismo tradição estruturalista.. Donde o caráter extremamente restrito de suas proposições. uma política com a e não mais como sustentáculo Em suma. RODRÍGUEZ. v. .6161 61 expediente temporário para atenuar os efeitos mais nocivos do movimento de de liberalização. senão que admite-se tacitamente a existência de certos casos em que a ‘condição periférica’ pode ser superada e muitos outros onde deverá perpetuar-se”. sociais e culturais responsáveis pela perpetuação da dependência e do subdesenvolvimento fecha as portas para o acontecer histórico. o neo-estruturalismo nada tem a dizer. A ausência de espaço de liberdade para ações capazes de superar as estruturas econômicas. p. objetivos fundamentais da desenvolvimentista latino-americana – o enfoque do capitalismo tardio não dá conta dos problemas atuais do desenvolvimento capitalista dependente.84 Para este segundo grupo de países. pois. assim. “pareceria. Nas palavras de Octavio Rodríguez.. º Cepal: Viejas . que engloba a grande maioria da população latino-americana.

uma espécie de teoria da resistência. A propósito ver CANO. para ganhar procuram dias Escrevendo logo no início dos anos noventa. Penso que só nos resta defender a Nação dos efeitos destrutivos da crise e ir preparando. nem o fundamentalismo. . as condições para 85 . Cardoso de Mello colocou a questão nos seguintes termos: “É claro que há alternativas ao neoliberalismo que não seja nem o ‘desenvolvimentismo’ fora de época.Uma alternativa não economia brasileira na década de 1990. esta perspectiva analítica ficou condenada a defender as estruturas da Segunda Revolução Industrial. Percebendo suicídio impostos tardio a que de impossibilidade seria fora de permanecer os os à ritmos teóricos espera de tal da do qual e o acompanhar dentro. W. p. tempo. nos anos noventa.62 possibilidades. quando os efeitos destrutivos da liberalização apenas começavam a se explicitar. Daí a importância estratégica atribuída ao Estado como instrumento capaz de resguardar o sistema econômico nacional da fúria da globalização. a revisão teórica que surgiu em meados da década dos setenta para mostrar os horizontes abertos pela industrialização pesada tornou-se. 1990. mas não propõe alternativas que permitam superar o impasse claustrofóbico que compromete o processo de formação da nação. Mas não tem cabimento propor novas utopias (quais?) quando a História frustrou a realização de velhos sonhos. com paciência e determinação. neoliberal para a . 32. modernização capitalismo melhores.85 Deste modo. que denuncia os riscos de desestruturação da industrialização capitalista retardatária.

. 1993. 2. Economia e Sociedade. e colocá-la em dia com as exigências do momento histórico. não tem condições de se engajar na revolução industrial. n. a teóricos comprometiam eficácia do pensamento original da Cepal. bem como explicitar os conflitos que determinam as tendências efetivas da luta de classes e seus possíveis desdobramentos. soluções como não é possível a resistir da sem oferecer se alternativas para organização sociedade. pelo exame da história. retardatária como a nossa. . desvendar o caráter da antinomia entre o desenvolvimento desigual e combinado e a construção da nação.M.97-124. indicou o a próprio raiz dos Prebisch. 1992.. como se poderia pensar a uma tentativa urgente e precipitada de buscar outro caminho para o ‘primeiro mundismo’ e para a modernidade.. possamos incorporar plenamente os resultados econômicos e sociais da Terceira Revolução Industrial”. Conseqüências do neoliberalismo. “Na 86 . não se refere.. simplesmente porque sabemos.. CARDOSO DE MELLO. CANO. Daí a urgência de se retomar a reflexão crítica sobre os dilemas do desenvolvimento nacional. que um país de economia capitalista subdesenvolvida. no futuro. 66. nossa estratégia terá de se pautar por uma estratégia do possível. W. Ver também versão revisada Reflexões para uma política de resgate do atraso social e produtivo do Brasil na década de 1990.). Insatisfeito com o rumo que a crítica revisionista havia tomado.6363 63 que. no caso presente. Não é nossa intenção.Uma alternativa . n. por uma estratégia do necessário”. p. Wilson Cano colocou a questão nos seguintes termos: “Nossa estratégia. (. problemas no início dos que anos oitenta. de forma rápida como pretendem os autores do discurso neoliberal. p. quisermos fugir de um horizonte teórico que nos condena à ética da racionalidade adaptativa.1. Sabemos que. . na terceira.86 Contudo. Economia e Sociedade. O desafio está em evidenciar os problemas gerados pela situação de dependência e subdesenvolvimento. 39. na verdade. precisamos de um arcabouço conceitual que se abra para o futuro.. p. bem como os desafios que estavam postoscolocados para quem buscasse superá-los. J.

Donde a justificativa de sua última o aventura teórica: “(. Prefácio.. Tudo isto ultrapassa o âmbito da teoria econômica. 1981.87 87 . com o que me exponho à indiferença dos economistas e à inconformidade dos sociólogos. sociólogos e economistas estivemos desencontrados por muito tempo. .. Mas é preciso fazê-lo”. PREBISCH. º . políticos e culturais. econômicos... p.. 10.64 Cepal. O esforço de Prebisch está consolidado no livro Capitalismo periférico: Crisis y transformación.) estou como tratando um de interpretar desenvolvimento periférico complexo fenômeno de caráter dinâmico que abarca elementos técnicos.. olhando com certo receio para ver qual o que se atrevia a entrar no terreno do outro”. RODRÍGUEZ.A teoria do subdesenvolvimento . R. sociais.

Cf. mas não a fazem como querem.CAPÍTULO 2 INTRODUÇÃO À PROBLEMÁTICA DO DESENVOLVIMENTO CAPITALISTA NACIONAL «As nações que não têm Estado próprio tornam-se. em umaNa célebre frase de Marx em Dezoito de Brumário. F. “Os homens fazem sua própria história. Engels Introdução A problemática do desenvolvimento estuda a luta do homem pelo domínio de seu próprio destino. O dezoito brumário e cartas a Kugelmann. Trata-se de entender o conjunto de circunstâncias objetivas e subjetivas que condicionam a capacidade da sociedade de controlar o processo de mudança social. na era capitalista.1 A A teoria do desenvolvimento econômico procura entender um dos aspectos entre desta questão: e as formas de superar a de contradição vontade possibilidade. Como colocou Marx. povos sem história». desvendando o sentido e as conseqüências do processo de incorporação do progresso técnico. 17. . Trata-se examinar as bases materiais do desenvolvimento. (c1869). O cerne do problema está em compreender de que modo os dilemas específicos de de cada Em formação social e condicionam seu processo acumulação. Racionalidade 1 . não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente legadas e transmitidas do passado”. p. 1977.

examinaremos fundamentos economia capitalista autodeterminada.Racionalité et Irracionalité en Economie. . socioculturais e políticos que 2 3 . Ibidem. Afinal. que permita diferentes dimensões dos dilemas enfrentados pela sociedade para colocar o processo de acumulação a serviço de um projeto nacional. “uma vez que a atividade econômica é não só uma atividade específica que delimita um campo particular de relações sociais mas tambem uma atividade vinculada ao funcionamento de outras estruturas sociais.3.2 Neste problemática estabelecer capítulo. Godelier sintetizou do seguinte modo o desafio de quem pensa a racionalidade de um sistema econômico: “Uma análise atenta revela que a questão da eficiência técnica e social de um sistema trata da questão das possibilidades máximas desse sistema para realizar as transformações econômicas e sociais que a ele se impõe necessariamente”.Idem. . M. p. Identificaremos aqui os pré-requisitos econômicos. 1966. NaNa Caio primeira seção. do um apresentaremos uma visão O global objetivo articular da é as desenvolvimento fio condutor econômico. GODELIER. 31. como lembra Godelier. afirma Godelier. “Uma vez que a atividade econômica é não só uma atividade relações específica sociais de mas outras que delimita uma um campo particular vinculada a economia de ao não tambem atividade sociais. 94. funcionamento estruturas possui no seu interior a totalidade de seu sentido e de sua finalidade mas apenas uma parte”. discutiremos e da os as contribuições Furtado para de o Prado. Na desenvolvimento economia capitalista de uma segunda. 1966. a economia não possui no seu interior a totalidade de seu sentido e de sua finalidade mas apenas uma parte”. Florestan do Fernandes Celso entendimento nacional.66 Irracionalidade. . p.

1988.) dans as configuration formallement la plus rationnelle la lutte de l’homme avec l’homme”. em A Ética Protestante.. A dificuldade decorre do fato de que a esfera econômica adquire uma autonomia relativa. 29. desde o início.6767 67 tornam possível submeter o processo de acumulação de capital à vontade da sociedade a nacional. p. Gorz resumiucolocou a questão nos seguintes termos: “(.. têem sido. 4 . A. do Na terceira seção nas caracterizaremos problemática desenvolvimento sociedades dependentes e subdesenvolvidas. p.. . citando Max Weber.Industrialisation et Capitalisme. circunscrevendo os mecanismos de geração. 160. apropriação e utilização do excedente social ao domínio das relações de troca e produção..) o problema central da sociedade capitalista e a essência de seus conflitos políticos. WEBER apud MARCUSE.4 Como a difusão espacial do processo de mercantilização gera relações de interdependência que englobam todas as . H. como lembra Marcuse. GORZ. definir os limites dentro do qual a racionalidade econômica deve imperar [como forma dominante de regulação das relações sociais]”.Métamorphoses du Travail: quête du sens . 1. em Metamorfoses do Trabalho. A Problemática do Desenvolvimento Capitalista Nacional O grande desafio do desenvolvimento capitalista consiste em subordinar o processo de acumulação aos seus desígnios da sociedade. 1992.critique de la raison economique. “Le compte capital préssupose (. Discutindo o papel da racionalidade econômica na sociedade capitalista. O problema decorre do fato de que.

uma vez que a os a posição capacidade fins e de cada de os as meios economia neste conjunto sociedades as influencia controlarem diferentes que impulsionam transformações capitalistas.5 A raiz do problema encontra-se na integração de no sociedades grau de de que apresentam de suas em um grandes forças mesmo heterogeneidades produtivas e no desenvolvimento de tipo relações produção padrão de mercantilização e de eficiência econômica.68 sociedades que participam do ciclo civilizatório burguês em um mesmo tempo histórico. the conquest of state power if 5 . 1989.3.. one of the central institucional achievements of historical capitalism. cap. 1985.. F. 18. whose very construction was itself. t.Le temps du Monde. time-bounded. Wallerstein colocou o papel dos Estados nacionais no sistema capitalista mundial nos seguintes termos: “The structure of historical capitalism has been such that the most effective levers of political adjustment were the state-structures.1. Por isto. 1984.3.. . A propósito do conceito de tempo histórico ver BRAUDEL..Historical Capitalism. F. o Estado nacional individualiza-se como uma realidade própria dentro do sistema capitalista mundial. Wallerstein caracterizou o sistema capitalista mundial como “(. Ver também BRAUDEL. BUKARIN. cit. économie et capitalisme. pois somente o império do poder político pode sobre a a matriz espacial e temporal do da sociedade submeter racionalidade abstrata lucro individual à racionalidade substantiva da coletividade. XVeXVIIIe siècle. 7 .6 O estudo do desenvolvimento estrutura-se a partir da constatação de que o Estado nacional constitui a única força capaz de <<civilizar>> o capitalismo. 1979.. p. 6 . N.op.7 A teoria do . F. I. It is thus no accident that the control of state power. t. space-bounded integrated locus of productive activities within which the endless accumulation of capital has been the economic objective or ‘law’ that has governed or prevailed in fundamental economic activity”. .I.) that concrete.A economia mundial e o imperialismo. BRAUDEL..... o caráter do desenvolvimento não pode ser dissociado do modo de participação na economia mundial. WALLERSTEIN. In:______.La dynamique du capitalisme. Civilisation matérielle..

8 O ponto de partida da problemática do desenvolvimento econômico está em definir a maneira pela qual o padrão de acumulação de capital é influenciado pelo tipo de autonomia relativa da esfera econômica da sociedade. I.) tenir compte de la totalité des structures qui influecent l’économie . a trata. a dos dilemas de List.. G... In: WALLERSTEIN. Donde portanto.) en plus de son rôle qui consiste d’une parte dans l’élaboration de formulation purement idéaltypiques et d’autres part dans l’établissement de rélations . 1992. p. (a qual.. has been the central strategic objective of all the major actors in the political arena throughout the history of modern capitalism”. pode manter e melhorar que suas se condições da econômicas) de e a economia todas vive as em cosmopolita.Essais sur la théorie de la science.. 1992. Sua visão está sintetizada na seguinte colocação: “(. verdadeira a e economia dos indivíduos a esta da economia das a diferenciar. 1989. L’expression consacrée de théorie de la politique économique. Para Weber o desafio da teoria econômica consiste em explicar as relações de mutuo condicionamento entre economia e sociedade.9 Os autores que serão necessary... LIST.... o poder. 9 .. Ver também WEBER apud MARCUSE. o socialismo. quanto ou última. “Se quisermos permanecer fiéis às leis da lógica e da natureza das coisas. 430. Industrialization et. p.op.O Estado. M.Sistema nacional de economia política. nações da origina uma suposição que que terra formam única sociedade perpétuo estado de paz”. p. devemos distinguir sociedades.. entre Economia Política nacional [.cit.29. na atual situação do mundo e nas suas próprias relações nacionais específicas. e POULANTZAS. Discutindo as diferentes dimensões da racionalidade econômica. Max Weber alertou: “Il faut (..dans une mesure suffisamment importante au regard de l’intérêt scientifique. 1.6969 desenvolvimento desenvolvimento primeiro econômico nacional.].F. 69 do o os advertência de modo economista enfrentar sistemático problemas de uma economia nacional. in WEBER. 1980. ensina de que maneira determinada nação. 8 . N. p. Trata-se de uma tarefa com múltiplos desdobramentos. ne convient bien entendu qu’imparfaitement pour désigner l’ensemble de ces problèmes”. H. 48.

p. 430. Seu objetivo último é determinar as premissas históricas de uma economia nacional. como ainda de que não se degenere em planos utópicos e traçados a priori com vistas a uma situação futura ideal mas irrealizável .car il s’agit uniquement et sans exception de rélation de ce genre lorsque x doit être suffisament univoque et que l’imputation d’un effet à as cause et par conséquent la rélation de moyen à fin doivent être suffisament rigoureuses . Em Esboço dos Fundamentos da Teoria Econômica o autor ressalta o que o leva a tratar a questão: econômica “Não em objetivamos especial..”.70 estudados nos permitem investigar três importantes dimensões deste problema..) sim discutir nenhuma política unicamente indicar as bases teóricas em que essa política deve assentar a fim de não somente se libertar do empirismo e imediatismo que caracteriza a política econômica presente da generalidade dos países subdesenvolvidos. Preocupado em identificar o substrato social de um espaço econômico nacional. Elle a encore à étudier l’ensemble des phénomènes sociaux pour déterminer dans quelle mesure ils sont conditionnés par des causes économiques: c’est le travail de l’interprétation économique de l’histoire et de la sociologie. .il incombe encore à la théorie scientifique de l’économie d’autres tâches. e (. À cette dernière sorte de phénomène appartiennent évidement et même en premier lieu les actes et les structures politiques et avant tout l’Etat ainsi que le droit garanti par l’Etat”. seu estudo focaliza uma questão fundamental: de que maneira as relações de causales singulières d’ordre économique .10 Recorrendo ao materialismo histórico... D’un autre côté elle a aussi à étudier comment les événements et les structures économiques sont a leur tout conditionnés par les phénomènes sociaux en tenant compte de la diversité de nature e du stade de dévelopement de ces phénomènes: c’est là le travail de l’histoire et de la sociologie de l’économie. Caio Prado procura entender as relações responsáveis pela “autonomia relativa” da sociedade nacional dentro do sistema capitalista mundial.

Daí a aversão do autor às análises Em formais e do processo de desenvolvimento ele o resume a capitalista. ao constituem do históricos sendo em dado tratamento não ser pelos de (. 12 .História e desenvolvimento. p. que condiciona.. e assim desenvolvimento essencialmente que lhes ser vem crescimento e. C. PRADO JR. a essência de seu enfoque consiste na determinação do caráter do nexo do capital com a economia nacional e na definição da natureza do estatuto do trabalho na sociedade nacional. Trata-se de um problema essencialmente histórico. 1989.) o temas Desenvolvimento.. p. em última instância. devem podem incluídos na base da modelos tratados de especificidade ou povo a ser das peculiaridades cada país considerado. Esse é pelo menos o ponto de partida necessário da investigação da questão do desenvolvimento”. própria e e História “(. uma vez que os laços no tempo e no espaço entre o capital e a economia nacional dependem do padrão de acumulação capitalista. 16 11 10 . a natureza do processo de mercantilização. 1957. questão econômico contrário economistas abstração.Esboço dos fundamentos da teoria econômica.12 . PRADO JR..7171 71 produção influenciam os nexos entre acumulação de capital e integração nacional? Trata-se de examinar como o tipo de vínculo do capital com o espaço econômico nacional e com a força de trabalho condiciona a “organização da produção” e a “conjuntura mercantil”.. e o modo de organização do mundo do trabalho. das características da dominação imperialista e da natureza das relações de produção em cada formação social.. Em outras palavras... 221 ..11 Caio Prado privilegia dois aspectos em sua interpretação: a mobilidade espacial dos capitais.). C. que determina o grau de volatilidade da relação do capital com o espaço econômico nacional.

ainda não conseguiram consolidar as bases sociais de sua autonomia em relação ao sistema imperialista.72 É com base na natureza dos nexos do capital com a sociedade nacional que Caio Prado diferencia: (a) as economias capitalistas “força “nacionais” e – espaços econômicos (b) que as possuem própria” “existência autônoma”. considerará esses países não como participantes do sistema internacional do capitalismo. A decisão entre esses dois caminhos pertence a fatores políticos e sai do terreno estrito da Economia”.Esboço dos . 224 . tendo conquistado sua independência política. e sim do ângulo de sua libertação desse sistema e da estruturação neles de uma economia própria e nacional. C.. tanto quanto a ação política. em frente a dois caminhos por onde se engajar e se propor numa teoria e numa prática. a perspectiva adotada por Caio Prado não é suficiente.. 1957. economias “coloniais”. as “Uma nova teoria econômica das leve conta circunstâncias a par das específicas economias subdesenvolvidas.. e (c) as “economias coloniais em transição” – economias reflexas que. que não passam de apêndices da metrópole. Seu esforço é o de contribuir para a formulação de uma teoria do desenvolvimento que trate dos problemas específicos que das nações em emergentes. nele necessariamente integrados e sofrendo-lhe as contingências. Encontra-se assim a análise econômica nos países subdesenvolvidos.13 Construída para entender as grandes descontinuidades que caracterizam a evolução das economias coloniais em transição. no 13 .. perspectivas que se abrem para sua evolução. PRADO JR. p..

1974. Florestan Fernandes expõe as linhas gerais dos principais modelos macrossociológicos utilizados na sua análise do desenvolvimento em Sociedade de classes e subdesenvolvimento. 1981. Interessado condiciona procura o em compreender de a como o padrão de dominação Fernandes que das processo acumulação. Para tanto.14 Daí a necessidade de instrumentos analíticos que expliquem como o desenvolvimento capitalista é influenciado pelas relações de concorrência. 14 .7373 73 entanto.15 Ao colocarcolocar em evidência as bases sociais e políticas do desenvolvimento. Isto nos remete à análise de como tais processos são sobredeterminados pela particular combinação entre economia de mercado. Elementos de sociologia teórica. transformações capitalistas. Ver também do mesmo autor. 15 . para dar conta dos determinantes internos do processo de acumulaçãoesse movimento. “racionalidade o ritmo e Florestan compreender o substantiva” a intensidade sobredetermina sentido. evoluindo conforme o estágio de desenvolvimento do capitalismo e a posição de cada sociedade nacional no sistema capitalista mundial. cap. As formas específicas de combinação dessas estruturas e de seus dinamismos variam no tempo.1. é indispensável ir além e desvendar de mútua como o subdesenvolvimento entre “luta condiciona de classes” as e relações determinação “concorrência econômica”. sua reflexão nos auxilia a entender não apenas o grau de autonomia relativa da esfera econômica dentro do corpo social mas também os limites que restringem a capacidade do Estado para definir os . regime de classes e organização estatal do poder político em cada formação social. cooperação e conflito entre os indivíduos e as classes sociais.

a intensidade e o ritmo das transformações capitalistas. A premissa subjacente é que tais nexos condicionam o sentido do desenvolvimento capitalista.Sociedade de . Podem distinguir-se vários padrões de desenvolvimento capitalista. a chamada ‘luta pelo poder político’ representa uma luta pelo controle da mudança social. p..74 rumos. o esquema analítico de Florestan Fernandes procura explicitar a natureza dos nexos que vinculam o regime de classes ao desenvolvimento capitalista.A revolução burguesa no Brasil: sociológica. de caráter universal e invariável. “Não é intrínseco ao capitalismo um único padrão de desenvolvimento. Além disso. acordo com os interesses estamentais ou de classes envolvidos pelo desenvolvimento capitalista em diversas situações histórico-sociais e as probabilidades que eles encontram de varar o plano das determinações estruturais e de se converterem em fatores da história”. FERNANDES. 222. 1976.. o alcance e a continuidade. Durkheim e Marx. pode-se de verificar utilização variável. Nas suas palavras. os quais correspondem aos vários tipos de capitalismo que se sucederam ou ocorreram simultaneamente na evolução histórica. 163. F. das alterações ocorridas no padrão de integração da ordem social vigente”. p. a curto ou longo prazo. pois são seus efeitos que ditam o sentido. . se se toma um mesmo padrão que ele de é desenvolvimento suscetível de capitalista.17 16 17 . .16 Inspirando-se em Weber. Idem. ensaio de interpretação .. “No fundo. . em Sociedade de Classes e Subdesenvolvimento.

F. ao mesmo tempo. O que quer dizer que a Revolução ou Burguesa pode transcender a ela. . O preconceito está em pretender-se que uma mesma explicação vale para as diversas situações criadas pela ‘expansão do capitalismo no mundo moderno’. Impulsionado burguesias conquistadoras. o poder burguês pode repousar sobre bases sociais e políticas 18 . a transformação capitalista circunscrever-se tudo dependendo das outras condições que cerquem a domesticação do capitalismo pelos homens. Por isto. no caso. para ‘a transformação capitalista’ e a ‘revolução nacional e democrática’. Certas burguesias não podem ser instrumentais. Florestan Fernandes cria uma tipologia que lhe permite diferenciar os padrões de revolução burguesa. . A comparação. francesa. p.A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica. o processo revolucionário adquiriu o caráter de uma luta de vida ou morte contra o antigo regime. por encadeamento democrática nacional.18 O caso e clássico. associado às revoluções pelo inglesa.7575 75 Ao associar os determinantes objetivos e subjetivos da luta de classes às bases materiais a aos suportes socioculturais responsáveis pela formação da burguesia e do proletariado. agrária. não deve ser a que procura a diferença entre organismos ‘magros’ e ‘gordos’ da mesma espécie”. industrial. 1976. das e que americana revoluções caracteriza-se urbana. FERNANDES. 214. Donde o sentido de sua afirmação: “Há burguesias e burguesias. contavam com a energia revolucionária das massas camponesas e urbanas.

pois a possibilidade de uma forte centralização do poder pelo Estado – expressão da composição da burguesia emergente com a aristocracia agrária e com a burocracia estatal – permitiu que a revolução nacional fosse levada às últimas conseqüências e rompesse os nexos de dependência externa. ao fechar o e circuito selar acabaram político uma por à participação dos setores com e o o populares associação perpetuar estratégica a imperialismo. As revoluções burguesas “atípicas” do século XIX.76 que maximizam as propriedades socialmente construtivas do capitalismo. dependência subdesenvolvimento.à debilidade das burguesias que as impulsionaram. não foram tão longe. A dificuldade enfrentada pelas revoluções burguesas que eclodem dentro dos marcos da dependência é que as condições históricas externas e internas restringem . as revoluções burguesas “atrasadas” caracterizam-se pelo fato de que a sua direção política foi monopolizada por burguesias conservadoras e dependentes que. A perda de poder revolucionário deveu-se fundamentalmente ao temor de que o radicalismo das forças operárias pudesse fazer com que as mudanças sociais transbordassem os limites do próprio capitalismo. Mesmo assim. porque a presença de forças operárias colocava em questão a própria continuidade do capitalismo. Por fim. o processo de mudança social se desenvolveu com relativa profundidade. cujo paradigma é a via prussiana.

il est indispensable de tenir compte de l’influence que les rationalisations techniques excercent sur les modifications de l’ensemble des conditions de vie interne e externe”. p. 19 . tratada pelos modelos macroeconômicos. a teoria das decisões de Max Weber e Karl Mannheim e o enfoque estruturalista da relação ... O nó da questão está em avaliar os efeitos do processo de incorporação sociais.. 1992. que a influenciam o de das transformações incorporação progresso técnico possui uma lógica própria. Partindo de uma metodologia que combina a noção de excedente da economia política clássica. Daí a importância de se estudar a natureza das decisões de investimento. 20. o problema central consiste em compreender a lógica que comanda as escolhas sobre o tipo de tecnologia compatível com a construção de um sistema econômico nacional.7777 dramaticamente a possibilidade de conciliar capitalismo 77 e integração nacional.19 de progresso técnico sobre as estruturas Preocupado em definir parâmetros éticos para orientar a intervenção do Estado na economia. cujo caráter é determinado pela forma como a concorrência condiciona o processo de acumulação de capital. Dado sentido os parâmetros extra-econômicos capitalistas.. Weber colocou a questão assim: “Chaque fois que l’on cherche à faire une évaluation. a contribuição de Celso Furtado para o estudo do desenvolvimento consiste em desvendar as bases técnicas e econômicas de uma sociedade nacional. M.Essays sur. in WEBER. Mais do que uma questão quantitativa.

78 centro-periferia.. 20 . para a expansão da massa dos salários.técnicos e econômicos . quadro de Ora. Sua abordagem privilegia um aspecto particular das descontinuidades históricas que caracterizam a civilização burguesa: as relações de causa e efeito entre expansão das forças produtivas e modernização dos padrões de consumo. Cabe à “análise histórica” das estruturas materiais e sociais de cada formação social contextualizar a problemática do desenvolvimento na realidade de cada formação social. lógica da civilização industrial. tal explicação econômica ultrapassa necessariamente dado que o a análise convencional. forças sociais ampliação da com troca.responsáveis pela geração.. deve-se antes de mais nada encontrar uma explicação para o processo de aumento do poder de compra da população. que investiga os determinantes do processo de acumulação. A quintessência de sua teoria é. ou seja.20 Nas autor. submetidas histórico progresso (c) técnico. A mediação entre a análise abstrato-formal e o processo histórico é feita pela teoria das decisões intertemporais de gasto. elucidando como suas <<necessidades>> sociais e culturais e suas <<possibilidades>> materiais condicionam o <<estilo de desenvolvimento>>. cabe aos mecanismos do desenvolvimento econômico estabelecer as relações formais de causalidade entre as estruturas e os dinamismos . qualificar a natureza dos nexos de e à de mútuo condicionamento (b) expansão entre: das (a) incorporação produtivas.) de para consumo entender da a sociedade. o objetivo de Furtado é elucidar a “racionalidade econômica” que preside o processo de industrialização – a espinha dorsal dos sistemas econômicos nacionais. . de Prebisch. portanto. apropriação e utilização do excedente social. Para Furtado. a das necessidades de um esfera Trata-se problema mecanismos relacionado especificidade dos responsáveis pela elevação da produtividade física do trabalho e pelos seus reflexos palavras sobre do a capacidade “(.

1998.21 Por essa razão. Prefácio a nova economia política.O Capitalismo global. Em Prefácio à Nova Economia Política colocou o problema nos seguintes termos: “(. Furtado rejeita a idéia de que a problemática do desenvolvimento econômico possa ser reduzida a exercícios de dinâmica formal. a forma de eliminação do fator tempo. sintetiza sua estratégia de trabalho nos seguintes termos: “dinamizar significa. Esse processo de simplificação assume. ou seja. 22 21 . tornar os problemas mais espessos. pela construção de um quadro teórico que permita abordar o estudo do conjunto dos processos sociais. mais complexos. . independentemente de qualquer conteúdo”. p. 27. 26.. p. A despeito de sua vaguidade. O avanço na direção de uma dinâmica econômica passa por uma compreensão dos processos globais. via de regra. como se o tempo existisse em si mesmo. desdobrar os limites do ‘econômico’. portanto. necessariamente. FURTADO. C.7979 repartição da renda é comandada por fatores de 79 natureza institucional e política”. A matéria com que se preocupa o economista são determinados problemas sociais que foram simplificados expressamente para poderem ser tratados com certos métodos.) a sofisticação dos métodos de que se utiliza o economista fez-se no sentido de a-historicidade abrindo-se assim um fosso entre a visão global derivada da história e a percepção particular dos problemas sobre os quais a análise econômica projeta alguma luz. o método histórico tem ocasionalmente contribuído para suprir a ausência desse enfoque global dos processo sociais”. Idem. 1976.. .22 Furtado conhecimento atribui das uma importância sociais que fundamental condicionam ao o estruturas . O erro metodológico da chamada ‘dinâmica econômica’ consiste exatamente em pretender reintroduzir o fator tempo mantendo os problemas com o mesmo grau de simplificação.

C.. os mecanismos institucionais que regulam o processo de concentração e centralização de capitais. tanto com respeito à sua intensidade como à sua composição”. p..24 O nó da questão encontra-se no modo como a luta de classes estabelece os mecanismos de acesso à terra. 27. . 25 .25 A idéia de Furtado é que a vitalidade do processo de acumulação introdução depende de tanto das técnico conseqüências sobre a imediatas da do progresso produtividade trabalho quanto de seus efeitos de médio e longo prazo sobre a . ver Pequena introdução ao desenvolvimento. pois essas motivações influenciam o processo de acumulação..Prefácio a . 24 23 .. A respeito das influências teóricas sobre o pensamento de Furtado. FURTADO. Donde a importância de se estudar a estrutura agrária do país. particular. etc. “No estudo desses e antagonismos” diz o autor o em em Desenvolvimento Subdesenvolvimento “interessa. bem como os efeitos do progresso técnico sobre a capacidade do processo de acumulação de capital gerar escassez relativa de trabalho. aos meios de produção e ao mercado de trabalho.80 equilíbrio de força entre capital e trabalho. identificar as motivações dos grupos que pretendem modificar a repartição do produto social em benefício próprio. as tendências dos fluxos populacionais e o modo de funcionamento dos sindicatos.23 Explicitando as relações entre antagonismos sociais e acumulação de capital. a regulação da jornada de trabalho. Trata-se de verificar como os mecanismos de estratificação social e o sistema de poder influenciam os meios institucionais de acesso à terra. a teoria do desenvolvimento econômico deve explicar de que modo a disputa pela distribuição do excedente social entre salário e lucro condiciona a capacidade de a sociedade nacional ajustar o movimento de acumulação de capital à finalidade de assegurar a máxima eficiência do sistema econômico nacional. 1980.

27 .) a forma de utilização da renda. numa economia de livre empresa. . está determinada pela maneira como se distribui essa mesma renda. C. FURTADO. seu esquema analítico deixa patente que a lei cega da concorrência executa.27 . Destarte. Uma discussão detalhada sobre a questão pode ser vista em HABERMAS. Técnica e ciência como “ideologia”. e de a Vendo o desenvolvimento dos de padrões valores de das forças como modernização transmissão consumo socioculturais predeterminados.Cultura e desenvolvimento em época de crise. 1984. Ibidem.8181 81 distribuição do excedente social entre salário e lucro. Idem. É por isso que ele insiste em que o estudo dos fatores que condicionam o processo de acumulação não pode desvincular a dimensão produtiva dos aspectos distributivos. os problemas do desenvolvimento têm que ser considerados concomitantemente como problemas de produção e de distribuição”.. “A denúncia do falso neutralismo das técnicas permitiu que se restituísse visibilidade a essa dimensão oculta do desenvolvimento que é a criação de valores substantivos”. 1975. 158-159. p.26 Ao explicitar as conseqüências do processo de acumulação sobre as estruturas extra-econômicas da sociedade. 26 . Furtado evidencia o caráter ideológico do processo de incorporação de progresso produtivas correias técnico. p. pelos mecanismos impessoais do mercado. 108. a lógica das estruturas que sustentam o poder econômico e político das classes dominantes. “A estrutura do sistema produtivo reflete (. J.. e esta última. escreve o autor em Cultura e Desenvolvimento.

se é verdade que ele está capacitado para introduzir mudanças estruturais.. a propensão a consumir da economia revela a preferência que a sociedade manifesta. ao redefinir a proporcionalidade entre trabalho passado e trabalho presente. FURTADO. 67.Pequena.28 A sobredeterminação das estruturas extra-econômicas da sociedade sobre as decisões de investimento fica patente no caráter decisivo de variáveis socioculturais na definição da proporcionalidade necessária entre consumo e investimento.. . 1980. a escolha de tecnologia não pode ser desvinculada da prioridade relativa que a sociedade atribui em cada momento histórico ao aumento da riqueza social ou à sua distribuição. p.82 Por essa razão. C. Em outras palavras. entre (1) usufruir as potencialidades aumentar a oferecidas pelo sistema no produtivo para acumulação não-produtiva 28 . Sua teoria das decisões intertemporais de gasto evidencia que o caráter do processo de acumulação de capital.. políticos e sociais.. Daí o significado de sua afirmação em Pequena Introdução ao Desenvolvimento: “(. impondo a sua vontade a outros..) a racionalidade do agente que controla os meios de produção somente pode ser captada a partir de seu contexto social. Mas.. tem graves repercussões sobre a integração da população economicamente ativa ao mercado de trabalho. dentro do qual evolui a posição privilegiada que ele ocupa. também é verdade que as iniciativas de outros agentes podem a todo instante frustrar suas expectativas”. em dado momento. Essa posição está embasada em ingredientes econômicos (controle de um capital).

da Renda e da Moeda.M.. enquanto houver uma relativa adequação entre a de composição mão-de-obra. 29 . 1978. O mesmo raciocínio encontra-se em DOBB. 1980. 1980. Com efeito..Teoria Geral do Emprego. A respeito ver. M. mecanismos trabalho existentes que de ao exerce uma influência dos ganhos fundamental de sobre os do transferência salário. NAPOLEONI.29 O peso determinante das forças extra-econômicas também se manifesta na escolha das técnicas. p. . a é produtividade pelas do sobredeterminada técnica relações (que entre composição capital estabelece a produtividade física do trabalho e as exigências de escala mínima do progresso técnico) e o modo de organização do mundo do trabalho (que estabelece a estrutura fundiária e as condições de funcionamento do mercado de trabalho em cada sociedade nacional). de Furtado a podemos diferenciar de três no esquema analítico distintas: (1) possibilidade situações Enquanto a acumulação de capital gerar escassez relativa de trabalho. ou (2) investir na ampliação da capacidade 83 de produção. 8 e 9. KALECKI. Levando em consideração as conexões entre as transformações na divisão social do trabalho e as mudanças no padrão de mercantilização. 53-56. 1982. cap. isto é.. com vistas a alcançar um maior nível de consumo no futuro. 8. M. J.Pequena. cap. e.. FURTADO. C. KEYNES..Dicionário de . . Crescimento e ciclo das economias capitalistas. .Economia política e capitalismo.. C.8383 presente. a relação entre acumulação de capital e escassez relativa de trabalho. um nexo técnica a do capital e a o na disponibilidade aparecimento de concorrência entre permite virtuoso aumentos . cap.1. 13.. v.

o regime de acumulação associa-se com a reprodução do subdesenvolvimento. . É dentro deste contexto que devemos compreender os condicionantes do processo de difusão espacial do progresso técnico no sistema capitalista mundial. (3) Quando o grau de desenvolvimento das forças produtivas é incompatível com a assimilação dos padrões de consumo das economias centrais. o processo de acumulação depende da capacidade de a sociedade assimilar as ondas de progresso técnico que se propagam das economias centrais. a incorporação de progresso técnico não resulta de um processo endógeno impulsionado pela concorrência. No momento em que tal processo fica a sob o comando de de elites aculturadas.84 produtividade física do trabalho e ampliação da capacidade de consumo da sociedade. E. que subordinam incorporação progresso técnico à cópia dos padrões de consumo das economias centrais. (2) Quando a intensificação na divisão social do trabalho exige uma escala mínima de produção superior à capacidade de absorção do mercado nacional. Nestas circunstâncias. o regime de acumulação tende a apresentar uma tendência à extroversão e ao aumento dos gastos improdutivos a fim de contrabalançar os problemas de realização do capital. por fim.

e de o <<solidariedade padrão de orgânica>> entre as classes dinâmica acumulação adquire uma endógena em que a expansão das forças produtivas e a ampliação dos mercados transcorrem com um movimento contínuo que assume a forma de um processo de <<destruição criadora>>. Pressupostos do Desenvolvimento Capitalista Autodeterminado 85 O desenvolvimento capitalista de um país só pode ser pensado como um processo autodeterminado quando a acumulação de capital é um instrumento de aumento progressivo da riqueza e do bem-estar do conjunto da sociedade e o espaço econômico nacional é uma plataforma sobre a qual se apóia o movimento de acumulação de capital. A órbita econômica só pode ser pensada como uma totalidade que possui uma certa autonomia no condicionamento . O conceito de “solidariedade orgânica” foi desenvolvido por DURKHEIM. A noção da dinâmica capitalista como um processo de “destruição criadora” foi elaborado em SCHUMPETER. à ausência de barreiras que possam desarticular o papel da concorrência como mola propulsora do movimento de inovação e difusão de progresso técnico.A.De la division du travail social. 1991.30 O primeiro aspecto está associado à presença de uma dinâmica da luta de classes baseada na busca do bem comum e na tolerância em relação à utilização do conflito como forma legítima de luta social. O segundo. o padrão de dominação subordina as transformações capitalistas ao objetivo maior de assegurar a reprodução de mecanismos sociais. Nas formações sociais que reunem estas condições. 1980. 30 . J.The theory of economic development.8585 2.. E.

. by infinitesimal steps.86 do processo de acumulação quando houver uma relação de mútua determinação entre revoluções na divisão social do trabalho e transformações correlatas no processo de mercantilização. Nas palavras de Schumpeter..The theory.. Mas essa não é a única mudança econômica.”.. . Add successively as many mail coaches as you please. exige presença a históricas só pode ser muito particulares. p. Como advertiu Marx.. O desenvolvimento endógeno trata de mudanças qualitativas que colocam o funcionamento da economia sob novos parâmetros. ela muda em parte por causa de mudanças de dados.A. Joseph Schumpeter explicou o problema assim:colocou a questão nos seguintes termos: “(. como a mola esfera das pensada propulsora transformações econômicas quando a concorrência funciona como um instrumento de aumento progressivo da produtividade e do bem-estar da nação. há outro modo de mudança que não é devido à influência de dados externos... Divergem não só quanto a tempo e a lugar.so displaces its equilibrium point that the new one cannot be reached from the old one. SCHUMPETER.) a vida econômica muda. aos quais tenta adaptar-se. responsável a pois pelo de desenvolvimento condições econômica endógeno economia. 64.. trata-se de um fenômeno que “. das combinando forças avanços e no grau de na desenvolvimento produtivas ampliação capacidade de consumo da sociedade.. mas que surge de dentro do sistema. you will never get a railway thereby”. mas 31 . “As condições de exploração direta e as de sua realização não são idênticas. .32 Este segundo tipo da de mudança. J. 31 Delimitando o objeto da teoria do desenvolvimento econômico. 1980. Pois somente assim é possível pensar os investimentos como um fluxo contínuo que incentiva a introdução e difusão de progresso técnico.

uma questão de organização do investimento.A. p.8787 também conceitualmente.. De um lado. a endogeneidade do processo de acumulação supõe a presença de pelo menos duas condições. 1980. enquanto outras estão limitadas pelas relações de proporcionalidade entre os diversos ramos da produção e pela capacidade de consumo da sociedade.. pois. é vital que as relações de causa e efeito entre gasto e renda fiquem circunscritas ao espaço econômico nacional.. assim. de outro.. 64. . e sim pela capacidade de consumo baseada em relações antagônicas de distribuição. e. Porém. . basicamente.”. Satisfeitas essas duas condições. que o sistema produtivo tenha um baixo coeficiente de importações.33 Do ponto de vista lógico. Umas estão limitadas pela 87 força produtiva da sociedade.The theory. Daí a importância de certas relações técnicas de encadeamento 32 . SCHUMPETER. evita-se que a renda gerada internamente se transforme em gastos na compra de produtos no exterior que diminuem o multiplicador de renda e emprego. economia nacional opere em um regime central de acumulação. pode-se dizer que a problemática do desenvolvimento torna-se. A primeira condição. J. que tal espaço se afirme como um locus estratégico de reprodução ampliada do capital. isto é. da que transforma o investimento pressupõe que na a variável determinante demanda agregada. essa capacidade não é determinada pela força absoluta da produção nem pela capacidade absoluta de consumo..

a partir de um determinado ponto. 35 34 . isto sistema econômico articulado em torno de um departamento de bens de produção.. Do ponto de vista técnico.. a acumulação de capital é limitada pelas potencialidades do mercado. a produtividade física do trabalho passa a ser decrescente e a acumulação de capital torna-se redundante e irracional. Como só tem sentido ampliar a capacidade produtiva se houver perspectiva de que os novos produto sejam absorvidos no mercado.34 A segunda condição.B. responsável pela articulação virtuosa entre investimento-consumo-investimento. OLIVEIRA.35 Logo. pois. a endogeneidade do processo da acumulação requer que a eficiência produtiva seja sacramentada como o critério supremo a reger a relação entre as diferentes frações 33 . . MARX apud ROLSDOWLSKY. Do ponto de vista econômico. ressaltar Para duas os efeitos de do discussão. 536. de de um forças produtivas tipicamente nacional capitalistas.88 interindustrial que viabilizam o funcionamento do aparelho produtivo como um conjunto orgânico auto-sustentado. É este segundo aspecto que nos interessa nossa examinar mais detalhadamente. .Génesis y estructura de el Capital de Marx: estudios sobre los grundrisse.Considerações . 1989. R. depende da capacidade de a concorrência que levem entre à capital e das trabalho barreiras desenvolver técnicas e dinâmicas superação econômicas que freiam o processo de acumulação de capital. A questão central está na exigência é. C.A. o que requer a existência de um espaço econômico sui generis. p. se não houver uma progressiva ampliação das necessidades sociais submetidas ao circuito das trocas.. queremos dimensões problema.. a acumulação tende inexoravelmente para um ponto de saturação. De um lado. só é possível pensar em desenvolvimento endógeno quando não há qualquer tipo de bloqueio que ameace a continuidade do movimento de acumulação. a intensificação na divisão social do trabalho não pode ultrapassar determinada combinação entre trabalho presente e trabalho passado. 1977..

Em outras palavras.. as crises de superprodução de mercadorias e de desvalorização de capitais constituem momentos indispensáveis do desenvolvimento capitalista. a acumulação de capital só adquire uma dinâmica endógena nas economias nacionais cuja base isto produtiva é. 1981.. onde apresenta vigora um relativa relativo homogeneidade estrutural.37 36 . equilíbrio de forças entre as diferentes frações do capital. Por heterogeneidade estrutural. entendemos a presença de fortes assimetrias na produtividade física do trabalho na economia. Por esse motivo. do concorrência defender extracriando Ao para ao processo monopolização capital. pois somente assim a concorrência intercapitalista pode servir de estímulo Daí um longo de permanente a ao desenvolvimento decisiva voltado para Além das do o de os forças produtivas.36 desvincular a posse da propriedade privada de critérios de eficiência propriedades econômica. criativas tais da bloqueios concorrência comprometem perpetuando as a existência de forças produtivas obsoletas.Teoria do subdesenvolvimento. O. . de de importância de dos crédito desenvolvimento financiamento viabilizar o sistema prazo investimentos. levam à as os assimetrias agentes a suas de na produtividade física de do não trabalho sobreviver econômicos bloqueios produtivos recorrer posições a ameaçados expedientes no mercado. cap. Caso contrário. 7.. a dívida processo inovação. A respeito.8989 89 do capital. disciplina capitalistas.. A liquidação dos capitais que não conseguem acompanhar a lei de custo é uma condição fundamental do processo de “destruição criadora” tanto porque ela implica o inescapável comprometimento da iniciativa privada com o processo de modernização das forças produtivas quanto porque desobstrui o caminho para a intensificação da divisão social do trabalho. 37 . ver RODRÍGUEZ. obrigando o conjunto dos produtores a acompanhar os aumentos na produtividade do trabalho.

é capitalista autodeterminada incompatível com perpetuação de uma superpopulação excedente marginalizada do mercado de trabalho. bastasse. abrindo novos . que só pode ser revertida liquidação técnica e mediante de a introdução velho e à de inovações que na levem à capital do redefinição Se isso não composição a orgânica capital. Os autores que estamos estudando nos auxiliam a entender três dimensões deste problema – o substrato social.90 De outro lado. Além de permitir o máximo aproveitamento dos ganhos de escala intrínsecos a cada padrão tecnológico. na uma a superexploração economia força trabalho. único meio de elevar progressivamente a capacidade de consumo da sociedade. que o dinamismo capitalista só pode ser pensado como um fenômeno impulsionado pela concorrência em condições históricas muito particulares. portanto. elevação do custo da força de trabalho impede a sobrevivência de capitais que se perpetuam à margem do processo de modernização das forças produtivas às expensas da reciclagem de mecanismos de da acumulação de primitiva Por baseados essa razão. de é um pelo determinação fundamental processo de recíproca que a investimento de capital de acumulação dos desencadeie socialização ganhos produtividade conjunto da população. para entre que exista uma e relação consumo. o aumento sistemático dos salários origina uma tendência decrescente nas taxas de lucro. sancionando o império das novas técnicas. a lógica das porque sem elas as revoluções nas forças produtivas não podem ser digeridas pela sociedade. Fica evidente.

Por mercado de trabalho equilibrado devemos entender uma situação em que as relações entre o capital e o trabalho típicas do regime capitalista estejam baseadas em direitos iguais. Para Caio Prado. “Quem decide entre direitos iguais? A força”. Nessas circunstâncias. [Dinheiro Somente como Forças as de de assim. condição fundamental para a formação de uma correlação de forças que permita aos trabalhadores lutar por seus direitos econômicos. uma vez que a falta de mobilidade espacial do capital obriga a iniciativa privada a comprometer-se de horizontes mercantis e fortalecendo a estrutura capitalista nacional. MARX. o processo de acumulação de capital tem uma relação umbilical com o mercado nacional e o destino da iniciativa privada depende de sua capacidade de revolucionar a divisão social do trabalho. e a reprodução de uma relação capital-trabalho equilibrada. 231 .El Capital: critica de la economia politica [1867].38 A primeira condição supõe o enraizamento do capital no espaço econômico nacional.9191 91 decisões intertemporais de gasto e a racionalidade substantiva das economias capitalistas autodeterminadas. t. o capitalismo só se concilia com a constituição de um espaço econômico que possui “força própria” e “existência autônoma” quando existem relações de produção compatíveis circuito Produtivas fronteiras partida. K. ponto nacionais e ser do consideradas movimento de trânsito chegada acumulação capital.1. de – com a internalização do – de todas as etapas – do valorização Mercadoria podem capital Dinheiro]. p. 38 .. Donde as duas características fundamentais de uma economia nacional plenamente constituída: a subordinação do processo de acumulação à lógica do capital industrial. 1966.

um processo contínuo e auto-estimulante. a busca do lucro em escala mundial condiciona o processo de produção e de realização do “capital internacional”. de a suas próprias forças e e técnica impulsionando determinando novas técnicas. enquanto o padrão de desenvolvimento capitalista basear-se em um regime central de acumulação. Parte-se do princípio de que. propagando-se por alimentando-se elas.. na perspectiva de Caio Prado o desenvolvimento “(. a saber. Caio Prado adverte que o segredo do padrão de desenvolvimento encontra-se no caráter das relações de produção. . serão relativamente fortes os vínculos entre o capital e o espaço econômico nacional..41 Evitando produção e o equívoco de reduzir à mera capital a meios de de um capital industrial constituição departamento de bens de produção.92 corpo e alma A com o aprofundamento requer a da industrialização de uma do nacional. há como (. “É preciso não confundir 39 .) autodeterminado necessárias associa-se para um à presença de condições desenvolvimento industrial em larga escala.40 Em suma. abrindo a possibilidade de se conciliar avanço do capitalismo e reprodução de mecanismos de solidariedade orgânica entre as classes sociais. Caio Prado lida com o problema da mobilidade espacial do capital considerando como. 40 . isto é. as atividades econômicas abrindo perspectivas para outras e mais largas atividades e tornando possível natureza.) Sem um um processo e dessa largo esperar verdadeiro desenvolvimento industrial”. a sua não realização. pois somente assim o processo de mercantilização adquire relativa autonomia em relação a eventos externos. em cada momento histórico.. relativa inexistência superpopulação estruturalmente marginalizada desenvolvimento capitalista.39 segunda. repercutindo sobre o seu interesse estratégico de estabelecer compromissos de longo prazo nas economias nacionais..

43 Furtado enfoca o problema da endogeneidade por um outro ângulo. .. C. p.) da 41 42 . O que define o capitalismo como sistema específico de produção. são relações humanas de produção e trabalho. 1970. . “O dinamismo da economia industrial central decorre (. Essa aliás constitui uma das balelas da teoria econômica burguesa que assimila capital a instrumentos de produção e.]..42 Afinal. na sua concepção. [. isto é. identifica o capitalismo com o emprego de técnicas de alto nível. 333. concepções Essa confusão 93 é do estimulada apologéticas capitalismo. o complexo de direitos e obrigações que se estabelecem entre indivíduos humanos participantes das atividades produtivas. como se dá com respeito a qualquer outro sistema. como corolário. A questão central consiste na capacidade de o movimento de acumulação de capital gerar uma tendência à escassez relativa de mão-de-obra. Sua ênfase recai sobre a necessidade de uma certa compatibilidade entre a composição técnica do capital e as formas de organização do mundo do trabalho. e que definem e determinam a posição respectiva desses indivíduos. portanto.História econômica do Brasil. PRADO JR. p. uns com respeito aos outros”... como os Estados Unidos e na Europa Ocidental”. 1966.. Idem. Revolução brasileira. “O que caracteriza essencialmente o capitalismo não é a tecnologia nele em regra predominante. e toma por padrão de referência o sistema tal como se apresenta nos países altamente desenvolvidos.9393 ‘capitalismo’ insinuada e com tecnologia por desenvolvida. 154-155.

transformações acompanhadas introdução de novos métodos produtivos e da difusão de outros. PRADO JR. Certas forças pressionam outras no no da sentido difusão Essas da do introdução uso de de novos já produtos. 164-165. tanto para manter a estrutura de privilégios inerentes à sociedade capitalista como para modificá-la. não impede que haja períodos em que prevalecem as pressões no sentido de concentrar a renda e outros em que sejam mais fortes os impulsos em sentido contrário. Somente desta forma a acumulação de capital estimula a formação de um das tipo de mercado compatível da com o máximo do aproveitamento potencialidades divisão social trabalho.Revolução brasileira.94 interação de forças sociais que estão na base do fluxo de inovações e da difusão do progresso técnico. contudo. a endogeneidade do desenvolvimento é associada à presença de mecanismos de socialização do excedente social entre salário e lucro. operam convergentemente no sentido de impulsionar o desenvolvimento das forças produtivas. p. . . Esse quadro somente se constitui ali onde se manifesta uma efetiva pressão no sentido de elevação da taxa de salário básico da população. As contradições entre os interesses dos dois grupos de agentes 43 . onde emerge uma tendência virtual à escassez de mão-de-obra”. 1966. ou seja. Essa convergência. C. as pressões. uma vez que é isso que permite o acesso do conjunto da população à modernização dos padrões de consumo.44 Logo. “Assim. conhecidos e e da produtos vão utilizados.

9595

95

que equipam o sistema produtivo traduzem-se de um lado na dialética da luta de classes, de outro no desenvolvimento das forças produtivas”.45 A idéia de Furtado é que nas economias autodeterminadas a ampliação da capacidade de consumo da sociedade e a diminuição da participação relativa dos lucros no excedente social

transformam a incorporação de progresso técnico no único meio de desbloquear os obstáculos que comprometem a continuidade do movimento de acumulação de capital.46 Ele sintetizou a questão nos seguintes termos: “A pressão no sentido de reduzir a

importância relativa do excedente – decorrência da crescente organização das massas assalariadas – opera como acicate do progresso da técnica, ao mesmo tempo que orienta a tecnologia para poupar mão-de-obra. Dessa forma, a manipulação da

criatividade técnica tende a ser o mais importante instrumento dos agentes que controlam o sistema produtivo, em sua luta pela preservação das estruturas sociais. Por outro lado, as forças que pressionam no sentido de elevar o custo de

44 45

. FURTADO, C.- Pequena..., 1980, p. 138 . FURTADO, C.- Pequena..., 1980, p. 68 46 . Evidentemente, dado o estado das técnicas, esse ponto de inflexão varia conforme o maior ou menor grau de homogeneidade da produtividade do trabalho da economia, manifestando-se mais cedo nas economias com a produtividade média mais elevadas e homogêneas. Por isso Furtado diferencia os condicionantes do crescimento da produtividade entre os países desenvolvidos e subdesenvolvidos, levando em consideração o grau de produtividade. “Numa simplificação teórica se poderia admitir como sendo plenamente desenvolvidas, num momento dado, aquelas regiões em que, não havendo desocupação de fatores, só é possível aumentar a produtividade (a produção real per capita) introduzindo novas técnicas. Por outro lado, as regiões cuja produtividade aumenta ou poderia aumentar pela simples implantação das técnicas já conhecidas, seriam consideradas em graus diversos de subdesenvolvimento. O crescimento de uma economia desenvolvida é, portanto, principalmente um problema de acumulação de novos conhecimentos científicos e de progressos na aplicação desses conhecimentos. O crescimento das economias subdesenvolvidas é, sobretudo,

96 reprodução da população conduzem à ampliação de certos

segmentos do mercado de bens finais, exatamente aqueles cujo crescimento se apoia em técnicas já comprovadas e abrem a porta a economias de escala”.47

Contudo, a existência de condições que permitem imaginar o processo de acumulação como um movimento endógeno à órbita econômica realidade, não o deve gerar ilusões de economicistas, de pois, na

movimento os

acumulação da

capital

nega De um

permanentemente

fundamentos

economia

nacional.

lado, a tendência à concentração e centralização de capitais leva o horizonte de acumulação a extrapolar as fronteiras

nacionais. De outro, o aumento progressivo da produtividade gera redundância de trabalho vivo, particularmente nos

momentos de mudanças radicais no padrão tecnológico. Por isso, os requisitos que asseguram o funcionamento ideal da esfera econômica realidade. não podem ser tomados como um para dado imutável da as

Isso

significa

que, do

maximizar a

potencialidades

construtivas

capitalismo,

sociedade

um processo de assimilação de técnicas prevalecente na época”, Idem, A Economia Brasileira, 1954, p. 194. 47 . FURTADO, C. - Pequena..., 1980, p. 67-68. Assim, “... a ação conjugada da inovação técnica e da acumulação conciliam a reprodução dos privilégios com a permanência das forças sociais que os contestam”, Idem, Ibidem, p. 11. Furtado adverte que, embora modificações exógenas nos parâmetros que definem o perfil da demanda, mediante alterações na distribuição da renda ou aumentos nos gastos públicos, possam ampliar o mercado, dando uma sobrevida ao processo de difusão de progresso técnico, tais mudanças não conseguem reverter a tendência de longo prazo à exaustão do padrão de acumulação. A primeira, esgota-se quando a economia atinge um grau de distribuição de renda absolutamente igualitário. A segunda, implica uma diminuição progressiva na produtividade média da economia, pois, ela supõe deslocamentos para uso não produtivo de recursos que poderiam ser alocados no desenvolvimento das forças produtivas. A propósito ver, Idem. Ibidem, p. 58-64

9797

97

nacional deve ser capaz de repor as premissas de um espaço econômico autodeterminado destruí-las. toda vez que a os lógica cega da que

concorrência

Estabelecendo

parâmetros

influenciam o horizonte de longo prazo dos investimentos, o Estado deve zelar pela das Daí como integridade da nação e pelo pelo do

aproveitamento contexto

racional

virtualidades a meio

oferecidas crucial a

civilizatório. econômico

importância de

planejamento

estimular

melhor

utilização das forças produtivas e o potencial de inovação da sociedade. Cabe ao planejamento a tarefa primordial de zelar para que as transformações necessidades e capitalistas das sejam graduadas da em

função

das

possibilidades

sociedade

nacional.48

A

reflexão

de

Florestan

Fernandes

ressalta

que

o

planejamento só pode ser visto como instrumento que assegura o desenvolvimento autodeterminado quando prevalece uma dinâmica de luta de classes baseada em uma lógica de compromisso e de busca do bem comum. Sem isso, a sociedade nacional perde a capacidade de pensar o futuro tendo como referência uma ética de solidariedade entre as classes sociais.49 Daí a necessidade de que haja um relativo equilíbrio na correlação de forças entre as classes sociais e um circuito político no qual

vigorem instrumentos institucionalizados de democratização da

. A respeito da importância do Planejamento no capitalismo ver discussão feita por PEREIRA, L.- História e planejamento. In:______ - Ensaios de Sociologia..., cap. 1, 1975. 49 . A respeito ver RAYNAUD, P. Max Weber et les dilemmes de la raison modernes, 1987, pte 3.

48

98 sociedade, isto é, no qual prevaleça a tolerância em relação à utilização do conflito como forma legítima de defesa dos

direitos à cidadania. Nas palavras do autorO autor colocou a questão nos seguintes termos: “A tolerância diante de usos socialmente construtivos do conflito é o primeiro requisito para o aparecimento de controles democráticos e de tendências definidas de democratização da renda, do prestígio social e do poder, os quais condicionam todos os dinamismos socioculturais em que se fundam o padrão de equilíbrio e o ritmo de evolução da ‘civilização’. Se a tolerância não existe ou se ela se revela insuficiente, torna-se impossível forjar os alicerces para modalidades mais ou menos complexas de utilização dos recursos materiais e humanos da nação, em termos de critérios racionais e dos interesses coletivos. O planejamento, em

qualquer escala significativa, não pode ser explorado, e os problemas segundo da ordem estrutural-funcional e incapazes são de enfrentados a

técnicas

impróprias

submetê-los

controle social efetivo”.50 Florestan Fernandes observa pelo menos um traço comum

entre as sociedades que conseguiram criar os pré-requisitos

. FERNANDES, F.- Sociedade de..., 1981, p. 165. Para o autor, ”Isso é evidente com referência aos diversos tipos de problemas estruturalfuncionais com que se defronta qualquer sociedade nacional, incorporada ao referido círculo civilizatório: (1) os que emergem da capacidade variável de ajustamento de indivíduos ou grupos de indivíduos às condições de existência requeridas pela própria civilização vigente e que se refletem no rendimento médio, produzido por técnicas, instituições e valores sociais básicos; (2) os que resultam do grau de capacidade e de eficiência na mobilização de recursos materiais e humanos disponíveis, sem os quais as potencialidades da civilização vigente não se concretizam historicamente; (3) os que nascem de inconsistências inerentes à própria civilização e que exigem opções coletivas mais ou menos firmes de transformações de seu sistema de valores”, Idem. Ibidem, p. 166.

50

9999 essenciais para conciliar desenvolvimento econômico e

99 bem-

estar social. Em todas elas a revolução burguesa significou a constituição estatais de estruturas com econômicas, o socioculturais de e

compatíveis

enraizamento

valores

democráticos no comportamento das classes sociais. Fica claro, portanto, que a autodeterminação do desenvolvimento associa-se a um tipo específico de Estado nacional burguês. Nas palavras do autor, “A ‘Revolução Burguesa’ e o capitalismo só conduzem a uma verdadeira independência econômica, social e cultural quando, atrás da industrialização e do crescimento econômico, existe uma vontade nacional que se afirme coletivamente por meios políticos, e tome por seu objetivo supremo a construção de uma sociedade nacional autônoma”.51 Nem todas as formações sociais, no entanto, são capazes de gerar revoluções burguesas com que permitam conciliar e

transformações

capitalistas

mudanças

socioculturais

políticas de caráter construtivo. É o caso das sociedades que ficaram regiões, presas lembra ao círculo vicioso da dependência. “As condições de Nessas extravárias

Florestan

Fernandes, ou

econômicas

constrangem,

debilitam

deformam

maneiras os fluxos especificamente econômicos da produção e da circulação da riqueza. Por sua vez, o padrão de crescimento econômico, resultante dessa interação entre a economia, a

sociedade e a cultura, não fornece à ordem social o substrato e os dinamismos econômicos necessários à absorção, à

sem contudo romper o ponto morto que a submerge dentro de uma cadeia de ferro.. 172. . F.. p. na situação de dependência as estruturas e os dinamismos capitalistas perdem a sua eficácia como mola propulsora do desenvolvimento 51 52 ..Sociedade de. F..que concentra as economias pelos produtoras do de progresso técnico e uma de responsáveis periferia impulsos - desenvolvimento de uma dependente composta constelação economias satélites que absorvem. das quais provêm a neutralização ou a inibição dos efeitos construtivos do próprio crescimento econômico”. FERNANDES. . A economia cresce e se expande. com retardo e de maneira restrita. 1981. 1981. Apesar de repetir os mesmos processos vividos pelos centros dominantes.. 143. Daí a existência de grandes discrepâncias entre as formas ideais de funcionamento do capitalismo e seu modo real de operação na periferia. Os Dilemas do Desenvolvimento Capitalista Dependente O ponto de partida da problemática do desenvolvimento dependente é que o sistema capitalista mundial é um espaço heterogêneo polarizado em torno de um centro dinâmico ..100 eliminação ou à superação de suas inconsistências e desequilíbrios puramente socioculturais..Sociedade de. FERNANDES. expressa em formas sociais obsoletas ou apenas parcialmente modernizadas. as transformações difundidas pelos centros hegemônicos..52 3. p.

prematuramente.Le temps du monde. É isto que faz Baran lembrar o fato de que: “(. todos os traços penosos da senilidade e da decadência”.) a vida dos homens faz lembrar freqüentemente o Purgatório ou o Inferno. Civilisation. BRAUDEL. portanto.54 53 54 .. p.La economia política del crescimento. p.101101 101 econômico e do bem-estar social. no anti-nacionais Por capitalismo dependente contradições irredutíveis que impedem que a sociedade nacional consiga submeter a acumulação de capital a seus desígnios. nas sociedades periféricas: “(.. 204. 87.. . isso. o capitalismo tenha tido uma evolução particularmente distorcida. Tendo passado por todas as dores e frustrações da infância... E isso explica-se simplesmente pela situação geográfica”.) na maioria dos países subdesenvolvidos. t.. F. Como constata Braudel. BARAN. nunca experimentou o vigor e a exuberância da juventude e começou a mostrar. O problema é que a posição subalterna na economia mundial e a falta de controle social sobre o processo de do acumulação capitalismo produtivas e comprometem como motor as do suas antiexistem propriedades construtivas das forças desenvolvimento características democráticas. 1959. .3... P. um capitalismo sui generis que se caracteriza pela reprodução de uma série de nexos econômicos e políticos que bloqueiam a capacidade de a sociedade controlar seu tempo histórico. In: ______. exacerbam e anti-sociais. 1979..53 O capitalismo dependente é.

102 Do ponto de vista da teoria do desenvolvimento econômico, o drama das economias capitalistas dependentes é que elas não satisfazem os pré-requisitos capitalistas espaço se básicos processem nacional. para como Por um um que as

transformações intrínseco ao

fenômeno lado, a

econômico

perpetuação de mecanismos de acumulação primitiva e a difusão desigual de progresso técnico fazem com que os produtores não tenham nem necessidade nem possibilidade de transformar a

inovação na principal arma da concorrência. Por outro lado, a reprodução de uma superpopulação permanentemente marginalizada do mercado de trabalho torna a acumulação de capital incapaz de socializar os ganhos obtidos com os aumentos na

produtividade do trabalho. Por isso, a questão dos mercados é vital para a compreensão do desenvolvimento dependente. Como lembra Marx, “Quanto mais se desenvolve a força produtiva, tanto mais entra ela em conflito com a estreita base em que se assentam as relações de consumo”.55 Este raciocínio serve tanto para comparar no tempo duas fases do desenvolvimento

capitalista de uma mesma sociedade [o sentido dado por Marx] como para comparações no espaço entre duas formações sociais em um mesmo momento histórico – [a dimensão para a qual

queremos chamar a atenção]. A ruptura da articulação entre investimento e consumo

significa que as descontinuidades estruturais que caracterizam a evolução da economia capitalista não podem ser pensadas como o resultado da concorrência econômica e sim como o produto da

55

. MARX, K.- El Capital..., 1966, t.3, p. 285.

103103

103

adaptação a mudanças que são exógenas à economia nacional. Por essa razão, o marco teórico que explica o dinamismo da

economia autodeterminada não pode ser utilizado como parâmetro para pensar o desenvolvimento dependente. Afinal, quando as descontinuidades não são produto da concorrência mas de forças exógenas à órbita mercantil, a ciência econômica perde seu poder explicativo. Não é por outro motivo que, advertindo para as limitações da teoria do desenvolvimento econômico,

Schumpeter afirma que a lógica adaptativa do sistema produtivo às mudanças na estrutura de demanda “(...) não apenas é

incapaz de predizer as conseqüências de mudanças discontínuas na maneira tradicional de fazer coisas; como também é incapaz de explicar tanto a ocorrência de tais revoluções produtivas, quanto os fenômenos que as acompanham. Tal lógica pode apenas investigar a nova posição de equilíbrio depois das mudanças terem ocorrido”.56

56

. SCHUMPETER, J.- The theory..., 1980. p. 62-63. O restrito papel desempenhado pela concorrência nas economias que não conseguem autodeterminar seu desenvolvimento significa que as forças produtivas não conseguem expandir-se além dos marcos da situação. Nestas regiões, os efeitos da concorrência só se manifestam a médio e a longo prazo, mediante o acúmulo de transformações quantitativas provocadas pelo crescimento econômico. De um lado, a expansão da base material delimita os rumos que o desenvolvimento pode seguir. De outro, o crescimento econômico torna-se o principal meio de difusão das transformações capitalistas ao desdobrar internamente as estruturas econômicas importadas do centro. Em suma, o papel da economia como alavanca do desenvolvimento nacional se concretiza à medida que o avanço das forças produtivas repercute sobre o caráter do processo de estratificação social, modificando as relações de produção e expandindo a ordem social competitiva. Alterando as bases objetivas e subjetivas em que se dá a luta de classes, o crescimento econômico desestabiliza o equilíbrio na correlação de forças e transforma o caráter das relações de luta e cooperação entre as classes sociais, criando novos dilemas e novas oportunidades históricas para a promoção do desenvolvimento. Enfim, podemos resumir o papel da “política” e da “economia” nas sociedades dependentes da seguinte maneira: “limitando-nos ao essencial, duas evidências gerais se impõem: a) cabe à ‘economia’ dar lastro e vitalidade às instituições, aos padrões ideais de integração da ordem social global e aos modelos organizatórios transplantados; b) depende da ‘política’ o modo pelo qual esse lastro e vitalidade eclodem na cena

104 Em outras palavras, não sendo nacional possível como explicar um o

desenvolvimento

capitalista

fenômeno

endógeno, impulsionado pelo processo de acumulação de capital, a racionalidade econômica fica restrita à compreensão de como a sociedade dependente se adapta às tendências do sistema

capitalista mundial. Afinal, como explica Schumpeter, “Se tais mudanças não se originassem da própria esfera econômica e se o fenômeno a que nós chamamos de desenvolvimento econômico

fosse, na prática, fundado simplesmente no fato de que os dados mudam e a economia adapta-se continuamente a eles, então deveríamos afirmar que hão há desenvolvimento econômico. Com isso queremos dizer que o desenvolvimento econômico não é um fenômeno que possa ser explicado economicamente, mas que a economia, em si mesma sem desenvolvimento, é arrastada pelas mudanças no mundo que a rodeia, e, portanto, que a causa e a explicação do desenvolvimento devem ser procuradas fora do

conjunto dos fatos descritos pela teoria econômica”.57

***

Decifrar

os

condicionantes

do

dinamismo

das

economias

dependentes e os possíveis destinos das nações emergentes são os dois grandes desafios de quem queira compreender a

compatibilidade entre capitalismo dependente e construção da

histórica e convertem-se em forças sociais persistentes, calibrando-se como fatores de estabilidade ou de mudança social”, FERNANDES, F.- Sociedade..., 1981, p. 157.
57

. SCHUMPETER, J.- The theory..., 1980, p. 63.

105105

105

nação. O eixo central desta reflexão é delimitar a autonomia relativa do espaço bem econômico como a nacional autonomia dentro relativa do da contexto esfera

civilizatório,

mercantil no corpo social. Trata-se de mostrar como a situação de dependência de e mútuo Como quem subdesenvolvimento condicionamento diz se Godelier, propõe a repercute entre em estudar sobre as e e

relações

“economia”

“sociedade”. Irracionalidade

Racionalidade a

racionalidade

econômica não pode fugir ao desafio: “ (...) de analisar tanto as relações de exterioridade [da economia] quanto suas

relações de interioridade, penetrando no fundo desse universo até o ponto em que tal domínio se abra a outras dimensões da realidade social e aí encontra o sentido de sua existência que não pode ser encontrado em si mesmo”.58 Nossa reflexão parte do princípio de que o tempo

histórico da economia dependente é complexamente condicionado por tendências exógenas à sociedade nacional e por processos adaptativos palavras, pelo o intrínsecos a cada formação é social. Em outras tanto pelo

desenvolvimento do impacto das

dependente

determinado difundidas

caráter

transformações

centro capitalista hegemônico sobre as estruturas internas da

58

. GODELIER, M.- op. cit., p. 139. “Plus l’économie d’une société est complexe, plus elle semble fonctionner comme un champ d’activité autonome gouverné par ses lois propres et plus l’économiste aura tendance à privilegier cette autonomie et à traiter en simples “données extériures” les autres élements du système social. La perspective anthropologique, ..., interdit au contraire de decrire l’économique sans montrer en même temps sa relation avec les autres éléments du système social”, Idem. Ibidem, p. 139140

106 periferia, quanto pelo tipo de resposta das forças sociais internas às mudanças que afetam a economia e a sociedade. O sistema capitalista mundial dificulta a capacidade de as sociedades dependentes controlarem o seu tempo histórico porque estilos as de submete vida a padrões estão de eficiência além das econômica e a

que

muito

potencialidades

técnicas e mercantís de sua economia, ou seja, forçam-nas a absorver vicária as antes revoluções que elas econômicas tenham para tido e culturais condições as de de maneira criar e os os

requisitos

necessários

submeter

estruturas

dinamismos capitalistas a controles sociais construtivos. Por um lado, o espaço econômico nacional é excessivamente

permeável às revoluções na conjuntura mercantil e nas formas de organização da produção irradiadas das economias centrais. Por outro, as estruturas econômicas, sociais e culturais são extraordinariamente vulneráveis às transformações mercantis

que se impõem de fora para dentro. Além disso, as sociedades dependentes defrontam-se com uma série de barreiras externas e internas que limitam sua capacidade de absorver e controlar as transformações capitalistas.59 Portanto, o raio de ação dessas sociedades pelos é historicamente determinado do centro pelas estruturas e

dinamismos

transferidos

capitalista;

pelas

condições de acesso a tais transferências – o que depende dos

59 . Enfim, o sistema capitalista mundial obstaculiza o desenvolvimento das economias periféricas seja porque a difusão desigual de progresso técnico restringe o acesso dos países dependentes ao patrimônio tecnológico da civilização ocidental, seja porque seus princípios de organização e funcionamento exigem condições materiais, sociais, culturais e políticas que não existem nas regiões periféricas ou que não são aí encontradas na

socioculturais e morais que não podem ser artificialmente transpostos para a periferia. o tempo histórico destas sociedades é determinado.107107 107 <<requisitos>> do progresso técnico e das <<exigências>> do capital internacional. . dentro econômicos do leque e de políticos externa. pelo modo como a sociedade periférica reage ao impacto ou dos dinamismos externos. forma necessária para que o capitalismo possa desenvolver todo seu potencial construtivo. bem como da de rearticulação dominação dos mecanismos Logo. 60 . de negando-os.60 A assimilação de progresso técnico difundido do centro capitalista depende da superação de deficiências e técnicas. da adaptação das estruturas externas ao seu novo ambiente. pelos das impactos tendências “estruturantes” “desestruturantes” disseminadas pelo sistema capitalista mundial sobre as bases econômicas e sociais internas. da acomodação entre estruturas “novas” e “velhas”. como as transformações difundidas do centro precisam de suportes econômicos. econômicas. um complexo sancionando-os superando-os. e e. pois. em última instância. institucionais políticas. finalmente. a presença de aspectos formais do padrão de organização social do centro capitalista não significa que a sua eficácia seja a mesma. Por essa razão. Trata-se processo social de reconstrução das estruturas e dinamismos capitalistas. Daí as grandes discrepâncias entre os modelos ideais e as formas reais de organização da sociedade dependente. socioculturais. Contudo. Por essa razão. no novo ambiente as estruturas transferidas do centro assumem características inteiramente novas que modificam substancialmente suas propriedades originárias. os condicionantes externos não são capazes de definir unilateralmente o movimento das sociedades dependentes.

bem como o caráter das relações de dependência externa. Tais decisões devem: harmonizar os interesses econômicos e políticos do capital internacional e das nações hegemônicas com os das classes dominantes internas. seu destino é decidido internamente. a natureza dos ajustes necessários para acomodar o “moderno” e o “atrasado”. Trotsky. o sentido. o ritmo e a intensidade do desenvolvimento dependente são condicionados por decisões políticas internas sobre o modo de participar que no sistema capitalista a seleção mundial. Sob o chicote das necessidades externas. que é a lei mais geral do processus histórico. por falta de denominação apropriada. colocou a questão nos seguintes termos: “A desigualdade do ritmo.61 Em suma. e perpetuar a passividade das classes dominadas diante a situação de subdesenvolvimento. redefinir o tipo de vínculo entre setores “modernos” e “atrasados”. . Desta lei universal da desigualdade dos ritmos decorre outra lei que. Comentando a evolução histórica dos países dependentes. das São tais e decisões estabelecem: estruturas dinamismos que serão efetivamente internalizados.108 possibilidades aberto pelo sistema capitalista mundial. o movimento da economia dependente não pode ser dissociado da lógica que rege o desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo. que significa 61 . ainda que o contexto civilizatório exerça forte influência sobre as economias dependentes. chamaremos de lei do desenvolvimento combinado. as condições em que eles serão incorporados. a vida retardatária vê-se na contingência de avançar aos saltos. na introdução de História da Revolução Russa. Por conseguinte. evidencia-se com maior vigor e complexidade nos destinos dos países atrasados. em última instância.

62 nossa preocupação em específica economias especificidade deste processo foram integradas ao capitalismo na época de estruturação do antigo sistema colonial..) de todos os países chamados A à civilização em segunda. TROTSKY.. formas combinação arcaicas em das com seu as 109 fases mais diferenciadas.. Sem amálgamas esta lei. das tomada. é impossível compreender a história (.). 25.A História da revolução russa.109109 aproximação das diversas etapas.. 62 . [1933]. modernas. p.. terceira é que com ou a décima linha”. conjunto material. L. 1980. (. .

In: _________ (Org.) . Entre os trabalhos sobre a obra de Caio Prado. Revista Temas de Ciência Humanas. destacamos as seguintes: BRAZ. FERRANTE.C.A Matriz Teórica de Prado Jr. C.. R. ANTUNES. o subdesenvolvimento é uma formação social sui generis cuja característica distintiva é a existência de relações de produção que impedem a consolidação de uma economia que possua “existência autônoma” e “força própria”. . (Orgs. um suicida que marcha sua consumação>>. IGLÉSIAS.: a Nação Inconclusa.2 Em Esboço dos Fundamentos da .Caio Prado Jr. o que nos leva a considerá-la como situação transitória entre. o conjunto de sua população no mercado de trabalho. já 1 . e a Questão Agrária no Brasil.) Inteligência Brasileira.L. R. 2 . o passado colonial e o momento em que o Brasil ingressa na história como área geográfica ocupada e colonizada com o objetivo precípuo de extrair dessa área produtos destinados ao abastecimento do comércio e mercados europeus. V. NOVAIS. – Continuidade e Mudanças no Desenvolvimento da Sociedade Brasileira. na Historiografia Brasileira.Caio Prado Jr. 1977. em condições de relativa igualdade. Caio Prado esclarece sua idéia de “economia colonial em transição” na seguinte caracterização que faz da economia brasileira: “É assim que se há de abordar a realidade brasileira atual. . J.B. 1996. In: MORAES. I.M.A..Caio Prado Jr.O Sentimento do Brasil: Caio Prado Jr.CAPÍTULO 3 CAIO PRADO E O SUBSTRATO SOCIAL DO CAPITALISMO DEPENDENTE <<O imperialismo é seguramente para Prado.Z. RÊGO. de um lado. 1986. – 1982. LEÃO. . Um Historiador Revolucionário. Introdução De acordo com Caio Prado. e doutro lado o futuro. F. F. . R. 1994.1 No caso das “economias coloniais em transição” – objeto específico de suas preocupações – o subdesenvolvimento está associado à incapacidade de as nações emergentes romperem os nexos de dependência herdados da colonização e integrarem.C.

comportarão uma organização e sistema econômico voltados essencial e fundamentalmente para a satisfação das necessidades dessa mesma população que a ocupa.. Mesmo só uma parte daqueles países alcançou um nível apreciável de desenvolvimento capitalista. Tal distinção é importante.. 197.. Esboço dos . 197 3 Idem. e que continuam a se processar. 123. não se estrutura em bases próprias e nacionais e sim em função de objetivos estranhos que são os dos países dominantes do sistema”. De acordo com Caio Prado a origem do subdesenvolvimento remonta ao modo como se deu a organização do sistema capitalista mundial no século XIX. e apesar das transformações que sofreram. C. Entre o capitalismo liberal e ainda largamente descentralizado do século passado. e é só muito recentemente que começaram a se transformar e estruturar em formas capitalistas. e o sistema trustificado de nossos dias. pois... afinal nacionalmente estruturados. vai uma grande diferença no que respeita aos países menos desenvolvidos . permaneceram como que à margem do sistema capitalista internacional e nele entrosados perifericamente como partes complementares e dependentes. Internamente conservaram no essencial a organização econômica que lhes vinha do passado. PRADO JR. se acham neste mundo de economia trustificada e monopolista onde as posições de mando se encontram ocupadas.. Ibidem. e capazes de assegurar a essa população um nível e plano de existência consentâneos com os padrões da civilização e cultura de que participamos”. e a falta de verdadeira liberdade econômica (como aquela que imperava sob o capitalismo liberal do século passado) fecha as perspectivas para aqueles que ficaram para trás. p.. Essa transformação e evolução se realizam todavia numa situação econômica bem diversa daquela que encontraram as áreas retardatárias do capitalismo do século passado. relacionado com o tamanho absoluto do mercado interno.”. Mais do que um traço quantitativo. Idem. p... o autor ressalta o hoje bem próximo.) a designação genérica de ‘subdesenvolvimento’ aplicada a países de renda nacional baixa (como faz a teoria corrente e ortodoxa do desenvolvimento) inclui naquela categoria países de tipo capitalista essencialmente distinto e que não podem por isso ser aqui tratados em conjunto”. . p. no que se relaciona com o sistema internacional do capitalismo e que forma o essencial dela.3 A originalidade da contribuição de Caio Prado é mostrar que as contradições que engendram o subdesenvolvimento consubstanciam-se na formação de uma “conjuntura mercantil” precária. Idem. como por exemplo os Estados Unidos relativamente aos grandes centros europeus do capitalismo de então. Hoje as novas áreas retardatárias que são os países subdesenvolvidos. p. “Esses países – afirma Caio Prado – não se estruturaram com formas e relações de produção do tipo daquelas que encontramos nos países propriamente capitalistas. A Revolução . em que essa mesma área e seu povoamento. “(. 190. Ibidem. como lembra o autor.111111 Teoria Econômica... o autor colocou a questão nos 111 seguintes termos: “A economia dos países subdesenvolvidos. 1957.

A frouxidão dos laços do do capital capital um com o trabalho e a o volatilidade espaço que dos vínculos nacional internacional vazio com econômico impede a geram socioeconômico consolidação de um mercado interno capaz de se afirmar como ponto de partida e de chegada do movimento de valorização do capital. Enfim. como que a advogavam via mais a aceleração para do a econômico rápida autodeterminação do desenvolvimento. Invertendo o procedimento que deveria orientar a análise da realidade. descoladas . para Caio Prado esses enfoques levando realizavam à adoção uma de da verdadeira modelos realidade teorização e Por às avessas. esteriotipadas. a riqueza de Caio Prado consiste em ter qualificado a especificidade do estado de incerteza perante o desconhecido que é característico das economias capitalistas de origem colonial que não superaram sua posição subalterna na economia mundial.112 aspecto qualitativo da questão. quanto às teses “modernizadoras” e “internacionalizantes” inspiradas nas teorias convencionais de crescimento e ciclo difundidas crescimento no após guerra. que defendiam a “revolução anti-feudal e anti- imperialista” como único meio de superar o subdesenvolvimento. visões isso. abstratos social. Sua reflexão sobre a problemática do desenvolvimento deve ser vista como uma alternativa tanto às teses da Internacional Comunista. associado à debilidade e à instabilidade de seu processo de mercantilização.

inspirados embora na melhor das intenções. palavras. . 4 .. ambas ligadas ao imperialismo e e contrárias em à revolução. tantas vezes se faz.. Em outras palavras. p..113113 113 mesmo quando embuídas de sinceras intenções reformistas. 1966. geral. fatos como investigados. por mais perfeitas que em princípio e teoricamente se apresentem. segundo a qual “(.4 Quanto à tese que defende o caráter anti-feudal e antiimperialista do processo de construção da nação. C. trazer soluções ditadas pela boa vontade e imaginação de reformadores. essas proposições não conseguiam alterar o curso dos acontecimentos... não encontram nos próprios fatos presentes e atuantes as circunstâncias capazes de as promover. Doutro lado.A Revolução . pequena proletariado trabalhadores camponeses. sem a condição de que essas reformas propostas Em outras se apresentem de nos nada próprios serviria. impulsionar e realizar”. mas que. 5-6. Caio Prado a refuta pelo total irrealismo de suas principais premissas: a idéia de que haveria o restos feudais de e semi-feudais que da estariam entravando processo mercantilização sociedade.) as classes e categorias sociais da nossa sociedade se reduziriam ao seguinte: latifundiários e burguesia compradora.. com interesses no antagônicos principal ao imperialismo. . ele discorda da interpretação da realidade latino-americana. PRADO JR. de articulação capaz da de se constituir eixo revolução burguesa. “Não é praticável propor reformas que constituam efetivamente solução para os problemas pendentes. e a noção de que existiria uma burguesia nacional.

Daí a grande ênfase dada à criação de condições favoráveis à abertura de oportunidades de investimentos.A Revolução . .. a crítica de Caio Prado é que.. os países da atualidade se distribuiriam por diferentes níveis de desenvolvimento que se escalonam numa trajetória econômica que todos acompanham ou devem acompanhar... Idem. 6 5 . processo fechando de a percorrida o pelas nações seria o centrais. PRADO JR. o tipo ou categoria de situação ou de evolução econômica em que se enquadra cada país ou grupo de país”. 1957.. a saber. p... 189.. que seriam as forças revolucionárias”. baseando-se em parâmetros tirados das economias centrais. isto é. mas que é sempre qualitativamente o mesmo.. C. essencialmente. embora em ritmo diferentes para cada qual. idêntica quaisquer que sejam o país e a situação considerados. estas teorias cometem o equívoco de supor que o desenvolvimento das economias dependentes repetiria a mesma trajetória perspectiva. . Em outros termos: “A teoria corrente e ortodoxa do desenvolvimento econômico. Caio Prado sintetiza suas objeções nos seguintes termos: “A teoria corrente do desenvolvimento desse considera (a apenas o aspecto de quantitativo progresso desenvolvimento sem dar maior ‘quantidade’ às econômico). resultado iria Nesta de um desenvolvimento de acumulação brecha que capital estas que gradualmente dos países separa economias desenvolvidos. Esboço dos . p. de natureza e caráter igual.114 burguesia urbana e burguesia nacional. postula sem maior indagação crítica a idéia de uma progressão. p. consistindo naquilo que se entende mais ou menos ambiguamente por ‘progresso econômico’”. Ibidem. inspiradas em modelos macroeconômicos de crescimento. atenção diferenças qualitativas do desenvolvimento. dentro do sistema capitalista. C. 1966.5 No que se refere às teses modernizantes. 189. (. unilinear e homogênea. Segundo a teoria. PRADO JR. 225.).6 . e que pode eventualmente ser nulo e até mesmo negativo..

pela mesma razão a heterodoxa – “incapaz de avaliar as circunstâncias peculiares que em cada lugar ou categoria socioeconômica condicionam as inversões e dão a medida de sua fecundidade e capacidade de . das economias explicar realidade capitalistas centrais. e não externas conseguem colonial explicar dificuldades economias periféricas enfrentam para submeter a acumulação de capital à vontade da sociedade nacional. Caio Prado trata a questão da seguinte forma: “(. como em regra se faz.. a reflexão de Caio Prado colocase como alternativa aos enfoques que privilegiam os aspectos relacionados Construídos com para os determinantes a dos investimentos. seja a que título ou a que custo social forem.) se é verdade que o ritmo de inversões constitui de certa forma índice adequado do desenvolvimento capitalista.115115 115 Ao refutar a concepção de que o mercado é mera expressão da divisão social do trabalho. podemos acrescentar. ele por si apenas pouco ou nada pode informar acerca das contingências a que o desenvolvimento está submetido e portanto sobre a maneira mais adequada de promovêlo. O a-historicismo e subestimação da especificidade histórica dos países subdesenvolvidos torna a teoria ortodoxa” – e. simplisticamente recomendando e estimulando inversões. que por as internas isso. A não ser. estas abordagens ignoram os bloqueios ao desenvolvimento herdadas decorrentes da situação as das estruturas e.. uma idéia que implica abstrair os determinantes sociais e políticos que influenciam o processo de mercantilização.

1989.) o processo histórico global e de conjunto que liga o passado ao presente.8 *** O capítulo está dividido em quatro partes.. 1989. C. Na primeira.. É na especificidade própria de cada país que se há de indagar do processo pelo qual ele se formou. 30-31 . . mostraremos como Caio Prado vê o substrato social do 7 8 . o desafio consiste em identificar “(.7 Em contraposição às concepções apriorísticas.. e não se ajusta a modelos construídos a priori na base de ocorrências que caracterizaram (. C.. p. Essa continuidade se encontra. nos fatos específicos e sua interligação que vai dar naquele processo histórico e o configura.. a fim de emparelhar-se aos padrões do mundo moderno”.... Caio Prado insiste na necessidade de uma teoria que leve em consideração a especificidade de nossos problemas históricos e a dialética concreta de seu movimento.) a institucionalização das relações capitalistas de produção nos países que foram seus pioneiros. que se forja naquele passado e que abre perspectivas para o futuro. p. . e somente aí nos é dado descobrí-la.. Como se pode ler na introdução de História e Desenvolvimento. a importância fundamental que Caio Prado atribui à história no estudo dos problemas do desenvolvimento das economias coloniais em transição..História e . Daí. Processo que é sobretudo histórico. evoluiu.História e . cresceu e desenvolveu. PRADO JR...116 determinar um processo auto-estimulante de crescimento que é o que se procura realizar”. PRADO JR. 134-135 . ou se pode desenvolver e como.

discutiremos industrialização substituição de importações. na quarta parte. Na para segunda. esse impedimento é explicado pela ocorrência de um tipo de formação social que fica à mercê dos ritmos e das necessidades impostas pelo movimento de reprodução ampliada do capital . Mercado e Desenvolvimento Capitalista Nacional Na visão de Caio Prado. o subdesenvolvimento é produto de circunstâncias históricas que impedem que o processo de acumulação de capital seja subordinado à vontade da sociedade nacional. Por fim.117117 subdesenvolvimento e introduziremos a noção de 117 “conjuntura mercantil” a categoria angular de sua explicação do bloqueio ao desenvolvimento nas economias por que coloniais a em crise. mesmo significando um avanço no processo caráter de formação que das nações emergentes. internacionalização irremediavelmente três. o movimento veremos não das por supera o cíclico caracteriza Na seção da economias que a latino-americanas. industrialização construtivo. Nas economias coloniais em transição. compromete gerando uma seu caráter tendência à reversão neocolonial. concluiremos com algumas observações sobre a contribuição de Caio Prado para a compreensão da problemática do desenvolvimento. 1.

concepção.. C. e cuja produção se espalha fora de suas fronteiras nacionais”. Este sistema em que se enquadrará o Brasil... como todos os demais países e povos. . PRADO JR. facultandolhe em maior ou menor proporção a margem de lucros que oferecem. 190.. De um lado. uma situação subordinada e dependente . os países chamados subdesenvolvidos. a estratégica concorrência intercapitalista. precariedade conjuntura mercantil é explicada por duas ordens de fatores.. História econômica .118 internacional. os diferentes grupos que o detêm) de muitas formas. um capital de origem nativo poderia perfeitamente ser enquadrado na categoria de capital internacional se seu horizonte de acumulação extrapolasse as fronteiras do espaço econômico nacional. 3ª) Porá à disposição desta indústria as matérias-primas de que necessita. 2ª) Abrirá mercados para a indústria nacional respectiva.”. ocupam posição periférica e complementar.. ele colocou o problema nos seguintes termos: “A economia mundial evolui para um vasto sistema dominado pelo capital financeiro e disputado pelos vários grupos nacionais que repartem entre si aquele capital. Portanto. 10 . 1970. p.. . 1957.9 “No sistema internacional do capitalismo de nossos dias. Idem. ou antes uma parte deles que nisso se assemelham ao Brasil. o autor chama a atenção para os condicionantes sincrônicos Na sua e diacrônicos a do processo de da mercantilização. Explicando a funcionalidade da economia brasileira no sistema capitalista mundial. a mobilidade espacial do capital internacional não permite que o da mercado interno se afirme como De instância outro.Esboço dos . permitindo sua expansão sem prejuízo da exploração da mais-valia interna.10 Para Caio Prado. servirá o capital financeiro (ou antes. isto é. 271 9 . as contradições responsáveis pelo subdesenvolvimento manifestam-se na impossibilidade de a nação estabelecer uma conjuntura mercantil com a envergadura e a solidez que seriam necessárias para permitir a contínua e progressiva expansão de uma economia capitalista nacional. Caio Prado utiliza a idéia de <<capital internacional>> para qualificar a falta de nexo do capital com o espaço econômico nacional e não para designar a nacionalidade da pessoa jurídica que controla o capital. p. Ao enfatizar a questão dos mercados... todas aliás ligadas e articuladas entre si: 1ª) Permitirá a participação dele em todas as atividades econômicas mundiais.

. em último lugar.. O processo de mercantilização das economias subdesenvolvidas também é bloqueado.. 1989.. ele sintetizou a sua concepção assim:colocou a questão nos seguintes termos: “O que deve ser considerado e que dá conta desse crescimento é o que se encontra na base e por detrás das inversões (. e essencialmente. PRADO JR. originários produção. 26 .). cit.12 11 . o que restringe o processo de ampliação e diversificação do mercado consumidor. e as relações de produção se estabelecem. É isto que condicionará o afluxo de capital. A saber. primeiro e promovem impulsionam a principal lugar. 12 . C. e a resultante inversão produtiva que vem assim.. isto é. op. como veremos na próxima seção.História e.. pode-se de certa forma dizer. R. a formação e acumulação dele.119119 presença de uma superpopulação relativa marginalizada 119 do mercado de trabalho bloqueia os mecanismos de socialização dos frutos do progresso econômico.. A respeito do debate marxista sobre a teoria dos mercados ver ROLSDOWLSKY.. como incidente apenas”. pela presença de restrições ao processo de centralização do capital. é que em as circunstâncias gerais e e os fatores a condicionam. conjuntura mercantil. e certamente. as características da demanda. 30. Discutindo os determinantes do processo de expansão dos investimentos. cap. 11 A essência do aporte de Caio Prado à teoria dos mercados está em demonstrar que o contexto histórico adverso provoca tamanha desconfiança que sua em relação ao futuro como das economias de periféricas importância relativa fronteira reprodução ampliada do capital internacional fica relegada a um segundo plano. Bem como as condições em que a produção se organiza. p.

1969. constitui um importante instrumento para pensar os condicionantes das decisões de investimento.The Economics of time and ignorance.. . Marx and the Structural Instability of Capitalism. o desvanecimento das oportunidades de investimento leva o desenvolvimento capitalista a apresentar uma tendência inexorável à estagnação. 5. cap. longo prazo as que de circunstâncias influenciam a históricas. v.. SHACKLE.. a noção de incerteza estrutural nos auxilia a elucidar a essência de seu pensamento..M. 1988. n. 1984. A.S. (Ed. uncertainty and profit. In: GOODWIN. H. Uncertainty. .P. pois o que Caio Prado pretende destacar é a extrema instabilidade da acumulação de capital. R. posteriormente. 4. . 1984. Sobre o tema. 1985. Keynesian Economics: the search for First principles.. 1957. ver também. M. Para Caio Prado. A noção de <<incerteza estrutural>>. SYMPOSIUM on Uncertainty. In: FRISCH. Journal of Post Keynesian Economics. G... Deficient foresight: A troublesome theme in Keynesian Economics. B. Journal of Post Keynesian Economics. G.K. p.13 Embora estranha à sua matriz teórica. A idéia de <<incerteza>>.S. permite dar um conteúdo histórico específico ao conceito de <<incerteza>>.Keynes. . Sua teoria dos mercados está detalhada em Esboço dos . 480-487.Causes of Contemporary Stagnation.Teoria geral do emprego. 1933.L.14 externas expectativas e de Ao sintetizar internas. SHACKLE. 1982. vinculando-o a um campo de oportunidades que delimita as potencialidades de cada espaço econômico nacional como base de reprodução ampliada do capital. KEYNES. A respeito do conceito de <<incerteza>> ver KNIGHT. tomada de Vercelli.. 1978. F.Epistemics and Economics. (Org. KEYNES. 1986. J. VERCELLI.L. et al – Non-linear models of Fluctuanting Growth. A.M.) . Technological Flexibility and Regulation. da renda . CODDINGTON.S. desenvolvida por Keynes. formação das valorização do capital. J. COODINGTON. esta noção nos permite caracterizar de maneira mais adequada a extrema vulnerabilidade das economias subdesenvolvidas frente às vicissitudes da economia .Risk. 1972. 13 . GAHLEN. (1936).3. G.Stagflation and The Recent Revival of Schumpeterian Entrepreneurship. .) .Keynesian Economics: the permanent revolution. A.M. A. 1984. .l). originalmente formulada por Knight e. 1988. . G.The romantic mountain and the classic lake: Alan Coddington’s Keynesian. American Economic Review. In: SZMRECSÁNYI. O conceito de <<incerteza estrutural>> é desenvolvido em VERCELLI. SHAW. RIZZO.Um Esquema de Teoria Econômica. . A.L. 14 . T. . 1982. SHACKLE. Schumpeter.120 A validade de seu argumento sobre os efeitos nefastos da precariedade da conjuntura mercantil sobre o desenvolvimento das economias coloniais em transição independe de sua concepção subconsumista a respeito da formação dos mercados.A teoria geral do emprego (1937).. 1984. . DRISCOLL JR. 6 e 7.. (s. G. VERCELLI.Fluctuations and Growth: Keynes.6.

o modo de organização do capital tende a assumir a forma mais líquida possível e a racionalidade burguesa tende a adquirir ponto um caráter particularmente sua especulativo.121121 121 internacional e a influência desestabilizadora desta situação sobre a conjuntura mercantil e as correspondentes formas de organização da produção. A precariedade da conjuntura mercantil compromete a posição da economia colonial em transição como horizonte de reprodução passa de ampliada um mero tem porque. é que das a Enfim. apêndice fortes como do seu espaço econômico o à não mercado global. o fundamental do de argumentação de extrema economias instabilidade processo mercantilização periféricas não permite que o mercado interno se afirme como horizonte de acumulação e como instância de validação social do circuito de valorização do capital. e que. Caio Prado explicou:colocou a questão nos seguintes termos: “Neste sistema universal do imperialismo. Sobre ele se desenrola ou perpassa a concorrência capitalista transportada para o terreno internacional. o Brasil ocupa (. longe de se ter abrandado pela concentração de capital e formação de .. Comentando o caso da economia brasileira.. Por isso. quanto capital melhor internacional incertezas distribuição espacial de seus investimentos. A quanto impossibilidade à trajetória de longo de previsões da de razoavelmente faz com da seguras que a futura prazo economia expectativa valorização riqueza capitalista se transforme em um caleidoscópio ultra-sensível.) uma posição secundária.

torna-se impossível medir quantitativamente. . ou mesmo definir qualitativamente de uma forma completa a ação específica e isolada do imperialismo com relação ao Brasil (. e não mais apenas as escaramuças passadas de minúsculos capitalistas individuais concorrentes.15 Como não é possível prever a importância relativa dos mercados periféricos na estratégia de reprodução ampliada do capital em escala mundial.. unilateralmente Para garantir seus essa vínculos com o espaços liberdade. capital internacional exige o máximo de mobilidade espacial. PRADO JR. 1970.. eles esses tendem a redefinir econômicos.. O Brasil é apanhado e arrastado passivamente do vértice daquela luta. . cuja simplesmente semivácuo capacidade de absorção de inversões provindas do centro do sistema seria dada pelo grau de subdesenvolvimento deles e pela diferença quantitativa de progresso econômico que os separa dos países desenvolvidos. 278. oportunidades existentes em outras praças se tornarem mais interessantes...História econômica . e sua evolução econômica será função de grandes acontecimentos mundiais que se compreendem e explicam apenas no cenário universal e em conjunto com a história geral da Humanidade. intensificou-se porque é agora o embate de gigantes em frentes extensas.122 imensos monopólios.. Nestas condições. O subdesenvolvimento. a expectativa de longo prazo dos monopólios sobressaltos internacionais e alterações fica constantemente Se as sujeita a abruptas. p. C.)”. “Não se podem como considerar um vácuo ou os países subdesenvolvidos capitalista. embora 15 .

“Não basta que esse capital proporcione lucros em moeda nacional desses países: é preciso ainda que se verifique a possibilidade de converter essa moeda nacional e de valor unicamente interno. PRADO JR. implica mais que essa a simples insuficiência e de progresso. faz suas contas em dólares. 190. a extrema vulnerabilidade do balanço de pagamentos das economias subdesenvolvidas torna-se uma fonte da adicional de imprevisibilidade internacional que no solapa futuro a de confiança iniciativa privada seus negócios. Como o capital internacional só se realiza quando se transforma em moeda conversível.. Cruzeiros ou outras moedas nacionais 16 . e é em dólares que espera ser remunerado. mas não sempre. Como lembra Caio Prado..16 A impossibilidade de o mercado nacional afirmar-se como ponto de partida do circuito de valorização também compromete sua importância como ponto de chegada da reprodução ampliada. E é assim somente com a consideração dessa circunstância que se poderá verificar a maneira pela qual uma economia subdesenvolvida reage em face das inversões exteriores nela realizadas ou a serem realizadas. por índices 123 muito baixos de progresso econômico e de renda nacional.123123 se exprima geralmente. C. O capitalista norte-americano por exemplo.. . . em moeda de curso internacional.Esboço dos . que Envolve certos sobretudo posição periférica complementar países ocupam no sistema do capitalismo. 1957. É essa posição que faz deles países subdesenvolvidos e os caracteriza como tal. p.. permitindo com isso determinar os limites que se impõem a tais inversões”.

. 191-192 . Daí seus vínculos ultra-oportunistas com a sociedade nacional. O controle de meios de produção rudimentares faz com que sua sobrevivência dependa da continuidade de mecanismos de acumulação primitiva e que sua expansão seja determinada pelas oportunidades de negócios que se abrem nos interstícios dos investimentos realizados pelos grandes monopólios estrangeiros..17 Nesse contexto. Por isso.. Trata-se. . 1957. inconversíveis dólares. o capital industrial não encontra bases objetivas para se afirmar como modo dominante de acumulação.) se observa na facilidade com que ao primeiro sinal de dificuldades. devem ser mobilizáveis”. A falta de confiança no rumo da economia leva o espírito burguês a ficar impregnado de uma segunda natureza especulativa. conforme as circunstâncias do negócio. isto é. interessam. nas circunstâncias específicas das economias subdesenvolvidas e de suas finanças.Esboço dos . que constitui o lucro do capital invertido. C.. há que acrescentar as amortizações que também. a possibilidade. de remunerar convenientemente.. E a essa remuneração. PRADO JR.. e limites dela. isto é. em moeda internacional (ouro ou divisas). a burguesia dependente não tem capacidade de iniciativa. de determinar.124 congeladas nos países em respectivos não o de origem. No caso da iniciativa privada local. isto se manifesta pela sua incapacidade de superar a dependência e assumir a liderança do processo de desenvolvimento. p. portanto. as inversões externas que nelas se realizam. os 17 . “A falta de espírito de luta e grandes aspirações (.

p. 279 . Idem. Isto sem o menor espírito de combate ou idéia de eliminar algum terceiro. ... PRADO JR.História econômica . O essencial é que o capital internacional não cria raízes no espaço econômico nacional. . 1970. o as possibilidades naturais encerra. especulativo manifesta extrema volatilidade laços com o espaço econômico nacional e se consubstancia no fato de que as grandes empresas transnacionais não abrem mão da mobilidade espacial de seus capitais. “Tratase de um dualismo porque essencialmente ambos os setores se 18 19 . 262. escreve Caio Prado sobre o empresariado brasileiro No que se se refere ao capital na 18 .. sua presença na economia periférica implica a formação de uma base produtiva composta de dois sub-sistemas independentes. p. “O que nele conta são os braços que podem ser mobilizados que seu solo para o trabalho. consumidor potencial que nele existe e que eventualmente uma campanha bem dirigida pode captar. o caráter de seus internacional. pois não aceitam ficar confinadas às fronteiras de economias que desempenham papel residual na concorrência intercapitalista em escala global. nada. limitar e repartir a produção. Mas estes mesmos valores são por si.. 1970. porque contam unicamente como parcelas de um conjunto que abarca o mundo e somente nele representam algum papel”.125125 125 industriais se solidarizam em pools e agrupamentos destinados a controlar.19 Como os monopólios estrangeiros não abrem mão da possibilidade de se metamorfosear em moeda conversível. mas unicamente para usufruírem uma situação pacífica e cômoda”. C. Ibidem.

as forças produtivas voltadas para o atendimento das necessidades internas não têm a menor condição de competir nos mercados internacionais. cada um deles tem sua orientação comercial própria e exclusiva – um para o mercado externo.História econômica . e até mesmo. de natureza semelhante. p. do mercado em geral. 131 Para Caio Prado. de valorização do capital internacional em escala Diferentemente do que ocorre no capitalismo maduro.21 20 21 PRADO JR.. e não são mais que subdivisões. . muitas vezes. e o interno.. e somente se confundem e sobrepõem secundaria e subsidiariamente. nos países subdesenvolvidos estes dois mercados constituem realidades radicalmente distintas.20 A importância vital do setor especializado na produção de bens para exportação decorre do fato de que este é o único meio de se gerar as divisas indispensáveis para sancionar o processo mundial. a diferenciação entre mercados externo e interno constitui uma das principais características das economias coloniais em crise.126 caracterizam à parte um do outro e não se recobrem. onde o mercado externo está em posição de igualdade em relação ao interno – e por isso pode ser visto como sua mera extensão no plano internacional –. C. “Na teoria econômica ortodoxa os mercados externo e interno se equiparam. apenas excepcionalmente”. explica Caio Prado.. pelos fatores que determinam a capacidade de consumo da sociedade. que respondem a lógicas próprias de crescimento. outro para o interno –. Isto é.. A teoria ortodoxa considera naturalmente as variantes de . A inexorabilidade do dualismo é explicada pela seguinte razão: salvo casos excepcionais. O mercado externo é condicionado pelos ventos do comércio internacional. 1970.

...127127 A organização das economias dependentes em função 127 dos interesses efêmeros do capital internacional deixa-a ao sabor de acontecimentos estranhos à vida da coletividade nacional. p. p.)evoluindo com intermitências e através de uma descontínua sucessão de arrancos bruscos.. . Aqui a significação e o papel do mercado externo avultam de tal maneira que esse mercado se singulariza e individualiza inteiramente à parte. afirma Caio Prado.22 Por esse o economias é capitalistas e dependentes.. Pode-se dizer que dele deriva”. tanto os econômicos como os sociais. e em particular na perspectiva que diz respeito ao que nos interessa aqui mais de perto. financeiros nas internacionais concorrentes”.. Ele é função desse último.. das circunstâncias determinadas pela ocorrência de um mercado externo em que ela (a nacionalidade brasileira) assentaria suas bases e sobre o que se estruturou.23 um para outro desses setores do mercado. p. derivam todos eles. e que assim se individualiza e caracteriza em contraste radical com o externo. sua dinâmica “Sua fica vida a reboque é função dos de acontecimentos internacionais.. não fatores internos. realizada em perspectiva histórica. 1989. direta ou indiretamente. 138-139 22 .... 1970. será condição precípua e circunstância determinante da própria instalação e organização. O mercado interno não é assim. bem como as circunstâncias específicas de cada um. C. C. e mesmo. eles se equivalem do ponto de vista ortodoxo. e efetivamente acontece em regra. Na economia brasileira. desenvolvimento descontínuo particularmente instável. recuos momentâneos”. eventualmente. Mas essencialmente. o assunto não pode ser colocado nesses termos... como nos revela sua análise atenta. Trata-se. 77 . PRADO JR.. no território que constituiria o Brasil e suas diferentes partes. pois não é mais que decorrência daquelas mesmas circunstâncias determinadas pela presença do externo. PRADO JR. Inclusive naturalmente também o mercado interno que nela se verifica.. 279 23 . contudo.) um processo demorado (. 1989. como ordinariamente se considera na teoria econômica usual. C. A ocorrência de um consumo internacional dos eventuais gêneros que o território era capaz de produzir. paralelo ao externo e situado em plano semelhante. . de interesses e necessidades da população que nele habita.. . mas de contingências da luta de monopólios e grupos motivo. PRADO JR. Nessas circunstâncias. Assim os elementos componentes dessa nacionalidade.História e .História e . mas sempre de forma intimamente relacionada.História econômica . de coletividade humanas que evoluiriam para uma nacionalidade. paradas. de “(.

p..]. 247 . e dá a impressão ilusória de riqueza e prosperidade.. conjuntura internacional favorável a um produto qualquer que o país é capaz de fornecer.. Constituiu-se para um fim exclusivo [. pois a falta de controle sobre os parâmetros que moldam a conjuntura mercantil. responsável pela grande instabilidade das economias satélites. e nos casos extremos entra em colapso. o sistema decai. que comprometem a continuidade do processo de formação da nacionalidade. Na falta disso.. . impulsiona o funcionamento dela. e de “reversão estrutural”. a crises “O de vulnerabilidade foi um de economias nos dependentes seguintes dependerá desestruturação de explicada sistema produção termos: funcionamento da desses e do exclusivamente possibilidade interesse no consumo do produto específico e único que serve de base a tal sistema. ele perece”. deixa a base produtiva permanentemente provocados A exposta por mudanças aos efeitos no desestabilizadores contexto abruptas das internacional.. Mas basta que 24 . pois ele não tem condições para se recompor sobre novas bases..A Revolução .128 A extrema instabilidade das economias capitalistas periféricas torna-as extremamente vulneráveis a processos de reversão estrutural.. 1966.. ou o interesse no consumo. Consiste Uma mesmo essencialmente deles. “A economia brasileira conta com inúmeros numa episódios sucessão desse tipo. C. Falhando aquela possibilidade (. PRADO JR.).24 Nada melhor do que sua interpretação da história brasileira para ilustrar suas noções de “dinâmica reflexa”.

tornando impossível manutenção da vida e das atividades que alimentava. e dessa forma se organiza a produção. borracha.A Revolução .. Em cada um dos casos em que se organizou um ramo da produção brasileira (açúcar. especulativa imediatamente. não se teve em vista outra coisa que a oportunidade Para isso..25 25 . 247-248. café. PRADO JR. Depois é a estagnação e o declínio das atividades.. produção a e aniquilar. . algodão. . com dirigentes e trabalhadores da empresa que assim se instala – verdadeira turma de trabalho –. cacau e tantos outros de menor expressão). Como veremos o caráter reflexo da economia dependente não se altera quando. mobilizavam elementos necessários: povoa-se. momentânea se que se os apresentava. p. consideramos as operações que visam a atender o mercado interno..129129 aquela conjuntura se desloque. ao invés de considerarmos as atividades do capital internacional direta ou indiretamente relacionadas com a produção para o mercado externo. Não se irá muito além disso. para que ou o se esgotem os a a 129 recursos que se naturais destina decline a disponíveis organização tenda a fim específico para que assim se montada. C. nem E as condições em se o ou dispôs tal organização final ou o permitem. passa a vegetar sem ter em que se aplicar a obter meios regulares e adequados de subsistência”. recursos continuar-se-á até esgotamento da dos naturais disponíveis. 1966. E o que sobra da população que não puder emigrar em busca de outras aventuras semelhantes. conjuntura econômica favorável. ou se repovoa uma certa área do território mais conveniente. ouro e diamantes.

uma importação tornada por qualquer motivo impossível. que isolou as economias periféricas dos fluxos do comércio mundial e dos movimentos transnacionais de capitais. 1989. Idem. p.130 2. Industrialização como Ciclo de Substituição de Importações Na divisão economia visão de Caio do Prado.. PRADO JR. Daí o crescente desequilíbrio verificado.História econômica . mostrava-se insuficiente para fazer frente à nova conjuntura que assim se criara. 110. ao quebrar a capacidade para importar... embora mal e com artigos inferiores. Caio Prado resumiu a questão nos seguintes termos: “O velho sistema. abriu espaço para que se iniciasse um processo de industrialização voltado para a “substituição de importações”.. uma torno gerou conjuntura mercantil muito particular. incentivou a elevação dos investimentos destinados à ampliação da capacidade do sistema produtivo atendida orientado por para atender uma no demanda interna antes “Tinha produtos fabricados estrangeiro. é de se esperar. Comentando o caso brasileiro. revolucionará e dará por terra com o tradicional e anacrônico sistema brasileiro”. O dramático estrangulamento cambial gerado pela crise de 1929. . p. 299. a desarticulação organizada em da antiga da internacional inglesa. assente na exportação de gêneros primários. ...26 26 . História e . perspectiva de sucesso qualquer atividade que fosse capaz de substituir. ao abalar os alicerces da economia primária exportadora.. ou mesmo que unicamente eliminasse algum custo pago em moeda estrangeira”. C. trabalho. E os mecanismos de compensação que tal situação de desequilíbrio põe em jogo irão dar lugar a novas formas que abrem perspectivas para um outro tipo de economia que. 1970. A desorganização das trocas e das finanças internacionais.

estruturas Por da essa razão. o processo de industrialização representa abertura para um novo sistema econômico.. p. aos limites Caio Prado não alimentou como ilusões em de deste processo instrumento construção da nação. . Isto é. quarenta. 1989.História e . o principal problema é que a substituição de importações ficou subordinada à lógica de modernização dos padrões de consumo das elites nacionais. (. integração do mercado interno e o fortalecimento da iniciativa privada nacional.27 Embora reconheça que a industrialização para substituição de importações tenha dado um importante impulso à integração do mercado interno... a expansão e a diversificação do parque produtivo acirraram e a a generalização crise da das relações de assalariamento estimulando a economia colonial. a industrialização Escrevendo preservou na década as de sociedade colonial. C..131131 131 Para Caio Prado.. Caio Prado advertia que as iniciativas de substituição “(. à expansão e à diversificação do parque produtivo relação nacional. . 141.) destinam-se pela sua 27 ... PRADO JR. No que diz respeito à conjuntura mercantil. no calor dos acontecimentos. O que vai de encontro ao sistema anterior e tradicional em que predomina a função exportadora”.) Nas os apesar todos aspectos negativos. este processo constitui uma resposta palavras positiva de Caio para Prado a crise “(... Nesse sentido.) da economia de colonial.. uma economia nacionalmente integrada e precipuamente voltada para atender às necessidades internas da coletividade humana nela engajada.

116-117. se anulava com a importação de insumos necessários àquela produção e que o país não estava em condições de produzir suficientemente.. por força de seus ínfimos padrões.. a saber... C.). 119-120 ...História econômica . (. e do qual se achava praticamente excluída. p. o artificial e distorcido sistema de preços a que levara a política de favorecimento da industrialização. a economia de divisas.. .] Acresce a esses fatores que contribuem para o desequilíbrio das contas externas. História e . fora de tais limites. História econômica . direta ou indiretamente.132 própria antes natureza.. as necessidades do mercado consumidor relativamente restrito de uma minoria que [.. embora o processo de substituição de de importações ele provocasse não uma o contração problema no do coeficiente importação. a expansão da industrialização repunha o dualismo econômico.28 No que se refere à organização da produção. PRADO JR... O viés anti29 28 . 333. que poderia. eventualmente. Como afirma Caio Prado.. 1989. superava desequilíbrio estrutural no balanço de pagamentos. apesar das aparências em contrário.] se pode considerar econômica e socialmente privilegiada.. por à satisfação do de uma necessidade e limitada do suprida via comércio exterior insulada organismo econômico do país... É importante assinalar que tal desestímulo não deve ser considerado como um problema aleatório..) atender. p.. p. ter sido contornado. Tornam-se assim.29 . Isso porque freqüentemente a economia realizada com a produção interna substitutiva. C. Por isso.. Idem. e que tendia a desestimular as exportações”. a grande maioria e massa da população”.. quase totalmente estéreis”. PRADO JR. trata-se de “(. uma vez que. Caio Prado advertia que a substituição de importações “Não atenderá cabalmente nem mesmo ao objetivo essencial a que originariamente se destinara. [.

isto é.30 Portanto. para Caio Prado. apesar da drástica contração do grau de abertura externa. dispendiosos essenciais serviços à dos nossa bem subsistência. pois é com a receita daí proveniente que se pagam as importações. expansão diversificação do parque produtivo alimentou-se das próprias contradições geradas pela dinâmica de substituição de importações.. remunerados e os trustes imperialistas aqui instalados e com que se pretende contar para a industrialização e desenvolvimento econômico do país”.) continua em essência o mesmo do passado. o sistema colonial (. É o caráter reflexo deste processo que leva Caio Prado a insistir na sua natureza contraditória com o movimento exportador resulta. produtivas não da o expressivo a desenvolvimento da Por das forças às a eliminou economia vulnerabilidade internacional.133133 133 Por essa razão.. o da concorrência movimento de de produtos e importados. natureza da política . o setor exportador continuou sendo um fator limitativo do desenvolvimento nacional. vicissitudes continuidade da industrialização dependeu da estabilidade de uma conjuntura mercantil muito especial que isolava o mercado das economias Por periféricas outro. É com essa produção e exportação conseqüente que fundamentalmente se mantém a vida do país. economia um lado. da própria cambial de incentivo à substituição de importações. uma organização fundada na produção de matérias-primas e gêneros alimentares demandados nos mercados internacionais. Nas palavras de Caio Prado colocou a questão nos seguintes termos: “Embora numa forma mais complexa.

p. o que se observa é sob certos aspectos até mesmo o agravamento a um das e circunstâncias bem estruturais e desfavoráveis sólido fundamentado crescimento econômico.. ela não terá um progresso contínuo e sustentado que por si próprio lhe fosse gradualmente abrindo novos e cada vez mais amplos horizontes.. 1989. e uma relativa retração das perspectivas”. como em particular a caprichosa conjuntura das finanças externas. e em especial pioneiros a que moderno desenvolvimento na base e de um industrial. 1966... Idem.A Revolução . p. 137 .. 122-123 . C. e por isso muito graves e profundas – as circunstâncias nos países próprias que do em outros lugares.. ao sabor de vicissitudes que lhe são estranhas. Ao contrário disso. . e à primeira vista até mesmo com certos aspectos espetaculares – como particularmente o mais recente deles e de maior vulto que é o da fase posterior à última guerra –.) não se apresentam no Brasil – por força de contingências estruturais. . Fazendo um balanço da industrialização brasileira. E embora apresente alguns surtos apreciáveis. processo aquele promoveram industrialização lhes autopropulsor progresso.31 30 31 ... A proporcionou assegurou marchará industrialização brasileira canhestramente e por impulsos descontínuos e desordenados. PRADO JR.História e .134 de construção da nação.. o autor resumiu a questão nos seguintes termos: “(.

Por mais paradoxal que isso possa parecer. “Imperialismo Total” e Industrialização Periférica 135 Na visão de Caio Prado no a participação de dos grandes de monopólios internacionais processo substituição importações agravou a instabilidade das economias dependentes porque. a subordinação do processo de industrialização à lógica do capital financeiro internacional agravou a vulnerabilidade externa da economia brasileira. eles inviabilizaram a consolidação de um “capital industrial” de origem nativa capaz de liderar o processo de acumulação. apesar do expressivo desenvolvimento das forças produtivas. representam assim reforçamento do sistema colonial que é o principal responsável .135135 3. o que os empreendimentos imperialistas determinam na atual conjuntura brasileira. é uma deformação processo e de amesquinhamento do que E deveria ser o nosso um industrialização. “Não empreendimentos imperialistas que podemos contar para um real desenvolvimento. ao acorrerem à periferia atraídos pelas oportunidades de negócios abertas pela expansão do mercado interno. Ao contrário desse desenvolvimento. Donde a severa crítica de Caio Prado ao movimento de internacionalização de capital comandado pela estratégia emergentes de conquista grandes dos mercados internos das – nações pelos do trustes internacionais é com fenômeno característico pós-guerra. uma vez que não há nada que assegure de antemão que os lucros acumulados internamente poderão ser sancionados no mercado internacional.

bem como ao largo prestígio que em geral desfrutam. 330 . constituindo parcelas por si insignificantes de um todo que se centraliza muito longe de cada país em que se realizam..136 pelas nossas deficiências. p. . limitando o desenvolvimento aos acanhados horizontes daquele sistema”. 1970. que é poderosa graças aos avultados recursos de que dispõem.) tais empreendimentos. e têm interesses de natureza de uma essencialmente política de internacional. E através da ação deles. alguns setores da economia dos países subdesenvolvidos – aqueles que interessam à política de vendas dos trustes – tendem a se hipertrofiar em prejuízo e à custa de outros de muito maior significação para aqueles países. vendas Assim resultam por unicamente orientada sendo.. PRADO JR. Caio Prado resumiu o papel do capital financeiro no processo de substituição de importações nos seguintes termos: “(. Compromete-se assim o 32 . os diretrizes comerciais dos trustes imediatistas.História econômica .32 O núcleo de sua argumentação é que o recurso à produção interna é um expediente oportunista dos grandes trustes internacionais para tirar proveito de conjunturas mercantis circunstanciais.. C... com as necessidades reais e próprias dos países subdesenvolvidos em que atuam. ou só por coincidência se relacionam. A transferência de unidades produtivas para a periferia não significa maior autonomia do espaço econômico nacional porque o processo de valorização do capital permanece subordinado à lógica de valorização do capital em escala mundial.. empreendimentos internacionais não se relacionam.

Isso se comprova.34 Enquanto no período anterior a difusão de estruturas produtivas contribui para o desenvolvimento das economias retardatárias... antes de se estabelecerem no país em questão com empreendimentos industriais e produtores.35 . e para contornarem o obstáculo das tarifas alfandegárias e outras restrições à importação. ou então por uma questão de facilidade de transporte e de situação vantajosa de proximidade maior do mercado e ligação mais íntima com ele.137137 desenvolvimento ordenado e harmônico das 137 economias subdesenvolvidas . lucros anteriormente acumulados ou depósitos bancários em filiais locais de estabelecimento estrangeiros)..) da produção de matérias-primas exportáveis. PRADO JR. 198-199. Idem. Trata-se sempre de um processo que objetiva simples ampliação de vendas. As características do processo de internacionalização de capital liderado pelos grandes trustes e suas conseqüências para o equilíbrio do sistema imperialista e o desenvolvimento dos países periféricos são examinadas em Ibem. C. 1957.”.. a iniciativa dos trustes o que visa é tão-somente aparelhar-se melhor para as vendas. Ibidem. diferentemente do que tinha ocorrido na fase do capitalismo concorrencial – quando a exportação de capital produtivo integrava-se organicamente nas economias periféricas –. 34 . fechando as possibilidades para uma arrancada recuperadora. Caio Prado explicou a questão nos seguintes termos: “Hoje. Ibidem. A propósito do papel do capital internacional no desenvolvimento das economias periféricas é oportuno lembrar a advertência de Caio Prado. entre outros. na etapa subseqüente. 206. caso esse em que não há correspondência apreciável alguma entre esse empreendimento e o desenvolvimento econômico do país onde se realiza. “O 33 .. tal processo bloqueia o desenvolvimento nacional. o que aflui dos centros capitalistas para os países retardatários e subdesenvolvidos da periferia do sistema. quando não se trata (. pelo fato de que. É somente depois. na etapa do imperialismo total este processo é regido pelo interesse monopolizar do os grande capital e financeiro os processos internacional produtivos em das mercados economias dependentes. ou para se aproveitarem de mão-de-obra barata. De fato.. que os grandes trustes internacionais se instalam no país com indústrias subsidiárias que no mais das vezes não passam de prolongamentos dele e seção de acabamento de seu produtos. do que a iniciativa de grandes trustes internacionais estabelecidos nos países subdesenvolvidos como simples agências de vendas. os trustes iniciam sua penetração com agências ou representações comerciais vendedoras de seus produtos.. 35 . p. 7. cap.Esboço dos . p.. em regra. e não propriamente aplicação de capitais disponíveis e organização de uma atividade produtiva simplesmente destinada a remunerar esses capitais”.33 Logo. é muitas vezes menos o capital (pois este mesmo é freqüentemente recolhido no próprio país subdesenvolvido sob forma de emissão local de títulos. .

. Refiro-me particularmente à Europa. mas ainda impôs um processo contínuo e ininterrupto de inversões que criava ele próprio as condições para essa continuidade. aos Estados Unidos e aos domínios britânicos no curso do século passado. e é em benefício desses empreendimentos e da política internacional de vendas dos trustes que os controlam. p. PRADO JR. C. isto é. onde a introdução em larga escala e ritmo acelerado da técnica industrial não somente proporcionou. Para ilustrarmos o assunto. Sempre em segundo plano em frente aos poderosos empreendimentos estrangeiros. “Nessas condições. englobando sucessivamente novas áreas e setores que desde logo se organizavam de maneira análoga à dos centros originários de onde partira a expansão. . E assim o capitalismo nacional não somente permanece fraco e se subordina cada vez mais ao sistema internacional dos trustes através de ligações e participação conjunta em negócios em que é obrigado a figurar na posição de sócio menor. C. . 196. 36 . em pé de igualdade. e que foi por isso ganhando permanentemente em vulto e ritmo de crescimento. os empreendimentos e a iniciativa dos trustes internacionais”.. 208-209. embora muito aquém ainda da Inglaterra e mesmo da França em termos quantitativos de progresso econômico.. vivendo de finanças desorganizadas e apoiando-se por isso em bases aleatórias. . As diferentes partes e o conjunto se amparavam assim e se estimulavam reciprocamente. com toda a diferença embora.. Não seria o caso aqui de analisarmos as circunstâncias históricas extremamente complexas em que isso se realizou. Nestas circunstâncias. lembremos por exemplo que em meados do século passado os Estados Unidos... Trata-se aí todavia de uma fase preliminar de estruturação do sistema capitalista em que a difusão e expansão se foi realizando homogeneamente. a saber. PRADO JR..36 Como resumiu Caio Prado. que nesse assunto tem iludido e ainda ilude muitos economistas é a equiparação sumária e injustificada que fazem entre os países subdesenvolvidos da atualidade e as áreas e setores por onde se expandiu e onde se estruturou o capitalismo nascente e em sua primeira fase de evolução. A parte de leão da mais-valia proporcionada pelas atividades produtivas dos países subdesenvolvidos é por isso absorvida pelos empreendimentos internacionais que nelas concorrem. que se realiza a maior parte da acumulação capitalista. não lhe é possível manter-se e se desenvolver normalmente. 1957. em categoria e tipo capitalista de organização econômica”. num mesmo plano do sistema. equiparavam-se essencialmente a eles. p. e recebendo desses centros seus principais estímulos e impulsos.Esboço dos . mas o fato é que a expansão capitalista se deu nas áreas primeiramente atingidas conservando em todo seu processamento uma identidade suficiente para desde logo incluir aquelas áreas.. a embrionária burguesia industrial da sociedade periférica fica condenada à total submissão. fazendo abortar o processo de nacionalização da economia. 1957. o crescimento e a adequada estruturação do capitalismo nacional dos países subdesenvolvidos são grandemente embaraçados. como ainda se mostra incapaz de promover com as próprias forças o desenvolvimento nacional que fica assim paradoxalmente na dependência do mesmo fator que o embaraça. e o capitalismo com seu corolário tecnológico se introduziu assim e uniformemente se generalizou por todas aquelas partes.Esboço dos .138 A questão crucial é que a assimetria no grau de concentração e centralização do capital inviabiliza qualquer possibilidade de uma relação de concorrência equilibrada entre os capitais internacionais e nacionais.

E desde nascedouro. C. coloca essas últimas em posição de nítida inferioridade. que nos signo esse monopólio. 1957. pelo menos a resultante de um longo e árduo processo de luta econômica e concorrência desenfreada em que se apuram as boas qualidades dos concorrentes que lograram sobreviver.. gera Não é graves mais o distorções capital no processo que de se estrangeiro adapta ao perfil do mercado interno. . com todos seus aspectos negativos. grandes centros capitalistas da atualidade constitui.. mas sim o mercado interno 37 . monopólio. ou neles as deixa em segundo e subordinado plano. preferem as iniciativas convivência nacionais pacífica. embora em ou quando muito uma e posição dependente subordinada. não se apresenta nos países subdesenvolvidos se não com aqueles seus aspectos negativos”. 206-207 . p. O capitalismo o seu evolui assim sob nos o países do subdesenvolvidos.) a concorrência que empreendimentos estrangeiros fazem às iniciativas nacionais.139139 139 “(. e em benefício de interesses estranhos. PRADO JR. Elimina-se com isso. a seja abstenção. E se isso não é sempre sentido e devidamente apreciado. A abrirem luta... o controle do capital internacional sobre a industrialização mercantilização. Veda-lhes os setores e as atividades mais importantes e de melhores perspectivas. o principal fator progressista do capitalismo: a luta econômica. é porque se trata de algo já tão estabelecido e arraigado que se aceita como uma fatalidade contra a qual nada há a fazer...Esboço dos .37 Por um lado.

. que pela necessidade de ampliarem indefinidamente sejam eles ou a venda de seus pelas produtos exigências específicos. p 199.. indicados efetivas do mercado. deriva menos da importância do capital de propriedade do grupo financeiro empreendedor e dirigente do truste. que da .. Havendo mister. ajustando-as de maneira conveniente aos interesses do país. PRADO JR. Uma poderosa indústria internacional poderá entrar no mercado de um país subdesenvolvido. O desmedido poder de manipulação dos mercados periféricos é explicado pelo autor nos seguintes termos: “A inversão de capital não seguirá outra norma que a do interesse comercial imediato dos trustes. o caráter predatório do capital monopolista asfixia o capital nacional.140 que se ajusta Isto aos interesses “(.) para comerciais os se do capital trustes com a estrangeiro.. as grandes empresas monopolistas de nossos dias..Esboço dos . não. quando a internacionalização dos mercados internos incentivou o fortalecimento da iniciativa privada nativa. . no sistema atual do capitalismo. na fase do imperialismo total. Idem... Caio Prado qualifica a mudança qualitativa no caráter do processo de internacionalização nos seguintes termos: “(. 199 39 . Mas o lucro.39 Ao invés de fomentar 38 . ao contrário de suas antecessoras do capitalismo liberal. C. diferentemente do que ocorreu no século XIX. o que o truste visa é naturalmente o lucro. p. suprirá aquelas circunstâncias que num caso ordinário teriam de ser levadas em conta e orientariam as inversões. mesmo que esse mercado se encontre saturado de produtos similares aos seus. contam preexistência de um mercado para seus produtos. Em suma. e ditadas pelas verdadeiras necessidades dele no momento. e nele se impor e expandir. grandes estenderem.) como todo empreendimento capitalista. que com a sua capacidade de criarem esse mercado e o tirarem às vezes do nada ou quase nada. e se fará em atividades da especialidade da empresa e sem consideração a outras circunstâncias ligadas à estrutura e mesmo conjuntura do país em que se realiza. internacionais porque menos.38 Por outro lado. ou que não haja normalmente necessidade alguma deles”. 1957. se conduzem muito menos pelas condições próprias do lugar onde pretendem operar. O truste. elas saberão como criar essas exigências”. Ibidem. com seus largos recursos e poderio econômico..

141141 o desenvolvimento trustes de um sistema o nacional do de inovações, nacional

141 os às de o

grandes novas

bloqueiam Antes

acesso de

capital a

tecnologias.40 de

reforçar

capacidade produtivos,

mobilização

recursos

para

investimentos

capital internacional monopoliza os recursos disponíveis para o financiamento da acumulação, controlando os mercados de

capitais das economias periféricas.41 Não bastasse isto, os grandes trustes se situam em posição privilegiada para tirar

medida do controle e comando exercidos por esses grupos sobre atividades produtivas e mercados. Num tal sistema, evidentemente, o papel de empreendimentos estrangeiros no Brasil e demais países do nosso tipo não é o de simples impulsionador e iniciador do desenvolvimento industrial. O objetivo de um truste instalado no Brasil com suas filiais, subsidiárias e satélites será fatalmente o de se expandir ao máximo, destruindo todos os obstáculos que se anteponham a essa expansão e captando em seu proveito os benefícios daquele desenvolvimento na medida restrita em que ele se realizar”, Idem, História econômica ..., 1970, p. 327 40 . Como afirma Caio Prado, “(...) os centros de pesquisa dessas grandes empresas internacionais e imperialistas que operam em países como o nosso, se localizam naturalmente, como não podia deixar de ser, nos países de origem, nas respectivas matrizes dessas empresas. E suas subsidiárias no exterior, que seria o nosso caso, somente recebem por isso a sua informação técnica em segunda mão, já elaborada e formalizada em suas fontes originárias. O que naturalmente retira dos cientistas e técnicos indígenas de países como o Brasil, as melhores oportunidades do trabalho de pesquisa, e os liga umbilicalmente e em dependência completa a seus remotos informadores. E isso sem perspectiva de saírem de tal situação que somente tenderá a se agravar”, Idem. Ibidem, p. 329. 41 . Afinal, como lembra Caio Prado, “Entre o capitalismo liberal ainda largamente descentralizado do século passado, e o sistema trustificado de nossos dias, vai uma grande diferença no que respeita aos países menos desenvolvidos, como se observa particularmente bem no tipo das inversões internacionais de uma e de outra época. Assim os capitais europeus aplicados nos Estados Unidos durante o século passado, e que tiveram considerável papel no desenvolvimento daquele país, foram sobretudo de dois tipos que se fazem hoje cada vez mais escassos. Tratava-se então ou de capitais individuais levados por seus titulares europeus que com eles emigravam para os Estados Unidos; ou então de capitais levantados na Europa e aplicados no financiamento de empreendimentos nacionais norte-americanos. No primeiro caso, o capital se fazia desde logo norte-americano e se integrava por completo na economia do país em que se aplicava. No caso do financiamento, a remuneração e os serviços de capital estrangeiro se achavam de uma vez por todas determinados, como na hipótese de empréstimos; ou quando ocorria participação direta (no caso de os titulares europeus do capital se tornarem acionistas ou por outros títulos participantes das empresas norte-americanas), o controle do negócio e, portanto, das obrigações financeiras dele, (a remuneração de capital) se conservava em mãos norte-americana. O empreendimento em suma era e se conservava essencialmente norte-americano e integrado por completo na economia nacional do país”, PRADO JR., C., Esboço dos ..., 1957, p. 198. Ver também, Idem, - História econômica ..., 1970, p. 327, nota 126.

142 proveito da extrema instabilidade cambial que caracteriza as economias periféricas, fortalecendo ainda mais sua posição de força em relação ao capital nacional e as autoridades

econômicas. Em suma, para Caio Prado a presença dominante dos grandes trustes internacionais é no processo com a de substituição de um de

importações econômico unidades

incompatível Em

formação o

sistema de a

nacional. produtivas da

primeiro a

lugar,

deslocamento significa e o

para

periferia de

não

internalização

capacidade

inovação

aumento

progressivo da competitividade internacional. “Não pode haver dúvidas que em países onde não se realiza pesquisa técnicocientífica de primeira mão, própria e autônoma, e diretamente integrada no processo um industrial respectivo, de nesses países e

estabelece-se

vínculo

irremovível

dependência

subordinação que elimina qualquer perspectiva, por mais remota que seja, de um progresso tecnológico original independente e impulsionado por forças e necessidades próprias”.42 Em segundo lugar, a internacionalização dos mercados internos agrava a incerteza cambial. O cerne do problema é que o controle do processo de substituição de importações pelos grandes trustes gera uma crescente discrepância entre a acumulação interna de capital, que se materializa em moeda nacional, e a

disponibilidade de divisas necessária para sua realização no mercado internacional. Caio Prado explica: “(...) essas

inversões são de um tipo novo e bem distinto, quanto a seus

143143

143

efeitos econômicos, do anterior em que se objetivava direta ou indiretamente contribuir para a exportação do país em que se fazem as inversões. Neste último caso, (...), as inversões estrangeiras criavam automaticamente as próprias fontes de sua remuneração, a saber, as divisas obtidas com a exportação. Isso deixa de ocorrer quando as inversões se destinam a

fornecer ao mercado interno. Inversões desse tipo – a que devemos acrescentar outras de efeitos mais graves que são as de natureza comercial e sobretudo financeira – determinam logo que adquirem certo vulto, e por efeito dos pagamentos externos a que dão lugar sem um correspondente e compensador aumento dos meios de satisfazer tais pagamentos, situações de crônico e freqüentemente agudo desequilíbrio do balanço de contas

externas dos países subdesenvolvidos. Desequilíbrio esse que atua como fator limitante das próprias inversões, pois reduz e torna essencialmente precária a capacidade de aqueles países saldarem regularmente seus débitos internacionais”.43

42 43

. PRADO JR., C. - História econômica ..., 1970, p. 329. . PRADO JR. C. - Esboço dos ..., 1957, p. 195. Em outra passagem, Caio Prado resumiu a questão nos seguintes termos: “Na medida todavia do desenvolvimento dos países subdesenvolvidos e da paralela formação de um mercado interno apreciável com a conseqüente orientação para ele de uma parcela crescente das atividades econômicas, inclusive das promovidas pelas inversões estrangeiras antes aplicadas unicamente na produção para a exportação, [o] equilíbrio das contas externas tende a se romper, pois (...) não haverá mais correspondência necessária, nem provável e até mesmo possível entre os recursos que os países subdesenvolvidos recebem por conta de suas exportações, e o que têm de pagar pelas importações e mais pelo serviço dos capitais estrangeiros neles invertidos. E não se verifica aquela correspondência, tendendo o sistema permanentemente para o desequilíbrio, porque não operam na economia dos países subdesenvolvidos, dada a sua natureza complementar e subsidiária, fatores adequados de compensação dos desequilíbrios verificados e capazes de restabelecerem o equilíbrio rompido. Pelo contrário, a tendência é freqüentemente em sentido oposto e de irreparável desajustamento. A exportação, a importação, o serviço financeiro do capital estrangeiro e as novas inversões desse capital – ... – não se relacionam entre si de maneira a variarem em função uns dos outros, assegurando um nivelamento, ou pelo menos uma tendência ao nivelamento, ou pelo menos uma tendência ao nivelamento dos itens

144 Certamente financiamento estimulem o Caio Prado não e ignora que mecanismos mercantis podem de que

internacional reinvestimento

conjunturas dos lucros

reduzir

temporariamente o risco de estrangulamento cambial, dando a impressão de que a liderança das empresas transnacionais sobre o processo de de um industrialização sistema não é incompatível O com a ao

formação

econômico

nacional.

recurso

endividamento externo não passa, no entanto, de um expediente temporário que só agrava os desequilíbrios estruturais das

contas externas. Por estas razões, mesmo quando a entrada de capital estrangeiro estimula o processo de industrialização e a contração do coeficiente de importações, o caráter dual da economia permanece, pois, se, por qualquer motivo, acontecer uma reversão nos fluxos de capitais – seja por causa de uma deterioração na importância relativa do mercado nacional; de um colapso no padrão de financiamento internacional; ou de uma crise de confiança na capacidade de pagamento externo –, a expansão sancionar monopólios do o setor capital exportador acumulado constitui o único pelos meio de

internamente a

grandes de

multinacionais.

Criticando

política

endividamento dos governos brasileiros nos anos sessenta, ele colocou a questão nos seguintes termos: “Esse déficit tende (...) a se agravar, porque a natural e fatal expansão das empresas imperialistas instaladas no país, e portanto a

respectivamente do dever e do haver. Trata-se de elementos desconectados entre si e ligados a circunstâncias próprias a cada qual e estranhas ao balanço das contas”, PRADO JR., C. - História econômica ..., 1970, p. 202. Para uma explicação detalhada dos mecanismos de instabilidade financeira, ver Idem, C. - Esboço dos ..., 1957, p. 202 a 206.

145145

145

ampliação de suas operações, proporcionarão lucros cada vez maiores e portanto remessas mais vultosas para o exterior. Ora, os crescentes déficits que isso determinará, somente

poderão ser cobertos com os saldos do comércio exterior – pois o expediente que vem sendo adotado, do recurso ao

financiamento, empréstimo e moratória não pode evidentemente ser considerado permanente, e não resolverá nunca, em

definitivo, a situação. Mas como, doutro lado, nada faz prever uma ampliação apreciável de nossa capacidade de exportação, antes pelo contrário, há que contar com uma retração do afluxo de capitais estrangeiros, uma vez que se fará cada vez mais difícil às finanças brasileiras dar cobertura cambial às

remessas para o exterior que as empresas detentoras daquele capital pretenderão efetuar. E pelo contrário, essas empresas procurarão, em frente às dificuldades crescentes da situação, retirar do país o máximo possível de suas disponibilidades”.44 Logo, a despeito das aparências, a liderança das empresas transnacionais sobre as atividades produtivas voltadas para o mercado interno implica o ressurgimento de relações típicas do antigo sistema colonial. Como diz o autor: “(...) as inversões estrangeiras do tipo que analisamos constituem muito menos um fator de progresso não vai real – o progresso além da aparente superfície que e

proporcionam

geralmente

exterioridade – que de perturbações destruidoras, a prazo mais ou menos breve, Elas dos não eventuais representam, e momentâneos um benefícios estímulo ao

produzidos.

portanto,

44

. PRADO JR., C. - A Revolução ..., 1966, p. 138

. . Uma expansão semelhante já não é mais possível nos países que permaneceram à margem e na periferia do sistema. como se deu com os países subdesenvolvidos de hoje. Temos assim que as circunstâncias econômicas de nossos expansão dias do se distinguem na profundamente qual se deu das a da fase e de o capitalismo formação desenvolvimento dos centros capitalistas contemporâneos. economias essas extrema instabilidade coloniais 45 .45 4. 200-201 .. pois ocorrem nessa expansão fatores orgânicos de desequilíbrio e deformação que irremediavelmente a comprometem e detêm”. Idem. p.146 desenvolvimento e capaz de lhes alargar permanentemente as perspectivas. Observações Finais Concentrando-se econômico nacional. sobre o o substrato social de de um espaço Prado esquema analítico Caio estabelece os requisitos históricos necessários para que as relações de produção permitam compatibilizar desenvolvimento capitalista interpretação subdesenvolvidas e sociedade sobre os nacional autodeterminada. das os Sua problemas dois economias fatores privilegia aspectos: responsáveis pela precariedade do processo de mercantilização e os determinantes no da volatilidade econômico das do vínculo São do capital as em internacional causas da espaço nacional.Esboço dos . 1957..

A Segunda movimento levou subestimação Revolução de do poder de difusão das estruturas pelo no da lutas de classes e incorporação de progresso Industrial. A avaliação inadequada do fôlego do processo de industrialização por substituição de importações induziu-o. técnico. do mercado Caio estreiteza interno brasileiro como obstáculo ao movimento de expansão das forças produtivas no país. o aparelho conceitual de Caio Prado não é adequado para equacionar analiticamente os condicionantes internos do desenvolvimento econômico. entendimento.147147 transição e de sua elevada vulnerabilidade a crises 147 de reversão estrutural. a defender teses estagnacionistas que obliteraram sua visão sobre a conjuntura muito particular que viabilizou o surpreendente dinamismo da economia brasileira até o final dos anos setenta. Desenvolvido para estudar movimentos de longa duração da economia. no início dos anos sessenta. tais deficiências decorrem da falta de articulação teórica entre relações de produção. insuficiência de sua análise para explicar os mecanismos que dão uma certa estabilidade No nosso às economias dependentes e subdesenvolvidas. . A insuficiência de seu instrumental teórico para pensar às o processo de adaptação abertas das pelo da economias sistema do a subdesenvolvidas capitalista capitalismo oportunidades leva sua em mundial a interpretação um viés evolução Daí incorrer empiricista. impulsionado do a capital vigoroso internacionalização Prado a superestimar pós-guerra.

. por permitirá desvendar a racionalidade adaptativa que comanda o movimento de industrialização das economias periféricas. Furtado. de nos modernização conservadora. os trabalhos de Florestan Fernandes e de Celso Furtado nos fornecem importantes elementos para preencher estas lacunas. Florestan Fernandes nos ajudará a entender como o padrão de dominação enreda o capitalismo dependente Celso nas malhas do processo sua vez. assim como seus reflexos sobre o processo de constituição do sistema econômico nacional.148 Estudando as bases técnicas e políticas do subdesenvolvimento.

FERRANTE. MARTINS. p. M.26. p. 29. 5 a 88. F.O Saber militante..1 A questão central reside na reprodução de e um a tipo luta de regime de classes a uma que mantém a de concorrência política presas dinâmica ..) Inteligência brasileira. São Paulo. Fernandes Introdução Para produto de Florestan uma Fernandes o capitalismo em que o dependente destino é da situação histórica sociedade fica submetido aos desígnios de burguesias que são incapazes nacional de e conciliar desenvolvimento Tal econômico. In: Revista USP. O que quer dizer que a Revolução Burguesa pode transcender à transformação capitalista ou circunscrever-se a ela.B. R. é soberania à democracia. v. tudo dependendo das outras condições que cerquem a domesticação do capitalismo pelos homens>>. 1987. Dossiê Florestan Fernandes. ao mesmo tempo. realidade atribuída especificidade de um processo de revolução burguesa que. Cabe destacar os seguintes trabalhos sobre o pensamento de Florestan Fernandes. 1996.A. VARIOS. Padrões e dilemas. BOSI. (Org. COHN. Homenageando Florestan Fernandes. 1996. G. n.Florestan: Sociologia e Consciência Social no Brasil. por perpetuar nexos de subordinação externa e anacronismos sociais. D’INCAO. para ‘a transformação capitalista’ e a ‘revolução nacional e democrática’. R.) . Estudos Avançados.10. ANTUNES. J.CAPÍTULO 4 CAPITALISMO DEPENDENTE E LUTA DE CLASSES EM FLORESTAN FERNANDES <<Há burguesias e burguesias. 7-10.S. (Orgs. Certas burguesias não podem ser instrumentais. In: MORAES. 1989. n. 1 . 1998. inviabiliza a formação de vínculos construtivos entre a <<economia>> e a <<sociedade>>. V. .

ou seja. 101-102. a livre empresa e a associação dependente. In: PRADO JR..2 As assimetrias sociais e o controle absoluto do circuito político por atores sociais com uma visão de mundo estreita..) intento de proteger a ordem. a propriedade individual. 1975. 4 . .. 1989. p. vistas como fins instrumentais para a perpetuação do superprivilegiamento econômico. a iniciativa privada.História e desenvolvimento. modernização de Trata-se explicar regime de classes se compromete com a reprodução de nexos de subordinação externa e com a reciclagem de anacronismos sociais.150 circuito fechado. 10 3 .Prefácio.) como conexão do capitalismo dependente. dão lugar a uma racionalidade capitalista que se caracteriza pelo “(. por que “(.. Idem. F.3 Preocupado em entender o modo pelo qual a luta de classes condiciona o processo de acumulação da periferia.. verdadeiramente retardatária e inibidora [em que] a acumulação de capital avança muito mais como um fim do que como um meio”.4 2 . -Sociedade de. o trabalho de Florestan Fernandes consiste pela em identificar das o processo economias por que o sociocultural capitalistas responsável dependentes. 108.. FERNANDES. p. FERNANDES.... Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina.. sociocultural e político”.. 1981.) aferra o empresário a uma iniciativa privada de bitola estreita. fortemente comprometida com o status quo. A mediocridade do ambiente econômico “(. F. associando. C. nessa manifestação típica cronicamente capitalismo e subdesenvolvimento”. o regime de classes acaba sendo a forma social do capitalismo dependente. p.

está sobredeterminado pelas vicissitudes de um todo maior. como uma entidade subsidiária e dependente. Florestan entender por que a economia satélite é capaz de impulsionar um processo de acumulação que tende à autonomização. estrutural e dinamicamente: como uma entidade especializada. p. 1981. e como uma entidade tributária.. F. ao nível das aplicações reprodutivas do excedente econômico das sociedades desenvolvidas. e por que esta tendência não se realiza plenamente. 36. ao nível da integração do mercado capitalista mundial. Sem descartar a possibilidade de crises de reversão estrutural. sua análise nos dá uma explicação para a lógica sui generis que rege a temporalidade do capitalismo dependente.. no qual ela aparece do como uma fonte de incrementação das o ou de multiplicação capitalistas excedente econômico explica economias autor em hegemônicas”. ... Sob esta perspectiva. estruturas abordar cujo a esfera econômica é como uma 151 realidade pelas permite modus operandi sobredeterminado Fernandes nos socioculturais. ao nível do ciclo de apropriação capitalista internacional. Subdesenvolvimento e Classes Sociais. FERNANDES. o movimento da economia periférica é visto como um processo que. “Tratase de uma economia de mercado capitalista constituída para operar.5 O exame que Florestan Fernandes faz do impacto da luta de classes sobre o padrão de acumulação ajuda a compreender a racionalidade substantiva que rege o desenvolvimento do 5 . apesar de possuir características próprias.151151 Ao complexa.Sociedade de.

é responsável pelo reducionismo econômico. em detrimento de seus condicionantes sociais. O pensamento de Florestan Fernandes é uma crítica às teses modernizadoras que viam o desenvolvimento do capitalismo dependente como simples repetição da trajetória das economias desenvolvidas...O nacionalismo na atualidade brasileira..6 Por isso. especialmente ao nível econômico. os não problemas são do Brasil.. 1958. H. de vistos sociologicamente. porém. desvios.A Estratégia.Desenvolvimento econômico e desenvolvimento político. ver JAGUARIBE. T.Structure and process in modern societies..152 capitalismo dependente como e que de sobredetermina integração tipos de suas A A potencialidades ausência deste instrumento gera nacional. como uma espécie de fé. e PARSON. o autor adverte: “Ao contrário do que se pensa e do que se tem propalado freneticamente. sem nenhuma funcionalidade no processo de acumulação. 1965. estas teses supunham que o subdesenvolvimento poderia ser superado pela simples intensificação da acumulação capitalista. W. São emblemáticos da teoria da modernização as concepções de ROSTOW.. 1962. A desconsideração dos determinantes sociais e políticos que restringem o grau de liberdade do Estado leva à uma visão tecnocrática da política econômica. W. enfoque dois sobrevalorização dos aspectos técnicos do desenvolvimento. H. Ao tratar o atraso como mero resíduo de um passado colonial. e JAGUARIBE. as proporções e um padrão que afetassem a integração do Brasil como uma sociedade nacional e sua posição no conjunto das demais sociedades nacionais que . Crescimento tem havido. No Brasil. ‘problemas crescimento’. . 6 . Ele não chegou a assumir. 1960.

153153 compartilham interessar é da o mesma modo civilização. Estudos CEBRAP. 1972.Sociedade de. 210-251.A Economia brasileira. SERRA.América Latina. 1969. In: SERRA. J. ao desvincular a revolução nacional da revolução democrática.. .. 1976. de Assim. (s.1. N. 8 7 . teorias Seu que enfoque procuram assim.H.. 173. 1981. FERNANDES. SERRA. M. F. quase sempre oculta algo pior que o fracasso histórico e a frustração . v. 3-82. p. no seio dessas burguesias. fornece de a uma uma interpretação explicação articulação evita.Além da estagnação.. 1972.1. J. R. com base em uma lógica puramente econômica. OLIVEIRA. F.7 Ao afirmar o primado das relações de produção sobre as forças produtivas e a presença constitutiva da luta de classes na determinação de do caráter Florestan das relações de produção. equívoco de certas provar. Sociedad y Desarrollo.C. e Idem.. (Org. MARINI. p. 2.. sua reflexão deve ser vista como uma contraposição à ideologia do Nacional Desenvolvimentismo.. p. De um lado. reduz o Estado nacional a mero instrumento que aumenta o poder de barganha das oligarquias locais no cenário internacional..M. “Quando [o nacionalismo] reponta. . ele aponta as insuficiências de um falso tipo de nacionalismo que.. J. e CARDOSO. TAVARES.8 Do ponto de vista das lutas sociais. Dialectiva de la dependencia: la economia exportadora. F.. Subdesarrollo y revolución. n. o que nos 153 deve dessa participar do padrão civilização”.). p.. Fernandes para atraso a e nos não-economicista orgânica o entre necessidade moderno.). (Org.) . seja a imprescindibilidade seja a prescindibilidade do atraso como condição para a continuidade da acumulação de capital nas regiões subdesenvolvidas.Las desventuras.d.

só serve para justificar os ‘surtos desenvolvimentistas’ e manter o status quo”. “Essa alternativa permitiria quebrar o privilegiamento interno como fator de rigidez da ordem social competitiva. 1981.9 a lado. um o Florestan tipo de condena inconseqüência que... p.. socioculturais políticos impraticável. FERNANDES. ao interdependência assimétrico do internacional sistema ignorar caráter a capitalista mundial. Na primeira seção caracterizaremos esfera econômica como na o autor vê a autonomia Nosso relativa objetivo da é sociedade dependente. pela mobilização concomitante dos setores sociais menos privilegiados ou despossuídos. e Mas envolve que o custos tornam econômicos. envolve uma busca de esteios para deter a torrente histórica segundo Fernandes e preservar o próprio capitalismo De outro de dependente.. 99. escreve o autor em Capitalismo Dependente e Classes Sociais. Donde sua oposição à idéia de que o melhor antídoto para os anacronismos que bloqueiam é o o funcionamento da adequado integração do capitalismo no periférico aprofundamento subalterna sistema imperialista.10 Nossa discussão das idéias de Florestan Fernandes sobre a problemática exame de do desenvolvimento questões que dependente limitar-se-á o padrão ao de algumas condicionam funcionamento da economia e da sociedade. F. 9 . Na prática.Sociedade de. transforma associação com o capital internacional no modo de compensar a extrema debilidade da iniciativa privada nacional. . e valores provincianos”.154 econômica.

.. discutiremos por que o capitalismo dependente compromete irremediavelmente o ímpeto reformista da burguesia dependente. Na quarta. 1975.Capitalismo. Economia e Concorrência no Capitalismo Dependente 10 . propulsora conseqüência. p. 101.. papel economia mola mudanças sociais construtivas. o papel civilizatório do desenvolvimento 1. FERNANDES.. . F. Por fim. que do Estado no sua o desenvolvimento explicação sobre Para apresentamos sobredetermina política processo de modernização das economias subdesenvolvidas e que transforma o Estado no principal artífice do desenvolvimento dependente. Na segunda. introduziremos a idéia de revolução burguesa atrasada – categoria que Florestan Fernandes utiliza para articular sua visão histórica do processo de formação e consolidação do Estado Nacional nas sociedades capitalistas dependentes. a lógica do papel tanto. apresentaremos a interpretação de Florestan Fernandes sobre o impacto da luta de classes na determinação dependente. Na terceira. concluiremos com alguns comentários sobre a importância de se levar em consideração as estruturas sociais e as dinâmicas políticas para que se possa compreender dependente.155155 mostrar de que maneira a extrema as instabilidade relações e de do 155 espaço econômico econômica nacional entre o condiciona as classes da concorrência em de sociais como compromete.

“Tratando-se de uma economia capitalista. 65.Sociedade de. essa lógica (do comportamento econômico) só pode ser do ‘cálculo econômico capitalista’. A exploração dessas formas. e sua combinação com outras.. parte mais do ou menos modernas e até do ultramodernas. “A partir do momento em que a articulação internacional provoca um deslocamento de fronteiras econômicas e culturais. p. No entanto. Ele não poderia ser eficiente se não se adaptasse à estrutura e à dinâmica das situações com que se defronta o agente econômico numa economia capitalista subdesenvolvida. A Revolução. 1976. 237-238.. F. Para Florestan Fernandes.156 A interpretação de Florestan Fernandes sobre as raízes estruturais do capitalismo dependente parte do princípio de que a formação de um padrão de acumulação com tendência à autonomização requer a existência de um sistema produtivo heterogêneo. a instabilidade do capitalismo dependente é um reflexo de sua posição subalterna no sistema capitalista mundial. 1981. agente fazem ‘cálculo capitalista’ econômico privilegiado”.. p.12 . o ‘cálculo capitalista’ não é uma aritmética...11 A premissa subjacente atrasadas é é que um a articulação que de estruturas permite às modernas e expediente burguesias dependentes compensar a debilidade de sua estrutura de capital e o circuito de indeterminação gerado pela extrema precariedade da conjuntura mercantil em que vivem.. Daí a sua conclusão. ela põe a organização da economia periférica e seu padrão de desenvolvimento na órbita de uma revolução econômica”. É um modelo altamente complexo de raciocínio abstrato de natureza prática. O que quer dizer que as peculiaridades do capitalismo dependente se refletem não só nos modos de 11 . A combinação de unidades produtivas em diferentes estágios simples: de a desenvolvimento heterogeneidade a extrema capitalista estrutural é deriva o de um fato de único do meio contrabalançar instabilidade capitalismo dependente e de lhe dar um mínimo de estabilidade. a persistência de formas econômicas arcaicas não é uma função secundária e suplementar. “Sob o capitalismo dependente. FERNANDES.. 12 .

Florestan Fernandes explica a questão nos seguintes termos: “Numa economia capitalista dependente.. 86.13 Como produtores estão e permanentemente mercantis ameaçados do pelas centro revoluções capitalista. Idem.157157 O raciocínio decorre que do levou modo e Florestan ele vê Fernandes as a 157 essa entre das conclusão como relações racionalidade economias econômica contexto os histórico-estrutural internos dependentes. técnicas as irradiadas condições socioeconômicas têm de ser manipuladas para que o novo meio possa oferecer um mínimo de segurança e previsibilidade ao cálculo capitalista e criar uma série de mecanismos de transferência de renda que neutralizem. Em uma economia capitalista subdesenvolvida. mas de uma forma peculiar.”. o próprio poder criador da vontade ou do pensamento são elementos que se organizam exteriormente ao sujeito e determinam o seu modo de ajustamento prático.FERNANDES. depende da estrutura do campo em que o agente atua socialmente. Trata-se de uma economia capitalista que articula estruturas arcaicas e modernas.. O raio de previsão do sujeito tem de ser continuamente reajustado às alterações em curso (ou potencialmente prováveis).) As relações dos fatores também oscilam em função de combinações internas..14 agir do homo oeconomicus: elas atingem o cerne de sua imaginação econômica e de seu pensamento criador”.. que desorienta mesmo os que foram socializados para tomar decisões. (.... 13 . ‘a racionalidade possível’ flutua de uma .. (. Ibidem. é normal que as condições externas ‘propriamente capitalistas’ existam.Sociedade de. p. seja ela econômica ou de outra natureza. um clima mais ou menos tumultuoso e trepidante de negócios. p... na qual estas últimas apresentam intenso crescimento ‘desordenado’ e se impõem às primeiras como centros hegemônicos da economia nacional. 14 . administrar e gerir ações econômicas de envergadura nessa situação. os elevados riscos derivados do estado de <<incerteza estrutural>> inerente às economias que ficam sobre-expostas aos efeitos desagregadores do processo de mercantilização emanado do sistema capitalista mundial. O raio de previsão. 1981. A propósito não custa registrar que para Florestan Fernandes. e a própria organização interna da ação econômica precisa ser constantemente modificada. 85-86. “O grau de racionalidade de uma ação social. ao menos parcialmente. Muita coisa depende (positiva ou negativamente) do mercado externo e de suas variações conjunturais e de longo termo. Impera. O grande desafio consiste na “.)”. pois.. superação do circuito de indeterminação imanente à objetivação histórica desse capitalismo. a capacidade de relacionar meios a fins em seu desdobramento no tempo e segundo critérios de eficácia. F.

p. muito dificilmente desempenhariam seus papéis econômicos. mesmo em casos que caem nessa categoria. 84-85 . a imprevisão e a improvisação afetam pelo menos a ‘política empresaria’ (e quando isso não sucede.158 A dualidade estrutural gera uma margem de segurança que tem dupla função no processo de desenvolvimento dependente. Aí o ‘mínimo de racionalidade’ é garantido institucionalmente. Poder-se-ia compreender facilmente esta afirmação por meio de um paralelo simples. que opera em larga escala. mesmo quando e onde existam uma contabilização e alguma previsão das relações com o mercado ou da evolução do empreendimento.. O número de fatores que.Sociedade de. Mas. O dualismo estrutural. a orientação econômica torna-se demasiado rígida em face da efervescência da vida econômica circundante)”. observar rigorosamente as regras do jogo numa economia avançada. e do campo para a cidade – oferecem uma série de compensações que neutralizam parcialmente os riscos decorrentes de uma situação adversa. dos setores “atrasados” para os “modernos”. de antemão se condenariam ao fracasso.15 De outro lado. Os aspectos desse quadro alteram-se na ‘grande empresa moderna’. é um dos pré-requisitos para que as economias dependentes assimilem as revoluções tecnológicas difundidas do centro hegemônico. F. Se um fazendeiro ou um empresário industrial brasileiro aguardassem o aparecimento de ‘condições mínimas de racionalidade’. De um lado. A dualidade estrutural exerce. neste caso.. escapam a qualquer espécie de previsão e de controle racional é tão grande que ‘negócio’ e ‘aventura especulativa’ andam sempre mais ou menos juntos. nesse sentido. FERNANDES. mesmo no que concerne a interesses univocamente econômicos de agentes econômicos privilegiados.. os mecanismos de transferência de renda – que repousam em última instância na superexploração recursos da força do de trabalho – e na dilapidação como um dos naturais país funcionam colchão amortecedor que protege os setores atrasados dos efeitos mais devastadores da concorrência econômica. por uma razão ou por outra. nas condições com que contam e em que agem. a função de impedir que as transformações difundidas pelo centro provoquem a desestruturação dos setores esfera para outra. Se pretendessem. os circuitos de transferência de renda – da economia dependente para o exterior. 1981.

explorando em limites extremos o único fator econômico constantemente abundante. estruturas não econômicas só podem em ser diferentes estágios desenvolvimento 15 .159159 159 que não têm condições de competir com os padrões de eficiência econômica que se propagam do centro capitalista. o espírito Elas derivam de um um histórico qual burguês adquire caráter “ultra-especulativo” e uma natureza “ultra-extorsiva”. por aí. à conhecida imagem dos dois Brasis. a articulação de formas de produção heterogêneas e anacrônicas entre si preenche a função de calibrar o emprego dos fatores econômicos segundo uma linha de rendimento máximo. já que é fácil deslocar-se no tempo percorrendo o espaço. Florestan Fernandes sintetizou a importância do dualismo econômico nos seguintes termos: “A inegável desigualdade das formas de produção existentes e seus efeitos sobre o estilo de vida das populações regional do campo levado ou sobre o desenvolvimento sociais a econômico têm alguns cientistas interpretações dualistas rígidas.. são características inerentes contexto ao capitalismo no dependente. Sem negar essa realidade óbvia. que é o trabalho [. apresenta-se como uma forma típica de reagir ao presente. e a desdobramentos ainda maiores.]. Em suma. devemos reter o que. viver dentro dele e unificar atividades econômicas aparentemente incongruentes. por trás dela. a reprodução de mecanismos de acumulação primitiva e a depredação do meio ambiente. Capitalismo . Pelo que afirmamos. A importância estrutural e funcional do campo como bastião do atraso das economias dependentes é discutida em Florestan Fernandes. de Por isso.. Pode-se chegar.

“A ‘economia’ oferece suportes demasiados fracos para imprimir plena vitalidade às instituições. O próprio padrão de equilíbrio deste sistema.16 Além de ressaltar a funcionalidade do atraso como fator que dá um mínimo de estabilidade ao desenvolvimento dependente. 1981. 64-65 . .. a análise de Florestan Fernandes evidencia que a heterogeneidade estrutural compromete o papel da concorrência como modo autônomo de articular a ordem econômica. p. desgastando-se esvaziando-se como um dos socialmente modo variável focos centrais de coordenação ou de dinamização dos processos civilizatórios. Tudo isso quer dizer que a ‘economia’ não conta com condições materiais e morais suscetíveis de imprimir às suas influências o caráter dinâmicas de (integrativas organizados ou e diferenciadoras) processos encadeados autonomamente em escala nacional”. E ela própria debilidade. FERNANDES. sem os quais o esvaziamento histórico dos ciclos econômicos conduziria.. F.Sociedade de. 1981. cap. fatalmente. padrões ideais de integração da ordem global sofre de o e modelos impacto organizatórios dessa e herdados. da estagnação à decadência e desta à regressão econômica sistemática”. F.Sociedade de.. como um todo.. leva até mesmo as a “racionalidade empresas mais econômica das modernas economias dependentes a exigir suportes extra-econômicos que Agrário e mudança social.160 combinadas organicamente e articuladas no sistema global... 5 16 . e sua capacidade de crescimento definem-se e são perseguidos por esses meios. in FERNANDES.17 Nestas possível” circunstâncias..

escalas mínimas de operação. que atinge especialmente os 17 18 . 157-158 . exigem um “mínimo de racionalidade” . p.. em matéria política. É inerente ao capitalismo dependente. o capitalismo dependente não tem como evitar uma sobrepolitização da vida econômica.. Idem. pela sua natureza intrínseca. “(. p. volumes de capital imobilizado e prazos de maturação elevados. Ibidem. Mas em nenhum momento o funcionamento e o desenvolvimento dessa ordem econômica deixa de traduzir a interferência de fatores e mecanismos extraeconômicos. No caso de empreendimentos que.18 Por esse motivo. entranhado no próprio coração da economia capitalista dependente e subdesenvolvida.Sociedade de. FERNANDES. os empreendimentos estatais de maior envergadura e algumas grandes empresas nacionais conseguem enfrentar os desgastes apontados sem debilitação de sua potência econômica”. o equilíbrio do sistema econômico e a eficiência de sua ordem econômica descansam sobre fatores e mecanismos econômicos capitalistas. é indispensável a obtenção de garantias institucionais suplementares. as soluções econômicas passam para um modesto segundo plano. 1981. Em tais circunstâncias. automaticamente. 2o) a que se define ao nível das composições entre o setor arcaico e o moderno..161161 161 perpetuam o atraso..especialmente aqueles que pelo caráter das exigências do progresso técnico requerem pré-requisitos de infra-estrutura. como adverte Florestan Fernandes. Nas palavras de Florestan Fernandes: colocou a questão nos seguintes termos: “Qualquer problema econômico que envolva o equilíbrio... Em conseqüência. 87-88 . prevalecendo o poder relativo dos grupos em presença e as forças de acomodação política resultantes. portanto. a existência ou o ritmo de crescimento do setor converte-se. F. No conjunto. Nessas circunstâncias. evidenciam-se duas linhas concomitantes de influências: 1o) a que se define ao nível das relações com os núcleos hegemônicos do exterior. A rigor apenas as grandes empresas estrangeiras.) poucos são os agentes econômicos que dispõem de condições para neutralizar ou superar o circuito de indeterminação. uma margem de insegurança crônica.

19 Como as estruturas que sobredeterminam o alcance da concorrência esvaziam os mecanismos econômicos de socialização dos ganhos de produtividade e bloqueiam os processos responsávies pela centralização dos capitais. os processos econômicos internos de natureza capitalista.162 agentes econômicos que operam.. econômica 19 . os limites irredutíveis de sua autonomia real. 1981. por um lado.. 90-91 . . em bases puramente econômicas. se.. Na medida em que não contam com condições para determinar. p. Como a articulação do se dá ao nível no qual dos a interesses ação estritamente adquire lucrativos capital. Daí a origem dos obstáculos que não permitem que haja nas economias dependentes uma dinâmica de acumulação de capital auto-sustentada. o dualismo estrutural viabiliza o aparecimento de um processo de reprodução ampliada por outro. F. Nas palavras de Florestan Fernandes: “(.Sociedade de.. mesmo sob condições favoráveis de crescimento econômico. os referidos completo agentes sobre se vêem as impotentes fases ou para exercer dos controle processos todas efeitos econômicos incorporados à ordem econômica vigente”. Portanto. como classe. bloqueia a heterogeneidade tendência vir estrutural a adquirir possibilidade força suficiente para se realizar plenamente. FERNANDES. de do a esta capital com tendência à autonomização. no capitalismo dependente a ordem econômica não pode ser considerada como motor endógeno do desenvolvimento.) os dinamismos de uma economia capitalista dependente não conduzem à autonomia..

1981.163163 significado e funções capitalistas independentemente 163 das formas de organização das relações de produção. F. tanto o setor arcaico mantém. Em outras palavras. 20 . FERNANDES. a estrutura e o padrão de equilíbrio do sistema a econômico.. 65-66 . convertem dos articulação econômica que privilegiamento nível da agentes econômicos das podem integração e capitalista o e atividades econômico econômicas interno às no internas subordinam do consumo crescimento das flutuações especulações financeiras mercado mundial. produto autônomo do aumento da produção interna e do crescimento do mercado interno.20 A incapacidade de os dinamismos econômicos transcenderem os marcos da situação significa que o desenvolvimento dependente não pode ser pensado como um processo impulsionado pelas contradições entre a progressiva socialização das forças produtivas e a apropriação privada dos meios de produção. . sua dependência diante do capital externo quanto o setor moderno surge em um clima de associação articulações como este indireta com o com setor esse arcaico) capital e cresce ou (mediante suas configurando-se pela associação o que último o (pela presença externo). cronicamente. A industrialização não alterou profundamente esse quadro. maciça Sob crônica com capital esse aspecto.Sociedade de. de certa perspectiva.. p. parece. sob o capitalismo em fonte operar de ao dependente. embora tenha modificado o modo pelo qual ele se atualiza no presente”.. de outro ângulo mostra-se como efeito dos mecanismos do capital financeiro externo.

Na sua concepção. 50 . p..Sociedade de.164 Nessas circunstâncias. dificultam própria capitalismo. Florestan Fernandes vê o dinamismo da economia dependente como o produto de uma racionalidade adaptativa.. Tais contradições – que se expressam pela ação inconformista dos atores sociais interessados em participar 21 .21 2. mas não põem em xeque as formas de organização da produção capitalista propriamente dita”. Luta de Classes e Racionalidade do Capitalismo Dependente Ao evitar a ingenuidade de pensar o processo de valorização do capital como uma totalidade capaz de determinar por si só seu movimento e sua finalidade social.. F. conclui Florestan Fernandes. FERNANDES. as forças por do produtivas outros solapadas a desorganizadas expansão fatores. 1981. o caráter do desenvolvimento induzido lida é determinado as pelo modo que a sociedade dependente com contradições geradas pela discrepância entre a aspiração de acesso ao estilo de vida do capitalismo central e a situação de atraso da sociedade dependente. . inibidas. que “Nesse quadro ou geral. as relações de produção não constituem um obstáculo à acumulação de capital a não ser pelo fato de que impedem o aparecimento das dinâmicas que levam a evolução do capitalismo a assumir a forma de uma permanente revolução dos processos são produtivos.

108 . FERNANDES.165165 165 dos fluxos materiais e culturais de seu contexto civilizatório – tendem a ser solucionadas mediante um processo de modernização induzida. assim. processo civilizatório”. cuja lógica é ditada pelo desejo de copiar nessa os modelos das economias mais o avançadas. de fato. 1981. . p. duas escalas ou ritmos de tempo: uma. outra. F. no espírito do agente. a direção e os efeitos do ‘progresso’. na qual a história constitui uma realidade interna e uma dimensão orgânica da vida do agente. agente representar-se e a agir como uma espécie de ‘consumidor’ dos bens da civilização. Doutro lado. Estabelecem-se. básica. os centros de difusão cultural são representados e operam. absorvida vicariamente. O afã de equiparar as duas escalas (ou pelo menos de reduzir sua assincronia mas ao mínimo) de afirma-se todo o como a tendência subterrânea. o problema central das economias dependentes é que o processo de modernização fica à mercê de burguesias impotentes para superar a situação de subordinação externa e onipotentes para impor unilateralmente 22 .22 a) As Bases Sociais do Capitalismo Dependente Segundo Florestan Fernandes.. como se fossem os ‘produtores’ desses bens. de modo antecipado. serve para delimitar.. humano “Colocado tende a situação histórico-cultural.. que é a história dos centros de difusão e que.Sociedade de.

FERNANDES. Assim. e que depende. o que impede ou bloqueia a formação e o desenvolvimento de controles sociais democráticos. precisamos responder duas questões: (a) por que o regime de classes gera uma correlação de forças que permite que o desenvolvimento fique a reboque dos interesses de uma única classes social: a burguesia dependente?. não é mera cópia frustrada de algo maior nem uma fatalidade.. de outras escolhas da mesma natureza.Sociedade de. o desenvolvimento burguesias utopias de dependente de aparece às a da como o produto de as a na a incapazes que são levar últimas conseqüências nacional encontra-se que impede e portadoras: O de nó revolução questão de revolução perpetuação democrática.57 ..23 Nesse sentido. F. pelo menos aceita socialmente. que usam suas posições estratégicas nas estruturas políticas para solapar ou neutralizar as demais forças sociais.) se o sociólogo quiser ir ao fundo das coisas. Só assim terá meios para explicar por que o subdesenvolvimento. se não realizada. A riqueza. . que forcem os homens a confiar em si mesmos ou em sua civilização e a visarem o futuro”. de fato. o controle político da mudança sociocultural e se convertem nos 23 .. e (b) por que esta burguesia é incapaz de romper com a situação de dependência e subdesenvolvimento? 24 . o prestígio social e o poder ficam concentrados em alguns círculos sociais.. esses círculos assumem.166 a sua vontade ao conjunto da população. principalmente no que se refere ao uso do conflito e do planejamento como recursos de mudança sociocultural.. 1981. ao atingir um objetivo social puramente particular e egoísta. Mas uma escolha.. ele terá de investigar a resistência às mudanças e o incentivo às inovações nos planos estruturais e funcionais mais profundos da organização da sociedade global. É por isso que Florestan Fernandes conclui que “(.) de modo insuficiente e incompleto. “O regime de classes” – escreve o autor – “objetiva-se historicamente (. para ser condenado e superado.24 de um padrão luta classes emergência do povo no cenário político. Para entender o raciocínio que leva o autor a esta conclusão. onde ele surge e se mantém.. p.

. a heterogeneidade do sistema produtivo perpetua mecanismos de estratificação que reproduzem a exclusão social. Se apenas têm uma posição ativa no sistema econômico. o trabalho conta como mercadoria e como fonte de classificação na ordem econômica”. p. Ibidem.26 A assimetria no regime de classes tem profunda influência sobre a formação dos atores sociais. 69-70. porém. Ao contrário. p. que monopolizam possuidores todos de os benefícios a do sistema. Idem. a ‘possessão de bens’ e a ‘não possessão de bens’ fornecem o requisito mais geral que pode servir de fundamento à caracterização sociológica [do regime de classes]. maioria verdadeiros “condenados do sistema”.. ao inviabilizar uma estratificação social de fundamentos univocamente econômicos. Os ‘não possuidores de bens’.. no qual a população é segmentada em duas categorias: “Os possuidores de bens”. 26 25 . em última instância. dos quais e os “não- bens”. Pelo que vimos todos os que se incluem no sistema econômico (. F. independentemente do modo pelo qual valorizam tais bens através das relações de produção e do mercado. . 1981. O problema é que.Sociedade de. Florestan Fernandes sintetizou as conseqüências desse tipo de estratificação social nos seguintes termos: “Como nem sempre uma posição ativa nas relações de produção incorpora o agente econômico ao mercado (pois na esfera arcaica o trabalho pode ser apropriado em bases anticapitalistas. o trabalho não conta como mercadoria e. Em outras a palavras. poderão ou não valorizar-se e classificar-se na ordem econômica pelo trabalho. não classifica na ordem econômica vigente. FERNANDES. a distorção no padrão de luta de classes revela.167167 167 verdadeiros fatores humanos da perpetuação do estado crônico de dependência cultural em relação ao exterior”. que o as desenvolvimento dependente reflete forma transformações capitalistas assumem em sociedades marcadas por um regime de apartheid social. . extracapitalistas e semicapitalistas)..) na condição de ‘possuidores de bens’ classificam-se na ordem econômica. mas não encontram probabilidades de valorizá-la mediante uma posição simétrica no mercado. o vazio que caracteriza o regime de classes das sociedades dependentes.165 ..25 Para Florestan Fernandes. se à posição ocupada nas relações de produção corresponde uma valorização no mercado. portanto.

168 No que diz respeito ao processo de formação da classe operária. reduzindoo. também lhe negam qualquer meio de consciência e de atuação como classe.27 Nessas circunstâncias. E segundo porque as oportunidades de mobilidade social abertas pelo crescimento econômico . vista como ascensão social e também como um privilégio. através da ordem econômica e do regime societário que produzem essa situação. Bloqueando o caminho da rebelião. Idem. etc. transforma e assalariamento social meio econômica classificação altamente trabalho levam à segmentação da classe operária em setores extremamente heterogêneos. a análise de Florestan Fernandes enfatiza basicamente dois aspectos. só lhe resta a saída da negação de si próprio. a superestimação do estilo de vida operário. A migração para outras regiões. a identificação positiva com a proletarização. de classificar-se dentro dele e de ter acesso a seus privilégios. Florestan Fernandes colocou a questão nos seguintes termos: “Essa situação histórica não engendra uma atuação de classe revolucionária apenas porque as condições que negam ao campesinato (parcial ou totalmente) interesse e situação de classe. em busca do assalariamento nas ocupações tradicionais. p. Comentando a situação do trabalhador rural.são os mecanismos pelos quais se concretiza a conciliação dos ‘condenados do sistema’ com sua ordem socioeconômica”. a formação da classe operária como classe em si e para si fica seriamente comprometida. . garantias integração desejado. Primeiro. a existência de um grande contingente populacional que vive “dentro das fronteiras do capitalismo. à maior miséria e à mais extrema impotência. ambos decorrentes da incapacidade de o desenvolvimento dependente absorver a superpopulação relativa marginalizada do mercado de trabalho. o que solapa a capacidade de os trabalhadores defenderem seus interesses econômicos. o desequilíbrio na correlação de forças entre capital e trabalho retarda o aparecimento de uma base sindical forte e combativa. 78 27 . porque as distorções no processo de mercantilização do mas fora de sua rede o de compensações em e de de sociais”. Ibidem. De um lado. De outro. ao mesmo tempo. a tentativa de penetrar no mundo urbano.

. “(. F. Como explica Florestan Fernandes. Além disto. baixo Demoram dentro para mundo o que de mínimos ser políticos.O 28 .. a heterogeneidade do sistema produtivo também tem profundas A implicações perpetuação sobre de a formação da burguesia de dependente. ultrapassar a estaca zero de sua existência política. formas antediluvianas .. os de participação gravitam décadas econômica... o que retarda os processos que poderiam levá-la a identificar-se com a negação do capitalismo dependente.) confinadas à ‘apatia’ [. que passa a ser extremamente difícil.169169 169 facilitam a cooptação da “elite” operária.29 A seu ver. a brutal assimetria na correlação de forças e o caráter fechado do circuito político geram um contexto histórico tão desfavorável ao pólo trabalho.28 Enfim.. de um política. a ausência de espaço público provoca uma “(. meios organização social e consciência. as classes subalternas não conseguem se contrapor com alguma eficácia o ao curso capital da de e influenciar “A questão e de é maneira simples: de significativa privados de história. explica Florestan Fernandes em Nova República. Por isso. feito em alcançar poderia meses e perdem em uma cartada (aplicada sem dó pelos de cima) o fruto de longos anos de laboriosa porfia com o destino”. para a classe operária. FERNANDES..) debilitação estrutural e prolongada das classes destituídas e subalternas”.] não encontram na ordem capitalista ambiente e condições para a sua própria constituição e fortalecimento como classe independente”. apesar das desigualdades abismais e dos altíssimos níveis de pobreza e miséria.

Idem. In:______ .170 acumulação de capital impede o aparecimento de mecanismos de solidariedade de classe socialmente construtivos – requisito básico para que a concorrência e o conflito possam encontrar suportes objetivos para compatibilizar os interesses particulares da burguesia com formas de consenso e integração social do conjunto das classes sociais.. classes burguesia dominantes. 54. tem profundas implicações no modo como os interesses univocamente econômicos dinamizam o comportamento social das burguesias dependentes. Circuito fechado.. . O obstáculo à centralização do capital compromete o poder de iniciativa da burguesia porque bloqueia a sua capacidade de introduzir inovações tanto no campo econômico quanto no político. ver a respeito. Tal obstáculo. dependente sobrevive se houver mecanismos de transferência de renda que compensem a sua debilidade econômica. Daí o estado psicossocial de Que é revolução. 1976. ordem para Como social as a a “sacralização” competitiva em da fonte Seu só de é privilégios o seguinte. que se consubstancializa na reprodução de mecanismos psicossociais que sacralizam a propriedade privada e perpetuam o colonialismo cultural. 25 Anos Depois. 1981. p. Segundo propriedade exclusiva argumento Florestan transforma a Fernandes. ela teme perder o único “capital” realmente eficaz para enfrentar os sobressaltos do desenvolvimento induzido de fora: a possibilidade quase ilimitada de manipular as condições socieconômicas internas a fim de perpetuar a superexploração do trabalho e a dilapidação dos recursos naturais do país.

impede que existência se formem grandes condições desequilíbrios objetivas e subjetivas necessárias para que a luta de classes seja guiada por uma lógica baseada na de busca do bem os comum. Elas são obrigadas a sufocar qualquer iniciativa de transformação social contra ou dentro da ordem que ameace o controle absoluto das classes dominantes.171171 171 verdadeiro “medo pânico” que toma conta das classes dominantes em relação a qualquer tipo à de mudança social das que possa da representar sociedade sociais alguma ameaça A perpetuação de as estruturas colonial. produzidas através das relações com as classes 29 . p. 61-62 . as burguesias dependentes desenvolvem uma extrema intolerância em relação à utilização do conflito como instrumento legítimo de luta política pelas classes populares. . Por esta razão. “A base estrutural com que contam [os de cima] para se afirmar como classe em si e para si é tão fraca. aprisionando a história no circuito fechado do subdesenvolvimento. que não podem despojar a ordem social competitiva de arranjos variavelmente pré ou extracapitalista. 1985. essa base estrutural revela-se demasiado acanhada em face das tensões estruturais. A impossibilidade econômicos aspirações e de estrutural políticos cidadania compatibilizar classes setores interesses com as das dos privilegiadas populares simplesmente inviabiliza o aparecimento de um espaço de entendimento entre as classes sociais. Doutro lado.A nova república. FERNANDES. Daí o aparecimento de um padrão de luta de classes que impede a mudança social construtiva. F.

cimentaram essa espécie . A Revolução. segundo o que Florestan Fernandes designou de “padrão compósito de hegemonia burguesa”. no reverso. 350-351 31 30 .. “Não existe uma linha pura e única de compreensão e descrição do Estado capitalista dependente e periférico. 1975.real ou potencial . como a cara e a coroa de uma moeda”.. FERNANDES. Qualquer ameaça à estabilidade da ordem adquire a feição de uma catástrofe iminente e provoca estados de extrema rigidez estrutural (uma situação na qual o ‘medo ou temor de classe’ surge como o equivalente histórico do ‘medo ou temor étnico’)”. p.172 assalariadas ou despossuídas. que se atritam. Ele é o Leviathan no verso. é impossível descobrir-se como uma instituição pode ordenar-se e ser operativa.. Produto da situação mais contraditória e anárquica que qualquer burguesia possa viver.... apesar de tantos elementos e influências em choque. F. Trata-se de uma forma de organização e funcionamento A do poder deste político arranjo é típico clara. compatível com seu uso social pelo homem. De outra maneira.Capitalismo. ele é uma composição sincrética e deve ser retido como tal. recorrer à Antropologia. Na síntese de Florestan Fernandes. Donde o caráter sui generis do Estado no capitalismo dependente. se negam e se destroem uns aos outros. de A “plutocracias”.30 A sacralização do da propriedade econômico privada e também requer entre a as prescrição confronto político diferentes frações das classes dominantes. Idem. Precisa-se no mínimo.31 racionalidade ameaça . 70 .de uma insurreição dos condenados do sistema obriga os donos do poder a passar por cima de suas diferenças e a cerrar fileiras contra o inimigo comum: as classes subalternas.. mas só existe e possui algum valor porque as duas faces estão fundidas uma à outra. 1976. embora se objetivem com certa unidade. Isso significa que a unificação da burguesia como classe dominante torna-se uma questão eminentemente política que se define por intermédio do Estado. “Os privilégios e não os elementos dinâmicos do ‘espírito capitalista’ . p. para se entender cabalmente esse Estado nacional. e Behemouth. escreve Florestan Fernandes.

subalternas da marginalização classes política elimina do cenário político o único ator social com potencial reformista e revolucionário. F. 266 . p. a espírito das “revolucionário”. salvaguardar os privilégios econômicos. Por um lado. FERNANDES. FERNANDES. 1981.)”. “A hegemonia burguesa não se organiza em função dos interesses socioeconômicos e políticos que respondem a determinada fase de evolução do capitalismo.. assim. transforma-se na verdadeira espinha dorsal do subdesenvolvimento. a aglutinação compromete mecânica seu da unidade de classes da Por luta burguesia outro. “A união de interesses. F.. burguesia para considera em porque nenhuma ou categoria de econômica da legítimo dispõe meios eficientes o pacto a romper. que considere o interesse do conjunto da população. . As fases se sucedem. que são atingidos pelo monopólio social do 33 32 . mundo o as classes e desenvolvem A particularista imediatista. afirma Florestan Fernandes. termos puramente econômicos. explica o autor 173 em Revolução Burguesa. . 92 34 . Enfim. independentemente dominantes de suas uma forças visão de de relativas....173173 de solidariedade de rapina (. Nessas com sagrado”.32 Como o moderno e o atrasado têm de conviver lado a lado. 1976. luta de classes fica fechada em um círculo de ferro e não há como corrigir as mazelas do subdesenvolvimento. incapacidade pensar desenvolvimento capitalista em função de seus interesses estratégicos de longo prazo faz com que o imaginário das burguesias dependentes jamais alcance uma dimensão ampla..A Revolução. p.34 . ela permanece monolítica.Sociedade de.. A unidade das classes dominantes busca. A razão é simples: os arranjos para atender aos fins variáveis podem ser feitos sem alterá-la em sua substância e nos mecanismos de sua manifestação. sociais e políticos. estabelecida. acima de tudo.33 condições..

como fulcro de das relações das classe recomposição A ordem relativas classes entre social competitiva funda-se de tal maneira em desigualdades extremas e nas barreiras que permitem mantê-las. paralelo ela com se a expansão como gradual ponto quo. o autor pôs o dedo na ferida: colocou a questão nos seguintes termos: “É neste nível que se evidencia o ‘calcanhar de Aquiles’ da sociedade de classes latino-americana. como e e de crescimento deprime.Capitalismo. por a Contudo. a e de ou a desenvolvimento. das capaz de de servir e de si. p. participação integração camadas assalariadas. vigor suficiente para alterar as estruturas e os dinamismos da poder e que se perpetuam mediante a apropriação repartida do excedente econômico nacional”. vários ela vias.. ao pobre. em crescimento classes. pois. 1975. Ela é estável por causa de efeitos estáticos do seu padrão de organização. Idem. das diferenciação. pobres ou despossuídas.174 Sintetizando seu pensamento sobre a natureza do regime de classes na América Latina.. . ao mesmo tempo. ela carece de poder de mobilização redefinição posições efetivo. a solapa modos classificação. 108 . neutraliza.. ao operário potencialidades exorbitantes desencadear controle da das para classes contrabalançar ‘altas’ e as ‘médias’ de influências ou para ao do movimentos dependência sociais e do suscetíveis conduzir dentro subdesenvolvimento capitalismo. de Ela do regime partida [a de de que anula do transformações radicais status sociedade dependente] não confere ao despossuído. Os dinamismos da sociedade não adquirem.

35 b) Racionalidade Substantiva e Capitalismo Dependente A inexistência da de limites dos de à acumulação de capital. O campo de forças socialmente ativas só fica aberto aos ‘campeões do desenvolvimento’. Donde o sentido da afirmação de Florestan Fernandes: “(.. do subdesenvolvimento e da exploração implacável do povo”.. de acordo com a qual o capitalismo é aceito como forma de acumulação de riqueza mas rejeitado como forma de convivência da comunidade nacional com os valores democráticos da civilização burguesa. as sociedades nacionais da América dessas suas Latina classes não com só a destroem ordem as identificações competitiva também se e larvárias dissipam à social Elas e do do ‘compulsões da burguesas’. 84 .. todos adeptos dos ‘milagres econômicos’ proporcionados pela industrialização da dependência. FERNANDES.36 35 36 . Capitalismo. F.) a motivação que está por trás dos comportamentos econômicos e políticos das classes possuidoras.. p. estratégicos dá lugar a populares Razão racionalidade capitalista sui generis.. das uma decorrente classes incorporação na interesses Estado. dependência condenam eternização a subdesenvolvimento. dos círculos empresariais e do Governo é ‘egoística’ e ‘pragmática’.175175 economia e da cultura. mediante institucionalização capitalismo selvagem. Ao condenar ao ostracismo e 175 à participação segmentária ou marginal suas classes ‘baixas’. Mas não é ‘egoística’ e ‘pragmática’ em um sentido restrito e .

que disputam entre si o controle sobre o ritmo e a intensidade em que se deve setor dar a assimilação e o das transformações capitalistas: Incapazes o de “conservador” setor “modernizador”.. 1976. rudimentar. são interesses de classe. defesa e de Estado suporte apenas transforma-se incondicional privada.176 Como a assimilação das estruturas e dinamismos que se propagam das economias centrais não pode ficar à mercê da lógica ameaça selvagem à dos mercados. Dentro desta concepção.. o Estado tem a função de mediar as relações com os centros imperialistas e servir de instrumento para congelar a história sempre que a classe dominante temer que o avanço do processo de modernização ameasse a estabilidade de seu poder – seja porque a burguesia dependente esteja sendo atropelada por transformações vindas de fora. seja porque seu poder esteja sendo contestado pela rebeldia das classes subalternas. Cabem-lhe não compensar as debilidades que comprometem a capacidade de a iniciativa privada incorporar as transformações econômicas difundidas do centro mas também arbitrar os ajustes internos necessários para viabilizar a convivência entre o “moderno” e o “atraso”. mas o modo pelo qual os percebem o ‘destino do 259 . Adicionalmente. A Revolução. pois do de isto constituiria o uma própria em da sobrevivência instrumento iniciativa capitalismo. Os interesses econômicos equacionados que não afetam indivíduos ou grupos isolados.. p. estratos dominantes das classes média e alta capitalismo’ no Brasil”. o dinamismo da economia dependente é graduado por um jogo de forças que polariza as classes dominantes em dois blocos de interesses.

não conseguem dirigir. F. Tal processo é calibrado em função de uma lógica política que se pauta por dois objetivos básicos: reproduzir a assimetria na correlação de forças que impede a emergência dos pobres como atores políticos. Nem poderia ser diferente... como e diz Florestan Fernandes. 1981. 110 . e evitar que as disputas faccionais em torno do ritmo da modernização coloquem em risco a unidade monolítica 37 . O ritmo e a intensidade do processo de incorporação e universalização das transformações capitalistas devem estar subordinados ao objetivo maior de preservação do monopólio da força política das classes dominantes. esgotam-se as na entre modernistas conservadores definição do “(. p. os dois grupos divergem única e exclusivamente quanto ao grau de marginalização em relação ao processo de modernização difundido do centro capitalista que consideram tensões tolerável.. o desenvolvimento dependente assume a forma de um processo de “modernização do arcaico” e de “arcaização do moderno”.) grau mais ou menos suportável de ‘atraso’ e de ‘obsoletização’“. pois esse é o único meio de que as burguesias dependentes dispõem para manter um mínimo de controle sobre um tempo histórico que... na realidade.177177 177 enfrentar os obstáculos externos e internos responsáveis pelo subdesenvolvimento. FERNANDES.. Ou.Sociedade de. Por isso.37 O limite da divergência entre estes dois pólos é determinado por um critério político bem definido.

de médio o e longo prazos do da próprio capitalismo Como padrão compósito hegemonia burguesa está submetido a pressões contraditórias. que impõem rígida resistência sociopática à mudança. compatibilizando a perpetuação da assimetria na correlação de forças com a estabilidade social e política necessária para o funcionamento da economia e a estabilidade da ordem. Em outras palavras. com forças internacionalistas. que exercem permanente influência inovadora. . de que maneira selar a associação preservando o máximo de autonomia relativa dos “centros internos de decisão”. b) em relação ao “inimigo principal” . que defendem a maior autonomia do país. a racionalidade capitalista tem de responder às seguintes questões: a) no que diz respeito ao “aliado principal” .o imperialismo -. com grupos modernos. Florestan Fernandes destaca que a miopia das classes dominantes e sua preocupação obsessiva com a estabilidade política restringem a possibilidade de mobilizar adequadamente os recursos do Estado para a defesa dos interesses dependente. de segmentos interessados na perpetuação de tradicionalismos. torna-se inviável recorrer ao planejamento como instrumento para compensar a impotência da burguesia dependente e corrigir as irracionalidades do subdesenvolvimento.os setores populares e os condenados do sistema -. c) no que tange às formas de organização do Estado nacional. como conciliar suas funções universais e estratégicas com os interesses extremamente particularistas e de curto prazo das classes dominantes. 38 . que se batem pela perpetuação dos vínculos colonialistas. Tal fato origina-se na promíscua convivência de forças nacionalistas. ameaçando seu controle absoluto sobre os centros internos de decisão.178 das classes dominantes. como neutralizar as pressões pela democratização da ordem social competitiva.38 No que se refere aos meios de que a sociedade dependente dispõe para alcançar seus objetivos.

Estas irracionalidades reduzem drasticamente a capacidade de as elites políticas avaliarem. 1981. p. as estruturas 39 . o aparecimento de visões fantasiosas sobre a realidade e de soluções mirabolantes para os problemas nacionais.. em geral.... Vê-se. F. em particular. e o processo de modernização. seja. a encarar inverso. por que.Sociedade de. Elas estimulam. não é de estranhar que 179 a “eficácia-limite” do capitalismo dependente fique muito aquém da que seria possível. portanto. são avaliados e repelidos ou aceitos num contexto de extrema irracionalidade”. com algum grau de realismo.39 A racionalidade capitalista também é perturbada pela politização desnecessária questões tendência forma de problemas ou técnicos pelo viés que são tratados ou como a de ideológicas. pela mesmo tendo em de conta os estreitos e de limites impostos situação dependência subdesenvolvimento. “Qualquer inovação. 121 . para Florestan Fernandes. assim. ignorando políticos indispensáveis à viabilização das soluções propostas. o desenvolvimento dependente não vem acompanhado de ordem social competitiva relativamente equilibrada e de Estado democrático.179179 Nestas circunstâncias. Como diz Florestan Fernandes. problemas os essencialmente fatores sociais políticos e técnica. os limites e as potencialidades do processo de mudança social. A presença de representantes dos setores conservadores em posições estratégicas no aparelho de Estado reforça as resistências sociopáticas a mudanças. Mesmo quando o ritmo de modernização é intenso. FERNANDES.

pois alimenta ilusões de melhor classificação social. p. Florestan Fernandes adverte que. contrário.40 Embora o avanço das transformações capitalistas impulsione e dinamize a ordem social competitiva.Sociedade de. Como as burguesias dependentes não abrem mão de privilégios exacerbados. das engendram no qual as com sistema econômico estruturas elementos diferentes base em nos articulado capitalistas diversas estruturas vários estágios de diferenciação econômica”. No fundo. os esforços para combater as desigualdades sociais não podem avançar até o ponto em que a alteração na correlação de forças ameace a absoluta supremacia das classes dominantes sobre a sociedade... todo. Não é de estranhar que esse tipo de desenvolvimento tenha um alcance histórico nacional. capitalista compõem um bem “As limitado fases novas e como não instrumento eliminam um as de integração ao anteriores: coexistem segmentado. F.. “Os povos que tentam essa saída e persistem nela. seu ritmo e sua intensidade são incompatíveis com a participação do conjunto da população no processo de modernização dos padrões de vida e de consumo. o fazem porque não possuem outros meios para forçar a melhoria do seu ‘destino histórico’ na civilização a que pertencem. ainda que o crescimento econômico seja um elemento estratégico do padrão de dominação. 40 .. Por este motivo. 96 . FERNANDES. ele não pode ser considerado uma solução para os problemas gerados pela dependência.180 fundamentais da sociedade colonial não desaparecem. mesmo depois de descobrirem suas limitações. 1981.

ela nega o subdesenvolvimento. 1981. Portanto. os tênues laços que ligam o Estado à Nação dependem fundamentalmente da capacidade de o processo de “mobilidade social” dar um mínimo de substrato “real” às ideologias desenvolvimentistas que alimentam as expectativas de classificação de social pelo crescimento colocou a econômico. as classes médias e os núcleos hegemônicos externos. mas com sem os precisar mecanismos comprometer-se.181181 181 trata-se de uma saída cega e desesperada. uma interferência drástica na continuidade do crescimento econômico..41 Nessas circunstâncias. p. classe. F. com suas ramificações em interesses legítimos ou espúrios. social e política da sociedade nacional. FERNANDES. questão Nas palavras Florestan Fernandes assim: “[. ela é livre. De outro lado.. e os como da e enquanto objetivos associação econômica dependente.)... De um lado. Isso é facilmente compreensível. tão irracional e improdutiva quanto seria combater a raiva mordendo-se o cão que a transmitisse”. que une pelo topo as classes altas.]temos de tomar em conta dois fatores estruturais que vinculam divergentemente a classe baixa urbana a essa ordem econômica.. os quais em vários pontos coincidem com a realização de seu destino social como classe.. desde que se entenda que a classe baixa urbana vincula o seu destino social ao florescimento da civilização vigente.. como e enquanto classe.Sociedade de. 174 . que ameaçasse ainda mais os limites 41 . para se identificar com os alvos mais profundos da autonomização econômica. ao afirmar sua condição de classe (..

através dos quais as diversas situações de interesses da burguesia.”Portanto. é suscetível de projetar o elemento de tensão existente em contextos histórico-sociais nos quais ele poderá tornar-se explosivo. Deste ângulo. ela envolve e se desenrola através de opções e de comportamentos coletivos.42 3. em formação e em expansão no Brasil. com o imobilismo da ordem tradicionalista e se organizou a modernização como processo social. Nesse caso. FERNANDES. a propensão a fazer a ‘revolução dentro da ordem’ pelo desenvolvimento. dadas certas condições ou circunstâncias. se ela falhar. porém. 1981. seria facilmente substituída por outros tipos de comportamento inconformista e por soluções verdadeiramente revolucionárias. como ‘revolução social’. mais ou menos conscientes e inteligentes. socioculturais e políticos necessários à reprodução e à expansão do capitalismo dentro de um determinado espaço nacional. Por isso. p. Mas. não se pretende explicar o presente do Brasil pelo passado de povos europeus. Capitalismo Dependente e Revolução Burguesa Atrasada Na concepção de Florestan Fernandes. quais foram e como se manifestaram as condições e os fatores histórico-sociais que explicam como e por que se rompeu. no Brasil. que se pode reproduzir de modos relativamente variáveis. F.. não existirá alternativa para o capitalismo”. 75 a 77 . Indaga-se.. constitui uma fórmula conservadora e que.Sociedade de. deram origem a novas formas de organização do poder em três níveis concomitantes: da 43 42 . desde que certa sociedade nacional possa absorver o padrão de civilização que a converte numa necessidade histórico-social. que o desenvolvimento econômico. a “Revolução Burguesa” não constitui um episódio histórico. Em suma..182 dentro dos quais a classe baixa urbana participa das vantagens do crescimento econômico sob o seu padrão atual.. cabem à revolução . um fenômeno estrutural. a revolução burguesa é um processo histórico pelo qual se constituem as estruturas e os dinamismos econômicos. em termos estruturais.43 Portanto. ao se apelar para a noção de “Revolução Burguesa”. fica bem claro.

F. é necessário superar os obstáculos que impedem a penetração e o funcionamento do capitalismo em bases nacionais. 1976.. De outro.A Revolução. socioculturais e morais indispensáveis para que a sociedade tenha acesso às estruturas e dinamismos econômicos de seu contexto civilizatório. De um lado. Para Florestan Fernandes. consolidar a internalização de forças produtivas tipicamente capitalista e cristalizar um padrão de dominação totalmente subordinado aos interesses da burguesia industrial.. Nas sociedades emergentes que ainda não completaram o ciclo de consolidação de seu Estado nacional. A a plena eclosão constituição da de centros burguesa revolução economia.183183 183 burguesa duas tarefas fundamentais. O desafio consiste em universalizar a ordem social competitiva em todo o território nacional. tal processo significa: criar os requisitos materiais. o início da revolução burguesa só ocorre quando surgem atores sociais comprometidos com a construção consiste em de um Estado tanto nacional. os a A tarefa pré de fundamental ou extrade superar que anacronismos generalização capitalistas bloqueiam relações produção típicas do capitalismo quanto os nexos de dependência externa internos que de obstaculizam decisões. o processo condições de constituição que o as de estruturas estatais se deve criar para classes sociais identifiquem indispensável e social positivamente para a sua com regime burguês. p. sistema condição afirmação como econômico dominante. FERNANDES. 21 . da sociedade e do Estado”...

de maior ou menor importância para a coletividade. Ela também representou a conquista de uma escala mínima de regularidade. Toda e qualquer ação. p.. a importância do Estado Nacional foi colocada assim: “(. a consolidação de um Estado Nacional baseado livre no direito positivo e a generalização do trabalho para o constituem pré-requisitos fundamentais desencadeamento da revolução burguesa atrasada. apenas. voltava-se de um modo ou de outro para dentro do País e afetava ou o seu presente. Comentando o caso do Brasil. Por esse motivo. Com ela impunha-se uma nova orientação do querer coletivo. . 59 44 . ou ambos. Portanto. psicossocial e culturalmente.) a criação de um Estado nacional independente não significou. o advento de uma ordem legal que permitia adotar uma rede de instituições mais ‘moderna’ e ‘eficaz’. Florestan Fernandes adverte que. portanto.44 O ápice desse processo é alcançado quando a sociedade finalmente absorve o conjunto das estruturas e dinamismos indispensáveis para que a vida social seja submetida integralmente ao império do dinheiro.. F. A sua conclusão se dá.. com a situação colonial anterior”. e para que se complete a assimilação do padrão de transformação do capitalismo industrial. FERNANDES. ou o seu futuro.. de segurança e de autonomia na maneira de pensar o presente ou o futuro em termos coletivos.A Revolução. a existência de um processo de mercantilização suficientemente desenvolvido para que o mercado interno possa ser transformado em espaço econômico de reprodução ampliada do capital. ao contrário do que se poderia supor pela transposição mecânica do passado europeu. configura-se uma situação nacional que contrasta. conseqüentemente. com a Independência e a implantação de um Estado nacional. quando os padrões de acumulação de capital e de dominação colocam a economia e a sociedade nacional sob a hegemonia da burguesia industrial.. 1976. a independência nacional. não há uma correlação rígida e única entre o padrão de transformação capitalista e o padrão de dominação burguesa..184 pressupõe.

que possuam um caráter histórico construtivo e criador”.45 No desenrola adverso. os cientistas sociais já sabem. 2) o padrão concreto de dominação burguesa (inclusive. Não existe. vice-versa. para a qual é estratégico que se eternizem as articulações responsáveis pela reprodução da situação de . sociocultural e moral deixa a revolução burguesa a reboque de uma burguesia profundamente articulada ao imperialismo. 1976. um único modelo básico democrático-burguês de transformação capitalista.185185 185 Apesar dos vários aspectos estruturais e funcionais comuns a todas as sociedades que convivem num mesmo contexto civilizatório... se for o caso . a revolução burguesa deve ser vista como um processo histórico específico. esses requisitos (sejam os econômicos. em função dos requisitos intrínsecos do desenvolvimento capitalista. p. as polarizações da dominação burguesa.A Revolução. 289-290 45 . estrutural. também. O vácuo econômico. Atualmente. bloqueios. assim. “A relação entre a dominação burguesa e a transformação capitalista é altamente variável. capitalismo em que um dependente a revolução e interno a burguesa se contexto externo extremamente de restringe dramaticamente possibilidade conciliar transformações capitalistas e integração nacional. F. característicos dos casos concretos que se considerem. Ao contrário.. de maneira exclusiva. socioculturais e políticos extrínsecos à transformação capitalista. que a transformação capitalista não se determina. FERNANDES. seleções e adaptações que delimitam: 1) como se concretizará. funcional e historicamente. como se supunha a partir de uma concepção europeucêntrica (além do mais. sejam os socioculturais e os políticos) entram em interação com os vários elementos econômicos (naturalmente extra ou pré-capitalistas) e extra-econômicos da situação histórico-social. complexamente condicionado pela posição da sociedade dentro do sistema capitalista mundial e pelas características específicas da luta de classes em cada formação social.. comprovadamente.e como ela se impreganará de elementos econômicos.ou. válida apenas para os ‘casos clássicos de Revolução Burguesa’). histórico-socialmente. a transformação capitalista. 3) quais são as probabilidades que tem a dominação burguesa de absorver os requisitos centrais da transformação capitalista (tanto os econômicos quanto os socioculturais e os políticos) e. os interesses de classe internos e externos. e sofrem. quais são as probabilidades que tem a transformação capitalista de acompanhar. como ela poderá compor os interesses de classe extraburgueses e burgueses .

46 Enfim. A defesa intransigente do status quo restringe o espaço para composições e compromissos com as classes subalternas. Elas vêem o capitalismo e suas exigências sociais.. Como explica o autor. culturais e políticas do ângulo do capitalismo contesta com dependente. classe De social as probabilidades qualquer modo. hegemonia padrões classe da solidariedade e o classes burguesia. o de poder real e da de burguesia.. e minam a partir de dentro e a partir de fora o padrão os de de dominação de burguesa.... p. e os que atingem as burguesias e os focos de poder das sociedades capitalistas hegemônicas e do sistema capitalista mundial (que se poderia entender como o ‘aliado principal’). a principal debilidade da revolução burguesa das atrasada burguesias reside que a no fraco espírito disse revolucionário lideram. 349. 46 . F. 1976. Como Florestan Fernandes. As contradições são intrínsecas às estruturas e aos dinamismos da sociedade de classes sob o capitalismo dependente. Estado capitalista periférico e dependente”..) as burguesias do mundo capitalista subdesenvolvido são vítimas da estrutura e da organização da sociedade de classes em que vivem. “(. o que bloqueia a emergência das classes populares na arena política.) as classes burguesas têm de afirmar-se.186 dependência e de subdesenvolvimento. autoproteger-se e privilegiar-se através de duas séries de antagonismos distintos: os que se voltam contra as classes operárias e as classes destituídas (que se poderiam considerar como o ‘inimigo principal’). FERNANDES.. . “(. Nenhuma de outra êxito.A Revolução..

318 48 47 .. assim. em conseqüência. que tende a repetir-se em quadros estruturais subseqüentes. 101 . a cada passo este se reapresenta na cena histórica e cobra o seu preço. o estudo da revolução burguesa atrasada deve buscar as “(.. Como não há ruptura definitiva com o passado.47 A limitada e capacidade nacional para impulsionar a a revolução das democrática inviabiliza constituição estruturas e dinamismos capitalistas necessários para quebrar o círculo vicioso do subdesenvolvimento. p. 1976. A economia dependente só assimila as transformações capitalistas que são compatíveis com a perpetuação do ultraprivilegiamento econômico. A Revolução.48 Gera-se.187187 187 condenam-se a protagonizar a história como uma eterna façanha de dependência. um processo eminentemente político. apesar de todas as mudanças quantitativas e qualitativas do capitalismo”. sociocultural e político das classes dominantes.. De acordo com a perspectiva de Florestan Fernandes. “As impossibilidades históricas formam uma cadeia... p. Idem. 1981... embora sejam muito variáveis os artifícios da ‘conciliação’ . Para que elas se ergam acima dessa medida. uma contradição irredutível entre a incorporação dos países dependentes ao espaço econômico.) conexões específicas da dominação burguesa com a transformação capitalista onde o desenvolvimento desigual interno e a dominação imperialista externa constituem realidades intrínsecas permanentes.. precisam ser compelidas a pensar e a transformar o mundo de uma perspectiva universal”.. A revolução burguesa torna-se.Sociedade de. uma espécie de círculo vicioso. sociocultural e político do sistema capitalista mundial e o processo de integração nacional.

49 Uma vez que o as economias dependentes das não conseguem compatibilizar aprofundamento transformações capitalistas com mudanças sociais construtivas. a semelhança está.. Como revolução se vê. “Sob o capitalismo dependente a Revolução Burguesa é difícil mas igualmente necessária. E é inteiramente ingênuo supor-se que ela seja inviável em si e por si mesma. 201-202. que a tornam possível. que dela resultam (e que adquirem crescente estabilidade com a consolidação da dominação burguesa)” 49 . uma autêntica negação ou neutralização da ‘reforma’)”. para possibilitar o desenvolvimento capitalista e a consolidação da dominação burguesa. p. bem como a estruturação de um Estado Nacional fundado no direito positivo. Em primeiro lugar. para Florestan Fernandes. alguns com os e casos clássicos de na burguesa de única aspectos exclusivamente. a revolução burguesa assume o caráter de um fenômeno estrutural... a consolidação do padrão de dominação e acumulação capitalista resume-se ao desdobramento de dois processos articulados. a sua imprescindibilidade para a consolidação do capitalismo dependente. sem que outras forças sociais destruam ou as bases de poder. Afinal. 1976. é vital a consolidação de um padrão de dominação que garanta à burguesia dependente o monopólio do poder econômico e político. FERNANDES. F. O dramático estreitamento do campo de possibilidades em que se dá a revolução burguesa atrasada não diminui. Nessas circunstâncias. ou as estruturas de poder. é fundamental a constituição de uma “ordem social competitiva” que sirva de base para o funcionamento e a expansão de um sistema econômico baseado no trabalho livre e na iniciativa privada. impulsionado pela energia difundida pelo centro capitalista e calibrado pelo egoísmo autodefensivo das burguesias dependentes.188 (em regra. como afirma Florestan Fernandes. Em segundo.A Revolução.. gerais do incorporação contexto . no entanto.

o que é típico da transformação capitalista e da dominação burguesa sob o capitalismo dependente.. que emanam do processo pelo qual o desenvolvimento capitalista e da periferia se torna no dependente. sem as quais a parte dependente da periferia não seria capitalista e não poderia participar de dinamismos de crescimento ou de desenvolvimento das economias capitalistas centrais. p. FERNANDES. Só assim se pode colocar em evidência como e por que a Revolução Burguesa constitui uma realidade histórica peculiar nas nações capitalistas dependentes e subdesenvolvidas. ‘repete’ referência clássicos’.. articulando mesmo padrão as economias capitalistas centrais e as economias capitalistas periféricas”. Revolução Burguesa Atrasada e Imperialismo Total 50 . Isso garante uniformidades fundamentais.189189 civilizatório. . são traços estruturais e dinâmicos essenciais. Nas suas palavras. a mais-valia relativa etc.. No entanto.A Revolução.. “(. isto é. subdesenvolvido imperializado.. ‘absorve’ e. Para Florestan Fernandes a especificidade da revolução burguesa atrasada deve ser pensada a partir de suas diferenças com os casos clássicos.50 4.. 291. a essas uniformidades – que não explicam a expropriação capitalista inerente à dominação imperialista e. sem recorrer-se à substancialização e à mistificação da história.nem poderia deixar de fazê-lo . portanto. a Revolução Burguesa combina . e a emergência de uma economia competitiva diferenciada ou de uma economia monopolista articulada etc. para explicar a variação essencial e diferencial. a dependência e o subdesenvolvimento – se superpõem diferenças fundamentais.) é a estas diferenças (e não àquelas uniformidades) que cabe recorrer.transformação capitalista e dominação burguesa”. que caracterizam a existência do que Marx designava como uma economia mercantil. F.. “O que a parte dependente com da 189 periferia aos ‘casos portanto. 1976. Aí.

nas relações entre as classes. o aprofundamento da industrialização exacerba o “medo pânico” das classes dominantes.) existe uma completa incompatibilidade entre o superprivilegiamento de classe. seu caráter autocrático.. como fator de diferenciação social e de estabilidade nas relações de poder entre as classes. fundadas no uso legítimo da competição e do conflito nas relações de poder entre as classes. mas que deformam a ‘democracia com participação ampliada’. Florestan Fernandes sintetizou a questão nos seguintes termos: “(. A revolução burguesa é solapada de fora para dentro. [.] A crise que nasce desse jogo de contradições é estrutural e crônica. A exceção que confirma a regra surge onde as classes ‘baixas’ logram oportunidades para .190 Na interpretação de Florestan Fernandes. sem hesitação. Enquanto o privilegiamento prevalece. possibilidade de desvincular a aceleração do desenvolvimento capitalista do processo de integração nacional leva as burguesias nacionais a optarem definitivamente por uma aliança estratégica com o capital internacional e com as nações hegemônicas. e a assumir. Por outro. é impossível introduzir as ‘regras democráticas’. as características do imperialismo na segunda metade do século XX tornam muito difícil o rompimento com a situação de dependência sem a superação do próprio capitalismo.. ‘autoritarismo’ e ‘autocracia’ ainda se superpõem. uma vez que a polarização com o bloco comunista envolve as burguesias dependentes em uma disputa política de escala mundial. A internacionalização da luta de classes transforma toda ameaça 51 . Na verdade. O desfecho da crise (nos países que não puderam superála) reflete como ‘democracia’. convertendo-a em uma variante da democracia restrita das velhas oligarquias. O problema central reside na ausência sociais de atores sociais Por capazes um lado. e a adoção de sistemas políticos constitucionais representativos. se algumas classes aceitam a ordem social competitiva apenas onde ela favorece a continuidade de perturbadoras desigualdades sociais e a rejeitam onde admite pressões corretivas. levando-as a abandonar quaisquer veleidades revolucionárias. o resultado mais freqüente aparece em sistemas de governos aparentemente democráticos. de a impulsionar mudanças construtivas.51 Mas isso não é tudo.. como se diz. dentro da ordem social competitiva.

onde isso ocorreu de modo muito fraco e descontínuo. . 52 contrabalançar ou desmantelar a hegemonia burguesa”. “Revolução e contra-revolução constituem. Por fim. p. ou então. fica contra-ataque autonomia de proletário circunscrito classe e de sua participação coletiva no sistema de poder burguês”. mas o proletariado não. p.Capitalismo.. a burguesia afasta-se das tarefas históricas impostas por sua revolução de classe. F. 1981... 104-105 52 . a revolução burguesa ganha uma Nas dinâmica palavras intrinsecamente de Florestan por “contraFernandes. impulsionada pelas classes dominantes. Sob a guerra civil aberta. ao estreitar o espaço para reforma sociais e políticas públicas. de ser o sua contida nos limites ‘legalidade’. Nestas circunstâncias. Onde isso não ocorreu. 30. Ele força e violenta os dinamismos da sociedade capitalista. os novos requisitos de estabilidade e segurança das grandes corporações multinacionais. a pressão autodefensiva da burguesia torna-se virulenta e se coloca acima de qualquer ‘legalidade’. a democracia burguesa sempre se revelou muito débil e facilmente propensa às contrações contra-revolucionárias dos regimes ditatoriais. obrigando os setores estratégicos das classes burguesas a retomar pé na transformação revolucionária da ordem social competitiva. o novo contexto histórico coloca em marcha duas revoluções antagônicas: uma. Sob a guerra civil latente. FERNANDES. que germina em estado larvar entre os condenados do sistema. ”Em outras palavras prossegue o autor -. conseqüência. que procura concluir a revolução burguesa mediante a afirmação do capitalismo dependente. duas faces de uma mesma realidade. a pressão da autodefensiva da burguesia por à sua defesa pode vez.191191 191 à ordem estabelecida em um episódio da guerra fria. e outra. revolucionária”. 1975. tendem a acirrar os antagonismos de classes.. que se volta para o futuro e rejeita não apenas à situação de dependência mas ao próprio capitalismo.O que é revolução. Portanto. .

e. o processo de universalização e democratização da ordem social competitiva pelo conjunto do território e da população nacional. mais ou menos complexa e heterogênea. de um lado.O que é revolução. Literalmente. para Florestan Fernandes. p. F. político: (1) em semelhante contexto em histórico-social sentido e em integração dos horizontal. FERNANDES.. transformando o Estado em um mero instrumento de controle do espaço social e geográfico do país. o proletariado bate-se diretamente pela conquista do poder ou. impostos por mediação do Estado a toda a comunidade nacional e tratados como se fossem ‘os interesses da Nação como um todo’. (2) probabilidade de impor tais interesses a toda a por sua vez. das escala nacionais. 1981. 30-31 . “O que entra em jogo não são as compulsões igualitárias (por mais formais e abstratas que sejam) de uma comunidade política nacional. pelo menos. pela instauração de uma dualidade de poder que exprima claramente a legalidade que a revolução opõe à ilegalidade da contrarevolução. gera um divórcio definitivo entre o e movimento de assimilação dos requisitos socioeconômicos socioculturais indispensáveis para o funcionamento da ordem social competitiva. o poder burguês torna-se incompatível com a democracia e o desenvolvimento independente. Por esse motivo. revolução nacional e significa. de outro. Mas o alcance dentro do qual certos interesses especificamente de classe podem ser universalizados. pois. O campo de luta de classes adquire uma transparência completa e converte-se automaticamente em um campo de luta armada. ao consolidar uma cisão irreparável entre tempo econômico e tempo político. pela qual a revolução e a contra-revolução metamorfoseiam a guerra civil a frio ou/e a quente em um prolongamento da política por outros meios”. interesses classes burguesas.192 A nova fase do imperialismo.

A Revolução. Como as burguesias são incapazes de assimilar as transformações capitalistas de seu tempo sem estabelecer uma estreita associação com o capital internacional e com o sistema imperialista. o novo contexto histórico influencia os rumos da revolução burguesa à medida que transforma a conservação do capitalismo dependente na linha de menor resistência e na opção mais racional ao alcance das burguesias periféricas para impulsionar as transformações capitalistas e consolidar sua dominação Fernandes... conseqüências mais ou menos úteis para as demais classes e universais quanto aos dinamismos da comunidade nacional”. as classes dominantes exacerbam as resistências sociopáticas à mudança.53 Em suma.. e 53 . reside Para nas Florestan formas de problema fundamental solidariedade. indiretamente e a largo prazo. Uma vez que a preservação de estruturas sociais voltam-se para a preservação da situação de anacrônicas é o único meio que encontram para sobreviver às violentas ondas de modernização vindas de fora. FERNANDES. sobre o o conjunto da sociedade.193193 193 comunidade nacional de modo coercitivo e ‘legítimo’. F.. 301 . Essa é a base política da continuidade da transformação capitalista e dela podem resultar. de consciência e de comportamentos de classe que surgem de uma situação entre estrutural os marcada pela brutal para o desproporção assimetria do desafios nacional colocados e a impulsionamento desenvolvimento debilidade orgânica das burguesias dependentes. 1976. p. seus interesses estratégicos dependência.

na era atual do imperialismo as burguesias dependentes não têm como romper o círculo vicioso do subdesenvolvimento. o desenvolvimento capitalista associa-se à dependência e do à externa. não encontram na ordem capitalista ambiente e condições para a sua própria constituição e fortalecimento como classe independente. formas ao subdesenvolvimento de poder das forças O produtivas fechamento subalternas forçar as autocráticas político única à político.)debilitação estrutural prolongada classes destituídas e subalternas.194 empenham-se ainda mais em evitar a abertura de espaço político para as classes subalternas. as burguesias dependentes chegam à constatação de que seus interesses fundamentais não estão na promoção do desenvolvimento socialização reprodução autônomo. a inexistência de e espaço público acarreta das a “(. Estas são confinadas à ‘apatia’. Neste contexto. das que circuito a participação de a energia tomar classes poderia mais elimina fonte burguesias dependentes atitudes radicais. ampliada capital perpetuação desequilíbrio na correlação de forças que impede a presença ativa das classes baixas no processo histórico. e na Estão... Sem ter nada a oferecer aos desfavorecidos. ou seja. frutos do nem do na criação de mecanismos sim. de na do dos progresso. Como lembra Florestan Fernandes em O Que É Revolução. Por isso. massas’ é um Por aí se verifica político o quanto a ‘apatia das produto secretado pela sociedade .

Enfim. 54 .O que é revolução.195195 capitalista dirigentes”. Tais mudanças associam-se a trêsduas características do imperialismo no pós guerra: (1) o enfraquecimento orgânico das burguesias dependentes frente ao capital financeiro internacional. p. e (2) o temor das empresas transnacionais maior risco de que as massas populares irrompam no processo político – fenômeno inexorável num contexto de aprofundamento da industrialização pesada.54 e manipulado deliberadamente pelas 195 classes Em síntese. Em outras palavras. 1981. e (3) a internacionalização da luta de classes um produto da guerra fria. a fase avançada do imperialismo caracteriza-se como um 54 . a revolução burguesa atrasada não é capaz de incorporar de suas as transformações porque efetivamente as burguesias de levar estas “atores revolucionárias dependentes adiante não antecessoras nem têm necessidade disposição e mudanças fecham sociais totalmente construtivas o espaço porque aos burguesias público sociais” que poderiam forçá-las a fazer tais transformações. duas mudanças diferenciam o marco históricos das revoluções (1) do burguesas a atrasadas de de suas a congêneres anteriores: capitalista riscos que às possibilidade de separar transformação e (2) os e processo para integração as nacional. existem levar revoluções sem democrática a nacional últimas conseqüências ameaçar própria sobrevivência do regime capitalista. FERNANDES.. F..

Florestan Fernandes acredita a classe operária tende a apreender rapidamente que o capitalismo dependente não tem o que lhe oferecer.. Ao resgatar os elos perdidos entre relações estatal. a médio prazo. Ao expor a lógica sociocultural e política do processo adaptativo que preside o movimento de modernização. aprende que deve passar tão depressa quanto possível da condição de fiel da ‘democracia burguesa’ para a de fator de uma democracia da maioria. “O proletariado cresce com a consciência de que tem de tomar tudo com as próprias mãos e. isto é. 1981. p. FERNANDES. Estabelecendo os . forças Fernandes produtivas mostra e a superestrutura Florestan especificidade do grau de autonomia da Economia e do Estado no capitalismo dependente. 13-14 55 . reflexão perspectivas para que se entendam os processos históricos que condicionam a racionalidade substantiva das economias dependentes e seus possíveis destinos. Florestan Fernandes vai além da fluída concepção de Caio Prado sobre a natureza das contradições internas que impulsionam a evolução do capitalismo nas economias dependentes. uma democracia popular ou operária”.O que é revolução. Nas suas palavras. de produção.196 momento em que “a burguesia tem pouco a ceder e só cede a medo”. F. Observações Finais A contribuição de Florestan Fernandes para a compreensão do papel da luta de classes no desenvolvimento nacional nos fornece importantes elementos para entender as bases sociais e políticas capitalistas do processo de acumulação Sua nas sociedades abre ricas subdesenvolvidas.55 5.

seu estudo sobre os dilemas da revolução burguesa atrasada evidencia que só um amplo movimento político. sua reflexão nos permite caracterizar os processos pelos quais a situação de dependência condiciona os mecanismos de apropriação e utilização do excedente social. Para nós. que seja capaz de cristalizar uma aliança entre as classes operárias e os setores marginalizados da sociedade. ao mostrar como o contexto de histórico-estrutural desenvolvimento compromete capitalista a e possibilidade conciliar democracia social. bem como o viés tecnocrático com que muitos vêem os agentes promotores do desenvolvimento nacional. MORAES. 1995 . R. M. suas considerações são fundamentais para evitar o exagerado otimismo de alguns em relação às soluções reformistas para o subdesenvolvimento.Modernização brasileira no pensamento de Celso Furtado.E... 56 .Celso Furtado.56 Por fim.197197 197 parâmetros sociais e políticos que sobredeterminam o processo de modernização. bem como os dinamismos políticos que limitam o raio de manobra da política econômica. A respeito ver GUIMARÃES. seria capaz de a congregar ruptura a força com a social necessária e para o impulsionar dependência subdesenvolvimento. 1993.

Idem. como o Deus Jano.. v. Celso Furtado. n. R.. (Orgs.1 economias A discrepância entre as à economias capacidade centrais de e as a periféricas quanto elevar produtividade média do trabalho e quanto à potencialidade de socializar o excedente social entre salário e lucro faz com que o estilo de vida que prevalece nas economias centrais não possa ser generalizado periféricas. 1983. consultar: MORAES.Celso Furtado. 1993.. p. formações sociais que têm capacidades assimétricas de introduzir e difundir progresso técnico. o subdesenvolvimento é produto de um sistema econômico mundial que integra. 1995. J. 1986. Novos Estudos CEBRAP. Sobre a teoria do subdesenvolvimento de Furtado. F. M. p. (s. BAER. Idem. Furtado on development. LOVE. R. n. Journal of Developing Areas.. Celso Furtado e o pensamento social brasileiro. n.B. Idem. Introdução. p. 1996. GUIMARÃES..l.. Viagem ao olho do furacão. FERRANTE.3.2.).E. 1 .. É um impasse histórico que espontaneamente não pode levar senão a alguma forma de catástrofe social>>.CAPÍTULO 5 PROGRESSO TÉCNICO E DESENVOLVIMENTO NACIONAL EM CELSO FURTADO <<O subdesenvolvimento.) Inteligência brasileira.Modernização.2. 48.Crafting the third world. ..Celso Furtado: economia. v. In:______ (Org. em um mesmo padrão de transformação. Luso-Brazilian Review. 114-121. R. Furtado Introdução Na interpretação de Celso Furtado. para O o conjunto da população surge das economias subdesenvolvimento quando.L. W. V... tanto olha para frente como para trás. OLIVEIRA.) . não tem orientação definida.. C.. In: MORAES.. ANTUNES.3-19. 270-280.1. 1974. Furtado revisited. 1997. .

Quando o projeto social dá prioridade à efetiva melhoria das condições de vida da maioria da população. somente 2 . à maneira de Rostow (1965). “O que caracteriza o desenvolvimento é o projeto social subjacente. Ora. FURTADO. o subdesenvolvimento não deve ser visto como uma fase que tende a ser superada pelo simples crescimento econômico.199199 ignorando tais diferenças.Cultura. o crescimento se metamorfoseia em desenvolvimento. Ela é fruto da realização de um projeto. tal qual o conhecemos. Na padrões visão de de Furtado. p. como prioridade absoluta do processo de acumulação. 75 .2 Teoria Subdesenvolvimento Revisitado. Na verdade. Furtado põecoloca em evidência os limites enfrentados pelas economias periféricas no sistema capitalista mundial. dessa civilização.. tende a o processo se de modernização como um dos consumo reproduzir círculo vicioso. a cópia do estilo de vida dos países centrais. dicotomia que se manifesta entre países e dentro Segundo de a cada lógica país de forma pouco ou muito uma acentuada. 1984. C. que supõe.. ..) a civilização surgida da Revolução Industrial européia conduz inevitavelmente a humanidade a uma dicotomia de ricos e pobres. funda-se na preservação dos privilégios das elites que satisfazem seu afã de modernização. O crescimento. Como lembra Furtado.. as elites que monopolizam 199 a apropriação do excedente impõem. não há no autor o mais remoto vestígio da concepção etapista de desenvolvimento. essa metamorfose não se dá espontaneamente. impedindo assim a integração de parcela considerável da população no padrão de vida material e cultural propiciado pelo capitalismo.. que se possam recuperar séculos de atraso mediante forças saltos mirabolantes Em A no grau de do desenvolvimento das produtivas. “(. expressão de uma vontade política”. Por essa razão.

3 Interessado intervenção do em definir na parâmetros o para esforço orientar de a Estado economia. Sua perspectiva de observação dos problemas econômicos das regiões periféricas organiza-se. Exemplos de prevalência de critérios políticos na tomada de decisões em matéria econômica podem ser facilmente encontrados em qualquer país.. emprestada às ciências físicas”. isto é. particularmente na sua fase formativa e nos momentos de crise maiores”. 1992... de julgamentos de valor.. portanto..) seria totalmente errôneo postular para o economista uma equívoca idéia de objetividade. 1962. Contudo. p.1. único meio de subordinar a lógica individualista da iniciativa privada aos interesses coletivos da sociedade nacional. .4 . Furtado consiste em estabelecer critérios éticos para o funcionamento da economia. Idem. 4 . Alguns desses princípios podem tender à universalidade. p. A Construção. 1992...13. FURTADO. C. como a norma de que o bem-estar social deve prevalecer sobre o interesse individual...A Pré-revolução. Economia e Sociedade. 29. n.) não acreditamos em ciência econômica pura.. “A existência de um Estado nacional” – afirma-se em A Construção Interrompida – “introduz a dimensão política nos cálculos econômicos. em torno do dilema enfrentado pela sociedade dependente para estruturar um sistema econômico nacional.200 parcela minoritária da humanidade pode alcançar a homogeneidade social ao nível da abundância. Comentando a especificidade de sua abordagem em A Pré-Revolução Brasileira..O Subdesenvolvimento. tornando-os mais elusivos e complexos. FURTADO C. no estágio em que nos encontramos de grandes disparidades de graus de desenvolvimento e integração social (. p. independente de um conjunto de princípios de convivência social preestabelecidos.. pode-se ler: “(.. A grande maioria dos povos terá que escolher entre a homogeneidade a níveis modestos e um dualismo social de grau maior ou menor”. 81 3 ..

Ao reduzir os problemas do desenvolvimento a seus aspectos técnicos e financeiros.Prefácio a. (2) a acumulação de capital uma adequação entre composição técnica do capital e modo de organização do mundo do trabalho 5 . cujas assimilando-as leis deviam a ser ‘automatismos’ descobertas ou e ‘mecanismos’.201201 201 O pensamento de Furtado é. 1976. que contribui para ocultar o elemento de poder que existe nas decisões econômicas. uma crítica à visão “cosmopolita” objeção dos problemas na econômicos. adequada a dos percepção processos culturais sobredeterminam racionalidade econômica. . p.. a contraditória Preocupado em entre dependência construção para estabelecer critérios balizar incorporação de progresso técnico. portanto. explica o autor. ele mostra que o processo de acumulação só contribui para a formação as de um sistema que econômico nacional quando: (1) necessidades sobredeterminam a acumulação não-produtiva são compatíveis com as potencialidades preserva materiais relação do de país. 30 . escrupulosamente respeitadas”.” no sentido de contribuir no para facilitar do o desenvolvimento radica das em forças ela produtivas quadro capitalismo.5 O cerne da análise de Furtado e é mostrar a da relação nação. de da que.. C. A essência ao de sua os essa reside percepção abstrair condicionantes abordagem sociais e não extra-econômicos permite uma que concorrência.. este tipo de enfoque torna-se incompatível com a crítica do status quo. “O grande alcance ideológico da ciência econômica”. FURTADO.

202 que é compatível com a geração de escassez relativa de

trabalho; e (3) a participação no sistema capitalista mundial não sacrifica o controle da sociedade nacional sobre os fins e os meios do desenvolvimento nacional. Como as economias periféricas não possuem autonomia

tecnológica, tendo de servir-se do patrimônio produzido nas economias dependentes seguintes centrais, se o grau à de sua liberdade capacidade a das de sociedades as

restringe

manipular de

variáveis: sociais”

(1) – um

mudar

qualidade que exige

suas

“necessidades

processo

rupturas

socioculturais; (2) escolher entre introduzir tecnologias de última geração o ou difundir de ou técnicas do o já conhecidas; (3)

modificar mundial,

modo

participação reduzindo

sistema de

capitalista exposição da

aumentando

grau

economia às influencias externas; (4) alterar os parâmetros sociais e institucionais que regem a organização do mundo do trabalho mediante reformas na estrutura agrária, mudanças na duração da jornada de trabalho, regulação dos fluxos

demográficos etc. O trabalho de Furtado deve ser visto como um esforço de buscar uma alternativa que permitisse às economias latino-

americanas superar a asfixiante dominação dos Estados Unidos sem cair na rede de influência do bloco Soviético. Tratava-se de encontrar uma terceira via entre as proposições liberais, incompatíveis com a industrialização das economias

periféricas, e as teses marxistas, que propugnavam a ruptura radical com o sistema capitalista mundial. Ao discutir as

203203

203

opções das sociedades latino-americanas em meados da década dos 60, Furtado colocou a questão nos seguintes termos: “O problema fundamental que se apresenta é, portanto, desenvolver técnicas que permitam alcançar rápidas transformações sociais com os padrões de convivência humana de uma sociedade aberta. Se não lograrmos pois esse as objetivo, pressões a alternativa não será o

imobilismo,

sociais

abrirão

caminho,

escapando a toda possibilidade de previsão e controle”.6

***

O

capítulo

está

subdividido as

em

cinco de

itens.

Noeste sobre o

primeiro,

apresentamos

idéias-chaves

Furtado

subdesenvolvimento e examinaremos as causas e conseqüências da falta de autonomia do processo de acumulação nas economias dependentes. No próximo, discutiremos a “a irracionalidade” do processo de modernização dos padrões de consumo. No terceiro item, analisaremos o modo como o autor utiliza a noção de dependência para a para fazer das as mediações históricas entre necessárias e

compreensão

contradições

modernização

industrialização subdesenvolvida. Na quarta, examinaremos como ele interpreta o impacto da transnacionalização do capitalismo sobre as economias da “nova dependentes, dependência”. caracterizando Por fim, na a

particularidade

última

parte, comentaremos a relação entre as reflexões de Furtado, de Caio Prado e de Florestan Fernandes.

6

. FURTADO, C. - A Pré-revolução..., 1962, p. 26

204

1. Estrutura Centro-periferia e Incorporação de Progresso Técnico

A

teoria

do

subdesenvolvimento

de

Furtado

parte

do

princípio de que a estrutura centro-periferia permite que a incorporação de progresso das forças técnico seja desarticulada De pela um lado, do as

desenvolvimento economias de

produtivas.7

escala

propiciadas

participação

especializada no sistema capitalista mundial tornam possível separar a geração de excedente social de transformações na divisão social do trabalho. De outro, a difusão do progresso técnico ocorre de modo desigual, criando um descompasso entre modernização dos bens de consumo e modernização dos meios de produção. Abre-se, assim, espaço para que o acesso ao estilo de vida das economias centrais se desassocie do grau de

desenvolvimento de suas forças produtivas. Em breve, na sua perspectiva, a base material do processo de modernização

encontra-se na existência de uma dessimetria entre o sistema produtivo e a na sociedade. “O subdesenvolvimento dos avanços é um

desequilíbrio

assimilação

tecnológicos

produzidos pelo capitalismo industrial a favor das inovações que incidem diretamente sobre o estilo de vida. É que os dois processos de penetração de novas técnicas se apoiam no mesmo vetor que é a acumulação. Nas economias desenvolvidas existe

7

. RODRÍGUEZ, O. - Teoria do..., 1981.

205205 um paralelismo nos entre a acumulação de nas O forças

205 produtivas de e

diretamente

objetos

consumo.

crescimento

uma

requer o avanço da outra. A raiz do subdesenvolvimento reside na desarticulação entre esses dois processos causada pela

modernização”, escreve Furtado.8 Contudo, embora necessária, a existência do sistema

centro-periferia não é condição suficiente para a persistência do subdesenvolvimento, pois o atraso material em relação às economias centrais não implica necessariamente que a

incorporação de progresso técnico não possa ser feita segundo uma escala de prioridades que leve em consideração os

interesses estratégicos do conjunto da nação. Para Furtado, a posição periférica só gera subdesenvolvimento nas sociedades em que as decisões intertemporais de gasto se divorciam das necessidades do conjunto da população e da dotação de recursos econômicos do país. Em outras palavras, o subdesenvolvimento supõe o controle da apropriação e utilização do excedente por elites aculturadas determinadas a reproduzir “(...) padrões de consumo sofisticados sem o correspondente processo de

acumulação de capital e progresso nos métodos produtivos”.9 A fratura entre desenvolvimento das forças produtivas e socialização dos frutos do progresso resulta da presença de um processo de acumulação de capital que, por valer-se de uma “tecnologia inadequada” ao modo de organização do mundo do trabalho, não gera escassez relativa de trabalho e, por isso,

. FURTADO, C. - O Subdesenvolvimento...,Economia e Sociedade, n. 1, 1992, p.8.

8

206 não é capaz de absorver o excedente de mão de obra

marginalizado do mercado de trabalho.10 Nestas circunstâncias, o padrão de acumulação baseado na modernização dos padrões de consumo torna-se uma verdadeira engrenagem de concentração de renda. Como afirma Furtado em O Mito do Desenvolvimento

Econômico: “O subdesenvolvimento tem suas raízes numa conexão precisa, processo surgida interno em de certas condições e o históricas, processo entre o de

exploração

externo

dependência. Quanto mais intenso o influxo de novos padrões de consumo, mais concentrada terá que ser a renda. Portanto, se aumenta a dependência externa, também terá que aumentar a taxa interna de exploração”.11 O problema da inadequação à opção tecnológica por um padrão está de

indissoluvemente

associadoa

incorporação de progresso técnico baseado na modernização dos estilos de vida das economias centrais. Diferenciando sua

concepção do fenômeno da inadequação tecnológica da que existe no arcabouço analítico neoclássico, Furtado explica: “Os

economistas que observaram as economias subdesenvolvidas sob a forma de sistemas fechados viram nessa descontinuidade do

9

. FURTADO, C. - O Subdesenvolvimento..., 1992, p.81 . Além disso, Furtado ressalta que “O processo de modernização, ao retardar a penetração de novas técnicas nos meios de produção, também retardou a emergência de novas formas de organização das massas trabalhadoras. Um dos traços característicos do subdesenvolvimento é a exclusão de importantes segmentos de população da atividade política, privados que estão de recursos de poder. Daí a proclividade ao autoritarismo. Essa situação somente se modifica com a emergência de formas alternativas de organização social capazes de ativar os segmentos de população politicamente inertes”, Idem. - O subdesenvolvimento...Economia e Sociedade, n.1, 1992, p.18
10

M.”. a impossibilidade de incorporar o conjunto da população ao 11 12 .O Mito do.. . ao contrário do que ocorre no desenvolvimento autodeterminado. sur la base de la situation historique. “Puisque nous sommes en mesure d’établir de façon valable (. .. 87-88. p.. C.13 O problema é que... Na medida em que os padrões de consumo das classes que se apropriam do excedente devam acompanhar a rápida evolução nas formas de vida. .Essais sur. provocado pela existência de coeficientes fixos nas funções de produção. pelo fato de que a tecnologia que estava sendo absorvida era ‘inadequada’.. FURTADO. nous pouvons chaque fois critiquer indirectement l’intention comme pratiquement raisonnable ou déraisonnable suivant les conditions données. 1974. qualquer tentativa visando a ‘adaptar’ a tecnologia será de escassa significação”. nous pouvons aussi par cette voie peser les chances que nous avons d’atteindre en général au but déterminé à la faveur des moyens déterminés qui sont à notre disposition. que está ocorrendo no centro do sistema. 1974.. ou seja. p. ignorar o fato de que os bens que estão sendo consumidos não podem ser produzidos senão com essa tecnologia.. Pretende-se. assim. 13 . . p. FURTADO.207207 aparelho produtivo a manifestação de um ‘desequilíbrio 207 ao nível dos fatores’..94.) quels sont les moyens propres ou non à conduire au but que nous nous représentons. 123.12 A análise de Furtado é um esforço de revelar a “irracionalidade” doeste processo de modernização dos padrões de consumo como meio de impulsionar o desenvolvimento nacional... Partant. 1992. .. C. A propósito não custa lembrar a afirmação de Max Weber . em que o próprio movimento de acumulação de capital leva à ampliação do horizonte mercantil..O Mito do.um dos autores que exerceu maior influência sobre o pensamento de Furtado ‘. WEBER. e que às classes dirigentes que assimilaram as formas de consumo dos países cêntricos não se apresenta o problema de optar entre essa constelação de bens e uma outra qualquer.

ou seja. p.208 mercado de trabalho dá lugar a um processo de mercantilização que apresenta limitado poder expansivo. Usando uma figura de linguagem. C.14 Os bloqueios à expansão na capacidade de consumo da sociedade decorrem do fato de que a superabundância de mão-deobra impede a progressiva do transferência para de ganhos A falta na de produtividade física trabalho salário. as quais se propagam em todas as direções até esgotarem sua força transformadora. 14 . as economias subdesenvolvidas caracterizam-se pela incapacidade de gerar rupturas qualitativas na capacidade de consumo da sociedade.. o processo de mercantilização tende a exaurir-se no seu ponto inicial.. de sem projetar-se “A teoria para do espaços.O Mito do. o impacto poderíamos da dizer de que nas economias desenvolvidas acumulação capital sobre o processo de mercantilização tem efeito semelhante ao das vibrações de um abalo sísmico.. sinergia entre o processo de intensificação na divisão social do trabalho e o movimento de ampliação progressiva das necessidades sociais submetidas ao circuito mercantil faz com que a concorrência econômica não seja capaz de impulsionar. . FURTADO. como um pião que gira intensamente novos sobre seu próprio eixo. Nas palavras Furtado: subdesenvolvimento cuida do caso especial de processos sociais em que aumentos de produtividade e assimilação de novas técnicas não conduzem à elevação do nível de vida médio da população”. . 1974.87-88. Já nas economias subdesenvolvidas.

é indispensável focalizar simultaneamente o processo da produção (. enquanto nas economias desenvolvidas o progresso tecnológico é. engendram a dependência cultural que está na base do processo de reprodução das estruturas sociais correspondentes”. a fonte do 15 . o processo de incorporação de progresso técnico. os saltos diacrônicos no desenvolvimento das forças produtivas e na capacidade de consumo da sociedade não são um desdobramento natural do movimento anterior da economia.. a partir de suas origens históricas. 1974. consumo que o impulsiona inverso: condiciona “Em síntese.80.. é que nela o progresso tecnológico é criado pelo desenvolvimento. ou melhor. há uma inversão na relação de causalidade entre expansão da capacidade produtiva e formação dos mercados.) e o processo de circulação (.15 Na ausência de mecanismos de transferência dos aumentos na produtividade do trabalho para salário... por modificações estruturais. Não é o desenvolvimento das forças produtivas consumo.209209 209 por si só. conjuntamente. FURTADO. as é o o a transformações modernização nos dos padrões padrões das uma de de mas que desenvolvimento que caracteriza forças economia produtivas. p. . ...O Mito do. os quais. que surgem inicialmente do lado da demanda. Donde sua advertência: “Para captar a natureza do subdesenvolvimento. ele mesmo.. C.). dependente. Como não há um encadeamento natural das variáveis técnicas e econômicas que condicionam a introdução e a difusão de progresso técnico.

o setor capitalista se mantenha praticamente estacionário.3..) a existência de um grande reservatório de mão-de-obra à disposição dos capitalistas constitui uma força inibitória de todo o processo de luta de classes. alcançando aquela mesma paz social que caracteriza a velha agricultura 16 . 1968. . “(.. em muitas economias subdesenvolvidas.16 A desarticulação das relações de causa e efeito entre investimento e consumo não do significa as que as para vida economias que as subdesenvolvidas descontinuidades possuem modo de premissas da organização econômica possam ser deduzidas da concorrência entre capital e trabalho pela apropriação do excedente. . p. A existência de do a a uma ampla de disponibilidade trabalho econômica. e sim o deslocamento da curva da demanda”.) pouco classe dirigente a elevadas taxas de lucro que jamais são efetivamente postas em xeque pela luta de classes.Um projeto para o Brasil. resume Furtado em Um Projeto para o Brasil. cabe reconhecer que o desenvolvimento de uma economia dependente é reflexo economia do progresso tecnológico convém nos pólos dinâmicos o da mundial. subdesenvolvidas acostumando-se a apresenta-se (. De uma perspectiva mais ampla. FURTADO.210 desenvolvimento. assinalar que elemento dinâmico não é a irradiação do progresso tecnológico... de mão-de-obra o marginalizada a buscar mercado desobriga Em empresário do eficiência questão foi Dialética Desenvolvimento. C. Desta forma o setor capitalista com das economias dinamismo. resumida assim. A este fato se deve que. Contudo.

Dialética.211211 211 feudal.258. a análise econômica pode precisar o mecanismo do desenvolvimento econômico”..A Economia brasileira.. C. O que vem a ser o mesmo que afirmar que todo desenvolvimento se faz com elevado custo social”. . . . 18 19 17 . p. sinônimo de estagnação e por alguém já qualificada de ‘paz dos túmulos’“. C.80.19 Como a órbita econômica carece das premissas necessárias para que o processo do de inovação se transforme conclui na força as propulsora desenvolvimento. a preocupação com a produtividade” afirma Furtado em Desenvolvimento e Subdesenvolvimento . enfim todos os critérios de racionalidade.“é sempre relegada a segundo plano. o que constitui vício fundamental em um sistema industrial. 1964.. Idem. de adequada localização. Furtado que .193.18 resultado de A econômico incorporação extrapolam de teoria é o e a da que se progresso para não um os cálculo efeitos econômico dos custos sobre neutralizar rentabilidade produtividade predomina aumentos pela das do empresas trabalho. Não obstante. Donde a assertiva: “A análise econômica não nos pode dizer por que uma sociedade se modifica e a que agente sociais se deve esse processo. FURTADO. FURTADO.. os problemas de escolha de tecnologia. ...Desenvolvimento e subdesenvolvimento. p. 1954.17 A ruptura da dialética significa entre que inovação os o e difusão de do progresso técnico condicionantes âmbito técnico reduzir salariais da desenvolvimento econômica. são relegados a segundo plano. p. . Na ausência de preocupação predominante com a produtividade. taxa elevação clima lucros de e sistemática negócios no qual em não “Num de uma elevada manifestam pressões para reduzir essa taxa. 1961.

o sentido. identificam-se elementos 20 . a temporalidade da economia dependente deve ser vista como parte Por do movimento ele de expansão que o do sistema da centro-periferia. 1980.24. . C. Na introdução de Análise do Modelo Brasileiro. . a evolução do sistema produtivo assume a forma de um processo adaptativo no qual o papel diretor cabe às forças externas e internas que definem o perfil da demanda” escreve Furtado em Pequena Introdução ao Desenvolvimento. Nesta perspectiva. ditada pelo processo de modernização dos padrões de consumo.Pequena. isto insiste estudo dependência deve partir de uma visão global que contextualize os problemas específicos de cada sociedade como parte de um processo mais amplo de difusão desigual do progresso técnico.. “Longe de ser um reflexo do nível de acumulação alcançado. o ritmo e a intensidade a uma de incorporação de progresso técnico obedecem racionalidade adaptativa.. Furtado resume a essência de seu método analítico: “A partir os de uma globalização histórica. p.212 descontinuidades na divisão social do trabalho e no tipo de mercado das economias periféricas devem ser pensadas como um processo de ajuste às mudanças nas estruturas extra-econômicas que condicionam os objetivos da sociedade. FURTADO..20 2. Modernização e Subdesenvolvimento Para Furtado.

convenceu-me sobejamente da insuficiência do quadro conceitual com que trabalhamos nessa ciência. 1976.11. estruturais. Um prolongado esforço para compreender os processos históricos de desenvolvimento e subdesenvolvimento. Daí sua oposição às teses que reduzem a problemática do desenvolvimento a uma questão de dinâmica macroeconômica: “A matéria com que se preocupa o economista são determinados problemas sociais que foram simplificados expressamente para poderem ser tratados com certos métodos. A despeito de sua vaguidade.3. como se o tempo existisse em si mesmo.. ou seja. a forma de eliminação do fator tempo. p. p. desbordar os limites do ‘econômico’“. Não é por outra razão que Furtado rejeita todo tipo de formulação que trate os problemas do desenvolvimento econômico como um problema de dinâmica econômica.. levou-me à convicção de que a elaboração de uma ‘dinâmica econômica’ que seja algo mais do que uma série de exercícios engenhosos para distração de professores universitários. .Prefácio a. “Um quarto de século tateando os labirintos das teorias econômicas e esforçando-me para descobrir relações entre os ensinamentos que daí se derivam e os problemas práticos de nossa época. O corte temporal torna-se necessário. apoiado nos instrumentos da análise econômica. <<reduzir>> a realidade social a um sistema a que se podem aplicar os instrumentos da análise econômica. sua permite que tais elementos como variáveis. p. Ocorre. C. via de regra. 1972. Idem. da o sistema capitalista influencia movimento economia subdesenvolvida porque os padrões de consumo e eficiência produtiva irradiados do centro condicionam a capacidade de a sociedade dependente . Dinamizar significa. p. mais complexos. é objetivo inalcançável dentro do quadro de referência em que trabalhamos”. 1972. que a sofisticação dos métodos de que se utiliza o economista fez-se no sentido de a-historicidade. Esse processo de simplificação assume. pela construção de um quadro teórico que permita abordar o estudo do conjunto dos processos sociais. abrindo-se assim um fosso entre a visão global derivada da história e a percepção particular dos problemas sobre os quais a análise econômica projeta alguma luz”. FURTADO. necessariamente. entretanto. num corte temporal. C. independentemente de qualquer conteúdo. Sob mundial a perspectiva o de Furtado. 21 .213213 213 estruturais que permitem. significação quando se passa de um a outro corte temporal”21. escreve o autor em FURTADO.. 9.. o método histórico tem ocasionalmente contribuído para suprir a ausência desse enfoque global dos processos sociais. portanto. tornar os problemas mais espessos.Análise do “modelo brasileiro”.. “O avanço na direção de uma dinâmica econômica passa por uma compreensão dos processos globais. 11. O erro metodológico da chamada ‘dinâmica econômica’ consiste exatamente em pretender reintroduzir o fator tempo mantendo os problemas com o mesmo grau de simplificação. continuar mudam A a de histórica. a fim de que certos elementos ganhem suficiente invariância globalização observar para que possamos por considerá-los vez.Análise do “modelo brasileiro”.

determinado historicamente pela natureza do padrão de desenvolvimento do sistema capitalista as mundial. 1980.. entendido como um processo de expansão e diversificação de unidades manufatureiras. A preocupação de Furtado é identificar os condicionantes externos e internos dos processos de formação do mercado interno e seus reflexos sobre a industrialização. necessário observá-lo que é de um todo em movimento.23 Dentro do leque de opções determinado pelo contexto histórico.. do parâmetros de de estruturais modernização potencialidades de consumo como processo padrões sistema instrumento estão construção de econômico nacional sobredeterminados pelos caráter do processo de difusão desigual de progresso técnico. No que diz respeito ao mercado interno.Pequena. Furtado destaca: (a) o grau de organicidade do sistema produtivo e sua autonomia vis-à-vis o resto do mundo. 23 . condicionadas pelas estruturas extra-econômicas que definem as necessidades e os valores 22 . como expressão da dinâmica do sistema econômico mundial engendrado pelo capitalismo industrial”. FURTADO. sua análise focaliza: (a) a capacidade dos centros internos de decisão protegerem o espaço econômico nacional da concorrência internacional. o modo de participar no sistema capitalista mundial depende de decisões internas..23. e (c) o grau de adequabilidade das “técnicas” incorporadas nos meios de produção à forma de organização do mundo do trabalho. (b) os condicionantes dos gastos autônomos responsáveis pelo “eixo dinâmico” da economia.. (b) sua capacidade de introduzir inovações.22 Trata-se de um constrangimento objetivo. .214 controlar acumulação. C. da Com afirma o autor. p. No que se refere ao movimento de industrialização. histórica como “Para do parte compreender causas faz-se persistência subdesenvolvimento. e (c) os condicionantes socioculturais responsáveis pela magnitude do multiplicador interno de renda. fixam as os fins e os meios os que regem o processo de que dos um Por esse motivo.

1974. e. Mas nem sempre a dependência criou as formações sociais sem as quais é dificil caracterizar um país como subdesenvolvido”. o problema central da industrialização subdesenvolvida é que ela não rompe a lógica perversa da modernização dos padrões de consumo. bem como sobre seu grau de “adequação” às necessidades da sociedade periférica.. (c). Toda economia subdesenvolvida é necessariamente dependente. apropriação e utilização do excedente social.. a situação de dependência condiciona os mecanismos de geração. pois o subdesenvolvimento é uma criação da situação de dependência.24 Para o autor. a importância dos fluxos de “transferência de renda ao exterior” na determinação da parcela do excedente gerado pela participação no sistema econômico mundial que pode ser retida internamente. Por essa razão. desvinculando as flutuações da demanda agregada das vicissitudes do comércio internacional. em cada momento histórico. C. mesmo quando a economia periférica desloca os centros dinâmicos da economia para o mercado interno.que estuda o modo como os nexos externos de subordinação econômica e política articulam-se internamente com o sistema de dominação social . a teoria da dependência . Por esse motivo..25 Na visão de Furtado. . impulsionada a por acumulação um processo de capital continua induzido sendo pela adaptativo. FURTADO.215215 215 substantivos da sociedade nacional. (b) o efeito da “dependência tecnológica e financeira” sobre as possibilidades e condições de acesso ao progresso técnico.87. necessidade de preencher vazios na oferta agregada provocados 24 . . ele adverte que “(. Sua análise procura determinar como..) o fenômeno que chamamos dependência é mais geral do que o subdesenvolvimento.O Mito. 25 .. Furtado privilegia basicamente três condicionantes do processo de acumulação: (a) o impacto da “dependência cultural” sobre o padrão de necessidades sociais que orienta o processo de incorporação de progresso técnico. p.é o arcabouço mais amplo que permite compreender as decisões intertemporais de gasto e seus efeitos sobre o processo de construção de um sistema econômico nacional.

124 e 127. como um edifício que se constrói de cima para baixo”.26 No que diz respeito aos condicionantes técnicos. leva-o à de linha uma substituição importações. O que se explica pelo fato de que o subdesenvolvimento não resulta de 26 .Pequena.. “Não é a evolução do sistema produtivo que conforma o e molda a demanda final.. C. 1980.. ... essa falta de específica entre subdesenvolvimento correspondência disponibilidade de recursos e fatores e as combinações destes requeridas pela tecnologia que esta sendo absorvida.(. Nas palavras de Furtado. p. o aprofundamento da industrialização subdesenvolvida depende do acesso a uma tecnologia que requer um grau de desenvolvimento das forças produtivas que não está pressuposto no desdobramento natural das estruturas produtivas do país. não somente a tecnologia se apresenta como variável independente – sendo os equipamentos – mas importados também de uma a de países própria altamente forma de industrializados desenvolvimento seguindo adoção custos a industrial de economia de subdesenvolvida. FURTADO. Ao comentar o impacto da dependência sobe a escolha de tecnologia no processo de substituição de importações. Furtado escreve: “Do ponto de vista do empresário do país subdesenvolvido. é esta do última sistema que de comanda processo de transformação produção. com uma de e tecnologia similar compatível à que estrutura no preços de prevalece É mercado do a internacional manufaturas.216 pela impossibilidade do acesso aos produtos importados.) as novas atividades orientam-se pela demanda final..

27 O técnicas relativa processo que de são de substituição de a importações geração a de pressupõe escassez trabalho incompatíveis seja com porque trabalho relação passado/trabalho presente é imprópria ao modo como os países periféricos organizam o mundo do trabalho. FURTADO. A inadequação da tecnologia a que se referiram alguns economistas.. O equívoco da Ciência Econômica tradicional. de um ângulo de vista 27 . “As massas demográficas.217217 217 transformações endógenas de uma economia pré-capitalista. .. buscam abrigo em sistemas subculturais urbanos que só esporadicamente se articulam com os mercados. p. seja porque exigem um esforço de capitalização superior à capacidade de geração de excedente da economia subdesenvolvida. 1964.. mas de um processo de enxerto. a este respeito. as populações ditas marginais são a expressão de uma estratificação social que tem suas raízes na modernização. Realizando em grande parte sua reprodução no quadro de um sistema informal de produção. seja ainda porque supõem uma escala mínima de produção incompatível com a estrutura do mercado nacional. que a modificação das formas de produção priva de suas ocupações tradicionais. nesta última. deriva de não se levar em conta que o processo de desenvolvimento por indução externa é distinto do processo clássico de formação das economias européias”. de uma ou mais empresas ligadas ao comércio das economias industrializadas em expansão. C.196. mas sobre eles exercem uma forte influência como reservatórios de mãode-obra.Dialética do..

.Pequena. o desenvolvimento das forças produtivas requer que sejam satisfeitos certos pré-requisitos técnicos que nem sempre estão ao alcance dos recursos produtivos de que a nação dispõem.218 sociológico traduziu-se na polaridade modernização- marginalidade”. Surgem assim limites físicos ao processo de expansão e de diversificação do parque produtivo. que bloqueios não decorrem de distorções poderiam ser evitadas por uma política econômica clarividente. que só pode ser contrabalançada pela progressiva concentração de renda.. Como as bases materiais e mercantis exigidas em cada etapa do processo de industrialização não estão inscritas no crescimento prévio da economia. Em suma. quanto maior é a diversificação da pauta de consumo. aleatórias. a estreiteza do horizonte de acumulação cria uma tendência à estagnação.. p. como um processo descontínuo.. De outro lado. o avanço do processo de 28 . mas de características inerentes à própria lógica de um processo de modernização dos padrões de consumo. pois. maior é a dificuldade em atingir as escalas mínimas necessárias para tornar rentáveis os investimentos.28 O esforço e de Furtado de é mostrar progresso que os bloqueios tornam com à a a introdução difusão técnico industrialização predominância Tais de subdesenvolvida uma dinâmica incompatível de endógena desenvolvimento. 1980. a assimilação de progresso técnico avança aos solavancos. Idem.. De um lado. 25.

... 5 e 6. de planejamento processo industrialização. Idem. fazia ainda mais premente a necessidade de tecnologia e equipamentos importados. na segunda metade do século dezenove.29 Como diz Furtado.. ver FURTADO. C. . a assimilação do progresso técnico difundido pelo centro capitalista tem de ser precedida por iniciativas técnicos destinadas a: (1) o construir os pré-requisitos das forças que viabilizem desenvolvimento produtivas. C. 1980. “A diversificação dos sistemas produtivos.Desenvolvimento.129-130. racionalizar suas o Furtado. 1972.. A política econômica deve não apenas minimizar os efeitos do estrangulamento comprometer a de pontos das externos forças e internos que mas possam também expansão produtivas.Pequena.. . . A respeito dos desequilíbrios inerentes ao processo de industrialização via substituição de importações. para escaparam ao poder em gravitacional da Inglaterra autônomos”. como potencializando propriedades construtivas instrumento de construção de um sistema econômico nacional. e (2) ajustar o “tipo de mercado” às “exigências” de escalas mínimas do processo produtivo..30 Nessas transformar-se sistemas nacionais condições.Análise do.31 Daí. Portanto a diferença era considerável com respeito às economias que... 1961. 29 . . 31 . p.219219 219 diversificação da estrutura produtiva é contido pelos limites de uma capacidade de importação comprimida e pela estreiteza dos mercados compradores. 30 . cap. ao guiar-se pela demanda de bens finais de consumo. a importância estratégica processo de da intervenção do Estado Para como coordenador cabe do ao industrialização. FURTADO.

A incapacidade de gerar inovações não é um elemento aleatório do processo de substituição de importações. mesmo nos quando o desenvolvimento de insumos das forças e de produtivas avança setores básicos equipamentos.33 Nem poderia ser diferente. é que o apresenta verdade Estado intervém para ampliar as avenidas de uma industrialização que tende a perder fôlego quando apoiada apenas na modernização. mas uma característica intrínseca a um processo de industrialização impulsionado pela modernização. visto que a internalização da produção de bens de capital não elimina a dependência tecnológica. a industrialização subdesenvolvida não significa autonomia tecnológica nem implica modificação qualitativa no funcionamento do mercado de trabalho.. ao Estado cabe o papel de difusor do progresso técnico. (. fonte que é de uma legislação social de crescente abrangência.32 Por isso. modernização. Furtado não se ilude. na medida em que decide do volume de emprego e do nível de salário”. no entanto.220 promover os ajustes na distribuição de renda necessários para que haja máxima difusão dos bens de consumo substituídos. Se a modernização opera como fonte de inovação. FURTADO..139.) Apropriando-se de uma parcela crescente do excedente. .. C.. o Estado transformou-se nas no fator decisivo e do volume do custo dos de investimentos forças produtivas também reprodução da sociedade.. . p. .Pequena. 1980. 33 32 . financeira e cultural que caracteriza as sociedades subdesenvolvidas. com as limitações do Estado Estado desenvolvimentista: se faz como em um “Não imaginemos com A a que a ação ou do se contradição opção a ela.

longe de fazer a apologia das virtudes 221 da industrialização como meio de afirmação da nação. Como afirma o autor.221221 Portanto. Embora reconheça a importância do processo de acumulação na construção revela a de um sistema de econômico um nacional. em vez da definição de um estilo de desenvolvimento próprio. de sua reflexão de perversidade processo incorporação progresso técnico que privilegia o rápido acesso aos padrões de consumo vigentes das no centro. mesmo quando se desenvolvia uma indústria local de equipamentos. em vez da utilização de uma tecnologia ajustada às necessidades e às possibilidades específicas da economia nacional. “A iniciativa dos Estados no sentido de criação de indústrias de base deu certamente maior espessura à atividade industrial. b) dependência crescente com respeito à tecnologia utilizada. c) demanda . a absorção do estilo de vida do centro. mas de nenhuma forma modificou qualitativamente o quadro que viemos eram as de descrever. em a detrimento diversificação do do desenvolvimento forças consumo das classes de alta renda. a análise de Furtado é uma crítica à industrialização subdesenvolvida. e a incorporação de tecnologias de produto. em lugar da assimilação de tecnologias de processo. a) cujas características vis-à-vis da principais seguintes: dependência exportação de uns poucos produtos primários. em vez da difusão para as camadas menos favorecidas de padrões de consumo já conhecidos. produtivas. o uso de uma tecnologia que exige uma relação produto/capital e capital/trabalho inadequada para as bases técnicas e econômicas da economia nacional.

que se estendeu até o final da Segunda Guerra Mundial.Pequena.35 O processo de construção nacional.. Modernização e Industrialização Para compreender a natureza da relação entre modernização e industrialização nas economias latino-americanas. 1980. p. em razão da dispersão dos investimentos”. . foi marcada pelo deslocamento dos centros dinâmicos da economia e pelo início de um processo de industrialização para substituição de importações. 131. e d). aproveitamento possibilidades da tecnologia utilizada. FURTADO. que se prolongou até a recente crise da dívida externa.34 3. caracterizouse pela liderança exercida pelas empresas transnacionais sobre o processo de acumulação. que se iniciou após a ruptura do pacto colonial nas primeiras décadas do século XIX.. A terceira fase.222 demasiadamente acumulação diversificada. Furtado identifica três períodos que se diferenciam quanto às causas e aos efeitos Até do a do processo de difusão do desigual sistema com do de a progresso divisão crise foi da um A técnico.. 34 . do internacional economia culminou a mundial dos industrialização subproduto dinamismos setor primário-exportador. relativamente não ao nível pleno de das alcançado. etapa seguinte. C. desarticulação trabalho. . nos anos que 30.

ultrapassar os limites impostos pela posição especializada na economia mundial. 1969..Pequena. Nesta produtivas decorreu. De acordo com Furtado. assim.. do Estimulando antigo processo incentivou descolonização..36 Do ponto de vista técnico.. 1980. e Idem. as condições básicas para que as ex-colônias pudessem aumentar a retenção interna de excedente gerado no comércio internacional e impulsionar a modernização dos padrões de consumo. primário-exportador.A Construção. 35 . Do ponto de vista econômico. diversificação Subordinada não incapacidade interna suprir demanda setor produtos a de importados. como o efeito multiplicador de renda vazava para o exterior (devido ao elevadíssimo coeficiente de importação) e como não havia tendência à elevação do custo de . a intensidade desse processo dependeu.Formação econômica da América Latina. cap. ao tinha. C. expansão e fase. .. cap. derrocada regime emergência de novos Estados nacionais na periferia do sistema capitalista mundial. A respeito ver FURTADO.. Surgiram.. de duas variáveis: o dinamismo do setor primário-exportador e o montante do multiplicador interno de renda e emprego. 1992. 1 36 . como o sistema industrial não possuía articulação interna para funcionar como um sistema orgânico. o estímulo para o ao desenvolvimento do de forças interno a voltadas atendimento da da mercado de com fundamentalmente. basicamente..223223 foi marcado pelas do possibilidades que se abertas articulavam o pela em 223 divisão torno do de a internacional capitalismo trabalho industrial a inglês. 9 a 12. a expansão das forças produtivas dependia da disponibilidade de divisas para importar equipamentos. Consultar também: Idem. condições industrialização entretanto.

ver FURTADO. A crise do sistema de divisão internacional do trabalho. C. b) o nível já alcançado pela industrialização [. A propósito..]. (que na periodização de Furtado começou em 1914 e se arrastou até 1945). cap. 1980. Neste contexto.. financeiros. e transferências capital generalizou o comércio bilateral.Pequena. as economias periféricas viram-se impossibilitadas de recorrer á oferta externa para abastecer o mercado interno. da periferia provocando para o grandes centro. pela à medida que deu lugar na a uma conjuntura marcada drástica deterioração demanda mundial de produtos primários. 10 .38 Iniciou-se assim um .. o que explica as diferenças que se observam entre países. reverteu o desorganizou sentido do monetário financeiro. Furtado destaca que: “O êxito logrado por esse esforço [de ampliação dos horizontes do processo de industrialização] dependeu da interveniência de um certo número de fatores..224 reprodução da população. modificou os parâmetros que condicionaram o campo de possibilidades das economias latino-americanas.37 Os países latino-americanos que já possuíam relativa puderarm autonomia sustentar aberta nos a centros demanda internos agregada de decisão e que a aproveitaram externo e oportunidade pelo estrangulamento pelo isolamento da concorrência internacional para impulsionar a formação do sistema econômico nacional. fomentou uma onda protecionista que abalou o o dinamismo sistema fluxos de do e comércio internacional... 38 37 . Dentre esses fatores tiveram particular relevo os seguintes: a) a dimensão relativa do mercado interno. o mercado interno não tinha condições de funcionar como centro dinâmico do crescimento econômico. O colapso da ordem liberal inviabilizou o funcionamento especializado das economias periféricas.

39 . 40 . p. A especificidade desta fase do processo de modernização reside no fato de que. Furtado alerta que “A expressão não é feliz pois.. 123. a rigor. 122-123.. e) grau de autonomia dos centros internos de decisão. particularmente nos setores monetário e fiscal”.. Idem.225225 ciclo de transformação de nas forças de produtivas associado 225 ao movimento substituição importações dinamizado pela expansão do mercado interno. . 11 e 12. Ibidem. toda industrialização periférica assume a forma de substituição de importações. a substituição de importações avançou muito além do que seria de se esperar tendo em vista a debilidade da base empresarial e mercantil dessas sociedades. A respeito Idem.. sendo raro que se venha a produzir localmente alguma coisa que antes não haja sido importada. “(. A característica principal dessa segunda fase da industrialização periférica está na simultaneidade da baixa do coeficiente de importação”. 1980.. em algumas economias latino-americanas. Na visão de Furtado.39 A despeito das limitações inerentes à industrialização subdesenvolvida.) o impacto da crise do setor exportador suscitou uma série de reações. C.. sob a égide da ordem internacional montada em Bretton Woods. FURTADO. presidiu o movimento de integração dos mercados centrais. isto só foi possível graças às características muito particulares da difusão espacial do progresso técnico no pós-guerra. p. particularmente fibras vegetais. as quais se traduziram pela baixa do coeficiente de exportação e a elevação simultânea do coeficiente de industrialização”. como escreveu Furtado.Pequena. os países latino-americanos que haviam c) a elasticidade da oferta interna de matérias-primas para essas indústrias. d) a elasticidade da oferta interna de gêneros alimentícios. cap.40 Nesta fase. seja sob a forma de bem final ou de ingrediente desses bens. Ibidem. O pontochave da terceira fase do processo de industrialização é que as economias periféricas foram preservadas do livre-cambismo que.

conforme as características que sobredeterminaram o padrão de concorrência intercapitalista. condição sine qua non desse dinamismo era que as atividades econômicas operassem articuladas em sistema. industrialização Na interpretação pelas de Furtado. Idem. Estados Unidos. Como o aprofundamento da substituição de importações requeria a opção por um estilo de crescimento baseado nas indústrias de bens de consumo conspícuo.) a transnacionalização de atividades econômicas deu-se de forma circunscrita. Até meados da década dos 60. a possibilidade de internalizar uma tecnologia já amortizada permitiu a superação de dois obstáculos que se 41 . Assim. 1992. . Nas palavras de Furtado. Superando as contradições que bloqueavam a expansão do sistema produtivo..... sendo o verdadeiro motor do crescimento a formação do mercado interno a partir de um potencial de recursos naturais e de mão-de-obra subutilizados. com alguma forma de solidariedade entre os elementos que a constituem. “(. a puderam recorrendo aprofundar à tecnologia o padrão difundida de pelos liderada empresas transnacionais apresentou dois momentos distintos.A Construção. p. a internacionalização da economia periférica assumiu a forma de um aprofundamento do processo de introversão econômica.226 conseguido desenvolver um mercado interno compatível com os requisitos mínimos de escala para atrair as grandes empresas transnacionais industrialização. Contudo.41 Os efeitos da presença das transnacionais sobre o sistema econômico nacional variaram ao longo do tempo. a produtividade não podia ser aferida apenas microeconomicamente: a criação de emprego e a economia de divisas também eram variáveis estratégicas”. . isto é. as empresas transnacionais deram uma sobrevida ao movimento de difusão das estruturas da II Revolução Industrial.28.. O processo de internacionalização do mercado interno requer um regime central de acumulação.

a expansão do mercado interno. em razão de sua dependência tecnológica. que processo ‘fechamento’ substituição economia importações periférica – afirma significava – era Furtado realidade um esforço de diversificação da estrutura produtiva .Pequena.. C. Demais. Neste contexto. Mas. do coeficiente com de a de a em importações crescente incompatível “O presença da de capital estrangeiro. e a diversificação da estrutura industrial não redundava em diminuição do grau de dependência externa. essas empresas estão em condições de absorver parte dos custos mediante uma política de salários mais baixos. FURTADO.42 No entanto. Embora a liderança das empresas transnacionais gerasse uma demanda cada vez maior de divisas para financiar as importações e as remessas de lucros.. no plano macroeconômico.136. no plano microeconômico.227227 antepunham ao aprofundamento da industrialização: 227 as limitações impostas pela capacidade de importação. e os problemas de rentabilidade ligados a esse tipo de investimento. 1980. 42 . pois o fechamento da economia. muitas vezes contornando as exigências da legislação social. o aprofundamento industrialização significou maior autonomia nacional.. a industrialização do pós-guerra era portadora de uma contradição incontornável. Esse setor opera como mecanismo descentralizador de decisões e também como laboratório de ensaio.. a de competitividade internacional continuava dependendo vantagens comparativas estáticas geradas pelas atividades de baixo teor tecnológico. o capital nacional exerce um papel apenas subsidiário. diminuição portanto. da por mais paradoxal que não possa parecer. “A expansão do grupo de empresas locais é uma decorrência do fato de que elas emprestam flexibilidade ao conjunto do sistema industrial. p. da economia do A era. Na verdade. muito raramente chegam a disputar posições nos setores mais dinâmicos às transnacionais”.

de aproveitar os baixos salários . em grande parte.43 setores produtivos Para Furtado. portanto.. 43 .Pequena. A estratégia das empresas transnacionais. Mais avançaram pelo caminho da diversificação mais baixa foi a produtividade. uma aparente autonomia no que respeita ao abastecimento interno de produtos manufaturados. C.. O fechamento refletia não somente o declínio ou lento crescimento das exportações tradicionais. dois fatos deram sobrevida ao movimento de industrialização a partir de meados dos anos 60. Isso porque a entrada de capitais externos significa a criação de um fluxo permanente de renda de dentro para fora do país. 1962. e suas atuais perspectivas seriam muito pouco alvissareiras. Contribui.228 demasiado grande para o nível de acumulação que podia ser alcançado. mas também a a incapacidade partir de para criar novas que linhas estavam de em exportação expansão”. esse fluxo pode não criar problemas de balanço de pagamentos. e uma total incapacidade para competir nos mercados internacionais desses produtos. Se os capitais externos contribuem para aumentar as exportações ou substituem importações. 85. Muitas das economias que mais avançaram pela via da industrialização características substitutiva aparentemente apresentavam contraditórias: estas um duas baixo coeficiente de importação de produtos manufaturados finais. Comentando o papel do capital internacional no desenvolvimento da economia brasileira. FURTADO. p.A Pré-revolução. Como a demanda engendrada pela modernização já era consideravelmente diversificada.. assim a reduzir a poupança espontânea.. ao mesmo tempo que cria um fluxo de renda para o exterior de conseqüências sérias para o balanço de pagamentos”. os investimentos industriais tendiam a dispersar-se. FURTADO. entretanto. C.. para criar novos hábitos de consumo e para estimular a procura do consumidor de alta e média rendas. p. 1980. Na nossa etapa atual de desenvolvimento. Furtado afirmou: “Tivesse um país como o Brasil de depender de um fluxo continuado de capitais externos para desenvolver-se... o investidor estrangeiro típico contribui.130-131. . sem que o tecido industrial adquirisse solidez.

economias processo integração transnacional das atividades produtivas há muito em curso nos países centrais. talvez. mas também pelo fato de que ela toma impulso em fase de amplo desemprego nos países centrais. “Se numa primeira fase a penetração dessas empresas fez-se em função da ampliação do mercado interno. permitiu que o movimento de internacionalização do capital produtivo tivesse um fôlego adicional. o avanço por essa via foi considerável no decênio dos 70”. nesta segunda caberia a elas colaborar na reciclagem dos sistemas industriais periféricos a fim de fazê-los estendeu-se competitivos às internacionalmente. Essa nova etapa do processo de transnacionalização razão da colocou problemas das complexos.44 O novo tipo de vínculo entre as empresas transnacionais e as economias periféricas implicava. as economias latinoamericanas estivessem diante de uma conjuntura virtuosa que lhes permitiria ganhar maior autonomia tecnológica e superar o problema crônico da escassez de divisas. Ainda assim. cujos não só em se heterogeneidade economias mercados integram. o início de um . A ampla disponibilidade de empréstimos de internacionais financiamento criou do um mecanismo quase A que nova automático crescimento.229229 da periferia para iniciar um movimento de exportação 229 de produtos manufaturados com elevado componente de mão-de-obra. característica do processo de internacionalização de capital levou Furtado a imaginar que. periféricas o Por esta de forma. no entanto.

4. . Idem. Capitalismo Transnacional e a “Nova Dependência” O traço distintivo do novo marco histórico é que. C. C. haviam desenvolvimento do pós-guerra voaram pelos ares. que havia permitido a algumas economias. 1980.Pequena. impulsionada pela liberalização do comércio internacional e pela desregulamentação do do movimento de ao capitais.A nova dependência. dado mais começou a aos se sinergias coerência as empresas econômicos nacionais. como a brasileira. cap.. 126.. 11 e 12 45 . mundialização da produção...45 Na América Latina... Quando tudo parecia indicar que havia espaço para o aparecimento capazes que de de economias no o periféricas mercado semi-industrializadas os pilares competir sustentado internacional.. a integração do sistema financeiro internacional desarticular sistemas e as a globalização que dos haviam “Quanto mercados.. mais escapam d ação reguladora do Estado. levar sob a a industrialização forma de uma subdesenvolvida crise ao de paroxismo.A Nova. veio draconiana estrangulamento cambial. A respeito ver FURTADO.afirma Furtado -. 1982 e A Construção. estimular a a transnacionalização capitalismo.. o fim do ciclo de substituição de importações. e surgiram novos desafios para a organização dos sistemas econômicos nacionais. 1992 44 . 1982. mais tendem a se apoiar nos mercados externos para .230 movimento de reespecialização produtiva.. . p. globalizam . FURTADO.

. 1992.. enquanto as nações desenvolvidas respondem à transnacionalização do capitalismo. .. populações marcadas por acentuadas disparidades de nível de vida”. . FURTADO. O problema crucial é que. Ao mesmo tempo. as iniciativas dos empresários tendem a fugir do controle das instâncias políticas”...O Capitalismo . avassaladora é A o contrapartida internacionalização afrouxamento dos vínculos de solidariedade histórica que unem. 1998 . “Com o avanço da internacionalização e tecnológicos. buscando reforçando blocos novas seus formas mercados de controle sobre os a de capitais formação e de internos e a (mediante criação econômicos regionais mecanismos supranacionais de articulação das políticas cambiais). a falta de iniciativa de das seus economias centros periféricas internos de provoca decisão e a a desarticulação desestruturação de seus sistemas produtivos nacionais..46 A assimetria nas reações das sociedades nacionais diante do novo contexto histórico tende a agravar o hiato civilizatório que separa as economias centrais das economias periféricas. Idem. circunscrever-se áreas países marcados por acentuada heterogeneidade cultural e econômica serão submetidos da a crescentes pressões desarticuladoras.47 46 47 . às atividades sociais e estatais culturais. sistemas tendem Os a financeiros econômicos debilitam-se nacionais. Globalização . no quadro de certas nacionalidades. As dos circuítos os econômicos. C.231231 231 crescer.

à exacerbação de rivalidades corporativas e à formação de bolsões de miséria.232 Furtado enfatiza basicamente dois aspectos no caráter da nova dependência. Comentando o caso brasileiro. tudo apontando para a inviabilização do país como projeto nacional”. Ao franquear o caminho para uma inserção hierarquizada na divisão internacional do trabalho. o vigor do processo de difusão de valores do centro capitalista exacerba o grau de dependência cultural das regiões periféricas. tendências Furtado do alertou de para a gravidade das do novas processo internacionalização capital: colocou a questão nos seguintes termos: “Em um país ainda em formação. a tutela da comunidade financeira internacional sobre os rumos da política econômica abala a posição do mercado interno como centro dinâmico da economia. levando a um tipo de alocação de recursos que compromete a coerência sistêmica da economia nacional. a predominância da lógica das empresas transnacionais na ordenação das atividades econômicas conduzirá quase que necessariamente a tensões interregionais. organizador A da sacralização princípio .48 De outro lado. como é o Brasil. a armadilha do endividamento externo compromete a autonomia dos centros internos de decisão. Os avanços nas áreas de comunicações e transportes levam ao paroxismo a tendência de as classes médias e altas dos países periféricos a copiar os padrões de consumo e comportamentos do mercado vindos como do centro hegemônico. De um lado.

A nova ortodoxia doutrinária. ao pretender tudo reduzir à racionalidade formal... Transnacionalização e Monetarismo.afirma Furtado exige uma crítica da prática do desenvolvimento periférico na fase de transnacionalização. Ver a respeito. Donde a necessidade de uma crítica radical à apologia do mercado. 1992.233233 233 sociedade paralisa os centros nacionais de decisão.A Nova. Idem. C. o ou se de permanecerão espectadores processo transnacionalização define o lugar que a cada um cabe ocupar na imensa engrenagem que promete ser a economia globalizada do futuro. 1982.. Temos que interrogar-nos se os povos da Periferia vão desempenhar um papel central na como construção da própria enquanto história. Se pretendemos reavivá-la. In: ________ Pensamiento IberoAmericano. .. n. FURTADO. O que está em jogo é mais do que um problema de desmistificação ideológica. 1982. C. ao enfraquecer capital e a ao e correlação aumentar de a forças do trabalho entre frente os ao distância a países do desenvolvidos subdesenvolvidos. p. Muito antes que a transformação da economia mundial tivesse atingido 48 49 . . devemos começar por restituir à idéia de desenvolvimento o seu conteúdo políticovalorativo”. 132.. “A luta contra as ambigüidades da doutrina monetarista . 1. ao debilitar a capacidade de o Estado controlar as forças do mercado. transnacionalização capitalismo solapa as bases dos centros internos de decisões e a coerência interna dos sistemas econômicos nacionais. ao exacerbar o mimetismo cultural.. p. FURTADO. oblitera a consciência dessa opção. 35.49 Em suma.A Construção. .

O primeiro é que o reencontro dos povos latinoamericanos em um destino comum se imporá cada vez mais como idéia-força a todos aqueles que pretendam lutar contra o subdesenvolvimento e a dependência de nossos países. se configura cada vez mais como uma quimera para os observadores lúcidos de nosso processo histórico. renunciar a ter objetivos próprios. a opção do laisser faire significa hoje em dia. Dessa observação podemos inferir dois corolários. quiçá aceitar a perda progressivamente mesma do sentido a de desarticulação entidade nacional. concentração . Furtado já alertava para os perigos da ordem internacional emergente. dado o atraso que acumularam as economias da região e as exíguas dimensões dos mercados nacionais. Convém acrescentar que essa desarticulação traz dentro consigo de um o agravamento mesmo país. em subsistemas dependentes.234 a dimensão alcançada na década dos 80. uns e outros apoiados em imensos recursos e em financeiros. Em face da transnacionalidade da economia. interna. “A enorme concentração de poder que caracteriza o mundo contemporâneo – poder que se manifesta sob a forma de super-Estados nacionais e ciclópicas empresas transnacionais. O segundo é que a idéia de reproduzir nesta parte do mundo a experiência de desenvolvimento econômico no quadro das instituições liberais. das desigualdades social geográficas da renda. instrumentos no controle de da técnica e da ou informação intervenção aberta disfarçada de âmbito planetário – coloca a América Latina em posição de flagrante inferioridade.

sua contribuição deve ser vista como o desdobramento para a esfera econômica da mesma problemática tratada por Caio Prado e Florestan Fernandes a problemática do desenvolvimento capitalista nacional nas sociedades dependentes... 1976. crescentes custos sociais”. sem esse ..50 5. A reflexão de Furtado evidencia que a subordinação da ao processo de modernização do consumo dá industrialização lugar a um padrão de utilização do excedente que não conduz à 50 .Prefácio a. como adverte Furtado. “Um sistema econômico nacional não é outra coisa senão a prevalência de critérios políticos que permitem superar a rigidez da lógica econômica na busca do bem-estar coletivo. A necessidade de estabelecer parâmetros sociais para a racionalidade para avaliar econômica. o conceito de produtividade social carece de qualquer conteúdo explicativo. O conceito de produtividade social. 136. E. Observações Finais O esforço de desvendar a lógica adaptativa que rege a reprodução das bases materiais do subdesenvolvimento levou Furtado a explicitar a estrutura técnica. a levou-o do a definir de de critérios éticos de eficácia como processo incorporação progresso técnico instrumento construção de um sistema econômico nacional. C. o substrato social e os valores culturais que sobredeterminam a modernização dos padrões de consumo. Afinal.235235 marginalização de amplos segmentos da população. p. FURTADO. Nesse sentido.. introduzido nos anos 30 no estudo das economias em prolongada recessão. contudo. Para as empresas transnacionais. não tem aplicabilidade nas economias cuja dinâmica se funda na abertura externa. 235 enfim.

Sem atribuir valor absoluto aos aspectos estritamente técnicos da racionalidade econômica. detrimento das necessidades mais elementares da população. o arcabouço analítico de Furtado estabelece o princípio básico que deve orientar uma política alternativa de incorporação de progresso técnico. (c) o consumo imitativo em detrimento da criatividade cultural. e. em detrimento de outras que permitiriam um aproveitamento racional de recursos abundantes na região. o sistema econômico nacional deve ser organizado levando em consideração as necessidades do conjunto da população e as possibilidades das forças produtivas do país. requisitos (e) do a capacidade de de adaptação da em economia detrimento aos do processo modernização. p. 1992. finalmente. Como veremos logo adiante. (d) a incorporação de tecnologias que sobre-utilizam recursos escassos. conceito o estudo do subdesenvolvimento se empobrece consideravelmente”.. forma que a em “irracional” prioriza: demanda e (a) detrimento elites (b) as das privilegiadas.. fortalecimento da capacidade de inovação tecnológica. na sua visão. Idem. (incluindo neste último aspecto a definição de um modo de participação no sistema capitalista mundial nacional compatível sobre os com o crescente e os controle do da sociedade fins meios desenvolvimento econômico). de o incorporação presente aspirações em de Trata-se progresso do de uma técnico futuro.236 superação do subdesenvolvimento. A Construção. .. 30.

A respeito da concepção de Estado da CEPAL ver GURRIERI.Vigência del estado planificador en la crisis actual. n. M.. 1993. o modo de Furtado tratar 237 a autonomia relativa dos centros internos de decisão leva-o a superestimar dirigentes e as o potencialidades papel da reformistas como das elites do tecnocracia demiurgo desenvolvimento nacional. pela sua crença de que é possível encontrar soluções para os impasses do subdesenvolvimento sem romper com os marcos do regime capitalista.31. 1987.. em última instância.E.Modernização.Celso Furtado. 1995. A..237237 No nosso entendimento.. R... Para uma crítica detalhada deste ponto ver MORAES. Revista de la CEPAL.51 . Tal fato revela que a sua crítica à dependência e ao subdesenvolvimento está limitada... e GUIMARÃES. 51 ..

.1 No caso do capitalismo dependente.. 1985. que dependem das tendências do desenvolvimento desigual do sistema 1 . Padre A. M.L´étique protestante et l´esprit du capitalisme. Como adverte Weber. WEBER.CAPÍTULO 6 ENTRE A NAÇÃO E A BARBÁRIE <<O que Vieira fazeis. determinados econômico procura desvendar para aos é dilemas a da de as pela de A sociedade progresso premissa a nacional técnico submeter desígnios subjacente que. em A Ética Protestante. “Seria preciso colocar como epitáfio em todo estudo sobre a racionalidade este princípio muito simples. porém muitas vezes esquecido de que a vida pode ser racionalizada segundo finalidades e direções extremamente diferentes”. na vontade política da transformações base produtiva sociedade várias direções. p. a capacidade da sociedade de controlar o sentido das mudanças econômicas está complexamente determinada por parâmetros externos. pode dentro orientar em limites. Introdução Vimos que a reflexão sobre a problemática os do desenvolvimento enfrentados incorporação coletividade. 7879. nada mais>>. isso sois.

redefinindo. adaptativas e ofensivas . externos e internos. bem como o caráter das estruturas internas da sociedade. Em princípio. o bloqueio 2 .239239 capitalista. o país dependente pode negar as influências oriundas do exterior.3 Levadas ao paroxismo. de associados cada 239 às econômicas socioculturais formação social. os nexos internos e externos responsáveis pela dupla articulação. . com maior ou menor profundidade. É a forma de consideração de cada um desses elementos que permitirá à análise histórica definir: os prérequisitos estruturais e dinâmicos que condicionam cada uma dessas opões. abrindo o espaço econômico nacional às forças do sistema capitalista mundial. estruturas e por parâmetros e internos. economias dependentes carecem de dinamismo próprio. As condições econômicas.nos planos da economia e da política. Cada uma destas opções tem diferente implicação sobre: o grau de autonomia dos centros internos de decisão. Em segundo. bloqueando os fluxos econômicos e culturais difundidos pelo centro capitalista. Por fim. tanto o insulamento do espaço econômico nacional no sistema capitalista mundial. socioculturais e políticas associadas a cada uma dessas alternativas. o raio de manobra dessas sociedades fica circunscrito a três alternativas que se diferenciam pelo modo como concebem a participação no sistema capitalista mundial. quanto sua diluição própria no mercado de internacional desenvolvimento implicam a negação Como da as idéia capitalista. sua vulnerabilidade ao contexto externo e sua capacidade de tomar iniciativas . pode sancionar tais tendências. que bloqueiam a sua efetiva materialização. o caráter do processo de incorporação de progresso técnico e o substrato social que as viabiliza.2 Em primeiro lugar. os obstáculos. e as condições objetivas e subjetivas internas que definem as implicações de cada uma dessas vias para o futuro da sociedade. pode ultrapassar os limites do marco histórico e superar a situação de dependência. bem como as ilações a respeito de seus impactos sobre o futuro da sociedade dependem de análises históricas concretas que levem em consideração as características das transformações capitalistas irradiadas pelo centro hegemônico. 3 .defensivas.

240 absoluto economias às transformações leva o capitalistas movimento de irradiadas incorporação das de centrais progresso técnico ao completo imobilismo. e (3) maior ou menor controle sobre os centros internos de decisão. social e cultural. É em torno dessa questão que se trava o braço-de-ferro entre os grupos modernizadores e conservadores que compõem as burguesias das sociedades dependentes. Dentro desses parâmetros. O desenvolvimento no sistema dependente capitalista consiste mundial em que um modo de as participar acomoda divergências entre os polos conservadores e modernistas das classes dominantes. a irrestrita exposição do espaço econômico nacional aos padrões de concorrência irradiados do sistema capitalista mundial provoca a desarticulação do centros internos de decisão e a total perda de controle da sociedade sobre seu tempo histórico. em mediante a convivência históricas. uma vez que a liquidação de tudo que não é capaz de acompanhar o novo padrão de transformação capitalista gera processos catastróficos de desestruturação econômica. as opções da sociedade limitam-se às diferentes possibilidades de combinar: (1) maior ou menor crescimento econômico. Em contraposição. à de O estruturas grau de de produtivas liberdade diferentes economias idades destas restringe-se possibilidade graduar o ritmo e a intensidade de assimilação dos padrões de consumo difundidos pelas economias centrais. (2) maior ou menor grau de exclusão social. .

impacientes com tudo que possa significar uma marginalização das tendências do capitalismo central. uma vez que precisam de tempo para se adaptar aos novos ventos que sopram do capitalismo central.241241 Ansiosos por aproveitar as oportunidades de 241 negócios abertas pelo sistema capitalista mundial. Os modernizadores. Por esse motivo. e duas do constituem direito de se esquerdo em desenvolvimento dependente. ambos sabem que a combinação de modernidade e de atraso é o único meio de que as burguesias dependentes dispõem para articular um para padrão de acumulação os com um mínimo de do estabilidade suportar ritmos desiguais desenvolvimento capitalista. sem os estratos relação facções atrasados. nenhuma das duas facções pode levar às últimas conseqüências uma política de ruptura com as estruturas externas e internas responsáveis pela reprodução do capitalismo dependente. situarem pólos opostos. Lutam por uma modernização lenta. os segmentos que se sentem ameaçados pelas tendências da economia mundial não têm pressa. No entanto. ao capital ela perde todo poder Na de barganha as em internacional. os braços Apesar realidade. vociferam identidade nacional. descartam qualquer alteração que possa comprometer a . demonstram grande conformismo quando se trata de promover que mudanças tanto nas estruturas em defesa sociais. a economia dependente fica paralisada. Sem os segmentos modernizadores. da Os conservadores. segura e gradual. os grupos econômicos e sociais articulados à comunidade internacional batem-se por uma modernização impetuosa.

O conhecimento da natureza das contradições entre a situação de dependência e o processo de construção da nação constitui o núcleo central de toda reflexão sobre o caráter do desenvolvimento capitalista nas economias subdesenvolvidas.242 possibilidade de acesso futuro aos padrões de consumo e estilos de vida do chamado Primeiro Mundo. Enquanto as contradições geradas pela posição subalterna no sistema capitalista mundial não forem inconciliáveis com a continuidade do processo de afirmação do Estado nacional. . ao estimular a formação do mercado interno. e (mesmo que a custa de grandes quando irracionalidades injustiças sociais). As nações emergentes da periferia do sistema capitalista mundial caminham. portanto. a relação de dependência exacerba as contradições entre o movimento de acumulação do capital e o processo de integração nacional. No entanto. a evolução do capitalismo reforça as tendências que levam à autonomização da economia nacional. De um lado. Não causa surpresa que a relação entre capitalismo dependente e integração nacional esteja crivada de contradições irredutíveis. sob o fio da navalha. ao perpetuar a exclusão social e a instabilidade econômica. de outro. equilibrando-se entre tendências que empurram a sociedade em direção ao desenvolvimento autodeterminado e forças que a ameaçam com o espectro de reversão neocolonial. criando antagonismos que tornam a sobrevivência do capitalismo dependente cada dia mais difícil. pode-se afirmar que o desenvolvimento dependente exerce uma função social construtiva.

a sociedade passa a viver uma encruzilhada decisiva. BRAUDEL. a libertação dos laços de dependência e o ajuste de contas com os anacronismos realmente da sociedade para colonial adquirir constituem controle os únicos seu meios eficazes sobre 4 . com a ordem vigente do mundo”... Daí em diante.Le temps du monde.3. para progredir. “O Terceiro Mundo. assim. erradicação estruturas responsáveis pela dupla articulação é capaz de abrir novas perspectivas para a sociedade nacional. A partir deste momento. 1979. F. t. senão romper. das então. não tem outra alternativa. o capitalismo dependente divorcia-se completamente da sociedade nacional tornando-se incompatível com a continuidade do processo civilizatório. uma conjuntura revolucionária que abre espaço tanto para o deslocamento da fronteira histórica e a abertura de novos horizontes de oportunidades quanto para uma reação contra-revolucionária e o reforço das tendências que se projetam do passado e sufocam o futuro. 469. p.Civilisation.243243 243 isso deixa de acontecer.. pois a ruptura com a situação de dependência e a desarticulação do processo de modernização conservadora tornam-se os únicos meios de evitar a barbárie. para amplas massas da população condenadas à miséria. tarefa A ruptura com pois a dependência só a torna-se. de uma maneira ou de outra. uma inadiável.. como afirma Fernand Braudel. In: ________ . .4 Embora essa alternativa possa parecer irracional para quem está integrado no processo de modernização dos padrões de consumo. Inaugura-se.

p. Afinal como lembra Lenine. il n’y a pas de rationalité exclusivemet économique”. 1979. chaque fois que l’on cherche à faire une évaluation il est indispensable de tenir compte de l’influence que les rationalisations técniques exercent sur les modifications de l’ensemble des conditions de vie interne e externe”. 1992. Enfin.Civilisation .. 5 . In: ________ . 41. cit. M. A sociedade não está . Não é assim.Le temps du monde. WEBER. Le rationnel d’ajourd’hui peut être l’irrationel de demain. M.o autor refere-se à racionalidade puramente técnica . não Ainda o que a ruptura elimine forte condicionamento que o sistema capitalista mundial exerce sobre o desenvolvimento das economias periféricas. GODELIER.. lá onde eles recorrem à agressão e à guerra”.. “Sería um erro crer que as classes revolucionárias têm força suficiente para realizar a transformação na hora em que as condições do desenvolvimento socio-econômico tenham tornado totalmente madura a necessidade de tal transformação. 206.. quando a ruptura com a situação de dependência e subdesenvolvimento torna-se inadiável.3. 6 .. 7 . Au contraire.“ne sont pas forcément insensés. p. a dramática conclusão de Braudel sobre a sorte das sociedades periféricas no sistema capitalista mundial.. não custa lembrar que para Weber “Ceux qui s’élèvent contre ces sortes de rationalisation”. “Só há salvação para todos esses perdedores. F. Para os que consideram a ruptura com o sistema capitalista mundial uma atitude irracional. le rationnel d’une société peut être l’irrationel d’une autre.. 420..7 Portanto. BRAUDEL. A propósito.5 O desafio consiste em deixar de aceitar passivamente as tendências com do os sistema nexos de capitalista dependência mundial.6 Donde.244 destino. não custa lembrar a advertência de Godelier: “Il n’y a pas de rationalité en soi ni de racionalité absolue. os atores responsáveis pela construção da nação passam pela sua prova de fogo. t. p..Essais sur .op. a inversão no modo de participar no contexto civilizatório permite que a inserção na economia mundial seja definida como uma variável de ajuste que deve se adaptar aos objetivos do desenvolvimento nacional.

8 *** O debate sobre o destino do capitalismo dependente polariza-se em torno dos efeitos da situação de dependência sobre o desenvolvimento nacional e.245245 245 arranjada de maneira tão racional e tão ‘conveniente’ para os elementos pode progressitas. existe uma nova classe capaz de pôr-se à frente da nação para resolver os problemas apresentados pela história”. 278-279.. A revolução torna-se possível apenas quando. políticos e culturais de quem luta pela construção da Nação. a de uma transformação criadora para dos estar força revolucionários adiante. sobre os desafios econômicos. em conseqüência. Nestas mostrar-se a inadequada leva-la e essa condições. Trata-se de responder basicamente a duas questões: (1) quais as condições objetivas e subjetivas capazes de conciliar desenvolvimento dependente e construção da nação?.) . os pontos cruciais que diferenciam as 8 .. 1950.A.. em última instância. L. op. W.La economia política . 1973. p.. TROTSKY. p. p.Teorias da estratificação social. . MILLS. e (2) quais os nós que devem ser desatados para superar a dependência e o subdesenvolvimento?9 Aí estão. madura pode e. P. A mudança histórico-social. sociedade apodrece putrefação pode durar décadas inteiras”. na composição da sociedade. A necessidade contudo. 9 . H. LENIN apud BARAN. In: ________ IANNI.. cit. O. 1959.. A propósito não custa lembrar a advertência de Trotsky: “As premissas essenciais de uma revolução residem no fato de que o regime social existente acha-se incapaz de resolver os problemas fundamentais do desenvolvimento da nação.. A respeito ver GERTH. (org. 847.

se torna. Comentando o caso brasileiro. restrito e incapaz de sustentar a estrutura que sobre ela se formara. para –. mas apenas que tal tendência não é impulsionada pela reprodução ampliada do capital senão que pelas reações políticas provocadas pelo profundo mal-estar em relação à pobreza. Imperialismo x Nação: Caio Prado e as tarefas da revolução nacional Na visão de Caio Prado. Suficiente de início.. o aproveitamento dele com um relativo equilíbrio econômico forças e social.. Dentro desta perspectiva.246 abordagens de Caio Prado. à instabilidade e à irracionalidade que caracterizam o subdesenvolvimento. através do tempo. o fato de as economias coloniais em transição não conseguirem internalizar o circuito de valorização do capital não significa que as nações emergentes não apresentem uma tendência interna à autonomização. promover. base enfim. acabou o progresso por se das produtivas aquela tornar . ao atraso. Caio Prado comentoucolocou a questão nos seguintes termos: “Tal base para o desenvolvimento da população. (.). a lógica que preside o movimento de formação das nações emergentes é regida pela crescente dificuldade de as economias coloniais em crise satisfazer as necessidades geradas pela ampliação progressiva do mercado interno. e ainda por muito tempo para prover os fins precípuos da colonização – a ocupação do território. 1. Florestan Fernandes e Celso Furtado sobre os dilemas históricos da sociedade dependente.

. ..Formação do Brasil Contemporâneo. Além de vencer os obstáculos relacionados com a organização da produção. o que representa a saída conservadora senão reacionária da problemática social”. enquanto for possível conciliar a expansão das necessidades sociais submetidas ao circuito mercantil com o caráter dual da economia subdesenvolvida. as contradições geradas pela situação de dependência não são incompatíveis com a continuidade do processo de formação do Estado posição nacional. as sociedades dependentes precisam superar as barreiras que bloqueiam o processo de 10 11 .10 De acordo com Caio Prado.A Revolução .. 1942. . ou suas passam pendências a históricas um com o de passado reversão vivenciar processo neocolonial.. podemos daí inferir Soluções as soluções no a serem de não dadas a tais o contradições. PRADO JR. 1966.. 358 . No entanto. solucionando colonial.”.247247 247 insuficiente para manter a estrutura social que sobre ela se constituíra e desenvolvera .11 As tarefas da revolução nacional desdobram-se em várias direções. as nações emergentes não têm outra alternativa senão romper com o sistema do imperialismo. no quando a contradição entre e a a subalterna sistema capitalista mundial construção da nação se transforma em antagonismo aberto.. Ou consumam a construção da nação. p.) suas contradições. Idem. C. p.. sentido e promoverem o seu desenvolvimento histórico.. progresso e por reais. 16 . estancamento tentativas de conciliação e harmonização dos contrários. “Conhecendo (.

Trata-se de gestar as estruturas de uma economia nacional. PRADO JR. O essencial é criar as condições necessárias para a absorção do conjunto da força de trabalho na economia nacional – único meio de o trabalho deixar de ser um mero instrumento do capital. uma organização destinada a mobilizar e coordenar os recursos e o trabalho indivíduos do e país da em função precípua da existência e não dos comunidade nela enquadrados.. C. servir antes interesses estranhos”. problema Independentemente – assunto que da forma uma concreta análise de abordar o exigiria histórica dos problemas de cada formação social – a questão central consiste na necessidade de mudar radicalmente o estatuto do trabalho na sociedade. simples energia viva de geração de valor..A Revolução . formar uma base produtiva “Voltada para dentro do país e para as necessidades próprias da população que o habita... p. O segundo desafio consiste em assegurar a autonomia do espaço econômico nacional dentro do sistema capitalista 12 . . Para combater as barreiras à expansão na capacidade de consumo da sociedade.12 O problema fundamental consiste em eliminar a pobreza do ambiente mercantil e a mediocridade da base econômica pela do país – os dois do principais fatores do responsáveis perpetuação círculo vicioso subdesenvolvimento. Caio Prado considera imprescindível eliminar a superpopulação relativa marginalizada do mercado de trabalho. 288 . isto é.248 mercantilização e impedem a criação de uma base empresarial visceralmente comprometida com o mercado interno. 1966..

C. Idem. 332. “Trata-se. Ibidem. que no nível atual da cultura e da tecnologia..... p. 7. No campo. 1966. não há como graduar o processo de assimilação dos padrões de vida da civilização ocidental em função de uma lógica econômica e política condicionada pelos agentes internos.13 Do ponto de vista prático. em países como o nosso.. Para maiores detalhes sobre o processo de desconexão com o sistema imperialista ver PRADO JR. a luta contra o regime de apartheid social e contra o imperialismo deve consubstanciarse em um conjunto de reformas sociais destinadas a desbloquear o acesso da população aos meios de produção e a <<civilizar>> as relações de trabalho. de contribuir para [. economia mudança a mundial. que com a realização de bons negócios à custa uns dos outros”. Nas cidades. e do rumo no qual essa cultura e tecnologia cada vez mais aceleradamente se engajam.. promovendo a desconexão com o sistema imperialista e a constituição de uma base empresarial visceralmente vinculada ao mercado interno. permitir população das economias periféricas possa participar de suas benesses.A Revolução . isso significa um programa de reforma agrária que democratize a estrutura fundiária e estabeleça as bases para uma relação equilibrada entre os trabalhadores rurais e as empresas agrícolas.] uma convivência internacional de efetiva solidariedade e ajuda mútua entre todos os povos. cap. 13 .249249 249 mundial. participação o conjunto mas.. têm muito mais a ganhar com a difusão do progresso moderno por toda parte. . na da apenas. o programa significa a articulação de um padrão de acumulação industrial compatível com a geração de escassez relativa de . Para evitar mal-entendidos. não custa lembrar que Caio Prado não propõe o isolamento nem a rejeição dos padrões uma de civilização radical fim de da no sociedade modo de que ocidental. Sem isso.

. imprimindo-lhe uma direção além e acima deles. PRADO JR.. portanto. Em outras palavras. e em regra tão mal atendida. de criar as condições para a internalização de todo o ciclo de valorização do capital. passe em primeiro básicos lugar e e seja prioritariamente assim como de bens à e serviços massa da ao essenciais. destacou que o planejamento é único meio de “Suprir a insuficiência dos mecanismos ora presentes e atuantes no funcionamento da economia brasileira. Trata-se. 267. no nível do consumo final. Discutindo os desafios da “revolução brasileira”. O processo revolucionário exige. é indispensável eliminar a “livre iniciativa”. que é a segurança para todos de ocupação e trabalho com remuneração adequada. Ibidem. 273. Caio Prado. 1966. Idem. e a satisfação de suas necessidades. Em primeiro lugar. . Deixando com isso para um segundo e subsidiário lugar a consideração daquilo que essencialmente constitui o objetivo da política econômica 15 14 . um conjunto de mudanças sociais..A Revolução . de visar sempre. a elevação dos padrões materiais e culturais da massa da população. C. enquanto pela as decisões busca de do investimento orientadas simples lucro individual. Daí a acessíveis decisiva do população”.) as atividades produtivas de maneira a que a produção para o mercado interno. enfim. dentro da planificação e direção gerais das atividades econômicas em que se combinarão as iniciativas e empreendimentos públicos com a iniciativa privada devidamente controlada e orientada. é vital organizar “(. o processo de acumulação capitalista reproduzirá as estruturas responsáveis pela concentração da renda e da riqueza.250 trabalho. “Tratar-se-á.14 planejamento importância como atribuída econômico instrumento desenvolvimento nacional.15 No plano externo. . continuarem pois. o desafio consiste em estabelecer .. a começar pela principal delas no momento. p. sem sofrer nenhum tipo de limitação pelo poder público. p. embora utilizando-os ao máximo e até onde não embaraçarem tal direção”. e em primeiro e principal lugar.... O fundamental é organizar a economia de forma a permitir uma perfeita correspondência entre o sistema produtivo e o mercado consumidor.

isto é. 1966.. subordinando o gasto em moeda estrangeira e a liberdade de movimento de capitais às prioridades do desenvolvimento nacional. Isso sobretudo pela defesa dos interesses do trabalhador e pela valorização do trabalho ... PRADO JR. Discutindo o caso específico do Brasil. colocar como principal quanto prioridade possível.251251 um rígido controle sobre as transações 251 internacionais. Caio Prado defende a necessidade de se impulsionar a formação de uma base empresarial estruturalmente vinculada central da ao espaço econômico privada da nacional. C.. proporcionar perspectivas.A Revolução . necessidade distribuição isto de é. Ver... No âmbito interno. 269. ele afirma: “É preciso não esquecer que a situação da economia brasileira. 5 . da exploração do trabalhador pela iniciativa conservadora e de orientação capitalista.) promover. que consiste no essencial em favorecer ‘negócios’. de tanto mais eqüitativa recursos financeiros proventos e benefícios derivados das atividades econômicas. no Para de ele... o papel do a iniciativa processo de superação somente subdesenvolvimento decorre avaliação que coação muda da concorrência capitalista é capaz de conciliar a existência de um sistema de produção mercantil com o desenvolvimento progressivo das forças produtivas. trata-se de submeter o processo de acumulação de capital aos ditames de uma política distributiva que democratize o acesso da população à renda nacional.”. .16 Em segundo lugar. a pobreza e os baixos padrões da população trabalhadora derivam menos. p. oportunidades e amparo à iniciativa privada e para a obtenção do lucro capitalista que essa iniciativa tem por única e exclusiva meta”. e a uma dos “(.. freqüentemente. cap.

.. .A Revolução . em na concepção a de Caio Prado. esta sim. 264-265. constitui não somente. (. A eliminação da iniciativa privada somente é possível com a implantação do socialismo. e não poderia ser abolida sem dano para o funcionamento normal da economia. condições social mínimas e de consistência e mesmo e estruturação simplesmente política administrativa. C. . unicamente iniciativa privada que.A Revolução . . deve política as superação sociais subdesenvolvimento liberar energias 16 17 18 . mas ainda.. perspectiva Mas em si. Idem...18 Em suma. . de nas economias do e coloniais crise.. ela é insubstituível. 270.252 privada.... melhoria iniciativa privada. econômica. .. PRADO JR. 1966.17 Para quem vê um paradoxo entre a política de eliminação da livre iniciativa e de fomento à iniciativa privada. p. 1966. 266. não se harmoniza com os interesses gerais e fundamentais por e não lhe de do país e da grande maioria de sua de a população... C...) por faltarem. um elemento necessário. progresso assegurar condições suficiente de vida. no seu conjunto e totalidade... p. se outros motivos não houvesse. PRADO JR. suficientes para transformação daquele vulto e alcance”. o que na situação presente é desde logo irrealizável (. . Caio Prado esclarece: “Não e se sim pretende com a isso livre eliminar a iniciativa privada. que da falta dessa iniciativa com que se restringem as oportunidade de trabalho e ocupação”. uma vez devidamente orientada..). p.A Revolução .

os interesses do capital internacional e das classes sociais responsáveis pela sobrevivência da sociedade colonial. ainda que as propriedades civilizatórias capitalismo dependente sejam bastante limitadas. bem entendido. cuja direção deveria ser definida em função das necessidades do conjunto da população e cuja intensidade deve ser graduada segundo as possibilidades das forças produtivas do país e sua capacidade mundial. Não se trata. enquadrado no circuito mundial de produção de mercadorias.Florestan Fernandes e os desafios da revolução democrática No entendimento de Florestan do Fernandes. os interesses dos trabalhadores rurais e urbanos. de outro. capaz que de congregasse trabalhadores seria reunir a força necessária para quebrar o círculo vicioso do subdesenvolvimento e liberar o caminho para o desenvolvimento nacional. de massas. e. baseado em uma política de cooperação internacional. o regime . Dependência x Nação . Daí sua convicção de que somente um amplo movimento rurais democrático e urbanos. mas promover um desenvolvimento autônomo. de fomentar um desenvolvimento “recuperador”. de articular uma inserção virtuosa na economia 2. enquanto o desenvolvimento induzido for compatível com o movimento de integração nacional. tende contrapor de maneira inconciliável.253253 econômicas concluir indispensáveis “missão para que o Tal capitalismo processo 253 possa a sua civilizatória”. de um lado.

com suas formas armadas e superestruturas jurídicas . Como explica Florestan Fernandes. o desenvolvimento desigual e combinado do sistema capitalista mundial fecha a possibilidade de entendimento entre as classes altas e baixas. interesses e conflitos de classe é regulada e imposta pelo tipo existente de capitalismo.por meios políticos indiretos e através do Estado.254 burguês desempenha uma função social construtiva. As demais classes.como instrumento de perpetuação do status quo. Desse civilizatórias classe momento em diante. a partir do momento em que burguesia dependente perde toda suas funções 19 . “A exacerbação dos fins. Dessa forma.. da burguesia esgotam-se como as potencialidades dominante. a ordem existente e os meios empregados para protegê-los. ao agravar as contradições entre as classes dominantes e ao acirrar a insatisfação e o sentimento de revolta entre os condenados do sistema. mesmo que não haja bloqueios à aceleração do crescimento econômico. quando o tempo econômico se divorcia do tempo político. O problema crucial é que. 1975. iniciam seu aprendizado diretamente na área do poder e da contestação política”. precisam assumir os riscos do uso aberto e sistemático da violência . As classes possuidoras e privilegiadas percebem claramente a falta de alternativas e trabalham no sentido de se protegerem contra a rigidez da situação histórica. que reuniam todas as condições de classe. o desenvolvimento dependente empurra a sociedade periférica para um grande impasse histórico. criando uma total dessincronização entre acumulação de capital e formação das bases sociais e culturais de uma sociedade democrática e soberana. menos a consciência crítica e a disposição para ousar. que elas mesmas criaram. não só aumentam a visibilidade da ordenação em classes sociais: tornam odiosos o capitalismo. Capitalismo . Como já não podem identificar o Estado e a Nação com suas posições e interesses de classes. No entanto... nem lhes é dado aproveitar com segurança lemas e palavras de ordem mistificadores. 40 . Na perspectiva de 19 Florestan Fernandes. a sobrevivência do capitalismo dependente torna-se cada vez mais difícil. Ao reproduzir uma formação social que vive em permanente crise política. p.

com aquelas sociedades nacionais que detêm o controle do próprio processo civilizatório no âmbito dessa civilização – não se poderia alterar a atual situação unilateralmente. 1981. em dois a distintos: interno Todavia. econômicas e políticas da sociedade brasileira”. Aliás a situação nem poderia ser diferente.20 . organização e a orientação das forças que operam ao nível externo escapam ao controle de uma sociedade nacional determinada. FERNANDES. tem de ser) desencadeado a partir de dentro. “A superação de controles econômicos externos não é uma variável associada ao mercado mundial e ao comportamento dos centros hegemônicos que neles imperam. o processo só pode ser (e. diz:colocou questão nos seguintes termos: “Aí está o ponto fundamental da presente discussão..255255 255 sociais construtivas. especialmente se ela preenche a condição de uma sociedade satélite e dependente. Por isso. Para modificarmos essa posição relativa do Brasil e. nas 20 . especializada no consumo das invenções culturais e no atendimento das necessidades econômicas ou de outra natureza das sociedades nacionais a que se subordina. seria níveis preciso introduzir o alterações e o concomitantes externo. Como se trata de uma relação – a relação do Brasil com as sociedades nacionais do mesmo círculo de civilização e. p.Sociedades de . o grande desafio da sociedade é eliminar a dupla articulação que atrela o padrão de acumulação e de dominação colonial.. ao imperialismo o e aos anacronismos ele da sociedade a Comentando caso brasileiro. com ela. o seu ‘destino histórico’. F. 173. de outro lado.. Se um centro hegemônico falhar. pois. . através da modificação das estruturas sociais. em particular.

É que ela – e somente ela – pode dar relações de competição e de conflito que asseguram a conquista e a continuidade do controle de economias subsidiárias (coloniais ou nacionais). Em outras palavras. por seus próprios meios. que permitem dirigir os processos de formação e de crescimento das economias dependentes. do prestígio social e do poder aparece como uma necessidade nacional. . bem como monopolizar os excedentes econômicos que podem. também não surge uma ação e. de “A desenvolvimento destruição constitui de o econômico. a democratização da renda. assim. e sociocultural de grupos e estamentos primeiro sociais e privilegiados requisito estrutural dinâmico da constituição de uma sociedade nacional. p. Idem. cuja essência consiste na erradicação dos privilégios aberrantes das classes do altas. o principal desafio das classes sociais comprometidas é construir com a superação sociais e do capitalismo que dependente permitam condições políticas e conciliar desenvolvimento econômico democracia social. 35. No plano internacional. Onde essa condição histórica não chega ou não pode concretizar-se historicamente.256 Para Florestan Fernandes. ser captados e drenados dessas economias para as economias hegemônicas”. Trata-se de um processo eminentemente político. Sob esse aspecto. muito menos. uma nação que possa apoiar-se num ‘querer coletivo’ para determinar. sua posição e grau de autonomia entre as demais sociedades nacionais do mesmo círculo civilizatório. qual conjunto população alcance as condições necessárias para se integrar ao processo político. logo surge outro centro hegemônico para substituí-lo. à o autor associa de a superação “revolução capitalismo dependente mediante a realização o uma da democrática”. Ibidem. o capitalismo gera uma luta permanente e implacável pelas posições de controle da economia mundial.

A segunda. isto é. “A democracia autêntica . colocaria a América Latina em condições de atingir uma situação estrutural comparável à dos países adiantados da Europa no período da revolução industrial. por possuírem todos”. Comentando as implicações de cada uma dessas alternativas na vida dos povos latino-americanos. esse avanço histórico relativo eqüivaleria a uma ‘nova fronteira’.. 1981. 187. mediante uma revolução nacional. na qual se completaria a formação dos Estados-nações e se iniciaria o desenvolvimento capitalista auto-sustentado. já que a opção socialista colocaria a América Latina no cerne mesmo da crise do padrão . F.21 De acordo com Florestan Fernandes. FERNANDES. a revolução o mesmo significado e a mesma importância para democrática deve ser vista como um processo de transformação social que pode adquirir duas características: a negação da dependência.. 21 . que se materializa em uma revolução socialista. capaz de alimentar imagens do ‘destino nacional’ que possam ser aceitas e defendidas por todos. p.. p.257257 257 origem e lastro a um ‘querer coletivo’ fundado em um consenso democrático. 174-175.(. A primeira.Sociedades de . ou a negação da negação. Florestan Fernandes resumiu seu ponto de vista assim: “O paradoxo dessas qualificações históricas fica evidente quando se consideram as perspectivas dos dois tipos de revolução social. Em termos latino-americanos.. criaria um real ‘salto histórico’..afirma Florestan Fernandes . se manifesta e se mantém através de um estado de equidade social que confere a cada cidadão o dever de solidariedade para com os demais e o direito de exprimir essa solidariedade de acordo com as determinações de sua própria consciência cívica”. .) nasce.

1975. às sociedades dependentes só lhes resta uma alternativa para escapar da barbárie: o socialismo. FERNANDES. inspirados na concepção socialista do mundo”. de uma nova cultura e de uma nova sociedade.258 de civilização inerente ao sistema de produção capitalista. Por isso... o desenvolvimento do capitalismo não passa pela revolução nacional. F. Em termos latino-americanos. O pensamento do autor é que: “Hoje. .. em face da qual a eliminação do controle econômico externo e da expropriação capitalista como realidades históricas seriam menos produtos da ‘negação da negação’ (ou seja. após a consolidação do capitalismo monopolista. Desde então. em suma. da supressão do imperialismo como entidade econômico-política). 129 . de um novo homem’ e de ‘uma nova história’.22 Na avaliação de Florestan Fernandes. tornando-se excessivamente rígidas e autodefensivas para permitir qualquer tipo de aventura revolucionária ou mesmo reformista que pudesse implicar uma ameaça à estabilidade geopolítica do bloco ocidental.Capitalismo . O lado positivo do avanço em questão aparece na construção de uma nova economia. esse avanço histórico relativo eqüivaleria a duas revoluções simultâneas. terá de quase ao universalmente periferia). Por uma razão simples: onde a revolução nacional constitui uma necessidade histórica (e ela na aparece como tal ela reiteradamente. opor-se 22 . p. as burguesias dependentes perderam sua capacidade reformista. ele acredita que dificilmente os países da América Latina teriam condições históricas de repetir os feitos dos Estados Unidos e do Japão.

ele colocou a questão nos seguintes termos: “A superação do impasse não poderia resultar na mera ‘vontade esclarecida’ (qualquer que seja sua encarnação: o ‘empresário inventivo’.) a ‘revolução contra a ordem’ por meio da explosão popular e do socialismo. também pode ser adulterada (graças à influência persistente do populismo e de modalidades pseudo-revolucionárias do nacionalismo). externos e internos. 1981. Florestan Fernandes esclareceu que a via do socialismo consiste em promover “(. Isso define a relação recíproca da burguesia com o proletariado no plano mundial: a revolução nacional já não é instrumental para o desenvolvimento capitalista (. 102 23 . sob o capitalismo e a sociedade de classes.. para que a revolução nacional ganhe viabilidade em muitos países periféricos as é preciso de seu que as revoluções ou proletárias paralisação”. etc). qualquer que seja o caminho adotado. .O que é revolução. convertendo-os em ‘desafio histórico’ e em fonte de solidariedade humana na luta pela modernização autônoma e por uma ordem social igualitária”.. o ‘burocrata competente’.. mas como o resultado de um processo de luta política. Refletindo sobre o caso brasileiro. F.259259 capitalismo. Idem. muito menos. No quebrem 23 amarras estancamento entanto. Na prática. no início da década dos setenta. 83. Florestan Fernandes adverte que a ruptura com o capitalismo dependente não pode ser concebida como construção artificial nem. Comentando as alternativas dos países latino-americanos. A sua vantagem reside na ruptura total com os fatores e feitos da dependência e do subdesenvolvimento. FERNANDES. 1975. têm de voltar-se contra ele. Ela não é fácil. como fruto de geração espontânea. é a única via efetivamente capaz de superar a dependência e o subdesenvolvimento. As revoluções nacionais que se atrasaram 259 são revoluções nacionais que não puderam desatar-se e completar-se dentro e através do capitalismo. o ‘político responsável’. mas é possível na ‘escala latino-americana’. Um povo pode contar com elites . Capitalismo . o ‘militar patriota’.) e.. Agora. como o demonstra o exemplo de Cuba.. por vários motivos. p. Todavia... por conseguinte. p.

e. “A dissolução de uma ordem social iníqua. portanto. O Brasil não possui elites desse tipo. FERNANDES. em seus diversos desdobramentos. de um dado antigo regime. Não obstante. nada se alterará fundamentalmente. p. O esclarecimento só se converte num elemento construtivo da situação quando ele envolve e conduz a transformações de caráter global”. Mas. mesmo se fossem cumpridas as duas condições indicadas. ainda assim a ‘vontade esclarecida’ pouco significaria em si mesma.260 capazes de fazer diagnósticos precisos e completos de sua situação histórica.. 1981.. como atores do drama e fatores humanos capazes de promover mudanças sociais conscientemente desejadas em escala coletiva. seja dentro dos marcos do capitalismo seja mediante uma transformação de caráter socialista. de outro lado.Sociedades de . F.. pois o que decide o sucesso da revolução democrática e nacional é a disposição de luta das classes sociais comprometidas com a construção da nação. 174. as oportunidades históricas ao alcance da sociedade só podem ser definidas após uma análise histórica concreta da luta de classes.24 Fica claro. que a presença de atores sociais interessados na superação do capitalismo dependente é um prérequisito fundamental para levar a cabo um processo de mudança social. . depende da existência de uma classe (ou de um 24 . as próprias massas ainda não se projetam no cenário histórico. Por essa razão. se essas elites não tiverem coragem e decisão de levar o diagnóstico à prática ou se não receberem suficiente apoio coletivo. Como afirma Florestan Fernandes. .

Furtado e as bases técnicas e culturais de um sistema econômico nacional Na visão de Furtado a antinomia uma entre ameaça de dependência que a pode. In: ________ Economia e Sociedade. não tem orientação definida. p. 74-75. “O subdesenvolvimento. É um impasse histórico que espontaneamente não pode levar senão a alguma forma de catástrofe social”. ter voz ativa sobre seu destino. . . e a desenvolvimento qualquer nacional constitui a seu momento. 1. em consequência. a existência de um poder público. tanto olha para frente como para trás. Respondendo àqueles que apregoam o fim do Estado 25 26 . como o deus Janus. C. palavras. FERNANDES.”25 3. Daí a importância primordial que ele atribui às bases objetivas e subjetivas dos centros internos de decisão como préecondição para o sucesso de qualquer estratégia de desenvolvimento nacional. 1985.26 Dentro da perspectiva analítica de Furtado.O subdesenvolvimento revisitado. 1992.. solapar o capacidade tempo sociedade Nas suas subdesenvolvida controlar histórico.. . Modernização x Nação . .19. F..A nova . n. capaz de subordinar o funcionamento da economia aos desígnios do conjunto da sociedade nacional. FURTADO. é a premissa básica para que a sociedade possa atuar sobre os mecanismos de apropriação e de utilização do excedente e.261261 261 estamento ou de uma casta) que possa tornar-se revolucionária na luta pela liberdade e contra a opressão.

relações. Ele pressupõe a existência de uma ordem política.262 nacional. FURTADO. C. como somente natureza de estritamente ordens também ignora custos várias internalizados pelos sistemas nacionais em que ela se insere. fato de que reduzida. 1987. uma estrutura de poder fundada na coação e/ou no consentimento. p. empresa transnacionalizada. Furtado escreveucolocou a questão nos seguintes termos: “Um sistema econômico é essencialmente um conjunto de dispositivos de regulação. econômica se somente nos A no sentido a um racionalidade sistema referirmos suposta quadro é de determinado mais econômico que nacional. falar de nacionais.27 Por esse motivo. cuja capacidade de auto-regulação se é. enquanto a situação de dependência não for incompatível com a consolidação de centros internos de decisão e com o avanço do desenvolvimento das forças produtivas. ou seja. 27 . instrumental. emerge não racionalidade. não há antagonismo irredutível entre modernização e construção de um sistema econômico nacional.Transformações e crise na economia mundial. ou a ordem internacional entre poderes expressa consentidas tem impostas. a empresa transnacional não passa de um corte horizontal nas estruturas nacionais de poder. In: ________ . em no conseqüência. 236. Em realidade. para Furtado. os Sua única ela legitimidade funda serviços que presta aumentam a eficiência dos sistemas nacionais em que opera”. e No presente. . de uma abrangente. voltados para o aumento da eficácia no uso de recursos escassos. .Um mundo desregulado.

E nos falta também um verdadeiro conhecimento de nossas possibilidades. Mas não ignoramos que o tempo se faz contra nós. e principalmente de nossas debilidades. reflexão superar o reformas estruturais necessárias para subdesenvolvimento. Ou se prevalecerão as forças que se empenham em interromper o nosso processo histórico de formação de um Estado-nação”. Dentro desta perspectiva. de populações indígenas desgarradas. o ponto de partida de qualquer estratégia de ruptura com o subdesenvolvimento coloca como desafio primordial a desarticulação da dependência cultural. de aventureiros europeus e asiáticos em busca de um destino melhor. a ruptura 263 com o subdesenvolvimento Desvendando construção indica as os de torna-se que necessidade ser inescapável. Trata-se de saber se temos um futuro como nação que conta na construção do devenir humano. como as que conheceram outros povos cuja existência chegou a estar ameaçada. Furtado colocou o problema de maneira clara: “Em meio milênio de história. A Construção Interrompida.28 para a dilemas um enfrentados sua sistema econômico nacional. de escravos transplantados de outro continente.263263 Contudo. em função das prioridades estratégicas da nação. 35 . pois os séculos de 28 . Mas nos falta a experiência de provas cruciais. chegamos a um povo de extraordinária polivalência cultural. p. A questão central reside na definição de um estilo de desenvolvimento compatível com as necessidades do conjunto da população e com as possibilidades materiais da economia nacional. um pais sem paralelo pela vastidão territorial e homogeneidade lingüística e religiosa. A principal dificuldade reside na superação do “mito do desenvolvimento econômico”. estratégia Em de outras palavras. isso significa enfrentar os interesses internos e externos que perpetuam a situação de dependência e redefinir o modo de participação no sistema econômico mundial. partindo de uma constelação de feitorias. de é vital descartar toda na assimilação progresso técnico baseada miragem de um desenvolvimento recuperador. quando isto deixa de uma devem acontecer. Na prática. Comentando a história recente do Brasil.

moradia. 1992. o ponto de partida de qualquer estratégia de superação do subdesenvolvimento é a introdução de reformas com o objetivo de enfrentar o problema do subdesemprego estrutural que marginaliza grandes contingentes da população do mercado de trabalho.O Subdenvolvimento . 29 .29 Paralelamente homogeneização às reformas Furtado destinadas considera a promover a social. .. do necessário ativos promover da uma redistribuição estoque sociedade. a política econômica deve incentivar a formação de um parque industrial diversificado e auto-suficiente voltado para o atendimento do mercado interno. Para tanto. A questão crucial reside na integração de do conjunto da população e rural e urbana do no processo desenvolvimento econômico cultural país. vestuário. FURTADO. democratizando a estrutura fundiária no campo e na cidade. Trata-se de enfrentar o problema da pobreza absoluta e da forte assimetria Para na correlação torna-se de de forças entre trabalho e capital. . “O conceito de homogeneização social não se refere à uniformização dos padrões de vida. O essencial é assegurar que o padrão de acumulação seja compatível com a integração do conjunto da . n. e sim a que membros de uma sociedade satisfazem de forma apropriada as necessidades de alimentação. No plano social. indispensável reorganizar o sistema econômico a fim de coloca-lo a serviço do desenvolvimento nacional.. ao lazer e a um mínimo de bens culturais”. acesso à educação. p. C.6. tanto..264 atraso econômico inviabilizam a generalização dos estilos de vida das economias industrializadas para as grandes massas da população que vivem nos países periféricos. Economia e Sociedade.

Furtado equacionou a questão de o maneira caminho cristalina: da “O que se ao tem nível em vista é descobrir criatividade dos fins. a definição de um padrão de acumulação compatível com a construção de um sistema econômico nacional exige uma cuidadosa avaliação das necessidades da nação e das possibilidades de seu sistema econômico. C. FURTADO. p. Como o progresso técnico não pode ser concebido como um fim em si mesmo. 1994.118. Em outras palavras: como efetivamente desenvolver-se.. a partir de um nível relativamente baixo de acumulação e tidas em conta as malformações sociais engendradas pela divisão internacional do trabalho. O princípio fundamental do desenvolvimento autodeterminado consiste em graduar o ritmo e a intensidade das transformações capitalistas em função de uma estratégia que permita o máximo controle da sociedade nacional sobre o seu destino. mas antes como um meio para alcançar objetivos sociais e culturais pré-determinados. lançando mão dos recursos da tecnologia moderna na medida em que isso seja compatível com a preservação da autonomia na definição desses fins. . na fase atual de mundialização dos mercados? Como ter acesso à tecnologia moderna sem deslizar em formas de dependência que limitam a autonomia de decisão e frustram o objetivo de homogeneização social?”.30 30 . Discutindo as novas tendências do processo de difusão desigual do progresso técnico.265265 265 população economicamente ativa ao mercado de trabalho.Cultura e desenvolvimento em época de crise.

em sua escala de prioridades. Comentando os dilemas das sociedades periféricas para graduar a incorporação de progresso técnico em função de critérios que expressem os interesses genuínos da nação. Depreende-se desta visão que a escolha do “tipo” de tecnologia incorporada aos bens de consumo e bens de capital não pode estar desvinculada do peso que a sociedade dá. sobre as desigualdades sociais e sobre a solidez dos centros internos de decisão. maximizar a eficácia econômica e elevar o bem-estar social – os princípios básicos que.266 Tendo em vista a necessidade de preservar a independência nacional. Furtado destacou as questões relevantes: “Que possibilidade existe de ter acesso à tecnologia da civilização industrial escapando à lógica do atual sistema de divisão internacional do trabalho? Ou melhor: até que ponto essa tecnologia pode ser posta a serviço da consecução de objetivos definidos autonomamente por uma sociedade de nível de acumulação relativamente baixo e que pretenda à homogeneização social? Seria a dependência tecnológica simples decorrência do processo de aculturação das elites dominantes nas economias periféricas? Até que ponto é possível absorver tecnologia moderna escapando ao processo de mundialização de valores imposto pela dinâmica dos mercados? . ao enfrentamento das desigualdades sociais. caracterizam o desenvolvimento nacional – a política de incorporação de progresso técnico deve levar em consideração os efeitos da intensificação na divisão social do trabalho sobre a riqueza social. na opinião de Furtado. ao aumento da riqueza da nação e ao controle sobre os centros internos de decisões.

Cultura e desenvolvimento.. subordinando-as aos objetivos estratégicos de buscar um relacionamento externo fundado no princípio de cooperação entre países que possuem interesses comuns. por qualquer motivo. cabe-lhe a das responsabilidade indireta democratização condições de acesso aos ativos da sociedade. assim como pela adequação dos mecanismos de apropriação e utilização do excedente a políticas de redistribuição da renda e da riqueza. 31 .31 O esquema analítico de Furtado sobre do o também como nos permite os estabelecer diferentes fornecendo mercado no critérios “meios” de racionais combinar transmissão pensar progresso do sua técnico. o Estado deve suprir as lacunas da iniciativa privada sempre que. e do o parâmetros para papel Na Estado desenvolvimento econômico.. engendre crescentes desigualdades sociais nos países de baixo nível de acumulação?”. 117. C. Em segundo.. requerido para alcançar os padrões de eficiência próprios da técnica moderna. p. Por fim. Estado deve cumprir basicamente três funções dentro de uma estratégia de construção. econômicas e financeiras com a comunidade internacional. FURTADO.. ela não for capaz de assegurar o funcionamento adequado de setores estratégicos do sistema econômico nacional.267267 267 Pode-se evitar que o sistema de incitações. direta e Em primeiro pela lugar. . toca-lhe mediar as relações comerciais. Ao lado da presença estratégica do Estado planejador. concepção. a superação do subdesenvolvimento requer a participação decisiva da iniciativa privada como agente dinâmico do desenvolvimento.

e só posteriormente ficarem expostas à concorrência em escala nacional e internacional. das momento. para Furtado. No que diz respeito à política de concorrência. mercados estruturar-se necessidades regionais. eficiência não na é possível de introjetar padrões diacrônicos lógica funcionamento do sistema econômico. No plano regional. de o Na prática. tal política em um significa primeiro de seus que as atividades produtivas em função devem. Comentando os problemas específicos necessidade do do nordeste do Brasil. Furtado ressaltou respeitar a as desenvolvimento nacional . a concorrência constitui o meio por excelência de elevar a flexibilidade do sistema econômico e maximizar sua capacidade de ampliar a eficiência econômica. Isto significa que tanto os setores modernos como os atrasados devem estar sujeitos a alguma forma de concorrência. de isto significa técnico planejar de modo média o a do incorporação aumento progresso da progressivo produtividade conjunto do sistema econômico e de incentivar a homogeneização da produtividade do trabalho entre os vários setores da economia. a questão fundamental estrutural. uma vez que.268 pois. é por enfrentar intermédio o de problema um da heterogeneidade permanente para esforço equiparar a eficiência dos setores atrasados à dos modernos e para aumentar a capacidade de autotransformação do conjunto da economia processo estimular nacional. Donde a necessidade de implementar reformas destinadas a fortalecer a base empresarial do país. sem a disciplina do de mercado.

77. A respeito ver Idem. C.32 Como a exposição da economia dependente à concorrência internacional tem sérias repercussões sobre os mecanismos de apropriação e utilização nacional leve exige em do uma excedente estratégia tanto social. FURTADO. .. p. (c) a “taxa de poupança” necessária para a viabilização dos investimentos. A seu ver. é complexamente condicionado: (1) pelas características do desenvolvimento capitalista.. 33 . Indústrias com outra orientação tecnológica também poderão localizar-se na região. dada as economias de escala exigidas pelo grau de desenvolvimento das forças produtivas.33 A origem do problema decorre do fato de que o 32 . atende às exigências de rentabilidade mínima dos investimentos. que regula o sistema comercial. (b) a infra-estrutura necessária para a sua operação.Cultura e desenvolvimento . uma política 269 de desenvolvimento regional: “Exige que se estabeleça um regime de reserva de mercado . e. (2) pelo caráter da ordem econômica internacional.. O sistema de subsídios e o de reserva de mercado deverão ser postos a serviço do desenvolvimento do mercado local e da homogeneização social”.para as indústrias tecnológicas que se localizem com na região adotem opções de compatíveis uma significativa criação emprego. mas não há razão para que se beneficiem de estímulos oficiais. Partimos do princípio de que o grau de liberdade das sociedades periféricas é historicamente determinado pelo caráter do processo de difusão desigual de progresso técnico.um protecionismo regional .. que estabelece o padrão de eficiência e de mercantilização em escala mundial. p.269269 heterogeneidades regionais. Consideraremos que o contexto externo delimita o campo de oportunidades das economias periféricas a medida que os parâmetros técnicos da relação capital-trabalho e capital-produto estabelecem unilateralmente as seguintes condições: (a) as possibilidades de incorporar setores produtivos estratégicos para o funcionamento orgânico do sistema econômico. O Nordeste: reflexões sobre uma Política Alternativa de Desenvolvimento. (d) o tipo de estrutura quantitativa e qualitativa do mercado interno que. por sua vez. o qual. 65 a 78. de seus o desenvolvimento internacional inserção efeitos que consideração sobre a produtividade da economia nacional quanto seus efeitos sobre as bases objetivas e subjetivas dos centros internos de decisão.

Le Système national mondial hiérarchisé. 1987. De um lado. o monetário e financeiro internacional. na base imposto da pela da lógica dos mercados.34 Portanto. apresentam-se as exigências de um processo que de mundialização.270 funcionamento capacidade do sistema economias capitalista dependentes mundial de restringe subordinar a a das incorporação do progresso técnico aos interesses nacionais. ou seja. De outro. as formas de organização da produção e de incitação ao trabalho. que estabelece a natureza dos vínculos do capital internacional com os diferentes espaços econômicos nacionais. ver BEAUD. M. as quais tendem a limitar a possibilidade de recurso aos sistemas centralizados de decisões”. e (3) pela natureza do movimento de internacionalização de capital. Comentando as dificuldades provocadas pela transnacionalização do capitalismo. gerado pelo antes de recorrer ao patrimônio para tecnológico o sistema capitalista mundial impulsionar desenvolvimento nacional. Por último estão as especificidades das formas sociais mais aptas para operar essa tecnologia. Dentro desta perspectiva. . está difusão civilização industrial. A respeito. Furtado afirmou:colocou a questão nos seguintes termos: “A reflexão suscitada por essa temática vem permitindo circunscrever melhor o campo de estudo do subdesenvolvimento. . configuram-se os requerimentos de uma tecnologia que é fruto da história das economias centrais e que exacerba sua tendência original a limitar a criação de empregos. deve-se avaliar as vantagens e as desvantagens do impacto da modernização das forças produtivas e dos padrões de consumo sobre o processo de estratificação social e sobre o sistema de poder.

e. FURTADO. Entendemos que o comércio com o exterior disciplina a economia nacional à medida em que a concorrência internacional define os setores produtivos em crescimento. 6 35 . Revista de Economia Política. da capacidade de reestruturação da economia nacional. os imperativos de modernização sobre os setores expostos à concorrência e as atividades que apresentam uma tendência estrutural de declínio. 58. a essencialidade dos produtos importados e o papel da concorrência externa como elemento disciplinador da economia nacional.35 Quando as estruturas difundidas pelo centro capitalista não estão ao alcance da periferia . a importância econômica e social da parcela do sistema econômico cuja sobrevivência fica comprometida pela concorrência externa. n. a contribuição do sistema econômico mundial para o desenvolvimento das regiões periféricas depende. Nesse sentido. setoriais e regionais que acompanham a incorporação de progresso técnico. p.seja porque ultrapassam a capacidade de importação do país. O impacto de tal condicionamento é que determina a natureza dos problemas de ajustamento enfrentados pelas empresas e pelo Estado e que estabelece as mudanças econômicas e os conflitos distributivos sociais.271271 papel do comércio exterior no desenvolvimento deve 271 ser definido levando em consideração. Neste aproveitar potencial econômico das empresas transnacionais e dos credores internacionais depende da natureza das exigências que elas fazem para participar do espaço econômico nacional. por outro lado. a importância relativa do excedente social que pode ser gerado no comércio exterior. seja porque estão muito além das potencialidades empresariais e financeiras da economia nacional. ao a progresso conveniência técnico de do centro o capitalista. seja porque elas simplesmente não estão disponíveis no mercado internacional – o capital internacional passa a ser o único meio de acesso caso.. . em última instância. A Invenção do subdesenvolvimento. C. a decisão de atrair capital estrangeiro para auxiliar no 34 . Portanto. 1995. por um lado.

Money: Whence it came. e. Para uma discussão a respeito do papel estratégico da moeda no desenvolvimento capitalista nacional ver AGLIETTA. uma estratégia de desenvolvimento nacional autosustentado requer um modo de participação no sistema capitalista mundial que .37 Donde a necessidade de preservar o controle sobre o regime de câmbio. Essa relação varia. o padrão de financiamento público e os mecanismos de criação e destruição de meios de pagamentos. como a moeda é o elo fundamental que diferencia o espaço econômico nacional como uma realidade irredutível. Isso significa que a conveniência de se contar com o capital internacional para impulsionar o desenvolvimento não pode ser desvinculado da natureza de seus nexos com as economias periféricas. . 1990. 36 . (3) os limites impostos à soberania dos centros internos de decisão..36 Por fim.K. 37 . de sua forma de organização empresarial e de sua estratégia de concorrência em escala mundial. a forma de participação de uma nação no cenário internacional não pode comprometer a autonomia do sistema monetário. J. 1995. (2) o comprometimento da capacidade de importação da economia no futuro.272 esforço de desenvolvimento das forças produtivas não pode estar desvinculada de uma avaliação de suas implicações sobre: (1) o grau de dependência tecnológica e financeira. A Violência da moeda. M. em função do espaço de referência do horizonte de acumulação deste capital. quem perde e quem será protegido das revoluções técnicas e culturais difundidas pelas economias centrais. uma vez que é a capacidade de influenciar a estrutura de preços relativos que lhe permite estabelecer o que deve ser absorvido e o modo de compatibilizar as estruturas modernas com as estruturas já existentes na economia nacional. GALBRAITH. Where it Went. Sem tais instrumentos. em cada momento histórico. o Estado nacional não tem como arbitrar quem ganha. Por isso.

fundamentalmente. pela prioridade relativa dada às seguintes variáveis: nacional. bem como 39 38 . ela se baseia na hipótese heróica de que a política reformista contaria com a cumplicidade das elites que se beneficiam com o processo de modernização dos padrões de consumo. considera que Esquematizando existem experiência três vias basicamente para a superação do subdesenvolvimento. as dificuldades de acesso à tecnologia externa e as distorções nos mecanismos de incitação ao trabalho acabam comprometendo o dinamismo de longo prazo da economia.273273 273 seja compatível com o equilíbrio de longo prazo do balanço de pagamentos e com a existência de mecanismos estáveis de financiamento do setor público. De um lado. baseia-se na coletivização dos meios ou de da produção. essa estratégia embora extremamente eficaz no combate à miséria e à desigualdade social. funda-se no atendimento das necessidades básicas da sociedade. . No entendimento de Furtado. (a) (b) (c) homogeneização centralização maior ou social ou ou aumento da do riqueza sistema de descentralização exposição ao a menor processo mercantilização histórica. São várias as dificuldades que Furtado atribui a esse tipo de alternativa. Furtado endogeneização considera do que as estratégias se para a desenvolvimento diferenciam. ele internacional. econômico. autogestão através das da planificação centralizada unidades produtivas estratégicas. revela-se insuficiente para promover saltos qualitativos na riqueza nacional. pela introdução de um conjunto de reformas e de políticas de distribuição de renda. visando a criação de estruturas e instituições que permitam canalizar uma parte do excedente social para o combate à pobreza e para a satisfação das necessidades essenciais da população. pois a debilidade da estrutura empresarial. A primeira.39 A terceira via baseia-se na busca de autonomia .38 A segunda.

(b) ação orientadora do Estado dentro de uma estratégia adrede concebida. Ademais. de dinâmicas em setores sobre o na que exercem importantes industrial inovação. O eixo central dessa solução consiste em incentivar a geração de vantagens comparativas efeitos interno. tal estratégia requer um longo processo de preparação já que pressupõe que a economia já possua um certo grau de autonomia tecnológica. encadeamento de crescimento capacidade de Trata-se investir sobretudo no que se refere às tecnologias de produto. De outro.. Segunda condição necessária é a criação de um sistema produtivo eficaz dotado de relativa autonomia tecnológica. períodos de fortalecimento da capacidade empresarial e de capitalização do sistema econômico. ela só pode ser concebida como o resultado de um longo processo que encadeia fases que priorizam a homogeneidade social. Por essa razão. elevado esforço de poupança e a criação de uma base empresarial autônoma.40 Furtado resumiu as vantagens e desvantagens de cada uma dessas alternativas da seguinte forma: “As experiências (. o que requer: (a) descentralização de decisões que somente os mercados asseguram. 40 .. finalmente. Também aprendemos que para vencer a barreira do com o beneplácito da comunidade internacional. (c) exposição à concorrência internacional. romper o padrão de modernização e promover uma política de conquista de mercados externos. ela parte da idéia de que é possível conciliar as reformas estruturais com uma relativa normalidade dos negócios.) ensinam que a homogeneização social é condição necessária mas não suficiente para alcançar a superação do subdesenvolvimento. um elemento-chave para a conquista de mercados externos. Além de uma certa homogeneidade social. essa estratégia requer rigoroso planejamento dos investimentos. e. . subestimando os efeitos desestabilizadores das mudanças na distribuição de renda e da reorganização do sistema econômico sobre o funcionamento das unidades produtivas.274 tecnológica mediante uma estratégia de procurar. etapas de conquista de autonomia tecnológica e capacidade inovadora. simultaneamente.

FURTADO.. Nosso ângulo de observação pelas privilegiou economias de um aspecto: as para com o dificuldades compatibilizar encontradas a dependentes técnico incorporação progresso controle dos centros internos de decisão e a integração do conjunto da população no desenvolvimento capitalista.275275 275 subdesenvolvimento não se necessita alcançar os altos níveis de renda por pessoa dos atuais países desenvolvidos”. por diferentes ângulos. Vimos. que os obstáculos que bloqueiam o desenvolvimento das economias dependentes estão associados.1... . . a ruptura definitiva dos nexos de dependência herdados do período colonial exige: (1) uma completa inversão no modo de participação no sistema capitalista mundial. Donde. n. a convergência na avaliação de que. (2) o controle dos aparelhos de Estado por classes sociais umbilicalmente 41 . p.41 4. nacional e basicamente. Economia e Sociedade.15. de uma ou de outra maneira. 1992.O subdesenvolvimento . Observações finais: Este trabalho sistematizou as reflexões teóricas de Caio Prado. C. à à falta de uma de autonomia da economia excedente persistência superpopulação permanentemente marginalizada do mercado de trabalho. Florestan Fernandes e Celso Furtado sobre os dilemas do desenvolvimento dependente nas sociedades de origem colonial que avançaram no processo de industrialização subdesenvolvida.

quais os novos desafios do socialismo? Essas são algumas questões que devem ser retomadas por todos comprometidos com a superação das mazelas do capitalismo dependente. das rupturas necessárias para a superação do subdesenvolvimento nada diz. em altíssimo grau de abstração. Quais os atores sociais capazes de se comprometer de corpo e alma com a luta pela independência nacional e pela democratização da sociedade?. políticas Quais os comprometidas transformação status desafios e as conseqüências de uma desconexão com o sistema capitalista mundial no momento em que a mobilidade espacial do capital internacional tende ao paroxismo?. . Como pensar as vias que conduzem à superação do subdesenvolvimento: capitalismo ou socialismo?. Como integrar a superpopulação marginalizada do mercado de trabalho quando a grande maioria da população vive nas periferias das grandes metrópoles e a concorrência internacional ameaça as economias periféricas com processos catastróficos de desestruturação de seus parques industriais?. e (3) a superação do mito do desenvolvimento econômico que alimenta a falsa esperança de um desenvolvimento recuperador.276 comprometidas com o destino da nação. e. sobre os problemas concretos de cada formação social com e a sobre as tarefas do das forças quo. no entanto. A identificação. por fim. Qual a estratégia política capaz de levar o processo de construção da nação até o fim: reforma ou revolução?.

ora para justificar práticas sectárias. o Na verdade. ora para fundamentar o imobilismo político daqueles que não 42 Afinal.15. que subestimam a gravidade dos problemas que precisam ser enfrentados para vencer o subdesenvolvimento.277277 277 A definição de um arcabouço conceitual para organizar a reflexão sobre os dilemas do desenvolvimento dependente é uma condição necessária mas insuficiente para o conhecimento dos desafios que devem ser enfrentados pela sociedade nacional em cada nada momento diz histórico. ou onde estas pelo menos estão em desenvolvimento”.. urgência de sua superação e a forma de concretizá-la em cada momento histórico..42 A ausência deste tipo de análise leva à adoção de soluções que. as condições de existência material dessas relações. as potencialidades revolucionárias inscritas na vida social. no seio da sociedade antiga. MARX. pois somente uma interpretação baseada em fatos concretos da vida social pode desvendar os processos subterrâneos que determinam as tendências naturais e efetivas da luta de classes e. 1966. p. “Uma formação social nunca se desfaz antes de estarem desenvolvidas todas as forças produtivas para as quais ela está pronta e novas relações de produção mais elevadas nunca se impõem antes de estarem crescidas. servindo ora para racionalizar práticas oportunistas. que mitificam as potencialidades do capitalismo dependente. por estarem descoladas da vida real. por conseguinte. não podem conduzir a uma ação política conseqüênte. a humanidade sempre se propõe apenas aquelas tarefas que pode resolver. do o tratamento analítico a sobre sentido desenvolvimento dependente. El Capital: crítica à economia política . K.. de A resposta que a estas questões os não pode prescindir análises contextualizem problemas efetivos de cada formação social no tempo e no espaço. . Por isso. pois a observação exata sempre revela que a própria tarefa nasce somente onde existem as condições materiais de sua solução. como afirmou Marx.

o esforço de atualização do marco conceitual da problemática do desenvolvimento dependente é apenas o primeiro passo de quem quer compreender os dilemas de nossa sociedade. a falta de mediação histórica desvia a atenção das forças comprometidas com a construção da nação de seus verdadeiros desafios. . Ele evidentemente não substitui a análise concreta da realidade de cada formação social.278 conseguem vislumbrar as virtualidades contidas nas contradições sociais. De uma ou de outra maneira. Por isto.

...... 174 a) As bases sociais do capitalismo dependente........ A problemática do desenvolvimento capitalista nacional.................... 155 CAPÍTULO 4 .... 111111 2....................................................................... A crise da teoria do desenvolvimento.. 158 Introdução.279279 ÍNDICE 279 INTRODUÇÃO......................... 70 Introdução..... 111111 1... 333333 CAPÍTULO 2 . 72 2... Economia e concorrência no capitalismo dependente...........Introdução à problemática do desenvolvimento capitalista nacional........ 125 2.Caio Prado e o substrato social do capitalismo dependente..... 143 4....... 165 2............ “Imperialismo total” e industrialização periférica................. Desenvolvimento capitalista autodeterminado............Transnacionalização do capitalismo e dilemas do desenvolvimento nacional................ 70 1.......... 158 1....................................... A crise do desenvolvimento nacional. 333 CAPÍTULO 1 ...... 117 Introdução...... Luta de classes e racionalidade do capitalismo dependente ... 138 3..... Industrialização como ciclo de substituição de importações ............................................................ Os dilemas do desenvolvimento capitalista dependente............. 165168168 ....................................................Capitalismo dependente e luta de classes em Florestan Fernandes............................. 117 1...... 90 3................ Observações finais..... Mercado e desenvolvimento capitalista nacional.......... 107 CAPÍTULO 3 ........

........................ Dependência x Nação ......... Revolução burguesa atrasada e imperialismo total................................. Estrutura centro-periferia e incorporação de progresso técnico .......................................... 244 5..... 295 ....Os desafios da revolução democrática ................. 216 2....... 235 4................ Capitalismo dependente e revolução burguesa atrasada............... Observações finais....... Modernização e industrialização............... 210 Introdução........280 b) Racionalidade substantiva e capitalismo dependente........................Progresso técnico e desenvolvimento nacional em Celso Furtado........................... Capitalismo transnacional e a “nova dependência”........................ 193 4.... Modernização e subdesenvolvimento........... Observações finais....... 268 3. 201 5..... 186 3...........As bases técnicas de um sistema econômico nacional .................................... 210 1.......... 252 1... Observações finais:.. 276 4..... Imperialismo x Nação: as tarefas da revolução nacional 260 2............ 291 BIBLIOGRAFIA. 252 Introdução............ 196198198 CAPÍTULO 5 ... 225 3.. Modernização x Nação .................................. 249 CAPÍTULO 6 .......Entre a Nação e a barbárie.............................................................