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2009

Caderno de Estudos de I Ching

Anderson Rosa
Frater Goya
Caderno de Estudos de I Ching
Anderson Rosa – Frater Goya | http://oraculo.cih.org.br

INTRODUÇÃO

O I Ching é um dos livros mais antigos da humanidade. Sua origem lendária remonta há
mais de 6 mil anos. Meu avô sempre dizia que “antiguidade é posto”, e se esse ditado possui
alguma verdade, o I Ching ocupa um lugar privilegiado na história da China e da humanidade.

Ele é importante no estudo do Confucionismo (chamado de Ru Jia, ou Família da


Erudição), onde a formação presume o estudo de 6 clássicos: O I Ching, os ritos e cerimônias,
Poesia, literatura, música e história.

E também é importante para o Taoísmo (Dào Jia, ou família do Caminho). O Taoísmo


fundamenta-se nas 3 obras do Mistério (San Xuan), que são: o I Ching como raiz, o Tao Te
Ching como ramo, e o Nan Hua Ching como a flor do misticismo chinês. Para os estudiosos do
Caminho, torna-se indispensável a leitura destas 3 obras.

Um leitor mais atento pode ter percebido que as 3 obras de mistério possuem uma
palavra em comum, Ching. Essa palavra possui vários significados, como: Tratado, livro
sagrado, trilha.

Mestre Wu comenta que trilha deve ser entendida não como uma estrada, mas o “por
onde andamos”. A estrada é fixa, mas a trilha designa o “caminhar”, existindo apenas
enquanto se caminha. O ideograma é formado por duas partes, onde a primeira significa “fio
de seda” e a segunda, significa “caminho”. Ou seja, trilha é um caminho feito pelo fio de seda.

Mestre Wu ainda diz em relação ao caminho de fio de seda: “Como seria então o
caminho feito do fio de seda? Este caminho está no próprio fio. Ao chegar o fim, o que
encontramos? No fim do fio não há nada, além do vazio, e, dentro dele, o cadáver do inseto. O
corpo do bicho morto simboliza a impermanência do ser, e o vazio simboliza o absoluto. Assim,
a razão do Universo e o caminho do Homem encontram-se em qualquer parte do cosmo, como
uma trilha; o percurso é o desenrolar desse fio. Chegar ao fim do caminho significa libertar-se
do corpo mortal e encontrar o Vazio.”

Para os praticantes do estilo Chen de Tai Ji Chuan essas palavras do Mestre Wu estão
repletas de significado. Compreender em profundidade estas palavras demanda muito tempo
e estudo. Quando praticamos alguma modalidade de qigong, por exemplo, esse desenrolar o
fio de seda fica muito evidente, mas muitas pessoas apenas repetem os exercícios sem se dar
conta que eles representam muito mais do que isso. Podemos dizer que de certa forma, é
quase uma dança que reflete o fluir da energia pelo universo. É um drama, uma atuação, uma
réplica do universo refletida no homem.

Para os praticantes das artes corporais chinesas, como o tai ji chuan e o qigong, o
estudo do I Ching é cheio de sentido e significado. Talvez a principal parte a ser estudada seja o
chamado Ta Chuan, o grande comentário, também conhecido por Xi T'zu Chuan, ou
Comentário aos Julgamentos Anexos que são parte das “Dez Asas” atribuídas a Confúcio.
Esses textos, que compõe o segundo livro do volume publicado por Richard Wilhelm, I Ching, o

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livro das Mutações, fazem comentários importantíssimos sobre a construção dos hexagramas,
suas linhas, mutações e natureza simbólica.

O I Ching é chamado de livro das mutações. Mas que mutações são essas? Estas são as
mutações do Qi. As mutações mais evidentes que podemos perceber são as mudanças
climáticas, com as que existem durante as estações do ano, e mesmo as mudanças diárias no
padrão climático. Os meus alunos de Qigong devem lembrar neste que nas recomendações
dadas em aula sempre comento que não se deve praticar o qigong em dias de nevoeiro, pois
há ali um qi perverso, e que se deve interromper imediatamente a prática em caso de
trovoadas e relâmpagos, pois nesse momento o qi está “perturbado”. Outra mudança evidente
é justamente o estado de espírito ou o humor variável a que estamos sujeitos durante o dia,
como calma, irritação, mau humor, etc.

Partindo dessa observação, é de fundamental importância perceber que os antigos


sábios que contribuíram para a construção do I Ching, foram pessoas capazes de perceber
esses padrões na natureza e registrá-los de maneira coerente e organizada representada pelos
hexagramas. Vistos desta forma, cada hexagrama representa quase uma foto de um momento
específico em que o padrão desta energia que permeia tudo no mundo (o Qi) tem sua
mudança (ou mutação).

Essas mudanças tem paralelos em toda a natureza, que inclui o homem e suas
atividades, a saúde, o clima, colheitas e tudo o mais. Confúcio fez interpretações dos
hexagramas que facilitaram a ação dos governantes de sua época e posteriores, e a história
está cheia de pessoas que utilizaram o I Ching como forma de compreender os momentos
vindouros ou os momentos de conflito pelos quais estavam passando.

Neste caderno de estudos não pretendo colocar os hexagramas e suas interpretações,


pois o objetivo aqui é favorecer a percepção dos padrões de mudança representados no I
Ching, e não o seu uso oracular. Além disso, existem no mercado inúmeros livros e os
estudantes podem manter o seu autor preferido. Para aqueles que tem o I Ching como
novidade, no final deste volume encontrarão na bibliografia um caminho para seu estudo.

Para os alunos deste módulo, sugiro que enxerguem o I Ching neste momento como
uma poderosa ferramenta de desenvolvimento espiritual e como um fantástico afinador, capaz
de torná-los perceptivos o suficiente para com o tempo, compreenderem por si mesmos, os
intrincados padrões existentes ao seu redor.

Curitiba, 17 de novembro de 2009.

Anderson Rosa – Frater Goya

An iv17 Sol 26° Scorpio, Luna 12° Sagittarius Dies Martis

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A HISTÓRIA DO I CHING

O I Ching, assim como quase todas as artes oraculares, ou como toda ciência muito
antiga, da mesma forma que as origens do Qigong, da Acupuntura, do Taoísmo, e outras
ciências ocidentais de mesmo calibre, como o Tarot, a Astrologia, a Alquimia, etc., possui duas
origens que normalmente são contadas como uma só, mas tem fundamentos distintos. A
origem mitológica ou lendária, e a origem com raiz histórica.

Mitologicamente, o I Ching foi criado por Fu Xi (ou Fu Hsi em algumas traduções),


conhecido como o chefe mais sábio de todas as tribos. Neste período, é importante comentar,
a escolha do chefe da tribo era feita pelo povo, baseada na virtude e sabedoria da pessoa a ser
escolhida para a função. Fu Xi assumiu como chefe da sua tribo em aprox. 5577 a.C. e, segundo
a tradição, teria vivido mais de 200 anos.

Fu Xi criou os primeiros símbolos dos hexagramas, baseado em seus estudos sobre o


céu, a terra e os seres que ali vivem, assim como baseado no conhecido diagrama Mapa do Rio
(He Tu). Segundo alguns estudiosos, o Mapa do Rio seria um aparelho esférico trazido do Rio
Amarelo por um hipopótamo1. Fu Xi estudou os símbolos que ali haviam por mais de 100 anos.
Alguns pesquisadores sugerem que o termo Rio, indica sua descoberta no Rio Amarelo. Mas é
importante notar que em chinês a Via - láctea é denominada de “Rio do Céu” (He Han), e
sendo assim, o termo Mapa do Rio faz referência a Mapa do Corpo Celeste. Este aparelho foi
estudado por inúmeros sábios até ser destruído em um grande incêndio, ocorrido durante a
dinastia Xi Jing (265-313 d.C.), no depósito real. Mas estes estudos ainda não haviam formado
o I Ching, mas são a base para a visão chinesa de mundo e serviram de base tanto para o
Taoísmo quanto para o Budismo.

O I Ching aparece somente na Dinastia Shang (1766-1122 a.C.) pelo Rei Wen. Chou,
que postumamente foi intitulado Rei Wen, foi aprisionado por Shang, juntamente com sua
esposa, e cumpriu parte de sua pena estudando os trigamas, e reorganizando-os em
hexagramas. Para cada hexagrama escreveu alguns comentários curtos, que hoje são
conhecidos como “Julgamento”.

O filho do Rei Wen destronou Shang e estabeleceu a nova dinastia, a Dinastia Chou,
que durou até 221 AC. Seu neto se tornou um governante, e o tio, o Duque de Chou, foi
apontado como regente. O Duque de Chou continuou o trabalho do Rei Wen escrevendo
textos curtos associados cada uma das seis linhas de cada hexagrama.

Confúcio (551-479 a.C.) estudou e comentou vastamente o I Ching. Seus comentários


são denominados as “Dez Asas”. Estes comentários formam os “Conselhos” ou “Imagens”, e
comentários sobre o Julgamento e sobre cada uma das linhas que formam o Hexagrama. O I
Ching nas mãos de Confúcio se tornou um importante estudo sobre o homem e suas relações
com o mundo, de onde deriva sua importância no auxílio aos governantes da China.

1
Conforme dito pelo Mestre Wu Jyh Cherng, no seu livro I Ching, A Alquimia dos Números.
Outros autores contam que este mapa teria saído do Rio Amarelo no casco de uma Tartaruga. – Nota do
Autor.
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Podemos inclusive dizer que hoje o I Ching possui duas grandes vertentes. A vertente
Taoísta, cujo enfoque é muito mais meditativo e busca o desenvolvimento espiritual do
homem em direção ao Tao, e a vertente Confucionista, cujo objetivo principal é a praticidade
e as questões do dia-a-dia e o auxílio a tomadas de decisão de grande importância. Mais
adiante, veremos como interpretar o I Ching e seus termos corretamente.

CONTEXTO HISTÓRICO

Fonte: http://www.salves.com.br/ching.htm

O mais antigo sistema de adivinhação na China data da dinastia Shang.


Consistia em esquentar os ossos de animais no fogo e estudava-se as rachaduras
produzidas neles., para se descobrir a época exata para se fazer um sacrifício. Traços
desta prática antiga ainda estão presentes em quatro dos ideogramas mais antigos do I
Ching: Yuan, Heng, Li, Chen. Eles possuem um enorme leque de significados e
associações - eles representam as quatro estações, e também as qualidades de
fundamentabilidade, sucesso, competência e perseverança. Em seu primeiro uso,
entretanto, esta frase parecia significar “o início de uma comunicação bem sucedida
com os espíritos; perguntar mais seria ajustar-se a um nível mais profundo". Na
verdade, esta prática nos mostra os princípios mais básicos da adivinhação Chinesa.

Os cascos das tartarugas eram usados também, da mesma forma que os ossos
dos animais, para produzirem padrões de rachaduras para os adivinhadores
interpretarem. Mas os cascos das adivinhações antigas podiam ser guardados para
referências futuras - e neste ponto os adivinhadores antigos começaram a inventar a
escrita. Imagens eram gravadas nos cascos como um registro do que foi perguntado, e
que resultado se obteve. Os arquivos remanescentes mostram que o oráculos da
tartaruga era consultado para questões de estado.: guerra, propostas de casamento, o
nascimento de uma princesa.

A partir de 1.000 a.C., até um pouco depois de a dinastia Chou ser fundada, os
textos do I Ching como nós conhecemos começaram a ser escritos. Eles provavelmente
vieram de uma tradição antiga oral, portanto é difícil estabelecer a mais antiga camada
do I Ching. Foi também nesta época que o método dos palitos para a adivinhação foi
criado. Isto pode muito bem ter sido, pelo menos em parte, uma resposta ao perigo de
extinção das tartarugas. Este método teve um efeito de tornar a adivinhação mais fácil,
mais prático e mais disponível. O que havia sido uma prerrogativa de imperadores
começou a se espalhar por toda a China popular.

As raízes do I Ching que nós temos hoje podem ser datadas com segurança do
Séc. VIII AC. Primeiro pelo vocabulário em comum com documentos da época e que
não foram usados desde então. Segundo, porque algumas referências de eventos
históricos da época foram identificadas. Em particular, o julgamento do Hexagrama 35
se refere ao Príncipe Kang, um príncipe Chou que é conhecido por ter abandonado o
nome Kang logo após a conquista Chou. Talvez este nome antigo tenha sido lembrado
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e somente atualmente escrito - mas isto pelo menos nos dá a data para a tradição do I
Ching. Os hexagramas básicos do I Ching, seus nomes, Julgamentos e os textos das
linhas foram muito provavelmente completados por volta de 700 a.C. Os hexagramas,
como um meio de se referir aos textos. Vieram bem depois, no séc. V a.C. Esta foi uma
descoberta crucial, tornando possível verificar o movimento da energia que os textos
descrevem.

O Comentário Tso, que data de 672 AC, se refere ao uso histórico de Chou
centenas de anos antes - mas não podemos assegura que estas datas sejam confiáveis.
Nós sabemos que naquela época em que foi escrito, a popularidade do I Ching estava
crescendo visivelmente.

Durante o período de Guerra dos Estados (475-221 a.C.) o I Ching se firmou.


Este foi um período de grandes mudanças políticas e culturais, cheio de incertezas. Os
textos do I Ching eram coletados em forma de livro, e os adivinhadores os carregavam
por toda a China. E quando a ordem foi finalmente, mas brutalmente restabelecida em
221 a.C., os novos governantes (a dinastia Ch'in , que durou pouco) ordenou que se
queimassem todos os livros. O I Ching foi um dos poucos volumes que foi poupado,
por causa de seu valor prático.

Durante a mais pacífica dinastia Han que se seguiu, o I Ching foi ‘canonizado’
como um clássico (‘I’) e se tornou um objeto de intenso trabalho acadêmico. Durante
este período - do séc III a.C. até a virada do milênio - as "Asas"do I Ching foram
adicionadas, com um comentário detalhado das inter-relações das linhas dos
hexagramas e a descoberta dos trigramas. Confúcio não deve ter escrito nada disto,
apesar deles terem sido, em parte, baseados em suas idéias. Os acadêmicos também
devem ter feito uso das tradições orais antigas, certamente, os textos do Conselho ( ou
Imagens) parecem enfraquecer sutilmente o Comentário mais convencional.

Esta é, nominalmente, quase que o fim da 'história' do I Ching. O manuscrito


Ma Wang Dui, enterrado em 168 a.C., é considerado ser substancialmente a mesma
versão que nós temos hoje. , apesar dos hexagramas estarem em uma ordem
diferente. A ordem atual foi sugerida pela primeira vez no Séc. 2 a.C., mas foi somente
estabelecida como a ordem padrão por Wang Bi (226-250 d.C.).

TÉCNICAS BÁSICAS DE ORÁCULO

Fonte: Cherng, Wu Jyh – I Ching, A Alquimia dos Números, Ed. Mauad, 2003, RJ.

1 – LOCAL
Para prática de oráculo, o ideal é ter uma sala preparada para este fim.
- A sala deve estar sempre limpa, silenciosa e ter uma ventilação equilibrada;
- A mesa do oráculo deve estar próxima do fundo da sala, sem entretanto encostar
na parede;
- Na mesa devem constar os seguintes objetos:
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a. Livro de consulta (I Ching) do lado esquerdo.


b. Caneta, papel ou caderno de anotações do lado direito.
c. Um pano especialmente usado para isolar a mesa, com a vareta ou moedas do
jogo.
d. Em frente ao pano deve estar o incensário.
e. Não sendo possível obter uma sala especialmente preparada para o oráculo, o
praticante pode escolher qualquer local limpo e de preferência silencioso.
f. Seria conveniente o praticante possuir seus próprios instrumentos de jogo
(varetas de bambu, moedas, pano, livro,caderno, caneta, incensário e incenso).
g. Na realidade, todas as exigências citadas anteriormente (sala, instrumentos
próprios, etc.) são apenas gestos ritualizados, que mantêm a tradição e a seriedade
do jogo.
h. Caso o praticante não possa obter as exigências materiais citadas devido a
impossibilidades circunstanciais (o praticante, por exemplo, pode estar em público
e necessitar de uma consulta oracular), o oráculo poderá ser realizado, se o
praticante mantiver a discrição e quietude no seu coração.

2 – POSTURA FÍSICA E ESPIRITUAL

Postura física
a. Tanto no jogo quanto no trabalho consultorial. O praticante deve manter sua
coluna vertebral ereta.
b. As posturas ideais são sentado reto numa cadeira ou sentado no chão sobre as
panturrilhas.
c. O praticante deve colocar-se ao fundo da sala, sentado de frente para o lado
externo, ou seja, sempre sentado em um encosto firme (a parede) e uma abertura
à sua frente (um espaço aberto).

Postura espiritual
a. Antes de submeter-se ao oráculo, o praticante deve tomar o máximo da
consciência sobre o assunto que irá consultar.
b. Todos os assuntos que possam ser resolvidos por si próprio não devem ser
submetidos ao oráculo.
c. Tendo a certeza de que o oráculo é a melhor opção e de que não está fugindo
da própria responsabilidade, o praticante pode partir para a pergunta.
d. As perguntas ao oráculo devem se claras, objetivas e conscientes.
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e. Quem tem uma pergunta bem formulada terá automaticamente uma resposta
clara.
f. Quando a pergunta já estiver devidamente formulada, deve-se transcrevê-la no
caderno de anotações.
g. Durante o jogo o praticante não precisa ficar pensando sobre o assunto; deve
manter sua mente esvaziada; dessa maneira a mensagem do oráculo se
manifestará com maior fluidez.
h. Quanto maior o grau de quietude e de transparência interior, maior será o grau
de precisão das respostas (por isso, é aconselhável ao praticante de oráculos a
prática da meditação do silêncio).

3 – ÉTICA E PRINCÍPIO IDEOLÓGICO


a. De acordo com a filosofia Taoísta de “Ação Não-Intencional” (Wu Wei), todos os
trabalhos consultoriais de I Ching devem ser realizados com o espírito do
“Despojamento dos Três Desejos”:
Despojamento do desejo da riqueza.
Despojamento do desejo da fama.
Despojamento do desejo de poder.
b. Um mestre de oráculos pode até ser uma pessoa rica, famosa e poderosa. O
importante, porém, é não ter o desejo de possuir fama, riqueza e poder.
c. Mesmo se um mestre de oráculo passar a vida inteira com dificuldades
materiais, desconhecido, e sem nunca ter exercido poder socialmente, também
não deverá desejar obter fama, riqueza e poder.
d. Qualquer um pode ser seu próprio mestre do oráculo, porém nem todos estão
aptos para orientar os outros, a não ser que despojem da fama, da riqueza e do
poder.
e. “Ter uma consciência iluminada” é fundamental para que não alimentemos a
ilusão de que ser um conselheiro oracular é uma “missão” ou um “dom”. na
verdade, acreditar que somos “especiais” nada mais é que a transferência da
carência pessoal ou o desejo de possuir fama, riqueza e poder.
f. O “Despojamento dos Três Desejos” não é um dogma; o taoísmo não estabelece
uma “regra do jogo”, mas valoriza a “Consciência” cada vez mais iluminada dos
seres. Cabe a cada praticante de oráculo iluminar-se a todos os momentos, para
poder optar por seu destino.

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ORÁCULO NUMEROLÓGICO DE FLOR DE AMEIXA (MEI HUA YI SU)


a) Autor: Shao Yun (1011 – 1077), da Dinastia Song do Norte. Era alquimista e foi
um dos maiores mestres de I ching depois de Confúcio; viveu retirado durante
longos anos no alto do Monte Su-Men, acima de um lugar denominado de “Bai-
Yuan” (Fonte Centenária) – por isso, a escola que nasceu de seus discípulos chama-
se Bai-Yuan Pai (Raminificação da Fonte Centenária0. Ele deixou uma obra
avançada de I Ching, chamada Huang Ji Jing Shi (O Universo Meridional da
Polaridade Real) e uma obra de poesia mística.
b) Processo do Jogo:
1 – A seqüência de trigramas utilizada é a do “Céu- Anterior”.

2 – Determinada a pergunta do oráculo, já com a mente esvaziada, o praticante


deve lançar espontaneamente uma seqüência de no mínimo três algarismos e, em
seguida, dividi-la por oito (8).
3 – O resultado do oráculo seria exatamente “o número que sobra”; em qualquer
seqüência de números divididas por oito, só poderiam restar os números de 1 ao 7
ou não restar nada, nesse caso seria zero (0).
4 – O praticante deve repetir o mesmo processo, extraindo um “número de sobra”.
5 – O primeiro número extraído corresponde ao Trigrama Interior e o segundo
extraído, ao Trigrama Exterior.
Um exemplo:
1ª Seqüência de algarismos:
331654 + 8 – 41456 ..... 6

2ª Seqüência de algarismos:
55435 + 8 – 6926 ..... 7

A resposta é Lago sobre o Céu.

ORÁCULO DA FLORESTA DE PÉROLA DE FOGO (HUO JU LIN YI BU)


a) Autor: Ma Yi, alquimista Taoísta que viveu no período final da Dinastia Tang
(século IX – X). Ele ainda foi o mestre do famoso alquimista Chen Tuan. Além da
alquimia e do I Ching, ele ainda deixou uma obra de “Fisiognomonia” clássica.
b) Instrumento Oracular: Três Moedas. As moedas chinesas da Antiguidade tinham
um orifício no centro; a periferia circular da moeda simboliza o elemento Céu
(Yang); o orifício quadrado do meio simboliza o elemento Terra (Yin); e o espaço
(Vazio) que existe no centro e fora da moeda simboliza o Tao (Absoluto).
c) Consideração de valores nas moedas: o lado da frente da moeda é Yang e seu
valor é 3; o lado de trás da moeda é Yin e seu valor é 2.
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d) Processo de jogo:
1 – A pergunta já deve estar conscientemente formulada, deve-se desligar
mentalmente da pergunta, esvaziando a mente.
2 – Passar as moedas sobre a fumaça do incenso uma por uma, purificando-lhes as
energias.
3 – Fazer uma reverência ao Tao e aos Mestres Patriarcas de I Ching do passado,
curvando o corpo para frente.
4 – Colocar as três moedas, com o lado Yang para cima, sobre a mão direita (ou
dentro de um recipiente em formato de copo ou tigela), mexendo oito vezes as
moedas dentro da mão (ou dentro do recipiente) e deixando-as cair naturalmente
sobre a mesa. Os resultados das moedas só podem ser os seguintes:
3 moedas com lado Yang para cima: 3+3+3 = 9
3 moedas com lado Yin para cima: 2+2+2 = 6
1 moeda com lado Yang para cima e 2 com lado Yin para cima: 3+2+2 = 7
1 moeda com lado Yin para cima e 2 moedas com lado Yang para cima: 2+3+3 = 8
5 – O número 9 é Tai Yang (Supremo yang), o 6 é Tai Yin (Supremo Yin), o 7 é Sao
Yang (Jovem Yang) e o 8 é Sao Yin (Jovem Yin). O Supremo Yang e o Supremo Yin
são as energias que já alcançaram o auge do seu curso, por isso estão prestes a
serem transformadas na energia oposta. Segundo a lei do universo, é na
culminância do Yin que surge o princípio Yang. No oráculo das moedas, se sua
soma for 9, indicará a “Linha Yang Móvel”; 6, a “Linha Yin Móvel”; 7, a “Linha
Yang”, e 8, a “Linha Yin”.

6 – O mesmo processo do jogo deve ser repetido seis vezes, resultando e, seis
linhas;
7 – É importante lembrar que as posições das Linhas num hexagrama iniciam-se de
baixo para cima; por isso, o resultado do primeiro jogo seria a Linha mais baixa.
Um exemplo:

A CHAVE DA INTERPRETAÇÃO
A “Chave da Interpretação” é a parte mais importante do oráculo; ela é
responsável por uma resposta clara e precisa do I Ching. Tradicionalmente, essa
“Chave da Interpretação” era transmitida somente de forma verbal, de mestre
para discípulo, sendo que, ao menos no Ocidente, anda era desconhecida pelos

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maiores adeptos do I Ching. A “Chave da Interpretação” é um instrumento precioso


para corrigir erros comuns na interpretação das “Linhas Móveis”.
A maioria dos praticantes autodidatas, quando encontram as linhas móveis,
(não importam quantas sejam), costuma fazer a conversão para um outro
hexagrama, interpretando diretamente a sua resposta de acordo com a síntese das
leituras contidas nos dois hexagramas, ou então baseados na interpretação das
linhas móveis do primeiro, somadas à interpretação das linhas da mesma posição
do novo hexagrama. Dessa maneira, esses praticantes adquirem excesso de
informação e acabam perdendo-se em respostas muitas vezes contraditórias.

CHAVE DA INTERPRETAÇÃO:
1) Com uma Linha Móvel – Sua resposta é esta Linha, leia a “Linha”; não é
necessário convertê-la para outro hexagrama.
2) Com duas Linhas Móveis – Sua resposta está na soma das duas Linhas, leia as
“Linhas” dessas duas Linhas; não é necessário convertê-las para outro hexagrama.
3) Com três Linhas Móveis – Converta para o segundo Hexagrama; sua resposta
está na soma dos dois “Julgamentos”.
4) Com quatro Linhas Móveis – Converta para o segundo Hexagrama; a sua
resposta está na soma dos “Julgamentos”, sendo que o “JULGAMENTO” do
primeiro hexagrama tem peso 2/6 e do segundo, de 4/6.
5) Com cinco Linhas Móveis – Converta para o segundo hexagrama; a sua resposta
está predominantemente no julgamento do segundo hexagrama, porém, o
“Julgamento” do primeiro ainda mantém certo grau de participação.
6) Com Seis Linhas Móveis – Converta para o segundo Hexagrama; a sua resposta
está inteiramente no julgamento do segundo hexagrama. No entanto, é
importante observar que o “Julgamento” do primeiro hexagrama representa
muitas vezes a causa” ou “passado” da questão consultada.
7) Não havendo Linha Móvel – Sua resposta está no “Julgamento”

OBSERVAÇÃO:
1) A razão de ser converter um hexagrama para outro, somente a partir de três
Linhas Móveis, se deve à quantidade de energias modificadas. Com uma ou duas
Linhas Móveis, a força de modificação não seria suficiente para gerar outro
hexagrama.
2) A “Chave da Interpretação” serve também para o “Oráculo de Varetas”.

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ORÁCULO DE VARETAS DE BAMBU (SHI FA)


a) Autor: O oráculo foi criado por Wu Xin (1636 a.C. - ?) da Dinastia Yin e
complementado pelo Rei Wen da Dinastia Zhou.
b) Instrumento oracular: Cinqüenta varetas de bambu ou de “caule de Achiléa
alpina L.”, do mesmo comprimento e espessura, bem polidas e retas.
c) Processo do Jogo:
(FASE ÚNICA)
1 - Já com as perguntas determinadas, cumprimentam-se o Tão e os Patriarcas.
2 - Segurando as 50 varetas juntas, com as duas mãos, passando-as em cima da
fumaça do incensário, purificando assim o seu instrumento oracular, inicia-se o
processo de oráculo.
3 - Primeiro retire uma vareta das cinqüenta. Coloque-a horizontalmente na parte
da frente, próxima ao incensário; (ela está representando o “Tai Ji”).
(INÍCIO DA FASE REPETIDA)
4 - Em seguida, separe espontaneamente as 49 varetas, segurando-as nas duas
mãos (a porção da mão esquerda simboliza o “Céu” e a porção da mão direita, a
“Terra”).
5 – Retire uma vareta da mão direita e coloque-a no espaço entre os dedos anular
e mínimo da mão esquerda (ela está representando “Homem”).
6 – Coloque agora as varetas da mão direita no lado direito da mesa e utilize a mão
direita para contar as varetas da mão esquerda; a contagem é feita de 4 em 4 (cada
grupo de 4 varetas representa um ciclo de “4 Estações”). Ao final, irá encontrar
uma sobra de 4 ou menos varetas; estas varetas que sobrarem devem ser
colocadas no espaço entre os dois dedos médio e anular da mão esquerda (elas
representam o “Mês Bissexto”).
7 – Pegue novamente as varetas do lado direito e comece a contar com a mão
esquerda, também de 4 em 4. Ao chegar ao final, certamente irão restar 4 ou
menos varetas, que devem ser colocadas no espaço entre os dedos indicador e
médio.
8 – Some as varetas que foram colocadas nos espaços entre os dedos; o resultado
será 9 ou 5. Coloque as no canto esquerdo superior da mesa, ao lado do incensário.
9 – Depois de separar as 9 ou 5 varetas na mão, juntar novamente as 40 ou 44
varetas que restaram. Repetir o mesmo processo de contagem: colocar uma vareta
da mão direita no espaço entre os dedos anular e médio da mão esquerda; deixar
as varetas da mão direita e contar as varetas da mão esquerda; colocar as varetas
da mão direita e contar as varetas da mão direita com a mão esquerda; colocar as
varetas que restam entre os dedos indicador e médio da mão esquerda.
10 – Some as varetas que foram colocadas no espaço entre os dedos; o resultado
será certamente 8 ou 4; coloque-as no canto esquerdo superior da mesa, mas
tenha cuidado de na misturar com as varetas da primeira retirada.
11 – Depois de separar as 8 ou 4 varetas da segunda retirada, juntar pela terceira
vez as 32 ou 36 varetas que restam e repetir o processo de contagem; o resultado
da terceira retirada será certamente 8 ou 4 varetas na mão esquerda.
IMPORTANTE: matematicamente, os números de varetas da primeira retirada só
poderiam ser 9 ou 5; os da segunda e terceira, 8 ou 4. Caso o praticante obtenha
algum outro número, é sinal que houve erro durante o processo.
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12 – Dos números de varetas extraídos, o 9 e o 8 são chamados de o “Número


Maior” e o 5 e 4 são chamados de Número menor”.
13 – As possibilidades de combinação de números “Maior” e “Menor” são as
seguintes:

14 – O processo citado anteriormente deverá ser repetido mais 5 vezes, para se


poderem obter as seis Linhas de um hexagrama.
(FIM DA FASE REPETIDA)
Obs: A “Chave da Interpretação” do Oráculo de Varetas é a mesma do Oráculo de
Moedas.

CALCULANDO OS HEXAGRAMAS COM MOEDAS – SIMPLIFICADO (HUO JU LIN YI BU)

Por: Anderson Rosa – Frater Goya

1) Pegue 3 moedas do mesmo valor.

Jogue elas sobre uma mesa, enquanto pensa na pergunta que não deve ser do tipo:
Devo fazer isso? (sim/não)

A pergunta deve permitir sempre um questionamento ou conselho. Tipo: como devo


agir em tal situação?

cara = yin vale 2


coroa = yang vale 3

Ex: joguei e saiu duas caras e uma coroa.


Cara 2
Cara 2
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Coroa 3
Total 7

As linhas serão desenhadas de baixo para cima

Portanto, você vai jogar 6 vezes, uma vez para cada linha, tendo sempre a
mesma questão em mente.

É importante anotar corretamente para ver como ficam as linhas mutáveis, que
são o 6 e o 9. São as mutáveis que vão dizer para onde a situação se encaminha.

Digamos q o hexagrama resultante fique

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Vendo as linhas fixas e móveis, vamos transformar no hexagrama de origem:

Onde temos 6 na primeira posição, 6 na segunda e 9 na terceira

Será o hexagrama 31 Hsien. Você deve ler portanto, Julgamento, Imagem e s linhas 6
na primeira, 6 na segunda e 9 na terceira, que dirão como deve ser conduzida a
questão.

Atenção: se no hexagrama houver 1 ou 2 linhas mutáveis/móveis, não há necessidade


de montar o segundo hexagrama, porque a situação permanece como está.
Se houver mais de duas mutantes, aí monta o segundo hexagrama que dirá como a
situação se desenvolverá no futuro. É o caso do nosso hexagrama.

Portanto, o hexagrama 31, vai se transmutar em:

Hexagrama 58 Tui, onde devo ler apenas o Julgamento e a imagem, que darão
um panorama de como a situação se tornará.

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CALCULANDO OS HEXAGRAMAS COM VARETAS – SIMPLIFICADO (SHI FA)

Por: Anderson Rosa – Frater Goya

Calcula-se os Hexagramas, pelo método das 50 varetas, da seguinte maneira:

01 - Pega-se as 50 varetas, e retira-se uma delas, que é o TAO, e que ficará de


lado até o final dos cálculos;
02 - Separa-se, aleatoriamente, as 49 varetas restantes, em duas partes, cada
uma com pelo menos duas varetas. Uma das partes, é colocada à esquerda do
consulente, e a outra à direita;
03 - Retira-se uma vareta do conjunto do lado direito e coloca-se entre os dedos
mínimo e anular da mão esquerda;
04 - Segurando essa vareta separa-se, com a mão direita, de 4 em 4, as varetas do
conjunto do lado esquerdo. Nessa divisão, restarão, 4, 3, 2 ou uma vareta, no
último grupo;
05 - Coloca-se as varetas restantes da divisão por 4 entre os dedos anular e médio
da mão esquerda;
06 - Efetua-se a mesma divisão por 4 no conjunto de varetas do lado direito.
Coloca-se o resto da divisão (4, 3, 2 ou 1) entre os dedos médio e indicador da
mão esquerda;
07 - O consulente possui agora, entre os dedos da mão esquerda, um total de 9 ou
5 varetas;
08 - Coloca-se de lado essas varetas que estão entre os dedos da mão esquerda;
09 - O grupo inicial de 49 varetas passa a ser de 44 ou de 40 varetas;
10 - Junta-se esse novo grupo de varetas (44 ou 40) e separa-se, novamente, em
conjunto da esquerda e conjunto da direita, aleatoriamente. Cada conjunto deve
possuir ao menos 2 varetas;
11 - Repete-se as operações do item 03 até o item 06;
12 - o consulente possui agora, entre seus dedos da mão esquerda, um total de 8
ou 4 varetas e coloca-as de lado;
13 - O grupo de varetas a ser trabalhado passa a ser agora de 40, 36 ou 32
varetas. Junta-se novamente, essas varetas e separa-se em 2 conjunto, cada um
com no mínimo 2 varetas;
14 - Repete-se, novamente, as operações do item 03 ao 06;
15 - O consulente possui agora entre seus dedos da mão esquerda, um total de 8
ou de 4 varetas (como no item 12) e coloca-as de lado;
16 - O grupo de varetas a ser trabalhado passa a ser agora de 36, 32, 28 ou de 24
varetas, junta-se essas varetas;
17 - Conta-se as varetas e efetua-se uma divisão por 4 no total de varetas desse
último grupo. O resultado da divisão será 9, 8, 7 ou 6 respectivamente;
18 - Se o resultado da divisão for nove, teremos Velho Yang, cuja representação
gráfica é:

19 - Obteremos, então, de acordo com o resultado da divisão por 4, a primeira


linha do nosso hexagrama. Ela será colocada na parte inferior o conjunto de 6
linhas. Logo, a linha inferior é a 1ª e a superior será a 6ª;
20 - Junta-se as 50 varetas e repete-se as operações precedentes (de 01 a 18) 5
vezes mais, para obtermos todas as 6 linhas do hexagrama.

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Depois, para se chegar aos hexagramas originais e a sua mutação, basta seguir o
que foi dito já na explicação dada com relação à montagem com as moedas.

IDENTIFICAÇÃO DOS HEXAGRAMAS

Para compor o hexagrama, basta seguir os dois trigramas que o formam; o ponto
de encontro dos mesmos indica o número do hexagrama desejado.

NOTAS SOBRE O SIGNIFICADO DAS FRASES ENCONTRADAS COM FREQÜÊNCIA NOS TEXTOS E
COMENTÁRIOS DOS HEXAGRAMAS

Sucesso Sublime – sucesso completo. O qi flui de acordo com os nossos desejos.

A persistência em um objetivo correto traz recompensa – pode-se prosseguir com os planos


atuais, desde que a atitude seja correta (sem visar o mal de alguém, por exemplo) e não
atrapalhe o bem comum. Nesses casos, convém ao consulente avaliar se a atitude é correta e
seus objetivos também sejam corretos e coerentes.

Nenhum erro ou culpa – se os resultados não ocorrem como esperados, não se deve a uma
atitude nossa. Eles acontecem assim devido a energias ou circunstâncias fora do nosso
controle.

Nada traz vantagem - é o momento de repensar a estratégia, e ver se não é melhor deixar os
projetos de lado por enquanto, porque nada de vantajoso virá nesse momento específico.

Será vantajoso atravessar o grande rio (ou mar) – é aconselhável fazer uma grande viagem.
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É aconselhável visitar um grande homem – pode-se obter algum benefício se buscar contato
ou conselhos de alguém que detenha sabedoria, poder ou valor moral e que possa lhe auxiliar.

É vantajoso ter um objetivo (ou destino) em vista – pode-se seguir em frente, desde que exista
um objetivo claro em vista.

A persistência traria infortúnio – a atitude mais sábia neste caso, é desistir completamente
destes planos.

Realização da Vontade – o objetivo pode ser alcançado, desde que seja moralmente correto. É
importante frisar que aqui se fala “Vontade” e não cumprimento de um “Desejo”. Vontade,
segundo o I Ching, quer dizer “desejo nobre”, ou em outras palavras, aquilo que permanece.

Avançar – seguir adiante, tanto literal como com os planos.

Vergonha – desgraça, tanto diante dos olhos alheios como diante de nossos próprios olhos, se
analisados imparcialmente.

Arrependimento – é a consciência de que nossos problemas atuais se devem à nossa falta de


planejamento ou atos impensados.

Homem Superior ou Grande Homem ou Santo Sábio – os 3 termos são sinônimos , indicando
uma pessoa de grande sabedoria e valor moral. Uma pessoa equilibrada, e que, ao errar, busca
reparar o próprio erro. Quando no texto de um hexagrama, aparece: “o Homem Superior faz
isso ou aquilo”... é uma indicação que devemos seguir o exemplo, certos que o objetivo será
alcançado “sem nenhuma culpa”.

AS TRANSFORMAÇÕES DOS HEXAGRAMAS

Os hexagramas podem sofrer até quatro mutações. Essas transformações são como
“caminhos” que por sua vez formam quatro realidades ou modos de se estudar os
hexagramas, ou ainda uma realidade que toma quatro manifestações diferentes. Os quatro
Caminhos são respectivamente: O caminho da Emoção, o caminho da Razão, o caminho Físico
e o caminho Psíquico. Estas transformações também auxiliam na metodologia de estudo para
a compreensão de determinado hexagrama.

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1) O Caminho do Sentimento – Hexagrama Antagônico (Chuo Gua)

Um hexagrama antagônico é aquele cujas linhas são exatamente as opostas umas às


outras. Ou seja: se na origem o hexagrama possui uma linha Yang, no antagônico esta será
uma linha Yin. Por exemplo, o hexagrama “A Realização”, torna-se o hexagrama “Humildade”.

Essas transformações representam as mudanças causadas na situação através da


emoção ou sentimento.

2) O Caminho do Pensamento – Hexagrama Invertido (Zong Gua)

Todo hexagrama tem sua inversão, e esta representa a necessidade de perceber que
todas as coisas possuem dois lados, ou ainda, outro ponto de vista. No entanto, 8 dos 64
hexagramas mantém a sua energia, mesmo na sua inversão, pois não é alterada. São eles: 0,
12, 18, 30, 33, 45, 51, 63.

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3) O Caminho Físico – Hexagrama Modificado (Bian Gua)

Um hexagrama modificado é aquele cujas posições entre os trigramas internos e


externos são trocadas entre si. Essa troca representa a exteriorização de um ideal interior e
também a interiorização de um ideal exterior, ou seja, aquilo que está presente internamente
em uma pessoa pode se tornar algo concreto caso a pessoa tenha capacidade de exteriorizá-lo.

4) O Caminho Psíquico - Hexagrama Nuclear (Hu Gua)

“O Hexagrama Nuclear é formado pelas quatro linhas do centro de um hexagrama;


o Trigrama Interno Nuclear é formado pelas 2ª, 3ª e 4ª Linhas do hexagrama
anterior e o Trigrama Externo Nuclear é formado pelas 3ª, 4ª e 5ª Linhas do
hexagrama anterior. O Hexagrama Nuclear representa as energias ocultas ou
inconscientes contidas no interior de um hexagrama; poderia significar a causa
psíquica de alguma situação ou saída para esta situação; ainda desconhecidas pelo
lado racional do ser.” – Cherng, Wu Jyh – I Ching, A Alquimia dos Números, Ed.
Mauad, 2003, RJ.

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Tabela de Hexagramas Nucleares

Hexagrama Nuclear Hexagrama Nuclear Hexagrama Nuclear Hexagrama Nuclear


1 1 17 53 33 44 49 44
2 2 18 54 34 43 50 43
3 23 19 24 35 39 51 39
4 24 20 23 36 40 52 40
5 38 21 39 37 64 53 64
6 37 22 40 38 63 54 63
7 24 23 2 39 64 55 28
8 23 24 2 40 63 56 28
9 38 25 53 41 24 57 38
10 37 26 54 42 23 58 37
11 54 27 2 43 1 59 27
12 53 28 1 44 1 60 27
13 44 29 27 45 53 61 27
14 43 30 28 46 54 62 28
15 40 31 44 47 37 63 64
16 39 32 43 48 38 64 63

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COMPREENDENDO A FORMAÇÃO DAS LINHAS MUTÁVEIS DOS HEXAGRAMAS DO I CHING

Ver também a respeito das mutações, o nosso tópico "TABELAS REFERENTES ÀS CINCO
ATIVIDADES 'WU HSING' CIÊNCIA)" - de John Blofeld

Ver também a respeito das linhas mutáveis, os meus comentários sobre o texto de Confúcio
(Kong Zi) no tópico "Sobre as linhas mutáveis dos hexagramas do I Ching" .

Os hexagramas ilustram os diversos processos da natureza em sua eterna mutação


(em mandarim, I). O I Ching, Livro das Mutações, apresenta um padrão ordenado dessas
mutações baseado num modelo matemático. Um certo padrão, conforme estabelecido pelo
primeiro dos autores do I Ching, Fu Xi, o criador dos trigramas e dos hexagramas. Segundo Fu
Xi, todo o universo é uma síntese de duas energias, em constante mutação. Essas energias Yin
e Yang mesclam-se em mudam de uma natureza à outra eternamente.

A linha Yang, é representada por uma linha cheia:

A linha Yin, é representada por uma linha interrompida:

Esta linha cheia (Yang) ou inteira, representa um espaço que vai do início ao fim, podendo ser
apreendida sua natureza, e, portanto, vale 1.

A linha interrompida (Yin) possui uma natureza subjetiva, representada por sua interrupção,
sendo não sendo possível compreendê-la por inteiro, e vale 2. Por que vale 2? Justamente
porque é impossível dividir uma coisa na metade. Não existe meia parte de coisa alguma. Só
existem coisas inteiras. Por exemplo: ao partir um lápis pela metade, não teremos 1/2 lápis,
mas sim 2 lápis, que mesmo sendo menores, formam uma unidade em si. A parte
interrompida, representa o Vazio (Tao), a não-existência, tendo como valor, o '0'. Logo:

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Ou seja:

Podemos ainda deduzir por esse raciocínio simples, aliado à imagem do Mapa do Rio
(um conjunto de esferas claras e escuras, ligadas por linhas representando os números de 1 a
10), que os números Yang são ímpares e os números Yin são pares. Desta forma, teremos:

O 9 representa o auge da energia ativa, Yang. No cálculo dos hexagramas uma linha de
valor 9, é chamada de Velho Yang, que se transmutará pela mutação do Qi em Jovem Yin.

O 6 representa o espaço vazio na linha interrompida, sendo a receptividade, e a


absorção do movimento, sendo o representante dos números Yin. No cálculo dos hexagramas,
uma linha de valor 6 é chamada de Velho Yin, que se transformará em Jovem Yang pela
mutação do Qi.

Quando jogamos com moedas ou com varetas, o resultado das operações sempre
será:

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As linhas sendo desenhadas de baixo para cima. É importante anotar corretamente para ver
como ficam as linhas mutáveis, que são o 6 e o 9. São as mutáveis que vão dizer para onde a
situação se encaminha.

Em um exemplo dado, vamos imaginar o Hexagrama 46 foi constituído pelas seguintes


linhas:

Note-se ao ler o livro (no caso, estamos usando como livro referência o I Ching de
Richard Wilhelm pela sua popularidade), vamos encontrar após a Imagem, a descrição das
linhas, conforme descritas por Zhou Gon, nos 384 Yao Ci, ou versos sobre as linhas, na seguinte
forma (no caso, citando ainda o hexagrama 46, Cheng/ASCENSÃO).

- 6 na primeira posição,
- 9 na segunda posição,
- 9 na terceira posição,
- 6 na quarta posição,
- 6 na quinta posição,
- 6 na sexta posição.

Muitas pessoas, ao lerem o I Ching pela primeira vez, se perguntam:


Por exemplo, um hexagrama, ao invés de ser 6 na primeira linha, não pode ser 9 na
primeira linha? Ou ainda, como se define que é 6 na primeira, 6 na terceira, etc.? Como foram
atribuídos esses valores às linhas? Para esse hexagrama, o número 46, a primeira linha
mutante sempre será com o valor 6?

Peço que acompanhem meu raciocínio.

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Porque é uma linha Yin, e portanto, se for o hexagrama de origem, será velho Yin que
se transformará em jovem Yang. Logo, sempre será 6, que é velho Yin.

Lembram-se dos nomes das linhas?


Uma linha 6, é a velha Yin, que se transformará na mutação em jovem Yang.
Uma linha 7, é a jovem Yang, portanto, ela permanece a mesma no primeiro e segundo
hexagramas.
Uma linha 8, é a jovem Yin, portanto, ela permanece a mesma no primeiro e segundo
hexagramas.
Uma linha 9, é a velha Yang, que na mutação se transformará em jovem Yin.
Por isso, as linhas 6 e 9 são mutáveis, pois representam a mutação das energias dentro do
universo.

No exemplo dado, nosso consulente tirou 3 linhas móveis. IMPORTANTE - Convém


lembrar que algumas autoridades no estudo do I Ching defendem que tirando-se entre 0 e 2
linhas móveis, não há necessidade de gerar o hexagrama mutante, pois a energia (qi) envolvida
na situação não é suficiente para gerar uma mudança, portanto, a resposta à pergunta do
consulente estará na(s) linha(s) mutáveis. Se não houver nenhuma linha, a resposta do
consulente estará no Julgamento do primeiro e único hexagrama.
No caso, nosso consulente tirou 3 linhas móveis:
6 na primeira, 9 na terceira, e 6 na quarta, havendo portanto, a energia necessária
para gerar o segundo hexagrama. Logo, o primeiro seria:

Na mutação, teremos:

]
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A resposta à pergunta do Consulente estará no Julgamento do Hexagrama Mutante.

Depois vejam o raciocínio por um hexagrama qualquer. Para que fique bem claro,
lembrem-se sempre que qualquer hexagrama na primeira posição representa o momento
atual (ponto de partida). Logo, nesses casos, uma linha cheia será sempre 9, e uma
interrompida sempre será 6. Ou seja: olhando de cara um hexagrama mesmo sem o livro, você
sempre saberá se as linhas mutáveis valem 6 ou 9.

Cada linha possui uma natureza, que descrita de forma simples, pode ser conforme
dado abaixo:
1ª linha = causa
6ª Linha = efeito
2ª linha = benção
5ª linha = ordália ou dificuldade
3ª linha - suave
4ª linha = rigidez

Lembrando sempre que a ordem das linhas é de baixo para cima.

Conciliando esses números com os atributos das linhas, pode-se deduzir se o


hexagrama é favorável ou não, se haverá mudança, se permanece como está, etc..

Talvez inicialmente esse raciocínio pareça complexo e sem sentido, mas com o tempo
e a intimidade ele se tornará mais claro.

SOBRE AS LINHAS MUTÁVEIS DOS HEXAGRAMAS DO I CHING

Dos Comentários de Confúcio sobre as Linhas Mutáveis, As Dez Asas, notas


minhas:

OBS: Os comentários de Confúcio estão em itálico.

As linhas representam as mutações do Tao em suas diversas manifestações


dentro do hexagrama, e combinam os 3 poderes (terra, o céu e o homem). Como são 2
trigramas x os 3 poderes, são 6 as linhas mutáveis. Essas manifestações das mutações
do Qi são diversas em sua natureza, o que dá a elas a sua natureza, que é dupla,
manifestando fortuna e o infortúnio, ou a benção e a advertência.

A linha na primeira posição é difícil de compreender. A linha na última posição é


fácil de compreender. Pois elas se encontram numa relação de causa e efeito. O
julgamento a respeito da primeira linha pondera; na última tudo já chegou à
conclusão.
- Onde, portanto, a primeira linha representa a Causa, e a sexta, o Efeito.

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Mas quando se quer explorar as coisas em suas múltiplas gradações, assim


como em suas intrínsecas qualidades, para distinguir o correto do incorreto, é preciso
considerar as linhas centrais, pois sem elas não se pode realizar, de forma completa,
nada disso.
- As linhas centrais representam, portanto, as qualidades centrais e intrínsecas
de cada situação, positivas ou negativas, firme ou maleável.

Sim, mesmo o que há de mais importante em relação à sobrevivência ou ao


perecer, em relação à boa fortuna ou ao infortúnio, pode ser conhecido no decorrer do
tempo. O sábio contempla o julgamento sobre a decisão, e pode assim chegar por si
mesmo à maior parte da conclusão.
- O Julgamento se somado às linhas, pode dar uma idéia bastante próxima do
sentido geral do hexagrama. Quando não há linhas mutáveis, a resposta está no
julgamento. Quando há linhas mutáveis, a resposta está no julgamento e nas linhas.

A segunda e quarta linhas são correspondentes em seu trabalho, mas se


diferenciam por suas posições. Elas não coincidem em relação ao bem. A segunda é,
em geral, elogiada, e a quarta usualmente traz uma advertência, por encontrar-se na
proximidade do governante. O significado do maleável é de que não é favorável para
ele estar afastado. Porém, o principal é permanecer sem culpa; sua expressão consiste
em ser maleável e central.

- Ou seja: a segunda linha trata das bênçãos, e a quarta linha, das advertências.
A quinta linha corresponde ao governante (ou chefe, ou ao superior de um modo
geral, àquele que governa sobre o consulente, ou tem poder de decisão sobre este), e
a segunda corresponde ao funcionário (ao consulente), e a quarta linha corresponde
ao ministro (que pode ser alguém que intercede pelo funcionário junto ao governante,
ou que faz o elo de ligação entre eles).

A terceira e a quinta posições se correspondem em seu trabalho, mas se


diferenciam por suas posições. A terceira linha em geral tem infortúnio e a quinta
usualmente tem mérito, pois estão escalonadas de acordo com a hierarquia. A mais
fraca corre perigo, a mais forte é vitoriosa.

- A terceira linha representa um perigo, pois é a transição entre o trigrama


inferior e o superior, estando, portanto, numa posição fraca, desprotegida. A quinta já
possui um mérito, pois é a linha do governante, e está protegida entre as linhas
superior e inferior do segundo trigrama, entre as energias yin e yang, do trigrama, ou
dito de outra forma, é o homem ocupando seu ligar correto na natureza entre a terra e
o céu.

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Blofeld, John – I Ching, o Livro das Transmutações, Ed. Record, 1968, RJ.

Cherng, Wu Jyh – I Ching, A Alquimia dos Números, Ed. Mauad, 2001, RJ.

Wilhelm, Richard – I Ching, O Livro das Mutações, Ed. Pensamento, 1988, SP.

REFERÊNCIAS NA INTERNET

HTTP://oraculo.cih.org.br

HTTP://www.salves.com.br/ching.htm

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