NORA ROBERTS

PERIGO
Atrás dela, na embarcação comprida em formato de projétil, as 18 pessoas sentadas em bancos acolchoados já contemplavam os peixes e as formações geológicas através do fundo de vidro. Liz duvidava que algum deles estivesse se lembrando das preocupações deixadas em casa. — Vamos passar pelo recife Norte Paraíso — começou Liz com voz grave e fluente. — As profundidades para mergulho variam de 25 a 45 metros. A visibilidade está excelente, portanto vocês poderão admirar estrelas-do-mar, corais-cérebro, anêmonas-do-mar e esponjas, além de cardumes de robalos-bicudos, garoupas e arraias-pintadas. As garoupas não são peixes bonitos, mas são versáteis. Nascem fêmeas e produzem ovos, depois mudam de sexo e tornam-se machos ativos. Liz ajustou o curso e manteve a velocidade constante. Continuou com suas explicações, passando a descrever o elegante cação-anjo colorido, o tímido roncador prateado de boca pequena e o intrigante e perigoso ouriço-do-mar. Seus clientes constatariam a utilidade de cada informação quando o barco atracasse no recife Palancar por duas horas para mergulhos com snorkel. Liz já fizera o percurso inúmeras vezes. Mesmo sendo rotina, nunca o achava monótono. A cada passeio, deleitava-se com a sensação de liberdade do mar aberto, do céu azul e do ronco do motor sob seu comando. O barco lhe pertencia, além de outros três e da pequena loja de mergulho feita de blocos de concreto próximo à praia. Conquistara aquilo tudo trabalhando arduamente. No início, teve dificuldades para pagar as contas exorbitantes com um fluxo de caixa mínimo. Mas conseguiu. Dez anos de luta, afinal, era um preço pequeno para que conquistasse algo seu. Voltar às costas para o seu país e deixar para trás tudo o que lhe era familiar foram compensados pela paz de espírito que sua vida atual lhe trazia. Sim, era isso que a pequenina e rústica ilha de Cozumel no Caribe mexicano lhe oferecia. Agora era seu lar, o único que importava. Ali fora aceita e era respeitada. Ninguém na ilha sabia da humilhação e do sofrimento pelos quais passara antes de fugir para o México. Liz raramente pensava naquilo, apesar de ter uma lembrança viva. Faith. Só de pensar na filha, já sorria. Faith era pequena, inteligente e muito querida, e estava longe demais. Mais seis semanas, pensou Liz, e ela estaria de volta para as férias de verão. Para Faith, morar com os avós em Houston foi a melhor solução, Liz se lembrava sempre que a dor da solidão se intensificava. A educação de Faith era mais importante do que as carências de uma mãe. Liz trabalhava

Negócio de Risco
Liz era a perfeita combinação entre inocência e mistério. E também a principal pista para encontrar o assassino de Jerry, irmão gêmeo do charmoso e cínico advogado Jonas Sharpe. Capítulo 1 — Cuidado para não cair, por favor. Atenção para não tropeçar. Obrigada. Liz recebeu o bilhete de um homem bronzeado de sol com palmeiras estampadas na camisa, depois aguardou pacientemente que uma mulher encontrasse o seu em duas cestas de palha volumosas. — Espero que não tenha perdido, Mabel. Eu avisei que era melhor deixar comigo. — Não perdi — disse a mulher irritada, e mostrou o pequeno bilhete azul de papel cartão. — Obrigada. Por favor, tomem seus assentos. — Demorou um pouco até que todos estivessem acomodados e ela fizesse o mesmo.— Senhoras e senhores, bem-vindos a bordo do Fantasy. Mesmo preocupada com seus problemas, Liz iniciou seu monólogo de abertura. Antes de ligar o motor, dirigiu um aceno impessoal com a cabeça para o homem no cais, que soltou as amarras. Sua voz era agradável e natural. Ela olhou novamente para o relógio. Já estavam 15 minutos atrasados. Pela última vez antes de partir, esquadrinhou a praia, as espreguiçadeiras, os corpos lustrosos de bronzeador estendidos como se fossem oferendas ao sol. Não podia protelar a saída por mais tempo. O barco balançou um pouco quando saiu do cais e tomou o rumo leste. Mesmo com o pensamento longe, Liz mudou o curso e afastou-o da costa com muita perícia. Poderia pilotar o barco de olhos fechados. O vento que batia no seu rosto era suave e já estava esquentando, apesar de ainda ser cedo. Nuvens brancas inofensivas pontilhavam o horizonte. A água do mar, com um rastro de espuma produzida pelo movimento do motor, era azul como prometiam os guias de turismo. Passados dez anos, Liz ainda dava muito valor a tudo aquilo, em parte por ser o seu sustento, mas também devido à atmosfera que relaxava os músculos e fazia os problemas desaparecerem.

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e lutava para que Faith tivesse tudo a que tinha direito, tudo o que teria se seu pai... Determinada, Liz desviou o pensamento para outras coisas. Há uma década, prometera a si mesma que esqueceria o pai de Faith, assim como ele a cortara de sua vida. Por causa de um erro, fruto da ingenuidade e da paixão, o curso de sua vida mudou para sempre. Mas restou-lhe de tudo isso uma herança preciosa: Faith. — Abaixo, podem ver os restos de um avião de 40 passageiros da Convair. — Diminuiu a velocidade do barco para que os turistas pudessem examinar os destroços e os mergulhadores que ali se encontravam para as explorações matinais. Bolhas emergiam dos cilindros de oxigênio como pequenos discos de prata. — Esse naufrágio não resultou numa tragédia — continuou ela. — O avião foi afundado propositalmente para compor o cenário de um filme, e agora serve para divertir os mergulhadores. Sua função era proporcionar o mesmo aos seus passageiros, pensou. Isso era fácil quando tinha um parceiro a bordo. No entanto, por estar sozinha, precisava pilotar o barco, manter o clima alegre e instrutivo, lidar com o equipamento de mergulho, além de servir o almoço e contar o número de passageiros. Mas não podia esperar mais por Jerry. Resmungou um pouco para si mesma enquanto aumentava a velocidade. Não tanto por importar-se com o trabalho extra, mas por achar que seus clientes pagantes mereciam o melhor que pudesse oferecer. Já devia saber que não podia depender dele. Seria fácil ter conseguido outra pessoa. No momento tinha dois homens no barco de mergulho e mais dois na loja. Como seu segundo barco de mergulho sairia ao meio-dia, não havia como deslocar alguém para o barco de fundo de vidro para um passeio de um dia. E Jerry se saíra bem antes, lembrou-se. Quando ele estava a bordo, as passageiras ficavam tão encantadas que nem pareciam prestar atenção nas águas navegadas. Quem poderia censurá-las?, pensou Liz com um meio sorriso. Não fosse ela imune aos homens em geral, poderia ter se apaixonado por Jerry. A maioria das mulheres tinha dificuldades em resistir àquele ar misterioso e atrevido, ao rosto bonito de covinha no queixo e olhos cinzentos. Diante daquele rosto, da estatura magra e musculosa e do jeito desembaraçado de se expressar, nenhuma mulher ficava insensível. Mas não era isso que tinha levado Liz a concordar em alugar-lhe um quarto e oferecer-lhe um emprego de meio expediente. Precisava da renda extra e também de ajuda extra, e era bastante perspicaz para reconhecer um bom profissional. A experiência ensinara-lhe que era bom para os

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negócios ter um bom profissional ao seu lado. Pensou que também era bom Jerry ter uma boa desculpa para deixá-la sem tripulação, depois esqueceu-se dele. A viagem, o sol e a brisa relaxaram-na. Continuou falando sobre a vida marinha, entrelaçando conhecimentos que adquirira sobre biologia marinha na faculdade com outros que aprendera na prática, ali mesmo, nas águas do Caribe mexicano. De vez em quando, um dos turistas fazia uma pergunta ou exclamava excitado ao avistar alguma coisa deslizar sob seus pés. Liz respondia, comentava e ensinava, ao mesmo tempo que mantinha o clima leve. Como três turistas eram mexicanos, ela repetia toda a informação em espanhol. E, para as crianças a bordo, apresentava os fatos de um jeito divertido. Se a sua vida não tivesse tomado outro rumo, ela teria sido professora. Há muito afastara aquele sonho antigo da mente e convencerase de que se ajustava mais à atividade do comércio. O seu comércio. Desviou o olhar para as nuvens que flutuavam preguiçosas sobre o horizonte. O sol dançava branco e nítido na superfície da água azul. Embaixo, os corais erguiam-se como castelos ou ondulavam como leques. Sim, ela escolhera seu mundo, e não se arrependia. Uma mulher gritou atrás dela, e Liz largou o acelerador. Antes que se virasse, o grito foi acompanhado de outro. Seu primeiro pensamento foi que talvez tivessem visto um dos tubarões que visitavam os recifes ocasionalmente. Determinada a acalmar e tranqüilizar o grupo, Liz deixou o barco ser levado pela corrente. Uma mulher chorava nos braços do marido, outra protegia o rosto do filho com o ombro. Os demais olhavam fixo para baixo através do piso transparente. Liz tirou os óculos de sol e desceu os dois degraus que levavam para o interior da cabine. — Por favor, procurem manter a calma. Eu lhes asseguro que não há nada aí embaixo que possa fazer mal a vocês aqui dentro. Um homem com uma câmera Nikon pendurada no pescoço e uma viseira cor de laranja que salientava a careca fitou-a nos olhos. — Moça, é melhor passar um rádio para a polícia. Liz olhou pelo piso transparente, através da água azul cristalina. Seu coração subiu à garganta. Agora sabia por que Jerry faltara. Ele estava estendido na areia branca do fundo do mar, com uma corrente de âncora em volta do peito. Logo que o avião terminou de taxiar, Jonas pegou sua bagagem de mão e aguardou impaciente para sair. Quando a porta se abriu, sentiu um

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bafo quente e ouviu o zumbido do motor. Cumprimentou o comissário e desceu a escada íngreme de metal. Não tinha tempo nem inclinação para apreciar as palmeiras, as flores ou o céu maravilhosamente azul. Caminhou resoluto, olhando em frente, os olhos apertados contra o sol. Pelo terno escuro e a gravata bem colocada, poderia ser um homem de negócios, alguém que tivesse vindo a Cozumel a trabalho. Qualquer que fosse a dor ou raiva que sentia, estavam cuidadosamente mascarados por uma expressão serena e distante. O terminal era pequeno e barulhento. Americanos em férias divertiam-se em grupos ou perambulavam aleatoriamente. Mesmo sem saber nada de espanhol, Jonas passou pela alfândega sem problemas, depois dirigiu-se para uma saleta pequena e quente onde várias pessoas aguardavam junto a um balcão para alugarem carros e jipes. Quinze minutos após a aterrissagem, Jonas já estava no estacionamento dando marcha à ré em um carro compacto, a caminho da cidade, com um mapa enfiado no quebra-sol. O calor queimava através do pára-brisa. Vinte e quatro horas antes, Jonas desfrutava do ar refrigerado do seu escritório amplo e elegantemente decorado. Acabara de vencer um caso demorado e difícil, que exigira toda sua capacidade e muita investigação. Seu cliente agora era um homem livre, absolvido de uma acusação criminal cuja sentença mínima seria de dez anos. Jonas recebera seu pagamento e sua gratidão e evitara ao máximo publicidade. Preparava-se para tirar suas primeiras férias em 18 meses. Sentiase satisfeito, vagamente cansado e otimista. Duas semanas em Paris pareciam à recompensa perfeita após vários meses de jornada de dez horas de trabalho. Paris, com sua eterna sofisticação, parques arejados, museus maravilhosos e incomparável cozinha, era precisamente o que Jonas Sharpe merecia. Quando recebeu o telefonema do México, demorou algum tempo para entender. Ao confirmar que tinha de fato um irmão Jeremiah, pensou logo que Jerry estava novamente envolvido em problemas e necessitando que ele pagasse uma fiança para libertá-lo. Ao colocar o fone no gancho, Jonas já não conseguia pensar em nada. Paralisado, deu instruções à secretária para cancelar as reservas da viagem a Paris e tomar novas providências para um vôo para Cozumel no dia seguinte. Depois, telefonou para os pais e contou que o irmão estava morto. Viajou ao México para identificar o corpo do irmão e levá-lo para ser enterrado em sua terra natal. Junto com uma nova pontada de dor, Jonas

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teve a sensação de inevitabilidade. Jerry sempre vivera à beira da tragédia. Desta vez, excedera-se. Desde criança, procurava encrenca — com muito charme. Certa ocasião chegou a brincar que Jonas tinha seguido a carreira de advogado para descobrir a forma mais eficaz de tirar seu irmão das enrascadas. Talvez aquilo não deixasse de ser verdade. Jerry era um sonhador, Jonas, um realista. Jerry tinha sido terrivelmente preguiçoso, Jonas era um workaholic. Eram os dois lados de uma mesma moeda. Quando estacionou o carro na delegacia de polícia de San Miguel, Jonas sabia que uma parte de si tinha morrido. O cenário do porto merecia ser pintado. Pequenos barcos de pesca descansavam na grama, barcos grandes permaneciam no cais e turistas de camisas floridas e shorts muito curtos passeavam ao longo do quebra-mar. A água agitada perfumava o ar. Jonas saiu do carro e encaminhou-se para a delegacia para começar a enfrentar as complicações burocráticas que acompanham uma morte violenta. O delegado Moralas era um homem direto e prático, natural da ilha, e dedicava-se com entusiasmo a protegê-la. Beirava os 40 anos e aguardava o nascimento do quinto filho. Tinha orgulho de sua posição, sua educação e sua família, nem sempre exatamente nesta ordem. Basicamente, era um homem pacato que apreciava música clássica e cinema nas noites de sábado. Como San Miguel era um porto, e os navios traziam marinheiros de folga e turistas em férias, Moralas estava acostumado a lidar com encrencas e o lado mais negro da natureza humana. Contudo, orgulhavase da baixa incidência de crimes violentos na sua ilha. O assassinato do americano incomodava-o da mesma forma que uma mosca incomoda um homem satisfeito sentado no balanço da varanda. Para um policial, não é preciso trabalhar numa cidade grande para reconhecer o serviço de um assassino profissional. Não havia espaço para o crime organizado em Cozumel. Mas Moralas também era um homem ligado à família. Entendia de amor e de sofrimento, assim como sabia que certos homens são compelidos a ocultar ambos. No ar frio e indiferente do necrotério, ele aguardava ao lado de Jonas. O americano, uma cabeça mais alto, tinha a expressão dura e abatida. — Reconhece seu irmão, Sr. Sharpe? — Nem precisaria perguntar. Jonas dirigiu os olhos para o outro lado da moeda. — Sim.

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Em silêncio, o policial afastou-se para dar a ele o tempo de que precisasse. Não parecia possível. Jonas poderia ficar horas fitando o rosto do irmão e jamais aceitaria. Em busca das soluções mais fáceis e de negócios fantásticos, Jerry nem sempre havia sido um homem digno de admiração. Mas era tão cheio de vida. Lentamente, Jonas pôs a mão sobre a do irmão. Já não havia vida ali. E não havia algo que ele pudesse fazer — nem estratégia, nem uso de influência — para trazer seu irmão de volta. Parecia impossível, mas não era. Com esse pensamento, retirou a mão delicadamente. — Sinto muito — disse Moralas. Jonas sacudiu a cabeça. A dor era como se enfiassem uma faca cega na base do crânio. Ignorou-a. — Quem matou meu irmão, delegado? — Eu não sei. Estamos investigando. — Já traçou um plano? Moralas gesticulou para que Jonas o acompanhasse para o corredor. — Seu irmão estava em Cozumel há apenas três semanas, Sr. Sharpe. No momento, estamos interrogando todas as pessoas que tiveram contato com ele durante esse período. — Moralas abriu uma porta que dava para fora do prédio e saiu, respirando o ar fresco e o perfume das flores. O homem ao seu lado não pareceu perceber a mudança. — Prometo-lhe que faremos todo o possível para descobrir o assassino do seu irmão. A raiva que Jonas controlara por muitas horas transbordou. — Eu não conheço o senhor — comentou ele. Com a mão firme, acendeu um cigarro e observou o delegado com os olhos apertados. — E o senhor não conhecia Jerry. — Esta é a minha ilha. — Os olhos de Moralas estavam presos aos de Jonas. — Se há um assassino aqui, eu o encontrarei. — Um profissional. — Jonas deu uma baforada, e a fumaça ficou suspensa no ar, sem nenhuma brisa para dissolvê-la. — Nós dois sabemos disso, não é? Por um instante, Moralas não disse nada. Ainda aguardava as informações sobre Jeremiah Sharpe. — Seu irmão levou um tiro, Sr. Sharpe, e estamos investigando para descobrir por quê, como e de quem. O senhor poderia ajudar fornecendo algumas informações.

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Jonas fitou a porta junto à escada por um momento, a mesma que, abrindo para o corredor, levava ao corpo de seu irmão. — Preciso caminhar — murmurou. Moralas manteve silêncio enquanto atravessavam a grama, depois a rua. Eles caminharam um pouco ao longo do quebra-mar. — Por que seu irmão veio para Cozumel? — Não sei. — Jonas tragou fundo o cigarro até queimar o filtro. — Jerry gostava de palmeiras. — Qual era sua profissão? Seu trabalho? Com uma meia risada, Jonas amassou com o pé o filtro que queimava. A luz do sol dançava no espelho d'água, produzindo um brilho de diamantes. — Jerry gostava de intitular-se um free lancer. Ele era um malandro. — E trazia prazer e problema para a vida de Jonas na mesma proporção. Jonas fitou o mar, relembrando suas vidas em comum, suas opiniões distintas. — Para Jerry, tudo se resumia sempre à próxima cidade e ao próximo negócio. A última vez que nos falamos, duas semanas atrás, estava dando aulas de mergulho para turistas. — Na loja de mergulho Black Coral — confirmou Moralas. — Elizabeth Palmer contratou-o em meio expediente. — Palmer. — A atenção de Jonas saiu da água. — É a mulher com quem ele estava morando. — A Srta. Palmer alugou um quarto para o seu irmão — corrigiu-o Moralas, repentinamente respeitoso. — Ela estava no grupo que descobriu o corpo dele e foi muito prestativa conosco. Jonas apertou os lábios. Como Jerry descrevera Liz Palmer na breve conversa telefônica que tiveram há algumas semanas? Uma mulherzinha sexy que fazia tortillas fantásticas. Pareceu-lhe mais uma dessas mulheres em busca de um divertimento e da melhor oportunidade. — Vou precisar do endereço dela. — Diante da expressão impassível do delegado, Jonas completou: — Suponho que os pertences de meu irmão ainda estejam lá. — Estão. Alguns de seus objetos pessoais estão comigo, na minha sala. O senhor poderá levá-los, além do que ficou na casa da Srta. Palmer. Já examinamos tudo. Jonas procurou reprimir a raiva crescente. — Quando poderei levar o corpo de meu irmão para casa? — Farei o possível para terminar hoje os procedimentos burocráticos. Vou precisar de uma declaração sua — informou Moralas. —

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O melhor a fazer era empacotar as coisas dele e entregar à polícia. Mas Liz o afastara facilmente. foi para o quarto e vestiu uma camisa de tamanho bem grande que lhe cobria as coxas. Agora. mais acessível. Lembrou-se de como Jerry tentara dormir com ela poucos dias depois de mudar-se para lá. Ele se gabava de estar prestes a fazer um grande negócio que lhe permitiria viver uma vida de luxo e conforto. poderia ter sabido melhor quem ele era. por fim. A verdade é que Jerry Sharpe era um homem bem-humorado e agradável que sonhava alto. já que. o som das pás cortando o ar era tudo o que queria ouvir. pensou Liz ao fechar as torneiras. Mas. Ainda assim. Liz cerrou os olhos e deixou a água cair sobre a cabeça e o corpo. e eu não tive nenhuma culpa nisso. Liz interpretara aquilo como pura conversa fiada. Queria que a investigação terminasse logo. mas ela recusou porque precisava cuidar da contabilidade da loja. Ele recebera sua recusa com tranqüilidade. uma boa companhia. mãos suaves. Liz entrou em casa. Inesperadamente. há alguns formulários a preencher. conhecera-o muito pouco. Conversa mole. Pelo menos é alguma coisa. Liz usou todas as três características em benefício próprio quando ele dava aulas de mergulho ou atuava como seu parceiro em algum dos seus barcos. mas chegara a recusar uma dúzia de pessoas. de onde vinha. Jonas limitou-se a um aceno de cabeça. Se Liz fosse uma mulher que se permitisse sonhar. Enquanto a porta se fechava. Jerry falara de um irmão. O que sabia a respeito de Jerry Sharpe? Que era americano. Não era a alta estação. — Vamos acabar logo com isso — disse. Se lhe tivesse dedicado uma hora da sua vida.NORA ROBERTS Claro. Quando bateram à porta. Liz limpou as lágrimas do rosto. ligou alguns interruptores. por que havia morrido. Quanto tempo levaria para esquecer a imagem de Jerry na areia. arrependia-se de ter priorizado algo tão insignificante. Ele chegou a convidá-la para uns drinques. desejando que a dor de cabeça passasse. continuava vendo Jerry ali. quando Jerry falava nisso. Liz envolveu os cabelos na toalha. pensou. atraente e basicamente preguiçoso. A dor de cabeça que a acompanhava havia mais de 24 horas parecia um golpe surdo e irritante logo abaixo da têmpora direita. a única maneira de ganhar muito dinheiro era trabalhar duro por muito tempo ou receber uma boa herança. Não houve tempo suficiente para considerá-lo um amigo. pilheriando sobre dormir com a coleção de bonecas de Faith. Jerry era tão ativo. os sonhos são para os jovens e os tolos. seus olhos brilhavam. e um sorriso fascinante iluminava seu rosto. e seus pertences ainda estavam espalhados pelo quarto de sua filha. Mas. Lembrou-se de quando ele consertou uma janela que estava prendendo e da paella que cozinhou para comemorar seu primeiro salário. tão jovem. teria acreditado nele. Mas não podia continuar pensando nisso. E lamentou concluir que Jerry Sharpe era ambos. Certamente a família dele estaria interessada em receber o que quer que ele tivesse deixado. Dormia na cama de sua filha e comia na sua cozinha. para ela. pois já tinha sido muito difícil ter a polícia na sua casa examinando as coisas de Jerry e fazendo perguntas. Agora ele se fora. sinto muito. um bom profissional e um conquistador de mulheres. pois nunca resolve nada. A dor de cabeça estava aliviando. — Mais uma vez. Encaixotaria as coisas de Jerry e perguntaria PERIGO ao delegado Moralas o que fazer com elas. Liz perguntou-se. Vou arrumar tudo. Liz sentiu as primeiras lágrimas rolarem. Não é todo dia que se encontra um corpo no litoral. e uma multidão de curiosos tinha aparecido. e logo dois ventiladores de teto começaram a girar. no fundo do mar? É verdade. Tinha decidido telefonar para Moralas 5 . se os sonhos de Jerry estavam ligados à sua morte. Ele a empurrara contra o vão da porta e a beijara. Novamente tinha saído com o barco de fundo de vidro. Em cinco minutos de arrumação Liz estava incomodada por invadir a privacidade de outra pessoa. mas ele tinha dormido na cama de sua filha e deixado as roupas no armário dela. interessante. — Ao ver o semblante impassível de Jonas. Dobrou uma camiseta marrom desbotada que parecia ter sido usada para uma caminhada pelo Grand Canyon e procurou simplesmente não pensar. na sua opinião. não ter sido mais amigável. mas ele era divertido. tão autoconfiante. o que para ela era um bem precioso. Liz lamentava não tê-lo ouvido mais. antes que ela pudesse esquivar-se. contudo. Naquele momento. Mórbido. Despiu-se e entrou no chuveiro frio. pensou. a quem se referira afetuosamente como "o almofadinha". teve pena. e a relação dos dois desenvolvera-se sem ressentimentos. Jerry Sharpe morreu. Liz enxugou as lágrimas e encaminhou-se para a porta. e não era a primeira vez. Considerava-o inofensivo — sensual. Entrou no banheiro e tomou duas aspirinas antes de ligar o chuveiro. É tolice chorar. Jerry Sharpe não era nada conservador.

Por um instante. Liz indicou uma cadeira. Foi além da curiosidade natural e fez com que ela se sentisse como um objeto.NORA ROBERTS imediatamente e combinar de virem buscar as roupas. — Sinto muito. Jonas sentou-se e olhou ao redor. Jonas acreditava conhecer o gosto do irmão como o seu próprio. A luz do sol. Tinha o mesmo cabelo preto e cheio. Liz demorou apenas um instante para ser tomada de raiva.. também. — Vim pegar os pertences de Jerry. estava exatamente pensando que. — Liz enxugou as palmas das mãos úmidas nos joelhos. Sem ser bonita. mas não conseguiu tirar os olhos daquele rosto. era um rosto que evocava o instinto de ousadia da mulher. e sua cabeça começou a latejar. O choque inicial tinha passado. Afinal. Piscou várias vezes para ver melhor. nem no seu próprio gosto de uma sofisticação discreta. Liz nada falou quando ele examinou a sala porque também o estava analisando. Seu rosto também era muito atraente e irregular. — Posso sentar? — perguntou ele. — Precisava ver sua reação. A camiseta que segurava escorregou de seus dedos. Não tinha o olhar educado e casual que um estranho deve ter quando entra na casa de alguém. deixando descobertas somente as pernas longas e bronzeadas. Enquanto ele examinava a sala. já fraca. A dor se apresenta de formas diferentes em cada pessoa. mas não era revolto como o dele. Ao perceber que seus joelhos tremiam. não estava envolvida de modo algum naquilo tudo. tão frio. Ouviu-o falar com ela de novo. É um momento difícil para o senhor. havia um grande vaso azul sobre um pano. não podia voltar. E as cópias não são como negativos? Mas ele não parece ser uma companhia divertida. — Fez isso de propósito. Enquanto ele preferia cores tranqüilas e linhas sóbrias. Liz sentou-se imediatamente. mas agora ela própria era o objeto de análise. — E um momento difícil para você. O rosto anguloso tinha maçãs salientes. eram pequenas e delicadas. A camisa farta cobrialhe o corpo. Sr. Sentiu uma necessidade louca de mandá-lo embora rapidamente. Não era supersticiosa. Liz escolhera tons vibrantes e contrastantes e enfeites bizarros. Jerry vivera com ela. É a cópia de Jerry. As mãos sem anéis. Liz sentou-se e respirou fundo. pensou. — Você é Liz Palmer? — Eu vi você. Sua postura era de raiva retraída e impaciência. não é Jerry. — O senhor é um canalha. apoiadas nos braços da cadeira. e tapetes de diferentes tamanhos e cores cobriam o chão. ficou ali. pensou. mas logo viu que seria ridículo. arquivado e etiquetado para pesquisas posteriores. mas um olhar aguçado com o qual examinava intensamente tudo o que pertencia a Liz Palmer. — Foi uma atitude repugnante. Sharpe. — Elizabeth Palmer? Liz sacudiu a cabeça. Sobre a mesa. E conversar com você. Liz não era o que ele esperava. — Liz corajosamente elevou a voz. Sharpe. Sr. desolado. O móvel estava coberto com uma fina camada de pó. e quase gritou quando ele deu um passo adiante. ou seus sonhos de aventura. Jonas Sharpe ameaçou sorrir. — Quem é você? — Jonas Sharpe. com os ventiladores girando no teto. na sua sala de estar. O homem que estava à sua porta encarava-a de volta com um ar acusador. mas as flores amarelas estavam perdendo as pétalas. Meu irmão gêmeo. Várias máscaras Maias enfeitavam as paredes. de fato. enquanto as batidas de seu coração se estabilizavam. Seu exame demorado abalou-a. era extremamente atraente. Sabia que eu o confundiria quando abrisse a porta. Ainda assim. PERIGO — O que deseja? — quis saber ela. Deu um passo cambaleante para trás. a covinha no queixo. entrava pelas ripas das venezianas vermelhas. pensou ela. nariz comprido e afilado e um pequeno furo no queixo. E este homem usava o terno com a naturalidade de quem nasceu vestindo um. Ainda assim. Era uma sala de estar pequena. mas ela nunca vira em Jerry um olhar tão duro. pouco maior que o escritório dele. E tinha perdido o irmão. Quando abriu a porta. ele não significava nada para ela. os olhos misteriosos sob as grossas sobrancelhas escuras. ela estava indiferente.. aterrorizada. vendo Jerry Sharpe atravessar a soleira da porta. Não. — Jer-Jerry — conseguiu dizer Liz. que ela estava lidando muito bem com o assassinato de seu amante. Pela primeira vez em muitas horas. quando alguém morria. Jonas observou. Talvez fossem os lábios cheios e sensuais. O jeito arrogante. que novamente ficou tensa. só conseguiu encará-lo. Jerry era meu irmão. Os olhos dele voltaram a cravar-se nos de Liz. Acreditava que. Liz Palmer não se enquadrava no tipo vistoso e exuberante que atraía Jerry. Talvez fossem os olhos castanhos e exóticos. 6 .

— Sinto muito — murmurou ela. Decidiu que já tinha respondido a todas as perguntas importantes e dedicado tempo mais do que suficiente a Jonas Sharpe. horrorizada. 7 . — Não. — Não sei nada a respeito da vida pessoal de Jerry. Sentia-se como se estivesse falando através do sonho de outra pessoa. Sem se virar. Seu irmão viajava com pouca coisa. Não era grande. Não estava olhando para ela... passeios de barco. puro. dei-lhe o emprego. — Liz levantou-se. Jerry trabalhava para mim. — Sinto muito. Sr. — Em mergulho. mas ele pôde ver o tecido cor de laranja que cobria uma cama de junco e uma escrivaninha cheia de arquivos e papéis. E para as roupas do irmão jogadas negligentemente sobre o espaldar de uma cadeira pintada de branco e sobre uma colcha florida. Quando não tinha probabilidade de ser aceita. — As coisas de Jerry estão aqui.. — Eu só o conheci há poucas semanas. aulas. — Não. Era arrogante e tinha consciência de seu charme. diversão. — Aborrecida. nem de seus pertences. — Ele apareceu na minha loja faz algumas semanas. só isso. — Creme? Jonas passou a mão pelo cabelo. Ele tripulava o barco de mergulho.. Mas a polícia já. — Ele não era seu sócio? A expressão de Liz demonstrou orgulho. Liz fitou-o levemente surpresa. — Você se parece muito com ele. Jerry era um bom profissional — murmurou ela. incrédulo. Ele deixou a mala na sala de estar e caminhou pela casa. Liz encheu uma segunda caneca.. Continuou até os fundos da casa. — Isso a perturba? — Me deixa nervosa. caíram em torno do rosto e dos ombros. Duvidava que ele fosse um homem que alguma vez necessitasse se anunciar. Sharpe. eu não estava apaixonada por ele. mas seus olhos permaneceram frios. — Ainda não examinei as gavetas do armário. Jonas ergueu as sobrancelhas. Jonas não sabia ao certo. Jonas não precisou de mais do que 20 minutos. Os cabelos louro-escuros. outra vida. deixando-o sozinho. Por mais que percebesse suas desconfianças quanto a ser amante de seu irmão. — Não preciso de sócios. Jerry comentara que estava planejando um grande negócio. Liz endireitou-se na cadeira. ainda PERIGO úmidos. Liz puxou a toalha da cabeça. desprezo. Liz compreendeu o sentido. já tinha lidado com aquilo na polícia. Pode levar o tempo que precisar. dava algumas das aulas para turistas. Como entendia do assunto.. E Liz. — Ela está estudando fora. Jonas segurou-lhe o braço. Quando Liz se virou para oferecer-lhe a caneca. tomando um gole do café. Estava interessado em mergulho. — Como o conheceu? Ao ver suas palavras de pêsames interrompidas. Quando Liz se virou para deixar o quarto. depois fitou-o. Ao sentir o cheiro do café. Jerry estava procurando trabalho. mas eu gostava dele. Não precisava que ele falasse para perceber sua presença. Sentiu reviver toda a sua dor. Tive muitas freguesas voltando nas últimas semanas.NORA ROBERTS — Jerry era um homem bom. Não é fácil. — É só isso? — Parecia tão pouco. É aqui que Jerry dormia — concluiu Liz. — Você não estava apaixonada por Jerry.. não imaginava que ele seria tão direto. saiu da sala e esperou por Jonas na porta do quarto da filha. ele percebeu seu ligeiro choque. — Tenho uma loja de mergulho na praia: aluguel de equipamentos. Tinha um leve cheiro de flor e talco. O quarto seguinte estava escurecido pela luz fraca do entardecer. Este é o quarto da minha filha. Jonas lembrou-se que não comia desde aquela manhã. — Depois ela riu. não oferecia sua amizade. Jonas bebeu o café e começou a ver as coisas com mais clareza. lembrando-se de outro tempo. mas para o quarto com as prateleiras de bonecas. Mostrar aos turistas como usar um manômetro não se encaixava com a última conversa que Jonas tivera com o irmão. onde encontrou a cozinha. Se ele queria apenas fatos. Nós tínhamos um relacionamento de trabalho. ela lhe daria fatos. O senhor deve preferir fazê-lo pessoalmente. as paredes pintadas e as cortinas rendadas. — Só? — questionou Jonas. De algum modo. — Ela virou a cabeça e os olhos de ambos se encontraram.. — Eu estava justamente começando a empacotar seus pertences. seu rosto pareceu ainda mais vulnerável. Algo que lhe renderia muito dinheiro. — Mas estava morando aqui. esse tipo de coisa.

Se precisar. cilindros. Talvez eu ainda precise conversar com você. Palmer — corrigiu-o. Máscaras. E espero que quem. Espero que eles sejam pegos. Ele trabalhava para mim. trabalhava para você. ficar sem trabalhar de fato. Não vou ajudá-lo. mas interpretou à sua maneira. — Terminei.. nem tão gentis. Ao lado. PERIGO Jonas depositou a caneca sobre a mesa. — Jerry estava morando na sua casa. Sharpe. Se já terminou o café. — Interessado. Liz pensava em pintar a parede externa. Seus olhos. geralmente suaves e tristes. Ela cheirava a talco e não usava maquiagem. O leve tremor em seu estômago lembrou-lhe que frio costuma ser mais perigoso do que calor. Mas havia algo no seu olhar. — Quando Liz voltou a fitá-lo.. relembrou-se. Liz aprendera que. todos os mergulhadores dedicados já tinham alugado seus cilindros. Não sei aonde ia à noite. Ele inclinou a cabeça e pegou a carteira. Não é o tipo de Jerry. — Não há mais nada que eu possa lhe dizer. Quando começou. — Está bem. — Conheci outros — disse ela com a voz sem emoção. Palmer. em inglês e espanhol. — Boa noite. repetiu para si mesmo. ela se dera ao prazer de não estar nos passeios de barco para que pudesse ficar sozinha na loja. oito anos antes. O resto da sala estava repleto de equipamentos que ocupavam o chão. via também o sofrimento nos olhos de Jonas Sharpe. as prateleiras e alguns ganchos na parede. Liz adquiriu um número suficiente de cilindros e utensílios para equipar 12 mergulhadores. Mas ainda podia ver Jerry sob seu barco. ficava o balcão de atendimento. — Já falei com a polícia várias vezes. Não queria falar com ele outra vez. Estava cansada de ter sua vida atrapalhada por causa da morte de um homem que mal conhecia. — Srta. O equipamento era o que tinha de mais importante na loja. — Ele a examinou mais uma vez. Jonas aproximou-se. mais fácil era alugar os artigos e ter o cliente de volta. Ao meio-dia. portanto o movimento na loja seria esporádico. E. quanto mais ampla a escolha. das pessoas que a apontavam na praia como a mulher que tinha encontrado o corpo. — Eles serão. e observou o reconhecimento dele no aceno lento de cabeça. snorkels podiam ser alugados individualmente ou em quaisquer combinações. e os olhos de ambos ficaram no mesmo nível. Sra. — Eu não sei de nada. serviços e os preços correspondentes. Eu o via algumas horas do dia.NORA ROBERTS — Sim. que era fechada à noite com uma veneziana pesada de madeira. era um descanso raro que ela só se permitia quando Faith estava em casa. pois Jonas a impressionara por ser o tipo de homem que poderia transtornar sua vida pelo tempo que quisesse. — Sinto pelo seu irmão. Não é da sua conta. pensou novamente. mas ela recuou. Capítulo 2 Para Liz. Mas não é da minha conta. — Não pode saber disso até nós conversarmos. Jonas viu que estava tensa. não pretendia estar envolvida de modo algum. estava afixada na parede externa da loja.. Liz observou os olhos cinzentos e gelados. Quando Liz abriu as mãos. Por enquanto. Não era da minha conta. — Não tão inofensivos. Isso daria a Liz a chance de passar algumas horas examinando os equipamentos e preparando o inventário. — Nós discordamos.. com quem se encontrava ou o que fazia. — Não posso ajudá-lo. uma ampla abertura quadrada feito uma janela. — De fato ele era. Liz ficou onde estava até o barulho da porta batendo ecoar até ela. — Ele não me devia nada. trabalhar na loja de mergulho era quase como tirar um dia de folga. A loja era uma construção de blocos de concreto. Depois fechou os olhos. sua expressão estava imóvel. Parecia um pedido simples. — Jerry lhe devia algum dinheiro pelo quarto? Liz sentiu o insulto como uma bofetada. E de fato estava nervosa. Sr. Sua mesa precisava de um trato. mas nunca conseguia um empréstimo para o gasto extra. sinto por você. Estava cansada das perguntas. agora. nem você deve. ou o seu. faiscaram.. Liz era uma mulher alta. Aliás. eu a usarei para descobrir. Mas deve saber de alguma coisa. mas o equipamento era excelente e estava em perfeito estado. Uma lista com todos os apetrechos disponíveis. Ela 8 . desde que ele pagasse pelo quarto e aparecesse para trabalhar.. nadadeiras. longe da loja e dos barcos. — A voz de Liz elevou-se quando ela girou e se afastou para olhar pela janela. Hoje. Seu irmão era um bom homem. Havia um cantinho com uma mesa de aço cinza e uma cadeira giratória que ela ironicamente chamava de escritório. só que a maioria das pessoas não compreendia. Não era o tipo de Jerry.

da Lousiana e da Flórida precisarem de férias para relaxar. dezenas de snorkels. Olhou para o relógio. Viu as ruínas? — Minha mulher me arrastou para Tulum. Surpresa. Liz achava que já estava acostumada ao comentário. — Sr. Ambuckle. câmeras fotográficas à prova d'água e equipamentos diversos para lazer e para a prática de pesca submarina. pensou Liz. Você o conhecia? Não. — Sim. Liz levantou-se e dirigiu-se para o balcão. Faith retornaria e se relacionaria com os primos. — Na verdade. Para manter as mãos ocupadas. A garota logo se tornou mulher. Consegui mergulhar um pouco com snorkel.. Não por vingança. — Acrescente uma câmera. Faith aprenderia a falar francês.. no mesmo nível. Aos 18 anos. — Liz apreciava o fato de tantas pessoas do Texas. e sua expressão ficou distante. ou na profissão a que tinha aspirado. Já não desejava o homem que a rejeitara e a criança que tinham feito. O primeiro barco que comprou. Liz tinha feito uma promessa a si mesma de que proporcionaria à criança que trazia no ventre o que houvesse de melhor. — Não era aquele jovem bonito.NORA ROBERTS empregou todas as economias — o dinheiro que Marcus tinha dado a uma garota jovem e ingênua. a ilha para onde fugiu tornou-se seu lar. Coisas feias. grávida de um filho seu. Ambuckle era um freguês assíduo que vinha a Cozumel duas ou três vezes por ano e sempre alugava muitos cilindros. — Mais duas semanas. — Ele deu de ombros e sorriu para ela com olhos azuis esbugalhados. Ela nunca retornaria. Mas não venho de Dallas até PERIGO aqui só para bater pé na superfície. — Sim. Depois de assinar.. senhorita. — Liz arrastou os cilindros pela porta e colocou-os na varanda. — Dei uma fugida a Cancun por alguns dias. — Isto deve resolver. mocinha! Agachada perto da parede dos fundos. não tão bem quanto deveria. Quanto tempo ainda vai ficar por aqui? — perguntou ela ao examinar uma lanterna submarina. Ver a filha aceita com a mesma facilidade com que ela fora rejeitada. Esse era seu sonho. fora batizado de Faith. Dez anos depois. — Claro. Mas o mergulho é melhor aqui. Pensei em fazer um pouco de mergulho noturno. Às vezes. eu também achava isso. foi respeitada. Com um sorriso. — Tinha muita energia. ela pegou um formulário de aluguel de equipamento e começou a preenchê-lo. e seus olhos sempre atentos tornaram-se suaves e acessíveis. Johnny. e dela dependia. — Resolverei seu problema imediatamente. Liz sorriu. Já não pensava na educação que mal iniciara. — Não me diga! — Os pequenos olhos azuis de Ambuckle brilharam um pouco. um especial para mergulho. Já não olhava para além da extensão de areia branca e água azul com saudades de Houston. Minha mulher ficou encantada com ele. — O senhor está falando do americano assassinado? — Minha mulher entrou em parafuso. e agora tinha um negócio que incluía 50 pares de cilindros de oxigênio. — Eu poderia ter avisado o senhor. Um dia. Ambuckle. — Talvez se lembre dele — acrescentou Liz. Viu uma figura corpulenta dentro de uma roupa de mergulho preta e vermelha. Liz virou-se e apertou os olhos contra o sol. encimada por um rosto rechonchudo com um charuto grosso na boca. — Ouvi dizer que você passou por momentos emocionantes enquanto estávamos do outro lado. Liz retirou uma da prateleira e acrescentou-a a lista em um formulário impresso. O sorriso murchou. é importante me afastar um pouco do trabalho. Jerry. mas sentiu um calafrio na espinha. — Fez parte da tripulação da última vez que o senhor e sua mulher saíram no barco de mergulho. pensou Liz enquanto enchia os cilindros. Mais do que isso. Quase não consegui convencê-la a voltar para cá. ele 9 . mas por uma questão de justiça. Quero tirar uma foto de uma dessas lulas. em homenagem à sua filha. — Não brinca! — Ambuckle fez cara de espanto enquanto mastigava o charuto. sonhando com uma casa bonita e um belo gramado verde. sozinha e amedrontada. — Olá. — Uma lástima — murmurou Ambuckle. usaria vestidos de seda e conversaria sobre vinho e música. Mas Faith podia voltar. Ali se estabeleceu. que parecia contente por ter conhecido a vítima. anotou a hora e virou o formulário para receber a assinatura de Ambuckle. Liz podia passar os olhos pela loja e saber que tinha cumprido a promessa. Sr. eu não sabia que ainda estava na ilha.. ele mesmo. ele trabalhou aqui por algum tempo. — É melhor estar dez metros embaixo d'água do que passar o dia inteiro escalando rochas.

Sr. vai ter que me dar licença. Preciso da sua ajuda. Sharpe. — Eu não voltei aqui para fazer turismo. — Sr. Sr. — Você mora aqui há dez anos. Sharpe? Posso recomendar o snorkel nesse recife. Enquanto Liz examinava o equipamento. — Então não vai fazer mal conversar comigo.. — Pois deveria.NORA ROBERTS lhe entregou várias notas como depósito. seus olhos estavam quase escondidos pelos óculos escuros. Aprendera a usá-la como arma dentro ou fora do tribunal. — A investigação está meio parada e a polícia não fez nenhum progresso. a voz distante. A que horas você fecha? — Quando termino. mudou o peso do corpo para um dos lados do quadril e dirigiu-lhe um olhar levemente insolente. Nunca mais o tomaria por Jerry. Como não era do seu estilo conversar só por educação. — Não. Com uma nota de 20 dólares dobrada na mão. Para se defender. Prazer em vê-lo de volta. — Com um sopro e um gemido. A não ser que deseje alugar algum equipamento ou se inscrever para um passeio. individual ou em grupo. mas olhou-o fixamente. Mesmo que quisesse. — Obrigada. Construiu esta loja desde o primeiro tijolo e tem um dos negócios mais bem-sucedidos da ilha. Palmer. desta vez. destrancou o cofre e guardou o dinheiro. Ele sorriu para ela pela primeira vez. Nenhum equipamento defeituoso saía de sua loja. Sr. sem querer admitir. Liz observou-o alcançar a calçada da loja. achou difícil utilizá-la com eficiência. mesmo assim.. — Talvez. senhorita. e ele estava usando short e uma camisa esporte. Sinto muito. Posso fornecer-lhe o que for preciso. não há nada que eu possa fazer para ajudar. — Não vou me envolver. Liz examinou meticulosamente a máscara que tinha nas mãos. recomendo algumas aulas básicas antes de se aventurar. obrigada. — Isto é Cozumel. Isso lhe facilitaria fazer o que pretendia. — Eu não esperava revê-lo. Poderemos conversar. percebeu Liz. balbuciou um pedido de snorkel para si e para o irmão. — Jonas observou-a descer o material da prateleira. Agora. se ela achava que eles veriam um tubarão. num espanhol rápido e animado. — Você tem uma ótima reputação aqui na ilha. Jante comigo esta noite. — Verdade? — Eu averigüei — disse ele. quando um menino se aproximou da janela. Administrar esta loja não é um capricho ou diversão. mais importante que tudo. — Está interessado em alugar algum equipamento. uma corrente de ouro comprida com uma pequena moeda pendurada fez Liz lembrar-se de que Jerry também usava uma. Não trabalhamos das nove às cinco aqui. — Um drinque. — Os negócios vão bem. — O sorriso fez diferença. curvando levemente os lábios. Ela parecia mais forte e menos vulnerável do que quando a vira há uma semana. Se eu tiver algumas horas livres à noite. — Tenho muito pouco tempo livre. então.. não é necessário ter licença para mergulho. PERIGO — Talvez eu aceite seu conselho. ele lhe perguntava. — Ela largou a máscara e escolheu outra. sua filha chegaria em poucas semanas. Ele usava um calção e estava todo besuntado de loção de bronzear. Os olhos estavam frios. Sharpe. ele levantou os cilindros e colocou-os nos ombros. Liz terminou de trancar o cofre e começou a examinar as tiras e os fechos na prateleira de máscaras. em dinheiro vivo. Liz apreciava o fato de Ambuckle sempre pagar em dólar. se bem que. Liz retirou a mão. Desta vez. — Jonas era conhecido por sua excessiva e infinita paciência. Mas acho que vou preferir mergulhar mesmo. arquivou o recibo. Prometera a si mesma que não seria enganada por palavras suaves e olhares penetrantes. Liz não tentou libertar sua mão. — Muito bem. em vez do terno. — Não. Em volta do pescoço. — Não pode manter-me afastado.. entregou o equipamento e respondeu com toda seriedade: 10 . Liz interrompeu o que fazia e se virou. Liz assustou-se com aquela voz e levantou os olhos para fitar Jonas Sharpe. não vou desperdiçá-las sendo interrogada pelo senhor. Administrar um negócio ensinou-lhe ser educada em qualquer circunstância. Ele se aproximou e cobriu a mão dela com a sua. Liz começou a rejeitá-lo novamente. — Liz também era conhecida por sua paciência. alguma coisa no jeito da boca fazia-o parecer mais alto e forte do que o outro homem que ela conhecera. o que suavizou a rigidez de sua expressão. Nós oferecemos dois cursos. Ambuckle. Liz recebeu o dinheiro. Tinha sua vida e seu trabalho e. requer muito trabalho. — Srta. Mas alguma coisa na postura de Jonas. Com Liz. — No México.

Às 7hl5 o sol já estava alto e dissipava a névoa baixa. e a voz calma e insistente.. Liz pegou o dinheiro. Srta. — Ele pegou a carteira de dinheiro. Jonas depositou quatro notas de 50 dólares no balcão. pensou Jonas. — Não mudarei. PERIGO — Minha agenda para amanhã já está lotada... — Eu odiaria mencionar no hotel que não fiquei satisfeito no The Black Coral. secamente. nunca tinha percebido o quanto os olhos podem espelhar os sentimentos. Amanhã. e se pretendia manter o nível. Com licença. Assine aqui. — Eu deveria ter adivinhado. e ela estava sempre atenta à concorrência. Palmer. — Quantos barcos? — O quê? — Quantos barcos você tem? Liz respirou fundo e decidiu fazer a vontade dele por mais cinco minutos. — Não pesco há cinco ou seis anos.. Sr. — Liz olhou para o dinheiro. — Pesca em alto-mar. Conheci um estudante de direito. tristeza ou preocupação. — Ele também sempre conseguia o que queria. — Ela viu a luz de aventura nos olhos do menino. Já tinha informado pelo menos duas vezes tudo que sabia a respeito de Jerry. terá que providenciar. — Ela deu de ombros... Sharpe? — Direito. — Um dos meus barcos de mergulho está voltando. Duzentos dólares a mais ajudariam a pagar as aqua bikes que estava querendo comprar. Ele procuraria envolvê-la. Claro que sentia muito e tinha sofrido 11 . É engraçado como os boatos podem ajudar ou atrapalhar um pequeno negócio. no mínimo? — Três. Estranho. — Liz pensou em Marcus com sua conversa fluente e calculada. Um barco de pesca seria reservado e isolado. Sr. — Ele não sabia o que queria dizer. Aqua bike e windsurf estavam cada vez mais populares. Palmer. — O preço inclui almoço a bordo. Portanto. pequenas e inofensivas. pensou Liz novamente. Partiremos às oito — informou. Lamento não. — Se mudar de idéia a respeito do jantar. Planejar seus sentimentos era tão importante quanto orçar suas contas. Por fim. — Uma excelente escolha. — Eles mordem? Ela riu. — Com quantos passageiros sai. Sr. ou por que não se sentia feliz havendo concluído uma manobra bem-sucedida. — Agora. — Liz olhou por cima dele. — Não seria bom para o negócio. E me parece que não há ninguém mais inscrito. Não podia ajudá-lo. pensando que isso poderia ser útil. Sharpe — advertiu ela com um sorriso franco. — Droga! — Liz pisou o arranque de sua motocicleta e fez a volta em direção à rua. O de fundo de vidro. Sharpe. Mas não podia permitir-se admirar Jonas Sharpe. — Srta. Não havia nenhum traço de distanciamento. O menino saiu correndo. quando muitas pessoas tinham recusado ajudá-la e a desencorajado. uma nota de cada vez. — Só os pedaços de pão. — Eu moro aqui — explicou ela simplesmente. Torcera por uma chuva. As nuvens existentes eram esparsas. ela teria admirado aquilo. Em outras circunstâncias. — Estou no El Presidente. — Em que trabalha.. decidiu Jonas. mas desta vez não foi um sorriso agradável. mas eu não saio com o barco para um passageiro só... mas era tão teimoso que esperaria o tempo que fosse preciso até obter o sim. Mesmo agora. — Não seria bom para o negócio recusar um lucro extra. Ele também percebera o prazer nos olhos dela enquanto falava com o menino. Liz podia imaginar aqueles olhos misteriosos e pacientes fixos nos seus. podem atrair robalos-bicudos e até pôr a mão neles. Exatamente por ser teimosa é que tinha conseguido iniciar o seu negócio e ter êxito. — Vai ser esse. jogando areia para o alto.. Liz pegou um formulário e pareceu dar uma risada. — Quanto é? — A diária é 50 dólares por pessoa. dois de mergulho e um para pesca em alto-mar. — Os 50 restantes são para garantir que você mesma vai navegar o barco. Adios. e ele sorriu novamente. mas aparecem de vez em quando.NORA ROBERTS — Os tubarões não vivem nos recifes. guardou o recibo no bolso. — E se levarem pedaços de pão ou biscoito cream-cracker. Liz fitou os olhos escuros e determinados de Jonas Sharpe e decidiu que não valia à pena. Jonas Sharpe era o tipo de homem que até aceitava um não como resposta. — Fala espanhol como uma nativa — observou Jonas. — Vocês verão arraias pintadas — afirmou ela mostrando com as mãos o quanto elas eram grandes. quando a brisa amena começou a brincar no seu rosto. Se quiser cerveja ou alguma bebida alcoólica. — Tenho quatro.. — Ela atravessou a porta e se encaminhou para o cais para receber sua tripulação e seus fregueses.. Muitas das outras lojas de equipamentos de mergulho já as possuíam.

Mesmo aos 18 anos. Não teve vergonha e não contou mentiras. para pegar o almoço para a excursão de pesca. como hoje. não teria ela visto aquele carro azul ontem? Mas. Tudo bem? — Ótimo. no outro some. grávida e sem uma aliança no dedo. — Acho que vou precisar contratar alguém. tinha sido uma boa amiga quando ela chegou ainda jovem. O barco era pequeno para o padrão de pesca esportiva séria. O acordo de Liz com o hotel era de benefício mútuo. Liz efetuou um exame de rotina nos instrumentos e nas cordas. perguntouse. tudo como ela fazia questão. Liz. — Buenos dias. Margarita. — Margarita apertou o botão do elevador de serviço enquanto falavam de seu filho. Ela sabia que ele apreciava os olhares francos ou furtivos das mulheres na praia. Na última curva. inconstante com as mulheres e um bom apreciador de tequila. Liz conhecia as águas ao longo da península de Yucatán e os hábitos da pesca submarina. Estranho. Os dois barcos de mergulho vão sair. poderia ter comprado uma aliança de dez dólares e inventado uma história de divórcio ou viuvez. O bebê que crescia em seu ventre era só seu. Era sempre fresco. À porta de um mercado. quando seus músculos começaram a relaxar com a corrida. — Eu também — comentou Liz. cheio de iscas. — Buenos dias. Como está Ricardo? — Crescendo. esta manhã. o señor Pessado pegava suas chaves. Roupas já balançavam nas cordas. a caminho do aeroporto para aguardar as primeiras aterrissagens. — Luis era jovem. Havia casas com gramados bem verdes e fileiras de videiras.NORA ROBERTS um pouco por um homem que quase não conhecera. Ao examinar os molinetes e as pesadas varas de pesca. e seus olhos escuros sorriam. mas qualquer um que trabalhasse para Liz aprendia logo sua regra: oferecer um serviço de qualidade aos seus clientes. pensou. vai pilotar o barco de pesca hoje? — Ele pegou o isopor maior e caminhou a seu lado em direção à loja. Como estás? — Bien. com um leve sorriso. Luis estava só de sunga. assim como outras que encontrara na ilha. pela estrada. trazendo um isopor grande com duas refeições e um menor. Ela também gostaria de tirar uma hora para se divertir com snorkel. não é? Ele vai ficar feliz. Provavelmente não saberia identificar um atum que pulasse e lhe mordesse o dedo do pé. A jovem com um balde e um esfregão sorriu. remendada em muitos lugares. Um bigode débil e fino encimava seus lábios. se o advogado já tinha feito alguma pesca de peixe grande. Luis era seu funcionário mais antigo. Liz buzinou. A rua era acidentada. A bordo. pelo menos por meio expediente. Liz estava passando pela praia a caminho da loja. mas Liz podia contar com ele sem problemas. Liz fitou-o de cima a baixo. sempre que entrava ali. Jonas Sharpe estava agindo fora da sua alçada. o carro continuou em frente. Sua loja dava para a praia do hotel e estimulava os negócios de ambos os lados. olhou casualmente pelo espelho retrovisor. PERIGO Às 7h45. Ela sabia quando ziguezaguear e desviar. Liz virou uma esquina e manteve a velocidade constante. quando entrou no estacionamento do hotel. depois para o chão. A água do mar devia estar quente e transparente. Margarita. por isso pedi ao meu primo Miguel que ajudasse hoje. Tenho um primo. de mais ninguém. o equipamento organizado. — Vamos levar isto para o barco. mas só pode trabalhar durante as férias escolares. veloz. — Fiz as alterações na programação para você. mas assassinato era assunto da polícia. Liz sentiu o primeiro perfume do mar. e depois elas se separaram. — Miguel não é confiável. Treze pessoas inscreveram-se para o Aquascope. Seu barco podia 12 . — Então. Mas aceito sua ajuda. Podia ouvir um noticiário matutino por uma janela aberta e o som das crianças terminando suas tarefas ou seu café-da-manhã antes de saírem para a escola. Liz lembrava-se dos meses em que trabalharam juntas limpando o chão. Luis olhou para ela. O deque estava limpo. lembrava-se dos dois anos que passara esfregando chão e fazendo camas. Ele trabalhara bem próximo a Jerry. Mas era teimosa. mas seus clientes raramente saíam insatisfeitos. e alguns poucos snorkels já apareciam na superfície. pensou. Passou por algumas lojas. todas fechadas. um bom garoto. barco com fundo de vidro. — Você é magra demais para carregar isso. Ainda assim. Quero examinar o motor. com poucos banhistas. Está aqui um dia. Liz poderia ter mentido. — Faith vai voltar para casa em breve. Ela estava agindo corretamente. — Não vou esquecer — disse Liz distraída. — Liz! — O homem baixo e bem vestido caminhava na direção dela e sacudia a cabeça. e eles trocaram acenos. Em questão de minutos. Um táxi ultrapassou-a. — Você também é Luis.

— Liz acelerou à frente. Ela o manteria tão ocupado. Mesmo já sem levá-la a pensar em Jerry. Quando aportassem de volta. ela o ajudaria a conseguir um troféu para levar de volta para casa. o sol já estaria bem quente. — A água está morna. — Voltou dos mortos — murmurou Luis. — Jonas olhou para o homem magro ao lado de Liz. nem outros equipamentos sofisticados. — E quanto a você? — perguntou ele. — Conheceu meu irmão? — Trabalhamos juntos — respondeu Luis no seu inglês lento e preciso. — Ainda quer me manter à distância? — Nós nos preocupamos em ser simpáticos com todos os fregueses. — Com um pequeno isopor nas mãos. — O Expatriate. Nunca pensara em perguntar a Jerry. O senhor alugou o Expatriate pelo dia inteiro. Sharpe — gritou ela. Não lhe parecera importante. — Luis afastou-se de Jonas e pulou para o cais. ao examinar os instrumentos na ponte de comando.NORA ROBERTS não ter sondas e aparelhos para detectar peixes. merlim e peixe-espada. ligou o motor e partiu suavemente para o alto-mar. E estou perfeitamente confortável aqui. Jonas perguntou-se. as mesmas letras estavam desbotadas do sol e das freqüentes lavagens. — Me perdoe. Trabalha para mim. — Avise a Miguel que ele só vai receber se trabalhar o dia todo — gritou ela para Luis. — Liz não sentia orgulho nem vergonha disso. as costas idem. Sem parar de pensar nisso. porém. — Cuidarei de tudo aqui — avisou Liz. E onde seria sua casa? Perguntou-se Liz. Foi quando ela viu Jonas. esperando tirar Luis do estado de choque. o que lhe dava uma aparência de malandro. — Este é Luis. Luis. Está pronto. O senhor estaria mais confortável em uma cadeira no convés. o que ela estaria usando embaixo. — Não seja ridículo. A essa altura. — Liz indicou-lhe uma cadeira no convés e subiu os degraus que levavam à ponte de comando. — De pé ao lado dela. Sr. — Parece que causo a mesma impressão em todos — observou Jonas. portanto haverá atum. Ela usava um boné de marinheiro com o nome da loja em letras brancas. — Você maneja o leme com a mesma eficiência com que lida com os clientes. como verá quando falar com ele. — Com os mergulhadores. Vou soltar as amarras. mas ela estava determinada a proporcionar a Jonas Sharpe o passeio da sua vida. Agora. ele a analisou sem cerimônia. acentuada por uma camiseta desbotada e uma sunga preta bem pequena. Eu lhe disse que eram gêmeos. — O nome dele é Jonas. O Aquascope deve estar pronto para partir dentro de meia hora. mal agitava a água. — Precisa de ajuda para entrar no barco? PERIGO — Posso cuidar disso. que sua única vontade seria um banho quente e uma cama. Liz mantinha uma velocidade média e observava as manchas escuras dos recifes. — Vá abrir a loja. Depois.. Na camiseta. Ele não se preocupara em fazer a barba. — Liz procurou afastar o arrepio que suas palavras lhe causaram. em vão. Sharpe. fez o sinal-da-cruz. Você acabou de dar um susto nele. Quando chegassem às águas mais profundas. Jerry preferia sair no barco de mergulho. com a mão trêmula. fique à vontade. Ele é resistente. Sharpe. que tipo de vida levava. Até o meio-dia. — Há quanto tempo tem este barco? — Há quase oito anos. — Luis? — Liz desceu os poucos degraus para juntar-se a ele. lembrou que não era da sua conta e logo virou-se para chamar por Luis. amarrado a uma cadeira. de chapéu de palha e óculos escuros. — Pescar? 13 . que ele não teria tempo para perturbá-la. ele olhou de volta para o estreito cais e. Jonas teria os braços tão doloridos. — Jonas. O vento estava fraco. ele a intimidava como antes. — O que. com um aceno final para ele. e ele não se parece com Jerry em nada. Ou prefere boates e música barulhenta? Ela não fora capaz de adivinhar sua profissão tão facilmente quanto conseguia com a maioria das pessoas que encontrava. Sabendo o que se passava na mente de Luis. viu-se imaginando de onde vinha Jonas.. Sr. E se não fosse um completo idiota. Liz notou que ele não parecia ser um homem que jogasse bridge. Liz sacudiu-lhe o braço e disse: — É o irmão dele. Em pé no deque. — É isso que você é? — Aparentemente. — Madre de Dios. — É o meu trabalho. aceleraria um pouco mais. Sr. ela imaginava que Jonas estaria amarrado à cadeira brigando com um peixe de 90 quilos. poderá começar a pescar. Seria ele o tipo que freqüenta restaurantes sofisticados com uma mulher elegante pelo braço? Será que assiste a filmes estrangeiros e joga bridge?. Mas Luis não a ouviu. Jonas entrou no barco com facilidade. — Ele se referia à palavra cuidadosamente pintada na lateral do barco. dirigindo a Liz um olhar direto e misterioso. Quando estivermos em alto-mar.

Jonas instalou-se na cadeira e inclinou o chapéu para trás. — Não deveria precisar perguntar. — Há locais melhores do que este. — Às vezes. — Jogue as iscas — começou ela. — Não.NORA ROBERTS Liz dirigiu-lhe um rápido olhar. Ou talvez tenha algo e não saiba. — Vim porque parecia ser a coisa certa a fazer. como se ele pudesse se dar ao luxo de esperar. e você vai jogar as iscas para atrair os peixes. — Não seria injusto levar vantagem assim? A pesca não deve ser pura sorte e habilidade? — Não esqueça que. a pesca é uma questão de sobrevivência. ele não jogava bridge. Jonas teve certeza de que não tinha sido por falta de tentativa. — Achei mesmo que você seria prática. não foi a primeira vez. o peixe é tão impetuoso que pega o anzol sem isca. em busca do segredo que seus olhos ocultavam. ele não estaria. devia ser uma criança quando veio para cá. — Por que veio para Cozumel? — Jonas ignorou a vara de pescar à sua frente e pegou um cigarro. — Por enquanto. — Enquanto você pesca. Se pegar um desses. Não. Sua mão não era suave como ela imaginara. Quando eu era menina. Ela é forte. — Se perdi meu dinheiro. para algumas pessoas. — Sem isca. A mão de Liz moveu-se sob a dele. — Nós vamos conversar. Jonas recostou-se na cadeira contrariado. Tênis. O vento jogou seu cabelo para trás enquanto o analisava. — Há lugares lindos nos Estados Unidos. Eram confiantes. apesar da aparência frágil. Lido com direito penal há mais de dez anos. mas sensibilizou-se com a conversa. Mas havia algo no seu olhar que dizia: eu fui ferida e não serei mais. mas firme e áspera. suspirou. ou alguma outra coisa que implicasse suor e esforço. — E você? — Eu volto ao leme e mantenho a velocidade constante para que o peixe se canse sem que você o perca. Por que conseguia a frieza necessária para discutir preços com fornecedores e clientes. é apenas um troféu a mais na parede. Você se surpreenderia com a importância que determinadas informações podem ter. Se você já está aqui há dez anos. — Já está aqui há alguns dias — retrucou ela. ou handebol. pela maneira como ergue a cabeça. Então ela estava certa — ele não sabia distinguir uma linha de uma vara. — Manterei a velocidade baixa. Liz se achava forte. Eles adoram mergulhar. pensou ele. Jonas estava tão próximo que Liz podia ver seus olhos através das lentes escuras. PERIGO — Talvez não. Converse comigo. amarre-se bem e comece a agir. — Não estou com pressa. mas se desmanchava diante de um pedido feito com carinho? Jonas só lhe traria problemas. — Em que está interessado? — No momento. talvez. em você. — Você pagou para pescar — rebateu ela. de algum modo. você senta e relaxa — orientou ela. Não. Mas. E teimosa. concluiu ela nem em troféus nem em nada mais que não tivesse um propósito. Pela primeira vez em anos Liz sentiu um rápido estremecimento percorrer seu corpo — uma sensação a que se acreditava imune. mas não vou gastar minha gasolina se você não se importa em pegar um peixe ou não. acho que não perdi. — Não tenho nada a dizer. — Então jogou seu dinheiro fora. concluiu ela. — Paguei pelo seu tempo — corrigiu ele. — A mão de Liz deu um solavanco e acelerou de novo. meus pais vinham aqui todos os anos. Liz virou-se para encará-lo. — Ela virou o leme um pouco e rastreou a água para ver se havia mergulhadores imprudentes com snorkels. — Ela sorriu ao afastar-se. — Ela juntou o cabelo com uma das mãos e jogou-o para trás. Aquilo era intrigante. — Jonas tirou a mão dela do acelerador. Liz amarrou a ponta de uma vara de pescar dentro do encaixe preso a uma cadeira. Alguma coisa na maneira de dizer aquilo levou Jonas a observá-la novamente. — Para outras. — Sua mão apertou levemente a dela. mas acrescentava-se a isso uma sexualidade que brotava lentamente e o deixava intrigado por seu irmão não ter se envolvido com ela. Com uma eficiência natural. — Não estou interessado em troféus. eu não era uma criança. enrijecendo os músculos da mão. — Preciso ser. — Por favor. — Você se mudou para cá com os seus pais? 14 . — Liz deixou o motor em ponto morto para que o barco fosse levado pela corrente. E foi mesmo.

Setembro sempre chega cedo demais. — É uma possibilidade. — Muita — murmurou Liz. Jonas levantou uma das mãos. — Jerry tinha uma.. Por um momento. e. mas estava sempre procurando a grande jogada. algo que não precisasse batalhar muito para obter. — O que achava dele? — Era uma pessoa errante que por acaso cruzou o meu caminho. Só sei que estava planejando alguma coisa porque alardeou que ganharia muita grana com mergulho. Não cheguei a ficar íntima dele de forma alguma. Você tem uma beleza que não é convencional. Tenho o hábito de cutucar os segredos. queda por mulheres bonitas. que chegaram ontem pelo correio. — Então você conhecia mesmo o meu irmão — murmurou Jonas. não é. Isso poderia deixá-lo mal impressionado. — Deixar uma filha sob a responsabilidade dos avós para viver numa ilha tropical. — Mas conhecê-la um pouco ajuda. Eu sempre achei que valia o risco. — Não pagou 200 dólares para falar de mim. segurar a emoção como aprendera a fazer há muito tempo. Eles me enviaram fotos de um recital. É lá que os meus pais moram. Tem os cuidados dos meus pais e está recebendo uma excelente educação. Houve uma época em que ela precisou de palavras assim. Ele se limitou a sorrir para ela. pensou.. Talvez seja difícil para você aceitar. ela passou uma das mãos pelos cabelos. — Não? — Tão relaxado quanto ela estava tensa. Liz procurou relaxar. estava atrás de diversão e sol. inclusive aulas de piano e de balé. e nós vamos passar o verão juntas.. mas não o surpreendia. Jonas esticou a mão até o isopor e ofereceu-lhe uma cerveja. — Frustrada. Ela se recostou no guarda-corpo e fitou-o com um olhar mortífero. — É uma boa maneira de perder os dedos. — Por que não estava dormindo com Jerry? — Como é que é? — Sim.. — Seus olhos encheram-se de lágrimas tão rápido que a pegaram de surpresa. — Mergulho? Onde? Lutando para controlar-se. Dei-lhe um emprego porque era esperto e forte. — Eu não quis ter um caso com ele. — Desta vez. — Liz achou-se uma tola. certa de que ele estava tentando irritá-la. Sharpe. quase que para si mesma. — É o melhor para ela. sua voz desafinou. Liz lançou uma das mãos para o ar. apenas um momento. Foram as fotos. com as lágrimas substituídas pela fúria. Aquilo simplesmente não combinava com ela. — Já voltou aos Estados Unidos alguma vez? — Não. — Combina com você. Jonas estava atento. mas Jonas já tinha visto. — Meus amigos chamam. Ela não aceitou e ele abriu uma lata para si mesmo. Ele caiu na gargalhada. Jonas deu uma forte tragada enquanto analisava o perfil de Liz. Ele ficou fumando em silêncio para que Liz se recuperasse. — Aluguei um quarto para ele porque parecia inofensivo e o dinheiro me seria útil. — Jonas lançou o elogio com a mesma naturalidade com que jogou o cigarro no mar. Agora não precisava disso. ocorreu a Liz que há muito tempo ninguém elogiava sua beleza. definitivamente Elizabeth. — Eu queria que você me deixasse em paz. Ele trabalhava porque precisava sobreviver. Liz dirigiu-lhe um olhar exaltado. nunca esperei que ficasse mais de um mês. já que se parece tanto com ele. mas eu não achava Jerry irresistível. PERIGO — Ninguém me chama de Elizabeth. — Você é uma mulher realista. Elizabeth? 15 . Liz virou o rosto para o vento e tentou reprimi-las. eu vim sozinha. — Dentro de poucas semanas minha filha virá para casa. — Me desculpe. Então deveria ser Elizabeth. Você disse que tem uma filha. Homens como ele não ficam muito tempo em lugar nenhum. Chamam você de Liz. — Por que acha que ele veio parar nesta ilha? — Já disse que não sei! Até onde pude perceber. Não consigo entender por que vocês não tinham um caso. Ainda que não tivesse movido um músculo. Na verdade. Sr. não é? Liz elevou a sobrancelha sob a franja que lhe cobria a testa. Sharpe. Sr. — Está se escondendo de alguém? Liz virou-se para ele. — Homens como ele? — Homens que buscam a maneira mais fácil para ficar rico. exceto quando tenta ficar distante. Onde ela está? — Ela estuda em Houston.NORA ROBERTS — Não. — Você sente saudade. — Seu olhar desviou-se enquanto falava. as fotos de sua filhinha usando um vestido cor-de-rosa.

Lembro de ter reclamado. Eu. — E mais do que isso. Como irmão. mais um motivo para deixar isso para a Polícia. suponho que seria obrigado a garantir que o levassem ao tribunal. — Procure lembrar-se. Aquela conversa estava trazendo tudo de volta. Jerry falara sobre voltar para casa em grande estilo. Sharpe — informou secamente. — Quando foi isso? — Talvez uma semana depois de contratado. — Mesmo que encontrasse o culpado. — Você o viu alguma vez conversando ou discutindo com alguém? — Nunca vi Jerry discutir com ninguém.. sim. — Não estou entendendo. Liz engoliu em seco. tinha sido a cobrar.. Liz lembrou-se de como ele riu quando ela o mandou dormir para se recuperar e acordar com a cabeça no lugar. — Jerry foi vítima de um assassino profissional. e eu fiz uma piada sobre um tesouro submerso. — Nunca se perguntou por que Jerry foi assassinado? — Claro. precisava saber o porquê. E eu voltei a trabalhar. E Jerry disse. E o telefonema. achei que devia estar bebendo porque estava um pouco cambaleante quando entrou. ou ele o puxará para o mar. — Liz esforçou-se para lembrar da conversa. — Disse algo sobre fazer uma fortuna mergulhando. — Achei que devia ter se metido em alguma briga.. mas viu a linha do anzol dele se esticar. Jonas tirou o maço de cigarros do bolso de novo. Foi quando ele mencionou que estava realizando uns negócios e que iria ganhar muito dinheiro com mergulho. Foi um trabalho profissional. — É melhor amarrar-se. Na verdade.. Lembre-se. lembrou-se. — Eu estava trabalhando em casa — lembrou-se Liz. — Ela respirou fundo. — Ela se virou e voltou para a ponte de comando. mas ele estava tão feliz que eu deixei passar. e ele deu um outro gole na cerveja. e depois. Acho que passava a maior parte do tempo livre em San Miguel. mas seu olhar estava longe. Retruquei que era melhor ficar na cerveja. — Jonas virou a cabeça e seus olhos ficaram fixos nos dela. — E não sou inofensivo. Sharpe. Uma parte de Jonas tinha sido assassinada. — Então sabe que não vou deixá-la em paz. E ele também não dera muita atenção. Sharpe. Conheceu alguns bares com Luis e alguns outros. O coração dela começou a bater lenta e dolorosamente. Elizabeth. 16 . e ela estava ocupada. Estavam vazias. Ele me puxou da cadeira. por que não deixa a polícia cuidar disso? Está correndo atrás de sombras. se bem que tenho certeza de que a polícia já fez isso. Liz começou a falar. Foi aí que fiz algum comentário sobre tesouro submerso. com o salário que recebia. Ele flertava com as mulheres na praia. — Vamos ver. Para poder sentir-se inteiro de novo. o que você poderia fazer? Jonas tomou um bom gole de cerveja. — Se você está certo. — Eu sempre cuido melhor da contabilidade à noite. onde o céu encontra a água. e ela se sentiu indefesa. Olhou fixo para ele e sacudiu a cabeça. Ele tinha um péssimo hábito de torrar o dinheiro que tivesse..NORA ROBERTS Liz fitou-o de cabeça erguida. e eu descobrirei por quê. — Sr. Mas ele sempre falava isso. — Não sou mesmo. — Liz olhou para as mãos. — Jerry era meu irmão. mas Jerry falou algo sobre comprar champanhe para celebrar o grande momento. seu irmão gêmeo. Eu praticamente não prestei atenção quando começou a falar sobre o quanto ficaria rico. Acho que deu um telefonema. — Jonas fitou o oceano. — Acho que você não é um homem muito legal. persuasiva. a voz de Jonas estava calma. Onde ele mergulhava? Não sei. nós dois levaremos a sério.. Foi negócio.. — O que ele contou? — Desta vez.. Sr. ou talvez tivesse contado vantagem para a pessoa errada. — Que bares? PERIGO — Vai precisar perguntar a eles. — A polícia não quer vingança. conversava com os clientes sobre assuntos gerais e se dava bem com todos com quem trabalhava. Era tarde da noite. — Deve ter sido quando me telefonou. — Com a testa franzida. Ele tinha saído. — Não foi roubo ou assalto. Sr. — Ele me passou uma cantada que nenhum de nós dois levou a sério. deixando Jonas defender-se sozinho. se eu cantar você. — Pegou um peixe. — Sua voz enfraqueceu. Liz percebeu na voz dele uma paciência silenciosa e sentiu um calafrio. como de hábito. — Como advogado. pouco ouvi porque estava catando todos os papéis que ele tinha espalhado. — E o que ele respondeu? — Às vezes a gente ganha mais escondendo coisas do que descobrindo. — Sim.

Antes que pudesse reagir. Tinha menos de 50 dólares em dinheiro e nenhuma jóia de valor. segurar uma vara de pescar. Certamente Jonas teria jogado de volta o peixe no mar. — Sharpe teve uma morte rápida. Talvez estivesse mais distraída naquela manhã. começou a pensar. A luz do sol poente refletiu um brilho prateado. mas quando a faca cutucou ameaçadora sua garganta. — Não sei de dinheiro nenhum. Liz logo sentiu um cruel puxão de cabelo e gemeu de dor. — O homem apertou o braço mais ainda. tiraria a roupa para uma chuveirada que lavaria da pele o suor e o sal do dia. Você não terá tanta sorte. — A ponta da faca furou a pele frágil de sua garganta. Um teimoso. agora os 200 dólares eram seus. arriadas e emboladas sobre o peitoril da janela. Pode levar. Mas foi justamente a sorte de Jonas. apreensiva. quando um pensamento a interrompeu. ia acender a luz. e por mais que a tivesse importunado nos três breves encontros. afinal. e ela só Capítulo 3 Já anoitecia quando Liz encostou a motocicleta sob a meia-água junto a sua casa. Ainda ria. segundo indicavam as nuvens que se aproximavam do leste. Ao sentir o líquido quente escorrer pela pele. já conseguira ter a conversa pretendida e não a visitaria mais. só para ver a cara dele quando percebeu que havia um peixe enorme na outra ponta da linha. Tentou respirar. Ele queria dinheiro. No quarto. — Sharpe. em outros tempos. exceto por um colar de pérolas herdado da avó. parou de lutar. que facilitou a escapulida de Liz quando aportaram. estava certa de tê-las deixado levantadas. Liz lembrou. ligou os ventiladores de teto e o rádio. diga onde ele guardou a grana. mas depois deu de ombros. Ele a mataria. Se pretende viver. — Já procurei. — Onde está? — sussurrou ao seu ouvido uma voz em espanhol. Nós cumprimos o que prometemos. Valeu a pena. antes de tocar a música. 17 . Estranho. — O que está querendo? — Aterrorizada. Era melhor que fosse embora e a deixasse seguir sua vida. E por que a corda não estava presa no ganchinho? Liz era maníaca quanto a esse tipo de detalhe. Jonas Sharpe estava ocupando muito do seu tempo e dos seus pensamentos. Com a multidão de pessoas aglomerada em torno dele para admirar sua presa e congratulá-lo. balançando as chaves. Num gesto mecânico. Liz entrou em casa e prendeu a porta aberta para deixar entrar a brisa já com o perfume da chuva. Não tinha deixado as cortinas levantadas naquela manhã? Liz observou-as. o rádio anunciou chuva para a noite. Agora. um braço forte envolveu seu pescoço com tanta força que ela não conseguia respirar. Pode procurar. e a visão de Liz ficou turva com a falta de ar. — Minha bolsa está na mesa. Era o tipo de homem capaz de fazê-lo. Enfiou as unhas e sentiu a pele dura e uma pulseira fina de metal. Incomodada com a cortina. De repente. mesmo com a luz já iluminando o quarto. — Eu não sei. Na sala ao lado. não há nada aqui. ou a falta dela. Por mais problemas que Jonas lhe tivesse trazido. Diga onde está a grana e nada lhe acontecerá. Jonas não conseguira detê-la. E ele tinha um merlim de 13 quilos — querendo ou não. pensou Liz. mas as tempestades tropicais rápidas eram imprevisíveis. A noite seria chuvosa. Num reflexo. Liz teria admirado aquele homem e sua teimosia. provavelmente por causa das cordas do barco que precisava manter sempre amarradas. Liz ficou muito nervosa. sentiu a ponta de uma faca na garganta. Como já estava escurecendo. O negócio foi cancelado. o jeito como ele sorria para ela. ela resolveu preparar uma salada de galinha para depois cuidar da contabilidade do dia. Sim. Agora estava pronta para um bom descanso mais cedo que o normal. Liz caminhou até a primeira e amarrou a corda. Mesmo sabendo. Cantarolando junto. Ela morreria em razão de algo sobre o que não sabia nada. contudo. madame. Liz levou as mãos ao braço que rodeava seu pescoço. A estação dos ciclones só chegaria dentro de alguns meses. Jonas estava tão perplexo diante daquele peixe deitado aos seus pés no deque que Liz quase sentiu pena dele. Dinheiro. se ela não estivesse ali com seu sorriso irônico. Já passara por muitas delas para desprezá-las levianamente. mesmo em outras circunstâncias.NORA ROBERTS PERIGO Ela hesitou. pensou. Liz percebeu isso claramente. — Onde ele colocou? — Quem? Não sei do que está falando. Mas já ia longe a época em que um homem pudesse mandar na sua vida. Jonas só a preocupava por interferir no seu tempo precioso.

Moralas arrumou seus papéis. — Eu me pergunto Sr. E de como tinha escapulido dele convenientemente no instante em que eles aportaram. Sharpe. deixe-me falar com ela. — Ela se deixou cair sem força nos braços do homem. tropeçou num tapete que escorregou sob seus pés. Srta. Liz Palmer era a peça-chave. Por quê? Talvez por saber mais do que lhe contara? Seria ela uma mentirosa. — Moralas estava sentado no seu amplo escritório que dava frente para o porto. sua cópia perfeita. Sharpe. — Mesmo assim. e era em Cozumel. Jerry era um cometa. Moralas acendeu o isqueiro e sorriu para Jonas por cima da chama. — Sim. Ela mora sozinha. Jonas viu a preocupação estampada no semblante do delegado. e ela ouviu atrás de si o som dos pneus de um carro na rua de cascalho. contanto que não interfira com o trabalho da polícia. Moralas pegou um charuto fino. Sua atenção foi desviada para a pequena construção de 18 . PERIGO — O senhor é direto. — Por favor. — Nós já conversamos com a Srta.NORA ROBERTS tinha 50 dólares.. O vizinho mais próximo ficava a 30 metros de distância. uma oportunista. Liz foi atacada. — A Srta. Ele se mexeu. — Isso não significa que eu vá jogar isto numa gaveta e esquecer. — Quando? Está machucada? Não. Sem sequer olhar para o homem. a poucos centímetros de distância. e ela jogou o cotovelo para trás com toda a força. e Moralas bateu a cinza antes de atender. A porta abriu-se. — Meu irmão jamais teve um endereço — murmurou Jonas. Ele afrouxou um pouco o braço. aqui é o delegado Moralas. Não há impressões digitais. mas ele não fez perguntas. pensou novamente. A cada dia nos distanciamos mais. solicitamos a cooperação das autoridades de Nova Orleans. Se há um assassino na minha ilha. o senhor não está fazendo nenhum bem a si mesmo ou a mim por estar aqui. ou uma covarde? Será que está muito ferida? Quando chegaram à rua estreita. Sua investigação não avançara nada quanto ao motivo do assassinato de Jerry Sharpe. O carro da polícia partiu da cidade acelerado em direção à praia. já gritava por ajuda. e tinha ligação com mergulho. Ou um emprego convencional. Sharpe.. — Ele tentou me matar — conseguiu dizer. fique onde está. Eu também serei. Palmer disse. Precisava descobrir onde se encaixava. Na fuga. eu irei até aí. Moralas tinha. Foi lá seu último endereço conhecido. saiu correndo. — Jerry não estava fugindo quando veio para cá. — É um direito seu. quero encontrá-lo. mas agradeço pelas informações. Vou com o senhor — decidiu Jonas. por favor. Palmer. e desmaiou. — Não tenho nenhuma informação adicional para lhe dar. — Só que o senhor não sabe que diabos fazer com elas. Jonas viu a imagem de Liz na ponte de comando algumas horas antes — bronzeada. Na sua mente. Jonas viu a porta da casa de Liz aberta e as cortinas fechadas. nem testemunhas. pensou. Lembrou-se de seu sorriso malicioso de satisfação ao vê-lo numa luta implacável com um peixe de 13 quilos. acredito que ele esteja a quilômetros de distância. vulnerável e desprotegida. Subiu os degraus aos tropeços e aos prantos. um pouco rebelde. Se o assassino do seu irmão deixou um rasto. Palmer. Os músculos de Jonas doíam de tensão. — Contei-lhe o que a Srta. No momento. estamos longe dele. Não podia morrer. Palmer foi atacada — disse. Quando alcançou a porta da frente. se a morte do seu irmão não foi conseqüência de alguma coisa que tenha ocorrido antes de vir para Cozumel. Faith. talvez no seu país. na pasta. Quem cuidaria dela? Liz mordeu o lábio Para que a dor lhe desanuviasse a mente. — Sim. sempre recusando-se a perder tempo com o trabalho. O procedimento agora é investigar as atividades do seu irmão até descobrirmos alguma coisa. magra. — Moralas pegou a pasta e gesticulou com ela. — Moralas desligou e levantou-se. Liz pulou a pequena cerca que separava os dois terrenos e correu para lá. uma fotografia da vítima e. — O telefone na mesa tocou. Jerry estava planejando um negócio. Sr. pensou na filha. Sr. e Liz desmoronou por cima dele. aterrorizada demais para olhar para trás. claro. ou uma mulher fixa. O homem sentado do outro lado da mesa o encarava. — Fez-se um silêncio. chegando à porta antes do policial. — Eu não vou embora. Prestes a ficar inconsciente. Jonas interrompeu o gesto de acender o cigarro e aguardou. — Sempre calmo. nem arma. — Moralas falando. Para ser franco. mas recuperou o equilíbrio e continuou. A pasta de arquivo sobre a mesa era mais fina do que ele gostaria. — Não posso falar. Não consigo respirar.

Srta. — Sou a señora Alderez. Liz tocou o arranhão de três centímetros que a vizinha limpara. Moralas sentou-se ao lado dela. Quando Moralas a levou de volta. Liz não sabia se haviam se passado minutos ou horas desde que fugira pela porta da frente. Sem uma palavra. enquanto tentamos capturálo. — Liz levantou a cabeça para olhar Moralas nos olhos. Ela está lá dentro. — Com cuidado. — Pode me dizer o que aconteceu? Liz tomou um pequeno gole. Não sei de mais nada. Foi quando ele se aproximou e me agarrou por trás. — Disse que o negócio estava cancelado e que. As cortinas estavam abaixadas. — Srta. O olhar pouco à vontade de Moralas encontrou o de Jonas. temendo chorar. — Não. Não pretendo que custe a da Srta. — Num ato reflexo. É claro que vamos manter a Srta. Ele não acreditou que eu não sabia de nada. — Cheguei em casa ao anoitecer. E fugi. Moralas tocou o braço de Liz para recuperar sua atenção. os olhos de Liz. — Ele a soltou? — Não. Deixei a porta de entrada aberta e fui direto para o quarto. — Meu irmão a envolveu nisso. Não sei nada a respeito de dinheiro. — Moralas fez um último e rápido exame da sala de estar. — Graças à senhora também. curvada para frente e com um copo de vinho nas mãos. mas Jonas interrompeu-o. pois achava que as havia deixado levantadas de manhã. — O que ele disse Srta. — Ela teve sorte. Quando eles entraram. sem medo. estava escuro e a lua já tinha surgido. Darei uma carona a você de volta para a cidade. "Onde ele colocou?". Liz olhou para Jonas. profundos e misteriosos. A señora Alderez viu-o partir quando abriu a porta para a Srta. Acho que atingi a garganta dele com o cotovelo. — Algumas pessoas viram um carro azul pequeno em frente à casa esta tarde. Um policial ficaria do lado de fora na entrada da garagem. Liz entrou na casa e encaminhou-se para a cozinha. trazendo nas mãos um bastão de beisebol. Liz estava sentada em um sofá remendado. Com a mesma lentidão. — Não opus resistência porque tinha a faca na garganta e achei que ele me mataria. — Percebi pela voz. voltaram a fitar o copo. passaram lentamente por Moralas e fixaram-se em Jonas. depois o golpeei. Nem sequer olhei para ele. agora sem expressão. — Quero ir para casa. Palmer? — Ele perguntou "Onde está aquilo?". e citou Sharpe. — Com a voz muito suave. Ele me cortou um pouco. ela precisa de mim. No chão. — Pode identificar o homem? — Não o vi. Soltei o peso do PERIGO corpo como se tivesse desmaiado. — Logo que os meus homens se certificarem de que está segura. Palmer. havia uma concha rachada. — Ela voltou a olhar dentro do copo. Ele ia me matar. — Será que os vizinhos viram alguma coisa? — Jonas endireitou uma mesa que tinha sido derrubada na fuga. Palmer. Jonas viu o líquido jogar de um lado para outro com o tremor das suas mãos.. — Parece que o assassino do meu irmão não foi embora da ilha. ou de qualquer outra coisa. e todas as portas e janelas da casa tinham sido examinadas. Graças à Virgem estávamos em casa. ele ia me matar. que viu algumas marcas roxas se formando na garganta dela. Como a corda não estava presa. — Desta vez. — Aparentemente. que se eu não dissesse onde estava ele me mataria. qualquer que tenha sido o negócio em que o seu irmão estava trabalhando custou-lhe a vida.. — Jonas examinou a concha cor-de-rosa claro com a rachadura que acompanhava seu comprimento e pensou na marca na garganta de Liz. Descanse aqui. — Não posso deixá-la sozinha. o que estranhei. quando Moralas apresentou sua identificação. — Como quiser. ele apoiou sobre a mesa a concha danificada. — Moralas virou-se para ir embora. mas não conseguiu identificar a marca nem a placa. Palmer sob vigilância.NORA ROBERTS estuque ao lado. pressionou os lábios e começou a falar como se estivesse recitando. — E a voz? — Ele falava espanhol. — Percebi que me mataria de qualquer jeito. portanto queria o dinheiro. — Liz falou sem emoção. Terá proteção policial. e minha filha. 19 . sem revolta. Acho que era baixo porque falava bem na altura do meu ouvido. Uma mulher de vestido de algodão e avental aproximouse do portão. ou de Jerry. cuja sensação de culpa aumentou naquele instante. Eu fico. e não seria uma morte rápida como a de Jerry. Palmer. — Ela acenou com a cabeça. Paciente. Palmer também. — Liz falou diretamente para Jonas. — Vocês são da polícia. fui até a janela prendê-la. satisfeita. — Quem a atacou foi muito descuidado. quer eu contasse alguma coisa ou não. O braço pressionou meu pescoço com uma faca na mão. Voltarei depois e a levarei para casa. Jonas entrou com Moralas e a viu.

— Não quero a sua ajuda. E eu poderia dizer que lamento muito o que aconteceu. Sharpe. ficou sentada porque seus joelhos estavam fracos demais para sustentá-la por mais tempo. Agora.. Sentese — repetiu ele. É melhor aceitar. — Não! — Liz depositou a caneca na mesa com tanta força que chegou a fazer barulho. Jonas pousou sua caneca junto à de Liz. — Agradeço sua generosidade — disse Jonas ao pegar a lata de volta. o senhor mudou de opinião quanto ao assassino estar a centenas de quilômetros daqui. ela administrou sua própria vida e tomou todas as decisões sozinha.NORA ROBERTS — Delegado. eu mudei de opinião. Nenhum dos dois podia saber se era verdade. — Sem ser convidado. Vinte dólares por semana parece justo. desviando-se dela para explorar os armários. — Não se pode ter sempre o que se quer. e seu polegar deslizou levemente por sua pele. — Quero ficar só. Amanhã trarei minhas coisas do hotel. esforçando-se para manter a calma. numa voz dura. O que aconteceu com o seu poder de decisão? Durante dez anos. — Por que está aqui? Ele se aproximou e correu a ponta de um dedo suavemente pela marca na garganta de Liz. Liz tentou recusar. Sr. Isso a ajudaria a reprimir os sentimentos. Portanto. expulsá-lo de sua casa. Quem matou Jerry acredita que você sabe de alguma coisa. — Eu sei. enquanto procurava uma panela. diabos. frios e inabaláveis. de um modo ou de outro. é melhor ajudarmos um ao outro. Depois. — Pela primeira vez. Esta canja de galinha vai ajudar.. — Eu não estava envolvida até você chegar e começar a me perseguir. nem raiva. nem até que encontrem o assassino de Jerry. Nem agora. — Não quero você aqui — acrescentou ela. Liz afastou-se. Está na hora de começar a pensar em cooperar comigo. Propositalmente sereno. — Não pode ficar aqui. mas ele já tinha visto que as mãos dela estavam trêmulas. gostando ou não. — Porque eu vou ficar. não sentia nada. segurou-lhe os ombros com mãos firmes. Sente-se. não haveria de ser diante dele. antes de retornar à cozinha. — Pergunta tola — murmurou ele. Queria gritar com ele. — Não vai. com os braços cruzados na frente do peito. Eu poderia dizer que não contrato homens para matar mulheres. ele resolveu achar que isso não era importante. Se fosse para perder o controle. Nós não podemos. — E que eu gostaria muito de ir embora. Liz arrancou a lata da mão dele. o tom de sua voz abrandou. de alguma forma tinha perdido a capacidade de controlar sua vida e suas 20 . — Posso preparar meu próprio jantar. — A sua garganta deve estar ferida. — Liz segurou a caneca com mais força. — Não. Liz tentou controlar a respiração acelerada. No momento. mas você não precisaria acreditar. Em vez disso. Vou preparar alguma coisa para você comer. deixá-la sozinha. Jonas já lutara com sua consciência a esse respeito. Durante dez anos. E eu também. não precisou pedir conselhos. Liz queria ficar com raiva. — Não importa como aconteceu. — Isso a manterá acordada. deixar nós dois voltarmos à vida de antes de tudo acontecer. E. Você está envolvida. Mas não posso. nem medo. Buenas noches. Naquele momento. e você não vai alugar o quarto. Como a concha. mas não conseguiu. adorável e ferida. Jonas levou uma das mãos ao cabelo de Liz para afastá-lo do rosto. Jonas trancou a porta da casa de Liz e verificou mais uma vez as janelas. nem ajuda. — Vou ficar. Liz servia-se de uma segunda xícara de café. — Vou alugar o quarto — interrompeu ele. não é? Moralas tocou a arma que trazia na cintura e respondeu: — Sim. — Pensei que tinha ido embora. falou: — Não vou deixá-la sozinha. — Como vou saber que não foi você que mandou aquele homem aqui para me assustar? Os olhos de Jonas continuaram presos aos dela. Será mais fácil convencer a PERIGO mim de que não sabe do que a eles. — Mas prefiro manter isto em um nível profissional. Liz parecia delicada. Liz — acrescentou antes que ela pudesse falar. mas está envolvida. Ela bebeu meia xícara com os olhos fixos nele. — Eu disse. Vou dormir no quarto da sua filha. Jonas pegou uma caneca e serviu-se de café. nem de ninguém.

ainda a abraçava. — Liz colocou os 20 dólares sobre o balcão e empilhou as tigelas. eram chiques demais para derramar mais que uma ou duas lágrimas. Sem nenhuma palavra. O preço do aluguel não inclui refeições. — Tem esse direito. Não podia admitir que desejava que ele ficasse. observando o dourado-escuro 21 . ele se virou e viu-a rígida e pálida sentada à mesa. batendo de leve no vidro das janelas e no telhado. De agora em diante. se ele vier. — Jonas enrolou as pontas do cabelo de Liz em volta do dedo. PERIGO Os olhos de Liz estavam inchados. fumava em silêncio. Liz não tinha percebido que estava com fome. Aquilo chamou a atenção de Jonas. A chuva começou a cair. e ele ainda a abraçava. e ela não conhecia nenhuma das regras. o quarto é 20 dólares por semana. fazendo-a parecer delicada e indefesa. ele se levantou e voltou para o fogão. — Acho que eu estava mais angustiada do que pensava. Ele sorriu e pegou a carteira de dinheiro. sem dizer nada. pela primeira vez em muitos anos. Liz começou a comer. Não havia nada que pudesse fazer por ela. Ela não conseguia acionar o orgulho e se afastar para um canto isolado como sempre fizera nas crises. Mais uma decisão lhe fora tirada. Quando Liz respondeu. — Achei que ele me mataria — murmurou ela ao pressionar uma das mãos contra o rosto. reclinado na cadeira. — Vai ter que cuidar da sua própria alimentação. — Você está me protegendo ou só está buscando sua vingança? — Fazendo uma coisa. Estou com muito medo. — Ficarei de qualquer jeito. — Jonas aproximou-se e repousou uma das mãos sobre o ombro dela. Liz olhou para baixo e viu uma lágrima cair nas costas da mão. mas esvaziou a tigela bem rápido. Jonas. — Obrigada. talvez consiga a outra. Jonas observou-a levar as tigelas para a pia e lavá-las. Liz fechou a mão em punho. Quando as lágrimas secaram. — Não sei. depois abriu-a lentamente. — Está bem. não disse que tudo estaria bem. e a primeira deve ser paga antecipadamente. As que conhecia bem. Sua vida era Parte de um jogo. Depois afastou-a de si. Jonas compreendeu que Liz era uma mulher de quem era preciso manter distância para não se envolver emocionalmente. como se quisesse provar que o medo faz o sangue correr frio. Não era bom preocupar-se com ela. grata por ele estar facilitando que ela tocasse num assunto que considerava uma revelação embaraçosa de fraqueza. tentando fazer uma voz despreocupada. nem murmurou palavras de conforto. Ele praguejou e voltou para o fogão. Aproxime-se demais e será devorado. com seu brilho quente de mel. Ah. Jonas não falou. Já que precisaria ceder. constrangendo-o. — Acha que ele voltará? — perguntou. — Tudo bem. Liz concordou com um aceno de cabeça. exceto a batida lenta e monótona da chuva na madeira. Quando Liz o fitou. Deus. nada que pudesse oferecer. Jonas puxou-a para si e deixou-a chorar e espantar o medo. temia ficar sozinha. mas não conseguiu reprimi-las. — Eu me viro. Ele simplesmente ficou ao seu lado. acendeu o fogo. Não estava acostumado a consolar mulheres. — Apenas um negócio? — Não posso me permitir mais nada. com as lágrimas correndo negligentemente pelo rosto. estava pálida. Mas ele a manteve abraçada a si durante uma enxurrada de lágrimas que sacudiam seu corpo e a faziam arfar. Quando Liz se afastou. colocou uma tigela diante dela e voltou para servir-se de uma também. — Liz pegou o pano e enxugou as tigelas cuidadosamente. Não havia nenhum som na cozinha. Em poucos minutos. A pele de Liz estava gelada. estou com tanto medo. ou que. — Senti a faca na minha garganta e achei que ia morrer. ele precisaria se controlar mais. Cansada demais para encabular-se. — Não há razão para você ficar aqui. no alumínio e no vidro. Alguma coisa ela enxergou nele. puxou uma cadeira ao lado de Liz e aguardou. mas sem conseguir. era melhor pensar na acomodação em termos práticos.NORA ROBERTS decisões. — Consegue comer uma torrada? — perguntou Jonas ao espiar o conteúdo da canja em uma panela. mas não sabia por quê. Logo apressou-se a enxugar outras do rosto. estava novamente firme. quando precisava usála para ajudar a ambos. aproximou-se da mesa. A pele dela. Depois. com um leve suspiro. — Não estará sozinha. acentuando sua vulnerabilidade. — Amanhã pela manhã te darei uma chave.

exigia moderação. Não poderia acontecer de novo. Culpado. Sua voz ecoava. Desesperado. Porém. — Talvez não. levou a mão à dele. Talvez você tenha. Em vez disso. Ao senti-la tão frágil. ele se perdeu na realidade das bocas unidas. Ele a envolveu com os braços. poderoso e violento. — Precisa dormir um pouco — disse ele. — Quando os olhos se encontraram. Praticamente sem nenhuma pressão e com uma leve sombra de poder. de mãos vazias. numa pequena e mal-iluminada sala de tribunal. Liz observou-o levar os lábios ao encontro dos seus. Doze rostos imóveis. Não. mas um homem paciente. nunca tivesse sido abraçada para explorar o que homem e mulher têm para dar-se. Ele trazia consigo pilhas de livros de direito. Mas. cuidando para não tocá-la novamente. Era questão de vida ou morte. sentiu-se brotar para a vida. Culpado. sedutores. Quanto mais ela se deixava ir. tinha os olhos tristes e sacudia a cabeça lentamente. Liz pensou que ele não era um homem qualquer. e sua voz vibrava. A mente de Liz. Mas sabia que não podia arriá-los. ouviu o veredicto repercutir nas paredes do tribunal. dizendo: — Não posso ajudá-lo. uma tentativa de reverter aquele ato inaceitável. 22 . Ele próprio? Jerry. O homem elevou a cabeça para se olharem. mais ele a queria. Derrotado. eles começaram a escorregar de suas mãos. fascinada. Não era a primeira vez que sentia desejo. Ele tivera paixões. e tem uma filha. Mas uma parte de si que ele não compreendia refreava-o. ainda que o sangue dele começasse a correr mais forte. Qualquer que tenha sido o impulso que levou Jonas a beijá-la. Eu levanto às seis. anuviou-se. refletiam confusão. com uma espécie de preguiça arrogante que parecia ser um mecanismo de defesa inconsciente. Era tolice acreditar. PERIGO Necessidades há muito adormecidas agitavam-se dentro de Liz. aquilo não se repetiria com ela. ele percebia. — O que você é? — perguntou ela num murmúrio. — Eles não têm nenhuma relação com você. submissa. de olhar inexpressivo. Tudo aconteceu tão lentamente que ela poderia ter interrompido. Elizabeth. Você tem segredos. empoeirados e pesados o bastante para seus braços doerem. olho no olho — imagens gêmeas. — Liz pegou a nota de 20 dólares que deixara na bancada e saiu. que alguma coisa mudaria. grossos. vendo morrer a centelha de esperança. Aos poucos. aproximando-a de si. Mas ela é jovem e bela. Mas seus olhos bem abertos. Ela não tinha noção da doçura e da hesitação com que seus lábios respondiam aos dele. com todos os seus anseios e riscos. mas os dedos escorregavam. Até então. O suor escorria-lhe pelas têmporas e pelas costas. e sobrou ele. Jonas estava de pé. seu desejo adotou um rumo que ele jamais experimentara. ou que reagiria com fogo e paixão. Ainda assim.NORA ROBERTS espalhar-se pela sua pele. seu irmão também. Só conseguia ver aqueles olhos misteriosos e tristes. Quando ela o fitou novamente. as mãos. Ofegante. ele derrubou o autocontrole que sempre a mantivera confiante. Apesar de seu esforço para segurar os livros. E aquela combinação deixou-o perturbado. Quanto mais tempo ele a tinha nos braços. Capítulo 4 O júri o encarava. mas seus lábios eram macios. Era como se ela nunca tivesse sido beijada. — Amanhã de manhã darei a você um recibo pelo aluguel e a chave. Levantou o queixo e endireitou os ombros. — Apenas um homem. insegura. lembrou-se ele. ela começou a desaparecer. Liz para proteger-se. distante. Ele imaginara que Liz resistiria. Talvez tivesse perdido o controle de muitas coisas. — Já me perguntei o mesmo quanto a você. Fazia muito tempo que ela não se deixava seduzir. O júri continuava imóvel. ela só o vira como um homem violento. pois não podia ser de outra forma. mas ainda podia dominar seus sentimentos. enquanto ele concluía o apelo apaixonado pela absolvição de seu cliente. Jonas aproximou-se do banco do réu. Finalmente. Ele tentou segurar sua mão. calmos. ele se virou para o réu. De beca preta. Outros homens também já a tiveram nos braços. dor e esperança. Ela o desejava. Liz. mesmo por um instante. mesmo obstinada. Liz sentia um desejo agradável e excitante percorrer seu corpo. Jonas sentiu-se como se fosse o primeiro e tratou-a com carinho. mas parecia incapaz de mover-se. até que ela sumiu. Então foi só isso pensou Liz. diante deles. como que dotadas de vontade própria. desinteressado. estimulada com perguntas. — Você mesma disse que eu não sou um homem legal. mais tempo queria permanecer assim. Culpado. libertaram-na. sentada mais acima. presos aos dele.

Mas quando pensou nos momentos em que ficara naqueles braços. PERIGO — Meu carro está em San Miguel. pensou Jonas. Ali não havia olmos robustos. e depois. submissa. Jonas bebeu mais um gole do café e fixou os olhos em Liz. O dinheiro do aluguel seria guardado. Jonas guardou-o no bolso. é melhor prepará-los. — Não pensa em se dar uma folga. portanto. Podia aceitar o fato de ter caído em prantos na frente dele. Direta e impessoal. Tentando ignorar os inúmeros rostos sorridentes que o rodeavam. Era como tentar dormir no meio de uma festa. passou a mão pelo rosto e sentou. Nenhum livro de direito o ajudaria com o que precisava fazer. nem o afastara como a todos os homens que se aproximaram dela. — Tem alguns ovos na geladeira. até que ela pudesse pagar a entrada das aqua bikes. com um movimento impaciente dos ombros. pelo tempo que ele ficasse. os pássaros chilreavam alegres. voltando os olhos para a lista. — Liz aumentou o som do rádio para ouvir a previsão do tempo. Café. Jonas suspirou. A medalha na sua corrente balançou.NORA ROBERTS em frente ao júri — 12 rostos frios que o fitavam com um sorriso de orgulho. com sua respiração acelerada. poderá pegar um táxi. Jonas não acordava com todas as baterias carregadas. De lá. Então. Liz acabava de passar manteiga numa torrada. e ele não devia ultrapassar a faixa. Liz estava na cozinha. Liz? — Tenho muito trabalho para fazer. Jonas analisou-a por mais um instante. e as marcas do pescoço sobressaíam escuras. haveria o barulho do tráfego da Filadélfia acordando para o dia. Se quiser ter tempo para comer os ovos. e foi servir-se de café. mas não deixaria de perceber um par de pernas compridas cor de mel. se quiser uma carona para o seu hotel. onde flores púrpuras pareciam amontoarse em busca de espaço. havia uma coleção de bichinhos de pelúcia que iam do fiel ursinho até algo que parecia um espanador de pó azul com olhos. Afeto. Sequer tentara. Ela ainda estava pálida. cheia de desejo e esperança. — Costuma aceitar hóspedes? 23 . Liz esperou até ter certeza de que ele estava de costas para examiná-lo. Depois de sentir-se frágil novamente. Lá fora. — Não — respondeu ela. ela fora rejeitada. Ou a ele. nem cercas vivas sempre verdes e bem cuidadas. Ele viu um arbusto próximo à janela. — E seu recibo da primeira semana de aluguel. Uma dançarina de flamenco levantava as castanholas. antes de vestir uma camisa. Ela não recuara. Ele provocara nela sensações há muito adormecidas. — Sua chave — disse Liz ao deslizá-la pela mesa na direção dele. — O café está no fogão — disse ela sem se virar. fechando os olhos. Ele jogou fora a sobra da primeira xícara de café e serviu-se de mais uma. Eu não costumo comprar cereal quando Faith não está em casa. As olheiras sob os olhos levaram-no a concluir que o sono dela não tinha sido melhor do que o dele. Não era para menos que tinha sonhos estranhos. seria uma relação de negócio. já que ele encarara aquilo com muita naturalidade. — Posso deixá-lo no El Presidente ou em algum dos outros hotéis da praia. A frigideira está no armário junto ao fogão. — Ovo está ótimo — murmurou ele. Cada passo que desse seria às cegas. Percebeu que estava olhando direto para o grupo de bonecas alegremente vestidas na prateleira ao lado da cama. mas não podia recuar. No instante em que saiu do quarto. Então eles voltaram à relação de negócios. esteja pronto. Uma Barbie muito bem-vestida repousava num conversível cor-de-rosa acenando com uma das mãos. Na parede oposta. não conseguiu perdoar-se. — Sairei dentro de meia hora. Não havia nada familiar. desde que reponha. pensou Liz. Excitação. vestiu-se. Em casa. — Já pensou em tirar um dia de folga? Liz o fitou pela primeira vez. Ele a fizera desejar o que acreditava não querer de homem algum. Sem olhar para o papel. Fora uma tola na noite anterior. sentiu o aroma do café. nenhum precedente a seguir. Jonas sentou-se à mesa com um prato de ovos fumegantes. apenas negócios. Jonas continuou deitado. levantou-se para preparar seu caféda-manhã. Jonas deixou primeiro o sabor do café quente penetrar seu organismo. Liz sentou-se à mesa para verificar os compromissos do dia. ou muros de correntes. Uma princesa segurava um chinelo de cristal. Não sabia como ou por onde começar. — Use o que quiser. Precisava de café. Usava uma camiseta sobre o que parecia ser a parte de baixo de um biquíni reduzido.

Ele se viu desejando poder pegar a mão 24 . foi lavar a xícara. — Nos finais de semana. havia uma rede tecida em fios azul e amarelo vivo. direta ou indiretamente. vai me levar ao assassino. e sim por Jerry. Liz esperou um instante até ter certeza de que conseguiria falar com tranqüilidade. e eu estarei ao seu lado porque. — Jonas acrescentou um pouco de sal. — O que quer que eu faça? Nunca na vida de Jonas alguém o levara a sentir-se tão vil. Jonas ficou imaginando se Liz se permitia algum tempo para usá-la. mas nós não somos mais estranhos. sim. — Uma das primeiras impressões que tive de você foi sua inteligência. Com poucas palavras. Liz empurrou a mão dele de seu rosto. O rádio informou à hora. — Não. — Nunca é pessoal. — O que aconteceu não foi causado por você. — Liz levantou para servir-se de mais uma xícara de café e lavar seu prato. na esperança de que pudesse melhorar o sabor da comida. Liz quis perguntar sobre a casa — se era grande. — Homens como você nunca enxergam além dos seus próprios interesses. depois abri meu próprio escritório há cinco anos. — Você nunca conheceu um homem como eu. mas não soltou o braço de Liz. Nós dois sabemos que o episódio de ontem à noite teria acontecido com ou sem mim. se continuasse acordando mais cedo. se as janelas eram compridas e tinham caixilhos. Isso não muda quase nada na minha posição. mas Jonas pegou seu braço antes que ela pudesse evitá-lo. estagiei com Neiram e Barker em Boston. Elizabeth. Ela poderia tê-lo odiado por aquilo. não temos. mas. Liz. Você quer vingar a morte do seu irmão. — Você não é especial. estendida entre duas palmeiras. Ela ponderou se deveria oferecer-lhe um barbeador. na Filadélfia. não foi nada pessoal. — Ela relaxou o braço. A xícara escorregou da mão de Liz e quicou na pia. — Nós temos. eles não teriam que comer juntos. — Acho que já — rebateu ela baixinho. Do lado de fora. não importava como ela o fizesse sentir-se. e depois ela o desligou. você é o foco de atenção. ela a pegou. Pessoal demais. — Sim! — Por saber que estava mentindo. temos um problema em comum — retrucou ele. se tinha um pédireito alto e um bonito piso de madeira. enxaguou e colocou no secador. A barba não estava feita. — Quer nos conheçamos ou não. estou reformando uma velha casa vitoriana que comprei na Chadd's Ford.NORA ROBERTS — Não. — A voz de Jonas era calma e firme. Estava dez minutos adiantada. ela ainda era a peça-chave. Praguejou para ela e encaminhou-se para a janela. — Está bem. ele segurou o rosto dela nas mãos. sim. Em um apartamento — acrescentou. — Levantando o queixo. — Somos. muda? Jonas levantou-se lentamente. porque estava certo — com ele aqui ou na Filadélfia. — Especializei-me em direito criminal. — Isso não muda o fato de sermos estranhos — afirmou ela. se havia um jardim com rosas subindo em treliças. Ele se lembrou do sonho e dos olhos vazios do júri fixos nele. — Enquanto alguém achar que você sabe de alguma coisa de Jerry. Em vez disso. — É isso que as pessoas são para você. Jonas. Jonas? Instrumentos? Meios para chegar a um fim? — Liz buscou o rosto dele e encontrou-o imóvel e distante. Eu só quero me sustentar. Liz sentiu-se corar. depois rejeitou a idéia. Ficou lascada. Liz observou-o por cima da borda da xícara. Não sei por que está se escondendo na sua linda ilhota. Jonas continuou a comer os ovos para que ela pensasse que ele concordava com suas palavras. — Não. um problema em comum. Liz o julgara e o condenara. o que acrescentava demasiada sexualidade à sua beleza. Esta é a pior parte — concluiu Liz com um longo suspiro. Em silêncio. e bom. Não sou casado e moro sozinho. freqüentou os melhores colégios e associou-se às melhores pessoas. — E você tem o hábito de alugar quartos em casa de estranhos em vez de hospedar-se num hotel? Jonas provou os ovos e viu-se vagamente insatisfeito com sua culinária. mas isso não era importante naquele momento. Não podia desistir agora. — Estudei direito na Notre Dame. mas você tem um cérebro. Foi criado com dinheiro e expectativas. Irritado sem saber a razão. Teve a sua meta definida e. mas estou precisando de um extra para comprar novos equipamentos. se precisou pisar em algumas pessoas para chegar lá. — Tem dez minutos — avisou Liz. PERIGO — Você acha que tudo voltaria imediatamente ao normal se eu retornasse para a Filadélfia? Liz puxou seu braço inutilmente.

que os deixara no quarto. — Está bem. o menino voltou correndo para os amigos. depois para ela. Não precisava falar espanhol para reconhecer uma transação de negócio. Jonas olhou para o veículo. Jonas pensou no valor do câmbio atual e sacudiu a cabeça. Liz fez um aceno de cabeça e encaminhou-se para a saída da cozinha. Liz foi desligar a cafeteira e mudar a panela para um queimador de trás. —Você dirige essa coisa? Algo no tom de voz de Jonas levou-a a querer sorrir. — Por que precisa de mim? Menos certeza ainda nesta. Quando ela virou para ele. — Estamos em Cozumel — disse ela simplesmente e saiu com sua motocicleta. — Nenhuma criança na Filadélfia daria atenção a você por essa quantia. — Quando Jonas ia objetar. — Quero saber quais eram os lugares aonde ia com Jerry. — Suba. com as moedas na mão. mas sentou-se atrás dela. Liz riu. e não vou deixá-la sozinha. — Onde coloco os pés? Liz olhou para baixo e não se preocupou em disfarçar o riso. que pessoas pode ter visto conversando com ele. — Com isso. — Viu a reação dele ontem. manteve a voz fria. Eu lhe dou quatro semanas. Logo depois. e sim ditaria as regras. tinha uma expressão afetuosa e amiga no olhar. — Tente passar com o seu BMW em algumas das estradas secundárias que vão para a costa ou para o interior. Arranjarei uma lista. Jonas. — É isso. — Liz passou uma perna por cima do banco. começando esta noite. — Jonas procurou seus cigarros e descobriu. — Esta coisa é um excelente meio de transporte. — Lave sua louça. a não ser que prefira voltar para o hotel a pé. aborrecido. os manteria acima do chão. Liz teve uma forte sensação de estar pisando em areia movediça. o que você descubra ou não. — Mas conseguirei sua lista e o acompanharei. caminhar pelo jardim e deitar-se com ela na rede. você sabe a língua e conhece os costumes. enquanto a motocicleta ziguezagueava para desviar dos sulcos e buracos. — Quanto deu a eles? — Vinte pesos para cada um. Jonas observou o menino encarregado distribuir as moedas. Liz levantou a sobrancelha. Faith brincaria com essas mesmas crianças durante todo o verão. ela ligou o motor e fez a volta na entrada da garagem. Não conseguiria conversar com você porque sua presença o deixa muito nervoso. — Preciso falar com Luis — começou ele. Se vissem qualquer pessoa que não fosse você ou a polícia se aproximar da casa. Ele nunca a vira rir com tanta facilidade. Era uma motocicleta que deixaria em êxtase um jovem adolescente. Eu. — Porque preciso começar em algum lugar. — Falarei com Luis. Em vez disso. — O que você fez? Liz sorriu para eles. Jonas — isso é tudo. — Não sei quanto tempo vou levar. Ele viu Liz chamar PERIGO uma delas pelo nome e pegar um punhado de moedas. — Não é suficiente. Um grupo de crianças na beira da rua comentava sobre a presença das viaturas em voz baixa. — Que não importa o que aconteça. — Por quê? Jonas não tinha certeza da resposta. — Bem. O carro de polícia ainda estava na entrada da garagem quando Jonas saiu pela porta da frente. deveriam correr para casa e telefonar para o delegado Moralas. — Nada é simples — corrigiu ela. — Vai ter que ser suficiente. sem nada mais importante para se preocuparem do que afastar as moscas. Liz sacudiu a cabeça. — Um BMW também é um excelente meio de transporte. — Tenho proteção policial. 25 . Jonas sentiu o chão tremer sob seus pés. aos lugares que Luis indicar. Preciso de você. Jonas tinha suas dúvidas. É a melhor maneira de mantêlos fora de perigo. não. sob uma condição. — Jonas enfiou os polegares nos bolsos. — Qual? Liz cruzou as mãos. Ajustou-se ao peso adicional e manteve a velocidade constante. Jonas segurou levemente os quadris de Liz. se eu fosse você. Jonas já tinha certeza de que ela não barganharia. Por sua postura. — Quero que você vá comigo. Em todo caso. sairá desta casa e da minha vida quando minha filha chegar.NORA ROBERTS dela. Eu o encontrarei lá fora. — Eu disse que eles eram detetives.

Ao chegar. principalmente durante a baixa estação. Jonas olhou para as mãos de Liz no guidom. Deveria sentir-se segura com a constante proteção policial. Já era tempo relaxar por saber que o delegado Moralas estava cumprindo sua palavra. Ela o encontrou ao telefone na sala de estar. sairia com um dos barcos de mergulho. — Creio que você se ajustaria mais à portaria ou à recepção. Liz foi tomar uma chuveirada. — A varanda do meu quarto dá para o mar. Mas. Fica a poucos minutos daqui de avião. brincou com seu pequeno estojo de maquiagem. — Liz acelerou o motor e passou rapidamente pelo cruzamento. no Expatriate. Jonas saltou para o meio-fio. com cinco iniciantes que necessitariam de instrução e supervisão constan- PERIGO tes. mas perguntava-se sobre as pessoas dentro do hotel que vinham a um lugar como esse para relaxar e jogar. Mas era uma fraqueza que não podia permitir-se. Já que Liz estava sendo expansiva. Faith e eu. Ignorando-o. tente Cancun. — Eu trabalhava no hotel. Obviamente. É só ter imaginação. Ela se deliciaria por alguns instantes com as elegantes palmeiras enfileiradas ao longo da rua e o aroma das flores se abrindo. — Liz diminuiu a velocidade da motocicleta ao começar a descer o longo percurso para o El Presidente. esteve ciente da presença do policial a uma discreta distância. Após um dia relativamente fácil. Vamos à cidade juntos. — Ela parou num sinal. sem sonhos. estava se sentindo presa. — Nem precisa. E por que cada vez ficava mais importante para ele descobrir? No fim do dia. Jonas viu um homem velho e curvo endireitar-se na porta de uma loja e acenar para ela. Como seu guarda-roupa era basicamente composto de trajes de praia. — Señor Pessado — explicou ela. Jonas pensou em perguntar sobre sua filha. eu acho. finas e delicadas.NORA ROBERTS — Existem ruas piores do que esta? — O que há de errado com ela? — perguntou Liz. ou na Costa Leste. — Tive sorte em arranjar um emprego. mesmo acostumada a trabalhar muitas horas. Liz tocou a buzina. ao contrário. era melhor manter as coisas em um nível menos pessoal. Eu queria que ela visse as pirâmides e as cidades muradas ao redor de Cancun. analisou seus ombros estreitos e pensou nos quadris delicados que estava abraçando. — Se quiser sofisticação. Tinha uma queda por coisas bonitas e elegantes. Estava fazendo hora desembaraçando os cabelos quando Jonas bateu à porta. — Não sei muito sobre arqueologia. Mais para passar o tempo do que por outro motivo. pegou uma saia de algodão azul-pavão e uma camisa vermelha bem grande. Liz não perdeu tempo examinando o armário. sentindo-se tentada. — Tem muito vidro e muito mármore — contou ele. Liz limitou-se a um aceno de cabeça e fez a manobra com a motocicleta para retornar à rua. No ano passado. mergulhar e flutuar. Sem dar a ela tempo para responder. passamos alguns dias visitando as ruínas. mas você não pode deixar de conhecer. com um bloco no colo e uma cara feia no rosto. alguma complicação no escritório o deixara de mau humor. — Preciso ir trabalhar. quem era Elizabeth Palmer? Perguntou-se. Jonas fitou a construção majestosa. Liz sentia-se exausta. ele a abriu. Era difícil imaginá-la carregando baldes. — Ele ainda é bonito por dentro? — perguntou Liz antes que pudesse interromper-se. — Já foi lá? — Algumas vezes. correu para dentro e trancou a porta. — E não é. Existem alguns santuários aqui. e os dois acham que eu não percebo. Não conheço muita gente em San Miguel. Liz parou a motocicleta ao lado do meio-fio. Afinal. Jonas observou-a até o som do motor desaparecer. carregar equipamentos. mas cobriu a mão de Liz com a sua antes que ela pudesse ir embora. Conheço algumas pessoas do interior porque trabalhamos juntos no hotel. Hoje. Sem entusiasmo. protegendo-a. depois resolveu esperar por um momento melhor. — Ele dá balas a Faith. — Encontrarei você em casa. Durante todo o caminho de casa. Como arrumadeira. Não foram restaurados. estava cansada. Por que não entra? Veja você mesma. — Era só uma pergunta. 26 . no instante que aumentava a velocidade ao passar por uma lombada. — Conhece muita gente na ilha? — É como uma cidade pequena. Você não precisa necessariamente conhecer alguém para reconhecer sua fisionomia. Mas Jonas a aguardava. Queria cair em um sono privado. — Eu não sabia que a sua loja era vinculada ao hotel.

Não fosse pelos PERIGO olhos. mas os lábios mantinham-se naturais. As maçãs do rosto receberam um pouco de cor. aberto e seguro. — Ah. Demorou-se um pouco mais na maquiagem. Na verdade. Como acontecia às vezes inesperadamente. como ela esperava. Nada poderia desestabilizá-la mais. — Está pronta? — Faltam os sapatos. não foi? Ela o fitou sem pestanejar. acrescentando charme ao rosto oval bronzeado do sol. — Tenho. o fruto de algum relacionamento em que Liz tivesse se envolvido já na ilha. Mas a maciez e o brilho da roupa não combinavam com a dureza dos olhos e da linha da boca. sim. Como o restante da casa. Jonas pegou o papel para ler. Liz percebeu que ele estava barbeado e usava uma jaqueta elegante sobre calças cor de marfim. Podemos ir? Não quero ficar até tarde. Na parede. Em vez de sair. Ao lado da cama. Liz abotoou a camisa até o pescoço e escovou o cabelo para trás.NORA ROBERTS — Conseguiu a lista? Liz pegou um pedaço de papel. — Não. Ela era toda sorrisos numa blusa florida franzida nos ombros. Ele achava que Faith tinha metade dessa idade. Eles pediram um petisco e bebidas. reclamar por ele ter entrado. Ainda assim. Liz sentiu um estremecimento involuntário. O primeiro clube que visitaram era barulhento e cheio. Jonas. Jonas não teria ligado a criança a Liz. depois pegou o Portaretrato das mãos de Jonas e colocou-o no lugar. — Você não pode ter uma filha de dez anos. mas permaneceu imóvel. Liz fez um movimento de sair. Tem os seus olhos. o outro. — Ela nasceu antes de você vir para cá? Liz fitou-o com um olhar demorado e neutro. Eles eram de um castanho rico e intenso. O aroma picante que ele percebera antes vinha de uma larga tigela verde cheia de pot-pourri. havia dois desenhos coloridos: um pôr-do-sol muito semelhante àquele que se via pela janela e uma praia durante uma tempestade. mas desistiu. Jonas interrompeu-a com o olhar. e uma luz corde-rosa entrava pelas janelas no começo da noite. — Obrigada. mas não foi por humor. — Um problema? — Problema para mim. não tenho muito tempo para freqüentar bares e clubes. Jonas enfiou o papel no bolso e passou os olhos pelo quarto. 27 . Para defender-se. apesar de ser conservadora quanto a isso. agitado. Seu cabelo. Jonas ficou a perambular pelo quarto. — Dez? — Um pouco surpreso. Poderia claro. — Pouco à vontade. Escureceu os cílios e sombreou levemente as pálpebras. bem à vista. — Eles são um problema. — Ele foi um canalha. um DJ vestindo uma camiseta apertada selecionava as músicas e anunciava o repertório com um espetáculo de luzes coloridas. pronto para dar uma resposta rude. — Quantos anos ela tem? — Dez. vamos agora. rápido demais. era um ambiente mobiliado com simplicidade mas com cores exuberantes. — Conhece esses lugares? — Já estive em alguns deles. Agora precisamos ir. era cortado na altura do queixo. correndo o polegar pelo rosto de Liz. Preciso acordar cedo amanhã. como ela gostava. havia uma fotografia emoldurada de uma menina. sem guardar nenhum dos segredos da mãe. As cortinas atrás dela estavam recolhidas. Mas Jonas não soltou a mão dela. — E a sua filha. ela deu um passo para trás. ele foi. Liz olhou para a fotografia da filha. — Você mesma devia ser uma criança. — Eu disse que conseguiria. uma filha de dez anos. — Sim. Um dente lhe faltava. Jonas fitou-a. A voz dele indicava compreensão sem pena. sim. — Liz vestiu o segundo pé do sapato. sua voz estava gentil. levemente caídos. preto e brilhante. Elizabeth. longe do rosto. Seus lábios curvaram-se. Em uma cabine de canto. o sorriso era contagiante. — Sua filha é encantadora. eu não era. — Você deveria ter cuidado com o que faz com os seus olhos — murmurou Jonas. mas não mudaria nada. O primeiro era sereno. — Novamente. com muitos americanos. — Ela nasceu seis meses depois de eu me mudar para Cozumel. enquanto Jonas esperava que alguém tivesse alguma reação ao vê-lo. conturbado. e ele mais uma vez a interrompeu. Responder a um questionário sobre Faith não faz parte do nosso acordo. Se quiser minha ajuda. Ele se perguntou quanto de cada um representava o interior de Elizabeth Palmer. Liz sentiu-se amolecer de novo.

empurrados pela multidão. com toda certeza. Antes que Liz pudesse recusar. — Liz bebeu um gole do vinho e achou-o suave. — Qual é o propósito disto? — perguntou Liz. — Ele passou os olhos pela multidão enquanto falava. e outros solitários entregues a uma garrafa. mas os braços dele a envolveram. 28 . Havia pessoas jovens e outras não tão jovens. nunca repetiam o mesmo lugar. o outro. — Um velho truque — observou Jonas com expressão vaga. mas percebia que Jerry vistoriava os bares até encontrá-los. Geralmente. mas os braços dele estavam muito firmes. eu leio. Não era o tipo de lugar que normalmente escolheria para passar uma noite. — Truque? Se você chama todas de gatinha. Alguns locais eram soturnos. Na mesa ao lado. — Luis se impressionava muito com a habilidade de Jerry para. Os rostos começaram a PERIGO transformar-se num único borrão. Luis estava mais interessado nas mulheres e não prestou nenhuma atenção. Como era um grupo de jovens estrangeiros. estava cansada do cheiro de álcool. — Liz beliscava tortilhas quentes e olhava ao redor. você nunca relaxa? — Jonas subiu a mão pelas costas dela novamente e sentiu os músculos tensos. feios. despertar interesse nas mulheres. e ele riu. — Está vendo? — Não danço há anos — murmurou ela. — Liz. O movimento raramente era intenso antes da meia-noite. — Está bem. Mesmo determinada a permanecer insensível. até descobrir. — Entendo. Mesmo assim. gritando junto com a música ou apenas uns com os outros. Aquele era o ambiente de Jerry. — Descansa carregando pedras? — É o que me interessa. Liz tentou afastar-se. — Está bem — concordou ele com facilidade. — Nós criaremos o espaço. e a música alta demais. Jonas examinou o relógio. uma linda mexicana. — Vamos experimentar. Barulhento. livros sobre a vida marinha. quase sórdidos. Eram quase 23 horas. — Jonas a apertou contra si. e Luis não sabe sobre o que falavam. — O que faz quando não está trabalhando? — Penso no trabalho. Liz deduziu que estariam muito mal na manhã seguinte. — Não tem espaço — começou ela.NORA ROBERTS — Luis informou que eles vinham muito aqui porque Jerry gostava de ouvir música americana.. Havia os que pareciam não ter nada além de tempo e dinheiro. a freqüência parecia ser de gente boa. Vamos vistoriar os bares. um grupo consumia uma garrafa de tequila e uma tigela de fatias de limão. — Não tenho tempo para mais nada. — Luis comentou se Jerry se encontrava com alguém em particular? — Mulheres. Enquanto isso. O corpo de Liz movia-se com intimidade contra o dele. — Alguma em particular? — Segundo Luis. ele a estava levando para o meio da multidão. acabe para irmos embora. — Este é o último — avisou Liz. — Os corpos grudados. — Então. Tinha muito cabelo e muito quadril. eles se limitavam a acompanhar o balanço. — Vamos dançar. — Não sei. As mesas eram muito próximas umas das outras. louco e cheio a ponto de explodir. — Parece que havia dois homens com quem Jerry conversava às vezes. não tem espaço mesmo. — Não. Um era americano. seu coração começou a bater mais rápido. Apesar de ver que Jonas se limitava a manusear a bebida a cada bar que visitavam. Jonas esqueceu de manter a atenção na multidão e olhou para ela. Havia americanos que aproveitavam a vida noturna exótica e nativos celebrando uma noite na cidade. não confunde os nomes e não cria problemas. mas Jerry só a chamava de gatinha. — Liz sorriu ao provar uma tortilha. Outros tinham um som estridente e luzes que piscavam. e resolveu distraí-la. — Ele os encontrava aqui? — Segundo Luis. e sua mão subiu pelas costas dela. — Não importa. — É só o que a interessa? Jonas estava próximo demais. — Luis a descreveu? — Só disse que ela era deslumbrante. Na quarta parada. Palavras dele — acrescentou Liz. quando Jonas conseguiu uma mesa em um clube com uma pista de dança lotada e música em playback. pensou Jonas. havia uma. e depois geralmente comentava que aquela era uma grande noite. mexicano. se isso ajuda.. Alguns namoravam nas pistas de dança ou nas mesas. quando Jonas lhe dirigiu um olhar afetuoso. Liz estava farta. mas era sempre ele que se aproximava.

os lábios de Jonas estavam muito próximos dos seus. — Tenho que comprar umas aqua bikes. Depois. — Tenho uma firma para administrar — murmurou Liz. — É tão importante assim ganhar dinheiro? — É — disse ela. ardente. — Por favor. dominador. Uma mulher em um reduzido vestido vermelho correspondia ao seu olhar. quando Jonas segurou-a forte. — Diga-lhe que a compensarei — acrescentou Jonas. — Ele é igual ao Jerry. mais ainda quando ele correu a mão pelo seu cabelo e puxou sua cabeça para trás. Jerry Sharpe. Liz começou a se afastar. Apesar de estarem absolutamente imóveis. E ignoraram o que havia ao redor. Esquivando-se.— O que foi? — perguntou ela. mas tinha o perfume de talco e ervas. enrolado como uma mola.. ele pegou a carteira e tirou uma nota. — Ah. — Mas o que ela quis dizer tinha um significado mais amplo. — Aqua bikes? — perguntou ele. De repente. e a música desapareceu. 29 . Eu poderia fazer amor com você muitas vezes antes disso. quando Jonas a alcançou. — Dá a impressão de que você se reprime. Eu vi nos jornais. — Se é assim que pretende se comportar. mas de impossibilidade. — Liz desviou-se dele e tocou o ombro da mulher. não vai ter minha ajuda. Muitas — repetiu ele quando Liz o fitou. era um homem que preferia manter suas paixões reservadas. Mas faltam muitas semanas. — O que sabe sobre o meu irmão? — Jonas. Seus dedos quase furavam os braços dela ao segurá-la contra uma parede. em lugares tranqüilos. deixando seu parceiro de dança boquiaberto. desculpandose por Jonas. mas só precisou ver a expressão dele. Seria o mesmo se ele a beijasse outra vez? Carinhoso. contorcendo-se e empurrando quando era preciso. Nós gostaríamos de conversar com você. escolhidos por ele. Cautelosa. no comprendo — murmurou ela. — Lo siento mucho começou ela. Liz notou o choque nos olhos dela. O homem que estava na sua frente agora era diferente. imprensados um contra o outro. antes que a garota se recusasse novamente. resistência. — Apavorada. Jonas protegeu-a dos braços agitados da multidão. — Claro... naquele momento. cobriu os lábios dela com um beijo. Seu corpo. o irmão de Jerry. — Do que está fugindo? — perguntou ele. Liz procurou aproximar-se mais para alcançar e tocar o rosto dele. Eles já não acompanhavam o balanço da multidão.. O ar ficou preso nos seus pulmões. cheio de desejo. — Se eu não me atualizar para enfrentar a concorrência. ou paixão? Não tinha certeza. Liz tinha a sensação de estar correndo. Não era uma questão de tempo ou lugar. Jonas atravessou correndo a multidão. Liz sentiu a cabeça ficar leve. PERIGO — Momento errado — murmurou ele. Viu o medo transformar-se em especulação. a mulher já tinha percebido a diferença entre Jonas e o homem que conhecera. Liz precisou de um tempo para responder. Jonas dominou-a. A mulher acabara de sair para a rua. Jonas beijou-lhe o canto da boca. Ela nunca teria se encolhido de medo de Jerry. Jonas sentiu-se seguro. soltou-se em uma onda de desconcertante prazer. Os olhos de Liz eram meigos. Liz procurou ver o alvo do olhar atento de Jonas. sem lembrar bem por quê. — Por favor. até que ela o liberou com um suspiro trêmulo. — Ele perdeu o irmão. Seria surpresa.NORA ROBERTS Jonas percebeu que Liz não usava perfume. que logo se virou e fugiu. Jonas sentiu-a contrair-se. Liz apressou-se a acompanhá-lo. até ela quase gritar de pavor. Mas. pela simples razão de que se achava mais forte e mais esperta. Você o conheceu? A mulher fitou Liz e sussurrou. — Eu não sei de nada. a música lenta foi substituída pela barulhenta. Sem esperar pela tradução de Liz. eu acho que entende. O calor do corpo de Jonas penetrava o seu e temperava o beijo quente. Só alguns minutos. — É. a música alta e as luzes que piscavam. esqueceu o clube lotado. Liz colocou-se entre os dois. Seu irmão. pois tinham sido empurrados para um canto da pista de dança. — Sem esperar por ela. Como Liz. Só sabia que abraçá-la o fez desejá-la e precisar dela. Por natureza. Ela quase podia sentir seu beijo. — Este é Jonas. tremendo como vara verde. Ele se perguntou se o corpo dela seria tão delicado de ver quanto era de abraçar. — Ainda com os dedos cravados nos seus braços. — Venha. sim. — O que acontecerá? — Preciso comprar as aqua bikes antes que chegue o verão. sonolentos. Mas ele morreu.

— Nos divertimos muito. Jonas analisou-a enquanto bebia um café. o suficiente para me intrigar — disse Erika. Quando lhe contar. depois prendeu o lábio inferior entre os dentes. — Ali. entende? — Sim. Sua mão fechou-se sobre a de Erika. E não era burra. Quando olhou para Liz. — Certo. Jerry disse que. li nos jornais que ele tinha morrido. Estava muito feliz. — É um começo — murmurou Jonas. Na noite de segunda-feira. Ela jogou a cabeça para trás e cobriu a nota de 50 com uma das mãos. mas disse que em breve ficaria muito mais rico. — Jonas rabiscou o número do telefone de Liz nas costas de um cartão de visita. Outras vezes. Às vezes. — Equilibrando-se nos sapatos altos. 30 . — Acha que foi por causa do dinheiro? — perguntou ela. ela atravessou a rua e voltou para o clube. Senti muito quando soube que tinha morrido. encontrava-se com um mexicano. — Eu gostaria de descobrir o nome dele — afirmou. com um sorriso tão ardente que aqueceu o ambiente. um homem magro de cabelo claro. — Não tenho tempo a perder com amenidades. nós poderíamos fazer uma viagem — Ela soprou a fumaça antes de um filosófico dar de ombros. — Mais relaxada. — Descobrirei os nomes. disse ele. — Achei que fosse muito rico. Jonas pediu dois cafés e um copo de vinho. Ele me telefonou no domingo. Jonas limitou-se a pegar a carteira de dinheiro. Os jornais não mencionaram nada sobre o dinheiro. — Ele era muito bonito — acrescentou ela. — Resolvi perdoá-lo. ela sorriu para Jonas. eu entendo." Eu estava um pouco zangada porque Jerry não tinha aparecido na noite de sábado. ao depositar uma nota de 50 na mesa.. — Erika enfiou a nota dentro da bolsa e levantou. Erika era deslumbrante. você não parece tanto com Jerry como eu achei. Você acha que ele sabe alguma coisa sobre o dinheiro? Jerry disse que era muita grana. mas gosto especialmente de homens ricos. jogando a fumaça por cima do ombro de Jonas. — Falo inglês. "tirei a sorte grande. — Nós partiríamos na tarde de terça-feira. o combinado era eu abandonar o meu trabalho para podermos ir embora. Os músculos do corpo de Jonas ficaram tensos. — Bons amigos. Jonas deixou outra nota na mesa antes de se levantar. "Erika". — Assassinado — declarou Jonas. Como Luis dissera. — Meu nome é Erika. e é muito magro e baixo. Não me esconda nada. Jerry e eu éramos amigos. — Sabe com quem ele fez negócios? — Não. Também tinha certeza de que ela só estava interessada em uma coisa. Eu não gostava dele: ele tinha mal ojo. serão outros 50. Imediatamente. Gosto de homens charmosos.NORA ROBERTS — Alguns minutos — concordou ela. Ternos bons.. — Lembrou-se da pequena pulseira de ouro que ele comprara para ela e dos brincos com as lindas pedras azuis. — Você entende. — Ela sorriu novamente e estendeu o cigarro para ser aceso. — Sabe o nome dele? — Não. Eu estava de malas prontas — acrescentou. ele dirigiu a Liz um olhar de alerta. E generoso. antes que ela começasse a falar. Erika. — Sabe. — Gosto de homens altos. — _Jerry era muito charmoso. — Olhos maus — interpretou Liz. — Tem o rosto marcado. O cabelo é comprido atrás. viu que ela o analisava. apontando para um café ao ar livre. quando ela a estendeu para pegar a nota. — Poderia descrevê-lo? — Não é bonito — afirmou ela de imediato. Mas se vestia muito bem. — Quando você me contar. — Eu não sei. parece que sim — respondeu Jonas. — Há quanto tempo o conhecia? — Há umas duas semanas. — O nome dele e do americano. — Você sabe quando Jerry teria o dinheiro nas mãos? — Claro. afastando de si a xícara de café. na altura do colarinho. sapatos caros. E usava no pulso uma bonita pulseira de prata que entrelaçava nas pontas. quando tivesse o dinheiro. — Mas ele morreu. Erika tomou um bom gole do vinho. ele conversava com um outro americano. — Telefone para este número quando tiver alguma notícia. — Ela fitou Jonas novamente. Mas ele comentou que tinha ido a Acapulco rapidamente a trabalho e me convidou para passar umas semanas em Monte Carlo. — O que Jerry lhe contou a respeito? — Ah. — A mulher pegou um cigarro comprido e fino e bateu-o no tampo da mesa. — Erika dirigiu um sorriso PERIGO comovido para Jonas. — Pergunte qual é o nome dela — pediu ele a Liz. — Algum problema? — Não gosto do seu estilo de trabalhar.

— Um jovem americano de ombros estreitos e sorriso cativante aproximou-se. Não se esqueçam jamais de reservar de cinco a dez minutos de ar para a subida. Não precisa. ele viu as marcas no pescoço dela. que foi tão bem verificado quanto o de qualquer cliente pagante. Isso vale tanto para o seu primeiro mergulho quanto para o qüinquagésimo. — Tem certeza? Não parece tão bem assim. forneceu o equipamento de Luis. — Sem problema. Não podia pensar em Jonas agora. Liz nunca foi 31 . Como última precaução. pensou. Liz amarrou seu cinto de lastro enquanto o grupo de novatos seguia as instruções. sim. — Não. desde que se lembrassem da segurança. esperando que fosse verdade.NORA ROBERTS — O que teria feito se eu não a tivesse acalmado? Teria arrastado a moça para o beco mais próximo e dado uma surra nela? Jonas pegou um cigarro. Ele não a surpreendera na noite anterior. estou bem. — Poderia me examinar? — Claro. fascinada pelos peixes e corais e pela sensação do mergulho em si. Era o policial do dia encarregado da sua segurança. — Liz observou quando o olhar dele desviou-se da brasa na ponta do cigarro para ela. — Este grupo é muito inexperiente — comentou Luis enquanto pesava seu cilindro. — Com seu jeito rápido e eficiente. — É sério. Liz fitou-o confusa ao prender a faca de mergulho. mostrando-os cuidadosamente no seu próprio equipamento. — Luis ajudou Liz com o cilindro. verifiquem o equipamento do mergulhador que está ao seu lado. — Nunca fiz esse tipo de coisa. O barco balançou. depois se afastou para que ela ajustasse as tiras. — A polícia tem tudo sob controle — afirmou ela. — Acho que vocês dois talvez se reconheçam quando chegar o momento. — Liz ajudou-o com as tiras. — Se lhe interessa. Estava na hora de pôr em prática tudo o que tinham aprendido. Capítulo 5 — Verifiquem sempre os seus instrumentos — instruiu Liz. PERIGO descuidada consigo mesma ou com os alunos. Acidentes de mergulho costumavam ser conseqüência de falta de cuidado. A maioria falava animadamente enquanto prendia seus cilindros. nadem sempre em pares. Sempre que dava aulas. Qualquer pessoa que mergulhasse sob sua supervisão saberia o que fazer em qualquer circunstância. Sabia que muitos deles encaravam o mergulho como aventura. — Parece cansada. enquanto falava. É muito comum a pessoa se distrair. Liz concluiu que tinha abordado tudo na aula de uma hora. seus alunos ficariam sem paciência para ouvir. Ao lembrar-se da expressão nos olhos dele. — Obrigada pela atenção. — Vamos para casa. o homem que invadiu minha casa e me atacou usava uma pulseira fina no pulso. Palmer. A vingança nunca é bonita. — É. ela enfatizava tanto as situações inesperadas quanto a maneira de agir. Tinha um negócio para administrar e clientes para cuidar. Liz percebera nele aquela hostilidade latente. Desde o primeiro momento. A história já tinha corrido a ilha. — Srta. E essa era a meta de Jonas. trazendo-a de volta para o momento presente. Estou preocupado com você. Liz começou a verificar os instrumentos e as mangueiras. — Não sei se você é diferente dos homens que está procurando. — Liz vestiu a máscara e dirigiu o olhar para uma figura paternal e gorducha que brigava com as nadadeiras. e esquecer que depende do cilindro de ar. Como fazia com todos os seus funcionários. Alguns de vocês talvez queiram explorar separadamente. lembrem-se. Senti quando ele segurou a faca na minha garganta. Se falasse mais. Tinha menos certeza ainda quanto a Jonas. Luis. tentando dominar seu temperamento. — Fique de olho no casal em lua-de-mel. Liz teve muito medo de que ele se vingasse. — Ela se afastou da mesa. Liz. Quando Liz se virou. Contudo sentiu um frio e um vazio no estômago quando percebeu a expressão e a voz de Jonas ao tratar com Erika. Não o conhecia tão bem para saber se ele reprimiria a violência ou a liberaria. garota. mas. — Estou um pouco nervoso — confessou ele. Isso não era problema. Eles estão mais interessados neles mesmos do que nos seus medidores. — Cada um deles é vital para a sua segurança debaixo d'água. — Vamos mergulhar em grupo.

alguns em grupos. À direita. estava feliz com a satisfação de seus clientes. divertindo-se como Liz lembrou-se de que precisava mantê-los à vista. Para ajudá-lo a relaxar. — Com uma flexibilidade invejável. A sensação de não ter peso. A profundidade neste lugar é de dez metros — informou ao grupo. ela viu a areia subir e turvar a água. mais respostas foram dadas. Coloque a máscara. sem sair de perto. e seus olhos pareciam grandes e claros através do vidro. Ele acenou a cabeça e acompanhou-a na descida. — É preciso dosar o tempo de mergulho com o tempo de superfície. Ela demorou ali um pouco. eles esperaram que cada aluno mergulhasse. A luz do sol penetrava a água em listras finas. — Fantástico! — exclamou. mantenham o grupo à vista o tempo todo. outros sozinhos. Liz sentou-se na plataforma e rolou para dentro da água. Os outros mantiveram-se num grupo unido. Certifique-se de que esteja justa. Os nomes científicos dos peixes e das formações por PERIGO que passavam não eram estranhos para ela. Seu rosto estava avermelhado do sol. O recém-casado fez algumas cambalhotas para mostrar-se para a esposa. Liz divertiu-se observando um peixe-anjo ocupado engolindo as bolhas que subiam para a superfície. Liz sorriu. encontrava a paz de espírito que a fazia esquecer o dia-a-dia. havia uma variedade de cores. ondulavam rosa e violeta na corrente. Ficaria de olho nela. Mas nós repetiremos isso. apreciando a vista semelhante a uma catedral. fascinados mas cautelosos. Aqui. Liz rodeou o grupo e observou os mergulhadores individualmente. Luis no deque. talvez melhor que o da superfície. 32 . Quando a aula terminou. Aquilo bastava. Ela caminhou por entre os equipamentos para fazerlhe companhia. Agora. Liz percebeu que o americano que ficara com ela estava sentado sozinho. — Se não se importar. Era um mundo que Liz conhecia muito bem.NORA ROBERTS — Um pouco de nervosismo não faz mal. acho que vou ficar perto de você lá embaixo. — Liz tirou os cilindros e alongou os músculos. e Liz a poucos metros. num misto de prazer e nervosismo. virar uma unidade ao passar por um coral. afastavamse um pouco mais. A fim de entreter seus alunos. verificada quando chegaram à superfície. Mesmo a areia sendo branca. Visto de perto da superfície. virouse de costas para ficar de frente para a superfície. Ele obedeceu. — Quando poderemos voltar a mergulhar? Com uma risada. O nome vem da Górgona da mitologia. Era um macho combativo que não saiu do seu território e beliscou-a. Liz tocou o ombro dele e apontou para cima. cutucou uma pequena maria-mole. de ser invulnerável. Os recém-casados estavam de mãos dadas. Após um último ajuste da máscara. ao subir de volta no deque. Depois. Corais-cérebros elevavam-se em amontoados robustos da cor do açafrão. delicadas como a renda. cobrando por hora. Assim será mais cuidadoso. tremelicando seus corpos. mas ele não parecia importar-se. irritada com a intrusão. Somente o policial e o americano nervoso mantiveramse o tempo todo a uma distância de um braço de Liz. um passeio inesquecível para guardarem das férias. O fundo do barco de mergulho estava plenamente visível. O chicote gorgoniano tem uma estrutura de esqueleto elástica e ondula como uma cobra com a corrente. Liz ajudou outros passageiros a subirem para o barco. Já os estudara com afinco. Mais perguntas foram feitas. mas confortável. acompanhava turistas e lhes proporcionava. no silêncio. Durante os 30 minutos de mergulho. e a água estando clara. — O que era aquela coisa que parecia cheia de penas? — perguntou alguém. O policial designado para ela avançava lento como uma tartaruga do mar sonolenta. À medida que os mergulhadores adquiriam confiança. um homem de negócios inglês que fazia sua primeira viagem ao México. Aquela fora uma outra vida. Os peixes passavam por eles. — É para isso que estou aqui. as Górgonas tinham serpentes em vez de cabelo. Liz sinalizou para seu companheiro e observou um cardume de peixes varredores. com sonhos de resolver mistérios e transmitir a outros a beleza do mundo marinho. o chão do mar era uma extensão branca. O americano magro a fitava com os olhos abertos. Sinalizando para terem cuidado. Com um movimento fácil. ela mergulhou. — Lembrem-se de fazer os ajustes para pressão e gravidade à medida que forem descendo. — Cresce como se fosse um arbusto. a fantasia de não ter impedimentos. As anêmonas-do-mar. Por favor. — Você foi muito bem. Liz sempre adorou aquilo. — Caso se recordem. — É uma gorgônia. Liz apontou para a arraia em forma de prato que se afastava. bateu os pés e desceu para encontrar seus alunos. sorrindo levemente.

Então você estudou na Universidade Texas A&M. incluindo o segurança e o contador americano. Vamos verificar seu equipamento. Quem sabe em outra ocasião? — Talvez. 33 . Os clientes de Liz. Outros permaneceram perto do barco. — Isso mesmo. — Trydent. escolheu um lugar excelente para isso. Houston não é propriamente uma cidade pequena dos Estados Unidos. E gostei muito. querida. acho que não quer. senhor. — Eu gostei. dá aulas particulares? Liz entendeu o olhar. Ambuckle. — Os olhos dele iluminaram-se. sim.NORA ROBERTS — Sério? — Ele encolheu os ombros. Parecia muito satisfeito consigo mesmo. — E você? — Contabilidade. — Então talvez eu. Liz fitou-o com um sorriso de desculpas e levantou-se. Ei.. Na verdade. com as pernas pulando para fora da roupa de mergulho pequena demais. — Acho que mergulhar é minha atividade preferida. Ele estava na estreita calçada. — Olá. Quando o barco de mergulho aproximou-se da praia. — Uma delas.. — Espero que tenha apreciado. Dá para ver que você sabe o que faz. Pronto para mergulhar de novo? Ele respirou fundo. — Qual era a sua área? — Biologia marinha. — Estou nisso há muito tempo. — À noite. — Não brinca. Liz sorriu para ele enquanto ajudava Luis e um de seus funcionários a descarregar o barco. Ele estendeu as pernas compridas e magricelas que eram muito mais brancas do que seus braços. — Ele sorriu novamente. mas devo admitir que me senti melhor sabendo que você estava bem ali. Ele se recostou e abriu o fecho do colete de mergulho até a cintura. contente consigo mesmo. — De vez em quando.. — Verdade? — Esse tipo de conversa sempre provocava nela um desconforto que em geral demorava um pouco a passar. mocinha! Liz protegeu os olhos com a mão para ver melhor. — Não é má idéia. que tal um drinque depois de voltarmos? Até que ele era atraente e agradável. parecendo um pouco confuso. Tenho alguns amigos em Houston. — Ora. não é? — Bem. Universidade Texas A&M. Você não conhece os Dresscots. mas que começavam a ficar bronzeadas. — Nossa.. vestindo um maiô cujo modelo pretendia afinar os quadris largos. — Mundo pequeno — exclamou ele.. talvez não tenha sido rude o bastante. É americana. Ocorreu a Liz que talvez tivesse sido um pouco rude com ele. afastaram-se para se arrumarem para o jantar ou esticarem-se na praia. Sr. contentes na maioria. por outros calibrados. o dia já estava chegando ao fim. — É para isso que estamos aqui. É por isso que sempre tiro férias quando termina o período de imposto de renda. — Estou. — Gosto do Texas. — Talvez eu devesse levá-lo como parte da minha tripulação. eu estudei no Texas.. — Você. batendo na própria coxa. Talvez repita a façanha um outro dia. por pouco tempo. — De onde? — Houston. — Ambuckle olhou para a mulher e deu um tapinha no seu ombro. Isso mesmo — confirmou ela. — Tive um dia cheio. — O Sr.. — Não quero ser intrometido.. Ambuckle. Sua mulher olhou para Liz e revirou os olhos. — Eu também. PERIGO — Ainda ficarei por aqui mais umas semanas. — Vai sair de novo? — perguntou a mulher. sua mulher. A seu lado. Ele riu. O pouco cabelo que possuía estava esticado para trás de tão molhado. Mas pode chamar de Scott. mas estava pensando em você. Quer vir? Não. mas tenho um compromisso. Preciso trocar estes cilindros. ahn. como se para se acalmar. Liz passou os dedos pelo cabelo molhado. parecia cansada. — Acho que combina. não é? Não era a primeira vez que perguntavam. — É um assunto muito árido. — Acabei de chegar! — gritou ele.

e Sra. no entanto. As pessoas viajavam em casais. Ambuckle deu um tapinha nas costas do rapaz. — Hasta luego — disse Liz. Ele acabou de fazer seu primeiro mergulho. ao esticar a mão. sempre que lembrava de um. — Mas também não parece feliz. dirigindo os olhos para o céu. — Por uma questão de hábito. Seria exigente. — Separe-o para que Jose o examine. um relacionamento com ele não seria tranqüilo. com um aceno para ele ir embora. acho que concordo com você — exclamou ela. Liz pulou para o cais. meu compromisso é com o livro da contabilidade. a de outra pessoa iria segurá-la? Ela esticou a sua e lembrou da mão rígida e forte de Jonas.. — Para falar a verdade. Seria confortável saber que. e frágil 34 . experimente à noite. Ambuckle. — Expansivo. É um negócio totalmente diferente. Faith está feliz em Houston com os meus pais.. Luis passou um dedo pelo bigode. — Então você acha que um turista americano rico é o caminho para a felicidade? — Talvez um mexicano bonito. depois do verão. Com uma gargalhada. Ambuckle pegou os cilindros e saiu balançando em direção à loja. aos mais jovens que se abraçavam sobre uma toalha de praia. — Já fechou a loja na noite passada — lembrou ela. Sr. Se eu não tivesse certeza disso. Conhecia Liz há muitos anos e compreendia que havia limites que ela não deixaria ninguém ultrapassar. O exagero a fez rir. Ora. eu. Por que não pega de jeito um desses turistas americanos ricos? Aquele ali no barco: os olhos dele saltam para fora toda vez que olha para você. desde os mais velhos. — Obrigada de qualquer forma — disse Liz gentilmente e afastouse. — Desde quando? — Desde sempre. Trydent. a de ser um casal? Ou será que você perde automaticamente uma parte de si mesmo quando se une a outra pessoa? Liz sempre pensara nos pais como indivíduos distintos. Liz endireitou-se. Quanto a mim.. Ela viu Ambuckle caminhando pela areia com dificuldade com os cilindros novos. — Tudo guardado? — perguntou ela a Luis ao entrar na loja. — Depois de dar mais uns tapinhas nas costas de Scott. — Cuidado com aquele Jonas Sharpe — acrescentou ele. — Hora extra? Vá para casa. Seria essa uma sensação gostosa. — Quanto àquele drinque. este é Scott Trydent. Luis. Quando a loja esvaziou. — Não.. que descansavam tranqüilos nas espreguiçadeiras dos hotéis. — Luis vestiu uma camiseta. — Ah. até mesmo assustador. — É um maníaco — comentou a Sra. E você? Liz franziu a testa e pegou as chaves numa gaveta. Fica pior cada vez que manda Faith de volta para estudar. — Vou pensar nisso.. — Um encontro amoroso? — Existe algum outro tipo? Rindo muito. Estaria melhor se ela ficasse aqui. — Preciso trocar estes cilindros. Surpresa.. — Não tenho dúvida. — A única água que quero ver é a da banheira.. Não me diga que não tem programa. Liz ficou balançando as chaves e olhando para a praia. — Que tal achou? — Bem. ora. — Não me importo de ficar. ele tocou o ombro dela. Você e os outros podem ir. — Ela está feliz. mas. A voz de Liz suavizou-se levemente. PERIGO — Você trabalha demais — comentou Luis.NORA ROBERTS — Vou direto para a cama com um bom livro — explicou a mulher a Liz. — Estou conferindo agora. A mulher precisaria ser forte para manter-se intacta. Liz virou-se para ele. — Eu pareço infeliz? — Não. não é? Se quiser. Um dos instrumentos está desregulado. então vá se aprontar. rapaz. Não temos muito trabalho para agora. assim que todo o material for conferido.. e ela acariciou-lhe o rosto. Não. ela se dirigiu ao fundo da loja para encher seus cilindros antes de guardá-los. Eu fecho a loja. Seus outros funcionários conversavam enquanto o último equipamento era guardado. Agora vá para casa — ordenou ela. — O que você quer? — Liz riu para ele por cima do ombro. — Não se deixe convencer por ele. como prova de sua afeição por Luis. — Todos os barcos chegaram.. Sr. — Bem. — Scott — corrigiu o americano. — Neste momento. o outro logo lhe vinha à mente. — Ele tem um olhar estranho. — Estou indo. com certeza. Não há nada igual. — Hesitante.. ela não estaria lá. Luis. Ambuckle.

e abriu a mão. talvez valesse a pena arriscar. Com uma sensação de medo. Por um instante. pensou. o quarto de guardados. as portas da frente e dos fundos de casa. Um outro casal esfregava-se em um outro reservado. Somente quando pegou as chaves de novo lembrou dos seus cilindros. e ela não estava atrás de um sonho. imaginando como seria ser abraçada e beijada como se nada e ninguém mais existisse. — Isso você tem. pensou ela. examinou e identificou cada chave do chaveiro. Mas havia mais uma no chaveiro. sua motocicleta. E Jerry costumava trabalhar na loja sozinho.. quer queira. — Quero privacidade — justificou-se ela. As palavras de Jonas ecoaram na sua cabeça.. O tipo de mulher cujo jogo era um pouco óbvio. Não. ou uma caixa. examinou a chave de novo. — Passei direto na primeira vez. Ele podia dar-lhe outros 50. — Talvez. Este lugar não faz parte exatamente da rota turística. Liz contou as chaves mais uma vez. Por um instante. Aquele talvez fosse seu único prazer. pendurou sua roupa de mergulho. e novamente encontrou uma chave extra. Como a sensação persistia além da sua compreensão. Jonas saiu do reservado e comprou dois drinques no bar. Oito chaves para oito trancas. — Tem o nome? Erika sorriu e tomou um gole da bebida. Enfiou a pasta sob o balcão e virou-se para cuidar do seu equipamento pessoal. Era o tipo que sempre atraíra seu irmão. a tranca da corrente. ela fechou a porta e se preparou para trancá-la novamente. Ser beijada assim. ou. Em silêncio. Havia dois homens no bar. Liz sonhou com aquilo. mas já não se sentia segura para levar dinheiro e cheques para casa. Com a testa franzida. Sem saber exatamente por quê. Eles precisavam abrir o caixa. não fazia sentido. o cinto de lastro e o regulador. Parecia a chave de um armário.. a roupa de mergulho era mais emocionante do que qualquer seda francesa. Erika fechou os lábios sobre o filtro. — Mas falta uma bebida. quer não. Ambos tinham que lidar com suas próprias realidades. Precisaria se desviar do seu caminho para fazer um depósito. Um relacionamento com um homem como Jonas seria um risco que nunca se atenuaria. Mas ela teve uma sensação de pesar e um misto de emoções e desejos. Jonas analisou-a friamente. Jonas pegou sua carteira de dinheiro e depositou uma nota de 50 na mesa. Liz fechou a loja cedo.. a janela do balcão. Erika estava sentada em um canto no fundo da sala. Todo o seu equipamento era guardado separado do material da loja. Conforme combinado. Jonas entrou no bar mal-iluminado com cheiro de alho e o som estridente da vitrola automática. Sua faca foi guardada no estojo e colocada em uma prateleira. Jonas não estava em busca de uma parceira. uma pequena chave prateada que não significava nada para ela. o caixa. O resto do bar estava vazio. Surpresa. mas estava no seu chaveiro. A porta da loja. ele ficou parado para acostumar a vista. Serviu Erika de tequila com lima e ficou com o copo de club soda. — Está atrasado. Pequena demais para ser a PERIGO chave de um carro ou de uma porta. — Distraidamente. Liz concentrou-se fundo nos pequenos detalhes que precisavam ser resolvidos para poder fechar a loja. Talvez você o queira tanto que possa pagar mais 50. Liz guardou as chaves no bolso. A chave não era sua. mas não afastou a mão. Por quê? Porque alguém a colocara ali. ser abraçada daquele jeito sempre que sentisse necessidade. Erika enrolou um fio de contas coloridas no dedo. Você está envolvida. Ridículo. Os papéis e o conteúdo do caixa foram transferidos para uma pasta de lona. depois passou os olhos pelos reservados estreitos. As circunstâncias os tinham aproximado temporariamente. Tolice. Depois de arrumar os cilindros lado a lado. — Você disse que pagaria 50 por um nome. Passou mais alguns minutos preenchendo meticulosamente uma ficha de depósito.NORA ROBERTS para se deixar fundir. e afastou o pensamento. Suas chaves sempre estavam guardadas na gaveta da loja para que Luis ou qualquer outro funcionário tivesse fácil acesso. concluiu ela. Erika sacudiu um cigarro apagado quando ele se juntou a ela. alguém cantava uma música que falava de amor eterno. cada um entretido com sua própria garrafa. num suspiro. 35 . guardou a máscara. — Então você tem algo para mim. Liz destrancou a porta do armário. Em espanhol. Dedicava mais tempo ao seu equipamento pessoal do que ao conteúdo do seu guarda-roupa Para Liz. e Jonas acendeu seu cigarro. Por que haveria uma chave no seu chaveiro que não lhe pertencia? Segurou-a e tentou lembrar se alguém tinha deixado com ela alguma chave para guardar. Jonas olhou ao redor. concluiu.

Quando encontrou o ursinho com a orelha gasta. para ela. Numa maré de solidão que tomou conta dela. E de tanto Faith segurar o bichinho pela orelha. — Vou lhe contar mais uma coisa porque Jerry era um cara legal. No caminho de casa. As pessoas ficaram nervosas quando eu perguntei sobre ele. — Liz pigarreou e pegou o brinquedo de volta. — É. perguntou-se. — Jerry se meteu em algum negócio barra-pesada. Era experiente o suficiente para não deixar uma oportunidade escapar. não é nenhum escoteiro. — Está bem.— Ele me deu isto. então. Sem uma palavra. — Só descobriu isso hoje? 36 . minha menina — murmurou. Jonas começou a sentir-se asfixiado com a atmosfera do bar e se levantou e hesitou só por um instante. você sabe. Liz queria que ele estivesse em casa. Cinqüenta. Erika guardou-a bem na bolsa. pensou. o americano? — Nada. — E você chegou em casa cedo. — Você tinha saído. Liz fechou a pasta de lona com documentos e PERIGO dinheiro na escrivaninha. Lamentou não ter uma tranca para ela também. Comprara-o para Faith antes de seu nascimento. Mas se anda com Manchez. — Sinto muito. tirou-o da prateleira. Você já tem o nome. — Obrigado. Faith o chamava simplesmente de meu e. — Ela mostrou a pulseira que tinha no pulso. — Ela colocou o urso na cômoda de Faith.. — Sim. Estaria sozinha. — Não sei se consigo agüentar. para. Por quanto tempo a polícia ficaria pacientemente do lado de fora de sua casa e a seguiria na sua rotina diária? No quarto. Era de um tom vermelho-escuro bem vivo. Não conseguia sentar quieta. sentindo-se tola. — Como assim? — Estou dizendo que esta chave não é minha. encaminhou-se para o quarto da filha. É o que tem o rosto marcado. — Descobri uma coisa. antes que o enchimento saia. foi ficando cada vez mais nervosa. — Erika sorriu quando ele se acomodou. Por quanto tempo?. pensou. Quando viu Jonas. — Onde posso encontrá-lo? — Eu não sei. não fique bravo. — Esta não é minha. pelo menos por enquanto. Agora estava desbotado. — Está velho. e suas costuras estavam se desfazendo. caixa ou alguma coisa que a polícia não tenha percebido. — Ele parece muito amado. E. Erika guardou a nota com o mesmo cuidado que a primeira. — Estou sempre querendo refazer as costuras.. Mas não conseguiu recolocá-lo na prateleira superior. Precisava fazer alguma coisa. Procurou detalhadamente no armário de Faith. Num impulso. — Você estava ocupada. e terminou achando melhor guardar as novidades para si. era o bastante. como ela estaria? Liz fitou as chaves novamente. mas não queria fazer papel de idiota. — Jonas aproximou-se para gentilmente tirar o ursinho da mão dela. — Liz enfiou a mão no bolso e tirou as chaves. Já estava saindo do reservado quando Erika segurou seu braço. Do lado de fora. Moralas recuaria na proteção. apertou as chaves na mão e praguejou frustrada. e eu não sei como ela foi parar no meu chaveiro.NORA ROBERTS pensou. — Erika deu mais um gole na bebida. Ele pagou. Quando encontrou a casa vazia. pegou a nota e guardou no bolso. — Ah. que saudade de você. — Erika fez um revólver com a mão e abaixou o polegar. Liz caiu para trás contra a porta do armário. — Liz? Num grito sufocado. parei de fazer perguntas. Quem sabe Jerry tenha deixado um estojo. Com um aceno de cabeça. Jonas pegou a nota e entregou a ela. Ninguém o conhece. o policial do turno da noite estava assumindo o posto. escondeu o urso atrás de si. — Ela passou os olhos pelo bar e se inclinou para mais perto de Jonas. sí? O nome é Pablo Manchez. Mais cedo ou mais tarde. — De nada. — Uma garota precisa se sustentar. — Não ouvi quando entrou — disse ela. — Esse Manchez é perigoso. Ouvi dizer que esteve envolvido em alguns assassinatos em Acapulco no ano passado. Liz enterrou o rosto naquela coisa felpuda desbotada. — E quanto ao outro cara. Nós tivemos bons momentos. — Quando soube disso. Nunca lhe deram um nome. — Jonas tinha ponderado se devia contar a Liz sobre o encontro com Erika. antes de tirar da carteira mais uma nota e deixá-la ao lado do copo de Erika. ou pelo menos tinha sido há muitos anos. ela estava reduzida a uma leve saliência. Jonas franziu a testa ao fitar a chave indicada.

Se é o que você acredita.. Acho que eu não teria percebido. Não quero nenhuma parte disso. — Então você acha que era dele? — Acho que seria exatamente o estilo dele. a não ser que quisesse escondê-la. não posso largar tudo e seguir você numa corrida de caça ao tesouro. — O quê? — Era uma das histórias preferidas de Jerry quando éramos crianças. — Sim. — Olha. — Lei nem sempre significa justiça. — Sabe. Ainda era vingança. — Só porque Jerry disse a Erika que tinha negócios lá? — Se Jerry estava metido em alguma coisa. Vou descobrir o que aconteceu com o meu irmão e qual foi o motivo. se pudesse. Um cofre de banco em Acapulco faz sentido. pensou. E a fez lembrar de sua conclusão a respeito de Jonas. mas os olhos dele estavam frios e próximos. Jonas só precisou deslocar o corpo para barrar sua passagem. Jonas. A chave estava quente na sua mão. Jonas pegou Liz pelos ombros até ela ficar encostada na porta. — E não vai parar enquanto não terminarmos com isso. — Você acha que o delegado Moralas pode investigar? — Até pode — murmurou Jonas. — Não posso tirar uns dias de folga. ou de você. — Com sorte. ela não se distanciara. Liz sentiu-se incomodada ao recordar-se dos seus próprios sentimentos de justiça. A palavra "juntos" trouxe de volta a Liz seus pensamentos a respeito de casais e conforto. — Não está preocupado comigo. — O que mais poderia ser? — perguntou ela. Em casa.. costumo jogá-lo na bancada da cozinha. mas ela pode estar aí há mais tempo. — Você sabe o que é isto? — Uma chave. Não vai precisar de uma intérprete. faça uma boa viagem. Jonas examinou a chave. músculo por músculo. e eu pretendo antes abrir o cofre. ele esconderia. Liz reconheceu o olhar com certa facilidade. — Guardo o chaveiro em uma gaveta da loja quando estou lá. Recordo-me de quando testou a teoria colocando na prateleira da biblioteca um livro que ele tinha comprado para o meu pai de Natal. — Jonas guardou a chave no bolso. — A chave estava no seu chaveiro. A faca na sua garganta. — Com a esperança vã de poder distanciar-se. — Preocupado? — A expressão do rosto de Liz endureceu. — Nós dois sabemos que isso não é verdade. — Seu olhar desceu e deteve-se nos lábios de Liz. — Jonas passou a mão pelo rosto de 37 . Jonas. Tinha que ser. — Não sei do que está falando. — A carta roubada. terei o nome do banco até a tarde de amanhã. — Não está usando seus livros de direito. e tenho o número de série. e se tinha algo importante e valioso. A única coisa que importa para você é sua vingança.NORA ROBERTS — Descobri hoje. Não consigo pensar em nenhuma razão para alguém colocar a chave no meio das minhas. Era o próximo passo. Liz sentiu na garganta as batidas de seu coração. sim. ir de banco em banco e perguntar se pode experimentar a chave? Vai atrair a polícia. você sabe — repetiu. Não diria que era medo. — Por quê? — Porque ele iria querer ficar com ela. Jonas. — Não adianta ter uma chave quando não se tem a tranca. — Liz sentou-se na cama de Faith. — Não deve ser difícil encontrá-la. — Eu vim aqui para fazer uma coisa específica e pretendo fazê-la. — Jonas virou-a para ler os números gravados no metal. É possível que você precise tirar uns dias de folga. — De um cofre de banco. — Muito bem. sentia-se pisando em areia movediça. Não me importa nem um pouco se você chama isso de vingança. Não. — Liz começou a encaminhar-se para a porta. — O que vai fazer. PERIGO Liz pensou em tecer algum comentário sarcástico. Deixou o urso na cama da filha e levantou-se. talvez somente para si mesmo. por que deveria? — Nós vamos para Acapulco. — Mas não vou contar isto ao delegado. Novamente. Começamos uma coisa. — Jonas segurou a chave pela haste. — Tenho algumas conexões. — Nós vamos juntos. Acapulco é muito cosmopolita. — Jonas imprensou-a mais para provar algo. e. — Justiça. Liz pegou o urso e sentiu que ele a confortava. Quero você ao meu alcance. Liz separou a chave das outras e entregou-a a Jonas. mas desistiu.

— Ela juntou as mãos apertadas. Mas havia outro tesouro cheio de mistério e que o frustrava. Mas ele não teve escolha. estava rude.NORA ROBERTS Liz e emaranhou os dedos nos cabelos dela. por um instante. — Por quê? — perguntou ele. mesmo tonta. Acima da água. — Não quero me sentir assim. protegido. Liz sacudiu a cabeça e. Mesmo assim. — Isto é agora. tinha sido carinhoso porque a expressão dos olhos dela pediam isso. Nunca houve outro tempo. Talvez o mais antigo balneário do México. Distraidamente pegou o ursinho que Liz havia deixado em cima da cama. Liz acenou a cabeça concordando porque tinha certeza de que ele saberia. Ele queria tudo. Jonas envolveu a chave com a mão. — Não. lutando para refazer-se. Ele a queria. uma mescla de mistério e doçura que o enlouqueceu. — Liz empurrou-o. mas uma mulher de força. Liz nunca soubera que o medo pode ser uma fonte de prazer. sua boca comprimia a dela. você está me atrapalhando. As mãos dele a procuravam como se tivessem feito isso sempre. — Jonas. Ele tinha suas próprias batalhas para travar. Capítulo 6 Acapulco não era o México que Liz conhecia e amava. de certo modo. porque a força das suas próprias necessidades assim o exigia. Vou tomar providências para Luis assumir a loja por um dia ou dois. empilhados e resplandecentes à luz do sol tropical. A boca de Jonas cobriu a sua desesperadamente. depois cedeu tão rápido que era quase impossível distinguir uma reação seguinte. mais cedo irá embora. Eu não quero isto. — Faça o que precisa fazer. Olhou para o urso e depois para a chave. Droga. Ela cheirava a mar e tinha o sabor da inocência. outra mulher que tivesse se unido a ele para fazê-lo sofrer. Liz passara toda a sua vida nas planícies de Houston e de Cozumel. As montanhas faziam tudo mais parecer menor e. Ela não podia. Jonas. isto é errado. resistiu. A arriscar. Eles estavam no quarto de sua filha. As ruas barulhentas. Antes. buscando paixão. do que via ao longo de uma semana 38 . — Eu abraço você e esqueço o que preciso fazer. — Ele segurou o rosto dela para que ela o fitasse. se planar no céu seria tão revigorante quanto deslizar na água. Era uma cidade sofisticada e ultramoderna. De algum modo. Qualquer mulher poderia sonhar com um homem olhando para ela com tanta paixão e necessidade Qualquer mulher poderia jogar para o alto toda a cautela só para um homem cobiçá-la com um desejo tão selvagem. Quando ele a encontrou. — Droga. a deixar-se entrar no desconhecido. desde que tinham aterrissado no aeroporto. talvez seja a única coisa certa. mas Liz ainda preferia a tranqüila atmosfera de sua ilha. PERIGO — E é a minha vida. Liz. Não era sua intenção. Ele a desafiara a pular fora. permitindo ao aventureiro uma vista panorâmica e um passeio deslumbrante. Ele a amedrontou. Quando Liz o deixou sozinho. — Vou saber lidar com isso. próximo do limite. Liz perguntou-se. Olho para você e a desejo. Ele a tomou pelos ombros. Ele esqueceu tudo mais e levou-a para a cama para completarem o ato. Ela abriria um cofre. Acapulco ostentava incontáveis restaurantes e clubes noturnos. planavam pára-quedas coloridos. precisaria descobrir uma maneira de aproximá-los. — Liz ajeitou o cabelo com as mãos. desesperado. pensou. submissão. tinham uma excitação no ar. — Irei com você para Acapulco porque. independente de ela querer ou não. força. apinhadas de gente. Liz reparou que tinha visto mais pessoas em uma única hora. outro lugar. — Sabe que Moralas vai mandar alguém para nos seguir. para onde fugira uma década antes e que se tornara seu lar. — Não para mim. afastou-se. Os olhos de Jonas já não estavam frios. rodeada por montanhas e beijada por uma magnífica baía. — Mas agora há mais uma coisa. cujos hotéis eram arranha-céus espiralados. ela teve de admitir que a cidade impressionava. Não encontrou seda e cetim. Quanto mais seu coração batia. quanto mais cedo tiver o que quer. ela enrijeceu. — Liz respirou fundo e viu que podia encará-lo diretamente. Jonas pegou a mão dela antes que ela pudesse se afastar. Era um amontoado de piscinas e lojas da moda. Agora. — Eu não cometo o mesmo erro duas vezes. Sua cabeça estava girando. mais deixava que ele a puxasse para perto. Quando terminou de falar. o único sinal externo de que travava uma luta interior.

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em Cozumel. Ao sair do táxi, pensou se teria tempo de bisbilhotar alguma das lojas de mergulho. Jonas escolhera o hotel com muito critério. Era absurdamente caro — ao estilo de Jerry. As construções mais sofisticadas, situadas no declive das montanhas, eram viradas para o Pacífico. Jonas pegou uma suíte, guardou a chave no bolso e deixou a bagagem com o porteiro. — Vamos ao banco agora. — Jonas levara dois dias para ligar a chave a um nome. Não pretendia perder mais tempo. Liz seguiu-o para a rua. Na verdade não estavam ali para se divertirem, mas dar uma olhada no quarto e engolir um almoço rápido não parecia demais. Jonas, contudo, já entrava em um táxi. — Será que não dava para pedir, em vez de mandar? — perguntou Liz ao bater a porta. — Não — respondeu Jonas, dirigindo-lhe um rápido olhar. Depois, deu o endereço ao motorista e recostou-se no banco. Compreendia a atração que Jerry sentia por Acapulco, com sua vida noturna frenética e o ambiente de fama, luxo e riqueza. Quando ficava em algum lugar mais que um dia, era porque tinha o clima de Nova York, Londres, Chicago. Seu irmão nunca se interessara pela atmosfera rústica e serena de um lugar como Cozumel. Portanto, se tinha ido para lá e permanecido, havia uma razão. Em Acapulco, Jonas descobriria qual era. Quanto à mulher ao seu lado, ele não tinha a menor idéia de qual era seu papel nisso tudo. Estaria ela presa pelas circunstâncias que se formaram antes mesmo de tê-la conhecido, ou seria ele que a estava envolvendo mais do que devia? Liz estava sentada ao seu lado, em silêncio e um pouco irritada. Provavelmente, pensando na sua loja, deduziu Jonas, e desejou poder mandá-la de volta em segurança. Gostaria de poder voltar para a casa dela e amá-la até que ambos estivessem saciados. Normalmente, Liz não seria uma mulher que o atraísse. Não era propriamente espirituosa, não tinha uma educação requintada, nem uma beleza clássica. Porém, Liz o atraía tanto que ele passava as noites em claro e os dias à beira da frustração. Ele a desejava. Queria explorar plenamente o sabor da paixão que mal provara. Queria excitá-la tanto que ela não conseguisse mais pensar em contas, clientes ou compromissos. Talvez fosse uma questão de exercer seu poder — já não sabia ao certo. Mas, principalmente, queria apagar da lembrança à imagem dela abraçada ao urso de pelúcia no quarto da filha. Quando o táxi parou em frente ao banco, Liz desceu sem dizer uma palavra. Ao longo das ruas, havia lojas e butiques cujos manequins

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exibiam vestidos maravilhosos. Mesmo à distância, Liz conseguia ver o brilho das jóias. Uma limusine passou por eles com vidros fumê e motor silencioso. Liz desviou os olhos para além dos edifícios altos e polidos, para as montanhas e o espaço aberto. — Este deve ser o tipo de lugar de que você gosta. Jonas observara sua análise do lugar. Entendeu que ela tinha comparado o balneário ao seu canto mexicano e concluído que faltava a Acapulco o que ela apreciava. — Em certas circunstâncias — respondeu Jonas, segurando-a pelo braço e conduzindo-a para dentro. O banco era silencioso e sossegado, como os bancos devem ser. Os funcionários usavam ternos sóbrios e sorriam educados. As conversas eram desenvolvidas em murmúrios. Jerry, pensou Jonas, sempre preferia o conservadorismo quando se tratava de guardar seu dinheiro, assim como optava pela extravagância na hora de gastá-lo. Sem hesitar, Jonas aproximou-se da caixa mais atraente. — Boa tarde. Ao fitá-lo, seu sorriso cerimonioso logo iluminou-se. — Sr. Sharpe, buenos dias. É um prazer revê-lo. Ao seu lado, Liz gelou. Então Jonas já esteve aqui antes. Por que não me contou nada? Afinal, qual era o jogo dele? Ela lhe dirigiu um olhar questionador. — Eu também estou muito feliz por vê-la. — Jonas inclinou-se para apoiar o corpo no balcão, com um jeito urbano e sedutor. Liz percebeu e sentiu um leve ciúme, inesperado e indesejado. — Eu não sabia se você se lembraria de mim. A caixa corou e olhou cautelosa na direção do supervisor. — Claro. Em que posso ajudá-lo hoje? Jonas tirou a chave do bolso. — Eu gostaria de ir até o meu cofre. — Ele se virou e preveniu Liz com o olhar, antes que ela dissesse alguma coisa. — Providenciarei isso imediatamente. — A caixa pegou um formulário, datou e entregou a Jonas. — Por favor, assine aqui. Jonas pegou a caneta da moça e, com naturalidade, assinou: Jeremiah C. Sharpe e sorriu para a caixa, para espanto de Liz. Com o supervisor por perto, a funcionária limitou-se aos procedimentos normais e verificou a assinatura comparando-a com o cartão do arquivo. Elas combinavam perfeitamente. — Por aqui, Sr. Sharpe.

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— Isso não é ilegal? — sussurrou Liz enquanto a caixa os levava da sala principal. — É. — Jonas gesticulou para ela segui-lo. — E isso faz de mim sua cúmplice? Ele sorriu para ela e aguardou a funcionária retirar a comprida caixa de metal do lugar. — Faz. Se tiver algum problema, recomendarei um bom advogado. — Ótimo. Tudo o que preciso é de um outro advogado. — Pode usar esta cabine, Sr. Sharpe. Quando terminar, é só tocar a campainha. — Obrigado. — Jonas cutucou Liz para que entrasse, fechou a porta e trancou com a chave. — Como sabia? — Sabia o quê? — Jonas colocou o cofre sobre uma mesa. — Você se encaminhou direto para aquela caixa. Do jeito que ela falou com você, achei que já tinha vindo aqui antes. — Havia três homens e duas mulheres. A outra mulher estava na casa dos 50. Para Jerry, só havia uma caixa ali. Sua linha de pensamento era clara, mas suas ações, não. — Assinou o nome dele com perfeição. Com a chave na mão, Jonas fitou-a. — Jerry era parte de mim. Quando estávamos juntos, eu sabia o que ele estava pensando. Assinar seu nome é tão fácil quanto assinar o meu. — E com ele também era assim? — Sim, com ele era igual — respondeu Jonas, sofrendo ainda a perda. Mas Liz lembrou-se de Jerry, bem-humorado, descrevendo o irmão como um almofadinha. O homem que Liz começava a conhecer não era bem assim. — Eu me pergunto se vocês se conheciam tão bem quanto imaginavam. — Ela voltou a fitar o cofre. Não é problema meu, pensou, desejando que de fato não fosse, como chegara a acreditar um dia. — Acho melhor você abrir. Jonas introduziu a chave na fechadura e virou-a silenciosamente. Abriu a tampa, e Liz não conseguiu desviar os olhos. Nunca tinha visto tanto dinheiro na vida. Estava em pilhas bem arrumadas, envoltas com elásticos, bem ao estilo americano. Incapaz de resistir, estendeu a mão para tocá-lo. — Deus, parecem ser milhares. Centenas de milhares.

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Sem nenhuma expressão no rosto, Jonas examinou as pilhas. A cabine ficou silenciosa como uma tumba. — Aproximadamente 300 mil, em notas de 20 e de 50. — Você acha que ele roubou? — perguntou ela num murmúrio, impressionada demais para perceber as mãos de Jonas apalpando o dinheiro. — Este deve ser o dinheiro que o homem que invadiu a minha casa procurava. — Tenho certeza que sim. — Jonas colocou de volta uma pilha de notas e apanhou uma pequena sacola. — Mas ele não roubou. — Jonas procurou esfriar as emoções. — Acho que trabalhou por isso. — Como? — perguntou Liz. — Ninguém ganha tanto em tão pouco tempo, e eu poderia jurar que Jerry estava quase sem dinheiro quando o contratei. Sei que Luis lhe emprestou 10 mil pesos antes do seu primeiro salário. — Estou certo de que ele não tinha dinheiro. — Jonas nem se preocupou em acrescentar que havia feito um depósito de 200 dólares para o irmão em Nova Orleans antes de viajar para Cozumel. Com muito cuidado, enfiou a mão embaixo da pilha de dinheiro e tirou um pequeno saco plástico. Depois, enfiou um dedo no saco e levou-o à boca. Mas ele já sabia. — O que é? Com o rosto inexpressivo, Jonas fechou o saco. Não podia permitirse mais nenhuma dor. — Cocaína. Horrorizada, Liz olhou fixo para o saco. — Não compreendo. Ele morava na minha casa. Eu teria percebido se estivesse usando drogas. Jonas constatou que Liz não tinha noção do quanto era inocente a respeito do lado negro da humanidade. Até aquele momento, ele não tinha percebido seu nível de intimidade com tudo aquilo. — Talvez, talvez não. Em todo caso, Jerry não era metido com esse tipo de coisa. Pelo menos, não para uso próprio. Liz sentou-se vagorosamente. — Você quer dizer que ele vendia drogas? — Traficava drogas? — Jonas quase chegou a sorrir. — Não, isso não seria tão emocionante. — Num dos cantos da caixa, havia um pequeno caderno de endereços preto. Jonas pegou-o e folheou-o. — Contrabando, sim — murmurou ele. — Jerry poderia interessar-se por contrabando. Ação, conspiração e dinheiro fácil.

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A mente de Liz dava voltas enquanto ela tentava se concentrar no homem que conhecera tão pouco. Achava que o conhecia, mas agora ele era um estranho, mais do que quando estava vivo. Já não parecia importar quem ou o quê Jerry Sharpe tinha sido. Mas o homem que estava diante dela importava. — E você? — perguntou ela. — Pode justificar isso? Jonas fitou-a por cima da caderneta que tinha nas mãos. Seus olhos estavam tão frios que Liz não conseguia ler seus pensamentos. Sem responder, Jonas voltou à caderneta. — Ele listou iniciais, datas, horários e alguns números. Parece que ganhava cinco mil por entrega. Dez entregas. Liz voltou a olhar para o dinheiro. Já não parecia novo e bemarrumado, mas feio e sujo. — Isso só soma 50 mil. Você disse que havia 300. — É verdade. — Mais um saco de cocaína pura, com um valor de venda a varejo monumental. Jonas pegou sua própria caderneta e copiou as anotações do irmão. — O que vamos fazer com isso? — Nada. — Nada? — Liz levantou-se de novo, certa de que tinha entrado num sonho. — Você quer dizer que vai simplesmente deixar isso aí nesse cofre e ir embora? Com os últimos números copiados, Jonas devolveu a caderneta do irmão ao cofre. — Exatamente. — Por que viemos aqui se não vamos fazer nada com isso? Jonas guardou sua caderneta no paletó. — Para descobrir o cofre e saber seu conteúdo. — Jonas. — Antes que ele pudesse fechar a tampa, Liz segurou sua mão. — Você precisa entregar isto à polícia. Ao delegado Moralas. Num gesto deliberado, ele retirou a mão de Liz, depois pegou o saco de cocaína. Liz conhecia rejeição e protegia-se dela. Mas não foi rejeição que viu no rosto dele. Foi ódio. — Quer levar isto no avião, Liz? Tem idéia de qual é a penalidade no México por carregar substâncias controladas? — Não. — E não vai querer saber. — Jonas fechou a tampa e trancou o cofre. — Por enquanto, esqueça o que viu aqui. Cuidarei disso do meu jeito.

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— Não. As emoções de Jonas eram sofridas e confusas, e sua paciência estava no limite. — Não me pressione Liz. — Pressionar você? — Furiosa, ela o segurou pela camisa e ficou em pé. — Você me pressionou durante muitos dias. Me pressionou para entrar numa coisa que é tão oposta à maneira que sempre vivi que eu sequer consigo captar tudo. Agora que estou com contrabando de drogas até o pescoço, alguma coisa em torno de meio milhão de dólares, você me manda esquecer. O que espera que eu faça?, que volte calmamente para casa e alugue uns compressores de ar comprimido? Talvez você já tenha terminado de me usar, Jonas, mas eu não estou pronta para ser jogada para escanteio. Há um assassino solto por aí que pensa que eu sei onde o dinheiro está. — Ela parou ao sentir um frio na espinha. — E agora eu sei. — É exatamente isso — disse Jonas calmamente. Pela segunda vez, ele retirou as mãos de Liz, mas agora ficou segurando seus pulsos. Está amedrontada, pensou. Ele tinha certeza de que os pulsos dela batiam de medo e de raiva. — Agora você sabe. O melhor que tem a fazer é ficar fora disso e deixar que eles se concentrem em mim. — E como devo fazer isso? A raiva que ele gostaria de trancar no cofre com tudo o que a causara estava vindo à tona. — Vá visitar sua filha em Houston. — Como posso? — perguntou ela num murmúrio que vibrava na pequena saleta. — Eles poderiam me seguir. — Liz fitou o cofre comprido e lustroso. — Eles me seguiriam. Não vou colocar a segurança da minha filha em risco. Liz estava certa, e por ele saber disso, quase se enfureceu. Jonas estava preso numa armadilha entre o amor e a lealdade, entre o certo e o errado. Justiça e lei. — Vamos falar com Moralas quando voltarmos. — Jonas pegou o cofre mais uma vez, sentindo ódio dele e do que representava. — Aonde vamos agora? — Tomar um drinque — respondeu Jonas ao destrancar a porta. Em vez de acompanhar Jonas para o saguão do hotel, Liz tirou um tempo para si. Achava que Jonas estava em dívida com ela. Por isso, entrou na butique do hotel, escolheu um maiô inteiro e deu o número do quarto para a cobrança. Não tinha trazido nada além de uma muda de

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roupa e objetos de toalete. Se ficaria presa em Acapulco pelo resto da noite, iria aproveitar as tão famosas piscinas. A primeira vez que entrou na suíte, Liz ficou embasbacada. Seus pais eram razoavelmente bem-sucedidos, e ela fora criada em um ambiente de classe média normal. Contudo, não tinha sido preparada para a suntuosidade da suíte de dois quartos que dava frente para o Pacífico. Seus pés afundavam no carpete aconchegante. Havia quadros de cores suaves espaçados sobre a parede forrada de papel cor de marfim. O sofá, em vários tons de cinza, verde e azul, era tão grande que dava para duas pessoas se esparramarem para uma soneca tranqüila durante a tarde. Liz encontrou um telefone no banheiro. A banheira era tão larga e tão funda que quase deu seu mergulho ali mesmo. A pia era uma concha feita no mais claro tom de rosa. Então é assim que os ricos se divertem, pensou, voltando para o quarto onde sua valise estava colocada nos pés de uma cama tão grande que daria para três pessoas. As cortinas da varanda estavam abertas, e ela podia ver as ondas tempestuosas do Pacífico estourarem, borrifando água para todos os lados. Liz abriu as portas de vidro para ouvir o barulho. Era o tipo de mundo a que Marcus se referira muitas vezes, muitos anos atrás. Ele pintava a imagem de um conto de fadas com limites diáfanos. Liz nunca vira a casa dele, nunca recebera permissão para isso, mas soubera por ele mesmo como era. As colunas brancas, as varandas também brancas, a escada que subia toda vida em curva. Empregados serviam o chá da tarde e cavalariços esperavam nas cocheiras para selar os cavalos sedosos. Bebia-se champanhe em taças de cristal francês. Mas o conto de fadas não era sua ambição; aquele homem lhe bastaria. Tolice de menina, pensava Liz agora. Na sua inocência, tinha transformado em príncipe um homem que não passava de um fraco, egoísta e mimado. Ao longo dos anos, porém, visualizara sua filha naquela escada ampla que ele descrevera. E essa era sua noção de justiça. A imagem já não era tão nítida, não agora, depois de ver uma fortuna numa caixa comprida de metal e saber qual era sua origem; e de ver os olhos de Jonas ao falar do seu tipo de justiça. Aquilo não era um conto de fadas, mas a amarga realidade. Liz precisava pensar um pouco. Mas, antes de poder planejar o resto da sua vida, e da filha, teria que sobreviver a esse momento. Jonas. Estava ligada a ele involuntariamente. E talvez ele também se sentisse assim. Seria este o motivo da atração que nutria por ele? O fato de estarem ambos presos no mesmo enigma? Se ao menos ela

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entendesse o porquê, talvez conseguisse liberar as ansiedades que a envolviam e pudesse reassumir o controle de sua vida. Mas como poderia explicar as sensações vividas dentro do táxi na volta silenciosa para o hotel? Ela teve que controlar o desejo de envolvê-lo nos braços, de dar-lhe conforto quando o comportamento dele não indicava precisar ou querer aquilo. Não havia respostas fáceis. Nenhuma explicação para o fato de que estava lenta e inevitavelmente se apaixonando por ele. Estava na hora de admiti-lo, porque não se pode encarar nada até que se admita. Nunca se pode solucionar nada até que seja encarado. Tinha vivido segundo esta regra há muitos anos, durante a maior crise da sua vida. E continuava sendo uma regra verdadeira. Então ela o amava, ou quase isso. Já não era tão inocente a ponto de acreditar que o amor fosse uma solução. Ele a faria sofrer. Não havia dúvida quanto a isso. Roubaria dela a única coisa que conseguira preservar durante dez anos. E uma vez que se apossasse do seu coração, o que isso significaria para ele? Liz sacudiu a cabeça. Não mais do que essas coisas significam para quem as toma. Jonas Sharpe era um homem engajado em uma missão, e ela não passava de um referencial para ele. Seu jeito de ser paciente era cruel. Quando terminasse o que tinha vindo fazer, se afastaria dela, voltaria para sua vida na Filadélfia e nunca mais pensaria nela. Algumas mulheres, pensou Liz, tinham uma habilidade especial para escolher os homens mais prováveis de magoá-las. Resolvida a não pensar naquilo tudo, Liz tirou a roupa e vestiu o maiô. Jonas, contudo, continuava dominando seus pensamentos. Talvez, se conversasse com Faith — seu elo mais forte com a realidade —, ela voltasse a enxergar tudo como antes. Num impulso, Liz pegou o fone ao lado da cama e fez a ligação. Faith estaria chegando da escola, calculou Liz, cada vez mais animada ao ouvir os tinidos e zunidos no fone. Quando o telefone começou a tocar, ela se sentou, já sorrindo. — Alô? — Mãe? — Liz teve sensações de prazer e de culpa ao ouvir a voz da mãe. — Sou eu, Liz. — Liz! — Rose Palmer teve sensações idênticas. — Não esperávamos que você ligasse. Sua última carta chegou esta manhã. Algum problema, filha? — Não, está tudo bem. — Tudo mal. — Eu só queria falar com Faith.

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Sabe que sou grata por tudo o que vocês fazem por ela. Ela tinha certeza que sim. diga que eu telefonei — concluiu ela. — Claro. — Eu me esqueci. — Sairemos num dos barcos. Não era a primeira vez que desejava estar ao lado da filha para poder abraçá-la. — Liz soltou um longo suspiro para recuperar a calma. Estou em Acapulco. 43 . Diga a Faith que eu também estou contando os dias. Quando ela ficou de pé na piscina. Pareceu-lhe que ela nadava para esvaziar-se de alguma tensão ou sofrimento. Liz duvidou que ele já tivesse estado na suíte. — Ela gosta das aulas. Agora. As últimas semanas sempre parecem as mais difíceis.. enquanto Faith ainda está em aulas? — Não. ela está.NORA ROBERTS piano. Enquanto aguardava. — Ela conta os dias no calendário. — Eu também amo vocês. E amamos você. mas depois acalmou-se. — Diga-lhe apenas que sinto saudades e que estarei esperando no aeroporto. ao dizer estas palavras... mas ela as reprimiu. — Sua voz não estava tão firme quanto ela pensava — e uma mãe ouve o que os outros não conseguem ouvir. no amor deles. sinto muito... só nós quatro. Jonas pegou-se imaginando qual seria a sensação daquela pele. A única coisa que importava era Faith e a felicidade dela. mas era um conforto poder falar com alguém que conhecia e compreendia Faith. não estou em casa. Você tinha que ouvi-la tocar. sua decisão era irrevogável.. — Ele está bem. — Liz conseguiu sorrir. — Liz. a cada volta. — Vou dizer. Liz. ele a observou mergulhar a cabeça na água para que o cabelo escorresse para trás. — Obrigada pelas fotos que você mandou. Seus olhos não pareciam tão abatidos naquela manhã. Nunca conhecera alguém tão teimoso quanto sua filha. mãe. Sofria.. — Tchau. aproximava-se do objetivo. seu corpo flexível. O maiô era cavado quase até a cintura. — Mandei incluir na conta do quarto. portanto não diga que eu contei.. Uma hora depois. mas às vezes as coisas ficam muito confusas. imaginando quantas teria completado antes. a trabalho. — Você está bem? Liz já tinha conseguido controlar o choro. Jonas encontrou-a na piscina. À exceção da neta. Liz engoliu em seco. — Estarei lá quando vocês chegarem. Se tivesse confiado mais no apoio dos pais. Parece que ela cresceu. Ansioso para chegar aí e mergulhar um pouco. Não quer que ela ligue de volta quando chegar? A van chega às cinco. — Ah. — As lágrimas ameaçaram rolar. Liz nadou em braçadas compridas e suaves. a água bateu na altura dos seus quadris. os músculos de Liz tencionaram. Como está papai? Rose afligiu-se com a mudança de assunto. — É a primeira vez que vejo você relaxar — comentou Jonas. feliz por conseguir evitar que a voz as evidenciasse. Diga a Faith que. não é? — Adora. Ela abandonou sua contemplação das montanhas e olhou para ele. pouco convincente. Liz se defendeu da decepção. As marcas no pescoço tinham desaparecido. A água escorria-lhe pelo corpo. mas o corte era tão simples que seu estilo dependia estritamente das formas que cobria. Eu só. animada com a vinda? Rose percebeu o sofrimento e a ansiedade na voz da filha. Lembra-se das suas aulas de piano? — Eu parecia ter dez polegares. teria ela fugido dos Estados Unidos e iniciado uma vida nova? Liz passou a mão pelo cabelo. Faith não está. Liz desligou e ficou sentada até o vazio se desfazer. Seu maiô era de um vermelho berrante. Jonas não tinha mudado de roupa e tinha as mãos enfiadas nos bolsos das calças cor de marfim. — Não. não dá. Parecia incansável e estranhamente ajustada àquele luxo particular. Mas. Mãe. só não sabia o que fazer com aquilo. nem podia ficar pensando nisso.. — Não vou dizer. Comprou um presente para você. por que não vem para casa? Passar o resto do mês aqui.. — Liz aproximou-se da borda e saiu da piscina. Nunca tivera certeza. Hoje é o dia da aula de PERIGO — Eu sei. Jonas contou 20 voltas até ela parar. — Sinto falta dela. — Liz afastou as lágrimas. — Comprou? — É surpresa. Liz viu que Jonas estava cansado e pensou que deveria ter percebido aquilo antes. — Nós amamos Faith. — Liz pressionou os dedos contra os olhos. — Eu não trouxe maiô. — Liz — interrompeu Rose suavemente. e que.

afinal. sabia que era inevitável. Jonas. Faz um homem querer consolá-la. — Quero que me conte essa história. — Na verdade. — Liz pegou-o pela camisa mais ou menos como fizera naquela tarde. de tentar encontrar respostas. Era a primeira vez que ela o via sofrendo de verdade. Jerry tinha uma cabeça boa. Liz logo levantou o queixo. Toda vez que me olho no espelho. Até que simplesmente cansei de cuidar da vida de nós dois. apenas fraco. sim — retrucou ela. — Não. pensou Liz. Em seu rosto não havia pena agora. — Só um minuto. Tinha ido para casa. Foi a voz dele. Liz aproximou-se de Jonas. Guardei o recibo. — Jerry era diferente. aproximou-a de si. Liz pegou sua toalha. mas eram dois indivíduos.NORA ROBERTS — É bonito. enterrado seu irmão. assim como outras tantas ao longo de todo esse tempo. 44 . — Não precisa sentir pena de mim. Jonas não pareceu preocupado. no fundo do coração. — E então tudo estará terminado. Jonas não sabia que precisava de consolo. Lamentar a morte dele é uma coisa. Não posso fazer nada quanto a elas. já que é advogado. — Nada. — Vai se punir por isso? Jonas estava fazendo exatamente isso. é outra. PERIGO — Não. Insegura. ao fitá-lo. Solidária. — Eu posso descontar no aluguel. — Jonas afastou-se dela e encaminhou-se para onde umas flores cor de laranja brotavam do cascalho branco do jardim. — Vocês eram irmãos gêmeos. Não acho que fosse mau. segurando as pontas. Liz pressionou o rosto contra o dele. — Preciso descobrir quem o matou. — Muitas coisas que você disse hoje eram verdadeiras. — Esqueça isso. o mais leve contato humano podia aliviar muito sofrimento. que quase a levou a abrir sua mente e seu coração. Talvez seja essa expressão no seu olhar. — Acho que pena não é a palavra certa. Mas. e ele percebeu. — Droga. mas a mão de Liz descansando nele foi um alento. ela permaneceu imóvel. compreender. confortado seus pais e se culpado por não ter evitado algo que. Isso me incomoda. — Eu era a única pessoa que podia chegar perto dele. Às vezes. esqueço. somente contrariedade. Talvez tenha pensado muito nas últimas semanas. Jerry não era uma criança para ser orientada e supervisionada. E ela sabia o que era isso. ela pareceu desviar-se dele. — Foi caro. me pergunto por quê. culpar-se pelo que ele fez ou pelo que aconteceu com ele. A parte dela que já estava apaixonada precisava acreditar que ele se importava. Jonas. Estava cansado de lutar com demônios. Jonas não acreditava que poderia rir. não pode. mas isso é problema meu. — Por quê? — perguntou ela. — Procuro simplesmente não pensar neles. — Você realmente acredita que poderia ter evitado que ele fizesse o que fez? — Talvez. — Terrivelmente cansado. — Você está bem? — perguntou. — Esse é o problema. — Num impulso. Jonas tirou a toalha dela e gentilmente enxugou-lhe o rosto. Jonas passou as mãos pelo rosto. — O pai de Faith é advogado? Sem se mexer. Jerry nunca cresceu. que ele realmente queria saber. Jonas envolveu os ombros dela com a toalha e. mas sempre escolhia a maneira errada de usá-la. Ele sofria. — Você não esquece. — Muito bom! Estou com uma ligeira impressão de que você não gosta de advogados. calma e persuasiva. — Repentinamente cansado. Os lábios de Liz curvaram-se um pouco enquanto ela enxugava o cabelo. — Eu não sei. — Estou tentando viver com o fato de meu irmão estar morto e ter sido assassinado por querer ganhar dinheiro fácil com o tráfico de drogas. — Eu não sei o que você quer que eu diga agora. Ela chegou a acreditar. mantê-lo na linha. — Nós vamos descobrir. — E você. imagino que possa descobrir uma maneira de descontar de alguma outra coisa. Liz. Não posso pensar em mais nada até isso acontecer. Jonas tampouco sabia que precisava daquilo. não estou. Jonas deixou a testa cair na direção da dela. Era um homem adulto que tomou suas próprias decisões. a maior parte do tempo.

Ela também já amara um dia e sofrerá devido à perda e à desilusão. De agora em diante. Era a primeira coisa puramente frívola que a ouvia dizer. Ou a cada etapa precisamos carregar um pouco mais. Liz era prática demais para iludir-se e achar que ainda poderia se livrar desse enigma. Passou a mão pelo braço dela. Liz era solitária. negara-se ambos. só os meios de alcançá-lo eram diferentes. Ao direcioná-los para a filha. era uma mulher que tinha sonhos latentes e o amor no cativeiro. mas para o dele. Isso também ele compreendia. Jonas a conhecia cada vez melhor. muito menos numa cama de hotel. Já tinha Pensado em diversas maneiras de afastar a atenção daquela gente para si próprio. ela ficaria muito mais só. pois não tinha o hábito de dormir fora de casa. Será que nós realmente escapamos de uma vida para viver uma nova? Não. e ele compreendia seu receio de colocar a filha em perigo de alguma forma. — O sol se foi. Estava acordado desde as cinco horas. até poucas semanas atrás. perguntou-se Liz. pensou Liz ao esticar-se na imensa cama. Apesar de Jonas ter um trabalho fixo e sua própria casa. Seu corpo. mas só por acreditar ser esse o caminho mais seguro. no entanto. Há mais de uma hora estava tentando elaborar uma manobra para livrar Liz desse envolvimento com seu irmão. não apenas para o seu próprio bem. teria sido por mera educação. concluiu ao pular da cama. Ele sofria pela perda do irmão e pelo que esse irmão fizera. ou algum outro. Isso incluía Jonas Sharpe. perambulando inquieto pelo quarto. Liz precisava de Jonas tanto quanto ele precisava dela. Com Liz. nunca tinha tido uma mulher importante na sua vida. Ao juntar as palavras. O sucesso sempre fora. — É melhor tirar esse maio. E convencera-se de que isso a satisfazia. Se Jonas desistisse de investigar o assassinato do irmão e voltasse para a Filadélfia. Somente agora. teria virado as páginas para ler mais. Ao vê-lo na noite anterior. Nós vamos jantar. Porém. as circunstâncias podem mudar. e não seria uma viagem a Acapulco que mudaria isso. ele compreendeu que sempre fora levado pela corrente. Na vida real. sentiu mais do que uma simples compaixão impessoal ou atração física. Jonas ouviu quando Liz se levantou. com outra mulher. Não fugiria. No momento em que bateu os olhos no conteúdo do cofre do banco. O restaurante é tido como um dos melhores. ele não fosse tão diferente de seu irmão. Ela não escaparia uma segunda vez. ela fora desgraçadamente envolvida em assassinato e contrabando. podem se passar muitos anos. pelo menos não tudo. o homem com a faca voltaria. Não tinha outra escolha além de confiar nele. também estava convencido de que estava satisfeito. Só pensar não adianta. Bem ou mal. 45 . e ela não tinha que trabalhar. Já se passou uma vida?. pois. que ele mesmo causara. Isso nunca fora uma alternativa. Se fosse um filme. estava condicionado a acordar a essa hora. foi para protegê-la. Foi a proximidade que a motivou a ajudá-lo. Outras coisas tinham mudado. — Ele a cobriu com a toalha num gesto que. O que a levava de volta a Jonas. — Eu não trouxe nada para usar num lugar como este. estava descansada e pronta para enfrentar o dia. Por causa disso. À medida que os dias passavam. A única questão agora era saber que atitude tomar. Depois de dormir como um pedra durante oito horas seguidas. e viu que estava fria. — Não se preocupe. outras coisas tinham mudado. mas nós carregamos nossa bagagem conosco através de cada etapa. Por dentro. Capítulo 7 PERIGO ela passou a fazer parte daquele jogo. necessitando do toque de sua pele. — Coloque mais um vestido na conta. preferia coisas mais normais. Ele riu e a abraçou. mas só porque seu principal objetivo era o bem-estar da filha. Liz pensou na elegância de sua suíte e na roupa que tinha na mala. no fundo.NORA ROBERTS Jonas não tinha certeza de querer isso. — Mas. para ambos. Seus sentimentos por ele estavam mais indefinidos e confusos do que no início. Talvez. pensou ela. tenho o contador mais trapaceiro da Filadélfia. estava diretamente envolvida nesse melodrama. Em um livro. Era empresária. Na verdade passava pouco das seis. trataria de agir. poderia assistir ao melodrama com prazer.. Liz sacudiu a cabeça. sofrido e vulnerável. Já havia concluído que não poderia esconder-se atrás de Moralas e seus homens para sempre. Mais cedo ou mais tarde.. mas isso não garantiria a segurança de Liz. — Aqui? — Claro. pensou ele. depois de ter a oportunidade de olhar para a sua vida a uma certa distância. Sua carreira sempre viera em Liz admirou-se de acordar em plena luz do dia. mais determinado ou mais desesperado. Por mais que preferisse o contrário. o alvo principal. Ela não iria para Houston.

Levantou uma. e talvez essa fosse uma resposta em si mesma. — Você tem? Liz não tinha certeza de nada diante daquela voz calma e das mãos suaves de Jonas. Na Filadélfia. Com um gesto que a pegou totalmente de surpresa. talvez pudesse analisar o que lhe aconteceu quando Liz acariciou seu rosto e ofereceu apoio incondicional. Uns problemas legais poderiam desanuviar sua cabeça. Além disso. Jonas levantou-se e aproximou-se de Liz. eu não quis acreditar. mas ambos sentiram a distância. tinha comprado a casa velha em Chadd's Ford para ter algo permanente. anos — concluiu. vai conversar comigo sobre essa fase da sua vida? Ela se virou para ele. — Eu não sabia que você estava acordado — desculpou-se ela. — Achei que você dormiria um pouco mais — explicou ele. Vencer casos resumia-se a uma satisfação efêmera. pensar na sua própria vida não resolvia o problema de Liz Palmer e o que fazer com ela. ao pensar nela agora. — Eu nunca durmo muito depois das seis. — Liz. raciocinou ele. depois a outra. queria ter tempo para conversar com ela sobre coisas simples. deixando o constrangimento de lado. Numa primeira tentativa de solução pensou nos seus pais e na tranqüila casa de campo em Lancaster. a filha poderia ficar com ela. Estranho. — Não me hospedo em um hotel há. — É sim. sem afastá-la do outro? Ainda assim. nem um pouquinho. Jonas a imaginava estendida na rede da varanda da mãe dele. Foi preciso perder o irmão para compreender que precisava de algo mais estável. Na ocasião. — Sentindo-se estranha. não haverá razão para isso. vinda do quarto dela. Liz caminhou até a imensa janela. Ficar em Houston não seria possível. como só acontecera uma única vez. quando nós terminarmos com isso. tranqüila. pois sabia que era o certo a fazer. trabalhei no mesmo hotel em que antes eu ficava com meus pais. Quando esse problema se resolver. Jonas não tinha dúvidas de que seus pais aceitariam e amariam ambas. Ele acabara de pegar o fone quando Liz apareceu. pensar em dias de lazer com uma mulher igualmente obcecada por trabalho? Liz permanecia um mistério para ele. mesmo que já a compreendesse melhor. era porque ainda a conhecia muito pouco. Agora sua escala de valores parecia modificada.. Depois. Talvez já soubesse disso há algum tempo. 46 . e tudo estiver para trás. até sua boca. E com isso a consciência dele ficaria tranqüila. e começou a remexer nervosamente no cinto do roupão para se compor. Afinal. Quando foi que pensou em compartilhá-la? Ainda assim. um workholic. Ele não sabia dizer por quê. Uma vez que estivessem lá. Se às vezes parecia que descobrir Liz Palmer era tão importante quanto descobrir o assassino do seu irmão. Se pensava nela com freqüência e profundidade. Alguma coisa nela o fazia pensar em noites tranqüilas em varandas frescas e em longos passeios nas tardes de domingo. — Não está sentindo uma vontade irresistível de mudar os lençóis ou a pilha de toalhas? Liz riu às gargalhadas. — Quando tudo estiver terminado. desde que se conheceram. você disse uma vez que nós temos o mesmo problema. ele poderia entender melhor seus sentimentos. Aqui também é. Por que deveria ele. mas havia outros lugares para ir. Até lá. Já passava das nove na Costa Leste. Queria ouvi-la rir de novo. PERIGO Irritado consigo mesmo. onde tinham se isolado. realmente não haverá nada mais entre nós. E ele próprio testemunhara que Liz nunca desperdiçava seu tempo. Jonas consultou o relógio. mas era verdade. e o resto do mundo que se danasse. Inclusive. Por um instante. até que ele pudesse assegurá-la de que sua vida podia voltar a ser como antes. afastou-se.NORA ROBERTS primeiro lugar. longe daquela podridão toda. poderia juntar-se a elas em Lancaster. Decidiu que telefonaria para o escritório. Se descobrisse um meio de tirá-la do México. ao colocar o fone no gancho. ela agia inteiramente diferente compartilhando o luxuoso hotelzinho com ele do seu comportamento em casa.. ela simplesmente absorveu a sensação de ser uma mulher cuidada por um homem. Afinal. Até mesmo os encontros sociais tinham se tornado trabalho. ele pegou suas mãos. — Jonas. e observou os olhos dela se anuviarem. Gostaria de ver Liz no ambiente a que estava acostumado. — Quando vim para Cozumel. Uma vez que ele tivesse concluído o que tinha vindo fazer. A sua vida e a minha são separadas por muito mais do que quilômetros. simplesmente. — Uma vista fantástica. — Não. Teve vontade de apoiar-se nela. O escritório poderia esperar. — Eu não tenho certeza disso — murmurou ele. Explorar a lei não passava de um trabalho. ele raramente fazia esse tipo de coisa. Como poderia ele afastar a mente de um. contente e esperando por ele. Foi uma sensação estranha. era só porque eles estavam ligados. afastando-se da janela. Liz estaria salva lá. na casa dela ele pagava um aluguel.

só havia espaço para dois amores: Faith e o trabalho. — Por que não me avisou que estava de volta? — Um homem alto e bronzeado. Liz considerava-se uma mulher forte o bastante para cumprir suas promessas. Liz estremeceu. Também sabia que ele fazia de tudo para conseguir o que queria. a faria mudar o curso que escolhera para si há dez anos. dizer nada. Determinada a guardar na cabeça tudo o que conseguisse. 47 . Liz manteve-se atenta. eu sei cozinhar — afirmou Liz. — O meu é resistente à queimação — comentou Jonas. vestido informalmente. Liz riu. absorvia cada detalhe. Apesar de Jonas manter a conversa leve e tranqüila durante o café-da-manhã. — Isso quer dizer que você está se oferecendo para cozinhar para mim? Liz preferia que ele não estivesse sorrindo para ela daquele jeito. Era o sorriso de Jerry. mas retirou a mão. — Você está vivendo no passado. — Acho que eu poderia preparar para dois com a mesma facilidade que preparo para um — disse Jonas. Liz acenou a cabeça e respondeu: — Um pouco. — Vamos deixar as coisas à sua maneira por enquanto — disse ele simplesmente.. O homem era jovem. num aviso que ela não retirasse a mão. Mas resistiu. — Temos muito tempo até o avião partir. Jonas voltou a pegar a mão dela. como Liz. mas ele simplesmente entrelaçou os seus nos dela. prendendo-se aos de Liz. Isso vai deixar o meu estômago queimando — exclamou Liz. Ele pode queimar o estômago suave de um advogado. Ele olhou para baixo. Na sua vida. — Uma viagem rápida — respondeu Jonas que. não de Jonas. — Você devia provar o meu chili. nunca acho que valeu a pena. — Só que. Jonas inclinou-se para a frente e acariciou a mão dela. — Ele pegou os ombros dela. até que ele se situasse. — Um pequeno negócio.. mas estava decidida a insistir. queria puxá-la para o sofá e provar-lhe que ela estava errada. Apreciando o desafio. Liz viu um diamante brilhar em seu dedo. Jonas queria pedir. de cabelo louro-claro e barba bem-feita. O homem virou-se e fitou Liz com olhar de aprovação. E um pouco de prazer — acrescentou ele. A mensagem era muito clara — ela não deveria fazer nada. — Não posso me acostumar a comer a esta hora da manhã. — Está lutando com fantasmas. — Está bem. nem mesmo Jonas. — Mas você não tem cara de ter dificuldade na cozinha. — Mas você tem outra mão. — Tenho direito a duas. abrindo um novo sorriso. — Não posso fingir para mim mesma sobre você. colocou a mão no ombro de Jonas.NORA ROBERTS Jonas pensou na casa dele e na sua necessidade repentina de compartilhá-la. Jonas virou-se. Jerry! O sorriso tranqüilo no rosto de Jonas congelou. mas não vivo no passado. Mais tarde. Não era a primeira vez que usava suas habilidades e táticas de tribunal para vencer no âmbito pessoal. ficou atenta a qualquer novo movimento. — Olá. Sou Liz Palmer. — Mas o caso não está encerrado. Liz sorriu. — Houve uma época em que eu acreditaria nisso. Já que Jerry é muito mal-educado e não nos apresenta. Está com fome? Sem saber se devia estar encabulada ou aliviada. enquanto engolia a mistura de pimentas. Só os olhos dele mudaram. mas com roupas de boa qualidade. cebolas e ovos. Nenhum homem. mesmo que fossem para ela própria. — Vamos tomar café — resolveu ele. — Por que não descobrimos? Esta noite. cerca de 30 anos. vamos nos apresentar nós mesmos. mas deixou-as ali só por um instante antes de soltá-las. — Liz encolheu os dedos. por mais que demorasse. PERIGO — Ah. — Prometo que devolvo. — A questão é se você vai conseguir comer o meu chili. ela sabia disso. dirigindo um olhar significativo para Liz. quando termino. — Mas não precisam ser. se você fizer o chili. Era um homem inteligente. — Eu posso ter os meus fantasmas. Liz não confiava nele. — Eu não posso comer com você segurando minha mão. — Ela colocou as mãos nos pulsos dele. — Ei. — Então vamos combinar: eu compro os ingredientes e até limpo a bagunça toda. mas desta vez suas mãos não estavam tão suaves. — E poderia ser de outro modo? Liz pensou rápido e estendeu a mão. Não posso me permitir.

— Parece que vocês dois se conhecem há muito tempo — disse Liz com um sorriso. — Faz muito tempo. — Ah. Teríamos conseguido tirar aqueles 20 mil daquela velhinha. — Ela olhou firme para Jonas. O que ele encontrara no cofre do banco era real. — Deve ser fascinante. — Por que não deveriam? — É a operação mais inteligente que já conheci — comentou David. David voltou a pegar sua xícara e deu de ombros. que tal eu levar vocês para aproveitarem a noite de Acapulco? — Temos que voltar. que eram macias e sem calosidades. Eu durmo melhor. — Ele deu uma palmadinha no braço de Jonas. não tenho nada contra. mas. então. torceu o guardanapo detinha no colo. esperando que ele tomasse o gesto como conforto. de quem está apenas brincando. estive fora de contato por algumas semanas. — Ah. — Negócios. Liz tocou sua perna uma vez. — Qual é a sua atividade. mas estive nos Estados Unidos por algumas semanas. admirado. — Tem seus momentos. mas os olhos eram de Jonas e a preveniam a proceder com cautela. — Isso me faz bem. — E. Muito bem. Continue mergulhando. — E durmo bem. Sr. — A garganta de Liz estava seca. não fosse a filha ter sacado. — Muito melhor do que o golpe da velhinha. onde Jerry achou você? — Em Cozumel. meu bem. Olha. pensou Jonas. as últimas esperanças de Jonas morreram. — Se o chefe concorda. e ela tomou mais café. não? — comentou David. Eu estava. Como vão as coisas em Cozumel? Mergulhando muito? Jonas sorriu e manteve-se firme. antes de piscar para Jonas. David abriu um sorriso. — Obrigada. talvez. Jerry? — Paga melhor — confirmou Jonas. — David puxou uma cadeira após consultar o relógio. — Jerry pode não ser muito fino. — Merriworth usou dois cubos de açúcar depois que o garçom lhe serviu uma xícara de café. — A primeira vez que nos associamos foi há seis. — Eu sabia que este Jerry aqui era o homem certo que o chefe estava procurando. — É mesmo? Eles estavam indo fundo demais. — Eu só mergulho — respondeu Jonas. — Nós estávamos aplicando um golpe em Los Angeles. — Agora estou trabalhando fora daqui por quase 5 mil. Um verdadeiro homem de negócios. Acabei de retornar. Eu pretendia procurá-lo. David soltou uma gargalhada. — Seu irmão livrou sua cara daquela vez. — Somos sócios. — Bastante. Liz sorriu. pode-se dizer. para que pudesse contradizê-la. — Eu não gostaria de ver nada dar errado. Merriworth. Muito tempo. apagando o cigarro. não. com um outro sorriso para Liz. Ele passou manteiga em um pãozinho como se tivesse todo o tempo do mundo. — Faço as coisas ao meu jeito — comentou Jonas lentamente. — Ele falou com um tom bemhumorado. — É verdade — concordou ele. amigo. não foi? O advogado da Costa Leste. Por baixo da mesa. Você não estava aí no ano passado. — Isso nunca muda. esperando ter agido com propriedade.NORA ROBERTS — David Merriworth. — Os negócios vão bem. ontem à noite. e era de Jerry. olhando com cautela para as outras mesas. que Jerry inevitavelmente teria usado. — Você se preocupa demais. mas tem muito bom gosto. — Quem deveria se preocupar é você — salientou David. quando ele deu um fim naqueles dois colombianos. — Ele é incrível. — Ele se virou na cadeira para poder analisá-la. — É. — Ele inclinou a xícara para Jonas. sei. Os descarregamentos continuam tranqüilos? PERIGO Com estas palavras. hein. — Desde que mantenha as mãos longe da minha garota. David abaixou a xícara. Divertido e. — Um café rápido iria bem. — Tenho um encontro para o café-da-manhã dentro de alguns minutos. — Jonas pegou um cigarro. — Ou então não faço nada. — Eu não preciso lidar com Manchez. rapaz. Mas Jonas não olhou para ela. sob a mesa. — Ele pegou uma cigarreira fina. — Vendas. — Bom ouvir. — Jonas pediu a conta. não é. eu com vendas. 48 . Você lida com fornecimento. sete anos — contou Merriworth. — Sente-se. Merriworth? Ele abriu um amplo sorriso para Liz. Jer? — É. — Jonas lembrava-se de ter pago a fiança e mexido os pauzinhos para ajudar o irmão. Importação. — Ele tomou a mão de Liz entre as suas.

— Claro. — Você não tinha nada que dizer que somos sócios. — E dê lembranças ao velho Clancy. Da próxima vez que aparecer por aqui. deve conhecer a expressão "retenção de evidências". Palmer. ele vai falar com o tal chefe e saber de tudo. endereços. o Sr. — Então vamos fechar a conta e sair. naturalmente. depois dirigiu-se a Liz.. lembra-se? Jonas não se importou quando ela jogou de volta suas próprias palavras. — Eu sei que quem me atacou obviamente queria muito dinheiro. ele aceitava. claro que não. — Mas nem a Srta. que ela poderia ter pertencido ao meu irmão. — E depois? — Depois vamos direto a Moralas. Jonas recostou-se na cadeira. que planejava levar a Srta. Reter uma evidência quase não chega a ser um crime.NORA ROBERTS — É. Palmer. — Meus clientes? Por quê? 49 . — Ele pegou a chave e a examinou. — Depois que eu disse. Ele também não se importou com aquilo. — E você. E nós encontramos muito dinheiro. — Jonas acenou com a cabeça friamente. Moralas cortou-o. — Nós temos o mesmo problema. — E um saco do que o Sr. — Sua bagagem está pronta? — Está. — Claro. Liz já estava preparada para a reclamação. Sr. Palmer. Se Moralas queria discutir lei. — Moralas controlou-se enquanto se balançava na cadeira. E o senhor também especulou de que forma o seu irmão tomou posse desses itens? — Sim. Palmer nem eu poderíamos saber que a chave era uma evidência. — O mínimo que você poderia ter feito era não dar a ele mais um nome. — É verdade. Vamos para o aeroporto. Eu teria relatado ao senhor. — Então a Srta. Jeremiah Sharpe em posse de cocaína? — Não. — Moralas cruzou as mãos sobre a mesa com a chave sob elas. — Achei que um detetive da polícia em Acapulco poderia ser inconveniente. — Não diga nada aqui — murmurou Jonas ao assinar o cheque. O guardanapo amassado de Liz deslizou para o chão quando ela se levantou para acompanhá-lo. Como advogado. a senhorita viu. — Se a chave pertencia ao meu irmão. Nós especulamos. me traz isto. David despediu-se. — Talvez não. E isso costuma ser interpretado como ofensa. De qualquer modo. Nomes e. — Teria falado do mesmo jeito se você arranjasse uma desculpa para deixar a mesa. Palmer descobriu isto há muitos dias. em algum momento. ela passou a ser minha. eu entendo. Jonas não falou nada até a porta do lugar se fechar atrás deles. Sharpe. — Ele fez um sinal em direção à entrada do restaurante. — Assim como me contou sobre a chave? — Quando Jonas começou a protestar. Poderia ter me avisado. também tem suas próprias especulações? Liz tinha as mãos juntas. quando possível.. — Vamos andando. como seu inventariante. — Srta. — O senhor esteve muito ocupado. trouxe a chave e uma descrição desse conteúdo para o senhor. apertadas sobre o colo. Sharpe. Eles o observaram atravessar a sala e cumprimentar um homem de terno escuro. Palmer para uma viagem. e deu de ombros. Liz cruzou os braços. dê um telefonema. — Em algum momento ele falou com a senhorita sobre cocaína ou tráfico de drogas? — Não. — Vou precisar de uma lista dos seus clientes nas últimas seis semanas. Moralas esperou um pouco. Liz estava certa. — Com outra risada. — O meu cliente chegou. mas é um erro de julgamento. Mais cedo ou mais tarde. uma vez que confirmei que a chave pertencia de fato a Jerry e que o conteúdo do cofre do banco constituíam evidência. PERIGO — E agora que o senhor terminou sua investigação particular. — Por quê? Eles sabem quem sou. Srta. ele falou muito mais. Srta. — Dois dos meus homens perderam seu precioso tempo procurando vocês em Acapulco. mas sua voz era tranqüila. acredita ser cocaína.

Na sua caligrafia perfeita. E. Palmer como testemunha material. sorriu para a quantia e acenou a cabeça em aprovação. Se o senhor se comunicar com as autoridades nos Estados Unidos. — Com o mesmo cavalheirismo. A senhorita vai me trazer a lista dos clientes até o fim da semana. Era tentador identificar o blefe de Moralas simplesmente como um exercício de testar os dois lados da lei. Contudo. Liz saiu para a rua. Ou estava — afirmou Jonas. até mesmo um pouco divertido. — Ele não se preocupa tanto comigo quanto com você. Liz voltou a olhar para a delegacia com cara feia. Sharpe. — Ele olhou para Jonas. — Está querendo que eu cozinhe para você esta noite? — Vou manter sua cabeça afastada de tudo mais. — Gracias — disse ela. Você faz parte do povo dele. — Ele tem uma maneira esquisita de mostrar isso. — O que há com Manchez? — Ele está em Cozumel. Estou certo de que nós três nesta sala queremos basicamente a mesma coisa. Sharpe tenha usado sua loja para os contatos. — Jonas levantou-se e acendeu o charuto de Moralas com seu isqueiro. — Porque dei 25 pesos a um menino? — Quanto deu ao outro menino antes de entrarmos na delegacia? — Eu comprei uma coisa dele. Fizemos tudo o que podíamos por enquanto — acrescentou ele. E mais. um americano que está trabalhando fora de Acapulco. — Isso mesmo. É isso que ele estava fazendo. — Há ocasiões. Moralas anotou os nomes. — Eu espero mesmo que não tenha chegado ao seu conhecimento. — Não gosto de ser ameaçada. — Meus barcos? O senhor acha que ele poderia ter manuseado drogas debaixo do meu nariz sem eu saber? Moralas pegou um cigarro e o examinou. Moralas fitou-o e aguardou. Liz gostaria de acreditar que ele estava certo. Srta. — Por quê? — Estaria dura em uma semana. — Terá sua lista. Liz levantou-se. — Pablo Manchez — revelou Jonas. — Preocupar-se? — Ela parou com a mão segurando a maçaneta do carro alugado de Jonas. — Claro. Buenas tardes. — Cozinhar vai me relaxar? 50 . — Agradeço a informação. senorita. — A minha loja? — Ultrajada. Ele examinou a moeda. e sentiu-se gratificado de ver os olhos de Moralas apertarem. Enquanto ele se preparava para estender a mão. ele e o delegado poderiam brincar de cabo-de-guerra usando Liz por muitas horas. — Ele estava indicando as opções dele e as nossas. Liz encontrou um pregador na bolsa e prendeu o cabelo atrás. ela estava muito machucada. Isso só atrasaria o processo. delegado. Talvez se interesse por um tal de David Merriworth. se bem que seria difícil esquecê-los. Sr.NORA ROBERTS — É mais do que possível que o Sr. — Você parece uma mulher que não consegue passar um dia sem uma caixa de chicletes. Palmer. — É. — Meu irmão se encontrou com ele muitas vezes em bares e clubes locais. vamos relaxar. Instantes depois. Srta. delegado. — Está mudando de assunto. — Mas não ameaçou colocar você na cadeia — murmurou Liz. Jonas acendeu um cigarro. No meio de toda a tensão e raiva. no futuro. o menino fechou a porta para ela e guardou a moeda no bolso. claro. Agora me diga qual é o melhor lugar para comprar os ingredientes para o chili. não é? — perguntou ela. verá que Merriworth tem uma ficha policial razoável. apreciarei mais se o senhor ficar fora do meu caminho. Liz já estava pegando uma moeda. em que é mais sábio não usar certos direitos. Aparentemente. — Jonas afastou o carro do meio-fio. — Estava ameaçando me colocar na cadeia. Jonas olhou para o círculo de fumaça azul-claro que subia na direção do teto. ao fazê-lo. Um menino sujo aproximou-se do carro e galantemente abriu a porta para ela. E eu. — Buenas tardes. Palmer. PERIGO Muito calmo. estou no meu direito de manter a Srta. — Esta noite. o senhor está no seu direito de pedir um mandado. foi ele quem apresentou meu irmão aos seus contatos em Cozumel. — Ainda bem que você não vem à cidade com muita freqüência — comentou Jonas. — Moralas é um bom policial.

Caminhou até ela e ofereceu-lhe um deles. Liz deu de ombros e voltou para o fogão. Aliás. — Pare aqui — orientou ela. tinha feito coisas que. Ela resolveu tampar o chili. Liz deixou as mãos caírem ao lado do corpo. Jonas tirou duas taças de vinho de pé fino. 51 . das laranjas e dos tomates-cereja. No centro. — Eu não sei — respondeu Jonas. Ainda era uma criança quando desenvolveu o gosto pela cozinha mexicana e pelas especialidades de Yucatán. Jonas a observava confortavelmente sentado à mesa. — De uma sacola ao lado da garrafa. — Já está cheirando bem — comentou Jonas ao entrar na cozinha. Não era uma cozinheira sofisticada. — E lava tudo depois. — Jonas levantou-se e dirigiu-se à bancada onde tinha deixado duas garrafas. — Temos tempo para um vinho. eram difíceis ou estranhas. — Bom. são relaxantes. — Porque. era precisamente a beleza dessa salada que fazia com que Faith a comesse. — Não tenho copo para vinho — desculpou-se ela.. Liz limitou-se a dar uma olhada para ele. claro que não. até a cozinha inundar-se de um conjunto de aromas. eram finas e sofisticadas. eu cuido da mesa — lembrou ele. quis recuar.NORA ROBERTS — Comer vai relaxá-la. satisfazia-se com um sanduíche. você compra. Ela soltou a toalha e viu que não sabia o que fazer com as mãos. cozinhava e engrossava em fogo brando. quando estava sozinha. mas ficou firme. lembre-se. Eu tinha que fazer alguma coisa. — Estas velas não são minhas — observou Liz. estranhamente. Mas. — Combinado. Devia ser muito natural e inofensivo querer impressionar alguém com a sua cozinha. depois fica fora do meu caminho. — Alguns homens acham que a mulher fica melhor na frente do fogão — comentou ela. Liz limpou as mãos numa toalha e virou-se. ela percebeu que. — Jonas colocou o vinho nos dois copos. É só uma circunstância inevitável você precisar cozinhar a comida antes. — São nossas — confirmou Jonas. mexeu e temperou. Liz nunca economizava na cozinha. havia duas velas finas azuis que assumiam a cor da borda dos pratos. soltou. Estas não eram grossas. ainda se preocupou com a decoração do prato e ficou satisfeita com as cores contrastantes das folhas. — E. Nos últimos dias. Era um alívio tomar uma decisão tão simples como qual a maneira mais adequada de fatiar as frutas e os vegetais. Talvez quisesse impressioná-lo. Eu digo o que comprar. Jonas virou-se e viu Liz remexendo as franjas de um dos jogos americanos que ele colocara na mesa. E nós combinamos relaxar. Acrescentou uma boa dose de alho e deixou que tudo cozinhasse em fogo brando. — Já pensei nisso. PERIGO — Você está bonita — comentou ele. O molho espesso. Eu não. — Você não ia ficar longe do meu caminho? — Enquanto você cozinha. — Não. Depois de descascar e fatiar um abacate. — Você não quis que eu a acompanhasse no mercado. Ela provou. — Muito bonita. para ela. mesmo levando em conta que os temperos mexicanos autênticos são mais fortes do que os vendidos nos supermercados americanos. Liz tomou um gole. fazia pratos que podiam ser muito apreciados. explorando a península com os pais. — Andou ocupado — comentou ela. Liz teve de admiti-lo enquanto preparava uma salada maia para refrescar. com carne e vegetais. e. Liz torceu a franja em volta de um dedo. Satisfeita. Parecia muito natural eles estarem juntos na cozinha com uma panela no fogo e uma brisa entrando pela tela da janela. — Temo que você esteja buscando mais do que posso dar — afirmou ela. — Bom. A última vez que acendera velas tinha sido quando faltara luz. — Jonas tirou a rolha e deixou o vinho respirar. Quanto tempo leva para ficar pronto? — Cerca de meia hora. se estava inspirada. estava conseguindo relaxar. Liz não notou que estava sorrindo quando começou a refogar as cebolas e as pimentas. Aquilo soava tão absurdo que ela cedeu. Um leve sinal de aviso soou na cabeça de Liz. — Não precisava ter esse trabalho todo. foi você quem Pediu. depois torceu de novo.. No final. — Com certeza. — Vire à esquerda na próxima esquina. — As velas e o vinho a constrangem? Largando as franjas. Fez Liz pensar como era difícil não querer essas coisas simples na sua vida. — É completamente diferente de como você fica no leme de um barco. para mim.

Não era o trabalho. percebeu ele. quando se virou para ele. — Jonas quase tinha esquecido como era sentar numa cozinha e apreciar uma refeição simples. ela o fitou. — Mudar o quê? — Se pudesse voltar atrás 11 anos e adotar um caminho diferente. — Todos nós tomamos decisões em certos momentos da vida. — Liz deu a primeira garfada e gostou. que se conhecia bem. mas seus olhos estavam fixos nos dela. mas o fato é que ela se sentiu próxima a ele. Liz começou a sentir calor. — Estou buscando exatamente o que você pode dar. Deliberadamente.NORA ROBERTS — Não. refazemos nossas prioridades. Confusa. mudaria? Liz continuou a servir as tigelas de chili. Jonas podia ver a luz trêmula da vela nos olhos dela. — Liz relaxou e sorriu. — Podemos começar com a salada. Ele levantou o vinho para encher o copo de Liz. — Muito bonita — elogiou ele quando Liz misturou o molho e arrumou as fatias de abacate. — Eu cheguei a essa conclusão muito recentemente. o vinho. a intimidade de uma cozinha pequena na casa vazia. Desta vez. — Como você se arruma na Filadélfia? — Tenho uma empregada que prepara um panelão de cozido as quartas-feiras. era outra coisa. — Ele deu outra garfada. Quando ela colocou as tigelas na mesa. — Maravilha — exclamou Jonas após a primeira garfada. — Admiro você. — E festas? Eu imagino que você freqüente muitas. — Você chega a um ponto em que percebe que não quer mais fazer esse tipo de coisa. — Era isso. — Ele tocou seu copo no dela. podia ver a força que o silêncio e as sombras não conseguiam disfarçar. — Tenho a sensação de que você fez isso há muito tempo. Quanto ao elogio sincero e simples. Do outro lado da sala. Liz franziu um pouco a testa porque aquilo não parecia tão glamouroso quanto ela imaginara. É. — Não parece.. Mais ainda. Liz não estava acostumada a elogios. as horas passadas enfurnado nos livros de direito ou num tribunal.. — Algumas a trabalho. A idéia era ver quais as meninas que também tinham pego o carro para fazer o mesmo. — Acho que não — disse ela. Jonas acendeu as velas e diminuiu as luzes. Isso era verdade. Na verdade. — Você não aparenta ser um homem que faça alguma coisa sem um propósito. — Eu devia ter convencido você a cozinhar para mim antes. no fundo. nós pegávamos o carro nas noites de sexta-feira e circulávamos. muito à 52 . — Podemos negociar. apreciando o contraste das folhas crocantes com o molho condimentado. poderia facilmente ignorá-los. Circular. — Você não mudaria isso. Capítulo 8 Nenhuma frase amável. — Isso significaria desistir de Faith. mas achava que uma mulher como ela. — Circular? — Quando Jerry e eu éramos adolescentes. eu não mudaria nada. pensou ele. — As refeições não estão. são a mesma coisa. — Como se chama? — É uma salada maia. ela riu para ele e escolheu um pedaço de toranja. Jonas pegou sua mão. outras por prazer. Liz disse a si mesma que não se importava. — Parece um pouco sem sentido. — Por quê? — Por ser exatamente o que você é. — Incluídas no aluguel — Jonas concluiu a frase. Liz encaminhou-se para a geladeira. As festas de adultos. nenhuma palavra romântica poderia tê-la afetado tão profundamente. Consciente de que estava em terreno desconhecido. PERIGO — Tive minha quota de noites sem propósito — comentou ele. O ambiente não passava de um acréscimo agradável a uma refeição. — Para ser franco. Eram as noites sem sentido que o deixavam insatisfeito. E nunca me arrependi. — Fiz. a maior parte do que sei cozinhar aprendi lá. — Aprendi a receita quando trabalhava no hotel. Liz não era uma mulher de arrependimentos. cansa um pouco. Não. afastou o vinho e levantou-se para ir ao fogão. — E como fora a maioria das vezes. Liz ficou imóvel. Talvez fosse a luz da vela. — É só esta vez.

Não entendo como você não abriu um restaurante. aprendeu isto quando trabalhava no hotel? — Isso mesmo. chegou a hora. — Quanto tempo trabalhou lá? — Dois anos.NORA ROBERTS vontade na sua companhia. excepcionais. — Poucas mulheres teriam conseguido dar conta de tudo como você. pensou Jonas. que estava grávida. — Como conseguiu administrar tudo? — Jonas esperou que ela olhasse para ele. Enfim. os sentimentos. O cozinheiro me ensinava quanto disso. — Eu estava assustada. — E depois começou o seu próprio negócio? — Depois abri a loja de mergulho. se eu não tivesse tanta sorte. E abrir a loja de mergulho. Liz bebeu o vinho e esperou que ele comesse. Jonas queria saber tudo — os pequenos detalhes. — Você trabalhou no dia em que o bebê nasceu? — Claro. Jonas mergulhou a colher no chili e provou. — Não entendi. sim. uma coisa levou à outra. As pessoas foram muito generosas comigo. — Muitas pessoas foram gentis. Ele era muito gentil — comentou Liz. Liz baixou a guarda. — Eu não poderia ser diferente. — Sei de homens que tiram o dia de folga quando vão obturar um dente. Ela cuidava de Faith durante o dia. umas poucas mulheres. — Não posso discutir com você a esse respeito. sua filha mais nova estava com cinco anos. Uma colega de trabalho me apresentou a señora Alderez. e ainda falta metade dos quartos!" — Ela riu e voltou a comer. se cozinha tão bem. — Seus olhos brilharam como se ela tivesse acabado de ver alguma coisa encantadora. Por isso mesmo tinha que agir com cautela. — Jonas manteve o tom de voz leve por saber que Liz nunca responderia se fosse pressionada. quanto daquilo. O cream-cracker esfarelou nas mãos dele. — Liz pegou um cream-cracker e quebrou em dois pedaços. não é? — Muitas teriam feito outra escolha. Se eu tivesse continuado no hotel. — Poderia. — Você poderia acionar um motor com este combustível. Foi assim que encontrei esta casa. — Qualquer outra escolha não teria sido acertada para mim. — Que sejamos capazes de usufruir ao máximo o que a vida nos reserva. Fico feliz por não ser. Ela deu um gole no vinho e voltou no tempo. Se dissesse a coisa 53 . Perdi a conta de quantas camas fiz. Um advogado de 35 anos que só agora percebe que perdeu muito tempo na vida. Sentia na língua o tempero apimentado. Liz não seria humana se o elogio não a agradasse. Com um aceno de cabeça. sozinha e ainda tinha que trabalhar para se sustentar. — Jonas levantou o copo e tocou o de Liz. — Fico admirado. — Você disse que abrir a loja de mergulho foi jogar com a sorte? — Tudo é sorte. — Não está forte demais para o seu estômago ianque? — O meu estômago ianque pode agüentar isso. E acho que teria me sentido lesada. e assim eu pude voltar logo para o trabalho. Sem estar ciente que isso estava acontecendo. Sem ter a certeza se compreendia bem aquele brinde. — Com sua filha? Liz encolheu-se. — Lembro-me de estar segurando uma pilha de toalhas e pensar: "Ah. — E você. Quando Faith nasceu. — As opções não são muitas. — Jonas levantou-se para levar as tigelas enquanto imaginava uma maneira de saber mais sobre ela. mais comoventes eles se tornavam. Nós fazíamos a refeição na cozinha. nunca teria conseguido dar o que pretendia a Faith. mas foi diminuindo com o passar do tempo. No começo tinha muito medo. — Talvez as mulheres saibam lidar melhor com as coisas. quanto maior a simplicidade com que Liz descrevia os fatos. — E depois? — perguntou ele. o que é? — perguntou ela ao sentar-se ao lado dele. Poderia ter sido diferente. mas a señora foi maravilhosa com Faith e comigo. Quer mais um pouco? — Não. Liz riu e passou os biscoitos para ele. A tigela de Jonas ficou esfriando. Liz concordou. as recordações. Para Jonas. Eu me sentia muito bem. — Joguei com a sorte. — Prefiro o mar à cozinha. mas deu certo. — Está fantástico. — Novamente. — Depois tive sorte de novo. Entrei em trabalho de parto quando estava limpando o quarto 328. — Deve ter sido muito difícil para você. meu Deus. Então. — A única parte difícil era me separar do meu bebê todas as manhãs. PERIGO — Isso parece tão extraordinário assim? — Liz sorriu ao pensar naquilo. Só algumas.

— Ele não me quis. não sabe? A flecha atingiu o alvo. Mas. não é não? — A raiva explodiu e Liz empurrou a mão dele. — Liz deixou o copo na mesa. Marcus não falara nada sobre a visita da mãe. — Na verdade. — Não me fale sobre responsabilidade. ela mandou o motorista me chamar no dormitório da universidade. muito educado e engraçado. Liz se afastaria de novo. E precisava me sentir em paz. Era como aprender a voar. Jonas voltou para a pia. — Eu ainda não tinha 18 anos. passaria um mau pedaço em casa. Jonas? — A lembrança fez Liz reviver a dor e a vergonha. segurando-lhe o ombro quando ela acionou o interruptor. Não era a resposta que ele esperava. raramente saía. impaciente para terminar. — Ele disse que nos casaríamos logo que se estabelecesse. — Quase que abruptamente. e ele falava da sua casa em Dallas. e isso não significou nada. depois a tomar café juntos. Você sabe o que significa honra de família. Liz apagou as velas. pegou o copo de vinho e bebeu com sofreguidão. Eu me achava muito mais madura do que alguns de meus colegas que pulavam de uma aula para outra. Liz o fitou. — Ele sabia citar cada capítulo e artigo. do tipo que só se vê no cinema. com quartos e salas maravilhosos. Se não o amasse. Estava na faculdade exatamente para estudar o que gostava para poder seguir o meu sonho. um dia. mas segurou tão forte o espaldar da cadeira que os nós dos dedos embranqueceram. Eu sonhava tanto com isso que só fazia estudar. Quando disse que me amava. eu acho. Faith é responsabilidade minha. Pretendia ser uma professora que instruiria suas turmas sobre os mistérios do mar. começamos a nos falar. — Liz agachou e mudou algumas coisas de lugar na geladeira para abrir espaço. — Foi por isso que voltou para cá? — Voltei porque. naturalmente. — É melhor acender a luz para lavar a louça. Ela tinha certeza de que eu era uma boa garota. A luz caiu sobre eles sem as sombras trêmulas das velas. Ele estava no último ano do curso e sabia que. e me senti flutuando. a mãe dele apareceu. Sua família era envolvida com lei e política desde a Revolução.NORA ROBERTS errada. Ele me dava flores e me levava para longos passeios de carro nas noites de sábado. — Nós nos víamos todas as noites na biblioteca e. Aprendi bem rápido. — Então pode entender o resto — continuou ela. Passava a maior parte das noites na biblioteca. estava um Rolls branco maravilhoso.. O cheiro exalado por elas tomou conta do ambiente. por que está criando a menina sozinha? — Isto é óbvio. mas pouco adequada a um integrante da família Jensann de Dallas. — Por que não lutou por justiça? — Quer os detalhes. — Eu me apaixonei perdidamente. Foi lá que o conheci. uma cientista que descobriria todas as respostas. se não fosse aprovado no exame. mas ela se concentrou na raiva. Ainda podia lembrar a humilhação. mas Jonas limitou-se a concordar com a cabeça. e Jonas esqueceu de ser cauteloso. Parecia uma linda história de final feliz. Seu filho tinha uma posição a preservar. Ficávamos sentados no carro dele. A necessidade de saber foi maior. aqui. — Onde aprendeu a mergulhar? — Bem aqui em Cozumel. Depois. quando entrei no carro. Faith não existiria. Quanto mais ela contava. Junto à calçada. — Estudava biologia marinha. — Depois conheci o pai de Faith. Voltou para a mesa. Achei que tinha o mundo na palma da mão. enquanto Jonas cuidava da pia. — Liz se deu conta que estava falando demais. eu sempre tinha sentido paz. Ele era inteligente. — Então. O motorista abriu a porta para mim. ela me apresentou os fatos da vida. Endireitouse devagar e fechou a porta da geladeira. um pouco mais velha que Faith. — Você o amava? — Claro que sim. Jonas não disse nada. uma imagem a proteger. acreditei. — Fique com a sua lei — respondeu ela asperamente. — Meus pais me traziam. dos empregados e dos candelabros. — Mas ainda devia estar estudando nos Estados Unidos. 54 . Liz começou a guardar as sobras. e foi o fim dos sonhos. mais ele precisava saber. era responsável por você e pela criança. atraente. mais preocupados em saber onde seria o agito naquela noite. — Depois o quê? — perguntou Jonas. PERIGO — Então você deixou o seu orgulho interferir nos seus direitos? — Impaciente com ela. — Querendo ou não.. das festas. — A lei vê as coisas de outra maneira. — Por uma questão de hábito. — Estava no primeiro ano da faculdade. olhando as estrelas. mas eu estava emocionada porque a conheceria. Nós não éramos desejadas. Até que. Liz riu.

para cuidar de tudo. — Por que não procurou a família dele? Eles tinham que cuidar de você. disse que espalharia o boato de que eu estava dormindo com todo mundo. Quando contei sobre o bebê. estava grávida. E nem saberão. Jonas segurou-lhe os braços. — É por isso que fica aqui? Está se escondendo deles? — Farei o que for preciso para proteger minha filha. peguei o cheque de Marcus e vim para Cozumel ter o meu bebê. do país. Aquilo. Sem tirar os olhos de Liz. não é? — Não. Durante uma semana eu não fiz nada. Jonas aproximou-se mais. Nenhum deles jamais a tocará. mas agora estava arrasado. — Nem ele. Liz apertou-os com os dedos por um instante. Marcus convenceu-me de que eles se envergonhariam. nem a família podem saber que Faith existe. se eu insistisse. E queria que eu me livrasse daquilo. ele foi muito lógico. Como eu era tola o bastante para acreditar em tudo aquilo. — Quando o procurei. — E você sabe que Marcus Jensann está de olho no Senado. mas tinha terminado. apavorada com a demonstração de uma violência que nem sabia possuir. mas ele não disse nada. Ainda não tinha contado a ninguém porque só tinha sabido naquela manhã. e ele disse que providenciaria para que eu fosse expulsa. — Ela contou que já tinha conversado com o filho e que ele compreendia que a relação precisava terminar. — Furioso por ela. Ele me deu um cheque e me mandou sair do estado. chegou a pedir que ela contasse. Liz deu-lhe um tapa com tanta força que a cabeça dele estalou. Escrevi aos meus pais e contei o que PERIGO pude. Eu tinha certeza de que ele me amava o suficiente para jogar tudo para o alto por mim e pelo nosso bebê. — Poderia ter procurado seus pais. Fiquei histérica. Tinha sido muito bom. mas pude entender que não queria mais saber de mim. talvez até mais do que isso? Liz ficou branca subitamente. sem chance de se soltar e se sentir viva. que os amigos dele o apoiariam. pior. Não vê que um homem como ele nem sequer se lembraria de você? Você ainda foge de alguém que não a reconheceria na rua. Liz dirigiu-se ao fogão e começou a limpar a superfície.. Nunca menti para ela. Ele jogou em cima de mim um monte de jargões jurídicos que eu não conseguia compreender. Como eu podia ter feito uma coisa dessas? Eu. achando que acordaria e descobriria que tudo não passava de um pesadelo. Liz jogou o pano de prato na pia. Disse que os meus pais se sentiriam envergonhados e talvez fossem processados. Saí do Rolls e fui imediatamente procurar Marcus. Depois. Faith é minha. Ele não teria feito aquilo. 55 . — Sim. e era importante que não se decepcionassem com ele. — O que você teme? — O poder deles. Mas queria que eu soubesse que ainda podíamos nos ver de vez em quando. melhor ainda. — Conhece ele? — Só de nome. passou e voltou mais forte. Vendi o carro que eles tinham me dado quando me formei no colégio. — E o que Faith sabe? — Apenas o necessário. O pânico tomou conta dela. — Ser cuidada por eles? Eu teria ido ao inferno primeiro. mas. Desse modo. como se Faith fosse uma coisa para ser apagada e esquecida. — Mas ele desperta medo em você. — Era como se eu tivesse concebido o bebê sozinha. Os pais dele controlavam o dinheiro. desde que não atrapalhasse á vida dele. que me odiariam e veriam o bebê como um fardo. ficou furioso. — Ir até eles? — Jonas nunca percebera amargura na voz de Liz. Mas estava errada. e ele perdeu a paciência. Fui humilhada e. na época. ou. espalhando a água quente cheia de espuma. Inquieta. não permitiria que uma garota tola que se deixara engravidar estragasse sua vida. Afastou-se dele. e eu nunca seria capaz de provar que o bebê era dele. Fez ameaças. — Não venha me dizer do que eu estou fugindo. ninguém precisaria saber.. Ele esperou até conseguir falar com calma. Fui às aulas completamente atordoada.NORA ROBERTS Os olhos de Jonas estreitaram-se ao ouvir o nome. nem o que eu sinto — disse Liz num murmúrio. Os olhos de Liz chegavam a doer de tão secos. Jonas quis saber. ofereceu-me um cheque como compensação. ofegante. — Eles sequer sabem da menina. — Ele fez de você uma adolescente apavorada. depois virou-se e fugiu. Não aceitei o dinheiro. Até que resolvi encarar. Sua família tinha muita influência na faculdade. fiquei apavorada. Faith é minha e vai continuar sendo minha.

Desesperada para chegar à liberação final. seu cérebro liberou exigências que ela não podia negar. Sentia o sabor da paixão. Até mesmo você. Só havia um Jonas. Que diabos vai fazer quando ela crescer? Como será sua vida daqui a 20 anos. enrolou as pernas em volta dele e puxou-o para dentro de si até sentir-se preenchida. quente como um cometa. as promessas. e os dois intumesceram. Depois. Com a boca enterrada na garganta dela. ele sentiu a camisa ser arrancada de suas costas. libertou-se e assumiu o comando. Jonas não sabia ao certo o que o impulsionara — a raiva. mas nem sequer sabia se era uma risada. Mas ele também tinha uma fera dentro de si que já estava enjaulada há muito tempo. — Todos nós precisamos de outra pessoa. Nenhum homem vivo poderia resistir àquilo. por tanto tempo trancada em si mesma. sentiu-se segura. Liz era uma tempestade prestes a desabar. Ao choque 56 . Liz ouviu seu próprio gemido quando os lábios dele desceram pelo seu pescoço. — Sim. — Luta consigo mesma. Liz tentou virar o rosto. Ao tocá-lo. enquanto se enroscava em volta dele. não lhe deixou escolha. Quando Liz sentiu sua pele fundida à dele. compreendeu por quê. Ela estava louca sob ele. Liz. Não tinha havido ninguém mais. corpo. Seu coração batia forte. Com a boca presa à dele. e ela não se sentiu desprotegida com a nudez. Me ame. Me ame pelo que sou. — Você não está lutando comigo — disse Jonas. Só sabia agora que precisava possuí-la. queimando os dela. alma e mente. Ele já não sabia por que sua raiva era tão feroz. quando só lhe sobrarem as lembranças? — Pare. qualquer homem vivo a teria desejado. estilhaçando todas as suas defesas. Cada movimento era uma súplica para ele receber mais. Ao diabo com o resto. mas saiu trêmula. Mas estava perdendo. tão delicada. Ao contrário. vou tomar uma por você. A vida a penetrou como um vento tórrido atravessando o vidro fino. Jonas tirou a camisa de Liz pela cabeça e jogou-a de lado. agarrando-a forte. Ele tirou as calças compridas de Liz. ela estava lutando consigo mesma. e o sangue a fluir mais rápido. Desta vez. O corpo dela arqueou contra o dele. Ela era tão pequena. — Não. ela lutou. Jonas a tinha de novo nos braços. — De quantas coisas você abriu mão por causa dele? — perguntou Jonas. a necessidade. Os olhos dele estavam bem próximo. a vida. mas os braços dele a cercavam como se fossem de ferro. só sabia que não conseguia mais controlá-la. ou a dor. Ela queria senti-lo contra si. Quer que eu a solte mas também que a abrace. enquanto os lábios dele pediam submissão e reação. As emoções mescladas de medo e raiva tornaram-se mais confusas ainda com a paixão. dar mais. ele a queria. Você vem tomando suas próprias decisões há muito tempo. experimentar uma intimidade que há muito não se permitia. Ela buscou sua boca para saboreá-la novamente. — A quantas renunciou? — É a minha vida! — gritou Liz para ele. ela pegou o rosto de Jonas nas mãos e levou os lábios dele de volta aos seus. e nada parecia rápido o bastante. Com um urro desesperado. Quase sem conseguir respirar. Já é tempo de alguém lhe provar isso. — As lágrimas de Liz vieram rápido demais para serem afastadas pelo piscar dos olhos. que arqueava embaixo dele num movimento que não era de protesto. mas já não impunha resistência. — Quero que me solte. Sim. seu corpo começou a esquentar. e queria tudo isso. o fez prisioneiro. Seu cheiro era de satisfação e sedução. Ela sentiu o contorno rijo do corpo dele contra o seu. O que quer que ele tenha liberado dentro dela. Vem fazendo isso desde a primeira vez em que nos encontramos. Liz pouco sabia o que estava fazendo. Afoita. Ela o queria. girando-a.NORA ROBERTS Antes que ela alcançasse a porta da frente. lutou para tirar as calças dele. mas era um sinal de prazer. Ele a agarrou de novo bem próximo a si e girou-a até ser obrigada a olhá-lo nos olhos. — E não a compartilhará com mais ninguém além da sua filha. um fogo desesperado para se consumir. PERIGO O corpo de Liz começou a pulsar em lugares que estavam adormecidos há muitos anos. Encurralada sob ele. mas ele foi mais rápido. O protesto furioso de Liz perdeu-se contra os lábios de Jonas quando ele a empurrou para o sofá. — Liz queria que sua voz fosse forte. tenso como uma corda de arco. Ela emitiu um som. ela parecia dizer. Ela passava uma sensação aprazível como um copo d'água fresca e translúcida. Ele abocanhou um dos seios dela. A inocência que continuava sendo tão essencial nela tremia sob a paixão desenfreada. corpo contra corpo. Liz lutou para não se render a nenhuma delas. Precisava fazê-lo antes de poder lutar com ele.

— Por quê? — Eu não sei. PERIGO — Liz. Jonas não se moveu. Quando me contou. seus olhos se escancararam. que dissesse alguma coisa que pusesse em perspectiva o que tinha acontecido. cada vez mais rápido. Jonas respirou fundo e sentou-se. Agora. Depois. Liz cruzou as mãos e procurou manter a calma. Liz não falou. que estava escondendo algo. Liz encaminhou-se rápido para o quarto. Eu praticamente a joguei no chão e arranquei sua roupa. depois passou a mão pelo cabelo. — Com as roupas no braço. A boca tremia aberta. alguma coisa nele começou a fervilhar. mas. — Liz. A coragem de Liz enfraqueceu. sim. Que tivesse adotado a forma de paixão no final não era algo facilmente explicável ou justificável. quando ela sempre fora um enigma para ele? — Droga. — Você projeta uma imagem de pura auto-suficiência e ao mesmo tempo parece uma menina abandonada. não há desculpa para eu ter sido tão rude. Jonas vestiu as calças e encaminhou-se para o quarto dele. — E você quer as minhas desculpas? — perguntou Liz sem humor nos olhos. — O seu pedido de desculpa me doeu — interrompeu ela. Não demorou muito para ver que havia algo mais. Jonas não queria vê-la sofrer e sentia uma certa responsabilidade pelo seu bem-estar. Agora. depois ameaçou sorrir. pois estava impossibilitada de apressá-lo. Jonas aproximou-se e descansou as mãos nos ombros dela. — Não preciso de desculpas. — Agora — interrompeu ele. Eu o desejei. tê-la forçado. Jonas descansou a testa no ombro dela um pouco. chegaram ao clímax. — É. Encontrou-a ainda vestindo um robe. Esta noite. Eu ligava tudo a seu respeito a Jerry. — Gentilmente. Quando ela estava na cozinha descrevendo o que tinha passado. Gostaria que você dissesse que me desejava tanto quanto eu a desejava. apenas mudou de posição para aliviar o peso do corpo. a levava às alturas.. — Me desculpe. eu não estava me desculpando por ter feito amor com você. — Sim. 57 . — Já está tarde.. ele a excitava cada vez mais. mas não parecia ser capaz de agir adequadamente. entre prazer e satisfação. Ele parecia não saber lidar com Liz Palmer. não por causa de Jerry. mas ele tinha pouco. — Não. pegou o emaranhado de roupas no chão. se já disse tudo o que tinha a dizer. além disso. Mais calma. Ela fechou os olhos e tentou reprimir suas emoções. Jonas retorceu os lábios. A poucos centímetros de distância.. — Magoou. e aprendera a não esperar.NORA ROBERTS daquela primeira estocada. por isso ela olhou por cima dele. — Diante do olhar surpreso de Liz. — Está bem. — Eu diria que isso estava óbvio. — Vai ouvir? — Não é preciso dizer nada. Nada que ele dissesse poderia ser pior. — Ele caminhou com ela para a cama e puxou-a para sentar. — Eu arranquei as suas. Ela só tivera um amor. Juntos. Cada gesto seu parecia ser um movimento contrário. Liz precisava que ele falasse. quero tomar um banho e ir para a cama. e não há como reparar isso com você. Quando a conheci. Descobri que queria saber sobre você. Jonas fitou-a um instante. não pude suportar. Não deveria surpreender-se quando se desviou para o de Liz. — Agora. você arrancou. Como podia achar que a conhecia. Jonas virou o rosto dela para si. mas seus braços continuavam em volta dela. mas por mim. mas. mas pela falta de delicadeza. ele observa seu rosto. achei que você sabia de alguma coisa. — Eu magoei você? Liz dirigiu-lhe um olhar que o fez sentir-se mais culpado ainda. mas outras coisas. é. Na verdade. Ainda estava chocado por ter sido tão rude com ela. Liz. É impossível não se importar com você.. antes que ela pudesse respirar. envolveram-se num abraço. a oferecer. Meus sentimentos quanto àquilo não mudaram. A luz da lua brincava sobre eles quando ele tomou as mãos dela. — Eu vim para Cozumel por uma razão. ele sorriu. Suas desculpas tinham sido inadequadas. O robe que Liz usava era de algodão fino estampado em cores vivas. quero ficar sozinha. Ela não saberia dizer por quanto tempo eles se equilibraram no limite. eu propositalmente a induzi a falar sobre Faith e o motivo que a trouxe para cá. Seu organismo recuperou-se lentamente. Jonas. Ele lutava com seus próprios demônios. Liz. Ele se sairia melhor se voltasse para o hotel e contratasse para ela um guarda-costas particular.

eu sempre usei a minha de cabeça para cima. Mas nunca fez nada por maldade. — A sua pele parece ouro 58 . Ele me explicou que só queria ver se conseguia se dar bem. Especialmente para ele. eu contarei. — Nesse dia. Mas escolhi diferente. com você e Faith. afastou o robe dos ombros dela e cobriu-a com lábios quentes. — Nossos avós nos deram quando éramos crianças. Para nós dois. — Eu sei. Depois. enquanto a puxava para perto de si. Eu o farei. — Eu disse que não tenho arrependimentos. — A pensão alimentícia para um filho é coisa que se resolve muito rápido. — Ele não tornou as coisas fáceis para você. e eu não tenho nenhuma intenção de dividi-la com ninguém. — Ele tinha uma igual. — Ele roubou seu primeiro carro quando tínhamos 16 anos. — Em quê? — Em qualquer coisa. por um momento. Eu poderia ter feito o aborto e voltado a viver a minha vida como planejara. pelo menos financeira... — Seus lábios sobre os dela eram doces e gentis como a chuva da primavera. sem saber como reagir àquela mostra natural de afeto. — É. Liz ficou quieta por um momento. Você ficou na cozinha falando e eu fiquei imaginando você jovem. mas nunca deixei de amá-lo. você acha que a vida de uma pessoa pode vir a ser como ela a planejou quando criança? Ele riu um pouco. PERIGO — Liz. Nós tínhamos acesso a qualquer carro na garagem. — Não. — Se ainda estiver no México. — E por que deveria? — Marcus tem uma responsabilidade.NORA ROBERTS Liz afastou as mãos das dele. tem sido minha filha e de mais ninguém desde o momento em que Marcus me deu o cheque. — Uma só. mas concordou. ele não facilitou a vida. mas não havia razão para não pedir ao seu funcionário para começar a pesquisar sobre as leis de pensão alimentícia para filhos e casos de reconhecimento de paternidade. desde o momento em que nasceu. O sorriso veio mais fácil. — Faith é minha filha. — Isso é compreensível. — O amor machuca mais do que o ódio. — Desejei você desde o primeiro momento. Algumas vezes eu o odiei. ele afastou o cabelo de Liz do rosto. E ela terá o direito de fazer sua própria escolha. apoiou a cabeça no ombro dele e fechou os olhos. Liz umedeceu os lábios. — Jonas levantou a mão dela e a beijou. Você não precisaria trabalhar sete dias por semana. — Pare de colocar palavras na minha boca. — Jonas fechou os dedos sobre a moeda. Faith nunca me deu nada além de prazer. — Então deixe-me mostrá-la como deveria ser. — Jonas. — Sinto muito. — Jerry e eu íamos ser sócios. houve? O sorriso murchou. Gentilmente. — Um dia. sim. Jonas sentiu impulsos de agradecimento e culpa. entusiasmada e confiante sendo traída e ferida. — Não houve mais nenhum homem. — Vai deixar que eu a conheça? Sei que combinamos que eu sairia da casa e da sua vida quando ela voltasse. Jonas beijou o topo da cabeça de Liz. — Não precisa. precisei tê-los por você. Liz tocou a moeda pendurada da corrente dele. Liz respirou fundo e afastou-se o suficiente para ver o rosto dele. — Mais uma pergunta. Lentamente. e ele segurou a mão dela de novo. Liz aproximou-se. São moedas idênticas de cinco dólares de ouro. criá-lo e sustentá-lo. suponho que você não tenha nunca falado com um advogado sobre Faith. A raiva subiu. — Aceitei o dinheiro de Marcus uma vez. — Não. Jerry usava a dele de cabeça para baixo. A maioria das pessoas tem dificuldade para lidar com mães solteiras. mas gostaria de conhecê-la. Jonas não a pressionaria agora. Não o farei de novo. Engraçado. — Ele beijou os olhos dela fechados. Liz segurou a mão dele. Pude ver o que isso causou a você. — O negócio é que ele não precisava fazer isso. Escolhi ter o bebê. — Acho que. como fechou você para as coisas que queria fazer. ela vai perguntar o nome do pai.

Uma força repentina a fez elevar-se ofegante. teria que estar na loja executando as tarefas programadas para o dia. ansiosa. Mas ele a queria assim. Já tinha sentido necessidade. Dentro de uma hora. Jonas correu a língua pela sua pele até alcançar a parte de trás dos joelhos. — Quero amá-la inteira. franzindo a testa. Ela o ouviu sussurrar seu nome. tão difusas. Mesmo sabendo como era compartilhar com outra pessoa. nunca esperara sentir uma união tão plena. Quero que você conheça o prazer como ele pode ser. eles afundaram novamente. Liz não resistiu. — Ele iniciou uma lenta jornada exploratória pelos tornozelos dela. que envolvia a cabeça dele. mesmo ao acordar. mordiscou-a. ficou saboreando o prazer de não fazer nada. uma confiança que o comovia profundamente. Se era amor. A língua de Jonas mergulhou no calor. seus membros não pesavam. Liz obedeceu. Mas não quero mais. Lento. Ele se afastou. Quando ele estava dentro dela. sensações fluíam por ela. — Jonas. pensou. O pote sobre a cômoda perfumava o ar. afinal. nem por ninguém. Liz deitou-se na cama. O ritmo acelerou. a emoção inundou-o.. nunca o experimentara. complexa. A mente de Jonas estava esvaziada PERIGO de tudo que não fosse a necessidade de dar prazer a ela. cuidadoso e com muita. só alcançara a superfície. — E é tão clara. e ainda pedia mais. flexível de emoção. Liz era magra. muita paciência. enquanto suas mãos seguravam as dela. Ela podia sentir a batida rápida do coração dele contra seu peito. agarrou-se a ele. Como um sonho. — Relaxa. depois deslizou um dedo pelos seios dela. olhando nos olhos dela e novamente sentindo-se excitado. e o corpo dela. — Não estou com medo de você. mas os músculos de suas pernas eram firmes. Seu corpo flutuava. A ansiedade cresceu. — Mas tem estado. Como as de uma dançarina. ele seduziu e deu prazer. mas ela podia sentir cada toque. A pele dele estava úmida quando ela beijou seu pescoço. desejando que a excitação que fluía por ela fosse interminável. Quanto tempo isso podia continuar? Talvez. tão secreto. mas nunca com tanta intensidade. acariciou-a. Quando ele puxou suas costas. — Jonas. Desejosa. Ele sussurrou nos seus ouvidos. nua. e esperou. queria tomá-la como se ela nunca tivesse sido tocada antes. Talvez. mas logo foi varrida por uma paixão avassaladora. Liz sentiu que aquilo era mais do que poderia querer. Por isso. onde o tom de pele mudava. cada uma delas fundida na seguinte. ao olhar para você. Não era comum sentir-se tão relaxada. as bocas fundidas. Quero ver você toda. Agora era hora de ir até o fim. e ela se arqueava. eles se movimentavam juntos.. pensou ele. tem um poder estupendo. — Você toda — ele repetiu. Liz não teve escolha a não ser deixá-lo fazer o que quisesse. Unidos. As comportas se abriram e ela se perdeu na inundação. — Adorável — murmurou Jonas. Se era paixão. Forte. Depois. Jonas tomou-a lentamente. mas era o cheiro de Liz. disciplinadas e treinadas. Liz jamais soubera que poderia ser assim — tão profundo. a fitara com tanta necessidade. cada movimento. O cabelo de Liz caía como chuva pelas suas costas. — Quero que confie em mim. Ainda colados. ele a trouxe para cima dele. O corpo dela era como leite e mel à luz da lua. De olhos fechados. Deite-se Liz. 59 . esperou o alarme tocar. abertos e indecisos. que não está com medo de mim. subiu como uma onda para depois pressionar-se contra o dele. só porque não tinha forças para resistir. Uma sensação vertiginosa de triunfo dominou-a. — Quero saber. tão suaves.NORA ROBERTS — murmurou ele. — Quero que sinta seus ossos derreterem. quando não é egoísta. pensou. inevitável. desejo. Enquanto sua boca subia pelas coxas dela. Ofegante. fresco como uma cachoeira. O fundo de vidro. — Ele subiu a mão levemente pela coxa dela. O amor. Era confiança que Jonas percebia nela. Havia ali uma liberdade que ela só sentira mergulhando nas profundezas silenciosas do oceano. até ela estremecer com o clímax. A pulsação ali era tão rápida quanto a sua. houvesse "para sempre". Nunca em sua vida alguém a tocara com tanta reverência. paciente e implacável. nem por ele. E os olhos eram escuros. até ela estar saturada e pronta para retribuir. Capítulo 9 Liz acordou bem devagar e deu uma longa espreguiçada. parecia ouvir sua pele cantar. atordoada por estar sendo lançada de um mundo flutuante para um agitado. eu até tenha desejado isso.

— Eu sempre ajusto para tocar às seis e quinze. — Mais um não fará mal a ninguém. sentiu-se tão irresponsável quanto uma criança. 60 . — A única coisa que você precisa é fazer amor comigo. inclinando-se para beijá-la. — Sempre o quê? Por um lado. mas. — Fascinante.. — Jonas ria e procurava fazê-la relaxar de novo. Quando começou a preparar o café. — Eu sempre. E na noite passada. — O pulso de Liz acelerou ao toque dele. Depois. e. — Não. Eu preciso trabalhar. — Não. Liz não ficava na cama até as dez horas desde pequena. Eu não gostaria de pensar que você acha muito tranqüilo estar comigo. É verdade que Luis podia cuidar da loja e dos barcos muito bem. — Significa que não está indiferente.. Liz colocou umas fatias de pão na torradeira. — Muito bem.. ela reclamou: — Preciso levantar. Liz preferia que ele não a distraísse deslizando os dedos suaves pela sua pele. é um elogio. Ao se aninhar no corpo de Jonas para dormir na véspera. Se está nervosa. — Tem razão. — Dormiu bem? — conseguiu perguntar. e viu que Jonas a observava. horários e clientes. — Porque não. Não vou à loja há dois dias. não acordou. — E você? — Também. — Você não ajustou ontem.. mas. — Está errado. mas a obrigação era dela. acho que não — concordou. PERIGO não estava preocupada com alardes. deu-se conta de que não sabia mesmo. — Luis parece competente. — Mesmo assim. com o corpo ainda quente de ter feito amor. — Liz. Elizabeth. Já era difícil pensar sendo acariciada. — Eu sempre acordo as seis. A luz do sol iluminava o rosto de Liz. O que deveria dizer? Nunca tinha passado a noite com um homem. Como agora. Pigarreou e ficou imaginando se todos os homens acordavam como Jonas Sharpe. Tudo estava diferente. — Vi exatamente o momento em que sua mente despertou — disse ele. — Jonas virou a cabeça para brincar com a língua na orelha de Liz. mas corou quando ele levou os lábios ao seu ombro nu.NORA ROBERTS Sairia nele? Estranho. quando se lembrou da noite anterior. queria que ele a acariciasse toda de uma só vez. — Ele sorriu ao afastar o cabelo dela do rosto com a ponta do dedo.. ouviria primeiro seu cérebro. — Já deve estar quase na hora de acordar. O corpo de Liz vibrava com a necessidade que lentamente tomava conta dela. — Jonas envolveu um dos seios com a mão e roçou o polegar no mamilo. de alarme ligado ou não. não conseguia lembrar. — Ele beijou-lhe os dedos. com certeza. — Desta vez. mas seu corpo mandava uma mensagem diferente. Ao descobrir um desafio para Liz. nem acordado ao lado de um. — Ela piscou e focalizou o relógio mais uma vez. sensual mesmo com o cabelo desgrenhado. mas sentiu-se ridícula. — Não dá mais para ficar tensa por minha causa. Seus braços o buscaram e o envolveram. — Oito e quinze? Não é possível.. Liz apoiou-se nos cotovelos para olhar para o relógio. até que Jonas os cobriu com as mãos. — Não estou tensa — retrucou ela. fazendo o café às dez da manhã. afastou-os do lençol. lentamente. Há dois dias não preparava a programação. — Os dedos de Liz moviam-se inquietos sobre o lençol. entendeu o porquê do esquecimento. por enquanto. — Acho que estou inflando demais o seu ego — murmurou ela afastando-se. Ela abriu os olhos. — Com uma das mãos segurando firme o lençol. já que eu nem sei qual é a programação de hoje. Ali estava ela.. — Jonas. — Ele é. Ele a olhava com tal ternura e intensidade que fez seu coração bater mais rápido. só tinha ele na cabeça. — Os barcos.. — É inútil martirizar-se por tirar uma manhã de folga — objetou Jonas atrás dela. — Jonas pegou-a pelos braços com firmeza e a virou. Quando Jonas a puxou de volta. Como sempre fazia. Seria possível desejá-lo tanto esta manhã depois de saciada na noite anterior? Liz achava que não deveria ser. — Já saíram. já estou atrasada. — Não vou conseguir passar o dia sem isso. — Liz interrompeu-se. ao mesmo tempo. Liz puxou o lençol para cobrir-se.. desde quando Jonas Sharpe apareceu à sua porta.. não precisa. — Por quê? — Jonas enfiou uma das mãos debaixo do lençol e acariciou a coxa de Liz. Jonas queria ver aquela luz cobrindo todo o corpo dela também. Jonas encheu-lhe o ombro de beijos e foi descendo pelo braço.

— Trydent? — Si. — Hola. americano.. Esteve aqui algumas vezes. — O que têm elas? — Terei uma. Mas eu sou especialista em administrar o meu tempo. — Eles já foram a Palancar? — Dois dias seguidos — respondeu Luis. — Alugou alguma coisa? 61 . ele deixaria a minha carteira em paz. e seus olhos riam tão simpáticos. — Luis costuma dar as aulas particulares. Jonas sorriu para ela. só o Expatriate permanecia no cais. Liz ria quando Jonas parou o carro numa vaga estreita do hotel. Jonas levantou a caneca para brindar. mas Liz não deu muita atenção. Ela riu. — Você falou em aulas de mergulho.— Lá na Filadélfia. passasse a manteiga. ao lado do fogão. como você chama. ele mesmo. Luis.. Recebi este. Comparado a você. Meus amigos preocupam-se com a carga de trabalho que assumo e as horas que dedico a isso. Vai ter de pagar. apareceu um cara. — Luis contorceu o rosto tentando lembrar o nome. um riso tolo de menina que Jonas nunca vira nela. — E você conseguiu que ele escapasse da prisão? — Dois anos de condicional.NORA ROBERTS Antes de falar. mas não tirei os olhos dele. — Luis mostrou um panfleto colorido. Mais à esquerda. antes de sorrir para ela — Achamos que tivesse nos abandonado. Liz limpou os farelos de pão dos dedos. — Jonas pegou a mão de Liz quando atravessaram a calçada em direção à areia. os dois barcos de mergulho já devem ter saído. mediu as palavras. — Eu seria uma tola se reclamasse. Liz protegeu os olhos do sol e olhou na direção da loja. — Liz! — Luis passou os olhos por Jonas. Liz o fitava de testa franzida.. Ou irritada. — Além do mais. — Se ele roubou você. — Não é esse o objetivo? — Para os negócios? — Liz deu de ombros. — Um magricelo. sou um aposentado. — Mas roubou o meu relógio. quando o café ficou pronto. — Hoje? — Liz entregou-lhe o café e bebeu o seu em pé. — O grupo do Brinkman está mergulhando agora — comentou Liz. — Miguel gosta deles. mas amoleceu e pegou duas. parece que o negócio vai bem.. Olha. por que o defendeu? PERIGO — Todos têm o direito de defesa — lembrou Jonas. Do jeito que vão as coisas.. quer dizer que você ficou sozinho com a loja? — Não há problema. — Não quero uma aula em grupo. — E deixou? — É. — Mas? — Mas às vezes acho que certas mudanças prejudicam. — Me formei nisso na faculdade. diferente — disse ela. A gorjeta é boa. depois pegou uma para si. — Parece que o que eu preciso fazer é atormentar você até que consiga relaxar. — Cada pessoa faz o que precisa. Gostou de Acapulco? — Foi. folheto sobre as aqua bikes. Jonas esperou que ela as retirasse da torradeira. As torradas estão prontas. Não quero ver a água entupida de óleo de bronzear. Ah. Luis estava ocupado ajustando o snorkel em dois casais. O que falava era tão lógico. sou considerado um workaholic. Eu trouxe Miguel para ajudar. — Teve algum problema? — José fez alguns reparos. — Nunca duvidei disso. — Tenho que examinar a programação. Hoje. — Prefiro lidar com a chefe. — Cozumel está ficando muito conhecido — murmurou ela. imaginei que. se o aceitasse como cliente. Liz franziu a testa como costuma fazer quando está concentrada. — Ah. Sabe aquele que você levou no passeio de iniciantes? Liz folheou os recibos e ficou satisfeita. — Então está bem. — É verdade — concordou ele. e sim particular. — Bom para você. Ia pegar uma caneca só. deixou. que Liz teve de sorrir.. já fugindo para trás do balcão para examinar a programação do dia. — Aposto que você também tem fama de ser um especialista em atormentar os outros. Pode sair comigo no Expatriate.

62 .. — Quer que eu pegue o equipamento? — perguntou ele. Luis olhou rapidamente para Jonas. Sem uma palavra. — Já não importa mais quem foi. qual é o seu peso? Com os olhos em Luis. examinou todos os instrumentos do Expatriate. mais baixo. deslizou o jornal para cima do recibo que Luis estava escrevendo. — Prepare um formulário de aluguel para o Sr. — Primeira lição — anunciou Liz ao destrancar o armário de guardados. Luis. depois para ela. se eu for embora. Cuidarei para que nada aconteça. Jonas pensou na faca encostada na garganta de Liz. Depois endireitou-se de novo. mas Liz parecia mais feliz do que o normal. o problema permanecerá. Estava atrás de você — disse Luis meio irônico. — Não. Sharpe e dê a ele um recibo pelo equipamento. de costas para ele. — Sabe soltar as amarras? — perguntou a Jonas. Luis esforçou-se para analisar o rosto de Jonas. — Ela está morta. Seus dedos endureceram sobre a página. estava aterrorizado. Após um momento. Sharpe para uma aula de mergulho. — Quando ela parou e se virou para ele. — Morta — murmurou Luis. — Liz olhou para Jonas e sorriu. — Termine de preencher o recibo. A voz de Jonas não se parecia tanto com a de Jerry. Ela não precisa saber disto agora — acrescentou ele em voz baixa. — Se tudo está sob controle. — Tranqüilo. Luis relaxou um pouco. Olhou para Liz e viu que estava ocupada. — A preparação para o mergulho dá duas vezes mais trabalho do que o mergulho propriamente dito — continuou ela ao levantar seus cilindros. Hasta luego. vou levar o Sr. Como já são. a aula e a saída do barco. — Hasta luego — conseguiu dizer.. olhando-o rapidamente. Luis olhou para Jonas. reconheceu Erika. — Luis fez uma pausa e continuou: — Ela foi encontrada ontem à noite. Jonas saiu pela porta para buscá-lo.NORA ROBERTS — Não. eu cuido disso. Depois. mas a preocupação dele era Liz. — Então vigie bem — avisou Luis baixinho. é a. — Liz interrompeu. PERIGO — Ontem à noite. — Eu sei. examinou o relógio e continuou — quase 11 horas. Liz empilhou seu equipamento.. — Felizmente. — Você é muito bondosa — murmurou Jonas. O homem deixava-o pouco a vontade. Jonas respondeu com uma expressão de desafio que durou muitos segundos. — Jonas — gritou Liz dos fundos da loja — . — Esfaqueada — informou Luis. Sentia falta de tomar o café-damanhã com o jornal. até conseguir relaxar. Mas não entendia as manchetes em espanhol. Se não tinha alugado nada. Com esforço. — Jonas desviou a atenção para Liz. com o rosto pálido. não a interessava. Como fazia rotineiramente. vale a pena. faça o preço de meia diária. Pela primeira vez. — Eu gostava do seu irmão. — Você trouxe problemas. — Tenho certeza disso. Jonas virou o jornal ao contrário. — Cada mergulhador carrega seu equipamento e é responsável por ele. Liz deu de ombros. Jonas virou o jornal para ler o verso. — Setenta e sete. fazendo um gesto com a mão. tirou umas notas da carteira e depositou-as no balcão. Estaremos de volta antes do anoitecer. — Foi uma manhã movimentada. — E você tem a melhor professora — anunciou Luis. — Ela jogou a cabeça para trás. se evitasse olhar para ele.. quando Liz se dirigiu para as prateleiras a fim de escolher o equipamento dele. — Eu sei — disse Jonas em voz baixa. Luis. — Vigie muito bem. indicando o equipamento de Jonas. fechando os dedos sobre a medalha que usava pendurada no pescoço. Em uma fotografia em preto-e-branco desbotada. No instante em que entrou no barco. — Eu também não. — Quando foi? — perguntou Jonas. — Não quero que nada aconteça a Liz — murmurou. Com um último olhar para Luis. mas acho que foi ele quem trouxe os problemas. — Como foi? — perguntou Jonas. — O que está escrito? Luis inclinou-se sobre o jornal para ler. ele soltou um grande suspiro. lentamente. na porta da loja. Jonas virou para si o jornal que Luis tinha deixado sobre o balcão. — Liz. — Não consegui dar uma olhada ainda — comentou Luis. Eu a vigiarei. — Ei. apontando para o jornal. Como de hábito. — Alguma coisa de importante aconteceu? — perguntou Jonas. Preenchendo o recibo. — Mas. Luis conseguiu controlar o medo e acalmar-se.

O fato de estarem se amando não mudava o resto. — Então é melhor parar de me olhar e tratar disso logo. — Liz virou o rosto para o mar. Ela esperou que ele voltasse para o barco para acelerar à frente. da costa do continente ou de uma das outras ilhas. Liz elevou os braços. mas não disse nada. pois o lado norte é raso. Liz respirou fundo antes de ligar o motor. mas eu estava com outra idéia. Queria parecer mais dona de si do que se sentia. tão responsável. — Liz ajustou a rota e ganhou velocidade. Era preciso acreditar na primeira opção agora. Mas. sem isso. Talvez. Mais uma vez. mas achei que você gostaria de um lugar longe das praias. com certeza. Jonas. Preciso ver eu mesmo. se o fizesse. estaria indefesa. tinha sido conhecida pelos piratas e abençoada por uma deusa. Jerry se foi. Isla Mujeres. Jonas estava na dúvida se a protegia estando por perto ou se a tornava mais vulnerável. mas preciso ir. surpreendendo-a. Não para você. — Liz. Jonas acenou positivamente. — Compreendo. Os olhos dele estavam próximos. — Não creio. pensou ela. Ele sorriu e a puxou de volta. era um dos retiros perfeitos do Caribe. — Tenho certeza disso. Ela parecia tão competente. Confiar. a preocupação com o tempo é minha. barcos viajavam até lá. Era a mesma que ele usara em Acapulco para copiar os PERIGO números da caderneta do irmão no cofre do banco. depois baixou-os. Liz sentiu o estômago estremecer porque Jonas não tirava os olhos dela. a rota já estivesse determinada para ambos muito antes disso. — Sim. — Será mesmo? — Com a mão segurando o leme com força. Há muitas grutas e túneis que tornam o mergulho muito interessante. Moralas terá os números e enviará seus próprios mergulhadores. Qualquer criança que prestasse atenção à aula de geografia saberia o que significavam.NORA ROBERTS Ele passou uma das mãos pelo cabelo dela. — A viagem é longa. Até amanhã. hesitou. senhora! — Mas. 63 . — Claro. Jonas colocou as mãos nos ombros de Liz para massageá-los. Fica próximo à costa de isla Mujeres. Liz o fitou. — Eu poderia passar muitos anos assim. — Não vamos encontrar nada. Palancar é um dos recifes mais deslumbrantes do Caribe. — Posso cuidar disso — afirmou ele. levando grupos. e a margem é inclinada.. sem conseguir resistir à vontade de sentir o seu cheiro. A ilha. Cercada de recifes e salpicada de lagos inexplorados. — Jonas puxou-a para si e abraçou-a. — É uma aula de mergulho — relembrou ela. ele a beijou com tanta intensidade que a deixou sem respiração. — O seu horário começou às 11 horas — informou ela. Talvez seja o melhor lugar para começar. — Há muitos locais para mergulho onde não é preciso barco. — Está caçando sombras. Isso bastará. — Outra idéia? Jonas pegou uma caderneta no bolso e folheou-a. Descobrirei quem foi. — Longitude e latitude. mas não preciso de um mapa para isso. Seria bom você relaxar. — E não poderá mergulhar se não soltar as amarras. não mais teria a ilusão de ter o controle de sua vida. Seria tão fácil acreditar. mas tinham aquela expressão fria e distante de antes. Queria falar do amor que crescia dentro dela. para oferecer aos turistas o melhor em termos de snorkel e mergulho. Jonas estava ganhando uma batalha que nem sequer sabia estar travando. Nada que você faça poderá mudar isso. era este o local de Jerry descarregar a mercadoria. — Descobrirei o porquê. Jonas ainda tinha suas prioridades. — Prefere que eu vá sozinho? Liz sacudiu a cabeça com violência. Eles não tinham outra escolha. pensou ela. e depois colocou o barco em marcha lenta. sofrer de novo. dar.. Diariamente. Os números estavam em linhas precisas e arrumadas. virou professora. Liz ancorou o barco no lado da costa oeste. — O que acha que estes números significam? Liz reconheceu a caderneta. era uma pequena jóia no meio do oceano. Ela o levaria para onde queria ir. — Se eu vou pagar a conta. ou ilha das Mulheres. antes de pular de volta para o cais. Conheço aquelas águas. o que evita uma descida brusca. — Gosto de olhar para você. E. — Tem um mapa? Liz percebeu que ele tinha planejado aquilo desde o instante que viu os números pela primeira vez. em outra época. que se espalhava e se fortalecia a cada instante. precisavam ir até o fim.

Se começar a sentir tontura. Não pode fumar — acrescentou ela quando Jonas pegou um cigarro. — Segurança. Desceremos por etapas para que o seu corpo se acostume às mudanças de pressão. Não é do mesmo nível que o seu pessoal. — Nada deve ser menosprezado quando se está na água. por sinal. — Esta é a mesma preleção que você faz no barco de mergulho? — Basicamente. Liz não estava em clima de ser elogiada. Não é só enfiar na boca um regulador e amarrar o cilindro em você. Sem pedir ajuda. Quando ouviu Jonas pular na água ao seu lado. — Já. e mais absurdo ainda fazê-lo antes de mergulhar. Liz procurou certificar-se de que ele realmente sabia o que estava fazendo. — Este é um profundímetro. — Jonas olhou para ela e sentiu o sangue fluir mais rápido. por que me deixou continuar? — Gosto de ouvi-la. É lindo e emocionante. Ela só sabia que o dia e o mergulho não seriam tão simples quanto imaginara. Alguns diriam que há justiça naquilo. — Mesmo assim vou cobrar pela aula. — Nunca duvidei disso. — Quanto tempo vamos ficar lá embaixo? — Faremos tudo dentro do período de uma hora. — Podemos começar? — perguntou Jonas ao pegar sua roupa de mergulho. Liz sentou na plataforma do barco. já. — O volume de oxigênio na água das cavernas os mantém calmos. mas é de muito boa qualidade. — Liz ajustou a máscara. para que o nitrogênio tenha tempo de ser expelido. Sensibilizado. — Liz pegou um manômetro. — Vamos descer às cavernas onde os tubarões dormem. Jonas fez um sinal indicando que estava tudo bem. — Quase tanto quanto gosto de olhar para você. Pode ser fatal. — É muito boa nisso. Acho que não mencionei que você tem o melhor equipamento que já vi. Ele estava tenso. mas não é um parque de diversões. Seu irmão tinha mergulhado aqui — Liz estava tão certa disso quanto Jonas. — Já é ridículo obstruir os pulmões. mas sabia que aquilo não tinha nenhuma relação com sua habilidade embaixo d'água. — Agora. — Tubarões não dormem.NORA ROBERTS — É importante saber e entender o nome e a utilidade de cada item do equipamento.. Não pode mergulhar sem saber para que serve o seu equipamento. — Mas tenho outros semelhantes para alugar. Subiremos do mesmo jeito. vestiu sua roupa de mergulho. A água estava transparente como vidro. Mas não pense que pode confiar neles. Liz espalhou o equipamento no chão com a intenção de explicar cada item. — Enquanto falava. tirou o short e ficou com um biquíni reduzido e uma cara emburrada. Você depende do equipamento e do seu bom senso. e ela conseguia ver a mais de 30 metros. Liz percebia. Em certas pessoas. isso pode causar desequilíbrios passageiros. E o motivo de seus mergulhos o levara a morrer. estendeu uma das mãos e segurou a dele. — Você já mergulhou antes. — Jonas fechou o zíper e inclinou-se para examinar os cilindros. — Este é meu — murmurou ela. Jonas apertou a mão dela. Era difícil dizer se estava de fato furiosa. Jonas riu enquanto examinava as nadadeiras.. Não acredito que a maioria das lojas de mergulho considere necessário estocar material dessa qualidade. depois apontou para baixo. virou o corpo e lançou-se dentro d'água. Não é o seu ambiente. Sem dizer mais nada. Levantou o tampo de um banco e retirou duas pequenas varetas de metal em formato de bastão. muito menos seduzida. Não sabia o que estava procurando. Pode me ajudar? Liz levantou-se para ajudá-lo a vestir a roupa grossa e elástica. — Então. — Muito sofisticado. Enfurecida. — Para que é isso? — perguntou Jonas ao receber um deles. — Liz tirou a blusa e jogou-a de lado. sinalize para mim imediatamente. corre o risco de ter a tontura causada pela descompressão. — Desde os 15. Se você sobe rápido demais. — Jonas indicou o aparelho na mão de Liz enquanto tirava a roupa e ficava de cueca preta. Liz amarrou o restante do seu equipamento em silêncio. Isso significa que o seu nitrogênio vai ser mais de três vezes mais denso do que o seu organismo está acostumado. — Obrigada. Mas eles 64 . PERIGO — Mergulho desde os 15 anos. ou mesmo por que continuava a procurar. Seu irmão tinha jogado conforme as regras e tinha perdido. Num gesto carinhoso como um beijo. Jonas colocou o maço no banco ao lado. A profundidade aqui chega a 25 metros. Não era o momento adequado para ela ficar furiosa. Ao perceber o olhar cético. quando já tinha encontrado mais do que desejava.

Jonas imediatamente segurou Liz e pegou a faca. Quando uma sombra passou por cima. ela estendeu a mão para tocálas. porém. o tubarão começou a mover-se impaciente. Seus pequenos olhos negros fitavam os dois e suas guelras lentamente sorviam água. tudo que tocava. com uma das mãos. Liz apontou para dentro e partilhou mais um mistério. como sempre acontecia quando ela estava no mar. cercada da mágica. Sem medo. separando-se de quando em quando para explorar interesses próprios. Impedido pela sua fragilidade humana na água. Liz levantou os braços e nadou para cima. As cavernas onde os tubarões dormiam eram locais perfeitos para esconder drogas. Ela parecia livre e feliz como nunca a vira. apertou mais a dele contra seu rosto. ali. flutuando livre. unida a ele. abraçou Jonas e ficou assim. eles nadaram juntos em direção ao fundo do oceano. sem pressa. espessas nuvens de prata tão densamente agrupadas que pareciam fundidas. o tubarão nadou para o mar aberto e desapareceu. uma leveza. Por um momento. Somente uma pessoa muito corajosa ou muito tola nadaria no território deles à noite. silencioso e cheio de uma vida bonita demais para existir na superfície. maravilhada de nadar entre elas. Viu o fascínio nos olhos dela. ficava feliz com isso. O mar estava calmo. nunca vira nada tão espetacular. Num impulso. num aglomerado tão denso que poderiam ser uma única criatura. Lado a lado. da entrada de uma caverna. Com os olhos escancarados de admiração. Jonas pensou no irmão. Num movimento rápido. Uma velha tartaruga com cracas presas na carapaça saiu de seu local de descanso e nadou entre eles. todos ligados como se fossem uma coisa só. Jonas pegou a mão de Liz para saírem. essa seria a 65 . O oceano deslizava com elas. Eles não tinham visto nenhum outro mergulhador. para ele. Depois. continuar na esperança. sem se preocuparem com os humanos intrusos. como olhava para tudo como se fosse seu primeiro mergulho. Sentiu um prazer enorme. Ela foi em frente. mas ela se aproximou um pouco mais. Havia em Liz. A necessidade de compartilhar a mágica era natural. e depois se afastaram. Jonas sentiu as batidas do pulso de Liz ao segurá-lo. PERIGO com a mão de seu amado na sua. O cardume deslizava como uma unidade. Liz sinalizou para Jonas unir-se a ela. Se ele pudesse descobrir uma maneira. e um pouco da tensão que Jonas sentia começou a se dissipar. de brincadeira. Se fosse possível apaixonar-se em uma questão de instantes. Suas asas de dez metros ou mais eram deslumbrantes. O tubarão movia-se na areia como se fosse um cachorro sobre um tapete em frente a uma lareira. A risada que ela soltou fez as bolhas dançarem ao seu redor. evitando intrusão. Como não podia fazer nem um. e o tempo de que dispunham estava quase chegando ao fim. limitou-se a fechar a mão na garganta dela e sacudi-la. Liz impulsionou ambos para mais perto. Se Liz podia tirar esse momento para liberar-se. Jonas quis estrangulá-la e dizer o quanto era fascinante observá-la. Se alguma coisa negativa tinha começado ou terminado ali. O cardume dividiu-se em dois e tornou-se duas formas unificadas que rodopiavam dos dois lados do casal. não deixou vestígio. Aquilo lhes bastava. então. quando ela simplesmente cutucou a cabeça do peixe com seu bastão de madeira. mas Jonas percebeu outras coisas. Sabia que. Foram essas coisas do mar que a levaram a estudar. teria ficado ali com ela.NORA ROBERTS tinham nascido juntos. Milhares e milhares de cocorocas prateadas moviam-se juntas. e ele precisava continuar procurando. a fascinava. Suas bocas enormes esmagavam e devoravam os crustáceos. só conseguiu tocar seu rosto com a mão. Em todos os seus mergulhos. Liz viu o primeiro diabo-do-mar e puxou a mão de Jonas. nem outro. alimentando-se de plâncton. As cavernas de calcário eram misteriosas e atraentes. Jonas constatava isso no jeito como ela se movia. A vida marinha e o mar eram inegavelmente belos. As arraias-grandes passeavam juntas. Maravilhada. tinha exigências a cumprir. Jonas se apaixonara nesses 12 metros abaixo da superfície por uma sereia que tinha esquecido como era sonhar. cercado de amor e protegido pelas profundezas. As nuvens de peixe os envolveram. Tudo o que Liz via. Eles nadaram mais fundo. ansiosa para ver. Coisas assim sempre a tocavam. mas decidiu que não fazia mal. Sem se deter. uma tranqüilidade que eliminava a tristeza que nunca a abandonava. Seus olhos riam quando segurou a mão de Jonas novamente. Quando eles se aproximaram e ficaram juntos perto da entrada. Ele. as bolhas de ar subindo através do calcário poroso em direção à superfície. Jonas viu a cabeça de uma moréia surgir e curvar-se de curiosidade ou para prevenilos de alguma coisa. Eles continuaram a nadar juntos. Liz estava mais próxima das suas próprias fantasias como nunca antes estivera. Com a mão unida à de Jonas. a impeliram a explorar e a convidaram um dia a sonhar. Eles desceram mais. alguma coisa diferente. Jonas achou que ela tinha esquecido o objetivo do mergulho. Ela. Liz olhou para ela. o tubarão lançou-se em direção à entrada.

não foi tão fácil controlar. Procurando ficar calma. Ele é raramente usado porque sempre deixo a minha lá quando saio de barco. — Verifique o meu manômetro. — Não a 25 metros. correu as mãos pela mangueira e viu que não estava obstruída. Partilhando o regulador. Liz umedeceu os lábios. sem energia para tirar os cilindros. — A hipótese veio-lhe à mente logo que acabou de falar. afinal? PERIGO — Fiquei sem ar. — Sim. Liz esperou a vista clarear. ele imediatamente tirou o seu regulador e passou-o para ela. — Deveria examinar o seu equipamento. Liz se viu sem ar. Seu corpo estremeceu de alívio quando Jonas tirou o peso de cima dela. ficou branco. sua vida estava em perigo. Ao vê-la tremer. Os corpos se tocando. Liz nadou em diagonal na direção de Jonas. — Mas o conjunto extra teria sido usado quando nós estávamos viajando? O tremor começou de novo. assegurouse ela. — E alguém usou a chave do armário para entrar e adulterar o seu equipamento. Eu deveria ter mais dez minutos de sobra. Jonas cobriu a mão dela com a sua com tanta força que a fez contrair-se. Com um aceno. — Liz inspirava e expirava lentamente. — Eu nunca sou negligente — rebateu ela rispidamente. — Quantas chaves tem? — A minha e um conjunto extra na gaveta. — Nunca aconteceu nada parecido comigo — conseguiu dizer. O que durava apenas uma questão de minutos pareceu demorar uma eternidade. ele a levantou pelos ombros e depois sentou-a novamente. Se você mergulha com um manômetro defeituoso. Era muito experiente para isso. — Meu Deus. Tinha acabado de prometer cuidar dela e mantê-la em segurança. praguejou e arrastou-a consigo para a escada. segurou seu tornozelo e puxou com toda a força. — Ainda restavam dez minutos. Ali. tirou as nadadeiras e a máscara. Se nadasse para a superfície. a 25 metros da superfície. Até que. — E tranco. O insulto à competência de Liz foi tanto que abafou seu medo. — Ficou sem ar? É um descuido imperdoável. já pálido. ao desmoronar no banco. — Tenha calma — disse ele. a mão dela firme no ombro dele. — O que aconteceu? — perguntou Jonas. seus pulmões estourariam com a pressão. Ela lhe deu espaço porque entendia o que ele estava sentindo. Examinei cada peça do equipamento na última vez em que mergulhei. Por mais que o manômetro indicasse diferente. — Você guarda o equipamento na loja. Controlandose muito. Eu mesma o examino após cada mergulho. O ódio que tomou conta de Jonas quase chegou a cegá-lo. Isso também acabaria em breve. ela afastou a máscara do rosto e inspirou o ar fresco. Desta vez. — O que foi. Seu rosto. Breve chegariam ao fim. Mas não conseguia sugar o ar. — Sim. nem com o meu. que pudesse ajudá-lo a aceitar a morte do irmão. Liz sugou o oxigênio. eu mesma os enchi. E a vida do irmão. — Você aluga equipamento de mergulho. Jonas esfregava as mãos dela para aquecer. naquele armário. Imediatamente verificou o manômetro e viu que ainda restavam dez minutos de ar.NORA ROBERTS melhor das aventuras. Furioso. O sorriso que ele tinha nos lábios ao se virar desapareceu no instante em que viu os olhos dela. Fui eu que abasteci esses cilindros. ele buscava alguma coisa. Como pode dar aulas se não tem o bom senso de verificar os seus próprios instrumentos? — Eu verifiquei tudo. A polícia tinha o nome do contato em Acapulco. Onde o conseguira? Olhou para ele e percebeu que lhe ocultava algumas coisas. E o outro nome que Jonas lhes fornecera? Ela lembrou. Um homem obstinado poderia entrar em uma das cavernas enquanto os tubarões estivessem se alimentando longe dali e deixar ou apanhar o que quisesse. e ele estava perfeito quando o guardei. mas aquilo não aliviou sua raiva. Não entrou em pânico. de repente. — Ela tirou a máscara da cabeça e atirou-a no banco. No instante em que a cabeça de Liz saiu da água. Esticou os braços para trás. Jonas. refletiu Liz. — Estou bem — disse ela. porém. Com a cabeça entre os joelhos. eles começaram a lenta subida. subitamente. Jonas verificou-o. evitando precipitar-se. pelo amor de Deus! Como pôde ser negligente logo com o seu? Poderia ter morrido. — O meu equipamento foi examinado. qualquer que fosse. firmando uma das mãos nas costas de Liz para apoiá-la na subida. está propiciando um acidente. aproximaram-se da superfície. — Nem com equipamento de aluguel. devolveu-o a Jonas. 66 . Reconhecendo o sinal. Liz não tinha esquecido a razão de Jonas estar ali.

Quando conseguir se vingar. tinha certeza de que era questão de mais um dia. E o tempo foi passando. — Não vou embora. — Liz levou as mãos ao rosto dele. não quero que você se machuque. — Não vou embora. Jonas sentou-se. Todas as noites. e isso a confortava. ela não poderá vir. e não funciona. — Agora. a batalha era para sobreviver e sustentar sua filha. — Não. Erika também.NORA ROBERTS — Você vai voltar. — Pois é. — Nem eu. — Jonas levantou-se. esforçando-se para mantê-las suaves. Liz teve um único propósito na vida: o sucesso. — A voz de Jonas era fria e dura. Não posso deixar a ilha porque elas estão aqui. Liz precisou apoiar-se no guarda-corpo. — Você veio para cá em busca de vingança. Poderá ficar com a minha família até tudo isso terminar. e assistiu Liz levar a mão involuntariamente ao pescoço. — Jonas sugou violentamente o cigarro. — Liz. Jerry foi morto por um profissional. contudo. E ele foi ficando. — Não tenho escolha. vamos para casa. Todas as manhãs. Liz estava certa de que Jonas diria que precisava ir embora. Por mais de dez anos. A raiva que dera a Liz a energia para conseguir ficar em pé enfraqueceu. conseguiu umas respostas. — Ela levou um tiro? PERIGO — Foi esfaqueada — corrigiu Jonas. ao acordar. — Não é uma questão de fuga. Jonas acendeu um cigarro. Exatamente. No início. Jonas? As respostas não significam nada a não ser que você mesmo as descubra. Por mais de dez anos. até ser seguro. — Não vou a lugar algum. Precisava ter certeza de que conseguia ser forte. Jonas tomou o rosto de Liz entre as mãos. — Você vai ficar. querendo certificar-se de que era justificável atemorizá-la de novo.. não é. Liz estava certa de que o delegado Moralas telefonaria para dizer que tudo estava resolvido. — Liz abraçou-o e apertou o rosto no ombro dele. Jonas. — Eu as descobrirei para você. abriu o zíper da roupa de mergulho e começou a tirá-la. depois a colocarei num avião. Eu estou atrás de respostas. ao acordar. É a segunda vez que alguém ameaça minha vida. — E eles não terão uma terceira chance. nós dois temos razões para procurar. — Vamos para casa — murmurou. — Tive um encontro com ela uns dias atrás e dei uns dólares em troca de um nome. um assassino profissional. Acreditava naquilo. Liz inclinou a cabeça enquanto o analisava. e seus olhos eram transparentes. — Não seja tola. — Não posso. fazer a mala. arremessou-o ao mar e levantou-se. tinha certeza de que era a última vez. Poderá voltar quando for seguro. e conseguiu reunir forças para se levantar. — Não vou abandonar minha casa. — Liz. Ela contou que esse tal de Pablo Manchez é barra-pesada. e eles ficaram como se fossem um. 67 . — Liz deu um passo na direção dele. Erika fez algumas perguntas. Liz estava de cabeça erguida. e bem. — Sabe que fugi de problemas antes. deu-se conta de que conseguir fazer isso tudo sozinha. mas de sensatez. Ao que parece. numa primeira demonstração espontânea de necessidade de afeto. Até eu encontrar essas respostas. pegou o maço de cigarros e falou sem rodeios: — Erika está morta. quando dormia em seus braços. até tudo ser resolvido. — Você vai? — perguntou ela.. — Vai fazer exatamente o que eu disse. — Nem eu. Capítulo 10 Todas as manhãs. — Agora. Todas as noites. Quero que minha filha possa vir para casa. — O seu negócio não vai desmoronar. Nós temos o mesmo problema. — Você acha que sabe tudo. Liz virou as costas para ele. — Quando virou de frente. — Não — repetiu Liz. — O quê? — Assassinato. O nome que você forneceu ao delegado. quando fechava os olhos. trazia-lhe uma satisfação enorme. Sabe que não. vai poder ir embora satisfeito. — Você vai voltar para os Estados Unidos. — Não. Em algum momento.

Ela murmurou. com um aroma suave como o vento tocando a água. Jonas tomara sua vida nas mãos e mudara tudo. proteger. Ele encostou a boca de leve. com a respiração dela sussurrando no seu pescoço. água calma. de forma obstinada. sua independência era essencial. estava cada vez mais íntimo de uma mulher que despertava nele emoção pura. cada um teria o que o outro podia oferecer. teria que reaprender como reprimir os desejos e esquecer os sonhos. Essa mulher tinha mudado sua vida completamente. Todas as perguntas e dúvidas podiam esperar o dia amanhecer. tinha inteligência e força de vontade para cuidar de si mesma sozinha. parecia que ela não tinha mais escolha. Liz descobriu-se observando os clientes com desconfiança. Liz não conseguiria levar sua vida adiante. Seria preciso. Se. dia após dia. Jonas fizera a si mesmo a promessa de que nunca mais faria isso por ninguém. Poderia repetir a façanha. e depois o repelia. Agora. Uma mulher que demandasse esses cuidados exigiria um vínculo emocional que ele nunca PERIGO se dispusera a criar. Seus músculos eram tensos. Primeiro. mesmo antes de ser oferecido. Liz era forte. convencia-se de que gostava cada vez mais desse sentimento. E. corajosa e não se afastou da sua meta. mas sabia que isso nunca aconteceria. não precisassem de conselhos. tão angustiados que um homem arriscaria tudo para protegê-la de mais algum sofrimento. Esse era o único aspecto de sua vida que podia controlar. muito de leve. embora não parecesse tão importante quanto semanas atrás. compartilhar. Quando fosse embora.NORA ROBERTS Liz foi segura. O luar entrava irregular. Liz estava tão bem ali — perfeita. era com coisas leves. Liz chegara ao ponto de admitir que sua vida não voltaria a ser a mesma. Tinha modificado seus hábitos. Fazia quase um mês que Jonas entrara na sua casa e na sua vida. lutar contra elas não funcionou. no seu caminho sempre reto surgiu uma bifurcação. Gostaria que se apoiasse nele. deixaria um rombo tão grande que exigiria toda a sua força de vontade para recompor. conforto ou apoio. grama macia. O assassino de Jerry Sharpe seria encontrado. Já percebera que há algum tempo Liz não dormia em paz. Mas seus olhos eram tão suaves. Não era um homem orgulhoso. e o quarto cheirava às flores silvestres que cresciam do lado de fora da janela aberta. Consciente ou inconscientemente. O menor descuido poderia levá-la ao fracasso ou à perda da independência. Quando ele partisse. Na ânsia de agarrar-se a alguma coisa. filtrando-se sobre a cama. Ele não sabia se era aceitação ou pedido. pele suave. eles partilhariam a necessidade que estava latente em ambos. inquieta. iluminando os cantos. depois que o perigo passasse e todas as perguntas fossem respondidas. Jonas a sentia mudar de posição ao seu lado. uma nova textura. Jonas queria consolá-la. na dela. Durante sua vida adulta. Ombros fortes. o homem da faca também. nas primeiras horas do dia. sua insegurança era de tal ordem que não podia admitir que precisava de alguém. Ele sentia uma necessidade incontrolável de confortar. presa à velha rotina. Às vezes. e durante a maior parte da sua vida adulta. expondo sua silhueta. A combinação era irresistível. A cama estava quente. mas não importava. mas a refizera. Com uma nova forma. Quando se mexia no sono. ficava deitada na cama no escuro. Sua vida já fora dilacerada antes. Ele desceu a mão pelas suas costas. Se não acreditasse nisso. à medida que o verão se aproximava. mesmo dando uma idéia de ordem ao seu dia-a-dia. 68 . Agora. ele a aproximava mais de si. por um lado. preocupara-se em consertar os estragos que seu irmão fazia. por outro. Ela suspirou. Desde então. mas ainda não sabia o que fazer quanto a isso. ele começou a massagear-lhe os ombros. com medo de ser obrigada a começar esses reparos antes de estar preparada. Ela mantinha a loja aberta sete dias por semana. Seu cabelo espalhava-se sobre os travesseiros de ambos. Ignorar as mudanças não ajudou. Ao seu lado. não acalmava sua mente. Até para dividir uma aflição tinha dificuldade. Estava se apaixonando por uma pessoa que necessitava dele. À luz do luar. simplesmente cauteloso. a brisa agitava as folhagens das palmeiras num sussurro que não incomodava. Jonas se entrelaçara nela. Na juventude. Se estava sonhando agora. Às vezes. mas não queria admiti-lo. Liz tinha o consolo de tê-la refeito. Mas. o estilo simples e metódico que vinha planejando para si. Liz trabalhava todos os dias. nas horas silenciosas. sua vida nunca mais seria igual. Os negócios iam muito bem. sempre fora cuidadoso para escolher companheiras que não tivessem problemas. dormia uma mulher de corpo magro e inquieto. sempre que a tocava. se aproximou. mas era só um sussurro — um suspiro no sono quando seu corpo relaxou contra o dele. Lentamente. O perfume fundia-se com o do pote de pot-pourri na cômoda de Liz. Mas. como se estivesse preparada para rejeitar o conforto que ele queria dar. e ela tinha certeza de que isso aconteceria.

PERIGO Poderia mantê-la ali para sempre. da umidade da sua boca. tudo passou por ela. Jonas não conseguia pensar. Seu corpo estava alerta e palpitante. Liz estremeceu. pensou Liz. Dessa vez. via Liz por cima dele. e seu envolvimento com ele. até a respiração dele ficar rápida e irregular. O corpo de Jonas estava em fogo. ele ainda conseguia vê-la. e a umidade em seus lábios era como o sussurro da brisa da noite. Queria se dar plenamente. Não parecia razoável. que se perderam os cabelos dela. Jonas largou de lado a razão e o controle. Ao ser beijada. aprendendo com elas. sua compreensão e suas esperanças de que Jonas pudesse tranqüilizar sua mente e seu coração. a vontade de se dar. Até aquele momento.NORA ROBERTS explorando sua forma. Liz não precisava ser ensinada. Sentiu o corpo dele tenso de encontro ao seu e percebeu que Jonas também podia ser seduzido e excitado além da razão. De olhos semi-abertos. e o calor espalhou-se como incêndio na mata. e de novo. E quando ela o jogou para além da sensação. Viu-se enroscada com ele. depois músculo por músculo. correspondeu. sugou. puxou-a para baixo. Ele elevou as mãos. Liz o abraçou forte e sua boca perambulou enlouquecida sobre a dele. poderiam comprometer seu negócio muito mais do que uma baixa estação ou um ciclone semvergonha. não 69 . num ritmo lento que o levou a murmurar seu nome e desejar não perder o controle. — Me ensina o que devo fazer. depois a trouxe para si. ameaçando explodir. Tudo era mecânico. a pele dourada na luz fraca. de modo que ele podia sentir o ar fresco roçando sua pele. que ela pudesse estar cuidando da loja. os olhos faiscando de desejo. mas podia sentir. estava uma necessidade desesperada de proteger seu patrimônio. Isso o enlouquecia. Desesperado. saboreou-o. e. dando conselhos. magra e forte. — Me diz o que você quer. calmante. não teve nenhum momento de dúvida. depois o sangue. Liz movia o corpo sob o dele. arqueada sobre ele. proporcionar a ambos o prazer do amor sem restrições. até as bocas se encontrarem novamente. alguns antigos. terror. Ela chupou seu lábio inferior para dentro do calor. Seu corpo assumiu o controle. ao fazê-lo. portanto sua carícia era tímida e delicada. depois esfregou o rosto contra sua pele para ao mesmo tempo acalmá-lo e excitá-lo. de defender o que construíra do nada para sua filha. já faminta. refrescante. Liz cumprimentou os fregueses. e mordeu. e entrou nela com uma força que a fez ofegar num prazer surpreendente. Não parecia possível. Muito acima de sua compaixão. da visão e da razão. Ela beijou-lhe o peito devagar. Frenético. Tinha sido uma boa idéia delegar os passeios de mergulho e ficar em terra. os olhos luminosos ao luar. Liz não hesitou. a pureza do pedido. não acreditara ser possível sentir com tanta intensidade. Depois. ao fazê-lo. já excitada. Prazer. quando seu corpo ainda estava absorvendo cada uma das sensações maravilhosas que vivenciara pouco antes do amanhecer. Instintivamente. preenchendo formulários. procurou nele as vulnerabilidades. Liz parecia acordar por etapas. numa espécie de espanto emocionante. Nunca tinha encontrado uma mulher tão docemente determinada a lhe dar prazer. guardando equipamentos. depois. experimentando. deleite. talvez não pudesse usar a palavra para dizer que seu coração estava despido de defesas e aberto para ele. Sentiu o corpo quente pulsar. despertava. A paixão. apoderando-se delas. que ela podia seduzir e excitar. Sempre conseguiria vê-la. e. dor. primeiro. estariam sob investigação policial? O assassino de Jerry Sharpe. escuros e belos. lidando com clientes. ainda adormecida. e aumentavam ainda mais. informando preços e providenciando trocos. A fome explodiu entre eles. Sua língua brincava no pescoço dele. os cabelos claros caindo nos ombros. buscando. descobrindo-as uma a uma. até deitar o corpo atravessado no dele. até que o único som que conseguiu ouvir foi o rugido dentro da cabeça. Incontrolável. Primeiro a pele. — Liz o fitou. mas parecia flutuar livre. mudou novamente de posição. e procurou não pensar muito na lista que fora forçada a entregar a Moralas. Ela se arqueou e deixou a necessidade determinar o ritmo. Longa. Suas mãos eram inexperientes. Segurou os quadris dela. Não seria sábio falar de seus sentimentos. nem mesmo antes de o desejo dominar a razão. As sensações o torturavam. Por mais que tentasse esquecer. excitando-a cada vez mais. Mas podia mostrar. e foi o seu próprio desejo que guiou os dois. e os dedos se entrelaçaram. antes que sua mente corresse para acompanhá-lo. esguia. e de novo. Mas estava ali. deleitando-se com o gosto sutil e diferente de homem. que estava ali para ser possuído. impulsionando-a. Ele buscou suas mãos. Aquilo era mais do que Jonas podia suportar. Quantos deles viriam ao Black Coral atrás de equipamento e aulas se soubessem que. elevou-a. outros novos. Depois. sentindo a pulsação descontrolada como a sua. Ela o tocou. nua e gloriosa à luz da lua.

— Se você sabe nadar. Sem esses acontecimentos. obrigada pelo convite. — O snorkel não passa de um tubo oco com um bocal — explicou ao pegar um para mostrar. Scott virou o snorkel que tinha nas mãos de cabeça para baixo. — Está bem. — Como deveria definir? Pensou ela. — Sr. Prometeu a si mesma que nunca lamentaria. Quando pegar o jeito. — Achei que só assim você tomaria um drinque comigo. O ressentimento pela interferência na sua vida lutava contra o desejo de que Jonas permanecesse nela. — Não brinca.NORA ROBERTS conseguia evitar completamente a mágoa de ter sido jogada numa situação que não criara. 70 . — Ele bebeu do outro copo que trouxera. por isso gosto de aproveitá-las ao máximo — disse ele ao colocar um copo de plástico no balcão fazendo as pedras de gelo quicarem. Naquele momento. — As coisas estão bem calmas agora. — Ele deu um rápido sorriso que mostrou os dentes bem alinhados e uma simpatia cativante. — Quem tinha que sair para algum passeio já partiu. uma batalha estava sendo travada dentro de si. conseguir amar novamente. Trydent. — Você é uma moça difícil de se achar. — Sério? Sem saber se estava embaraçada ou divertida. — A vida na ilha. em parte lisonjeada por ele parecer determinado a não desistir. — Já que é assim. — Não sabia que ainda estava na ilha. — Você coloca esta borda entre os dentes e respira normalmente pela boca. — Hora do almoço — explicou Liz. e mais outro tanto para ligá-lo ao nome. — Sr. Ele cobriu a mão de Liz com a sua. — Digamos que sou cauteloso. um cliente é sempre um cliente. — Estou saindo com outra pessoa.. — Está bem. sim. Que tal me explicar sobre o equipamento de snorkel? Liz deu de ombros e fitou-o de lado. Liz sorriu. — Mergulhar não é para todos. é preciso prender a respiração e soltar um pouco de ar para ajudar a descer. Cheguei a pensar na história da montanha e Maomé. — Sou uma pessoa séria.. ou quem sabe ela própria o tenha feito. Ambuckle convenceu-me a fazer um mergulho noturno. em parte surpresa. mas.. mas para Liz. Os outros estão comendo alguma coisa ou fazendo a sesta antes de decidirem como passar à tarde.. Demorou um pouco até lembrar do rosto. — Gosto de comida caseira — retrucou ele. pode nadar na superfície indefinidamente. Mas Jonas a libertara. O truque é expirar e tirar a água do tubo quando voltar à superfície. — Exatamente. — Scott levantou o copo e observou-a por cima da borda enquanto bebia. Estava na hora de admitir que tinha uma grande capacidade de amar que há muito estava enterrada. — Só tiro férias uma vez por ano. O que tinha acontecido e como tudo ia terminar não era o que importava. Ainda assim. — Ele olhou ao redor. não troco a piscina por nada até o fim das minhas férias. Rejeitada uma vez. Ele já não estava olhando para o snorkel. era importante. — Scott. Quando Scott contornou o balcão e entrou na loja. Depois dessa experiência. poderá descer e subir muitas vezes sem sequer tirar o rosto da água. — É um mundo. mas estou. Liz olhou para o indivíduo. ela o levou às prateleiras dos fundos. — Pode ter certeza disso. — Eu quase não como fora — respondeu Liz. sabe usar o snorkel. acho melhor nos atermos aos negócios. ele nunca teria se aproximado. — Ou está fora da cidade. Liz olhou para o copo. Trydent. ou dentro de um barco. sem lembrar se tinha sido fria ou rude com ele. Posso entrar e dar uma olhada? — Claro. — É muita gentileza sua. pode ver o quanto quiser — respondeu Liz tentando ser simpática depois de se esquivar tantas vezes. depois se inclinou sobre o balcão. Por mais que tentasse. Tenho andado muito ocupada. o Sr. Sobressaltada ao ser resgatada de seus pensamentos. PERIGO — Antes de voltar para o Texas.. — Há muita coisa para se ver lá embaixo. — Que tal jantarmos? Isso é para todos. Tentou mergulhar mais alguma vez? Ele fez uma careta. Liz retirou a mão. — Liz saiu da mesa e dirigiu-se ao balcão. — Scott — corrigiu ele.. só queria ficar sozinha com seus próprios pensamentos. recusara-se a correr novos riscos. Com o tubo preso a uma máscara. Liz não podia lamentar as semanas que tinham passado juntos. E quanto aos tubinhos que vejo desaparecer na água? — Quando se quer afundar.

e eu pago os 5 mil em dinheiro. olhou por cima do ombro dele para o lugar onde o policial cochilava ao sol. Com Jerry morto. Só vamos falar de negócios. Desta vez. Liz. Negócios. nem Erika. — Antes que pudesse esquivar-se. Sem saber a razão. Que arma poderia estar escondida num calção de banho e numa camisa aberta? Endireitou os ombros e encarou-o nos olhos. A atitude calma e ponderada de Scott fez com que Liz perdesse a paciência. Agora. — Eu não sou Jerry. como que para mostrar que não pretendia machucá-la. Estou autorizado a oferecerlhe 5 mil dólares. Traz o volume de volta para mim. Sem nomes. Liz procurou acalmar-se. Liz. nem rostos. para uma mulher que cria uma filha sozinha. Mas sei muita coisa a seu respeito. e poderá fazer um bom pé-de-meia. Liz apertou as mãos com bastante força. Para os mais aventureiros. mas as pessoas estavam mortas. Ao perceber que estava tremendo. Liz tinha a boca seca. mas a polícia sabe e vai saber mais. Liz pegou uma máscara para mostrar como prender o snorkel. Liz. Liz. Só quero saber o que Jerry contou a você antes de enganar as pessoas erradas. — Imagino que um mergulhador poderia descer lá durante a noite e não ser incomodado. — Há muito mais a ser feito. mas um mergulhador experiente poderia passar vários dias explorando as cavernas. acorda com o sol nascendo e não pára até o fim do dia. ponderado. um dinheiro extra não faria mal. Eu já disse a mesma coisa ao seu amigo. — Esta é uma conversa de negócios. nem o olhar tão amigável. deixa um volume e pega outro. — Jerry não me contou nada. Liz sentiu-se levemente alarmada. Eu. há muitas cavernas para explorar. — Nós oferecemos passeios de dia inteiro e de meio dia. O medo transformou-se em fúria. quando ele colocou a faca na minha garganta. — Se eu gritar — disse ela na voz mais firme que conseguiu entoar — . O que sabe sobre isla Mujeres? — É um excelente local para snorkel e mergulho. Ele podia ser calmo. especialmente quando é lucrativo. uma multidão estará aqui num instante. colocou um manômetro defeituoso nos meus cilindros. — Você me entendeu mal. Só estou lhe oferecendo algumas opções. — Acho que sabe — afirmou ele ao segurar o braço de Liz. Não era o tipo de ter medo da própria sombra. saia da minha loja e me deixe em paz. Você mergulha. um mergulhador experiente poderá ser útil. Como não ficou satisfeito. Scott encurralou-a num canto. — Acho que sabe exatamente o que eu quero dizer. — Scott aproximou-se mais e abaixou a voz. principalmente se conhecer as águas daqui. Cinco mil dólares americanos para fazer o que faz de melhor: mergulhar. O que Jerry Sharpe roubou e deixou naquele cofre de banco em Acapulco foi ninharia. — Scott alisou o snorkel com os dedos e observou-a. — Não? — Não sei onde quer chegar. — Com o snorkel. — O meu parceiro não é muito educado — comentou Scott numa voz tranqüila. — Jerry não me contou nada.NORA ROBERTS — Acho que você sabe muita coisa sobre as águas e recifes nesta área. depois recuou um ou dois passos. o sorriso dele não foi tão atraente. PERIGO — Não precisa gritar. Mas isso não me impede de querer que todos vocês vão para o inferno. Se acha que me assusta quando me ameaça com uma faca ou quando danifica meu equipamento. é melhor ficar próximo aos recifes. — E noites. Trabalha demais. Não sei de nada. — É uma área perigosa para mergulho noturno. Ele não contou? Liz lembrou da faca furando sua garganta e teve medo. — É possível. pensou com um leve dar de ombros. — Scott levantou as duas mãos. Bobagem. — Eu não ando com facas e não entendo muito de equipamento de mergulho para mexer nos instrumentos. — Algumas pessoas preferem o perigo. Ele não a intimidaria. — Distraída. Ele analisou o rosto dela por longos dez segundos. Não sei nada sobre o negócio sujo em que você está metido. Automaticamente. ponha isso na cabeça. e sufocou o medo ao devolver a máscara à prateleira. Eu disse que era uma conversa de negócios. sem abrir. 71 . — E algumas são razoavelmente distantes — disse ele distraidamente. Eu diria que. está certo. não. Uma ou duas vezes por semana.

sim. e ela sentia que estava sendo encurralada. que tinha encontrado cara a cara com o homem que podia ser o assassino de seu irmão? Se Jonas tivesse o nome. Contaria a ele. um local. Com isso. Oferecera dinheiro para ela contrabandear cocaína. poderia o ciclo ser interrompido? Liz temia que. Contaria exatamente o que ele tinha dito. — Delegado. Aparentemente. Estarei por perto se mudar de idéia. trancou a loja. um homem chamado Scott Trydent. A cada passo. para que sua filha pudesse voltar para casa em segurança. — Ele sabe a respeito da minha filha. Era como se conhecesse cada passo meu ao longo das últimas semanas. sua privacidade e sua paz foram desrespeitadas. Mas ele oferecera um trabalho. um rosto. Poderia lidar com mais uma ameaça. passou os olhos por Jonas e aguardou. Ele já sabia que havia alguma coisa errada. — Liz ficou ao lado de uma cadeira. prometeu a si mesma. — E a senhorita já teve algum negócio antes com esse homem? — Ele participou de uma das minhas aulas de mergulho. tomado pelo ódio. — Pense um pouco nisso. ela e Jonas seriam forçados a concluir. na verdade. e passou uma das mãos pelo cabelo. O ciclo estava se fechando. — Liz. — O que aconteceu? — Um leve pânico percorreu seu corpo. — Moralas está vindo para cá. e sentiu o coração despedaçar-se. Daria a Moralas e a Jonas o nome do homem que a abordara. pensou Liz. um homem da lei. — Estou indo para casa — avisou quando conseguiu a atenção dele. estaria se afastando um pouco mais da investigação. ao contrário. — O que está fazendo em casa? Passei na loja. Jonas. Ele a afastou. antes mesmo de tocá-la. andando de uma janela para outra. O que Jerry Sharpe começara. não importava o que precisasse fazer. pensou. — Ela precisou engolir em seco para a voz não tremer. Liz foi à janela. Prefiro passar por isso só uma vez. não estou. — Conseguiria identificá-lo? 72 .. Com movimentos pensados. — Avise ao delegado Moralas para encontrar-me lá dentro de meia hora. Não se acalmara no caminho. PERIGO — Jonas. A informação era fundamental para ele. nenhuma decisão a ser tomada. Ela concluiria. A expressão de Moralas continuou impassível. oprimindo tudo mais.NORA ROBERTS — Já mandei você ir embora — repetiu ela. agora. ela também estaria se afastando um pouco mais dele. E. Ela o abraçou e permaneceu assim. e levaria adiante a vingança para a qual viera de tão longe? E se conseguisse se vingar. — Não quero o seu dinheiro.. A cada passo. um homem de paciência e compaixão. Em 15 minutos. afastou-se pela areia. — Liz começou a perder a coragem. Não havia. É Jonas. Teriam um motivo. Liz olhou para Jonas. — Tenho uma informação para o senhor. O ciclo seria quebrado.. por mais doloroso que fosse. — Ele achava que Jerry tinha me contado sobre a operação. mas não sentou. — Entre. mas sabe sobre o cofre do banco. — Ela interrompeu e olhou para Jonas. em pé. Há menos de uma hora atrás ele me ofereceu 5 mil dólares para contrabandear cocaína perto do recife de isla Mujeres. pensou Liz ao afastar-se da porta e esperar. Esse incidente era o último que aceitaria. Há um americano. — Sem esperar resposta. — Ofereceu-me o trabalho de Jerry. Olhou para a rua e avistou o carro sem placa. queria ver-lhe o rosto. e estava fechada. próximo à porta. e ela também. Eles teriam um nome. depois caminhou na direção do seu segurança. — Srta. fosse o que fosse. fazer a troca nas cavernas perto de isla Mujeres e ficar rica. Hoje. que estava imóvel.. Liz irrompeu em casa. Um pesadelo. Era simpático. Liz esperou a respiração voltar ao normal enquanto o observava afastar-se. ela fora invadida. será que sairia correndo. — Moralas chegou — murmurou ela. Gostaria de poder acreditar que de fato era. mais uma exigência. acreditava que eu. por mais implacável que pudesse ser. atrás das grades para sempre como resultado da sua própria violência. Como poderia protegê-lo daquilo e ainda proteger a si mesma? Liz tinha as mãos frias quando abriu a porta para Jonas. Entre e sente-se. — Alguma coisa aconteceu a você? Está ferida? — Não. quero saber o que aconteceu. O irmão de Jonas. Ele sorriu e tocou o rosto dela com um dedo. se soubesse quem era o homem. Ele colocou o chapéu sob o braço. — Moralas tirou o chapéu ao entrar. — Liz fez a única coisa que sabia fazer. ele fosse dar voltas e mais voltas em torno deles. Era o que a polícia queria. apareceu na loja para falar comigo. Ele sabe. para assumir a posição de um homem que tinha sido assassinado. Não sei como. Ao som de um carro se aproximando. Quando Moralas apareceu na frente da casa. Liz ouviu o barulho de um segundo carro. Palmer. Ela viu a imagem de Jonas. ao dar-lhe isso.

juntamente com o assassino do seu irmão. depois sentou-se ao seu lado. — Afinal estou sob proteção policial ou sob vigilância? O tom de Moralas não se alterou. pensou Liz. — Liz não vai. — Jonas interrompeu antes de Liz conseguir absorver as palavras de Moralas. — Liz. teria preferido ele. — Não. que sem dúvida encomendou o assassinato de Jerry Sharpe. mas posso identificá-lo. — Liz trai os caras e irrita o chefe da operação. — Muito esperto. Eles resolvem eliminála como aconteceu com meu irmão. mas fortes. acendeu o isqueiro e aproximou-o do cigarro. Teria uma imensa satisfação se levantasse o corpo de Moralas e o jogasse para fora da casa. depois cruzou a sala. e os contrabandistas. Não sei se foi ele que matou Jerry Sharpe. mas ele continuava de pé. Moralas observou a troca de olhares. serão pegos e punidos. — A Srta. nem os contrabandistas sabem exatamente qual foi sua participação. Srta. — Só que a Srta. — O senhor está dizendo que quer que eu encontre Trydent de novo e diga que aceito o trabalho? Isso é loucura. Soltou a fumaça e olhou fixo nos olhos de Moralas. Moralas. Precisamos desse nome. não deverá haver nenhuma mudança agora. sim.. Sharpe me deram não são desconhecidos. Palmer. A gangue do contrabando que opera atualmente na península de Yucatán está sob investigação dos governos mexicano e americano. — Temos nomes e rostos. em silêncio. a investigação chegará ao fim. Srta. — Jerry Sharpe morou com você e trabalhou para você. — Não compreendo. — Ela pousou as mãos nos braços dele. Meses? Mais um dia seria como uma vida inteira. Se tivesse escolha. 73 . Moralas analisou-o. e tinha as mãos firmes como rocha. poderá levar muitos meses. Arranje outra pessoa. pousando uma das mãos no seu braço. até a ponta ficar incandescente. — Não a quero metida nessa confusão. — Sente-se. se for para colocar a vida de Liz em risco. A senhorita tem sido o obstáculo. quando Moralas a deteve. Precisa prendê-lo. O problema é seu. a prisão de intermediários e vendedores não significa nada. tanta que ela sentiu um calafrio subir e descer em sua coluna.. o senhor não pensou que eu poderia simplesmente pegar o dinheiro e fugir? — É precisamente o que queremos que faça. — Ele faz parte da quadrilha da cocaína. Sabe a respeito do assassino de Jerry Sharpe. — Seu olhar voltou a pousar em Jonas. E da vida de Liz. por favor. Não é isso que o senhor quer? — Não. Pegou um cigarro. — Se estou sob suspeita. — A investigação está chegando ao fim. Srta. o chefe. Palmer estará sob proteção policial o tempo todo. Não havia nada sobre Elizabeth Palmer que ele não soubesse. Sem pressa. — Não vai usá-la. Se a operação estiver funcionando sem problemas. delegado? — A voz de Liz adotou aquele tom frio que Jonas já ouvira uma ou duas vezes antes. Ele tinha um fraco por mulheres. Qual seria o propósito? — Você serviria de isca. Liz ia levantar. — Vai prendê-lo? — Liz queria que Jonas dissesse alguma coisa. qualquer coisa. Sem ele. E de provas. Em um instante. Palmer. podemos terminar isto. Sem ela. Se quer ter alguém lá dentro que traga nomes e provas. — Moralas olhou para as mãos dela. — Não temos tempo. — Um momento. Não queremos que PERIGO a quadrilha mude de lugar a essa altura. — Vá para o inferno. — Moralas insistiu que ela sentasse no sofá. — Um serve ao mesmo propósito que o outro. A chave do cofre do banco foi encontrada pela senhorita. — Não sei. Palmer tem o direito de dizer isso ela mesma. Delicadas. Palmer. — Minha filha voltará para casa daqui a duas semanas. — Liz apertou as têmporas com as mãos. — Srta. a paciência sem limite e o temperamento controlado.NORA ROBERTS — Sim. viu os nervos firmes. Nem a polícia. Com a sua cooperação. — Não encontrará se a senhorita aceitar. O irmão de Jerry Sharpe está morando na sua casa. — Mas você nem foi sondado. para a quadrilha e para a investigação. suplicante. — Como? — Furiosa. Ele falou com muita calma. puxando-a para fora do sofá. — Aceito. Os nomes que a senhorita e o Sr. Quer dizer que vai deixar Trydent solto? Ele vai encontrar outra pessoa para fazer os descarregamentos. Palmer. Se esse plano der certo. Jonas estava ao lado dela. Mas há uma coisa que nós não temos: o cabeça. Srta. — Culpada por cumplicidade. farei o trabalho. — Jonas não sabia ao certo por quanto tempo conseguiria dominar seu temperamento. Palmer. Esse é o nome de que precisamos.

argumentar. — Talvez isso não seja possível. Jonas. — Ele era um bom mergulhador. me ajude. No fim do dia. ia para casa e aguardava o telefone tocar. Dois dias se passaram. — Todos os dias digo a mim mesma que estou me afastando disso. nunca se libertariam disso. — Farei com que seja. Poderia implorar. de dinheiro. pensou. Tudo parecia normal. O cabelo dela cheirava a verão e a maresia. se eles fugissem. — É público. seus olhos tristes. e também que o garçom que os serviria era um policial armado.NORA ROBERTS — Leve-a para algum outro lugar. — Para mim. Segundos depois de se acomodar. Agora. Um dos homens de Moralas. mas ele não respondeu. — Já pensou na proposta? — Você precisa de um mergulhador e eu. um homem sentou numa mesa de canto. tudo por causa dela. Próximo aos recifes. mas Liz ignorou-a e saiu caminhando na direção do estabelecimento. Fugi uma vez.. — Só que ele descarregava a mercadoria e recolhia o dinheiro. PERIGO que estava planejando sua própria jogada. Jonas não podia forçá-la a fazer o que ele queria. guardou os equipamentos e começou a trancar a loja. e pediu um refrigerante americano. pensou. — Eu avisei que estaria por perto. Ambos estariam livres. — Volte para os Estados Unidos comigo. acabou de fechar a loja e depois o encarou. Tinha sido instruída nos menores detalhes. — Você já foi mais simpática. — Não um parceiro de negócio. — Para onde? — perguntou Liz. E isso só aumentava seu medo. — Você era meu cliente — retrucou ela olhando-o de lado. Sabia o que dizer. Seu braço envolveu-a. e seus nervos estavam à flor da pele. Liz já não sabia o que ele fazia nas horas em que não estavam juntos. — Liz deixou a cabeça cair no peito dele. — Jerry não me contou muita coisa — começou. A respiração de Liz saia num suspiro de aceitação. procurando manter a calma. para o momento certo. que nem sabia se algum dia voltaria a ser. — Scott ofereceu a mão. os snorkels desapareciam e apareciam na superfície. Se ela fugisse. — Jonas agarrou seus ombros até os dedos cravarem-se na sua pele. Jonas pouco falava. séria. ao virar e olhar para Scott. mas mesmo assim sentiu um calafrio na espinha. mas nunca mentiria para ela. curta e seca. Tudo estará terminado. mas tinha consciência de 74 . e precisava sair-se bem. Aquela seria uma conversa de negócio. — Liz subiu os dois degraus de madeira e escolheu uma cadeira de costas para o mar. — Que tal aquele drinque? Liz se preparara para aquele momento. Mas muita coisa havia mudado. — Vou com ela. Prometi a mim mesma que nunca mais isso se repetiria. e quase me mataram duas vezes. ele prometeu a si mesmo que ela estaria livre. — Nós iremos para algum outro lugar. Estou metida nisso desde quando Jerry chegou aqui. Todos os dias esperava que Scott Trydent aparecesse na loja. não posso me deixar abater. apontando para o restaurante ao ar livre com telhado de sapê construído em cima do recife.. — Não fiz nada. sentia um desespero que nunca esperara sentir. mas não é o que acontece. Na praia. fechava tudo. Deste momento em diante. Sua cabeça começou a latejar num ritmo lento e constante que duraria muitas horas. — Poderá ser morta. menos para Liz. — Então. as crianças brincavam. antes que o verão terminasse. E. isso não chegará ao fim se não fizermos por onde. Capítulo 11 Liz nunca sentiu tanto medo na vida. — Estava me perguntando se você voltaria. — Será? Vai esquecer que o seu irmão foi assassinado? Vai esquecer o homem que o matou? — Os dedos de Jonas ficaram rijos. — Por favor. As qualidades que mais admirava em Liz eram a generosidade e a força de vontade. — Não. como dizer. as pessoas dormiam ou liam. No fim do terceiro dia. Não podemos mudar isso. — Jonas encarou Moralas por cima da cabeça de Liz. — Podemos tomar um drinque ali — sugeriu Liz. Desde o primeiro momento. está bem. Liz tinha um papel a desempenhar. os casais caminhavam de braços dados. Cuidadosa. Seu estômago embrulhou da excitação do pânico. esvaziou o caixa. Nada vai ficar bem enquanto tudo não for resolvido. Sempre acho que as pessoas precisam de uns dias para pensar. Jonas sabia que Liz tinha razão. — Ela viu quando ele olhou para os dois lados antes de falar.

levar para a loja e deixar lá. depois elevou uma das mãos. — Creio que conheceu o meu irmão. Manchez soltou a mão de Liz e aproximou-se de Jonas. — Quando recebemos o pagamento? — Depois de completarem o trabalho. 75 . — Se não deixarem 2. — Não é tão ingênua quanto Jerry. — Liz e eu somos mais discretos. Com um sorriso calmo. — Mas não sou idiota. Jonas.NORA ROBERTS Liz reprimiu o medo que se apoderava dela. Jonas ainda sorria quando pediu uma cerveja. — Certo. — Eu sou ganancioso — respondeu Jonas. Jerry tinha uma certa dificuldade em guardar segredo — acrescentou e bebeu da garrafa. mas sabia dominar as emoções e esperar. — Precisam de nós — afirmou Jonas ao pegar a cerveja que o garçom acabara de trazer. Liz teve que se controlar para não tremer ao ver os dois juntos. o outro fica no barco. — Foi o que me disseram. Só então mergulhará de novo. — Amanhã à noite. — As coordenadas estarão presas na alça. a divisão da grana é problema de vocês. às 11 horas. Um movimento ao lado de Liz levou-a a desviar os olhos. Se bem que acho que vocês já se encontraram. — Como é que a maleta entra na loja? Manchez soltou a fumaça entre os dentes. Tinha mãos bonitas. — Manchez começou a se levantar. congelou. Não recuaria enquanto não os tivesse. ofereceu um a Manchez. sinalizando para Manchez. Scott olhou para Manchez. — Pablo Manchez. — Nós já sabemos um bocado sobre a sua operação. — Seu irmão era ganancioso e tolo. — Parece tranqüilo — decidiu Jonas. — Você precisa de um mergulhador. Deverão vir à loja. Cinco mil o descarregamento? Scott esperou um sinal. Quem mergulhar levará a maleta para o fundo e a deixará lá. — Peguem a maleta e pronto — interrompeu Scott. Um homem de pele escura com o rosto marcado sentou-se ao seu lado. — Por que não me apresenta. — Cinco mil. Manchez pegou e tirou o filtro. Scott riu. Antes mesmo de ver seu braço. Voltando à superfície. — Eu sou melhor. Liz dirigiu-lhe um olhar frio e amargo. não mergulho. recostou-se na cadeira e continuou. ele retirou o maço de cigarros.500 dólares com a maleta. — Metade antes — interveio Liz. Depois. — A loja também vai estar trancada — interveio Liz. É só pegar a maleta que vai estar lá embaixo à sua espera. — Meio a meio — disse Liz ao pegar a cerveja de Jonas. Este era o homem que procurava e que pretendia matar. teve a certeza de que usava no pulso uma pulseira fina de prata. Liz prendeu a respiração ao ver Jonas enfiar a mão no bolso. Num gesto lento. Jonas puxou uma cadeira para perto da mesa e sentou. — Não tenho nenhum problema quanto a isso. Liz? Jonas os queria. — É só seguir as regras. Se querem trabalhar em equipe. — Ele acendeu um cigarro e se inclinou sobre a mesa. então. — O que vocês têm é uma equipe. Liz e eu somos parceiros. Vocês sairão no barco. Encontrarão lá dentro uma maleta à prova d'água. — Calmamente. deverá aguardar exatamente uma hora. de dedos longos e palmas estreitas. — Pois já me encontrou. Liz? — Liz ficou muda e só conseguiu fitá-lo. — Quem as dita? — Jonas pegou de volta a cerveja de Liz. — Diga ao seu amigo para manter as mãos longe dela. prevenindo-o. — Ele olhou fixo para Manchez. Vai estar trancada. — E pretendo continuar viva. que deslizou a mão para a perna dele. — Um de nós mergulha. — Sou Jonas Sharpe. Liz e eu trabalhamos juntos. Andava atrás de você. PERIGO — Certo. Jonas sentiu o ódio e a fúria aumentarem. tomou um bom gole de cerveja na esperança que seu coração acalmasse. Liz Palmer. — Não precisamos de uma equipe. sem nenhuma ansiedade na voz. — A boca de lábios finos de Manchez formou um sorriso quando ele pegou a mão dela. — Señorita. E ela não tinha escolha. — Jonas soltou a fumaça. Ao vê-lo. Scott sorriu. — Já temos uma mergulhadora.

Jonas aproximou-a mais ainda de si. senorita. — Este não é um assunto para se discutir. quando Jonas chegou. nunca estaria a mais de três metros de distância de um policial.. Deveria seguir o combinado.NORA ROBERTS — Isso não é problema seu — advertiu Manchez. Mentalmente. Liz preencheu faturas e aceitou cartões de crédito como se a rotina diária tivesse alguma importância.. E não preciso de vingança. — O resto é lucro. Eles foram para casa em silêncio. Jonas fitou-a com um olhar gelado. — Antes que Liz pudesse falar. Os homens de Moralas misturavam-se aos turistas na praia. mas já estou. — Adiós. que precisasse nocauteá-la para sair do meu caminho. Quando anoiteceu. se ela estava em perigo. Os barcos saíram. que agora era seu lar e sua prisão. Faith também estava. Levou uma das mãos à nuca de Liz e a manteve ali. Jonas bebeu o resto da cerveja com muita calma. Quase violentamente. Se tivesse escolha. Sendo que. e sempre esteve. — Scott deixou umas notas sobre a mesa e levantou. — Jonas esmagou o cigarro com os dedos e ficou observando a fumaça. percebeu que coragem não era algo que pudesse ser acionado a seu bel-prazer. A única maneira de sair dessa é ir até o fim. irmão de Jerry. No meio do caminho. Muito menos eu. cada palavra de Moralas. — Moralas disse. pretendia usá-la para chegar ao assassino de Jerry. Mil vezes achou-se covarde. enquanto aguardasse. Os cilindros e equipamentos foram checados e alugados. E aguardar o próximo passo. — Foi ele? Jonas não precisou ouvir. Com o cigarro preso entre os dentes. — Manchez sorriu para ambos. Jonas segurou-lhe o braço e aproximou-se mais. Eram tão óbvios que ela se perguntou se as outras pessoas não os percebiam. Liz elevou uma das mãos na direção do pescoço. Foi o dia mais longo da vida de Liz. Uma explosão de paixão. Jonas inclinou e acendeu a vela que estava na mesa. Liz aproximou-se mais e falou numa voz suave: — Quero que tudo termine. Mil vezes pensou em dizer a Moralas que não poderia levar quilo adiante conforme combinado. mesmo que tivesse que passar por cima de você. mas para ser enfrentado. — Droga. 76 . Contudo. — Ao inferno com Moralas. — Ainda é tempo de mudar de idéia. cada detalhe. encolheu os dedos e pousou a mão na mesa. você poderia ter estragado tudo. Gostaria que a noite nunca chegasse. — Já disse que não vi o homem. depois entregar a maleta com o dinheiro à polícia que estaria à espera próximo ao cais. via a própria imagem refletida nos olhos dela. enquanto os dois homens se distanciavam. retornaram e voltaram a sair. Fazia seu estômago revirar. fazer a troca. — E fazer o quê? Me esconder? — Liz olhou para a praia. — E agora? PERIGO Jonas não falou. fugiria. Da mesma maneira que Moralas vai usá-la. Numa voz fria e firme. — Ninguém mais vai fazer você sofrer — murmurou ele. ele a puxou contra si e cobriu sua boca com um beijo. sorriu e acrescentou: — Ele sabe quem vocês são. — A chama da vela tremelicava entre eles. Jonas. Ela trabalhou e esperou que as horas passassem. mesmo sem os distintivos. — Foi esse cara que encheu o seu pescoço de manchas roxas? Instintivamente. começou a falar: — Eu ia usar você. Num movimento lento. — Limitem-se a seguir as coordenadas e ficar de olho no relógio. Por que nunca a vira como prisão antes de Jonas chegar? — Você já me condenou por isso. fechou a loja como se fosse o final de um dia como outro qualquer. — Fique esperto. agora que você apareceu? — Porque você está bem no centro de tudo. antes que pudesse evitar. uma tênue esperança — Jonas não sabia qual alcançar. — Não tinha nada que se meter na reunião — começou Liz numa voz baixa e furiosa. Parecia perfeito e seguro. circundando sua imagem. — E que Jerry a usou. E via também. quando o sol se pôs e a praia começou a esvaziar. Eu não queria estar envolvida. até conseguir sentir o ritmo da sua pulsação. o mar e a ilha. — Liz. ou arrastá-la comigo. Como vamos saber que eles não vão recuar.. as dúvidas e o desafio que eles encerravam. Porém.. E então a soltou. Liz repassou suas instruções. De tão próximos. Liz reprimiu o tremor e procurou afastar a dor. Ia guardar chaves no bolso. — Mudei de idéia. O combinado era você me deixar encontrar Scott e acertar tudo sozinha. Do minuto em que entrei na sua casa. Ela sacudiu a cabeça para impedi-lo.

não perdi este tempo todo.NORA ROBERTS Um homem passeava com um cão pela rua em frente à casa. Jonas a observava. — Parece que sim. — O que tem que ser feito. o que pretende fazer? A chama do isqueiro sibilou. Liz estava ciente de que Moralas tinha plantado homens no hotel. — Eles fizeram a parte deles na barganha — comentou Jonas. depois abaixou as cortinas. para deixar Manchez escapar. Um dos homens de Moralas. O mar estava escuro. Ele a puxou para bem perto de si e a abraçou. Ela já estava deitada no seu lado da cama. O homem que entalhava madeira na varanda da vizinha trazia uma arma sob o macacão. A voz dela era calma.. o céu também.. pensou. Liz limitou-se a jogar o envelope em uma gaveta. tinha quase certeza de que. — Liz virou-se para fitá-lo de novo. Ela aprenderá que tem muito mais do que isso. — As coordenadas? — As mesmas que estavam no livro de Jerry. Dentro. Liz estava pensando no que falaria com ele. Porém. — Parece que você muda as regras quando se trata de algo pessoal. Gosta disso — repetiu Jonas com rancor. durma. — Quando fizermos a troca esta noite e entregarmos a segunda maleta a Moralas. Mas se deixar o ódio tomar conta de você. Liz acenou a cabeça como se concordasse e fixou-se no brilho da luz refletida na água. se confessasse isso. — Pelo tempo que você quiser. Ela e Jonas não falaram mais. Mas Liz não fechou os olhos. — Aonde está querendo chegar. — Então. 77 . mas os olho s não. no balcão da loja de Liz. Mas não se importava nem um pouco com Manchez. Estavam sendo observados. — Lembra-se de ter me contado um dia que todo mundo tem direito a defesa? Jonas lembrava-se. e sim com Jonas. do tamanho de uma pasta de executivo. E do rosto de Jerry morto sob a luz branca e fria do necrotério. Ele mata por dinheiro e por prazer. nunca mais vai se libertar dele. — Você vai se alimentar e dormir um pouco — ordenou Jonas ao fazê-la entrar. — Vai matá-lo? Jonas virou-se para Liz. Aquilo doeu fundo. poderia escapar. Ao lado. Desde o anoitecer. — Enquanto dormisse. — Jonas. ele os pegou. O medo deixava um gosto amargo na boca de Liz. ainda vai me abraçar assim? Jonas beijou seus cabelos. mas não tinha nada a ver com ela. Prefere não pensar que tem alguém em quem se apoiar. Parecia modesta demais para ser a catalisadora de tanto perigo. — Dá para ver nos olhos dele. Liz? — Manchez matou seu irmão. encontraram um envelope. como falaria. havia uma folha de papel com a longitude e a latitude impressos e 25 notas de 100 dólares. Liz quer fazer tudo sozinha. Ele se lembrava de tudo em que um dia acreditara. quando tivermos terminado tudo. refletiu. eles terão que aparecer. a soneca primeiro. Manchez pode morrer. — Vai dormir? — Acho que sim. A maleta era pequena. — Incrivelmente calma. ela se esquivaria. Só o barulho do motor quebrava o silêncio. e você. Liz evitou olhar para ambos. Jonas olhou para longe. — Vou pegar meu equipamento. Sentia que era impossível amá-la mais. mesmo que temporariamente. até estarem dentro do barco de mergulho prontos para soltar as amarras. — Só uma soneca — retrucou ela. Eles mandavam mensagens. a quem recorrer. — Jonas trancou a porta da casa e seguiu-a para o quarto. Liz esperou que ele saísse para trancar a porta. mas Jerry ainda continuará morto. cintilou depois e aquietou-se. E Liz tinha visto. Manchez e o chefe. — Ele era meu irmão. argumentavam e imploravam — Isso não envolve você. Liz fechou os olhos e esvaziou a mente. — Talvez não. — Eu não vim até aqui. Agora. — Quer alguma coisa? Ainda não era fácil pedir. — E você nunca mais vai se sentir realmente vivo. mas Liz o fez: — Quer deitar comigo? Jonas aproximou-se. Liz olhou para ele e ajustou a rota. — Ele puxou o gatilho. Antes que Liz levantasse os cilindros. PERIGO — Parece que estamos chegando ao fim. — Jonas? — Ahn? — Depois desta noite.

depois pegou o arpão. — Talvez não. Liz esmurrou o peito dele. Mentalmente. sem parar. vou me concentrar no que estiver fazendo. — É verdade. — Meu irmão arrastou-a para isso porque nunca se preocupou com ninguém. Não era hora de ficar nervosa. em nós.NORA ROBERTS — E está morto. É a última coisa em que confiaria. As criaturas da noite estariam se alimentando. Liz procurou afastar aquilo da mente. — Sim. Jonas caminhou até Liz. Eu mergulho. Liz entregou-lhe a maleta. estou pensando em você. Demais. vai matar algo dentro de você. Pegou seu rosto nas mãos e tentou entender o que ela estava dizendo. — Acho que sua reputação foi por água abaixo depois de mentir para assassinos e traficantes de drogas. há algumas semanas. — Ele levantou os cilindros e estendeuos para ela. Deveria tê-lo obrigado a deixar que ela fosse. — Estou pronto para isso. Eles estavam juntos no barco e nas encruzilhadas. A caverna fica a 25 metros. — Eu não sei ser protegida. porque é exatamente isso que estou fazendo. Jonas inclinou-se e beijou sua testa. mas não sabia como. Liz manteve a calma. e o mar estava escuro e calmo. Dentro dele havia uma necessidade. — Lamento. só vou pensar no que pode acontecer a você. — Comece a praticar. — Então comece agora. Jonas. não podia dizer. ajustou o cinto de lastro e pegou a máscara. — Lido com a lei há muitos anos. — Com as mãos em punho. — As combinações foram feitas de todos os lados. Os tubarões. depois se virou e pegou algo no compartimento sob o banco. não estou com espírito para piadas. Ainda assim. Jonas. que ele não era homem de perder uma discussão? Suas mãos tremeram quando jogou as tiras por cima do ombro dele. Jonas amarrou a faca de mergulho. — Então vai precisar confiar em si mesmo. algo dentro dela também. Liz acompanhou braça por braça. A água estaria escura. — E. Liz fechou os olhos. as enguias. e se você fizer tudo o que planejou. Jonas tirou a roupa e ficou de calção. — Não deixarei você correr mais nenhum risco. um desejo ardente de pedir que ela mudasse o rumo do barco e que navegasse em direção ao oceano. Ele deixou isto aqui para mim. Quando Jonas entrou na água. — Eu disse a Manchez e a Trydent que mergulharia. Eu mergulho. Jonas. Em poucos instantes. E talvez não esteja com espírito para ouvir o que vou dizer. Você não vai mergulhar. Eu. Liz franziu a testa ao ver a roupa de mergulho. — É uma pena. — Não vou correr nenhum risco. — Se eu mergulhar. ser cuidada por um homem é 78 . ele tinha sumido. Liz elevou o rosto para sentir o frescor do vento na pele. — Não confia na lei? Jonas jogou o cigarro na água e apoiou-se no guarda-corpo. — Jonas. Liz afastou o cabelo do rosto. Mas isso não adiantaria. já. — Me ajude a colocar. Liz queria aproximar-se dele. ela se sentou para esfregar os braços e se aquecer. Eu me importo com você. Jerry não vai voltar. portanto Jonas dependeria dos instrumentos e da estreita faixa de luz. Jonas tinha ido para protegê-la. Se ficar. — Mantenha nordeste quando estiver descendo. — A última coisa de que precisamos agora é que você comece comportar como um homem super-protetor. para nenhum dos dois. sim. — Não quero que você vá. as barracudas. — Liz hesitou um instante. eu a enterrei nisso mais ainda porque meu único pensamento era dar o troco. não importa o que ele dissesse. — Ele vestiu a roupa de mergulho até a cintura e depois fitou-a nos olhos. — Por quê? Não podemos descer os dois. — O que está fazendo? — Combinei com Luis. Então. Tremendo. Ele a beijou mais uma vez. PERIGO Ele quase riu enquanto vestia o resto da roupa. Eu. E eu também. — Você vai? — perguntou ele. Jonas enganchou os cilindros e virou-se para ela. — Estou mudando as combinações. Depois. Agora. você não conhece estas águas. — Cuidado com os tubarões. porque se preocupava com ela. — Cronometre meu tempo. Lentamente. Ela não tinha pensado. — Com um suspiro. Era tarde demais para conversas e discussões. — Jonas estendeu a mão e segurou o queixo dela. Nem que eu precise amarrá-la ao leme. As lulas. estaria ao seu lado. Como? Caminhando para lá e para cá no deque. o que ela ainda estava guardando. Você nunca mergulhou aqui durante a noite. você fica no barco.

. Jonas reparou nas estrelas. falar sobre ela. Liz enroscou-se em volta dele. Liz deu de ombros. Juntos. eles estariam aconchegados na cozinha com um café fresquinho. Em cinco minutos. Liz ouviu um barulho de água ao lado do barco e correu para a borda. — Na próxima vez. — Leve o arpão. — Vou. percebeu.. Uma imagem começou a se formar para Jonas de uma menina que gostava da escola porque lá tinha muita coisa para fazer e muitas pessoas. Fabuloso. — Eu não gosto de ser mandada. Ele PERIGO viu a menina de rosto bronzeado da foto e soube que falava duas línguas. Talvez. se é contrariada. — O que está fazendo aqui? — Liz esforçou-se para parecer indignada. ele a abraçou. correu para ajudá-lo. — Jonas envolveu o ombro dela com o braço. — Mas não é nenhum anjinho. Uma resposta que ele pretendia mudar. curvou o corpo e desapareceu na água. — Nós tínhamos um acordo. — Foi necessário. — Você é uma amadora — disse ele. Eu nunca pude me dar ao luxo de desistir de nada. — Eu tinha esquecido como era o fundo do mar à noite. depois os cilindros. — Está na hora de mergulhar de novo. Liz fechou os olhos. — Antes que ela protestasse. — Liz estava de frente para o cano de um 22. orgulho e melancolia. Lembro que cheguei perto para tocar os tentáculos. Liz já estava andando sem parar. A voz de Liz transmitia amor. vimos uma que tinha quase 20 metros. — Me conte sobre ela. — Eu ficaria orgulhosa dela — começou Liz. — Um momento ótimo para falar nisso. Tinha passado muito tempo da vida agitando e decidindo para de repente ficar passiva.. Liz ajudou-o com os cilindros. O céu parecia vivo com elas. — Senorita. — Quer ficar discutindo? Jonas estava molhado e com frio. faria um sermão de 20 minutos. — Temos uma hora — murmurou no ouvido dela. Liz sentou de novo e aguardou. Em pouco mais de uma hora. mas o sangue esvaiu-se de seu rosto. — Quero ir para casa. — Ele caiu num banco e levou-a consigo. ficava muito irritada quando eu tentava ajudá-la a descer a escada. Como antes. — Um dia. desço eu — começou ela. — Ficou nervosa? — Não. Era uma resposta esperada. — Ele já estava na borda. mas foi para afastar-se dele. — Vi uma lula gigante. não era corajosa. — Volte logo — murmurou. — Quando se compartilha. é necessário desistir de alguma coisa. — Me fale dela. depois riu. Fiquei fascinada. Meu pai fez um sermão de 20 minutos quando voltamos para a superfície. Ela e Jonas estariam do lado de dentro da casa. Quero fazer amor com você. Acha que nós simplesmente esqueceríamos o dinheiro? 79 . — Manchez jogou a máscara e o snorkel num banco ao subir na borda. aconteceu alguma coisa? Por que. — Da próxima vez... Já tinha examinado o relógio quatro vezes quando o ouviu na escada. — Jonas sorriu para ela. sim. O fato de haver um policial em volta da casa não importaria. Ficou morrendo de medo da luz. — Já pensou em compartilhar? Liz começou a se irritar. — Esqueça. — E estava quase no fim.. Pela primeira vez naquela noite. — Depois. Mudou só um pouquinho de posição.NORA ROBERTS assim? E significa que é preciso sentar e esperar? Logo estava em pé de novo. Tinham uma hora. Ele pensou na rede da varanda da mãe e nas noites compridas do verão. — A independência parece ser uma característica da família. — Imagino que você faria a mesma coisa com Faith. o segundo viria a seguir. Não. Faith quer fazer tudo sozinha. gostava de basquete e odiava legumes. — Elas ficam maiores. — Buenas noches.. tem um temperamento horrível. quando Liz correu para ele. — Como Sharpe também era. Quando tinha dois anos. Nem um pouco. — Liz descansou a cabeça no ombro dele e procurou relaxar.. pode mandar em mim. — Não vai querer que eu comece agora. Com um meio sorriso. Para ouvi-lo dizer que se importava com ela. — Jonas. Juro que tinha uns dez metros de comprimento. Com um estremecimento de alívio. andando sem parar. Jonas. — Ela sempre foi adorável — refletiu Liz. Ainda mais. Talvez ela estivesse errada quanto a compartilhar. Era bom pensar em Faith. O primeiro passo tinha sido dado. mergulhando com meu pai. É muito teimosa e. Por que não tinha trazido café? Ajudaria a se concentrar. pensou. Jonas tirou a lanterna.

por favor. — Você matou Erika. A emoção era a única forma de comunicação disponível. Não ousou. nem máscara. O arpão estava pronto para ser lançado. No instante seguinte. Viera para isso. Como poderia prevenir Jonas? Desesperada. Eu vivo no luxo. sem saber do perigo. ela podia ver seus olhos destilando ódio. vou pegar a maleta e levar para Merida. toda sua concentração. Nenhuma satisfação. O assassino de seu irmão estava atrás das grades. — Eu vou sair. atravessou o deque e cravou-se entre os pés de Manchez. — O chefe decidiu que você não tinha utilidade. Liz não olhou mais para a arma. — No deque. — Mas ele já estava subindo a escada. Sem equipamento. Sharpe. — Jonas. mas continuou de pé porque talvez nunca mais pudesse ficar assim. — Como sempre disse. pensou. quando ela sentiu o movimento na água e se virou para o raio de luz. — Liz segurou o guarda-corpo. Toda sua emoção. e logo um outro surgir no rosto de Jonas. Você nos faz um favor e faz essa entrega. enquanto esticava os ouvidos para ver se ouvia alguma coisa na água. Ele quase não a ouvia. nós lhe fazemos um favor e a matamos rápido. Ele preparou o arpão e emergiu na superfície. Ela esperava que isso fosse suficiente para Jonas. — Temos tudo sob controle. na sua própria cama. aconchegada e seca. por que armaram esse descarregamento? — Clancy gosta das coisas bem-feitas. ladeado por dois mergulhadores. Seu cabelo claro flutuava na corrente. e a quadrilha do contrabando em Cozumel tinha sido desbaratada. ela estava mergulhando na água. Feliz. prometera a si mesmo que acabaria com ele. Jonas se enfurecera. acabou. Quando o seu amigo subir. — Jonas. você não pode. Quando Jonas a avistou. Liz lançou-se sobre a borda e caiu no deque. Jonas também. — Sr. Jonas não teve a satisfação que esperava. — Você também faz. — Eu espero. vai acabar na bancarrota. Ao ver Manchez pálido e com o medo estampado nos olhos. Teria mesmo chegado ao fim? Liz não conseguia pensar em outra coisa quando acordou. enquanto as luzes vagavam na superfície. Liz parecia um fantasma preso ao casco do barco. Manchez estava sendo observado. ele subiria à tona. — Há alguns milhares em cocaína lá embaixo. Claro. — Se não têm mais nada em Cozumel. Liz estaria impotente numa questão de segundos. moça. Vocês discutem e se matam. Jonas. Você não vive. A normalidade da manhã bastava para Liz. A qualquer momento. Liz queria sentar porque seus joelhos tremiam.NORA ROBERTS — Não sei nada a respeito do dinheiro que Jerry pegou. Liz subiu ao lado dele. não foi? — Ela fez muitas perguntas — disse ele baixando a arma. — Eu vou sair — disse ele calmamente. Ele a puxou para mais perto. ela rolou na cama e aninhou-se no corpo de Jonas. Caso encerrado. Os dois se encaravam sem pestanejar. — Moralas avistou-o na luz de um refletor. Manchez jogou a cabeça para trás. Sem ter idéia do que PERIGO estava acontecendo. Liz percebeu que Jonas estava tenso. Jerry estava morto. — Talvez possa dar aos meus homens e ao seu prisioneiro uma carona de volta para Cozumel. Mas Jonas tinha conseguido alcançar seu objetivo. sem nada que a orientasse. ele imediatamente enfiou o regulador na boca de Liz para que ela pudesse respirar. nem proteção. seu coração quase parou. O chefe acha que o investimento vale a pena para que acreditem que o negócio era seu e do Sharpe. — Clancy? — O nome que David Merriworth citara. e seu rosto estava quase tão branco quanto a luz. 80 . procurava na água. Seus pulmões estavam prontos para explodir. estavam naquele homem a poucos metros dele. Ela lutou para continuar submersa e se manteve o mais próximo da escada que usou. sem enxergar. eles também. gelada e pingando. lembrou-se Liz. Jonas baixou a arma. O arpão foi lançado. Alguns milhares de dólares na maleta que está subindo. A moeda na sua corrente balançava e lembrava-lhe do irmão. O barco e a água foram banhados de luz tão rápido que o primeiro instinto de Liz foi ficar imóvel. Mesmo atrás da máscara. Um sorriso começou a se formar nos seus lábios. — Não temos mais nada a fazer em Cozumel. Jonas sentiu medo. — Se continuar matando seus mergulhadores assim. ela viu Manchez algemado. Não tinha cilindros. Liz viu seu sorriso congelar. mas a polícia só se apresentou quando Liz ficou na mira da arma. e só. Ela estava salva. Sua única proteção era ela. Enfrentaria um julgamento e a justiça.

Ela o estava afastando. Com o tempo. Paris. Amava tanto que o afastava quando queria trazê-lo para perto. afastou-se. O tipo de amor necessário para construir um casamento. — O que vai fazer hoje? — perguntou ela. — Vista-se. E de certo modo ainda é. Já ouviu falar nisso? Se você fizer isso vários dias seguidos. Liz deixou a cabeça cair no peito dele. — Eu tenho que. Não sou um fantasma.. Jonas. me solte. — Nós deixamos de ter vidas separadas há muitas semanas. ele a segurou com mais força. — Por quê? — Jonas. Não vou me casar. — Me deixe aproveitar os poucos dias que nos restam. Eles só se conheciam há algumas semanas. um dos barcos poderia usar a tripulação extra. seus braços a envolviam.. chama-se férias. Vou levá-la para o trabalho. — Não. Quando chegou à loja. — Vão. — Tenho medo porque você me faz querer o que eu não posso ter. — Nossa história não acabou. 81 . Jonas teve pânico. — Elas nunca mais vão estar separadas. há muito tempo. depois raiva. Eu deveria ter passado as minhas em Paris. Eu sou real e a quero. — Por que nunca pode aceitar aquilo que querem lhe dar? — Ele a virou até ficar embaixo dele na cama. — Por que faz isso? — perguntou ele. sim. Assustou-a o fato de seu coração querer muito dizer sim. — Quando Liz começou a sacudir a cabeça. A rejeição doía mais do que ele poderia ter imaginado.. — Cuidar da loja — continuou ele. — O quê? — Case comigo. Liz o fitou.. — Não posso. — Você nunca lidou com ninguém tão teimoso antes. Tudo o que precisava saber ele leu nos olhos dela. — Liz olhou para ele. Ela pensaria nele. Se eu repetir muitas vezes. — Estou muito feliz. quando ela se levantou. E pela primeira vez em semanas posso cuidar dela sem a preocupação de vigiar tudo em volta. para seu mundo. Como Jonas agia como se nada tivesse sido dito. — O dia inteiro? — É. Ele sabia e planejava vencer. somos duas pessoas diferentes. — Eu? — Jonas também tinha se acalmado. — Tenho medo — sussurrou ela. Você acha que essas noites todas foram um jogo? Não sentiu? Você não sente nada? — Achei que senti uma vez. Estou feliz. mas. — Não me diga isso. Podia esperar. sabia disso. pensou ela. Afastar-se dele foi a coisa mais difícil que já fez. Ele precisava voltar para sua vida. Por favor.. Vá comigo para a minha casa. muito lentamente. — Era. Ele a soltou. — Liz afastou as mãos. Liz queria dizer sim. — Eu amo você. — Jonas pegou as mãos dela. PERIGO — Você era uma criança. mais cedo ou mais tarde vai começar a acreditar.. — Ela fechou os olhos ao perceber que a vontade quase obscureceu a razão. Jonas segurou os pulsos dela. finalmente determinação. — Feliz o suficiente para se casar comigo? Liz ficou imóvel como uma pedra. mas amor. — Exatamente. depois. sim. tirar o dia de folga. Ela acreditava nisso. Liz relaxou. — Se ficar entediado. Jonas se lembraria dela com gratidão por ter recusado um pedido feito num impulso. Era impossível. — Depois de algumas semanas na Filadélfia.NORA ROBERTS — Vamos ficar aqui a manhã inteira — disse ele. — Tomar um sol e ficar à toa. sim. mas eu sei o que você sente quando está comigo. — Vou dizer. me deixe aproveitá-los. Jonas interrompeu-a antes que ela pudesse escapulir da cama. Ainda falta muito para se livrar de mim — disse Jonas acariciando o cabelo dela. Ela o amava. Eu sei. e em circunstâncias que tinham tudo para intensificar os sentimentos. com vidas totalmente separadas. Seria perfeito para ele. era demais para arriscar. Jonas levantou o rosto dela e viu. Liz riu e fuçou o pescoço dele. nem uma memória. A fúria que raramente lhe vinha à tona parecia sempre pronta para explodir quando estava perto dela. — À toa? — Incrédula. Por favor. você nem vai se lembrar de mim. porque não pretendo arriscar minha vida e a vida da minha filha. rodeou seu pescoço com os braços e apertou forte. Ele se importava com ela. Sempre. Liz já estava mais calma. relaxar. Vamos começar uma vida juntos. Ficou imaginando qual seria o cheiro do ar em Paris.

mas ainda não tinham sido pagas. Precisamos conversar. Um bom passeio de pesca não seria mal. — Se é assim. — Nos últimos dois anos. PERIGO — Não se vire. — A polícia tem Manchez. Era o melhor lugar para ficar de olho em Liz. — Não dá para ir contra o sistema. — Miguel. Não podia sinalizar para Jonas. Scott riu para Ambuckle. — Pode dar uma olhada na loja para mim? Preciso falar com uns clientes ali perto do Expatriate. gostaria do passeio. — Buenos dias — cumprimentou ela. Ela riu e foi passeando pela calçada em direção ao píer. — A polícia está vigiando — avisou Liz ao entrar no barco. — Liz pensou na mulher matrona vestida nos maiôs fora de moda. dois caras estavam admirando o barco de pesca. eles enviam a mercadoria da Colômbia e soltam em Miami. Liz estendeu a mão. Além do mais. — Sou um homem de negócios — disse ele num sorriso. — Ambuckle riu. — Liz saiu de novo e agachou-se ao lado de Jonas. — E o senhor é o chefe — murmurou ela. — A cabeça quase calva brilhava ao sol.NORA ROBERTS — Não quero saber de mergulhar por alguns dias. — Scott Trydent virou-se e afastou do rosto o chapéu de palha. Sabe como é. As aqua bikes estavam encomendadas. Ah. — Passar a perna? — Exatamente. leve o tempo que precisar. eu sei. o último descarregamento teria sido tranqüilo. A coitada vai ficar doente quando souber que você teve um 82 . — Vai entrar no barco bem quietinha. achei a localização da sua loja imbatível. — Por que não vai ajudá-lo? Posso cuidar do balcão. o Sr. De uns tempos para cá. Ambuckle! — Com um sorriso. durante um tempo cheguei a pensar em você como contato. Mandei Manchez apagá-lo. — Liz automaticamente procurou Luis. Liz ainda ria quando se aproximou dos homens ao lado do barco. — Vou ver isso. Se ele não tivesse tentado me passar a perna. ficou muito arriscado usar as rotas regulares. meu bem. Minha mulher gosta muito de você. — Pablo achou que poderia ganhar mais como freelancer do que na equipe. Minha organização funciona na base do programa de incentivo. — Sr. — Vamos subir no barco. — Ela sabe que o senhor faz contrabando de drogas e mata pessoas? — Ela acha que nós temos um bom corretor na Bolsa. Ele deu um tapinha não mão dela. saboreando a bela manhã. — Scott interrompeu ao aproximar-se de Liz. Aquilo a fez lembrar-se de Jonas e sua pesca indesejada. — Vim com Luis. Talvez estejam interessados em alugá-lo. Gosto de manter negócios e família separados. — Posso fazer o jantar esta noite. Jonas sorriu e levantou-se para ficar no balcão da loja. Mas afinal pareceu mais simples usar apenas sua loja. Jonas ajustou os óculos escuros. preciso sair. — Muito. — Tentando acreditar no que estava acontecendo. mas eu perco menos mercadoria. há um passeio marcado para daqui a pouco. — Está pensando em peixe grande desta vez? — Engraçado você mencionar. — O senhor mandou matar Jerry Sharpe. — Jonas jogou-se numa espreguiçadeira em frente à loja. — Ambuckle agarrou a mão de Liz antes que ela pudesse fugir. Na verdade. — Mandou atirarem nele. e minha mulher não saberia distinguir entre cocaína e açúcar. Eu estava dizendo ao meu sócio que só me interesso por peixe grande. — Ele roubou muito dinheiro de mim. não ousaria. — Só peixe grande. mocinha. Clancy. Trydent subiu de posto. — Não sabia que estava de volta. É uma daquelas suas viagens rápidas de fim de semana? — Isso mesmo. com a fiscalização intensificada. — Quanto paga por hora? Liz apertou os olhos. obrigado. — Bueno. — Chegou cedo. Vamos dar um passeio. — Há mais de dez anos lido com isso. — É o homem que a polícia quer. Ele está vistoriando o barco de mergulho. — Isso mesmo. — Mas ela não confiava em Miguel para cuidar da loja sozinho por muito tempo. — Há quanto tempo usa minha loja para fazer contrabando? — Liz viu a arma sob a jaqueta de Scott. Você pode ir. — Quando começo a ficar de mau humor. Por aqui demora mais. — Sim. — E por me informar sobre o colega. — Sua mulher. Liz fitou o homenzinho gordo que costumava conversar com ela e alugar seus cilindros. — O rosto de Ambuckle enrugou-se ao dizer isso.

Se conseguisse se infiltrar na quadrilha e ter acesso a informações. Se ele tivesse conseguido sossegar um pouco. Capítulo 12 Quero saber que diabo está acontecendo aqui. ele mostrou um distintivo. — Isso é problema meu. mas estava fervendo de raiva. Tinha os contatos e os meios para ser a chefe da quadrilha. — E a colocou bem no meio de tudo. vamos dar um passeiozinho. nós esqueceríamos algumas. O quadro tão duro de acreditar estava mudando. deduzo que saiba como lidar com isto. pensou. — Isso mesmo. com o sol brilhando nela. — Sinto tê-la enganado. mas nós não o estávamos usando pelas suas opiniões. Foi o mais próximo que pude chegar de Ambuckle.. Se alguém a abordasse. Quando você hospedou Jerry Sharpe e lhe ofereceu um emprego. Durante muito tempo. Liz. — É verdade. — Suspeita? — Liz tinha as mãos cruzadas sobre o colo. caminhou até a janela. Mantém sua filha longe da ilha a maior parte do ano. — Você deixou os Estados Unidos há mais de dez anos. — Scott tomou outro gole do café enquanto analisava Jonas. — Embora sua voz fosse ma. Esse era Jerry. — O homem que Liz conhecera como Scott Trydent estava sentado no canto da mesa de Moralas. mas Jonas não quis sentar. Eu gostava do seu irmão — disse Scott para Jonas. Ambuckle a manteve no deque. Precisando ter um momento para si.. — Jonas desviou a mão para o ombro dela. — Muito. Liz sentiu os dedos de Jonas retesarem e segurou sua mão.. Scott deu um novo gole. Solte as amarras. — Tem o direito de permanecer em silêncio. — Está dizendo que Jerry trabalhou para você? — As emoções de Jonas afloraram. e crianças caminhando ao longo do quebra-mar. Agora. ele virou o cano para Ambuckle. não tínhamos garantias do envolvimento de Liz. — Então suspeitaram de mim. — Com a outra mão. pensou Jonas. — Foi a última coisa que Liz ouviu antes de enterrar o rosto nas mãos e chorar. saboreando o triunfo. — Eu gostava dele. nós nos inclinamos mais ainda na sua direção. até dois dias atrás. ele fez um gesto de limpar as mãos e virou-se para ela. — Claro que sim. Para pegá-lo. Nos últimos oito meses. Era outro sobre quem sabíamos tudo. Nunca retornou. Já tinha nocauteado o infeliz detetive que tentara segurá-lo ao ver Liz no deque do Expatriate com Scott. Você era nossa suspeita número 1. — Não! — Pensando apenas em sobreviver. mocinha..NORA ROBERTS acidente. Só sabíamos que era dona da loja e uma mergulhadora experiente. Moralas dirigiu um olhar demorado e calmo para Jonas. Liz jogou-se para o cais. "Pegar os marginais". Mas sempre acreditara que os fins justificavam os meios. Mas negócio é negócio. Ficou atrás de Liz. — Já que assumiu o lugar de Pablo. — Detalhes como esse passam a ser problema nosso. olhou para Jonas. Ele tinha uma maneira de ver as coisas que fazia você esquecer que eram tão podres. PERIGO contato com o cabeça. Ele era cuidadoso. — Você usou Liz. — Fizemos um acordo com ele. — Talvez a explicação devesse vir do seu compatriota. não havia nada a seu respeito que a minha organização não soubesse. Na verdade. Com as mãos cruzadas sobre a mesa. teria dado um excelente policial. acreditando que você recuaria. tive tanta dificuldade para me infiltrar que mais parecia a CIA. Enquanto tomava o café. eu troquei o manômetro dos seus cilindros. segurando com força o espaldar da cadeira. Ele discordava. — Scott pegou um cigarro e observou a chama do fósforo. depois faria as perguntas. — Estou atrás daquele filho-da-puta há três anos. e. — Agente especial Donald Scott. Era um vigarista. E conversar sobre os 300 mil que o nosso amigo Jerry surrupiou debaixo do meu nariz. Explicações simples não seriam suficientes para esse aí. como ele dizia. — Eles estavam na sala de Moralas. trabalhei com Manchez como Scott Trydent. — Eu quis evitar que isso ficasse desagradável. não consegui ter 83 . não conseguia disfarçar sua alegria. — Usando ele? — Entrei em contato com Jerry Sharpe em Nova Orleans. Sacudindo a cabeça. mas tinha estilo. — Demoramos dois anos até nos infiltrarmos na quadrilha. ele primeiro esmurraria. Você sabe. e numa das melhores escolas de Houston. um trapaceiro. Viu a água batendo suave nos cascos dos barcos. Sempre gostei de você. Scott. Com um simples encontrão. — Scott empunhou um revólver com os olhos fixos em Liz. — O senhor está preso. ele se virou para Scott. — Com um suspiro. Quando ela prendeu a respiração. mesmo assim. falcatruas. de verdade.

— Não houve um único dia em que não estivesse protegida pelos homens de Moralas e pelos meus. eu não conhecia a identidade do agente Scott. Queremos que tudo esteja bem amarrado quando for ao tribunal. Liz. — Procurei você. — começou Scott. Ele queria agir logo e obter resultados com muita rapidez. Vocês fizeram parte de uma armação — concordou ele. — Ele fitou Liz. — O que aconteceu? — perguntou Jonas. — Ordens de ambos os lados. — Eu procurei a polícia. — Havia vários bons atiradores a postos. — Só depois da viagem de vocês a Acapulco nós tivemos a certeza de que você não estava envolvida no contrabando. e que falasse sobre o envolvimento dele em tudo isso. Procurei Merriworth e fiz um barulho enorme a respeito de Manchez estar se preparando para uma traição. Ele seria levado de volta para os Estados Unidos e ficaria escondido em algum lugar seguro até tudo terminar. — Talvez. Seu plano era sair de circulação por algum tempo e depois voltar ao negócio em outro lugar. e a polícia o deixaria em paz. nós chegamos a um ponto em que era preciso nos satisfazermos com Manchez e uns outros. a impulsividade. Queríamos ouvir dele a ordem para matá-la. Deixou de ser a suspeita para ser a isca. até vocês nos indicarem. Partimos para a segunda opção. — Ainda resta saber se esses caras vão ser julgados no seu país ou no meu — disse Moralas. — Manchez tinha ordens de fazer o que fosse preciso para recuperar o dinheiro que Jerry tinha roubado. Quando Manchez se aproximou do seu barco com o snorkel. Não conseguiu. Sua presença aqui complicou as coisas — disse ele a Jonas.. Sabia que tínhamos um homem dentro da quadrilha e que era preciso usar você. eu estava ao telefone com o homem que conhecia como Clancy. — Estava segura — interveio Scott. — Você soube quem ele era ontem de manhã e ainda assim me fez entrar naquele barco. A dor voltou. e mesmo assim não me contou nada. Mandei não fazer nada. Ele imaginou que colocaria o chefe numa situação tal que o procuraria pessoalmente. Não gostamos de perder civis. Uma vez. Você é advogado. Liz.. Mas nós também não sabíamos onde Jerry tinha deixado o dinheiro. e não se mexeu quando Scott se virou para ele. Sharpe. — Esse vai direto para a prisão federal. — Scott jogou o fósforo no cinzeiro da mesa de Moralas. — Scott soltou uma baforada do cigarro. pensou. de qualquer modo. — Liz fitou Moralas. tinha o dinheiro. Obtive uma promoção. ou usar de todos os recursos possíveis. Aquilo tudo era tão próprio de Jerry. — Jerry meteu na cabeça a idéia de desviar o dinheiro de um dos carregamentos. você. Ao ver o sofrimento nos seus olhos. — Continue. e ele iria recuperá-lo. Creio que. Ambuckle não. PERIGO — Bem. Algumas coisas permaneciam as mesmas. outras mudavam constantemente. Liz tentou ver as coisas como ele. — E ele também. Pouco a pouco. Jonas sentiu o peso da corrente no pescoço. Eles não sabiam do cofre do banco. Sharpe. — Jerry não me ouviu. Liz. A gente pode fazer uma prisão nos conformes. ele estava morto. — Tive de ser muito rápido e astuto para eles não descobrirem. Moralas. — O descarregamento que fizemos foi uma armação. uma dor intensa. Acho que você e Jerry tinham mais em comum do que parecia. Foi através de Manchez que eu soube disso. como qualquer jogo com peões. A melhor parte dele. Já vi muitos desses canalhas serem inocentados. — Você estava fazendo muita pressão. Liz foi juntar-se a ele. calmo. as suspeitas não cairiam sobre ele. — Ele soltou a fumaça entre os dentes alinhados. E detesto perder amigos. Jonas virou-se lentamente.NORA ROBERTS O cenário era quase igual ao dia em que chegara a Cozumel. Eu tinha uma arma. comentou que tinha que provar uma coisa para ele próprio e para a outra parte dele. — Scott deu uma meia risada que não tinha nada a ver com humor. Eu só soube disso quando me telefonou de Acapulco. pois nós o estávamos afastando. sabe o caminho que essas coisas podem tomar. e Clancy veio para lidar com você pessoalmente. — Jerry tinha muita dificuldade para seguir ordens. 84 . E que ele fique na cadeia por muito tempo. Quando os corpos fossem encontrados. Antes que eu soubesse. — Continue — pediu Jonas. não teria conseguido evitar. Voltou para Cozumel e tentou lidar com Manchez sozinho. como um jogo de xadrez. Sr. Para Ambuckle. — Até ontem. — Olha. a emoção. A aventura. a raiva de Jonas esvaiu-se. — Recebemos ordens superiores para pressionar Liz. Ele armou tudo de forma a parecer que vocês estavam dirigindo juntos a operação do contrabando. ter uma pilha de provas e perder.

— Adeus. Era ridículo ficar nervosa. Lamento não termos encontrado outro meio. mas ela também tinha superado isso. Será enviada aos seus pais. Com uma das mãos cobrindo a boca. Ele estava de volta ao seu mundo. Liz acreditava que a temporada em Cozumel estava cada vez mais distante para Jonas. — Estou recomendando Jerry para uma menção honrosa. sentiu uma ânsia de rir. tomou a mão de Liz e beijou-a. Jonas se fora. Moralas continuou onde estava. numa demonstração rara de sentimento. Moralas continuou sentado. Ela o mandara embora.NORA ROBERTS — Isso será resolvido depois — interrompeu-o Moralas e. no meio dos livros de direito. Depois. Encostou a bicicleta e caminhou na direção do terminal. PERIGO Ele esperou a porta se fechar e fitou Scott. Sharpe. E por mais de 15 assassinatos nos Estados Unidos e no México. tinha nas mãos duas sacolas de compras e uma braçada de cravos coloridos. E teria arruinado a vida dele. Teria deixado tudo o que tinha construído para trás para acompanhá-lo. tomando café. — Lamento nunca termos tomado aquele drinque.. e talvez a sua própria. E Faith estava chegando. virou-se para Scott e perguntou: — Valeu a pena? — Ambuckle foi responsável pela entrada de milhares de quilos de cocaína nos Estados Unidos. — Com muita calma. — Espero que entenda que nunca mais quero vê-lo na minha frente — avisou ela. Quando chegou ao portão de desembarque. sem esperar. É. freqüentando jantares elegantes. Apesar de magro. — Scott olhou para Jonas. acho que valeu a pena. Como era seu destino. Ele se fora. Ele tinha ido embora. Liz fez um aceno positivo de cabeça. Ele tinha ido embora no dia seguinte à prisão de Ambuckle. não tinha escrito. Seu amor tinha ido embora. Sr. cuidando de tudo sozinha. mas teria enlouquecido se ficasse em casa esperando. Alguma coisa dentro dele estava livre. completamente livre. decidiu que não poderia sair dali por um momento 85 . — Todos nós fazemos o que precisamos fazer — murmurou ele. Ao passar por um canteiro de cravos e gerânios. Era ridículo chegar no aeroporto quase uma hora adiantada. — O seu governo vai ter que pagar pela cadeira. — Vaya con dios. Tinha vencido seus fantasmas ao ficar cara a cara com Manchez e foi embora inteiro. — Quanto a fazer Liz passar por esse inferno todo nas últimas semanas. Sua mãe adorava flores. — Agradeço você ter contado sobre o meu irmão. Entrou com a bicicleta no estacionamento e ouviu um avião decolar. segurou a mão de Jonas. — Jonas! — Assustada. Nesse momento. continuou: — Vocês têm os meus agradecimentos e as minhas desculpas. — Jonas estendeu a mão para cumprimentá-lo. Os passageiros aguardavam seus vôos cochilando em cadeiras ou lendo guias de viagem. satisfeito. voltandose para Jonas e Liz.. Liz procurava convencer-se disso. — Lamento muitas coisas. — Adeus. sem mais nenhuma palavra sobre amor. O ar estava suave como a música. nem telefonado. Depois. O interior do aeroporto era fresco e barulhento. outra vez. Se tivesse ouvido o coração. Foi muito importante para mim. teria dito sim no momento em que ele a pedira em casamento. sorriu e acrescentou: — Você foi um péssimo aluno. — Você estava fazendo o seu trabalho. pensou. sim. Compreendo isso. Todos nós fazemos o que precisamos fazer. Duas semanas haviam passado e Liz acordava todas as manhãs com os mesmos pensamentos. Scott alisou o maxilar delicadamente. A essa altura. Ela observou uma mulher examinar o batom dos lábios num espelho portátil e pensou em ir ao toalete para ver se estava bem. pensou. — Moralas levantou e. Afinal. resolveu comprar umas flores. enfrentando jurados. Jonas fechou uma das mãos em punho e deu um belo soco no maxilar de Scott. e ela estava. delegado. Mordendo os lábios. Liz começou na primeira e saiu comprando compulsivamente em cada loja que entrava. pensou. Liz não conseguia fazer nada. mas não conseguia evitar. ele partiu uma cadeira ao meio ao cair sobre ela a caminho do chão. Faith e seus pais estavam cruzando o golfo. — Isso não quer dizer que eu não lamente. Melhor assim. Jonas encaminhou-se para a porta. — Eu também — murmurou Liz. Os turistas iam e vinham. inclinou-se para Jonas e não reprimiu a gargalhada. Todas as manhãs. — Vai significar muito para eles. Restava-lhe um mês de lembranças para uma vida inteira. Ela estará aqui a qualquer momento. Jonas fez um aceno de cabeça. Liz segurou as duas sacolas em uma das mãos e passou a outra no cabelo nervosamente. mas raramente passavam pelas lojas sem uma compra de última hora. Depois.

Quero voltar para casa. 86 . — São lindas — comentou sua mãe num sorriso. Afastando-a um pouco. atordoada. — Isso deve ser para a senhora — disse ao entregar as flores à mãe de Liz. Liz levantou-se para cumprimentar os pais. — Leve Faith para casa e fique um pouco com ela. — Jonas vai nos levar para o hotel. O pensamento a atingiu como um raio. e inclinou-se para pegar as sacolas que ela tinha deixado cair. querida! Faith aninhou-se em seus braços. — Não. sabonete e chocolate na mancha na blusa branca. Os aviões sempre chegam tarde quando estamos esperando. Havia lágrimas nos olhos dela. — Eu tinha esquecido. Liz virou-se e pegou-a nos braços. Seu pai estava alto e ainda magro. — Então. Sua filha estava linda. percebeu Liz.. apoiado numa vitrine. — Mas eu. Ela cresceu — se bem que não adiantaria nada dizer isso a Faith. dirigiu-se ao balcão de informações para saber do vôo. — Vovó falou para eu colocar debaixo do travesseiro.. Sem soltar Faith. observando. espero que não se importe. — Faith enfiou a mão no bolso da calça. — Mãe. — Ah. Não conseguia sentar. Com o rosto enterrado na garganta de Faith. Liz largou as sacolas e estendeu os braços para a filha. claro. — Trouxe um presente para você. Sinto muita falta de todos vocês. Não precisava ouvir o anúncio do vôo para saber. Era tarde. até lá. Nunca mais conseguirei deixá-la ir embora. Sua mãe estava ao seu lado. Ela torceria o nariz e reviraria os olhos. Tem que falar com ele. Deveria ter imaginado que não adiantaria nada.. Ficou branca. limitou-se a fitá-los. — Dois. e as entradas do cabelo tinham aumentado. — Caiu um dente — conseguiu dizer ao afastar do rosto o cabelo da filha. — Faith abriu um sorriso para mostrar os dois espaços vazios. — Eu não. Será que o começo do verão deixava sua mãe com a mesma sensação de vazio que a acometia no fim do verão? — Mãe. eu. procurando examiná-los PERIGO como se fosse uma estranha. O pensamento surgiu dentro dela e quase se revelou. querida. Jonas aproximou-se. aproximou-se do portão de desembarque e esperou. Recebeu uma resposta que equivalia a "Quando chegar. chegou". e ela estava a ponto de gritar quando o viu chegar. Rapidamente. ela correu para a mãe. esperando pacientemente. não chore.. Até que Faith a viu. sempre fora sólida e forte como uma rocha. Parecia uma mulher cujos problemas limitavam-se a um assado queimado. Liz precisava voltar para casa. — Querida. Por um instante. — Você não falou com Jonas. Antes que Liz pudesse dizer mais alguma coisa. — Fala. senti tanta saudade sua. Temos que passar pela alfândega. embaixo do meu travesseiro de verdade. Impaciente. e em seguida teve a sensação de que alguma coisa explodiria. — O quê? — Ele veio com a gente. — Bem-vinda à nossa casa. adorável no seu jeito comportado. O céu estava límpido e muito azul. — E então Liz o viu. O cabelo cresceu. — Mãe. viu-se sozinha com a filha. Com um sorriso e um aceno. Faith abraçou o pescoço da mãe com tanta força que quase a estrangulou. Não posso deixar que ela se vá de novo. — Deixe eu olhar para você — disse Liz. Nós nos vemos à noite então. — Sim — confirmou Liz. Segurando firme a mão da filha. — Mãe. — Ela beijou Liz mais uma vez. Liz sentiu o cheiro de pó. pensou Liz. querida! — Liz cobriu o rosto de Faith de beijos até ela rir. Mesmo assim. — Enquanto falava. repetiu para si mesma. Sorria do jeito especial como sempre fazia quando ela o agradava. Ela sabia que o céu de Houston estava igual porque há dias acompanhava o tempo pelo noticiário. Vou ganhar pesos? — Sim. observando a filha descer a escada. o avião estava atrasado. olhei pela janela mas não consegui ver nossa casa. Você sempre exagera na quantidade de comida. Mas as lágrimas já brotavam.NORA ROBERTS sequer. — Que bom ver você — murmurou ele. tentando ordenar os pensamentos. — Liz estendeu os braços e foi acolhida. segurou seu rosto entre as mãos e beijou-a demoradamente. Está linda. — Liz beijou os dois lados do rosto de Faith. Mais dez minutos se passaram. Convidei-o para jantar esta noite. continuou onde estava. então ficou andando de um lado para o outro em frente às amplas janelas e observando os aviões chegarem e partirem. Deixou de ser só bonitinha ou engraçadinha. admirou-a de cima a baixo. Não chore. Com o coração acelerado... As mãos de Liz estavam úmidas. Faith vestia calças compridas de listras azuis e uma blusa branca. No entanto. — Nossa bagagem já está aqui. mas resolvi trazer para colocar aqui.

e ela nunca foi ao zôo com ele. com a naturalidade de quem fazia isso a vida inteira. — Faith virou e revirou a boneca que Liz tinha comprado para ela e examinou-a nos menores detalhes. pendurar na janela o pássaro de cristal que tinha trazido para a mãe e consumir dois tacos e um bom copo de leite. Liz abaixou a perna da calça. — À casa da vovó? Quando? — Não sei. PERIGO — Jonas nem se zangou. sabe o que ele foi fazer na casa da vovó? — Acho que queria conversar com ela. — Jonas levou você ao zoológico? — No sábado passado. — Faith. Vi que vovó tinha gostado dele porque ela fez torta de cereja. pode ajudar. — Faith. Ele ficou para jantar. — O quê? — A tigela quase escorregou da mão de Liz.. Ele vai ser seu namorado? — Meu. Compramos pipoca para os macacos. E nem chorei. Será que vamos mesmo? Liz pegou a tigela do sorvete para lavar. consigo correr muito rápido.. mas não é alto feito Jonas. — Faith sorria enquanto lambia o sorvete. minha menina. — E o que você respondeu? — Que gosto de onde você está — disse Faith enquanto raspava o resto do sorvete. mas mesmo assim Liz deu um beijo. contente. Eu estava correndo. conversamos sobre o México e sobre Houston. — É o Jonas! — gritou e saiu correndo pela porta.. Liz esperou Faith desfazer a mala. — Quando conheceu o Sr. Isso é o que realmente importa. — Faith! — Liz veio da cozinha apressada.. — Estávamos falando de você. nervosa. Pegou um lenço e limpou o meu machucado. — Liz dirigiu-se à geladeira. claro. — Depois de conversar com sua mãe. Faith limitou-se a sorrir. mas levei um tombo. Sharpe? — Jonas? Ele foi à casa da vovó. — Vamos ver — murmurou. — Posso tomar o sorvete agora? — Ah. Ralei o joelho. — Ele me levou ao zoológico. — Eu queria muito conversar com sua mãe a sós. Rindo. Liz pousou as mãos nos joelhos da filha. — Não. — Tenho certeza disso. — Olha. ele a pegou. alguém está chegando. eu também estava pensando em vocês. Com o tênis novo. pensou. — A ferida já estava quase cicatrizada e tinha criado uma casca. — De olho no sorvete.. — Ao pé da escada.. — Vamos para casa. Faith perguntou: — Por quê? 87 . Ele queria saber de qual eu gostava mais. ele se agachou para ficar na altura da criança. — Chegou cedo. — Faith. — Vamos fazer uma paella porque é o prato preferido de vovô. enrolava o pano de prato nas mãos. Toca piano muito bem. — Faith. mas não conseguiu controlar-se. — Engraçado. mas a maior parte nós comemos.NORA ROBERTS — Podemos dar uma parada no señor Pessado? — Claro — respondeu Liz distraída. a tempo de ver a filha atirar-se para Jonas. Contrariada. E com vovô também. — A mãe da Charlene tem um namorado. — É mesmo? O que mais ele disse? — Ah. — Eu adoraria — interrompeu Jonas. Faith ficou feliz quando Liz acrescentou mais uma bola. — Ao lembrar-se daquilo.. Jonas disse que a gente pode ir ao parque de diversões. segurou sua mão. Se quiser. — Liz mal conseguiu controlar o riso. — Jonas disse que também preferia o lugar onde você estivesse. Ficou imundo porque tinha saído muito sangue — Faith sorriu orgulhosa e emendou: — Ele disse que meus olhos são bonitos como os seus. — começou Liz com a voz o mais natural possível. — Posso comprar bala? Liz olhou para a mancha de chocolate na blusa de Faith. Liz sentiu um certo pânico. — Já comeu chocolate. — Como foi isso? — No zoológico. Liz. Eu também gostei dele. — Faith resolveu chamar a boneca de Cassandra por ser bonita e ter cabelo comprido. Sabia que podia contar com o señor Pessado. jogou-a para o alto e depois devolveu-a ao chão. — Faith levantou de um pulo e correu para a porta de entrada. — Ah.. Faith levantou a perna da calça para exibir o machucado. — É mesmo? — Ele fez um carinho na cabeça da menina e olhou para a mãe. — Ele conta histórias engraçadas.

Depois disso. — Eu também sou. no formato de gota. está no seu direito — disse ele ao dar um passo para trás. Queria ver aquele olhar novamente. Ela é cabeça-dura. Você me sustenta. que pensou sobre o que aconteceu entre nós? Vai ficar aqui em pé olhando para mim e dizer que não me ama? Liz nunca soube mentir. Você vai para a Filadélfia comigo. Mãe. e seus olhos brilharam. Jonas endireitou-se e observou Faith correr na direção da casa do vizinho do outro lado da rua. sem conseguir tirar o anel do dedo. — Você pode voltar para os Estados Unidos. desarmando-a. — Jonas. Aliás. Na verdade. — Ela falou que você não era namorado dela — disse a menina. — De agora em diante. — Não temos o que conversar. ela cedeu sem hesitar. Ignorando o susto de Liz. Liz levantou a cabeça.. e por um momento o mundo pareceu voltar a ser maravilhoso. — Vá. posso ir à casa de Roberto ver os cachorrinhos que nasceram? Liz enrolou e desenrolou o pano de prato nas mãos. ela se virou para ele. — Jonas. — Está bem. Posso desistir de praticar advocacia e morar em Cozumel. — Jonas. — Se não quer conversar. Pegamos um mapa. já deu. não vai dar certo. — Vai negar que passou noites em claro nas últimas semanas. 88 . — Ela também ajudou. — Claro que sabe. pode. — Agora está realmente sendo ridículo. Lembrouse de como estava feliz quando abriu os braços para Faith no aeroporto. Liz deu uma risada. Jonas esperou a reação de Faith. — Já perguntei. — Já vejo as coisas com clareza — insistiu Liz ao tentar afastar-se. não sei por que voltou. — Educou sua filha muito bem. de olhos apertados e lábios contraídos. — Vovó diz que ninguém consegue convencer mamãe de nada. — O que eu preciso eu mesma providencio — retrucou ela. — Está sendo ridículo — exclamou ela. — Sem possibilidade de negociação. — Eu amo você. — Não preciso ser sustentada. — Claro que sim. — Está bem. Jonas viu o brilho de felicidade nos olhos dela.. — Ele segurou-a pelos ombros e encostou-a na parede. — É por isso que a amo — disse ele simplesmente. mas desistiu. eu também não. ao tirar uma caixinha do bolso. — Excelente. mas. — Que bom. Elizabeth. você fecha os olhos e aponta para um lugar.NORA ROBERTS — Preciso convencê-la a se casar comigo. não posso deixar que os sentimentos comandem minha vida. Que bom. mas não conseguiu se controlar. Jonas passou a mão pelos cabelos dela e deu-se conta de que não estava tão paciente quanto imaginava. É lá que vamos morar. Antes que ela desviasse o rosto. Com firmeza. Ganho dinheiro convencendo as pessoas a fazerem coisas. Sua boca respondeu à dele com sofreguidão. Você não é boba. Concordamos quanto às duas primeiras opções. — Vai se casar comigo. ele enfiou o anel. — Vai me dizer que não sentiu saudade? — Liz chegou a abrir a boca para falar. Liz. Jonas riu e se aproximou mais. Ela se aproximou da escada e estendeu o pano de prato sobre o corrimão. Gostou do presente que Faith trouxe? — O quê? — Confusa. Quando ele a puxou de encontro a si. Liz viu o brilho do diamante e por pouco não conseguiu esconder a mão atrás de si antes que ele a pegasse. — Quer conversar dentro de casa ou aqui fora mesmo? — perguntou ele ao subir os degraus. Vai dar certo. O diamante. Jonas notou que ela estava tensa. vamos entrar e fazer amor até você enxergar as coisas com mais clareza. temos várias opções. — Ele se aproximou e Liz não resistiu como planejara. mas não demore. se não quer responder.. PERIGO — Errado. — Está oficializado. mas não se importou. você precisa de mim. — Porque ainda falta eu conversar com ela. — Jonas.. Eu sustento você. — Tudo bem. — Não gostou dessa opção. era branco e tinha um brilho intenso. Eu também trouxe um — disse Jonas. Quem sabe se você falar bem de mim ela não muda de idéia? Faith meditou. Liz não queria olhar.

o juiz de paz ou o bruxo e nos 89 . — Jonas. — Quero que Faith seja minha. Só não sabia que ela era tão cativante quanto a mãe. — Mulher. Liz desviou o olhar. — Sua? — interrompeu ele. depois de todo esse tempo. espero que ela ganhe um irmão ou irmã. — Ah. construa outra. Jonas estava oferecendo tudo o que Liz sempre quisera e se recusara a acreditar que fosse possível. é lá que viveremos. — Preciso de você. caminhou até o final da varanda e voltou. no fundo. E se preferir que continue estudando em Houston. Fique com a loja. Podemos ir para a Flórida. Dentro de um ano. A idéia a aterrorizou. PERIGO — Mas o problema não se resume a mim. mas faça alguma coisa por você mesma. aceitar seu pedido. — Você tem sua carreira. Como vai superar isso? — Ela é só sua — lembrou Jonas.. — Não estou entendendo. — Ao diabo que passou.. — Se falhar. — Tardes no zoológico? — Isso mesmo. Liz apoiou-se nele. Liz gelou. Chamaremos o pastor. Se eu ceder.— Mas ela é. pronta para acreditar. Eu tenho meu trabalho Nunca seria uma esposa adequada para alguém como você. Mas alguma coisa dentro dela estava começando a acreditar que era possível. e você mudar de idéia. Só precisava estender a mão. você enfrentou os piores desafios e conseguiu sair inteira. sabe o que está fazendo? Está pedindo a mão de uma mulher que vai começar do zero e está querendo uma filha crescida. Quero que permita que eu a adote. — Ela levou a mão ao rosto dele. quando comecei. — Droga. — Foi você quem disse isso. menos isso. muito. nas últimas semanas. Para nós dois. Olhe para você: é o que mais quer. Jonas. — Está falando de Faith? Passei as últimas semanas procurando conhecê-la. porque precisa de uma família tanto quanto nós precisamos.. sonho. qualquer lugar que você queira e que esteja precisando de uma boa loja de mergulho. — Pegou as mãos de Liz e beijou-as. quero muito acreditar em você. Eu o amo. Meu objetivo principal. — Não está vendo como é impossível? — Sua pergunta. Comece um outro negócio. — Quero mesmo. e a pele formigava. Pela primeira vez depois de muitos anos podia encarar a vida sem sombras. legalmente e de coração. e talvez a salve. — Liz podia esperar tudo. — E você também. depois negação. Ou. — É a mulher certa para se casar com alguém como eu. Não voltarei sozinho. — Isso já passou.. — Dentro de uma semana iremos à fazenda de meus pais em Lancaster.. Agora está com medo de umas aulinhas de faculdade? Com um suspiro. Fechou os olhos e respirou fundo antes de virar-se para ele. Os dois ficaram abraçados. não se desfaça dela. — Sim. estarei ao seu lado para apoiá-la. — É. perdidos um no braço do outro. — Está com medo? Ela apertou os olhos tensa. — Pode ser que eu não consiga acompanhar. mais dez. Podemos vir quantas vezes quiser durante o ano. Não. Precisa entender que não posso seguir minhas vontades.. mas voltar agora.. — Ele esperou para que ela ficasse bem atenta. Achei que ela fosse o único caminho para chegar a você. Liz. — E falei sério. Quero ficar com ela. — Adotar. era para ambos. — Pense bem — murmurou — até estar bem certo. vai ser minha. O sangue de Liz corria rápido nas veias. — Ela o afastou. Se a sua loja é importante para você. Vai complicar sua vida. — Já se passaram mais de dez anos. Agora. Os olhos de Liz indicaram surpresa. — Pode retomar seus estudos. É hora de arriscar. — Não. deixe Luis tomar conta. ele não estava nada paciente. vai ser nossa. — E daí? — Ele a virou de volta. vou odiá-lo pelo resto da minha vida. E à sua. era me insinuar e conquistá-la. Você vai dividi-la comigo. Jonas a pegou pela blusa.NORA ROBERTS — Não podemos resolver nossas vidas dessa forma. você é a única. — Uma vez você disse que não mudaria nada. Isso Liz já tinha deduzido.. Jonas riu encantado. Liz. a Califórnia. — Mas ela é filha de outro homem.— Ele a pegou pelos ombros novamente.

— Ele pegou suas mãos e perguntou: — O que vamos dizer a Faith? Com um sorriso. — Quando o conheci. Liz apoiou-se na parede e analisou o rosto dele. Forte. teremos todos o mesmo nome. sua filha estava com ela e nada mais era impossível. Com um suspiro.NORA ROBERTS casaremos. FIM PERIGO 90 . Seu amor tinha voltado. — E estava certa. ela respondeu: — É melhor dizermos que você me convenceu. paciente. Era belo. apaixonado. Sua vida seria ligada àquele rosto. Quando virarmos uma família. Era real como carne e osso e precioso como os sonhos. Os papéis da adoção já estão sendo providenciados. pensou. Você. achei que era o tipo de homem que sempre consegue o que quer. Faith e eu.

A porta. Não seriam mais sombriamente marrons e cinzentas por muito tempo. Nada havia mudado. Soprava uma brisa leve. uma cesta de costura repleta até a borda. A casa e as montanhas conviviam pacificamente. conseguiu amontoar tudo junto. a sala estava limpíssima. era compartimentada por janelas estreitas de persianas brancas. Não havia ninguém à vista. Autumn pendurou o estojo da câmera num ombro e a bolsa no outro. subindo em seguida os degraus que levavam à casa. Lançando um último olhar pela sala. — Tia Tabby. mas alguns toques verdes começavam a surgir. As altas 91 . — Que bom que você chegou antes do jantar. mantas de crochê estavam dispostas sobre os dois sofás depatchwork. As janelas ainda apresentavam as cortinas de chintz e a coleção de Hummel continuava sobre a lareira. Era uma construção encantadora. Capítulo 1 O Pine View Inn ficava aninhado confortavelmente nas montanhas Blue Ridge. pronto para a primavera. A casa e o terreno ocupavam menos de 5. Tabby poderia ser o nome de um gato. Chegou a pensar em pegar uma escova. Como sempre.000 m2. Uma varanda ampla de madeira formava uma saia branca ao redor de toda a casa. Os narcisos ainda não estavam abertos e o açafrão mal começara a murchar. toleram com desdém o resto do Alerta da Natureza Lucas McLean fora o grande amor de Autumn e agora ele está de volta. mas nem um pouco arrumada. apesar de o fogo crepitar na lareira. o hotel já parecia ter vários hóspedes. de tijolos de um colorido rosa-pálido. Sentiu um prazer estranho. Autumn colocou as malas no chão e entrou na sala. Do telhado íngreme. antes que árvores e rochas reclamassem sua parte da terra. um monte de almofadas empilhadas junto às janelas altas — mais para o conforto de alguém do que para enfeitar a sala. Autumn. já chegou? — Como era de seu jeito. O cheiro familiar de lavanda envolveu-a. Quando parou o carro no estacionamento informal ao lado da casa. em vez de um ano em Nova York. Havia revistas jogadas aqui e ali. Autumn contou cinco veículos. que bom ver você! — Dirigiu-se para ela quase correndo e sapecou-lhe um beijo no rosto. brotavam três chaminés retas. que há muito tempo tornara-se de um verde suave. disposto a fazer parte de novo da sua vida. Os gatos são esnobes. como sempre. Tapetes antigos espalhavam-se no assoalho. seu prato favorito. mas se esqueceu disso assim que ouviu passos no corredor. seguia-se por um atalho sinuoso que atravessava uma passagem estreita com espaço para apenas um veículo por vez. Depois de uns instantes de luta. sua tia cumprimentou-a como se a sobrinha tivesse passado uma hora no supermercado local. Tinha três andares e sua fachada. Hoje teremos bife à caçarola. Um gramado macio e bem-cuidado circundava a construção. Saindo da estrada. incluindo o Chevrolet antigo de sua tia. Autumn sorriu. Chegavam à cintura e estavam emaranhados da longa viagem com as janelas do carro abertas. Pouco depois chegava-se ao hotelzinho. Apesar de ainda faltarem semanas para a chegada da temporada. Sem coragem de lembrá-la de que aquele era o prato predileto de seu irmão Paul e não o dela. Duas malas enormes também tiveram que ser arrastadas para fora do carro.NORA ROBERTS PERIGO montanhas que rodeavam o terreno apresentavam em sua maioria um colorido marrom. com um charme despojado. estava aberta. devido às sucessivas lavagens pelas águas das chuvas. O efeito era magnífico. Era sempre confortante descobrir que alguma coisa muito amada não havia mudado. O ambiente era simpático. O dia estava lindo. nenhuma diminuindo a beleza da outra. com linhas tão limpas que chegavam a disfarçar a estrutura irregular da construção. ela passou a mão pelos cabelos. Era como se a natureza tivesse decidido que a casa só poderia ocupar aquele pedaço e nada mais. — Oh. de onde abriam-se portas dos quatro lados. A ampla sala de estar que servia de vestíbulo estava vazia. Alguns raros botões de azaléias traziam algum colorido. Autumn não podia negar que sentia uma enorme atração por ele e que a chama da paixão continuava acesa – ainda que ela o tivesse acusado de assassinato. cheia de personalidade. Autumn não pôde evitar um sorriso ao pensar que a sala combinava perfeitamente com sua tia. mas tia Tabby não tinha nada de felino.

— Não se preocupe. mas em seguida sorriu francamente. mas sabia que o pensamento da tia estava na torta no forno.. — Vi vários carros. — Foi o Will — lembrou Autumn à tia. Eu posso dar um jeito. A seu lado. Tia Tabby sorriu para ela. Seus traços eram todos miúdos — boca. Brilhava ainda mais ao vivo e em três dimensões. preciso ver minha torta de amoras — anunciou repentinamente. tia Tabby. Bond está chegando. beijou-lhe a outra face. Jardineiro. — Lamento saber disso — replicou com o que esperou ser um tom de simpatia. — Fez um carinho no rosto da sobrinha e pensou em quantas calorias teriam os bifes. — Tenho uma surpresinha para você.NORA ROBERTS mundo. Há muita gente aqui? — Autumn esticou os músculos dormentes enquanto caminhava pela sala. Ah. Já tia Tabby era conhecida por parecer estar sempre vagando no ar. Abraçou-a novamente e. Autumn simplesmente concordou com um gesto de cabeça. Seus olhos eram de um azul pálido. mas. dona de curvas sensuais que quase alcançavam a luxúria. o que lhe ficava bem. a propósito. Eu sempre soube disso! Mas está tão magrinha. Autumn lembrava-se dele. — Como de hábito. Colocou o estojo da câmera sobre a mesa e sorriu para a tia. nariz. Autumn encolheu os ombros e pensou nos cinco quilos que ganhara quando parou de fumar. Autumn sentia-se como um palito gigante. Usava-os curtos. Perceptivelmente aliviada tanto por sua torta quanto sua sobrinha já serem problemas resolvidos. Julia Bond. seu rosto não tinha rugas. não foi? É um homem enorme agora. Mas perdera com a mesma rapidez. — Ele aprendeu a nadar bem. — E isso era sempre verdade. Não se atrase. Autumn virou-se para observar a companhia que sua tia mencionara entrando pela porta lateral e ficou boquiaberta. querida. — Vou lhe dar seu quarto preferido. Pequena. — Percebendo que a brincadeira não tinha sido entendida. Apesar de ter mais de 50 anos. — Não acho que isso seja aconselhável depois de tantos anos de casamento.— Nancy é maravilhosa para fazer um bife à caçarola. mensageiro e garçom. — Ainda é — confirmou Autumn. Autumn reconheceu-a imediatamente. com suas conversas sem nexo e pensamento confuso. Ih. só que com tons de cinza. o pai de Autumn. Será que você poderia levar suas malas? Ou pode esperar que um dos cavalheiros chegue. O jantar é servido na hora de costume. pensando no dia em que seu irmão mais novo caiu no lago. Julia Bond era um exemplo magnífico de mulher em seu sentido máximo. era macio como de uma menina. Era um pouco mais baixa do que Autumn e agradavelmente gordinha e macia. — Nelson sempre foi magro — tia Tabby acrescentou. mas um desastre com tortas. em seguida. e Autumn a adorava. — Você está maravilhosa. inclusive mãos e pés. Quantas e quantas vezes sentara-se na sala escura de um cinema e assistira ao talento e ao encanto de Julia transcender a tela? Pessoalmente. com sua lógica peculiar. — Que menina bonita você é. — Ela vai lhe fazer companhia. Seus cabelos tinham a mesma cor de avelã dos de sua sobrinha. em carne e osso. olhando para cima. sua beleza não diminuía em nada. agilidade e astúcia. batendo com os saltos do sapato alegremente no assoalho de madeira. é claro. Autumn. Não havia mulher que possuísse uma beleza tão estonteante e dourada. — Ora essa — disse tia Tabby. Não temos PERIGO mais nenhuma criança conosco no momento — acrescentou. — Ah. — Um casal e cinco solteiros — respondeu Tobby. Logo as folhas estarão amarelas. estalando a língua e ficando pensativa. — Um dos solteiros é francês e adora minha torta de maçã. Vestida de calças de linho de cor creme e com uma suéter de cashmere azul vivo. Ela afastou-se da tia ligeiramente e observou-a com maior atenção. — Ela voltou-se. sua roupa combinava 92 . encaracolados desordenadamente em torno de seu pequeno rosto redondo.. — Mamãe continua ameaçando-o sempre com o divórcio. George. saiu apressada. a Srta. Poderá ver o lago da janela. — É? — Tia Tabby pareceu ligeiramente confusa por um instante. Não tinha a menor malícia. Ela já se dirigia para a porta enquanto Autumn ainda tentava arrancar-lhe mais alguma informação. ela interrompeu-se e sorriu. querida. orelhas. São conhecidos por sua velocidade. George está de cama com uma virose. pensando em seu irmão. — Estou um pouco desfalcada de pessoal no momento. Lembra quando você caiu dentro dele quando era pequena? Nelson teve que pescar você. que cheirava a sândalo e óleo de limão. Isso sempre me surpreendeu. — Absolutamente maravilhosa. passando de um assunto para outro.

— Na verdade. Estou certa de que está acostumada a ser observada. — Está sozinha aqui. divertida. virando-a em seguida para o lado. observando-lhe a gola alta. Seu sorriso. querida — desculpou-se com um ligeiro sorriso. era tão encantador e tão aberto que Autumn conseguiu sorrir de volta. Oh. Sei de mulheres que matariam para ter essa cor. Minha tia é a dona do hotel. acariciando seu lenço de seda. — Oh. — Que encantadora. — Qual o seu nome. sacudindo a cabeça. — Então veio fazer uma visita a sua tia. Não a via há quase um ano. Bond. — Tenho a impressão de que finalmente encontrei alguém com quem poderei conversar neste lugar. de um louro pálido. Enquanto pegava um cigarro longo e fino. Julia sentou-se. — Autumn riu. apontando a poltrona a seu lado. — Com um suspiro. rendendo-se ao encanto da atriz. sorriu alegremente para Autumn. Seus olhos mostravam interesse e Autumn começou a achá-la não só encantadora. — Eu jamais poderia usar cinza. — Incrível — decidiu. cruzando as pernas. Não havia o menor tom de condescendência em sua atitude. — Os homens são deliciosos. tragou delicadamente seu cigarro. Bond? — Sua curiosidade estava aguçada. de qualquer maneira. PERIGO — Sua tia? — O rosto de Julia registrou sua surpresa e diversão. mas peço desculpas. eu também. meu bem. Os olhos eram de um azul profundo. já que você é tão jovem e tão atraente. — Fotógrafa! — exclamou Julia. Estou entre maridos no momento. Autumn já esquecera sua surpresa e cerimônia iniciais. — É modelo? — Não. um murmúrio fluía e expandia-se como uma onda. 93 . seu colorido e o meu combinam. Fazia agora seus próprios estudos. — Mais relaxada. um glorioso interlúdio. Srta. — Autumn Gallegher. além disso. — Ora. — Imagino que os dela antigamente fossem da cor dos seus. Se estou sozinha? — O sorriso cresceu. — Julia lançou a cabeça para trás. franzindo os lábios. — Acontece que as roupas são minha fraqueza. suponho. Vaidade. este pequeno hiato é uma mistura de negócios e prazer. — E. e você tem quase um metro deles. — No sorriso de Julia. Julia conseguiu transformar a poltrona. ainda estudando o rosto de Autumn —. — Obrigada. Magníficos. Autumn recostou-se. Julia ficou parada. querida? — Vinte e cinco! — Cativada pelo encanto da outra. Não me faça lembrar da meia década que separa nossas idades. — Irmã de meu pai. Autumn respondeu sem pensar. pensando em ângulos e sombras. como Autumn esperava. — Imagino que os fotógrafos sintam o mesmo por você. Autumn podia sentir tanto o prazer como a diversão. enquanto afastava os cabelos dos ombros. em um trono. Qual a sua idade. — Ela recostou-se. no entanto. Sente-se — disse.NORA ROBERTS perfeitamente com o colorido de sua pele. Iluminou-se de prazer. — Você não se parece com ela. deixando escapar um sorriso pela descrição. por favor. — Os atores adoram ser observados. Eternamente. Sua boca bem desenhada. em uma bergère. A cor de sua suéter fica bem em você — comentou. Você já foi casada? Julia riu. — Vou passar algumas semanas. Os cabelos. — Que cabelos fabulosos. e pela mesma razão. os cabelos — corrigiu-se com um olhar de inveja. Estava estupefata ao ver Julia Bond atravessar o vestíbulo como se estivesse no New York Hilton. Ela escreveu pedindo que eu viesse. Srta. formava um sorriso ao mesmo tempo em que arqueava suas famosas sobrancelhas castanhas. como amável. — Aquela senhora encantadora e desajeitada é sua tia? — É — disse Autumn. mas os maridos podem ser terrivelmente decepcionantes. Por um momento. e então resolvi tirar todas as minhas férias acumuladas aqui. Então falou com voz ligeiramente rouca. Os dedos de Autumn procuravam a câmera. mesmo estando com o braço esquerdo ligeiramente manchado. A obediência de Autumn foi imediata. — É claro — continuou Julia. com uma graça ao mesmo tempo insolente e admirável. emolduravam seu rosto como a luz do sol. — O que você faz? — perguntou Julia. meu bem? E o que a traz para a solidão dos pinheiros? — Autumn — respondeu. de lábios cheios. — Julia. — Sou fotógrafa. Sinto muito. Sem que Autumn percebesse exatamente como ela fizera aquilo. — Sacudiu a cabeça. Autumn levou um tempo para registrar o comentário. — Eu adoro fotógrafos.

e só então Autumn percebeu que ela se parecia com um gato muito bonito e bem alimentado. — Ah. — Franziu a testa por um momento e. — Percebendo o tom de pedido de desculpas em sua voz. e foi premiada com um sorriso de aprovação. Autumn percebeu. como um gato preguiçoso. — E riu de alguma piada particular. Autumn sorriu. O pai dele é dono de. — E Julia sorriu novamente. Autumn sabia que ela não estava olhando para as montanha para os pinheiros. Ele é um escritor genial. — Apesar de concordar. que está de férias para fazer esboços da natureza. isso sempre funciona em política. — Ele dá uma olhada em você e decide que tem uma nova estrela surgida no horizonte. É bastante atraente. Mas consegue ser uma diversão interessante. Spicer — começou Julia. — A mulher é baixinha e. — Até a próxima vez? — aventurou Autumn. cabelos louros da Califórnia.. Estamos aqui graças a um capricho do último e mais interessante personagem de nossa peça. sem ligar para excentricidades. eu sei. — No meu caso. Mas. — O doutor pode ser interessante — continuou Julia. — Ele é uma graça. Fiz um de seus filmes há alguns anos. — Eu já. — Das Fábricas Anderson? — interrompeu Autumn prontamente.. — Soube que Steve Anderson deseja seguir uma carreira política. Contra o casamento. E é tremendamente rico. Combina com ele — concordou Julia. Autumn. — Por enquanto — disse Autumn —. — Não contra os homens. Autumn sentiu sua curiosidade aumentando. infelizmente. sejam quais forem as promessas que Jacques lhe faça. com uma perpétua expressão de desencanto. três vezes. — Você gosta de caminhar? — Gosto. sem saber explicar bem por quê. Depois. temos Helen Easterman. em seguida. — Com um sorriso acendeu outro cigarro. a política. — Os outros hóspedes do acolhedor hotel de sua tia até agora ofereceram poucas perspectivas de diversão. ainda sorrindo. — Que coisa mais feia — retrucou Autumn. Autumn não insistiu assunto. — Existe gente de todo tipo. E uma profissão complicada.. — É possível. quando Julia ofereceu-lhe um cigarro. batendo com a unha perfeita e bem manicurada no braço da poltrona. — Como você é esperta. — Fiz um voto de abstinência — continuou Julia. — Ah. Ela usava tweed com muita elegância. Pelo tom que usou. Agora. Lindos olhos azuis. — Mais uma vez. — Ela diz que é professora de arte. temos Steve Anderson. agitou sua mão graciosa como a dizer que não se importava. um tanto deprimida. — Dizendo isso. Seis meses com um barão inglês foram mais do que suficientes. Julia descreveu-a com extraordinária habilidade e Autumn não pôde conter a gargalhada. Afastou os olhos de Autumn. me parece bastante provável que Julia Bond e Jacques LeFarre se juntem. — Oh? — Automaticamente Autumn sacudiu a cabeça em negativa. Jacques 94 . — O produtor? — É claro. — No momento. Autumn lembrou-se das fotos que vira de Julia com um inglês alto e aristocrata. A seguir. Autumn era sensível a estados de espírito. os políticos. Julia sorriu. Ombros largos. apesar de um pouco bem nutrida. — Não tenho paciência com mulheres PERIGO que se abandonam e depois olham com raiva para as que não fizeram o mesmo. — Os olhos de Julia tornaram-se ao mesmo tempo maldosos e deliciados. — É um pensamento tranqüilizador saber que os representantes do governo são eleitos por seus sorrisos. Havia alguma coisa diferente em sua atitude no momento.— Julia deu de ombros. — Temos o doutor e a Sra. e acenou para Autumn. — Que bom. — Ele é muito elegante e tem um sorriso de garoto encantador. Elimina qualquer tipo de atração que pudesse existir nela. — Continue com a fotografia. Julia podia ter perguntado se Autumn alguma vez tivera um Cocker spaniel. — Autumn franziu o nariz e deu de ombros. e ela rasteja desanimada atrás dele.. com olhinhos aguçados e um sorriso desagradável. Sem estar certa de que o comentário de Julia tivesse sido uma observação romântica ou apenas geral. Julia ficava mais à vontade. — As unhas ovais e bem pintadas reiniciaram a batida no braço da poltrona. sem conseguir conter o sorriso. Ele gosta de ar puro e de caminhadas pelo bosque. Ao descrever os homens. — É alto e com um bom corpo. dirigindo-os para além da janela. — Julia fez uma pausa e olhou indagativamente para Autumn. mas aquela mudança tinha sido tão sutil e repentina que não conseguira identificar. — Até a próxima vez— concordou Julia com uma gargalhada. delicadamente bonito e com a quantidade certa de cabelos grisalhos nas têmporas. voltou a seu estado normal. estou aqui por motivos platônicos com Jacques LeFarre. — Eu já tive um caso com um senador. — Show business. hã.NORA ROBERTS — Não — disse Autumn. o terceiro não foi o perfeito.

entendi. para se recompor — Preciso levar minhas malas para cima— disse. E entendera mesmo.. — E Julia estudou-a através de uma nuvem de fumaça. Teria podido esquecer? — Autumn. Ela sentiu-se invadida por ondas de uma dor que já estava quase esquecida. — Mas Jacques está louco para produzir a obra desse escritor e me pegou em um momento de fraqueza. há muito tempo. Autumn esforçou-se para afastar seus pensamentos e prosseguir a conversa de Julia. Jacques pensa que o livro poderá ser transformado em um roteiro de cinema. Autumn percebeu muito bem. enquanto a outra rezava para que acontecesse exatamente o contrário. — Os homens arrogantes são irresistíveis.. PERIGO Como podia doer tanto depois de todo aquele tempo? Conseguira construir um muro tão sólido em torno de seus sentimentos. ao mesmo tempo. — Sacudiu novamente a cabeça e engoliu em seco. — Eu o conheci. você não acha? Autumn murmurou qualquer coisa. Então. mas nosso escritor está no meio de um romance. Autumn sacudiu a cabeça. — Bem. — Jovem demais. Como podia virar pó só pelo som de um nome? Indagou-se preocupada que enredo sádico do destino traria Lucas McLean para atormentá-la? — O que foi. — Aqui estou. É o meu trabalho que me alimenta. o que dá uma vontade louca de mergulhar os dedos neles. — Respirando profundamente. a bolsa e saiu da sala. a expressão tornou-se arrogante. Um sol baixo. A simpatia misturava-se com a especulação tanto em seu rosto como em sua voz. encontrou os olhos de Julia.. o talento de Lucas McLean merece um pouco dessa arrogância. Qualquer pessoa. — Nos vemos no jantar. É um demônio arrogante. mas nosso gênio resiste. — Você era muito jovem quando se apaixonou por ele? — Sim. — O escritor é terrivelmente atraente. A cor sumiu do rosto de Autumn deixando-o inexpressivo. Teria ele esquecido? Perguntava-se. ao mesmo tempo em que se levantava. — E você teria razão — disse Julia sem grandes expressões. — Nada. com aquele jeitão relaxado que ninguém consegue imitar. — Mas duvido de que ele se lembre de mim. Julia sorriu. naturalmente. tem aqueles olhos escuros que dizem "Vá para o inferno" com eloqüência. com cabelos pretos e um pouco longos e sempre desarrumados. bronzeado. decidida a tratar o assunto com leveza. Ele disse a Jacques que veio para cá a fim de escrever em paz durante algumas semanas e que iria pensar no assunto. aceitou um cigarro. — Só fiquei surpresa por saber que Lucas McLean está aqui. enquanto tentava apagar de sua mente a suspeita de a quem poderiam se referir as palavras de Julia. — Mas aprendo rapidamente. — Tragou profundamente o cigarro. você tem um rosto que nenhum homem poderia esquecer. Autumn estava fascinada e. Gostaria de fotografá-la com o sol em suas costas. — Vocês geralmente caçam os escritores desse jeito? Sempre pensei que fosse o contrário. e me quer para o papel principal. — Ah. Apenas com o movimento das sobrancelhas. parece que os próximos dias prometem ser interessantes. Sua pergunta foi caracteristicamente direta. com um olhar malicioso —. Tinha que ser outro. E. Os contrastes seriam perfeitos. Autumn encolheu os ombros. Na verdade — emendou um sorriso — três dos tais roteiros horrorosos. confusa.— Conseguiu sorrir ligeiramente e. Como se em busca de ar para respirar. Concordando. — Autumn tentava com todas as forças reconstruir seu muro de proteção e não ficou surpresa com a pergunta.NORA ROBERTS quer fazer outro. o que aconteceu? A voz de Julia penetrou-a com um misto de preocupação e curiosidade. querida. melhor que tudo. — Precisava de tempo para ficar sozinha. um por do sol. — Caçando um escritor relutante. — Tem suas compensações. bons roteiros são muito raros atualmente. Autumn juntou o estojo da câmera. pensou desesperadamente. — É isso mesmo.. — É claro que vou aceitar. — Parte dela rezava fervorosamente para que aquilo fosse verdade. Uma mudança de estilo maravilhosa — acrescentou. Enquanto Autumn esticava seus braços delicados para o alto. Eu tinha acabado de ler um dos tais roteiros horrorosos. mas não faço lixo. afinal de contas. pela primeira vez em seis meses. a não ser que tenha nascido com ele. E o encantador LeFarre convenceu-o a permitir que também viéssemos para cá por alguns dias. — Seu suspiro era de pura aprovação feminina. — E. ingênua demais. que lhe custara tanto trabalho. 95 . — Julia sorriu e moveu as mãos. querida. — É — concordou Autumn com pouco entusiasmo. É alto. depois de barões ingleses.

Autumn permitiu-se recordar. Ela perguntou-se como um dia poderia ter pensado que o havia conquistado. Falara com ele. Havia olheiras. enquanto abria a porta — está horrível. A dor que sentia não aparecia em seu rosto. — Faça isso. chegou ao hall junto de seu quarto e jogou tudo no chão. — Examinou interrogativamente seu rosto. PERIGO Lucas recostou-se no batente da porta. lembrou-se. Sem fôlego nem paciência. e ela lembrava-se muito bem. Então. 96 . Lucas. — Ela tem a boca de uma criança — continuou ele. Onde está o carregador? A voz e o apelido ridículo deslocaram os poucos tijolos que ela conseguira colocar tão recentemente em seu muro de proteção. acentuada por sobrancelhas espessas e negras. Seu poder masculino. Precisa dormir um pouco. esta era uma palavra muito simples para definir Lucas McLean. — É uma criatura alta. tendo antes o cuidado de apagar qualquer expressão de seu rosto. irresistível. Foi então que ela percebeu como ele parecia cansado. com um estrondo furioso. absolutamente não muito sutil. Ela já o vira. como ele jamais vira em seu rosto nos últimos três anos. — Olá. antes que ela pudesse arrastar suas malas para dentro e fechá-la. Sua pele é cor de marfim. Seus olhos eram quase tão escuros quanto os cabelos e sugeriam guardar muitos segredos. Lançoulhe um olhar entediado e desinteressado. Ela aprendera a disfarçar. Ela escutou sem comentários a descrição que ele fazia dela. Autumn percebeu que aquilo também não tinha mudado. Mas estava ali. Depois de uma ligeira hesitação. — Ela é a assassina ou o cadáver? — Autumn ficou contente ao perceber que as sobrancelhas dele ergueram-se em surpresa. Autumn aliviou sua tensão resmungando e xingando. Enfrentou o sorriso arrogante de Lucas com o sorriso que conseguiu formar. O Pine View Inn está borbulhante de celebridades. Lucas. Havia uma certa aspereza em seu aspecto. Excitante.NORA ROBERTS No corredor. De quadris estreitos e com pernas longas. Quando tirou a roupa. Moreno. esbelto e másculo. Fatal. pensou e bateu a mala contra seu queixo. seus nervos relaxaram um pouco. Aquelas coisas dariam tempo para que ela se recuperasse antes que pudesse permitir-se pensar. a câmera e a bolsa antes de iniciar a tarefa de transportá-las escada acima. O pior tinha passado. Autumn virou-se para ele. Pela primeira vez. Os olhos têm pálpebras longas e são emoldurados por cílios ridiculamente longos. Pura determinação manteve o olhar no dele. Seu sorriso era sem expressão. — Olá. Estas palavras estavam mais de acordo com ele. com uma cabeleira cor de avelã que cai em ondas sobre suas costas. teve que pelejar com as malas. graciosa. Nenhuma mulher conquistaria Lucas. a primeira troca de palavras foi o mais difícil. gata. deixando sua expressão indecifrável. em seguida. As rugas do rosto eram mais profundas do que as que ela se lembrava. — Após ter empregado uma força sobre-humana para empurrar as malas para dentro do quarto. não. Autumn virou-se e encarou-o. sublinhando feições que não poderiam ser chamadas de bonitas. Oh. antes que as juntasse de novo. enfrentando seu olhar. Quase conseguiu convencer-se de que seu mau humor era resultado da dor que sentia da batida. em quase dois anos. — Você parece não ter mudado nem um dia— disse. Necessitava fazer a barba. com uma graça negligente. ficando só de lingerie e meias. Fiz uma longa viagem e estou precisando de um banho. Ele não mudara nada. surpreendentemente real e física. o primeiro encontro. uma cortina baixou sobre o rosto de Lucas. Autumn descansou recostandose contra a porta. moveu-se com ele enquanto aproximava-se de Autumn e estudava seu rosto. tomar um banho e escolher um vestido para o jantar. E tinha sobrevivido. Com toda certeza. E fechou-lhe a porta firme e definitivamente. — Precisa me desculpar. sentir. com toques rosados pouco abaixo da superfície. inquisitivamente. enquanto segurava mechas de seus cabelos e mergulhava os olhos nos dela. Durante o pequeno trajeto pelas escadas. quando tinha 12 anos. que parece um pouco estranho ao lado dos molares altos e elegantes. — E um nariz pequeno. Ele movia-se de uma maneira elegante. — Estou tendo problemas com um dos meus personagens— disse ele suavemente. os movimentos de Autumn tornaram-se bruscos. — Vou mandar-lhe um exemplar quando estiver pronto. Eu não tenho mais 12 anos. mais natural do que estudada. Lembrava-lhe a dor que sentira quando seu irmão batera com o taco de beisebol em seu estômago. O sucesso tornou-a mais confiante. Soube que estava aqui. Tinha que desfazer as malas. mas. Tentando controlar-se. — E você — disse. Lucas McLean. de um tom verde quase âmbar. iguais aos de um gato.

— Não se faça passar por boba. mas fiz outros planos. — Não se preocupe. fora selvagem. Por que precisaria de palavras? Quando o fim chegou. Seus telefonemas às três horas da manhã eram aguardados como um tesouro. Não quero magoá-la mais do que o necessário. — Outros planos? — ecoou ela. o que lhe causara certa surpresa. Como Julia dissera. ou tão frios. como um cão que espera que a coleira seja colocada novamente. quanto os de Lucas McLean. com vinho em copos de papel e a entrega de seus corpos que era ao mesmo tempo intensa e consumidora. Ainda estava muito longe de compreender. Autumn. — A voz calma e firme era mais assustadora do que a raiva dele. Jamais lhe passou pela cabeça que ele pudesse estar entediado. só que agora possuía uma vivência mais sofisticada. brutal. Era costume ela preparar o jantar na casa dele às quartasfeiras. hoje é quarta-feira. lembrando-se de que era a hora do jantar. egoísta e temperamental. Tinha ficado encantada por ele. Autumn Gallegher não era mais a tola de ninguém. Sentiu então as lágrimas da compreensão formando-se em seus olhos. — Não torne as coisas difíceis. ao saber que ele estava interessado nela. Autumn flutuara em uma nuvem de encantamento e admiração. tão rotineira que. atraente. — Quando uma coisa termina. tão excitante quanto à primeira. Sacudiu os cabelos satisfeita com a lembrança de sua recepção a ele. Desculpe.NORA ROBERTS Tinha estado tão apaixonada! Seu encontro havia sido tão comum. Afastou o pensamento com um sacudir de ombros. Depois do primeiro choque. Disse a si mesma que não tinha necessidade delas — que as palavras não eram importantes. — Outros irão querer você. o que está fazendo aqui? — Aquelas palavras inesperadas foram ditas tão despreocupadamente que ela simplesmente ficou pasma. o que a impedia de ver a expressão dele. só conseguiu pensar que ele decidira acrescentar uma atmosfera mais formal a seu jantar romântico. Suas lágrimas o deixaram furioso. gata. — Atravessou a sala e olhou em seus olhos. Despencara na cama dele como um pêssego maduro. foi repentino — e muito doloroso. E tia Tabby dissera para ela não se atrasar. — Pare com isso! Não tenho tempo para lidar com choros. — Oi. Conheceu o escritor de romances de mistério Lucas McLean e o resultado foram seis meses de uma felicidade incrível seguida por uma mágoa indescritível. E ela ficou parada no lugar. Seu pensamento saltou para a estranha distribuição dos hóspedes de sua tia. Só tente entender. Houve inesperadas caixas com rosas. chorando sem emitir um som. Lembrou-se que ele nunca dissera as palavras que desejara ouvir. quando entrou na sala de estar e encontrou-o todo vestido de terno. ele afastou-se para acender um cigarro. Sua visão estava nublada pelas lágrimas. Desculpe. Sabia agora que não havia mais ninguém como ele. — Esqueci por completo. e sacudiu a cabeça para lutar contra elas e contra a aceitação. E foi preciso mais do que um ano para que ele deixasse de ser a primeira coisa em que pensava todas as manhãs ao acordar. como se estivesse dizendo que tinha esquecido a hora marcada com o dentista. Nunca havia conhecido ninguém parecido. Autumn atribuiu a distração e o aborrecimento dele ao livro no qual estava trabalhando. mas vou partir. Não. não é? — Havia um ligeiro aborrecimento em seu tom. a gente esquece e segue em frente. ele ficou em silêncio. continuava a ser a mesma pessoa que havia se apaixonado por Lucas. Ela estremeceu. Agitado. Os olhos de mais ninguém podiam ser tão calorosos. — É a vida. PERIGO — Partir? — Vou sair. gata — respondeu com voz displicente. "E vou continuar sobrevivendo. Pelo menos." Sabia que. 97 . Aceite tudo como experiência. basicamente. A última vez em que estivera em seus braços. Era brilhante. dando de ombros. sua arrogância era irresistível. Pôs um vestido verde brilhante. Sua inocência tinha desaparecido e seria preciso mais do que um Lucas McLean para fazê-la de boba novamente. Só Deus sabe como você precisa disso. em vez de em algum resort sofisticado e exclusivo. Era único. — Deveria ter telefonado para você. para poupar-lhe a viagem. gata. Autumn. que ela valorizava acima de todas as outras. — Ah. Sua chegada foi tão natural para ela. Era sempre uma noite agradável e particular. — E virou-se. Ela virou-se e saiu correndo. entregando sua inocência com a liberdade que surge juntamente com o amor cego e confiante. Mas tinha sobrevivido. lembrou-se. piqueniques de surpresa na praia. Perguntou-se por que os ricos e famosos estariam se reunindo ali. — Você não me quer mais? — Ela ficou parada humildemente. Por um momento. a raiva era uma emoção. E amor.

Ele estudou-a com ar ao mesmo tempo divertido e furioso. Autumn — começou Steve com um sorriso. deixando à mostra três rugas de preocupação na testa. não conseguia sentir desaprovação por Julia — ninguém pode desaprovar uma flor por atrair abelhas. um produtor. mas era gritante no vestíbulo modestamente mobiliado. — Encantado. O que você acha. enquanto corria um dedo pela gola de seu vestido. com frieza. O pequeno sorriso que dirigiu a Autumn durou aproximadamente uns dois segundos. Steve Anderson era encantador. Seu rosto estava maquiado à perfeição. — Ela é fotógrafa. Como fotógrafa. — Estou representando o bartender na ausência de George. possessivamente. — Eu cresci. — Ah. Ela gostou do bigode estreito sobre os lábios e do jeito com que ele levantou sua mão para beijá-la quando foram apresentados. — Já preveni Autumn sobre você — retrucou Julia. vocês já se conheciam — interrompeu Jacques. Vestia caqui com elegância e. Em contrapartida. Usava um cardigã que. o que fazia Autumn lembrar-se de uma máscara. Autumn evitou-a. Capítulo 2 Era bastante estranho encontrar enclausurados no vestíbulo de um hotelzinho remoto da Virgínia um escritor premiado. Autumn sentiu pouca simpatia por Jane e. com aplicações de couro marrom nos cotovelos. que parecia estar se divertindo com a cena. Robert Spicer era realmente bonito. Autumn desistiu da idéia de ignorá-lo. — Sua memória melhorou — disse. Lançava olhares ameaçadores para o marido.NORA ROBERTS PERIGO simplicidade. O que vai querer beber? — Vodca Coilins. — Estou vendo. chérie?. A atração que Julia exercia era natural e ao mesmo tempo irresistível. um rico negociante californiano. — O seu guarda-roupa também — disse ele. Sua esposa. Laurent. — Ela é encantadora e tem uma linda voz. Antes de conseguir fazer uma idéia completa do que se passava. Aproximava-se dos 50 e esbanjava saúde. em um tom de verde. — Ah. — Muito bem. conhecia os truques e segredos dos cosméticos. Jane. não pôde deixar de divertir-se com a exatidão da descrição que Julia fizera de todos. O Dr. O vermelho de seu vestido ficava-lhe muito bem. tomou conta dela e começou a fazer as apresentações. Apesar do embaraço que Autumn sentia ao ser atirada no centro dos holofotes. sim. Autumn sabia que usaria black-tie com a mesma 98 . Helen Easterman estava atraente com um modelito funcional e com estilo. pelo seu aspecto. Se escolhesse seguir a carreira política. — O olhar dela continuava tão firme e calculista quanto o dele. — Dirigiu-se a Julia. passou o dedo indicador sobre o bigode. São velhos amigos? — Velhos amigos? — repetiu Lucas antes que Autumn pudesse falar. Observando-os. conseguiria vencer com facilidade. um cirurgião vascular famoso e sua mulher. Era mais baixo do que tinha imaginado. Autumn encontrouse rodeada por eles. oui. Os traços eram fortes e usava os cabelos castanhos penteados para trás. Obviamente. enquanto este dava a Julia toda a atenção. Julia não fizera qualquer descrição de Jacques LeFarre. Julia — disse Jacques delicadamente —. — Você diria que é uma descrição apropriada. pensou. mas possuía um porte imponente. ao mesmo tempo. — Ah. gata? — Gata? — Jacques franziu o cenho por um momento.— Mas que fascinante. como Julia descrevera. como você é malvada. — Ainda me lembro quando só usava jeans e suéteres velhas. uma atriz. Sabendo que os olhos dele estavam o tempo todo sobre ela. com ar californiano. era nitidamente caríssimo. — Combina. dirigindo em seguida seu glorioso sorriso para Robert Spicer. com pouca vodca — respondeu Lucas. Autumn deu graças a Deus quando Steve voltou com sua bebida. Julia apreciava o papel que representava e a posição central que ele lhe dava naquele palco. antes que seu rosto mostrasse novamente rugas de insatisfação. apesar da aparência informal. quase de sua altura. — Autumn trabalha do outro lado da câmera— declarou Lucas. Bonito. também era como Julia descrevera: infelizmente chata. Autumn gostou das ruguinhas nos cantos dos olhos e da elegância natural. O que Autumn sabia sobre ele procedia principalmente de revistas de cinema ou de seus filmes. Julia. Instintivamente. uma professora de arte que usava Yves St.

Seu encanto e beleza eram insaciáveis. — Talvez porque sejamos uma mistura de nacionalidades. não ficaria em silêncio. Mensagens eram passadas sem palavras. — Julia — disse para Autumn. Agiria. A mulher é um daqueles tipos robustos. Os esplêndidos olhos azuis giraram nas órbitas. LeFarre? PERIGO — Chame-me de Jacques. Fazem tudo em triplo.. Sem nos misturarmos. Autumn dirigiu sua atenção a Jacques. Seu sorriso desta vez foi mais jovem. quando levantou os olhos viu que os de Lucas estavam pregados nela.. — Vivem correndo como se fossem um bando de macacos.. Trigêmeos. há algum tempo.. quando Julia juntou-se a Robert Spicer em uma conversa animada. Devem ter uns 11 anos. Sentada entre Jacques e Steve. na opinião de Autumn. aventureiros do que os europeus. — Correr e comer fazem parte da infância — comentou Jacques. Helen sorriu dentro daquele silêncio e tomou um gole da bebida. — Seus olhos agora riam 99 . eu diria que me sinto americanizado na Califórnia. — Sua reação a Steve e a necessidade de provar alguma coisa para si mesma fizeram com que olhasse para Lucas. Se notara o olhar entre os dois. — Qualquer pessoa educada nasceu com 21 anos — respondeu Julia. Seus olhos passaram por todos os outros. As habituais rugas da testa de Jane Spicer tornaram-se mais pronunciadas. E ela precisa disso — acrescentou ele com um sorriso dirigido somente a Autumn. Sim. pensou Autumn enquanto se indagava qual seria sua reação se visse o marido tão encantado. — Americanizados.NORA ROBERTS — Mais uma vez estou fascinado. Apesar de gostar da idéia. para um artista. menos urbano. Levantou a mão e ajeitou os cabelos escuros e rígidos de fixador. Autumn percebeu que os olhos dele passeavam por seus cabelos. nunca se sabe qual deles está chegando ou saltando em cima da gente. Pior ainda. — E eu não diria que Los Angeles ou o sul da Califórnia sejam particularmente típicos. aquelas crianças terríveis! — Julia desviou sua atenção de Robert e olhou para o outro lado da mesa. Autumn? — Já morei lá. Jane comia em um silêncio constrangido. Suas sobrancelhas erguiam-se num ângulo que ela sabia significar que ele estava se divertindo. — Jacques repetiu a palavra e aprovou-a. — Diga: por que fica atrás de uma câmera quando deveria estar na frente dela? No mínimo. e Autumn sorriu olhando diretamente para ele. com energia brotando de cada célula. Isso provava que ela ainda era uma mulher.. — Um fotógrafo bom. não o demonstrou. Só americanizados. — Ser linda simplesmente foi um bônus. — Já esteve na Califórnia. — Ah. Nenhuma mulher era imune à galanteria com sotaque francês. — Existe uma família inteira aqui de Nova York— continuou Steve. é um instrumento valioso. — Existem diferenças. Que mulher estranha. — Os fotógrafos podem ser muito úteis — declarou Helen Easterman repentinamente. Autumn elevou os ombros e sorriu. — Mesmo assim a Califórnia é somente um aspecto do país — acrescentou Steve. seus cabelos fariam os poetas correr atrás de suas canetas. Simplesmente arrancaria seus olhos. — Seu sorriso elevou as pontas dos bigodes. Seu interesse provocou uma pequena reação que a agradou. Autumn pensou novamente. um ótimo político. Aquele ar pesado mudou repentinamente. — Duvido que eu conseguisse ficar parada na frente dela por muito tempo. — Sim. Uma pausa desagradável acompanhou essa declaração. Seus olhos encontraram-se e permaneceram ligados durante um breve instante. O clima mais leve permaneceu quando foram jantar. — Chegaram esta manhã. — Mudei-me para Nova York faz três anos. Apesar do desconforto que sentia ao ver que Lucas correspondia casualmente ao flerte.— Ela tem três meninos. Sr. separando-a dos outros. aberta para os homens. Mas a imagem da desajeitada Jane lutando com a elegante Julia fez com que sorrisse. Autumn continuou observando enquanto Julia flertava simultaneamente com Lucas e Robert. — A mão livre de Autumn foi capturada pela de Jacques. Autumn sabia que havia alguma coisa ali que isolava Helen. Eu diria que os americanos são mais. que Autumn pensou ter sido sua imaginação.. naquele salão confortável com suas cortinas de chintz. piscando um olho — nasceu com 21 anos e linda. sim. — Acha que existem muitas diferenças na indústria cinematográfica aqui nos Estados Unidos. teve de admirar o talento de Julia. sacudindo a cabeça. A tensão entrou tão fora de lugar. Era magnífica. — E comem como elefantes. — Estremeceu e levantou o copo com água. apesar de Autumn não conseguir distinguir quem comunicava o que para quem. e não só para um único homem. eficiente. sem deter-se em nenhum deles.

descobria seus segredos. mas. Lucas? — E olhou-o diretamente nos olhos. os olhos de Autumn buscaram os de Lucas. Helen dirigiu sua atenção a Autumn. em seguida. Era impossível não senti-las. oito e nove anos. sabendo que tinha perdido o controle. Autumn entendeu então como as linhas em sua testa tinham se formado. formou degraus imaginários. — Sua tia serve refeições deliciosas. recuperando-se rapidamente — estávamos muito ocupados para discutir nossas árvores genealógicas. Mesmo sem precisar do olho de um fotógrafo para cores. qualquer informação não adequada venha à luz. quase imperceptível.. parecia estar satisfeito com a conversa com Julia e Jacques. Só fingi ser por algum tempo. além da máscara indecifrável que tantas vezes vira no passado. A tensão voltou a imperar. seria de uma camaradagem relaxada. buscava seus personagens em carne e osso. Autumn virou-se para ele. — Isso foi há muito tempo. Estavam sentados a seu lado no sofá e conversavam com aquela facilidade que vem da familiaridade. no qual Julia representava uma mulher ingênua com perfeição. O olhar que enviou a Jacques parecia varrer todos os outros em seu campo de visão. gata? — Esqueci — murmurou. Mas não era só ele.— E. Sempre ligada nos contrastes. Escritor obsessivo. A cena. — Apesar de suspeitar de sua sanidade mental. — São em escadinha. Jacques quer ter a guarda dos três monstrinhos. Bebia água. Sem a menor piedade. 100 . E enquanto observava-as. — E enviou-lhe um sorriso que quase derrubou suas defesas. Jogos de fazde-conta eram para crianças. simplesmente era algo que ele conseguia fazer. Autumn percebeu que o afeto transcendia o flerte. Agora. — O olhar de Julia era mais tolerante que as palavras. apesar de não haver nada tangível. De alguma forma. podia perceber. Nunca pensara em Jacques LeFarre em termos que não fossem seu trabalho. — Sobre o que conversávamos naquela época.. tia Tabby entrou na sala com sua torta maravilhosa. Só fingi que ele era meu por algum tempo. Nesse momento. — Jacques é louco por crianças — informou a Autumn. — Sete. Estava certa quando disse a Lucas que tinha crescido. — Que tipos de espécimes você tem? — Meninos — respondeu. E teve quase certeza de que Jane usava sempre essa cor. Lucas esparramou-se no sofá. O ar instantaneamente ficou mais leve. nada sólido. — É muito importante que. — Também sou louca por crianças — confessou. minha ex-mulher. quando se recostou na cadeira e observou. com as mãos. Gallegher. antes mesmo de conseguir mantê-lo. Srta. Havia música no estéreo e um fogo brando crepitava na lareira. — Tia Tabby? — A gargalhada gostosa de Julia enfrentou a tensão e venceu-a. sentir. O carinho que surgiu em seus olhos deixou Autumn fascinada. Steve e Robert jogavam xadrez enquanto Jane via uma revista com seu ar descontente de sempre. o que a deixou muito feliz. Interessada. Mas não conseguiu ver nada. Mesmo assim. — A voz de Autumn saiu clara e descuidada. se Autumn a tivesse capturado em um filme. voltou ao estado normal. sou obrigada a admitir que você é melhor pai do que Claudette é mãe. Quase tanto quanto o franzir do sobrecenho de Lucas.. pertenciam ao mesmo mundo. Jacques. que havia uma energia percorrendo seu corpo pouco abaixo da superfície. As correntes de mal-estar pareciam percorrer a longa mesa de pinho de um lado a outro. quando voltaram ao salão.NORA ROBERTS francamente. — Tia Tabby dá muita importância à comida. pensou. — Franziu a testa por um momento. Autumn sabia que ele observava as pessoas sem ser óbvio — não que ele se importasse que ficassem desconcertados. Eles não estão me deixando conhecer as regras. — Realmente — replicou ele.. Autumn sabia que aquela mulher jamais deveria usar marrom. — É — respondeu Autumn naquele silêncio horrível. O pulso de Autumn disparou. Autumn recordou-se. Autumn lembrou-se. Autumn sentiu que o francês enrijeceu a seu lado. lançando um sorriso para Julia. PERIGO — Lucas e eu não nos conhecíamos o suficiente para discutir parentes. Naquele momento. — As ações de guarda são muito delicadas— anunciou Helen da ponta da mesa. Moram na França com minha mulher. — Ele mesmo tem três espécimes. Autumn lembrou-se imediatamente de um filme. ele sempre conseguia relaxar de modo negligente sem parecer desleixado. — Mas que nome maravilhoso! Você sabia que Autumn tinha uma tia Tabby quando a batizou de gata. não ligava a mínima —. — Na verdade. Havia um certo desconforto imposto naquele quadro doméstico. Mas esse não é o meu mundo. Instintivamente. podia-se sempre perceber que estava alerta. Autumn pensou que havia algum jogo acontecendo ali. — Com um sorrisinho satisfeito e enigmático. lançando olhares agudos por cima da borda do copo.

— Não. saiu rapidamente do quarto. — Onde estão meus óculos? — tia Tabby murmurou. tia Tabby? — Ora.NORA ROBERTS e sentiu-se agradecida. seria? Em um tom brincalhão. não seria uma surpresa se eu lhe dissesse. Aquela porta. daquele seu jeito vago. ora. Tinha esquecido que estava aqui. que bobagem minha. fez um carinho na mão de Autumn. — Estalou a língua. — Oh. O sorriso de Autumn cresceu ainda mais. — Pronto. segundo Autumn se lembrava. Cada detalhe. pensativa. você já a conhecia? — tia Tabby perguntou de modo distraído.— Estavam aí o tempo todo. percebia que se evaporava no momento em que entrou no quarto da tia. Autumn levantou os óculos que pendiam sobre o busto de sua tia e recolocou-os em seu nariz. resultado do comprimento e da agilidade de suas pernas. — Você ainda não viu? — E apertou sua boquinha. erguendo sua sobrancelha ao máximo. E você está aqui. abriu-a. parando de vez em quando para examinar as garrafas de fluido revelador. Você e a Srta. Qualquer que fosse a tensão sentida por ela. até há pouco. — Debbie sempre foi tão inteligente. Não havia ninguém. Autumn ficou atônita. Era um ótimo local para produtos de limpeza. há muito tempo abandonada e convertida em um quarto de despejo. — Vou fazer uma vez por semana enquanto você estiver conosco. querida? — Estava delicioso. — Mostrar o quê. — Acho que vou mostrar para você agora. — Não é estranho?— comentou. enquanto ainda estou me lembrando. estava um quarto escuro completamente equipado para revelação de filmes. — Espero que goste da surpresa. E os pensamentos de Autumn voavam irresistivelmente para Lucas. Teve que diminuir o passo para acompanhar o da tia. Bond conversaram bastante? É uma moça encantadora. — Fez um carinho no rosto de Autumn e depois afastou-se. — Sorrindo. pinças e bandejas. Gostou do bife à caçarola. Quando as luzes foram acesas. Autumn pensou. Onde esperava encontrar esfregões. — Estava lendo uma carta de sua mãe. — Tia Tabby tirou os óculos e deixou que pendessem de uma corrente que trazia no pescoço. revirando papéis e olhando sob os livros. Desculpando-se com ninguém em particular. Enquanto caminhavam. tia Tabby sorriu. Autumn sorriu e pensou em como gostava de espaguete. Autumn lembrou-se de que as famosas anotações de tia Tabby possuíam a capacidade de desaparecer em outra dimensão. Não queria mesmo jogar. — Minha surpresa está aí dentro. — Bem — disse tia Tabby com os olhos brilhando —. — Nunca estão onde eu os deixo. Depois de piscar por um instante. — É. enquanto a tia movia-se ritmicamente. Autumn escapuliu da sala para ir ver a tia. absolutamente ninguém como tia Tabby. o que a fez sentir-se aliviada. já que ficava ao lado da cozinha. Eu sempre a admirei. colocando em sua ordem peculiar. Na certa Paul tem que comer espaguete quando vem aqui. pensou. colocou o dedo sob o nariz da sobrinha— Seja paciente e venha comigo. Com essa lógica indiscutível. — O que você achou? — tia Tabby perguntou. Ela diz que quando eu a estivesse lendo. — Tia Tabby. Autumn geralmente movia-se com passos largos. — Vou anotar isso. pensou. tia Tabby murmurava sobre a roupa de cama. Sentiu que sua voz tinha ficado do lado de fora da porta. encontrava-se arrumado e em ordem à sua frente. Você é tão inteligente quanto sua mãe. tia Tabby. — Dizendo isso. que corre para a estrada e depois não consegue decidir para que lado quer ir. Como um coelho. se não esqueço completamente. deduzindo que ainda estariam discutindo a surpresa. Percorreu lentamente todo o aposento. deixando o perfume de lavanda no ar. acho que sim. é claro. Autumn tentava acompanhar os processos do pensamento da tia. tia Tabby? — Sim. mas já fazia um ano desde a última visita e estava enferrujada. estou certa de que ainda não lhe mostrei. eu te adoro! — Você sempre foi uma criança tão meiga. Levantou-se e foi procurar na escrivaninha. Acho que trabalha no mundo artístico. Autumn. cada peça que seria usada. vassouras e baldes. Autumn não resistiu e deu-lhe um abraço de estalar os ossos. chegamos. sorrindo em alegre expectativa para a porta. obrigada. Autumn percebeu que a surpresa deveria estar ali dentro. Autumn seguiu-a. dava para uma sala de espera.— E você não vai saber até abrir a porta. então não pode saber se vai gostar. — Tudo parece tão técnico e científico 101 . PERIGO — Oh. enquanto embaralhava as coisas da escrivaninha. você estaria aqui. — E tia Tabby parou. — Tenho certeza de que vou gostar. o que você acha? Procurando o comentário adequado.

sua própria agitação. Ali. bem. Teria que se agarrar a esse pensamento agora. tia Tabby saiu apressada do quarto. — Parou de falar. A lua estava redonda e branca. pensando se deveria parar um instante para dizer boa noite. — A observação fez com que franzisse a testa e sacudisse a cabeça. — Prefiro ver você desfrutando meu dinheiro agora do que depois que eu estiver morta. Já tivera sua quota de sonhos há três anos. e olhou para os líquidos químicos e bandejas novamente. — Não consigo compreender nada disso. no fundo de sua alma. possivelmente estaria perdendo a paciência com o desconhecimento artístico de Lucas. A estranha sensação que sentira tantas vezes naquela noite tinha voltado. mas ao atravessá-lo Autumn ouviu vozes sussurrando. tia Tabby. que começara como um hobby quando ainda era criança. Autumn pensou.. As palavras que não conseguia distinguir eram rápidas e passionais. — Oh. — Espero que se divirta aqui. Autumn garantiu-lhe que isso não aconteceria. desejou. Satisfeita. Autumn não conteve um sorriso. Não era mais uma menina de olhos deslumbrados. — As bochechas de tia Tabby ficaram rosadas de satisfação quando Autumn beijou-as. um arrepio percorreu-lhe o corpo. — Encolheu os ombros roliços. mas em francês elegante. ou com uma câmera nas mãos. Nem mesmo Lucas McLean poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo. por motivos exclusivamente maldosos. há alguma coisa errada? Nelson me disse que você mesma revelava seus filmes e a empresa que trouxe todas estas coisas me garantiu que estava tudo correto. Subindo as escadas. depois de ter arrumado a sala escura a seu modo. Havia raiva nas vozes apressadas e assexuadas. com uma reputação crescente em seu meio. Jamais poderia voltar ao passado. Hesitou por um momento. — Não deveria ter feito isto. Mas é claro que. — Nunca tive uma surpresa tão maravilhosa. definitivamente. é só isso? — tia Tabby interrompeu e o desapontamento desapareceu como por encanto enquanto percorria novamente a sala. a agitação. E. Despejando o resto do chá na pia... Decidiu então que era apenas isto que estava errado. qual o gosto de sua boca. e a despesa. Um xingamento saiu em tom mais elevado. tornou-se seu prazer e sua profissão As químicas e equipamentos complicados não eram estranhos para ela. não foi trabalho algum. Lucas estava atado a Julia Bond em um abraço apertado. Imaginação? Autumn conhecia-se o suficiente para saber que poderia ser isso. Passou rapidamente. deixando os cantos nas sombras. O luar penetrava na sala. Descobrir que Lucas estava no hotel mexera com seus sentidos e suas emoções vieram à tona. Autumn dirigiu-se para a cozinha a fim de preparar para si mesma uma solitária xícara de chá. rápido e assustador. para não ouvir a discussão particular.. ele estava ali. E. Jacques.NORA ROBERTS para mim. Era uma profissional. A tensão que sentira antes era sua própria tensão.. Todo esse trabalho. ordenou-se com firmeza. decidiu que o que necessitava era de uma boa noite de sono. Durante mais de uma hora Autumn ficou absorvida naquilo que conhecia tão bem.. — Ah.. E sem sonhos. — Ora. Sabendo não se tratar de brincadeira e que a tia estava realmente preocupada com explosões naquele seu modo vago. Mas foi somente quando se achava no meio do corredor que levava a seu quarto que Autumn percebeu estar errada. concluiu. Inesperadamente. Mas aquilo era diferente. — Suponho que você não vai explodir nada aqui. — Envolveu aquele corpinho macio em seus braços. — Eu não entendo mesmo nada disso. Na fotografia ela aprendera a controlar-se — o mesmo controle que sabia que precisava empregar sobre seus pensamentos acerca PERIGO de Lucas. sabia exatamente quem era e o que queria. — Finalmente a voz de Autumn voltou a pertencer a seu corpo. Na porta de outro quarto. Alegremente cansada. Obrigada. — Tia Tabby. Aqueles homens muito delicados vieram e fizeram o trabalho todo. que o francês estivesse lhe dando uma lição. Agora a casa estava quieta. Sua tia de repente parecia tão triste que Autumn quase chorou de amor por ela. pronta para seguir o estalar de um dedo. Às vezes. deixando que Autumn o explorasse à vontade. como se nem um ano tivesse se 102 . — Minha querida. Fazia parte de sua arte. Quanto à despesa. tia Tabby. — Quis dizer que você não deveria ter feito tudo isso para mim. Franziu a testa. Lembrava-se de tudo. mas então detectou que não se tratava de uma conversa. aquele cerebrozinho confuso conseguia pensar nas coisas mais brilhantes.. em dúvida. em um quarto escuro. O vestíbulo estava vazio. Autumn sabia como eram seus braços. com um fiapo de nuvem sobre ela. e sim de uma discussão. como tivera de fazer há três anos. — Não. completamente. A fotografia. bastante nervoso. está perfeito. está maravilhoso. — Autumn segurou o rosto da tia entre as mãos.

Suavemente. Quem poderia estar seguindo-a? E por quê? Mas a sensação persistia. o céu estava cheio de fiapos de nuvens brancas. O sol continuou a subir. mesmo que estivesse interessada. sua mente totalmente ocupada com ângulos e profundidades de campo e da velocidade que deveria usar. Ela sentia o cheiro da primavera. mas não solitária. às vezes forte. As folhagens ainda não estavam suficientemente desenvolvidas para interferir com o sol. — Olá. Só parava para trocar o filme. e ela o preenchia com gente. marchando imponente sobre o solo. percebeu que o lago agora estava deserto. com barulho — qualquer coisa que 103 . A distância era grande demais para que ela visse quem seriam. Por um momento. Os reflexos das montanhas e das árvores que o cercavam espelhavam-se na água. Para provar a si mesma que suas fantasias não a tinham afetado. mas quando se aproximou mais. Infantilmente. Autumn divisou duas figuras do lado oposto. obrigou-se a parar e levar um tempo para tirar uma foto perfeita de um esquilo cooperativo. Autumn forçou-se a afastar um desejo impulsivo de sair correndo para o hotel. pensando em ogros e gnomos. mas quando sua câmera insistiu em colocar-se diante de seu rosto tantas vezes. Ela viu o primeiro tordo. avisando da profundidade perigosa. A água opaca gradativamente escurecia quando se aproximava do centro. Usava o ritmo da cidade. A luz já não mais servia para o que ela queria. feliz na solidão e em sintonia com a natureza. Não precisava preocupar-se em não ser vista. Continuou caminhando. a todo vapor. que estava com as mãos confortavelmente enfiadas nos bolsos dos jeans e continuava parado diretamente na frente dela. Os esquilos subiam e desciam das árvores e mergulhavam nas folhas caídas do ano anterior. curvava os galhos e agitava os cabelos de Autumn. Um ruído fraco de folhas secas veio de trás dela e Autumn levantou-se de um salto. Não havia nenhum veado. Do lado leste. PERIGO mantivesse sua mente ocupada. aterrorizada. as águas do lago murmurejavam. olhou por cima do ombro. a cor foi mudando para rosa até chegar ao azul. esperando encontrar um veado tomando seu banho matinal. Tanto Lucas quanto Julia estavam concentrados um no outro completamente. percebeu o quanto precisava sentir-se sozinha para recarregar-se. a calma da floresta parecia diferente. E que os dedos não seriam gentis. não existiam carinhos gentis para Lucas. Autumn pretendera caminhar até o lago. Mas não era criança para sair correndo. precisava da paz das montanhas.NORA ROBERTS passado para amortecer as sensações. Sabia como aquela mão subiria pelas costas para chegar ao pescoço. filtrando-se através das nuvens brancas e iluminando a floresta. Autumn esqueceu-se das pessoas que vira andando em torno do lago. Não. Autumn olhava fixamente para Lucas. Autumn nunca se permitira um tempo sozinha. à procura de minhocas. Desta vez. A brisa. ela não resistiu. ela não conseguiu falar. com trabalho. Existia um vácuo a ser preenchido. O lago estendia-se como um braço de uns 100 metros de comprimento por uns 13 de largura. depois disse a si mesma que era uma boba. odienta. O sol estava mais brilhante. às vezes. Sendo otimista. com sua cor púrpura dramática contra o musgo. A brisa que acariciava os cabelos de Autumn não atingia a água. e Autumn sentiu-se contente. Contornos vermelhos ainda coroavam os picos das montanhas. Capítulo 3 A floresta estava fresca pela manhã. Autumn preferiu acreditar nelas e ignorar o céu escuro e ameaçador que se encontrava a oeste. abrigada pelas montanhas e árvores. Agora. Autumn tinha certeza de que o teto poderia cair sobre eles que continuariam parados e entrelaçados. Desde que deixara a Califórnia e Lucas. mas ela sentiu uma inquietude estranha que não sentira na luz mais fraca do amanhecer. Aquilo tinha sido necessário. A serenidade tinha se evaporado. gata. A cidade invadia sua privacidade. ela nunca se sentia só — sozinha. O medo tinha sido agudo e real. continua ligada numa câmera? O sangue latejava em sua cabeça. O penhasco onde se encontrava ficava a uns 16 metros acima do pequeno vale onde havia o lago. A vista era espetacular. então começou lentamente a voltar para o hotel. Quando substituía o rolo. Em Nova York. sua superfície era clara e parada. Violetas selvagens surgiam inesperadamente. A dor voltou. À distância. onde havia gente e cheiro de café fresco. apenas tocando os altos das árvores com pontos verdes. A luz estava boa. Passou rapidamente pelos dois e deu vazão ao ciúme doentio e indesejado batendo violentamente sua porta. Agora. invertidos e esfumaçados. Transmitia uma tranqüilidade cheia de odores e de canto dos pássaros.

não mais. — Nunca vi outra mulher que tivesse cabelos como os seus. finalmente. ou a textura. Houve um tempo em que ela praticamente derretia-se quando ele falava daquele jeito. Foi a moça quem tomou a iniciativa. — É muito aborrecido quando alguém estraga uma foto. Era fantástica. enquanto rezava para ele ir embora. Não daria prazer a Lucas. Repentinamente ele segurou-lhe os cabelos entre as mãos. — Eu deixo você nervosa? Os cabelos escuros encaracolavam-se confusamente em torno do rosto liso. só Deus sabe. Não desta vez. Não precisa ter ciúme. Nunca mais vire as costas para mim. 104 . Autumn agora tinha amor-próprio e recusou-se a afastar-se. — É isso. — Você sempre teve um dom para a descrição. — Estou vendo que. não eu. — Virou-se novamente de costas para ele para focalizar um grupo de árvores. — Chego acreditar que você poderia afastar com um tapa um rinoceronte que a estivesse atacando e não se mover nem um centímetro até conseguir uma foto perfeita. então. ela pensou amargamente. — Não seja tão convencido — devolveu. profunda e brilhantemente espalhada sobre um travesseiro. — Ele é único. não use esse tom comigo. E em um movimento rápido virou-a de frente para ele e retirou-lhe a câmera das mãos. — Você está um pouco agitada. Autumn virou-se e encarou-o. — Não estou com pressa — respondeu ele calmamente. uma dor aguda na boca do estômago. — Ainda está tendo problemas com seu livro? — Mais do que esperava — murmurou. deixando que os olhos percorressem o comprimento dos cabelos. Em vez disso. enquanto a boca curvava-se em um sorriso. Não gostou de descobrir que a opinião dele ainda importava para ela. Ele escolhera as palavras perfeitamente. — Vi aquela foto que você tirou de um prédio incendiado em Nova York. A dor voltou. e zangada por ter sido assustada logo por ele. Porém. — Obrigada. O gelo em sua voz teria desencorajado qualquer outro. Forte bem-feita e desesperada. que saiu furiosa. bem-feita e desesperada. você descobriu o temperamento que combina com seus cabelos — observou ele com a voz lânguida. Ela sabia que Lucas não era generoso com elogios. tentando não pensar nisso. Ainda lembrava-se da sensação da areia sob suas pernas. Autumn pensou. E como procurei. Satisfeita com o cumprimento. — O sorriso era leve e divertido. ele segurou seus cabelos com mais força. Estava aborrecida por ter sido tola o suficiente para se assustar. — Sempre gostei de vê-la trabalhar. Lucas. É fascinante observar como você fica concentrada. Sua voz estava distante. Lucas. Jogou os cabelos para trás e encarou-o. confessando seu medo. Forte. — Por que não guarda sua atenção para Julia? Eu não a quero mais. Uma cascata de fogo ao sol. Desenvolveu um amor pela natureza? — Sempre gostei da natureza. ligeiramente entediada. — Era você.— PERIGO Houve uma ligeira pausa enquanto ela permanecia afastada dele. como tendo sido causada pela interferência em seu trabalho. quando conseguiu recuperar a voz. — Droga. mas ele apressou-se para manter o passo ao lado dela. — E continuou ajustando a lente. gata. Sua resposta foi um dar de ombros meio ausente.— A voz dele possuía um timbre sedutor. sem a menor idéia do que estava fazendo. — Nunca pude resistir a eles. pensou rapidamente. gata. Parando. mas fechou os olhos com força por um momento. numa mudança repentina. — Sempre gostei de fazer piqueniques. — O próprio demônio poderia tomar aulas de sorriso maligno com Lucas McLean. pensou. mas o tom é sempre errado. — Não me lembrava de que gostasse de caminhar de manhã.— Sacudiu a cabeça. Não vire as costas para mim. E era exatamente essa confiança. tirou uma foto de um pássaro azul.NORA ROBERTS — O que pretende. — Observou-lhe as costas. — Ainda não estou voltando para casa — informou-lhe. Em seguida. — Não aceito mais levar broncas atualmente. Esforçou-se para manter o olhar firme no dele. e os olhos eram escuros e confiantes. atravessou a pequena distância que os separava e ficou mais próximo. — Deixei de gostar de piqueniques. não é? Ela continuou a dedicar sua atenção às árvores. que ela mais odiava nele. levantando o queixo. — Ela girou e recomeçou a andar. do gosto ácido do vinho em sua língua e do cheiro do mar por toda parte. ou o comprimento. Era um jeito simples de explicar sua reação. — Ele estudava-a com olhos profundos e poderosos. Autumn enrijeceuse. Ela ainda se lembrava muito bem daquela expressão zangada e do temperamento instável. surgindo de repente às minhas costas desse jeito? — disse.

As sobrancelhas dele juntaram-se enquanto seu olhar tornava-se mais intenso. levei seis meses para conhecer o cretino que você era e tive três anos para cimentar essa descoberta. — Ainda está aí. tentou afastá-lo com a outra mão. mas foi puxada para mais perto. Autumn virou-se e afastou-se a passos normais. ele puxou seu corpo para junto do dele. mas não para mim. Quando divisou os tijolos vermelhos do hotel. percebi como você lutava bravamente para se libertar dela. Afastou-se decididamente. Abruptamente. frágil e — como ele mesmo dissera — maleável. Não disse nada e sua expressão também não demonstrava nada. Suas declarações sobre orgulho e inocência tinham sido verdadeiras. colou um sorriso no rosto. Não pode tê-los de volta. Em silêncio. Como suas palavras feriram-na mais do que ela pensava ser Possível. ambos ficaram imóveis. repetidas. não foi. Não havia qualquer outro som na floresta. — Ainda está aí. a mágoa e a humilhação a dominaram. a segunda acabou e o terceiro pertence a mim. Pela primeira vez. que Autumn mudasse seu caminho e a evitasse. Mas não conseguiria mais manipulá-la. mas ela não permitiu que saíssem. Ele não vai me fazer chorar. — Não são mais maleáveis mas. Sua gargalhada interrompeu-a como um tapa. — Aprendeu a morder bem. O antigo e desesperado desejo voltou à superfície. como fizera em outra época. Até mesmo você deveria conseguir ver a diferença entre um e outro. Autumn começou a lutar com um ódio selvagem. Autumn enxugou as lágrimas. Abandonando seus protestos verbais. substituído por uma expressão sincera de preocupação. Ele nunca mais vai me ver chorando. enquanto ela pedia por mais. — Escute. Seria impossível. furioso. no mesmo instante em que proferiu as palavras. a não ser os gemidos de Autumn. ansiando por mais a boca de Lucas era urgente e violenta. sem ser absolutamente rude. Eu amei você. Mas a dor era um paraíso. começou a dizer-lhe todos os impropérios que lhe vinham à cabeça. Ela estivera faminta durante três anos. Quando conseguiu falar. tinha jurado com fervor. eram uma acusação. Estava vivo. Seus olhos estavam incrivelmente escuros. 105 . Percebera isso rapidamente. Mas ela mudara. mesmo assim. — Lamentou o que disse. Em vez disso. só conseguia se contorcer. tire essas mãos de mim e dê o fora. mergulhou os dedos em seus cabelos. como não mudara há três anos. enquanto a raiva e a saudade cresciam dentro dela — . o encontro com ele deixara-a tremendo. A desilusão dera-lhe forças. frustrada. demoraram neles por um momento. Agora. voltando em seguida para sua boca. Lucas. gata? — A expressão de seu rosto era mais divertida do que insultada. Amar Lucas não mudaria nada. As lágrimas queimavam a garganta. e não sou mais suscetível a seus encantos abundantes. ela sentiu o leve palpitar onde suas mãos a seguravam. com um gosto de castigo e posse. O gosto dele derramou-se em seus lábios. e agora toda aquela fome gritava em protesto. — Você recebeu tudo um dia: meu amor. depois. — As palavras. Lentamente. O tempo correu para trás e depois para a frente novamente. sem tirar os olhos dos dela. Mas os reflexos dele eram aguçados e ela não conseguiu seu intento. Mesmo assim. Lucas soltou-a. Autumn tentou afastar-se dele. O que existe agora pode ser o mesmo para você. opacos de uma paixão que ela conhecia muito bem. gata — murmurou Lucas. Só quando teve a certeza de que ele não a estava seguindo permitiu que as lágrimas saíssem livremente. passando em seguida a um carinho. Lucas — falava lentamente. O primeiro morreu. Com familiaridade. Estou crescida agora. Os olhos baixaram para os lábios dela. Ele não a encontraria mais chorando. Autumn concedeu e queria ainda mais. o que aumentou a raiva. fascinantes. Recusando-se a correr dele pela segunda vez. Seu perfume mexia com seus sentidos e lembrava-lhe coisas que ela preferia esquecer. minha inocência. Lucas observava enquanto ela lutava para recuperar o controle.NORA ROBERTS — Sim. Imediatamente. — Eu amei você. Não houve a menor hesitação quando seus braços enlaçaram o pescoço dele. Lucas beijou todo o rosto de Autumn. antes que ele levantasse a cabeça. Durante um momento. O calor cegava-a. empurrando-o com uma das mãos. Ele agarrou seu punho PERIGO e ela. Seu sangue fluía novamente. Não iria lamentar o que tinha acabado. Autumn percebeu um hematoma nítido sob o olho. Aborrecida. Segura pelos dois pulsos. O sorriso desapareceu. sua voz saiu dura e fria. meu orgulho. Seus lábios abriram-se. — Existe uma diferença entre amor e desejo. depois levantaram-se. e doía. Quando Helen virou a cabeça. Sua boca encontrou-se com a dela. Mas o amor estava longe de estar morto. jogou tudo de volta no meu rosto. Ele ainda poderia magoá-la. com novas exigências. quase sem fôlego. e não gostou nada quando viu que Helen aproximava-se de uma alameda à direita.

descobriu. Era a primeira vez que Autumn a ouvia rir e não pôde deixar de pensar como o som combinava com o sorriso dela.NORA ROBERTS — O que aconteceu? — O ferimento parecia doloroso e despertou a simpatia de Autumn. E. novamente. Saiu cedo para tirar fotos? — perguntou. quanto bom humor. Com um gesto de desinteresse. delicadamente. — Sempre achei que as pessoas fossem mais interessantes que as árvores. como se estivesse considerando alguma coisa muito seriamente. menos eu. Enrugou a boca. E por que ela esconderia a violência? Sua falta de cuidado fazia mais sentido. perguntou-se. Tia Tabby deve ter alguma coisa para aliviar o machucado. Ambos eram desagradáveis. — Criança valente. — Preciso ter mais cuidado no futuro. — Tirando fotos — Helen repetiu. e sorriu. — Algumas pessoas — observou Autumn. Julia parecia um raio de sol. está completamente fora de meus princípios. para gente tão madrugadora! — Julia descia os degraus da entrada. Afastou o pensamento. conte tudo para a mamãe. Talvez o turbilhão enfrentado por Autumn com Lucas fizesse com que ela detectasse alguma sombra oculta no significado daquelas palavras. Os olhos de Julia. Para sua surpresa.. Gosto especialmente de fotos simples. enquanto Autumn procurava ignorar o desconforto que as palavras provocaram. — Isso parece sério — comentou Autumn enquanto aproximavamse do hotel. — O chamado das selvas também atraiu você? Parece que todo mundo está passeando pelas florestas e montanhas à luz matinal. ora. mas está. — Julia suspirou. o riso de Helen parou abruptamente e os olhos ficaram mais duros. — Autumn. Os sentimentos eram coisas particulares. Passando o braço sob o de Julia. Vi duas pessoas no lago. — Helen levantou os ombros enquanto levantava os dedos para tocar o ferimento. mas não estava certa se deveria fazê-lo novamente. antes de subir rapidamente os degraus e entrar no hotel. Sem saída. levantou os ombros. o que aconteceu com você? PERIGO A alegria de Helen parecia ter desaparecido. E se não começar logo. mas eu estava longe demais para ver quem eram. me recolho em meu casulo. com um aceno afirmativo de cabeça e um sorriso. Contrastando com seus jeans e jaqueta desbotados. — Parece mais um soco — comentou Julia. Julia usava delicadas calças cor-de-rosa e uma fina blusa de seda estampada com rosas. — Esbarrei em um galho. — Absolutamente — concordou Julia. — Não exatamente. eram muito observadores. contrastando com a agudeza das palavras. — Você viu alguém? — Não — começou. O ressentimento que sentira pela atriz por atrair Lucas desapareceu com seu carinho explícito. Eu estava tirando fotos do alto do penhasco. — Esteve no lago mais cedo? — Autumn lembrou-se das duas figuras que tinha visto. — Julia. — Os olhos de Julia demonstravam simpatia. — Quando não estou trabalhando. Quem teria agredido Helen?. Suas sandálias brancas não durariam nem 50 passos na floresta. — Não sei por que passei a gostar tanto de você. Mulheres bonitas 106 . Tinha quebrado essa regra com Lucas. até meu sangue pára de correr. esqueceu-se de Helen e virou-se para Autumn. mas Helen parecia querer dizer mais do que tinha dito. Autumn foi obrigada a sorrir. — A recusa foi interrompida com firmeza. em seguida. começaram a andar pelo gramado. Venha. começou a rir com aquele som horroroso. — Autumn sacudiu a cabeça. — Olhou curiosamente para Autumn — Parece que você também esbarrou em um galho bem grande. Os traços das lágrimas não tinham se evaporado tão completamente quanto Autumn havia desejado. Você pode pensar que não está parecendo agitada. confusa pela aspereza da pergunta. Com certeza. pretendo cuidar disso — disse Helen. os olhos que se encontraram com os de Autumn estavam tão vermelhos e zangados quanto o ferimento.. Olhou rapidamente para Julia e. — Sei o que fazer. Levantou a sobrancelha quando viu o rosto de Helen. em resposta— diriam que você é preguiçosa. É tão difícil continuar sã quando todos à sua volta parecem ter enlouquecido. E Autumn percebeu que a marca lembrava mais o contato com uma violenta mão do que com um galho afiado. — Meu Deus do céu. — Esbarrei em um galho — murmurou. — Helen começou a rir de alguma piada particular. O rosto de Autumn tornou-se confuso por um breve instante. — É preciso fazer algo. levou o dedo ao ferimento novamente. — Oh. — Você precisa falar. Autumn perguntou-se se o tremor que vira na outra seria real ou afetado. — Vou me curar logo. — Ora. e em seguida sorriu para Autumn com seu olhar áspero.

107 . — Autumn. um diamante brilhou. — O problema principal é que. para enfrentar o ataque. egoísta e acostumado a ser obedecido. franziu o cenho e Autumn pressentiu que seus pensamentos estavam em um lugar muito diferente. mas de olhos bem abertos. — Não conheço muitas pessoas gentis.. A voz de Julia interrompeu o silêncio. só sentir. — Você também é uma pessoa gentil — continuou Julia. relacionamento com Lucas. e Julia escutava.. Sua maneira de ouvir era tão perfeita. E vou interferir por você. Autumn pensou que parecia absurdo as duas estarem andando de braços dados entre os narcisos da tia. é o meu orgulho. minha querida. Autumn tentou ignorar a espetada de honestidade e continuou ouvindo. que não pertence a ele. Quem era Autumn para discutir com uma especialista? Depois. As janelas estavam negras e vazias. por um momento. A luz do sol que ainda esforçava-se para aparecer caía sombriamente sobre os tijolos e transformava o portão e as cortinas brancas em cinza. pelo menos pelo tempo que lhe convier. — Pois. mas desenvolvi um afeto por você. dando um tapinha na mão de Autumn. — Lucas é um homem e tanto. No lóbulo. Contou tudo para Julia. Julia. A única coisa que me resta. — A brisa agitou seus cabelos.. enquanto seu sorriso de gata formava-se em seus lábios. outra bem diferente era ouvi-la falar da de Autumn. E ele saberia que continuo apaixonada por ele. então. Por seu sorriso. — Não vou ser humilhada de novo. — Dizendo isso. as palavras saíam dela aos borbotões. — Mas a atenção dele está presa em outra pessoa. Por trás do prédio. ao novo começo. Autumn teve que rir. — Ainda estou apaixonada por ele — explodiu Autumn. não foi preciso nenhum esforço para continuar. Seu olhar dirigiu-se novamente para o hotel. — E como vai fazer isso? — Querida! — disse e levantou a sobrancelha. Nuvens negras surgiam e. — De qualquer maneira — Julia fez um gesto de impaciência —. e então o perfil exótico transformou-se em todo um rosto exótico. quando caminharam em silêncio. porque também sou assim. que era impossível ficar zangada.. — Amor e orgulho não combinam — disse Julia. o céu parecia de ardósia cinzenta azulada. — Repentinamente. quando Autumn emitiu um pequeno ruído de tristeza. Sentiu uma espécie de ardor na nuca. bloquearam o sol e o calor. Uma coisa era ouvir a atriz falar casualmente de sua própria beleza. do princípio ao fim. uma tão burra e a outra tão desagradável. Estaríamos enfiando as garras um no outro antes que a cama desmoronasse. A declaração deixou Autumn completamente sem fala. Saber das coisas não vai impedir o sofrimento. Duvido muito que conseguíssemos ter ao menos um casinho agradável. — Julia falou tão naturalmente da paixão que Autumn presenciara. Para sua própria surpresa. — Não posso fazer isso. a cena de despedida dos dois. essas criaturas maravilhosas.NORA ROBERTS tendem a evitar ou a detestar outras mulheres bonitas. especialmente as mais jovens. Aquilo tudo parecia tão absurdo. Autumn não encontrou resposta para a imagem sugerida e simplesmente continuou andando. Não precisava pensar. Autumn soube que Julia entendia muito bem o que se passava no interior dela. mas sem maldade. que Autumn chegou a esquecer que ela estava ali. As montanhas não tinham cor e pareciam opressivas. mas também sei guardar segredo. É óbvio que Lucas quer você de volta. quando ele voltara a entrar em sua vida no dia anterior. naturalmente. sempre sou intrometida. você pode desfrutar de um relacionamento estimulante com ele. Autumn descobriu que não queria entrar na casa. Tive uma pequena amostra ontem à noite e fiquei impressionada. — Virou-se para Autumn. você ainda é louca por ele. — Você vai descobrir que todos os homens. você só tem que decidir o que quer. três anos antes. percebeu que se sentia melhor. Julia passou uma mecha por trás da orelha. — Talvez seja a exposição àquelas outras duas mulheres. Um pouco distraída. Não estou certa de conseguir sobreviver a outro. incomparável Julia Bond se colocasse no mesmo nível físico que o dela parecia absurda. É PERIGO fácil eu perceber isso. são todos uns monstros. — Lucas é um homem talentoso — continuou. Desde o momento em que começou a falar. — Parece que vai chover. — Jacques é mais o meu tipo — disse Julia. — O monstro — disse Julia. — Sabendo disso. — É também arrogante. Somos parecidos. Não que eu a culpe — acrescentou Julia.. Não deixou de dizer nada. suspirando profundamente depois da confidencia. A raiva tinha passado.. você vai ter que armar uma barricada em torno de você. Levantou o rosto para o céu. E antes que percebesse. A idéia de que a sofisticada. veio à sua mente. como que num flash. levantando-os de forma que os raios de sol penetraram nos fios.

como sempre. Parecendo totalmente à vontade. — Estou quase certa de que posso encontrar. Por um momento. ela descobriu que poderia sorrir de volta para ele sem sentir dor. — Ainda tem café quente. tia Tabby. A gente vê se cortou a cabeça de alguém ou se colocou o polegar na frente e pode tirar outra logo. — Depois de examinar com suspeita mais uma vez a Nikon. que baixou os olhos. A angústia estava em seu rosto. que raramente surgia em seu rosto. preferindo não tocar no assunto. não era ator. Tomou o café recostado no aparador. — Tia Tabby fez um gesto vago na direção do fogão. quando saiu para procurar a tia. — É o ar — replicou a tia. a raiva transparecia bem sob a superfície do encanto educado. Autumn podia aceitar esse fenômeno. Enquanto as duas discutiam. depois afastou-o de seus pensamentos. o caso parecia-lhe extremamente estranho. Poderia muito bem saber a causa da animosidade da noite anterior e não demonstrar nem um sinal. Autumn forçou-se a não pensar em Lucas. que chegava a esquecer que estava ali. Autumn. Tia Tabby estava. Helen não apareceu e Steve e os Spicers. Seu encanto custava-lhe um esforço visível. Sempre durmo bem quando estou com você. A confusão de Autumn aumentou quando Lucas dirigiu-se diretamente para o armário certo. Teve o impulso de abraçar sua tia novamente. PERIGO — Maravilhosamente. ao acaso. pode se servir. sobre o cardápio do dia. querida? — A voz de tia Tabby interrompeu os pensamentos de Autumn. enquanto tia Tabby tinha certeza de que haviam decidido fazer carne de porco. Julia discutiu sobre um amigo mútuo na indústria. — Suas sobrancelhas aproximaram-se e ela levou um dedo à bochecha. Autumn. Afinal de contas. Todos os traços de raiva e paixão haviam desaparecido. Censurando-se por mais uma vez deixar-se levar pela fantasia. viu que Lucas também estava sorrindo. querido. discutindo com Nancy. café e muffins. Somente Jacques juntou-se a elas para o café-da-manhã. as nuvens dispersaram-se. deixando o sol passar pela abertura. não é? Aquelas coisinhas lindas. era enorme. Sobre aquela cabecinha cinzenta. E muito boa. quando ele entrou. com quem ele poderia estar zangado. A lembrança da discussão abafada no vestíbulo surgiu na mente de Autumn. Autumn decidiu responder somente a última pergunta. quantos números! Parece muito complicado. enquanto Julia mordiscava uma torradinha. Que pena que vai chover. natural. O uso íntimo do apelido de sua tia era-lhe mais insuportável. pela janela. Autumn manteve silêncio. — Eu tenho uma muito boa. como se nunca tivessem existido. pensou. Como sempre. com o pensamento ainda no bolo de chocolate. não era mesmo de sua conta. ainda estavam caminhando. passeou bastante? — Quando se virou. Seu apetite. Você dormiu bem? Depois de uns instantes. — Tia Tabby examinou-a com os olhos semicerrados. Isso vai compensar a chuva. Mas é bom para as flores. As sombras desapareceram. vindas do oeste. como Autumn sabia. aparentemente. As sobrancelhas espessas e negras levantaram-se. Autumn sorriu. — Nossa. A câmera ainda estava pendurada no pescoço. Autumn Pensou no assunto durante toda a refeição. essa é sua câmera. Pensando bem no assunto. a cozinheira. pois. Autumn lembrou-se. no entanto. Serviu-se de uma boa porção de bacon com ovos. As janelas brilharam com a luz. como Autumn sabia que estaria. esquecendo-se completamente dos óculos que estavam pendurados no peito. E o sorriso diabólico surgiu em sua boca. Não sei como consegue ver o que está fazendo lá dentro. Mas ela é uma atriz. — Ah. 108 . — Claro. — Acho que vou fazer meu bolo de chocolate especial para esta noite. Seu rosto redondo iluminou-se de prazer. Parecia que Nancy planejara fazer frango. — Oh. tanto Lucas quanto Julia estiveram ocupados com outra coisa. ainda via as nuvens espessas e pesadas continuando seu caminho. Jacques parecia preocupado. Fazia tanto parte dela. Jacques LeFarre não lhe parecia um homem que discutisse com uma pessoa totalmente estranha. Os olhos que se encontraram com os de Autumn estavam normais. sorriu e disse: — É só apertar um botãozinho vermelho e a foto fica pronta na hora. Autumn viu o sorriso da tia em sua direção.NORA ROBERTS Quase tão rapidamente como vieram. E era aquele sorriso caloroso. Autumn serviu-se de mais uma xícara de café e. quando ela continuou olhando-o. tia Tabby? — Lucas entrou na cozinha como se dissesse aquilo naturalmente todos os dias. olhando com inveja para o prato de Autumn. tirou uma xícara e serviu-se de café como se estivesse em casa. Não adiantaria nada confundir a tia. Autumn dirigiu-se para o hotel com Julia. Pode usar quando quiser. Jacques. — Que manhã tão linda. E também não é preciso ficar naquele estúdio escuro. Especulava. o ar ficou carregado.

Julia postou-se ao lado dele. Helen. Naquele momento. apesar dos comentários dele serem mais suaves que os dela. Divertia-se imensamente. O céu tornou-se cinzento e o vestíbulo ficou escuro. Durante um breve instante. Com um piscar das longas pestanas. Jane estava mergulhada em um livro que Autumn tinha certeza de estar repleto de cenas de sexo explícito. — Com leite. Julia enviava mensagens para ela através de seus extraordinários olhos. Jane não estava se divertindo. Com força e fúria instantâneas. tão californianos. Ele só resmungou um pouco sobre as inconveniências. com uma bandeja equilibrada nas mãos. sem ser paternal. há chance de faltar eletricidade? — dirigiu-se a Autumn. Autumn estremeceu. pensou Autumn. O cheiro amigável do café entrou com ele. Trabalha nisso há algum tempo? — Só estou aqui para um treino — disse ele com um sorriso. calças e uma suéter. De vez em quando. Capítulo 4 Quando a chuva caiu. Autumn percebeu que ela não estava mais taciturna. Autumn tinha certeza. Mas o médico parecia hipnotizado pelo olhar ingênuo de Julia para reconhecer a fala. Robert não poderia estar mais de acordo. Ela o admirava por isso. Autumn reconheceu. Esperava que isso o mantivesse ocupado durante horas.. Os lábios de Autumn curvaram-se em resposta. Levantou as mãos com um gesto francês. Steve. Eu fico louca para ser assustada. — Eu não paguei tanto para ficar andando no escuro e comer refeições frias. Jacques parecia não ter preferência alguma. — As tempestades são tão apavorantes e tocantes. escrevendo à máquina. Encontrava-se no andar superior. não houve qualquer som e então a chuva começou a cair como uma forte explosão. Autumn segurou uma gargalhada. não começou com os pingos lentos comuns às chuvas de abril. Julia achou a idéia maravilhosa — luz de velas dava um ar tão romântico. — Com essa tempestade. não deixe de expor sua impressão para a gerência. quando o trovão rugiu e ecoou pela sala. ampliando seu papel de bartender. — Sempre ficamos sem luz. Talvez ela afinal tivesse garras. Ele era um homem com a rara habilidade de fazer uma mulher sentir-se mimada. acompanhada de um dar de ombros. e teria gostado mais dela se isso fosse verdade. Steve e Helen pareciam não gostar muito da idéia. causou reações variadas.. Quando Julia aproximou-se mais ainda dele e piscou para Autumn. porém. certo? — Steve sorriu para ela com os olhos azuis. Você tem melhor memória do que George. usava um traje marrom. foi para a cozinha buscar café para todos. — Certo. — Acendendo outro cigarro com um gesto rápido e furioso. Todos voltaram e o hotel ficou novamente cheio daquele estranho grupo de hóspedes. a luz opaca do exterior foi ofuscada com a claridade de um raio. Autumn flagrou os olhos aguçados de Helen fixos nela. Robert Spicer envolvera Jacques no que parecia ser uma explicação técnica de uma cirurgia de coração aberto. Seu sorriso especulativo deixou-a confusa e desconfortável. se Julia se concentrasse nele. Helen ficou lívida. Jacques agitouse na poltrona. Durante essa discussão. divertida. — Sua resposta. Uma ou duas vezes. Autumn percebeu tudo.NORA ROBERTS PERIGO — Parece mais um efeito especial — retrucou Julia. que indicava sua aceitação do destino. marcada por terrivelmente apavorantes raios. O calor desapareceu juntamente com ele. Mais uma vez. presa a cada palavra — ou pelo menos fingindo estar. Parou um instante à porta. Seria mais sábio. Talvez até fizesse suas refeições no quarto. sem açúcar. já que as tempestades representavam um apelo primitivo para ela. reprimindo alguma reação mais forte. Ela fazia Autumn lembrar-se da lagarta de Alice no país das maravilhas. 109 . aproximou-se de Robert. com seu hematoma agora bem visível. depois dirigiu-se para a janela para observar a torrente de vento e chuva. em vez de no doutor. Os relâmpagos iluminaram a escuridão novamente. — Sorriu com os olhos para ele por cima da borda da xícara. — E também serve com muito estilo. — Uma chuva de primavera nas montanhas — observou Steve. batia contra as janelas. Abruptamente. com uma aguda premonição de perigo. fumava silenciosamente em longas e profundas tragadas. A sensação surpreendeu-a. pensou enquanto Steve servia-lhe uma xícara de café. — Por favor. Lucas não estava presente. Aquela frase saíra diretamente do filme A noite de um longo verão. esta teve que levantar os olhos para o teto para conter o riso.

Sua tia terá que dar um jeito nisso. percebendo o sorriso de aprovação — temos um gerador. O ar continuava vibrando com aquele silêncio desconfortável quando Lucas entrou. — O que você tem aí. Enviou um olhar delicioso para Lucas. que a estudava com uma intensidade profunda e sincera. Diante do olhar surpreso de Autumn. Ele parecia não perceber a tensão existente entre eles. — Sua tia mandou que você se divertisse com a câmera. Autumn continuou: — Se perdermos a energia central. — Sua tia envioulhe isto. vou levar umas velas para meu quarto — decidiu Julia. sua voz era baixa. e tornou-se imediatamente seu amigo. nem de consultar o ângulo da luz. Os olhos estavam sobre Autumn. — Encantadora — complementou Steve. — É intolerável que tenhamos de agüentar tanta ineficiência. O botão é mais rápido que o cérebro. — Estou certa de que minha tia dará a devida atenção às suas queixas— disse. — Ela usa aquela caixa preta como outras mulheres usam diamantes. A tensão dissolveu-se em uma gargalhada. — É uma romântica incurável. Julia transformou-se de um anjo maligno em uma dama severa. ela estava embrenhando-se pela floresta. tirando fotos de esquilos e coelhos. — Varreu a sala com seu olhar que pousou finalmente em Julia. Vê-la representando na tela não era nada comparado com um desempenho ao vivo. encolheu os ombros despreocupada. — Já percebi sua obsessão — concordou Julia. — Na realidade — disse para Jacques. Ele dirigiu-se a ela. Lucas elevou a mão. E uma criança de cinco anos pode acioná-la. — Sempre achei que somente os idiotas pensam que são sábios. Não há necessidade de focos. Autumn? — perguntou Julia. tomando o café. — Julia deveria ser francesa — comentou Jacques. é a última aquisição tecnológica em fotografia. — Dando o assunto por encerrado. antes que os olhos voltassem para Autumn. Depois de sorrir para ele. — Se não tiver lentes e filtros para serem trocados. posso afirmar que não vou pagar esses preços ridículos para viver como uma pioneira. — Lembro quando você gostava. gata — murmurou Lucas. Autumn passou a falar em um tom sóbrio e didático. então. — Tanto romance assim — murmurou Helen — pode não ser muito sábio. Perdida. Seu bigode levantou-se nos cantos. fazendo com que os dardos lançados por Helen passassem por ela. — Isto. não puder ser operada em múltipla velocidade. E o medo que sentia deve ter se refletido em seu rosto. PERIGO Ela sentiu um tremor quando não conseguiu impedir que a sala toda fosse se apagando. acompanhando os movimentos de Lucas. — Não? — ela pegou da mão dele a famosa câmera de botão vermelho de tia Tabby. enquanto falava descuidadamente com os outros. — Sacudiu o cigarro. na verdade. Lançou-lhe um olhar frio e duro. Exibindo a câmera. voltou a derreter-se em uma criatura celestial tão rapidamente que Autumn chegou a piscar de susto. — Ainda gosta de andar na chuva? — A pergunta não fazia sentido e não exigia uma resposta quando ele procurou seu rosto. Esta madrugada. deixando somente ele em seu campo de visão. podemos ligar o gerador e assim manter a força com muito pouca inconveniência. Autumn pensou que não fazia a menor idéia de que tipo de mulher seria a verdadeira Julia Bond — se realmente ela tivesse um lado real. 110 . De minha parte. pronta para continuar seu discurso. amigos e amados são capturados em seu interior e saem imediatamente em uma foto que se revela perante olhares atônitos. — De qualquer maneira. Autumn buscou seus olhos.. Com o leve toque de um botão. — Ele parou. O sorriso demoníaco encontravase em seu rosto. enquanto ele acendia-lhe o cigarro. enquanto anda em seu velocípede. — Feita a declaração. não sabia nada das pessoas daquela sala. — Continuou ao lado da janela. em voz áspera — que Autumn é uma fotógrafa esnobe. e o olhar de Autumn desceu para ela. Contra os sons violentos da tempestade. com modos nada cavalheirescos. quando ela não respondeu. Eram todos estranhos. sem atingi-la. Sorriu para Robert sob as pestanas semicerradas. e deu-lhe ostensivamente as costas. Ela levantou os olhos novamente para ele. não é uma câmera. — Não escuto esse som há muito tempo — disse Lucas suavemente. ignorando os outros. Aquela idéia sugeriu-lhe que. ele virou-lhe as costas e dirigiu-se à cafeteira.NORA ROBERTS olhou com raiva para Autumn. e sim um brinquedo.. somente audível por ela. o qual descobrira recentemente. — Já deviam saber — Lucas acrescentou. — Pois tenho o hábito de rir. mas Autumn interrompeu-a. — Não vou morder você. senhoras e senhores. Meu tio era tão prático quanto tia Tabby.

— Nunca lhe ensinei nada. Ela tirava fotos e ficava focalizando-o e rodeando-o o tempo todo até que. os dedos eram seus olhos. Lucas percebeu seu gesto. que iria trabalhar. — Em minha profissão. — Jacques — disse Julia. Pelo canto do olho. até que as chamas diminuíram e apagaram-se. Autumn torna-se uma arma perigosa. tive ocasião de fotografar um grande número de mulheres. Levantou a foto de Julia e estudou-a. ao lado dela. A câmera de Autumn estava na cadeira. Recusando o convite de Steve para jogarem cartas. ouviu um ruído 111 . — Sua luta. de frente. Uma. a não ser uma que tivesse somente um botão — declarou Steve. de um ângulo superior. fez com que a voz saísse tremida. Quando conseguiu voltar sua atenção para Steve. Mas aprendi bastante. ostensivamente. acertando os timers. Ele pegou-a e examinou-a como se estivesse estudando alguma peça estranha que tivesse caído do espaço sideral. enquanto Jacques explodia em uma gargalhada. sentou-se no braço da poltrona e Autumn agarrou a deixa. — Lucas aproximou-se. Naquela sala não havia tensões. do esquerdo. nunca se desfizera delas. Robert atiçou a lareira. qualquer ângulo. — Poderia fotografá-la de qualquer posição. do perfil direito. seguindo-os. — Você nunca pôde me ensinar a tirar uma foto direito. Ainda outra. com uma câmera de qualquer espécie nas mãos. Seus sentidos não eram afetados por perturbações estranhas e intangíveis. Apontou o presente de tia Tabby para Steve. visivelmente aborrecido. desta vez séria —. Autumn franziu a testa ao lembrar-se das inúmeras fotos que tirara dele. — Ora. Com olhos escuros e inescrutáveis. feio e chuvoso. contra a dor interior que voltava. Autumn trabalhou em total ausência de luzes. Enquanto foi necessário. Autumn se concentrou na aula para Steve. Paulatinamente. e ela trabalhava rapidamente. Srta. Através do som abafado da tempestade. Começou uma aula de fotografia básica. checando as temperaturas. — Você deveria ter me dado a chance de mostrar meu melhor lado. Autumn percebeu que Julia ia juntar-se a ele. Lucas. — Você deve ser prevenido de que. Bond — continuou Autumn. aproximou-se e enfiou os dedos em seus cabelos. Julia dizendo que iria dormir um pouco e Lucas. Lucas e Julia saíram de braços dados. e ficavam atentos e prontos para o trabalho. antes de colocar a foto já revelada sobre a mesa. e assim por diante. No momento em que fechou a porta atrás de si a dor de cabeça que começara a torturar-lhe as têmporas desapareceu. o braço de Julia estava sob o dele e ele não parecia mais aborrecido. Com o pretexto de que eram arte. Dentro de poucos momentos. ele literalmente arrancasse a câmera de suas mãos e afastasse a fotografia de sua frente. pousando a mão em seu braço — Precisamos mesmo adotar essa menina. Julia sorriu. com a chuva batendo nas janelas. — E eu que pensei que ela fosse uma criança adorável — murmurou Julia. Raios e trovões apareciam e desapareciam. Ela é imprescindível para meu ego. até tornar-se praticamente um gemido. preparando os produtos químicos. Autumn levantou a câmera e tirou uma foto do rosto encantador de Julia. A tarde custou a passar. Censurando-se internamente. outra.NORA ROBERTS Com um sorriso divertido. agradecida por Steve ter retomado a conversa como se não tivesse sido interrompida. mas o vento aumentava a força cada vez mais. Rangendo os dentes. Autumn buscou a paz e a atividade do estúdio de fotografia. exasperado. resumiu suas explicações sobre os tipos de ângulos. — Integridade profissional — afirmou Autumn. examinou criticamente o rosto imaculado de Julia. outra. — Você não tem um lado melhor — comentou Autumn. meu bem — Julia disse com uma virada profissional de cabeça. PERIGO — Nunca consegui operar máquina alguma. — Como consegue se lembrar para que servem todos estes números? Dizendo isso. Os olhos de Autumn traíram-na. não é. esqueceu-se por completo da tempestade. Cada vez mais absorvida. Foi um dia longo. Lucas voltou à cafeteira. obviamente dividida entre o divertimento e o insulto. Fazendo uma ligeira pausa. e o resultado sempre seria maravilhoso. A nota aconchegante que isto poderia ter dado à sala era negada pelo aborrecimento de Jane e por Helen andando de um lado para o outro. gata? — Não. Nessa etapa. Era óbvio demais que ele compreendera seus sentimentos. O ar estava pesado. encontrou um sorriso compreensivo e simpático. qualquer luz. passou seu filme pelos Primeiros estágios da revelação.

lembrando-se do barulho na fechadura. sentiu que lhe acariciavam o rosto. mantendo-a firme. agora há pouco. Ela tentou sentar-se. Resistiu. no momento em que o rádio que ligara para fazer-lhe companhia silenciou. teria sido desastrosa. para ter a certeza de que estaria trancada. Autumn tentou concentrar-se na última coisa de que se lembrava. quando ouviu o ruído novamente. — Abra os olhos. Ignorou-o. Ela mal pôde notar. — A raiva tornava-a menos graciosa. Já conhecia cada centímetro do estúdio. coerente o suficiente para sentir-se embaraçada. pensando por que estaria tão tonta. Lucas entrou gradativamente em seu foco de visão. impedindo-a de tocar o machucado. — Autumn. O esquecimento era menos doloroso. ou alguém na cozinha? Curiosa e ao mesmo tempo aborrecida. conseguiu ficar de pé. — Eu não estava sacudindo a porta — começou ele. clara e nítida. — Você acendeu as luzes! — Foi um impulso. — A mulher é maníaca! — Me largue. — Eu devo ter batido na porta — murmurou.NORA ROBERTS baixo. — Como você entrou? — perguntou. Mas quando fez esse movimento. ocupada que estava acertando o timer para o próximo estágio da revelação. O que foi que andou fazendo? A acusação era típica dele. — Você bateu contra a porta e fechou-a quando estava inconsciente? — Ela não conseguiu distinguir se Lucas estava zangado ou divertido. conseguia mantê-la parada. ela percebeu o tom de comando. naquela escuridão absoluta. Mas. mais aumentava a dor da cabeça. em circunstâncias normais. Esta frase. Autumn fechou os olhos com força devido ao latejar na cabeça. Autumn não conseguia pensar em nada para dizer além de seu nome. abra os olhos. não me lembro de você ser descoordenada a esse ponto. e por que você estava deitada no chão. embalando-a junto ao peito. Parada. — Vai doer mais se você tocar. — Lucas? — Desorientada.— Eu quis ver o quanto você estaria machucada. — Pegou sua mão e ficou segurando-a. PERIGO Estava difícil para ela pensar com clareza naquele momento. com uma ansiedade que demonstrava sua intimidade passada. a dor explodiu dentro de sua cabeça. dirigiu-se até a porta. A luz acabou. Isso parecia satisfazê-lo. — Meu filme! — O olhar era tão acusador quanto sua voz. Não. Quanto mais aproximava-se da consciência.. — As luzes!— Pela segunda vez. — Assim está melhor — disse ele. quando vi você caída no chão — respondeu ele asperamente. não é mesmo? Você nunca me viu além de 112 . antes de o escuro tornar-se completo outra vez. enquanto sentia que mãos afastavam os cabelos de seu rosto. — Estava escuro — resmungou ela. — A voz agora era mais clara e mais insistente. abriu os olhos. não toque o galo. concluiu. até que ela conseguiu forçar a imagem de volta. tentou afastar-se dele. — Que estranho. Seria alguém na porta. — Você nunca conseguiu ver meu trabalho como alguma coisa além de algumas fotografias bobas. diminuindo e apagando. em seu estado mental atual. — O que aconteceu? — Esta foi minha pergunta. a dor tornou-se quase insuportável e ela perdeu o equilíbrio. Autumn. — Eu não tinha fechado a porta? — Lentamente. Quando ouviu o som novamente. ele beijou-a com força. — Se você não estivesse sacudindo a porta. Sem qualquer esforço visível. por favor. — Apesar de o som vir de muito longe e abafado. Por um momento. Autumn.— Pare de comportar-se como uma imbecil por causa de umas fotos bobas. — Pelo amor de Deus. Seria o torcer da maçaneta?. assustando-a terrivelmente. Autumn suspirou. com aprovação. fixou-se nele. As luzes piscaram por alguns instantes. Esforçando-se. — Lucas levantou-se e segurou-a pelos ombros. Repentinamente. — Não mexam na porta — gritou. gata. A dor foi eclipsada por uma onda de fúria. Antes que ela pudesse protestar. perguntou-se. — Você me deixou preocupado. Autumn gemeu. Ela lançou-se sobre ele. — Andei fazendo? — Autumn levou a mão ao alto de sua cabeça. mas ela interrompeu-o com uma reação assustada. deixando entrar a luz com ele e estragando todo o trabalho. Estou curioso para saber como isso aconteceu.— Foi você quem mexeu na maçaneta da porta? — Fique calma — ordenou ele quando ela gemeu por causa do movimento brusco. percebeu que ele a estava aconchegando nos braços. Tinha lembrado de trancar a porta? Tudo o que poderia acontecer de pior naquele momento seria um descuidado abrir a porta. Seus passos eram confiantes. era uma declaração de guerra. mas ele respondeu com uma gargalhada. A forte dor que sentia na cabeça não permitia que decidisse entre uma coisa ou outra. Relutante.. onde a dor estava concentrada.

agora que você já botou tudo para fora. porque a toalha fria trouxeralhe lembranças de todas as coisas boas que ele lhe fizera. antes de começar a trabalhar. Nem toquei em seu maldito filme! Havia gelo em sua voz ao mesmo tempo que fogo no olhar. é melhor tomar uma aspirina. minha preocupação e minha atenção estavam dirigidas a você. mas ele interrompeu sua ira com a voz cheia de paciência. a raiva diminuíra. — Os olhos dele começaram a escurecer perigosamente. e minhas fotos me dão tanta satisfação quanto seus livrinhos idiotas lhe dão. Olhando para a mesa.. Virou-se para pegar a câmera que tinha posto na prateleira. — Movendo-se em sua direção. Por um instante. Não estava mexendo na porta. estudando-a com o cenho franzido. A voz suave e as mãos gentis dispararam o botão e ela se ligara. — Me deixe em paz! — Ela arrancou a mão que ele pusera em seu braço. o interesse dela nos filmes desapareceu. Só queria fugir dele e dos sentimentos que despertava nela tão facilmente. eu não sei o que aconteceu com o filme. Com um movimento rápido. — Não conseguiu continuar. disparou novamente: — O que pretende mexendo no meu equipamento? Você expôs um rolo inteiro de filme! — Espumando de raiva. Havia somente a dor forte e a consciência. descansou a cabeça contra seu ombro e rendeu-se. — Imbecil quanto possa parecer — continuou —. — Autumn interrompeu-o. O som de seus passos disse-lhe que ele entrara no banheiro contíguo. para variar. — Não lhe ocorreu que na confusão e na escuridão você mesma possa ter estragado seu filme? — Não seja absurdo. Sabia também que estaria com a testa franzida. o rosto dele saiu de foco. levantoua nos braços. — O Dr. Autumn. — Vou buscar Spicer — falou repentinamente. — Fique deitada — ordenou ele. — Você está pálida como um fantasma — disse. Autumn ficou espantada. E você sempre odiou o tédio. — Mas que droga. Subitamente. mas aborrecida no final. — Sua habilidade profissional sentiu-se insultada mais uma vez. — Querendo ou não. Até onde se lembrava. — Acontece que acho que seu bem-estar é mais importante do que as fotos. — Autumn. Abrindo os olhos. — Você fica sentado sobre a glória de seus livros. ele olhou para a confusão sobre a mesa de trabalho. Não vou me desculpar por ter acendido a luz. divertida por uns tempos.. E girando nos calcanhares encaminhou-se para a porta. Manteve-os fechados quando sentiu que ele a colocava na cama. mas Autumn estava furiosa demais para se deixar tocar por qualquer um deles. Reflexo condicionado. Minhas habilidades são tão criativas quanto as suas. eu não preciso. não é mesmo. Lucas não tinha a menor paciência para nada. — Muito bem. Pode destilar seu veneno contra ele. sentiu uma toalha molhada sobre a dor da testa. — Ele circundou o pescoço dela com os dedos e a voz tomou o tom PERIGO acariciante de que ela se lembrava tão bem. Aceitando o fato de não ter outra escolha. Spicer precisa dar uma olhada em você. Lucas? — Autumn afastou os cabelos que caíam sobre os olhos com um movimento violento. — Não. ele ficou em silêncio. precisa discordar de tudo o que digo? Não consegue esquecer por um instante o ódio que desenvolveu por mim? — Sacudiu-a de leve. Não entrei nesta sala além do ponto onde você estava caída no chão. Logo. Ele tinha seus 113 . — Voltei depois que a luz apagou e o gerador foi ligado. Você não é a única pessoa no mundo que tem talento. ele puxou-a para junto de si até que a tontura tivesse passado. pobres mortais. Ele agarrou-a pelos braços e sacudiu-a com fúria. enigmática. envolvido pela adulação e olhando de cima para nós. Lucas. Quase desfalecida. Quando Autumn percebeu que ele a carregava para o quarto. A porta estava aberta e achei você caída sobre uma pilha de caixas no chão. Não era hora de pensar em nada.NORA ROBERTS uma criança boboca. gritou para ele: — Já não era suficiente atrapalhar meu trabalho mexendo na porta e depois acendendo as luzes e arruinando o que eu tinha começado? Tinha que botar as mãos em uma coisa que você não conhece! — Já disse antes. Autumn fechou os olhos e deixou que Lucas decidisse. — Lucas. — Você está tão pálida— disse Lucas. tirando rapidamente as mãos e enfiando-as nos bolsos. mais uma vez. Aquela não era hora para pensar na porta do estúdio e como ela teria sido aberta. Por instantes. Lucas olhou-a com uma expressão estranha. A dor espalhou-se por toda a cabeça. a voz estava estranhamente áspera. disse a si mesma. você vai ver o médico. O suave barulho da água escorrendo na pia soou como uma catarata em sua cabeça latejante. mas sabia que ele tinha ficado parado olhando-a. gata. eu faria a mesma coisa novamente. Quando falou. Não era hora de pensar como teria batido a cabeça contra ela como uma perfeita idiota. Autumn olhou para os dele. quando a tontura bloqueou a visão. Percebendo rapidamente o que acontecia.

enquanto observava seu rosto. Autumn. ela pensou. Quando Lucas se voltou. — Eu ia tomar uma aspirina. Pode confiar em mim — acrescentou. a impaciência era evidente até mesmo no ar que o rodeava. — Acho que não vamos precisar operar. — É somente um galo — disse ele e segurou sua mão. — Os canhões já pararam de atirar. — Obrigada— disse. Nunca pensara no que os médicos carregavam dentro daquelas maletas de aspecto inocente. — Os olhos dele convenceram-na e ela sorriu. Autumn? — Enquanto falava. gata. com uma gravidade exagerada. Com uma risadinha. mas a postura profissional tinha sido substituída por uma suave compaixão. para apagar aquelas rugas de fadiga. Tão assustadoramente carinhosa. ele a deixou. mas não a agulha que ela tanto temia. — Não se apaga um incêndio em uma floresta com uma pistolinha de água. ela pensou. com um sorriso brincalhão.NORA ROBERTS momentos de doçura. Nunca pensei que você trouxesse sua maleta de médico nas férias. mais para relaxar e não bancar um bebê. Ele desviou os olhos do ferimento para estudar os dela por um instante. Ele sacudiu a cabeça com uma gargalhada e começou a lavar o ferimento. reparou ela. isto vai ficar bem colorido. — Sorriu novamente para ela. — Que história mais estranha. — Agora só sinto uma dor agonizante — acrescentou Autumn. ele pegou a maleta e a atenção dela dirigiu-se para as mãos dele. — Você não vai tirar meu apêndice nem nada. que desarmavam as pessoas. Afinal. Ele tirou de dentro algodão e um vidro. — E a voz era áspera novamente. As mãos dele eram surpreendentemente macias e suaves. tentando ser divertida. antes que ele sorrisse novamente. aceitando o copo de água com as pílulas. — Está bem. Parecia ser mais fácil para ele. — São muito suaves. — Oh. apesar de lutar para não tê-los. Autumn pensou um pouco. A voz era gentil. — Desculpe ter gritado com você. Lucas recostou-se na porta e encarou-a. Ele sentiu os pensamentos dela e os olhos suavizaram-se brevemente. — Como isso aconteceu. Ela enrugou o nariz. você sempre foi incrivelmente meiga. E na boca surgiu um daqueles sorrisos raros. entregando-lhe duas pílulas. — Um atendimento em domicílio — disse ela e forçou um sorriso. 114 . — Apesar de meu diagnóstico não diminuir a dor em nada. voltando em seguida a fixar-se em sua testa. Você está com a visão borrada? — Não. — Hum. — Descanse — ordenou e deixou-a. com isso. — E vergonhosamente verdadeira. enquanto descrevia sem graça. — Esperou que ela engolisse as pílulas. — Colidi com a porta. foi muito gentil. Sua competência continuava presente. com muito pouco terreno suave. — Devo ter calculado mal a distância. PERIGO Ele estava diferente. Mas ele percebeu seu olhar apavorado. assim como os olhos. porque estou de férias. — Ele sentou-se na cama e tirou a toalha que Lucas colocara na testa de Autumn. — Meu Deus. Tome isto e descanse por uma ou duas horas. E. — A oitava maravilha do mundo. lembrando a Autumn as mãos de seu pai. Capítulo 5 Autumn olhava fixamente para o teto quando Robert entrou. Autumn foi obrigada a lutar contra o desejo de correr para ele. — Apesar de eu ser cirurgião. — Pois jurava que você era uma mulher que tinha os olhos bem abertos — disse. Ela conseguiu ficar mais relaxada e respondeu a todas as perguntas que ele lhe fez sobre tontura. Mal humorado. náusea e outros sintomas. — Você viaja sem sua câmera? — Touché — ela disse. Ela olhou para a maleta preta dubiamente. não é? — Não. ignorando o desejo evidente dele de sair dali. No estúdio escuro — acrescentou ela. enquanto as sobrancelhas de Autumn continuavam praticamente unidas de preocupação. depois puxou uma manta leve sobre ela. — Nunca fui gentil. — Ela olhou o vidro de pílulas que ele segurava e fez uma careta. Mas que homem contraditório ele era. ele procurou novamente dentro da maleta. Era uma pessoa adequada à sua profissão. — Podemos fazer alguma coisa contra a pequena artilharia.

— Bom sinal. Gostaria que tivesse acontecido alguma coisa mais original. enquanto se sentava. piscando para ela. — Que estranho. Lucas? — Olhou para ele. Descansar? Ela pensou e moveu-se sob a manta. Só observando. Seu pensamento seguinte foi totalmente físico: descobriu que estava faminta. — A vida às vezes é óbvia. no campo. — Ela colocou os cotovelos na mesa. esperando a resposta. Está observando todos nós. PERIGO — Talvez estejamos em maré de acidentes. naturalmente. — Muito — respondeu. — Lucas falou de modo casual. — Estou morrendo de fome — confessou. — Autumn. — O telefone já está mudo — disse Steve. 115 . Ainda está doendo? — Só o meu orgulho. este é um cenário óbvio demais para meu tipo de trabalho. deve estar intransponível — disse Robert. Encontrou ambas na sala de jantar. — As coisas costumam acontecer três vezes. ela pensou. — E a passagem. sentou-se na cama. Autumn passara a detestar os pequenos silêncios que acompanhavam as observações de Helen.— Deslizando por passagens escuras. Era a resposta que esperava dele. Autumn olhou para ela em tempo de captar o olhar especulativo em seu rosto antes que ele se transformasse em um sorriso. mas a palavra ficou suspensa no ar.— A voz de Helen estava tão dura quanto os olhos. batendo contra as janelas com uma fúria que a assustou. Seus olhos estavam novamente escuros e duros. — Foi Robert quem a viu primeiro. sentiu um arrepio ao ouvi-la. — A chama da minha vela dançando nas sombras. querida — disse Julia. com um sorrisinho nos lábios enquanto erguia a taça de um vinho dourado. — Está se sentindo melhor? Ela hesitou um momento. com um lenço de seda. — É o metabolismo — declarou Autumn. pelo menos até a cena final. — E começou a encher seu prato. A tempestade ainda caía. Autumn quebrou aquela regra e iniciou uma conversa com Lucas. Autumn soltou um Ah! dramático. Num impulso. cruzou as mãos e descansou o queixo sobre elas. — Sou uma amazona — explicou Autumn. e encheu outra garfada de frango. mesmo assim. somente observou-a. — Eu engordo só de olhar como ela come. Por quanto tempo? Tentou escutar alguma coisa. — Obrigada. naturalmente — continuou ele enquanto a palavra ainda pairava no ar—. Tentando afastar o mal-estar. Estive inconsciente. com um vestido branco e vaporoso. — Jacques girou o garfo pelo cabo enquanto a estudava. mas ele não disse nada. — Um assassinato. — O que você faria com este cenário. — Eu faria um belo papel — brincou Julia. A noção de tempo fora perfeita. A energia já pifou. — O que mais se poderia desejar? — Autumn perguntou a Lucas. as ondas de tensão que conseguia emitir e que deixavam buracos na normalidade da situação. para acabar com minha vida. e deixou o pedaço de frango repousar por um momento delicioso na língua. Um raio brilhou no céu. O carinho que ela tinha visto tão rapidamente horas antes podia ter sido somente ilusão. — Você daria um cadáver lindo — disse Autumn. na realidade. Cuidadosamente. deu uma olhada rápida no espelho e decidiu que não gostava do que via e saiu em busca de comida e companhia. enquanto o assassino aguarda. uma tempestade rugindo. — Falta de jeito não é um talento do qual me orgulhe e dar uma trombada em uma porta chega a soar como um clichê. enquanto estes varriam a mesa. — Mas. não acha? — Jacques perguntou. como que em resposta. Ela olhou para Lucas. contando com a cozinheira — isoladas em um pequeno hotel afastado. A cabeça não latejava mais. o quarto estava mergulhado nas sombras. — Não me parece possível que você tenha força suficiente para ficar inconsciente por conta própria. — O difícil é saber qual será a próxima. O telefone possivelmente será o próximo. — Mas a tragédia verdadeira desta história é que perdi os dois rolos de filme que tirei de minha viagem a Nova York. Mas a fome foi mais forte e o cheiro da galinha feita por Nancy estava tentador. mas não percebeu qualquer mudança em sua expressão. Autumn continuou: — Nove pessoas — dez. entrando na brincadeira. — Ela come como uma amazona — comentou Julia. Levantou-se. todos os olhos se viraram para ele.NORA ROBERTS Quando Autumn reabriu os olhos. mas um toque dos dedos garantiu-lhe que ela não tinha sonhado com aquele incidente. e virou-se para Lucas. embaraçada. passando os dedos pelo próprio ferimento. — Só que prefiro ficar entre os vivos. Autumn estremeceu involuntariamente. não é mesmo? — Ninguém respondeu e ela continuou.

mas a tempestade. Ganha-se mais mantendo alguém vivo. querida. mas quando saíram inclinou-se para Lucas e murmurou alguma coisa no ouvido dele que o fez rir. — Oh. ela concluiu. — Não concorda comigo. — Desde que alguém morra. Não estavam mais entediados. Quando saíram. disse para si mesma. cujo único sucesso era ter um hotelzinho e fazer torta de chocolate. Autumn. querida! Lucas me disse que você bateu com a cabeça. — Precisa ter mais cuidado. depois que Julia ficou entre nós. Que má hora. Não pareciam mais estar falando hipoteticamente. Autumn pôde sentir que havia uma discussão doméstica. Quando dirigiu seu olhar para Helen. depende. Lucas? — Jacques estava comendo pouco. Produziria o mesmo efeito que ler Guerra e paz sob uma luz bem fraquinha: só causaria dor de cabeça e criaria confusão. Autumn percebeu como os dois ficaram juntos em um canto. Só Julia e Lucas pareciam não estar sendo afetados por ela. Autumn percebeu o medo que se apoderava dela. Julia só está fazendo exatamente o que eu queria que fizesse. que continuava a cair.— Ah. Estou bem. Julia mudou de assunto rapidamente. — Prometo. Autumn descobriu que sua vontade também era sair daquela sala. Ele tinha uma expressão entediada que queria dizer "Vá para o inferno". um por um — sugeriu Autumn. e olhou para Julia. isso realmente depende muito. — Um crime de paixão ou vingança? O ato impulsivo de um amante descartado ou a obra maléfica de uma mente fria e calculista? — Tia Tabby poderia espalhar um veneno exótico na comida e eliminar a todos nós. antes de olhar para um ponto no teto. Uma vez. — Tia Tabby parou por um momento de conferir a lista da lavanderia e levantou-se para olhar o ferimento da sobrinha. perto da lareira. Autumn ficou pensando no motivo para ele ter feito isso. Autumn olhou para o outro lado. — Tia Tabby retirou os papéis do alcance da mão de Autumn. o rosto de Jane não estava mais abatido. Autumn transferiu o olhar para Lucas. tia Tabby. mas Autumn. Sim. agora já estava estressando a todos. Não parecia uma característica de Lucas preocupar-se tanto com uma senhora idosa e distraída. — O assassínio é uma perda de tempo. — Ele deu um sorriso mortal. como falara.NORA ROBERTS — Você morre tão bem — comentou Steve. abriu a porta do quarto da tia. Estava gostando de ver Helen agitar-se como uma mosca transpassada por um alfinete. aparentemente adorando a companhia um do outro. — Não. não há necessidade de mais mortes. — Sabia que não adiantava nada tentar fazer rodeios para descobrir alguma coisa da tia. onde não conseguia ouvi-los. — Que bom. — Autumn olhou descuidadamente os papéis sobre a escrivaninha da tia. Julia não olhou nem uma vez na direção deles. enquanto mergulhava no purê de batatas. tia Tabby. Já tomei um remédio. enquanto se dirigia ao corredor. — Não penso que o assassinato seja sempre uma perda de tempo. Depois do jantar. conversando. Autumn sabia que aquilo significava que estava 116 . o grupo juntou-se no vestíbulo. Quer uma aspirina? Tenho algumas em algum lugar. Só quero dizer boa noite a tia Tabby. mas frios como gelo. Essa sensação não tinha nada a ver com Lucas. Frio e calculista. Mas é apenas um jogo. Apesar de falarem em voz baixa. mantendo Lucas distraído. que ela conhecia muito bem. viu quando Lucas segurou um cacho dos PERIGO cabelos claros. — Lançou um olhar para Lucas. sua voz era casual. O riso de Julia era baixo e cheio acima do som da chuva. No silêncio que se seguiu. A atriz estava sorrindo. sentaram-se juntos no sofá. quando a atriz estava dando a honra de sua atenção para outro homem. sem Julia para distraí-los. aquela era uma mulher fria e calculista. McLean? Autumn não gostou do jeito como ela sorriu para ele. — Helen chamou a atenção do grupo outra vez para si. Vivo e vulnerável. e essa percepção a deprimiu. percebeu a mudança que ocorreu em seus olhos. — Fez um carinho na mão de Autumn e uma careta quando olhou o ferimento. — Fiquei impressionado com sua Lisa no filme Primavera de Esperança. sorrindo para ela do outro lado da mesa. — E que tipo de assassinato você vê. disse para si mesma. com muita perícia. Mudou-se para um lugar mais afastado. Os Spicer. que estava ligada nele. as palavras de Jacques ficaram repetindo em sua mente. concluiu. para Jane confrontar Robert pelo fascínio que sentia por Julia. — Você conhece bem Lucas? Não me lembro de você tratar nenhum hóspede pelo primeiro nome. Sim. mas infeliz. — Mais uma vez. Tentando afastar a mágoa que sentia. Autumn percebeu. Percebendo a expressão de ligeiro choque de Autumn. Julia estava interferindo. Sr. coitadinha. Apesar de ficar agradecida a Lucas por ter dado uma versão mais suave do acidente para a tia. — Autumn. mas não era mais aquele sorriso caloroso como um verão. Ele não me olhou nem uma vez. preferia tomar o vinho. — O mundo ganharia muito se algumas pessoas fossem eliminadas.

Autumn pensou. — Seu livro continua lhe dando problemas? — Virando-se novamente para ele.— Sua voz estava profunda e estranhamente áspera. A não ser por seu murmúrio irado. barrando-lhe a passagem. meu bem. desejando que ele acreditasse que ela estava impaciente e não vulnerável. deixou a porta aberta e as luzes todas acesas. Os olhos fixaram-se nos dela. Sempre sinto vergonha de cobrar deles. Os hábitos de Lucas não eram mais de sua conta. — Estou cansada. mas não posso fazer nada. — Ainda me lembro de você fazendo isso quando acordava. Que mulher simpática. — Tia Tabby continuou citando. — Vou subir. pensou. Não me perturbe. Gostou do jantar? — Sim.. mas as tábuas e os armários que gemiam não a perturbavam. enquanto lhe acariciava novamente a mão. muita gente me chama assim. revelaria o filme que tinha batido naquela manhã — o lago. — Sim. — E esvaziou a xícara.. É uma viúva da Carolina do Sul. Ela tentou insistir. — Recordando. Autumn disse para si mesma. Sim. a casa permanecia em silêncio. esvaziou bandejas e substituiu garrafas. Jogou seu filme perdido na lata de lixo. 117 . muita gente. só para me deixar louco. mas ela lutou para afastá-las. com uma xícara de café nas mãos. mas. — Ela suspirou profundamente. — E Paul e Will. tia Tabby— respondeu Autumn. — Temos a Sra. O andar térreo estava vazio a não ser pelos dois e pelo som irritante da chuva. — Dormir é melhor do que ambos. Ondas de simpatia e amor começaram a inundá-la. Isso me dói um pouco. — Lucas parece se sentir bem à vontade aqui. mas. Esticou as costas e levantou os cabelos da nuca. com um suspiro. determinada a vencer a tia pela tenacidade. sem fazer o menor esforço para isso. — Estudou o rosto de Autumn. — Mas é mais seguro do que uísque. — E o rapazinho que traz os ovos. Estalavam e sussurravam..— Muitas vezes me perguntei se fazia aquilo de propósito. Autumn dirigiu-se para ele. Eles estavam sozinhos. Absorta e satisfeita. Afastando os fios do rosto. Desta vez. estudou meticulosamente um vidro de líquido de banhar negativos. Desista. Nollington. Lucas. até não conseguir mais impedir que minhas mãos mergulhassem neles. Não. — E o café não vai ajudar. oh. — Talvez não... Beijou a bochecha da tia e deixou-a com as toalhas e fronhas. encarou Lucas. com os cabelos voando de seus ombros pela rapidez do movimento. E. Autumn não conseguiu falar. as casas velhas nunca ficam em silêncio. depois deixava-os cair em ondas sobre as costas. e isso me deixa feliz! — Sorriu para a sobrinha. — Lucas trata você por tia Tabby — citou Autumn. — Lucas. muita gente. — Mais calma agora. notou outra vez os sinais de tensão e fadiga no rosto. decidiu. Eu a trato por Francês e ela me chama de Tabitha. — Ah. gostei muito. pois não estava olhando para ele. — deu uma olhada para as contas da lavanderia e começou a murmurar. enquanto batia nas janelas da cozinha. — Você levantava os cabelos. sentindo-se agradavelmente cansada. — Suponho que isso se deva à sua profissão. Você chama. tirandoos do primitivo estado tão organizado. — Mas é claro que não fazia. Sentiu que seria mais fácil fingir que havia entendido mal.NORA ROBERTS pensando. Nunca conheci ninguém que pudesse provocar com tanta inocência. Ela sempre aluga um quarto de canto em setembro. Autumn girou. — Acho que conseguiria mais se dormisse um pouco — disse isso. Amanhã. as árvores refletidas. Já era tarde quando Autumn terminou de colocar o estúdio de fotografia em ordem. que continuou parado onde estava. — É. — Encolheu os ombros. — Eu me esforço tanto para que todos se sintam em casa. franziu a testa e depois levou a xícara aos lábios. PERIGO Ele estava reclinado contra o batente da porta aberta. — O que você está fazendo aqui? — O tremor de sua voz tirou um pouco a força da exigência que pretendia colocar na pergunta. enquanto um medo inexplicável pareceu levar seu coração à garganta. apontando para a xícara de café. Ela gostava desses pequenos ruídos quebrando o silêncio. Virou-se de costas para ele e começou a mexer nos vidros. antes que sua tia continuasse a discursar sobre Francês Nollington. — Você sempre foi bom com as palavras. Isso a deixaria em melhor estado de espírito.. o sol matinal. Os olhos dele estavam aguçados. O eco da chuva acompanhava-a. realmente. como se não se importasse. — Não estou escrevendo no momento.

quando os corpos se juntaram. Os lábios dele não se suavizaram. Você nunca se recuperou dele. Por que ele invadira sua vida de novo desse jeito? Logo quando ela começava a se recuperar de seu amor por ele. Saiu correndo pelo corredor e subiu as escadas. Algumas. com voz rouca. Nunca tinha conseguido escapar dele. disse a si mesma tolamente. — Vou ter você. ele sacudiu-a violentamente. é melhor lembrar-se de que não tenho escrúpulos. Amanhã já seria bastante. Assustada demais pelo ódio que via em seu rosto para ainda pensar em orgulho. — Já estou cansado disso. A paixão os envolvia e as costas dela estavam coladas na parede. — Vai chegar um momento. Sei como lidar com gente que pretende lutar comigo. Lucas segurou-lhe o braço. Procurou o interruptor e. — Por quê? Ele foi até ela e. O odor de perfume era tão forte que chegou a ficar meio tonta. impedindo o que ela pensou que seria uma saída fácil. se continuar me provocando. Seus olhos estavam tão escuros que ela não conseguia ver nada além do próprio reflexo. mas eram as únicas que Autumn conseguia emitir naquele momento. outras. ele colou-a contra a parede. Mas aquela blusa estampada com a manga rasgada no ombro tinha sido um presente de Natal de Will. simplesmente amontoadas no chão. não conseguindo acreditar no que via. quando a luz se acendeu. Autumn virou-se e viu-o observando o quarto. Nem onde se esconder. — Cuidado com até que ponto você pretende levar as coisas — disse ele. — Sua raiva cresceu e ela esqueceu a precaução. O coração de Autumn batia desesperadamente e ela sentia que o dele também batia loucamente. Começou a tremer de medo e desejo. Quando ouviu os passos dele nas escadas. em que você não vai fugir tão facilmente. enxugou-lhe uma lágrima do rosto. A dor latejante voltou à cabeça. — Não. — Não me ameace com sua masculinidade superlativa. pensou timidamente. sem fôlego e lutando contra as lágrimas. ela mesma comprara em uma lojinha da Quinta Avenida no verão anterior. Nunca. — Estou imune agora. Ela não poderia permitir. gata.— Não é possível. soltou um pequeno som de desespero. e respirou fundo. Vou ter você chutando e gritando.— Sacudia a cabeça como se com aquele gesto conseguisse fazer tudo aquilo desaparecer e voltar ao normal. arrancando um gemido dela. Estou perdida dentro dele. Só podia ser o quarto errado. Rapidamente. podia sentir que os joelhos começavam a falhar. Capítulo 6 PERIGO Autumn chegou à porta do quarto. ela sentiu seu desejo raivoso. gata — ele murmurou —. A voz soou clara como cristal dentro de sua cabeça. Mas vou me recuperar. Não havia para onde fugir. vencendo-a somente com a boca. Vou me recuperar dele. — Não compreendo. — Parou de sacudi-la. congelada em choque. Quando ele se afastou. — Droga. E beijou-a com rispidez. ela desligou as luzes e passou rapidamente por ele. 118 . Ela sentiu que cedia e odiou-se tanto por isso quanto o odiava naquele momento. Lucas dirigiu a atenção para o rosto dela. As sandálias.NORA ROBERTS Os olhos dele suavizaram-se quando ouviu o tom de sua voz. Ela ficou parada. Não queria encontrar-se com ele novamente naquela noite. ele se afastou abruptamente. Alguma coisa estava errada. temos que descobrir quem. Fechou as mãos em frente da porta para recuperar o ar. lutou com a maçaneta da porta. Apesar de Autumn permanecer calma. Mentirosa. Ele não poderia fazer aquilo com ela. nem quando ela deixou de lutar. Lentamente. prendendo-lhe os braços ao lado do corpo. atiradas em um canto com as tiras arrancadas. gata. com o polegar. Primeiro. Entrei no quarto errado. Enquanto ela lutava. Não havia como escapar. Então. rasgadas. Tudo — cada pequeno objeto de uso pessoal — tinha sido violado ou destruído. As gavetas e o armário tinham sido esvaziados e as roupas estavam todas espalhadas pelo quarto. — Eu não sei. Autumn soube no momento em que abriu a porta e penetrou no escuro. — Minha nossa! — A voz de Lucas soou às suas costas. De repente. ela conseguiu soltar-se dele. Ela sentiu-se puxada contra ele. ao mesmo tempo em que a raiva vibrava entre eles. A única coisa que conseguia ver era sua fúria. Ele insistiu violentamente. Vidros de colônia e embalagens de pó-de-arroz tinham sido esvaziados por toda parte. Ela fez um gesto de desânimo. pensou. mas os dedos ainda estavam enterrados em sua carne. Suas jóias haviam sido retiradas da caixa e espalhadas indiscriminadamente por entre as roupas. Sempre estive perdida nele. — As palavras eram tolas.

até descobrirmos o que está acontecendo. As roupas e os objetos não significavam nada. mas continuou segurando-a. mas conseguiu amenizar sua revolta. — Com um esforço. É preciso odiar uma pessoa para fazer isto. Ele não disse nada. — Agora. os braços. depois. — Ele sorriu e beijou-a de leve. — Ele afrouxou seu abraço. — Levante-se. Mas tem que pensar antes de agir precipitadamente. — Quero falar com você. — E. — Apesar dos olhos ainda apresentarem um brilho letal. Julia — repetiu Autumn. mas chorou amargamente. conseguiu impedi-la de sair. — Sua voz evocava a figura de Julia espreguiçando-se sobre os travesseiros. mal entendendo o que estava sendo dito. esta foi a maneira certa. — Ninguém aqui teria motivos para fazer isto comigo. e ela então voltou os seus para a câmera destruída. O filme saía da câmera como a rabiola de uma pipa. A raiva agora estava envolta em gelo. pendurada molemente numa dobradiça. A expressão dele era inexplicável. gata. O quarto de Julia ficava ao lado do dela. Com um gemido. querida. tinha tirado a primeira fotografia profissional. Era tão parte dela quanto suas mãos. — Sei o que você quer gata. — Ela andou no meio das coisas espalhadas. Julia respondeu com um gemido suave e sussurrante. E então. As lentes estavam quebradas. Ela não iria sentar e chorar mais. — Está bem. 119 . Ele teve dificuldades para controlá-la. acho justo. Então ela viu. — Autumn. não é? Ninguém aqui tem motivos para me odiar. ainda pensando que poderia estar sonhando. mas não lhe causou qualquer prazer. mal conseguindo evitar gritar. Autumn olhou para ele e franziu a testa. — Acalme-se primeiro. — Espere para ver — desafiou-o. As mãos tremiam quando alcançou a câmera.. então Autumn decidiu verificar lá primeiro. vou quebrar o pescoço de alguém. — Não tenho que pensar em nada— replicou ela. Bateu com força na porta de Julia. — Assim está melhor. que afastou o desespero e as lágrimas de sua mente e que PERIGO inundou seu corpo. e não a culpo.NORA ROBERTS — Mas isso. Exposto. com os cacos espalhados por toda a superfície. — Exceto eu. — Aonde você vai? — Arrancar alguém da cama — disse ríspida soltando sua mão da dele. — Até eu preciso de meu sono de beleza. Finalmente. Autumn conseguiu atravessar a barreira das roupas espalhadas e começou a afastar os lençóis esfarrapados da cama. Vamos bater em algumas portas. tentando compreender. se alguém queria me ferir. consciente do abraço de Lucas. Vá para a cama como uma boa menina. seremos sistemáticos até descobrirmos quem fez isso. Muito bem. — Havia um toque de admiração em seu tom. — Levante. — Você encontraria um meio mais direto para me ferir. não ofereceu palavras de conforto. — Ele segurou sua mão antes que ela pudesse sair correndo do quarto. Julia — exigiu Autumn.. — Oh. disse para si mesma. — Ela afastou-se dele com um suspiro. Quem? Sua lógica aborreceu-a. Colocando a câmera nas mãos de Lucas. A parte de trás estava quebrada. Não fez o menor protesto quando Lucas passou os braços em torno dela. Arruinado. Seu rosto de repente estava enterrado em um peito rijo. Faria alguma coisa. Sua mutilação era como um estupro. — Isso tudo é tão sem sentido. não! Praticamente rastejando. ela conseguiu respirar fundo. Ela levantou os olhos para olhá-lo. — Obrigado. ela acalentou-a nos braços e começou a chorar. — Existe? — Os olhos dele guardavam os segredos. passando os braços em torno dela e puxando o corpo para junto do dele. Autumn ficou de pé em um pulo. sentiu uma raiva muito forte.. mas a Nikon significava mais para ela do que uma simples câmera. — Bem. — Eu quero. — Existe sentido em algum lugar. — Provavelmente faria isso mesmo. — Ainda não sei. — Ele apertou-a em seus braços quando ela lutou com ele.. gata. Serei sistemática. — Alguém vai pagar por isso. — Espere um minuto. — Ela apertou a têmpora com os dedos. E apertou a câmera querida. O espelho estava partido. — Oh. Ela desviou o olhar dele. Com ela. Lucas. fortes.. Não estava com a menor vontade de discutir Lucas McLean. Depois da segunda batida. — Mantenha as garras escondidas.. Sempre existe. isso é tão rancoroso. quando ela estudou seu rosto. — Isto não faz seu estilo. Repentinamente. mas as mãos eram inexplicavelmente gentis. Ninguém sequer me conhecia antes da noite Passada.

choque. Deu um passo adiante antes que a realidade a atingisse. — Quem teria feito isso? — perguntou a Lucas. Começando com seu quarto. — Eu falo com os Spicer e você com Jacques e Steve. Lucas. eu. Assassinato.— Algo se passou entre os dois. — Temos que encarar as implicações. arrancar alguém da cama. — Acho que. — Assassinada? Ela foi assassinada? Oh. meu Deus! — A voz de Jane elevou-se e. Não. sem se dar conta de que era a dela própria. — Helen.NORA ROBERTS — Mas o que é isso? Sou eu que estou sendo arrastada da cama. Autumn desejava ardentemente poder acreditar que tudo fosse verdadeiro. como precaução. Lucas tinha razão. acorde Helen. Estava mais do que dormindo. — Ela passou rapidamente por eles e correu pelo corredor. quando voltaram para eles. — Autumn. Levantando a cabeça. que coisa horrível! — Voltou e passou o braço em torno da cintura de Autumn. — Robert respirou profundamente enquanto tentava acalmar a esposa. — Oh. Ela lutou para não desmaiar e enterrou o rosto no peito dele. Ela estava no chão. agitações e murmúrios atrás de si. — Venha já aqui. Ela encontrava-se dentro de uma neblina de tontura. Isto. — O quê? — A expressão felina transformou-se em um ar de concentração. Autumn bateu. atônita. fria. conseguiu cobrir os olhos com as mãos. — Helen! — Bateu novamente. tornou-se abafada. Parou na porta do quarto de Autumn. É uma atriz. O horror apertou sua garganta. Seus olhos. — Que loucura. — Vamos fazer uma festinha? — Alguém destruiu meu quarto — disse Autumn diretamente. Escutava a voz suave de Julia. dirigindo-se desta vez a Autumn —. Ouviu uma voz apavorada gritando por Lucas. — Julia lançou um sorriso sensual para Lucas e correu os dedos pelos cabelos. Era novamente a dama valente que Julia tinha visto rapidamente naquela tarde. Ouviu vozes incorpóreas quando saiu do horror para o choque. Agora. Falou com um tom tão autoritário que Autumn descobriu-se dirigindo-se para o quarto de Helen.. então vou até a aldeia para chamar a polícia. — Você — continuou. agora. a voz de Lucas juntou-se às dos outros. Autumn sacudia a cabeça quando voltou de costas para o corredor. não se esqueça disso. Esfaqueada. ninguém deve sair do hotel sozinho. Lentamente. Autumn ficou de olhos fixos nela. chocada demais para sentir horror. — Que coisa mais horrível. Minha câmera está quebrada. Aquilo seria sangue? pensou Autumn sem entender direito. estavam enormes com o choque. pois era a coisa mais difícil de aceitar. PERIGO Sua batida não obteve resposta. — Eu vou com ele. os olhos de Julia estavam zangados. — A voz de Steve estava tensa e insegura. Então. — Está bem — disse Julia. Autumn viu que. pelo menos. Braços rodearam-na e tiraram-na do quarto. E ficou observando a atenção de Julia transferir-se do flerte silencioso com Lucas para ela. havia mais atividade atrás dela. e depois desapareceu rapidamente. — Teve que engolir o choro quando disse isso. acendeu a luz. É preciso um julgamento antes de enforcar alguém. Autumn viu Jane abraçando-se fortemente ao marido. Quando iria acordar? A confusão reinava em torno dela. — Pretendemos descobrir. era tudo um pesadelo. o tom grave de Jane e a mistura rápida de francês-inglês de Jacques. Aborrecida. 120 . Então. Escutava as batidas. — A ordem dada com autoridade por Lucas flutuou em seu cérebro. em seguida. A voz descuidada de Lucas soou dentro de sua cabeça. Vamos acordar os outros. — Colocou os cabelos impacientemente atrás das orelhas. os cabelos soltos como um halo em torno do rosto. Eu sinto muito. — Minhas roupas foram todas tiradas dos armários. Ela é uma atriz. meu Deus. Estava tudo ali. Helen não estava na cama.. Autumn bateu novamente. abençoadamente. pelo menos. Quando chegou à porta de Helen. — Empurrou a porta. estou de pé. Nada daquilo era real. — Preciso de ar fresco. mas não dormindo. — Então vamos fazer isso. era um progresso. simpatia. calma. — Tirem-na daqui. Sinceridade. Não estava calma o suficiente para ser ignorada. impedindo que gritasse. Sentiu alguma satisfação em poder. — A voz de Steve era instável. enquanto as pessoas saíam de seus quartos para olhar o desastre ocorrido no dela. pensou. rasgadas e jogadas por todo o quarto. — Deixe-me ver. Autumn lembrou-se. foi se afastando. — Julia já não estava mais reclinada provocantemente contra a porta. Autumn viu. perdendo a paciência. — Pronto. Era um pesadelo. como um jato de água gelada: — Ela está morta. aquilo era só um jogo. Quando Autumn teve forças para olhar para ele. uma visão em um negligê de renda branca. Ela abriu a porta. O telefone está quebrado. Impulsivamente. e as respostas. viu que seu rosto estava pálido. que se abriu. os olhos escuros e pesados de sono.

ela precisa.. assassinada. — A raiva de Jacques desapareceu e ele sentou-se ao lado dela. — Eu quero. — Será uma longa noite. — Tem alguma coisa para fazê-la dormir? Ela pode dormir com Julia esta noite. Autumn. Agora que a coisa tinha sido dita em termos simples e frios. — Julia. mas não vai desmoronar. PERIGO Parte dela já sabia disso. estremeceu e tragou novamente. não vou desmoronar. Engasgou e tossiu com a fumaça. o 121 . Sofreu um choque. não podia mais escapar do fato. — Você é uma moça forte. A cor voltava gradativamente ao rosto. Você não viu a crueldade do fato. estou bem. — Sente-se — ordenou. — Autumn. estupidamente. mas os olhos continuavam frios. — A piranha finalmente provocou alguém além das medidas. Temos de encarar os fatos. — Ela recebeu o que merecia. — Eu cuido dela. Autumn concordou novamente e engoliu o resto do conhaque de um só gole. Faça o que tiver de fazer. — Julia acabou de tomar seu conhaque. A pele de Autumn continuava arrepiada. — Julia fez uma pausa. — Ela sacudiu a cabeça e apagou o cigarro. desculpe. Calmamente. Jacques. Juro por Deus que preferia também não ter visto. quando Autumn levantou a taça novamente. estava lento e pesado. serviu-se de outro conhaque. mas o resto continuava lutando contra a aceitação. Autumn viu o rosto de Julia inclinando-se para o seu. Espantada com a dureza da voz de Julia. — Vamos descer e sentar um pouco. A chuva. O único sinal exterior de sua agitação era o contínuo bater das unhas perfeitamente pintadas de rosa contra o braço da cadeira. — O tom era mais suave. — Ele obedeceu automaticamente.. Autumn tragou com força o cigarro. — Não. A luz do fogo. acho que sim. — Mas a histeria ameaçava tomar conta dela. — Sim. tentando bloquear o quadro que insistia em voltar à sua mente. — Escute. — Não sou hipócrita. — Não era um sonho. — Já disse que ela vai ficar bem. Jacques caminhou pela sala. — A mulher está morta. mas o andar. — Autumn conseguiu falar. — Antes que ele pudesse falar novamente. antes que o conhaque queimasse a garganta e pusesse o mundo em foco mais uma vez. serviu-se também de um conhaque. em seguida aproximou-se da outra. já não era audível. enquanto Robert acendia a lareira. — Julia interrompeu o protesto de Lucas com firmeza. Esse ruído. olhou para Autumn. o brilho e os estalidos não trouxeram calor. — Não me surpreende — murmurou Julia e afundou-se na mesinha baixa que estava na frente de Autumn. — Eu não quero nada. Robert entrou. — Acho que precisa de uma bebida. — Está acontecendo mesmo. — Não se preocupe comigo. — Vamos querida. Podem ir. — Julia! — Jacques entrou repentinamente na sala. bloqueando-a. era real e ela tinha que aceitar. levou Autumn para o andar de baixo. — Dei um sedativo a Jane. que Autumn jamais pensou que ele seria capaz de sentir. que fizera parte de quase toda a noite. não está? Ela está mesmo deitada lá em cima? — Está acontecendo. — Autumn tentou acreditar e depois disse com mais força: — Não. — Não devia ter feito você recordar.NORA ROBERTS Lucas concordou e. normalmente leve e suave. — Julia tem razão. Olhando para cima. enquanto afastava-se do peito de Steve. A sala ficou em silêncio. — Teremos problemas e você vai ter de encarar. acomodando Autumn no sofá. Tentando lutar contra o que sentia. — O braço de Julia substituiu o de Steve. — Um de nós a matou. Seus olhos não se despregaram dela enquanto falava com Robert. — Julia aspirou profundamente a fumaça do cigarro. — Não. mas percebeu que não conseguiria bebê-lo. — Nom de Dieu! Como pode falar tão calmamente sobre isso? — Jacques explodiu em uma raiva rápida e passional. passando-lhe o braço por sobre os ombros. fumando continuamente. Julia permaneceu sentada. um choque muito forte. — Respirou profundamente e fixou os olhos nos de Julia. E a polícia descobrirá logo por que todos a detestávamos. em seguida. Ele não iria ajudá-la em nada. Fumava em tragadas longas e lentas. Ela vai ficar bem. — Não deve falar assim agora. — Você está pálida — disse. — Estou bem. Dê um para Autumn também. Autumn só conseguiu olhá-la espantada. — Oh. Julia largou o copo. O rosto estava coberto de horror e desaprovação. — Eu a detestava. — Melhorou? — Perguntou. — Suspirando. graças a Deus! Me dê um daqueles horríveis cigarros franceses. e teve que morder os lábios para impedir-se de chorar.

Viu-se rodeada pela desordem de Julia. Ela passou para ele o conhaque que não conseguira tomar. de alguma forma. A linha de comando já estava formada. manteve os olhos firmemente afastados do quarto de Helen. Havia uma coleção delas em tons pastel.NORA ROBERTS crepitar do fogo e o som agora baixo da chuva não conseguiam diminuir a força assustadora do silêncio. Apesar de invejar-lhe a capacidade de dormir naquela situação. — Dias. Se fechasse os olhos. Autumn passara a noite lutando contra o cansaço que a vencia. — Steve afundou-se no sofá ao lado de Autumn. — Primeiro. Voltando ao quarto. — Ora. Quando se olhou no espelho. A letra elegante e delicada só poderia ser de Julia: Querida. Qualquer coisa. Quando saiu do quarto. O bilhete fez Autumn rir. Autumn percebeu e sentiu uma onda de gratidão pela simples intenção da amiga. que Autumn calculou custarem tanto quanto suas lentes grande-angulares. Você não usa sutiã e. Tudo ficaria bem. — Depois. Não conseguia ver nada além do reflexo do que se encontrava por trás dele. escutando a respiração suave de Julia a seu lado. e acendeu um cigarro. Julia sabia exatamente como me sentiria. vamos trancar e lacrar o quarto de Helen. — Não conte com isso. todos os olhos dirigiram-se ao som. Capítulo 7 122 . com os olhos fixos nele. Autumn ficou feliz por Julia já ter acordado e saído. Tirou o cigarro dos dedos e inspirou a fumaça. — Teremos que esperar para ver. sentindo a necessidade de dizer alguma coisa. Sentiu-se tão bem. — Danificada o suficiente para nos manter presos aqui por um ou dois dias — informou Lucas. sentindo-se um pouco ridícula na camisola de seda preta de Julia. Com um suspiro. Havia um bilhete sobre a roupa. — O serviço telefônico poderá voltar a funcionar amanhã. a idéia de você usando um dos meus é ridícula. Autumn conseguiu dormir. talvez pudesse ver o que vira quando havia entrado no quarto de Helen. Passara a noite de olhos abertos. já que eram um pouco curtas para ela. — Lucas passou a mão sobre os cabelos molhados. o sono foi sem sonhos — o alívio total causado pela exaustão. Ela não queria vestir nenhuma das roupas que sobraram do desastre em seu quarto na noite anterior e preparou-se para vestir de novo a camisa e os jeans que usara na véspera. esta pequena chuva de verão é o resquício de um furacão. encontrou-se totalmente acordada e sentada na cama. pois você é magrinha como um lápis. Mais uma vez. — Encantador. quando seus olhos se fecharam. depois de novo para Lucas. — Segundo o rádio do carro. Acho que minhas calças não servirão. Mas. com o rosto ainda acinzentado. à sua maneira. vamos dormir um pouco. com saltos incrivelmente altos. E o que vamos fazer agora? — disse. não era adequada nem lhe servia bem. — Levantando-se. ela levantou-se. ele tirava todos os demais da sala. Vidros elegantes cobriam a penteadeira. Autumn pegou uma calcinha transparente. deixando a água quente bater no corpo. — Está muito danificada? — Robert olhou de Lucas para Steve. como foi a intenção de Julia. Engoliu um grande gole de conhaque e ficou olhando pela janela. A memória de Autumn voltou. — Virou-se e estudou o rosto de Autumn profundamente. Confusa. desde que ela pudesse ver seu rosto. encharcando o chão da sala. Julia dirigiu-se a Lucas. para servir-se também de um conhaque. J. Os olhos permaneciam fixos nos de Julia. — Isso. PERIGO Em algum momento. já quando o dia começava a amanhecer. — Os telefones — disse. que riu de novo. cobriam o assoalho. Talvez tenha sido acordada pelo silêncio. Vestiu uma das suéteres de Julia e enrolou as mangas até os cotovelos. Toda esta parte do estado está sem energia — disse. Autumn esperou para ver o rosto de Lucas. De repente. Lucas acendeu outro cigarro. Tomou então um banho. Quando a porta da frente abriu-se com um estalo. de qualquer maneira. As ondas de tensão aumentaram e ameaçavam rebentar. Tirou a jaqueta ensopada e juntou-se aos outros. Lenços de seda e correntes de ouro estavam pendurados por toda parte. se a chuva parar pela manhã. — Podem ser dias. tão normal. Sapatos pequenos. — Não consegui atravessar a passagem — disse tão logo entrou na sala. olhou em torno. escolha uma de minhas calcinhas e uma blusa ou suéter. italianos.

ela poderia pensar novamente. Faz tanto calor e há tanto sol lá no momento. mas isso não pode ser possível. Lucas. — Conseguiu produzir um sorriso amigável. — É. não é? — E tia Tabby afastou-se um pouco para olhar o rosto da sobrinha. ela também poderia. que faço um discurso. — Ele é uma espécie de símbolo de sucesso e engenhosidade — disse Steve.NORA ROBERTS — Autumn. A comida. Tia Tabby conseguia. Um pequeno fragmento do sorriso de garoto lhe chegou aos lábios. As perguntas que fez a Steve sobre si mesmo eram em geral sem nexo. — Ele mereceu o que tem. — Preciso arrumar os quartos agora. — Autumn apertou-a. pensei que você fosse dormir mais. enquanto o nome de Lucas tremia em sua língua. como que para dar-lhe confiança para cuidar de suas tortas. Autumn descobriu que ele tinha viajado bastante.. — De qualquer maneira. É a melhor coisa a fazer. murmurando ordens para Nancy. dando ordens para a subserviente Nancy. ele sempre me encorajou a tentar o que eu quisesse. promoveriam um certo sentido de ordem. Começou a cuidar da cozinha. com a ordem.. O rosto dele estava cansado. Mas é natural. Julia e Jacques todos são da Califórnia. tenho quase certeza de que o Dr. mas ela sentiu um conhecimento e uma dedicação para com a empresa que lhe dera aquela condição. não conseguia fazer PERIGO com que seu apetite normal voltasse. em seu papel de promotor do conglomerado do pai. — Eu sabia que alguma coisa estava diferente. mas que tragédia horrível! Não sei o que fazer. Melhorar o sistema dentro do próprio sistema. café. a rotina. — Sorriu de novo. Spicer comentou comigo que eles eram da Califórnia. Autumn teve de concordar que era a melhor coisa a fazer. — Parece que não dormiu o suficiente — comentou ele. — Autumn custou um pouco a compreender e sorriu fracamente. barbado e mais velho do que na noite anterior. Tia Tabby estava lá. o frigir dos ovos. enquanto Autumn brincava com os ovos em seu prato. Autumn. Ela virou-se quando entraram e envolveu Autumn em um abraço com seu perfume de lavanda. — Lucas disse que alguém teria matado a coitadinha. — Como você é encantador por me lembrar disso. — No salão — disse ele. — hesitou. — Ela deu um tapinha no tabuleiro.. profundamente concentrada na disposição das tortas no forno. — Já vou ter que fazer o suficiente quando voltar para a Califórnia e minha campanha começar oficialmente. E. mas. — Café primeiro. Onde. — Duvido que algum de nós tenha dormido bem. Simplesmente. a chuva diminuiu. Falava do pai com respeito e admiração. — Mas vamos comer na cozinha. Sente-se e tome o café. do outro lado da cozinha. estaremos satisfeitos.. — Oh. Autumn sentiu os sons e cheiros simples e normais. Steve sentou-se do lado oposto. — Ele venceu na vida trabalhando muito. mas desde que eu seja bom no que fizer e pretenda continuar assim. — Como ele se sente por você ter enveredado na política? — É completamente a favor. — Você não dormiu bem. mas levou-a para a sala de jantar. — Fez um gesto com as mãos. — Pelo menos. Autumn apenas sorriu e balançou a cabeça. mudar rapidamente de assunto quando queria e era necessário. E pesado. Tratava a riqueza com a indiferença casual de alguém que sempre a tinha possuído. Atravessara todo o país. enquanto mordiscava uma torrada distraidamente. Ela entendeu. Ele passou um braço por seu ombro. Bacon. — Ele terminou sua segunda xícara de café. mas não alcançou os olhos. mas que o fizesse da melhor maneira possível. Ela parou no alto da escada e esperou que Steve a alcançasse.. — Não me faça começar a falar. — Steve olhou para o prato e enviou um olhar significativo para ela.. — É estranho que tanta gente da costa esteja aqui ao mesmo tempo. Também ainda não comi nada e você não pode se dar ao luxo de perder mais peso. mas ele percebeu o esforço e tentou manter a conversa. A tia era algo sólido em que podia amparar-se. Mudei você 123 . exercendo várias funções. O silêncio me acordou. enquanto passava o dedo no rosto dela. Autumn observou. empurrando a metade de sua refeição em volta do prato. — Onde estão todos? — completou. Se ele podia esforçar-se para parecer normal. — Sorriu e encolheu os ombros. — Organizar. querida. — Ele sacudiu a cabeça. Bem... Gosto de trabalhar com papéis. — Os Spicer também — tia Tabby acrescentou. encorajando o entusiasmo dele. — Não. e preferiu conversar. tomando café.— Julia jogou os cabelos para as costas e pensou na coincidência. — Acabei de reparar que você. — Oh. — Não pode ser tão fácil quanto está parecendo — comentou Autumn. como sempre. — Ele é durão. enquanto Autumn e Steve sentavam-se à pequena mesa.

calma e destacada. a voz de Lucas flutuou. Pensava que tinha uma mina de ouro com nós todos. — Não.— A menos que desejemos fingir que Helen esfaqueou a si própria. abraçando-se. — Como você é esperto. — Um caso com um senador casado. — Só que ela calculou mal. Ele aguardou um instante. as lavadeiras fazem isso. É só uma de suas histórias. querida. — Se ela estava chantageando você. — Como você sabe tanto? — perguntou Steve. isso deixa nós seis. — Motivo. — Parece que estamos em boa companhia. — E.. sobre ou apesar de Helen Easterman. vai acabar desmaiando.. Mas que coisa terrível. — Você. As conversas não engatavam. Ela precisava ligar-se à realidade. mas a natureza humana os havia unido. e levantou os braços. Agora. A expressão era ao mesmo tempo de simpatia e diversão. era em torno. falavam ocasionalmente em tons baixos. se tivesse me ameaçado com alguma coisa mais interessante. Suas defesas estavam baixas demais para ela pensar no que algum de seus olhares mais profundos pudesse causar a ela. — Julia.— Contrariando o que ela mesma dissera. isto não significa necessariamente que estaria chantageando todos nós. sentados no sofá. PERIGO — Acho que podemos eliminar o suicídio. — Olhou para Jacques. — Helen era uma sanguessuga profissional. — A voz de Jacques era ao mesmo tempo tensa e preocupada. — Chantagem — Autumn conseguiu somente murmurar a palavra enquanto olhava espantada para ele. — Levantou os olhos com um ar de incerteza. os olhos de Lucas afastaram-se dos de Autumn. sabe? Você só iria me confundir. Vou mandar lavá-las para você. — Oh. Autumn encontrava os olhos dele fixos nos dela muito freqüentemente. quando ela o olhou interrogativamente. — Motivo? — A situação tornava-se cada vez mais parecida com um dos filmes que ele escrevia. Está tudo ligado a números. acendeu outro cigarro.NORA ROBERTS para o quarto ao lado do de Lucas. — Eu quis dizer com os quartos. — Não fique tão chocada. agradeço mesmo.. — Eu não imaginava que ela estivesse enfiando suas garras em mais alguém além de em nós três. parecia não haver mais nada a fazer a não ser juntar-se aos outros no salão. Autumn. — Eu tenho meu Próprio sistema. — Lucas acendeu um cigarro.. deixando-a descansar depois sobre a dele. querida. — Agradeço muito.. mas. você está inventando isso. Autumn virou-se da janela e viu que todos os olhos da sala estavam fixos nela. A chuva. todos tivemos oportunidade de fazê-lo. — Não podemos continuar assim — declarou Julia. — Que espécie de motivo qualquer um de nós teria que ter? — Chantagem. Deixando Autumn tentando entender o que ela dissera. Autumn emitiu um pequeno ruído e a atenção de Julia foi chamada para ela. tia Tabby. não. Julia e Lucas.. Lentamente. — Tia Tabby pensou um pouco e depois estalou a língua. gata — disse simplesmente. A maioria de nós tem coisas que não quer que se tornem públicas. — Acho que já está na hora de voltarmos a discutir o assunto — anunciou Julia subitamente. — Recostando-se no sofá. o que fizeram com suas roupas. Autumn. Steve está gastando o chão. — Por que eu devo ser eliminada? — Ela estremeceu. — Enviou um sorriso luminoso para 124 . Olhando pela janela do vestíbulo. convenientemente. apesar de agora ser pouco mais que uma neblina. — Vou ajudá-la.. temos de enfrentar o fato de que um de nós a matou. Quando alguém falava. Talvez fosse melhor se eles ficassem trancados em seus quartos. — Ficaremos todos loucos. — Você é a única desta sala que não tinha um motivo. e se você fumar outro cigarro. Naquele silêncio penetrante que se seguiu. — Autumn afastou o prato e levantouse. relatou qual era a chantagem. portanto. dando de ombros. Eu poderia ter pago a ela. Parecia como barras de uma prisão para Autumn. com os olhos fixos nos dela.. Robert já está acabando com a lenha de tanto que coloca no fogo. desejava desesperadamente que o sol viesse. — Você disse que nós todos tivemos a oportunidade. Sorrir não era tão difícil quanto Autumn pensara que seria. ficou de costas para ele e observou a chuva. Tirando Autumn e a tia. fez um carinho de desculpas no rosto da sobrinha e saiu da cozinha. Lucas — exclamou Julia. — Levantou os olhos diretamente para Autumn. — Oh. correndo a mão pelo braço dele. — E observou enquanto Autumn pressionava a testa na vidraça.

— Quando a polícia chegar. Quando percebi a atenção dela sobre Anderson. — Ela ameaçou a felicidade das duas coisas mais importantes para mim: a mulher que amo e meus filhos. E não me parece justo. — Mas nem mesmo um abutre merece ser assassinado. — Você parece saber demais — murmurou Robert. — Eu sabia que ela estava fazendo pequenas ameaças para três de nós. Dirigiu-se ao bar e serviu meio cálice de xerez e levou-o para Autumn. Isso não me ameaçava nem um pouco. Ele não respondeu. com pena de Robert. dirigiu-se de novo para o bar.NORA ROBERTS Autumn.. 125 . quando ela. como se dirigisse sua explicação para ela. pedindo compreensão. com soluços fortes e fundos que lhe sacudiam o corpo. ela perguntou-se. Autumn passou por Lucas. naquele instante. — Virou-se. — Não havia nada medroso ou bobo nela agora. Autumn viu a mensagem passar entre ele e Julia. escondendo segredos. para consolá-la. não a tocou. Agora venha comigo. levando aquela câmera para todo lado. — Talvez meu motivo seja o mais forte — disse Jacques e bebeu de uma só vez. Ela teria transformado tudo em alguma coisa feia e sórdida. — Você primeiro — ordenou. Ele a conduzia pela sala enquanto falava. você não acha. — Você poderia ser a assassina tanto quanto qualquer um de nós. você e sua esposa. boa demais. Vamos subir. Jane começou a chorar. Seus olhos fuzilavam. agradecida pelo conforto. discutimos o assunto. — Isso é uma loucura. — Os olhos de Autumn dirigiram-se rapidamente para os de Julia. Eram estranhos. — Acho que já falei sobre ele antes. não faça piada. poderia tê-la matado. Parecia não saber para onde ir. — Recostando-se. Como alguma coisa sob o microscópio. PERIGO — Ela ia dizer-lhe que eu estava jogando de novo. Jane atingiu-a com um olhar que era como um soco no queixo. — Olhou para Autumn. — Fiz planos pessoais para vir aqui. Helen descobriu. Autumn bebeu. Autumn afastou-se. Sabia que Julia e Jacques viriam juntar-se a mim. — O que vocês todos estão fazendo aqui? Por que vieram? — É muito simples. Robert. se fosse exposto. eu mesma contei. O leve tremor das mãos demonstrava que ela deparara com mais um choque. quando Autumn congelou-se. e feito os arranjos para ter todos os clientes aqui. Robert passou o braço em torno dela. com o corpo. Não sou tímida com minhas indiscrições. Seus olhos encontraramse com os de Autumn como que se desculpando e. Eu estava com Robert. não é mesmo? — Julia. ao mesmo tempo. contar sobre todo o dinheiro que perdi. — A voz de Jane subiu de tom dramaticamente. sentou-se no braço da poltrona. — Ela era um abutre — murmurou Jacques.. entendi que ela estava extorquindo mais alguém. Lucas? — Olhou rapidamente para ele e. humilhada por Jane. Instintivamente. Não pode provar que não matou. Você estava nos espionando. Sua voz era baixa e confortante enquanto ela soluçava contra seu peito. — Você trabalhava para ela. bloqueando a visão de Autumn dos outros. Quando Steve passou o braço em torno dela. A beleza deste amor não significava nada para Helen. ou por defesa? — Ela deve ter contatado os outros. — A informação que ela tinha sobre meu relacionamento com esta mulher poderia ter prejudicado minha ação pela custódia de meus filhos. — Incapaz de compreender o que estava acontecendo. com um suspiro triste e aquele vestido marrom. aceitou o copo que Julia trouxera para ele. serei dissecado e estudado. diferentemente de Julia. — Ela agarrou-se a ele. Não a matei. — Não é difícil deduzir — continuou Lucas. na esperança de que o líquido facilitasse a saída das palavras. Autumn examinava os rostos que a rodeavam. — Lucas levantou-se e atravessou a sala até chegar junto dela. Ela era muito boa para descobrir as coisas. — Jacques esfregou os olhos. possivelmente. Seria por proteção. só existe minha palavra sobre isso.. você está cansada. — Julia sentou-se no braço da poltrona dele e passou a mão por seu ombro. Diga para eles que não a matei. novamente. Robert continuou a murmurar e acariciou-lhe os cabelos. Ficou olhando desnecessariamente para o fogo. que ele amava muito sua mulher. mas. em seguida. Disse que ela fosse para o inferno! Naturalmente. Ele pode dizer. Jane. — Claro que não matou. — Autumn parece estar recebendo o pior disso tudo. Segurou sua mão. mais uma vez. Antes que ela chegasse ao meio da sala. — Ela. — Eu estava com Robert. — Desculpe. Ela viu então. é a única pessoa aqui que sente remotamente pela morte de Helen. — Acho que todos merecemos uma bebida — anunciou Julia. Todos sabem disso. Autumn apoiou-se nele. apertando os dedos em torno do copo. — Mas contei para você ontem. Autumn não se moveu.. ao mesmo tempo.

afastando-os do rosto. agradeço por ter me contado — disse Autumn.. — Sim. — Ele respirou um pouco ofegante e sacudiu a cabeça. — Houve ocasiões. fraca. Viu alguém? — Não. mas. — Buscou o rosto dele e sentiu que estava prestes a desmaiar. — Não me importo em contar-lhe. Você se importa? Capítulo 8 Não trocaram palavra enquanto subiam a escada. sim — Julia sorriu para ela. Autumn. — Steve tirou o copo de suas mãos e colocou-o sobre a mesa. — Mas isso não ajuda muito. Autumn.. não queria envolver-se. — Vou ter de explicar para a polícia em breve — disse amargamente em seguida. — Parece que McLean atingiu o alvo. não é? Nenhum de nós vai querer admitir mesmo. mas foi atingida. legalmente perfeito. Não. Sim. — Recostou-se na poltrona. mas a questão é que eu não queria qualquer sombra na minha carreira.. mas havia linhas de tensão no rosto. Atingida. As partes técnicas são muito complicadas para serem explicadas. — Como ela poderia dizer? Como poderia pensar? — Autumn já teve o suficiente por enquanto. Você não está envolvida. e eu me pergunto quem. — Sorriu para ela. que quase riu. Julia tem razão — seus dedos passaram quase que sem perceber pelos cabelos dela. — Os olhos dirigiram-se instantaneamente para Lucas. A voz soou estranha. É difícil resistir a seus cabelos. — É muito mais saudável quando nos abrimos sobre nossos segredos. suponho que sim. — Steve apertou o braço em torno dela. — Olhou para dentro do copo. esqueça nossa presença por algum tempo. tentando afastar a dormência do cérebro. que ela não queria ouvir. — Não. acompanho você. Havia uma dúvida ética. — Ou disse que estava.. antes de parar na porta ao lado da de Lucas. Havia sinais da presença de raiva e impaciência que ela conhecia tão bem. — Mesmo assim. — Você estava no hotel naquela manhã — afirmou Autumn. e ela engoliu em seco. — Steve. — Ela me ameaçou. presos ao rosto dela. que não merece estar no meio disso. pensativa. depois respirou profundamente.. Helen tinha informações sobre um contrato que eu havia feito para a companhia. Mas você já ouviu o suficiente por enquanto. — Nossos problemas não têm a ver com ela. Autumn e Lucas. Autumn. — Quem fez isso estava furioso. oui? Vá dormir. — Você entrou num ninho de víboras. Queria mandar Jacques parar de falar. em que tive vontade de apertar-lhe o pescoço.— Julia mordeu o lábio inferior. — Acho que a polícia vai querer saber quem socou Helen. — Tudo aquilo é verdade? Tudo o que Lucas disse? Helen estava mesmo chantageando vocês todos? — Ela percebeu o desconforto nos olhos dele e sacudiu a cabeça. se você se sente melhor sabendo da verdade... — Levou as mãos aos cabelos. temos de cobrir todos os ângulos.NORA ROBERTS Autumn envolveu o copo com as duas mãos. Steve passou com ela rapidamente pela porta do quarto de Helen. — Fiquei furioso quando ela chegou aqui com aquele sorriso maldoso e olhar venenoso. — Não é agradável para você ter de explicar. Os olhos de Steve eram gentis enquanto olhava para ela. tive vontade de machucar-lhe o rosto como alguém o fez. percebendo a expressão dela. era isso exatamente. talvez bastante furioso para matar. Ainda não conseguira absorver tudo o que tinha ouvido. — Ele interrompeu-a. protetoramente. Autumn estava ocupada demais. mas. tão próxima do que ela mesma estava pensando. se quisermos entrar na política. — Imagino que esteja acostumada com isso. não foi? A palavra foi tão adequada. — Jacques estudou seu rosto pálido e preocupado. — Não. Autumn. Baixou os olhos para a bebida. — Sim. Atualmente. — Vamos. quando percebeu que suas mãos estavam sobre os cabelos dela. Você chegou com ela. — Ele deu um sorriso sem graça e levantou os ombros. — Os olhos percorreram os rostos de Steve. Com um olhar final para Lucas. Tive vontade de tocá-los desde a primeira vez em que a vi. e não liguei muito. 126 . Os olhos dele estavam escuros. — A esta altura não é mais querer saber de nossas vidas. que não ficou muito bem no papel. Já estava envolvida. puxando todo o peso para trás. eu. — Talvez não tão perfeito como deveria ter sido. muitas vezes. PERIGO — É este o quarto de que sua tia falou? — É.. mas isso não seria suficiente para causar um assassinato. — Estava. — Pobre criança. — Ângulos — repetiu Autumn e pressionou as têmporas com os dedos. Estar sozinha na cama é difícil de ser aceito como um álibi. — Não quero saber da vida de vocês. Mas era tarde demais. Autumn acompanhou-o.

Ele suspirou. como se o protegesse. Se eu ao menos soubesse. — Posso ajudá-lo. Ele era perfeitamente capaz de esconder as emoções quando tinha um motivo para isso. O corpo estava até dormente. Robert? Seus olhos encontraram os dela e afastaram-se em seguida. — É. observando os dois. — Agora você vai descansar um pouco? — murmurou Steve. não precisava de braços que a amparassem ou de palavras de conforto. sim. Era um homem duro. onde só conseguia ver a chuva lenta e odiosa que ainda caía. A batida na porta soou como uma explosão. — Acredito que você seja uma daquelas raras criaturas que sejam inerentemente delicadas. Havia uma sensação de segurança dada pelo brilho californiano. — Ela não teve a intenção.. Não sentia outra coisa além de simpatia por Jacques e os Spicer. Pare! Ordenou a si mesma. Obrigada. Autumn relaxou e devolveu o beijo. A prescrição de Steve tinha sido válida — ela precisava descansar. Não naquele momento. Robert entrou. Lucas estava parado à porta do quarto. A tesoura que ela encontrara no chão ao lado de Helen. Estamos todos nervosos. — Não. — Ele afastou seus cabelos da testa para examinar o machucado. PERIGO Autumn tentou afastar o pensamento. mas o sono não veio. não se aproximava. Peço desculpas por minha esposa. um deles era o assassino. — A calma de sua voz deixou-a aliviada. Foi um beijo suave. Ele também poderia cuidar de si mesmo. agora mais colorido. — Ele interrompeu-se e sacudiu a cabeça. — Precisa se alimentar — disse. enquanto esta soluçava. — Ela tem passado por muita tensão. — Está dormindo agora. não precisa. — Está incomodando muito? — Não. Ele também não precisaria de Autumn.NORA ROBERTS — Não. ela se lembrou. suaves. — Ela o examinou também. Quando ficou sozinha. levantou-se para olhar pela janela. ela abraçou o próprio corpo. — Sim. Nem podia racionalmente acreditar que isso pudesse partir de qualquer um dos outros. Sua cabeça. Autumn deitou-se sobre a cama enorme e branca. encorajando Jane a jogar para pagar a ela. Minhas covas delicadas transformam-se em crateras muito rapidamente. tirou cada moeda do dinheiro que Jane conseguia arranjar. apesar de tentar afastar o pensamento. Jane contou-me tudo e eu pretendia ficar feliz por enfrentar a maldita da Easterman hoje de manhã. desapareceu no interior. — A raiva sobrepujou sua preocupação e ele começou a andar pelo quarto. no meio do melodrama do momento. — Isso aparece primeiro no rosto. entre. quando ele falou sobre os filhos. mas o sono. Quem melhor do que ela para saber? Cruel? Sim. naturalmente. — Ela atormentou-a muito. que a confortou mais do que provocou. Apesar de ter arrancado confissões de todos os outros. Ele segurou suas mãos e apertou-as com força.. Seriam todos capazes de esconder tanto ódio. Steve também parecia mais aborrecido do que preocupado pelas ameaças de Helen. — Autumn viu aquelas mãos delicadas. — Ele suspirou mais profunda e longamente. Tesoura. Não iria acreditar que ele fosse capaz. fechar-se em 127 . Lembrou-se dos olhos do francês. Antes. como um amante desejado. Parecia tão terrivelmente abatido e chocado que automaticamente Autumn dirigiu-se para ele. Vou. Mesmo assim. — Afastou-se para poder olhá-lo. Ninguém tem qualquer motivo para ferir você. — Sim. ela admitia. — O hematoma parecia até um alívio cômico e ridículo. quando se falou em chantagem — mas Autumn conhecia-o bem. Parecera muito calmo. muito tranqüilo. por trás de rostos chocados e olhos assustados? Mas. Nem pensava mais em medo. fosse qual fosse a ameaça que Helen teria contra ele. mas os olhos foram atraídos para as costas dele. — Digo o mesmo para você. Estava conseguindo controlar-se. E eu sem saber de nada! Deveria ter sabido. Autumn não conseguia imaginar Lucas enfiando alguma coisa afiada em Helen Easterman. — Aquela mulher transformou a vida de Jane num inferno. continuava sendo um segredo. Ela incentivou uma doença. Autumn tinha certeza de que a atriz saberia se cuidar sozinha. enquanto examinava o rosto da garota. Ontem. não podia acreditar que ele fosse capaz disso. teria posto um fim naquilo há muito tempo. A mente doía de cansaço. Isto é um pesadelo. nem um pouco. Lucas era um caso diferente. Sem falar. apertando-a contra o peito por um instante. tanta feiúra. eu sei. Girando. Não. e ainda conseguia ver Robert protegendo a esposa. — Ela não ficou surpresa por descobrir-se nos braços dele. enquanto os pensamentos percorriam cada membro do grupo. assassino? Não. Lucas podia ser cruel. com os lábios dele sobre os seus. O coração disparou e a garganta secou com o medo. Não podia mais pensar naquilo. E o tempo passou. Mas. pensou. Estou bem. ela ainda possuía as cicatrizes para provar o que dizia.

Talvez ninguém mais sinta. o movimento era impossível quando ele a impedia. — Pare! Por favor. — Você precisa comer — disse abruptamente. Após um momento.. E sua boca colou-se à dela. é melhor aproveitar enquanto posso e enquanto tenho a chance. — Não! — Ela fechou os olhos. — Eu poderia ter usado as mãos e ser mais cuidadoso. depois colou seu corpo ao dele. — Vou ver como está Jane. — Seu rosto aproximou-se do dela. pareceu conseguir controlar-se. A raiva aumentou. Autumn lutou contra ele. quando se sabe o que fazer. Autumn pensou em como estava cansada de ouvir aquele diagnóstico. Mais.. Passou-lhe pela cabeça que poderia estar beijando um assassino? Falou suavemente. Ela estremeceu. melhor ainda. olhou-a e franziu a testa. Ela observou-o enquanto ele se afastava e depois afundou em uma cadeira. Parou junto dela. mas as mãos dele.. pare! Ele a estava machucando agora. — Dizendo isso. enquanto acariciava suas costas. agarrando seus cabelos. mais assustada do que tinha ficado quando acendera a luz do quarto de Helen. A zombaria foi substituída por uma raiva apavorante. — Gostaria mesmo de acreditar nisso. — Autumn observou os dedos da mão esquerda relaxando um a um. Por favor. — Se vou ser executado por assassinato. Os olhos dela abriram-se imediatamente.. No exato momento em que pensou nele. — Sair? — Ele deslizou a mão da garganta para a nuca. Ele baixou a voz. Lucas. — Sua respiração entrava e saía trêmula dos pulmões. Se fosse possível. Era como se ele a estivesse forçando a pensar o pior dele.. gata. — Não é uma coisa bonita de se dizer. gata. — Estou vendo os quilos saírem de você durante o dia todo. Os olhos riam para ela. não é mesmo? Parado na frente de Helen com a tesoura na mão. — Você não sabe bater na porta? — Sempre admirei a magreza de seu corpo. Você vai ficar bem? — Vou. Os olhos dela brilharam com uma raiva súbita. Os olhos estavam negros de fúria. Lucas apareceu. — Ela teria sacudido a cabeça. Ele virou-se e fitou-a. numa rápida mudança de humor. Você adoraria me colocar no papel do criminoso. — Ela não sabia bem o que dizer. querendo que ela acreditasse que ele fosse capaz de uma coisa tão monstruosa. como você disse. — Também é mais rápido. mas não com as mãos.. — Quero que você saia daqui. — Imagine se não quis! — Ele interrompeu o protesto. Não vou fazer isso. para ajudá-la a combater o desejo que sentia por ele. — É muito simples e não suja nada — insistiu ele fitando os olhos arregalados dela. eu não quis dizer. Você se lembra. Cada crise diferente deixava-a mais arrasada. — Sinto muito por você ter acabado envolvida nisso tudo. — Ela era uma mulher má. Lucas. muito fria. exceto uma delas. — Que Deus me perdoe.. — Qualquer um se sentiria da mesma forma — disse cuidadosamente. não é? Adoraria me ver na Prisão. Quando começou essa loucura toda? Há apenas alguns dias. — Adoro galanteios. direto. — Parece que o Anderson também descobriu isso. pendurado com uma corda no pescoço. Ela só conseguiu gemer. Seus olhos. Não tinha mais que agüentar as grosserias de Lucas McLean.. Você já é magra demais. Feriu alguém que você ama. — A idéia de eu ter sangue em minhas mãos é fácil para você. tornaram-se vulneráveis. — Um deles pode estar me abraçando agora. PERIGO Ele apertou seus cabelos com tanta força que ela gritou de surpresa. — Lucas. mas esta é a única razão por eu não estar feliz por ela estar morta! — Robert. — A arrogância e as palavras dele reacenderam sua pouca energia. Jamais vira nenhuma daquelas pessoas que a abraçavam agora.NORA ROBERTS punhos. colocando-a de pé. Não acha? — Só está dizendo isso para me assustar. Saia agora mesmo.. — Isso seria um castigo adequado por eu tê-la rejeitado gata? Esse ódio é tão profundo assim? Profundo o suficiente para você mesma me executar? — Não.. Gelo correu pelas costas de Autumn. ela estava segura em seu apartamento em Manhattan. como lidar com esse lado do caráter dele. que agora já não mais estavam tomados pela raiva. Acho isso muito triste. mas nenhum de nós vai sentir a morte dela. Mais do meu estilo. não possibilitavam esse movimento. 128 . Ela nunca o tinha visto daquele jeito. apertou os dedos em torno do pescoço de Autumn. — Levantou-a da cadeira. enquanto sua voz era fria. As palavras doíam mais fundo. ela estava mais fraca agora do que antes. ou. que queimava.

com um conhecimento agridoce. O silêncio prolongouse pelo que pareceu uma eternidade. Autumn enterrou a cabeça nos joelhos. como eu quero você. um lampejo de dor cruzar-lhe o rosto. que não conseguiria evitar que a resistência se transformasse em exigência. E agora ela iria comer. mas as mãos dele continuavam a busca. se não descer para o jantar. Alguma coisa havia mudado. — Oh. Nada havia mudado enquanto ela estava dormindo. Levantou a mão e colheu uma lágrima na ponta do dedo. esperando que não estivessem tão inchados quanto os sentia. A boca de Lucas calou a dela. Com um gemido súbito. mas ela não se sentiu descansada. — Depois que tiver descansado. ela não gritou. longa e profundamente. Levantou-se e foi até a janela. Ela pensou ter visto. Àquela luz suave. Não.. procurando todos os lugares secretos que descobrira três anos antes. Vou pedir a sua tia para trazer-lhe alguma coisa numa bandeja. As palavras que ele tanto dizia no passado causaram-lhe mais agonia do que podia suportar. Deixou a toalha molhada descansar contra os olhos por um longo tempo. Já alcancei meu limite. foi até o banheiro e lavou o rosto. ela lutou contra ele. — Ele tocou-lhe o braço e ela enrolou-se mais. PERIGO Sentando-se na cama. Autumn não conseguia resistir. — Pode morder e arranhar o quanto quiser. Prendendo seus braços ao lado do corpo. Um sinal normal. Até mesmo seu orgulho. Ela sentiu-se aliviada. Ela arqueou o corpo uma vez. Sozinha. pensou. Não deixarei que ninguém a perturbe. — Tem a minha palavra. Viu a lua e o brilho das estrelas. — As palavras saíram trêmulas de sua boca. Todos os movimentos pararam. Ele a conhecia demais. Os pés descalços não perturbaram o silêncio que pairava sobre o hotel. não grita. pertencia outra vez a ele. Capítulo 9 Estava escuro quando Autumn acordou. Lucas. não companhia. Afundaram na cama. agitada. que sempre temperara seu amor. calmamente. Ele venceria novamente e ela não faria nada para impedi-lo. decidiu. Verdadeiramente quieto. Quando sua boca afastou-se da dela para acariciar-lhe o pescoço. sim. eu grito. — Autumn. Lucas parou abruptamente. Era um sinal saudável. — Não vou tocá-la desse jeito outra vez — disse. Estava tudo quieto. depois jorraram dos olhos. antes de tornar-se frio e sem emoção. Não por ele. lutando contra as lágrimas. A chuva parará e o pesadelo estava prestes a acabar. continuou enrolada em uma bola. Autumn sabia.. através da visão deformada pelas lágrimas. — Como alguém tão magrinha pode ser tão macia? — murmurou contra sua boca. Quando falou. tentando defender-se. Mas quando passou pelo salão. com experiência e conhecimento. A chuva tinha parado. Lucas tinha a voz áspera e tensa. Nunca por ele. Não estava 129 . era como um animal que tivesse finalmente se libertado da coleira. enquanto olhava à sua volta por todo o quarto. Não tinha certeza se teria coragem de olhar-se no espelho. eu. — Se me tocar de novo. não deixe de comer alguma coisa. a tempestade de lágrimas induziu-a ao sono. A fome que ele sentia era monstruosa. O que queria agora era comida. pelo que ela vale. antes que se aproximasse dela. O sono tinha sido somente um alívio temporário. ouviu vozes. Sentia algo mais. como que para defender-se. — Vou gritar. — Não vou conseguir esperar mais. quando ele se afastou para olhá-la. Tinha prometido a si mesma que ele jamais a veria chorando outra vez. deitada na cama. deixou-a fraca. Fome. provando que ele estava certo e ela. — Não. buscando o seio. O corpo moldou-se ao dela. Ela não levantou os olhos e. gata. As lágrimas correram. mas gemeu com a necessidade que ele sempre soubera despertar nela. meu Deus. — Dirigiu-se para a janela e ficou olhando para fora. — As palavras saíram trêmulas enquanto ele beijava o pescoço dela. não quero ser responsável por isso novamente. — Não. Autumn pensou tê-lo ouvido suspirar. pensou. Lucas olhava-a com uma espécie de fúria. enquanto pensava que logo ele descobriria seu amor desesperado. oh. ela estava errada. Os dois corações batiam juntos.NORA ROBERTS Ele colocou a mão sobre a suéter dela. O quarto ficou em silêncio outra vez. meu Deus. Ela o ouviu saindo e o ruído baixo da fechadura. errada. em desespero. Com toda a força que lhe restava. E. A exigência violenta. afastou o corpo do dela. apertou-os mais fortemente. antes que ele alcançasse o cós de seus jeans. A chuva que caía parecia ecoar dentro dele. finalmente.

Autumn conseguiu ver de relance que Jacques continuava parado junto da janela. — Julia. Autumn. faminta demais para querer discutir. — Ah. — Vou representar a mãe. até esta ficar totalmente sentada. carinhosamente. — Desculpe. até que isso aconteça. — Não tem? — Julia passou a ponta da língua sobre os dentes. quando a energia acabou? — Autumn sacudiu a cabeça e tocou o ferimento da testa. duvido — disse Julia. As ordens do médico foram para deixála dormir o quanto quisesse. Nós pensamos muito sobre isso. Este dia foi como um século. Parecia também ser competente o suficiente para manter uma conversa. enquanto preparava a omelete. Deve estar morrendo de fome. Você deveria estar na cama. que não exigiria uma grande concentração para acompanhar. — Acho que não deve comer nada pesado a esta hora da noite — disse. e continuou a fumar. Julia lançou-lhe um olhar superior. Uma fumegante canja de galinha seguiu o leite. — Meu Deus. mas Robert não deixou. agora — interrompeu Julia. — Quer dizer. Autumn atacou-a com grande intensidade. realmente. você é maravilhosa. Recostando-se na cadeira. contemplativa. mas. — Ela ficou surpresa por perceber que tinha quase esquecido a invasão de seu quarto. E. Autumn — acrescentou. Autumn decidiu que observar Julia Bond em afazeres na cozinha devia valer um quilo de ouro. — Lucas queria mandar uma bandeja para você. não me servindo. — Que bom que conseguiu descansar. — Acho que quem rasgou suas roupas estava procurando alguma coisa e que depois cobriu a busca com uma destruição em massa. Divisou as silhuetas de Jacques e Julia contra a janela. — Eu bati de cara na porta. — Obrigada. Lucas me disse que você ouviu 130 . Com uma reverência. — Julia. — Sente-se. Autumn levantou os olhos e sorriu. Está com um aspecto terrível. — Não tenho a menor vontade de subir para o quarto. não precisa preparar nada para mim. Nasci assim. Boa menina — aprovou Julia. pelo preço de mercado.. — Não vá me dizer que sabe cozinhar. — Deve ter sido Helen — disse ela. — Fico me perguntando. Sua conversa era baixa e urgente. — Sim.. — Pois beba tudo — ordenou Julia. PERIGO — Isso. — Precisa de cor nesse rosto. — Procurando o quê? — perguntou Autumn. Autumn deixou-se levar. pressionando os ombros de Autumn. colocou um copo de leite diante de Autumn. Se Helen tivesse invadido seu quarto. intencionalmente. Vamos ver o que tia Tabby deixou para você. — Sim. mas você é um doce.NORA ROBERTS sozinha. — Como? — Autumn levantou os olhos e franziu a testa. — Está parecendo um ser humano novamente. — O que quer dizer? — Foi seu quarto que foi invadido. — Julia pegou um cigarro. afastava Autumn do salão. — Sobrou uma sopa maravilhosa do jantar. — Foi mesmo? — Julia sentou-se. e eu fico muito satisfeita. Julia virou-se e a viu. A conversa parou abruptamente. dando uma olhada para a cafeteira. mas. observando-a através de uma nuvem de fumaça —. — Oh. — Nós? — Bem. Os membros perderam um pouco da fraqueza. depois de tudo que havia acontecido. Pensamos que só a veríamos amanhã de manhã. seria para procurar alguma coisa que pudesse usar contra você Teria sido bem cuidadosa. eu sei. Autumn conseguiu sorrir. quando conseguiu levar Autumn para a cozinha. — Julia recordou. E estou egoisticamente preparada para mantê-la comigo. até me sentir completamente exausta. — Não tenho nada que pudesse interessar a ninguém aqui. — Vou preparar um banquete para você. reclinou-se e ficou observando a lâmpada do teto. eu pensei muito sobre isso — corrigiu Julia rapidamente. e vou preparar-lhe minha especialidade: omelete de queijo. — Deslizou até a moça e amigavelmente passou-lhe um braço pela cintura. querida — ordenou Julia. afinal deu sinal de vida. E antes que pudesse dissolverse de novo nas sombras. acho que não é muito bom você ficar andando por aí sozinha. afinal de contas. — Tomava café enquanto observava Autumn devorar a omelete. Agradeço muito.. sem se mover. — Não gosto muito de leite — começou Autumn. Pela primeira vez.. Autumn reparou nas sombras sob os olhos azuis e sentiu uma ponta de culpa. Julia falava o tempo todo e. — Duvido muito. — Estive pensando no que aconteceu no estúdio de revelação. — Já passou do estágio da teimosia.

Como Lucas. — Se você a tivesse matado. Ele é muito ambicioso. é perigoso. Autumn enfrentou seu olhar com firmeza. mas ele não mataria. mas ela não poderia. qualquer um. — Voltou a olhar para Autumn. Julia. bateu a cinza do cigarro no cinzeiro. Autumn. — O que está tentando me dizer? — E se alguém estivesse preocupado por você poder ter tirado uma foto que não queria que fosse revelada? O filme de seu quarto também estava estragado.. meu temperamento forte não é segredo para ninguém. interessariam a um certo marido enganado. — Consigo acompanhar sua lógica até aí. teria arranjado a cena diferente. Perigoso o bastante para feri-la novamente. — Ela afirma que confessou tudo para Robert. querida.. — É claro que disse que não ligo para as ameaças de Helen. Ele ama muito Jane. mas não disse nada quando levou o cigarro aos lábios.NORA ROBERTS alguém mexendo na maçaneta. Mas você roubou meu espetáculo. afirmava. 131 . — Não tem. Por que alguém iria querer fazer aquilo comigo? Julia levantou a sobrancelha. — Lucas é conhecido por seu temperamento forte. — A raiva súbita e violenta nos olhos de Robert voltaram à sua mente.— Observou atentamente o rosto de Autumn. motivado o suficiente.. — O sorriso alargou-se. — Chegamos a mim. E muito boa. Julia sorriu. furioso com o que Helen fez sua mulher passar. Estava tirando fotos da paisagem. — Não — concordou Autumn e olhou outra vez para cima. — Existem chaves. — Você não o estragaria. — Isso não tem graça nenhuma. Poderia dar uma lista de diretores que lhe diriam que sou capaz de qualquer coisa. Eu mesma teria descoberto o corpo. o lago. — Oh. Não estragaria um rolo de filme sem estar consciente disso. ficou esperando. — E existe Lucas — continuou Julia como se Autumn não tivesse dito nada. e esfregou as têmporas. Autumn controlou um tremor. — A voz de Julia mais uma vez estava firme e definitiva. enquanto Autumn espalmou as mãos sobre a mesa e ficou olhando para elas.. PERIGO Os pensamentos de Autumn voltaram para Lucas e para o olhar dele quando passou a mão em torno do pescoço dela. — Autumn colocou de lado o resto da omelete. poderia. — Encare os fatos. nem mesmo em mim. — Não confie em ninguém. — Talvez alguém não tenha certeza disso. — Vagarosamente. — Mas Julia. mas depois lembrou-se que ela estava aberta quando Lucas a encontrou. Qualquer um.. — Os dedos de Julia começaram a tamborilar na mesa. — Existe o fato de um processo delicado de divórcio. Os olhos estavam firmes novamente. é capaz de matar. nenhuma delas admirável. qualquer coisa que prejudicaria muito sua carreira política. É um homem de atitudes físicas. E você é uma profissional. — Jane estava desesperada — continuou Julia. — Jane? Jane me acusou de espionar. Julia. se eu a tivesse matado. mas que provas temos? Ou Robert. sim. E se. poderia ter feito ele mesmo. animais. Mas a possibilidade que eu tenha matado Helen permanece. — Não — concordou. gritado e depois desmaiado magnificamente. Árvores. se necessário. — Se alguém estiver preocupado o suficiente sobre uma foto para arriscar-se a destruir seu quarto e deixá-la inconsciente. é ridículo. — Tenho observado você. — Só pode ter sido um acidente.. Olhando Julia com os olhos arregalados. Perigoso o bastante para matar. Autumn.. — Acendeu outro cigarro e deixou seu sorriso voar e desaparecer. por que iria me prevenir? — Blefe e duplo blefe — respondeu Julia com um novo sorriso que causou arrepios em Autumn. Não tirei nenhuma foto com a qual alguém pudesse estar preocupado.. — Ele diz que Helen descobriu sobre um negócio malfeito dele. Seus movimentos são tão fluidos. — Também temos Steve. E quanto a seu filme estragado? — O filme? — Autumn sentiu-se sendo puxada para o fundo de um abismo. — Pergunta interessante. — Mas continuamos em um beco sem saída. — Não. mas sou uma atriz. tão seguros. — Em que está pensando? — A porta estava aberta quando Lucas. — É. Tenho um Oscar para prová-lo. Julia. — Ela interrompeu-se e sacudiu a cabeça. — Lucas é muitas coisas. Helen tinha informações que. — E se alguém abriu a porta com força e bateu com ela em sua cabeça? — Estava trancada — insistiu Autumn. — Apagou o cigarro com um movimento rápido e inclinou-se à frente. é tão competente — disse. No entanto. eu sei.

Ela tentou reunir toda sua determinação contra elas. Autumn encarou-a. você está pensando que matei Helen. nem mesmo Julia. autenticamente. Não posso dizer-lhe seu nome. — Afinal de contas. um sorriso lindo. os olhos de Julia tremeram e depois baixaram. apesar de quanto Jacques tiver pago a ela. sem conseguir falar. e sim um sono agitado e cheio de sonhos confusos. só havia sombras vagas e vozes murmuradas. que a remeteu para a adolescência. gentil. a amizade era importante demais para nos arriscarmos a estragar tudo na cama. — Você não incluiu Jacques. você é como um livro aberto! — A máscara dura tinha desaparecido. estaria disposta a entregar a informação para Claudette. Não por mim. — Tenho uma fraqueza por homens — continuou Julia — e me deixo levar por ela. Autumn bebeu aquele café puro. — Por que eles simplesmente não se casaram? Julia recostou-se. — Amo muito Jacques. resumindo. por um preço. Durante muito tempo. com um suspiro divertido.. Com Jacques. mas quando Helen apareceu aqui. subitamente.. este é o segredo terrível de Jacques. — Você está apaixonada por ele. finalmente. então. que a impediam de ver ou ouvir com mais clareza. Suponho que ele deva ser visto através de seus olhos como o resto de nós. as formas começaram a aguçar-se. Ele é um homem bom. Ele não se divorciou dela. eles são uns monstrinhos. Autumn só conseguiu dormir depois do dia raiar.. mas por Jacques. Julia tomou outro gole do café. ele tentou manter o casamento por causa das crianças. — Isso mesmo. É a única pessoa do mundo de quem gosto mais do que de mim mesma. Jacques é livre. Autumn. Somos amigos. mesmo assim.NORA ROBERTS Autumn não permitiria que ninguém a assustasse. Julia olhou de volta para ela. apesar de ter todos os direitos. E. de qualquer maneira. Para surpresa de Autumn. mas deixou que ela o processasse. Voltou a bater com as unhas na mesa. — Se a vida fosse tão simples assim. Ela o protegeria. São loucos um pelo outro. — Oh. Autumn sacudiu a cabeça sem entender. mais rapidamente do que antes. agora. — E Claudette ficou com as crianças. Então. No princípio. Mas não foi possível. Mas não foi um sono profundo e vazio causado pelos medicamentos ou pela exaustão. deixando seu rosto suave e encantador novamente. — Sei que ele não é capaz de ferir ninguém. — Levantou-se. Julia sorriu. — Ela levantou os olhos novamente e Autumn viu a vulnerabilidade que transparecia neles. — Conheço Jacques há dez anos. mas eu sei. E. Ele disse que ela não receberia nem mais um centavo. Continuou olhando em seus olhos. Helen. Nunca vira Julia parecer tão fria. tornando-se mais uma vez difusas e desordenadas. o momento ou o lugar nunca eram os certos. Jacques entrou com um pedido de custódia há um ano. Jacques pagou a ela. ele tinha alcançado seu limite. — Parou de bater as unhas para pegar a xícara de café. 132 . servindo para ambas outra xícara de café. — Mas eles podem viver juntos antes que esse detalhe da custódia fique decidido. apesar dela parecer estar determinada a conseguir isso.— E. mas não do jeito que você pensa. Queria entender. que ele adora. que esfriava. — Bom. Não vou entrar em detalhes: eles chocariam você — Acariciou a cabeça de Autumn e olhou-a com um sorriso. trazer os monstrinhos de Jacques para os Estados Unidos e ter mais tantos outros quantos puderem. A voz de Julia assumiu um tom duro. aqui no salão. Viu aquele rosto lindo tornar-se implacável. Discutiram sobre isso uma noite. não incluí. flutuando por sua mente. alugaram uma casinha no campo. mas sua amada só estará livre daqui a alguns meses. Conheceu alguém PERIGO logo depois. — Ela fez o possível para comê-lo vivo. querendo ouvir mais do que sons e sussurros. depois sorriu verdadeiramente. você a reconheceria e tenho a confiança de Jacques. devo admitir. Helen pulou em cima dela. O maior erro que ele cometeu foi casar-se com Claudette. Lutou para manter o foco nelas. Eles não querem outra coisa na vida a não ser casar. As sombras moveram-se. por causa dos filhos e porque o divórcio de sua amada não esta sendo tão tranqüilo como deveria ser. amigos verdadeiros. E. E tenho certeza de que.. Ele quase morreu quando ela ganhou a custódia dos filhos. Seus dedos esmagaram o cigarro com força suficiente para quebrar o filtro. pensou. talvez porque nunca tenhamos sido amantes. as sombras evaporaram-se. Ela o protegeria a qualquer custo. E as vozes aumentaram dentro de seus ouvidos. — Não. E Helen descobriu. Você pode imaginar o resto.

As perguntas seriam respondidas. — Ela rendeu-se a seus braços. Havia sangue nas mãos dele. A água na passagem baixaria. Havia grades nas janelas. — Eu te amo. Eu te amo. Julia estava de costas para ela. disse para si mesma. deparou com Steve. ao mesmo tempo. elas se solidificaram. — Eu avisei para não me provocar demais. com seu riso rouco. apontando uma tesoura para manter Autumn à distância. — Seus olhos estavam sombrios. viu a tesoura em sua mão. puxou a manta embolada em torno de si e abraçou-a. Cores giraram em torno dela. gata. — Não. Então. juntamente com a noite. depois. em seus braços. esperando que sua nitidez desaparecesse. tudo estaria organizado oficialmente. à sua boca. Havia uma porta bloqueando sua passagem. Autumn escancarou-a e entrou. Mas entrara no quarto de Helen. Sempre te amei. mas o dela própria. grades cinzentas e líquidas de chuva. o mais tardar. Virou-se. as rodas da investigação começariam a girar transformando tudo em fatos 133 . Sem grades. — Blefe e duplo blefe. — Julia. Soltando-se. enquanto a virava para ele. pensando em escapar pela janela. por favor! — Sua voz continha uma histeria que nem o sonho conseguia abafar. apertando-o com força. tirando-lhe o fôlego. Não podia continuar ali. Autumn. ainda rindo. — Você enredou-se no meio disto tudo. E os sonhos não podiam feri-la. Sentindo a necessidade de se aquecer. Jane esmagava a câmera de Autumn com os pés. — Espiã! Para escapar da loucura e das acusações. Autumn virou-se para sair e encontrou a porta trancada na sua frente. Autumn apertou as mãos contra seus ouvidos e correu. enquanto ele fazia gestos para ela. — Julia! — No sonho. — Riu. — Havia um tremor em sua voz. Não ficaria. — Nada pessoal. quando Autumn saiu correndo pelo corredor. mas quando correu em sua direção. quando ele os dirigiu a Autumn. Me ajude a ir embora! — Tarde demais. lindo. Foi apenas um sonho. — Pegou os cabelos dela e enrolou-os em torno da garganta. mas elas eram frias e imóveis em suas mãos. Ali estava sua fuga. Capítulo 10 Autumn sentou-se de um salto na cama. — Lucas. E bastante natural. puxando-a para si e rindo. Autumn encontrou-se no corredor. e. sua segurança. A polícia chegaria. querida. Ela empurrou e puxou. jogando a cabeça para trás. — Espiã! — gritava. Gritava. a urgência da voz de Autumn vinha em câmera lenta. Lucas estava atrás dela. No final do dia. tinha chutado os lençóis e as mantas e estava agora somente coberta por uma camisola ensopada. — Seu sorriso transformou-se em um traço fino. Estava molhada de suor frio que a fazia tremer. Conseguindo livrar-se. — Volte para a mamãe! — Julia chamou. depois da conversa que tivera com Julia. — Política — disse ele com um sorriso brilhante. de garoto. — Seu rosto mostra essa necessidade. Aquilo tudo tinha acabado. divertidos. Era de manhã. mas agora era uma máscara grotesca. Me ajude a sair. enquanto o som de vidro quebrado da câmera ecoava como um tiro. ou amanhã. — Ele sorria. anotações seriam tomadas. Lucas. — Que pena. Durante o pesadelo. ela caiu através de uma porta. Vestia aquele negligê de renda branca. mas somente ouviu o som surdo e seco. Ainda tremia. Apavorada. ao mesmo tempo em que apertava o laço. Virando-se. Autumn desejou ardentemente agarrar-se a essa idéia. Jacques veio em sua direção. Autumn sentou-se enrolada no cobertor e esperou para recuperar o fôlego. O medo agora a dominara por completo.NORA ROBERTS De olhos desvairados. o sorriso lento de gata estava em seu rosto e a renda estava toda manchada de vermelho. gata. Foi só um sonho. o medo primitivo dos mortos. não! — Agarrou-se a ele. suavemente. Só sentia uma necessidade desesperada de fugir. — O braço dele continha fortemente o de Autumn. — Eu te amo. Esmurrou-a. enquanto observava a luz matinal derramar-se pela janela. Com o som ainda girando em sua cabeça. — Pode morder e arranhar o quanto quiser. PERIGO Já não era mais o quarto de Helen. divisou Robert. me ajude! Quando Julia virou-se para ela. firmes e. prendendo-a no quarto. — Meus filhos. Os olhos estavam tristes e aterradores. — Você precisa comer — disse. — Ela atormentava minha mulher. De repente. que passou a beijá-la dura e apaixonadamente. Autumn virou-se. Logo os telefones estariam funcionando. só política. você.

NORA ROBERTS
e realidade. Lentamente, seus músculos começaram a relaxar e ela soltou a manta, que agarrava com desespero. A imaginação de Julia tinha fugido ao controle, decidiu Autumn. Estava tão acostumada com o drama de sua profissão que tinha criado toda aquela cena. A morte de Helen era um fato duro e frio. Nenhum deles poderia evitá-la. Mas Autumn agora tinha certeza de que as duas desgraças não estariam ligadas. "Se pretendo continuar em meu juízo perfeito até a chegada da polícia", pensou, "tenho de acreditar nisso." Já mais calma, Autumn permitiu-se pensar. Sim, ocorrera um assassinato. Não havia engano possível quanto a isso. O assassinato é um ato violento e, neste caso, havia sido um caso pessoal. Não tinha o menor envolvimento com aquele caso. Não havia qualquer correlação. O que acontecera no estúdio fora somente um acidente. Esta era a explicação mais limpa e mais razoável. Quanto à invasão de seu quarto... Autumn encolheu-se. Só podia ter sido Helen. Era uma mulher má, capaz de tudo. A destruição das roupas de Autumn e de seus pertences pessoais tinha sido um ato mau, vingativo. Por alguma razão particular, Helen não gostava dela. Não havia qualquer outra pessoa no hotel que tivesse algum motivo para sentir tanta hostilidade contra ela. Exceto Lucas. Autumn sacudiu a cabeça com firmeza para afastar aquele pensamento, mas ele continuou lá dentro. Exceto Lucas. Abraçou de novo a manta, sentindo muito frio. Não, nem isso fazia sentido. Lucas é que a rejeitara, não o contrário. Ela o amara. E ele, muito simplesmente, não a amara. Isso importaria para ele? A voz dentro de seu cérebro argumentava com a voz de dentro de seu coração. Ignorando o frio que sentia no estômago, Autumn forçou-se a considerar, desapaixonadamente, Lucas no papel de assassino. Desde o princípio ficara óbvio que ele estava sob tensão. Não dormia bem. Autumn o conhecera no meio de uma luta no processo de produção de um livro, durante uma semana de pouco sono e muito café, mas ele nunca demonstrara quaisquer sintomas. Toda a sua energia ficava estocada para afluir quando necessitasse dela. Não, de tudo o que se lembrava, nunca tinha visto Lucas McLean cansado. Até agora. A chantagem de Helen devia tê-lo perturbado profundamente. Autumn não conseguia imaginar Lucas preocupando-se com publicidade, adversa ou não. A mulher envolvida no divórcio deveria significar muito para ele. Fechou os olhos, sentindo uma pontada de dor, e forçou-se a continuar.

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Por que ele teria vindo para o Pine View Inn? Por que teria escolhido um local tão remoto, quase um continente distante de sua casa? Para trabalhar? Autumn sacudiu a cabeça. Não fazia sentido. Sabia que Lucas nunca viajava quando estava escrevendo. Fazia suas pesquisas primeiro, extensivamente, se necessário, antes de começar. No momento que já tinha um enredo na cabeça, enterrava-se em sua casa de praia durante todo o tempo de trabalho. Vir à Virgínia para escrever em paz? Não. Lucas McLean teria escrito até no metrô das 5hl5 se tivesse escolhido assim. Ela não conhecia outra pessoa que tivesse a habilidade dele de se abstrair. Portanto, o motivo para ter vindo ao hotel teria de ser muito diferente. Autumn perguntou-se se Helen teria sido tanto um peão quanto uma manipuladora. Teria Lucas atraído Helen para aquele ponto remoto, cercando-a de pessoas com motivos para odiá-la? Ele era suficientemente esperto e calculista para agir assim. Pensou que seria muito difícil provar qual dos seis a teria matado. Motivo e oportunidade, ele dissera, e as seis pessoas possuíam ambos. Por que um deles deveria ser examinado com maior atenção do que os outros? Este cenário teria sido atraente para ele, pensou, enquanto olhava para as montanhas e para os pinheiros. Era óbvio, como Lucas o definira. Um cenário óbvio para um assassinato. Mas, como Jacques constatara, a vida sempre era muito óbvia. Não quis se deter naquele pensamento. Ele lhe trazia a sensação do pesadelo de volta. Obrigando-se a sair da cama, Autumn começou a vestir os jeans surrados e a suéter que Julia lhe emprestara na noite anterior. Não queria passar outro dia ruminando dúvidas e medos. Seria melhor fixar-se na certeza de que a polícia chegaria em breve. Não era função dela decidir quem tinha matado Helen. Quando começou a descer as escadas, sentiu-se melhor. Daria um passeio longo e solitário depois do café e tiraria as teias de aranha da mente. Só o pensamento de sair do hotel levantou seu moral. Mas a confiança desapareceu quando viu Lucas ao pé da escada, observando-a atenta e silenciosamente. Seus olhos encontraram-se por um instante, breve, mas arrasador, antes dele afastar-se. — Lucas — ouviu-se chamando, antes de poder interromper-se. Ele parou e virou-se para olhá-la novamente. Autumn reuniu toda a sua coragem e desceu rapidamente os degraus restantes. Tinha dúvidas e teria que esclarecê-las. Ele ainda era muito importante para ela. Parou no último degrau, de modo a que seus olhos ficassem no mesmo nível. Os

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dele não lhe diziam nada. Pareciam olhar através dela, aborrecidos e impacientes. — Por que você veio para cá? — Autumn perguntou-lhe rapidamente. — Para o Hotel Pine View? — Queria que ele lhe desse qualquer razão e ela queria aceitá-la, fosse qual fosse. Lucas olhou-a intensamente por um momento. Houve, por um segundo, algo em seu rosto que ela poderia ter lido, mas desapareceu tão rápido que ela não conseguiu decifrar. — Digamos que vim simplesmente para escrever, Autumn. Qualquer outra razão foi eliminada. Não havia a menor expressão em sua voz, mas as palavras deixaram-na gelada. Eliminada. Estaria usando uma palavra tão limpa para definir assassinato? O horror que ela sentiu apareceu em seu rosto e ela ficou observando seu cenho franzido. — Gata... — Não. — Antes que ele pudesse falar novamente, ela afastou-se dele. Ele lhe daria uma resposta, com certeza, mas não seria a que ela queria aceitar. Os outros já estavam à mesa. O sol iluminara superficialmente os estados de espírito e, por um acordo tácito e conjunto a conversa tomou um rumo geral, sem nenhuma menção a Helen. Todos precisavam de uma ilha de normalidade, antes da chegada da polícia. Julia, parecendo renovada e encantadora, conversava amenidades. Sua atitude era tão normal — chegando mesmo a ser alegre — que Autumn perguntou-se se sua conversa na cozinha seria tão irreal quanto seu pesadelo. Novamente, flertava com todos os homens da mesa. Dois dias de horror não tinham amenizado seu estilo. — Sua tia tem uma cozinha formidável — disse Jacques, enquanto saboreava uma panqueca leve e fofa. — Isso me surpreende às vezes, porque ela tem um ar tão desligado e encantador. Mesmo assim, lembrase de pequenos detalhes. Esta manhã, ela me disse que guardou um pedaço da torta de maçã para mim, para eu comer no almoço. Não esqueceu como gosto dela. Depois, quando lhe beijei a mão por ter sido tão encantadora, sorriu e afastou-se rapidamente, e a ouvi falando qualquer coisa sobre toalhas e pudim de chocolate. O riso que se seguiu a esta observação foi tão normal que Autumn teve vontade de abraçá-lo. — Ela tem uma memória melhor para o apetite dos hóspedes do que para os da família — observou Autumn, sorrindo para ele. — Ela

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decidiu que meu prato preferido é bife à caçarola e prometeu fazê-la todas as semanas, quando, na verdade, é o favorito de meu irmão, Paul. Ainda não consegui imaginar um jeito de ela descobrir que prefiro espaguete. Apertou o garfo quando sentiu uma dor aguda. Pôde ver-se nitidamente derramando o molho do espaguete na cozinha de Lucas, enquanto ele fazia tudo o que podia para agradá-la. Será que nunca iria livrar-se das lembranças? Depressa, voltou à conversa. — Tia Tabby parece flutuar em torno do resto do mundo — continuou. — Lembro-me de uma vez, quando éramos pequenos, que Paul roubou umas pernas de rã, que estavam em formol, de nossa classe de biologia. Ele as trouxe quando viemos de férias e entregou-as para tia Tabby, esperando por uns gritos da parte dela. Ela pegou, sorriu, e disse que as comeria mais tarde. — Ai, nossa! — Julia levou a mão à garganta. — Mas ela não comeu de verdade, não foi? — Não — Autumn sorriu. — Eu a distraí, o que, naturalmente, é a coisa mais fácil do mundo, e Paul desistiu de seu projeto de biologia. Ela nunca sentiu falta das pernas de rã. — Preciso lembrar de agradecer a meus pais por ser filha única — murmurou Julia. — Não posso imaginar-me crescendo sem Paul e Will. — Antigas lembranças passaram pela cabeça de Autumn, fazendo-a sorrir. — Nós três éramos muito unidos, mesmo quando nos atormentávamos. Jacques riu, possivelmente lembrando-se dos filhos. — Sua família passa muito tempo aqui? — Não tanto quanto costumávamos passar. — Autumn levantou os ombros. — Quando eu era criança, todos vínhamos passar um mês aqui, durante o verão. — Para vaguear pelo bosque? — perguntou Julia, com um brilho maldoso nos olhos. Autumn devolveu-lhe o levantar de sobrancelhas, imitando o gesto de Julia. — Isso, e às vezes acampávamos.— Continuou, divertida pelo erguer de olhos da amiga.— Andávamos de barco e nadávamos no lago. — Andar de barco — comentou Robert, aparentemente lembrandose de alguma coisa. Autumn virou-se para ele, curiosa — Esse é o meu único vício. Nada melhor do que velejar, não é, Jane? — Fez um carinho na mão da esposa. — Jane é uma ótima navegadora. O melhor auxiliar que já

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tive — disse, e olhou para Steve. — Imagino que você também deva ter velejado. Steve respondeu com um movimento rápido de cabeça. — É uma pena, mas sou péssimo marinheiro. Nem sei nadar. — Está brincando! — Estas palavras vieram de Julia, que o olhava, sem poder acreditar. Admirou-o com grande aprovação. — Pois você parece capaz de atravessar o canal da Mancha. — Não sei nem segurar um remo — confessou ele, mais divertido do que embaraçado. Sorriu e completou a fala com um gesto de seu garfo. — Mas compenso essa falha com esportes terrestres. Se tivéssemos uma quadra de tênis aqui, eu me redimiria. — Tudo bem. — Jacques encolheu os ombros, de maneira característica. — Vai ter que se contentar com escaladas. As montanhas daqui são lindas. Espero um dia trazer meus filhos. — Franziu a testa e fixou o olhar na xícara de café. — Amantes da natureza! — A observação sorridente de Julia evitou que o ambiente se tornasse novamente pesado. — Pois prefiro a neblina de Los Angeles em qualquer época. Vou olhar para suas montanhas e esquilos nas fotos de Autumn. — Vai ter de esperar até eu adquirir novo equipamento. Esforçou-se para manter uma voz despreocupada, evitando deprimir-se pela perda. Ainda não podia se acostumar com a idéia de ter perdido a câmera. — Perder aquele filme é como perder um membro, mas estou tentando ser valente a esse respeito. — Comeu uma porção de panqueca e encolheu os ombros. — E poderia ter perdido quatro rolos, em vez de três. As fotos que tirei do lago foram as melhores e devo conformar-me com isso. A luz estava perfeita naquela manhã e as sombras... Ficou recordando o momento em que tirou aquelas fotos. Podia verse, de pé sobre a crista, olhando para baixo para a água cristalina e para as árvores espelhadas nela. E para as duas figuras que caminhavam na margem oposta. Foi a manhã em que encontrou Lucas no bosque, depois Helen, que tinha um feio ferimento sob o olho. — Autumn? A voz de Jacques trouxe-a de volta ao presente. — Desculpe. Sim? — Alguma coisa errada? — Não, eu... — Olhou para seus olhos curiosos. — Não. — Pensei que a luz e a sombra fossem a verdadeira essência da fotografia — comentou Julia para desmanchar aquele silêncio

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constrangedor. — Mas sempre me preocupo mais em olhar para dentro das lentes, do que através delas. Lembra daquele homenzinho horrível, Jacques, que costumava surgir nos momentos mais extraordinários e botar uma câmera no meu rosto? Como era mesmo o nome dele? Só que acabei gostando dele. — Julia chamara toda a atenção para si mesma de uma maneira tão suave que Autumn duvidava que alguém tivesse notado sua confusão. Fixou os olhos com tanta atenção na panqueca coberta de geléia em seu prato como se a solução de todos os mistérios do universo estivesse escrita ali. Mas podia sentir os olhos de Lucas prestando atenção nela. Podia senti-los, mas não conseguia olhar para ele. Queria ficar sozinha, para pensar, para tentar entender o que girava em sua cabeça. Forçou-se a consumir toda a refeição e deixou que a conversa girasse em torno dela. — Preciso ver tia Tabby — murmurou Autumn finalmente, pensando que poderia sair sem causar curiosidade. — Com licença. — Alcançara a porta da cozinha antes que Julia a alcançasse. — Autumn, preciso falar com você. — Autumn sentiu a firmeza dos dedos delicados. — Vamos até meu quarto. Pela expressão naquele rosto perfeito, Autumn percebeu que não adiantaria argumentar em contrário. — Está bem. Logo depois que eu falar com tia Tabby. Deve estar preocupada porque eu não disse boa noite para ela ontem. Subo em cinco minutos. — Manteve a voz tranqüila e amigável e conseguiu endereçar-lhe um sorriso. Autumn decidiu que também estava se tornando uma atriz e tanto. Durante um pequeno período de tempo, Julia estudou o rosto de Autumn, soltando depois seu braço. — Está bem, suba logo que terminar. — Sim, farei isso. — Autumn entrou na cozinha, com a promessa ainda soando nos lábios. Não era difícil passar pela cozinha e entrar no quarto dos fundos, sem ser percebida. Tia Tabby e Nancy estavam entretidas em suas discussões matinais. Pegando a jaqueta do cabide onde a tinha deixado na manhã da tempestade, Autumn verificou o bolso. Seus dedos fecharam-se em torno do rolo de filme e, por um momento, apenas ficou segurando-o na palma da mão. Movendo-se rapidamente, trocou os sapatos por botas, transferiu o filme para o bolso da suéter de Julia, agarrou a jaqueta e saiu pela porta dos fundos.

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Capítulo 11

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Ele devia tê-la visto, quando estava parada no alto do penhasco. Ela deveria estar perfeitamente visível. Quando ele a interceptou, tentou reatar o relacionamento. Ele deveria saber de algo para tirar o filme de sua câmera. Ela devia ter causado uma comoção, capaz de ser ouvida em dois estados. Sim, ele a conhecia bastante bem para usar meios mais sutis. Só que ele não sabia que ela trocara o filme por um novo. Lucas jogou com a antiga fraqueza que ela sentia por ele. Se Autumn tivesse se submetido, ele teria tido tempo e oportunidade suficientes para destruir o filme. Autumn teve de admitir para si mesma, ainda que dolorosamente, que continuava envolvida demais com ele para perceber a perda. Mas ela não se submetera. Daquela vez, ela o havia rejeitado. Ele teria sido obrigado a empregar medidas mais extremas. Ele só fingiu que me queria, percebeu ela. E aquilo, mais do que qualquer outra coisa, doía. Ele a abraçara, beijara, enquanto sua mente estava dirigida apenas para calcular a melhor maneira de proteger a si mesmo. Autumn forçou-se a reconhecer os fatos. Lucas deixara de desejála há muito tempo, e suas necessidades nunca foram as mesmas que as dela. Dois fatos eram muito claros. Ela nunca deixara de amá-lo e ele sequer tinha começado a amá-la. Mesmo assim, ainda hesitava quanto à idéia de Lucas ser um assassino frio. Ela ainda conseguia lembrar-se de seus súbitos acessos de carinho, seu humor, as amostras descuidadas de generosidade. Isso também fazia parte dele — parte do motivo por tê-la feito amá-lo tão facilmente. Parte do motivo de nunca ter deixado de amá-lo. A mão segurou-a pelo ombro. Com um pequeno grito de susto, ela virou-se para ver-se cara a cara com Lucas. Quando se afastou, ele deixou cair as mãos e colocou-as nos bolsos. Seus olhos estavam sombrios e a voz, gelada. — Onde está o filme, Autumn? Fosse qual fosse a cor que estivesse em seu rosto, ela desapareceu. Autumn não desejara acreditar. Parte dela recusara-se a acreditar nessa possibilidade. Agora, o coração disparara. Ele não lhe deixava outra escolha. — Filme? — Sacudiu a cabeça, enquanto dava outro passo para trás. — Que filme? — Você sabe muito bem que filme. — As palavras estavam cheias de impaciência. Ele apertou os olhos, reparando em sua tentativa de retirada. — Eu quero o quarto rolo. Não se afaste de mim. Autumn parou, obedecendo a ordem.

O ar estava limpo, a chuva o lavara. Folhas que mal brotavam há alguns poucos dias, quando Autumn as fotografara, estavam mais plenas, espessas, mas ainda de um verde suave. Sua mente já não estava mais presa à liberdade com a qual sonhara durante todo o dia anterior. Agora, o único desejo de Autumn era alcançar o ponto espesso do bosque sem ser vista. Correu em direção às árvores, parando apenas quando rodeada por elas. O silêncio era profundo e a embalava. O solo sugava seus pés e os fazia escorregar, já que estava esponjoso com a chuva. Pôde notar também alguns danos causados pelo vento aqui e ali, quando se forçava a mover-se com mais cuidado. Galhos quebrados forravam o chão. O sol estava quente e ela tirou a jaqueta, pendurando-a em um galho. Obrigou-se a concentrar-se na vista e nos sons do bosque, até os pensamentos se acalmarem. Os loureiros da montanha estavam cheios de botões. Um pássaro fez um círculo sobre sua cabeça, mergulhando depois profundamente nas árvores com um pio agudo. Um esquilo subiu correndo pelo tronco de uma árvore e depois ficou olhando para ela. Autumn enfiou a mão no bolso e fechou-a sobre o rolo de filme. A conversa que tivera com Julia na cozinha fazia agora um horrível sentido. Helen devia ter estado no lago naquela manhã. Pela evidência do ferimento, devia ter discutido violentamente com alguém. E que esse alguém teria visto Autumn no alto do penhasco. E esse alguém queria tanto destruir aquelas fotos que não se importou em se arriscar, arrombando tanto seu estúdio quanto seu quarto. O filme deveria ser potencialmente perigoso para alguém, para fazer com que se descontrolasse e revirasse todo o quarto daquele jeito. Quem mais, além do assassino, poderia ter atitudes tão perigosas? Quem mais? E a cada volta que sua cabeça dava, a lógica apontava o dedo acusador para Lucas. Em primeiro lugar, fora plano dele reunir todas aquelas pessoas ali. Lucas foi a pessoa que Autumn encontrou pouco antes de cruzar com Helen. Era Lucas quem estava curvado sobre ela, quando ela estava desmaiada no estúdio. Lucas estava de pé, completamente vestido, na noite da morte de Helen. Autumn sacudiu a cabeça, querendo afastar aquela lógica toda. Mas o filme estava sólido em sua mão.

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estava úmida Você vai ter uma vida inteira para pensar nisso. O que ela iria fazer? Poderia voltar. Virou-a para ele e estudou-lhe os olhos. me deixe em paz! PERIGO Ela correu de novo. com o sol nascendo. — A impaciência rapidamente transformavase em fúria. Ele a avaliara erradamente. por favor. — Ele pareceu surpreso por instantes. — Havia uma intenção em sua voz que causava mais dor do que as mãos ou sua atitude. como sua voz parecia normal e suave! Será que seria capaz de viver desse jeito? 138 . — Percorremos toda a escala. Faça depressa e pense depois. — A mentira veio depressa e sem premeditação. — Diga onde ele está. ele não a impediu. — Lucas. Mas ela não queria ver a verdade. Ela mesma exporia aquele filme à luz. sabia que jamais entregaria o filme para a polícia. — Olá. Parecia tão inocente. só os dois saberiam. Só me diga onde está aquele filme. Encontrou os outros. Ela queria ficar sozinha. A voz estava mais calma. E quando estivesse feito. — Não vou com você. que eu a deixaria ficar com ele? — E avançou um passo em sua direção. Ela reconheceu todos os sinais. Vai acompanhar o Jacques na escalada? — Meu Deus. Em vez disso. você faz idéia de como esse filme é perigoso? Pensou. — Autumn tremia. O que vou fazer com ele é assunto meu. Tinha sido mais fácil viver com a dúvida do que com a certeza. — Quero o filme. Talvez tenha sido por isso que ele aceitou-a tão rapidamente. — Vamos buscá-lo. quando ele pegou-lhe o braço. Tinha que tentar mais uma vez. fez com que pusesse o filme de novo no bolso e olhasse em volta. onde o filme se aninhara. pensando somente em fugir das palavras dele. Autumn nem imaginava que distância tinha percorrido. Retirando o filme do bolso. — Isto é um pouco difícil para um leigo. Diga agora. Será que não pode. Do lado molhado. gata? O ontem já passou. Sentira-se tão inocente naquele dia. — Você está apavorada comigo. ou mesmo que direção havia tomado. Autumn pensou em correr novamente. Ele agarrou-a pelo braço. esperando. Parou para olhar o céu sem nuvens. Só há um rolo. — Apertando com força os braços. Um movimento no pátio. — Na primeira gaveta de baixo. e depois zangado. Pelo amor de Deus. no alto do penhasco. Faça depressa. A batalha pelo controle era novamente visível no rosto dele. pensou. Desta vez. escorregando na lama. O encontro final viria mais cedo ou mais tarde. A mão procurou o filme odiado novamente. não me magoe mais. — Sua imbecil. Se teria que jogar pelo resto da vida. Poderia voltar e tentar chegar ao estúdio antes e trancar-se lá. O alívio que Autumn sentiu quando viu Steve aproximando-se rapidamente tornou-se irritação. — A dor de que ela falava não tinha nada a ver com a dor física. nunca mais se sentiria inocente. Lucas. assustada. não foi. seus passos diminuíram a marcha. Ela correu. gata. Finalmente. Lucas McLean era o único homem na Terra que poderia fazê-la dar as costas à sua própria consciência. Você precisa entender. — Não vou tocar um dedo em você. esticou-se e ficou parada. bem atrás dela. ou juro por Deus que vou arrancá-lo de você. — Você está apavorada. Ela seria tão culpada quanto ele. olhou fixamente para ele. por algum instante. seria melhor começar agora mesmo. Lucas poderia ter revistado o estúdio tão rapidamente? E o que ele faria agora. ela não poderia traí-lo. mas ele soltou-a com um gesto violento. antes que ela avançasse muito. Lucas. e quase riu. você vai achar. — Por favor. Respirando profundamente.. ? — Não me pressione! — Aquelas palavras ásperas explodiram sobre ela. Autumn começou a abrir a cápsula plástica usada para proteger um filme ainda não revelado. mas Autumn conseguiu fingir sorrir também. emocionalmente exausta. A palma da mão. — Lucas. trouxe-a para junto de si. E sairei da sua vida o mais rápido possível. Ela nunca poderia puxar a alavanca da câmara de gás. — Muito bem. Me deixe em paz. Com a mais absoluta certeza. E onde? — Ela observou que as feições dele relaxaram ligeiramente.NORA ROBERTS — Por quê? — Não banque a boba. disse para si mesma. — Não! — Ela afastou-se. ampliar as duas figuras ao lado do lago e ver a verdade com os próprios olhos. nem agora.. Não importando o que Lucas tivesse feito ou pudesse fazer. ao descobrir que ela mentira para ele? Tolamente. Lucas. Ela precisava comovê-lo. — Havia um toque de seu antigo bom humor. — Oi! — O sorriso luminoso de Steve não adiantou em nada para diminuir o aborrecimento. fazendo-a balançar nos calcanhares. Mas quando fizesse o que teria de fazer. — No estúdio. nem nunca mais. isso não faz sentido. Poderia revelar o filme. não ficar conversando enquanto o filme queimava no bolso.

Ela jamais tivera alguma coisa que valesse a pena sobre Lucas. Contava em intimidálo. — Você e Helen? — A confusão transformou-se em choque. movendo-o entre os dedos. E um interlúdio romântico era mais do que ela poderia suportar naquele momento. ele flexionou os ombros. Autumn enfiou a mão no bolso. — Autumn virou-se e teria se afastado. acho que não. — É muito especial. Só conseguia ficar olhando para ele. a atenção voltou para Autumn. pedindo desculpas com os olhos. exceto que o amo. Isso torna as coisas muito difíceis. nada mais vai ser como antes. estava vazio. — Franzindo a testa. — Steve. Julia não lhe daria um centavo. me sinto tentada a raspá-los. — Dizendo isso. Vejo que também sentiu necessidade de sair do hotel. estiveram perto de partirlhe o coração. ele mandou-a ir para o inferno e ameaçou entrar com um processo. E portanto. que seus olhos tornaram-se mais quentes. — Steve. Steve. além deles. — Sei o que quer dizer. — Se você deixar posso fazê-la feliz. Você também é muito especial. 139 .. Autumn. muito diferente. só rira dela. mas ele continuava segurando-lhe os cabelos. — E tenho pensado muito em você nos últimos dias. — Meu Deus. Por que não esquece dele? — Nem posso lhe dizer quantas vezes fiz esta pergunta para mim mesma. — Ela queria 250 mil dólares em duas semanas. O caminho. — Oh. — Ela suspirou e ficou olhando o sol bater nos olhos dele. — Ele continuava falando suavemente. fico muito agradecida. Autumn viu. Preciso delas. não. O primeiro sinal de raiva surgiu em seus olhos. Autumn. Se ao menos ele fosse Lucas. PERIGO — Sim. Isso tirou-lhe o equilíbrio por algum tempo. olhando para além. — Seus cabelos brilham ao sol. — Autumn aproveitou para relaxar a tensão dos próprios ombros. — Não se desculpe. — Não tenho a resposta. eu acho que sabe. Agora. — Steve. — Eu quero você. — Ele segurou um punhado mais generoso. o que ele dizia elucidou tudo. — Seus olhos elevaram-se até os dela. ou entregaria a informação que tinha a meu respeito para meu pai. — Mas você disse que o que ela sabia não era importante. Autumn baixou os olhos e ficou olhando para o chão. é visível. baixou a cabeça para tocar os lábios nos dela. disse a si mesma. sim. Autumn. — Autumn deixou que seus olhos se dirigissem para além dele por um instante. mas não a libertou. com uma das mãos acariciando-lhe os cabelos.NORA ROBERTS — É. As palavras. também. Isto é uma representação. enquanto olhava para ele. mas acho que isso não vai acontecer. Ela estava sozinha. — McLean? Autumn. Helen estava furiosa com aquilo.. — Sinto muito. — Sinto muito. com um sorriso maldoso. usou com ele o mesmo golpe que usara com Lucas. — Inconscientemente. pensou. Atônita. com certo alarme. Aceite. — Gostaria muito que você se esquecesse dele.. Sinto mesmo. — Steve deu-lhe um sorriso de desculpas. — Parece que as pessoas pensam mais nos meus cabelos do que em mim. — O rosto dele mudou. Em vez de assustar-se. — Você? — Por um momento. — Autumn levou as mãos ao peito dele Para afastá-lo. Isso nos faz lembrar que a vida continua. E. ele só faz você infeliz. Deve ter percebido que Jane estava no limite. — Steve segurou-o pelas pontas. Ela virou-se para ele. foi um caso de extorsão. — E Jacques tem razão — insistiu Steve. Já desisti de tentar. Ele tinha o olhar fixo à distância enquanto falava. Mas já cobri meus rastros bastante bem e não creio que a polícia algum dia vá saber. sabe? Ela decidiu que queria um pagamento direto de mim. Quando estiver acabado. Se ao menos fosse Lucas que me olhasse assim. Ele soltou um suspiro fundo. — Filme? Não sei o que quer dizer. através das folhas finas. — Tivemos uma discussão e tanto naquela manhã. — Jacques tinha arrasado com ela. — Não posso. — Quero o filme. resolveu concentrarse em mim. ele retirou um fiapo de palha do rosto dela. por favor. — As fotos que você tirou do lago na manhã em que Helen e eu estivemos lá. — Não. Na verdade. — Ela sorriu e esforçou-se para manter uma voz alegre. Respirando profundamente aquele ar fresco. como é bom poder sair outra vez.. — Ah. mas preciso ficar sozinha. — Às vezes. — Eu não podia lhe contar tudo naquele momento. — As montanhas estão lindas. tão gentis. Suas outras fontes estavam secando rapidamente. — Ela sabia um pouco mais do que lhe contei. inconscientemente. Ela não queria piedade. ela levantou a cabeça. — Parece que todos teremos que nos lembrar disso agora. Um quarto de milhão. quase humildes.

controlando o impulso de livrar-se dele e sair correndo. Autumn. Eu não sabia o que ia fazer. — Só peguei uma quantia um pouco mais cedo. Odiaria ferir você. Poderia pensar mais detalhadamente sobre as fotos que havia tirado. você iria começar a pensar. Demais mesmo. Não posso passar por isso. Deixe que ele fale. Não pensaria duas vezes antes de me expulsar de casa e cortar minha mesada. 140 . Não sabia como o outro rolo tinha sido destruído. manter-se um passo adiante dele. — Eu sabia que. fraco. Ela não queria me ouvir. Odiei fazer aquilo com suas coisas. se simplesmente tirasse o filme de sua câmera. Pareceram anos. Pois havia sangue nela. — Então. freneticamente. foi quando fiquei sabendo que você estava tirando fotos. — Vocês estavam envolvidos demais um com o outro para notar. disse para si mesma. Mantenha-o falando. Limpei a tesoura e rasguei minha camisa. O dinheiro será meu. Perdi a cabeça e bati nela. com uma voz sem a menor entonação. ela começou a compreender. — Fui ao quarto de Helen.NORA ROBERTS — Extorsão? — A mão em seus cabelos tornava-se cada vez mais assustadora a cada momento que passava. eu mal percebi. tão logo terminei com o seu. Ficar naquele quarto foi a coisa mais difícil que tive de fazer. Foi terrível. Eu lhe disse. Ele acendeu a luz quando me encontrou.. Infelizmente. Joguei os pedaços pela descarga. Sabia que era você. percebi como desejaria que ela morresse. Sabia que teria que matá-la. Alguém tem de aparecer. isso nem importa mais agora — disse Steve pragmático. — Não tive outra escolha. Mas sabia que tinha de pensar. vi a tesoura. — Eu me debrucei sobre ela — continuou. ou perderia tudo. — Lucas. — Tenho outra em casa. Então. Jamais conseguiria arranjar todo aquele dinheiro em duas semanas. Até mesmo a pequena Jane. Não tinha sido Lucas. A textura simples e natural do ambiente à sua volta dava às palavras dele uma sensação de irrealidade. Deve ter sido horrível para você — murmurou Autumn. — Minhas mãos quase estavam em seu pescoço. — Empréstimo. — Sim. E é claro que mais tarde descobri que você não estava prestando a menor atenção em nós. Lembro-me de ter ficado surpreso quando vi que a coisa toda tinha levado menos de 20 minutos. quando vi você parada no alto do penhasco. — Os joelhos começavam a tremer. porque o sol brilhava em seus cabelos. — Quase a matei naquela manhã. — Bem. mais cedo ou mais tarde. Fiquei contente pela batida da porta ter feito você desmaiar. mas precisava ter certeza. Autumn sentiu um grande alívio pela sua inocência. Mas Lucas chegou primeiro. quase tonta com tantas revelações. Estava horrorizada. — Era uma fraca tentativa de parecer despreocupada. Qualquer um poderia ter usado a tesoura. Autumn não o interrompeu. Um coelho passou correndo pela alameda. — Nunca tinha passado por alguma coisa assim. e depois culpa por ter acreditado que ele fosse capaz de cometer um crime. Quando a vi caída no chão. Sei como era importante para você. PERIGO — O estúdio de revelação. Via que faltava muito para ele terminar. Ele estremeceu e Autumn pensou: "Corra! Corra agora!" Mas as mãos dele seguraram-lhe os cabelos com mais força. dei a volta. em meio ao horror. meu pai não acharia isso. Ele não fizera nada. — Você nos viu? — Ela sentiu uma ponta de raiva através do medo. Não vi sua câmera. — Sorriu para ela. Ouviu o chamado de uma codorna. tiradas de sua viagem a Nova York. Ela ficou lá. quebrar sua câmera. Mantenha-o falando até alguém aparecer. Steve apenas sorriu. mas ficou aliviada pela firmeza de sua voz. Tinha que me livrar daquele filme. — Ele falou em um tom tão calmo que Autumn conseguia até ver a razão que existia por trás do fato. apontando para o hematoma e dizendo que aquilo me custaria mais 100 mil. — Tenho gostos muito caros. ordenou a si mesma. Não pensei que pudesse me reconhecer daquela distância. pensando em interceptar você. Teria que estar alerta.— Repentinamente. no lago. mas encontrei um rolo de filme. deu uma olhada e entrou nos arbustos. — Não. tomei banho e fui para a cama. Pensei que fosse estrangulá-la. — Lucas — repetiu. Que cena mais tocante. — Deixei Helen. Autumn voltou a si. Pode imaginar quando disse que perdera dois rolos e que neles havia fotos suas. E parei de pensar quando a peguei até tudo estar terminado. Quase desisti. era arriscado demais. — De qualquer maneira. você a matou — disse Autumn. Autumn. Eu a achei muito atraente desde o princípio. Assim foi melhor. tinha de ser cuidadoso. à distância. na verdade. — Levantou os ombros. Quando voltei ao meu quarto. Estava tão seguro de ter cuidado de tudo.. além de simplesmente ser quem era. Não queria ter que agredi-la com a lanterna. — Sorriu novamente. lembra? Ele é um homem difícil. Ele estava contando demais.

jogando a cabeça para trás. os telefones.. Ninguém podia provar onde estava quando Helen foi morta. — Tinha esperanças de confundir você. Autumn. — Passou o dedo pelo rosto de Autumn. e de Lucas. — Vai acabar me dizendo. ela estava sentindo. acho que não — ele ponderou. não teria podido seguir suas pistas a partir dali. Autumn. — Tive o cuidado de sair sem ser visto. Agora. Segurou-se como pôde no tronco para manter o equilíbrio. ganhar seu afeto. Era óbvio que estava apaixonada por McLean. — Eles irão encontrá-lo. mas muito próxima dela. mas falou calmamente. mas apertou o passo. — O que vai fazer? — Droga. porque ele tem um temperamento forte. Steve. Diga onde o guardou. tudo estava perfeito. Capítulo 12 Autumn correu cegamente. — Nem você mesmo estava tão segura. Ele fez um ruído baixo de impaciência. Autumn. a eletricidade. Ele caiu de joelhos como se tivesse levado um tiro. — Não. que teve de se esforçar para não se afastar dele. Sua mão desferiu um golpe tão rápido que Autumn não teve tempo para evitar o baque. mirando o meio de suas pernas. Seria melhor para você se me dissesse agora. Todos se espalharam novamente. A tempestade. mas estava dando tudo certo. — Você estava juntando os fatos muito rapidamente. E. A respiração dele estava difícil. — Quando descobrirem que não está. Ele disse isso quase do mesmo jeito que seu pai teria dito. sem ter de machucá-la. mas ela disse a si mesma que 141 . como se quisesse mostrar-lhe que seu raciocínio era melhor do que o dela. e das fotos que tirou do lago. e duas vezes era o suficiente. Só conseguia concentrar todo o esforço possível para colocar distância entre os dois. Ela mudou novamente de direção e correu mais ainda.. Enquanto tivesse o filme.NORA ROBERTS — Sim. ela não iria ficar parada e apanhar novamente. Quando ouviu que ele vinha atrás dela. teria posto a mão naquele filme. — Só me lembrei de que havia pessoas no lago esta manhã. — Desta vez eles vão descobrir. Encolheu os ombros. quando viu que ele vinha em sua direção. Ela quase começou a rir histericamente. Autumn. Ele conseguira bater-lhe duas vezes. ele teria que mantê-la viva. Soube naquele momento que você iria se lembrar. pensou amargamente. você começou a falar sobre um quarto rolo de filme. Droga. Com toda a força que conseguiu reunir. — Não vou lhe dizer — disse. Vou experimentar de novo meu talento de atriz. Continuou correndo pela alameda e entrou nos arbustos espessos. Autumn não olhou para trás. — A polícia vai saber disso. Próxima demais. Se tivesse conseguido me aproximar de você. como também havia se afastado do hotel. E quando isso acontecer. que Autumn percebeu que tinha fugido não só de Steve. preciso do filme. — Eu não apostaria nisso. A força dele lançou-a contra a árvore. ou bem doloroso. A dor espalhouse dentro de sua cabeça e ela sentiu-se tonta. Acredito mesmo que eu e Julia seremos os menos suspeitos quando chegar a hora A polícia deve desconfiar de Jacques. ele terminaria de falar. se não visse que suas botas e jaqueta não estavam lá. — Lucas não mataria ninguém — disse Autumn imediatamente. Por que não chega ninguém? — Hoje de manhã. A terra grudava-se em suas botas. Se conseguisse convencê-lo. Vou ter que matá-la. Oh. — O corpo começava a tremer. Autumn saiu correndo. Cada um de nós tinha um motivo para querer Helen fora de seu caminho. Posso confundir todas as pistas e ninguém vai ficar sabendo de nada. E foi somente quando a primeira onda de pânico se desfez. Autumn manteve os olhos e a voz firmes. se não tivesse PERIGO encontrado a jaqueta pendurada num galho. não. Não quero feri-la além do necessário. eu mesmo virei para este lado quando procurarmos por você. Era tarde demais para voltar. como se tivesse considerado que ela poderia ter algum ponto viável. vou ter que bater em você. porque ele tem mais motivos. Eu mesmo não teria sabido. Duvido que qualquer um saiba pelo menos que você saiu. Fuja! Este era o único pensamento coerente em seu cérebro. Posso fazer tudo depressa. — Ele sorriu meio enviesado. de novo. e não teria encontrado você tão facilmente. Agora. vão saber que foi você. chutou-o. Ela não conseguia dizer nada quando era confrontada com a verdade.

A água fechou-se sobre sua cabeça. A escuridão passou a ser uma espécie de neblina. Autumn queria dizer alguma coisa para confortá-lo. O rosto dele estava inclinado sobre o dela. Debatendo-se e sufocando. Então saiu tropeçando e deslizando para o lago. conseguia detectar uma nota de pânico. que era sua própria voz pedindo socorro. Mergulhando. Mas a boca ainda estava quente. que se voltou e bateu-lhe no rosto. Os pulmões queimaram quando ela tentou respirar. Esbarrou em um ramo. alcançou um penhasco de 13 metros de altura. Seu fôlego saía aos borbotões e as pernas pareciam ser de borracha. O lago lá embaixo aproximava-se. Com um ímpeto final de loucura. O ar forçou o caminho para entrar em seus pulmões. ele a alcançaria em um minuto. Ela venceria. Só sabia que tinha que continuar correndo. A escuridão cobriu sua mente e diminuiu a dor. Mas ele continuava atrás dela. que a pele também tinha sido rasgada. e as braçadas fracas faziam com que subisse e descesse na água. soltando pedregulhos que choviam sobre ela. Autumn lutou para alcançar a superfície. Só sabia da fuga desesperada dos que eram caçados — do medo puro e simples do caçador. Alguém a estava ferindo. Suas mãos estariam na garganta dela. Pânico? Sim. Sua frieza aguda causou um choque em seu organismo e deu-lhe forças. A luta terminara ali. Continuaria correndo. e ela gemeu suavemente. Que coisa estranha presente na voz de Lucas! As pálpebras estavam pesadas e a escuridão era por demais tentadora. A neblina surgiu diante de seus olhos. você vai ficar boa. quando a dor começou a aumentar. Ouviu o soluço de alguém e percebeu. Ele a chamava com uma voz estranha e antinatural. PERIGO Ouviu quando ele chamava por ela. para não perder totalmente o equilíbrio. Autumn ouvia as botas batendo nas rochas acima de sua cabeça. Está tudo bem. Ele não sabia nadar. Ele escorregou. Mas era música aquilo que ela ouvia? Pensou que vinha de baixo dela. Lentamente. mas recompondo-se logo em seguida. O tempo e a direção deixaram de existir. com água pingando dele e de seu cabelo. Você pode me entender? A voz e os olhos estavam desesperados. esforçando-se para falar. Autumn não reclamou. Sem hesitar. Escute. o momento que a impulsionara tão loucamente desapareceu. Autumn! — Lucas enxugou a água do rosto dela. A suéter cara de Julia estava em frangalhos. Ela nunca vira aquele tom nem aquela expressão. Os pensamentos não eram mais racionais. Segurança. atraente. quando as botas atingiram a lama. A voz de Lucas tocou os limites de sua mente. Tropeçava e escorregava. os dedos agarrando-se em qualquer arbusto. Autumn percebeu. Ela não ia escorregar. Vou levá-la de volta para o hotel. Autumn lembrou-se do que Steve dissera naquela manhã. A corrida louca pelo bosque a afastara do penhasco. O corpo era arranhado por rochas afiadas e escorregava na lama. Ela continuou a manter o passo. a perseguição não tinha começo nem fim. Ainda assim. Porém a necessidade de contar a ele foi mais forte. A neblina fechava-se 142 . Mas o medo lançava-a além da dor. Para ela. Como uma luz que se apagava. Autumn olhou para ele. como se a dele tivesse acabado de deixá-la. Em vez disso. Não. escorregando por um momento. quase feliz pelos poucos segundos de vantagem que a queda dele lhe proporcionara. Mas ela sabia que não haveria socorro para ela. Uma árvore caíra com a chuva e atrapalhava seu caminho. jogou-se na água. profunda. meu Deus. rendeu-se. apesar de quase ter esquecido o motivo. e ela dirigiu-se como uma flecha para ela. dobrando-as sob o corpo. ela resistia. Se isso acontecesse. mesmo em meio à escuridão. Vitória. Sem diminuir a marcha. concordando. mas não tinha forças. onde a inclinação podia ser vencida por uma suave descida. longinquamente. dirigiu-se para o lugar mais fundo. O peso das botas puxava-a para baixo. — Meu Deus. cortando sua superfície. deixando a água envolvê-la como um amante. Os puxões e arrastões não a irritavam mais do que uma leve coceira. O coração batia desesperado e os pulmões gritavam em agonia. e correndo. Ela descia pelo penhasco como um lagarto. Seus braços estavam pesados. e correndo. vindo de Lucas. pedindo mais ar.NORA ROBERTS não escorregaria. viu o lago. Num último resquício de lucidez. Autumn lançou-se a toda velocidade. lutando enquanto a água a sugava e era um inimigo tão mortal quanto aquele de que ela tentava fugir. até perceber que ele não a perseguia mais. Ela ouviu o ruído das botas dele deslizando pela lama e quando ele xingou baixo. Mas ela continuou dizendo que não iria parar. A força da queda atingiu-lhe as pernas. Era apenas a corrida. Autumn saltou os últimos três metros. — Oh. apesar de continuar pingando dos cabelos. A fuga agora tinha uma meta. Repentinamente. Autumn saltou sobre ela. que brilhava quando o sol batia na superfície. está ouvindo? Você vai ficar boa. o que deixou seu rosto mais fresco. Autumn forçou-se a abrir os olhos.

Sentiu uma dor forte por todo o corpo. está me ouvindo? Autumn olhou para ele. Fez força para mergulhar em sua escuridão novamente. Inesperada e violenta. gata. Autumn pensou. Não. — Eu fico com Autumn.. quase uma hora depois. Lucas olhava para ela. se quiser. — Estou morta? — Não. Lucas. gata. gata? — Por que você está aqui? Mas ele saiu de foco novamente. Então. mas Lucas não tinha o menor respeito pelo que os outros desejassem. PERIGO — Sim — fechou os olhos e deixou a escuridão envolvê-la outra vez. querido. descia pelos braços e pelas pernas. — Ele sentou-se a seu lado e levou-lhe uma xícara aos lábios. o rosto pálido à luz do luar. Os olhos fecharam-se novamente. ele continuava a seu lado. dê alguma coisa para que ela não sinta dor! A escuridão cercava-a novamente. Vozes vagas e sem textura flutuavam por um longo túnel. estou aqui. Dr. fazendo com que ela engolisse alguma coisa fresca. Autumn fechou os olhos. mas só conseguiu gemer. — Lucas vai ficar. Vou ter que comprar outra. — Não se preocupe com isso. Eu devia ter tido mais cuidado. O senhor mesmo disse que se trata principalmente de necessidade de repouso. Provavelmente. Descanse. Autumn deixou-se engolir por ela. — Então diga-me o que fazer. como um balão vermelho. Sua garganta queimava. Por um momento. Uma mão fria pousou em sua testa. Autumn ouviu alguém gemendo dolorosamente. e desistiu. — A mão de Lucas estava em seus cabelos. O que eles estavam fazendo em seus mundos particulares. Mas sabia que seu tripé teria que esperar. — A voz de tia Tabby surpreendeu Autumn. Capítulo 13 143 . ela vai ficar acordando e apagando a noite toda. Sentiu sua boca tocar a dela.NORA ROBERTS novamente sobre ela. A cortina negra tomou uma textura de um luar de veludo. tão enevoada quanto a neblina. repentinamente clara e. — Julia tem dúzias de suéteres. tudo bem. Depois. De repente. Autumn não queria ouvi-las. Autumn sentiu-se carregada pelo espaço. exigente. Desculpe. Você não saberia o que fazer por ela. sonhou. da cor do amanhecer. e Autumn recostou o rosto nela. mas se precisar. — Gata. e de esperar até que ela acorde naturalmente. Acho que eu a rasguei. buscando segurança. — A voz de Julia acariciou Autumn. Não se preocupe. Era firme e forte. Mas isso era muito difícil. gata. Julia me emprestou aquela suéter. não sentiu mais nada. depois conseguiu reunir todos os fiapos de concentração. — Sua voz estava intoleravelmente preocupada. Lutou para achar as palavras. — A voz de Robert era baixa e suave. É parte da minha função. — Pensei que você a tivesse matado. — Está rasgada. e foi bem-vinda. um contraste direto com a de Lucas. enquanto se esforçava por lembrar-se de alguma coisa. Lucas. Lucas debruçou-se outra vez sobre ela. como sempre. — Ela está sentindo dor? — Seria a voz de Lucas. — Está doendo — ela queixou-se. Flutuando. mesmo na escuridão e no torpor em que se encontrava. — Eu fico com você. porque vou ficar com ela. Spicer. Só queria ficar em paz. — Oh. — Vou ficar com ela até que acorde. gata. confortada.. — Lucas — ela tentou concentrar-se mais uma vez. Autumn engoliu em seco. é só me chamar. A dor diminuiu quando voltou totalmente à consciência. — A suéter de Julia — murmurou quando abriu os olhos totalmente. Você não está morta — disse Lucas. Ela nem chegou a ouvir a resposta. Sua voz interrompeu a solidão desejada. — Lucas. Quando reabriu os olhos. O luar agora era cinzento. sentiu uma vontade louca de perguntar o que tinha acontecido. — Claro que vai. — Não vou precisar daquele tripé. você está morto de cansaço. Flutuou novamente. que droga. — Eu sei. conseguiu afastá-la e buscou a voz com dificuldade. Trêmula? — Mas. Não vou sair do lado dela. Lucas pode cuidar dela. — Sim. — Tente beber. O rosto parecia muito nítido para ser um sonho. A mão parecia real e fresca em seu rosto. — Por quê? — Por que o quê. apagando os sons. — Tenho certeza de que era cara — murmurou.

Acostumada à escuridão. As pernas fraquejaram. incomodada. em seguida. — Não compreendo. — Lucas estava aqui. pegando um robe em uma cadeira. Ele riu. quando ela se dirigiu ao espelho. Nada disso teria acontecido. em um tom suave e sério — a coisa mais linda que já vi. A visão delas causou-lhe mais confusão e trouxe-lhe mais recordações conturbadas. — Escute. cobrindo as ataduras. Ela quase sucumbiu ao desejo de deitar-se novamente. — Prefiro que Lucas explique tudo. eu estava falando com ele. — Quando pretendeu ajeitar os cabelos. — Julia esquivou-se de responder. — Precisa dormir um pouco. — Julia virou-se.. Autumn forçou-se a levantar-se. Levantando-as. — Você está horroroso — disse ela. — Meu Deus.NORA ROBERTS O sol brilhava forte. — Você é — começou ele. Ele disse que você recobrava e perdia a consciência noite toda. — Julia. — Ela colocou a seda sobre os braços de Autumn. antes de olhar-me no espelho. — Acredito que seu estômago esteja. — Ela interrompeu as perguntas de Autumn. antes que ele voltasse e encontrasse você. Ele suspirou e depois sorriulhe como no passado. Autumn piscou. — Isso era de se esperar — murmurou.. O ferimento na testa agora tinha outros como companhia. e Julia riu. Vou pedir que lhe faça um prato enorme. — Fique deitadinha e relaxe — ordenou Julia. — Por que não veste isto? Vai PERIGO se sentir melhor. para esconder outros ferimentos.. — O que fiz comigo mesma? — perguntou-se em voz alta e. Beijou Autumn outra vez e dirigiu-se à porta. Não sei quanto tempo perdemos procurando por aquele maldito filme. estava. todos os músculos reclamaram. — Chega de perguntas agora. ou trata-se de outra visitinha rápida? — Julia inclinou-se sobre ela e acariciou-lhe o rosto. mas a curiosidade era maior. Autumn. — Principalmente. ele passou as mãos pelo próprio rosto. — Toda oca por dentro — Autumn afirmou. — Não. Teve uma lembrança longínqua de uns galhos ásperos arranhando-lhe as mãos. Acha mesmo que eu deixaria você sacrificar seu tripé novo? — Beijou o rosto de Autumn e depois abraçou-a por algum tempo. Autumn cerrou o sobrecenho em direção à porta quando Julia saiu e perguntou-se do que afinal ela estaria falando. Pelo menos. — Eu deveria ir ao seu quarto. — Por que isto? Eu me machuquei? — Está tudo bem agora. você está conosco para ficar desta vez. Ele ficará furioso por eu ter vindo buscá-lo para tomar um café e você ter acordado. que ela nunca vira nele. Por quê. Estive doente? — Você nos deu um susto e tanto. — Quase desmaiei com o choque. Autumn ficou olhando as ataduras. — Oca — concluiu. Que conseguia dizer uma ou duas palavras de vez em quando. — Suas cores estão voltando um pouco e você está fresca. — Levantou-se outra vez. sem virar-se... Decidindo que não encontraria qualquer resposta deitada na cama.. Autumn percebeu que as mãos estavam cobertas por ataduras. Somente os olhos eram os mesmos. Pode desmaiar a qualquer minuto. mas não torne as coisas fáceis demais para ele. Escuros e intensos. mas nada ficou mais nítido. Autumn. — Ah. mas não fui.. — Julia sentou-se na cama e a ficou estudando. — Julia. não foi. gata. — Virou-se e olhou-o diretamente nos olhos. ainda pior do que se sentia. Parecia não dormir há dias. — Você não devia se levantar da cama. amarrou a faixa do robe. sonhando? — A busca de Autumn pela memória só lhe trazia pequenos pedaços. — Tia Tabby já tem uma sopinha fumegante esperando por você. As rugas de preocupação tornaramse mais marcadas e seu queixo estava escuro pela barba por fazer. Com um gesto de aquiescência. A porta abriu-se e ela viu pelo reflexo no espelho que Lucas entrara no quarto. Todas as articulações.. — Sacudindo a cabeça bruscamente. pensamos. — Olhou confusa por todo o quarto. minha cabeça. tentando descobrir como se sentia. Como se sente? Autumn ficou deitada quieta por um momento. — Já estou bem. — Ele viveu um inferno nas últimas 24 horas. sentou-se. — Minha nossa! — Ela parecia. — Autumn apertou os olhos. 144 . Autumn viu que seus olhos estavam úmidos. — Sim. com aquele seu sorriso de gata. — Parece que eu e Lucas fomos enganados por aqueles olhos verdes. Eu deveria ter arrastado você naquele momento. quando Lucas a trouxe nos braços. — Não se lembra? — Eu estava. Havia uma leve descoloração ao longo do maxilar e alguns arranhados horríveis. concluiu.

— Então.. — Quando terminei de bater na cabeça dele. — Procurei você por todo o bosque. — E quase morreu mesmo. com a voz ainda rouca. que pensou ter entendido mal. eu não deveria ter dito daquela forma — disse.. Não pense mais nisso. Como conseguiu resistir tanto. quando Autumn continuou em silêncio. Ele se virou novamente para olhar para o vazio. afastando os olhos. — Gata. — Depois de tudo o que aconteceu. depois de toda a corrida e com aquelas botas que deviam pesar uns dez quilos. Ele me disse que a tinha matado. onde sabia que faria o maior estrago. E contamos tudo para a polícia hoje de manhã. — Vi você quando começou aquela descida suicida pelo penhasco. Ela recostou-se na cômoda. bateu em mim com tanta força que vi estrelas. Isso lhe doera e ela não sabia se agüentaria sentir mais qualquer tipo de dor. — Não. quero pensar no que houve — insistiu Autumn. — E. não o suficiente para que eu pudesse perceber. recordou-se de sua corrida pelo bosque. sob custódia. — Ele me encontrou no bosque depois que você saiu... o medo diminuiria. — Engoliu em seco. mas ele passou os braços em torno dela. que voltou a si somente o tempo suficiente para pedir desculpas por ter pensado que eu tinha matado Helen. Só lhe vinham à mente pedaços esparsos. Não. quando a arrastei para fora. — Ele já está preso. E peguei-o antes de você cair na água. — Vi você despencando daquelas rochas. com força. Quando vi que estava correndo para o lago. Ela ouviu Lucas murmurar alguma coisa tão estranhamente vulgar. Foi Steve. — Ela sacudiu a cabeça. Por algum tempo. Quando soubesse de tudo. Queria saber os detalhes. — Você quase morreu afogada e só consegue pensar na suéter de Julia. Lucas. Ele estava me perseguindo. Pelo menos. — As sobrancelhas juntaram-se quando se lembrou do incidente com Steve. mas ele corria atrás de mim. entrei em pânico e esqueci de todas as regras que aprendemos nas aulas de salva-vidas. — sacudiu a cabeça e continuou: — Pensei que estivesse morta. para ver se ele vale alguma coisa. Lucas foi até a janela. — Meu Deus! Ainda se preocupa com essa maldita suéter! — Sua explosão fez com que os olhos de Autumn se arregalassem... mas não dei para ele. Ele estava com Helen no lago na manhã em que estava tirando as fotos. Lembrei que ele não sabia nadar. — Ele pediu desculpas por ter que me matar. — Ele hesitou e enfiou os punhos fechados nos bolsos. fora da janela. Recuperaram o filme também. — O que aconteceu? Não consigo lembrar.. desta vez. sem nada dizer. — Gostaria de algumas explicações. você já estava flutuando. — A fumaça saiu dos pulmões com força. — O lago. quando tive dificuldade de manter-me na superfície. — Ouvi alguém me chamando. não sei como conseguiu chegar embaixo sem quebrar o crânio. eu o chutei. falando mais consigo mesma do que com ele. A boca de Autumn tremeu e abriu-se. foi tudo tão estranho. Droga. — Lucas olhou para ela. eu me dirigi para a passagem.— Deu uma tragada forte no cigarro. quando eu disse que não lhe daria o filme.— Steve. PERIGO Com uma expressão furiosa. — Rasguei a suéter de Julia. — Lembro de você pingando água sobre mim — Autumn murmurou no silêncio. Ele me contou tudo. — Levou a mão enfaixada até a têmpora. pressionando o rosto contra os cabelos dela. Pensei que não conseguiria sair daquilo viva. suspirando. — Puxou um cigarro e acendeu-o nervosamente. nunca vou saber. Depois. — Só conseguia pensar em cair na água antes de ele me alcançar... — Continuava de costas para ela. 145 . Jacques encontrou-o na alameda. Eu estava correndo. Xingou-o e tragou profundamente. Autumn olhou novamente para as mãos com ataduras. quando o trouxemos para cá. — Robert disse que isso era esperado depois. — No bosque. — Pegou outro cigarro e. tentando manter a calma. — Deve ter caído do bolso. Chamei-a mas você continuou correndo para o lago. O filme estava no meu bolso. Esperava interromper Anderson.NORA ROBERTS — Gentileza para com uma inválida — disse ela. O filme. pensei estar morta. — Quando ele avançou outra vez contra mim. em nome de Deus. Depois. Pensei que fosse Steve. Corri cada vez mais depressa. Ficou olhando fixamente para fora. — Chega. — Menti para você. Minha mente está um pouco confusa. teve de lutar com o isqueiro até conseguir que acendesse. — Pensei. — A lembrança voltou como uma onda. — Já sabemos de tudo — Lucas interrompeu-a rapidamente — Ele confessou tudo. eu. descendo o penhasco. Você estava branca e não respirava. — Devo ter bombeado dois galões de água de dentro de você. — Parece que não consigo fazer nada direito com você. Lucas apagou o cigarro muito lenta e deliberadamente. Eu já estava próximo de você quando afundou novamente. — Levantou os olhos para ele em busca da resposta. E afundou como uma pedra.— Ela afastou-se.. Ele matou Helen.

contrastando com outro encolher de ombros. Mas mal o conhecia. você estaria salva. — Não peça desculpas! — Seu tom era curto e ele se afastou novamente. Lucas? Como você sabia? — Deve ser difícil para você acreditar a esta altura. — Ela sacudiu a cabeça. 146 . — Ele simplesmente não seria capaz de matar. — Por quê? É fácil ver como chegou a esta conclusão. Não eram desculpas que ela queria.. Então. Está muito pálida. — Se você acha. Quando me perguntou sobre o filme. Tínhamos quase certeza de que fora ele quem matara Helen. Julia e eu iniciamos um processo de eliminação. segundo parece. — Interpretei mal seu ar amigável natural por outra coisa. reagindo erradamente. Um músculo contorceu-se no canto da boca de Lucas. afastando o calor que a preocupação que sentiu na voz de Lucas causara nela. — Você pensou que eu estivesse protegendo Steve. acho melhor você voltar para a cama. — Mas em vez de explicações. — Estou bem. duvido muito que tivesse dois negligês idênticos. gata. mas o corpo permanecia tenso. — Imagino que todos nós achávamos. Robert é completamente dedicado à vida para tirar a de alguém. — Julia e eu discutimos as chantagens de Helen cuidadosamente. Tinha estado no quarto dela naquela noite. e estava muito zangado. — Isso foi fora de hora. — Conheço Jacques há anos — continuou Lucas. não pare agora. Autumn. mas parou no meio do caminho. se Julia a tivesse matado. e Jane se desmancharia em lágrimas. — Ela afastou-se. Mas como você sabia que ele precisava de proteção? — Julia e eu já tínhamos reunido vários pontos. Nem Julia nem eu estávamos preocupados com as ameaças ridículas que Helen tinha contra nós. E passara por Helen no corredor pouco antes de ir para o quarto de Julia. O robe de seda de Julia sussurrou em torno dela. Já recebeu muitos de minha parte. — Não. E. — Você e Julia. até descer para ver você. Isso é típico de mim. — Você vai ter de esclarecer algumas coisas. Ele pareceu prestes a discutir. Haveria sangue em sua roupa. — Ela virou-se quando uma sombra cruzou seu rosto. de qualquer maneira. Parece que pisei muito na bola com você.. — É — concordou Autumn com um murmúrio e ficou perguntandose como teria sido o tal sermão. — Duvido. Quer que eu peça desculpas por tudo em grupo. Fiquei furioso por você estar dando a ele o que não quis dar para mim. concluímos que esses fatos tinham ligação. Eu queria o filme porque esperava que. PERIGO — Desculpe. ou chocar-se contra uma porta.. — Por que queria o filme. Autumn fez um gesto com as mãos. possivelmente teria admitido o fato. Julia e eu eliminamos logo os Spicer. — Agora era a vez dela de virar-se para ele. Por favor. Você tem o direito de lançar alguns dardos. — E. — Pensei que você soubesse ou se lembrasse do que havia no filme e que estava protegendo Anderson. — Eu o achava simpático — disse Autumn lentamente. nos fixamos no problema de Jacques. — Protegendo Anderson? — Sua voz refletiu a surpresa. Confiança. — Estamos fugindo do ponto. se o tivesse e se todos soubessem que estava comigo. mas mudou de idéia. não é? — Respirou fundo. culminando com meu último ataque sobre o filme.NORA ROBERTS — Desculpe. Lucas. Autumn confiou em si mesma para falar.. gata. — Não? — Ele cortou o que ela dizia. e sim explicações. completei meu erro.. — Mas eu não deveria nunca. provoquei você. Depois que foi morta e seu quarto arrombado. — Eu jamais acreditaria que você pudesse ter estragado seu próprio filme. — Encolheu os ombros de novo. recebendo um sermão acalorado sobre minha técnica com as mulheres. com uma única palavra zangada. ou uma por uma? Autumn recusou. — Por que eu faria isso? Ele encolheu os ombros. Lucas. Eu não tinha matado Helen e sabia que Julia também não. Autumn ajeitou o cabelo para trás. pedi que me contasse tudo. — Você falou tantas coisas que me fizeram pensar. — Você parecia gostar dele. E. Passado um momento. Até ser assassinada. pois a dor a impedia de movê-las. mesmo se Julia tivesse vontade de matar Helen. Então. — Você é um invejoso. — Devo pedirlhe desculpas por isso também. Aceito isso. — Com um suspiro. Posso ainda estar um pouco confusa. — Foi? — perguntou e apagou o cigarro. não o conhecia absolutamente. portanto.. companheirismo. desastradamente. mas não sou completamente desumano. curiosa. afeto. Lucas? — As palavras saíram frias como gelo.

— Achamos que assim seríamos três a cuidar de você. — A raiva tinha desaparecido de sua voz. — Não queria! — Ele girou nos calcanhares com tanta força que esbarrou em um vaso. A raiva que sentia era nítida e vivida. depois enfiou as mãos nos bolsos outra vez. — Já lhe disse antes que o outro motivo não existe mais. ainda me lembro de seus hábitos. lembra? Tudo transparecia no seu olhar. Lucas. Ela é uma mulher e tanto. — Eu estaria morta. — A mim? — A dor foi tão aguda que Autumn riu. Jamais vou esquecer de como você estava. Tenho o direito de saber por que você veio. Não posso suportar — ele se afastou. — Ela viu que ele vacilava antes de dirigir-se de novo para a janela. — Autumn voltou-se para apoiar-se na cabeceira da cama. — Este hotel é da minha tia. — Você me dispensou. como continuei querendo todos estes anos. — Sei tudo o que disse para você... Parecia a melhor maneira. quando você começou a falar sobre um quarto rolo. acho que não. — A culpa foi minha. Agora vai ter de ouvir. Não choraria mais. Ele se escondera outra vez atrás do ar frio e distante que sabia usar tão bem. — Ela é maravilhosa. durante o café. Eu achava que seria melhor se você ficasse prevenida contra todos. porque você confiaria nela mais rápido do que em mim. gata. desencadeou esta série de acontecimentos. — Ela não iria deixá-lo sair por aquela porta até ele contar-lhe tudo.. Mas você só ficou lá parada. e o afeto venceu. de tanto que a desejava! — Não. mas não queríamos nos arriscar. enquanto me olhava parada. — Vim para cá por sua causa. zangada por ter sido mantida no escuro. nada me magoou tanto quanto o jeito de você me colocar de lado. 147 . — A camisa não estava lá. se não fosse por você. — Cheguei a ter pesadelos. — Você perguntou. — Eu queria pensar — começou ela. Decidimos que Julia falaria com você. Lucas. Vou chamar Robert para examinar você. Pensamos que o filme tinha sido destruído. Eu não fizera nada para merecer sua confiança. Pensei que fosse ficar louco. — Você nem pode compreender o quanto eu queria você. Esqueça. — Não quero ouvir. quando a tirou do lago. PERIGO — Lucas. diga a verdade.NORA ROBERTS Lucas passou a caminhar pelo quarto. dando lugar à tensão. Porque tinha que reconquistar você para não ficar louco. — Eu mesma teria me cuidado. Ele ficou olhando para ela durante vários segundos. Você nunca teria sido ferida. Julia afirma ter um olho afiado para guarda-roupas e eu quis acreditar nela. — É. lembra? Você não me queria naquela época e não me quer agora. não quero ouvir isso. — Ela estava contando para Jacques naquela noite. mas Autumn não pretendia recolher-se. com as lágrimas descendo pelo rosto. — Se não tivesse sido uma boboca e tivesse ido com Julia. Lucas — disse. — Ela me assustou bastante — lembrou-se Julia. — Por que você veio aqui? E não diga que veio para a Virgínia para escrever. Então. por favor. Queria que você gritasse. tornasse mais fácil para mim deixá-la. Quase a estrangulei quando ela me contou o que havia feito. Eu sei. se vocês tivessem me contado. a intrépida Julia roubou a chave extra de tia Tabby e revistou o quarto dele. Autumn conseguiu finalmente controlar-se e encarou-o de novo. Naquela manhã. xingasse. Sua vinda para cá. — Se estivesse prevenida. — Você me disse que não me queria — ela falou. E. — Não. — Lucas levantou a mão para impedi-la de continuar. — Oh. — Acho que não tenho o direito de esconder meus motivos e você merece alguma atenção da minha parte. não foi? — Foi. depois do jeito com que a tratei. Nada. apesar de indiretamente. — Lucas notou a concordância tácita em sua voz. Decidimos que deveríamos avisá-la de que deveria ficar em guarda. Seu rosto é um livro aberto. — Pelo amor de Deus. por motivos pessoais. Devia ter feito as coisas de maneira diferente. irritada. — Sinto muito. sem entrar em detalhes. quebrando-o. poderíamos mantê-la a salvo. Simplesmente me disse que estava acabado e sacudiu os ombros como se nada tivesse acontecido. procurando a camisa que ele tinha vestido na noite do crime. — Não. — Anderson se encaixava. mas os olhos fixaram-se diretamente nos dela. — Estou fazendo o possível para manter minha palavra. — O ciúme mesclava-se com o afeto em Autumn. e foi tomada pela culpa quando se lembrou da expressão do rosto dele. — Nunca signifiquei nada para você.. não me olhe desse jeito. — Tudo o que aconteceu foi culpa minha. — Não se aproximou. Lucas voltou-se. — Sei o que fiz. mas manteve a mão na maçaneta. — Está bem — concordou. eu desejava que fosse ele. Eu me odiei. na ocasião.

Mas isso não me afastou por muito tempo. como uma tonta. nem para mim mesmo. Foi um grande choque. 148 . — Lucas respirou profundamente. como se as palavras o tivessem deixado chocado. Eu merecia um bom chute nos dentes. e então. — E logo que nos casássemos — emendou Lucas. Conhecendo você. você me amara uma vez. — Foi uma tortura. A expressão de Lucas mudou de uma fúria mal contida para confusão. Nos homens que poderiam tê-la de novo.. atônita. Depois. Autumn observava-o. pedir. tive certeza de que viria sem discutir. — Quase violentei você. mesmo assim pediu tudo. jurei que nunca mais seria responsável por aquela expressão em seu rosto. Lucas fechou os olhos e virouse de costas para ela. casaria com você antes que percebesse tudo e me desse uma palmadinha nas costas por ser tão esperto. Tinha pensado em tudo. Por que diria isso. eu ficaria curado. — Mas não conseguia dizer para você.. pior eu tratava você. pura e simplesmente. Ver você de novo.. consegui admitir para mim mesmo que não conseguia mais viver sem você. mudou de idéia e depois continuou: — Julia me censurou. toda aquela generosidade. — Casar comigo? — As sobrancelhas de Autumn elevaram-se com a surpresa. — Você era uma obsessão. rastejar. Acordava no meio da noite e a xingava por não estar lá. Eu a teria de volta. Toda aquela doçura. O que você fez comigo ontem. comecei a vir aqui de vez em quando. que a amava. Comecei a pensar nos homens com quem você tinha estado nos últimos três anos. — Lucas.. como se Autumn não tivesse interrompido — não teria nunca mais que me preocupar em perdê-la outra vez. Como se sentisse uma dor profunda. Não conseguia acreditar. — Parou de andar e olhou para ela. Quanto mais tinha você. alguma coisa rebentou dentro de mim. afastando-se de mim. Naquele dia. lá no seu quarto.. e você cairia em meus braços. nem posso lhe dizer o que isso me fez sentir. — Gata. — Ele recomeçou a andar pelo quarto. enquanto parecia lutar para achar as palavras. mais precisava de você. Eu não sabia que podia ser ferido daquela maneira. não lhe daria o divórcio. — Ele parou e Autumn viu a luta interior em seu rosto. me xingava por precisar que estivesse lá. Em vez de cair nos meus braços. fazer qualquer coisa. se não fosse verdade? — Porque você me assustava. — Fez uma pausa. Descobri toda sorte de desculpa para fazer isso. Queria dizer-lhe o que você significava para mim. Não.. — Por quê? — Porque toda vez que começava um relacionamento lembrava de que ele não era você. levantou o nariz e me mandou desaparecer. — Me amava? — Autumn repetiu as palavras. Quando vi você beijando-o..NORA ROBERTS — Você disse que não me queria. Fiquei louco de ciúmes ao vê-la com o Anderson. mas com o gelo. Ele disse isso com tal simplicidade que ela se sentou na cama para olhá-lo melhor. estar tão perto de você e não poder tê-la. — Você me amava? — Amava naquela época. Era tudo de que eu precisava." — Nunca estive com outro homem além de você — Autumn interrompeu-o com brandura. Nunca me pediu nada. preparado para implorar. quando eu não poderia. — Deu um sorriso irônico para ela. Pensei que tudo o que teria a fazer seria criar o convite. Finalmente. e sua ligação com ele. foi o que eu me disse. A mente ainda girava. Estava tão seguro de mim mesmo. gata. a magoasse o suficiente para obrigá-la a me deixar. — Assustava você? Eu assustava você? — Você não sabe o que fez comigo. Se a mandasse embora. "Subi. mas eu não conseguia parar. Quando vi você chorar. antes de ele estudar-lhe o rosto com sua intensidade familiar.. — Pegou um cigarro. agia feito um louco. nunca fiz nada na minha vida para merecer você. mesmo que PERIGO você teimasse muito. Toda vez que me aproximava de você. naquela noite. Tinha que fugir de você. Simplesmente.. — Plano? — repetiu Autumn. terminava fazendo a coisa errada.. Quando descobri sobre o hotel. Como antigamente. — Não vou conseguir tocar nisto outra vez. e eu faria com que me amasse de novo. — É melhor me deixar terminar — disse ele. e foi o que você me deu. dizendo para eu não feri-la outra vez. Fiz então um plano. Quanto mais você resistia. Podia lidar com sua raiva. — Foi fácil plantar a idéia na cabeça de tia Tabby de escrever para você para convidá-la a vir aqui. amo agora e vou amar pelo resto de minha vida. toda vez que me aproximava de você. Não podia admitir. — Mantive contato com o que você fazia durante estes três anos.

— Está bem. Mas quero que pense no que está fazendo. fale. Se ficasse sentado no salão envidraçado. Sim. Autumn sorriu para ele. — Não exporeis filmes não revelados. por favor. Virando-se. mas não se moveu. Tinham deixado a linha de prédios de Seattle para trás. Pela vida que levava não compreendia de onde vinha a inquietação descontente que sentia. Me aceite de volta. O menino foi agarrado por uma mulher loura de bochechas coradas e um nariz que ficava vermelho rapidamente. estou desesperado o suficiente para aceitar. — Ela passou os braços pelas costas dele. É o tradicional. Ele preferia a cidade. soltando vapor.. não precisaria dela. Preciso de você porque é. — Sim. Inclusive sua calibre 38. — Ela levantou-se da cama e parou bem às costas dele. Parece que as famílias nunca concordam em nada. As palavras de Julia dançavam em sua cabeça. certamente estaria mais aquecido. maravilhando e impressionando o observador. Ela sentiu o impulso de jogar-se em seus braços. Seu ar anônimo. — Eu fui para o bosque — continuou em voz baixa. me diga por quê. Case comigo. quando levou as mãos ao rosto dela. ou por que ela pesava-lhe tanto. Me peça.NORA ROBERTS — Não. — Esticou a mão para tocá-la no rosto. Mas Roman tinha como missão secreta descobrir um gênio do crime. Capítulo 1 Tudo o que ele precisava estava na mochila pendurada em seus ombros. Roman escutou os dois reclamando um com o outro enquanto ela o arrastava para dentro. se você me quer. é me beijar. enquanto a barca passava por ilhas que pareciam torrões de açúcar escuro. Roman tirou um cigarro do maço amassado no bolso da camisa e afastou-se do vento para acendê-lo. — Já ia expor aquele filme quando Steve me encontrou. para aproveitar as nesgas de sol. quero que você tenha certeza. — Gata. — Está bem o quê? — Eu me caso com você. eu sei. desesperadamente. 149 . Suavemente. com sua pressa.. Lucas. as coisas tinham sempre sido muito fáceis para Lucas. — E você sabe como me sinto sobre a santidade de um filme? A respiração dele saiu em um pequeno sopro de alívio. Estava bastante frio. Alguma coisa parecida com o 1º mandamento. apesar do movimento de passageiros caminhando pelo deque ou espreguiçando-se ao longo dos bancos de madeira. Lucas. É o que você quer.. porque a vida não é suportável sem você. mas logo enfiou-a novamente no bolso. droga. — Ela aproximou-se. Um menino. Sorriu. — Gata. apesar das montanhas de Washington ainda configurarem a paisagem. Lucas. e sempre foi. — Está bem — disse simplesmente. Sempre preferira. Mas a vista era linda. a melhor parte da minha vida. Amo você por motivos que levariam horas para explicar. mas. de uns oito anos. não é? — É. — Sabia que pensei que era você quem estava com Helen naquele filme? — Gata. — Lucas. Quero ouvir tudo. reclinou-se no parapeito que acompanhava os trilhos. mas conteve-se. porque jamais conseguirei largar você. Se tudo fosse bem. mas era preciso tirar alguma coisa daquela experiência. suas multidões. O vento que chicoteava em Puget Sound não parecia ser de primavera. Havia uma sensação de solidão ali. E tudo indicava que Charity era o caminho mais curto para se chegar até ele. pelo amor de Deus.. sua energia. — Está bem? — Ele franziu a testa. Se for por gratidão. duvidando. fumando preguiçosamente. — O mínimo que você pode fazer. Roman sentiu uma onda de empatia para com o garoto.. Ela balançou a cabeça. possivelmente não. ou vou ter que obrigá-lo? FIM PERIGO A Suspeita Roman DeWinter jamais tivera o aconchego de um lar até conhecer Charity e o conforto de seu hotel. — você vai me beijar. Não torne as coisas tão fáceis para ele. — Ele moveu os ombros enquanto se virava. Não. ele descansou as mãos nos ombros dela. — Eu a quero. Agora. corria alegremente ao longo dos trilhos do trem.. ignorando solenemente os chamados da mãe.. mas seu olhar não era casual..

seria um caso de rotina. apesar de algumas das mulheres olharem duas vezes. pareciam ser de um louro mais profundo e mais rico. preencheria o relatório e. com o corpo forte e bem constituído de um boxeador peso-leve jaqueta displicente e os jeans surrados cobriam músculos bem torneados. tiraria algumas semanas para pensar no que faria do resto da vida. perguntou-se com desgosto. Está na hora de descer. depois. em seguida. O que tinha a fazer prometia ser uma rotina lenta e costumeira. Não havia mais de 12 veículos agora no estacionamento. Usava óculos escuros bem grandes. abaixou-se para amarrar o cadarço do sapato. mas a reação foi instintiva. pensou Roman. Ele o faria. cabeça empinada. a boca cheia e bem-feita. afastou-se. chutou-o e. E pensou que ela devia saber disso. no hotel. e os passageiros a pé já se encontravam na barca. novos passageiros subiam a bordo e ajeitavam-se para seguir para outras ilhas ou para uma viagem mais longa e fria para a Colúmbia Britânica. Como pensasse que ninguém a estaria olhando. pensou. À luz do sol. Se os detalhes sobre isso fossem decididos. PERIGO Roman pegou outro cigarro. até mesmo gostava. que escondia uma prontidão esperta. Os olhos. Tinha l. Mas ultimamente isso não fora o suficiente. Podia ter o próprio negócio. Divisou a van imediatamente. com restaurante. Ninguém prestava muita atenção nele. para pegar o macaco. e não soltos como na foto da ficha. Reconheceu a linha delicada do queixo. suéter tricotada creme sobre uma blusa azul. E fazer o quê?. Sempre pensara que a vida sem ela seria extremamente sem graça e sem atrativos. muitas delas com botões do tamanho de seu punho. Rotina ou não. mas raramente usou seu tempo para parar e cheirar as rosas. Os cabelos estavam presos em um coque. Roman ouviu o chamado de descida e pegou a mochila. o jeito desligado. Brincara com essa idéia uma ou duas vezes na vida. mas ele sabia que não estava enganado. Ignorou o café do pátio. era só uma questão de tempo. um balanço sutil dos quadris. as placas que davam informações sobre as barcas e sobre os estacionamentos. Não usava chapéu e os cabelos negros e espessos voavam livremente. e brincos delicados de cristal pendiam das orelhas. Poderia viajar. o modelo americano branco e azul com o letreiro Whale Watch Inn pintado no lado. Assim como o jeito com que observava tudo. mas chamaria a atenção de qualquer homem. Não havia um convite sensual em seu andar. depois. Uma parte dele apreciava a cor e o encanto. era seu trabalho. Agora havia um odor forte de flores. qualquer homem a perceberia. e seguiu o caminho para o estacionamento. Uma pessoa aproximou-se do cais com uma câmera de vídeo. Provavelmente. Diretos e. afastando-se do rosto bronzeado e bonito. era uma precaução desnecessária. porém atlética. As flores cresciam em seu esplendor livre e romântico. soprando com força a fumaça do cigarro. Sua função era convencer-se a entrar na van e. Desembarcou em meio aos outros passageiros. entediados. de um verde-claro. Sim. Logo que os deques estavam vazios. com as chaves balançando em uma das mãos. levando pouca coisa e deixando menos ainda para trás. Se não.70m. olhar direto à frente. enquanto jogava o cigarro longe. pesava 55 quilos e possuía uma constituição pequena. Mudarase de um lugar para outro. 150 . acendeu-o e olhou casualmente em volta — para os belos jardins floridos. saiu de seu raio de visão. enquanto observava um barco de pesca que passava por perto. encontraria outro meio. A informação que ele obtivera era detalhada. que competia com o cheiro marcante da água. Agora. poderia ter suavizado aquela aparência que parecia dizer "Vá para o inferno". Durante o ano anterior inteiro pusera toda a culpa no trabalho. que cobriam metade do rosto. Passadas largas e firmes. Esperou até ela chegar à van antes de começar a andar em sua direção. Tinha a barba por fazer e um aspecto másculo. foi para a traseira da van. o nariz pequeno e reto. Estava vestida casualmente — jeans.NORA ROBERTS Seu trabalho. naquele momento. Levou mais um tempo para desabotoar a jaqueta quando viu a mulher. Carros desciam a rampa e dirigiam-se para suas casas ou para um passeio. mas poderia ser diferente fazer isso como turista. e uma bolsa grande de lona pendurada no outro ombro. apesar de ter adorado tomar uma xícara de café. Hora de seguir em frente. Ela caminhava decidida. o encantador hotel branco. que devia combinar com os olhos. mas eram intensos. A pressão era uma coisa que ele sempre apreciara. Tinha altura acima da média. Para disfarçar. Os carros recebiam seus ocupantes. olhou para o pneu da frente à direita e xingou. Sempre percorrera o mundo. Os jeans estavam enfiados em botas de arremate de lona. incluindo a van. Charity parou de cantarolar a Nona Sinfonia de Beethoven. Roman virou-se.

assim como não jogaria o resto do pirulito no chão. O pneu deveria roubar o tempo que ela pensara ter para o almoço. e sorriu. tirou um pacote de drops de limão da bolsa. — Está tudo bem. — Somos um estabelecimento familiar — explicou. enquanto ele apertava as últimas porcas do pneu. — Ah. então. arquivou-o na mente e olhou para o pneu furado. com certeza ele seria mais rápido e parecia precisar dos cinco dólares que ela lhe daria. dois dos quais têm menos de seis anos e são fortes candidatos a um reformatório. — Disse isso e reclinou-se sobre a van. — Que tipo de trabalho? — Uma coisa aqui e outra ali. mantendo uma das mãos sobre o pneu.. Sabe de alguém que esteja precisando de ajuda? — Talvez. — Ela sorriu quando Roman sentou-se nos calcanhares para tirar os restos de um pirulito de cereja do joelho. de Jimmy "O Destruidor" McCarthy. Ele observou esse fato. Ela colocou a mão sobre o coração para ver se ainda estava batendo. um delinqüente de cinco anos de idade. Onde está o estepe? PERIGO — Estepe? — Percebeu que olhar para os olhos dele por mais de dez segundos era como ser hipnotizada. e. — Você está de férias? — Só estou viajando. ligeiras. de vez em quando. Muito prazer. — O pneu! — O canto da boca contorceu-se em um ligeiro sorriso. enquanto colocava o pneu no lugar. — Família? — Não. quando olhou para Roman. — Franzindo os lábios. encontra-se um par como Jimmy e Judy. Para qualquer lugar. pensa-se em transformar o local em uma estação de serviços. — Virou-se e esbarrou nele. Uma das mãos segurava a alça da mochila e a outra estava enfiada no bolso. competentes. Ficaram por um instante à luz do sol. o encanador está esperando na unidade seis e meu auxiliar acabou de ganhar na loteria. O sorriso foi espontâneo e tão rico quanto sua voz. mas sabia usá-la. Os nervos estavam mais em frangalhos do que ela imaginara ser possível. — Poderia ter escolhido uma dúzia de lugares. Louis. mas não era mulher de recusar uma ajuda quando esta lhe era oferecida. — Quase todos gostam de ter crianças por perto mas. Enquanto ele trabalhava. O estepe. — Entregou-lhe o macaco e. — Ele não ligava muito para conversas inúteis. Ela riu. quem não preferiria? — Charity ajudou-o a tirar o pirulito pegajoso. — Desculpe. — Eu nasci aqui mesmo em Orcas. para ver se via alguma baleia. Ele endireitou-se. — De onde você é? — St. — Pois veio ao lugar certo. ela estudou-o enquanto ele tirava o pneu furado. — Sim. Ele colocou a mão em seu braço para ampará-la. Um cliente chato. certo. Ela não invadiria a privacidade de ninguém. embrulhou-o em um lenço de papel amarrotado e jogou-o dentro da bolsa. Pensei em passar algum tempo em Orcas. assim como sua simpatia. — Andei viajando por aí. o pneu furou. apreciando a resposta. Vi um cardume ontem da minha janela. — Vai precisar de um que não esteja furado.— Nunca 151 . — Você acabou de chegar pela barca? — Sim.. Além disso. Um suvenir da ilha das Orcas. Você gosta de crianças? Ele levantou os olhos para ela. virou-se. foi pegá-lo. Charity suspirou profundamente.NORA ROBERTS — Está com problema? Ela levou um susto e parou. — Sim. franzindo os olhos um para o outro. — Oh. Meus nervos estão em frangalhos. Todo ano digo para mim mesma que vou tirar seis meses para viajar. — Mas não vou muito lá. — Eu preferia uma camiseta. Eu pego. O jeito como ele falou aguçou a curiosidade de Charity. em seguida. — Desculpe. Quando ele subiu na van. daquele tipo escuro e rico que só se toma em Nova Orleans. ela observava-lhe as mãos. — Obrigada. em seguida. tão adequadamente quanto usava o macaco. quase deixando o macaco cair sobre o pé. cujos olhos estavam apertados por estar de frente para o sol. Não sabia dizer por que escolhera dizer a verdade. — Encolheu os ombros. os gêmeos de Walla Walla. — Está ali atrás. — Sacudindo a cabeça para sua própria tolice. para apreciar o sol. foi o que Charity pensou. — De uma distância segura. — Quer que eu troque para você? Charity poderia ter trocado o pneu sozinha. Fortes. Acabei de deixar uma família de quatro pessoas na barca. quando ele saiu com o estepe. cuidado com. A ficha não dizia que sua voz parecia café com leite. Sempre admirara quem conseguia fazer bem um trabalho ainda que simples. Aceito trabalhos estranhos aqui e ali.

— Nós nos viramos. — Passaram por uma curva. Foi para o Havaí estudar biquínis e comer poi com muita pimenta. — Apoiou o cotovelo na janela aberta e retomou alegremente a conversa. — DeWinter — disse. furadeira. A maior parte do tempo. Durante a temporada. Acendeu um cigarro logo que ela saiu do estacionamento. meu auxiliar ganhou na loteria. Ele olhou para ela. Ela não lhe parecia crédula. Pop. A vista do monte Constitution é realmente espetacular. apertando a mão da moça. — Talvez. — Você dirige o hotel? — Sim. — Pensei que poderia passar algum tempo na Colúmbia Britânica. Roman. ela pensou. — Se encontrar um trabalho e um lugar para ficar. Quando meu avô morreu. — Fez uma pausa. também. Tinha sido ensinada a ajudar qualquer pessoa que necessitasse. e o estado da mochila e dos sapatos indicavam que ele não se encontrava na melhor das sortes. medido e considerado o rapaz por quase 15 minutos. Ela poderia falar o suficiente pelos dois. assumi a direção. Sou muito bom. — Ele o adorava. — Se você sabe lidar com ripas e pintura de parede. meu avô. — Você é bom em trabalhos manuais? — perguntou. assim como a pressão. — Sim. Tenho trabalhado por lá. — Nós? — O hotel. Podem alugar as cabanas e ter o café-da-manhã e o jantar incluídos. só que estávamos no meio da reconstrução da ala oeste — acrescentou. faz alguns anos. pode triplicar. isso parecia-lhe decepcionante. Nós temos vários grupos de excursões para todos os lados. mas os turistas gostam muito delas. — Isso é fácil. — E levantou-se para guardar o macaco. Pegue a barca para Sidney. ainda que desconcertantes. — Isso me serve. onde a floresta dava lugar a uma ampla extensão de água azul. incapaz de evitar que a mente tomasse o caminho desejado. — Certo. mesmo nas brochuras de publicidade. pensou Roman enquanto se acomodava no banco ao lado dela. se preferir. — Estamos no começo da temporada. em idas e vindas durante tanto tempo que já nem me lembro direito. — Ela ofereceu-lhe a mão. Ou. A luz do sol refletia-se em seus brincos. — Acrescentou alguma coisa a ele algumas vezes durante estes anos. — Quero dizer. — Para mim. posso lhe dar casa e comida e mais cinco dólares por hora. as trilhas para caminhada são ótimas. mas a idéia de conhecer gente nova todos os dias. de consertos domésticos? — Claro. — Ótimo. talvez fique mais tempo por aqui do que planejou. mas ainda continua sendo um hotel. — Parece que resolvemos o problema dos dois. A sobrancelha de Charity. serra. Roman já sabia as respostas. — Sou Charity Ford. A curva da ilha era nítida. uma grande soma. construiu meia dúzia de cabanas nos anos 1960. — Roman DeWinter. — Imagino que está indo de vento em popa. Tinha estudado. lançando-se para a frente e recolhendo-se em sombras contrastantes de um verde profundo e de marrom. São um pouco rústicas. portanto o hotel não está lotado. Entende um pouco de carpintaria. Charity não considerou seu ato como um impulso. De qualquer maneira. com a qual não estava acostumado. quando ouviu a resposta rápida. Desejei muita sorte para ele. ainda doía e ela acreditava que doeria sempre. fazer com que ficassem confortáveis. Algumas casas pareciam penduradas nos 152 . Ela virou o carro. passando a descobri-los. Ele tinha costas fortes e olhos inteligentes. Não podemos chamá-lo de um resort. Ele se perguntou por que sentia aquela ligeira culpa. PERIGO — Meu avô construiu o hotel em 1938 — disse ela. mas sabia também que pareceria estranho se não fizesse as perguntas. com instrumentos. Martelo. apontando para a logotipo da van. e não teve de apelar para uma música e uma dança. — Como eu disse. A maioria das entrevistas de trabalho levam mais tempo. — Você vai ter bastante tempo livre para passear. Mas então ele soube — melhor do que a maioria — . Espero que esteja procurando alguma coisa remota. muito fácil. Não só o local.NORA ROBERTS consigo fazer isso direito. — E abriu toda a porta do carro. abrindo a janela. — Ia ser fácil. Ela deu de ombros. isto aqui é lindo. Mas assim estava bem. — Pode entrar.. Ele estava exatamente onde tinha desejado estar. sorrindo ligeiramente.. subiu ligeiramente. e entrou em uma estrada cheia de curvas e manteve a velocidade em 80 quilômetros. Temos aproximadamente um grupo por semana. E se pudesse resolver um de seus problemas mais imediatos e difíceis ao mesmo tempo. Se não tiver nenhum projeto a cumprir. — Rapaz falante. formando belas cores. Damos um desconto especial para grupos.

Havia flores por toda parte. Ela parou a van e apontou para os penhascos. Havia duas cadeiras de balanço no terraço dos fundos além de uma cadeira de vime que precisava ter a pintura branca retocada. junto de uma enorme lareira de pedra. já que estou aqui. Parecia não estar olhando nem para a água. As aparências. E sorriram. Parte de uma floresta. mas teria jurado que. Com as sobrancelhas ligeiramente franzidas. ela ligou a van outra vez. com contornos de um azul aguado em torno das janelas em arco e ovais. As duas levantaram os olhos. um chapeleiro de carvalho e um bufê. Ele fazia com que as pessoas se sentissem relaxadas. que já estava meio cheio. com portas entalhadas e brilhantes. Havia dois sofás longos e macios e um par de poltronas super estofadas. duas mulheres jogavam preguiçosamente uma partida de Scrabble. parte das águas. — Você precisa ter cuidado com esse sorriso. concluiu. mas para ela. navegava com o vento. Mesmo assim. — Está mesmo interessado em ver baleias? — Pareceu-me uma boa idéia. até o último detalhe. — Charity levou o carro para o lado e estacionou em um pequeno terreno de cascalhos junto ao lago. Posso mostrar-lhe tudo mais tarde. — Ele sorriu e a mudança em seu rosto foi rápida e encantadora. Repousante. Depois. Muito receptiva. Era um pensamento estranho. Era de um branco perfeito. se quiser. 5 e 6. Roman olhou para as mãos dela. — Se você tem paciência e bons binóculos. mas. Ele parecia mais estar absorto do que observando. Ele a estava deixando nervosa. Fortes. Um gramado levava diretamente para a água. balançando as folhas novas que pendiam dos caules. Roman virou-se para apreciar o que um hóspede teria visto do lugar vazio. — Existem vistas como esta por toda a volta da ilha. e ela duvidava que fosse um homem perto do qual não se deveria relaxar nunca. mas antes vou levá-lo a seu quarto. decidiu Charity. Charity observava-o. Charity fez um aceno para a motorista. 153 . ele pôde divisar uma das cabanas de que ela havia falado. cheirando a lavanda e a fumaça de madeira. mais intensa. — Não. — Você é artista? — perguntou ela. Era exatamente o que ele esperava. — E o cenário é bom para os negócios. — A maioria das pessoas usa a entrada dos fundos. mesmo quando somos moradores daqui. para poder voltar para casa quando os filhos retornam da escola. davam a impressão de que a água fazia parte da decoração da sala. virou-se para ela e a sensação permanecia. Sem diminuir a velocidade. Encaixada em um canto havia uma pianola com teclas amareladas. com velas brancas enfunadas. Geralmente temos uma equipe de dez pessoas. — Era Lori. Ela trabalha em um turno mais cedo. Rodearam a curva seguinte. A brisa acariciou-os. Ela franziu ligeiramente a testa. caminhos estreitos e um amplo pórtico. que balançava preguiçosamente ao sabor da corrente. Nós as vimos do hotel. Em uma mesa perto deles. Para o lado oeste. — É aqui que mantemos as trutas. e tudo muito bonito. Antigüidades estavam espalhadas por toda a sala— uma escrivaninha com cadeira. Elas nos surpreendem. fazendo um ruído musical. — Ela desceu do carro e esperou que ele se juntasse a ela. um barco a motor. A trilha nos leva PERIGO para as cabanas 1. como eu disse. onde a lenha queimava. é bom ir de barco. e duas janelas amplas e arqueadas. Ela continuou a dirigir depressa. ao mesmo tempo. — Por quê? — Só imaginei. 2 e 3. abruptamente. Então. competentes. — Quem está vencendo hoje? — perguntou Charity. levando a van decididamente por entre os obstáculos encontrados no caminho. — Como ele não fez o menor comentário. quase sem pensar e falava sério. nem para a floresta. e o hotel ficou visível. não eram mãos sem personalidade. — Mal não faz— disse e olhou de volta para ele. apesar de os dedos começarem a tamborilar nervosamente no volante. só que mais pessoal agora. onde podia ser visto um deque. seria capaz de fazê-lo. se alguém perguntasse a ele para descrever o hotel dali a seis meses. uma de nossas garçonetes. podiam ser enganadoras. bifurca-se. Um barco. dando para a 4. — Temos um lago maior nos fundos. que ficava ao lado do hotelzinho. onde o bosque começava a ficar mais espesso. se quiser ver melhor. amarrado a ele.NORA ROBERTS penhascos adiante. cortando o espelho d'água. Havia delicados torreões. Pensou na pistola que estava em sua mochila. lá em cima é um ótimo lugar. As portas duplas de vidro abriram-se para um aposento grande e arejado. Outro carro aproximou-se. que dominavam a parede oposta. que é aumentada em cinco ou seis para trabalho temporário durante o verão. Um moinho de roda despejava água em um lago raso. pensou de novo. — É um lugar bonito — disse ele. um trio de tinteiros antigos. ela percebeu. era mais charmoso do que nas fotos que tinham lhe mostrado.

Seu sorriso voltou aos lábios. — Sacudiu as chaves. — Nem eu — Charity disse. Agora. ou outra coisa qualquer. — Estas senhoras vêm ao hotel há mais tempo do que consigo me lembrar— Charity disse para Roman. Parecia que tinha sido ontem que homens bonitos e jovens beijavam sua mão e convidavam-na para dar um passeio. mas tirou rapidamente os óculos e endireitou as costas. Ela voltou sua atenção para o jogo. Sua posição ali lhe daria um acesso fácil ao andar principal e ao resto do hotel. — Então.NORA ROBERTS — Está empatado. — Já esteve aqui no hotel antes. Papel de parede. — Você tem um plano de jogo? — Com certeza. Vamos pensar neles depois que os quartos dos hóspedes estiverem terminados. Ele estava certo. Millie. — Tenho a impressão de que você sempre faz isso. cobria as paredes do teto até o encosto de uma cadeira branca. nu. querida. Sra. Trabalhar com as mãos era uma coisa que ele gostava de fazer e para a qual teve muito tempo no passado. riu para si mesmo. um de casal e uma suíte familiar nesta ala. — Como pode ver. — DeWinter. A gola da blusa era quase que exatamente da cor de seus olhos. — A Sra. Abaixo dali. Uma mulher que sabia o que queria e que pretendia obtê-lo. todos em vários estágios de desordem. A cama estava sem lençóis e o chão. precisando de reparos. — Ela pegou um conjunto de chaves e abriu a porta. para ela. comentava pouco e estudava as cercanias. enquanto os pensamentos voavam para vários assuntos diferentes. se isto o deixar mais confortável. senhora. obviamente novo. — A mulher da direita afofou os cabelos quando viu Roman. Sr. — Não parece muito bom. o que achou? — Do quê? — Do trabalho. apesar de. Millie? — Não que eu me lembre. — Não sabia que você ia trazer outro hóspede. — Vou me cuidar. O rodapé foi arrancado. Ele enfiou os polegares nos bolsos da frente do jeans. Disseram que ela tinha uma certa reputação em sua época. continuava sorrindo para Roman. Millie. mas. — As portas ainda precisam ser terminadas e os enfeites originais estão naquela caixa. sempre pronta a flertar. e colocou mais lenha no fogo. desta vez suave. Não teve a menor dúvida de que ela seria muito boa no que fizesse. Lucy recolocou os óculos para ver melhor. — São adoráveis. rápida e eficiente. Automaticamente. — O que fica lá em cima? — perguntou. — Ela avançou por outro corredor. — Quantos quartos? — Temos dois de solteiro. a restauração já estava bem avançada quando George achou seu pote de ouro. Lucy e Sra. — Roman DeWinter. Sabia pelos esquemas que estudara que o plano do solo desta seção espelhava o mesmo da ala leste. — Está convidado para uma partida. É o que está mais próximo de estar pronto nesta ala. — Nós não conhecemos um DeWinter uma vez. Mas teria que trabalhar. DeWinter? — Não. Tinha idade suficiente para ser avó dele. Era uma pena o que os anos faziam. Mas considerava isso um pequeno bônus. — Está ótimo. fazendo uma lista mental do que era necessário.. Era um quarto pequeno e claro. e que ainda não pode tirar os olhos de um homem atraente. a parede também estava nua. enquanto guiava-o por um corredor. — Ele já passara por locais que fariam aquele quartinho parecer uma suíte do Waldorf. — Esta porta leva à ala oeste. — Ela afastou a porta. — Millie. Olhou para eles como se examinasse o trabalho feito por George. Esta é minha primeira vez em San Juan. enquanto olhava para as paredes semi-terminadas e as latas de tinta. — Você pode ficar com este aqui. ela verificou o armário e o banheiro. geralmente. — Meus aposentos. Ela era bastante precisa em suas instruções. que PERIGO estava apoiada contra a parede e entrou no quarto. — Apontou para as pilhas arrumadas de madeira ao longo das paredes pintadas e frescas. ele não passar de um borrão. — Senhoras. apontando para um lance de escadas no final do corredor. — Millie soltou um pequeno suspiro. mas devo preveni-lo sobre a Srta.. Ele admirava isso. Nunca o compreendi. O vidro da janela era encaixado em molduras de aço e dava para o moinho. Você é quem decide. fosse dirigir um hotel. George tinha o próprio sistema. conseguia fazer o que se propunha. Roman escutava. — Pode começar por aqui. Tirou os óculos escuros e jogou-os dentro da bolsa. no momento — comentou Charity. chamavam-na de senhora. Charity passou os 30 minutos seguintes levando-o para percorrer a ala e explicando exatamente o que queria. 154 .

a não ser por materiais de construção e latas de tinta. e estavam penteados para trás da testa larga. tirou uma chave do chaveiro. — Posso cuidar disto.NORA ROBERTS — Você tem ferramentas? — No galpão. Tinha certeza de que poderia. Eu o contratei para terminar a ala oeste. um aquário tinha sido construído na parede sul. — E colocou-a no bolso. mãos. Ela fungou e serviu-lhe café. e não pesava mais do que uns 80 quilos. — Sim. na altura das orelhas. — Roman vai retomar o trabalho de onde George parou — Charity explicou. O gosto pelo açúcar não parecia afetá-lo em nada. Parou ali por um instante. — Pois eu digo que precisa de mais manjericão. Senhoras — disse. Charity moveu os ombros incomodada. Então. apontando com o polegar para uma mesa longa de madeira. — Senhora. — Mae Jenkins. — Charity entregou as chaves para ele. soltou um suspiro aliviado quando fechou a porta atrás deles. — Vou levá-lo até a cozinha. Resmungando. ela dirigiu-se para a panela. — E encaminhou-se para a porta. — Afaste-se dela — Mae ordenou — e sirva frango frito para o homem. e como que para insistir no mesmo tema. decorada em tom pastel. Era tão estreita quanto Mae era larga. Dolores foi pegar um prato. A melhor maneira de descrevê-la seria ampla — rosto. Antes que Mae pudesse responder. representando o papel de pacificadora. — Será que um homem pode tomar uma xícara de café aqui? O homem parou e lançou um olhar curioso para Roman. talvez mais de l. — Ela não quer me ouvir. Levou-o para o andar de baixo. do jeito que ele imaginava que uma babá olharia para uma criança pequena e levada. Lá. PERIGO — Então. quadris. disse para si mesma. — Você já almoçou? — Não. examinando-o de cima a baixo. — Obrigado. repentinamente. do outro lado do estacionamento. — E eu digo que não. Queria escapar logo daquela sensação estranha de estar completamente sozinha com ele. — Faça o que fizer — Charity murmurou para ele —. — Mae olhou de novo para ele. empurrou a porta de vaivém que dava para a cozinha. Era alto. E desamparada. Estava vazia. — Precisava de mais manjericão. Mesmo assim. Grandes janelas abriam-se para uma vista da água. — A leste daqui. enquanto Mae mostrava a língua para ele. Sentindo-se tola. Bob é um dos meus vários braços-direitos. Estremeceu ligeiramente quando Dolores jogou um prato de frango frio e salada de batatas na frente de Roman. passando pelo hall vazio e entrando na grande sala de jantar. quando Mae bateu-lhe na mão para afastálo do fogão. — E Dolores Rumsey. Roman decidiu que a melhor política seria sorrir para ela e manter a boca cheia. — Vai precisar disto. Os cabelos castanhoclaros eram cortados curtos. até ficar satisfeita por ver que as mesas estavam perfeitamente postas para o jantar. eu lhes trouxe um homem faminto. um pouco apressada demais.80m. — Bob Mullins. usando o melhor sorriso — . Ela respirou profundamente. este é Roman DeWinter. — Não. que estavam muito próximos um do outro e que não ouvia o menor ruído. — Você não é daqui. Nunca tinha estado desamparada. Estavam parados no hall octogonal da suíte familiar. colocando bastante açúcar. a porta abriu-se outra vez. cheios de flores frescas. havia pequenos vasos leitosos em cada mesa. examinando toda a sala. Depois de cumprimentar Roman com um pequeno aceno de cabeça. — Vai ter aqui — Charity intrometeu-se. — Dolores fixou o olhar nele. Mae vai preparar um almoço para você. nunca concorde com nenhuma delas. sente-se — disse. 155 . — A outra mulher segurava um vidro de ervas. perguntando-se por que se sentia como se tivesse dando um longo passo de olhos fechados. E estava silencioso. — Você é do leste? — Bob perguntou entre goles de café. — Dirigiu-se para o fogão para servir-se de café. — Ele vai ficar na ala oeste. — Acho que está precisando de comida decente. como se o desafiasse a dizer o contrário. — Bem vindo a bordo.— Sorriu. A mulher que estava junto da panela segurou no ar uma colher que pingava. Roman DeWinter. Fez uma análise rápida de Roman. — Muito bem. Que pensamento bobo. Ela percebeu então.

uma família de quatro pessoas entrou em uma espécie de trailer e dirigiu-se para as cabanas. ela se endireitou e alisou o lençol sobre a cama. não desejado e chocantemente íntimo. apreciando o que fizera. passou pela porta e examinou o quarto vazio. — Se você. Pela primeira barca de Sidney. Ela era esbelta por baixo daquele suéter longa e larga. Não conseguia compreender como ele podia estar em um aposento com outras quatro pessoas e parecer tão sozinho. e as notas de uma sonata de Mozart ao piano. — Coloquei um travesseiro e um cobertor extras no armário. no que ela chamava de sala de reuniões. Os pássaros cantavam nas árvores. — Meu Deus. Parecendo exaustos. Um homem e um menino jogavam bola em um pequeno campo de basquete de concreto. e ele a admirava com a simples apreciação masculina. — Perguntei o que você estava fazendo. algum movimento. ela tropeçou e sentou-se na cama para recuperar o fôlego. — Afofou os travesseiros. Isso provocava-lhe pensamentos que ele não podia dar-se ao luxo de ter. Pensamentos do que poderia acontecer. Escolheu a suíte familiar e começou a trabalhar. — Já recuperada. Seu cheiro era o mesmo do hotel. onde havia colocado toalhas limpas. abraçados perto do lago. e ouvia-se o som distante de um barco a motor. como lembrava-se de ver a avó fazer. — Não parece óbvio? — disse ela e bateu a mão na pilha de lençóis. Um homem com um boné caminhava pelo píer com uma câmera de vídeo no ombro. até mais esbelta do que um homem poderia esperar. Um abraço — não planejado. confundir todas as coisas de novo. — É você quem faz o serviço de arrumadeira? — De tempos em tempos. — Estamos esperando uma excursão para amanhã. — Amanhã? — Sim. — Está tudo certo.NORA ROBERTS — Você resolveu aquele caso com o verdureiro? — perguntou Charity. PERIGO Cantarolando baixinho. Sentia um certo bem-estar ao trabalhar com as mãos. — Vou estar no escritório ao lado do hall.. — Ela estudou-o por mais um momento. E precisa assinar alguns papéis. — Tem estado ocupado? — Esse foi o trato. possivelmente recém-casados. Cuidadosamente. Não conseguia lembrar-se da última vez em que vira alguém arrumar uma cama. As senhoras. — Ela consultou o relógio de pulso. Ouvira alguma coisa. Desdobrou os lençóis e começou a arrumar a cama. — Agora. Roman fez um longo passeio de reconhecimento pelo hotel antes de começar a pegar os instrumentos para a ala oeste. E os olhos eram mais azuis do que tinham o direito de ser. Ele entrou no quarto. Telefonaram para você enquanto esteve fora. — Ela moveu-se de um lado da cama para o outro. Interrompeu-se. todas as tardes às cinco horas. se quiser saber de mais alguma coisa. Charity saía do banheiro. — Você nunca pára? — É o que dizem de mim. Uma olhada no relógio de pulso fez com que decidisse fazer outra viagem desnecessária até o galpão. As mãos de Roman instintivamente foram para os quadris dela. com ela. observando-a com os olhos semicerrados. Se ele mesmo não tivesse colhido as informações. — Vou fazer isso.. tinham largado o jogo para sentarem-se na varanda e discutir sobre o jardim. Com um murmúrio de concordância. — Muito bem. mas resolveu parar na porta de seu quarto. — O que está fazendo? Com um grito abafado. foi o que ele pensou. — Olhou para Roman. um cheiro de uma combinação bem-vinda de 156 . juraria que estava no lugar errado. Não faria mal nenhum dar outra olhada de perto em todos os hóspedes. satisfeita. mais suaves. maiores. quando se virou e quase caiu por cima dele.— Estendeu uma colcha branca de casamento na cama. Charity mencionara que o vinho seria servido. — Está tudo cuidado. perguntando-se quanto tempo levaria para chegar aos aposentos de Charity. portanto estamos todos um pouco atarefados. Havia também o som de um bebê chorando fortemente. — Esticou o lençol superior com habilidade. — Há sabonete e toalhas no banheiro — ela disse e depois entortou a cabeça —. — Até logo. enfiou os cantos dos lençóis nos pés da cama. Duas horas passaram-se e ele relaxou um pouco. Roman. Dirigiu-se para lá. Viu um jovem casal. acho que está precisando. enquanto as dela abraçavam seus ombros. ele descobriu. não faça isso.

Era possível respirar ali e. De pé. descobrindo que estava rígida. — E começou a afastar-se. uma força implacável com um grande potencial para a violência. continuou abraçando-a. Atraído pelo cheiro. veio um alegre filhote. no momento em que por pouco não fora queimada. numa celebração à primavera. um fraco latido. ele pensou abruptamente. Observou enquanto ela quase corria para fora. correu as mãos para cima. O sol que nascia empurrava as formações de nuvens. 157 . que saíram para a refeição matinal. — Eu ia perguntar se você encontrou tudo que precisava. Perguntou-se por que tinha tanta certeza de preferir a correria e o barulho das cidades. temperado pelo mar. jogar com a reação que percebera que ela havia sentido. Prometera a si mesmo 30 minutos. sabendo que seus nervos estavam tão abalados quanto os dele. E o fato de isso excitá-la deixou-a sem fala. — Respirou profundamente e esperou que os nervos em frangalhos se recuperassem. Ele viu a confusão em seus olhos. Aquela era uma reação estranha. a pressão dos dedos trouxeram-na de volta. apreciava manhãs como esta. Apreciaria o gosto. quase tonta pelas sensações que perpassavam por seu corpo. a paixão momentânea. — Parece que sim. Pensativamente pegou um cigarro. contra o vento.. Só conseguia olhá-lo. pensou. mas ele desejava tocá-la outra vez. Conhecer seu lugar e estar feliz com ele. Tinha um trabalho a fazer. — Você quer alguma coisa? — murmurou ele. Atrás dela. Ele sempre tivera o hábito de manter os pés bem colados ao chão. que apenas acrescentava um toque doméstico ao ambiente. Antes que conseguisse falar novamente.NORA ROBERTS lavanda e madeira. Ela se esquecera de tudo. vou deixá-lo trabalhar. Isso era a liberdade. A fêmea do alce também saiu do bosque. — Eu estava. — Ótimo. escolhendo delicadamente o caminho em direção do capim mais alto. amaldiçoando a dor forte que sentiu no estômago. Formas de sonho. faziam seu vôo rasante sobre a superfície da água. — Perguntei se você queria alguma coisa. Seus olhos não se afastaram dos dela. E. Talvez não fosse uma boa idéia. Desapontamento. — Obrigado pelas toalhas. cortando o silêncio com pios solitários. quando o ar era fresco e surpreendentemente claro. A fragrância das flores. — Se eu o quê? — Os dedos abriram-se sobre os quadris de Charity. sob a suéter. desejava somente apreciar a frescura do ar daquela manhã. Ouvia-se um cachorro latindo à distância. portanto. Roman observou-os alimentando-se. se ele pudesse se dar ao luxo. transformando-as em formas de cores vividas e extraordinárias. puxando-a um pouco mais para junto de si. mas em seguida rejeitou-a. — O quê? Ele pensou em beijá-la.. ele a soltara. os dedos enroscaram-se na camisa dele. em abraçá-la mais forte. Involuntariamente. as mãos enfiadas nos bolsos traseiros da calça. Ela apertou os lábios para umedecê-los. adoraria esvaziar a mente e simplesmente sentir aquele dia magnífico. viu um alce sair de dentro do bosque e levantar a cabeça para cheirar o ar. — Lentamente. PERIGO Poderia ser vantajoso para ele aproximar-se dela. Deu-se conta de sua força. não por uma mulher que nada fizera além de olhar para ele. certamente. Gaivotas. Não conseguia lembrar-se de nem uma vez em que estivera fora de seu equilíbrio tão facilmente. Apesar de raramente ter tempo para admirar o dia. Enquanto estava parado lá. apesar de saber que não devia. a reação dela atraía-o ainda mais. Roman parou na extremidade da estrada estreita. Considerou a idéia de acender um cigarro. Aspirou a fumaça. era trazida delicadamente pela brisa suave. Ele segurou-lhe o braço antes que ela pudesse afastar-se. 30 minutos solitários e tranqüilizantes. riscou um fósforo. e lutando contra um pânico crescente. Naquele momento. Tenho muito que fazer. chegando à cintura dela. — De nada. — Não. Não podia dar-se ao luxo de pensar em Charity Ford como alguma coisa mais do que um meio para alcançar um fim. Capítulo 2 O dia mal começara a raiar e o céu para leste estava fantástico. em colar os lábios com força nos dela. Ignorando uma onda de desgosto consigo mesmo. O choque do calor.

enrolando-se e soltando-se da coleira. tão alerta quanto ele. Para mostrar seu agradecimento. mas ele não a pegou. e. Se havia uma coisa que se desejasse com muita força. que poderia ou não ter intenção de manter. e tudo o que sentia transparecera quase que ridiculamente em seus olhos. Mas. mas não queria estragar-lhe a alegria. descendo escada abaixo. ela segurou a coleira com mais força e continuou acompanhando-o. mais pelo esforço de acompanhar o passo de seu cão do que pela corrida de cinco quilômetros. enlaçando a correia nas pernas dele. — Cachorrinho bonitinho e mimado — acrescentou Charity. Algo surgira entre os dois na noite anterior. ao deixar sua marca em alguma coisa que permaneceria para sempre. dando-lhe um aspecto quase severo. enquanto o fascínio durasse. pensou. novamente. imaginando-a. Ela poderia ter controlado o pequeno cocker dourado.NORA ROBERTS Estava inquieto. Era uma rotina diária. ela estaria na mão em menos de um segundo. tocado suavemente. Ele não tinha um lugar. o melhor seria vencer esse desejo. segundo o desejo de seu cão no momento. levantou a cabeça e depois correu para dentro do bosque com o filhote. quando ouvira o som de Chopin. E. Simplesmente olhara para ele. A arma estava presa ao calcanhar. Levantou cedo. no meio da noite. O alce. — Você também. ele esperou. rolou pelo chão e expôs a barriga para cima. Ela não tinha intenção apesar de ele saber que todas as mulheres eram capazes disso desde o nascimento — de demonstrar um convite silencioso. agora. Os cabelos presos atrás. Em vez disso. Então. — Tenho de mantê-lo preso por causa dos hóspedes. E também para ver se aquela reação da véspera surgiria novamente. parado. uma refeição e um trabalho. nada menos. E era assim que desejava as coisas. reprimiu-a deliberadamente. mais PERIGO por força do hábito do que por necessidade. Em vez disso. perderia o autocontrole. a tinha desejado no dia anterior. Bloqueara aquela vontade. para sentir como seria sob seus dedos. Mas ele não tinha tempo para desejos. A pele parecia quase translúcida. para ver quem corria naquela estrada deserta àquela hora do amanhecer. Se demonstrasse alguma habilidade e cuidado no trabalho. expondo uma camiseta manchada de suor entre os seios. e em seguida teve que parar. tentava acompanhá-lo. como Ludwig continuou correndo. entregou-se. abaixou-se e coçou-lhe a cabeça entre as orelhas. pensando que ele precisava dos três. vindo do quarto dela. A partir do momento em que sucumbisse a essa vontade. sem mulher esperando por sua volta. Sem raízes. Um erro bastante sério. ela fazia parte de um compromisso — nada mais. E já tinha sido aceito. Sentiu novamente a necessidade imperiosa de fumar um cigarro. imediatamente. Este era um dos aspectos que o tornava tão perfeito para seu serviço. já que Ludwig decidiu saltar no peito de Roman e latir para ele. sentia a impaciência e a luta que atravessava. desta vez. em outra época. seria aceito mais facilmente. A jaqueta leve estava aberta. Ludwig. para que fosse coçada. Por um instante breve e absurdo. — Ele não morde. Ela confiava nele. eles poderiam ter-se encontrado e aproveitado a presença um do outro. 158 . já que é tão compreensivo quando fica preso. Hesitou ligeiramente quando viu Roman. pensando nela. Melhor ainda para seu disfarce. Dera-lhe um teto. brilhando pela corrida. Mas sentiu uma satisfação enorme quando executava o trabalho de carpintaria no dia anterior. — Mas ele sorriu. Não podia pensar nela como mulher. mas ela continuava a emergir para a superfície — quando a ouvira seguir pela ala à noite. ajustando o passo de uma corrida leve para passadas rápidas. Ele teve a ânsia de tocá-la. — É o que todos dizem. Em outro lugar. Escutou o som de passos que corriam e ficou tenso instintivamente. Ela não parecia ter o mínimo de malícia. depois ia pela esquerda. Ludwig correu em torno de Roman. Charity respirava com dificuldade. — Mas se ao menos eu conseguisse ensiná-lo o conceito de uma coleira. — Acho que Ludwig merece uma boa corrida todas as manhãs. Se precisasse. sem família. acentuavam a estrutura óssea do rosto. Ludwig corria na frente. — Que cachorrinho bonitinho. Desejara Charity. Muito menos pensar nela como sua mulher. — Bom dia— disse. à qual os dois já estavam acostumados. Ali não era seu lugar. apesar de ela nada ter feito para provocá-lo. quando acordara com aquele silêncio total do campo. Mesmo tentando absorver e aceitar a paz em torno de si. virava para a direita. mas ele come como um rei. — Ela curvou-se para desenrolar Roman e para tentar controlar o cãozinho animado.

Agora. Ele estava zangado. — Tenho certeza de que esta é a primeira vez. ela percebeu. levantou-se. Ele pensa que pode brincar com todo mundo. — Acho que tem de ser mesmo. Apesar de custarlhe muito. Ele não esperava ser posto a trabalhar mas.NORA ROBERTS — Ludwig. — Sua mão tocou a perna de Roman. — Onde quer que eu ponha isto? 159 . Ela apenas sacudiu a cabeça. — Lutando com o cachorro. digamos. A intenção fora apenas impedi-la de encontrar inadvertidamente a arma. — Charity? Ela voltou-se e lançou-lhe um olhar que pretendia ser frio. mas não a soltou. não para Charity Ford. vamos ter que ser cuidadosos.— Sempre reage assim quando um homem a toca? — Não. conversando sobre um assunto qualquer com a rechonchuda Mae e a magrinha Dolores. — Obrigada. ele faria exatamente o que quisesse. pois ainda não estava segura de ter recuperado o equilíbrio. observando os dedos ocupados em alisar e arrumar o tecido. disparar. Roman aguardou por um momento. com o cachorro tentando brincar entre os dois. — Você está tremendo — disse ele. Deliberadamente. não acha? — Ele a soltou e. O arrepio de excitação que percorreu seu corpo a aborreceu. Seu olhar lançou-se como um chicote na direção do dela. no centro da estrada deserta. para cima e para baixo. por reagir a mim. mas tenho que voltar para providenciar o café-da-manhã. mas insuportavelmente excitante. Observando-a. aquela mulher tinha um andar e tanto. Se fosse pressionado o suficiente. Inclinou a cabeça para estudá-lo. uns 15 minutos mais tarde. Os tipos machões eram para outras mulheres. Ele sentiu o pulso parar e. — Eu aviso a você se puder dar um jeito. Para Roman. — Ela riu e abraçou-o pelo pescoço. quando se viu com os braços cheios de toalhas de mesa. ela iniciou o que esperava que fosse uma saída digna. ambos sentiram-se congelados. ao mesmo tempo. baixou uma das mãos para acariciar Ludwig. o cachorro saltou e lambeu-lhe o rosto. Charity conseguiu divisar um fogo nele. Era uma reação rápida e vulnerável. — Sim? — Seu tênis está desamarrado. joelhos com joelhos. com essa onda de violência que tem de enfrentar. — Ele escuta bem — Roman replicou. ficou quieta. que vestia uma suéter de um vermelho brilhante com o logotipo do hotel no peito. mulheres diferentes. embora estivesse furioso consigo mesmo. fique quieto um instante. — Então. quando quisesse. — O olhar rápido e caloroso alarmou-a. olhou para o relógio de pulso. Apesar de tentar se controlar. Estou certa de que é uma oferta deliciosa. teve que fazer o melhor que podia. Charity. Quando ele segurou-lhe o pulso. — Eu sou. Ela apenas levantou o queixo e continuou a andar. era um simples ato de matar o tempo durante uma segunda xícara de café na cozinha. E faria. em seguida. mas Charity sempre conseguira controlar seus sentimentos. PERIGO — Com ninguém. — Gostaria que eu fizesse alguma coisa a respeito aqui e agora? Ele poderia. no momento — disse ele. — Como fora apanhada de surpresa. Roman riu às suas costas e enfiou os polegares nos bolsos. Em resposta. Com quem você está zangado. aborrecido. Ele lançou um olhar preguiçoso para a estrada. — Já viu por que eu preciso do cercado. em seguida. Ele estava interessado no grupo da excursão. realmente. Sentiu-se envaidecido ao ouvir aquilo e. ele soltou os dedos. a raiva transparecia no olhar. enquanto tentava desenrolá-lo da correia. Roman? Ele não gostava de ser lido com tanta facilidade. um fogo que surgiu repentinamente. esperando para ver o que aconteceria a seguir. arrumava meticulosamente um guardanapo dobrado em um copo. — Você tem todo o direito a seus segredos. porque queria acreditar que fosse verdade. Eles poderiam estar sozinhos na ilha. Sim. estavam os dois agachados. — Sei. Era uma pena mesmo que ele estivesse começando a gostar dela. mas não posso deixar de me perguntar por que está tão zangado consigo mesmo. Mais lentamente. que descansava as patas dianteiras em seus joelhos. mas que logo foi reprimido. — Não sou muito bom em ser cuidadoso. ela levantou-se também.

Charity continuou a escrever. com uma mistura de maçã e canela — . terminou de arrumar outra mesa.. — Sim. mande me chamar. mas pode dizer para aquela mulher lá dentro.. Charity. Charity parou de escrever. — Estarei na mesa da entrada com Bob. E os hóspedes já se registraram. Estamos todos um pouco agitados esta manhã. quando Mae a chamou. da excursão. As brancas embaixo e as cor de pêssego por cima. — Ligeiramente adoçada. Recolhendo a raiva. — Ótimo. — Depois de colocar uma travessa de pão fatiado ao lado. Roman. PERIGO — Fiquei acordada quase que a noite inteira. Servimos entre sete e meia e dez horas. jogou os cabelos para as costas. — Lori? — Está quase pronto. decidiu não estar. Naquele momento. A sobrancelha de Roman elevou-se quando ouviu que a voz dela assumiu o timbre do aço. — Eu não tenho que agüentar isto. — O café-damanhã deles está incluído. — É assim que chamam essa coisa atualmente? Ouvindo somente com um dos ouvidos. a garçonete pela qual passaram na estrada no dia anterior surgiu correndo com uma bandeja de prataria reluzente. Decepcionada. com a Srta. Dolores. Entendeu? — Indicou uma das mesas que já estava arrumada. Ele não esperava distrair-se. — Se ficar ocupada demais. — Bem. — Quer que eu sirva as mesas? Ela lançou-lhe um sorriso rápido e agradecido. Charity deu as instruções à garçonete. — Verificou outra vez o relógio. — Quantos hóspedes está esperando? — Quinze. — Verificou mais uma vez o relógio e saiu rapidamente. — Dolores fungou. Só tente ser paciente.. Você sabe o quanto dependo de você. Dolores. como de costume.NORA ROBERTS Olhou-o... — Recebemos também algumas pessoas extras. Se você conseguir cuidar dos hóspedes registrados. depois dirigiu-se rapidamente para um quadro-negro junto da entrada e começou a copiar o cardápio da manhã com uma letra fluente e elegante. se estava tão doente. no meu estado. — Meu peito está tão apertado que mal posso respirar. O cheiro do pão — um odor rico. — Falaremos sobre isto mais tarde. satisfeita. — Com ar ausente. — Diga a ela para largar do meu pé. eu volto para lhe dar uma mãozinha com o grupo da excursão. mas vim trabalhar. Antes que a porta fosse totalmente fechada. enquanto acrescentava uma omelete de queijo com presunto à lista. pensou Charity. Enquanto que eu. Dolores. — E ele começou a dispor as toalhas. enviesadas. — Sobre as mesas seria um bom começo. Dolores. — Você sabe fazer? — Posso aprender. Dolores aproximou-se com uma pilha de louça e em seguida saiu novamente. — Mas é no almoço e no jantar que isto aqui realmente fica agitado. — O que quer dizer? — Não sei por que o carro dela passou a noite toda na porta de Bill Perkin de novo. — Hum.. e partiu para outra mesa.. hum. — Sem problema. Dolores.. Charity dirigiu-se à garçonete. com Mary Alice doente de novo. Dolores mordeu o lábio inferior e entrou na cozinha. mas seria difícil que isso não acontecesse. — Doente. sem saber se ainda deveria ou não estar aborrecida com ele e. Dolores nunca se sentia muito bem. Charity continuou a escrever calmamente. — E agradeço muito. — Claro. Millie flertando com ele por cima da conserva de amoras. — Levantou um copo para a luz e somente o recolocou na mesa depois de uma inspeção cuidadosa. foi pegar outra. — Agüentar o quê? — Estou fazendo o melhor que posso. então. e já lhe disse que não estou me sentindo muito bem. — e apontou o polegar na direção da cozinha. Dolores segurou o avental. — Obrigada. cujos cabelos vermelhos espetados e lábios encolhidos faziam com que Roman se lembrasse de uma galinha enfezada. o som suave da música clássica e o murmúrio das conversas 160 . — Acho que podem contar comigo para fazer meu trabalho. — Certo — murmurou Roman. — Vou falar com ela. Especialmente quando as coisas não corriam como ela queria. entrou atabalhoadamente pela porta e colocou as mãos nos quadris estreitos. precisava de todo braço extra de que podia dispor.

Por que não tira uma pausa antes de começar na ala oeste? — Está bem. O balcão da entrada estava deserto. Raiva? Desapontamento? — Existe alguma coisa que você não faça por aqui? — Tento ficar longe da cozinha. 60 para outra. Cinqüenta para uma. sem que ele tivesse percebido? Se havia uma falha no sistema. Este era o motivo de estar ali dentro. E ele se divertiu. O guia — Roman já sabia que se chamava Block — cumprimentou Charity com um grande sorriso. girou para ele. — Acho que a crise já passou. viu uma van de excursão parar bem na porta da frente. que usava uma gravata estampada. Perguntou-se. Haveria tempo para isso mais tarde. — Ele descobriu que queria vê-la sorrir. Quando limpou as mesas de perto da janela. Alguma coisa a preocupava. Enquanto ela distribuía as cabanas e entregava as chaves. Sorrir de verdade. Ele trazia e levava as bandejas para a cozinha. ou lá fora. Roman percebeu. levando as bagagens para as cabanas. fosse o que fosse que estivesse enevoando seus olhos. entregando-lhe em seguida uma lista de nomes.. mas decidiu que isso poderia esperar. Conseguiu segurar seu temperamento forte.. Posso até mesmo suportar um ataque ocasional de preguiça. colocando um avental. Deu uma meia dúzia de passos e.. 161 . Sorriu e dirigiu algumas palavras a um casal mais velho. — Olhou desejosa para a cafeteira. contemplando feliz o café-da-manhã. Não parecia estar com muita pressa. enquanto guiava os passageiros para dentro. Mas não suporto que mintam para mim. Contou as cabeças e estudou os rostos do grupo. Ela sorriu para ele. Roman atravessou a sala para observá-los enquanto entravam pelo hall. Millie me deu uma nota de cinco. — Problema? — Sim — ela retrucou. tinha escapado de uma segunda pena só por causa de umas correções nas papeladas? O queixo de Roman enrijeceu-se. era ele quem deveria descobrir e explorá-la. Roman conseguiu observar alguma coisa. esticada em ombros largos. brincou com um homem careca. e muito. O jeito como conversava. Mas quando a porta fechou atrás dela. Tinha um rosto redondo. e depois se dirigiu para Roman.. A Sra. mas. Roman percebeu que as notas canadenses eram passadas para a assistente de Charity e as americanas eram postas atrás. rosado e alegre. duas pessoas do grupo aproximaram-se da mesa da portaria para trocar dinheiro. — Quero agradecer-lhe por ter me ajudado esta manhã. Certos trabalhos são feitos de maneira melhor no escuro. mesmo assim.. Roman dirigiu-se para uma passagem e observou-a seguindo pelo corredor. tudo ao mesmo tempo. sorria e respondia às perguntas dos hóspedes. — Não há de quê. Desejaria chutar alguma coisa. Carregava três travessas no braço direito. Alguma coisa teria dado errado naquela manhã. quando ouviu o som de vidro se quebrando — Nunca pensei que o garoto dos Snyder quisesse o suco de laranja. O guia era um homem alto de camisa branca. Ele chegou a considerar entrar atrás do balcão para dar uma olhada nos livros. — Ela gosta do jeito com que você fica com um cinturão de ferramentas. apenas um leve franzir da testa. fazia com que parecesse ter todo o tempo do mundo. PERIGO Charity serviu outra rodada de café para uma mesa de quatro pessoas. quando passou pelos hóspedes do primeiro andar. A raiva tornava os olhos escuros e brilhantes. E tirou vantagem de sua posição fazendo aquele serviço. Estaria ela consciente de que aquele homem. quando Block se aproximou e colocou o dedo no brinco de argola de ouro de Charity. servia o café com a mão esquerda e brincava com um bebê.. Era uma mistura de casais e famílias com crianças pequenas. Abriu um bloco e começou a anotar os pedidos. Ela fez uma careta. então. soltou uma série de impropérios furiosos. Percebeu que as conversas de Mae e Dolores eram mais divertidas do que aborrecidas. Charity veio para trás deles. Dez minutos depois todo o grupo estava sentado na sala de jantar. Mas movia-se como um raio. que sorria o tempo todo. Roman decidiu que a assistente de Charity estaria trancada na sala ao lado. Mal transparecia. O restaurante foi agraciado com três estrelas. Ela saberia que Block tinha uma passagem na prisão de Leavenworth por fraude?. clareou por um momento. com quem trocava palavras agradáveis. que jogava Parcheesi na sala de estar. — Ela sorriu para ele. — As gorjetas foram boas. — Ela se apressou para limpar a sujeira e ouvir os pedidos de desculpas dos pais. Charity dirigiu-se à ala oeste.NORA ROBERTS tornavam quase impossível que uma pessoa não relaxasse. Os lábios curvaram-se rapidamente e. Uma hora depois. Roman pôde perceber. — Posso suportar a incompetência e até um certo grau de estupidez.

depois pelos lábios.NORA ROBERTS Roman aguardou um instante. com toda certeza. — Não. não acha. ou seria mais adequado dizer que ela não anda dormindo ultimamente. Mas era mais do que uma atração e. não conseguiu mais controlar-se e chutou uma porta. Ela não sabia. movendo-se pelo instinto. Ele começara aquilo. — Então. quando a dor PERIGO derreteu-se em sua cabeça e deslizou para o resto do corpo. suas 162 . ele não conseguiu resistir em passar seus dedos pelo queixo dela. Era cheia e firme e. Mas. Agora. Mas se essa é sua escolha. Ela deveria estar agradecida. só porque ele queria manter distância. Novamente.. Desta vez. e esperou que ela se decidisse a continuar. ótimo. — Talvez seja melhor assim. — Eu sabia que ela iria chorar. — Ela suspirou. mas tive pena. E eu que estava preocupada com ela. — Muito desapontamento. diferente de qualquer coisa que já sentira antes. — Eu também gosto do jeito como você fica com seu cinto de ferramentas.. pensou enquanto olhava para ele. O não-envolvimento não era somente um hábito para ele. — Inclinou a cabeça para trás e permitiu que os olhos se fechassem. seria áspera sobre os lábios de uma mulher. — Era isso que a estava aborrecendo a manhã toda? — Logo que Dolores mencionou Bill. ela mentiu. — Talvez fosse apenas um apelo. Movendo os polegares em círculos lentos. Em vez disso. — Há muita coisa se passando aí dentro. massageou suas têmporas. era uma questão de sobrevivência. enquanto arrumava a madeira para as bordas da janela. — Roman. Tive que despedi-la. mas não era dirigida a ele. — Sinto dor de cabeça sempre que preciso despedir alguém. Sempre que estava perto dela. — Escute meu bem. A dor de cabeça voltava. Ele a amaldiçoava. — É. Eu poderia até ter dado um jeito. — Ela chegou há três meses. pensou. — Virou-se novamente. esfregou a dor que insistia em se pronunciar entre os olhos. Roman? Muito calor. — Você sabe o que está pedindo? Ela estudou sua boca. produzindo um som como de uma locomotiva soltando o vapor acumulado. dizendo estar doente no último minuto. Era uma simples questão de somar dois mais dois. Ele deixou suas mãos caírem ao longo de seu corpo. — Pois dê a chance delas agirem. E ela chorou. e então. envolvendo o rosto dela. o melhor que tem a fazer é tomar uma aspirina e esquecer essa história. — Já tomei algumas. eu soube. Acho que deve ser mais difícil para alguns de nós viver nossas vidas afastados dos outros. — Ela respirou profundamente. Sua raiva era enorme e violenta. durante cinco dias das últimas duas semanas. Novamente. Seria uma atitude autoindulgente e perigosa avançar todas as vezes que sentisse alguma atração por uma mulher. Ela queria ser agradecida. — Pode ser. Tenho o hábito de terminar tudo o que começo. — Muito bem — disse ele. e o que sentia era novo. — Ela olhou para dentro do quarto que ficava atrás deles. — E girou. — Odeio que me façam de boba. — Não me toque de novo. — Soltou um pequeno suspiro. — Lançou um longo e triste olhar para Roman. E odeio que mintam para mim. tive que fazer todas as admissões e o turno do café-da-manhã. implorando por um emprego. Ela já estava ficando cansada de ser como um joguete segundo as vontades dele. com toda certeza. muita alegria. ele estava recuando. — Então. — Já mais calma. levantou as mãos. — Você perde muito desse jeito. diz que está doente. — Onde? — Na sua cabeça. Era o nosso período com menos movimento. Mas sentia. antes de poder falar com ela. dando-lhe espaço. — É sempre melhor conhecer as conseqüências antes de se dar o passo. — Apesar de saber que tudo aquilo não passava de um engano. — Vou deixá-lo voltar a ele. mas só conseguia sentir a picada da rejeição. duas vezes mais forte. seremos cuidadosos novamente. Ela não tinha o direito de fazê-lo sentir-se culpado. ela está dormindo com Bill Perkin. — Não neste momento. — Está falando da garçonete? Mary Alice? — É claro. deu um passo à frente. Ela sentiu os olhos pesarem e o sangue aquecer-se. e emocionante. E ele parará. — Ela poderia ter me dito que queria uma folga ou uma mudança de turno. — Você está fazendo um ótimo serviço — disse bruscamente. — Não exatamente. — Antes que percebesse o que estava fazendo. Em vez de tirar vantagem de suas emoções confusas.

Encontrou poucas jóias. Ela estaria levando-os para a barca. Blocos novos para os brinquedos. surpreendentemente modesto. fazendo-o desejar. apoiando-o. Concentrou-se primeiro no que era óbvio — o balcão no pequeno hall. Isso lhe daria uma hora para revistar seus aposentos. mas era a imagem de Charity que estava estudando. pensou. A cama. abraçá-la. Não encontrou. Ele a viu caminhando em direção à van. Aquele quarto o estava deixando louco. Roman constatou. Parecia não ter a menor PERIGO preocupação no mundo. Ela deixava notas para si mesma: devolver amostras do papel de parede. pintura. Quase o pegou. O fogão. Ele ficou imaginando o que ela estaria pensando naquele momento. sendo que a maior parte ela reinvestia no mesmo. De um amante? Perguntou-se. afastando rapidamente a súbita onda de ciúme que sentiu como sendo ridícula. e a brisa entrava. contas. pensou. uma noite. nem mesmo após um estudo mais crítico. apesar de cada um carregar uma maleta. ele iria embora em questão de dias. Deveriam estar em um cofre. toalhas de mesa e de banheiro. E. Ele sabia como percorrer cada centímetro de um quarto sem deixar traço. De jardinagem. Havia um vidro de perfume. havia uma foto emoldurada de Charity de pé diante do moinho. de mãos dadas. poderia muito bem destruir a vida dela. foi para o quarto adjacente. Ele sabia exatamente qual seria o cheiro. examinou meticulosamente o resto do hall. com braços gastos brilhando como vidro. Nela. com cabelos soltos e velas acesas. Chamar o afinador de piano. estava limpa e bem organizada. depois que a foto tinha sido tirada. Então. enroscada na cama. Perfume não representava o menor interesse para ele e sim as evidências. estava coberta com uma colcha de renda branca e com alguns travesseiros com fronhas de petit point. Era impossível não imaginá-la ali. com as chaves balançando na mão. um nome num caderno de endereço. de alguma maneira. Roman pensou. aborrecido com ela. muitas vezes eram esquecidos para serem vistos por um olho treinado. É o avô. como havia em cada quarto do hotel. Se as coisas dessem certo. um leito nupcial. Saindo de trás da escrivaninha. de mogno maciço. ele dava as boas-vindas para um homem. Ao lado. Havia uma jarra de pot-pourri de flores secas na escrivaninha. fazendo-o querer. Aquele quarto fazia-o querer uma hora. Novos lençóis. antes de partir. Mandar arrumar o pneu. Ao lado da cama. Ela tirava um salário para si mesma. As cortinas eram priscillas românticas. vestindo alguma coisa branca e transparente. teve que se lembrar. Ele se amaldiçoou e afastou os olhos da foto. com algumas argolas e arranhões. Os cabelos estavam presos em um rabo-de-cavalo. uma nota escrita. Era comum que as pessoas se tornassem descuidadas na privacidade de suas próprias casas. estava sentado um grande urso de pelúcia lilás. correspondência— estavam em fichários à esquerda. Não encontrou nada que tocasse no motivo que ele tivera para vir ao hotel. examinou a cômoda. tentando esquecer o desprezo que sentia por si mesmo. A escrivaninha era antiga. com rendas e almofadas. do qual Mae era tão possessiva. Seus papéis pessoais — documentos de seguro. e o macacão estava manchado nos joelhos. Atravessou por sobre o tapete feito à mão e. naquela maciez e naquele conforto. mas percebeu que o braço livre estava passado em torno do ancião. antes de interromper-se. com um homem de cabelos brancos e aspecto frágil. perfumes frágeis e cores suaves.NORA ROBERTS intenções ficavam nubladas pelas fantasias de como seria estar com ela. Os negócios do hotel ocupavam as três gavetas da direita. fora comprado há apenas seis meses. Seria o mesmo cheiro da pele dela. Um pedaço de papel. Como o resto do aposento. estavam os recém-casados. Dois dos puxadores de cobre estavam soltos. pensou. Ela deixara as janelas abertas. 163 . precisou recordar-se mais uma vez. sem a menor dúvida bem feminino. Segurava um grande ramo de flores de verão. enfunando os cortinados. Um pacote de cartas chamou-lhe a atenção. E tudo aquilo não passava de fantasia. com passadas largas e decididas. Era o trabalho dele. Pôde ver numa olhada rápida que o hotel estava dando um lucro razoável. que acreditou terem sido herdadas. enquanto desamarrava cuidadosamente a delicada fita de cetim. fazer amor com ela. qualquer evidência de que ela usasse qualquer parte das finanças do hotel para facilitar a própria vida. Roman deduziu. Um quarto de mulher. Atrás dela. Mesmo assim. usando suspensórios amarelos. havia uma linda cadeira de balanço antiga.

— Se continuar pegando cobras. um livro de mistério com uma capa apavorante. Charity podia dirigir o hotel.) 164 . queimadas. Por que isso a tornava tão fascinante? Ele concentrou-se e enfiou as mãos nos bolsos. tinha certeza. seria um remédio muito melhor para dor de cabeça do que um vidro inteiro de aspirinas. — Como tinha um carinho especial pela jovem funcionária. E tudo o que ele descobrira nas últimas 24 horas indicava que ela era uma mulher aberta. Todas elas. em vários tamanhos. tênis manchados com o que parecia ser resto de grama e dois pares de sapatos elegantes. — Sim. — Você me disse. — Eu disse para você que aquela garota não prestava. Charity sentou-se e enfiou um dedo na cobertura. — Ainda aborrecida. a maioria tirada no hotel. Mae serviu-lhe um copo de leite e cortou uma fatia generosa do que havia sobrado do bolo de chocolate de duas camadas. e continham dúzias de pequenas histórias sobre a vida diária no hotel. — Eu sei que você me disse. Além do despertador e de um pote de creme para mãos. No que ele deveria acreditar? Encaminhou-se para a porta na outra extremidade do quarto. Em uma das paredes. — Eu sei. do pot-pourri e do perfume. havia uma coleção de fotos. honesta e trabalhadora. aspirar o ar. aspirando aos cheiros da cera das velas. de cada lado do chinelo em feitio de elefante. (N. Charity. e Chopin no pequeno estéreo portátil. que gostava de roupas confortáveis. — Mae esfregou a mão larga no ombro de Charity. Capítulo 3 Mae. como que em um dia de tempestade. enquanto abria a primeira carta. — Charity engoliu um suspiro. mas virou-se. Charity abocanhou um grande pedaço do bolo. — Este é o seu problema. Chocolate. Roman descobriu enquanto as examinava. estava pendurada uma marinha em azul e cinza profundos. de saltos altos. ele estava meticulosamente arrumado. — Acha que ela vai conseguir outro emprego? Sei que ela precisa pagar o aluguel. tinha dois livros na mesinha-de-cabeceira. muitas do avô. Mae. só ligeiramente. Um era uma compilação de poesia. mas Mae tinha suas próprias idéias de quem era a chefe ali. — Coma isto agora. e voltou por onde tinha entrado. Em outra. Tudo o que ele ficou sabendo depois de uma hora foi que era uma mulher organizada. Sua culpa era uma coisa diferente. Roman ficou parado no centro do quarto. — Eu sei — Eu disse que você estava cometendo um erro aceitando a garota daquele jeito. Mantendo uma voz zangada. da T. Com um grunhido satisfeito. — Eu teria dado uma folga para ela. De seu avô. exceto por alguns vestidos pendurados no armário.1 — Odeio que me façam de boba. Foram escritas com afeto e humor. Você leva seu nome muito a sério. o outro. — Pensei que tinha dito que sou cabeça-dura. à vontade louca de gritar. Como todos os outros quartos. Roman recolocou-as de volta do mesmo jeito que as encontrara. dúzias delas. Havia botas pesadas. Roman examinou atrás de cada uma delas e descobriu que a pintura estava desbotando.NORA ROBERTS Sacudiu esses pensamentos. Tinha ainda uma caixa de chocolates na gaveta. Os quartos eram limpos. vai acabar sendo mordida. nem que ela soubesse que seriam revistados. Nem mesmo no armário ele encontrou um pingo de poeira. Não poderiam estar mais limpos. — Gente do tipo de Mary Alice sempre aterrissa sobre os dois pés. Havia velas. As roupas eram casuais. A data lhe disse que a carta fora escrita quando ela estava no colégio em Seattle. de Chopin e que tinha um fraco por chocolate e por romances policiais. colocou os dois sobre a mesa. Charity resistiu. Um quarto com um ursinho de pelúcia lilás não era nada sedutor. disse para si mesmo. — Isso também. — Você tem o coração muito mole. O cheiro do quarto permaneceu com ele durante horas. lutando por objetividade como nunca tivera que lutar antes. Meus bolos sempre deixam você mais feliz. só isso. Não ficaria surpresa se ela se mudasse de mala e cuia para a casa do tal 1 Charity significa caridade em inglês. Todas as evidências apontavam para o fato de ela estar envolvida em algum negócio escuso. Mae terminou de limpar seu orgulho e alegria — o fogão a gás de oito bocas. que abria para uma varandinha com uma longa escadaria que dava para o PERIGO lago. Ele desejou abrir a porta.

— Um verme sem espinha. — Agora me diga. — Encolheu os ombros e engoliu mais um pedaço de bolo. Ele sabe para onde vai. com sabedoria. Contente. — Todos olham para mim. quando o hotel ficava vazio e não havia nada para fazer a não ser ficar andando por ali sozinha. Agora. Não era sábio pensar nele ligado a qualquer de seus planos. Surpresa. Estou me sentindo melhor. — Talvez sim. Não duvidava de que Charity fosse uma garota sensível. — Você tinha razão. — Você disse? — murmurou. — E o que isso tem a ver com qualquer coisa? — Charity respondeu com um sorriso. Afinal de contas. — Roman DeWinter. senhora. um andarilho. PERIGO Charity deu uma gargalhada e. quem é esse homem que você trouxe para casa? Charity tomou um gole do leite. Os hóspedes já estariam deitados em suas camas. Boa noite. ele era um homem atraente. era uma dessas coisas. Ficou imaginando se Roman permaneceria por ali tempo suficiente para trabalhar no que estava pensando. segurou o queixo da amiga entre as mãos. pensou. — Acho que você passou muito tempo com Jimmy Loggerman. enquanto vestia um casaco marrom. A própria Mae tinha reconhecido isso. Mae enxugou suas mãos avermelhadas no avental. havia também seu plano a longo prazo de acrescentar uma loja de presentes que teria objetos dos artistas e artesãos locais. andava brincando com a idéia de mandar fazer uma piscina de hidromassagem. — Ele não é um assassino em série — declarou Charity. — Que nome mais estranho. de uma maneira 165 . — Você não vive me dizendo que preciso de um homem em minha vida? — Existem homens e homens — disse Mae. Atração. Já troquei muitas fraldas suas. Charity suspirou quando a porta fechou-se atrás de Mae. — E não deixe minha cozinha bagunçada— acrescentou. — Esse não tem os olhos maus. — O que sabe sobre ele? — Ele precisava de um trabalho. Tirando alguma emergência. não havia mais nada para Charity fazer até o nascer do sol. Provavelmente. Ela parecia ser incapaz de parar de pensar nele. fazendo uma viagem rápida à ala oeste. Tinha levantado o preço de alguns kits para um solário. na ala sul do hotel. eu precisava de alguém. — Pois eu olho de volta. Charity apenas sorriu. mas pretendia ficar de olho em Roman. E ele trabalha bem. — ótimo. portanto. — Ele olha para você. — Mae olhou em torno de si. Quase que desde o primeiro momento. Ultimamente. se não vai ter dor de barriga a noite toda. em seguida. senhora. Estou sempre aqui.NORA ROBERTS Perkin. — Não. especialmente em um daqueles raros dias de inverno. Nada de muito elaborado. ladrões e assassinos em série precisando de trabalho. Achou que seria melhor reservar seu julgamento para as outras ocupações citadas por Mae. Mae. mocinha. para toda a cozinha. ou terminando um jogo de cartas. surpresa e um pouco desapontada por não ter mais nada que fazer. Mae desamarrou o avental da ampla cintura. De qualquer maneira. Ela mesma gostaria muito. No inverno. — Imagino que existam muitos assaltantes. — Quando Mae arqueou as sobrancelhas. — Ele me olha? — Deu de ombros. — Só que não diria sem destino. — Não banque a bobinha comigo. — Ele é um andarilho. Ele era. Charity correu a ponta do dedo para cima e para baixo do lado do copo. Nada a fazer a não ser pensar. Esse sujeito já fez das suas. Sua saída geralmente assinalava o fim do dia. Eu não lhe disse que ela não duraria seis meses? Charity colocou outro pedaço de bolo na boca. como ela mesma dissera. Mas demonstra ser muito tenso. sentira alguma coisa por ele. não coma mais nem um pedaço desse bolo. Queria manter tudo simples. Mae. não se iluda. e não tem medo do trabalho. não precisa se preocupar com gente como ela. Depois. e já podia até ver em sua mente uma sala onde pudessem tomar banho de sol. não era sábio pensar nele de maneira alguma. os hóspedes poderiam voltar das caminhadas para uma banheira quente e borbulhante e encerrar o dia com um ponche de rum junto da lareira. Mas tinha outras coisas em mente. com a partida do George para dançar o hula-hula. Isso poderia aumentar em pequena percentagem o número de freqüentadores do resort. E homens como Roman não ficavam em um lugar por muito tempo. minha menina. Mae. talvez não. — Sim. para não fugir ao espírito do hotel.

Ele escolheu uma e a ficou observando enquanto a servia em um copo comprido. quem as sentisse. mas recuperou-se rapidamente. Afundou novamente o queixo nas mãos. Já estava quase acostumada com a maneira silenciosa dele se mover. Seria melhor. Não guardaria. novamente. sorveu um generoso gole da cerveja. PERIGO Desejou que ela estivesse em seus aposentos. Podia admitir agora. na direção da luz. Amigável. confiaria em qualquer um e daria mais do que seria pedido. Não tenho a menor força de vontade. Mae tinha razão. Ele observou-a brincando com as migalhas que agora restavam no prato.. Que tal uma cerveja? — Sim. Ele se controlou e. Quando ele estivesse pronto. A geladeira enorme murmurava. mesmo que só para si mesma. teve que admitir. ela sentira as emoções que jorravam dele. Era muito pessoal. por que era tão diferente. — Pensei que as pessoas dormissem cedo no campo. Podia simplesmente por ele ser tão diferente dela. Elas deixaram-na tonta e dolorida — e excitada. Pensou que sabia qual seria o gosto de sua boca. não pediria. desconfiado. Eram quase assustadoras em sua velocidade e força. E. Crescera conhecendo a própria mente. Charity sempre pensara que os sentimentos não precisavam fazer sentido. Emoções como aquela podiam ferir. mas pungente e poderosa. tão irresistível? A cozinha estava quente e os odores da comida eram sentidos agradavelmente. Roman não tinha certeza de algum dia ter visto alguém tão completamente relaxado. solitário. Sabia que deveria recuar e ficar fora de sua vista. especialmente não aquela.. — Melhor assim. Relaxada. Reparou que ela não estava zangada. Mas não recuou para as sombras da sala de jantar. Mas havia mais. eu teria comido outro pedaço e ficado doente. Precisava que ela saísse de seu caminho. para que atravessasse o escritório vindo do hall. onde verificou as marcas disponíveis. que estava pesado com uma planta verde e cheia de folhas. pensou ela. Ela fechou os olhos por um momento. limpa e brilhante. deitada na cama e dormindo profundamente. na última vez em que se viram. mas cuidadoso. Então. não fazia o menor sentido. seria sua imaginação. Era uma pena que sentisse tanta dificuldade para combinar os dois. Por um momento na estrada deserta. desejando descobrir o que poderia ser. pensou. Não seria macia. Mas este caso era diferente. Nunca vivenciara nada parecido com as sensações que surgiram nela. E ela ficava preocupada por não se ressentir disso. Os pés nus estavam cruzados na altura dos tornozelos. desejando conseguir explicar. Em sua voz? No modo como se movia? Ela brincou com o resto do pedaço de bolo. Ela levantou-se preguiçosamente e foi até a geladeira. Roman decidiu. em seguida. E era um contraste agudo com a grande energia que a dominava durante todo o dia. Cada superfície estava esfregada. Alguma coisa em seus olhos? Perguntouse. Mas o que havia naquela cena de tão atraente. por causa de Roman. sobrepujando os cheiros de pinho e limão da limpeza de Mae. naquela manhã. Havia um vaso pendurado sobre a pia. Andou em sua direção. Desejaria não ter que cruzar com ela. que mantivessem o relacionamento — o relacionamento a curto prazo. apesar de poder ter feito isso com a maior facilidade. Ela perdoaria quase que qualquer coisa. Taciturno. para conversar coisas simples e sem grande significado. tomaria. Se quisesse. fazendo as próprias escolhas. Ela deu um salto. enquanto recebia o copo das mãos dela. apesar de talvez nem mesmo saber disso. Aquilo era uma loucura. Quer um pedaço de bolo? — Não. a não ser dormindo. ou havia alguma coisa nele que aguardava para se agarrar em alguma coisa? Ele precisava de alguém.. Charity não guardava mágoas.. Era uma coisa mais do que física. até que ela se recolhesse. Ela parecia tão confortável. Tratava-se de trabalho. muito melhor. Mesmo assim.NORA ROBERTS rude e perigosa. como se estivesse esperando que ele entrasse e sentasse ao lado dela. 166 . — Por que está me olhando desse jeito? — murmurou. obrigado. Mas Mae me serviu chocolate e um papo agradável. Os cabelos estavam soltos e cacheados. acrescentou — em um nível puramente profissional. — Quase sempre. como se tivesse desmanchado a trança com dedos impacientes. Um homem como Roman teria pouco respeito pelos desejos de uma mulher. Ele não queria que nenhuma mulher esperasse por ele. descansando na cadeira que estava na frente dela. quem as recebesse. Ela sempre tivera um fraco por marginais e pessoas com falta de sorte. nem doce. E no entanto. apesar de ter estado.

desde 1952. Millie disse que a porta do quarto dela estava emperrada e fingi colocar óleo. Mas ele queria que eu conhecesse outras coisas antes de me estabelecer aqui. que ele achou difícil de resistir e impossível de aceitar. — E ele queria ouvir sua versão daquilo que tinha lido em sua ficha. Nos últimos seis meses da vida do avô.NORA ROBERTS — Você tem um rosto lindo. sentia tanta falta que vinha para casa todos os fins de semana. ter novas idéias para o hotel. Ele ainda resistiu durante três anos. por ter me ajudado a servir o jantar. sentou-se ao lado dele. — Acho que nunca fui tão convincente antes. Depois que ela morreu. — Você teve uma noite agitada. Mas ela não falou dessas coisas. Eu estava no último ano da faculdade quando soube o quanto ele estava doente. — Quando se dirige um 167 . não. — Gosto de aceitar cumprimentos quando os recebo. e o bolo de chocolate de Mae fez o resto. Conhecer Nova York. — Ela falou que vem duas vezes por ano para cá.. — Mas. afundou novamente na cadeira. A Sra. Eu nasci aqui. às vezes. — Ela inclinou a cabeça. — É motivo suficiente para um homem olhar para uma mulher. Depois de tirar um cinzeiro de uma gaveta. imagino que sim. mesmo tendo que me desculpar com seu ego. mas principalmente numa cidade pequena. nem ele detectou qualquer sinal de amargura. — Suas palavras vagavam suavemente no ar. não é. Mas. meu avô me criou e cresci aqui. Ela ficou em silêncio por uns instantes. pensando tanto no que evitara falar.. ou sobre a exaustão de levar o hotel adiante. mas ele ficou tão perturbado com a idéia que achei melhor me formar. mas acho que esse não era o motivo de estar me olhando daquele jeito. Ele não pôde deixar de sorrir. ainda penso em Veneza. quanto no que contara. — Alguma vez pensou em vender o hotel. Fazia tanto parte deste local que às vezes ainda espero entrar num quarto e vê-lo verificando se há poeira nos móveis. mas foi muito. — Sim. — Agitada o suficiente para contratar outra garçonete e depressa. trata-se mais de uma questão de miopia do que de luxúria. Quando eu era pequena. que sua pergunta pareceu como uma espécie de pedido de desculpas. ele não estava debochando dela. — Eu preferiria continuar pensando que ela estava apaixonada por mim — disse. — Ela não queria falar das lágrimas e do terror. — Tudo bem. Veneza. — E por que não fez isso? — Meu avô estava doente. Millie. — Levantou-se para pegar outra cerveja para ele. Ficar zangada com você me fez deixar de pensar em Mary Alice. Ela levantou uma sobrancelha quando ele se sentou e pegou um cigarro. desde que tivesse o hotel para voltar. Ainda não tive a oportunidade de agradecer a você. Mesmo quando já estava na faculdade. parecia que não podia estar bem certa do motivo daquela impressão ser tão forte. — Foi tudo bem. — Pensou em fazer um pouco de chá. mas depois decidiu que estava cansada demais para se incomodar. morria de saudade daqui e do vovô. no hotel. Isso mesmo. — Ela e a Sra. sei lá. voltar para casa. com as pernas esticadas embaixo da mesa e um copo na mão. — Ele foi o homem mais valente e gentil que conheci.. — Dirige o hotel há muito tempo? PERIGO — Durante idas e vindas. pensava que fôssemos parentes. e era muito frágil. difícil. — Muito bem. — No colégio. disse Charity para si mesma. — E ela ganhou o dia. as despesas médicas quase levaram o hotel à falência. Houve complicações no parto. No entanto. — Ele pensou no caso por um instante. no caso da Sra. Existem dúzias de lugares aos quais eu gostaria de ir. Ela sabia que seu pai fora citado como desconhecido — um obstáculo difícil em qualquer lugar. — Olhou em volta da cozinha. Ela era uma mulher que relaxava com facilidade e que gostava de ver os outros relaxados também. obrigada. exceto durante os períodos em que ele me mandou para o colégio. Eu iria viajar um pouco. Nova Orleans. Eu adorava este lugar. Ele parecia estar agora. — Não tenho nada para fazer. Decidiu aceitá-lo. — Você não quer realmente ouvir a história de minha vida. Minha mãe se apaixonou um pouco mais tarde do que era costume na época. — Oh. — Tomou outro gole de cerveja. em ir embora daqui? — Não. — E como foi seu dia? Sorriu para ele como se simplesmente oferecesse sua amizade. Oh.. — Sorrindo. para estudá-lo de outro ângulo. Lucy já fazem parte do lugar. Quis desistir de tudo. Ela é vaidosa demais para usar óculos na frente de qualquer homem com mais de 20 anos. Tinha quase 40 anos quando nasci. surpreso de que alguém pudesse retornar sempre a um mesmo lugar por tanto tempo. quase que todos os meus 27 anos. Passou a dor de cabeça? Ela olhou para ele um pouco aborrecida. Roman? Ele soprou uma baforada de fumaça. ao mesmo tempo em que cuidava de um semi-inválido.

Havia coisas que ele poderia fazer com ela. Sabia como ser gentil. deixando a conversa de lado. — Por quê? — Você disse que não era um artista. — É o jeito como você olha para as pessoas. desta vez. — Pode ser. — Muito bem. — Eu não disse que você era aborrecida. A raiva era uma coisa de que ela gostava somente em demonstrações PERIGO rápidas e ligeiras. para alguém que pega suas coisas e parte sempre e quando decide. — Tarde demais. e o olhar zangado e desafiador que ela lhe enviou desencadeou uma reação em cadeia que correu por todo o corpo. o que a surpreendeu mais do que a ele. — Eu sei. e esforçou-se para manter uma voz normal. Apague as luzes quando sair. — Com a mão livre. cheios e tão macios que seus dedos perderam-se entre os fios. apesar de ele não ter tirado a mão do braço dela. quando estou com você. — Então. E também não era culpa dele se ela nunca estivera em lugar algum. E. exatamente por saber disso. acomodada e ingênua. Sempre existe uma história de algum lugar novo. Talvez. — Ela relaxou. talvez porque aquela idéia estava próxima demais dos próprios pensamentos. Ele segurou-a pelos braços no momento em que ela ia sair. Mas já estava feito. — Pois eu preferiria não ter que me arrepender de nada. o problema deve ser seu. sou um faz-tudo. apesar de raramente pôr esse conhecimento em prática. Ele se levantou. — Ele ouviu o suspiro fundo. Mae jamais vai me deixar ouvir o final da história. Então. — Viagens por tabela? Sentiu-se atingida. às vezes. — Ela ignorou a ansiedade súbita que sentiu. — Por que está zangada? — Não sei. — Eu não mantenho os escores. Mesmo percebendo como ela ficara sensível àquele ponto. para ter certeza de que. Ela respirou profundamente. — De uma maneira ou de outra. Simples. do qual se lamentou quase que antes mesmo de ele ter sido feito. — Ainda está segurando meu braço. — Você deve estar certa. Duvido que se esqueça de qualquer coisa. meu bem. O que você quer Roman? — Tirar isto do caminho. — Pois errou. ele não a impediu de continuar pensando. Um escritor. então? Quando se trabalha em hotéis. eu me sinto como se devesse me preparar para um interrogatório. Eram macios. por nós dois. — Você está aqui há pouco menos de 48 horas e já discuti com você três vezes. você for um assassino em série. Ela recuou um passo instintivamente. coisas que ele ansiava por fazer. se no final da história. num movimento quase reflexo. — Alguns de nós fomos feitos para serem aborrecidos. tentando acalmar-se. poderia ter sido. meu bem. — Colocou a garrafa perto do cotovelo dele e levou os pratos para a pia. — Geralmente. só mato uma pessoa de cada vez. Espessos.NORA ROBERTS lugar como este. — Devo pedir-lhe para largá-lo? — Eu não me daria a esse trabalho. suponho que seja. o que você é? — No momento. — Está pondo palavras em minha boca. quando puxou seu corpo para junto do dele. O que foi minha primeira escolha. ao imaginar que ele pudesse estar dizendo a verdade. Ela se acalmou um pouco. 168 . era assim. — Pois acho que mantém. ela pensou. — Não acho que esta seja uma boa idéia. fica fácil descobrir as profissões das pessoas. Ele estava deliberadamente bruto. Já foi policial? Ele teve de fazer um esforço deliberado para manter o rosto impassível e evitar que seus dedos ficassem tensos. Com ela. — Mas prefiro arrepender-me de uma coisa que fiz do que de uma que não fiz. e que nenhum dos dois esqueceria jamais. nós dois vamos ter muito do que nos arrepender. como ele sabia que deveriam ser. como se estivessem preenchendo uma ficha de descrições e alguma marca especial. Isso é um recorde para mim. Não consigo conversar com você por mais de dez minutos sem ficar aborrecida. conhecemos pessoas de toda parte. Ela deu de ombros. — É fácil fazer isso. já que você raramente coloca alguma lá por si mesmo. — Não? Bem. — Outra característica de pessoal de hotel é respeitar a privacidade. Como normalmente me dou bem com todo mundo. — Nem eu. — Esta notícia é boa. segurou os cabelos dela. mas. Queria assustá-la. afastou imediatamente qualquer desejo de agir com ternura.

com paixão. seu vazio encheu-se dela. de repente. Em seguida. A mão tinha ido para o peito dele. Não conseguia soltar-se. Roman. não os meus. e ela tremeu de emoção e prazer que tudo aquilo lhe proporcionava. E até ter certeza de que poderia fazer ambos. formando um punho. Uma das mãos continuava enroscada em seus cabelos. Mas olhou dentro dos olhos. novamente. sem piedade e irresistível. entrelaçada com confiança. e a outra apertava o braço com força. — Assim. desejando poder odiá-lo. Seu rosto era áspero e ele esfregou-o contra o dela. Ele nunca acreditara no paraíso. Seu gosto era o do paraíso. mas é tão trágico quanto. A boca de Roman não era macia. enviou-a para um lugar quente e sem ar. se desse um passo. A mente dele esvaziou-se. — Depois de respirar profundamente. Mas. Era para o inferno. fugiria dele. mas mudou de idéia. — Vá para a cama. Como antes. A cor que a paixão provocara em seu rosto desapareceu. mordeu seu lábio inferior e sentiu nova onda de excitação. Ele mal conseguia respirar. — Não. — Sinto muito por você. Era uma experiência aterrorizante para um homem que mantinha os pensamentos sob estrito controle. — Ela manteve os olhos presos aos dele. quando ele gemeu e aprofundou o beijo já tão exigente. e viu que ele já estava fora de seu alcance. PERIGO Ela queria ser tocada. Somente uma coisa estava clara. — O que mais? — Entendo. num gesto automático de defesa. Mesmo assim. Pensou que conseguiria isso rapidamente. Amaldiçoou-a — era a última tentativa de recusa— antes de amassar-lhe os lábios com os dele. mesmo os desagradáveis. Sem hesitação. Porém o que o preocupava mais era que ele levaria tempo demais para recuperar o controle do coração. As costas estavam pressionadas contra a superfície lisa e fria da geladeira. Precisava de tempo para recuperar o controle de sua cabeça — e das mãos — antes de encontrar o caminho para o escritório. Ia pegar a cerveja. do perfume. desprendidamente dando o que lhe era exigido. arranhando-a. Lá no fundo de sua mente havia a esperança de que ele pudesse assustá-la o suficiente. Ele era e sempre tinha sido um sobrevivente. ficou em silêncio. Ele se afastou. Se fosse possível. Ela tinha razão. antes de voltar a tocá-la. — E isso seria tudo o que poderia ter acontecido. Acreditava em encarar os fatos. Roman. Ela permaneceu onde estava. E sinto muito por você. afastar-se e ir embora. Ele esperou que ela saísse para pegar um fósforo. do gosto. estaria a salvo dele. mas o sabor estava em seus lábios. doce e cheio de promessas. do toque. aceitando ansiosamente o que lhe era oferecido. E ela devolveu seu beijo quase brutal. Ele ainda continuava perto o suficiente para que ela sentisse o calor que irradiava de seu corpo. Tentou murmurar essa nova necessidade contra sua boca. Pelo menos nunca fiz. onde havia espaço somente para sensações. ela o teria atraído para mais perto ainda. quando percebeu que a mão não estava firme. Ele se afastou — para seu bem. — Não sinta. Não era para o céu que estava indo. — Sim — disse. Por um momento. — Você não faz o tipo de um sexo rápido no chão da cozinha. Já desesperada. a mão ou o olho. as pernas se dobrariam. Ele tinha que se livrar dela depressa. mas ele não lhe deu a chance. mas só conseguiu emitir um gemido. era dura. Charity. avançou. Seu corpo doía. Se fizesse isso. não conseguia moverse. certa de que. entregou-se a ele. — Não se esqueça de apagar a luz. encurralada ali pela força do corpo dele. — Você dirige seus sentimentos. 169 . consciente de que tinha perigosamente se aproximado de uma linha que não ousaria cruzar. Apesar de insistir consigo mesmo que deveria soltá-la. sem um pensamento de autopreservação. — Ele não respondeu nem ela esperava que ele o fizesse. para mandá-lo embora imediatamente. Só a antecipação das mãos dele correndo por seu corpo já a faziam tremer. tornou-se impossível pensar em qualquer coisa. viu seu reflexo nos olhos dela. não para o dela. e desejaria poder acreditar que ela mesma a teria causado.NORA ROBERTS quando a soltasse. e no mesmo ritmo. Roman? Sua mão fechou-se. como ele tinha certeza de que faria. a repelisse o suficiente. e ele dela. Ou conseguem lidar com isso ou tornam-se amargos com a perda. seus corações bateram um contra o outro. porque o que mais desejava na vida era que ela fugisse dele. Olhando-a fixamente. Não vejo que parte sua está faltando. não lutava com ele. Ela queria acalmá-lo. sem mais nem menos? Mágoa. muito menos pensar. Sua respiração estava rápida e áspera. Ele podia ouvi-la em sua voz. ela fugiria. puro. Algumas pessoas perdem uma perna.

Discou os números e esperou pela ligação. — É o que devemos acreditar. Roman desejou que ela só caísse depois que ele voltasse para o hotel. Desde que fizesse seu trabalho. Ford é. D. — Consegui uma lista do escritório. pensou Roman. — Block é o guia turístico. — Exato. — Vision Tours. — Suponho que a nossa Srta. — Eu disse que não se encaixa. — Acordei você? — Devo presumir que você já se estabeleceu? — Sim. assistiria ao programa Today e esperaria em sua casa confortável nos subúrbios de Washington. A pausa foi muito breve. Confiante não significa que não seja ambiciosa. A estrada estava quieta. Mas. Curiosa. a pequena aldeia. Ela é a resposta óbvia. Conby. Trocar o pneu me deu a abertura. DeWinter era livre para ir onde quisesse. Problema dele. — Entendo. Costuma ir lá uma vez por semana. Alguns trocaram dinheiro. — Existe um grupo de excursionistas lá agora. mais longa. — Faça isso. lembrou-se enquanto rolava na cama e tentava deixar o barulho da chuva provocar-lhe o sono. Não preciso lembrar-lhe que levamos quase um ano para chegar perto dessa coisa toda. Ela tem menos de 3 mil em dinheiro vivo. Roman lembrou-se enquanto reiniciava a longa caminhada de volta ao hotel. em sua maioria canadenses. Houve outra pausa. O que você conseguiu? Um caso terrível de culpa. Banquei o faz-tudo e consegui um emprego. Nada mais de 100 dólares... após ouvir a porta sendo fechada. Eu a tenho vigiado. ela não se importava. raramente perdia o sono. Um caso muito sério. para uma estada de uma a duas noites. — Não. Sentia-se um pouco melhor por ter desabafado ao telefone e imaginar Conby perdendo uma noite de sono. — Como disse? Roman amassou o cigarro com o salto da bota. e é o que espero de você. Se quisesse passear na chuva. — Outra vez a pausa. Trabalho difícil e sujo era deixado para os outros. da cópia que tinha feito. — Fez uma pausa e manteve a chama na ponta do cigarro. droga. começava a se cansar daquelas regras. — Temos um homem nesse ponto. — Ele sabia que problemas pessoais não eram permitidos.NORA ROBERTS Aproximadamente duas horas mais tarde ele caminhou dois quilômetros para usar o telefone público no posto de gasolina mais próximo. Era assim que o jogo funcionava. é melhor me contar agora. é o mesmo para mim. com um ruído suave e insistente. — Isso é muito pouco para fazer com que o negócio valha à pena. Charity ouviu quando ele entrou. — Se quer perder tempo e o dinheiro dos contribuintes. Roman desligou. Ford nunca ouviu falar em bancos na Suíça. Já estou lá. — Deixe que eu me preocupe com os ângulos. Você se preocupa em fazer o serviço. — Conby. — Está atrasado. — Os aposentos dela estão limpos. Um vento começara a soprar e tinha o gosto de chuva. Roman não precisou olhar o relógio. Mas ultimamente. Os nomes e endereços dos hóspedes registrados. Já passava de uma e a chuva começara a cair há quase 30 minutos. — Já disse que ela não é desse tipo. Ele leu tudo. — Deixe-me anotar isso. dependendo do pacote. DeWinter. Verifiquei todas as contas pessoais dela. escura. Como ele poderia tê-la beijado daquele jeito e não sentir nada? 170 . enquanto acendia o fósforo. A Srta. — Não há como fazer nada sem ter alguém dentro. Acordaria algum funcionário às seis horas e mandaria que ele passasse a lista pelo computador. — Roman escutou o leve tap tap tap do lápis de Conby no telefone. gente como ele. PERIGO — Não se encaixa. Todo o resto foi empregado para comprar lençóis e sabonetes. Era enlouquecedor.C. Se tiver um problema pessoal com isto. — DeWinter. só ultimamente. confiante. Perguntou-se aonde ele teria ido. pelos resultados. e um ruído que disse a Roman que seu contato estava procurando material para escrever. Você se concentra na Ford e na equipe dela. Sabia que eram três horas da manhã na Costa Leste. É o ângulo errado. O Bureau quer isto esclarecido rapidamente. Torno a falar com você. olhou o relógio. Conby tomaria seu café. que prometia ganhar força ao longo da noite.

Sempre pensava na mãe como em uma mulher trágica. Só de lembrar a reação que tivera em relação a ela deixava-o furioso. obrigou-se a dissecar mais o assunto. Charity só descobrira a extensão da vergonha depois da morte do avô. Ela era muito. voz tão suave. Charity teria se servido de uma xícara de café rápido. ele se sentisse atraído para uma mulher que representava tudo o que ele nunca tivera. até mesmo o funcionário dos correios quando desejava chegar ao cargo de diretor. transformavam tudo em diferentes tons de cinza. Ela estaria cheirando à chuva. Alguma coisa acontecera com ela quando ele a beijara. Ao amanhecer. muito menos frágil. Andarilhos não corriam grandes riscos emocionais. antes de correr para ajudar a garçonete a botar as mesas e escrever o cardápio matinal. Ele vivia uma vida solitária e freqüentemente turbulenta. sacudindo a cabeça.NORA ROBERTS Charity fechou os olhos com força e recriminou a si mesma. mas por pena. enquanto arrancava uma faixa da moldura. Traída. As nuvens. Todos tinham algum ângulo escondido. sua voz calma enquanto ouvia Dolores fazer suas reclamações diárias. fazendo com que o hotel parecesse mais distante ainda do que era. ouvindo a chuva cair. Charity sabia ter esperado por ele durante meses. ela também os teria. macia. Então. os cumprimentaria pelos nomes e faria com que se sentissem numa refeição na casa de um amigo. Mas era o que tinha acontecido. Parecia contraditório que uma mulher de olhar tão calmo. não possibilidades. Ele ficou com pena quando a música acabou e ela desceu correndo pelo corredor. e certamente era o que preferia. que buscara o amor e nunca o encontrara. explodisse com tanta paixão. Charity queimara-o. um andarilho entrara em sua vida. Era com seus sentimentos que deveria se preocupar. a confiança. Roman lembrou-se. pensou. não com os de Roman. Agora. balançando as cortinas. veio uma neblina e um vento frio. As únicas respostas que buscava eram relativas ao trabalho. depois de ela entrar pela porta dos fundos. Ouviu a música tocando em seu quarto. Roman observou Charity. Mas ela não era sua mãe. Mae e Dolores estariam discutindo. As gotas de chuva tamborilavam no telhado e nas vidraças. ansiando fechar outro tipo de negócios. Quando os primeiros hóspedes entrassem na sala. paradas sobre a água. não por vergonha. que era tão atraente quanto o brilho do sol. Será que ela poderia ser tão descomplicada quanto parecia? Parte dele desejava ardentemente acreditar nisso. o corpo. enquanto os waffles ou muffins estariam sendo assados. sair com Ludwig para levá-lo para sua volta matinal. Sua mãe apaixonara-se por um andarilho e dera o coração a ele. 40 minutos mais tarde. ele não conseguia escutar o movimento da cozinha que ficava abaixo. isso seria bastante razoável. Isso o aborrecia. alguns dias depois. ela lembrou-se. receberia aquele momento de excitação e não desejaria mais nada. Com ela. para ir à sala de jantar. Seu cabelo estaria úmido. Sabia que havia camadas nele. Morrera no mesmo hospital em que seu bebê nascera. O problema era que ela sempre sentia demais. E desta vez não poderia se dar a esse luxo. PERIGO observou-a voltando. Charity lembrou-se. enquanto ficava deitada acordada. ela sorriria. escolhera uma música suave e flutuante. Outra parte achava impossível. pingando água da roupa. rejeitada e envergonhada. Alguma coisa emocionante. Desta vez. embrulhada em uma jaqueta com gorro. e ela sentia seu calor por toda sua vida. Ele guardava o diário que a mãe escrevia. mas podia imaginar. Capítulo 4 A chuva continuou caindo durante toda a manhã. Amor foi o que a concebera. com muitos violinos. E tinha medo de que o que tivesse acontecido — ou não tivesse acontecido — entre eles. Fazer com que um estranho se sentisse em casa. Ela não poderia ser diferente. E 171 . Tinha falado de arrependimentos. algo que tinha penetrado no seu âmago e aberto possibilidades sem fim. Ele não chamaria o beijo que trocaram de descomplicado. não seria incomum que. pensou Roman. Terminara grávida e sozinha. E que nunca desejara também. Talvez sua paixão fizesse tanto parte de sua representação quanto sua serenidade. Se fosse esperta. Pela posição no segundo andar. Esta era sua maior habilidade. Se ele se sentia atraído pelo que ela parecia ser. Não ia fingir que descobrira qualquer resposta em Charity. Ocasionalmente. Fantasias. Apesar de ter escolhido viver assim. em determinado ponto. que ele não poderia começar a aprofundar-se. Não. o vento chiava. Ela tinha o exemplo perfeito diante de si. lenta e constante.

— Que é isso. — Ela se cansou de viver dentro de uma van e voltou para casa há algumas semanas. Trabalhou aqui alguns verões enquanto estava na escola. — O motivo de não ter tempo para um café-da-manhã longo e suculento é porque preciso contratar uma nova copeira. — Desculpe — murmurou Charity. ele desceria e pediria o café-da-manhã para Mae. Está procurando trabalho. Abatida não era bem a palavra. como se isso explicasse tudo. Mae. preocupada demais para pensar em discutir. uniam-se como que grudadas por uma espécie de cola. Roman pensou com um sorriso. — Acontece quando você trabalha demais. mas acho que sou hidroglicêmica. Não é isso mesmo. ele se esforçaria para encantar Mae. — Ela é uma boa garota. — Por que não me disse isso antes? — Você não precisava de ninguém antes. — Mantendo as costas viradas para Charity. esforçando-se para não ranger os dentes. no entanto. esperaria até que a pressa da manhã estivesse terminada. e não brigue comigo. para não ter de trabalhar tanto. — Mas. colocando um bolinho de amoras na mesa. As duas mulheres poderiam discutir durante dias. — Foi o que eu disse. — Saxofonista — disse. não havia mais ninguém. — Dolores decidiu que gostava daquele som. Mae. — Muito obrigada. Com um suspiro. Charity decidiu sentar-se. — Charity engoliu um bocejo enquanto servia-se de uma segunda xícara de café. — Os bons e antigos sais para banho. quebrando um ovo na frigideira. Mae! Se acha que vou aceitar Mary Alice de volta depois de ela. Precisa de proteína e carboidratos — disse. — Só não dormi bem a noite passada. E. que conhecesse tão bem o funcionamento do hotel. mas quando tinham uma causa em comum. É o que acho. Quero contratar alguém até o fim da semana. Isso. Só morninho. porque era mais fácil concordar com as duas. por enquanto. — Acho que umas fatias de bacon iriam muito bem com aqueles ovos. fico tão fraca quanto uma ovelha.. — Sente-se.. — Está nervosa— disse Dolores. — Sente-se — repetiu Mae. — Mae colocou os ovos na sua frente. E manteria alguma distância entre ele e Charity. — Falei ao Bob para cancelar o anúncio — declarou Mae. eu me lembro. — Mae apontou para a mesa. Não havia nem um osso ingênuo naquele corpo pesado. — Não é nada disso. É claro que o médico não diz. eu esperava fazer as entrevistas nos próximos dias. Nada de espuma ou óleo — acrescentou Dolores. — Com sais de banho. enquanto colocava sobre a mesa um copo de suco. pensou e afastou a xícara que acabara de encher. estalando a língua. Quando Charity estivesse ocupada no escritório. O corpo não estava acostumado a funcionar só com três horas de sono.. Sim. — Precisa de combustível. — Mae tem razão — acrescentou Dolores. Coloquei um anúncio no jornal de hoje. — Mas não quente. Naquele momento.. era tão divertido preocupar-se com Charity como era preocupar-se consigo mesma. PERIGO — Tome um banho morno antes de deitar — recomendou Mae. — Eu concordo — disse Charity. — Eu já ia botar mesmo. pensou. Mae? — Mal não faz — resmungou Mae. — A filha do meu irmão largou aquele marido inútil dela e está voltando para casa. Eu. por isso. — Vou preparar uns ovos para você. Charity passou a mão nos cabelos. 172 . — Como? Por quê? — Charity começou a se levantar. a Bonnie. Ela se casou com um músico que tocava em um dos resorts em Eastsound. — Não tenho tempo. depois dedicou sua atenção aos ovos. Aquela era uma mulher que não confiava nele. — E precisa de alguém agora. Mae colocou o bacon para escorrer. E deveria agradecer a Roman. veja bem.— Se eu não cuido das proteínas que ingiro. — Sim. tinha certeza. Mae fez uma careta e tirou os ovos da frigideira. — Hipoglicêmica — Charity murmurou. sacudindo uma colher de pau no ar. portanto acho que logo vão começar a ligar. — Não estou abatida — disse em própria defesa. Já que era minoria. Estava exausta até a alma. com exceção de Charity.NORA ROBERTS Por enquanto. enquanto o bacon chiava na frigideira. garota. mas que droga. — Você tem trabalhado demais. mocinha. — Você está muito abatida esta manhã. — Um corpo não pode funcionar só à base de café.

— Dolores começou a pôr um lugar bem em frente ao de Charity. — Estava me perguntando para onde você teria ido — disse Mae. — A que horas? — Às três. — Muito bem. — Quando ela pode começar? Os lábios de Mae curvaram-se. de olhos inchados e um aspecto surpreendentemente frágil. E começou a tomar notas no bloco. — Mas ele não se sentou. Ele desejou afastá-los de suas têmporas e observar a cor voltar ao seu rosto. — Eu não queria incomodá-la. — Passe o sal — murmurou Roman. e tomou-o puro. Roman. E era verdade. pensou Charity. Ele não poderia ter dormido muito mais do que ela. O coração da cozinheira era tão grande quanto o resto dela. — Acho que vou ter tempo para tomar um café com calma. Ele podia ver que seu corpo estava tenso. Roman reclinou-se sob o balcão e tomou o café. O garfo parou a meio caminho dos lábios. — Cinqüenta sanduíches devem dar. — Termine de comer os ovos — ordenou Mae..NORA ROBERTS Charity a ficou observando. — Podem ser ovos mesmo. ele supôs. — Precisa de combustível. talvez ainda com mais intensidade do que Charity. — Ele fez um gesto de cabeça na direção da cafeteira. — Achei que você tomaria uma xícara comigo. com uma cor mais delicada do que rica. Charity mordiscou um pedaço de bacon. afinal de contas. enquanto tirava o bacon da geladeira. Era um convite frio. ela era a chefe. tão frio que Dolores abriu a boca para comentar. Pálida. Depois. Com uma única diferença visível. Parecia cansada. Roman empurrou a porta e quase esbravejou em voz alta. e ela pigarreou e limpou um pingo que caíra no fogão com mais energia. quase que como estivera na noite anterior. — Como o café-da-manhã cada vez mais parecia menos atraente. A sensação de boas-vindas. Pareciam mais claros do que o resto. — Eu disse para ela vir esta tarde. — Pois ele parece que poderia sair correndo. — Não é mesmo. Aquilo era.. e que estivera acordado trabalhando. tinha puxado o cabelo para trás e prendido rapidamente em um rabo-de-cavalo. se tivermos uma bandeja de queijos. se preferir isso a ovos. Tinha certeza de que Charity estaria lá fora realizando algumas das mil tarefas que costumava fazer. quando o cabelo secou. bem. a coisa mais próxima de um tapa no rosto que poderia lhe dar. — Obrigado. — Acho que Mae ainda tem panqueca que sobrou. ela esticou as pernas e descansou os pés sobre a cadeira vazia. quando ela saiu de PERIGO sua ala para supervisionar o turno do café. — As refeições fazem parte de seu salário. desejando. Feliz por ter um problema resolvido. Ele aceitou o café que Mae servira. dirigiuse a Roman. poderemos servir vinho às cinco para quem quiser ficar mais. mesmo estando vazio. apenas profissional. Em seguida. quase que todos os músculos. Colocamos um bule de chá e um de chocolate quente. quando ainda úmido. estar a uns 20 quilômetros de distância. Em vez disso. Ela não estava relaxada agora. que geralmente fazia parte daquela cozinha. — Charity pegou o garfo. Pode pedir para sua sobrinha ajudar. enquanto Mae começava a limpar o fogão. Ela não iria sentir-se culpada. Aparentemente. e seu relacionamento com Roman era. estava sentada naquela cozinha quentinha e cheirosa. Sabia a hora em que ele voltara na noite anterior. enquanto Mae cozinhava ao lado dele. mas não parecia estar tão cansado. A sala de jantar estava vazia. virou-se ligeiramente de costas para ele e continuou a comer. Charity disse a si mesma. No momento. Mas não conseguia suportar aquele silêncio longo e tenso. Mae lançou-lhe um olhar de reprovação e uma careta. escorregou os pés para fora da cadeira e esticou as costas. a única coisa que aceitaria seria um café puro. Roman pensou. Afinal de contas. Charity puxou um bloco do bolso da saia. 173 . Seu sorriso amplo desapareceu no momento em que ele entrou. Mae serviu-lhe uma xícara. Lentamente. Não esperava que você a contratasse a menos que ela cubra suas necessidades. — Os seus estão prontos. para você poder dar uma olhada. Então. Mae? Um homem não pode trabalhar a menos que tome um café-da-manhã decente. acho. Dolores começou a queixar-se de que a chuva começava a fazer sua sinusite incomodá-la. ignorando o olhar de reprovação de Dolores. então. portanto teremos música e dança na sala de estar. eu gostaria de biscoitinhos e sanduíches para o chá desta tarde. — Mae. Ele mudou de idéia sobre o café e as fofocas na cozinha. Pequenos cachos escaparam. não era evidente no momento. refletiu Roman. — Ele sentou-se. Deve chover o dia todo. — Apesar de ter perdido o apetite.

NORA ROBERTS
Charity empurrou o saleiro em sua direção. Seus dedos tocaram-se ligeiramente e ela recolheu os dela. — Obrigado. — De nada. — Charity furou o ovo com o garfo. Sabia por experiência própria que seria difícil escapar da cozinha sem limpar o prato, e pretendia fazê-lo o mais rápido possível. — Bonito dia — disse ele, porque queria que ela o olhasse outra vez. Ela olhou, mas o que viu foi uma raiva contida em seus olhos. Mas descobriu que preferia isso à frieza que estava neles anteriormente. — Gosto de chuva. Como eu disse... — Ele partiu o bolinho ao meio. —... está um bonito dia. Dolores assuou o nariz com um grande ruído. Um semi-sorriso divertido curvou os cantos dos lábios de Charity, antes que ela conseguisse ocultá-lo. — Você encontrará as tintas de que precisa... para a parede, teto, molduras... no depósito do porão. Estão todas marcadas para os quartos a que são destinadas. — Está bem. — Os pincéis, as bandejas e os rolos também estão lá. Está tudo no banco da direita, logo que você descer as escadas. — Eu encontro. — Ótimo. A torneira da cabana 4 está vazando água. — Eu cuido disso. Ela não queria que ele concordasse com tudo com tanta facilidade. Queria que ele estivesse tão tenso e fora de controle quanto ela. — A janela da unidade 2 da ala leste está emperrada. Ele enviou-lhe um olhar tranqüilo. — Eu vou desemperrá-la. — ótimo. — De repente, percebeu que Dolores parará de queixar-se e que não tirava os olhos dela. Até mesmo Mae estava com as sobrancelhas franzidas, debruçada sobre a tigela. Ora, e daí?, pensou Charity, enquanto afastava o prato. Reparou que estava dando ordens como um capitão. Tirou um chaveiro do bolso. Ela mesma o tinha colocado ali naquela manhã, pois pretendia resolver ela mesma as pequenas tarefas. — Não se esqueça de trazer isto de volta para o escritório quando tiver terminado. Elas têm etiquetas marcando os quartos a que pertencem. — Sim, senhora. — Mantendo os olhos fixos nos dela, jogou o chaveiro no bolso da camisa. — Mais alguma coisa?

PERIGO
— Eu aviso se tiver. — Ela levantou-se, levou o prato para a pia e saiu da cozinha. — O que deu nela? — Dolores queria saber. — Ela parecia querer arrancar a cabeça de todo mundo. — Ela só não dormiu bem. — Mais preocupada do que desejaria demonstrar, Mae largou a tigela em que estava batendo manteiga com açúcar. Sentia-se como a mãe de uma criança mal-educada, e resolveu levar a cafeteira para Roman. — Charity não está sendo ela mesma esta manhã — explicou, enquanto o servia de mais uma xícara de café. — Ela tem trabalhado demais ultimamente. — Tenho a pele grossa. — Mas ele sentira a ferroada. — Talvez ela devesse delegar um pouco mais as tarefas. — O quê? Aquela garota? — Feliz por ele não ter se queixado, ela tornou-se mais expansiva. — Não é do feitio dela. Ela se sente responsável até se um hóspede dá uma topada. Igualzinha ao avô. — Mae acrescentou um pouco de baunilha à tigela e continuou a bater o creme. — Não existe uma coisa que aconteça aqui que não tenha o dedo dela... mais precisamente, a mão inteira. Exceto na minha cozinha. — O rosto largo de Mae abriu-se em um enorme sorriso. — Eu a expulsava daqui quando ela era menina, e posso expulsá-la ainda hoje, se for necessário. — A garota não sabe nem ferver água sem queimar a panela — Acrescentou Dolores. — Poderia, se ela quisesse — disse Mae, em sua defesa, voltando a dirigir-se a Roman, com um fungado. — Ela não tem a necessidade de cozinhar comigo aqui, e é bastante esperta para saber disso. Mas todo o resto, desde pintar a varanda a fazer os livros de contas, tem que ter o selo dela. Ela é do tipo que leva a responsabilidade ao extremo. Roman resolveu seguir com a deixa que ela lhe dera. — Essa é uma qualidade admirável. Você trabalha com ela há muito tempo, não é? — Entre Charity e o avô, trabalho neste hotel há 28 anos, completos em junho próximo. — Lançou a cabeça na direção de Dolores. — Ela está aqui só há oito. — Nove — disse Dolores. — Nove anos este mês. — Parece que quando as pessoas vêm trabalhar aqui não saem mais. — Você tem toda razão — disse Mae. — Parece que o hotel tem uma equipe trabalhadora e leal.

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NORA ROBERTS
— Charity torna as coisas fáceis. — Demonstrando toda a competência, Mae mediu a farinha de trigo. — Ela só não estava muito bem esta manhã. — Ela parecia um pouco cansada — disse Roman lentamente, ignorando uma pitada de culpa.— Talvez ela vá descansar um pouco hoje. — Não é nada provável. — A equipe da manutenção parece ser unida. — Mesmo assim, ela vai encontrar uma cama para arrumar. — Bob cuida das contas. — Ela vai enfiar o nariz nos livros e verificar cada coluna. — Havia um orgulho simples na voz, enquanto derramava a farinha na tigela. — Não que Charity não confie nas pessoas que trabalham para ela — acrescentou Mae. — Só que seu coração pararia de bater se tivesse de pagar uma conta atrasada ou confundir um pedido. O fato é que é mais fácil ela se culpar do que culpar as outras pessoas se acontecer um engano. — Aposto que ela não deixa passar nada. — Charity? — Com um sorrisinho, Mae ligou a batedeira elétrica. — Ela saberia se um guardanapo voltasse da lavanderia com uma mancha. Veja onde vai espirrar— acrescentou, quando Dolores cobriu o rosto com um lenço de papel. — Beba um pouco de água quente com suco de limão. — Chá quente com mel — disse Dolores. — Limão. O mel vai fazer mal à sua garganta. — Minha mãe sempre me deu chá quente com mel — replicou Dolores. Ainda estavam discutindo sobre o assunto quando Roman escapuliu da cozinha. Ele passou a maior parte do tempo trancado na ala oeste. Trabalhar o ajudava a pensar. Apesar de escutar quando Charity passava de um lado para o outro algumas vezes, nenhum deles procurou a companhia do outro. Ele poderia ser mais objetivo, Roman percebeu, quando não estava perto dela. Os comentários de Mae cimentaram ainda mais suas observações e a informação disponível. Charity Ford dirigia o hotel de alto a baixo. Qualquer coisa que entrasse nele ou estivesse por ali passava diretamente pelos olhos dela. Logicamente, isso significava que ela estaria totalmente envolvida, talvez até encarregada da operação que ele teria que destruir. E mesmo assim... o que ele tinha dito a Conby na noite anterior continuava sendo verdade. Não se encaixava.

PERIGO
A mulher trabalhava quase que 24 horas por dia para que o hotel fosse um sucesso. Ele a tinha visto fazendo de tudo, desde plantar gerânios a cortar lenha para a lareira. E, a menos que fosse uma atriz notável, ela gostava do que fazia. Ela não parecia ser do tipo que queria fazer dinheiro da maneira mais fácil. Nem parecia pertencer à espécie que desejava as coisas que o dinheiro fácil podia comprar. Mas isso era instinto, não um fato. O problema era que Conby lidava com fatos. Roman sempre confiara mais nos instintos. Sua função seria provar que ela era culpada, não inocente. E mesmo assim, em menos de dois dias, suas prioridades tinham mudado. Não era só o fato de achá-la atraente. Ele tinha achado outras mulheres atraentes e as vencera sem o menor remorso. Tratava-se de justiça. E uma das poucas coisas em que ele acreditava sem reservas era na justiça. Com Charity, ele precisaria ter certeza de que suas conclusões sobre ela não estavam baseadas somente nas emoções que ela provocava nele. Sentimentos e instintos eram diferentes. Se um homem em sua posição se permitisse ser levado pelos sentimentos, seria um inútil. Então, o que seria? Mesmo pensando e examinando o caso por todos os lados e aspectos, não conseguia descobrir um motivo específico para estar tão certo de sua inocência. Porque aquilo era o cerne de tudo, Roman entendeu. Ela, o hotel, a atmosfera que a rodeava. Isso fazia com que ele desejasse acreditar que aquela gente, aqueles lugares existissem. E existissem intocados. Ele estava amolecendo. Uma mulher bonita, com lindos olhos azuis, e ele começava a pensar em contos de fadas. Desgostoso, pegou os pincéis e as latas de tinta e levou-as até a pia para limpá-los. Ia tirar uma folga do trabalho e de seus próprios pensamentos confusos. Na sala de estar, Charity pensava nele relutantemente enquanto arrumava uma pilha de discos sobre a mesa entre a Sra. Millie e a Sra. Lucy. — Que idéia encantadora. — A Sra. Lucy ajeitou os óculos e olhou os títulos. — Um chá dançante à moda antiga. De uma das unidades da ala leste veio o choro de um bebê. A Sra. Lucy lançou um olhar simpático na direção do som. — Acho que isto vai manter todo mundo entretido.

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— É difícil os jovens saberem o que podem fazer em um dia de chuva. Ficam aborrecidíssimos. Oh, veja. — A Sra. Millie tinha tirado um 45 rpm. — Rosemary Clooney. Não é delicioso? — Escolham seus favoritos. — Charity olhou em volta distraidamente. Como poderia preparar uma festa quando tudo que conseguia era pensar em Roman, e do jeito que ele olhara para ela do outro lado da mesa no café-da-manhã? — Eu conto com vocês. O longo bufê e uma mesinha foram esvaziados para conter os refrescos. Se pudesse contar com Mae — e sempre contaria —, elas poderiam trazer as coisas da cozinha rapidamente. Será que Roman viria?, perguntou-se. Será que ele ouviria a música e entraria silenciosamente na sala? Será que ele olharia para ela até seu coração disparar como um martelo e ela esquecer que havia mais alguém na sala além dele? Estava ficando louca, decidiu Charity. Olhou para o relógio de pulso. Faltavam 15 minutos para as três horas. Todos os hóspedes já tinham sido avisados e, com um pouco de sorte, tudo estaria pronto quando chegassem. As senhoras discutiam calorosamente sobre Perry Como. Deixando-as com seu assunto, Charity começou a afofar o sofá. — O que você está fazendo? Ela soltou um gritinho de susto e amaldiçoou Roman na próxima respiração. — Se continuar esgueirando-se desse jeito, vou ter que aceitar a idéia de Mae de que você deve ser um assaltante. — Eu não estava me esgueirando. Você estava tão ocupada ajeitando tudo que não me ouviu entrar. — Eu não estava arrumando tudo. — Ela jogou os cabelos por cima dos ombros e olhou para ele. — Mas estou ocupada, portanto, se sair do meu caminho... Ela abanou a mão e ele a segurou. — Perguntei o que você estava fazendo. Ela puxou a mão, depois puxou com mais força, lutando para controlar o temperamento. Se ele queria brigar, pensou, ela ficaria feliz em fazer-lhe a vontade. — Estou fazendo um chalé de tricô — respondeu. — O que lhe parece que estou fazendo? Estou movendo o sofá. — Não, não está. Ela conseguia, quando a ocasião assim o pedia, ser antipática. — Como disse senhor?

PERIGO
— Eu disse que não está movendo o sofá. É pesado demais. — Obrigada por sua opinião, mas já o arrastei antes. — Ela baixou a voz quando percebeu os olhares interessados que as senhoras lhe enviavam. — E se você sair da minha frente, posso movê-lo novamente. Ele ficou onde estava bloqueando a passagem. — Você tem mesmo que fazer tudo sozinha, não é? — Quer dizer o quê? — Onde está seu assistente? — O computador teve um problema. Como Bob sabe lidar com ele melhor do que eu, está mexendo em seus componentes e eu estou arrastando o sofá. Agora... — Aonde você quer que ponha? — Eu não lhe pedi para... Mas ele já tinha ido para o outro extremo do sofá. — Perguntei aonde você quer que ponha. — Contra a parede lateral. — Charity capitulou e tentou não ficar muito agradecida. — O que mais? Ela alisou a saia do vestido. — Já lhe dei sua lista de obrigações. Ele enfiou um polegar no bolso enquanto os dois continuavam parados em cada ponta do sofá. Ele estava louco de vontade de colocar sua mão no rosto zangado dela e fazer um carinho. — Já terminei tudo. — A torneira da cabana 4? — Precisava de uma rosca nova. — A janela da unidade 2? — Um pouco de óleo. Ela já estava perdendo as forças. — A pintura? — A primeira demão está secando. — Ele inclinou a cabeça. — Quer verificar? Ela soltou um suspiro. Era difícil ficar zangada, quando ele fizera tudo o que ela havia determinado. — Você é eficiente, DeWinter. — Sou mesmo. Conseguiu recuperar o fôlego? — O que quer dizer? — Você parecia um pouco cansada esta manhã. — Ele lançou um olhar para ela. O vestido cor de ameixa dançava em torno das pernas dela.

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Pequenos botões prateados desciam do alto do pescoço até a bainha, fazendo-o pensar quanto tempo levaria para desabotoá-lo. Estava também com brincos de prata, um belo trio de colunas, que ele lembrava ter visto em sua gaveta. — Você não sabe — ele disse, levando seus olhos para os dela. Sua respiração tornou-se opressa novamente, subitamente tornando-se consciente de que estava prendendo o fôlego desde que ele começara sua inquisição. Charity lembrou-se de que não tinha tempo para deixá-lo — ou seus sentimentos por ele — distraí-la. — Estou ocupada demais para estar cansada. — Aliviada, fez um sinal para a camareira que subia os degraus da escada de madeira. — Coloque no bufê, Lori. — O segundo carregamento vem logo aí atrás. — Ótimo. Eu só preciso... — Parou de falar quando os primeiros hóspedes molhados entraram pela porta dos fundos. Desistindo, virou-se para Roman. Se ele ia mesmo ficar no caminho, poderia pelo menos ser útil. — Eu agradeceria se você enrolasse o tapete e o pusesse na ala oeste. Depois, seria bem-vindo para se divertir com todos. — Obrigado. Talvez eu fique. Charity cumprimentou os convidados, pendurou-lhes as jaquetas, ofereceu-lhes refrescos e ligou a música quase que antes mesmo que Roman pudesse tirar o tapete de vista. Quinze minutos depois, todo o grupo estava envolvido e integrado. Ela foi feita para isso, ele pensou enquanto a observava. Foi feita para ficar no centro das coisas, para fazer com que as pessoas se sintam bem. O lugar dele sempre tinha sido à margem. — Oh, Sr. DeWinter.— Perfumada de lilases, a Sra. Millie ofereceulhe uma xícara e um pires. — Precisa tomar um chá. Nada como o chá para afastar as tristezas num dia de chuva. Ele sorriu para seus olhos manchados de maquilagem. Se ela ao menos pudesse ver que ele estava brincando... seria melhor ele tomar cuidado. — Obrigado. — Adoro uma festa— disse ela alegremente, enquanto observava uns casais dançando uma balada lenta de Rosemary Clooney. — Quando eu era jovem, não pensava em outra coisa. Conheci meu marido em um chá como este. Isso foi há quase 50 anos. Dançamos durante horas. Ele nunca se consideraria um homem galante, mas ela era difícil de resistir.

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— Quer dançar agora? Seu rosto coloriu-se de rosa. — Eu adoraria Sr. DeWinter. Charity observou Roman conduzir a Sra. Millie para o salão. Seu coração abrandou-se. Tentou enrijecê-lo novamente, mas descobriu que já era uma causa perdida. Que coisa mais simpática, pensou, especialmente quando ele poderia ser qualificado de qualquer coisa, menos de gentil. Duvidava que chás e que senhorinhas românticas fizessem o estilo de Roman, mas a Sra. Millie iria lembrar-se desse dia por um longo tempo. Que mulher não lembraria?, perguntou-se Charity. Dançar com um homem forte, misterioso, em uma tarde chuvosa, era uma lembrança a ser guardada dentro de um livro, como uma rosa vermelha. Sentia-se feliz por ele não a ter convidado. Ela já havia arquivado lembranças suficientes de Roman. Com um suspiro, levou um grupo de crianças para a sala de televisão, e colocou um filme de Disney no videocassete. Roman viu-a sair. E viu quando ela voltou. — Foi encantador — a Sra. Millie disse-lhe, quando a música parou. — O quê? — Rapidamente ele transportou-se para o lugar onde realmente estava. — Foi um prazer. — Então, ele tornou seu prazer completo, beijando-lhe a mão. No momento em que ela volta suspirando para contar tudo para a irmã, ele já a tinha esquecido e pensava em Charity. Ela estava rindo, enquanto um homem mais velho levava-a para o salão. A música mudara. Agora era uma música agitada, alguma coisa rápida e latina. Um mambo, pensou. Ou um merengue. Ele não saberia a diferença. Mas, aparentemente, Charity sabia, e bastante bem. Ela moviase através do ritmo complicado e ligeiro como se tivesse dançado assim a vida toda. A saia voava, enrolava em torno das pernas dela depois voava novamente, quando ela girava. Ela ria, com o rosto perto e no nível do de seu parceiro, enquanto combinavam os passos. A primeira pontada de ciúme enfureceu Roman e fez com que ele se sentisse como um tolo. O homem com que Charity trocava passos tinha idade suficiente para ser seu pai. Quando a música terminou, ele conseguira afastar aquela emoção desagradável, mas outra surgiu para tomar seu lugar. O desejo. Ele a queria, queria tomá-la pela mão e puxá-la daquela sala lotada, levando-a para um local silencioso na penumbra, onde a única coisa que ouviriam seria a chuva. Queria ver seus olhos crescerem e ficarem fora de foco, o

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Como ela queria continuar em movimento. depois continuou. — Devo terminar em duas ou três semanas. — É tão educativo observá-la. — Vou oferecer isto para as senhoras e espero que elas deixem tudo para mim. — Observou enquanto Bob servia-se de uma xícara de chá e acrescentou três cubos de açúcar.. — Ela sempre tem uma idéia nova para este lugar. Roman ficou em silêncio por um momento. — Então. ela nem poderia me pagar na época. Você não ficou muito tempo. Na verdade. Roman acendeu um cigarro. passou a esvaziar os cinzeiros.NORA ROBERTS que acontecia quando se beijavam. — Não entendo muito de hotelaria. — E foi o que ela fez. Observá-la dançar é uma educação. — Conseguiu consertar o computador? — Consegui. em seguida. Ele não queria aceitar uma desculpa que sabia que não merecia. as coisas estavam feias. é estável. — O hotel deve estar indo bem. A sala agora estava na penumbra. Tomou um gole de chá. Estava vazia. Ultimamente. Ainda chovia quando voltou. foi o que disse. como duas pernas esquerdas também. horas mais tarde. Desculpe se dei a impressão de que você não poderia divertir-se por algumas horas. — Como? — Charity. modernizar os livros de contas. Observava agora os hóspedes. Nada é mais importante para ela. — Bob escolheu um bolinho com uma cobertura rosa. Isso somente a fez sentir-se pior. O problema é que não só tenho dois pés esquerdos. assim como ela não pode me ensinar o samba. — O tempo que for preciso para quê? — Para o trabalho. Havia dois homens que pareciam estar sozinhos. — Bob dirigiu sua atenção aos petit-fours. — Trabalha para ela há muito tempo? — Há uns dois anos e meio. ocupada arrumando a sala e cantarolando com a música. — Gosto de terminar o que começo. — Quanto tempo pretende ficar? — O tempo que for preciso. tem falado muito sobre a idéia de fazer um solário e colocar uma banheira de hidromassagem. Estava cansada de carregar a culpa. e sorrindo para ninguém em especial. na esperança de que eu pudesse entreter algumas das senhoras em ocasiões como esta. tomando notas mentais para passar a Conby. Precisando de tempo para pensar. Como vai o seu trabalho? — Vai indo bem. — Oh. mas isso não era uma desculpa para ser rude com você. — Sim. não é? Roman virou-se quando ouviu a apreciação de Bob. — Roman lançou os olhos para a ala oeste. — Ele encolheu os ombros com um sorriso e pegou outro sanduíche. — Aparentemente. — Ela encontrará outra coisa para você fazer. — Sim. — Não consigo ensinar Charity sobre circuitos e software. Injetar vida nova ao local. iluminada apenas pela lareira e por um globo de vidro fosco. — Alguém colocou um jitterbug para tocar. A música continuava tocando. Desta vez era uma balada lenta. quando Roman não fez qualquer comentário. e ele sorriu. — O pequeno triângulo de pão desapareceu. antes de cruzar a sala. segurando um prato cheio de sanduíches que distribuía gentilmente. 178 . mas queria melhorar as coisas. — Tinha trabalho a fazer. — Olhou para o lugar onde Charity e outro parceiro dançavam um Fox trote. apesar de estarem conversando com outros membros do grupo de excursão. — Charity é o hotel. mas ela parece saber o que está fazendo. Só foram alguns pequenos ajustes. Bem. — Eu estava cansada hoje de manhã. Roman observou-o passando por Block e trocando uma palavra rápida com ele. — A festa acabou? Ela olhou em volta e. — Enfiou o pequeno sanduíche na boca. exceto por Charity. enquanto tirava um sanduíche da bandeja. Block ficava próximo das portas. — Ela tentou me ensinar uma vez. — Gosto de trabalhar. Queria sentir a sensação incrível de sua boca derretendo-se e aquecendo-se sob a sua. retornou rapidamente à sua tarefa de recolher xícaras e pratos. você é lá do leste. — Bob fez uma pausa por um instante. melódica. Roman voltou para a ala oeste. PERIGO — Por dentro e por fora. mas Charity sempre consegue descobrir um meio de manter o barco flutuando.. — Há alguns anos. Roman percebeu um ligeiro tique nervoso quando a junta dos dedos de Bob tocou a bandeja. dos anos 50. também. — Arrumou vários petit-fours em um prato.

então. — Não. Se isto ajudar. Se ele não se cuidasse. enquanto se dirigia para a outra extremidade para ajudá-lo a levantar o sofá. PERIGO — Ora. Sentindo-se desconfortável. — Não. Seduzido. — Não tenho maus sentimentos em relação a você. — Eu não seria capaz de dizer a você. — Vi você dançando com a Sra. Um pouco mais alta pelos saltos. No momento em que o puseram no lugar. porque você não deixou as coisas correrem soltas ontem à noite. lutou por um instante consigo mesma. Devo acreditar que depusemos as armas? — Claro. — Distraída. Eu estava zangada com você. — Sua vida foi muito difícil? — murmurou. — Você não agiu como criança. como sempre — Charity disse a si mesma. A chuva batia contra as vidraças. Ela olhou na direção do outro disco que caíra na vitrola. O corpo dela parecia derreter de encontro ao dele. Quisessem eles ou não. Ela queria chegar até ele. — Você nunca me convidou para dançar. — Esticou a mão para ele. seus olhos ficaram ao nível dos dele. poderia descobrir que estava louco por ela. Seus olhos permaneceram ligados enquanto ele a puxou lentamente para si. Ela ficou emocionada. — Uma mulher rejeitada. O disco era velho e arranhado. ela se disse. — Ficou surpreso pelas palavras terem saído tão facilmente.— Eu não deveria deixar que meus sentimentos pessoais interferissem com a direção do hotel. Tenho de aprender a não lhe fazer perguntas. e o som incrivelmente triste. Parece que estamos no mesmo barco. Mas. puxou-a mais para junto de si. ela puxou os cabelos para trás com as mãos. mesmo que tivesse sido. — Muito bem. Suas coxas roçaram. — Ela pegou um dos poucos petit-fours que tinham sobrado. — Esta é a primeira coisa que você me diz que consigo compreender. ele pegou a jarra de vinho e serviu-se de uma taça. — A Sra. porque ainda nem sei direito. continuava zangada com ele por causa da noite anterior. Millie. A mão dela deslizou suavemente pelo seu ombro. — Sorria novamente quando olhou para ele. depositou a taça vazia sobre a mesa. — Acho que sim — Charity disse lentamente. Ainda mais próximos. Mas isto é problema meu. começaram a dançar. você não me diria. e depois colocou-o na boca. — Quer que eu ponha o sofá no lugar? — Sim. Smoke Gets in Your Eyes. a dele em torno de sua cintura. Mas isso seria ridículo. levar a mão a seu rosto. — Este é um dos meus favoritos. estou mais zangada comigo. Charity. — É tentador.NORA ROBERTS — Seja como for. Capítulo 5 O fogo ainda crepitava na lareira. não convidei. 179 . levantando o corpo e estudando-o. ele a tomou entre as suas. — Estou. seus lábios curvaram-se com força contra a borda do copo. — Bem. Depois de tomar todo o vinho. Roman? A vida é curta demais para maus sentimentos. Negócios. não costumo ficar por aí gritando ordens. ou qualquer outra coisa igualmente dramática. Millie disse que você é muito leve. — Eu gosto dela. mesmo tendo pedido desculpas. Talvez seja este o problema. Roman sentia a suave fragrância que parecia fazer parte dela. lentamente. por agir como uma criança. com um risinho. ela deu a volta para afofar as almofadas. Tente não me contradizer quando eu estiver me desculpando. — Nenhum de nós estava pensando no hotel ontem à noite. O problema é que quase tudo o que penso ou sinto está ligado ao hotel. Mais alguma coisa? — Só um pouco. Por que não depomos as armas. — Talvez. — Você não é do tipo de homem de gostar com facilidade. Apesar de todos os esforços. seus corpos se juntaram. Com os rostos colados. Incapaz de resistir. Ela sorriu um pouco. — Estava? Ela olhou para cima e seus olhos eram claros e diretos. mais como um gesto de paz do que um convite. mas não vou perguntar que tipo de sentimentos tem por mim. Ela sacudiu a cabeça. — Não.

compreendeu que ela podia facilmente ser sua amante. tão áspera apenas um minuto antes. com uma velocidade e uma força que a deixaram tonta e. enquanto as línguas se enroscavam. Irresistível. Uma luz suave invadiu a sala. profundo. que ela jamais soubera que pudesse existir. Sentindo-se fraca. derramavam-se dentro dela. Nada seria suficiente. mesmo com o corpo apertado ao dele. dúzias de possibilidades atravessavam-lhe a cabeça. Foi um instante. a chuva. Repentinamente. Havia somente a música. mas isso não parecia importar muito. apesar de seu beijo oferecer-lhe conforto. as mãos subiram pelas costas dela. Ele mergulhou naquele beijo. Levou as mãos ao rosto dela com dedos leves. Trêmula. Mas não conseguia deixar as palavras saírem. fazer algum comentário leve. — Quero saber como é estar com você. ou que jamais desejara ver. pressionou os lábios contra os dele. Talvez fosse errado. de provar cada centímetro de seu corpo. ao mesmo tempo que paixão. Mas. despir você. doloroso. Era só disso que precisava?. não parecia importar. Ela queria sorrir.. E sentiu a glória daquele momento. sabia disso. deixou a cabeça cair para trás. algo frágil. o estalar do fogo. pensou. facilmente curado. acariciando com carinho. até que os dedos entrelaçaram-se em seus cabelos. beirando a entrega. Ela jamais poderia ser amiga dele. Definitivo. O desejo nunca feria. E essa certeza aterrorizou-o. ambos foram levados ao limite. Livre como um pássaro alçando vôo. enquanto em sua mente dançavam fantasias loucas de tocá-la. mesmo quando a música invadia sua mente. ele puxou-a outra vez para junto de si. não profundamente. Mas isso não seria o suficiente. por mais que tentasse. — Sem querer pensar. Ele sentia o coração batendo junto ao dele. Ela passou os braços em torno do pescoço dele e deixou-se levar. Mesmo assim. Ele mal reconhecia a mudança. O desejo nunca lhe apagara qualquer pensamento coerente. afastou-se para levar a mão à cabeça. — Venha comigo. Ela não esperava que ele fosse gentil. Ela sempre se lembraria daquele único instante. Nada parecia importar. Havia beleza naquele momento. uma beleza brilhante e suave.. Surpresa. Era mais do que desejo. quando tudo tivesse mudado — a música. Encontrou outra vez sua boca e beijou-a com sofreguidão. como se não tivessem ossos.NORA ROBERTS Estava tudo tão silencioso. tocar você. mergulhou nela. O amor. como se ela fosse a única mulher que ele jamais vira. Sentiu que sua vontade desaparecia. ela era como vidro em seus braços. A ternura fez o que a paixão ainda não tinha completado. Desesperado. depois. E ela poderia fazê-lo implorar. ela perdeu o equilíbrio. com seus olhos presos aos dela. vibrantes. ele só conseguia pensar nela. jamais seria esquecido. E nem ela iria querer que fosse.. seu coração voou para o dele. ele se perguntou. qualquer coisa. suavizara-se. Sentiu lágrimas queimando o fundo de seus olhos. Emoções cruzavam de um para o outro. Apesar do quanto ele tirasse dela. agora rápido. era isso o que levava as pessoas a cometer atos loucos. O jeito como ele a fitava agora. ele sabia. Sua garganta estava trancada. quando os lábios dele brincaram suavemente com os dela. desde que ela continuasse dançando em seus braços. Era como um arranhão. Não sabia exatamente quando esse pensamento tinha fincado raízes. Não. era devastador. Os suaves gemidos e suspiros dela fizeram com que ele cada vez mais perdesse a razão. A canção falava de amor traído. E esse era um ferimento dolorido. quente. PERIGO Com beijos rápidos e nervosos. Os braços escorregaram. Ela nem tentou pensar. agora não tão firme. Mas quando ela estava em seus braços. todos proibidos. 180 . nem tentou racionalizar. Ela era— deveria ter sido — inatingível para ele. Só teria que tocá-la para pensar que ela era o início e o fim de tudo? E desejar. A boca. mas ela só ouvia a poesia. — Roman. O prazer selvagem. algo precioso. vivenciado pela primeira vez. algo que precisava ser protegido e defendido. Talvez tivesse começado no primeiro momento em que a vira. desejando mais. o perfume de flores frescas. fazia com que esquecesse que aquela dança deveria ser um gesto de amizade. Nada seria o mesmo novamente. E aqueles pensamentos eram loucos. ela sempre o atrairia de volta. Ela tremia novamente. Seguindo o que o coração mandava. a chuva. que parecia girar. uma vez experimentado. não tinha motivos para isso. e depois mergulhavam em uma torrente de necessidade. Emoções novas. Então. ele correu os lábios pelo rosto dela. enquanto deslizavam pelo salão. para os lados do corpo. desesperados. O dele também não batia tão compassadamente. sempre seria desejado. ouviu o próprio gemido suave de rendição. Como ele desejava que ela lhe pertencesse.. logo esquecido.

a sedução. quando até mesmo sua mente bem treinada achasse a idéia absurda. Eu não pretendia. bem.. com certeza mentia para ela. tentando se recompor. para o escuro. — O que você está sentindo? Ela não poderia ter mentido. — Afastou-se quando Roman segurou-lhe o braço. sob cobertas brancas. — Desceu as escadas correndo. como se estivesse fascinada por ela. 181 . lançando uma luminosidade suave no quarto. — Lori parou no alto da escada. ele teria que esquecer Charity Ford. Seu disfarce era sólido. vamos ao fim disto.. Ela lançou-lhe um último olhar sério. Ela pensaria em amor.NORA ROBERTS Com um longo gemido. antes de sair dali. — Eu devia descer. — Sempre que elas começam. precisam. enquanto andava de um lado para outro em seu quarto. Ela não mentira para ele. Pigarreou e fixou a pintura da parede oposta.. Mas ela continuava o afetando. Era compreensível. dizendo a si mesma que estava apaixonada. sorrindo consigo mesma. Os sorrisos fáceis. O desejo devorava-lhe as entranhas. fixou os olhos na parede branca. Ela não tinha o menor motivo para suspeitar dele. as boasvindas de braços abertos. Roman repetiu-se isso muitas vezes. — Eu devia.. em ter alguém que pertencesse a ele. Sei agora o que estou sentindo. quando ela se virou para sair. Ela leu o choque em seu rosto. Não podia se permitir sonhar em pertencer a alguém. Deus. Mesmo se ela não fizesse parte de sua tarefa. jantares de domingo e noites ao lado da lareira. mas só conseguiu tremer mais. quando se referia a sentimentos. como a desejava. iremos até o fim. mais pelo hábito do que por desejá-lo. Não podia se permitir o luxo de imaginar como seria ser amado. talvez com uma vela branca queimando sobre a mesinha. Um passado questionável. E. um futuro incerto. Mae quer.. ele a soltou. Precisava de alguma coisa para clarear a mente.. Ele jamais serviria para ela. PERIGO Ele parou junto da janela e ficou olhando para fora. muito cuidadosamente. Aborrecido. e ela justificava seu desejo por um completo estranho. Mas. Ele deixou-se cair na cama e acendeu um cigarro. A chuva tinha parado e a lua entrava e saía de trás das nuvens. Sempre do lado errado dos caminhos. mas estava determinada. Ela estava mentindo. Isso era doloroso. nem se quisesse.. Mae e Dolores. Mas ela estava enganada. As pessoas achavam fácil mentir sobre o amor. — Charity fez uma pausa para tentar recuperar a respiração. — Está tudo bem. Não vou fingir que não quero você. — Estou apaixonada por você. Mas se fosse verdade. Roman DeWinter.. Ele não podia se permitir pensar assim. Charity pensava que ele fosse um andarilho. — Não. refletiu enquanto inspirava à fumaça. Os dedos dele soltaram seu braço. mudaram. — Parece que nós dois temos que nos acostumar com isso. pensou. O que foi Lori? — É. não tinha nem a habilidade nem o desejo de acabar com eles. Ele não servia para ela. — Afastouse um passo. uma parte na qual ele era muito bom. quando tiver um minuto. mas tem razão quando diz que as coisas mudaram Roman.. — Certo ou errado. depois em cercas pintadas de branco. depois a paixão. Se não mentia para ele. Tinha horror à desonestidade. Ele abriu a janela completamente e respirou aquele ar frio e úmido. ela se rendeu a seus lábios outra vez.. Não havia nada que pudesse oferecer a uma mulher como Charity. e tenho que me acostumar a isso. Sabia que ela estava lá em cima agora. Ele esperou até que ela levantasse a cabeça e olhasse outra vez para ele. — Se for certo. — Ela não estava nada calma. As mentiras eram parte de seu trabalho. Acho que você deveria ir até a cozinha. Ele fizera com que ela o desejasse. Reclinando-se contra a cabeceira. Pareceu tão simples quando ele disse: — Sim. e especialmente como seria ser amado por uma mulher para quem a vida significaria a vida inteira. Ele queria acreditar que tudo tinha sido uma armadilha. Charity saltou para trás feito uma mola.. E leu a desconfiança. a amizade casual. Charity. — Charity.. sim. Era ele quem tinha colocado uma armadilha. Ele apertou-lhe o braço. a reação desinibida. com o tempo suficiente para ver alguma coisa e receber algum trocado. ele se afastou daquela visão de árvores e flores e recomeçou a andar.. com um sorriso desanimado. de passagem.. Muito lentamente. como se estivesse se retirando de algum animal perigoso. Imaginou-a encolhida em seu grande leito nupcial. — As coisas já mudaram. — Desculpem...

Um casal jovem com um bebê saiu da sala de jantar. checou para ver se as contas de Charity conferiam com as dele. Por quê? — Só curiosidade. e também os problemas. Obrigado. Charity concluiu mais tarde. como a Vision. quente e forte. Bob colocou a cabeça na porta do escritório e entregou a ela uma folha impressa do computador. Como acreditasse no amor. O sol agora já brilhava. num hotel independente. Charity trancou o dinheiro na gaveta. acho que ele se parece mais com um lutador. ele só precisaria de alguns momentos para quebrarlhe a resistência. E ele não iria lhe negar uma coisa de que ele também estava precisando. Charity e Block comparavam suas listas. nela. antes de fechar-se lá fora novamente. Acredite em mim. — Roman. Já tendo feito as contas para o câmbio. — Sorriu para ele. — Minha gente considerou a festa o ponto alto da excursão. e deixar que o esquecimento tomasse conta de ambos. Ela não o mandaria embora. — Tive a impressão de que fariam uma nota ou pagariam em cheque. ela sorriu para ele. ele usaria toda a sua habilidade para fazer a única coisa que sabia como fazer por ela. — Está bem. Ainda sorrindo. Se tentasse. — Eles ainda não viram o monte Rainier. enquanto alguns poucos membros do grupo descansavam depois do café-da-manhã. Pagou em dinheiro canadense. para afundar naquela cama. — É. um cliente que paga em dinheiro. Roman recolocou o globo na lâmpada do teto. ele geralmente cuida do pagamento. demorando bastante. Roman ficou observando enquanto o grupo de excursionistas pagava as contas para ir embora na manhã seguinte. Mas teria que falar. mas podia sentir. Block não se parece muito com um guia de turismo. até o hall ficar vazio novamente. — Ela virou-se para dar o troco a um hóspede que partia. e depois abriria os braços para ele. — Aposto que sim. e depois verificou o relógio. fez todos os telefonemas de sua lista e. verificou duas vezes a limpeza dos quartos. quando os sentimentos encontravam-se à flor da pele. depois vendeu alguns cartões-postais e alguns chaveiros de suvenir. ela reagiria um pouco. — Trata-se da política da companhia deles. Mas ela pedira um tempo. PERIGO — Boa viagem. — Nunca falamos sobre sua folga — começou ela. — Sua festinha salvou o dia— disse ele. — E se der as suas horas extras para Bob no fim da semana. — Pode tirar o domingo. Não seria fácil conversar com ele. mesmo estando a uma distância tão pequena. que ele se distanciava dela. Roger. se quiser. Ele ansiava tanto por estar envolvido por eles. — É sempre um prazer. — Você vai conseguir que vários deles voltem depois disto — disse. Provaria a inocência dela. Na escrivaninha da portaria. como prometeu que faria. para ele. — Talvez eu faça isso. Até a semana que vem. — Não é estranho que um grupo como esse pague em dinheiro? Já distraída de sua lista de reservas. entregando depois um recibo para Block. se os 182 . Vou lá para cima. Era difícil ficar conversando coisas ligeiras. Roger. No tempo que deu a ela. Empoleirado em uma escada colocada no centro do hall. ela lembrou-se. Encantada. Os sentimentos eram seus. Roman deixou-a respondendo suas perguntas sobre como alugar um barco. ele pegou um maço de notas da carteira. Passara toda a manhã trabalhando. enquanto ele descia da escada. com baleias em miniatura. ele ocupou seu tempo trocando lâmpadas do teto. — Nunca recusamos dinheiro vivo. com um tapinha amigável em sua mão. — Roger? Não. Charity conversava com Block. Ele usava uma camisa branca e limpa e seu sorriso perpétuo. faz toda a diferença.. Roman não deixou de perceber o olhar rápido e incerto que Bob enviou na direção dele. Só esperava que as horas que passara dissecando sua alma na noite anterior resultassem em alguma solução.NORA ROBERTS Ele só teria que subir as escadas e abrir a porta. — Hora de levá-los embora. — Havia tanta coisa que ela queria dizer. banhando o hall com sua luz. Tirando uma calculadora da carteira. Você os recebe já há algum tempo? — Há alguns anos. Charity olhou para cima. — Ela voltou à sua papelada.. — Ele faz um bom serviço.

— Ele se acalmou. era que não devemos nos envergonhar de sentimentos honestos. — Ela o afastou e desatarraxou a tampa. Seus olhos estavam contraídos pela concentração com que se inclinava sobre a madeira que tinha colocado sobre dois cavaletes. — E queria também saber como as coisas estavam indo. ele se virou para ela. — Precisei fazer umas coisas aqui em cima. Usava uma bandana para que os cabelos não caíssem nos olhos. Ela levantou a sobrancelha. teria atirado nela. onde ele enrolara a camisa até acima do cotovelo. Mesmo quando criança. Do quarto ao lado. como ela fazia. Por quê? — Porque estava tudo feito nesta pequena etiqueta impressa na tampa de cada lata na cor da tinta. Pensei que esse fosse um trabalho que eu faria. Ele sabia fazer as coisas. apesar de ele ter deixado uma janela aberta para a entrada do ar. defensivo. Toda sua vida tornara um hábito enfrentar os problemas na hora e descobrir logo a saída para eles. Não cantarolava enquanto trabalhava. como George fazia. — Está se divertindo à minha custa? — Estou. se ele tivesse uma arma. para abrir a porta. dirigiu-se para a ala oeste. ela pensou. — Parece que nossa trégua voltou. Tinha resolvido o fato de não ter pais. — Os nervos que conseguira conter foram enviados para o inferno naquele mesmo instante. Você etiquetou a tinta? — Sim. Ele aceitou a xícara e colocou-a sobre o cavalete. mas ela já conseguia imaginar o quarto com cortinas alegres e o tapete com flores claras guardado no sótão. mas em seguida desejou ter ficado com ela. — Está ficando. Mas observando-o percebeu que ele demonstrava um prazer simples em fazer aquele serviço e fazê-lo bem. tão amoroso. — Vai querer tomar o café? — Sim. estavam cobertos com aquele pó. nunca fugia das perguntas muitas vezes dolorosas sobre seu passado. — Não consigo me livrar disso. até mesmo coisas importantes. 183 . Era ridículo. Isso não era uma característica sua. Ela olhou para ele por cima do ombro. Um som bom e construtivo. As portas ainda teriam que ser repostas e o chão envernizado. Os problemas pessoais também sempre receberam o mesmo tipo de aproximação. tivesse percebido sua entrada. parecendo ouro dançando à luz do sol. — Está tudo bem. de acordo com o tamanho. só teria que ver como estava a cozinha. Esperou até ele apoiar a serra elétrica. Antes que falasse. Nem falava sozinho. Mas se aprendera alguma coisa com ele. se não estivesse pensando nela. na época. — Colocou a garrafa térmica na escada. — Deixei você sem jeito ontem. já que as mãos vazias faziam-na parecer uma tola. e pensei em lhe trazer um café quentinho. Da mesma forma com que a ajudara a atravessar suas primeiras dúvidas com o colégio. Ele terminara o hall. — Gostei do jeito como você arrumou os pincéis. mas pensou que. Ela não tinha mais 15 anos e não estava discutindo sobre o capitão do time oposto. — Bem. Charity lembrou-se. O cheiro de tinta fresca era forte. Porque PERIGO estava tudo dentro dele. ela ouvia o som de uma serra elétrica. As mãos e os braços. E não só porque o amava. depois olhou em volta e serviu o café na xícara de plástico. disse a si mesma. Não apenas nos negócios. O passo que Charity deu para trás foi instintivo. percebia bem. — Deveria ter percebido que o incomodaria. Mas. Talvez. pensou. — Ela agora estava mais calma. Deixe que eu pego. aprendia a julgar e a ver. Ele era tão sólido. — Desculpe. Tinha certeza disso. — Suas mãos estão cheias de pó. Ajudara-a compreender que ela era sua própria dona. desde que eu saiba. pensou. Desculpe. enquanto o observava medindo a madeira para o próximo corte. tinha seu avô. Agitava-se sem parar. A serragem da madeira voava. pensava agora. — Não tinha percebido que tinha acabado. O hall ficou ótimo. Desejou não se sentir como se fosse enfrentar o leão na sua caverna. — Sou obsessivamente organizada? — Ela fez uma careta. Coisas boas. apesar de ser claramente visível que ficara aborrecido por ter sido apanhado desprevenido. Armada com uma garrafa térmica cheia de café.NORA ROBERTS comentários de Mae fossem realmente necessários. Quando uma mulher passa a vida toda distraindo estranhos em sua casa. enquanto abria a porta e olhava para dentro.

Isto a fez sorrir. sentou-se no peitoril da janela. calmo. — Ela colocou a mão no peito dele. segurando a dele. Já excitado. sabendo como seria importante falar sobre aquilo cara a cara. — Ele levou a mão aos cabelos. dirigiu-se para a porta. Percebendo que não estava mais com vontade de tomar café. Nem eu. e não percebeu que ele recuou leve e automaticamente. ela se levantou. ele o colocou de lado. Tocada profundamente. — Que você seja honesto comigo. Aquilégias e campainhas cresciam bem abaixo da janela. — Não. não me atiro em cima dos homens como regra. — Tenho algumas tarefas para fazer lá em cima. Com qualquer outra mulher. Na realidade. chegou para junto dela. Ela saltou. sabia que fazer amor com ela significaria colocar mais uma camada no poder que ela já exercia sobre ele. — Melhor ainda. moveu os ombros. Nunca ninguém me acusou de ser complicada. assim do nada. Roman. quer dizer. Num impulso. Roman. dizer o que pensa que desejo ouvir. retirando a bandana e espalhando mais um pouco daquela poeira dourada. E estou estragando tudo. descendo em seguida para os cotovelos novamente. em um leito onde as papoulas esperavam o momento de explodir em cores.. Pareceu-me que seria mais justo dizer-lhe que não tenho o hábito de. se você me beijar. — Não preciso fazer isto desta vez. que me amava. Abriu a porta e viu-a parada no patamar do alto das escadas.. — Eu não sei o que dizer para você. A verdade é que você foi o primeiro. — Nunca conheci uma mulher mais confusa. foi o que pensou quando ela fechou a porta. mas ela já levantara a sua. E ela já o dominava.. Não posso fingir que não sinto assim. Charity. mas não sou burra. Devo ter parecido muito precipitada. Ela chutou uma lasca de madeira para um canto quando se dirigiu para a janela. Novamente relaxada. Só não sei se consigo lidar com isso. Talvez houvesse reagido tão fortemente à sua declaração de amor porque tinha medo — e nunca tivera medo de nada em sua vida — de estar se apaixonando por ela. — Ele correu as mãos pelos braços dela até os ombros. — O ponto é — começou.NORA ROBERTS — Está botando palavras em minha boca outra vez. — Ela agora falava depressa. quando sua mão agarrou-lhe o ombro. posso me esquecer disso. — Não sei o que sinto perto de você. — Ela se virou de frente para ele. Juntando toda a coragem. odiando-se por se manter de costas para ele — que não podemos fingir que eu não disse aquilo. com alguns toques de humor para mantê-lo leve. Sou horrível para mentiras. — Aprecio o fato de você não fingir que me ama. — Por quê? — Porque estamos no meio do dia e. E era um discurso ótimo. já que nos conhecemos há tão pouco tempo. Espero que isto signifique que podemos deixar de nos sentir esquisitos quando juntos. — Charity. — Preciso ir. — Achei que você fosse pensar isso. acariciando seu rosto com a mão. — Segurando o fôlego. PERIGO — Você não é simples — murmurou ele. — Sempre organizada. para mantê-los separados. Primeiro veio o choque. — Agitada. — Não precisa dizer nada. — Sim. — Você só reagiu àquele momento. compreensivo. porque não espero. Ele pretendia abaixar a mão. Você reagiu como se eu fosse atingi-lo com um tijolo. Sei que seria mais fácil mentir. depois o prazer. mais complicada. ele tinha a certeza de que o alívio físico terminaria a tensão. ela se virou para ele. — Venha cá! Depressa! Quero que você veja isto! 184 . — Mas esquisito não é bem a palavra que descreve o que sinto. Com Charity. Posso ser simples. até cheguei a pensar que seria mais seguro deixá-lo pensar dessa maneira. — Mas suponho que eu tivesse agido da mesma forma. se alguém me dissesse. — Esta é a coisa mais bonita que você já me disse. ela empurrou a janela para respirar os aromas suaves e frágeis. — Não disse isso como um cumprimento.. — Eu o quero mesmo. Mas isso não significa que eu espere que você sinta da mesma forma. Era hora de admitir e lidar com isso. — E o que você espera? Ele estava bem atrás dela. — Roman! — Ouviu a delícia no som da voz de Charity quando ela o chamou. O fato é que vim até aqui com meu discursinho todo preparado.

Como ele nunca pensara em música clássica como algo apaixonante? — Depressa. mas desceu rapidamente da janela para atendê-lo. menos para aquele quartinho inocente e sedutor. ela veio até ele.. — Ela segurava um binóculo de cobre e apontava-o agora para o mar.. Ela virou o rosto para receber a brisa. — Ela apertou os olhos. meus melhores dias. Eu gritava como uma louca. Não. Já vou até aí. vovô conseguiu me acalmar. — Ele focalizou sua visão na fêmea. Oh. Fascinado. está bem. cortando a água enquanto nadavam. são mesmo. Não sei se estão se alimentando ou só dando um passeio. Ela riu e recolocou o fone no ouvido. — Não. — Minha primeira lembrança mais nítida de ter visto uma delas foi quando eu tinha quatro anos. E eu nunca mais consegui sair de barco depois que ele morreu. Não conhece a história do boneco de pau que queria ser um menino de verdade? O Grilo Falante. ela chamou-o de novo. Ela desligou. ela resmungou. — Tive sorte de tê-lo o tempo que tive. vovô e eu. finalmente. Por que haveria? Já vou descer. não há motivo para você ficar preocupado. Não teve coragem de pedir o binóculo para Roman. a Fada Madrinha. — Bob. — Sacudiu a cabeça. — Ela fechou a mão sobre a dele. Roman. — Engraçadinho. quando não posso deixar de desejar que ele estivesse aqui. que estava apenas visível entre os dois grandes machos. é Roman. Acho que éramos um cardume também. mas tinha ido embora. ela reclinou-se na moldura da janela. não sei quanto tempo vão ficar. ir embora enquanto estivesse olhando as baleias. espere. — Maravilhosas. Ele se debruçou na janela e acompanhou a mão que o guiava. Ela virou o rosto para ele outra vez. — Você pode ser um homem gentil. naquele verão. ele não vai entregar? Que a nova diretoria vá para o inferno. como Jonas ou Pinóquio. Bob. — Ela soltou um suspiro fundo ao pensar no avô tão querido. Não fique parado na porta. 185 . juntou-se a ela no para-peito. Desta vez. — Pinóquio? PERIGO — É. — E ele levou? — Todas as manhãs de domingo. Havia música tocando. — Depressa. — Bobagem.NORA ROBERTS Ela desapareceu. não são? — Sim. eu sempre implorava para que ele me levasse lá novamente. Vovô me levou com a desculpa de dar um passeio de barco de pesca. Bom. O quê? Sim. Pensei que tivesse dormido. eu o encontrei sentado lá com o binóculo no colo. — Sim. você vai perder. ficava sentado diante da janela durante horas. é uma fêmea. — Por quê? A ilha tem esse nome por causa delas. apaixonante. — Isso mesmo. — Pensei que elas fossem nos engolir inteiros. Quando ele entrou no hall. suas longas pernas presas quase que pouco acima dos tornozelos. deixando-o com o desejo de que ela o tivesse chamado em qualquer lugar. com a parte superior do corpo para fora. — Ele buscou sua mão pela primeira vez e uniu seus dedos. — O telefone tocou. — Mesmo quando estava doente. — Não é não. muito doente. Chamei-o aqui porque vi um cardume de baleias da janela do meu quarto. — São três — disse ele. Uma tarde. mas foram dias maravilhosos. — Alô? Sim. Como assim. Olhe. — Nunca pensei que conseguiria ver uma. Sim. — Roman. A orca nos acompanhou durante dez ou 15 minutos. Roman baixou o binóculo por um momento. Estamos em meu quarto. a pouca distância da praia. só havia um calor morno. mas existem momentos. Dirigindo-se para o sul. agora com impaciência na voz. em vez do fogo. Como ele se sentia como um tolo. Você pode contar para os hóspedes que viu isso. negociamos com a companhia deles há dez anos. Suas pernas agora estavam juntas. Conseguiu ver um par de formas à distância. Depois disso. — Como este? — Ele adorava olhar as orcas— ela disse suavemente. sacudindo a cabeça e sorrindo. enquanto olhavam o mar. e ele descansou a mão distraidamente sobre seu joelho. ele tirou o binóculo das mãos de Charity. — Orcas. — Rindo. Acho que é a mesma que vi há alguns dias. — Lá se vai a minha noite. Só entramos um pouco na água. Não chamei você para amarrá-lo nos pés da cama. — Ele teria desejado que fosse assim mesmo. — Levantou os olhos do telefone. Nem sempre a gente via alguma coisa. como este. alguma coisa vibrante. Ela estava sentada no parapeito da janela. elas ainda estão lá? — Sim. — Levantou a sobrancelha. Encantado. tentando seguir seu caminho.

momentos raros. estar com ela. — Ela abriu uma gaveta e tirou um elástico coberto com tecido. Tinha o suficiente para pegar Block. Fosse qual fosse a crise existente do outro lado do hotel. Era uma questão de lealdade. sair de sua vida. Não sabia distinguir o canto de um galo do de um pardal. de sentir-se em casa. minar sua capacidade para cumprir sua função. Como ela própria admitira. ele chegara a um ponto do qual não poderia violar mais aquela confiança.. quase ia esquecendo. pensou. a única coisa que poderia fazer seria salvá-la. prendeu-os em um rabo-decavalo. — Sim. Enquanto isso. já que tinha tão poucos dias diante de si. Roman ficou parado ao lado da estrada e observou o nascer do sol. para pegar Bob junto com ele. Precisava também terminar o PERIGO serviço e provar. Não sabia o nome das flores que cresciam em cachos nas laterais da estrada.NORA ROBERTS — É como se tivesse uma casa cheia de babás — explicou. Capítulo 6 A temperatura começava a esquentar. — Encaminhou-se para a porta. E quase o suficiente. Xingando-se em voz baixa. Não tinha nada a ver com o fato de ser amado. Precisava acreditar nisso. Usava jeans e uma suéter com um mapa da ilha em silkscreen estampado no peito. Mae ameaçou envenenar um hóspede que passou uma cantada em mim. e ficou parecendo um irmão mais velho. Se fosse. Roman recostou-se outra vez na moldura da janela. afastando-os do rosto. mas importava agora. Seria melhor que ligasse para Conby para pedir que o afastasse do caso. Ao amanhecer. Você sabe fazer gavetas? — Provavelmente. Mas. — No ano passado. — Não aceito isso como elogio. Mas não podia pegá-los sem lançar sombras sobre Charity. falar com ela. talvez tivesse o direito de amá-la. Havia mais de 2 mil dólares além do dinheiro canadense. Desejaria ser apenas o andarilho desempregado que Charity recebera em casa. alguma coisa certa. Seu primeiro impulso foi contar para ela. não a uma mulher que conhecia há menos de uma semana. pretendia dar-lhe isso. Tratava-se de uma questão de dever. — Ah. como eram as coisas. Deveria ser uma coisa que ele fizesse sem a menor hesitação. Parece até que tenho 15 anos. abrir-se sobre tudo o que sabia e que precisava saber. Mas sabia que Charity estava correndo com o cachorro e que passaria pelo lugar onde ele estava. com finas faixas esparsas de neblina sobre a água. Ela confiava nele. quando voltasse. E Conby estaria errado. parou.. Existem momentos. Alguma coisa que provasse que você não ligaria a mínima. Conby diria que sua lealdade pertencia ao Bureau. Seria uma simples questão de examinar sua escrivaninha novamente. — Mas não tinha tempo para discutir. Roman olhou para o mar outra vez.. parece mesmo. Você é bem-vindo para continuar aqui observando as baleias. — Tenho que cuidar de uma pequena crise lá embaixo. ou melhor. seria simples. para ver se ela deixara alguma coisa que o ajudasse a avançar em sua investigação. Isso nunca lhe importara antes. — Algum problema? — Não. A ilha era como que um tesouro de flores selvagens. e segundo suas declarações 186 . ela o deixara sozinho no quarto. — Ótimo. Bob percebeu que você estava no meu quarto. durante as últimas 24 horas. Se a única coisa que poderia dar para Charity era limpar o nome dela. Em algum momento. A primavera avançava solta. E. Contar a ela não provaria sua inocência para homens como Conby. Com alguns movimentos ligeiros. em que aparece uma chance de fazer alguma coisa boa. mas. Precisava vê-la. a inocência de Charity. Seria apenas uma questão de entregar agora ou no final do acordo o seu pedido de demissão. arrombara sua gaveta de dinheiro e examinara as contas que ela mantinha arrumadas e separadas para o depósito que faria hoje. É típico. Precisava ficar. Mas também não faria isso. Ouviu-a descer correndo as escadas. sem qualquer sombra de dúvida. Acho que a ante-sala da suíte familiar está precisando de umas. Depois falamos sobre isso. que estávamos sozinhos em meu quarto. transformava-se em um lugar místico e fora do tempo. cor e perfumes. Levantou-se e olhou em volta do quarto. depois. mesmo sem ter a menor consciência disso. Ele virou-se para estudá-la. Roman pensou enquanto largava o binóculo.. cheia de glória. Ela conseguira. De qualquer maneira. em seguida. Mas não conseguia. Na noite anterior. tinha a certeza de que ela resolveria. Isso tornava-o inútil. mas não tinha conseguido. árvores frondosas e cantos de pássaros.

NORA ROBERTS
sobre ter uma equipe leal, não poderia cair um alfinete no hotel sem que disso ela tivesse conhecimento. Se fosse assim, como ele poderia provar que havia uma rede de contrafação e de tráfico acontecendo sob o nariz dela, durante quase dois anos? Ele acreditava, tão firmemente como jamais tinha acreditado em qualquer outra coisa. Conby e os outros do Bureau queriam os fatos. Roman pegou um cigarro e ficou admirando a neblina desfazer-se com o nascer do sol. Ele teria que dar fatos para eles. Até que isso fosse possível, ele não daria nada. Poderia esperar para ter certeza de que Conby deixaria o machado cair sobre a cabeça de Block, na próxima viagem do guia ao hotel. Isso daria tempo a Roman. Tempo suficiente, prometeu-se, para que Charity não fosse apanhada no meio daquela confusão. Quando tudo fosse descoberto, ela ficaria surpresa e magoada. Mas se recuperaria. Quando tudo terminasse, e ela soubesse do papel dele nisso tudo, ela o odiaria. Ele se recuperaria. Teria que se recuperar. Ouviu um carro aproximando-se e levantou os olhos, em seguida dirigiu seu olhar para a água. Ficou imaginando se um dia poderia voltar e ficar naquele mesmo ponto, esperando por Charity que viria correndo pela estrada em sua direção. Fantasias, disse para si mesmo, jogando o cigarro, ainda inteiro, no lixo. Andava perdendo muito tempo com fantasias. O carro vinha depressa, o motor protestava, o acelerador rateava. Olhou novamente para a estrada, aborrecido por sua manhã e seus pensamentos terem sido perturbados. Seu aborrecimento salvou-lhe a vida. Ele levou somente um instante para perceber o que estava acontecendo e só uma batida de seu coração, para escapar. Como o carro veio direto para cima dele, deu um salto para o lado, jogou-se e rolou pelo mato. Uma onda do ar que tinha sido deslocado pelo vento achatou a grama, antes que os pneus traseiros do carro guinchassem e ele voltasse para a estrada de novo. A arma de Roman já estava na mão quando ele se levantou de um salto. Conseguiu ver a traseira do carro ao virar correndo uma curva. Não teve nem tempo de xingar, antes de ouvir o grito de Charity. Ele correu, sem sentir a ardência na coxa onde o carro tinha batido, nem o sangue que saía de seu braço, na queda dele sobre a rocha. Já havia enfrentado a morte. Já tinha matado. Mas jamais conhecera o terror

PERIGO
até aquele momento, com o grito de Charity ainda ecoando em sua cabeça. Não tinha sentido agonia, até ver Charity caída ao lado da estrada. O cão estava deitado ao lado dela, ganindo, lambendo seu rosto e seu nariz. Virou-se quando Roman aproximou-se e começou a rosnar, mas em seguida ficou só latindo. — Charity. — Roman agachou-se do lado dela e sentiu seu pulso, com a mão tremendo. — Pronto, querida. Você vai ficar boa — murmurou para ela, enquanto verificava se havia algum osso quebrado. Ela teria sido atingida? Uma visão terrível dela sendo lançada para o ar quando o carro a atingiu fez sua cabeça latejar. Usando cada milímetro de controle que possuía, bloqueou esse pensamento. Ela respirava. Manteve suas esperanças presas a esse fato. O cachorro ganiu quando ele virou-lhe a cabeça e examinou o corte na testa. Era o único ponto colorido em seu rosto. Ele estancou o sangue com sua bandana, amaldiçoando o motorista, quando sentiu o calor em seus dedos. Guardou a arma e, depois, levantou-a em seus braços. Seu corpo parecia não possuir um osso sequer. Roman apertou-a, temendo que ela pudesse derreter e cair de seus braços. Falava com ela durante os 800 metros que levaram de volta ao hotel, apesar de Charity permanecer pálida e parada. Bob correu até a porta da frente. — Meu Deus! O que aconteceu? O que foi que você fez com ela? Roman fez uma pausa, longa o suficiente para enviar-lhe um olhar ameaçador e furioso. — Acho que você sabe melhor do que eu. Me dê as chaves da van. Ela precisa ir para um hospital. — O que está havendo? — Mae atravessou a porta, enxugando as mãos no avental. — Lori disse que viu...— Ela ficou pálida, mas em seguida começou a se mover com uma velocidade surpreendente, empurrando Bob para o lado com o cotovelo, para chegar até Charity. — Leve-a para cima. — Vou levá-la para um hospital. — Para cima — repetiu Mae, afastando-se para abrir a porta para ele. — Vamos chamar o Dr. Mertens. Isso será mais rápido. Vamos, rapaz. Chame o doutor, Bob. Diga a ele para vir correndo. Roman passou pela porta, com o cachorro em seus calcanhares. — E chame a polícia— acrescentou. — Diga que tivemos um atropelamento e fuga.

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Sem perder tempo com palavras, Mae foi na frente como que abrindo o caminho. Arquejava um pouco quando chegaram ao segundo andar, mas não fraquejou nem um minuto. Quando entraram no quarto de Charity, a cor tinha voltado a seu rosto. — Coloque-a na cama e com muito cuidado — disse, puxando a colcha de renda para o lado e, em seguida, com a mesma eficiência, afastando Roman também. — Pronto, minha garotinha. Você vai ficar boa. Vá ao banheiro — disse para Roman. — Traga uma toalha limpa para mim. — Mal recostando o quadril sobre a cama, levantou o rosto de Charity com sua mão larga e examinou o ferimento da cabeça. — É pior do que aparenta.— E soltou um longo suspiro. Pegou a toalha que Roman lhe trouxe e pressionou-a na têmpora de Charity. — Ferimentos na cabeça sangram muito. Parecem fazer um grande estrago. Mas não foi muito profundo. A única coisa que ele sabia era que o sangue dela continuava em suas mãos. — Ela devia estar fazendo a curva. — Dê um tempo para ela. Quero que você me conte o que aconteceu, mas depois. Vou despi-la agora, ver se tem algum ferimento em algum outro lugar. Você pode esperar lá embaixo. — Não vou deixá-la. Mae levantou os olhos para ele. Os lábios estavam franzidos, e rugas de preocupação surgiam de seus olhos. Depois de um momento, ela simplesmente concordou. — Está bem, então, mas vai ter que me ajudar. Pegue a tesoura na escrivaninha. Quero cortar a saia dela. Então, era assim que teria que ser, pensou Mae, enquanto desamarrava os tênis de Charity. Sabia reconhecer um homem apavorado de morte, e lutando interiormente, quando via um. Pois bem, ela só teria que fazer com que aquela garota conseguisse ficar novamente em pé. Não duvidava nem por um momento que Charity saberia lidar com alguém como Roman DeWinter. — Pode ficar — disse, quando ele entregou-lhe a tesoura. — Mas seja o que for que tenha acontecido entre vocês dois, vai virar de costas até ela estar decente. Ele fechou as mãos em punhos impotentes e enfiou-os nos bolsos, quando virou de costas. — Eu quero saber onde ela está ferida.

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— Pois vá ficando calminho aí. — Mae arrancou a saia e conteve a emoção enquanto examinava os arranhões e os ferimentos. — Abra a gaveta da direita da cômoda e pegue uma camisola. Uma que tenha botões. E não ouse olhar para cá — acrescentou —, ou expulso você daqui. Em resposta, ele jogou uma camisola branca e fina em cima da cama. — Não me importa o que ela vai vestir. Só quero saber se ela está muito ferida. — Eu sei garoto. — A voz de Mae suavizou-se, enquanto passava o braço nu de Charity por uma manga. — Ela tem alguns hematomas e arranhões, só isso. Nada quebrado. O corte da cabeça vai precisar levar uns pontos, mas os cortes saram. Ora, ela se feriu muito mais quando caiu de uma árvore há algum tempo. Esta é a minha menina. Ela está voltando a si. Ele virou-se para olhá-la, com ou sem blusa. Mas Mae já havia abotoado tudo. Ele controlou sua ânsia de ir correndo para ela, mal e porcamente, e, mantendo distância, observou os cílios de Charity tremerem. O vazio que sentiu no estômago foi de puro alívio. Quando ela gemeu, ele enxugou as mãos úmidas de sangue nas coxas. — Mae?— Enquanto lutava para focalizar os olhos, Charity esticou a mão. Podia distinguir a forma enorme da cozinheira, porém pouco mais do que isso. — O que... ai, meu Deus, minha cabeça. — Está latejando bastante, não é? — A voz de Mae era brusca, mas aninhava a mão de Charity entre as suas. Ela a teria beijado se soubesse que ninguém estaria vendo. — O doutor vai consertar isso tudo. — Doutor? — Ainda tonta Charity tentou sentar-se, mas a dor explodiu em sua cabeça. — Não quero o doutor. — Nunca quis, mas vai ter que vê-lo assim mesmo. — Não vou... — Discutir exigia muito esforço. Em vez disso, ela fechou os olhos e concentrou-se em clarear a mente. Era evidente que estava na cama, mas como teria ido parar lá? Estava passeando com o cachorro, disso ela se lembrava, e Ludwig de repente achou uma árvore do lado da estrada, irresistível. Então... — Havia um carro — ela disse, abrindo os olhos novamente. — O motorista devia estar bêbado ou drogado. Ele parecia vir diretamente para mim. Se Ludwig já não estivesse me puxando para fora da estrada, eu... — Ela ainda não se sentia suficientemente pronta para considerar aquela hipótese. — Eu tropecei, acho. Não sei.

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— Isso não importa agora— afirmou Mae. — Vamos descobrir tudo mais tarde. Depois de uma batida brusca, a porta da frente foi aberta. Um homem baixinho, com um punhado de cabelos brancos, entrou rapidamente. Carregava uma maleta preta e usava um sobretudo enorme e botas sujas de lama. Charity deu uma olhada e fechou os olhos outra vez. — Vá embora, Dr. Mertens. Não estou me sentindo bem. — Ela não muda nunca. — Mertens cumprimentou Roman com um aceno de cabeça e, em seguida, foi examinar sua paciente. Roman saiu silenciosamente para a ante-sala. Precisava de um momento para se acalmar, para controlar a raiva que crescia, agora que ela ficaria boa. Ele perdera os pais, enterrara seu melhor amigo, mas nunca sentira aquela espécie de pânico que experimentara quando vira Charity sangrando e inconsciente do lado da estrada. Pegou um cigarro e foi até a janela aberta. Ficou pensando no motorista do Chevrolet velho e enferrujado que a atropelara. Mesmo quando sua raiva diminuiu, Roman compreendeu uma coisa com uma clareza perfeita. Seria um prazer se ele pudesse matar quem a feriu. — Com licença. — Lori estava parada na porta do corredor, esfregando as mãos. — O xerife chegou. Ele quer falar com você, por isso eu o trouxe para cima. — Ela segurou o avental e ficou olhando para a porta fechada do outro lado do quarto. — Charity? — O médico está lá dentro. Ela vai ficar boa. Lori fechou os olhos e respirou profundamente. — Vou dizer aos outros. Pode entrar xerife. Roman estudou aquele homem barrigudo, que nitidamente tinha sido tirado da cama. A camisa estava parcialmente enfiada dentro das calças, e tomava uma xícara de café quando entrou no aposento. — Você é Roman DeWinter? — Exatamente. — Xerife Royce. — Sentou-se, com um suspiro, no braço da cadeira Rainha Ana cor-de-rosa de Charity. — Que história foi aquela de batida de carro seguida de fuga? — Há uns 20 minutos, alguém tentou matar a Srta. Ford. Royce virou-se para olhar para a porta fechada, da mesma maneira que Lori tinha feito. — Como ela está?

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— Machucada. Levou uma pancada na cabeça e tem alguns hematomas. — Você estava com ela? — Tirou um bloco e um lápis rombudo. — Não. Eu estava a uma distância de uns 400 metros. O carro foi atirado contra mim, e depois seguiu a toda velocidade. Ouvi Charity gritar. Quando cheguei até ela, estava inconsciente. — Imagino que não deve ter prestado atenção ao carro, não? — Era um Chevrolet azul-escuro. Sedan. 67 ou 68. 0 amortecedor estava ruim. O pára-lama fronteiro direito estava todo enferrujado. Placa de Washington, Alpha Foxtrot Juliet 847 Royce levantou as duas sobrancelhas enquanto anotava todos aqueles dados. — Você tem bons olhos. — Concordo. — Bons o suficiente para saber se ele ia atropelá-lo de propósito? — Não preciso adivinhar. Ele mirou em mim. Sem um piscar de olhos, Royce continuou a tomar notas. Acrescentou um adendo para ele mesmo lembrar-se depois de fazer uma checagem de rotina em Roman DeWinter. — E ele? Você viu o motorista? — Não — Roman disse rapidamente. Ainda não podia deixar de culpar-se por isso. — Há quanto tempo está na ilha, Sr. DeWinter? — Quase uma semana. — É um período muito curto para fazer inimigos. — Eu não tenho nenhum aqui... que eu saiba. — Isso torna sua teoria bastante estranha. — Ainda escrevendo, Royce deu uma olhada em seu interlocutor. — Não existe ninguém nesta ilha que conheça Charity e tenha alguma coisa contra ela. Se o que você diz é verdade, estamos falando de uma tentativa de homicídio. Roman jogou o cigarro pela janela. — É exatamente disso que estamos falando. Quero saber quem é o dono daquele carro. — Vou verificar. — Você já sabe. Royce bateu com o bloco em seu joelho. — Sim, senhor. Você tem bons olhos. Eu posso dizer. Talvez eu conheça alguém que tenha um carro que se encaixe em sua descrição. Se conhecer, sei que essa pessoa seria incapaz de atropelar um coelho de

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propósito, e muito menos uma mulher. E também não é preciso ter um carro para dirigi-lo. Mae abriu a porta de ligação e ele levantou os olhos. — E agora, Maeflower? Os lábios de Mae contorceram-se ligeiramente antes de virarem uma linha fina outra vez. — Se não sabe sentar direito em uma cadeira, pode ficar de pé, Jack Royce. Royce levantou-se, sorrindo. — Mae e eu freqüentamos a escola juntos — explicou. — Ela já gostava de implicar comigo naquela época. Será que você tem waffles no seu cardápio de hoje, Maeflower? — Talvez eu tenha. Se descobrir quem machucou minha menina, pode ser que eu faça para você. — Estou trabalhando nisso. — Seu rosto ficou sério novamente, quando apontou para a porta. — Ela pode falar comigo? — Não fez outra coisa a não ser falar, desde que chegou. — Mae piscou para soltar uma torrente de lágrimas de alívio. — Pode entrar. Royce virou-se para Roman. — Estaremos em contato. — O doutor disse que ela podia tomar chá com torradas. — Mae fungou e em seguida limpou o nariz ruidosamente. — É febre do feno — disse como explicação. — Que bom que você estava por perto quando ela se machucou. — Se eu estivesse mais perto, ela não teria se machucado. — E se ela não tivesse levado o cachorro para passear, estaria na cama. — Fez uma pausa e olhou Roman nos olhos. — Acho que nós dois poderíamos matá-lo. Ela ficou surpresa com o pequeno riso que arrancou dele. — Charity podia não gostar muito disso. — Ela também não gostaria de saber que você está aqui fora machucado também. Seu braço está sangrando, rapaz. Ele olhou para baixo, sem a menor emoção, para a manga da camisa toda rasgada e manchada de sangue. — Um pouco. — Não posso deixar você sujar meu chão com sangue. — Ela encaminhou-se para a porta, fazendo um sinal com a mão. — Ora, vamos descer. Vou limpar. Depois, você pode trazer um café-da-manhã para a

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menina. Não tenho tempo para ficar subindo e descendo estas escadas o dia inteiro. Depois que o médico terminou o exame e o xerife o interrogatório, Charity ficou olhando para o teto. Tinha machucado todos os lugares que poderiam ser machucados. A cabeça, especialmente, mas o resto do corpo estava todo latejando. A medicação a doparia um pouco, mas ela queria manter a mente clara até ter desvendado tudo. Foi por isso que pôs sob a língua a pílula que o Dr. Mertens tinha lhe dado. Depois de organizar os pensamentos, ela a engoliria e aproveitaria o alívio durante horas. Tinha visto o carro somente de relance, mas ele lhe parecera familiar. Lembrou-se enquanto falava com o xerife. O carro que quase a tinha atropelado pertencia à Sra. Norton, uma senhora meiga e desligada, que fazia toalhas e roupinhas de bonecas de crochê para as lojas de artesanato locais. Charity nunca pensara que a Sra. Norton pudesse dirigir a mais de 40 quilômetros por hora. E naquela manhã, quando a atropelara, a velocidade era bem maior. Ela não vira o motorista, pelo menos claramente, mas tinha a impressão de que se tratava de um homem. E a Sra. Norton já estava viúva havia seis anos. Então era mais simples, decidiu Charity. Alguém ficara bêbado, roubara o carro da Sra. Norton e resolvera dar uma volta pela ilha. E provavelmente nem a tinha visto no lado da estrada. Satisfeita, ajeitou-se melhor na cama. O xerife era quem deveria se preocupar com o resto. Ela já tinha problemas demais. O turno do café-da-manhã, com certeza, seria um caos. Ela pensou que poderia contar com Lori para manter todos calmos. Depois, viria o açougueiro. E ainda tinha que completar a lista de pedidos para amanhã. E escolher as fotos que usaria no anúncio para o catálogo de viagens. O depósito não tinha sido pago, e a lareira da cabana 3 estava soltando fumaça. Ela precisava no momento de um bloco, um lápis e um telefone. Era bastante simples. Encontraria os três na escrivaninha da sala de estar. Cuidadosamente, girou as pernas pelo lado da cama. Nada mal, decidiu, mas permitiu-se um momento para adaptar-se antes de tentar se levantar. Aborrecida consigo mesma, segurou uma das colunas da cama. As pernas pareciam estar recheadas com o creme que Mae fazia no lugar de músculos e ossos. — O que é que está fazendo?

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balançando.. pensei que estivesse morta. — Eu me preocupo com você. eu não me feri. pelo menos não era até conhecê-la. — Eu ia voltar a deitar em um minuto — começou. — Oh. mas precisava que ela compreendesse. — Deve ter sido horrível. — A hora não é boa. — Oh. Eu. — Sei o que quer dizer. dirigiu-se para a cama e segurou-lhe a mão. sinto muito. enterrou o rosto contra seu pescoço. — Ele girou nos calcanhares e depois fez um grande esforço para conter o temperamento explosivo. — Quer levantar alguns dedos e perguntar quantos eu vejo? — Não. — Cale-se — repetiu ele. — Ela mordiscou uma torrada e fingiu estar morta de fome. Mantendo os braços em torno dela. Sem uma palavra. — Puxou os cabelos para trás para mostrar-lhe as ataduras. — Como está a cabeça? PERIGO — Não está muito ruim. — Nunca. meu Deus. Um hematoma começava a escurecer em torno do machucado. tentando imaginar como ele deveria ter se sentido. — Ela tomou o chá de camomila. — Está tudo bem. A violência que ela viu em seus olhos fez com que seu coração disparasse. sentindo-se quase humana outra vez. — Seus dedos apertaram os dela com mais força. Por enquanto. e tentou sorrir.. Mae colocou-o para fora e deu um osso de presunto para ele. — Roman. — Cale-se. — Ah. — Desculpe. a menos que você tenha uísque para colocar nele. ela deu palmadinhas na cama. Ele sabia que não era bom com as palavras. Ele começou a mexer em vidros e vasilhas que havia no quarto. E a última coisa de que ela precisava seria de uma explosão da parte dele. Ficou satisfeita por ainda ser capaz de sentir um ligeiro toque de desejo. — Oh. Roman. — Só tenho que fazer umas coisinhas. Charity. — Por que não vem sentar aqui? — Porque estou fazendo força para manter minhas mãos longe de você. — Seu sorriso alargou-se. Charity. Minha querida. Como está Ludwig? — Bem. Ele não era do tipo de desmoronar. Tinha certeza de que uma pancada com um martelo deveria ser muito pior. — Vou tentar.NORA ROBERTS Ela piscou quando ouviu a voz de Roman. lembrou a si mesmo. — Sorrindo de novo. é o preferido dele. Roman. calmante.. virou a cabeça na direção da porta. — 191 . foi um acidente. — Acredito. Essa coisa toda me deixou nervoso. — Roman. Seria melhor que ela pensasse tratar-se de um acidente. — Ele afastou-se dela. — Mae disse que você poderia comer. — Desculpe. — Logo depois. — Gosto de suas mãos em mim. a seu lado.. colocou-o no mesmo lugar em que o achara. Ela pensou nas listas que teria de fazer e achou que teria mais chance de Roman fazer o que ela queria se cooperasse com ele. Depois. Quero que acredite nisso. — O xerife disse que o carro esbarrou em você. da altura de suas coxas. — Volte já para essa cama. em seguida. foi até ela e levantou-a nos braços. — Nem precisei levar pontos. mas não tenho. — Mas que droga. Ele se levantou para pegar a bandeja. enquanto pegava um cristal de ametista. Ela cambaleava sobre os pés. de uma forma comprida. Ele lançou um olhar para a bonita chaleira florida. — E decidiu que ela jamais seria ferida novamente. — Como não conseguiria resistir. — Não. Mas só estou com alguns galos e hematomas. Daqui a alguns dias eles terão desaparecido e teremos esquecido tudo isto. Quando a encontrei. ele depositou a bandeja que carregava. — Que bom que você não se feriu.— Ela massageou o ponto tensionado em sua nuca. sedutoramente. — Ele se virou de costas. — Não se preocupe. Quer um pouco de chá? Mae mandou duas xícaras. com medo de explodir. Ele engoliu as palavras que desejou dizer. pensou. — É diferente com você do que jamais foi com qualquer outra pessoa. tão pálida quanto à camisola que estava modestamente abotoada até o pescoço e que era. O xerife Royce vai cuidar de tudo. pensou. Deitou-a na cama e. descontrolou-se. — Não. Sentindo-se desajeitado.. não. — Ela fez um carinho em seus cabelos. — Não. — Jamais esquecerei. Ela adorava coisinhas inúteis.. — Pensei que você estivesse morta. — Não se tratava exatamente de uma mentira. — Nada — disse.

Tirou o remédio da boca. ele afastou a bandeja. — Eu sei. baixou seus lábios para os dela. Você é muito boa nisso. — Você não sabe o bastante sobre mim. Alguma coisa movia-se dentro dele. você é o primeiro a pedir. Ela tocou os lábios com a ponta da língua. Ela sorriu-lhe. já que eu. que se sentia incapaz de impedi-la. depois fez uma grande encenação para engoli-lo. Mas as mãos fecharam-se para lutar contra o desejo de exigir mais. — Se eu soubesse que arrancaria tanto de você. Havia um problema agora. Logo depois de cuidar de algumas coisas. — Ele sentou-se e passou o dedo delicadamente no machucado da testa. Ela precisava do carinho dele. a maciez. PERIGO Antes que pudesse responder. Vamos tomar esse comprimido. Quando ele começou a afastar-se. Roman? — Espero que não. — Eu ia mesmo falar. — Isso é muita gentileza sua. — Conversaremos sobre isso mais tarde. — Colocou a mão sob seu queixo. — Calma — ele disse. Mas. relaxou os dedos. — Sou um pouco fraco em força de vontade e você precisa descansar. — Sei que amo você. Ele queria acalmá-la. Quer procurar em mim? — O que eu quero. — Não posso lhe dar mais nada. — Tome isto. — Determinado a fazer o melhor possível por ela. Roman.. havia carinho novamente. — O mesmo remédio que você deveria ter tomado antes de ele sair? Ela se esforçou para mentir.. — Ele passou os lábios em seu pescoço. verdade. — Ela levou a mão dele aos lábios e observou seus olhos escurecerem. Ele pensara que seria fácil dar só um beijinho.. É você quem dá ordens aqui. — A única coisa que você deve cuidar hoje é de você. — Como disse? — Você me ouviu. — Pronto. — Sentindo-se no topo do mundo. — Mas eu sou melhor. ela se entregou a ele. nada de papelada. — Eu ia tomar logo depois de dar alguns telefonemas. Ela estava tão frágil agora. — Este foi o remédio que ele receitou? — Foi. teria batido com a cabeça em uma pedra antes. desde que botei os olhos em você. ela tirou os cabelos dele de seus olhos. — Você deixa todos os homens loucos? — Acho que não. meu bem. Ela soube que fora vencida. Ligeiramente desgostosa. — Nunca mais fiquei satisfeito. — Ele pegou um comprimido na mesinha. mas não aceito ordens suas. — Ele mordeu o 192 . ela jogou o comprimido dentro da boca. Levante a língua. não excitá-la. — Nada de telefonemas hoje. bastante. — Ainda pode estar aí dentro. depois tomou o chá que já tinha esfriado e o engoliu. — Mais tarde. Charity fez um murmúrio de protesto e pressionou-o junto a seu corpo.. Satisfeito? Ele teve que rir. o calor quase doloroso. Que diferença pode fazer se eu estiver deitada ou sentada? — Segundo o doutor. Com um pequeno gemido de prazer. Ela sentiu o coração bater na garganta. — Você fez alguma coisa tão imperdoável assim... segurou o comprimido. — Você não vai sair desta cama por pelo menos 24 horas.NORA ROBERTS Lutando contra uma nova onda de frustração. mas não sabia como. fico feliz com sua preocupação. — Esta é a coisa mais ridícula que já ouvi na vida. em segundos. — Sabendo que já tinha falado demais. Não tanto assim.. e seu estômago começou a dar nós. precisava mais daquilo que de qualquer remédio. confortá-la. — Você merece mais. — Hum. Agora. de leve. — Sou paciente. Agora você deve descansar. Imaginei que você fosse me contar o resto mais cedo ou mais tarde. Você não sabe nada sobre mim. nada de ficar olhando lá embaixo. Ela queria apagá-lo de seu rosto. não seduzi-la. — De qualquer maneira. — Não confie em mim. Neles. ele estava excitado e seduzido. hum. chamando seu autocontrole. Charity. — Escute aqui. — e beijou-a suavemente — é que você fique na cama.. — Prefiro ter você. — Concordo. — Nada de telefonemas.

— Não tenho que aceitar isto. — Imagino que mantenha isto aqui. — Sim. que tinham repentinamente ficado muito secos. DeWinter. — Ela mostrou a língua enquanto ele se dirigia para a porta. — Desligue — disse Roman. Não vai contar nada para ela. — Mas o que é que você está fazendo? — Pensando se devo me dar ao trabalho de falar com você ou apenas matá-lo. — Escute. — Quero que saia já daqui. através de um véu de fumaça. Mas você é um homem simpático e educado. Bob ficou olhando para ele. — Fiquei tentado a contar para Royce esta manhã tudo o que já sei.. Bob ficou paralisado.. sem saber o que responder. PERIGO Bob saltou de sua cadeira e conseguiu colocar a escrivaninha entre ele e Roman.. significando que esperasse um pouco. com um banheiro particular e com o caféda-manhã incluído. por muitos motivos pessoais. sei que você teve uma manhã movimentada. — Prometo. Não fiz isso porque estragaria o prazer que teria em lidar com você e com as pessoas a quem está ligado. — Sente-se. DeWinter. — Ficarei muito feliz em fazer essa reserva para o senhor e sua mulher. — Eu passei por aqui quando invadi esta sala há algumas noites e examinei os livros. Bob simplesmente levantou um dedo. — Mas. — Tente alcançar a porta e quebro sua perna. Roman adoraria uma desculpa para machucá-lo. observando Bob suando. Acho que está precisando de uma bebida. esperava encontrar Bob no escritório. — Bob deu um passo cauteloso em direção à porta. Mas vá em frente. Roman dirigiu-se para uma pilha de manuais de computação e pegou um pequeno frasco de prata. Quando eu contar para Charity o que você fez. É uma palavra bonita e educada para o que aconteceu. O senhor quer um quarto duplo para as noites de 15 e 16 de julho. — É. — Seus lábios abriram-se quando os dele tocaram-nos. — É seu? — perguntou. — É — disse. para aquelas noites longas em que fica trabalhando até tarde. — Roman jogou o Capítulo 7 Uma parte muito importante do treinamento de Roman sempre fora como completar um trabalho para o qual fora designado de maneira objetiva e cuidadosa.. — É uma bela maneira de pagar a Charity por ela ter-lhe dado um emprego. Até agora. não é. sabendo que ela não quebraria mais a palavra. — Você jogou sujo. a não ser que saísse voando pela janela.NORA ROBERTS lóbulo de sua orelha e sentiu que ela tremia ao mesmo tempo que ele. olhando para ela. pode chamá-lo... interrompendo a ligação. — Mas deu um passo para trás. — Sabe mesmo? — Roman nem se preocupou em responder. — Vou chamar a polícia. ainda. Não ficou desapontado. Foi uma pena Bob ter sido tão facilmente amedrontado. está disponível. — Você invadiu? — Bob passou as costas da mão nos lábios. Simplesmente ficou no lugar onde estava. — Movimentada. e contava encontrá-lo sozinho. Ele a deixou. Foi quase tão ruim quanto usar o hotel dela para passar contas de contrafações e recibos indesejáveis para dentro e fora do país. Seu número de confirmação é. ele desejava ser totalmente cuidadoso. — Vejo você depois. Parkington. No entanto. Pode deixar que providenciaremos os aluguéis dos caiaques para a sua estada. Bob? Bob olhou para a porta e perguntou-se se teria alguma chance de chegar até ela. E ele sempre descobrira uma segunda natureza para fazer isso. Tem razão nesse aspecto. Quando deixou Charity.. — E para vencer. — Ótimo. Está se perguntando como descobri isso? — Colocou o frasco de lado.. Sr. Depois de acenar ligeiramente na direção de Roman. — Mas você não vai contar para ela. — Não sei do que está falando.. — Roman bateu um cigarro sobre o maço. — Roman acendeu o cigarro e observou-o.. Mas vai contar para mim. — Vá em frente. Bob estava com o fone de ouvido e o monitor do computador brilhando acima dos dedos. Ele tinha assuntos particulares para resolver. para longe da porta e para longe de Roman. — Diante do olhar frio e decidido de Roman. — Ele sentou-se e pegou a bandeja. e sozinho. continuou com a conversa. — Promete? — Sim. Roman bateu com a mão no telefone. — Todos estamos um pouco nervosos por causa do acidente de Charity. 193 .

— Deve saber que isso não passa de uma loucura. Bob fixou os olhos no disquete. na rua. a gente fica nervoso. quando estiver preso. — Não achava que isso fosse direito. ou tornou as lições tão complicadas que Charity nunca chegou a compreender. Ela é mais interessada em gente do que em máquinas. você recebe uma soma muito substancial. — Aborrecido. Você não ensinou a ela. Ela não sabe cozinhar. Ele parecia frio — frio o suficiente para matar. Quer que eu lhe diga por que você fez isso? — Ela nunca esteve muito interessada. com a garganta apertada. — Escute. Roman pensou em si mesmo e em todos os anos que passara do outro lado da rua. — E também é bastante simples adivinhar por que ela não sabe usar um computador simples de escritório. Ou coisa pior. num tom de conversa amena. — Abriu uma gaveta e retirou um disquete. e ainda podia fazê-lo. — Isso quer dizer que forcei um pouco a barra. com Roman arrancando-o de sua cadeira pelo colarinho. é o que se sente quando se percebe um tira. — Bob enxugou a vodca dos lábios. — Examinaremos isto mais tarde — disse. Bastante fácil de adivinhar por quê. — Os dedos de Bob escorregaram inutilmente pelos Punhos de Roman. — De 2 a 3 mil dólares por semana são lavados usando este lugar. Por que não me conta do que se trata e tentamos acertar tudo com calma. podia-se blefar e. uma pequena segurança para o caso das pessoas com quem trabalha decidirem apagá-lo. teve medo que eu falasse sobre a operação para Charity e passou a informação para seus amigos. engasgou-se. corta essa besteira. Não. No supermercado. — Você me tomou por um tira. como quem não quer nada. PERIGO — Você mantém os livros do hotel e do negocinho que você e seus amigos têm por fora.. Encaminhou-se para a janela e. Tinha feito sua cota como policial. Bob não pediu que explicasse. — Ela sabe fazer o básico quando necessário. Mas tinha de haver uma saída. Não importa onde. e jogou-o sobre a mesa. mas isso não prova nada. Não poderia ser uma expressão melhor. Quase ouvira a porta da cela bater no momento em que Roman entrou. Bob pensou e sentiu um aperto no estômago. Mae queria governar a cozinha e Charity queria deixá-la fazer isso. — Então. — Você disse alguma coisa sobre contrafação... — Não sei do que está falando. misturado aos grupos de excursionistas. — Por quê? — Quando se está em meu negócio. — Pareço nervoso? — perguntou Roman em voz baixa. — Existem duas coisas que Charity não faz por aqui. — Todas? Você e eu sabemos que você não mostrou todas para ela. — Você sabia que suas referências continuam no fichário aqui? — Roman perguntou. — Conheço um bandido quando vejo um e você me deixou nervoso no minuto em que o vi. Ela não cozinha e não trabalha no computador. às vezes.? — Antes que ele conseguisse dizer a última palavra. — Posso descobrir um jeito de terminar meu assunto com você. Mas eu mostro todas as impressões para ela. Só duas. sei que você está nervoso. — O problema é que ninguém verifica. — Que loucura. Cinqüenta e duas semanas por ano dá um dinheiro muito bom. mas você conhece Charity. Roman jogou-o de volta na cadeira. Bob passou a mão na garganta. Imagino que um homem como você mantenha capangas. comprando cuecas numa loja de departamentos. Sempre havia. depois bebeu novamente. Você nunca trabalhou em um hotel em Fort Worth ou em São Francisco. — Bob engoliu em seco. — Você quer morrer? — Não.NORA ROBERTS telefone para o lado de Bob. — Mal conseguindo respirar. e a sala ficou na penumbra e completamente particular. Acrescentando o salário que você cobra para ter um leva-e-traz através da fronteira. com medo de ser apanhado. Quer que eu lhe diga o que acredito que esteja nos disquetes que você tem escondido na gaveta de fichados? Bob pegou um lenço com dedos trêmulos e enxugou o suor que perolava sua testa. porque Mae nunca lhe ensinou. — Posso tomar uma bebida? Roman pegou o frasco. E o que você fez? 194 . não foi? Ou estava suficientemente ocupado para manter o ouvido colado ao chão.. jogou-o para ele e esperou calmamente que desatarraxasse a tampa. baixou as persianas. Você me ouviu fazendo as perguntas erradas. — Acho que vamos encontrar alguma coisa mais interessante quando verificarmos suas impressões digitais. Às vezes. — Muito bem. tínhamos que abrir o jogo.

— Juro que não sou um homem violento. Aparentemente. sem fazer nada. 195 . devia estar ocupado demais para encaixar uma visita a uma doente em sua agenda. Passava muito tempo com Charity e imaginei que ela estivesse trabalhando com você no caso. mas ele não quis me ouvir. estava odiando. Encontro você onde for que estiver escondido e. Isso me daria tempo para consertar tudo aqui e ir embora. Acordara de mau humor. mas não mato gente. — Se tentar cair fora. Mentir. Se fizer um bom serviço.. piscando em preto-e-branco. Se tinha que ficar presa à cama. quando terminar. — Você e eu vamos trabalhar juntos durante os próximos dias. Não havia a arma. porque estava no continente. — Mas. — Escute. Mas até mesmo Sam Spade sucumbiu à droga dada pelo gorducho. fazendo alguma coisa útil. — O que quer que eu faça? — Fale-me sobre o próximo carregamento. Liguei para o Block e disse ter certeza de que você era um policial. que se imaginara tendo o luxo de passar um dia inteirinho na cama. PERIGO recomendo você para meu superior. eu gosto de Charity. — Por isso tentou matá-la. Block só queria que ficasse fora do caminho por alguns dias. Juro — disse. Como ler piorava a dor de cabeça. quando as coisas ficaram enlouquecidas no hotel. Talvez você possa fazer um acordo. Já tínhamos escolhido outro lugar. Só que agora você vai mentir para Block. Block disse que cuidaria de tudo. dar um tempo. continuará vivo. só as balas. pensou. Dormia a intervalos. Tínhamos um carregamento grande chegando e. Ele disse que o sujeito não estava tentando matá-la. Agora que podia fazer isso. Imaginei que levaria algumas semanas para nos mudarmos daqui. nas Montanhas Olímpicas. aborrecida por não ter tido o controle suficiente para ficar desperta e entediada. — Escute. — Ele parou. Não podia nem usar o telefone para ligar para o escritório e saber o que estava acontecendo no mundo. folheando os livros e revistas que Lori trouxera para ela. Acreditava nele. tentou descobrir algum interesse na televisão portátil que ficava na prateleira do outro lado do quarto. Charity estava enjoada de ficar no quarto. Eu queria cair fora. O comprimido que Roman insistira em que tomasse a deixara tonta. — Ele fez a promessa. eu compro marginais. Roman deu um passo em sua direção e ele agarrou os braços da cadeira. entrei em contato com Block no minuto em que aquilo aconteceu. — Quem estava dirigindo o carro? — Não sei. Se fizer exatamente o que disser. Bob. quando você desceu para o jantar. Roman reclinou-se para mais perto. — Você vai descobrir quem estava dirigindo aquele carro. não. para assistir a uma reprise de um seriadinho. A medicação de Charity arrasara com ela. sabendo que cada vez se afundava mais. Ele a fizera prometer que ficaria na cama. Tentou manter o bom humor. Quando descobriu que passavam Relíquia macabra. tornar-se uma evidência do estado.. sem saber se poderia cumprila. você não vai chamar Royce? — Deixe que eu me preocupe com Royce. — O quê? Você a teria prevenido? — Não sei. revistei seu quarto. Depois de descansar o quadril na escrivaninha. você vai desejar ter sido morto por mim. Droga. Roman simplesmente acenou com a cabeça. Encontrei uma caixa de balas. eu caço você até o fim do mundo. Se eu soubesse o que ele planejava.. — Em pânico.. Na noite passada. — Sim. mas a bebida não serviu para acalmar-lhe os nervos. só para acordar depois. Não poderia ter cuidado disso pessoalmente. o que significa que ela estaria com você. — Vou descobrir. — Bob esvaziou o frasco. Bob olhou dentro dos olhos de Roman. isso era ótimo. E ele nem ao menos tivera a decência de passar cinco minutos fazendo-lhe companhia. apoiando um cotovelo sobre o travesseiro. enquanto ela mofava entre os lençóis. Eu. DeWinter. e pensei que ele queria dizer que cuidaríamos da excursão da semana que vem já nesse nível. Chegou mesmo a admitir — para si mesma — que em determinados momentos. pois deveria estar correndo de um lado para outro. Para ele.NORA ROBERTS — Disse para Block que achava que você tinha sido plantado. Já tinha sido ruim o suficiente ter dado sua palavra a Roman de que não sairia da cama o dia inteiro. — Não. pelo menos que fosse com Humphrey Bogart. mas ele pensou que eu estivesse louco. Eu queria dar uma parada até você ir embora. claro. Você vai continuar a fazer o que faz melhor. Ele disse que tinha contratado uma pessoa. chegou a sentir prazer misturado com alívio.. compro policiais. Bob pressionou o corpo mais ainda contra a cadeira..

Assim também como não havia palavras que descrevessem a sensação de prazer e alívio que experimentou ao ver vida nos olhos dela e cores no rosto. para os dois. pensou Roman. — Não. me dê tapinhas na mão e diga que tenho de descansar. — Ela bateu com a colher em seu prato vazio. — Não acho que um tumor no cérebro seja contagioso. não é? Mesmo que sejam boas para você. E deu as costas para aquelas flores gordas e rosadas. mas ela estava dormindo. — E estou cansada de ficar trancada aqui dentro. — Estou cansada de ficar aqui. — Não se sentindo nada generosa.. — Você vive me perguntando isso. — Vamos. as senhoras subiram para me visitar. Depois. — Ele nem sabia o nome daquelas flores. Mas isso não tinha nem passado por sua cabeça. Não se lembrava de coisas pequenas e românticas que mulheres como Charity mereciam ganhar. Com certeza mais interessante. 196 . droga. retirou a bandeja. cruzou os braços sobre o peito. já que agora você está aqui. Charity. — Oh. se tivesse que fazer isso por mais cinco minutos. ela se livrou de seu autocontrole e. se é isto que tem em mente. tirou o biscoito dele. atirou a papelada na cabeça dele. Não deveriam ter subido toda essa escadaria. — Mae a está vigiando como uma águia. — É o segundo dia de Bonnie. — Roman? — O quê? — Você veio até aqui em cima só para zombar das minhas peônias? — Não. Charity. Não quero mais revistas e não quero que mais ninguém entre aqui. admitiu. como se fosse portadora de alguma doença contagiosa. Quebrou metade do biscoito e comeu. mas ela enterrou-o rapidamente no ressentimento. — Primeiro você arranca uma promessa de mim. Mesmo assim. Ele também devia ter comprado. Ela não tem. sou uma paciente infeliz. Charity sorriu quando considerou essa hipótese. Lori trouxe as margaridas com as revistas. iria gritar.. — Furiosa. — Você não recebe bem essas coisas. Já estava escuro e ela não comia há horas. diga. — Acho que você está errada. Charity sentiu o cheiro da maravilhosa canja de galinha de Mae e dos biscoitos. Aceitando a idéia. só olhando para ela. ela recolheu todo o fôlego de que foi capaz. Felizmente. O que ele faria se ela desse um daqueles gritos bem agudos? Poderia ser interessante descobrir. — Ela está se saindo muito bem — ele disse. — E continuou desfilando os nomes das pessoas que tinham vindo ou mandado flores. ela não tinha a menor pontaria. pensou. Você vai viver. o que estava fazendo? — Morrendo de tédio. — Tenho andado um pouco ocupado — disse. De onde veio tudo isto? — Perguntou. — O que está fazendo? Ela soltou todo o ar de uma vez. Não quero comer mais nada. quando Roman abriu a porta. PERIGO — Estão sob controle — ele murmurou. — Controlando o próprio humor. ele tinha permanecido lá durante uma meia hora. Portanto. — Aposto que sim. Ele havia subido. depois ficou bem perto e olhou-a profundamente nos olhos. — Não banque o espertinho comigo. ela resolveu ser um pouco simpática.NORA ROBERTS Não era da natureza dela ficar sem fazer nada e. — Olhando fixamente para ele. — Vivo? — Ele trazia outra bandeja. — Bem. Não havia palavras com que pudesse descrever a fúria que sentiu ao ver os hematomas e as ataduras. — E mergulhou na canja. e mais cansada ainda de dizerem o que devo fazer. concluiu. pode sair. Só tenho um galo na cabeça. Mas não por estar contente por vê-lo. Não conseguia pensar em coisas desse tipo. depois me deixa apodrecendo nas 12 horas seguintes. Poderia ter subido por um minuto para ver se eu tinha entrado em coma. pensando em Bob e nos telefonemas que já tinham sido feitos. — Ele colocou a bandeja sobre o colo dela. poderia me dizer como estão indo as coisas lá embaixo. no momento em que Sam Spade desembrulhava o pássaro misterioso. — Depois de olhar a bandeja. O prazer chegou em primeiro lugar. interrompendo-a. — Isso é para mim? — Possivelmente. Elas trouxeram as violetas. fazendo um gesto na direção de meia dúzia de vasos cheios de flores frescas. — Você é uma paciente encantadora. — Não graças a você. ainda mais furiosa. não um tumor no cérebro. levantando-se e enfiando as mãos nos bolsos. Acho que prefiro levar um tiro. — Quer comer mais alguma coisa? — Não. do que assistir a uma loura boba dando risadinhas pelo cenário para despertar o riso do telespectador.

Roman foi até a cama e agarrou-a pelo braço. Sorriu e sentou-se ao lado dela. — Lançou as cobertas para o lado. Ela estava muito atraente com aquele meio sorriso em seu rosto. dobrou as pernas no estilo indiano. Charity esticou a coluna contra a cabeceira da cama.. Fechou a mão em punho e fingiu dar um soquinho em seu queixo. — Você pode se levantar da cama sozinha ou devo arrastá-la para fora? A raiva fazia com que os olhos dela escurecessem e o queixo se projetasse mais à frente. Para o inferno com tudo mais. — Não. — Acho que pode dizer que eu estava fazendo uma festinha sensacional para mim mesma. — O que foi agora? — Levante-se. mas ele não parecia pronto para assinar qualquer tratado de paz. Você vai continuar zangado comigo? — Esta pode ser a melhor solução. — Tenho um hotel para dirigir. esta noite não vai dirigir nada. pare. e não vou.. — Não adiantava. e desejava que todos a deixassem em paz para sofrer sozinha. mais pesado. Roman. — Por que não se levanta? — Porque prometi. porém só teve a pequena satisfação de ouvi-lo bater contra a porta que se fechava. — Que coisa mais boba. Que ele fosse para o inferno. Para o inferno com ela. Balançou as pernas de novo e deixou-se cair contra os travesseiros. — Mexia sem sentir o lençol entre os dedos. Vou acabar caindo de rosto no chão e fazer outro buraco na cabeça. como o meu corpo e a minha cabeça. Roman. enquanto lançava um olhar para ele. ele conseguiu puxá-la até ficar de joelhos. Mas quando já começava a sair da cama. Reconhecia a raiva que ainda brilhava nos olhos dele e soltou um longo suspiro. portanto não tenho muita prática em aceitar ordens como se fosse um soldadinho. levante. não havia nada que quisesse ouvir menos que a verdade. seu braço na coluna. — Oferecendo-lhe um sorriso. Ele não subira para provocar uma briga. Sinto muito ter desforrado em você. e odiava. — Quer me amarrar? — Talvez. Roman. — Certo. — Apoiou o queixo de novo nos joelhos —.. precisa. Então. Apesar de toda a força que fazia. antes de ela afundar. — Sim. — É o meu hotel. pensou. Antes que aquela luta fosse muito mais adiante. Pelo menos a dela. ele a mediu de alto a baixo. Roman já estava no meio da escada quando deu meia-volta e subiu de novo. Deve haver um chão para lavar ou alguma lata de lixo para ser esvaziada. então. Todos estão muito preocupados com você. — Não preciso de desculpas. — Não estou acostumada a ignorar o que se passa à minha volta. — Sinto muito mesmo. — Tenho de concordar com isso. saia daqui. Charity segurou-se em uma das colunas. especialmente quando não podia atirá-las de volta. ele não conseguia sentir raiva de Charity. — Vista-se. Mas a largou. — A raiva não tinha nada a ver com o que sentia naquele momento.NORA ROBERTS Quando ela não tinha razão. Charity estava triste quando ele abriu a porta. pensou. — É bobo mesmo. eu queria sentir pena de mim mesma. você está prestes a deslocar meu ombro. Ela sabia. — Você é a mulher mais teimosa e cabeça-dura que já conheci — disse. A tempestade passara. — Ela teria lhe oferecido a mão. Ela atirou outro livro sobre ele. — Não. PERIGO — Você não ousaria. a camisola abotoada até o queixo e revelando suavemente as coxas. — Eu disse que não ia me levantar. Agora. eu lhe dou outro golpe. Saia daqui e me deixe sozinha. os cabelos despenteados. — Ela lamentou as palavras no justo momento em que as pronunciou. ela começou a rir. o peso de sua promessa caiu sobre ela como uma corrente. E estava conseguindo muito bem. quando entrou. Com os polegares enfiados nos bolsos. — Quando estiver de pé novamente. Vou dizer para Mae e o resto do pessoal que você está mais parecida consigo mesma. e não posso fazer isso da cama. — Ela sentiu que sua mão ia escorregando e enganchou. E tinha razão. Já decidira que ele era um homem que ousaria qualquer coisa. — Você queria se levantar. — Por quê? — Levante-se — repetiu Roman. droga. 197 . e não tinha que tolerar uma mulher mal-humorada jogando coisas nele.. enquanto apoiava o queixo sobre as mãos nos joelhos. Dificilmente fico doente.

— Ele fixou os olhos em suas mãos entrelaçadas. Abriu os braços para ele. Nenhuma outra mulher jamais lhe causara aquela reação. — Não. dar muito carinho. — Se eu pudesse. Ele o encontrou a uns 16 quilômetros daqui. Depois de afastar o cabelo dos olhos. — Você comeu? — As refeições fazem parte do meu pagamento. — Certo. — Não posso. — Nem uma migalha. ela decidiu recomeçar tudo. Nem cheguei a agradecer. que o amor seria suficiente. Com ela.NORA ROBERTS — Foi muita gentileza sua me trazer o jantar. — Por quê? — Por motivos que não posso começar a explicar para você. quando entrasse na vida dela. Beijá-la era como mergulhar em um sonho. — Levantando as mãos. Queria perguntar se o xerife tinha alguma novidade sobre o carro. — Não me preocupo. — E levou suas mãos unidas ao rosto. por completo. — Não pode o quê? — Não posso sair. O sorriso dela floresceu. — É pequeno. poderia acreditar que isso fosse possível. Apesar de não acreditar que um dia seria capaz de sentir aquela emoção forte e frágil. — E aposto que não sobrou nada. — É melhor você descansar um pouco. — Estavam de mãos dadas. Relutante. Sentindo-se arrasada. foi ela quem alisou as linhas de sua testa com os dedos. Nunca sequer pensou que amar Roman não fosse doloroso. — Boa noite. Esta noite é algo que desejo. — E ela sorriu de novo. E falo sério. — Boa noite. ele poderia ser o que nunca tentara ser antes. — Oh. doce e sem dor. Roman. — Vai ficar zangada de novo? — Só por um minuto.— Eu lhe disse que isto não aconteceria a não ser que estivesse certo. atenuando as dores com as quais viveria para sempre. — Ela puxou-o para a cama. Ficou parado ali. Como ele poderia saber que. como sabia que ela faria. ela seria sua salvação? 198 . Apesar de ser apenas uma questão de segundos. — Você estava dando uma volta? — Estava esperando por você. curando ferimentos que esquecera que um dia tivera. fechando a porta atrás de si. — Isso significa que um de nós está errado. Mais cedo ou mais tarde. — Roman lambeu os lábios. — Obrigada. você vai desejar que eu tivesse ido. sairia por aquela porta e seguiria andando. — Aconteça o que acontecer. cruzou-a atrás da nuca de Roman. — Eu te amo. nos lábios. Estava ótima. não feri-la mais. Com ela. nos olhos. sempre vou ficar feliz por você ter ficado. Charity reclinou-se contra os travesseiros. Mas não conseguia passar do patamar.— Desta vez. lutando consigo mesmo. Ela sentiu uma pontada e aceitou-a. — Não se preocupe com isso. sabendo que não teria outra escolha senão feri-la mais cedo ou mais tarde. Gentil. Ele a amava. Charity. não haveria futuro. carinhoso. Roman não sabia se Charity teria segurado as suas. PERIGO Ele dirigiu-se à porta e abriu-a. — Não sirvo para você. — Não. Macio. — Ele se sentia esquisito de novo. — De nada. pareceu horas para os dois. Aposto que Mae fez sua musse de chocolate. ela soltou-lhe a mão. amoroso. Corria através de seu corpo. não chegou. algo que escolhi. sentia isso por ela. Charity. Lori disse que você tem um corte no braço. — Fez. — Mas não consigo ir embora. Não mesmo. esquisito e desajeitado. Só fico contente porque o motorista não machucou mais ninguém. — Amigos outra vez? — Acho que pode dizer que sim. Mas esta noite. — Ele parou um pouco para alisar uma ruga surgida entre os olhos dela. abandonado. — Vou ter que lhe dar um aumento. — Não muita. Ele queria tomar conta dela. — Acho que serve muito bem para mim. Andar em sua direção era quase tão difícil quanto afastar-se dela. atraente e impossivelmente bonito para ser verdade. Ela baixou seu corpo para dar-lhe um beijo no rosto. Pegou-lhe as mãos e segurou-as fortemente entre as suas. durante algumas horas preciosas. — Ele virou-se para ela. — Temos muita gente esta noite? — Arrumei 30 mesas. ou ele as dela.

Quando a tocava. Seus dedos enterraram-se nas costas dele. para seus músculos fortes. O corpo de Charity estava rígido contra o dele. Ele podia ler neles tudo o que ela estava sentindo. — Quero tocar você — disse ela. soltando um gemido contra o pescoço dele. Mas o tecido da camisola sussurrava enquanto ela passava os braços em torno dele. sem restrições. desabotoou botão por botão. PERIGO — Parece que eu quis tocar você assim. Ela só conseguia gemer quando a língua dele umedecia sua carne. Aquele não era um desejo que ele teria de fingir nunca ter tido. sabia que podia torná-la fraca ou forte. Ela sussurrou seu nome e ele cobriu-lhe a 199 . Charity lhe daria o que ele pedisse. para achar a contenção de que necessitava. quase hesitantes. selvagem ou delicada. Lutando contra a maré de desespero. Mas não era o poder que preenchia seu corpo. ele levantou-a e aninhou-a em seus braços. o coração batendo freneticamente contra seus lábios. suas mãos estavam na camisa dele. Ela ouviu o próprio suspiro. enquanto seus olhos permaneciam nos dele. O ar soprava pela janela aberta. ele se daria algo que jamais esperara ter. Era aquele o gosto pelo qual tanto ansiara. O coração começou a saltar enquanto olhava para ele. durante toda a minha vida. — Ela correu as pontas dos dedos suavemente sobre a bandagem do braço. os lábios curvados quando Roman aproximou os seus. Roman. excitante. quando seu mundo se acalmou um pouco. E mostrando para ela. não sabia que ele tinha tanto carinho. Estavam tão escuros. Ele deitou-a delicadamente. Havia uma rigidez em seu corpo. Em vez disso. para poder tomá-la de novo. ele usou toda sua habilidade para deixá-la no limite da razão. provocando-a e aquecendo-a. Ele precisava de um momento para se controlar um pouco. A excitação chegou a um ponto quase insuportável. mostraria para ela. e estava esperando por ele. Mas era a fragrância da pele dela que lhe enchia a cabeça. — Charity. tão profundos. Tudo era real. Nem poderia saber que ele também só descobrira isso agora. para poder tomá-la para si. A necessidade de proporcionar esse prazer pulsava ferozmente dentro dele. deslizando e acariciando-a até sentir que os tremores começavam. A luz da lâmpada era âmbar. depois ficaram suaves. A necessidade que crescia dentro dele rugia por todo o corpo como uma onda de fogo. linda. pois encontrava-se sem a menor força para recusar-lhe qualquer coisa naquele momento. Havia uma força nele que a excitava. quase temendo machucá-la com seu toque. depois o dele. era dele. espalhando o perfume das flores que outros tinham trazido para ela. Ele a fazia sentir-se linda. Poderia acender sua paixão. Em seguida. — Está doendo? — Não. os olhos escuros sobre os dele. sem perguntas. Em seguida. enquanto seu beijo se aprofundava. Mas podia vê-la sob o brilho daquela luz. enquanto afastava a camisa de seus ombros. Perguntava-se o que Charity pediria a ele. e suas mãos correram pelas costas de Roman. — Me beije de novo. enquanto a boca dele murmurava essas coisas contra a dela. um homem que ainda lutaria. escutando a respiração apressar-se. Charity estava enroscada em torno dele. E delicada. Mesmo amando-o como ela o amava.NORA ROBERTS No pequeno período que lhe restasse. pensou Charity. Ele sabia que podia dar-lhe prazer. Essa mulher forte. Era um som do qual ele se lembraria sempre. tão vibrantes quanto a água que circundava a casa. Aquilo não era um sonho do qual iria acordar frustrado no meio da noite. seguroulhe carinhosamente os seios entre as mãos. Ela era real. Murmurando em seu ouvido. e ela não sentia medo. talvez por ela compreender que ele poderia ser cruel. Era impossível para ele compreender como alguém poderia dar-lhe paz e tormento ao mesmo tempo. uma rigidez que a fazia perceber que ele era um homem que tinha lutado. ele manteve as mãos leves. — Cada músculo de seu corpo ficava tenso. O ar noturno sussurrou sobre seu corpo enquanto a despia. Qualquer coisa que ela tivesse desejado não era nada comparado àquilo. E ele sabia que nada o tinha excitado mais. Ela prendeu o fôlego. mal a tocando. sua pele firme. Suavemente. Roman poderia ter arrancado sua camisola fina com um simples puxão. Ele não pensara em colocar música. acompanhando aquele estreito caminho com beijos suaves e macios. Era o desejo. Mas as mãos eram gentis sobre ela agora. Era como se ele soubesse que aquela primeira vez juntos deveria ser saboreada e lembrada. desabotoando-a. quando ela passava as mãos da cintura para o peito. Ele sentia-se incapaz de recusar. Ele não pensara em acender as velas. Roman observava seus olhos abrirem-se muito.

ao seu toque mais leve. DeWinter. a excitação de Charity cresceu e libertou-se outra vez. e apertou-a com mais força. — Por que não se casou? — Ele perguntou em voz alta. — Estou machucando você. Quando ele a penetrou. Ele nem tentou impedir o sorriso. sempre ali. disse: — Você é o amante mais incrível. a lugares que ela nunca tinha visto. pensou ele. se não tiver ninguém para segurar sua mão? — Você poderia ir comigo. Nela. mas queria imaginá-la amando-o o suficiente para perdoar. Sabia que estava louco para deixar-se pensar daquela maneira. Mas só uma que significou alguma coisa. Um prazer novo derramou-se dentro dela até que seus braços ficaram pesados demais para se moverem. Então. — Não se mova. Imaginava que Roman tivesse pouco mais que o dinheiro para um bilhete de balsa com ele. lugares dos quais nunca queria sair. Ela parecia escorregar como água por entre suas mãos. ele entrou no jogo. — Não. se não tiver alguém para andar de gôndola com você? Ou Paris. — Está bem. aceitar e prometer. — Ela quase desejou poder mentir e inventar uma porção. — Que assunto? — Você é esperto. Já era hora. procurou por ele. Ouviu-a soluçar seu nome em voz alta. acariciando seus cabelos. Me avise quando devo fazer as malas. Qualquer coisa mais do que três é muito. mas não o mais esperto. — Você me faz chorar — murmurou. A brincadeira desapareceu dos olhos dela quando os fechou. Era impossível sentir tanto e ainda precisar de mais. — Não teve bebês? — Que pergunta estranha. girando seu corpo. descendo sua cabeça para repousá-la em seu peito novamente. PERIGO — Ah. Mas era exatamente o que ele queria ouvir. — Você teve muitos? Foi a vez dela sorrir. Ela queria prender-se em torno dele. Neles. — Obrigado. — É a minha vez de perguntar se você teve muitas amantes. — Ela elevou o corpo para beijá-lo rapidamente.. O pequeno traço de ciúme em sua voz era um acréscimo tremendo a uma noite já gloriosa. Bem. — Mais do que três. O que não significa que não reconheça um que seja incrível quando o encontro. e sentia-se glorioso naquele lugar. Três é um pouco. — Demais. — Sou pesado demais — insistiu ele. Ignorando o ligeiro toque de aborrecimento que sentiu. — Não. O rosto pressionado contra o pescoço dela. Não amei alguém o suficiente antes.NORA ROBERTS boca com os lábios para capturar seu longo gemido. Charity estava com ele como ninguém jamais estivera antes. — Acho que tive menos que poucos. — Não seja bobo. quando a deitou novamente. E percebeu que Roman estava tão cativo quanto ela. e sentiu a força jorrar dentro dela. — Isso não foi a sério. Estava encurralado entre o céu e o inferno. Charity ouviu seu gemido baixo e resfolegante. lenta. para que invertessem as posições. — E quanto à viagem que você disse que queria fazer? Isso viria primeiro? Ela encolheu os ombros e apoiou-se nele de novo. Ele a estava levando em uma viagem longa. mas ainda não. Para seu encanto. De que adianta estar em Veneza. — Satisfeita. depois forçou-se a sorrir enquanto levantava a cabeça. Era impossível. Ainda não. 200 . Já meio adormecida. — Passou uma possessiva mão sobre seu quadril. ela sorriu. Roman lutou contra a necessidade de explodir para um alívio. Charity era uma prisioneira — uma gloriosa prisioneira voluntária— das sensações frenéticas que Roman lhe enviava através do corpo. ela repousou a cabeça no ombro dele. — Ela piscou ao som das próprias palavras. não está. enquanto todo o corpo ficava leve. — Está bem. — Talvez eu não tenha viajado porque sabia que odiaria ir a todos aqueles lugares sozinha. — E ela soltou um suspiro muito longo. mesmo durante algumas poucas horas.. — E não mude de assunto. Cegamente. Ele não sorriu desta vez. mantê-lo preso ali. — Defina muitos. nesse caso. — Não fiz nada em minha vida para merecer você. — Ela elevou uma sobrancelha e estudou-o à luz do abajur. Ele levantou o rosto para fitá-la. Charity enlaçou Roman com os braços para evitar que ele saísse.

da noite para o dia. morna e cheia de desejo. Não só fisicamente. Sofrer novamente. compreendia e os atendia sem qualquer questionamento. em quartos vazios. Ele tinha tanta capacidade para dar. E era o que ele esperava. ficou imaginando. Seus próprios lábios curvaram-se enquanto o observava. uma entre muitas. ela deu-lhe um beijinho nos lábios. apesar de ela não ter vergonha de admitir que sua habilidade no amor a tinha enlouquecido e deliciado. já estava sobre a dela. para fazê-lo temer tanto o amor. Na opinião de Charity. desde que confiasse suficientemente nela. entrelaçando seus braços e pernas com os dele.. ele parecia duro como pedra. recostou a cabeça contra o ombro dele e dormiu. Tonta. Roman. faminta e insistente. relaxado. Ela os sentia. Seus olhos abriram-se instantaneamente. Era uma dúvida que ele teria que responder sozinho. E quando isso acontecesse. ele se lembraria do gosto de sua boca quando se abria ansiosamente. — Ela o beijou. Preferira permanecer sozinho. não. Tudo o que contava. a partir daquele momento. e o corpo. E como as coisas se tornariam muito melhores todos os anos que se seguiriam. em camas estranhas. aproveitando aquele momento tão aguardado. Agora. decidiu que... para olhar dentro de seus olhos sonolentos. iria mostrar-lhe que nada disso importava. Estava a poucos centímetros do dela. — Você tem o sono leve — começou ela.. dormindo ou acordado. muitas delas ainda presas. enquanto derretia com seu beijo. 201 . haveria tempo para promessas. Ela daria um jeito naquilo. Ela conseguiu emitir um suave gemido. Quando a Capítulo 8 Charity abriu os olhos lentamente. dos dedos pálidos de luz entrando pelo quarto. enquanto ela se aquecia contra a dele. perguntando-se por que não podia se mover. Fascinada. Roman desligou o abajur do lado da cama. E não era possível compartilhar o que tinham compartilhado durante aquela noite sem que seu coração ficasse tão perdido quanto o dela. PERIGO Não vou deixar você ir embora. Charity observou sua expressão mudar da suspeita para o desejo. E de sua boca. — Eu só. olhou o rosto de Roman. Mas era uma mentira. Teria sido sempre assim?. Roman sorria muito raramente. uma pergunta que ela sabia que ele iria responder. Ele era um homem cheio de emoções. Ele se lembraria daquilo tudo. do cheiro de sua pele. Ela o faria feliz. — Claro que sim. Ele teria de ser assim? Era verdade que sorrir dava um certo encanto e meiguice a seu rosto. tudo mudara. ficou abraçado com ela. Só foi preciso mais uma batida de seu coração para que ficassem atentos. Apesar de seu abraço ser um pouco o de um guardião. Essa era a única maneira que ele conhecia de dizer-lhe o quanto significava para ele acordar e encontrá-la tão perto. famílias e futuros. Mais cedo ou mais tarde— mais cedo. e ter tanto medo de dá-lo? Ela o amava demais para exigir uma resposta. Ignorando o desconforto. estudando-o. do som alto e do eco dos primeiros pássaros cantando para o sol que nascia. tinha se mantido deliberadamente separado de qualquer pessoa que tentara aproximar-se mais. Os olhos agora estavam fechados. Mesmo assim. Com o tempo. Durante anos. com o olhar fixo na escuridão. era o que sentiam um pelo outro. mais vulneráveis enquanto dormiam. e vai ser muito difícil quebrá-lo. Ou quase. Durante um longo tempo. ela pensou. Quantas manhãs ele acordara sozinho. Era impossível amar como ela o amava e não receber nada de volta. mas tenho um poder sobre você.. Tinha o corpo de um lutador e os olhos de um homem que estava pronto para qualquer eventualidade. ela julgou-o incrivelmente meigo. a aproveitar. Aliviava a preocupação em seus olhos. ela suavemente o ensinaria a relaxar. Você ainda não percebeu. ficou deitada quieta. Sempre achara que as pessoas ficavam mais suaves. Afastando-se um pouco.NORA ROBERTS — Você iria? — Ele levantou o queixo. Antes que ela pudesse completar o pensamento. porque não queria se arriscar a perder novamente. O que teria acontecido com ele. se ela fizesse a seu modo — ele passaria a aceitar como seria bom estarem os dois juntos. Havia tantos desejos obscuros e profundos nele. Então. Ele dizia a si mesmo que era por causa do trabalho.. ela ficou imaginando. O trabalho. disse silenciosamente para ele. a confiar. sua boca. Ele a tinha puxado para perto enquanto também dormia.

. — Talvez se você ainda tiver tempo. ágil e que reage inacreditavelmente. — Você está tentando me seduzir. — Você tem um corpo fantástico. nós vamos nos matar um ao outro se fizermos isso de novo. — Quatro e meio e. — Na certa. — Você não deixa passar nada. Pelo hotel. quanto mais cedo tudo voltasse ao normal. tudo o que podia fazer seria pendurar-se nele e deixá-lo fazer o que ele quisesse. — Roman. e faria. De fato. — Foi um prazer. apesar do fato de seu rosto ainda estar brilhando do amor e de estar nua até onde os lençóis prendiam-se em sua cintura. — Não. — Pernas fabulosas — murmurou ele. enfraquecendo vergonhosamente. Como ela queria ser razoável. sob suas mãos. — Eu o levo. — Absolutamente. ela virou a cabeça para evitar o beijo. Antes que seu sangue começasse a se aquecer. você. pois perdia o equilíbrio. — Você está tentando me distrair. afastando os cabelos do rosto com os dedos. antes de sentar-se. Lenta e facilmente. — Não. passando a língua por trás do joelho dela. para falar a verdade. ela sacudiu a cabeça. Ela estremeceu. Ela era a chefe novamente. mas sem força.. quando eu voltar. — Ótimo.. — Ela segurou suas mãos enquanto acariciava suas coxas. acariciou-lhe a coxa. você não vai levar o cachorro para dar uma volta. — Roman. até os dois ficarem espelhados um no outro. — Sua cabeça tombou para trás e ela engoliu em seco. PERIGO — Você não está em forma para uma caminhada de um quilômetro e meio. Ela ficou de joelhos. ela pensou. quando ele arrancou outro suspiro dela. tenho mesmo? Os lábios dele curvaram-se. — Não. Ele podia. Sabia que isso a deixaria furiosa mais tarde mas. — Não se trata disso. Com um suspiro e um murmúrio. acrescentou um sorriso. — De onde? — De levar Ludwig para seu passeio. Deliberadamente.. ela se enrolou nele novamente. Estou perfeitamente. ele provocou os desejos dela. — Ela se afastou. — Tenho que lhe agradecer por ter me mostrado como eu estava errada. Agora. continuou seu movimento. antes que o toque a enfraquecesse. quando os lábios desceram por seu pescoço. Charity esticou os braços para o teto. Era desse jeito que ela gostava mais. — Prefiro arriscar. eu. Ela se sentia tão forte quanto um touro e tão contente quanto um gato com leite nos bigodes. penetrou-a com carinho. — Quatro?— Levantando a sobrancelha. Deixe-me lhe mostrar. sim. não faria mal. — Não prestei muita atenção nisso na noite passada. um corpo verdadeiramente incrível — murmurou ele. — Você? — Desejando recuperar o fôlego. — Ela pressionou a mão contra o colchão. Cumpri minha promessa e fiquei na cama ontem o dia inteiro. — Claro que vou. — Ele se sentou e circundou sua cintura com as mãos. não é? Ela estava perdendo. 202 . como isso era tentador. — Ele gosta disso. Roman decidiu que teria que lhe mostrar novamente que ela estava enganada. Meu Deus. — Ela disse seu nome fracamente.. — Sim. — Ela fechou os olhos.. — Me dê só mais um minuto e vou mostrar para você o melhor motivo para permanecer na cama pela manhã. A mão que tinha levantado para afastar os cabelos parou no ar. Com os olhos fechados. Mas de maneira alguma ele iria deixá-la sair para a estrada deserta sozinha. — Roman. Era impossível. — Ele ainda sentia o próprio coração batendo como um pica-pau contra suas costelas.. Deu uma mordidinha em seu queixo. — Não o quê? Ele reconheceu aquele tom. E toda a noite.NORA ROBERTS madrugada afastou a noite. estou. Esta era aquela mulher que não aceitava ordens.. depois estremeceu. ela lhe deu as boas-vindas. — Não é de admirar que tenha um tônus muscular tão maravilhoso. — Longo. por enquanto. — Ludwig precisa correr — disse ela. — Não é necessário. vou voltar para o meu trabalho.. impossível que tudo isso acontecesse novamente. — Estou. — Não pode.. — É. Ele segurou seu punho. — Rindo. enquanto os lábios passavam pelo rosto dela. melhor. Roman. — E pensar que eu achava que correr era a melhor maneira de começar o dia. falo sério. quando os polegares faziam círculos em seus seios. Não posso tocar você e não desejá-la. enquanto ele passava os dentes por sua pele.

. Bonnie estava ocupada anotando os pedidos. Então. — Alguma coisa errada? — perguntou Roman. ele jogou PERIGO os jeans em cima da camisa. Charity levou um momento para fazer uma longa e cuidadosa inspeção. — Sem dizer nada. — Fico feliz por saber. — Bem. saiu do quarto. meio adormecida. — Ele come duas tigelas de ração quando volta. Mas. a corrida não. Temos algumas novas reservas. esticando-se na cama. Mas não se preocupe. — Agradeço muito. — Eu te amo. depois arrumou a cama. Como sempre. E água fresca. Depois. — Isso me deixa mais tranqüilo. — O que poderia estar errado? Parece que tudo está perfeito. — Ela ria quando ele entrou no chuveiro com ela. — Posso comer um pedaço de tudo. 203 . — Olhou preguiçosamente para os papéis sobre a escrivaninha. não é? — Não. — Acho que sei cuidar de um cachorro. Cantarolava junto com o concerto para violino de Tchaikovski quando a cortina se abriu. e a música tocava suave ao fundo. — Não. Quando tudo tinha acabado. ele não consegue pegá-lo. concedeu-se esse prazer. — Ótimo. — O medo cresceu em seu estômago. ouvi-la dizer e saber que era verdade. — Ela estava com os cabelos presos no alto da cabeça e um pedaço de sabonete feminino de perfume delicioso na mão. Ele arrancou a camisa e jogou-a para o lado. enquanto espreguiçava-se sob os lençóis.. — Fez uma pausa na portaria e sorriu para ele. — Lançou um sorriso para Roman. cansou você. Bob. enquanto observava Roman desabotoando os jeans. Ela não estava cansada. Charity. Bob percebeu o olhar e seu estômago afundou. Na saleta. Examinarei as coisas depois do café.. Julho já está quase lotado. — Ótimo. ela passou as pernas em torno dele e deixou que a paixão os tomasse. — Alguma coisa urgente? — Não. — Não. — Qual o problema. dirigiuse à cozinha. beijando-lhe os cabelos. — Ele levantou seus lábios e a trouxe até ele. Tome um pouco de café. — Estávamos preocupados com você. Ela bocejou e puxou as cobertas para cima. Três mesas já estavam ocupadas.NORA ROBERTS — Esta é sua resposta para tudo? — Não. aparentemente. Sua pele molhada brilhava e já estava ensaboada. deu uma olhada nas anotações que fizera para si mesma. Está tudo bem. — Como está se sentindo? Acho que ainda é muito cedo para estar de pé e andando por aí. — Já pensou em ensinar aquele cachorro a obedecer? — Não. Incapaz de resistir. até que a culpa fez com que se levantasse. — Fique aqui — ele disse. Dormir não era a melhor razão para continuar na cama pela manhã. E não discutiu quando ele puxou as cobertas até seus ombros. antes de a refeição ser servida. — A coleira está num gancho embaixo da escada— murmurou Charity. Se o tira estava apaixonado por ela. ligou seu estéreo. nada. — Charity abriu um pouco a gola da blusa. os homens deliciando-se com o bolo de café de Mae.. — Amarrou os cadarços dos sapatos. de Psicose? — Deixei minha faca de açougueiro nas minhas outras calças. Ela impediu seu protesto levantando a mão. Mas Roman tinha razão. — Bom dia. quando viu o ferimento na testa dela. — E ele olhou de novo para Roman. Charity desceu para o vestíbulo. — Bob sentia o suor molhando as mãos quando viu Roman atrás dela. Automaticamente. — Voltarei. — Nunca me senti tão bem em minha vida. — Você poderia ter me matado de susto! Nunca ouviu falar no Motel Bates. pensou. — Ela ajeitou-se contra o travesseiro. Quase uma hora depois. — Ele gosta de perseguir o gato dos Fitzsimmons. — Charity. mas não precisam mais se preocupar. As flores eram frescas e o café estava quente. Bob? — Nada. — Levou a mão ao estômago. pensou. ela escorregou molemente para a cama. — Mais alguma coisa que eu deva saber? — Humm. Que problema poderia haver? — Você está um pouco pálido. e fez mais algumas. Muito bem. — Estou bem. Apesar dos galos e hematomas. dirigiu-se para o chuveiro. O cardápio do café-da-manhã já estava listado no quadro. Não aconteceu nada por aqui. — Depois de recolocar os papéis no lugar. — Ela sorria. as coisas ficariam ainda piores. Charity estudou seu rosto. isso o amoleceu. — Roman! — Ela apertou o peito com ambas as mãos e recostou-se contra os ladrilhos. — Desculpe eu ter deixado você na mão ontem. Em silêncio. — Não seja boba. — Mas também serve. e encaminhou-se para a sala de jantar. — Deu um tapinha amigável em sua mão. — Sentindo-se inútil. — Acho que precisa tomar um banho. suave e delicada. sabia que jamais se sentira melhor em sua vida.

— Precisamos de mais manteiga para as torradas — avisou Mae. — Oh. enquanto saía rapidamente com a bandeja. — Passou a mão pelo braço de Charity.. — Ora. — Sim. — Os únicos pedidos que você vai atender hoje são os meus. Deixe esse branco torrar. Charity aproximou-se para pegar um avental e Mae deu-lhe um tapa na mão. São as suas favoritas. — Com um aceno de cabeça. — Oi. tenho uma papelada no meu quarto que deveria estar no escritório. 204 . E uma porção de torradas com salsicha. E você não quer que eu me preocupe. — Mas estava tudo muito confuso por um tempo. E todo um pacote de lençóis foi perdido. Espero que não seja o mesmo que está afetando Bob. bom dia. — Todos vamos ficar muito contentes quando o doutor lhe der alta. Já chega tudo o que passamos ontem. — Está torradinho. pelo amor de Deus.— Seu rosto magro enrugou-se com um sorriso. para Charity. — É mesmo? — Todo mundo está fazendo perguntas e ninguém tinha uma resposta. Mae.. PERIGO — Você deu um grande susto na gente ontem.NORA ROBERTS Não havia nada a ser consertado. — Mae piscou para Roman. — Dolores vai lhe servir um chá. Ela estava com um lápis atrás da orelha. Dolores colocou uma xícara de chá na sua frente e deu um tapinha na sua cabeça. Charity parou de olhar para o chá e levantou os olhos. — Já está chegando. Dolores. — Não estou. — O médico vem hoje de manhã para dar outra olhada em você.. enquanto andava quase que correndo pelo corredor em direção a seu quarto. — Já estou bem. — E você não vai fazer nada até ele dizer que pode. com um pano de prato na mão. — Quer que eu deixe queimar? Charity sorriu e tomou o chá. mas. — Já mandei você se sentar. Está se sentindo melhor? — Estou ótima — Charity disse rapidamente. — Está com pressa? — Oh. E o café está acabando. Roman. garota. sente-se.. — Ela olhou para o relógio de pulso e franziu a testa. — É bom ver que você está se sentindo melhor — Lori disse. por cima da cabeça de Charity. Agora vamos sentando. — Parou o tempo suficiente para sorrir para ele. Não vou me preocupar tanto se você tomar um bom café-damanhã. é claro que não. Você está aborrecida— disse ele baixinho... torradinho. Era bom estar de volta. — Obrigado.— Não esperava ver você de pé. apontando para a flanela. Mae. — E eu disse que estava bem. Então. Agora. — Sente-se. — Alegre como um pássaro. — Não o bastante. — Eu não quero chá. Charity. Quando entregou a vasilha cheia para Lori. Duas omeletes com bacon. — Ótimo.. Poderíamos muito bem ter mais um par de mãos extra. e Lori enchia uma bandeja com seu primeiro pedido. Mae e Dolores trabalhavam lado a lado. pensamos que você fosse descansar mais um dia. viu Charity parada à porta. — Isso mesmo. Dois chás de ervas. Achou que podia gastar dois minutos conversando com ele. Ninguém sabia como lidar com aquela menina teimosa melhor do que Mae. — Perdido? Mas.. — Uma das arrumadeiras está com uma virose e eu a mandei para casa. — Você só vai poder fazer o que lhe der na telha se estiver cem por cento. Já estavam no meio da tarde quando viu Roman de novo. — Depois de enfiar a folha de pedidos em um gancho junto do fogão. — Mal olhando em volta. Ela sentou-se. — Nós encontramos. — Mae deixou um espaço perto do fogão para Dolores. o turno do jantar. um muffin inglês. Sente-se. — Estou muito bem. começou a preparar o pedido de Bonnie. Estou bem. — O que é isso? — perguntou ele. Bonnie entrou. Vou preparar umas torradas francesas para você. quer? — Não. ela pegou a cafeteira com café fresco que Dolores lhe entregou e saiu apressada. um bloco no bolso e uma flanela no outro. Charity sorriu com os dentes trincados.. — Querer e precisar são duas coisas bem diferentes. E vou ajudar a atender os pedidos. — Agora. Vou lhe dar um café. Mae continuou a espalhar queijo ralado em uma omelete.. Dolores começou a arrumar bolinhas perfeitas de manteiga. seja uma boa menina.

Custou-lhe um pouco. Os Garson saíram às cinco horas da manhã de hoje. não tão delicadamente. — Segundo me lembro. e temos hóspedes chegando para as unidades 3 e 5 hoje. Só que uma soneca era a última coisa da sua lista de coisas a fazer. Não mesmo. muito obrigada. quando carregou aquela outra teimosinha para a cama. através da sala de estar. Depois... Sim. foi horrível que alguém tivesse roubado o carro da pobre Sra. e subiu as escadas correndo. estava arrumada com uma precisão militar. Norton e saído com ele dirigindo com tão pouco cuidado. Duas vezes.. — Não. Sim. resolve bancar o Rhett Butler. — Estou apavorada — disse ela. ele tinha em mente uma coisa completamente diferente. vou atrás de você. — Servimos vinho na sala de estar. Eu arrumo o 5. às cinco horas. ela começou a lutar. Roman ajeitou o peso em seus braços e subiu as escadas. antes de puxar Charity pelo braço. O café-da-manhã é servido entre as sete e meia e as dez horas. Ford está sendo requisitada em outro lugar. e duas vezes foi interrompida por hóspedes chegando. educadamente.. não tinha quebrado as pernas. — O médico disse que você deveria descansar uma hora esta tarde. pensou em fazer uma pausa e subir para o quarto. A boa vontade e a preocupação dos outros teriam-na deixado muito reconfortada. quando Roman entrou no quarto. perto da janela.... ela acompanhou um casal de recém-casados para lá. — Sim. — A Srta.. fazendo com que as espirais douradas sobre as orelhas dançassem no ar. — Com licença. vou lá para cima. — Estou tentada a mandar você para o inferno. — E é. antes que ela protestasse. mas. nem o ombro. A cama. — Estarei com você em um minuto— disse para ele. — Não é a coisa mais romântica que você já viu? — disse a Sra. especialmente porque se trata de uma noite de sábado. ela estava mesmo muito bem.NORA ROBERTS — O que há com Bob? — Não sei. Millie. Millie e a Sra. para continuar sua explanação. — Você me envergonhou na frente de todos. Ele reclinou-se e beijou-a com força. para tornar as coisas piores. Não. exatamente no lugar onde não deveriam estar.. Ele não me parece bem. Todo telefonema que dera tivera de incluir uma explicação de cinco minutos sobre seu acidente. nem o braço. — Fique à vontade. — Você não tem o direito de me interromper. quando puser você na cama. quando estou dando as boas-vindas para os hóspedes. mas resistiu à tentação de levantar a colcha e verificar os lençóis. Depois de passado o primeiro choque.. nada havia que ela pudesse censurar. quando os dois desapareceram na ala oeste. sobre o colchão. Uma família que vinha de um passeio parou espantada na porta. enquanto espiava se as toalhas limpas estavam no PERIGO lugar. todos os dias. — Roman puxou a flanela de seu bolso. pretendia cuidar-se muito bem.. Se não estiver na cama. 205 . Lucy pararam sua partida diária de Scrabble. — Minha função é arrumar as coisas. — Isto está soando como uma ameaça. — Roman cumprimentou-os com um sinal de cabeça.. — Segurou seu rosto entre as mãos. — Você vai descansar. — Interrompeu. Preocupada com que pudesse estar doente ou com um problema pessoal. — De qualquer maneira. Se quiserem. Não era o caso de ela querer ignorar as ordens do médico. — Eu limpo o 5. Roman as havia pendurado no porta toalhas. — Você não pode. — Ele largou-a. E eles não ganham nenhum prêmio de limpeza. tinha certeza de que o xerife iria até o fundo da questão. — As palavras transformaram-se em um gemido. Sim. com sua cabeceira branca em forma de coração. — Está com sorte por só ter feito isso. Ele reclinou-se para segurar seu rosto com ambas as mãos. se não estivesse tão atrasada em seu serviço. Acreditando piamente que Roman tivesse limpado e arrumado a unidade 5. — Você ficou maluco? Quer me largar? — E o que vou fazer. Bob estava distraído e desorganizado. Isto não é sua função. — Não seja ridículo.. estamos com uma arrumadeira a menos. e virou-se para os recémcasados. Para piorar as coisas. — Jogou os cabelos para trás. pararam de contar suas histórias de pescadores. A Sra. Recomendamos que façam uma reserva para o jantar se pretenderem juntar-se a nós. — Vocês terão uma vista linda do jardim deste quarto — disse Charity para disfarçar. — Quando eu terminar. Espero que aproveitem sua estada. que estavam sentados no sofá. quando ele carregou-a no colo. Dois homens. Como você sabia? — Perguntei para ele.. Charity resolveu fazer o trabalho dele.

— Estou dando mais do que você merece... — DeWinter — disse. — Preferia que você ficasse aqui comigo. ele segurou-a com uma das mãos. — Você não sabe do que ele é capaz. que não seja a prisão federal. pensou enquanto descia para o térreo. DeWinter. — Eu disse para você apagar. Só teria que manter a pressão apertada sobre ele. ele pegou o telefone. — Você cuida do que for preciso durante a próxima hora. estou armando para ele. — Se quiser saber.. — Como é que você sabe? — Sei que não é mais importante do que você. Isso não vai matar você.. tudo estaria bem. um subalterno não tem a menor importância neste momento. ele fecharia a jaula. Bob engoliu mais café. — Quando se levantou. — Pois pense em mim como seu novo parceiro — aconselhou-o Roman. Nada é — e fechou a porta sobre sua expressão atônita. Só quero saber se localizou o motorista. Seus olhos agora apresentavam um ar divertido. — Escute. Diga a ele que ela retorna o telefonema daqui a uma hora. — Não quero que você saia desta cama durante 60 minutos. — Sem chance. — O quê? — Eu disse. — Minha educação foi muito boa para me permitir isso. Ela havia assinalado uma pulseira de ouro com uma pedra roxa de corte quadrado. — Nunca trabalhei com um tira olhando por cima de meu ombro antes. Ele parou na porta. — Se apagar o cigarro. — Ele olhou distraidamente para um catálogo que ela deixara aberto na escrivaninha. — O que era? — perguntou Charity do quarto ao lado. Roman. — A mão tremia. — Não é. — Estou entretendo amigos. Se melar as coisas... Desde que Bob sentisse mais medo dele do que de Block. de um jeito que ela teve de morder o lábio para evitar sorrir. Isso mesmo. você quer que eu continue a trabalhar como se tudo estivesse normal? Estou mentindo para Block.. faça uma pausa. — Ou? — Ou. vá dar uma volta.NORA ROBERTS Ela não se desculparia se sorrisse naquele momento. Não quero que ela fique preocupada. — Claro. acha que você está com algum problema. faça uma pausa. Isso mesmo. Bob esfregou as mãos nas coxas. Block e a Vision Tours chegariam na terça-feira. tomar um café de verdade. meu bem. espero que você mantenha Block longe de mim. 206 . Ele deu um beijinho um pouco abaixo da atadura em sua cabeça. — Escute. — Sim?. — Preciso de alguma coisa em que me apoiar nos próximos dias. — Olhou para a caneca. — Quando o telefone da ante-sala tocou. eu venho atrás de você. Ela lhe enviou um olhar raivoso. — Ponha o despertador para daqui a uma hora. — Roman acendeu calmamente um cigarro.. — Pois use isto então. — Eu cuido de Block. — Vou tentar evitar que seu martíni esquente.. — Era uma promessa que ele pretendia manter. Fique aqui que eu atendo. Charity anda preocupada. Quando saíssem na quinta. Quando tudo isto terminar. — Mas se for importante. DeWinter. Roman empurrou a porta do escritório e encontrou Bob com os olhos fixos no monitor do computador. — Para alguém acostumado a viver de golpes baixos. quando a ligação foi feita. darei um jeito de você ficar na jaula por muito tempo. qualquer problema. — Não será porque tenho sorte?— Ele se aproximou mais um pouco. que Roman colocara fora de seu alcance. conto para você daqui a uma hora. mando Mae vir aqui dar uma surra em você. — E pare de beber. Ela começou a brincar com o botão superior da camisa dele. Ela acompanhou-o com os olhos. — Mas que droga. Tirou a caneca de sua mão e cheirou-a. Ele precisava manter Bob a rédeas curtas. Ela está descansando. — Ande depressa — Conby lhe disse. Eu não sei do que ele é capaz. Quando a porta fechou-se atrás de Bob. — DeWinter. — Roman jogou a cinza do cigarro em um pequeno cinzeiro de mosaico. Agora. estou jogando limpo com você.. — Me dá um tempo. tomando café. quando ele se virou para atender ao telefone na sala ao lado. — Eu lhe digo daqui a uma hora. PERIGO durante mais alguns dias. você está um lixo. Segure os telefonemas para ela até as quatro horas. quando ele passou-a pelos cabelos. — Que golpe baixo. não para acender.

— Por que não pára de fazer perguntas bobas e me diz logo o que está acontecendo? Roman resumiu o caso. ele assaltou dois bancos em Ontário. — Estou aqui porque me designaram para cá. no andar superior. E para fazer esse serviço de viagem para tipos como Dupont. Roman ouviu-o murmurando alguma coisa que foi respondida com um riso alegre. — Roman recostou-se mais ainda na cadeira e considerou mais meia dúzia de maneiras diferentes de cuidar de Royce. no Bureau. — Eu sei. DeWinter.. Royce não trabalhava com a lei há quase 20 anos sem ser capaz de analisar um homem. O xerife Royce foi quem trouxe você até nós. a porta se abriu. — É um risco que temos que correr. — Quero saber em que caso está trabalhando. não está mais. para permitir que Royce fizesse perguntas. e ficou satisfeito. — Só quero os mais experientes. Royce. — O que foi que eles lhe disseram? Royce reagiu aborrecido. — Royce tirou o chapéu e correu os dedos pelos cabelos. Ford ferida. — E estava. DeWinter. pensou Roman. Temos tudo registrado. Não temos o menor desejo de ver a Srta. Tem um primo ou um cunhado. Vai querer me ajudar? — Conheço essa garota desde pequena. se ela for inocente. — Então. apenas apoiou as mãos sobre a mesa. — Não é uma questão de se. mantê-lo aqui durante alguns dias e depois enviá-lo em viagens curtas para a América do Sul. — Esforçando-se para manter a calma. Agora. fique de olho nela. — Ele pensou em Charity tonta. antes de recostar-se na cadeira. — Mas minha primeira prioridade é manter Charity a salvo. — Estamos usando nossa influência para esticar o procedimento — Conby continuou. — Roman esperou um momento. Foi detido para ser interrogado pela polícia local. parando apenas uma ou duas vezes. e nem sabe por quê. — Cumprindo ordens. — Conby colocou a mão sobre o fone. enviando um olhar direto e longo para Royce. estarei me hospedando no hotel. Tanto Dupont quanto Block são homens perigosos. No momento em que Roman escutou o telefone sendo desligado.NORA ROBERTS — É importante para mim. Conby acertou direto no alvo. Conseguia analisar Roman agora. Quer sentar-se?— Indicou uma cadeira. à tarde. — Como? — Ele é um policial esperto. — Não tenho tempo para entrar em maiores detalhes. mas também temos civis. matou um guarda e feriu um civil. — Aposto que sim. E não gostou nada de ser mantido no escuro. — Chegamos a um ponto em que até mesmo meu primo começou a disfarçar. Mas pode estar correndo perigo. — Como expliquei antes. PERIGO — Quero saber o que um agente federal está fazendo secretamente em meu território. mas tenho certeza de que sua estada aqui tem algo a ver com Charity quase ser morta por atropelamento ontem. não tem com que se preocupar. como resposta. Só quero saber quantos homens você pode me emprestar na quinta-feira de manhã. Seu nome verdadeiro é Vincent Dupont.. Você o localizou? — Um homem que se encaixava na descrição de seu informante foi detido esta manhã em Tacoma. — Pelas palavras de um guarda-livros marginal. mas cuide dele. mas também um homem que vai se registrar como Jack Marshall. 207 . Há um agente da lei aí. Trate-o com cuidado. — É o único jeito que eu sei jogar. — Vou voar para aí na segunda-feira. Me disseram que vou ter um quarto que dá para o lago de pesca. Tive informações de que Block não vai estar trazendo só o dinheiro da contrafação. — Todos eles — disse Royce imediatamente. ou outro parente. que compartilha da mesma opinião apaixonada que você tem dela. — Imagino que ele vá visitá-lo em breve. — Feche a porta. Block vai transferi-lo para fora do Canadá no grupo de excursão. Temos agentes aqui no hotel. com boas ligações. Recolocou o fone no gancho. — Xerife? — Quero saber afinal o que está acontecendo por aqui. ele recebe uma boa soma. Por um instante. agente DeWinter. Não há um jeito de limpar este lugar sem fazer com que corram risco. — Recebi um monte de besteira de Washington sobre ela estar sendo investigada. Roman apagou o cigarro. Há uma semana. — Ela quase foi morta. — Ela é inocente. ou envolvê-la no caso mais profundamente do que for necessário. Na terça. — Quero que me dê sua palavra de que Charity vai ficar fora disto. — Agradeceria muito se não me chamasse de agente por enquanto. Isto me soa muito interessante.

Seus olhos ficaram nublados. senhor. — Então. Capítulo 9 Charity dirigiu seu carro de volta para o hotel. Teriam muito sobre o que fofocar. enquanto ele tomava sua xícara de café e observava o relógio. quando estivessem sozinhas na cozinha. duas das noites mais maravilhosas de sua vida. — Você leva as coisas muito a sério. tudo bem. passo a passo. E estava certa. sabendo que Roman estaria lá. Mae e Dolores trocavam olhares através da sala. — Charity adora piqueniques. Pelo jeito como ele a apertava com força a noite inteira. Ela faz o que quer. Alguma coisa o preocupava. Mas aquilo tinha que parar. Ela podia amá-lo. pelo jeito como ele tocava seu cabelo quando pensava que ela estava dormindo. Tinha certeza que sim. como se tivesse medo de que ela. Tinha certeza de que aquela era a manhã mais linda que já vira. — O quê? — É domingo — disse. ela pensou. Ele suava e andava de um lado para outro. depois de deixar um trio de hóspedes na balsa. Era carinhoso. — Hoje é seu dia de folga. ele mal a deixava sair de perto de seus olhos. Ela sabia pelo jeito como ele a olhava. Não. enquanto ela dirigia ao longo da orla. Ele parecia estar observando. Havia momentos em que ela sentia a tensão pulsando nele. mas não queria ser mimada. Mal podia esperar para voltar ao hotel. O tempo está ótimo para um piquenique. realmente. de alguma forma. Era simples e surpreendente. com toda paciência. Ela vai estar de volta dentro de meia hora. Mas o quê? Desde o acidente. Ele preenchia seus pensamentos tão completamente quanto preenchia seu coração. — Tem algum plano? — Não. pensou. Levou um minuto. — Não é seu dia de folga? — É. — Jamais consegui não deixar aquela menina fazer qualquer coisa. ela via desmoronar as barreiras que ele colocara em torno de si. — Você tem dinamite? Dolores olhou para ele. Ele estava apaixonado por ela. arranjaria um pretexto para impedi-la. soubesse ele ou não. — Ela começou a fatiar o rosbife para sanduíches. ou na cozinha. Sim. 208 . Mae? Ele quer dinamite. a menina praticamente entrara dançando na cozinha. sempre imaginara como seria estar apaixonada. ou em nenhum outro lugar do hotel. pensou. esperando. — E está um lindo dia. se ele soubesse que ela planejava dirigir até a balsa naquela manhã. praticamente todo o tempo em que ela esteve fora.NORA ROBERTS PERIGO — Ela foi com o carro levar umas pessoas até a balsa — disse Mae e depois ficou assistindo fascinada. desde que soube que Charity não estava no escritório. Gradativamente. não é? — perguntou Mae. ela adora fazer piqueniques. eu acho. enquanto ele explodia. Ora. Fique calminho. Depois da noite mais maravilhosa de sua vida. Com o tempo. Tinha certeza de que. pudesse escapar dele. Mae pensou no jeito como Charity estava sorrindo naquela manhã. Seus sonhos acordados não chegavam nem perto do que sentia agora. Roman tinha levado algum tempo para se acalmar. — Puxa vida — disse ela. Não tirava os olhos de Roman. Sim. — Algum motivo especial para ela não poder dirigir até as balsas? — Não. O rapaz ficou nervoso demais. — Ouviu isso. E sabe de uma coisa? Acho que aquela menina não saiu deste lugar há mais de um mês. mas Dolores por fim compreendeu a piada e riu. — Ela parou o que fazia para ficar observando-o. — O que é isso? — Imagino que seja preciso dinamite para afastar Charity do hotel por um dia. Apesar de nunca ter-se considerado terrivelmente romântica. Tudo era sólido e deslumbrante. Essa era outra coisa de que ela tinha certeza. desde que começou a andar. rapaz. mais uma vez. — Por que você a deixou ir? — Eu a deixei ir? — Mae soltou uma gargalhada alta e feliz. quando o ar estava calmo novamente. mesmo quando ele estava do outro lado da sala. Parecia que cada hora que passavam juntos os aproximava mais ainda. Ela queria estar presente quando elas caíssem por completo. ela lhe mostraria que não iria para lugar algum — e que ele também não iria.

— Eu sei. se continuar andando de um lado para o outro. — Ela percebeu então que ele colocara uma PERIGO suéter preta e frouxa por cima do jeans e que carregava uma cesta de vime. pelo caminho de cascalhos. É o meu dia de folga. ela hesitou e depois forçou-se a juntarse a ele. — Trago você de volta antes do turno do jantar. quero. Charity. para verificar o tempo. — Por favor. olhou para o barco que balançava suavemente contra o cais. mas manteve a voz áspera.— Se quiser que ela faça alguma coisa. Uma conspiração. — Olá. — Está bem. vai gastar meu chão. — Mae colocou algumas coisas dentro dela para mim. Quando ele esticou a mão. — Não queria admitir que não estava pronta para entrar na água novamente. Acreditava que não. deixe-a pensar que está lhe prestando um favor. — Você está ótima — ele continuou. Vou entrar para trocar de roupa.— Tenho uma chave no meu chaveiro. — Ele fez um carinho em seu rosto. Seu rosto largo corou um pouco. Mae virou-se para ele com uma expressão decidida. 209 . A suéter vermelha e os jeans a manteriam aquecida o suficiente durante o passeio na água. se puder usá-lo. mas não conseguiu. Ela também sabia disso. — Isso mesmo. — Ela olhou para o céu. — Ela tem sorte por ter você. Você tem razão — acrescentou. Alguma vez ele teria dito "Por favor" antes?. — Não posso. Não a deixe dizer não. Com um suspiro. — Sim. já que perdia o equilíbrio. E aonde pretende ir? — Pretendo sair de barco.. — Oh — exclamou ela e jogou os cabelos para trás. — Vá até a adega e traga uma garrafa de vinho. ele caminhava em sua direção. Um vento suave. — Oh. — Eu sei. vamos. por quê? — Charity sempre adorou fazer piqueniques na água. enquanto caminhavam pelo cais. — Oi. como se não ligasse.. ele concluiu. ameaças ou ordens. — Está bem. — Ela já deveria ter voltado. — Ora. Roman. não posso. — Oi. — Ela cumprimentou-o com um sorriso e um beijo rápido. — Preciso de você comigo. — Mae já me deu uma. Satisfeita. nós temos uma à outra. — Quer fazer minha menina feliz? Ele tentou dar de ombros. quer ir até o quarto dos fundos e me trazer aquela cesta grande de vime? Rapaz. — Ela teve que respirar fundo para apoiar-se na van. num longo abraço. — Por aqui. — Vamos? — Ele já a encaminhava para o cais. Seria o mesmo que bater com a cabeça numa parede de tijolos o dia inteiro. — Isto está precisando de um pouco de manutenção. Apesar dos dois adolescentes brincando com bambolês no pátio.. enquanto cortava fatias generosas de torta de chocolate. a cesta de vime nas mãos. — Não se consegue nada com aquela garota com dinamite. ela perguntou-se. Ela me disse. Vivo me dizendo isso. Roman passou o braço em torno dela e apertou-a com força. E eu. segurando-lhe a mão. — Está um lindo dia para isso. Ele estava pronto quando ela voltou. — Então. Tempo demais. Estava contente. sim. ela se virou outra vez. mas falhou. — Eu não tive muita certeza se gostava de você quando apareceu por aqui. No exato momento em que ela punha o pé para fora da van. mas é um bom rapaz. — Ela vai estar de volta. — Por que não vamos dar uma volta de carro? Você ainda não viu as montanhas. — O que é isso? — É uma cesta — ele disse. Talvez durante uma hora. — Claro. de novo. quase não há nuvens. Você sabe manejar um barco? — Sim. Dolores. E ela não tem saído de barco há muito tempo. Tenho muita coisa para fazer esta tarde. — Então. Francês.. — Ela esperou até Roman entrar no barco. Faça-a pensar que isso é importante para você. — Já entendi.NORA ROBERTS — Uma dupla de bobos — retrucou Mae. Ela gosta de vinho francês. — Charity sentou-se no banco. — Oh. — Faça isso por mim. Precisamos passar algum tempo sozinhos. — Tentou não parecer satisfeita com essa declaração. leve-a para passear de barco o dia todo. — Ele largou a cesta para segurá-la com as mãos.

— Você não deve ter trazido uma manta. teria meu próprio escritório e. Roman tomou sua mão e puxou-a para seu lado. não acredito. duas semanas de férias pagas. olhando os outros barcos. Como a correnteza batia dos lados do barco. — Nossa. puxaram o barco para um pequeno banco de areia. ela baixou as 210 . Desligando o motor. Quando eu era garoto. — Não. — Riu um pouco e virou o rosto para o vento. — Você vai ter que me dar a mão. Tem um temperamento forte que raramente demonstra. — Ele sorriu e passou o braço pelos ombros dela. ele manobrou em direção à praia. — Sua mente imediatamente encheu-se de visões de barcaças a vapor. — Só a idéia a fazia rir. estudou seu rosto. — Obrigada. Estou vivendo com você há uma semana. ou em qualquer outra parte.. tomei a decisão errada. — O Mississippi. Louis. poderia ver à distância. com os olhos apertados e pensativos por trás das lentes escuras. e meninos em balsas de madeira. — Não. — Você não conhece muita coisa a meu respeito. ela abanou para um barco a vela.NORA ROBERTS Ele só precisou dar duas puxadas para ligar o motor. Depois de abrir a manta sobre a base das rochas que formavam uma espécie de abrigo. — Quando seus olhos encheram-se de lágrimas. — Que rio? — ela insistiu. — Sua lista? — A lista que vou preparar das coisas que quero fazer. — Tentarei ajudar. Não. — Ela saiu espirrando água para todo lado. — Eu adoraria ver. Estou faminta — disse abruptamente. — E alguma vez já levou em consideração que dedica tempo demais ao hotel? — Não. Pegue a cesta. lembra? — O Mississippi. — Ele respirou profundamente. — Ele se virou. enquanto avançava para a praia. ou. Com oito horas por dia. — Gosta de seu café preto e não tem medo do trabalho duro. Antes de sair com o barco. iria ficando louca.. Ele voltou ao barco e tirou de lá uma manta vermelha desbotada que Mae lhe dera: — Esta serve? — Maravilha. Juntos. viram uma faixa estreita de areia coberta de árvores. ele não gostaria que você sofresse para sempre. antes de inclinar-se para beijar o rosto de Roman. — Claro que conheço. ela olhou na direção do hotel. — Você deveria entender isso. — Usaria um conjunto elegante de mulher de negócios. admirando as casas. Com a cabeça inclinada. lentamente. Sei que você é muito intenso e introvertido. para você. Quando se aproximaram dela. Nunca se dá demais a algo que você ama. — Pelo que você me disse no outro dia. ela descansou a cabeça em seu ombro. Charity. — Mas ela ria e segurava a corda. e é um amante maravilhoso.. — Eu vim de St. — Se não tivesse um sentimento tão forte por ele. Louis a Nova Orleans. quando era hora. — Com uma gargalhada. Isso possivelmente pode ser comparado a se conhecer alguém em uma base casual durante seis meses. Mae dissera para ele que Charity mantinha o barco para ser usado pelo seu pessoal. Por que não é um chefe de carpintaria para alguma grande firma de construção? — Talvez.. Mas eu o amava tanto. como está fria. Depois de um momento. Sempre adorei passar a tarde aqui. Pode ser galante com pessoas idosas. sapatos adequados. — Dirija o barco para aquele lado — disse ela. — Está vendo aquela ponta de terra? Podemos ancorar o barco ali. A terra que ela apontara não passava de algumas pedras grandes e lisas que avançavam pela água. ele não pretendia. — Você quer comer? — Escolha um local. que batia em seus joelhos. — Enfiou a mão na bolsa para pegar os óculos escuros. — Você já andou muito de barco? — De tempos em tempos. pulou para a água. Se protegesse os olhos com a mão. Sabe o que seria fantástico? Fazer um cruzeiro descendo o rio. ela tirou os sapatos e começou a enrolar os jeans. Tem boas mãos e uma PERIGO mente afiada. costumávamos alugar um barco algumas vezes durante o verão e levá-lo para o rio. eu o teria vendido. — Por quê? — Por me trazer aqui. licença de doença. — Imagino que você também não sabe muito mais do que isso sobre mim. — E isso é o bastante para você? Ela levantou os ombros. Sentia muita falta disso. — Venha. Tenho que botar isso na minha lista. — Não. — Quando disse isso. — Quem são "nós"? — Ela observou que ele fechava o rosto. A água estava gelada em suas pernas nuas. É um carpinteiro excelente que gosta de terminar o trabalho que começa. com Charity guiando-o por meio de sinais. de St. aceitado um emprego em um hotel moderno em Seattle ou Miami.

a água batia na rocha. a confiança chegara. — Lori e eu costumávamos vir aqui quando éramos meninas. — Ele pegou a garrafa e levoua para mergulhá-la na água.. sentir seu coração bater forte contra seu peito. puxou-a para fora. Um barco solitário cruzou à distância.. De vez em quando. E não deixaria que ele se arrependesse disso. deixando-a alarmada. Parte de sua procedência permanece com você. Ele precisava. — Mas. ficava sentado no apartamento. olhou em volta. Seria melhor. Ele iria dizer que estava indo embora. Alguma coisa em sua voz lançou um arrepio em sua espinha. — Ela juntou as mãos.. com a cabeça entre as mãos. ela não levou você? — Acho que deve ter pensado que já seria duro o suficiente ganhar a vida sem um garoto de dez anos por perto. quebrar o contato agora. — Ele recostou-se em uma rocha. — Ora. — Mae disse que você gosta de bebida francesa. — E para onde vocês foram? — Eu disse que ela foi. arrastando-a com ele. que deveria ter sabido. verdes e espessos subindo pela colina. Então. deixando-os cair livre por suas costas.. A alguns passos de distancia. — Manteve os olhos na água. Reagindo a ambas. O desejo era como a maré. pensou. — Quando estava sóbrio o suficiente. — Está tudo bem. — Sente-se. está na hora de fazer isso. — Não mudou muito. ele pensou.. prometendo a si mesma que encontraria um jeito de fazer com que ele ficasse. — Esta é uma maneira muito gostosa de iniciar um piquenique — Charity falou. ela ameaçava ir embora. Poderiam conversar sobre o tempo.. — E a honestidade nunca foi uma de minhas prioridades. por pouco tempo. então. — Sorrindo. Louis. Havia uma agitação e uma raiva nele que ela não conseguia compreender. Ele afastou-se para segurar seu rosto com as mãos. com as velas brancas enfunadas. Seria melhor. oferecendo tudo o que ele quisesse. soltando-a em seguida. escorregando depois as mãos até segurarem seus ombros. seguido do som rouco quando ele aprofundou o beijo. Talvez isso fosse o suficiente. mas onde você está agora. — Roman. Passou as mãos por seus cabelos. ele soube que teria de contar-lhe o suficiente sobre Roman DeWinter. finalmente. — Está bem. meu bem. meu pai dirigia um táxi. PERIGO Mas os olhos estavam calmos e cheios de compreensão. — Voltou até ela e segurou-lhe a mão. Quando não estava sóbrio o suficiente. — Abriu a tampa e viu uma garrafa de champanhe. Havia os pinheiros às suas costas. Mas quando olhou dentro dos olhos dela. sua boca tornou-se mais carinhosa. quando reencontrou sua voz. — Ajoelhando-se sobre a manta. Então. Lentamente. Quando estavam com as coxas juntas. prostitutas. Ajoelhou-se. Vamos deixála gelar um pouco mais. sua boca explorava a dela. — Não importa de onde você veio. As gotas de cristal que pendiam de suas orelhas balançaram e lançaram raios de luz.— Com a sobrancelha arqueada. que subia fácil. profundos. as pessoas do hotel. sem a menor hesitação. especiais de sábados à noite. Vim de St. ela parou de ameaçar e cumpriu o que dizia. esquecido de qualquer gentileza. O barquinho balançava ao vento. Drogas. antes que as coisas tivessem ido tão longe. Durante todo esse tempo. — Gosto. a água. E havia tanto que ele não poderia dizer para ela. Não me importo. — Então. E. ela pensou. — Muito longe daqui. ela pegou a cesta. Seu gemido leve de prazer veio primeiro. — Não vou demorar muito. — Isso nem sempre é verdade. impacientemente soltando-os. Mas nunca tomei champanhe em piqueniques. Eu vivia num bairro que você nem conseguiria entender. antes que ela pudesse continuar sua exploração da cesta. — Não tenho sido justo com você. precisava abraçá-la forte daquele jeito para que sentisse o gosto da paixão em seus lábios. Roman. Para comer sanduíches de pasta de amendoim e falar sobre garotos.NORA ROBERTS pernas úmidas de seus jeans. pensou. Ela passou os braços em torno dele. 211 . para que ela pudesse fazer uma escolha. Uma de minhas primeiras lembranças é a de acordar à noite com minha mãe gritando com ele. abraçou-a carinhosamente e beijou-a. — Fechou a mão sobre a dela. ele apenas a abraçava suavemente. Até que. ele melhorava um pouco. enterrando-a na areia do fundo.— Parece que vamos fazer mesmo um piquenique. — Acho que as melhores coisas não mudam. — Não consigo ter o bastante de você. se ele simplesmente deixasse que ela pegasse os sanduíches. Existem coisas a meu respeito que você deve saber. ela apertou-se contra ele. e certamente mais seguro. que tinha sido erodida pelo vento e pelo tempo. Vivíamos na beira do vulcão até ele parar no próximo bar e tomar uma bebida.

Estávamos construindo mais um quarto. — Roman.. — Você tem de compreender que nem todos amam incondicionalmente. Nunca mais fui capaz de recuperá-la. Eu sabia o que estava fazendo. — Com 13 anos? — E foi onde vivi a maior parte da minha vida. — Ele já ia se afastando. Depois de alguns anos. — Nunca mais a vi — disse Roman. — Ele só tinha 25 anos quando o conheci. — E isso matou alguma coisa dentro de mim. jogando o cigarro na água. Era difícil para ela compreender como uma mãe pudesse abandonar um filho. Matou-se juntamente com seu passageiro. mas ele sacudiu a cabeça. — Eu era um ladrão. eu daria o fora com o que pudesse levar. Primeira: poderia me entregar para a polícia de delinqüentes juvenis. ele comprou uma casa velha nos subúrbios. — Eu compreendo. Havia crescido no lado sul da cidade. eu não era um pobre jovem desajustado.. e segurou-lhe as mãos. — Não sei quem ficou mais surpreso. — Ela tentou aproximar-se. quando conseguia arranjar. PERIGO Ele fez uma pausa por um momento. — Aceitei trabalhos estranhos. Ele era um policial. — Ele deve ter sido um homem maravilhoso. mal conseguindo aceitar tudo aquilo. — Continuei dizendo a mim mesmo que iria pegar o que pudesse e dar o fora. Escolhi fazer isso. — Mas como? Ele tirou um cigarro do maço. Mas o que soube em seguida foi que ele me mandou para a escola. e fui para as ruas. Deixou um filho de três anos e uma mulher grávida. — Roman fez outra pausa. ele pensou. Ele me deu três escolhas. Ela estava romantizando. E você não me parece imbecil Roman. — Ele costumava construir coisas no porão do prédio.. antes de pegar o táxi. no cumprimento do dever. sinto muito. deitado naquele sofá cheio de calombos. — Ela devia estar muito confusa e assustada. ainda conseguia ver-se. quando ele foi morto.NORA ROBERTS Charity sacudiu a cabeça e lutou contra uma profunda raiva interior. — Olhando para trás. fiquei tão bom no ato de roubar que nem pensava mais em arranjar trabalhos decentes. alguma coisa vai estar sempre faltando. Terceira: ele poderia me dar alguma coisa para comer. E conseguiu. Era janeiro e fazia tanto frio que nossos olhos ficavam secos. Tomei uma lata de sopa. Uma noite. E me ensinou a usar o martelo. quando percebesse. Invadi o apartamento dele e acabei com uma 45 apontada para meu rosto. E decidiu que iria me modificar também. Nós a consertamos quarto a quarto. Estava sozinho e desesperado. Ele costumava dizer que não havia nada de que ele gostasse mais do que de viver em uma zona de construção. para fitar o céu. — O que você fez? — É difícil jogar duro quando um homem de quase 100 quilos está apontando uma 45 para seu peito. Decidi que tinha de arranjar dinheiro suficiente para pegar um ônibus para o sul. Ela manteve os olhos presos aos dele. pegava bolsas. antes de decidir-se a contarlhe o resto. roubava carros. Mas não fiz isso. alguns anos depois. Quando se casou. — Se espera que eu condene uma criança por encontrar um meio de sobreviver. Foi quando conheci John Brody. acendeu-o e tragou profundamente antes de continuar. Em determinado momento. Roubava. Ela já estava apavorada com o que ele havia lhe contado. Roman. — A lembrança daquele momento ainda o fazia rir. tinha virado a mesa. meu Deus. — Compreendo. Assaltava casas. Tinha 32 anos. Entenda. lutando contra a necessidade que sentia de apertá-lo entre seus braços. Quando se perde alguém que foi uma parte tão importante de nossa vida. mas ele a afastou. Pensei em passar o inverno na Flórida para assaltar os turistas ricos. — Ela desejou abraçá-lo. Ele me deixou dormir no sofá. vou ter que desapontá-lo. — Você ainda rouba? — E se eu lhe dissesse que sim? — Eu teria que dizer que você é um imbecil. Fiquei dizendo a mim mesmo que ele era um coração-mole e que. — Isso me colocou sob a guarda da corte.. Acabara de fazer 16 anos.. Compreende o que estou lhe dizendo? — Sim. Charity. ele bebeu muito gim. era para ser sua oficina. Segunda: podia me dar uma surra. magrinho e cheio de amargura. — Oh. quando não arranjava. em alguns aspectos. — Eu estava em Chicago. E quando ela.. Não gostei nada disso. — Ela se aproximou. no meio de gangues. Nem todos amam de verdade. Deixei de ser um garoto quando voltei para casa e encontrei meu pai desmaiado e soube que minha mãe tinha ido embora. mas Charity puxou-o para si. — Oh. Charity. Ainda 212 . — Fiquei com meu pai mais três anos.

um ministro. que possa nos casar.. — Quero que me pertença. de onde vim. nem consigo pensar. Mas havia uma coisa que podia dizer-lhe. — Há uma semana. havia uma outra coisa que nunca dissera para ninguém.— Quero estar a seu lado sabendo que estou bonita. — Bem.. sabia que tinha de arranjar um jeito de não perdê-la. afinal percebeu. porque queria dizer tantas coisas mais para ele. — Você quer se casar comigo? Ela riu. Ainda pode mudar de idéia. Não vou mudar de idéia sobre estar apaixonada por você. — De quanto tempo você precisa? — Você me dá duas semanas? Ele tinha medo de dar-lhe dois dias. e ele sabia disso. Para sua própria segurança. é verdade mesmo. apertando muito os olhos para evitar que as lágrimas saíssem. Ele segurou-a pelos ombros e sacudiu-a. desejando que ele compreendesse. estamos falando de casamento. — Você me surpreendeu agora. Acredita nisso? — Sim. poderia facilmente acostumar-se a dizê-lo várias vezes por dia. — Ela levou a mão à cabeça. — Acho que todo mundo diz isso. Só pretendo fazer isso uma vez. disse para si mesmo. ainda teria que enganá-la durante mais alguns dias. de uma vida inteira. — E agora não posso imaginar minha vida sem você. — Então. sim. pressionou o rosto em seus ombros. quando a levantou novamente. — Não faça isso. Assim como a história que ele acabara de contar. Ainda não. — Nada de mas. quem eu fui? — Não muito. criou pensamentos ainda mais felizes em sua mente. que girava. Sim.. — É claro. não é? De onde vim. Às vezes. Não se trata de uma cauda longa e branca e de convites impressos. Tem que começar com mais do que algumas palavras diante de um oficial. e não consigo pensar em nada que eu queira mais do que pertencer a você. Seus olhos ficaram enormes. Estou mais interessada no que você é agora. então. como preciso pertencer a você. — Você. E amigos. um juiz de paz. engoliu em seco. — Ela ajeitou seus cabelos e sentou-se novamente. está bem?— Encantada. Ele nunca seria capaz de dizer-lhe se ainda houvesse mentiras entre eles. Eu era um ladrão. Na realidade. — Me abrace só um momento. e disse: — Você pode dizer isso de novo? — Eu te amo. hoje. agora. Prometo. Charity. Com um soluço abafado. e quero que compreenda que eu te amo. suficiente para respirar profundamente. Quando eu me casar com você. Suas mãos amoleceram entre as dele. — Preso de uma súbita sensação de urgência. Não tinha sido tão difícil dizer. Não queria ficar com os olhos vermelhos nem chorosos no momento mais lindo e emocionante de sua vida.NORA ROBERTS penso no meu avô o tempo todo. isso vai ter que ser mais do que sair correndo para o juiz de paz e dizer: aceito. — Ela fez uma pausa enorme. ele agarrou suas mãos. — Não consigo acreditar que isto esteja acontecendo. Meu Deus. para que todos possam ver como estou orgulhosa de ser sua esposa. — Roman.. do que se trata? — Quero flores e música. ela lançou-se em seus braços. Roman. — Você deve conhecer alguém. por favor — disse. — De maneira alguma. Espere. Veja quem eu fui. — Você era uma criança. — Puxou-a contra o peito e. as licenças. Mesmo assim. antes que ele pudesse falar novamente. — Ele fechou sua boca com a dele. depois sentou-se dura. — Quero que você me prometa isso. — O quê? O quê? — Quero que você se case comigo. Se isso lhe parece incrivelmente romântico. fico zangada. Só diga que sim. Meu Deus. — Você vai deixando pedaços para trás. — Ela tomou seu rosto entre as mãos. Não iria chorar. — Mas ele estava sorrindo. — Eu também não. — Eu te amo. Isso ainda me deixa triste. — E eu que nem sei quem era o meu pai! Devo me envergonhar disso? — Isso não importa para você.. ela tocou o rosto dele num carinho. Estava errado. Mas assim seria melhor. mas. — Vou cobrar isto de você. — Existe a papelada. eu nem o conhecia. — Meu pai era um bêbado. 213 . mas preciso acreditar. — Ela inclinou a cabeça até seus lábios se unirem aos dele. — Não pense. — Sem fôlego. Conseguia sentir a sensação deliciosa que percorria seu corpo enquanto ele acariciava-lhe os cabelos. mas. PERIGO — Está bem. Também não preciso ter um casamento enorme e luxuoso. Mas ele não podia dizer-lhe quem era. disse para si mesma. — Era uma loucura.. — Prometa.

— Febre da primavera? — Pode chamar assim. ela encolheu os ombros. escolher o vestido adequado? Teria que ser o vestido certo. Esta é outra promessa. — Parece que você também andou lutando. Charity. Um motorista idiota quase me atropelou. o que mais desejaria seria que todos. — Block fez uma reação de desgosto. encontrando um biscoito que tinha sobrado para um bebê chorão e esperando que a primeira fúria passasse. 214 . — Sofri um pequeno acidente na semana passada. — Para onde? — Deixe isso comigo. — Ela jogou os cabelos para trás. para dizer a verdade. — Duas semanas. aborrecida por não tê-lo trançado naquela manhã. Quando se sentaram juntos na manta. Não se espera uma coisa dessas por aqui. — Ele deu um tapinha em sua mão. — Observando-a cuidadosamente. — Você ainda nem comeu nada. — Estamos um pouco atrasados. ele soltou a tampa com um estalido. O coitado do Bob está lutando com ele desde ontem. — E deu-lhe um panfleto. — Eu farei você feliz. logo que ficou sóbrio. no entanto. — Ela beijou-o no rosto e sorriu novamente. Imagino que ele tenha saído da ilha. — Seus lábios procuraram os dele. — Aos novos começos — disse ela. — Sem problema. Ela levou a mão ao ferimento já bastante cicatrizado de sua testa.. respondendo as perguntas.. Ele queria acreditar que aquilo pudesse acontecer. — E. Havia uma boutique em Eastsound que era especializada em roupas antigas. — Motoristas bêbados. — Ele segurou-lhe as mãos firmemente entre as dele. — Acho que não estou aqui esta manhã. — Bem. — Posso imaginar. — Você já me faz. não. você tem o direito de estar distraída depois de um incidente desses. ela se levantou. Só quero uns poucos dias para fazer tudo direito. verdade. os problemas e a pressão saudável das pessoas que provocavam o sucesso do hotel. quando sua cabeça estava cheia de planos para o casamento. — Nada sério? — Não. para nós dois. Naquele momento. — Este é o melhor piquenique que já fiz. tocando seu copo no dele. — Você ficou muito ferida? — Não. Era difícil manter os pensamentos nos negócios que estavam à sua frente. Charity fez o que sempre fazia. ainda não. Os dois entrelaçaram as mãos e ficaram olhando o horizonte. — Você faz as coisas parecerem como se fôssemos vencer algum desastre natural nesse meio-tempo. Roger. duvido que o peguem. — Não. — Vai ser o certo. o vestido perfeito. O computador está com problemas de novo. — Quem precisa de comida? — Com um suspiro. — Como o acidente já era coisa do passado.. enquanto ele retirava a garrafa da água. só inconveniente. ele ficou mais sério. Ele beijou o alto de sua cabeça. E gostaria de tomar aquele champanhe agora. depois disso. senhor. Era a primeira a admitir que geralmente florescia com aquele barulho. mas todos mesmo. Roman. Será que o tempo continuaria bom para que pudessem fazer a cerimônia nos jardins. você for embora comigo. acompanhando os hóspedes a seus quartos e cabanas. Desde que estivesse cheirando a flor-de-laranjeira. já estivessem acomodados. pelo menos. Qualquer coisa na altura dos tornozelos. quando ela assinou a lista. ou seria melhor planejar um casamento íntimo e aconchegante na sala de estar? — Sim. — Ela ajeitou-se para ficar encostadinha nele.NORA ROBERTS — Eu lhe dou duas semanas. — Você não vai assinar? — Desculpe. O susto foi maior do que os ferimentos. Ela pegou as taças. a cabeça apoiada em seu ombro. teria sorte se se lembrasse de seu próprio nome. — Charity voltou a se concentrar e sorriu-lhe como que pedindo desculpas. e você foi minha maior surpresa até agora. — Não importa o que acontecer. — Que terrível. com alguns toques suaves de renda. Capítulo 10 O registro no hotel na terça-feira foi tão caótico quanto seria de se esperar.. Se ela ao menos. Terei muito prazer em dar-lhe informações sobre as bicicletas para alugar. — Adoro surpresas. só alguns pontos e alguns hematomas. se. PERIGO Deveria colocar Chopin ou Beethoven? Mal tinha começado sua lista de seleções. — E você. Espero que o tenham apanhado. Quando ela teria uma tarde livre para.

— Com um aceno alegre. DeWinter. Ford fora do quadro. Conby terminou de arrumar suas escovas de roupas com acabamento de ébano e calçadeira na cômoda de carvalho. — Está perdendo seu foco neste caso. Conby caminhou para o banheiro adjacente para lavar as mãos. — Olhou o cinturão de instrumentos de Roman. Richard Conby. Conby ouviu uma batida na porta e abriu-a. Este foi muito grande. poderia ter tido sucesso. Block decidiu ter uma longa conversa com Bob sobre o sujeito. Farei isso. — Conby libertou-se de Roman e ajeitou a camisa. — Ela deu a volta à escrivaninha e mostrou-lhe o caminho para a escada. Roman levantou Conby até este ficar nas pontas dos pés. — Você está excessivamente interessado em um bandido pequeno. terei o prazer de mostrar-lhe seu quarto. — Como foi de viagem? — Sem novidades. — Soube que seu hotel é tranqüilo. veio de St. — Conseguiu uma confissão? — Sim. — Ele deu uma olhada rápida pelo hall. — Quem é o sortudo? — Roman DeWinter. O romance explicava muita coisa. — De qualquer maneira. — Ora. grande demais para deixar que seus sentimentos pessoais interferissem. tenho um motivo muito mais agradável. Conby. enquanto cruzava para a portaria. obrigado — disse Conby. Nos cinco anos. agente DeWinter. prometo manter a cabeça no trabalho. bordada com flores. Uma soma muito baixa para um assassinato. — Bom dia. — Cuidado com o que fala — disse suavemente. não é? — E continuou a sorrir. — Vou andar um pouco com eles. — Ele admitiu ter se encontrado com Block na semana passada e de levar 5 mil para botar a Srta. — Dupont está na cabana 3. desde que tinha sido superior de Roman. pelo que vejo. — Você sabe que eu jamais deixaria o hotel. de cabelos castanhos bem cortados. PERIGO — Se me permite. Peça que estejam todos no estacionamento ao meio-dia. Era só olhar para o rosto de Charity para não ter mais qualquer dúvida. — Com toda certeza. — Satisfeito. colocando seu endereço como sendo em Seattle. Acho que tenho um reserva. — Pois espero que ele não tire você de nós. — Bom dia. Ele está fazendo umas reformas lá em cima. — Estou certa de que vai achar o hotel bastante relaxante. mas isso é ótimo. Nós o esperávamos. Pegando-o pelo colarinho. — Seu sorriso diminuiu um pouco. — Conby desdobrou uma toalha branca de mão. Louis. — Ele é daqui mesmo? — Não. Se tiver alguma pergunta sobre o hotel. Conby. — Assinou o registro. — Nós vamos nos mudar na quinta de manhã como planejamos. acompanhando-a. usando uma camisa esporte. Roger. e levá-lo antes que ele acerte com Block. forte. — Anda ocupado. 215 . achara seus métodos violentos e sua atitude arrogante. — E o motorista do carro que tentou matar Charity? Sempre entediado. — Abriu uma gaveta para pegar uma chave. Estou querendo relaxar por um ou dois dias. Não sei se já o conheceu. ou sobre a ilha. Viu um homem baixo.NORA ROBERTS — Na verdade. fique à vontade e pode perguntar para mim ou para qualquer um dos funcionários. ele saiu. — Posso conseguir que estejam na marina ao meio-dia. Conby passou a toalha pela borda da pia. — Muito bem. — Não diga! — Seu rosto abriu-se num enorme sorriso. Aquela era uma coisa sobre a qual ela e Roman não tinham falado. Roger. — Se Block tivesse sido mais cuidadoso. — Ou Roman ou eu levaremos seu grupo para a marina. Sr. — Acho que é mais adequado que eu diga isso para você. — Conby. — Sim. — Pontual como sempre. O problema era que seus resultados eram geralmente excelentes. na verdade. Sr. Charity ficou tão divertida quanto impressionada por suas mãos bem manicuradas. Trazia uma pequena valise de couro. Vou me casar daqui a algumas semanas. — Com as mãos secas. Exatamente ao meio-dia e cinco. — Ela deu uma olhada rápida no relógio. Conby decidiu esquecer o sarcasmo. Você tem seis pessoas que querem alugar barcos. antes de voltar para o quarto. — Pode deixar. A porta do hotel abriu-se e Charity olhou. — Fez a identificação positiva? — Ajudei-o a carregar as malas. — Charity procurou entre os papéis da portaria e fez uma reza rápida para que Bob tivesse o computador funcionando no final do dia. repousante.

NORA ROBERTS — Não. Pode levar um pouco mais de tempo para a história colar. — Já que aparentemente isto é tão importante para você. — Você apareceu na hora certa. continuando. — Mas que hora a Lori escolheu para ficar doente. — Rindo. Opa! — Deu um saltinho para trás para não esbarrar em Roman. menina — aconselhou Mae. — Com um arrepio. estamos com sorte de ter uma camareira ainda de pé. afinal. existe menos risco de pôr gente inocente em perigo. — Quatro saladas da casa. Quantos nós temos? — Temos dois agentes chegando amanhã. mas existe uma diferença entre estar sentado atrás de uma mesa e ligando para os capangas no campo. temos aquele homenzinho de terno de três peças. você não precisou da dinamite. — Você acha?— Roman permitiu-se um pequeno sorriso pela descrição de Conby. olhando-o por cima do ombro. e Block no hall. Quanto às acusações de conspiração. Se alguma coisa acontecer com ela. — E apressou-se para preparar ela mesma as bebidas. — Dois especiais com arroz selvagem. Do jeito que esse vírus está se espalhando. você será o responsável. — Essa menina me deixa cansada só de olhar para ela — comentou Mae enquanto fatiava uma truta. — Uma doninha muito bem-vestida — acrescentou ela. — Como assim? — Há um homem na mesa 2. Quando foi que tivemos uma noite de quarta-feira tão lotada? — perguntou ela. Pois passam mais tempo olhando para os outros hóspedes do que um para o outro. — Vamos com calma. — Não sei como as coisas podem sair de controle tão rapidamente. — Precisa de ajuda? — Preciso de duas. Concorda? — Sim. Roman não disse nada. De terno e gravata — acrescentou. — Qualquer pessoa muito arrumada me dá arrepios. Estou levando um tempo talvez demasiado. — Parece que. Ou os funcionários — acrescentou. Parece uma doninha. — Tenho minhas ordens sobre este caso. Você já tem o suficiente sobre Block para prendê-lo por conspiração de assassinato. 216 . sem creme. mas estou completamente focalizado. Conby. — Parece que ela faz tudo correndo demais. As saladas que Dolores está preparando são para a mesa 5. sentado à mesa 4. e a doninha estava sentada no seu setor. PERIGO — Esse é o problema. foi o que disse. continuou a preparar o pedido seguinte. Dupont está praticamente amarrado. — Não tenho a menor intenção de fazer nenhum dos hóspedes correr perigo. temos a palavra de um atirador contratado. e mais dois como suporte. — Eles não vão a lugar algum antes de comer. — Diz que é de Seattle e tem um sotaque do leste que dá até para cortar a torta de maçã da Mae. supostamente. as coisas deverão acontecer com muita calma. Está tão assustado que era de se imaginar que ele assaltou um banco ou coisa parecida. Charity dirigiu-se à cozinha com uma bandeja cheia. ele passou por Charity pela porta de novo. Mas o dever era o dever. Depois. pegando seu bloco. qualquer coisa. Avançar em Dupont mais cedo sem dúvida livraria Block. — Ambos sabemos quem é que está encarregado. — Veio para relaxar. está em sua segunda lua-de-mel. Por que esperar? — Não quero me dar ao trabalho de lembrá-lo quem está dirigindo este caso. Ela reparara em Dupont e em dois dos agentes de Conby em menos de 30 minutos. Levantou a cabeça tempo suficiente para que seus olhos cruzassem com os de Roman. Cinco minutos depois. silenciosamente. — Sorriu e aproveitou um tempinho para debruçar por cima da bandeja para beijá-lo. Estamos trabalhando nisto com as autoridades canadenses e é assim que vamos proceder. eu lhe digo que pretendemos pegar Block quando ele passar o dinheiro. pensando que sabia onde estaria a mente de Roman. — Você fará com que cole. — Ela encheu a bandeja. Pegamos o Dupont em sua cabine. — O senhor deseja pedir já? — perguntou a Conby com um lindo sorriso. — Como você já tomou os procedimentos sobre a minha saída. um com batata assada. — Depois. — Que bando de gente estranha o desta noite — ela murmurou. — Acho bom. — Dolores estava cantarolando a marcha nupcial quando passou a bandeja para ele. — Tirou um lenço limpo da gaveta. ela se dirigiu novamente para a sala de jantar. e uma porção infantil de costeletas com batatas fritas. ela equilibrou a bandeja no quadril. — Verifique você mesmo. Se os pegarmos agora. — Desculpe. exatamente como você. Quem pode relaxar com um terno de três peças? — E. temos um casal na mesa 8 que.

— Ela parou por um momento.. O bar era tão bom quanto qualquer outro da ilha. quando Roman levantou-a do chão. — Soltou uma gargalhada. na frente dele. — Perdi alguma coisa? — perguntou Roman.. chegou à número 4 e segurou a bandeja diante do nariz de Conby. lutando contra seu mau humor. — Dolores cobriu a boca com a mão. — O que foi que ele comeu? — Ele ainda não comeu nada. Mae voltou para o fogão. oh. — Charity baixou o bloco. e exultou. — Mae bateu o pé. pensou Conby. duas torradinhas com molho de salmão e já está criticando nosso restaurante. — Com toda certeza. — Aquele homem é muito audacioso por dizer que a comida é monótona antes mesmo de prová-la. — Puxa. — Sim. Uma colherada bem cheia. com cuidado. Nenhuma maravilha urbana vai entrar em seu hotel e botá-lo abaixo.. — Fresca por ter vindo de navio esta manhã. Alguns dos comensais olharam e ficaram estarrecidos quando a viram carregando aquele peixe vivo pela sala. — Dolores murmurou. Um drinque.. — O cardápio diz que a truta está fresca. Era passável. primeiro. — O sujeito da mesa 4 quer outro martíni de vodca — anunciou Roman. nosso cardápio é medíocre e que nosso peixe não é fresco. aquela figurinha insultante naquela mesa me disse que nossa vodca está abaixo do padrão. — Um cardápio medíocre. com as mãos nos quadris. pensou.NORA ROBERTS Ele tomou o último gole de seu martíni de vodca. seu conceito de frescor pode diferir do meu. mas tenho minhas dúvidas de ela ser fresca ou não. — Temos nosso próprio estoque aqui no lago do hotel. Mae? 217 . — Não. Sacudindo a cabeça. parece ser o prato mais interessante de seu cardápio. Passando pelas mesas. — Pois tenho outra coisinha para dar para ele. pulava uma truta muito confusa. portanto vou ter que pedi-la. ele a seguiu. — Ela sentia um orgulho particular nisso. Ainda carregava uma bandeja e. — Estou certo de que o considera fresco. Quando Charity voltou para a cozinha. senhor. quando ele e o peixe olharam-se mutuamente. — Oh. mas era bastante eficiente. — Beijou-a com fervor durante bastante tempo. quando ele a puxou para um abraço. — No meu cérebro. — Charity — Roman tentou segurá-la pelo braço. mas manteve o sorriso no lugar. — Estou com vontade de acrescentar curry nesta entrada. — Não é. — O peixe — repetiu Charity. apesar de tudo. — É absolutamente a melhor. ela entrou na sala de depósito e saiu logo em seguida. Vamos ver se ele acha monótona. entregou a bandeja com o peixe para Dolores. — Isso mesmo — disse. — Você é a melhor. Teria trocado um ano de seu salário por uma foto da expressão no rosto de Conby. — Furiosa Mae jogou uma porção de aspargos em um prato. sem a menor cerimônia. — Ela recolocou o bloco no bolso. suponho. — A mesa número 4 decidiu pedir costeletas de porco à milanesa. — O senhor me dá licença um instante? Ela poderia ser inocente.. com sapato de sola de crepe. — Ainda continuava rindo.. — Pode botar este de novo no lago — disse. o restaurante tinha sido qualificado como triplo A e o peixe. — Minha nossa! Sorrindo. sobre ela. olhando para o copo vazio. senhor. — Ele quer mesmo? — Ele não se lembrava de ter visto aquele tipo de brilho em seus olhos. enquanto carregava uma bandeja cheia. Charity deu uma volta pela cozinha. com o que considerou uma calma admirável — está fresco. ele bateu com o dedo contra o copo vazio. Roman assistia a tudo com as mãos enfiadas nos bolsos. senhor.. Gostaria de ter um porco à mão. PERIGO — Quer mesmo? — Charity fez uma curva quase que completa. Todos se viraram quando Charity voltou para a cozinha. Na passagem em forma de arco. — Onde é o incêndio? — Mae quis saber quando Charity entrou na cozinha furiosa. — Sim. — Largou a travessa. Levantando uma sobrancelha. Mas. mas ela livrou-se dele e saiu rapidamente pela porta. O lago de trutas tinha sido idéia dela. — Seu peixe pode ser superior à sua vodca. — Está bastante fresco? — perguntou com um sorriso educado. — Aquele. No entanto. Assim dizendo. — Sua truta.. dando risadinhas.

— Você tem um bom ouvido. — Se eu soubesse que isto estava me esperando. Mas ele gostou. Sr. Trabalho em marketing. Fui transferido para Seattle há 18 meses. — Você disse que gostava de surpresas. Chegou a sorrir para ela. — Talvez o senhor volte uma outra ocasião e queira provar nossa truta. posta para dois. Ele parecia quente e dourado à luz das velas. Conby pensou durante alguns segundos. mas há um telefonema para você. — Está bem. — Não sou muito bom com gestos românticos. De Maryland. rodeou a lateral do prédio e subiu a escada do lado de fora. — Decidida a perdoar e esquecer. — Acho que é melhor preparar aquele martíni agora. ela serviu-lhe outro café. mal pôde acreditar no que via. distraindo parte de seu grupo de turistas com histórias que Conby considerava muito sem graça. Percebendo que ele não pedira a sobremesa. — Deixaram um número para emergências. enquanto o servia de café. — O bolo rico e o café suave abrandaram seu humor. Volto em dez minutos. — Desamarrando o avental. quando afastou os cabelos desalinhados da testa. Abriu a geladeira e procurou alguma coisa para comer. está bem. de Mae. Já que Charity não gostava de guardar raivas. — Estava muito boa. vocês dois parem de fazer gracinhas na minha cozinha e voltem ao trabalho. mas Mae fechou-a novamente. correu pelo depósito. Sr. — O senhor é um bom jogador. — Já estão fechados agora. obrigado. apertando-a e tentando não se lembrar de que aquela seria a última noite juntos. como gentileza da casa. — Obrigada — murmurou ela. tratou Conby com toda atenção e serviu-o alegremente. durante toda a refeição. Vive há muito tempo em Seattle. — Maryland. Até mesmo para Conby era difícil resistir a seu sorriso. antes que todas as perguntas fossem respondidas. — Pode fazer dois sanduíches. Conby. Droga. Sr. Conby. flores.NORA ROBERTS — Ela tem seus momentos. Parece do leste. Sabia que Dupont já tinha saído do restaurante. teria chegado aqui há mais tempo. Conby observou-a afastando-se. — Espero que tenha apreciado sua refeição. — Dizem que lá estão os melhores caranguejos. — E estou morrendo de fome. Brindou-o com um sorriso. Para ganhar tempo. nem mesmo nos melhores restaurantes de Washington. O recado está lá em cima. — Você não tem tempo. — Ela virou o relógio para olhar as horas. — Havia tanto a surpresa como delícia em seus olhos. — Eu queria lhe dar uma coisa. Ela se recostou na porta fechada. — Gosto muito. dirigiu-se para a mesa. — Tentamos. Ele parecia estar precisando de uma bebida. — Sim. A senhorita dirige um estabelecimento muito interessante.— É uma pena eu não ter trazido um comigo. Charity colocou uma amigável mão sobre seu braço. e uma toalha branca sobre a mesa aos pés da cama. — Vou fazer um sanduíche para você. — Lançou um longo olhar para a geladeira. Qualquer coisa sobre a entrega de amanhã. Aproveite bem sua noite. — Ele segurou-lhe a mão. — Agora. mal tive tempo de comer uma batatinha frita. A música estava ligada baixo. mas Block continuava em uma mesa próxima. — Pensei que não fosse chegar nunca. Conby? Ele continuou a servir-se de leite em seu café. Havia luz de velas e. também. — Não tenho tempo? — Charity pressionou o estômago. — Garanto a você que é verdade. — Ainda não queria demonstrar o quanto gostava de vê-los rindo um para o outro. Charity levantou seu rosto para um último beijo. enquanto ele servia o vinho. do jeito que as coisas correram esta noite. levou para ele uma porção do bolo Floresta Negra. — O salmão. Enquanto olhava. 218 . acho. Roman pegou uma garrafa de vinho de um balde de gelo e tirou a rolha. PERIGO Com os lábios apertados. mas estava com a guarda levantada. Não conseguia lembrar-se de ninguém que o acusasse de ser um bom jogador antes. Rindo. Quando abriu a porta. — Mae. — Só temos mais três mesas de retardatários — anunciou Charity quando entrou na cozinha. — Talvez. Era impossível ele não ter que admitir que nunca comera tão bem em sua vida. quando ele lhe ofereceu uma taça. — Por que pergunta? — Seu sotaque.

Piqueniques com champanhe. — Preciso um pouco de prática. mas não foi quando me apaixonei por você. Um pneu. — Chegou hoje. — Ela fechou os olhos por um momento. PERIGO — Sim. toda a verdade. — Sabe quando me apaixonei por você. Ela passou a língua por seu rosto. fiz um círculo em torno dela. E estava certa. deixando que a música. — Ela riu. pensou. aconteceria sem eu ter que me preocupar ou me preparar muito. — Sim. esta é uma coisa maravilhosa. — Completamente deslumbrada. ela concordou. — Foi assim? — Nunca tinha pensado antes em me apaixonar e me casar. — Não. — Ele tirou o bracelete da caixa e colocou-o em seu braço. delicadamente. ceias tarde da noite. — Seu jantar está esfriando. Tudo. buscando seus lábios com os dele. Porque vovô estava doente e por causa do hotel. Ela olhou para a mesa. aquele momento. pelos seus cabelos. Surpresa.. Colocou a caixa em sua mão. não. Ele abraçou-a. — Ela passou os braços em torno dele e recostou o rosto no ombro dele. — Assim mesmo.. diante de sua expressão surpresa. Sempre achei que se um dia acontecesse. — Respirou profundamente. — E você lamenta? — Sobre muitas coisas. — Ele abaixou-se até o assento da cadeira e pegou uma caixinha quadrada. — Ele daria qualquer coisa para poder contar tudo para ela. meiga e muito romântica que você fez.. — Tenho pensado mais em por que do que quando. — Era o melhor que podia fazer. — Ele a soltou. ela reclinou a cabeça. — Acho que não posso chamar de amor à primeira vista. mas não sobre estar apaixonado por você. sentindo-se tolamente nervoso. levou um tempo estudando e sacudindo a caixa. — Roman. — Tenho uma coisa para você. — Então. como acho que todo mundo pensa. seu cheiro. mas. já que o conhecia há dois ou três minutos. Como tudo tinha sido arranjado. Mas no momento em que levantou a tampa. Qualquer coisa. Roman? — Não. — Beijou o alto de sua cabeça. Roman lembrou. — Suspirando. descendo pelo pescoço. Mas isso foi quando percebi. ela apertou-se contra ele. — Tudo o que tive que fazer foi ter um pneu furado. O resto foi fácil. — Nunca pretendi que nada disso acontecesse — ele disse cuidadosamente. portanto. Ele correu a mão sobre seu rosto. — Acho que você tem experiência demais. — Uniu as mãos às dele. de olhos fechados. — Estava na sua escrivaninha. — Oh. Roman. — Ela correu suas mãos pelo peito dele e começou a brincar com o primeiro botão de sua camisa. — Nunca quis sentir isto por ninguém. — É absolutamente fantástica — repetiu. — Um presente? — Ela sempre gostara mais da antecipação do que do próprio presente. Na semana passada — lembrou-se. ela revirou a pulseira de ouro. As coisas poderiam ser diferentes para ela. — Acho que foi quando você dançou comigo e me beijou até que todos os ossos de meu corpo virassem geléia. apertando os dedos com mais força. — Assim? Ele virou a cabeça. para ele alcançar melhor seu pescoço. — Quer jogar Parcheesi? — Não. deixou-a em brasa. assim como sua necessidade urgente de um ajudante também fora arranjada. E. Ela desabotoou o primeiro botão e continuou lentamente. — Ela recostou-se totalmente sobre ele.. Com um sorrisinho. não estrague. lavassem sua alma. Faço isso com coisas lindas que sei que nunca vou comprar. — Em uma das revistas que Lori me trouxe. — Mais alguma coisa? — Sim. você é muito bom nisso. poderíamos chamar esta de a ceia da meia-noite. mas sabia que o alheamento representaria sua segurança. — Mozart. Lembra de quando me perguntou sobre o estepe? — O quê? — O estepe. tirou um lindo bracelete. — Scrabble? 219 . observando o brilho que a luz arrancava do metal com a ametista quadrada. — Você queria saber onde estava o estepe para trocar o pneu furado. — Charity. exceto ele se apaixonar por ela. jogando a cabeça para trás. que tinha sido deliberadamente arranjado. — Escolhido ao acaso — admitiu. é maravilhoso. Ele podia ser diferente para ela. desabotoando até embaixo.NORA ROBERTS — Oh. — Se encontrássemos qualquer coisa para fazer durante uma hora. — Juraria ter visto isto antes.

Tão desesperada quanto ele. enquanto ele a penetrava. As mãos dela. Seu nome formou-se de novo nos lábios dela várias vezes. — Eu sei. eles corriam. livre de tudo a não ser das sensações. algumas palavras loucas e frenéticas. agarrou-se aos jeans dele. Ela sentia sensações selvagens e estranhas. Sem forças para enfrentá-lo. Talvez fossem promessas. quentes. tão confiantes há um minuto. gemendo alto. Esta não era aquela paixão carinhosa. Muito além da loucura. levando-o ao delírio total. Era habilidosa o suficiente para ter a certeza de que estava encurralada por seus próprios sentidos. eles se uniram. tremendo. como se estivesse dentro de um redemoinho em um túnel escuro e sem fim. E só tinha aquela noite. ainda estavam abraçados. Mas aquela noite foi diferente. Se aquilo era um jogo. Seus pensamentos calorosos de seduzi-lo desapareceram quando ele agarrou sua cabeça puxando-a para trás. Deixando-se levar por aquela sensação. enquanto sugava seus seios com força. A mente estava vazia. Ela agarrou-se a ele. atormentando-a até o limite. prendendo-os acima de sua cabeça. saboreando freneticamente cada centímetro da carne recém-exposta. — Que tal jogarmos uma canastra? — Não sei jogar isso. o gentil e paciente. desesperada. Ele arrumara o cenário cuidadosamente — o vinho. impiedoso que ela sabia existir junto com o outro. Ele estava rígido como ferro. persuasiva. Roman já compreendera que precisara dela muito antes de conhecê-la. Ela teria respondido a todas. Em questão de horas. Capítulo 11 220 . hum. tenho a sensação de que você vai aprender logo. presos pelo desejo. Apesar das muitas vezes em que se dissera que ajeitaria as coisas. Um gemido partido escapou dele. engolindo seu grito de alívio. ela saberia de tudo. Então. se pudesse. suas mãos buscavam. quando se aproximava irresistivelmente do clímax.. Ali estava o amante agitado. Sob suas mãos. Com a respiração opressa. ela abriu o fecho. sentira seus dedos frios em sua pele. arqueou-se contra ele. Sem fôlego. E seu corpo envolvia o dele. querendo dar a ela o romance do qual ela o tornara capaz. Sentia seus músculos tensos e sua boca lhe percorria faminta o rosto. quente e perigosa. — Oh. Era uma necessidade rude. arrancou-lhe a camisa e sentiu sua carne sob suas mãos. as velas. Ele necessitara dela antes. a música — . enquanto rolavam pela cama. Rápidos. descendo nervosamente por suas costas. que ele demonstrara desde a noite em que se tornaram amantes. Mesmo quando tombaram por terra. E ele a excitava assim mesmo. retesou-se contra seu corpo. Sorrindo. fluía como lava. Ela pensou que ele falava com ela. cravando as unhas. deixando que ele agisse. Agarrou seus pulsos. Essa nova intimidade fez com que ela murmurasse seu nome. Naquela luz tremeluzente. tornando-o algo secreto e proibido. depois agarraram as costas de sua camisa. ele baixou sua calcinha até os quadris. PERIGO Ela só teve tempo para um gemido antes que sua boca quente e aberta baixasse para sua pele. Mas sua boca estava sobre a dela. saboreando seu gemido de rendição. tinha muito medo de que ela não o perdoasse. ela decidiu que ambos iriam vencê-lo. Ela não poderia saber o que estava fazendo com ele. Tinha visto o desejo nos olhos dela. e continha um traço de fúria e uma gota de desespero. ele observou seu rosto enquanto levava a mão ao alto de sua blusa. — Ela passou o dedo pelo centro de seu peito até chegar ao cós dos jeans. tremeram. sua pele era como um cetim branco. Levados pelo amor. quando suas mãos ansiosas buscavam por ele. rasgandoa de cima a baixo. apertou-o com mais força. Ela sentiu-se arrastada cada vez mais para o fundo. agarrou-se a ele quando caíram sobre a cama.NORA ROBERTS — Hum. tentando arrancá-los. o carinhoso. combinaram seus ritmos. que ia em direção a prazeres indescritíveis. Só haveria aquela noite. com as palmas das mãos úmidas. que mal penetravam em seu cérebro nublado. Quando suas mãos ficaram livres. A paixão a aquecia com um perfume floral. Impaciente. pedidos.. e beijou-lhe a boca com força. Com um riso áspero. que tremiam sem jamais cruzar a fina linha que separava o prazer da dor. seus lábios estavam famintos. — Seu riso ficou abafado contra a boca. ou preces. agitados. explosivo como pólvora.

— É mesmo? — Você faz muita diferença. Ela viu a sombra de preocupação em seus olhos e quis que desaparecesse. É uma coisa que Block me disse no outro dia. — Mas ele não tinha as palavras doces. Mas o que gostaria de discutir é uma coisa a longo prazo. — Gostaria de passar a noite fazendo amor com você. — Foi maravilhoso. Mas o pulso disparou. — Não é nada sobre isso. Não havia espaço para preocupações naquela noite. seduzi-lo mais profundamente do que qualquer visão de renda negra ou seda branca. como sempre fazia quando estava nervosa. tenho certeza de que podemos chegar a um acordo. por cima de suas mãos entrelaçadas. Foi somente um ligeiro toque das pontas dos dedos sobre sua pele... — Ela moveu os ombros de maneira inquieta. acho que um terno é mais do que adequado para um casamento informal no jardim. os lábios curvados. bebendo vinho e escutando música. Ela manteve os olhos presos aos dele. de repente. — Cada vez em que você entra numa sala. — Isso faz diferença. Você me assusta demais. — O que gostaria de fazer primeiro? Ela teve que rir. e minha casa. — Não é uma coisa tão simples assim. É como nós sentimos. com você. — Os olhos dela riram para ele. E. — Block? — Ele se sentiu alarmado. Quer dizer. — Sou louco por você. — Só isso? — Ele sentiu a tensão desaparecer. — Como se estivesse pensando naquilo mesmo. Sinto isso aqui. com um olhar e um sorriso. em Orcas... — Eu já lhe disse. nem a poesia. Sentia-se deliciada ao vê-lo tão relaxado e feliz. Roman encheu a taça de Charity de vinho. — Na verdade. — De que jeito? — Como se você soubesse exatamente o que eu pensava e tentava não pensar. — Foi só um comentário de passagem. Se estivesse procurando alguém para compartilhar minha vida.. Pretendo fazer amor com você durante 24 horas. um pouco de poesia. bem. — Antes de ele depositar a garrafa. — Eu mencionei que nós íamos nos casar e ele disse qualquer coisa sobre desejar que você não me levasse embora.— O ponto é que preciso saber como você se sente sobre ficar na ilha. 221 . Surpreendia-o a facilidade com que ela conseguia tocar seu coração.NORA ROBERTS Com os olhos semicerrados. em um lugar público. Gostaria de falar com você sobre depois do casamento. Ele esperou que. morar aqui. e meus sonhos. Até mesmo o peixe frio estava delicioso com o vinho e o amor. mas que me fez pensar. ela bebeu o vinho. — Além disso. — Os planos para depois do casamento não são negociáveis. é uma coisa que eu gostaria de falar com você. sabendo que estava atropelando tudo. Exatamente o que eu queria. — Como você se sente sobre isso? — Não é apenas uma questão de como me sinto mais. — Das duas. se tentasse bastante. malicioso. — Oh. com gente entrando e saindo. — Acho que essas ceias à meia-noite deveriam ser regulares. desejando que por esta vez ela tivesse palavras doces. — Sabe do que eu gostaria? — Mais bolo Floresta Negra. mas ela prendeu as dele. — Ela sorriu e passou um dedo sobre as costas de suas mãos. Seu sorriso preguiçoso estava lento. teria sido você. ela tocou-lhe a mão. — Apesar de saber que você ficaria lindo de smoking. acalmando-se em seguida. as coisas poderiam ser sempre daquele jeito.. Exatamente o que eu queria não pensar. Com um sorriso rápido. Ela podia. Já passava muito da meia-noite. — Ele segurou suas mãos. Até mesmo à luz de velas eram da cor da manhã. Ele supôs que isso sempre aconteceria. — A primeira vez em que olhou para mim desse jeito quase engoli minha língua. e interrupções e. — Faz muito tempo que não me sinto em casa em qualquer lugar. mas você pode não estar louco pela idéia de viver em um. — Acho que posso aceitar isso. ela suspirou longa e preguiçosamente. falando com você.. e tentava não querer. — Está falando da refeição ou das preliminares? Ela sorriu. no hotel. me ocorreu que você poderia não querer passar sua vida aqui. mas um smoking. Tenho a sensação PERIGO de que acharia isso mais divertido do que as festinhas a que ia quando adolescente. — Ele teria largado suas mãos. — Ela deixou as palavras saírem soltas... com o susto subindo e depois centralizando-se na base da nuca. ela mordiscou seus dedos. posso usar um terno..

O céu ficou mais pálido. — O que for. — Quer ver o sol nascer comigo. sob o céu que se iluminava. familiar. o tempo ficou como que suspenso. Antes de sair. — Manhã. enchendo os pulmões com aquele magnífico ar puro. Charity. com a arma na mão e o coldre preso ao ombro. — Ela virou-se para olhar com culpa para o hotel. Quando não houve resposta. A adrenalina estava presente. São quase duas horas da madrugada. Roman. Os pássaros noturnos calaram-se. para amá-la suavemente. Usando a chave do chaveiro de Charity. Roman foi ao andar térreo. antes de ela ligar o botão. — Vamos tentar não acordar ninguém. — Ela respirou longamente. refletindo-se nela. Roman foi ele mesmo para a porta. Quando ele a retirou da van. passou o coldre pelo ombro e carregou sua arma. Se ele conseguisse convencê-la a dormir durante toda a manhã. mas estava tão quieto agora como quando partiram. no próximo mês. então tenho que fazer algumas pequenas quando aparece a chance. — É o que isto é? Uma aventura? — Claro. sangrando a partir da água. — Eu te amo. fez um sinal para seus homens pegarem as armas e avançarem. — Ela virou a cabeça. — Já é quase de manhã — ela murmurou. lindamente. — Ela empurrou os cabelos para trás dos ombros. ela se aninhou no pescoço dele. meu bem? — Para a praia. ela se enrolou nele. — Claro que estou. Eles não falaram mais enquanto o dia nascia. Uma sinfonia começou a tocar no rádio. ele destrancou a porta. a arma firmemente segura com ambas as mãos. A garrafa de vinho estava vazia. e as estrelas iam se apagando uma a uma. — Não tenho muito tempo para grandes aventuras.NORA ROBERTS Ela sorriu e entrelaçou os dedos nos dele. quando ligou a van. fazer amor sob as estrelas e ver o sol nascer lá na beira da água. Às 7h45. ela dirigiu para a estrada. Uma vez dentro do quarto. Vamos beber o resto do vinho. — Ela gemeu um pouco enquanto caminhavam pelos cascalhos com os pés nus. — Eu sei. Com uma reação. Não teve muito problema para convencê-la a continuar embaixo dos lençóis. — Vamos a algum lugar? — Conheço o melhor lugar da ilha para assistir ao sol nascer. Ele subiu as escadas com ela nos braços e entrou no hotel. — Tudo bem com você? — Acho que posso viver com isso. ela abriu a porta e desceu as escadas. — Claro. já que prometeu que levaria Ludwig para o passeio habitual. Ele permanecia escuro e quieto. As manhãs ainda estavam um pouco frias. Apesar dele não ter planejado. — Só vou pegar minhas chaves. Isso faria com que a mantivesse fora de perigo e começasse tudo do princípio. Lentamente. — Meu herói — ela murmurou. — Você está cansado? — Não. — Ótimo. Pegar Dupont era apenas uma questão de um trabalho policial bemfeito. exceto neste exato dia que teria que enfrentar. a cabine recuada estava cercada pelo melhor que o xerife Royce e o FBI tinham para oferecer. As sombras desapareceram e as árvores ficaram salpicadas de ouro. enquanto iam para o outro quarto. — Está uma noite linda. as cores começaram a aparecer no horizonte. Não se esqueça do vinho. Por um instante. a longa noite de amor tinha lhe PERIGO dado uma nova esperança. — Com uma gargalhada. Bateu duas vezes. — Ela voltou carregando um cobertor e balançando as chaves. O primeiro pássaro da manhã anunciou o novo dia. — Ela levantou-se e colocou a rolha na garrafa. Horas mais tarde. escaneou o aposento. azul leitoso. O céu estava pálido. — Pela primeira vez em sua vida ele queria pensar na próxima semana. Ela passou o cobertor em torno de si. com as pernas separadas. fechar a porta sobre o assunto e depois explicar tudo. poderia completar sua missão. Depois. — Chaves de onde? — Da van — ela disse. Roman? — Você só está vestindo um robe. até mesmo bem vinda. ela suspirou e aninhou a cabeça em seu ombro. Quando os homens já estavam posicionados. — Sempre ouço alto demais quando estou dirigindo sozinha. Roman juntou seu corpo ao dela. Roman levantou-a nos braços. — Ele colocou-a no banco do passageiro da van. em qualquer coisa. — Eu te amo. Com apenas um sinal 222 . — E nem me importo. Ela estava sonolenta enquanto ele dirigia de volta para o hotel. Roman ignorara os conselhos de Conby para não envolver os habitantes locais e aconselhou seu superior a ficar fora do caminho. lentamente. — Para onde vamos. até no próximo ano. — Depois de um riso sonolento. — Vou ficar completamente inútil hoje.

— Não seja bobo. abrindo-a. começou a latejar. ao mesmo tempo em que Block entrava. — Preocupada. O canto terminou abruptamente quando Roman puxou a cortina. — Desculpem. porque sabe que estou aqui e estou observando você. mato você ali mesmo. — Você nem deveria ter vindo hoje. Ele se afastou de Bob no instante em que a porta do escritório se abriu. PERIGO Mas ele tomara mais do que um pouco. estou livre. — Você também deve estar com aquela virose. — E é você quem me diz. Ele sentiu seu coração parar e depois descer para os joelhos. DeWinter. já era de manhã e tinha trabalho a fazer. — Assim dizendo. Cada um guardando o flanco do outro. — Desculpe por tudo. voltou para o hotel para terminar o que tinha começado. Sentiu-se grata por isso. — Quando isso estiver feito. Mas valera a pena. Ela só poderia culpar a si mesma. Valeu bastante a pena. Você vai até a escrivaninha da portaria e vai cuidar de tudo. Mantendo a arma apontada. desacostumada a doses generosas de vinho e pouca quantidade de sono. Sua fala estava arrastada e os olhos. se ao menos piscar o olho para ele.— Está preso. Pode se enxugar enquanto leio seus direitos. No momento em que se sentou. Dupont estava no chuveiro e cantava. — Dormi demais. — Apesar dos olhos sonolentos. Pela primeira vez. Caminharam juntos até o hall. juntando o tecido rasgado. E vai fazer um bom trabalho. Roman encontrou Bob enfurnado no escritório. Mesmo sob a melhor das circunstâncias. — Não precisa se dar ao trabalho de colocar as mãos para o alto — disse Roman. quando ela olhou para Bob. fizeram o último círculo. companheiro. Charity lançou um sorriso para Roman. — Não hoje. tendo a noite sido incrível ou não. — Faça o favor de se compor e muito rapidamente. estou atrasada. Se der alguma dica para ele. ele chamou a retaguarda. — Você não dormiu o bastante. Mas. — Bom dia. Quando Block chegar. Não pode sair assim. sua cabeça. já era o meio da manhã e ela estava sozinha. mas os olhos mostravam preocupação. — Não. você vai checá-lo assim como a seu grupo. Charity. — O rosto enrugou-se com seu sorriso habitual. — Fique com ela. Quando Charity acordou. — Seu sorriso desapareceu. ele jogou a toalha para Dupont. — Algum problema? 223 . porque não conseguia sequer soltar um gemido. enquanto ele tirava a água dos olhos. Estava fervendo. — Se conseguir cuidar do resto tão cuidadosamente. e acompanhou-o até a porta. admitiu. enquanto rastejava para fora da cama. Engoliu uma aspirina. — Você não parece bem mesmo. Arrancou Bob de sua cadeira pelo colarinho. — É disso que tenho medo. e isso aumentou a preocupação nos olhos dela. Quem sabe Roman possa leválo em casa. — Virou-se para olhar para ela pela última vez. vou mandar uma recomendação para você. Só havia mais um obstáculo antes que ele pudesse. permitiu-se outro gemido e depois entrou no chuveiro. Sem qualquer preâmbulo. — Só precisava de um pouco para enfrentar o que viria. — Roman guardou a arma. Os pés enroscaram-se no que sobrara da blusa que tinha usado na noite anterior. pensou. — Charity costuma fechar os registros — Bob conseguiu dizer entre dentes. — Você trabalha para a manutenção da lei há mais de dez anos. — Eu estava acabando de dizer ao Roman que não estou me sentindo muito bem. Só quero que você se cuide. — Eu dou uma mãozinha para ele — balbuciou Roman. tomando ansiosamente seu café batizado. finalmente. Roman aproximou-se cuidadosamente do quarto. — Pois fique olhando. — O que houve? Ele agarrou-se àquela oportunidade com ambas as mãos. Roman achava muito difícil ter qualquer simpatia por um bêbado. vermelhos. um sorriso — um sorriso amarelo — apareceu em seu rosto. — Ele caminhou cambaleando para a porta. ela foi até ele para verificar-lhe a testa. Roman percebeu. Roman arrancou-lhe a caneca das mãos e jogou seu conteúdo na lata de lixo. eu posso dar um jeito. — Sinto muito mesmo. — Muito bem-feito — Conby comentou.NORA ROBERTS com a cabeça. separar seu passado do futuro. quando o prisioneiro estava algemado.

Ele a ouviu rindo. O medo produziu uma máscara convincente. ele pensou. Charity calculou a quantia em dinheiro canadense. — Contou o dinheiro de 20 em 20. — Consegui o mesmo total outra vez.50. Roman se aproximou. agora. dormindo profundamente e sonhando com a noite que tinham passado juntos. Ela deveria estar a salvo no andar superior. Mertens — anunciou Charity quando veio colocar-se atrás do balcão. Roman puxou sua identidade. Millie piscou seus cílios. — Alegre como sempre.330. Agora... — Ponha as mãos para o alto. Ele vai ver você lá. — Deixe-me encontrar o recibo. Charity levantou os olhos. — Faça o que eu disse! Block umedeceu os lábios. Roman assistia desolado enquanto os dois conversavam e seguiam a rotina de checar as listas e os números. — Agora parece estar certo. Roman sentiu uma gota de suor escorrer por suas costas. Com a facilidade criada por um longo hábito. Depois de jogá-la sobre o balcão. bom dia. — Vá diretamente para casa. Wenworth. Block colocou a maleta sobre o balcão. mantendo as mãos cuidadosamente à vista. A Sra. ela bateu a ponta do lápis na sua lista. ele deixou as mãos caírem. — Sem problemas. ela estaria no meio. item por item. — Deixou a frase inacabada. E ele imaginava como seu rosto ficaria quando os agentes entrassem e prendessem o homem que ela pensava ser um guia de turismo e um amigo. — Mas o que você está fazendo? — Vá para trás do balcão — ele disse. — Não. Espero que ninguém do seu grupo tenha queixas sobre o serviço. — Nenhuma. com a chave da gaveta de dinheiro ainda na mão. — Distraída. Ele abriu a maleta. No alto. — Obrigado. — Vou fazer minhas malas agora. — Ela arquivou sua cópia do recibo e entregou a outra a Block. Frustrado. — Esse vírus está mesmo comprometendo nosso raciocínio. No momento em que Charity marcou PAGO na conta. — Tenho as duas cópias — disse ela.NORA ROBERTS — Virose. — Com uma lentidão estudada. — Gostaria de dizer que verifiquei pelo computador.. foi um prazer.. pelo amor de Deus. — Isso dá 2.. mas.. 22. — Ficamos sempre tristes quando você vai embora.. Charity. — Ela ofereceu um sorriso de desculpas para Block. Millie. — Já liguei para o Dr. — Ah. — É sempre um prazer negociar com você. — Wenworth. — Roman! — Charity exclamou assustada. — Sem entender. Um dos agentes fingiu que verificava alguns cartões-postais. — Me pegou violentamente esta manhã. e ele ficou sabendo que não iria para casa por um certo tempo. deveria PERIGO haver agora um agente postado. quando Block mencionou o peixe vivo que ela levara para a sala de jantar. Roman tentou se acalmar. Roger. Com as sobrancelhas cerradas. — Como sempre. — Mas um dos agentes de Conby acompanhou-o até o lado de fora. — Dê a volta e saia daqui. Ficamos todos muito contentes por você e a Sra. pegou as algemas. Charity leu a soma total. — Relaxado novamente. o Bob. não há nada aqui. Lucy terem estendido sua estada por alguns dias. Você cobrou uma garrafa de vinho dos Wenworth da cabana 1? Eles pagaram por ela anteontem. deve ser isto. Só queria lhe dizer como foi adorável este tempo que passei aqui. Devagar. — Isto é um assalto? — Você ainda não entendeu? — Com a mão livre. uma garçonete e. — O rosto de Bob já estava ficando verde. Sra. anotou o novo preço e somou os resultados de novo. antes de dirigir-se para a escada. — Você ficou maluco? Roman. — E pressionou o cano de sua arma nas costas de Block. — Qual é a acusação? 224 . — Abriu a gaveta e procurou eficientemente entre os outros papéis. Block verificou sua lista. para garantir que ela e outros hóspedes ficassem fora do caminho. — Essa virose tem sido uma problema por aqui. — Block começou a conferir de novo os números em sua calculadora. sacudindo a cabeça. e olhou com seus olhos míopes para Roman. — Estou sem uma funcionária. ignorando sua dor de cabeça. — Oh.— Mostrou o recibo para aprovação de Block. Bob. — Bom dia. querida. fizesse ele o que fizesse. — Parecemos estar com uma diferença de. — Hum.. — Você está preso. Charity voltou a conferir sua lista.

PERIGO — Por favor! — Novamente. deixou Charity sozinha. Agora vamos para fora. — O local está cercado. Joguem-nas no chão e saiam antes que eu comece a cortá-la. — Pare com isso. — Não. Block — disse Roman calmamente. — Só a mulher. — Pelo amor de Deus. — Dois segundos e está tudo acabado. Para um homem de seu peso. — O olhar de Block varreu o hall. Todos eles. antes que qualquer pessoa pudesse reagir. a barganha tinha sido muito mais lucrativa para ele. Demasiado perto. transporte de bandidos fichados através de fronteiras internacionais. não a machuque.NORA ROBERTS — Conspiração de assassinato. — Por favor. Após aquela última ameaça frustrada.. — Largue a arma. — Agora. — Já estava quase lá em cima. — Por favor. Isso só para começar. Ela fechou os olhos e esperou morrer. Me dêem uma arma. — Roman mantinha os olhos e a arma apontados para Block. colocado sobre o gatilho. — Só vai levar um instantinho — disse baixinho. não vai viver muito para lamentar. Mantendo seus movimentos lentos. pensou. A Sra. Todos vocês! — Sua voz aumentou de tom enquanto ele verificava todo o ambiente. para mostrar o coldre vazio. — Como pode? — A voz de Charity era um simples sussurro. Pode ficar doente. A arma estava mirada no centro da testa de Block e o dedo de Roman. As algemas estavam penduradas em um dos punhos. De olhos arregalados. Block só levou um momento para tomar a decisão. Agora. — Levantou cuidadosamente a jaqueta. E Charity estava perto demais. — Pense nisso. para trás. quando percebi que tinha deixado minha. com as palmas para fora. Pense nisso. O primeiro que tentar voltar. em vão. — Antes que alguém pudesse atendê-lo. Ela segurava a identificação e a olhava ainda sem compreender direito. Saia. — Baixou um dos braços de Block e passou a algema em seu pulso. contrafação. — Ele viu o medo nos olhos de Roman e sorriu. — Conversaremos quando tudo estiver acabado. Façam o que eu disse. Millie dizia enquanto valsava pela sala. Ele retirou por um segundo os olhos de Block. Conby. Agarrou a Sra. Não se mova — disse para Charity. Millie e puxou-a para si. Não tenho nada a perder. ela colocou-se entre ele e a arma de Roman. ela se dizia. — A Sra.. Um agente federal deve lhe dar alguma vantagem. lutando para manter a mente clara. Millie com a lâmina. — Block colocou todo o comprimento da lâmina no pescoço de Charity. — Mas também não lhe trará nenhum bem. Agarrou Charity e colocou a lâmina em sua garganta. — Eu corto a garganta desta simpática senhorinha. — Abaixem as armas. Um segundo mudava tudo. — Roman levantou as mãos novamente. ou eu a mato antes de você pensar como pode me pegar. ele saiu correndo para a varanda. Eu fico com você. — Como fui tola. Um pesadelo. — Ninguém se aproxime das portas ou de qualquer janela. Charity avançou um passo. — Charity respirou fundo. — Alguém me diga que isto não está acontecendo. deixando a arma cair. Movendo-se rapidamente. Roman levantou as mãos. Block movia-se rapidamente. — Vamos conversar. ele bloqueou o caminho. — Depois de entregar a Sra. Charity. — Fora! — Roman apontou para a porta. — Não vou lhe criar qualquer problema. mas parou rapidamente quando viu que Block apertava a faca contra a garganta da senhora. — Ela é idosa e fraca. Millie só podia segurar-se ao braço de Block e choramingar. — Não a machuque — Charity avançou um passo. — Desesperada. para olhar para ela. enquanto se aproximava da senhora caída junto do balcão. que um de seus homens viesse por trás dele. ela morre. quando sentiu a ponta da faca beliscar sua pele. ele estava 225 . Millie caiu desmaiada no chão. — Se você a ferir. com uma faca em sua garganta. levantou nos braços a senhora que não parava de chorar. Saia já daqui. Ela precisa de um médico. dando mais um passo cuidadoso em sua direção. — Deixe-a ir. DeWinter. — Por que não posso ficar aqui mesmo? Você pode ter dois reféns pelo preço de um. Esperava. com os olhos fixos em Roman. saiam. O coração. Millie aos braços que a aguardavam. Aparentemente. — Feri-la não vai lhe trazer nenhum bem. onde outras armas tinham sido sacadas. Quer ter uma avozinha morta em suas mãos? — Você não vai querer acrescentar homicídio à sua lista. — Não faz a menor diferença para mim. Roger — disse novamente. — Mantenham-nos lá fora. — Estou limpo. — Para trás. a Sra. Roman. — E fez um ligeiro corte na frágil garganta da Sra. Tome a minha arma — disse para Block.— Tinha que ser um pesadelo. Ela não ligou para o olhar de Roman.

Se me matar. — Sabe quantas saídas existem neste lugar? — Cinco. Vamos. De alguma forma. Preciso de comunicação — disse para Royce. quando ele jogou-a contra a parede. pensando em Bob. — Sou eu quem precisa pensar. que já tinham sido evacuados. — Manteve uma das mãos em seus cabelos e a arma na base do pescoço. — O que quer que a gente faça? Roman simplesmente fixou o olhar na arma em sua mão. — Se ficar no meu caminho. Como Roman calculara. Olhou para o hotel. favorável não era uma palavra suficiente. — Eles me encurralaram aqui dentro. Roman virou-se para estudar o hotel. — Eu acho que se nós. Não se pode sair dirigindo de uma ilha. Estava carregada. Mas quando a refém era Charity. Temos água e comida lá. — Agente DeWinter. Colocando a arma na cartucheira. — Você está sendo útil. — Você pode cuidar disso? — Me dê 20 minutos. E você? — Enquanto perguntava.. Roman girou para ele. — Pensei que fosse melhor mantê-los do lado de fora. Os hóspedes. agora ele começara a pensar. apontando a arma diretamente para ela. PERIGO Dentro. E estava desesperado. — Cale a boca. Não sabia. O hall. Ainda não compreendo. — Ela respirou fundo. Charity.. — É. — Resfolegando um pouco. — A cozinha. — Ele já sabia de DeWinter há dias. Conby. 226 . Era treinado para isso. Existem cinco saídas. — Quando eu tirá-la lá de dentro — disse suavemente — eu acerto com você. Com o menor dos gestos.. e os fundos.. — Então. — Isso é bom. — Passou o braço gordo pela testa para enxugar o suor.. Ela nunca tinha visto o crime nos olhos de um homem antes. Charity sentiu um certo alívio quando a faca foi retirada de sua garganta. Sistematicamente. Millie chorando suavemente. — Mande bloquear a estrada um quilômetro e meio em cada direção. não vai ter nada com o que barganhar. Royce fez um sinal para seu homem ficar quieto. Por que não temos homens posicionados nos fundos. ele vai perceber que está bloqueado. e quando começar a pensar. a sala de estar. — Cala a boca! — ele gritou e fez com que ela prendesse o fôlego. Só pode ficar nesta área o pessoal oficial. Tudo tinha acontecido tão rapidamente. seu desgraçado. Levantou as mãos e esfregou o rosto. até agora. olhando com ar selvagem em torno do hall. — Roger. eu não sei. Vamos manter o hotel cercado a uma distância de 200 metros. ele riu. — DeWinter. — Sentiu o gosto do medo na língua. Vamos dominar a cozinha. Com tempo e mentes frias. — Não. Cale a boca e me deixe pensar.. para passar a faca de novo pela garganta. sob as circunstâncias tenho sérias reservas sobre deixar você ficar encarregado desta operação. Roman tentou afastar a onda rubra de fúria que o acometeu. quando ele novamente torceu seus cabelos. agarrou-a pelos cabelos e puxou sua cabeça para trás. — Você precisa de mim. a possibilidade de livrar um refém numa situação desse tipo era favorável. quando a forçou para emitir as palavras. estavam sendo levados com segurança. considerou e rejeitou pontos de entrada. enquanto alguém a levava para um carro.. — Ela só conseguiu emitir um gritinho abafado. Ele deve estar pensando de novo — Roman disse lentamente —. para o caso disto demorar um pouco. eu o enforco com sua gravata de seda. Até agora. — Estamos numa maldita ilha. preparados para o caso de ele querer fugir. Já tinha estado em situações de reféns antes. Roman virou-se para ele. através do quarto de depósitos da cozinha. rapidamente demais. a arma que Block agora lhe apontava parecia-lhe menos pessoal. Eu deveria ter usado você para chegar a um dos carros. Charity queria que todos fossem bem-cuidados. mas reconheceu-o. a voz de Conby foi somente mais fria. sem contar com as janelas.. Podia ouvir a Sra. considerou as possibilidades. — Para trás. devia ter ido embora. a escada do lado de fora que dá para o meu quarto e uma suíte familiar na ala leste. Ele era treinado. eu não sabia. atrás dele? Como as palmas de suas mãos estavam molhadas de suor. Aquele cretino estava certo o tempo todo — murmurou.NORA ROBERTS arrancando a arma de um dos delegados de Royce. — Quando Conby começou a falar novamente. — Ele diminuiu a força com que a segurava. — Eu quero falar com ele. Federais. Só vai ter que continuar sendo útil. tudo o que tinha feito fora baseado no instinto. — Para trás. Quantos caminhos existem para entrar e sair deste lugar? — Eu. — Roger. ele se virou. Acenando com a cabeça. pense. — Conby começou.

— Royce empurrou o chapéu para trás. — Meu sobrinho — explicou para Roman com um ligeiro sorriso. — Tenho que ter certeza de que ela ainda esteja viva. praticamente cobrindo as duas portas. Me deixe falar com ela. como um grito. — Ele quer saber como você está. Ouvi dizer que você e Charity vão se casar. Um animal encurralado reage de duas formas. — Roman? 227 . — Compreendeu? Com um aceno. — Eu sei. — Royce. — Block não parece ser o tipo que desiste fácil e Charity. — Você quer o número? — Quero. Ela era esperta. — E depressa. — Mae fechou os lábios com força. Primeiro. quando sair. Achei que você pode estar pronto para discutir um acordo. Ela deve estar apavorada. — Sim? — É DeWinter. — Roman pensou no piquenique na praia. quando falou. Block. — Que tipo de acordo? — É sobre isso que temos que falar. atiçadores de ferro. Ou ele se acovarda e se entrega. Tinha carregado tudo o que conseguira. — Você pode discar imediatamente. É perda de tempo querer discutir — acrescentou. para fazer pilhas para bloquear as duas portas. É o seu namoradinho — ele disse. muito calmo. espelhado nos olhos dela. — Você tem muitos parentes. Roman mudou de posição para olhar para Mae. Charity saltou em sua cadeira quando o telefone tocou. está no caminho dele. atrás da barricada de carros da polícia. — As mãos do jovem assistente estavam suadas com o nervoso e a excitação. maldições. toda a carne que viera do açougue. preciso saber se ainda está com Charity. Na cozinha silenciosa. — Você precisa disso. — O garoto conhece esse serviço. mas não conseguiu sentir-se aliviado com a fumaça áspera nos pulmões. — Você sabe muito bem que ela está aqui. — Você quer falar com ela? — Block fez um gesto com a arma. sua voz parecia calma. Oh. — Onde está o maldito telefone? — Quase pronto. Escute. ou não estaria falando comigo. — Ela vai precisar de mim. — Vá para o inferno. tudo isso subiu como bile em sua garganta. — Você a viu saindo? — Block cuspiu no telefone. — Neste caso. Charity é uma mulher esperta e sensível. ele viu tudo o que sentia sobre si mesmo. — E passou o fone úmido para Roman. antes de pegar o telefone. ou não temos um acordo. Block simplesmente olhou para ele. pensou. cestas com dez quilos de farinha e açúcar. — Assim verifico que você ainda tem um refém. desaforos. Botando o cigarro de lado. e ajeitouse no lugar de onde observava uma linha telefônica temporária. sem a menor dúvida. — Fique exatamente onde está. Do outro lado da mesa. — Venha cá — ordenou. — Block atravessou o cômodo para atendê-lo. — Royce fez um gesto em direção ao hotel. naquele doce período de tempo. Haveria tempo para a culpa depois. — Mover Maeflower seria como mover um tanque. disse para si mesmo. vou lhe dar um conselho. antes que Roman pudesse falar. — Passou a arma pelo rosto dela e descansou-a em sua testa. Roman discou. — Eu não sei o número — Roman falou. Naquele único instante.NORA ROBERTS Com os olhos fixos no hotel. Diga a ele que está ótima. A linha já está pronta. ela inclinou-se para o telefone. Cadeiras extras. Ela deu o número para ele. Roman ficou andando de um lado para o outro. — Sou cheio deles. — Não sei o maldito número. Acendeu um cigarro com a ponta do outro. ou luta até a morte com qualquer coisa à sua frente. Mesmo assim. o telefone ficou soando muitas vezes. meu Deus. filho? — Sim. senhor. Haveria uma vida inteira para isso. Está errado — disse. Não faria nada imbecil. Isso faz parte da cobertura? — Não. PERIGO — Não saio daqui até ver Charity. você deveria limpar a área. — Não. quando Charity chegou junto dele. Não vai entrar em pânico. tudo reunido em dois montes. Ameaças. Você vai precisar ficar calmo.

DeWinter? Ela está bem. — Espere. Diga quem você é. — Mas Roman lembrava-se muito bem do som de seus soluços abafados. Você sabe como são as burocracias. — Por enquanto. Ela disse que iria deixá-la preparar uma refeição para eles. Você tem uma hora. — Ouviu isso. — Ele quer um carro. — Não. estou bem. até que ela gritasse. Duas horas. Block agarrou o braço de Charity. — Ele machucou você? — Não. e o silêncio era tão angustiante quanto seus soluços. — Ela é uma garota corajosa. Está com a mente atenta. Preciso de uma aprovação. implorar que ela tivesse cuidado. Queria dar força para ela. PERIGO Charity fechou os olhos. Ela vai entrar nele comigo. conseguir um piloto.NORA ROBERTS — Charity. Você tem que me dar algum tempo. — Você não precisa machucá-la. Mas sabia que só teria segundos e que Block estaria escutando cada palavra que dissesse. — Deliberadamente. DeWinter. É como a coisa funciona. Os meus termos. Quero que mantenham distância. Como duvido que ela esteja pensando em comida. Quero um avião com combustível esperando. Já não a escutava mais. Foi preciso cada grama de controle que conseguiu armazenar em seu corpo para afastar o terror de sua voz. sentindo-se impotente. Se pretende ir para distâncias longas. continuando a estudar o hotel e a planta do solo que Royce tinha lhe dado. voltamos ao estágio 1. sim. Charity. Roman agarrou o telefone. — Só me arranje o avião. — Vou ter que consultar Washington. — Mas isso pode mudar a qualquer momento. — Ou isso pode trabalhar contra nós. — Precisamos colocar dois dos homens nos fundos. Eu disse que discutiríamos os termos. Roman ficou de olhos fixos na construção silenciosa. — Ela fechou os olhos e lutou contra as lágrimas. Quero uma passagem segura para o aeroporto. ou talvez esteja tão apavorado para pensar nisso. ela estava me dizendo qual a posição deles. — Não enche minha paciência. Vamos ver o mais próximo que podemos chegar. Capítulo 12 Nós temos duas horas — murmurou Roman. Quando chegar aonde estou indo. 228 . depois ligue para ele de novo. não tenho a autoridade para conseguir o que você quer. que fiquem fora de visão. quando Roman sacudiu a cabeça à oferta de uma xícara de café. Você tem duas. se tentarem algum truque. — Vou ter que procurar uns canais para executar isso. Block. portanto. Não conseguia suportar a idéia de Charity estar sendo mantida com uma arma apontada durante tanto tempo. — Quero que você faça com que ele pense que vai conseguir tudo isso. — Onde você quer que eu fique?A — Eles estão na cozinha. — Virou-se outra vez para Conby. — Essa pode ser nossa vantagem — disse Royce. Charity dirige. DeWinter. eu a libero. vou começar a enviá-la para você aos pedaços. — Largou o braço de Charity e ignorou-a quando ela escorregou para o chão. puxando-o para trás. passagem segura para o aeroporto e um avião. — Sou eu.. — Ele não é tão esperto quanto pensei. — Não provoque minha raiva. DeWinter. — Manteve os olhos fixos nos de Roman. Você sabe disso. — De que tamanho quer o avião? — Não tente me enganar. — Sei muito bem como conduzir uma situação com reféns. Royce olhou para o local onde Mae andava de um lado para o outro no cais. talvez umas quatro horas. Depois vou ter que esvaziar o aeroporto. — Está bem. — Qual de seus homens é o melhor atirador? — Roman perguntou a Royce. — Arranje um carro para mim. fazer promessas. — Vá para o inferno com seus canais.. — Vamos conversar sobre os termos. Preciso saber. Depois de duas horas. baixou a cabeça para seus braços cruzados e chorou de terror. Isso vai levar umas três. Ele vai até me deixar fazer uma comida. — Ele foi atingido por várias emoções. — Escute. — Roman passou as costas da mão sobre a boca e forçou sua voz a sair tranqüila. — Nos dê cinco minutos. É um aeroporto pequeno. — Ele disse isso? — Não. enquanto ouvia o som dos soluços de Charity. — Virou-se para Conby.

— Todo este tempo — ela sussurrou. Mas você é a cliente mais antiga e mais consistente. Podemos chamar o time da SWAT de Seattle. A cozinha estava cheia de armas. mantemos os clientes felizes. — Iríamos sugar esta rota durante mais alguns meses— continuou. Ponha isso na minha ficha. alerta e viva. — O acidente. depois seguir para outro lugar. — Ele deu um tapinha em sua mão. PERIGO Não importava mais o que ela soubesse. — Ele bateu com a xícara na mesa. Ela queria continuar calma. mas para trabalhar em um caso. marretas. Temos um bom grupo de excursões. — Durante dois anos tenho dirigido um joguinho para dentro e para fora da fronteira. Notas de 20 e de dez em dinheiro canadense. disse para si mesma. e ela a recolheu. amigável como sempre. Só para testar as águas para ver como DeWinter agiria. tendo a Vision como fachada. mas Bob começou a ficar muito assustado com seu novo empregado. 229 . preparando-o. Eu deveria ter percebido. disse para si mesma. — Você tem me pago com dinheiro sujo? — Você e alguns outros lugares. mantenha-o ao telefone o maior tempo que puder. Block ficasse mais à vontade. Seu mundo se resumia agora a um cômodo. Roman interrompeu-o. se esta não fosse uma situação crítica. — Bob? — Sua mão fechou-se em seu colo. Sua vida estava sendo ameaçada. — A verdade é que sempre gostei de você. compartilhando-o com ele. ele tinha trabalhando duro e orgulhava-se disso. — Segurou a arma com mais força. é uma boa idéia. — Você tem duas horas. — Por que querem você? — Fique calma. pensou. De qualquer maneira. Charity. Ela já chorara o suficiente.. — Bob sabia? — Ele não passava de um miseravelzinho que trabalhava por migalhas. Block continu