I Simpósio Nacional do IDII NEOABOLICIONISMO: resgate histórico ou retomada do Abolicionismo? 30 de Setembro / 1º de Outubro de 2005 Auditório do Memorial Vargas Pç.

Luís de Camões, s/nº - Glória Rio de Janeiro

NEOABOLICIONISMO: INTRODUZINDO E CONCEITUANDO

Em 28 de Setembro de 1885, o Imperador do Brasil, DOM PEDRO II, sancionou a Lei de n 3.270, pela qual a Assembléia Geral do Império decretara a libertação de todos os escravos superiores a 65 anos de idade, no exato dia em

concedia liberdade aos nascidos de ventre de mãe escrava, ainda que os dispusesse aos serviços do senhor de sua mãe. legislativo maior, de autoria do Conselheiro Manoel Pinto de Souza Dantas, cuja Presidência do Conselho de Ministros havia cindido em conseqüência do arrojo nas propostas abolicionistas. indenização aos senhores e o “retardo” na abolição incondicional do elemento servil. Ainda assim, conforme explicitam historiadores em excelentes trabalhos recentemente vindos à lume, tal lei se insere no arrebatador processo de Abolição da Escravatura no Brasil, liderado por homens como JOAQUIM NABUCO, ANDR⁄ REBOU« AS, JOS⁄ DO PATROCÕ NIO, RUY BARBOSA e vários outros... além de contar com a presença máxima do sexo feminino: a própria herdeira do trono e futura Imperatriz, D. ISABEL DE BRAGAN« A. A Abolição, enquanto vitória expressiva do maior movimento social que o Brasil do séc. XIX conheceu, coroou de êxito a luta incessante destes homens e dos milhões de negros brasileiros que no curso de três séculos haviam sido tristemente escravizados pelo sistema econômico que o Brasil e as Américas haviam optado por manter em suas terras após as guerras de Independência, contra as velhas metrópoles européias. No Brasil, as instituições escravistas eram estranhas e contraditórias, pois o Estado possuía simultaneamente fortes alicerces ideológicos liberais... Em nome das reformas de nossas instituições e da superação dessas mazelas, começando pela ESCRAVIDÃO, arregimentaram-se os ABOLICIONISTAS, alguns monarquistas e outros, republicanos. , e amplamente apoiado pelas tradicionais associações européias de combate , em Londres, a mais velha e principal delas, com a qual Nabuco Ao ABOLICIONISMO, mantido no Brasil sob a égide de entidades como a e a

ao trabalho escravo — sendo a

sempre se alinhou, contando com irrestrito apoio — finalmente aderiram quase todos os BRASILEIROS. Única exceção: fazendeiros fluminenses, mineiros e paulistas.

atsinoicilobA oãçaredefnoC

yteicoS yrevalS-itnA oãdivarcsE a artnoc arielisarB edadeicoS

soiránegaxeS sod ieL

A

foi prudentemente — na visão dos reacionários escravocratas — conduzida, garantindo a

epigetoC-aviaraS ieL

soiránegaxeS sod ieL

A

, ou

erviL ertneV od ieL

que se comemoravam os 14 anos da

(ou Lei Paranhos), celebrada a 28 de Setembro de 1871 e que , como também seria conhecida, era resultado de um projeto

— e isso não pode ser esquecido em nome da ideologia afirmativa. O velho e doente Imperador. a Deputada Jurema Batista. Existe candura e bem-querença em algumas das velhas expressões designativas — é o caso de “pretinho” e “pretinha”. Isabel I a Redentora visa promover seu I SimpÛsio Nacional. o Instituto Cultural D. Isabel. leve que seja. Na semana em que o BRASIL se recorda dos 120 anos da LEI DOS SEXAGEN¡ RIOS e da labuta de seus maiores para que as seculares injustiças de nossa sociedade tivessem termo com a libertação dos escravos e conseqüente assimilação deles na força de trabalho livre e assalariado. onde .. Na madrugada de 16 para 17 de novembro de 1889. teve a feliz iniciativa de. e ainda se usa. durante o XX e agora.. aliás até por não-pretos. crises políticas motivadas pelas chamadas questões militar e agrária. em nome do não derramamento de sangue dos brasileiros. desceu de Petrópolis e resolveu aceitar a situação aberrante. iniciaram a sedimentação do III Reinado. como fizeram variados movimentos negros pelo Brasil afora. os Príncipes do Brasil e seus mais próximos amigos e colaboradores foram exilados e banidos do território nacional. domingo áureo que assistiu à maior festa nacional até então conhecida. no Brasil. dele conseguiram à adesão ao que chamaram de “Proclamação da República”. ainda que recorrentemente caiba aos movimentos negros realçarem qualquer que seja o mínimo tom de racismo.. da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. 3. por ordem de um pseudo-Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil. Os destemidos políticos brasileiros de meia-idade e os mais jovens e equilibrados. não só usados na Bahia como em inúmeros outros recantos nacionais..A favor do ideal sublime da Abolição e da equiparação social entre brancos e negros firmaram-se publicamente os grandes homens acima apontados e a principal mulher daquele Brasil de final do Oitocentos: D. XIX para o XX. ao ser informado. seja econômica ou educacionalmente falando. A Princesa Imperial ainda reuniu o Conselho de Estado mas a situação agravou-se e a Família Imperial foi declarada prisioneira domiciliar no Paço da Cidade. enfim. com a temática Como conseqüência da Lei de nº. o termo “preto” ou “preta” para tal designação. alertando para que não venhamos a inferiorizar a expressão PRETO e PRETA. daquelas que destoem do modo lídimo como devem ser empregadas e mesmo entoadas. uma sedição do Exército depôs o gabinete ministerial do Visconde de Ouro Preto. em 15 de novembro de 1889. a Princesa Imperial que atuaria como Regente em 13 de Maio de 1888. entretanto. conspiradores de plantão e traidores da Pátria souberam influenciar o chefe militar de maior prestígio da época e. não compõem a maioria entre os representantes das classes sociais mais elevadas. É evidente que os NEGROS. ?omsinoicilobA od adamoter uo ocirótsih etagser :omsinoicilobaoeN aeruÁ ieL . pois NEGRO não é a forma tradicional da designação do chamado “homem de cor”. contando com a presença de grande número de personalidades do universo político.. Este “universo”. científico e artístico em que alguns negros brasileiros se sobressaem.353 — a — os meses que se seguiram no Império do Brasil foram de pretende-se discutir os caminhos e descaminhos do Brasil após a Abolição. Aqui aproveito o ensejo apenas para abrir o parêntesis da terminologia. como em todos os outros 28 DE SETEMBRO. nos princípios do XXI.. Como é bem sabido. para que a Política e a Economia do Brasil pós-abolição fossem diligentemente reformadas. não é do tamanho que desejaríamos fosse. Anteontem. com mentiras e torpezas. a situação dos negros no Brasil da transição do séc. realizar sessão solene comemorativa das datas abolicionistas no Plenário do Poder Legislativo fluminense. pois entre nós usou-se sempre.

JOAQUIM NABUCO. às vezes auto-provocado. em lugar da Chefia do Estado brasileiro sendo ocupada por uma mulher. não resta dúvidas — e esses grandes homens. sobretudo o Rio de Janeiro. 4 Conceito criado pelo historiador Celso Furtado para designar a forma como o Governo da República arcava com os prejuízos das oligarquias cafeeiras. aportaram ANDRÉ REBOUÇAS. O porquê desta riquíssima série de informações e narrativas que possa se constituir a historicização dos processos excludentes dos negros brasileiros da vida nacional não é certamente único e. numa sucessão de atos de alta traição. O monarquismo. a corrupção dos homens de governo. Colocamos no Texto de Lançamento do IDII: desconhecer os projetos e as aspirações de nossas grandes mulheres e nossos grandes homens para aquilo que teria sido o III Reinado é não poder operar com os conceitos de reformas sociais profundas pelas quais o IMPÉRIO DO BRASIL não poderia passar incólume. tivemos nós a Primeira República — mais conhecida como Rep˙ blica Velha —. LUIZ). menosprezar tais informações é. que iriam nos legar. de: Rio de Janeiro. pietistas e nostálgicos.Pois bem. mormente. por exemplo. restrito. o afastamento da intelectualidade da vida política3. a obra Literatura como miss„o (Ed. de Nicolau Sevcenko. faziam deles partidários da volta da Monarquia e do princípio de sacralidade do poder. Brasiliense. nas Cf. vale dizer. como se diz comumente pelas ruas. para onde foram? O que ocorreu com eles? Quais foram os prosseguimentos de suas trajetórias? Em que terras. ainda que o anti-republicanismo o fosse. o grande BRASIL.. Os movimentos messiânicos de Canudos e do Contestado foram chamados de monarquistas pelas autoridades da República. na passagem do XIX para o XX. nós tivemos o que cito abaixo. contudo. 20 e 30 (LIMA BARRETO e D. exclusivamente por não aceitarem uma nova ideologia do poder2. sobre personagens dos anos 1910. marcadamente eivados de racismo e outros segregacionismos. enfim. 2 1 . ferir de morte a História do Brasil. quando as oscilações cambiais provocavam queda nos preços do café nos mercados externos. é justo afirmar que se a ABOLIÇÃO lhes concedeu a CIDADANIA jurídica. o coronelismo como prática efetiva de poder local. deixando de lado o conhecimento de que a reação ao processo abolicionista foi violenta por parte das classes dirigentes do Brasil de fins do XIX e que as elites rurais apoiaram sordidamente o movimento golpista que conduziu ao poder parte pequena e despreparada do Exército Imperial. justamente numa classificação de desordeiros contra a nova ordem republicana. etc. segundo parâmetros progressistas de civilização.. subvencionado pelo poder central. Isabel a maior delas. que. pela primeira vez na História do Brasil. às vezes incitado pelo establishment republicano. Rio de Janeiro. conforme freqüentemente esboçamos nas oportunidades dadas. o governo dizimou milhares de campesinos miseráveis. Mormente Euclides da Cunha e Lima Barreto são aí analisados. acrescente-se tendo em vista duas das palestras que ocorrerão amanhã. São Paulo. a reordenação das grandes cidades. ao ensino superior. A República Velha que. 13 de Maio de 2001 in Texto de Lançamento do IDII. Imaginar. A. nos alvoreceres do século XX. 1983). da origem divina do poder. Contudo. dos intelectuais da vida pública brasileira. reais ou imaginárias. mas deixou ao relento milhares de ex-escravos e seus descendentes”. onde.. CERQUEIRA.. os genocídios de Canudos (1893-97) e do Contestado (1912-16). do Texto de Lançamento1: Em seu lugar. JOSÉ DO PATROCÍNIO e os mais jovens AFFONSO CELSO. sobretudo norte-americano. 3 Nesse sentido. Mas é certo que eles não puderam realizar a grande obra. é quase um clássico no estudo do afastamento. no sentido intelectualizado do termo. soube conduzir-se “acima das massas populares desprezíveis”. a socialização das perdas4. RODOLFO DANTAS e outros? Pode-se perfeitamente indicar que na TERRA DO NUNCA. “a Princesa Isabel acabou com a escravidão. retornando à temática da exclusão social dos Negros Brasileiros — ou Pretos Brasileiros — dos meios de acesso à educação básica e. Sentimentos sebastianistas. certamente não era a tônica dos sertanejos revoltados com a nova ordem. o vendilhismo e servilismo ao capital e domínio estrangeiros. em trocadilho que talvez pareça infame a alguns. 2001. essas grandes mulheres — D. Bruno da S. ela não correspondeu à sua equalização social com os brancos brasileiros. Em lugar do III Reinado. e todos os processos a ela inerentes: o aumento do controle do Estado sobre a vida civil. ALFREDO TAUNAY. menos ainda.

Brasiliense. tanto endógena quanto exogenamente. Que bem (?) — perguntariam os mais atentos. São Paulo. colocando em tons bem pragmáticos e programáticos e tentando não cair na tentação do historiador de muito divagar filosoficamente pelas demais ciências sociais às quais se irmana. torna-se imperativo uma busca concreta de nossas raízes históricas.” Dito isso. de maneira exemplarmente oligárquica. recorramos a um dos muitos LEÕES DO NORTE. ao examinar de longe as agruras escravistas quase que inerentes à nacionalidade brasileira que se encontra. voz e até destaque personagens que no II Reinado eram amplamente rechaçados e que Nicolau Sevcenko elenca tão bem no verdadeiro manual de história da literatura e da inteligência brasileira que é seu clássico LITERATURA COMO MISSÃO5. plutocrática e absolutamente antimeritocrática.palavras de um de seus presidentes. os arrivistas e aventureiros. 5 Cf. 1890. se diz republicana e igualitária desde 1889. Antes. no seu auto-exílio de Londres. „o . na expressão de Leonardo Dantas Silva. nestes 115 anos que se sucederam após a gloriosa LEI ÁUREA. para o bem ou para o mal. tendo como foco principal o período compreendido pela República Velha. 1920 e 1930 é certo que continuaremos rodando em círculos no que se refere a tentar esclarecer questões fulcrais sobre nosso desenvolvimento nacional. evidentes traços de texto sociológico e histórico acurado e basal. o livro de mesmo título. Nela. quando conseguiu publicar com grande esforço. quando não serviçais mesmo. por essa época. num resumo do que seria o ABOLICIONISMO nos idos de 1883. sendo tratados com desprezo e marginalização numa sociedade que. SEVCENKO. manteve-se no Brasil uma espécie de “apartheid” velado e escamoteado. o mestre Joaquim Nabuco. Em resumo. além de híbrida e mestiça. Nabuco explica que ABOLICIONISMO é um conjunto de idéias e ideais suprapartidários. apenas citando alguns nomes dos que podiam falar no próprio país e o exilado D.. Principalmente esclarecer porque. 1983. já bastante moldada. Nicolau: Literatura como miss„o: tensı es sociais e criaÁ cultural na Primeira Rep˙ blica. Nela. 1900. os golpistas. visando exclusivamente a abolição incondicional do chamado elemento servil do Império do Brasil e a subseqüente implementação de reformas sociais de cunho mormente fundiário e integralizador da vida nacional. passemos às apreciações do que seja mais especificamente a introdução e conceituação do NEOABOLICIONISMO.. porém. na dor do escravo. poder-se-ia dizer que enquanto persistir entre nós a ignorância — no sentido exclusivo de falta de conhecimento — da História do Brasil das décadas de 1880. filho e herdeiro da Imperatriz banida. LIMA BARRETO e MONTEIRO LOBATO. Como dissemos no Texto de Lançamento. ele diz ser a escravidão a marca nacional brasileira. 1910. Os escroques. segundo Evaldo Cabral de Mello e outros. Corria o ano de 1883 e a perspectiva de abolição imediata distava muito para Nabuco. segundo nossa opinião. LUIZ. Ed. onde os negros continuaram sendo vistos como cidadãos de segunda classe. que se encontra grande parte das explicações de muitas das mazelas do Brasil atual. mas que tem. O bem de um difuso senso caritativo do povo brasileiro em geral que. tinham vez. todos eles imbuídos de péssimas intenções no que tange ao governo e suas “facilidades”: assim o disseram os contemporâneos RUY BARBOSA. que é considerado obra de víeis político extremado. É ali. Nabuco tem a oportunidade esplêndida de “radiografar o Brasil”. em 2001: “Dentro dessas perspectivas. Como é bem sabido. pois a vitória expressiva dos escravocratas nas eleições gerais que o impediram de renovar mandato na Câmara dos Deputados o haviam desapontado enormemente. Em O ABOLICIONISMO.

) A deserção pelo nosso Clero do posto que o Evangelho lhe marcou foi a mais vergonhosa possível: ninguém o viu tomar a parte dos escravos. (. sendo necessário destruir a obra da escravidão. defenderá a imensa ilegalidade — e não somente. Contudo. em sua fantástica obra O QUINTO SÉCULO. sem deixar de apontar para sua grande convergÍ ncia: a abolição e as reformas. a partir de 1889. que o pensamento social e abolicionista nabuquiano se insere nos quadros intelectuais do liberalismo monárquico inglês e que. no intercâmbio. apoiadores ou não do compreender. essa tríade é responsável pelo que de melhor se produziu na intelligentsia brasileira de final do Oitocentos. imoral. o Brasil não as conheceu. o pior de tudo. já seria o primeiro grande passo de nosso RESGATE. Tais reformas. se abstrairmos sua humanidade. e para dizer a verdade moral aos senhores”. pelo contrário. mescla e profunda amizade que têm entre si JOAQUIM NABUCO. racistas. ilegitimidade — da escravidão. aqui e ali. passados mais de dez anos da Abolição. os contatos pessoais que irá travar com o Papa Leão XIII em Roma e a adesão formal de inúmeros bispos e padres ao movimento que ele liderará no Brasil entre 1884 e 1888 o fará revisar suas críticas e saber seja. contextualiza em uma narrativa digna do atributo de genial. ele considerava que a LEI que garantisse o término jurídico de um estatuto colonial torpe. muito tempo após sua morte.. Ressaltará.soube reconhecer. escreverá MINHA FÉ — ou FOI VOLUE — e não mais repetirá que “entre nós. Se a década de 1930 em diante passou a representar na História pátria rupturas aqui e acolá com a velha ordem excludente e estapafúrdia da República Velha. reparem bem. tal não se deu sem o esforço de vários intelectuais.. ele jamais deixará de creditar-lhe o maior entrave ao desenvolvimento saudável de nossa sociedade. representantes da hierarquia eclesial que. Não poupará no opúsculo críticas severas ao comportamento de muitos dos representantes do clero brasileiro. ANDRÉ REBOUÇAS e ALFREDO TAUNAY. E embora para ele. um pouco mais tarde. fazer uso da religião para suavizar-lhes o cativeiro. ela dá conta de esclarecer ao leitor sobre as enormemente díspares características individuais dos três. a particularidade nacional brasileira de não termos criado uma ambiência de ódios raciais como em outras terras colonizadas pelos europeus. acabar com a escravidão não bastasse. foram sucessões de governos de LANDLORDS — expressão cara tanto a Nabuco quanto a Rebouças — extremamente autoritários.. racionais e radicais reformas. nossa REDENÇÃO NACIONAL. o diferencial intrínseco entre (Corpo Místico de Cristo) e . enquanto realidade social eminentemente contrária às leis do Império de 1831 e 1850. ainda. Nesse ínterim. tal qual Ruy Barbosa. da Colônia ao Império. asqueroso mesmo. assim mesmo. a dor de um irmão. o movimento abolicionista nada deve infelizmente à igreja do Estado. a dor de um semelhante. pouco sobra de riqueza simbólica até de seu ofício. a posse de homens e mulheres pelos conventos e por todo o clero secular desmoralizou inteiramente o sentimento religioso de senhores e escravos. reacionários e. ele alterará suas convicções mais tarde. alinhando escravidão e barbárie. O que conhecemos. Maria Alice Rezende de Carvalho. quando pela chamada por ele mesmo “conversão” ao catolicismo. além de desmerecer o aspecto potencialmente virtuoso que cada clérigo tem em si de buscar uma heroicidade que só se reconhece publicamente em grandes processos de demanda popular e. O jurista Nabuco. Na verdade. ou ajergi ad snemoh ajergI . dando conta da supressão do tráfico externo e interno de africanos no Brasil. Com maestria.. ou como diremos adiante.

é certo. 9 Quando diz que “O longo silêncio sobre o passado. Isabel voltarão como uma das mais poderosas seivas histórico-culturais do Brasil do século XXI. ao se referir à memória oficial contrapondo-se às chamadas por ele memórias subterrâneas. olvidada pelo silêncio historiográfico que a República brasileira lhe impôs: Tzvetan Todorov. esperando a hora da verdade e da redistribuição das cartas políticas e ideológicas. retorno do recalcado. não se confunde com a política. nosso movimento traz consigo a tônica arraigada e viçosa de um engajado RESGATE HISTÓRICO-CULTURAL. in Estudos Históricos (ed. do Instituto D. retornando ao ABOLICIONISMO e tentando aqui entabular o exercício de conceituar o NEOABOLICIONISMO. e estas podem ser boas ou más. in Memória do mal. 7 Cf. Elas motivam abertamente ações políticas. aquelas histórias aparentemente científicas à toda prova. Se é procedente que a força com que retornam as verdades sobre um passado escondido ou propositalmente obscurecido sejam eminentemente maiores das que o conseguiram obnubilar. monografia de graduação em HIS (PUC-Rio). em nosso caso. 5). mas não paire dúvidas de que também seja sua retomada. famoso intelectual búlgaro estudioso da alteridade. 1989 (p. Encontramos com mais freqüência esse problema nas relações entre grupos minoritários e sociedade englobante. 2003 (p. ria. ainda assim. Pollak havia dito algo deveras interessante sobre aquilo que se costuma chamar.8 Pouco antes.. todos os pré-vestibulares e demais associações voltadas ao ensino dos outrora pobres e marginalizados —. Edições ASA. Contudo. Diga-se a título de justiça que o maior continuador da obra de NABUCO. A despeito do historiador ter de buscar avidamente a verdade. num sentido bem mais amplo. de: A memÛ da Redentora: o olhar de D. não significaria que seu trabalho não estivesse repleto de ensejos posturais políticos. esteja ligada a fenômenos de dominação. de maneira menos flagrante. o III Reinado que não veio e o exílio de D. 1989/3). evidentemente. então. portanto. A. 2003. nesta época. Isabel sobre o golpe de 15 de novembro de 1889 e suas ria conseq¸ Íncias (1888-1921). um pouco vagamente. a clivagem entre memória oficial e dominante e memórias subterrâneas. Tzvetan: A ConservaÁ do Passado.novo regime de Vargas. diz que: Embora na maioria das vezes. mas não é só e sobremaneira dela composto. a própria ciência humana tem finalidades políticas. dá-nos interessantes insights sobre as utilizações variadas que se faz do passado. Isabel.”7 Também Michael Pollak. será seu conterrâneo Gilberto Freyre. mas evidentemente NOSSO. Cf. mas também. quando “descobriram” — ou “redescobriram”. é a resistência que uma sociedade civil impotente opõe ao excesso de discursos oficiais. Assim colocamos na monografia sobre a memória da Redentora6. „o 8 Cf. silÍncio. ou “reinventaram”. isto não significaria verdade única. como bem sabemos e.” Idem. fundador de toda uma ciência social brasileira própria. depende da ótica do historiador — o BRASIL. mais além. “A ciência. tentação do bem. p.. como o são. ela transmite cuidadosamente as lembranças dissidentes nas redes familiares e de amizades. TODOROV. Ao mesmo tempo. longe de conduzir ao esquecimento. lato e verdadeiramente nacional. Lisboa. CPDOC / FGV. Michael: MemÛ esquecimento. caríssimos: NEOABOLICIONISMO é sim resgate histórico do ABOLICIONISMO. é claro. Bruno da S. 6 . 5. Rio de Janeiro. 150). E. numa alusão às teorias psicológicas freudianas9. e que vivenciou os aberrantes processos de stalinização em seu país natal. não remete forçosamente à oposição entre Estado dominador e sociedade civil.. fica relativamente fácil depreender que nosso movimento — digo nosso. POLLAK. CERQUEIRA.. assim como a significação do silêncio sobre o passado.

Estivesse aqui entre nós um profissional de psicologia e eu não sei se o há. o o o o A FormaÁ das Almas. e por outras palavras. bem como em nada contrapor-se e até endossar o culto cívico-religioso de D. Rio de Janeiro: Relume Dumará. e diria. C. mas. Escritos de história e política. „o Pontos e Bordados. Paranhos. a unirem-se por uma NAÇÃO finalmente remida e salva de suas seculares injustiças sociais. motivar e engrandecer a EDUCAÇÃO. 1987. Rui Barbosa. Cia. Belo Horizonte: Editora UFMG. „o A ConstruÁ da Ordem/Teatro de Sombras. Patrocínio. Rio de Janeiro: Revan/IUPERJ. 1998. teremos concluído nossa missão e o futuro nos reservará a gratidão de nossos descendentes. quando o Brasil negro-mulato-mestiço. São Paulo: Companhia das Letras. ria BOEHER.Afinal. EDUCAÇÃO e EDUCAÇÃO nossa maior mácula histórica e constitutiva será plenamente superada. Luís Gama. fazendo do ato de D. quando finalmente expurgarmos de nossa NAÇÃO os óbices sociais que pesam sobre milhões e milhões de brasileiros excluídos. Nabuco. O Quinto SÈ culo: André Rebouças e a Construção do Brasil. Luiz. 1954. cabe-nos indicar a exemplaridade nabuquiana. somos chamados à missão maior de cada cidadão brasileiro: defender. Lima Barreto. evidentemente. Cabe-nos rememorá-los. praticar o exercício constante de analisar nossas posturas pessoais perante o entorno de problemáticas que se nos fazem aparentes. Maria Alice Rezende de. chegará o dia preconizado por José Bonifácio. 1990. Antonio da Rocha (org. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. muito provavelmente. arieuqreC ed onurB . Enfim. Pari passu. além de tantos e tantos anônimos. neoabolir significará extirpar de nós mesmos qualquer resquício do Brasil escravocrata de antanho: brancos e pretos brasileiros são chamados. mais do que nunca. 2001. E é exatamente isso! Revisitar o passado histórico em busca de resultados para nossas pesquisas de História e Ciências Sociais e Políticas. História do Partido Republicano no Brasil (1870-1889). Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura. Os Bestializados e a Rep˙ blica que n„o foi. Porto Alegre: Editora Globo. juntos e irmanados. rebouciana e taunaysiana a todo momento. tomando emprestada a expressão que seu exilado pai usou para designar seu testamento político. conclamo a todos os presentes aqui. Dito isto. amigos e conhecidos: MÃOS À OBRA! REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS • • • • ALMEIDA. Antonio Conselheiro. para que possam conclamar a seus familiares. Isabel. José Murilo de. das Letras. que NEOABOLIR nada mais é senão PSICANALIZAR a Nação. parentes. Dicion rio de HistÛ do Brasil. Somente com EDUCAÇÃO. João do Rio. D. Isabel uma cotidiana FÉ DE OFÍCIO. 1998. CARVALHO. Finalmente. verdadeiramente redimido.). 1969. trabalhar. Saldanha da Gama. São Paulo. certamente também. G. atuar. Dom Obá. CARVALHO. Cidadania no Brasil: o longo caminho. num BRASIL cada vez mais assolado pela ausência de lideranças políticas comprometidas com as causas populares genuínas e ancestrais. maior lacuna que os homens de governo novecentistas nos legaram. Todos. Rebouças. 1996. Da Monarquia ‡ Rep˙ blica. Dantas. voltará a orgulhar-se dele próprio.

. um Pensador do ImpÈ Rio de Janeiro: Topbooks. Gilberto de Mello. 1990. Rio de Janeiro. FREYRE. São Paulo: Companhia Editora Nacional. São Paulo: Companhia das Letras. . Escravid„o e Cidadania no Brasil Mon rquico. Rio de Janeiro: José Olympio. Rio de Janeiro: IDII. Isabel.• CERQUEIRA. Canudos. 1996. Eduardo. Bruno da Silva Antunes de. 2000. Hebe. Marco Antonio. NABUCO. Keila. 2001. 1933. ria • • DAIBERT Jr. SALLES. Rio de Janeiro. Isabel sobre o golpe de 15 de novembro de 1889 e suas conseqüências (1888-1921). Rio de Janeiro: Maia & Schmidt. 1978. Ordem e Progresso. escravid„o e direito civil no tempo de Antonio Pereira RebouÁ Rio de as. de Rui Barbosa. O olhar de D. Lisboa: Edições ASA. São Paulo: Companhia das Letras. um monarca nos trópicos. • • • SCHWARCZ. Antonio da. São Paulo: Companhia Editora Nacional. • • • • • • • • GRINBERG. tentação do bem. 1999. lias „o „o ria 2003. „o. Rio de Janeiro: CPDOC/FGV. Lilia Moritz. Ricardo. O Fiador dos Brasileiros: cidadania. D. 1998. MATTOS. Nicolau: Literatura como miss„o. Dom Ob II d'¡ frica. SEVCENKO. Pedro II. Ilmar Rohloff de. o As camÈ do Leblon e a aboliÁ da escravatura: uma investigaÁ de histÛ cultural. TODOROV. Janeiro: Civilização Brasileira. Brasília: UnB. Cons. Evaristo de. Tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 1989 ria. 1989/3). o o o Sobrados e Mucambos. rio MATTOS. 1983. ria Bauru: Editora do Sagrado Coração . Joaquim. o o Nostalgia Imperial. SILVA. Rio de Janeiro: Topbooks. A Campanha Abolicionista (1879-1888). Minha FormaÁ 13ª edição. o povo da terra. 2000. Michael: MemÛ esquecimento. Casa Grande e Senzala. 1936. O Tempo Saquarema. o O Abolicionismo. São Paulo: Brasiliense. 2002. As Barbas do Imperador. Joaquim Nabuco. In Textos de Lançamento do IDII. POLLAK. São Paulo: Companhia das Letras. 2004. • • • SILVA JARDIM. o A memÛ da Redentora. 2001. Fed. 1997. silÍncio. São Paulo: Publifolha. 2003 „o VILLA. Guerra do Paraguai: escravid„o e cidadania na formaÁ do exÈ „o rcito. MALATIAN. In Estudos Históricos (ed. Tempo e Pensamento de um Homem Livre de Cor. de Cult. 13 de Maio de 2001. Rio de Janeiro: Fundação C. In Memória do mal. a "Redentora" dos escravos: uma histÛ da princesa entre olhares negros e brancos (1846-1988). Teresa. 4ª ed. o PrÌncipe do Povo. 1999. José Olympio. Rio de Janeiro: Access. São Paulo: Ática. 1995. 1959. Vida. Perfil de Euclides e outros perfis. Robert.EDUSC. 2002. rio. Rio de Janeiro: Topbooks. Rio de Janeiro: Paz e Terra. A ConservaÁ do Passado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. MORAES. ImpÈ e miss„o: um novo monarquismo brasileiro. Tzvetan. Propaganda Republicana. 1986. 1944.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful