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LILIAN MAGDA DE MACEDO

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES: SENTIDOS E
SIGNIFICADOS ATRIBUÍDOS POR FAMILIARES ENVOLVIDOS COM O
CONSELHO TUTELAR
Dissertação apresentada à Faculdade de Ciência e
Letras de Assis UNESP Universidade Estadual
Paulista para a obtenção do título de Mestre em
Psicologia (Área de Conhecimento: Psicologia e
Sociedade)
Orientadora: Profa. Dra. Olga Ceciliato Mattioli
ASSIS
2006 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Biblioteca da F.C.L. Assis UNESP
Macedo, Lilian Magda de
M141v Violência doméstica contra crianças e adolescentes:
sentidos e significados atribuídos por familiares envolvidos
com o Conselho Tutelar / Lilian Magda de Macedo. Assis,
2006
160 f.
Dissertação de Mestrado Faculdade de Ciências e
Letras de Assis Universidade Estadual Paulista.
1. Psicologia social. 2. Violência familiar. 3. Crianças
maltratadas. I. Título.
CDD 158.24
362.76 AGRADECIMENTOS
Na construção da história desse estudo, a muitos eu gostaria de agradecer. Em alguns
casos, agradecer pelos exemplos de compromisso, coerência teórico-prática, atuação política
e
ética demonstradas na atuação profissional; lembro aqui de meus professores de graduação,
responsáveis pela minha introdução aos princípios filosófico-metodológicos que embasam esse
estudo. Em especial, Osvaldo Gradella e Lígia Márcia.
Agradecer a minha também professora e depois, amiga, Nilma Renildes, pelas leitur
as
atentas e críticas ao que ainda era um esboço dessa pesquisa, pelos exemplos de atuação
comunitária, pelo compromisso, pelo apoio em muitas dificuldades e por muitos mome
ntos de lazer.
Igualmente pelas leituras e contribuições valiosas, pela paciência e dedicação, sou grata
às
minhas amigas e parceiras Eni Fátima e Suzana Marcolino. Parceiras e integrantes,
como eu, do
Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação e Psicologia Social: contribuições do Marxismo
(Neppem), no qual muito aprendi e muito cresci pessoal e profissionalmente, a c
ujos membros
dedico essa pesquisa, como minha contribuição às lutas que nos unem...
À Sueli Terezinha, pela paciência, pelas leituras e sugestões ao instrumento de colet
as de
dados dessa pesquisa e à sua análise, por seu exemplo ímpar de compromisso, dedicação, car
inho, companheirismo e generosidade com o trato do conhecimento científico, agradeço
e dedico
essas páginas, uma possibilidade de troca, em meio a tantos momentos de doação que el
a me
dedicou...
À Olga, pela confiança em meu trabalho, por ter me acolhido diversas vezes em sua
própria casa, pelo esmero com a construção desse texto e pelo seu exemplo de compromis
so
docente... Às cinco famílias entrevistadas e aos membros do Conselho Tutelar de Ba
uru, que
possibilitaram esse estudo. Espero que ele realmente possa ser uma semente e um
olhar coerente,
uma contribuição à construção de novos caminhos de atuação, para essa esfera da vida públic

que ainda é, tristemente, uma terra de ninguém .
À minha família: Priscilla, Patrícia e Paloma, minhas sobrinhas, meu cunhado Beto e,
especialmente, minha irmã Zeza, agradeço e também dedico essa pesquisa. Sem ela, com c
erteza,
eu não teria trilhado muito de meu caminho. Agradeço pela força, pelo entusiasmo com q
ue me
levaram pra frente nos momentos difíceis, pelo colo, por confiarem em mim e por agüe
ntarem
meus aborrecimentos...
Enfim, agradeço ao Emerson, simplesmente por estar ao meu lado sempre,
incondicionalmente... RESUMO
MACEDO, Lílian Magda. Violência Doméstica Contra Crianças e Adolescentes: Sentidos e
Significados Atribuídos por Familiares Envolvidos com o Conselho Tutelar. 2006. Di
ssertação de
Mestrado em Psicologia e Sociedade, Faculdade de Ciências e Letras de Assis, Unive
rsidade
Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho - UNESP -
RESUMO: A instituição familiar reveste-se de grande importância no que concerne ao
desenvolvimento emocional e pessoal do indivíduo. É nela que a primeira socialização aco
ntece;
sua organização e relações são definidas histórica e socialmente; na sociedade capitalista,
seu
funcionamento é pautado na hierarquização etária e sexual e no binômio autoridade/amor,
constituindo, inclusive situações de violência doméstica. Às famílias denunciadas por abus
s
físicos, psicológicos e/ou por atos negligentes é lançado um olhar e uma intervenção
culpabilizadora, na maioria esmagadora dos casos. Conforme Martin-Baró (1997), tai
s famílias
também são vítimas de toda uma conformação e estrutura social violenta, que lhe nega a
possibilidade efetiva de se humanizar. O presente trabalho objetiva pesquisar os
sentidos e
significados da violência doméstica praticada por pais e/ou responsáveis contra crianças
e
adolescentes sob a perspectiva desses mesmos pais e/ou responsáveis, então envolvido
s com o
Conselho Tutelar de Bauru-SP. Como elementos teórico-metodológicos norteadores temos
a
Psicologia Social Sócio-Histórica, fundamentada no Materialismo Histórico e Dialético, e
a
Teoria da Vida Cotidiana de Agnes Heller. Foram realizadas entrevistas semi-estr
uturadas com
cinco familiares abarcando os seguintes pontos: a compreensão e significação atribuídas
aos
motivos da procura e/ou encaminhamento ao Conselho Tutelar; a compreensão acerca
de
aspectos da história de vida com a família de origem; a vivência da realidade no cotid
iano; e a
compreensão, significação e subjetividade envolvida na educação dos filhos. A análise dos d
dos
obtidos seguiu o método explicativo de Vigotski, no qual a fala, a palavra, o rel
ato da família
entrevistada constituem o ponto de partida. A partir da organização de eixos nortead
ores buscouse a unidade de significação e, com ela, a relação entre os sentidos pessoais
e os significados
atribuídos pelo entrevistado à sua vivência individual. Espera-se, a partir de algumas
considerações obtidas com essa pesquisa, que formas de ação comprometidas com a possibil
idade
de uma ação intencional frente ao fenômeno da violência doméstica contra crianças possam se

efetivadas, visando uma transformação gradativa das condições e relacionamentos desumano
s e
alienantes.
Palavras-chave: Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes, Família, Psicologia
SócioHistórica, Teoria da Vida Cotidiana, Políticas Públicas.ABSTRACT
MACEDO, L.M. Domestic violence against children and teenagers: Purport and meani
ngs
alleged by Relatives Involved with the Guardianship Council. 2006. Master's diss
ertation in
Psychology and Society. F.C.L. Assis Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesqu
ita Filho"-
UNESP
Abstract: The family plays an important role in people's emotional and personal
development. It
is within the family that the first socialization process takes place; its organ
ization and
relationships are historically and socially defined; in the capitalistic society
, its function is based
on an age and sex hierarchy and on the authority/love binomial, producing for th
at very reason
situations of domestic violence.The families accused of physical and psychologic
al abuse and/or
negligence are investigated and often found guilty of it. According to Martin-Ba
ró (1997), such
families are also victims of a violent constitution and social structure which d
enies them an
effective chance of humanization. The dissertation at issue was carried out to
investigate the
domestic violence used by parents and/or their substitutes against children and
teenagers
according to the point-of-view of such parents and/or their substitutes involved
with the
Guardianship Council of Bauru SP. The theoretical-methodological foundations of
this research
are found in the Socio-historical Social Psychology based on the Historical-Dia
lectic
Materialism, and the Theory of Daily Life of Agnes Heller. Semi-structured inter
views with five
relatives were held comprising the following items: purport and meanings assigne
d to the reasons
of searching for and/or guiding to the Guardianship Council; understanding of li
fe history
features within the family at issue; the grasp of reality in their daily lives;
and the understanding,
meaning and subjectivity involved in bringing up their children. The analysis of
the data collected
in the research followed the explanatory method outlined by Vigotski, in which t
heir speech, the
word, the report given by the interviewed families is the point of departure. Th
e organization of
guiding points led us to the unit of meaning and further to the relationship bet
ween the personal
purport and meanings assigned by the interviewed subject to his/her own grasp o
f experience.
Based on some contributions made bi the research at issue, one expects that proc
edures bound to
the possibility of setting up a united front to face the problem of domestic vi
olence against
children may be applied, aiming at a step by step improvement of fierce and alie
nating conditions

3.1. História de Vida e Concepção de Educação____________________________ 119 6.1. O Cotidiano e o Desenvolvimento do Psiquismo_______________________________ 65 4.5.____________________________ _ 134 8.3.2.1. Futuro_________________________________________________ 47 4.3. Um Passado muito Presente__________________________________________________ 1 6 2.5. A Análise dos Dados____________________________________________________ 83 6.1. Key words: Domestic violence against children and teenagers. SUMÁRIO 1. Dados Gerais______________________________________________________ 89 6.2. Um Presente muito Passado__________________________________________________ 2 8 3. História de Vida e Concepção de Educação____________________________ 125 6.3. Quarta Família: Maria e Laura____________________________________________122 6.3.2. História de Vida e Concepção de Educação______________________________ 95 6.1. Dados Gerais___________________________________________________ 100 6.4. Das Políticas Públicas___________________________________________________ 28 3. Socio-Histo rical Psychology.Primeira Família: Antonio e Lucas__________________________________________ 89 6.1.3.3. Significados e Sentidos da problemática em questão e formas de resolução proposta_______________________________________________ 101 6 . Procedimento de Coleta de Dados__________________________________________ 7 7 5.4.2.4.1. Dados Gerais____________________________________________________ 122 6. Passado. A Teoria da Vida Cotidiana de Agnes Heller____________________________ 65 5.and relationships.1.. Significados e Sentidos da problemática em questão e formas de resolução proposta________________________________________________113 6. Significados e Sentidos da problemática em questão e formas de resolução propostas_________________________________________________ 90 6. e algumas considerações. As Entrevistas: Construindo Sentidos e Significados__________________________ _____ 89 6.2. Da Família. História de Vida e Concepção de Educação____________________________ 108 6. Terceira Família: Elisa e Paula___________________________________________ 1 12 6.1.5.2.1.2.2. Metodologia_______________________________________________________________77 5.4. da Infância e da Adolescência___________________________________ 16 2.1. A Psicologia Social Sócio-Histórica e o Materialismo Histórico e Dialético_________ 47 4. Significados e Sentidos da problemática em questão e formas de resolução proposta________________________________________________128 6. Presente.3. Dados Gerais____________________________________________________ 127 6.2.1. Theory of Daily Life. Dados Gerais____________________________________________________ 112 6.2. da Infância e da Adolescência___________________________________ 33 4.. Segunda Família: Sandra e Camila________________________________________ 100 6.1.2. História de Vida e Concepção de Educação____________________________ 132 7.1. Um Presente. Introdução________________________________________________________________09 2.2. Passado. Das Políticas Públicas___________________________________________________ 23 3. Quinta Família: Helena e Thaís___________________________________________ 127 6.1.3.5. Significados e Sentidos da problemática em questão e formas de resolução proposta________________________________________________123 6. Family. Referências Bibliográficas___________________________________________________14 1 . Futuro.2. Da Família.

em suas diversas formas. bem como de políticas públicas de assistência. não são tomados. Concluída a experiência. apresenta-se de maneira constante nas situações de abrigamento. sob suas diversas tipificações. nesta pesquisa. Na monografia de conclusão dessa especialização. no decorrer do desenvolvimento da história da humanidade. Essa constatação me impeliu ao curso de especialização na área oferecido pelo Laboratório de Est dos da Criança (LACRI). no âmbi to doméstico. e como ele é pouco abordado nos cursos de graduação em Psicologia. pude perceber como o tema da violência contra crianças e adolescentes. Sua compreen são parte da concepção datada social e historicamente e de seu movimento e de suas transformações . 10 incluindo atos considerados violentos. do Instituto de Psicologia da USP-SP. além de refletir sobre formas de intervenção ma is humanizadoras diante do fenômeno da violência contra a criança e o adolescente. realizei pesquisa com funcionários técnicos (psicóloga e assistente social. Quando se consideram os motivos e as condições socioculturais do envolvimento de familiares com o Conselho Tutelar. Dos resultados daí derivados. busca-se também rep ensar com eles questões como educação dos filhos. Assim. o que também implica consid erar o momento social e histórico do qual se fala. esta exercendo a função de coordenação.9. como estanques ou naturais. da verificação de escassez de intervenções junto às famílias e de nhas experiências profissionais e pessoais foi desenvolvido um projeto para mestrado: p esquisar a violência doméstica contra crianças e adolescentes sob a ótica dos familiares envolvidos com o Conselho Tutelar. na época) monitores ( cuidadores ) de uma Casa Abrigo. Introdução No último ano da graduação em Psicologia. de infância e de adolescência. objetivando compreender as formas de at uação e intervenção propostas para o trabalho com as meninas e com a comunidade e familiares . questões sociais envolvidas nas ações cotidiana . Os conceitos de família. o estudo aqui delineado objetiva investigar os sentidos e significados da violência doméstica praticada por pais e/ou responsáveis contra crianças e/ou adolescentes sob a perspectiva desses mesmos pais e/ou responsáveis. então envolvidos com o Conselho Tu telar da cidade de Bauru-SP. tive a oportunidade de realizar estágio de Psicologia Social e Comunitária em uma Casa Abrigo para meninas de até 18 anos de id ade. pensa-se na realidad e da família brasileira e na realidade de suas crianças/adolescentes. de sua contradição. A partir dessa investigação com os familiares. que haviam sido retiradas ou tinham fugido de seus lares. Anexo___________________________________________________________________1479 1. a adesão a uma concepção de homem determinado e determinante das relações sociais evidencia alguns dos pressupostos filosófico-metodológ . devido às diversas vivências d e situações de violência. na tentativa de buscar m ais conhecimentos acerca dessa realidade que perpassa as famílias brasileiras. A adesão a uma compreensão dos elementos envolvidos nesta pesquisa a partir de sua historicidade. perpetradas por familiares.

Em que pese essa realidade. A responsabilização/culpabilização atribuída à família pelas dificuldades. Em discussões referentes ao exercício de profissionais que atuam com as questões relativas à infância e à adolescência versando sobre os programas oferecidos por abrigos e instituições diversas. o papel ideológico que exercem os órgãos de assistência social públicos não pode ser esquecido se intentamos uma análise mais aprofundada da realidade das a tuações de profissionais responsáveis pelo atendimento a essas mesmas famílias. Nesse sentido. no Brasil. considerando a realidad . d e produção. nos trab alhos de instituições e órgãos públicos. a família e a infância foram alvo de diversas intervenções de caráter caritativo-religioso. antes atribuição religiosa. é lançado um olhar e uma intervenção culpabilizadora.icos do Materialismo Histórico Dialético. é realizar uma análise da situação atual dessa parcela da população. pelos problemas e pelas anormalidades de crianças e adolescentes ainda persiste fortemente. Autores como Donzelot (1986) e Rizzini (1993). psicológicos. Para as famílias denunciadas por abusos físicos. muito foi feito para se educar e enquadrar a população dentro de padrões de higiene. e ao buscarmos exemplos de atuação. na bibliografia da área . Ao longo da história. Falar sobre os serviços públicos de atenção requer que atentemos para a historicidade do Estado como responsável pela organização das relações humanas e pelo gerenciamento da vida pública e particular. o Estado começa a exerce r um controle maior sobre a proteção à infância. à luz dos quais realizamos este estudo. sobre as atuações em âmbito municipal. o lócus de ações concernentes às polític públicas e às atuações junto à infância e à juventude. Num contexto de aumento da população em geral e dos desamparados em particular. realcionados a essa temática. mas també como agência de controle familiar: a partir do século XVIII. filantrópico e/ou estatal. tal controle origin u-se de concepções filantrópicas iluministas e do higienismo. para suas fa mílias. nesse momento histórico. um dos pressupostos que sustentam a pesquis a aqui 11 proposta diz respeito à forma de atuação interventiva: se esta se pretende efetiva. de moral e de relacionamentos acarretando ações que tiveram a família como resposta pa ra os erros e desvios sociais encontrados e como lócus prioritário de educação. como os Conselhos Tutelares e as organizações responsáveis pela execução de medidas referentes à proteção da 12 criança/adolescente. era necessário racionalizar recursos e impor regras de assepsia e cuidado com a saúde da s crianças e com a sua educação. dentre outros. são. de ve buscar não realocar a culpa historicamente atribuída aos indivíduos. principalmente das camadas mais desfavorecidas da população. Nesse sentido. na maioria dos c asos. a partir de suas ações. isoladamente. Visando ao estabelecimento e manutenção de uma nova ordem vigente. percebemos a escassez de ações no âmbito familiar. a ordem burguesa-capitali sta. controlar a população e instruí-la para a conformidade e vivência com o padrões da nova ordem burguesa. tais órgãos de assistência. sexuais e/ou por atos negligentes. em especial as famílias e crianças po bres. nos apontam para a produção e a história da assistência à infância não só como agência de proteção.

043 meninos e meninas. Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (www. Somada a isso. os casos de violência (consideradas todas as suas tipificações) atin giram o total de 140.br/ip/laboratórios/lacri/estatisticas). como um avanço em questão de políticas públicas garantidas juridicamente. 1 Incidência: número de casos novos detectados num determinado período. de suas conseqüências e. É preciso ter claro. O ECA caracteriza-se.usp. ficando ausentes nas estatísticas os d ados não identificados oficialmente. Como exemplo estatístico podemos citar alguns dados referentes ao município de Bauru. porém. pressupõe uma concepção a-histórica. como uma legislação recente. isto é. 2 Prevalência: número de casos que a população adulta reconhece haver sofrido na infância e/ou adolescência. e um dos motivos de encaminhamentos e convocações de familiares pelo Conselho Tutelar diz respeito às situações de violência doméstica. sem particularidades sociais e culturais. a partir desse s dados. enquanto. no ano seguinte (2003). . 13 A fonte aqui utilizada para essa referência foi o Banco de Dados do Laboratório de Estudos da Criança. local de desenvolvimento da presente pesquisa. de métodos alternativos de educação dos filhos. promovido pela X Equipe do Telelacri. Dentre eles. dos tipos de violênci a doméstica exercidos contra crianças e adolescentes. O conceito de criança ne le presente. abordada pelo E CA. em 2002. Nos ano s de 2002 e 2003. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). traz alguns avanços no que respeita à garantia da cidadania dessa população específica. pode-se citar alguns indicadores referendados na bibliografia analisada e presentes em debate realizado junto à população no ano de 200 3. uma vez que abrangem soment e as violências notificadas aos órgãos competentes.e mais ampla. pode-se perceber a cultura da desvalorização da criança e do adolescent e. Uma das facetas da realidade de crianças e adolescentes no Brasil. a população com até 19 anos perfazia um total de 109. que tais números se restringem à chamada ponta do iceberg da questão. por parte dos presentes ao debate. o desconhecimento. agora entendid a como constituída por sujeitos de direitos e não por menores alijados de autonomia. no Teatro Municipal do já referido município. interior paulista. principalmente. O aumento de seu número de incidência 1 e prevalência 2 mostra-se como um dado preocupante e como um fator forte de intervenções públicas junto às famílias. como se a idéia de infância sempre tivesse exi stido e fosse a mesma para todas as culturas e para as distintas classes sociais brasileiras. Ainda como caráter diagnóstico. nesse momento histórico que estamos vivenciando. por exemplo. mostra-se naturalizado. t utelados por pais e pelo Estado. chegou a 250.

em particular. constitui-se uma questão ética e política. na realidade atual. quanto à identificação do fenômeno da violência nas relações cotidianas e alternativas de enfrentamento do mesmo.) nos apontam alguns dos multideterminantes da violência.. sem direito a participar de seu processo educativo. que a tornam amplamente refere ndada junto às famílias. baluarte da Psicologia Social Sóci oHistórica. quando possível. que buscar os fundamentos para o nosso estudo n os pressupostos do Materialismo Histórico e Dialético. Assim. interpretar um dado fenômeno. em nosso primeiro capítulo.. Entendemos. Nesse sentido. temos. jun to a essas famílias. além das políticas pú licas.que. Essa desvalorização. Isso posto. entende os mesmos como seres inferiores. da infância e da adolescência. Assim. atuação junto a famílias substitutivas. por conceber o homem como ser historicamente determinado e também como sujeito de sua história pess oal e social. como bem aponta a literatura. admitimos também a possibilidade de contribuir com algumas mudanças para a transformação dessa estrutura de sociedade capitalista. traz c onsigo formas de relacionamento humano desumanizadoras em si mesmas. do trabal ho infantil. percebe-se que o objetivo maior do conhecimento científico reside em orientar ações humanas transformadoras da realidade e. O passado da história não se encontra tão longínquo como se pensa. procurando captar o movimento humano que as produziu. então. o restabelecimento dos vínculos das crianças e adolescente s vitimizados com suas famílias de origem. psicossocial e educativa junto aos familiares permitem. culpabilização d as famílias. o resgate da historicidade da família. não nos basta apen as conhecer. mas sim produzir conhecimento que possa es tar a serviço do homem. se for o caso e 14 discussões junto à comunidade. desconhecimento da realidade dos familiares por parte de muitos profissi onais etc. Um Presente muito . pesquisar a violência doméstica tendo como referência os familiares envolvidos com o Conselho Tutelar e refletir sobre possíveis formas de atuação profissional. apesar dos avanços do ECA. em nosso segundo capítulo. suas necessidades e sua or ganização social e material. conseqüentemente. juntamente com outros elementos aqui discutidos (desconhecimento da violência e de suas conseqüências por parte dos pais. intitulado Um Passado muito Presente . que. em grande escala. Assim. que é contribuir com a construção de rel ações mais humanizadoras e propiciadoras de desenvolvimento e transformação. o aprofundamento das discussões e as possíveis reflexões sobre as ações dos participantes envolvidos nos levam a transpor para o plano cotidiano os conc eitos de que o homem aprende a ser homem . embora com 15 matizes diversos. em que pese a existência. vai ao encontro de um objetivo maior. se constrói na sociedade e a constrói. Muitas de suas determinações e muitas das marcas de atuação de seu tempo se fazem presentes. Por outro lado. assim sendo. . Trabalhos de intervenção terapêutica. uma vez que são improdutivos economicamente dentro do sistema capitalista vigente.

conforme se vê explicitado em seu quarto artigo. construção. transfo rmação. . enquanto as determinações referentes à sociedade civil e ao Estado encontram-se citada s ao longo de todo o estatuto. alimentação. Um Passado muito Presente.. para nos dedicarmo s aos pressupostos filosófico-metodológicos que embasam nossa pesquisa. desconstrução. Esse capítulo en contrase assim organizado: num primeiro momento. representadas aqui pelo Conselho Tutelar. ousamos tecer apontamentos gerais e indicativos de possíveis mudanças. Presente. abordaremos a Teoria da Vida Cotidiana. a infância e a adolescência. suas atri buições. Passado. título I (BRASIL. educação. também dedicado a nossa fundament ação teórico-metodológica. como fase preparatória para a vida adulta. . seus procedimentos de coleta de dados e formas de análise. Um Presente. no capítulo sexto. cultura.1. esporte. e algumas considerações . no Brasil. convivência familiar e comunitária. 2. caracterizações e implicações derivadas. realizaremos a construção teórica acerca da metodologia da pesquisa. O capítulo III da citada legislação garante as atribuições e responsabilidades delegadas à família natural e/ou substituta. profissi nalização. por exemplo. O Estatuto da Criança e do Adolesc ente (ECA) atribui o dever de proteção integral da infância e da adolescência à família. Consideramos que tais discussões possibilitam compreender mais adequada e concretamente os determinantes histórico-culturais e sociais relacionados à família at ual e suas relações com as políticas públicas... à comun de em geral e ao Poder Público.. de Agnes Heller e as i mplicações desse cotidiano para o desenvolvimento do psiquismo. lazer. a história humana encontra-se em constante movimento.. contradição.. avançando nas discussões acerca da concepção de homem e dos pressupostos marxistas. Enfim. No quarto capítulo. da Infância e da Adolescência Desde 1990. Reservamos um terceiro capítulo. Futuro. saúde. 1990). buscamos registrar as conformações atuais.. possuem uma lei que lhes assegur a o direito fundamental e primaz à vida. já que à luz de n ossos pressupostos teóricos. discussões teóricas e análises de diferentes autores acerca das políticas públicas e de suas relações com a família. tem seu nascedouro nas camadas economicamente superiores da população dos séculos XVI e XVII (nobreza e. Da Família. a infânc a e a adolescência. Em um quinto momento. Discutir as formas de atuação concernentes à população infanto-juvenil implica considerar o momento social e histórico do qual se fala. Passado. resgataremos a historicidade e a especificidade da Psicologia Social Sócio-Histórica e como essa área da Psicologia se articula com a per spectiva Materialista Histórica e Dialética. no que se refere aos deveres para com a infância e adolescência. Futuro. percorreremos os caminhos trilhados para a construção dos significados e sentidos pe ssoais que os cinco familiares entrevistados atribuem à violência contra seus filhos e/ou respo nsáveis.. . 16 2. A concepção de infância como uma fase dist inta do desenvolvimento.Passado... Num segundo momento.

A partir de então. promiscuidade. consolidado por instituições comuns (EN S. na separação entre a esfera pública e a privada. menor a riqueza da sociedade e maior a influência dos laços de parentesco . conforme nos mostram os estudos de Ariés (1986). 1991). que substitui a falta de poder defensivo do indivíduo pela coletividade. 18 nasce a proibição de relações sexuais entre irmãos (período chamado de punaluana). nos quais não exist ia a idéia de ciúme. não necessitando de sanções externas. A seleçã natural contribui para o fortalecimento dessa forma de organização coletiva. desenvolvem-se a propriedade privada e as trocas. detém-se na organização do homem em Hordas. à criança e à família foram assegurados status. no d ireito romano e no patriarcado. passando a estabelecer-se definitivamente no século XV III. na industrialização. a ser atributo da família e da escola. pautadas no liberalismo e conseqüente individualismo. segund o o autor. Engels (1984) ressalta a historicidade da família ao resgatar os diversos estudos antropológicos sobre as relações de parentesco desde o estado primitivo da humanidade até o estágio atual da civilização. p.posteriormente. próprios de uma classe que se pretendia distinta e homogênea. 1984. sociedade em que o regime familiar está completamente submetido às relações de propriedade (p. com a ascensão da burguesia ao poder. 3). capazes de tomar decisões independentes e de enfrentar o mundo competitivo. tem- se a origem de uma sociedade organizada em forma de Estado. com capacidade para se dedicar ao trabalho. n esse momento. pauta-se na organização produtiva e de trabalho: quanto menor o desenvolvimen to do trabalho. 17 A inserção e a preparação da criança para a vida adulta passaram. A forma mais antiga de família refere-se ao matrimônio por grupos. com o aumento da produtividade do trabalho. sendo inteiramente responsáveis por seus sucessos o u fracassos (REIS. classe que estabeleceu novas relações de produção econômica. aqui. autodisciplinados. incesto. a possibilidade de empregar força de trabalho alheia e o antagonismo de classe. o que culminou em grupos numerosos e estáveis. Continuando seus estudos. Engels (1984) reporta-se aos estudos antropológicos sobre as relações de parentesco existentes entre os Índios da América e da Índia. O desenvolvimento das relações humanas e familiares. com o estabelecimento do capitalismo. as quais não eram baseadas na consangüin idade. existia a tolerância recíproca entre os machos e a ausência de ciúmes. p revalece a . 3 Gens: Círculo fechado de parentes consangüíneos. 44). A educação deveria servir ao id eal burguês estabelecido: criar indivíduos autônomos. burguesia). valores e sentimentos diferenciados. Com a organização humana em sistemas de Gens 3 . mas em deveres recíprocos.

como a concebemos hoje. essa riqueza pertencia à Gens. a domesticação de animais e a criação de gado contribuíram para o aumento da riquez a. 61). o autor também salienta a situação de dependência das crianças em relação aos adultos no seio familiar. a expressão família ( ) foi inventada pelos romanos para designar um novo organismo social. em função da liberdade das pessoas. nesse último momento histórico citado.) abordando. Temos a passagem ao patriarcado.. numa transição para a c omunidade familiar patriarcal. Em suas palavras. 1984). Suscita o problema da libertação das mulheres (.. iniciam-se reivindicações para que a herança não seja mais transferida pelo direito materno. nesta revisão. c ujas explicações reais acerca de como ocorreu ainda configuram hipóteses. Pôster (1979). da consciência de classe do proletariado (. procurar instrumentos para a alimentação: era o proprietário desses instrumentos e em caso de separação.. com o pátrio poder romano. para o estudo da família. o homem passa a exercer importante posição social. deve-se buscar uma teoria crítica. A origem da estruturação nuclear da família. à medida que aumenta sua riqueza. de preferência. está calcada no surgimento da propriedade privada. Ainda de acordo com Engels (1984)..linhagem feminina na determinação da filiação e da transmissão de bens e heranças. Ao homem cabia. é outro autor que nos serve de referência. mas logo se desenvolveu a propriedade pr ivada (ENGELS. segundo o autor. Com isso. Seu escrito tece uma crítica aos historiadores que partem do 19 princípio de que a família sempre foi definida por seu tamanho e por suas relações de sa ngue. 17). o objetivo de sua obra seria redefinir a estrutura da família (. Além desses elementos. garantindo os limites de sua estrutura.) além dos tipos de dominação gerados em considerável grau no seio da família os de idade e os de sexo a família desempenha um importante papel ideológico na estabilidade do sistema social (PÔSTER. a passagem do matrimônio sindiásmico no qual os casais se mantinham por algum tempo juntos e. depo is. em oposição a uma teoria ideológica uma vez que a primeira justifica a natureza histórica d o objeto. p. estudar a família tem repercussões mais amplas e sociais: A questão da história da família estende-se aos principais problemas da vida contemporânea. então. na origem. p.. 17-8). Defende ainda que. 1979. cujo chefe mantinha sob seu poder a mulher. deve buscar conceitualizar sua estrutura interna de tal forma que permita t . e o direito de vida e de morte sobre todos eles (ENGELS. os filhos e certo número de escravos. Uma teoria crítica da fa mília.). Para ele. por sua obra dedicada à Teoria Crítica da Família . nem é justificativa para ela. enquanto a mulher levava os utensílios domésticos.. as questões que se relacionam com os padrões emocionais (p. ocorriam trocas de parceiros para a monogamia garantiu a necessidade de assegura r a paternidade dos filhos e a transmissão da propriedade privada. enfatizando o pressuposto de que a dependênci a não conduz necessariamente à dominação. 1984. Em suas palavras. define socialmente sua localização. levava-os cons igo. No Velho Mundo.

Reis (1991) diferencia o grupo familiar dos demais grupos humanos. o que futuramente nos servirá como modelo frente a outras figuras representativas.) a família é o espaço social onde gerações se defrontam mútua e diretamente. tornando compreensíveis as formas concretas de interação e as estruturas por meio das quais as noções de idade e se xo são internalizadas. 164). por ser ele o lócus de estruturação da vida psíquica (p. por exemplo. Nas palavras de Fromm. e onde dois sexos definem suas diferenças e relações de poder. no plano do desenvolvimento da individualidade (HELLER.. corroborados pelas análises de Reis (1991). em nosso país. (p. Pôst (1979) nos aponta uma característica fundamental que perpassa as relações cotidianas e que se estrutura e é aprendida no seio familiar: Além de ser o lócus da estrutura psíquica. 21 É interessante ressaltar que tais apontamentos de Pôster (1979). o estudo da família fornece um excelente lugar para se aprender como a sociedade estrutura as determinações de idade e sexo (PÔSTER. Além disso. a vivência emocional de seus membros. O segundo momento se dá na educação para a vivência das relações extrafamiliare 20 Ordem e hierarquia são valores axiológicos que a sociedade burguesa criou. valores transmitidos de geração em ger ação. imutável e universal de família. primeiros agentes de educação. Idade e sexo estão presentes. 1991). mas o faça através da interiorização da obediência a um sistema hierárquico e autoritário desde a infância. as relações aprendidas no seio da família são vividas intensamente pelos indivíduos.. como indicadores sociais em todas as instituições. A noção naturalizada. no Brasil. a imp ortância da obediência e do respeito à autoridade dos pais. conduz o funcionamento familiar a centrar-se no binômio autoridade/amor (PÔSTER. Marcadas que são por fortes componentes emocionais e afetivos. qu s pais. em diferentes momentos e classes sociais ... p. gera-os e os realiza em grau extraordinariamente profundo. ensinam aos filhos é o primeiro momento dessa práti ca ideológica. no qual não se encontr am relações que presentifiquem o binômio autoridade/amor como eixo estruturador. 1979. Em es tudos sobre a História da Criança. 162). por exemplo. encontram-se diversos relatos sobre a situação da criança e da adolescência. 197 9). é claro. nas práticas de educação familiar. 104). (. Entretanto. a família constitui um espaço social distinto na medida em que gera e consubstancia hierarquias de idade e sexo. e são exatamente esses os valor es principais que devem nortear as relações sociais. a família burguesa constitui-se no modo de organização da maioria das famílias. citado por Canev acci (1982): A família faz com que a violência objetiva das relações sociais não manifeste diretamente a sua brutalidade.raçar comparações entre os diferentes modelos históricos de família. Por outras palavras. são verdadeiramente característicos da família burguesa. Na sociedade capitalista. Aprendemos desde a mais tenra idade. Assim. Além de exercer a função de reprodução de mão-de-obra. discutido por Áries (1986). pautada na hierarquização etária e sexual. sendo elementos estrutur ais de sua personalidade. Na obra organizada por Del Priore (2004). exerce também uma importante função ideológica. Nesse sentido. a família contém-os. é fácil perceber os reflexos do nas cedouro do sentimento de infância e de família.

na época do descobrimento e no século XVI. os que vivem em ambiente rural e em ambiente urbano. em via de estruturação (.. O objetivo do ensino às crianças e aos adolescentes estruturava-se de diversas formas. a nudez e a poli gamia (p. A evangelização/educação baseava-se em sentimentos de temor e sujeição.. era transformar os pequenos em seres responsáveis. ( ) mais do que luta pela sua sobrevivência (. Assim. 23 Muitos foram os movimentos populares e da classe operária insurgentes contra ess . em que as crianças conviviam com grande número de adultos. assim.. não era realizado mediante as relações de autoridade e amor. Nos pequenos trabalhadores as lideranças saberiam identificar a causa preciosa. foi a grande preocupação dos jesuítas visando à formação da nova cristandade .). p. capaz de revelar aos olhos dos contemporâneos e também da posteridade. Os objetivos do ensino às crianças também eram outros. 2004.. os ricos e os pobres (. Entre os séculos XVI e XVIII.. com a percepção da criança como algo diferente do adulto. em todos os períodos da história brasileira. futuramente. a condição da classe operária no que esta tinha de mais miserável (DEL PRIORE. Se. A situação de pobreza da classe operária reflete-se. ambas caracterizadas em função de aspectos físicos e intelectuais. que iam da insalubridade dos ambientes de trabal ho e da precariedade das condições de saúde até o risco de morte e os acidentes constantes: A implantação da indústria e sua conseqüente expansão norteou o destino de parcela significativa de crianças e também de adolescentes das camadas economicamente oprimidas (.). O objetivo aqui. uma vez que os adultos s mostravam arredios aos novos hábitos e ensinamentos: a criança indígena (..) o trabalho infanto-juvenil imprimiria. Apesar das diferenças. co mo na 22 atualidade.. igualmente trabalhadores no início da industrialização brasileira.) era consi derada papel branco no qual se inscrevia a luta contra a antropofagia. Uma certa consciência sobre a importância desse preparo vai tomando forma no decorrer do século XVIII. Também se distinguiam os objetivos da educação de crianças escravas e.. talvez mais do que qualquer outra questão.). fundamentadas em sentimentos que não os baseados na autoridade e no amor.). nas crianças.104-5). p. a noção de adolescência.. No espaço das fábricas e no mercado informal a educação dessas crianças encontrava seu complemento.) procurava-se adestrar as crianças (. a criança estava sendo descoberta no Velho Mundo. pois os menin os e meninas viviam em situações-limite. estruturados em um rígido sistema disciplinar: vigilância constante. ocupando diferentes funções e sendo também responsáveis por sua educação. O reconhecimento de códigos de comportamento e o cuidado com o aspecto exterior eram fenômenos.. mesmo no Bra sil quinhentista. delação e castigos corporais. embora pouco descrita. nesse momento histórico. à época do Império esse sentimento encontra-se em fase de consolidação. Isso. Tais códigos eram bastante diferenciados entre os núcleos sociais distintos: os livres e os escravos . existindo também... tratava-se de um espaço permeado por muitos ato s de violência em nome da disciplinarização dos corpos e mentes infanto-juvenis. a criança indígena. no período do Império.. porém. vemos surgir uma preocupação educativa que traduzia-se em sensíveis cuidados de ordem psicológica e pedagógica (DEL PRIORE.. 2004. como à época dos jesuítas. a idade os unia (. na vida social. 260). 61). à época do descobrimento do Brasil. naquele momento.. a educação dos filhos da recém classe proletária. embora se possa afirmar que. legitimidade ao movimento operário. a educação da criança p ara o adestramento aos costumes e moral vigentes nunca deixou de existir.

Sujeitos ativos da história de nossa sociedade. a contradição e a s marcas da atividade humana. Sob a égide da Ciência. Nesse sentido. infância e adolescência primeiro p asso para compreendermos o homem concreto: produto e produtor de sua própria história. muitos estudos acadêmicos têm sido produzidos a respeito dos aspectos históricos e sociológicos da infância. Das Políticas Públicas Igual movimento de resgate histórico e de desnaturalização dos conceitos deve ser feit o no tocante às políticas públicas para a infância e a juventude. tanto no Brasil quanto fora dele. n esses contextos. o resgate histórico que aqui percorremos nos permite corroborar a desnaturalização dos conceitos de família. seja como áreas de conhecimento às quais se dedicam ramos específicos da Ciência. nos servirão de pano de fundo para o assunto aqui abordado . Alguns elementos já discutidos anteriormente. de acordo com as circunstâncias que lhe são dadas ou nas quais vive sua vida cotidiana e nela forma/desenvolve seu psiquismo. é fundamental conhecer o seu pa ssado e os seus antecedentes histórico-sociais. seja como caracterização e consolidação de fases distintas do cic da vida. mesmo que assim não fossem considerados. para uma análise que abarque a lógica dialética do movimento social e nos permita ir do concreto abstrato para o concreto pensado d as relações que o envolvem. dentre outros. como a Medicina. muitos argumentos são construídos e muitas políticas são criadas. Essa imbricação existente entre o nascedouro da infância/adolescência com a realidade socioeconômica cultural e com as determinadas produções de conhecimento científico nos possibilita traçar o caminho pelo qual muitos e muitos homens construíram a sociedad e e suas relações. as mortes de crianças e adolescentes.a realidade e inúmeros foram os dias. Antes. quanto como construções dessa mesma história social. por veze s. as Ciências produzem argumentos que decorrem de . crianças e adolescentes deixam retratados o movimento. a Sociologia. Isso para não dizer da produção de 24 conhecimento popular e religioso. e nos deixaram legados. Legados esses por meio dos quais nos constituímos ta nto como arquitetos. os anos. 2.2. então. acerca da história da criança. Para Freitas (1997). Nesse sentido. por exemplo. falar das políticas públicas para a população infanto-juvenil é também dizer sobre a história dessa população. justificando. Nesse sentido. a implantação de novos hábitos. a Pedagogia. valores e atitudes. até que alguma atenção por parte do Estado fosse destinada à questão. cujos c unhos assistencialistas permearam (e ainda permeiam) muitas das ações dirigidas a essa pa rcela da população. que se encontra fora do âmbito científico. do adolescente e da família. de analisarmos o atual Estatuto da Criança e do Adolescente e suas implicações. derivados de novas bases econômicas e de novos interesses políticos.

Assim. quando analisamos concretamente a realidade. 26 Num contexto de crescimento desordenado das cidades. 109). a infância pobre e moralmente abandonada era o alvo das ações. p. na segunda metade do século XIX. não é arriscado dizer que a história social da infância no Brasil é também a história da retirada gradual da questão social infantil (com seus corolários educacionais. nós nos deteremos no que ressalta Rizzini (1993) sobre a análise da construção da assistência à in fância no Brasil. por outro lado. período em que as classes médica e jurídica passam a tecer discursos e a legitimar a produção de conhecimento científico sobre as crianças e os ado lescentes. a Medicina Social encontra seu espaço de inserção. Na busca da coerência teórico-metodológica com os pressupostos aqui adotados. Para tanto. desenvolvendo relações sociais alienad as e antagônicas (MARTINS. em prejuízo da ordem nacional: A preocupação com a infância nos meios médico e jurídico do início do século está intimamente relacionada ao projeto de normatização da sociedade. 25 Se. etc. a arquiteturas escolares. chegando à natureza de política nacional. tendo em vista que tal desenvolvimento não atin ge a todas as crianças de forma igualitária. Aqui. definido por representantes das elites intelectuais. por não receber de seus progenitores uma educação adequada. considerada potencialmente perigosa. Freitas (1997) aborda em sua obra a história social da criança por meio de variadas frentes de investigação e de debate. o que nos fornecerá dados históricos para compreender a construção da política do Estatuto da Criança e do Adolescente.) do universo de abrangência das questões de Estado (FREITAS. de acordo com os novos padrões de adequabilida de. econômicas e por autoridades do país. v indo a constituir futuros marginais e delinqüentes. 13). a partir de uma necessidade de controle por parte da classe burgue sa e por meio da política de higienização pública. segundo ele. Rizzini (1993) inicia seus relatos sobre a história da assistência à infância. O que se pretendia era eliminar as desordens de cunho social. par a ensinar às mães como cuidar e educar os filhos. Para o autor.apreciações oficiais governamentais. . Rizzini (1993). a partir de tal constatação. sociais e econômicas a assistência à criança e a adolescente se institucionalizou. a efetividade do caráter preventivo que o desenvolvimento econômico possuiria. mas recorrendo a literaturas. no Brasi l. 2005. etc. 1997. 151). perceberíamos que as carências infantis têm sido associadas ao não-desenvolvim ento econômico. buscando compreender sob quais condições políticas. requerendo das instituições religiosas o papel de tutores dessa população. a relatos de viajantes. não se questionando. p. principalmente nos centros urbanos (RIZZINI. 1993. se fôssemos proceder a um balanço do século XX. Essa política adentrou os lares brasileiros. físico e moral. não se restringindo ao s argumentos oficiais e governamentais. p. nesse caso. consideremos que não podemos perder de vista que a contradição fundamental do regime capitalista (produção material socializada e apropriação privada) reflete-se por todas as esferas da sociedade. por meio dos documentos oficiais. focaliza essa mesma história. supragovernamentais e não-governamentais. sanitaristas.

bem como a totalidade nele inserida. o que será feito através de recursos vários como a assistência gratuita e os conselhos às mães pobres de como cuidar e educar seus filhos. justificando intervenções médicas asilare e extra-asilares. nesse sentido. nesse contexto histórico brasileiro.objetivando a prevenção da delinqüência infantil herdada dos pais. O alvo era m as famílias.. o projeto de organização de uma assistência asilar. sem deixar esquecida a construção de sua própria subjetividade . p ermite-nos buscar as múltiplas determinações do indivíduo concreto e não meramente empírico. e sua for a de construção da sociedade. são metas perseguidas pela assistência pública ao longo de sua história. A assistência social religiosa passa a ser questionada. Para R izzini (1993). p. constitui-se em uma das categorias fundamentais do Método Materialista Histórico e D ialético. Ciência e Estado unem-se. em 1923. No ano de 1889. que exigiam tutelas. temos a criação do Juízo de Menores. apontados até aqui. resultando numa classificação da infância e juventude e num esquadrinhamento da sociedade: O esquadrinhamento exercido pela assistência se dará em outros níveis também. a intervenção propriamente dita sobre uma família. a previsão econômica pela educação do elemento nacional como fator de produção. percebidas como causadoras dos problemas que atingiam a infância brasileir a. 1993. (. p. enquanto a filantropia passa a c obrar do Estado uma atuação mais significativa. como vive e como cuida de suas crianças. se assim pudermos chamar. uma vez que não se enquadra va dentro do saber sistematizado da produção científica. já que continuam a ser utilizados pelas instituições oficiais como justificativas para sua ação.) Mais do que diminuir as desigualdades. para tanto. e do Prim eiro Código de Menores. como resposta estatal. para prevenir desordens sociais e para g arantir a apropriação de novos hábitos e valores relativos à classe burguesa dominante. como seres menores . início de nossa República. junto à população da classe pobre e marginalizada. o movimento do passado que se faz presente. paulatinamente. 36). salientando. A compreensão da historicidade dos elementos de nossa pesquisa. A prevenção da criminalidade. a previsão e construção democrática pela formação de cidadãos. fundamentada nos princípios de prevenção e recuperação (RIZZINI. 90-3). o que implica num penetrar a família. conhecer o seu cotidiano. 1993. sobretudo políticas (RIZZINI. como por exemplo: o estudo das condições de vida das crianças pobres a título de dar-lhes a proteção adequada. O ápice da aliança Estado-Ciência. aconteceu com o estabelecimento de um código (o Código de Menores) que p ermitisse à ala jurídica legislar sobre as ações e as necessidades da infância e da adolescência. constituindo-se. no . con ebidas. não só para a época.. a qual amarão e farão amada. O movimento contraditório expresso na história. podemos aprofundar e complementar a análise e revisão que nessa parte se construiu. que tudo quanto forem deverão à República. de 1927. no tocante às crianças e aos adolescentes. No capítulo que se segue. a assistência é atraente para o Estado como instrumento de redução das diferenças. em um instrumento útil para garantir os então interesses estabelecidos: 27 Os argumentos não poderiam ser mais convincentes. então. a assistência oficial estatal à infância e à adolescência ainda era tímida.

a burgue sia.Das Políticas Públicas Como vimos. que expressa um salto qu alitativo fundamental na consideração social da infância (p. movimentos sociais mobilizados pela Igreja Católica. um menor.. 28 3. a Medicina Social. ampliaram os debates sobre a situação da infância no país.. de 1989. no capítulo anterior...069 (. firmando a Convenção dos Direitos da Criança com a legislação específica do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) de 1990 (SÊDA. a criança era simplesmente um objeto que o adulto deveria formar. 4). 25-6). p. a importância da Ciência. 4). De acordo com Mendez (1994. trabalhadores sociais. apud ANDRADE. a infância. a construção da objetividade e subjetividade d a vida no modo capitalista de produção. profissionais liberais. constituída pelo mundo dos menores (p. De forma inversa. pode adentrar aos lares e estabelecer novas formas de relacionamentos familiares. não capaz. não era valorizado por si mesmo. responsáveis por entidades governamentais. a existência da doutrina da situação irregular. lideranças comunitárias. representada pela Medicina e pelo Direito. resume-se na criação de um marco jurídi o 29 que legitime uma intervenção estatal discricionária sobre essa parte do produto residu al da categoria infância. que regia o Código de Menores. sem que sua condição de ser humano dotado de direitos e deveres fosse assegurada.1. Lei Federal nº 8. de 1959. para a nova conformação social e suas conseqüentes relações humanas. Como vimos. 3. o ser criança. de um lado. o Es tatuto da Criança e do Adolescente estabelece a doutrina de proteção integral e faz referência a u m conjunto de instrumentos jurídicos de caráter internacional. constituído agora pela nova classe dominante. que foi muito pouco cumprid a pelos países signatários. magistrados.) que legisla sobre um reordenamento políticoinstitu cional que reestrutura o quadro da política pública destinada à população infanto-juvenil e institui os mecanismos para uma municipalização e controle das políticas de assistência social dirigidas a essa população os Conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente e os Conselhos Tutelares (BACCINI. garantiu os princípios da cidadania infanto -juvenil. Um Presente muito Passado. 2000. temos o sistema judiciário com autonomia . de 1927 . sendo ratificada e complementada na Convenção dos Direitos da Criança. que resultaram na promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).momento atual da história da humanidade relativo às crianças e adolescentes e à violência doméstica. era dotada de menoridade absoluta. 1998). país signatário. surgindo as convicções para a Declaração dos Direitos da Criança. esp ecialmente no tocante ao trato da mãe com seu bebê. não autônoma em relação aos pais e ao Estado. sob o escopo do conhecimento da hereditarieda de e transmissão de doenças/déficits de outro lado. no primeiro código brasileiro dedicado à infância e à adolescência o Código de Menores. Ficou clara também pelo exposto. A população infanto-juvenil agora passa a ser sujeito de direitos: No Brasil. por meio da estratégia da higiene pública. A evolução das legislações parte dos escombros da II Guerra Mundial. contemplando nesse contexto. por parte do Estado. O Brasil. Se. a institucionalização de políticas de assistência à infância e à juventude partiu de uma necessidade de controle e de imposição de novos hábit os à população. em sua Constituição de 1988. educadores. 1997). não-governamentais e intergovernamentais.

direitos da mulher e direitos da criança e do adolescente (p. 21).. encarregad o pela sociedade de zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente. assegurada a participação popular paritária por meio de organizações representativas. acrescentaram às demandas jurídicas a conflitualidade familiar.)31 Art. na formulação das políticas e no controle das ações em todos os níveis (p. através das transformações do direito da família... e organizadas com base nas seguintes diretrizes: I. é o órgão . descentralização político-administrativa. 195. previstos no art. execução e controle das políticas. as reestruturações nas regras familiares por razões econômicas e culturais. fundado na descentralização político-administrativa e na democracia participativa. segundo leis federais. ainda de acordo com a autora.. cri ança e juventude. II. e até mais aceita. novos mecanismos passam a reger as relações sociais 30 mecanismos jurídicos. 131: O Conselho Tutelar é o órgão permanente e autônomo. nãojurisdicional. por meio de organizações representativas. cabendo a coordenação e as normas gerais à esfera federal e a coordenação e a execução dos respectivos programas às esferas estadual e municipal.). assistência social. Estaduais e Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Nessa situação. pelas modificações nas relações conjugais. definidores d as políticas de assistência social à infância e à juventude. que se tornou socialmente mais visível. Essa participação foi instituída em noss a Constituição Federal de 1988: Art. no bojo desse processo. temos então a institucionalização da participação da sociedade civil. O ECA. Estaduai s e Municipais. Como resultado. na gestão das políticas sociais. que visam a um maior envolvimento e participação dos cidadãos em u m sistema de serviços jurídico-sociais: entram em cena os Conselhos Nacional. bem como às entidades beneficentes e de assistência social. 204: As ações governamentais na área da assistência social serão realizadas com recursos do orçamento da seguridade social. Os Conselhos de Direitos são. (. estaduais e municipais. No plano social mais amplo. com a justiça tendo de se adequar. define as diretrizes do atendimento à infância e à juventude: Art.para aplicar leis e decidir sobre os conflitos derivados da nova realidade. O Conselho Tutelar. temos uma explosão da litigiosidade . definidos nessa Lei. participação da população. por sua vez.. além de outras fontes.. que estabelece a co-responsabilidade da sociedade e do Estado. por meio da criação de alternativas paralelas à admin istração convencional. em consonância com esse modelo jurídico. portanto. como o desenvolvimento do trabalho feminino e. que colocaram em cena a flutuação da guarda e a circulação de crianças de famílias monoparentais e reconstruídas. 142). pode-se identificar as propostas de or ganização do sistema de garantia dos direitos da população infanto-juvenil: modelo institucion al para gerir as políticas de assistência social. 88: São diretrizes da política de atendimento: (. órgãos deliberativos e controladores das ações em todos os níveis. De acordo com esse artigo constitucional.) II a criação de Conselhos Municipais. Para Baccini (2000). na formação. nas diversas esferas das políticas públicas (saúde. órgãos paritários e deliberativos.

não se colocando em discussão as propostas organizacionais da política par ticipativa. e que a maioria de suas ações ocorre em relação à falta. de uma forma genérica. omissão ou abuso dos pais ou responsáveis situações referentes à conduta de crianças e adolescentes. em seu papel. nas múltiplas atribuições do Conselho Tutelar dados suficientes que explicitem a que fato concreto esta ou aquela medida se refere. atuando junto aos movimentos organizados. sujeitos. Ao Conselho Tutelar cabe ainda. Contudo. Nesse sentido. e a terceira noção chama a atenção para o caráter político do Conselho Tutelar. descaracterizando a proposta oficial de . é meio para o encaminhamento de crianças e adolescentes para os devidos equipamentos sociais. devendo o órgão elabora políticas e encaminhá-las aos órgãos governamentais. Na pesquisa de Andrade (1997). Visam a oferecer os instrumentos legais para o controle social da violação e restituição dos direitos de crianças e adolescentes presentes no Estatuto. por legislações municipais. a prática cotidiana reduz. reconhecer. Sua composição e demais atributos são definidos localmente. suas atribuições não se restringem à atuação junto às crianças e adolescentes ou a seus familiares. observando-as ao pé da letra. no plano mais geral. discernir sobre as ações necessárias e articulá-las às estruturas institucionais que devem ser acionadas para viabilizá- las (p. em grande parte. o direito violado. não são instrumentos auto-aplicáveis. Assim. 136. nesse trabalho. A dissertação de mestrado de Baccini (2000). no cumprimento das políticas instituídas. muitas são as contradições. Silva (1994. contra os direitos da criança e do adolescente (ECA. três seriam essas noções: a primeira entende que o órgão é encaminhador. temos uma atribuição fiscalizadora também do papel do Estado. isto é. permite-nos compreender a institucionalização desses órgãos no processo de responsabilização pelas crianças e adolescentes. Pa ra a autora. no instrumento legal. na realidade dos Conselhos Tutelares investigad os. Ainda nos servindo das considerações de Baccini (2000): As atribuições do Conselho Tutelar especificadas no artigo 136 do ECA articulam direitos. apud BACCINI. a segunda afirma que ele não é um pronto-socorro de casos. IV) e representar junto à autoridade judiciária nos caso s de descumprimento injustificado de suas deliberações (ECA. art. na realidade dos Conselhos Tutelares. enfatizando como sua maior relevância o papel de subsidiar as políticas públicas. cujas considerações foram em alguns momentos aqui enfocadas.responsável pela garantia da execução desses direitos instituídos. cujas constatações já nos auxiliaram. 46). desde o início de sua impl antação. o que nem sempre merece d estaque ou é alvo de ação efetiva. Cabe aos sujeitos concretos que desempenham a atividade cotidiana de controle das ocorrências de violação. podemos perceber que. à autoridade judiciária e ao poder executivo. condições sociais e estruturas institucionais 32 viabilizadoras. 2000) considera que tal discernimento origina noções diferentes por parte dos conselheiros. art. não há. 136. III-b). sobre o papel dos Conselhos Tutelares. o leque de atividades do(a)s conselheiro(a)s t utelares. mas se amplia para uma ação junto ao Ministério Públi co. encaminhar ao Ministério Público notícia de fato que constitua infração administrativa ou penal. já que os conflitos passam a ser regidos e administrados por políticas municipais. garantia e restituição de direitos. Segundo ela.

ao observarmos a realidade e a literatura da área. II. concentrando sua ação no aqui e no agora da assistência e do controle individuais. 129. os determinantes mais amplos da violência manifestam-se como uma violência estrutural. Da Família. direta ou indiretamente pe rmeados por essas e outras políticas públicas. II. configurando-os como instâncias públicas que fiscalizam. na análise. É necessário examinar o ato violento no marco dos interesses e valores co ncretos. 3. II. Analisar a violência a partir da perspectiva da Psicologia Social. IV.2. torna-se impossível compreendê-la fora do contexto social em que é produzida. 98. autores co mo Martin-Baró (1997) e Vasquez (1990) nos oferecem estudos e considerações pertinentes. que somos todos nós. c onsiste em . 101. já que nos fundamentamos no referencial teóricometodológico da Psicologia Social Sócio-Histórica. Temos de entendê-la no seu carát er histórico e. Assim. além de concebermos a possibili dade de uma práxis profissional ética e política. 101. art. comparti lhando e/ou substituindo a responsabilidade dos pais por seus filhos. num determinado momento históric o: El punto de partida para analizar el fenómeno de la violencia debe situarse en el reconocimiento de su complejidad. No solo hay múltiples formas de violencia. 34 Segundo Martin-Baró (1997). cualitativamente diferentes. seus determinantes e implicações. VII). na análise de Andrade (1997). art. 364-5). da Infância e da Adolescência Anteriormente às considerações relativas à temática específica da Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes. para o autor. Ou seja. adolescentes e suas famílias. pessoal etc. percebemos que uma das relações estabelecidas entre o Conselho Tutelar e as famílias refere-se à Violência Domést ca contra Crianças e Adolescentes. educativa. Para tanto. é importante nos determos em alguns apontamentos so bre a violência de uma forma geral. Elas também evidenciam muitos dos resquícios assistenci alistas do histórico atendimento à criança e ao adolescente. denotando i nteresses legais e práticos que visam à manutenção de políticas referentes a uma forma de organização social e seu modo de relações.). conforme discutiremos posteriormente. que caracterizam cada sociedade ou cada grupo social. influenciam e controlam crianças. apontada pelas bibliografias pesquisadas como um d os motivos mais freqüentes que fundamentam as atribuições do Conselho Tutelar junto às crianças e aos adolescentes (ECA. 33 Essas e outras considerações fizeram-se presentes na realidade pesquisada. 129. a atuação do Conselho parece se restringir a responder à demanda imediata. 129. mecanismo de exigibilidade de direitos . partindo-se d o concreto abstrato para o concreto pensado. VII) e junto a seus pais ou respon sáveis (ECA. comprometida com transformações possíveis da realidad e com a construção de sujeitos históricos. exigida por todo o ordenamento social e distinta da s outras formas de violência (interpessoal. que vimos anteriormente. aspectos esses que analisaremos a seguir. sino que los mismos hechos tienen diversos niveles de significación y diversos efectos históricos (p. Esse movimento da realidade deve sempre ser contemplado. por conseguinte.

Con ello nos referimos a un marco de valores y normas. e em sua totalida de de sentido: a violência instrumental (empregada como um meio para um determinado fim) e a violên cia terminal (utilizada como um fim em si mesma). y un inmediato. por meio do qual todas as suas manifestações.. o qual a ação violenta semp re requer: (. 1997. outra discussão importante e necessária. d ebe darse un contexto social que estimule o al menos permita la violencia. Além dessa diferenciação. 365). por exemplo. tem de ser histor icamente referida à realidade social que a produziu e que a afeta. uma das complexid ades do fenômeno é o tratamento dado à violência como forma terminal. formales o informales. O primeiro deles define-se pel a estrutura 35 formal do ato. Como quarto elemento constitutivo. 375). incluindo aqui a institucionalização da violência mediante os mecanismos orga nizativos e legais.) un contexto amplio. como algumas atividades profissionais e a educação familiar. y miedos materiales.. o conceito de violência é mais amplo que o de agres . A agressão é definida como uma forma de violência. Uma distinção importante discutida ainda pelo autor diz respeito aos conceitos de Violência e Agressão. que acepte la violencia como una forma de comportamiento posible e incluso la requiera (. Ambos os conceitos trazem consigo sentidos valorativos. inclusive as consideradas gratuitas.) Ante todo. pois à luz dessa realidade . uma vez que estaria ligada a uma necessidade de conservação da espécie ou a uma pulsão vital . expressa em sua forma extrínseca (ou na conduta). no momento constitutiv o de lo humano en que las fuerzas sociales se materializan a través de los individuo s y los grupos (MARTÍN-BARÓ. temos o contexto possibilitador. na qual se usa de maneira intencional uma ação p ara causar algum dano a outra pessoa. pela qual alguns traços do ato violento somente são explicáveis pelo caráter pessoal daquele que o pratica.. e s decir. o autor nos aponta o fundo ideológico da violênci a.compreendê-la em sua configuração entre o indivíduo e a sociedade. p. que em si não é boa nem má. convertido en normas. Como terceiro elemento. de donde surgen valores y racionalizaciones que determinan su justificación (p. O segundo elemento constitutivo de nosso fenômeno diz respeito à equação pessoal. sendo considerado violento todo ato em que se aplica uma dose excessiva de força. refere-se aos elementos constitutivos da violência.. a racionalidade da violência concreta. social. situacional (. Segundo Martín-Baró. enquanto a agressão não o seria . 1997. mas um bom número de psicólogos tende a considerar a violência como negativa. re mite a una realidad social configurada por unos intereses de clase. Assim.) En la medida que este contexto se encuentre institucionalizado. p. o que leva ao pressupos to da maldade ou do transtorno das pessoas que a exercem. la violencia podrá alcanzar cotas mayores (MARTÍN-BARÓ. pessoal ou grupal.. Para Martín-Baró. ressaltada pelo autor. rutinas.. 373-5).

) la conclusión más importante que de ahí se sigue es también la más obvia. 37 Toda práxis é processo de transformação de uma matéria e. em que o desenvolvimento pessoal dos indivíduos vai acontecendo nesse con texto de desordem estabelecida pelos processos de socialização e modelos violentos: Al privi legiar el bien individual sobre el bien colectivo. usa-se de atos violentos como meio para que a modificação intencionada se efetive. se estimula la violencia y la agresión co mo medios para lograr la satisfacción individual. portanto. a violência de pais contra seus filhos (criança s). que promueven su justificación o condena según la propia con veniencia (p. anterioremente. 376). p. o autor pontuava: (. uma finalidade. estamos considerando o homem sob o aspecto de sujeito da violência e a natureza ou a matéria como seu objeto a violência como um meio.. pressupõe. um carát er consciente da atividade. E . ainda. Como. o homem não é apenas sujeito. nessa atividade humana . pode ser compreendida como o uso da força como um meio para determinada produção (anteriorment e prefigurada como uma finalidade). mientras no entre en crisis. mas como um fim em si mesma. a violência não se caracteriza como um meio. no es una violencia de individuos (. é que os resultados da violência mostram o seu sentido: la violencia se enraíza asi en la estr ucturación de 36 los intereses de clase. def inido pela luta de classes. Nesse caso. Até este ponto. se impone con una connaturalidad de la que no es consciente en forma refleja (MARTÍN-BARÓ. 409). Essa forma de análise proposta por Martín-Baró tem sua conotação ampliada nas proposições de Vasquez (1990). a atividade humana que produz objetos. Em sua obra Filosofia da Práxis (1990). mas também objeto da ação violenta. Práxis constitui. suas causas imediatas ou precipitadoras e sua institucionalização e elaboração social. seu contexto social. então. No caso de um dos elementos de nosso objeto de estudo. o conceito de práxis. sim. Para Martín-Baró. El hombre se vuelve contra su prójimo (p. como habitualmente se cost uma relacionar. para que isso seja possível. o enfoque histórico proposto para a análise do fenômeno permite contemplar a abertura humana para a violência e a agressão.. por tanto. se trata de una violencia de la sociedad en cuanto totalidad y. 1997. A violência. este autor traça também estreitas relações entr violência e a práxis. então. lança-se mão de uma determinada força. o homem a usou para transformar a natureza e construir a sociedade..) por el contrario. uma intencionalidade. Detalhemos a relação desse conceito com o conceito de violênc ia apontado na citada obra de Vasquez. Pode-se dizer que a violência acompanha a práxis. 406). preconiza a conceituação de práxis não como idéia limitada ao caráter utilitário ligado à palavra prática. se poderia analisar o papel da violência. a antecipação dos resultados ou.. la violencia ya está presente en el mismo ordenamiento social y. Analisando um conceito central para a Teoria Material ista Histórica Dialética.

em nossa compreensão. obter seu reconhecimento (. p. Traçar nortes compreensivos e fundamentar-se em parâmetros. Nessa inter-relação homem corpóreo/homem consciente. da prostituição ou das enfermidades (. seja indiretamente. mas sim como ser humano e consciente (VASQUEZ. e não no sistema que a engendra necessariamente. que aparece claramente na superfície dos fatos e que é vivida diretamente..) própria violência como modo de vida. mas como ser social: A ação violenta como tal é a ação física que se exerce sobre indivíduos concretos. Vasquez nos traz um alerta essencial para a atuação junto aos familia res agressores e/ou junto àqueles que. referente à função ideológica da família. assim como Martín-Baró (1997). econômicas. não como realidade estanque e particularizada. da violência. de classe. 395). Nesse sentido... físico. 1990. de uma forma direta ou indireta. através da interiorização da obediência a um sistema hierárquico. que vai ao encontro dos pressupostos t eóricometodológicos adotados no presente estudo. seja direta. dirigida aos indivíduos como seres sociais. conforme salientamos. uma vez que.) seu verdadeiro objeto não é o homem como ser natural. como os apresentados até este ponto. a violência econômica a serviço da qual aquela está (VASQUEZ. na presente pesquisa. e de Reis (199 1). É a violência fome. o caminho fica livre para que a atenção se centralize na própria violência.) Perde-se de vista que essa violência. estudiosas e pesquisadoras do L ..) o corpo é o objeto direto e primeiro da violência. 379- 80). mesmo que esta. O indivíduo não é compreendido como um se r per se. (. da miséria. e sim como ser social e consciente. Para nos referirmos agora mais especificamente à violência praticada por pais e/ou responsáveis contra seus filhos. (p. Azevedo e Guerra. nela imbricada.. Buscamos. políticas e institucionais. A violência visa dobrar a consciência. acerca do papel da família na interiorização da violência 3 8 objetiva. como veremos posteriormente. 1982). violência vinculada ao caráter alienante e explorador das relações humanas. econômico-social. resgatamos as discussões de Fromm (in CANEVACCI. é a expressão de uma violência mais profunda: a exploração do homem pelo homem. mas se encontra. espaço vital para o aprendizado e interiorização hierarquias de gênero e geração. não está desvinculada e/ou separada da agressão que muitos pais exercem contra seus filhos. 1990.. encontram-se e nvolvidos com a violência doméstica: Uma vez esquecida a raiz objetiva. como ser corpóreo.. p. sujeitos de determinadas relações sociais. por meio de ações e/ou omissões. 382).. para abordar a temática da agressão de pais contra filhos . pautar nossa atuação junto aos familiares e tecer considerações sobre nosso objetivo de estudo baseadas nessa proposição e no alerta funda mental trazido pelo autor. no capítulo anterior. pensamos a realidade a part ir de sua historicidade e de seu movimento... caracteriza-39 se como uma forma de compreensão ampliada. Estruturação da violência essa que. não se dirija em última instância ao homem como ser meramente natural. de educação dos filhos delegada à família? Vasquez (1990) entende a ação de seres humanos sobre outros seres humanos como uma práxis social. destaca a violência potencial e real do Estado. Vasquez (1990). a rigor. sim. dotados de consciência e corpo (. na sociedade capitalista.

Quando nos referimos às atuações com familiares. caracterizando o abuso do poder/dever dos pais. apresenta-se sob diversas tipificações. que abarca a experiência de socialização de cada um de seus membros. demandando. GUERRA. A partir da literatura da área e da pesquisa bibliográfica realizada. levando em con ta um desajuste genético ou uma falta de habilidade dos membros familiares em lidar com determinadas situações conjugais e/ou parentais. e o pólo mais fraco . Segundo elas. Para elas. um modelo de compreensão linear da violência doméstica é insuficiente. que. O autor aponta como estratégias de intervenção: a ênfase no papel da equipe multiprofissional pa ra a identificação correta dos casos de violência física e tomada de decisão. no entanto. como se pode apreender do conceito apresentado anteriormente: a violência física. centrando-se na família e não somente no agressor ou na vítima. a Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes caracteriza-se como: Todo ato ou omissão praticado por pais. portanto. psicológi ca e a negligência. Um dos exemplos dessas publicações e das formas de intervenções propostas é a pesquisa realizada por Bastos (1995). um maior número de publicações refere-se aos tr abalhos e atuações junto às crianças vitimizadas.12). p. 2003). caracteri zado pela vitimização da criança ou adolescente. Pólos diferentes de relacionamento também se expressam no conceito: o pólo mais forte . sexual. isto é. seja esta última manifestada no âmbito dos cuidados protetivos. além dos fatores situacionais específicos (AZEV EDO. em termos quantitativos. sexual e /ou psicológico à vítima implica. numa coisificação da infância. pudemos conclu ir. a partir de revisão de literatura ing lesa. no tocante ao gênero (sociedade falocêntrica) e às gerações (sociedade adultocêntrica). atuação junto aos s e à . sua visão de mundo. Isso implica assumir que famílias nas quais se encontra presente qualquer forma de abusovitimização têm envolvidos todos os seus membros. consi derando os valores e as práticas da sociedade em que essa família está inserida. pertencente ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Pa ulo. um modelo explicativo adequado deve considerar o padrão de interação da família. apontam para uma conceitualização do fenômeno. uma atenção que se faça generalizada. As autoras.aboratório de Estudos da Criança. GUERRA. de outro. seja da e ducação ou da saúde. minimamente. parentes ou responsáveis contra crianças e/ou adolescentes que sendo capaz de causar dano físico. defendem que o pano de fundo ideológico que permeia a problemática e colabora para o complô de silêncio e intervenção fragmentária de muitos profissionais constitui-se exatamente pelos padrões de relacionamento assimétricos. numa negação do direito que crianças e adolescentes têm de ser tratados como sujeitos e pessoas em condição peculiar de desenvolvimento (AZEVEDO. de um lado. A violência doméstica. numa transgressão do poder/dever de proteção do adulto e. em diversas obras. Seu objetivo era examinar possibilidades de interve nção profissional nos casos de crianças vitimizadas fisicamente. então. es número mostra-se bastante escasso e se restringe a intervenções focais. 2003. a posição de 40 classe que ocupam.

p. e. então. drogadição. comportamentos parentais. afirma que a mesma pressupõe a detecção de fatores de risco. [A] existência de conflitos intergeracionais (BAZON et al. isolados. Para elas. As intervenções mostram-se reducionistas. e esses aspectos deverão influenciar a conduta terapêutica. 82). as psicopatologias e as dificuldades atribuídas pelos profissionais às famílias não possibi litam esforços na compreensão mais ampliada do fenômeno e inviabilizam considerações acerca dos aspectos positivos. A atuação junto à crianças restringe-se ao uso de ações psicoterápicas. . à medida que restringem o olhar para os aspectos internos das relações intrafamiliares.) a literatura é ampla nas indicações de características comportamentais. desenvolver neles a capacidade de manter o equilíbrio em situações de estresse. baixa auto-estima e autocontrole (BASTOS. à comunidade e aos sistemas político e jurídico. como grupos sociais.. Ao discorrer sobre o momento da identificação. áreas da saúde e grupos de auto-ajuda. (2003).. prostituição e envolvimento com o crime.. sem considerar os determinantes mais amplos. segundo as autoras. p. As a utoras realizaram uma avaliação acerca de um serviço público de acompanhamento familiar na cida de de Ribeirão Preto-SP. o autor chama atenção para a necessidade de mais pesquisas sobre a interação dos mecanismos de risco e proteção ao desenvolvimento. Fried e Holt (1980) afirmam que pais abusivos são: impulsivos. dos pais abusivos. com poucas habilidades de coping. uma vez que a desqualificação. 2003. a maneira como as famílias são concebidas influencia no atendimento prestado. em relação aos nív observados de vulnerabilidade e resiliência familiar. 42 [A] imaturidade. históricos e culturais da violência. 81). caracterís ticas físicas e comportamentais da criança (BASTOS. Na conclusão de seu texto. refere-se à necessidade de formação de consciência. junto ao sis ema político-jurídico. referem-se sempre a: A psicopatologia do adulto. p. Segundo ele. presentes na relação familiar. 15). Ao elaborar a discussão de tais resultados. 1995. dependentes. vulneráveis a críticas. junto à comunidade. Os resultados obtidos com a pesquisa. a pais adolescentes. sobre o segundo momento (tomada de decisão). culturais/ideológicas. 41 Quando comenta as atuações possíveis com respeito aos pais. o autor novamente enfatiza a importância da psicoterapia. 1995. Partem da seguinte consideração: poucos profissionais têm-se volta do para o estudo de intervenções que poderiam ser referências no estabelecimento de ações junto à população envolvida com a violência doméstica. de personalidade. geralmente. irresponsabilidade e/ou incompetência para educar os filhos. Outra pesquisa publicada que pode ser citada como referência para nossas discussões e que focaliza a atuação com as famílias ditas agressoras é a de Bazon et al. (. O objetivo dos atendimentos terapêuticos aos pais seria. alcoolismo. aborda a necessi dade de divulgação de informação em escolas. deprimidos. Entendemos que tal forma d e compreensão parte de uma concepção naturalizada e biologizante do que seja a família e o homem. as autoras orientam-se em uma direção opos ta à apontada por Bastos (1995) em sua pesquisa. englobando debilidade física e/ou mental. refere-se à extensão do dano e à avaliação familiar. referindo-se.criança.

Podemos perceber que. no serviço analisado pelas pesquisadoras). educacionais e de auxílio. sua constituição histórica e social e sua estruturação. quando examinamos também as práticas dos profissionais envolvidos com essa problemátic a. porém. consideramos imprescindível analisar os determinantes macrossociais da violência doméstica contra crianças e adolescentes. admite que se lance mão dessa forma de manejar a conduta da prole (BAZON et al. de certa forma. e assim intervir sobre ele. um recurso. ou. Todos esses elementos estruturais da violência doméstica devem ser contemplados. 2003. Antes de caracterizar uma família como violenta pe la prática da negligência. geralmente ativado na falta de outros. No caso da violência física. podemos compreender que conceber as ações de familiares sob a ótica de suas carências materiais.A pesquisa ainda enfatiza elementos importantes concernentes à negligência e à violência física (tipificações de violência que apresentaram maior número de ocorrência. nem buscando estabelecer uma associação livre e direta entre o ato de violência e uma problemática dos pais. ainda que inadequado. por exemplo. Das análises feitas pelas autoras. acreditamos ser importante abarcar reflexões como as apresentadas por Bazon et al. têm dificuldades para exe rcer o controle sobre o comportamento dos filhos. essa forma de compreensão do fenômeno. uma exceção. não se centrando as explicações em mo delos médicos patologizantes. ampliado. ou conc ebê-las a 43 partir das dificuldades engendradas pelo conflito intergeracional. Embora o objetivo de nossa pesquisa não seja discutir se as ações de familiares constituem ou não atos de violência. e num contexto que. longe de ser a regra utilizada pelos profissionais e pesquisadores. nos qua is se mostra a escassez de recursos educacionais dos pais. evidencia-se como o oposto de entendê-las como violentas per si. Entendemos que as constatações das autoras permitem que o olhar lançado às famílias ditas agressoras seja. não contam com o apoio de uma re de social que os auxilie no cuidado com as crianças. de maneira majoritária. p. Nas palavras das autoras: As punições físicas são. ou diante da ineficiência de outros. função e representação na sociedade cap a. sim. muitas vezes. então. 18). . as formas utilizadas por profissiona is e pesquisadores para compreender o fenômeno em questão. porém. (2003). uma vez que as mesmas permitem abordar um número maior de elementos que possam ser entendidos como determinantes da violência física. Para além desses elementos. fundamentalmente. como naturalmente tendenciosas às ações violentas. pa rtem de concepções inatistas e/ou religiosas do que seja o homem e a sociedade ou o mundo em que ele está inserido.. cons titui-se. culturalmente. que. merecem destaque os conflitos intergeracionais. psicológica. Infelizmente. sexual e/ou da negligência perpetrada por pais e responsáveis contra crianças/adolescentes. para a disciplinarização do comportamento. é destacada pelas autoras a necessidade de se analisar as reais condições dos adultos responsáveis.

. por Kant (filósofo alemão do século XVIII). Pressupostos pautados na religião também são muito comuns... Para t anto. 74). por meio do pensamento cristão tradicional. as explicações para os fatos humanos são verdades intemporais. que nenhuma experiência nova poderá modificar (CHAUÍ. considera a atitude religiosa como uma possibilidade de vida da consciência. con tribuindo.A filósofa Marilena Chauí (1999) pode nos ajudar nas definições e origens dessas concepções. partindo de análises de conceitos como Verdade. por exemplo. sendo retomada no século XVII com o francês Descartes. assim. Esta última. se ndo desajustados os que não conseguem exercê-la adequadamente. assim como a possibilidade natural (crença ingênua) e a filosófica (reflexão) . Ra zão.. como uma ciência. e. pode-se reiterar a necessidade e a importância de pesquisas com os familiares envolvidos com o Conselho Tutelar. A atitude dogmática é muito conservadora. (p. ainda sobrevive nos tempos atuais. Ditos populares com o pau que nasce torto morre torto e filho de peixe.. Ainda de acordo com a autora. ações e seus determinantes é um dos maiores problemas atribuídos a essa concepção filosófica. Nas palavras de Chauí (1999): Dogmatismo é uma atitude muito natural e muito espontânea que temos. para explicar dificuldades tidas como praticamente insuportáveis : Deus quis assim. conforme veremos mais à frente quando nos dedicarmos às proposições de Agnes Heller. p. essa atitude somente se rompe quando somos capazes de nos estranhar diante dos fatos que nos são dados sob o aspecto de naturais. segundo a autora. com a produção de conhecimento sobre práticas mais coerentes com a realidade. O caráter de imutabilidade de idéias. ou verdades absolutas. na idéia de que os mesmos nascem preparados para a maternagem/paternagem. com Platão.). peixinho é são exemplos do caráter genétic individual e atemporal atribuído às ações humanas. 97). A exemplificação mais conhecida que pode nos servir de representação dessa atitude é a usada por muitos. O inatismo. e . Mundo Prático. e a religião são realizadas.. conjunto de doutrinas teológicas e filosóficas da Idade Média . entende que as verdades e as razões. a autora. portanto. do desconhecido e de tudo o que pode desequilibrar 45 as crenças e opiniões já constituídas. permite-nos perceber o quanto as propostas filosóficas são apro priadas pelo senso comum e por profissionais para explicar a realidade. isto é.) É nossa crença de que o mundo existe e que é exatamente tal como o percebemos (. nas explicações dadas à realidade. A escolástica. vigente desde o século IV antes de nossa era. Tendo em vista as considerações feitas até esta altura. dentre outras... de acordo com Chauí (1999). (. 94. Podemos encontrar os reflexos dessa concepção. Esse conservadorismo se transforma em preconceito. Hegel (filósofo alemão do século XIX) e pela fenomenolog a. quando constatamos alegações justificadoras da violência pautadas na psicopatologização d os pais. do inesperado. 1999. 44 Ciências. é indispensável a prática da reflexão acerca do cotidiano. As aproxi mações entre a filosofia. Explicações religiosas fundamentam-se em dogmas. sente receio das novidades. Conhecimento.

o ponto de partida para analisar a violência é o reconhecimento de sua complexidade suas múltiplas formas. aqui posto sob o aspecto de descrição. pode contribuir para o desvelamento do real. Um Presente. superando a aparência dos fatos e buscando a transformação das relações humanas. (2003). a fundamentação teórico-metodológica empregada neste trabalho.. de Agnes Heller. (2002) e Bazon et al. para formar o cidadão burguês do qual nos falava Reis (1991). e como essa área da Psicologia articula-se com a pe rspectiva Materialista Histórica e Dialética. 46 eventuais atuações junto a grupos de familiares não seriam eficazes na busca desse des velamento da realidade. resgataremos a historicidade e a especificida de da Psicologia Social Sócio-Histórica. Nesse sentido. Futuro. Um dos elementos presentes no fenômeno que analisamos.1. Reservamos este capítulo para nos dedicarmos aos pressupostos filosófico-metodológicos que embasam nossa pesquisa. qualitativamente diferen tes. para compreender o fenômeno em questão e servir de aporte à análise e à discussão dos dados encontrados na pesquisa. Passado. que são atr à família. assinala que a violência deve ser estudada desde sua orig em. seus variados níveis de significações e diversos efeitos históricos. confo já apontados por Weber et al. no momento em que as forças sociais se materializam por intermédio dos indivíduos e dos grupos. faz-se imprescindível nos dedicarmos ao aprofundamento dos aportes que nos orientam no desvelamento do real. podendo inclusive contribuir com possíveis transformações nas atitudes c otidianas. lança mão de situações de negligência. ao não conseguir levar a cabo todas as exigências que lhe são atribuídas pela moral. 4. as formas de intervenção e entendimento da realidade pautam-se . diz respeito à proteção integral e à educação de crianças. a verificação e a discussão dos multideterminantes sociais e históricos d o contato de familiares com o Conselho Tutelar. como recursos de sobrevivência e até de socialização. muitas vezes. A essência também se revela no fato de a família. e que ela se configura e se desdobra entre as pessoas e a sociedade. análise e discussão dos resultados encontrados na pesquisa.m sua essência. viol física e violência psicológica. 47 4. frente às inúmeras exigências que sobrecaem sobre a família.. Tal aparência esconde. e à quase inexistência de uma rede social de colaboração. a partir de tais co nsiderações. Nesse sentido. Assim. A Psicologia Social Sócio-Histórica e o Materialismo Histórico e Dialético Na presente pesquisa. como o proposto pela pesquisa aqui descrita. oferecidas pelo poder público. a essência referente à falta de condições adequadas à educação e ao cuidado. Nos questionamos se. pela religião e pela legislação. Abordaremos também a Teoria da Vida Cotidiana. Assim. e ao qual é dirigido um olhar apenas de aparência. De acordo com Martín-Baró (1989). E é essa a perspectiva a q ual pretendemos seguir quando propomos discussões mais amplas e estruturais a serem re alizadas mediadamente com familiares.

da atividade e da identidade dos indivíduos.. . o matemático. Compreender as condições que impedem o homem de ser sujeito e aquelas que assim o permitem somente se torna possível na medida em que partimos do dia-a-dia. 5 Apropriação: processo pelo qual se estabelece o acesso à coisa em si. entende que o singular (indivíduo) não traz dentro de si uma essência já pronta. que é uma atividade social o trabalho nas diversas singularidades. (p. ou uma das causas que explicam o seu comportamento. de sua individualidade crítica..) o indivíduo era considerado um organismo que interage no meio físico. para exercer sua ação ao nível da consciência. 4 O conceito de humanização. e. e as condições que o fazem sujeito numa comunidade. 31). de maneira que precisa ser apropriada e objetivada 5 por todo homem singular ao longo de sua vida em sociedade (particular). sendo que os processos psicológicos (o que ocorre dentro dele) são assumidos como causa. acabada. da consciência de si (identidade) e de uma nova realidade social. (. diversos são os aspectos da apropriação do mundo pelos homens: o prático espiritual. do meio em que ele se en contra inserido. que serão analisadas mais adiante. formando aquela essência (HELLER. Ou seja. não biológico. visando à emancipação humana. na construção de sua personalidade. 48 da linguagem. mas constitu i um ser social. uma síntese complexa em que a universalidade se concretiza histórica e socia lmente através da atividade humana. 117). sua opção de atuação é sempre comprometida com a transformação da realidade social. fazer psicologia ( ) é estudar as condições (internas e externas) ao homem que o impedem de ser sujeito. Como já apontava Lane em 1991.nos pressupostos da Psicologia Social Sócio-Histórica. 1991). no ato de compreender. é nesse vir-a-ser social que é criado o human o no homem singular 6 (HELLER. tal essência humana é um produto histórico e social.) o psicólogo na comunidade trabalha fundamentalmente com a linguagem e representações. 1991). aqui utilizado... (. trabalhar com esse homem a partir dessas condições. Como aponta Góis (1990). A concepção de homem fundamentada na Psicologia Sócio-Histórica. o artístic o. Essa concepção de homem posiciona-se contrariamente à tradição biológica da Psicologia. dentro de uma perspectiva ética e política. 4 pois o problema central é a transformação dos indivíduos em sujeitos histórico-coletivos. compreendida como uma área que produz conhecimento e realiza intervenção.. De acordo com Marx. o religioso. conforme Lane (1991). o teórico.. pauta-se nas proposições de Agnes Heller (19 91 e 2000). Ou seja. Sendo assim. por meio de uma prática humanizadora. com relações grupais vínculo essencial entre o indivíduo e a sociedade e com as emoções e afetos próprios da subjetividade. ao mesmo tempo em que. (p. portanto. das relações estabelecidas por cada indivíduo. na qual. das rep resentações.

as ações humanas. as obras humanas.. Segundo Lane (1991). p. que trouxe para as ciências humanas o método experimen tal das ciências da natureza. nem prever comportamentos sociais. em sua prática e intervenções. em que os homens submetem as relações sociais objetivas ao seu controle. propos ta por Heller (1991). que o objeto da Psicologia Social é exatamente o indivídu o na intersecção de sua história com a história de sua sociedade (p. a compreensão e que o homem é tanto produto como produtor de sua história pessoal e social. Na apropriação em si os homens se submetem por m eio de uma identificação espontânea às relações sociais. a partir da chamada crise da Psicologia . Obj etivação: são os produtos das atividades humanas. efetivar. psicólogos das décadas de 1950 e 1960. 50 . sim. Em contraposição a uma ciência pragmática. O positivismo de Augusto Comte. não conseguia intervir. 22). O homem. A compreensão biologicista do homem. fundamentou e ainda fundamenta a maioria das ciências. o primeiro passo para a superação da crise foi constatar a tradição biológica da Psicologia. 11-2). ao produzir os meio s de sua existência. apropriou-se da natureza e objetivou-a nos produtos de sua atividade. deve. sendo ainda muito dissem inado e utilizado por diversos psicólogos. (in: KOSIK. de uma forma geral. acerca da constituição do humano serão feitas no capítulo referente ao Método Histórico-Social e esquisa Social . da qual falávamos anteriormente. em sua condição social e histórica. fundamentada na tradição pragmática dos EUA ou na tradição fenomenológica. Aqui. O homem. e do comportamento humano. 1967. explicar. em meados d s anos 60. da b usca de relações causa-e-efeito. bem como a busca por relações explicativas do tipo causa-e-efeito. 13). 6 As explicitações e discussões a respeito da relação singular-particular-universal. para expl icar e transformar a realidade. de 19 50 e 1960. cabe destacar. utilitarista e ideologicamente defendida sob a égide da neutralidade e contrária à concepção idealista da dualidade físico-psíquica no h no. Na apropriação para si. Portanto. então. E. com ênfase na descrição e previsão dos fenômenos. manifestação de uma história social.. em suas relações com as pessoas e com a cultura. de acordo com Lane (1991): É dentro do materialismo histórico e da lógica dialética que vamos encontrar os pressupostos epistemológicos para a reconstrução de um conhecimento que 7 Tal crise refere-se ao questionamento da eficácia de uma Psicologia Social. pautou as investigações sobre o humano.o físico. análises críticas passam a apontar para uma crise do conhecimento psicossocial que. 49 para compreender o indivíduo bastaria conhecer o que ocorre dentro dele quando ele se defronta com estímulos do meio (p. não ea. a Psicologia deve ir além da mera descrição dos fenômenos. Nesse sentido. 7 chamaram para si a tarefa de construção de uma ciência que compreendesse o homem em sua materia lidade concreta. esta não é produto da natureza. é produto da história. faz-se homem na cotidianidade de sua existência. c onforme a própria Silvia Lane (1991). ao se generalizar.

na medida em que os conhecimentos adquiridos durante o desenvolvimento são passados entre as ge rações e devem ser fixados.atenda à realidade social e ao cotidiano de cada indivíduo e que permita uma intervenção efetiva na rede de relações sociais que define cada indivíduo objeto da Psicologia Social (p. realiza u m importante resgate da história da Psicologia e de suas diferentes concepções de psiquismo humano . à explicação científica e materialista. da atividade exterior material. é a atividade do trabalho. 15-6). contrariamente à atividade animal. Leontiev. Como categorias fundamentais dessa historicidade teríamos. mas sob uma forma exterior. que se transforma. no caso humano. ambas as concepções conservam a clássica separação entre as investigações anátomo-fisiológicas e as investigações sociológicas. Essa atividade produtiva dos homens. porém. derivadas da teoria de Marx sobre a transformação da natureza humana. O exercício de construção teórico-metodológica de uma Psicologia fundamentada no Materialismo Histórico Dialético estruturou-se com as obras de Vigotski 8 . Em sua obra O Desenvolvimento do Psiquismo (1978). fundamental entre todas. concepção esta somente pr esente na filosofia do Materialismo Dialético. Vigotski abordou como entender a historicidade do psiquismo. então. concepções evolucionistas positivistas (naturalistas) e sociológicas que já haviam sido fruto das reflexões de Vigotski. então. a Consc iência e a Atividade. um dos precursores responsáveis pela construção de uma Psicologia com bases materialistas dialéticas. grafaremos o nome do autor com i . Essa fixação. derivada do desenvolvimento da vi da material. Para Leontiev (1978). isto é. na medida em que a atividade especificamente humana tem um caráter produtivo. no decurso do desenvolvimento sócio-histórico. quando a questão fundamental se torna a relação homem-sociedade? (p. essa relação assume um caráter inédito. a partir da atividade produtiva do homem. traz fundamentais contrib uições para o estudo da estrutura da Atividade e de sua interiorização. diferentemente do que ocorre nos animais. não se dá sob uma forma morfológica ou genética. . partindo da seguinte ques tão: que 8 Nesta pesquisa. De acordo com Leontiev (1978). no decurso do processo de desenvolvimento da atividade material e intelectual da sociedade. os estudos de Leontiev (1978) contribuíram com a concepção da Atividade Psíquica como uma forma particular de Atividade. Esse problema só poderi resolvido a partir de uma concepção de mundo que incorporasse. 51 conteúdo novo adquire o problema organismo-meio quando o aplicamos ao homem. por exemplo. 169). Nesse sentido. consciência. tendo em vista os usos possíveis de grafia com i ou y presentes em edições e traduções diversas. tanto os fenômenos naturais quanto os sociais. Segundo o autor. que é o trabalho: Essa nova forma de acumulação da experiência filogênica pôde aparecer no homem. Leontiev e Luria. Leontiev (1978). em atividade interna.

sem. é entendê-lo regido por leis que são sociais. quanto a isso. Esse processo é aprendido pelo homem. que transforma a sociedade como sujeito autônomo. para o Materialismo Histórico e Dialético. seu modo de vida e sua sociedade. em que o objeto se converte em objeto humano. separada dos indivíduos singulares. As sim.. tendo em vista sua influência derivada de Hegel. criado pelo homem e a ele destinado.) contra a mistificação da filosofia hegeliana. O processo de assimilação/apropriação do uso desses objetos. sob uma forma exterior e objetiva.O trabalho. as expressões. nesse processo de objetivação. 1974.. A atividade humana constitu i-se. 31). dado natural. 83-4). colocando-se (. Marx afirma que os reais artífices da história são tão-somente os indivíduos. com os outros homens e com a sociedade. de sorte que os objetos que o envolvem são os suportes materiais objetivos. transformando seu meio e a si mesmo. durante sua educação social. idealista ou abstratamente. fazendo-a atuar 52 como artífice oculto da história. 1974. realizando o processo de produção (sob as duas formas. Supera tais concepções. p. a assimilação individual das forças. o processo de conformação da natureza biológica do homem para a utilização dos objetos e sua inserção na sociedade e m que nasceu (desde saber como se segura um talher. social. em consonância com o que nos afirma Márkus (1974). encarando o trabalho a partir de uma perspectiva histórica que via bem além do papel assumido pela atividade produtiva na sociedade capitalista (p. O homem. O homem se faz homem na medida mesma de seu trabalho. no qual o fazer humano diferencia-se do fazer animal . pelo movimento dialético da história. tomados em sua imediata realidade material (MÁRKUS. dos produtos materiais e espirituais . desenvolvendo em suas o bras sua própria forma de compreender a realidade. Assim. a história da cultura material e intelectual da humanidade mani festa-se como um processo que exprime. Pensar o homem. assim. 176) Nessa perspectiva. p. as aquisições das a ptidões do gênero humano. torna-se homem em seu meio. Eis aí uma das concepções marxianas que se pode tomar como central: o conceito de essência humana não se desvincula de sua existência real. 1978. não é. como já assinalamos. 53 não é dado fisiologicamente no organismo humano. de sua atividade que intermedeia suas relações com a natureza. até aprender o uso das palavras e da linguagem). durante a evolução da história. gradualmente. uma vez que sua atividade visa a modificar e criar novos objetos. podemos dizer que Marx efetiva seu materialismo filosófico. contudo. quando descobre o papel do trabalho na formação do homem e da história. Marx parte de uma concepção idealista de homem e sociedade. correspondentes a determinadas etapas da evolução de suas forças produtivas materiais. O conceito marxiano de trabalho ou de atividade produtiva não é separado de sua concepção indissociável da relação sujeito-objeto. material e intelectual) imprime-se no seu produto (LEONTIEV. mediador de sua relação com a natureza. transformado e humanizado. negar-lhe a capacidade de transformar. significa imaginá-lo como produtor de sua história através de sua atividade vital. no entanto. então. 29). as obje tivações das faculdades e necessidades das gerações anteriores (MÁRKUS. o trabalho. p.

. à primeira vista. Assim. O papel que o instrumento realiza. os processos de domínio dos meios externos do desenvolvimento cultural e do pensamento: a linguage m. possibilita-nos retomar o pap el do instrumento e do signo como mediador do desenvolvimento. Nas palavras de Márkus (1974). A função do instrumento é servir como condutor da influência humana sobre o objeto da atividade. p.). Esse processo somente acontece a partir do processo de socialização. é Interpessoal. p. 84). 1974. que permite ao homem controlar e transformar a natureza. Em primeiro lugar. assim como o uso de instrumentos amplia de forma ilimitada a gama de atividades em cujo interior as novas funções psicológicas podem operar (p. num primeiro momento. a . escolher etc. ele é orientado externamente. um process que. o signo é orientado internamente.. o momento de maior significado no curso do desenvolvimento intelectual acontece exatamente quando a fala e a atividade prátic a convergem: o uso de meios artificiais a transição para a atividade mediada muda todas as operaçõe psicológicas.) consiste nas diferentes maneiras com que eles orientam o comportamento humano.. é a base do salto quantitativo da psicologia an imal para a psicologia humana (p. não modifica em nada o objeto da operação psicológica. só pode ser feita no seio das relações cotidianas com outros h omens (MÁRKUS. mediante o trabalho e a linguagem. no campo do trabalho. portanto. objetiva em seu meio material os resultados da evolução. De acordo com Vigotski (1991). como meio auxiliar para solucionar um dado problema (lembrar. O conceito de Funções Psicológicas Superiores abarca.. 1991. deve necessariamente levar a mudanças nos objetos. que toma forma paralela e exterioriza os resultados da produção intelectual). conforme Vigotski (1991 ). Ter características análogas não quer dizer ser igu al. ou seja. por conseguinte. permitindo que a geração posterior não reinvente a roda .historicamente obtidos. a internalização constitui-se em uma reconstrução interna de uma operação externa. Constitui um meio da 54 atividade interna dirigido para o controle do próprio indivíduo. (VIGOTSKI. transformando também a si mesmo é pensado pelo autor como análogo ao uso do s signos no campo psicológico. O signo. grifos do autor). mas pos partir dos avanços precedentes. relatar. O autor chamou de Funções Psicológicas Superiores os processos humanos derivados dessa combinação entre instrumento e signo. (.72-3. Constitui um meio pelo qual a atividade humana externa é dirigida para o controle e domínio da natureza.) só o trabalho (e a língua. é transformado em Intrapessoal. a história tal como ela é (p. 89). Cada geração. A importância desse processo de objetivação e assimilação para o desenvolvimento da cultura humana. comparar. dois grupos de fenômenos que. isto é. 73). enquanto objetivação das forças essenciais humanas (faculdades e necessidades) pode criar como Marx assinala de maneira precisa a possibilidade da evolução humana continuada e contínua. vejamos o que o autor enfatiza: A diferença mais essencial entre signo e instrumento. por outro lado. novas conexões internas são formadas a partir de relações interpessoais: a internalização das atividades socialmente enraizadas e historicamente desenvolvidas constitui o asp ecto característico da psicologia humana. parecem heterogêneos. 76). num contínuo processo de objetivação-apropriação da cultura humana. (.

. Nas palavras de Martins (2000). 2000). A anális da essência humana. primeiramente. Luria e Leontiev apontaram. Para Leontiev (1978). então. um caráter social do indivíduo. as linhas distintas do desenvolvimento p síquico. É a atividade humana que mediatiza o reflexo psíquico da realidade. (Vigotski. em form a de atividade e. assim. o desenho. Estudos de Vigotski.. ou seja. Conseqüentemente. citando Kopnin (1978): O reflexo psíquico desenvolve-se com a complexificação estrutural dos organismos por meio da atividade que a sustenta. pois nem o reflexo é a realidade nem esta é o seu reflexo. a complexificação da atividade vital permite a formação da aptidão para refletir a realidade em suas relações objetivas. somente pode ser explicitada a partir da história da humanidade. É importante destacar que. ou seja. 1995). Retomando as proposições de Vasquez (1977). pela qual e ao mesmo tempo ambos se opõem e coincidem (p. constitui-se na materialidade da atividade e no reflexo psíquic o do fenômeno. isto é. através a atividade. nesse sentido. num segundo momento. contraposta às funções rudimentares (Vigotski. não sendo práxis. que não é. por si só. aparecem unidas na ontogênese. que modela sua existência a partir dos materiais concretos à sua disposição e de seu processo de socialização. as funções psicológicas superiores d itas especiais: a atenção voluntária. o cálculo. refletida . 56 desenvolvimento da linguagem.escrita. Em segundo lugar. (re)constituída no plano da subjetividade. 80). ao mesmo tempo e m que é por ele mediatizada. igualmente. 5). dada pela transformação e hominização do cérebro humano. De acordo com Leontiev (1978). parte da tese materialista da existência dos fenômenos fora e independentemente da consciência humana. para um psiquismo que é material. não promove transform ações na realidade. Outrossim. contudo. Entretanto. a memória lógica. a consciência é a expressão de uma forma superior de psiquismo. sobre o conceito de práxis na teoria marxiana. então. Assim. nenhum desses ele mentos 55 tomados em separado é suficiente para compreender o desenvolvimento das Funções Psicológ icas Superiores. mencionadas em capítulo anterior. O reflexo da realidade não se identifica no sentido da cópia mecânica com a própria realidade. de forma subjetiva. manifesta-se no reflexo ps icológico como consciência (MARTINS. Isso posto. temos. existindo entre eles certa forma de ligação. a formação de conceitos etc. permite o reflexo psíquico da realidade. A consciência. temos que a práxis diferencia-se de outras at ividades por . marcadas pelo processo biológico da evolução da espécie e pelo processo de desenvolvime nto histórico-cultural. para o autor. em conseqüência do trabalho e do 9 Grifos originais da autora. pressupondo a apreensão criativa da realidade objetiva que é. o psiquismo manifesta-se. cabe aqui observar que o significado atribuído ao REFLEXO 9 em nada se refere ao reflexo condicionado tal como proposto por Pavlov. que a consciência se materializa. É na base de sua relação com a realidade objetiva.

e não somente a satisfação em si. o desenvolvimento espiritual. mas nunca atos de apropriação das aquisições do desenvolvimento filogênico. transformando-se. na medida em que o homem s e torna capaz de não somente adaptar-se ao seu meio natural. assim. o homem tem que apropriar-se delas. O que só é possível porque essas propriedades e aptidões adquiriram uma forma material objetiva. Sua ativid ade por excelência é o trabalho. A relação mediatizada entre as ações e o motivo da atividade é traduzida na consciência. Trata-se de firmar a impossibilidade da separação entre ambas. A atividade humana diferencia-se da atividade animal. estas propriedades e aptidões que constituem o produto do desenvolvimento sócio-histórico do homem. 9).) Assim. ao homem são propostas nos fenômenos objetivos do mundo que o rodeia. e essa por sua vez a regula. segundo Martins (2000): Afirmar a unidade entre consciência e atividade implica conceber o próprio psiquismo enquanto um processo no qual a atividade condiciona a formação da consciência.. além da produção dos instrumentos. sendo que o indivíduo pre cisa realizar uma atividade de utilização desse objeto focalizado: A atividade do animal compreende atos de adaptação ao meio. psíquico dos indivíduos é o produto de um processo antes de mais nada particular. tal como. 1978. considerando-s e que. 88-9). cuja característica principal é a ação para a produção dos meios d satisfação das necessidades. a re lação entre os indivíduos e a história social é mediatizada pela apropriação dos fenômenos cultur is resultantes da prática social objetivadora (p. aliás. Leontiev propõe que a atividade humana é composta por ações. como no caso dos animais. Ao abordar a estrutura dessa atividade social e a diferenciação da atividade humana da atividade animal. (. o processo inverso de objetivação de suas faculdades nos produtos objetivos da sua atividade (LEONTIEV. . p. Para as realizar no seu próprio desenvolvimento ontogênico. É a partir da objetivação que tanto os instrumentos quanto as relações sociais adquirem existência objetiva. afirmar sua interconexão. a atividade e o psiquismo desse próprio homem. estrutura e função. ou seja. Em sua origem. produz também relações sociais. que falta no animal. Leontiev (1978) aborda a atividade em sua gênese. Nas palavras de Duarte (2004). Por meio desse processo de objetivação-apropriação.seu caráter teleológico ou quando atende a finalidades que. Essas aquisições são dadas ao animal nas suas particularidades naturais hereditárias. num primeiro momento. e a ati vidade tornase possível. sua intercondicionalidade (p . Essa atividade de produção dos meios para a satisfação das necessidades acarreta o surgimento de novas necessidades. e sua natureza é sempre coletiva.. só na seqüência desse processo sempre ativo é que o indivíduo fica apto para exprimir em si a verdadeira natureza humana.178-9). necess idades elementares (biológicas/vitais). só e xistem como produtos da consciência. a atividade humana parte de motivos. são reproduzidas no indivíduo as aptidões e funções humanas historicamente formadas. o processo de apropriação. Assim. O processo de objetivação 10 encontra seu contraponto no processo de apropriação da cultura humana pelos homens. exprimindo dada relação do homem com seu meio. mas de transformar a na tureza. antecipan do a ação. Essa apropriação é sempre ativa. Ao abordar o desenvolvimento do psiquismo.

e apropria-se dele tal como se apropria de um instrumento. 1978. a atividade física e mental dos seres humanos t ransfere-se para o produto dessa atividade. por sua vez.. o sentido consciente traduz a relação do motivo ao fim. 58 Nos animais.10 Objetivação: por meio desse processo.) num estudo histórico da consciência. resultam das apropriações. a consciência humana trabalha com a relação Significado e Sentido da ação. 2004).. entre aquilo que o incita a agir e aquilo para o qual a sua ação se orienta como resultado imediato. de um saber ou mesmo de um saber-fazer (modo de ação generalizado. No caso dos homens.). disponibilizadas enquanto objetos de apropriações. existe uma relação direta. O que era faculdade dos seres humanos torna-se característica do produto da atividade e passa a ter função específica.) psicologicamente. 100). convertendo esse significado em elemento do reflexo psíquico da rea lidade: O fato propriamente psicológico. O homem encontra um sistema de significações pronto. 102). em outras palavras o reflexo psíquico depende forçosamente da relação do sujeito com o obje to refletido. dadas no Significado. no plano subjetivo. que eu assimile ou não uma dada significação. a significação é. 102). este último elemento depende do sentido subjetivo e pessoal que esta significação tenha para mim (p. (. Sentido é o que liga na consciência o objeto da ação (seu conteúdo) ao mot da ação. ( ) para que o homem possa apreender as ligações entre o motivo da atividade e as relações entre ações em seus fins específicos há necessidade de que essas conexões se firmem a partir da ação concreta na cabeça do homem. Apenas por essa via poderá o homem chegar ao sentido de suas próprias ações (p. ( ) as significações. 103). essa rel ação mediatizada entre a ação e o motivo da atividade. do seu sentido vital para o sujeito (p. entrada na minha consciência (mais ou menos plenamente e sob todos os seus aspectos). se configurem sob a forma de idéias a serem conservadas pela consciência. Nas palavras de Martins (2000). no interior da prática social (DUARTE.) de um ponto de vista psicológico concreto. é que eu me aproprie ou não. é a consciência que traduz. em que grau eu a assimilo e também o que ela se torna para mim. não mediada.. pelo homem. o que conecta sua ação com o motivo da atividade são justamente as relações sociais. na prática social: (. Por outras palavras.. Desse modo. na atividade do sujeito. norma de comportamento. vão se converter em dados do reflexo psíquico de um indivíduo determinado passando . elaborado historicamente. (. 59 A significação é o reflexo da realidade independentemente da relação individual ou pessoal do homem a esta.. Segundo salienta Martins (2000). entre o motivo da sua atividade e o seu objeto.92-3). o sentido é antes de mais nada uma relação que se cria na vida. de todo um sis tema de objetivações elaboradas historicamente. (LEONTIEV. este sentido consciente é criado pela relação objetiva que se reflete no cérebro do homem. para a minha personalidade. p. é apropriado de forma particular e específica por cada homem.. etc. caracterizando a atribuição de um Sentido pessoal. De acordo com Leontiev. o fato da minha vida. Os aspectos afetivos e emocionais do agir humano dependem do sentido da ação. Esse sistema de objetivações. esse precursor material da significação (p. no momen to dessa apropriação. do reflexo generalizado da realidade elaborada pela humanidade e fixado sob a forma de conceitos. Os significados.

de sua atividade e de seu psiquismo. encontra-se. de suprimir a divisão mutiladora entre trabalho intelectual e trabalho físico. para fazer delas suas aptidões e dar sua contribuição. aquilo a que se chama corretamente as contradições da consciência. p. pois um sentido não objetivado e não concretizado nas significações. a objetivação dos resultados adquiridos pela humanidade. a respeito da luta int erior e da possibilidade de tomada de consciência: 60 O fato de os sentidos e as significações serem estranhas umas às outras é dissimulado ao homem na sua consciência.a ocupar nele um lugar específico. Além disso. a desempenhar um papel na vida desse indivíduo em suas relações com o mundo. Nesse ponto. permanece sem pre unilateral e parcial. O problema é que cada homem. 144-5). cada povo tenha a possibilidade 61 prática de um desenvolvimento que nada entrave. percebida por suas rupturas expressas na atividade con creta. fragmentada. individual. não ocorre em detrimento do conteúdo objetivo das significações. estas não perdem sua objetividade. Esse fato. entende-se que a linguagem é quem garante as condições necessárias para a apropriação dos indivíduos das objetivações humanas. analisando a rel ação entre elas e as particularidades adquiridas. p. Mas só em condições que permitam libertar realmente os homens do fardo da necessidade material. abarcando para isso novos elementos des sa mesma realidade. 136). na consciência humana. durante as gerações anteriores do desenvolvimento da sociedade. mas adquirem também um caráter particular. é importante salientar também as discussões de Leontiev (1978) acerca da possib ilidade de construção de novos sentidos na realidade cotidiana alienada. ou seja. Seguindo as concepções de Vigotski. objetivando-se. Tal é o fim para o qual deve tender a humanidade. uma transformação qualitativa de alargamento da co nsciência: É uma condição indispensável à evolução da consciência do homem novo: o sentido novo deve com efeito realizar-se psicologicamente nas significações. assim. sobre a resistência do h omem à relação concreta que o aliena. que não existe ainda totalmente para o homem (LEONTIEV. toda contribuição de Leontiev (1978) volta-se para a explicação das particularidades do homem. a aquisição dessas aptidões não é dada naturalmente ao ho em. porém. Esse processo ocorre a partir da reflexão da realidade concreta. esse é um processo de Educação: O verdadeiro problema não está na aptidão ou inaptidão das pessoas para as aquisições da cultura humana. 1978. sob o capitalismo. sob a forma de processo de luta interior. sendo necessário o contato com esse mundo através do contato com outros homens. A produção dos novos sentidos se expressa nas significações. de todas as aptidões humanas. na consciência. nos conhecimentos. pois permanecem com seu caráter social geral. que desintegra sua consciência. Ressalva importante é considerar que. 1978. criar um sistema de educação que lhes assegure um desenvolvimento multilateral e harmonioso e que dê a cada um a possibilidade de participar enquanto criador de todas as manifestações da . Esse fim é acessível. mas estas lhe são postas. sendo a forma de existência dessa apropriação. A relação entre Significados e Sentidos. ou melhor os problemas da consciência. São esses os processos de tomada de consciência do sentido da realidade. resultante da interação real que existe entre o indivíduo e o mundo que o cerca (p. adquirem um sentido subjetivo. os processos de estabelecimento do sentido pessoal nas significações (LEONTIEV. Segundo Leontiev (1978). pela sua função. nas sociedades de classe. 93-4). é um sentido ainda não consciente. Nesse sentido.

vida humana (p. 302).
A essência humana, nessa sociedade de classes da qual fala Leontiev, encontra-se d
e uma
maneira alienada, já que com o capitalismo, a alienação do homem, ou seja, sua
separação/estranhamento quanto ao produto de seu trabalho, quanto à natureza, quanto a
os outros
homens e quanto a si mesmo, verifica-se em sua máxima expressão.
Para Leontiev, o processo de alienação na sociedade ocorre justamente pela
impossibilidade da grande maioria da população humana de apropriar-se das riquezas m
ateriais e
não-materiais existentes, e pela dissociação entre o Sentido e o Significado das ações hum
anas.
Por um lado, Leontiev entende que essa dissociação é produzida pela divisão social do
trabalho e pela propriedade privada. Por outro lado, rejeita toda e qualquer ten
tativa de atribuir a
fatores individuais e biológicos as profundas diferenças produzidas pelas condições soc
iais de
vida das pessoas, dando-se a apropriação do patrimônio cultural e material da humanida
de de
forma unilateral, privadamente, e não por todos os seres humanos.
Consideramos que a luta coletiva pela generalização social do acesso às esferas nãocoti
dianas da vida (como discutiremos mais adiante em A Teoria da Vida Cotidiana ) é um f
ator
importante de mobilização.
Desse modo, pesquisar, na esfera das políticas públicas, as relações entre familiares e
o
Conselho Tutelar, buscando contribuir com a construção de novas formas de atuação junto à
esfera da Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes, pressupõe a busca por uma
análise da realidade à luz de teorias críticas, cuja finalidade é a transformação dessa rea
idade.62
A alienação é a negação da produtividade, da vida ativa do homem, uma vez que o
homem não se vivencia como agente ativo, possuidor de um controle sobre o mundo, m
as o
mundo (a natureza, os outros, ele mesmo) lhe permanece estranho. Vivencia o mund
o e a si
mesmo passivamente, receptivamente, como sujeito separado do objeto. Não somente o
mundo
das coisas se torna superior ao homem, malgrado tenha sido ele o seu criador. Na
sociedade
capitalista, também as circunstâncias sociais e políticas por ele criadas tornam-se se
us senhores.
O conceito de alienação aqui referido pode também ser compreendido a partir da seguint
e
explicitação que Lane (1991) nos oferece, quando discute o tema:
A alienação se caracteriza, ontologicamente, pela atribuição de naturalidade
aos fatos sociais; essa inversão do homem, do social e do histórico como
manifestação da natureza faz com que todo conhecimento seja avaliado em
termos de verdadeiro ou falso, e de universal; nesse processo, a consciência é
reificada, negando-se como processo, ou seja, mantendo a alienação ao que se é
como pessoa e, conseqüentemente, ao que é socialmente (p. 42).
Em meio a esse processo, temos que as relações entre os indivíduos, em vista da produção
capitalista, são transformadas em qualidades de coisas/objetos, porque a natureza
da mercadoria é
eixo das relações no capitalismo, determinando o chamado fetichismo da mercadoria e
, por
conseguinte, o fetichismo da individualidade.
A coisificação das relações sociais, assim determinada, não permite que os objetos se

apresentem ao homem como objetivação de si próprio, como objetos que confirmam sua
individualidade e são seus mesmos. Assim, a natureza não é mais sua objetivação, não deriva
mais de sua prática, mas uma coisa (uma mercadoria, um capital, um dinheiro). Os s
ujeitos
como postos pelas coisas, isto é, sujeitados (SILVEIRA, 1989, p.47).
Silveira (1989) nos aponta para a estreita articulação existente, no capitalismo, e
ntre a
reificação das relações sociais e o fetichismos da mercadoria, ao qual estaríamos todos
submetidos: a sujeição ao fetichismo nos envolve de modo mais profundo, faz parte mes
mo de 63
nossa própria estruturação psíquica (p. 74). Para ele, o elemento característico dessa su
eição
refere-se à transferência para o objeto, das forças, do poder e da energia, criados e
investidos na e
pela atividade humana.
Para Duarte (2004), o fetichismo é um fenômeno próprio do mundo da cotidianidade
alienada, em que as pessoas só vêem aquilo que está imediatamente presente e não consegu
em
analisar o fato imediato à luz da totalidade social, ou seja, a aparência é tomada com
o essência da
realidade, as relações sociais presentes nas mercadorias são tomadas como relações físicas
naturais:
No caso do fetichismo da individualidade, o que ocorre é que em vez da
individualidade ser considerada fruto de um processo educativo e autoeducativo
deliberado, intencional, ela é considerada algo que comanda a vida
das pessoas e em conseqüência, comanda as relações entre as pessoas e a
sociedade (DUARTE, 2004, p. 11).
As implicações, para a Psicologia, dessa concepção marxiana de homem e das discussões
a respeito do fetichismo da individualidade são inumeráveis e caracterizam uma escol
ha e
atuação profissional comprometidas ética e politicamente com a transformação das relações
sociais, assim como os pressupostos filosófico-metodológicos marxistas também desse mo
do se
caracterizam.
Tais implicações vão desde o rompimento com concepções idealistas e abstratas de
homem, até a negação de um subjetivismo senhor da história, alijado de suas condições de
existência e de sua materialidade. Além disso, temos também conseqüências que se remetem a
o
escopo da atuação profissional do psicólogo, que deveria tomar como seu objeto de est
udo o
indivíduo concreto e não o indivíduo empírico, não o indivíduo de nossa percepção sensível,
aquele que é síntese de múltiplas determinações, das relações sociais, indivíduo concreto.
Por tudo isso, temos que o conceito marxiano de homem mostra-se indissociável da
intersubjetividade, ou da sociedade, tendo em vista que o homem é o conjunto das
relações
sociais, um sujeito histórico e social.
Nessa perspectiva, como derivação de tal concepção temos que: a contraposição entre
indivíduo e grupo não procede totalmente, tendo em vista que o homem não sobrevive a não
ser
na relação com outros homens; a participação do indivíduo, no grupo, depende da aquisição d
linguagem, cujos significados terão um sentido pessoal, decorrente da relação entre pe
nsamento e
ação:
O resgate desses dois fatos empíricos permite ao psicólogo social se aprofundar
na análise do Indivíduo concreto considerando a imbricação emtre relações
grupais, linguagem, pensamento e ações na definição de características
fundamentais para a análise psicossocial (LANE, 1991, p. 16).
Na presente pesquisa, as categorias propostas por Lane (1991) encontram-se

contempladas e poderão ser analisadas por meio da proposta de realização de entrevist
as com
famílias envolvidas com o Conselho Tutelar. Isso porque a relação estabelecida entre o
s membros
do Conselho Tutelar e as famílias, suas expressões de pensamento e concepções, através da
linguagem, bem como a explicitação de suas ações cotidianas, serão elementos constantes pa
ra
nossa análise.
Compreender a realidade multideterminada desses indivíduos, suas condições reais de
sobrevivência, suas significações e relações interpessoais dentro e fora do lar, apontando
para
características de sua história de vida, da educação recebida da família de origem, dentre
outros
fatores mostra-se como busca da indissociabilidade entre teoria e prática, pressup
osta nos eixos
determinantes da Psicologia Social Sócio-Histórica. 65
4.2. O Cotidiano e o Desenvolvimento do Psiquismo
No campo de estudos da área da Educação, alguns estudiosos à muito vêm buscando uma
articulação entre as considerações de Leontiev e de Agnes Heller. Aproximações entre a estr
tura
da atividade humana e a estrutura do psiquismo humano, propostas por Leontiev, e
a estruturação
da vida cotidiana helleriana, com suas formas de pensamento e ação, podem aqui contr
ibuir para
a busca da compreensão da violência doméstica contra crianças e adolescentes, sob ótica de
familiares envolvidos com o Conselho Tutelar, objeto primeiro de nosso estudo.
4.2.1 A Teoria da Vida Cotidiana de Agnes Heller
Ao analisar a estrutura da vida cotidiana, Heller (1991, 2000) estabelece uma di
visão
dessa vida social humana em dois grandes âmbitos: a vida cotidiana e as esferas não-
cotidianas
da atividade social. Para ela:
A vida cotidiana é a vida de todo homem. Todos a vivem, sem nenhuma
exceção, qualquer que seja seu posto na divisão do trabalho intelectual e físico.
Ninguém consegue identificar-se com sua atividade humano-genérica a ponto
de poder se desligar inteiramente da cotidianidade. E, ao contrário, não há
nenhum homem, por mais insubstancial que seja, que viva tão-somente na
cotidianidade, embora essa o absorva preponderantemente (p. 17).
Essa esfera tão preponderante é constituída por três tipos de objetivações do gênero
humano: a linguagem, os objetos e os usos/costumes de uma sociedade. Essas três ob
jetivações
são a matéria-prima para a formação de qualquer indivíduo, considerando que, ao nascermos,

temos de nos apropriar delas para podermos conviver com o mundo ao nosso redor.
Nesse
sentido, a formação se dá sempre na esfera cotidiana, por meio das objetivações genéricas e
-si. 66
A genericidade em-si refere-se à vida do homem, na esfera cotidiana, suas apropri
ações e
objetivações, suas atividades; ou seja, o processo de formação de sua individualidade. E
la ocorre
essencialmente de forma espontânea, natural, sem uma relação reflexiva consciente com
os
processos correspondentes. Dessa forma, os homens apropriam-se desses conteúdos
espontaneamente e os reproduzem também espontaneamente, caracterizando assim a esf
era da
cotidianidade como a esfera da necessidade, por ser nessa esfera que os homens s
atisfazem suas
necessidades materiais e subjetivas.

as marcas de sua evolução. em artigo que visa a traçar aproximações entre as teorias de Leontiev e Heller. marcadas por uma velocidade rápida. para viver sua cotidianidade e tornar-se adulto. apontam para o que há de mais desenvolvido numa dada sociedade. Assim: O amadurecimento do homem significa. A hierarquia. pressupõe-se sempre que a apropriação dos elemento s cotidianos é a apropriação das relações sociais. É adulto quem é capaz de viver por si mesmo a sua cotidianidade ( p. Essa apropriação dá-se de forma mediada pelos outros adultos. não é apenas heterogênea. p. mas igualmente hierárquica (HELLER. no decorrer dos dias. portanto. Por sua vez. os instrumentos e os utensílios de sua cultura. 2000. Em decorrência. 2000. a arte. p. p. a filosofia. num dado momento histórico. é. Uma de su as características fundamentais é a heterogeneidade. As objetivações genéricas para-si garantem os elementos necessários ao processo de formação da individualidade humana. Rossler (2004). isto é. Mas a significação da vida cotidiana. relaciona-se ao conjunto de normas e valores entendidos como prio ridades em cada estrutura econômica e social. processos esses acompanhados de reflexão. em situações que transcendam esses mesmos peque nos grupos devendo. não pod endo aguçá-los em toda sua intensidade. 5). em qualquer sociedade. Nesse sentido. a moral. tal como seu conteúdo. com o universal das produções humanas acumuladas ao longo da história. mover por sua vez esse mesmo ambiente (HELLER.. faz a seguinte observação. constituem-se naquilo que define o grau máximo que pode alcançar o desenvolvimento dos indivíduos naquela sociedade (p. É composta pelo conjunto das atividades voltadas para a reprodução da existência individual. Refere-se ao estabelecimento de uma relação consciente que o indivíduo faz c om a genericidade. que o indivíduo adquire todas as habilidades imprescindíveis para a vida cotidiana da sociedade (camada social) em questão. 18). As esferas não-cotidianas da vida social constituem-se por objetivações genéricas para- si. assim. Apropriações que começam sempre em pequenos grupos e que devem capacitar o indivíduo a manter-se e a orientar-se. Nascendo o homem inserido nessa cotidianidade heterogênea e hierárquica. a política. 17). como uma de suas características. O indivíduo. A heterogeneidade caracteriza-se pela diversidade de atividades pelas quais pass amos. 18). o indivíduo é sempre ser particular e genérico: marcado por sua unicid ade . a existência das objetivações genéricas que compõem as esferas não-cotidianas da vida social indica o grau máximo de desenvolvimento alcançado pela humanidade. mas sem a possibilidade de absorver inteiramente nenhum dos aspectos dessas vivências. e sua apropriação está presente ao longo da vida do indivíduo. capacitá-lo a mover-se no ambiente da sociedade em geral e. mutável.) essas objetivações representam o próprio desenvolvimento histórico da humanidade.. 68 Nesse sentido. pela fruição contínua. superiores e mais complexas. além disso. 19). em termos de suas produções socioculturais. somente nes se contexto pode se tornar adulto. 67 A vida cotidiana é a vida do homem inteiro (HELLER. 2000. deve aprender a man ipular os objetos. quanto às características das objetivações genéricas em- e para-si: (. São exemplos: a ciência. ou seja.

entre o desenvolvimento da humanidade e seu desenvolvimento como indivíduo particular. seu desenvolvimento cultural. quando sua vida se resume num conjunto de atividades voltadas essencialmente para sua reprodução. mas. social e psicológico intelectual. O desenvolvimento do indivíduo é antes de mais nada mas de nenhum modo exclusivamente função de sua liberdade fática ou de suas possibilidades de liberdade (p.) quando a estrutura da vida cotidiana se hipertrofia. traz contido em si o genérico humano. uma contradição cada vez mais intensa entre o enriquecimento crescente e sem precedentes do gênero humano. ele se vai fragmentando cada vez mais em seus papéis . 13). temos uma marca da alienação s empre determinada por uma estrutura social igualmente alienada. assim. a alienação e o estranhamento entre os homens definem-se como uma conseqüência direta de o homem estar alienado do produto de seu trabalho. de sorte a complementarmos a seguinte observação de Agnes Heller (2000) : É comum a toda individualidade a escolha relativamente livre (autônoma) dos elementos genéricos e particulares. para a reprodução de sua particularidade. E mais ainda: que o critério interno . mais uma vez nos utilizando das palavras de Rossler ( 2004) podemos afirmar que (.. mas nesta formulação. determinando um modo de funcionamento psíquico (intelectual e afetivo) cristalizado. portanto. de um psiquismo cotidiano alienado (ROSSLER. encontrando sua máxima expressão na sociedade capitalista que esta mos vivenciando. ou seja. sentir e agir. e o empobrecimento e esvaziamento de sua individualidade humana (p. no sentido aludido. sentir e agir. modos rígidos de pensar. a especificidade e particulari dade da socialidade são definidas pelo nexo social. pela mercadoria. de uma estrutura social alienada. que não podem ser rompidos mesmo nas situações que o exigem. seus sentidos. cristalizam-se. p. apresentando. de sua ati vidade e de seu ser genérico. deve-se sublinhar igualmente os termos relativamente . afetivo e moral. suas formas de pensar. portanto. 69 sentimento e ação. Assim: (. pela criação e produção de bens materiais e simbólicos cada vez mais complexos. nas condições de manipulação social e da alienação. Nesse sentido.e irrepetibilidade. Trata-se. já que as relações sociais de dominação impossibilitam o contato da maioria dos indivíduos com as esferas não-cotidianas da existência e suas respectivas formas de pe nsamento. tornando-se a única forma de vida do indivíduo. devemos retomar as discussões anteriores acerca do conceito marxian o de homem e de alienação. A alienação da estrutura material da sociedade determina a alienação do psiquismo humano. é a alienação (e o estranhamento) interna ao próprio sujeito .. portanto a cisão do sujeito mesmo que está implicada em sua relação alienada e estranhada com outros sujeitos.. Temos ainda que acrescentar que o grau de individualidade pode variar. Quando os elementos da vida cotidiana elementos que detalharemos posteriormente . para o sujeito inteiro: Como se nota claramente. 15). 22). nesses casos estamos diante de um fenômeno de alienação. em uma palavra. de um cotidiano alienado e. uma forma de socialização que evidencia implicações tanto para o sujeito corpóreo. isto é. A essa altura. Desse modo. por situar-se num dado tempo e espaço social. Os indivíduos experimentam. Assim. 2004. O homem singular não é pura e simplesmente indivíduo. também.. sob o capitalismo. quanto para suas capacidades ativas. pelo valor de troca. conseqüentemente.) os indivíduos vivenciam hoje um distanciamento crescente entre sua particularidade existencial e a relativa universalidade alcançada pelo gênero humano.

a subjetivação dessa dimensão mercantil. cuja tendência apontaria na subversão desse sujeitamento. como valor de troca (p. na carne e na psique dos indivíduos resultam numa dialética conflitiva entre uma dimensão internalizada do sujeitamento: a coisa. em suas atividades de construção da sociedade. as condições materiais. no entanto. portanto. a partir de det . a existência mesma ainda que recalcada. para Silveira (1989). aspecto abordado acima. durante sua realização. sociais e econômic as impedem o acesso dos indivíduos à produção humana historicamente acumulada. Não lhe são mais garantidas socialmente as c ondições 70 de sobrevivência e reprodução. dos elementos estruturadores da vida cotidiana quais sejam: heterogeneidade e homogeneidade. 2000). É. sufocada de condições internas que tornam possível o indivíduo determinar-se como sujeito (SILVEIRA. p. grifos do autor). cabe um espaço. mas somente de forma consciente e autônoma. Ao apontar esse elemento contraditório da vida cotidiana. ou seja. a mercadoria pondo sujeitos como o sujeito físico dos Manuscritos . tanto mais que rigorosamente só conta consigo mesmo. um parêntese. 52. pois. 61). para salientarmos também uma contradição importante. das determinações da forma mercadoria. generecidade em-si e par a-si e hierarquia (que define as prioridades de nossas ações no dia-a-dia. p. A homogeneização estabelece o contato integral e pleno do homem com suas vivências. no seu seio. suspendendo-se qualquer outra atividade. em sua ampliação de consciência aí derivada. 1989. neste caso. a dimensão da subjetividade envolvida em sua relação alienada e estranhada com os outros é aquela em que o próprio sujeito se encontra como trabalhador. fundada na dependência material. Com a superação das relações de dependência social. característica da socialização nas formas de produção anteriores à capitalista. Trata-se de uma contradição expressa na possibilidade da práxi s dos indivíduos. já que a própria natureza se lhe antepõe como capital. alienadas e estranhadas (SILVEIRA. Heller nos aponta que o cotidiano também tem como característica a homogeneização.ao sujeito. 1989. que possibilita a superação parcial da particularidade e da cotidianidade. Para Heller (1991. que limit a o pleno desenvolvimento dos indivíduos. e. o homem passou a uma situação de independênci pessoal. com seu corpo. temos que. inibida. operando aqui como núcleo mesmo das relações intersubjetivas. com sua força de trabalho para que possa aceder às condições de produção. isso significa que o indivíduo pass ou a situar-se num completo isolamento social : Este isolamento é uma das dimensões fundamentais de sua indiferença em relação aos outros indivíduos. como força de trabalho. Emprega-s e. assim. destacando a possibilida de de seu movimento e sua transformação. na característica da sociabilidade e da subjetividade no c apitalismo. como mercadoria. Não sendo eminentemente alienado. quer dizer. 74-5) Depois desse parêntese. reprimida. Esse processo não pode realizar-se arbitraria mente. é estabelecida como o momento em que toda a energia e dedicação estão concentradas na at ividade em questão. outra dimensão igualmente profunda. é bom lembrar que o cotidiano não é eminentement e alienado: torna-se alienado nessa forma de organização social capitalista. na criação de sentidos novos e de novas relações humanas: 71 Para ser mais preciso: os efeitos desse amoldamento. a individualidade inteira na tarefa. a partir.

o homem. temos. a qual. além de se caracterizar por esse ritmo fixo. na sociedade atual. calcular com segurança científica. segura. a espontaneidade também é marcada por motivações efêmeras.9- 10). na vida cotidiana. Nem tampouco haveria tempo para fazê-lo na múltipla riqueza de atividades cotidianas. na vida cotidiana: Espontaneidade: compreendida de forma idêntica à explicação que lhe dá o senso comum: o agir cotidiano sem muita reflexão. num menor tempo e com menor esforço possível. suas ações perderiam a agilidade e o utilitarismo que as definem. das exigências sociais e dos modismos. A autora levanta elementos que estão presentes na estrutura da vida cotidiana. tendo em vista que se assim o fizesse. É necessário que assim seja para que se viabilize o conjunto heterogêneo de atividades que compõem essa esfera da vida. da possibilidade: entre suas atividades e as conseqüências delas existe uma relação objetiva de probabilidade. já exige para sua efetivação a espontaneidade. de alterações constantes. O pensar e o agir não partem de uma reflexão consciente. pensamento voltado para a realização de 73 atividades sem elevar-se ao plano teórico-científico. o homem atua sobre a base da probabilidade. inexistência de diferença entre o correto e o verdadeiro. 30). manifestam-se e funcionam somente enquanto desempenham certa função na continuidade da vida cotidiana (p. Jamais é possível. a partir da lei do menor esforço . Na vida cotidiana. sem reflexõe s acerca de suas conseqüências e/ou causas. Economicismo: a realização das atividades sobre a base da espontaneidade e probabilidade apontam para essa categoria que determina os pensamentos e as ações. Certos pensamentos.) A assimilação do comportamento consuetudinário. 30-1). Pois se nos dispuséssemos a refletir sobre o conteúdo da verdade material ou formal de cada uma de nossas formas de atividade. são indispensáveis para a cotidianidade. isso mesmo é desnecessário: no caso médio a ação pode ser determinada por avaliações probabilísticas suficientes para que se alcance o objetivo visado (p. Assim.. é uma assimilação não tematizada. o agir e/ou falar imediato. Probabilidade: refere-se à possibilidade ou não de ocorrência de um determinado acontecimento. optamos por nos dedicar atentam ente a eles. a conseqüência possível de uma ação. tanto físico quanto intelectual. que nem de longe chegam a expressar a essência da generecidade humana.erminados valores e objetivos) . Como tais elementos se constituem eixos de análise d os dados obtidos com a realização dos estudos com familiares. sem os quais a mesma não seria possível.. Fé e Confiança: fornecem suportes aos pensamentos e ações. 72 Heller (2000) ainda salienta que. sentimentos e ações existem. e assim tornar-se-iam impossíveis a produção e reprodução da vida e da sociedade humana (p. não poderíamos realizar nem sequer uma fração das atividades cotidianas imprescindíveis. reproduzindo aqui as explicações fornecidas pela própria Heller (2000). É a tendência de toda e qualquer forma da atividade humana (. não se dedica a pensar sobre eles. Nas palavras de Rossler (2004): Na vida cotidiana. os pensamentos e as ações visam sempre a sua efetivação de forma rápida. No cotidiano das ações. na maioria dos casos. . Ademais. Agnes Heller (2000) elabora uma análise aprofundada dos eixo s nos quais nossas ações cotidianas se estruturam. os pensamentos são determinados por sua funcionalidade e utilidade. Pragmatismo: caracterizado pela unidade imediata de pensamento-ação. com base em critérios probabilísticos.

quando nossa percepção do precedente nos impede de captar o novo. Por conseguinte. pel a ultrageneralização. torna-se cristalizado nas relações familiares.) têm mais importância para o conhecimento da situação que para o conhecimento das pessoas (. A educação recebida dos pais. tornam-se naturais. classificamos por algum tipo já conh ecido por experiência o homem que agora queremos conhecer e essa classificação por tipos permite nossa orientação (p. com a justificativa sempre foi assim ou com a justificativa religiosa Deus quis assim . e mudanças estruturais na sociedade possam ocorrer. Normalmente. 35). De acordo com Rossler (2004): Podemos perceber que. Para Heller (2000). define a impressão que cada indivíduo causa nos demais com os quais entra em contato: O aparecimento do indivíduo em uma dada situação dá o tom do sujeito em questão. utensílios.. não permitindo assim.) No cotidiano não há como os indivíduos examinarem detalhadamente e com precisão as situações singulares. Porém. fazendo com que se reproduzam irrefletidamente as ações sofridas e a educação que se teve. na vida cotidiana. seja quanto às condiçõe sociais. quando estes se encontram alienados. quando criança. pelo pragmatismo. É utilizada. quando criança. tendo em vista que. 11). o preconceito é uma categoria fundamental do pensamento e do comportamento. que novas formas menos violentas de convívio humano possam se estabelecer. ana lisando o quanto a alienação se efetiva. nega-se o processo socia .. os indivíduos agem ou por meio de generalizações tradicionalmente aceitas e difundidas na sociedade ou segundo generalizações que eles mesmos estabelecem a partir de suas próprias experiências particulares. Precedentes: dizem respeito às situações e experiências anteriormente vivenciadas. (p. culturais e educacionais. os problemas particulares com os quais se deparam (p. A compreensão dos elementos da cotidianidade e da característica heterogênea da vida possibilita um olhar mais profundo para os determinantes sociais da violência. hábitos e costumes de uma sociedade. 36). também o ciclo da violência como recurso pedagógico não é questionado. tanto quanto essencial. irrepetível e único de uma situação. pautada pelo economicismo. os preconceitos e a analogia. como modo de aprendizagem das normas socialmente aceitas. as dificuldades na relação pais e filhos. por meio dela. isto é. o preconceito traz consigo o risco de cristalizar-se. 2000). 74 Imitação: importante para a assimilação dos instrumentos. nas relações humanas. Ultrageneralização: como exemplos... Podemos considerar que essa é a forma cotidiana de lidar com os fatos da vida. temos os juízos provisórios. Entonação: diferentemente do elemento Precedentes . que nos fornecem elementos de comparação e modelos para nossas ações: (. 36). seja quanto às condições econômicas...) essa atitude tem efeitos negativos e até destrutivos. as pessoas não se orientam a partir de uma consideração mais precisa dos casos singulares que compõem a sua vida (. na vida cotidiana. as precariedades da vida diária. refere-se às características da pessoa em questão e não das situações. produz uma atmosfera específica em torno dele e que continua depois a envolvê-lo ( preconceito emocional ) (p. pelos precedentes e pelos demais elementos analisados por Heller (1991. A analogia também é considerada essencial.

Heller (2000) chama a atenção. devendo o trabalho do psicólogo ser o de transformar esse lugar no ponto de segurança. Procedimento de Coleta de Dados Para aproximar-nos de nossa finalidade. a partir do momento em que a relação de um homem com sua classe tornou-se casual (Marx). afetividade e de tolerância à pluralidade de formas de viver. de acordo com o momento histórico das estruturas socioeconômicas e também da peculiaridade da reprodução particula r da vida cotidiana da família e do indivíduo. no interior da hierarquia espontânea. poder-se-á contar com a máxima explicitação daquela possibilidade (p. como se alimentar. como. dor mir.. uma vez que é permitido ao indivíduo escolher e orientar-se dentro da margem de movimento possível que se faz presente. o processo de estruturação e objetivação que essa mesma pesquisa percorreu. ten do em vista que nem todo cotidiano é necessariamente e inteiramente alienado: Possibilidades sempre existiram. diariamente . aumentou para todo homem a possibilidade de construir para si uma hierarquia consciente. os q uais nos servirão de motivos geradores de sentido para reflexão e para o possível planejamento de novas ações relativas à violência doméstica contra crianças e adolescentes. ditada por sua própria personalidade. essa cotidianidade é também hierárquica. Vejamos. a busca por uma sociedade menos violenta. indo das mais simples. o estudo ou a educação dos filhos sem violência. investigar os sentidos e sign ificados da . d a indissociabilidade entre teoria e prática. então. isso anteriormente aos apontamentos que de seus dados decorrem. para a possibilidade de superação parcial da alienação cotidiana. para viver e sobreviver.. por exemplo. 40).1. (p. quando afirma que a vida do dia-a-dia é o ponto fixo do qual o indivíd uo parte e volta. no momento da superação dialética do conjunto da sociedade. 52). até tarefas mais complexas. ou seja. e com base na Teoria da Vida Cotidiana. 77 5. nessa esfera da vida social. dando-lhe prioridades. Metodologia 5. qual seja. com o fim da alienação. no essencial. as mesmas relações e situações sociais que criaram essa nova possibilidade impediram. agrupamos e relacionamos certas atividades entre si. Contudo. podemos compreender o cotidiano como o espaço vital onde todo ser humano se encontra inser ido. Nele também se encontra a enorme diversidade de tarefas que os indivíduos têm de realizar. A finalidade da transformação perpassa todos os pressupostos teórico-metodológicos que fundamentam nossa pesquisa e que foram discutidos até este momento. Nesse sentido. ou seja. mas. seu desenvolvimento. Ao mesmo tempo. desde o seu nascimento e como o conjunto das atividades que relacionam a vida de cada um com as objetivações da cultura. A partir do entendimento do fazer psicológico.l que conduz a 75 possíveis transformações na compreensão e na ação da dinâmica familiar: naturaliza-se a educação violenta. ainda. a finalidade de nossa pesquisa é também contribuir com a transformação das relações humanas. da interface com a produção científica. as relacionadas com o trabalho. 76 A opção de trabalhar a partir do cotidiano também encontra seu eco nas considerações de Sawaia (1995).

na definição de uma nova concepção de homem que a Psicologia Social apresenta à Psicologia. o que conduziu ao caráter instrumental da pesquisa. conforme Lane (1991). Diversos outros autores apontam a entrevista como uma das técnicas mais utilizadas como instrumento de pesquisa. poder etc. neste ponto. 1994). os dados passam a ser entidades própr ias. exigindo-se. vislumbramos a entrevista como instrumento possível e adequado. a entrevista não-diretiva propicia limitar essas diferenças . suas emoções e compreensões. a tradição positivista usa os instrumentos como um fim em si mesmo. status. pode p ossibilitar espaço adequado para repensar a própria realidade e as experiências vivenciadas.. 33). 81) . confiáveis e generali zados. que reforça a importância da linguagem e do significado da f ala. pode ter um papel diferencial na medida em que um clima favoráv el e permissivo. uma con versa com propósitos bem definidos. para isso. a subjetividade não permite outra forma de acesso que não seja aquela expressa e demonstrada pelos indivíduos: essa exp ressão 78 indireta é facilitada à medida que o sujeito se expressa de forma aberta e complexa . favorece o aparecimento de sentimentos subjacentes a uma opinião expressa . O autor ainda comenta a pertinência dos instrumentais fechados empregados para conh ecer o indivíduo. objetivando alcançar resultados finais. dentre os quais Thiollent (1981). juntamente com o pensamento e as ações. para citar alguns. A entrevista. porque o entrevistador não propõe ao entrevistado uma completa estruturação do campo de investigação como na entrevista dirigida: . tendo como conseqüência a idéia da objetividade do conhecimen to associandose inteiramente ao uso de instrumentos validados. como posições de classe. (p. de ac ordo com as temáticas suscitadas por um modelo não-diretivo ou semi-estruturado. Sellitiz (1974) enfatiza que a arte de entrevistar revela informações que são tanto complexas q uanto emocionalmente carregadas. A respeito d isso. para ele.violência doméstica contra crianças e adolescentes. o que discutimos anteriormente sobre a i mportância da linguagem. Segundo Rey (2002). tendo em vista que a mesma não se constitui em uma conversa despretensiosa e neutra. Rey (2002) e Sellitiz (1974). Um viés característico do instrumento refere-se à maneira como o entrevistador é visto pelo entrevistado e como este último percebe o primeiro. Cabe ressaltar e resgatar.. e fornece dados subjetivos (MINAYO. Para o autor. pois a relação entrevi stadorentrevistado denota diferenças entre as pessoas e entre as trocas. sem as restrições impostas pelos isolamentos que o fecham na cosmovisão do pesquisador (p. Thiollent (1981) salienta a necessidade de considerar os aspectos sociológicos e políticos da entrevista. amparada em uma postura aberta e compreensiva do pesquisador. sob a ótica de familiares envolvidos com o Conselho Tutelar. então. sendo um meio de coleta dos fatos relatados pelas pessoas (sujeitos-objetos da pesquisa). que as circunstâncias propiciem ampla liberdade e honestidade de expressão (p. descontextualizadas. 77).

. Minayo. 13).) é o entrevistado que detém a atitude da exploração (. 1981. 77). o objeto da pesquisa social é histórico: a provisoriedade. histórica. Ao analisarmos mais detidamente o método dialético. a questão central que temos de nos colocar não é se a pesquisa é teórica. possui consciência histórica: os seres humanos.. e a literatura pertinente. apresenta também as formas ideológicas explicativas da realidade. mas sim se a sua finalidade é de transformação social. De forma coerente com nossos pressupostos. considerando-se que possibilita apena s uma aproximação da realidade: os resultados da pesquisa em ciências sociais constituem-se s empre uma aproximação da realidade social. mediada pela particularidade (socie dade). Desse modo.. enfim. dão sentido ao trabalho do pesquisador. Para a autora. nos aponta algumas característic as da pesquisa social. se é quantitativa ou qualitativa. Segundo ela. aspirações .. pesquisa quantitativa X pesquisa qualitativa. o d inamismo e a especificidade são características fundamentais de qualquer questão social (p. qualificado. suas dificuldades. 13).. a pesquisa em Ciências Humanas dever ser classificada e entendida c omo qualitativa. mas deve ser considerada dentro do contexto teórico-metodológico em que está inserida. A afirmação de que só a pesquisa participante ou pesquisa-ação é comprometida socialmente é uma questão tão equivocada quanto a da pesquisa quantitativa e qualitativa (p. não tem um fim em si mesma. no sentido de que a classe trabalhadora aproprie-se dos bens materi ais e simbólicos produzidos pela humanidade. por fim. juntamente com ele próprio (p. sobre o 79 que é a infância. 144). em obra publicada em 1994. utilizando-nos dos conceitos de Heller (1970). uma vez que trabalha com o universo de significados. compreendemos que a entrevista é um instrumento que não se basta a si mesma.. de intervenção. ou ainda. perceberemos que avanços já foram traçados no que tange a ess a dualidade. 22). ou. no sentido marxista. valores e atitudes. sobre sua realidade. motivos. que a entrevista não-diretiva pode explorar a partir das verbalizações. ap resenta. empírica. interpretar para transformar a sociedade capitalista.. na singularidade. sobre os órgãos públicos de assi stência. inclusive as de conteúdo afetivo. Não é o debate quantitativo -qualitativo que garante a coerência da pesquisa. 85). Desse modo. 80 Martins (2005) relata: Marx (1845/1978) fala em conhecer. mas sim a intencionalidade e o destinatário des se estudo sistematizado. e é. A entrevista. Nesse sentido. Os modelos culturais são progressivamente evidenciados a partir da revelação do uso de estereótipos e da influência dos grupos aos quais os indivíduos pertencem ou se referem em função de sua socialização (THIOLLENT.(. é ideológico. em nosso caso. o grupo social. o entrevistado define como quiser o campo a explorar. p.) a partir da instrução. mantém relação identitária entre sujeito e objeto. as quais vão ao encontro dos pressupostos destacados até agora neste trabalho. O indivíduo é considerado portador de cultura. tent ar compreender o que os próprios familiares sentem e pensam sobre a educação dos filhos. que não pode ser reduzida a nenhum dado (p. então. o que corresponde a um espaço mais profundo das relações (p. crenças. sobre sua história de vida. na pesquisa social sócio-histórica. as manifestações da generecidade. constitui um instrumento que possibilita.

p. a entrevista era gravada ou a contecia somente um registro da fala. foram realizados três períodos de plantões por semana. bem como as suas relações com a universidade. além de um gabinete grande. O fato de acontecerem no órgão influe nciou sua dinâmica. O loca l das entrevistas foi sempre uma sala cedida pelo próprio Conselho Tutelar. 116). a significação envolvida na educação dos filhos: Como você educa os seus filhos? Como lhe ensina o que é certo e errado. 143). com seus pais. dentre os múltiplos determinantes do relato. no período da tarde. indagava-se a o entrevistado sobre a possibilidade de outros momentos de conversa . abarcando o s seguintes pontos: a significação atribuídas aos motivos da procura e/ou encaminhamento ao Conselho Tutelar: Por que você está aqui no Conselho Tutelar?.. que é preciso ir além da aparência do fenômeno.. para posterior formação de categorias e análise. em seu texto. uma rica totalidade de determinações e relações diversas (MARX. mas como um fator a mais. sejam elas oriundas do meio acadêmico. a autora nos fornece o principal eixo norteador de uma a tividade que vise à produção de conhecimento. buscando captar as mediações que o determinam e o constituem. o significado das dificuldade s. o que é a vida? As entrevistas foram gravadas. realizamos entrevistas semi-estruturadas c om familiares envolvidos com o Conselho Tutelar da cidade de Bauru-SP.?. contribuindo para que o concreto abstrato transforme-se em concreto pensado. Como era a vida em sua família de origem. Para entrevistar as famílias. as significações envolvidas nas relações humanas: Como é o seu dia-a-dia em casa?. No momento final. principalmente no que tange à educação familiar recebida dos pais: Conte-me um pouco sobre sua vida. da pesquisa social e da pesquisa participante/pesquisa-ação. demonstrando. que também nos apontou para div ersos outros elementos referentes à realidade das famílias relacionadas com o Conselho Tut elar. caso fosse necessário. e um. antes da despedida. a natureza da pesquisa no órgão. no cotidiano. a significação da educação que recebeu dos pais: Como você foi educada por seus pais? O que acha disso?. 1978. refletida nas ações e nos discursos das pessoas. foi explicitada a não vinculação da entrevistadora com o Conselho Tutelar. Em caso de concordância. No primeiro contato com o membro familiar entrevistado. 82 . 81 a vivência da realidade no dia-a-dia. contendo dua s poltronas individuais e um sofá. dentre outras informações. não podemos desconhecer a existência da ideologia hegemônica na realidade. mediante a autorização dos envolvidos. compreendemos essa constatação não como limitadora. sejam das classes trabalhadoras (p. a significação acerca de aspectos da história de vida com a família de origem. abrindo-se tam bém o espaço para esclarecimento de dúvidas surgidas durante a explicitação. no Conselho Tutelar dois. Para isso. Considerando os elementos apontados.Ao desenvolver alguns princípios. porém. com o método materialista histórico e dialético. no período da manhã solicitando-se à Conselheiras Tutelares presentes que encaminhassem ou agendassem os familiares. a partir de um referencial crítico: Marx traz para o centro da discussão a relação entre a aparência e a essência do fenômeno.

renda. 1 Advogada e 3 Assistentes Sociais . 15 familiares foram contatados. histórico no órgão etc. No mês de fevereiro de 2005. O Conselho Tutelar de Bauru era constituído de cinco conselheiras. não foi possível obter dados relevantes. Da análise dos prontuários. em seus prontuários. Após a entrevista com as famílias triadas. das 15 encaminhadas. esclarecendo-lhes novamente sob re os motivos do contato e da pesquisa junto ao órgão. duas envolviam conflitos de disputa de guarda dos filho s e cinco dos encaminhamentos relacionavam-se a crianças ou adolescentes. tendo em vista que teríamos o envolvimento de seres humanos. evidenciando-se um encaminhamento não cond izente com as delimitações da pesquisa. Todas elas foram contatadas com o intuito de solicitar-lhes o encaminhamento de famili ares envolvidos com a violência doméstica. fo ram realizados os trâmites necessários para o encaminhamento da proposta ao Conselho de Ét ica em Pesquisa. foram explicitados os objetivos da pesquisa e dirimidas as dúvidas. Somente 5 famílias. s al e/ou negligência. para que se procedess e a uma avaliação psicológica. por informações gerais que as pudesse caracterizar mais especificamente. Foram feitas devolutivas dess es atendimentos às conselheiras responsáveis pelo caso. encaminhada com queixa de negligência e maus-tratos perpetrados contra o 83 filho. Foi entregue t ambém uma cópia do pré-projeto de pesquisa. Uma mãe. pois os mesmos ora não continham registros. ora os . no estudo. tipo de trabalho. de modo que essas foram as triadas para a entrevista. encontravam-se no órgão por questões realmente relacionadas à violência doméstica. Nesse momento. O primeiro encaminhamento aconteceu em abril do mesmo ano e os contatos com o órgão estenderam-se até agosto. através de uma reunião agendada com a então coordenadora do órgão. sua fala não pôde ser considerada para a análise dos dados coletados. juntamente com os contatos com o Conselho Tutelar. apesar das recomendações específicas feitas às conselheira : três famílias tinham como problemática conflitos intergeracionais vivenciados entre mães e filhas ou entre pais e filhos. em suas diversas manifestações: violência física. verificou-se que nem sempre o motivo de contato com o Conselho Tutelar era a violência doméstica. Por sua vez. Às pessoas atendidas e cujas queixas não se relacionavam à proposta da pesquisa eram dadas as devidas explicações e algumas orientações gerais. o primeiro contato com o Conselho Tutelar aconteceu no mês de janeir o de 2005. psicológica. Nesse período. moradia. procedeu-se à procura. com as seguin tes formações profissionais: 1 Terapeuta Ocupacional. portanto. toda via. a partir do agendamento das conselheiras. não permitiu que a entrevista fosse gravada e. como número de fi lhos. No momento das entrevistas.

Para Vigotski (1991). as contradições e as transformações. Vigotski (2001) salienta o significado da palavra como fenômeno do pensamento e da linguagem. Entretanto. 72-3). perder de vista as relações com a totalidade. estereotipado. para nós. automatizado. uma vez que a unidade conserva em si a totalidade: A psicologia que deseje estudar as totalidades complexas deve entender isso. tendo em vista que a palavr a sem significado seria um som vazio: Por isso o significado pode ser visto igualmente como fenômeno da linguagem por sua natureza e como fenômeno do campo do pensamento. compreender o movimento contraditório que determina um comportamento. é um produto de análise que. o que implica ir além da aparência. procurando. A Análise dos Dados Para proceder à análise dos dados coletados foi utilizado o método explicativo de Vigotski. precursor da Psicologia Sócio-Histórica. buscar apreender a historicidade que c onstitui o fenômeno em questão.. 70). Analisar um fenômeno. Além dessas características. o método aqui descrito propõe a bus ca de unidades de análise e não a decomposição do fenômeno em elementos. determinar as relações dinâmico-causais. portanto.) Ela não rejeita a explicação das idiossincrasias fenotípicas correntes. ou seja. p. 8). compreender seu processo de transformação: uma análise do desenvolvimento que reconstrói todos os pontos e faz retornar à origem o desenvolvimento de uma determinada estrutura (p. Assim. 8). a fim de conhec er a totalidade do fenômeno. 5. A palavra expressa na linguagem é a mediadora da subjet ividade e. a análise psicológica na abordagem sócio-histórica possui três princípios de base: Analisar processos e não objetos. 85 Vigotski ainda esclarece que. Entender a fossilização do comportamento. subordina-as à descoberta de sua origem real (p. 84 Explicar e não somente descrever. 74). mas ao contrário. pois as palavras são nossos pontos de partida para empreen der a constituição da subjetividade. é necessário encontrar o significado da palavra. compreender a violência doméstica sob a perspectiva dos familiares: A análise psicológica dos objetos deve ser diferente da análise dos processos. para localizar essa unidade. nesse sentido. ao mesmo tempo. Não podemos falar do significado da palavra tomado separadamente. 2001. sua gênese e relações dinâmico-causais: Assim. concomitantemente. (VIGOSTKI. são inerentes a uma dada totalidade enquanto unidade.. são partes vivas e indecomponíveis dessa unidade (p. singnifica compreender o seu processo histórico . é um produto da prática social humana. 2. possui tod as as propriedades que são inerentes ao todo e. mas de forma assistemática. que muitas vezes se apresenta fossilizado. como vimos anteriormente. ora os apresentavam desorganizada e confusa mente. O que ele significa? Linguagem ou pensamento? Ele é ao mesmo tempo linguagem e pensamento . p. Deve conservar essas unidades que não se decompõem e se conservam. diferente dos elementos.. em nosso caso.continham. conhecer sua gênese e suas relações dinâmico-causais. tal explicação seria também impossível se ignorássemos as manifestações externas das coisas.. Deve substituir o método de decomposição em elementos pelo método de análise que desmembra em unidades. ao mesmo tempo. a análise objetiva inclui uma explicação científica tanto das manifestações externas quanto do processo em estudo (. ou seja. A unidade. ao invés disso. a qual requer uma exposição dinâmica dos principais pontos constituintes da história dos processos (VIGOTSKI. a análise psicológica rejeita descrições nominais. 1991. Necessariamente.

no plano individual. como motivações. 130). 137). o relato da famíli a entrevistada. parte integrante da palavra. portanto. explicitar como o sujeito transformou o social em psicológico e assim constituiu os seus sentidos (AGUIAR. A palavra significada é entendida como unidade de análise. considerando também leituras fl utuantes. já que encerra as propried ades do pensamento. 139). único. de modo geral. aos fatos e vivências (AGUIAR. configuradas. Construção de núcleos de significação suscitadas por temas. portanto. Nas palavras de Aguiar (2001): Só ao levar em conta a realidade social poderemos explicar um movimento que é individual e ao mesmo tempo social e histórico. em particular.porque é uma unidade do pensamento verbalizado. da análise do sentido da linguagem. as motivações e necessidades que as constituíram. conteúdos e questões centrai apresentados pelo entrevistado como importantes. que teve como questões norteadoras o motivo do vínculo com o Conselho Tutelar. o procedimento de análise foi o seguinte: Leituras atentas e diversas do material coletado. para que seu sentido e seu processo não se percam. necessidades e interesses. o Cotidiano. Tais núcleos são. é possível compreender a maneira como cada indivíduo expressa e codifica suas vivências. 2001. enfim. é preciso compreender seu pensamento (que é sempre emocionado). ato do pensamento. Nossa tarefa consiste. em compreender a forma como nossos sujeitos configuram o social. a História de Vida do entrevistado e sua Concepção de E . 2001. porque é unidade do pensamento e da linguagem (AGUIAR.. Tomando o significado da palavra como unidade de análise. sem dúvida. a palavra. fica evidente que o método de investigação do problema não pode ser outro senão o método de análise semântica. para chegar ao sentido atribuído/constituído por cada ser humano. geram emoções e envolvimento: Cada um dos núcleos deve. organizadas em núcleos. Análise propriamente dita dos núcleos de significação: apreender as determinações que constituem determinada forma de significar. 10). 87 portanto. p. devem expressar questões relevantes para a compreensão dos aspectos pesquisados. 2001). A fala. e ao mesmo tempo histórico e social (p. tendo em vista os objetivos descrit os para esta pesquisa. É importante salientar que os núcleos não devem ser analisados de forma isolada. O ponto de partida para a análise dos dados obtidos foi. 2001. sim. a fala. Por meio dessa exposição. 136). os objetivos da pesquisa orientam essa organização dos núcleos. com a base material sócio-histórica constitutiva da subjetividade. do significado da palavra (p.. emoções dos sujeitos.) as falas. por se constituir como sua mediação: Para compreender a fala de alguém não basta entender suas palavras. é um e outro ao mesmo tempo. Após a transcrição das entrevistas. num movimento que sem dúvida é individual. mas é simultaneamente. cabe ao pesquisador ultrapassar a aparência do discurso e ir em busca de suas determinações históricas e sociais. agregar questões intimamente relacionadas que. é o ponto de partida. Articular as questões com a história do entrevistado. p. precisam ser articuladas com o processo histórico que as constituiu. Sendo assim. nela buscando as relações: (. os organizadores das falas expressas pelos sujeitos (AGUIAR. no entanto. para aí. é preciso apreender o significado da fala. p. 86 A análise do conteúdo das entrevistas teve como eixo temático a violência doméstica contra crianças e adolescentes e o cotidiano. conteúdos. aqueles que motivam. O significado é. pois. como salientamos na discu ssão sobre o método explicativo de Vigotski (2001).

do procedime nto de coleta de dados e da organização do material derivado da entrevista. objetivando compreender o processo de construção de sentidos e significados atribuídos à violência doméstica e à educação dos filhos. conforme o objetivo da presente pesquisa. a relação entre os sentidos pessoais e os significados atribuído s pelo entrevistado à sua vivência individual. significados-sentidos da violência domésti ca. configuradas. decidiu assumi r e registrar o menino.1. a qual compare ceu para uma primeira conversa sobre Lucas. podemos agor a deter um olhar atento e reflexivo sobre o discurso das famílias implicadas nesta pesquisa e sua concomitante análise. Com base na discussão desses eixos organizadores. sua família é composta por ele. então Antônio fica com as crianças em casa. após leituras diversas da entrevista e organização de alguns núcleos de signi ficação apresentados pelo entrevistado como mais relevantes. 89 6. A Compreensão/explicação atribuída aos problemas apresentados pelo filho e Formas de resolução propostas (primeiro eixo temático) por cada familiar e sua História de vida e Concepção de educação (segundo eixo temático) resumem elementos importantes. para a realização da anál ise dos dados. no plano individual. além de 88 significados e sentidos atribuídos à educação familiar. No interior desses eixos temáticos pode-se apreender questões como concepção/significação de homem. no cotidiano. procurou-se identifcar a unidade de significação e. de 11 anos. de 15 anos. pelo qual é possív el compreender a maneira como cada indivíduo expressa e codifica suas vivências. buscou-se a unidade de análise derivada do significado da palavra. encaminhada pela conselheira responsável. uma filha de 10 e outra de 8 anos. quando soube da verdade. com ela. É classificado por Antônio como muito nervoso e agressivo. contudo. fruto de outro relacionamento de sua esposa. foi possível a criação de dois gr andes organizadores da fala. d esde.1. como motivações. que e le inicialmente acreditou ser seu.1. Dados Gerais: Segundo Antônio. o filho mais velho. recordando que o eixo temático dessa vivência se referiu à violência doméstica contra crianças e adolescentes e ao cotidiano. apreendida sob a perspectiva de familiares envolvidos com o Conselho Tutelar de Bauru-SP. e a partir das explanações gerais acerca do método de análise. No intuito de ultrapassar a aparência do discurso e ir em busca de suas determinações históricas e sociais. tendo também muitos . que serão objeto de análise. conforme descrito abaixo. As entrevistas: construindo sentidos e significados 6. Primeira Família: Antônio e Lucas 11 6. Lucas é filho adotivo de Antônio. Isso posto. recebendo ajuda de uma irmã. seguiram-se os passos propostos por Aguiar (2001) para a organização dos dados. Sua esposa e mãe dos filhos faleceu há cinco anos devido a um enfisema pulmonar e. relacionamentos pais-filhos daí derivados. e L ucas.ducação. Assim. são questões que nos auxiliam na compreensão do movimento social-individual. que trabalha como servente de pedreiro.

isso tá me deixando muito preocupado.. Antônio foi convocado devido a uma denúncia (realizada pela tia pa terna de Lucas) de negligência: chegava embriagado em casa e os filhos ficavam pelas ruas. já que trabalha como servente de pedreiro e. voltando somente no fim do dia.problemas na escola. p or faltar muito às aulas foi excluído das atividades. m s ele pegou esse lado. mas não é meu filho biológico.. já que este é envolvido com porcariadas . por conta do trabalho. Sua preocupação e dificuldade para lidar com o filho também se expressam na incompreensão da situação: Então. essa explicação encontra seu fundamento no fato d e nenhum dos outros filhos ter dado ou dar problemas na escola. Antônio e a irmã continuaram a comparecer ao Conselho Tut elar. o que se caracteriza como a maior preocupação do pai.. sua irmã o fazia por ele. Na tentativa de explicar a realidade enfrentada. que ele é meu filho assim. Antônio atr ibui as dificuldades de Lucas a uma questão genética.. 11 Os nomes apresentados são fictícios 90 Antônio trabalhou dos seis/sete aos dezesseis anos na lavoura com os pais e não tev e oportunidade de concluir a primeira etapa dos estudos. O filho mais velho trabalha e estuda. viu. E também tem outra coisa qu e eu acho. ao ser convidado a conversar com a psicóloga (conforme encaminhamento dado pela conselheira responsável). transmitida do pai biológico. Segundo o histórico de sua passagem pelo Conselho Tutelar. Para ele. Posteriormen te. recebe os benefícios de acordo com as horas trabalhadas. atribui a falta de inteligência e agressividade de Lucas à sua herança biológica: Eu acho que. Não está nada legal. eu que. o pai.. Não comparecia às convocações. mas.. condicionadas à presença na escola. o que impe de de os mesmos ficarem sozinhos em casa. 6. mesmo com dificuldades de horári o. Significados e sentidos da problemática em questão e formas de resolução proposta s Antônio. não. 91 Lembremo-nos aqui das formas de compreender e explicitar os fenômenos apresentadas ... a mesma denúncia foi retirada. não sei o que está acontecendo com ele. em suas palavras. Lucas também estava inscrito num desses projetos. Então.. é de receber alguma ajuda psicológica para o filho.. como fica claro durante o relato sobre as formas de enfrentamento d o problema. Eu tô achando que is so tem muito a ver com o pai dele. portanto. Sua esperança. na tentativa de solucionar os problemas escolares de Lucas.1. já que entende que as di ficuldades do mesmo são de ordem neurológica e hereditária: Não sei o que aconteceu na cabeça dele. quando os filhos também estão retornando.2. comparece ao órgão. Demais. ambas as meninas participam de projetos em horário alternativo ao da escola. prepara as crianças para suas atividades e sai para trabalhar. sabe. Dentro dessa r otina da casa.

conseqüentemente. determina. As objetivações genéricas em-si. evidentemente. quando adolescente ou adulto. objetivações. escolarização. Lucas já está tendo essas atitudes. como vimos.) Eu tô correndo.. com seu caráter de imutabili dade atribuído às determinações. 2000). as dificuldades de aprendizagem e a não adequação de Lucas aos padrões normais de obediência e do que se espera socialmente seja um bom filho e um bom aluno. de parada para reflexão sobre a produção dos problemas e sobre possíveis formas de enfrentamento. grande parte da responsabilidade pela educação e socialização de crianças e adolescentes. como bem explicita Heller (2000). são voltadas para a reprodução da existência do indivíduo.por Chauí (1999).. a agressividade. podemos apreender a significação que Antônio atribui aos comportamentos do filho: significação biologicista/hereditária. por meio de uma relação causa-efeito. É uma estrutura que im possibilita momentos de homogeneização. portanto. Explicações como essas justificam a incapacidade de alguns indivíduos.. da cultura e da civilidade. até a violência e o banditismo. atribuídas. unidade imediata entre pensamento e ação. a maneira que eu tô fazendo. a estr tura e o desenvolvimento do psiquismo. não falar: mas o cara também não correu atrás. nas ações. difundidas e apropriadas pelo senso comum p ara referendar a concepção imutável atribuídas às ações. são elementos que nos ajudam a compreender as estratégias de enfrentamento buscadas por Antônio.. de maneira que a maioria dos profissionais ne la encontra a fonte de todas as mazelas sociais. no economi cismo e no pragmatismo. se. que determina. em s eu processo de socialização. revelando falhas. como eu tô dizendo . geralmente das classes populares. o que até emba saria sua motivação para procurar o pai biológico de Lucas e devolvê-lo a ele. como vimos. Sobre a família recai. na forma capitalista de organização e produção das relações materiais. quando criança. sentir e agir pautados na espontaneidade. s eu modo de pensar. à família de origem e à sua desestrutu ação. entendemos que a estrutura da vida cotidiana .. a maneira como s e pensam e se significam (em nosso caso) os comportamentos do filho. Da discussão e problematização desses elementos. ao tentar apoio e justificativas médicas e psicológicas para as dificuldades com o filho. A característica heterogênea da vida cotidiana. em outras palavras . uma delas representada pelo inatismo. de se 92 apropriar da educação. pensamentos e sentimentos cotidianos: Olha. carregadas de explicações ideológicas inatistas e biologicistas. vendo o meu lado para ve r o lado dele. Outro elemento se destaca dessa mesma fala: a idéia/mito associada ao sentimento de temor a respeito da possível progressão linear da problemática. determinando. segundo Heller (1991. ele . como é o caso do geneticismo alegado por Antônio. eu tô fa zendo a minha parte. (.. pra amanhã ou depois que eu não conseguir dominá-lo. A fala de Antônio nos permite um exemplo de como essa situação é vivida e reproduzida. verdades e razões humanas. Ou. desde problemas escolares. sem reflexão. Longe de culpabilizar sua atitude. o medo de que.

. agora é só ele. Ao mesmo tempo em que responde à questão. tece um comentário que relativiza a situação. desde o falecimento de sua esposa. demonstrando as relações interpessoais e seus conflitos. porque quanto ao cigarro. relata como Lucas não se enquadra na organização da s atividades que os demais filhos realizam. mas se fosse isso aí. manda fazer o nome dele aqui qu .. causal e f atalista dos fatos. Claro. numa sucessão linear. Mas só que o nervosismo dele. se comparada com as dificuldades com Lucas: Olha. pautado em generalizações que os indivíduos estabelecem.. quem é inteligente é inteligente pra tudo. Tal temor e compreensão também se evidenciam. para as outra s coisas boas. Esse daí o que me deixa pr eocupado é que ele não tem inteligência para as coisas que me interessa... voltando para casa no fim da tarde.. quando Antônio fala sobre a constatação de que Lucas está fumando: Eu não vi ele fumar. enquanto nos conta as dificuldades na educação de Lucas. é complicado. a esta altura. su as dificuldades de lidar com a situação. para as suas cristalizações. E eu acho que daí vai passar para as coi sas pior. determinadas pela totalidade social alienada.. Os outros nasceram tudo com cabeça boa para estudo. causal e fatalista dos fatos relacionados às atitudes de Lucas nos oferece mais um elemento indicativo de como Antônio apreende e como significa os 9 3 comportamentos do filho (significado biologicista/hereditário) e. mas gente não é tonto. Ele até é trabalhadorzinho . garantindo-nos. foi caracterizado ora por aquel es que convivem diretamente. quando as mesmas também já retornam de suas ativ idades escolares e do projeto do qual fazem parte. eu tenho certeza que ele tá. assim. eu mesmo levava no peito e dava para agüentar. que seu dia-a-d ia é também se preocupar com o filho. mas a hora que passar para outras coisas.. também é comum e necessário à vid a cotidiana. podemos dizer que esse elemento de ultrageneralização. A compreensão linear. O dia-a-dia em casa. Chamamos a atenção. pra fazer um trabalho em casa é. em decorrência. sabe.. Nas palavras e conceitualizações de Heller (2000). de analogia e de precedentes. É interessante notar como descrever o cotidiano também é descrever suas dificuldades. Antônio nos fornece uma amostra de seu relaci onamento com os filhos e da dinâmica do lar: sai para trabalhar depois que libera as crianças para a escola. um delinqüente. a f alta de interesse pela escola e a falta de inteligência... ora pela própria convivência. mas ele é esperto também. no ambiente doméstico.. Sobre o fato de estar cuidando dos cinco filhos sozinho. Durante seu relato. marginal ou bandido. . conforme o relato de Antônio. É um menino levado. a partir de suas experiências particulares. então.. diz da diferença que se estabelece entre o menino e os outros filhos: Por isso que eu estou falando para você.se tornará. Antônio.

Percebemos mais uma vez. isolada e imutável de individualidade: Ele já estava já prestes a entrar na escola também. nós era em d . fonte primeira de seus problemas atuais. Sem um espaço de reflexão sobre o s resultados e receitas recebidas. através da interpretação e discurso de seus representa ntes. conseqüentemente. Mesmo assim. Porque ele é muito agressivo. tem oito anos.. mesmo com essa idade já. e.. mais um elemento que nos direciona para o significado atribuído por Antônio às questões relacionadas ao filho: ao significar as causas das dif iculdades de Lucas. (Antônio): Desde. segregação assinada e ratificada pelas análises técnicas e empíricas feitas por profissio nais diversos acerca dos problemas próprios dos indivíduos. seis. bem como sobre a real realidade vivenciada. comprometida com determinadas ideologias libera is que segregam aqueles incapacitados para o convívio normal com as regras e normas sociais. né. como a necessidade de trabalhar desde pequ eno para ajudar na sobrevivência familiar: (Entrevistadora): Você trabalhou desde pequeno também.2. O relato breve de Antônio assim nos prova... mas falava. Quando já tem a menina lá na segunda. História de Vida e Concepção de Educação Falar da própria história de vida não é tarefa fácil.. faz a tarefa dele. por meio das propostas terapêuticas e medicamentosas que estes possam lhe oferecer. naturalizada.. nesse sentido. Podemos verificar também.e ele não faz. precisa de ver... sendo os esforços cotidianos obrigatoriamente vo ltados para garantir a reprodução da vida particular. por conseguinte.. Constatam-se condições econômicas e sociais que impedem o acesso às objetivações genéricas para-si. na roça. receitas sobre o que e como fazer com Lucas. como discutimos. Mas já ta a com uns probleminhas desde pequenininho no Projeto da Vila Asilo. A família é grande. rep roduzem-se ações focais/individuais e culpabilizadoras. Antônio busca alguns órgãos públicos de assistência. para garantir a sobrevivência e para relacionar-se com os familiares. né ( . sete anos.. a partir de sua natureza interna. Sua relação com eles. podemos perceber que sua história foi marcada pelas dificuld ades enfrentadas. . pudessem lhe trazer explicações coerentes e. 95 6.) Às vezes. é de servir-se das técnicas e exames científico-profissionais do campo da Med icina e da Psicologia. não conta até cinqüenta. até os dezesseis anos foi lavoura. busca-se a resolução por meio das técnicas e do instrumental científico. 94 É interessante notar que a fala denota uma concepção estanque. na tentativa de explicar e justificar os comportamentos do filho.1. desviando a atenção e o foco da fala par a outros conteúdos. o pragmatismo e economicismo da vida cotidiana... ele dava uma forcinha pra gente. hereditária. por enfocar suas queixas principais. para que as mesmas. aliados à difusão de uma ciência utilitarista..

.. A educação recebida dos pais.) (Entrevistadora): Você ia com a força? (Ant Não com a força.. três veze s e pronto.. atitudes dos pais consideradas corretas. Não. são repetidas na educação de seus filhos. não. no núcleo anterior.. Você tá ali terminando a sua lição ou qualquer coisa que ta a fazendo. Ele respeita é pulso firme mesmo e coisa mais seria. para os filhos que apresentam os comportamentos desejados (ser obediente. tinha que trabalhar.oze. Nesse sentido. significação apropriada socialmente e também decorrente da sua forma de significar o homem. No entanto. benéficas para o enfrentament o da realidade. Falou era isso e não tem que torcer.. era bra vo. como já discutimos anteriormente. eu tenho pouca paciência. pelo desconhecimento da realidade do mundo: Era sim.. outro dia. assim. não. daqui a pouco eu faço. não ou espera um pouco. não. na vigência de diversos órgãos de controle e proteção: E eu tento passar para eles isso daí. mas era só chineladinha. segundo Antônio. Meu pai.. e já ficava meio ner também e já paro. na família de origem. Em um outro momento. Não tinha esse negócio de ah. eu volto de novo. Era diferente. Antônio resgata outro elemento que nos permite apreender sua forma de conce ber a educação: Minha mãe era mais agressivinha. mas também as dificuldades do processo educativo. Mas quando eu vejo que a pessoa tem uma cabeça boa que tá indo bem.. e outra coisa. basta uma educação sinalizadora. tapinha. Assim... não tinha nada disso. o s eu cotidiano e sua subjetividade. sim. é possível apreender como o pai significa a educação dos filhos. coisinha que isso daí menino não respeita. só serve pra deixar o bicho mais safado. você não. espera um pouco. o pai falava faz tal coisa. Não. (. é perigoso sobrar é pra gente ainda. Esse negóci o de chineladinha. Relacionando a educação que recebeu dos pais e que tenta passar para os filhos. ser bom aluno). comentando mais especificamente sobre o relacionamento com sua mãe. mesmo que observe a sua não aceitação a sua não eficácia com relação às novas gerações.. e falar. marcada pelo respeito inconteste e pelo medo. Antônio nos conta sobre como concebe sua forma de e ducar: Eu sou bem rígido.. ed ucar criança. ali já não tenho paciência mais não. uma educação que garant a alguns direcionamentos ao curso natural do desenvolvimento e da vida. aí me interessa.. viu. Aí mais tarde. com o vimos. Não tinha esse negócio de falar. não.. No entanto ... mas quem fal u. abandona aquilo e ia. e se você tentar conversar. Ah. pela negação do dir eito de se manifestar.. em um momento histórico e social de co branças pesadas sobre a família. Eu deixava de lado.. Então é complicado. Não sei. não. foi caracterizada por uma educação rígida.. ele não era bravo! A gente respeitava ele de um jeito que não precisava a agressão.. não dá. neste trabalho. Nas palavras de Antônio. descobre-se não 96 somente as tentativas de educar os filhos de modo semelhante àquele em que foi edu cado. mas como no caso dele. Eu ensino ali duas..

. mas ao mesmo tempo his tórica e social. do exposto. refere-se aos momentos de raiva e desespero.. A função ideológica da família. Podemos notar... porque já passou aquele momento ali de. é individual. o sentido da educação. Podemos apreender. nessa perspectiva.. aliada à produção de conhecimentos em áreas específicas da Ciência. nos quais se age imp ulsivamente. para aqueles que apresentam comportamentos inadequados. na justificativa para o uso da violência doméstica contra crianças e adolescentes. demonstrando a carência de outros métodos de educação dos filhos: Ah. encont ramos como unidade de significação. que nã garante uma rede de apoio eficiente e oferece determinadas punições. o que eu faço.. é a adequação para a vivência na sociedade (escola. a97 pancada.. em nossos capítulos teóricos. ele faz as cagadas dele. constitui os seus sentidos pessoais. os quais igualmente não exercem o direito de escolherem pela maternagem/paternagem.. para A ntônio. quando isso não é a tingido. significados-sentidos. como a base material sócio-histórica da produção da vida é constitutiva da subjetividade. na mesma hora ele já se manda pra rua. que eu vou dormir.. como cada ser humano em particular transforma o s ocial em psicológico e. mas é difícil. que a forma como Antônio significa o desenvolviment o humano (forma naturalizante) é um elemento constitutivo de sua forma de significar a educação de seus filhos. na fala de Antônio. ah. Se eu pegar ele ali na hora que fez a arte ali até que eu dou umas pancadas nele. através de seus diversos órgãos de assistência e controle. a violência. sem dúvida. vou bater. as atividades e a subjetividade. No outro dia eu já não faço mais nada. dorme. conforme Leo ntiev (1978) e Vigotski (2001). No interi or de uma sociedade que atribui a responsabilidade pela socialização das crianças às famílias. família. ai ele sabe que eu chego. Resta para aqueles que não respondem da maneira esperada (não têm o desenvolvimento considerado normal). Outro elemento amplamente discutido. também retratado na fala de Antônio. Desse modo. resta a violência qualificada. que eu tô cansado.. ancorados n os significados socialmente atribuídos (e aprendidos) às palavras e situações.. A inserção do Estado na vida das famílias. que eu vou dormir. como é o caso Psicologia do Desenvolvimento. a violência como uma forma de educação dos filhos. trabalho). a coisa mais séria . em que recursos outros de educação dos filhos não são discutidos com os pais.. . evidencia o movimento pelo qual se configuram as relações . que deix a marcas. e as mudanças e responsabilidades atribuídas pelo ECA. que. no qu . não. Assim. neste caso. como analisamos ao abordarmos Reis (1991). Evidencia-se aqui um elemento a mais. eu não sei ficar guardando mágoa de criança. ai ele chega. aí espera lá pelas dez que e u chego. fica evidente na compreensão desse movimento socia lindividual. 98 A construção dos sentidos pessoais que constituem as atividades humanas. a violênc ia encontra sua ampla justificação como forma de educar.

provocam uma necessidade de referendo.e diz respeito à doutrina de proteção integral. de 1 ano. da hora que levanta até na hora de sair. da prostituição ou das enfermidade (. na educação e nos cuidados com a primeira filha: às vezes. 382). Dados Gerais Sandra foi convocada a comparecer ao Conselho Tutelar... conforme Heller (2000). A reprodução da violência. Segunda Família: Sandra e Camila 6. devido à denúncia que fez de violência sexual do marido contra a filha. De acordo com ele. violência vinculada ao caráter alienante e explorad das relações humanas. o processo de apropriação é sempre um processo mediado pelas relações entr e os seres humanos.1. ser relembra das: 99 violência potencial e real do Estado. que exige momentos de homogeinização. assiste-se televisão na casa da avó materna das crianças.. o marido e Camila. uma outra filha de 8 e um filho de 6. Eu olho para ela eu penso assim: meu Deu . praticada direta o u indiretamente. Além disso. As meninas e o filho vão à escola e. transmissão da experiência social. (p. voltando soment e à noite... numa tentativa de repensar a educação vivenciada e a educação fornecida aos filhos. Além de Sandra.. dizendo não se recordar. o pai está desempregado e sai à procura de bicos. por parte das famílias. o ciclo vicioso. aí. A mãe queixa-se bastante de não saber lidar com os filhos. emburrada. já que a heterogeneidade da vida cotidiana não permite es tar por inteiro e totalmente presente nas atividades realizadas. Af irma estar ainda muito confusa quanto à veracidade da queixa. de co nsulta. retomemos aqui as discussões de Leontiev (1978) a propósito do desenvolvimento do psiquismo humano. . da miséria. ou seja. através dos processos de objetivação-apropriação. especialmente Camila e a irmã de 8 anos: acorda . você viu o tamanho que ela ta? Maior que eu. Sandra não comentou muito sobre sua história de vida. às instituições e profissionais especializados. na sociedade capitalista. A violência mais ampla.2. de 13 anos. neste ponto. Na rotina da casa. vivem na casa a caçula. por intermédio de ações e/ou omissões.. e a violência em forma de omissão do Estado. o enfrentamento dos conflitos pela via da agressão física tornam-se uma avalanche difícil de interromper. u ma necessidade de buscar fórmulas para agir e educar os filhos corretamente. portanto. no meio daquela briga. a família freqüenta um a igreja evangélica. À noite. elas vão me ajudar a limpar a casa. . toma o café da manhã. É a violência da fome.) própria violência como modo de vida. de que nos falava Martín-Baró (1997). um proc esso educativo. tendo Camila aos 16. tendo-a tornado pública num mome nto de raiva do marido. aquela briga pra ir pra escola. sendo. Casou-s e com o atual marido com 15 anos de idade. após a queixa da própria menina.2. focalizada por Vasquez (1977). depois é aquela briga pra ir pra escola.. por outra. Camila. eu olho para ela. podem. 100 6. porque estes brigam demais em casa. como outra atividade.. Ou.. Enfatiza as dificu ldades que vivenciou.

Isso se evidenciou nas conversas que essa mesma conselheira travou comi go. não sei como eu não matei essa menina.. a ser abordado na entrevista. foi daí pra cá que começou mesmo os problemas. você levou a sério a fala dela?(Entrevistadora . ao chegar ao Conselho Tutelar. o que que ela pensou. E eu tava pensando que qualquer coisa que ele me fizesse eu ia denunciar ele.. eu já tava com raiva dele. A fala de Sandra. Nem como foi. É. Essa constataçã corrobora a contradição expressa entre os motivos de seu vínculo com o Conselho Tutela r (queixa de violência sexual contra a filha) e os significados e sentidos analisado s. minha mãe mal me ajudou. significar e dar sentido a essa questão pode ser evidenciada nas p alavras de Sandra...2... pois não existe... Porq ue eu vi que ou eu trabalhava ou eu chegava em casa e encontra um pedaço de cada um. Ela 102 contou pra mim e eu na hora não pensei nem que fosse verdade nem que fosse mentira ..2. eu não pensei duas vezes p ara agir. assim. o que e la tinha pensado do que ele falou.. para me ajudar... então com 10 anos. as dificuldades no dia-a-dia com os três filhos. Apesar de sempre comparecer ao Conselho Tutelar quando solicitada e de sua denúnci a passar a ser examinada pela Vara de Infância e Juventude de Bauru. causou grande preocupação e ansiedade na conselheira que a atendeu.) Isso. Sandra elege co mo motivo principal.. Não foi isso. Significados e sentidos da problemática em questão e formas de resolução proposta s Sandra. antes da entrevista. Porque é o que eu falei. ao final da entrevista: E então. 101 Relata que trabalhou em casa de família. Vale dizer que exatamente essas ênfases constituem aquilo que Aguiar (2001) nos aponta como elementos a partir dos quais devemos nos pautar para construir e analisar os núcleos de significação do discurso do entrevistad o. Por conta de estar com raiva dele ? (Entrevistadora). aonde é que ele estava na parte de casa. tanto comigo quanto com as crianças. 6. porque minha mãe não sabia fazer nada também. os filhos mais novos: Aí eu parei porque eu vi que tava d ando muito. um acompanhamento após os encaminhamentos realizados.. Com eles três os problemas. por parte do Conselho Tutelar.. Então. demonstran do seu cansaço com as questões relativas à vida doméstica e à educação dos filhos. Você denunciou no mesmo dia? (Entrevistadora). Porque eu era nova..s do céu. encaminhada pelo CRAMI (Centro Regional d e Atenção aos Maus-Tratos Infantis). através das ênfases dadas às temáticas diversas. deixando aos cuidados de Camila. em seu relato.. eu ia brigar feio com ele.. Uma forma de compreender.. . não tinha experiência com nad a. de tanta raiva que eu tava com ele mesmo. durante toda a entrevista. ... O caso foi encaminhado ao Fórum de Bauru e não tive mais notícias do mesmo .. sei lá. teve um tom de desabafo. Eu nem perguntei se foi isso.. como doméstica. É.

demonstrando sua concepção sobre a possível incapacidade que Camila tem de avaliar a s ituação. nesses contextos. Nem esperei ele chegar pra t irar a limpo com ele. como uma malícia.. que irão ser elaborados e apreendidos por cada indivíduo singular.. em um outro episódio. ela maliciou. o despreparo dessas profissionais para atuar com as demandas que chegam ao Conselho Tutelar. Essa constatação obtida pelo relato de Sandra também nos permite perceber os sentidos atribuídos à sua atitude de denunciar o marido. principalmente quando as mesmas envolvem questões relativas à sexualidade h umana. até o término dessa pesquisa não ficou comprovado o abuso.. pudemos perceber a possibi lidade de generalizar alguns dados. . também parece tender a acreditar nas justifi cativas do marido.. é preciso deixar clara aqui a necessidade de se tomar com seriedade a fala da criança... já que dúvidas e confusõe imperam na dinâmica familiar. por me io da mediação dos seus sentidos pessoais. refer entes a motivos diversos. ter feito a denúncia em um momento de raiva. pro lado da malícia. sendo que a mesma tem o direito de ter sua situação anali sada com muita responsabilidade e precisão. por parte do profissional. eu já peguei e já fui denunciar. O fato de a queixa ter perturbado a conselheira (uma assistente social) demonstr a. mais uma vez. Eu quero tirar isso a limpo. né. Pra conversar com ele direito. se equivocara: ela entendeu outras coisas.. assumind o. como investigar correta e detalhadamen te a queixa da filha e protegê-la. mas não . bem como para as dificuldades na constatação do fenômeno. Tal fato contribui para a situação de complô de silêncio.. por exemplo. Seja como for. No caso de Sandra e Camila. Quando se trata de violência sexual contra crianças e adolescentes. Ela maliciou isso. principalmente os referentes ao papel da criança como incitadora do desejo masculino ou então. como vingar-se do marido pela traição conjugal vivenciada e não a motivos geradores reais. Cabe-nos aqui lembrar das discussões e alertas de Azevedo e Gue rra 103 (2003). Sentidos. essa história. entendidos como referentes ao campo dos significados social mente construídos.. significa a queixa da filha como um equívoco. ou motivos-estímulo. ao que se evidencia. como dissemos. demonstrando que Camila. muito pequena ainda p ara compreender e significar corretamente determinadas situações relacionadas à sexualidad e. né. por meio da análise da particularidade.eu não perguntei nada. feita anteriormente. como é o caso da s ituação . Ao mesmo tempo em que Sandra afirma eu espero que seja esclarecido. a literatura pes quisada realça que muitos são ainda os mitos e tabus a serem enfrentados.. . Esse elemento da entrevista demonstra igualmente um fato corroborador dos estudo s encontrados na literatura da área. Na retomada da literatura da área. como vimos. Sandra.. como vimos. ressaltando a importância de atuações profissionais coerentes e dispostas a co laborar com os próprios pais. na compreensão e desvelamento da real situação.

Nesse aspecto. contribuem para o sentimento de cansaço e exaustão 10 5 experienciado por Sandra.profissional despreparada de conselheira(o)s tutelares. Sandra admite que. Até final de semana também. corroborada por um contexto possibilitado r e um fundo ideológico que a favorece. podemos destacar o seguinte: o cansaço e a sobrecarga da responsabilidade de educar e cuidar dos filhos. por meio de suas expressões. quando não jogava. buscando as questões apontadas como motivadoras. Entendemos que... seu descontentamento e frustração. não. No começo. a partir da equação pessoal (um de seus elementos constitutivos). ele jogava dia de sábado. até este momento. Violência reproduzida nas relações interpessoais doméstic as que. Violência indireta e discreta sofrida diariamente. em palavras. . em d eterminadas situações de conflito. 2000). não apontado por Sandra nem constante de seu prontuário no Conselho Tutelar. responsável primeira pelas temáticas relativas ao lar e aos filhos: Aí. depois vira para mim. e.. o relacionamento conjugal e a própria denúncia de abuso do marido contra a filha. desdarte sem sucesso: Aí eu parei. já que o mar ido está há muito desempregado. Porque só a mãe.. garante os m atizes dos abusos psicológicos e físicos. Principiando a análise da fala de Sandra a partir da construção de núcleos de significação. ge radoras de emoções e envolvimento.. porque eu vi que tava dando muito.. pertencentes à esfera da vida cotidiana. bem como sobre os esforços para mantê-lo. conforme Martín-Baró (1997). vivenciados na heterogeneidade do dia-a-dia al ienado. só a mãe. vivendo de bicos : Mas ele não trabalhava fixo. não participava quase nada. porque ele quer que eu corrija. nessa época? (Entrevistadora). como nos sugere Aguiar (2001). Muito embora não fique explícito. então. conforme Heller (1991. mas não adianta n ada. ia pra casa da mãe dele. os dois primeiros núcleos ressaltados podem ser analisados conjuntamente. E eu já quero que ele imponha a autoridade de pai. Porque eu vi que ou eu traba lhava ou eu chegava em casa e encontra um pedaço de cada um. no que tange aos seus filhos e ao relacionamen . para cuidar dos filhos. por sua complementaridade. e quando passa parte significativa da entrevista contando o motivo de não estar exercendo um trabalho remunerado. né. já que tem dia que eu pego a cinta para as duas. Com eles três os problemas. ele fica bravo também com elas. Todos os elementos citados e discutidos. Outro agravante dessa situação. Não. só a mãe. Sandra comenta e reforça o papel atribuído à mulhe r. Sandra evidencia tais senti mentos. Meu marido sempre saiu de manhã e voltou à tarde. . Sem carteira registrada faz um bom tempo que ele está sem. cometidos contra crianças e adolescentes. violên cia instrumental. Como fator exemplificador e ápice da problemática desse núcleo tem-se a necessidade de Sandra abandonar o trabalho como doméstica.. até hoje ele é assim. em nossa sociedade. foi daí pra cá que começou mesmo os problemas. pode ser pensado em relação à fonte de renda da família. da generecidade em-si. 104 Porque assim que eu der as costas começa tudo de novo . né Tem hora que eu canso. cansa também. a dúvida quanto ao que fazer.

Na heterogeneidade da vida cotidiana... Esse é que é o problema . como vimos.... que poderiam lhe dar receitas de como agir em cada ocasião. por que olha. A análise até esta parte.. .. já que entendem do desenvolvimento humano. a Miriele foi a que ele mais. Ah. ele fica bravo também com elas. Sandra relaciona-se com os órgãos públicos e de assistência a partir de motivos-estímulo. pra mim. peguei e fui no NAF 12 .. né. depois vira para mim. 106 De maneira semelhante à que vimos.. assim: não pode fazer nada.. passar os três lá.. serviço municipal que conta com a parceria de uma instituição d ensino superior privada da cidade. né. em alguns momentos. o que ocorre também por meio da violência física: Aí. isso. cansa também. sem considerar as relações interpessoais e as aprendizagens como seus out ros multideterminantes. eles brigam demais. com as crianças. na espontaneidade.. Assume também que. tem hora que dá uma palmada. será aprofundada em nosso segundo eixo temático da entrevista. só a mãe. né. concernente aos significados e sentidos atribuídos à problemátic a com os filhos. A única menção que faz a esses elementos refere-se à prioridade que o marido concede à filha do meio (Miriele): Eu acho que tem muito ciúme dela. a que ele mais defend e. não sabe como proceder: Ah. porque ele quer que eu corrija. fui passar na psicóloga lá.. Eu não sei o que fazer. Porque cada um tem uma fase assim que me dá muito trabalho. desde nenezi nho. dele co m a Miriele. Concebe e significa as trocas de idéias entre os filhos como um proble ma de fase do desenvolvimento: Eu tava falando para ela que eu... né. Ao proceder esse modo de significar as atitudes dos filhos. Ele bate com a mão. a ssim. Vale ressaltar aqui que. . Sandra significa o desenvolvimento humano de uma forma naturalizada. Constrói sentidos pessoais fundamentados na necessidade de ajuda de profissionais da Psicologia.. só a mãe. sabe. Porque a Miriele. usa da violência física para contê-los. Porque só a mãe. na entrevista de Antônio. expressa seu desejo de que o mari do imponha sua autoridade de pai . não sei como não dói.. no economicismo e no pragmatismo diários.. então. né . a história da Psicolo gia. 12 Núcleo de Apoio à Família. Tem muita troca de idéia s. ainda nos cabe ressaltar outros multideterminantes das forma ... conforme Leontiev (1978). que. Porém. E ele fica bravo tem hora.to entre eles. Como um recurso possível para lidar com a questão. entendendo como biológico e até hereditário.. mas não adianta nada. é. Não pode bater. o que tam bém não lhe garante muitos resultados: Tem dia que eu pego a cinta para as duas. foi a que ele mais. na assistência pública à infância e à adolescência. Porque assim que eu der as costas começa tudo de novo. História de Vida e Concepção de Educação. E eu já quero que ele imponha a autoridade de pai.. Sandra busca elementos para significar suas dificuldades e. formas de enfrentá-la. em muito contribuiu para a difusão dessa concepção restrita de atuação profissional.

Uma atuação profissional que tome o relato de Sandra por si mesmo. como apontamos na entrevista de Antônio. fica bastante próxima de ter sua intervenção centrada na própria vi olência. percebida nas contradições objetivas da realida de.2. ou melhor os problemas da consciência. No relato de Sandra. relativas. como diversas vezes já enfatizamos neste trabalho. e de desqualificar e/ou psicopatologizar as famílias. dentre outros multideterminantes da relação mãe-filhos e filhos-filhos. 108 6. ao não planejamento familiar. p. indo ao encontro das suas determinações his tóricas. da generecidade par asi. encarnado na desintegração da consciência.3. nenhum elemento problematizador que poderia estar relacionado tanto ao tratamento diferenciado a os filhos. não se percebe. quando não se tem à mão mais nenhum recurso aprendido d e que se possa servir. A tomada de consciência. A cotidianidade alienada promove um alheamento entre significados e sentidos. conforme Vasquez (1990). de acordo com Leontiev (1978). portanto. sob a forma de processo de luta interior. de culpabilizar esses mesmos familiares. é possível na articulação entre a produção de novos sentidos. a tomada de con sciência. torna-se escassa. 1978. de acordo Martín-Baró (1997). . 136). A partir da restrição a vivências de esferas não cotidianas da vida. São esses os processos de tomada de consciência do sentido da realidade. como nos apo ntou Bazon et al.s de significação construídas por Sandra. sem a garantia de momentos de homogeneização. como auxílio na compreensão das atitudes atu . sem a parada para refletir sobre as problemáticas enfrentadas. mais especificamente. igualmente. perpetrada contra os filhos. Com a raridad e dos momentos de homogeneização fica fácil compreender as dificuldades relativas à retomada d a própria história de vida. conforme Leontiev (1978) e Heller (1991. da própria educação. derivada da luta interior ou dos chamados problemas/cri ses de consciência: 107 O fato de os sentidos e as significações serem estranhas umas às outras é dissimulado ao homem na sua consciência. à alienação desses mesmos sentidos e significados. Utili zada nos momentos de raiva e desespero. De ter a violência instrumental tomada como terminal. História de Vida e Concepção de Educação A heterogeneidade da vida cotidiana constitui um dos elementos estruturadores do psiquismo humano. a produção de novos sentidos e. quando afirma não saber o que fazer com as brigas entre os fi lhos. por exemplo. aquilo a que se chama corretamente as contradições da consciência. às difíceis condições materiais de sobrevivência. A violência física de Sandra. sociais e de classe. 2000). nos momentos de conflitos. não buscando seus sentidos para além da aparência do discurso. atribuindo-lhe um significado biologizante (fases do ciclo da vida) e um sentido atrelado à necessidade da ajuda de profissionais técnicos. Fica bastante próxima. os processos de estabelecimento do sentido pessoal nas significações (LEONTIEV. (2001). é empregada como um recurso igualmente educacional/correcional.

. por meio do Laboratório de Estudos da Criança (Lacri). vale destacar que a filha mais velha (Camila) acaba por exerce . quando não sabia mais o que fazer com os filhos: Apanhar não. minha educação como foi. que afirma ser violento todo o ato que infringe dor ao corpo infantil. Ela dava as palmadas dela mesmo. Às vezes. como ela mesma diz.. Mas eu não sei. Deixa eu ver.. defende que a legislação brasileira considere também os castigos ditos moderados (leves). não agüentava.. No que tan ge à rede de apoio mencionada.. essa parte da adolescência eu já pulei. aí você me pe ou. nem meu pai . da forma de educação que recebeu dos mesmos. ter tid o a 13 O Instituto de Psicologia da USP-SP. porque minha mãe não sabia fazer nada também. quando lhe é sugerido que fale e pense em su a própria história de vida.agindo a partir de uma grande gama de repetições e reproduções. não. Fica expressa aqui a contradição referente às concepções de educação. de apanhar (palmadas) de bater (violência física que deixa marcas): educar implica bater para que se apren da. Apanhar. sendo. portanto. porém. namorada. não sei como eu não matei essa menina.. não tinha experiência com nada. Eu casei muito cedo.. sem. assim como ela. os pais que os praticam passíveis de punição. Sandra demonstra. né.? Sandra não trouxe muitos elementos da vivência com seus pais. para me ajudar. e fico pensando. eu olho para ela. porque será que a justiça não tomou conta no meu caso? Será que porque eu acab ei casando? Eu penso assim. Tal defesa pauta-se nas discussões de Peter Newell (1989). mesmo que não seja tão simples e tão claro estabelecer os limites existentes entre ess as práticas. de acordo com os ditames da sociedade.. a inexistência de uma rede de apoio para lidar com as questões familiares. sua mãe também recorria às palmadas. como a pal mada... Mas bater de bater. Eu olho para ela eu penso assim: meu Deus do céu. Sandra dá um salto no tempo e passa a enfatizar sua história como mãe. indo desde a palmada ao espancamento. O motivo de Sandra estar no Conselho Tutelar e participar da entrevista proposta refere-se aos motivos-estímulo diretamente ligados à necessidade de conversar com uma psicóloga sobre as dificuldades com os filhos.. Assim. Afirmou. minh a mãe nunca bateu. 13 Das reticências e lacunas referentes à sua própria história como filha. que. Nem ela. Chama a atenção sua fala acerca das experiências de ser mãe pela primeira vez: Às vezes. Porque eu era nova. culpabilizando-se a si mesma e àqueles que não conseguem realizar esse papel. minha mãe m al me ajudou.. quando tava demais. pass ei direto . advogado e defensor dos direitos da criança. assim como a constatação de que s e nasce pronto para a maternagem/paternagem. 109 oportunidade de experienciar a condição de menina estudante. né. ela dava palmada. eu casei cedo. sua expressão é de estranhamento e surpresa: Olha. assim como vimos na entrevista de Antônio. adolescente: A h. não.. menina. como violência física. nunca bateu. então. você viu o ta manho que ela ta? Maior que eu. deixa eu pensar um pouco..

não fala assim com seu pai. o sentid o pessoal que Sandra atribui à sua queixa referente à existência de muitas brigas. um modelo imposto pelo discurso das instituições. portanto. pressupondo. volta-se novamente o dis curso para os filhos que lhe tomam todo o dia-a-dia. um modelo apresent ado como o ideal e como um valor a ser seguido. cujas diferenças e ausências podem vir a causar disfu nções posteriores. a Miriele e o Luís. afirma estar só. ou com apenas um dos filhos. grifos da autora). Parece se revelar. Nos poucos momentos em que diz te r tranqüilidade. referindo-se àqueles que não conseguem viver de acordo com o modelo... o discurso implícito de incompetência e de inferioridade. ela tem a unh a grande.r essa função. pra mim ela não fez nada. Aí eu pego e falo assim: fazer o quê. 25. E le briga com ela. nessa passagem. então. vai ao encontro da concepção biologizante e naturalizada de fases do desenvolvimento humano. Nessa concepção de homem e de desenvolvimento... mas também como um valor.. ai você. ai eu não vou gostar. manifestas em inadequações adultas. ele acha ruim. da mídia e até mesmo de profissionais. ela gosta de pegar e unhar os dois. só que ele quer que eu faça alguma coisa. Tais concepções de homem e desenvolvimento trazem em seu bojo um modelo de família tradicionalmente nuclear e burguês. adotada geralmente quando o marido está em casa. . curso normal e linear pelo qual todos os homens (crianças e ado lescentes) devem passar. sentidos e sentimentos da relação das fil has (Camila e Miriele) com o pai. existiria um curso normal a se percorrer.. indiretamente.. dentre outros elementos. Desse relato brevíssimo sobre sua história de vida passada. 111 . necessariamente. Na confusão generalizada acerca dos motivos. Essa sensação de ser diferente .. q uando a questão é a denúncia do abuso sexual. Significa os conflitos (entre pai e filha). atr ibuindo-os à 110 preferência do pai por uma das filhas (Miriele) e malcriação da outra filha (Camila) par a com ele: Camila. para se prevenir o peso de eles crescerem com traumas emocionais e psicológicos. a preocu pação com e a necessidade de igualdade entre os filhos.. Sandra também não consegue demonstrar discernimento. Ele pode se irritar uma hora e acabar bat endo em você. sentido atribuído a uma possível educação diferenciada dada a cad uma delas. é fingir não ver ou alegar não ser consigo a questão: se ela judia de alguns deles. nos momentos em que Sandra trabalhava como doméstica. menos do que e incompetente aparece nos discursos daqueles que se desviam da norma (p. Supõe-se. Isto é. para se chegar a ser um adulto adequado e saudável. que é apresentado não só como jeito certo de viver em família. é transmitido e captado. Uma forma de enfrentame nto dos conflitos. porque ela gosta. A vinculação ideológica da necessidade de uma educação e tratamento homogêneos a todos os filhos (a despeito das diferenças entre eles). Então. conforme Szymanski (1995): Supõe-se ou aceita-se irrefletidamente. passando a ser mãe da casa. de muitas troc as de idéias entre as meninas..

.. assim como também é prática social humana. pelo papel específico da família. vem. na busca por garantir uma educação de qualidade. digamos assim. quando não se sabe mais o que fazer para que a pedagogia familiar s eja exercida a contento dos padrões morais vigentes. você entendeu? Então hoje. a maioria dos pais hoje em dia deve estar tendo esse tipo de problema com os filhos. e Pedro. é a violência como uma forma de educação dos filhos. Por não ter tido a oportunidade de estudar. você tenta puxar. Aqui. considerando que. Dados Gerais Na casa de Elisa vivem ela. e agora. lança-se mão da violência. p orque eu também não agüentei. às vezes. 112 6. posteriormente. uma vez mais. Pelo relato da mãe. podemos afirmar que a unidade de significação encontrada. você conversa. que também ga ranta a formação de um caráter de boa índole . indo a mesma parar no pronto-socorro da cidade e sendo. é porque é muita coisa: vem. o que eu quero pros meus filhos: eu quero que eles estud . Então. decorrentes do discurso de Sandra. você senta. tenham uma boa formação e. e se justifica : eu tive que chegar a ter esse tipo de coisa com ela. seja ela físic a. Terceira Família: Elisa e Paula 6. vem. apesar de a realid ade ser contraditória. é um recurso educacional. Ela gosta que as coisas fiquem do jeito que ela quer. seja psicológica Este. dentre outras coisas.. evidenciam-se questões intergeracionais envolvidas em seu relacionamento com a fil ha: Ela sempre foi uma menina assim um pouco autoritária. devido ma infância muito difícil. de 15. a educação em casa tem o sentido de adequação para a vivência na sociedade. sabe. assim como para Antônio.. quando os demais não funcionam. O motivo de estar no Conselho Tutelar foi a violência física que Elisa perpetrou contr a Paula. E se você vê que seu filho está desviando para um caminho que não é legal... Ela muitas vezes não aceita.. ela possui um direcionamento hegemônico.3.. compreender as determinações históricas sociais. quando bateu em Paula. quanto no nível econômico e social. (.3. portanto... é mediadora da subjetivida de. configuradas no plano individual. mais uma vez. Conta desejar que os filhos estudem. Nesse sentido. nos perm ite compreender que. não é verdade? E. que a unidade conse rva em si a totalidade e que a palavra. adequação fundamentada nas diferenças de gênero e geração. as estribeiras. a gente. sempr e procura o melhor para os seus filhos. os pais. mas também foi essa única vez.1. de acordo com Vigotski (2001). Podemos.. procura garantir isso aos filhos: eu comecei a trabalhar muit o pequena. expressa na linguagem. conforme o método proposto para a análise dos dados. portanto.. que garante a sobrevivência do sistema capitalista. abrigada. tanto no nível si mbólico. né. você explica. de 10 anos. para isso. Para Elisa. Afirma ter ficado pressionada. Muito genio sa. o marido e dois filhos: Paula. ela e o marido trabalham muito.) Isso que acontece. sabe. Vale enfatizar.A análise dos significados e sentidos. de eu perder.

pr a ela. Elisa expressa em sua fala... vestida de noiva. muitos de seus sentimentos envolvidos na significação e no sentido atribuídos à sua problemática com a filha de quinze anos. difundidos de uma maneira natu ralizada e imutável. você tenta puxar. Seus relatos foram longos e carregados de forte conteúdo emocional. proveniente de família un ida. acerca do passado muito presente da família. Ela muitas vezes não aceita. por gestos e tons d e voz. demonstrando. Coisa que eu não tive. ela e studa. E se você vê que seu filho está desviando para um caminho que não é legal.. sua forma de significar e dar sentido a essa respons abilidade. pois con segue conversar com ela e ouvir sobre seus problemas na escola. Elisa signi fica e ao mesmo tempo corrobora o papel e a função dos pais.. (. os pais. Como veremos mais à frente. eu quero que minha fil ha case linda. como analisamos a partir das contribuições de Chauí (1999): Então. elementos de uma concepção de homem inatista e dogmática. a minha menina ela faz curso de espanhol. com tom de voz enfático. Isso é o que eu sonho pra eles. 114 Lembremo-nos aqui das discussões apontadas no Capítulo 2. manifestando ao mesmo tempo.. seu sentido pessoal conferido à educação informal doméstica. Enfatiza também a boa formação que garante aos filhos. Durante todo o relato. aos bons costum es e à boa índole. maravilhosa.. Elisa avalia que o relacionamento com a filha é bom. estão constantemente pre sentes na forma como Elisa significa e dá sentido à relação com Paula e à concepção de educação. justific a e relativiza a questão: A maioria dos pais hoje em dia deve estar tendo esse tipo de problema . antes mesmo de me expor os conflitos com a filha.. aspectos ideológicos relacionados à moral. apesar do incidente. Sentidos e significados que constituem sua consciência e subjetividade. você tenta puxar.2..em. durante toda a entrevista. eu parei de estudar na quin ta série do primário. 3. que adquire particula ridades . numa postura decidida. eu quero que eles se formem. Tanto que. Significados e sentidos da problemática em questão e formas de resolução propost as Elisa não teve problemas em se expressar. defendidos hegemonicamente por nossa sociedade. bem como o seu marido. Num primeiro momento. ela faz curso de informática.) é que a gente sabe o que é o melhor para ela . já está 113 no primeiro ano de colegial.. a gente. Com o estabelecimento da burguesia no poder e com a hegemonia do capitalismo. eu quero que eles façam cursos. de boa índole . 6. sempre procura o melho r para os seus filhos... não é verdade? E.. sobre os rapazes etc.. Significação de um dever atrelado a uma educação moral ( E se você vê que seu filho está desviando para um caminho que não é legal.... a responsabilidade familiar pela formação dos novos cidadãos se torna pre valente. não é verdade? ). você entendeu.

diversas segundo as condições sociais da vida dos homens, e transforma-se na seqüência d
o
desenvolvimento de suas relações econômicas (Leontiev, 1978, p. 94).
O binômio autoridade/amor, discutido por Pôster (1979) e Reis (1991), bem como a
vivência das relações familiares pautadas na hierarquização etária e sexual, são elementos
presentes e evidentes na entrevista. Como pólo complementar, poderíamos salientar a
maneira
com que Elisa significa a adolescência da filha. Para ela, as características dessa
fase da vida são
naturais e biológicas, derivadas das mudanças corporais e de temperamento; temperame
nto este
que Paula trás hereditariamente: A Paula, desde criança, ela foi agitadinha, sabe. A
gente
sempre até sabia... não queria, mas sabia que ia ter um pouco de problema no futuro .
No segundo momento dessa análise, abordando o eixo temático História de Vida e
Educação, poderemos aprofundar o que aqui sinalizamos, na busca de compreender como
esses
elementos se relacionam com a significação e os sentidos construídos por Elisa sobre a
educação
e com a história concreta de sua vida. História de vida constituída por relações que, de a
cordo
com Leontiev, compreendem a consciência humana, que opera por meio da linguagem.
Por ora, cabe ressaltar como as mesmas significações e sentidos apontados acima (pap
el e
função dos pais e concepção de adolescência) constroem a problemática que levou Elisa ao
Conselho Tutelar: os conflitos intergeracionais com a filha. 115
Ao significar a família como algo natural, cuja função e responsabilidade é a conservação
da moral, Elisa aponta como sentido pessoal da convivência com a filha a necessida
de de ensinarlhe os mesmos valores morais que regem sua vida, especialmente os r
elacionados à sexualidade,
ao estudo e à convivência humana. Na estrutura alienada da vida cotidiana, não sobra e
spaço para
a reflexão sobre as mudanças nos comportamentos e valores das novas gerações e para a bu
sca de
formas de convivência familiar que os contemple.
O chamado conflito intergeracional, ou o conflito entre pais e filhos, tem-se to
rnado um
grande motivo de queixas junto aos órgãos de assistência. Conflitos entre a orientação dos
pais e
as atitudes filiais não são, num primeiro momento, motivo de intervenção do Conselho Tut
elar.
Exigem, de um certo modo, conhecimentos de aspectos do desenvolvimento humano, p
reparação
dos pais para o exercício da paternagem/maternagem, não existindo receitas prontas p
ara suas
resoluções, elementos esses que não são tomados como relevantes pelos próprios pais e pelo
s
profissionais com eles envolvidos.
Na tentativa de ter a situação problemática sob o seu controle e de significar as atit
udes da
filha, Elisa atribui às influências do namorado e das amizades o que entende não ser d
a índole de
Paula, tecendo explicações contraditórias a um mesmo fato. Assim, traça um paralelo
comparativo entre relacionamentos e intimidades aceitas (aquelas que envolvem pe
ssoas da
família) e não aceitas (aquelas que envolvem pessoas fora da família): Eu tive um prob
lema
semelhante com ela quando ela tinha treze anos. E foi assim: ela queria se envo
lver com
amizades que não tinha condições, você entendeu? Andar com roupas que a gente não aceitava

...
e essa determinada amizade que eu tô te dizendo, a gente não queria ela envolvida.
Vivia
emprestando roupa... e eu não gosto que fique emprestando roupa; eu não aceito, não g
osto
dessas coisas... Eu acho que cada... você ter as suas coisas... a não ser que você emp
reste assim,
de uma tia, né... de uma prima que é mais ali... Agora... de uma pessoa que você conhe
ceu ontem,
digamos assim, não aceitei... 116
A mesma influência negativa de namorado e amigas preocupa a mãe, no que tange à
sexualidade de Paula. Como exemplo do que ocorre na particularidade cotidiana, a
s discussões
entre pais e filhos relacionadas à sexualidade se dão na tentativa de prevenir uma g
ravidez
indesejada, ficando esquecidas questões mais gerais como sentimentos, medos etc: El
a teve a ...
ficou menstruada, né, contou, falou... então: agora é assim... você pode se considerar um
a
mulher... se você tiver uma relação sexual com menino você pode engravidar, então você tem
ue
tomar cuidado com isso. Tá. Se um dia você for ter alguma relação, escolhe a pessoa cert
a. Não
vai com aquele que você achar que é porque às vezes não é..
Ao relacionar-se com Paula, tendo como pressupostos tais sentidos e significados
, Elisa
vai tecendo sua forma de agir, suas atitudes, ao mesmo tempo em que sua atividad
e vai
construindo sua consciência, seu reflexo psíquico da realidade; a atividade condicio
na a
formação da consciência e esta, por sua vez, a regula (MARTINS, 2000, p. 89). Nesse sen
tido
e no bojo desse processo é que buscamos compreender as formas adotadas por Elisa p
ara resolver
os conflitos apontados.
Para cumprir seu ideal de educação e sua função de mãe, Elisa afirma, várias vezes,
conseguir conversar/dialogar com os filhos, valorizando a si mesma e a eles por
conseguirem
fazê-lo, já que, em sua história pessoal, o mesmo não ocorreu. Durante o relato, ficam e
videntes
as contradições relacionadas ao ônus que recai sobre a família quando a esta se atribui
responsabilidade total no processo de socialização dos filhos, cujos erros teriam co
mo
conseqüência a atual situação caótica da realidade social desestruturada e violenta.
Nos momentos da entrevista em que admite ter usado de violência física contra Paula,
a
mãe revela, por um lado, fragilidade em situações de pressão e estresse e, por outro, a
falta de
recursos educacionais com quais poderia lançar mão, em momentos conflituosos: Porque
na
verdade, não foi aquele momento... eu acho que se eu não tivesse vindo com problemas
já com
ela, eu saberia lidar com essa situação... O que aconteceu? (Entrevistadora) Aí, eu a
cabei 117
batendo nela. Porque veio todo mundo em cima de mim, você entendeu? Na verdade, eu
usei
mais pra me defender mesmo. E eu tava sozinha em casa, meu marido não tava... né. (.
..) Aí
vocês chegaram a se agredir... (Entrevistadora) Eu tive que chegar a ter esse tipo
de coisa com

ela, mas também foi essa única vez... e agora, porque eu também não agüentei...
A reflexão sobre a violência doméstica, em sua tipificação psicológica, não é apontada
como problema no relato de Elisa. Como nos enfatiza a literatura, partindo do fa
to de a violência
psicológica não deixar marcas, essa tipificação não é notificada e até percebida pelos pró
profissionais da área, tornando-a amplamente aceita e praticada: O meu marido, ele
nunca foi de
bater; ele é de falar sério. Autoritário! Fala alto! Você entendeu? Não, você está pensand
quê... o que você quer da sua vida...? Você entendeu? Eu sou teu pai... você tem que
respeitar , esse tipo de coisa... Mas de bater também ele nunca foi ; O meu modo de fal
ar foi
assim: Você vai, então, que depois a gente conversa , entendeu? Num sentido um pouco
autoritário. Aí ela já achou que eu tava mandando... e foi pra escola .
Para justificar algumas de suas atitudes, Elisa afirma: Mas eu tenho um gênio um po
uco
forte também, não vou dizer que não, né . Mais uma vez, podemos perceber a presença de
concepções inatistas atribuídas à personalidade. Para a Psicologia Sócio-Histórica, a
personalidade pode ser compreendida como uma qualidade do indivíduo, produzida a p
artir de
suas relações concretas; é entendida como um elemento ontogenético, constituído de aspecto
s
multideterminantes, que são biológicos, psicológicos e sociais, ao mesmo tempo.
Elisa, ao utilizar longas narrativas para explicar e até justificar a problemática e
m questão,
somente depois de um grande tempo de entrevista explicita a situação desencadeadora
de seu
contato com o Conselho Tutelar: a violência física contra a filha e o abrigamento da
mesma: Aí,
ela saiu correndo de casa junto com ele... e foi... Aí a sogra dela catou ela e fo
i pro pronto
socorro... E ela me denunciou, né, que ela tava grávida que eu tinha chutado ela, aq
uela coisa 118
toda... E tal... aquele drama, né. Aí comunicaram o Conselho, o Conselho trouxe... l
evou ela
para um abrigo .
O abrigo é definido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu Título II, Capítul
o
I, artigo 98, como uma medida de proteção: As medidas de proteção à criança e ao adolescen
são aplicáveis sempre que os direitos reconhecidos nessa Lei forem ameaçados ou violad
os
(BRASIL, 2005, p. 22), seja por uma falta ou omissão dos pais e/ou responsáveis seja
do próprio
Estado. É definido também, no Capítulo II, artigo 101, parágrafo único, como medida
provisória e excepcional (BRASIL, 2005, p. 23).
Verifica-se, na situação descrita por Elisa e em outras semelhantes, que a tomada de
decisão, por parte dos conselheiros tutelares, de solicitar o abrigamento acontec
e sem critérios
bem definidos, sendo, muitas vezes, adotada quando não se sabe o que fazer ou como
uma forma
de punição à criança ou aos pais. Tal constatação vem corroborar o que antes dissemos a res
eito
da falta de preparo dos profissionais para a atuação como conselheiros e o não investi
mento, por
parte do poder municipal, de recursos financeiros para que o mesmo ocorra.
Vale ressaltar, ainda, a precariedade com que as entidades de atendimento, inclu
indo os
abrigos, [não] exercem sua função, reforçando um caráter eminentemente assistencialista, nã

. educação como garantia de socialização e de vivência . resta um Conselho Tutelar desagregado e restam as situações indefinidas (e a longo prazo) de abrigamento ... pra ela..3. Para Vigotski (2001).. no relato.. as comparações constantes que Elisa faz entre sua hi stória de vida e aquela que tenta garantir aos filhos. avançar no e studo do pensamento e na linguagem é pensar na importância do papel das emoções... Eu acho que a educação de antigam e era bem pior do que a de hoje... é carregada de emoções.. de luta por uma sobrevida e de conflitos no 119 relacionamento com os pais.3. A fala de Elisa. Né? E. quando resgata sua história e afirma o que sonha para os filhos. maravilhosa..garantindo programas sócio-educativos e de transição.. formados no processo de apropriação/objetivação e que es tão por trás dos significados. como não poderia deixar de ser. quando analisamos a concepção de educação que ela possui: dar ao s filhos o que ela não teve. Falar de seus próprios pais é ressaltar o trabalho e o s ofrimento: Nossa! Foi muito ruim! Foi muito rígida! A minha vida foi difícil! É interessante notar.. garantir-lhes a possibilidade de ascensão social através do estudo. 6. Podemos compreender a construção dos sentidos e significados atribuídos à sua problemática com a filha. ela faz curso de informática. o que eu quero pros meus filhos: eu quero que eles estudem. na constituição o psiquismo humano. eu quero que minha filha case linda.. . a minha menina ela faz cur so de espanhol. lutar para que os mesmos valorizem seus esforços nessa direção: Então hoje. assim como para Antônio e Sandra. Quando lhe é proposta a questão referente a como havia si do sua educação familiar. na seqüência: Aí que eu ia chegar no ponto: quando u tenho algum problema com eles. era difícil. e nos sentidos pessoais que ela lhe atrib ui: educação como possibilidade de ascensão social. Tal importância deve ser analisada a partir das necessidades e m otivos apontados na trama do discurso. tal. limitando-se a armazenar crianças e adolescentes: às famílias da classe popular. vo cê entendeu. eu quero q ue eles se formem. mas você não foi criada assim .. Coisa que eu não tive. podemos perceber mais claramente as necessidades e os motivos presentes no significado que a educação tem para Elisa. entre a forma com que foi educad a e a educação que busca dar aos filhos. Isso é o que eu sonho pra eles. já está no primeiro ano de colegial. Tanto que. História de Vida e Concepção de Educação Para Elisa. eu quero que eles façam cursos. ela estuda. 120 Assim. eu falo: exatamente. aí meu marido fala: nossa. eu quero dar pros meus filhos uma educação diferente da q ue eu tive. eu parei de estudar na quinta série do primário. vestida de noiva. falar sobre sua história de vida é reco rdar uma história de precariedades materiais. ela nos diz: Era rígido...

a partir de discussões que abarquem diversos el ementos da realidade concreta. se rec orre à violência. Quando a concretude das situações consideradas não lhe permite atingir esses mesmos objetivos. vem . Essa concretização da luta interior. eu não quero fazer i sso! Isso 121 que acontece. quando os conflitos referentes a interesses intergeracionais se agudi zam e escapam de sua sensação de controle... as estribeiras. é possível. Utilizar o recurso da violência não é aceito pacificamente e sem reservas. reflexão e de criação de novos sentidos. Assim. Em um trec ho de seu relato. portanto. Então. às vezes. na sociedade. eu lembro da dor que eu sentia quando meu pai batia em mim... podemos notar a concretização das necessidades e. afirmar que temos. continuando a comparar a educação na família de origem com a educação em se u próprio lar. de sua luta interior e seus processos de tomada de consciência: Ih!! Meu pa i colocava a gente de castigo ajoelhado no milho. que se pautem em convivências promotoras de desenvolvimento e ampliadoras de consciência. discussões que possibilitem a construção de ações menos espontaneíst s e pragmáticas. fundamentado no pressuposto elaborado por Vigotski (2001). quando não se tem mais recursos aos quais se apegar. na fala de Elisa. como nas demais entrevistas. Ne cessidade de intervenções pautadas na busca e construção de espaços para momentos de homogeneização. Tendo em vista uma práxis profissional educativa é possível dar um primeiro passo em busca das transformações das condições e relações humanas.. você conversa. a orientação que a atividade humana toma. Leontiev (1978). da contradição e do sofrimento de Elisa nas situações de violência doméstica. eu e meus irmãos. vai ao encontro da necessidade de garantir os seus o bjetivos e sentidos descritos acima. . seja ela explícita e consciente (como a violência física) ou despercebida e c amuflada (como a violência psicológica). de eu perder. vem. Era assim! Então. você senta. Desse modo. Elisa nos traz elementos da construção de novos sentidos discutida por Le ontiev (1978). corrobora a necessidade de intervenções profissionais diferencia das das que atualmente se realizam com os pais envolvidos com os Conselhos Tutelares. de acordo com valores morais e com a boa índole. no que concerne à educação dos filhos e ao relacionamento com Camila. é porque é muita coisa: vem. E para aqueles que a i sso percebem como somente uma esfera da vida que pertence ao campo da utopia. a direção das ações de Elisa.. você explica. o jeito dele educar a gente era como se ele tivesse lidando com cavalo. podemo s afirmar. quando analisamos os motivos que precedem a construção dos significados e sent idos. sabe. afi rma que. você acha que eu vou fazer esse tipo de coisa com meus filhos? Quando eu tenho que levantar a mão pra um filh o meu. a violência como uma forma de educação dos filhos definida como unidade de significação. Ele tinha cavalo.

aí. seg undo ela. 6.. a própria violência como modo de vida (VASQUEZ. ainda que exista um abismos paradoxal entre a realidade posta e a almejada.. Afirma. nesse ponto. obrigando-os.. Nesse ponto! Eu gos taria que você mostrasse isso daí pra eles e falasse com eles pra eles tomar uma providência.. a dizer do desespero que é viver sua vida: Bom. As dificuldades relatadas são diversas. 5). sapato dado pelos outros. seu tom de v oz. 382). Na casa de Maria. vez em quando. contudo. bato neles m esmo... Ali tá. Ao recorrer aos prontuários do órgão. vou ficando nervosa. . ela começou até roubar no serviço por causa desse namora do. indo desde a precariedade do ambiente físico até as dificuldades com os filhos e com o marido: E eu falo com el es: não faz isso. que não resolve sua situação . passando. não colaborando na educação dos filhos.. Até junta lixo p ra vender pra poder ganhar uns trocadinhos. Ma ria revoltase com o papel do órgão: E agora que a Laura se envolveu com um cara que m exia com drogas desde os oito anos. parece que entra aqui e sai aqui.4. . na sociedade capitalista. não sendo possível igualmente comprovar a busca dela por demais instituições. dou cada surra.2. p. Se existe inferno tá lá dentro da minha cas a. Queria. Deus que me perdoe falar. As crianças.. não faz. muitas vezes. por vezes . 1977 . Quarta Família: Maria e Laura 6. ora do própr io Conselho Tutelar. ora do marido. Classifica o marido de mão-de-vaca . é o namoro de Laura.. Laura (17 an os). E eu revolto. por tratar-se o namorado de um cafajeste . Outro motivo de desespero. E é revolta em cima de revolta.4. desconexo.. suas expressões. eu pego eles lá. vivem mendigando. a partir desse relato . nervosa. (. 123 Nesse ponto que eu gostaria que o Conselho tomasse atitudes. podem ser tomados como materializações do sofrimento humano. Sobrevivem da pensão que Maria recebe do ex-marido e d a venda do algodão-doce feito em casa. o Conselho Tutelar deveria intervir nessa situação. Dados Gerais Maria apresenta-se para a entrevista com um relato bastante confuso e. convivem cinco pessoas: ela.com Matsumoto (2005).. é um verdadeiro inferno. Marcos (14) e Marlene (13). A minha vida. Para ela. foi verificado que dados a respeito de Maria e s eus filhos não existem.. ora queixando-se da filha.1. Laura (17 anos). É um inferno absoluto. E eu vou falando. o atual companheiro.) Eu fico nervosa porque assim: as crianças precisa de roupa. que nunca é demais lembrar que. da violência potencial e real do Estado.4. Significados e sentidos da problemática em questão e formas de resolução proposta s A entrevista de Maria. a ajudá-lo no trabalho... é roupa tudo dada pelos outros. seu aspecto físico desfigurado. que seu motivo e vinculação com o órgão refere-se à violência física do marido contra Laura. impedindo a filha de namorar. bem dizer.. aquela é ponto de partida para sua transformação objetiva (p. 122 6.. falando . com o qual não concorda.

. peço outra e eles falam que não pode. ). Para Carvalho (1995). (. dividida em classes. gera violência. sofrimento e cansaço.. não sei o que eles fazem. vai bater.. a Laura. estampa das em seu rosto.. eu nem converso.) Pensei que ia resolver o caso. ele já vem com pedra em cima de mim. (. dor e revolta.... (. é um v erdadeiro inferno. muitos maustratos contra o menino. Fica falando que vai bater. é igualmente à l uz desses elementos que também os maus-tratos contra as crianças devem ser analisados. O primeiro motivo apontado como determinante de sua estada no Conselho Tutelar encontra novas e igualmente emocionadas razões: as dificuldades com a filha mais v elha ( E 124 agora que a Laura se envolveu com um cara que mexia com drogas desde os oito ano s (. a . Queixando-se dessa situação. ) e com o atual companheiro ( Agora ele parou. (. Se existe inferno tá lá dentro da minha casa. Ali tá .. eles fazendo nada . de nada. Já bateu na mais velha.. o distanciamento cresc ente entre a particularidade do indivíduo e a relativa universalidade alcançada pelo gênero humano. eu peço alguma coisa.) Se eu vou tocar em qualquer assunto isso daí com ele... 15). Maria materializa em palavras como significa e atribui sentido à vida cotidiana: Bom. Agora ele invocou com o menin o. duas vezes . Quando.. mas não resolveu nada.. Não tô vendo nada... que não tem lugar. estresse e conflitos que se acumulam na monotonia do próp rio viver.. Fizesse ele sumir . Ele quer trabalhar e juntar o dinheiro dele. Eu vou conve rsar assim que nem to conversando com você. A estruturação da sociedade capitalista. lutei lá e não consegui nada. mais ao final da entrevista Maria é questionada sobre o seu desejo acerca do que poderia ser feito por alguma dessas instâncias.. A concretude das precárias e desumanas condições de vida a que está submetida e que faz qu estão de detalhar permite-nos compreender as expressões de cansaço.) É ruindade dele... desaforo... ausência de nexo lógico. na rotina de um cotidiano sem novidades . dotando-os de significados e sentidos pessoais característicos: Aí.) E até agora não tô vendo resolução. relata já ter passado por diferentes órgãos. esse modo de viver da família urbana empobrecida é extremamente estressante . Então. É um inferno absoluto. então. Eu nem toco no assunto com ele. Deus que me perdoe falar... (. Para a autora. troca constante de temas abordados. familiar e comunitária. Inicia a conversa afirmando um primeiro motivo de estar no Conselho Tutel ar: o pai bate.Maria possui uma compleição corporal franzina e seu discurso mostrou-se pautado por fragmentações... no qual a transição entre a submissão e a rebelião se faz com explosões que machucam e violentam a si próprios e a seus pares nu ma convivência. A minha vida. lutei. nada. afirma: Eu gostaria que a lei tira sse ele [o companheiro] daí. enroland o.) Pedi até pra internar a menina em algum lugar pra ficar longe desse cafajeste desse nam orado dela. Em meio a esse mar de desintegrações. ele começa a xingar. estressante (p.) Está enrolando.. Agora ele fica fa zendo é.

Então. E ncarnação 125 do fundo ideológico da violência. o companheiro. Fala: não faz isso. Presta atenção naquilo e pede pra mim. você não mexe.. não encontramos dados que nos pudessem auxiliar. deixa lá. apontado por Martín-Baró (1997): desintegração da vida material que engendra a desintegração da consciência humana. histórico no órgão. se eu puder dar. não pede. assim. como confirma a literatura da área. Assim. em sua infância. Se você vai na casa os outros. Naquele tempo meu.. a partir de seu discurso. composição familiar. ela sempre quer proteger. não pega uma bala de um estranho. Só depois que foi passando o tempo pra frente que eu fui vendo. eu sei que você quer aquilo. Admite que apanhava dos pais e. se tivesse dois adultos conversando. se eu não puder. não pega um doce. Mais pra trás. Só quando ficavam n ervoso me davam um cacete porque eu merecia. entende que is so era correto. a gente fala..3. a necessidade de encontrar alguém q ue responda pelas dificuldades que enfrenta. por meio d as atuações educativas comprometidas com a transformação social. Maria deixa implícita.. Não é pr oteção assim que nem uma galinha que quando vê o perigo enfia os pintos debaixo da asa. que eu fui saber o que era. suas determinações e determinantes garantem o sentido pessoal atribuído à mulher-mãe : proteger os filhos. que na hora que eu tiver. 126 Comenta sobre o significado que atribui à mulher: ser mãe. em primeiro lugar. re nda. v ocê não ficava.4. era dife ente: Hum. ela nunca quer ver os filhos na desgraça. eu dou. Ao procurarmos no prontuário de Maria. ensinar-lhes o que é o certo e o errado: Uma mãe. sempre quer ver o bem dos filhos. espera. eles eram bons pais. 6. por seu adoecimento físico e mental. Limita-se a afirmar que sua mãe e seu pai eram bons pais . se era teimosa . Retrato fiel da atual situação da parcela marginalizada da população. Eu merecia. A história concreta de sua vida. se você fica com vontade. por não resolverem a situação. Culpabiliza. História de Vida e Concepção de Educação Maria conta-nos pouco sobre sua história de vida.. Pra saber como era uma gravidez só depois que eu fui ter a primeira minha. atribui essa culpa aos órgãos de assistência. oh. não mexe com isso. não sabia nem o que se passava fora dali .prisão ao fardo das necessidades materiais. eu . fiéis tão somente ao seu discurso . muitos elementos da entrevista permaneceram confusos e desencontrados. o não acesso às condições concretas do desenvolvimento humano encontram-se presentes na linguagem desconexa de Maria. se você vê as coisas dos outros.. e que a relação entre adultos e crianças. você não ficava perto. por conta de suas peraltices: Ah. registros concretos sobre sua realidade. sem condições materiais e sem espaço e profissionais competentes que lhe possa m intermediar uma reflexão politizada e ampliadora dos níveis de consciência. Posteriormente. n compreensão adequada do processo de construção de sua queixa. eu vivia na barra da saia da minha mãe.

Quinta Família: Helena e Thaís 6. sabe.1. tudo. vou ficando nervosa. 127 6.) Aí. na Delegacia da Mulher. mas su bi... nervosa. Tamara (17 anos). Minha mãe falava.5... E.. Dados Gerais Helena relata extensamente o motivo de estar no Conselho Tutelar: o marido havia espancado a filha adolescente. falando. vez em quando... Enfatiza também que ela mesma foi e ainda continua sendo vítima de violência. eu briguei com o moleque. Fui começar a sabe. Maria ressal ta seus esforços para seguir o modelo aprendido. Conta que sofreu agressões de seus irmãos em sua família de origem. O marido é pedreiro.. não tendo um relacionamento dialogado com sua mãe. eu não saia de casa. seu adoecimento mental. fui adulta. t udo. eu falo isso ai pros meus. sair. Ao considerar a educação recebida dos pais e julgá-la como boa e correta... ai. falava comigo..dô . porque eu coloqu ei um shorts e ele não gostava. Além de Thaís. . Thiago (7 anos) e a primogênita. De forma que eu não sou aquela mãe que bate no filho. (. eu pego eles lá. mas retirando posteriormente a queixa. foi o primeir o namorado meu.. (.. ela do lar . tendo fe ito algumas denúncias.... Eu queria retornar ... porque minha família jamais aceitaria eu em casa. A rotina da família envolve a escola dos f ilhos e a igreja. Segundo ela.. que a pressionou para que a denúncia fosse procedid a. do jeito que eu fui criada.... depois que eu já era adulta. de certa forma. Eu sempre fui de dialogar porque eu já sofri agressão e sei o quanto isso dói dentro da gente. a causar alguns problemas pra minha mãe. uma semana de casamento tive decepção com ele. Aí casei.. Os conflitos relatados por Maria. bato neles mesmo. igual eu falo pra eles: eu quero criar vocês.. Com quinze anos relata ter tentado suicídio por causa da violência dentro de casa. Helena tem outros dois filhos. né... faz. que Helena freqüenta assiduamente. sua estruturação de vida caótica... não faz.. nesse ponto que eu acho que uma mãe deve agir com os filhos e os filhos escutar o que a mãe fala.. com que a violência seja uma ma neira de descarregar tensões. embora os tenha educado sozinha: eu nunca tive apoio de ninguém. em casa.. E eu vou falando... Até uma vez.. né. . Aí eu engravidei da minha primeira filha.. o relacionamento com os fi lhos é bom. dezesseis anos eu conheci meu marido e ache i que era a solução. Pra sair da vida que a gente levava... parece que entra aqui e sai aqui. dei uma surra nele.5.. dou c ada surra. estressante e confusa. aí me deu um tapa na cara bem dado.. enfatizando o sentimento de frustração q ue desses esforços deriva: Então. Que nem.......E eu falo com eles: não faz isso. que eu não sou dessas mães modernas que até tomam banho junto com os fil hos tudo.) Eu falo. naqueles altos. falam que eu sou uma mãe ultrapassada.. Gostei muito dele...

posteriores ao momento da entrevista. Quando quest ionada sobre o motivo de estar vinculada ao Conselho Tutelar. durante toda a entrevista. ela estava com o corpo todo marcado d e cinta. né. (. mas não tinha mais jeito.) E como é que vocês che aram no Conselho? Por sua decisão? (Entrevistadora).) Aí ele mandou ela descer embora.. (. Embora afirme estar no Conselho Tutelar por causa da filha. durante o relato. Agora quem toma a decisão sou eu. As palavras de explicação de Thaís. nessa passagem a importância do preparo e desenvolvimento de atividades profissionais junto à crianças e adolescentes.. Não. A postura decidida e indignada de Thaís expressa a necessidade de transformação da situação de violência que sempre presenciou a mãe sofrendo e à qual também foi exposta: El falou assim: agora o negócio é comigo. vítima da violência física per petrada pelo pai e determinante da procura pela mãe por ajuda junto ao órgão: Aí eu saí pra fora. responde prontamente: Por causa da Thaís. eu falava pra mãe dele que eu tinha denunciado ele . Ele mandou eu ir embora. sentimentos e pensamentos infanto-juvenis. Muitas diferenças. Porque ele sempre foi uma pessoa que a guarda o último momento. reproduzidas por Helena. mãe.2. E eu não quis fazer isso.. la tava lá fora chorando. né . visando ao diálogo sobre seus direitos e à sua politização enfim.. assim como Elisa. objetivando a construção de seres humanos que disponham de atividades que lhes possi . Cerca de quatro encontros. ele abriu a casa e pegou ela. Significados e sentidos da problemática em questão e formas de resolução proposta s Helena. ainda acontecer am com Helena.. sempre saiu limpo dessa. diz que o marido deve estar sabendo.. não teve dificuldades em se expressar.... porque eu não converso com a vó.. 6.. né. . neste trabalho: Aí perguntei pra ela o que aconteceu e ela falou assim: o pai me bateu por que eu 129 não quis. nem de admitir sua situação e as dificuldades que dela advêm. Em nossa última conversa.tudo atrás. ele queria que eu ajoelhasse pra ela e p edisse perdão. essa conotação somente v ai adquirir seu real motivo mais à frente. Helena afirma estar vivendo uma harmonia com o marido ... mas 128 ele sempre espera o momento que vai a intimação pra ele. aí depois ele contrata um adv ogado pra ele e. materialização da desvalorização do corpo... atr ibuída à Deus e às suas orações. apesar de não ter dito nada a ele: ele sabe. Aí perguntei pra ela: o que que foi? Ela falou assim: o pai! . express am por si só a experiência de dor e humilhação vivenciada. porém. dos desejos. Podemos perceber.5. Por decisão dela. Das outras vezes. no fundo da igreja. No que ela desceu. Aí ela desceu. Quanto à denúncia de violência física contra Thaís. Ela que quis f azer a denúncia e vir aqui conversar. na conversa: Thaís. A partir deles foi possível perceber os movimentos de idas e voltas da vida conjugal. que já enfatizamos.. vão se construindo ao longo do relato no que se refer à família de Elisa e Helena.

no ia. é mesma coisa você pisar em cima de ovos e não ter que quebr ar . decorrente s igualmente de sua história de vida e da atual condição concreta de sua sobrevivência: É. certo. Semp re foi contra eu denunciar ele na Delegacia da Mulher. encontrar sentido para continuar convive ndo com ele: Mas assim.. Não fiz.. . Helena busca também justificativas para não romper com a situação de violência. Nesse movimento contraditório da realidade cotidiana alienada. de uma maneira bastante precisa. 130 ele é bom até demais. isso muda muito as coisas. pela agressividade dele.. vê o que você quer mesmo... Agora quem toma a decisão sou eu. Nós aconselhamos ela: Põe a cabeça no lug ar.. sua confusão interior... porque o meu esposo. Não pode sair. Ao apontar tais contradições. que seu pai já tem problemas na justiça. E ela [Thais] queria no momento chamar a polícia. até. Faz. que ele quer tudo do jeito dele. por meio das contradições de sua fala. desse modo.. Conviver com ele. é que nem eu tava falando ontem pra minha cunhada. E como é a vid a de vocês lá. né.... às v ezes. certo. como o relato acima nos mostra.. comigo. considerando as limitações impostas pela concretude das relações objetivas. Como assim? (Entrevistadora) É atencioso. em partes. Assim. a infância dele. Mas isso não reflete no lado agressivo dele... expressa e define-nos. retiradas de queixa. perdão e conformismo: Em outubro. certo. expressa na incompreensão das atitudes do marido e na pressão que as famílias de orige m acabam lhe fazendo para que o casamento se mantenha e.. disse que ele ainda ia pagar muito caro por tudo que ele fazia por mim. Por já tinha três. mais à frente. as características do marido: Mas o lado d ele é esse daí.. ele q uase quebrou o osso do meu rosto com um soco.. Assim porque..... sua dificuldade de rompê-lo. como pode ser assim..bilitem construir níveis de consciência mais amplos. E você denunciou essa agressão que você sofreu?(Entrevistadora) Não fiz. por agressão mim mesmo. Helena busca signif icar os comportamentos do marido e... Interessante no relato de Helena é destacar as posturas adotadas frente à situação.. Que nem. eu sofri uma agressão muito violenta dele.. Sei lá se é a criação dele.. Ela falou assim: agora o negócio é comigo. que lhes permitam ser sujeitos de sua história.. Mais adiante percebemos. em partes de: vamos fazer um churrasquinho.) É por isso que às vezes eu nem entendo. muito dura também. Helena? Como em o dia-a-dia de vocês? (Entrevistadora) É difícil. ela queria por todo jeito chamar a policia. ele é uma pessoa assim. a própria violência doméstica sofrida por ela é perpetuada.. .. que nem eles fala assim: ele põe tudo dentro de casa. ..... já q ue partilha das concepções de sua religião evangélica: . mãe. é comunicativ o. né . certo. né. o jeito que ele é. resultantes de sua forma de significar e dar sentido à vivência conjugal.. e eles não querem ver isso.. No entanto.. sabe. num movimento de denúncias.. Com a família al i. (.

. nas tentativas de divorciar-se do mari do e pai agressor. como os demais participantes desta pesquisa. que não existe ainda totalmente para o homem (p. Então aí fica difícil.. eu não tenh apoio. Sabe aquela pessoa a ssim. Paulo. 144-5). Importante resgatarmos aqui as considerações de Leontiev (1978).. porque a família.. Tudo tem que ser do jeito dele. Ainda conversei sábado com o irmão dele fica difícil. A família fica: ele é bom. Além d o Conselho Tutelar. de ninguém. nada pode sair fora do que ele quer.5. pois um sentido não objetivado e não concretizado nas significações. conta-nos. teve uma história de vida mar cada pelo trabalho desde muito nova. eu não tive pai.. permanece uma certa confusão a respeito d o fato de seu marido sempre sair ileso das queixas. acerca do funcionamento das instituições públicas. a manutenção de relações arbitrárias e de poder. possessiva. nunca tive apoio assim. As crianças não ficam passando necessidade. História de Vida e Concepção de Educação Helena. certo. Minha mãe é uma senhora que ficou viúva cedo. a burocracia presente nas mesmas. p orque a gente já foi na Procuradoria do Estado.. como o sistema judiciário. conforme estudiosos da sociologia e áreas afins. pra divorciar. com oito filhos.. Fato que soma à falta de uma rede que lhe forneça algu m tipo de apoio: O advogado acho que vai com ele na Delegacia da Mulher de depois ele. as relações que mantêm o chamado status quo da sociedade como está organiza da. de forma indireta. fica assim.. 132 6. e as delegacias especializadas.. sozinha. Em sua fala.. né. po conseguinte. já que a afirma estar sempre em casa. retirando-as ele mesmo junto à última agência citada. Aí você. ele sempr e fala. porque ele quer a vida dele como ele quer . Isso é impossível . . possibilitam. derivados da luta interior e da tomada de consciência: 13 1 É uma condição indispensável à evolução da consciência do homem novo: o sentido novo deve com efeito realizar-se psicologicamente nas significações. por parte da maioria da população. por parte da população.3. você pode imaginar como é.. vamos tentar.. . pe la violência doméstica perpetrada pelos irmãos: Com meus pais. sabe. já umas três vezes. Eu perdi meu pai mu ito cedo. a Delegacia da Mulher. sua experiência na relação com instit uições de controle social. e se sair eu crio problema. quando discute a formação de novos sentidos.. contatada para realização de algumas denúncias de violência doméstica. pelas dificuldades com a mãe e.. pode ser evidenciado na entrevista de Helena. Ele não te deixa faltar nada. que resulta em um lento e incompreensível mecanismo de ação. ser do lar . Vale ressaltar a situação de dependência econômica de Helena.. como agravante. como um dos elementos dificultadores de uma tomada de postura mais radical contra o marido. foi difícil a no ssa sobrevivência. sejam elas assistenciais ou de controle. Outro elemento bastante exemplificador da realidade dos órgãos públicos e de sua significação. O desconhecimento.nenhum. Pra uma mãe criar oito filhos.. é um sentido ainda não consciente. nos conhecimentos.

. mas não tinha mais jeito. Pra sair da vida que a gente levava. é possível destacar a necessidade de novas relações interpessoais que possibilitem a Helena romper com o ciclo de violência... o marido: Gostei muito dele. é igualmente importante destacar mos as discussões do próprio Leontiev (1978) acerca da produção e materialização. transmissão da experiência social. Aí eu engravidei da minha primeira filha... Helena nos most ra sua busca. porque minha família jamais aceitaria eu em casa. co mo foi? (Entrevistadora). Numa sucessão de acontecimentos inesperados. promoveriam desenvolvimento e acesso a outras esferas da vida cotidiana.. A partir de nosso referencia teórico. Se é necessário retomarmos as discussões de Leontiev (1978). engravidou da primeira filha. conforme Heller (2000). a respeito do desenvolvimento do psiquismo humano através dos processos de objetivação-apropriação. portanto. que exige momentos de homogeneização.. na adolescência. Helena enamorou-se.... uma semana de casamento tive decepção com ele. Ah. E. sendo.. Essas nov as relações humanas produtoras de sentidos novos poderiam se dar por meio da práxis educativa dos próprios conselheiros tutelares. Minha mãe ela trabalhava. Pelo fato de sempre ser agredida pelos irmãos. né. aí me deu um tapa na cara bem dado..... que são sempre mediados pelas relações entre os seres humanos. como foi pra você? Teve ajuda de alguém. né. ou seja. em significados. E a gente cuidava da casa. . casou-s e.. Eu sempre fui de dialogar porque eu já sofri agressão e sei o quanto isso dói dentro da gente . Em um relato no qual as experiências de violência e espancamento se repetem. Eu nunca tive apoio de ninguém. encontr ase também a busca de Helena por construir um novo modelo de convivência e educação com os filhos: E pra educar o primeiro filho. o casamento: Aí. o enfrentamento dos conflitos pela via da agressão física tornam-se uma avalanche difícil de interromper. estudava ..) Ah. o ciclo vicioso.. numa tentativa de repensar a educação vivenciada e a educação fornecida aos filhos. De forma que eu não sou aquela mãe que 133 bate no filho. né. dezesseis anos eu conheci meu marido e achei que era a sol ução. te ndo agora outra figura como perpetradora da violência.. foi o primeir o namorado meu. já que a heterogeneidade da vida cotidiana não permite es tar por inteiro e totalmente presente nas atividades que se realiza. Porque em partes de educação dos meus filhos eu sempre fui sozinha. (. num processo de mediação. um processo educativo.. Aí casei. que em sua fala demonstram a falta d e controle sobre os aspectos relacionados à própria vida. porque eu coloqu ei um shorts e ele não gostava. A reprodução da violência. que. para romper com esse ciclo. foi bem difícil. Eu queria retornar tudo atrás.. colocou um shorts e passou a apanhar novamente.. durante sua infância. encontrando para isso uma ún ica solução possível. né. no intuito de romper de com as reproduções constan tes.

134 7.de novos sentidos produzidos: movimento contraditório. tendo como balizadores a violência doméstica contra crianças e adolescentes. analisando o impacto da estruturação social no psicológico humano e .. por conseguinte. evidentes na elaboração dos sentidos pessoais e n o papel ativo atribuído ao homem como um ser que é também sujeito de sua história pessoal e soci al. analisando-os e confrontando-os com os dados encontr ados nas entrevistas com os familiares. foi possível estruturar o presente capítulo da seguinte maneira: resgatar os objetivos gerais e específicos previstos para este estudo. a partir da totalidade que o integra e constitui e. Pesquisar a violência doméstica praticada por pais e/ou responsáveis contra crianças e adolescentes. Presente. e algumas considerações Tecer considerações sobre os fenômenos complexos abordados nesta pesquisa somente se faz possível no âmbito da generalidade dessas mesmas considerações.. Examinando. e características da educação recebid a na família de origem. portanto. tendo em vista a organização de sua vida cotidiana. Assim sendo. Futuro. além dos traços do futuro. à busca pelo determinantes históricos e sociais do discurso e do desenvolvimento do psiquismo h umano. sob a perspectiva desses mesmos pais e/ou responsáveis. com o processo de socialização e a formação da subjetividade humana. tendo em vista que o s elementos aqui pontuados devem ser concebidos a partir do movimento contraditório e constante da realidade. na procura por um olhar que transcenda o indivíduo empírico e vá à busca do indivíduo concreto. este capítulo traz consigo as marcas do presente. aspectos relacionados à educação dos filhos. o cotidiano e o desenvolvimento do psiquismo humano. Tecer essa análise é contemplar uma espiral complexa de elementos. a pa rtir de sua historicidade. nelas incluindo os atos violentos. His tória de Vida e Concepção de Educação) e sobre eles também tecer algumas considerações. compreendendo que o nosso foco de análise nasceu da família brasileira. Martín-Baró (1997). os legados do passado. somente nos foi possível através da análise da construção e atribuição de significados e sentidos pessoais à situação de violência. Assim sendo. e questões sociais pressupost as nas 135 ações cotidianas. então envolvid os com o Conselho Tutelar de Bauru-SP. resgatar os eixos organizadores do discurso dos e ntrevistados (Significados e sentidos da problemática em questão e Formas de resolução propostas. representados na construção das signifi cações analisadas. Passado. historicidade e materialidade da consciência e do desenvolvimento humano. algumas considerações iniciais poderíamos traçar acerca da realidade por essa instituição enfrentada e como essa realidade se relaciona com as situações de violência doméstica co ntra a população infanto-juvenil. No intuito de organizar a discussão sobre essas considerações gerais. visíveis no discurso das famílias entrevistadas.

Cotidian o cujas condições de vida exigem fundamentar um novo olhar sobre as situações de violência doméstic . como evidenciam os familiares entrevistados. desgaste e estresse. Modelo que atribui desestruturação e incompletude às famílias que se afastam do ideal ideológico. conserva em si os padrões assimétricos de relacionamento. sendo. Compreender essa imbricação é considerar o cotidiano da maioria das famílias brasileiras . como vimos. O grupo familiar. para ser de fato novo e concreto. a precariedade e a ausência de políticas públic as eficazes a serem garantidas pelo Estado à população. princípios e normas. compreender a significação e os sentidos d a violência doméstica é compreender o processo de socialização vivenciado. deve contemplar o modelo hegemôn ico (burguês) posto para a análise da família e suas inter-relações. ao mesmo tempo em que são gerais e sociais. Ausência do papel do Estado enquant o agência que deve garantir os direitos humanos e a humanização do homem. tornando os homens único s e singulares. deve considerar. Um novo olhar sobre a família e suas inter-relações. tendo a linguagem como um fundante elemento mediador. como nos mostraram os dados das entrevistas. e que. garantindo o acesso àquil o que . a definição do conceit o de socialização abarca mais que a limitada forma como os membros de uma sociedade chega m a compartilhar valores. ao referir -se às funções psicológicas superiores e a seu processo interpsicológico anteriormente a se constit uir em 136 processo intrapsicológico. Para o autor.o processo de socialização. no desenvolvimento humano. como vimos. pela fadiga. indica as relações primárias como aquelas que possuem um caráte estruturador da personalidade e da subjetividade. muitas vezes e de muitos modos. Por meio das nomeações. Assim. no tocante ao gênero e às gerações. indo além da parca a tuação centralizada nas mínimas condições de sobrevivência e sobrevida. Por conseguinte. 115). 1995) enfatiza esse papel mediador da linguagem. históricas e de classe. pelo empobrecimento. socialização são aquellos proce sos psicosociales en los que el individuo se desenrolla historicamente como persona y como miembro de una sociedad (p. estigmatizadas e analisadas a partir de pré-conceitos. Deve considerar e abarcar. perpassado que é pela própri história da humanidade e da sociedade em que se está inserido. em seus discursos apresentados. através de uma agenda social que reenergize a existência cotidiana das famílias. das identi ficações e diferenciações. port anto. o polimo rfismo da estruturação familiar atual. Vigotski (1 991. marcado pela linearidade constante. que incluem as situações de violência doméstica. com todas as suas determinações sociais. igualmente. é o primeiro responsável por esse processo de socialização e pela formação da subjetividade. dadas as precárias condições de vida. o processo de socialização vai se materializando. Polimorfismo que não isenta as relações humanas de conflitos. Novo olhar que.

busca pela ajuda de profissionais. das cinco entrevistas. es claro que hay um esfuerzo continuo y deliberado por parte de los padres por encauzar el comportamiento de sus hijos según las normas socialmente acéptas (p. necessidades. trabalho extra-lar p ara garantir as condições de sobrevivência. a violência como uma forma de educar os filhos. para Vigotski (2001). Lembremos aqui que. a res peito da violência doméstica contra crianças e adolescentes. Essa mesma unidade sublinha. como vimos. em seus mais variados setores. Diante das precárias condições cotidianas vivenciadas p or essas mesmas famílias. aspectos relati vos à violência física e psicológica são alguns dos elementos encontrados nos dados de nossa p esquisa. foi possível. necessidade de acertar nos atos relativos à educ ação das crianças e dos adolescentes. em nosso caso a violência doméstica sob a perspectiva de pais vinculados ao Conselho Tutelar. rai va. interesses atribuídos pelos entrevistados à situação . implic a compreender seu processo histórico. evidenciados e enfatizados em falas permeadas por sentimentos de desespero. ao mesm o tempo em que é produção humana e social. em nossa sociedade. fadigas. encontrar em três. partindo da análise de aspect os de sua vida cotidiana e da história de vida e conseqüente concepção de educação doméstica dos entrevistados. 138 através do significado da palavra.de mais evoluído a nossa sociedade desenvolveu. a violência como uma forma de educar os filhos. A partir da busca e análise dos significados e sentidos que as famílias entrevistad as atribuíam à problemática que as levou ao Conselho Tutelar. cansaços. Diálogo. 160). A família responsável. da falta de uma rede serviços adequados oferecidos pelo Estado. analisar um fenômeno. paciência. conforme Martín-Baró (1997). corrobora e vai ao encontro das necessidades e determinações históricas e sociais discutidas acima. pela reprodução da mão-de-obra e pela reprodução da ideologia dominante. pela socialização e pelo aprendizado das cond utas e dos valores sociais. o fundamental no método de pesquisa refere-se à busca de unidades de anális e. Em decorrência. A unidade de significação que de nossa análise derivamos. esforça-se. concomitantemente. as falas nos apontam alguns dos instrumentos pedagógicos de que lançam mão os pais para garantir os objetiv os que significam como os norteadores da educação familiar que devem fornecer aos filhos so b sua responsabilidade. palavra que é mediadora da subjetividade. castigos que envolvem desde a negação de um desejo/pedido do filho até retiradas de privilégios. palmadas. em todos os relatos apresentados pelos cinco represent antes das famílias aqui entrevistadas. coerções. Assim o pudemos perceber. sua gênese e suas relações dinâmico-causais. culpa. ao contemplar a violência doméstica e o cotidiano. alegria. essas determinações e gêneses configuradas no plano individual. carinho. diante das parcas condições que lhes garantam o desenvolvimento de s eus membros. explicações. por intermédio das emoções. por cumprir os objetivos que lhe f oram de-137 signados: ante todo.

igualmente. reencontramo-nos com as considerações de Martín-Baró e Vasquez acerca da complexidade e estruturação do fenômeno da violência. pretendemos. Fenômeno que tem suas raízes na objetividade econômica e social e de classe da sociedade capitalista. 139 O desenvolvimento humano. das relações interpessoais. Fenômeno que possu i múltiplos determinantes. nas atuações de profissionais que lidam co m essa temática. Para Heller (1991. que se v iabilizam através das funções mediadoras dos instrumentos e dos signos. a partir da atuação profissional junto às famílias envolvidas com a v olência doméstica. no singular-universal. assim. com um pouco mais de cuidado. nas quais se vêem envoltas as relações humanas. objetivando criar condições para que a homogeneização se viabilize. Essa constatação merece que nos detenhamos. é a interminável constituição do humano no homem. pautado nas atividades dos indivíduos. para a refl . por meio. ao longo da vi da do homem. como de regra percebemos. o cotidiano não é eminentemente alienado. De maneira coerente com os princípios filosófico-metodológicos contemplados. dando-lhe novos matizes e ênfases. para discutirmos intervenções profi ssionais possíveis junto às famílias implicadas com a violência doméstica. que possui um pano de fundo ideológico e uma cultura que o sustenta e ratifica. podem ser buscadas. Atividades intencionais e educativas com grupos de familiares.conflituosa vivenciada. A unidade de significação delineada também possibilita lançar um olhar às famílias envolvidas com a violência doméstica que prescinda de um caráter culpabilizador e preconceituoso. a perspectiva teórico-metodológica adotada ne sta pesquisa. através da homogeneização. que serviriam a qualquer realidade. portant o. descobertos e avaliados. Atuações intencionais que apontem saídas para a atual conjuntura cotidiana e violenta. Muito longe de buscarmo s receitas de atuação. com essas reflexõe s. em especial Leontiev . considerando as peculiaridades de c ada momento histórico em questão. resgatamos as proposições de Agnes Heller. materializada no processo de apropriação-objetivação. o desenvolvimento humano e a formação do psiquismo são processos contínuos. Dessa maneira considerado o desenvolvimento humano ou o desenvolvimento do psiquismo. portanto. são possíveis atuações que intencionem a reflexão. apontar caminhos de pesquisa e ação que ainda precisam ser trilhados. ao mesmo tempo em que define e transforma essa mesma concretude. já q ue nela se encontra presente. comprometidas com a transformação social. dentre eles a linguagem. neste trabalho. algumas formas de intervenção. por meio. que concebam o homem como um ser constituído na concretude da vida. de processos grupais. em seu movimento . Para Vigotski e os demais teóricos da Psicologia Sócio-Histórica. dada a complexidade e a constante contradição que os absorve. a generecidade para-si. os quais possuem uma natureza eminentemente social e histórica. 2000). que possibilita a superação parcial da particularidade e da cotidianidad e. Ao partir dessas análises.

BASTOS. P. A C. Acreditamos.R.13. M. A. S. e. Conselhos Tutelares: uma questão de gênero? 2000.F. 2 a . Infância e Violência Doméstica Módulos 1-8 A/B. V. BACCINI. São Paulo: Cortez. E. 196 p. o que nos remete à possibilidade de contribuir com alguma s mudanças para a transformação dessa estrutura de sociedade capitalista. AGUIAR. 141 8.1/2 pp. 166 p. GUERRA. M. como explicitamos em nossa introdução à pesquisa. n. GUERRA. v. acima de tudo e. a partir do sonho. A pesquisa em psicologia sócio-histórica: contribuições para o debate metodológico. São Paulo: Cortez. A. AZEVEDO. S. A. mas sim produzir conhec imento que possa estar a serviço do homem. da utopia. S. v. Petrópolis: Vozes. interpretar um dado fenômeno.77-87. que conseqüentemente tr az consigo formas de relacionamento humano em si desumanizadoras. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) Pontifícia Universidade Católica (PUC). a partir da necessidade premente de construção de relações interpessoais mais humanizadoras é que esta pesquisa espera ter trazido su a parte de colaboração e compromisso. 224 p. 166 p. Dissertação (Mestrado em Psicologia Social) Pontifícia Universidade Católica (PUC).) Psicologia Sócio-Histórica uma perspectiva críti ca em psicologia. Intervenção frente a problemas decorrentes da violência contra a cri ança no contexto familiar. MARTINS. ARIÈS. SILVA. nas atitudes cotidianas. B. M. 140 Nós nos questionamos. História Social da Criança e da Família. Por outro lado. Afinam e desafinam. do acordar-se para den tro. mais uma vez. V. São Paulo. Referências Bibliográficas: ABRANTES. que o importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais. j an/dez 1995-6. M. 2001. São Paulo. GUERRA. a partir igualmente do não-dito q ue esta pesquisa também encerra. Rio de Janeiro: Guanabara. W. J. Conselhos Tutelares: cem ou sem caminhos? 1997. (org. não nos basta conhecer. M. N. A Infância e Violência Doméstica: Fronteiras do conhecimento. 156 p. Para isso. A. principalmente. admitimos o pressupost o da concepção de homem como ser historicamente determinado e também como sujeito de sua história pessoal e social. podem se constituir em saídas para a atuação profissional. N.14.1993..T. mas qu e elas vão sempre mudando. 2003. se possíveis atuações junto a grupos de familiares não seriam eficazes na busca pelo desvelamento da realidade.. 1998. Revista de Psicologia. A. assim como Guimarães Rosa. assim sendo. . A. A partir dos elementos e considerações aqui tecidas. o objetivo maior do conhecimento científico reside em orientar ações humanas transformadoras da realidade e. ainda não foram terminadas. In: BOCK. podendo inclusive con tribuir com eventuais transformações. 159 p. AZEVEDO. V. AZEVEDO. ANDRADE. 2005. Método Histórico-Social na Psicologia Social. J. a troca de experiências e a construção de novas formas de atenção. São Paulo: Telelacri. L.exão.ed. 1986 . São Paulo. Com licença. N. cuidado e educação aos fil . vamos à luta: Guia de Bolso São Paulo: Iglu. B. N. como já dizia o poeta Mário Quintana.

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eu que. É eu. E os outros dois. o de quinze... depois que eu libero eles para a escola. eu levanto de manhã. com 11 anos.... e aí vai pra escola. não sei o que está acontecendo com ele. Verdade! São mais velhos? Não.. A Regiane. E ultimamente. O pai dele. porque não sabe absolutamente nada.. você vê que ele tá por ali esperando a gente sair pro serviço para assistir televisão. Só chega em casa às cin co e meia.. quem sai.. Não tem ido.. A idade dele. não. rapaz. Os outros três é tudo meu mesmo. é complicado... isso tá me deixando muito preocupado. Você pensa que el e está no ônibus. então? Que está comigo lá? É. porque não é só ele. estuda pela manhã e trabalha à tarde. É falecida faz cinco anos. é falecida... Quer dizer q . há cinco anos só você e eles.... que ele é meu filho assim.. Demais. Então. moço.Em primeiro lugar. assim que nasceu eu registrei normalmente e continua comigo até hoje. né.. que é o Hélder. era para tá na quinta série.. Cinco anos! E ai você está com eles. a hora que já deu tempo de eu trabalhar e já tô em casa para segurar... exatamente.. Os outros até hoje não têm dado esse tipo de problema. biológico.. pelo que eu acho. mas ele pegou esse lado. Tá. pelo estudo de uma forma geral..... fazendo a terceira série. mas não é meu filho biológico... segundo informação. ele senta. não.. com a minha mulher. Mais três. grandão. . Só que o pai mesmo é outro. o pai é outro. Antônio? Como é que você está fazendo para educar. Tem quinze.. a maneira que eu tô fazendo. Olha..... como é? 3 Todo dia eu saio. o pai não sou eu. Isso. E também tem outra coisa que eu acho. então. né.. ele tem perdido o interesse muito grande pela escola. Tem duas que sai às s ete e quinze e vai para o Projeto Crescer da Vila Asilo. E como está sendo o dia-a-dia.. sabe. E a sua esposa que.. E ai como é que você está lidando com isso.. quem é na casa. eu mesmo levava no peito e dava para agüenta r. dizem.. esse mais velho de 15 anos. a gente levanta. Os outros.. Não sei o que aconteceu na cabeça dele. Porque quando a gente foi ficar junto. mas se fosse isso aí. depois que o ônibus vai embora. Eu acho que.. O outro mais grande.. ele peg ou esse. como eu tô dizendo. sabe. viu. de 10 e a Estefani de 8. eu tô fazendo a minha parte. Eu tô achando que isso tem muito a ver com o pai dele. tá na quarta e é uma quarta que não vale pela primeira de antigamente. já.. eu e a mãe dele. viu... Não está nada legal.. então ela já ve io com três meses de gravidez dele.. Com ela mesmo. E agora. e esse ai.. Mais três. 2 E você assumiu ele.. E como você faz no dia-a-dia? Quem fica lá. E ele de 11.. Então.. é que eu estou com um garoto meu com um problema muuuiito grave .... coloca em posição. A menina é mais nova e o outro é mais velho. Então. muito viciado em porcariada. tem mais três né. É.. Então.. Antônio? Olha. É um rapazão....

Agora eu só acho que ele tem essa maneira dele de agir. faltou muito. né? Na quinta ele não foi pra escol a.. e ele ser o último e na hora que vai 4 entrar ele correr e. Ele é que não quer nada. não tem ninguém pra mandar. No fim do ano passado. Você chega a levar e. cortaram. Não.. Só vai pra escola se for p ara lá de novo.. É tudo bem organizadinho. Nesse ano eu já fui nu ma reunião lá.. Antônio? Como é a educação que você deu para ele? Como assim? Como era antes.. Porque ele não vai para a escola cedo.. O que é pra um é pra todos. Eu chego a levar! O ônibus é pertinho.. E como é que você educa. Elas saem cedo.. Vocês são mais rígidos.. De uma maneira só. tudo prontinho para ir. de manhã eles vem e pegam de manhã. vão pro Projeto e de lá já vão para a escola. à tarde eles te levam p ara lá e trás de tarde.. só vou chegar de tarde em casa. Ele já estava já prestes a entrar na escola também. pega e leva. E ele não vai porque ele não quer. é. três . De lá...ue também tá ocupado também..... me io dia vai para a escola.. Ontem não foi e hoje não foi. bastante agres sivo também.? Eu mando! Só que enquanto. Não tem assim fal ar que um tem regalia e o outro não.... até hoje nada. Esse Projeto Saint Cristh também é assim: se você estuda de manhã... ele chegou a viver com sua mulher.. Ele nasceu.. que iam fazer outra reunião para pôr ele de volta. Eu sou bem rígido. Como fa para ensinar as coisas. Como é que vocês lidavam com ele? Olha. eu vou pro serviço. ele não tá indo pra escola e nem pro Projeto. diz que quer ir para esse Projeto Saint Cristh lá. Porque ele é muito agressivo.. quarenta metros de casa... Como é que eu pego ele? Eu vou ficar na rua correndo atrás de um moleque desse tamanho? Não vou... Se você estuda de tarde...... tá ficando o dia inteiro na rua. Igual nós lida com todos os outros... então tá complicado. já joga pra lá e. Ele chegou a conviver seis anos.. E você sai cedo e só volta à tardezinha? Só volto à tarde.. menina. e o Projeto ele não pode ir. já é encaminhado direto.. Essa semana inteirinha não foi. na sexta. Ele tava no Projeto Saint Cristh lá. que é pra mim encaminhar de novo. então.. Mas já tava com uns probleminhas desde pequenininho no Projeto da Vila Asilo.. Ah. Então. mas ele é. Eu ensino ali duas. e outra coisa. O ônibus já passa. Aquele dia que a minha irmã teve... Não tem vez de eu chegar com ele na porta do ônibus.. leva. a hora qu e chega lá. Não pode ser da educação.. E como é que começou isso. trinta. chega de tarde em casa. deve ter vindo de outro la do. Agora. Sai correndo com mochila e tudo... né.. quando ele tinha seis anos de idade é que ela veio a falecer.. eu tenho pouca paciência. só que lá. É ele que é o problema. E eles ficam com quem? Cada um vai para um Projeto...... Mando e sai. Perdeu total mente. mesm o com essa idade já. foi na quarta. Antônio? E ela educava também.

isso veio do sangue de lá.. professor. Meu pai falava pra mim que má comp anhia. menos o mais grande. ai ele sabe que eu c hego. Tudo daquele mesmo jeitinho. o que eu faço.. como é eu que comando tud o.... no sáb ado. A mesma hora que tão brincando aqui .. na mesma hora ele já se manda pra rua. . porque já passou aquele momento ali de.. E ai ele vai e volta na hora que ele quer... É pobre.. Se eu tô na cozinha... já tem que vir às carreiras pra cá... Já tá fumando cigarro. pula de madrugada pra´narquia. E ele tá desanimado também.. eu volto de novo. mas só para fazer arte. vou falar para você.... Só que o pai dele é um coitado igual eu também . tem nada vê.. Eu tô pensando em ir até atrás desse pai dele. E como é que é a relação deles? Dos irmãos? Olha.. que eu tô cansado.. Entre eles mesmo.. Então.... Daqu eles que levantam cedo. só pode ser o bra dele. Ah. outro dia. aí me interessa. rapaz. Só que ele é mais agressivo. É uns cinco ou seis que tem lá assim. m as como no caso dele. que eu vou dormir.. E quando tá bonzinho. sabe. ele já sai.. não sei... você não... é regular. ninguém quis ele ali.. O s projetos que ele anda. sabe. aí espera lá pelas dez que eu chego... Localizar esse. Aparece isqueiro. m andou tirar o moleque da escola para não ir para lá.. professora nenhuma tem jeito.... Você tem que saber com que você anda. o professor que ele fica. Com as meninas menor... Ai mais tarde.. Só que o pai dele é gente que mexe com essas porcarias. eu não se i ficar guardando mágoa de criança.. E depois com esse Saint Cristh também é problema. o mais velho quase não tem nem muita ligação. uma folha virada para ele e ele já. fósforo... não. vou bater.. Não sei.. droga eu ainda não vi. é ruim... Você ia com a força? 5 Não com a força.. Enturmou com aqueles lá. ali já não tenho paciência mais não. Vou falar para você. não dá. Você está desanimado? Tô desanimado. mas é difícil. coisa que eu não comprei. E a turminha que ele achou é da mesma laia dele. ai ele chega. eu sei . ah. na mesma hora ele já mete a mão na orelha de uma ali e ai já fog e tudo... eu nunca servia para ser professora. e já ficava meio nerv também e já paro. Eu deixava de lado.. má companhia. Esse da Vila Asilo.. Eu falava: ah.vezes e pronto. . No outro dia eu já não faço mais nada. Se eu pegar ele ali na hora que fe z a arte ali até que eu dou umas pancadas nele. Mas quando eu vejo que a pessoa tem uma cabeça boa que tá indo bem. ele faz as cagadas dele. Em vez de ficar dormindo até mais tarde. dorme. com sete anos ele foi expulso. é um problema e realmente. mas cigarro eu sei que tá porqu e já sumiu uns dois maços de cigarros meu lá de casa e os outros mesmo é difícil. Fumando... que eu vou dormir... é isso? 6 Aí ele some pra rua e tem uma colega minha que. mesma coisa. E tem si . eu não ia servir.. no domingo. E ai o que você faz? Ah...

. nós era em doze... era bravo... E eu tento passar para eles isso daí..... educar criança. coisinha que isso daí menino . quase na divisa. Você tá ali terminando a sua lição ou qualquer coisa que tava fazendo. ponhavam de novo.. Dali sumimos pro Paraná. não. os pedaços. levava na casa ali. A minha vida. Ali era. Não. E antes de vocês se casarem. com noventa anos. cem quilômetros da divisa com a Bahia. até os dezesseis anos foi lavoura. Não tinha esse negócio falar.. Desde. o que tá aparecendo.. fal r para você. Eu sei . não podia ficar perdendo t empo com escola. tinha que trabalhar. e falar. Ih!! Eu nasci em uma cidadinha chamada Porteirinha... não. na roça.. então. Meu pai. quinta. Antônio? Como foi assim a sua vida. e se você tentar conversar. faziam uma reunião entre eles ali. 7 Você trabalhou desde pequeno também. né.. ele não era bravo! A gente respeitava ele de um jeito que não precisava a agressão. aquele pai que podia pagar os meses. estudo direito eu tive.. m as não sei.. E sua vida como foi.. estadual. E tinha que trabalhar. estudo.. trabalh ar aí no plantio de café... E você acha que a educação que você dá para ele é muito diferente da educação que você recebeu. Inclusive.... é perigoso sobrar é pra gente ainda.. viu. o aluno continuava indo. pagava aquele professor. . é capaz de chegar nesse ponto. Ali você.. o pai falava faz tal coisa. Então. to do mês. seis.? Eu não posso falar nada.. não. quarta.. Você não tem. Era assim: juntava os pais ali.. Só que não tem aparecido coisa furtada. E com a sua mãe. como diz é. que não tem em casa... Então é complicado. sexta. nem assim. aquele um que não podia tinha que tirar aquele aluno. você foi aprendendo as metades... Minha mãe era mais agressivinha.... sim .. A família é grande. que ele morreu agora em 94.. o que não comprei. arrumava um professor.. cada ano estudava duas.. ele dava uma forcinha pra gente. porque não tem a prova de que eu sei. espera um pouco .. que eu lembro... Antônio? Você é daqui de Bauru. Mas se deixar a ssim.. não tinha nada disso. Porque escola lá no Par aná era distância como daqui a Piratininga.. daqui a pouc faço . meu pai sempre falava. mas quem falou..... mas falava. você tem. se ele me deu duas surras foi muito. Era sim.. não. A minha era complicada. isso daí. Era diferente. aí. Não tinha esse negócio de ah. Do tempo que eu convivi com ele. não era igual hoje. abandona aquilo e ia. não tinha muito tempo ara estudo...... mas era só chineladinha. de zero. os mais próximos de cada um. não... sete anos. não . Então... né.. Às vezes. como era? Não.. quando as condições melhoravam. lá perto da B ahia... Eu não cheguei a .. E a sua mãe? Era muito brava? Seu pai era muito bravo.. Eu lembro que dessa vida minha. mas mesmo assim não era escola. assim....o que eu comprei. não ou espera um pouco. não . em Minas Gerais. três vezes. Falou era isso e não t em que torcer. Não... seja lá coisa paga pelo governo.

. 9 Ele foi o segundo. tinha onze..... ela tem burcite. depois vieram os outros. Claro.. A gente ia meio ao s trancos e barrancos. de família. com três meses.. Se eu quisesse. Eu canso de mostra r na televisão para ele: olha. como que diria. E vocês conseguiam administrar qua ndo ela falava que estava grávida? Ah. Se eu te falar você não acredita. E ai depoi .. Daí eu trouxe para casa acreditando que fosse meu. E vocês quiseram ter os filhos? Como foi o nascimento dos outros? Esse daí.. a sua mulher? Ah. foi quando aconteceu esse imprevisto nesse meio de traição e deixou es se daí pronto para mim. Era assim meio... El até que tenta me ajudar.. então. só serve pra deixar o bicho mais safado. tapinha.. porque quanto ao cigarro... agora é só e le. Porque a minha filhinha de quatro mês quando minha esposa mor reu... E eu acho que daí vai passar para as coisa pior . ... tem não sei o quê.. para as outras coisas boas. esse daí já veio já pronto. Uma de quatro mês! Tinha a de três. sua mãe morreu com trinta e um anos por causa disso aí mesmo... vi que não era... Os outros nasceram tudo com cabeça boa para estudo. mas ele é esperto também. por causa do cigarro.. a gente já tinha a c asa.. Tinha. já tá aqui. falar a verdade para você. a gente vai daqui. mas eu falei: pô. Não sei se ela já veio aqui com ela. E ele já ta fumando com onze também. E o que ela teve. Por que foi o seguinte.. Só não tem assim um apoio. eu tenho certeza qu e tá. ficou com ela.. no caso. Antônio. legalizei tudo.. Só tem aquela minha irmã. só que não morava junto. eu passei a guarda para ela tudo direitinho.. Esse daí o que me deixa preocupado é que ele não tem inteligência para as coisas que me . o pai já faleceu.. Com meu pai e minha mãe eu fiquei até os trinta. vai dali.. Eu passei para aquela minha irmã que veio com ele aqui.....acabou.. daí eu fiquei. Ela fazia o pré-natal normalmente.. Por isso que eu estou falando para você. A gente não tinha assim aquela. Pobre não tem. de cinco... quem é inteligente é inteligente pra tudo.. Mas tinha que ter tido. Já tem mais um mais velho também.. el a acompanhava bem de perto.. mas não sei se você viu. Ele respeita é pulso firme mesmo e coisa mais seria. não. esse tempo que ela veio morar comigo.. F umava desde os nove anos de idade. depois foi o tempo que eu amasiei com essa minha esposa.. a de seis e o outro que agora já tem quinze. não respeita... com quatro mês de idade. mas a hora que passar para as outras coisas. Eu não vi ele fumar.. mas a gente não é tonto. Só que daí dois anos e pouco eles já faleceram. Esse negócio de chine ladinha. Fui no Fórum. Eu vou falar para você. Agora em 2000 ela veio a falecer. Deu enfisema pulmonar.. Não teve assim aquele planejamento.. 8 Eu continuei com ela e com a molequeca. Tinha uma novinha..

um do outro.. Vilma. ela passando pela psicól oga. a corda. ess a história. não tem jeito. Eu quero tirar isso a limpo.. eu tenho. sinuca sem bico. Eu to correndo.. manda fazer o nome dele aqui que ele não faz. Eu fiz essa denúncia e. Mas que.... Então.. né. Dr.. né. eu fui chamada.... Ver o que eles podem fazer por mim. emb urrada. Ele até é trabalhadorzinho. Você tem medo de estar sendo errada ao denunciar.. se eu não puder. E o pior é que eu. É um menino le vado. Então.. passei pelo médico o Dr. Só para você ver que não é uma falta de interesse meu: eu passando p elo NAPSI 1 ali. por que eu.. sabe. você acha que pode estar fazendo uma denúncia errada? Ah... sei lá.. eles brigam demais. eu espero que seja esclarecido.. Passei pela psicóloga. Também no caso dela. Tenho sim. espero que mude um pouquinho o comportamento dela.. pra amanhã ou depois que eu não conseguir domina-lo. Mas só que o nervosismo dele. não falar: mas o cara também não correu atrás . Você está denunciando um caso de violência sexual? É.... Quando já tem a menina lá na segunda.. porque você está aqui no Conselho? Como você chegou até aqui? É.. Então. fez os exames nele.. Se eu puder. para ver que problema tinha. Por que.. eu espero que sei lá.. né.... no meio daquela briga. Quantos filhos? . mas não deu nada. não é isso? Então.. precisa de ver. isso ai me preocupou bastante. Eu corro atrás... como começa o dia.. Plínio fez tudo. né.. só que fizeram exame de cabeça. o Dr.. é psiquiatra. E. Então. assim. Sandra? Como é o dia-a-dia de vocês.. né. tudo. 10 Entrevista 2 Sandra. toma o café da manhã. com as crianças. como a gente amanhece.interessa... como fala.. a gente tem medo também de fazer uma injustiça. por que olha. Agora . como termina. Plínio. vendo o meu lado para ver o lado dele. E. Nesse caso. Sandra.. dependendo do que for eu não quero que implanta raiva. só espero não estar cometendo nenhuma injustiça. serviço público. da hora que levanta até na hora de sair. E como mãe eu fico numa. conta pra mim.. A psicóloga lá falou para mim: o problema dele é falta de interesse.. acho que você conhece bem o NAPSI. menina. Como é que é lá na sua casa.. a falta de interesse pela escola e a falta de inteli gência. faz a tarefa dele. 1 Núcleo de Atendimento Psicológico.. elas vão me ajudar a limpar a casa... Nesse caso seria isso.... esse negócio de.. aquela briga pra ir pra escola.. é isso? Ah. aí. bom...... Tem muita troca de idéias..... tem oito anos. normal o caso.. pra fazer um trabalho em casa é.. 11 Bom.. a Dra. É?! Ah. mais de coração. é. depois é aquela briga pra ir pra escola.. E. Por causa de uma denúncia que eu fiz do meu marido e da minha filha. não conta até cinqüenta. né.. Porque eu achei que tinha sabe. amanhece todo mundo de manhã cedo...

tem dia que não.. Aí. briga com ela. Daí eu brigo com elas e depois eu não sei o que fazer.. eu não sei o que fazer com elas mesmo. Três estão na escolinha. 12 enrola.. Quantos anos elas têm? Camila tem treze. enrola. depois chega da escola. Eu tava falando para ela que eu.. E. assistir televisão. não sei . E assim vai. ai janta. Ai a Camila fica nervosa. ai fica. E como é que é com o pai? Como é a relação deles com o pai? Ah. Tem dia que eu pego a cinta para as duas... Ela.. eu fico só olhando... a mesma história. se não. ele tá vivendo de bico.. ela quer que a Miriele faça. as duas: a Miriele e a Camila. Então.Quatro. pra não fazer....... peguei e fui no NAF 1 . Ai. Então. depois vai pra escola. Ai a Camila briga com a Miriele. A Camila não me dá trabalho. Porque cada um tem uma fase assim que me dá muito trabalho. Todos estão ai? A Nenê tá com um aninho. né. mas não adianta nada. o Luis.. fica uma batendo na outra. eles vão para a casa da minha mãe.. cansa também. depois vira para mim. ele tá desempregado.. tem hora que dá uma palmada. um fica mandando o outro fazer. O problema dela é que ela troca muito de idéia com o Miriel e.. Porque só a mãe. Ele bate com a mão. Ele sai de manhã e chega de noite. depois vai deitar.. Só que. fica em casa. né... só a mãe. porque ele quer que eu cor rija. se eles tiver acordado. A Mir iele enrola. E ele fica bravo tem hora.. Eu não sei o que fazer. ele chega.. Só que tem hora que a Cami la manda a Miriele fazer um serviço.... fala alto... E ai como você faz.. o que ele achar ele faz. né. Sandra? Ah. a Miriele manda ele fazer um serviço. Às vezes. tem hora que eu fico sentada. passar os três lá. nós assiste.. Esse é que é o problema.. ele sai e fica procurando ... e a Miriele tem oito. ele fica quieto. O Luis briga com a nenê e assim por diante. elas ficam brigando. ele não me dá trabalho. serviço municipal que conta com a parceria de uma instituição d ensino superior privada da cidade. E o menino que tem seis. ele chega de noite. Porque assim que eu der as costas começa tudo de novo. a gente v ai para lá. né. se eles tiverem dormindo tudo bem... Três meninas e um menino. fui passar na psicóloga lá. A Miriele briga com o Luis. Trabalha meio por conta. E ele chega de noite. ele fica bravo também com elas. então. se ela arrumar uma coisa dentro de casa. 1 Núcleo de Apoio à Família.. se tiver que ir pra igre ja a gente sai arruma e vai.. Ele trabalha de quê? Ah. né. E ele não. janta e vai deitar. E eu já quero que ele imponha a autoridade de pai.. né.. Agora . No meu caso. só a mãe.. Elas brigam demais. No dia que chega mais cedo vai na igreja comigo. Mas elas brigam muito.

passei direto. minha mãe nunca bateu. não agüentava.. Se eu tivesse que me dar uma nota...... não digo em todo s os casos de meninas novas que tem os filhos. e le tinha problema na fala. daí o outro é dezessete. Sandra... eu casei cedo. Ela dava as palmadas dela mesmo. né. nunca bateu.. né. Às vezes. E depois... dezesseis anos de idade. minha mãe mal me ajudou.. E ai você já teve ela nova..... menina... eu fico pensando. Só vi... mas não sei nem porquê. Acho que a gente fazia bagunça. para me ajudar.. não.. porque minha mãe não sabia fazer nada também.. E como foi a sua história. Você não lembra se eles eram muito rígidos. Apanhar não. nem nada.. E ai como foi sendo sua história de vida até você conhecer. Porque cuidar de uma criança com quinze. Eu casei muito cedo... essa parte da adolescência eu já pule i. E. hoje em dia eu penso... ela falava demais. Apanhar.. então. tem alguns casos que a justiça toma conta. Eu olho p ara ela eu penso assim: meu Deus do céu.. ficam brincando com ele ali. È.. Comecei a namorar com cat orze anos. não... você viu o tamanho que ela ta? Maior que eu. 14 E como que foi? Como vocês cuidaram desse primeiro filho.? 13 Bom. não brigam... eu acho que não é para qualquer um. então. eu acho que nessa fase eu passei.. Tive a Camila com dezesseis.. não. Então.. que hoje em dia.... Quantos anos ele tinha? Ele tinha de vinte e quatro pra vinte e cinco anos.. né. Quantos anos você tinha? Eu casei com quinze anos. Meu marido fala que eu falo demais. Minha mãe é muito faladora. Eu lembro que eu vi ela discutindo com ele.. eu e minha irmã... eu também lembro do meu irmão mais velho que. entre eu e meu irmão tem diferença de quinze anos. E.. não sei como eu não matei essa menina. Mas eu mal me lembro. Ne m ela. Deixa eu ver. ai você me pegou. porque será que a justiça não tomou conta no meu caso? Será que porque eu acabei casando? Eu penso assim. como era a educação que você teve? Olha. ele é que mais brig va com a gente.. ai eles fica.. minha educação como foi.. se vocês apanhavam muito. ela dava palmada.. na sua família. Às vezes. Ah. puxei pra ela. E acho que ele ficava bravo. ele não falava. Ai eu.. não tinha experiência com nada.. Porque meu pai. às vezes.. Pra você vê. nem meu pai. às vezes. Porque eu era n ova. Ele é bem mais velho que eu. qua ndo tava demais. brigar. t em nove anos. o dia que eles não tão nem ai. Ele fica bravo. Fiquei grávida logo dela. deixa eu pensar um pouco. Mas bater de bater. Mas eu não sei. eu penso assim: por que eu sei que.como não dói. então... né. então.. eu acho que eu me daria uma nota dez. eu olho para ela. . não. eu nunca vi meu pai e minha mãe brigando. Então.

nem fala nada. ainda bem que ficou barato porque foi de segunda mão. Nós dois ficamo : não.... Um rapaz. Ai ele pegou e pagou o vidro.. quando não jogava ia pra cas a da mãe dele. com uma pedra que dizem que foi desse tamanho. ai acertou no vidro do carro. Ele falou: então. ele não bateu nela. ter que pagar... né... E quando acontecia a gravidez. mas da Miriele. ele já aiu. como vocês lidavam? Ah. E.. Até para educar. e. também não vou bater. quando ele chegou. .. inclusive eu tenho que ir no médico pe gar remédio.. tirar sarro dela . se tiver que chamar a atenção de um tem que ser eu..... né.. né. Eu posso dizer que eu quis mesmo. nesse mês de dezembro. Eu sempre fui só nesse caso de cuidar das crianças.? Evitando. Ele raiou com ela. Meu marido sempre saiu de manhã e voltou à tarde. né. Mas Deus que me livre tá aí. Ele falava: fazer o quê . se eu bati nela. inclusive. Foi assim: saindo da escola.... E todos vocês quiseram. eu sempre fui só. foram vindo os outros... Às vezes. médico.. então. de quebrar o vidro do carro do homem.. sempre evitamos... não. É criança. Do pai? Não. Foi tudo acontecendo.. Eu falava: você não pensa nada? Ele falava: pensar eu penso. Ai ele falou: não . da nenê também. E depois foram vindo os outros. por mais que fique bar atinho. né. né. Nossa como me deu trabalho!! Muito arteira !! Ela é muito arteira.. a Miriele foi a única que eu quis... Deus que me livre . Ela. deu um sermão nela.... deixava vir.. meu Deus do céu. É. E como você lida com ela? Já que ela é a mais arteira. as molecadas gosta de zombar dela. os quatro. pelo que sei.. E como foi a educação dela? Ai. não participava quase nada. No começo. Tem hora que eu canso. 15 Olha. ele jogava dia de sábado.. ela f ez o favor de quebra o carro. foi a que mais deu trabalho. e ela tira a paciência rápido da gente. tá me dando muito trabalho na escola.. Eu falei que não... E vocês nunca usaram algum método para evitar. ela pegou uma pedra e foi tacar num menino. E da Miriele você quis. quando eu penso que ele tá na casa da minha mãe. Aí o rapaz foi em casa. ir buscar... eu deixo com uma ou outra pessoa. só eu mesma.. Ele deu um. Mas na matéria da educação....... Só que ele ficou bravo.. 16 Ele perguntou o que que eu fiz. gente.. Porque eu lembro muito bem que eu falei assim: vamos arrumar mais um . até hoje ele é assim..Como é que você foi superando essas dificuldades? Quem você buscou pra te ajudar.. mas fazer o quê? Ele falava assim só. na matéria de levar. É. ai.. Agora fica difícil. Se você perguntar de qualquer um. Ai eu falei pro meu marido.. do homem.. eu não sei te dizer . quando eu tenho que sair... Até f inal de semana também... tudo. Agora você imagine.

É mais por conta dela. então ele não escuta mesmo a gente chamar. dele com a Miriele. não. então. pr a mim ela não fez nada. or exemplo. E eu já acho que e le tem que impor a vez dele também.? Então.. Ai eu tenho que tá no meio também.. Em relação a ele. Ele briga com ela.. na cidade acho que ela veio uma ou duas vezes com uma coleguinha dela. E o que é que você está achando dessa história toda. Ago ra não... não. só chamo. ele briga sim... só que.Ai.. só pra não ficar as duas para não brigar. Se eu perguntar pra e la. essa história.. Agora ela tá com o ito anos. ela entendeu. Às vezes.... tem que ficar chamando.. tem hora que eu chamo muito ele e ele não dá ouvido. ai eu não vou gostar. Porque nesse caso.. Sandra. Se eu perguntar pra ele.. nem ele nem ela fala mais nada... essas coisas.. Não me dá mesmo.. Como é que eu vou bater nela?? Ele chama atenção.. direito. Se eu tiver que sair . 2 Burica.. se eu deixasse ela sentada.. ele fala que ela entendeu errado. ir no mercado. se ela judia de alguns deles. Agora... Ai eu pego e falo assim: fazer o quê. Então.. Ele pode se irritar uma hora e acabar batendo em você.... e eu tenho que educar.. ele não me dá trabalho. ela gosta de pegar e unhar os dois. ela fala que não se lembra..? Eu acho que tem muito ciúme dela. E outra porque ele quer que eu pegue numa cinta... porque ela gosta. Ela diz que não se lembra mais. agora se ela tiver que ir na casa de uma coleguinha da escola ela vai. . ela é a que mais eu falo.... Quando eu tô só com o menino.. Agora ela tá moçona. fica o dito pelo não dito. Eu não sei. só que bater mesmo ele não bate. ela é muito malcriada pra ele. só que ele quer que eu faça alguma coisa.. ele fica distante dela. Agora a Camila também não me dá trabalho. eu fico na paz. E ele também não fica bravo com ela. Ela tá me dando mais sossego. Bola de Gude 17 Tem hora que ela faz. E como vocês estão lidando com isso. Então. E agora você está aqui por conta dela também. fora isso não sabe andar na cidade também não.... eu levo ela. ta diminuindo o trabalho. Como você está sentindo.. não fala assim com seu pai.... não. . Só que é assim: quando cada um tá longe de mim. quando ela era mais pequenininha. ai você.. a Miriele e o Luis. eu acho que ele falou alguma coisa que fez ela entender. né. eu não fico brigando muito com ele. ela te m a unha grande. ela ficava quietinha. ele acha ruim.. eu venho na pol icia. às vezes. eu falo assim: Camila. De lá pra cá. com relação à denúncia. eu acho que ela imaginou. não sei se você leu. você e seu marido. tá na fase de se envol ver com burca 2 . E agora ela sabe i r na casa da vó dela sozinha.. às vezes.. uma que ele fala assim que se bater. Agora quando tá com ela..

... Ele tá..... Ai ela me falou... Você denunciou no mesmo dia? ... doze. Ela contou pra mim e eu na hora não pensei nem que fosse verdade nem que fos se mentira.. Ela mesma me contou. Porque foi em out ubro. sabe.. ele ficou bravo.. ela ia fazer doze. e eu. isso.. ai o Crami me levou na Delegacia da Mulher e fiz o B.. chorou... A relação com a Camila é. a Miriele foi a que ele mais.O 4 . é assim. eu tô deixando o barco levar assim. o jeito de ele tratar. eu acho que eu fico assim meio de longe... não briga mais com um nem mais com outro.Porque a Miriele... tanto comigo quanto com as crianças. não. E não causou nenhum transtorno assim.. Acho que depois que ela fez doze anos. né. naquela hora.. Não causou nenhuma briga no caso de você ter denunciado? Não.. E com a Camila também não chega nem perto. nem liga pra ele..... Acho que é onze anos.. então? Ele tá... E eu tava pensando que qualquer coisa que ele me fizesse eu ia denunciar ele. aquele teatro todo.... Não pode bater. é um jeito só.? Ela tá com treze. e e não agrada nem mais um nem mais outro. ele arrumou toda a roupa dele pra ir embora.. eu não pensei duas vez es para agir. Ele tá sendo acompanhado pela justiça. Mesmo depois da denúncia? Ela. Então.. Ou em novembro.. Isso. eu já tava com raiva dele. Então. Ai de tarde eu já fui no Crami 3 ... com você? Não. onze anos.. Então.. é.... ela acha isso. Em outubro? Isso.. porque agora ela tá grande e ele tá vendo que ela tá impossível.. Ai inclusive os dois pequenos choraram também. treze.. Nem comigo.. no outro dia. E então... porque ela faz em janeiro. onze anos.. iss o. gente. eu falo assim: o que você pensa de seu pai? Ah. 18 E ele nem tocou mais no assunto com ela. tem hora que ele cha ma muito a atenção da Miriele. vai fazer catorze. Não assim.. no dia que eu falei pra ele que eu denunciei. E ai como é que você soube? 19 É. então.. Porque é o que eu falei. né. como está? Ela mudou muito? Ela não diz nada. E a Camila..... a que ele mais defende. pra mim..onze. Agora não. Eu espero que a justiça me ajude a saber o que fazer..é. assim: não pode fazer nada.. porque eu não sei o que fazer. eu ia brigar feio com ele. de tanta raiva que eu tava com ele mesmo.. todos eles. desde nenezinho.. sei lá. Só que eu fico.. eu senti até dó. foi a que ele mais.. porque como mãe e como mu lher eu não sei o que fazer mesmo. Disso ele não toca no assunto mais.. Na época ela tinha o que. a onda levar p ra ver no que vai dar. deixa eu pensar. eu acho que ele é um veio babão. você levou a sério a fala dela? Isso. onze.

Mas você sempre trabalhou ou nunca trabalhou.. Nem esperei ele chegar pra tirar a limpo com ele.... e ela tomava cont a da casa....É... Eu tava grávida. pouco ficava.? Ah.. ela e eles. né.. por causa de outra mulher... e na creche também.. ele levava pra casa da minha sogra e deixava lá as crianças........ Com eles três os problemas.. não.. Eu nem perguntei se foi isso... também. quando ela tava com dez anos e eu tava trabalhando.. ela tomava conta da Miriele com cinco anos. E seu marido também ficava na casa ou só ela? Não. um monte de coisas. Ele trabalhava também. Eu parei mesmo quando eles tavam com dez anos... Por conta de estar com raiva dele? É.. trabalhando. Uma briga muito feia mesmo... foi uma briga que deu policia.. E ai você parou de trabalhar? 21 Ai eu parei porque eu vi que tava dando muito.. E na creche. dois ou um.. Sem carteira registrada faz um bom tempo que ele está sem.. Na época. tomava conta do Luis com três anos. eu fiz assim: eu trabalhava por dia.. mas mi nha mãe saia muito.. Nem como foi. Não trabalho porque eu tenho a nenê. minha mãe também olhava. serviço público. Mas ele não trabalhava fixo.... porque.. nessa época? Não. Isso por conta de um monte de coisas. Não foi isso. aonde é que ele estava na parte de casa. assim. eu sempre trabalhei. 20 E eu guardei.. tava pensando em me separar d ele. Só que ai.. estudava. tava com raiva dele também. eu fazia faxina nas casas. eu já peguei e já fui denunciar. el a também brigava muito. o que ela tinha pensado d o que ele falou. dois ou um mês antes...... ai eu arrumei uma creche. 3 Centro Regional Atenção aos Maus-Tratos Infantis. quando a gente brigou. E você trabalha hoje. ele tava... ela tav a com dez anos.... Pra conversar com ele direito... Então por isso.... o que que ela pensou. ela tomava conta da Miriele. E.. mais que n a mamadeira.. E ai com isso tudo.. ele tinha bebido um pouco antes. E eu queria trabalhar. Porque eu vi que ou eu trabalhava ou eu che gava em casa e encontra um pedaço de cada um.. eu xinguei ele. eu não pensei duas vezes pra denunciar ele. A gente brigou.. 4 Boletim de Ocorrência. E ele tinha falado de outra mulher pra mim e eu não gostei... fui guardando.. E ele não ficava em casa nunca? . Porque a minha vizinha tomava conta pra mim.. s abe. né. a gente tinha brigado dois meses antes. ela... ele saia. brigavam muito.. . Sandra? Não trabalho... desde que mora com ele? Não. foi daí pra cá que começou mesmo os problemas. ela ainda mama no peito. eu não perguntei nada.... Às vezes.

. era a Camila. E essa foi a primeira denúncia que você fez e depois não aconteceu mais nada. eles brigavam muito. E eu tava ficando cansada também porque tomava conta de casa.. 22 Houve uma época. ficavam belisca ndo.. não dava pra cuidar... o mais cedo que eu saia era seis horas. M as mesmo assim não deu. Ai eu tive que abandonar.. O menino ficou doente. que ela dava comida quando eles sentiam fome... ela ficou doente. e saia. paro de trabalhar.. direi to. porque ela também não tinha. Ela....... Mas ela te conta essas histórias.Não..... foi. Ai ela disse assim: que ele tinha falado assim: que o que ela queria mesmo era u m bananão . ai elas ficavam até meio dia. quando ela era mais pequena. faz três anos que estou sem serviço. né? Ai eu falei pra ele: olha. porque eu chegava oito horas da noite. Acho que bananão que falou. olhava eles acho que até umas dez onze horas.... não sei. Só essa mesmo. lev ava. a Miriele ficou doente... Foi assim: ela disse que estava comendo uma banana. nisso. falando de uma banana. a Miriele... Nunca mais.. A Miriele teve anemia.. Que idéia que uma criança de dez anos vai ter pra tomar c onta de casa e ainda de duas crianças.. ai eu não lembro. as vezes c ansada..... quando ela lembra assi m. depois eram as criança s.. não.. por causa que não se alimentava direito.... Eu falei: ou eu saio. mal via eles.. oh.. Ai eles. que eu sei.. ele levava. Então. ela entendeu que. Eu não me lembro direito.. acho que quando eu est ava trabalhando mesmo. Eu saia deixava ele lá. vou ter que. Eu falo para eles que tem que ser mais amigo da mãe do que do pai... mas não. não sei direito.. Eu sei que ela entendeu outras coisas. ela maliciou. ele tinha falado se ela queria uma banana. pro lado da malícia. eu chegava em casa. hoje eu não vou sair pra ficar com eles. Ai uma dessas minha patroas queria por mês. e meu marido também pra fora.. ai eu comecei a trabalhar por mês.? Conta! Porque eu falo para ela que é para ela me contar tudo. é.. E eles fazem isso.....? Mais nada. ele ficava lá.... ai. Uma vez. Ficar em casa pra dizer.. paro de trabalhar por dia e começo a trabalhar por mês ou eu pa ro de trabalhar de uma vez.. Então assim. Sandra? . Ela maliciou isso.. daí eu pagava ela pra ficar com eles. Nisso. Meio dia levav a eles pra casa da minha sogra ou senão deixava com o meu vizinho... Ela diz até hoje em dia. Ai eles pegavam la tomavam café.. eles comiam pão. gente. porque tinha banana em casa... e vai ficar mais até o nenê crescer um pouco. Eu não sei te explicar... Ou eu saio do serviço. o menino acabou ficando doente porque eles não tinham horário pra comer. Ai tinha a creche de manhã cedo. viu.. Ai falei: ai meu Deus fazer o quê.. Eles chegavam cedo e faziam a janta. tem que me falar. quando não era ele. ou de qualquer outra pessoa. De qualquer coisinha que ouviu no meio da rua.. parece..

.. Então. não tem problema. Ai. Ele me ouve muito. eu tive um problema com a minha filha. desestabiliza tudo. sempre procura o melhor para os seus filhos. Agora não. Ele sempre foi de beber. namorar o menino. vai sair . E se você vê que seu filho está desviando para um caminho que não é legal. ele acabou deixando.. não aceitou. Tem hora que eu penso: eles estão mais apegados. os pais. quem fal a sou eu.. sabe. você tenta puxar. 23 Ultimamente tem sido assim? Não! Parou mais. está tudo tranqüilo. Inclusive. Ela m itas vezes não aceita. Mais ai. Mas só que ele não fala alto. Ele. Vai uma vez no mês. a gente. vamos lá. Depois dessas brigas.. Né? Então. Ai começou aquele negócio assim: ela querer sair com ele: não..Eles fazem! Nesse ponto ai.. conversou. é que a gente sabe o que é o melhor para ela. Ele é explosivo assim. aquela coisa controlada. Porque você está aqui no Conselho? O que aconteceu? Ah.. quando eu tive a nenê. . as crianças estão tranqüilas.. Depois que passa você vai e conversa com ele.. Inclusive agora ele está dando de ir mais na igreja... hoje em dia está tudo quieto.. Tem dia. A maioria dos pais hoje em dia deve e star tendo esse tipo de problema. O pai dela. É onde gera as brigas. a principio. ninguém fala nada. com essa história toda. Ele às vezes faz isso. Ai ele fala uma coisa. Né? Tem quase dezesseis anos. Começou assim: ela quis ter um namorado. E como é que você está agora. sabe. No começo. o meu marido ele é muito de ouvir. saio da minha tranqüilidade. eu acho que para mim tem que falar tudo. até . mas tal hora eu quero em casa. Ela gosta que as coisas fiquem do jeito que ela quer. ouve muito a mãe dele. repe te. mas na hora. Isso ai foi mais uns meses atrás. Sandra. sei que eu quero que falem.. 24 Entrevista 3 Bom.. Ai ele briga. Não é que ele briga. não é verdade? E. de u ns tempos pra cá. Mas não é que tem que ser do jeito que a gente quer. .. de tanto conversar com ele.... nós deixamos. né. De noite ele bebe.. graças a Deus... Ele não briga... teve uma festa no Vitória que chama Vitória Rock . Muito g eniosa. se alguém falar que são fofoqueiros ai. Quando foi dia 17 de abril. Ela sempre fala assim: tudo tem que ser do jeito que vocês querem .. eu acho que cada dia eles estão mais apegados com ele.. passado. agora.. né.. Ele fica repetitivo e eu.? Ai. Eu não sei se é certo ou errado. Eu também fiquei mais quieta com ele. E el es.. aquietou mais. né.. Difícil. ele é de ouvir. ele bebe. Ele também está mais calmo.. eu estava muit o estressada com isso... quando ele está com a cabeça quente. O m enino foi lá em casa. ele fala. fala outra. Elisa. Os amigos pagam. digamos assim. Depois que veio esse ano de 2005 ele parou mais. Ela sempre foi uma menina assim um pouco autoritária.

eu consegui a vaga.acho que o Conselho Tutelar devia fechar aquilo. Eu cheguei em casa ela tinha ido realmente e tal. no sentido de estudo.. Porque ele estuda na mesma escola que ela.. o pai: não. a mãe do . nós deixamos ir. Formatura de oitava série. Só para você ver como ela estudava no Ernesto. Elisa? Porquê? Por causa disso... Falei: Não. Mas eu tenho um gênio um pouco forte também..... no Ernesto Monte. Eu achando que ela tava na escola.. Quando foi umas oito e pouco da noite. Ai.. no mesmo horário. ela chegou em casa com esse namorado dela . Até.. saiu com uma pessoa e já me dá um fora desse.. ela sabe que a escola lá é boa.. Tanto ela como e le. né. né.. Poxa.. A gente nota quando os filho tá diferente. ela tomou. porque ela não é dessas coisa s. não é isso. então. porque eu não quero mais que namore. depois eu vou falar para você. Não. não é brinquedo não. Ai ela já achou que eu tava mandando. porque. à noite. a assistente social que cuidou dela no abrigo que ela teve ai.. E assim foi.. Só para você ver que co isa mais linda do mundo. Você sabe como é. calhou. Cabeça de adolescente. E virou aquela salada. Ela: não porque vocês querem tirar eu dele. 25 E nesse meio tempo.. falei: Filha.. Ai. porque a senhora que afastar eu dele. Isso foi a gota pro meu marido proib ir o namoro. Não foi isso. que depois a gente conversa . Porque o que tem de criança dando trabalho pra pai e mãe por causa dessa festa. Né? Falei: então. Quando foi terça-feira passada. no Plínio Ferraz . eu vou. o que que aconteceu.. Mas não foi assim.. porque a gente queria afastar ela dele. Ah. . Por que ela esteve no abrigo... né.. Não tem um ambiente lá muito bom. ela já achou que eu quer ia tirar ela da escola pra afastar ele dela.. eu vou passar você para de manhã na Ernesto Monte... Então. amanhã cedo você já está no Ernes Monte. calhou de eu querer tirar ela da escola à noite. digamos assim. você não vai pro Plínio hoje porque não precisa. Foi a pior besteira que nós fizemos. eu vou tirar você da noite e vou passar você pra de dia no Ernesto Mont e Essa daqui é o álbum de formatura dela. . ai. Agora. minha filha... Porque ela sempre estudou no Ernesto Monte. assim. O Plínio Ferraz é uma e fraca. Só que nessa festa. né. porque eu vou. falou também: qu e ela mora lá perto. entendeu? Num sentido um pouc o autoritário... e foi pra escola.. Eu já vi que el a tava diferente.. se está com o menino. Ela chegou em casa meio aérea. Daí. não isso.. é que é melhor para você. viu.. Não é. não vou dizer que não. eu vou tirar você da noite. Ai tudo bem. minha sobrinha foi também. esse men ino. Inclusive. comprou uma garrafa de vinho e os dois beberam. namorado dela. você vai e depois nós conversa... ele deveria estar orientado.. Ai liguei pr a ela. Mas só que eu já vinha pensando nisso antes. ele ofereceu para ela. Ai ela falou: Não. foi pra escola. Não. Ai. tudo bem... O meu modo de fala r foi assim: Você vai. não foi. Por que aconteceu esse problema. precisa só um pouco pra virar uma bagunça. meu menino foi. porque.

depois eu fui. o Conselho trouxe. assim. E parou e falou pra mim assim: O pai tá ai? Não.. machucou o menino também... ela é uma pessoa assim.. eu usei mais pra me defender mesmo.. a mulher falou assim pra mim: Por que vocês proibiram o namoro d os dois? Ai eu fui contar o que tinha acontecido no Vitória.. que é uma psicóloga também. da minha cunhada. você entendeu? Ela freqüentava escolinha. né... Só que a mãe desse menino.. E eu tava sozinho em casa.. né. eu não criei ela sozinh . como posso dizer... que ela tinha chegado bêbada e q ue ele não gostou.... Então. Ai a sogra dela catou el a e foi pro pronto socorro.. eu acho que se eu não tivesse vindo com problemas já com ela. Ela ficou nesse abrigo. Só tem ela? Não! Tem um menino... sabe.rapaz. não foi aquele momento.... com aquele jeito assim. porque eu sai do serviço e. meu marido.. né.. sarcástico.. levou ela para um abrigo. ela.. eu sempre trabalhei.. ela e a Renata. a mãe dele entrou no meio. manda eles entrar .. aq uela coisa toda... de querer resolver as coisas. Ai comunicaram o Conselho. foi muito bem cui dada lá.. aquele drama.. Porque na verdade. 27 A minha sogra foi lá. e foi. jun mãe dele na minha cabeça. Casa de Nazaré.. minha filha foi cri ada dentro de casa. a gente tem boa índole... Então. Na hora. que é assistente social. né.. o padrasto do rapaz. Ele tinha ido na casa de um amigo resolver negócio de trabalho dele. E a Cássia.? Olha. Não.. Bati nela... a minha cunhada foi lá. o menino entrou no meio.. Ai eles entraram. E eu não sou desse jeito.. porque a mãe do Caio e o Caio tá aqui pra nós resolver esse negócio . Que ela foi. até a Sandra que tá atendendo a gente. Se mpre tive muita ajuda da minha sogra... tem um tom meio. a nossa família é grande. O que aconteceu? Ai. Como é que você foi se virando com a educação dela..... eu acabei batendo nela.... até graças a Deus. Ah.. até a minha cunhada tá ai comigo.. Tudo bem. E ela me denunciou. Ai. Ai eu olhei pra ela e falei: Você tá grávida? Eu tô! Por quê? Sabe? E foi ai que.. o seu p i não tá.. tudo bem. de terça pra quarta. você entendeu? Na verdade. começou a conversar com a gente. é unida. 26 Não tá. E tal.. Eles fizeram uma análise do caso e achou que ela não tinha condições de voltar pra casa.. eu saberia lidar com essa situação. falou que não tinha nem condições de e a voltar pra casa.. Né. Ai ela falou assim: Não porque os dois aprontaram! Ué! Mas aprontaram o quê? Aprontaram. parquinho. né. pousou na terça. Ela não queria voltar pra casa. el a ficou lá.. Porque veio todo mundo em cima de mim. não tenho do que reclamar. né. Você entendeu? Porque a minha filha não foi criada assim. Ai acabou que ela. ve io trazer eu...... na sexta-feira eu fui lá e tirei ela de lá.. eu sempre tive apoio. ele. Falei: Então. na quarta pra quinta.. Entendeu? Como é que foi a educação dela Elisa? Como foi quando ela era criança. ela saiu correndo de casa junto com ele. meu marido não tava... nossa aquela moça é maravilhosa. que ela tava grávida que eu tinha chutado ela..

né. de uma p rima que é mais ali. e ela: não.. e essa determinada amizade que eu to te dizendo. na casa dela. O meu marido. e agora. sempre né... Eu sou faxineira. e a gente ta se segurando para. digamos assim.. né. não aceit ei. ....... você vai ver que não tem pessoa melhor no mundo. se você falar com ela. você tem que respeitar .. trabalho de segunda a sábado... Porque se a gente não trabalhar não consegue . ele é de falar sério. então. de uma pessoa que você conheceu ontem.. Foi quando a moça do Conselho Tutelar falou: Não. depois a gente f i ligar as coisas. e eu não gosto que fique emprestando roupa. E foi assim: ela queria se envolver com amizades que não tinha condições. ele pegaram e foram no Conselho Tutelar.. a gente não queria ela envolvida.. mas também foi essa única vez.a.. você entendeu? Andar com roupas que a gen te não aceitava. não! Eu tive um problema semelhante com ela quando ela tinha treze anos.. Não... quer dizer... Nunca teve esse problema de bater como aconteceu agora.... a intenção dela qual era? De ela falar pra mim que estava grávida. tá. Agora.....? Você entendeu? Eu sou t pai. fica mais com o seu marido.. Ela fica sozinha.. Ai vocês chegaram a se agredir. Agora. esse tipo de coisa. .. Eu tive que chegar a ter esse tipo de coisa com ela. Não! E ela fazia pirraça... faz bastante hora extra também. de uma tia. A intenção dela. ela ainda continua. eu não aceito. porque eu também não agüentei. Você entendeu? A minha sogra.. Meu marido trabalha... Eu acho que cada.. não gosto dessas coisas. Então. Eu morava com a minha sogra... foi isso que aconteceu.. 28 você ter as suas coisas. ele armaram uma situação que acabou não dando nada certo e só trouxe problemas pra gente... porque é minha amiga. Como eu não fiz isso. sempre o pr imeiro filho a gente sempre se enrola um pouco.. ele nunca foi de bater. Porque ela é uma pessoa maravilhosa. Mas foi muito difícil pra você. porque... Das sete e meia às seis. De jeito nenhum! Ela vai para um ab rigo e só quem tira ela de lá são os pais dela.... Autoritário! Fala alto! Vo cê entendeu? Não.. marinheiro de primeira viagem.. mas com a minha sogra do lado não tinha c omo se enrolar. Vivia emprestando roupa.. Como é o dia-a-dia de vocês... Mas de bater também ele nunca fo i. Você entendeu? Então. e eu falar pra ela: junta suas coisas e va i embora com ele. . Ela está grávida? NÃO!!! O duro é que nem grávida estava. Você entendeu? Então. o que você quer da sua vida. eu não criei ela sozinha.? Na criação dela não foi porque eu tinha a minha sogra.. achando também que iria me denunciar e que ela poderia ir embora com o menino..... a não ser que você empreste assim. pra você ver. eu sempre tive apoio.. . Elisa... Você entendeu? Então..... você está pensando o quê... no pronto socorro.

Então... Se eu falar pra ele: oh. o meu marido falava: nossa.. me ajuda ... Né? E como é que foi a sua vida. E você educa como você foi educada. E com relação ao seu menino? É tranqüilo? Nossa! Meu menino é uma criança assim super calma. Porque. Porque ele não bate. era difícil. Eu não ter pra dar. Você trabalhava junto com ele. não. 30 E a sua mãe? Minha mãe também. difícil. Eu acho que a educação de antigamente era bem pior do que a de hoje.. 29 Você sempre trabalhou? È! Eu sempre trabalhei.. Quantos anos tem? Tem dez anos! Agora. Elisa... A Paula. e eu junto com ele. não queria. eu quero dar pros meus filhos uma educação diferente da que eu tive. dedicar aos meus filhos.. sim... Agora. Eu tive problemas com meus pais sim. ele deixa pra mim resolver..... eu falo: exatamente. catava papel na rua pra sustentar os filhos . o tempo que eu tenho. Nós temos um consenso. eu tô com fome. eu prefiro trabalhar.. E como é que você foi educada? Era muito rígido.. Então ele não podia machucar a pele porque daquela feridinha ia se alastrando e ele tinha que amputar. Eu não tento passar por cima dele e ne m ele de mim. ai meu marido fala: nossa. Elisa. com 35 anos.. não. .. Teve algumas épocas ai que eles ficam doentes. Né. a Paula.. já teve época s de eles ficarem doentes e eu ficar em casa. mas sabia que ia ter um pouco de problema no futuro.dar o melhor pros filhos da gente.. mas resolver em que sentido.. como era co m os seus pais.. o meu pa i não tinha as duas pernas e nem um braço. como era a relação com seus pai ? Era rígido. eu aprendi muito ced o o que é a vida. porque ele é uma criança muito boa.. fui criada em cima de uma carroça. mas você não foi criada assim. ela era complicada. E ele sofreu algum acidente. e ele falar: mãe. ele tá ali..... desde criança ela foi agitadinha. tal. até o ponto em que eu consiga.? Não! Meu pai teve um problema chamado grangrena . em carroça. então. oh. Né? Tanto que sempre que eu tive algum problema assim com meus filhos.... E isso aconteceu? Com meu pai. então. quero um pão . sabe. eu procuro. ele não um braço.. a sua foi muito ruim? Nossa! Foi muito ruim! Foi muito rígida! A minha vida foi difícil! Eu comecei a trab . mas você tem que fazer alguma coisa.. Ah... as duas per nas e ainda faltava o polegar da outra mão. você casou cedo.. ela sempre trabalhou.. Ele continua do jeito que ta.... Você entendeu? Assim também o que ele falar também é respeitado.. assim antes.. Elisa? Como é. né. ele não faz nada.. Não adianta eu falar: não. eu não tô dando conta. Minha mãe... A gente sempre até sabia. Não! Ai que eu ia chegar no ponto: quando eu tenho algum problema com eles. eu não vou trabalhar pra ficar com você aqui em casa.. Meu pai quando faleceu.. com meu fi lho.

. você entendeu? Ela teve a . contou. Ela sempre me falou dos namoradinhos de escola: ai. certo. E le tinha cavalo. tem doze e por ai ia. falava você tem treze. a gente financia ai um carrinho. maravilhosa... não tive. quando eu fiquei menstruada acho que uns dois anos depois.alhar muito pequena. Isso não vai impedir de você namorar... assim. Isso hoje né. eu preciso ir no médico.. eu lembro da dor que eu sentia quando meu pai bat ia em mim. se você tiver uma relação sexual com menino você pode engravida .... ela estuda. assim. sempre foi assim.. Tanto que.. sabe. Você chegava a apanhar muito também? Ih!! Meu pai colocava a gente de castigo ajoelhado no milho. a gente senta e conversa muitas coisas... você tira a carta de mo torista pra você. Estudo pra mim é em primeiro luga r.. Eu tinha vergonha d e contar.. ... vem.... mãe. vestida de noiva. imagina só quando você tiver com dezoito anos.. eu quero que eles se formem...... as estribeiras.. você entendeu.... você pode estar trabalhando.. conheci um m enino na escola. então: agora é assim. . E você consegue conversar com ela? Nossa! Eu sempre falei pra ela.. é porque é muita coisa: vem .. Você já tem seus cursos... E ela consegue conversar com você? Ela consegue. já está no primeiro ano de colegial. E eu não faço isso com meus filhos. às vezes.... eu tô com uma cólica. eu tô com corrimento. Você já pode tirar carta de motorista. você explica. Sempre foi.. eu parei de estudar na qu inta série do primário. Eu fal o pra ela: minha filha.. vem. olha. ai mãe.. E com sua mãe como era. eu não tive uma relação aberta com minha mãe. você pode se considerar uma mulher. você já tem seus diplomas.. eu não quero fazer isso! Isso que acontece. ..... você entendeu? Então hoje. ant es.. você acha que eu vou fazer esse tipo de coisa com meus filhos? Quando eu ten ho que levantar a mão pra um filho meu. Era assim! Então. Isso é o que eu sonho pra ele s. o jeito dele educar a gente era como se ele tivesse lidando com cavalo. né.. ....... falou. Mas só que faz as coisas no tem po. você pode arrumar um empr ego ótimo.? Muita dificuldade. a minha menina ela faz curso de espanhol. ficou menstruada... tô com um problema na escola... de nada. eu quero que minha filha case linda. pra ela... 3 2 Diferente do modo que eu tive com minha mãe porque minha mãe foi descobrir quando eu tive. ela faz curso de informática..ai mãe... você senta.. Não tenta passar por cima do tempo .31 Pra trabalhar. Coisa que eu não tive.. o que eu quero pros meus filhos: eu quero que el es estudem.. Então... de eu perder. eu quero que eles façam cursos..... você conversa. tudo ai..pra trabalhar .... veja bem: você tem quinze anos. que tem quinze anos. eu e meus irmãos.

.. fui no médico lá perto da minha mãe e ele disse que era nervoso. Está enrolando. que ele me dava aque le papel pra assinar. Ai vai.. duas vezes.. foi minha tia que registr ou queixa. ele deu só vinte. nada dele. Eu tenho meu salário.. Até que foi chamado lá no Fórum pra ele acertar o ne gócio das crianças. esse rapaz é o tudo dela agora. um mês ele tirou mais de cinqüenta real das crianças. aquele negócio lá o . A delegacia. Eu subi nas nuvens.. aquela dor. e o tempo vai passando. fui pra casa da minha mãe passar uns dias lá. lá perto da ITE 3 . fingindo que ta doente. Tá bem. se um dia você for ter alguma relação. Já bateu na mais velha. da advocacia lá da ITE lá.... que ele tanto soltava pra baixo como sangue pela boca. P arece que chamaram ele lá pra dar bronca nele. então você tem que tomar cuidado com isso.. começou doer meu peito. Elisa? Olha.. quase que eu morri lá. ele foi lá. porque você está aqui no Conselho Tutelar? Porque o pai bate. Não vai com aquele que você achar que é porque às evzes não é.. ensino superior 34 E como a senhora chegou aqui no Conselho... a Laura. não sei se é úlcera que aconteceu no estômago dele.. não passou nem um mês nem nada. conversando com a moça lá.. Porque pra ela. mas não resolveu nada. negócio de criança lá o .. eu sou viúva. Sempre foi assim. 1 Delegacia da Infância e Juventude 2 Centro Regional de Atenção aos Maus-Tratos Infantis 3 Instituição Toledo de Ensino... Ai tudo bem.. com medo de. escol e a pessoa certa.. eu acudi tudo. Não tô vendo nada. . Dele p ra mim. Pensei que ia resolver o caso... 33 Entrevista 4 Maria. lutei lá e não consegui nada. Ele teve derrame. nada. enrolando.. a DIJU 1 ? Não...... fiz de tudo.. Ai... lutei.. eu tenho o meu salário que eu me viro.. dona Maria... Tá. aquela dor. Ainda exigi dele que ele me dava o que ele tirou.. ela me passou pa ra mim o advogado. o Crami! Ai.. eu não preciso. . Me deu calmante. Ah. E até agora não tô vendo resolução.r.. aquela choradeira. vou te falar a verdade: ela se sentiu acuada. acho que é Crami 2 ... Mentira! Porque ele não está doente. Pedi até pra internar a menina em algum lugar pra ficar longe desse cafajeste dess ... teve um negócio. E como você avalia o porquê de tudo isso estar acontecendo agora. eu não quero nada.. estão estudando. eles fazendo nada.. A primeira. ai mandaram eu lá pra aquele tal de. Porque o Crami mandou pra cá. eu não quero recompensa. lá no ..

Fica falando que vai bater. o moleque falou pra ele: você tem que falar com a min ha irmã. Ele .. Ele nem subiu lá na casa. é um verdadeiro inferno. fui pra lá.. Quer dizer.. não sabe fazer as coisas direito e quer fazer as coisas e não dá certo.. e ele foi reclamar pro moleque. A minha vida... Ele bate nelas também? Agora ele parou.. o que você faz. Deus que me perdoe falar. quem fica na cas a. não sei o que eles fazem. tem aquele negócio pra você por uma coisa e aquilo ali pode ficar esperando. muitas vezes.. muitas vezes. está chovendo tudo dentro do quarto.. desaforo.... agredir. tudo é eu que sou a culpada.. que nem agora. Ah. que não tem lug ar. É um inferno a bsoluto. Agora ele fica fazendo é. E o moleque tá ficando revoltado. E aqui no Conselho o que acontece? A senhora está dando a queixa da agressão que o m arido da senhora fez contra a Laura. eu preciso de uma bacia. E as outras crianças? Uma tem catorze e outra de treze. E ele agride o menino também? 35 Ah. ele falou que ia arrumar.. dona Maria? Nós somos em cinco. trouxe o safado do namorado dela. fala que o moleque faz arte.. E como é o dia-a-dia de vocês.. peço outra e eles falam que não pode. Eu fui lá pra casa da minha mãe que eu sou alérgica a qualquer tipo de pó. se eu vou lavar uma roupa. Vamos dizer. com a Laura. as crianças! E você acha que ele olha ? Olha nada. eu tenho que me virar. sabe! Eu tenho que se virar que eu não tenho nada igual das outras casas. Agora ele invocou com o menino. aquelas coiseiras. Maria. em casa não tem nada disso. Conta pra mim um pouquinho. Se eu vou reclamar qualquer coisa. Ali tá.. Ele é pai de todos os filhos? Ele é.. fazer aquel e monte de coisa. Bom... el e fala que foi o menino que subiu lá na casa. ele começou falar de querer agredir. ele nã nem saber. ig ual na tua casa: você vai fazer uma coisa. que eu não tenho nada com isso . o moleque só tá atrás de mim. E vira e mexe eu falo: olha. eu não tenho. já arrebenta o varal... eu peço alguma coisa.... ele não faz nada. é tudo.. Se seu quero fazer qualquer coisa. o que ele faz. não tem lugar de por as coisas. Quantos anos tem a Laura? Ela tem dezessete. foi dormir em casa com ele e trouxeram u ma televisão. Tudo.. Eu tenho que juntar. então. mas ele achou ruim com o menino. ai um dia o moleque enfrentou el e lá.e namorado dela. muitos maus-tratos contra o menino... Que o menino é mentiroso. Ele mesmo.. vai bater... ai a menina veio.. é isso? Foi até registrado na Delegacia da Mulher foi tudo. Se existe inferno tá lá dentro da minha casa. Vocês moram em quantos lá na casa.. nem na escola vai mais.

a causar alguns problemas pra minha mãe. E como é a relação da senhora com as crianças? Como a senhora educa.... naquele frio. E eu vou falando..... sabe. igual eu falo pra eles: eu quero criar vocês.... naqueles altos. Antes. como a senhora cuida. vez em quando. nesse ponto. tudo no s erviço da mulher. do jeito que eu fui criada .. E eu falo com eles: não faz isso... tudo. ai.. Ele tá encostado no INSS. e o vosso reino.. fui adulta... sair. E outra coisa dele também: ele é muito mão de vaca .... nada .. vivem mendigando. mas s ubi.. Maria? Disse que teve aquele tal de derrame. .. Isso daí também é uma coisa contra a lei..... faz máquina de algodão doce. depois que eu já era adulta. ajudando e nada. Vendia sorvete e algodão doce. Laura. bem dizer. não. Até uma vez. eu me revolto só de pensar isso daí. eu briguei com o moleque.. vou ficando nervosa. tudo.. Até junta lixo p ra vender pra poder ganhar uns trocadinhos.. eu não saia de casa. O que ele teve. que ele fazia assim pra vender. Ele constrói? 36 Ele faz. Ele é desses que venha a nós.. aquilo lá explode.. falando. sapato dado pelos outros. Queria.. Depois veio falar pra mim que sumiu cem real dela.. bato neles mesmo.? Eu falo. Minha mãe falava.. Os coitadinhos. Não tem que ter uma pessoa estudada pra aquilo ali? E se aquilo lá causa um dano na casa de quem pegou aquilo ali? Junto com as pessoa s. eu pego eles lá. Nesse ponto que eu gostaria que o Conselho tomasse atitudes.. Ele dá pra senhora o dinheiro? Eu que pego. Nesse ponto! Eu gostaria que você mostrasse isso daí pra eles e falasse com eles pra eles tomar u ma providência. No serviço que ela arrumou. dou c ada surra. não faz. E eu revolto. é roupa tudo dada pelos outros.. o material das crianças.. as coleguinhas dela..ta lá quieto no canto dele.. e ajudar ele fa zer o algodão doce.. Fui começar a sabe. ela diz que não.. dei uma surra nele.. Pego no banco aqui. ela começou até roubar no serviço por causa desse namorado. serviço ele não trabalhava. 37 Eu fico nervosa porque assim: as crianças precisa de roupa. Ai a mulher lá falou que sumiu uma blusa e não sei mais o que dela. E é revolta em cima de revolta. eu e as crianças tinha que levantar cedo. ia uma tal de Priscila... falava comigo... Os coitadinhos ajudando. Só aquele salarinho.. a gente fala pra ela.. . nervosa. que não apareceu mais.. só dá um salarinho pras crianças.. parece que entra aqui e sai aqui. as crianças tinham que se virar com tudo... você não acha? Ele fazer uma máquina que precisa de gás e eletricidade e vender pros outros. tu do.. acontece qualquer coisa? Quem vai ser o responsável por aquilo? Ele não vai ter com que se responsabilizar. E agora que a Laura se envolveu com um cara que mexia com drogas desde os oito anos.. E fala qu e não pode trabalhar porque está doente.. Inclusive. ele faz isso daí. As crianças.

ele tinha outra e separou. né. Que nem. então.. Do falecido.. E como foi a gravidez dos três filhos. Eu quero mudar essa bondade minha pra um pouco de maldade e não consigo. soltei de vez... mas morreu afogado. Respeitei ele.. saia.. eu sem pre respeitei ele. o sonho de uma mulher.... Isso também foi um.. desde a sétima ela se juntou com essa tal de Priscila e co meçou a dar problema: até hoje não estuda.. ela quer ser a dona. não fale disso que eu abro o berreiro aqu i. E ai teve os três filhos com ele? Hum. Inclusive.. porque eu quero ser bo a. quer que compre roupa.? Ela conversa com a senhora. quando foi a Nossa Senhora perto de casa. é ser mãe na vida. Depois foi que a senhora conheceu esse atual companheiro da senhora? Não. a Laura mexeu nas coisas da mulher... diz que foi um negócio de roubo de moto.. um homem que gosta de carinho. não quis. se sofreu com a outra. Ah. blusa. a senhor a quis tê-los. 38 Quer que eu compre tênis.. E como é sua renda. acho que não é só de uma não. bom marido.Agora. não vou sustentar o seu. Voc não está estudando e porque que eu vou te comprar? Ah. porque isso daí dói.... Deus me livre. O que eu tô teimando é com o Mateus e com a Cibele. eu vi um celular na cidade por nove e noventa a senhora compra pra mim? E po rque que eu vou comprar um celular pra você. porque a .. dona Maria? Como foi pra cuidar... a Laura entrou na casa da mulhe r.? Como é que a senhora educa nesse momento? Ah.... Tive. um homem carinhoso.. isso daí pra mim é um roubo... Quer dizer. vai ser um bom pai.. com ela eu não falo mais nada. Porque ela chega em casa ela quer mandar. até toalha. ela se mandou. Eu já larguei ela. hum. eu dei bronca n ela. E como a senhora está conversando com ela? Como está a situação dela com pai. de tão boa que eu sou que tem hora que eu sou besta dos outros.. dona Maria? Um salário. Não sei. e foi o pai e o filho. eu su stento o meu. Sair de casa eu não posso sair. Antes dele morrer eu já conheci ele. grita comigo. é de tod as. a senhora compra um fichário pra mim? eu não sei. Você não pegou a tutela deles? Você que se vire com eles. Hoj e mesmo ela me pediu um fichário: ah. Se vai falar comi go.. pe gou o secador de cabelo da mulher. E a Laura também. mãe. E o que diz o marido da senhora? Eu falo com ele e ele fala: não quero nem saber.. Eu sou viúva. lençol. como eu vou te falar pra você? Porque a vida de uma mulher. deu fim no secador de cabelo da mulher.. você trabalha pra sustentar o celular. Ficou lá enrolando não foi pra escola. a senhora teve outro marido. mãe.. os dois menor. disse que a outra tacou cifre nele. E teve filhos com ele também. quer que compre tudo pra ela. Tá. 39 Eu falo assim. ela falou pra mim que diz que o namorado dela já matou não sei quem ai. e a mãe dela na cama.

maldade não te leva a nada. e u sei que você quer aquilo. E ele foi chamado para falar sobre isso? Disse que foi. vai criar direitinho. Ele quer trabalhar e juntar o dinheiro dele.. Então. de nada.? Era muito diferente de agora? Hum.. Eu pensei. Se eu vou tocar em qualquer assunto isso daí com ele. Naquele tempo meu.. Os coitadinhos desde que nasceu sempre usa dos outros. Pra saber como era uma gravidez só depois que eu fui ter a primeira minha . que na hora que eu tiver.v ocê não ficava. se tivesse dois adultos conversando. ele dá uma que ele é doente. Que eu e as crianças... No Conselho. gera vio lência. Ele veio? Diz que veio e contou a história do mesmo jeito. Todo lugar que chama ele.. Aqui ou lá no Fórum. que eu não sou dessas mães modernas que até tomam banho junto com os filhos tudo. Fala: não faz isso. eu falo isso ai pros meus. ele começa a xingar.. Só quando ficavam nervoso me davam um cacete porque eu me recia. eu dou.. Não é proteção assim que nem uma galinha que quando vê o perigo enfia os pintos debaixo da asa. Presta atenção naquilo e ped e pra mim. E só foi mentira. sempre resto. se você fica com vontade. não pede. que ele não pode trabalhar. deixa lá. nesse ponto que eu acho que uma mãe deve agir com os filhos e os filhos escut ar o que a mãe fala. oh.. E como eram seu pai e sua mãe com você? Ah. Que nem.. Eu nem toco no assunto com ele.. S você vai na casa dos outros. E porque a senhora acha que ele bate nos filhos? É ruindade dele. sempre quer ver o bem dos filhos. que eu fui saber o que era. Só depois que foi passando o tempo pra frente que eu fui vendo. tá tudo quieto.. eu nem converso. espera. Eu merecia. eles eram bons pais. não pega um doce. nós que somos culpadas. 40 E como está a queixa em relação a agressão dele aos filhos? Ah. E o que a senhora gostaria que fosse feito? . falam que eu sou uma mãe ultrapassada... E a senhora fala isso pra ele? Vocês chegam a conversar. ele já vem com pedra em cima de mim. resto. não mexe com isso. vai ter os filhos dele aqui comigo. a gente fala.. se eu não puder. ela nunca quer ver os filhos na desgraça. Mais pra trás... eu dô. Ninguém fala nada. eu vivia na barra da saia da minha mãe. E nisso eu venho sofrendo. não sabia nem o que se pass ava fora dali. Como eles eram bons pais? Uma mãe. Então. se era teimosa.. Sofrendo muito por causa disso. não pega uma bala de um estranho. você não ficava perto. E ele fala que ele gosta das crianças. Do jeito dele. Eu vou co nversar assim que nem to conversando com você. E como é que foi a vida da senhora? Como foi com seus pais. se você vê as coisas dos outros.. ela sempre quer proteger. Então. se eu puder dar. você não mexe..

. Aí ele falou que ia subir na casa da mãe dele. E como est ava no horário da palavra eu mandei esperar.. pra recado.. Ela falou assim: eu vou mandar um recado. pra você desfazer de mim. que não tem ninguém que possa tirar ele de lá. fazendo ges to pra mim andar rápido. isso eu tava sabendo. 42 Entrevista 5 Olá. Isso também me dá raiva. Ele quer saber.. já q ue você ta aqui eu vou falar pra você mesmo. E eu não quis fazer isso. Ai perguntei pra ela o que aconteceu e ela falou assim: o pai me bateu porque eu não quis.. onde eu congrego.. porque eu não converso com a vó. porqu e a outra. Tinha ido ela e a irmã dela. E ele sabe que a senhora está vindo no Conselho por conta da queixa contra ele? Agora eu nem sei se ele sabe.Eu gostaria que a lei tirasse ele daí. tudo que ele tem.. você não entra . 41 Ele fala até que quer que eu indenizo ele. ser gerada no ventre de tua mãe.. você não olha na minha cara.. ele queria que eu ajoelhasse pra ela e pedisse perdão .. com o irmãozinho dela... né. E o que as crianças acham dele? Ah. Eu não dô satisfação pra ninguém do que eu faço. né. né. com a Laura.. mal conversa os dois. Nisso. pedindo pra que o porteiro da igreja me chamasse rápido. pra andar rápido. a Thais chegou na igreja... o meu filho.. porque ela sempre tem o costume de interromp er o culto. então meus fil hos vão morrer de fome dentro de casa? Porque ele comprou a casa e colocou no meu nome. é muito difícil chamar ele de pai. Ele fala que não tem advogado.. que ele viu tudo. a outra toma dele e mete o pé na bunda dele.. meu esposo estava em casa. Qual o motivo de você estar aqui no Conselho Tutelar? Por causa da Thais. se eu for pagar pra ele. na hora que ela foi chamar a irmã dela. pôs numa sacola e disse que ia levar enquanto eu subia pra ig reja. ai ela ficou lá fora esperando. sabe. Aí quando foi dez pras oito da noite. Eu tava na igreja e ela tinha ido pra casa da avó dela. né. o Mateus. Ele com a outra lá do fundo... Ai o menino apareceu na porta e fazia assim pra mim.. Ai perguntei pra ela: o que que foi? Ela falou assim: o pai! . de sete anos. eu ia mandar um recado pra Talita. Ele chama ele de demônio. Ai eu saí pra fora. A irmã dela insistiu pra que ela fosse.. Peg ou uns limão no fundo do quintal. . Porque foi assim: ela falou que a avó dela pegou e chamou ela. Aí despedi dele e sai. Ai a minha sogra saiu pra fora e falou pra ela : entra! . a irmã dela mandou esperar. né. que eu te vi nascer.. ela tava lá fora chorando. no fundo da igreja. Ele tem medo da Laura. que ele compra. Fizesse ele sumir. só que falou assim: Eu não vou entrar! Eu vou esperar você .. você não conversa comigo. alguma coisa.. Só que ela não gosta da avó dela. Helena.. E o menino estava chorando. Ele mandou eu ir embora. ela falou: não! eu vou esperar aqui! . né. ele quer mandar na minha v da. ela estava com o corpo todo marcado de cinta. ela foi.

Com a família a li. né. ela pegou e falou pra ele o que ela falou pra Thais. Não fiz. né.. que nem eles fala assim: ele põe tudo dentro de casa.. E como é a vida de vocês lá. certo.. ele é bom até demais. mãe. Por já tinha três......... e.. Eu tô correndo todos os riscos com ela dentro de casa.. .. na Delegacia da Mulher. 44 Em outubro. nem se fala. né.. em partes.. sabe. meu esposo chegou. eu sofri uma agressão muito violenta dele. Mas assim. Ela que quis fazer a denúncia e vir aqui conversar.. Imagino! E como é que foi a sua vida antes de vocês se conhecerem? Você sempre morou aqui. . No que ela desceu.... Assim porque. isso muda muito as coisas.. ele quase quebrou o osso do meu rosto com um soco.. Faz. Não pode sair. tá em casa comigo... Ai ela desceu.... ela não tá. se já não é de conversar. quem vai educar ela sou eu. no dia.. ela queria por todo jeito chamar a policia. que ele quer tudo do jeito dele. E você denunciou essa agressão que você sofreu? Não fiz.. mas eles não querem que ela fica lá por causa que.. Quando meu esposo chegou.. 43 Nisso. Sua família ou a família dele? Minha família e a família dele é contra a gente por causa disso. Carinho. por agressão a mim mesmo. ele abriu a c asa e pegou ela.. então.. muito menos carinho. E ela queria no momento chamar a polícia. E.. procura um advogado.. a Thais era pra estar na casa da minh a mãe.. . certo. comigo. A minha família é contra isso. em partes de: vamos fazer um churrasquinho... Quem que. Ela falou assim: agora o negócio é comigo. Sempre foi contra eu denunciar ele na Delegacia da Mulher. certo.. né. Por decisão dela. É. É... é que nem eu tava falando ontem pra minha cunhada... Agora quem toma a decisão sou eu.. sabe.dentro da minha casa. que seu pai já tem problemas na justiça. às vezes... pela agressivid ade dele.. porque o meu esposo. Isso é impossível. O advogado vai lá. é comunicativo. Tá.... Como assim? É atencioso. e vai ser no meio da rua. . retira a queixa. Ela sempre falou isso. certo. Conviver com ele. sempre ele tem pedido chance. vê o que você quer mesmo. E estão todos contra eu . E como é que vocês chegaram no Conselho? Por sua decisão? Não.. Co mo foi . e eles não querem ver isso. Helena? Como em o dia-a-dia de vocês? É difícil. De forma que a minha mãe tava com a gua rda dela... Nós aconselhamos e la: Põe a cabeça no lugar. Mas isso não reflete no lado agressivo dele. é mesma coisa você pisar em cima de ovos e não ter que quebrar nenhum. Que nem... E ai vocês vieram pro Conselho... todo mundo com raiva de mim por causa disso ai.. Que nem. Ai ele mandou ela descer embora..... disse que el e ainda ia pagar muito caro por tudo que ele fazia por mim. certo.. Com as crianças ele nunca foi assim a quele pai de conversar... Mas o lado dele é esse daí. . ele é uma pessoa assim. E falou pra ele assim: se você não educar sua filha quem vai educar eu...

Meus irmãos era agressivo com a gente. Eu queria retornar tudo atrás. como foi? 46 Ah. Gostei muito dele. Pra sair da vida que a gente levava..... às vezes. devido assim. E disso daí eu venho levando. sabe. mas não tinha mais jeito. você pode imaginar como é. sabe: eu sempre sofri agressão! Mas não foi da minha mãe.. assunto de mulher. né. de conversar com você. qualquer um deles pode comunicar isso. Minha mãe ela nunca foi assim de conversar com a gente. . estudava.. eu não tive pai..... eu e meus filhos. Eu sempre fui de dialogar porq ue eu já sofri agressão e sei o quanto isso dói dentro da gente.. Ele falava pra nossa família que o nosso casamento não dava certo p orque eu fumava. Por tudo qualquer coisa: uma roupa que eu vestisse que ele não gostasse. foi difícil a nossa sobrevivência. acabou. E como é que vocês foram educados? Ah...... Pra uma mãe criar oito filhos. é super amigos.. Por causa desse cigarro. Ai. ele foi mostrando o que ele era.. Foi muito! Foi muita coisa..... foi bem difícil. né.. as pessoas não aceitam isso ai de mim por causa dis so.... né. Ele era terrível. e ele nunca aceitou mulher que fumasse. os seus filhos? Como é o relacionamento de vocês? Ah. porque minha família jamais aceitaria eu em casa.. E u sofri muita agressão por causa do cigarro. Eu nunca tive apoio de ninguém. Uma pessoa assim que pr a mim se formar. ai me deu um tapa na cara bem dado.. Porque em partes de educação dos meus filhos eu sempre fui sozi nha. você também. sabe.. Com quinze anos. eu já tive. Não. de comunicação. com oito filhos.. sabe.. Minha mãe ela trabalhava. Minha mãe é uma senhora q ue ficou viúva cedo. né. sabe. ela só fal ava: é pra fazer isso.. sabe.. porque eu sou de conversar.. Ai depois. por causa da violência dentro de casa.. dezesseis anos eu conheci meu marido e achei que era a solução. Os dois aceitaram. 45 Como foi o relacionamento de vocês? Ah.. sou do diálogo. s abe. Desse primeiro tapa. né. .... E a gente cuidava da casa. e. Ai eu engravidei da minha prim eira filha.a sua história de vida. E. porque eu coloquei um shorts e ele não gostava.. Você já estava grávida? Tava grávida de três meses. assim... Com q uinze anos eu tentei o suicídio. não era de conversa.. Ela não era de comunicar. ele rasgava no meu corpo.. foi o primeiro namorado meu. E como foi a primeira gravidez? Você aceitou? Ele quis.. E. uma semana de casamento tive decepção com ele. E como que eles são com você... eu comecei a fumar. Ai casei. isso e pronto. eu nem sabia. como foi pra você? Teve ajuda de alguém.. em mim. E pra educar o primeiro filho. De forma que eu não sou aquela mãe que bate no filho. Não sou da parte da agressividade. sozinha. Eu perdi meu pai muito cedo. E ai foi assim. a gente foi crescendo. até faca no pescoço ele pôs.. Só que foi assim a vida.. fiquei moça. certo. Nós somos super amigos..? Com meus pais. Eu sou de conversar e.

. Da Thais eu sofri muito.. ele chega. que vai em casa. As minhas crianças vão pra escola. Quer dizer. porque ele não tá conversando comigo. vai ser processado.. né. Perdeu espontaneamente? 47 É. Quando ele sai. né. Que nem. pra saber. a infância dele. Helena? Não. não gost a de mim.. Ele sai pra trabalhar. Ai à noite ela vai pra escola . Eu contei pra família dele. que foi a que eu perdi. Ai eu tive uma outra g ravidez. Helena? São três. E a mais velha de dezessete anos que trabalha. que ela denunciou ele. E ele sempre aceitou quando você engravidava ou ele não queria. Então. Tudo tem qu e ser do jeito dele.. E como foi o nascimento dos outros dois? Ah. E como é o dia-a-dia lá? Vocês saem de casa. Sei lá se é a criação dele.. eu contei pra alguém. com as irmãs. como pode ser assim. nada pode sair fora do que ele quer. Paulo.. Eles se retiram. depois da Thais. acho que pra poder contar pra ele. o jeito que ele é. e que. Depois eu tive o menino. muito dura também.. É por isso que às vezes eu nem entendo. eu fui na igreja já criou um caos. que provavelmente ele saiba da notícia? . de sete meses de gestação.. Ai a Thais foi mais planejada.. geralmente ele bebe. Porque a mãe dele não vai em casa.. E ele ficou mais agressivo por conta de saber? Não.. ele vai ter que responsabilizar pelo crime que ele cometeu.. toma banho. O que ele faz? Ele é pedreiro. aconteceu. não posso falar. Mas você acha então. ele sai ou fica em casa. Então ai fica difícil. porque eles vão lá pra especular mesmo. ele me pôs pra fora do quarto. Não. Eu falei que tava vindo no Conselho Tutelar da criança... E são três filhos. Ai de final-de-semana a gente vai pra igreja. Não.. porque ele não gosta que eu v ou na igreja. já porque. Então.. de sete ano s que eu tenho. Ainda conversei sábado com o irmão dele: fica difícil. eu acho que eles devem ter passado isso pra ele.... e se sair eu crio problema. em problemas assim. Sabe aquela pessoa assim.. ele procurou me agradar o máximo que ele pode fazer.. Mais ai. atualmente. esse problema. né.. Eu sempre tô em casa. a Thais e o menino de sete anos. Por causa desses problemas mesmo. a primeira.Que bom! E vocês discutem essa coisa da agressão? Como eles se posicionam e como é o relacionamento deles com o pai? Eles não são de conversar com o pai... né. Ele nunca se opôs. Não gosta que eu converse com os crentes da igreja.. possessiva. E ele fica em casa o tempo todo? Ele sai pra trabalhar. eu tive três meninas e um menino. como está a situação? Já conversaram com ele? 48 Eu nem contei pra ele. Foram todas gravidezes difíceis. como é a rotina? Eu sou do lar. porq e ele quer a vida dele como ele quer. tem dois que estuda de manhã. E agora.

. Isso diz que quem faz é o advogado dele que vai lá e retira.. sabe. ai depois ele contrata um advogado pra ele e. O advogado acho que vai com ele na Delegacia da Mulher de depois ele. Precisavamos. né. Helena. Helena. Antonio nunca fez uso de bebida alcoólica.. Não retirei.... . fica assim.. porque a família. né.. Porque ele sempre foi uma pessoa que aguarda o último momento. E o que você está pensando em fazer agora. vam os tentar. né. sim.. Eu pensei que se chegasse a intimação pra ele. de ninguém. não abrir um processo. Das outras vezes... Esse foi o Boletim de Ocorrência que você fez.. porque a gente já foi na Procuradoria do Estado. E você acha que ele vem se for intimado? Não sei! Mas você sente que você está correndo risco? Ah. sempre saiu limpo dessa. eu sinto. A família fica: ele é bom.. E você foi retirar a queixa ou não? Não.. 49 Eu pensei em vir a semana passada. meu. sabe. pra divorciar. tentar agredir eu ou ela. tá difícil. que eu passei por exame de corpo delito. mas dependendo de como foi o encaminham ento que deu. A últim a denúncia. então. o CIAM? Que é o Centro de Atendimento Integrado à Mulher? Não! Então. 50 Você já procurou.. ele sempre fala. já umas três vezes. As crianças não ficam passando necessidade. pode-se abrir um processo. né. Ai você.. Eu acho que seria importante você estar procurando.. adiantar tudo isso daí. ele ia agredi. pensar em uma medida de proteção... Não dei continuação. É. mas ele se mpre espera o momento que vai a intimação pra ele. Agora... Verdade? Em todas as denúncias? E com é isso? Eu não sei... nunca tive apoio as sim.. mesmo... ele havia rasgado. Ele não te deixa faltar nada. um papel desse. eu não tenho apoio. né.... ..Ele sabe. né? É. eu falava pra mãe dele que eu tinha denunciado ele. Você não continuou? Não. porque é uma angústia que c ria dentro da gente... porém sempre foi um homem muito violento. por causa da família .. Você sabe que a pessoa é agressiva... Helena? Ah. eu não sei. Se você não retirou a denúncia. Porque eu achei isso daqui. eu tive que deixar como estava. . .. A gente nunca sabe o que passa na cabeça dele.