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Reflexões sobre o Ecossistema Tecno­social Livre e suas possíveis  interações com as artes Fernando Michelotti1 Luiz Ernesto Merkle2 Resumo: Com o advento da Sociedade em Rede as interações dos indivíduos com a sociedade e com os  meios  de  produção  e  consumo  tornam­se  mediadas  pelas  Tecnologias  de  Informação  e  Comunicação  (TICs) reconfigurando a cultura. Sendo ao mesmo tempo fruto e semente desta nova conformação social,  o   Ecossistema   Tecno­Social   Livre   tem   provado   sua   viabilidade   como   um   ambiente  sustentável   de  produção de artefatos e conhecimento. Entendemos por Ecossistema Tecno­Social Livre o conjunto de  elementos   culturais   e   tecnológicos   necessários   para   a   criação   e   manutenção   de   redes   tecno­sociais  baseadas nas ideologias de reciprocidade e produção social características das comunidades de Software  Livre e movimentos correlacionados (Hardware Aberto, Cultura Livre, Acesso Livre, etc.). Este artigo  objetiva esboçar uma análise  das possibilidades estéticas e conceituais  proporcionadas pela utilização  deste ecossistema por comunidades artísticas tanto para a concepção e execução de obras de arte quanto  para a reflexão, disseminação das obras e conhecimento artístico. Palavras­chave: Software Livre, Arte, Tecnologia, Sociedade, Ecossistema.  Abstract: With the advent of the Network Society the interactions of individuals with society and with  the  means  of  production  and  consumption  has  become  mediated  by  Information  and  Communication  Technologies   (ICTs)   reshaping   culture.   Being   simultaneously   fruit   and   seed   of   this   new   social  conformation, the Free Tecno­Social Ecosystem has proven its viability as a sustainable environment for  the  production of  artifacts and knowledge.  We define  the  Free Tecno­Social Ecosystem as the set of  cultural and technological elements necessary for the creation and maintenance of techno­social networks  based   on   the   ideologies   of   reciprocity     and   social   production   characteristic   of   the   Free   Software  communities and related movements (Open Hardware, Free Culture, Open Access, etc.). This article aims  to outline an analysis of the conceptual and aesthetic possibilities offered by the use of this ecosystem by  artistic communities both for the design and execution of works of art as for the discussion, dissemination  of knowledge and artistic works. Keywords: Free Software, Arte, Technology, Society, Ecosystem. 1 Mestrando do Programa de Pós­Graduação em Tecnologia Universidade tecnológica Federal do Paraná,  PPGTE – UTFPR. Bolsista CAPES/DS.  e­mail: michelotti@ppgte.cefetpr.br 2 Prof. Doutor do Programa de Pós­Graduação em Tecnologia da Universidade Tecnológica Federal do Paraná,  PPGTE ­ UTFPR. e­mail: merkle@utfpr.edu.br 1/9 Introdução Assim como os movimentos artísticos, os movimentos tecno­sociais que embasaram  a rede mundial de computadores (Internet), não apenas refletem ou retratam o mundo no  qual estão inseridos mas também o moldam e reconfiguram, através dos artefatos por eles  produzidos e pelo próprio processo de geração e disseminação do conhecimento. Talvez seja por este motivo que exista uma crescente utilização de artefatos e de  sistemas de licenciamento provenientes e/ou derivados das comunidades de software livre  para  a  produção e distribuição de itens como música, filmes, animação, ilustração, etc.  cada vez em maior quantidade, estão sendo distribuídos sobre licenças como as Creative  Commons.  O sistema de licenciamento Creative Commons foi concebido por Lawrence Lessig  como uma maneira de simplificar  o processo de criação, inclusive de obras derivadas, e  distribuição das obras sem a problemática inerente do copyright na qual o consumidor não  possui   direitos   sobre   a   obra   adquirida.   As   licenças   do   Creative   Commons   tem   como  princípio fundamental a escolha das concessões que o autor proporciona a público e em que  condições (livre para usos não comerciais, compartilhar derivações com a mesma licença,  etc.). Por mais promissores que possam ser, estes sistemas não conseguem abarcar o todo  das possibilidades de (re)apropriação e (re)configuração dos artefatos e práticas inerentes  ao Software Livre e aos movimentos a ele correlacionados. O Ecossistema Tecno­Social Livre Os   Movimentos   Tecno­sociais   Livres   mais   conhecidos   na   atualidade   são   o  Movimento do Software Livre (Free Software) e do Código Aberto (Open Source).  Estes  2/9 são apenas uma pequena parte de um movimento maior e mais complexo, caracterizado  pela   produção   social   de   artefatos   tecnológicos   e   culturais   mediados   pelas   novas  possibilidades de produção e interação proporcionadas pelas Tecnologias de Informação e  Comunicação (TIC's).  Neste trabalho, o conjunto destes movimentos será denominado de “Movimentos  Tecno­Sociais Livres” enquanto o termo “Ecossistema Tecno­social Livre” será usado para  a soma de todos os fatores tecnológicos, culturais e sociais necessárias para a existência e  proliferação das comunidades.  Um   dos   fatores   que   distinguem   esse   ecossistema   em   particular   de     outros  ecossistemas   tecno­sociais   é   seu   modelo   de   produção   descentralizado   através   do   qual  indivíduos   geograficamente   dispersos   interagem   socialmente   de   forma   colaborativa   por  meio das TIC's, criando e desenvolvendo artefatos e gerando conhecimento. À este modelo  de produção Yochai Benkler  denominou “Commons Based Peer Production”.  Benkler (2002) demonstra as vantagens deste modelo de produção em relação aos  modelos tradicionais, em que indivíduos interagem diretamente com o mercado ou pela  participação em uma estrutura hierárquica empresarial, sendo que as principais são o menor  custo   transacional   decorrente   da   inexistência   da   burocracia   e   o   baixo   custo   de  desenvolvimento para cada indivíduo. O termo “Commons” usado por Benkler não foi traduzido para a língua portuguesa  neste trabalho porque está repleto de valores culturais e qualquer equivalente  em português  iria alterar o significado. O termo “Commons”, em inglês, significa bens comuns, relativo a  algo que ao mesmo tempo é direito e responsabilidade de todos, e que pode ser confundido  com o “bem público”, compreendido como direito de todos e responsabilidade do estado  (WILLIAMS,   2007).   O   termo   “Commons”   compreende   o   bem   material   ou   imaterial  3/9 compartilhado   ou   pertencente   a   duas   ou   mais   pessoas,   maior   parte   de   um   grupo   ou  sociedade, ou seja, propriedade ou posse comum (OXFORD, 1995). Outro   conceito   de   difícil   compreensão   por   questões   culturais   é   o   de   pares,  entendido no contexto acadêmico, porém em outros ambientes é comumente confundido  com o termo casal, perdendo a relação de igualdade em “status”, níveis hierárquicos ou de  habilidade (OXFORD, 1995). Neste modelo de produção descentralizado a inovação não ocorre da maneira como  estamos   acostumados   a   percebê­la.   Ao   contrário   de   sistemas   baseados   em   mercados   e  consumidores, neste modelo de produção a inovação é proporcionada pela (re)apropriação e  (re)configuração dos artefatos por seus usuários, que ao perceber suas necessidades ainda  não   supridas   pelos   artefatos   os   adaptam   e   expandem   proporcionando   um   processo   de  inovação   colaborativa   e   incremental.   Ao   analisar   este   processo,   em   todas   as   suas  manifestações  e  em   vários   contextos   relacionados   ou  não  ao  Software  Livre,  Eric  Von  Hippel (2005) desenvolveu sua teoria “Lead user Innovation”, na qual atesta que a maior  parte das inovações não são produzidas pelos fabricantes dos artefatos, mas por um grupo  de   usuários   que   têm   grande   interesse,   e   necessidade,   em   reconfigurar   artefatos   pré­ existentes para melhor atender suas necessidades e expectativas.  Arte O grande problema em se trabalhar com questões relacionadas a arte e a cultura  reside   no   fato   de   que   ambas   as   palavras   possuem   uma   vasta   gama   de   significados  historicamente acumulados e uma multiplicidade de usos distintos nas mais variadas áreas  do conhecimento humano. Esta problemática em relação à arte é ainda mais complicada  uma vez que é culturalmente determinada, tanto em suas manifestações estéticas quanto em  4/9 sua abrangência sócio­cultural, sendo seu entendimento dependente do contexto histórico e  social na qual se apresenta. Das reconfigurações do conceito de arte através da história ressaltamos as mudanças  da interação deste relativo ao conceito de técnica. Inicialmente o termo arte, do latim artem,  englobava   qualquer   habilidade.   Durante   a   história   novos   termos   foram   cunhados   para  conceituar   aspectos   outrora   englobados   na   arte,   e   assim   novos   conceitos   e   novas  configurações   do   conceito   de   arte   foram   sendo   articuladas.   Raymond   Williams   (2007)  explica que até o séc. XVIII, a maioria das ciências eram artes; a distinção moderna entre  ciência e arte, como áreas opostas de habilidade e de esforços humanos, com métodos e  finalidades   fundamentalmente   diferentes,   remonta   a   meados   do   séc.   XIX,   embora   os  próprios termos se tenham contraposto muito antes, no sentido de “teoria” e prática”. Partindo   da   crescente   separação   das   atividades   práticas   das   atividades   artísticas,  vemos a valorização do processo de construção do pensamento como uma arte onde este é  mais valorizado do que o artefato por ele produzido, chegando a extremos no qual a obra  resume­se a um conceito desprovido de sua materialização. Lúcia Santaella (2003) resume bem as duas posturas básicas do artista relativo aos  meios   disponibilizados   a   ele   pelo   seu   contexto   tecnológico:   ou   reconfigura   os   meios  tradicionais como a pintura, a escultura, o desenho, etc. através  experimentos estéticos,  técnicos ou conceituais, ou utiliza­se da tecnologia disponível como meio para sua obra.  Já Arlindo Machado (2007) é mais direto em sua afirmação de que o artista utiliza­ se sempre das tecnologias de sua época. Ao analisarmos a história da arte percebemos o  quanto   a   interação   das   questões   estéticas   e   culturais   com   as   inovações   técnicas  reconfiguraram não apenas a produção artística mas a sua produção, exposição e percepção.  A tinta óleo e a pintura em cavaletes, inovações técnicas renascentistas, retiraram a arte das  5/9 paredes permitindo não apenas uma execução mais elaborada das   obras mas também a  mobilidade da obra durante sua concepção/execução e mesmo exposição. Se a tinta óleo  alterou   a   estética   das   obras   ao   lhe   proporcionar   não   apenas   novas   possibilidades  pictóricas/plásticas a mobilidade proporcionada pelas bisnagas  de tinta, no final do séc  XVIII reconfigurou a imagética de maneira quase oposta. Não mais limitado a seu ateliê, o  artista leva sua produção mundo afora, fator o qual reconfigura a imagética pois agora a  preocupação de uma representação mais fiel à percepção e menos regida por cânones.  Com a fotografia e as tecnologias de produção de imagens técnicas,  as  imagens  produzida por aparelhos, fazem surgir novas questões e a arte reconfigura­se novamente  como resposta às novas possibilidades por estes meios proporcionados.  Durante   as   útlimas   décadas   as   mudanças   não   apenas   tecnológicas   mas   sociais  provenientes da valoração cada vez maior da informação, de sua digitalização, análise e  processamento, tem reconfigurado o modo como vivemos, como percebemos o mundo e a  nós mesmos. Juntamente com este amadurecimento das tecnologias e das práticas sociais  por elas mediadas vemos também um amadurecimento da arte em relação às tecnologias  utilizadas. Se no passado a simples exploração dos recursos prescritos nas máquinas já  bastavam hoje, mais do que nunca,  a crítica inerente a atividade artística contemporânea,  presente desde sua concepção até sua execução, torna­se elemento fundamental. A artista norte americana Amy Alexander explora as novas tecnologias digitais, em  especial   as   TICs,   em   suas   obras.   Ora   explicitando   a   quantidade   de   informação   à   qual  estamos sujeitos diariamente através simples tarefas como buscar alguma informação na  Internet através de sistemas de busca, com usa obra Cyberspaceland a qual transforma o  fluxo de informação em animações de fractais, ora utilizando­se de uma boa dose de humor,  explicitando a falta de privacidade em um mundo onde câmeras de segurança não apenas  6/9 registram   os   acontecimentos   mas   avaliam,   através   de   complexos   algoritmos  computacionais, a probabilidade de algum indivíduo ser um criminoso ou terrorista. Em sua  obra   coletiva   “SVEN:   Surveillance   Video   Entertainment   Network”,   em   parceria   com  Wojciech   Kosma   e   Vincent   Rabaud,   utiliza­se   do   mesmo   tipo   de   algoritmo,   porém  reconfigura sua finalidade para identificar possíveis popstars. Já o vanguardista da arte tecnológica contemporânea Eduardo Kac após passar pelos  meios digitais tornando­se o primeiro ser humano a ter um chip implantado em seu corpo  revoluciona o mundo das artes com a criação de uma nova  categoria da Bioarte, a Arte  Transgênica, ao conceber o GPF Bunny,   um coelho transgênico, retira as questões éticas  dos transgênicos dos âmbitos dos laboratórios e meios de comunicação em massa e a leva  para o público em geral. A Arte e o Ecossistema Tecno­Social Livre Vemos em Eduardo Kac e em Amy Alexander  as duas posturas básicas que o artista  contemporaneo   pode   ter   em   relação   à   execução   da   obra  de   arte.   Enquanto  Kac,   que   é  também teórico midiático, se associa à cientistas para a execução de suas obras, Alexander  produz,   individualmente   ou   coletivamente   as   obras,   apropriando­se   e   reconfigurando  diretamente os artefatos e o conhecimento científico neles inscritos. Ao   transpormos   a   atividade   artística   ao   Ecossistema   Tecno­Social   Livre   as  possibilidades   de  interação  criativa   dos   artistas   com   os   artefatos   tecnológicos   e  com   o  conhecimento inerente a eles é potencializada, uma vez que uma das características destas  comunidades   é  o “não­consumo”  de artefatos   mas  a  utilização  crítica  dos  mesmos.  Ao  participar desta dinâmica de utilização criticamente consciente o artista tem a oportunidade  de não ser apenas um funcionário da máquina e limitando suas possibilidades aos recursos  7/9 pré­programados na mesma mas sim abrir a caixa preta e experimentar com suas entranhas,  com  os  conceitos técnicos  ou  científicos  que garantem o funcionamento do artefato.  A  problematização da interação do artista com seus artefatos tecnológicos é elaborada por  Vilém Flusser (2002) e ampliada por  Arlindo Machado (1994) que ao levar a discussão do  campo da fotografia para os meios digitais, explora a problemática das diferentes partes dos  artefatos  computacionais,   como   o   hardware,  material   e   imutável  pode  ser   programado  apenas durante o processo de fabricação, e o software, imaterial e reprogramável, pode ser  reconfigurado de acordo com a vontade ou necessidade de seu utilizador.   Através   do   acesso   aos   conhecimentos   que  embasam   os   artefatos   e   a   toda   a  sistemática de construção dos  mesmos, a  (re)apropriação e (re)configuração dos artefatos  utilizados  diariamente  torna­se  não apenas  possível, mas  simples   e direta. Este  tipo  de  reconfiguração pode proporcionar uma “paleta” muito mais rica ao artista do que o simples  consumo   e   operação   dos   artefatos   comerciais   que   amplamente   são   utilizados   para   a  construção de obras artísticas. A própria infraestrutura tecnológica que fundamenta o Ecossistema Tecno­Social  Livre poder ser utilizada como meio, como se fosse uma tela, ou como espaço de exibição e  armazenamento das obras, função similar à dos museus. Nesse contexto, este novo tipo de  “museu” estaria mais próximo aos técnicos e cientistas, proporcionando a eles uma forma  de acesso mais direto à produção cultural  na qual suas pesquisas e trabalhos formaram a  base.  Considerações Finais A  intersecção das  comunidades  artísticas e dos  movimentos tecno­sociais  livres,  através da integração dos artistas ao Ecossistema Tecno­Social Livre pode possibilitar aos  8/9 artistas uma  “paleta” mais ampla de conhecimentos e artefatos tecnológicos para com os  quais interagir, (re)apropriar, (re)configurar ou simplesmente utilizar, assim como garante  um meio de distribuição mais amplo do que a simples utilização da Internet. Do lado dos  desenvolvedores, as novas configurações dos artefatos podem ser de extrema valia tanto  para a criação de novas possibilidades de Interação Ser Humano Computador (ISHC) como  proporciona   uma   reflexão   sobre   seus   artefatos,   seus   conhecimentos   e   suas   atividades  produtivas.   Referências BENKLER, Yochai. Coase's Penguin, or Linux and the Nature of the Firm. New Haven.  2002.   Disponível   em   .   Acesso   em:   15  jul. 2007. 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