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Os Anos Bissextos

Em nosso calendário, chamado Gregoriano, os anos comuns têm 365 dias e os anos
bissextos têm um dia a mais, totalizando 366 dias. Esta informação praticamente todo
mundo sabe, mas o entendimento sobre o funcionamento dos anos bissextos ainda é
recheado de dúvidas na cabeça de muita gente.

Muitas “regras populares” foram criadas para calcular anos bissextos, do tipo:

“Todos os anos que sejam múltiplos de 4 mas que não sejam múltiplos de 100 (terminem
em 00) são bissextos”.

Mas será que isto está correto? E o ano 2000, que foi bissexto e contraria a regra acima?

Bom, neste caso é necessário adicionar um “detalhe” à regra, que ficaria assim: “Todos os
anos que sejam múltiplos de 4 mas que não sejam múltiplos de 100, com exceção daqueles
que são múltiplos de 400, são bissextos”.

Ah, agora sim. Mas por quê? Quem inventou esta regra? Por qual motivo? Com base em quê
foi criada?

A origem do ano bissexto

Em 238 a.C., em Alexandria no Egito, durante a monarquia helenística de Ptolomeu III
(246-222 a.C.), foi decretada a adição de 1 dia a cada 4 anos para compensar a diferença
que existia entre o ano do calendário, com duração de 365 dias e o ano solar (em
astronomia chamado de ano astronômico sazonal) com duração aproximada de 365,25 dias,
ou seja, de 365 dias + 6 horas. Como este excesso de 6 horas após 4 anos completa 24
horas, 1 dia extra deveria ser acrescentado ao calendário oficial para evitar os
deslocamentos das datas que marcavam o início das estações. A programação das épocas
de semeadura e colheita eram baseadas no calendário das estações, qualquer discrepância
neste afetava a agricultura, que era base da economia dos povos antigos.
Lamentavelmente, esta tentativa de reformulação do calendário não teve a aceitação
necessária e as discrepâncias permaneceram na contagem dos dias.

Quase 200 anos depois, em 46 a.C., o imperador romano Júlio César (102-44 a.C.),
retomando as idéias helenísticas, resolveu intervir no sistema de contagem do calendário,
para corrigir mais de 3 meses de desvios acumulados até então e criou o “Calendário
Juliano” que evitaria novos erros. Para elaborar esta tarefa, trouxe de Alexandria o
astrônomo grego Sosígenes (90-?? a.C.) para auxiliá-lo e, entre outras modificações,
decretou que:

- O ano de 46 a.C teria 445 dias de duração, para corrigir os desvios acumulados até
então.

- Os anos teriam 365 dias e haveria 1 ano bissexto a cada 4 anos a partir de 45 a.C
(que também seria bissexto)

- Seria deslocado o início do ano romano de 1o. de Março para 1o. de Janeiro, a partir
de 45 a.C.

consultar [2]. Por que a reforma Juliana do calendário não resolveu o problema em definitivo? Com o avanço dos instrumentos de medição. Os dias eram designados por números ordinais contados em ordem retrógrada em relação ao dia fixo subsequente. o ano possuía: 365 + 1/4 = 365. Assim o dia 3 de fevereiro. por uma comissão composta pelo próprio Papa e vários sábios. ficou conhecido como o “Ano da Confusão” e apesar dos esforços. apesar da correção quatrienal. Como foi resolvida então a questão? Em 1582. O dia 24 de fevereiro chamava-se “antediem VI Calendas Martii” ou “antediem sextum Calendas Martii”.0078 dia) em relação ao ano solar. foi causando implicações no calendário das estações e nas datas de alguns ritos religiosos. Ao fazer a introdução de mais um dia no ano. Para entender melhor o calendário dos dias romanos e saber por que Júlio César escolheu o mês de fevereiro e particularmente o dia 24 para introduzir este dia extra. durante vários anos. Este calendário havia sido elaborado. com o passar do tempo. uma vez que criava um excesso de 11 minutos e 14 segundos (ou seja 0. ou seja “três dias antes da Nona de Fevereiro”.Em função destas modificações. Julio César escolheu o mês de fevereiro. os dias tinham nomes com base no ciclo lunar e um mês dividia-se em três seções separadas por três dias fixos: Calendas (lua nova). Essa comissão decidiu o seguinte: Incialmente descontaram 10 dias do mês de outubro de 1582 para corrigir o erro que vinha sendo acumulado até então (para saber porque retiraram exatamente 10 dias. percebeu-se que. o ano de 46 a. algo como o costume que temos em dizer um horário de 14:45h com sendo “15 para as 3”. Essa diferença. ou seja “sexto dia antes da Calendas de Março”. Nonas (quarto-crescente) e Idus (lua cheia). No antigo calendário romano. o Papa Gregório XIII (1502-1585) introduziu a uma reforma no calendário Juliano e criou o “Calendário Gregoriano”.C. o ano Juliano não era preciso. E assim permaneceu por mais de 1500 anos. e dentro deste mês escolheu por “fazer um bis” ou “duplicar” o dia 24. consultar [3]) e para acertar o calendário e evitar os futuros erros fizeram o seguinte: .C. chamando-o de “antediem bis-sextum Calendas Martii”. quando então finalmente passaram a ser regularmente contabilizados de 4 em 4 anos em todos os calendários. os anos bissextos que se seguiram não foram aplicados corretamente até o ano de 8 d. o que está errado. Daí surgiu o nome bissexto.25 dias A origem do nome bissexto Algumas pessoas pensam que o ano é bissexto porque tem dois números 6 na quantidade de dias (366). à Para o calendário Juliano. entre eles o astrônomo e médico italiano Aloisius Lilius (1510-1576) e o jesuíta e matemático alemão Cristophorus Clavius (1537-1612). por exemplo chamava-se “antediem III Nonas Februarii”.

a regra do ano bissexto permaneceu até os dias de hoje assim: “Será bissexto todo ano cujo número seja divisível por 4 e não divisível por 100. à Para o Calendário Gregoriano o ano tem 365 + 97/400 = 365.”.1/4000 = 365. deveria-se calcular com o termo 1/4000 (por ser múltiplo de 4). Considerando-se que estes dias excedentes seriam introduzidos pelos futuros anos bissextos. Na verdade diversas pessoas já propuseram. a partir de 1582 somente poderiam existir 97 anos bissextos em cada 400 anos. Isso dá uma diferença de 0.Levando-se em conta que a discrepância de um 1 ano Juliano era de 0.0078 dia por ano). a cada 3300 anos teremos. 1 dia extra que deveria ser retirado. aproximadamente 3/4 de dia. apesar do calendário Gregoriano ter sido criado para resolver o problema dos acréscimos causados pelo calendário Juliano.. o que provocará uma tremenda novidade para o ano de 4882: Já que este não será um ano bissexto (não é divisível por 4) e deverá “perder” um dia. Ao final de cada 400 anos haveria.. entre elas o astrônomo britânico John F. que são 4 em 400 anos. sendo também bissexto os anos divisíveis por 400. Assim um ano “moderno” passaria a ter 365 + 1/4 . 2421969697 Mas não podemos esquecer que. o valor aproximado usado nos cálculos para este acréscimo (3/4 dia a cada 100 anos ou 0. ou seja. uma regra diferente para anos bissextos.0003 dia por ano. 24225 Isso jogaria o famoso “erro” de 1 dia extra para daqui a mais de 20 mil anos! Mas na verdade esta regra nunca foi aceita e hoje não existe oficialmente nenhuma regra para ano bissextos além daquela que conhecemos e que foi instituída pelo calendário Gregoriano em 1582.78 dia. pois como citei anteriormente. ao final de 1 século o excesso atingia 0. para retirar este dia após 3300 anos. Para termos 97. 365 + 97/400 = 365 + 1/4 .1/100 + 1/400 Desta forma. temos 100 bissextos em cada 400 anos. W. aproximadamente. ficando com 364 dias! Será? Creio que não. assim o ano ficaria: 365 + 969/4000 = 365 + 1/4 . ou seja. . uma diferença de aproximadamente 3 dias.78 dia a cada 100 anos ou 0. e manter o ano que é divisível por 400. Como os anos bissextos acontecem a cada 4 anos.2425 dias E será que o problema da contagem do ano bissexto foi definitivamente resolvido? Infelizmente não. a solução do problema seria então eliminar 3 anos bissextos em cada 400. bastaria "eliminar" 3 anos. Assim. Herschel (1792-1871). Escolheu-se então retirar os anos que são divisíveis por 100.1/100 + 1/400 . então. ao invés do termo 1/3300 proposto acima.0075 dia por ano) é diferente do valor real do acréscimo (0.1/100 +1/400 -1/3300 = 365..0078 dia a mais que o ano solar. devemos fazê-lo a partir do ano de 1582. ou seja.

tondering. 1996 . já que o período em que a Terra dá uma volta em torno do Sol não é constante. ao longo de muitos anos.com) Formado em Matemática pela UERJ Bibliografia [1] Artigo “Ano Bissexto”.dk/claus/calendar.html] . Em sua longa viagem pelo espaço em volta do Sol. Marcelo Sávio (msavio@hotmail. sempre acusarão erros em relação aos nossos calendários “fixos”. publicada no livro “Anuário de Astronomia” de Ronaldo Rogério de Freitas Mourão. pois o máximo que poderemos calcular será sempre um valor médio. Essas pequenas variações. apesar da precisão dos instrumentos de medida aumentarem constantemente. causadas pela influência das forças gravitacionais de outros corpos celetes.Editora Bertrand Brasil [3] (em inglês) “Calendar FAQ” mantido por Claus Tondering na Internet em [http://www. 1992 [2] Nota científica sobre “Anos Bissextos”. de Vincenzo Bongiovanni. publicado na Revista do Professor de Matemática número 20. o nosso planeta sofre pequenas alterações de velocidade.Por que não é possível termos um calendário perfeito? A busca por um calendário perfeito não terminará nunca.