Território, Sociedade e Modernização
Adordagens Interdisciplinares Governador Valadares, outubro de 2010.

Mantenedora Fundação Percival Farquhar Presidente da Fundação Edvaldo Soares dos Santos

Universidade Vale do Rio Doce Reitora Ana Angélica Gonçalves Leão Coelho Pró-Reitora Acadêmica Fabíola Alves dos Reis Pró-Reitor Administrativo Marle José Ferrari Júnior Responsável pela Editora Brian Lopes Honório

Haruf Salmen Espindola Jean Luiz Neves Abreu
Organizadores

Território, Sociedade e Modernização
Adordagens Interdisciplinares Governador Valadares, outubro de 2010.

Todos os direitos reservados. Copyright © 2010 da Editora Univale.

Território, sociedade e modernidade / organizadores: Jean Luiz Neves Abreu, Haruf Salmen Espindola. – Governador Valadares : Ed. Univale, 2010. 396 p. ISBN 978-85-89046-28-2 1. Território. 2. Geografia urbana. 3. Governador Valadares – Aspectos políticos. 4. Governador Valadares – Condições econômicas. I. Abreu, Jean Luiz Neves. II. Espindola, Haruf Salmen.

CDD 307.76098151

Projeto gráfico Editora Univale Editoração eletrônica e capa Brian Lopes Honório Revisão

A revisão dos textos são de responsabilidade dos autores
Impressão Gráfica O Lutador Ficha catalográfica Biblioteca Dr. Geraldo Viana Cruz (Univale) 2010 EDITORA UNIVALE Rua Israel Pinheiro, 2000 - Universitário Cep.: 35020-220 Governador Valadares - MG Telefone: (33) 3279-5512 Site: www.editora.univale.br E-mail: editora@univale.br

Esse livro é o resultado do projeto de pesquisa “Ocupação e Modernidade: Processos de Territorialização no Vale do Rio Doce” Edital: 004/07 - Grupos Emergentes de Pesquisa

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... Sueli Siqueira ................................95 Entre práticas sanitárias e saberes tradicionais: a territorialização do saneamento no Médio Rio Doce Patrícia Falco Genovez...... Lucas Nápoli dos Santos ................Chonim de Cima (MG) e Toledo (PR) Patrícia Falco Genovez............... Emilliane de Oliveira Matos...........241 Impactos da emigração sobre as vivências da mulher do emigrante Agnes Rocha de Almeida... Maria Terezinha Bretas Vilarino .................... Renata Flor Marins ..... 267 Política Linguística no Brasil: para ser o que é Nádia D............................ 19 Sociedade do tempo versus sociedade do espaço: o percurso de dois destinos ................... Júlio Cesar Pires Pereira de Morais................................................................................................ Wallace Ferreira dos Santos... Emerson César de Campos ................................................................................. Biavati ........... Barbara Parreiras de Aquino......................295 .................................. 155 Além do tombamento: a proteção do patrimônio cultural como exercício do direito à cidade Cristiana Maria de Oliveira Guimarães ......................59 Ciência...179 As redes sociais e a configuração do primeiro fluxo emigratório brasileiro: análise comparativa entre Criciúma e Governador Valadares Sueli Siqueira........... saúde e território em Minas Gerais (1895-1930) Jean Luiz Neves Abreu ........................Sumário Apresentação ....... F.. Ana Caroline Gomes Esteves....................... Diego Dantas Amorim........197 A representação do imigrante valadarense na mídia impressa local Juliana Vilela Pinto........................................119 Controle social e identidade: os casos do Clube Atlético Pastoril e o Esporte Clube Democrata Eliazar João da Silva... Julieta Soares Alemão Silva ....................................................................................................11 Apropriação de Terras Devolutas e Organização Territorial no Vale do Rio Doce: 1891-1960 Haruf Salmen Espindola........... José Luiz Cazarotto ................... Carlos Alberto Dias............ Gláucia de Oliveira Assis.....................................................................

.... Carlos Alberto Dias ..........343 A nova questão social: uma proposta de análise Rita Cristina de Souza Santos ................................................................................371 .....................................................................317 Considerações sobre os estudos que abordam o fenômeno da violência: reflexões a partir do caso de Governador Valadares Cristina Salles Caetano................Ensino Superior e EaD: reflexões acerca da formação a distância contextualizada num pólo educacional emergente Leonardo Gomes de Sousa.....................................

11 . oriundos de várias áreas de conhecimento. importa destacar que nessa concepção refletir sobre esse objeto significa pensar sobre um espaço prenhe de ações humanas. De uma maneira geral.Apresentação Múltiplos olhares sobre um território Jean Luiz Neves Abreu Haruf Salmen Espindola Este livro é resultado de um esforço conjunto de pesquisa realizado por pesquisadores da UNIVALE e de outras instituições. os capítulos seguintes procuram chamar atenção para o fato de que a cidade de Governador Valadares e seu entorno se constituiu como desdobramento de fenômenos mais gerais. não pode ser objeto de uma área de saber. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Os trabalhos aqui reunidos demonstram como a compreensão de Governador Valadares. Conforme têm demonstrado os estudos territoriais. os temas abordados procuram chamar atenção para os múltiplos elementos que caracterizam o território de Governador Valadares e região. mas que adquiriam identidades especí- 1 No original: “existe un entrecruzamiento. econômicas e culturais. o território como campo de análise é por sua natureza epistemológica interdisciplinar. Conforme afirma Francisco Ther Rios (2006:107-108) “existe um entrecruzamento. uma imbricação de áreas disciplinares de conhecimento que interpretam o espaço habitado humanamente e construído através de distintos fluxos históricos”. 1993). em suas características políticas. Atentos ao aspecto multidimensional e às relações de poder que permeiam o território (RAFFESTIN. una imbricación de áreas disciplinares de conocimiento que interpretan el espacio habitado humanamente y construido a través de distintos flujos históricos” TERRITÓRIO. analisando sua inserção nos contextos global e regional. Sem adentrar nas questões relacionadas ao conceito de território.

O capítulo de Jean Luiz Neves Abreu sobre o sanitarismo em Minas Gerais. como esse território se constituiu. a partir da territorialização produzida pela apropriação privada das terras devolutas. a história de Governador Valadares foi marcada também pelas políticas desiguais de desenvolvimento. quais os elementos políticos.TERRITÓRIO. Ao estudar a organização sanitária no Estado e as estratégias de saneamento adotadas. os autores problematizam como ambos os territórios devem ser concebidos a partir de relações complexas entre os homens e o meio. Ao analisar os relatórios de saúde. Ampliando o enfoque sobre a questão do desenvolvimento territorial. investiga como a conformação agrária da região foi resultado de fenômenos externos e internos. saúde e território em Minas Gerais (1895-1930) procura abordar essa questão a partir de um estudo sobre o sanitarismo. no capítulo “Sociedade do tempo versus sociedade do espaço: percurso de dois destinos – Chonim de Cima (MG) e Toledo (PR)”. procura-se discutir como a construção da saúde pública no estado não pode prescindir das questões territoriais. já que os processos sociais configuradores da organização territorial resultaram dos grandes investimentos de capital por parte do Estado. Haruf Salmen Espindola. Apesar 12 . a partir de um estudo comparativo discutem as razões pelas quais essas duas comunidades tiveram destinos diferentes. evidencia-se a desigualdade dos recursos destinados à saúde em relação a determinadas regiões. marcadas por distintos processos de territorialização. cuja compreensão não pode prescindir das abordagens históricas. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . intervindo fatores políticos. Partindo de conceitos das ciências sociais e de um efetivo trabalho interdisciplinar. Patrícia Falco Genovez e José Luiz Cazarotto. econômicos e culturais bem como lógicas diferenciadas de tempo e espaço. empresas privadas e interesses estrangeiros e dos conflitos internos pela posse da terra e recursos naturais. No capítulo “Apropriação de Terras Devolutas e Organização Territorial no Vale do Rio Doce: 1891-1960” procura-se discutir a formação da estrutura fundiária no vale do rio Doce. Território específico no Estado de Minas Gerais. Afinal. em conjunto com um grupo de pesquisadores.ficas no decorrer do tempo. “Ciência. econômicos e culturais que influenciaram na sua constituição? Essas questões constituem o foco de análises significativas e que contribuem para a compreensão da história da região e seu desenvolvimento.

consumo e lazer. mediante acordo entre os governos estadunidense e brasileiro. é relevante situar o significado das práticas populares que se constituem no espaço urbano. constata-se a presença de projetos para o saneamento do Vale do Rio Doce pelo Serviço Especial de Saúde Pública (SESP). entre as décadas de 1940 e 50 as ações do SESP criaram condições propícias para o desenvolvimento territorial. De instrumento de controle social.das autoridades reconhecerem a importância do saneamento do Rio Doce. Patrícia Falco Genovez e Maria Terezinha Vilarino abordam o processo de territorialização da saúde e do saneamento nesta região. frente às ações de saneamento. a prática esportiva se tornou importante elemento de sociabilidade e identidade da região.13 . Se por um lado. A reconstituição das trajetórias do Clube Atlético Pastoril e do Democrata permite identificar como o futebol assumiu significados sociais e culturais relevantes para aquela sociedade. Nesse sentido. A região Governador Valadares só foi objeto de investimentos econômicos a partir da década de 1940 em razão de interesses do capital estrangeiro. efetiva ligação TERRITÓRIO. teve significativo papel na década de 1940 acompanhando o ritmo da industrialização da cidade. Discussões sobre a urbanização e identidade perpassam também pela questão da preservação e do patrimônio cultural. as políticas de saúde negligenciaram as cidades da região em razão de seu baixo desenvolvimento econômico. Além de demonstrarem o processo de territorialização a partir das políticas de intervenção do SESP as autoras também se debruçam sobre as práticas da população . Nessa perspectiva. A partir das intervenções sanitárias. a exemplo de outras cidades. O futebol. impôs um novo ritmo de trabalho. enquanto prática esportiva valorizada como símbolo da nacionalidade. enfatizando as diversas concepções de território e territorialidades existentes naquele contexto sócio-histórico. Os autores apontam como a urbanização. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . como demonstra o caso do Pastoril. No capítulo “Entre práticas sanitárias e saberes tradicionais: a territorialização do saneamento no Médio Rio Doce”. no capítulo “Controle social e identidade: os casos do Clube Atlético Pastoril e o Esporte Clube Democrata” Eliazar João da Silva e Julieta Soares Alemão desenvolvem uma reflexão sobre os significados do futebol em Governador Valadares. o processo de territorialização foi marcado por resistências e conflitos – expressos muitas vezes na preservação de valores tradicionais – por outro lado.

enfatiza-se a falta de atenção a determinados elementos do patrimônio cultural relevantes para a preservação da memória. Sueli Siqueira. interpretam dados relevantes sobre Governador Valadares (MG) e Criciúma (SC). demonstram como migração tem influenciado a vida cotidiana das cidades na origem e destino. As análises vão para além da busca dos fatores que levaram centenas de pessoas a ir buscar melhores condições de vida na América do Norte. a autora procura resgatar a discussão sobre a preservação do patrimônio cultural como elemento de identidade e de direito à cidade. que privilegiam a valorização de bens imóveis de valor excepcional. Os estudos sobre Governador Valadares e a região não podem deixar de atentar para o fenômeno da migração para os Estados Unidos e outros países. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Dessa forma. e tece observações relevantes a respeito da ausência de uma gestão do patrimônio capaz de integrar o projeto urbano. Gláucia de Oliveira Assis e Emerson César de Campos. Este é o objeto do texto “Além do tombamento: a proteção do patrimônio cultural como exercício do direito à cidade”. de Cristiana Maria de Oliveira Guimarães. Dessa forma. Ao propor uma reflexão sobre os bens tombados na cidade pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural.TERRITÓRIO. onde foram encontrados os emigrantes que não retornaram. Procuram compreender os impactos da migração. Dessa forma. que mantêm. os autores no capítulo “As redes sociais e a configuração do primeiro fluxo emigratório brasileiro: análise comparativa entre criciúma e Governador Valadares”. há um conjunto de pesquisadores que se detém sobre desdobramentos e significados do fenômeno. em razão do quadro de estagnação enfrentado pela região após a década de 1960. os quais devem estar em consonância com a cultura e a paisagem em prol de uma melhor gestão da cidade. tanto entre aqueles que ficaram como as perspectivas daqueles que partiram. O estudo aponta como as redes sociais se configuram como práticas sociais que envolvem diferentes tipos de 14 . Cristiana Guimarães realiza ao mesmo tempo uma crítica sobre os critérios de tombamento. especialistas nos estudos sobre a questão.entre passado e presente. desde a década de 1960. conexões com a região de Boston (EUA) – e nas cidades da grande Boston e New York. Nele. postulando que o patrimônio é de usufruto coletivo e sua preservação de interesse de todos. e as redes sociais constituídas em torno dessas pessoas.

Ao longo do capítulo. pode-se afirmar que migrante constituiu várias redes locais e extra-locais. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . o “Capitão Dólar” para homenagear os milhares de compatriotas que deixaram a terra natal rumo ao país do Tio Sam. mas também lugar do simbólico e dos valores afetivos. com a contribuição de Sueli Siqueira. os autores descrevem os resultados da pesquisa realizada. emocional e simbólica.auxílios de ordem material. mostrando como processo emigratório teve um efeito perverso sobre as relações conjugais e familiares. levando à reterritorialização “pelo movimento de apropriação e reprodução de relações sociais que podem ser produzidas por uma conexão em rede”. o jornal lançou um personagem. o artigo de Agnes Rocha de Almeida e Carlos Alberto Dias. faz uma leitura da representação dos estereótipos sobre os Estados Unidos a partir da interpretação das tiras publicadas no Diário do Rio Doce. Acompanhando as posições de Saquet e Mondardo (2008:122). concluindo que os possíveis ganhos advindos do trabalho no exterior não são capazes de compensar os prejuízos emocionais. Pensando igualmente a migração não apenas como o campo das análises políticas e econômicas. Ao problematizar várias questões relativas à política Lingüística do Brasil. garantindo condições para futuros migrantes e seus possíveis retornos. A migração demonstra o quanto questões de um mundo cada vez mais globalizado influem na realidade local. A autora indica como a língua é um elemento TERRITÓRIO. que conta com a colaboração de graduandos em psicologia. É o que aponta o texto “Política lingüística no Brasil: para ser o que é”. em sua incapacidade de se reintegrar à sociedade. de Nádia Biavati. o personagem revela a uma identidade fragmentada e desterritorializada. trata dos “Impactos da emigração sobre as vivências da mulher do emigrante”. O fenômeno da migração internacional na região de Governador Valadares foi caracterizado também por projeções imaginárias e utopias.15 . Nos anos 1990. Juliana Vilela. a autora observa que a existência em Governador Valadares e região de filhos de brasileiros alfabetizados em língua inglesa é um fato que demandou a criação de disciplina de Português voltada para estrangeiros no curso de Letras da UNIVALE. no texto “A representação do imigrante valadarense na mídia impressa local”. Além de representar as concepções recorrentes dos valadarenses sobre os Estados Unidos como terra prometida e resolução para os problemas econômicos.

bem como focalizar a sociedade como um todo para a investigação da violência. Leonardo Gomes de Souza e Carlos Alberto Dias. de modo a possibilitar a reconstrução de uma nova identidade territorial. outros temas também não podem deixar de ser contemplados. a autora mostra como são fenômenos complexos. no artigo “Ensino Superior e EaD: reflexões acerca da formação a distância contextualizada num pólo educacional emergente” propõem uma análise acerca do papel da educação à distância na microrregião de Governador Valadares. No caso de Governador Valadares. em particular. vulnerabilidades e desigualdades sociais. pois não a contextualiza perdendo de vista aspectos específicos. O texto de Cristina Caetano oferece. Os autores enfatizam a necessidade de elaboração de projetos contextualizados às necessidades regionais como ponto de partida para maximizar a aplicação de conhecimentos. A partir de reflexões teóricas em torno desses conceitos. “A nova questão social: uma proposta de análise”. na medida em que estão conectados com a globalização e as tecnologias de informação. apontando a metodologia qualitativa como capaz de revelar as dimensões estruturais da violência. Os dois últimos textos que integram o livro trazem contribuições relevantes para se pensar sobre questões atuais que atingem a sociedade valadarense: a violência e a desigualdade social. Cristina Caetano. após uma análise teórica do conceito de violência. Apesar de reconhecer o papel dos estudos estatísticos. expõe dados que comprovam que as taxas de criminalidade na microrregião na qual se insere a cidade aumentou entre a década de 1990 e da década seguinte. No último capítulo. a autora chama atenção para o fato de que apresentam uma visão reducionista da criminalidade.TERRITÓRIO. Se os problemas relativos à diáspora são centrais para a compreensão dos fenômenos que caracterizam a constituição dos processos territoriais nessa sociedade. em “Considerações sobre os estudos que abordam o fenômeno da violência: reflexões a partir do caso de Governador Valadares”. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Rita Santos observa que os dados característicos da pobreza e da vulnerabilidade so16 . Rita Cristina de Souza Santos traz uma reflexão sobre as relações entre pobreza. questões relevantes e uma perspectiva de análise bastante promissora para estudos futuros. portanto.simbólico de constituição do território que influi no contexto local. Para uma análise mais contextualizada do problema seria imprescindível compreender os aspectos históricos do processo de territorialização.

Após realizar uma ampla discussão dessas questões. Ele é um passo importante para se compreender teoricamente os aspectos definidores de um território e fornece subsídios relevantes para intervenções que contribuam para o desenvolvimento regional e a superação de seus obstáculos. THER RIOS. vol. pp. v. 105-115. TERRITÓRIO. Claude.12. Ática. e o acesso à educação. n.. mas de professores e pesquisadores. p. [online]. seu estudo conclui que a discussão sobre o que “o município tem feito em prol da população pobre e das possibilidades de enfrentamento de suas vulnerabilidades”.17 . São Paulo. A conclusão da professora Rita Santos é basilar para os propósitos do presente livro. Complejidad territorial y sustentabilidad: notas para una epistemológia de los estudios territoriales. 2008. Marco Aurélio A. Francisco. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .25 [cited 2010-05-15]. Por uma Geografia do Poder. ANO 11. Referencias bibliográficas: RAFFESTIN. serviços de infra-estrutura urbana. 143-185. 2006. SAQUET. Marcos L. . . antropol. ao longo da organização de um programa de Mestrado em Gestão do Território em solo valadarense. mas pelo acesso à saúde. pp.cial não se definem apenas pela renda da população. Revista NERA (UNESP Online). é tarefa não só do poder público. como rede de água e esgoto. 118-127. Horiz. MONDARDO. 1993. A construção de territórios na migração por meio de redes de relações sociais.

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numa crescente secundarização frente a São Paulo. Bárbara Aquino é bacharel em Ecologia pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) e estudante de História .19 N . Haruf Salmen Espindola é doutor em História Econômica pela USP Professor titular da Univer.1 Haruf Salmen Espindola2 Barbara Parreiras de Aquino Júlio Cesar Pires Pereira de Morais Wallace Ferreira dos Santos Diego Dantas Amorim Ana Caroline Gomes Esteves Renata Flor Marins a década de 1930 se instalou no Brasil um processo de industrialização que responderá pela transição da sociedade agrária para a sociedade de base urbano-industrial. TERRITÓRIO. minério e matas surgiam fundições de ferro (GORCEIX. favorecida pela integração do mercado nacional (crescentes interligações rodoviárias). 1 2 Este trabalho conta com financiamento do CNPq e FAPEMIG. onde havia água. de aproveitar os recursos naturais de Minas. Em Minas Gerais o fenômeno da industrialização ficou restrito à expansão do setor de mineração e metalurgia.Apropriação de Terras Devolutas e Organização Territorial no Vale do Rio Doce: 1891-1960. Diego Amorim é graduado em Agronomia pela Univale e ex-bolsista BIC-FAPEMIG. isso repercutiu negativamente na posição ocupada por Minas Gerais. Wallace Santos é graduado em História pela Univale e ex-bolsista BIC-FAPEMIG. ao mesmo tempo. Esse processo foi marcado pela intensa concentração urbana das cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. consequentemente. sidade Vale do Rio Doce. A industrialização brasileira. O sentido da atuação dos governos mineiros foi de reforçar a tendência já existente desde os governos de Artur Bernardes.3º período .pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). indutora e. ao se referir à disseminação da metalurgia em Minas. Júlio Morais é estudante de Historia da PUC Minas. produziu mudanças no padrão de acumulação capitalista e. conforme afirmou Claude-Henry Gorceix (18421919). quando presidente do Estado de Minas Gerais (1918-1922) e do Brasil (1822-1926). 1880). Ana Caroline e Renata Flor são estudantes de Direito da Univale e bolsistas BIC-FAPEMIG. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .

Foi esse potencial que serviu de suporte para a expansão da siderurgia e mineração no estado de Minas Gerais. Nesse contexto. cujos investimentos de capital se concentraram na zona central. A produção de feijão. A posição relativa de Minas reforçou a tendência de exploração dos recursos naturais por meio de políticas de favorecimentos por parte do governo estadual e das negociações frente à União para contar com investimentos do Estado brasileiro e do capital externo. que muito incomodava às elites dirigentes mineiras.TERRITÓRIO. e Vale do Rio Doce (incluindo os vales dos rios São Mateus e Mucuri). especialmente no confronto entre posse e propriedade privada.000 quilômetros. Assim. Norte. A orientação seguida fundamenta-se na distinção entre frente de expansão demográfica e frente pioneira. o crescimento da industrial de Minas Gerais se vinculou a uma posição subordinada de integração ao mercado nacional e inserção no processo de industrialização brasileiro. a partir das cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro: Oeste de Santa Catarina. se as condições de solo e clima permitissem. 2002:16). fumo e café. Esse desenvolvimento especializado dependeu da participação direta do Estado e da presença do capital estrangeiro. que se consolida a partir da segunda metade da década de 1950 (PAULA. água e minério de ferro. milho e. Portanto. Também apareciam as culturas comerciais do algodão. polarizada pela capital Belo Horizonte. a Zona Metalúrgica vincula a dinâmica de sua indústria de forma complementar e dependente da dinâmica industrial do pólo (São Paulo). e se estendeu na direção do “Quadrilátero Ferrífero”. Sudoeste e Oeste do Paraná. o objetivo é refletir sobre a questão da disputa pelas terras devolutas do Vale do Rio Doce. iniciando um processo de concentração industrial naquela microrregião. ricas dos recursos naturais mencionados: matas. Mato Grosso de Goiás. O geógrafo alemão Waibel (1955: 404) identificou a constituição de zonas pioneiras num raio de 500 a 1. bem como no impacto da regulação da apropriação privada da terra. arroz ocupavam uma posição central na estrutura produtiva das zonas pioneiras. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . A cultura do café deixou de ser básica para a 20 . onde se concentravam os recursos naturais. no Vale do Rio Doce. especialmente. O que explicaria a formação dessas zonas era a elevação dos preços dos gêneros alimentícios provocado pela conjuntura externa e pela urbanização interna. Oeste de São Paulo.

expansão das zonas pioneiras. favorecida pela implantação de sistema de transporte. adquirindo mica. A migração interna era procedente principalmente de Minas Gerais e Nordeste. Na década de 1940. e trazendo uma quantidade enorme de máquinas. TERRITÓRIO. As novas zonas pioneiras apresentavam um perfil socioeconômico diferenciado. que era um material precioso para confecção de avião. especialmente as estradas de rodagem e difusão do cami3 Entrevista com Dr. na zona do rio Doce era acrescida pela presença de interesses estrangeiros diretamente vinculados ao conflito internacional: Um fato que me chamou a atenção quando cheguei aqui. Acervo do NEHT/Univale. além daquelas originadas das zonas cafeeiras decadentes (WAIBEL. se tornou pólo da nova dinâmica que se estabeleceu com a entrada dos grandes investimentos de capital. emancipada em 1938. O Vale do Rio Doce apresentava características comuns às zonas pioneiras. veio uma comissão americana muito mais poderosa. realizada em Belo Horizonte. nessa zona os interesses minerais (ferro e mica) e siderúrgicos influenciaram diretamente no processo de abertura da fronteira econômica (frente pioneira). respectivamente. tamanha as diferentes procedências nacionais e estrangeiras dos habitantes. Ladislau Sales. substituído pelo migrante nacional. E algum tempo depois. A cidade de Governador Valadares. O médico e ex-prefeito Ladislau Sales (1955-1959) definiu como “babel” o que encontrou.000 quilômetros das cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. exceto para o norte do Paraná. Essa zona se localiza a uma distância de 600 e 1. é que a Guerra havia começado há poucos meses e já havia uma comissão japonesa. A partir da década de 1950 desapareceu a figura do imigrante estrangeiro. 14/12/2001. Eu era médico das duas. que mesmo para as condições do Brasil ficavam além do normal”. 1955: 405). ao chegar à cidade no ano da emancipação política. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . como apontadas por Waibel: rápido crescimento da população e da área cultivada. pela presença marcante da pequena exploração agrícola e de uma “população tão polimorfa.21 . A polimorfia a que se referiu Waibel. Essas observações iniciais permitem introduzir a temática proposta nesse estudo sobre o Vale do Rio Doce. Ah! A japonesa era chefiada por um homem que se chamava Takeo Itiba3. com o mesmo objetivo.

nhão. com o cruzamento dos dois eixos viários na cidade de Governador Valadares. A infra-estrutura introduzida nas quatro primeiras décadas do século XX atuou para ordenar e condicionar a localização do capital. elas obrigavam os viajantes a pernoitarem. ao longo da Rio-Bahia. e nos lugares mais distantes permanecia intacto ou era consumido em pequena quantidade no local. até as estações ferroviárias. a madeira de lei era extraída e exportada bruta pela ferrovia. O trajeto do Rio de Janeiro à Governador Valadares. Como as estradas eram de terra. A Estrada de Ferro Vitória a Minas – EFVM . Dessa forma. A introdução do caminhão e do Jeep Willys por empresas e por pessoas com capital suficiente. condutores e passageiros constituíam um mercado que favorecia o desenvolvimento dos núcleos urbanos. o novo sistema de transporte permitiu explorar os recursos florestais (madeira de lei e carvão vegetal) e minerais (mica. antes isolados. surgiam povoados. acelerou o controle dos agentes econômicos sobre o território. nas décadas de 1940 e 1950. Serrarias 22 . O sistema de transporte rudimentar por tropas de mula e canoas. Na década de 1910. era de dois dias. pela impossibilidade de embarcá-las. Diferente do passado. Essa extração dos recursos florestais ocorria apenas próxima as estações da EFVM. que rapidamente evoluíram para vilas e cidades. ficando as toras maiores.corta a região do rio Doce no sentido Leste-Oeste e a Rodovia BR 116 (Rio-Bahia) no sentido Norte-Sul. as tropas de mula foram substituídas por caminhões. com o restante consumido pelo fogo. de madeira para as serrarias e de mica para as indústrias de beneficiamento localizadas em Governador Valadares. cristais de rocha e pedras coradas). especialmente daqueles ligados à extração de carvão para as grandes siderúrgicas. com pernoite em Muriaé. e empresas de ônibus regionais colocaram os povoados em contato com as estações ferroviárias e com os centros urbanos que ofereciam as linhas de ônibus para a capital mineira ou as ligações interestaduais. hoje feito de ônibus em nove horas. como antes ocorrera onde se localizaram as estações da estrada de ferro. As chuvas interditavam as estradas por longo tempo e obrigavam os veículos a ficarem por dias parados em postos de gasolinas ou pequenos povoados. de instituições e de pessoas. foi substituído por uma rede de estradas que se espraiou por todo o território.TERRITÓRIO. Os diversos lugares. Nos locais onde eram abertos postos de gasolina e mecânicas. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . foram interligados à ferrovia e rodovia por estradas vicinais. cortando áreas de floresta desabitadas.

em primeiro lugar.se multiplicaram nos povoados e vilas existentes ou. com a fixação dos comerciantes que abasteciam os trabalhadores e com as ligações vicinais que se estabeleciam. No Vale do Rio Doce. possuidoras de grandes extensões de áreas florestais. meio inicial de capitalização (madeira de lei.23 . A mercantilização da terra induziu o surgimento TERRITÓRIO. elas próprias. especialmente a Belgo-Mineira e a Acesita (atuais ArcelorMittal). grandes proprietários. Nesse contexto o posseiro passou a enfrentar a concorrência de fazendeiros e de atores sociais que se voltam para a terra (especuladores. As terras das companhias siderúrgicas serviam. A Companhia Siderúrgica Belgo Mineira. industriais. especuladores e investidores dos grandes centros urbanos. adquiriram valor de mercado. agentes das grandes companhias e empresas madeireiras. funcionários do governo estadual. cujo presidente era Júlio Soares. Desta forma. Os acampamentos das turmas encarregadas de produção de carvão e lenha para as siderúrgicas evoluíam para povoados e vilas. Com a abertura de estradas nas áreas florestais.” A frente pioneira é característica pela presença de pessoas com capacidade. profissionais liberais. que aumentava conforme a proximidade das rodovias. para se tornar um valor econômico considerável. As áreas. a preexistência de matas deixou de ser apenas um atrativo para o tradicional posseiro que abandonava as “terras cansadas” e ia abrir nova clareira na mata. instalados nas vilas e cidades da região. Juscelino Kubitschek. na década de 1950 também era proprietária de uma grande fábrica de compensados na cidade de Governador Valadares. porém elas também mantinham grandes serrarias. influência e poder para constituírem grandes latifúndios. davam origem a novos núcleos urbanos. além de serraria. por meio da sua subsidiária Companhia Agropastoril. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Como observou Waibel (1955: 407): “Empresas madeireiras e serrarias penetram hoje na mata antes do colono e em muitos casos facilitam-lhe o árduo trabalho. além dos particulares. as terras sofrem intensa valorização monetária. comerciantes. carvão e lenha) para posseiros. e onde se produziam carvão e lenha. cunhado do governador mineiro e presidente do Brasil. estações ferroviárias e centros de comércio. para a produção de carvão vegetal e extração de lenha. também estavam presentes companhias siderúrgicas. dormentes para ferrovia. entre outros). de onde se extraia madeira de lei. presença de grandes investimentos de capital e valorização econômica dos recursos naturais.

. siderúrgicas. por vários anos. a abertura de rodovias.TERRITÓRIO. a siderurgia. Os investimentos de capital favoreceram o adensamento demográfico e o espraiamento da frente pioneira.. condição a ser atestada pelo agrimensor responsável pela medição das terras requeridas. por meio de arranjos legais. isto é. “A terra passa (. “Pior. 2008: 243). No final da década de 1950. todos esses inacessíveis para os posseiros. Os editais dos processos de legitimação de terras eram publicados no diário oficial. a compra e venda da terra ou do direito de posse e a propriedade privada como condição para obtenção e manutenção da posse da terra fecha os espaços para os posseiros e desestrutura as comunidades de vizinhança de lavradores pobres.) das mãos dos posseiros às dos que vinham ocupá-la. e destes às pessoas com capitais suficientes para comprá-la e garantir a propriedade cercando-a e fazendo-a medir por agrônomos enviados pelos departamentos competentes. títulos duvidosos ou falsos um indivíduo se apodera de grandes extensões de terras.. geralmente. em detrimento do verdadeiro posseiro. a extração e beneficiamento da mica. diversos povoados surgiram em torno desses empreendimentos capitalistas. A legislação de terras de Minas Gerais facilitou esse processo ao desconsiderar o preceito constitucional que colocava como condição para a legitimação da posse a obrigação da “morada habitual” nas terras. compreendendo todo o trecho do curso médio do 24 . porém. ligando as propriedades e lugarejos às rodovias e estações ferroviárias.” (CASTALDI. As estradas vicinais foram abertas pelas serrarias. mas a partir dos anos de 1930 a indústria da madeira. 1958: 65) A legislação e a prática dos chefes dos distritos de terras permitiam burlar o direito de posse. independente de a área ser ocupada por posseiros. A valorização da terra como mercadoria. na zona do rio Doce. isto é.do fenômeno da grilagem de terra. é que isso se dá. a preferência de compra dado ao ocupante de fato (posseiro). analfabeto” (GARCIA. em 95% por casos). A exigência mineira era a comprovação de cultura ou criação de gado.” (GARCIA.. “na grande maioria dos casos (podemos dizer. 1958: 65).. A EFVM foi o fator inicial de colonização. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .. influência política. mineradoras da mica e fazendeiros. folha de maior circulação e nos locais de costume. o saneamento e o combate as endemias foram aceleradores da ocupação para além da estreita faixa próxima do rio e ao leito da ferrovia.

rio, as terras ao longo das rodovias e ferrovia apresentam áreas de matas devastadas e troncos carbonizados, mas no geral foram limpas após a destruição da cobertura florestal. As terras estavam ocupadas por grandes fazendas especializadas nas “invernadas” (engorda de gado bovino), com grande importância para o abastecimento de Belo Horizonte e Rio de Janeiro (STRAUCH, 1958: 120). A extração e beneficiamento da madeira representavam a principal atividade de todo o médio Rio Doce, porém crescia a distância entre os locais de extração e de beneficiamento. A cidade de Governador Valadares concentrava 12 grandes serrarias e uma importante fábrica de compensados (subsidiária da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira); no geral as pequenas cidades possuíam mais de uma serraria. O principal problema enfrentado por essa indústria era a baixa oferta de energia, que se agravou, nos anos de 1950, por causa do crescimento da demanda dos núcleos urbanos.4 Num raio de 60 quilômetros em torno das cidades de Governador Valadares, Teófilo Otoni e Caratinga constituíram dezenas de povoados, vilas e cidades; a maioria localizada ao longo da EFVM e das rodovias. Todos esses núcleos se transformaram em importantes praças comerciais, com o movimento dependente da economia rural do entorno (agropecuária e extrativismo vegetal/mineral). O aspecto urbano era dominado por construções baixas de pequenos cômodos, porém com a especificidade de serem de alvenaria, apesar da abundância de madeira, e de usarem telhado de cerâmica; o telhado de tábuas (tabuinha) era mais comum no meio rural. O acabamento da maioria das construções era rudimentar e estavam ausentes as instalações sanitárias, até mesmo as fossas sépticas. Esse quadro perdurou por muito tempo, inclusive depois da entrada do Serviço Especial de Saúde Pública – SESP e da criação dos serviços de água e Esgoto. O esforço desses serviços foi para que, pelo menos, a fossa séptica fosse instalada nas residências e estabelecimentos comerciais e industriais fora das áreas centrais das maiores cidades e nos núcleos urbanos menores.5
4 Waibel classifica de estágio “post-pioneiro” quando a terra já foi ocupada e a mata praticamente desapareceu. Nessa fase ainda os sinais da ocupação recente aparecem nos troncos carbonizados e árvores derrubadas nos pastos, além da presença de serrarias e da produção agrícola (WAIBEL, 1955: 408) VILARINO, Maria Terezinha B. Entre lagoas e florestas. Atuação do Serviço Especial de Saúde Pública (SESP) no saneamento do Médio Rio Doce: 1942-1960. Belo Horizonte, UFMG, 2008. (Dissertação de Mestrado).
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Para Waibel o ciclo “post-pioneiro” se completa entre 10 e 20 anos. Isso é constatado no Vale do Rio Doce, pois a década de 1960 é marcada pela mudança no aspecto urbano, caracterizado por construções de melhor qualidade, com os cômodos de tamanho normal (padrão), calçamento das ruas, construção e/ou extensão das redes de abastecimento de água e canalização do esgoto, estabilização do fornecimento de energia, ampliação do serviço de telefonia, entre outros. No Vale do Rio Doce, para as localidades ligadas diretamente a reforma da EFVM para transporte de minério de ferro em grande escala e às operações da Companhia Vale do Rio Doce, criada em 1942, a partir dos Acordos de Washington, o saneamento e infra-estrutura urbana coincidiu com a fase pioneira.6 No geral, as décadas de 1960 e 1970 marcaram a transição mencionada por Waibel. Entretanto, a superação do estágio pioneiro não foi igual para todas as localidades. Enquanto algumas cidades tiveram as tradicionais serrarias e beneficiadoras de arroz e milho substituídas por diferentes empreendimentos resultantes da maior divisão do trabalho, a grande maioria simplesmente entrou em decadência com o fim das atividades da fase pioneira, sem que encontrassem alternativas, exceto a emigração de sua população (êxodo rural e deslocamento para cidades de porte médio da região, capitais ou outras frentes pioneiras). A ideologia da “marcha para o oeste”, desencadeada em 1943 com a Expedição Roncador-Xingu, não corresponde à realidade do Vale do Rio Doce, que se encontra a Leste do centro mais desenvolvido de Minas Gerais, a uma distância média de 600 quilômetros da capital federal. Na verdade a constituição da frente pioneira no leste mineiro confirma a proposição de Waibel, de que as novas zonas pioneiras eram “áreas insuladas de mata” formadas por correntes de penetração vindas de todos os quatros pontos cardeais. A vinculação que se estabeleceu do Vale do Rio Doce com o Rio de Janeiro (Capital Federal) corrobora a tese de que o deslocamento humano se dava a partir da “esfera de influência das duas cidades, São Paulo e Rio de Janeiro” (WAIBEL, 1955: 412). A zona de Governador Valadares pode ser considerada como o ponto mais avançado da influência direta do Rio de Janeiro, pelo menos até o final dos anos de
6 Com financiamento dos EUA e do governo brasileiro o Serviço Especial de Saúde Pública – SESP atuou no saneamento e na criação dos Serviços Autônomos de Água e Esgoto – SAAE.

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1960, quando a ligação rodoviária com Belo Horizonte é asfaltada e o sinal de televisão deixa de ser proveniente do Rio de Janeiro. Nessa mesma época, os estudantes também mudam o seu destino, preferindo as escolas de ensino médio e superior da capital mineira. A fragilidade da frente de expansão Os dados das sinopses estatísticas de 1890 e 1900 indicam a presença de uma incipiente frente de povoamento nos vales dos rios Doce, Mucuri e São Mateus. Pela Sinopse do recenseamento de 31 de dezembro de 1890 (BRASIL, 1890) a população dos municípios, cujos territórios abrangiam a zona formada pelos referidos vales, totalizavam 147.727 habitantes, correspondendo a 4,6% da população de Minas Gerais (3.184.099 hab.). Esse número incluía antigas zonas de povoamento de Minas Gerais, formadas pelos municípios de Itabira, Guanhães, Peçanha e Ponte Nova. Se considerarmos apenas a região de Governador Valadares (Distrito de Figueira) a população era de 1.045 habitantes, inexpressiva diante da população do município (Peçanha), de 33.830 habitantes. A população de outros distritos na área de floresta eram maiores, mas ainda pouco expressiva: Filadélfia (Teófilo Otoni) com 9.952; N. S. do Patrocínio do Serro (Virginópolis), com 9.401; Manhuaçu com 19.075; e Caratinga com 12.297 habitantes. Em 1900 a situação não modificou significativamente, com a população atingindo 4,8% do total do estado (BRASIL, 1900). O Censo de 1920 apresenta uma realidade bastante diferente, indicando o impacto causado pelas ferrovias Bahia-Minas (Vale do Mucuri) e Vitória a Minas (Vale do Rio Doce), iniciadas em 1881 e 1903, respectivamente, e concluídas em 1942. A população regional cresceu de 467% em relação a 1900, passando a representar 13,87% da população total do estado. Se excluirmos os municípios antigos, teremos a população de 437.372 habitantes, em 1920, aumentada para 577.685 (1940); 835.952 (1950) e 1.070.082 habitantes (1960), (BRASIL, 1920; 1940; 1950 e 1960). Os dados do crescimento populacional indicam uma diminuição significativa da taxa de expansão populacional entre as décadas de 1920 e 1940 (32%) e um novo incremento nas duas décadas seguintes (144%). Isso indica o impacto da construção da rodovia Rio-Bahia, iniciada em 1937 e concluída em 1944, especialmente se considerarmos que os principais municípios ficaram sob a influência
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direta da nova estrada. Em 1960 os municípios destacados atingiram 16,58% da população total do estado de Minas Gerais. A ocupação demográfica das terras do médio rio Doce, produzida pelas frentes de expansão do povoamento (migração interna) caracteriza-se pelo processo de apossamento de terras devolutas para uso particular. As frentes de ocupação são provenientes das antigas áreas de povoamento das Minas Gerais (Serro/Guanhães/Peçanha; Mariana/Ponte Nova/São Domigos do Prata; Caeté/Antônio Dias/Itabira); da Zona da Mata Mineira e Norte do Rio de Janeiro; do Espírito Santo; e do Vale do Jequitinhonha/Bahia, entre outros. O apossamento era individual, porém promovido por indivíduos reunidos por laços de parentesco e compadrio. A configuração natural do relevo favorecia o estabelecimento dos posseiros junto aos cursos d’água (córregos), cuja extensão da ocupação era determinada pela vertente.

Figura: Comunidade do Córrego do Batata. Pelo desenho construído pelos próprios moradores da comunidade, percebe-se que a ocupação se estabeleceu nas vertentes dos cursos d’água (córregos) que compõem uma microbacia. Fonte: ESPINDOLA, H. S. et. al. Relatório do Diagnóstico socioeconômico e zoneamento ambiental do município de Governador Valadares. Projeto realizado por convênio UNIVALE/PMGV/CAT/UFV, com apoio financeiro do CNPq. 2002.

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A frente de expansão abre terras para o excedente demográfico que não encontra meios de subsistência na origem. Formava-se a comunidade de vizinhança, cuja vida econômica não era estruturada a partir da produção para o mercado. Isolados na mata, a cooperação entre os vizinhos era fundamental para enfrentar as dificuldades do meio.
Antes as casas eram feitas de taquara e sapé, pois não existiam telhas e materiais de alvenaria. A pobreza da comunidade antigamente era muito grande. Existiam muitos males como anemia, febre amarela, amarelão, paludismo, mazela, bico de coruja, latia, lázaro e muitos tumores. As pessoas usavam remédios alternativos como tomar cachaça para o tumor estourar. Já morreu muita gente de sarampo, catapora, cachumba, e doenças transmitidas por piolhos e percevejos. As pessoas que morriam eram enterradas no pé do cruzeiro.7

Os ocupantes apropriavam das terras e se tornavam posseiros de terras devolutas. A produção era destinada a subsistência, porém era preciso garantir um excedente para ser vendido no “comércio” mais próximo. Não era a terra que possuía valor de troca, mas esse excedente que era levado ao mercado e permitia ao posseiro completar suas necessidades.
Há uns 80 anos atrás era plantado milho, feijão e outros para a própria subsistência. Já foi colhido muitos sacos de arroz, de feijão que eram vendidos para atravessadores que levavam para cidade.8 A agricultura era muito forte. Plantava de tudo na comunidade e tudo produzia muito bem. As melhores terras eram ocupadas com lavoura branca, especialmente nas baixas era plantado o arroz. Nas plantações não se usavam adubos, era tudo natural e o trabalho todo manual. Já se plantou também muita cana para fazer cachaça e rapadura. Antes a mão de obra era muito barata. Era usado o método de trocar dia... Antigamente, ao se produzir, guardavam as sementes para refazer o plantio no ano seguinte. As sementes eram todas selecionadas e não era necessário comprar, e produzia-se muito. O milho era vendido debulhado ou na palha.9
7 Depoimento de morador do Córrego de São Gabriel, no norte do município de Governador Valadares. ESPINDOLA, H. S. et. al. Relatório do Diagnóstico socioeconômico e zoneamento ambiental do município de Governador Valadares. Projeto realizado por convênio UNIVALE/ PMGV/CAT/UFV, com apoio financeiro do CNPq. 2002. Depoimento de morador do Córrego São Silvestre, no leste do município de Governador Valadares. Ibdem. Depoimento de morador dos córregos do Angico e da Peroba, no noroeste do município de Governador Valadares. Idem.
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Existe uma inter-relação entre terras de mata, técnica de exploração e sistema de cooperação de vizinhança que favorece o avanço da frente de expansão. Essa se integrava à economia de mercado ao absorver excedentes demográficos de outras zonas e ao produzir excedentes que eram comercializados. O que a caracteriza é o uso privado das terras devolutas, num contexto que essas não são regidas por valor de mercado (MARTINS, 1974: 45-46). O posseiro praticava o sistema da queimada e rotação de terras, com a roça dentro da mata, tendo como instrumento de trabalho a enxada e como cultivo o arroz, feijão, milho, abóbora, além de engordar porcos. Os aspectos técnicos da agricultura rústica dos posseiros, baseada na abertura da clareira na mata e queimada, associado à forma de ocupação das vertentes, favorecia o desperdício das propriedades geoecológicas do terreno e dos seus recursos naturais.
Na época da ocupação da área para a agricultura não existia muita preocupação com o desmatamento, e o uso do fogo para limpeza das áreas era prática comum. Não eram realizados aceiros, e a maior parte da matas foi sendo destruídas por queimadas.10 Para fazerem as plantações, os agricultores cortavam as madeiras e queimavam no local mesmo. Não faziam aceiros e acabavam queimando muito mais área do que precisavam para plantar. Para plantar 10 litros de milho e feijão era queimada uma área que cabia 100 litros ou mais. Muita madeira foi queimada no chão. Hoje têm dificuldades de conseguirem madeiras para fazerem cercas.11 O plantio de arroz e feijão diminuiu muito. Esses produtos estão sendo comprados de fora, para o consumo das famílias. A produção diminuiu devido o enfraquecimento das terras.12

Esse sistema de agricultura rústica, que obrigava o posseiro a abrir outra clareira depois de três anos de cultivo, longe de ser transitório era uma situação permanente que se sustentava com novas derrubadas na floresta. A ocupação dos posseiros era sempre precária e itinerante, ocorrendo em locais isolados ou de acessos difíceis. Essa ocupação era viabilizada porque era feita pelo conjunto de famílias vinculadas entre si e num sistema de dependência mútua (CASTALDI, 2008: 333).
10 Depoimento de morador dos córregos do Angico e da Peroba, no noroeste do município de Governador Valadares. Ibidem. 11 Depoimento de morador do Córrego do Bernardo, no noroeste do município de Governador Valadares. Ibdem. 12 Depoimento de morador do Córrego do Sabiá, no noroeste do município de Governador Valadares. Ibdem. 30 - TERRITÓRIO, SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO

Essa precariedade estrutural se intensificava com a penetração da frente pioneira, isto é, a entrada do interesse econômico capitalista no mercado de terras, por meio de empresas imobiliárias, ferroviárias, comerciais, industriais, bancárias etc. (MARTINS, 1975: 47). A valorização da terra como mercadoria, a compra e venda e a propriedade privada como condição para obtenção e manutenção da posse da terra fecha os espaços para os posseiros e desestrutura suas comunidades de vizinhança. A publicação, em 1957, de um estudo de Castaldi (2008) tem a vantagem de trazer para o primeiro plano o caso concreto de um grupo de posseiros estabelecido no local conhecido como Catulé, no vale o rio Urupuca, ao norte de Governador Valadares. O que levou ao estudo de caso foi o fato que se tornou destaque na imprensa: assassinato de quatro crianças, supostamente possuídas pelo demônio, ocorrido em 1955. Ao dar voz aos envolvidos na tragédia, revela-se a situação de precariedade e itinerância dos posseiros, até que, sem mais poder se estabelecer, se vêem obrigados a se vincular a um fazendeiro. O primeiro indício de que a propriedade privada atingira o grupo estudado por Castaldi (2008) remontava à década de 1940, quando Abrão, um dos entrevistados, foi obrigado a “vender” a terra, cedendo à prepotência do fazendeiro. Como lhe disse um dos habitantes: “Quando eu era menino só havia duas fazendas, o resto do terreno era mata e cada um tinha uma posse. Agora é tudo fazenda grande” (CASTALDI, 2008: 341).
A fase mais violenta desse processo concluiu-se, pelo menos para o nosso grupo, por volta de 1948, época em que Manuel S., depois de ter em vão e por duas vezes tentado ‘tirar uma posse’ (em vão porque não conseguiu defendê-la do ataque dos vizinhos) chegou à conclusão de que “lugar para mim é bestagem” e começou a “morar de favor” na qualidade de agregado nas terras que J. A. de Q. possuía à beira do rio Urupuca. (CASTALDI, 2008: 344)

A expressão “morar de favor” é comum no meio rural para se referir a condição de agregado a uma propriedade de fazendeiro (terra alheia) e, principalmente, para indicar que alguém foi reduzido a uma relação de subordinação, pois era o proprietário que determinava as condições do “favor”. A expressão descreve com agudeza a nova situação dos ex-posseiros, no momento em que a terra passou a ter dono (proprietário privado). Na nova condição o ex-posseiro ficava privado da realização do excedente econômico, o que Martins
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na mercantilização das terras devolutas. podiam estabelecer trocas que lhes permitiam o acesso a diversos itens de consumo obtidos nos núcleos urbanos. que ainda permaneciam devolutas e longe dos interesses mercantis. solidariedade nas dificuldades e cooperação nos eventos especiais. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . por um determinado tempo. A formação da propriedade privada promove uma dissolução das comunidades e do sistema de vizinhança (troca de trabalho. A economia rústica do posseiro encontrou seu limite na valorização monetária da terra. essa solução é passageira. apesar de na nova situação aumentar sua dependência para com o mercado: “a gente precisa de dinheiro para comprar no comércio café. compadrio. A facilidade da rodovia e transporte por linhas de ônibus interestaduais. desta forma. a relação que o posseiro mantinha com o mercado. sendo transportados em lombo de animais e demorava-se três dias para chegar a Valadares (numa distância de 60 quilômetros)13. porém levam para o mercado os produtos que excedem suas necessidades e. os trens pra trabalhar. pois dura até que uma estrada coloque a nova localidade em contado com as rodovias ou ferrovia. sal. porque desaparece a produção de excedente ou esse é apropriado pelo fazendeiro. Sem excedente.” (CASTALDI. no entanto. Ibidem. mutirão. empregando-se como temporários em grandes lavouras do interior 13 Depoimento de morador do Córrego do Bernardo. banha. no sudoeste do município de Governador Valadares. 32 . deixa de existir. “A comercialização dos produtos era difícil. A nova realidade colocada pela propriedade privada e o “morar de favor” deixavam os posseiros sem alguns dos recursos que anteriormente possuíam.(1975: 45) denomina de economia de excedente. fazenda etc. No contexto da frente pioneira. os lavradores entram num processo de empobrecimento contínuo. isto é.TERRITÓRIO. que os leva a abandonar a terra ou se empregar como trabalhadores assalariados ou temporários. Assim. propicia condição para o lavrador adotar uma modalidade de trabalho sazonal. “cujos participantes dedicam à própria subsistência”. ainda que limitada. como nascimento e casamento). Isso inviabiliza a permanência no local e empurra as famílias para terras afastadas. 2008:344). A denominação pela população rural de “comércio” para esses núcleos urbanos é indicativa da função que eles exercem nesse tipo de economia.

sendo a cria e o leite atividades secundárias.. TERRITÓRIO. 349. O rebanho era dos maiores de Minas Gerais. 331.de São Paulo. para a capital.7%) e parceiros (20. A limitação do mercado de trabalho local e a pobreza crescente forçam grande parte da população das pequenas cidades e vilas a tomarem a mesma direção dos contingentes de lavradores pobres: migrarem para os centros urbanos intermediários. assim. Os fazendeiros empregam uma parte dos ex-posseiros como assalariados permanentes ou temporários e uma parte menor é incorporada como agregados no sistema de parceria. com um total de 435 mil habitantes. O excedente demográfico toma a direção das cidades médias. “O tempo foi passando e as pessoas que moravam nos córregos foram embora. as culturas agrícolas deixam de ser viáveis. Ibdem. com uma parcela significativa se direcionando para os centros industriais ou para outras fronteiras agrícolas. tendo as cidades de Caratinga. perfazendo cerca de dois milhões de cabeças. os fazendeiros proíbem culturas permanentes ou de árvores frutíferas e apenas permitem construir moradias precárias. Os que conseguem se estabelecer como pequenos proprietários vêem o excedente diminuir na proporção que as matas e capoeiras desaparecem e as terras se tornam “cansadas”. Teófilo Otoni e Nanuque pólos secundários. excetos pontos localizados de agricultura de subsistência. apresentam queda significativa de produtividade e. Para não caracterizar direito de posse. nas zonas do Mucuri e médio Rio Doce. no leste do município de Governador Valadares. A pecuária de corte era caracterizada pela cria e engorda de gado bovino. em outros estados. como ocorreu com alguns dos envolvidos no episódio de 1955. A cidade de Governador Valadares ocupava a posição de pólo regional. 348. 354). O regime de exploração era marcado pelo número insignificante de arrendatários frente ao de assalariados permanentes e temporários (75.e. com o predomínio generalizado da pecuária de corte extensiva.3). A criação bovina era feita em latifúndios e propriedades médias e a agricultura era típica de minifúndios. para os pólos industriais ou para novas fronteiras agrícolas. As cidades 14 Depoimento de morador do Córrego São Silvestre. Existiam 13 núcleos urbanos de importância.33 .”14 Em 1965 podemos identificar a fase final do que Waibel chamou de estágio “post-pioneiro”. devido às terras terem ficando fracas. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . estudado por Castaldi (2008:330. i.

No ano do ataque japonês a Pearl Harbor foram assinados os Acordos de Washington. pedras semipreciosas. madeiras. O traçado da rodovia favoreceu a incorporação de vasta zona de floresta dos vales dos rios Doce e Mucuri ao grande mercado do Rio de Janeiro e. inclusive permitindo uma capitalização inicial para a formação das fazendas para invernada. Nesse ano a região foi elevada à posição de destaque para os interesses nacionais e internacionais. apresentavam expressivo crescimento urbano. bem como pelo papel de mercado consumidor e distribuidor dos produtos da região e. ao mesmo tempo. O ano de 1942 foi decisivo para a entrada da frente pioneira. 1969).TERRITÓRIO. onde se localizaram as atividades siderúrgicas da Acesita e da Usiminas. Pouco antes.de Ipatinga. A cidade se destacou rapidamente pelas funções que passou a assumir de centro de beneficiamento de produtos regionais: mica.. 1970/1973). de fornecedor de produtos manufaturados nacionais e importados. A CVRD iniciou a reforma da EFVM para transporte de minério em grande escala. concluída em 1944. ao mesmo tempo. em função do minério de ferro e da mica. apesar de somente em 1955 terem sido destinados recursos para esse fim (MEDEIROS. Essa imensa reserva florestal próxima ao Rio de Janeiro. cortou a Estrada de Ferro Vitória a Minas – EFVM (eixo leste-oeste). tinha as terras. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . a instalação da indústria madeireira abriu caminho para uma mudança do perfil da ocupação agrícola. O Governo Vargas criou a Companhia Vale do Rio Doce – CVRD e lhe atribuiu a responsabilidade de promover o desenvolvimento da região. (MINAS GERAIS. por meio de diversificadas casas comerciais. colocou-os em contato direto com regiões densamente povoadas (Zona da Mata mineira e Nordeste brasileiro).). ao se tornar ponto intermediário e de apoio aos movimentos migratórios. Pelos acordos o governo brasileiro recebeu recursos dos EUA para o saneamento da região. Timóteo e Coronel Fabriciano. por meio do Serviço Especial de Saúde Pública – SESP . na sua maior parte. atual BR 116). no mesmo ano que Getúlio Vargas deu o golpe e implantou o Estado Novo (1937). couros. como devolutas. em Governador Valadares. A rodovia Rio-Bahia (eixo norte-sul). 1958: 120). Segundo Strauch (1958:109. cereais etc. 34 . teve início a abertura da rodovia Rio-Bahia (antiga BR-4. A cidade cumpriu também uma terceira função. determinada pela sua localização. quando ficou pronta a ponte sobre o Rio Doce. inaugurando um novo ciclo de expansão econômica (STRAUCH.

35 . para um crescimento de 22. Nas décadas de 1940 e 1950 o traço comum era o caráter de pioneirismo da ocupação. Na primeira década. 1988: 212). O município de Valadares apresentou um índice do crescimento da população urbana de área 12.8% da população da parte mineira da bacia hidrográfica do rio Doce. em contraste com as zonas antigas em processo de esvaziamento.7% a. Em contrapartida as zonas do vale do rio Manhuaçu e de Guanhães apresentavam taxas de crescimento da população rural de apenas 0.3%. nas primeiras décadas do século XX a fronteira tinha se mostrado interessante basicamente para os agentes da economia “camponesa”. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . ao longo da ferrovia se estabeleceram interesses madeireiros e siderúrgicos e no eixo rodoviário se expandiu a indústria da madeira e a pecuária. marcada pela intensificação da urbanização que acompanham a entrada dos interesses capitalistas. A ferrovia Vitória a Minas e a rodovia Rio-Bahia favoreceram diretamente os novos interesses que se fizeram presentes.5% a. formada por 29 municípios polarizados por Guanhães e por 18 municípios do vale do rio Manhuaçu. apresentou taxas inexpressivas. Discriminar os índices de crescimento da população urbana e rural é ainda mais significativo para mostrar o esvaziamento em curso nas áreas de ocupação antiga e a constituição da zona pioneira.a). (MINAS GERAIS. quando os vales dos rios Doce e Mucuri foram abertos para a penetração capitalista.a de 5.. Esse processo foi marcado pela aceleração da ocupação de terras devolutas e pela instabilidade social (STRAUCH. respectivamente. acompanhado do fenômeno do crescimento acelerado da população e aparecimento de povoados. As zonas de moderado crescimento demográfico tiveram um média de aproximadamente 80%.5% e 0. TERRITÓRIO. O índice de crescimento da população para o período 1950/60 foi mais intenso na região de Governador Valadares (17 municípios). 1970/1973). A área de ocupação mais antiga. com taxa a.2% a.a e de crescimento da população rural superiores ao do estado (3. para uma média do estado de 3%. vilas e cidades. BORGES.a. os novos municípios compreendidos na área pioneira representaram 90% deste aumento. abaixo da média estadual (1.a. Esses índices indicam vigor da zona pioneira.9% a.Para Borges (1988: 209). porém o quadro modificou-se em meados da década de 1930. 1958:110. respectivamente).5% e 1. mas alguns municípios ultrapassaram 200%.

Projetos de Lei e Outras Proposições. natureza e profundidade da agitação reinante no meio rural. que cria uma Comissão Parlamentar de Inquérito. fundada na derrubada da mata e rodízio de terra. associados às mudanças econômicas produzidas pela entrada da frente pioneira. Portanto. As tensões chegaram ao auge no início da década de 1960. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . num quadro em que a apropriação da terra (condição de trabalho) passa a ser regulada pela compra e venda. O conflito produzido pelo choque entre a frente de ocupação e a frente pioneira ocorreu num contexto determinado pela atuação do Estado de Minas Gerais na regulação da apropriação privada das terras devolutas.Apropriação privada e regulação Os aspectos técnicos da agricultura rústica dos posseiros. Em 1926 foi inaugurada a Companhia 15 A informação encontra-se no site da Câmara dos Deputados. tiveram no arcabouço legal o corolário para consagrar a propriedade privada e. em Minas Gerais. em Sabará. especificando nominalmente a região de Governador Valadares. a frente pioneira tem as relações sociais determinadas pela produção de mercadorias. de 02 de março de 1964.15 Conforme Martins (1975:46-47). 1975: 47). determinar o fim da economia rústica assentada na comunidade de posseiros. No Vale do Rio Doce o processo de territorialização do capital e constituição da propriedade privada da terra foi marcado por fortes tensões sociais.asp?id=235391. o “ponto-chave da implantação da frente pioneira é a propriedade privada da terra. Acessado em 18 de junho de 2009. diferente da frente de expansão. Cunha Bueno. a partir da Constituição de 1891.” (MARTINS. Disponível em http://www.camara. Na década 1930 a produção de carvão para as companhias siderúrgicas instaladas na zona da EFVM tornou-se outro fator de capitalização para a formação das fazendas e expansão da pecuária.br/sileg/Prop_Detalhe. 36 .TERRITÓRIO. Na frente pioneira a terra não é ocupada. deste modo. pretendia investigar ‘in loco’ as origens.Belgo-Mineira. na qual as condições de vida são reguladas pelo grau de fartura e não pelo grau de riqueza. A iniciativa arquiva pela mesa da Câmara dos Deputados. como se constata na Proposta de Resolução PRC-39/1964. Sem as normas jurídicas adequadas não seria possível ocorrer essa passagem. do Deputado Federal do PSD. Em 1925 começou a funcionar a primeira usina siderúrgica integrada da América do Sul . é comprada.gov.

Brasileira de Usinas Metalúrgicas (Barão de Cocais). Em 1927 Euvaldo Lodi e José da Silva Brandão construíram a Usina Gorceix, em Caeté. Na mesma cidade, a siderúrgica Ferro Brasileiro foi instalada em 1931. Em 1931 começa a funcionar a Metalúrgica Santo Antônio, em Rio Acima. Em 1937 a Belgo-Mineira, em Monlevade, inaugurou a sua segunda usina: a maior a carvão vegetal do mundo, introduzindo também o reflorestamento à base de eucaliptos. Em 1944 é fundada a Companhia Aços Especiais Itabira – Acesita, pelos sócios Amyntas Jacques de Moraes, Percival Farqhuar e Athos de Lemos Rache. A indústria do carvão vegetal teve um importante papel na ocupação e devastação da zona florestada. (STRAUCH, 1955 e 1958; ROCHA, 1957; PAULA, 1983; GOMES, 1983; GUERRA, 1993; SILVA, 1997). O volume de madeira destinado às serrarias representou uma parte pequena (3% da madeira extraída), comparado com o que era utilizado para produzir carvão e lenha (ROCHE, s/d, p.80). No Espírito Santo, a parte da madeira para fins industriais, construção e marcenaria, correspondia a apenas 9,74% do volume total em metros cúbicos (STRAUCH, 1955, p. 98). A intensificação do povoamento e da dinâmica econômica também está ligada à indústria da mica muscovita. Este mineral, popularmente denominado de malacacheta, foi importante até o final da década de cinqüenta na economia regional e, particularmente contribuiu para Governador Valadares transformar-se no pólo regional, superando a função exercida por Teófilo Otoni. A produção era exportada quase que exclusivamente para os Estados Unidos, atendendo aos seus interesses estratégicos durante e depois da II Guerra Mundial. Ao lado do minério de ferro, a extração e beneficiamento da mica foi o motivo do financiamento americano para o saneamento e erradicação da malária – Projeto Rio Doce e Projeto Mica.16 Diante de um contexto de expansão mercantil provocado pela frente pioneira, durante as décadas de 1930 e 1950, houve uma enorme demanda pela aquisição de terras no Vale do Rio Doce. Concomitantemente, cresceu a prática de irregularidades envolvendo requerentes e funcionários do próprio governo estadual, a fim de se obter o direito de preferência sobre a compra de terras devolutas e, em seguida, obten16 A instalação e manutenção de serviços urbanos básicos ficaram a cargo de um órgão federal, fugindo à soberania dos governos locais. (FONTENELLE, 1959; SIMAN, 1988; VILARINO, 2008).
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ção do título legítimo da mesma. As disputas pelos recursos da floresta, pelos minérios (mica e pedras preciosas), pelo comércio (contrabando) de madeira e pela posse das terras “devolutas” se tornaram intensos em toda a região, desencadeando fortes conflitos sociais até 1964 (MARCÍLIO, 1961; BORGES, 1988; SIMAN, 1988, MARTINS, 1981). A questão da legitimação da posse de terras devolutas nos reporta a Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850, que ficou conhecida como Lei de Terras. Essa foi a primeira legislação agrária brasileira, substitutiva da legislação sesmarial, abolida em 1822.17 Ao caracterizar terra devoluta em seu artigo terceiro, promoveu-se uma distinção clara entre o domínio particular e o público18. Do ponto de vista jurídico a Lei de Terras é vista como marco definidor da propriedade privada e instrumento para promover o mercado de terras. Para historiadores, como SMITH (1990) e COSTA (2007), essa lei foi fundamental para o avanço do capitalismo no Brasil, principalmente a partir do fim da escravidão. A Lei nº 601 buscava impedir o acesso às terras devolutas por outros meios que não fosse a compra. Também determinava a regularização da posse ou ocupação não legitimada por título, até aquela data. O Decreto nº 1.318, de 30 de janeiro de 1854, ao regulamentar a Lei de Terras determinou os procedimentos de medição e demarcação das terras públicas e de domínio privado; a identificação das terras possuídas19; e a proteção e venda das terras devolutas. José Murilo de Carvalho (2003) fez uma descrição dos principais problemas de execução da lei, indicando que na prática ela não promoveu a venda de terras devolutas nem foi capaz de impedir a continuidade das ocupações, apesar
17 Para uma análise da legislação sesmarial e da Lei de Terras, consultar: (LIMA, 1935; GARCIA, 1958) 18 Art. 3º - São terras devolutas: § 1° - As que não se acharem aplicadas a algum uso publico nacional, provincial, ou municipal. § 2° - As que não se acharem no domínio particular por qualquer título legítimo, nem forem havidas por sesmarias e outras concessões do Governo Geral ou Provincial, não incursas em comisso por falta do cumprimento das condições de medição, confirmação e cultura. § 3° - As que não se acharem dadas por sesmarias, ou outras concessões do Governo, que, apezar de incursas em comisso, forem revalidadas por esta Lei. § 4° - As que não se acharem ocupadas por posses, que, apezar de não se fundarem em título legal, forem legitimadas por esta Lei. (Lei de Terras de 1850 apud GARCIA, 1958. p.209-210). 19 Os registros das terras possuídas ou Registros Paroquiais de terras como também eram conhecidos serviam como mecanismo de identificação das terras devolutas. Pela lógica da lei, ao identificar as terras ocupadas ter-se-ia em contra partida, identificado as terras devolutas. 38 - TERRITÓRIO, SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO

dessas terem caído na ilegalidade. A centralização na Repartição Geral das Terras Públicas, subordinada ao Ministro e Secretário dos Negócios do Império, a falta de informação e funcionários e a precariedade das repartições especiais de terras públicas das províncias impediram que a Lei de Terra atingisse o objetivo pretendido. A isso se somava o desinteresse dos particulares em legitimarem suas posses, favorecidos que se sentiam pela facilidade de se apropriarem das terras devolutas. As informações ministeriais sobre terras devolutas eram imprecisas e, até 1865, várias províncias (quase todo o Nordeste) não tinham pareceres sobre a aplicação da lei. O Ministro e Secretário da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, inicia o relatório de 1870 afirmando que a Lei de Terra de 1850 foi “mal executada e deve ser revista”. O relatório afirma que a lei não conseguiu “impedir, como pretendeu, o abuso da invasão das terras públicas, as quais continuam não só a ser assoladas, extraindo-se madeiras de lei de suas matas para ser vendidas, como também a ser possuídas ilegalmente e sem estorvo”. Reconhecese a dificuldade para executar a lei, particularmente porque isso exigia a “completa separação dos domínios particular e público”, bem como o registro das terras, porém isso não ocorreu. As iniciativas para estabelecer colônias de imigrantes também não avançaram, apesar das despesas realizadas para medições de terras, como “no fertilíssimo Vale do Rio Doce, província do Espírito Santo, nas províncias da Bahia, Paraná e outras, onde pretenderam estabelecer imigrantes americanos”20. Em seguida o relatório demonstrava em números o fracasso da venda de terras, uma receita de 412.933$000 para uma despesa em medição de 5.503:610$000.21 Sete anos mais tarde “reconhecia-se que a lei era ‘le20 Dez mil sulistas deixaram os EUA. Da parte que se estabeleceu no Brasil, quatrocentos foram para o rio Doce. Judith Jones transcreve a carta do coronel Gunter para um amigo nos EUA, na qual fala das terras do rio Doce: “Venha para cá e compre terras (...) que custarão 22 cents o acre e você poderá pagar em quatro anos, melhor que qualquer uma nos Estados Unidos, mesmo nas zonas mais férteis do Alabama.” A maioria dos americanos deixou o rio Doce, dirigindo-se para São Paulo, onde a colonização prosperou. A terra que havia despertado tanta esperança acabou expulsando-os: nuvens de pernilongos e outras pragas, o isolamento, a irregularidade das chuvas, as secas prolongadas e a malária, que não deixava sobrar ninguém. O coronel Gunter faleceu em 1883, mas deixou o filho Basil Manley, que foi nomeado representante consular em Vitória, em 1889, tornou-se acionista de ferrovia e fez fortuna, vivendo no Brasil até morte. JONES, Judith. Soldado descansa! São Paulo, Jarde, 1967. 21 Relatório do Ministro e Secretório da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, apresentado a Assembléia Geral Legislativa, 1870, p. 16-18. Disponível em http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/ u1956/000023.html. Acessado em 18 de junho de 2009.
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tra morta’ em vários dispositivos”. As terras públicas continuavam a ser invadidas e um projeto de reforma da lei foi elaborado ainda na década de 1870, mas, só se concretizaria na República.22 Com a Constituição de 1891 as terras devolutas passaram ao domínio dos estados, de acordo com o artigo 64, cujo caput afirma “Pertencem aos Estados as minas e terras devolutas situadas nos seus respectivos territórios, cabendo à União somente a porção do território que for indispensável para a defesa das fronteiras, fortificações, construções militares e estradas de ferro federais”23. Desde então cada estado passou a adotar leis próprias sobre as terras públicas. Em Minas Gerais a primeira legislação sobre a matéria foi a Lei nº 27, de junho de 1892. Os estados, no entanto, seguiram as definições de terra devoluta do artigo 3º da Lei de Terras de 1850, além de copiarlhe os mesmos fundamentos jurídicos. A lei mineira busca corrigir um problema não resolvido pela legislação imperial, apesar de ser apontado em relatório ministerial:
Se em lugar do sistema absoluto da venda de terras, fosse a lei mais flexível e liberal, facultando em certos casos sua concessão gratuita, embora em regra mantivesse o princípio da venda, acredito que não se fariam esperar as vantagens dessa medida, em bem da agricultura e do estado. Por falta de meios para a aquisição de terras contíguas às estradas, ao litoral ou aos grandes mercados, muitos indivíduos estabelecem-se em lugares longínquos. Ali plantam somente o que lhes é estritamente preciso para viver; porque a produção excedente ficaria nos paióis ou nas roças, sem possibilidade de ser transportada para os mercados, tão caro seria o frete... Enquanto oscilamos em experiências sobre colonização, não seriamos desavisados, se também tentássemos a colonização nacional em pontos mais acessíveis ao comércio milhares de braços, presentemente quase ociosos. Essa tentativa depende, porém, da revisão da lei de 1850...24

22 Para uma maior apreciação dos resultados da Lei de Terras durante o Império ver: A política de terras: o veto dos barões. In: CARVALHO, 2003. 23 Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 24 de fevereiro de 1891, Artigo 64. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constitui%C3%A7ao91.htm. Acessado em 17 de setembro de 2009. 24 Relatório do Ministro e Secretório da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Op. Cit., p. 18. 40 - TERRITÓRIO, SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO

A legislação mineira condenou o ato de ocupar terras devolutas, mas passou a incorporar elementos novos. O legislador reconheceu que as ocupações e posses de terras devolutas fatalmente ocorriam e continuariam a ocorrer, mesmo sendo ilegais. Assim, aceitou o posseiro25 como o motivo para a venda das terras devolutas. O novo lugar ocupado pelo posseiro na legislação mineira é reforçado pelo artigo 24, em seu 4º parágrafo, da Lei nº 27 de 1892, quando reconhece as posses anteriores a 1850 desde que tivessem o Registro Paroquial previsto pelo Decreto nº 1.318 de 1854. A Lei nº 27 normatiza o processo de venda de terra devoluta da seguinte forma: publicação de editais com dados sobre a situação das terras, as áreas medidas e menção à quantidade, qualidade e preço. Os lotes que não encontrassem licitantes na hasta pública podiam ser vendidos diretamente a quem os requeresse. O ato de ocupar terras devolutas foi considerado como gerador de direito, como demonstra o artigo 19 da referida lei: os ocupantes de terras devolutas sem posse legítima, com cultura e moradia habitual, terão direito à compra das mesmas pelo preço mínimo legal, logo que sejam medidas, demarcadas e expostas à venda. Desta forma a legislação instituiu o “direito de compra preferencial” pelo posseiro (GARCIA, 1958:174). A Lei n° 263, de 21 de agosto de 1899, reforçou o direito do posseiro ao definir que bastava aos ocupantes de terras devolutas, desde que comprovasse moradia habitual e cultivo, apresentarem seus requerimentos de medição durante o primeiro ano de ocupação (GARCIA, 1958: 176). O legislador mineiro, desde o início, buscou enquadrar a apropriação privada de terras devolutas pelo posseiro em determinados parâmetros legais. O marco nesse processo de regulação da posse e propriedade de terra ocorreu com a Lei n° 1.144, de 05 de setembro de 1930, ao ser criada a taxa de ocupação. Até então, apesar do reconhecimento da posse de terras devolutas como geradora de direito, permanecia a proibição legal do apossamento de terras. Entretanto, ao criar a taxa de ocupação o governo reconheceu que de nada valia a proibição legal contra o fato e, assim, legitimou a ocupação e posse de terras devolutas, mesmo que de forma implícita. Esse era o reconhecimento
25 Entendido aqui como quem desbrava e ocupa terras devolutas com o intuito de habitá-las e cultivá-las.
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de que a posse encerrava o “poder direto ou imediato sobre a coisa e também absoluto ou erga omnes”, ou seja, se reconhecia que a “posse prolongada e qualificada com os requisitos próprios pode se transformar em domínio ou outro direito real”. (COSTA, 1998: 110) O “direito preferencial de compra” e a “taxa de ocupação” ofereceram facilidades para transformar a posse de terras devolutas em propriedade privada, por meio da venda. Essa orientação foi consagrada pela Lei n. 550, de 20 de dezembro de 1949. A Constituição Brasileira de 1946, no primeiro parágrafo do Artigo 156, impõe para a “preferência para aquisição” a condição da “morada habitual”, além de limitar a 25 hectares.26 A Lei n. 550/1949, no art. 26, não menciona a morada habitual, como condição, coloca a necessidade de comprovar a cultura efetiva de pelo menos da quinta parte dos terrenos para agricultura ou de “três cabeças de gado vacum por alqueire geométrico, nos terrenos de criação”. Para Garcia (1958: 64-65) o referido artigo “encerra um verdadeiro absurdo, que tem servido de fonte a escândalos”. Isso porque os particulares que comprovarem pelo laudo do agrimensor responsável pela medição do terreno que possuem cultura ou criação de gado, podem obter o direito preferencial de compra, independente de ter moradia habitual nas terras. Estava aberto assim o mecanismo legal para excluir o posseiro lavrador e permitir que “gente que nunca viu um pé de milho” se torne proprietária de “grandes tratos de terras devolutas”. O artigo 29 afastava ainda mais as chances de prevalecer o direito constitucional do posseiro. Isso ao suprimir o direito preferencial de compra do terreno devoluto pelo posseiro, caso esse não o requeresse conforme edital de venda fixado pelo prazo de 60 dias. O princípio legal está correto, pois não se pode recriminar a venda de terras a terceiros se o posseiro não manifestou interesse de comprá-la, mesmo tendo preferência. A questão diz respeito à possibilidade real de o posseiro tomar conhecimento de que suas terras foram postas a venda, na medida em que não existia a obrigava da notificação direta ao interessado. Os editais eram publicados no jornal de maior circulação local (se existissem) e no escritório do Distrito de Terras da localidade, por um prazo de 60 dias. Como o lavrador pobre, analfabeto, isolado na sua posse pela falta
26 BRASIL. Constituição dos Estados Unidos do Brasil, de 18 de setembro de 1946, Artigo 156. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Constitui%C3%A7ao46.htm. Acessado em 19 de novembro de 2009. 42 - TERRITÓRIO, SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO

de estradas ou pelas chuvas, sem acesso a informação, poderia tomar conhecimento da publicação do edital? A questão se coloca na medida em que a posse no Direito Brasileiro, apesar de se reconhecer sua eficácia erga omnes, “não constitui um direito real típico”. O portador de título de propriedade pode “opor o seu título ao possuidor e recuperar a posse”. O contrário também seria possível, isto é, o possuidor teria hipoteticamente condição de opor eficazmente a comprovação de sua efetiva posse ao proprietário. (COSTA, 1998:110). Entretanto, a segunda hipótese encontra-se prejudicada pela distinção que se pode fazer entre “a forma e a produção da forma, entre forma e poder”, que é um aspecto dos processos de regulação, de modo que as “exigências normativas que no direito se voltam contra o próprio direito de forma paradoxal”, afastam-no do que é justo, pela ausência objetiva de pré-condições para fruir do direito, em função da esfera da racionalidade estar dissociada da realidade. (FISCHIER-LESCANO, 2010:172-175). O alargamento da categoria de posseiro, pelo legislador mineiro, possibilitou incluir junto ao lavrador podre os fazendeiros, comerciantes, industriais, funcionários do governo estadual, profissionais liberais, agentes de grandes companhias, empresas madeireiras e grandes companhias siderúrgicas, que passaram a disputar a posse da terra. No contexto marcado por enfrentamentos de poderes com base na violência, a possibilidade garantida constitucionalmente do fruir do direito pelo lavrador pobre ficou prejudicada pela realidade vivenciada num quadro de desequilíbrio de forças entre os agentes da ordem social objetiva. Como observa Thompson (1997:351), ao questionar as interpretações simplistas sobre a lei, na sua conclusão de Senhores e Caçadores, a ação regulatória do Estado, oposta a uma tradição assentada na prática decorrente da longa duração, não contrapõe propriedade e nãopropriedade, no sentido da propriedade privada. Na verdade, é um momento de transição no qual concepções distintas de propriedade são contrapostas socialmente. O direito de propriedade privada se constituiu em detrimento de outras formas de apropriação da terra. Para o desenvolvimento da economia capitalista foi decisivo a constituição de um mercado de terra, porém esse mercado não se constituiu sem que se eliminassem dois grandes obstáculos, segundo Hobsbawm (2006), “os proprietários de terra pré-capitalista e o campesinato tradicional”. Isso se dá pela combinação da ação política e econômica, na qual a
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sendo que a maior parte dos distritos de terras localiza-se na região do Vale do Rio Doce. O pedido da medição não havia sido requerido pelos posseiros. 28 De acordo com o memorial do agrimensor as terras eram ocupadas por Manoel Rocha e Antonio Avelino Rocha. entendido pelos compradores como garantia de legitimação de domínio. Nesse período iniciaram-se as obras de infra-estrutura (principalmente estradas e pontes) e a atenção do governo voltou-se para as terras devolutas. Matas e Colonização de Minas Gerais.” (MARTINS. promove a alteração do significado da terra e. O governo mineiro.. Arquivo Geral do Instituto de Terras do Estado de Minas Gerais – ITER. deste modo. 1975:47) O Estado. em torno de um valor: a propriedade privada da terra. as terras foram postas a venda. Requerente: Manoel Rocha e Antonio Avelino Rocha. conduzido pelo Departamento de Terras. 2276. Como os ocupantes28 não se manifestaram para a compra. Isso se dá porque a “frente pioneira formula o seu antagonismo com a frente de expansão. nas duas primeiras décadas do século XX. A norma jurídica (Lei) se apresenta como principal componente para implantação e sustentação do processo de mercantilização da terra. em um lugar denominado “Ribeirão do Lage”. mas mesmo assim a medição e avaliação do lote foram aprovadas pelo Chefe do Distrito.instituição da propriedade privada da terra joga peso significativo para o processo de transição. No Brasil. característica das frentes de expansão.. Entretanto passaram três hastas públicas sem que ninguém aparecesse. Estudos de casos Em nosso estudo de caso selecionamos cinco processos referentes à legitimação de terras nas regiões do Rio Doce e Mucuri. ao determinar a aplicação da norma jurídica e ao criar os mecanismos burocráticos e coercitivos para sua execução. 27 Processo N°. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Em 1925 o 4° Distrito de Terras de Caratinga fez a medição de um lote de terras localizado a nove quilômetros da cidade. 44 .TERRITÓRIO. a lei institucionaliza a frente pioneira ao promover o fim da fase dominada pela posse. O primeiro caso27 exemplifica a formação de um mercado paralelo de venda de posses. por meio de distritos de terras localizados nos municípios dessas regiões. altera a dinâmica territorial. tratou de ampliar o número de distritos de terras para a medição e regularização das terras devolutas.

para os requerentes o fato de estarem munidos de um documento público que comprovava a compra da terra (na verdade houve a compra do direito de posse) teria garantido o seu direito.45 . O comprador assim que recebeu o título do governo remeteu-o ao Registro Torrens29. o reclamante não havia exercido o direito preferencial. apresentadas com o intuito de provar o direito dos reclamantes. protestando contra a venda das referidas terras. se o comprador não estivesse ciente de que apenas adquiria o direito preferencial de compra.até que em 1928 uma proposta de compra foi aceita. As terras que estavam ocupadas passaram a pertencer ao particular cuja proposta de compra foi aceita fora da hasta pública. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . além de se comprometerem a pagar pela terra o mesmo valor da venda. nos mesmos termos. mesmo o ocupante tendo morada habitual.” Nesse sentido. (BOLONHINI JR. Dessa forma o posseiro ocupante 29 O Registro Torrens é uma matrícula de imóvel incontestável após sua efetivação e depende de se verificar antes inexistência de contestação. A venda do direito de posse era uma prática comum e motivo de conflitos. seria um “direito especial cujo fundamento dos interditos assenta-se na aparência da propriedade”. sem que o documento apresentasse validade.. Se a lei protege. O fundamento para a solicitação são duas escrituras públicas de compra e venda dessas mesmas terras. 30 Durval Alexandre dos Santos comprou as terras mesmo não sendo o posseiro ocupante. mesmo o edital tendo sido expedido e publicado por três vezes. Como a defesa possessória não esta garantida por lei e a legislação mineira abria brecha no direito constitucional. Para um “comprador do direito” valia as mesmas regras impostas pela legislação ao antigo posseiro. os posseiros encaminharam por meio de advogado procurador uma carta ao Secretario da Agricultura. Eles alegaram serem os verdadeiros ocupantes e pediram a anulação do Registro Torrens. O parecer jurídico foi pelo indeferimento da reclamação e afirmação da legalidade da venda. 2004:37). depois da venda. “A posse é um estado de fato. TERRITÓRIO. Entretanto. ficava desamparado pelo Estado. é visando à propriedade de que ela é manifestação.30 Entretanto. se não manifestasse a vontade de exercer o direito preferencial à compra. As duas escrituras deixam claro que se tratava de terra devoluta e dependiam de título. mas perante o Direito Brasileiro a posse não é um direito em si mesmo nem era possível comprar esse direito. E mais. com base no fato da hasta pública permitir a venda a quem quer que seja.

tirando da referida propriedade os recursos necessários para criarem uma família numerosa de 15 filhos.não tinha mecanismos de se proteger contra terceiros. O segundo caso31 permite discutir os processos de legitimação de terras devolutas nas décadas de 1940 e 1950. vizinha a outra já titulada em nome de seu marido. a terra pretendida era cultivada. O processo transcorre ao longo de uma década. O Prefeito de Governador Valadares na época. o que propiciava situações de reais conflitos. encaminha uma carta ao Secretário da Agricultura solicitando reconsideração do despacho de indeferimento à proposta de compra realizada por sua sogra. entre os anos de 1941 e 1951. Requerente: Helena Coelho Cipriano. nos quais se encontra o choque entre a racionalidade da lei e a realidade social marcada pelo favorecimento político. A requerente então. 46 . por se tratar de terras pertencentes aos meus sogros que ali labutam há mais de 20 anos. Arquivo Geral do Instituto de Terras do Estado de Minas Gerais – ITER. no lugar denominado Ribeirão da Chuva. Matas e Colonização encaminhou o processo para o Arquivo Central. de 14 de novembro de 1936. 31 Processo Nº 14376.TERRITÓRIO. “Esse apelo faço-o particularmente a V. O total de 928 ha era muito superior ao definido pela Lei nº 171. com 493 ha. genro da requerente. para aguardar resolução legislativa. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . O Distrito de Terras. ou seja. Excia. A solicitante era casada e em nome de seu marido encontra-se registrado um título de propriedade de uma área adjunta à sua. com o intuito de que o Secretário revogue o referido despacho.” Argumenta que é dever do Estado proteger os filhos da Nação que desbravaram as matas e lavraram a gleba. Sugere ao governador mandar fazer uma sindicância in loco para comprovar o direito dos sogros. município de Governador Valadares. do presidente da Câmara de Vereadores e do gerente do Banco do Brasil. reúne um dossiê a fim de comprovar que seu marido “exerce as profissões de agricultor e pecuarista”. por se tratar de área superior a 250 ha. O lote objeto da legitimação é uma área de 435 hectares localizada no distrito de Brejaubinha. Diante do exposto o Secretário da Agricultura emite um despacho de indeferimento da proposta de compra formulada pela requerente e alega que as terras devem ir a hasta pública. O dossiê conta com declarações de coletores do estado e da União. O exemplo é de uma requerente que pretende adquirir o título de uma enorme área.

e de não manterem prepostos ou colonos e. pelo fato de não existir a posse efetiva do requerente. Como a coletoria não fazia questionamentos ou investigava a veracidade da ocupação. porém isso também não foi levado em conta. A alternativa “legal” foi a exigência da comprovação do pagamento da taxa de ocupação. TERRITÓRIO. O fato do marido da requerente já possuir grande propriedade seria um grave impedimento para aquisição do terreno. Também não havia controle para verificar se alguém já pagara taxa sobre a mesma área. 1. ou até mesmo se o terreno em questão era ou não devoluto. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . A carta do prefeito foi decisiva para a concessão da terra.144 de 5 de setembro de 1930 (lei que institui a taxa de ocupação) – Os ocupantes de terras públicas que houverem pago durante dez anos o imposto de ocupação. Arquivo Geral do Instituto de Terras do Estado de Minas Gerais – ITER. O processo de legitimação transcorreu ao longo de treze anos. Essa comprovação foi a maneira encontrada pelo governador de Minas Gerais para legitimar a condição de posseiro e. Essa falha abria brechas para se ludibriar a lei e obter grandes extensões de terra a custa de posseiros que efetivamente tinham morada habitual. nos termos garantidos pela Constituição de 1946. A taxa de ocupação. desde que sejam titulares de direitos preferenciais. dessa forma.O governador revoga o indeferimento e concede o direito preferencial de compra das terras. mas em Governador Valadares. assim. de 05 de setembro de 1930. possibilitava que determinada pessoa a pagasse por dez anos. legitimarão as suas posses mediante o pagamento do custo da medição.47 . 33 Processo N° 5390. instituída pela Lei nº 1. independente do fato dos requerentes não residirem no lote. sem necessidade de comprovar essa efetiva ocupação (apto para exercer o direito possessório). o funcionário arrecadador não tinha como saber se realmente o pagador era o posseiro ocupante da área declarada. porém traz novos elementos relacionados a situações conflituosas que envolvem grilagem de terra. O terceiro caso33 assemelha-se ao anterior. condicionada a comprovação de que a taxa de ocupação foi paga de 1938 até o exercício de 194832. entre 32 Art. 1º da Lei n. possibilitar o exercício do direito de compra preferencial. não poderem fazer uso do direito preferencial de compra.144. nos termos do regulamento atual. para além de garantir legitimidade para a efetiva posse. A influência de parentes com alguma autoridade na região se sobrepõe às condições previstas na lei. Requerente: Amadeu Meloto Neto.

portador de uma carteira a título precário e a mando do 3º Distrito de Terras. O lote em questão abrange uma área de 228 ha.1948 e 1961. localizado no distrito de Frei Serafim. como o terreno não possuía benfeitorias ou culturas. esse fato se assemelha ao ocorrido em outros quatro processos de legitimação de terrenos situados na mesma área (Urupuca) e medidos pelo mesmo agrimensor. não desejam trazer embaraços à legitimação em nome do interessado. O requerente residia na cidade de São Paulo e o que alegava para adquirir a terra era o fato de ser agrônomo e.TERRITÓRIO. O lauto técnico classificou o terreno como de muito boa qualidade. alegando manter morada habitual e cultura efetiva no terreno. (x) que está pronunciado por crime de morte praticado naquela época na pessoa de um pobre posseiro naquelas imediações. ante a impossibilidade de provas concretas sobre os seus direitos. A leitura do processo permite constatar que houve um conluio que envolveu o requerente agrônomo. Esse Dr. (x). supostos posseiros que questionaram a medição do terreno e o direito do agrônomo. como consta no aludido ofício: ali operava de maneira desumana o Sr. Cerca de um ano depois. mantidas ou subvencionadas pelo Estado. Como não residia no terreno nem mantinha colonos ou prepostos. 97 – Aos diplomados por escolas de agricultura ou de veterinária. portanto. o agrimensor que mediu o lote. também declarou ter pagado pela medição do mesmo. 34 Art. (y) mulato que via o mundo através de um par de óculos escuros cumpria ali religiosamente as ordens do Sr. no lugar denominado “Urupuca”. que tenham requerido medição e cujos trabalhos geodésicos tenham sido iniciados até a data desta lei. sediado em Teófilo Otoni. de 20 de dezembro de 194934. 48 . provavelmente. a forma encontrada para obter a terra foi alegar o direito concedido pelo artigo 97 da Lei nº 550. um suposto posseiro pediu que a medição do lote fosse feita em nome do agrônomo (o requerente do lote). Essa renúncia pode ser conseqüência de possíveis ameaças sofridas pelos posseiros. uma vez efetuados os pagamentos devidos. fica autorizado o Governo a lhes deferir a concessão e expedir o respectivo título definitivo de propriedade. um grileiro e. mas depois protestou contra o ato. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . todo coberta por matas e com aptidão para cultura de diversos cereais. desistem da reclamação alegando que. município de Itambacuri. Segundo informações contidas no ofício do engenheiro chefe do Escritório Especial de Terras de Governador Valadares. Conforme o processo. estar preparado para aproveitá-la.

numa situação de suspeitas acerca da legitimidade do direito sobre a área. Desta forma afastava-se legalmente a mancha de grilagem que pesava sobre a obtenção da terra. alegando cultivar mais de um quinto da área37. TERRITÓRIO. da sua esposa e de seus sete filhos menores. no lugar denominado “Lagoa Boa Vista”. Meses antes de requerer a medição. a medição de um lote de 250 ha. Anexou como prova comprovante de pagamentos da medição. facultativo desde a Lei n. obtendo o título de propriedade do terreno. O advogado havia exercido os cargos de agrimensor e chefe do Distrito de Terras de Teófilo Otoni. agora com área medida de 216 ha.No final o requerente (agrônomo) foi privilegiado em detrimento dos posseiros. A medição do lote e a avaliação dos terrenos foram aprovadas em janeiro de 1953. intermediação junto ao referido distrito e de defesa dos interesses do cliente. porém no processo consta uma carta de 1951. em nome do filho Friedrich Luz de oito anos de idade. do custo total do lote e selos para títulos.36 O início do processo se deu em setembro de 1950. A pressa em solicitar esse registro. e ilustra o confronto entre as frentes de expansão e pioneira numa zona banhada pelo rio Urupuca. logo estava numa posição vantajosa para prestar os serviços de orientação. em 1955. o requerente solicitou cópias da planta e do memorial de medição da terra. em nome de Friedrich Luz. demonstra uma aspiração de prova incontestável de domínio sobre o terreno. Arquivo Geral do Instituto de Terras do Estado de Minas Gerais – ITER 36 Esta zona foi onde ocorreu o episódio conhecido como “Demônio de Catulé”.estudado por Castaldi. quando Thiago Luz requereu.171. 159. 37 250 ha era o limite permitido para a compra de terras devolutas sem autorização da Assembléia Legislativa. município de Itambacuri. Como o requerente pode ter quitado o lote dois anos antes da aprovação da medição e do preço das terras? Tudo indica que o pai do requerente desconhecia o lote 35 Processo Nº. Passados cerca de cinco meses da titulação. 1. pouquíssimo utilizado. nomeou o advogado Washington Walfrido do Nascimento para seu procurador. na qual Thiago Luz requer a compra preferencial fora do edital de convocação (hasta pública) pelo preço da avaliação do lote. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . para fins de Registro Torrens. de 7 de outubro de 1930.49 . O último caso35 se refere a um terreno localizado no distrito de Frei Serafim.

Com o processo paralisado ocorreu a primeira contestação à medição do terreno pelo agrimensor e pedido de direito de compra preferencial. mas a decisão foi suspender o andamento do processo. Processo 159.TERRITÓRIO. Friedrich Luz não teria direito sobre 38 Ao longo de todo o processo o interessado através de seu procurador requer a continuação alegando já ter pagado as terras e apresenta o pagamento da taxa de ocupação. 39 Parecer do Departamento de Terras e Matas. uma vez que outro agente interessado na mesma terra podia pagar a referida taxa e pleitear a preferência. A falta de aptidão determinava a perda do direito de preferência de compra e a realização de hasta pública. Como o requerente era “menor absolutamente incapaz” a Seção de Concessões da Secretaria de Agricultura sustou a venda e mandou arquivar o processo até 02 de dezembro de 1958. como veremos a seguir. interposta por Joaquim de Souza e seu filho Assis de Souza Simões. Segundo os reclamantes. No processo consta parecer do Departamento de Terras.reivindicado para compra. ao completar 16 anos. O pagamento das terras antecipadamente pelo pai de Friedrich Luz foi uma manobra bem sucedida. 50 . SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . não era estrangeiro. Isso não teria sido possível sem a devida orientação do experiente advogado. não era menor de idade etc. constitucionalmente um direito do posseiro com morada habitual. quando esse se tornaria capaz. em nome de Friedrich Luz. Matas e Colonização informando que o andamento de todos os processos de concessões de terras que se acham paralisados por motivos da menoridade do requerente exigiam a apresentação da prova do pagamento da taxa de ocupação relativa ao exercício corrente ou a exercícios anteriores. visando defender o direito sobre terreno de 24. Entretanto.39 A taxa de ocupação servia para forjar ocupações e requerer o direito de compra preferencial. o comprovante do pagamento da taxa podia ser ineficaz para assegurar o direito à posse. de 28 de junho de 1954. em detrimento do ocupante efetivo. em 27 de agosto de 1954. Antes da efetivação da venda e emissão do título era necessário verificar se o comprador estava apto: não adquiriu outras terras. pois mencionou na solicitação inicial a área correspondente ao limite legal do direito à compra preferencial. Com o processo paralisado bastava o requerente pagar a taxa de ocupação a fim de garantir a defesa da posse38.20 há que supostamente possuíam na área medida. pois impediu as terras de irem para hasta pública. o cônjuge não possui propriedade.

a área reclamada estava situada fora do terreno de Friedrich: “está encravada no lote já legítimo do Sr. Matas e Colonização. Em setembro de 1958 o Secretário de Estado da Agricultura Álvaro Marcílio recebe uma carta do Sr. em função da medição feita em nome do posseiro Sebastião Gonçalves da Silva. que os reclamantes haviam abandonado a área e as benfeitorias há muito tempo. cercamentos e construção de estradas “localizadas em uma sobra de terras ou em área medida para Frederico de tal”. que solicitou parecer jurídico. No transcorrer da contestação. Chefe do 3º Distrito de Terras e do agrimensor que procedeu a medição do lote”. o pai de Friedrich recorre às instituições e pessoas influentes que poderiam ajudá-lo. O posseiro apresentava justificativa fundada em depoimentos de testemunhas que confirmavam a posse. No mês seguinte à contestação. a Consultoria Jurídica emite o parecer favorável à venda. julgada por sentença favorável. encarregado de verificar in loco a veracidade da reclamação.51 .todo o lote porque eles estavam na posse dos 24. Friedrich Luz atinge a idade de 16 anos e seu procurador novamente solicita a reabertura do processo. que confirmavam ser Friedrich Luz o único “ocupante” do lote. essa não procedia já que o serviço do agrimensor Carlos Pantel estava correto. alegando que as terras já estavam quitadas. em função da justificação e reclamação de posse por parte de Sebastião Silva e Onofre Batista contra com Horácio Luz. João Mendes de Souza. Entretanto. ainda. A Seção de Concessões verificou que em nome do requerente não havia outras concessões e. desde o ano de 1946. que era confrontante de Friedrich Luz. Para o inspetor Abeilard de Carvalho Costa. o procurador de Friedrich Luz pede a reabertura do processo de venda do terreno. O pleito dos reclamantes foi encaminhado para o Departamento de Terras.20 ha. Esse foi contrário aos reclamantes. O inspetor afirma. Geraldo Landi” (Deputado Estadual). SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . e pagavam regularmente a taxa de ocupação sobre a área. então Diretor da Carteira de Crédito Agrícola e Industrial do Banco do Brasil S/A: TERRITÓRIO. pois eles “têm contra si a palavra do Sr. irmão de Tiago Luz e tio de Friedrich. um telegrama emitido pelo Engenheiro Chefe do 7º Distrito de Terras faz com que o processo seja novamente paralisado. Nessa medição se constatou a existência de benfeitorias. Segundo ele. Os testemunhos foram prestados em 1956. A fim de garantir o andamento do processo. em seguida.

Esses testemunhos nos permitem verificar a valorização monetária da terra e sua mercantilização. lhe cabia o direito a compra preferencial. irmão de Honório Luz. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . situadas na região de Itambacuri. consta no aludido relatório conflito envolvendo Horácio Luz. o juiz aceitou como prova da ocupação a existência de benfeitorias e os testemunhos favoráveis arrolados pela defesa. pois foi a primeira pessoa que entrou na zona e lá comprou 105 posses e fez toda estrada e caminhos nos terrenos e Joaquim de Souza apenas quis tentar entrar numa posse que estava ocupada pelos réus . Segundo Sebastião de Almeida Fonseca: Qualquer pessoa que venha dizer que tivesse posse ou que tenha posse neste lugar não é verdadeiro. mas teria comprado o direito de posse de Joaquim Assis. Município de Itambacuri. Assim. nesse Estado. Em 1956. por parte da Secretaria de Estado da Agricultura. tais como Sebastião Gonçalves. 52 . Apesar de não haver referência a Friedrich Luz. Requerente: Friedrich Luz.40 Após essa carta o processo volta a ter andamento. portanto. O término da disputa foi favorável ao filho de Tiago Luz. Independente de terem moradia habitual no lote. porque os juízes consideraram “que seus atos possessórios não foram interrompidos”. mas foi exigida nova medição e avaliação do lote. 159. Tendo o máximo de interesse em servir a esses amigos. Esse fato gerou disputa judicial pela defesa do direito de posses. Essas terras foram englobadas na medição solicitada pelo pai do requerente Friedrich Luz. o Chefe do 2º Distrito de Terras opinou pela localização precisa do lote de Friedrich Luz.Venho encarecer a você a gentileza de examinar com toda a sua peculiar boa vontade a possibilidade de despachar os requerimentos de Friedrich Paul Ferreira Luz e Varolquides Pinheiro da Costa. entre outros. Sebastião Gonçalves não era posseiro primitivo. 40 Processo Nº. Entendemos que no processo de Friedrich Luz a garantia de compra preferencial foi utilizada contra a presença de posseiros. sobre a concessão de terras localizadas... no Distrito de Frei Serafim. Onofre Batista.TERRITÓRIO. que as taxas de ocupação haviam sido pagas regularmente e. Álvaro Marcílio solicita relatório sobre a veracidade das reclamações acerca de invasões e medições de terras devolutas. conto com sua interveniência para a solução do assunto. para que se pudesse ter um conhecimento exato se de fato as terras pleiteadas pelos reclamantes estavam ou não incluídas nessa área.

exceto Friedrich. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . construir benfeitorias e dar início ao cultivo41. Que os empreiteiros dos réus abriram a posse e ele depoente plantou capim nos terrenos a mando dos réus. 1961: 43-45). foram incluídos no pronunciamento do Secretário de Estado da Agricultura Álvaro Marcilio. a CVRD. em outros termos. Na sua exposição à CPI. quando esteve perante a Comissão Parlamentar de Inquérito da Assembléia Legislativa de Minas Gerais (MARCÍLIO. a indústria si41 O depoimento Agenor Querubim da Silva também comprova que a frente pioneira derrubava a mata para formar pastos para a pecuária bovina. cabe perguntar se há alguma evolução”. Pode-se responder negativamente ao questionamento de Martins (1975:45) sobre o suposto caráter evolutivo da frente pioneira: “Cabe. A quase totalidade dos protestos contra as pretensões dos dois irmãos “se referiam a terrenos de há muito medidos e demarcados”. (MARCÍLIO. 1961:44). o secretário afirma que Tiago Luz havia comprado 105 posses e 32 propriedades na região do Urupuca. Os peritos encarregados da investigação encontraram um total de 32 escrituras públicas de compra e venda de terras. nas quais Tiago Luz era o comprador. No caso da região do Vale do Rio Doce não houve essa evolução. envolvendo Tiago e Horácio Luz. além da existência de seis processos em tramitação referentes à solicitação de direito de compra preferencial de terrenos em nome dos filhos de Tiago Luz. Pelo testemunho de Agenor Querubim da Silva no referido processo judicial verifica-se que a família Luz conseguiu criar condições para a compra preferencial ao contratar mão-de-obra para derrubar a mata. deo dia 2 de dezembro de 1957. pois. saltando o estágio da ocupação agrícola. pois a rodovia Rio-Bahia. TERRITÓRIO. De forma conclusiva este processo ilustra a dinâmica dos conflitos existentes nessa região em virtude do choque direto que sofre a frente de expansão.53 .Os processos. na medida em que a terra adquire valor monetário com o avanço da frente pioneira. Ou. indagar se sociologicamente é válido o pressuposto de que a zona pioneira é adequadamente estudada quando entendida como resultado da evolução de um tipo a outro (da frente de expansão para a frente pioneira). que quem fez a derrubada da posse foi o finado Manoel Crioulo. que após a derrubada os empregados dos réus plantaram o capim e construíram barracas. que plantou o capim na posse em questão em 1949. que esta área até hoje está em poder dos réus.

por precaução seria ate mesmo prudente que enviássemos pedidos aos arrojados “Gagarim”e a “Chepard” para que pudéssemos ceder mais terras a esses invasores inconformados que nos amolentam constantemente. A técnica utilizada pelo lavrador pobre. do mercado de terra e do Estado na formação da estrutura agrária assentada no latifúndio. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . para manter-se necessitava de área compatível como numero de famílias existentes e a possibilidade 42 Processo 159. Os estudos dos processos de legitimação de terras devolutas refletem o momento critico pelo qual passava a região do rio Doce nas décadas de 1940.TERRITÓRIO. p. o problema será facilmente solucionado. 1961. mesmo quando impossibilitados de preencher as exigências da lei. 54 . Também permitem entender as diferenciações territoriais produzidas pelos confrontos entre a frente de expansão e a frente pioneira. em nome de Friedrich Luz. assim como o papel da propriedade privada. 15). felizmente existem apenas uns seis casos em andamento caminhando para uma rápida solução. com as novas descobertas. sequiosos latifundiários. porém a devastação das matas e a propriedade privada da terra afeta diretamente as duas condições anteriores. talvez.42 Os estudos de caso permitem contextualizar a questão da disputa pelas terras devolutas do Rio Doce. As palavras do Juiz de Direito Plínio Dias de Andrade são emblemáticas: Esta questão possessória constitui um dos grandes problemas em nossa Comarca e quando aqui chegamos encontramos diversos casos e hoje. apressaram-se em requerer concessões imensas para transformá-las em pastagens ou em negócios fartamente compensador (MARCÍLIO. o que antes se considerava o ‘inferno verde’. porém. de outras áreas habitáveis. mas. O posseiro que é o sujeito da frente de expansão necessitava da floresta e de uma estratégia de ocupação fundada na cooperação vicinal e na solidariedade orgânica. A “fome de terras” em nosso município é grande.derúrgica e o saneamento conduzido pelo SESP exerceram um papel indutor para o surgimento da frente pioneira. Acreditamos que os estudos de situações particulares fornecem luz para a compreensão dos conflitos existentes em locais de constituição da frente pioneira. 1950 e 1960. a partir das grandes transformações iniciadas com a industrialização brasileira. Saneado. na década de 1930.

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(OBERG. referem-se à vila de Toledo nas matas do oeste do Paraná e ao patrimônio de Chonim de Cima. 1960) 3 1 Doutora em História Moderna e Contemporânea (Cultura e Poder). membro . Doutor em Psicologia Cultural UPS – Roma.Sociedade do tempo versus sociedade do espaço: o percurso de dois destinos Chonim de Cima (MG) e Toledo (PR) Patrícia Falco Genovez1 José Luiz Cazarotto2 muito provável que um morador da cidade de Toledo. UFF. Professora da PósGraduação Stricto Sensu em Gestão Integrada do Território da UNIVALE. USP professor de Psicologia da UNISAL. É com alguma probabilidade. tenha ouvido falar de Toledo. no Oeste do Paraná. para o presente ensaio. jamais tenha ouvido falar de Chonim de Cima. TERRITÓRIO. ativo da The Royal Anthropological Institute (London). OBERG. Pesquisadora do Programa de Memória Social do Vale do Rio Doce. que um morador de Chonim de Cima. ambas eram então vilas no sertão e se apresentavam mais ou menos nas mesmas condições. Mas por que deveriam ser mutuamente familiares? Haveria um ponto em comum entre estas duas localidades? Haveria motivos para isto? Talvez possamos dizer que sim.59 É 2 3 . apenas como estratégia. Tanto a vila de Toledo como a de Chonim de Cima foram estudadas pelo antropólogo Kalervo Oberg (1901-1973) na primeira metade dos anos 1950. um vilarejo com seus arredores no sertão mineiro do rio Doce. membro ativo do Anthropos International Institute (Bonn). SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . como um desafio à compreensão de fenômenos sócio-culturais e como um exercício instigante para se pensar o processo de territorialização de ambas. A produção literária de Kalervo Oberg é ampla mas lidamos aqui principalmente com duas de suas obras. que nos interessam diretamente. hoje distrito de Governador Valadares. no Sertão do Rio Doce de Minas Gerais. 1958. Os seus estudos que temos em mente aqui. JABINE. ainda que remota.

169-207. enquanto Chonim de Cima teve como sua primeira obra uma igrejinha. p. afinal. 5 60 . dizse que da natureza da primeira obra ou da direção do primeiro gesto.Ainda que Chonim de Cima tenha iniciado sua existência. Apesar da passagem de europeus desde 1554. 1984. Chonim de Cima é ainda hoje Distrito de Governador Valadares. 105). em 1905. inventar e inovar (CHÂTELET. se pisamos no primeiro degrau de uma escada. fundou a sede da atual imponente Catedral de Cristo Rei. em Toledo. Pode ser. Segundo o site Portaltoledo. tem uma estátua em sua homenagem numa das principais praças cidade e uma rua com o seu nome em frente ao Estádio de Futebol. traça-se o destino de todo um empreendimento. e seu processo de territorialização. parte da floresta para a construção da igreja do Imaculado Coração de Maria. Em sua reflexão. em termos meio míticos. Toledo teve uma serraria (OBERG. uma ordem mecânica explicável. possamos dizer com Châtelet.5 enquanto que no caso de Chonim de Cima o primeiro 4 Entretanto. que derrubou ele mesmo com um trator. para fins de exploração de madeira. qual foi o primeiro gesto? Estaria claro para os instauradores do primeiro lugar qual seria a sua intenção e planos? Poderíamos atrelar esse primeiro gesto a um dado padrão nos processos de territorialização que se seguem em Chonim de Cima e Toledo? Se não vejamos.TERRITÓRIO. 1960a. Este membro da Congregação do Verbo Divino. Toledo já fora elevado à categoria de município em 1951. é o caos que é fascinante. em 1895 e Toledo em 1946. 1998. por sinal. 193). Reconheça-se aqui a presença de certa retórica de contraste da parte dos autores. a intenção é clara. entidade da Igreja Católica. segundo Bergson (1984). Mas talvez. afinal. E tanto mais fascinante porque. esteve o padre italiano Antônio Patui junto com os primeiros trabalhadores. Já é da natureza do instinto fazer brotar e mais que tudo. BERGSON.4 os seus inícios foram praticamente os mesmos: a abertura de uma clareira na mata por um grupo de pessoas com um misto de pioneiros e de aventureiros e empreendedores. não se deve desconsiderar que Toledo estava imerso num programa federal de ocupação das áreas de fronteira. Este padre. ele vai permitir a construção de uma Ordem Desejada e não mais a ordem mecânica da simples relação de causa e efeito. Bergson ainda contrapõe a inteligência e o instinto: a inteligência não admite o imprevisível e vive de um construir e reconstruir um passado e rejeita toda criação nova. das décadas de 1940 e 1950. que mais que de um gesto mítico inicial. p. a região de Toledo passa a constar no mapa somente com a compra daquelas terras por ingleses radicados em Buenos Aires. Muitas vezes. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . JABINE. melhor. Na realidade já em 1946. Tem isto lá algum sentido no caso do primeiro gesto das vilas em questão? É possível delimitar. p.

p.61 . dependendo da dinâmica de poder e das estratégias que estão em jogo” (HAESBAERT. 23. Dentro destes discursos temos as idéias centrais que além de divergirem entre si. JABINE. E. 1960a. 19). p. p. Ora. dois discursos em especial: o resumo da história das origens de Chonim feita por um dos descendentes do fundador e um discurso-proposta de instalação de um frigorífico em Toledo. Em ambos os casos podemos vislumbrar a configuração de uma tradição inventada. na forma prosaica e bem pouco religiosa. os dois discursos em questão fornecem pistas preciosas sobre o processo de territorialização das duas vilas e marcam.gesto simbólico-ativo fundador foi o de um destemido. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Apesar de se poder lidar com um material mais amplo. Na perspectiva de um processo de territorialização simbólico. trazem o leitmotiv que poderão decidir os destinos dos dois lugares. 2004. bem longe dali. nesse primeiro gesto os elementos que. Forjam-se. as intenções e pretensões de cada grupo no momento fundante desse processo. em Porto Alegre. fundamentalmente. 1958. podemos vislumbrar a configuração de uma cosmogonia bastante singular que subjaz em cada uma das vilas. um devoto em Chonim separa um pedaço de terra para a igreja de Nossa Senhora da Piedade e no caso de Toledo um empresário. muito provavelmente. assina a compra de uma fazenda (OBERG. através deles poderemos encontrar uma chave de leitura que contempla no aspecto simbólico do ato fundador o sentido e a motivação para a escolha de estratégias tão distintas na transformação de um dado espaço em território. TERRITÓRIO. nos moldes propostos por Hobsbawm (1984. 96). OBERG. ter decidido embrenhar-se nas matas com a sua família. proferido por um dos administradores do empreendimento agrário que resultou na cidade de Toledo. p. descrito como Moisés. no caso de Toledo o gesto simbólico-ativo foi um gerente arrumar uns aventureiros em Farroupilha e colocá-los num caminhão e rumar pelo sertão do Paraná. Do ponto de vista daquilo que Haesbaert (2006) classifica como território percebe-se que o autor compreende que cada grupo social “pode territorializar-se através de processos de caráter mais funcional (econômico-político) ou mais simbólico (político-cultural) na relação que desenvolvem com os seus espaços. dado os objetivos deste ensaio. 9). se quisermos. temos em mente. constituirão os alicerces mais profundos da sociedade de Chonin e de Toledo.

ou estabelecem seu próprio passado através da repetição quase que obrigatória” (idem. 203). se feito com a força humana. A recuperação das mesmas para ser de novo área agricultável. a metade dos arados do Brasil estava no Rio Grande do Sul. configurando o território de cada um. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . porque nada se faz sem algum sonho.De acordo com esse autor. era uma terra de buscas utópicas e do peregrinar. p. SC. seja ele qual for (AGUIAR. em 1952. os 62 . em 1960. p. 1419. este fator. talvez possamos chamar de uma terra das topias. uma terra que enraizava os seus proprietários num chão. a tradição inventada teria como característica um conjunto de regras e práticas de natureza simbólica ou ritual com o objetivo de inculcar certos valores e normas de comportamento mediante a repetição e uma continuidade em relação ao passado. Portanto. ao abandono da terra. Com a coivara. Em toda a área de Chonim de Cima havia 5 arados. De um modo geral. a terra tinha um uso muito limitado. para Oberg. 50). nos termos de Aguiar. Em termos de técnicas agrícolas. a ter apenas a serventia para pastagens ou tigüera. OBERG. Quando morrem as utopias elimina-se no mesmo momento o futuro. Toledo fazia parte da terra dos arados. Mas estes gestos. Já Chonim de Cima era terra da enxada ou da foice que por definição lidava com uma relação com a terra que levava num curto espaço de tempo. p. 1965. p. à mudança. sem considerar o dispêndio ulterior em corretivos do solo (OBERG. Esta referência a situações anteriores seria fundamental na formação de um “sentido coletivo de superioridade das elites – especialmente quando estas precisavam ser recrutadas entre aqueles que não possuíam este sentido por nascimento ou atribuição – ao invés de inculcarem um sentido de obediência nos inferiores” (idem. além de requererem uma tradição. implicava num trabalho insano. no caso de Chonim de Cima.TERRITÓRIO. e são muitas vezes quimeras que impulsionam lunáticos e subversivos. p. 86% dos arados estavam nos estados da então Região Sul (RS. 1958. 2000. sem uma visão de futuro ou mesmo de uma idéia-força. Essa dinâmica distinta da relação dos homens para com seus territórios tem implicações pragmáticas. trazem em si uma carga simbólica e são reveladores de uma utopia na topia. mesmo que inventada. 10). PR e SP). sem arado. passando depois de apenas uns três anos de uso. Em 1920. seria decisivo. e não mostravam sinais de terem sido usados por anos. esse tipo de tradição se refere às “reações a situações novas ou que assumem a forma de referência a situações anteriores. 18).

em Toledo. tornando-se uma variante civilizacional. p. p. Por outro lado. caberia naquilo que o Barbosa Filho denomina como uma característica marcante das sociedades do tempo. incorporam “o liberalismo como instrumento cognitivo do mundo dominado pelo capitalismo. 1417)6 Ou. Este membro da Congregação do Verbo Divino. com capacidade de decisão e possibilidades de opções versus o arrendatário ou o agregado limitado aos cultivos de sobrevivência e sujeito aos ditames dos desejos dos proprietários das terras? (OBERG. que derrubou ele mesmo com um trator. o tempo. pelo tipo de uso da terra: o modelo de fazenda agropastoril do tipo mineiro versus o modelo de pequena propriedade familiar dos imigrantes? Ou o determinante seria o modelo de produtor-proprietário comum entre os imigrantes japoneses. estariam aqui presentes percepções temporais que subjazem às duas matrizes já postuladas por Morse (1988): a iberista e a americanista?7 Estaríamos. o esforço empreendido por Toledo. 1965. Neste esforço o autor busca as origens medievais sobre cultura. frente a processos tão 6 Reconheça-se aqui a presença de certa retórica de contraste da parte dos autores. 15).63 7 . Em sua obra Morse chama atenção para as matrizes ideológicas européias que influenciaram a formação do pensamento e da cultura nas Américas.gestos simbólicos fundadores e as intenções e pretensões que subjazem o início de um processo de territorialização podem ser vistos como fios condutores que articularão o homem. numa perspectiva mais ampla. no dizer de Oberg. homem e sociedade das formulações ideológicas anglo-saxã e ibérica TERRITÓRIO. consolidando o territorialismo como determinação intrínseca de suas forma de vida” (BARBOSA FILHO. “de novos territórios. Estariam aqui as matrizes que levariam Toledo e Chonim a diferentes destinos? Ou ainda. 2000. o território e a técnica. esteve o padre italiano Antônio Patui junto com os primeiros trabalhadores. Na realidade já em 1946. entidade da Igreja Católica. as sociedades do tempo. fundada metageograficamente no espaço. 14). em busca de espaço. os ibéricos se movimentaram por quase dois séculos. A relação de Chonin com a constituição de um território remete às percepções da sociedade ibérica. italianos etc. num contraponto com as sociedades do espaço. alemães. tem uma estátua em sua homenagem numa das principais praças cidade e uma rua com o seu nome em frente ao Estádio de Futebol. estariam os futuros demarcados. para a incorporação submetida ao cálculo realista da vontade política” (Idem. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Este padre. portanto. reduzindo-o simultaneamente a universo axiológico disponível para o saque. Dentro deste perfil. p. Dentro desta perspectiva. parte da floresta para a construção da igreja do Imaculado Coração de Maria. fundou a sede da atual imponente Catedral de Cristo Rei. por sinal. de acordo com Barbosa Filho.

Mas depois de 60 anos a diferença é simplesmente e analisa tanto seu comportamento nas pátrias de origem como sua posterior atuação em solo americano. os melhores procedimentos. apesar de seus relatos poderem ser inseridos na vertente dos estudos etnológicos de comunidades. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . do indivíduo. os limites etc. com percepções diversas da natureza. Para isto. deixaram-se levar ou foram arrastadas por dois conjuntos de premissas políticas que seguem orientando a lógica da ação e do pensamento político até hoje” (p. comercial. da sociedade. ainda que uma já tivesse meio século de existência. da família e da própria hierarquização social onde todos os elementos simbólicos e culturais encontram sua rede de sentidos? (GEERTZ. História. do Estado. em vista de um dado desenvolvimento. 1971. ele tinha em mente mais a questão do uso da terra. estudando as duas vilas fez então uma espécie de radiografia da situação de ambas naquele momento e provavelmente. Por isso. A matriz ideológica inglesa (americanista) tem sua origem nas quatros revoluções que anunciaram o mundo moderno (religiosa. Morse diria que: “no momento crítico da expansão ultramarina as sociedades progenitoras adotaram. Com a expansão ultramarina. estas descrições são ainda incipientes para dar conta de uma explicação mais sólida e exaustiva dos destinos das vilas. Essas questões nos servirão como uma espécie de provocação para a busca de chaves de leitura de natureza interdisciplinar.13). 8 64 .distintos de uso do espaço e de configurações territoriais animados por duas lentes genitoras de sociedades com percepções diversas do mundo e. p. científica e política). por outro lado. por conseguinte. Filosofia e Geografia. Devido ao seu emprego ou ofício junto às agências de cooperação internacional.TERRITÓRIO.8 Oberg em seus estudos dos anos 1950 encontrou as duas vilas com mais ou menos as mesmas proporções. Kalervo. como discípulo dos estudos de comunidade. Psicologia Cultural. congregando Antropologia. não tinha em mente fazer disto uma explicação de tudo o que ocorria. dever-se-ia lançar mão de muitas outras dimensões que não foram totalmente esgotadas em seus estudos. Raposo Fontanelle concorda que nem sempre ele dá conta da complexidade e da variedade dos grupos humanos. Quanto ao próprio conceito de comunidade. a vertente ibérica origina-se de forma mais conservadora e interpretaria os valores da modernidade a partir do seu apego às tradições medievais. foram feitas várias críticas que não vem ao caso comentar aqui.56) Quanto aos limites e possibilidades dos estudos de comunidades. onde o tomismo se projetaria acima das formulações renascentistas. 1978) Muito mais do que a disposição em responder às questões propostas importa perceber os percursos informados a partir de um exercício de descrição antropológica típico dos estudos de comunidades dos anos 50. ainda que venham aqui e ali assinaladas (FONTENELLE.

Toledo apesar de ter iniciado mais de meio século mais tarde.65 . da educação e da agricultura em diversos países da América Latina.colossal. alguns carros a mais e a mesma estrada de terra. Chonim de Cima continua sendo uma vila perdida no sertão. Enquanto Chonim de Cima acabou ficando quase que fossilizada no tempo e no espaço. Percursos em campos complexos Kalervo Oberg foi um antropólogo canadense. 137). de acordo com o Plano de Desenvolvimento Rural Sustentável realizado pela Prefeitura Municipal de Governador Valadares (2009).5 pessoas e já tinha um aeroporto em 1956. Oberg é conhecido também nos meios antropológicos pela sua reflexão sobre o choque cultural que ainda hoje merece atenção e pelos seus estudos especialmente relacionados com as técnicas agríTERRITÓRIO. talvez possamos intuir que para além destes ditames. por sua vez. Mas se levarmos em conta as informações que temos a partir do raio x de Oberg. 1983). tem um automóvel para cada 2. é o entroncamento de 5 rodovias asfaltadas. que esteve no Brasil desenvolvendo atividades relacionadas à cooperação norteamericana para os países da América Latina no Pós-Guerra (OBERG. e provavelmente os mesmos problemas de saúde. com a mesma escola. é que Oberg passa a trabalhar com esta missão intergovernamental no Peru. Equador. com cidadania norteamericana. Toledo. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . p. com vôos diários. 1958. tenhamos outros elementos que podem iluminar os percursos dos destinos das duas vilas e de seus habitantes. Graças à sua formação antropológica e econômica. IDH do Paraná. A que se deveu tamanha disparidade nos processo de territorialização empreendidos? As sugestões acima dão conta? Certamente a resposta não é única e talvez não se tenha mesmo uma resposta plena se considerarmos apenas uma única abordagem. O governo dos Estados Unidos.5 bilhões de Reais. 10 anos após a derrubada da primeira árvore. especialmente no que tange à questão agrícola. educação etc. com algumas casas a mais que 1952. Suriname e Brasil (MELLATI. 3º. um PIB anual de 1. hoje conta com a presença de campi de cinco universidades. de antepassados finlandeses. através do Instituto de Assuntos Interamericanos. seis anos depois já era município e se desenvolveu sendo hoje uma cidade marcadamente moderna e pujante. mais de 180 mil habitantes. desde 1942 desenvolvia programas de assistência especialmente nos campos da saúde.

conforme já referimos anteriormente. De modo mais específico. em 1946. os que se referem à vila de Toledo nas matas do oeste do Paraná e o patrimônio de Chonim de Cima no sertão de Minas Gerais. desde a chegada dos espanhóis e a fundação de Ontiveros na foz do rio São Francisco. 19-20). Deixamos de lado. especialmente estes dois que podem ser colocados dentro daquela onda dos estudos de antropologia ou da etnologia. e tem como pano de fundo os estudos mais amplos da antropóloga Cora DuBois (OBERG.colas e seus efeitos econômicos e sociais. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . em Porto Alegre. 177-182). neste ensaio.TERRITÓRIO. E nos primeiros anos de 1950. Binários antitéticos As antíteses. são a falta de terras e de horizontes. Os motivos que a Família Cunha alega para sair de Guanhães em 1895. especialmente. Mais tarde esta vila será transferida para Ciudad Real del Guairá na 66 . os aspectos das duas realidades que têm suas raízes no passado mais remoto. dentre outros. a Industrial Madeireira e Colonizadora Rio Paraná S. podemos ver que Chonim de Cima e Toledo têm algo em comum e algo na forma de contraste. tratar-se-ia de uma palestra que ele deu no Clube das Mulheres no Rio de Janeiro em 3 de agosto de 1954. não podemos dizer que tenha sido algo deste gênero que motivara o investimento da Maripá S. de outro lado. Na realidade. Dentre os seus diversos trabalhos acadêmicos. Da leitura do material de Oberg. ainda que possam ser constatadas com clareza. Vamos chamar a isto de binários antitéticos e sintéticos. p. que compra uma fazenda como uma forma de investimento. nas colônias do Sul: famílias numerosas com pouca terra. temos. eles se apresentavam mais ou menos nas mesmas dimensões. Dos estudos de Oberg. No caso de Toledo. partimos da história do Oeste do Paraná.A. A conferência foi publicada ao que parece. mas certamente.A. não deveriam ser lidas isoladamente. entretanto. ambos iniciados a partir da abertura de uma clareira na mata. p. a que se convencionou chamar de estudos de comunidades como mencionamos acima (MELLATI. várias vezes. em 1554. dos anos 1940 e 1950. relacionados com o Brasil. de um lado temos a Família Cunha em busca da sobrevivência no sertão de Minas Gerais em 1895 e. ela irá aproveitar-se de uma situação bem semelhante à de Guanhães. a síntese dele sobre este assunto. 1954. em Toledo. 1983.

de um lado temos uma família que chega a um lugar ermo construindo sua própria estrada para chegar a um lugar para morar e de outro temos uma empresa que constrói as estradas para que as pessoas possam chegar a um lugar ermo e assim com elas investir. De um lado temos um grupo de pessoas cujos membros são de uma mesma família e de um outro lado temos uma empresa que busca reunir um grupo de pessoas de família diversas. Neste mesmo processo. vão ter pouca influência no contexto como um todo. dentro daquele esquema que os antropólogos chamam de brotamento (OBERG. isto é.foz do rio Piquiri. As reduções jesuíticas em 1610 em Guairá. pensou de modo empresarial e por etapas dentro do processo de transplante (transplantation).A. da mineração e implementação da pecuária. A passagem da estrada de ferro em Valadares não deve ter significado grande coisa para Chonim de Cima. a um campo de exploração comercial da madeira. Depreende-se dos estudos de Oberg que as atividades em Chonim de Cima inicialmente. é que de um lado temos uma família sobrevivente (!) e de outro lado. 23-24). uma empresa investindo. para a vila de Chonim de Cima. de sobrevivência pura e simples com alguma preocupação com a produção de um excedente para trocas comerciais (estradas. 1958. gado etc. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . que no final do Século XIX passa de simples sertão com seus miasmas. O que nos interessa aqui. que depois veio a ser Governador Valadares. com poucos efeitos sobre as terras da atual Toledo não redundaram em grande influência. cedro etc. A fazenda teria 154 km2 com 2 km2 reservados para o patrimônio.67 . Já a Maripá S. ou pelo menos seja ainda algo a ser estudado. As perspectivas de futuro não iriam muito mais que a divisão das propriedades esgotadas para os herdeiros e uma futura migração para outras florestas de loucuras. Os investimentos dos ingleses em 1905. a partir de Buenos Aires. o primeiro empreendimento foi a exploração comercial da madeira (pinho.) com serrarias e estradas que já anteviam as futuras vilas. foram feitas as demarTERRITÓRIO. de um lado uma família que busca sobreviver no imediato e de outro uma empresa que investe e lucra e reinveste no longo prazo. p. no que diz respeito à Chonim de Cima. deixamos de lado a circunstância direta do Porto da Figueira. Após a aquisição dos 290 mil hectares da Fazenda Britânia. café.). a não ser a concentração de índios mais tarde escravizados pelos bandeirantes. Do mesmo modo. eram antes de tudo.

permanece a morfologia social preexistente. A lógica territorialista sempre joga. tanto no Antigo Regime português quanto nas Minas. para as áreas de fronteira. JABINE. caracterítico do Antigo Regime português. E. “quem não era Coelho. temos a família Cunha se retirando de Guanhães. mediante a falta de perspectiva razoável para as elites constituídas ao redor das lavras de ouro a solução. Os motivos claros da saída dos Cunha de Guanhães não estão explicitados no estudo de Oberg. no caso Guanhães (BARBOSA FILHO. 103. 221. 28). foram feitas as vendas destas terras para colonos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. gerando sucessivos 68 . No processo histórico que caracteriza Minas Gerais. JABINE. a mesma empresa. já estava lidando com a terceira etapa. a industrialização da produção agrícola que de um certo modo é até hoje o ponto mais forte da economia toledana (OBERG. de extração aurífera. 23-42). ao velho estilo. Por outro lado. 40). 2000. os elementos desestabilizadores e. Em outras palavras. 240-247). as áreas de fronteira tiveram um papel importante: impediram mudanças sociais profundas em momentos de crise. p. p. possamos sugerir uma chave de leitura. A retirada dos Cunha rumo ao caos e à floresta cercada de perigos e índios bravios. mostra um comportamento que pode ser compreendido num paralelo com a lógica territorialista. do século XIX. ainda que não somente ela. onde segundo o ditado local. Para nos dedicarmos a compreensão da loucura da família Cunha devemos. p. onde as especificidades do sistema constituído permaneciam. 73).cações das colônias e das vilas (Toledo e Rondon) seguindo as estradas e trilhas da exploração da floresta. praticamente. ainda pouco habitadas. p. passam a ser redistribuídos. Num segundo momento. impermeabilizadas no local de origem. p. 1958. Ou seja. encontrava-se na realocação desta elite em áreas diferentes. em primeiro lugar. 18. 1980. Talvez. Assim. captar o sentido desta retirada para as matas do sertão (FREUND. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . a necessidade de seleção dos futuros colonos de Toledo fazia parte da política da empresa: deveriam ser imigrantes alemães e italianos e de boa índole (OBERG. 1986. OBERG. p. isto é. uma vez que os grupos são relocalizados. era couve” (HORTA. uma vez que muitas pessoas do local achavam uma loucura embrenhar-se pelas matas. 1960a. 1960a. os grupos que antes estavam concentrados na região central. reproduzindo o mesmo quadro de valores.TERRITÓRIO. 10 anos mais tarde. nesse ponto.

outro elemento importante na inculcação da modernidade era a educação. grosso modo. também tem seus fundamentos na perspectiva cosmogônica que caracterizou a sociedade ibérica e sua ressonante na América Portuguesa. restou a Marcelino Cunha se lançar rumo a uma área de fronteira desabitada. Além disso. Contudo. Verifica-se. trunfos importantes no exercício do poder local e regional (GENOVEZ. fundando uma nova tradição com bases que remontavam aos séculos de colonização e da sociedade monárquica oitocentista. Este padrão era bem aceito numa sociedade que não podia correr riscos em função da forte base escravocrata que possuía.69 . os esforços de alguns grupos familiares sempre eram traduzidos em títulos de nobreza. como em vários momentos da história de grupos e famílias mineiras do século XVIII e XIX. 2003). SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . reproduzindo alguns traços da lógica territorialista do Antigo Regime Português. além da noção de territorialismo oriunda dos quadros mentais do Antigo Regime permanecer nos subterrâneos da mentalidade daqueles que fundaram Chonin. sem força suficiente para mudar o cenário do mando local. Marcelino Cunha. caberia a ele. comendas e cargos. Ainda no que se refere à mentalidade. a existência de múltiplas estratégias de domínio territorial (territorialidades) que se complementam e/ou se confrontam levando grupos em desvantagem política. talvez porque o mais importante para essa comunidade fosse de fato a manutenção do conservadorismo. Neste novo espaço seria possível reproduzir os mesmos quadros de valores de sua sociedade de origem com a diferença que Marcelino se tornaria a referência da nova vila que se formava. Em Chonim de Cima alguns grupos de pessoas. já referida acima.desmembramentos municipais com espaço suficiente para buscar riquezas e honrarias. era o responsável por seu povo numa travessia quase intransponível rumo a uma terra de promessas e. hierarquizar socialmente e distribuir as graças tal como o Rei na sociedade ibérica. Nesse aspecto Oberg deixa entrever que em Chonim de Cima há uma certa preocupação com a educação formal. a figura de Moisés. apresentavam um percentual TERRITÓRIO. nos mesmos moldes da sociedade patriarcal que caracterizou todo o século XIX e mantém alguns de seus elementos ainda vigorosos no interior do Brasil em plena metade do século XX. social ou econômica a se lançarem às áreas de fronteira. mas ela não é nem central e nem parte da mentalidade das pessoas. Assim.

o analfabetismo em Toledo era bastante baixo tendo-se em mente que a média do Brasil de então era de 49% (em Toledo os analfabetos não chegavam a 12%). SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . a MARIPÁ S. enquanto que em Toledo alguns grupos chegavam a ter 100% de pessoas alfabetizadas. Já em Toledo. Apenas alguns paraguaios de vez em quando passavam por lá. 1958. serrarias.) (OBERG. mas as terras continuam muito produtivas e isto se deve a diversos fatores e não somente ao sistema de coivara. Entretanto.TERRITÓRIO. passava de 50%. em Chonim de Cima. as rurais. festas etc. digamos. a resposta 70 . o ciclo se encerrara. mesmo entre as pessoas abastadas. mas não freqüentavam regularmente. Provavelmente. p. gerentes. isto é. Devemos ter em mente que Chonim de Cima já tinha 50 anos de exploração do solo. entretanto. hoje. Em Chonim de Cima a maioria dos habitantes não era proprietária da terra. já em Toledo praticamente todos moradores eram proprietários das terras em que trabalhavam. isto é. Oberg chama a atenção que do ponto de vista de produtividade agrícola. JABINE. 23). quase 60 depois. e seus empreendimentos (escritórios. ainda que a leitura não fosse uma prática consistentemente disseminada. restando uma pequena produção de subsistência e parcos recursos para a pecuária. No geral. muitas vezes estavam apenas matriculadas por força de Lei. provavelmente ao uso do arado e ao tipo de relação com a propriedade agrícola. revistas e mesmo de uma biblioteca em Toledo.A. p. as dificuldades de frequência às aulas eram as mesmas nas duas localidades: a quase totalidade das crianças urbanas estavam matriculadas e freqüentavam a escola. estradas. Em Chonim de Cima o ciclo do uso da terra – enquanto agrícola – estava em seu ponto final em 1952. 1960a. Não se pode dizer o mesmo de Chonim de Cima.) – e o ponto que une o grupo de Toledo é mais. 5. uma das reclamações dos colonos era exatamente a ausência de trabalhadores volantes. Oberg sinaliza com clareza a existência de jornais. OBERG. diretores etc. bem imanente. Por sinal. era de arrendatários ou marginal peasant nos termos de Oberg. O ponto sociocultural que une o grupo de Chonim de Cima é um símbolo que podemos chamar de transcendente – Nossa Senhora da Piedade (devoção. não temos mais nenhum espaço arbóreo a que possamos chamar de floresta. que pudessem ser contratados nos momentos de maior necessidade.de analfabetismo que chegava até a 90%. e em Toledo estava exatamente iniciando o processo de produtividade agrícola.

ou algo nesta mesma linha argumentativa.à pergunta sobre quem seria a pessoa mais importante em Chonim de Cima seria mesmo alguém da Família Cunha. o estilo de vida e a vida social na fronteira etc. o dono da fazenda. num assentamento de fronteira. e recebe homenagem em vários monumentos em Toledo como o Museu da cidade e uma das principais praças. seja ele Chonin ou Toledo. já Maripá é o nome da maior avenida da cidade (OBERG. podemos constatar também binários comuns ou aos quais podemos denominar de sintéticos: uso da técnica da coivara no preparo do solo. as prioridades variam de acordo com a cultura. enérgico e entusiasmado da Maripá S. 1958. as igrejas e o hospital. 24 e 112).71 . SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . mas algo parecido com hospital demorou pelo menos meio século. p. os costumes populares ligados à saúde. As publicações de Oberg. apesar de sintéticas e até um tanto pobres em termos de estilo. Podemos dizer que a fazenda Bom Retiro de Chonim começou com a abertura de uma clareira para a construção de uma igrejinha para Nossa Senhora da Piedade e que Toledo começou com uma clareira para a construção de uma serraria. Oberg chama a atenção que. escola e igreja certamente estavam presentes de algum modo. são ricas em informações e estes binários contrastantes poderiam ser estendidos para a estrutura familiar. desbravamento da floresTERRITÓRIO. 1960a. Nesse sentido. o diretor dinâmico. Mesmo assim os seus ensaios fornecem elementos que sinalizam para pensarmos sobre a invenção de novas tradições. somente um posto de saúde em condições precárias de funcionamento (OBERG. Em Toledo. já em Toledo. as relações com a vida política. três construções extras apareceram imediatamente após a serraria e as casas: as escolas. a natureza da migração. Willy Barth era um dos diretores da MARIPA S.A. No Canadá e nos Estados Unidos. isto para não dizer que depois de 115 anos ainda não há nada digno deste nome. o médico já aparece quando o assentamento tem apenas umas 200 ou 300 pessoas. depois da construção das casas de moradia. a vida religiosa. Binários sintéticos Numa leitura atenta da obra de Oberg.A. Willy Barth. sobre o processo de territorialização e a configuração de estratégias de domínio sobre o novo território em questão. 22). p. o hors concours é o Sr. JABINE. Em termos de comparação com Chonim de Cima.

acabam por ter uma ressonância bem diversa quando imersos nos traços antitéticos que vimos acima: a coivara não degenerou a terra em Toledo em parte devido à formação singular do solo e do uso de modernas tecnologias. que investiu em mais estradas e melhorias sociais (escolas. a manutenção de um certo vínculo com os familiares deixados nos lugares de origem. mas que não redundou em melhorias significativas para a população em geral e gerou apenas a possibilidade de pastagens e a criação de gado que por sua vez. etc. padrões muito semelhantes (uso de material disponível e técnicas próprias). Com isto. extração da madeira e queima da floresta. Em 1975. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . p. tendendo para o arenoso nas encostas e lateritos e solos de aluvião.) e possibilitou além do mais. nas várzeas. Tenha-se em mente que o solo em Toledo é praticamente todo ele plano – no máximo a presença de colinas suaves – fazendo parte de um amplo platô de rocha diabásica de origem vulcânica muito antiga. uma renda considerável para a Maripá S. construção das casas usando-se o material disponível. OBERG. a Maripá S. 72 . 1960a. chegando-se a um plantio de mais de um milhão de pés do mesmo. em Toledo elas já se apre9 Graças à formação geológica da Fazenda Britânia. início de tudo em meio a floresta virgem. milho e algo de café e indiretamente a criação de bovinos. o solo de origem destas rochas é de um marrom-achocolatado de grande profundidade havendo redução da erosão por declive e manutenção da natural fecundidade. pensara em usar a parte norte da mesma para a produção de café. subdivisão da terra em herança gerando a ulterior migração. o desbravamento da floresta gerou em Toledo de um lado.A. suínos e galináceos. a presença de grandes plantações de soja. a derrubada da floresta deve ter gerado algo em termos financeiros. A construção das moradias seguiu num primeiro momento. estes elementos comuns. Entretanto. 29. um certo abandono dos poderes públicos. JABINE.9 Já em Chonim de Cima. a criação de porcos.A. Não se tem informações do futuro destas plantações devido às condições climáticas. p. Com isto podemos prever os efeitos bem diversos de uma mesma prática agrícola (OBERG. 1958. clubes etc. 14).ta como ponto de partida para sobrevivência agrícola. as plantações de café de Londrina foram praticamente dizimadas pela geada. mas enquanto que em Chonim de Cima as casas mudaram muito pouco em termos de seu estilo depois de meio século.TERRITÓRIO. impossibilitou o uso agrícola da terra. Já em Chonim de Cima temos uma formação colinosa e um solo com formação diversa.

o seu espaço. Assim.A. o compadrio é um processo de manutenção de vínculos familiares. Em Chonim de Cima temos mais vínculos familiares.. selecionam. Novo Sarandi. eles contatam as famílias. A visita. transportam. nestes casos. educação. constroem estradas. TERRITÓRIO. criam condições para que a indústria se instale e mais uma vez. Podemos dizer que aqui temos vínculos um tanto quanto qualitativos: é a natureza do parentesco que estabelece a necessidade deste cuidado. Os vínculos de parentesco – especialmente o compadrio – na sociedade tradicional. a vida social dos clientes. sem estar no mesmo espaço. ainda que tenhamos. em Chonim de Cima foi a Família Cunha. A migração é um modo de ampliar a família.sentavam. escolas. Mas não fazem isto isoladamente. em suas relações com a comunidade e colocá-las lado a lado: ambas têm uma preocupação pela vida social de seus clientes. seja viável. com muitos dos confortos modernos. como vimos acima. mas não necessariamente de se isolar da mesma. tem a ver com o retorno financeiro que eles podem trazer. em 1956.A. para que possam vir do Sul para Toledo. não de pode negar que é uma Empresa e que o modo como os imigrantes são tratados. trabalho.A. Já na Maripá S. De um certo modo. como podemos ver no caso da visita às antigas redes sociais. não é apenas um processo de cumprimento de convenções sociais. Nova Três Passos.73 . ou pelo menos. Em resumo. faz com que o processo que os antropólogos chamam de budding sofra algumas alterações. igrejas. alguns traços de um interesse humano legítimo (pelas qualidades humanas dos diretores como Barth e Bercht) pela vida social dos clientes da empresa. que faz com que o fazendeiro de algum modo se preocupe com a vida social (saúde. a presença dos políticos ou do Estado foi muito semelhante: enquanto que em Toledo quem fez o papel do Estado foi a empresa Maripá S. eles gastam para ganhar. mas são processos de manutenção de presenças afetivas. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . mas na forma de cooperação. clubes etc. valeria a pena comparar a descrição que Oberg faz da Família Cunha e da Maripá S. seguindo um padrão patrimonial. Isto está claro em Chonim de Cima.) de seus parentes e empregados (assalariados ou arrendatários). comercialização etc. pelo menos na descrição de Oberg. de início. E num passo ulterior. Neste aspecto. transporte. Em Toledo temos um processo semelhante nas constantes viagens que os colonos fazem às cidades ou vilas de origem mas especialmente nos nomes das vilas da região.

Barreiras. a subdivisão destas colônias torna a sobrevivência impraticável.11 A floresta foi a busca inicial e o problema inicial. 10 Budding ou brotamento. Que fazer? Em Chonim de Cima provavelmente a solução foi ir em busca de novas terras de seus sonhos. Qual foi o destino dos migrantes de Chonim de Cima? Repetiram Marcelino Cunha? É um campo em aberto. na realidade tratam-se de pequenos recortes de terras – em torno de 25 hectares – que servem bem para a sobrevivência de uma família. 11 Aqui novamente valeria a pena ver o destino destas novas ondas migratórias. No momento em que a família cresce com os filhos. seria um modo característico de certos grupos indígenas do BrasilCentral. Maranhão etc. migrou para o Mato Grosso. Em Chonim de Cima a floresta foi vista. Os migrantes do Paraná e do Rio Grande do Sul dos anos 1980 e 1990 em diante. 74 . são nomes que de algum modo buscam trazer os lugares de origem para mais perto (OBERG. Qual foi o destino da mesma? Podemos dizer que do uso da mesma dependeu o futuro da região? Ou do uso da riqueza da floreta original é que depende o futuro da região? Em outras palavras. galináceos etc. não foram para as novas fronteiras como simples mão-de-obra mas foram como empresas. como simples empecilho. usou a exploração da floresta para o processo de gastar para ganhar e depois investir e com isto pôde dar o passo seguinte que foi o da industrialização da produção agrícola usando a técnica ou prática da fixação do trabalhador no campo. para a indústria e comércio. A tendência. 1958. neste caso. uma vez que o chefe é tanto o guerreiro e o pajé (poder militar e simbólico) e com isto não depende mais da gens de origem. mantendo a lógica territorialista. as estratégias e as práticas utilizadas pelos grupos envolvidos no processo inicial de territorialização de um dado espaço. Veja-se o caso de Goiás.A. Mato Grosso. mais tarde. Tocantins. Em Toledo.10 Apesar de Oberg chamar de fazendas as 10. 24). de ampliar número dos grupos ou desdobrar-se tendo-se em vista a sobrevivência ou a praticidade da convivência social. a Maripá S. estabelece alguns direcionamentos decisivos na configuração do futuro da região.A. Goiás.TERRITÓRIO. de um certo modo repetiram Maripá S. E uma parte.000 subdivisões da Fazenda Britânia. Maranhão etc. é do isolamento. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . ao que parece. a floresta acabou sendo mesmo um simples atravancamento da coivara e não redundou em outra coisa que tigüera ou pastos. Uma parte dos colonos otimizou o uso da terra com a criação de porcos. p.Nova Santa Maria etc. Outra parte foi para a cidade. busca porque estava devoluta ou porque fora adquirida. Mas como isto não redundou num capital com ulterior investimento rentável no local. certamente houve algum ganho com a madeira. Em Toledo ocorreu algo parecido mas com uma dinâmica diversa.

que no discurso da proposta de um frigorífico S. com a chegada de outros membros da família.75 . 1960a. JABINE. por caminhos ínvios. Quem estava ali? Um grupo bem pequeno de familiares. Eles chegam abrindo picada para instalar uma serraria. 37).A. na cidade de Farroupilha – em abril de 1946 ao riacho Toledo. no meio da mata. no caso de Toledo. Marcelino Cunha. a criação de porcos. Dá a impressão de uma espécie de escravidão light onde com uma espécie de fumaça de progresso as pessoas são realmente envolvidas num empreendimento financeiro cujas metas são o lucro. Então tratava-se de um acampamento e hoje é um milagre. não se pode desconsiderar que tanto para uma empresa como para a outra. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Sua primeira tarefa. a capitalização com as vestes de progresso ou de modernidade.Esta leitura é um tanto fria e não capta outras dimensões humanas que eventualmente Oberg não tenha tido instrumentos para observar. com boa aguada. A chegada de meia dúzia de Farroupilhas – grupo de trabalhadores descendentes de italianos. saiu em busca de sua terra dos sonhos. contratados pela Maripá S. Para o leitor urbano certamente é um tanto romântico ver um grupo de pessoas instalarem-se num espaço e TERRITÓRIO. e em Chonim de Cima nunca ultrapassou à lida artesanal. foi necessária uma boa dose de coragem e de espírito de aventura que os discursos um tanto lineares e economicistas não contemplam. é comum às duas realidades. mas em Toledo ela se tornou uma verdadeira indústria chegando aos dias de hoje à exportação para diversos países. Por que estavam ali? Para sobreviver do seu trabalho – e por que não? – para realizar um milagre. Talvez nesses indícios possamos indicar nos subterrâneos das mentalidades em tela os resquícios da sociedade do espaço. já referidas acima. é considerado um momento épico. Em 1895. este momento fundador seja retomado (OBERG. abrir uma clareira para a serraria. ainda que não tenha sido a única atividade econômica. no caso de Chonim e da sociedade do tempo. Após uma caminhada de três dias e de passar pela serra da Escadinha.. São empregados da empresa e não são da mesma família. Ali. Ainda que o mais diverso seja a igrejinha versus serraria.A. Não deixa de ser interessante do ponto de vista antropológico. p. Por que estavam ali? Para sobreviver de seu trabalho e – por que não? – para realizar um sonho. cheias de animais. donde o nome da cidade. chega a um lugar de florestas densas. abre uma clareira para construir uma igrejinha para Nossa Senhora da Piedade. Por incrível que pareça.

isto é. ou seja. Será que Toledo seria algo sem isto? E Chonim de Cima seria? Claro que podemos também dizer: Toledo e Chonim de Cima são o que são só por isso? Não consideramos aqui aspectos que Oberg não teve em mente num primeiro momento. só nos resta 76 . da educação formal. é preciso levar em conta. ou seja. Traz em si uma dimensão de mistério. De certo modo. Agora. passado e futuro. Não vimos também os aspectos de interesse. onde alguns ainda não falavam português. ou pelo menos. entre o Ancién Régime e a modernidade. na consciência do tempo. um momento único. eventual e divisor do tempo e das experiências. Mas. entre uma lógica do pragmático e uma lógica do estético etc. Se o futuro está em aberto. de quase inexistência: o passado não existe. Claro que subjaz a tudo isto uma tendência de compreensão em termos de uma pendularidade que vai desde o antigo e o contemporâneo. então entramos no reino de uma possível liberdade. um espaço com margem de manobra. entre o urbano e o rural. do grupo humano participativo em termos mais igualitários ou mais hierarquizados. o futuro ainda não é e o presente só se apresenta para nós já na forma de passado. para Marcelino e certamente também para os anônimos Farroupilhas. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . a ação empreendida não era em sua essência romântica. é isto que faz daquele momento no funil de luz da floresta. certamente importante.ter que começar do nada e sonhar com o tudo que existiria muito além dos montes que ainda azulam no horizonte. O peso do valor e do tipo de comunidade. O tempo e o espaço em dois discursos: circular versus projetual? A temática do tempo e seus mistérios acompanham a humanidade e talvez possamos dizer que a relação do ser humano com ele constrói o humano que há em nós. Não consideramos devidamente o aspecto. De um modo simples. De um modo meio intuitivo podemos dizer que é do modo como o futuro é considerado que resulta a possibilidade de se compreender o que faremos. Um deles é o fato de que em Toledo termos somente descendentes de italianos e alemães. Contudo. o tempo se apresenta como presente. se o futuro está fechado. O ser humano. vive como se estivesse num fio de navalha. o que se quer com o que se faz. sem um quê de romantismo Marcelino não teria deixado a sua Guanhães conhecida e nem os destemidos trabalhos italianos deixariam sua Farroupilha cotidiana rumo ao incerto. com o estilo de vida e de sociedade que se constrói.TERRITÓRIO.

A literatura sobre este tema é enciclopédica. 2008. chega-se ao que seria a sua meta. se realiza. da antecipação racional de passos a serem dados. se não. não se está lidando com um futuro dos deuses. que mantém de algum modo vínculo com as experiências de passado. digamos. não se encaminha para uma finalidade. segundo Galimberti.projetar nele uma reprodução do passado. Ao fim do tempo. com alguma variação. o do calendário e o momento. O novo tempo é o originário em sua plenitude. é o tempo projetual cujo centro de referência é o futuro: sonhado. a síntese de Galimberti (GALIMBERTI. especialmente o recente e ainda mantido de algum modo em memórias (GALIMBERTI. do controle do que vai acontecer. 2008. Em termos nossos talvez possamos dizer que temos dois tempos. mas para um final. “No tempo cíclico não há futuro que não seja a pura e simples retomada do passado que o presente reforça” (GALIMBERTI. ou seja. O tempo neste sentido é perfeito. não se trata do futuro de um eschaton ou de uma utopia. Tudo. mas vamos tomar como guia do que pensamos aqui. Em linhas gerais. podemos certamente. o momento ou o tempo oportuno. Os procedimentos culturais. ou seja. crescimento dos animais e plantas. 586 a 591). a percepção do mesmo ou a concepção do que vamos chamar aqui de tempo. É só com a concepção de tempo deste gênero que se pode fazer a hora. desejado (nos termos de Bergson). 902). especialmente a Greco-romana. ela simplesmente acontece. pragmáticas que apresentamos acima. do lançamento. p. Já uma segunda modalidade de tempo. planejado e habitante de utopias.77 . É aqui que surge um conceito interessante: a idéia de kairos. TERRITÓRIO. A tese. sociais e mesmo políticos buscam através dos mais diversos meios este retorno. p. 2008. Neste sentido. Idéia comum nas culturas antigas. na linguagem de Galimberti. p. mas dos seres humanos. o tempo. ver esta dimensão do tempo colaborando ou não para os destinos de Toledo e de Chonim de Cima. de fundo é que. Ao conceito de tempo projetual subjaz a idéia do projeto. Um é do Cronos e o outro é mítico. vem das experiências cíclicas da Natureza: dia e noite. mas de algo imediato. 902-903). Levantaremos alguns aspectos e depois buscaremos ver se eles estão presentes nos discursos. do plano. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Os gregos distinguiam estes tempos (Aion e Kairos). O que se espera não é outra coisa que o retornar. mas de qualquer modo é uma tradição. estações. além das dimensões.

dotado de fim e não de simples resultado ou de retorno. Aqui olharemos quanto à questão da temporalidade. a revolução à tradição. mas que tem atrás de si elementos que deixam entrever tanto os passos anteriores de cada uma das povoações como os possíveis passos ulteriores. uma presa à noção de tempo circular e. a utopia ao marasmo. portanto. segundo Galimberti. através da sua pesquisa nos deixa uma espécie de fotografia daquele momento de Toledo e de Chonim de Cima. um tempo compreendido entre uma origem que remete a um fim e é essencial para se superar a idéia de tempo cíclico e se chegar ao tempo linear ou histórico. Se é verdade que subjazem a estes discursos concepções de tempo diversas. vêm da medicina hipocrática: a anamnese – retomada do passado para compreender o que está acontecendo no presente – e a prognose – que partindo destas informações do presente questiona que se pode esperar num tempo futuro. afeita a contínuas conquistas de espaço e outra do tempo histórico/projetual que reconfigura o espaço no qual se encontra. podemos esperar que elas de algum modo deixem isto transparecer. uma de estilo mais Brasil Colônia e outra do tipo Brasil Segunda República.TERRITÓRIO. então. deixa fora do foco alguns temas que podem ser centrais se quisermos compreender um pouco da história dos dois grupos em maior densidade. Oberg. É até muito comum ver-se o passado como um campo do mal. Será que 78 . SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . propositor do frigorífico em Toledo. Temos diante de nós dois discursos: o de Marcelino e o do Ondy. Daqui redundam discursos ou relatos que. Então vamos aos discursos: Dois discursos da coragem? Moisés e o Diretor Dos relatos de Oberg temos aqui e ali um pouco de sua compreensão destas duas comunidades. Neste tempo de eschaton o futuro é o grande campo de atenção. a história é tempo dotado de sentido. podem ser ao mesmo tempo lidos de vários modos. Assim. isto é.Este tempo cairológico de certo modo é um recorte da visão escatológica de tempo. A leitura que faz. Em resumo. o progresso é a salvação em oposição à perdição que está na manutenção pura e simples do passado. os dois discursos que remetem ao ato fundador. por ser um tanto focada na questão do desenvolvimento agrário ou social. uma mais do tipo tradicional e a outra mais do tipo moderna. e o futuro sonhado como a plena e total felicidade. Aqui a ciência se contrapõe às crendices.

ele contou com a ajuda entrevistadores fornecidos pelo Departamento de Fronteiras do Estado do Paraná e da Divisão de Desenvolvimento de Comunidades. 1960a. mas estamos num mesmo tempo? a) Mas nada atemorizou Marcelino: Uma breve história de Chonim de Cima13 Marcelino José da Cunha. Durante algum tempo ele esteve pensando num lugar onde ele pudesse estabelecer uma fazenda sólida que mais tarde pudesse dar alguma segurança para os seus filhos. Ondy H. que foram seguidas ao longo de 15 km. Mas a floresta? A malária? Só de falar isto já causava um horror. Mas nada atemorizou Marcelino. ele tomou a decisão de ir.. os estudos de Cho. nim de Cima foram levados adiante com a colaboração de estudantes desta universidade em 1951 e 1952.A. viajando por três longos dias pelas piores estradas. JABINE. ele saiu em busca da sua terra dos sonhos apesar de todas as dificuldades que ele já esperava encontrar. Cheio de energia e fé em Deus. Isto foi no ano de 1895. Em Chonim de Cima a coleta de informações ocorreu em 1951 e 1952 e em Toledo foi em 1956 (OBERG. p. Niederauer que propõe a construção de um frigorífico. entre agosto e outubro de 1956. feito pelo gerente da Industrial Madeireira Colonizadora Rio Paraná S. Os dois discursos foram recolhidos com a diferença de poucos anos. talentoso e ainda jovem com os seus 49 anos. As longas estradas sem uso estavam cobertas por bambus espinhentos até ao ponto de em alguns lugares 12 Oberg estava vinculado à Escola de Sociologia e Política da USP Com isto. TERRITÓRIO. corajoso mas pobre.podemos pensar num pano de fundo mais parametral que de algum modo seria a alma dos passos dados pelas pessoas e pelas comunidades nos dois lugares? Depois de tudo isto. o seu ideal poderia ali ser realizado. num estilo de proposta.12 Estamos numa mesma data. até encontrar as famosas montanhas da Escadinha. O outro é mais elaborado.79 . por que não tomar como ponto de partida com dois discursos que Oberg relata em suas obras? Um é proferido por um dos netos do fundador de Chonim de Cima que conta a história dos Cunha e Chonim de Cima dos Porcos ou Chonim dos Cunha numa forma clara de narrativa. Depois de reunir os suprimentos e carregar os animais ele tomou o caminho de Peçanha e de Coroaci. 9-10). morro acima e abaixo. vivia em Guanhães com a sua esposa e 13 filhos (6 rapazes e 7 moças). Somente no mato os seus desejos poderiam se realizar. Mas como? Em Guanhães isto não era mais possível. já em Toledo. 13 Tradução dos autores. As pessoas em Guanhães diziam que ele estava meio louco para querer ir morar no mato. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . uma distância onde não se encontrou mais água.

e para se conseguir suprimentos de Peçanha. Pouco mais tarde.se terem tornado impenetráveis. Existiam ainda alguns índios selvagens vivendo na área.TERRITÓRIO. cedros. descendo o rio Doce com canoas até o Espírito Santo. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Antônio Gonçalves da Cunha. sapucaieiras. instrumentos para o trabalho na roça e medicamentos a preços muito altos. tamanduá e muitos outros. a capivara. e esta árvores eram as mais comuns: peroba. o jacu. a arara. a paca. hoje denominada com este nome [NT]. tais como o tapir. baraúnas. vários tipos de macacos. o jaó e outros. Mas nada assustou Marcelino que foi adiante corajosamente até que finalmente chegou a um desacampado cercado por uma densa floresta virgem. mas neste caso tratava-se de uma longa jornada. a jacutinga. A população cresceu mas não havia progresso. que anteriormente ocupara este vale. o veado. Apesar de Marcelino ter comprado as pequenas propriedades dos camponeses. onças. tropas de mulas e o gado eram levados 14 O nome e município de Governador Valadares são de 1938. Um dos chefes indígenas. ocupadas por moradores que cultivavam pequenas áreas de terra. Domingos Fernandes da Cunha. Cesário e Eduardo da Cunha.14 Uma pequena área foi deixada de lado para a igreja de Nossa Senhora da Piedade. era coisa muito difícil naquelas trilhas miseráveis. especialmente. irmãos e primos de Marcelino vieram e assumiram as terras próximas da fazenda. Um grande número de animais foi encontrado ali. os porcos do mato. Existiam já umas poucas casas na área. Foi dado o nome à fazenda de Bom Retiro de Chonim. Entre estes estavam Zeferino José da Cunha. Por isso. tecidos. se chamava Choni. Estes tinham vindo de Governador Valadares (!). 80 . O solo fértil estava coberto por uma valiosa madeira de lei em pé. Marcelino comprou as pequenas propriedades dos roceiros e garantiu a sua cooperação no estabelecimento de sua grande fazenda. Lá eles compravam sal. uns 90 km de distância. e a partir disto a fazenda e depois a vila receberam o seu nome. a cotia. pólvora. Como estas pessoas e os seus filhos eram analfabetos ele até mesmo fundou uma pequena escola primária para eles. itapicurus e um grande número de outras. Marcelino se tornou meio Moisés. ele permitiu que eles continuassem a viver e a trabalhar em suas antigas propriedades. que sabia conduzir o seu povo com toda a humildade. Existia uma outra possibilidade. entretanto a vila ou a presença humana nesta região é bem anterior e o autor apenas queria referir-se àquele região. bálsamos. Foi ali então que Marcelino encontrou o lugar dos seus sonhos. o macuco. ipês. Seguindo as trilhas ao longo do rio. Entre os pássaros foram encontrados o mutum.

Desde aquele tempo. Sabendo que chegara a sua hora e pensando em seu povo como se fosse um rebanho de Deus. e atravessaram o rio. como se depreende do texto mais adiante [NT]. Marcelino separara um pedaço de terra para uma capela e pediu aos padres uma imagem de Nossa Senhora. Esta tarefa foi dada ao seu genro e discípulo. do arroz. como se pôde ver.a Vitória. Mas. ele tinha que decidir quem seria o seu sucessor. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . ordenou que se construísse uma capela no lugar escolhido pelo seu sogro. Ele ainda 15 Ao que parece ele mesmo construiu a estrada. mas esta era uma empresa perigosa uma vez que os assaltantes atacavam as tropas quando elas voltavam. e onde uma cruz fora erguida em honra de Marcelino. no dia 28 de novembro de 1899 restituiu a sua alma ao Criador com a idade de 54 anos. Marcial [sic] Cyriaco da Silva estava agora no cargo sob a guia do exército de Nossa Senhora da Piedade (ele parece que sempre ouvia a voz de seu sogro). Marcial. um que pudesse levar adiante a missão de desbravar a terra. A terra era fértil e as colheitas muito boas. devido às dificuldades na construção de caminhos e trilhas e por outros trabalhos. No dia seguinte eles fizeram uma balsa de embaúba. TERRITÓRIO. Ali eles acamparam durante um longo tempo enquanto eles abriam o caminho. vindos de Itambacuri. 150 km adiante. Uma festa celebrou o encontro. Esta capela foi mais tarde construída onde a igreja está hoje. Os campos eram cultivados em comum bem como as pastagens para o gado. Marcelino ouviu falar de Teófilo Otoni. Ele recebeu alguma ajuda de alguns homens de Itambacuri e arcando com os custos. ele equipou uma tropa e iniciou a aventura em outubro de 1898. Ali eles acamparam a primeira noite ouvindo os sons da floresta. uma escolha abençoada. Plantou-se o algodão do qual se faziam as roupas usadas no trabalho. Ele decidiu ir para lá. Após isto. Depois de 21 km eles chegaram ao rio Suaçui Grande. Marcelino. Ele deu conselhos a Marcial e pediu aos seus filhos (de Marcelino) que seguissem as ordens de Marcial e que ficassem unidos. Outros acampamentos foram feitos e finalmente eles encontram um outro grupo que vinha trabalhando na abertura da estrada no sentido contrário. pegou a malária. uma parte dos produtos era usada para alimentar os porcos. no Espírito Santo. da mandioca para se fazer farinha e amido. Certas áreas foram separadas para o plantio do milho. Marcelino. é possível que Marcelino tenha aproveitado antigas trilhas indígenas. Marcial Cyriaco da Silva.15 sendo que 90 km eram através da mata virgem. onde os suprimentos seriam mais baratos.81 . Esta foi. as pessoas passaram a comprar os seus suprimentos em Teófino Otoni. obedecendo os desejos de seu padrinho.

mas nenhum se separou do rebanho. no meio do mato. Como agradecimento por ele ter conseguido a escola. 1958. A partir de uma percepção circular de tempo a hierarquia original se conservou e a terra dos sonhos. no velho molde territorialista. todos em cooperação com os demais parentes da família Cunha. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Marcial mais tarde foi indicado como o terceiro juiz de paz em Peçanha. 18 a 20).se lembrou da intenção de formar o patrimônio de Nossa Senhora da Piedade de Chonim. Com grande alegria. Ao longo dos anos. já que a perspectiva de tempo estava basi16 Seria mais razoável pensar-se na Câmara de Peçanha. Marcial formou uma banda através da compra de 12 instrumentos e pela contratação de um professor. nos moldes bíblicos. Então Marcial começou as tratativas no sentido de que Chonim viesse a ser separado como um distrito. tornou-se primordial a busca por um espaço a ser dominado. refundando uma nova tradição. A capela foi ampliada e ornamentada. é descrita de forma edênica na qual prevalecem os encantos naturais e a pródiga fauna. alcançada após três dias de viagem. ele conseguiu isto em 1924 (OBERG. 82 . referente à chegada de Marcelino. tal como uma terra prometida. O lugar dos sonhos já tinha alguns moradores esparsos que foram absorvidos por Marcelino que conduziu a todos como uma espécie de Moisés. De acordo com o próprio discurso fundador a população cresceu mas não havia progresso. já plenamente estabelecida em Guanhães. o povo o elegeu para vereador para a câmara municipal de Figueira (agora conhecida como Governador Valadares). Marcial ampliou a capela e como o número das crianças aumentou ele estabeleceu uma escola estadual em outubro de 1922. Marcelino da Cunha e os seus irmãos e primos se multiplicaram e formaram outras fazendas.16 Já em 1912. significado e territorializado onde a percepção de tempo circular pudesse refazer a ordem vivenciada na sociedade de origem mas que o colocasse numa posição privilegiada. seria a única forma de reforçar a segurança da família e manter os valores sócio-culturais do grupo. que era vila desde 1881 e não de Governador Valadares que seria município somente 16 anos mais tarde [NT]. Na impossibilidade de enfrentamento com a família Coelho. A descoberta de um novo espaço. p.TERRITÓRIO. as categorias espaço e tempo encontram-se entrelaçadas. No mito fundante de Chonin. Mas tarde esta banda trouxe alegria para a vila tocando tanto músicas populares como religiosas.

cheios de dificuldades e esforços cansativos. podemos trazer a público uma proposta concreta para a construção de um frigorífico em Toledo. enfim. naqueles dias longínquos.camente atrelada à natureza e chega-se à meta desejada. aos que fizeram e estão fazendo algo pelo progresso de Toledo. conforme exposto acima. ele faz seu sucessor. que apareceu. aos homens de boa vontade que aqui vivem. Os únicos movimentos que quebram o cotidiano se reduzem à busca da própria sobrevivência do grupo. p. pela primeira vez. “no tempo cíclico não há futuro que não seja a pura e simples retomada do passado que o presente reforça”. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . a todos os que vieram com a sincera intenção de fazer algo pelo bem comum. a busca por produtos em cidades vizinhas que exigem a abertura de picadas e caminhos em direção a Teófilo Otoni. Teremos outros meios de transporte desde que os produtos apareçam. quanto os primeiros homens desembarcaram dos caminhões junto ao rio Toledo. Marcial. novamente. Foram 10 anos de intensa labuta. em que. Nesse caso. multiplica as fazendas sem separar o rebanho e alcança importância local ao participar da política e em outras instâncias sociais e culturais. atualmente o município de Toledo. Levamos 10 anos para alcançar este momento. O novo eleito. b) Nada os intimidou: Proposta de construção de um frigorífico Em 11 de outubro de 1956. Niederauer. entre muitos outros. como uma pequena parte de nosso imenso Brasil. Retomando Galimberti (2008. através do rádio fez este discurso: ‘Quero aproveitar esta oportunidade para falar aos moradores deste município. Hoje temos este milagre TERRITÓRIO. a todos os que amam o Paraná. via Guaíra. Porto Epitácio e a Estrada de Ferro Sorocabana. Mas. em abril de 1946. reafirmando um novo Moises e mantendo o mesmo estilo de vida. floresta e mais floresta. Esses esforços levaram Marcelino a contrair malária e. na perspectiva cíclica. pois foi em 1946. o problema do escoamento dos produtos desta região. o progresso representa um elemento perigoso que poderia romper com a busca de estabilidade e conservadorismo dos valores e costumes cotidianos. Este problema ainda permanece conosco. nada havia a não ser floresta. embora de forma menos aguda.83 . obedece aos desejos do sogro Marcelino e constrói a Capela. o que não ocorrera em Guanhães. Paulo. com a formação de Maripá e seus planos para a colonização de toda a Fazenda Britânia. Hoje vemos as folhas de fumo serem embarcadas para S. a territorizalização de um espaço onde os Cunha vivenciassem sua segurança e se tornassem figuras centrais na localidade e nos arredores. 902).

que é Toledo. mas o mais correto seria mesmo sítios. Esta banha. O Empório então. pequenas propriedades rurais. alguns restringindo-se a.00 o quilo. Na obra referente a Toledo. tudo isto exigindo mercado para a venda. resolveu mandar os porcos para São Paulo. o preço do porco era baixado. apareceram no Rio de Janeiro. os frigoríficos começaram a limitar o número de porcos que compravam. vindos de Farroupilha. em vez de um acampamento de meia dúzia de homens. Esta situação trouxe dificuldades para o município. 17 As terras em Toledo foram divididas em lotes nas cidades com quadras de 100 metros de lado. quintas. comprando uma ou duas colônias. 84 . apenas. Nos escritórios da Companhia trabalhamos muitas vezes até às 3 horas da manhã. Depois seguiu-se a exportação de madeira. O resultado imediato do baixo preço da banha foi a queda do preço do porco no Brasil. Em 1954 e 1955. Além disto. e os colonos tiveram que vendê-los. Nada os intimidou. a construção de mais estradas e o levantamento topográfico das terras. serrarias e as primeiras casas. vieram os primeiros compradores de terras. além de se iniciar a criação de gado. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . . nem aos que os seguiram. os colonos apareceram em avalancha [sic]. o que aconteceu? Três navios americanos. para ser descarregada em Porto Alegre. com a necessidade de se comprar máquinas e tratores. de tal modo que os frigoríficos locais não podiam competir com o produto estrangeiro de baixo preço. A custa de seus eforços. Surge então o Empório. houve um aumento inesperado no número de porcos. Oberg chama de fazendas a estas subdivisões. tanto para os produtores como para os comerciantes. Toledo começava a viver.5 hectares e as colônias eram espaços maiores com até 25 hectares. que trouxe algum dinheiro. ao redor das vilas ou projetos de cidades. mas os mais ousados resolveram tentar a sorte.TERRITÓRIO. 1947 e 1948. mil cabeças mensais. iniciou-se a produção de porcos. provavelmente a partir do termo inglês farm. Os anos de 1952 e 1953 deslizaram. a fim de serem vendidos aos açougueiros e aos matadouros. pequenas chácaras de até 2. comprando os porcos e remetendo-os para Ponta Grossa. em socorro aos colonos. Alguns indivíduos fracos logo desistiram. Mas isto resultou em maiores gastos em fretes. Fez-se novas derrubadas e novos campos começaram a surgir aqui e ali. em 1946. Cada vez que mandávamos um caminhão carregado para Ponta Grossa. Em 1949 e 1950. do Rio Grande do Sul. Apareceram novas despesas. com seus porões carregados de banha. E aí. foi-nos possível a construção de algumas estradas. Mais banha veio da Argentina. adquirida nos Estados Unidos pela COFAP foi posta no mercado brasileiro a Cr$ 30.17 Em 1951. Em 1956. A produção de feijão ultrapassou as necessidades locais e as sobras foram exportadas para o Rio de Janeiro.

além de 10 a 15 cabeças de gado. Todos nós devemos participar da industrialização da matéria prima que nós mesmos produzimos. Uma sociedade limitada é uma associação de pessoa e. O frigorífico projetado deverá ser grande. no caso de qualquer mudança contratual. Mas quem. Quem mais que eles têm o direito aos lucros da industrialização? Esperamos ter de 300 a 500 acionistas. Se cada um de nós procurasse se tornar independente e trabalhar só para si.Enquanto o Sr. que todos os seus sócios assinem o instrumento que determina tal mudança. A morte de um deles. Considerando a atual e a futura produção de porcos. mas não demais. Willy Barth provava que a única solução para o problema do porco era um frigorífico que nos permitisse a exportação de produtos já industrializados. por exemplo. Curitiba e São Paulo. O frigorífico pode ser também criado sob a forma de cooperativa. 20 mil contos. como tal. poderá determinar um balanço geral de débitos e créditos. como poderíamos arranjar entre os criadores de porcos desta região. atualmente. deve ter a capacidade para 200 a 250 porcos por dia. nesta área. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Isto quer dizer que cada sócio é passível de responder pelas obrigações da companhia com o seu capital privado até o total do capital da companhia. Esse tipo de companhia só é recomendado quando o número de associados é muito pequeno. porque um frigorífico moderTERRITÓRIO. o Sr. Dessa forma. quer este tipo de organização? E. Por esta razão é que o frigorífico deve ser construído pela conjugação de nossos esforços. Outra consideração de grande importância na formação da nova Companhia é a contínua solidariedade do povo. pois de outra forma não seremos capazes de fazê-lo. a responsabilidades dos quotistas é limitada ao capital total da companhia. Egon Bercht estudava as possibilidades técnicas da construção de um frigorífico aqui em Toledo. exige. pois só unidos venceremos. plantou o campo e criou os porcos. não importaria o tempo que demorasse para atingir os mercados consumidores ou de que tipo eram as estradas. Uma vez enlatados os produtos do porco. Além disto. Imaginem um matadouro-frigorífico com 500 quotistas fazendo balanço cada vez que faleça um deles. estaríamos caminhando para trás. O frigorífico deve ser construído de forma a permitir a expansão futura. mas para o colono que derrubou as florestas. em vez de vendermos os porcos vivos. no caso de outros sócios não contribuírem com as sua quotas. O que interessava era que nossos colonos pudessem vender quantos porcos criassem que o município progredisse economicamente. Devemos nos unir e trabalhar juntos.85 . além disso.valendo cada ação mil cruzeiros ao par. os lucros do empreendimento não irão para os frigoríficos de Ponta Grossa.

E mais importante ainda. para o Brasil. Logo que o Sr. em primeiro lugar. Também pode-se obter informações com os Srs. nosso frigorífico. de um município perdido nos sertões. no entanto. Novo pagamento deve ser feito 6 meses mais tarde. ainda que rapidamente. atendendo sempre em primeiro lugar os interesses do município. O pagamento final vencerá em 18 meses depois da fundação da companhia. Um mês depois. 1960a. Estudamos isto com cuidado e atenção. coloco-me à disposição de qualquer pessoa que deseje maiores detalhes. mais 15% deve ser depositado. Primeiro. as ações da companhia serão postas a venda. apesar de as ofertas haverem excedido ao capital necessário. Chegamos assim à conclusão que o que queremos é uma Sociedade Anônima: cada pessoa será responsável somente pelas ações que venha a subscrever. No caso de Toledo.no de acordo com as estimativas do Sr. 86 . o acionista estará sempre protegido pelas leis que regulam as atividades da Companhia. Egon Bercht. É por esta razão que queremos fazer um inquérito. uma perspectiva de um relacionamento territorial simbólico que vai bem além das cercas de Toledo. isto é. Somente depois que nosso povo tenha se comprometido. Uma vez decidido ser a Sociedade Anônima o que queremos. em seu próprio nome ou no de outra pessoa. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Diz a Lei que 10% do capital subscrito deve ser pago no ato da subscrição e depositado no banco. Ele menciona o fato de se querer fazer algo para o bem do Paraná. não é aconselhável. custará esta soma! Uma cooperativa.TERRITÓRIO. neste caso. p. O pagamento das ações subscritas por cada acionista pode ser feito em 4 prestações. várias entidades industriais e comerciais manifestaram o seu interesse em participar desta empresa. Egon Bercht iniciou seus estudos no Rio Grande do Sul. logo que sejam publicados os seus estatutos. podendo um acionista comprar quantas ações deseje. não assumiu nenhum compromisso. JABINE. Obtida esta informação. pelo que se deduz da obra de Oberg. até que ponto o povo deste município está preparado para fazer investimentos. Ele. que buscaremos sinalizar aqui. Concluindo esta palestra. nos escritórios da Maripá (OBERG. Queremos saber. o frigorífico de Toledo. Os termos do discurso de Niederauer denotam uma perspectiva em que estão presentes pelo menos quatro dimensões importantes. surge a questão de como estabelecer esta companhia que instalará o frigorífico. que mostrará quanto cada habitante está disposto a investir. 36 a 39). Egon Bercht e Willy Barth. é que o restante das ações será posto a venda em Porto Alegre.

A proposta clara é a da construção de um frigorífico. No discurso do Diretor apresenta-se uma perspectiva de tempo projetual. Um quarto aspecto que não se deve deixar de lado. O passado não é esquecido. mas também não ficavam esperando delas aquilo que eles poderiam fazer. São vistos como passos ou atividades feitos em termos de um projeto sonhado e mesmo desejado. onde são convocados os homens dispostos ao progresso de Toledo. deixa entrever certa admissão de contaminação pelo progresso.87 . solução pensada após se vivenciar o período das serrarias. O processo de territorialização que permeou o surgimento de Toledo relaciona-se. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . O tempo projetado desdobra-se num espaço ocupado (território) e Niederauer convoca então a que se mantenha a autonomia pela assunção desta nova empresa. era uma estrada de duas mãos. visto acima. a centenas de quilômetros de distância. desde o início.a comunidade não esperava muito das autoridades. de lutas e mesmo de sofrimentos que não devem ser considerados como tendo um sentido em si mesmos. da exportação da madeira. com a idéia de progresso numa perspectiva de tempo futuro. estava nas mãos de entidades privadas. TERRITÓRIO. a educação. é a necessidade de ampliar os horizontes dos territórios comerciais com as relações ou vínculos empresariais com Ponta Grossa e até com São Paulo. Não se propõe que um capitalista venha fazer para eles aquilo que deve ser feito por eles. Este horizonte que se alarga que de início tem em vista um espaço para se colocar as mercadorias. com isto. em grande parte. etc. A proposta do frigorífico surge como 18 As estradas foram construídas e mantidas pela MARIPÁ S. mas que devem remeter a um horizonte de futuro que possa de algum modo dar sentido ao esforço despendido. o futuro permanece em suas mãos. numa demonstração clara de reconhecimento ao pequeno grupo de homens que abriu uma picada floresta a dentro. remontava ao milagre de Toledo.. Os fatos expostos no discurso proferido na rádio. mas ao contrário. De um certo modo. por outro lado. cujo lucro fora investido em novas despesas com máquinas e tratores usados para preparar a terra aos novos compradores. é a clara determinação de se depositar tanto a responsabilidade quanto a oportunidade nos ombros dos próprios moradores. nos termos de Galimberti.A. é retomado na forma da memória de um tempo de empenhos.18 Um segundo aspecto.

importa compreender. Nos termos de Weber. de outro lado” (WEBER. conforme vislumbramos em Chonim e Toledo. e. 1995. nos apresenta pontos comuns e divergentes que nos levam a intuir. de um lado. o delineamento de percursos distintos tendo em mente os apontamentos levantados por Oberg.TERRITÓRIO. o processo de territorialização e a técnica. da antropologia. a partir de duas matrizes de perspectiva de mundo. uma vez que não é possível reduzi-lo a uma única dimensão. busca compreender – e não explicar – este objeto. o tempo e espaço. o presente ensaio. da psicologia cultural e da filosofia. As matrizes americanista e iberista. Essas matrizes e conceitos se fundem e se reconfiguram no gesto fundante inicial como os fios condutores que emprestarão sentido às representações das ações seguintes. Isso é necessário para que a mesma seja respeitada enquanto objeto de conhecimento. p. dentre outros tantos anteriores. que buscaram uma expansão futura. a mesma requer que se admita a possibilidade de inúmeros percursos ou abordagens. Considerações finais Nesta proposta temos a oportunidade de trabalhar o percurso de duas situações sociais a partir daquilo que Weber chama de ciência da realidade. 1968. “a conexão e a significação cultural de suas diversas manifestações em sua configuração atual. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .mais um projeto. Desse enfoque desdobramse um emaranhado específico de relações entre o homem. Esse esforço de compreensão das duas realidades. exigindo de qualquer pesquisador uma perspectiva holística. Com todos os limites naturais de uma empresa deste tipo. no primeiro caso. nos dizeres de Barbosa Filho (2000). 88 . tanto a de Chonim quanto a de Toledo. por ser histórico. 170-171 apud COLLIOT-THÉLÈNE. 26). e as razões que fizeram com que historicamente elas se desenvolvessem sob esta forma e não sob outra. Dada a complexidade e a processualidade da realidade humana. se quisermos. p. O surgimento da Maripá não visava rememorar um tempo/espaço anterior mas um novo tempo/espaço. e no segundo. de acordo com Morse (1988). moldarão uma percepção de tempo e espaço específica. respeitando a sua natureza complexa e processual. da geografia. poderiam ser complementadas com o territorialismo marcante das sociedades do espaço em contraponto às sociedades do tempo. lançando mão de conceitos da história.

92). que são (i)materiais. Não estão separados. O homem. Fundada por Carl Sauer.89 .A análise dos discursos fundadores é desafiadora. a Geografia Cultural que vincula o espaço à cultura busca em sua vertente mais radical tomar “a paisagem como um texto que deve ser lida. ou seja. p. p. 135). 1997. em sociedades distintas. identificando a constituição física da mesma aliada ao comportamento social e cultural dos habitantes” se constituíram na principal ênfase dada pelos Annales em suas explorações (RIBEIRO. especialmente as de Braudel (1987). 2007. 2007. Mas. a proposta de Saquet (2006.) como configuração de símbolos e signos leva a metodologias mais interpretativas do que morfológicas (. p. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . consideramos a nossa incompleta se comparada àquela exigida pelo melhor estilo das análises realizadas pelos Annales. No homem reside a síntese do social e do natural. analisada. Dentro desse estilo. ou seja. está (no).. é (o) e percebe o território. Braudel destaca não só a dimensão temporal mas vincula a sociedade a um determinado espaço.) específica para a leitura de imagens – representações do espaço (. 96).. o reconhecimento da mudança e da permanência dos aspectos que compunham a paisagem de um determinado lugar. arranjando-se em tramas e relações sociais. Complementando a complexidade da aproximação entre as categorias tempo e espaço. produz (o)... por isso. De acordo com o autor. não podemos deixar de reconhecer o esforço de tantos outros autores que. econômicas. tempo e território são conceitos e processos do real intimamente articulados. e a síntese da objetividade e da subjetividade. p. Em conjunto com as obras de Bloch (2001) e Febvre (1991). na década de 30. Somos objetivos e subjetivos concomitantemente.. 81) de uma abordagem (i)materal do território nos parece a mais válida no momento para a reflexão acerca de Chonim e de Toledo. do (i)material. “as relações homem-meio.. biológico e socialmente. a partir de suas áreas de conhecimento. Paul Claval (1999) reanimou os estudos culturais na geografia francesa e se tornou a referência às atuais tendências da chamada new cultural geography (HENRIQUES. tentam há décadas trabalhar com o desafio de compreender a articulação do homem com o meio em que vive e com o tempo que lhe é perceptível. especialmente quando requer uma perspectiva interdisciplinar e. interpretada e explicada como documento social (. Espaço. Na trilha aberta por Braudel. culturais e naturais ao mesmo tempo.)” (MIRANDA. não somos TERRITÓRIO. mas são diferentes. políticas. como ser genérico.

a fixação dos homens no espaço. p. As pistas de Morse quanto às matrizes ibérica e americanista. sobre a percepções de tempo. 28). 82). Isto posto. somente através do sentido “que podemos apreender os nexos entre os diversos elos significativos de um processo particular de ação e reconstruir esse processo como uma unidade que não se desfaz numa poeira de atos isolados. de um recurso fantástico para tentarmos nos aproximar dos sentidos das ações aqui descritas: vamos tomar dois moradores um de Toledo e outro de Chonim de Cima e congelá-los no tempo lá na década de 1950. 2006. p. a dimensão do futuro. Assim. É. portanto. 29). entre seus sentidos) só é possível com referência a essa entidade que as sustenta pela sua ação e é a portadora simultânea de múltiplas delas: o agente individual” (COHN. a “análise das relações entre elas (ou melhor. Lancemos mão.TERRITÓRIO. de Barbosa Filho quanto à sociedades do tempo e do espaço e. Chonim e Toledo relacionam-se com o espaço. o segundo. O que as tornou diferentes? O que estaria subjacente a estas duas matrizes e dimensões temporais? Muito provavelmente estamos lidando com percepções distintas do tempo: o circular e o projetual. que logo ganha um significado e se transforma em territórios mas essa fixação não se dá com a mesma dimensão de tempo. nos levam a pensar essas duas categorias – tempo e espaço – a partir do sentido que os agentes lhe emprestam e das relações que estabelecem. mais uma vez. Em outras palavras. 1991. as de Galimberti. cabe ao agente individual o papel de única entidade onde as diferentes esferas de ação estão simultaneamente presentes e em contato.e nem vivemos somente a matéria ou a idéia em movimento (SAQUET. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Mas qual é o sentido e a motivação dessa relação para ambos? O primeiro relaciona-se com o espaço tendo como dimensão o passado. retornemos ao início de nossa reflexão onde imaginativamente. Realizar isso é precisamente compreender o sentido da ação” (idem. Digamos que estes moradores despertassem depois 90 . Estas esferas podem correr paralelas e movidas por aquilo que Weber chama de “legalidades próprias”. sem a determinação efetiva de uma sobre as demais. pensáramos nos atuais habitantes de Toledo e de Chonim de Cima e em hipotéticas relações de desconhecimento mútuo. p. Há nos dois casos.

Mas invertamos a situação. comércio. para o outro. Certamente o morador de Chonim de Cima. na frase hipotética ao despertar. para o outro. Já o morador de Toledo. Onde foi que nos desviamos do caminho e projeto iniciais! Tanto para Chonim de Cima como para Toledo havia uma proposta de um caminho e mesmo de um caminhar inicial que. A territorialização que redundou da clareira inicial certamente não faria parte de das concepções de mundo destes descongelados invertidos. Que pensaria o congelado toledano se ele despertasse nos dias de hoje em Chonim de Cima? Talvez dissesse também: onde foi que erramos! Ainda estradas de terra. jornais. falta de emprego etc. a educação e os seus costumes não sofreram mudanças tais que ele em pouco tempo não pudesse de novo levar a vida de antes. indústrias. O que realmente seria muito diverso para ele. Pensemos.de 60 anos. hoje em dia. vamos descongelar o choninense em Toledo: como será que ele se sentiria? Talvez até dissesse: onde foi que erramos? Rodovias. estaria quase em casa mesmo nos dias de hoje no ainda Distrito de Governador Valadares. de certo modo. talvez o mais correto seja pensar-se que eles tenham em mente mesmo algo relacionado ao caminhar. os levaria a algum lugar – uma topia na utopia – que de algum modo seria a terra dos sonhos. TERRITÓRIO. 1984). já estava morando em sua imaginação do futuro de Toledo desde a sua juventude. mas graças à sua perspectiva das coisas. aviões. ao despertar. as estradas. bem ou mal. dentro de uma percepção de tempo circular. noutra vez. o computador etc. a terra dos sonhos incluía a idéia de quando mais mudasse tanto melhor. Tudo o que houvesse de novo. os moradores. dentro de uma percepção de tempo projetual. escolas. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Atrás de errar está num primeiro momento uma questão que se contrapõe ao acertar. Mas para um a terra dos sonhos era espacial e quanto menos mudasse tanto melhor. universidades. em relação aos primeiros anos da década de 1950? Talvez carros mais modernos. ainda. Mas o estilo de vida num todo. educação e saúde precárias. hospitais etc. Mas. Uma vez o tempo remete a um passado que permanece. ao percurso. remete a um futuro que acontece. o novo é buscado e até inventado (Bergson.91 . talvez este susto não fosse assim tão grande. Para um o novo é ameaçador. não deixaria de se espantar com o que veria. a televisão. certamente.

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94 .TERRITÓRIO. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .

médicos e higienistas enfatizavam a necessidade de reformas e maior presença do Estado nessa área. HOCMAN. De acordo com as diretrizes nacionais de saúde pública. com a criação do Departamento Nacional de Saúde (1920) as discussões pelo aprofundamento das ações nesse campo tomaram corpo com o movimento pelo saneamento dos sertões (FARIA e CASTRO SANTOS. Em reação à insuficiência da estrutura sanitária herdada do Império. ao 1 Este texto é produto das pesquisas realizadas no Arquivo Público Mineiro e faz parte do projeto: Saúde. 2003:21-29. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais. que pelo seu impacto econômico e social eram consideradas responsáveis pelo atraso do país. políticos. O movimento pelo saneamento no Brasil procurou reunir esforços de médicos e intelectuais em uma cruzada contra as doenças que atingiam o país. A partir dos relatórios de saúde produzidos por médicos sanitaristas. como o impaludismo e ancilostomíase (LIMA e HOCHMAN: 1996).95 2 . em Minas Gerais houve significativos esforços para a constituição de uma organização sanitária com o objetivo de combater as enfermidades e problemas de saneamento em vários municípios mineiros. capaz de fazer frente às enfermidades. financiados pela FAPEMIG. visto como um “imenso hospital”. 1998). higiene e sociedade: o sanitarismo em Minas Gerais (1889-1930) e do projeto “Ocupação e Modernidade: Processos de Territorialização no Vale do Rio Doce”. Conforme se pretende mostrar neste trabalho. saúde e território em Minas Gerais (1895-1930)1 Jean Luiz Neves Abreu2 Introdução O advento da República trouxe mudanças importantes no campo da saúde pública no Brasil. professor da Universidade Federal de Uberlândia/MG. Além da unificação e ampliação dos serviços de higiene federais. TERRITÓRIO. procura-se discutir como a construção da saúde pública foi inseparável da questão territorial e. em vários estados ocorreram reformas com o intuito de combater endemias.Ciência.

Belo Horizonte contava com apenas duas instituições na área médica: a Faculdade de Medicina e a Fundação Ezequiel Dias. da ausência de uma estrutura e políticas de saúde capazes de enfrentar os desafios colocados pelas epidemias e pela extensão territorial do Estado.” (Relatório da Diretoria de Higiene.TERRITÓRIO.encarregada da execução do regulamento sanitário -. 1911:3) Nesse período. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . num departamento de administração pública que só agora começa a ser instalado. o conhecimento das condições endêmicas do estado dependia de notificações das Câmaras Municipais. para medicar os doentes 96 . e outros serviços a exemplo do de estatística demógrafo-sanitária e desinfecção. Na década de 1910. 2007:124-134). tais como inspeção sanitária em habitações e estabelecimentos. Tais problemas resultavam. médico auxiliar da Diretoria de Higiene. a organização dos serviços de saúde era incipiente. Um Exemplo é a notificação que o presidente da Câmara de Curvelo fez para a Diretoria de Higiene sobre casos de febre amarela e varíola em Curvelo. De maneira geral. Samuel Libânio. Desativado em 1898. Minas Gerais enfrentava vários problemas médicos-sanitários. No relatório referente a 1910. delegacias de higiene e vacinação instaladas nos municípios. Outra parceria foi com o Instituto Pasteur. filial do Instituto de Manguinhos que desempenhou importante papel nas questões sanitárias (TORRES. as providências se resumiam em enviar médicos para municípios e regiões assolados pelas doenças.mesmo tempo. Em resposta. em grande parte. para onde eram encaminhados os “indivíduos pobres” atacados por animais acometidos de raiva. O Serviço Sanitário havia sido regulamentado desde 1895 e compunha-se de um Conselho de Saúde Pública e Diretoria de Higiene . ele reclamava do “excesso de trabalho. Zoroastro Rodrigues enviou o Dr. como fábricas e escolas. identificar os principais aspectos do sanitarismo no Estado e seus pressupostos. A Diretoria de Higiene possuía várias atribuições. Os relatórios dos primeiros anos de funcionamento da Diretoria de Higiene após sua reestruturação oferecem um retrato das dificuldades de trabalho enfrentadas pelo então diretor Zoroastro Rodrigues. o Serviço só foi reestruturado em 1910. de Juiz de Fora. A organização sanitária e a questão territorial Em fins do século XIX. Na maior parte das vezes.

realizado pelo próprio Zoroastro com a publicação de um boletim mensal e um anuário. que se constituiu uma Inspetoria de Demografia e Educação Sanitária. A situação calamitosa da saúde em Minas Gerais mereceu atenção especial do sanitarista Belisário Penna. natalidade e mortalidade e abrangia 28 cidades. Outro entrave residia no impacto das finanças públicas sobre a saúde. Em viagem ao norte de Minas. Em suas observações sobre Minas Gerais. o sanitarista pôde verificar a existência de famílias de trabalhadores que viviam à margem da estrada que eram acometidas pela tripanossomíase provocada pelo “barbeiro”. os médicos pouco podiam fazer. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . vítimas do impaludismo e ancilostomíase”. Zoroastro Rodrigues afirmava que se acaso fossem “outras as condições econômicas e financeiras. 1911:26-27). deveria o Estado volver desde já suas vistas para a solução de problemas vitais de saúde pública”. 1913:17). Entretanto. O diretor afirmava não dispor de um só auxiliar. como o de estatística sanitária. com a criação da Diretoria de Saúde Pública. salientou: “É impressionante e doloroso o contraste entre a privilegiada natureza do território mineiro.da região em penosa viagem nas margens do rio Picão (Relatório da Diretoria de Higiene.97 . de aleijados. diante da precariedade dos recursos. O médico se reportava na ocasião à necessidade do combate sistemático de moléstias como o impaludismo. legiões de doentes que viviam “miseravelmente sem nada proTERRITÓRIO. de cretinos. No relatório de 1915. “com o clima invejável” e com a pujança fauna e da flora havia uma população “degenerada de papudos. visto como “o Estado da doença”. 1916: 20). Havia também carência de mão-de-obra para a realização dos serviços da Diretoria. e da tristeza da maioria de seus habitantes”. ao lado de uma natureza privilegiada. em 1927. a doença de chagas e a ancilostomose (Relatório da Diretoria de Higiene. requisitada pela Estrada de Ferro Central do Brasil para a profilaxia da malária. Apesar da existência de um serviço de estatística da Diretoria de Higiene. Observava que. e o aspecto da miséria orgânica. vítimas do ‘barbeiro’. ou de cacheiticos e estafados. além de Belo Horizonte. conforme é possível verificar nos relatórios produzidos entre 1928 e 1935. sendo impossível realizar a estatística de outras cidades (Relatório da Diretoria de Higiene. de doença. em 1907. O serviço de estatística se destinava à apuração de dados relativos à nupcialidade.

com a criação do Departamento Nacional de Saúde Pública. 1918: 9-10). SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . de feição complexa e que urge resolvidas científica e eficientemente” (Relatório da Diretoria de Higiene. Samuel Libânio. o Governo Federal passou a organizar e financiar metade dos serviços de profilaxia rural e dos programas de educação nos estados brasileiros. Imbuídos de uma missão científica. Rio de Janeiro e Minas Gerais. Mato Grosso. 2004:9-10). 1920:11). e surgem a cada passo. Esse diagnóstico era atribuído ao descaso dos governos estadual e municipal mineiro no tocante aos assuntos de saúde pública. foi dado um passo importante para o enfrentamento dos obstáculos de saneamento e resolução dos problemas sanitários de Minas. Em 1920. o diretor da Diretoria de Higiene. Os médicos da Comissão deram apoio técnico no combate às verminoses em vários municípios mineiros.TERRITÓRIO. Minas Gerais foi um dos estados que mais recebeu investimentos em razão de sua situação política e econômica e das condições de trabalho oferecidas. problemas higiênicos regionais. As considerações de Belisário Penna eram compartilhadas pelos médicos que atuaram em Minas Gerais e que reconheciam as dificuldades para resolver os problemas sanitários no Estado. 2002). o que significou maior ampliação da esfera do poder do Governo 98 .duzir”. realizavam exames de fezes. As áreas de atuação da Fundação refletiam e reforçavam diferenças regionais na medida em que favoreciam estados em situação econômica e política favorável (FARIA. chamava atenção para o problema das grandes distâncias e difíceis vias de comunicação: “nessa enorme extensão variam imenso as condições topográficas. No Brasil acordos de apoio técnico e científico foram assinados em alguns estados como São Paulo. Em 1918. pouca verba era destinada à higiene em comparação com outros estados (PENNA. A criação do Serviço de Saneamento e Profilaxia Rural para o combate às endemias nas zonas rurais do Estado resultou desse acordo. para as autoridades médicas a extensão territorial de Minas se colocava como um dos principais obstáculos do saneamento. diagnósticos e distribuição de medicamentos aos infectados (MARQUES. Além da reclamada falta de verba. Nesse sentido. quando o Governo firmou convênio com a Fundação Rockefeller a fim de determinar-se a extensão e intensidade da ancilostomíase e seus efeitos na população do campo. Ainda segundo apontava o sanitarista.

Série 10: Saúde e Assistência Pública). 1923:9). enquanto a Comissão ficava responsável pela indicação de um subchefe com função técnica. higiene urbana e rural. que tinha como um dos seus principais propósitos a campanha contra as endemias das áreas rurais. o papel exercido pelos médicos ligados à Fundação Rockefeller teve receptividade positiva por parte dos responsáveis pelos postos de higiene. sendo criado pelo decreto 6. Jansen de Mello. Diretor de Higiene de Minas Gerais na época. A contribuição financeira realizar-se-ia no prazo de cinco anos. O Diretor de Higiene era responsável pela nomeação de todo o pessoal administrativo. médico responsável pelo posto de Barbacena. fiscalização de gêneros alimentícios. Minas Gerais “aceitava promover a aceitação pelos municípios de todas as leis sanitárias e disposições do Departamento de Saúde Pública em relação aos serviços de saneamento e profilaxia rural” (Arquivo Público Mineiro (APM). Os postos de higiene contavam com a cooperação técnica da Comissão Rockefeller. Para Samuel Libânio esse serviço representava o esforço em “prol de uma organização sanitária que difunda seus benefícios de maneira mais efetiva e duradoura” por todo o território mineiro (Relatório da Diretoria de Higiene. salientava a contribuição da Campanha da “beneTERRITÓRIO.99 . 1922:9). firmado em 29 de outubro de 1920. Segundo ponderava o médico. O Serviço de saneamento rural adotou em Minas a organização de postos e subpostos. além de um laboratório local para pesquisas (Mensagem do Presidente Arthur da Silva Bernardes 1922:49). De forma geral.Federal em matéria de intervenção sanitária (SANTOS e FARIA. Conforme o acordo assinado entre o Departamento Nacional de Saúde Pública e o representante do estado. terminado o prazo duas outras partes contratantes (o município e o estado) assumiriam a responsabilidade do custeio do serviço (Relatório da Diretoria de Higiene. entre outros. Os postos de higiene possuíam várias atribuições. E.051 de 1922 o Serviço Permanente de Higiene Municipal. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Em relatório enviado a Samuel Libânio em maio de 1924. inspeção médico-sanitária nas escolas. Samuel Libânio. foi um dos defensores da reforma sanitária dos anos 1920. 1923:9). Tais estabelecimentos contariam com todas as instalações indispensáveis. como o combate às endemias locais e a surtos epidêmicos. 2003:3135). todos os progressos realizados em Minas “em matéria de administração sanitária podem ser aferidos pelo seu grau de centralização” (Relatório da Diretoria de Higiene.

de 31 de dezembro de 1927. os centros de saúde desempenharam relevante papel em vários municípios. Os centros comunitários de saúde atingiam várias cidades norteamericanas nas décadas de 1920 e 1930. como São Paulo.mérita Fundação Rockefeller” na campanha contra as verminoses (Relatório da Diretoria de Higiene. que tinha como um de seus pilares os centros de saúde. Conforme chama atenção Lina Faria. (Mensagem do Presidente do Estado Antonio Carlos Ribeira de Andrada. 1924:116). 1927: 80-84). Dessa maneira. havia essas unidades em Barbacena. via de forma otimista a adoção desse sistema de organização sanitária: “Os centros de saúde e postos de higiene são unidades 100 . Teófilo Otoni e Uberaba. Juiz de Fora. Buscando otimizar os serviços de saúde. Na verdade. A reorganização dos serviços de saúde pública subordinava-se ao “princípio de descentralização técnica e administrativa”. A organização sanitária de Minas Gerais adotou modelo semelhante aos de outros estados. tendo em vista a extensão territorial do estado e as difíceis comunicações com o interior. 2007:113-134). além de Belo Horizonte. o termo centro de saúde (health Center) foi utilizado inicialmente para denominar postos de assistência à infância e posteriormente passou a designar agrupamento de serviços médicos e de assistência sanitária. então Inspetor dos Centros de Saúde de Minas Gerais. As unidades de saúde envolviam uma nova metodologia. fundamentada na subdivisão das cidades em distritos sanitários.TERRITÓRIO. controle e profilaxia das doenças (CAMPOS. na educação sanitária e na administração sanitária”. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . A vinda da Comissão Rockefeller para o Brasil a partir de 1916 imprimiu uma mudança nos trabalhos sanitários nas áreas rurais de São Paulo. pelo decreto n. eram confiadas aos municípios as “providências que se tornarem necessárias à saúde pública”.116. Conforme enfatiza igualmente Carlos Eduardo Aguilera Campos “as bases científicas e filosóficas a nortear o trabalho nesses estabelecimentos sanitários baseavam-se na epidemiologia. a Diretoria de Higiene passou a ser denominada Diretoria de Saúde Pública. Nesse contexto. principalmente no que diz respeito à concepção e instalação dos postos municipais e centros de saúde no estado (FARIA. esse modelo de assistência à saúde refletia a influência norte-americana. 2007:888). Em 1928. Em 1930. Três Corações. 8. visando um maior conhecimento. Ernani Agrícola.

SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . amas. o hospital de Lázaros de Sabará e Colônia Santa Isabel (Relatório da Diretoria de Saúde Pública. muitas vezes como efeito não antecipado de suas atividades (LIMA. melhoramentos). quatro hospitais regionais. favoreceram perspectiva mais ampla sobre as populações com que os médicos estabeleceram contato. fundamentais para a compreensão da incidência de determinadas doenças e sua distribuição no tempo e no espaço. barbeiros. Ao analisar os relatórios produzidos a partir das viagens de sanitaristas. 2002:583). O lugar de destaque conferido nos relatórios médicos às descrições acerca das condições sociais. Minas Gerais contava com a seguinte estrutura sanitária: um centro de saúde na capital.101 . serviço de nariz. 2009:234) Tais considerações podem ser aplicadas ao caso de Minas Gerais. um instituto Pasteur em Juiz de Fora. higiene pré-natal e infantil. Este contava com serviço de propaganda e educação sanitária. saneamento (visitas nas casas.sanitárias que correspondem satisfatoriamente às necessidades modernas para o desenvolvimento e aperfeiçoamento dos trabalhos de saúde pública” (Apud FARIA. Centro de Estudos e Profilaxia da lepra. Nesse sentido. 1920:26-30). oito centros no interior. um serviço anti-rábico na capital. Os vários serviços executados por esses estabelecimentos podem ser exemplificados pelo Centro de Saúde de Belo Horizonte. o qual compreendia um dispensário central. 1932:5). quatorze postos de higiene. um dispensário antivenéreo anexo ao centro de saúde da capital. entre outros (Relatório da Diretoria de Saúde Pública. ambientais e geográficas como fatores indissociáveis das enfermidades sugerem a conciliação do desenvolvimento da microbiologia no Brasil com a tradição científica dos estudos de campo. dez sub-postos. da cultura e da história. Estratégias de saneamento do território mineiro Para compreendermos as ações de saneamento em Minas Gerais nas primeiras décadas do século XX é relevante considerar o papel das observações realizadas in loco pelos médicos sobre as condições de vida das populações. Nísia Trindade Lima afirma que a busca de conhecimentos advindos da geografia. um laboratório bromatológico e de pesquisas clínicas. vigilância sobre os que vendem ou manipulam gêneros alimentícios. serviço de malária. serviço antivenéreo. Em 1932. exames laboratoriais. os relatórios de saúde elaborados pelos médicos procuTERRITÓRIO.

realizou viagem nas linhas Estrada de Ferro Oeste de Minas. Para o mesmo fim. Mello Teixeira. o Dr. Foi com esse propósito que. em companhia do médico chefe do oeste. obras de engenharia sanitária e quininização dos funcionários. A utilização de vagões e postos fluviais em lanchas permitia que a assistência médica chegasse a pontos isolados. estabelecendo relações entre a Comissão e 102 . constantemente. Em seu relatório salientava a necessidade de utilização de carros-postos. 1922: 142). Na década de 1920. médicos realizaram viagens e inspeções sanitárias em diversas regiões do Estado. subposto de medicamentos em Aimorés e Cachoeira Escura e a utilização de vagão posto para atendimento aos funcionários e população da região (Relatório da Diretoria de Higiene. os mais necessitados do Estado. Ernani Agrícola recomendava a criação de um Posto central em Figueiras. O plano de saneamento a ser aplicado nas regiões cortadas pela ferrovia incluía construção de casas com a obrigação da construção de fossas segundo determinação do médico. sobressai a percepção de uma população sem assistência vivendo em precárias condições de habitações e acometida pelo impaludismo e mal de chagas. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . sociais e econômicas das populações. as pequenas localidades onde a permanência custosa de um posto não se justificaria. Dr. que margeavam as ferrovias e os rios: Percorrendo. trabalhos de hidrografia a serem realizados pela Estrada e quininização preventiva de funcionários. Eder Jansen de Mello foi igualmente designado para proceder ao estudo das condições sanitárias e da organização de um combate as endemias na Estrada de Ferro Central do Brasil (Ramal de Montes Claros). sob ordem da Diretoria de Higiene. No relatório da inspeção médica realizada na Estrada de Ferro do Oeste de Minas. uma comissão foi designada pelo médico inspetor Dr. com o objetivo de conhecer melhor as condições nosológicas do território mineiro e elaborar planos de saneamento. (Relatório da Diretoria de Higiene. em 1920. o Dr. vão eles socorrendo em medicamentos e conselhos higiênicos. 1921:224-229). Ernani Agrícola foi enviado a percorrer a Estrada de Ferro Vitória Minas.ravam evidenciar que as enfermidades eram resultantes das condições geográficas. Em 1921. Antonio Viegas. construção de fossas sanitárias.TERRITÓRIO. Já na região do Rio Doce. na zona do Rio Doce.

Nesse sentido. para cuja erradicação se tem consertado planos de saneamento (Relatório da Diretoria de Higiene.103 . SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . As autoridades governamentais e médicas acreditavam que não bastava a aplicação de medicamentos se não fossem modificadas as condições do meio. 1921:208-210). Em 1920. a sua prosperidade econômica entibiada por causas desconhecidas. no relatório de 1925. o posto móvel. serviam como modelo para as medidas de saneamento a serem adotadas. em Martinho Campos. párias em matéria de saúde e vigor físico (Relatório da Diretoria de Higiene. 1924:3). Nesse contexto. foi nomeada uma comissão constituída por Ernani Agrícola e dois auxiliares para realizar a inspeção sanitária na “fazenda modelo” Álvaro da Silveira. como execução de obras de hidrografia e profilaxia individual dos colonos. Nesse sentido. As colônias de trabalhadores agrícolas.os mais obscuros obreiros do solo mineiro. 1924:5). o governador Fernando de Mello Vianna. considerava que a campanha contra o paludismo só obteria sucesso caso fossem melhoradas as condições econômicas das regiões atacadas pela morbidade (Mensagem do Presidente de Estado Fernando de Mello Vianna. A profilaxia da malária e de outras enfermidades era realizada mediante a construção de casas de alvenaria e obras de hidrografia. por males removíveis. Samuel Libânio observa que eram largos os tratos de nossa terra que têm seu progresso retardado. 1923: 21) Os médicos assumiam uma perspectiva missionária. 1925: 171). Várias fotografias foram reproduzidas nos relatórios pelos sanitaristas com o intuito de demonstrar a eficácia das obras realizadas no TERRITÓRIO. levando a ciência e a civilização aos sertões. concebidas desde fins do século XIX para viabilizar a fixação do imigrante. o hospital permanente representam as etapas sucessivas da obra de conquista que se consolida através da redenção da saúde do nativo (Relatório da Diretoria de Higiene. com quininização e defesa da habitação contra o mosquito transmissor (Relatório da Diretoria de Higiene. A esse respeito. O plano a ser adotado previa medidas para impedir a propagação da malária. é visível a preocupação dos médicos com a aclimatação do estrangeiro e com as condições de saúde dos trabalhadores agrícolas que residiam nos núcleos. as obras de saneamento eram consideradas formas de intervir nas condições do meio relacionadas à propagação das doenças. Conforme salientava Samuel Libânio “a ambulância sanitária.

nos seus estatutos e posturas (. a casa de alvenaria. há menção aos trabalhos dos médicos da Comissão no combate de febre amarela. em correspondência encaminhada à Secretaria do Interior pelo subprocurador Geral do Estado. 1932: 49). realizavam exames e medicação das pessoas. Além das obras realizadas pelo governo estadual. No relatório referente aos anos 1930 e 1931. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .TERRITÓRIO. Os médicos ligados ao Serviço de Profilaxia e Saneamento Rural. 1924:166) Outros serviços de saúde de relevância eram realizados em vários municípios mineiros. devidamente instalada a rede geral”. Segundo o relatório. em várias localidades do norte” (Relatório da Diretoria de Saúde. sob as penas da lei” (APM.entorno das ferrovias e nas colônias bem como os tipos de construções que deveriam ser adotadas como modelo. via na necessidade de instalação de fossas. o mais “importante problema sanitário de Barbacena” em razão da ausência de rede de esgotos naquela cidade (Relatório da Diretoria de Higiene. A lei previa ainda que a Câmara poderia construir fossas e instalações sanitárias “que seriam pagas pelos proprietários mediantes prestações mensais”. A inexistência de uma estrutura sanitária foi objeto da preocupação de vários médicos. Em dois de dezembro 1919. Reforçando tais diretrizes. em parceria com a Fundação Rockefeller. Uma das fotografias trazia em primeiro plano a “habitação primitiva” feita de pau-a-pique e. Eder Jansen de Mello. 104 .. alguns municípios possuíam leis que regiam os serviços permanentes de higiene e saneamento. declarava: compete às “municipalidades regular a higiene e salubridade públicas locais. que havia realizado um trabalho de vigilância de focos em vinte e três localidades no norte do Estado. Série 10: Saúde e Assistência Pública). expedida em vinte e sete de setembro de 1920. a notificação de casos em Corinto só se tornou possível depois que a comissão instalou postos de viscerotomia e enviou um médico “a fim de colher sangue das crianças de diversas idades. na zona suburbana. ao fundo. ou pagá-las no perímetro urbano. por exemplo. foi sancionada uma lei na Câmara de Santa Rita de Sapucaí que tornava obrigatória a construção de “latrinas higiênicas de acordo com os tipos fornecidos pela autoridade competente. chefe do posto de higiene municipal de Barbacena. O Dr.. simbolizando o contraste entre o atraso e a modernidade. Fernando de Mello Vianna.) e pode ser o proprietário compelido a construir fossas.

SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Compartilhando da opinião de seus pares em outros estados. flageladas por várias endemias. 2006:139). No primeiro Congresso Nacional dos Práticos Brasileiros. na maior parte dos relatórios há uma ênfase nas enfermidades causadas pelas infestações de vermes. Se considerarmos que a construção de latrinas também objetivava combater as parasitoses. “doença vista acima de tudo como um problema econômico” por minar a capacidade de mão-de-obra nas plantações (LÖWY. A questão do trabalho consistiu em um dos aspectos centrais do discurso sanitarista no Brasil. pode-se considerar que houve um grande investimento na profilaxia das doenças causadas pelos helmintos. É significativo ressaltar que a própria atuação da Fundação Rockefeller no Brasil.105 .Compulsando os relatórios. cônscio da situação angustiosa e desesperadora de milhares de patrícios contaminados e reduzidos à mais profunda miséria fisiológica pelo ‘mal de Chagas’ e outras moléstias igualmente aniquiladoras que roubam às lides sadias e nobilitantes da lavoura tantas energias úteis. doenças venéreas e assistência aos leprosos. entre 1918 e 1923. garantir mão-de-obra sadia à lavoura: Aquilatando devidamente a relevância e urgência dessa obra de defesa da saúde das populações rurais. concentrou-se na campanha contra a ancilostomíase. Não se pode desconsiderar dentre os propósitos dos serviços de profilaxia rural estava a ideia de que era necessário fazer chegar ao homem do campo e às populações abandonadas do interior a assistência médica e. realizado em 1922 no Rio de Janeiro.pôs o governo o maior empenho em promover o saneamento rural e criar postos profiláticos em diversos TERRITÓRIO. observa-se que apesar dos serviços de profilaxia voltados para o combate da febre amarela. os médicos mineiros viam as enfermidades como resultantes do atraso econômico e ignorância da população. pântanos. Samuel Libânio corroborava essa ideia ao afirmar ser pródigo em “conselhos higiênicos ofensivos e defensivos” em relação “ao impaludismo que com tanta facilidade assalta os pobres ignorantes roceiros que plantam suas moradas à beira dos brejais. . o sanitarista Miguel Osório de Almeida propugnava que o “saneamento da sociedade deveria tornar o trabalhador capaz de trabalhar. das lagoas e das águas baixas” (Relatório da Diretoria de Higiene. Isso levará à redução da pobreza e à melhoria das condições de vida de todos” (Apud LÖWY. 2006: 141). 1921:201). ao mesmo tempo. principalmente a ancilostomíase.

Atrelada a essa questão estava a ideia de que as condições endêmicas poderiam ser modificadas pela ação da ciência. a educação sanitária representou uma das diretrizes das políticas de saúde implantadas em alguns estados brasileiros. 1929:15-22). os médicos procuravam difundir não só hábitos saudáveis entre a população como normatizar comportamentos considerados prejudiciais à saúde. como projeção de filmes e utilização de transparências (LÖWY. Nesse contexto. por aí residir a “maior fonte de riqueza do país” (Relatório da Diretoria Saúde Pública de Minas Gerais. tanto procuram engrandecer”. A redenção pela higiene Além dos avanços da ciência no combate às enfermidades. Por meio da higiene. escurentados pela ignorância. O mesmo observava que “corroídos pela sífilis. vacinas e medicamentos. cachexiados pela malária. Daí a importância de se difundir a higiene pelo interior de Minas. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . aniquilados pela lepra. onde se lhe afigurou mais premente a adoção dessa medida de grande alcance humanitário e patriótico (Mensagem do Presidente de Arthur da Silva Bernardes. sugados pelos vermes. Incorporando os métodos norte-americanos. Segundo Vera Regina Beltrão Marques. os médicos brasileiros partiam do princípio de que para combater a ignorância e o desconhecimento dos preceitos higiênicos fazia-se necessário promover a consciência sanitária da população. o Instituto de Higiene se constituiu em espaço para o desenvolvi106 . Mario Augusto de Figueiredo. chefe do Posto Municipal de Higiene de Raul Soares. crença amplamente difundida no pensamento social da época (HOCHMAN e LIMA. a educação para a saúde ganhou grande destaque. 1994:112). a partir de recursos modernos. porém dotada de atributos morais. vivem os nossos irmãos como tristes párias dentro da nossa pátria que eles. munia-a de grande poder de intervenção social” (MARQUES. incorporava essa perspectiva ao comentar as enfermidades que acometiam os sertanejos. 2006:140149). anonimamente. com o desenvolvimento de exames. 1920: 53) O Dr.pontos do Estado. o “fato de a higiene ser considerada uma disciplina científica de base biológica. Em São Paulo.TERRITÓRIO. 2000). Assim. a higiene passou a ser vislumbrada como disciplina com estatuto científico e elemento imprescindível para a conservação da saúde dos indivíduos e da coletividade.

A instrução médicosanitária com noções de higiene individual e coletiva significava um passo definitivo em prol do levantamento da energia do povo mineiro (Relatório da Diretoria de Higiene. Demonstrando a relevância que o tema assumiu em Minas. Samuel Libânio defendia o papel da escola afeiçoando “o homem a novas formas de viver e pensar. as crianças. nesse período houve uma identificação entre eugenia e saneaTERRITÓRIO. 1930:12-30).107 . Belo Horizonte foi escolhida para sediar o segundo Congresso Brasileiro de Higiene. se processaria nas condições “mais favoráveis à eugenia da raça”. principalmente. as medicações eficientes". na idade em que se constroem hábitos definitivos”. Uma inspeção cuidadosa proporcionaria descobrir “desvios funcionais” e garantiria que o desenvolvimento da criança se processasse nas “condições mais favoráveis à eugenia da raça” (Relatório da Diretoria de Higiene. Para o médico. a cura dos males que se perpetuavam por séculos dependia do socorro da ciência e nisto consistia “a grande parte da higiene na sua parte mais bela. 1925:160). A higiene representava ainda o meio pelo qual o desenvolvimento da criança. Salientava a importância da inspeção médico-sanitária nas escolas. 2003). Ao associarem eugenia. tanto físico quanto psíquico. por meio de propaganda e formação de educadoras sanitárias (ROCHA. as concepções desses médicos estavam em acordo com a perspectiva do pensamento eugênico predominante no Brasil da década de 1920. Em artigo intitulado Problemas sociais que não podem ser descurados no Brasil novo. onde foram discutidos “assuntos de atualidade científica e de interesse imediato nacional” (Mensagem do Presidente Fernando de Mello Vianna. afirmava que a “raça brasileira” estava se degenerando e para seu melhoramento aí estava a puericultura “sugerindo os meios de combate. 1921: 5). O Dr. Mário Augusto de Figueiredo compartilhava de ideias similares. a eugenia“ (Relatório da Diretoria de Saúde Pública. Nesse sentido. Conforme observa Nancy Stepan. ditando as passagens profiláticas. O discurso dos médicos e as medidas tomadas demonstram a relevância da educação no processo de difusão dos princípios sanitaristas. 1923: 6-7). reproduzido no relatório de 1930. onde a atividade do médico tinha por objetivo a “aplicação e adaptação à vida escolar dos ensinamentos de patologia e higiene”.mento de estratégias para incutir hábitos de higiene entre a população e. raça e higiene. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .

ocorrendo o contrário quando da exibição de filmes. O Dr.TERRITÓRIO. A despeito de projetos eugênicos “negativos” – destinados a impedir a procriação daqueles que não tinham saúde – predominou a eugenia “preventiva”. 108 . Em relatório encaminhado à Diretoria de Higiene em maio de 1924. além das conferências. etc . tendo por base argumentos como a saúde pelo progresso e da regeneração do povo (CARVALHO. notas de imprensa e filmes.e a conservação da saúde pela fixação dos hábitos saudáveis. A educação sanitária ganhava contornos normatizadores das condutas. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Ao longo da década de 1930 e da seguinte. Segundo Keila Carvalho. 2004:331-361). Os médicos propugnavam a difusão ampla dos princípios higiênicos entre a população.mento por parte dos sanitaristas brasileiros. bem como combater certas enfermidades que podiam levar à degeneração. como o alcoolismo. além de 2 filmes. proporcionando a correção de anomalias – como problemas posturais. de um modo geral essa educação despertaria a conscientização dos indivíduos. distribuição de folhetos e do acompanhamento pelos professores e médico escolar dos hábitos higiênicos dos alunos. um sobre ancilostomíase e outro sobre doenças venéreas. os médicos sanitaristas mineiros elaboraram várias propostas de implantação da educação higiênica nas escolas por meio de palestras. 1924: 166-192). organizou-se uma “pequena exposição de vermes intestinais” e foram exibidos filmes sobre verminoses e doenças venéreas (Relatório da Diretoria de Higiene. A educação sanitária não se restringiu às crianças. o médico comentava que o povo pouco se interessava pelas conferências. aproveitando da grande aglomeração das festas religiosas e contando com o apoio das autoridades eclesiásticas. perspectiva segundo a qual eram possíveis as possibilidades de regeneração por meio da educação e saneamento (STEPAN. distribuição de folhetos. A respeito da eficácia dos métodos de propaganda. Desde 1920. gagueira. artigos. que imaginavam vários tipos de reformas sanitárias capazes de melhorar as condições hereditárias da população. Eder Jansen de Mello notificou a realização de seis conferências e quatorze preleções em teatros e escolas. os relatórios oficiais indicam ações dos governos estaduais na divulgação dos preceitos higiênicos a partir de palestras. Ernani Agrícola notificou a realização de conferências públicas na sede da Liga Protetora Operária de Lafaiete. 2008: 106-114). o Dr. Em Congonhas do Campo.

1922: 20-23).Os hospitais também eram considerados importantes pólos irradiadores da higiene. dirigindo-se aos jornais de quase todos os municípios mineiTERRITÓRIO. Foram impressos setenta mil setenta mil exemplares sobre vários temas. A imprensa escrita e a rádio passaram a ser relevantes veículos de divulgação sanitária. órgão oficial da imprensa do estado. além da distribuição de quatorze mil novecentos e cinqüenta e um 14. febre tifóide. 1929:23-27). Em 1928. A inspetoria realizou Campanha contra a tuberculose. Por intermédio da Sociedade Rádio Mineira.951 folhetos de propaganda e educação sanitárias (Relatório da Diretoria de Saúde Pública. Entre 1930 e 1931. enfermeiras e guardas. em 1935. de mais de duzentos 200 trabalhos na sessão “Pela Saúde Pública”. o desenhista Domingos Xavier para a feitura artística de desenhos. “ilustradas e em linguagem ao alcance de todos” (Relatório da Diretoria de Higiene. houve a realização de várias palestras e distribuição de impressos com preceitos de higiene destinados às crianças. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . os hospitais tornavam-se antes “escolas de higiene. difteria. em 1930. Para atingir a população os médicos sanitaristas procuraram também criar material didático que tivesse ampla aceitação. Os dispensários de doenças venéreas exerciam papéis equivalentes. Além dos veículos de comunicação da Capital. centro de instrução e educação sanitárias. varíola e febre amarela.109 . Estes passaram a ser ligados à Inspetoria de Demografia e Educação Sanitária “com o encargo de orientar o programa educativo do povo nas regras elementares de higiene e na defesa de sua saúde”. Samuel Libânio observava a respeito que muito mais que simples casas de socorro e higienização. o Inspetor Odilon Santos contratou. o centro de saúde da capital contabilizou várias conferências públicas e centenas de palestras particulares por médicos. dentre outros. a Inspetoria procurou incorporar a imprensa do interior. sarampo. os serviços de educação sanitária foram ampliados com a publicação regular no Minas Gerais. Combates à tuberculose. espaços onde eram realizadas conferências públicas. alimentação infantil. ponto de gravitação e de irradiação de todo um pequeno núcleo de progresso e civilização”. O valor do leite materno. tais como O perigo das mãos sujas. Neste sentido. A transformação da Diretoria de Higiene em Diretoria de Saúde Pública trouxe um incremento nos serviços de propaganda. mortalidade infantil.

e em outras rádios do interior (Divulgação Sanitária-palestras na rádio Inconfidência. Com o decreto n. 1921: 109 e 182). SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . 69. Ladário de Faria. é significativo observar que o trabalho de propaganda e educação sanitária seria aprofundado nos anos seguintes. procurava estabelecer uma nova organização sanitária. em Belo Horizonte. comentava que a construção de fossas continuava morosa em razão da falta de material e de transporte (Relatório da Diretoria de Higiene. 1935:90-91). é preciso atentar que o ideal de saneamento em Minas esbarrou em alguns obstáculos. no Triângulo Mineiro. 1952). Os serviços de saúde – como o Serviço de Profilaxia Rural e o Serviço Permanente de Higiene Municipal – traduzem os esforços dos médicos sanitaristas em promover reformas e promover a higiene do povo mineiro. A situação econômica do Estado possibilitou acordos com a Fundação Rockefeller. notificava a falta de profissionais para inspecio110 . na época chefe do posto de Bom Despacho. vários trabalhos de divulgação sanitária foram publicados no Minas Gerais e várias palestras proferidas na Rádio Inconfidência. logo a Inspetoria de Demografia e Educação Sanitária da Diretoria de Saúde Pública passou a se denominar Inspetoria de Propaganda e Educação Sanitária. Entretanto. fica evidente o lugar de destaque dado à educação sanitária em Minas Gerais e seus significados na difusão dos princípios norteadores dos princípios sanitaristas no estado. comentava a grande dificuldade para execução dos serviços de profilaxia na zona rural devido a distância dos povoados e da dispersão da população. em relatório remetido em janeiro de 1923. A partir da leitura dos relatórios médicos. Sobre a questão.ros solicitando “a preciosa cooperação nesta tarefa educativa” (Relatório da Diretoria de Saúde Pública. Ernani Agrícola. de 20 de janeiro 1938. Embora fuja ao escopo de nossa análise. o Dr. Elpenor de Oliveira. Um dos problemas dizia respeito à ausência de leis eficazes direcionadas a obras de saneamento e construção de fossas em alguns municípios. garantindo a aplicação de recursos e métodos modernos no combate às endemias. chefe do distrito sanitário da Zona da Mata.TERRITÓRIO. O saneamento como ideal e prática O ideal sanitarista da Primeira República foi incorporado por médicos e autoridades em Minas Gerais. Em Uberabinha. A partir de 1940.

reclamava-se da redução de recursos destinados pelo Governo Federal ao serviço de saneamento rural e do fim do custeio de TERRITÓRIO. Ao comentar os serviços do posto de Itajubá no relatório de 1920. APM. de “espíritos malévolos e maldizentes” que faziam propaganda contra o serviço. a “classe indigente” não dispunha de recursos. mostrava-se obsoleta para a complexidade dos serviços de higiene da capital. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Irineu Lisboa dizia que a campanha sanitária de profilaxia das verminoses era de difícil execução. No relatório. 1923:98 e 166). o médico solicitava que deveria haver uma ação conjunta da prefeitura e do Estado para obrigar os moradores a construírem latrinas. Samuel Libânio reportava denúncia feita pelo vice-presidente da Câmara de Santa Rita de Sapucaí sobre “pessoa de destaque na magistratura mineira que se recusa a cumprir a lei referente à construção de fossas” e cujo exemplo muito prejudicava “os trabalhos de saneamento”. De forma semelhante. Por um lado. Outro motivo de reclamações dos médicos consistia na resistência da população. 1920:160-162). multando e executando o infrator (Correspondência da Diretoria de Higiene do Estado de Minas Gerais. culpando a hostilidade e ignorância da população (Relatório da Diretoria de Higiene. o Dr. As questões de ordem financeira são várias vezes mencionadas como entraves para uma eficaz organização sanitária. Alfredo da Cunha chamava atenção para a aversão aos exames e medicações. Nem mesmo os serviços de saúde Belo Horizonte ficaram ilesos às críticas. Em correspondência enviada ao Secretário do Interior. o Dr. a legislação vigente. 1923: 162). em setembro de 1920. em 1924.nar todo o serviço de fossas. o que o obrigava a fazê-lo pessoalmente (Relatório da Diretoria de Higiene. fazendo figurar essa obrigação para a concessão de terrenos e lotes (Relatório da Diretoria de Higiene.111 . Citava em particular o caso de um vigário que se insurgiu contra a construção de fossas dizendo ser uma “ameaça a saúde do povo” (Relatório da Diretoria de Higiene. de outro “a rebeldia dos proprietários”. 1924: 19). 29/09/1920. No relatório do Governo de 1925. Série 10: Saúde e Assistência Pública). Em vista disso. ele solicitava a submissão do caso à apreciação do subprocurador do Estado a fim de que a Diretoria pudesse agir firmemente. A oposição às medidas profiláticas partiu não só da população urbana e rural desprovida de recursos como das classes dirigentes. De acordo com Samuel Libânio.

que teve sua dotação orçamentária reduzida em 1924. Tais aspectos eram reforçados no relatório do governo relativo à saúde em 1925. em particular. para a inexistência de hospitais regionais no Triângulo Mineiro e no Vale do Rio Doce. mas os doentes mal tinham assegurado uma “humilde esteira” para estenderem seus corpos (Relatório da Diretoria de Higiene. Segundo salientava Sem médicos. a densidade populacional e importância econômica.TERRITÓRIO. (Mensagem do Presidente de Estado Fernando de Mello Vianna. Chamava atenção. possuía uma “numerosa população de impaludados a exigir pronta ação” do serviço. enfermeiras visitadoras e guardas sanitários perfeitamente instruídos na prática dos trabalhos de saúde pública e sem o entusiasmo pela profissão não progredirá a obra sanitária. Considerava central a questão do saneamento do Rio Doce. “cuja vasta bacia. No relatório referente ao Serviço de Saneamento e Profilaxia Rural de 1923. Ernani Agrícola expunha o problema às autoridades governamentais em 1932. Samuel Libânio observava que o serviço guardava “proporções modestas em relação ao imenso território sobre que deve agir”. as regiões da Zona da Mata e do Sul de Minas eram as mais beneficiadas. Considerando os critérios adotados. No relatório das suas atividades. como o destinado à sífilis e doenças venéreas. 173:160). obras de hidrografia sanitária e quininização contínua. a assistência à saúde não chegava de maneira semelhante em todas as regiões. Segundo este. dizia ser de grande alcance se o governo de Minas entrasse em entendimento com a Universidade de Minas Gerais para o funcionamento de cursos destinados aos atuais médicos de saúde pública. propalada em vários relatórios. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . 1923: 30-31). Nesse mesmo sentido iam as queixas referentes à falta de pessoal técnico capacitado para os serviços. “deveria tornar-se extensivo deveria 112 . em grande parte alagada”. mesmo que a Diretoria disponha de grandes dotações orçamentárias (Relatório da Diretoria de Saúde Pública. índice endêmico. Embora algumas cidades contassem com postos de saúde em funcionamento. como a construção de habitações apropriadas. 1932: 15) Aspecto importante a ser comentado é a distribuição desigual dos recursos de saúde no território mineiro. o conjunto de medidas profiláticas aplicados em alguns municípios. Sobre o oeste de Minas afirmava que havia “inúmeros casos hospitalizáveis”.outros serviços.

o que prejudicava a execução de vários séricos. Ernani Agrícola chamava atenção para a redução de verbas destinadas à saúde pública. que embora tivesse capacidade para mil leprosos não tinha dotação orçamentária apropriada. sofreu grande carência da assistência médica até a década de 1940. Ernani Agrícola encontrou os serviços desarticulados por força do orçamento em vigor. Esse conjunto de fatores mencionados acima indica o descompasso entre os ideais do projeto sanitarista e sua execução em Minas Gerais TERRITÓRIO. mencionada nos relatórios como desprovida de recursos na área da saúde. Em 1932. como se verifica nas bacias dos rios Doce e Jequitinhonha” (Mensagem do Presidente do Estado Fernando de Mello Vianna. Apesar do otimismo sanitário vislumbrado na época.tornar-se extensivo a outras zonas do Estado. Ao assumir a direção da saúde publica. pois desde 1929 não era publicado o boletim trimestral de estatística demógrafo-sanitária. 2008). O programa de saneamento vinha em grande parte atender às demandas de uma região que naquele contexto estava em crescimento em razão da exploração de recursos minerais (Vilarino. ressaltava a precariedade do funcionamento dos centros de saúde e postos de higiene. Tal quadro só mudou quando a região passou a ser objeto de programas de saúde empreendidos pelo Serviço Especial de Saúde Pública (SESP) a cargo de uma comissão mista de sanitaristas brasileiros e norte-americanos para a extinção da malária e outras endemias. Além disso. sendo decidido que em razão de diminuição de verba e de pessoal não mais se publicaria o boletim. Um exemplo é que a região do Vale do Rio Doce. 1932:13-21). não têm podido fixar o colono. Isso afetava alguns serviços. A crise de 1929 trouxe conseqüências aos serviços de saúde executados em Minas Gerais. de terras mais ferazes e que assoladas pelo mal. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .113 . Comentava sobre a necessidade das obras complementares na Colônia Santa Isabel. o que seria feito de forma mais completa no “Anuário de Estatística Demógrafo-Sanitária” (Relatório da Diretoria de Saúde Pública. com a redução de recursos e consequente diminuição de funcionários. 1925: 171). como o de estatística. cabe ressaltar que a assistência médica ainda não correspondia às necessidades e demandas do amplo território mineiro.

esse fato revela um paradoxo do sanitarismo em Minas Gerais. dentre os quais estavam a resistência da população. 114 . Questões de ordem cultural. em grande medida. Os discursos dos médicos sanitaristas em Minas Gerais incorporavam. A nosso ver. como a resistência da população. Reforçava-se assim uma distribuição dos recursos de saúde pelo território que não partia da pobreza como critério e sim da riqueza que algumas regiões tinham a oferecer. deviam ser merecedoras de projetos de saneamento. e por essa razão.nas primeiras décadas do século XX. os médicos insistiam no papel das obras de saneamento para mudar as condições do meio e da educação sanitária como forma profilática de diminuir as doenças que minavam as energias dos trabalhadores do campo. o projeto de saneamento era excludente ao garantir mais recursos para as regiões mais ricas e populosas. Mas como se viu. Consultando os relatórios elaborados pelos médicos sanitaristas. grande parte dos projetos de saneamento esbarravam em problemas diversos. Considerações finais Ao longo desse estudo. Além disso. procurou-se abordar alguns elementos do sanitarismo em Minas Gerais nas primeiras décadas do século XX. por sua vez. Além disso. as diretrizes da saúde pública adotadas no Brasil. as ideias vigentes na época ao defenderem o papel da ciência – representada pela higiene e pelas técnicas médicas – como meio não só de enfrentar as enfermidades. a própria imensidão do território e. mais grave ao olhar das autoridades. as políticas de saúde reforçavam a desigualdade social e econômica ao privilegiaram as mais rentáveis regiões do Estado. a inexistência de recursos suficientes.TERRITÓRIO. mas também de suplantar os obstáculos mesológicos e sociais que impediam a modernização do Estado. Dessa maneira. Procurava-se implantar em Minas uma estrutura sanitária capaz de vencer os obstáculos da extensão territorial e voltada para endemias consideradas responsáveis pelo atraso econômico. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . já que um dos propósitos das políticas de saúde era por fim ao círculo vicioso entre pobreza. atraso econômico e doença. pode-se constatar constata-se que as políticas de saúde no Estado seguiam. e de ordem técnica e financeira impediam o bom andamento dos projetos.

Secretário de Estados dos Negócios do Interior do Estado de Minas Gerais pelo Dr. Dr. Snr. D. Dr. Relatório apresentado ao Exmo Sr. secretario de Estado dos Negócios do Interior pelo Dr. 1913 Diretoria de Higiene. Diretor Geral de Higiene. Affonso Penna Júnior. Samuel Libânio. Belo Horizonte: Imprensa Oficial. 1921. Zoroastro Rodrigues de Alvarenga. Samuel Libânio. 1916. Américo Ferreira Lopes Secretário de Estado dos Negócios do Interior pelo Dr. Belo Horizonte: Imprensa Oficial. 1924 Relatório apresentado ao Exmo Sr. Affonso Penna Júnior. Secretario do Interior do Estado de Minas Gerais pelo Dr. Diretor Geral de Higiene. Dr. Dr. Delfim Moreira da Costa Ribeiro Secretario de Estado dos Negócios do Interior pelo Dr. Relatório apresentado ao Exmo. Diretor Geral de Higiene. Fernando de Mello Vianna. Belo Horizonte: Imprensa Oficial. referente ao ano de 1912. Secretário de Estados dos Negócios do Interior do Estado de Minas Gerais pelo Dr. Zoroastro R Alvarenta Diretor Geral de Higiene. Alvarenga. Relatório apresentado ao Exmo. Samuel Libânio. Belo Horizonte: Imprensa Oficial. 1924. Relatório apresentado ao Exmo Sr. Dr. Delfim Moreira da Costa Ribeiro. 1922. Diretor Geral de Higiene. D. 1923. Secretario do Interior do Estado de Minas Gerais pelo Dr. Relatório apresentado ao Exmo Sr. Belo Horizonte: Imprensa Oficial.Referências documentais e bibliográficas 3 Relatórios da Diretoria de Higiene Relatório apresentado ao Exmo. Diretor Geral de Higiene. Fernando de Mello Vianna.115 . Zoroastro R. TERRITÓRIO. Secretário de Estados dos Negócios do Interior do Estado de Minas Gerais pelo Dr. M. 3 A grafia dos documentos foi atualizada. Samuel Libânio. Diretor Geral de Higiene. M. Belo Horizonte: Imprensa Oficial. Dr. Belo Horizonte: Imprensa Oficial. Fernando de Mello Vianna. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Samuel Libânio. Dr. Relatório apresentado ao Exmo Sr Dr. Belo Horizonte: Imprensa Oficial. 1911. ano de 1915. Snr. ano de 1910. Sr.

Snr. Belo Horizonte: Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais. Secretaria de Saúde e Assistência do Estado de Minas Gerais. Dr. Relatório apresentado ao Snr. Diretoria de Saúde pública de Minas Gerais. Outros documentos PENNA. Mario Augusto Figueiredo.Relatórios da Diretoria de Saúde Pública Relatório apresentado ao Exmo Snr. 1929. Belo Horizonte. 116 . Secretário da Educação e Saúde pública. 1918. Belisário. Belo Horizonte: Papelaria Brasil. Raul d’Almeida Magalhães. 1935 Relatórios de Presidentes do Estado Mensagem do Presidente de Estado Delfim Moreira da Costa Ribeiro ao Congresso Mineiro. 1929. Secretario da Educação e Saúde Pública pelo Dr. relativo ao ano de 1928 pelo Dr. 1925. 1932. referente ao anno de 1929. Diretor de Saúde Pública. Rio de Janeiro. Diretor de Saúde pública. relativo aos anos de 1930 e 1931. Ernani Agrícola.TERRITÓRIO. Dr. Ponte Nova: Est. Belo Horizonte: Imprensa Oficial. Graph Gutenberg. Secretário da Segurança e Assistência pública. Mario Álvares da Silva Campos. Belo Horizonte: Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais 1928. Mensagem do Presidente de Estado Antonio Carlos Ribeiro de Andrada ao Congresso Mineiro. Mensagem do Presidente de Estado Antonio Carlos Ribeiro de Andrada ao Congresso Mineiro. Mensagem do Presidente de Estado Fernando de Mello Viana ao Congresso Mineiro. Diretor de Saúde Pública. Diretor de Saúde Pública do Estado de Minas (Raul de Almeida Magalhães) pelo Dr. Divulgação Sanitária (palestras na Rádio Inconfidência). SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Belo Horizonte: Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte: Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais. Minas e Rio Grande do Sul: estado da doença e estado de saúde. Noraldino Lima. Relatório apresentado ao Exmo. Dr. Belo Horizonte: Imprensa Oficial. Relatório apresentado ao Exmo Sr. 1952 (série de divulgação). 1929. chefe do posto permanente de hygiene Municipal Raul Soares. Revista dos Tribunais. 1916.

2002. 5. HOCHMAN. p. p. 2002. 106-114. Marcos Chor. Ricardo V. 2. Ilana. Rio de Janeiro: Fiocruz. CARVALHO. Ciências. n. 2007. os males do Brasil são. pp.. Campinas: Editora da UNICAMP 1994. Pouca saúde. APM. In: MAIO. p. 313-332. História. Ciência & Saúde Coletiva. saúde – Manguinhos.Cópia do acordo entre o Departamento Nacional de Saúde Pública e o representante do Estado firmada em 29 de outubro entre Carlos Chagas e Samuel Libânio. FARIA. LÖWY. n. FARIA. Saúde — Manguinhos.-dez. Série 10: Saúde e Assistência Pública. Rita de Cássia. (Org. Lina Rodrigues de. 877-906.9. Referências bibliográficas: CAMPOS. v. v. 175-189.2. jul-dez. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . 140-149. Bragança Paulista. 561-90. Rio de Janeiro. Série 10: Saúde e Assistência Pública. 3. Gilberto. Aguilera. ciência e sociedade 1 ed. v. Vírus. 2004. LIMA. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz.). TERRITÓRIO. Saúde e política: a Fundação Rockefeller e seus parceiros em São Paulo. MARQUES. 1996. Correspondência da Diretoria de Higiene do Estado de Minas Gerais. p. jul-set. MARQUES. . educadores e discurso eugênico. A filantropia científica nos tempos da romanização: a Fundação Rockefeller em Minas Gerais (1916-1928). As origens da rede de serviços de atenção básica no Brasil: o Sistema Distrital de Administração Sanitária. G.117 . mosquitos e modernidade: a febre amarela no Brasil entre ciência e política. A Fundação Rockefeller e os serviços de saúde em São Paulo (1920-30): perspectivas históricas.. pp. Arquivo Público Mineiro (APM). 2007 LIMA. 23-40. Universidade Federal de Juiz de Fora. Absolvido Pela Medicina: O Brasil Descoberto pelo Movimento Sanitarista da Primeira República. n.3. Keila Auxiliadora. ciências. 29/09/1920. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ/CCBB. Vera Regina Beltrão. 22. v. Condenado pela Raça. Nísia Trindade. HOCHMAN. 2006. 2008 (Dissertação de Mestrado). n. Lina. Carlos Eduardo. 14. SANTOS. História. p. Nísia Trindade. A Saúde pelo Progresso: Medicina e Saúde Pública em Minas Gerais. set. Discurso higienista e interpretação do país. A medicalização da raça: médicos. Horizontes. muita saúva. Raça.

Eugenia no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Luiz Antonio de Castro. SANTOS. curar: ensaios históricos sobre saúde e doença na América Latina e Caribe. Maria Terezinha B. Heloísa Helena Pimenta. 2004.TERRITÓRIO. controlar. Belo Horizonte. ARMUS. 331-361. Entre lagoas e florestas: atuação do Serviço Especial de Saúde Pública (SESP) no saneamento do Médio Rio Doce (1942 e 1960). 118 . EDUSF. 2008 (Dissertação de Mestrado). Gilberto. 2003 STEPAN. A higienização dos costumes: educação escolar e saúde no projeto do Instituto de Hygiene de São Paulo (1918-1925). TORRES. Lina Rodrigues de. São Paulo. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . p. Bragança Paulista. 2007. 1917-1940 In: HOCHMAN. FARIA. Cuidar. A influenza espanhola e a cidade planejada. Campinas. VILARINO. FIOCRUZ. Anny Jackeline.ROCHA. Nancy Leys. Mercado das Letras. Belo Horizonte: Argumentum. 1918. Belo Horizonte. 2003. Diego. UFMG. A reforma sanitária no Brasil: ecos da Primeira República.

entende “o território e a territorialização como resultado e condição de um pro1 Doutora em História Moderna e Contemporânea (Cultura e Poder). Neste sentido. que resultaram dos Acordos de Washington entre o Brasil e os Estados Unidos (1942). e o Programa Minas Gerais. Este ensaio propõe abordar esse processo de territorialização da saúde e do saneamento. da expansão da indústria da madeira. em 1960. UFF. a região do Médio Vale do Rio Doce se torna a mais populosa de Minas Gerais. Professora da PósGraduação Stricto Sensu em Gestão Integrada do Território da UNIVALE. Esse processo de territorialização foi o resultado da construção de uma ferrovia. 81) que. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . na década de 40. com os Projetos Rio Doce e Mica. lançamos mão do pensamento de Saquet (2006. da mica e da siderurgia a carvão vegetal. Pesquisadora do Programa de Memória Social do Vale do Rio Doce. TERRITÓRIO. A ação de promoção preventiva da saúde visava a melhoria da habitabilidade humana naquelas condições e a manutenção da saúde. Pesquisadora do Programa de Memória Social do Vale do Rio Doce. da introdução da extração e exportação do minério de ferro. no início do século XX.119 2 . A aceleração do processo de ocupação e modernização da região do Rio Doce está associada à atuação do Serviço Especial de Saúde Pública (SESP) no Programa de Saneamento do Vale do Rio Doce. foi essencial para a permanência e mesmo a sobrevivência das pessoas na região ensejando a indústria e as demais atividades que requeriam a urbanização e a sedentarização de grandes grupos humanos. UFMG. na década de 1950. Professora do Curso de História/UNIVALE.Entre práticas sanitárias e saberes tradicionais: a territorialização do saneamento no Médio Rio Doce Patrícia Falco Genovez1 Maria Terezinha Bretas Vilarino2 D Introdução e uma zona de floresta e vazio demográfico. da abertura de estradas de rodagem. Neste sentido. a partir da memória. a partir das discussões de Raffestin. p. Mestre em História (Ciência e Cultura). ocorrido no Médio Rio Doce. Dematteis e Turri.

lembro-me de mim. emprestar maior dinamicidade ao mapeamento dos processos territoriais ancorando-os nestes dois fluxos temporais. entrelaçar essa memória pessoal com a coletiva é tentar conciliar dois tempos: o tempo da alma e o tempo do mundo (Idem. por meio da memória dos mesmos e perscrutando através de suas narrativas. degradação e proteção ambiental. com diversidade e unidade. dentre as operações maravilhosas da memória. em que há relações socioespaciais em diferentes níveis escalares”. de arte. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . (i)material. Precisamente pela natureza complexa do território. ainda nos termos de Saquet: O território é natureza e sociedade: não há separação. que de fato são aqueles que lhe emprestam sentido e significado. des-continuidades. sendo assim. Em outras palavras. política e cultura. 2007. quando e onde fiz e da impressão que tive ao fazê-lo” (RICOEUR. percepções e intenções. 112). 83). Enfim. “a memória das coisas e memória de mim mesmo coincidem: aí. de sonho. É. de mobilidade. p. É espaço de moradia. encontro também a mim mesmo.TERRITÓRIO. Entrelaçar o tempo histórico com a memória individual e mais. p. em seu auge. com múltiplas variáveis. 110). do que fiz. de produção. seja em seus formato documental seja nas lembranças verbais daqueles que vivenciaram o processo de saneamento no Médio Rio Doce. enfim. na primeira metade do século XX. pois. as suas sensações. de vida (objetiva e subjetivamente). conexão e redes. determinações.cesso histórico. de serviços. Acessar. compreender o processo histórico que o transforma demanda um foco especial em seus atores. porque não dizer. edificações e relações sociais. o território a partir de seus atores exige um esforço no sentido de se alcançar. É importante ressaltar. O território é processual e relacional. mas também uma forte aliada enquanto fonte de informação. Enquanto processo histórico a sociedade está num território. concomitantemente (SAQUET. no presente ensaio. é produto e condição histórica e trans-escalar. etc. entre as décadas de 40 e 60. 2006. p. relações e unidade. domínio e subordinação. apropriação e dominação historicamente condicionada. Isso é possível tendo em mente que. 120 . descritas por Ricoeur. é economia. podemos perceber sua amplitude – visto que não se encontra limitada às imagens das impressões sensíveis e dispersas – e. de des-organização. mais especificamente. que a memória não será apenas uma estratégia. o território significa heterogeneidade e traços comuns. o produz e o percebe como articulado a tramas e relações sociais cuja síntese se dá no indivíduo social.

ao longo do Médio Rio Doce. na representação historiadora do passado. Para ele a história do tempo presente seria.. ainda assim estamos dentro desta dinâmica. Aliás. O campo de ancoragem. nos termos de Ricoeur. Neste ponto percebe-se o papel da História. 2007. presentes e futuros. p. Este ‘porque’ é o da condicionalidade existenciária (RICOEUR.. saber que a memória é apenas uma das lembranças processadas de algum modo. Neste sentido a tarefa primordial aqui é lidar com uma representação historiadora do passado que traz em si estas duas dimensões e além do mais. Fazemos a história e fazemos história porque somos históricos.) como conjunto dos acontecimentos (dos fatos) decorridos. Ao historiador é reservada uma tarefa espinhosa de lidar ao mesmo tempo com a memória e com o esquecimento. 362). pois. e como conjunto dos discursos sobre esses acontecimentos (esses fatos) no testemunho. Mesmo com o recurso à documentação congelada. O principal desafio não está simplesmente na compulsão da documentação. mas nos vazios e criações que testemunhas ainda viva ensejam ao elaborar um discurso de memória. aquela onde esbarram uma na outra a palavra das testemunhas ainda vivas e a escrita em que já se recolhem os rastros documentários dos acontecimentos considerados” (Idem. 456). o lembrar – que é sempre um processo de criação – remete não somente a um evento exterior mas também a uma experiência vivida pela própria pessoa ao recorrer à sua memória. na explicação e. E neste mister. na narrativa. “um âmbito propício a essa provação. a memória humana é esquecer e lembrar e com isto. Na esteira de Ricoeur. Neste sentido. a memória é também ameaçada pelo esquecimento. TERRITÓRIO. Nisto compreende-se que a memória não só institui uma presença de passado narrado mas é em si mesma a própria possibilidade de a pessoa perceber-se como existente ao longo do tempo. justificando o duplo emprego da palavra: (. vêm a calhar o pensamento de Ricoeur. desta reflexão são rastros documentários referidos a uma experiência vivida por inúmeras pessoas ao desenvolverem suas funções num determinado tempo.O desafio de lembrar já não é por nada desprezível. Entretanto.121 . p. assim como o esquecer também é um processo de outro modo significativo em sua negatividade. na medida em que ela própria está numa outra fronteira. é constituir e eliminar territórios e territorialidades dentro de um processo dinâmico e infindo. relacioná-la a uma territorialidade. finalmente. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .

2000. 5 a 14 apud RAPPORT. p. desenhos animados.De acordo com Ricoeur (2007. nas lendas. em síntese. De acordo com Rapport e Overing (2000. crêem. compreensões e identidades embasadas numa história em processo de narração. esperam. fofocam. fotografias. revêem o passado. tragédias. somos temporais. p. constroem. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . p. p. nos contos. lembram. vitrais. passa a ter certa textura e a ser humanamente experenciado devido ao fato dele ser pontuado por certo fluxo de eventos. 1968. odeiam e amam através das narrativas” (HARDY. 283. nós. Talvez a principal característica da narrativa seja a de trazer os eventos ou as experiências de algum modo na forma de um discurso e não na forma de uma argumentação. p. 2000. dramas. nas histórias. tradução livre). tradução livre). filmes. mas de significar algo. é um fio condutor de eventos. a diferenciação e a continuidade”. nos romances épicos. duvidam. ainda que especialmente através da linguagem) uma série de eventos temporais de tal modo que se possa esquematizar uma seqüência significativa” (RAPPORT. aprendem. as narrativas podem ser encontradas em toda parte e convergem por meio da linguagem. Para as autoras. imagens e gestos. do saneamento e da saúde. nas fábulas. divagam.TERRITÓRIO. OVERING. planejam. seres humanos. antecipam. desesperam. Exatamente por essa característica. a narrativa faz com que o tempo se torne um aspecto da realidade sócio-cultural e humano quando articulado no âmbito de uma seqüência narrativa. Tenhase com isto em mente que a narrativa não tem em primeira instância o objetivo de verificar algo. Se for na narrativa que as lembranças se articulam é importante ter em mente que será através dela que obteremos toda uma teia de significados que marcarão os territórios do cotidiano. 108). 283. Ele. as construções do sentido pessoal nas narrativas individuais exibem uma originalidade e um trabalho artesanal que as colocam para além da sobredeterminação da linguagem na qual elas 122 . 283 a 290). elas podem ser encontradas em diferentes formatos e estilos e se manifestam nos mitos. “é principalmente na narrativa que se articulam as lembranças no plural e a memória no singular. criticam. Nesse aspecto. nas pinturas. com nossas percepções. OVERING. o tempo. nas novelas. Por isso. comédias. “a narrativa pode ser concebida como o contar (através de qualquer que seja o meio. Em síntese. “Pode-se dizer que os seres humanos sonham. jornais e conversas. nas imitações.

Assim. dando a eles significados precisos. e as impressões e tensões TERRITÓRIO. Dado que o fenômeno narrativo está aí na vida humana em miríades de formas e com conteúdo praticamente infinito. O esforço está no sentido de que uma análise mais cuidadosa possa iluminar o processo pelos quais as narrativas são criadas. Como síntese. Em conjunto com os rastros documentais de diversas naturezas. A narrativa termina por exprimir através dela. 290. Não poucos estudiosos buscaram. através das performances narrativas. portanto. apesar de o modo de fazê-lo seja uma espécie de bricolage de formas culturais em grande parte herdadas – palavras.123 . SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . e. mas a consciência individual. documentos oficiais e a própria documentação produzida pelo SESP as narrativas podem . comportamentos – não é tanto a sociedade e a cultura que elas incorporam. O ato de narrar é. Aqui retomamos um destes. 2001). entre a performance deste serviço. no momento em que se lembram de si mesmas. Isto ao que parece. ou promover ‘esbarrões’ como propõe Ricoeur. as pessoas que viveram o processo de saneamento no Médio Rio Doce escrevem e re-escrevem a história de suas vidas e de seus mundos. mas nenhuma delas leva a resultados claros e definitivos. imagens. a sua mensagem precisa ser de algum modo desvelada. . acabou mais por obscurecer o valor da narrativa que elucidar a sua contribuição. Muitos estudiosos já se debruçaram sobre isto com as mais diversas teorias. tangenciar. p. das formas coletivas ou públicas que elas empregam (RAPPORT. Labov.são escritas. transmitidas e compreendidas (LABOV. como destaca Ricoeur. com bastante clareza. 1998). a narrativa reúne acontecimentos dispersos e vários tipos de ações. descrita oficialmente. 2000. e os indivíduos continuam a escrever histórias que descrevem seu próprio ponto de vista do mundo. sobretudo registros da imprensa. e este aspecto podemos constatar impressos nos registros de memórias dos diversos grupos que estiveram envolvidos no processo de saneamento do Médio Rio Doce. através dos mais diversos artifícios. a natureza da vida vivida de maneira única e indeterminada (RAPPORT. planejadas e inesperadas. para o qual existem várias técnicas de interpretação de uma narrativa. tradução livre). uma prática discursiva com papel fundamental na produção e reconhecimento dos códigos sociais. A forma narrativa torna-se personalizada em seu uso. descobrir uma espécie de estrutura subjacente a todas as formas de narrativas e que estivesse presente de um modo universal. OVERING.

as narrativas – documentais ou verbais – remetem a uma realidade que em resumo é inacessível diretamente. relatórios dos Presidentes dos Estados de Minas Gerais e do Espírito Santo para as primeiras 124 . 1993. acessando. pode nos servir como flashes a iluminar práticas e culturas inscritas no processo de saneamento do Médio Rio Doce e de como esse mesmo processo repercutiu no território. socioeconômicas e culturais. que acompanhará a contextualização espaço-temporal desta investigação dá uma medida de como ali se articulavam questões políticas. relatório da Companhia Vale do Rio Doce (1963) e estudo recomendado pela empresa a pesquisadores do IBGE na década de 1950 (STRAUCH.TERRITÓRIO.d. Seria ingênuo esperar que todos tivessem as mesmas memórias e produzissem os mesmos esquecimentos. A experiência humana expressa nesta variada documentação remete não à necessidade de um discurso único e hegemônico. podemos nos aproximar do cotidiano e do imaginário e obter. Nesse sentido. Conforme o dito acima. 1949). mas que através de certas quebras ou rupturas deixam entrever frestas reveladoras de mundos em tensão. como vimos nos termos de Ricoeur acima. s. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . mesmo que forma indiciária. 1974. PAULA. as relações entre os variados grupos. SIMAN. TEIXEIRA.) lembranças de antigos moradores da cidade de Governador Valadares (SOARES. Rastros documentários do saneamento no Médio Rio Doce: os desafios de uma memória escrita a) Contexto histórico e econômico: caminhos e possibilidades A caracterização do vale do Rio Doce. que por sua vez falam de cenários variados e para platéias as mais diversas. 1955. impressões de observadores locais (FONSECA. A presente reflexão dá voz a diversos locutores. mas à possibilidade de que as diversas fontes falem e a resultante será a memória destas experiências que constituíram tanto a realidade social do território como as identidades das próprias pessoas. 1983. As fontes utilizadas para essa contextualização sócio-histórica colocam em diálogo memórias e relatos de técnicos envolvidos com o trabalho na Estrada de Ferro Vitória-Minas (ALMEIDA. 1958).vividas pelos indivíduos. que afetaram a incorporação da região ao projeto de desenvolvimento nacional. Através delas. algumas de suas estratégias individuais e coletivas.. 1988). a partir de diversos prismas.

Nesse processo está presente uma temporalidade delimitada. Mas o projeto acabou sendo alterado mudando o seu destino em função das jazidas de minério de ferro na área de Itabira/MG. e uma espacialidade demarcada pela presença do Rio Doce. 1959). O ano de 1903 marca o início da construção da ferrovia. A década de 1960 apresentou os primeiros sinais de inflexão da curva dos indicadores. da Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM) e da floresta tropical. no qual os indicadores sociais e econômicos apresentavam elevação em relação ao decênio anterior. que em 1906 chegou à cidade de Colatina3 (ES) e em 1907 penetra em Minas com destino a Diamantina. considerados seus limites subjetivos e/ou ideológicos. entre 1930 e 1950. Em 1910 é inaugurada a estação ferroviária de Figueira (atual Governador Valadares/MG) e em 1912 e ferrovia chega até Mesquita (a 300 km de Colatina) (COMPANHIA VALE DO RIO DOCE. do qual o vale do Rio Doce é o centro. imigração/ emigração) e no enfrentamento de doenças endêmicas. posição antes ocupada por Linhares. 3 Colatina torna-se pólo regional do Baixo rio Doce. 67-75). p. mais se completaram do que divergiram no tocante às condições naturais ou históricas da região do Rio Doce. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . tem características que fazem dele um objeto privilegiado para o estudo da relação entre o homem e o ambiente. especialmente os demográficos (ESPINDOLA. além de marcar o fim do convênio entre os governos brasileiro e norte-americano. e o de 1960. no contexto de intensa mobilidade humana (migração interna. Essas fontes. definida pelo período de 1903-1960. Em 1908. sobre a existência de grandes reservas de hematita no quadrilátero ferrífero de Minas Gerais. delinearam-se os rumos que tomaria o processo de ocupação desta região. que sustentava a atuação do Serviço Especial de Saúde Pública (SESP). TERRITÓRIO. Os discursos presentes nas obras em questão também se combinam com os debates mais amplos que se divulgavam acerca da constituição da identidade nacional até a década de 1930 ou com a proposta modernizante mediada por um Estado forte. 2000. A estrada de ferro. assinala o último Censo do IBGE.décadas do século XX e um estudo realizado sob os auspícios do SESP em áreas por ele atendidas (FONTENELE. com o anúncio durante o IX Congresso Geológico Internacional de Estocolmo. 1963: 56).125 . O processo histórico. Um consórcio inglês comprou as terras onde se localizavam as jazidas assumindo também o controle da ferrovia.

e o pior. impulsionando o povoamento e a exploração das riquezas naturais. estimularia o desenvolvimento cultural e abriria para as aldeias apáticas o progresso. Durante a I Guerra Mundial a construção da ferrovia foi interrompida. 97). deixa claro que: “a construção da ferrovia favoreceu a ocupação. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . ao modificar os meios de transporte. Naque. a ferrovia. Almeida (1959. dizimando-as impiedosamente. Barra do Cuieté. 1976: 157). e a Itabira.TERRITÓRIO.A construção de uma ferrovia é um acontecimento que interfere profundamente no meio por onde passa. a Nova Era. do desenvolvimento cultural e da facilidade de circulação das riquezas. chegando a Ipatinga em 1922. além da extração da madeira”. em 1943 (COMPANHIA VALE DO RIO DOCE. uma vez que por mais vazio que fosse o território. afinal. afugentando-as dos locais de trabalho. em função das dificuldades financeiras enfrentadas pela Companhia. dando uma imagem aterradora das condições sanitárias” (ROSA. p. da colonização. Anuncia a abertura da região do Médio Rio Doce à exploração econômica. Para Ceciliano Abel de Almeida (1959). Pedra Corrida. O engenheiro enaltece a obra realizada como meritória e promotora do desbravamento. A combinação minério de ferro-reserva florestal foi estratégica para a definição da política si126 . 10 anos mais tarde. engenheiro responsável por grande parte do trajeto da linha férrea. esta seguiu lentamente. Na década de 1920 a política siderúrgica mineira definiu o interesse oficial em relação à região do Rio Doce. também pelo saneamento de sítios como Lajão (atual Conselheiro Pena). não apenas como conseqüência imediata da inauguração do tráfego da EFVM. entre outros. Isso porque “o impaludismo atacava as turmas de trabalhadores. Ao ser reiniciada a construção. Além destes aspectos mais diretamente econômicos. a ferrovia – com suas peculiaridades – enseja também alterações culturais mais amplas. Baguari. neste sentido. Estes aspectos serão significativos na detecção de resistências aos processos de saneamento e mesmo de modernização mais ampla nos anos posteriores. a ferrovia não adentrou simplesmente uma floresta mas encontrou seres humanos ali presentes ou transplantados para a sua própria confecção. havia ali um mundo existente que de algum modo vai sofrer e influenciar a presença da ferrovia e de suas contribuições. 1963: 56). Cachoeira Escura. ao abrir clareiras na floresta: ao longo dos trilhos surgiram pequenos povoados e atividades agropastoris.

d. As mudanças refletidas nos desmembramentos municipais e na dinâmica econômica também ensejavam 4 5 A definição desta política demandou décadas de debates e controvérsias quanto ao papel do Estado e do capital privado e sobre tecnologias mais adequadas. p. revelando diferentes interesses e concepções republicanas. municípios emancipados em 1938.4 A opção mineira de exploração econômica abriu para o capital estrangeiro as ricas reservas de minério. se aproximando das tendências internacionais de divisão do trabalho. onde começou a carreira em 1931. tornava-se entreposto comercial. 1997. de 1906 a 1910. Conselheiro Pena (Estação de Lajão) e Figueira. àquela se creditavam a sua colonização em massa e o progresso do vale. Essa opinião é confirmada pelo testemunho de Raimundo Fonseca. incentivando a instalação de companhias siderúrgicas e fábricas de ferro gusa que utilizassem o carvão vegetal. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Na década de 1930 Raymundo Fonseca foi funcionário do Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais na vila de Figueira. Segundo Strauch a estrada de ferro favoreceu a penetração nas terras do vale propriamente dito e abriu um novo tempo para o Médio Rio Doce (STRAUCH.derúrgica do governo de Minas Gerais e. a eclosão do núcleo populacional da Figueira. 50). ao mesmo tempo. emancipado em 1935). TERRITÓRIO. que cresceu na vila de Figueira. Na medida em que a construção avançou. os mineiros também buscaram caminhos próprios. atraia atividades econômicas diversas e via sua população aumentar rapidamente. a primeira estação inaugurada foi a de Aimorés (elevada à categoria de cidade em 1925). Na parte capixaba destacam-se Colatina (município criado em 1921) e Baixo Guandu (antigo distrito de Colatina. s. na medida em que abriu estradas vicinais para o escoamento das toras de madeira. deu impulso à fixação humana. a localidade hospedeira aumentava sua área de influência. como de resto. a chegada da indústria madeireira. Entretanto. foram inauguradas as estações de Resplendor. atraída pela estrada de ferro. atual Governador Valadares: “Deveu-se.” (FONSECA. à construção primitiva da ferrovia. sendo que no ano seguinte foi transferido para Aimorés. pela qual Minas Gerais e o Brasil se colocavam como produtores e fornecedores de matérias-primas e importadores de produtos acabados.127 . ao penetrar em Minas Gerais. como contínuo.: 39)5 Ao ser inaugurada a estação da EFVM. 1958: 107). Nestas localidades. atenderia as necessidades da economia brasileira (BRITO. pois. OLIVEIRA.

ao longo do Médio Rio Doce. As zonas de povoamento mais antigo como Ponte Nova e Guanhães. Companhia Vale do Rio Doce. enquanto campo destinado à investigação das práticas e dos saberes. marcou a resistência às mudanças ocorridas na esteira dos acontecimentos. mas as resistências encontradas na população aos modelos terapêuticos utilizados. Nela encontravam-se dois ingredientes fundamentais para o desenvolvimento da tecnologia de produção de ferro-gusa a carvão vegetal: a presença da Mata Atlântica e de grandes jazidas de minério de ferro. como veremos adiante. como mostram as narrativas reveladas pelos atores que vivenciaram esse processo. quando as primeiras sementes da Revolução Industrial influenciaram o surgimento da indústria siderúrgica naquela região. não foi a medicação oriunda das práticas profissionais. não foram incomuns os fenômenos de crescimento acelerado da população. As novas atividades econômicas potencializaram o desenvolvimento urbano-regional. o aparecimento repentino de núcleos urbanos. um dos principais trabalhos a serem levados adiante no Médio Rio Doce. assim como. 1963. Isto é compre6 A siderurgia a carvão vegetal é uma atividade muito importante para a economia mineira e brasileira.TERRITÓRIO. imerso no processo de territorialização descrito acima. Conforme relatório da Companhia Vale do Rio Doce. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Para essa condição de fronteira concorrem três fatores: a política siderúrgica do governo de Minas Gerais (GUERRA. b) As condições da saúde: desafios e soluções A história da saúde. gerando um faturamento anual da ordem de US$ 4 bilhões.7 Nas décadas de 1930 e 1940. não sendo atendidas pela EFVM nem pela Rio-Bahia e não dispondo de riquezas minerais economicamente exploráveis. com destaque para Governador Valadares. 2007)6. no leste de Minas Gerais. a decisão do Governo Federal de incrementar a exploração do minério de ferro de Itabira para exportação e a abertura da rodovia Rio-Bahia (1943/1944. de 1963. A história do carvão vegetal no Brasil teve início em meados do Século XIX. João Monlevade e Itabira em Minas Gerais e Colatina no Espírito Santo. 7 128 . a ocupação de terras devolutas e a instabilidade social características das zonas de fronteira agrícola. Certamente.transformações no modo como as pessoas passaram a compreender-se. estende-se para a intervenção no campo da saúde e propõe uma reflexão sobre as interseções entre os saberes populares e as práticas profissionais. Na década de 1930 essa região se abre como fronteira agrícola subsidiária ao processo de industrialização e urbanização do Brasil que demandava por produção de alimentos a preços baixos e matéria prima: minérios e madeira. não progrediram ou tenderam a um processo de regressão. Cf.

e. 236-237). que se almoçasse antes de encetar o serviço. Assim. uma vez que a doença não existe. que apresenta avaliação referente às décadas de 1940 e 1950. As condições sanitárias do Médio Rio Doce. relacionadas à construção da EFVM. que aconselhava “vinte e cinco centigramas de sulfato de quinina. Muitos trabalhadores não tomavam o quinina. e outro que dizia que. 1959.ensível. tinha ainda que lidar com sistemas médicos diversos daqueles tradicionais e familiares a seus hábitos de lida cotidiana com as doenças. Recorremos às suas impressões para delinear circunstâncias marcantes relacionadas a aspectos sociais e sanitários dessa fase de ocupação do Médio Rio Doce. e aumentasse a dose fosse necessário. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Para atenuar a situação. O relato deixado pelo engenheiro é rico em descrições sobre a região alcançada pela ferrovia. e este se compreende enquanto tal a partir de suas referência de significado. 237). finalmente. pela manhã. Recomendação citada pelo engenheiro é do clínico da estrada Dr. a população se defrontava com patologias novas que eram para ela estranhas e. mas sim o doente. pois é um dos motivos de pedidos de contas e retirada de trabalhadores ‘atormentados pelo padecimento’.129 . referente às primeiras décadas do século XX. de um lado. João dos Santos Neves. para longe “por mode eu não ficar surdo”. por sentir muito calor. que se usasse mosquiteiro” (ALMEIDA. p. por outro lado. Ele revela a peleja para execução da obra sob sua responsabilidade. Também encontramos menção nos cronistas locais e no estudo elaborado por Ney Strauch em 1955. e quando questionados desculpavam-se com saídas engenhosas como a de um deles que admitia escondê-lo debaixo da língua e atirar fora. Muitos admitiam a transmis8 Cf. “tirava o mosquiteiro e deixava as muruçocas picarem meus pés”. que acompanharam o surgimento e o crescimento dos vilarejos e das cidades estão presentes no relato deixado por Ceciliano Abel de Almeida. e “dia a dia se multiplicavam os acessos de sezões que avassalam aqueles infelizes da turma renovada” (ALMEIDA. 1959. recorria-se ao médico da ferrovia. Muitas referências são feitas sobre a enfermidade. p.8 A advertência do médico nem sempre era observada. destacando entre as dificuldades enfrentadas a insalubridade do ambiente e a presença da malária que atingia os trabalhadores. sob encomenda da Companhia Vale do Rio Doce. TERRITÓRIO.

O serviço médico da ferrovia atendia os trabalhadores acometidos pelas febres e outras enfermidades. os povoados eram poucos e espalhados desordenadamente na imensidão da mata e a beira-rio.. se destacava em comparação à vila de Figueira. Com base neles é possível traçar um perfil sanitário adverso: a ocorrência de enfermidades variadas atingia a população dos povoados e das cidades mais prósperas: “verminose de toda espécie. também práticos.] o saneamento era o maior problema” (PAULA. p.são pelo mosquito somente em atenção ao doutor e outras explicações eram dadas pelos trabalhadores para explicar a causa da infecção: “o banho no rio. [. no centro do Médio Rio Doce. sarampo. Carentes de tudo. tuberculose. 1959). FONSECA. Sobre a presença de serviços médicos e farmacêuticos na região. 1959. 1959). as informações do engenheiro são reafirmadas por outros textos de expressão local. Os cronistas locais também indicam para essas décadas a existência de uma gama de problemas relacionados às condições de atendimento à saúde e à urbanização desordenada: em geral. da saúde em geral tratavam os farmacêuticos práticos que se fixavam na região promissora. assim como. p. as ruas não eram calçadas e a poeira ou a lama na época das chuvas eram transtornos para os moradores e para o co130 .. 1933. p. a fruta silvestre comida sem estar sazonada” (ALMEIDA. febre tifóide. 558). 1993). No início da década de 1930 a presença de médicos na cidade de Colatina. em vista da ferrovia. pois contava com nove médicos contra um único consultório na segunda. beneficiada pela cafeicultura e pela ferrovia. 236-237). s. Entretanto nenhuma das duas localidades possuía hospital (ROQUE. Em Aimorés foi inaugurado o primeiro hospital no ano de 1936 (PAULA. 1974. 1983. as vilas e as cidades não possuíam tratamento de água e esgoto satisfatório ou eram incipientes. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . e médicos formados chegavam aos poucos e as dificuldades de assistência em relação à medicina científica eram grandes (SOARES. 1993. leishmaniose. os povoados. mas as práticas populares de cura que se valiam de ervas medicinais e/ou elementos sobrenaturais permaneceram dominantes (FONTENELE. apud TEIXEIRA. a população que a ele recorria quando da sua passagem itinerante pelas localidades em que se levantavam os acampamentos (ALMEIDA. a água do brejo ou da lagoa. 1993. dentistas.TERRITÓRIO. PAULA.d.). 68). nas três primeiras décadas do século XX.

e de outro. A produção de carvão para a siderurgia de aço e derivados cresceu — para compensar as dificuldades de importação. e de aproximação econômica com o Brasil. 2006. a exploração da mica ou malacacheta9 ampliou-se e passou a representar um mercado lucrativo e. O SESP foi uma agência de saúde pública criada por meio de um acordo bilateral entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos em 1942. . 1993). motivado pela presença destes dois minérios estratégicos. a gente pobre se ressentia da falta de condições de acesso a medicamentos e assistência e contava somente com a caridade de particulares ou de obras religiosas. 10 Os “Acordos de Washington” selaram a aproximação entre os governos do Brasil e dos EUA. 9 Minério bastante utilizado na indústria elétrica e eletrônica dos países desenvolvidos. p. para executar o saneamento do Vale do Rio Doce e resolver os problemas das endemias. pois os serviços médicos e farmacêuticos eram poucos ou particulares e caros. foi preciso reformar a ferrovia para transportar o minério de ferro explorado em grande escala pela recém-criada Companhia Vale do Rio Doce (ESPINDOLA. para atuar nas regiões Norte e Nordeste. relacionados às necessidades de guerra. interesses americanos imediatos. durante a II Guerra Mundial. bem como a adesão brasileira ao “esforço de guerra” dos Aliados contra os países do Eixo. p. Em 1943. 1983. a incidência de endemias era constante (SOARES. O interesse dos Estados Unidos se fez presente diretamente na região. a falta de estradas radiais dificultava a comunicação e isolava as zonas periféricas. As dificuldades de abastecimento interno e a demanda dos países aliados durante a II Guerra Mundial impulsionaram a economia regional. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . de um lado.10 O objetivo de “implementar políticas sanitárias em áreas econômica e militarmente estratégicas” atenderia. foi estendido à região o Serviço Especial de Saúde Pública – SESP criado um ano antes. principalmente. 173-189). a partir dos chamados “Acordos de Washington” (CAMPOS. 2006.mércio. a mica ou malacacheta é a designação comum dos minerais do grupo dos silicatos de alumínio e de metais alcalinos aos quais freqüentemente se associam magnésio e ferro. 173-185). com o objetivo de criar as condições sanitárias necessárias para a exploração do minério de ferro e da mica (CAMPOS. PAULA. respondia aos interesses do governo Vargas de expandir no território brasileiro a presença e autoridade do Estado” (CAMPOS. Neste ano tiveram início o Programa do Rio Doce e Programa da Mica. 35).131 . 1998). TERRITÓRIO. 2006.

Como apresentado. ausência de serviços médicos. Tal desalento torna-se ainda mais instigante se tomarmos os relatórios dos governadores dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo para as primeiras décadas do século XX: o panorama sanitário é oficialmente avaliado como satisfatório em quase todo o período compreendido entre os anos 1910 e 1930. são muito mais frequentes do que ao interior. população sem recursos para adequados suprimentos médicos e farmacêuticos. são identificados alguns momentos de intranquilidade. Entretanto. As referências à capital. tuberculose. especialmente considerando as localidades do interior. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . centro irradiador de atividade comercial e de produção agrícola. Vitória. coincidindo com a determinação federal para instituição dessa medida. quadro lastimável de saneamento. contemplando-se as regiões de maior densidade populacional ou dinamismo econômico. quando se alastra a gripe espanhola nos dois estados. distinguem em sua maior parte a capital Belo Horizonte 11 Idem. nesse caso a área capixaba do vale do Rio Doce merece poucas menções. No Espírito Santo o reaparecimento da febre amarela na capital e do paludismo no interior foi apresentado como anormalidade no estado sanitário para o ano de 1917. dieta alimentar deficitária.11 O relatório de 1922 destaca efeitos positivos no combate a verminoses com a continuidade da cooperação com a Fundação Rockefeller. refletindo um quadro sanitário diferente daquele pretensamente considerado satisfatório em muitas ocasiões pelos relatórios oficiais. 132 . no Médio Rio Doce a condição médico-sanitária demandava atenção: epidemias. como o ano de 1918. assistência a alienados. entre outras dificuldades. vale considerar que o estado sanitário desse território não se diferenciava da situação sanitária nacional e dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo.A fim de situar a atuação do SESP no Médio Rio Doce nas décadas de 1940 e 1950. saneamento. malária (paludismo). verminoses em geral com o “ankilostomiase em caráter mais ou menos generalizado”. excetuando a cidade de Colatina. Percebe-se o anúncio de abertura de Postos de Higiene e Profilaxia Rural a partir de 1919.TERRITÓRIO. assistência hospitalar. Em relação a Minas Gerais a situação não é diferente: as referências oficiais a saúde pública. tais referências indicam a presença de doenças como varíola (alastrim).

de abastecimento de água. Essas considerações são importantes para se compreender como e por que o vale do Rio Doce ganha visibilidade nas novas conjunturas mineira e nacional. onde havia dezoito pequenas cidades e quatro campos de trabalhadores a malária era endêmica e parasitoses variadas acometiam a população (FSESP cx 48. Em todas as localidades inspecionadas as condições de higiene e saúde pública eram deficitárias. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . em diversas localidades do interior do estado. nador Valadares. em Gover. todavia. a água 12 A região estipulada foi dividida em duas áreas: Linha Acima. O levantamento feito pelo médico americano James Knott (apud CAMPOS.133 . na área de Linha Abaixo. 42). tina e identificados seus vetores (FSESP cx 21. São indicados problemas sanitários. João d’ElRey. diretor da primeira etapa do Programa. entre Governador Valadares e Nova Era (antiga São José da Lagoa) e Linha Abaixo. por motivos econômicos. . esse território foi de tardio povoamento e recebeu pouca atenção do poder público nas três primeiras décadas do século XX. com 12 cidades e . entre Governador Valadares e Colatina (no estado do Espírito Santo). políticos ou históricos. em geral analfabetas.e cidades e regiões mais em evidência. 2006: 175-176). pasta 146). a atuação no Médio Rio Doce do Serviço Especial de Saúde Pública (SESP). aproximadamente 32 acampamentos a situação não era diferente (FSESP cx 21. Nos acampamentos de trabalhadores da ferrovia a situação se agravava. S. um surto da doença se alastrava (FSESP cx 48. viviam entre 100 e 300 pessoas. ou Zona da Mata Mineira e Sul de Minas. Concomitantemente a instalação do SESP em localidades do Médio Rio Doce e sua consolidação perpassa por essas questões levantadas. a exemplo de Juiz de Fora. doc. especialmente verminoses variadas. As condições sanitárias e de saúde encontradas pelo SESP na região não eram das melhores como se viu. Na área Linha Acima12. revelava a precariedade: em cada acampamento. construíam-se barracões para solteiros (de 12 a 20) ou em compartimentos em outros barracões para aqueles que estavam com a família. de endemias. a malária também foi diagnosticada em Cola. TERRITÓRIO. em 1943 foi definida pelo governo federal. doc 29). a demanda pelas riquezas e as possibilidades produtivas ali identificadas aceleraram sistematicamente o processo de sua exploração. Embora guardasse riquezas virtuais. Assim. organizados de forma temporária. Barbacena. doc 42).

era obtida em riachos ou pântanos próximos, inclusive neles as mulheres lavavam as roupas; não havia banheiros; não se cultivavam hortas e o alimento básico era comprado na venda do empreiteiro; os barracões de sapê (paredes de barro e teto de folhas de palmeira) mal divididos facilitavam a presença de insetos. A propagação de doenças (disenterias, infecções intestinais, malária) seria inevitável nesta situação. Medidas profiláticas de combate à malária e outras doenças, bem como a organização dos serviços de abastecimento de água e de rede de esgotos em algumas cidades ao longo da EFVM e outras medidas afins, como cursos para formação de pessoal e educação sanitária, foram implementadas pelo Serviço especial de Saúde Pública. O SESP atuou na assistência médica, na educação sanitária, no saneamento e no controle de doenças transmissíveis, bem como cuidou de formar profissionais da saúde, implantando e desenvolvendo, em vários estados, escolas técnicas e de graduação em enfermagem. No vale do Rio Doce os municípios existentes ao longo da EFVM foram assistidos pela implantação de serviço de água e esgoto, ações de saneamento, como a construção de latrinas, identificação dos vetores e combate à malária e a outras endemias, cursos para parteiras e cuidados infantis, treinamento para atendentes de centros de saúde e para guardas sanitários, treinamento para visitadoras que faziam trabalho de educação sanitária, entre outras atividades. A continuidade da expansão econômica e demográfica da região depois de encerrada a Segunda Guerra até o final da década de 1950, em certa medida, foi favorecida pela decisão governamental de manter os programas de saneamento. A atuação do SESP na criação dos serviços de água e esgoto, na erradicação das endemias e na modificação das práticas de saúde, alterando costumes, valores culturais e organização do espaço tiveram influência decisiva na configuração territorial da região (BASTOS, 1993, p. 329).13 Pesquisadores sobre a emigração de moradores da cidade de Governador Valadares e da circunvizinhança para os Estados Unidos, desde a década de 1960, consideram a presença de americanos na região, nesse período como um dos fatores

13 “Em 1942, a lado e um pouco à margem dos serviços federais de saúde de rotina, iniciou-se um profundo trabalho de modificação da mentalidade brasileira que iria refletir-se nas atividades de Educação para a Saúde. Esse processo começou com a criação do SESP”. 134 - TERRITÓRIO, SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO

determinantes (SOARES, 2002, p. 110).14 É significativa a opinião de Siva Monteiro de Castro, advogado que vivia em Governador Valadares na década de 1950, referindo-se ao trabalho do SESP:
Graças ao admirável programa de Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), o saneamento desta região ora se processa a luz de recentes preceitos de medicina e engenharia sanitária, o que vai garantindo a fixação do homem em zonas onde outrora a malária estiolava a força construtiva do braço humano (CASTRO, 1951, p. 36).

O geógrafo Ney Strauch em estudo encomendado pela Companhia Vale do Rio Doce em 1951 e publicado em 1955 (STRAUCH, 1955, p. IX) pelo serviço gráfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) conclui que entre os aportes econômicos advindos da presença da EFVM, recém-reformada para atender a exportação de minérios, a questão sanitária ficou resolvida:
Fator importante, coroando os incalculáveis benefícios prodigalizados pelo vale do rio Doce no setor da economia, foi o saneamento da região, empreendido pelo Serviço Especial de Saúde Pública - SESP a cargo de uma comissão mista de sanitaristas bra, sileiros e norte-americanos, com a extinção da malária e outras endemias, instalação de água potável, esgotos, assistência médica e distribuição de medicamentos às populações da vasta zona do vale do rio Doce (STRAUCH, 1955, p. 188).

Ao contrário do que a informação sugere, longe de resolução, o problema sanitário ainda se constituía à época do estudo (1951) um entrave à ocupação de certas áreas da bacia, como o vale do Rio Suaçuí, não atingido diretamente pela EFVM nem atendido pelo SESP onde a falta de , saneamento e os altos índices de malária, esquistossomose e amebiana eram dominantes (STRAUCH, 1955, p. 39). O relatório da Companhia Vale do Rio Doce de 1963 reconhece que o rápido crescimento das ci14 “A absoluta liderança exercida pelos Estados Unidos da América na preferência dos emigrantes valadarenses remete a intensas ligações mantidas pelo município de Governador Valadares com esse país: durante a II Grande Guerra, a economia valadarense foi impulsionada pelo comércio da mica, que, sendo importante para a indústria bélica, trouxe firmas americanas para a cidade [...]. Nesse mesmo período, as modificações no traçado da Estrada de Ferro VitóriaMinas [...] eram realizadas também por intermédio de uma companhia americana. A presença dos Estados Unidos em Valadares manifesta-se ainda na construção do Serviço Especial de Saúde Pública – SESP [...]. Esses três fatos colocaram os valadarenses em contato com os americanos e sua cultura. Portanto, foram os vínculos estabelecidos historicamente com os EUA que permitiram a construção, em Valadares, de laços sociais norteadores da opção migratória”.
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dades não foi acompanhado pela oferta de serviços públicos aos particulares nem para as indústrias, prevalecendo “enormes atrasos em relação às necessidades atuais” (COMPANHIA VALE DO RIO DOCE, 1963, p. 12). Na verdade, o processo de crescimento das cidades era muito mais acelerado do que as políticas públicas podiam dar conta. Desenha-se, portanto, um território que, como visto nos rastros documentais acima, em suas dimensões econômica e política, trilhava um caminho de acelerado crescimento com a abertura da EFVM sem, contudo, ter políticas sociais que acompanhassem tal processo. Nesse território econômico fervilhavam as oportunidades para os interessados nas riquezas do Médio Rio Doce e o tempo da tecnologia e da modernidade passava rápido. Num outro compasso temporal, estavam os territórios social e cultural desta população que se aglomerava às margens da ferrovia e da rodovia, que logo se estabeleceria. Sem assistência social e sanitária de espécie alguma, os territórios do cotidiano e das mentalidades (simbólico) encontravam-se preso às rezas, benzedeiras, raizeiros e crendices, levando a população a desprezar o pouco recurso sanitário e médico que lhes era ofertado. Falamos, portanto, de um território entrecortado, palmilhado pelas doenças e pelas promessas de futuro, imerso numa mesma cronologia, sem dúvida, mas num mesmo tempo? Talvez esse tenha sido o grande papel do Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), efetuar através de suas políticas sanitárias o compasso entre os tempos dos territórios da modernidade e do cotidiano. O saneamento, o desenvolvimento e o cotidiano através da memória: os desafios do tempo da alma Dado que as práticas culturais relacionadas à doença e suas profilaxias e terapias têm uma longa história e profundo vínculo com as práticas tradicionais era de se esperar, no mínimo, resistências às propostas ditas modernas. Assim, ao longo das memórias temos sempre práticas de negação, boicote e mesmo oposições explícitas. Por ser um objeto complexo, tanto as memórias do saneamento, quanto os esquecimento vinculados ao processo e a polifonia que se estabelece entre antigos funcionários e indivíduos que vivenciaram o processo nos remetem a um exercício de contraponto com as transformações ocorridas que remarcaram e reordenaram um dado território que passa a se apresentar de uma forma multifacetada. Isto posto, faz-se necessário um aparato
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que, em respeito ao objeto ora proposto, seja em sua essência interdisciplinar englobando não apenas uma perspectiva meramente histórica mas, fundamentalmente, humanista no sentido de ancorar as narrativas e o processo de saneamento ocorrido em suas múltiplas perspectivas. Ora, partindo desse pressuposto, estamos diante de um fenômeno multifacetado, compreendendo o saneamento, o território e a memória que, nesta estratégia de pesquisa, pode ser mais bem compreendido a partir de diversas narrativas que remetem a práticas e a efetivação dessas em um território que também se apresenta de forma múltipla e dinâmica uma vez que sofre reordenamentos. Esta reordenação territorial, por sua vez, desencadeia ações por parte dos agentes envolvidos, sejam eles de saúde ou da sociedade civil. Por essa razão, acreditamos que a contribuição de Max Weber possa ser positiva, em sua proposta de uma sociologia compreensiva englobando as várias esferas da sociedade. A sociologia compreensiva de Weber é a proposta de uma ciência da realidade, através da qual o pesquisador busca o significado cultural de suas diversas manifestações assim como as razões históricas de seu desenvolvimento (WEBER, 1968, p. 170-171 apud COLLIOT-THÉLÈNE, 1995, p. 26). A par dos rastros documentários que discursam sobre os projetos executados pelo SESP é importante ponderar as impressões daqueles que viveram, re(viveram) e experienciaram tal processo de saneamento. Para tanto, utilizaremos algumas narrativas de informantes, dentre os quais se encontram quatro funcionários do SESP e quatro indivíduos que viveram nas décadas de 40 a 60, no auge da atuação do serviço. Dentre os funcionários, o primeiro, é um agente sanitário que trabalhou por décadas no Serviço em Governador Valadares; a segunda e a terceira funcionárias, foram serventes treinadas em Colatina, posteriormente, para atuarem como auxiliares de atendimento; o quarto, dentista e um dos nomes mais significativos na implementação dos projetos de saneamento do SESP em Governador Valadares. O trabalho do agente sanitário, segundo o Informante 1, era fazer inquérito de higiene nas moradias e ao mesmo tempo fazer divulgação de hábitos de higiene e saneamento, como utilização das fossas, limpeza das áreas ocupadas, tratamento do lixo. Segundo seu depoimento, alguns moradores ficavam receosos ou mesmo não gostavam de receber os agentes sanitários, por vergonha ou desconforto da presença dos mesmos nas moradias. Nestes casos eram instruídos para falar com
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autoridade a fim de convencer o morador, o que dava resultado na maioria das vezes. Configurava-se uma situação muito incômoda a falta de higiene com os alimentos. Na narrativa do Informante 1, é comum a lembrança de ver muita gente lavar as verduras na mesma bacia do banho ou regar a horta com a água já utilizada para higiene. Nosso depoente chama a atenção para o que ele considera uma situação vexatória. Ela ocorria quando alguma pessoa atendia o apelo do guarda para procurar o Centro de saúde e não era atendido conforme o esperado seja no horário ou na forma de tratamento. Frequentemente essa situação acarretava reclamações com o guarda que havia insistido na busca pelos serviços do SESP e este era tido como culpado pela per, da de tempo ou confiança nos serviços sespianos. Para este agente sanitário um trabalho muito importante era acompanhar as enfermeiras ou atendentes nas escolas para atividades de educação sanitária, porque as crianças aceitavam muito mais facilmente os ensinamentos e novos hábitos divulgados, inclusive reforçando-os em suas casas. Segundo nosso informante, cada agente possuía um roteiro, e um mapa da cidade para facilitar o serviço; ao fazer as visitas os agentes faziam um itinerário que continha o endereço completo das casas que estavam sendo atendidas. Algumas pessoas tinham resistências a esse serviço, por não aceitarem o acesso de desconhecidos em suas casas; quando esse era permitido, os agentes iam verificar se na casa havia banheiro, rede de esgoto, caso contrário, eles providenciavam e dava-se baixa naquele serviço. O ex-guarda sanitário também pontuou que mesmo com as melhorias higiênicas, a população da zona rural, da periferia e até mesmo da cidade, utilizavam as privadas para guardar arreio dos cavalos, colocarem galinhas para chocar; as pessoas mesmo não utilizavam. Ele explicou que mesmo as pessoas possuindo latrinas em suas casas, não tinham o costume de usá-la, pois permanecia o costume de ir “ao mato”, o que “contaminava o solo com vermes, micróbios, e as pessoas que andavam descalço naquele lugar e também tudo que está ao redor”. Segundo nosso informante muitas dessas pessoas, oriundas da zona rural, mantinham aqueles costumes e resistiam aos novos equipamentos sanitários. Não compreendiam ou desconfiavam dos divulgados ‘milagres’ do saneamento. Curioso é que o mesmo informante afirmou que ele mesmo “não sabia nada de saneamento” antes de entrar no Serviço, ele mesmo sendo convencido das novas idéias e tornando-se seu divulgador.
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As informantes 2 e 3 que atuaram em uma unidade de atendimento do SESP em Colatina também refletem a mesma realidade descrita pelo informante 1. E, assim como ele, ao relatarem suas impressões sobre a processo de saneamento promovido pelo SESP relembram um , pouco do que viveram e do sentiram. Em suas narrativas, ficaram registradas a situação precária da população e o esforço enquanto simples zeladoras, que se tornam auxiliares de atendimento mediante treinamento interno no serviço. Elas retratam situações cotidianas em que era necessário comprarem marmitas para mães cercadas de crianças famintas. O destaque dado ao trabalho incessante de limpeza do posto de atendimento acaba contrastando com os inúmeros casos em que elas cumpriam ordens médicas para banhar os pacientes antes da consulta, fato que evidencia a falta de higiene pessoal da população. Tal como o informante 1, preferem silenciar os enfrentamentos entre a nova perspectiva de higiene promovida pelo SESP e os atendidos pelo serviço. Mas, deixam escapar nas entrelinhas de suas narrativas a dificuldade enfrentada para vacinar pacientes mordidos ou picados por animais. Talvez esse estranhamento entre as práticas sanitárias orientadas pelo Serviço e aquelas praticadas cotidianamente não tenham saltado em suas memórias porque fosse comum, algo com o qual elas acabaram lidando no dia-a-dia. Nesta rotina conturbada, de limpeza das instalações e da promoção da higiene nos pacientes, da recusa aos medicamentos receitados – por vezes, alternados com ‘água de fubá’ conhecido de todos – da desnutrição infantil e da fome generalizada elas relatam acabam por vislumbrar o SESP como uma ilha imersa no caos, onde muitos recebiam mais do que assistência médica, o trabalho era também de atenção social. Percebe-se nessas informações a dificuldade de territorializar o saneamento. Mesmo com as interferências físicas nos territórios domésticos e públicos, os territórios simbólicos e mentais permaneciam à margem da modernidade, num outro tempo. Em contraste com os informantes anteriores, recrutados em meio à população do Médio Rio Doce e imersos num mesmo universo mental, o informante 4, conta que ao chegar do Rio de Janeiro, no início da década de 1940, possuía uma mentalidade mais evoluída que a da região [sic]. Sua fala remonta frequentemente às origens dos eventos relacionados a Governador Valadares, levando-o a conectá-los tanto à História do Brasil quanto a História Contemporânea mundial, numa busca de
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argumentos que possam justificar a ação do SESP inclusive sua criação. , Remonta à questão da História do Brasil, “tumultuada pela Revolução de 30, o Estado Novo de Getúlio Vargas”, em seguida chega à II Guerra Mundial, que “fez florescer toda a região do Médio Rio Doce”, pois precisavam [os Aliados] da mica de Governador Valadares, do minério de ferro de Itabira, e da borracha da Amazônia. Na perspectiva desse informante, Getúlio assina um acordo com os Estados Unidos, e para garantir a legitimidade do serviço de saúde pública financiado pelos americanos, dá ao mesmo uma característica “especial”, com autonomia em relação ao Ministério de Educação e Saúde, então existente. O Brasil se transformou em função da imposição da guerra o que, segundo nosso depoente, explica o porquê do Serviço Especial de Saúde Pública. Para ele, o Brasil não podia ter um órgão público criado para suprir os interesses americanos relativos ao saneamento das regiões acima referidas, sem ferir a soberania nacional. Então, uma das aplicações de recursos ao Brasil, pelo acordo de Washington, foi a criação do SESP . Após a chegada do SESP de acordo com nosso informante, foi dada , ênfase à medicina preventiva que o mundo já conhecia, diferentemente do Brasil, que conhecia somente a medicina curativa. De acordo com a opinião do informante 4 o Serviço conduziu à revolução na saúde no Brasil e que, hoje, estão tentando reavivar o que fizeram há cinqüenta anos para a área da medicina doméstica e dietética. Essas informações nos levam a questionar a validade da ação sespiana e o sucesso de sua política de saneamento e atendimento. Ao falar da situação sanitária de Governador Valadares, o informante 4 a descreve como sendo muito precária e com muitas endemias. Ele considera que o SESP foi muito importante para todos os moradores de Governador Valadares e lamenta por ele não existir mais, por não ter sido adequado a estrutura jurídica e aos interesses da saúde brasileira. Em outras palavras, para esse depoente as mudanças ocorridas – em 1960, a transformação do SESP em Fundação SESP ligada ao Ministério , da Saúde, e finalmente sua incorporação pela FUNASA (no Governo Collor) atendeu a novos propósitos políticos/jurídicos e de diferentes interesses e políticas públicas. A dimensão do trabalho efetuado pelos funcionários do SESP só pode ser aferida se pensarmos a partir dos hábitos locais nas décadas de 40 a 60. Os informantes que vivenciaram essas décadas e que não
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esse acesso ao SESP a médicos e aos novos hábitos sanitá. Nosso informante chegou a ser atendido no posto do SESP . Esse fato nos permite raciocinar de forma indiciária no sentido de que o Serviço podia em alguns casos a falta de informação dos procedimentos normais dos tratamentos.tiveram uma ligação direta com o serviço nos confirmam algumas indicações já coletadas nos rastros documentários expostos no item anterior e nos ajudam a formar uma pálida idéia do que era a cidade de Governador Valadares. mas. Lembraram-se que muitas vezes o purgante era melhor que o médico e que outros preferiam procurar as benzedeiras a esperar um médico aparecer na cidade. após pegar o resultado do exame. com incidência de muitas doenças. médicos que atendiam lá. diferindo bastante do restante da população. dentro de uma cartola (tambor) e era consumida sem ferver. o que veio a fazer um ano depois. se comparada a outros moradores na mesma época. As primeiras noções de higiene e saneamento vieram com os filmes do SESP projetados em pra. no início da década de 40. A falta de luz. ele se recorda que nos anos seguintes iniciou-se um processo de tratamento de água e de construção de fossas secas nas casas. rios não perdurou na lembrança de todos. embora morassem na área central da cidade. sem água encanada e tratada. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . essas lembranças se aproximam dos relatos de Ceciliano Abel de Almeida. fez exames para averiguar as causas do mal que sofria. relatam a cidade de Governador Valadares em fins da década de 30 e nas seguintes. sem luz e nem água. considerada pólo da região e como eram percebidos os aspectos sanitários. Nesse sentido. nosso informante não retornou ao médico.141 . água e saneamento também é relatada apesar de sua condição financeira satisfatória. Mas. esses procedimentos ocorreram para um pequeno número de casas e estabelecimentos comerciais do centro. ça pública. de acordo com seu próprio relato. de Strauch e dos cronistas locais – vistos TERRITÓRIO. Morador do centro da cidade. Sem ter nenhuma orientação. Mas. O informante 5 fala de uma cidade de pouco mais de sete mil habitantes. num consultório particular. Elas não falam do SESP nem dos . residente numa área um pouco afastada do centro. Essa mesma impressão nos é passada pela informante 8. como uma cidade sem calçamento. colocou na carteira. Outras informantes (6 e 7). Essa água turva chegava numa carroça. por desconhecer que o processo de tratamento. Essas melhorias só aparecem na memória da informante em fins da década de 60.

Todos falam do investimento dos norte-americanos como se somente estes estivessem à frente do processo de saneamento básico. fichas próprias para preenchimento. Os relatos dos funcionários acima mencionados coincidem na avaliação sobre o controle exercido pelo Serviço. Algumas observações podem ser realçadas a partir das informações coletadas. Em primeiro lugar. isso pode ser explicado por questões financeiras e salariais. tende a ser descrita pelos depoentes como muito bem organizada e eles revelam um sentimento de lealdade ao SESP Há um destaque freqüente . propondo melhorias sanitárias que até bem pouco tempo era novidades até para eles. Nesse sentido.TERRITÓRIO.na primeira parte deste ensaio – e acabam por questionar tanto os relatórios presidenciais de Minas e. percebe-se na fala dos funcionários. uma apropriação do discurso técnico-científico incutido a partir dos cursos oferecidos pelo SESP Uma análise mais cuidadosa . andavam a pé ou de bicicleta e cobriam toda a cidade. O mesmo rigor se manifesta nas narrativas das auxiliares de atendimento. posteriormente. tem-se a impressão perder-se a perspectiva de que havia 142 . Toda a ação . Havia muito rigor por parte dos diretores e qualquer desvio era punido com a suspensão do serviço. desses depoimentos mostra como pessoas comuns se transformavam em agentes de mudança. o próprio discurso do SESP que projetava para toda a população tanto as melhorias quanto as transformações oriundas da modernidade pretendida. evidentemente. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Por outro lado. eles não relatam problemas. que segundo eles era muito organizado. são comuns entre os informantes as demonstrações de carinho relativo aos anos de trabalho na agência. De modo geral. Em parte. O trabalho dos guardas ou agentes sanitários era supervisionado e cada um tinha um itinerário determinado. indo também à zona rural. Talvez esse rigor se deva ao fato de que havia investimento externo e era direcionado especificamente para a constituição de um cenário propício para a extração de minérios. conhecida entre os agentes como “balão”. fazia parte da política do Serviço treinamentos sistemáticos e com constante supervisão do trabalho. erros ou desmandos e nem mesmo conflitos entre o SESP a sociedade e o governo. em relação aos bons salários pagos em comparação àqueles pagos na cidade de Governador Valadares e região e a isso agregam a posição social distinta que os funcionários conquistaram. Para além de questões financeiras e sociais.

2006. Nesse ponto. Além disso. Toda a ação destes funcionários se encaixa numa seqüência definida de elos significativos. Outra fala que é comum entre os depoentes é o reconhecimento da atuação do SESP trazendo melhorias para a região. formando o que o autor identifica como uma ‘cadeia motivacional’. apesar dos limites que o empreendimento dessa natureza e naquelas circunstâncias estão presentes. Partindo desse enfoque. ou seja. Para além do conceito de ação social. o conceito de relação social. 93). tes de saúde e o vivenciado pelos indivíduos (HAESBAERT. fundamentadas por um motivo. 26 a 30). podendo ser ativada ou desativada. relacionalmente falando. 1991.143 . compreende-se o delineamento de um discurso sespiano. a conduta de cada agente é orientada por um sentido reciprocamente partilhado. Este último conceito se refere “à conduta de múltiplos agentes que se orientam reciprocamente em conformidade com um conteúdo específico do próprio sentido das suas ações” (COHN. aquele definido nos documentos do SESP aquele visitado pelos agen. com elementos de continuidade onde as narrativas se cruzam e ganham força mesmo quando se referem a um contexto caótico. “Assim. as narrativas mostram um território múltiplo. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Weber propõe um desdobramento no intuito de avançar para além do individual. permeado de confrontos culturais que tentam redefinir as práticas cotidianas de uma população inteira. objetivamente visado pelo agente e que se manifesta em ações concretas.um acordo bilateral entre os Estados Unidos e o Brasil. A partir dessa perspectiva a ação social dos funcionários do SESP pode ser compreendida a partir dos delineamentos weberianos que a pondera enquanto uma modalidade específica de conduta à qual o próprio agente associa um sentido. A diferença básica entre eles está no fato de que no primeiro a conduta é orientada significativamente pela conduta de outro(s) enquanto no segundo. podemos afirmar que o território. p. o território encontra-se inserido dentro de um contexto sócio-histórico imerso em relações de poder e a territorialidade exercida por cada um dos grupos é compreendida como o controle de pessoas e/ou recursos a partir de uma estratégia espacial para atingir. influenciar ou controlar outros recursos e pessoas. ou seja. O vínculo motivacional que envolvia todo o corpo de funcionários sespianos forneceu-lhes uma dimensão processual à ação social executada e nos impede de analisá-la como ato isolado. p. enquanto mediação espacial do poder resulta da interaTERRITÓRIO.

não há como não reconhecer que a força do discurso sespiano ganhou adeptos para além do corpo de funcionários. na década de 1930 e. Ibidem). Os chamados ‘pioneiros’. estabeleceram moradia nas áreas centrais de Governador Valadares. ao relatarem sobre a história. lidando com um fenômeno que. que requerem. Não estaria na desconsideração dessas dimensões simbólicas presentes na territorialidade um dos motivos pelos quais os objetivos do Serviço foram alcançados de modo limitados e. desde sua natureza mais estritamente política até seu caráter mais propriamente simbólico. especialmente. responsáveis pelo progresso e modernidade da cidade. e outras cidades do Médio Rio Doce. Na proposta prática das atividades do SESP havia um mapeamento que fundamentalmente era externo a essas relações simbólicas já presentes.TERRITÓRIO. eles acabam por fundir ao próprio relato a responsabilidade pelo progresso e da civilização às suas próprias famílias. na mesma época de implantação e estabelecimento do SESP Essas famílias teriam atuado de maneira . Vozes privilegiadas para relatar sobre o passado local. não foram duradouros? Tanto isso é verdade que o informante 4 julgaria de bom proveito o retorno do Serviço. as cidades do Médio Rio Doce apresentavam espaços de atuação sespiana com uma dinâmica de saneamento e de interferência direta sobre as práticas cotidianas dos indivíduos. Essas relações de poder. lançar-se mão de uma simbólica e de uma ritualística para as relações? Contudo. difundido na década de 1970. ressaltando os feitos de famílias ilustres. e. na de 1940. para ser compreendidos. a promover o desenvolvimento local a partir de seus múltiplos empreendimentos. no geral. mas não alcançava todos os recantos. recortando territórios. onde prevaleciam as territorialidades ainda mantidas enraizadas às práticas da medicina popular. prestigiadas e que coadunavam 144 . podem ser vislumbradas nas narrativas dos informantes e nos rastros documentais expostos anteriormente.ção diferenciada entre as múltiplas dimensões desse poder. portanto. Territorialmente. O discurso dos memorialistas. passando pelas relações dentro do chamado poder econômico. Não estaríamos. envolve processos complexos e de longa duração. Por esse motivo. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . se desenvolve no sentido de distinguir um grupo seleto de famílias que teriam vindo para Governador Valadares. por sua natureza. o fazem numa perspectiva linear e evolutiva. cujos hábitos de higiene tinham regras próprias e uma valorização cultural inerente à mentalidade local. indissociáveis da esfera jurídico-política” (Idem.

145 . residentes em sua grande maioria no centro da cidade. o lixo espalhado pelas ruas da cidade. reflete mesmo nas entrelinhas de um discurso jornalístico filtrado pelos interesses em voga. TERRITÓRIO. especialmente a do Jornal Diário do Rio Doce. na década de 1940. Ambos elaboram um discurso que. curiosamente. 1958 a 1970). Uma breve varredura sobre as manchetes mais significativas chama à atenção para várias matérias relativas à periferia de Governador Valadares. bem distante daquela descrita pelos memorialistas ao falarem das décadas de progresso e civilização ao se referirem aos ‘pioneiros’ (JORNAL DIÁRIO DO RIO DOCE. as demandas da população no aspecto sanitário e de saneamento básico (Idem). p. inclusive aquelas da área central. 1984. não aparecem apenas no final da década seguinte à implantação do SESP e à consolidação do desenvolvimento e modernidade empreendidos pelos ‘pioneiros’. baseado numa espécie de ponto inicial. Frequentemente o jornal noticiava a falta de abastecimento de água tratada. circulante em Governador Valadares. elas se estendem por toda a década seguinte e avança à década de 1970. a memória produzida pela mídia. RANGER. essas notícias. forjam uma tradição que funde a ação saneadora e modernizadora do SESP com a atuação empreendedora dos ‘pioneiros’ no que poderíamos chamar de um novo marco de surgimento de Governador Valadares. Como esse discurso foi o único a ser divulgado sobre a formação da cidade e seu desenvolvimento até as últimas décadas. distanciando-se de sua matriz secular de atraso frente às demais regiões mineiras (HOBSBAWM. ele de certa forma acentua e potencializa a ação do Serviço. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Mesmo porque. como a abertura de redes de esgoto e tratamento de água. cujos problemas de saneamento e saúde pública revelam outra realidade. Aliás. um alerta para situações cotidianas que ocorriam num território que estava além daquele habitado pelos ‘pioneiros’ e no qual o SESP encontrava as condições necessárias para implementação de seus projetos. mostrando que a ação do SESP embora tenha de fato produzido mudanças significativas não avançou no sentido da transformação propagada pelo discurso de saneamento implementado pelo Serviço e pelos memorialistas. o grupo de pioneiros. 9 a 24). Num contraponto com os memorialistas e funcionários sespianos. foram os que de fato receberam de forma mais intensa a atuação do SESP e vivenciaram cotidianamente os projetos de saneamento então executados.com os esforços de civilização e modernização empreendidas pelo SESP .

carpinteiros. além de se relacionar com as condições sanitárias da região. Em trabalhos acadêmicos mais recentes sobre o Médio Rio Doce. de trabalhadores de várias especialidades — agricultores. as descrições dos memorialistas locais da década de 70. dizendo que o SESP era pura fachada de “macaquitos” metidos a “yankee”. a 146 . Foi em meio a essa população que o SESP atuou e é com base nesses registros. convergiam para uma situação comum. e são raros os questionamentos críticos como o publicado no jornal valadarense Voz Rio Doce. oleiros. Nesse sentido. Tais menções são afirmativas da capacidade e da competência do Serviço e de seus técnicos. As referências ao SESP nos textos de memorialistas locais e no depoimento dos antigos funcionários tratam-no com a deferência dirigida à autoridade ou benfeitor. e são comuns os elogios à sua atuação e à proposta ‘moderna’ para a saúde e o saneamento de áreas urbanas e rurais. Nesses discursos a ação de SESP é digna dos melhores louvores.TERRITÓRIO. tais como a erradicação da malária. e (b) outro grupo maior.Considerações finais O levantamento prévio da situação sanitária da região nos rastros documentais da primeira parte desse ensaio nos mostra uma determinada dinâmica sociocultural e econômica. Neste processo de territorialização. daquilo que o Serviço diz ter feito e do que a população diz ter recebido e internalizado que ponderaremos sobre o processo em tela. os autodenominados “pioneiros”. braçais.. agregada aos processos de ocupação e exploração do território do Médio Rio Doce na primeira metade do século XX. tratamento de outras enfermidades e implantação de serviços para o tratamento de água e esgoto. os documentos oficiais e relatórios presidenciais. cortadores de madeira. do provimento de equipamentos e de educação sanitária. em que o domínio da floresta tropical e a presença do Rio Doce definiriam as condições de povoamento e de desenvolvimento socioeconômico. em 1947. dos benefícios realizados para as cidades e as populações atendidas. em que atuavam diversos atores sociais. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . e suas famílias. canoeiros. etc. inclusive com amparo legal. o povoamento ocorrido de forma mais contundente nas quatro primeiras décadas do século XX nos leva a um panorama onde é possível a distinção entre dois grupos de ‘povoadores do vale do Rio Doce’: (a) um grupo que se assenhora das terras e da riqueza. que ao fim seriam os brasileiros que careciam da assistência médica.

doença. Os relatos e imagens que os sanitaristas Belizário Penna e Arthur Neiva divulgaram sobre as populações do interior do Brasil (de isolamento. sul do Piauí e Goiás de Norte a Sul (promovida pelo Instituto Oswaldo Cruz. através do acordo bilateral até 1960 tornou-se fundamental para avaliar sua atuação no Médio Rio Doce. siderurgia. Para o Médio Rio Doce. Nesse sentido. a contenção de outras endemias e a imposição das práticas médicas científicas. bem como processos de cura a partir da medicina rústica. indústria madeireira) e. sem aprofundamentos sobre as atividades realizadas ou métodos utilizados.147 . na Revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz. uso da terapêutica popular. a erradicação da malária. apatia e ignorância) em seu Relatório da viagem científica realizada em 1912 ao Norte da Bahia. foram criadas as condições territoriais para a região receber e expandir os grandes investimentos de capital (mineração. As metodologias de intervenção que acompanharam a execução dos projetos de saneamento e de assistência médica se relacionaram com a concepção do “círculo vicioso da doença e da pobreza” e com uma pedagogia sanitária em que a responsabilidade individual sobrepuja a responsabilidade política. o saneamento rural. confirmando-se o TERRITÓRIO. verificar o contexto de constituição do SESP e a concepção de saúde e de desenvolvimento subjacentes às suas práticas. Dessa forma. por requisição da Inspetoria de Obras Contra as Secas) e publicado em 1916. Essa concepção parte da suposição de que certos hábitos. mas não esclarecem as interferências das condições sociais sobre a propagação de doenças.ação do SESP é reconhecida como um dos fatores que impulsionaram o desenvolvimento regional entre as décadas de 1940/1950 e relacionada a ele. bem como as condições de sua manutenção. sudoeste de Pernambuco. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . porém de forma pontual. as ações do SESP entre as décadas de 1940 e 1950 propiciaram o ordenamento dos territórios urbanos. foram reapropriadas por diversos intelectuais em suas interpretações do Brasil e reforçaram essa tese (LIMA. são manifestações de ignorância e superstição. costumes e sistemas de crenças populares. anunciam. 2008). ao mesmo tempo. e o entendimento da saúde como fator de desenvolvimento econômico. confirmar como fronteira agrícola (expansão da pecuária de corte e produção agrícola). As duas tendências observadas nos relatórios e nas publicações do SESP — o tripé ignorância-pobreza-apatia — como causas do agravamento do quadro nosológico.

Para nossos informantes. no qual a benesse. o Serviço sequer foi referido e quando as narrativas sobre o cotidiano tocam na questão das endemias e das dificuldades sanitárias. demarcado 148 . isto é. tampouco no Brasil.TERRITÓRIO. por ocasião da transformação do SESP em Fundação SESP de responsabilidade . pois eram membros das comunidades atendidas ou que tinham o mesmo perfil. as visitadoras. A população atendida pelo SESP ainda está por ser ouvida. como ficou revelado no caso em que o paciente fez o exame. as auxiliares de atendimento e os guardas sanitários se apropriaram do discurso técnico-científico e eles mesmos se percebem como agentes de mudança “por dentro”. confirmando a tese de que a disponibilização de bens públicos de saúde não foi usufruída como conquista social. O discurso de ciência em que o SESP se apoiava procurava sistematizar uma pedagogia sanitária de intervenção na comunidade e tal pedagogia se opunha às estratégias que a comunidade utilizava para lidar com as doenças. antigos funcionários. ainda não se cumpriu no Médio Rio Doce. mas por falta de orientação sequer o levou ao médico para ser devidamente medicado. médico e monge beneditino: Salubritas ubique curanda. De mais a mais. na consolidação e no fortalecimento da presença do Estado (state building) nessa região. o SESP foi uma benesse do poder público. os informantes não se referem diretamente ao SESP como um agente transformador. Em outros. O curioso é que o esquecimento tanto esteve presente nas narrativas daqueles que se encontravam mais afastados das áreas onde a atuação sespiana ocorreu com mais intensidade quanto nas áreas mais próximas. nos costumes e nos valores culturais e uma (re)organização do espaço. A questão sanitária perpassa os meandros do território físico. quando é usufruída nem sempre apresenta o mesmo caráter transformador. como em geral ficou implícito nos depoimentos apresentados ao longo deste ensaio. É nesse sentido que podemos falar de um objeto transversal. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .papel do Serviço. Portanto. “seja a saúde promovida por toda a parte”. Para a população atendida tais ações provocaram alterações nas práticas de saúde. a meta estampada no selo comemorativo de 1960. a atuação deixa claro o objetivo de preparar as gerações mais novas segundo os padrões científicos e simultaneamente combater as práticas da medicina popular. auscultada. Nessa dinâmica. O nosso outro grupo de informantes nos dá um panorama bem diferente. de Dom Basílio Penido.

Ao elevar os ‘pioneiros’ à categoria de heróis locais. cercado por inúmeras relações de poder que vão desde as estabelecidas entre os habitantes autóctones e os ‘pioneiros’ àquelas que vinculavam os interesses americanos à região. TERRITÓRIO.na região do Médio Rio Doce de acordo com os documentos oficiais. mas em função das múltiplas territorialidades. mas também remete a outra concepção de território imerso em um contexto sócio-histórico. o território atendido pelo SESP era visto de forma global e incluía a cidade. de cunho relacional. dentre os quais o dos documentos oficiais e aqueles revelados pelo Jornal Diário do Rio Doce. cabe interpretar os motivos do SESP realçados nas palavras dos seus antigos funcionários e o sentido cotidiano desta mesma ação. Simbolicamente. ao estilo Weberiano. como realça Paul Ricoeur (2007). oriundos das famílias ilustres e bem sucedidas. 1978). A ação social de cada agente envolvido no processo apresenta um sentido manifestado na concretude da cadeia motivacional que se forma. os memorialistas cumpriram seu papel na seleção do que deveria ser lembrado e do que teria que ser esquecido. conforme visto acima (COHN. As informações e a educação sanitária pretendida pelo SESP não desconfiguravam as práticas cotidianas da população da periferia que mesmo assistida mantinha seus costumes. Nesta ‘teia de significados’ (GEERTZ. A territorialidade dominante dos ‘pioneiros’ de Governador Valadares – que podemos tomar como um centro exemplar em relação às demais cidades do Médio Rio Doce – revestida de modernidade se sobrepunha a da população menos abastada que em muitos aspectos não contestou o discurso civilizador. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . 1991). Esta segunda concepção de território. mas apenas internalizou o que sinalizava seus atores mais significativos. nos dá uma dimensão mais apurada das territorialidades que ora se chocavam. ponderar sobre as negociações destas narrativas amarradas nos vários discursos. a realidade fornecia novos contornos aos projetos executados. Cabe. mesmo de forma indiciária. as conexões e a significação cultural da realidade da vida que nos rodeia.149 . ora se complementavam no processo de saneamento que se desenrolava principalmente nas áreas centrais em direção à periferia da cidade de Governador Valadares como também dos outros centros atendidos. Daí a importância de se trabalhar a partir da interação entre a memória coletiva e a individual. abrindo espaço para a compreensão da sociedade e buscando.

Nas palavras do próprio autor. Todo esse processo ocorre mediante uma negociação dos significados por intermédio da interpretação narrativa. Nele se estabelecem as mais variadas escalas geográfi150 . não como uma ciência experimental em busca de leis.TERRITÓRIO. assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise. p. portanto. Partindo desses pressupostos. (i)material. nos posicionamos diante de um território que ganha dinâmica e sentido a partir da apreensão da conduta dos múltiplos agentes e dos significados que a ação destes venha a ganhar. armazenada por uma comunidade (BRUNER. lidando com um agenciamento. a grande maioria da população tinha como modelo o próprio vizinho que muitas vezes podia ridicularizar o uso da fossa sanitária. É necessário para tanto. 65).Por isso. Nessa multiterritorialidade a modernidade dos ‘pioneiros’ não tem o mesmo sentido para os demais habitantes e nem mesmo o desenvolvimento e urbanização empreendidos a partir dos projetos implementados pelo SESP serão incorporados ao cotidiano da mesma forma. “o território é processual e relacional. p. citado acima. 2006. Recuperando as palavras de Saquet (2006. Estamos. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . O reordenamento do espaço urbano. à procura do significado” (GEERTZ. “acreditando como Max Weber. 112 a 117). que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu. mas como uma ciência interpretativa. cujo conjunto de partes interage negociando sentidos e configurando ações e intenções (HAESBAERT. embora alterasse visivelmente o território não desagregava as práticas de manter o lixo nas ruas. cuja cultura é compreendida como uma ‘teia de significados’. de usar o mato para as necessidades fisiológicas e as fossas para guardar arreios e galinhas. 1997. 15). Numa perspectiva mais ampla a ação sespiana não pode ser enquadrada numa estrutura uma vez que não se pode falar de uma ação homogênea. o território mutifacetado que se apresenta exige da análise histórica um esforço contínuo de contraponto entre suas várias escalas espaciais e temporais. estender a análise para a antropologia interpretativa de Geertz (1978). ou. O SESP tinha como modelo de saneamento o padrão internacional. com diversidade e unidade. concomitantemente”. a ação do SESP deve ser analisada levando-se em consideração os vários discursos e as múltiplas territorialidades constituídas. até mesmo de achar a água do Rio Doce mais confiável que aquela que chegava através de um sistema de abastecimento. portanto. 83). A partir do que foi exposto. p. 1978. p.

em 14/12/2007.INFORMANTE 5 . SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . intenções e representações numa busca incessante de conciliar.INFORMANTE 1 . . o território também comporta diversas narrativas. que em meio a estas operações espaciais e temporais. arquivada no Programa de Memória do Vale do Rio Doce – PMVRD/Univale.INFORMANTE 7 . em 01/04/2009. ao abordar o processo de territoralização da saúde e do saneamento a partir da memória. arquivada no Programa de Memória do Vale do Rio Doce – PMVRD/Univale. Fontes Fontes orais . arquivada no Programa de Memória do Vale do Rio Doce – PMVRD/Univale. arquivada no Programa de Memória do Vale do Rio Doce – PMVRD/Univale. Neste exercício.Entrevista concedida à Professora Maria Terezinha Bretas Vilarino. arquivada no Programa de Memória do Vale do Rio Doce – PMVRD/Univale. . . arquivada no Programa de Memória do Vale do Rio Doce – PMVRD/Univale.cas e até mesmo temporalidades diferentes.Entrevista concedida à Professora Maria Terezinha Bretas Vilarino.Entrevista concedida à Professora Maria Terezinha Bretas Vilarino.Entrevista concedida à Professora Maria Terezinha Bretas Vilarino. em 24/08/2009. de forma complementar. . os tempos da alma e do mundo. em 16/02/2008.INFORMANTE 8 . em 01/04/2009. arquivada no Programa de Memória do Vale do Rio Doce – PMVRD/Univale.Entrevista concedida à Professora Maria Terezinha Bretas Vilarino. em 29/05/2008. sentidos.Entrevista concedida à Professora Maria Terezinha Bretas Vilarino. em 16/02/2008. . lembranças e esquecimentos.151 . arquivada no Programa de Memória do Vale do Rio Doce – PMVRD/Univale. apreensões.INFORMANTE 2 . em 09/12/2008.Entrevista concedida à Professora Maria Terezinha Bretas Vilarino.INFORMANTE 4 . .INFORMANTE 6 . TERRITÓRIO.INFORMANTE 2 . podemos sugerir.Entrevista concedida à Professora Maria Terezinha Bretas Vilarino. assim como no desafio posto ao historiador. .

3v. Acessado em 12 de abril de 2008. 152 .crl. 19. In: Provincial Presidential Reports . Associação Comercial de Governador Valadares – Sessenta anos de história. Fontes impressas ESPINDOLA. In: Provincial Presidential Reports . SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Brazilian Government Document Digitization Project..edu/content/brazil/mina. 1910 a 1930. ___________.edu/content/brazil/esp. Série 1 – Infra-estrutura urbana – INEU. Center for Research Libraries (CRL). 1998. COMPANHIA VALE DO RIO DOCE. Varia História / Departamento de História. Disponível em http://www. Haruf Salmen. Rio de Janeiro. Disponível em http://www. 1963. Programa de Pós Graduação em História. MENSAGEM DOS PRESIDENTES DO ESTADO DE MINAS GERAIS. 1999. caixas 21. N.crl. 1963. A história de uma formação socioeconômica urbana: Governador Valadares.Minas Gerais. Fundo: Prefeitura Municipal de Governador Valadares (PMGV) 1/1. Perspectivas do desenvolvimento industrial da região do Rio Doce. Center for Research Libraries (CRL). Universidade de Minas Gerais. htm. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. São Paulo: SERETE. 48 e 52. Perspectivas de desenvolvimento industrial da Região do Rio Doce.TERRITÓRIO. ACGV. 33. Fundo SESP . Brazilian Government Document Digitization Project.Fontes documentais Centro de Documentação e Arquivo de Custódia – CEDAC. Arquivo da Casa de Osvaldo Cruz/Fiocruz. Governador Valadares. Serete.Minas Gerais. Relatórios COMPANHIAVALE DO RIO DOCE. Subséries 1 a 9. Seção Divisão de Engenharia. htm. Acessado em 12 de abril de 2008. 1910 a 1930. MENSAGEM DOS PRESIDENTES DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO. 3 v.

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Professor dos Cursos de Graduação e do Programa de Mestrado em História da Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Aluna do Programa de Mestrado em História pela Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD.155 . Nesse sentido. 1 2 3 Este texto é resultado da pesquisa desenvolvida na Universidade Vale do Rio Doce – UNIVALE entre 2006 e 2007. TERRITÓRIO. pessoas vinham de diferentes regiões. tais processos além de reorganizar o espaço físico ocupado pela população. As cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo configuraram-se como dois exemplos de centros urbanos que incorporaram a perspectiva de mudanças em suas ruas e bairros.374 em 1940. houve um significativo aumento do contingente populacional nessa cidade. Segundo dados do IBGE.nas diversas regiões do país.mesmo que em escala menor . e contou com o apoio financeiro da FAPEMIG. incluindo trabalhadores rurais. Desta forma. Houve também outros surtos de urbanização .Controle social e identidade: os casos do Clube Atlético Pastoril e o Esporte Clube Democrata1 Eliazar João da Silva2 Julieta Soares Alemão Silva3 D entre os diferentes fenômenos circunscritos ao limiar do século XX. O movimento crescente da urbanização (e diretamente ligado ao processo de industrialização) deve ser pensado também como um fenômeno social.357 em 1950. e para 20. compreenderam uma reordenação em termos de valores e costumes que contribuíram para que surgissem novas relações sociais. Na primeira metade do século XX. e ao surgimento de indústrias e fábricas. passou para 5. um deles está relacionado à emergência de alguns centros urbanos nas diferentes regiões do país. e a cidade de Governador Valadares acompanhou este processo. se explica pela instalação e expansão de fábricas e indústrias localizadas nessas cidades. no ano de 1930 a população que era de 2.130 habitantes. em busca de trabalho nas empresas existentes na urbe em questão. Certamente a condição de migração das áreas rurais para as áreas urbanas.

o futebol já era amplamente praticado em alguns países da Europa como. e os espaços destinados a assistência e/ou prática dos esportes considerados saudáveis e civilizados. Tais comportamentos relacionados à sociabilidade dos habitantes foram transformados também pelas idéias de modernidade. a partir do período mencionado. Nesse sentido. Antes de ser implantado no Brasil. Sobretudo nas décadas iniciais do século XX. por exemplo. a “boa sociedade” podia desfrutar de tudo aquilo que era também oferecido aos europeus. a introdução da prática do futebol. e que era entendido como “moderno”. o cenário urbano-industrial. e as reformas dos grandes centros urbanos. (SILVAa. consumo e lazer. 1990) As transformações pelas quais passaram algumas cidades do Brasil (especialmente a do Rio de Janeiro e de São Paulo). culturais e econômicas. 2006). a prática futebolística apresentou-se como um esporte que simbolizava o estilo de vida moderna que se almejava. A prática do futebol acompanhou esta concepção. ao chegar nas cidades encontrava um estilo de vida caracterizado por diferentes práticas sociais. uma vez que o clube mencionado se caracterizava pelo seu “requinte” no qual as “melhores famílias” se encontravam a fim de se confraternizarem e discutir as novidades da Europa (Paris e Londres. foi uma das equipes que melhor representou as tendências do período. decorrentes do processo de industrialização e urbanização. A prática de esportes em geral (sobretudo o futebol). tivera sua origem na Europa (CALDASa. Introduzido na cidade de São Paulo na última década do século XIX. ainda que houvesse a permanência de elementos circunscritos às áreas rurais.TERRITÓRIO. Tal projeto estava fundamentado na perspectiva de absorver tudo que dissesse respeito à Inglaterra e à França. O cotidiano das cidades impunha um novo ritmo para as relações de trabalho. estavam relacionadas às idéias de modernidade. 156 . faziam parte do “projeto modernizador” empreendido pelas camadas sociais mais abastadas e incentivadas pelo poder público. inicialmente praticados pelas famílias mais abastadas. da cidade do Rio de Janeiro (fundado em 21 de julho de 1902). sobretudo.A população que se deslocava das áreas rurais com seus costumes e tradições. O Fluminense Futebol Clube. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . na Inglaterra e na França. as manifestações culturais do meio rural começaram a ser entendidas como arcaicas e ultrapassadas pelas elites urbanas. por integrantes do poder público das cidades que compunham. e. principalmente). Com seus salões de festa.

o aparecimento embrionário da sociedade urbanoindustrial e o seu desenvolvimento no Brasil emergiu fundado em uma sociedade rural. quanto os hábitos e costumes da sociedade. o fenômeno das reformas urbanas objetivava desenvolver uma melhoria no centro das cidades. demonstram de forma emblemática algumas contradições e tensões presentes no período denominado de “República Oligárquica” (1889-1930). as pessoas menos privilegiadas economicamente foram obrigadas a ocupar as regiões marginais dos centros urbanos. contribuindo. um modelo de modernização inspirados nas cidades de Londres e Paris. dentre outros direitos. inclusive. Tais reformas tiveram como pressuposto o embelezamento das cidades. 1994). A remodelação das regiões centrais do Rio de Janeiro e de São Paulo. a República proclamada não garantiu a igualdade de direitos para o conjunto da população. No limiar do século XX. entre outras coisas. por exemplo. (MORAISa. Nos anos que correspondem ao período denominado de República Oligárquica.157 . De acordo com Carvalho. 1987) Da mesma forma que as cidades de Londres e Paris serviram de referência para as reformas dos centros urbanos de São Paulo e do Rio de Janeiro. para o surgimento de favelas. (CARVALHOa. Estas reformas contribuíram para o surgimento de novos desenhos na paisagem urbana. não TERRITÓRIO.O fenômeno das reformas urbanas no início do século XX visava. Desta forma. com a finalidade de que as mesmas adquirissem uma paisagem moderna. deve ser pensada como parte constitutiva destes espaços urbanos em formação. sobretudo do futebol. A perspectiva de garantia da liberdade. Nesse sentido. aos negros (os quais compreendiam expressiva parcela da população). Nessa perspectiva. recém saída da escravidão e cujos traços culturais ainda eram perceptíveis. As elites urbanas empreenderam várias medidas no sentido de transformar tanto o espaço físico. na impossibilidade de arcar com os custos das reformas empreendidas principalmente por integrantes do setor público. também a partir delas havia repercussão nos demais centros que iam se formando no país. tal como ocorre neste início do século XXI. esses locais se caracterizavam por apresentar uma infra-estrutura bastante precária. não obteve representatividade. promovidas a partir da iniciativa de representantes do poder público. A prática de esportes. o direito civil. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . o que deixava de lado as regiões marginais.

ou seja. Os ingleses.. e mesmo de outros países. sofridos. É preciso ainda 158 . e. a prática de esportes em geral. as cidades em expansão localizadas nas várias regiões do país.TERRITÓRIO. Nessa perspectiva. De acordo com Caldas. (CARVALHOa. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . faziam parte da elite da sociedade paulista e carioca. Ao ser introduzido no país. geralmente. o futebol pôde ser concebido como tal a partir da idéia de que ele inverteu sua lógica inicial de implantação. pelas populações mais pobres. de esporte praticado apenas pelas elites para uma atividade esportiva de grande alcance popular. o crescimento urbano foi repleto de contradições. precursores desse esporte em nosso país. a prática futebolística restringia-se a grupos sociais específicos. além do grande contingente de pessoas oriundas das áreas rurais. sobretudo o futebol.) boa parte da trajetória inicial do futebol no Brasil possui um caráter elitista e. o subemprego ou desemprego. de saúde e moradia de qualidade permaneciam restritas a uma minoria da sociedade. os problemas com abastecimento de alimentos e de água. além deles. O incontrolável crescimento das populações. não dispunham de infra-estrutura básica para atender a população negra e de brancos pobres. somente os brasileiros ricos tinham acesso à prática do futebol. simultaneamente. dificilmente poderia ser de outra forma. o fato das atividades econômicas não absorverem a mão-de-obra crescente. O rápido crescimento da população urbana. Nesta perspectiva. a saber. a insalubridade geradora de doenças e epidemias. a falta de moradia. De acordo com Moraes: Apesar de toda expansão e evolução. contribuíram para que ele fosse interpretado como uma manifestação da cultura popular urbana. as camadas sociais mais abastadas. 1994: 14-15) Neste cenário. As oportunidades de emprego formal. O incessante processo de crescimento urbano gerou uma série interminável de graves problemas. no final do século XIX. (MORAISb. e para o surgimento de inúmeras outras mazelas sociais. (. apresentando um lado perverso e caótico. 2001)..significou a sua inclusão social. passaram a constituir um novo significado. constituíram-se como elementos propulsores da pobreza. a violência e a mendicância também foram partes constitutivas do quadro urbano. As mudanças na trajetória desse esporte. Esse aspecto elitista constitui uma característica que marcou a fase inicial do futebol no Brasil. principalmente no que se refere à sua divulgação na sociedade.

) Mandar buscar material na Inglaterra não era uma coisa acessível a qualquer pessoa aficionada do futebol. A prática das atividades esportivas (especialmente o futebol).. Além de promover uma transformação nos padrões de beleza. inicialmente constituía um fator de distinção social. Com efeito.159 .(.levar em conta que quase todo o material necessário para o jogo era importado e muito caro. a prática futebolística foi inicialmente compreendida como o esporte ideal e moderno. foi possível a inserção de pessoas de origem humilde no futebol. o futebol concorreria para o aumento da produtividade. o futebol passou a ser divulgado e popularizado na sociedade por meio das práticas cotidianas presentes nas vilas operárias. o próprio Fluminense Futebol Clube é um exemplo emblemático dessa fase elitista do esporte. o esporte apresentou-se também como um agente importante para a competição. os jovens estudantes pertencentes às famílias mais abastadas verificavam na atividade futebolística. Entendemos que os próprios uniformes (entre outros elementos) necessários para a prática do futebol oficial. Além disso. Nesse caso. 1992) Ao longo das décadas iniciais do século XX. o jogo de futebol contribuiu para que emergisse uma nova concepção em relação ao corpo. Tal idéia foi bastante difundida em meio aos trabalhadores das fábricas. a possibilidade de garantir uma boa saúde. Isto significa que da mesma forma que havia uma preocupação com o aperfeiçoamento das máquinas. que estava relacionada ao alcance de um “físico forte”. a trajetória desse esporte mudaria até com rapidez. Além do aspecto da manutenção de uma desejável boa saúde. (CALDASb. A prática do futebol poderia. Conforme já apontado anteriormente. fazendo com que gradativamente o esporte deixasse de ser praticado apenas TERRITÓRIO. então. Nesse sentido. o preparo do corpo compreendia pressupostos que estavam diretamente ligados às técnicas de produção. no momento de sua implantação no Brasil fez parte do que as elites concebiam como “bons princípios e hábitos que deveriam ser adquiridos e incorporados”.. contribuir para motivar a disposição dos operários em suas atividades cotidianas. (ANTUNESa. 1990:24). o corpo deveria ser disciplinado e treinado por meio dos esportes. que deveria ser restrito às pessoas “melhores posicionadas” economicamente. A partir das décadas iniciais do século XX. Nos clubes ligados às empresas. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .

razão pela qual o “operário-jogador” passou a ter mais privilégios. Primeiramente formado pelos funcionários de origem inglesa. O fenômeno da popularização do esporte foi objeto de acompanhamento dos meios de comunicação como periódicos e transmissões radiofônicas. dentre elas a profissionalização oficial da prática do futebol e sua construção como um dos símbolos de identidade nacional. A década de 1930 constituiu um período marcado por várias discussões. Progresso Industrial um trabalhador a mais. o contato mais informal no campo de futebol com os altos funcionários ingleses teria função determinante nas vantagens aferidas pelos jogadores-operários. então. uma vez que o Bangu sistematicamente viajava para jogar em outras cidades. foi o surgimento de uma equipe de futebol bastante talentosa e temida pelos times adversários. 1990:29). Quase sempre o jogador-operário era mais rapidamente promovido. em 1932. Desde então. os estudantes dos colégios mais tradicionais. o The Bangu Athletic Club pertencia aos “altos funcionários” da Companhia Progresso Indústria Ltda. Sua fundação ocorreu em momento anterior à própria emancipação político160 . Os operários e altos funcionários das empresas nacionais e estrangeiras. o Esporte Clube Democrata. (CALDASc. o operário (embora a coisa não fosse oficializada) não representava para a Cia. em função da impossibilidade numérica de formar duas equipes contando-se apenas com os “ingleses”. Além disso. os imigrantes. Os considerados craques. foi fundado na cidade de Governador Valadares. Este clube marcou o início do processo que poderíamos chamar de “democratização do futebol no país”. A citação a seguir é elucidativa nesse sentido. Em meio a esses novos significados a ele atribuídos. 2006). inclusive no político. os comerciantes. O que se viu a partir do ingresso de vários operários da própria empresa. (SILVAb. Ele era. eram nitidamente protegidos pela diretoria. A equipe acabou sendo mais conhecida do que a própria empresa.TERRITÓRIO.pelas elites. entre outras coisas. A partir desse instante. um veículo de divulgação da própria empresa. Criado em 1904. gradativamente o clube se viu obrigado a incorporar atletas de outras origens étnicas e sociais. todos fizeram parte da trajetória do futebol. houve a “necessidade” de se permitir a participação de operários de precárias condições sócio-econômicas. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . o que levou ao processo de exploração e de (re) significação do futebol em vários níveis. padres educadores dos considerados melhores colégios.

Sobre essa questão vale apontar o que disse o autor: (. vieram transcender os limites das praças esportivas. inicialmente o time se chamou São Domingos da Figueira. gírias que. a popularização da prática futebolística acompanhou o crescimento das cidades e foram várias as vias de apropriação desse esporte. a cidade que abriga o Esporte Clube Democrata foi emancipada. Jornal Diário do Rio Doce.4 Tal como ocorreu em Governador Valadares. nos meios de comunicação (como rádios e alguns periódicos).161 . os quais não hesitaram em disto buscar tirar proveito.administrativa da cidade em questão. Certamente o grande contingente populacional oriundo das áreas rurais e de outros países. Segundo nos informa o jornal. enriquecendo uma linguagem popular e urbana. como se sabe. é perceptível uma orientação político ideológica do governo federal quanto à exploração. De acordo com Toledo. Nesse sentido. 1996:15). aproximando segmentos sociais até então separados por uma segregação espacial e étnica. casas e ruas. A então Figueira do Rio Doce era ainda distrito da cidade de Peçanha. O primeiro campeonato mundial de futebol foi realizado em 1930 no Uruguai e a atuação da equipe brasileira não foi das melho4 Cf.) As construções dos estádios e praças esportivas estiveram em consonância com o crescimento da popularização do futebol. Nesse sentido. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . (TOLEDOa.. TERRITÓRIO. Simbolicamente o futebol contaminou o imaginário urbano. pelas transmissões radiofônicas. sobretudo a partir da década de 1930. recriando comportamentos. A idéia de que o futebol fazia parte dos hábitos de uma significativa parcela da sociedade foi constatada por representantes do poder público. a incorporação da prática futebolística foi perceptível nas cidades das diferentes regiões do país. 1312-1992. Edição Comemorativa dos 60 anos do Esporte Clube Democrata. mas também por meio das conversas sobre os resultados dos jogos em bares. foi atraído por esse esporte devido às razões que não se referiam exclusivamente à busca de um físico saudável. pela utilização de gírias do futebol em situações vividas fora dos campos. tal apropriação não se dava somente participando ou assistindo as partidas. Somente em 1932. mas também a partir da perspectiva de encontrar nos jogos de futebol momentos de sociabilidade. da idéia de concepção do futebol como um símbolo do sentimento de identificação nacional. inaugurando linguagens..

três atletas se destacaram pelo seu refinado jeito de jogar: Fausto. Um dos motivos está relacionado às divergências envolvendo à APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos). Desta forma. no ano de 1936. ao mesmo tempo em que divulgaria o nome do país. a Confederação Brasileira de Desportos – então CBD . O bom desempenho desses jogadores contribuiu para que houvesse ainda mais um maior interesse do governo pelo esporte. Domingos da Guia e Leônidas da Silva. Além disso. com a finalidade de explorar seu eventual êxito para legitimar ideais de patriotismo e civismo.TERRITÓRIO. o cenário mundial foi marcado pela emergência de regimes totalitários. nos jogos do 162 .chamava a atenção para a idéia de que não deveria mais haver divergências entre as associações APEA e AMEA. durante o regime autoritário de 1937 a 1945. A aproximação entre questões políticas e o futebol também pôde ser verificada na Alemanha por ocasião dos jogos olímpicos realizados em Berlim.res. A Itália é um exemplo de país que explorou a vitória nos campeonatos mundiais de 1934 e 1938. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Na perspectiva do poder público. Certamente o primeiro aspecto que evidencia o interesse do governo federal na prática futebolística caracterizou-se pelo seu empenho em tornar o esporte profissional. como uma forma de enaltecer o seu regime político. nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. Nesse sentido. de alguma maneira pode ter sido influenciada pelo que estava acontecendo naqueles países da Europa. localizadas. o que motivou a sua profissionalização. a aproximação entre poder público e futebol no Brasil. os jogos da Copa do Mundo poderiam trazer um reconhecimento mundial dos atletas brasileiros. Na década de 1930. a vitória no mais importante evento futebolístico do mundo tinha como premissa a divulgação do país que estava sob o governo de Getúlio Vargas. Nessa perspectiva. Este cenário contribuiu para que representantes do governo federal passassem a se interessar diretamente pelo sucesso da seleção brasileira de futebol. O objetivo do governo era fazer com que essas associações disponibilizassem seus melhores atletas para os campeonatos mundiais a fim de que aumentassem as possibilidades de êxito da equipe brasileira. respectivamente. e a AMEA (Associação Metropolitana de Esportes Atléticos). Embora a equipe brasileira não tenha apresentado uma boa performance.

Para tanto. Vários periódicos enalteceram a disposição e o “espírito guerreiro” dos atletas brasileiros. e que tinham como objetivo principal a conquista de um título internacional. e que eram subordinados ao Departamento de Imprensa e Propaganda . independentemente do futebol. no que tange à prática de atividades físicas. Nos anos compreendidos entre 1937 a 1945 (período denominado Estado Novo) o governo de Getúlio Vargas difundiu a idéia de construção do “Homem Novo”. Mas não somente jogadores foram “convocados” a defenderem a “pátria”. TERRITÓRIO. resultaria na idéia de também torcer pelo Brasil enquanto nação. e envolto num espírito de nacionalismo via imprensa. serviu como um caminho para que incutisse também na sociedade o sentimento de pertencimento à nação..também tiveram um papel fundamental para a divulgação do “sentimento nacional”.DIP (órgão de comunicação vinculado aos interesses do governo federal) . embora não tivessem vencido a partida final contra a Argentina.) Terminado o torneio sul-americano de 1937. na Copa do Mundo de 1938 permaneceu a estratégia dos veículos de comunicação em “convocar as pessoas”. sobretudo nos jogos dos campeonatos mundiais. ao sentimento patriótico. Houve uma grande “festa cívica” na chegada dos atletas ao Rio de Janeiro: eles foram recepcionados como heróis da nação. fossem elas adeptas ou não ao futebol. os jogadores foram recebidos na capital da República como “soldados da pátria”. a torcida também assim deveria se comportar. Supomos que esse aspecto contribuiu para incutir na sociedade a compreensão de que o fato de se envolver nos jogos da seleção brasileira. as publicações de cronistas esportivos davam conta de que o Brasil seria campeão. Tal como ocorreu nos jogos sul-americanos realizados em 1937. O incentivo das autoridades políticas. (.campeonato sul-americano em 1937. 2006). Dentre as perspectivas da construção deste “homem” que o Estado desejava criar. Na perspectiva de cronistas esportivos.. a torcerem pela seleção brasileira. a fim de que os atletas se “entregassem” em campo por “amor ao Brasil”. à disciplina. residiam as que diziam respeito ao civismo. (SILVAc. evento no qual são reunidos países de diferentes continentes. Antecedendo ao jogo final.163 . a idéia de “civismo” foi amplamente difundida. e ao bom preparo físico. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . cronistas esportivos por meio de veículos de comunicação.

sejam por parte de órgãos da imprensa. na qual a prática futebolística obteve maior destaque. o controle dos hábitos e comportamentos dos emprega164 . SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . viabilizando dessa forma. seja por parte de representantes do poder público. Além disso. (SILVAa. Ao lado da empresa foi construída uma vila operária . As vilas operárias desempenharam um papel fundamental na popularização da prática do futebol. Na década de 1940. Nesse sentido. a cidade Governador Valadares presenciou a construção de uma vila operária. o que motivou novos significados atribuídos ao futebol na cidade de Governador Valadares. o número de adeptos desse esporte aumentou significativamente. Desta forma. a década de 1940 foi marcada por um fenômeno que contribuiu para a constatação do empenho do governo federal no que diz respeito às atividades esportivas. respectivamente. principalmente o futebol. de pedras preciosas e de madeira. 1997).TERRITÓRIO. e constituiu-se como uma das mais modernas fábricas de compensado do Estado de Minas Gerais. comparecendo em massa aos centros esportivos espalhados pelo país.tal como ocorreu com empresas de outras regiões do país – que tinham também por objetivo estabelecer um controle social dos funcionários. no interior da vila existia uma estrutura que tinha como pressuposto fazer com que os moradores permanecessem no ambiente da empresa. homens. erguidos. nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. a pecuária também tinha significativa participação na economia local. As medidas de incentivo à prática do futebol. Trata-se do fato de que foi nesse período que ocorreu a construção de grandes centros esportivos como o Pacaembu e o Maracanã. por parte de empresários dos mais diferentes segmentos. seja.Desde a implantação do futebol no Brasil. Nesse período. o que aqui nos interessar destacar. enfim. tiveram repercussão também no interior do país. mulheres e crianças das mais diferentes origens étnicas e sociais demonstravam seu apreço pela prática futebolística. A Companhia Agropastoril Rio Doce iniciou suas atividades no ano de 1943. e contando com financiamento de dinheiro público para ambas as construções. giravam em torno da extração e comercialização da mica. Em meio a essas circunstâncias. as atividades econômicas presentes na urbe em questão. se comparada às demais atividades de lazer.

cuja estrutura assemelhava-se à de time profissional. 1997:19). (SILVAc. dos equipamentos de lazer existentes. 1997). da igreja. Entendemos que a atividade futebolística também atraiu a atenção dos dirigentes da Companhia Agropastoril Rio Doce. já que contava com atletas de reconhecida habilidade técnica. Clube de Regatas Vasco da Gama.dos com vistas a garantir uma boa produtividade. (SILVAb. escolas. horário de silêncio. além de armazéns. etc. sendo os costumes policiados para um bom desempenho e produtividade no trabalho. A vida operária era controlada também nas vilas operárias através da creche. de tal forma que resultou na criação do CAP. os investimentos se destinavam na maioria das vezes. o futebol). Dentre eles. horário para dormir. O campo da serraria era bastante frequentado pelas pessoas da cidade e também de outras regiões. o campo localizava-se nas proximidades da serraria e possuía uma estrutura que o capacitava para receber alguns dos considerados “grandes clubes nacionais”. Construído na década de 1940. (DECCA. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . espaços para a prática de esportes (em especial. Existia também cinema.Clube Atlético Pastoril. entendemos que o interesse dos dirigentes da empresa pela prática futebolística também se deve ao fato do CAP contribuir para uma maior divulgação da comTERRITÓRIO. para a construção de campos de futebol. De acordo com Chaves da Silva “ O time era famoso em toda região e em dias de jogos chegava a atrair pessoas até da Bahia”. em Governador Valadares o futebol também esteve associado aos mecanismos de controle social. Quanto às formas de lazer. Tal como ocorreu em outras cidades do país. Desta forma. Clube Atlético Mineiro e Cruzeiro Esporte Clube. Clube de Regatas Flamengo. da escola. área de lazer para as crianças e templos religiosos. e recebendo alguns benefícios econômicos.165 . Havia normas para movimentação de pessoas. 1991:51) Na vila construída ao redor da empresa Agropastoril Rio Doce havia mercados onde podiam ser encontrados produtos de higiene pessoal e para o vestuário. havia também regulamentos para controle da vila proletária fora dos muros das fábricas. clube social. Sobre esse aspecto vale ressaltar o que disse De Decca: Quando as fábricas ou empresas dispunham de vilas operárias ou casas para moradia dos trabalhadores em suas cercanias. com horários fixos de entrada e saída. podemos mencionar o São Paulo Futebol Clube.

5 Certamente os benefícios da prática futebolística também eram sentidos por parte dos operários. Um importante adversário do CAP era o Esporte Clube Democrata. nos quais o resultado é sempre imprevisível. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . o sucesso do time nas partidas poderia fazer com que o operário/atleta sentisse orgulho de pertencer à empresa. a expectativa era de que seria um grande jogo. Em nível internacional. da cidade do Rio de Janeiro. Muitas vezes. Entretanto. o futebol já fazia parte do cotidiano da maior parte da população não apenas de Governador Valadares. (SILVAd. como. a partir dos bons resultados do time de futebol residia a justificativa de que a fábrica teria ficado mais conhecida justamente em função do time do futebol. O fato é que o CAP atraiu a atenção das pessoas não somente pela fama de seus adversários. mas também de outras cidades do Brasil. Dentre os títulos conquistados. (ANTUNESb. Guardadas as devidas 5 Este aspecto pode ser verificado em vários clubes espalhados pelo país como o “The Bangu Athletic Clube”. fazer parte do time de futebol da empresa era uma maneira de ficar distante do mundo do trabalho.TERRITÓRIO. o que conferia a este esporte um importante instrumento de propaganda da própria fábrica. Como é possível constatar nos depoimentos a seguir. podemos dar o exemplo dos confrontos entre a seleção brasileira de futebol e a seleção argentina de futebol. Desta forma. fato que contribuiria para uma melhor produtividade da mesma. Além disso. Para o operário. mas também pelo seu bom desempenho em campeonatos regionais. não podemos deixar de ressaltar que para além desse fato. além de contar com presença de muitos torcedores e com bastante equilíbrio no histórico dos confrontos. Nos jogos em que esses dois clubes se enfrentavam. quando o CAP ia disputar uma partida com algum clube de reconhecimento nacional. 1997). por exemplo. diz respeito aos jogos entre duas equipes. 1992) A expressão “clássicos no futebol”. De acordo com Chaves da Silva. 6 166 . a modernização das cidades impunha um novo ritmo para as relações de trabalho.panhia. com a torcida comparecendo em massa. mas principalmente da cidade. vinham pessoas de outras regiões. a Companhia divulgava o jogo distribuindo panfletos pelos locais em que fazia entrega de compensado. os jogos entre Pastoril X Democrata eram considerados “clássicos”6. o Clube Atlético Mineiro ou o Cruzeiro Esporte Clube. podemos citar o de campeão amador nos anos de 1955 e 1956. A repressão e outros mecanismos de controle social eram uma constante no relacionamento entre patrão e empregado. Como já mencionamos. O Clube Atlético Pastoril mobilizava um significativo número de pessoas para assistirem às partidas.

TERRITÓRIO. e também o Internacional e Grêmio (. Seria muito bom pra cidade.8 O Sr. E até hoje [ em 2008] existem ex-pastorilenses que choram quando lembram do CAP Seria muito bom para o Democra.... configurou-se também como um instrumento de sociabilidade de significativa importância. da mesma forma que tem o Atlético e Cruzeiro. (. Seria melhor e a torcida iria dobrar em campo. atuou por essa agremiação esportiva nos anos de 1956 a 1964. o músico e autor do Hino do Democrata Rosenberg Petersen afirma que: O Pastoril é um time que até hoje tem uma enorme torcida aqui em Governador Valadares. e o Democrata era a pantera. Luiz Alberto Coelho Teixeira. colhido 15/08/2007. A população considerava os jogos do Pastoril X Democrata um clássico. 7 8 9 Depoimento do radialista Sr. O CAP encerrou suas atividades no início da década de 1970. Nos jogos Pastoril X Democrata era um clássico como Cruzeiro X Atlético. e ainda neste início do século XXI..proporções era como assistir a uma partida entre Atlético e Cruzeiro. principalmente na época de um clássico.. ta se o Pastoril fosse reativado.) Se Governador Valadares conseguisse que o Pastoril voltasse. ex-atleta de futebol do Esporte Clube Democrata. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . (. Jorge Carvalho. Existia muita rivalidade. é mais lembrado do que a própria empresa à qual pertencia.167 .7 Sobre essa rivalidade entre Democrata e Pastoril. tal como ocorreu em outras situações que envolviam a relação entre cidades/clubes/empresas do país.) é bom ter rivalidade.) A história que eu sei é que o Pastoril era muito querido. Depoimento do Sr. colhido no dia 10/12/2007. Rosenberg Petersen colhido em 14/08/2007. isso aqui seria “um trem de doido”.9 Entendemos que o Clube Atlético Pastoril. E a torcida era empolgada mesmo”. em um ano o Democrata era campeão e no outro ano era o Pastoril. Depoimento do Sr. Jorge Carvalho (ex atleta do Esporte Clube Democrata).. De acordo com o radialista Luiz Alberto Coelho Teixeira: As cores do Pastoril era verde e branca e o símbolo era o leão... (. Isto porque toda cidade tem que ter no mínimo um time para fazer rivalidade. Carvalho afirma que nesse período o clube ainda não tinha as arquibancadas – que foram construídas entre 1962 e 1963 – e que “o campo não comportava o número de torcedores. O músico nos informa que o Hino do Democrata foi escrito no ano de 1978 e gravado em 1980. inicialmente partícipe de um sistema de controle social no que diz respeito à vila operária. e pra cidade seria melhor fazer voltar o Pastoril.) Então era assim.

concorreram para uma maior influência e presença dessa atividade esportiva no cotidiano da cidade. e a rivalidade deste clube com o Esporte Clube Democrata. O ano de 1950 foi caracterizado pela chegada das imagens televisivas no país. atingiram maiores dimensões justamente na década de 1950. De fato. Além de jornais e revistas que abordavam assuntos relacionados também aos esportes.TERRITÓRIO.conforme nos informam alguns dos entrevistados que contribuíram para nossa pesquisa. O projeto de construção da nacionalidade. destinava-se um espaço cada vez maior às notícias relacionadas ao esporte. Na medida em que os anos avançavam. a década de 1950 significou um dos marcos mais importantes da trajetória do futebol brasileiro (SILVAd. é que no ano de 1950. iniciados na década de 1930. o futebol praticado pelo CAP dentro da vila operária. Esta condição foi sendo gradativamente ampliada. e empreendido pelo governo federal (que teve início na década de 1930). na Suécia. período em que a idéia de civismo atingia proporções ainda mais amplas no Brasil. incluindo-se aí a conquista do primeiro campeonato mundial de futebol em 1958. contava com programas de rádios. 168 . sede do Campeonato Mundial de Futebol. O futebol foi efetivamente compreendido como uma manifestação popular. o que também lhe conferia um significado de nacionalidade. Com a ampliação de recursos para a divulgação da prática futebolística. publicação de jornais e revistas para esta construção. Eles passaram a dedicar gradativamente um espaço mais amplo para notícias referentes ao futebol. o Brasil foi pela primeira vez. cuja preocupação restringia-se exclusivamente à prática esportiva. explorando também o futebol. foram criados vários periódicos. e é algo que está ligado ao interesse dos meios de comunicação. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . tornando-se mais consistente com o advento da televisão. bem como pela difusão dos diferentes meios de comunicação de massa. Um aspecto relevante e associado a esta questão. Ele simbolizava a fusão entre elas. Em Governador Valadares. Os debates relacionados aos símbolos de unidade nacional. Nos centros urbanos em crescimento nas diversas regiões do país. sobretudo durante a realização da Copa do Mundo no país. o fenômeno da massificação do futebol se manifestou. 2006). esse esporte atingia maiores proporções levando-o à sua condição de manifestação da cultura popular urbana. e que fazia parte dos hábitos de diferentes camadas sociais.

Democrata 8 X América de Caratinga 1. Nas décadas de 1940 a 1960. o Democrata perdeu de 1 a 0. 12-02-1992.. onde permanece até o início deste século. Democrata 5 X Comercial de Aimorés 2. por exemplo.5. o Esporte Clube Democrata disputou campeonatos amadores confrontando-se com clubes de Minas Gerais. p. O time do Olé foi denominado com esse apelido porque vencia fácil seus adversários e depois dos 30 minutos do segundo tempo dava um verdadeiro Olé nos seus adversários. De 1932 a 1940 o campo localizava-se na Rua São Paulo. depois passou para a Praça João Paulo Pinheiro (nas proximidades da Estação Ferroviária) e no ano de 1949 foi transferido para a Rua Osvaldo Cruz. que fora neste ano campeão da Taça Brasil. Jornal Diário do Rio Doce. Esses dois clubes tiveram um papel fundamental para que houvesse a incorporação da prática futebolística ao cotidiano da cidade. Democrata 3 X Atlético Mineiro 1. da Bahia e do Espírito Santo. O famoso time do Olé conseguiu estes principais resultados: Democrata 4 X Americano de Campos 1.Tal como ocorreu nas diversas cidades do país. Democrata 3 X Democrata de Sete Lagoas 1. era conhecido apenas como “o campo do democrata”. A boa performance nesses jogos fez com que o clube recebesse denominações como “Expresso do Vale” e “Time do Olé”.)10 Até o ano de 1963 o espaço no qual o Esporte Clube Democrata treinava e fazia seus jogos em Governador Valadares. Democrata 3 X Democrata de Sete Lagoas 2. chegando a ficar 22 jogos invictos perdendo a invencibilidade para o Bahia . Além disso. em Governador Valadares a imprensa escrita também cobria as notícias relacionadas ao futebol. as colunas esportivas divulgavam notas sobre o Pastoril e o Democrata.(.. como. conferindo-lhes a importância que ambos ocupavam no imaginário futebolístico da cidade. A partir de 1958. e dos demais clubes de reconhecimento nacional. ano em que foi fundado o Diário do Rio Doce. A mudança do campo para a Rua Osvaldo Cruz ocorreu 10 Cf.169 . havia um espaço destinado às atuações do Clube Atlético Pastoril e do Esporte Clube Democrata. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . 1962 e 1963 o Time do Olé e o grande ataque atômico Este time conseguiu grandes vitórias. Democrata 8 X América de Teófilo Otoni 2 . TERRITÓRIO. Edição Comemorativa dos 60 anos do Esporte Clube Democrata. o desempenho da seleção brasileira.

Em 1981 .Democrata 1 X Atlético 0. aqui em Valadares. o Democrata conquistou o título de campeão da Taça Minas Gerais. Edição Comemorativa dos 60 anos do Esporte Clube Democrata. Em 1977 o Estádio passou a se chamar José Mamoud Abbas. o Democrata venceu o Cruzeiro. Não tinha essa arquibancada e não tinha nada. bem como deu início à construção das arquibancadas de concreto. Rosenberg Petersen colhido em 14/08/2007. então Governador do Estado de Minas Gerais. No campeonato mineiro de 1984. 170 .No Mineirão. em homenagem ao ex-presidente que ocupava tal cargo no momento da inauguração do Estádio. 13-02-95. Então no local era apenas o campo. o presidente do clube substituiu toda a iluminação do estádio. Em 1963 houve a inauguração do Estádio do Democrata. 13-12-1992. No decorrer dessa década conseguiu significativas vitórias contra o Clube Atlético Mineiro e o Cruzeiro Esporte Clube. Em 1994 Democrata 1 X Atlético 0. recebendo o nome de “José de Magalhães Pinto”. e então foi feita uma substituição pela área localizada na Rua Osvaldo Cruz. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .”11 Nesse último local em que foi instalado o agora estádio do Democrata. 13 Cf. Jorge Carvalho colhido em 15/08/2007.13 Em 1981. “a Prefeitura precisou do terreno localizado na Praça João Paulo Pinheiro.devido a uma permuta feita com a Prefeitura Municipal de Governador Valadares. 14 Cf. De acordo com Carvalho.14 11 Depoimento do Sr. que o assumiu no ano de 1960. de 3 a 0 com gols de Paulo Roberto (2) e Jairo no dia 8 de julho de 1984. Edição Comemorativa dos 60 anos do Esporte Clube Democrata. Sobre esse aspecto vale ressaltar o que disse Petersen: O campo do Democrata era rodeado apenas por eucalipto. José Mamoud Abbas. P-6. Eu vivia ali. em BH. Jornal Diário do Rio Doce. as pessoas já praticavam esportes (principalmente o futebol). principais agremiações de futebol de Minas Gerais. Jornal Diário do Rio Doce. pela 6a rodada do 1o turno. 12 Depoimento do Sr.TERRITÓRIO. uma parte de Valadares onde já se praticava esportes brincando. antes mesmo de participar daquelas escolinhas[ de futebol].12 No ano de 1964 ocorreu a estréia do Esporte Clube Democrata como time profissional no campeonato mineiro. O clube estava sob a presidência do Sr. antes mesmo de serem construídas as arquibancadas. Nesse período.

16 Depoimento do Sr.p-3. afirma que a força da torcida era tão grande que “quando o clube jogava em casa. dentre outras. 13-02-95. “Por volta da metade da década de 70 as Torcidas Organizadas já assumiam um papel de pressão política diante dos times”. Panter Gole. Rosenberg Petersen colhido em 14/08/2007. com seus “gritos de guerra”. e as batucadas. GV Panter. é conquista.171 . Foram várias as torcidas criadas como a Pantera Cor de Raça (essa é a única torcida que tem sede. o que ela quer é vitória.16 Nessa perspectiva. e que torna legítima a sua influência no cotidiano da cidade de Governador Valadares. diz respeito ao fato de que este clube possui uma das torcidas mais vibrantes e empolgantes do interior mineiro.O fenômeno de formação das Torcidas Organizadas. Edição Comemorativa dos 60 anos do Esporte Clube democrata. da mesma forma que a torcida empolga o time. Almyr Vargas. uma característica importante do Esporte Clube Democrata. O ex-atleta Darcy Menezes. A torcida quer o ego dela sem15 Cf. já se notava um grande interesse de torcedores pelos jogos do Democrata. que disputou alguns campeonatos jogando pelo Democrata na década de 1980. os cantos. o Sr.15 A partir da profissionalização oficial do futebol (na década de 1930). Jornal Diário do Rio Doce. 1996:27) Antes mesmo de ser formada a primeira torcida organizada. ocorre uma mudança na postura dos torcedores que passaram a “exigir” melhores resultados dos seus clubes. dificilmente perdia o jogo”. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .17 No entanto. TERRITÓRIO. Pandemônio. ela também “exige” bons resultados nas partidas. Darcy Menezes colhido em 11/12/2007. Sobre esse aspecto. De acordo com Rosenberg Petersen. o que ocorreu foi que na medida em que os anos avançavam a torcida aumentava cada vez mais em quantidade de pessoas”. 17 Depoimento do Sr. o que pode inclusive interferir nos seus resultados. ocorrido especialmente nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo no limiar da década de 1970. a qual está localizada nas dependências do próprio estádio do Esporte Clube Democrata). Panterões da Fiel. De acordo com Toledo. (TOEDOb. “a paixão dos torcedores pelo clube foi sempre com a mesma intensidade. também pôde ser constatado em Governador Valadares na década seguinte. O desempenho da torcida em dias de jogos. ex-presidente do Esporte Clube Democrata ressalta que: A torcida do Democrata não é diferente de nenhuma torcida. é considerado como “um espetáculo à parte” durante as partidas.

E aqui em Governador Valadares e região. ela também faz um papel de como se estivesse indo também pro buraco. colhido em 11/12/2007.18 Além das questões de cunho político e social que estiveram intrínsecas na trajetória da prática futebolística no Brasil (inclusive considerando-se o momento de sua implantação até os períodos mais recentes). principalmente sobre a época do Cruzeiro (.. e então isso pra mim é muito gratificante. Almyr Vargas colhido no dia 11/12/2007. e joguei também no Democrata que é um time que dá para você aparecer. Além disso. a torcida do Democrata é altamente positiva quando ela está na posição de apoio ao Democrata. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Neste sentido.pre satisfeito. 172 .TERRITÓRIO. que jogou pelo Cruzeiro Esporte Clube na década de 1970. sempre participou ativamente. Supomos que este fenômeno exerceu um papel fundamental na divulgação do futebol em diferentes regiões do país. Nesse caso ela reage. muitas vezes. e já com 58 anos. sempre num crescente.. briga e agride. você continua mantendo a aparência na mídia. A torcida sempre deu prazer ao Democrata. E eu acho muito gratificante porque o pessoal sempre vem me perguntar. E isso acontece com qualquer torcida.)19 Quanto à perspectiva de se obter uma ascensão social e reconhecimento popular por meio do futebol. quando eu chego em qualquer lugar eu sou bem vindo e tenho as portas abertas. no início do século XX. 19 Depoimento do Sr. Dependendo daquilo que você mostra jogando. vários atletas buscavam/buscam no futebol profissional uma perspectiva de ascensão econômica/social. ela sempre nos ajudou. A atividade futebolística no interior das vilas operárias. e então eu tive isso. Darcy Menezes. ser um jogador de futebol passa. não tem nenhuma que é pior ou melhor. afirma que: Eu joguei no Cruzeiro que é um grande clube. e nunca nos deu trabalho. Agora é bom que se diga. motivando a própria profissionalização oficial do esporte. Se o ego dela vai para o buraco. a questão econômica também deve ser ressaltada. Darcy Menezes. e pelo Esporte Clube Democrata no início da década de 1980. Então eu me orgulho porque mesmo depois de ter parado. o ex-atleta Gilmar Estevão afirma que: 18 Depoimento do Sr. a idéia de poder proporcionar uma maior visibilidade ao atleta em diferentes círculos sociais. possibilitou a inserção de atletas de origem humilde em vários times. qualquer lugar que eu passo sempre tem alguém que me conhece e me cumprimenta.

Para além dessa questão. (. e. Estevão teve a oportunidade de ir para o Cruzeiro Esporte Clube. Disputou o Campeonato Brasileiro de Futebol... o Esporte Clube Democrata conquistou o título de vice-campeão mineiro. E também socialmente foi muito bom. (. o artilheiro do campeonato mineiro foi Gilmar Estevão. ele nos diz que A minha relação com o Democrata é muito forte e vai continuar sempre assim. Porque eu não consegui me formar e ainda faltava um ano para eu terminar o 2o grau ainda. foi bom demais. (. Sr. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Então quando eu tive a oportunidade de ser um jogador profissional..) Apesar de não ter passado nenhuma dificuldade em termos de alimentação.173 .. o que possibilitou a classificação do clube para a Copa do Brasil no ano seguinte. Além disso. colhido em 27/08/2007. posteriormente. Eu tinha ídolos e sempre fui torcedor do Clube Atlético Mineiro. eu percebi que por esse caminho eu podia conseguir uma vida melhor pra mim e pra minha família.. a Taça Libertadores da América. e até mesmo em termos de bens materiais.)20 No ano de 1991.. sempre pensando em conseguir ser um jogador.. Então isso veio desde cedo. Sobre a sua relação com o Democrata. o ex-presidente do clube.(. e que tenha um pouquinho de visão . nos anos de 1989.Desde criança eu já pensava em ser um jogador de futebol. colhido em 27/08/2007. eu vim de uma família muito humilde lá de Belo Horizonte.) Todo e qualquer governante que se preze.(. porque esse clube abriu as portas pra mim.. deve ter em mente que uma das primeiras coisas 20 Depoimento do Sr. foi jogar na Arábia Saudita e em Portugal. 21 Depoimento do Sr. Almyr Vargas. Me ajudou na vida profissional e também social. (... 1990 e 1991. depois para o São Paulo Futebol Clube.) 21 Certamente o título de vice-campeão mineiro de futebol conquistado pelo Democrata trouxe uma maior visibilidade para a cidade de Governador Valadares e região. TERRITÓRIO.. afirma que a influência da agremiação esportiva no cotidiano da cidade contribui para uma melhoria na sociabilidade dos habitantes. Após atuar na agremiação esportiva de Governador Valadares. Gilmar Estevão.) E não dava pra conciliar o futebol com os estudos..) Porque com a minha trajetória aqui eu consegui vôos maiores(..) Então quando eu vi essa oportunidade única de conseguir alguma coisa na minha vida. que jogava pela equipe do Democrata. Gilmar Estevão..

Então o esporte envolve essa parte da segurança e do bem estar da família. razão pela qual se verifica uma evidente identificação entre o clube e a cidade. o esporte e a cultura. é o futebol.) Em qualquer modalidade a pessoa 22 Depoimento do Sr.. quando o Democrata jogava na cidade. se o cidadão não tem o que fazer. Nós pedimos ao delegado de polícia que fizesse uma pesquisa sobre a violência na cidade. um papel social. Na época em que o Democrata foi vice-campeão mineiro. e isso é um dado muito importante. como também em vários outros lugares. em todos os lugares que chegávamos. futuramente.. Eu acho o democrata importantíssimo porque ele é um digno representante da cidade. O clube tem uma categoria de base que serve de exemplo para que os meninos. E se tiver um esporte para ele passar o tempo dele.. de um país. Para o ex-atleta.. com propriedade. e. com isso. possam seguir a carreira profissional. as drogas e o fumo. o Democrata é conhecido como um time de futebol. Principalmente no nosso país. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . colhido em 28/11/2007. de uma cidade. (. evitar as ruas. o futebol cumpre. ao mesmo tempo em que o clube faz um elo entre a sociedade. uma das muitas interpretações que poderia ser conferida ao Esporte Clube Democrata e sua relação com a cidade de Governador Valadares. que deixa muito a desejar em termos de educação. sempre paravam a gente para perguntar sobre o Democrata. A afirmativa do ex-atleta (e bastante reconhecido no universo do futebol) Darcy Menezes. optou por construir sua vida na cidade. ele vai sair com um instinto bestial. (.. Segundo ele. inclusive. Supomos não ser um exagero ou uma precipitação sugerir que esta agremiação configura-se como um dos mais marcantes instrumentos de divulgação da cidade. O próprio Darcy Menezes.) Então é o veículo de publicidade mais barato e que mais dá prazer. E o resultado foi que . que é a farra.. um time formador de craques e de homens.TERRITÓRIO. o índice de criminalidade e de bagunça diminuía. Na cidade de Governador Valadares e região. eu e amigos particulares.)22 A importância e a influência do Esporte Clube Democrata para a cidade de Governador Valadares nos parece ser algo inequívoco. que é a agressão. Almyr Vargas. (. 174 . A coisa mais barata que existe para a comoção de uma comunidade. ilustra.a se investir é no esporte. ele se considera também no direito de assistir o futebol e participar dele. E nós temos um outro dado muito importante. oriundo do interior do Rio Grande do Sul.

Depoimentos orais 1 . ex-atleta de vários clubes profissionais de futebol. Presidente do Esporte Clube Democrata entre os anos de 1980 e 1991. o de manifestação da cultura urbana local e regional.Sr.175 . 23 Depoimento do Sr. ex-atleta de vários clubes profissionais de futebol. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . houve a difusão da prática de esportes como um dos símbolos da urbanização. ele torna-se um grande homem. Fundado em 1932. A influência dessa agremiação esportiva no cotidiano da cidade é algo inequívoco. Então se não se tornar um grande atleta. não vai para o fumo e não vai para a noite. Então o atleta que consegue essa conscientização. Se ele quiser ser um vencedor. ele tem que ser 100% atleta. não vai para as drogas. A inserção do futebol no cotidiano de significativa parcela da população circunscrita aos grandes centros urbanos como as cidades do Rio de Janeiro e/ou São Paulo. Darcy Menezes. mas também às cidades do interior do Brasil.tem que ser 100% atleta. de maneira relativamente súbita. o futebol configurou-se como esporte inicialmente praticado preponderantemente pelas camadas sociais mais abastadas. Darcy Menezes colhido em 11/12/2007. Gilmar Estevão. Concomitantemente a estes dois fenômenos. o Esporte Clube Democrata iniciou sua trajetória antes da própria emancipação político-administrativa da cidade de Governador Valadares. a prática futebolística do início do século XX. a saber. porém transformou-se. Almyr Vargas. A partir daí. numa manifestação também de grande alcance popular. o que nos leva ao entendimento de que o Esporte Clube Democrata ocupa um dos espaços dentre os símbolos da identificação de Governador Valadares. concorreu para que o esporte adquirisse um novo significado. o processo de construção e reformas dos grandes centros urbanos esteve associado à idéia de modernização do país.Sr. dentre eles o Cruzeiro Esporte Clube e o Esporte Clube Democrata 3 . 2 .Sr. 23 Conforme exposto ao longo deste texto. dentre eles o São Paulo Futebol Clube e o Esporte Clube Democrata. Neste cenário. TERRITÓRIO. passou a movimentar e atrair diferentes segmentos e camadas sociais.

5 . CALDAS. escrito em 1978.Edição Comemorativa dos 60 anos do Esporte Clube Democrata. um dos profissionais da impressa de Governador Valadares que mais acompanhou a trajetória do Esporte Clube Democrata 6. Luiz Alberto Coelho Teixeira. Benedict. autor do Hino do Esporte Clube Democrata. Cidadania no Brasil: o longo caminho. CARVALHO. Instituições pesquisadas 1 . São Paulo: Cia. Maria Helena Rolim.Hemeroteca do Núcleo de Estudos Históricos e Territoriais – NEHT/ Curso de História da Universidade Vale do Rio Doce – UNIVALE. ex-atleta do Esporte Clube Democrata. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – USP 1992.Jornal Diário do Rio Doce. Waldenyr. A evolução dos esportes no Brasil (1822-1922). 1990.4 . ANTUNES. São Paulo: Melhoranebtos. AZEVEDO. Campinas: Papirus. 2 . 2 . Rosenberg Petersen. José Murilo de. atuando entre os anos de 1956 e 1964. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi.Sr. e gravado em 1980. Futebol de fábrica em São Paulo.Sr. 2001. O pontapé inicial: memória do futebol brasileiro (1894-1933). Fernando de. 1989. . Fontes impressas 1 . SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Jorge de Carvalho. 1958 a 2006. Rio de Janeiro: Ática. CARVALHO. 1998. Nação e consciência nacional.Arquivo Público Mineiro. 1953. Multidões em cena: propaganda política no varguismo e no peronismo. CAPELATO. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. das Letras. José Murilo de. 1987. São Paulo: Ibrasa. Referências bibliográficas ANDERSON. Ferreira. Belo Horizonte/MG.Sr. 12/02/1992. Fátima Martin R.TERRITÓRIO. 176 .

Luiz Henrique de. Ação da indústria da madeira em Governador Valadares: o caso da companhia agropastoril rio doce. São Paulo: Musa. Governador Valadares: Ed. 1996. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. José Geraldo da Vinci de. TERRITÓRIO. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. Eliazar João da. Luiz César Saraiva. das Letras. São Paulo: Perspectiva. HELAL. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. São Paulo: Cia. O negro no futebol brasileiro. 1981. Cidade e cultura urbana na Primeira República. Petrópolis: Vozes. 1995. Eduardo. Torcida organizada de futebol. NEEDELL Jefrey. 1994. Márcia Regina da (org. 1991. Campinas: Anpocs. Monografia (Graduação em Ciências Sociais) – Universidade Vale do Rio Doce. VERDÚ. Porto Alegre: L & PM. Edileuza. São Paulo: Atual. Maria Auxiliadora Guzzo. 1993. Norbert. ritos y símbolos. DE DECCA. Futebol ao sol e a sombra. Eric. Johan. Univale. TOLEDO. Passes e impasses: futebol e cultura de massas no Brasil. trabalho e cotidiano: Brasil – 1889 a 1930. Vicente. FEIJÓ. GOMES. El fútbol: mitos. SILVA. FILHO. ELIAS. São Paulo: Summus. 1980. MORAES. HUIZINGA.177 . 1999. Indústria. DUNNING. SILVA. Ângela de Castro. 1996. Mário Rodrigues. 1997. 1994.) Futebol: espetáculo do século. A taça do mundo é nossa: o futebol como representação da nacionalidade. GALEANO. SOARES. A linguagem dos esportes de massa e a gíria no futebol. Deporte y ócio en el processo de la civilizacion. Belle Èpoque tropical. 1994. A bola no ar: o rádio esportivo em São Paulo. 1986. São Paulo: Atual. 1964. Madrid: Fondo de Cultura Econômica. Geraldo Hélio Chaves da. História e historiadores: a política cultural do Estado Novo. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas.COSTA. Madrid: Alianza Editorial. Ronaldo Georges. 2006. 1997.

TERRITÓRIO.178 . SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .

os dois últimos pela Escola de Arquitetura da UFMG. Mestre em Arquitetura e graduação em Arquitetura e Urbanismo.Além do tombamento: a proteção do patrimônio cultural como exercício do direito à cidade Cristiana Maria de Oliveira Guimarães1 G overnador Valadares é uma cidade de Minas Gerais. BR 116 e a BR 381 com a Ferrovia Vitória-Minas. a Coroa Por1 Doutora em Ciências Humanas: sociologia e política. Image. Digital Globe. de sua posição geográfica no entroncamento triplo conformado pelas Rodovias Rio-Bahia . No auge da mineração.179 . pela FAFICH/UFMG. em Minas Gerais. sua história e desenvolvimento é devedora desta condição (Figura 1). localizada na porção leste do estado. Margeada pelo rio Doce. A bacia do Rio Doce foi uma das últimas regiões ocupadas em Minas Gerais. Como. especificamente no Vale do Rio Doce. Figura 1: Vista aérea de Governador Valadares (Distrito-sede) Fonte: Google Earth. 2008. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . TERRITÓRIO. em menor grau.

Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte. espanhola e siríaca2 e o aumento da importância econômica da cultura do café e da extração de madeira para a região (SIMAN. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Apenas na segunda metade do século XIX. 2006. então chamada. seus aspectos positivos e negativos estão sendo recentemente estudados. do Espírito Santo. 2005). 1988. 1988). quando os veios auríferos se esgotaram. como a consolidação da sua posição de entreposto comercial. Sueli. Tese (Doutorado em Ciências Humanas: sociologia e política) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Em um primeiro momento. do qual fazem parte a Guerra Ofensiva aos Botocudos e os incentivos financeiros e fiscais aos interessados em se fixar na região (BORGES. Entretanto. a região recebe um grande contingente de migrantes em função da construção da ferrovia VitóriaMinas. essas iniciativas não alcançaram os resultados pretendidos. A instalação da ferrovia e a inauguração. Nos primeiros anos da República. a movimentação de seus trilhos encontrava-se próxima de Figueira do Rio Doce. interessante ao Estado. Belo Horizonte. a vinda de migrantes da própria região do rio Doce. Inicia-se o processo inverso. tornando-se. 180 . 1988). conhecida como Sertões do Rio Doce. a região recebia imigrantes. da Bahia e de alguns estrangeiros de nacionalidade italiana. da estação ferroviária de Figueira trouxeram efeitos significativos. Governador Valadares cresceu rapidamente na década de 40 e se destacou. o de incentivo à ocupação dos Sertões do Rio Doce. ao contrário. a partir da década de 60 a região passou a exportar mão-de-obra. posteriormente Governador Valadares. possibilitou sua consolidação como porto de canoas e troca de mercadorias (SIMAN. navegável do povoado até a foz. Vitória-Diamantina. como um dinâmico centro regional. A cidade se beneficiou do crescimento da economia regional.tuguesa temerosa do contrabando através das águas do rio Doce. nos anos 50. até o mar. no Espírito Santo proibiu a ocupação dessa área. transforma-se em entreposto comercial de envergadura considerável. Figueira. a proibição da ocupação perdeu seu sentido. e na década seguinte saltou para a espetacular cifra de 70494 habitantes. Migrantes e empreendorismo na microregião de Governador Valadares: sonhos e frustrações no retorno. então distrito do município de Peçanha.TERRITÓRIO. Entre 1940 e 1950 a população passou de 5734 para 20357 habitantes. Hoje essa é uma das suas características distintivas. ESPÍNDOLA. SIQUEIRA. Cf. O rio Doce. Entre 1904 e 1907. 1999. Entretanto. em 1910. passando a exercer diversas funções: primeiro tornou-se pólo de beneficiamento 2 A construção da estrada de ferro é um dos fatores relacionados à “tradição migratória”.

181 . Brejaubinha. absorvendo pouca mão-de-obra. a situação de estagnação econômica recrudesce. SIQUEIRA. *** 3 Este texto trata apenas do Distrito-sede do município de Governador Valadares. 1999. Evidencia-se a fragilidade da economia baseada no extrativismo . Na década seguinte. contribuindo para que a pecuária assumisse o protagonismo nas atividades econômicas municipais. passou a ser um importante centro de pecuária. Além deste. Nesse contexto. Isso se agrava com o processo de absorção das pequenas propriedades pelos grandes proprietários que utilizam principalmente. como o contato precoce com a comunidade americana e a constituição de uma intensa rede de migração. tem destaque o empenho em sua constituição como pólo de serviços médicos e educacionais. ao gerar uma perda na absorção de mão-de-obra. couro. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Goiabal. acompanhando os acontecimentos nacionais e internacionais. aparecem localmente. TERRITÓRIO. O mencionado quadro de estagnação econômica permanece na década de 90 e início dos anos 2000 (ESPÍNDOLA. Baguari. formas de exploração extensivas. cereais e outros). Chonim.e distribuição de produtos regionais (mica. À recessão somaram-se algumas especificidades locais. Nas décadas de 60 e 70. consolidando uma das características valadarenses mais marcantes no contexto atual – o grande número de migrantes que vão tentar a sorte no exterior. Vila Nova. Penha do Cassiano. Chonim de Baixo.a mica perde sua importância no mercado mundial e o esgotamento das reservas florestais provocou o fechamento de diversas serrarias. Santo Antônio do Pontal. segundo. terceiro. madeira. pedras semipreciosas. principalmente nos Estados Unidos. um quadro de estagnação econômica substitui o boom anterior.com um dos maiores rebanhos do estado. a cidade3 busca outras opções de desenvolvimento e atividades econômicas. Nesse sentido. 2006). São José do Itapinoa. São Vítor. Em nossos dias. o interesse e a preocupação em preservar seu patrimônio cultural. As atividades ligadas ao turismo completam o quadro dos novos interesses e potencialidades fomentados na construção de uma nova vocação para a cidade. 1999). Floresta. Derribadinha. O desmatamento favoreceu o surgimento de grandes extensões de capim colonião. Essas mudanças repercutem na oferta de emprego. como centro comercial importante (ESPÍNDOLA. compõem o município os distritos de Alto de Santa Helena.

embora cuidados e preservados. a outro ponto de nossa argumentação. Ele não é dado a priori. Se o patrimônio cultural é uma construção simbólica. agora. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . com essa ilustração. o que poderia ser feito. da melhoria e aumento das redes de ciclovias. Sua proteção. o que estamos. invalidando a decisão sobre qual deles é o mais importante ou original. No entanto. diariamente. A assunção deste conceito tem reverberações. Esta está relacionada à compreensão do patrimônio como uma construção simbólica. Pensemos em nossa casa. sempre ressignificados ao longo tempo. de modo mais amplo o possível. sua identidade. 182 . É um imóvel com um determinado valor de mercado. aqui. Uma analogia aos nossos patrimônios privados é útil para explicar. de modo corriqueiro como se seu significado só possibilitasse uma interpretação. de compreensão natural. cuidada e preservada. para a cidade. Nosso argumento é que os bens identificados como patrimônio não deveriam ser apenas os excepcionais. e por isso. sugerindo que fosse identificado como patrimônio são hábitos que de tão costumeiros são despercebidos como fundamentais. são utilizados de modo cotidiano. logo um processo político e cultural. Há um momento de escolha e decisão sobre o que será ou não considerado patrimônio.TERRITÓRIO. Muitas vezes. no nosso caso. a partir. mas aqueles capazes de representar. Em Governador Valadares. livre de conotações políticas e culturais.Atualmente. às vezes até melhorados. estão na dinâmica da nossa vida. mas pelo seu incentivo e manutenção. não cogitamos deixá-la guardada. vimos utilizando o termo patrimônio cultural. Nossos patrimônios privados. alguém ou um grupo é responsável por isso. Acreditamos que políticas e medidas de proteção do patrimônio para serem legítimas e eficazes precisam estar baseadas no uso e na sua apropriação pela população. um constructo. Como o termo e seu significado são exatamente o contrário disso. uma reflexão sobre essa escolha. Diferente disso é o uso que agrega. logicamente. sem uso. localizado no tempo e espaço. essa posição. outros valores. Chegamos. De um modo ou de outro. é nosso lar. de modo bastante simplificado. para que seja protegida. não deve passar por medidas como o tombamento. vivida e imprescindível ao cotidiano. Está sempre atual. temos um exemplo bem característico: o andar de bicicleta (Figura 2). começamos pela explanação de nossa posição sobre ele. Propomos. Essa escolha tem motivos e intenções – a construção do patrimônio é um processo histórico. com vários aspectos simbólicos e afetivos.

Propomos que ele seja inserido na complexa equação urbana. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .o coletivo. como parte fundamental do exercício do direito à cidade. 2005). abreviações não desejadas. Antes de aprofundarmos esta proposta . a segurança pública. a moradia. Fonte: Arquivos CEDAC/UNIVALE.183 . tal como o são o trânsito. ainda que sob o risco de cometermos. a caricatura é válida para dizer que o patrimônio de todos deve ser cuidado e preservado. Evidentemente. mas isso não significa a sua retirada da vida cotidiana. uma casa é do âmbito do privado. precisamos esclarecer as posições teóricas que sustentam essa idéia. SOJA (1993). existe em formas substanciais – espacialidades concretas . como mais uma de suas variáveis.pensar o patrimônio cultural como parte do direito à cidade -. e assim. LEFEBVRE (2001) que a espacialidade é socialmente produzida. e como a própria sociedade. pela exigüidade das colocações. Reconhecemos na esteira de autores como SANTOS (1996. Trata-se de compreender o patrimônio cultural como um dos direitos urbanos. Mesmo com as ressalvas necessárias. O patrimônio da cidade tem outro âmbito . do patrimônio particular e familiar.Figura 2: Fotografia da I Corrida Oficial Medalha de Ouro.e como um conjunto de relações entre TERRITÓRIO.

2001. ao longo de suas trajetórias. ele deveria ser compreendido. O direito à obra [à atividade participante] e o direito à apropriação [bem distinto do direito à propriedade] estão implicados no direito à cidade (LEFEBVRE. O espaço é formado e moldado a partir de elementos históricos e naturais. a Fachada da Antiga Cadeia Pública. a possibilidade futura de novas apropriações ou ainda a modificação dessas faz parte do exercício do direito à cidade. as condições necessárias para realizar a produção e reprodução da vida. ultrapassam a idéia da simples subsistência. p. tal como aqui apresentado. Essas. uma forma superior de direitos: direito à liberdade. que a proteção do patrimônio cultural é – ou deveria ser – a proteção dessas formas de apropriação. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . ao habitat e ao habitar. a possibilidade de intervir e modificar a própria construção do espaço. Assim sendo. agora. e . Voltando ao conceito do patrimônio cultural. então. 135). no conjunto de bens protegidos em Governador Valadares. no qual a vida se materializa. as Fachadas da Antiga Sede Dos Correios e Telégrafos. Pode-se dizer. temos que esse é o resultado das diferentes formas de apropriação da cidade pelas pessoas. *** Pensemos. então. que garantir o amplo acesso ao patrimônio cultural é parte do exercício do direito à cidade. Em outras palavras. à individualização na socialização. Está incluída. sendo esse um processo político. a Companhia Açucareira do Rio Doce. é necessário que determinadas situações e características advindas da materialidade espacial estejam disponíveis e acessíveis a todos. então. sendo ele interventor nessa mesma reprodução. Logo. para que desse modo. a Argola de Amarrar Solípedes. ser distinguido do espaço físico da natureza material e do espaço mental da cognição e representação. esteja também disponível a todos. a Venda do Seu Margarido. no grupo do necessário à vida.indivíduos e grupos. Concluímos. O espaço socialmente produzido deve. tal como proposto por Lefebvre (2001). São eles: o Antigo Templo Presbiteriano.TERRITÓRIO. como aqui colocado. o uso da cidade.esta é a nossa defesa – como tal. É nesse espaço político e ideológico que a vida se realiza em sua concretude. o Cadeiral do Júri. o espaço é político e ideológico. a reprodução da vida é materializada no espaço. Garantir de modo ampliado. Maria 184 .

php?id_revista=9&id_conteudo=29&tipo=5> Acesso em abril de 2008.Fumaça e Painel Cubista do Edifício Helena Soares. Figura 3: Fotografia da Venda do Seu Margarido. é também o único exemplo de resistência às restrições impostas pela política preservacionista local. Em todos os casos acima.br/cpc/v1/php/wf07_revis. outros de ordem privada. Além de vários protestos. A exceção que confirma a regra acontece em dois planos: o único bem familiar. O Patrimônio Cultural de Governador Valadares (MG): algumas reflexões. os motivos para o tombamento são explicados por aquilo que representam para a história da cidade.usp. o tombamento e suas reações a esse incorporam um complexo processo judicial. novembro 2007. Os cinco primeiros integram o rol dos bens imóveis. ta_interna. TERRITÓRIO. e por fim.185 . Fonte: Acervo da autora. O.4 O resultado mais visível das polêmicas é o péssimo estado de conservação em que se encontra (Figura 3). mas não familiar. Disponível em <http://www. a Venda do Seu Margarido. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . como aqueles pertencentes às Igrejas. C. o Complexo da Santa e o Pico da Ibituruna. alguns de propriedade pública. M. 2007. In: Revista CPC USP nº 05. É im4 Sobre a polêmica em torno do tombamento da Venda do Seu Margarido confira: GUIMARÃES. São bens de uso público.

assim como o patrimônio cultural. e ainda.TERRITÓRIO. que a história da cidade é. a Maria Fumaça e o Painel Cubista do Edifício Helena Soares. a inexistência entre os bens tombados.. em uma ação decorrente da política de meio ambiente municipal.. 186 . o palco de importantes decisões judiciais (SEBRAE. encontra-se no ponto mais alto do Pico da Ibituruna. dos diversos conflitos relacionados à posse de terra que marcaram o local nas décadas de 50 e 60 do século passado. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Este mobiliário teve um papel coadjuvante na história jurídica valadarense. através da Lei Complementar nº 55 de 27 de maio de 2004. Também nesses casos. É importante observar que o Complexo da Santa. localizada no tempo e no espaço. Assim sendo. a justificativa para o tombamento está localizada no papel desempenhado na trajetória da vida citadina. Em outro âmbito. A descrição referente ao Cadeiral do Júri nos mostra isso: (. a reafirmação do tombamento anterior realizado em nível estadual. O tombamento municipal do Pico da Ibituruna é. Os dois juntos – rio Doce e Pico da Ibituruna . sendo ainda hoje. o Cadeiral do Júri. conjunto composto pela imagem monumental de Nossa Senhora e sua capela. O Complexo da Santa e o Pico da Ibituruna compõem a categoria dos conjuntos paisagísticos. uma construção simbólica. a questão ambiental. a área do Pico da Ibituruna é contemplada com outras medidas protecionistas: em nível estadual é classificada como uma APEE – Área de Proteção Especial Estadual e em nível municipal foi determinada como APA – Área de Proteção Ambiental. tornam concreto o discurso que anteriormente os construiu desta ou daquela maneira. na realidade. pela Constituição Estadual de 1989. tanto móveis como imóveis. daqueles que representam a permanência indígena na região. com intenções e motivações políticas e ideológicas. 2004) Vale pontuar.conformam um forte símbolo identitário e marco da paisagem local.) merece ser conservado como símbolo de uma época. ou ainda. legitimam um ao outro. mesmo que brevemente. como conjunto paisagístico. o patrimônio cultural e a história da cidade se complementam.portante fazermos a ressalva. compondo cenários de históricos e memoráveis julgamentos. um importante acidente geográfico situado à margem do rio Doce. Já os bens móveis são representados pela Argola de Amarrar Solípedes. tal como essa é contada.

já famosa. uma das ações com maior pontuação (e facilidade de execução) é justamente. pois por sua própria definição.187 . destacam-se os já mencionados tombamentos. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . tornou-se revolucionária a criação e implementação da Lei Estadual 12. Muito se tem discutido e debatido sobre esse instrumento (CASTRO. Cabe aqui. o tombamento dos bens.040 de 28/12/1995. 1987). foi constituído. Não cabe aqui retratar todo esse debate. Contrariamente. apenas aproveitamos para esclarecer nossa posição de que o instituto do tombamento tem características e atributos muito precisos. como pedra inaugural da política preservacionista local. agricultura. O Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural – CDPC . Essas ações são avaliadas dentro de critérios previamente definidos e fiscalizados pelos órgãos competentes. 5 6 Em Minas Gerais. A partir daí.foi instituído pelo Decreto Municipal nº 6927 de 19/03/2001 e referendado pela Lei Municipal 4646/1999. No caso do patrimônio cultural.A compreensão do patrimônio cultural como algo excepcional à dinâmica urbana justifica a escolha do tombamento como único instrumento de proteção desses bens. nos critérios de cálculo do repasse da parcela do ICMS devida aos municípios. Essa lei inclui ações referentes à educação. 1991. ele não deveria ser aplicado única e universalmente. é urgente a contextualização desse instrumento. Seguindo essa cartilha. LERNER. o Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural6. Apesar de sua indiscutível validade. entre os quais altos graus de excepcionalidade e imutabilidade. apesar de suas diferenças essenciais. Entre as exigências colocadas pelo IEPHA/MG estão a existência de uma política municipal de preservação do patrimônio cultural e a criação e atuação efetiva de um conselho municipal de patrimônio cultural. seguiram-se outras iniciativas das quais. conhecida como Lei Robin Hood. comentar outro aspecto. que no Brasil. 1997. saúde. FONSECA. em 2001. TERRITÓRIO. A política de preservação valadarense foi motivada pela existência em Minas Gerais da. o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais – IEPHA/ MG – cumpre esse papel. É importante ressalvar que de acordo com os critérios estipulados pela Lei Robin Hood. Lei Robin Hood5. passou a ser identificado como a preservação do patrimônio em si. preservação do patrimônio cultural. configurando um daqueles casos nos quais a parte incorpora o todo. esse é o traço principal da política de preservação do patrimônio realizada em Governador Valadares.

No caso de Governador Valadares. seja de um país. tal como anunciava o discurso popular ainda nas décadas de 20 e 30 do século passado. muito valorizado tanto para o mercado. Apresenta ótimas condições de infra-estrutura. que o patrimônio cultural não é um dado natural. além disso. Logo. estando. com as medidas que visam sua proteção. cabo e similares. redes de telefonia. e conseqüentemente. momento em que a política de preservação foi sistematizada no Brasil.Lembramos aqui. mas uma construção simbólica e cultural. Outro exemplo da realidade valadarense reforça nossa hipótese que deixamos muito de lado. 188 . como nos ensina os fatos seguintes ao tombamento da Venda do Seu Margarido. cidade ou comunidade é decorrência do modo como teoricamente ele é compreendido. um constructo. caso o patrimônio e sua proteção estivessem alargados à questão urbana como um todo. medidas específicas e excepcionais. atualmente. a concretude do patrimônio cultural. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Não há a compreensão desse patrimônio cultural como seu. abastecimento de energia elétrica.TERRITÓRIO. Rudemente falando. grande parte da população não se sente identificada nem com aquilo que é estipulado como patrimônio cultural. Nesse conjunto de situações. conceitos e valores o patrimônio cultural fica restrito a uma visão que o transforma em “coisas de artista e gente letrada”. mais uma vez. como simbolicamente. redes de drenagem e abastecimento de água. Como bem expressa o dito popular. não há a assunção das restrições que seriam realizadas em seu nome. ele será aquilo que as políticas responsáveis por sua proteção decidirem que ele seja. Falamos do Bairro Esplanada. O início de sua ocupação pode ser localizado na década de 50. a opção nos parece ter sido pelo viés do excepcional: tanto no que se refere à constituição do patrimônio oficial. O bairro é tradicionalmente local de moradia das elites. nem tampouco. como nos instrumentos e mecanismos estabelecidos para sua proteção. totalmente consolidado ou até. asfalto. ao priorizar como ações de proteção ao patrimônio. como já mencionado. O mesmo exemplo mostra o outro lado dessa moeda: o que se poderia preservar como identidade e tradições da cidade.

Lote A. Lourdes. é possível a construção de residências multifamiliares. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Sabe-se que além da localização. As determinações trazem também para essas áreas. desde que seguidos alguns parâmetros específicos. Singer (1979). Suponhamos que temos em mão dois terrenos de igual metragem e condições de topografia e localização. A outra variável corresponde aquilo – ao tipo de “coisas” . como anteriormente exposto. Vila Mariana. com pelo menos 18 unidades. caracterizada por classes mais populares. Em sentido oposto ao nosso alerta anterior. o que resulta em uma torre de apartamentos. TERRITÓRIO. assim como o Esplanada. inegavelmente. No primeiro. nos ensinam que o valor do solo urbano vai além do valor do solo em si. seguem a regra já estabelecida de locais melhores e outros piores. a infra-estrutura e os equipamentos urbanos são distribuídos de modo desigual nas cidades. de no máximo dois pavimentos. duas outras variáveis relacionadas às possibilidades construtivas. ou seja. o Bairro Esplanada. Morada do Acampamento. Como invariavelmente. enquanto o padrão do número de pavimentos permitidos para o conjunto urbano fica entre quatro e cinco pavimentos. casas. entre os quais. os pontos que detêm melhor infra-estrutura e melhores equipamentos são mais valorizados pelo mercado. As leituras de autores como Santos (1994). mas diferente desse. Nesses passou a ser permitida a construção de até 18 pavimentos por lote. a quantidade em metros quadrados que se pode construir. um ganho significativo na possibilidade construtiva na região.Algumas alterações na Lei de Uso e Ocupação do Solo de 1993 determinaram um aumento no potencial construtivo para cinco bairros7. entre tantos outros. um aumento da possibilidade construtiva. Villaça (1998). Vejamos um exemplo. No segundo. Soma-se a isso. com até 18 pavimentos. mesmo que hipotético. o potencial construtivo é um dos fatores mais influentes na conta do valor de cada porção do solo urbano.que pode ser construído em cada parte. A primeira diz respeito ao potencial construtivo de cada terreno.189 . classes média baixa e baixa. Há. a proximidade de outros pontos importantes na cidade. é permitida apenas a construção de residências unifamiliares. Lote B. São bairros (com exceção para o Morada do Acampamento ou Acampamento da Vale) de ocupação também tradicional. Completam o quadro. ou seja. aumentar o potencial construtivo de áreas menos valorizadas aparece como um caminho para a melhoria da distribuição dos preços dos terrenos no mapa citadino. que também. Não é preciso matemática elaborada para percebermos que o segundo caso 7 Os outros bairros afetados pela citada determinação da Lei de Uso e Ocupação do Solo são: Vila Bretas. infelizmente.

quando os edifícios. por uma questão de ordem. das áreas comuns dos prédios e dos famosos playgrounds. Trata-se da substituição de áreas permeáveis por outras impermeáveis. A distância morador/rua aumenta ainda mais. como colocar as cadeiras à rua. áreas verdes por falta de vegetação. Contudo. a reflexão ligada ao tema patrimônio cultural. Outro ponto é a perda de uma ambiência caracterizada pela pouca densidade e pela significativa existência de quintais e jardins. motivadas pela também tradicional relação rua/morador baseada na tipologia das residências unifamiliares. o morador ao sair de sua varanda. ainda predominam as antigas relações de vizinhança. Algumas abordagens teóricas são possíveis a partir do nosso exemplo hipotético. priorizando aqui. ao fim de tarde. de fato inseguras. já está na rua. a substituição de casas tradicionais por torres de apartamentos é apenas uma questão de tempo e ativação da economia. giram a roda e tornam-se cada vez mais esvaziadas. Em uma cidade com altas temperaturas e sérios problemas de drenagem e enchentes essa troca acarreta conseqüências além da diminuição da qualidade estética do 190 . e assim. movimentadas. Não há a intermediação do elevador. Nessas. Outros costumes. como é o caso do bairro Esplanada. extensão dos jardins. No bairro Esplanada. ou ainda. mas já se tornando raridade.TERRITÓRIO. as quais. para darem conta das exigências. pela sensação de insegurança que provocam. e ainda. o que é feito pela incorporação para essa finalidade dos primeiros pavimentos. tanto comerciais. Entre essas está o debate sobre a valorização desigual de terrenos particulares. comum há alguns anos. motivada por políticas públicas. Esse processo é ainda mais rápido quando o local em questão é desejado por todos. precisam dispor de um número suficiente de vagas de garagem. substitutos modernos das calçadas como local de brincadeiras e encontros infantis. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Do mesmo modo. pelo menos em parte desse. ponto crucial. quanto normativas. O resultado é a substituição de ruas vivas. No primeiro caso a rua é extensão de sua varanda ou dos jardins.é mais atraente ao mercado construtivo/imobiliário. não são exeqüíveis quando se habita as torres de apartamentos. vamos deixá-lo para outra ocasião. nessa lógica. para o urbano. o que não acontece nas torres dos apartamentos. não precisamos nos alongar muito para entendermos que. por ruas esvaziadas.

nem seria mesmo o caso. não podemos afirmar que as transformações – em curso e futuras – são fundadas apenas nas mudanças próprias à passagem do tempo e novos hábitos. e a primeira vista. O leitor desavisado poderia supor estar diante de um quadro de saudosismo. que por sua vez. às vezes pelo imediatismo imposto pelas urgências do dia-a-dia. como vimos. Conseqüências essas que ultrapassam os limites do bairro e atingem a cidade como um todo. ou pela reafirmação de suas determinações. por que esse jogo não é explicitado como deveria ser. foi construída uma torre de apartamentos ao lado da Catedral – literalmente ao lado. ou pela limitação dessas. No caso em questão. determinam outras.191 . a proteção do patrimônio é rígida para muito poucos e específicos bens. O que acontece é que não nos damos conta disso.lugar. Essa não está incluída entres os bens tombados. o bairro Esplanada. ou nostalgia exagerada. em lote vizinho (Figura 4). constituído pelos os marcos. Não se trata disso. hábitos e cotidiano vivido. aqueles tombados. mas de um outro. Recentemente. está a Catedral de Santo Antônio. Do modo como está colocada em Governador Valadares. mostrando a não amarração de suas ações e propostas ao planejamento urbano como um todo. outras vezes. que fazem da cidade a cidade de Governador Valadares. Entre esses. TERRITÓRIO. Há uma certa indiferença em relação às possibilidades de somar-se a legislação urbanística. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . que desconhece fazer parte das melhores tradições suas transformações internas. são deixados a sua própria sorte. não daquele patrimônio singular e excepcional. materiais e imaterais. Como anunciado. O aumento da possibilidade construtiva para até 18 pavimentos funciona como um propulsor para a substituição das residências unifamiliares pelas torres de apartamentos ou de salas comerciais. enquanto vários outros. mas da necessidade de se alargar os mecanismos de proteção. essa problemática não alcançou a política de patrimônio. modificação que. mas de uma tentativa de desnaturalizar o que muitas vezes assumimos em nosso cotidiano como uma situação sobre a qual não temos ação ou decisão. É justamente o oposto disso: a cidade é feita e refeita a cada instante por decisões aqui e ali. Não se trata disso. traz uma série de outras. cada uma com várias conseqüências.

de 10 de julho de 2001. No nosso caso. defendemos que esse é um jogo que não pode ser evitado. As citadas leis determinam que a vivência do patrimônio cultural é parte do direito à cidade e como tal deve ser tratado e compreendido. caso o resultado almejado seja uma cidade melhor e legítima a proteção do patrimônio cultural. Isso poderia ser feito a partir da definição de locais específicos que precisam de maior restrição e limites construtivos para viabilizar a proteção de características ou hábitos. restrições na escala construída e até diminuição do potencial construtivo de determinados locais. Do modo como tem sido a sua prática em Governador Valadares.TERRITÓRIO. como já visto. à direita. isso não tem acontecido. na década de 50/60. Governador Valadares é margeada pelo rio Doce. Nos dois exemplos vistos até agora foram deixados de lado instrumentos que poderiam auxiliar na proteção do patrimônio como a limitação de gabaritos.257. Vejamos um último exemplo. Figura 4: Vista da Catedral de Santo Antônio em dois momentos: à esquerda. está o Pico da Ibituruna. em 2010. Na outra margem do rio. a política do patrimônio entra em uma seara marcada por grandes conflitos e disputas de poder. Fonte: Arquivos CEDAC/UNIVALE/Acervo da autora. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . sendo sua ocupação e desenvolvimento devedores desta condição. a política de patrimônio local está restrita a um âmbito muito específico. Contudo. a justificativa seria a proteção do patrimônio cultural. é preciso esclarecer que reconhecemos que ao abarcar regras do ordenamento urbanístico.Contrariando orientações assumidas desde a Constituição Federal de 1988 e reafirmadas pelo Estatuto da Cidade8. considerados patrimônio cultural. 192 . Neste ponto. Não é preciso explicar 8 Esse é o nome pelo qual ficou conhecida a lei federal nº 10.

rio Doce . aqui o rio Doce. 9 Sabemos da existência de medidas de proteção isoladas tanto para o Pico da Ibituruna como para o rio Doce. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .193 . à semelhança do que ocorre em várias orlas marítimas brasileiras. em dois momentos.aos valadarenses como o rio Doce e o Pico da Ibituruna fazem parte da cidade – não é possível pensá-la sem a existência dos primeiros. de modo até duplicado. impossibilitando a sua visibilidade e vivência.rio Doce – Ibituruna não recebe o mesmo tratamento. A dinâmica urbana. Fonte: Arquivos CEDAC/UNIVALE/ Acervo da autora. não está suficientemente embebida da importância de se manter essa paisagem ao alcance de todos. À esquerda. para que possa ser vivenciada plenamente. TERRITÓRIO. o mar. nem pelas políticas de patrimônio. à direita. através de sua participação no mercado imobiliário – seja como empreendedor ou comprador dos empreendimentos – a construção de edificações com gabaritos altos. em 2007. em termos da percepção. Contudo. torna-se privilégio de uns poucos – daqueles que podem pagar por ele. As normas permitem e a sociedade avaliza. nem tampouco.Ibituruna não recebe atenção especial. Essas estão relacionadas principalmente a proteção ambiental. às vezes. Esses mesmos edifícios altos “levantam” a linha do horizonte diminuindo. na legislação urbanística9. Ali. Figura 5: Vista parcial da cidade com a Ibituruna ao fundo. o impacto e a presença do Pico da Ibituruna (Figura 5). a singularidade da paisagem composta pela tríade cidade . Trata-se da conformação de uma barreira. à margem do rio. década de 50/60. Interessa aqui apontarmos como o conjunto cidade. incluídas aí suas normas. Falamos da privatização do patrimônio de todos.

br/legislação > Acesso em março /abril de 2007. n° 22. preservá-lo é antes de tudo garantir o usufruto do que é coletivo – a cidade. O patrimônio em processo: a trajetória da política federal de preservação no Brasil.69-79. 1999. GOVERNADOR VALADARES. Belo Horizonte. Maria Cecília Londres. 316p.L. p. Governador Valadares: ACGV. Sonia Rabello. M. significado e história. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Rio de Janeiro: Renovar. M.E. 8ª edição. S. SANTOS. 4ª edição. H. BRASIL. ESPINDOLA. GOVERNADOR VALADARES.mg. Bauru: EDUSC. S. Dora et al. Disponível em <http://www. São Paulo: Centauro. 2001. de 27/05/2004. CÂMARA MUNICIPAL. mg. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Constituição (1988). O direito à cidade.gov.br/leis> Acesso em março/abril de 2007.camaragv. para nós. M e SILVEIRA. LERNER. FONSECA. 1988.br/ leis> Acesso em março/abril de 2007. suas características. 2005. de 1993.camaragv. H. H. Associação comercial de Governador Valadares: sessenta anos de história.gov. de 10 de julho de 2001. Disponível em <http://www. Rio de Janeiro: Record. CASTRO.257. CÂMARA MUNICIPAL. Sertão do Rio Doce. Constituição Federativa do Brasil. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Brasília: Senado Federal. ESPINDOLA. 2005. Afinal. Rio de Janeiro: UFRJ:IPHAN. O Brasil: território e sociedade no inicio do século XXI. Referências Bibliográficas BORGES. Lei Federal nº 10. 161 p. Dina. 1987. Lei Complementar n° 55.L. O Estado na preservação de bens culturais: o tombamento. Disponível em <http://www. 194 . Utopias e contra-utopias: movimentos sociais rurais em Minas Gerais. LEFEBVRE.senado. BRASIL. 1988. ALCANTARA. 1991. Mesa-redonda: tombamento.TERRITÓRIO.Reencontramos o interesse principal deste texto: pensar o patrimônio cultural como um dos direitos urbanos.gov. 1997. Universidade Federal de Minas Gerais. Lei Complementar n° 04.

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TERRITÓRIO. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .196 .

As redes sociais e a configuração do primeiro fluxo emigratório brasileiro: análise comparativa entre Criciúma e Governador Valadares
Sueli Siqueira1 Gláucia de Oliveira Assis2 Emerson César de Campos3

Introdução o início dos anos de 1980 vários brasileiros voaram para a “América”. Este novo movimento da população que na década de 1990 consolidou uma migração para os EUA, Europa e Japão, marca uma inversão da auto-imagem do país como uma nação de imigrantes. Conforme demonstraram vários estudos Sales (1998), Bógus e Bassanezi (1998), Reis e Sales (1999), Martes (2000), Siqueira (2009), este fluxo de brasileiros para o exterior tornou-se uma questão relevante quando, o que era um movimento esporádico para o estrangeiro nos anos 1960, transformou-se num fluxo migratório demograficamente significativo.

N

As pesquisas começaram seguindo o percurso dos próprios fluxos migratórios. Quando as notícias de brasileiros barrados no exterior começaram a aparecer na imprensa, algumas questões instigavam os pesquisadores: quem são os brasileiros emigrantes? Por que deixaram o país? Por que alguns lugares se tornam ponto de partida e chegada para os migrantes? Assim as primeiras pesquisas (MARGOLIS, 1994; SALES, 1999; ASSIS, 1999) traçaram um perfil dessa população e apontaram para a cidade de Governador Valadares (MG) como ponto de partida de emigrantes para os EUA indicando que entre essa cidade e algumas cidades nos EUA, havia uma conexão, uma rede de relações que ligava os dois lugares.
1 2 3 Doutora em Sociologia e Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais. Professora titular da Universidade Vale do Rio Doce. Doutora em Antropologia pela Universidade de Campinas. Professora titular da Universidade do Estado de Santa Catarina. Doutor em História pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professor titular da Universidade do Estado de Santa Catarina.
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Ao longo dos anos de 1990, conforme demonstram os trabalhos de Martes (2000), Sales (1999), Reis e Sales (1999), o fluxo de brasileiros para os EUA manteve-se continuo ao mesmo tempo em que se diversificava a população, complexificando as características da população migrante, bem como revelando outros pontos de partida para a emigração, como a cidades de Criciúma, na região sul do país, ou de Maringá no estado do Paraná. Os estudos revelaram também uma importante mudança na expectativa temporal (SALES,1999; ASSIS, 2004, SIQUEIRA, 2008a). Os migrantes que inicialmente se auto-definiam como temporários, deparam-se ao longo da década com a ampliação do tempo de permanência o que coloca em questão a idéia de retorno (ASSIS, 2003, SIQUEIRA, 2009). Assim homens e mulheres migrantes vivenciam o crescimento da comunidade brasileira, tornando-se mais visível, nas regiões de destino, através de suas lojas de produtos étnicos, suas igrejas, suas famílias, no surgimento de uma segunda geração de migrantes. É neste contexto que podemos falar da primeira geração de filhos de brasileiros nascidos nos EUA. Assim a questão que se coloca para os migrantes é como manter as relações com o Brasil, os laços familiares e afetivos, os investimentos e ao mesmo tempo participar das redes sociais nos EUA. A emigração internacional de brasileiros passou a fazer parte do cenário nacional em um período muito recente da nossa história. A partir da secunda metade da década de 1960 é que inicia a ida dos primeiros emigrantes que na década de 1980 se configura como um fluxo migratório relevante. Estes emigrantes deram novos contornos tanto as suas cidades de origem através do envio de moeda estrangeira como, também, as localidades de destino, pois recriam os espaços sociais e formatam o mercado de trabalho (mercado de trabalho secundário) dessas regiões. Governador Valadares foi o cenário central desse novo movimento populacional que ao longo dos anos 1990 manteve-se contínuo, ao mesmo tempo em que se diversificava o perfil da população (classe, sexo, gênero) e emergiram novos pontos de partida. As pesquisas demonstraram que embora no imaginário construído sobre a emigração de brasileiros Governador Valadares permaneça como o lugar de onde saem todos os emigrantes, há um espraiamento desse fenômeno por todo o território nacional. No entanto, a despeito dessa diversificação dos locais de origem dos emigrantes, há apenas algumas cidades do Bra198 - TERRITÓRIO, SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO

sil de onde partem a maioria dos emigrantes e nesse contexto além da Região de Governador Valadares, cidades da região de Criciúma (SC), e outras cidades da região sul do país (FUSCO, 2006; SIQUEIRA e JASSEN, 2008) passaram a fazer parte desse novo movimento populacional. Alguns estudos foram realizados buscando compreender por que estas cidades estavam se tornando ponto de partida de emigração, quais as características dos fluxos nesses locais e os efeitos desse fenômeno para as cidades de origem (SIQUEIRA, 2009) Os migrantes da cidade de Governador assim como de Criciúma tem como principal local de destino à região da grande Boston, nos Estados Unidos. Por isso foram selecionadas para analisarmos como se configuram os fluxos nesses dois locais de origem no Brasil. Este estudo revela-se significativo para ampliar a compreensão do fenômeno da migração internacional de brasileiros para os EUA, pois além de permitir desvendar a formação das redes sociais nos dois lugares, possibilitará compreender e explicar, através de uma análise comparativa, os diferentes elementos que compõem a formação dos fluxos migratórios. Governador Valadares, emergiu como ponto de partida de emigração, desde nos anos de 1960, esse fluxo se consolidou na segunda metade dos anos de 1980 e modificou a vida cotidiana na cidade envolvendo aqueles que partiram e aqueles que ficaram numa intrincada rede de relações. Na década de 1990 a cidade de Criciúma (SC) emerge como ponto de partida de emigrantes para a região de Boston (EUA). Dessa forma, a partir dessas cidades procuraremos traçar as redes que articulam e sustentam este fluxo - há uma ampla rede migratória que envolve agências de turismo, intermediários, entidades religiosas, redes de parentesco, amizade, solidariedade étnica que incentivam e sustentam a migração, fazendo com que esse processo migratório faça parte da dinâmica dessas cidades. Como já foi demonstrado, através dos estudos de Massey (1987) e Boyd (1986) sobre migrantes mexicanos nos EUA e as pesquisas de Sales (1999), Martes (2000), Assis (2004), Fusco (2000, 2006), SIQUEIRA (2008b) as redes sociais se constituem num significativo capital social tanto nas cidades de origem como nas de destino dos emigrantes brasileiros. A pesquisa analisou como se formaram, articularam, mantiveram e se modificaram as redes sociais no processo migratório. Para compreender a influência das redes sociais, torna-se fundamental delinear
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como elas se constituem quais as suas dinâmicas e estratégias na sociedade de origem. Portanto a pesquisa foi realizada nas duas cidades no Brasil que tem as conexões com a região de Boston (EUA) – Governador Valadares e Criciúma e nos Estados Unidos nas cidades de Boston, Lowell, Framingham, New York, Bridgeport. A pesquisa é de cunho qualitativo, cujos dados foram coletados através de relatos orais de emigrantes que iniciaram o fluxo migratório. Através da técnica de bola-de-neve foram localizados os primeiros emigrantes e ou seus familiares que participaram dessa rede. Utilizando-se também de entrevista semi-estruturada buscou-se delinear os pontos iniciais, as conexões e o perfil dos primeiros emigrantes. Foram realizadas 47 entrevistas com os primeiros emigrantes e ou seus familiares que residem atualmente no Brasil ou estavam a passeio em suas cidades de origem e 28 com emigrantes residentes nos Estados Unidos. O Campo no Brasil foi realizado no período de março de 2007 a dezembro de 2008 e nos Estados Unidos no mês de março de 2008. Para atender alguns objetivos do projeto de pesquisa, como descrever o impacto da emigração internacional na cidade de Governador Valadares e região foram utilizados dados secundários coletados e analisados pelo Núcleo de Estudos sobre Desenvolvimento Regional – NEDER da Universidade Vale do Rio Doce que desenvolve pesquisa sobre o tema da emigração desde 1998 e o núcleo de Estudos Migratórios da Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC. 2 - A configuração das redes sociais tecidas pelos migrantes brasileiros Tal como outros fluxos migratórios internacionais, os migrantes brasileiros utilizam-se das redes sociais para minimizarem os riscos presentes na migração de longa distância. Conforme demonstraram os trabalhos de Margolis (1994), Sales (1999), Assis (1999, 2003) e Fusco (2000, 2006), uma análise da configuração das redes sociais ajuda a compreender por que motivo algumas cidades brasileiras tornaram-se ponto de partida para os Estados Unidos e como essas redes contribuem para a consolidação do fluxo. Para Sales (1999), a redefinição da expectativa temporal é reveladora das mudanças nos projetos de permanência dos emigrantes brasileiros, indicando o amadurecimento das redes sociais. No caso da conexão Governador Valadares – Esta200 - TERRITÓRIO, SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO

dos Unidos, por exemplo, Assis (1999) e Fusco (2000) demonstraram como se construiu uma rede de relações entre os imigrantes e aqueles que permaneceram na cidade que consolidaram ao longo dos anos 80 um fluxo entre a região de Boston, Massachusetts e Governador Valadares, na medida em que os emigrantes, uma vez estabelecidos, disponibilizaram recursos que facilitaram o projeto migratório daqueles que os sucederam. Essas questões apresentadas para análise de imigrantes nos Estados Unidos podem ser pertinentes para pensarmos sobre como se articulam as redes sociais nos fluxos dos imigrantes brasileiros, pois, como veremos nos dados que emergiram na pesquisa de campo, homens e mulheres também se utilizam de maneira diferenciada das redes sociais. No caso dos imigrantes de Criciúma, tal como Bott (1976) observou na análise das famílias inglesas, podemos perceber uma interessante configuração: os homens apóiam-se mais nas redes de amigos, ao passo que as mulheres contam mais com os parentes. No Brasil, os estudos de redes sociais têm sua tradição ligada aos estudos de migração interna, descrevendo o longo percurso do Nordeste para São Paulo e a rede de relações que envolviam. Os estudos analisam a formação e a consolidação das redes no caminho do campo para a cidade, como no estudo de Durham (1984). Nos anos de 1980, quando os brasileiros partem para o exterior, embora a migração envolva riscos e custos bem mais expressivos, as redes sociais e algumas características do trabalho e inserção do migrante são semelhantes. Portanto, o que se pretende aqui é demonstrar que, na migração internacional essas redes sociais são igualmente importantes. Como em outros fluxos migratórios, os emigrantes brasileiros utilizam-se das redes sociais para minimizar os riscos presentes na migração de longa distância. No caso da emigração de brasileiros para os Estados Unidos e o Japão4, destacam-se, nesse cenário, algumas cidades brasileiras que se tornaram pontos de partida para os emigrantes. Nessas cidades – Governador Valadares (MG)5, Criciúma (SC) – há uma ampla rede migratória que envolve agências de turismo, intermediários, insti4 5 Mais detalhes sobre a emigração para o Japão ver Sasaki (1999) e Oliveira (1999). Sobre Conexão Governador Valadares – Estados Unidos, ver Assis (1999), Soares (1995) e Scudeler (1999), Sales (1999). Além desses estudos, Goza (2003) analisa as redes estabelecidas entre Valadares e outras cidades no Canadá.
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tuições religiosas, redes de parentesco, amizade, solidariedade étnica que incentivam e sustentam a migração, fazendo com que o processo migratório integre a dinâmica dessas cidades. Nos locais de destino, os migrantes brasileiros concentram-se em determinadas cidades onde já haviam redes estabelecidas pelos conterrâneos. Nos Estados Unidos é interessante destacar que a concentração de brasileiros ocorre em cidades que tiveram um fluxo migratório de portugueses. No caso da recente emigração de brasileiros para os Estados Unidos, as primeiras pesquisas sobre esses fluxos – Margolis (1994), Sales (1999), Assis (1999) –, embora não tivessem como foco central a análise das redes sociais, apontaram para a importância das redes sociais no processo migratório. Nesse contexto, inicialmente emergiu a cidade de Governador Valadares (MG) como ponto de partida dos primeiros emigrantes para os Estados Unidos. Pesquisas6 têm destacado que, se inicialmente a cidade de Governador Valadares (MG) pôde ser identificada como ponto de partida dos fluxos na década de 1960. Ao longo dos anos 90 esse movimento migratório se diversifica, partido de diversos pontos do país. Sales (1999) demonstrou a importância das redes sociais na constituição da comunidade brasileira que se articula através dos comércios étnicos e da Igreja. Discutiu ainda como a redefinição da expectativa temporal é reveladora das mudanças nos projetos de permanência dos emigrantes, indicando o amadurecimento das redes sociais. Sales ainda demonstrou como os imigrantes brasileiros construíram um significado de legitimidade para a sua situação de clandestinidade. Pois, apesar de não terem os documentos necessários, conseguiam fazer tudo nos Estados Unidos, trabalhar usando documentos falsos, colocar os filhos na escola pública, ir ao hospital, abrir contas em banco, etc., por isso não sentiam falta, no seu dia-a-dia, da legalização (dos papéis). A autora ainda destaca que os brasileiros, mesmo indocumentados, comparavam os direitos que usufruíam nos Estados Unidos com a ausência desses direitos no Brasil e que essa comparação reforçava a legitimidade da condição clandestina. Mesmo com o discurso da legitimidade da condição clandestina, a autora observou que, com o
6 Martes (2000) demonstrou, em survey realizado com imigrantes brasileiros em Massachusetts, a diversificação da composição demográfica do movimento migratório para essa região.

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aumento da expectativa temporal, os imigrantes começavam a preocupar-se com a legalização. No entanto, é importante ressaltar que esse discurso, muito presente entre os imigrantes, sofreu uma mudança profunda após os atentados de 11 de setembro de 2001 e as políticas cada vez mais restritivas aos imigrantes. Embora os imigrantes continuem trabalhando com documentos falsos e matriculando seus filhos na escola, desde 2001, os papéis passaram a ocupar um outro lugar na vida e nas preocupações dos brasileiros imigrantes. A pesquisa de Martes (2000) sobre os imigrantes brasileiros em Massachusetts (Estados Unidos) centrou o foco na análise das redes sociais enfatizando a importância das mesmas. Segundo Martes, as redes sociais, geralmente de parentesco, de amizade e religiosa, são fundamentais para explicar por que os brasileiros chegam aos Estados Unidos, sobretudo por que as redes sociais ajudam a diminuir os custos psicológicos e econômicos da migração. No entanto, ao analisar a configuração da comunidade brasileira nos Estados Unidos, Martes questiona as análises que salientam apenas os aspectos de solidariedade nas redes sociais, criticando o pressuposto da solidariedade étnica predominante nos estudos de migração. Para a autora, o caso da emigração de brasileiros para os Estados Unidos permite questionar tal perspectiva de análise das redes sociais, apontando para os conflitos que ocorrem no interior das mesmas. Para demonstrar seu argumento, Martes analisa o caso das redes religiosas e o comércio de postos de trabalho na faxina doméstica entre os imigrantes, demonstrando a ambigüidade e o conflito no interior das mesmas. Ao longo deste estudo discutimos com os argumentos de Martes (2000), demonstrando através da pesquisa realizada em Governador Valadares e Criciúma com migrantes retornados, que o conflito e a ambigüidade, antes de colocarem em questão as redes sociais que constituem o processo migratório, são constitutivos da mesma. Se partirmos da idéia que solidariedade e conflito não são antagônicos, mas complementares, constatamos que as redes sociais compreendem solidariedade e conflito. Fusco (2006) discute as redes sociais partindo da cidade de origem dos fluxos – Governador Valadares – cidade conhecida como ponto de partida de emigrantes internacionais. A pesquisa demonsTERRITÓRIO, SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO - 203

no entanto. estimula novas migrações”. o recebimento no aeroporto dos EUA. A autora discute as teorias econômicas sobre a inserção de trabalhadores imigrantes no mercado de trabalho americano e demonstra. Goza descreve as redes sociais construídas nos dois lugares e ressalta que nos Estados Unidos tais redes migratórias parecem mais consolidadas. Em Criciúma. enquanto que no Canadá a presença das redes é menos evidente. Assim. as primeiras informações sobre o cotidiano nas cidades de destino e a inserção no mercado de trabalho secundário nos EUA só é possível através do uso destas redes. o fato de tanto nos Estados Unidos quanto no Canadá os imigrantes relatarem que possuem parentes residindo na mesma região evidencia a rapidez com que as redes crescem e sustentam o argumento de Massey (1987) sobre a “causação cumulativa7“ 7 “Isto quer dizer que à medida que as redes se constituem e estabelecem elos entre a sociedade de emigração e a sociedade de destino. Desde o financiamento da viagem.trou a relevância das redes para explicar por que a cidade tornou-se nacionalmente conhecida como ponto de partida de emigrantes. que tal inserção ocorre articulada às redes que os migrantes dispõem tanto na cidade de origem quanto na região de destino. Siqueira (2009) na pesquisa realizada em Governador Valadares e na Região da Nova Inglaterra demonstra a importância das redes sociais para a efetivação do projeto de migração. 1987 p. mais pessoas se conectam ao fluxo migratório. não tinha por objetivo analisar como essas redes eram configuradas/marcadas por gênero e geração. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . a migração torna-se uma atividade de menor risco. (MASSEY. pois há um conjunto de informações e estratégias disponíveis que facilitam o empreendimento migratório e. 204 .17).TERRITÓRIO. no caso dos imigrantes valadarenses. Scudeler (1999) analisou a inserção do migrante valadarense no mercado de trabalho americano. Goza (2003) demonstra a importância das redes estabelecidas entre Governador Valadares (MG) cidades dos EUA e em Toronto (Canadá). portanto. Segundo o autor. Para um habitante de uma cidadezinha do interior da Microrregião de Governador Valadares que não conhece a capital de seu estado chegar a um dos maiores aeroporto do mundo (New York) e dois dias depois estar trabalhando na construção civil nos EUA só é possível se ele recebe o apoio das redes sociais. Fusco (2006) localizou as redes sociais e demonstrou a sua importância para a configuração da conexão Criciúma-Boston.

quais os outros atributos de gênero que emergem e revelam mais do que papéis outras posições de gênero nessas relações. das cartas. dos presentes enviados aos pais e familiares mais próximos ou ainda do financiamento da viagem dos pais para os Estados Unidos com a finalidade TERRITÓRIO. conforme já observamos embora a trama estivesse presente. das várias idas e vindas ao Brasil. no entanto. descrevendo as várias faces desse movimento migratório. Os trabalhos mais recentes incorporaram a perspectiva teórica das redes sociais na análise dos fluxos de brasileiros para o exterior e procuram analisar a configuração. bem como as mudanças nas redes sociais tecidas ao longo do tempo. Segundo Goza devido aos novos papéis que as mulheres tem assumido na América do Norte. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . são importantes para podermos desenhar o fluxo e compreender como se articula para a Itália ou para os Estados Unidos. da internet. Goza (2003) ainda destaca que o acesso às redes sociais é diferenciado segundo as relações de gênero.que a consolidação das redes trazem para o movimento migratório. As pesquisas realizadas preocuparam-se em responder a questões como: quem são os imigrantes. Goza. Portanto. As relações estabelecidas entre os dois lugares evidenciam-se através dos telefonemas. os trabalhos referem-se às redes. de onde vêm. muitos conflitos tem ocorrido. Assim. As redes sociais emergem em decorrência do próprio desenvolvimento do processo migratório e das conexões que passam a ser estabelecidas entre os locais de destino e origem dos migrantes. como se constituem como grupo étnico. para onde vão como vivem a experiência de migratória. desenvolveu uma complexa rede de relações que conecta algumas cidades da região de Boston à vida cotidiana dos criciumenses.205 . A cidade de Criciúma. as redes apareciam como “pano de fundo” ou contexto no qual se desenvolviam as relações. Nos primeiros trabalhos. Esses estudos revelaram a importância das redes sociais na recente migração de brasileiros para o exterior. analisa mais os papéis estabelecidos entre homens e mulheres do que as relações nas quais essas masculinidades e feminilidades estão circulando. as ambigüidades. assim como Governador Valadares. mas estas não eram objeto central de análise. sugerindo que as mulheres brasileiras começaram a formar suas próprias redes em resposta ao “machismo” (grifos do autor) percebido no homem brasileiro.

206 . onde. principalmente americanos. o fluxo migratório não se configurou. Ao compararmos as trajetórias dos migrantes brasileiros com a de outros emigrantes nos Estados Unidos. percebemos que também nesse caso a consolidação de um fluxo contínuo para os Estados Unidos está diretamente relacionada à construção e à consolidação de redes sociais. não se pretendeu desconsiderar os fatores estruturais que motivam a migração. na década de 1940.TERRITÓRIO.1 . SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . 1999. Portanto. Contudo. teve início o fluxo de migração internacional. A discussão da configuração dessas redes e suas mudanças ao longo do tempo permitem compreender esse movimento relativamente autônomo ao Estado e às forças macroestruturais. 1999. familiar e afetivo. no Brasil. mas ressaltar as múltiplas relações construídas entre a origem e o destino.0 Emigrações internacionais em Governador Valadares 3. nos dois lugares ao longo do processo.Fatores que configuraram o fluxo migratório de Governador Valadares para os EUA A cidade de Governador destaca-se como o local geográfico. 2005). ESPÍNDOLA. no período da exploração da mica e posteriormente da ampliação da estrada de ferro Vitória a Minas (SALES. o qual envolve aqueles que partiram e aqueles ficaram no processo. as redes sociais também revelam que a migração é um projeto econômico. Quais os fatores que definiram o surgimento desse fluxo? Os pesquisadores que se dedicaram a estudar o fenômeno na região identificaram fatores históricos que possibilitaram a aproximação dos nativos com os estrangeiros. envolvendo pessoas que nunca pensaram em ir para os Estados Unidos nesta experiência de cruzar fronteiras. outras cidades e regiões receberam imigrantes que chegaram com objetivo de explorar as riquezas minerais e. no entanto. ASSIS. ao centrar a análise na construção e na consolidação das redes sociais dos emigrantes valadarenses e criciumenses. Por fim. A emigração de valadarenses e criciumenses no contexto das redes 3 .de dar uma força (expressão muito recorrente nas cartas e entrevistas dos emigrantes jovens) ou assistir ao casamento dos filhos ou ao nascimento dos netos (através da web).

juntamente com os outros. deu início ao que é denominado na literatura de TERRITÓRIO. Destacamos quatro outros fatores igualmente decisivos na configuração desse movimento migratório que nos anos de 1980 atinge seu ápice. portanto. exatamente. Além desses mecanismos. informar como deve se vestir e proceder na hora da entrevista e providenciar transporte até o consulado. Com a ida dos primeiros valadarenses. denominados cônsul . Esses mecanismos são agências de turismo que colocavam à disposição da população serviços. no período de 1985 a 1990 (SOARES. O primeiro deles é a existência de um mercado de trabalho secundário no país de destino. 1979). O Quarto fator é o que consideramos o definidor que. O terceiro fator a ser considerado é o surgimento. de mecanismos facilitadores para emigrar. Porém esses fatores ainda são insuficientes para explicar o fluxo.207 . organizar a documentação necessária. fatores de expulsão na origem e atração no destino (PIORE.Consideramos que esse fluxo é resultado de um conjunto de fatores e a presença dos americanos na cidade. para conseguir o visto de turista para entrar nos EUA. 1979) que constituem um quadro promissor. resultado da reestruturação econômica que eliminou vários postos de trabalho no Brasil. mas atrativo para o emigrante devido à possibilidade de ganhar mais do que em seu país de origem (PIORE. tendo em vista que possibilitou a criação no imaginário popular da idéia sobre os EUA como um lugar de grandes possibilidades e riquezas. na década de 1960. quando ocorre uma redução dos postos de trabalho devido a reestruturação produtiva que tem lugar na economia brasileira. é apenas um dos fatores. 1995). para a implementação do fluxo migratório de Governador Valadares para os EUA. configurou esse fluxo migratório – a constituição das redes sociais. que organizam grupos de pessoas e providenciam todos os meios necessários para a travessia pela fronteira do México e outras formas de entrada ilegal nos EUA. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . O fluxo de emigração de valadarenses para os EUA aumenta. pois nenhum deles foi exclusivo da cidade e região. Oferecem serviços como: agendar entrevista no consulado. na origem. desprezado pelos trabalhadores americanos devido ao baixo status e baixa remuneração. nos anos de 1980. Temos. existem os agenciadores. O segundo é a crise de emprego e a queda no poder aquisitivo da classe média no Brasil.

Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Como esta idéia sobre os EUA foi construída? Através dos relatos ficou evidenciado que no imaginário da juventude dos anos de 1960. nunca viajou para além de 500 km de sua cidade natal. na cidade de Governador Valadares. Quem eram os primeiros emigrantes? O que motivou os primeiros emigrantes a empreenderem a aventura de emigrar? Como as redes se consolidaram? Essas são questões importantes que foram respondidas a partir dos dados levantados e que veremos no item a seguir. Conforme afirmam Massey (1997). não conhece as grandes cidades brasileiras como São Paulo. Graças a essas redes. Na década de 1980 as redes estão bem consolidadas em determinadas regiões dos EUA. para isso acessam os recursos das redes sociais. estava presente a idéia de que lá aconteciam as coisas mais importantes do mundo. Emigraram não por razões econômicas e sim pela aventura e pela curiosidade de conhecer um país que consideravam rico. geralmente. quando configuradas. possuíam o segundo grau completo e estavam na faixa etária de 18 a 27 anos. direcionam esses fluxos para determinados espaços geográficos e para certos setores específicos do mercado secundário. Esta rede começou nos anos de 1960 e nos anos de 1980 possibilitou o boom imigratório da região para os EUA. os filmes e a guerra do Vietnam. um grupo de pessoas que possuem os mesmos objetivos e são da mesma região e por isso se apóiam. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Assim.2 . ou seja. os emigrantes do sexo masculino da região de Governador Valadares. desembarcar no aeroporto de New York. desenvolvido e cheio de grandes oportunidades.A origem das redes sociais: os primeiros emigrantes Os primeiros dezessete jovens que emigraram na década de 1960 para os Estados Unidos da América com o objetivo de trabalhar eram de classe média alta. São as redes que. Boyd (1986) os migrantes vão para lugares específicos e para setores específicos do mercado de trabalho do país de destino. 208 . a música. é possível para uma pessoa que não sabe inglês.rede.TERRITÓRIO. nos EUA (SIQUEIRA. chegar a Summerville e dois dias depois estar trabalhando como housecleaner ou na construção civil. 3. 2009). se direcionam para a construção civil e as mulheres para as faxinas na região da Nova Inglaterra.

Beatles e outros. Todas as notícias que chegavam mostravam a aventura que era aquela guerra”. Foto 1: Noticiando viagem de um intercambista valadarense para os EUA Fonte: Diário do Rio Doce. então a gente vibrava com isto e eu tinha um sonho de conhecer a Broadway e quando eu cheguei perguntei onde era a Broadway e disseram que eu estava nela. 1962 TERRITÓRIO. falou que eu era aventureiro. presente nos relatos. (Entrevistado 05. fiquei muito emocionado e também tive sorte de morar na Rua 42 bem no centro de New York”. (Enrevistado 1. que eram amigos dos primeiros emigrantes. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . mas eu queria ir para lutar na guerra do Viatnan. quando resolvi emigrar a família me chamou de doido.“Nós rapazes daquela época gostávamos muito de músicas. A imprensa local noticiava as viagens e as maravilhas vividas por esses intercambista. Um elemento importante neste processo. foi a escola de inglês IBEU e os intercâmbios dos primeiros estudantes valadarenses para os EUA que trouxeram notícias mais concretas da sociedade americana. acompanhamos a fase de muitos cantores como: Elvis. emigrou em 1964) “Toda vida a situação financeira da minha família foi boa. emigrou em 1967). Ninguém sabia.209 .

Foto 3: O casal Simpson Fonte: Arquivo da família Simpson 210 .Foto 2: Noticiando o retorno do Intercambista Fonte: Diário do Rio Doce. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .TERRITÓRIO. 1962.

. A foto abaixo é do ano de chegado do casal Simpson à cidade de Governador Valadares8. trabalharia vinte horas e estudaria numa escola normalmente e o que eu ganhava dava para me sustentar o mês todo sem problema.. TERRITÓRIO. meus amigos só queriam ouvir sobre a vida lá. O Coelho foi o primeiro e quando ele retornou me deu informações sobre os EUA. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . contudo a família Simpson aqui permaneceu. No mesmo ano..] não decidimos emigrar por questões financeiras mais pelo desejo de conhecer e estar em mais contato com a música americana que era nossa paixão. com consentimento de publicação. de posse das informações concretas os dois primeiros emigrantes partiram para os EUA com visto de trabalho. na ocasião da realização da entrevista. Dona Geraldina Simpson..] que fez o intercâmbio estudantil nos EUA me passou as informações que eu precisava que era a de que lá conseguia sobreviver e que era possível emigrar para lá com o visto de trabalho e não ter problemas e assim o sinal ficou verde para nós. Durante muitos meses eu não consegui falar de outra coisa.emigrou em 1964). (Entrevistado 02 . [. Finda as obras todos os trabalhadores americanos deixaram a cidade. que se eu conseguisse o visto de trabalho para lá que não teria problema nenhum. (primeiro intercambista..] com intercâmbio de estudantes que vinham para o Brasil e iam para os EUA.Esta escola foi fundada em 1960 pela esposa do Mister Simpson. o primeiro intercambista relatou as grandes possibilidades de trabalhar e estudar nos EUA Quando cheguei fazia fila na minha casa para ver o álbum de fotografia e para eu contar como era a vida lá. Mister Simpson viveu em Governador Valadares até sua morte em 1969..211 .... Tinha um programa da Dona Geraldina Simpson que era de intercâmbio. Aqui em Governador Valadares tinha eu. Ao retornar. 1963). partiram em 1964. As cartas acompanhadas de fotos eram enviadas com 8 Foto cedida pela família.] que queriam emigrar para os EUA. assim [.. Os quatro primeiros emigrantes foram os pontos iniciais da rede. Mister Simpson era um dos engenheiros americanos que vieram para Governador Valadares em 1942 para trabalhar na ampliação da Estrada de Ferro Vitória a Minas. emigrou em 1964) [. A idéia de ir para os EUA ficou mais atraente.] conseguimos o visto de trabalho e partimos. e outros três [. [. (Entrevistado 01.

em especial. minha casa vivia cheia de pessoas que chegavam lá. estes imigrantes sentem-se menos sozinhos e desprotegidos. As redes sociais emergem em decorrência do próprio desenvolvimento do processo migratório e das conexões que passam a ser estabelecidas entre os locais de destino e origem dos imigrantes. arrumavam o primeiro emprego. Nos dois primeiros anos levei mais ou menos 15 pessoas e cada uma delas levou pelo menos uma pessoa [. As redes formadas nos países que recebem emigrantes são um dos principais fatores da permanência destes por lá. sobretudo. levando no médico. buscando no aeroporto. buscavam no aeroporto. (Entrevistado 03. irmão. Nos relatos acima podemos destacar como as redes se constituíram e sua importância para explicar e entender como os brasileiros chegam aos EUA. a diminuir os custos psicológicos. ofereciam estadia ou moradia. levei mãe.. arrumando emprego. Além das informações emprestavam dinheiro para o depósito.TERRITÓRIO. emigrou em 1968). “Sempre ajudei a quem chegava lá. pois elas ajudam. minha família. Esses dezessete primeiros emigrantes foram os pontos iniciais da 212 . As redes são formadas por interesses em comum e laços de amizade ou parentesco de seus participantes. comprando remédio. etc. Emprestei dinheiro para os que queriam ir”. a idéia da existência de um lugar onde era fácil ganhar dinheiro e teve como fator determinante a formação das redes sociais.freqüência relatando as oportunidades e maravilhas da terra. Ao encontrarem um grupo de amigos receptivos. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . (Entrevistado 09. emigrou em 1965) “Ajudei muitas pessoas. compravam roupas adequadas ao clima dos EUA.] eu organizava toda a ida deles buscando no aeroporto. Esses primeiros emigrantes davam o suporte necessário para os que desejavam emigrar. no imaginário popular. com moradias já arrumadas e na maioria das vezes até com serviço no jeito. cunhada (o) sobrinha (o) primos e amigos. Neste sentido podemos considerar que o fluxo migratório para os EUA definiu-se a partir de um contexto histórico que criou. pois tornam a migração mais segura na perspectiva do emigrante. difundindo assim a grande aventura que era emigrar. sociais e econômicos da migração. irmã.. mais ou menos umas 20 pessoas da família e com amigos umas 30 pessoas e por intermédio de mim imagino que foi umas 50 pessoas. Também fui muito ajudado no tempo em que vivi lá”.

emigrou em 1969 e vive até hoje nos EUA). 1963). As poucas notícias enviadas por carta para os amigos sobre a vida nos Estados Unidos só puderam ser explicadas quando retornou para Governador Valadares e trouxe as fotos e todas as informações. (Maria. “Fiquei o dia todo esperando a ligação que era péssima se comparada com as de hoje.. estes por sua vez foram pontos de apoio para outros tantos.]”. “Eu tinha um amigo que sempre me dizia sobre como era o trabalho e que se eu fosse ele me ajudaria. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .. Relata que no dia do seu aniversário ganhou de presente da família americana uma ligação telefônica para a família em Governador Valadares. As novas tecnologias de comunicação e a consolidação das redes O primeiro intercambista que trouxe as informações para seus amigos de como emigrar afirma que só quando chegou pode relatar em detalhes para os amigos sua estadia e as grandes possibilidades da emigração..A comunicação entre a origem e o destino.. Relata que durante meses foi interrogado pelos amigos sobre detalhes da vida nos Estados Unidos e como era possível trabalhar e ganhar dinheiro em New York. relata que recebia informações de seus amigos que haviam emigrado para os Estados Unidos através de comunicação por rádio amador. entre parentes e amigos a emigrarem. TERRITÓRIO. O Jornal de Governador Valadares colocou a seguinte manchete na primeira página: “Intercambista fala com seus pais dos Estados Unidos da América”.] tão distante [. 4 .rede migratória de Governador Valadares para os EUA. A partir dos quatro primeiros emigrantes que chegaram a New York em 1964 com visto de trabalho a rede foi se formando no decorrer dos anos de 1960 e 1979 dando origem ao boom emigratório da segunda metade dos anos de 1980. Maria Emigrou em 1969. mas para mim foi uma emoção enorme ouvir a voz de meus familiares [. (primeiro intercambista. A gente conversava por radio amador”. Segundo os depoimentos a maioria deles auxiliou mais de 30 pessoas.213 . Escrevia cartas e enviava fotos para a família e os amigos que demorava mais de um mês para chegar.

já na década de 1980.Foto 4: Primeiro intercambista falando dos EUA com a família em Governador Valadares Fonte: arquivo pessoal (cedida para publicação). Nesses relatos dos emigrantes da década de 1960 fica evidenciado que as dificuldades de comunicação delimitavam.] a família toda ia para casa de meu tio e ficava esperando [. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .TERRITÓRIO. As informações enviadas.. “Tinha sempre o horário marcado para ligar uma vez por mês.. os emigrantes começam a utilizar com mais freqüência este meio de comunicação.] tinha que falar um pouquinho com todo mundo. um pouco. exclusivamente por cartas. 214 . mandava a carta dizendo que ia ligar dia tal em tal horário [. a circulação mais rápida das informações. inicialmente.” (Mario emigrou em 1980). com a melhoria do serviço de telefonia.. contudo ao longo dos anos de 1960 e 1970 as redes sociais de emigração foram se formando e se consolidando..

contudo vale lembrar que a definição tanto do projeto como da direção do fluxo migratório tem fortes componentes sociais.3 . casamento.Impactos da emigração na origem O projeto de emigrar passa geralmente pelo desejo de ir. nascimento e aniversários são comemorados conjuntamente.Com o surgimento da internet e a popularização de seu uso a comunicação entre os dois lugares começa a acontecer em tempo real. “Já tem 4 anos que estou aqui. culturalmente e economicamente pelo fenômeno da emigração internacional. pois permitem a circulação das informações.] ensino o mais velho a fazer os deveres de matemática. (Carlos. 4. (Elisa. (Joana. emigrou em 1982). fazer poupança. mas converso com minha esposa e meus filhos todos os dias [.. sensações mais rapidamente. as informações passam a circular mais rapidamente. em tempo real. e assim. O emigrante que recebia um jornal de sua cidade de origem com duas semanas de atraso passa a ter acesso on line ao jornal no dia e hora de sua edição. etc. A partir desses depoimentos podemos considerar que as novas tecnologias de comunicação. o jornal circulava vários dias entre os amigos. Sendo assim. A região de Governador Valadares é marcada socialmente. possibilitaram a comunicação entre os dois lugares com muito mais freqüência e rapidez. ele lia e passava para frente. No Domingo eu fico o dia todo com ele na net”. MSN. com duas ou três semanas de atraso. “Quando alguém recebia o Diário do Rio Doce. adquirir bens na cidade de origem e retornar em situação socioeconômica melhor. “Eu falo e vejo minha família e amigos todo dia. mas em pontos geográficos diferentes. tornando as redes mais sólidas entre a origem e o destino. Agora toda manhã é só abrir na internet e eu posso ler no mesmo horário que lá”..215 . Segundo Harvey (1993) essas novas tecnologias possibilitam a compressão do tempo e do espaço. culturais e históricos. se junta através de vídeo conferências. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . ele tem dificuldades em matemática. às vezes mais de uma vez por dia”. Pessoas distantes geograficamente. emigrou em 1998). unindo a origem e o destino. Aqueles que retornaram vieram com o projeto de investir em TERRITÓRIO. emigrou em 2003).

Permaneceram de 3 a 10 anos (75. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .4%) tinha uma renda mensal de até três salários mínimos e depois de se estabelecerem como empresários 38.imóveis para aluguel ou tornarem-se pequeno empresário nas suas cidades de origem. Esses emigrantes empreendedores configuram o mercado de trabalho local. no que se refere à arquitetura dos bairros onde residem. Segundo Soares (1995) a partir da segunda metade dos anos de 1980 o setor imobiliária da cidade de Governador Valadares apresentou um crescimento vertiginoso. Nas cidades da Microrregião de Governador Valadares é fácil. com seus investimentos criaram de 1 a 4 postos de trabalho e 23% de 5 a 10. uma vez que antes de emigrar a maioria (69. Para o emigrante. Reformam ou constroem casas maiores e com acabamento melhor do que o padrão das casas do bairro e ampliam o seu consumo de bens duráveis. 2008a). Destaca-se que 48% contratam seus empregados com base na CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas). É interessante ressaltar que 46. as redes sociais ajudam os seus componentes a conseguir acesso aos recursos financeiros e sociais que possibilitam seu ingresso numa sociedade sobre a qual não têm ou têm poucas informações. ou seja. Uma casa é vendida por três vezes o seu valor real. além do valor de mercado existe um valor simbólico 216 . O principal motivo declarado para emigrar (53.8% de mais de dez salários mínimos.TERRITÓRIO. e outros 20. A maioria deles (48%). retornar e investir no Brasil.2% passa a ter uma renda em torno de seis salários mínimos. Novos bairros surgiram com o investimento dos emigrantes. principalmente.7%). A emigração possibilitou um aumento da renda mensal. distinguir as casas reformadas ou construídas pelos emigrantes. O fenômeno da emigração internacional reconfigura o espaço urbano. pois além de abrir novos empreendimentos contratam mão de obra. A maioria dos emigrantes que se tornaram empresários (82. na década de 1980. em alguns bairros.3% afirmaram que emigraram porque foi uma possibilidade que surgiu para conseguir atingir seus objetivos mais facilmente e em menor tempo (SIQUEIRA. Conforme assinala Fusco (2006). Uma conseqüência desse investimento imobiliário dos emigrantes é a supervalorização do preço do imóvel em toda a região.7%) foi a possibilidade de ganhar dinheiro. o mesmo acontece com as propriedades rurais. porque o emigrante que está nos EUA paga este valor.7%) emigrou exatamente no período de aumento do fluxo.

que é comprar a casa na rua onde morava de aluguel.. 9 Lojas de brasileiros.. Entretanto.]” (Jorge. porém. Este valor representa 1.. não se mantém por muito tempo.7. Na cidade de Governador Valadares já é sentida pelos proprietários de imóveis para aluguel. As remessas de moeda estrangeira enviadas para as cidades de origem se constituem em outro elemento que reconfiguram as cidades de origem dos emigrantes..] joguei no chão e construí essa. em 2003 e 2004 o Banco Itaú em parceria com a Money Grant e o Bradesco em parceria com o Bank of America e mais recentemente em 2005 a Caixa em parceria com o Banco Português BCP inauguraram serviços de remessas de dólares para o Brasil.] no mesmo bairro que eu nasci e vivi [. vindas principalmente dos EUA. isto é resultado da oferta maior que a procura.. a fazenda onde era vaqueiro.] o preço dos alugues estão caindo. emigrou em 1976) Os investimentos em imóveis para alugar é outro efeito da emigração. Ressaltamos que parte desse valor não é contabilizada pelo Banco Central porque entra no país por vias ilegais (as agências de turismo9)..4 bilhões. revistas brasileiras. É a possibilidade de mostrar para si e para os outros que seu projeto de emigrar foi bem sucedido. “[. Em 2000 o Banco do Brasil.7 bilhões são provenientes dos EUA. em parceria com a Western Union e posteriormente. o valor monetário. 10 Folha de São Paulo. TERRITÓRIO. Só para a cidade de Governador Valadares a remessa representa 60% da arrecadação do município prevista R$ 274 milhões em 200610. O principal meio de envio desse dinheiro declarado pelos entrevistados é através das agências de turismo (59. a casa que tinha era velha [.] comprei o lote. 25 de dezembro de 2005.]” (proprietário de imobiliária na Região de Governador Valadares).1% do PIB brasileiro. a queda no preço dos aluguéis.217 .. superam US$ 6. Europa e Japão. Segundo dados do Inter-American Development Bank (2006) as remessas enviadas para o Brasil. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . do jeito que eu queria [. Caderno B p. Tantos investimentos em imóveis para alugar provocou isso [. cuja principal atividade é o envio de remessas para o Brasil.9%). “[... O volume dessas remessas atraiu o sistema bancário nacional.. Deste valor US$ 2.. este setor já sente os efeitos da oferta maior que a procura. mas também vendem outras coisas como jornais. por ser irreal na perspectiva do mercado..

São poucas as cidades que atingem este montante. a instituição recebe depósitos do Banco Rendimento. Por isso é que eu considero que os dados oficiais não representam a realidade da cidade e região. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Afirma que depois da queda do dólar os valores diminuíram. onde o dinheiro que circula é todo formalizado porque as grandes empresas como Cenibra. 90% provêm do EUA. Outra instituição local que trabalha com o recebimento de remessas é a cooperativa de crédito AC Credi. só para as 16 cidades da Microrregião de Governador Valadares que possuem agencias. grande parte vem informalmente. 13 Entrevista realizada em 02/05/2006. Nosso IDH é baixo. “As remessas são fundamentais para a região. em Valadares o dinheiro que circula é informal. vindo principalmente do envio de remessas. Diferente do Vale do Aço. elas dinamizam o comércio.00 de remessas do exterior. Destaca que em torno de 60% das remessas são para a cidade de Governador Valadares. segundo o Banco Central. 218 . Só começou a fazer propaganda deste produto em novembro de 2005. de ordens de pagamento para as 10 agências que possui na região. o total de R$4. A SICOOB (Cooperativa de Crédito do Vale do Rio Doce Ltda. A queda do dólar afeta diretamente o comércio da cidade. mas a qualidade de vida é bem melhor do que a indicada pelos índices oficiais. no período de julho a dezembro de 2005 a cooperativa recebeu.684. contudo o número de ordens continua o mesmo.548. 12 Entrevista realizada em 28/04/2006. Segundo o diretor administrativo e financeiro12. Usiminas.As instituições da região também começaram a operar com recebimento de remessas. Segundo seu presidente13. prazo e poupança nos 18 bancos da cidade somava um total de duzentos e oitenta milhões de reais. a não ser as que têm grandes indústrias como Ipatinga. Só em fevereiro de 2006 o dinheiro em depósito à vista. ligada à Associação Comercial de Governador Valadares. desde 2004 e trabalha somente com ordens de pagamento para seus cooperados.) fez convênio em julho de 2005 com o Banco Rendimento11 com aval do Banco Central e passou a receber remessas de dinheiro do estrangeiro. mas está nos bancos.TERRITÓRIO. exigem a formalização dos contratos. Deste montante. isto porque a circulação de 11 É o segundo Banco em volume de remessas de moeda estrangeira para o Brasil. Recebe em média duzentos mil reais por mês. Todo este dinheiro foi gerado informalmente.

é que 31.4% consideravam que seus investimentos tinham um ótimo retorno financeiro e davam uma renda suficiente para viverem no Brasil. por causa da baixa lucratividade. O retorno à condição de emigrante foi a solução encontrada. 2009). não buscaram informações em órgãos competentes e não fizeram nenhum tipo de treinamento na área administrativa (SIQUEIRA. 2009). (Diretor Financeiro da AC Credi). portanto. Hoje. Aqueles que se tornam documentados nos EUA passam a viver nos dois lugares. Mantêm casa e carro no Brasil. Os resultados demonstraram que investiram. Não fizeram nenhuma pesquisa de mercado. TERRITÓRIO. Veja só a frota de veículos da cidade. Dividem suas vidas. Não possuíam experiência no ramo em que investiram e nunca tinham sido proprietários de algum negócio. ou uma ótima oportunidade. vivem nos EUA e reconhecem os erros cometidos. entre o local e o global. ou porque consideraram que era um bom negócio. nenhuma experiência em como administrar uma empresa. investimentos e trabalho nesses dois espaços.dinheiro é informal. Tornam-se transmigrantes num mundo globalizado (SIQUEIRA. Como a perspectiva teórica baseada na transnacionalização preconiza. Na pesquisa realizada em 2005 na Região da Nova Inglaterra nos EUA foram entrevistamos 35 emigrantes nesta categoria. mas não conseguiram permanecer no Brasil por não se readaptarem. A maioria continua com o projeto de novamente retornar para a cidade de origem. Um dado que chama a atenção nesse grupo que investiu e retornou à condição de emigrante nos EUA. no comércio. passam a viver em dois mundos diferentes. para aqui desfrutarem o descanso.219 . Tornam-se moradores de dois lugares. a partir de informações dadas por parentes e amigos. Tudo isso mostra que as remessas oficiais e as não oficiais dão sustentação à nossa economia”. não tendo. Outra face desse fenômeno que também configura as cidades de origem é o fato dos emigrantes que retornam e investem serem mal sucedidos e retornam a condição de emigrantes. Nossa cooperativa é a maior do interior de Minas. trabalham nos EUA e passam um ou dois meses no Brasil. predominantemente. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . é uma das melhores de Minas para cidades do porte da nossa. Muitos foram à falência ou fecharam. Definiram em que investir. estabelecendo conexões entre as duas sociedades. que impossibilitava a manutenção de um bom padrão de vida no Brasil. agronegócio e serviços.

. (Armando . “[. “ [.] planejamos o retorno juntos. MSN. é só trabalho e casa. fundamentais para concretizar o projeto de retorno. [. também. Que imóvel comprar? Em que região? Qual a melhor forma de pagamento? O preço está de acordo com o mercado? O imóvel é bom? Vale o preço? Estas são algumas questões que o emigrante procura responder através das redes que mantém na origem. Atualmente a maioria dos emigrantes possui internet e fazem uso de e-mails.. pai mãe. O desejo e a insegurança quanto aos aspectos econômicos tornam o retorno.] tudo que fiz aqui antes de voltar eu primeiro conversava com amigos. Aqueles que ficam na origem.Redes acionadas para o retorno Se para emigrar. Os amigos e familiares.TERRITÓRIO. 220 .4 .. são pontos fundamentais para a manutenção dos laços afetivos e dão sustentação ao projeto de retorno.4... ou seja. parentes que estavam aqui. (Jorge – emigrou em 1979). contudo vizinhos e amigos também são pontos importantes.. além de possibilitar a difusão das informações necessárias para empreender o projeto migratório.] meu irmão viu os preços do caminhão. a rede social se constitui elemento fundamental para concretização do projeto de retorno. situação econômica do país ou das vantagens de viver em sua própria pátria. Assim o projeto de retorno é acalentado com as informações que chegam através dessa redê.]”. Minha mulher conseguiu montar a loja e deixar tudo no ponto prá quando eu chegasse já começasse a trabalhar”.emigrou em 1992). psicológicos e econômicos. irmãos).. Os familiares são os principais pontos dessa rede (esposa.. Orkut como forma de estarem contato contínuo a origem. são. escolheu a melhor máquina e o melhor preço [. as redes sociais no destino amenizam os custos sociais. seja informando sobre investimento. A rede social de emigração no local de origem não só mantém o migrante informado sobre os aspectos econômico. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . as redes sociais tanto no destino como na origem. muitas vezes dramático. Lá a gente fica muito fora da realidade. mas também dão apoio e suporte na chegada.

por diferentes razões conseguiram superá-las e permanecer em suas cidades.... minha mãe ajudou demais cuidando dos meus filhos e quando cheguei foram os amigos e os parentes que me deram força para eu me sentir em casa novamente [. (Inácio . O projeto de emigração e retorno é familiar e social. o resultado positivo ou negativo é compartilhado por todos.. do futebol. As redes familiares e sociais amenizam o estranhamento e auxiliam na organização da vida social e afetiva. Os amigos tinham casado. tinham interesses diferentes e o papo não rolava mais como antes [. da década de 60. Neste sentido as redes no local de origem são importantes para que o emigrante possa sentir-se bem em sua cidade de origem.] as crianças olhavam para mim com receio e eu não sabia o que fazer [. 70 e 80 relatam seu retorno e as dificuldades de se estabelecer novamente em seu local de origem. O emigrante espera encontrar o mesmo local e pessoas que deixou. as dificuldades relatadas são as mesmas.] até com minha mulher eu achei estranho[.. uma amigo que é corretor ajudou milha mulher na hora de comprar a casa. seus amigos. achei tudo estranho [. (retornado em 2005) O retorno tem implicações de ordem econômica e emocional. Os entrevistados relatam a dificuldade não só de organizar a vida econômica. “Quando cheguei fiquei desnorteado..SIQUEIRA (2008b) demonstra que o retorno é marcado pelo estranhamento. (retornado em 2000) “[..221 . da igreja já não são os mesmos..]”.. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . ta tudo diferente. As redes possibilitam maximizar os benefícios e minimizar seus custos tanto social. vizinhos e parentes mudaram e a turma da cerveja.] a ajuda que recebi foi em todos os sentidos. Vale ressaltar que as condições e contradições de emigração traduzem os intricados aspectos desse fenômeno. “É muito difícil acostumar novamente na cidade da gente.. O retorno é uma dessas dimensões que se concretiza dependendo das várias formas como as relações se estabelecem entre o emigrante e seu local de origem.] a ajuda do meu irmão e toda a minha família foi muito importante para eu conseguir me adaptar novamente”...emigrou em 1992). TERRITÓRIO. afetivo como econômicos. Todos os emigrantes entrevistados.. contudo muitos não conseguem e acabam por reemigrar.]. contudo. quando retorna seus filhos cresceram. mas também social e afetiva. contudo..]”. a gente fica zonzo e não sabe o que fazer e para onde ir [. Dentre os que permaneceram.

Está localizada ao sul do Estado de Santa Catarina e distante de Florianópolis 190 Km (via BR 101). SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .56). aquelas que não tiveram sucesso no comércio. pois são representados como aqueles que vieram colonizar a região e trazer a civilização. poloneses e alemães. 1976). é a principal base de desenvolvimento de Criciúma e da região. o carvão está definitivamente associado à história da cidade e.TERRITÓRIO. que vieram como operários na estrada de ferro e depois foram os primeiros trabalhadores nas minas de carvão.Fatores que configuram o fluxo migratório para os EUA Criciúma. também trocaram a agricultura pela mineração. segundo Volpato (1989. É importante observar que os relatos sobre a história da cidade enfatizam a imagem heróica do pioneiro. a partir da mineração. A partir do desenvolvimento da mineração.1 . é uma cidade de importância na econômica para a região. Destacam o contingente populacional que imigrou para a cidade. a narrativa étnica de formação da cidade aparentemente foi deixada de lado e a cidade passou a ser representada como a cidade do carvão. especialmente de Treviso. Criciúma foi fundada em 1880. os imigrantes alemães dirigiram-se para a região de Forquilhinha (Fundação Educacional de Criciúma. Mais tarde. A partir de 1890 chegaram a Criciúma.5 . A partir da década de 1920.Emigração internacional em Criciúma 5. Nos anos que se seguiram à colonização. Ao analisarem o processo de desenvolvimento da cidade. a partir dos anos 30. da região norte da Itália. no início do século XX. Linha Anta e Linha Cabral. Beluno e Cremona. Laguna e Tubarão. sobretudo. Nos relatos sobre a fundação da cidade foram se construindo narrativas onde a imagem do imigrante pioneiro era valorizada e destacada. por um contingente de 22 famílias de imigrantes que vieram. As famílias mais pobres de agricultores. juntaram-se novos grupos étnicos: os lusos e negros vindos de Imbituba. p. que corresponde às comunidades da Linha Batista. em torno de 12 a 15 famílias de imigrantes poloneses e algumas famílias de imigrantes alemães. 222 . por volta de 1912. Estes imigrantes se dirigiram para a zona leste/nordeste da vila de Criciúma. assim como Governador Valadares (MG). Aos imigrantes italianos. Volpato (1989) e Teixeira (1996) criticam a historiografia local.

assim. por sua vez. mas também o surgimento de uma classe operária que. Segundo Teixeira (1996) a crise ocorreu por um conjunto de fatores. que se caracterizou no final da década de 1970 e início da década de 1980 por um forte movimento sindical. A crise econômica enfrentada pela cidade. a cidade. em função da proliferação das minas. privilegiando as elites econômicas locais. O crescimento da cidade atraiu imigrantes que. embora não possamos reduzir a migração às motivações econômicas. que se comprometia com a compra de grande parte do carvão extraído. aponta para uma das razões que tornaram a cidade ponto de partida de inúmeros emigrantes em busca de trabalho nos Estados Unidos ou na Itália. A economia pôde contar com o apoio do Estado. a retirada dos subsídios por parte do governo e o fim do protecionismo estatal e a concorrência internacional. Devido à forte mobilização dos mineiros e da constituição de um movimento sindical consolidado. em grande parte. provenientes de outras regiões do estado e ampliaram o contingente da população negra e açoriana que havia na região. Eram famílias de pequenos agricultores ou pescadores originários de pequenos vilarejos da região sul do estado. juntamente com os pequenos agricultores que não conseguiam manter-se no campo. Com isso. causando.223 . tornouse bastante diversificado. no estado de São Paulo. a região foi considerada por alguns autores o ABC14 de Santa Catarina. Tais imigrantes eram. a qual se agravaria na década de 1990 com o governo de Fernando Collor (1990-1992). TERRITÓRIO. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . como a queda da produção. o que teria reduzido o mercado em mais de 30 %. chegavam à cidade em busca do “eldorado do ouro negro”. o setor carbonífero deu os primeiros sinais de uma crise.isso significou não apenas a urbanização e o crescimento. uma alta taxa de desemprego na região. homens e mulheres que constituíram a classe operária mineira. iniciada no final da década 1980 e agravada na década de 1990. Em meados da década de 1980. A emigração para a Itália 14 Teixeira (1996) refere-se à comparação com a região siderúrgica do ABC. que mais tarde seria conhecida como a “Capital Nacional do Carvão”. tornaram-se a marca de um desenvolvimento que ocorreu de maneira desigual. recebeu um considerável fluxo migratório de trabalhadores vindos de toda a região sul do estado para o trabalho de extração nas minas. o panorama econômico e social da cidade.

e para os Estados Unidos também está associada ao imaginário presente na cidade. Nas décadas de 1980 e 1990. os migrantes não partem para os Estados Unidos com uma documentação que lhes permita trabalhar. entretanto. e os criciumenses passaram a utilizar a dupla cidadania para emigrar para os Estados Unidos. O passaporte europeu dispensa a solicitação de visto para a entrada no país. No entanto. 2004) A partir dos anos 1990. Somerville e Everett e para algumas cidades da Itália. ao longo destes 120 anos. foi reconstruindo os significados para os imigrantes e a migração. o qual constrói uma conexão entre os imigrantes do passado e os emigrantes do presente. o fluxo diversifica-se. a emigração para a Itália e para os Estados Unidos também está associada ao imaginário presente na cidade. assim como os migrantes valadarenses. através de convênios com algumas regiões da Itália. o qual constrói uma conexão entre os imigrantes do passado e os emigrantes do presente. imigrantes indocumentados no país de destino. por isso. tornando-se. os descendentes dos imigrantes realizam um movimento de busca pela cidadania européia e. A cidade de Criciúma. dirige-se majoritariamente para os EUA nas regiões da grande Boston (MA). Como demonstram os relatos dos emigrantes. Criciúma tornou-se um ponto de partida de emigrantes para a Europa e para os Estados Unidos. vários deles partem para a Itália a fim de reencontrar seus parentes. assim. tal como os italianos vêm conhecer “um pedacinho” da Itália no Brasil. o movimento de criciumenses. mas principalmente ao desenvolvimento e ao amadurecimento de redes sociais ao longo do processo migratório.TERRITÓRIO. particularmente da etnia italiana. concentrando-se nas cidades de Lowell. Embora grande parte desses emigrantes informe que tem ascendência italiana. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . diferentemente da migração para a Itália. Esse “retorno” à terra dos nonos e nonas pode ser considerado o início do movimento migratório de Criciúma (ASSIS. A dupla cidadania abre o mercado de trabalho para os descendentes dos imigrantes na comunidade européia. É interessante observar que Governador Valadares também construiu desde final da década de 1960 uma cultura migratória relacionada aos primeiros valadarenses que foram para os EUA para estudar 224 . mas principalmente ao desenvolvimento e ao amadurecimento de redes sociais ao longo do processo migratório. é a partir de meados dos anos 1980 que se intensifica o movimento de revalorização das várias etnias que formam a cidade.

Sentir. 2004. Essas narrativas em torno dos primeiros emigrantes e de suas conexões entre os EUA e o Brasil configuram esse campo de relações entre os dois lugares como veremos a seguir. 2007). Estes clubes que atingiram seu auge em 1970 eram voltados à educação de jovens agricultores. e os jovens americanos que vinham aqui morar podiam passar as técnicas conhecidas às pessoas que os estavam recebendo. um americano que antes de ir embora disse que nunca esquecerá Criciúma e seu povo.inglês. 1999.A origem das redes sociais de emigração Criciúma-EUA No período pós-guerra (1945). que conta a história de Bob Harter. 2009). encontramos a história de Ilma Arns. (MARGOLIS. criando vínculos. Servir e Saúde”. uma criciumense que foi estudar técnicas agrícolas nos EUA. e promovia o intercâmbio desses com outros jovens agricultores americanos. Para “educar” os agricultores a utilizar novas técnicas produtivas e aumentar a produção. trabalhar. assim os brasileiros podiam aprender novas técnicas nos Estados Unidos. através da ACARESC. No sul de Santa Catarina o Clube 4-S trouxe os americanos e seu estilo de vida ainda mais perto dos criciumenses. com forte influência norte-americana. havia ainda os intercâmbios estudantis promovidos pelo Rotary Club. que tornaram-se comuns a partir de 1960 (SANTOS. foi implantado aqui em Santa Catarina um projeto chamado Clubes 4-S. e os clubes foram implantados no estado a partir de 1957. na edição de 11 a 18 de setembro de 1965. SALES. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . A sigla significa “Saber. Na década de 1960 houve ainda uma difusão da cultura norteamericana no Brasil. 5. No mesmo jornal. 1994. que foi cuidadosamente elaborada pelo governo estadunidense com o objetivo de aproximar e fazer a classe média braTERRITÓRIO. além de servir como um painel de divulgação da modernidade americana. órgão responsável pela implantação e desenvolvimento das atividades extensionistas da agricultura no Estado de Santa Catarina. ganhar uns dólares e voltar falando inglês e com algum dinheiro – era quase uma aventura. de 21 a 28 de agosto de 1965. como é possível observar no jornal Tribuna Criciumense. um novo modelo produtivo agropecuário foi implantado no Brasil. ASSIS.225 . Além dessas viagens promovidas pelos 4-S.2 . visando superar o “atraso” na agricultura. sob o comando do capital. SIQUEIRA.

Mas na cidade existia uma nova elite carvoeira e cerâmica. [. foi para os EUA em 1966.]. é considerado como o pioneiro nessa emigração para os EUA. O american way of life passou a ser difundido para as massas logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. além de uma classe média urbana.. 2007). mas é claro que apesar do fascínio pelo avião. uma falta de estranhamento em relação àquele país. nos andava duas. Manchester. três milhas. graças à implantação da indústria cerâmica.. Para se ter uma idéia de como foi se formando um imaginário na cidade sobre os Estados Unidos. gerando algo em torno de 15. Já estabelecido naquele país.] meu irmão o Jaci.. Nos saímos do México. no Estado de New Hampshire.. Jaci estudou em um seminário em Minas Gerais e lá ficou amigo de um rapaz que posteriormente migrou para os EUA. ele já tinha conhecimento de 5 brasileiros morando só naquela cidade. [.] Nossa. próxima a Boston (80 km). e me disse: “Dino: vamos pro Brasil de carro [..] eu tinha um Mustang zero [.. 2007)..sileira consumir os produtos da cultura norte-americana (Santos. Jaci. Dino conta na entrevista que na época que ele chegou nos EUA. é pra matar! [. que podia adquirir os bens da modernidade e viajar como turistas aos EUA e esse estilo de vida de classes mais abastadas era difundido pela mídia às demais classes. Jaci encontrou emprego para seu irmão. Dino relata na época era muito fácil conseguir um Green Card e ficar em situação legal no país. foi assim mil milhas por dia.. sendo que um deles havia sido levado por Jaci. Jaci Carminati. chegamos.. Dino também dá detalhes de uma viagem que ele e seu irmão fizeram de carro dos EUA até Criciúma em 1970.] mas também. 2003). SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .. dois três quilômetros aí tinha que parar pra 15 Relato de Dino Carminati em entrevistarealizada na cidade de Lowel em junho de 2008 226 .. Dino Carminati..TERRITÓRIO. 1999 apud SANTOS. então. bastava comprovar que tinha um emprego nos EUA para ganhar o visto.] era começo de janeiro [. Ainda na década de 1960 a economia da cidade se torna mais dinâmica.] nós saímos no dia 5 de dezembro de 1970. que foi em 196915. num desfile de 7 de setembro em 1976 um menino foi fantasiado de Mickey Mouse (CAMPOS.. Percebe-se aí também um incremento das viagens aos Estados Unidos. pra Honduras. tinha um mês [. nem todos tinham as condições financeiras para fazer tais viagens. uma “proximidade”.000 empregos na época (AMREC. vizinho de Massachussetts.. buscando a ajuda desse amigo para encontrar trabalho.

aí entramos no Brasil pelo Chuí. quatro anos nos Estados Unidos. julho de 2008). 2008).escovar a borboleta do radiador [. Aí chegamos em Porto Alegre domingo de manhã morto de cansado [. todos os nomes que aparecem nas entrevistas são fictícios. portanto. porque aqui é um país de Primeiro Mundo.. TERRITÓRIO. depois chegamos na Capital. aí chegamos na alfândega. não tava.] Hoje nós estamos aqui [Estados Unidos] como imigrantes da mesma forma quando eles estavam lá [Brasil]. Ao longo dos anos de 1970 e 1980 outros criciumenses emigraram formando assim pontos iniciais da rede que no início dos anos de 1990 dará suporte ao boom da emigração para os EUA. a coisa mais linda do mundo[. (Entrevista realizada com Dino Carminati nos EUA em Lowell. 16 Como se trata de uma migração indocumentada. Tivemos que ir lá na praia buscar o cara. fomos pra Montevidéu. muitas vezes. nós viemos para a cidade. pra ele carimbar o passaporte pra entrar no Brasil. Como relata Anita Baily16 A maioria dos imigrantes que estão aqui tem alguma coisa disso com eles [nonos] [. não é de “retornar” à terra dos seus nonos. causando grande interesse entre os jovens que viram as grandes possibilidades de sucesso no projeto de emigrar para os Estados Unidos.. as lembranças e memórias dos imigrantes que vieram para o Brasil na virada do século XIX.. Passamos lá no centro de Chile. para a colônia. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . fica evidente no relato a percepção da condição de trabalhador migrante.. Entrevista realizada nos EUA. Atravessamos a Argentina toda. Embora atribuam um significado ao fato de migrarem para o chamado “Primeiro Mundo”. mobilizando.. mas “fazer a América”.227 . pegamos os Andes [.. cadê o fiscal lá da alfândega. A chegada em Criciúma com o carro importado foi noticiada nos jornal e rádio local. Em Buenos Aires botamos o carro no barco...] era época da borboleta ali. Nós deixamos o Terceiro Mundo para vir para o Primeiro. É diferente. (47 anos. Buenos Aires.].. eles foram para o mato.]. O relato de Anita e de outros descendentes nos Estados Unidos revelam como o passado migratório é acionado pelos migrantes.]. para preservar a identidade das entrevistadas. o que demonstra uma conexão com o presente. descendente de imigrantes italianos. Com o passaporte italiano na bagagem o caminho que grande parte dos emigrantes criciumenses. Mas isso não muda o fato de sermos emigrantes..

entre os anos de 1987 a 1989 quando milhares de brasileiros deixaram o país decepcionados tanto com a política econômica. período em que o setor perdeu os subsídios governamentais e enfrentou a concorrência com o carvão mais barato e de melhor qualidade vindo do exterior. O período que compreende de 1970 até 1989 corresponde a apenas 5% do total das viagens dos criciumenses em direção aos Estados Unidos ou à Europa.A dupla cidadania torna-se uma estratégia de migração para os criciumenses e ressalta a ligação com os imigrantes do passado.9%) e 1994 (com 6. 18 Sales (1999a) denominou “triênio da desilusão” o período . Esses dados foram os primeiros indicativos de que a migração esporádica estava tornando-se um movimento contínuo de migrantes. poderíamos dizer que o “triênio da desilusão”18. mas é no início dos anos 1990 que esse fluxo torna-se significativo tanto para aqueles que partiram quanto para aqueles que ficaram na cidade.8% das primeiras viagens nos períodos de 1987 a 1989 (FUSCO. ocorrendo um crescimento contínuo do número de primeira viagem nos anos de 1993 (com 4. 2000). Ao analisarmos o período de 1998 a 2000. diferentemente dos emigrantes de Governador Valadares.TERRITÓRIO.2% em 1999 e 18.5% em 1998. valorizando a migração no presente como um recurso.7% em 2000 (ASSIS. Anita decidiu emigrar no final da década de 1990.0%) do total das viagens17. Os primeiros criciumenses partiram rumo aos Estados Unidos em meados da década de 1960. É assim que Anita. uma possibilidade de batalhar por uma vida melhor. Esse período corresponde exatamente da “crise do setor carbonífero”. quanto com a situação política. ocorreu 10 anos depois. momento em que há um crescimento significativo da migração de criciumenses para a região de Boston. decidiu migrar para mudar de vida e se encontrar com a filha nos Estados Unidos. que realizaram 40. percebe-se que 48. assim distribuído: 12. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .4% do total realizaram sua primeira viagem nesse período. 228 . 17. assim. criando-se. depois da separação de um casamento de mais de 20 anos. construindo em Criciúma. um campo de relações transnacionais que começa a ser observado no cotidiano da cidade. uma nova conexão. Foi na virada dos anos de 1990 que eles começaram a voar em direção ao exterior. na região de Criciúma. Como os dados de 17 Dados coletados nas agências de viagem da cidade de Criciúma. assim como em Governador Valadares na década de 1980. 2004) Assim.

] depois o meu irmão trouxe várias pessoas e você sabe como é o negócio. Desde os preparativos para a viagem até a chegada ao país de destino. sendo que a decisão de migrar deixou de ser “solitária” para se tornar uma decisão tomada em conjunto com amigos e familiares. caminhadas. Essa migração em rede é uma maneira de minimizar os riscos dessa empreitada. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . também observamos a configuração desses laços que conectam a origem e o destino .. mesmo ausentes no exterior. redes de retorno e os impactos da emigração na origem Ao longo das duas últimas décadas do século XX. o que sugere que os imigrantes. continuam em contato com as suas cidades de origem (ASSIS. tanto daqueles que já partiram quando daqueles que aqui já ficaram (ASSIS. TERRITÓRIO. pois são computados apenas o período de janeiro a julho encontramse 13.as redes sociais – sendo utilizadas nos anos de 1990.4% do total das viagens.A consolidação das redes. 1999. que muitas vezes acaba em tráfico de pessoas. No depoimento de Dino Carminati a ajuda aos conterrâneos é explicitada da seguinte forma: “[. Essas redes foram formadas na década anterior e são elementos essências na direção do fluxo. não representam o ano. SIQUEIRA 2009). constroem vínculos emocionais e as trocas de informações e ajuda entre as pessoas que já estão no local de destino e aquelas que estão partindo. culturais e familiares. estupros.2001 referem-se apenas ao primeiro semestre. já desenvolvia uma complexa rede de relações que a conectava a algumas cidades da região de Boston. um vai trazendo o outro” Nas teorias migratórias discute-se que no mundo globalizado não se torna mais possível explicar esses fluxos de pessoas simplesmente como um resultado de uma crise econômica. Na década de 1980 a cidade de Governador Valadares. mas indicam a tendência ascendente da emigração na cidade. os valadarenses e criciumenses residentes no exterior foram construindo múltiplas relações econômicas.229 . Em Criciúma.. Os emigrantes são apoiados por algum parente ou amigo.3 . violências. e mortes no deserto da fronteira. SALES. pois. 1999. 5. 2004).

2006). Os investimentos demonstram que os migrantes têm projeto de retornar ao país e que se mantêm em contato com ele. acreditamos que em dois anos podemos voltar para Criciúma [. Somados às remessas enviadas para manter os familiares que permaneceram no país. O surgimento de lojas que vendem exclusivamente produtos brasileiros.. Tais investimentos têm movimentado a vida de cidades que se tornaram ponto de partida de emigração. a entrada de US$ 2.TERRITÓRIO. As cidades que ao longo das últimas décadas construíram múltiplas relações entre a sociedade de origem e a de destino.000 mil brasileiros morando no estado de Massachusetts. Tal contato é traduzido em investimentos nas cidades de origem que movimentam o comércio local . Após retornar e montar seu negócio no Brasil tive que retornar aos EUA devido ao insucesso no investimento. cidade da grande Boston com muitos brasileiros. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO ....] é o nosso sonho [. os investimentos representaram.351 mil pessoas (BUREAU. 32 anos entrevista realizada em julho de 2008).notadamente a construção civil. 230 . como Governador Valadares. Também é visível o impacto da emigração dos brasileiros no cotidiano das cidades de destino.e também fazem surgir microempresas movimentadas pelos dólares que os familiares recebem. em 2002. além de jornais. canais de televisão brasileiros voltados aos brasileiros e até um CTG (Centro de tradições gaúchas) foi criado em Somerville. Criciúma ainda não conta como em Governador Valadares de associações de migrantes que procuram atuar no destino e nem com interesse da Associação comercial ou do SEBRAE em montar cursos para capacitarem migrantes retornados sobre como 19 Folha de São Paulo. rádios. em 2007 o Consulado Geral Brasileiro em Boston estimava um número de 300. para efeito de comparação.6 bilhões de dólares no país19.]” (Primo. Para se ter uma idéia.. 18/08/2002.] agora estamos investindo nesse negócio [. a população de Boston em 2007 era de 599. que inclusive faz apresentações e dá aulas de danças típicas rio-grandenses. que movimenta o mercado imobiliário ..O que se pode observar pela ampliação da presença nos dados abaixo sobre a presença de emigrantes nos domicílios criciumenses.. “[..]. A história de Ronaldo é muito semelhante aos retornados estudado por Siqueira (2009) na Região de Governador Valadares.

Assim.. p.] lá tem minha família [... agosto 2008) Estes dados demonstram que se para emigrar as redes sociais no destino são fundamentais. vai ser bem melhor criar meu filho lá. [. 27 anos. “[. (Entrevista realizada com proprietária de imobiliária em Criciúma.] os emigrantes olham o projeto de apartamento ou casa pronto ou na planta. (Entrevista realizada com retornado em Criciúma.. Outro impacto da migração na cidade é o investimento na construção civil.].] sei que não é fácil voltar [. Em torno de 20% de todo o faturamento da Construtora Fontana era proveniente de dinheiro ganho por emigrantes20.Como disse uma migrante retornada ao mostrar sua casa construída em Criciúma “[. para retornar as redes na origem. mas é o parente que ficou no Brasil. Nesse ponto. para vender casas e apartamentos para os emigrantes brasileiros.. pois sei que posso contar com eles.. [. o que faz com que histórias como essas sejam recorrentes (SIQUEIRA.] mas tenho eles que posso contar. Na cidade de Criciúma.] se nossos patrões vissem o que fazemos com cada US$ 50.. 2008a). [.. as redes de parentes se cruzam com as redes de agências de turismo e imobiliárias na realização do projeto migratório.] estão contando os dias para a nossa volta”.. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . na cidade de Somerville... num negócio bastante lucrativo para as empresas.. 2 de agosto de 2001. pois além de orientar e efetivamente realizar o investimento também amenizar as incertezas do retorno. (Renata.00 dólares”.investir seus recursos..231 . em geral os pais.. também são fundamentais. Proprietária de uma imobiliária em Somerville relatou que grande parte de suas vendas são de imóveis em Criciúma. setembro de 2008) Embora os dados sobre os investimentos em Criciúma sejam estimativos as informações ressaltam a importância das remessas para o local de origem e revelam a constituição de uma rede de agências de turismo e imobiliárias que se inserem nessa rede migratória. algumas imobiliárias abriram filais na região de Boston. que acompanha as obras e manda os retratos ou filmagens mostrando o andamento da obra. muitos migrantes quando retornam para o Brasil já encontram a casa ou o apartamento pronto.1 TERRITÓRIO. emigrou em 2004) 20 Jornal a Gazeta Mercantil.

TERRITÓRIO. os movimentos de mão-de-obra se processam de maneira mais intensificada e complexa apontando para o contexto transnacional destes novos fluxos. Somadas as remessas enviadas para manter os familiares que permaneceram no país. 2004). 21 Folha de São Paulo de 18/08/2002 232 . Os migrantes criciumenses. os investimentos na terra natal. as remessas são um importante indicativo da realização desse projeto (ASSIS. as relações entre aqueles que partiram e aqueles que permaneceram. Portanto. principalmente seus parentes. motivo pelo qual. Nos relatos. partem com o projeto inicial de trabalhar e juntar dinheiro a fim de melhorar o padrão de vida no Brasil. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . com compressão do espaço pelo tempo como conseqüência do desenvolvimento dos meios de comunicação. O novo caráter desses movimentos migratórios está intrinsecamente ligado ao fato de que tais fluxos ocorrem num mundo cada vez menor. Desta forma.6 bilhões de dólares no país21. seguidos dos cônjuges. em 2002. tanto dos primeiros emigrantes. transporte e informática. O desejo de uma vida melhor revela a tentativa de inserir-se no mundo de consumo e no tipo de cidadania que esse mundo oferece a cidadania do consumo. os investimentos vindos do exterior representaram. Para realizar o projeto de “fazer a América” e participar do sonho americano. são os que têm maiores obrigações com aqueles que permaneceram no Brasil. enviam mais remessas para aqueles que ficaram. homens e mulheres imigrantes submetem-se ao trabalho no mercado secundário em serviços que não realizavam no Brasil. O homens emigrantes que mandam dinheiro dos EUA para Criciúma. Nesse sentido.Alguns dados apresentados por (ASSIS. 40% deles envia o dinheiro para as esposas administrarem e/ou aplicarem em algum bem na cidade. assim como outros migrantes internacionais. 2004) em relação às remessas. as migrações contemporâneas são uma expressão contundente da rearticulação entre o global e o local criando um campo social entre os dois lugares-transnacionais. trabalham longas horas por dia e são em sua grande maioria indocumentados. uma entrada de US$ 2. como dos emigrantes depois da década de 1990 estão evidentes que o principal motivo da emigração é a motivação econômica. demonstram como as redes sociais na origem são importantes. Os dados também revelam que os chefes de domicílios.

MG e Criciúma – SC) o início da conexão se dá. 6 . na década de 1940 até o final dos anos de 1950. muitos adiam indefinidamente o retorno. Este foi um período de grande desenvolvimento econômico que criou no imaginário popular a TERRITÓRIO. o aumento do desemprego nos EUA e a própria crise da economia americana. (Entrevista realizada nos EUA em julho de 2008).Conclusão O objetivo central dessa pesquisa foi verificar como se formam. Contam com as redes sociais de emigração para empreender o projeto de emigrar e ao retornar também contam com a rede social na origem para amenizar as incertezas e possibilitar a readaptação. os emigrantes criciumenses também emigram com o projeto de retornar. a queda do dólar. e mantém as redes sociais no processo migratório nas cidades de Governador Valadares e Criciúma. Sobre a emigração para os EUA hoje ele relata: Já aconselhei muita gente a vim. primeiramente. Ao longo do tempo de permanência nos EUA. Para o retorno é acionado as redes familiares e sociais que deixaram na cidade de origem. se a pessoa não tem um trabalho garantido e uma boa base aqui [EUA] eu acho que não é uma boa coisa. outros retornam definitivamente ou periodicamente. que é a presença de trabalhadores norte americanos na cidade.233 .000 passagens só de ida para o Brasil. hoje. Governador Valadares apresenta um dado diferente.Como os emigrantes valadarenses. Os relatos dos emigrantes criciumenses nos permitem considerar que como os valadarenses eles reconfiguram o espaço socioeconômico de sua cidade. somente no ano passado (2007) esta agência vendeu 27. Entre os motivos apontados pelo entrevistado para esse retorno em massa estão a maior vigilância americana em relação aos imigrantes ilegais. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . com a difusão da idéia do estilo de vida americano como o mais desejado pela elite da cidade. na década de 1960. que chegaram para ampliação da estrada de ferro e exploração e beneficiamento da mica. Dino Carminati relata sobre uma agência de viagens próxima de Boston que segundo ele. articulam. Com base nos relatos orais dos primeiros emigrantes que formaram os pontos iniciais das redes sociais de emigração concluímos que nas duas cidades (Governador Valadares .

TERRITÓRIO. O intercâmbio de jovens da elite para estudar inglês. partem para onde há melhores oportunidades de trabalho. muitas vezes adminis234 . que informam as notícias trazidas por eles. um século depois. é caracterizado por ser de difícil apreensão. os catarinenses partiram em direção à “América” com um projeto migratório comum: comprar uma casa. têm a cidadania italiana o que abre o mercado de trabalho na Europa. está presente nos relatos dos primeiros emigrantes valadarenses e criciumenses. Governador Valadares tem o boom emigratório na segunda metade do ano de 1980 e Criciúma nos anos de 1990. Desse modo. os criciumenses repetem a trajetória de seus nonos e nonas. Esse movimento. continuando num certo sentido o projeto de “fazer a América”. relativamente autônomo ao Estado e às forças estruturais. preparam a casa para recebê-los. assim como os migrantes valadarenses. pois é fundamentalmente baseado em laços informais. a maioria segue o caminho aberto pelos mineiros partindo rumo à região da grande Boston. Enquanto seus filhos/as e netos/as trabalham pelo mundo. partindo em direção aos Estados Unidos. muitas vezes distantes. mas fundamentalmente para onde possam encontrar uma rede de apoio para recebê-los tecendo as redes sociais na migração. construídos entre parentes. qual o trabalho que irão fazer e com quem vão morar. as redes sociais acionadas no contexto da migração foram analisadas como práticas sociais que envolvem tipos diferentes de ajuda material. emocional e simbólica que possibilitam aos futuros migrantes partirem com referências de onde ir. Os criciumenses. Assim. migrando para a Itália. Os primeiros emigrantes valadarenses partiram em 1964 com visto de trabalho e os criciumenses em 1966 com passaporte italiano. mas que em terras estrangeiras tornam-se uma referência fundamental. Esse fato revela um aspecto interessante das redes sociais que atuam na migração. portanto. em vez de fazerem o caminho inverso dos nonos. Nas décadas seguintes as redes vão se formando. um carro. Assim como os mineiros de Governador Valadares. patrocinado pelo Rotary. No entanto. logística. seus/ suas “nonos/as” e mães/pais (quando não são eles próprios migrantes) tocam sua vida. amigos e conterrâneos. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .idéia de que os EUA era um lugar de grandes possibilidades e reforçou a admiração pelo estilo de vida daquele povo. montar um negócio. pois uma parcela dos novos migrantes criciumenses é descendente de italianos e.

uma presença marcada pela distância física. procuram. sem avaliar as leis do mercado e acabem perdendo todo seu investimento. amigos e lugar. fotos.235 . Assim. O fenômeno da emigração redimensionou o cotidiano das duas cidades. Isso possibilita a difusão das informações. telefonemas. Skype mantêm contato diário e as decisões relacionadas ao cotidiano são compartilhadas entre os dois lugares em tempo real. as redes sociais no destino e origem são elementos fundantes do projeto emigratório. esclarecer sobre os riscos de emigrar. a partir da organização dos familiares dos emigrantes ONGs e associações que buscam esclarecer ajudar o emigrante tanto no retorno quanto no investimento. enfim o cotidiano da família. Tais questões sugerem vários arranjos familiares em que as mulheres assumem um status peculiar. a abertura de novos empreendimentos deu novo dinamismo à economia. atualizando e reforçando a idéia do projeto familiar. O imigrante pode acompanhar em tempo real a construção de seu imóvel. No destino ela direciona o fluxo e ameniza os custos psicossociais. para concretização do projeto de retorno essas redes possibilitam a realização dos investimentos e a diminuição do impacto do reencontro com o seu local de origem. Contudo. mais recentemente. por meio da internet. Na cidade de Governador Valadares esta questão preocupou a sociedade civil que criou. Através do MSN.trando o dinheiro que é enviado. 22 Discussão mais detalhada sobre esta questão ver Siqueira (2006). O contato com o Brasil entre os que emigram e os que ficam é mantido por meio das cartas. mas próximo virtualmente. afetivos e econômicos e na origem. Além disso. remessas e. os investimentos dos emigrantes aqueceram o mercado de venda de imóveis e a grande procura inflacionou o mercado. As novas tecnologias de comunicação são peças importantes no projeto emigratório. Muitos emigrantes fazem investimentos inadequados. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Orkut. mas amenizada pela voz e imagem que aproximam esses pontos distantes no mapa. TERRITÓRIO. Além disso. este se apresenta como um aspecto perverso da emigração22. No setor imobiliário. pois possibilitam a participação diária do emigrante no cotidiano de suas cidades e famílias e dos que ficam na origem da vida e trabalho do familiar que emigrou. econômico e afetivo que é a imigração. também. o crescimento dos filhos.

em geral está sustentado nas relações familiares. construíram-se diversos laços que conectam a cidade nos Estados Unidos.. Universidade Estadual de Campinas Instituto de Filosofia e Ciências Humanas . Rossana Rocha & SALES. que são muito importantes para todo o projeto desde o momento de preparar para a partida. em Criciúma. 236 . in REIS. Nessas redes as mães. Cenas do Brasil Migrante. 199-230. e FLEISCHER. 2003. até as viagens que os pais fazem para os EUA para matar as saudades. Nesse sentido podemos considerar que valadarenses e criciumenses constroem conexões transnacionais criando um singular campo social envolvendo os que partiram e os que ficaram numa complexa rede de relações.As conexões possíveis entre os imigrantes e os emigrantes do presente evidenciam-se através dessas redes familiares que demonstram que este projeto individual. S.: uma cartografia da emigração valadarense para os Estados Unidos. namoradas. Bibliografia ASSIS. In: Fronteiras Cruzadas: etnicidade. Boitempo.).C.Unicamp.B. 125-166.(org. bem como na administração dos investimentos na cidade de origem. irmãs são muito importantes. estar lá. Teresa (orgs. Estar aqui. p. A. 340 p ___. Essas redes auxiliam tanto no momento da partida. p. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . esposas. O que se constata tanto daquele que partiram quanto daqueles que ficam é uma tentativa de manter seus laços com o Brasil. São Paulo: ed. assim como em Governador Valadares.. gênero e redes sociais. ___. ou as ajudas para arranjar emprego nos locais de destino. com os familiares o que aponta pra uma transnacionalização das relações familiares que se constroem entre os dois lugares. quanto na chegada no destino.). São Paulo: Paz e Terra. É a partir dessa perspectiva que podemos compreender como essas cidades da região sul e do leste Mineiro se tornaram pontos de partida. 1999. Gláucia de Oliveira. De Criciúma para o mundo: rearranjos familiares e de gênero nas vivências dos novos migrantes brasileiros.R. Portanto. pois fazem circular as informações entre os demais membros das famílias. Campinas. MARTES. o apoio emocional e financeiro.TERRITÓRIO. “Os novos fluxos de migração internacional da população brasileira e as transformações nas redes familiares e de gênero”. 2004. Tese de Doutorado em Ciências Sociais.

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TERRITÓRIO. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .240 .

deixando marcas ao longo de toda a trajetória da humanidade. ou seja. Desta forma. capaz de conectar. graduada pela Universidade Vale do Rio Doce. da internet. seja ela concreta ou simbólica. A A comunicação também é agente ativo no processo de construção histórica. mais recentemente. pessoas espalhadas nos mais diversos rincões do mundo. Em uma realidade midiatizada. narrado de formas diversas.A representação do imigrante valadarense na mídia impressa local Juliana Vilela Pinto 1 Sueli Siqueira2 Introdução comunicação é um elemento essencial para os processos de sociabilidade humana. a comunicação é cada dia mais relevante no eterno jogo entre memória e esquecimento. compreendido e. da televisão e. em tempo real. em que se transformou a nossa vida. TERRITÓRIO. Haesbaert (2004) destaca a fragilização das fronteiras e a mobilidade constante. Doutora em Sociologia e Ciência Política. mestranda do Programa de Mestrado em Gestão Integrada do Território da UNIVALE.241 . O passado pode ser observado. Os jornalistas retratam este passado e os jornais servem de fonte quando precisamos resgatar ou estudar um determinado assunto. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . se comporta como um elemento potencial da memória. Neste contexto. 1 2 Jornalista. a comunicação de massa emerge como um território simbólico. como é o caso da imigração de valadarenses para os Estados Unidos. do rádio. que pode ser recuperada como traço distintivo de identidades coletivas e individuais acerca do passado instituído. do cinema. que marca a existência humana. dentre os quais é importante destacar a construção da memória e da identidade. professora do Programa de Mestrado em Gestão Integrada do Território da UNIVALE. conseqüentemente. Os últimos séculos acompanharam uma evolução tecnológica desenfreada com a criação dos telégrafos. produto da apropriação simbólica de um grupo em relação ao seu espaço vivido.

Este artigo surge com base em uma pesquisa realizada no arquivo do jornal Diário do Rio Doce. até o início do século XX. o inverso do processo migratório registrado nos dias de hoje. A proposta deste artigo é fazer uma análise de conteúdo destas “tirinhas” que circularam diariamente no jornal entre julho de 1990 e setembro de 1991. crônicas. Em um ano e três meses foram publicadas 375 tiras. cujo conteúdo trabalha de forma irônica a relação existente entre a comunidade valadarense e o fenômeno migratório na era global. pois acontecia. Dentre todo o conteúdo analisado. 242 . o cenário recente contraria a história. 2 . fortemente marcada pelo fenômeno da migração internacional. A partir da observação e leitura de todo o conteúdo sobre o tema publicado entre 1960 e 2009 foi possível encontrar reportagens. O Brasil era um país marcado pela imigração e caracterizado pela aptidão acolhedora e a chegada destes imigrantes provocou mudanças consideráveis na formação do território brasileiro. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . o principal e mais antigo periódico da cidade. No dia 11 de julho de 1990 foi lançado o personagem “Capitão Dólar”. fase em que é registrado um verdadeiro boom migratório. charges e até mesmo suplementos especiais com circulação no Brasil e Estados Unidos. criado pelos publicitários Clóvis Moreira Costa e Marcondes Tedesco.No caso da cidade de Governador Valadares. Em reportagem publicada pelo jornal no dia 31 de janeiro de 1991 os criadores definem o “herói” como um valadarense que volta dos Estados Unidos cheio de si.O novo contexto migratório no cenário da globalização Para que possamos compreender o conteúdo das tirinhas e a relação existente entre Governador Valadares e a Terra do Tio Sam é preciso voltar no tempo e analisar o processo de territorialização e o histórico da cidade. principalmente a partir da segunda metade dos anos de 1980. o tema da migração foi abordado pela mídia impressa das mais diversas formas. No caso do Brasil. uma seqüência de histórias em quadrinho sobre o tema da imigração chamou a atenção.TERRITÓRIO. cujo conteúdo traz reportagens para manter os imigrantes informados sobre a terra natal e também mostrava aos moradores de Governador Valadares como era a vida dos conterrâneos na terra do Tio Sam.

produzido. marcando um processo constante de territorialização e reter3 4 O espaço é anterior ao território. 2004) propõem uma noção mais ampla de território. Neste território são firmadas as relações de poder estabelecidas pelos homens e o espaço é constantemente modificado. por exemplo). políticos e culturais que se entrelaçam de acordo com o movimento na sociedade no decorrer da história No Brasil. como nas maiores provações. meios de produção. O espaço é a “prisão original’’. em qualquer idade. seja energia e informação. seja de forma concreta ou abstrata (por uma representação.Quando abordamos o conceito de território é importante fazer uma distinção no que se refere ao espaço. por exemplo. O autor destaca a importância dos aspectos sociais.. como um dos conceitos chave da filosofia. dotado de significado. Raffestin (1993) define que um território é formado a partir do espaço3 e compreende o resultado de uma ação conduzida por ator sintagmático4 – quando o espaço é apropriado. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . do social ao psicológico e de escalas que vão desde um galho de árvore desterritorializando até as reterritorializações absolutas do pensamento. sendo configurado pelas técnicas. a partir do espaço. a chegada dos imigrantes trouxe modificações profundas na estrutura social. econômicos. Estes não são termos equivalentes. mas não é o espaço. O território se apóia no espaço. suporta ou carrega desterritorializações e se reterritorializa. econômica e demográfica e também teve papel importante na formação da composição da população brasileira. por conseqüência. e que. em dimensões que vão do físico ao mental. 1993: 2)”. revela relações marcadas pelo poder. Deleuze e Guattari (apud HAESBAERT.. a partir da apropriação humana de um conjunto natural pré-existente. Já Santos (2002) compreende que o território é formado no desenrolar da história.) [é] um espaço onde se projetou um trabalho. (RAFFESTIN. É uma produção. O território (.243 . objetos e coisas: pelo conjunto territorial e a dialética do próprio espaço. Ator que a realiza um programa. É necessário ver como cada um. ocorre o processo de territorialização. procura um território para si. nas menores coisas. TERRITÓRIO. o território é a prisão que os homens constroem para si. O território é entendido como o espaço socialmente apropriado.

destrói ou recria outras formas sociais de vida e de trabalho. um agente social de um determinado país pode influenciar na política. eles se dão em um mundo cada vez menor e mais conectado. em um processo “[. Como destaca Assis (1995). graças ao desenvolvimento dos meios de comunicação.] que desafia. Neste contexto. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . rompe. entre o local e o global. históricas e culturais. mercados e sociedades. nesse sentido podemos citar a cidade de Framingham na Região de Boston. contexto em que estão inseridos os novos fluxos. lançadas com o advento das novas tecnologias de comunicação. 2008) Os novos fluxos migratórios apresentam características muito diferentes do processo que trouxe milhares de estrangeiros para o Brasil O mundo global. As cidades próximas possuíam mercado de trabalho secundário atrativo o que levou muitos brasileiros a viverem nessa localidade. sentir e imaginar” (IANNI. derrubou as fronteiras geográficas ligando economias. subordina. 1996. evidencia-se um contexto de migrações transnacionais.. Ianni (1996) destaca que com o advento da globalização o mapa do mundo se embaralha e a história entra em movimento. Nos dias de hoje a chegada de brasileiros também provoca alterações consideráveis na estrutura territorial dos países de destino. p. As forças produtivas ultrapassam as fronteiras geográficas. agir. Downtown de Framingham foi ocupado por um mercado de produtos brasileiros (SIQUEIRA. 1996: 3). dos transportes e da informática. contudo essas barreiras permanecem para as pessoas. O surgimento das chamadas cidades globais. que amplia possibilidade de relações sociais entre a origem e a sociedade de destino. as fron244 . compreendendo modos de ser. estão inseridos os novos fluxos migratórios. Graças às novas formas de interação social. As empresas fecharam suas portas e a região ficou abandonada. provoca a “dispersão das atividades econômicas pelo mundo” (IANNI.TERRITÓRIO. essa localidade depois da reestruturação da economia perdeu sua vitalidade econômica.ritorialização do espaço. Ao chegarem os indivíduos ocupam pontos no espaço e são distribuídos a partir de modelos que podem ser aleatórios. exige a reavaliação de paradigmas e teorias. mesmo à distância.. economia ou até mesmo nos costumes em escala planetária. pensar.2) De acordo com Giddens (1999) a globalização. promoveu a compressão do tempo e espaço. mutila. regulares ou concentrados. Desta forma.

pois as mesmas forças que promovem integração desagregam. eles irão ocupar os ninhos de trabalho no mercado secundário e assim suprir a demanda de trabalho em diferentes setores do sistema. gerando tensões tanto no destino como na origem como afirma Ianni (1996).] os movimentos migratórios internacionais representam a contradição entre os interesses de grupos dominantes na globalização e os Estados nacionais. Nesse sentido. 1998). como ressaltam as pesquisadoras Assis e Siqueira (2009). sem nunca ter tentado a documentação por acreditarem que não conseguiram o visto. as mercadorias têm a possibilidade de circular livremente entre os países os imigrantes já não encontram a mesma facilidade na hora de cruzar a fronteira.teiras nacionais são rompidas em um processo de desterritorialização e reterritorialização de pessoas.. apesar de conectar o mundo em tempo real. fato demonstrado pelos moradores da Região de Governador Valadares que buscam a emigração indocumentada. Há uma disjunção espaçotemporal e o conseqüente surgimento de espaços transnacionais. coisas e idéias. Nas cidades globais. principalmente na embaixada americana. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Esse fluxo deixa marcas no território reconfigurando relações. Patarra (2006: 8) destaca que neste contexto global os movimentos migratórios devem ser compreendidos como uma denúncia. Ao passo em que o dinheiro. há que tomar em conta as tensões entre os níveis de ação internacional. Na origem. que transformam certas cidades e regiões em um “empório de mercadorias do mundo” (SASSEN. com a tradicional óptica de sua soberania.. que esta globalização. [. a globalização traz diferenciação e fragmentação sendo atravessada por um desenvolvimento desigual e contraditório.245 . TERRITÓRIO. Mas é importante destacar. Enfim. espaço e cultura. A cidade de Governador Valadares é palco desse movimento migratório desde a década de 1960. nacional e local. há que considerar que os movimentos migratórios internacionais constituem a contrapartida da reestruturação territorial planetária intrinsecamente relacionada à reestruturação econômicoprodutiva em escala global. os trabalhadores buscam encurtar o tempo de concretização de seus projetos e desejos socialmente impostos por essa nova ordem através do projeto de emigrar. também tem sua face excludente.

Na época da II Guerra Mundial. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Também a partir de uma parceria entre os dois países foi criado o Serviço Especial de Saúde Pública (SESP) para o tratamento de água e combate a doenças como 5 6 O mineral era utilizado como material de isolamento pelas indústrias bélicas.3 . E esta característica é um dos fatores que ajudou a formar na cidade um quadro propicio à imigração. mas também. Entre estes novos fluxos migratórios destacam-se os pioneiros valadarenses. mesmo antes dos primeiros imigrantes desembarcarem em território americano. Amorim (2008) aponta que. que começaram a migrar para os Estados Unidos ainda na década de 1960. 246 . Como destaca Almeida (2003) a cidade de Valadares revela uma longa história de ocupação e exploração que remonta o século XVII com a descoberta de ouro na região. é possível dizer que ela faz parte do imaginário coletivo não apenas uma saída para a crise financeira. Trabalhadores estrangeiros. Data deste período a construção de um acampamento com um conjunto de casas de padrão americano.TERRITÓRIO. chegaram à cidade para trabalhar com a exploração do minério e posteriormente na ampliação da estrada de ferro Vitória .Minas6. a mica era um produto essencial para a indústria bélica5 e a abundância deste mineral na região chamou a atenção de empresas americanas. interessadas da extração e comercialização da substância. dadas as características assumidas pela migração na cidade. Localizada em um ponto estratégico em relação às fontes produtoras de minérios e pedras semipreciosas. Assis (1995) divide a conexão entre Governador Valadares e os Estados Unidos em três etapas. os americanos que trabalhavam para a Morrison-Knudsen (um consorcio de empresas entre EUA e Canadá) estiveram em Governador Valadares para trabalhar e prestar consultoria na modernização da estrada de ferro Vitoria Minas. conferindo à cidade papel de entreposto comercial. que pertence a Vale.O território valadarense e o fenômeno migratório A globalização e a reestruturação produtiva apresentam uma nova dinâmica nesses fluxos migratórios internacionais e promovem uma reconfiguração da estrutura territorial mundial. Na década de 50. como um projeto simbólico com o quais muitos cidadãos se identificam. de maioria americana. que hoje é um bairro residencial da cidade e já não apresenta mais as características de construção americanas. a cidade atraiu muita gente para executar atividades de apoio à mineração. O interesse dos valadarenses pela terra do Tio Sam começou ainda na década de 1940.

(AMORIM. Nos anos 1960. A substituição de uma atividade predatória por outra. transformando a cidade em um pólo regional. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Siqueira (2009) destaca que a presença americana na cidade pode ser considerada como fator contribuinte para fixar na memória popular a idéia dos Estados Unidos como um país de grandes oportunidades. basicamente de imigrantes. facilitado. a cidade enfrentou um período de estagnação econômica.247 . a referência mais concreta. ganha contornos definidos nas relações que se estreitam comercialmente. Espíndola e Oosterbeek (2008) destacam que nesta época. A região é historicamente marcada por ciclos econômicos baseados no extrativismo predatório. a cidade constituída. Dezessete jovens. pode dizerse que esse espaço específico (Estados Unidos da América) incorpora-se à extensão do conhecimento geográfico da sociedade valadarense. (ALMEIDA. mas a inserção da nova atividade não foi suficiente para absorver o excedente de mão-de-obra. Com mais propriedade. torna-se "conhecido". A migração começou de forma discreta ainda na década de 1960. tornam-se parte da vida e reduto de esperança. mais presente. a idéia de emigrar não era algo estranho. 2003). Neste contexto de estagnação que os primeiros valadarenses emigram. A partir da década de 1960. com vasta oportunidade de emprego e ascensão social. do "mundo estrangeiro". todos com visto de trabalho e com boa condição financeiTERRITÓRIO. A partir das diversas formas de contato entre os valadarenses e os norte-americanos foi criada no imaginário local a idéia dos Estados Unidos como uma terra promissora. acabou por gerar o declínio dessas atividades e a impossibilidade de as mesmas continuarem existindo como base econômica da cidade e região. Os Estados Unidos da América passam a ser. nos anos de 1940 e 1950. mais precisamente no ano de 1964. com idade entre 18 e 27 anos. cujas raízes assentam-se nesses contatos que têm início na década de 40. Essas atividades apresentam no decurso do seu desenvolvimento sinais de esgotamento dado a sua incapacidade de manter um curso auto-sustentável. 1995:95). já não faz parte de um mundo qualquer. a abertura de estradas e o saneamento favoreceram a ocupação da floresta tropical e a expansão das atividades extrativista. (SOARES. pois já fazia parte das alternativas de ganhar dinheiro e melhorar de vida dessas pessoas. O desmatamento contínuo levou à introdução da prática da pecuária extensiva.a malária. 2008:08).

a migração interna já é comum em terras brasileiras. Margolis (1994) destaca alguns números desta crise: Nos anos de 1990. A escola valadarense de inglês IBEU (Instituto Brasil Estados Unidos) levava brasileiros para participar de programas de intercâmbio nos Estados Unidos. arrumavam o primeiro emprego. constituindo os primeiros pontos da rede social. Os relatos dos intercambistas encantados com o estilo de vida norte americano impulsionaram os primeiros imigrantes. (SIQUEIRA. difundindo assim a grande aventura que era emigrar. Esses primeiros emigrantes davam o suporte necessário para os que desejavam emigrar. que impulsionou e facilitou a chegada de outros valadarenses aos Estados Unidos. 2006. 62). 2002: 46). também por esta tradição a migração internacional era entendida como “um projeto possível e relativamente fácil de concretizar (SIQUEIRA. Os anos de 1980 também ficaram conhecidos no Brasil como a década perdida. 248 . buscavam no aeroporto. em decorrência do fracasso dos planos de estabilização econômica. As cartas acompanhadas de fotos eram enviadas com freqüência relatando as oportunidades e maravilhas da terra. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . a inflação chegou a atingir média anual de 1. 2008:12) Como já foi descrito anteriormente. Neste período. 2008). Estes pioneiros valadarenses. a idéia de ‘fazer América’ era uma ‘aventura’. mas também motivados pela curiosidade de conhecer a terra das grandes oportunidades. compravam roupas adequadas ao clima dos EUA. a emigração ganha característica de fluxo e altera tanto o país de origem quanto o de destino. Estas supostas facilidades ajudam a compreender a saída dos primeiros migrantes.ra. oriundos da classe média não migravam por razões puramente econômicas. (SIQUEIRA. No 7 Neste período era necessário fazer um depósito de mil dólares no consulado americano para receber o visto de trabalho. Na década de 60. que partiram com visto de trabalho. foram para os Estados Unidos ganhar dinheiro e retornar. além das informações emprestavam dinheiro para o depósito7.795%. hiperinflação dificultava a manutenção do padrão de vida da classe média brasileira Com a crise. p. ou diretamente de um porto no Rio ou São Paula para esta cidade (ASSIS. assim como a vinda dos imigrantes para Valadares na boléia de caminhão. com uma população constituída basicamente de imigrantes.TERRITÓRIO. ofereciam estadia ou moradia.

como o Brasil. uma quantidade bem menor dada a proporção de tempo. O resultado foi uma década de crise econômica com uma profunda dimensão social. TERRITÓRIO. os telefonemas. viveram na década de 80 tentativas malsucedidas de ajuste econômico e financeiro. formadas por parentes e amigos que vivem nos Estados Unidos e de uma forma ou de outra contribuem para a chegada de novos imigrantes. Já entre 1967 e 1984. 1996:11) A partir da segunda metade dos anos de 1980 é registrado um verdadeiro boom migratório8. associada ao ideal dos Estados Unidos como nação próspera e a existência de uma rede que funciona como elo entre origem e destino deram origem a um fluxo intenso de valadarenses para os Estados unidos. Estes dados evidenciam o boom migratório compreendido entre 1985 e 1995. O jornal impresso local de maior circulação é o Diário do Rio Doce que no período de julho de 1990 a setembro de 1991 a publicou tiras humorística que tratavam exatamente desse fenômeno. (SORES. p. De acordo Siqueira (2008) estas redes representam um poderoso capital social que ajuda as pessoas com baixa escolaridade e recursos na experiência migratória de longa distância. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . um período de 17 anos.6%. visando à nova realidade do capitalismo internacional e à necessidade de saldarem os compromissos com os pagamentos das dívidas externas. 8 De acordo com os dados apresentados por SALES (1999. 49% dos brasileiros que chegaram à região de Boston entre 1967 e 1995.3% da população mundial.249 . neste ano 2.primeiro ano do mandato do então presidente Collor. A crise. em que as taxas de desemprego se aproximaram dos 15% e a miséria se generalizou para 20% da população (BRITO.4%. O número de migrantes internacionais passou de 75 milhões em 1965 para 120 milhões em 1990. entre 1990 e 1995 foram 28. Ao analisarmos a relação entre os valadarenses e a migração também não podemos deixar de lado a existência das redes sociais. que derrubou o otimismo econômico e empobreceu a classe média. chegaram 22. as fotos. desembarcam entre 1985 e 1989. o que representa. No item seguinte iremos apresentar essas tiras e discutir sobre o a sua representação em relação ao fenômeno migratório.18). As cartas. a economia sofreu retração de 4.6%. maior queda desde 1947. os investimentos e a ascensão social daqueles que retornam marcam significativamente o território. Os países mais pobres. em 1990. 1995:1). A mídia impressa registra o significado e as representações desse movimento migratório.

Assim pode ser definido o personagem “Capitão Dólar”. Para a realização da análise o material foi fotografado com câmera digital e descarregado no computador. Foram selecionados os dois primeiros meses. suplemento especial encartado no jornal que circulava no Brasil e nos Estados Unidos nos anos de 1980 e 1990. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Ao todo.4 . Foi utilizada a análise do conteúdo para compreensão do significado e representação dos conteúdos presentes no impresso. deixando de circular em setembro de 1991. O material coletado foi divido segundo três categorias: Conteúdo Jornalístico (reportagens. Apesar de ser um personagem fictício e do humor contido nas histórias. Além das tirinhas todo o conteúdo relacionado ao fenômeno migratório publicado entre 1960e 2009 foi pesquisado. mas o conteúdo de todas foi avaliado e está representado neste item do artigo. Publicidade. 250 . o valadarense Johnny. para a realização deste artigo específico foi utilizada a parte do banco de dados referente às tirinhas. Neste item vamos analisar estas histórias e ver de que forma o fenômeno da migração internacional de Valadarenses para os Estados Unidos aparece representado sob a perspectiva do humor. a verdadeira mensagem transmitida por esta seqüência de quadrinhos é uma denúncia com relação à situação dos brasileiros que vivem nos Estados Unidos e do sentimento de não pertencimento quando retornam à terra natal. pois apresentam um conteúdo cujas mensagens realçam bem a postura do imigrante retornado. Um estrangeiro em seu próprio país. Conteúdo Humorístico. No entanto.Capitão Dólar . Nem todas estão reproduzidas. State News. crônicas e matérias sobre o assunto). o deslumbre dos valadarenses com a possibilidade de conseguir um visto de entrada e algumas situações típicas que mostram a forte relação existente entre a cidade e os Estados Unidos.A representação irônica de um imigrante “cheio de si” O personagem “Capitão Dólar” foi criado em julho de 1990 pelos publicitários Marcondes Tedesco e Clóvis Moreira Costa. durante um ano e três meses. As tirinhas circularam diariamente. que trazem as histórias do personagem “Capitão Dólar” e seu amigo engraxate.TERRITÓRIO. material publicitário (anúncios) relacionados à questão. que retratam com humor e um pouco de ironia o imigrante valadarense retornado e o fenômeno migratório em suas diversas facetas. charges e tirinhas que retratam o imigrante valadarense. artigos. foram veiculadas 375 histórias.

expressões e gestos das personagens. 2008:63) Figura 01 Fonte: Diário do Rio Doce. As tiras jornalísticas configuram-se como pequenas narrativas estruturadas por intermédio dos códigos verbais e icônicos.Elas propiciam análises em diferentes perspectivas. De forma sucinta. que muitas vezes não se interessa pelos gêneros opinativos clássicos. pois se utiliza da evidência e do humor. As histórias têm como base uma piada curta e envolvem. publicada em 11/07/1990 TERRITÓRIO. 2002:130). O autor destaca ainda a importância social que as tiras adquiriram a partir dos anos de 1970. personagens fixos e estereotipados. cujos elos são os balões. e privilegiando a situação contextual das tiras pelo seu aspecto interacional. apesar do humor. na apreensão do dia-a-dia” (CAVALCANTE. “Ela tem o mérito de produzir um impacto muito maior na cabeça do leitor. as tirinhas trabalham com a pluralidade de sentidos e trazem um desfecho inesperado. Nicolau (2007) classifica as tiras publicadas nos jornais como um gênero opinativo do mesmo nível que um editorial. pois. como o editorial e a crônica. trazem um conteúdo quente e crítico capaz de retratar com aguçada ironia os paradoxos da nossa sociedade. São textos encontrados na vida diária que operam em determinados contextos (MELO.Para a análise das tiras nos atentamos à importância que a imagem exerce no universo opinativo da comunicação. aproveitando a combinação entre falas. Este gênero surgiu nos Estados Unidos. como o Capitão Dólar e seu amigo engraxate. Como destaca Cavalcante (2002) este é um recurso fundamental capaz de influenciar um público amplo. a partir da necessidade de os jornais diversificarem o seu conteúdo. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . na maioria das vezes.251 .

Tenta firmar sua identidade a partir dessa experiência migratória10. com nome de americano. É muito comum encontrar na cidade e região as casas construídas pelos emigrantes pintadas de cores vivas e chamativas. colete e vários cordões pendurados. enfim. que trabalha como engraxate e tem um sonho: conseguir o visto de entrada para os Estados Unidos. precisa demonstrar seus ganhos com essa aventura. melhorar de vida. então. trabalhar. não como filho daquela terra. com a mala repleta de dólares. exatamente para distinguir e demonstrar que seu projeto migratório de ir para o exterior. sente-se próximo. conseguiu dar a volta por cima. (SIQUEIRA. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Na cabeça do jovem engraxate. Ao desembarcar no Brasil. com a imigração. se deve ao fato de ter vivido nos Estados Unidos. pois acredita que ele pode ajudá-lo a conseguir seu objetivo e. 2009). Esse é um diferencial dele para com seus compatriotas. Com a intenção de mostra seu diferencial. 252 .A tira acima (Tira 01) foi a primeira da saga “Capitão Dólar”. o Capitão é o exemplo que um valadarense que. um rapaz negro. Essa afinidade. mesmo que como trabalhador no mercado de trabalho secundário9. o imigrante volta com a necessidade de reconstruir sua auto-imagem. O recém retornado imigrante chega à redação do jornal e se apresenta ao diretor da publicação como sobrinho do Tio Sam. morador do morro do Carapina11. 11 Favela mais central da cidade de Governador Valadares. o “Capitão” se veste ao melhor estilo norte-americano. ganhar muito dinheiro e retornar foi bem sucedido. 10 A mesma reivindicação de status de emigrante o personagem reafirmará na tira número 7 e 9. Não tem nenhum interesse de realçar as dificuldades. fazendo uma alusão aos Estados Unidos. sobrinho. se alia ao Capitão Dólar. A representação da emigração como herói está presente na percepção popular e nos órgãos públicos. que nunca pisaram no solo da terra prometida. destino dos emigrantes. o protagonista destas histórias faz amizade com Johnny. Um exemplo é a placa na Praça dos Ferroviários em home9 Sua atividade profissional e condições de trabalho será revelada nas tira número 2. fortalecendo a imagem dos Estados Unidos como uma nação prospera marcada pelo progresso e o desenvolvimento. o sofrimento vivido no estrangeiro. mas reivindica o direito de ser parente. com calça rasgada. O valadarense.TERRITÓRIO. Após uma temporada longe da terra natal.

Mas. a cidade receberia uma remessa de aproximadamente 6 milhões de dólares ou 1. Se cada um destes imigrantes enviasse para o Brasil a quantia de 200 dólares por mês. As tirinhas foram publicadas no início dos anos de 1990. estimava-se que cerca de 12% da população residia em terras norte-americanas. a história revela um homem de pouca instrução que executava trabalhos desqualificados como lavar defuntos e pratos. mas oferecem ao imigrante uma remuneração muito maior do que a recebida no país de origem. jamais revelam essas condições de trabalho. TERRITÓRIO. De acordo com informações publicadas no próprio jornal “Diário do Rio Doce” no dia 31 de janeiro de 1991.56% 13 Valor da cotação do Dólar referente ao dia 25 de janeiro de 1991. Desta forma.308 bilhões de cruzeiros13. sem revelar que a neve machuca e dificulta seu trabalho. 12 De acordo com dados disponíveis no Almanaque Virtual do Jornal Folha de São Paulo. a inflação acumulada do ano de 1990 foi de 1. casas bonitas e fotos da neve. em matéria publicada no jornal no dia 31 de janeiro do mesmo ano. 2009). Na visão de Margolis (1994). As cifras altas impressionam e fazem com que o capitão se torne uma verdadeira celebridade. na verdade. A emigração é uma possibilidade para os aventureiros e heróis que buscam uma forma de conseguir a ascensão social em curto espaço de tempo ou mesmo realizar um projeto que jamais poderia ser executado sem a aventura de emigrar.476. que requerem pouca fluência de inglês.253 . o grande poder de atração. que faz com que os imigrantes troquem o Brasil pelos Estados Unidos. moradia e a qualidade da vida que levam. Nessa tira. As tiras 2 e 3 ilustram bem o tipo de trabalho dos valadarenses nesse país. está na oferta de empregos de baixo nível. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .000%12. o personagem se arrepende de dizer a verdade “Acho que fiz mal em contar aventuras fortes para ele”. condição que muitos procuram esconder dos seus amigos e parentes. Enviar fotos em frente a carros de marcas. os cartunistas revelam a realidade da vida dos valadarenses nos Estados Unidos.nagem ao emigrante com dizeres que se refere ao mesmo como herói (SIQUEIRA. época em que o Brasil vivia uma forte crise econômica. com índices inflacionários que ultrapassavam 1. trabalhos desqualificados no mercado secundário. Ao enviarem fotos.

Figura 02 Fonte: Diário do Rio Doce. Figura 03 Fonte: Diário do Rio Doce. pois na perspectiva daqueles que ficam o sucesso dos que retornaram é aparente e marcante. publicada em13 de julho de 1990. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . publicada em 18 de agosto de 1990 Contudo. a possibilidade de uma melhor condição financeira. No entanto. ele deparou com condições adversas.TERRITÓRIO. pois no estrangeiro a inserção do migrante. O rapaz usa uma camiseta com o símbolo “U$” que representa a moeda americana e ensaia algumas palavras em inglês para que. 254 . com a ajuda do amigo recém retornado consiga o visto. acaba compensando a perda de status e a submissão a trabalhos que no país de origem seriam vistos como degradantes. se dá em um espaço secundário em que muitas vezes é preciso competir com os moradores locais.Como destaca Brito (1996) quando o brasileiro deixou de optar pela migração interna e escolheu o exterior como alternativa. mesmo aquele que tem escolaridade. Johnny quer ir de qualquer forma para os Estados Unidos. chave para entrar na terra do Tio Sam.

SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . publicado em 19 de julho de 1990. pois acredita que o inglês é mais sofisticado e assim vai atrair mais clientes para Johnny. concretizado pelos dólares que trouxe e pelo status de emigrante. o inglês também é explorado pelos autores. O Capitão tenta ensinar algumas palavras para o seu amigo. mas revela também a falta de conhecimento que anos num TERRITÓRIO. ter vivido num país de primeiro mundo e conseguido ganhar dinheiro. Johnny segue admirado com o inglês do seu herói e acalentando o sonho de ir para “América”.Figura 04 Fonte: Diário do Rio Doce. Devido à ascensão social que vive no momento. inclusive a boa forma física. por isso ele propõe que ele substitua o termo engraxate por shoe cleaner. como destacado jocosamente na tira 06. publicada em 14 de julho de 1990. Impressionado eira do capitão. mas a novidade não é bem recebida pelos moradores do morro. o Capitão Dólar acredita que o dinheiro. Essa tira revela o poder mágico de ter estado na terra prometida. Johnny aceita. Figura 05 Fonte: Diário do Rio Doce. O idioma americano.255 . Independente dos constrangimentos. ou melhor. o dólar é capaz de comprar tudo.

Essa tira representa exatamente a situação de muitos emigrantes que ao retornar distribuem presentes.TERRITÓRIO. eram raros os nascidos em Governador Valadares que conseguiam voltar do consulado com uma resposta positiva. a cada dias. Conseguiu “Fazer a America” o que na linguagem do emigrante significa ganhar dinheiro e retornar numa condição econômica superior. que justifica os anos de trabalho e luta na América. De acordo com a pesquisadora. mas não conseguiu adquirir conhecimento. raridade. os brasileiros não tinham problemas na hora de conseguir visto. notícias e reportagens sobre a emigração no período de 1960 a 2007. Devido ao crescente número de brasileiros overstayers (pessoas que excedem o tempo de permanência do visto de turismo) eles são vistos como qualquer outro imigrante transgressor. também cresciam.país de primeiro mundo não lhe proporcionou. O passaporte autêntico com visto carimbado. de diferenciação. também é motivo de orgulho para o Capitão Dólar. Figura 06 Fonte: Diário do Rio Doce. publicado em 22 de julho de 1990. entre os Valadarenses. 256 . contudo a pesquisa possui um banco de dados com todas as crônicas. mas ao longo dos anos 1980 a situação começa a mudar. a partir dos anos de 198014. 14 Margolis (1994) comenta sobre a dificuldade encontrada pelos brasileiros na hora de conseguir um visto. fazem churrasco e festas para os amigos e parentes para demonstrar a sua nova condição financeira e com isso acabam perdendo boa parte e muitas vezes toda a poupança que levou anos para juntar. nesse sentido o dinheiro que ganhou é sua única fonte de identidade. as denúncias de esquemas ilícitos envolvendo valadarenses para conseguir entrar nos Estados Unidos. 15 Esse artigo utiliza o banco de dados referente as tirinhas. pois eram considerados autênticos turistas. As crônicas e notícias dos exemplares dessa década15 mostram como ainda nos dias de hoje. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .

Figura 07 Fonte: Diário do Rio Doce. Tem sempre a necessidade de comparar e supervalorizar o que é estrangeiro. ao explorar estas denúncias. publicada no dia 26 de julho de 1990.257 . Essas tiras revelam também o estranhamento e a incapacidade do emigrante de compreender as normas formais e informais do seu país de origem. A dura realidade dos imigrantes é deixada em segundo plano. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . publicada no dia 24 de julho de 1990. como ilustram as tiras 07. o Capitão se sente um verdadeiro herói. 09 e 10. quase sempre associada a ida ilegal para os Estados Unidos e a falsificação de passaportes. TERRITÓRIO. Figura 08 Fonte: Diário do Rio Doce. O passaporte com visto é um diferencial em relação aos nativos que considera que pode abrir todas as portas.Como destaca Silva Filho (2008). criam uma imagem deturpada dos valadarenses. privilegiado pelo seu visto: possibilidade restrita a uma minoria. os jornalistas. Neste contexto. 08.

publicada em 22 de agosto de 1990. valeu o apelido de “Valadólares”. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .Figura 09 Fonte: Diário do Rio Doce. sendo que grande parte delas é destina à microrregião de Governador Valadares. o sistema bancário nacional em parceria com bancos americanos criou um sistema legal para o envio do dinheiro. Siqueira (2009) também destaca que o Brasil é o segundo maior receptor de remessas da América Latina. Figura 10 Fonte: Diário do Rio Doce. Antes da regulamentação do envio das remessas era comum o cambio ilegal da moeda norte-americana. Antes. O personagem criado pelos publicitários do Diário do Rio Doce também se arrisca nesta empreitada ilícita. publicada no dia 05 de agosto de 1990. 258 .TERRITÓRIO. como mostra a tira 11. as remessas chegavam pelas agências de turismo. mas a partir do ano 2000. que ganhava espaço nos jornais.

como um lugar em que o governo se preocupa com as pessoas e não é corrupto. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . A salvação para a espécie humana. TERRITÓRIO. Assim. publicada em 1 de agosto de 1990. Como destaca a pesquisadora Margolis (1994). como uma nação não divida pelo estresse social e econômico provocado pelo que se tem ou não tem. Figura 12 Fonte: Diário do Rio Doce. No caso da “tirinha” 12 Johnny se aproveita do desejo de emigrar dos Valadarenses para conseguir mais fregueses. Essa fixação país norte-americano e o desejo de emigrar a qualquer custo também são evidenciados nas histórias do Capitão Dólar. fato que gera uma admiração e curiosidade pelo que vem dos Estados Unidos.259 . ao voltar. os cartunistas acabam ajudando a firmar a imagem do valadarense como um povo desenraizado e obcecado pela idéia de migrar como única alternativa para melhorar de vida. conseguiam comprar alguns bens de consumo que antes não tinham acesso e faziam questão de reverenciar a terra do Tio Sam como uma espécie de Eldorado. mas também os meios de comunicação de massa. Os imigrantes retornados. Não apenas os imigrantes.Figura 11 Fonte: Diário do Rio Doce. a mídia ajudou a reforçar a imagem dos Estados Unidos como uma espécie terra prometida. Além do mais os brasileiros são bombardeados pela música e pelo cinema americano. publicada em 20 de julho de 1990.

E nem mesmo a paixão nacional escapou de sua americanização. ou melhor.A supervalorização do que é estrangeiro em relação ao nacional é uma Tonica das falas do Capitão Dólar.TERRITÓRIO. Essa estrada é a solução de todos os Governador Valadares. fazer um capital em pouco tempo e voltar para o Brasil. conhecido pelos Valadarenses simplesmente como “América16”. escolhe o time para torcer pelo nome que é o mesmo de seu país adotivo – América. a utilização de termos em inglês na faixa de protesto do Capitão e as múltiplas possibilidades de acesso ao país de destino que contempla. A tira 13 mostra o Capitão Dólar como um homem alienado. 260 . até mesmo. objetos não identificados. como uma forma de homenagear os Estados Unidos. a forma como denomina esse país. publicada em 17 de agosto de 2010. o povo brasileiro pensa pequeno e precisa ampliar suas perspectivas. para ele. onde o dinheiro será investido. sendo que uma delas tem como destino os Estados Unidos. o futebol. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Figura 13 Fonte: Diário do Rio Doce. 16 Como destaca Almeida (2003) Os primeiros imigrantes que saíram de Governador Valadares tinham como o objetivo de “fazer a América” – expressão usada para identificar todos os que buscam nos EUA a oportunidade de ganhar dinheiro. Na hora de escolher o time de futebol preferido o Capitão deixou o Democrata. as bandeiras com cifrão. Nesta tira (12) o protagonista não se contenta com a simplicidade do protesto pela duplicação de uma rodovia e busca uma alternativa à altura da sua condição americanizada: uma estrada com cinco vias. e preferiu equipes que levassem América no nome. Vale a pena destacar também nesta tira a barraquinha de troca de dólar. que só consegue ver o lado negativo do Brasil e o lado positivo dos Estados Unidos. principal equipe de Governador Valadares de lado.

ao invés de despertar o amor pela pátria mãe. E parece que este sentimento tomou conta do nosso herói dos quadrinhos. ele voltou completamente fissurado pela terra do Tio Sam. Mas. inclusive a arriscar sua vida na Guerra em favor dos norte-americanos.Figura 14 Fonte: Diário do Rio Doce. Siqueira (2007) compreende que para o emigrante a empreitada do retorno é ainda mais complicada do que a decisão de migrar para um país estrangeiro. TERRITÓRIO. E por falar em futebol. onde os americanos ostentam com orgulho e das mais variadas formas a bandeira nacional. publicada em 24 de agosto de 1990. Em outras ocasiões. publicado em 08 de agosto de 1990. são raras as demonstrações de amor à pátria. Como foi dito anteriormente o Capitão Dólar não se sente pertencente à cidade de Governador Valadares depois que volta dos Estados Unidos. Figura 15 Fonte: Diário do Rio Doce. a Copa do Mundo. estando disposto. no Brasil este é um dos principais motivos que despertam o sentimento de patriotismo na população. com a realização do principal torneio futebolístico mundial. De quatro em quatro anos.261 . SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Ao contrário do que acontece nos Estados Unidos. é comum ver o verde e o amarelo estampado pelas ruas.

que sente falta da indicação de cidades americanas. estando lá e cá simultaneamente. os seres humanos envolvidos na empreitada migratória. Assim como afirma Sayad (2000). SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .TERRITÓRIO. Figura 16 Fonte: Diário do Rio Doce. que afetam o país de origem.. tanto aqueles que vão quanto aqueles que ficam. construção civil e mesmo no cotidiano das pessoas. Como destaca Hall (2003) não se sente em casa na sua cidade natal. publicado em 27 de julho de 1990. Isto ocorre porque..) quando emigram estão cheios de esperança e quando retornam são acometidos pelo estranhamento de seus lugares de origem e das pessoas que habitavam seu universo social. pois após a experiência migratória é como se ele pertencesse a dois lugares. a imigração não acontece sem deixar marcas. das famílias e da sociedade de modo geral. principalmente. (SIQUEIRA. 262 . charges. o de destino e.(. crônicas. reportagens. 5 . A mídia local apresenta um registro desse fenômeno através dos editoriais. Essas marcas estão representadas em diferentes setores da sociedade valadarense como no comércio. Esse movimento populacional impacta a cidade em diferentes aspectos. que retrataram a questão em suas várias dimensões e significados. o principal ponto de partida de emigrantes para o exterior. 2007:10) Na tira abaixo (Tira 16) a placa indicando a direção de algumas cidades brasileiras e confunde o Capitão Dólar. até os dias atuais. durante o tempo de afastamento.idealizaram as relações sociais e o espaço onde viviam e quando retornam não reconhecem. e as tiras de humor.Considerações finais A cidade de Governador Valadares é conhecida como o primeiro e.

ou seja. pois ele acredita que esse trunfo também pode abrir portas no Brasil. as “tirinhas” que circularam diariamente no jornal entre julho de 1990 e setembro de 1991. Ele é apresentado como um homem alienado e com baixa escolaridade. O fato de possuir o visto americano. A imagem passada é de uma identidade fragmentada e.263 . sua condição de ex-emigrante. TERRITÓRIO. Desta forma. com sua paixão pelos Estados Unidos é apresentado como um sujeito que. é um sujeito que “fez a América”. mas não conseguiu mudar sua condição de desinformado e pouco instruído. Nesse sentindo. consegui fazer uma poupança e retornar em condição econômica melhor. receber um tratamento diferenciado. que estão sempre associados ao cambio ilegal da moeda americana. a cidade acaba fadada com uma terra sem oportunidades. o personagem. nesses quadrinhos em particular. sobretudo. de pouca instrução que retorna cheio de si e acredita que seus preciosos dólares são capazes de comprar qualquer coisa. Nas tiras estão presentes as representações do emigrante na cidade de origem. que possibilita a entrada pela porta de frente nos Estados Unidos e é desejo de todos. se transforma em uma grande conquista para o Capitão Dólar. anuncia. pois. no decorrer do processo migratório vivenciado. apresenta uma imagem negativa da migração e dos migrantes valadarenses. Além disso. Apesar de os quadrinhos serem uma obra de ficção e da imagem estereotipada. adquiriu dólares. pretendendo assim. No entanto. retratam uma realidade dos anos de 1990: o interesse dos valadarenses pela terra do Tio Sam. As tiras retratam o migrante retornado valadarense com humor e certa dose de ironia e sarcasmo. a mídia. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . cuja melhor saída para uma vida melhor é o aeroporto. demonstrando as representações sobre a emigração presentes nesse gênero jornalístico. desterritorializada. à falsificação de passaportes e uma série de outros esquemas ilícitos.O presente artigo tem a proposta de fazer uma análise de conteúdo de uma das modalidades de informação sobre a emigração. O personagem Capitão Dólar sugere um homem deslumbrado. Passa a valorizar tudo que é americano em detrimento ao que é nacional e vê na sua condição de emigrante um diferencial em relação àqueles que não empreenderam a aventura de emigrar. em situações inesperadas. mesmo aquelas cujo preço não é possível calcular.

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Psicólogo. iniciado desde a década de 1960. eu tenho pavor. não permita que seu marido vá. tendo seu ápice na década de 1980. Introdução cidade de Governador Valadares tem como traço marcante em sua cultura a emigração internacional que a torna conhecida nacional e internacionalmente.. TERRITÓRIO. Depois que ele sair de casa e você ficar. porque não existe. eu falei o que eu falo pra todo mundo. Doutor em Psicologia Clínica pela Universidade de Picardie Jules Verne/França.267 . Ou você vai com ele ou ele não vai. 41 anos). A mulher que é casada que preza pelo seu casamento. Informações estas que nos ajudam a entender melhor o que fez e ainda faz com que tantos valadarenses migrem em grande quantidade para o exterior. tem um casal amigo meu. não vai existir mais casamento. As famílias residentes na cidade frequentemente possuem um parente no exterior na condição de emigrado. bolsista da Capes. Graduanda em Psicologia pela Universidade Vale do Rio Doce. Mestrando em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pós-graduada em Dependência Química e Outros Transtornos Compulsivos e em Gestão de Território e do Patrimônio Cultural pela Universidade Vale do Rio Doce. (M. Segundo Assis (1999). SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . a cidade foi ampliando suas redes envolvendo 1 2 3 4 5 Trabalho apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais . Essa curiosa cultura inspirou o estudo sobre emigração na região envolvendo todo tipo de informação.Impactos da emigração sobre as vivências da mulher do emigrante1 Agnes Rocha de Almeida2 Carlos Alberto Dias3 Emilliane de Oliveira Matos4 Lucas Nápoli dos Santos5 Nossa.FAPEMIG Psicóloga. que o marido dela falou que ia. bolsista de Iniciação Científica da FAPEMIG. A Este fenômeno faz parte da história de Governador Valadares. professor adjunto da Universidade Vale do Rio Doce.

O fator determinante. Canadá e Portugal respectivamente. visando o cumprimento dos objetivos. existe uma participação direta da família no que tange a manutenção do processo emigratório. amigos(as) a realizar este projeto evidenciando que a migração transformou-se num projeto econômico. isto é. os países com maior fluxo de valadarenses são Estados Unidos. de trabalhadores jovens do sexo masculino entre 20 e 34 anos. “Essa rede migratória é um tipo específico de rede social que agrega redes sociais existentes e enseja a criação de outras redes. Este fenômeno veio marcando sua identidade. Sendo assim.outras cidades da região. Num estudo realizado por Siqueira (2007). Por isso. o Brasil deixou de ser receptor de mão de obra estrangeira e passou a exportar o trabalho migrante. Essa informação nos remete a uma situação em que acredita-se que haja um grande número 268 . “Aqueles que ficaram auxiliam os filhos(as). a história daqueles que partiram e daqueles que esperaram o retorno do parente. em rede de redes sociais” (SOARES e FAZITO. A existência da conexão entre emigrados. Primeiramente na construção do projeto de emigrar e no planejamento do período necessário para que os objetivos financeiros sejam atendidos. portanto. sua história. Nesse misto de relações entre emigrado e as outras pessoas envolvidas. emigrantes relataram que seria impossível conseguir salários e melhores condições financeiras no Brasil. sendo sua maior concentração no primeiro. no dizer de Assis (1999). O fluxo emigratório é constituído. em seguida. que impulsiona e faz com que muitas pessoas migrem para o exterior. e. 2008: 32). Segundo Siqueira (2006). parentes e amigos forma um tipo de rede social denominada por Soares e Fazito (2008) como rede migratória. Essas redes foram identificadas a partir de estudos que averiguaram de que forma o valadarense se inseria no exterior e de que forma iniciava sua vida na América.TERRITÓRIO. afetivo e familiar de grande impacto na cidade” (p. ganhar dinheiro e melhorar as condições financeiras – embora nem todos consigam – são as redes sociais. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Essa participação é percebida em dois momentos. Um facilitador deste processo. no gerenciamento dos recursos enviados pelo emigrante. trabalhando nos mesmos empregos que no exterior em um período consideravelmente reduzido. é o desejo de melhorar suas condições financeiras obtendo salários superiores àqueles recebidos em seu próprio país. consiste. 3). namorados(as). em grande parte.

essa meta vai ficando cada vez mais distante. A pessoa que agora se encontra na condição de emigrado é portadora de uma história construída até então na cidade de origem. 2006:5) indica que muitos vão com o desejo de um dia retornar para suas casas. retornar a sua terra de 6 Terminologia usada pelos imigrantes. recursos financeiros suficientes para que a esposa e filhos se juntem a ele no país de destino. A família. SCUDELER. Mas. como família monoparental. a conviverem com a distância do parceiro ou pai resignando-se à solidão (ALMEIDA. também passa por adaptações. Fusco (1997:4) retrata que “muitos elaboram seus planos segundo uma estratégia familiar. Esses autores explicam que a expressão “família monoparental” surgiu na França no início dos anos 70. Muitos emigrantes acabam por permanecer no exterior por vários anos e as parceiras e filhos lentamente são forçados. TERRITÓRIO. A partir da emigração. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . economizar o máximo. e partem com a clara expectativa de voltar para aqueles que deles dependem e esperam”. a ausência é a da figura masculina. na realidade.269 . existe uma necessidade de adaptação ao ambiente para que ele melhor se integre ao novo contexto cultural. O desejo de fazer a América6 (SIQUEIRA. para depois voltar. por sua vez. Em muitos casos. então. sobretudo pela ausência de uma das partes. A promessa inicial é a de que com o passar do tempo o parceiro emigrado adquira. onde um dos cônjuges está ausente. pelas circunstâncias. 1999). O termo tem sido definido por muitos sociólogos em seus estudos. em que o foco são famílias cujo núcleo familiar onde vive um pai ou uma mãe só (sem o cônjuge) e com um ou vários filhos solteiros. do pai e provedor da casa que parte em busca de descobrir novos caminhos que facilitem seu conforto financeiro e de sua família.de filhos e esposas que passem a aguardar o retorno do pai e do parceiro. suas famílias. Esse pai e parceiro bem como sua família dependerão agora do seu progresso financeiro no exterior para. 2008. Seu repertório de comportamento e cotidiano sofre mudanças significativas envolvendo desde a linguagem até o modo de manifestar suas emoções. que significa trabalhar muito. Alguns autores. por meio de trabalhos realizados no exterior. como Wall e Lobo (1999) nomeiam a nova situação familiar. Essa é a vontade da maioria daqueles que partem para o exterior.

O uso de modernos instrumentos de comunicação se transforma num ato quase compulsivo como necessidade de se manter a unidade familiar. ou ainda trazem para morar consigo suas próprias mães. considerando que os contatos com os parceiros se limitam aos meios de comunicação como telefone e internet. pelos vizinhos. foram relatados casos em que as esposas que ficaram mudaram suas rotinas por completo. com o intuito de evitar que a fofoca acabasse com o casamento. Ainda no intuito de manter uma relação familiar positiva. para manterem-se conscientemente vigiadas. Segundo a pesquisa realizada por Machado (2007). Embora esses mecanismos possibilitem uma forma de contato íntimo entre os cônjuges. essas mulheres deixam de usufruir da presença e dos benefícios gerados pela vida a dois. 270 . sexual e social.TERRITÓRIO. a qualidade da administração desses recursos pela mulher certifica ou não seu comprometimento. sinalizando que a casa não está vazia. a internet e outros meios de comunicação. significativamente elevados e rotineiros. Isolamentos estes que se tornam cada vez mais perniciosos às mulheres. como salienta Machado (2007). Até o retorno. Tais medidas fazem com que esposas de emigrantes vivam sob condições de isolamento afetivo. através da qual tem no parceiro o suporte para os momentos difíceis e a educação dos filhos. A necessidade de mudarem seus comportamentos diante da sociedade se faz necessária de modo a evitar constrangimentos e discussões entre os parceiros. amigos e parentes do emigrado. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . essas mulheres que dividem uma vida conjugal com seu parceiro comportam-se de maneira peculiar evitando o surgimento de motivos para que o parceiro dê fim ao relacionamento conjugal. garantidos pelo matrimônio. Além da comunicação como recurso de manutenção das relações familiares. Um fato significativo e que causa medo e repulsa nessas mulheres diz respeito à fofoca. São vários os mecanismos utilizados pela família. a própria remessa de dinheiro sinaliza que o parceiro está comprometido com sua família. Uma justificativa para tal comportamento é a vigilância da mulher e da casa onde vive. Machado (2007) relata ainda que muitas delas adotam a estratégia de morar nas casas ou no terreno dos sogros. dentre eles o telefone. a família busca meios de manter uma comunicação na tentativa de não permitir o enfraquecimento das relações. das mais variadas formas.origem e se juntar novamente a sua família. Em resposta. Tais benefícios são as relações nas quais ela possa sentir prazer junto ao parceiro e a presença.

apesar de se encontrar atualmente novos padrões de relacionamento amoroso e novos formatos de relacionamento conjugal influenciados pela contemporaneidade (CECCARELLI. Mesmo exercendo uma nova posição na família devido à ausência do parceiro – liderança. Aquelas que antes contavam com o parceiro na tomada de decisões. dentre elas a redefinição dos papéis. à mulher não é permitida uma efetiva vivência de sua sexualidade. do bem-estar dos filhos e para que se cumpra o projeto de obter o sucesso financeiro. TERRITÓRIO. administração da casa.Inúmeras são as consequências do distanciamento entre os parceiros. não se sabe por quanto tempo é possível à mulher continuar adormecida. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . A consciência de que este sentimento não se extinguirá e irá acompanhá-las até o dia em que seu parceiro retorne se torna presença constante no cotidiano dessas mulheres.271 . Os autores colocam ainda em questão o primeiro sentimento vivenciado por elas após a partida do parceiro: a solidão. Em decorrência das decisões tomadas para a manutenção da união do casal. as parceiras dos emigrados se desdobram para que de alguma forma o objetivo seja consolidado o mais rápido possível e o parceiro volte para a família. quando tudo o que se constrói no mundo chama a atenção para o fato de que homens e mulheres dificilmente se acomodam à castidade”. Essa questão aborda um fato negativo decorrente do “provisório” período de distanciamento: em função da ausência do parceiro. Almeida e Dias (2008:2) afirmam que “ainda em função do consequente isolamento sexual. das finanças e investimento do dinheiro enviado – elas ainda permanecem numa posição de submissão. 2002). Outro fator relevante faz menção ao fato de que. A mulher. passam a tomar para si mesmas essa tarefa. Estudos realizados por Almeida e Dias (2008) revelam que os impactos do isolamento social e afetivo na vida da esposa do emigrante são significativos. Mas nem sempre as decisões e os comportamentos adotados por elas são satisfatórios para sua saúde física e emocional. o perfil da maioria das mulheres de emigrantes da microrregião de Governador Valadares é de uma mulher que se apresenta como dependente emocional e financeiramente do parceiro. procura de formas diversas. Aquelas que se viam dedicadas a atividades profissionais percebem-se diante da necessidade de voltar sua atenção preferencialmente para questões domésticas e cuidados dos filhos. por sua vez.

forma alívio para desejos não realizados devido à ausência do parceiro. autopercepção e autoestima empobrecidos assolam a vida dessas mulheres. graves. Essas mulheres. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . colaborando para um possível rompimento conjugal. tristeza. caso os tenha. A esse respeito. Os sentimentos de desvalia. acabam por fazer emergir sentimentos negativos. saudade e ansiedade são presença constante em suas vidas. algumas vezes. As consequências na vida cotidiana para a parceira do emigrado são incontáveis. muitas vezes. principalmente nos momentos em que se torna mais acentuado.encontrar alternativas para suavizar tal sentimento. e com as lembranças e a esperança do retorno do parceiro. Sentimentos adversos são experimentados por essas mulheres que vivem na condição de “viúvas de maridos vivos”. Uma consequência a ser ressaltada diz respeito aos filhos. afetando diretamente seus pensamentos. apenas com os filhos. como frustração. não vivem a sexualidade em sua plenitude como vivem os casais que estão juntos fisicamente. Muitas se refugiam na religião. seu desempenho diário como mãe e como mulher. De uma maneira ou outra. A utilização de tal subterfúgio é improdutiva. Almeida e Dias (2008) ainda nos trazem uma importante informação acerca dos mecanismos de compensação para os desejos sexuais de tais mulheres. impede a vivência do relacionamento diário entre os parceiros. Sentimentos como angústia. visto que constantes insatisfações nesse campo produzem como consequências efeitos colaterais. bem como situações que os uniram afetiva e sexualmente.. os prejuízos na saúde psicológica da mulher também devem ser considerados. Além da vigilância de parentes e amigos de emigrados. Os sentimentos se constroem e se misturam no decorrer do tempo em que a mulher do emigrado permanece só. uma vez longe de seus parceiros. Em tais momentos a parceira sente falta da voz de seu parceiro. de momentos que passaram juntos. força e. Dantas e Jablonski (2004:352) fazem o seguinte comentário: “[.] mães infelizes e insatisfeitas podem transmitir esses sentimentos aos seus filhos”. de maneira a buscar consolo.. sendo afetada pela distância. angústia e. sentimento de culpa por terem participado da decisão do parceiro de emigrar. 272 . que são atingidos de certa forma por esse turbilhão de sentimentos que assolam a vida dessas mulheres.TERRITÓRIO. de certa. A união que por ora é apenas sentimental. ao fugirem de seus sentimentos e desejos sexuais.

O segundo ponto negativo na vida dessas mulheres aponta para o recolhimento e isolamento da vida social. Sacrificar o relacionamento conjugal em função de um futuro melhor faz com que essas mulheres tenham que experimentar situações desconhecidas e inimagináveis. O parceiro não estando presente facilita a reclusão de sua mulher no lar. mulheres de emigrantes tendem a sentir necessidade de dar satisfação à sociedade. Seja por desejo próprio ou por consequências do ambiente onde vivem sem o parceiro. A exposição de sua família se torna mais pública. As saídas que antes possivelmente eram constantes. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . O grande número de mulheres residentes na região que vivenciam essa realidade indica a pertinência de se averiguar de que forma elas lidam no dia a dia com a ausência do parceiro. As esperanças e sacrifícios vivenciados por essas mulheres possibilitaram a realização de um estudo que procura conhecer em profundidade suas vidas cotidianas.273 . limitando seus espaços de lazer à igreja e casa de parentes. Os dados aqui apresentados foram coletados através da realização da pesquisa intitulada “Impactos do processo emigratório sobre a TERRITÓRIO. com os desejos a serem reprimidos e com os sentimentos gerados pelo desfecho familiar a partir da participação no processo emigratório. ao saírem de casa. Machado (2004) mostra que isso é culturalmente comum entre as famílias cujos parceiros se encontram no exterior como emigrantes e que não é uma novidade para aqueles que optam por este caminho. sem presença de um homem. tanto do emigrado como da parceira. agora não são mais. querem resguardar a família de qualquer comentário e conversas que atentem contra a moral do grupo familiar. Metodologia Este estudo tem por objetivo conduzir uma reflexão sobre a vivência de mulheres que possuem ou possuíram parceiros residentes no exterior como emigrantes enfocando suas expectativas e impactos do isolamento conjugal e social em seu cotidiano. pois. a mulher permanece só. Essa exposição sensibiliza toda a família de forma que os pais. o que já chama a atenção para um aspecto diferente: na casa existe agora mulher e crianças. do chefe da família.

População do estudo e critérios de inclusão e exclusão O universo do estudo é constituído por mulheres casadas ou que possuíam algum vínculo conjugal e residiam na cidade de Governador Valadares. Coleta de dados Visando testar o método de trabalho.sexualidade da esposa do emigrante”. Porém estas não foram consideradas pelo estudo principal. realizada em duas fases (Fase I e Fase II) teve início em 01 de março de 2006 e foi concluída em 28 de fevereiro de 2010. Para a coleta dos dados. as seguintes etapas foram realizadas: 1. 1999). foi realizado um estudo piloto com 20 mulheres na primeira fase da investigação e com quatro na segunda fase utilizando-se os critérios de inclusão e exclusão. tendo seus parceiros resididos no exterior como emigrantes ou estando residindo há pelo menos três meses. no qual utilizou-se tanto uma abordagem quantitativa quanto qualitativa. sem esforços excessivos adicionais e ser um meio eficiente de aumentar a compreensão do objeto de estudo (SANTOS. Trata-se de um estudo descritivo do tipo exploratório. O Estudo piloto permitiu avaliar a clareza e objetividade da entrevista. na primeira fase. bem como aquelas que tinham marido ou parceiro fixo com sucessivos períodos de permanência no exterior com durabilidade média de um ano. Esta pesquisa. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .TERRITÓRIO. Inicialmente foram mantidos contatos com as diretoras de es274 . bem como aquelas que se recusaram a participar. Foram incluídas na amostra mulheres que tinham no período de realização da pesquisa ou que já tiveram o marido ou parceiro fixo residindo no exterior por um período mínimo de três meses. os processos técnicos envolvidos na execução do projeto e os instrumentos utilizados pela coleta de dados. Foram excluídas mulheres com algum déficit cognitivo ou que se sentiram profundamente angustiadas diante da questão em estudo. A combinação das duas abordagens pode produzir resultados de melhor qualidade.

2006:19). Para a composição desse grupo de mulheres. para participarem do evento. De acordo com o interesse das mulheres. Na segunda fase da pesquisa. 5. O método consistiu em identificar alguns sujeitos com as características exigidas para compor a amostra. 4. Esses primeiros indicaram outros. tomando-se como referência inicial as participantes da Fase I da pesquisa. tranquilidade e silêncio. colas da rede pública e privada de Governador Valadares e discutida a possibilidade de realização da palestra “Dicas para a educação dos filhos que possuem o pai no exterior” para as mães de alunos cujo parceiro fosse emigrante. Após a autorização da direção da escola. “Segundo Becker (1993) a indicação feita pelos próprios indivíduos que compõem o universo pesquisado é um elemento importante para assegurar uma seleção mais impessoal e aumentar a relação de confiança do entrevistado para com o pesquisador” (SIQUEIRA b. procurando assegurar a privacidade da participante. fez-se uma apresentação da pesquisa e convite para participação. foi realizado o contato telefônico e agendamento do dia e horário para a entrevista domiciliar. fez-se inicialmente uma reapresentação dos objetivos da pesquisa. cuja duração foi em torno de 60 minutos. do instrumento de coleta de dados e orientação para a leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). foi possível a criação de um cadastro com identificação e telefone de mães que estivessem dispostas a fazer parte da pesquisa. A entrevista foi realizada em um local da residência que apresentasse boa iluminação. As respostas foram anotadas em formulário próprio para posterior alimentação do banco de dados. No domicílio das mulheres cadastradas. TERRITÓRIO.2. Ao final da palestra. A partir do cadastro. foram realizadas entrevistas domiciliares com 32 mulheres residentes na cidade de Governador Valadares. também fizeram outras indicações. até chegar a um número em que as informações e indicações começaram a se repetir. que por sua vez. foi agendado o dia do encontro por meio de um convite formal às mães em questão.275 . 3. Cada entrevista teve duração média de 60 minutos. utilizou-se do método Bola de neve. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .

associado ao fato de o parceiro ter retornado ou não e ter atingido ou não o objetivo de melhorar a condição financeira da família. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . motivados pela participação do parceiro no processo emigratório. afetiva e sexual ocorridas a partir da ausência do parceiro. 26) percepção quanto à traição feminina. 16) existência de prescrição médica. 7) reação da mulher diante da decisão da partida do parceiro. 15) medicação utilizada pela entrevistada. 14) frequência anual de visitas médicas. 12) opções de lazer na ausência deste. Tal roteiro buscou. enfocando o modo como vivem suas sexualidades. Na segunda fase.Instrumentos de coleta Para a coleta de dados ocorrida na primeira fase da pesquisa. 10) atitudes tomadas pela mulher a partir do envio de remessas de dinheiro. na primeira fase. com o objetivo de conhecer os sentimentos das entrevistadas gerados pelos múltiplos desfechos da vida conjugal. 13) sentimentos diante de outros casais. 23) religião. 3) estado civil. 8) providências tomadas pelo parceiro a partir da chegada no exterior. 17) sintomas apresentados. bem como identificar as diversas mudanças físicas. 9) o sentimento diante das providências tomadas pelo parceiro. 24) situação quanto a libido. 18) tempo de uso do medicamento. Por desfecho entende-se aqui a continuidade ou não do relacionamento conjugal. os dados foram coletados através de uma entrevista semi-estruturada realizada em domicílio. 276 . 20) sua avaliação sobre o distanciamento. 2) escolaridade. 21) representação individual de casamento 22) com quem a entrevistada reside. identificar as mudanças na vida diária. 5) tempo de isolamento conjugal. As variáveis consideradas foram as seguintes: 1) idade. deixando as entrevistadas livres para expressarem-se de acordo com suas vivências e expressões. 19) auto-estima a partir da ida do parceiro. psíquicas e sociais influenciadas pelo isolamento sexual. 6) motivação para emigrar. realizou-se uma entrevista baseada num roteiro específico desenvolvido para este estudo.TERRITÓRIO. 11) as atitudes tomadas pela mulher diante da falta do parceiro. 25) atitudes frente ao desejo sexual. 4) tempo de relacionamento. O roteiro norteador da entrevista continha vinte e seis questões para as quais não eram indicadas alternativas. cujo objetivo central foi de conhecer a realidade vivida por mulheres que possuem os parceiros no exterior.

0%).1%) e 20-29 anos (32.3%). facilitando a elaboração das tabelas e estudo descritivo das variáveis observadas neste estudo.4%). Já os dados quantitativos foram analisados com o auxílio do programa SPHINX. sobressaindo-se as que se situam na faixa de 30-39 anos (40. e as expectativas e desfechos decorrentes da experiência emigratória.Análise dos dados A apuração dos dados qualitativos foi realizada segundo a técnica de Análise de Conteúdo (BARDIN. Quanto à escolaridade.4%) seguidas das que cursam ou cursaram o segundo grau (39. reforçando que a pesquisa possui caráter voluntário. lideram aquelas que possuem o primeiro grau (47.5%) são seguidas pelas que possuem entre três a cinco anos (40. TERRITÓRIO. as dificuldades na educação dos filhos. O TCLE assegurava-lhes o caráter confidencial de suas respostas e seu direito de não-identificação. Aspectos éticos Este estudo foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade à qual o projeto está vinculado. 2009). enfocando suas percepções relativas às expectativas experienciadas por ocasião da partida e permanência do parceiro no exterior. sobressaem-se aquelas cujo relacionamento dura há pelo menos entre 5 e 10 anos (30. Resultados Na primeira fase da pesquisa.277 . As entrevistadas possuíam em média 34 anos. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Todas as participantes leram e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).2%). Nesta foram avaliados fragmentos do discurso das entrevistadas. O estudo mostrou ainda que entre elas prevalecem as que possuem pouco tempo de distanciamento conjugal. o estudo contou com a participação de 247 mulheres cujos parceiros residiam no exterior como emigrantes. seguidas pelas de 10 a 15 anos (24. o tempo de relacionamento com o parceiro emigrado varia consideravelmente (mínimo 01 e máximo 38 anos). Entre as entrevistadas. Apesar disso.7%). os impactos da distância sobre o cotidiano da família. uma vez que as com menos de três anos (44.

rapidamente começou a enviar dinheiro para cobrir despesas da mulher e filhos. Em segundo lugar. na maioria das vezes por tempo indeterminado. que é a satisfação sexual do casal. isto é. na intimidade.7%) constitui-se no maior motivo que levou a entrevistada e seu parceiro a se envolverem no processo emigratório. na ausência do parceiro. contribuir para com a perpetuação da espécie uma vez que do relacionamento conjugal houve o nascimento de filhos. Sem querer considerar aqui a adequação ou não da realidade vivenciada.TERRITÓRIO.0%). como um fato natural que ocorre a partir da escolha e para a satisfação de necessidades mútuas. criando possibilidades para o retorno do parceiro ao país de origem. Tais motivos estão em conformidade com as providências tomadas pelo parceiro ao iniciar o trabalho no exterior. a maior parte deles (66. o que lhe permite. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . esposas de emigrados aguardam que inúmeras circunstâncias se alinhem. A busca pela melhoria da situação financeira da família (71.4%) são compulsoriamente forçadas a dividir suas vivências com os pais ou família do parceiro. sob o ponto de vista da cultura. manter algum nível de privacidade. Contudo. Ainda sob o ponto de vista cultural. a primeira função passa e passou a ser negligenciada a partir da participação do parceiro no processo emigratório. tal união deve cumprir a função de perpetuação da espécie humana e criar condições para o desenvolvimento da sociedade. Ceccarelli (2002) nos aponta que a união entre um homem e uma mulher é reconhecida. os dados indicam que a maioria das entrevistadas. O esforço para ganhar dinheiro com o objetivo de adquirir a própria moradia (17. 278 . As demais (28.Fato importante a ser mencionado e que chama a atenção diz respeito ao tempo de permanência do parceiro no exterior. também caminha nesse mesmo sentido.0%). reside só ou com os filhos (71. Isoladas afetiva e sexualmente. Essa não vivência afeta uma das funções do casamento contemporâneo. Efetivamente. Residindo o parceiro no exterior. Nota-se que a segunda função foi cumprida por algumas das entrevistadas.7%). que aponta diretamente para o distanciamento conjugal e a não vivência sexual da mulher durante a ausência do parceiro. a mulher passa a viver uma situação particular no tocante ao apoio afetivo e social de que necessita.8%). sobressaem-se os emigrados que iniciaram um processo de poupança com o objetivo de adquirir a casa própria (17. bem como para auxiliar os parentes necessitados.

SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .6%) e manter contato telefônico com o cônjuge (42. três atitudes positivas são tomadas por grande parte dessas mulheres. redutoras da qualidade de vida e da saúde.279 .8%).9%).Tabela 1 Características gerais das entrevistadas participantes da primeira fase. apoiar-se na religião (48. Embora não sejam tão evidentes. motivação e providências do parceiro emigrado – 2007 (n=247) Nos momentos de solidão. aspecto que não deve ser TERRITÓRIO. a saber: sair para se distrair e visitar parentes e amigos (49. as atitudes negativas. acometem um grande número de entrevistadas.

Neste caso. a presença é elemento significativo para a continuidade do relacionamento. Embora não seja esse o objetivo. saudades e desejo de que o parceiro volte (64. seguida por atividades de leitura. o conformismo gerado pela ideia de que o parceiro certamente retornará (26. enquanto elas convivem diariamente com a ausência. a igreja é reconhecida pelas entrevistadas como local privilegiado de lazer (56. as parceiras dos emigrados tendem a ser acometidas por sentimentos diversos. Dentre tais sentimentos. A maior presença e a soma de ações compartilhadas contribuem diretamente para a melhoria da qualidade e continuidade do relacionamento conjugal. 280 . SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Tabela 2 Rede de apoio das entrevistadas – 2007 Homens e mulheres se unem no desejo de ficarem juntos e de serem suportes ou suportados um pelo outro. choram.TERRITÓRIO. No contexto emigratório. os mais vivenciados são a inveja.3%) é vivido por significativo número dessas mulheres. São mulheres que se deprimem.1%). Depois destes sentimentos.negligenciado. sobretudo ao manterem contatos ou verem casais que vivem sob o mesmo teto.7%). fazer compras e passear no shopping (38. tomam medicamentos e buscam compensação na alimentação.4%). assistir TV e ir ao cinema (44.9%).

Essas mulheres buscam TERRITÓRIO. sobretudo nos momentos de maior solidão. Assim. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .5%) ou tomam medicamentos (3. felizes e inteligentes (19. Apesar do desejo. grande número procura desqualificar seus próprios sentimentos ao tentar ignorar a vontade (40. fazem orações (14.6%).5%). Embora existam aquelas que se sintam mais bonitas. mesmo na impossibilidade de vivenciarem a sexualidade junto dos parceiros.7%) foi relatado pela maior parte das entrevistadas. livres.1%). dominam as percepções negativas. Excluindo-se aquelas que raramente ou nunca sentem desejo sexual (16. com o único objetivo de aplacar sentimentos que deveriam ser atendidos de alguma forma. várias atitudes são assumidas.1%).281 . Nessas circunstâncias.8%). sobrará a grande maioria que às vezes (45. Aquelas que não conseguem desqualificar seus próprios sentimentos procuram fazer amor com seus parceiros ao telefone (24. impacientes e irritadas (45. o desejo apresenta-se como um companheiro. sobretudo ao se somarem aquelas que se perceberam mais tristes e sozinhas (17. ocorrem mudanças na autopercepção de tais mulheres. é acometida por ele. Perceberam-se mais ansiosas.3%). não há como desconhecer o fato de que antes da partida elas tinham uma vida sexual ativa. Tabela 3 Sentimentos diante de outros casais e autopercepção atual – 2007 Embora distantes de seus parceiros.1%). Efetivamente. magras.0%) ou assistem a filmes eróticos e se masturbam (11. através dessas ações passam a desenvolver comportamentos neuróticos.Na medida em que aumenta o distanciamento. Para isso.3%) ou sempre (38. algo deve ser feito para que tais mulheres possam encontrar um equilíbrio para sentirem-se bem em seu dia-a-dia.

Poucas. a função de cuidar dos filhos e da casa e aguardar o retorno do marido. Mesmo sujeitas à inatividade sexual. para-além da representação social da traição feminina. Para tanto. Os resultados apresentados nos últimos parágrafos incitam a uma reflexão sobre a condição da mulher no que diz respeito ao que comumente se denomina “sexualidade feminina” ou “feminilidade”. cabe a esposa do emigrante. pode-se dizer que no momento em que a mulher busca o prazer com outro que não seja seu parceiro. Em outros termos. por que apenas 2% das mulheres recorrem. como saída para a solidão. o parceiro está trabalhando para sustentar a família que deixou no Brasil e está vivendo única e exclusivamente essa prática diária no exterior. rompe. 2007:18). o relacionamento extraconjugal não encontra eco favorável na sociedade.formas de resguardar a todo custo o relacionamento conjugal. diferente disso.. ao início de um novo relacionamento.] parece que a desonra que ela implica também des-substancializa violenta e rapidamente aquelas relações do casamento: é como se o sêmen alheio fosse uma substância que contaminasse definitivamente um conjunto de relações. aquelas que pretendem dar continuidade ao relacionamento e acreditam no retorno do parceiro ao seio familiar tendem a discriminar as mulheres que não conseguem se manter fiéis.TERRITÓRIO. Tal ponderação se faz necessária com vistas a compreender. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . vale citar Machado (2007) quando diz: [. para a sociedade. Aos olhos da sociedade. o compromisso anteriormente firmado. do contrário ela des-substancializa as relações do relacionamento conjugal.. colocam em risco a vida conjugal ao se relacionarem sexualmente com outro homem (2. relacionando-se com outro homem. A esse respeito. por exemplo.0%). Relacionar-se com outro homem é percebido como uma fraqueza daquelas que o fazem e como uma mancha que se instala na vida conjugal. com este. sobretudo quando praticado pela mulher. exclusivamente. faremos uso das ferramentas conceituais freudianas. desonrando o marido e levando ao fim imediato daquelas relações (MACHADO. Seguindo este raciocínio. com o intuito de dar melhores condições de vida para a esposa e filhos. Embora pareça justificável devido ao longo período de inatividade sexual. durante a ausência do parceiro. 282 . A ampla condenação da traição feminina justifica o fato de que poucas se envolvam em tais relacionamentos.

A primeira vicissitude é a inibição sexual ou a neurose. Ela passa a conceber a atividade sexual como um atributo exclusivamente masculino – daí a idéia bastante comum há décadas atrás. Tampouco. O segundo perfil é o da mulher que. pelo desejo de ter um filho. isto é. desenvolve o que Freud chama de “complexo de masculinidade”. como no segundo perfil. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . O terceiro e último destino sexual da mulher. Nesse caso. embora essa seja uma possibilidade. Significa que mesmo no relacionamento com homens. Esse é um dos perfis pelos quais uma mulher pode se apresentar. primeira zona erógena feminina e com função análoga à do pênis. a mulher que se encaminha para a “feminilidade normal” reage à castração se identificando com o pai e se tornando masculina. a mulher. A menina. 1933/1996). de ter sexualidade. tornar-se-ão lésbicas. A menina não “aceita” a realidade da castração e recusa-se a adotar uma atitude passiva. Isso não significa que todas as meninas que reagem dessa forma à castração. segundo a qual a mulher não deveria sentir prazer no intercurso sexual.283 . por conseguinte. não renunciaria à sexualidade.Em sua conferência de 1932 sobre “Feminilidade”. preparando-se. Em vez disso. após dar-se conta de que esse não se transformaria em pênis (castração) ela converge seu erotismo para a vagina. que o menino possui o pênis e a menina não. aferrando-se na satisfação sexual via clitóris. é o que o médico vienense chama de “feminilidade normal”. o que ocorreria seria uma substituição de uma zona erógena por outra: se inicialmente a menina se satisfazia sexualmente através do clitóris. como reação à castração. advém a substituição do desejo de ter um pênis (como os homens) e. o filho é esperado como uma compensação pela ausência do pênis. Com a passividade. Semelhantemente à mulher inibida sexuTERRITÓRIO. ao dar-se conta de sua “castração” (para usar o termo freudiano) renuncia à atividade sexual e à sexualidade como um todo. Nesse sentido. elas adotarão uma postura ativa e comportamentos comumente atribuídos à masculinidade (FREUD. segundo Freud (1933/1996). Ao contrário. assim. Freud (1933/1996) afirma que existem três destinos possíveis para o desenvolvimento da mulher a partir do momento em que se estabelece o reconhecimento da diferença entre os sexos. ela toma a mãe como modelo e o homem como objeto sexual. adotando uma posição passiva em relação ao ato sexual. ao contrário do primeiro perfil. de acordo com Freud. para a satisfação sexual mediante a introdução do membro masculino.

etc. como efeito. a mulher desse terceiro perfil também substituirá o desejo por um pênis pelo desejo por um filho. para que a “feminilidade normal” se estabeleça. Em primeiro lugar. 1933/1996). faz com que a imagem do próprio corpo se afigure como um veículo ideal de descarga da libido. Vemos. ser amada é uma necessidade mais forte que amar. por exemplo. Além disso. Isso evidencia que é muito mais complicado para o homem abdicar da satisfação sexual pelas chamadas “vias de fato”. No entanto. 1933/1996. que também afeta a escolha objetal da mulher. a substituição do objeto sexual: em vez da mãe. É a partir dessa premissa que Freud explicará um aspecto bastante característico da feminilidade. três substituições. Sabe-se que nas prisões. na ausência de mulheres. também a vaidade física das mulheres. a mudança de zona erógena: do clitóris para a vagina e. 131).almente. quando Freud utiliza o termo “inferioridade sexual” não está se referindo a um aspecto moral. no mínimo. objeto original em virtude do cuidado materno. a substituição é um elemento presente desde o início de seu desenvolvimento sexual.TERRITÓRIO. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . A inveja do pênis tem em parte. contatos com familiares e amigos. são necessárias. portanto. é muito comum que. pois nesse a libido está concentrada no órgão genital. o que não ocorre com igual facilidade no caso do homem. no caso das mulheres. para ela. de modo que. a vaidade: Assim. p. a substituição do desejo de ter um pênis pelo desejo de ter um filho (FREUD. que a ausência do pênis.. como uma tardia compensação por sua inferioridade sexual (FREUD. do modo mais evidente. um grande número de homens tome a seus companheiros de detenção como parceiros sexuais. o pai. Toda essa digressão se faz relevante uma vez que as proposições em pauta permitem entender porque é menos dispendioso para a mulher substituir sua satisfação sexual por atividades de lazer. Concomitantemente. Evidentemente. como vimos. atribuímos à feminilidade maior quantidade de narcisismo. ela não renuncia a sua sexualidade em função disso (FREUD. Mas não só a imagem corporal. de vez que elas não podem fugir à necessidade de valorizar seus encantos. 1933/1996). posteriormente. O autor está apenas descrevendo como a castração é amiúde concebida na realidade psíquica da mulher. a ausência do pênis torna as vias de circulação da libido (que é como Freud denomina a força motriz da sexualidade) muito mais abertas para a mulher do que para o homem. No caso feminino. 284 . No entender de Freud.

por assim dizer. o faria através de empreendimentos de cunho cultural. na medida em que essa se constitui em condição sine qua non de existência da cultura. no artigo metapsicológico “Os Instintos e suas Vicissitudes” (FREUD. adotando tal “estratégia”. por exemplo. Têm a ver muito mais com o uso da linguagem.. fazer orações. cada palavra dita nesse intercurso está carregada de libido que. Tal vicissitude designaria o uso da energia sexual (libido) para fins deveras distantes da sexualidade.285 . O próprio contato telefônico com o parceiro no exterior não pode ser encarado apenas como uma conversa normal entre um casal. ler. 1915/1996) cita outro possível destino de nossa sexualidade. Muito mais do que em outras ocasiões. todas essas atividades que nossas entrevistadas alegaram praticar como saída para a solidão. ir ao cinema ou ao shopping. o sujeito. isto é. além da satisfação com o próprio eu (narcisismo). se imiscui nos intervalos de cada significante pronunciado. Tais realizações não caracterizam apenas a criação de obras de arte ou a produção de um livro. etc. podem ser caracterizados exemplos de sublimação. ir à igreja. como mostram os resultados. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . em função da impossibilidade de descarga da libido pela via sexual. Tabela 4 Frequência e atitude diante da ocorrência do desejo sexual – 2007 TERRITÓRIO. mais particularmente para intenções relacionadas a realizações culturais. Assim. visitar parentes e amigos. assistir TV. a libidinização da fala ocorre de forma bastante explícita como entre aquelas mulheres que fazem o chamado “sexo por telefone” com o parceiro. não podendo ser “dissolvida” no corpo. Ou seja. Em alguns casos.Freud.

Num primeiro momento. um significativo número dentre as entrevistadas foi solidário com a decisão do parceiro e o incentivou a emigrar (35.TERRITÓRIO. Mesmo não concordando com a partida do parceiro. De alguma forma. mas eu já desisti. A estas que viam a inserção no processo emigratório como positiva. Os relatos abaixo atestam que a decisão de permanecer no País aguardando o retorno do parceiro era normalmente motivada pela preocupação com o bem-estar dos filhos. independentemente das situações adversas a que seriam submetidas. a melhor opção.1%) ou ficou em dúvidas da viabilidade do empreendimento e não deu opinião (11. por ocasião da decisão de partir. há que se atentar para o fato de que grande parte das entrevistadas não concordou que o parceiro fosse para o exterior (38. O relato de duas entrevistadas deixa a entender que deixar os filhos para trás seria praticamente impossível. num primeiro momento. Entendem que tal escolha era a que mais poderia contribuir para o alcance dos objetivos que justificavam o envolvimento da família no processo. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . as entrevistadas deixam transparecer que acabaram acatando a decisão por acreditar que seria um meio de dar um futuro melhor aos filhos. entre a função materna e a função de companheira. diante do convite muitas das entrevistadas fizeram a escolha de permanecer no país. É comum que. apesar da insistência do parceiro.7%).2%). sacrificar a segunda seria menos doloroso ou a decisão mais acertada: Pra eu estar indo depois.9%) que já apresentava desgaste.Embora vários autores afirmem que o emigrar é um projeto de família. ele tem vontade (o marido). tipo assim ele “tá indo a gente vai”. Segundo elas. Inegavelmente. 41 anos). o parceiro afirme ter interesse em levar a mulher com ele para o exterior.1%) e as que consideravam o emigrar do parceiro como uma possibilidade de se sentirem mais livres sem ter que romper com o relacionamento (4. mas depois a gente fica pensando que os filhos ficam sozinhos. as crianças não teriam com quem ficar e elas não gostariam de deixá-las com parentes ou outras pessoas. porque de primeira a gente acha que vai ser fácil. porque pra levar todo mundo já fica difícil (E. Pelo bem da melhoria das condições da família ou por motivos particulares. 286 . o viver esse distanciamento seria. somam-se as que acreditavam que a vida melhoraria (10.

Por não poder responder ao enigma do feminino. reduzido em decorrência da ausência do parceiro. 28 anos). pois a criança funciona como um condensador de gozo. implicaria viver distante dos filhos e ter suspensa a função materna. É a introdução da versão do pai que permitirá a limitação do gozo materno. Suas responsabilidades ficaram limitadas ao gerenciamento do lar. Emigrar junto do marido. por questões sociais ou pessoais. Tal atitude é descrita na citação que se segue: Lacan (1974/1975) mostra que a mãe ocupar-se-á de seus filhos.287 . depois eu desisti. Em decorrência. A decisão do parceiro de emigrar exige uma tomada de posição importante na vida dessas mulheres. ele me ajudou muito a pensar. uma mulher pode tentar respondê-lo sendo A mãe. era preferível abrir mão de emigrar para viver junto do parceiro no exterior a abrir mão de ficar junto dos filhos e aguardar o retorno do parceiro. Tenho quatro filhas (D. em vez de gozar às custas deles. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . elas deveriam dar continuidade à vivência do “ser esposa” durante a permanência dele no exterior. Esse comportamento é comum no que consiste o distanciamento conjugal e a não vivência afetiva e sexual com nenhum outro homem como nos mostra o estudo em questão. Apesar da ausência do parceiro. É essa limitação ao gozo que assinala a transmissão da função paterna. 2002). Tal opção subtrai a presença da figura masculina da vida dessas mulheres. a preocupação com o papel de mãe permanece mais presente na consciência dessas mulheres do que a preocupação com o papel de esposa. Teria coragem de ir. embora por desejo ou ironia. e me sentiria muito bem em estar lá. Não fui porque eu mesma desisti. Na vida cotidiana das entrevistadas. 36 anos). o sacrifício de tal função seria mais difícil de aceitar. mas eu desisti por causa das meninas. cuidado e educação dos filhos. não mais estariam cumprindo a função de mulher ou. Mas eu não gosto muito da idéia de ir e deixar a família para traz (S. a père-version (LIMA. da versão do pai.Tive vontade de ir várias vezes. Meu marido apoiava. pelo menos. para a maioria das entrevistadas. ao se oferecer como causa do desejo para um homem. Garantir o cumprimento dessa opção implica não mais pensar na possibilidade de unir-se ao parceiro no exterior deixando seus filhos para trás. de amante do parceiro. A não presença tanto física quanto simbólica do parceiro deixa uma TERRITÓRIO. Para elas.

em outras palavras. É justamente em função dessa nova dinâmica conjugal introduzida pelo nascimento dos filhos que Freud vai refletir sobre uma saída possível para a manutenção do equilíbrio entre o casal. A partir da experiência.lacuna na vida da mulher. ao lado de meus filhos/pênis do que ir contigo”. p. o nascimento de um filho significa. e dele esperar a satisfação de tudo aquilo que nela restou do seu complexo de masculinidade. Para o autor. para Freud. 288 . uma compensação por sua falta de pênis. assim. entregando-se por completo a essa dedicação. a maioria (79. na realidade psíquica da mulher.TERRITÓRIO. o filho equivale ao pênis. permitindo. e agir com relação a ele como mãe (FREUD. Pode-se enxergar a situação sob outra ótica. Ainda na conferência sobre “Feminilidade” Freud faz uma reflexão sobre as relações da mulher com a maternidade. 133).0%) passou a considerar que o melhor é que o parceiro permaneça no País. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . já não preciso tanto de ti. é que o próprio marido se converta também em filho! Nas palavras do psicanalista: Uma mãe pode transferir para seu filho aquela ambição que teve de suprimir em si mesma. implica na superação da inveja do marido pela atenção maior dispensada pela mulher aos filhos. o que. que preencha esse vazio exercendo a função de mãe. pode-se entender a preferência das entrevistadas por permanecer no Brasil em função dos filhos não apenas do ponto de vista ingênuo que alegaria uma colocação em ato de um suposto “instinto materno”. A não presença do pai permite ainda que a criança e mãe regridam para a primeira condição de relação mãe e filho. como se a mulher dissesse: “Agora que já me deste o que eu tanto desejava. entendendo que o mais importante é que o casal esteja junto nos bons e maus momentos. Na medida em que. deixando apagadas suas experiências de mulher. como vimos anteriormente. Um casamento não se torna seguro enquanto a esposa não conseguir tornar seu marido também seu filho. onde não existe uma terceira pessoa. na realidade psíquica da mulher. logo preferir a distância do marido à distância dos filhos significa também um exercício de narcisismo. Por conta disso. 1933/1996. A vivência em torno do processo emigratório gerou significativas mudanças no modo como tais mulheres passaram a perceber a participação nesse empreendimento. A solução. Prefiro permanecer completa. a compensação por minha inferioridade sexual.

valores prioritários a serem resguardados pela família. atualmente o processo é percebido como vilão. é a área mais atingida e prejudicada pelo processo emigratório. Percebe-se uma mudança de axioma: se antes se pensava positivamente na emigração como uma forma de obtenção de bens materiais e melhoria da qualidade de vida familiar. Se a pessoa não tiver assim cabeça e não pensar bem no que é que TERRITÓRIO. Ah tem que ser muito forte pra resistir. Isto pode ser constatado através de fragmentos do discurso das entrevistadas. segundo elas.0%). prioridade conjugal e sentimentos gerados pelo distanciamento . SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .Por ocasião das entrevistas. Tabela 5 Desejo de emigrar.289 .3%). somadas àquelas que gostariam que eles as ouvissem e voltassem para casa (7. mesmo aceitando que ele ainda demore algum tempo para retornar (49. tornando-se a presença e a co-habitação contínua dos parceiros. O percentual daquelas que confiam no sucesso financeiro. não é muito distante daquelas que preferem tê-lo perto do que se preocupar em ganhar dinheiro trabalhando no exterior (39. A idéia sobre emigração traz para essas mulheres sentimentos e pensamentos que as remetem a lembranças tristes e aspectos ligados principalmente ao enfraquecimento das relações familiares. que. se não for não consegue manter a estrutura de constituir uma família sozinha não. a maioria das mulheres aguardava o retorno do parceiro.2007 O grande tempo de distanciamento demonstra que a percepção dessas mulheres mudou de acordo com fatos e acontecimentos singulares e particulares do relacionamento e da vida de cada uma delas.7%).

nem tanto a vida que ele deixou aqui.TERRITÓRIO. cria-se para a mulher do emigrado uma sensação constante de estar sendo fiscalizada e inspecionada. torna-a cada vez mais refém de sua própria solidão. aquela coisa ruim dentro de mim (E. e chega lá você não sabe se vai dar certo. agente gostar e saber que um tá tão longe do outro é complicado (D. Eu tenho pena. casal novinho é pior quando a pessoa já ta mais velha ainda pensa melhor. vou te falar a verdade. mas que é muito triste é. Não é fácil você largar tudo pra trás e ir pra um país estranho. tanto as que aguardam o retorno do parceiro. porque você separar um casal. Há um elemento muito próprio da 290 . 36 anos). não me passa nada bom.. não vivem mais tal expectativa. tudo bem que é pra melhoria de vida. 30 anos). Conclusão Tomando como referência o relato das entrevistadas. pra tentar outra vida. em função de novos acontecimentos. A decisão de emigrar em busca de oportunidades que favorecessem a melhoria financeira da família acarreta mudanças significativas na vida da mulher. no entanto. quanto as que. a participação do parceiro no processo emigratório gera prejuízos emocionais e familiares. mesmo apoiada pelas famílias. 24 anos). Sensação esta que. Eu acho que sinceramente todo mundo sente né. eu fico com aquele sentimento de um vazio. tenho agonia.. e nem a vida que ele deixou lá. Tenho muita tristeza. então é muito complicado (A. um pai da família é muito triste né. O isolamento social e sexual se torna parte do cotidiano de mulheres de emigrados. sobretudo no intuito de se evitar uma série de fatores. Estas se tornam diferentes em relação ao que eram antes de participarem do processo. muito difícil. À luz da teoria freudiana. mas novinho não deve resistir não (S. vigilância familiar e social e o controle da moral da mulher por parte das famílias. 51 anos). SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . que a pessoa ta deixado tudo pra trás. tais como ciúmes do parceiro. não se pode atribuir apenas à vigilância familiar e social as limitações sofridas por tais mulheres no tocante às suas atividades sociais.. só de pensar que a pessoa vai. Eu fico mal. impactando negativamente sobre as possibilidades de continuidade do relacionamento conjugal. A pessoa que é amorosa sente demais da conta. No processo de preservação do casal..faz então é melhor não ir não.

a princípio. “acostumada” a fazer concessões em sua vida sexual e a substituir suas expectativas originais. Com efeito.291 . o relacionamento persiste graças ao que Orwell (1984:36) chamou de “duplipensar”. por serem consequências negativas resultantes de uma opção de distanciamento que. evidentemente. isto é. De fato. da sexualidade não vivenciada. mesmo sem pôr o pé na rua. será possível a formulação de estratégias específicas de atenção a esse grupo de pessoas. O isolamento social vivenciado pela mulher do emigrado e os impactos dele decorrentes não são opções. muitas mulheres podem não deter os recursos necessários para vivenciar de forma saudável o distanciamento do marido.condição feminina que é. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . e depois tornar a esquecê-lo”. O desenvolvimento psicossexual feminino evidencia que a mulher já está. poderiam investigar como se dá a experiência de distanciamento conjugal entre os homens que emigraram. os resultados e conclusões do presente estudo estimulam a elaboração de outras pesquisas que. uma maior resiliência para a adaptação a situações em que o parceiro está ausente. das saudades que ora se tornam mais presentes. essas mulheres são capazes de “esquecer tudo quanto fosse necessário esquecer. No entanto. Casamento é casal junto”. o que pensam sobre a experiência de emigrar. “quando ele viaja não sinto que tô casada. Isso. é preciso assinalar a ressalva de que é muito mais fácil para uma mulher viver sob tais condições do que um homem. trazê-lo à memória prontamente no momento preciso. podendo apresentar quadros mais graves de transtorno psicológico. como vimos. São efeitos colaterais. A importância de se investigar tais efeitos deletérios da emigração na vida das parceiras de emigrantes reside. Apesar da sobrecarga de responsabilidades. para-além da ciência. da angústia da distância. Do ponto de vista da continuidade da pesquisa científica. mas efeitos colaterais da escolha por uma solução para dificuldades financeiras enfrentadas pela família. No próprio dizer das entrevistadas. não justifica e torna aceitável o olhar perscrutador dos familiares e vizinhos. seria a solução para os problemas da família. quais TERRITÓRIO. cuja sexualidade não se presta à mesma capacidade metamorfótica que a da mulher. para fins comparativos. Como os resultados mostraram. só conhecendo tal realidade. por assim dizer. no fornecimento de dados para que possa ser possível a criação de redes de apoio social e psicológico não só para as mulheres como também para seus filhos.

v. 01-10. 1999. DIAS. FREUD. v.. S. ano XV. S. Terezinha. BOECHAT. 347-357. Agnes Rocha de. o mundo.TERRITÓRIO. 292 . a Europa. 1996. Ana Paula de Freitas Mendonça. FERES-CARNEIRO. Cadernos de Psicologia e Educação Paidéia. mas também os que aderiram à aventura de fazer a América.. set. Rupturas e Permanências: os novos fluxos da população brasileira e as transformações nas relações de gênero. 2008. BARDIN. Carlos Alberto. 115-144. n 161. XIV. Paulo Roberto. Rio de Janeiro: Imago. Os instintos e suas vicissitudes. (1933). Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. São Paulo: ANPOCS. S. In: Anais da XXIII Associação Nacional de Pesquisadores em Ciências sociais. 1996. p. Clarisse Souza. 88-98. MACHADO. JABLONSKI. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise (Conferência XXXIII – Feminilidade). Lisboa: Edições 70. DANTAS. 2002. Cristina. Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. p. ASSIS. Bernardo. FREUD. S. In: Anais do XII Encontro Nacional de Estudos Populacionais. Tais estudos se fazem necessários com vistas a demonstrar que o processo emigratório afeta emocionalmente não apenas aqueles que permanecem no país.estratégias adotam para lidar com a solidão e a saudade da parceira e dos filhos etc. Belo Horizonte: UFMG/ Cedeplar. CECCARELLI. Paternidade: Considerações sobre a relação pais-filhos após a separação conjugal. Caxambu. p. “Configurações Edípicas da Contemporaneidade: Reflexões sobre as Novas Formas de Filiação”. . (1915). ABEP 2000. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . 14(29). Wilson. p. In: FREUD. (2004). Gláucia de Oliveira. In: Anais do XIII Seminário Sobre a Economia Mineira. Laurense. FUSCO. XXII. v. Bibliografia ALMEIDA. In: FREUD. 113-134. Revista de Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago. Impactos do isolamento conjugal sobre a sexualidade da mulher do emigrado. 2009. 1. Análise de conteúdo. Diferenciais por Sexo nas Migrações Internacionais.

2006. George. 1984.293 . Tese de doutorado. Laços de sangue e fluxo de dinheiro: notas sobre o parente ausente no contexto migratório transnacional Portugal/Governador Valadares. 2006. Belo Horizonte. Retorno e Agências Intermediadoras: estabilidade e expansão da rede migratória internacional valadarense. SANTOS. 215-220. A relação mãe-criança e a feminilidade: questões para a clínica psicanalítica. 01-21. .. Nuevo Mundo-Mundos Nuevos.. pp. Igor José. MG. v. 1-35. Migrantes e empreendedorismo na microrregião Governador Valadares – Sonhos e frustrações no retorno. v. Dimitri. p. WALL. FAZITO. Anais do IV Colóquio do LEPSI/Lugar de Vida. 2008. Sueli. TERRITÓRIO. SIQUEIRA. Cristina. ORWELL. v. Caxambú. 75 (6):401-406. LOBO. 3. 1999. 1999. 291-305. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Nacional. SIQUEIRA. 4. Sueli. In: IV Colóquio do LEPSI/Lugar de Vida.LIMA. SIQUEIRA. 7. Glaucineia Gomes. 123-145. Karin. Weber. Jornal de Pediatria. Análise Social. 2007. 1. Emigrantes da microrregião de Governador Valadares nos EUA: projeto de retorno e investimento. Sílvia R. In: Anais da 25ª Reunião Brasileira de Antropologia. 150. p. MACHADO. In: Anais do Encontro Nacional de Estudos Populacionais. Goiânia. 1984. Sueli. 21. São Paulo. O sonho frustrado e o sonho realizado: as duas faces da migração para os EUA. p. CDROM. p. Ufmg. v. 2004. SOARES. São Paulo. São Paulo: Ed. ABEP 2006. “Famílias monoparentais em Portugal”. Métodos qualitativos e quantitativos na pesquisa biomédica. Area Domeniu. p.

294 .TERRITÓRIO. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .

Em um estudo teórico-discursivo sobre o idioma brasileiro. Dessa forma. O Entendo Política Linguística como um conjunto de acontecimentos. Um dos aspectos significativos dessa reinvenção se relaciona à política linguística do país em seu aporte histórico. a regra e o fato (uso). o Português do Brasil. e outros elementos de gramatização. refletindo na consolidação do idioma ressignificado no Brasil. no território brasileiro. dos valores e das práticas do colonizador. orienta-se a partir de uma memória que se reinventa. constitui e interpela o povo e os governantes sobre a língua. seriam incompatíveis entre si. Professora do Programa de Mestrado em Gestão Integrada do Território da Universidade Vale do Rio Doce. os quais indicam caminhos para que a língua portuguesa se “redesenhe” no Brasil e constituase por um conjunto de valores que. de atitudes e de práticas oficiais e não oficiais emanadas do Estado e do povo. a seguir. destacam-se. influenciando a forma como ele se consolida ao longo do movimento sócio-histórico desse lado do Atlântico. Além disso.Política Linguística no Brasil: para ser o que é Nádia D. o que indica uma jurisprudência provocada ou não sobre o idioma. até certo ponto. seja no início da colonização. existem representações sobre o dizer. eventos que refletem a preocupação. TERRITÓRIO. Biavati1 Introdução s eventos históricos caracterizam a formação do Português Brasileiro. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . a língua. percebe-se um mosaico de valores.295 . baseado na História das Ideias Linguísticas e na Historiografia Linguística no país. no império ou na república. nesse caso. crenças e práticas o qual cerca o idioma. outras concentradas em práticas originadas do governo local ou pelo mando do colonizador no território brasileiro. Nessa perspectiva. no 1 Doutora em Linguística pela UFMG. Como parte de um conjunto de elementos na formação de uma nação. F. na interação. A ideia é que o idioma se configura a partir de definições – algumas provenientes de uma relação cotidiana entre os falantes. distinguindo-se do olhar.

Tais relações ocor2 Entendo território como conjunto de valores que.território simbólico brasileiro2. Raffestin (1993: 53) trabalha com essa acepção. alguns aspectos importantes sobre a entrada do idioma do colonizador. ainda que sob as influências dos mecanismos de colonização. da cultura. para a constituição do Português no Brasil. ao modo brasileiro. Faz-se interessante expor. ao contrário do que em muitos momentos é enunciado. sintáticos e semânticos dos portugueses e de outros povos que chegam e estão no país. Ambas explicam e ajudam a compreender algumas práticas discursivas. consideram-se importantes duas abordagens temáticas: a história das ideias linguísticas e a historiografia lingüística. nesse sentido. responsáveis por ações e por eventos que influenciaram na efetivação da língua Portuguesa no Brasil. ao se encarregar de aulas do idioma da colonização. por força de leis.consolidam a construção simbólica da nação em seu próprio aporte. que o conceito de território se postula como aquele constituído de elementos de uma exterioridade que se dá a partir de relações simbólicas. houve uma intervenção significativa do colonizador. as entradas de outros elementos lexicais. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . interferem no curso da língua e indicam reflexos de valores do colonizador para a nação brasileira. ajudando a consolidar o território simbólico da língua. 296 . Considerações teórico-metodológicas Para investigar com o olhar crítico a consolidação do Português no território brasileiro. revelando a manifestação espacial do poder fundamentada em relações sociais.TERRITÓRIO. cabe a ele difundir o idioma. de forma pacífica ou conflituosa. Ainda que o professor tolere. a partir das relações de poder. entre dois caminhos: a persistência no acompanhar as tendências de uma política linguística de Portugal e a consolidação do idioma ressignificado no território brasileiro. Ratifica-se. às vezes. sabe-se de uma implantação do português cercada de eventos que. com a entrada da língua. as quais cercam a língua. de valores e práticas de Portugal e em menor influência elementos de outros países. por vezes. Ou seja. bem como o papel do docente nas relações sociais. através de um estudo teórico sobre a gramatização no país. Embora o senso-comum retrate a consolidação de um idioma único no país. a partir de suas especificidades.

muitas das manifestações. PALMA. concentra-se o olhar sobre pontos na história que marcam. a Análise de Discurso3 é importante.297 . descontínuo e sucessivo (BASTOS. Em Minas Gerais e em Governador Valadares. ao longo do processo histórico. Assim. as línguas e o saber sobre as línguas ao longo da história brasileira (ORLANDI. a língua. entende-se que território se constitui simbolicamente por atitudes de aceitação e imposição. seguindo as características do “apropriar-se” de um modelo e de torná-lo apropriado (reinventado) – adaptando ou seguindo adaptações do idioma de acordo com as influências na construção do Português Brasileiro. Para a História das Ideias Linguísticas. considero Análise de Discurso e Análise do Discurso como sinônimas. não só fundamentadas geograficamente. existem a expressão e a normatização de uma língua sob o viés histórico. um conjunto de relações simbólicas permeado por um poder que impõe a língua do colonizador e tolera. de 3 4 Para o momento. como “cidadão global”. mas também por dualidades de apropriação e de imposição de práticas. Há. inserções linguísticas de outros modos. ainda que existam condições de migração. 2000: 21).rem a partir de uma apropriação do idioma colonizador. TERRITÓRIO. Seguindo essa dualidade. com formas que o saber linguístico tomou no Brasil. Isso significa que o Português brasileiro se fixa como fato e regra no território simbólico de uso do Português Brasileiro. 2004). A seguir. instauram ou efetivam uma memória discursiva sobre o “dar aulas de Português” no Brasil. até certo ponto. portanto. pois permite “pôr em relação diferentes ordens de discurso: a do saber ‘sobre’ a língua e a do saber ‘a’ língua” (ORLANDI. no sentido de se apoderar desse idioma e de “torná-lo apropriado” às condições socioculturais brasileiras. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . tanto o “saber” a língua quanto o saber “sobre” a língua resgatam aspectos que. na relação com o sujeito. há a presença do idioma ressignificado nas condições brasileiras. da fala de quem vai e volta do exterior. das atitudes e dos valores do chamado professor-mosaico4 se explicam por um conjunto de elementos disseminado sobre a língua e o “saber-a-língua” na história – elementos que devem ser avaliados criticamente. O conceito de professor-mosaico se desenvolve a partir da definição de que o professor se mostra uma identidade cujas práticas seriam bricolagens de valores e crenças até certo ponto incompatíveis entre si (BIAVATI. Dessa forma. 2009). Nesse viés. por exemplo. 2000: 20).

indicando que os documentos são monumentos. caracterizados como versões. “entre o Português e o Português brasileiro”. Nesse movimento. Ao se voltar à década de 1980. ela é “uma forma de proteger a soberania do sujeito”. já que. a Nova História propõe uma história-para. Há. Foucault propõe a relevância de se perceber a dispersão e a descontinuidade para problematizar os eventos da História. Entende-se por memória discursiva um conjunto de formações discursivas que se constituem pelos deslocamentos de sentidos. Desse modo. já que existe o propósito metodológico de tematizar a discursividade que cerca o fato histórico. influenciando sua prática. uma vez que existe uma memória discursiva importante. 298 . que se fazem. a diferença entre as posições mencionadas acima passa despercebida. no caso. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Memória discursiva e historicidade: saberes que atravessam o fazer do professor de Português Ainda que se considere a história da língua de forma linear. no país. trazendo implicações e efeitos. Com o olhar de analista do discurso. a compreensão dos fatos de uma forma não linear. Nesse ponto. portanto. No mesmo movimento. o que é observado pelo professor. vista sob o viés linear. na medida em que é criado um “efeito de realidade” a partir do relato histórico. entretanto. compondo os “arquivos” que regem o ser/fazer dar aulas de Português. a ideia de História Tradicional é desconstruída. as relações que configuram o caminho dos falantes. os quais alimentam a institucionalização das ideias linguísticas sobre Português brasileiro e a maneira fragmentada como essas povoam o imaginário dos professores. indica-se a importância do movimento denominado “revolução historiográfica” e do olhar de Foucault sobre “a descontinuidade”. não há como negar a importância de se tomar a história da língua e a dos sujeitos que a ensinam como discursos. a fase genealógica de Foucault é especialmente importante. influenciando seus valores e suas práticas ao ensinar “Português”.alguma forma.TERRITÓRIO. é crucial. em que há uma discursividade permeando a gramatização. uma discursividade entrelaçada nesses conceitos. Mencionar o processo de consolidação do idioma brasileiro condiz com o que se descreve sobre a seleção de elementos os quais compõem a historicidade que atravessa o ensino.

pois tanto o projeto de Pêcheux quanto o de Foucault caminham para descortinar relações existentes e não aparentes (naturalizadas) entre proposições e saberes que regem a profissão do professor-mosaico. A fim de investigar a identidade profissional do docente. em que se configuram dicionários. o que merece atenção. São eles que influenciam seu conjunto de decisões. ao defender determinadas filiações teóricas. 5 A noção de arquivo é discutida por Pêcheux e Foucault e revela os gestos de interpretação percebidos através da escuta de sentidos. há de se considerar a importância da “escuta dos saberes dominados” e “da história não linear” da discursividade.Em relação a isso. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . entende-se “arquivo” no sentido foucaultiano. a relevância dos autores. de dizer e o seu fazer na profissão. influem na maneira como o Estado vê o ensino. é interessante frisar que. no ensino. a seguir. sobre os movimentos constituintes da memória coletiva da profissão “professor de Português”. Nesse ínterim. faz-se necessário desvendar os conflitos por que passam as concepções ou os saberes norteadores da sua formação. a política linguística aparece como determinante interdiscursivo às representações que cercam o universo do professor de Português. A exterioridade na constituição do professor de Português Compreende-se exterioridade como um conjunto de fatores que orientam as práticas e os valores do professor. modos de dar aulas e valores a serem defendidos ao se ensinar o idioma. o mercado editorial e o Estado definem valores e influenciam professores. Na confluência entre os estudos foucaultianos e pecheutianos. apresentam-se. Nesse contexto. TERRITÓRIO. aspectos marcantes de “arquivos”5 que constituem a memória. cujos caminhos são percorridos através de discursos disponíveis sobre os saberes metalinguísticos que norteiam o professor-mosaico no ensino de Língua Portuguesa. como sendo gestos de interpretação que se fazem pelos sentidos-para. Os docentes. É relevante destacar que as ideologias interpelam a consolidação do idioma pelo viés histórico. Por isso. influenciando a forma de compreensão dos valores defendidos em sua prática. por sua vez. Na verdade.299 . nas obras publicadas e nos valores a serem defendidos na formação do aluno em língua materna.

Entre os aspectos significativos que afetam a formação e a prática do professor de Português. embora as variações já existissem e fossem consideradas invisíveis para o domínio político. com suas características. atualmente. Entendo política linguística como um conjunto de ações e decisões linguísticas formais ou informais sobre o tratamento (estatal ou não estatal. mostra-se peculiar. a interação lingüística acontecerá em Português Brasileiro. 2002) chama de política linguística no país. porque houve o que a autora descreve como formação da língua nacional antes da efetivação do Estado brasileiro independente de Portugal. Desde o fim do século XVI. trata-se de uma escolha explícita entre as alternativas dos níveis de utilização para caracterizar os usos oficiais ou públicos da língua. por décadas. com o Estado. Orlandi e Guimarães (2001). que historicamente traz as marcas históricas de séculos da colonização e carrega as fortes marcas da colonização na língua. levando-se em conta a historicidade dessa língua no espaço brasileiro. resultado de estudos desenvolvidos no Grupo de Estudos sobre a 300 . A respeito do caso brasileiro. apresentou-se a questão da língua nacional. a autora (2002: 76) observa que a língua é um lugar “politicamente significado da articulação da ciência com a religião e o poder”. destaca-se o que Orlandi (1990. conforme Orlandi (2001:13). no livro História das Ideias Linguísticas. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Segundo Fiorin (2002: 108). oficial ou não oficial) da língua e dos objetos linguísticos. essa situação não é diferente. Nesse sentido. Ainda que. A política linguística constitui e é constituída por ideias e por valores que traçam a relação do ensino com norma e gramática e com o processo de letramento. já consolidado por gerações. a língua falada no Brasil já não era mais a mesma que se falava no território português e. acredito que o professor de língua materna é o maior veículo institucional da política linguística em um país. com a independência. com a sociedade e com as escolas.TERRITÓRIO. as influências das condições de migração de chegada e saída de brasileiros para o espaço estrangeiro.2 A formação do Estado brasileiro e a língua nacional: “nós e eles” Assume-se que o modelo brasileiro de língua nacional se reinventa e. regiões como o Vale do Rio Doce/MG detenham. 2. estabelecendo rumos para a convergência disso na prática social. No caso do Brasil.

em relação ao dizer. no fato de que há condições determinadas em que se inscreve a constituição da língua nacional. com o Português ressignificado. Para Orlandi (2001). Ideologicamente. observam que as ideias linguísticas no país se constroem em dois eixos: • De um lado. os valores da gramática portuguesa ou gramática brasileira se fazem por deslocamentos: • Deslocamentos do constituir-se como prolongamento das regras de uma gramática lusitana.História das Ideias Linguísticas no Brasil. fazem-se também como eventos discursivos. os eventos históricos marcam a relação entre portugueses e brasileiros na constituição do idioma. 2. que é o da percepção de que existe a reinvenção e a ressignificação de práticas na chamada política de sentidos organizada a partir da língua de metrópole. acontece a partir de aspectos históricos que marcam a política linguística brasileira. entre brasileiros e brasileiros. no fato de que o saber metalinguístico se inscreve em um jogo complexo entre o papel legislador do Estado e o papel regulador da instrução gramatical.3 Os eventos históricos constituindo eventos discursivos A efetivação do idioma. Os aspectos históricos. uma vez que as relações linguísticas constituem as relações sociais. Já a relação dos portugueses com TERRITÓRIO. Nesse viés. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . no Brasil. esses deslocamentos representam dois caminhos que se fazem paralelamente ou se chocam em uma formação do mosaico: pensar e pesar a regulação (a regra) e a regularidade (o fato linguístico) no uso. Essa política de sentidos envolve dois momentos significativos: em um deles. Chama atenção o fato de que. as gramáticas são elementos de relação entre portugueses e brasileiros. no outro. no Brasil. articula-se ao projeto de organização da nação brasileira. o projeto de gramática. mas com um ponto comum. • Deslocamentos do idioma constituindo-se um conjunto de elementos como recorrência do fazer linguístico por uma gramática brasileira. que reivindica a “lei”.301 . O processo de colonização pode ser compreendido tanto a partir do olhar do colonizado quanto do colonizador. • De outro. em uma encruzilhada.

na época da colonização. A política linguística. pois é a língua dos mais fortes e ousados. e no modelo latinista. com a descoberta de novas terras para a exploração. marca reflexos dos “preceitos de dominação por meio da imposição da língua do dominador” (CASAGRANDE. com formação baseada na tradição da época. 2004: 43). segundo Mariani (2004: 26). inclusive com negociação para baixar o pagamento desses professores laicos. Já o sucesso nas navegações. Casagrande (2004) destaca que ainda há uma mentalidade medieval na produção lusitana do século XII ao século XV. com a tendência teocêntrica no tratamento das questões relativas à cultura. na época da colonização. 2004: 32-33).a sua língua. coletados por essa autora. vem de uma tradição baseada no modelo eclesiástico. portanto. de professores avulsos (profissionais não ligados ao sacerdócio). na condição de dominadores. ao lado dos valores de “apego ao espírito. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . em vez de uma língua ressignificada. o caráter normativo se constitui uma forma de ideologia que interpela os colonizadores no tratamento da língua como objeto de ensino: é a “língua boa”. um papel semelhante ao que foi reservado aos romanos. como demonstração de forças no domínio. no século XVI. vale lembrar que o ensino de língua portuguesa. “perto dos valores de Deus”. como usufrutuária da condição de “conquistadora” de novos domínios. Vale lembrar que.TERRITÓRIO. No que diz respeito aos instrumentos que potencializam essa política. de observância aos preceitos da fé. ao disseminar o uso da língua latina. Também existem relatos da não valorização do profissional. nessa época. no início da colonização. garante forças ao império português em uma ação que atinge a todos os povos os quais “conquistam” territórios: o direito de sustentar. consolidam-se documentos normativos escritos organiza302 . Casagrande (2004: 39) enxerga a coroa portuguesa. papel que equivale à condição de tratamento do latim até então. é marcada por uma política guardiã da identidade portuguesa. com as chamadas grandes navegações. que ministravam as primeiras letras em Évora. a valorização da língua dominadora — a lusitana. uma língua já consolidada. Na verdade. o modelo latinista se faz a partir de deslizamentos de sentidos: valores de uma língua “melhor” em detrimento de uma “pior”. como um conjunto de eventos discursivos pautados na tradição. no caso — em seu caráter social. Há. Assim. acima dos desejos mundanos” (CASAGRANDE. no ano de 1439. Existem registros. cultural e político.

Casagrande (2004: 38) afirma que esse compêndio sistematiza as regras da língua portuguesa. indica categorias para efetivação de um saber linguístico a ser ensinado e apreendido. Segue-se a separação cronológica sugerida pelos autores.expulsão dos holandeses): A língua portuguesa é falada pelos senhores de engenho. o Português é tratado por Fernão como uma língua que não se deve curvar às outras. Assim. símbolo de afirmação de identidade. de alguma forma. e salienta e sustenta a argumentação de que “aos conquistados” cabe aprender e “aprimorar” o idioma. Entre a população. a língua é o tupi jesuítico.303 . funcionários da coroa. a língua geral é um tupi simplificado. Portanto. mesmo que nele seja perceptível uma volta constante aos clássicos do latim. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . ao assumir empréstimos. Na essência dessa gramática. refletindo sobre momentos nos quais essa história pode ser problematizada. nem sempre as mudanças são bem-vistas. resultado da transformação do tupinambá falado na costa brasileira para fins catequéTERRITÓRIO. constituindo eventos da política lingüística brasileira e trazendo reflexos ao ensino no país. A esse respeito. As gramáticas de Fernão de Oliveira e de João de Barros se tornam fontes importantes no tratamento da língua. segundo Teyssier (2001: 94). os colonos fazem uso do Português com traços específicos que vão se acentuando com o tempo.dos em Portugal. há um contexto em que. descreve o interesse pela imposição do Português como forma de proporcionar a língua “aos gentios”. É o nheengatu. Em estudo sobre a gramática de Fernão de Oliveira. Já na visão de Mariani (2004: 22). nas palavras de Dias (1996). a consolidação da língua no espaço nacional. gramaticalizado pelos jesuítas. Remetendo-se aos aspectos históricos que marcam a formação da língua e do Estado brasileiro pós-chegada dos portugueses. A forma de política linguística defendida por Fernão se torna inviável no que diz respeito ao tratamento de uma língua que chega a um espaço em que já existem centenas de outras em plena atividade. fala-se a língua geral (franca). Orlandi e Guimarães (2001: 22-30) relatam as condições do funcionamento dessa língua. pois. Além disso. destituindo-se “de sua identidade primeira”. Primeiro momento (início da colonização até 1654 . Aos cinco momentos são acrescentados fatos importantes que influenciaram. devido o tratamento reivindicado ao colonizador. a língua poderia se corromper.

304 . percebe-se a prevalência do Português. fingem que aprendem a língua ou aprendem para discutir com comerciantes ou para refutar a legislação que se estabelece a seu respeito. no sentido de torná-lo forma de comunicação sistematizada. Nos documentos oficiais. determina-se que os jesuítas ensinem a 6 Grifos da autora. uma política linguística (não oficial) de silenciamento das línguas do colonizado se faz presente. o não controle da língua tornou-se inibidor da colonização nos moldes como queria Portugal. proporcionou o ensino e a escrita e. que se concretizou com a carta régia de 12 de setembro de 1727. em última instância.. seguir o modelo educacional da época indicava a aprendizagem do6 latim e através do latim. aprendem a língua portuguesa e mentem valendo-se dessa mesma língua”. nas relações entre colonizador e colonizado. pois o Português e o Tupi conviveram lado a lado como língua de comunicação. que é ensinado aos brancos nas escolas católicas. passa-se a ter um interesse pela situação linguística. o avanço da evangelização. dessa forma. relata episódios em que o índio simula um aprendizado: “[os índios]. segundo relata Soares (2002:158-159). o que faz com que as variedades de uso do Português se efetivem também no espaço brasileiro. Entretanto e. nesse momento. Entretanto. a gramatização do tupi. Nesse contexto. Por outro. os quais revelam uma prática discursiva de resistência dos índios à chamada “conquista” ou “dominação” linguística.ticos. O espaço de comunicação entre colonizado e colonizador se faz por uma oralidade em que as duas memórias discursivas se modificam em função da condição dos povos e das línguas nesse espaço – o brasileiro. Nela. em um processo que Mariani (2004: 31) qualifica como uma “pressuposta hierarquização linguística” em curso..TERRITÓRIO. ainda no século XVI. novamente. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Segundo momento (1654-1808): Aumenta o número de negros no Brasil e chegam mais portugueses de diferentes regiões de Portugal. apesar das gramáticas lusitanas que começam a surgir. Dias (1996: 11) relata que João de Barros. movimentos de significação da língua para o colonizado. Cunha (1985: 75) relata que “não havia espaço para o ensino do vernáculo”. pregava junto à corte portuguesa a necessidade de uma política da língua nas colônias. em sua obra Diálogo em louvor da nossa linguagem. só a partir do século XVIII. A visibilidade então recai sobre a língua do colonizador. Por um lado. Mariani (2004: 32). Ressaltam-se.

enquanto o Português é a língua dos espaços públicos. de modo impositivo. que apenas a língua portuguesa deveria ser falada (MARIANI. após. por D. implanta-se a legislação sobre a língua. o que significou uma reestruturação do sistema escolar. então capital da coroa. propunha-se instrução primária gratuita a todos. é oficialmente implantado e imposto o ensino de Português nas escolas do Brasil.305 . em 1757. Conforme Teyssier (2001: 95). a língua geral seria eliminada como língua comum. Terceiro momento (1808-1826): A vinda da família real provoca o fortalecimento do Português como língua nacional e o projeto de língua portuguesa como língua oficial. 2004: 33). a partir da caracterização da mesma como “invenção diabólica”. Nesse momento. em 1759. Nos 50 anos seguintes. o país vive a condição de colônia administrada por D. então. o que reforça o ensino de Português (esse fato marca o processo de regulação linguística no país). João VI. houve poucos estudos gramaticais formalizados. Passa-se. com o decreto do Marquês de Pombal. a exemplo do Breve Compendio da Grammatica Portugueza. tratado gramatical escrito por Frei Caneca entre 1817 e 1819. a institucionalização do ato político-jurídico denominado Diretório dos Índios oficializa. Por fim. ao silenciamento da língua geral e de seus falantes. nessa época. Pedro I. Põe-se em curso uma nova organização escolar. Franco (2004: 95) relata que. que só viria a ser publicado no quartel final do século XIX. 179). No período compreendido entre 1808 e 1821. Outro fato interessante marca a questão do ensino nessa época: a expulsão dos jesuítas em 1759. Teyssier (2001) relata que a língua dos índios prevalece nos espaços privados. Com a descoberta de ouro. no nível do léxico. e. É a época da criação da imprensa no Brasil e da fundação da Biblioteca Nacional. Tanto um quanto outro possuía interesse nas realizações culturais no país. Pelo decreto ocorre também proibição do ensino de línguas indígenas nas escolas dos jesuítas. Assim. Com a família real na colônia. vocábulos integrados ao Português. em 1759. consolidando o processo de gramatização no país. Já na Constituição de 1824 (art. aquela que os meninos vão aprender na escola.língua portuguesa aos índios. afastava da colônia os principais protetores da língua geral”. “a expulsão dos jesuítas. o sistema TERRITÓRIO. No entanto. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . aumenta o interesse pela colônia brasileira. restando preferencialmente. ocorre o que Teyssier (2001: 96) chamou de relusitanização do Rio de Janeiro. seguindo o modelo europeu. baseada no esforço do uso incondicional da língua portuguesa.

ocorre a migração europeia para cá. Usa-se a terminologia “língua nacional” e determina-se em lei que professores devem ensinar a ler e a escrever utilizando a dita língua. Da mesma forma. Nesse entremeio. tornar-se-ia. Para esse autor. Teyssier (2001: 97) relata que. mais tarde. Quarto momento (1826): Consoante Dias (1996). relata eventos de interdição da prática da língua de imigrantes na década de 1930. ainda no século XIX. com uma legislação que implantou oficialmente o Português como língua nacional nas áreas de colonização estrangeira.não se organizava para dar conta dessa realidade. principalmente a partir do último quartel do século XIX. mais uma vez. contribuindo para “branquear” o Brasil contemporâneo e trazendo valores europeizantes ao Estado brasileiro. em uma unidade prevalecendo na diversidade. partindo de uma iniciativa do aparelho estatal. Payer (2001: 235). sobretudo durante o período de 1870-1950. instituição que. nas palavras de Orlandi (2001) e de Franco (2004). sobretudo. existe preocupação com a unidade nacional. mostrando-se também poderoso auxiliar no processo de gramatização no país. início do século XX): Há nova onda de migração para o Brasil. modelo para o ensino de Língua Portuguesa. Há relatos de política de nacionalização das comunidades migrantes. com professores para ensinar Português. negavam a língua falada no país e privilegiavam. ora resistem aos preceitos e iniciativas das lideranças político-educacionais (FRANCO. Quinto momento (final do século XIX. registra-se que profissionais do ensino ora confirmam. 2004). Também não havia pessoal preparado para o magistério: as aulas de Português. traz à tona a relação língua(s) interna(s) e língua externa. a língua nacional ganha sentidos que se constituem em dois eixos enunciativos: o da língua “brasileira” com identidade a ser valorizada e o da língua “brasileira” como “idioma corrompido”.TERRITÓRIO. Em 1837. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . nesse momento. por meio de uma “política de integração”: a “nação” se efetivaria com a língua como “instrumento de soberania nacional”. o que. propõe-se uma discussão linguística com a sugestão de que os diplomas fossem redigidos em “linguagem brasileira”. funda-se o Colégio Pedro II. garantindo movimento de hibridização no contato entre os falares. o padrão de Portugal como base para o ensino. na mesma perspectiva. segundo Franco (2004: 98). Uma política para o ensino se delineia a partir da Nomenclatura Gramatical Brasileira na segunda metade do século XX: os preceitos da classificação 306 .

com a elaboração de “uma koiné por eliminação de todos os modos marcados dos falares portugueses do Norte e por generalização das maneiras não marcadas7 do Centro-Sul” de Portugal. Para os autores. fica clara a existência de um trabalho de reinvenção da língua no espaço brasileiro. tais processos de significação se inscrevem na história e negam a simples cristalização de situações discursivas e de sentidos. pelo breve recorte das informações acima. conforme afirmam Orlandi e Guimarães (2001: 33). mostra-se um esforço para que a língua se consolide como reflexo de um deslocamento da língua do colonizador para o espaço colonizado. Portanto. que produz efeitos de sentido de unidade ora próxima. Acentuase uma preocupação a partir daí. com a ordem do classificar. elementos diferentes do uso lusitano – com a entrada de vários elemen7 Grifos do autor. ainda hoje. não existe simplesmente o transporte de processos.307 . Percebe-se. Reforça-se essa afirmativa com o fato de. no Brasil. pois existe a historicização da língua. que se consolida de diferentes formas no espaço colonizado. diz respeito ao povoamento inicial no Brasil. ora afastada do colonizador. refletindo. Esse é o primeiro reflexo das situações discursivas em que há o apagamento relativo das línguas do espaço dominado. Em um país de modelo colonizado. A desterritorialização do Português se faz por diferentes situações enunciativas. no Brasil. há a inserção de elementos linguísticos ou mesmo discursivos de outros povos que vieram para cá. ter havido o processo de transferência de língua. o processo de efetivação do Português brasileiro é circunscrito na diferença observada entre transporte e transferência da língua. TERRITÓRIO. A questão da língua como espaço de comunicação. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . que.são seguidos nos instrumentos de gramatização desde então. Ao mesmo tempo em que o processo de gramatização se fundamenta nos valores do colonizador. estruturar “a língua” no ensino de Língua Materna. marcado por um trabalho de consolidação de memória local e do saber discursivo que produz sentidos. Isso significa que a construção simbólica do território linguístico brasileiro se faz pelo idioma reinventado. Além disso. que Teyssier (2001: 99) relata. evidenciam-se eventos discursivos que salientam a consolidação do idioma nas condições brasileiras. seguindo a política linguística do país.

observando o “casticismo” arcaizante (CUNHA. filólogo francês. de variedades.TERRITÓRIO. Para Auroux (1992: 65). 1964: 22).tos léxicos de origem diferente. um processo de ambivalência de unificação no Português brasileiro. Em conformidade com Guimarães e Orlandi (2001). o processo de gramatização consiste no estabelecimento de uma gramática própria da língua. portanto. reduzir o colonizado ao colonizador era tirar-lhe condições para crescer. admite a consolidação de uma norma brasileira elaborada “nas camadas socioculturais superiores”. da língua colonizada. iniciado na segunda metade do século XIX. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . diz respeito a deslocamentos. obra traduzida por Celso Cunha. em plena ditadura. vários manuais de ensino de língua. Por isso. como o uso da dupla negação. os recursos intocados do idioma e a gramática como “código de impedimentos ao uso dos meios expressivos de que nos servimos na fala e na escrita”. 308 . 163). Celso Cunha produziu. Para Orlandi (2002). Para o autor. gramatização é “o processo que conduz a descrever uma língua na base de duas tecnologias ainda consideradas os pilares do nosso saber metalinguístico: a gramática e o dicionário”. instrumentalizada a partir da cultura ocidental. Há. também Celso Cunha (1964). publicou A nova gramática do português contemporâneo. a consolidação de elementos sintáticos típicos. observa que a norma não se reduz ao espaço do colonizador. nessa década. época também da independência do estado brasileiro. em co-autoria com o lusitano Lindley Cintra. Teyssier (2001). o funcionamento discursivo se sobrepõe às regras formais de regulação da língua desde quando havia simplesmente um espaço colonizado. a gramatização apresenta duas facetas: uma é a de universalização. outra. que consiste na ideia de unidade imaginária. Como professor de Português do tradicional Colégio Pedro II do Rio de Janeiro. Para a autora (2002. tais como gramáticas normativas e dicionários. p. em 1980. a gramatização resulta na construção de instrumentos linguísticos. a expressão “língua nacional” é posta em questão. No caso brasileiro. e um sistema pronominal que se solidifica à moda brasileira. esse processo só se inicia no século XIX. Na defesa e no esforço da unidade da língua portuguesa. a partir do processo de gramatização brasileiro. Citando Ortega y Gasset. Na percepção de que há uma realidade própria da língua no espaço brasileiro. na História da língua portuguesa. que pressupõem a influência de outras línguas.

desmistificando a ideia de que a Língua Portuguesa teria sido simplesmente transportada pacificamente para essa nação. Saber sobre os processos da colonização linguística no Brasil e o modo como se deu a política linguística é crucial para compreender a dualidade língua e gramática que o docente enfrenta na profissão. são recebidos nas escolas os filhos de brasileiros que foram alfabetizados em Língua Inglesa norte-americana. Os professores. em suas práticas. o fenômeno migratório de ida e vinda do exterior para países como os EUA é praticado por brasileiros e filhos de brasileiros (migrantes de 2ª. a necessidade de trilhar novos caminhos. Esse fenômeno marca apenas uma das facetas dessa atividade que se tem com o exercício de ensino de línguas no mundo nas condições globais. os processos de significação do idioma e do ensino. e ainda que a língua não tenha sido afetada. o sistema de ensino dessa região foi em alguma medida por essa realidade específica de ensino do Português Brasileiro no Vale do Rio Doce. porque moraram nos Estados Unidos até a adolescência. eventos discursivos. É necessário.Foram escolhidos. devem considerar o fazer histórico sobre a língua. Ambas são poTERRITÓRIO. ou seja. bem como as regras do uso padrão. eventos históricos em seu viés linguístico. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . em Governador Valadares. Considerações Finais O processo sócio-histórico do ensino marca referências discursivas para formular e indicar posições sobre como ensinar Língua Portuguesa. portanto. bem como o território e o processo de gramatização no país. Não raro. acima.309 . portanto. que seja mais bem divulgada a implantação do idioma no Brasil. apenas alguns aspectos que marcam a gramatização do país e a construção histórica do idioma pelo cunho discursivo. uma vez que as duas posições são válidas: considerar as regularidades da língua no território brasileiro. Vale ressaltar. em Minas Gerais. Sente-se. o contato escolarizado com a Língua Inglesa. geração). o próprio curso de Letras da Universidade Vale do Rio Doce criou a disciplina intitulada “Português para estrangeiros”. Minas Gerais. por fim. refletindo possibilidades diferentes de trabalho para os professores da região. por exemplo. que não se esgotam com os citados nesse texto. dadas as diferenças que se notam no letramento do aprendiz que só teve até um dado momento da vida. portanto. Para lidar com essa realidade. sempre. Atualmente.

ALMEIDA. portanto. o professor. 2003. 1992. (Org). ed. A. tanto para a construção discursiva do idioma. São Paulo: Loyola. 145-174. A revolução tecnológica da gramatização. É necessário. pois as influências sociais e políticas são decisivas. normas sociais: uma perspectiva antropológica. M. (Org). 2001. Ainda que se considere o mosaico do fato e da regra na formação do idioma e nas práticas institucionais de ensinar. constrói e reproduz o papel de disseminar e efetivar tais saberes. LANCELOT. 2. enquanto identidade investida socialmente e como autoridade investida pelo saber das instituições de ensino. com a condição de mobilidade dos brasileiros. 2. São Paulo: Saraiva. AUROUX. C. Tradução e prefácio de Bruno Fregne Bassetto e Henrique Graciano Murachco. São Paulo: Martins Fontes. M. São Paulo: Parábola. quanto para a política do ensino de línguas. Linguística da norma. Gramática de Port-Royal. 29. ed. 1980. 310 . em seus processos individuais. Original Francês. BAGNO. S. mas se fez também sob as várias influências aqui presentes. mídia e exclusão social. representa a educação. M. Campinas: Editora Unicamp..sições decisivas para que se possa desvelar a forma institucional através da qual se orientam a nossa política linguística e a nossa sociedade. Normas linguísticas. há gerações atrás. 2001. p. BAGNO. quanto ainda hoje. Gramática metódica da língua portuguesa. 2002a. 2001a. M. tanto no passado. BAGNO. No caso do Brasil. Dramática da língua portuguesa: tradição gramatical. São Paulo: Loyola. ed. 3. então. N.TERRITÓRIO. M. refaz. In: BAGNO. mesmo que os resultados sejam visíveis após tempos. ARNAULD. a consolidação da política lingüística se fez sob o jugo do colonizador. Norma linguística. São várias as intervenções que podem sofrer o idioma e as formas de ensino. que se observe a realidade que atravessa o território. se ressignifica sempre. que a língua se faz. S. ed. Cabe dizer. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Referências ALÉONG. A norma oculta: língua e poder na sociedade brasileira. São Paulo: Loyola.

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316 .TERRITÓRIO. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .

Divino das Laranjeiras. Doutor em Psicologia pela Universidade de D´Amiens – França. um dos bens mais preciosos que aqui existe. Capitão Andrade. Efetivamente o termo é muito mais conhecido em função de seu uso prático pelo IBGE. da Extração Mineral e da Pecuária. Este órgão procura utilizar essa forma de divisão dos estados da federação. não havendo mais nenhum recurso a ser explorado. 1 2 3 Especialista em Design Educacional para EaD Virtual e em Informática em Educação. Campanário. Foram lutas pelo poder onde oligarquias exerceram uma dominação em detrimento do refugo populacional que se estacionava nas periferias. Mestrando em Gestão Integrada do Território e Professor da Universidade Vale do Rio Doce.317 . Sobrália. Professor da Universidade Vale do Rio Doce. Tumiritinga e Virgolândia. Finalizados tais ciclos. Galileia. A Os ciclos econômicos que se destacaram foram o da Madeira. o grande número de sujeitos em idade socialmente produtiva. Fernandes Tourinho. Essa forma de territorialização visa integrar a organização. Estes constituíram-se em movimentos não-sustentáveis que arrasaram a terra e fizeram brotar o desespero entre aqueles que se amparavam neles como única fonte de sustento. Marilac. a MGV vê evadir. o planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum. para fins estatísticos baseando-se em similaridades econômicas e sociais. a saber: Alpercata. Nacip Raydan. Engenheiro Caldas. Pescador. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . São José da Safira. Coroaci. Itambacuri.Ensino Superior e EaD: reflexões acerca da formação a distância contextualizada num pólo educacional emergente Leonardo Gomes de Sousa1 Carlos Alberto Dias2 Introdução constituição territorial da Microrregião de Governador Valadares (MGV)3 forjou-se ao longo das décadas amparadas em ciclos extrativistas não sustentáveis. através do processo emigratório. TERRITÓRIO. A microrregião de Governador Valadares é composta por 25 municípios. Por Microrregião entende-se um agrupamento de municípios limítrofes. Nova Módica. Itanhomi. Mathias Lobato. São Geraldo da Piedade. Frei Inocêncio. São José do Divino. Dominação constituída de estratégias que contribuíram para a criação de um povo sem o sentimento de pertencimento a este território. São Geraldo do Baixio. Governador Valadares. Jampruca.

Ele traz à tona a denúncia da falta de condições de vida dada na origem. 78% deles compõem a primeira geração de sua família num curso de graduação (CALEJON. essa atividade é também econômica gerando grande movimentação financeira.000 estudantes distribuídos em níveis de Graduação e Pós-Graduação. um survey realizado na região em 2005 aponta que cerca de 58% dos que migram possuem entre 20 e 40 anos (SIQUEIRA. vão realizar alhures um trabalho geralmente aquém de sua qualificação profissional”. 72% da população da Microrregião possui entre 0 e 39 anos de idade. É notável que exista ainda na região uma predominância de ‘sobrenomes’ tradicionais 318 . Destaca-se o fato que. 2006). Tal fato contribui diretamente para uma mudança das lideranças sociais. Ligado a este fato. quando afirma que os emigrantes (cidadãos valadarenses) “no momento mais precioso de suas vidas. por exemplo. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Neste artigo. que forçam inúmeros cidadãos a buscar. que. fontes que garantam para si e sua família a manutenção de seus status social. Além da produção do conhecimento necessário para a quebra de paradigmas. Estes dados indicam que a região é constituída por uma população jovem em idade produtiva.Pode-se considerar que o fluxo migratório tão marcante nesta região possui efeitos análogos aos dos ciclos extrativistas não-sustentáveis como mencionados acima. o que vale destacar é que a Microrregião de Governador Valadares é também um forte pólo agropecuário. A cada dia percebe-se a consolidação deste território como pólo educacional não apenas da Micro como da Mesorregião do Vale do Rio Doce. A esse título. em outras terras. estão instaladas na região oito Instituições de Ensino Superior abrigando cerca de 15. turístico e educacional. 2009).TERRITÓRIO. Neste último. a emigração é tratada como um fenômeno cujas consequências são comparáveis aos ciclos exploratórios por constituirse numa alternativa não-sustentável que não é adequadamente amparada pelos órgãos públicos. Segundo dados do IPEAD e UFMG (2004). por ineficiência do próprio Estado. mesmo tendo o Estado investido na educação e saúde destes. Entretanto. reduzindo a força das oligarquias. vale citar Sales (1997:14). tal investimento não se torna efetivo na geração de desenvolvimento para o País e a Região. dos estudantes que recorrem a crédito educacional para financiar seus estudos.

2001:10). para o surgimento de uma sociedade identificada com o espaço que ocupa e com a crença de que esse território pode se converter numa terra de promissão.319 . um novo contexto de mobilidade social ascende em função do grande número de indivíduos que se encontram conectados através Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs). assim. faz-se mister uma análise sobre o Ensino Superior e suas aplicações no contexto da MGV. TERRITÓRIO. Disposta na condição de formação complementar após a Graduação. é na escola que a transmissão do saber ocorre objetivando a qualificação para o trabalho e para a reprodução de ideologias. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Segundo a mesma autora. técnica. Uma formação direcionada que ocorra na modalidade a distância promove situações que vão além do aprendizado específico de uma proposta de ensino. o ensino de especialização busca o aperfeiçoamento e a discussão de saberes em uma área específica. quando aplicada aos problemas relevantes e recorrentes de uma determinada problemática regional. o processo educacional se apresenta como uma viável possibilidade de transformação. “num espaço de resistência e luta no qual as ideias são questionadas e repensadas” (OLSCHOWSKY. não dispondo de espaço-tempo para a realização de uma solução educacional em nível de especialização que seja presencial. “ajuda a formar a personalidade e difunde idéias políticas”. segundo Olschowsky (2001:10).ocupando os cargos de liderança. Esta formação direcionada. Analisar-se-á também a prática de ensino na condição de processo contraditório e político. Entretanto. Na busca pela construção de uma identidade territorial que reflita uma concepção de construção individual em prol do desenvolvimento coletivo por parte dos habitantes desta região. Tal formação ilustra a perspectiva educacional sob um prisma atual que possibilita olhar os desafios para a constituição do saber através de práticas educacionais que visem a uma abordagem subjetiva e. Neste sentido. que molda relações e que. na atualidade. O incremento de uma Educação de qualidade para os habitantes da Microrregião de Governador Valadares cria possibilidades de renovação de uma identidade social marcada por crises. ao mesmo tempo. constituindo-se. torna-se uma estratégia para aprimorar o saber e influenciar diretamente na construção/reconstrução de postura em relação a ações promotoras do desenvolvimento regional. científica e política.

uma educação à distância de qualidade é capaz de “promover a experimentação e o desenvolvimento de atividades que visam a inserção no ambiente de trabalho.TERRITÓRIO. A flexibilidade de tempo e a facilidade de acesso tornam a implantação e aceitação da EaD um passo necessário para o acesso multidimensional da educação. sp). A evolução tecnológica e a sociedade da informação têm espontaneamente transformado esta modalidade em uma força mais intensa e ampla no cenário educacional. A elaboração de um Design Educacional Contextualizado. 2006. Este estudo conduz uma reflexão acerca da qualificação profissional dos habitantes da MGV em nível de especialização através da Educação a Distância. um processo de territorialização que contribua para o contínuo desenvolvimento regional.Atualmente. Por suas terras transpassam estradas e ferrovias que dão acesso às principais capitais e rotas de exportação do Brasil. MGV: de ciclos exploratórios ao nascimento de um pólo educacional A Microrregião de Governador Valadares é uma região do Estado de Minas Gerais constituída de uma grande vocação logística. Entretanto. a partir da intervenção e modificação de uma realidade social de criação de contextos” (MORAN. Trata-se de um território aparentemente capaz de abarcar. Conforme definido por Moran. É preciso entender a Educação a Distância como modalidade de ensino que precisa. essa região é midiaticamente conhecida no cenário nacional e internacional devido a ocorrências situadas em torno do processo 320 . de projetos bem contextualizados e aplicados para atingir seus objetivos educacionais. é o ponto de partida para a inserção adequada de um projeto educacional que verse a utilização das tecnologias acessíveis para este público específico com as bases educacionais que mais se adaptam a este contexto. Acredita-se que a oferta de soluções educacionais contextualizadas pode maximizar a aplicação do conhecimento adquirido na região e possibilitar alternativas de reconstrução de uma nova identidade territorial. a modalidade de Ensino a Distância apresenta uma crescente evolução no cenário educacional. na ação de seus habitantes. tendo posição territorial privilegiada no Estado. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . que tenha seu foco nos habitantes da MGV em todas as suas etapas. como as outras modalidades.

A Estrada de Ferro Vitória-Minas que viabiliza considerável fluxo das importações e exportações do País. 2002). sendo elas a BR-116. Ela corresponde a 27% do Vale do Rio Doce. Governador Valadares tem cerca de 5. cuja área total é de 41. Sua localização geográfica é estratégica. Com uma área total de 11. A Microrregião de Governador Valadares é uma das oito microrregiões que compõem a Mesorregião do Vale do Rio Doce. Coiotes são os responsáveis por realizar a travessia ilegal das fronteiras com os emigrantes. Na condição de centro ativo e mantenedor da região. Essas rodovias dão ou facilitam o acesso a grandes centros.809. No Estado de Minas Gerais. TERRITÓRIO. Belo Horizonte. contribui para o entendimento de como seus habitantes foram desterritorializando este espaço durante toda sua construção histórica. 2009). esta microrregião é considerada uma das maiores de Minas Gerais. Isso seria um bom indicativo. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Compreender como surgiu o fluxo emigratório nesta microrregião. Essa região tornou-se um pólo comercial e de serviços das mais variadas espécies. o grande número de “cônsules”4 e “coiotes”5 que atuam na região e a permanência de Valadarenses no exterior de forma indocumentada pouco contribuem para o fortalecimento de uma imagem positiva da região. por ser um ponto no qual se entrecruzam três importantes rodovias. a cidade de Governador Valadares constitui-se num pólo com grande vocação logística. Segundo dados do IBGE (2007).873 km² (FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO. a Microrregião de Governador Valadares possui aproximadamente 412 mil habitantes. Esses dados apontam para a referida cidade como o foco do desenvolvimento da região. tais como.emigratório. se não 4 5 Cônsules são agenciadores que auxiliam o emigrante a entrar ilegalmente nos EUA. Vitória e Rio de Janeiro. fazendo com que os habitantes da Microrregião de Governador Valadares vejam essa cidade como uma grande praça comercial para se fazer bons negócios. sendo que 63% desse conglomerado reside na cidade de Governador Valadares. BR-381 e BR-259. Os escândalos referentes à venda de passaportes adulterados.5 mil estabelecimentos comerciais que equivalem aproximadamente a 80% da economia local (FELÍCIO.327. eles promovem meios que vão desde a produção de documentos falsos à contatos com coiotes. comparável aos diversos ciclos exploratórios que devastaram suas terras. não só cruza o território como também tem em sua história uma dívida para com a cidade.321 . Uma atenção especial será dada a esse tema nesse estudo.403 km².

ao mesmo tempo. Com efeitos análogos aos ciclos extrativistas. desconexos contribuíram para que fossem estabelecidos entre os habitantes dessa região. Os sujeitos que nela vivem possuem em sua identidade marcas profundas de um habitat que é usado para o benefício de alguns em detrimento de muitos. o desejo de migrar deste ator sempre está envolvido com algum problema na base que o faz tomar a decisão de deixar sua terra. a criação de uma identidade regional foi marcada por estes atos. Historicamente. que. a de322 . 2005). destaca-se também o fenômeno da Emigração. com destaque para o da Madeira. A não preocupação em criar uma economia autossustentável deixou a cidade empobrecida tornando a exploração comercial a maior alternativa em termos de investimentos individuais ou coletivos. após a extração dos recursos desejados. Desde sua descoberta. cabe destacar o fenômeno da emigração de residentes da Microrregião de Governador Valadares. Os ciclos econômicos que existiram no decorrer de sua história. É certo que um nativo não deixa seu lar se nele consegue tudo que se busca. De certa forma. Além destes ciclos. sentimentos de não pertencimento a esse território. Todos estes aspectos são fragmentos de uma história baseada em estratégias de desenvolvimento regional que não se manteve nem evoluiu com o passar do tempo. Este evidencia e serve de denúncia das precárias condições de vida dadas na origem. Os movimentos contínuos e. que se tornou um fenômeno rotular da região. Durante toda a sua história. Do ciclo do ouro entre os séculos XVI e XVII até o estouro da bolha imobiliária internacional em 2008. o habitante deveria galgar para outros horizontes (ESPINDOLA. da Extração Mineral. Para muitos. a microrregião tornou-se uma terra de passagem. a exploração dos recursos da região tem-se refletido na identidade social de seus habitantes.fosse uma explícita denúncia de que ao longo dos anos a região foi explorada de diversas formas até o esgotamento de seus recursos naturais. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . essa Microrregião vive momentos marcados pela extração de seus recursos sem a preocupação com sua sustentabilidade.TERRITÓRIO. sua população foi marcada pelos efeitos de uma história centrada nas relações de poder das classes dominantes. da Pecuária. Movimentos como a busca pelo ouro. fizeram deste território um ponto de extração despreocupado com a sustentabilidade de seus recursos naturais. a MGV foi alvo de ciclos extrativistas não-sustentáveis.

323 . do sujeito para com o lugar. uma de Produção Audiovisual e outra de Jornalismo). em seu imaginário.vastação da floresta para a venda da madeira e. A Microrregião de Governador Valadares pode ser considerada hoje um território marcado pela exploração e sentimentos de não pertencimento. através de um questionário. reduzida é a intenção de envidar esforços para a supera6 No fim de 2008. decorrente dos sucessivos ciclos exploratórios. foi levantada a questão sobre a possibilidade de continuarem vivendo na Microrregião de Governador Valadares após concluírem o Curso de Graduação. Assim. Apesar de se tratar de um ensaio. apesar de estarem se preparando para atuar como atores de mudanças. o tráfico de mão de obra para os EUA são problemas relevantes que fugiram do controle da sociedade. Relações de pertencimento necessárias para que possam acontecer na região uma valorização que parta de dentro para fora. o estabelecimento de íntimas relações do homem com o lugar ficou seriamente comprometido. a criar a idéia de ser aqui apenas uma terra sem oportunidades. de alguma forma. foi realizado um ensaio preliminar com 4 turmas de cursos de graduação (duas turmas de Design Gráfico. para com o desenvolvimento desse lugar. Entender estes ciclos como propulsores de crises para habitantes da região são subsídios básicos para a elaboração de projetos de desenvolvimento regional que não permitam que a história se repita. contribuiu para que cristalizasse no pensamento dos atores da MGV a ideia de não ser este um lugar acolhedor. posteriormente. para a pecuária. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . despertando nos envolvidos o desejo e a vontade de contribuir. TERRITÓRIO. Nesse contexto. Mais de 50% dos entrevistados declararam o desejo de migrar para uma região que oferecesse melhores condições de trabalho e qualidade de vida. com o objetivo de analisar as perspectivas de mercado destes futuros profissionais. em que foram levantadas questões. Em um ensaio preliminar6 objetivando verificar o comprometimento de estudantes de uma Universidade com a região. O esgotamento da terra. Seus habitantes viveram ao longo da história momentos que os levaram. o estar na região é uma etapa na qual muitos procuram reunir recursos para ir em direção à terra de seus sonhos. Por esse processo. capaz de fornecer a seus habitantes condições de trabalho e desenvolvimento. este levantamento aponta para a inexistência ou frágil relação identitária dos respondentes para com sua região.

a renda média e os índices demográficos da região do Rio Doce a situam como a segunda mais pobre do estado de Minas Gerais. Fundada em 13 de agosto de 1968. através do Decreto 74. Esta foi reconhecida como Universidade pela portaria 1037 do MEC publicada em 9 de julho de 1992. cuja história é importante relatar. a Fadivale.TERRITÓRIO. Extensão e Ação Comunitária. a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) funcionará a partir de 2011 com cursos nas áreas da saúde e humanas. vale apontar a presença de nove Instituições de Ensino Superior. é criada a Faculdade de Direito do Vale do Rio Doce (FADIVALE). Atualmente a UNIVALE oferta grande número de Cursos de Graduação. que atualmente aguarda o aval do Conselho Nacional de Educação (CNE) para o início das atividades. A Microrregião de Governador Valadares está no epicentro de um quadro de concentração de pobreza cujo reflexo é diretamente assimilado à identidade de seus habitantes. Pioneira na região no âmbito educacional. posteriormente Pós-Graduação. busca oferecer o ensino jurídico de qualidade em nível de Graduação e. em decorrência da adaptabilidade de seu povo às situações adversas. turístico e educacional. O sentimento de não pertencer a um determinado território contribui para a estagnação e o esvaziamento econômico da região. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .922 de 21 de novembro de 1974. 324 . No tocante à Educação Superior. a MGV têm se constituído como um forte polo agropecuário. seu reconhecimento se deu apenas em 1974. Um ano após a abertura desta primeira Instituição de Ensino Superior (IES) da região. Estes empreendimentos são percebidos pela comunidade como um coroamento do esforço regional pela formação superior de seus habitantes. o Minas Instituto de Tecnologia (MIT) surgiu em 1967 como embrião da Universidade Vale do Rio Doce (UNIVALE). Entretanto. além de soluções em Pós-Graduação lato e stricto sensu. Entretanto. desde o início. A partir de um convênio com a Prefeitura da cidade. Dados da pesquisa de Soares (1995) apontam que o PIB per capita.ção dos problemas regionais e contribuir para a melhoria da qualidade de vida da sociedade de origem. A segunda que ainda não está em funcionamento é uma unidade da Rede Pitágoras de Ensino. além de duas outras que abrirão suas portas em 2011. uma vez que não há a preocupação com a manutenção e ampliação dos recursos que existem nesta terra.

desta forma. vindo a preencher. essa instituição oferece cursos em níveis de Graduação e Pós-Graduação nas áreas das Ciências Sociais Aplicadas. Educação e Saúde. outras duas atuam como polos semipresenciais oferecendo Cursos de Graduação e Especialização em diversas áreas do saber. Almeja-se a formação de cidadãos identificados com o espaço que ocupam e convictos de que esse terriTERRITÓRIO. vislumbram-se articulações para a reconhecimento da MGV como polo educacional capaz de desenvolver projetos educacionais contextualizados e aplicáveis ao seu desenvolvimento. Considerando este amplo cenário educacional na região. oferecidos também pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e Universidade Federal de Viçosa (UFV). o Centro de apoio à Educação a Distância da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com Cursos de Graduação e Pós-Graduação e cursos vinculados à Universidade Aberta do Brasil (UAB).000 estudantes distribuídos em níveis de Graduação e Pós-Graduação. Ciência e Tecnologia de Minas Gerais (IFMG/GV) é uma opção pública na oferta de Cursos de Graduação para os habitantes da região. Além dessas IESs privadas. Ernesto Geisel e pelo Ministro da Educação. amparada por um grupo da sociedade civil intitulado “Mater et Magistra”. Em 2003. Sua criação foi amparada pela demanda de pessoal especializado nessa área. formado por instituições de ensino e membros influentes da população. assinado pelo então Presidente da República. de 12 de março de 1997. que abriga atualmente cerca de 15. uma lacuna na oferta regional de profissionais de Nível Superior. sendo elas a Universidade de Uberaba (UNIUBE) e o Grupo Educacional Fatec e Facinter. Funcionando desde janeiro de 2010 em Governador Valadares. O incremento de uma Educação de qualidade para os habitantes desta região cria possibilidades de renovação de uma identidade social até então marcada por crises. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . surge a Faculdade de Administração de Governador Valadares (FAGV). o Instituto Federal de Educação. Soma-se a esta.325 . foi instalada em Governador Valadares a Universidade Professor Antônio Carlos (UNIPAC). Recente no mercado Valadarense.513. Seu reconhecimento como Universidade se deu através da Portaria do MEC nº 366. de 19 de março de 1975. em 1975. Sua autorização foi emitida pelo Decreto Federal n° 75. Ney Braga.Seguindo na história. cuja criação se deu na cidade de Barbacena no ano de 1963.

55 federais. a iniciativa privada e a "expansão" desta modalidade somente aconteceram muito tempo depois com a Constituição da República de 1891 que descentralizou a oferta do Ensino Superior. Faculdades Integradas. no contexto do ciclo do café. o ensino na República se desenvolve com a criação de 14 Escolas Superiores. bem como as articulações acerca do avanço nos estudos através de cursos de Pós-Graduação. algumas datas ilustram a trajetória da educação superior no Brasil. Considerando o grande número de IES no Brasil. Instituto Superior ou Escola Superior e Centro de Educação Tecnológica (MEC. Em 1827. (2001).Programa Universidade para Todos.tório constitui-se também numa terra de promissão. o Brasil abarca também 2151 IESs que se classificam como Centros Universitários. a Universidade de Brasília. qualificar e permitir o acesso ao Ensino Superior no país. Neste sentido. em 1961. de Minas Gerais em 1927. Faculdade. Ensino Superior no Brasil: um longo caminho O início do Ensino Superior no Brasil deu-se em 1808 com a chegada da família real portuguesa ao país. Segundo dados do Ministério da Educação. UAB . O PROUNI é um Programa do Ministério da Educação. No ano de 1889. criada em 1909. o Governo Federal tem buscado soluções cujo objetivo maior é ampliar. Faculdade Tecnológica. alguns projetos merecem destaque. e REUNI . em 1912. que oferece bolsas de estudos em instituições de educação superior privadas. em Cursos de Graduação e 326 . 36 estaduais.programa de apoio a planos de Reestruturação e a Expansão das Universidades Federais. criado pelo Governo Federal em 2004. justifica-se na busca de soluções para o desenvolvimento regional. Além de Universidades. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Posteriormente foram criadas a Universidade do Rio de Janeiro em 1920.Universidade Aberta do Brasil. 2008). entender a gênese do ensino superior. atualmente o País conta com 280 Universidades. Assim. sendo 97 públicas.TERRITÓRIO. Contudo. A Universidade de Manaus. mostrou a força do ciclo da borracha e. de São Paulo em 1937 e. a Universidade do Paraná. tais como: PROUNI . 6 municipais e 86 privadas. foram criados os Cursos de Ciências Jurídicas em São Paulo e Olinda. permitindo que os governos estaduais e a iniciativa privada criassem seus próprios estabelecimentos. Segundo Colossi et al.

2008). as primeiras estatísticas sobre a educação contavam com 64. sem diploma de nível superior (MEC. Esse espaço ocupado por tais instituições decorre do fato de o Estado não ter sido capaz de absorver a demanda. mas também a toda a comunidade administrativa e discente que forma a rede educacional de ensino. o Brasil apresentou uma baixa taxa de escolarização bruta (15%) na Educação Superior. no âmbito do Fórum das Estatais pela Educação. A UAB é um programa do Ministério da Educação criado em 2005. de modo que este incentivo se reflita em ações positivas não só ao próprio professor. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . tem por objetivo criar condições para a ampliação do acesso e permanência na Educação Superior. no período de 1999/2000. Pinto (2004) afirma que essa situação já apresentou quadros mais desanimadores. e possui como prioridade a capacitação de professores da educação básica. a taxa de escolarização bruta na Educação Superior era de apenas 1%. a isenção de alguns tributos fiscais. Através desta iniciativa. Apesar de ser um projeto nacional. 2008). Daí tornam-se extremamente necessárias as medidas que TERRITÓRIO.327 . focaliza-se a Graduação no tocante ao aumento da qualidade dos cursos e melhor aproveitamento da estrutura física e recursos humanos existentes nas Universidades Federais. o que praticamente não se alterou até meados de 1960. segundo o Governo Federal (2007). sendo um sistema formado por instituições públicas de ensino superior. Nesse esforço. Destaca-se o dado que.4% de instituições na iniciativa privada. as quais se comprometem a levar o ensino superior público de qualidade aos municípios brasileiros (MEC. Efetivamente em 1960. Seu objetivo é estimular a articulação e a integração de um Sistema Nacional de Educação Superior. através do fornecimento de bolsas de estudos parciais (50% de desconto) e/ou integrais (100% de desconto). Já o REUNI. No ano de 1933. Uma característica importante deste programa é permitir ao aluno de baixa renda e que possui bom rendimento escolar o acesso ao Ensino Superior. pretende-se respeitar as características particulares de cada instituição e estimular a diversidade do sistema de ensino superior.sequenciais de formação específica a estudantes brasileiros. em contrapartida. concedendo às IESs privadas. Entretanto. A concepção destes e outros programas por parte do Governo Federal tem proporcionado um crescente exponencial referente ao acesso ao Ensino Superior. o Governo possibilita a qualificação dos profissionais da Educação Básica.

na tentativa de preencher essa demanda do ensino privado que cresce significativamente. dados coletados nas principais regiões metropolitanas do Brasil pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE 2007) indicaram que apenas 6% da população com mais de 20 anos possui ensino superior e que menos de 1% adquire o título de Mestre ou Doutor. faz-se necessário aprofundar na investigação sobre esta modalidade. as matrículas cresceram de forma distinta entre as redes públicas e privadas. sendo que pouco mais de uma centena era constituída como Universidade (COLOSSI et al. 2001). Ao abrir novas possibilidades de reconstrução do conhecimento. sendo aprovada no Parecer nº 977/65 do Conselho Federal de Educação (CFE). Dois tipos de 328 . Apesar do considerável número de instituições de ensino. Assim. A Pós-Graduação foi instituída no país pela Lei nº 4. A busca por uma formação específica através da Pós-Graduação busca articular saberes e práticas na elaboração de novos conceitos e ações. Segundo Pinto (2004).. Em 2001. ao longo dos 40 anos que se seguiram. com auxílio de bolsas. o ensino de Pós-Graduação lato sensu surge como alternativa viável de mecanismo propulsor do desenvolvimento do território da MGV. Para um melhor entendimento. a Pós-Graduação no Brasil origina-se da necessidade da elaboração de novos conhecimentos a partir das atividades de pesquisa e da impossibilidade da Graduação de abarcar uma formação específica em determinadas áreas do conhecimento. Baseada na estrutura das Universidades Americanas. Indicadores tão baixos refletem a dificuldade em se ampliar o tempo de estudo e avançar na construção do conhecimento após a Graduação. as matrículas da rede privada cresceram praticamente três vezes mais do que as da rede pública. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . segundo Olschowsky (2001:37). na Graduação o estudante “obtém os conhecimentos e uma preparação básica e geral de sua profissão e a complementação dessa formação viria com os estudos pós-graduados”. o Ensino Superior no Brasil contava com cerca de 900 Instituições de ensino.024/61-Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Essa ocorrência tornou o Brasil um dos países com maior grau de privatização desse nível de ensino.visam permitir a entrada de alunos no Ensino Superior.TERRITÓRIO. No mesmo período.

cria-se também uma lacuna no tocante à aplicabilidade da proposta que está sendo oferecida ao aluno. Entretanto. ao criar propostas educacionais que não são adequadas a um determinado contexto. quando se trata do profissional. envolvendo os cursos de especialização (Parecer nº 977/65). com nível de mestrado e doutorado. por sua vez. O Parecer 997/65 conceitua Pós-Graduação como todo e qualquer curso que se segue após a finalização da Graduação e promove uma diferenciação entre as modalidades stricto sensu e lato sensu. em que sua meta é o domínio técnico e científico de uma certa área limitada do saber ou da profissão para formar um profissional especializado. os Cursos de Pós-Graduação stricto sensu são destinados à formação de pesquisadores e docentes para os cursos superiores. o fim é fornecer ampla fundamentação científica à aplicação de uma técnica ou ao exercício de uma profissão. antagonicamente surgem alternativas positivas para o acesso à educação que. Em um cenário distorcido. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Por sua vez. Estes e outros fatores têm contribuído para a banalização e descrédito de propostas ligadas a este tipo de curso. Apesar de abarcar um público carente de tempo e espaço para realizar um aprimoramento educacional. a oferta de Cursos de Pós-Graduação lato sensu tem sido altamente propagada pelas IESs com o discurso de permitir o aprimoramento de específicos campos do saber. podem se apresentar sob a forma de Cursos de Especialização. Sua essência está na natureza acadêmica e de pesquisa e.329 . criando modelos pasteurizados e descontextualizados com a realidade do participante.Pós-Graduação foram previstos: a “stricto sensu”. e que. mesmo atuando em setores profissionais. e a “lato sensu”. uma possibilidade para maximizar seu campo de atuação. o que se percebe é uma grande industrialização desta modalidade. na oferta de cursos de especialização a distância. tem objetivo basicamente científico. Os Cursos de Pós-Graduação lato sensu têm um objetivo técnicoprofissional específico sem abranger o campo total do saber em que se insere a especialidade. Atualmente. diversas IESs têm buscado. Trata-se de um sistema de cursos que se superpõe à Graduação com objetivos mais amplos e aprofundados de formação científica e cultural. A Especialização é sempre estudada no contexto de uma área completa de conhecimentos e. Na tentativa de ampliar a gama de “clientes”. ao mesmo tempo que promova TERRITÓRIO. Aperfeiçoamento e Atualização.

faz-se necessário analisar o contexto da Educação a Distância (EaD) em 330 .a qualificação. No dizer de Moran (2008). SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . 2008:1). existe um processo educacional a ser construído para a MGV. pode-se dizer que. em nível de Pós-Graduação e. sobretudo. passam a atuar como elemento importante de neutralização das representações regionais estigmatizantes. Educadores que organizem mais atividades significativas do que aulas expositivas. em novas metodologias. pode-se dizer que uma Educação a Distância de qualidade deve. bem remunerados e formados em conhecimentos teóricos. Com base nas asserções que compuseram esse tópico. curiosidades e construir um currículo que dialogue continuamente com a vida. sendo instrumento de divulgação. a partir da intervenção e modificação de uma realidade social. Com base no exposto. de criação de contextos” (MORAN. necessidades. sp). com o cotidiano. que sejam efetivamente mediadores mais do que informadores. interesse. Além disso. que desperte curiosidade. Uma escola centrada efetivamente no aluno e não no conteúdo. a educação deve ser capaz de auxiliar na aquisição e (re)construção do conhecimento. Precisa de bons gestores e educadores. Através da oferta de cursos de Pós-Graduação. podem-se criar instrumentos de dominação e reprodução das relações de produção e/ou força política. Neste sentido. persuasão e penetração da concepção de mundo na classe dominante. em geral. É uma mudança cultural complicada. ser capaz de “promover a experimentação e o desenvolvimento de atividades visando a inserção no ambiente de trabalho. distantes tanto das novas metodologias como das tecnologias (MORAN. 2006. ao promover a cooperação dos habitantes dos municípios limítrofes que compõem a Microrregião do Vale do Rio Doce através de um ambiente de aprendizado. estas propostas educacionais servem também como importante ferramenta de mobilização social para alterar a função hegemônica da classe no poder. como define Gramsci (1991). da Pós-Graduação a Distância. porque os cursos de formação de professores estão. Um processo que permita ao aluno dar novo sentido a seu papel social e estar apto a interagir de forma local e global. no uso das tecnologias de comunicação mais modernas. por meio de modalidades não-presenciais. A escola precisa partir de onde o aluno está. segundo Moran. contribua para o desenvolvimento específico de uma região. Estes cursos.TERRITÓRIO. das suas preocupações.

1999). Segundo Nunes (2002). Esse modelo possui mais de um século de existência. como também a instauração de um processo continuado. tais ofertas foram alvo de grande procura. tem sido base de inúmeros estudos e metodologias que buscam cada vez mais esculpir este meio e transformá-lo em uma fonte confiável de transmissão de conhecimento. custos operacionais e. a EaD tem sido alvo de constantes análises e aplicações metodológicas. buscando trazer um olhar além da utilização das Novas Tecnologias de Informação de Comunicação (NTICs). Atualmente. onde os meios ou os multimeios devem estar presentes na estratégia de comunicação. ofereceu com absoluto sucesso um Curso de Hebreu por correspondência. recepção. TERRITÓRIO.detalhes. Harper.] pressupõe um processo educativo sistemático e organizado que exige não somente a dupla via de comunicação. Educação a Distância: contextos e descontextos A Educação a Distância (EaD) é uma inovação trazida pela LDB que promoveu um grande impacto sobre a oferta de vagas para a Educação Superior. A escolha de determinado meio ou multimeios vem em razão do tipo de público. Em 1889 o Queen’s College do Canadá deu início a uma série de cursos a distância.. Pautada na autonomia e interação dos atores. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . 2002:3) A EaD é mais antiga do que parece. eficácia para a transmissão. principalmente. que valorize a participação das pessoas através dos processos de afetividade e interação. O primeiro registro data de 1881 quando William R.331 . a EaD. a EaD encontra na internet uma plataforma capaz de promover soluções inovadoras que encurtam as diferenças com o ensino tradicional. Sua inegável aceitação se dá em razão da realidade pós-moderna. essa modalidade: [. (NUNES. em que os indivíduos carecem de soluções flexíveis em todas as dimensões. a EAD vem se desenvolvendo. utilizando-se das mais variadas estratégias. Devido principalmente a seu baixo custo e às grandes distâncias que separavam os centros urbanos. Com tecnologias que buscam a cada dia dar tons de realidade à experiência não presencial. através da Internet ou Educação on-line. ferramentas e tecnologias (LOYOLLA & PRATES.. transformação e criação do processo educativo. Desde então. primeiro Reitor e fundador da Universidade de Chicago.

Já a assíncrona. o DI se torna uma ferramenta chave no sucesso de um aprendizado não presencial. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . sobretudo. Esta ciência é responsável pela maximização do processo de ensino-aprendizagem a distância. Filatro(2007:32) define o Design Instrucional como sendo “[.. Uma das áreas que se destaca como peça chave nesse processo é o Design Instrucional (DI). como uma possibilidade de encurtar diferenças sociais. a Educação on-line. Várias são as formas de se aprender a distância. metodologias responsáveis e investimentos capazes de subsidiar a realização plena do projeto educacional. Os Ambientes Virtuais de Aprendizagem possibilitam a comunicação sob duas formas básicas. Esta última vem sendo muito utilizada e amparada por inúme332 . apesar das frentes tradicionais que defendem a utilização única e plena do ensino presencial. a grande diversidade de mídias disponíveis possibilitou a propagação do conhecimento. em que todos os alunos podem participar de acordo com a sua flexibilidade de tempo. Em tempos de constante evolução tecnológica e com uma sociedade cada vez mais conectada. fazendo uso dos mais variados recursos e estratégias educacionais. possibilita a participação atemporal. o desenvolvimento e a utilização sistemática de métodos. Desde o século XX..Assim. organização e execução do projeto. técnicas e atividades de ensino para projetos educacionais apoiados por tecnologias”.TERRITÓRIO. Uma aplicação efetiva da Educação on-line sempre estará amparada por profissionais qualificados. a síncrona e a assíncrona. que envolve todo o planejamento. A comunicação síncrona ocorre quando existe a troca imediata de informações e a participação simultânea de dois ou mais alunos em uma determinada aplicação. Tal fato contribui diretamente para o crescente número de profissionais e metodologias que visam ampliar e tornar cada vez mais agradável e efetivo o ato de aprender a distância. Com o advento tecnológico. Esta ciência cria pontes entre o professor e seus alunos numa modalidade educacional em que não estão fisicamente ligados. tem ganhado visibilidade e aceitação por parte de toda a sociedade da informação.] o planejamento. a EaD tem apresentado excelentes resultados quando bem aplicada e. bem como a disponibilidade de computadores e conexão com a internet acessíveis às diversas camadas da sociedade.

sob o nosso olhar. Ainda. cognitiva e sensitivo-sensória (LEVY b. faixas de áudio. mas não é comunicação. caracterizando-se através de comportamentos que expressam TERRITÓRIO. A via que sustenta a Educação a Distância é a comunicação exercida em suas mais variadas formas. Um instigante e complexo desafio na concepção destes projetos tem sido a construção de processos e metodologias que estabeleçam a interação e a comunicação entre seus participantes. o ensino. Apesar de todos os avanços tecnológicos. uma vez que professor e aluno não estão frente a frente para eliminar “ruídos” inerentes ao meio e aos múltiplos contextos dos sujeitos da comunicação. Em relação aos meios que utiliza e ao processo em si. e será através da tonalidade de ânimo que a pessoa perceberá o mundo e a realidade”. Isso é a condição física da comunicação. Pierre Levy (1999a:147) observa que: Comunicar não é de modo algum transmitir uma mensagem ou receber uma mensagem. a relação de equipe de trabalho estão em permanente construção. No entanto. Ela contribui como meio e fim na aprendizagem. de acordo com o autor. a um só tempo. o ciberespaço possibilita um novo campo visual onde a representação gráfica. O “partilhar sentido” de Levy é o mesmo que. sonora e pictória integram uma nova forma de conhecer. vídeos. Comunicar é partilhar sentido. a comunicação se encontra atrelada ao processo de aprendizagem. A história nos mostra que. É certo que para comunicar. a afetividade “confere o modo de relação do indivíduo com a vida. o homem pensa em rede onde a aprendizagem. a qualidade da comunicação que sustenta o processo educativo pode ser determinante para o sucesso do empreendimento. mas enviar mensagens não é comunicar. 1999). Para o autor. 2007:7). a relação professor-aluno. A comunicação constitui-se em ferramenta básica no desenho instrucional em qualquer modalidade – presencial ou a distância. tem-se percebido que a participação de pessoas é essencial e a única capaz de garantir um tratamento contextualizado e humano. a afetividade nos relacionamentos virtuais.ros recursos de produção de conteúdo multimídia como slides. na EaD. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . web conferências. hipertextos e outros. é preciso enviar mensagens.333 . apud XAVIER. desde os primórdios da humanidade. Segundo Ballone (2003.

é condição para o avanço da aprendizagem (FRANCO et al.. A aprendizagem a distância pode ocorrer das mais variadas formas. Franco et al. Visuais x Verbais. a aceitação e o comprometimento com a aprendizagem por parte de seus alunos. conhecer nossos próprios processos de aprendizagem e aprendermos como aprender. (2009). pois parte do pressuposto básico de que as pessoas possuem ritmos. diálogo. a ausência física dos atores pode ser amenizada pelas diversas mídias e estratégias de comunicação e interação estabelecidas no projeto educacional contextualizado. o sorriso. É preciso eliminar “ruídos” inerentes ao meio e/ou aos contextos multidimensionais dos sujeitos da aprendizagem. porém o caminho para atingirmos este objetivo é tão individual quanto o processo de aprendizagem em si (ALMEIDA. A aprendizagem ocorre a todo instante e nas mais variadas instituições com que o sujeito contracena. a relação entre os atores da educação deve ser marcada pela parceria.emoções que favorecem a interação do indivíduo com o meio. Por essa razão. De acordo com o autor. devem ser nossas principais armas para conseguirmos a flexibilidade necessária a essa nova realidade. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . definidos por Felder e Silvermann (1988) como aprendizes: Ativos x Reflexivos. O professor/tutor também necessita sentir a presença. citando Almeida (2006). Numa perspectiva humanista. Assim. Racionais x Intuitivos. aceitação dos limites e pela valorização do potencial de cada um. 2006. aprender a fazer e aprender a ser (GIUSTA & FRANCO. a Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI criou um Relatório da UNESCO em que se baseia o conceito de Educação em quatro pilares: aprender a conhecer. considerada nas teorias interacionistas de Piaget e Vygotsky. a relação professor-aluno é um fator fundamental para o sucesso e a realização de ambos. Neste sentido. uma vez que a troca de afetos. Sequenciais 334 . 2003).. bases e formas de aprender diferentes. pois a afetividade não tem lado. 2009 sp).] como estes fatores nos afetam. destaca-se a importância do Cognitivismo no processo de ensino-aprendizagem frente a tão variados estilos de aprendizagem. 2009). apud FRANCO et al. aplicando esta relação para a EaD.TERRITÓRIO. destaca que é preciso ter consciência de: [. aprender a conviver. Freire (1967) destaca que não podemos falar de educação sem falar de amor.

baseando-se nas assertivas de Ausubel. 2007). definem a aprendizagem significativa como “um processo pelo qual uma nova informação se relaciona com um aspecto relevante da estrutura de conhecimento do indivíduo” (MASINI & MOREIRA. bem como a própria necessidade imposta por uma sociedade carente por práticas educacionais compatíveis a ela. ainda.335 . o Design Instrucional se engaja em conciliar. Esse posicionamento está em acordo com a UNESCO que se expressa da seguinte forma: TERRITÓRIO. Compete às atuais Instituições de Ensino Superior (IESs) entender e apontar soluções para problemas que as transformações colocam a toda sociedade. o Design Instrucional precisa ter uma visão transdisciplinar capaz de aliar as mais diversas áreas do saber com os avanços tecnológicos. A Aprendizagem Significativa. a adoção de uma perspectiva de diversidade. segundo os autores. é uma representante do cognitivismo e entende a aprendizagem como um processo de armazenamento de informação que é incorporada a uma estrutura na mente do indivíduo. Uma pessoa pode naturalmente navegar entre estilos diferentes. da melhor forma possível. Considerando o desenvolvimento crescente das teorias da aprendizagem. uma relação entre a teoria e a prática educacional. o sujeito absorve a informação e trata de acordo com o seu cotidiano. o desenvolvimento científico e o tecnológico são suportes fundamentais para o processo de globalização. Destaca. Assim.x Globais e Indutivos x Dedutivos. disponibilizando-a na mente de forma organizada e formando uma conceituação a partir de sua experiência. com o objetivo de dar novo sentido ao seu papel social e proporcionar uma interação entre o local e o global. A importância do contexto em projetos de ensino não presenciais Atualmente as Instituições de Ensino do Brasil enfrentam desafios que podem ser sintetizados na revisão de suas formas de organização e relacionamento com alunos. Como enfatizado por Gondim (2002). Masini e Moreira (2001). Segundo Filatro (2007). considerando os pontos de interseção positivos e viáveis que podem ocorrer nessa junção entre teoria e prática (FILATRO. 2001: 17). SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . mas subjetivamente tem seu aprendizado maximizado quando algo é apresentado de acordo com seu estilo. definida por David Ausubel.

assim como das organizações internacionais (UNESCO. A emergência de modalidades de ensino não presencial mediadas pela tecnologia justifica-se como forma de equacionar a diferença entre o número restrito de vagas da rede de ensino e a necessidade de incluir socialmente uma maior parcela da população. muito se tem estudado e publicado sobre a emergência de um novo paradigma educacional em resposta às transformações econômicas. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . era da informação ou era do conhecimento (FILATRO. Wilson & Myers (1999). A incorporação das novas tecnologias de informação e comunicação. Estatísticas oficiais asseguram que as Tecnologias de Informação e Comunicação estão.A experiência comum de numerosos países é que o Ensino Superior não é mais uma pequena parcela especializada ou esotérica da vida de um país. devem-se considerar os estilos e ritmos diferenciados de aprendizagem. de fato. um parceiro estratégico do setor do comércio e da indústria. aprendizagem ou cognição é situado em 336 . a tendência da industrialização do ensino cria modelos educacionais pasteurizados.TERRITÓRIO. Trata-se de uma busca que seja capaz de integrar as exigências individuais e sociais às novas demandas do mercado globalizado. fazem a seguinte afirmativa: Pensar e aprender só faz sentido dentro de situações particulares. baseados na construção de projetos educacionais que visam principalmente o alcance e o lucro. 2007). Qualquer pensamento. Neste sentido. Entretanto. além da integração midiática. além de permitir uma adequação ao antigo modelo. buscando fazer um elo entre as informações compartilhadas e as experiências externas do aluno. é importante destacar que. possibilita também uma reavaliação no modo de pensar e praticar a educação. Os currículos baseados em novos moldes precisam contribuir efetivamente para o desenvolvimento integral de todos os envolvidos. políticas e sociais decorrentes do desenvolvimento científico e tecnológico da. 1999:256). Ele se encontra no próprio coração das atividades da sociedade. cada vez mais presentes nos ambientes universitários. Nos últimos anos. assim chamada. assim como as características regionais. por considerar o contexto importantíssimo para o paradigma educacional. dos poderes públicos. é um elemento essencial do bem-estar econômico de um país ou região.

on the other hand. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . 2005). A valorização da problemática regional tende a estimular a sociedade valadarense para a construção natural de uma identidade territorial comprometida com o seu desenvolvimento. econômicos e culturais da sociedade (SANTOS et al. learning.. instruction should consist of experiences that facilitate knowledge construction” (JONASSEN. Não existe algo como uma aprendizagem não-situada. assume that knowledge is individually constructed and socially coconstructed by learners based on theis interpretations of experiences in the world. an approach situated instructional design should be more sensitive to local conditions and adapt to circumstances localized to specific situations” (WILSON & MYERS. Since knowledge cannot be transmitted. A necessidade sempre foi e continua sendo de uma educação para a vida. TERRITÓRIO. (JONASSEN. a instrução deve ser composta de experiências que facilitem a construção do conhecimento. 1999:217). a intervenção pedagógica assumida pelas Instituições de Ensino Superior (IES) é de fundamental importância no desenvolvimento de cidadãos empreendedores. Jonassen (1999) defende a importância da inserção de fatores contextuais para uma implementação bem-sucedida de um projeto educacional. Diversos autores convergem ao reconhecimento de que os projetos educacionais precisam estar adaptados ao contexto de aplicação. 1999:217)8 A criação de ambientes de aprendizagem baseados em tecnologia precisa promover aos alunos interações significativas que lhes permitam interpretar e construir o conhecimento com base em suas experiências 7 “Thinking and learning make sense only within particular situations. Neste sentido. and cognition is situated within particular contexts.337 8 . All thinking. Consequently. Segundo ele: As concepções construtivistas da aprendizagem assumem que o conhecimento é construído individualmente e socialmente reconstruído pelos alunos com base nas interpretações de suas experiências no mundo. uma abordagem educacional deve ser mais sensível às condições locais e adaptadas às circunstâncias de situações específicas (WILSON e MYERS. 1999:71). Em decorrência. Filatro (2007:104) destaca que este processo compreende “a ação intencional de planejar. There is no such thing as nonsituated learning. ou seja.um contexto particular. capazes de aprender a aprender. 1999:71). Uma vez que o conhecimento não pode ser transmitido. uma formação continuada que prioriza a ética e os valores sociais. “Constructivist conceptions of learning.7 Considerando todo esse panorama. desenvolver e aplicar situações didáticas específicas incorporando mecanismos que favoreçam a contextualização”.

experimentação. capazes de elaborar conceitos e implementá-los fazendo uso de uma aprendizagem 338 . O conceito do construtivismo enfatiza que o estudante deva ser um aprendiz ativo. quando ele se apropria dos conceitos. construção.e interações. b) contexto de instrução: geralmente determinado temporalmente pelo evento instrucional (curso. aula). c) contexto de transferência: posterior à aprendizagem. característica de uma organização. instituição ou da sociedade (FILATRO. permitindo-se descobrir estratégias para utilizar o computador de maneira Construcionista. característica do entorno. 1998). permitindo a eles a exploração. envolve basicamente o ambiente ou a situação em que a aprendizagem será aplicada. Assim. desempenhando um papel central na mediação e controle de aprendizagem (Jonassen. Contextualizada e Significativa (CCS). Esta ênfase no contexto do aluno permite a apropriação fluida da experiência da aprendizagem. envolve os recursos físicos. influencia a motivação futura do aluno e o prepara cognitivamente para aprender. b) a perspectiva imediata. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .TERRITÓRIO. Estes três contextos se expressam em três níveis de abrangência: a) a perspectiva individual. 2009:106-107). A prática da Informática na Educação requer uma reflexão constante. a aprendizagem ativa focada nos estudantes permite que a construção do conhecimento ocorra de forma natural (GREENING. O modelo proposto por estes autores caracteriza o contexto em termos temporais e em níveis de abrangência. O mesmo problema em diferentes contextos sociais se apresenta de forma diferente. A elaboração de projetos educacionais deve contemplar a declaração de todos os fatores contextuais que cercam uma determinada problemática. colaboração e reflexão do que estão estudando. É preciso fazer com que os alunos sejam ativos e reflexivos. sociais e simbólicos que fazem parte da situação didática. Assim. os educadores precisam lançar mão de uma abordagem construtivista que adapte as estratégias educacionais em prol do envolvimento dos alunos. organizacional e sociocultural em que os problemas ocorrem. Jonassen (1999) e Filatro (2007) defendem o modelo contextual desenvolvido por Tessmer e Richey (1997) que constitui-se num conjunto de processos para analisar e mapear o contexto físico. c) a perspectiva cultural ou institucional. 1999). Filatro (2007) vai ilustrá-los da seguinte forma: Em termos temporais: a) contexto de orientação: anterior à aprendizagem. programa.

o computador exerce a função de transmissor da informação para o aluno por meio de um programa (software). o computador é usado como suporte para que o aluno resolva problemas ou construa algo de seu interesse.colaborativa assistida por computador9. e onde os recursos computacionais atuam (entre outros) como importantes e eficazes mediadores do processo de ensino-aprendizagem (COSTA. duas abordagens são largamente aplicadas no processo educacional não presencial: a abordagem instrucionista e a construcionista. Contrapondo-se a essas idéias. 2006). Nessa abordagem. como o que é realizado nos métodos tradicionais de ensino. testando idéias. não há necessidade de uma formação mais complexa para o exercício do magistério (FRANCO et al. Conforme preconizado por Papert (1985). da reflexão e da tomada de decisões. Essas se devem. ela caracteriza-se como uma abordagem de uso educacional do computador. segundo Schlünzen (2000:4). voltado para o processo de aprendizagem do aluno. Na abordagem instrucionista. 9 Aprendizagem colaborativa assistida por computador ou (CSCL . hipóteses e estratégias. Assim. já que as informações são transmitidas pelo computador. saber articular o uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC´s) e de todos os benefícios potencializadores que trazem para uma educação de qualidade a todos envolvidos. o professor pode sentir que será facilmente substituído pela máquina. 2005:7) TERRITÓRIO. Ele cumpre um papel semelhante ao de um professor que passa as informações específicas aos seus alunos.Computer Supported Collaborative Learning) pode ser definida como “[. Conforme destacado por Schlünzen (2000).339 . em função dos objetivos que se pretende alcançar. Desta forma. se o professor utiliza o computador para passar as informações aos alunos. Existem diversas inquietações em relação às metodologias da Educação a Distância com auxílio do computador.. Assim. “ele insere sua realidade nos conceitos envolvidos no problema que está sendo resolvido”. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . baseado em situações reais de seu cotidiano. a abordagem construcionista não espera que o aluno apenas receba informações. representação e resolução de uma situação problema ou para a implementação de um projeto.. sobretudo. o aluno interage com o computador na busca de informações significativas para a compreensão. Cabe ao professor. neste processo. Assim. quanto às formas em que os alunos encaram o uso desse tipo de ferramenta.] estratégia educativa em que dois ou mais sujeitos constroem o seu conhecimento através da discussão.

Moran (2008) também considera que. Identidade constituída ao longo da história em função das interações dos sujeitos com os contextos que fizeram parte da formação desta região. procedimentos e currículos. Considerações finais A Microrregião de Governador Valadares teve sua história impulsionada por diversos ciclos exploratórios e por um peculiar fluxo migratório. burocrática e pouco estimulante para os bons professores e alunos (MORAN. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Identidade anômala. formalizando e contextualizando os conceitos (SCHLÜNZEN. mas de todos os sujeitos residentes na MGV. mas daquelas capazes de melhorar a qualidade de vida não apenas dos participantes das propostas educacionais. Entretanto. 2000). 2007). Eis porque se torna necessário que as IESs busquem quebrar alguns paradigmas na busca por aproximar a sociedade das demandas atuais revendo seus métodos.TERRITÓRIO. 340 . em sua maioria. de dar significado ao seu aprendizado. esta prática é vista por muitas instituições como uma despesa injustificada e um complicador em termos de cumprimento de prazos (FILATRO. É dessa forma que o sujeito acaba por descobrir uma maneira mais prazerosa de aprender. a prática da contextualização do ensino não é algo que as IESs estejam preparadas para aplicar em seu cotidiano.Nesse processo de ensino. são oferecidas condições para que ele tenha um aprendizado personalizado e contextualizado. apresentam de forma excessivamente previsível. que conspiraram para a construção de uma identidade regional desterritorializada. inovadoras e empreendedoras. Ao envolver um tempo de produção maior e uma ampliação na equipe elaboradora dos projetos educacionais. as instituições existentes têm sido previsíveis e burocráticas em demasia e pouco estimulantes para professores e alunos. O grande número de Instituições de Ensino Superior existentes na região contribui para a consolidação de um polo educacional com poder de direcionar investimentos e diretrizes políticas voltadas para o estabelecimento de qualificações especializadas. que faz com que os habitantes deste território tenham como ideal econômico e social trabalhar no exterior como emigrantes para construir um melhor futuro para suas famílias. Não se trata aqui de qualificações tradicionais. 2008). Elas precisam se tornar instituições efetivamente significativas.

consequentemente. Bauru: Edusc. 2009.4. Referências Bibliográficas CALEJON. Aldo. 8 de abril. Nós nunca estudamos tanto. Etty Guerra de. CONSENTINO. na busca por se especializar através de cursos de PósGraduação a distância. Aborda-se aqui a EaD mediada pelo computador não como mais uma possibilidade da educação./abr. A Educação a Distância é mais antiga do que parece.49-58. Haruf Salmen. Entretanto. 42-45. p. Nelson. como uma evolução natural do processo de ensino aprendizagem pós-moderno. Obviamente que políticas públicas precisam ser instauradas na intenção de potencializar a aplicação destas especialidades. A utilização desta modalidade de ensino contribui para a geração e de mão de obra especializada e para o desenvolvimento regional. TERRITÓRIO. sim. São Paulo. mas estas soluções em EaD precisam promover a experimentação e a modificação do contexto regional. QUEIROZ. Curitiba: v. n.1. tratar a experiência adquirida na modalidade a distância em algo cada vez mais real. Os computadores têm adquirido cada vez mais recursos capazes de ampliar possibilidades de interação e. os projetos educacionais contextualizados percebem que a chave para o sucesso está na valorização das variáveis locais. 2001. mas. ESPINDOLA. Neste sentido. sendo aplicável para a melhoria da qualidade de vida de todos os envolvidos. de forma que cada um possa potencializar seu aprendizado de acordo com sua identidade. Serena. a oferta contextualizada de cursos de Pós-Graduação a distância por parte das IESs localizadas na Microrregião de Governador Valadares constituem uma alternativa viável para o aprendizado e sua consequente aplicação em nível local e global.Geralmente. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Revista FAE. Sertão do Rio Doce. COLOSSI. 485 p. Especial Consumo. vale lembrar que ela atravessa atualmente uma revolução tecnológica comparável à revolução industrial e à cultural que existiram na primeira metade do século XX. p. 2005. Exame. os habitantes da MGV buscam a aplicação dos conhecimentos adquiridos em outras terras. Ao promover caminhos diferenciados aos alunos.341 . jan. Mudanças no contexto do Ensino Superior no Brasil: uma tendência ao ensino colaborativo. sem abrir mão das condições gerais.

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A abordagem histórico-social da violência e suas implicações este início de século XXI. faz-se necessária uma análise do processo histórico que conduziu a essa compreensão e uma reflexão do impacto dela na organização social. estabelecendo uma relação fundada no binômio dominação1 Mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais.. que pode alcançar as dimensões material. Atua na área de violência e criminalidade. TERRITÓRIO. a racionalidade embutida em sua prática. O primeiro movimento nesta direção deve buscar o significado do termo “violência” e. a dimensão de desigualdade em que se instaura.. A definição do que é violência subordina-se a alguns princípios inerentes à manifestação desse fenômeno: a noção de coerção ou força. aí.] um dispositivo de poder. Entendida como “[. seja o seu alvo o sujeito particular. É professora de Sociologia e Metodologia da Pesquisa Científica na Universidade Vale do Rio Doce – UNIVALE e é responsável pela linha de Pesquisa “Violência e Criminalidade” do Núcleo Multidisciplinar de Estudos Regionais – NEDER/UNIVALE. 23). a violência compõe uma das questões sociais que adquire grande importância no imaginário dos cidadãos e agencia um montante considerável dos investimentos governamentais no Brasil e em grande parte do mundo. tem-se a primeira elucidação a respeito deste fenômeno.Considerações sobre os estudos que abordam o fenômeno da violência: reflexões a partir do caso de Governador Valadares Cristina Salles Caetano1 I . tendo trabalhos de análise da distribuição de crimes violentos na cidade de Governador Valadares.345 . a sua configuração em contextos histórico-culturais específicos.. em que se exerce uma relação específica com o outro mediante o uso da força ou da coerção [. não há como negar o dano social causado por ela. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . física e/ou simbólica. N Para entender a maneira como a violência é socialmente percebida nos dias atuais..]” (SANTOS. comum às sociedades humanas. as instituições sociais ou uma massa indiscriminada de cidadãos. 2002. p.

. 1999) denomina como uma forma de sociabilidade que.. uma vez legitimada por parcela da sociedade..]. 13).d apud ZALUAR. contínuo. p. mas é vista antes como algo natural. criando as desigualdades e suas consequências... ela se faz presente no cotidiano das sociedades. sexo e idade. salários injustos. Quem define o ato violento? Os que detêm o poder. o desemprego e todos os problemas sociais com que convive a classe trabalhadora. Neste sentido... que obrigaram suas mães a se prostituírem. podendo se manifestar em várias instâncias sociais.submissão (SANTOS. Segundo Zaluar (1999. É importante entender que a delinqüência não é um fenômeno natural e muito menos pode ser explica346 . drogas. Assim. castiga-se como ato violento o roubo de 100 cruzeiros (sic).] a delinqüência [.. Por violência estrutural entende-se aquela que nasce no próprio sistema social. a violência deve ser entendida como “[. retardadas. É uma violência silenciosa. em todos os tempos e espaços historicamente constituídos. a violência estrutural não costuma ser nomeada. 10-11). Essa é a forma mais comentada pelo senso comum como violência. como a fome.. em sintonia com o conceito proposto anteriormente. que sonegaram impostos. como todas as formas de iniqüidade social. delitos sob o efeito do álcool. Ninguém pode responsabilizar ninguém pelas dezenas de milhares de crianças subnutridas. [. furtos. como a própria ordem das coisas e disposição das pessoas na sociedade. 2002). a-histórico. que burlaram a previdência social” (D’AVILA s.. bestificadas. Estão aí incluídas as discriminações de raça. Cuidadosamente velada. e este argumento se aproxima ao que Santos (s. 09-10). e não como um fim [.] compreende roubos.] um instrumento. Minayo (1990. porque é um ato violento. a revolucionária e a delinqüência e afirma que [. apud ZALUAR. 1999. tiroteios de gangues.]”. Mas ninguém ignora que elas também foram vítimas de assaltantes. seqüestros.TERRITÓRIO. aqueles que deram um salário de fome a seus pais. etc... não são caracterizadas como atos violentos. “As primeiras formas de violência (que vem de cima para baixo) são as propiciadas pelas estruturas sociais iníquas. identifica três tipos de violência: a estrutural. por exemplo.. sadismos.d. famintas. Como definem o ato violento? Como transgressão das regras criadas pelo mesmo poder. mas ficam impunes violências muito maiores. pilhagens. tuberculosas.. possibilita o controle social aberto. se entre essas regras existem regras violentas. p. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . p.

da alienação dos indivíduos. deTERRITÓRIO. O aumento da criminalidade se alimenta das desigualdades sociais. no processo histórico de constituição da Modernidade a violência. aqui entendidos como “Estados-nação”. Quando se fala em violência. por isso. é inegável que na atualidade o fenômeno é percebido socialmente em um sentido bastante específico. aquele conjunto de práticas violentas que foram progressivamente criminalizadas no contexto de constituição dos Estados Modernos. não é mais um rebelde. p. tendendo. à criminalização.da pela conduta patológica dos indivíduos e muito menos ainda como atributo dos pobres e negros. do desejo do lucro fácil e da perda de referências culturais.. A ‘guerra civil’. e mais especificamente da Europa. Analisando as condições de desenvolvimento do Ocidente. passa a ser definida como desvio – comportamento socialmente indesejável. 205). com exceção de critérios demasiadamente restritos à submissão material.. este autor observa que. do culto à força e ao machismo.347 . Se o conceito de violência é amplo e perpassa a experiência social de todos os tempos e lugares.] O ‘criminoso’. ou seja. ou exigiram. “[. onde ocorre. geralmente está-se abordando o fenômeno identificado como “criminalidade violenta”. substituem amplamente essas influências. Mas no Estado-nação. mais o policiamento. 2008. da desvalorização das normas e dos valores morais. no processo de modernização. bastante significativas entre as autoridades de Estado e agrupamentos de classe rebeldes ou outros grupos dissidentes organizados” (GIDDENS. mas um tipo de ‘desviante’ que deve ser ajustado às normas de comportamento aceitável como o definido pelas obrigações da cidadania. normalmente é distinguida mesmo das confrontações violentas. no sentido adotado por Giddens (2008). Giddens (2008) afirma que a nova percepção da violência e a prática socialmente instituída de controle dela é parte de um processo histórico-social preciso. a necessidade da aquiescência regularizada da população. Nos tipos anteriores de sociedade as classes dominantes não buscaram. em específico. A manutenção da ‘ordem’ – um termo que não possui a mesma aplicação em qualquer caso naqueles tipos de sociedade – foi o pretexto de uma combinação de controle da comunidade local e de possibilidade de intervenção quando necessária. o encarceramento. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Segundo este autor. o Estado se organiza territorialmente. até então socialmente tolerável e objeto de práticas individuais ou comunitárias de resolução de conflitos.

garantir a ordem interna. a partir da formação desse tipo de sociedade. Para o bom desempenho dessas atribuições. pois a violência torna-se prerrogativa da função administrativa do Estado – só esta instituição pode praticá-la. por assumir atribuições que são de natureza administrativa.limitando claramente as suas fronteiras e criando uma unidade cultural nos limites do seu território . e com o objetivo de garantir a ordem ou defender os interesses da nação. compõem um sistema. que tinham ampla autonomia em relação à regulação das leis e das medidas punitivas. A isso é acrescentado um considerável desenvolvimento industrial e o processo de burocratização das instituições sociais. o Estado torna-se um poder administrativo que possui as seguintes atribuições: controlar a comunicação e o armazenamento das informações. da centralização do poder político e da urbanização. Antes da emergência dessa nova estrutura organizacional. Para isso. agora como organizações no sentido burocrático do termo (argumento weberiano). internamente organizadas para o controle da violência. a violência era administrada difusamente por nobres e seus representantes comunitários. Segundo Giddens (2008). O papel do Estado foi importante neste processo. ou seja. Na nova estrutura política. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . no contexto internacional. que se tornam um power-container. pois territorialmente organizado tomou para si a responsabilidade do controle da violência. uma vez que elas se tornam interdependentes e se articulam em função de um projeto comum (GIDDENS.situação até então inalcançável pelos modelos de Estado anteriormente estabelecidos. o processo de pacificação interna dos Estados-nação decorreu das condições histórico-sociais relacionadas com o desenvolvimento do Capitalismo e Industrialismo. agora denominadas “organizações”. no século XIX. desenvolve processos de elaboração. política e social. 2008).TERRITÓRIO. Isso significa dizer que. o Estado se articula com as outras instituições sociais que. na experiência cotidiana. disseminação e aplicação das leis e elabora estatísticas oficiais que têm como função orientar as ações do Estado. As sociedades caracterizadas como Estados-nação seriam “pacificadas”. há uma tendência à diminuição das manifestações violentas. e defender os interesses nacionais. A pacificação se dá sobretudo no contexto interno. Isso se impõe como uma exigência decorrente da unidade territorial que marca a formação dos Estados-nação e da responsabilidade assumida por estes. 348 .

espetacular.] ‘A privação da liberdade’ torna-se o principal meio punitivo.] sobre quão longe a tendência relativa ao confinamento como uma sanção punitiva corresponde aos ideais humanos é.. [.. em alguns aspectos. p. possível através da vigilância das condutas individuais. 2008). uma expressão da centralização que os direitos ‘democráticos’ ou de cidadania vieram a assumir dentro do Estado.349 . do reconhecimento do direito à liberdade individual e do exercício da cidadania. O debate [.. escondida). Ao se tornarem um território nacional. 48).A pacificação interna não ocorreu aleatoriamente ou como parte de um processo natural de evolução humana. as sociedades industriais [. A consequência direta da criação de um sistema de vigilância social e da imposição do poder disciplinatório é o controle da violência. Neste sentido. que se faz presente em várias instituições sociais. de alguma forma.. O conflito aberto e o espírito guerreiro cedem espaço para a negociação e a conciliação de interesses divergentes (argumento de SPENCER. adota-se um modelo disciplinatório de punição. dependendo mais da cooperação conciliatória do que do antagonismo entre as comunidades humanas” (GIDDENS.] são por natureza pacíficas.. pois “[. mas resultou da capacidade de vigilância possibilitada pelo controle da comunicação e armazenamento de informações pelos Estados-nação. Isso contribui para a disseminação de um poder disciplinatório. criam a figura do criminoso e o princípio da privação da liberdade como o principal recurso contra o desviante (GIDDENS.. “[. É neste contexto que as leis consolidam a noção de desvio.] considerando que as sociedades pré-industriais são predominantemente guerreiras. equivocado. Ao fazê-lo. monótona.. aberta) para outra (disciplinatória. Isso se dissemina entre todas as instituições sociais.. em que o que é importante é o reconhecimento social de que a ordem se alcança através da adequação dos membros da sociedade à lei. 1979 apud GIDDENS.. A questão não é apenas se ocorreu uma transição de um tipo de punição (violenta.. mas que um novo complexo de relações coercitivas foram estabelecidas onde poucas estavam loTERRITÓRIO. podese afirmar que o alcance do comportamento pacificado dependeu.] A privação forçada da liberdade é. coube aos novos Estados a unificação formal das leis e o desenvolvimento da capacidade de fazê-las cumprir (processo de legitimação delas). 2008. 2008). SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . em grande parte. entre elas as empresas e os locais de trabalho.

base para a estabilidade social e pleno funcionamento das “organizações”. p. A diferença que se estabelece entre elas e os modelos de instituições político-sociais até então desenvolvidas reside no fato de que nelas os sujeitos regulam a sua conduta tomando como referência o princípio da “liberdade” (WALLERSTEIN. substancialmente interrompidas. não são por natureza não violentas..” (GIDDENS. pacificadas. mas em que também a classe dominante – aqueles que detêm ou controlam grande volume de capital – não têm ou não pedem acesso direto aos meios de violência para manter o seu domínio. Estas são intrínsecas à expansão do alcance administrativo do Estado. 1979 apud GIDDENS..] Em relação aos sentimentos de segurança ontológica. ou seja. 2008). 181-182) afirma que [. a produção envolve relações próximas e contínuas entre os principais agrupamentos de classes. 204-205) A conseqüência direta da expansão do poder disciplinatório como base da estrutura organizacional das instituições sociais é a diminuição da violência no contexto dos Estados-nação. Ao contrário dos sistemas anteriores de dominação de classe.] No capitalismo industrial há o desenvolvimento de um novo tipo de sistema de classe no qual a luta de classes é predominante.TERRITÓRIO. e.. não são isentas de conflitos ou oposição de interesses. como indivíduos. os membros de sociedades modernas são particularmente vulneráveis à ansiedade generalizada. e a rotinização da vida. penetrando nas atividades diárias – e à aquisição de um monopólio efetivo da violência nas mãos das autoridades do Estado. p.]” O processo de pacificação ou acomodação mais efetiva dos indivíduos à lei cria um sentimento de segurança ontológica – porque pensada como inerente à vida em sociedade. têm de confrontar dilemas existenciais corriqueiros omitidos pela segregação. Estas sociedades. por isso. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . 2008.. em particular nas obrigações geradas por ela. Isso presume uma ‘duplicação à vigilância’ os modos de vigilância tornando-se um aspecto chave das organizações econômicas e do próprio Estado. por alguma razão.. p. Giddens (2008. A criação de uma necessidade pela ‘lei e ordem’ é o lado reverso da emergência de concepções de ‘desvio’ reconhecidas e categorizadas pelas autoridades centrais e por especialistas profissionais.. O vazio 350 . 216) observa que [.[. Neste sentido Giddens (2008. alinham-se aos pressupostos do exercício da cidadania. ou quando as rotinas da vida social são.calizadas antes. Isso pode se intensificar quando.

novos padrões de relacionamentos são estabelecidos entre os membros da sociedade (ELIAS. 1993).] Neste ponto. especializando-se em determinadas atividades econômicas e competindo entre si no novo mercado de trabalho. 1997) sobre o processo civilizador que culminou na configuração da “modernidade” apresenta-se como complemento às reflexões de Giddens. Para ele. integração e interdependência. gerando neles novas formas de relacionamento. no sentido de se caracterizar como um sistema em que os indivíduos. Na análise desse processo histórico. vinculam-se a estruturas maiores – as organizações. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .351 . embora ajam individualmente. passando pelos Estados Absolutistas e desembocando nas revoluções liberais e seu principal desdobramento. a Revolução Industrial (ELIAS. Elias trata o tema na perspectiva das implicações das transformações políticas. Para Elias (1993). suas ações dependem do concurso de vários outros indivíduos. a tese de Norbert Elias (1993. os seres humanos se entrelaçam no desempenho das funções sociais. À medida que estas mudanças se processam. Abordando o processo histórico que conduziu às sociedades urbano-industriais (Civilização em Elias e Estados-nação em Giddens). À medida que estas mudanças ocorrem. a circulação da moeda. 1993). Neste sentido. econômicas e culturais na configuração do que ele denomina de uma nova “personalidade social”. gerando o princípio da interdependência das funções sociais. [...das rotinas seguido pela vida social moderna engendra uma base psicológica para a incorporação de símbolos que podem tanto promover solidariedade quanto causar separação. Portanto. organizados em funções sociais especializadas. progressivamente o livre TERRITÓRIO. a sociedade se torna uma “rede”. submetendo-se mais à vigilância uns dos outros. para ajustarem-se às novas exigências decorrentes das mudanças em curso. o processo se inicia na transição entre o feudalismo e o capitalismo. A centralização política. o estabelecimento de relações internacionais e a nova ordenação social proporcionada pelo surgimento da burguesia foram decisivos para a decadência da ordem consolidada na Idade Média européia. 1994. confere especial atenção às mudanças que todas estas transformações produzem no comportamento dos indivíduos. pois as alterações geradas pelo processo de produção e comercialização exigem o concurso de muitos braços para a sua efetivação. As relações sociais se tornam mais complexas devido ao renascimento comercial.

uma vez que a sua manifestação demarca a incapacidade da sociedade de ser efetivamente significativa para os seus membros.] se um considerável número de jovens teve sufocadas suas oportunidades de expressão. Aos que não conseguem alcançar este padrão de comportamento. de seus olhos e expressão. Isso impõe como contrapartida do Estado e das instituições sociais a capacidade de garantirem um nível mínimo de satisfação individual. “O homem que conhece a corte é senhor de seus gestos. Nele. como meio de fazê-los cumprir a lei – que por sua vez tem a função de ajustá-los socialmente. comedido. 226).. e particularmente a ação dos jovens neste contexto. sejam justificadas pelo “valor” que carregam. é substituído pela racionalidade da precisão da ação e do autocontrole. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . No novo contexto histórico-social. a mudança nos padrões de comportamento ou conduta humana gera nos indivíduos uma maior vigilância mútua. É um homem profundo. o indivíduo ajustado é aquele que se caracteriza pelo comportamento racionalizado. age contra os sentimentos”. rejeita o que quer o coração. capaz de controlar as suas emoções e canalizar os seus sentimentos para as questões definidas como relevantes para a sociedade.curso das emoções e dos impulsos naturais. Dissimula as más ações que comete. então existe uma emergência na sociedade. Este é o padrão de comportamento individual socialmente imposto como desejável no contexto que Elias denomina como “processo civilizador” do Ocidente.. p. Elias (1997. sorri para os inimigos. em decorrência do aumento do controle social sobre e entre os indivíduos. que lhes possibilitem a identificação com a ordem estabelecida (ELIAS. p. nos indivíduos. disfarça as paixões. que tende a tornar-se autovigilância. O processo de pacificação exige dos indivíduos uma autodisciplina que só pode ser mantida à medida que as condições sociais impostas a eles sejam incorporadas como significativamente válidas. cabem o estigma de “desviantes” e a punição processual. São nestes termos que a pacificação pode ser entendida como uma compulsão para o autocontrole. Segundo La Bruyére (1922 apud Elias. 186) afirma que “[. Analisando os confrontos alemães das décadas de 1960 e 1970. impenetrável. 1993.TERRITÓRIO. reprime o mau-humor. instaura-se um vazio existencial que cria a possibilidade da explosão da violência como um discurso. ou seja. como ainda hoje ocorre com freqüência. 1997). um potencial 352 . À medida que isso não é possível.

sobretudo para garantir os interesses do capitalismo e do industrialismo.353 . Além disso.. modernizando-se sem. sobretudo em países onde os ideais de liberdade e o exercício da cidadania são limitados por Estados que fundamentam a sua autoridade em padrões ditatoriais de governo – situação em que o Brasil se enquadra em grande parte do seu percurso histórico2.]” Neste ponto do texto. seus modelos organizacionais.. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . do sentimento socialmente construído em relação a este fenômeno e das representações sociais relacionadas à sua manifestação na atualidade. para disseminar o sentimento de segurança proporcionada pelo Estado. assim.explosivo que. há o exercício dela pelo Estado – que legitima a sua ação em nome da “ordem”. serão desenvolvidos alguns argumentos. embora também não se possa negar que haja um esforço governamental e das instituições sociais nesta direção. da sua progressiva criminalização no contexto ocidental. grande parte do mundo alinhado aos interesses do Ocidente o faz marginalmente. nem sempre é conseguido. No que se refere especificamente ao padrão “civilizado” de comportamento. Não se pode dizer que o processo de pacificação seja homogêneo. repetidas vezes. devem-se tecer considerações acerca da violência. TERRITÓRIO. contudo. Neste sentido. conseguir incorporar. apesar da incorporação de padrões de desenvolvimento e organização social. o contexto moderno restringe o conceito da violência. embora haja uma tendência a se generalizar o processo de modernização do Ocidente como um fenômeno global. Nestes. muito mais do que o controle da violência. pode-se afirmar que. em movimentos que se colocam em pronunciada oposição às instituições políticas estabelecidas [. na maioria das nações modernas. no sentido de ajustarem-se aos interesses das potências mundiais. garantindo. Em primeiro lugar. stricto sensu. sob condições favoráveis. Para fazê-las. encontrará repercussão. deve-se considerar que. observa-se que. embora idealmente persigam isso. a sua autoridade. deve-se considerar que o que é global é a proposta de internacionalização dos ideais ocidentais. valorizando aqueles fenômenos que agridem ou ameaçam a integridade 2 Neste caso deve-se considerar o quão recente é o processo de redemocratização do Brasil – década de 1980. apesar de ser ele desejável. e o controle sobre as informações relacionadas à sua manifestação.

é necessário entender que. No país. aplicam-se ao caso de Governador Valadares. se as informações que se tem produzido sobre a violência restringem-se predominantemente à sua versão “criminalidade violenta”. deve-se perguntar se os padrões de violência eram menores ou se eles foram 354 . Ademais. que transformam o problema em mercadoria e formam opinião sobre ele. na atualidade a ocorrência desses fenômenos conta com uma ampla divulgação nos meios de comunicação de massa. Como conseqüência. disseminando na população o medo e incentivando a intolerância em relação aos agressores. punindo exemplarmente o transgressor. tornando-a um problema nacional. Sem desconsiderar a importância dos investimentos. as discussões em torno da violência se disseminam no processo de redemocratização decorrente do fim da ditadura militar. em função do reconhecimento de que neste contexto houve uma “explosão” da criminalidade violenta. específicas ao Brasil e que. Por fim. A maneira como o problema é tratado tem a função de sanear o desvio e restabelecer a “ordem” ameaçada. esta abordagem focaliza o problema no transgressor. a maioria deles tendo como fontes de informação dados oficiais. estratégias de enfrentamento do problema e das pesquisas desenvolvidas na área. Roubo. outras violências decorrentes da desigualdade social inerente ao processo de industrialização e urbanização também se constituem ameaça à liberdade individual. sem que isso seja reconhecido como tal e gere punição aos transgressores. Assalto. por isso. Há de se considerar que a progressiva criminalização deles decorreu da ameaça que representam em relação aos princípios da liberdade individual valorizada no contexto da modernidade e isso é legítimo.física e os bens da vítima. Em primeiro lugar. na década de 1980. Porém. que representa uma ameaça à sociedade. Estão entre eles os crimes violentos denominados Homicídio Tentado e Consumado. É também aí que uma série de estudos sobre a violência é desenvolvido por grupos de pesquisa especializados na área.TERRITÓRIO. Sequestro e Latrocínio. os Governos federal e estaduais ampliam os investimentos destinados à elaboração de informações oficiais que permitam dimensionar o tamanho do problema e estabelecer estratégias de ação. algumas considerações devem ser feitas sobre este processo. na maioria das vezes sem nenhuma consideração para com o contexto em que a violência ocorre. Estas questões levam a outras. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .

por parte das instâncias governamentais. etc. por parte do Estado e de uma parcela considerável da sociedade.355 . os agressores e vítimas tivessem a mesma experiência de vida e. é necessário considerar que dados oficiais são importantes e são as fontes mais seguras de análise. Neste caso deve-se considerar o impacto que o registro de casos de violência tem. em decorrência de vários fatores: insegurança e desconfiança das vítimas em relação aos agressores e aos setores administrativos responsáveis pelo registro. a mesma motivação5. como conseqüência. amplamente difundida pelos meios de comunicação de massa. como se a situação que ocorre “aqui” fosse idêntica à de “lá”. deve-se considerar o limite do enfoque centrado na criminalidade violenta urbana. Aqui não se pode negar o caráter internacional de muitos crimes. também não se pode cair no erro de se acreditar que todos os crimes têm vinculação direta com eles e podem ser explicados a partir deles. assim. armas. apesar do fato de que dependem da adesão da sociedade ao processo de notificação de casos. Como conseqüência. desconsiderar o fato de que vários estudos demonstram o crescimento das taxas de violência no Brasil. muito do que se produz em pesquisas e projetos políticos de controle e prevenção da violência fortalece a estrutura social vigente e. com o objetivo de manutenção da ordem. e avaliação. situação que orienta a decisão sobre a maneira mais adequada de fazê-los4. com esta discussão. Porém. TERRITÓRIO. ocultando as muitas variáveis que permeiam a ocorrência desse fenômeno e que são elementos explicativos deles. por exemplo. em Estados e cidades brasileiros com alto potencial turístico. do impacto político e econômico de tais registros. de que a maneira como o fenômeno se manifesta internamente e nos vários espaços territoriais do Brasil se identifica com o que ocorre em outros países. o que seria garantido pela censura à disseminação de algumas informações por parte do Governo3.ocultados pela ditadura militar. consequentemente. nas três últimas décadas. Isso contribui para a aplicação interna de políticas e medidas vindas de “fora”. Isso parece parte de um projeto político que focaliza o crime a partir da figura do criminoso e não da estrutura social. 3 4 5 Não se pretende. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Depois. Outra questão relacionada ao problema da violência no Brasil refere-se à aceitação. especialmente aqueles ligados ao tráfico de drogas. deixando. respectivamente. não produz uma mudança substantiva em relação ao problema. Além desses aspectos. Muitos crimes não são registrados oficialmente ou o são parcialmente. desinteresse ou incapacidade técnica dos profissionais responsáveis pelos registros. quando se pretende estabelecer estatísticas criminais. de tocar o problema na sua raiz.

496 habitantes7. embora com uma população menor – 212. 356 .703 habitantes. A seguir. Ipatinga é o outro município que. As características destes dois municípios colocam a Região de Planejamento Rio Doce em evidência no contexto estadual. serão relatados os resultados dos estudos de base nacional. na proporção de –2. Governador Valadares faz parte dos 102 municípios que integram esta região administrativa. 2003). o crescimento rural do município foi negativo. Sede do município que recebe o mesmo nome. 2004. segundo o censo de 1991 se organizava em torno de treze distritos. estadual e municipal que demonstram a situação de Governador Valadares nas estatísticas relacionadas com a violência.O município de Governador Valadares Governador Valadares é uma cidade localizada no leste de Minas Gerais.TERRITÓRIO.9% da população regional6 (FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO.000 habitantes. Na região. será realizada uma breve descrição da condição sócioeconômica do município. sendo que no distrito sede concentrava-se 93% dela. Governador Valadares se destaca por estar entre os vinte municípios mais populosos de Minas Gerais (FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO. se considerados o tamanho da população.534.131 habitantes. que. Nesta categoria. que naquela época comportava uma população de 230. II .524 habitantes (PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO. percorreu um processo histórico que fez dela um pólo regional.Isso é observado na maneira como a violência é percebida e tratada no Brasil. Neste período. no intervalo entre 1991 e 2000. Antes disso. porém. ou seja. 2004). 118). p. No contexto estadual. Emancipada politicamente em 1938. divide com Governador Valadares a posição de pólo regional.5% ao ano e produziu um grau de urbanização correspondente a 75.268 habitantes. Inserido administrativamente na Região de Planejamento do Rio Doce. o grau de urbani6 7 Segundo a mesma fonte em 2000 a população da região de Planejamento Rio Doce era de 1. Dados referentes ao Censo de 2000. 229. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . enquadram-se os territórios político-administrativos com população maior que 100. Em 2000 esta população era de 247.9% ao ano. teve uma taxa de crescimento de 0.

803. Central.357 . citados por Simão (2004. do complexo siderúrgico do Vale do Aço. Timóteo e Santana do Paraíso. estando abaixo dela somente as regiões Norte de Minas e Jequitinhonha/Mucuri8. considerando-se os dois anos censitários em análise. que não oferecem a mínima condição de vida para a população[. que opõe dinamicidade e modernidade.]” (QUEIROZ. com localidades atrasadas. respectivamente. o Vale do Aço apresentou um IDH-M nos valores de 0. Neste caso embora a economia mineira ocupe o 3º lugar no ranking nacional. isso tenha refletido nas regiões administrativas. 2001 apud SIMÃO . 23). e menor do que o da região metropolitana do Vale do Aço (RMVA)9.656 e 0. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Por outro lado. no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M). Alto Paranaíba. e de Governador Valadares são 0. Nela se encontram os municípios de Coronel Fabriciano. p. pois os demais municípios. Segundo a Fundação João Pinheiro (2004).] regiões dinâmicas. 8 9 As outras regiões de planejamento são Triângulo.. porém. que não se localizam no complexo. Mata e Noroeste de Minas. Segundo a Fundação João Pinheiro (2004). o IDH-M de Governador Valadares é melhor do que o regional – expressando o desenvolvimento do município.772. como conseqüência. e. 2004).. A análise cuidadosa desta informação. encontram-se no seu interior “[. ela está entre as regiões mineiras que produzem um PIB superior a quinhentos milhões de reais por ano.” O que é observado no âmbito regional expressa uma situação comum ao Estado de Minas Gerais. majoritariamente. de outro (Simão. revela as disparidades que ocorrem no interior da sua organização. também. estagnadas. Por isso afirmam estes autores que “[. pois. TERRITÓRIO. este PIB é extraído. modernas e com indicadores sócio-econômicos de alto nível. de acordo com Ferreira (1996) e Santana (2002). Os valores da Região do Rio Doce são 0. Sul de Minas. não são dinâmicos economicamente.. Centro-oeste de Minas. pois.. a Região Rio Doce ocupa o 8º lugar no ranking estadual. 3) A desigualdade entre as regiões de planejamento mineiras e no interior delas se revela. 2004.. respectivamente. embora tenha havido um aumento deste índice no intervalo entre 1991-2000 no âmbito estadual.773 e 0.zação que comportam e o produto interno bruto (PIB) que produzem. de um lado.717 e 0. a Região Vale do Rio Doce torna-se problemática. segundo Simão (2004). e atraso e estagnação. Ipatinga. no período. p..] se excluirmos os municípios que compõem o Vale do Aço.739.

em 2000. A renda per capita média do município cresceu 45. Médio Completo. Com base nestes dados.34 a R$333. no interior da Região de Planejamento Vale do Rio Doce.15 a R$756.440 habitantes.14) e alta (R4771. Na variável escolaridade.8% em 2000. pois. Médio Incompleto. demonstrando o ajuste deste espaço ao que acontece no país.59. onde se observa a tendência à concentração urbana. Superior.76 a R$446.58). Pós-Graduado (UFMG/IPEAD e FAGV. em 2000 ficava em torno de 0. a 227. alguns deles agregados. embora tenha havido crescimento sócio-econômico do Estado. pois o Índice de Gini. Alfabetização de Adultos.As diferenças reveladas na variação dos índices dos IDH-Ms. respectivamente. através de outros indicadores sociais. por serem recentes e não terem ainda claramente definidos os seus limites territoriais.50 passou de 36. Esta situação permite a inferência de que estas desigualdades se manifestam na forma de concentração de renda. média-alta (R$472. ou seja. Para compor o perfil sócio-econômico da cidade. Fundamental Incompleto. fez o levantamento da renda e do nível de escolaridade dos chefes de domicílio particulares permanentes. isso não produziu condições homogêneas para a totalidade das regiões que o compõem.34 e R$2585.62 (PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO. por 80 bairros. a 99% da população da cidade. foi realizada uma pesquisa.58. e houve um crescimento de 2. tomaram-se como referência os indicadores: Sem Curso.TERRITÓRIO. pois o percentual da população com renda domiciliar per capita abaixo de R$75. Observou-se que a renda mínima e máxima desses chefes oscilava entre R$191. baseada nos dados censitários de 2000.5% da parcela da população composta pelos 20% mais ricos. que. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Eles revelam que a pobreza diminuiu.68 a R$2585. a cidade de Governador Valadares era composta. Essa situação pode ser observada. A população da área urbana correspondia.2% em 1991. Segundo dados do UFMG/IPEAD e FAGV (2004). foram construídos os seguintes indicadores: renda: baixa (R$191.15).15). média-baixa (R$338. cresceu a desigualdade social. para 26. são indicativas das desigualdades sociais que permeiam o desenvolvimento do Estado de Minas Gerais. 2003). 2004). naquela época.23%. 358 . na década de 1990. A desigualdade sócio-econômica é observada na organização do espaço urbano. Fundamental Completo. Em compensação. em Governador Valadares. que demonstram as condições de desenvolvimento local. que em 1991 correspondia a 0.

45% são alfabetizados. Os registros escritos e a memória oral relacionam os crimes de Homicídio como a marca mais característica da violência que reinava no município. 87. estadual e nacional sobre a violência Governador Valadares é um município que. desde a sua origem. 2004). 2. nas estatísticas nacionais.50% deles são do gênero masculino. O rendimento médio dos chefes de domicílio é de 4.359 . o seu desenvolvimento fundamentou-se.25% deles estão nas classificações Renda Baixa e Médiabaixa. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .1 . dentre estes.08% têm até o ensino fundamental completo ou incompleto. em oposição a 25% dos chefes de domicílio que enquadram-se na classificação Renda Alta (UFMG/IPEAD e FAGV. apenas as taxas de criminalidade violenta do município.28% enquadram-se na faixa etária de 20 a 49 anos. a partir da década de 1980. Segundo o imaginário social dos moradores antigos de Governador Valadares. expressa no crescimento dos indicadores sociais apresenTERRITÓRIO. 73. sendo que 73. sendo que.21%.Caracterização de Governador Valadares nos estudos de base local. o Vale do Rio Doce e a cidade de Governador Valadares. estão entre as áreas que apresentam as taxas mais elevadas de crimes violentos no Estado. Nos dias atuais. Outros resultados conduzem à conclusão de que em sua maioria os chefes de domicílio estão enquadrados nas categorias de renda baixa e média – sendo que 51. Compondo o cenário sócio-econômico de Governador Valadares. outra variável surge como marca local: a violência e a criminalidade. 62. em 2000. ela se desenvolve em meio à relativa melhoria da qualidade de vida da população. entre o progresso e a violência. de 0 a 5 salários mínimos. estaduais e locais. embora neste aspecto sejam enfatizadas. estudos realizados sobre a distribuição de crimes violentos nas regiões de planejamento de Minas Gerais revelam que.A pesquisa chegou à seguinte caracterização dos chefes de domicílio: 71. Este assunto será abordado a seguir. segundo o imaginário social dominante na cidade. carrega o estigma de ser um espaço violento. Vivendo a sua ascensão e apogeu como pólo regional no período que se estende da década de 1940 à década de 1960. Na atualidade. recebiam. no primeiro momento a criminalidade local ajustava-se à euforia em torno das possibilidades econômicas da cidade. nos seus primeiros anos.5% deles.

Se historicamente a cidade sempre se destacou no cenário mineiro como produtora de inúmeros crimes. Em 1991 Governador Valadares enquadrava-se entre os dez municípios mais violentos de Minas Gerais (BEATO FILHO. UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. Agregando-se os crimes segundo as categorias estudadas. no contexto estadual e da nacional. s. e em 1998 o município se destacou por ocupar o 1º lugar no ranking dos municípios da Região Rio Doce no que se refere às taxas de Homicídio (RIGOTTI e AMORIM FILHO. A comparação entre as taxas médias de crimes violentos ocorridos em Governador Valadares. 360 . 2007). no período de 1998 a 2006 (CAETANO. Outra conclusão produzida por este estudo informa que. paralelo ao crescimento das taxas de crimes interpessoais. há o crescimento expressivo das taxas de crimes patrimoniais.TERRITÓRIO. s.9 crimes/ ano e 929. pois a comparação das taxas médias de índice de crimes/ano entre os períodos de 1998-2002 e 2003-2006. entre os anos de 1998 e 2002.d. 2005). observou-se que. respectivamente. Homicídio Consumado e Homicídio Tentado. ocorridos em Minas Gerais entre os anos de 1980 e 1995.d). entre os municípios com elevadas taxas de crimes violentos. Em outro estudo. Assalto. Neste sentido. 2005). 1998.). SILVA E PINTO. E FAJNZYLBER s. considerando-se os anos limites do estudo. observa-se o crescimento do número de crimes violentos. Mas estes dados também revelam a ampliação da desigualdade social e a vulnerabilidade econômica do município.). se considerado o desenvolvimento de outros municípios e regiões de planejamento de Minas Gerais. até então destacada pelas altas taxas de Homicídio (CAETANO. d. Esta situação revelaria uma nova dinâmica da criminalidade local. revelou que a Microrregião do Vale do Rio Doce estaria entre as regiões mais violentas do Estado no que se refere às taxas de Homicídio.tados pelos dados censitários dos anos de 1991 e 2000. hoje ela se localiza.5 crimes/ano. SILVA E PINTO. houve o crescimento das taxas em aproximadamente 50% (CAETANO. praticados em Governador Valadares. um estudo relacionado à organização dessa categoria de crimes. confirmam as análises produzidas por estudos de base estadual. e também entre aquelas de maiores taxas de Roubos (ARAÚJO JR. POLÍCIA MILITAR DE MINAS GERAIS. revelou os valores de 566. FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO. Dados sobre os crimes de Roubo. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .

Homicídios e mortes por arma de fogo. Considerando-se o índice de vitimização juvenil. e 35% para o Homicídio Tentado. por 73. um novo estudo se dedicou à análise da distribuição dos Homicídios nos 267 municípios do Brasil com população maior que TERRITÓRIO. Em Minas Gerais estariam 31 desses municípios.d. 556 municípios brasileiros (10% do número total de municípios) foram responsáveis. Quando os valores consideram as taxas de Homicídio juvenil. valor maior do que o percentual de crescimento populacional. em 2006. E FAJNZYBER. mas também como uma dentre as que apresentam taxas ascendentes de crimes violentos. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Estudos de base nacional também enfatizam a representação de Governador Valadares nas estatísticas da violência.3%. sendo que na escala dos municípios mineiros com as maiores taxas de Homicídio. O município também se destaca na estatística dos Homicídios por arma de fogo: está em 5º lugar no ranking mineiro (em relação a 12 municípios) e 45º lugar no ranking nacional. em particular no que se refere às taxas de Homicídio. ARAÚJO JR. Segundo o mesmo estudo (WAISELFISZ. 2008). que ficou em torno de 16. 68% para Assalto. BEATO FILHO. Utilizando como fonte de informação o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM). 66% para o Roubo. Governador Valadares ocupa o primeiro lugar no Estado e o 21º lugar no ranking dos 200 municípios do país que apresentam os maiores índices. s. A relevância das taxas médias dos crimes de Homicídio Consumado confirma as indicações comuns a outros estudos (RIGOTTI e AMORIM FILHO. em relação aos 200 municípios do país mais violentos. os resultados da pesquisa demonstram que.) que apontam Governador Valadares não apenas como uma das dez cidades mais violentas do Estado de Minas Gerais. nesta categoria (WAISELFISZ.nos dois períodos de estudo. Em 2009.3% dos casos de Homicídio no país. o município ocupa o 3º lugar entre os dez que apresentam as maiores taxas do crime. 1998. Waiselfisz (2008) analisa os números da mortalidade violenta no Brasil – incluindo aí o que classifica como Acidentes de Trânsito. no período em análise. 2007) demonstrou que o crescimento percentual das taxas foi da ordem de 71% para o Homicídio Consumado. por crimes (CAETANO. no período entre 1996 e 2006. Governador Valadares ocuparia o 4º lugar. por Estado. s. Em um deles.. 2008). houve o crescimento de 20% nos registros de caso de Homicídio.d.361 .

os resultados da pesquisa localizam Governador Valadares em 2º lugar no ranking dos 20 municípios que apresentam os índices mais elevados (OBSERVATÓRIO DAS FAVELAS. e a população adolescente e jovem. A reflexão aprofundada do problema demonstra.Proposição de uma abordagem alternativa para a compreensão do fenômeno da violência em Governador Valadares As estatísticas sobre a violência ocorrida em Governador Valadares.2 .000 habitantes. prestam grande serviço à sociedade. outros quatro municípios se destacam neste ranking: Contagem (13º lugar). nos anos recentes.IHA. Os estudos de base nacional também destacam os índices e taxas de crimes violentos no município. de maneira predominante. Betim (19º lugar) e Ribeirão das Neves (20º lugar). a necessidade de que novas pesquisas e políticas públicas sejam orientadas por metodologias mais elaboradas. Os programas e projetos voltam-se prioritariamente para a infância e adolescência e são importantes instrumentos de combate à violência. ocorram no município 327 mortes por Homicídio. Os dados demonstram a situação da violência. em Governador Valadares. 362 . enfocando particularmente a violência interpessoal – Homicídios Dolosos e Culposos. há uma expectativa de que em um período de sete anos. Ao fazerem isso. que sejam capazes de produzir uma visão ampliada do fenômeno da violência e da criminalidade urbana. novas pesquisas são propostas no âmbito local e políticas públicas de prevenção e controle dos crimes violentos são desenvolvidas pelo poder público estadual e municipal. considerando-se o ano de 2006 como referência. às informações do ano de 2006. Orientadas por estas informações. 2. Observa-se a coerência entre os estudos desenvolvidos no âmbito estadual e local e isso possivelmente resulta do uso das mesmas fontes de dados. Segundo a mesma fonte. Em Minas Gerais.100. embora com enfoques diferenciados. Baseando-se na construção de um Índice de Homicídios na Adolescência10 . entre os adolescentes. 2009).TERRITÓRIO. porém. Ibirité (17º lugar). SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . revelam informações importantes sobre a dinâmica da criminalidade violenta no município. à 10 Os dados de referência para a construção do IHA são oriundos do SIM e do IBGE e correspondem.

observa-se que variáveis como tamanho populacional – o fato de se inserir na categoria dos municípios brasileiros com população maior que 100. que se perdem na descrição dos dados e contribuem para a criação de muitos estigmas em relação a vítimas e agressores. [. à compreensão do que ocorre a partir “de dentro” – aqui entendida como a comunidade envolvida. ou seja.. Segundo o autor. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Essa nova dinâmiTERRITÓRIO. a partir de 1999. observase uma mudança na dinâmica da criminalidade violenta. a orientação de políticas públicas de prevenção e controle da violência. deixam de abordar especificidades e incoerências internas ao desenvolvimento sócio-econômico. porém. Além disso. que podem se transformar em importantes variáveis de explicação do fenômeno. No que se refere especificamente ao caso de Governador Valadares. proporcionam. taxas e percentuais que demonstram a evolução do fenômeno. Estes estudos. Ao descrever o ranking dos municípios brasileiros de maior incidência de violência. a existência de redes públicas e privadas ou a atração do meio cultural e natural.] Isso parece resultar de uma dinâmica territorial específica que ainda não é bem compreendida.. o processo de urbanização e a sua condição sócio-econômica contribuem para que este município seja alvo dos estudos nacionais que se dedicam ao levantamento dos municípios mais violentos do país e de Minas Gerais. Waiselfisz (2008) reconhece que. O que revelam são índices.medida que demonstram a situação de vulnerabilidade desta parcela da sociedade. Os limites das pesquisas se manifestam quando elas apresentam uma visão reducionista do problema.363 . se antes ela se concentrava nas grandes capitais e metrópoles. pela condição de desenvolvimento em que se enquadram. as estatísticas contribuem para a generalização de fatos marcados por historicidades distintas. nova abordagem técnico-científica e político-social do fenômeno. com os relatórios de pesquisa. um clima favorável ao espírito empreendedor. mas que comporta provavelmente aspectos como a identidade regional. sem se dedicarem à contextualização dele. Como conseqüência da adoção deste tipo de abordagem. por isso. fundamentada na apresentação de dados de natureza tipicamente quantitativa. exigindo. Esta deve considerar as condições de desenvolvimento regional e o impacto disso na organização da violência local.000 habitantes. nos anos recentes ela vem se interiorizando.

em confronto. Isso coloca a necessidade de que a abordagem qualitativa seja aplicada aos estudos de problemas dessa natureza.1999 apud WAISELFISZ. 1988). Isso deve ser objeto de análise. Um dos pressupostos teóricos que motiva este olhar sobre o objeto em análise parte da compreensão de que o espaço urbano é o resultado da interação de indivíduos e instituições sociais que se localizam em lugares.TERRITÓRIO. Diante das inúmeras variáveis que envolvem a questão da violência. que oscila entre a indignação e a descrença. formam a tessitura das relações instituídas (TELLES. Em ambos os casos há a tendência de se compreender que o problema é de responsabilidade do Governo e que medidas enérgicas devem ser tomadas para o enfrentamento dele. Três dimensões entrelaçadas nas trajetórias individuais e familiares. deslocamentos cotidianos nos circuitos que articulam trabalho.] na ótica dos atores. seguiu-se a construção de um imaginário sobre a violência.. No que se refere ao aspecto histórico.. que. A compreensão mais profunda do problema deve direcionar-se tanto para a dimensão histórica dele. [. SIMAN. o que é tecnicamente impossível. 8).] (ABROMOVAY. no século XIX. na atualidade. como para as condições de organização do município. espera-se que as medidas surtam efeito em curto prazo. 200. moradia e serviços urbanos.] trajetórias habitacionais. percursos ocupacionais. 2005.. o que se observa com a publicação dos resultados das pesquisas é uma comoção social em torno das informações. sentimentos e valores diferenciados. Além da análise histórica. entende-se que a abordagem quantitativa é frágil na sua capacidade de explicar em profundidade o problema da violência e criminalidade. focalizem não o fenômeno da violência em si. embasados na configuração atual do município. no município (ESPINDOLA. Nesta perspectiva. observa-se que à adoção de uma estratégia violenta de ocupação do território. entende-se que o urbano é caracterizado por “[. Além disso. 2007). SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . é necessário que novos estudos. Em relação à situação de Governador Valadares. essas formas 364 . 1998. mas a sociedade como um todo. no sentido de explicitar em que medida este imaginário colabora para a manutenção de padrões elevados de violência local. com predomínio da primeira.p.ca territorial do desenvolvimento estaria também impactando a distribuição geográfica da violência no país [....

] São esses circuitos que as trajetórias urbanas permitem apreender e que interessa compreender: a natureza de suas vinculações. 2002). faz-se presente em todas as mentes humanas. contribui para a composição de uma rede de significados que sustenta a vida em sociedade. KUPER. 2003). refletir sobre a violência comum ao espaço urbano exige a compreensão de que este ambiente caracteriza-se pela interseção de diferentes categorias e agentes sociais. no sentido que lhe é dado por Geertz (1989).. configurando. ser situados nos tempos e espaços em que as histórias se desenrolam. 2003). O urbano é o espaço da heterogeneidade. que. é através do comportamento humano. p. muitas vezes em oposição a outros indivíduos e às instituições sociais. onde os indivíduos e suas biografias demarcam o seu lugar no meio sociocultural (VELHO. é. a cultura (VELHO. Portanto. pode-se definir a cultura como um fenômeno público. assim.365 . que. que se articula a cultura. portanto. Assim. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . mediações e mediadores. agenciamentos da vida cotidiana que operam como condensação de práticas e relações diversas” (TELLES. 2003. Tempos biográficos organizam trajetórias que individualizam histórias de vida e estão inscritos em práticas situadas em espaços e circuitos urbanos que as colocam em fase com tempos sociais e temporalidades urbanas. Seus eventos precisam. constroem sistemas e redes de relações (VELHO. ao mesmo tempo. “[. 2007. Para ele. Este enfoque entende o problema da violência como parte do processo cultural. É por essa via que se deixam ver como pontes de condensação de tramas sociais que articulam histórias singulares e destinações coletivas. p. de maneira consciente ou inconsciente. ao interagir com outros indivíduos e suas representações.” (TELLES.de mobilidades não são apenas interdependentes. estruturante e estruturado pelo padrão da vida corrente. A experiência individual é o resultado de uma construção histórico-social. TERRITÓRIO. ao interagirem. fazendo configurar um todo coerente que é o sistema cultural.. 23-24). que se manifesta na ação dos indivíduos. 2007. Aquele – o comportamento. mas diversas facetas de um processo único de reorganização das condições de existência. Estas sustentam a vida em sociedade e transformam as aparentes contradições e/ou oposições de interesses em parte de um todo coerente e fundamental ao funcionamento social. 26). que.

Ao compreender as cidades como “sistemas de redes e relações”. Neste contexto. são produtos da inter-relação entre as várias ações sociais de sujeitos subjetivamente motivadas. Em lugar de considerar os indivíduos como determinados por instâncias englobantes anteriores.16).. mas possa produzir mecanismos eficazes de resolução do problema. Entende-se que estes. p. os mapas culturais são espaços demarcados territorialmente. ao se posicionarem em lugares socialmente diferenciados. Nesta perspectiva analítica. que tanto incomoda a sociedade e gera expressivos gastos governamentais voltados para a sua prevenção e controle. aplica-se o conceito de “Mapa Cultural” proposto por Ortiz (2000. embora existam limites internos e externos a eles. no qual a dinâmica global se faz a partir do movimento de cada uma das partes”. a partir da interação de sujeitos que se localizam em espaços ou territórios diferenciados e aparentemente antagônicos.TERRITÓRIO. 2003). também se tornaram matéria da antropologia. p. Os primeiros caracterizam-se pela demarcação das identidades que definem cada “foco cultural”... sendo que as partes estão em contato permanente. A adoção da abordagem qualitativa na análise do fenômeno da violência urbana é a condição para que ele seja não apenas entendido em profundidade. As identidades urbanas devem ser percebidas como uma complexidade marcada pela multidimensionalidade do mundo real.. os indivíduos. contribuem para a configuração de uma realidade que. como prerrogativa para a compreensão desses espaços: [. 72): “[. reconhece-se a importância que os sujeitos sociais e suas trajetórias de vida têm. 1991). Neste sentido. no processo de construção de um saber sobre a 366 . passava-se a estudá-los como intérpretes de mapas e códigos socioculturais. não se pode negar. na sua singularidade.] Dessa forma. 2003. e os externos expressam as fronteiras territoriais em que podem se projetar socialmente. o pesquisador é motivado pela necessidade de compreender como os processos sociais se estruturam (WEBER. enfatizando-se uma visão dinâmica da sociedade e procurando-se estabelecer pontes entre os níveis micro e macro (VELHO. Segundo este autor. onde se manifestam diferentes níveis e províncias de significados (VELHO. à medida que eram percebidos como sujeitos de uma ação social constituída a partir de redes de significados.] um espaço ocupado por unidades diferenciadas. ao mesmo tempo que se impõe a eles. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .

deve-se romper com a idéia corrente. as características do sistema viário. para isso. e não as estruturas sociais. como os sujeitos interagem entre si e com as instituições sociais. o sentimento de pertencimento. Mas.367 . O que deve ser objeto de análise. 1990). que muitas vezes impõe a aplicação de modelos “estrangeiros” de enfrentamento do problema. a existência de 15 bolsões de pobreza no município (AVSIBRASILE. e as condições de realização de interesses individuais. Cabe a esta nova abordagem romper com a visão globalizante do problema. Assim. é o que a violência tem a informar sobre as condições de organização da sociedade. nas várias territorialidades em que se manifestam. É só nesta perspectiva que os percentuais. taxas e índices se justificam como demonstrativos da situação. imaginando-se poder alcançar os mesmos resultados em situações apenas aparentemente iguais. Por outro lado. através do controle dos potenciais ofensores. entre várias outras questões. as respostas governamentais e sociais à violência produzem parcos resultados em relação às dimensões reais do problema. de que o saber sobre a violência tem como função primordial a ordem social. as condições de empregabilidade. e que se analise se não há vínculos de continuidade entre as várias faces da violência. Só assim será possível uma compreensão mais abrangente e menos reducionista e estigmatizante da violência. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Considerações finais Este texto iniciou com a descrição do que é violência e de como este fenômeno foi historicamente forjado no processo de modernização das sociedades ocidentais. a percepção social do funcionamento do sistema de segurança pública. e. é fundamental que o conceito de violência seja ampliado para além do que se define como criminalidade violenta. CDM. PREFEITURA MUNICIPAL DE GOVERNADOR VALADARES. que são ao mesmo tempo produtoras e produtos da interação social dos vários indivíduos. no contexto local (MINAYO. Fenômenos como a emigração internacional. tanto no âmbito do Estado como da sociedade em geral. são variáveis importantes para a compreensão do problema da violência local. portanto. a partir daí.violência em Governador Valadares. 2002). ao focalizarem o agressor como principal alvo das políticas públicas. Com base nos estudos de Antony Giddens TERRITÓRIO. constroem saberes relacionados à tessitura do espaço em que habitam.

produzem elevadas taxas de crimes violentos.TERRITÓRIO. Na perspectiva histórico-social. FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO. Esta representação também contribui para que. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . por ameaçarem os princípios da liberdade individual e da cidadania. 2003. permeia o processo de formação da cidade e se configura. atingindo especialmente a população adolescente. reside em grande parte no fato de que as sociedades modernas são sociedades pacificadas. segundo relatos históricos (ESPINDOLA. Governador Valadares está entre os municípios que. 1988). este sentimento fundamentase na percepção de que cabe ao Estado-nação gerenciar a violência. na atualidade. revelam taxas ascendentes. na maioria das vezes. SIMAN. 2004. Os resultados. como parte de um contexto sócio-econômico marcado por desenvolvimento e ampliação da desigualdade social (PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO. A representação social da violência como algo negativo está disseminada internacionalmente. nos dias atuais. principalmente se considerado o contexto ocidental. sobretudo através da aplicação rigorosa da lei aos indivíduos que passam a ser definidos como “desviantes”. observa-se a progressiva criminalização da violência. Esta situação ocorre em meio a uma trajetória que. Com base na abordagem quantitativa do problema. Observa-se que os resultados das pesquisas desconsideram as especificidades dos contextos em que a violência ocorre.000 habitantes. SIMÃO. têm orientado políticas públicas de prevenção e controle da violência. segundo a qual a sociedade está protegida da irrupção de fenômenos violentos. Neste contexto. conclui-se que o sentimento socialmente estabelecido em relação à violência. sobretudo quando os alvos dos agressores são os indivíduos e os bens materiais. que. sejam ampliados os estudos e discussões sobre o problema da violência. assentadas no efetivo controle da violência e fundadas em um sentimento de segurança ontológica. em particular da sua manifestação como criminalidade violenta. ou seja. as pesquisas focam especificamente a manifestação do problema em municípios com população maior de 100. 2005. embora haja muitas disparida368 . tanto na condição de agressores como de vítimas.e Norbert Elias. muitos deles têm revelado o crescimento das taxas de crimes através dos tempos. 2004). no âmbito estadual e nacional. No Brasil. a partir das últimas décadas do século XX.

BEATO FILHO. No que se refere à circulação midiática delas. Plano de redução da pobreza urbana em Governador Valadares: diagnóstico e diretriz. como se eles não tivessem uma história e como se esta não tivesse vínculos de proximidade com o contexto em que habitam. forjando opiniões e contribuindo para a disseminação de discursos. s. 74-87. FAJNZYLBER. Diante deste fato. Espera-se que em Governador Valadares a análise da violência alcance uma visão mais aprofundada do problema. considera-se a importância de que novos estudos sobre a violência e a criminalidade adotem a metodologia qualitativa como modelos de análise... as dimensões estruturais do problema não são abordados.des entre os vários municípios identificados como os mais violentos. O resultado da divulgação das estatísticas criminais é a disseminação do medo. poder-se-á alcançar um resultado menos globalizante e mais profundo do problema. Referências ARAÚJO JR. jun. na maioria das vezes. CDM. com projeções de médio e longo alcance. no Brasil. s. Governador Valadares. In.369 . discriminatórios. o que contribui para a implementação de medidas mais efetivas de enfrentamento dele. 809-840. deve-se ter como referências as especificidades da trajetória histórica do município e as condições de organização econômica e sócio-culturais locais. AVSI-BRASILE. da indignação e da intolerância em relação aos agressores. Ari Francisco de. Seminário sobre economia mineira. TERRITÓRIO. Na nova abordagem metodológica. sendo o enfoque principal a vítima e o agressor.l.37. Prefeitura Municipal de Governador Valadares. p. 2002. Revista Brasileira de Ciências Sociais. 1998. Dessa forma.d. Crime e economia: um estudo das microrregiões mineiras. Cláudio Chaves. Determinantes da criminalidade em Minas Gerais. Pablo. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . 9. 13. p. Além disso. PREFEITURA MUNICIPAL DE GOVERNADOR VALADARES. observa-se o uso das estatísticas como mercadoria. em que as inúmeras variáveis que se colocam como elementos de investigação sejam alcançadas.

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como compreender a natureza dos problemas sociais que hoje nos cercam. na tentativa de obter respostas “para além do que os indicadores mostram e por trás da soberana objetividade dos dados estatísticos” (TELLES. 1999. já no início da década seguinte. parecia estar ao nosso alcance. a vencer a antiga insegurança social e a eliminar o medo do futuro.prof@yahoo. a utopia de uma sociedade livre das necessidades. Não existia apenas simples retorno aos problemas do passado. desigualdades sociais. A condição do proletariado.373 .A nova questão social: uma proposta de análise Rita Cristina de Souza Santos1 Introdução obreza. em referência às disfunções da sociedade industrial emergente. traduzida: 1 Psicóloga (UFRJ). estadual ou municipal. 10). dentro das mais diversas esferas políticas dos âmbitos federal.com. No entanto. e também às nações avançadas? Como compreender a natureza da “Nova Questão Social?” O que significa a expressão “Nova Questão Social”? Como se caracteriza a “Nova Questão Social”? Segundo Rosanvallon (1998). As antigas categorias de exploração do homem não poderiam enquadrar os novos fenômenos da exclusão. portanto. Professora Adjunta e pesquisadora da Universidade do Vale do Rio Doce – UNIVALE – FHS . Surgia. ao contrário. o crescimento do desemprego e o surgimento de novas formas de pobreza pareciam. E-mail: ritacris. de um indivíduo protegido contra os principais riscos de existência. vulnerabilidade. sofreu nessa época profundas transformações a partir das conquistas das lutas sociais. portanto. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Assim. 23). Ao fim dos Trente Glorieuses. Mestre em Educação (PUC-RIO). O desenvolvimento do Estado-Providência não chegou. uma Nova Questão Social. cidadania – questões de inquietação de tantos que se debruçam sobre a realidade social brasileira. Doutora em Saúde Coletiva (IMS/UERJ).Programa de Mestrado em Gestão Integrada do Território. P Entretanto. terminada a década de 1970. contudo. direitos.br TERRITÓRIO. p. afastar-nos desse ideal (p. a expressão foi criada ao fim do século XIX.

passaria a linha divisória entre a capacidade e a incapacidade de trabalhar? Velhos cegos. Prossegue Castel (2001): Essas populações isentas de obrigação de trabalhar são os clientes potenciais do social-assistencial. iniciando uma nova fase a partir do princípio da década de 1990 (p. uma teoria da desvantagem. ou seja. não o fazem. paralíticos. manifestada em virtude da idade. em razão da existência de determinados grupos de pessoas que dependem de intervenções sociais distintas. porque não pode trabalhar (CASTEL. escrofulosos e idiotas – compõem um primeiro perfil de população que não supre. se sempre é fonte de embaraços. ainda que. por si mesma. assim. estropiados de todos os tipos – cegos. Inicialmente apresentam-se sob a figura de indigente válido. 2001). teriam condições de sobreviver por seus próprios meios? “Os infortunados sempre serão suspeitos de quererem viver à expensa dos ricos. existe coerência quanto ao tipo de trabalho qualificado por esse sentido metafórico. Velhos indigentes.” (p. 41). como testemunha o fato de que a crise do Estado Providência. Deve-se. carente. o indivíduo pode ser assistido. Porém. Grande problema: onde. inadequado.] pela inadaptação dos antigos métodos de gestão do social. Tal assistência pode representar problemas financeiros. 23). Um segundo perfil de grupo de assistidos apontado por Castel (2001) é composto por aqueles que. pois embora a categoria seja heterogênea quanto às condições que levam à situação de impossibilidade – deficiência física ou psíquica. Desde que consiga fazer reconhecer sua incapacidade. diagnosticada no fim dos anos 1970. institucionais e técnicos difíceis. na prática e amiúde. Castel (2001) apresenta a “Questão Social” como uma inquietação quanto à capacidade de manter a coesão de uma sociedade. apesar de revelarem a capacidade de trabalhar. Não cria problemas de princípio. 42). a existência desse tipo de população não questiona. por exemplo. no sentido amplo do termo. exatamente. de modo fundamental. suas necessidades básicas. dependente de auxílio. de enfermidades.. segundo o autor. crianças sem pais. portanto.. de acordo com o critério de serem ou não capazes de trabalhar. Caracteriza-se. Coesão esta que sofre ameaças de ruptura. a organização social (p.TERRITÓRIO. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . mudou de natureza. situações familiares ou sociais desastrosas –.[. condescendente e até mesmo humilhante. embora 374 . esse tratamento se revele insuficiente. compreender a Teoria da Desvantagem no sentido metafórico.

não se beneficia das redes de proteção próximas.] embrenhar-se pelas formas complexas da organização do trabalho da sociedade industrial. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . portanto. que conjuga a precariedade do trabalho. ao afirmar que inicialmente: [. encontramos a realidade sociológica de um personagem trabalhador. como nos aponta o autor. [. O caminho traçado desde as tutelas até o contrato de trabalho é longo e vai desembocar na modernidade liberal. No fim – final do século XVIII – dá-se o advento dos contratos e da TERRITÓRIO.] a necessidade crescente de recorrer ao assalariamento e ao mesmo tempo. Percorrer esse caminho é. em situação de vagabundagem na sociedade pré-industrial do ocidente cristão. a fragilidade dos suportes de proximidade. Condição caracterizada por uma vulnerabilidade de massa. a impossibilidade de regular uma condição salarial.375 . na visão de Castel (2001).. mas sempre circunscritos e controlados. Condição esta que exprime. na visão do autor: [. de suas necessidades elementares. o trabalho regulado. 44). 44). o indigente válido é colocado em situações contraditórias: se estrangeiro-forasteiro-sem vínculos. de acordo com Castel (2001). Entretanto. desenvolvimento de núcleos esboçados e fragmentários. e o enfraquecimento das proteções. Dessa forma. devido à persistência de tutelas tradicionais que comprimem o trabalho em redes rígidas de obrigações sociais e não econômicas (p... ainda que mínimo. 43.sem condições de beneficiar-se dos dispositivos concernentes aos assistidos (isentos da obrigação de autossustento). Sem trabalho e fora da área de assistência. que asseguram aos autóctones o atendimento.. ao fim do século XVIII. Castel (2001) resume a construção da “Questão Social”. trabalho forçado. em substituição ao excesso de coerções.] havia as tutelas e as coerções que o Estado absolutista e a organização tradicional dos ofícios conspiravam para manter.. as proteções vinculadas ao trabalho regulado não garantem a condição da maioria dos que vivem do trabalho de seus braços. Torna-se. condição de assalariado livre (p.. a qual vai da metade do século XIV às transformações do fim do século XVIII. encoberta pelo rótulo de vagabundagem. que vive a instabilidade do emprego e caminha em busca de uma ocupação que se esquiva: a questão da condição do assalariado. o desfiliado por excelência.

e ingressar nas atividades que considera superiores e mais importantes. Assim.. o acompanhamento das rupturas e recomposições representa o caminho mais rigoroso para chegar à problemática contemporânea. se revela ilusório. modelado pelo Iluminismo. realmente. A Nova Questão Social pela lente de Arendt Ao discutir em seu livro. o Estado Social. Sociedade operária que abriga o sonho de libertar-se dos grilhões do trabalho desenvolvido no interior das fábricas . por meio de sólidos sistemas de garantias. o mundo moderno. Do excesso de coerções ao enfraquecimento das proteções. Demasiadamente forte e selvagem. 2 Arendt (2000) frisa que a Era Moderna não coincide com o mundo moderno. privados de qualquer tipo de proteção e de qualquer reconhecimento: a individualidade negativa. ao passo que o mundo em que vivemos. na ótica do autor.liberdade de empreender. porque vão perdendo gradativamente seus poderes integradores. podemos compreender que se opera uma reviravolta total da sociedade pré-industrial à sociedade pósindustrial. resultando na transformação efetiva de toda a sociedade em uma sociedade operária2. ancorar esta estrutura muito friável do livre contrato de trabalho (p. A Condição Humana.. 44. no entanto. estas últimas na realidade mostram-se igualmente escassas. segundo o qual é possível conjurar os riscos. que o princípio da governabilidade liberal.TERRITÓRIO. Arendt (2000) afirma que a Era Moderna trouxe a glorificação teórica do trabalho. A primeira começou cientificamente no século XVII e terminou no limiar do século XX.] A tarefa de uma política social a partir do século XIX será. surgiu com as primeiras explosões atômicas. 376 . constitui-se a vulnerabilidade. no entanto. Sonho que. decorrente em especial da perda do poder integrador das regulações tecidas em torno do trabalho.visto como um fardo e já escasso . a liberdade que favorecia apenas as empresas gerava uma face sombria para todos aqueles que se encontrassem sem vínculos ou suportes. construiu-se assim. pois além de essa sociedade desconhecer os mecanismos necessários para acesso a tais atividades. Como resposta a tal situação. impõe aos fatos através da revolução política [. 45). Logo. Não tão sólidos. através de Castel (2001). SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .

Assim. a liberação da força de trabalho não se restringiu a certas classes da sociedade. Depara-se. na concepção de Castel (2001). TERRITÓRIO. os inúteis do mundo. com a possibilidade de uma sociedade de trabalhadores sem trabalho.] é próprio do trabalho nivelar os homens. publicação do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD.377 . Até mesmo presidentes reis e primeiros-ministros concebem seus cargos como tarefas necessárias à vida da sociedade. e abrigava em seu interior não só o processo vital individual. mas também a atividade de labor sujeita às necessidades desse processo. nem a apropriação resultou em satisfação das necessidades e desejos. até o advento da Era Moderna. porque: [. O acúmulo de capitais infiltrou-se por toda a sociedade. única atividade que lhes resta.. e não como meio de ganhar o próprio sustento (ARENDT. que nos fornece também dados mais aprofundados sobre o perfil dos municípios brasileiros. 2000). o qual se tornou possível porque o mundo e a própria mundanidade do homem foram (e continuam sendo) sacrificados (ARENDT. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . despojados da dupla proteção da família e da propriedade – pedaço de mundo que. somente alguns indivíduos isolados consideram ainda o que fazem em termos de trabalho. entre os intelectuais. 12. dentro da realidade brasileira? Diante de tantas possibilidades de respostas. o que poderia ser considerado como faixa de renda mais baixa.. 13). optei pelas informações do Atlas de Desenvolvimento Humano no Brasil. dando início a um fluxo constante de aumento de riqueza. pela miséria e pela pobreza material que atingiram os trabalhadores pobres. portanto. lhes pertencia. bem como a todos os seus. e. em pleno século XXI. Os novos supranumerários. 2000. Cabe o questionamento: quem são os trabalhadores pobres na atualidade? De um ponto de vista meramente descritivo. os trabalhadores pobres seriam todos aqueles incluídos nas faixas de renda mais baixa. Entretanto. na visão da autora. p. Arendt (2000) classifica o sacrifício-alienação em estágios.Trata-se de uma sociedade igualitária. já não existem classes nem uma aristocracia de natureza política ou espiritual da qual pudesse ressurgir a restauração das outras capacidades do homem. como aponta Zaluar (2000). O primeiro é caracterizado pela crueldade.

Características presentes também na realidade do município em estudo. Considera-se como renda mensal domiciliar a soma dos rendimentos mensais dos moradores da unidade domiciliar. desemprego. Segundo Rocha e Tolosa (1991).78%. Embora a renda per capita média do município de Governador Valadares (MG) tenha crescido 45. o rendimento oriundo do trabalho constitui a principal fonte de renda dos indivíduos. nível de escolaridade). o fato de ser pobre resulta em inserção inadequada no mercado de trabalho.50) do valor da linha de pobreza – medida em termos de seu percentual do valor.86%.TERRITÓRIO. excluindo-se os rendimentos das pessoas cuja condição no domicilio seja de pensionista.59 em 1991.50. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Entretanto para os pobres.80% em 2000. obtém-se a informação de que a pobreza é medida pela proporção de pessoas com renda domiciliar per capita inferior a R$ 75. Intensidade da Indigência é a distância que separa a renda domiciliar média per capita dos indivíduos indigentes (renda familiar per capita inferior a R$ 37. passando de 36. para 26. O índice de Gini passou de 0. a dependência da renda de trabalho é muito maior. e o percentual de pobres tenha diminuído 25.15% em 1991. bem como a intensidade da indigência4.02 em 2000.17% para 47. em virtude das características deste último (subemprego. etnia. aumentaram de uma década para outra – de 39. O indicador aponta o quanto falta para um indivíduo deixar de ser considerado indigente.90% para 42. passando de R$ 212. para R$ 309. para 0.Através dessa publicação. e de 31. caso persistam os mesmos fatores estruturais e conjunturais na economia local e nas políticas públicas municipais e estaduais.625 em 2000. além desse aspecto. trabalho informal. empregado doméstico.23%.78%. Rocha (1992) esclarece que a crescente informalidade (percentagem de empregados sem carteira de trabalho e trabalhadores por conta própria não cobertos pela seguridade social) está intimamente associada 3 Intensidade da Pobreza é a distância que separa a renda domiciliar média per capita dos indivíduos pobres (com renda domiciliar per capita inferior à linha de pobreza – R$ 75. sejam estes pobres ou não-pobres. 4 378 . trabalho precoce) e do próprio indivíduo (gênero. (PNUD – Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil). equivalente à metade do salário mínimo vigente em 2000. a intensidade da pobreza3.19 em 1991.75) do valor da linha de indigência. Esses números podem indicar tendência ao aumento da desigualdade. (PNUD / Atlas do desenvolvimento Humano no Brasil). ou parente de empregado doméstico. respectivamente.

alienada do mundo. O segundo estágio caracteriza-se pela transformação da sociedade em sujeito do novo processo vital. [. a reflexão sobre o que nós temos feito. da propriedade privada de um pedaço de terra nesse mundo (p. muito mais tangível. cujos membros podem se encontrar em curto tempo. nas mais distantes pontas do globo. para as consequências do processo de alienação no mundo. Impõe-se. desencadeado pela expropriação e pelo crescente acúmulo de riquezas. pois não existe solução única possível... os critérios de sangue e terra devem governar as relações entre os seus membros. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . o encolhimento econômico e geográfico da Terra. começou com a perda. principalmente no comércio e nos serviços não especializados. mas o eclipse de um mundo público comum.. “a irreflexão – a imprudência temerária. fator tão crucial para a formação da massa solitária e tão perigoso na formação da mentalidade. a transformação da humanidade em entidade existente. ou a repetição complacente de verdades que TERRITÓRIO. 269).] Uma vez que a sociedade passa a substituir a família. [. no setor secundário. Voltemos aos estágios do sacrifício-alienação propostos por Arendt (2000). 269). transformando em fenômenos globais a prosperidade.. Arendt (2000) alerta-nos. São donos de sua propriedade privada. O terceiro e último estágio é apontado pela autora como o declínio do sistema de estados nacionais europeus.379 . e a solidariedade social passou a ser substituta muito eficaz da solidariedade que antes reinava na unidade família. ou a irremediável confusão. Respostas para tamanha questão jamais deverão ter apenas por base considerações teóricas ou a opinião de uma só pessoa. portanto. em substituição à família. 268. Assim.] a participação numa classe social substituiu a proteção que antes era oferecida pela participação numa família. a homogeneidade da população e seu arraigamento ao solo passam a ser os requisitos do estado nacional em toda parte (p. A ascensão da sociedade trouxe consigo o declínio simultâneo das esferas pública e privada. mas também a depressão. ou seja. Afinal.ao declínio do emprego nas indústrias. dos modernos movimentos ideológicos de massa. e homens sociais não podem ser donos coletivos como os homens que têm um lar e uma família. bem como à terceirização em atividades de baixa produtividade e baixa remuneração. no entanto. Os homens não podem ser cidadãos do mundo como são cidadãos dos seus países.

p. A su vez. 2002. 108). incluindo também os aspectos social. Afinal como se define e se mensura o fenômeno pobreza? Quem são os pobres em Valadares? La pobreza se encuentra directamente relacionada tanto com los niveles y patrones de empleo como com lãs desigualdades y processos de discriminación existentes em la sociedad. ademais. Tolosa (1991) propõe a idéia de que pobreza estaria associada a restrições severas. quanto às desigualdades e aos processos de discriminação existentes na sociedade. 2003. e suas carências sociais e econômicas são também mais severas. Assim. “a cultura da pobreza refere-se a uma atitude de vida adquirida em ambiente social e histórico. Na definição mais restrita. que a renda. Os setores discriminados são mais vulneráveis do que outros diante da pobreza. responsáveis pela superposição de distintos tipos de vulnerabilidade. 84).5 O conceito de pobreza.TERRITÓRIO. em sentido mais amplo. deve ser definido e mensurado de forma a evitar a exclusividade de sua dimensão econômica. impostas aos indivíduos e suas famílias na escolha e no acesso a bens e serviços. responsables de la superposion de distintos tipos de vulnerabilidad. Analisar os múltiplos olhares sobre a pobreza. São.se tornaram triviais e vazias – parecem ser uma das principais características de nosso tempo” (ARENDT. caracterizado pela ausência de participação e integração nas principais instituições da sociedade” (p. 13). Los sectores discriminados san más vulnerables frente a la pobreza que otros y sus carências sociales y econômicas son también más severas. assim como pela criação de poderosas barreiras adicionais que impedem que pessoas e grupos determinados superem sua situação de pobreza. para Tolosa (1991). ou melhor. p. cultural e biológico. nessa linha de raciocínio. a insuficiência de renda 5 A pobreza se encontra diretamente relacionada tanto aos níveis e padrões de emprego. (OIT. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Por sua vez. así como de la creación de poderosas barreras adicionales que impeden a los personas y grupos discriminados superar su situción de pobreza. Son. Admite-se. (tradução nossa) 380 . as diferentes formas adotadas pela discriminação estão estreitamente associadas aos fenômenos de exclusão social causadores da pobreza. lãs diferentes formas que adopta la discriminación están estrechamente asociadas com los fenômenos de exclusión social causantes de la pobreza. bem como alguns aspectos que caracterizam a população pobre valadarense serão os próximos passos neste artigo. además.

este último mais difundido. através das políticas de cobertura social” (p. intrínseco à sua lógica de formação. Segundo as palavras do mesmo autor: a representação gráfica é conhecida como curva de Lorenz. Quanto mais elevado o Gini. Embora se admita que. quando as participações relativas de vários grupos na população e na renda forem rigorosamente iguais. maior a pobreza relativa. apesar do alto custo das pesquisas de orçamentos 6 O coeficiente de Gini para determinada distribuição de renda medirá desvios em relação a uma distribuição perfeitamente equitativa. A distribuição eqüitativa seria então representada pela diagonal principal. quando as desigualdades na distribuição de renda forem medidas pelas diferenças entre as participações relativas dos vários grupos na população total e na renda agregada. como o de Gini6 e o de Theil . Nos eixos coordenados são representadas as porcentagens (ou participações relativas) cumulativas dos vários grupos (geralmente decis) na população total e na renda agregada. O autor esclarece também que existem alguns indicadores de pobreza. Abranches (1985) também caracteriza o fenômeno pobreza como a destituição de meios de subsistência satisfatória. tal fenômeno apresenta como parâmetro estruturador. Além dos termos relativos. o coeficiente de Gini. O coeficiente mede a razão entre o numerador – área compreendida entre a curva de Lorenz e a diagonal principal. Expõe ainda Tolosa (1991) o fato de que a pobreza poderá ser entendida em termos relativos. TERRITÓRIO. nada informa sobre níveis absolutos de renda. Fontes: Tolosa (1991). a pobreza “está intimamente associada ao padrão vigente de consumo e aos mecanismos de distribuição de bens e serviços fora dos circuitos normais do mercado. ou seja. O primeiro. porque permite a decomposição em partes aditivas. PNADs-IBGE-2003. a pobreza também pode ser explicada em termos absolutos. Seu intervalo de variação está entre 0 (perfeita igualdade) e 1 (desigualdade máxima). SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . apenas sobre desigualdades relativas na distribuição. Qualquer desvio em relação àquela diagonal será representado por uma curva convexa definida entre a origem e os 100% da população e da renda (p.381 . 46). 134). a privação absoluta. do ponto de vista metodológico. esse critério de associação de renda e pobreza seja criticado por vários autores.representaria adequadamente deficiências nutricionais e de acesso aos serviços de infraestrutura social. Assim. e o denominador – área do triângulo equilátero definido pela diagonal principal e pelo eixo das abscissas.

109).familiares requeridas para tal tarefa. forte predomínio de grupos empobrecidos no conjunto de populações rurais. 108. educação). faz-se necessário explicar melhor esse ponto de interpretação de números relativos e absolutos: A melhoria nas proporções da pobreza relativa das populações carentes é significativa em si mesmo. a incidência de pobreza continua mais elevada na zona rural. p. Palavras de Abranches (1985): “disparidades relativas indicam desigualdades reais e concretas entre as populações urbana e rural” (p. “A idéia é medir desvios da renda dos indivíduos. Países como Brasil. 33). são menos sensíveis à melhoria dos níveis de emprego e renda. porque diz respeito a seres humanos em condições miseráveis. o que determina um contexto socioeconômico e político mais deprimido. suas chances de vida. de maior destituição. 33). Estudos do CEPAL (2004) apontam o fato de que a maioria dos pobres na América Latina vive nas cidades e. Portanto. tanto no sentido do combate à pobreza. a forte concentração da pobreza nas áreas rurais contribui progressivamente para o agravamento das condições de vida. existe grande diferença entre relativo e absoluto. no entanto. quando se comparam os meios rural e urbano. Entretanto. Além desse aspecto. assim como ao acesso a bens e serviços essenciais (saúde. Segundo Abranches (1985).” (TOLOSA. Existe. 382 . SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . na visão de Abranches (1985). porque as estratégias de erradicação da pobreza devem ter como alvo esse número absoluto. México e Venezuela revelam aproximadamente metade da população rural na situação de pobreza. pois indica que uma parcela das pessoas e das famílias destituídas logrou melhorar. quanto no sentido do cálculo e programação dos gastos necessários (p. famílias ou grupos em relação à linha de pobreza geralmente definida a partir de critérios nutricionais e antropométricos. em segundo lugar. 1991. que em pequena escala.TERRITÓRIO. As características econômicas do meio rural. o número absoluto dos pobres também tem relevância intrínseca: em primeiro lugar. Marcantes desigualdades de oportunidades são reflexos das diferenças entre os meios rural e urbano. assim. e com mais escassas estratégias de ação. ainda. Colômbia. para o autor. porque as mudanças relativas são mais eloquentes que as coincidências numéricas.

as quais se deixam fascinar pelos fetiches dos dados estatísticos e se limitam às concepções setoriais das políticas. entre outros: os baixos níveis de produtividade da população ocupada em atividades agrícolas. fenômeno muito complexo –.Constituem fatores apontados pelo CEPAL (2004) como geradores de índices de pobreza rural. Entre os assalariados agrícolas encontram-se as taxas mais elevadas de trabalhadores sem contrato nem previdência social. aos minimalismos das práticas bemsucedidas. e. consumo. seria a precariedade de inserção dos pobres em um ou mais dos seguintes circuitos: produção. ao reducionismo econômico. ou expressão mais geral. se expande cada vez más la subcontratación7 (p. influenciados pela migração rural urbana – os jovens de maior nível educacional deslocamse para as cidades. acesso / fruição de bens públicos e cidadania”. 61). (2000) e no Censo de 2000 – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística . Lessa. segundo dados levantados no Atlas de Desenvolvimento Humano no Brasil. Assim. 64). o qual escapasse ao raciocínio circular da definição de pobreza e miserabilidade pelo que se é (se tem). como fato heterogêneo. a deterioração dos solos explorados pelos pobres. Salm. no entanto “caberia identificar um denominador comum aos estados de pobreza” (p. a população pobre valadarense. a falta de acesso a comunicações. (Tradução nossa).IBGE. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Soares e Dain (1997) – segundo a qual as várias manifestações da pobreza são percebidas como formas diversas de expressão de precariedade. à submissão da política social às prioridades de estabilização. ou não se é (não se tem). Entre los asalariados agrícolas se encuentra las tasas más elevadas de trabajadores sin contrato ni prevision social. e permanecem no campo os adultos com menor grau de instrução. expande-se cada vez mais a subcontratação.383 . TERRITÓRIO. Junto com isso. ou seja. advertem os autores. as atividades agropecuárias com deficiências tecnológicas. sobretudo. Soares e Dain (1997) também tecem críticas às abordagens restritivas da discussão sobre pobreza e políticas sociais. a dificuldade de acesso a serviços básicos. Não se devem ignorar os dados estatísticos. La agricultura es el setor de la economia com mayor proporción de empleo precário. “sua síntese. Salm. Junto com esto. 64) De acordo com a linha de raciocínio de Lessa. (p. estaria incluída entre: 7 A agricultura é o setor da economia com maior proporção de emprego precário.

TERRITÓRIO. d) os domicílios particulares permanentes e moradores em domicílios particulares permanentes por setor de abastecimento de água – 4. abastecimento de água. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . e 0. de acordo com os dois Censos Demográficos de 1991 e 2000.80% de pessoas.4 anos). b) os 26. e 4. O mesmo ocorreu em Governador Valadares.31% com esgotamento no rio. exclusive curso de alfabetização de adultos. tipo de esgotamento sanitário8 – 4.43% da população com 4 a 7 anos de estudos. continuaram a ampliar sua cobertura no país. segundo dados da PNADs-2003. c) os domicílios particulares permanentes por situação.17% da população que joga o lixo no rio. que detêm renda per capita abaixo de R$ 37.73% da população com 1 a 3 anos de estudos.49% que não têm água canalizada.10 % de adolescentes do sexo feminino entre 15 e 17 anos com filhos. em Governador Valadares.5% da população que tem o lixo coletado em caçamba.51% sem banheiro e nem sanitário.42% da população que queima o lixo na própria residência. levantada na PNADs .75. f) as pessoas de 10 anos ou mais. Média de anos de estudos de pessoas de 10 anos ou mais de idade total que se encontravam ocupadas durante a semana de referência. 9 384 . 38. segundo grupos de anos de estudos9 – 8. Apresentam também como características não mais específicas à condição de pobreza. e 2.11% de crianças do sexo feminino entre 10 e 14 anos com filhos. que detêm renda per capita abaixo de R$75.2003 – IBGE no Brasil > 1993(5. 2003 (6. 0. 3. 1.09% com fossa rudimentar.50.a) os 10. 0. coleta de lixo. segundo informações do Atlas de Desenvolvimento Humano – PNUD (2000): a) 0.05% da população que joga o lixo em logradouro ou terreno baldio. b) 7.0 anos). em Governador Valadares. 15.10% com esgotamento em vala. e) os domicílios particulares permanentes por situação e destino de lixo – 9. mas à vulnerabilidade familiar. 8 Os serviços de esgotamento sanitário.74% que utilizam poço ou nascente na propriedade.34% da população sem instrução. e com menos de um ano de estudo. entre outros não citados aqui.80% de pessoas. 3. tipo de domicílio.19% da população que enterra o lixo na própria residência.

. Outras dimensões de destituição são importantes. h) 13. condições sanitárias e de habitação. Assim. f) 5. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) constitui uma fonte privilegiada de estudos sobre pobreza anual. maiores (em torno de cinco membros por unidade) e têm maior proporção de pessoas jovens [. no detalhamento de unidades de análise em nível submetropolitano como município.. São as imposições da necessidade. no conjunto. só conta como fonte de informação o censo demográfico.. Dependem de uma série de fatores. que trabalham.]. como: saúde.25% de crianças residentes em Governador Valadares. “cuja realização decenal inviabiliza um monitoramento da pobreza compatível com a rapidez das mudanças estruturais que vêm ocorrendo” (p.83% de crianças residentes em domicílios com renda per capita menor que R$ 37. g) 5.41% de crianças residentes em Governador Valadares. em média.385 . com mais de 50% de sua renda proveniente de transferências governamentais.50. com filhos menores de 15 anos. Na verdade.. mobilizam para o trabalho os filhos em idade escolar e aqueles membros em menor condição de trabalhar (velhos.33% de crianças residentes em domicílios com renda per capita menor que R$75. quando se utiliza apenas o critério de renda. segundo Abranches (1985): [. e) 4. alimentação.34% de pessoas em Governador Valadares.] as famílias pobres são. embora não apresentem relação direta e necessária com a renda individual ou familiar. pois consomem as energias exclusivamente na luta contra a morTERRITÓRIO. sem cônjuge. Abranches (1985) ressalta também o fato de que a avaliação da pobreza não é inteiramente suficiente. e educação. que tolhem a liberdade.75. inválidos) e precisam submeter-se. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .c) 17. como nos apontam Rocha e Tolosa (1991).85% de mães chefes de família. a uma sobrecarga de trabalho para obter a renda parca que lhes garanta a subsistência precária. a renda sempre será um eficiente indicador aproximado de destituições. No entanto. apresentam maior incidência de desemprego e subemprego. rural e metropolitano. porém só considera como áreas de análise as Unidades da Federação e/ou os estratos urbano. que estão fora da escola. d) 39. 143).

[. porém permanece elevada para as famílias mais pobres. 2010. das condições de salubridade em que esta vive. Vários fatores determinam o aumento de esperança de vida.TERRITÓRIO. consomem mais horas de trabalho.modalidade I e 8 Equipes de Saúde Bucal – modalidade II.te. monetários e não-monetários. portanto. Existe.. mais elevados nas famílias com mães sem instrução do que naquelas com mães mais instruídas. segundo Abranches (1985). Em relação aos aspectos de saúde. e acesso a bens e serviços básicos. nível de instrução das mães. 34. da qual não podem sair a não ser através da ação específica e direta do Estado. que tende a decrescer com o processo de desenvolvimento. Os aspectos da saúde da população dependem também. os índices de mortalidade infantil aos dois anos de idade.. ao lazer. à busca de opções de trabalho e renda.] Para sobreviver. para Abranches (1985). 35). predominantemente usada em casos de doença manifesta10. ao exercício da criatividade. Fonte: MINISTÉRIO DA SAÚDE / SAS/ DEPARTAMENTO DE ATENÇÃO BÁSICA Sistemas de Informação em Saúde. Não podem cuidar senão de sua mínima persistência física. à ação política. complementadas pela associação transparente entre nível de renda e esperança de vida.04% da população total. os pobres terminam presos em malha espessa de carências. todos intimamente relacionados ao fenômeno mais geral da destituição: condições socioeconômicas das famílias.] privados de recursos mínimos.. materiais. Governador Valadares conta com 35 unidades de Estratégia de Saúde da Família. O autor apresenta como exemplo a taxa de mortalidade infantil. assim como em outros municípios brasileiros.. e as taxas de mortalidade. aos cuidados com a saúde (p. 386 . SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Abranches (1985) revela a existência de grande desigualdade entre os grupos de menor e maior renda. material. 10 Vale a pena ressaltar que o nível de abrangência do programa de saúde da família no município de Governador Valadares. uma vez que estes dependem exclusivamente da assistência governamental. 37). ao descanso. São dependentes da (boa) vontade pública (p. manifesta-se no fato de que: [. relação direta entre as condições de habitalidade e salubridade. condições sanitárias básicas e de habitação. ainda é pequeno. subtraídas ao estudo. as quais atendem 46. e as barreiras mais vigorosas de acesso aos serviços de saúde para os mais pobres. culturais e políticos. A lógica da destituição. 22 Equipes de Saúde Bucal.

] as condições de residência e salubridade.400 calorias). No entanto. discutida à luz de sua magnitude como recurso. refere-se ao aspecto de tal população se mostrar precocemente incorporada ao mercado de trabalho. limitam drasticamente o horizonte de vida das famílias despossuídas. tornando mais vulneráveis as famílias mais pobres. faz parte do direito do ser humano. segundo Abranches (1985): [. Governador Valadares. mas TERRITÓRIO. dessa forma. Logo. Calsing (1983). Consequentemente a insuficiência calórica acompanha os níveis de renda. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .proporcionar os meios de acesso à cultura. levantado por Abranches (1985) para a caracterização da população pobre. portanto. pelo fenômeno da destituição. à educação e à ciência”. produto da subnutrição das famílias pobres: comprometimento do desenvolvimento físico e cognitivo. do Distrito Federal e dos municípios: V . com interrupção da formação educacional. quando reforçadas pela baixa renda. da cidadania.. a inserção precoce através de programas de geração de renda e elevação da escolaridade contribui para que a mobilidade social não seja apenas um sonho. Acrescenta-se ainda um fator importante para a avaliação do fenômeno pobreza: a educação.. 40). como nos aponta a Constituição Federal de 1988: “Art 23 . citado por Abranches (1985).É competência comum da União. diz mais respeito à quantidade do que à qualidade dos alimentos. aponta as consequências danosas à saúde das crianças em idade escolar (5-15 anos). dos Estados. ainda que parcial. em um ambiente em que os riscos superam as oportunidades diariamente (p. assim como às condições do entorno. suas chances de mobilidade social reduzem-se sensivelmente. segundo Abranches (1985). em algumas situações levando à morte por deficiências nutricionais profundas.Assim. inclusive a do município em estudo. Considerando que a condição material da sobrevivência é a alimentação. com menor poder de aquisição de alimentos e. Afinal. conhecer a si mesmo. para a luta por melhores oportunidades de vida.387 . em proteínas (2. o autor cita Coimbra (1984) para explicar que o déficit alimentar no Brasil é mais calórico do que protéico. nas quais os sobreviventes testemunham a luta dos mais novos. em alguns casos. Quadro também explicado. de aquisição do mínimo considerado indispensável pela ONU. Um fato de suma importância. sobretudo pelo fato de participar da liberdade e.

Dois movimentos ou ondas de reformas são indicados como deflagradores das alterações nesse campo de intervenção pública: primeiramente. digna da população de baixa renda depende de seu acesso ao circuito de cidadania. no campo dos programas de assistência social e enfrentamento da pobreza. consequente diminuição do lazer com a família. (p. desde a década de 80 até a atualidade o Brasil tem enfrentado. Enfrentamentos da pobreza e das vulnerabilidades Draibe (2002) aponta o fato de que. e complementações de renda. mas no território de Valadares. Rocha (1992) apresenta outras formas de complementação de renda familiar em tempos de ausência de crescimento econômico e diminuição de renda da maioria dos trabalhadores: subemprego. na política educacional. De prestação continuada. Soares e Dain (1997): Nunca parece excessivo reafirmar que. no plano institucional. uma parte significativa da melhoria das condições de sobrevivência. 66). a diminuição do nível de rendimento torna o emprego um luxo. não nos solos americanos ou europeus. até para os nãopobres. Acrescento as palavras de Lessa. em situações de extrema desigualdade social. tenham de buscar nova atividade no mercado de trabalho. uma das mais radicais mudanças. sobretudo para garantir melhores oportunidades às novas gerações. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Assim. na década de 80.uma possível realidade. comparável talvez às mudanças na política de saúde e. 266). são elementos essenciais de qualquer formulação de direitos sociais básicos. No incremento da discussão. pois faz com que estes últimos. no qual se desqualificavam os pobres. maior participação das mulheres na força de trabalho. Saúde e educação em primeiro lugar. ao perderem seus empregos. para os mais frágeis. Salm. do clientelismo e do assistencialismo. mais recentemente. e redução do tempo dispensado aos cuidados com a família. mesmo que inadequada quanto à habilitação ou à remuneração. nesse contexto. e aqui esteve presente o reino da arbitrariedade. a formulação da Política Nacional de Assis388 . Ressalta a autora que o Brasil “vem de uma forte e antiga tradição de política assistencial” (p. conclui Rocha (1992) que.TERRITÓRIO.

Combinação de da política. no estilo de política/gestão. EIXO DE MUDANÇA PRINCIPAIS CONTEÚDOS DAS ALTERAÇÕES Direito social como fundamenNa concepção: no fundamento to da política. com todos os seus créditos. a qual pretendia forte e complexa institucionalidade. presente na agenda pública brasileira. Delegação federativa de funções.389 Descentralização do poder decisório e de recursos. TERRITÓRIO. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . e seus principais eixos e conteúdos de mudanças. definida na Constituição de 1988. 267. Reforço financiamento. o segundo movimento. Redução do clientelismo. Alerta-nos Draibe (2002) para o fato de que. como a política do SUS – Sistema Único de Saúde –. Na armação institucional das políticas: no sistema de financiamento. Ampliação e institucionalização da participação social (forma conselhista). Introdução e / ou reforço de: proNa natureza dos programas imple. não se apresentava como política para o enfrentamento da pobreza. no sistema de supervisão e controles. No fundo especial de pobreza. no sistema de gestão. 2002. p. definida na Constituição de 1988. no entanto. O quadro apresentado abaixo ilustra as políticas assistenciais e de combate à pobreza. na provisão. que apresentou pela primeira vez como tema central a temática da pobreza. das parcerias com o terceiro setor.programas universais com proça.gramas de transferências monetámentados rias. posteriormente. no sistema decisório. programas de tipo produtivocapacitação e crédito popular.tência Social com tonalidade universalista. FONTE : DRAIBE . gramas focalizados. nos critérios de justi. nos anos 90. . Introdução da participação do seNa Relação pública / privada: no tor privado empresarial. a Política Nacional de Assistência Social.

na forma desta constituição. em sociedade com outros indivíduos. a previdência social. idade e quaisquer outras formas de discriminações. 2000. À pessoa moral referem-se especificamente os direitos de liberdade. sexo. em oposição às várias formas de governo autocráticas que dominaram grande parte da história do mundo. sem preconceitos de origem. uns independentes dos outros. V-o pluralismo político. entende-se o conjunto das pretensões ou exigências das quais derivam expectativas legítimas que os cidadãos têm. a saúde. em si mesmo considerado. 501. de acordo com os diferentes círculos em que vive. ou melhor. raça. cor. a assistência aos desamparados. O fundamento da forma de governo democrática. já que vive. através dos quais sua personalidade se desenvolve. de 14 de fevereiro de 2000. o lazer. a moradia. o homem é ao mesmo tempo pessoa moral. a proteção à maternidade e à infância. Art 3º. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Os direitos sociais são caracterizados no Título I – Capítulo II. IV-os valores sociais do trabalho e a livre iniciativa. que vão da família à nação. à pessoa social. é considerada a mola propulsora de todas essas mudanças.TERRITÓRIO. da nação à sociedade universal. IV-promover o bem-estar de todos. p.A República Federativa do Brasil. que recentemente foram também chamados por Gustavo Zagrebelsky de direitos de justiça. conhecida como cidadã primeira a incluir os direitos sociais 11 como direitos humanos fundamentais. o trabalho. a segurança. II-a cidadania. III-erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal. 11 “Por direitos sociais. e pessoa social (recordemos o celebérrimo animal político de Aristóteles). é o reconhecimento da pessoa.Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I-construir uma sociedade livre. Ora. 502). e não podem deixar de viver. em vários círculos. os direitos sociais. Os artigos abaixo citados ilustram essa nova ótica. se enriquece e assume aspectos diversos. justa e igualitária. incorporando a Declaração Universal dos Direitos Humanos. da seguinte forma: Art 6º São direitos sociais: a educação. a partir da Emenda Constitucional nº 26. bem como diversos pactos e convenções internacionais dos quais o Brasil é signatário -. não como indivíduos isolados. desde o nascimento até a morte. II-garantir o desenvolvimento nacional. mas como indivíduos sociais que vivem. III-a dignidade de pessoa humana. os novos paradigmas: Título I – Dos Princípios Fundamentais: Art 1º . constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I-a soberania.A Constituição Federal de 1988.”(Bobbio. 390 .

no século XIX. o nível de acesso a ativos diferenciados. Realmente ‘o homem é um animal social’. por meio da Revolução Francesa.Parafraseando Odalia (2003). os direitos políticos. 166) pudessem ser abrangidas pelos direitos civis. depende também das mudanças nas relações 12 Segundo Castel (2001) o social não deve ser entendido na discussão sobre social-assistencial como “o conjunto das relações que caracterizam a humanidade enquanto espécie que se define por viver em sociedade. assim como as capacidades do meio para superação da pobreza. nos séculos XIX e XX (e ainda busca). SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . que: a) a pobreza. TERRITÓRIO. devemos lembrar que escrever. O ‘social’. pensar ou falar sobre cidadania impõe a apreciação de uma lenta construção. estabelecer-se-á chamar de ‘societal’ a qualificação geral das relações humanas enquanto se refere a todas as formas de existência coletiva. “o leque de possibilidades para que as chamadas minorias” (p. por constituir um problema societal12 e de relações sociais.391 . para evitar o embaraço de mera questão de vocabulário. 48). passando pelas Revoluções Americana e Francesa e pela Revolução Industrial – esta última muito especialmente por ter trazido à cena histórica nova classe social: o proletariado. é altamente heterogênea. Assim. e os direitos sociais. Considera-se hoje. Trata-se de uma história que ainda está sendo escrita. é uma configuração específica de práticas que não se encontram em todas as coletividades humanas”(p. a ampliação dos direitos civis conquistados pela burguesia com a sua ajuda. b) as capacidades. dependem das pessoas e de seus graus de autoestima. Junto a esses tipos de direitos. diversos entre si: os direitos civis. novas funções estatais indicadores de uma relação dinâmica entre indivíduos. c) sua superação. e a abelha também. Palavras de Mondaini (2003): A história do desenvolvimento dos direitos do citadino. no século XX. que vem se fazendo a partir da Revolução Inglesa. no século XVIII. além de multidimensional. novas formas de Estado também foram se constituindo nesses três séculos. como também buscou . Entretanto. o proletariado como herdeiro da burguesia não só adquiriu a consciência histórica do papel de força revolucionária. segundo Draibe (2002). sociedade e aparelho estatal (p. 116). para Odalia (2003). envolvendo também aspectos materiais e imateriais. no século XVII. ao contrário. Abriu-se assim. a evolução da cidadania na Europa centro-oriental transcorre há pelo menos três séculos – de acirrados conflitos sociais – relacionada à conquista de três conteúdos de direitos.

a fragmentação organizacional. L. bem como das relações entre os meios sociais pobres e não-pobres. em termos educacionais. independentemente de renda. o reino da arbitrariedade e do clientelismo. atendimento às necessidades nutricionais de crianças menores de cinco anos. afirma Draibe (2002) que os resultados em termos de habitação e saneamento não se mostraram tão positivos. Vincula-se o conceito de assistência pública ao das sociedades de elevado desenvolvimento industrial e de sistema político do tipo liberal-democrático (sistema político contrário a uma visão limitativa do Liberalismo. tais desigualdades constituem heranças de nossa forte e antiga tradição de política assistencial. 416). os resultados alcançados ao longo dos anos 90. como forma de garantia de serviços idênticos a todos os cidadãos. encarada como mera garantia de direitos individuais. o assistencialismo e a desqualificação dos pobres. a distinção entre o Estado assistencial e os demais tipos de Estado. Wilensky (1975) – como Estado que garante “tipos mínimos de renda. amparada por melhorias significativas nos níveis de bemestar das populações mais novas: entre outras. Como ressalta Draibe (2002). alimentação. ainda escandalosos. e a forma arbitrária de fazer política. Assim. apontados também como mitos por autores como Kliksberg (2002). É comum associar a conceituação acima descrita com a política posta em prática na Grã-Bretanha. melhorias nos níveis de aprovação e terminalidade dos alunos. Salienta o momento de participação democrática na direção da política do país). mas como direito político” (p. registraram razoável redução de incidência da pobreza. quando logo após o debate aberto pela apresentação do primeiro relatório Beveridge (1942). mas na verdade considerados por Draibe (2002) como constituintes da nossa realidade: a superfluidez dos programas. 416). foram aprovadas as providências no campo da saúde e da instrução. significativo acesso de adolescentes ao ensino médio. com uma citação de H. 13 Expressão de origem inglesa descrita no verbete Estado do Bem-estar do Dicionário de Política de Bobbio. Matteucci e Pasquino (1993) – em primeira análise.TERRITÓRIO. 268). educação assegurados a todo o cidadão. Na ótica de Draibe (2002).” (p. salvo no tocante às desigualdades de gênero. saúde. 392 . “Nossos indicadores de desigualdade mantêm-se relativamente estáveis há mais de quarenta anos registrando quase nula redução. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . redução da mortalidade infantil. habitação. Contudo. embora modestos.entre pobres e não-pobres. e muito menos os níveis de desigualdade social. No contexto em questão estavam presentes os seguintes fatores. universalização do acesso ao ensino fundamental. não como caridade. baseadas em nosso limitado welfare state13. a partir da Segunda Guerra Mundial. “não é tanto a intervenção das estruturas públicas na melhoria do nível de vida da população quanto o fato de que tal ação é reivindicada pelos cidadãos como um direito” (p.

mas respeito ao sistema democrático. pois a política social representa a própria essência do funcionamento da democracia. e se torna vítima fácil de cortes e ajustes. Embora o crescimento seja imprescindível. bem articuladas. sendo seus representantes  principais interessados – afastados dos espaços de tomada de decisões macroeconômicas. Os próprios fatos demonstram (KLIKSBERG. na visão do autor. 2002) que constitui erro grave considerar a política social como supérflua. porque a reivindicação prioritária da cidadania latino-americana consiste na ação contra a pobreza. segundo a qual a política social constitui uma espécie de concessão forçada. ao ser colocada em situação de deslegitimação contínua.393 . Existem. por si sós. um custo imposto que desvia recursos do esforço central – o crescimento econômico. Acrescenta Kliksberg (2002) que as experiências mundiais das últimas décadas têm mostrado que.A superfluidez é explicada por Kliksberg (2002) como a visão dos países da América Latina. portanto. situada em lugares secundários nos organogramas. Em segundo lugar. Portanto. o progresso tecnológico e a competitividade não vão resolver. porque não se trata de concessão política. em seu texto – A Qualidade do Crescimento: como se explica o fato de países que tiveram praticamente os mesmos índices de crescimento apresentarem resultados muito diferenciados quanto às conquistas na melhoria da vida da população e quanto à sustentabilidade desse crescimento. o seu atendimento não significa concessão. e todo país deva se empenhar para alcançá-lo no intuito de obter estabilidade. Dessa forma. por meio de políticas sociais agressivas. o problema da pobreza. 168). SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Kliksberg (2002) ilustra suas considerações levantando o questionamento também apontado pelo Instituto de Pesquisa do Banco Mundial (2000). grandes diferenças entre dois tipos de crescimento (Kliksberg. O autor cita a visão sinteticamente verbalizada por alguns países: a única política social é a política econômica. além de responder a uma demanda legítima. “a política social também é um aspecto fundamental da ação em prol de um desenvolvimento sustentável” (p. bem gerenciadas e eficazes. Primeiramente. 2002): TERRITÓRIO. a política social conserva limitadas possibilidades de existir.

assim. Por meio da capacidade de associação. mas sim pré-requisitos para o crescimento da economia.” (KLIKSBERG. 170). produtivos. não recebe incentivos fiscais sistemáticos para sua promoção. e ocorrer apenas em alguns centros urbanos. 2002. “Com uma população com problemas de saúde. no entanto. não é merecedora de apoio especial. 2002. Considera-se. p. uma sociedade pode gerar toda sorte de formas de cooperação. E. Uma vez que não resolve nenhum problema de peso. e valores éticos. mas investir. que confere visibilidade a múltiplas formas de contribuição para o projeto global de desenvolvimento.TERRITÓRIO. perdem-se muitos anos de vida possível e os níveis de produtividade se reduzem” (KLIKSBERG. b) o crescimento compartilhado – que potencializa a população e aumenta suas possibilidades de integração através de seu eixo-base estratégico. “São débeis as medidas que almejam potencializar as possibilidades de participação da sociedade civil na política social. 173). que os bons níveis de saúde pública não são consequências. a política social é supérflua e constitui uma despesa. e com altíssimos níveis de retorno sobre o investimento (KLIKSBERG. dificultando o desenvolvimento de pequenas e médias empresas.a) o crescimento distorcido – que se reduz à função de apagar grandes incêndios. quando forte. o rendimento cai. podem proporcionar resultados positivos nos desempenhos macroeconômicos. demonstrando que destinar recursos à saúde não é gastar. Dentre 394 . Já os níveis de consciência cívica e os valores éticos influenciam as decisões individuais de participação ativa na resolução dos problemas coletivos. capacidade de associação. mas na verdade equivaleria à caridade. embora a Organização Mundial da Saúde já tenha jogado por terra essa suposição. De acordo com determinada posição. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Cresce. a política social. pelo fato de beneficiar principalmente poucos setores. Um dos graves problemas apontados por Draibe (2002) e Kliksberg (2002) – a contribuição marginal da sociedade civil – transmite a mensagem de que tal contribuição seria simbolicamente meritória. bem como o desenvolvimento de outras iniciativas econômicas de base. ou seja. 2002). p. concentrar ainda mais as oportunidades e a renda. constrói um tecido social rico. a visão segundo a qual fatores como confiança interpessoal. políticos e sociais dos países latino-americanos. consciência cívica.

nos quais o pobre aparece como alvo de projetos que procuram atenuar impactos. e não apenas os sintomas da pobreza. Assim.] É preciso somar o governo federal. 2002). [. por intermédio destas. caracterizam que. a sociedade civil e as organizações dos próprios pobres. também apontada por Draibe (2002) e Kliksberg (2002). é discutida em pesquisa desenvolvida pelo Banco Mundial (2000) no objetivo de levantar. constituiria a estratégia fundamental de superação dos moldes tradicionais de política social.] a pobreza não é apenas a carência de recursos básicos.. em função de sua pobreza material (p. Respostas às indagações sobre as organizações de confiança colocam em primeiro lugar as organizações dos próprios pobres.algumas expressões. dados indicativos de quais seriam as percepções dos pobres sobre a pobreza. Forte aliada da contribuição marginal da sociedade civil. ela atenta contra a sua dignidade como seres humanos. a desqualificação dos pobres. os municípios. da saúde. e integrar as ações nos campos do trabalho. as regiões. e não como sujeito capaz de oferecer contribuições importantes e. no Título III – Da Organização do Estado – Capítulo II – Da União: TERRITÓRIO. 175). da educação. e na desregulamentação jurídica. quase subumanos. estratégias entre as diferentes organizações (p. Assim. acima de tudo. Alguns resultados são trazidos por Kliksberg (2002): [. Eles são vistos como pessoas inferiores. Impõem-se alianças. 179. mediante a capacitação de seus líderes.. na visão de Kliksberg (2002): Uma política social eficaz é aquela que ataca efetivamente as causas. Enfim. 180).. mas destrói ou desgasta as famílias. Uma de suas vivências centrais é o olhar desvalorizado que converge para eles dos diferentes setores da sociedade.395 . na oferta de infraestrutura para atividades societárias. Política esta que teria total respaldo no que determina a Constituição Federal de 1988. além de causar danos psicológicos e afetivos. resgatar sua dignidade (KLIKSBERG. em 50 países. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO .. os pesquisadores recomendam que investir no fortalecimento da capacidade organizativa dos pobres. herança de nosso limitado welfare state. cita Kliksberg (2002) o voluntariado e a responsabilidade social das empresas privadas. da família e outras.

por parte do Legislativo quando este é efetivo (p. o emprego precário e a péssima distribuição de renda constituem para amplíssimo espectro de opiniões os principais problemas e os desafios a serem enfrentados pelo país nos próximos anos. o que dá ao governo maior latitude de operação. [. Esse posicionamento naturalmente não se limita ao Brasil.. Esperamos cumprir a parte que nos cabe. não articulado. pois não precisa confrontar-se com grupos sociais específicos. Santos (1994) alega.TERRITÓRIO. Um ou outro atendimento setorial fica por conta. 165). um consenso no país: A pobreza abjeta. promovendo a integração social dos setores desfavorecidos.. a existência do que Salisburg chama de padrão difuso de demandas. isto é. 78). neste caos. do Distrito Federal e dos municípios: X – combate às causas da pobreza e os fatores de marginalização. dos Estados. no sentido de Lowi. ao menos retoricamente. aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre: XV – proteção à infância e à juventude. 77. Discutir o que o município tem feito em prol da população pobre e das possibilidades de enfrentamento de suas vulnerabilidades. Afinal. Por diversas razões. Do banco Mundial ao austero FMI renova-se a ênfase sobre a necessidade de preservar os mais pobres dos custos sociais dos ajustes macroeconômicos (p. professores e pesquisadores. existe hoje. que aparentam ser tarefa de Sísifo ou política paternalista as escolhas da política pública de combate à pobreza. das políticas distributivas.] as demandas gerais da população que não afetam a um grupo específico dificilmente são capazes de mobilizar setores a ponto de que se organizem para reivindicá-las. ao longo da organização de um programa de Mestrado em Gestão do Território em solo valadarense. no entanto. há hoje unanimidade. segundo Medeiros (2001). tornase tarefa de todos nós. em razão da hipótese de Olson quanto à natureza da ação coletiva.Art 23 – é competência comum da União. Ao contrário. Art 24 – Compete à União. paternalistas. 396 . o grau de tolerância com a desigualdade e a pobreza historicamente muito elevada – parece ter reduzido. na sociedade brasileira. SOCIEDADE E MODERNIZAÇÃO . Ocorre aqui. mas principalmente pelo aumento do desemprego urbano que se afirmou na segunda metade da década.

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