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ARTE E CIBERCULTURA

– Georgiana, jamais pensaste na possibilidade de apagar


O pavor essa mancha da tua bochecha?
... Saíste das mãos da Natureza tão próxima da perfeição

da carne: que o menor defeito... escandaliza-me, por parecer um


sinal visível da imperfeição terrena.
... Vendo-a tão perfeita em todo o resto, porém, aquele

riscos da único defeito pareceu-lhe cada vez mais intolerável à me-


dida que passavam os dias de sua vida em comum. Era o
estigma fatal da humanidade, que a Natureza imprime
pureza sob uma ou outra forma em todos seus produtos, ora
para que se entenda que são temporais e finitos, ora para

e do sacrifício no indicar que a sua perfeição exigirá esforço e dor.


A manchaNathaniel Hawthorne
de nascença (1843)1

corpo-imagem O MUNDO ATUAL OSTENTA, entre muitos ou-


tros, um paradoxo que pode parecer des-
contemporâneo concertante. Por um lado, percebe-se um
evidente enaltecimento do corpo humano.
RESUMO Último grande refúgio da subjetividade, o
O artigo retrata o atual enaltecimento do corpo humano. Últi- corpo é obstinadamente submetido a toda
mo grande refúgio da subjetividade, o corpo é obstinadamente uma série de estratégias de design epidér-
submetido a toda uma série de estratégias de design epidérmi- mico que apontam para o cultivo das “boas
co que apontam para o cultivo das “boas aparências”, numa aparências”, numa era na qual a visibilida-
era na qual a visibilidade e o reconhecimento no olhar alheio de e o reconhecimento no olhar alheio são
são fundamentais na definição do que cada um é. fundamentais na definição do que cada um
é. Ao mesmo tempo, por outro lado – e é
ABSTRACT aqui que o mencionado paradoxo se ergue,
This text analyses the glorification of the human body, the last desafiando o pensamento para além das
evidências – o corpo é desprezado com uma
grand refuge of our subjectivity nowadays. The body has to
violência inédita.
be made almost perfect in its appearance by epidermic design
É precisamente a condição carnal e
because in the present era one is defined by the visibility and
material do corpo humano, a sua viscosi-
recognition of the gaze of the other
dade orgânica e biológica, que se tornou o
alvo de uma rejeição ativa nas sociedades
PALAVRAS-CHAVE (KEY WORDS) ocidentais dos inícios do século XXI – um
– Corpo (Body) tipo de formação social que assiste pela
– Aparência (Appearance) primeira vez na história a um crescimen-
– Mídia (Media) to desmesurado da obesidade em todo o
mundo, e a uma curiosa conseqüência des-
sa expansão: a lipofobia, um horror cada
vez mais visceral aos tecidos adiposos que
naturalmente conformam o corpo humano.
Assim, enquanto o capitalismo dos exces-
sos e da opulência, do marketing hedonista
e da gula consumista, sobrepõe-se à velha
economia da escassez, o costumeiro fantas-
ma da fome – um eterno companheiro inde-
sejável da humanidade – é desbancado por
um recém-chegado: o temível fantasma da
gordura.2 Cada vez mais, a sombra inchada
desse espectro apavorante agita os merca-
Paula Sibilia dos e desvela não apenas os cientistas em
UFRJ

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seus laboratórios (que desejam descobrir a investigados, levando em conta sua gênese
panacéia para exorcizá-lo), mas também e histórica e sua raiz nitidamente política,
sobretudo a ansiosa iniciativa empresarial pois tais tendências respondem às severas
(que desvaira por comercializar tal poção exigências de um determinado projeto de
mágica) e os igualmente ansiosos consumi- sociedade, atualmente vigente em vastos
dores (que desesperadamente querem com- setores do nosso planeta globalizado.
prá-la para vê-la agindo em seus próprios As novas práticas bio-ascéticas dos
corpos). regimes alimentares, das cirurgias plásti-
A despeito de todas essas novidades cas e dos exercícios físicos se expandem
decorrentes dos excessos da festa consumis- velozmente na procura do fitness – isto é,
ta, nos cantos mais esquecidos do planeta da árdua adequação dos corpos humanos a
não deixa de aumentar a porção da huma- um ideal exalado pelas imagens midiáticas
nidade que cotidianamente morre de fome: cada vez mais onipresentes e tirânicas, im-
24 mil pessoas por dia, 11 crianças por pondo por toda parte um modelo corporal
minuto. Longe dos holofotes e sem alardes hegemônico, e disseminando uma rejeição
midiáticos, obscuramente, o problema da feroz diante de qualquer alternativa que
fome tem crescido nos últimos anos, afetan- se atreva a questioná-lo. Constantemente,
do de maneira direta um quarto da popu- os indivíduos são interpelados por esses
lação mundial.3 Mas não adianta apelar ao discursos midiáticos e por essa aluvião de
catastrofismo das cifras, pois apesar de sua imagens que ensinam as formas e as leis do
brutal consistência, tais dados se perdem na “corpo bom”, e ao mesmo tempo são infor-
maré da informação cotidiana e seus efeitos mados sobre todos os riscos inerentes aos
potenciais são anestesiados no esqueci- “estilos de vida” que podem afastá-los peri-
mento prático. Hoje, então, o problema da gosamente desse ideal. O mero fato de viver
obesidade está sufocando o velho problema – isto é, o acaso de ser um corpo vivo, orgâ-
da fome, e a procura de soluções – tanto nico e material – já é uma enorme desvanta-
estritamente tecnológicas como biopolíticas gem nessa missão, pois quase tudo conduz
– visa quase exclusivamente a resolver a à fatal deterioração física. Comer, por exem-
primeira questão, relegando a segunda à plo, mesmo que seja apenas “alimentos
letra pequena do contrato social global.4 leves e saudáveis”; ou simplesmente estar
Em meio a um mundo esfomeado que no mundo enquanto o tempo transcorre e
incita à voracidade constante, portanto, os vai deixando suas abomináveis seqüelas na
cidadãos-consumidores que monopolizam carne – tudo conduz, inexoravelmente, à
o drama contemporâneo colocam em cena degeneração.
toda uma série de táticas e estratégias de Ainda assim, nos é dito que é possível
estilização corporal, visando a esconjurar prevenir o pior – ou, pelo menos, que seria
o fantasma da gordura. Essas práticas, que possível demorar a sua fatídica chegada.
invadiram o cotidiano nos últimos anos e Pois os riscos (ainda?) não podem ser elimi-
estão se tornando uma verdadeira obsessão nados de vez, só podem ser parcialmente
para boa parte da humanidade, procuram controlados ou, no melhor dos casos, dimi-
concretizar um sonho que ainda continua nuídos, lançando mão de grandes doses de
parecendo impossível: o de dominar essa prudência e sacrifício, privações e sofrimen-
carnalidade inefável e incômoda, sempre tos. Ou seja, graças a uma boa gestão de si
imperfeita, flácida, gordurosa, fatalmente que envolva não apenas o indispensável
submetida à dinâmica abjeta das secreções autocontrole, mas também um bom conjun-
e da decomposição orgânica. Almeja-se, to de práticas bio-ascéticas. Basta, portanto
nessa luta desigual contra a teimosia da car- – conforme nos é dito uma e outra vez – es-
ne, atingir uma virtualização imagética tão tarmos sempre alertas e informados sobre
descarnada como descarnante. Alguns ingre- os riscos que corremos e sobre as diversas
dientes desses sonhos etéreos merecem ser formas de contorná-los, para tomarmos as
decisões adequadas e agirmos corretamen-

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te, a fim de manter sob controle os inevi- vida, da importância que vem ganhando o
táveis desbordes do nosso lastro demasia- mercado das aparências. Cada vez mais, a
damente carnal. Assim, a responsabilidade subjetividade parece se ancorar na exterio-
individual constitui a base de toda uma sé- ridade da pele, nos sinais visíveis emitidos
rie de novas condenações morais, que têm o por um corpo que rivaliza constantemente
corpo como seu principal alvo e campo de pela captação dos olhares alheios em um
ação. mundo saturado de estímulos visuais.
Pureza e sacrifício são dois concei- Essa tendência reflete um certo es-
tos-chave nestes processos. Toda impureza vaziamento da interioridade, no sentido
orgânica será repelida e, para isso, impõe-se de um espaço íntimo e privado localizado
um amplo catálogo de rituais de um novo “dentro” de cada indivíduo; uma esfera
tipo de sacrifício da carne, que envolve o “interior” que, ao longo da Modernidade,
intenso investimento de três elementos dos constituíra o eixo em torno do qual as sub-
mais prezados na cosmologia contemporâ- jetividades eram definidas – zelosamente
nea: dor, tempo e dinheiro. Assim, junto alicerçadas e laboriosamente edificadas,
com um certo neo-gnosticismo de inspiração nesse âmago fértil porém oculto nas pró-
digital, que pretende virtualizar o corpo
prias profundezas. 6 Mas o apagamento
humano ultrapassando os limites da sua
desse magma interior que costumava dar
materialidade orgânica, novas formas de
consistência ao homo psychologicus está
ascetismo se desenvolvem, na procura de
cedendo terreno a outras construções sub-
um corpo construído como uma imagem
jetivas. Assim, tendências exibicionistas e
pura, um modelo insuflado pelo imaginário
digital que permeia a nossa cultura. Isto é, performáticas alimentam as novas modali-
um corpo-ícone desenhado para o consumo dades de construção e consumo identitário,
exclusivamente visual. numa espetacularização do eu que visa à
obtenção de um efeito: o reconhecimento
Canto ao corpo “perfeito”: o espelho nos olhos do outro e, sobretudo, o cobiçado
convexo da subjetividade con- fato de ser visto. Nesse contexto, a subjetivi-
temporânea dade é estruturada em função da superfície
visível do corpo, que se torna um espaço de
Se existe alguma possibilidade, por criação epidérmica e um campo propício
remota que ela for – prosseguiu Ge- para a expressão do que cada um é.
orgiana –, devemos tentar. Pouco im-
porta o risco. O perigo não representa Risco, prudência, segurança e respon-
nada para mim; enquanto esta man- sabilidade individual na socieda-
cha odiosa me converter em causa de de dos excessos
teu horror e tua repugnância, a vida...
a vida é uma carga da qual me livraria Minha nobre esposa, já tenho te injeta-
com prazer. 5 do substâncias de tanta potência que
o próximo passo seria modificar o teu
Todas as culturas possuem um certo organismo por completo. Só resta uma
ideal de “corpo belo”, que dissemina seu coisa para fazermos. Se falhar, estare-
cânone e propaga uma “normalização” da mos perdidos... 7
população em torno dessa proposta ideal.
Na sociedade contemporânea, entretanto, A imposição de um ideal de beleza corpo-
tal modelo parece se impor de maneira cada ral cada vez mais rígido implica, também,
vez mais opressiva e generalizada, investin- a propagação de novos tipos de condena-
do os corpos e as subjetividades com uma ção moral, que envolvem a acusação de
potência inédita. A força incomum desse negligência àqueles que não conseguem se
imperativo na época atual decorre, sem dú- enquadrar nesse padrão. Assim, os impe-

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rativos da prevenção e do fitness se tornam tais. Com a progressiva satisfação das ne-
compulsórios, generalizando a obsessão cessidades materiais e, de certo modo, com
pela saúde, pela juventude e pela beleza. a virtual eliminação do problema da escas-
Tais fenômenos parecem constituir novos sez, a partir dos avanços tecnocientíficos e
vetores do biopoder, desenvolvidos na dos conseqüentes excessos na produção de
sociedade contemporânea a partir da pri- bens, emergiu um efeito colateral indeseja-
vatização das biopolíticas (outrora estatais, do: teriam aumentado consideravelmente
e portanto públicas) e da disseminação da o número e a dimensão dos riscos e das
lógica empresarial em todos os âmbitos. Re- ameaças, tanto em nível individual como
formulando esses conceitos forjados por Mi- global. O lado obscuro do crescimento das
chel Foucault em suas análises da sociedade forças produtivas na modernização é, curio-
industrial, hoje as políticas que modelam a samente, um incremento paralelo das forças
vida não se dirigem aos cidadãos dos anti- destrutivas.
gos Estados-Nação mas a outro tipo de “su- Assim, em decorrência de tais proces-
jeitos livres”: aqueles inseridos nos circuitos sos, nas últimas três décadas foi se configu-
integrados do capitalismo pós-industrial.8 rando um novo perfil estatal, associado às
Nesse difícil contexto, é preciso pla- tendências privatizantes do neoliberalismo.
nejar a própria vida como os empresários Nesta sociedade do risco, a função do Esta-
delineiam as estratégias de seus negócios: do passa a ser a de garantir uma certa dis-
avaliando os riscos e fazendo as escolhas tribuição desses riscos entre os membros
certas; ou seja, aquelas que visem a maximi- da população (envolvendo a prevenção e
zar a “qualidade de vida”. Em um mundo o controle), e não mais uma distribuição
articulado pelas leis impiedosas do mercado da riqueza escassa – tarefa que seria deixa-
universal, todos devem assumir seus papéis da, cada vez mais, em mãos do mercado e
de consumidores e gestores de si, adminis- dos próprios indivíduos. Cabe acrescentar,
trando seus capitais vitais para exibir um aqui, um parêntese importante, pois é pre-
bom desempenho e um perfeito domínio de ciso adicionar a esse quadro a imposição
si. Os recursos pessoais e privados devem de uma certa lógica vinculada ao consumo
ser otimizados, gerenciando as opções de como um ingrediente fundamental da so-
acordo com parâmetros de custo-benefício, ciedade atual, que considera apenas certos
performance e eficiência. Assim, a lógica da segmentos da população e ignora – ou ex-
empresa se espalha por todo o corpo social. clui – aqueles que ainda são atingidos pela
A idéia de risco é especialmente rele- velha (porém virulenta) lógica da escassez.9
vante nesta nova configuração, pois denota Somente considerando esta importante res-
várias transformações com relação à socie- salva é possível afirmar, junto com Beck,
dade que se organizava em torno do capi- que hoje “o problema do sobrepeso ocupa
talismo ancorado na indústria. Esse tipo de o papel antes ocupado pela fome”,10 como
formação social, que vigorou ao longo do duas metáforas perfeitamente atinadas das
século XIX e teve seu auge na primeira me- fantasmagorias mais pregnantes, respecti-
tade do século XX, ainda era uma sociedade vamente, das sociedades da abundância e
da escassez administrada por um Estado re- das sociedades da escassez.
gulador cuja função primordial consistia na Aparentados com os espectros obe-
distribuição da riqueza. Tal é, reproduzida sos que se multiplicam sem cessar, esses
de maneira um tanto esquemática, a forma riscos high-tech que hoje nos assombram
com que Ulrich Beck conceitua o Estado de também são fruto do excesso, pois não se
bem-estar em seu livro já clássico sobre a trata mais dos clássicos perigos vinculados
Risk Society, no qual elucida uma série de à escassez ou à precariedade que tradicio-
mudanças relativamente recentes na lógica nalmente vigoraram em todos os tempos e
de funcionamento das sociedades ociden- espaços do longo drama humano. Trata-se,

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portanto, pelo menos nesse sentido pontu- sabilizar; são eles próprios que devem pagar
al, de um fenômeno radicalmente novo. E por isso.
ainda há outra questão igualmente nova e Em um mundo que consagra a pru-
inquietante: a fome, se for considerada um dência como um dos valores mais prezados
problema absoluto, é do tipo que poderia e convenientes, não surpreende que a segu-
ser inteiramente resolvido: basta comer, e rança se torne a grande demanda social e o
ela será saciada. Já o risco é um problema único fim ainda legítimo da política, e que
de outra natureza, pois por sua própria de- a incerteza e o pânico dominem as subjeti-
finição jamais poderá ser eliminado de vez. vidades mais enfraquecidas e vulneráveis,
O risco é uma probabilidade; e como tal, em inscritas em um nível jamais vivenciado
maior ou menor grau, ele sempre existirá. de individualismo, de “declínio do homem
Essa variável do grau de incidência pode (e, público” e de enorme descrédito com re-
cada vez mais, deve) ser calculada em cada lação às possibilidades da ação política.13
circunstância particular; porém há uma ver- Tornam-se incompreensíveis, neste quadro,
dadeira tragédia na base: o risco jamais po- os principais elementos da antiga “ética do
derá ser eliminado completamente. E ainda guerreiro”, bem como as conotações positi-
há outro elemento perturbador: mais uma vas que o ato de “se arriscar” poderia ema-
vez, diferentemente de problemas como a nar.14 Ao contrário, a epopéia mesquinha
fome (que afeta apenas a alguns e pode ser da gestão de si é individualista, refratária
saciada), o risco afeta a todos os indivíduos aos coletivos e fortemente apolítica. Apre-
– em menor ou menor grau, eis a questão. senta-se como mais uma torção da velha
A conclusão é terrível: não há como fugir ética protestante, com seus tradicionais
dele, e tampouco é possível esquivar a sua ascetismos e outros sacrifícios que residem
minuciosa lógica do cálculo, da negociação na base do pathos burguês.15 A imagem que
e da prevenção sem fim. com mais força se evoca, porém, é a daque-
Contrariamente ao que ocorre com o la medrosa toupeira que protagoniza uma
exemplo da fome, só pode haver risco se for das fábulas mais impressionantes de Franz
possível escolher entre várias opções dis- Kafka: A construção.16 Em uma sociedade
poníveis e, a partir daí, tomar decisões. Em articulada pelos riscos e pelo pânico indivi-
total concordância com as regras básicas dual, é o futuro (possivelmente terrível) que
do ideário neoliberal, portanto, a responsa- determina e molda o presente (que, mesmo
bilidade é de cada indivíduo. Retomando sendo morno ou medíocre, se quer imutável
o exemplo da obesidade e do sobrepeso e eterno). Mas essa moldagem é exercida
como um risco que a todos pode afetar, sob a forma da prevenção, da prudência e
cada um também pode optar por limitar (ou do medo, e não mais sob os ímpetos re-
não) certos prazeres atuais a fim de evitar volucionários da construção, dos desejos
o sofrimento no futuro. Assim, a lógica da desmesurados (e portanto necessariamente
distribuição do bem-estar foi relegada aos arriscados e destemidos) ou até mesmo das
indivíduos, pois com a crise do Estado ben- antiquadas utopias.
feitor cada um deve cuidar de si. De acordo
com seu novo perfil, agora o Estado só pode Sonhos anoréxicos contra o corpo
cuidar dos prudentes.11 Neste sentido, é sin- abjeto: o arriscado fundamen-
tomática a proposta do governo da Austrá- talismo da norma
lia de instituir um imposto especial para os
obesos mórbidos – aqueles que excedem em A mancha encarnada simboliza a ine-
mais de 50 quilos o peso considerado pa- vitável férula da mortalidade sobre
drão – por eles onerarem o sistema público o lodo humano da mais alta e pura
de saúde.12 A mensagem é clara: se a culpa é condição, que vê imposta uma familia-
deles, então não cabe ao Estado se respon- ridade degradante com o mais baixo, e

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até mesmo com as bestas, a semelhan- cas certas patologias relacionadas com as
ça das quais sua forma visível volta ao distorções da imagem corporal – dolências
pó.17 que outrora se apresentavam de maneira
isolada e constituíam casos raros, mas nos
No contexto descrito nas páginas preceden- últimos tempos estão se espalhando de for-
tes, parece lógico que os fumantes sejam ma alarmante. A anorexia, por exemplo, se
estigmatizados por serem incapazes de alastra com a velocidade e a virulência de
cuidar da sua própria saúde – e por coloca- um vírus, sobretudo entre as adolescentes
rem em risco, de maneira irresponsável, a das classes médias e altas das grandes ci-
saúde alheia. Do mesmo modo, os obesos dades do mundo ocidental, com especial
são desprezados por demonstrarem uma incidência em certas áreas da América Lati-
incapacidade flagrante para administrarem na. De acordo com estudos publicados nos
a sua aparência com sucesso. O mesmo ve- últimos anos em periódicos como o Journal
redicto se aplica, cada vez mais, a qualquer of Adolescent Health e o American Journal of
pessoa cujo aspecto se distancie do modelo Psychiatry, a anorexia nervosa é a terceira
considerado “correto”. Apesar da exacer- doença crônica mais freqüente entre as mu-
bação do individualismo na sociedade con- lheres adolescentes – depois da obesidade
temporânea, e da ênfase na livre-escolha e (!) e da asma. Existe todo um leque de qua-
na responsabilidade individual que alicerça dros anorexoides, em cujo extremo de gravi-
a nossa risk society, observa-se uma mora- dade figura a anorexia vera; neste caso, 90%
lização crescente das práticas corporais e das vítimas é de mulheres e apenas 10%
uma evidente condenação moral a quem de homens. O quadro envolve uma busca
não se enquadrar no padrão culturalmente tenaz da magreza e uma autovaloração ex-
imposto. cessivamente baseada no aspecto corporal.
Pois com a crise da “vida interior” e Em todos os casos, a eficácia conseguida no
o deslocamento da identificação subjetiva controle do próprio peso – visando à sua
para a exterioridade e para a visibilidade, diminuição constante e sem fim – é o princi-
hoje o caráter se torna externo. Cada um pal fator determinante da auto-estima.
passa a ser aquilo que mostra de si. Cada vez Percebe-se, portanto, que a sintomato-
mais, a marca identitária se fundamenta na logia desses transtornos dismórficos – não
aparência, nos sinais exteriores e visíveis apenas da anorexia, mas também de outras
emitidos por cada pessoa. O corpo se torna variantes como a bulimia, a vigorexia e a or-
uma imagem a ser exibida; e essa imagem torexia18 – parece denotar um tipo de adap-
deve ser jovem, bela e magra. Assim, o su- tação compulsiva à norma. O que não dei-
jeito excedido de peso é reprovado por não xa de constituir um certo paradoxo, numa
ser um bom gestor de si. Isso equivale a sociedade que alardeia o triunfo definitivo
afirmar que se trata de alguém moralmente da livre-escolha e do hedonismo, instando
fraco, pois em um mundo comandado pelos à negociação individual permanente entre
ditados do mercado e no qual vigora a ad- os riscos e os benefícios de cada decisão,
ministração individual dos capitais vitais, propondo desafios que são cada vez mais
o lema é evidente: “só é gordo quem quer”. difíceis de concretizar: seja diferente e seja
E, como parece óbvio que ninguém poderia você mesmo. Mas tal paradoxo talvez possa
mesmo “querer” tal coisa no mundo con- ser desfeito, revelando os fios lógicos que o
temporâneo, supõe-se que só estará excedi- constituem.
do de peso quem não conseguir se autocon- Segundo a pesquisadora norte-ameri-
trolar – ou seja, quem for incapaz de não ser cana Gail Weiss, a sociedade atual promove
gordo, quem é negligente, ineficaz, fraco. uma “rejeição corporal à corporeidade”,
Tampouco surpreende, neste árduo uma vontade de transcender a materialida-
contexto, que estejam se tornando endêmi- de orgânica do corpo. Tal tendência seria

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uma exacerbação de um fenômeno univer- do nas perversões sexuais – como apregoou
sal e de um mecanismo psicológico “nor- longamente o saber psiquiátrico constituí-
mal” na construção da imagem do eu: a do no século XIX – mas na negligência, ou
exclusão do abjeto. Isto é: algo “repulsivo” na incapacidade de manter o autocontrole
ligado à animalidade do corpo humano, às com relação a certos itens específicos: ali-
vísceras e à viscosidade orgânica – enfim, o mentos “proibidos”, cigarros, álcool, dro-
pólo material do velho dualismo cartesiano, gas, etc. Os sujeitos que hoje se desviam são,
tradicionalmente desdenhado ao longo da precisamente, aqueles que não cuidam de
história da metafísica ocidental por se asso- si, que não conseguem tratar e moldar seus
ciar à imanência contrapondo-se à transcen- corpos da forma “certa”, demonstrando
dência imaterial da mente ou da alma.19 falhas na sua função de autogestores. Em
Esse elemento repulsivo, portanto, síntese: aqueles que não conseguem culti-
costuma ser expulso da unidade corporal var estrategicamente a sua imagem pessoal
simbolicamente construída a partir da ex- e a sua reputação. Tratar-se-ia, portanto, de
periência sempre fragmentária do corpo “seres abjetos”, eventualmente excluídos
vivo e respeitando a norma culturalmente até da própria categoria de sujeitos. De cer-
imposta.20 to modo, tais criaturas estariam no limiar
Embora o abjeto seja normalmen- da humanidade, sempre ameaçadas de caí-
te excluído das construções identitárias, rem no domínio das monstruosidades e das
ele permanece assediando nas sombras e aberrações.
constitui uma ameaça permanente de de-
sestabilização para a unidade do eu. Os Novos rituais bio-ascéticos: o sacrifício
sujeitos “saudáveis”, porém, habituam-se da carne rumo ao ideal descar-
a negociar com tais pressões, e conseguem nado
manter as fronteiras dentro de limites tole-
ráveis para a unidade subjetiva. Já aqueles Seu coração tremia, é verdade, mas
que sofrem de patologias vinculadas às dis- Georgiana exultou ao pensar no nobre
torções da imagem corporal, ao contrário, amor de Aylmer; um amor tão puro e
exprimiriam uma incapacidade de negociar elevado que somente aceitaria a per-
entre a norma e a multiplicidade de ima- feição, sem se resignar jamais (triste
gens corporais decorrentes da experiência derrota) a uma condição mais terrena
do corpo vivo, fomentando uma excessiva do que aquela que sempre sonhara.
coerência da imagem corporal – uma entidade Compreendeu quão preferível era
que habitualmente é fluida e instável. Essa aquele sentimento a qualquer outro
rigidez e essa dura obstinação na coerência que pelo seu próprio bem suportasse,
acabam dando à luz a subjetividades “fun- mais mesquinho, a imperfeição, e in-
damentalistas” da imagem do corpo ideal: corresse no delito de traição contra o
aquele modelo que opera como uma norma amor sagrado, por degradar sua idéia
na sociedade. A identidade se projeta nessa perfeita a níveis de realidade. 21
imagem especular (e cultural, portanto in-
tersubjetiva), e adere a ela rigorosamente, Paradoxalmente, em uma sociedade que
a fim de obter o reconhecimento nos olhos alardeia os consumos hedonistas e na qual
dos outros. Na base de tais processos escon- vigoram o imperativo do gozo constante e
de-se um temor excessivo à fragmentação da felicidade compulsória, o corpo humano
identitária – e, certamente, também à visco- é desprezado. Ele é condenado por ser im-
sidade orgânica do corpo; ou seja: ao abjeto puro em um novo sentido: imperfeito e fi-
que deve ser banido. nito; orgânico, demasiadamente orgânico...
De acordo com esta perspectiva, então, e, portanto, fatalmente condenado à decom-
hoje o desvio da norma não estaria encarna- posição e à obsolescência.

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A acusação de impureza aplicada ao Imagens da pureza (digital) e a rejei-
corpo humano não é uma novidade históri- ção da materialidade orgânica
ca. No entanto, apesar das evidentes seme-
lhanças, a poluição atual não é idêntica à Escolhendo-a como emblema da pro-
que vigorou em outros períodos da civiliza- pensão de sua esposa ao pecado, à
ção ocidental. Em um mundo secularizado miséria, à deterioração e à morte, a
e completamente atravessado pela lógica sombria imaginação de Aylmer não
do mercado e pelos dispositivos tecnocien- demorou em converter a mancha de
tíficos, é inconcebível qualquer sacrifício nascença num objeto de espanto, ori-
em nome de valores transcendentes. Ao gem de um desassossego e um horror
contrário, o novo ascetismo mantém uma maiores do que todos os deleites que
relação complexa e aparentemente contra- a beleza de Georgina poderia ter nele
ditória com o mercado e com as práticas he- suscitado... 23
donistas ligadas ao consumo, dando à luz a
uma série de rebentos característicos da era Esse modelo corporal fat-free que
atual: da prolífica bibliografia de auto-ajuda está se tornando hegemônico nas culturas
a toda a farmacopéia antioxidante, envol- aglutinadas pelo mercado global parece se
vendo uma miríade de produtos e serviços aproximar, cada vez mais, de um ideal de
que cobrem dos suplementos vitamínicos às pureza digital. Vale lembrar, por exemplo,
cirurgias plásticas, das academias de ioga que programas de edição gráfica – como o
aos spas e aos personal trainers. O novo recei- PhotoShop e outras ferramentas do gênero
tuário da expurgação compreende, assim, – desempenham um papel fundamental na
das dietas à musculação, toda uma série construção das imagens publicitárias e mi-
de práticas acéticas de novo cunho, que diáticas que expõem “corpos belos”, e que
exigem dos sujeitos uma disciplina férrea e constituem uma poderosa fonte de imagens
uma intensa série de sacrifícios – além de corporais no mundo contemporâneo. Todos
tempo e dinheiro, dois fatores primordiais os “defeitos” e outros detalhes demasiada-
na presente formação histórica. Tudo isso mente orgânicos presentes nos corpos foto-
na procura de uma certa pureza. grafados são eliminados, retocados ou cor-
Mas de que pureza se trata? O objetivo rigidos na tela do computador, utilizando
explícito de tais rituais não é alcançar a ex- esses instrumentos de software. Assim, as
celência pública (como na polis grega) ou a imagens expostas no mercado de produtos,
comunhão com Deus (como nas experiên- serviços e aparências aderem a um ideal de
cias místicas), pois a intenção não consiste pureza digital, longe de toda imperfeição
em se libertar dos caprichos do corpo para toscamente analógica e de toda viscosidade
dominar a si mesmo e aos outros, e tam- exageradamente orgânica.
pouco em transcender a vida mundana para Esse modelo digitalizado – e, sobre-
atingir outras alturas.22 Ao contrário, a nova tudo, digitalizante – hoje extrapola as telas
moralização das práticas corporais tem me- para impregnar os corpos e as subjetivi-
tas bem mais prosaicas: vencer no mercado dades, pois as imagens assim editadas se
das aparências, fazer sucesso, ganhar efici- convertem em objetos de desejo a serem re-
ência e efetuar uma boa performance física produzidos na própria carne virtualizada.24
e sobretudo visual; enfim, todos valores E, como ocorre com os transtornos dismór-
mercadológicos. O termo fitness, nesse sen- ficos, o bisturi digital também costuma es-
tido, revela sua origem etimológica em lín- colher os jovens corpos femininos como seu
gua inglesa e se mostra como uma palavra alvo predileto – uma coincidência que, cer-
de ordem que incita a se adequar ao modelo tamente, não convém nomear com a palavra
hegemônico. acaso. Mas há um detalhe particularmente
interessante nas desmesuradas ambições

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destas “bonecas digitais”: elas pretendem de modelos 3D (todas femininas e digitais)
abandonar todo e qualquer vínculo com a criadas por programadores de software de
materialidade, diferentemente do que ocor- diversos países (todos masculinos e analó-
rera com as suas ancestrais, aquelas andrói- gicos). De acordo com o coordenador do
des (ou ginóides) imaginadas entre os sécu- evento, a meta é buscar “um ideal de bele-
los XVIII e XX, personagens decalcadas no za contemporâneo através da realidade vir-
modelo da máquina analógica que vigorou tual”.27 A proposta evoca a figura de uma
no auge da sociedade industrial – como as pioneira: Lara Croft, famosa personagem do
pioneiras Olímpia de Hoffmann e Eva Futu- jogo de computador Tomb Raider, que após
ra de L’Isle Adam, ou até mesmo a famosa se converter em “símbolo sexual” em sua
robô do filme Metrópolis.25 As novas versões versão virtual, chegou a ser interpretada no
da feminilidade tecnologizada superam cla- cinema por uma atriz real – porém, como já
ramente esses antigos modelos, pois agora é de praxe, tanto no filme como nas fotogra-
não é apenas a materialidade orgânica que fias de divulgação, as imagens do corpo e
se vê rejeitada: as reluzentes damas de bits do rosto da protagonista foram convenien-
de hoje em dia dispensam também o har- temente retocadas e “aperfeiçoadas” com
dware mecânico para assumirem seus cor- artimanhas digitais. Ecoando esses fenôme-
pos de puro software; ou melhor: de pura nos, a revista Playboy anunciou que irá fazer
imagem imaterial. algo até agora inédito: pela primeira vez na
Numa redefinição radical da sensuali- história, em sua edição de outubro de 2004,
dade, trata-se de um corpo-ícone descarna- a emblemática revista publicará uma série
do e bidimensional (embora com polidos de ensaios eróticos com imagens de várias
“efeitos 3D”), desenhado exclusivamente “divas virtuais”, entre as quais se destaca a
para ser exibido e observado; isto é, con- heroína do jogo Bloodrayne.28
sumido apenas visualmente. Nessa curiosa Novidades desse tipo parecem ensaiar
dissipação da matéria que subjaz aos novos os primeiros passos de uma fantasia cole-
modelos corporais, somente um dos cinco tiva que propõe modelos hiperrealistas. Ou
sentidos perceptuais é privilegiado – sig- seja: mulheres especialmente planejadas
nificativamente, aquele que opera melhor para serem belas e visualmente atraentes,
com a distância: a visão. Munido de toda constituindo modelos quase impossíveis
uma tradição “objetivante” que o legitima de tão “perfeitas” e com evidentes “vanta-
como um mecanismo detentor da “verda- gens” se comparadas com suas colegas tra-
de”, o olhar monopoliza a sinestesia e acaba dicionais e analógicas, aquelas que são pro-
empobrecendo toda a riqueza sensorial na dutos do acaso biológico e que se compõem
apreciação da beleza, da espessura e da po- da matéria mais vulgar e mundana: átomos,
tência dos corpos. ossos, carne e vísceras – entre outros abjetos
Em 1999, uma das principais agências e partes malditas. Assim, os novos vetores
de modelos do mundo, a Elite, lançou um do biopoder desdobram seus imperativos:
produto e um pacote de serviços inovado- os corpos reais devem sofrer para estarem à
res: a modelo Webbie Tookay, uma morena altura desses modelos hiperreais.
digital que seria a primeira integrante de
uma equipe formada por versões em bits de O corpo light: jejuns purificadores e
representantes de todos os tipos femininos a luz como alimento
bem cotados no mercado das aparências.
“Estamos lançando um novo conceito de Georgiana não deixou de observar que
beleza para o próximo milênio”, declarou seus mais esplêndidos sucessos eram
o diretor da agência.26 Atualmente está sen- quase sempre fracassos se compara-
do organizado um concurso para escolher dos com o ideal ao qual aspiravam. 29
a Miss Mundo Digital, com a participação

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Esse ódio à flacidez e à gordura, todo um atributo exclusivo dos pobres abjetos
esse desconforto com relação à materiali- esfomeados, mas também dos membros do
dade orgânica do corpo humano, chega a extremo oposto da pirâmide social – aque-
ter algumas ressonâncias insólitas – que, no les que desesperadamente desejam fugir de
entanto, podem ser interessantes para ilu- uma nova ameaça de abjeção: a gordura.
minar as hipóteses aqui propostas, pois se Curiosamente, esses extremos parecem se
apresentam como sintomas de uma impor- encontrar hoje em dia, conformando uma
tante tendência atual. Uma delas é aludida interessante paródia do capitalismo contem-
em uma notícia publicada originalmente no porâneo como uma fabulosa máquina de
jornal The New York Times sob o título “O je- produção de excesso e de falta ao mesmo
jum prolongado vira moda em um setor da tempo. Assim, perfeitamente delimitados
classe média alta”. O artigo se refere a um em termos sócio-culturais e econômicos, o
novo hábito tido por salutar, explicado da fantasma da fome e o fantasma da gordura
seguinte maneira: “deixar de comer alguns assombram os sujeitos contemporâneos de
dias ajuda a purificar o corpo contaminado modos bem diversos e até mesmo contradi-
pela comida-lixo e a mente fustigada pelo tórios – e, talvez, provavelmente, também
estresse”. Uma nutricionista citada no texto complementares.
assevera que o jejum conduz a uma depu- O fenômeno é ilustrado de maneira
ração completa do corpo: “permite que o incrivelmente literal pelo “casal que se ali-
sistema digestivo descanse e dá tempo para menta de luz”, uma notícia que foi bastante
que as enzimas se dediquem a curar os ór- divulgada pela mídia em anos recentes, de-
gãos, a rejuvenescer as células e a voltar o monstrando uma capacidade singular para
tempo para trás, além de fazer com que a impregnar o imaginário social. Parece uma
agulha da balança retroceda”. Mas a repor- fábula, mas não é: a brasileira Evelyn Levy
tagem cita também as vozes dissonantes Torrence, de 40 anos de idade, e seu marido
de alguns profissionais da área de saúde, Steve Torrence, norte-americano, contam
que alertam contra os perigos envolvidos a quem quiser ouvi-los que perderam “o
nessa retórica da pureza corporal e esclare- vício de comer”. Ambos juram não ter in-
cem que “nossos corpos não estão sujos”. gerido absolutamente nenhum alimento
Uma psicóloga especializada em desordens desde 1999, diminuindo também drastica-
alimentares, por sua vez, afirma que “a mente o consumo de líquidos. “Trata-se de
mera idéia de que seja possível superar as um processo de purificação orgânica, como
necessidades corporais e a estimulação am- uma cura de desintoxicação”, explica o
biental à comida transmite uma sensação casal, que mora na Florida (EUA) e integra
de pureza e de virtude”. A estranha moda uma agrupação internacional composta por
talvez não seja tão estranha assim: ela tem milhares de pessoas dedicadas a seguir os
“motivos óbvios”, conclui o artigo, porque ensinamentos da australiana Jasmuheen,
hoje presta-se cada vez mais atenção à dieta autora do livro Viver da Luz – que também
e à saúde; “muitas pessoas reagem com for- afirma praticar esse “estilo de vida” desde
ça diante da atitude insalubre da sociedade 1993.31 De acordo com esta perspectiva, o
com relação aos alimentos, pois temem o hábito de comer não constitui uma necessi-
impacto da comida-lixo em suas vidas e o dade biológica do organismo humano mas
fantasma da obesidade, que vai crescendo um “vício mortal”, que se pode (e se deveria)
com os anos”. 30 perder. “Só comemos porque estamos vicia-
Trata-se de uma releitura paradoxal dos em comida, uma dependência causado-
– e, sem dúvida, carregada de feroz ironia ra de 90% das doenças da humanidade”.32
– da famosa música de Chico Buarque, Brejo É interessante comparar o site desse
da Cruz (1984). Neste caso, porém, a novi- etéreo casal na Web – intitulado Vivendo da
dade de “se alimentar de luz” não é mais Luz,33 com toda sua eloqüência neo-gnóstica

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de espiritualização e superação triunfante cultura new age de inspiração orientalista,
dos limites corporais – com os weblogs que a luz do sol é apresentada como capaz de
aderem ao movimento conhecido como nutrir os corpos humanos e mantê-los vivos
ProAnorexia, nos quais adolescentes vítimas – além de mais belos e sadios – sem a neces-
desse transtorno dismórfico confirmam sidade de “poluí-los” com alimentos gros-
sua opção por esses “estilos de vida” e de- seiramente materiais, uma proposta seme-
fendem seus “direitos de não comer”. As lhante emana de outro campo fundamental
autoras desses blogs publicam fotografias da cultura contemporânea: a tecnociência.
delas próprias e de suas heroínas que lhes Trata-se da invenção de “comida digital”,
proporcionam thinspiration ou “inspiração alimentos compostos apenas de software,
para emagrecer” (como a modelo Kate substâncias imateriais escritas em código in-
Moss e a atriz Calista Flockhart), trocam formático. Esse sonho já foi apresentado em
informações e truques para perder peso diversas ocasiões na ficção-científica, como
e glorificam a capacidade de controlar o por exemplo na primeira parte da trilogia
próprio corpo. Uma delas, por exemplo, de- Matrix – numa cena daquele filme, diante
sabafa assim: “Tenho que tirar essa banha de um suculento prato de comida prestes a
que está no meu corpo, tenho que conseguir ser devorado, um personagem explica a ou-
e vou conseguir; nós todas vamos ser ma- tro que tanto o prato como os alimentos que
gras e lindas, vamos ser perfeitas; unidas, ele contém na realidade não existem, pois
temos muito mais força para combater a tratar-se-ia de mera informação; ou seja,
comida!”.34 Outro desses sites se apresen- instruções de software capazes de disparar
ta assim: “A anorexia não é uma doença e no cérebro todos os efeitos sensoriais que
nem um jogo; é uma habilidade, aperfeiço- uma versão real do alimento produziria ma-
ada somente por umas poucas pessoas: os terialmente.
escolhidos, os puros, os impecáveis”.35 A Mais uma vez, a tecnociência se pro-
retórica, como se vê, é exatamente idêntica põe a realizar os sonhos da ficção-científica
à utilizada pelo casal que “se alimenta de que povoam o imaginário contemporâneo,
luz”. O contraste entre ambas as estratégias como anunciou o periódico Technology Re-
purificadoras, porém, é atroz: toda a pulcra search News em agosto de 2003: “pesquisa-
imaterialidade, a pureza não-orgânica e a dores da Universidade Tsukuba elaboraram
cândida luminosidade do primeiro caso se um simulador de comida que emula os
estilhaçam neste outro. Em contraposição sons, as texturas e os sabores associados ao
àquela leveza supostamente incorpórea ato de comer comida real”. O aparelho con-
revestida com um verniz de irrealismo zen siste numa complexa interface para morder,
bem ao gosto midiático, aqui, corpos evi- um alto-falante que acrescenta o som (das
dentemente mortificados protagonizam um mordidas, da mastigação e do ato de tra-
drama marcado pela teimosia da carne e gar), um vaporizador que espalha cheiros
pelo intenso sofrimento psicofísico dessas e aromas, e um dispositivo que combina
jovens que desejam dela se livrar. os elementos básicos que definem o sabor
Mas ambas as estratégias estão apa- (doce, azedo, amargo, salgado), todos cap-
rentadas e sugerem a existência de uma raiz tados com sensores específicos a partir de
comum; uma atmosfera que as excede e as alimentos reais.37 O que se come, porém, é
engloba, um certo clima sócio-cultural, eco- nada. Por tal motivo, o curioso e ainda pre-
nômico e político que as acolhe e as torna cário artefato parece traduzir um grande
possíveis. Não constituem, certamente, os sonho da subjetividade contemporânea:
únicos exemplos de “artistas da fome” que conservar o prazer sensorial de consumir
hoje proliferam, genuínos fundamentalis- certos alimentos, mas sem acrescentar ma-
tas da norma em meio à crescente cultura téria alguma ao corpo que “come”. Pois
do risco.36 Se, sob o amparo de uma certa também neste caso ingere-se apenas a mais

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pura luz – aqui, entretanto, ela é literalmen- ceito pode ser formulado como uma certa
te digital. visão do mundo, um equivalente da ordem.
Nesse sentido, o oposto do puro (isto é, o
A moral da comida impura: último impuro, o sujo, a poluição, enfim, o abjeto)
capítulo de uma longa história equivale àqueles elementos que desafiam
uma certa ordem (isto é, um ambiente defi-
A mancha fatal segurava o mistério da nido como regular e estável, um meio confi-
vida; era o laço por meio do qual um ável). A busca da pureza, portanto, consiste
espírito angélico permanecera unido a em se livrar desses elementos perturbado-
um corpo mortal. 38 res da ordem: as impurezas. A antropóloga
Mary Douglas é uma das referências obri-
Que estranha forma da pureza é essa gatórias quando se trata deste assunto. Em
que se impõe hoje em dia, em um mundo seu famoso livro Pureza e Perigo, a autora
supostamente comandado pelas mais pro- também associa as impurezas à desordem,
saicas e prazerosas leis do hedonismo, da e encontra nesses mecanismos de busca da
gula consumista e da festa das sensações pureza um padrão universal. Mas a autora
corporais? Em suas instigantes reflexões também revela um detalhe importante: não
sobre o “mal-estar na pós-modernidade”, existe a sujeira absoluta. As coisas são puras
Zygmunt Bauman lembra dos ideais de ou impuras conforme as definições de quem
ordem, limpeza, beleza e pureza que regi- as observa; isto é, de acordo com uma certa
ram a civilização moderna, e que levaram cosmologia. A busca da pureza, portanto,
Sigmund Freud a enunciar a dinâmica do implica a criação de uma ordem, a adapta-
princípio de liberdade individual sendo sa- ção do mundo a uma idéia. Purificar não
crificado em nome da segurança, como foi é uma atividade negativa, de eliminação da
belamente explicitado em seu famoso en- sujeira, mas uma atividade positiva: deflagra
saio O mal-estar na cultura. Mas, como bem a luta por atingir um ideal.40 E cada modelo
mostra Bauman em seus próprios textos, de pureza tem seu próprio modelo da sujei-
isso ocorreu no distante ano de 1930, e de lá ra que precisa ser eliminada.
para cá muitas coisas mudaram. Essa lógica Não é difícil intuir o forte peso moral
que vigorou na Modernidade e que Freud que a idéia de pureza carrega, com suas ine-
elucidou de maneira magistral, hoje teria se vitáveis conotações do bom e do belo, em
invertido. Agora os indivíduos sacrificam franca oposição a seus contrários certamen-
boa parte da sua segurança (outrora medi- te indesejáveis. E, visto que para que exis-
da em termos de ordem, limpeza, beleza e tam os puros devem existir necessariamente
pureza) em nome de um valor ainda mais os impuros, ressurge aqui outra categoria
supremo e desejado: a liberdade. Com a problemática: os escolhidos, ou seja, aqueles
troca de prioridades, porém, desdobra-se que se encontram mais perto da pureza do
um interessante jogo paradoxal: “quando é que todos os demais – os outros. No con-
a vez da segurança ser sacrificada no tem- texto da sociedade dos riscos, o impuro é
plo da liberdade individual, ela furta muito portador de uma enorme potência negativa,
do brilho da antiga vítima”.39 E eis que, pois ele é capaz de alterar a ordem e a tão
como sempre é mais necessário e prezado prezada segurança, poluindo o mundo com
aquilo que mais falta, hoje, no suposto im- uma ação tão real como simbólica.41 Assim,
pério das liberdades individuais sem limi- cabe deduzir que certos alimentos e certas
tes e do hedonismo radical, estaria em alta práticas ou “estilos de vida” tidos como
nada menos do que a segurança, com todo perniciosos, hoje se apresentam como agen-
seu séqüito saudosista de velhas purezas. tes poluidores da ordem. E ocupam um pa-
Mas o que seria mesmo essa pureza pel tão central na nossa cultura porque eles
que hoje renasce com tanto ímpeto? Tal con- ameaçam – colocam em risco – nada menos

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do que a tão valorizada pureza das formas corporal; mais do que nada, temem-se os
do “corpo bom”, o último grande ideal que eventuais impactos dos alimentos consumi-
todos os membros da sociedade ocidental dos na aparência de quem come. Essa ênfa-
parecem almejar. Para combater tais im- se na repercussão visual da matéria “proi-
purezas, portanto, entende-se que nenhum bida” que se ingere constitui, certamente,
sacrifício deva ser poupado. uma novidade histórica. Outra novidade é
Mas a alimentação é uma necessidade o nível de importância social que tem en-
vital do corpo humano; isto significa que a volvido o tema, saindo de um sectarismo
ingestão regular de alimentos constitui um religioso ou ideológico sempre restrito a
requisito fundamental para manter o orga- uns poucos “extremistas” ou “fanáticos”,
nismo vivo. Apesar da obviedade de uma para atingir progressivamente todas as ca-
frase como a anterior, ela precisa ser for- madas da população global. Um processo
mulada à luz das tendências “virtualizan- que, ainda em seus primórdios, levou a
tes” comentados nas páginas precedentes, revista Psicology Today a enunciar uma as-
que disseminam todo um leque de novas severação que talvez parecia exagerada ou
crenças e práticas alimentares com vistas a – no mínimo – visionária em 1971, mas que
controlar algo cada vez mais importante e agora desperta poucas dúvidas: “a alimen-
cada vez mais difícil de ser realmente con- tação está substituindo o sexo como objeto
trolado: a aparência do corpo, como uma de culpabilidade”.43
imagem que deve ser sempre bela e pura.
A conotação moral – e, portanto, política
– desses processos é evidente. Agruras da perfeição imaterial (ou os
Apesar da novidade deste fenômeno, gordos custos da felicidade lipo-
vale a pena esboçar aqui uma breve gene- aspirada)
alogia dos azedos vínculos entre comida e
moralidade. Longe de serem específicos da Apagadas da bochecha as últimas nu-
nossa formação histórica, tais nexos estão anças da mancha de nascença (único
(e sempre estiveram) presentes em todas indício de imperfeição humana), o
as culturas, originando uma série de regras derradeiro suspiro da jovem, já perfei-
de comportamento e um conjunto de proi- ta, misturou-se com o ar; após perma-
bições com relação aos alimentos. Desde necer alguns instantes ao lado do seu
que exista algum grau de escolha do que marido, a alma de Georgiana empre-
se pode comer – incluindo, é claro, a pos- endeu seu vôo celestial. 44
sibilidade de não comer nada – sempre será
possível efetuar a escolha certa ou a errada, As epígrafes que ilustram este texto
de acordo com as estipulações de cada uni- pretendem mostrar até que ponto as coisas
verso simbólico. Na sociedade ocidental, mudaram – apesar das evidentes continui-
por exemplo, a história de tais práticas é dades – desde aquele remoto ano de 1843
longa e densa.42 O pecado, o jejum, o luxo, em que o escritor norte-americano Natha-
o erotismo, a abstinência, o prazer, a saúde, niel Hawthorne dera a conhecer seu conto
a gula, a moderação... é imensa a lista de The Birthmark. Hoje não surpreende a estra-
valores que podem temperar os pratos ser- nha temática que 160 anos atrás inspirara
vidos nas mais diversas mesas. este aterrorizante conto gótico sobre uma
Inclusive hoje em dia, o peso moral “mulher enlouquecida”, capaz de qualquer
vinculado aos alimentos exala uma varie- coisa por apagar uma pequena marca que
dade de valores, entre os quais é impossível sujava seu belo rosto.
ignorar a distinção social e o hedonismo. A intenção explícita do relato, porém,
Os que revelam a potência mais inusitada, é a de denunciar os desvarios e as cegas
entretanto, são aqueles ligados a seus efei- ambições do marido da jovem, um cientista
tos potencialmente poluidores da imagem

80 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 25 • dezembro 2004 • quadrimestral


alucinado, como uma alegoria dos perigos do Prometeu (afinal, um titã desobediente
aos quais podia conduzir a audaciosa ci- e portanto culpável) e mais próximas do
ência da época. Um temor, aliás, bastante destemido Fausto (afinal, um homem com
espalhado naqueles longínquos inícios do ambições demasiadamente divinas).47 Nesta
século XIX, e perfeitamente encarnado em passagem de um arquétipo para outro, não
outro personagem fictício quase contem- é difícil vislumbrar nos perfis desses médi-
porâneo da desventurada Georgiana e seu cos góticos da primeira metade do século
inefável esposo: o Dr. Victor Frankenstein.45 XIX, Frankenstein, Aylmer e Spalanzani,
Outro exemplo é um terceiro médico gótico, inquietantes ecos ancestrais de uma espécie
igualmente desvairado e ambicioso: o Dr. hoje triunfante: a dos cirurgiões plásticos.
Spalanzani, personagem do conto O homem Como versões contemporâneas do clássico
de areia, do alemão E.T.A. Hoffmann, em Pigmaleão, longe de protagonizarem dra-
cujas páginas – redigidas em 1816 – criara mas góticos com finais terríveis, esses pro-
aquela outra humanóide fatal chamada fissionais da medicina estética se orgulham
Olímpia.46 da sua primorosa coleção de happy ends:
Logo no subtítulo do seu famoso li- afinal, com seus afiados bisturis, eles costu-
vro publicado em 1818, a própria autora de mam modelar os melhores exemplares da
Frankenstein, a inglesa Mary Shelley, resol- beleza feminina que hoje brilham nas telas
veu definir seu célebre doutor fictício como do mundo.
O moderno Prometeu. Do mesmo modo, seus É por isso que diante de nossos olhos
colegas Aylmer e Spalanzani também pode- do século XXI, tão ávidos como saturados,
riam assumir o papel do mítico titã grego a tragédia protagonizada por Aylmer e Ge-
– aquele que foi duramente punido pelos orgiana não parece mais “desvairada” ou
deuses por ter desafiado as limitações hu- exageradamente alegórica, como deve ter
manas usurpando as prerrogativas divinas: se apresentado aos receosos leitores da pri-
Prometeu. meira metade do século XIX. Hoje, ao con-
Entretanto, já há tempos que os deuses trário, tais inquietações fazem parte do co-
abandonaram a cena. Hoje, quase dois sécu- tidiano e impregnam nosso imaginário até
los depois dessas fantásticas invenções, os o ponto de coagularem no senso-comum.
riscos passaram a ser meramente terrenos Basta evocar aqui, para finalizar, apenas
e individuais – e, conforme nos é dito, em dois exemplos atualíssimos, que retomam
certos casos, a decisão de corrê-los pode até essa antiga temática gótica para recriá-la
valer a pena. Afinal, todos temos (ou deve- em cenários bem contemporâneos.
ríamos ter) um fundamental direito ao risco. Por um lado, o auge mundial dos rea-
A responsabilidade é de cada um, e todos lity-shows cujos protagonistas recorrem às
podemos decidir livremente se desejamos mais diversas técnicas de aperfeiçoamento
(ou não) livrar-nos – nem que seja proviso- físico, especialmente a complicadas e cus-
riamente – da impureza corporal que nos é tosas cirurgias plásticas, enfrentando sérios
teimosamente inerente. riscos, dores e sacrifícios para atingir uma
Assim, todos podemos (ou talvez deva- certa pureza na sua própria imagem cor-
mos) escolher o sacrifício bio-ascético mais poral; isto é, uma proximidade do modelo
propício em cada caso, avaliando os riscos ideal cada vez mais inatingível.
e os benefícios a fim de atingir a “perfeição” Por outro lado, cabe mencionar o caso
que os deuses insistem em nos negar, como do jovem músico Marcus Menna, integran-
também negaram à belíssima porém macu- te do grupo pop LS Jack, que com 27 anos
lada Georgiana de Hawthorne. Por isso, nos de idade e um aspecto físico que poderia
complexos tempos atuais, a tecnociência pa- ser considerado “normal”, entrou em coma
rece alentar o surgimento de outras figuras após se submeter a uma cirurgia de lipo-
míticas, cada vez mais distantes do castiga- aspiração no abdômen em uma clínica do

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Rio de Janeiro. Menna fazia sucesso com aprovar plano antiobesidade na próxima semana”. Reuters,
sua banda, era “felizmente casado” e tinha 14/05/2004; e “Aprovado plano mundial de combate à
um filho de nove meses, porém “não estava obesidade”. Reuters, 22/05/2004.
satisfeito com o próprio corpo” e resolveu
fazer a intervenção cirúrgica “por uma 5 HAWTHORNE, op. cit. p. 27-28.
questão de auto-estima”.48 Uma alegoria, 6 Cf. BEZERRA Jr., Benilton. O ocaso da interioridade. In:
talvez, do mais recente horror neogótico ? PLASTINO, C. (Org.). Transgressões. Rio de Janeiro: Con-
tracapa, 2002.
Ouviu-se novamente uma bronca garga-
lhada! Assim debocha sempre a crua fata- 7 HAWTHORNE, op. cit. p. 42.
lidade da terra em seu triunfo invariável
sobre a essência imortal... 49 8 Cf. FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A von-
tade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1980; FOUCAULT,
Michel. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes,
Notas 2000.

1 HAWTHORNE, Nathaniel. “La Mancha de Nacimiento” 9 A separação entre ambos os grupos sociais (os que contam e
(1843). In: BERGA, Miquel (Org). Cinco mujeres locas. Cuen- os que não contam na sociedade contemporânea) parece exi-
tos góticos de la literatura norteamericana. Barcelona: Ed. gir uma elaboração mais complexa do que aquela expressa
Lumen, 2001. p. 24. por Ulrich Beck como sendo, basicamente, uma diferença
entre “primeiro mundo” e “terceiro mundo”. Uma ten-
2 Atualmente, 65% dos adultos dos Estados Unidos estão tativa mais precisa (em sua admitida imprecisão) é a que
excedidos de peso; essa proporção equivale a 120 milhões Zygmunt Bauman efetua entre “turistas” e “vagabundos”,
de pessoas, enquanto 59 milhões de cidadãos norte-ameri- por exemplo, ambos os tipos entremeados nas sociedades
canos são considerados obesos. O aumento foi vertiginoso ricas e pobres de um planeta cada vez mais globalizado,
na última década, e os números continuam engordando. como categorias que se misturam no dia a dia das grandes
(Science, 7/02/2003. http://www.sciencemag.org). Diver- cidades e que possuem limites difusos, com o risco per-
sas pesquisas indicam, também, que o problema está au- manente de qualquer uma delas se converter subitamente
mentando nos países menos desenvolvidos, especialmente em seu oposto. Cf. BAUMAN, Zygmunt. Globalização: As
entre as crianças: 35% da população infantil mundial é afe- conseqüências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
tada pelo sobrepeso ou pela obesidade. (La Nación, Buenos
Aires, 22/08/2004. “La obesidad, problema en uno de cada 10 BECK, Ulrich. Risk Society: Towards a New Modernity.
3 niños”. http://www.lanacion.com.ar/629360). Londres: Sage, 2002. p. 20.

3 Folha de São Paulo, 29/05/2004. 11 Sobre estas e outras questões relacionadas com a noção de
risco, ver os estudos de Paulo Vaz, tais como: VAZ, Paulo.
4 Além da miríade de pesquisas e descobertas tecnocientífi- Corpo e risco. In: VILLAÇA, N.; GÓES, F; KOSOVSKI,
cas divulgadas diariamente na mídia, basta mencionar um E. (org.). Que corpo é esse? Rio de Janeiro: Mauad, 1999; e
par de exemplos algo alegóricos porém bastante explícitos: VAZ, Paulo. O corpo-propriedade. In: NETO, Antonio
na contramão dos programas Fome Zero nacionais e inter- Fausto; PINTO, Milton (org.), Mídia e Cultura. Rio de Janei-
nacionais que constituem uma das principais bandeiras ro: Diadorim, 1997.
discursivas do atual presidente do Brasil, a Organização
Mundial de Saúde (OMS) acaba de sancionar a Estratégia 12 DUARTE, Sara. “Guerra à fast-food”. Época, 16/08/2004.
Global sobre Dieta, Atividade Física e Saúde, um “projeto para http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT794005-
deter a obesidade no planeta”. Fortemente apoiado pelos 1664-1,00.html.
Estados Unidos e pelo lobby das indústrias alimentícias,
o projeto foi aprovado pelos 192 representantes nacionais 13 Cf. SENNETT, Richard. O declínio do homem público: Ti-
que integram a organização, após superar uma polêmica ranias da intimidade. São Paulo: Companhia das Letras,
levantada pela oposição dos países produtores de açúcar 1999. Cf. também BAUMAN, Zygmunt. Em busca da políti-
– significativamente liderados por Cuba. Cf. “OMS espera

82 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 25 • dezembro 2004 • quadrimestral


ca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.
28 REZENDE, Emerson. “Playboy fará ensaio com personagem
14 Cf. TAYLOR, Charles. As fontes do self: A construção da de Bloodrayne”. Yahoo! Notícias Brasil, 24/08/2004. http://
identidade moderna. São Paulo: Ed. Loyola, 1997. br.news.yahoo.com/040824/7/mkmr.html.

15 Cf. WEBER, Max. La ética protestante y el espíritu del capi- 29 HAWTHORNE, op. cit. p. 39.
talismo. Buenos Aires: Ed. Andrómeda, 2004.
30 GRIGORIADIS, Vanessa. “El ayuno prolongado se puso de
16 KAFKA, Franz. A construção. São Paulo: Brasiliense, 1984. moda en un sector de la clase media alta norteamericana”.
Clarín, Buenos Aires, 02/09/2003. http://old.clarin.com/
17 HAWTHORNE, op. cit. p. 24. diario/2003/09/02/s-03701.htm.

18 A bulimia se caracteriza pela ingestão compulsiva de gran- 31 JASMUHEEN, Viver da Luz. São Paulo: Ed. Aquariana,
des quantidades de alimentos e a conseqüente provocação 2001. Mais informações em http://www.jasmuheen.com.
voluntária de vômitos, com a intenção de expulsá-los do
organismo; já a vigorexia é a obsessão pelo desenvolvimen- 32 SANTOS FERREIRA, Paula. “Viver da Luz”. A Capital.
to de um corpo musculoso; e a ortorexia designa a compul- Lisboa, 7/09/2001.
são ao consumo de alimentos “naturais” e “saudáveis”.
33 Vivendo da Luz: http://www.vivendodaluz.com.
19 WEISS, Gail. The abject borders of the body image. In:
WEISS, Gail e FERN HABER, Honi (Orgs.) Perspectives on 34 EPPRECHT, Catharina. “Grupos defendem anorexia e
Embodiment: The Intersections of Nature and Culture, Lon- bulimia”. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 20/9/2004.
don and New York, Routledge, 1999. 35 DOMINGO, Laura. “Centenares de ‘webs’ proanorexia ani-
man a jóvenes a adelgazar”. El Mundo, Madri, 15/9/2001.
20 Para um exame mais aprofundado do conceito de “corpo Convém esclarecer que sites deste tipo são constantemente
vivo”, ver MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da banidos e retirados da Internet. No entanto, eles continu-
Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 2002. am a proliferar; basta digitar o termo “proanorexia” em
um site de busca como o Google para se ter acesso a vários
21 HAWTHORNE, op. cit. p. 43. deles.

22 Cf. ORTEGA, Francisco. Da ascese à bio-ascese, ou do 36 Cf. KAFKA, Franz. Un artista del hambre. In: BORGES,
corpo submetido à submissão ao corpo. In: RAGO, M.; Jorge Luis (Org.). Kafka: El buitre. Buenos Aires: Ediciones
ORLANDI, Luiz e VEIGA-NETO, Alfredo (Orgs.). Imagens Librería La Ciudad, 1979.
de Foucault e Deleuze: ressonâncias nietzchianas. Rio de
Janeiro: DP&A, 2002. 37 “Device Simulates Food”. Technology Research News.
6/08/2003. http://www.technologyreview.com/articles/
23 HAWTHORNE, op. cit. p. 24. rnb_080603.asp.

24 Cf. SIBILIA, Paula; RODRIGUES, Carla. O carnaval da 38 HAWTHORNE, op. cit. p. 47.
beleza globalizada (entrevista). No Mínimo. Rio de Janeiro,
16/02/2004. <http://www.nominimo.com.br>. 39 BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. p. 11.
25 HOFFMANN, E.T.A. O homem de areia. Contos sinistros.
São Paulo: Max Limonad, 1987; VILLIERS DE L´ISLE- 40 DOUGLAS, Mary. Pureza e Perigo. São Paulo: Ed. Perspec-
ADAM, Auguste. A Eva Futura, São Paulo: Edusp, 2001; tiva, 1976.
LANG, Fritz. Metrópolis. Alemanha, 1927.
41 Cf. HACKING, Ian. Risk and Dirt. In: ERICSON, Richard;
26 Cf. John CASABLANCAS: http://www.illusion2k.com. DOYLE, Aaron (Orgs). Risk and Morality. Toronto: Univer-
27 Miss Digital World: http://www.missdigitalworld.com. sity of Toronto Press, 2003. p.22-47.

Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 25 • dezembro 2004 • quadrimestral 83


42 Sobre as prédicas moralistas dos últimos dois séculos com
relação aos hábitos alimentares, começando pelos puri-
tanos norte-americanos, continuando com os socialistas
utópicos e concluindo com as tendências contra-culturais
dos anos 60 e 70, ver o interessante artigo de BELASCO,
Warren. Food, morality and social reform. In: BRANDT,
Allan; ROZIN, Paul (Orgs). Morality and health. London:
Routledge, 1997. p. 185-200. Cf. também LEVENSTEIN,
Harvey. Dietética contra gastronomia: tradições culinárias,
santidade e saúde nos modelos de vida americanos. In :
FLANDRIN, Jean Louis; MONTANARI, Massimo (Orgs.).
História da alimentação. São Paulo: Estação Liberdade, 1998.
p. 825-840.

43 LEVENSTEIN, op. cit. p. 840.

44 HAWTHORNE, op. cit. p. 47.

45 SHELLEY, Mary. Frankenstein: O moderno Prometeu. São


Paulo: Círculo do Livro, 1973.
46 HOFFMANN, E.T.A. O homem de areia. Contos sinistros.
São Paulo: Max Limonad, 1987.

47 Para uma análise mais exaustiva da tensão fáustico-prome-


téica na história e na filosofia da tecnociência, vide MAR-
TINS, Hermínio. Hegel, Texas e outros ensaios de teoria social.
Lisboa: Edições Século XXI, 1996. Cf. também SIBILIA,
Paula. O homem pós-orgânico: Corpo, subjetividade e tecnolo-
gias digitais. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

48 ARAÚJO, Luís Edmundo. O drama do LS Jack. Istoé Gente,


7/7/2004. http://www.terra.com.br/istoegente.

49 HAWTHORNE, op. cit. p. 48.

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