1

A HERMENÊUTICA COMO DISCIPLINA
João Bosco da Encarnação

CONCEITO Porque uma "estética" do direito? Poderíamos partir da clássica discussão sobre se o Direito é ciência ou arte1. Concluímos, no entanto, que o Direito é ciência na sua essência, no seu conteúdo que busca a forma prática de verdade. A identificação do Direito com a filosofia é dos tempos clássicos, como já afirmamos, como se encontra, por exemplo, em Santo Anselmo, para o qual verdade e justiça se definem reciprocamente2. Por outro lado, é Dilthey quem alerta para o fato de que, na classificação aristotélica, Direito e Filosofia são sinônimos, assim como a Arte, apenas se distinguindo pela finalidade. Com efeito, Aristóteles "divide a filosofia na ciência teorética, poética e prática. É teorética quando o seu princípio e o seu fim é o conhecimento; é poética quando o seu princípio reside na faculdade artística, e o seu fim numa obra criada; prática, quando o seu princípio é a vontade e o seu fim a ação."3. Isso tem muito a ver com o que Gadamer chama de "A significação exemplar da hermenêutica jurídica", para a explicação do "problema hermenêutico da aplicação", que conjuga com "a atualidade hermenêutica de Aristóteles". Mas é o próprio Dilthey quem avisa também que, após tomar a ciência uma direção unitária, a qual chegou ao máximo desenvolvimento com Aristóteles, acabou se desintegrando com o império de Alexandre, fundando-se as ciências particulares, até que a própria ciência geral do Direito, na modernidade, tornou-se independente desde os tempos de Hugo Grócio4. Portanto, essencialmente, a questão da verdade, que é uma questão de ciência no sentido lato, filosófico, e não no sentido meramente positivista de ciência, como já dissemos antes, é também uma questão de retidão: agir justamente é agir conforme a verdade e não admira que o método procedimental do processo judicial seja uma réplica da busca filosófica da verdade, aplicando-se a velha dialética grega do silogismo (tese-antítese-conclusão, ou: autor-réu-juiz) e que fundamente o "direito de defesa", ou seja, de contradizer. Portanto, o Direito é ciência e arte. É ciência enquanto partilha com a filosofia a busca teorética da verdade, que é causa de harmonia, e é arte na sua formosura, na medida em que a verdade, por isso mesmo, é bela.
1

Sobre isso, José Eduardo Faria, Direito e justiça, a função social do judiciário, São Paulo, Ática, p. 98 (cf. nota Cf. "Os pensadores", São Paulo, Nova Cultural, 1988, volume dedicado a S. Anselmo e a Abelardo, p. 161. W. Dilthey, in Essência da filosofia, Lisboa, Presença, 1984, p. 28. Dilthey. ob. cit., p. 31-32.

4) e p. 109.
2 3 4

2

Cabe-nos, portanto, após defini-lo filosoficamente, estudar o Direito sob o prisma da prática, ou seja, como se dá a aplicação do princípio de justiça diante da questão política da legalidade. É o que se chama de hermenêutica.5.

5

Cf. Verdade e método, na ed. francesa Vérité et méthode, Éditions du Seuil, Paris, com revisão de Paul Ricouer,

p. 148 e s. e que estudaremos adiante.

3

A HISTÓRIA DA HERMENÊUTICA Não nos interessa fazer uma digressão histórica sobre a hermenêutica, que seria objeto de um estudo especializado, mas apontar rapidamente as suas bases históricas, a fim de se poder compreender o seu estágio atual. Dilthey se preocupou pioneiramente com a sua questão histórica6. Para ele, a arte de interpretar nasceu na Grécia, fruto da necessidade de ensinar, face as controvérsias‚ de entendimento dos textos clássico como os de Homero. Adquiriu base mais segura com a retórica e com os sofistas, chegando a Aristóteles, que lhe deu consistência científica. Um novo passo foi dado com a filologia alexandrina, como arte de recensear textos, criticando, interpretando e avaliando-os, a fim de afastar falsidades. São nomes dessa época, citados por Dilthey, Aristarco e Hiparco, a qual assiste uma melhora da consciência metódica devido ao antagonismo com a filologia de Pérgamo, na qual Crates de Mallos introduziu o princípio estóico da interpretação alegórica, que acabou com a contradição entre os documentos religiosos antigos e uma filosofia avançada. Surge uma nova fase, segundo Dilthey, quando a hermenêutica passa a ser usada metodicamente para a exegese de textos sagrados. Há uma disputa na interpretação de textos bíblicos, a fim de dar fundamento à fé, entre a Igreja Cristã e os Judeus. Situamo-nos no período da Patrística, ou dos Primeiros Padres. São deste tempo nomes como Filon, Justino e Irineu. Na luta contra os judeus e os gnósticos, Tertuliano desenvolve regras fecundas para uma melhor exegese, ainda que, na Igreja grega, ocorra antagonismo que se exprime na oposição de princípios, sendo que a escola de Antioquia explicava seus textos conforme princípios gramático-históricos. A disputa teológica fez surgir uma hermenêutica de caráter científico, sendo que as primeiras teorias hermenêuticas de que se tem conhecimento nasceram deste conflito. Filon, Orígenes e Santo Agostinho fundaram uma teoria hermenêutica coerente à qual depressa se opuseram duas obras hermenêuticas da escola de Antioquia, assevera Dilthey, infelizmente perdidas, uma de Diodoro e outra de Teodoro. A partir do renascimento, aparece uma nova etapa. Com a separação com a antigüidade clássica e latina, trabalhava-se largamente com simples relações e fragmentos, de modo que a filologia, a hermenêutica e a crítica, por deverem ser mais construtivas e criativas, acabaram atingindo um estado mais avançado. Duas grandes forças dominam os quatro séculos seguintes, de uma literatura hermenêutica abundante: uma tentava assimilar as obras clássicas e a outra trabalhava com os escritos bíblicos. O conjunto de regras da filologia clássica chamava-se então ars critica e era composto pelas obras de Scioppius, Clericus e a obra inacabada de Valerius. A constituição definitiva da hermenêutica se deve,
6

O texto é Origens da hermenêutica, tradução de Alberto Reis, Rés-Editora, Porto, no vol. Textos de

hermenêutica, p. 149-203.

4

contudo, à interpretação bíblica, como aponta Dilthey, sendo que a obra mais importante e talvez a mais profunda foi a "Clavis" de Flacius, de 1567. Flacius tinha de combater em duas frentes, assinala Dilthey: tanto os anabatistas como a Contra-reforma católica afirmavam a obscuridade das Sagradas Escrituras, ao que ele se opõe. Lutava-se, da parte dos luteranos, contra a doutrina católica da tradição, que tinha acabado de ser reformulada. Belarmino, o representante do catolicismo de Trento, uns anos depois da obra de Flacius, combateu agudamente, num panfleto de 1581, a inteligibilidade da Bíblia, tentando provar, assim, a necessidade da tradição para a completar. Flacius teve de demonstrar a possibilidade de uma interpretação com valor universal, o que o fez trilhar um caminho de meios e regras que a hermenêutica jamais havia trilhado. As insuficiências formais da obra de Flacius foram superadas, conforme noticia Dilthey, pela hermenêutica de Baumgarten, através de cuja obra, "Nachrichten von einer Hallischen Bibliothek", que os alemães começaram a ter conhecimento a respeito dos livres pensadores ingleses, que interpretavam Antigo Testamento com base na etnologia (Por exemplo, Semler e Michaelis). Semler, precursor de Cristian Baur, prega a interpretação apoiada no uso lingüístico e em circunstâncias históricas, emancipando-se a tradição do dogma, fundando-se a escola gramático -histórica. Depois disso, o espírito sutil e prudente de Ernesti criou no seu "Interpres" a obra clássica desta nova hermenêutica, com cuja leitura Schleiermacher pode desenvolver a sua própria hermenêutica. Obviamente, parte-se de uma concepção filosófica da natureza humana, que seria limitada pelas circunstâncias locais e momentâneas: a natureza humana é a histórica. A hermenêutica clássica e a hermenêutica bíblica, que até então seguiam caminhos distintos, começam a ser consideradas aplicações de uma hermenêutica geral quando o wolfiano Meier escreveu a sua obra em 1757, denominada "Versuch einer algemeinen Auslegungskunst" (Tentativa de uma interpretação artística universal). Porém, sua teoria ainda apresentava influência da simetria anterior. Para uma hermenêutica fecunda, unindo a virtuosidade da interpretação filológica e uma verdadeira faculdade filosófica, aparece Schleiermacher. Schleiermacher se situa dentro da filosofia transcendental alemã, cujo método consistia em recuar, para além dos dados da consciência até uma faculdade criadora, homogênea e inconsciente, que produz em nós toda a forma de mundo. Daí surge a sua arte peculiar de interpretação e a constituição definitiva de uma hermenêutica científica. Até então, a hermenêutica não passava de um conjunto de regras com vistas a uma interpretação com finalidade universal. Para além‚m dessas regras, Schleiermacher recuou até à análise da compreensão, entendendo-a como um "reproduzir", um "reconstruir", apoiando-se na sua relação viva com o próprio processo de produção literária: busca a intenção e a mentalidade do autor. Certo que essa conquista, a constituição de uma hermenêutica geral, teve por aliada, segundo Dilthey, uma circunstância favorável: o fato das novas

p. p. também faz a sua história. Rio. 1986. Reconhece-se. com Ricouer. que o papel essencial da hermenêutica é o de "estabelecer. cit. Heidegger e Gadamer. por seu propósito de lutar contra a não-compreensão em nome do famoso adágio: "há hermenêutica. é o conhecido ditado "in claris cessat interpretatio". uma "ars critica" que se assentava numa teoria da criação literária. 1988. que deveria ser compreendido como artista-filósofo. proposição que é a conseqüência necessária ria da teoria da criação inconsciente. É importante frisar. trad. especialmente. aliás. cit. portanto. Dilthey. por seu apelo a uma relação viva com o processo de criação e crítico. isto é. 164-165. e com Richard Palmer. De Schlegel também partiu a idéia de uma tradução de Platão. descrevendo a história da Hermenêutica. as ciências do espírito. ob. 8 9 Ricouer. Surgiu assim. trad. para a ciência filológica.5 intuições psicológico-históricas terem sido transformadas pelos contemporâneos de Schleiermacher e por ele próprio numa arte filológica de interpretação. e mesmo melhor do que ele mesmo se compreendeu" e crítico. a validade universal da interpretação. 21. Depois de Schleiermacher. Ob. cujo primeiro esboço foi feito no outono de 1804. nutrindo-se o plano de uma ciência da critica. ou. é o próprio Dilthey quem. a hermenêutica é um intermediário importante entre a filosofia e as ciências históricas e uma base essencial das ciências do espírito"10. Maria Luísa Ribeiro Ferreira. p. que Schleiermacher era romântico e crítico. como disse Bockh.. Interpretação e ideologias. Hilton Japiassu. base de toda a certeza histórica. 10 . 7 R. descobrimos que a finalidade última da hermenêutica é compreender o autor melhor do que ele próprio se compreendeu. p. Na hermenêutica jurídica. estabelecendo-se a unidade entre o caráter da sua meditação filosófica com a forma artística de suas obras. cit. a partir de Dilthey.. uma teoria geral da ciência e da arte da interpretação. Segundo Dilthey. lendo o "Interpres" de Ernesti. e que seu aluno Bockh tornou influente através das páginas que lhe consagrou nas "conferências sobre a enciclopédia filosófica". Palmer. as ciências humanas. 20-42. Romântico por querer "compreender um autor tão bem.. a lógica e a metodologia das ciências morais constituem. por seu desejo de elaborar regras universalmente válidas da compreensão.. onde houver não-compreensão. Francisco Alves. Lisboa. em Schleiermacher. ao estudar Schleiermacher. Palmer. ao mesmo tempo: romântico. ob. como diríamos hoje. contra a irrupção constante da arbitrariedade romântica e do subjetivismo cético no domínio da história. Foi Friedrich Schlegel quem o introduziu na arte filológica. Edições 70. p. descobrindo-se Platão. ou seja. Hermenêutica. que Schleiermacher é o pai da moderna hermenêutica enquanto disciplina geral7. Integrada no conjunto que a gnoseologia. teoricamente."8. 3. 105 e s. Dilthey quer a hermenêutica como fundamento das "Geisteswissenschaften". ed. Segundo Richard Palmer9. 103. O próprio Dilthey já havia dito. encontra-se também uma perspectiva sobre Schleiermacher. em Paul Ricouer.

leis codificadas. ao passo que as ciências humanas tratam de um mundo externo em relação com o sentimento e com a vontade humana: os fatos são significativos apenas na medida em que afetam o comportamento e ajudam (ou impedem) fins humanos. Dilthey quis estabelecer a Hermenêutica como fundamento para todas as ciências humanas e sociais. obras de arte ou literatura. como era a influência de Comte.. em 1834. que significa uma recuperação da consciência da "historicidade" de nossa própria existência que se perdeu nas categorias estáticas da ciência. 107. mecânicas e abstratas. histórica e viva. Dilthey procura continuar o idealismo crítico de Kant. 105. Quer convergir dois pontos de vista conflituosos: o realismo empírico e o positivismo anglo-franceses com a filosofia da vida e o idealismo alemães. preferindo as bases "epistemológicas". p. atos históricos. cambiando-se a preocupação hermenêutica para os limites das disciplinas particulares11. porém. e sim expressão da vida. A ausência de referência à experiência humana é característica das ciências naturais. são o oposto da própria vida. por invocar categorias abstratas exteriores à vida. tais como gestos. contra a tendência de os estudos humanísticos se influenciarem pelas ciências naturais. embora não sendo um kantiano. qualquer base metafísica. nas veias do sujeito não corre sangue! Concorda com Hegel. Hume e Kant são pensadores que separam o "saber" do sentido e da vontade e para os quais. na intenção de compreender a vida a partir da vida (realidade histórica). Isso não significava que Dilthey comungasse do ideal da escola histórica alemã. a experiência concreta. alegando que "chegamos ao conhecimento de nós próprios não através da introspecção mas sim através da história"12. . p. Ao contrário. Palmer. eram o ponto de partida e de chegada das ciências do espírito. A "Critica da Razão Pura" (Kant). ob. Locke. 11 12 Palmer. todas as disciplinas que interpretam as expressões da vida interior do homem. ou seja. cit. Cf. o projeto de uma hermenêutica geral acaba esmorecendo com a morte de Schleiermacher. ou seja. negando. Para Dilthey. porém. cit. ob. para Dilthey. que para ele se caracterizava pela inconsistência epistemológica da pretensão à objetividade. Seu objetivo era a interpretação objetivamente válida dessas "expressões da vida interior"..6 De acordo com Palmer. que pregava a primazia da experiência concreta contra a especulação. embora entenda que a história não seja meta absoluta e nem manifestação do espírito absoluto como Hegel queria. história. por exemplo. A "filosofia da vida" procura regressar à plenitude da experiência vivida contra as tendências formais. é fruto e não determinação da vida. pois não se devia tentar ir além da própria vida. criticando Dilthey as formas de pensamento naturalísticas. misturando acriticamente as perspectivas idealista e realista.

ao se traduzir o termo alemão "ausdruck". sendo que também Heidegger e Gadamer se fundam nesse conceito. expressão e compreensão". viver. ou seja. p. 2) a natureza humana não é uma essência fixa: criativamente histórica. é experiência como "vivência". Por sua vez. 120-121. "erleben". significa "er + leben". "historicidade" não significa concentração no passado. melhor seria usar a palavra "objetificação" e não "expressão". A expressão. trata-se de redescobrir-se no outro. p. assim. mas é a compreensão que ocorre por causa de experiência análise. Husserl. p. mas da interpretação. o sujeito é objeto de si mesmo! Por sua vez. anota Palmer.. dessa maneira. admite Palmer13. Estabelece. outrossim. da expressão de uma realidade social e histórica revelada na experiência ou a realidade social e histórica da própria experiência. em alemão "erlebnis". há que se compreender o homem"14. tratando o homem como "animal hermenêutico". a fim de ultrapassar as tendências cientificistas de E. ou seja. da compreensão das expressões de vida. que se constitui na decifração das marcas que o homem imprime aos fenômenos. Essas estruturas gerais geram o conhecimento objetivo. mas "objetificação". senão a percepção pelo outro seria impossível. que fez depois Heidegger recuar até ele. Trata-se. Por isso. A "historicidade" diferencia Dilthey dos demais filósofos da vida. Dilthey estabelece. "Experiência". . A obra de arte. Ou. numa critica importante ao cientismo. cit. "expressão" significa não o símbolo (que supõe sujeito e objeto). mas a afirmação da temporalidade da experiência humana tal como a descrevemos e parte de dois princípios: 1) o homem compreende-se a si mesmo não pela introspecção.7 Só entramos nesse mundo interno humano não por meio da introspecção.. ou seja. Ob. não havendo diferença entre sujeito e objeto. assim. Tal como a experiência vivida. por "compreensão" não se entende uma operação cognitiva. mas por meio de objetivações da vida. poderíamos acrescentar. a fórmula "experiência. Objetificação é tão lato quanto a própria compreensão. tem o poder verdadeiro e radical de criação . a diferença entre "compreensão" (ciências humanas) e "explicação" (ciências naturais). Isso significa que. sendo verdade em si mesma. não é a expressão de uma realidade individual.é o que é na história e dela não foge. não havendo diferença entre consciência da experiência e sua constituição. 118. exprime a própria experiência. portanto. pois refletir sobre a experiência é também uma experiência. Se "explicamos a natureza. cit. sendo que a compreensão tem o seu verdadeiro objeto na objetificação da própria vida. 13 14 Ob. mas a captação da mente pela mente: a vida compreende a vida.

cit. portanto. Assim sendo. reciprocamente. 126. quando discutimos o que é filosofia. pois é questão de interação da pessoa individual e do "Geist" (espírito) objetivo. acima. não mais em direção a seu autor. 16 17 18 19 20 21 . cit. afirma Ricouer.Ricouer o considera ainda dentro do neokantismo18-. como recorda Palmer. Por tudo isso. cit. 25. de nossas próprias categorias17. Isto significa. e que se desvende o texto. Idem. mas "experiência vivida". Ob. p. pois. Dilthey percebeu perfeitamente o âmago do problema: a vida só apreende a vida pela mediação das unidades de sentido que se elevam acima do fluxo histórico20. No "círculo hermenêutico". Ob. 29. Contudo. conclui criticamente Palmer. em se dando a compreensão em círculo. as partes só podem ser compreendidas na sua referência ao todo. p. assim. não sendo a vida algo "metafísico". A circularidade significa.".. o todo recebe a sua definição das partes e. 127-128. Significado é o nome dado às diferentes espécies de relações desta interação15. Ob.8 Percebe-se. cf. mas em direção ao seu sentido imanente e a este tipo de mundo que ele abre e descobre. podemos dizer que "compreender" não é algo dogmatizável. como se verá adiante. estabelecendo-se como "círculo hermenêutico". que é Os “pre-conceitos” de que fala Gadamer. é a fundamentação teórica da moderna hermenêutica.. p. não há ponto de partida: sempre se parte de "pressupostos"16. Dessa maneira. a definição de "verdade ontológica". que embora Dilthey não tenha se libertado totalmente do cientismo que quis combater . é certo que acabou sendo considerado o pai da "problemática hermenêutica contemporânea". "para levar adiante essa descoberta. o que Gadamer. Ob. que a "historicidade". cit. Para Paul Ricouer. a partir de Dilthey.. variável. devendo-se passar da "epistemologia" para a "ontologia"21. que estamos sempre num contexto historicamente definido. que compreendemos por uma constante referência à nossa experiência e a tarefa do intérprete‚ é encontrar modos de uma interação viável entre o nosso horizonte e o horizonte do texto. p. irá aprofundar para evitar a imposição ao texto. 15 Ainda aqui se volta à questão da "proporção" em Aristóteles: verdadeira ‚ a relação e não o seu conteúdo. será preciso que se renuncie a vincular o destino da hermenêutica à noção puramente psicológica de transferência numa vida psíquica estranha.. colocando os fundamentos do pensamento de Heidegger19. num círculo hermenêutico.

relativo. o único ser que é ser enquanto se relaciona. pois surge uma nova questão: ao invés de nos perguntarmos como sabemos. Para um enfoque hermenêutico. porém. sob o signo da revolução copérnica‚. Como aponta Ricouer. 1988. "se pudemos situar o primeiro trajeto. João Gama. trad. enquanto está "diante de".9 Aqui entra Heidegger22. porém. além dos textos já citados de R. que empreendemos agora. em Heidegger. isto é. se caracteriza não pela metodologia geral das ciências humanas. A partir de Heidegger. não tem movimento. significar. a pressuposição de uma Hermenêutica compreendida como epistemologia é posta em causa de forma essencial. cede lugar. O "Dasein" é o homem. Por isso. falar. e Ernildo Stein. 22 Sobre Heidegger a bibliografia é imensa. que. podemos acrescentar que para que Deus se fizesse entender pelo homem. Introdução a Heidegger. a Ontologia deve ser a fenomenologia do ser. . Para ele. por exemplo. se pode fundamentar inclusive posturas epistemológicas. Seis estudos sobre 'Ser e tempo' (Martin Heidegger).. a partir daí. "ser-com". das hermenêuticas regionais à hermenêutica geral. o absoluto não convive no sentido em que o homem. aquele que pode agir. que se relaciona e tem referências. o absoluto fosse cabível na vivência humana. O "ser" das coisas. sob o signo de uma segunda revolução copérnica‚ é que recolocaria as questões de método sob o controle de uma ontologia prévia24. 1989. 23 24 25 Ob. por ser absoluto. não se deve esperar de Heidegger ou de Gadamer um mero prolongamento da questão diltheyana. Edições 70. pois nem Deus está "diante de". se revela através do "mundo". que é a fenomenologia de E. mas por um "ato primário de interpretação" que faz com que a coisa em si se revele. a fim de se comunicar: Cristo é o "verbo" de Deus. que é a totalidade em que o ser humano está mergulhado: só o homem tem mundo e as coisas estão no mundo do homem. a título de bibliografia básica. incluindo Gadamer. O termo "existir". teve ele mesmo que se transformar num finito e relativo. Mundo e compreensão são partes inseparáveis da constituição ontológica da existência do "Dasein" (o ser-aí). ao contrário de Dilthey. o faz. Idem. Petrópolis. deveremos situar o segundo. Nesse sentido. tal ponto de partida foi superado em direção à hermenêutica. "hermenêutica da existência". p. ou melhor. Ou seja. perguntaremos qual o modo de ser desse ser que só existe compreendendo25. pois o absoluto. Ricouer. Embora Heidegger tenha tido um instrumento que Dilthey e mesmo Nietzsche não tiveram. como aponta Palmer. ou seja. cit. Idem. é sempre "mitsein". Gianni Vattimo. Husserl. pode-se somar. Palmer e P. assevera Ricouer23. Lisboa. Vozes. 30. nem as coisas estão conscientes do mundo. A questão epistemológica. caracterizando-se o seu pensamento como anti-cientificista. para a questão fundamental do ser: compreender é compreender o ser e. nesse sentido. de apenas fundamentar um método para as ciências. é reservado ao homem.

em Ser e tempo. Agostinho. Heidegger vê um cristianismo fundado na experiência vivida (não tanto conhecer a Deus. p. "filosofia é. . como "ser-diante-de". o que faz perder a pretensão grega de verdade como desocultação (do Ser). acrescentamos. Mas o homem é a ponte entre o ser que se esconde e o que se revela. 49). isto é. Obviamente. na esperança e na caridade. Por isso. Trata-se de uma vivência segundo a verdade do ser: Palmer revela que numa obra não publicada26. colocando-se o homem como centro. revelam o próprio ser. O verdadeiro fundamento da linguagem é o fenômeno da fala. A essência da "mundanidade" do homem. Por isso. interpreta o "texto" e. interpreta o Ser. p. não sendo apenas "invólucros". mas viver em Deus)27. e disponível apenas para ser contemplado. ao superar a dicotomia histórico-científica contemplada por Dilthey. A linguagem. sendo uma e outro partes inseparáveis. podemos completar. é através da linguagem que o homem realiza a sua essência. é. da história. Heidegger mudou todo o seu contexto. sobretudo. que apresenta um cristianismo mais estático. Vozes. A vontade faz do mundo um brinquedo nas mãos do homem e ele passa a influir. 1989. cit. é sempre 26 27 Ob. é "a casa do ser". a marca essencial do homem. Textos de hermenêutica. É esta a função hermenêutica da linguagem. E se a linguagem é. pois não há essa revelação sem linguagem. do lugar. de S. só se torna aquilo que deve ser. hermenêutica.. a partir de Descartes. através da linguagem. fora e acima do tempo. 28 Segundo tradução de Márcia de Sá Cavalcante. portanto. para Heidegger. ao falar. o que já não se encontra no neoplatonismo. da constituição ontológica da existência do "Dasein". 148. estar inserido num "mundo" é a interrogação. projeção do próprio homem. pois as palavras. cujo Deus é um Ser eterno. A partir do "não-ser" como pano de fundo. cit. mas ambos. no homem ‚ que se revela o Ser. em si mesma. onde algo se revela. mas um partilhar do mundo: não é nem subjetivo e nem objetivo. O que é coerente com o que encontramos em Acerca da doutrina cristã. ao invés de apenas postar-se de maneira a que o ser escondido se revele. A constituição do "ser-aí" como "presença"28. o mundo é dessacralizado e a relação com Deus é mera experiência particular. Augustinus und der Neuplatonismus.. capítulo XXXIX: "O homem que funda a sua vida na fé. dando um sentido mais profundo à Hermenêutica. em mais alto grau. na convivência. que trata não de um revelar da interioridade. não necessita da Sagrada Escritura para a sua instrução" (cf. Petrópolis. fazendo com que o ato de interpretação se coloque numa perspectiva ontológica: o homem é o "pastor" do Ser. significa que o homem só se realiza. O homem pensa e fala: pergunta "que é isto?" e por isso. Segundo Heidegger. pois o mundo é anterior a ambos e a ambos engloba. na poesia. isto é. para Heidegger. hermenêutica". o seu "ser" como existente.10 A compreensão se dá através do mundo. ou deveria ser.

se coloca ainda na tradição heideggeriana: Gadamer. pela falibilidade dos planos. que é. do Ser. Zwaite Auflage. a sociologia. Se. ou seja. emprega à filosofia e. de modo que não se pode confiar. a religião e a arte. como demonstrativo inequívoco disso. de um lado. Vale completar esse quadro com o autor da grande obra hermenêutica que. é sempre relativo (o que não significa que a verdade é relativa) e não absoluto. francesa. já citada. de justiça e também já pudemos recordá-lo diante da questão hermenêutica específica. de 1960. mas. Portanto. 1. à própria hermenêutica. a verdade zomba do homem metódico. utilizamos a ed. assim como todo método. 1992. Frankfurt am Main. é o quanto basta. Sendo um "ser-para-a-morte". não confiando nos planos o homem experiente. a ontologia privilegia o acesso ao "Ser". o método não é caminho para a verdade. prega a necessidade de uma "ética de princípios". O máximo que um método poderia fazer seria revelar "uma verdade" já nele contida. porém. Para Gadamer. assim. não vida. ao contrário. ed. portanto. "Verdade e método"29. a questão envolvendo "verdade" e "método" explica uma discussão filosófica histórica que vem sendo travada entre a ontologia e o idealismo cético. isto é. Em termos de "breve introdução histórica à Hermenêutica". qualquer dogmatização. controla e manipula. De toda a obra de Habermas. por exemplo30. do justo. pois enquanto não chega a esse ponto de finalização da existência. mantém-se‚ todas as possibilidades. destacamos Faktizität und Geltung: Beitrage zur Diskurstheorie des Rechts und des demokratischen Rechtsstaates. Suhrkamp. por ora. e. o ceticismo relativista que adquiriu monta na Modernidade apela para a questão do método. . todo plano é falível. ou seja. um homem decepcionado. de certa forma ao menos. à verdade. é morte. O pensamento de Heidegger aproveita a todos os pontos de vista que estudam o homem: a psicologia. para evitar o caos. como tentativa de estagnar a existência. O dogmatismo é conseqüência natural. Obviamente. desse vastíssimo pensamento. serve como "substitutivo" da 29 30 Wahreit und methode. Ao definirmos o Direito como "regras de convivência (harmonia)" para ou através da manutenção da igualdade. apenas na morte é que terá sido. uma vez descrente da "ocorrência" da Verdade. o método.11 relacionado. a política. Na realidade. como o demonstra a leitura de Habermas. como se disse acima. podemos perceber que Hans Georg Gadamer quer colocar em questão a disputa acerca da hermenêutica como ontologia e da hermenêutica como método simplesmente. um parâmetro procedimental segundo o qual é preciso seguir regras fundamentais que estabelecem princípios. A começar pelo título de sua grande obra. desembocamos sem defesa diante dessa filosofia. pois o tema orienta. pois. a antropologia. o direito. Já o aproveitamos para a definição de verdade e de direito.

Gadamer transforma a sua teoria da compreensão numa crítica formal da estética‚ moderna e das concepções históricas da interpretação. localizado no tempo e no espaço.o tempo tem a função de eliminar o que não é essencial. sendo semelhante ao conceito de "mundo" em Heidegger. 3) Compreender o autor de um texto ou o texto: .mais que juízos prévios. ainda.importa compreender o texto.se a obra traz uma verdade. desocultando o verdadeiro significado. compreende o seu ponto de vista. O homem. podemos completar dizendo que o Direito aí se insere. sendo que dessa "historicidade da compreensão" derivam algumas conseqüências: 1) O problema do juízo prévio‚ (o "pre-conceito"): . Assentando-se em Heidegger. entregando-se a ela.os pressupostos vêm da tradição em que nos inserimos .a verdadeira tarefa da hermenêutica é a integração e não a reconstituição. e não o autor. A tradição. diante de uma situação agnóstica: o dogma é posto onde se julga que não há demonstração a fazer. são a realidade histórica do ser . mas sim no fato de revelar o ser. sentimo-nos em casa diante de uma obra de arte porque reconhecemos a verdade (o artista disse aquilo que é). A legitimação da arte não está no fato de produzir um prazer estético. por sua vez. como um jogador respeita as regras do jogo como sagradas e as transforma num ritual31.12 verdade ontológica. sua significação histórica. . Ou seja. 5) O significado da aplicação: . aliás.compreender implica numa aplicação (hermenêutica jurídica serve de exemplo) . Pela linguagem é que a tradição se comunica."presentificação" do texto significa que "compreender um texto é sempre já aplicá-lo". A obra de arte transforma aquele que a experimenta. . de modo a se "transmitir" de geração para geração.também na hermenêutica jurídica ou na teológica se ajusta o pensamento ao pensamento do texto: interpretar a "vontade da lei" ou a "vontade de 31 Em termos de regras. pois a verdade é uma só. 4) Reconstrução do passado: . esta é original. é algo em que nos situamos e pela qual existimos. com ênfase especulativa e dialética em direção a Hegel. 2) O conceito de distância temporal: . finito e histórico (relativo em oposição a absoluto).

como Betti e Hirsch. mas um acontecimento histórico. mas traz-se do passado o essencial para o presente. escrita). P. R. o que faz a mediação. as fronteiras desta resposta-limite).não se dá ao passado as aparências de presente. mas de o servir . . Ob. cuja primeira realização é a pergunta e a resposta . Ricouer. pois saber significa que não sabe (docta ignorantia socrática).querer interrogar.13 Deus" não são formas de dominar o assunto. a insegurança dos planos e isto o abre a novas experiências. salienta Palmer. por fim. . já significativa.a experiência contraria.. Gadamer desenvolve a ontologia da compreensão numa hermenêutica dialética que põe em causa os axiomas fundamentais da estética moderna e da interpretação histórica33. se a hermenêutica de Heidegger já concebe ontologicamente o evento da compreensão. 217. p. 219.parte da avaliação hegeliana de experiência: inversão ou reestruturação da consciência (experiência é antes negativa). um evento. .mas uma pergunta tem sempre uma orientação (resposta implícita. querer saber.a revelação ontológica (algo não é como pensávamos) se dá pela linguagem (caráter não instrumental da linguagem rejeita a teoria do signo). p. cit. segundo Gadamer. que não pertence mais nem ao seu autor e nem ao seu leitor34. Como salienta Paul Ricouer. não sendo fruto da reflexão.o texto pergunta e é uma resposta (dialética. o que faz comunicar a distância. .a palavra é. do que se trata? 32 33 34 Ob. é a "coisa do texto". Como salienta. ob.. mas sim compreender profunda e verdadeiramente. mas da experiência: Verbo Divino. cit. Palmer.o homem experiente conhece os limites de toda antecipação. Para Richard Palmer.. . Gadamer não quer compreender corretamente. É uma aproximação de Hegel. o que significa que uma coisa não é como a tínhamos pensado (desilusão da experiência) . pois cada resposta gera nova pergunta). ou melhor. cit. p.daí saber perguntar corretamente (penetrando no tema). um encontro. 42. por si. recolocando-o no presente vivo do diálogo. . é experiência de finitude.esta é a estrutura da historicidade: a experiência do passado previne as do futuro. compreender é compreender o presente. De nossa parte. . . que talvez seja um melhoramento da concepção de Heidegger32. juntamo-nos a Ricouer quando pergunta: se a "coisa do texto" não pertence nem ao seu autor e nem ao seu leitor. .tarefa da hermenêutica: tirar o texto da alienação em que se encontra (enquanto forma rígida. .conhecer não é só um fluxo de percepções. .

a "voz" de Deus é inefável. é verdade. Poderíamos dizer. Ob. Distanciamento aqui pode ter um sentido de imparcialidade. são ainda "expressões" humanas. como assevera Ricouer. Se as coisas não têm voz.14 Resta a entrega de si. o homem só chega à essência. e por isso não precisa interpretar. compreender o texto é compreender. exige um distanciamento a fim de preservar uma "tranqüilidade" e evitar uma intromissão. que não se "expressam". ou. em termos heideggerianos. é vida alimentando-se de vida. se Deus a tudo "conhece" na sua essência. como chama Ricouer. E a interpretação. através da palavra. 57-59. ao "mundo da obra". p. cit. à "coisa do texto". O distanciamento é condição sine qua non da compreensão35. Essa "imparcialidade". exigência e necessidade. a duras penas. Só se interpreta aquilo que é "outro".. ou seja. Perdendo-se é que o leitor se encontra no mundo do texto: é aí que ele se compreende quando responde à pergunta do texto. significa que nem Deus. ou o "Verbo". É perder-se diante da indagação do texto. é o texto que nos indaga. mas só se interpreta aquilo que se expressa. que torna necessária a interpretação. esbarra na questão do pre-conceito. Somos alguém inseridos num determinado contexto histórico de tempo e lugar. A sua palavra. que nos faz interpretar sempre de acordo com a experiência anterior. ao mesmo tempo. pelo leitor. o contexto no qual estamos inseridos! 35 36 Ob. mas tem sobretudo o sentido de ser "outro" diante daquilo que se vai interpretar: é. também não são interpretáveis. porém. da pre-compreensão. p. Na verdade. que é Deus na forma humana. cit. mas uma conversão de princípios em atitudes de vida: é vida interpretando a vida. Não é uma "explicação" teórica. como não cabe o mar num buraquinho na areia da praia. para se utilizar de uma anedota a respeito de um santo filósofo. e por isso mesmo. antes de mais nada. é formar ou reconhecer um contexto. um obstáculo mesmo. O Absoluto não cabe na mente humana. no sentido gramatical estrito. Portanto. A interpretação deve satisfazer essa condição de "aqui e agora" em que nos situamos. A palavra é a "casa do ser". 58-59.. por sua vez. . escrita sob as condições humanas. Essa dimensão do “outro” sugere a essencial distância. nem as coisas. a si mesmo no texto36.

15 OITAVO TEMA “INCONTESTAVELMENTE A LÓGICA É INABALÁVEL.” (FRANZ KAFKA. “O PROCESSO”) . MAS NÃO PODE OPOR-SE A UM HOMEM QUE DESEJA CONTINUAR VIVENDO.

John Gilissen. M. Saraiva. ao lado da fundação da hermenêutica de modo geral como preocupação disciplinar particularizada41.. aparece na Europa sobretudo no século dezenove. as filosóficas e as normativistas40. 409-410. O tema da "hermenêutica jurídica". São Paulo. 1988). ao se contrapor ao normativismo puro. Essas teorias a respeito da essência do Direito.. É a sistematização da questão do "interpretar" com bases mais científicas. pois como observou o referido mestre. especialmente p. ou a primazia da norma37. ou a primazia do valor. M. Lisboa. Para tal estudo podem ser utilizados. ob. Hespanha e L. especialmente p. 397 e s. de como decidir. p. como disciplina autônoma. O direito como experiência. a história da Filosofia do Direito é um entrecruzar de teorias que pregam ou a primazia do fato. Macaísta Malheiros. Botelho Hespanha. p. ao dizer o que é o Direito. já estamos adiantando como vamos encarar a hermenêutica jurídica. vendo o Direito como sistema de regras. 491 e s. como já havíamos dito na crítica à Teoria Tridimensional 43 do Direito . determinam a respectiva hermenêutica jurídica. cit. sobre a Escola Histórica. São Paulo. especialmente p. revela basicamente três temas. b) . renovando com rigor científico certas teses já debatidas pelo "historicismo" na primeira metade do século passado"42. por assim dizer.. 42 43 . Saraiva. Sobre a influência de Schleiermacher no seu tempo. A. trad.o "normativismo jurídico abstrato".o "empirismo jurídico" que. A. acima. cf. 409 e s. que são apropriados por diversas escolas. evidentemente. cit.. 409. ou seja. trad.. p. 231. História do direito privado moderno. Ob. Fundação Calouste Gulbenkian. Miguel Reale salienta que essas três grandes concepções do Direito se resumem no seguinte: "a) . o subordina rigorosamente a valores morais. que levar também no campo do direito a uma sistematização do caráter da aplicação do direito. Fundação Calouste Gulbenkian. ed. Franz Wieacker. sobre a virada do positivismo científico para o legalista. (ed. p. ou teoria do Direito como simples sistema de comandos ou de regras. contemporâneo à Escola Histórica. F. pois 37 38 39 Conferir o estudo sobre a Teoria Tridimensional do Direito. p. sobre a pandectística e p. põe em realce a dimensão "fática" do Direito. dentre outras. com denominações diferentes conforme o país de origem: as escolas sociológicas.o "eticismo jurídico" que. como pretendemos interpretar38. Entretanto.M. cit. em termos práticos. Lisboa. assim. ou. O estudo da história da hermenêutica jurídica39. 1968. 419. (da 12. Wieacker. como observou Miguel Reale. 524 e s. as obras seguintes: Introdução histórica ao direito.16 A HERMENÊUTICA JURÍDICA Realmente. Miguel Reale. Cf. 513 e s. acima. c) . porém. a questão não pode se resumir ao elenco de três grandes correntes. e Filosofia do direito. 1987). 40 41 Filosofia do direito.

437. porque somente são leis verdadeiras as que traduzem as aspirações autênticas do povo". porque se trata de uma interpretação já da realidade social ou do "espírito geral". por outro lado. igualmente surgindo de maneira anônima. 44 45 46 47 M. para o qual. ou a "Analytical School" na Inglaterra. incluindo-se aí as decisões superiores. para esta escola. um "normativismo" que entende que o Direito se resume a leis. aparece o movimento historicista. . Temos. diante do positivismo idealista.. De um lado. quando o Direito se assemelha à linguagem. nada tem a ver com o "moralismo" desse "eticismo". p. ainda que acredite num "direito natural". a transformação de um "historicismo de conteúdo social. ainda que se possa pretender que desemboque numa "ética". ou Pandectista na Alemanha. p. no entanto. a interpretação ‚ embaraçada porque a lei ‚ uma ordem que condiciona a realidade social. no caso inglês. M. No campo do positivismo empírico. p. que nesse sentido é procedente. como os aprioristas. a despeito de uma corrente sociológica que pregava o "direito livre" (das leis). a ordem do legislador estatal.. cit. pois. a lei não pode ser interpretada. "Volksgeist". Outrossim. na sua "Der Kampf um die Rechtswissenschaft". como a conclusão de Habermas. Reale. para os quais a norma é "condição" lógica de condutas possíveis. a interpretação será sempre restrita a explicitar a norma. como é o caso de H. Reale. pelo costume vivo da coletividade. portanto. como foi classificado. quando a norma for obscura e. ou na expressão alemã consagrada por Savigny. como conclui Reale. que vêem na norma o "resultado" de condições impostas pelas circunstâncias do viver social. 425. Portanto. ob. segundo o qual o direito está no "espírito do povo". Kantorowicz. a interpretação. para um historicismo meramente lógicodogmático"46. de modo a não poder ser "alterada" a ideologia que a indicou. in claris cessat interpretatio. ou seja. Reale. como a da Exegese na França. tanto os empiristas. de outro a primazia da vigência. Idem. à parte esse "positivismo idealista" do normativismo. que entende que a lei é a única fonte de direito. acabam descambando para o mais exacerbado "normativismo"47.17 a visão aristotélica‚ do Direito Natural. portanto. Como é sabido. o sociologismo histórico acabou dando prioridade aos textos legais. 438. de orientação sociológica. cit. ob. Entretanto. como observa Miguel Reale44. acontecendo como observou Miguel Reale. que vinculam como lei os juizes inferiores. mas que não tem significado se não for objeto de uma "objetivação" legal. sob o pseudônimo de Gnaeus Flavius45. que publicou em 1906.. cit. M. a primazia da eficácia. Por isso mesmo. Só há interpretação. ob. houve a necessidade de se "esclarecer" qual era esse "espírito" e a Escola Histórica acabou admitindo que "os costumes devem exprimir-se em leis. Evidentemente.

já citada. ou seja. eficácia e vigência se confundem48. Aqui também. porém com conteúdo moral. . deve ser observada. p. Da mesma forma que as teorias sociológicas também incluem exacerbações do tipo "direito livre". Kelsen. onde lei alguma é viável.. trad. São Paulo. que entende que a norma vale pelo conteúdo da sua prescrição51. acompanhada de obrigatoriedade pela sanção53. 2. segundo a visão kantiana. Para Kelsen. os "moralistas" não querem. Habermas. é que embora ambos exijam uma conexão de fundo entre a norma e a realidade social.. pois há uma ideologia implícita na origem da norma que não admite ser traída. João Baptista Machado. Aqui. cit. para ser contemplada na norma. torna-se dificultada a interpretação. cit. ob. Cf. Pouco importa se uma conduta é boa ou não. A. e o comentário de Reale.ed. alegando que a única distinção entre ambos é que o normativista não vê na norma uma função ou conteúdo moral. por sua vez. H. p. Martins Fontes. mas apenas a "vigência". aponta o mestre. não há sanção para a sua inobservância. Sobre a relação direito e moral. Reale. passando-se um imperativo categórico para imperativo hipotético. Trata-se simplesmente de uma conveniência do legislador estatal que. A diferença entre os "moralistas" e os "empiristas". valendo esta em virtude de seu "enlace lógico na totalidade do sistema". a norma jurídica não tem conteúdo relativamente a uma ideologia prévia. Ribeiro Mendes. Resta saber se realmente isso acontece. e que pode ou não estar relacionado com o conceito de "Direito Natural". de Herbert L. enquanto imperativo moral (categórico). 48 49 50 51 52 53 J. o autor da "Teoria pura do direito"49. portanto. Hart. A. Apontam para um "dever-ser". Ob. como é o caso de Hans Kelsen. Apenas que. ao contrário do "eticista". portanto. 482. ob. observados os procedimentos regulares. ed. de 1986. não importa a "eficácia". cit. Ob.18 idealmente. pois. p.. Após comparar o "sociologismo" ao "normativismo". compara o "normativista" ao "eticista". Faktizität und Geltung.. constitucionais.. cit. o que já ocorre com a elevação do imperativo a norma jurídica e. 475 e 481. 463. pois "eficácia" ou faticidade é conceito metajurídico e o que o Direito deve contemplar é a validade técnico-formal da lei50. Lisboa. interessante lembrar o livro O conceito de direito. 1987. uma vez caracterizada a norma como comando de ordem moral. as concepções legalistas também têm uma tendência "purista". Fundação Calouste Gulbenkian. depois de erigida à condição de lei.. Trad. como os empiristas. cit. a redução do "normativo" ao que é verificado pela freqüência52..

” (MÁRIO QUINTANA.UMAS VEZES QUER DIZER CHUVA. . .RESPONDI TRIUNFANTE.UMA NUVEM . OUTRAS BOM TEMPO. “POESIAS”) ..E O QUE QUER DIZER UMA NUVEM? .19 Citação especial: O DIREITO É A ARTE DO BOM E DO JUSTO (Celso) SÉTIMO TEMA “MAS O QUE QUER DIZER ESTE POEMA? PERGUNTOU-ME ALARMADA A BOA SENHORA..DISSE ELA .

20 9. que. na Alemanha. ambos. não pode ser objeto de interferência. Mas. também entende que o texto legal é preponderante. na verdade. todas de cunho legalista. não entendendo que a tradição é. entretanto. A influência do Historicismo faz-se sentir no sentido de que a tradição romano-germânica deve ser preservada. acaba por dogmatizar o passado histórico como fonte de direito. que. por isso mesmo. a escola da exegese A Escola da Exegese não admitia a interpretação do texto em sentido amplo. por sua vez. pela razão de que a lei é a manifestação histórica da cultura do povo e. a escola pandectista A Escola Pandectista. o seu entendimento gramatical e textual. influenciou e foi influenciada pela particular função de interpretar as normas. a Escola História. devendo ser respeitado como tal. ao mesmo tempo. a escola analítica (analytical school) . quanto à interpretação em si. válida para todas as ciências humanas. apenas. O que é esse texto normativo é que deve ser discutido. ora do princípio de que a autonomia democrática estampou no texto sua vontade e que. as escolas na hermenêutica jurídica Tradicionalmente. ora restrita. a partir de Savigny. o texto normativo ora foi entendido de maneira abrangente. não pode ser objeto senão de esclarecimentos objetivos. surgiu uma ciência hermenêutica geral. através da observação estrita da lei. interpreta-se qualquer texto (e texto é qualquer manifestação que requer interpretação) e. a fim de espancar as lacunas e divergências que existem no ordenamento jurídico apenas de forma aparente. dão guarida à tese da obediência cega a uma ordem de poder. mas. a história da hermenêutica jurídica é a própria história do direito. Na verdade. na qual se manifesta. Assim. as escolas exegética. com preocupação a respeito da interpretação legal. Hermenêutica história Na medida em que o Direito é dinâmico e realiza-se como tal na decisão do juiz. a atualização dos valores culturais. contudo. pandectista e analítica. na hermenêutica jurídica. no final. porém. Tivemos. portanto. Há que se salientar. interpreta-se o texto normativo. de origem germânica. Parte-se ora do princípio de que o texto é sagrado.

E a aplicação não passa de uma composição de dois textos. O caráter pragmático do direito demonstra-se no momento quem que há uma interpretação aplicativa. já que a tradição anglo-saxônica desconhecia atividade legislativa ampla. temos que distinguir dois aspectos: o símbolo ou significante. composção essa que nada mais é do que a valoração de ambos os textos. no século 19 é que a hermenêutica começou a ser tratada como disciplina interpretativa. não entende a preponderância do texto legal em si. Isso significa que todas as normas são apenas projetos e que.21 A Escola Analítica. a Hermenêutica Filosófica antecedentes históricos Como foi dito anteriormente. pois. as quais deveriam. buscando o caráter subjetivo das ciências humanas. relacionando-os. linguagem. podemos entender o caráter interpretativo do direito como uma ciência hermenêutica que se faz a cada instante. quando “diz o direito”. ou significado. Daí a importância das decisões judiciais como precedente. é uma interpretação para a aplicação. na medida em que a interpretação. ou seja. entendia que a cultura e o costume do povo só podiam ser fonte de direito na medida em que fossem reconhecidos pelo órgão estatal judicante. Por isso mesmo é válido dizer que estudar o Direito é estudar hermenêutica. que ensina aos filósofos que a compreensão do mundo deve ter uma dimensão pragmática. . caso realmente possam cumprir a sua finalidade. e o conteúdo. a Hermenêutica Filosófica busca seus antecedentes no Direito Natural aristotélico. quando chamadas à realização. no Direito. direito e linguagem (semiótica e comando jurídico) Tendo em vista que o Direito é. surgida na Inglaterra. o da norma e o fático. o direito como tal só existe mesmo no momento da aplicação. essencialmente. que serve de exemplo para a própria filosofia em geral. em cada circunstância. mas. na verdade. É este o caráter prático do Direito. quais sejam. nortear a aplicação do direito. é que tornam-se eficazes. o momento culminante do direito é o momento em que um juiz faz uma aplicação. ou seja. Direito como composição de “textos” A partir da hermenêutica filosófica. Contudo. entre elas o Direito. então.

é a base do Justo. são conteúdo ou significado. Esse absoluto que transmuda-se em cada um. E Justiça. É possível dizer que o conteúdo. é. o qual. o seu significado. só o equilíbrio pode trazer solução aos conflitos e permitir a paz. é o próprio ser. está inserido numa problemática maior. assim. a lei. pois que independe da vontade. Mas. podemos obter respostas de um ou de outro lado. metodologicamente necessária. hermenêutica e justiça Se colocarmos a questão sobre se o Direito deve visar a lei ou a justiça. é preciso que aquela mensagem. como vontade. que devem ser bem interpretados no momento de se observar tais comandos. como já foi visto. Entender o símbolo em si é uma questão explicativa ou exegética. O comando jurídico é materializado. portanto. . é através do Direito que o Homem busca resolver os conflitos que o afastam de por em prática todas as suas potencialidades. é também metodologicamente falha e. antecede o símbolo. Mas. uma vez que este surge exatamente da necessidade de explicitação daquele. portanto. seja entendida diante de uma circunstância fática real. técnica processual como método para dizer o Direito O Direito. E. Um método para dizer o direito. mas. na medida em que. comum a todos. como finalidade. se observarmos a realidade em si. não pertence a ninguém em particular. genérico e lacônico. pois que o seu conteúdo.22 Símbolo ou significante é a externação de um conteúdo ou significado. portanto. do ponto de vista jurídico. ao passo que os elementos lingüísticos que os sacramentam são símbolos ou questão de forma. do ponto de vista orgânico. de modo a resolver conflitos e restabelecer a igualdade. opera o juiz como animador desse texto sem vida. Cabe-nos. que é a da própria existência como manifestação de uma essência transindividual e. do ponto de vista hermenêutico. Em outras palavras. exatamente. O Justo é. por símbolos lingüísticos. nada mais é do que um método hermenêutico. da lei. ou seja. por exemplo. uma vez entendido o símbolo. por isso. é a sua razão de ser. Diante do texto frio e estático. veremos que o Direito é um instrumento de realização do Homem. indispensável. é a eqüidade como demonstração de que o “direito natural” do ponto de vista aristotélico. metafísica. em cada situação particular. estampada na lei. guardar as devidas proporções. deve ser completada sempre pela interpretação como preocupação de realização das finalidades. Os valores embutidos na norma. apenas uma resposta: o Direito visa a Justiça. natural. como equilíbrio ou eqüidade. completando a generalidade estática da norma.

23 O Direito. num contínuo esforço interpretativo ou hermenêutico que se chama dizer o Direito. e nem só o fato objetivo em si. mas. . a valoração de ambos. seja escrita ou costumeira. não é só a Norma. portanto.

” (TIAGO. 17) . POR SI MESMA É COISA MORTA. A FÉ É ASSIM: SE NÃO VIER ACOMPANHADA DE AÇÃO.24 NONO TEMA “PORTANTO. 2.

escrita. É certo. Isso. por si mesma. recolocando-o no presente vivo do diálogo.25 HERMENÊUTICA E DIREITO NATURAL GADAMER: HERMENÊUTICA COMO APLICAÇÃO Como se depreende da obra de Gadamer. assim. no sentido dialético de que cada pergunta gera uma resposta. Querer interrogar é querer saber. assim. A revelação ontológica que diz que "algo não é como pensávamos". não acreditando num "método". já significativa. é criativo. que acredita influir com a vontade subjetiva na confecção do mundo. que significa que "compreender um texto é sempre aplicá-lo". O homem experiente conhece os limites de toda antecipação. não tem caráter instrumental. rejeitando-se a "teoria do signo". as fronteiras dessa resposta-limite. é dogma. saber o que não se sabe (docta ignorantia socrática). portanto. Verdade e método.. Ou. 54 Cf. contudo. que é sempre prático‚ -estabelecido e castrador da criatividade. portanto. e. 166 e s. e isto o abre a novas experiências. p. Por isso. ou melhor. . é preciso saber perguntar! Perguntar corretamente é penetrar no tema. o homem experiente é um homem decepcionado. como a chama. mas da experiência. Conhecer. se dá pela linguagem. "interpretar já não é modificar"? Gadamer parte da avaliação hegeliana de experiência. mas um acontecimento histórico. se traz do passado o essencial para o presente. vale dizer. A tarefa da Hermenêutica é tirar o texto da alienação em que se encontra. mas de o servir. os exemplos da hermenêutica jurídica e da hermenêutica teológica são esclarecedores54. a palavra é. exatamente. que gera uma pergunta e assim por diante. sabe da experiência de todos os planos. A experiência do passado previne o futuro e. Aqui. pois interpretar a "vontade da lei" ou a "vontade de Deus" não são meras formas de se dominar o assunto. pois não é fruto da reflexão. porque não se compreende o passado contemplativamente. um encontro. é compreender para o presente. cuja primeira realização é a pergunta e a resposta. porém. na esteira do pensamento de Heidegger. pois a experiência é antes negativa: uma coisa não é como a tínhamos pensado! Daí o sentido de "desilusão" como experiência: para Gadamer. Ou seja. vai contra o idealismo. para uma "inversão ou restruturação" da consciência. Compreender. a hermenêutica não é mera atividade teórica. o que ele chama de "presentificação" do texto. Ou seja. ob. uma vez que a experiência contraria. não é um fluxo de percepções. como Heidegger respondeu a Marx. cit. que uma pergunta tem sempre uma orientação prática‚ na qual está implícita a resposta. enquanto forma rígida. um evento. constitui-se a experiência a estrutura da interrogação. cuja "atualização" de geração para geração se dá pela tradição. é experiência de finitude. há um papel de tradução pela hermenêutica. O próprio texto pergunta e é uma resposta. mas busca algo essencialmente "prático". que vem de encontro com a vida. É a figura do "Verbo Divino". portanto. a qual.

p. é saber algo sobre algo: É‚ técnica do artesão. "tecnologia". O saber moral é um saber sobre si ("Sich-wissen") e um saber para si ("für-sich-wissen"). não querendo ele "entender corretamente". Gadamer estuda especialmente Aristóteles em relação à hermenêutica56. um homem e Deus. nada mais é do que aplicar uma coisa geral (princípio) a uma situação particular (concreta). As palavras. mais especulativa que dialética. Opta pela "verdade" em detrimento do “método”. ignora a "legalidade" da natureza. na pessoa de Jesus Cristo. 55 56 57 R. cf. Como já se disse antes. a "phronesis‚" não se aprende e nem se desaprende (pois é "natural"). Verdade e método. cit. acima. começando por apontar que a "ética" aristotélica‚ é "aprender para agir". 215. mas profunda e verdadeiramente. perspectiva de futuro). são especulativas e toda interpretação é especulativa. Por isso. caracterizaria o dogma. e assim também não se caracteriza pelo "distanciamento" que exige uma expressão e uma interpretação. Aristóteles. ou seja. segundo Gadamer. como diz Gadamer. que é o aperfeiçoamento. (pois é "método" conveniente por circunstâncias). O Direito. para "falar" com eles. a "techné". Cf. "falar" com eles: falar. para Aristóteles. assim. Não é mundo dos homens e. 153 e s. ao passo que no caso do projeto do artesão não se pode fugir do plano sob pena de se renunciá-lo. cit. enquanto que o saber técnico. aliás. 332. Aristóteles prevê a "epieikeia".26 Podemos salientar que o termo "verbo" significa ação. presente. assim como a presença de Aristóteles. pois não tem "temporalidade" (passado. o "verbo".. é a verdade absoluta como verdade. o estudo sobre Ontologia. faz uma diferença entre "phronesis" (saber moral) e "epistème" (saber técnico).". então. ob. A hermenêutica. mas meros signos de entendimento. a correção. significa leis sempre deficientes em face da complexidade da realidade humana. pois não se pode crer num significado infinito. é ter uma linguagem. A hermenêutica de Gadamer é. podendo. insere-se. pois "a concepção especulativa do ser que está na base da hermenêutica é tão englobante como a razão e a linguagem. Enquanto a "techné" pode ser aprendida e desaprendida. é. Verdade e método. diríamos. sendo que o direito natural é inalterável para os deuses. de modo que os animais não têm "linguagem". como salienta R. no seu absoluto. p. é universal. Isso. por isso. porém. assim. pois é fazer o fazer: característica de "comando" da palavra. nesse contexto. a atualização da norma. "ter um mundo". cit. pertence ao ser da filosofia. Palmer55 ao estudar Gadamer. Aplicar. é agir por excelência. .. p. Deus. a "eqüidade". mas é variável para os homens. Para aplicar o Direito. no relativo humano. Palmer. reconhecendo sim a mobilidade do comportamento humano. não age. É importante para Gadamer. o exemplo da hermenêutica jurídica como "aplicação". mas proporcional como desdobramento na realidade humana57. o pai do direito natural clássico.. Por isso.

há de ser obedecido. extraímos o princípio do justo. p. p. Porto Alegre.. dessa forma. da observação da natureza. Sérgio Antonio Fabris. 22. um "agir comunicativo" -. o saber moral. Aristóteles prefere a experiência. ousia) às coisas. Anota o autor que M. 13. é fruto do individualismo. nota 16. para Aristóteles. Ob. Vandyck Nóbrega de Araújo. ao estudar o direito natural. Fundamentos aristotélicos do direito natural. Ao contrário. aliás. Ob. seria reduzi-lo a uma técnica"60... cit. 60 61 62 63 64 65 Ob. embora com isso tudo. e. como ponderou depois S.. como depois de H. recorda Vandick. seja de uma orientação confessional. Grotius61. tem um fim prático. o que.27 Aristóteles se posiciona assim contra o convencionalismo extremo. 13-14. 14. C. para Maximiliano. há 255 combinações de 17 significados da palavra “natureza” com 25 correntes existentes sobre o direito natural. o chamado "direito natural" não é mais que uma crítica. que redunda num positivismo legal. violência. é fruto da não observação da virtude ("areté") da prudência. in "Philosofie du droit". Cf. é um agir moral. para o qual "restringir o direito ao estudo das fontes formais do direito positivo.. que não se trata de um direito "revelado" e carente de dogmatização. 12. para a realização de uma decisão ou ordem. Por isso. aliás. citando Louis Delbei. Maximiliano. Tomás: "Bodum est in re"63. enquanto que a necessidade de coação. 58 59 Cf. cit. cit. cit. portanto. ob. cit. lei. interditando todo julgamento de valor ou toda consideração de finalidade. como verdade. que segundo Michel Villey. que para Aristóteles. na p. Bem se vê. portanto. Ob. embora não se trate aqui da "natureza humana" rompida com a verdadeira essência do "phisikon dikaion". Física. que tem um fim teórico de projeto ou como diz Habermas. porque o que é conforme a natureza. significa que não é de acordo com a natureza65. do relativismo58. p. 1988. portanto. 18. seja da natureza estudada pelas ciências naturais. o que. p. Para Aristóteles. p. "kakia". regra. critica com veemência a restrição do termo ao significado de "princípios gerais do direito". de Aristóteles.. pois o Bem (Agathom) é inerente (essência. O autor informa. se harmonize. por isso. costume. p. à reflexão lógico-matemática preferida pelos modernos62. assevera que Heidegger descobriu a chave do conceito clássico do direito natural 64. 125. É por isso que Vandyck Nóbrega de Araújo59. cit. Villey. como assegurou Gadamer. para Aristóteles. p. Podemos concluir. indispensável em razão da ineficiência do direito positivo. Ob. . jurisprudência. do saber técnico. 47. nos atualiza com a sua tradição. o mal.

Vandick. assim.28 Vandick recorda que "natureza". ou seja. entende Vandick. um direito por conveniência do direito natural. p. p. cit. uma ontologia. p. Cf. que o direito romano é a prática da filosofia grega72. acabando por dizer que o "ser em si" é incognoscível. Aristóteles diferenciava. para o Estagirita. Mas o importante é que para o filósofo. já que só o "Motor imóvel" é ato puro67.. Já para Kant. começa com Grotius69. mas o direito positivo é válido somente em determinado estado. deve suprir as falhas do outro. é fruto da vontade. ob... inventa-se uma. cit. pois. enquanto que "Metafísica" não é o estudo do que está "atrás" da física (natureza).. Podemos dizer. 65. que estabeleceu definitivamente. não há antítese entre um e outro. uma vez que 66 67 68 69 70 71 72 73 Ob. p. precisa ser coercível. O direito natural é válido em todo lugar e ocasião. na medida em que tudo está em movimento (devir para atualização de sua potência). nesse sentido. redundando num relativismo sofista. completa-se depois com Thomasius. numa harmonia dos meios com os fins 66. . cit. cit. ciência do ser. como o próprio Vandick assevera. São Paulo. cit. Se a particularização do direito como ciência autônoma. porém. fruto da vontade do homem e sujeito às vicissitudes das falhas humanas. p. do mesmo modo que a "técnica" da "ética". p. regente da ontologia social do homem cujo objetivo é a realização da justiça71. mas o estudo da realidade como um todo. Essência da filosofia. pois o fogo queima na Pérsia como na Grécia. sugere Kant. para uma "superação" ou cumprimento da metafísica e não sua destruição. acompanhado da ameaça de um mal para quem não obedece. ou seja. cit. o direito era realidade ontológica. Por isso. porém. 32. O dever-ser.. perfeito porque da natureza. para ser obedecido. 91. 1980. Ob. "Ethos" e "Physicon Dikaion" são inseparáveis. ou. p. a dicotomia entre direito e moral70. 33. não se originando necessariamente da natureza. Para Aristóteles. nota 16. ao passo que para os romanos. a metafísica equivalia a um ceticismo quanto à coisa em si. 28. Dilthey. Ob. o direito romano é o exemplo vivo da aplicação do "Tó Dikaion" de Aristóteles73. como já se viu. é o impulso inato para o crescimento obedecendo a um propósito. Heidegger aponta. RT. 39. Cf. e. História da filosofia do direito. assim.. Ob. É. E isso gera um dogmatismo.. pois havia concluído que só o direito natural é científico. Aloysio Ferraz Pereira. sendo que o direito natural. por isso. que os dois alicerces do Direito Natural aristotélica‚ são o significado de "physis e a sua ética68. para satisfação da necessidade de segurança. uma vez que depende da conveniência. Ob. cit. 78. não chegando à verdade. uma dialética.

sendo importante. 63 e s. 15. Aristóteles diferencia direito e moral diferente de Platão -. Segundo Aloysio Ferraz Pereira75. O direito natural não é obediência passiva à lei. I. cit. p. a prática hermenêutica aristotélica‚ da qual Gadamer se socorre? Gadamer procura em Aristóteles.. segundo Aristóteles. Como justiça particular. "justiça universal".. cit. portando. recorda o exemplo da aplicação do direito. 96. "já não realiza a função própria da lei" (Retórica. que interprete a vida e nela se insira. cit.. 87. nesse sentido. 88. . já não visa o bem comum e a promoção da virtude não é mais lei.. a retórica dialética dos sofistas como método de pesquisa77. Ob. 78. Ob. Isso eqüivale ao ditado segundo o qual. que 74 75 76 77 78 79 80 81 82 83 Ob.. Ob. Ob. trata-se o direito natural de um direito vivo. é concorrer para a realização do ser. ou seja. a fundamentação de uma hermenêutica como verdade. 89. 82. p. cit. p. não sendo um produto. assegura Aloysio. Ob. e não natureza morta da era cartesiana. cit. p. perdendo a sua validade e podendo ser infringida82. se a lei positiva não exprime o justo natural. cit. do que boas leis e maus juizes. mas permite a pesquisa a fim de determinar o direito na observação e estudo da natureza. é a natureza a fonte e limite de poder. Por isso. é mais fácil encontrar legisladores prudentes (no momento da elaboração da lei) do que juizes dotados das qualidades indispensável à distribuição da justiça80.. cit. por isso. pois o juiz bom melhora a lei ruim e o juiz ruim piora a lei boa. pela inversão da aplicação. 83. p. cit. História da filosofia do direito. 7).. a necessidade da lei positiva se deve também porque. p.. colocando a moral na classificação da virtude total. conforme a sua causa final78.. 81. Dessa maneira.29 o direito positivo é fruto das convenções74. Aliás. Ob. 84. como Aristóteles percebeu. pois a "eqüidade" é devida à necessidade de corrigir a rigidez e os desvios das leis positivas. mas resulta de um esforço de descoberta76. de modo que dá ao juiz a autoridade para interpretar a lei segundo o princípio natural. já que.. finaliza o autor83. e o direito como virtude parcial ou justiça particular. é preferível más leis e bons juizes. e isso é Hermenêutica81. Ob. p. p. cit. p. cit. Ser justo. Mas. divide-se em distributiva (que usa a proporção geométrica) e corretiva ( que usa a proporção aritmética). embora a imperfeição do conhecimento do direito natural torne necessário o direito positivo e a dialética e pesquisa experimental79. Por isso. acentua Aloysio. p. Ob. Como se dá.

a "sua precária plenitude86. 1983. 107. aos costumes e aos princípios gerais de direito. I... Por isso é que só a decisão "praeter legem" (na 84 85 86 87 88 89 90 Ob.. diante de um texto legal. Ou seja. pois compreender é um trabalho de concretização88 e é o que autoriza o jurista.não é formal e nem vazio (opõese à noção subjetiva do direito natural estóico e ao formalismo racional do kantismo) .. p. 178. RT. cit. cit. Como entendeu bem Gadamer. a tarefa de interpretar a lei é a tarefa de concretizá-la diante do caso particular87. pode completar a experiência e a visão dos fenômenos jurídicos em sua totalidade e na inteireza de seu sentido. Celso Agrícola Barbi. São Paulo. "só a hermenêutica". Forense. 1980. p. mas realista . vol. p. Ob.. O art.não é vago e impreciso (possibilita decisões práticas) . p. 172. a aplicação é hermenêutica e não exegética..não se confunde com a moral . na função de juiz. Verdade e método.não é fonte única. É isto que lhe dá eficácia89. O testemunho da lei brasileira em favor da eqüidade é interessante. Ob.não é ideal e utópico (Platão). de sua redação. Rio. 88-89. No julgamento da lide caber-lhe-á aplicar as normas legais. a completar o direito. complementando-se com o direito positivo . se se preferir. cit. .. que faz perdurar ainda o desgastado princípio in claris cessat interpretatio. com efeito. não as havendo. Ob. ou seja. cit. Ela se funda. por‚m mais um "relacionismo"84. 184. se aprofunda na existência (Heidegger e seus epígonos) e na praxis (Marx e seus discípulos não-dogmáticos)"85.30 resume assim a teoria clássica do direito natural: . da escola exegética. mas método experimental .não deriva do Estado (não é voluntarismo e nem positivismo jurídico) . p.não é dualismo de regras (com pretensão de situar-se acima do direito positivo) ." Percebe-se. Comentários ao Código de Processo Civil. Sobre a interpretação desse art. devolutiva: faz 'voltar de baixo para cima' a estrutura originária do ser humano". 126 do Código de Processo Civil ora em vigor. conclui Aloysio. diz que "o juiz não se exime de sentenciar ou despachar alegando lacuna ou obscuridade da lei. cf. "a hermenêutica é subversiva ou. 106-107. que a lacuna ou obscuridade são vistas como exceção90. 517 e s. p.não gratifica os cidadãos com um ilusório sentimento de segurança como é próprio das ideologias . por exemplo. p. O direito como ciência. "no sentido dilatado que lhe damos. recorrer à analogia. Para um direito natural. ou melhor. cit. Pois.não é rígido.não é relativismo.

só se decidirá por eqüidade! Outrossim. mais recentemente. e 5o. 9. mas não a decisão "contra legem". do CPC. porque o direito continua sendo ars boni et aequi: ao aplicar a lei no caso concreto. Barbi. Coerente com isso ‚ o art. nos arts. 91 92 Cf. que introduziu os chamados "Juizados especiais de pequenas causas". . que dispõe sobre juizados especiais cíveis e criminais.244/84. ou seja. a qual só é necessária em casos em que o juiz deva aplicar diretamente a eqüidade em lugar da lei92. a Lei n. diz que nas causas cuja competência for de tais juizados. p. p. embora não se exclua a eqüidade fora dos casos autorizados por lei. 519. Ob. cit. 4o. manda que o juiz não deixe de julgar em hipótese alguma e que atenda sempre aos fins sociais a que a lei se dirige. Já o art. ob. A lei de Introdução ao Código Civil. assim como às exigências do bem comum. 127.31 falta de norma legal) é aceita pelos juristas de modo geral. da lei n.. há uma tendência a se normatizar a eqüidade. que a que rege os princípios gerais de direito. deve-se atenuar o rigor excessivo que trouxer conseqüências indesejáveis: a eqüidade como meio de interpretação para uma justa aplicação ao caso concreto não depende de autorização expressa do legislador. 521..099. que diz: "O juiz só decidirá por eqüidade nos casos previstos em lei. de 26 de setembro de 1995. cit.. 7. contra lei91. 5o." Segundo Celso Agrícola Barbi. consagra o princípio da informalidade dos procedimentos referentes às causas de competência desses juizados.

Heidegger começa perguntando "porque há simplesmente o ente e não antes o Nada?" A discussão metafísica se dá em volta da idéia de "nada". V. V. acerca do que é a filosofia. Rio. Heidegger procurou responder a questão fundamental. Se o nada é. L. que filosofia é. Numa proposição matemática. é a questão.a filosofia?" é a pergunta fundamental. e possibilita a realização do ser do homem que é a convivência94. trad. o nomos inteligente. estamos afirmando um ser. já estamos fazendo filosofia95. É ser. p. procurou esclarecer a noção de "dike" como aquilo que ajunta através do logos. a busca incessante da verdade e nos remetemos ao ser. Realmente. São Paulo. 1989. Tempo Brasileiro.= + o que significa que. Na sua "Introdução à metafísica96. Por isso é que a sua característica é não a posse de "uma verdade" ou conhecimento. 96 . coleção "Os pensadores". expôs a respeito da "justiça" como uma proporção. 1987. assinalando o "nada" com sinal negativo (-) e o ser com sinal positivo (+). Aristóteles. e não pode "não-ser". Emanuel Carneiro Leão. Nova Cultural. cf. o "nada". A pergunta "que é isto . Concordamos. trad. sendo que sinais iguais resultam sempre positivos. Qu'est-ce que la philosophie?. que para Parmênides é um absurdo.. com a pergunta sobre o não-ser. Introdução à metafísica. quando dizemos sobre o nada. podemos dizer que a filosofia é constante questionamento a partir de respostas que se tornam novas perguntas. de modo que. mas a busca da verdade. L. não é "nada". traz a união dos homens93 enquanto que Heidegger. Ernildo Stein. 33. 93 94 95 Ética a Nicômaco. A pergunta sobre o ser começa. 5. o "nada". 13 e s. Introdução. evidentemente é alguma coisa. restabelecendo a harmonia. então. Heidegger. Se o "nada" é. na sua "Introdução à metafísica". que se fenomenaliza nas condições humanas. se substituirmos: ser/ser = ser (uma proposição positiva acerca do ser é ser) não-ser/não-ser = ser (uma proposição negativa acerca do não-ser é ser). antes de tudo.. temos que: +/+ = + -/. 3. vamos à questão da filosofia e da verdade. é o ser. é esse nada que provoca o espanto que torna possível a filosofia: pergunta-se "porque não é de outro jeito?" Ora.32 TEORIA DO JUSTO PROPORCIONAL Recordando a figura do anão que se senta nos ombros do gigante. Preambularmente. porém. na "Ética a Nicômaco". p. vol.. pois ao tentarmos respondê-la.

tudo está por se fazer".. se caracteriza em cada caso particular. mas se a verdade é relativa. nada mais é do que a possibilidade do ser do homem vir-a-ser. É verdadeira a proposição que afirma uma identidade como esta. a particularização dentro do "tudo". O branco da folha é o não-ser do traço e o traço é o não-ser da folha em branco. Partindo do princípio da identidade utilizado por Heidegger97. mas guardada a proporção. como "desvelamento" do ser. Aí se funda a temporalidade. por contraste. com Heráclito. numa situação nova. se demonstra em cada momento na realidade que se dinamiza um constante devir. temos: T1 : A1 = A1 e assim por diante. A = A. a filosofia também é a constante busca da verdade. Se numa situação ideal (T). se atualiza. entre o que chamamos passado e o que chamamos futuro. que filosofia é possível. Uma folha em branco é um "nada" sem significado. sendo uma porção de palpites pessoais? A individualidade do homem leva a um conceito de verdade como relativa. a individualização. p. O ser é absoluto. uma imagem. os componentes se ajustam. ‚ impossível que em T1. como se cada um tivesse a sua própria verdade. ainda que este seja em si o tudo. É verdadeira a proposição que diz conforme a realidade.33 Ou seja. temos: T:A=A (T significa A igual a A) Logo. Se em T. Por isso. portanto. presentifica-se. Utilizando a razão matemática. A = A. numa redundância. O passado é o "não-ser" que já foi e o futuro é o "não-ser" que ainda será. pois o homem não é um ser absoluto. podemos apontar: 1/2 = 2/4 = 4/8 etc. significa. col. É a delimitação. podemos repetir: "Nada é. . "nada não é". 139 e s. A = A. Resta daí que a verdade é relativa? Concordamos que a filosofia é a busca da verdade. O "não-ser". A "unidade dos opostos" permite a figura do fogo eternamente vivo de que fala Heráclito e que considera o "nada" como uma possibilidade do ser. entre o "ser" e o "nãoser". a fim de não se alterar a perfeição da proposição. pois. A = A. mas se equilibra na linha tênue do momento. Há portanto. A partir de um traço e de outro começa a surgir. vol. uma proporção entre o "tudo" e o "nada". o que leva ao desânimo de filosofar. Falar "nada é". cit. Os pensadores. porém. pois esta. do absoluto. a identidade. para mantermos a igualdade e. que denominamos T1. 97 Identidade e diferença. uma figura. ou A1 = A. que possibilita a fenomenalização do ser. podemos afirmar que A = A.

da verdade. Bem. Segundo essa teoria. Teoria tridimensional do direito. Se muda o aspecto da realidade. Ob. que a VERDADE É A PROPORÇÃO. uma conduta conveniente. que se consubstancia na norma legal. podemos concordar que normalmente estão presentes os três requisitos. suscita uma interpretação segundo valores. 99 100 . a interpretação na aplicação do direito pode se equiparar a uma norma. Dessa maneira. ao concluir pela impossibilidade de se conhecer a verdade.34 Trata-se sempre da mesma proporção (no exemplo. pela norma posta. Fora a crítica sobre a generalização da essencialidade da norma. deve fazer mudar todos os seus elementos assim que um deles mudar. supôs a Cf. e na mesma proporção da mudança deste. 74. para que uma proposição se mantenha verdadeira. de acordo com o que se quer especificar: F:V=N ou V:F=N ou N:F=V onde: F = fato. 1968. como ocorre no direito anglo-americano. separação do direito da moral. a realidade. Teríamos. V = valor e N = norma. Saraiva. teve que construir instrumentos de garantia de uma "certa verdade". ou seja. por exemplo. cit. São Paulo. através da dogmatização de determinados valores. pois se alteram sempre proporcionalmente. é da tensão entre fato e valor que resulta a norma100. mas da própria razão que é sempre lógica. excluindo quaisquer elementos metafísicos98. segundo a sintetização de Miguel Reale na “Teoria tridimensional do direito"99. "Logos" é a realização do ser. a fim de que se garantisse. portanto. ou seja. estabelece-se uma proporção que pode ser escrita de três formas. o que isso tem a ver com o direito? O conceito de direito sempre se resvalou no conceito metafísico de verdade.. Concluímos. então: 98 O criticismo de Kant. pois é a partir da desconfiança na verdade que se partiu. pois mesmo quando não h norma escrita. ceticamente. deve mudar seus fatores na mesma proporção da mudança do aspecto da realidade. para ser mantido. Quer dizer que o fato social. Essa visão cética. no entendimento de Heráclito. Na realidade do direito. como "desvelamento" do ser. como ontologia. inobstante se alterem os fatores. relativista. Não se trata de uma matematização do pensamento. para fórmulas que proporcionassem uma segurança artificial. p. de Miguel Reale. temos a concorrência de três fatores. de metade). Isso significa que a relação mantém um princípio de equilíbrio ou de proporcionalidade que. a verdade é proporcional. não aceitando a verdade absoluta.

que tem primazia como realidade. aplicando-se a norma com essa nova valoração. funcionando o valor como princípio inteligente na relação. é preciso que se observe o fato. o tradutor de Introdução à metafísica. parece estar de acordo com o que Aristóteles chamou de justo proporcional102. O corpo é um objeto que delimita. sobre "xyn nóôi" que significa "com inteligência" e se aproxima foneticamente‚ do adjetivo "xynói" que se traduz por "o que-‚-com. A existência é um traçado no papel em branco. estabelecendo-se a devida proporção na sua aplicação ao caso concreto. 102 103 ”Ética a Nicômaco”. 1 de Emanuel Carneiro Leão. ainda a respeito do Fragmento 114. inclusive a nota 21. ou seja. p. Numa segunda circunstância. de modo a interpretar a norma ou o que a valha (argumentos doutrinários jurisprudenciais. a valoração deverá ser outra. Cf. Mas não fazemos mais que explicitar nossos antepassados. parece atender ao princípio da verdade que Heidegger expôs. em termos de direito. F2. assim como justo não é o fato. é dinâmico como o ser do homem na história e a sua interpretação se dá valorativamente. Isso é "atualizar". JUSTA É A PROPORÇÃO101. são sempre nossos contemporâneos. p. ou seja. traz a idéia de finito (que supõe um nãoser si mesmo) que leva a individualidade e egoísmo. por sua própria natureza dogmática. e. cit. A valoração. Como Heidegger chama de "ente"103. 3. Os pensadores. produzido pelo homem. O fato social. na mesma proporção de sua dinamização. p. p. mantém-se. conforme Introdução à metafísica. valor e norma. . num primeiro momento em que fato é F1. Se uma norma é N1. 101 Cf. eticamente. contudo. 77. São objetos uns dos outros na coexistência. 62. Portanto. vol. de Heráclito. ex. o sentido axiológico da aplicação daquela em relação a este deverá será V1. presentificar ou tornar oportuno. Portanto.. a respeito da tradução para o português do termo alemão "seindes" a nota n. V2. A proporcionalidade. em termos de filosofia. A isso corresponde uma diversidade. para a manutenção da proporcionalidade entre fato. mesmo após espelhar um determinado valor ético. os quais. na col. 156. inflexível. que é o ponto inteligente de ligação dos dois fatores é que torna justa a relação de ambos. Livro V. em que fato é diverso.) que é sempre regra geral imutável (anterior). comum". justa não é a norma. adiante a respeito da definição heideggeriana de "xinon". ou seja. A norma. cf. Só assim a verdade da proporção inicial será mantida. vol. na filosofia. Disse que o anão sobe nos ombros do gigante e assim pode enxergar mais longe. Pré-socráticos I. A essência (ser) do homem é um "sendo" na temporalidade.35 F1 : V1 = N1 V1 : F1 = N1 N1 : F1 = V1 e assim por diante. se realmente buscaram a verdade. N2.

de Heráclito. Para Heidegger.. "é a essência da beleza e antes de ter sido encontrada não havia filosofia. assim como "dike" não é justiça nesse sentido109. 105 106 107 108 nota 9. mais do que "justiça no sentido jurídico". a unidade de reunião. consistente em si mesma. uma dicotomia corpo-alma. O "logos" é essa liga que ajunta o que tende a se 104 Para o poeta Hölderlin. beleza significa ser. p. idêntica a si mesma. 182. mas só a arte realiza. portanto. é a "tempestade calma" da dialética indivíduo/universo. Cf. o Fragmento 114 de Heráclito em "Os pensadores". o termo grego "dike". cf. o "nomos" não é "lei" no sentido jurídico. Poderíamos esclarecer isso pela seguinte fórmula: ser do homem = como o homem é onde: ser do homem = sendo e como é = ser. p. 156. Ïntrodução. Os pensadores. a legislação (legislar entendido aqui como reunir). "logos" é a reunião constante. que a filosofia explica. o "nomos" para a "polis". Como é que se conjugam dialeticamente esses contrários? Ser indivíduo significa renunciar ao que mais não se é.. A "idéia" de alma corresponde a expansão e infinito.. 155. o ente é. Por sua vez.. finito/infinito. Um tal "xynon". não algo.. a estrutura interior da "polis". "é. ao "não-ser". da col. inteligência que se anima e.. Idem. que flutua sobre tudo e ninguém apreende. p. acima. ou autenticidade. Heidegger.”. "Nada" é a possibilidade de ser o que ainda não se é (potencialidade). Para Hölderlin. Finalmente. mas a unidade originariamente unificante do que tende a separar-se"108. que é o que reúne tudo em si e o mantém junto. "aquilo que se torna". temos o seguinte: sendo = ‚ o que vale dizer: sendo o que se é. ego/comunhão.. É comunhão ou identidade. segundo o Fragmento 114.. é idêntica à universalidade. pois é idêntica ao tudo. se traduz por "juntura"106 e por isso o "eon". a essência (ser) em si é atemporalidade. o que supõe a renúncia de todos os outros tempos e lugares: presentifica-se entre um não-ser do passado e um nãoser do futuro. p. Introdução. pois o homem está sendo num determinado tempo e lugar. Um constante devir.."104. em sua essencialização. no vol. p. do ente105. p. Substituindo. 62 e Ïntrodução. mas a harmonia (justo) entre ser e não-ser. Ïntrodução. Não há. 109 ..36 Por outro lado. 182. vol. não um universal. 11. presença reunida107. Ernildo Stein. Pré-socráticos I. o "uno que em si mesmo se diferencia". "xynon".

37

desprender. É harmonia, disciplina e beleza, é cosmo, é identidade, do que tende a se diferenciar em caos. Os modernos não entenderam isso. Quiseram manter-se na individualidade para preservar a identidade e tiveram que se socorrer do artifício da coerção. O que, por natureza e verdade, é comunhão e realização do ser do justo, ficou, na cegueira do Iluminismo, no campo ainda do individual. Para essa circunscrição pobre do egoísmo, a lei será quando muito, "ação comunicativa" (Habermas). Mas é duvidoso que ainda isso se recupere, pois "o dizer e ouvir só são justos, quando se orientam, previamente, e em si mesmos, pelo Ser, o Logos"110.

110

Ïntrodução..., p. 157.

38

HISTÓRIA DA HERMENÊUTICA JURÍDICA NO BRASIL No Brasil111, de modo bastante sinótico, são mencionados como normativistas Augusto Teixeira de Freitas, Francisco de Paula Batista, Pimenta Bueno e Lafayette Rodrigues Pereira112, assim como na linha do sociologismo jurídico figuras como Tobias Barreto, Silvio Romero, Pedro Lessa, João Arruda e Pontes de Miranda113 e também Clóvis Beviláqua, enquanto que os "eticistas" são representados pela corrente tomista, desde José Soriano de Souza até Alceu de Amoroso Lima, passando por João Mendes Junior, Vicente Ráo, Alexandre Correia, Armando Câmara, Leonardo Van Acker, Rui Cyrne de Lima, Jônatas Serrano, Alves da Silva e José Pedro Galvão de Souza114. Evidentemente, são estes nomes dentre outros, pois falta uma classificação mais bem sucedida e atualizada acerca de nomes importantes e recentes do pensamento nacional, especialmente do pensamento jurídico115. A influência do pensamento normativista, por vezes, é maior no início da fase dos estudos jurídicos no Brasil, inobstante a pressão do sociologismo da escola do Recife, por exemplo, se faça presente, e se sinta, de um modo geral, a presença do pensamento tomista na filosofia brasileira. Nesse clima, a hermenêutica jurídica no Brasil tem espaço pequeno como matéria de obra literária. A história de obras dedicadas a esse assunto começa pela obra do tempo imperial de Francisco de Paula Baptista, denominada "Compêndio de hermenêutica jurídica", publicada no Recife em 1860, e que se tornou o compêndio oficial da faculdade de direito. Essa obra, apesar da não especialização do autor, junto com a denominada "Cinco lições de hermenêutica jurídica", de Joaquim Ignácio de Ramalho, o Barão de Ramalho, que é, na verdade, um comentário daquela, para aplicação na faculdade de direito de São Paulo,
111

Não é o caso de se desenvolver aqui uma "história do pensamento no Brasil, nem mesmo do pensamento

jurídico ou jusfilosófico. A respeito da História do pensamento no Brasil, clássica é a obra do padre Leonel Franca, S.J., Noções de história da filosofia, Rio, Agir, 1990, 24. ed., p. 263-326, sendo que no volume indicado conta-se com notas e um suplemento do padre Henrique Vaz, S.J.; sobre o assunto, pode-se encontrar também a obra As idéias filosóficas no Brasil, por Adolpho Crippa e outros, São Paulo, Convívio, 1978, além da coleção História do pensamento, Nova Cultural, São Paulo, 4o. vol., p. 713-723, e, especificamente, a obra de Miguel Reale, Filosofia em São Paulo, editado pelo Conselho Estadual de Cultura e Comissão de Literatura de São Paulo, 1959, dentre outras; sobre a história do pensamento jurídico, da filosofia do direito e do direito de modo geral, encontram-se, entre outras, a História do direito nacional, de Martins Junior, da Cooperativa Editora e de Cultura Intelectual, Pernambuco, 2. ed., 1941, além das obras citadas de A. L. Machado Neto, de Miguel Reale, inclusive a Filosofia do direito e de Aloysio Ferraz Pereira.
112 113 114 115

M. Reale, Filosofia do direito, cit., p.410. Idem, p. 436. Idem, p. 483. Um dos maiores nomes do pensamento brasileiro, sem dúvida é Miguel Reale, mas a definição de suas

características, devido ao "ecletismo" que o caracteriza torna-se difícil, havendo quem o denomine um "culturalista". Por falta de uma obra enciclopédica, porém, muitos outros nomes importantes não são citados, mas, por si mesmo fazem história.

39

perduraram como únicas até o surgimento, em 1923, do livro de Carlos Maximiliano116. Interessante analisar as duas obras em conjunto. O professor Paula Baptista se propõe, no prólogo, a "tirar a hermenêutica jurídica da confusão, em que tem estado com o falso título de sistema", dividindo a sua obra em duas partes, a geral e a especial. Na primeira, dá as noções a respeito de hermenêutica, que entende ser o sistema de regras para a interpretação das leis 117, e na segunda parte, discorre a respeito da interpretação, que para ele é a aplicação dessas regras, a fim de se expor o verdadeiro sentido de uma lei obscura118. Vê-se daí, que é partidário da máxima in claris cessat interpretatio, o que merece uma observação crítica do seu comentarista. O Barão de Ramalho entende que toda lei precisa ser interpretada e, citando Savigny, diz que interpretar é reconstruir o pensamento do legislador, o que impede que restrinja a interpretação como sendo apenas nos casos de lei obscura 119. Concordam ambos, por outro lado, que a interpretação é exegética, pois o que se busca é a vontade do legislador, como Paula Baptista explicita no parágrafo segundo da obra120 e Ramalho o confirma dizendo que o estudo da hermenêutica jurídica se justifica para se saber, quando transformada em lei, a vontade do legislador121. Por isso mesmo, avisa aos seus alunos: "Não deve, pois, o intérprete‚ interpretar as palavras da lei conforme o sentido que elas têm na época da interpretação, mas sim de conformidade com a significação que elas tinham na época em que escreveu o legislador, porquanto só nesse sentido poderá ele ter empregado as palavras"122. Importante notar que, pelas suas palavras, está demonstrado que ele estudou o método histórico-evolutivo, assim como, ao citar Savigny, citando-o como um dos que negam o direito natural, demonstra que discute sua obra e, assim, o historicismo123. É interessante notar que, nesse alborecer da história jurídica brasileira, os nossos juristas ainda se sentem tributários dos portugueses, dos quais "temos recebido quase todos os defeitos de sua jurisprudência", segundo Ramalho124, ao passo que Baptista ainda fundava os princípios de sua hermenêutica na Lei da Boa Razão, de 1769, que era a melhor senão a única, a respeito de interpretação e que fala em direito natural. Essa "boa razão", segundo ele, é a razão dos estóicos, que
116

Sobre essas duas primeiras obras, interessante consultar, além dos próprios textos, a apresentação das Cinco

lições feita por Moacir Lobo da Costa, no vol. editado pela Saraiva, São Paulo, 1984, p. 85. O vol. contém ainda o Compêndio.
117 118 119 120 121 122 123 124

Compêndio..., p. 3. Idem, p. 4. Cinco lições..., p. 97. A numeração é do volume citado. Compêndio, p. 4. Cinco lições, p. 91. Idem, p. 114 (parágrafo XXIII). Compêndio, p. 15. Cinco lições, p. 95.

40

inspirou os romanos e os cristãos125 e é a que deve nortear a interpretação jurídica no seu tempo. Ao citar as fontes subsidiárias do direito, Paula Baptista ainda está no tempo das antigas Ordenações do Reino, vigorando as Ordenações Filipinas no Brasil, razão pela qual ainda se refere, além dos usos e costumes, ao direito romano, ao direito canônico, ao direito romano-canônico, e às obras dos doutores (os antigos glosadores), num verdadeiro pandectismo brasileiro, embora mais flexível do que o europeu, admitindo, além do direito natural, também a eqüidade, como sugere Ramalho no comentário ao parágrafo XXV do Compêndio, a respeito de textos contraditórios126. Nessa época, contudo, Tobias Barreto e Silvio Romero já surgiam com a chamada Escola do Recife, negando a tradição lusitana e querendo fundar um pensamento nacional próprio dessa história que se iniciava e onde as antigüidades das ordenações portuguesas, por elas mesmas, já não tinham força suficiente para sobreviver. Por outro lado, se Lafayette Rodrigues Pereira, outro célebre jurista do Império, contemporâneo dos citados hermeneutas (1834-1917), próximo da evolução do direito burguês, identificava-se com a escola da Exegese e com o racionalismo kantiano, como observa o professor Miguel Reale em "A filosofia de Kant no Brasil", Antonio Joaquim Ribas (1819-1890), professor em São Paulo, romanista e discípulo do alemão Júlio Frank, foi contemporâneo e crítico, sobretudo de Paula Baptista127. Ainda nessa época, para mostrar o seu potencial, Augusto Teixeira de Freitas (1816-1883), também estudioso do direito romano, onde busca as "vigas mestras", como realça o professor Aloysio Ferraz Pereira em "Augusto Teixeira de Freitas e il diritto latinoamericano"128, para a observação da realidade social e histórica, sob a influência de Savigny, recorrendo sempre à natureza das coisas, insurgindo-se contra o racionalismo e o empirismo radical. São dois pensadores, a bem se ver, que não se dão bem com a mera exegese, contrariamente aos inauguradores da teoria hermenêutica no Brasil. Carlos Maximiliano Pereira dos Santos, por sua vez, com o título "Hermenêutica e aplicação do direito"129, dá o próximo passo na história da hermenêutica brasileira, cuja análise breve faz no prefácio à primeira edição, datada de 1924. Depois de Paula Baptista, diz ele, "surgiu, prevaleceu e entrou em declínio, pelo menos parcial, a Escola Histórica", transformando-se no "sistema HistóricoEvolutivo ou só Evolutivo afinal (Jhering)", até o aparecimento da "corrente da livre indagação (proeter e contra legem), "talvez o evangelho do futuro", e, enfim, a
125 126 127

Compêndio, p. 12. Cinco lições, p. 118; cf. Christiano José‚ de Andrade, A hermenêutica jurídica no Brasil, São Paulo, RT, s/d. Como o relata Carlos Maximiliano na página 35 do seu “Hermenêutica e aplicação do direito" que adiante Extrato referente ao congresso na Universidade de Roma, publicação Cedam-Padova. Carlos Maximiliano, “Hermenêutica e aplicação do direito", Rio, Forense, 10. ed., 1988.

referiremos.
128 129

no dizer de Icilio Vanni e Sabino Jandoli. pereat mundus. p. como disse o bastante citado Savigny. p. frag. até a satisfação iluminista do Código Civil napoleônico135. 17)134. pois. ou melhor. por exemplo. tendo vida própria132. 6. Ao contrário do fiat justitia. porém sua força e poder" (Digesto. A observação é de Miguel Reale. ao contrário. É por isso que define a aplicação do direito como sendo uma operação de enquadrar um caso concreto a uma norma jurídica adequada137. predecessor da escola Histórica136. Maximiliano entende que o legislador não faz o direito mas o interpreta. Isso só se perdeu depois com o argumento da autoridade dos doutores. porém. após passar pela escola dos Glosadores. cit. Título 3. em Filosofia do Direito. a respeito da chamada interpretação autêntica. Mas aplicar visa o direito e o fato. acabando por desembocar na escola francesa da exegese. pois a hermenêutica é a teoria científica da arte de interpretar138 e interpretar é determinar o sentido e o alcance das expressões de direito139. os quais encampa. Celso. aliás. Maximiliano. Para o autor gaúcho. os romanos recomendavam a interpretação. como ao final relata131. o início do pandectismo e da necessidade dos juristas de tornarem o direito um corpo lógico de normas. ob. É interessante ressaltar o papel do "consenso" para o autor. que é. como fruto da opinião ou convicção individuais. . é fruto espontâneo da "consciência jurídica nacional". ob. Maximiliano. p. "aceita pela maioria dos juristas contemporâneos". p. X. Idem.. A interpretação é sociológica133. 18. que dizia que "saber as leis não é conhecer-lhes as palavras. Idem.41 escola alemã do Direito Livre130. pois os sofistas ensinavam que a lei era produto de um acordo entre os cidadãos. o individualismo da exegese visa preservar 130 131 132 133 134 135 136 137 138 139 140 C. 410. pensamento este que pertence a Vico. 29. p. que surgia. cit. Idem. 31. cit. 19. Ora. p. Idem. como se sabe. ob. p. pois. Era produto da individualização140. Discute esse brocardo dizendo que não é romano. O direito. a corrente do "Evolucionismo teleológico". C. p. Achava.. Idem. no seu dizer.. Idem. p. 1. como. Elege. a interpretação é sempre necessária. não acreditava ele na vontade do legislador como marco de interpretação. que o legislador dificilmente seria o melhor intérprete da lei. Idem. XIII. inclusive. O pensamento de Carlos Maximiliano foi dominado pelo espírito de justiça. 34. mas não a justiça embutida na lei. como vontade do poder legiferante. Idem. p. assim. "a lei é mais sábia que o legislador". não tendo cabimento o in claris cessat interpretatio. ele o revela. Livro l.

um caminho inverso da nomogênese. Saraiva. Não queria manter-se no velho método lógico exegético. Especialmente em "O direito como experiência"145. o desembargador Nereu Cesar de Moraes. Os juristas romanos. Esse sistema. perdura até hoje144. tais como conhecer o todo orgânico da lei. O direito como experiência. Idem. no entanto. porque entende que ali está a expressão da soberania popular. Por isso. na prática. denominado "Problemas de hermenêutica jurídica". dava um passo longo . não foi repetido. 16. como perceberam Jhering e Saleilles. 145 Miguel Reale. procuravam adaptar o sentido das normas para as necessidades da vida. mas entendia que não era possível embrenhar-se pelo caminho revolucionário de um Kantorowicz do "direito livre". Idem. Vale dizer que a interpretação se refere diretamente à tomada de posição do intérprete‚ diante do problema ontológico do direito. porém. que exigia um conhecimento orgânico do todo jurídico. p. 1968. de agosto de 1993. 4. Interessante notar que numa publicação denominada Tribuna do direito. ao mandar que se observasse as opiniões dos doutos. Exatamente no ensaio X. p. assim como quando fala no elemento teleológico142. Um passo que. Maximiliano procurava o meio termo como casa da virtude.na história da hermenêutica jurídica brasileira. 151. n. quer significar que essas condições históricas mudam e que a lei foi feita para ser aplicada na realidade. 100. Quando Maximiliano fala em elementos históricos141. Já havia dito o autor. quer dizer que o legislador está inserido em condições históricas que não podem ser ignoradas. segundo sua conhecida “Teoria tridimensional do direito". lamenta ainda a dificuldade na escolha de candidatos à magistratura. do Tribunal de Justiça de São Paulo. Tudo isso estava consciente no autor. . 137. como advogado e depois como ministro do Supremo Tribunal Federal143.um salto mesmo . São Paulo. p. no 141 142 143 144 Idem. O método histórico-evolutivo caia-lhe bem. assim a realidade e as circunstâncias da vida. aliado ao método interpretativo sistemático. a qual não pode ser tocada. 259. 14 da mesma publicação. já deficiente na época em que escreveu e que sofreu. segundo a expressão citada de Cogliolo. na p. ao aplicador da lei se impõem alguns requisitos. inclusive pelo despreparo escolar. quando via no legislador a expressão autorizada do espírito do povo. E assim pensando. Miguel Reale também discorreu sobre hermenêutica jurídica.42 exatamente a vontade do legislador. que é resultado de uma coletânea de ensaios. criou. que o autor discorre sobre o assunto. a ponto de não se poder interpretar a lei. sob pena de desviar-se da "vontade geral". Foi o exagero de Savigny e sua escola Histórica. Com vasta e importante obra. É onde ele aponta o sério problema de escolha dos magistrados. a confecção da norma. por diversos motivos. em importância. p. o que é assunto também na p. um "tribunal de mortos". ano 1. o "volksgeist". Por isso é que Teodósio II.

Cf. sendo que o que importa é que o intérprete tenha compreensão dos valores que governam a ordem jurídica148. Idem. que: "dize-me que espécie de realidade te parece ser o direito. Ora. compreendido racionalmente" na norma. é aplicar regras determinadas pela hermenêutica. . Hartmann. por assim dizer. a própria vontade do legislador. segundo o autor. diz Reale que interpretar é sempre um momento de intersubjetividade150 e que é. Citando E. Ou seja. a sua escolha. dizendo-a como "versão racional de um valor que se quer alcançar" e de onde deriva o caráter lógico do ato interpretativo. na sua decisão subjetiva. do Existencialismo. assim. E. p. parte-se desse conceito para se entender o sistema interpretativo que sugere. Scheler. p. fruto que é. p. "O fim. Idem. é que determina o direito. o que seria do fato se o legislador não o valorasse a ponto de erigi-lo numa norma? A norma é o dogma no 146 147 148 149 150 151 152 Idem. de que esse valor objetivado na norma. Interpretar. tais como de Husserl. em uma norma jurídica. além de Kant. contraposta à lógica do racional149. 240. 251. e a norma também é objetiva. Betti. ou seja. Idem. O legislador está inserido num contexto de fatos. Christiano José de Andrade. portanto. O intérprete. diz ele em "Pluralismo e liberdade"147. Sforza. Razoável. não a formal. é a própria decisão objetivada na norma e qualquer decisão interpretativa que não o reconheça é que estará discrepante do "razoável"! Não é de duvidar que a filosofia de Miguel Reale encontre quem veja nela influências discrepantes. no dizer de L."146. por si mesmo é objetivo. apenas o "valor" é elemento subjetivo. da decisão pessoal. "um ato dirigido a algo em razão de alguém e vinculado às estruturas inerentes ao objeto interpretável". então. ob. a fim de objetivar sua vontade. pois que objetivação da vontade do legislador.43 mesmo volume. diante dos quais é chamado a tomar uma posição axiológica. sendo essa lógica. Idem. o momento culminante do poder. o fato. não podendo ir além do “desenho intencional". que afinal foi quem elegeu. Recasens Siches. afirmando o caráter teleológico da norma. na experiência jurídica não é senão um valor. mas a "lógica do razoável". que é o decisório (o poder de decidir por sua vontade é a marca da soberania). para se explicitar essa vontade objetivada na norma. Idem. do Ontologismo. Estamos certos. porém. interpreta uma interpretação. características do mais completo ecletismo. do Marxismo e do Estruturalismo152. Heidegger e C. É verdade que Reale tenta abrandar essa concepção. e eu direi como o interpretas. acha-se vinculado151. limita-se na estrutura objetivada. o valor e a norma. Afinal. ou seja. os valores a serem tutelados pela norma. como o direito se sustenta em três pilares. 242. Se o fato. Husserl. cit. Bergson (Intuicionismo).

Forense. em obra maior. não diz mais do que aqueles. Limongi França. Rio. segundo a qual. quis a interpretação no campo do direito penal também sob o colorido da lógica do razoável. que define como instrumento de pesquisa do direito. o legislador suplente. Clóvis Beviláqua. E Clóvis já dizia. ao contrário de M. traz como tônica a já invocada "lógica do razoável" por M. Reale. Recasens Siches. Idem. sem a ingenuidade e a simplicidade isenta de artifícios dos primeiros exegetas brasileiros. Hermenêutica no direito brasileiro. Embora um sistema bem montado. 1955.. É por isso. de Tércio Sampaio Ferraz Junior. quer ver nisso a apropriação. a norma é que deve se adatar ao fato e não o fato à norma. em segunda versão. assim como Orozimbo Nonato. o autor do Código Civil. Na discussão sobre se a interpretação deve esboçar a vontade do legislador ou a vontade da lei. Idem. segundo ele. Sua conclusão é pela "Hermenêutica científica". 2. 247. parte para outro aspecto da interpretação. p. 141. Cita Eduardo Espínola e E. Sua obra. RT. segundo L. cit. 153 154 155 156 157 Da interpretação jurídica. conclui abruptamente. p. em 1908. Talvez não concordasse com a crítica feita por Carlos Maximiliano em relação à deficiência do sistema de formação e escolha de magistrados! Alípio Silveira. 5o. pela lei. 5o. Sem originalidade e com muitas aspas. para efetiva averiguação do fim social do direito157. que o dispositivo referido ao falar em decisão segundo o bem comum. com atribuições de verdadeiro governo no meio social154. apegando-se exageradamente a nomes. M Franzem de Lima. além das referências. Entendendo que o art. de ordem pedagógica. Silveira invoca a lógica do razoável. citando os sempre lembrados Saleilles. Maurice Hauriou e Henri de Page. um dos responsáveis pela redação do art. e admite o método sociológico. em seu livro "Da interpretação jurídica"153. se enquadra no método histórico-evolutivo moderado (que não permite decisão contra a lei). Dentre outras obras dedicadas ao estudo da Hermenêutica jurídica no Brasil estão as de M. 82-83. a serviço do juiz. da lógica do razoável. cujas palavras abrem o texto inaugural do livro. que. 1968. São Paulo. Não é propriamente um trabalho científico. referido acima. conclui o autor. ed. Essa vontade é que deve ser revelada mediante o processo de interpretação. procura resumir todas as correntes hermenêuticas. se bem o entendemos.. . na "Hermenêutica no direito brasileiro"155. Reale. Ob. Franzem de Lima. que "na interpretação da lei deve-se atender antes de tudo ao que é razoável"156. Espínola Filho nesse sentido e também Frederico Marques. Alípio Silveira e R. eram adeptos do método histórico-evolutivo. E o juiz é o criador da ordem social e da justiça. Miguel Reale.44 qual está inscrita a vontade do poder legiferante. p. da lei de introdução ao Código Civil brasileiro adotou o sistema "histórico-evolutivo" e o método "teleológico".

por fim.. Filosofia do direito. cit. 429. cit. Sua obra. O razoável. mas além dele". R. é importante notar que M. de forma kantiana. apenas argumentando. o seu fundador162.. 428. não parece provável que tenha se enganado. deixa dúvidas: Coloca Savigny diante da escola do sistema histórico-evolutivo. sendo que para Reale essa escola é posterior à escola Histórica de Savigny. versão alemã extremada do direito livre. 425 e 682. ou como disse Gèny. 158 159 160 161 162 163 Idem. p. França. "pelo código. o qual previa essa metodologia como "o evangelho do futuro". p. que existem lacunas. esquecendo-se de consagrados nomes como Ehrlich e Kantorowicz. parafraseando Jhering ("pelo direito romano. dando-lhe condições de decidir com liberdade em vista da apreciação dos fatos. p. em relação à colocação de Clóvis junto à livre pesquisa de Gèny. Idem. como sugere o próprio título. Reale. Wieacker coloca dentro da formação neokantiana) e Bittelman. não há concordância com A. da "livre pesquisa do direito". ob. devendo-se recorrer aos costumes e. cit. A respeito da lógica do razoável. Saraiva. insuficientes estes. . a lei deve ser interpretada rigorosamente. 1988. Segundo essa escola. e Silveira. sem dúvida.. Clóvis é anterior a Maximiliano. contudo. França. Wieacker. Será que a "lógica do razoável" ‚ uma chave que abre todas as portas? Parece que o objetivo é livrar o intérprete‚ das amarras de uma interpretação meramente formal. entretanto. 2. (e nomeando Roscoe Pound). L. 33. ob. a figura de Jhering. Silveira. Reconhece. p. uma posição simpática àqueles que procuram afastar o método meramente racional e o método puramente empírico da interpretação jurídica. ao contrário.. Além disso. a respeito da hermenêutica no Brasil. citando. R. com características de transição. são as do próprio François Gèny. ob. Cf. 284. cit. ao lado de Savigny. L. isenta-se de um vigor filosófico. ao falar da "Freies Recht". A lei seria um princípio de raciocínio que iria se completar além da própria norma. Em relação a essa cronologia. Embora siga Carlos Maximiliano quanto à definição de hermenêutica e interpretação. na verdade. Por fim. p. procura demonstrar sinoticamente os diversos sistemas hermenêuticos e propõe algumas regras de interpretação que. quando o próprio Maximiliano se identifica com o que chama de "sistema de interpretação teleológica". M. Saleilles161. à "natureza das coisas"160. p. Limongi França. mas além dele"). porém. 33. cf. através da obra didática "Hermenêutica jurídica"159. ob. cit.. Hermenêutica jurídica. Sua classificação. Reale a invoca para a interpretação que busca enquadrar os fatos na norma. 64. diz que o intérprete‚ deve adatar a norma ao caso158. coloca-o imprecisamente diante da escola histórico-evolutiva (na qual situou Savigny). onde aparece. Silveira163. São Paulo. no entanto. p. na França. ed.. cita Stammler (que F. continua uma "chave falsa".45 Alípio Silveira tem.

p. 235. talvez se encontrasse a certeza de que havia uma vontade do legislador a ser pesquisada. no entanto. p. pois a decisão é mais do que comunicação. e procurando uma atitude que permita cair na aporia segundo a qual diz Wittgenstein que o que não pode ser dito deve ser calado. cuja "Introdução ao estudo do direito". é ação comunicativa (no sentido de que não se busca a verdade. o legislador não é aquele que faz a lei. mas se faz uma). haver sempre dois atos doadores de sentido: um que se positiva na norma e outro que procura identificá-lo168. gerouse a busca racional de uma vontade do chamado "legislador racional". que quer dizer: a boa tradução repousa no enfoque do tradutor. reserva capítulo especial à "dogmática Hermenêutica". Idem. Fiel ao silogismo puro de Hans Kelsen. é que reside o chamado "poder de violência simbólica"169. Apenas um deve prevalecer. ou seja. 239. Ou seja. ao qual se dá um crédito de confiança. chega ao que chama de "uso competente da língua. ou seja. são os 164 165 166 167 168 169 170 171 172 Introdução ao estudo do direito. Mas tanto procurando a vontade do legislador como procurando a vontade da lei. Interpretar. Na sua autoridade. de controlar (neutralizar) certas alternativas para que não sejam consideradas. a sua significação normativa (aspecto semasiológico). 231. 232. então. é selecionar possibilidades comunicativas da complexidade discursiva166. Idem. lembra os dois princípios do pensar dogmático: o da inegabilidade dos pontos de partida e o da proibição do non liquet.46 Inovação em termos de modo e estilo. que lhe possibilita impor significações como legítimas. determinam-se regras iniciais e chega-se a uma conclusão. Apelando para a analogia com a tradução (segundo Vilem Flusser). 315. escreve o autor. p. seu significado e intenções. Idem. São Paulo. para ele. decodificar conforme regras de uso167. porém. Idem. Esses aspectos. porém. 1989. 248. p. cuja vontade se chegou à conclusão ser impossível conhecer. em sua primeira edição de 1988164. Idem. 2. . A legitimidade do direito é uma questão de crença172. Idem. p. p. p. em vista da decidibilidade de conflitos170. sempre coincidem165. Para ele. que devem expressar o sentido daquilo que deve ser. como o "noumenon" kantiano. Com os antigos dogmáticos.. a norma jurídica contém palavras (aspecto onomasiológico). isto é. p. Atlas. Idem. Desse ceticismo. Daí a definição de "dogmática hermenêutica" como sendo a que objetiva a determinação do sentido das normas. Idem. e reproduzidos por Tércio Ferraz. 236. iremos encontrar em Tércio Sampaio Ferraz Junior. Para a dogmática da decisão não importa a verdade. 321. figura ideal cujos traços demarcados por Santiago Nino. mas sim uma "versão" da verdade171.. Contemporaneamente. ed.

preciso. apela para essa figura divina de deus criado. operativo. ainda aqui fica faltando a discussão máxima na qual se insere o Direito: a da Justiça. que acabam se abraçando confusamente. a mera questão de consciência ou obrigatoriedade. Por sua vez. às vezes. finalista. econômico. 255. De tudo. esse "oceano dos náufragos". Onde qualquer coisa é válida porque não existe verdade. lembrado pelo próprio autor. A visão do direito é. que é a diferença entre direito e moral. para se impor individual e unilateralmente. único. coerente. é um terceiro metalingüístico. consciente. 173 174 Idem. perguntamos drasticamente. que também não se distinguem muito bem. das quais a mais forte prevalecerá. Não se confundindo com o legislador e nem com a lei. . Idem. se resumiria. contando com meios poderosos de alienação (extinção de opções). justo. omnicompreensivo. mas apenas versões. a questão ainda não está posta. p. O elemento ideológico da comunicação. omnipotente. no dizer de Protágoras. como diz o jurista ora analisado173. a de um extremo relativismo sofista. é uma roupagem nova do velho absoluto: a da tecnologia lingüística! Ora. A diferença entre o positivismo empírico e o positivismo normativista desaparece nas conseqüências práticas. onde "o homem é a medida de todas as coisas". permanente. através do poder de violência simbólica.47 de uma figura divina. p. Discutindo as oposições entre fato e norma. segundo Jhering. como disse Maximiliano. omnisciente. ou entre norma e moral. 254. onde traça as propriedades do "legislador racional": figura singular. assim. É o consenso. mas quem é esse deus criado pela razão? É a própria vontade do intérprete‚ que. assim. de inspiração relativista sofística. crendo na sua autoridade impositora 174.

48 DÉCIMO TEMA “O HOMEM É A MEDIDA DE TODAS AS COISAS.” (PROTÁGORAS) “O SOL É TÃO GRANDE QUANTO PARECE.” (HERÁCLITO) .

diz ele O ecletismo de Habermas é uma marca. ob. 283).. sendo caso de se passar logo para uma Teoria do Agir Comunicativo. por se iniciar um caminho equivocado da filosofia como ciência universal (EI. Dessa forma. com o mesmo Hegel. só a Teoria do Agir Comunicativo é realmente "pós-moderna". Essa crise levou Nietzsche a postar-se contra os modernos. quando Adorno se recusou a ser o tutor acadêmico dessa tese de pós-doutoramento. pág. 177 de não ter Habermas preconceito algum quanto a uma ciência burguesa. procura situar seu pensamento na era do "pós-moderno". S. vão estrutural o seu pensamento. cujo problema de dominação se refere agora à despolitização da população diante da "ideologia tecnológica" (TWI. quando lança a possibilidade de um conceito de opinião pública que seja historicamente repleto de sentido. conforme pretendia (EI. Diz este autor ainda que Mudança estrutural da esfera pública foi a gota d’água Habermas entende que Marx se situa na tradição kantiana. após tentar uma crítica do cientismo. cit. cuja herança é disputada.da tradicional Teoria Crítica de Frankfurt.. Segundo Flávio B. pág. ob. esse ecletismo se deve ao fato para o rompimento. 25.49 HABERMAS: DIREITO COMO AGIR COMUNICATIVO. 72). no Poscrito de 1973. Dessa forma. inaugurando uma era "pós-moderna". suficiente em termos normativos para as exigências da constituição social-democrata. diante do capitalismo maduro. entretanto.. acabou-se. 176 que Marx criticou apenas a posição da razão pós-hegeliana. que foi sucedido por Hegel e Marx. 44-45. Parece que a movimentação estudantil de 1968 foi um marco no pensamento de Habermas. 277). o que equivale a aceitá-la. 295.e antes desse período histórico . e pelas diversas correntes que darão sustentação à Teoria do Agir Comunicativo. como assevera em EI. de certa forma. um estranho. cf. teoricamente claro e empiricamente aplicável. é já com "Técnica e Ciência como Ideologia" que Habermas coloca mais claramente a proposta de mudança do paradigma marxiano do valor-trabalho. De um lado. Na verdade. que entendeu nunca ter existido. mas em relação à qual sentiu-se. os quais ainda fazem parte dessa mesma postura176. cit.. Nesse contexto. Luhmann não passa de uma 175 Flávio B. como ele mesmo aponta em PDM. S. 28. de outro177. da qual. Entendendo a história da filosofia moderna como um rompimento com os clássicos a partir do criticismo kantiano. 24. 26). assinala Flávio Beno Siebeneichler175 foi um entusiasta. tanto o materialismo histórico como o pragmatismo e o estruturalismo genético. Habermas acaba admitindo. Embora se afastando desde cedo . o qual só pode ser ganho a partir da própria mudança estrutural da esfera pública e a partir da dimensão do seu desenvolvimento (SO. que tal crítica se esvaziou. 298). Mas é correto afirmar também que desde a "Mudança Estrutural da Esfera Pública" que Habermas se preocupa com a despolitização da opinião pública. . pág. devendo dissolver-se os sintomas desse esgotamento na transição para o paradigma da compreensão (PDM. por Heidegger e seus seguidores de um lado. declarando que o paradigma da filosofia da consciência encontra-se esgotado. Em "Conhecimento e Interesse". 1. na verdade.

. não mais como busca do desmascaramento de uma mera "ideologia tecnocrática". que ele mesmo não coloca como prioridade. 281. pág. Idem. informa o autor. à qual pertence também Hegel. ob. Freud e Piaget são seus autores centrais178. situando-se na mesma linhagem de Kant.. 193). 46. Cabe ressaltar desde logo. 66). cit. no entanto. mas erigir uma teoria da sociedade (EI. a disputa do pensamento de Habermas com o de Luhmann. portanto. nota 117 e 298). assim como Kant. serão o contraponto necessário para o entendimento de sua visão da sociedade e do Direito. a crítica inicial a Marx é no sentido de que ele não desenvolveu um pensamento suficiente para prevenir a redução positivista da teoria do conhecimento. Da mesma forma 178 179 Flávio B. enquanto que Heidegger sequer merece ser citado. estando impedido de compreender o seu próprio modo de proceder (EI. A pretensão inicial de identificar os interesses que promovem o conhecimento baseada no fato de que o positivismo desprezou a teoria do conhecimento por uma teoria da ciência. enquanto que para Marx isso ainda não foi possível. Não nos preocupa. cf. da mesma forma que aquele procedeu em relação às estruturas sociais. pág. 13 e 29. Na verdade. é possível dizer que ambos permitem sustentar o conceito de dominação e ideologia como COMUNICAÇÃO PERTURBADA (EI. Para Habermas. da mesma forma que Hegel. Teoria e terapia em Freud correspondem a teoria e práxis em Marx. portanto. não encontra muito fôlego. de uma missão. 23. Esta. S. 273). 180 . já que este busca na metacomunicação os problemas que afligem o paciente vítima do próprio inconsciente. Hegel. justamente ao reduzir o ato de auto-produção do gênero humano ao trabalho. face a irritação pessoal que seu nome lhe causa. 2. que Habermas não tem uma preocupação dogmática em relação a Marx (RhM. por exemplo. segundo Habermas. cf. 11). 28. E há um interesse legítimo que é o que guia a razão no cumprimento da auto-reflexão (EI. embora isso só fique claro com a psicanálise.. Marx tinha tudo para caminhar para isso. Habermas se utiliza da Teoria Crítica frankfurtiana assim como se utiliza de outras teorias. Dessa maneira.50 biologização das teorias dos tempos de Kant e de Hegel. Na verdade. Marx pertence a uma terceira geração de iluministas. o interesse é entendido por Habermas como sendo "os orientamentos de fundo" que guiam o conhecimento (EI. que se situa agora como uma Teoria Crítica da sociedade. Trata-se. 203). cf. o próprio Marx. Habermas quer situar a teoria do conhecimento. a de providenciar um novo "iluminismo". Sua preocupação com Heidegger e que se expressa sobretudo nas críticas à Hermenêutica Filosófica. Fazendo um paralelo entre Marx e Freud180. cuja leitura só se deu tardiamente e com intenções iluministas179. 46 e s. pág. Ou seja.

esse projeto equivocadamente abandonado no final do pensamento moderno. na tradição do direito natural moderno. sendo fiel à sua intenção. 30). num "giro lingüístico". apenas levadas a uma conseqüência socialista em face do seu cosmopolitismo (RhM. ou seja. no entanto. . No caso. para. Conseqüentemente.51 que Hegel abandona uma concepção peculiar. desveste-se da condição de discípulo interessado em manter dogmaticamente os pilares do materialismo histórico. que se vincula às filosofias burguesas da história. 115 e 288). 14). Essa herança transcendentalista. Crê Habermas poder fugir. portanto. a da comunicação181. Habermas não abandona o modelo marxiano de crítica. a uma nova realidade que nos oferece o capitalismo tardio. Tanto assim que o conceito de verdade política estabelecido por Marx. A essência do pensamento de Marx é mantida. ao situá-lo entre os ilustrados. o que leva Habermas a buscar a contribuição da teoria piagetiana do estruturalismo genético (RhM. como teoria crítica da sociedade. apropriar-se da hermenêutica e da filosofia analítica (ZLS. que possa diagnosticar psicanaliticamente os males da vida social. mas. 18 e 116). ao contrário. sob o título de "práxis social" (TWI. Assim. 182 Cf.. 3. que é impossível. Para Habermas. é o que atrapalha o materialismo histórico a chegar às suas próprias conseqüências. De fato. a verdade já não é correspondência. no entanto: realizar o materialismo histórico é adaptá-lo. na medida em que ele se revela um iluminista. Freitag e. substituindo a questão da origem do conhecimento pela questão da sua validade. refazê-lo. mas mera questão de vontade. cit. 181 Habermas entende que essa concepção abandonada impediu a continuação de uma teoria do agir comunicativo. As estruturas da intersubjetividade são tão constitutivas para os sistemas de sociedade quanto as estruturas da personalidade. que é sua premissa 182. interessado na emancipação. Faz-se necessário o abandono pela teoria crítica da sociedade da conceituação da filosofia da consciência. a teoria da comunicação. cujas categorias básicas da tradição filosófica remontam a Kant e Hegel. pode se constituir no próprio materialismo histórico renovado (RhM. Trata-se da "Teoria da Verdade Consensual" (TP. 29): verdade é conseqüência lógica do método. é preciso reconstruir o materialismo histórico. 14). Não se considera um estranho. 49). para fundar um MÉTODO (ZLS. o materialismo histórico. abandonar a questão do conhecimento puro. há que romper com a teoria do conhecimento. portanto. B. 21 e 30. quando Hegel introduz o agir comunicativo como meio em que se realiza o processo de formação do espírito auto-consciente (TWI. ou seja. é preciso que se renove os termos em que foi proposta (TP. segundo a qual a verdade é feita pelo homem. que é também a preocupação ainda iluminista de Habermas. As condições da vida social hoje não são as mesmas dos tempos de Marx e por isso. projeta uma identidade coletiva compatível com estruturas universalistas do "eu". 41). dessa forma. ao fundamentalismo da filosofia. preocupado com a emancipação do homem e que se dá através da práxis (TP. para tornar possível a sua crítica. ob. Marx reduz a ação comunicativa à instrumental. pág. 13). 23). Em busca de uma teoria da sociedade.

221). Habermas entende que este pergunta o quê. servindo como anteparo à crítica. apresentando-se como pretensão de ciência moderna (TWI. não permite uma interpretação singela a respeito do seu conceito de verdade. É certo que já o criticismo kantiano abandonava um conceito de verdade seguro em termos de ontologia. A reformulação da crítica marxiana se fará. 82). captando essa renúncia do ponto de vista de um sujeito do conhecimento "já pronto" (TWI. ao passo que aquele questiona Contra a ação dos estudantes na França. a respeito do ser. portanto. ao menos não deixa de ser fundamentalista. 1059). estabelecendo-se uma nova zona de conflitos que é o da opinião pública administrada pelos meios de comunicação. realizando-o como teoria da ação comunicativa (TH. 71). a ciência atual procura despolitizar a população.52 permanece possível diante de uma teoria da comunicação. levou Cassirer a uma interpretação hegelianizante de Kant. Significa que através do argumento técnico. ou seja. para questionar do seguinte modo: "porque assim e não de outro modo?" (TP. procurando-se libertar a comunicação da dominação (TWI. desestimulando a idéia marxiana da o porquê (TP. Esse transcendentalismo que coloca Marx na mesma via de Kant. Esse projeto não é novo: apenas fora abandonado após Hegel ter introduzido o "agir comunicativo" como meio em que se realiza o processo de formação do espírito auto-consciente. os pressupostos fundamentais do materialismo histórico precisam de uma reformulação (TWI. 89). como o próprio Habermas salienta. ocultando-se as diferenças entre questões técnicas e práticas. 184 vocação revolucionária operária. Na verdade. a ideologia substitui antigas formas de dominação. 64). pois o próprio Habermas colocava Marx na tradição do direito natural moderno (TP. Isso significa colocar a teoria marxiana em termos de método (Cf. 408). Marx rejeitaria uma ontologia clássica que pergunta. 49). ZLS. 29-30). Habermas pensa poder liberar o materialismo histórico de seu peso de filosofia da história. isso não é tão claro assim. ou: "porque o ser e não antes o nada?". Com isso. 96) e descobrir a relação entre técnica e democracia. aliás. Nessa última fase do capitalismo. os operários se uniram ao poder. Inobstante. em termos de teoria da comunicação. Segundo Habermas. que se não corresponde a uma ontologia. com a busca de "soluções" técnicas subtraídas à discussão pública (TWI. o que leva a um novo enfoque crítico que não o da economia política (TWI. mas pretendia erigir em seu lugar um conceito que se coadunava com a observação fenomênica e pois distante da mera vontade. 221)183. . pois a teoria crítica em Marx permite entender a unidade de Teoria e Práxis em termos de verdade como realização da razão (TP. Por isso. diz Habermas (TWI. O movimento estudantil de 1968 e suas reações demonstraram que não há mais o antagonismo de classes184. 82). 4. 412). como pode restituir-se a capacidade da disposição técnica ao consenso dos cidadãos que interagem e entre si discutem 183 Comparando Marx com Heidegger. que. ele quer saber como é possível a tradução do saber tecnicamente utilizável para a consciência prática do mundo social da vida (TWI. 70). como Heidegger.

é abandonada. S. 706. portanto. Habermas também estudou Dilthey e seu historicismo em busca do agir comunicativo. ZLS. entende que é preciso uma discussão geral e livre de domínio (TWI. por ser impossível introduzir uma teoria da ação comunicativa desde uma perspectiva metodológica. Racionalizar o mundo da vida é. 119). 15 e 17).. a expressão de inspiração husserliana. 109). Inobstante. ob. portanto. isto é. já delineada em "Técnica e Ciência como Ideologia". o emprego da razão comunicativa. A razão comunicativa é. 106 e EI. que se revela ou é descoberto. com suas asserções práticas poderá ser útil. 55). 57). 151. É assim que vai tomando corpo a ação comunicativa. 186 do objetivismo nas ciências humanas. mas que interfere. Mas a razão é agora uma razão comunicativa. é o horizonte e o fundo Em busca da cooperação da Hermenêutica.. pág. A razão é a condição de emancipação do homem. para uma discussão geral e livre de domínio (TWI. ao mesmo tempo em que. no que se chama de "situação ideal de fala". 704) que é o da sociedade como sistema e ao mesmo tempo como mundo vital. reconhecidas por pelo menos dois sujeitos agentes e que se reforçam por sanções (TWI. cit. 138)186. como correspondência à "interação" de Hegel e definida já naquela oportunidade como sendo a interação simbolicamente mediada por normas de vigência obrigatória. que o abeirou do positivismo igualmente (EI. de modo a poder conceber o mundo da vida como palco de possíveis entendimentos puros. . Volta-se. 185 Mundo da vida. Ora. e que caia num secreto. Flávio B. o estudo de Pierce interessa a Habermas apenas como esclarecimento dos motivos que o levaram à autonomização do conceito de realidade próprio da lógica da linguagem (TWI.53 (TWI. 956). 13 e 15). explica Habermas em TH. porém tenaz positivismo (TWI. 106). racionalizar o "mundo da vida"185 é o que importa. A fundamentação das ciências sociais em termos de teoria da linguagem. após ter também procurado reformular o materialismo histórico. O modelo de racionalização de Max Weber deve ser reorientado. 101). para isso. como se disse. o Pragmatismo de Pierce. uma rival do conceito de direito natural. mas guarda uma natureza de depuração "ad hoc" dos interesses que comprometem o relacionamento. A conversão de uma teoria sociológica meramente compreensiva para uma teoria sociológica da práxis leva à necessidade de uma nova formulação para o paradoxo da racionalização (TH. para a reformulação da teoria weberiana da burocracia (TH. no entanto. paralelamente à Hermenêutica e a Filosofia da Linguagem. Não aceitando o otimismo da convergência entre técnica e democracia e nem a exclusão da técnica pela democracia (idem). sem dominação. 117. que se mova em círculos (EI. mesmo após entender a psicanálise como análise da linguagem (ZLS. não importando. Não é mais um princípio de Direito Natural. Não é só uma razão que entende. se emancipação no velho estilo iluminista tem a ver com a realização da razão. cf.

. retomando o modelo wittgensteiniano de compreensão como competência para seguir uma regra (TH. como assente Flávio B. 526). sem coações. a passagem da filosofia da consciência para a análise da linguagem. A situação ideal de fala serve apenas de parâmetro para o questionamento de quaisquer tentativas fáticas de consenso189. 170). É certo. O conceito de sociedade será conexo a um conceito de mundo vital. Os dois volumes que compõem a “Theorie des kommunikativen Handelns" é praticamente uma longa revalidação do que Habermas havia escrito até então. à sua moda. portanto. pág. a sanção é o fracasso da ação e. do seu pensamento até aquele momento. crendo poder chegar então a um Marx. 456) e que pressupõe um grupo social cujo entendimento tem como expressão as normas que regulam o agir. tem sido o seu estigma. ob. 108. cit.. É a epígrafe de Flávio B. A preocupação com a aplicação é acentuada. ob. Mas é uma síntese. de certa forma. 178). A interação em busca da situação ideal de fala. a citação de Vorstudien und Erganzungen zur Theorie des Kommikativen Handelns. as sanções serão atinentes ao 187 188 189 Ob. faz uma recensão não tão breve dos autores marxistas do Ocidente. sendo que o consenso e o entendimento residem no interior da linguagem. retirada de ZLS. Citação de Flávio B. A violação das regras leva a sanções: se forem regras técnicas. "pós-moderno".. Freitag. uma unidade de interesse e conhecimento. sendo que a verdade é mera questão de convenção (TH. cit. que se trata de uma utopia188. 180. 105.. 124 (do original). É a sua prolixidade eclética que se justifica na medida em que a obra pretende ser uma resposta às questões dos grandes teóricos. sendo que. A interpretação. se se tratar de regras morais. quando haverá. na realidade.54 5. constituindo o seu telos191. complementar ao de agir comunicativo (TH. na práxis. contudo. será o "telos" da linguagem inspirado pelo apelo socrático ao diálogo. no entanto. pág. pág. B. O modelo de ação comunicativa pressupõe a linguagem como um medium de compreensão e entendimento (TH. cit. pág. cuida de Mead e Parsons e se orienta pelos seus autores preferidos como base do seu pensamento. pág. 10. 568) tem caráter passageiro. S. É um primeiro passo (TH. cit. ob. 190 191 . 55. A ciência não será mais sociologicamente compreensiva. estudando o que ocorre. constitui o mecanismo de coordenação das ações (TH. levando a questões hermenêuticas. Cf.. S. id. Retorna aos clássicos da sociologia como Weber e Durkheim. A visão estruturalista de Habermas revela que para ele a linguagem é a teia em cujas malhas os sujeitos estão presos e das quais necessitam para se formar como sujeitos190. onde a única coação válida será a da melhor argumentação. Representa o mutamento de paradigma da racionalidade para uma racionalidade comunicativa. 209). mas concorrerá para a formação da realidade como práxis finalmente alcançada.. Siebeneichler187 e que.

a única via realmente "pós-moderna". essas sanções necessitarão de legitimação (TH. HEIDEGGER No enfoque da história recente da filosofia. Bataille e Foucault193. simplesmente. 331). não tendo necessidade alguma de fundação ou justificação transcendental para que correspondam interesse e razão (TH.082-3). Os meios de controle serão assegurados com instrumentos do direito formal (TH. ou seja. Procurando libertar o materialismo histórico do seu peso de filosofia da História (TH. porém mais que isso. 1. interferindo o Estado até no âmbito mais privado da vida A relação desses nomes com Heidegger não é simples. como Herbert Marcuse. numa sociedade em que a integração social se dá pela sanção (é o caso do direito estatal). o "pósmoderno" como "pós-metafísica". 777). a própria Teoria do Agir Comunicativo que Habermas acha. que só o Estruturalismo Genético de Jean Piaget poderia ser uma ponte para o materialismo histórico. no seu entender. explicitamente estudados por Habermas. E com isso. restam duas correntes. 149. Habermas recorreu a Weber. conservadores ou até integrantes da Escola de Frankfurt. compete combater a tendência contrária. 1.052. SO). 987). 193 não é necessariamente Heidegger. na perspectiva de um ordenamento social não violento (direito privado) (TH. ou seja. 1. às quais só se deve recorrer em caso de falência dos meios normais de comunicação e coordenação das ações (TH. 1.059) e assim realizá-lo. inobstante as regras morais e jurídicas sejam normas de segundo grau. 961). ou. assumir também as suas contradições. conforme o projeto niilista de Nietzsche. 796). um autêntico herdeiro da "Aufklärung". 1024). e de outro lado. 1. eliminando 192 Isto é. 610). o pensamento de Heidegger e seus seguidores.022. exercem uma filosofia com nuanças que nada têm a ver com ele. de "juridicização"192 do mundo da vida (TH. Evidentemente. crê poder sentir-se não só um marxista. que disputam o espólio: de um lado. PDM. após se inspirarem no seu pensamento. proliferação do direito escrito (TH. Para a identificação e explicação da patologia da modernidade.080). como é o caso de Derrida. Mead. CONSEQÜÊNCIAS HERMENÊUTICAS 1. Muitos partem de uma inspiração existencialista que (Cf. Durkheim e ao Estruturalismo Genético. certamente. pois o Estado moderno se justifica com os princípios de direito natural racional. como já se disse. . foi dito que Habermas entendeu o "pós-moderno" como um rompimento com a metafísica. não deixando de seguir o modelo marxiano de crítica (TH. Dos despojos dessa implosão do pensamento ocidental. Por fim. Entendendo Marx na tradição iluminista que remonta a Kant. Habermas já havia salientado por ocasião da RhM. cf.55 fracasso perante a autoridade (TH.

a contraposição com a filosofia hermenêutica será útil. 73. na perspectiva histórico-ontológica do 194 Como diz Mauro Protti. vemos que o que não há é indiferença. que ultrapassa a crítica da metafísica de Nietzsche. é a Teoria do Agir Comunicativo que realiza o Iluminismo iniciado com a primeira revolução copernicana. cujo caráter é de aniquilação do homem. A disputa se coloca. que talvez tenha razão quando diz que os indivíduos de importância histórica universal não podem ser medidos com critérios morais. entretanto. entende ele que o que restaria discutir seria a passagem do primeiro Iluminismo para este último. base e conseqüência do seu tempo. Por outro lado. Em derradeira análise. segundo nossa leitura. Inobstante em "Perfis filosófico-políticos" Habermas recorde uma frase de Hegel. vai ser continuado em duas variantes. a menciona como quem aproximou Habermas do neo-estruturalismo). Rastreando no pensamento de Habermas o que pensa de Heidegger. como já foi registrado pela recentíssima história do pensamento. consumando-se com Heidegger (TP. constituindo. L’itinerario critico. e que. cabe inclusive o neo-estruturalismo (a dedicatória de PDM. 5872). portanto. ainda que o termo "existencialismo" venha a significar mais do que possa e Habermas queira se situar num "pós-estruturalismo"194. por Heidegger e por Bataille. entende que a superação "existencialista" do idealismo está preparada por Schelling. que Habermas se julga sucessor de Hegel e Marx. a Rebekka. por sua vez. dentro desse ecletismo também apontado por Protti. É nessa perspectiva. 259) e que se posiciona contra o idealismo hermenêutico dos teóricos da compreensão (que partem de Heidegger e de Wittgenstein). uma nova virada na História do Pensamento. Habermas mencionava os "resíduos de kantismo" que persistem na ontologia existencial de Heidegger (ZLS. 203) e que a interpretação de Marx por Landgrabe. no "giro lingüístico". 11. o antihumanismo. 115. dentro da perspectiva hermenêutica. têm a pretensão de objetividade do conhecimento (ZLS. por exemplo. Tendo em vista que a ontologia é tão velha que parece não ser mais problema. pág. 488). que segundo Habermas. Em "Teoria e práxis". passando por Kierkegaard e Rosenkranz. 80). pág. pág. embora se possa colocar em dúvida se a filosofia do último Heidegger. Essa sua filosofia que se origina e desemboca na teologia. na dialética existencialismo-estruturalismo. após os estilhaços produzidos por Nietzsche. 139). Milano: Franco Angeli. com demasiada precipitação. é. se subtrai efetivamente ao discurso da modernidade (PDM. 1984. Se é verdade que para entender um escritor é preciso identificar contra quem ele escreve. o termo teoria crítica parece mais uma etiqueta ou palavra de ordem. em suma.56 quaisquer necessidades de fundamentalismo e rompendo de vez com a filosofia do sujeito. 40 do mesmo volume. cf. segundo Habermas. . como escreve na pág. ali é que faz uma crítica veemente a proposito da "Introdução à Metafísica" de Heidegger (PpP. constitui o "verdadeiro desafio" para o discurso da modernidade (PDM. Em "A Lógica das Ciências Sociais".

. 11. nota n. 152-153). quando o indivíduo que caminha para a morte é substituído pelo povo que caminha para o seu destino (PDM. 221-222)195. outrossim. Essa irritação. até ler. 133 e 136-139). com uma única frase que fosse" (PDM. ao passo que as doutrinas ontológicas são colocadas por Habermas entre as pertencentes ao dogmatismo (TP. Habermas diz que acaba se transformando à luz do novo paganismo que passava. 34). reconhecer o seu erro. NR. mas apenas pelo porquê (TP. a ontologia fundamental de Heidegger seria sua continuação (TP. o que leva a sensíveis distorções (TP. um concurso para a desgraça (PDM. temporariamente heideggeriano. citando uma reação de Heidegger a uma autorização de uma associação estudantil católica: "ainda não se conhece a tática do catolicismo.57 Heidegger da maturidade certamente prejulga com ele que "a verdade só pode representar-se na forma de uma contemplação do sagrado. Na entrevista a B. 195 196 197 Habermas diferencia. como o é por Jacob Hommes. nota 16)196. (Entre parênteses. se Marx é concebido como um ontólogo. participando tipicamente da geração de mandarins alemães. portanto. 298). 108. vem dos tempos de estudante (NR. período em que foi arrastado pelo redemoinho dos diagnósticos neoconservadores de seu tempo. "o que irrita é unicamente a má vontade e a incapacidade do filósofo de. disse: “O pensamento de Heidegger só foi contaminado em sua substância nos anos 30. como jovem estudante do pósguerra. 152. cf. Habermas cita um manuscrito de Heidegger se desculpando. não é de admirar que estudantes como Hannah Arendt e Herbert Marcuse. em 1953 a ‘Introdução à Metafísica’)”197. 298. Razão primeira e última não se relacionam. Considerando-se o peso e o potencial inovador inacreditáveis de "Sein und Zeit". E um dia ir-se-á pagar caro. antes de 1933. Para Habermas. 151). embora Marx nunca tenha perguntado pela essência. entre ser e sua finalidade. Começando o existencialismo no pensamento cristão (Kierkegaard). Freitag. No mesmo instante.". porém. Por outro lado. 376). Mas apesar do contexto fascista de sua tarda filosofia. Revista Tempo Brasileiro. cit. no produzir-se em uma práxis guiada pela mística. Habermas: "A mim interessa-me saber de que modo o fascismo interveio no próprio desenvolvimento da teoria heideggeriana". até eu fui. porém. quando o ser "concede" ao bem-aventurado a ascensão à graça e à ira. politicamente com conseqüências tão graves. 371-372). necessariamente se sentissem atraídos por esse pensamento. O próprio Habermas cita que Popper inclui entre os grandes dogmáticos Platão. e dizendo que não era tão sábio para saber. diz Habermas. . ainda que "colocando a culpa nas próprias vítimas". tb. Heidegger sustenta a legitimidade da dominação. após o fim do regime nacional-socialista. Hegel e Marx (TP. o que viria a acontecer (idem). e mesmo um intelectual tão a-político como o era Sartre naquela ocasião. pág. isto é." (PDM. 25). Mas. em 1933. Insistindo. como ele próprio admitiu. Heidegger exerceu influências em Habermas.

cit. tomou o título de Dialética e Hermenêutica. que fez com que Habermas se aproximasse do Direito e da Hermenêutica. aliás. Ricouer. 81). pág. quer afastar essa pretensão de "universalidade" da hermenêutica. que não se escapará das tentativas de retorno à metafísica. no fim das contas. há quem diga que se trata de uma discussão hegeliana de um objeto hegeliano200. para a crítica da Hermenêutica de Gadamer199. e contém alguns textos publicados em volumes já mencionados. de Álvaro L. que como se sabe. 116.58 Sem separar o homem do filósofo. 2. acabam necessariamente se preocupando com o Direito. O próprio (minúscula) designa o procedimento. 198 O termo Hermenêutica (maiúscula) designa aqui a Filosofia Hermenêutica. que teria mais reflexos talvez em relação à filosofia política e através dela sobre o Direito. a conhecida polêmica que foi travada no decorrer dos anos entre os dois autores. acerca da hermenêutica. quando procura explicar o ser como tradição (TH. como aconselhava Hegel. a partir da Ontologia heideggeriana. como é do entendimento do autor de "Verdade e método". com o problema hermenêutico. Traduz. em Interpretação e ideologias. e acabam se deparando. 31. O que poderia ser esclarecido é que a metafísica. As decorrências hermenêuticas da filosofia habermasiana são mais importantes para o entendimento do Direito do que. Os filósofos que se preocupam com a práxis. Porto. acaba esbarrando no conceito de Direito e no problema da aplicação. trad. na introdução ao volume Textos de hermenêutica. No estudo da hermenêutica. ou a ontologia. Gadamer. M. partimos direto para dois pontos essenciais: a natureza do direito e sua aplicação. É essa qualidade voltada para a prática. De um lado. que é a colocação em prática das teorias políticofilosóficas. publicada no Brasil. Uma teoria sobre a sociedade. entende que essa aproximação é apenas tangencial. para a crítica da Hermenêutica de Gadamer. Gadamer acaba se voltando para Hegel.. Valls. enquanto que hermenêutica Dialética e Hermenêutica. entretanto. Porto Rui Magalhães. como seguidor da linha da Hermenêutica Filosófica. . que é a preocupação de seu livro "Pensamento pós-metafísico". 200 Habermas entende que apesar de seguir Heidegger. e de outro Habermas. por exemplo. pág. 1984.. GADAMER A coletânea de textos de Habermas sobre a Hermenêutica 198 de Gadamer. evidentemente. não pode pagar pelas suas irritações. 1987. Apesar dos antecedentes. sua observação de Luhmann. 199 Alegre: L & PM. sobretudo colocada em termos "comunicativos". Habermas sabe. Rés.

vai se ver que essa radicalização não é o melhor ponto. ou seja. Paul Ricouer. ou seja.. pág. que por sua vez é questão da vontade. levava à ilusão ontológica da pura teoria (pág. É assim que se cumpre segundo TP. 203 204 Ob. estabelece-se uma "verdade lógica". embora já assinalasse também que se voltava contra o idealismo hermenêutico da sociologia compreensiva (ZLS. para evitar que o "interesse" que não interessa condicione a busca pelo conhecimento (TP. senão no conhecimento válido. Habermas assinava contra o Positivismo a acusação de que este. 102 e 179). Vattimo. pois a unidade de teoria e práxis significa verdade como realização da razão. como no entender de Gianni Vattimo. aceitar a universalidade da hermenêutica é aceitar a metafísica. 201 202 Cf.. Nos últimos trabalhos de Habermas. de João Gama. mas sua preocupação com o assunto é demonstrada. Gadamer disse. O que significa isso? Significa que Habermas não acredita no conhecimento verdadeiro. segundo lhe parece. isenta de fins. a crítica como "método". Para uma "teoria consensual da verdade". 20). Publicado no Brasil no volume Jürgen Habermas . É útil. 412. Lisboa: 70. para a crítica. no seu "Interpretação e ideologias"203. por sua vez. de que o ser não depende de um "dever ser". entende possível o aproveitamento de ambos os pontos de vista. guia a aplicação. 14). que todo filósofo (diríamos. por exemplo. pura. cit. com a sua ‘neutralidade axiológica. A hermenêutica "ontologizada" é a contemplação do que é. uma ação mediante princípios procedimentais (ZLS. já assinala (na 13). É a verdade lógica ou formal.Dialética e hermenêutica. ou seja. deve-se perguntar apenas pela validade do conhecimento. 1989. Ao invés de se perguntar pelo conhecimento puro. entretanto. 132). a soma da hermenêutica com a analítica da filosofia da linguagem (ZLS. a fim de aparelhar sua teoria comunicacional. todo homem) é um hermeneuta201. isto é. que o método contém em si a verdade que pretende descobrir. que se dá sobretudo com "A pretensão de universalidade da hermenêutica"204. livre do interesse que. no entanto. trad. ou. que não se limitava a prosseguir a crítica de Adorno. Na verdade. O método estabelecido por Habermas visa isso mesmo: antepor o interesse e com isto determinar a verdade. É a “dialética” contra a hermenêutica! No fim de tudo. 26 e s. evidentemente. 49). e não interessa a quem pretende destruir uma ciência compreensiva para substituí-la por uma ciência reconstrutiva. Em ZLS. Introdução a Heidegger. por exemplo. ou seja. na origem. vale dizer. Isso é erigir o conhecimento a um método. a preocupação com o tema da hermenêutica em si já não teve espaço como quando do auge da polêmica. 136).59 Habermas não concordou com que se dissesse que a Hermenêutica é universal. voltando-se para a hermenêutica e para a Filosofia Analítica. interesse202. que tudo passa pela compreensão. como conseqüência silogística. G. Uma razão comunicativa.. contrapondo ao puro ser um abstrato dever-ser (pág. a validade processual da decisão. . Em TWI. desde logo. que tem que levar em conta os signos (normas processuais) previamente estabelecidos.

colocando que a Hermenêutica de Gadamer impede a crítica. o que Gadamer nega dizendo que a tarefa principal da Hermenêutica é a separação dos preconceitos verdadeiros e falsos208. ZLS. 280. parte inclusive de Pierce. 189 e 190. Ob. Habermas designou então de "positivismo" (EI. cit. Ob. também é um contexto de violência e não é. Hermenêutica e sociologia do conhecimento. cit. Segundo anota Habermas. Esse objetivismo atingiu também Dilthey (EI. cf. 91). 1990. de Luís Manoel Bernardo. cit. na verdade. 273). 213). Hekman. o homem deixa de ser animal quando transforma o comportamento instintivo em agir comunicativo (família). diz ele: que o "diálogo". Susan J. Habermas está preocupado em pôr em causa. Habermas diz que a consciência hermenêutica será incompleta enquanto não assumir em si a reflexão sobre os limites da compreensão hermenêutica205. 39. bras. Criticando a "pretensão de universalidade da Hermenêutica". Habermas concorda com Gadamer que evitar o mal-entendido é fazer um "acordo fundamental". trad. quando 205 206 Trad. Depreende-se que Habermas acata a hermenêutica como "método". mas não como ontologia. 275). pois na autoreflexão. em Freud a psicanálise procura conexões simbólicas que são perturbadas por interventos internos. Hekman analisou a polêmica do ponto de vista 206 gadameriano . 252). 194. para Habermas impede a compreensão. A essa filosofia. Susan J. o iluminismo sabia o que a hermenêutica não sabe. Lisboa: 70. Afinal.. A pseudo-comunicação detectada pela psicanálise escapa à hermenêutica sem ferir a auto-compreensão desta (42). mas não concorda a respeito do "como" deve ser determinado esse consenso prévio. à Hermenêutica filológica de Dilthey (EI. pág. Contrapõe Freud. que significa o que ele quer (EI.. para o qual a metodologia deve esclarecer a lógica do procedimento com a qual obtemos teorias científicas que se baseiam em informações sobre as quais se pode obter um consenso sem constrição e durável (EI. Para Freud. 144). portanto. pág. sendo que a historicidade. 138). no qual a hermenêutica está minada por interventos externos. Segundo escreve. 98). nenhum diálogo (62). mas ao contrário dele. tendo as mutilações um sentido como tal (EI. a "hermenêutica do profundo". quando diz que o homem cria a palavra. 151 e 179). a avaliação gadameriana sobre o pensamento iluminista207. Pierce antecipa Cassirer e sua filosofia das formas simbólicas. o que se compara à economia de Marx. 207 208 . TWI. pág. razão para que se assuma criticamente sobre si mesma o saber meta-hermenêutico sobre as possibilidades da comunicação sistematicamente distorcida. conhecimento e interesse coincidem (EI. 212).60 Essa posição de processo para a hermenêutica. que segundo Gadamer nós "somos". segundo a qual isso ocorre com o fabrico de instrumentos (EI. Um conceito de "Aufklärung" é aumentar o poder de organizar a vida (EI. repetindo o criticismo (62.

cit. no apêndice a Dialética. enquanto que as utopias se voltam para o futuro e portanto só a História poderá dizer se a utopia era o que pretendia ser216. 197 e E. quando se inserir no horizonte mais amplo de 209 210 211 212 213 214 215 216 217 218 Ob. ob. em "Interpretações e ideologias". pág. Habermas entende que o preconceito é sempre pejorativo.. já na altura de compreensão. a crítica é possível e necessária212. cit. H. pág.. Uma citação de Susan J. Stein. segundo Gadamer. 145.. E como crítica também é tradição217. disse que a abordagem da tradição para ambos. Bubner e Ricouer. Susan J. se dá porque ele vê a hermenêutica apenas como "método útil" para as ciências sociais.. pág. cit. que vê de fora 209. cit. A incompreensão de Habermas.. pág. É um erro pensar. que busca tão somente um método de explicitação. pág. quando tratar da questão da aplicação do direito. é preciso que se estabeleça a Hermenêutica como crítica da crítica (separar a crítica falsa da verdadeira como se separa a própria tradição). Na verdade. 118. 197 e E. Isso se revelará mais tarde. Ob. Ob.. segundo Stein. Ob. cit.. cit. há preconceitos que se confirmam e são. Cf. enquanto que para Gadamer.. Ob. sendo que ambas mais se aproximam do que se distinguem213. 196. Passam à categoria de "conceitos". Ricouer faz uma tentativa de aproximá-los. 88. em "Hermenêutica e as ciências humanas" ( 63-70). como estabeleceu Wittgenstein210. cit. por exemplo.. exercer sua função positiva. procuram a conciliação dos termos211. é irreconciliável. verdadeiros. pág. cit. Ob. cit. 125 e 128. o teórico social não é como o psicanalista. no entanto... Stein. pág. Cf. pág... a Hermenêutica se coloca como a "crítica da crítica"215. Para Ricouer. Afinal..61 para Gadamer é o que torna possível a compreensão. 131. 197. Afinal. .. Hekman214 recorda que Ricouer.. porém sem jamais permitir uma realidade ontológica a partir da aplicação. ob. pág. 130. A discordância de Habermas é comparável à referência exegética na aplicação do Direito. em FG. que ambas as visões se excluem. Inobstante. 103. pág. o que é um equívoco. cit. mesmo porque. portanto. H. a linguagem não é limite do mundo. portanto. fundando-se uma hermenêutica crítica218. Ob. Susan J.. cit. 195. Ernildo Stein conclui dizendo que "a crítica das ideologias só poderá. pág. Ob. no apêndice a Dialética.. Ob.. pág. pág. as ideologias se voltam para o passado. 103. Habermas e Gadamer. cit. pois a hermenêutica não pode ser um método. cit. pois na classificação de Mannheim.

78. 259).. 146. Os resíduos de kantismo. Habermas. admitindo uma comunicação não distorcida. 120.... 577-579.. numa certa medida. cit. a hermenêutica e a crítica ficarão reduzidas a meras. Del Vecchio. no entanto. Este seria um apego extremo ao passado (de glória). G. 254). Aqui. por absolutizar a hermenêutica como "conservantismo de um Burke" (ZLS. para o qual a reflexão filosófica deve resguardar de oposições enganadoras o interesse pela emancipação das heranças culturais recebidas do passado e o interesse pelas projeções futuras de uma humanidade libertada. embora reconhecendo-lhe os méritos. faz questão de ser contundente. as conseqüências hermenêuticas do pensamento de Habermas são o esvaziamento da compreensão.. Concluímos que. Uma "meta-comunicação". na medida em que ele rejeita a intenção de Gadamer de reabilitação do preconceito e reinstaura a pretensão de verdade da filosofia221. Para Ricouer. em face do procedimento reconstrutivo. portanto. Cf. que se perpetua de geração para geração. Afinal. ora pertencer à tradição que remonta a Kant é pecado. para Habermas. de outra maneira. Apoiando-se no entendimento de que a Ontologia distorce. mas talvez faça parte de um certo “historicismo”222. enquanto aquele é a própria temporalidade do momento da realização. que levou os alemães ao perigoso complexo de superioridade que os separou da tradição ocidental (idem). o que é impossível (ZLS.. . Porquanto. na trad. Lições. ora não é. Por outro lado. Da TH. ideologias!"220. o próprio Habermas condena essa tentativa "ingênua" da 219 220 221 222 Ob. que faz aflorar o interesse e assim "purificar" o conhecimento. quando aceitar. cit. Gadamer não entende que autoridade e conhecimento não convergem. percebe-se que Habermas não distingue a dogmatização do passado como falso e que nada tem a ver com “historicidade”. A tradição é a institucionalização dos interesses do poder. pág. de perceber as conseqüências de suas análises (ZLS.. exclama: é “religião para o povo e metafísica para os cultos! “(ND. diz Habermas. passando ao largo da realidade. 252 e s. pág. pág. a validade da tradição e da autoridade como fontes possíveis de mais liberdade e mais verdade"219..62 um acordo social. assumindo um conceito adialético de ilustração. no entanto. 255).).. Habermas critica Gadamer duramente (ZLS. 266). diz Habermas (ZLS. pág. 492).. No mesmo sentido é a conclusão de Ricouer. em Jürgen Habermas . cit. Ob.Dialética. que persistem na ontologia existencial de Heidegger impedem Gadamer. e entende que a Filosofia Hermenêutica é ingênua. explicitada por uma crítica em moldes de psicanálise pode ser uma "hermenêutica do profundo". e que não admite o conhecimento desinteressado. bras.. "se esses interesses se separarem radicalmente. a filosofia de Habermas é também uma ideologia. que procede do neokantismo de Marburgo. Mas.

30. demonstra-se um certo fundamentalismo. a causa determina o fim. não admitindo. Não quer ficar com a última palavra. embora menos digna. próprio da metafísica e da ontologia. E quando se fala de começo e fim. inobstante pregue o diálogo.63 Hermenêutica de buscar o que é. Ainda no método. Erige uma crítica apaixonada em vista das "conseqüências" histórico-políticas do pensamento de Gadamer. uma metafísica "meta-comunicativamente" colocada. Freitag. 223 Cf. não passe da explicitação de uma estrutura invisível que chegue ao seu fim já predito no próprio início. outrossim. cit. pág. mas espera que a última palavra. . E prefere uma função mais fácil. que associa ao de Heidegger. B. a crítica dessa sua crítica. de causa primeira e destino escatologicamente posto223. ob. Talvez se trate de uma metafísica que seja o espelho da única que entende: uma filosofia que se auto-demite por incapaz de atender aos seus pressupostos.. a comparação da teoria consensual da verdade e a cabalística teoria messiânica da verdade.

12). Para ele. contrariando suas intenções declaradas. que acabaram dominadoras (SO. tem-se hoje como antes uma tendência à "juridicização" (TH). percebe-se nitidamente o crescimento dessa tendência. Habermas faz essa crítica do Direito Moderno. que nem o marxismo previu). o direito racional . o próprio poder legitimante do Estado (TH. por outro lado. o que. teve uma importância filosófica na sociedade civil burguesa (Cf. segundo os liberais. pois desde Hegel que o direito está marginalizado como filosofia. 52). 109). quando o Estado social-democrata de Direito. quer "realizar" a "justiça" com a intervenção social do Estado (SO. por isso mesmo. reduzindo ao conceito de uma legitimação mediante procedimentos que justifica. na periferia das faculdades de direito (NR. Ao contrário. vendo ali um instrumento de mera opressão. comprometendo a liberdade que quer tutelar (TH. analisando o período do direito burguês. quando já entendia que o Direito Clássico também se apresentava como ideologia. ou seja. cuja conseqüência é uma administração pública técnica. e passando pelo conceito de "Direito Social" (proteção do mais fraco. como "racionalização". Habermas não se coloca contra o Direito como o fez Marx. 193). como procura fazer O. Höffe. 107). de certa forma. 1022). é a "profissionalização" do Direito. No sentido ainda da ideologia como tarefa técnica (TWI. para a dominação burocrática dos Estados Modernos. Entretanto. com a necessidade cada vez maior de funcionários com preparação jurídica. 76 e 76 e FG. à proliferação do direito escrito (TH. 91 a 109) que transcendeu a simples epistemologia. que foi um direito positivo. 1035). pode ser usada para fins de exploração e opressão (RhM. de tornar escrito o direito. SO. Pretende uma recuperação do Direito! E porque haveria de querer uma "recuperação" do Direito? A crítica filosófica de Habermas parte da "mudança estrutural da esfera pública". A ontologia que o Direito Clássico supunha. 1024). 177 e 261). 75). como continuação do Estado liberal. sendo que o Direito. isto é. Essa mania de positivação. 1031). O Direito Privado trouxe regras contra a dominação. não acabou. no dizer de Weber (TWI.64 Capítulo 13 O DIREITO 1. pois entende ainda que o Direito deve ser recuperado para a filosofia. ou seja. 9). o auge do cinismo da consciência burguesa foi justamente com o positivismo jurídico (RhM. CRÍTICA DO DIREITO Habermas se coloca entre aqueles que se dedicam ao desenvolvimento do direito e da moral (RhM.

para se usar as suas próprias palavras emprestadas não explicitamente da crítica do Direito. Significa que o apelo revolucionário ao jusnaturalismo moderno levou a um conceito de direito natural racional que possibilitou a idéia de revolução como transformação em direito estatal positivo (TP. perderam a inocência (NR. discutimos o seu diagnóstico da prática revolucionária através do direito posto: desde Hobbes é que o Direito Penal representa um poder legitimado jusnaturalisticamente para a organização da ameaça e utilização da violência para a proteção da sociedade civil (TP. Essa conveniência que rege o Direito pós-revolução na recordação de Paine (Cf. 11). E se o conceito de Direito se coaduna com a Razão. "professor livre de direito" (TP. evidentemente. Sua crítica começa com um bom diagnóstico: as leis. Será que a sua conclusão é conseqüente? 2. cujas implicações hermenêuticas deixam entrever a sua rejeição da metafísica e de toda ontologia. ainda que não o diga explicitamente. 68 e 69). 336). as ciências jurídicas se apresentam como arte prática de aplicação da vida (TP. O fenômeno. inclusive no contraste com a Filosofia Hermenêutica. Para Fichte. 232). entendendo-se o direito natural moderno como a realização da filosofia. 57). mas julga-se antes de tudo "um culpado" (RhM. fazendo-se necessária a sua denúncia. sua preocupação não é de destruição e sim de "reconstrução" desse Direito do Humanismo. como garantia da liberdade.65 moderno não resolve. ou seja. TP. inobstante a crítica de Habermas a respeito do Direito Moderno. mas da demonstração de preocupação em relação ao . 100) foi a tônica da crítica ao Direito Natural Liberal feita por Marx. que é a sua antítese ontológica. É preciso. poder é o poder de julgar. estabelecer um novo conceito de Direito. 46). Na verdade. senão reconstrutiva. é que o professor de filosofia é chamado por Kant de "Rechtslehrer" (NR. no caso. segundo Habermas. no entanto. oprimem. 45). Nesse sentido. 142). na mesma proporção em que o Direito Natural Clássico o será do Direito no sistema habermasiano. Não se julga mais em represália ou para reconstituição do "status quo ante". 88). conforme Max Weber (TWI. pois também no Estado Moderno. aliás. Sua compreensão se fez necessária. O Direito e a Burocracia. que com Marcuse entende essa "racionalização" de certa forma como ideologia (TWI. que carece verdadeiramente de explicação é a expansão do direito nas democracias na base do Estado-Providência do Ocidente e que consiste em serem precisamente os próprios meios jurídicos garantes da liberdade que põem em perigo os seus supostos beneficiários (PDM. Habermas também concorda com Marx. na crítica a Foucault). O CONCEITO DE DIREITO Após o estudo da obra e entendendo a "Teoria do Agir Comunicativo" como uma Teoria Crítica da Sociedade que não se contenta em ser compreensiva. 272. na esteira da reconstrução dialética proposta por Habermas. será um Direito que se coadune com a Razão Comunicativa.

dever-ser). (Não temos a pretensão de fazer uma tradução mas necessitamos. Na verdade. a minha liberdade. para fins do presente estudo.. de modo que realiza o esclarecimento do que os atores devem fazer ("sollen". que completa uma "tridimensionalidade" do Direito nos termos sintetizados por Miguel Reale224. Habermas parte da antecipação de que no campo da fundamentação. Saraiva. Permitimo-nos traduzir. Essa tensão seria. 17).. mas o entende embutido no momento político do nascimento da Norma. obra de coroamento do pensamento habermasiano sobre o Direito. 109 e s. o Materialismo Histórico na tradição do liberalismo (TP. A dialética possível já foi feita fundacionalmente na virada do Esclarecimento. O capítulo III de "Faktizität und Geltung. 24). É aqui que Habermas acaba pondo as cartas na mesa com tal conseqüência. 19). Ele entende que a Teoria do Agir Comunicativo muda a razão prática para a razão comunicativa (FG.).. respectivamente. como se disse.". portanto. 115) e contra isso não pretende senão uma desconstrução e reconstrução no lugar de uma destruição. assim. de transcrever para o português. e a Teoria do Agir Comunicativo não contempla uma "tensão" entre fato e norma. São Paulo: 1968. 18). portanto. está implícito aí a discussão acerca da relação "autonomia particular" (direito subjetivo) e "autonomia pública" (direito objetivo) (FG. com efeito.).) de cuja "tensão" Habermas se ocupará na última obra. Partindo da tese de que o Direito tem uma função instrumental de integração (FG. que parece resumir toda a sua tentativa de estabelecer uma teoria está. 224 Cf. . é certo que o direito moderno também precisa apenas de uma adaptação. 429). Ou seja. "Faktizität" e "Geltung" por "eficácia" e "vigência". procurando não desprezar o elemento Valor. na falta de tradução oficial. 11). não há que se falar em dialética. A grande questão. A questão da relação "eficácia-vigência" supõe uma outra questão que é a da aceitação da norma. trata-se da questão kantiana da obediência à lei. apenas aparente. normatividade e racionalidade se cruzam (FG. mas em compreensão de uma tradição. Habermas estabelece uma relação de Fato-Norma. Por isso. pois as leis eu as dou a mim mesmo quando todos as dão para cada um e restrinjo. “eficácia” e “vigência”. coadunando-se com o Direito (FG. num aspecto bastante discutido na história da filosofia do direito: "Legitimidade como legalidade é possível?" é a pergunta-título da "primeira lição" do estudo denominado “Direito e Moral” e que vem como apêndice no volume de "Faktizität und Geltung." (FG. os termos usados no original alemão e que se esclarecerão daqui para a frente. Nesse sentido. ou.. Evidentemente. se denomina "Para a reconstrução do direito" (FG. como quer demonstrar. se ele coloca. 541 e s. aliás. a Teoria tridimensional do direito.66 Materialismo Histórico (RhM. portanto.

cf. confundindo-se com legitimidade. o que mostra uma relação interna com a força social integrativa da ação comunicativa (FG. 39. Puchta. de modo que se conforme à Teoria do Agir Comunicativo. 51). concluindo que Savigny e Kelsen se identificam. pois Savigny. 110). como já se disse (FG. O normativismo parte do oposto. 109). há um paradoxo na origem de legitimidade e legalidade (FG. Essa referência é muito importante para se entender Habermas. partiu do ponto de vista oposto ao do qual Kelsen depois iria ver o fenômeno jurídico e. tornando-se. segundo o seu estudo. Assim. a Teoria do Agir Comunicativo hipoteca a integração interna entre eficácia e vigência (FG. a realidade social como "espírito do povo". a norma é a simultânea efetividade pela coerção e realização da legitimação da validez: autoridade pela eficácia e vigência (FG. é verdade. 22 e 39). 114). pois há uma ambivalência da vigência jurídica (FG. privilegiando o fato. cf. já que a força da efetividade é a fusão de eficácia e vigência (FG. o Direito como instrumento. mas ambos se sintetizam na obediência da norma. tendo o Direito a função de integração social (FG. uma vez que o "dever-ser" é deontologia como vontade do Estado (FG. Para Habermas. Por isso. 89 e 105). isto é. ou seja. no entanto. acabam se tocando. porque dá uma força à norma: a eficácia da validez. cultura e estrutura pessoal devem ser reproduzidas através da Teoria do Agir Comunicativo. cf. no entanto. 42). 36). portanto. ou seja. 108). se efetiva pela expectativa (ameaça) da sanção (FG. Habermas entenda que haja necessidade de uma "reconstrução" do Direito. porém. 102). 67 e 111. 99) e por Weber (FG. é útil. fundindo-se na Teoria do Agir Comunicativo. Na verdade. eficácia e vigência. entre direitos humanos e soberania popular. Habermas analisa o problema da liberdade em Kant (FG. Dessa forma. relaciona. e acabando por querer assegurar-lhe fidelidade através do direito posto. 4445). 52. se defina como um sistema de ação para assegurar o ordenamento legítimo como componente social do "mundo da vida" (FG. 22 e 52). nos termos propostos por Parsons (FG. tem razão Pierce. como se dá na religião e no direito (FG. quando todos impõem normas a cada um. 90). 40). para o qual a verdade se conceitua como "aceitação racional" e. eficácia e vigência (FG. É a legalidade que. cf. ND. volta-se a Kant e a fundamentação da obediência a limitações que eu mesmo me dou. da vigência. como é sabido. assegura a liberdade (FG. embora. 46). 111)e se conclui pela presunção mútua de autonomias pública e privada. Ihering e Kelsen (FG. Ou seja. 113). sendo que a função precípua do Direito na sociedade moderna é a esperança de estabilidade. . 112 e 151) e refere-se a Savigny. isto é. completamos. sendo que a integração social se aloja no Direito como comunicação: estabelece uma ligação entre sistema e mundo da vida (idem). portanto. A Escola Histórica de Savigny e Puchta nasceu de uma inspiração sociológica.67 Para Habermas. 110. a positivação do Direito uma garantia (FG.

117) e o processo deve ser o parâmetro do Direito. pela sua própria "essência" (ainda que esse termo não seja próprio para o discurso de Habermas) se realizando sempre no consenso isento de coações que não a coação da boa argumentação. Sua ementa poderia ser: legitimidade acaba em legalidade. quando o interesse geral veio a substituir o sacro (TH. 163. assim como a referência aventureira de Rousseau. que o Direito não é só um sistema simbólico. mas de ação (FG. 56). essa referência é importante. 123). cf. 649). A Moral e o Direito são momentos da racionalização do mundo vital (TH. ou seja. Sua preocupação máxima é a abertura do casulo da técnica para que as questões científicas sejam jogadas à discussão pública e assim fiquem depuradas de quaisquer condições de interesse que não o interesse emancipativo. Habermas acenava com a idéia de que o Direito é INSTRUMENTO da convivência (EI. 151. que também admitiu a fusão do direito subjetivo com o direito objetivo (FG. 112 e 163). com os quais se identifica e dos quais não vê realmente constrangimento nenhum em tentar ser como que uma síntese. Lei é. desfaz-se o paradoxo da origem de legitimidade e legalidade (FG. a própria filosofia de Habermas é epistemologia. 158). Dessa forma. entre autonomia privada e autonomia pública (FG. sinônimo de signo comunicativo. cf. percebe-se que o Direito Arcaico era o Penal (Durkheim) (TH. a tensão entre eficácia e vigência se refere à tensão entre positividade e legitimidade (FG. O Direito é a disposição de legislar e como autonomias privada e pública.). Conclui. portanto. É só nesse interesse que a Razão encontra identidade. . 169. assim. 24). Por outro lado. 14). 188). porque a razão é sempre comunicativa e está. 156). 151) e já que o direito objetivo usa a liberdade comunicativa na forma que o direito subjetivo deve se institucionalizar para ter fundamento político. Diante da História do Direito. cf. as quais exprimem um entendimento existente em um grupo social (TH. Isso significa um agir regulado por normas. 137) e que a vigência significa um equilíbrio entre a autonomia privada e a autonomia pública (FG. concluindo-se que legitimidade é sinônimo de positividade ou legalidade (FG. 112 e 151). quando a ciência política liberta do Direito Natural Racional (TH. para Habermas. sendo que a comunidade evolui de religiosa para a comunidade de comunicação sob vínculos de cooperação (TH. Já em "Conhecimento e interesse".68 Para Habermas. apresentando-se como instituição especializada na intersubjetividade (RhM. o método é escolhido em detrimento da verdade (fazemos referência a Gadamer. permite uma sociedade constituída politicamente integrando-se mediante normas jurídicas (idem). 668). 668). 157). O processo democrático da legalidade é fonte de legitimidade (FG. que ditava o interesse de punir no início religioso do Direito. "Constitucionalismo" é a relação entre liberdade e administração estatal.

Habermas ainda se situa dentro da tradição liberal do "direito mínimo". 1043 e 1045).69 A função do Direito. do mal na medida de sua necessidade. deve subentrar. (BH. ou seja. ainda que um dos três essenciais à conservação do mundo da vida. 1041). mas os adaptam ao medium direito (TH. essas normas apresentam pretensão de validez. no entanto. O . sua capacidade de representar um interesse geral. no desfazimento da "tensão" entre eficácia e vigência (FG). 81 e 86). que se medem pela sua imparcialidade. o Direito se ocupa da INTEGRAÇÃO SOCIAL. assim como as morais. enquanto que a escola se ocupa da reprodução cultural e a família da função de socialização. Na realidade. 279 e 315. 796). O Direito Constitucional. O Direito é um instrumento. nesse sentido. com a alternativa do conflito violento (TH. 102. No lugar do direito como meio. às quais se deve recorrer em caso de falência dos meios de comunicação e coordenação da ação. ao menos no seu sentido de "Justiça Distributiva" (MK. adequados à estrutura do agir orientado ao entender-se (processos de formação discursiva da vontade e procedimentos de debate e decisões orientadas ao consenso (TH. na sociedade estatalmente organizada. reconhecidas pelos cidadãos (TH. mas as normas jurídicas. pois a Razão Comunicativa não requer esse conceito. São. são as normas jurídicas que não podem ser suficientemente legitimadas mediante o reclamo positivista a procedimentos (idem). 429). Habermas entende que instituição. o Direito Penal e o Direito Processual Penal precisam de uma justificação material. há necessidade de legitimação. pois pertencem aos ordenamentos legítimos do mundo vital e às normas informais de ação. Os meios de controle da interação lingüística. o fundo do agir comunicativo (idem). 126 e 149) e cumpra o seu papel. 1035). mas a prática comunicativa cotidiana. não é a de "justiça". 786). O medium direito é entrelaçado com o Direito como instituição (TH. devem ser assegurados no mundo da vida. para que o poder político tenha a força de INTEGRAÇÃO SOCIAL pela sanção. na verdade. no entanto. Isso também deve se dar com o ordenamento jurídico. 102). isto é. Assim pensando. Os distúrbios ocorrem quando a estrutura da “juridicização” exige controle administrativo e judiciário que não só completam mediante instituições jurídicas os nexos socialmente integrados. integração social e socialização (ND. os procedimentos de regularização do conflito. são normas de segundo grau. O Direito "desetizado" e coativo impõe-se como controle e guia do agir social mediante meios (TH. que é composto de leis que precisam ser legitimadas. 777). a fim de que atenda aos princípios da "Ética do Discurso" (Cf. cujas operações se dão em conjunto (ND. essenciais para a integração social. 149). com os instrumentos de direito formal (TH. Sendo o mundo da vida não uma associação. Há resistências a isso. a todos os concernidos (BH. PDM. ou seja. Para o entender-se. que se nutre da cooperação de reprodução cultural. FG. cf. 961).

que dá ao direito o seu posto preciso. iluminada pelo auto-entendimento proporcionado pela hermenêutica da vida social (FG. Wiethölter quer colocar em lugar do contrato. sendo. ou seja. Habermas enfrenta o problema da atual crise do Direito. 64). que o direito é a "estrutura decisiva da sociedade" (NR. Elster) com vistas ao consenso (FG. Professando a fé numa Verdade ontologicamente definida. Começa respondendo que os juristas. mas também na produção. Esse conceito de Direito é coerente com o conceito de Verdade e de Justiça que lhes empresta Habermas: verdadeiro é o que está conforme o combinado. a perspectiva prioritária a do legislador democrático (e não a do jurista). como sinônimo de lei. entretanto. percebem o direito da perspectiva do juiz e olham a crise do direito como uma crise na administração da justiça: é ainda a indeterminação das decisões judiciais o que preocupa (idem). no quadro de um projeto dinâmico. 122). tornado reflexivo. só o contexto de uma sociedade justa ou bem ordenada pode preencher as lacunas da indeterminação de uma interpretação do caso específico do direito vigente (NR. aperfeiçoamento e aplicação de normas e programas jurídicos. mas no de uma compreensão de fundo teorético-social. Por isso. Numa discussão com Rudolf Wiethölter. 198) e que considera a imposição da vontade pela barganha (Baseia-se em J. 59). se assusta ao se ver posta diante da bifurcação: "Verdade ou Método"? Para essa definição de "justiça" dada por Habermas. 63). senão a sua racionalidade (idem). Ora. é o que se lê numa de suas respostas em uma entrevista concedida a Hviid Nielsen e publicada no volume "Revolução em Curso" (NR. como dogmáticos adestrados. como é que o Direito nasce? O Direito. 31). nasce na atividade política. A questão inicial é a seguinte: em que sentido devemos entender a tese de uma crise do direito e em que sentido devemos entender a tese da posição socialmente central do direito? (NR. entendendo. porém. . inclusive. publicada em NR.70 Direito e a Moral não deixam de ser úteis à regulamentação consensual de conflitos de ação e portanto à conservação (RhM. evidentemente. A administração do direito vem "indeterminada" porque falta o consenso de fundo que poderia ser o paradigma do ordenamento jurídico (NR. no qual Savigny já havia visto o defensor nato do direito. de estado de direito (NR. basta um método. o problema está não no plano da metodologia e da dogmática jurídica. a Hermenêutica Filosófica. procedimentos de formação racional da vontade coletiva (NR. 63). 204 e 205).. 61). 56 e s. Entretanto. portanto. permitindo-se um procedimento de auto-organização da sociedade (idem). o direito não consiste só na sua aplicação profissional. Significa que é o político que determina o direito. 61). Justiça é questão de validade! Nesse sentido. Habermas pergunta então: é o direito que determina a sociedade ou é a sociedade que determina o direito? Para ele.

Wiethölter dá atenção ao elemento político. como meio de mobilização da opinião pública contra situações de crise. no último capítulo da obra (FG. um "conceito procedimental de política" (FG. a esse respeito.. de Alfredo Fait. 1984. 463). Brasília: UnB. Höffe se apega ao caráter coercitivo do direito. a práxis que Wiethölter pede deve atingir a consciência não só de juristas. portanto. com efeito. que Habermas cita como exemplo de defensor da democracia como procedimento mínimo (FG. discorre tranqüilamente sobre o "direito de resistência" como instrumento de conservação de princípios225. 83). Kant. Para Habermas. trad. 349). No campo da filosofia política. 78). 70. Se se trata da formação discursiva da vontade. querendo transformar o sistema jurídico em "procedimentalização". está resolvido o problema. Só não prejudicando a escolha dos interessados. 348). . no "sense of justice of the populace" (FG. O conceito de política deliberativa supõe deliberação pública e procedimento democrático neutro (FG. 398). Habermas responde: Höffe não colhe o ponto principal da ética do discurso. nos termos em cita autores como Cohen e Arato.71 A vontade geral é empírica e hipotética e o discurso ético-político deve fazer cumprir a condição da comunicação pelo auto-entendimento hermenêutico do coletivo (FG. 68).. segundo pensa Habermas. O próprio Norberto Bobbio. entendendo que a racionalidade passa pela discussão autor-aplicador-executor da lei. A esta altura. no entanto. pois o maior meio de dominação hoje. é possível judicar imparcialmente o que é bem em igual medida para todos (NR. com Otfried Höffe. mas também a de administradores e legisladores (NR. discutindo o Parlamento e a opinião pública. desta vez. no "Welfare Capitalist Society". cf. em "Faktizität und Geltung. 66. Esses autores citados falam. mas um conceito de formação discursiva da vontade. 223). que 225 Cf. 79). a questão é antes política e não só técnica. mas não se deixa de ver nesse instrumento um caráter conservador. segundo o título do sétimo capítulo. Direito e estado no pensamento de E. Habermas volta ao conceito de "esfera pública". há um meio de se prevenir contra a deformação interpretativa dessa vontade que é o instrumento da "desobediência civil". é impedir ou inibir a participação na determinação das ações ou suas condições (FG. Deve ser colocada na mesa de discussão. "Direito e Moral"). 541 e s. 372 a 374. Para ele. Um Direito coercitivo não é tudo. que é. cf. mas privilegia o elemento técnico. 368). na verdade. o que pormenorizará posteriormente." ( 236). Habermas privilegia um conceito de "política deliberativa" (FG. contraposto à concessão do contrato e da troca. diz Habermas. Norberto Bobbio. o autor de "Justiça Política". qual seja. 506). pág. leva consigo um conceito de racionalidade "procedural" que remete além da legitimação do caráter coercitivo do direito (NR. Dessa forma. Ilegítimo é o que está contra o processo democrático (FG.. Discutindo. o consenso dos interessados (NR. 237).

587). die sie sich gemäß ihren 226 Idem. 555). É um positivismo empírico se encontrando com um positivismo idealista. nas próprias palavras de Habermas: "Dieses behält gewiß. tenta despi-lo. Não há o que descobrir ou declarar. 467). fica bem claro que o direito em Habermas volta a ser o direito conservador da ordem social. de modo a cumprir-se o entendimento kantiano de que a soberania popular se realiza pela ação de legislar (FG. Kant entendia que uma ação era justa "quando. E para consegui-lo. einen dogmatischen Kern: die Idee der Autonomie. ao lado da escola e da família. wie sie genau den Gesetzen gehorchen. Conforme identifica I. nesta mesma tradição kantiana. detestasse a utopia. de qualquer caráter de natureza. segundo ele.72 pode levar ao problema central da instrumentalização do Direito para fins de governo político (FG. abandonando-o. mas apenas fazer. a liberdade do arbítrio de um pode continuar com a liberdade de qualquer outro segundo uma lei universal" ou a sua famosa definição de Direito: "O direito é o conjunto das condições. nada se distancia de Kelsen. ou seja. 611). 464). por meio das quais o arbítrio de um pode estar de acordo com o arbítrio de um outro segundo uma lei universal de liberdade"226. pois a práxis da auto-compreensão social e da autodeterminação dos "consorciados" se dá na história (FG. 532 e 536). inobstante pudesse partir de uma orientação sociológica como partiu Savigny. wie der Rechtsstaat selber. como ele mesmo alertou. assim como a toda a filosofia. pelas "regras do jogo" procedimentalmente entendidas. conforme a tradição kantiana de procedimento imparcial (FG. o paradigma do Direito é o processual (FG. que se pretendeu outrora. 563). no entanto. No caso de Habermas. por meio dela. O procedimento deve ser imparcial e considerar princípios (FG. como ocorreu no período nazista (FG. se sustenta por uma base imaginária: a situação ideal de fala. embora Marx. 564). "justiça" é liberdade. Este a "integrar" a sociedade. 528). Só o dogmatismo garante a democracia (FG. Se natureza significa origem. que Habermas procura tornar viável. Se temos os meios para impedir isso. como para Kant. a filosofia e o direito se tornam procedimentos com funções práticas definidas metodicamente. Não há o que compreender. de modo que legitimidade seja eficiência. a tensão entre eficácia social e vigência é praticamente vencida (FG. Essa práxis na qual o direito ocupa lugar principal. Fica tudo no campo da utopia. ou. Nada leva a verdade ou justiça. poderíamos acrescentar que justiça é a liberdade de deliberar e como isso só é garantido. a exemplo daquela. exigindo a procedimentalização como garantia da “verdade discursiva”. 599). que auxilia cooperativamente as ciências. reduz-se a um sistema de regras como ordens do legislador (FG. 539). estabilizando-se a tensão entre eficácia e vigência (FG. Maus. Com essas passagens. . wonach Menschen nur in dem Maße als freie Subjekte handeln. ou segundo a sua máxima. o Direito dissolve-se na política. Ainda para Habermas.

die mit dem Faktum der sprachlichen Verfassung soziokultureller Lebensformen "gegeben". unhintergehbar ist. "Dogmatisch" ist diese Idee freilich sich Spannung von Faktizität und Geltung aus.73 intersubjektiv gewonnenen Einsichten selber geben." (FG. die wir in einer solchen Lebensform unsere Identität ausgebildet haben. . für uns.h. 537). d.

que jamais ocorrerá. Isso. no entanto. cujo escopo é entender o conceito de Direito em Jürgen Habermas. perseguimos a visão filosófica do filósofo contemporâneo para ver nela. não o impediu de ser reconhecido como um "positivista". 331). quem sabe. entendeu que o positivismo jurídico seria útil como instrumento de "integração social" (RhM. 3). no entanto. inobstante o formalismo burocrático de Weber tenha provocado um empobrecimento do direito como instrumento organizativo (TH. "uma forma particularmente cínica da consciência burguesa" (RhM. Depois.74 CONCLUSÃO O presente estudo. próprios do positivismo sociológico-jurídico ou sociologismo jurídico. entendendo que a "neutralidade axiológica" que representa o positivismo devia ser criticada. na verdade. um feixe eclético de pensadores das várias linhas. que reagindo ao dogmatismo. com seu "neokantismo" (ZLS. ao atribuí-la à "esfera pública burguesa". 12). 96). que começa com a crítica ao positivismo. pois. mas apenas aclama o resultado do processo político (SO. Sua trajetória parte de uma orientação inicialmente situada na chamada "Teoria Crítica" da Escola de Frankfurt. Em "Conhecimento e Interesse". Não é de admirar que Habermas. julgava ser "dominadora" (SO. 272). 109). Habermas ainda dizia que o positivismo é a negação da reflexão (EI. cujo modelo ideal vem perseguindo. nas palavras de . fica na utopia da "situação ideal de fala". E mais que isso. que acaba dogmatizando seus princípios. criticando ainda a expansão da burocracia jurídica (PDM. para depurá-los de quaisquer influências ou interesses que possam "perturbar" a comunicação. como instrumento de preservação da vontade pública. algo em comum: um certo positivismo. uma identidade. 369 a 376). venha a desembocar num rigor tão grande contra esse mesmo positivismo. numa "volta aos fatos". Habermas negou a "pretensão de universalidade da Hermenêutica". de um "positivismo vulgar". a expansão do direito acaba sendo um risco para os seus supostos beneficiários (PDM. no início. pois o público não participa da formação da vontade. 42 e 144). como ele próprio refere (ZLS. no positivismo jurídico. Trazem consigo. constituindo-se. mas logo se envereda por caminhos próprios. Partindo da "curiosidade" científica acerca do que poderia ser o Direito na época "pós-moderna". como se tudo se resumisse ao problema da linguagem. que são. apresenta. 96) e acaba assumindo com a adoção do "dogmatismo" na sua última obra. o "estruturalismo" e o "sistemismo". 212). mas cai no equívoco de universalizar a comunicação lingüística. foi útil para a tentativa de identificação da crise do Direito. como alertou Foucault. Isso é coerente com o "funcionalismo". inclusive na pessoa de Max Weber. aliás. Essa mesma vontade pública que. no entanto.

entretanto. E não é contraditório também que Habermas junte Kant com Darwin. pág. É certo que o Estruturalismo pode se coadunar com o pensamento oriundo do Marxismo. no entanto. Marx mesmo utilizou esse termo "estrutura" para se referir às ideologias sociais de modo geral. que não nos interessou de primeiro plano. Mais que isso. A "Razão Comunicativa" é um canal vazio. Se não o assume. Otfried Höffe. ob. ao que Habermas junta o Pragmatismo. que entende um modelo de diagnóstico crítico que pode ser transplantado para a crítica da sociedade. Habermas. em detrimento do Marx economista. pretensamente "pós-moderna". bastante visível. segundo os princípios kantianos229. quando o interesse que guia o conhecimento é o interesse na emancipação. mais tardiamente. em síntese. pode acabar inócua. uma vez que o "purismo" da Teoria do Agir Comunicativo acaba minando-a justamente por não querer tomar partido. Como distinguiu O. Inobstante. a de “economista”. por temer o papel de ideologia.75 Juarez Cirino dos Santos227. quando interesse e razão coincidem. e visando um fim. identificando-se mais. tornará desnecessária a sua própria teoria. mormente quando esse fim pragmaticamente colocado. junta Marx com Kant. onde se pode colocar qualquer líquido. porém. talvez. que é a linguagem. . que entende uma filosofia prática. que sua teoria supõe uma sociedade organizada de maneira tal que dificilmente encontraria um "lebenswelt" maduro para sua aplicação.. ainda nos moldes do velho positivismo Comteano. uma forma vazia e elástica. pode-se observar também. 14. daí por diante. Se a sua filosofia. ao Estruturalismo Genético. A discussão com Luhmann. é devido a sua rigidez dogmática. certamente em razão da sua procedência da sociologia. Höffe. Direito penal (a nova parte geral). Habermas busca em Marx o Marx sociólogo. mais INTEGRAÇÃO e maior COMUNICAÇÃO como formas de solução de conflitos sociais ou de superação da anomia. 1985. vamos nos arranjando como podemos! Marx não gostava dos "socialistas utópicos". “a visão de uma falsa unidade social (negando a existência das classes e a luta de classes) para propor. Rio: Forense. do Pragmatismo. paradoxalmente. querendo logo partir para uma práxis dentro do que havia de real. enquanto há toda uma realidade a sua volta228. através das diversas linhas filosóficas. se ocorrer. Embora a partir de princípios alocados topicamente. não consegue escapar por isso dos modernos que pretende aperfeiçoar. uma analogia. que se alia à Fenomenologia. cit. Juarez Cirino dos Santos. é apenas e puramente o da comunicação ideal. que se amolda procedimentalmente conforme o seu conteúdo. acaba sendo ideologia assim mesmo. De outro lado. pretende cumprir o testamento de Marx com uma figura ideal que. de modo "reconstrutivo". por "desfundamentalizar" a razão. pois o "Estruturalismo" tem a ver com a Biologia de Spencer. não se impede que passe a ser.” Enquanto isso. descobre em si uma vocação frustrada. com o lado de “administração do fazer”. E isso. 227 228 Cf. Habermas trabalha com algo abstrato. uma "ética de princípios".

Kant. Cf. confessa que um cotidiano totalmente profanizado não é possível: a religião é insubstituível e o pensamento pós-metafísico coexiste com uma práxis religiosa. ou seja. pág. acabou ironizado por ele mesmo. ND. Talvez o seu fundamentalismo permitisse isso. . Habermas é um Savigny com Kelsen. O relativismo de Habermas. Trata-se. Fichte e Hegel. incluiu entre os "metafísicos". 62. o sonho de criar algo sutil como a Razão Comunicativa. 705. compondo normas de segundo grau. que ele tenta consertar com uma dose excessiva de dogmatismo. é um Habermas que vai perdendo Marx de vista. Contra isso é o princípio do "direito 229 Cf. A pretensa indiferença positivista para com a metafísica só mostra o receio do confronto. A luta contra a tradição. 186).76 Em suma. IV. o que subentende tradição). mas que se mantém sempre ao sabor das ondas. São Paulo: Nova Cultural. A diferença da sua teoria para com o Direito Natural Moderno é que este se fundava na lei como "declaração" de direitos (direitos naturais) e para ele a lei também é uma declaração. fundação. Ainda aqui acaba seguindo uma tradição: aquela que separa fé e razão. Ou seja. vol. Por fim. do conformar-se de uma tábua que não enfrenta. ainda quando tal estremecimento em alto mar seja o único modo como pode "dominar" as contingências (ND. Parece que não se trata de uma dialética mas de uma aceitação. se mantém com as mesmas armas do adversário. Fenomenologia e estruturalismo. O Direito como instrumento. Kant com Marx. sugere questões interessantes. cf. Na área particular da filosofia do direito. mas não se afunda no mar das contingências. após analisar a recente tentativa de volta à metafísica (Cf. mas se insere como nenhum outro. O próprio Habermas responde a críticas: A Razão Comunicativa é certamente uma tábua insegura e vacilante. São Paulo: Perspectiva. de uma "esperança desesperada" de quem está por um fio. No caso de Habermas. 9). Andrea Bonomi. Um caniço que não racha porque se curva na direção do vento. 186). faz sentido. que paira num abstrato sem ligação alguma com qualquer tipo de fundamentação (diga-se. entretanto. por exemplo. não pode substituí-la e nem eliminá-la (ND. no seio de uma tradição. A denúncia de uma tendência à burocratização e à expansão do Direito como meio de controle estatal. ambos "desfundamentalizados". também. com efeito. diz que para o europeu o termo "metafísica" lembra religião. deixando um lugar para o que a razão não era capaz: a religião. Kant ainda conciliava "Razão Pura" e "Razão Prática". Inobstante. em sua forma pós-metafísica. 25). ou um Kant marxista e um Marx kantianizado. tão propugnada pelo Iluminismo. sobrevive do não confronto. pois a filosofia. é mais grave do que o da Teoria do Conhecimento. de cujos pensamentos não consegue escapar. Seu conceito de Direito segue essa filosofia. mas não passa de uma declaração de vontades estabelecidas pelo consenso. aliás. 1974. História do pensamento. Habermas quer ser crítico. a história da salvação judaico-cristã (ND.

Revela-se. que domestica (SO. pois. devemos nos perguntar se a vontade geral é possível. Entretanto. cap. supõe-se valorações de condutas e. no entanto. quanto menos melhor. e ainda.." 230 Há muitos conceitos de Direito Natural. o pensamento de Aristóteles e Santo Tomás e Política. normativista. na verdade provocada pela propaganda. acreditando numa "ética do discurso". Mas. embora num primeiro momento. 231 . pois. pois esta é vulnerável á "demagogia". privilegiando a ocorrência sociológica (fato). "Faktizität und Geltung. ao apontar para a circunstância de que a vontade popular. que são exatamente os líderes políticos que deverão representar o povo e discutir sua vontade no parlamento. Aristóteles231 já havia alertado para a impossibilidade da "democracia". O próprio Habermas. 126). a crítica de Habermas se situa claramente contra "valor" e "norma". acabou entendendo que "compreender" é "concordar" (TH. Na sua última obra. é um princípio do Liberalismo. Ao mesmo tempo. e "norma" com o dogmatismo do positivismo jurídico. tema de sua última obra. sobre Direito Natural.. o que não impedirá de cair também num dogmatismo de ordem sociológica e. de modo especial contra a Hermenêutica Filosófica e contra as perspectivas de um certo Direito Natural230. que considera "fato". Isso é válido para sociedades mal organizadas ou para sociedades altamente organizadas. como asseveram clássicos como Rousseau ou mesmo Savigny. responde negativamente a essa questão. É a conexão essencial entre "eficácia e vigência". como o quer Habermas. ou um eticismo. ou seja.. fruto do consenso. 229). Se concordamos com o diagnóstico de Habermas. um liberal. sua relação com o pensamento de Heidegger e a Hermenêutica. a obra de Aloysio Ferraz Pereira. É por isso que dizíamos anteriormente que o verdadeiro embate se dá contra a Ontologia. absorve-se no estudo mais direto da filosofia do direito e ali demonstra que "fato" e "norma". por mais que procure inaugurar um "pós-modernismo". IV. quando se fala de norma. sendo "fato" relacionado com o sociologismo jurídico. para um governo pela vontade popular. é. mas pesando como definidora de deveres. "eficácia" e "vigência". a ação dos condutores do povo. não se desprende das raízes modernas. Revela-se.". que implica não em valores. Em primeiro lugar. cf. uma ideologia. ou seja. fique mais fácil entender a insuficiência dessa teoria. 704 a 707). na forma de um culturalismo ou. "valor" e "norma" isoladamente. no início. de uma "razão comunicacional pura". um arauto do governo das leis. "valor" com um certo direito natural ou a preocupação pelo justo. por conseguinte. produto ainda da mera comunicação. e. "Faktizität und Geltung. mas apenas numa validez deôntica (MH. posteriormente. não aceitamos a colocação do Direito em si como instrumento meramente comunicativo. seguindo a idéia de que o Estado é um mal necessário e. portanto.77 mínimo" que. sustenta que só o dogmatismo pode garantir a liberdade! Se olharmos por dentro de um "tridimensionalismo" fragmentado. as mesmas que sugeriu não estarem cumprindo a função de garantir a liberdade.. embora nos meios menos estruturados. são os dois elementos consideráveis do Direito.

mas do conveniente. demonstra a ele mesmo que o Direito como mera expressão da vontade. por ser genérica. Entretanto. 10. Rio: Forense. quando esta se realiza. no âmbito do Direito Penal. com sua então rígida legalidade234. se é que essa vontade sem condução é possível. 11). na sua própria essência.. subtraindo-se a verdade à Ontologia. equânime. um povo conduzido. Paris: Felix Alcan. inclusive da lei penal. pág. Finalmente. Salleiles. A proibição de interpretar só faz mascarar a ideologia do aplicador e a "corrupção" da ordem legal. A lei é instrumento e não fim em si mesmo: visa prevalecer a harmonia do justo. Cf. L’individualisation de la peine. um povo comovido. deixando-a ao sabor da vontade popular. faz-se mister torná-la igual. justa. uma vontade entusiasmada. corre esse tipo de risco. ob. ou seja. É por isso que assevera que a "ética do discurso" não abstrai conteúdos. assegura-se conteúdos (eficácia) pela validez (vigência) da norma. pois deve ser o arcabouço da verdade em si mesma. Realmente. ed.. seja pela individualidade de cada um. pág. J. querendo um paradigma procedimental para o Direito. pelo Estado. cit. O momento e a ocasião da feitura da norma são necessariamente diversos do momento e ocasião da sua aplicação. contém. a não interpretação. ed. seja pelo dinamismo da vida social. Uma comoção popular.78 Por outro lado. Afinal. Um grande perigo... Se a questão é "verdade" ou "método". Habermas opta pelo método. o que não é novo na História do pensamento. como ponderou Carlos Maximiliano233. A lei. Aristóteles232 já ensinava que a eqüidade é necessária para corrigir o erro da lei. falta-lhe a experiência do aplicador do Direito. Gilissen. a lacuna da generalidade. O Direito em si é que não pode ser instrumento. e. Sua generalidade compõe seu erro e na prática da sua aplicação. feita não pela inspiração do justo. e para seu cumprimento é que deve ser adaptada a cada instante da sua "realização". 232 233 234 Ob. O período do Nazismo. caímos num relativismo e não temos parâmetros. por exemplo. 33. cit. A intransigência do "Code Napoleón" não durou muito e logo se teve que facilitar a individualização da aplicação da lei. a lei tem uma razão primeira. 1909. Hermenêutica e aplicação do direito. que Habermas cita como um período de "distorção" do Direito. da conduta segundo a verdade. 33. é impossível. um fim último. Habermas acredita que a interpretação hermenêutica só é necessária diante do "entendimento perturbado". .. encarando a hermenêutica como mero "procedimento" que não pode interferir materialmente para não comprometer a vontade popular já formalizada na norma. 2. o clássico estudo de R. privilegiando a sua realização prática como justo. basta dizer que ele mesmo confessou-se inapto para a discussão de caráter jurídico (FG.. em relação às conseqüências hermenêuticas da teoria habermasiana.

35-37. assim como é ideologia uma crítica tal que não permita a busca. 18. pág. SO. interessa (e aqui entra o interesse que guia o conhecimento). kantianamente. que se dá na esfera pública. a realidade em que o Direito se encontra. Há que entender isso. cf. não permite um empirismo tal. se a sua estratégia visa instrumentalizar o poder com a legitimidade. parte ele da crítica à “ação estratégica” para acabar revelando-se também um ‘estrategista”237. quanto a ação estratégica em Habermas. TH. a lei é meio e o Direito é fim. Para Tobias Barreto. que seguia o pensamento alemão do seu tempo bem de perto e portanto a mesma tradição de Habermas. um modo de se assegurar a própria individualidade. seja. Para a solução do problema diagnosticado. Rio: Laemmert. ND. “Aqui talvez seja de se notar que a interpretação de Habermas a respeito da convivência.” Na verdade. Mas isso diagnosticado. sob pena de não termos um parâmetro de verdade e justiça e acabarmos fomentando uma ideologia! Nesse ponto ao menos concordamos com Ricouer: Uma busca da verdade. o estabelecimento de uma prática social. Paulo. Entrevista a Barbara Freitag e Sergio Paulo Rouanet. é a manutenção ou resgate da Igualdade. Ou. publicada na Folha de S. a Igualdade. pois o Justo independe da vontade e é a aplicação de um princípio teórico de Verdade. Se não se afastar disso. como apenas se admite dogmaticamente. em Estudos de direito. 1990. ainda que obediente a um procedimento constitucional. No comunicado sobre SO. Introdução crítica ao direito penal brasileiro. sem crítica da própria busca. Ao contrário do que pretende Habermas. no cumprimento da finalidade da lei como instrumento. 1892. mas é produzido pelo grupamento humano e suas condições concretas de estruturação e reprodução235. Habermas se revela antes um estrategista político do que um filósofo. que é a realização do Direito. não pode ser ignorada. 135 e 231. E acrescentamos: A crítica diagnostica mas não cura. já assinalávamos que Habermas havia dito que. O crescimento do Direito Positivo como forma de controle da vida social evidentemente também é um "uso" do Direito.79 Eis aqui uma semelhança de Habermas com Tobias Barreto. torna-se uma ideologia. ou seja. 36. Tobias era um positivista da primeira geração. a própria ação comunicativa corre o risco de ser também ela mesma uma ação estratégica. Rio: Revan. 236 pág. Esse cotidiano social. que faça das combinações tópicas uma determinante para o conceito de justiça. como queira. no capítulo 1. em nossas palavras. Eqüidade. Cf. pág. mais que a mera busca de solução quando não há lei. 235 Cf. 155. uma questão de conveniência. um “economista”236. Mas. para um pensamento oriundo da Sociologia. como solução. É preciso corrigir a cada instante a generalidade do comando legal. 30 de abril de 1995. entendendo “legitimidade” como discurso formalmente participativo. 237 . o método não basta. Evidentemente. 5-4 a 5-10. Introdução ao estudo do direito. ainda que revestido de uma "Razão Comunicacional". o Direito não é revelado e nem descoberto (abandona os conceitos de Direito Natural Clássico e Moderno). Nilo Batista. convertendo-o topicamente naquilo para o que foi predestinado: instrumento de aplicação da justiça.

80 essa estratégia é inócua. mas para isso não há método eficaz (como o método também tem o seu lugar. E a verdade vem por si só! . Ao contrário. sugere o presente estudo um outro: o do método em direito. assim. um decepcionado. na medida em que não pode determinar a realidade conforme a sua vontade num arremedo de ontologia que é o dogmatismo. só a verdade libertará. uma questão epistemológica!) sem que se lembre do que sabiamente ponderou Gadamer: o homem experiente sabe da fragilidade de todos os planos e é. Ainda aqui ele tem esperança numa “igualdade”.

que interfere na realidade social e a condiciona. a do intérprete. um individualismo: é óbvio que só se fala em acordo de vontades quando se trata de individualidades. para ele. Posteriormente. acabam privilegiando a norma posta como garantia da contemplação do fato. na aplicação do direito. o que significa uma "razão comunicativa"? Significa que tudo se resume à fala. mas quis uma "sociologia reconstrutiva". tratando-se apenas de pontos de vista a respeito da preponderância da norma ou do valor. Habermas parte para um idealismo transformador. historicamente. editado pela Cabral Editora. qual seja.81 CRÍTICA A HABERMAS Diante da discussão travada. um humanismo que coloca a vontade no centro de tudo e é. especialmente a formação da opinião pública. A dicotomia entre vontade da lei ou vontade do legislador é falsa. são totalmente desprezíveis. já com um queda pelo tema da "ação comunicativa". que de um empirismo sociológico. é também a impossibilidade de qualquer compreensão que não seja a mera exegese sistemática do método. Esse distanciamento. e. que privilegiam o fato na fase política. porque se trata. Ora. depreende-se que a questão se insere entre o clássico e o moderno. Mas seria ingenuidade restringirmos a discussão a esses temas. portanto. Grosso modo. de modo que se poderia discutir. começou a elaborar uma teoria que não se contentava com uma "sociologia compreensiva". embora um não exclua o outro. ou seja. de teor marxista. É ele quem vai dizer qual é a "vontade do legislador". mas para Habermas. Não há. Lembre-se que. a verdadeira dicotomia estaria colocada na fase de aplicação. tendo iniciado na famosa "Teoria Crítica" da Escola de Frankfurt. Percebe-se. é realmente a causa da necessidade hermenêutica. em Filosofia do direito em Habermas: a hermenêutica. Começou. diante da discussão travada. afastando-se definitivamente da ortodoxia marxista. conceitos como o de "justiça". 238 Tivemos oportunidade de fazer um estudo minucioso da filosofia de Habermas e da conseqüente filosofia do direito no seu pensamento. portanto. assim. . uma verdade ontologicamente fundada. portanto. as correntes sociológicas. e apegando-se ao sociologismo pragmático do tipo norte-americano. que estuda o fenômeno social. se a sua interpretação é "exegética" ou "hermenêutica" no sentido lato. pois a intimidade essencial não é cogitada para o homem em relação ao outro. mas apenas o que é fruto do consenso feito no seio da sociedade. numa falsa dicotomia entre vontade da lei ou vontade do legislador. ou seja. fazendo a crítica do positivismo idealista. de uma única "vontade". pois é um pensador oriundo da sociologia. ou qual é a "vontade da lei". Portanto. a respeito da norma. Trata-se de um relativismo. Habermas238 percebeu que a característica cientificista do Modernismo estava ligada a suas raízes e conseqüências positivistas. A hermenêutica filosófica tem um adversário de pelo menos duas caras: o moderno e o pós-moderno. na interpretação. entre o direito natural e o direito legal.

na lei!). Pode contemplar um "historicismo". Não é sem razão que Habermas disputa com Gadamer e rejeita logo a ontologia. a sua aplicação deverá se restringir a cumprir a sua vontade. sejam os modernos para a garantia ou eficácia dos direitos naturais declarados (e só é direito o que é declarado pela lei!) e a pós-modernidade de Habermas utiliza a lei como instrumento de eficácia de "direitos" constituídos na lei (e só é direito o que é constituído como fruto do consenso. A partir daí. cada um a sua verdade. é provável que os homens tenham. não passam de ideologia.82 Ou seja. um método exegético como o da própria escola exegética. como teria chamado Hobbes. se não há algo que se possa chamar verdade absoluta. a diferença está na filosofia política. então. jamais se entenderão e irão querer impor os seus "valores" uns aos outros. mas não uma "historicidade". digamos "vigência". é que em nome da sua eficácia. como instrumento. como queriam os modernos. especialmente numa ferina crítica a Heidegger. mas sua teoria do agir comunicativo não passa de uma outra ideologia. faz com que usemos de uma estratégia: o entendimento. 239 Aloysio Ferraz Pereira. Isso significa que Habermas é um democrata: plena liberdade de discussão até a formalização do acordo. Essa "maldade" essencial. que lhe dá forma. Para garantir sua eficácia. porém. por ser a lei fruto do consenso geral. e sim é uma "constituição" de direitos. que dará instrumentos bons para a coercibilidade do acordo firmado e formalizado numa lei. não há opção a ser feita: a hermenêutica possível na teoria do agir comunicativo é uma hermenêutica pobre. Após passar de um sociologismo marxista para um sociologismo individualista. cit. Em síntese. . p. a diferença está em que Habermas não admite uma fundamentalização: o direito não pode ser "declaração" de direitos. O entendimento supõe a discussão ampla e usa. como diz Aloysio. no entanto. Ou seja. Portanto. pois na filosofia do direito. que contempla a tradição e a pré-compreensão. a razão comunicacional. Para ele. Habermas passa também de uma crítica do positivismo para uma dogmatização idealista exacerbada da lei. toda e qualquer ontologia e suas conseqüências como a hermenêutica filosófica. É a dogmatização que garante a certeza. tão cara ao mundo moderno e que. Por isso mesmo. Qual seria a diferença. se há. pois como asseverou Kant. própria das ideologias239. O ponto comum é que ambos utilizam a norma com preponderância.. como se auto-intitula Habermas? Basicamente. não poderá ser distorcida. Entende-se assim que Habermas parte da crítica das ideologias. e aqui nos lembramos de Rousseau e de Savigny. História da filosofia do direito. sua garantia é a dogmatização da lei. por isso. ainda que em nome da garantia da vontade empiricamente encontrada na sociedade. temos que recorrer ao direito. não passa de uma "gratificação ilusória". entre o moderno e o "pós-moderno". não saberemos jamais. 89.

mas que contempla o dinamismo da vida. Não se trata de "justiça". pois Tobias Barreto. Dessa maneira. já defendia essas teses alienadas da realidade. não é novidade. por isso mesmo. o comando dado por este. e que tem a filosofia. o qual. no entanto. A hermenêutica do direito natural. Habermas. Habermas. não tem experiência ou conhecimento algum a respeito do que mais nos interessa de perto: a aplicação de normas gerais em casos particulares. Veremos o que um hermeneuta-aplicador do naipe de Carlos Maximiliano tem a nos dizer.83 É bom que se esclareça que a teoria habermasiana não é propriamente uma filosofia. com efeito. mas é uma teoria sociológica. . que a integração social será feita pelos instrumentos fornecidos pelo direito. na verdade. Essa teoria prevê. nesse assunto leva vantagem. mas nisso tem uma concorrência: a do "pósmodernismo" constitutivo. mas de mera conveniência o que faz com que prepondere. a hermenêutica e o próprio direito como instrumentos confinados. na complicada relação "aplicador-legislador". a ontologia do direito natural aristotélico enfrenta a insuficiência do direito moderno. que não partilha da tese que secunda o imobilismo. não tem um fim em si mesmo. um positivista de primeira geração.

” (FRANZ KAFKA.MAS SEUS SUPERIORES PERMITEM QUE SEJAM PINTADOS ASSIM.84 DÉCIMO PRIMEIRO TEMA “SIM. “O PROCESSO”) . ESSES CAVALHEIROS SÃO TODOS MUITO VAIDOSOS OBSERVOU O PINTOR .

porque partilha da sorte da linguagem. esmeradamente. p. não só da história dos institutos. se é a verdadeira justiça. 240 241 242 243 244 245 246 247 248 Já citada. embora não se deixe arrastar pelo sentimento. 168-173. p. cit. Para ele. mantendo o meio termo entre os interesses individuais e sociais245. o capítulo menos seguro e mais impreciso da ciência do Direito. 10. sobretudo. significa "aplique-se a lei". Da mesma forma que esta. a hermenêutica é. mas se atualiza com Aristóteles. Maximiliano se posta contra o dogmatismo exegético. da solidariedade social"246.. p. ao contrário. p. p. isto é. Ob. ou são idéias preconcebidas que o inclinam neste ou naquele sentido"247. mas também das condições de vida em que as relações jurídicas se formam"244. revelar o sentido apropriado para a vida real. 195 e s. Ob. summa injuria ("do excesso do direito. pesar bem as razões pró e contra. cuja obra máxima. "O juiz. cit.. 101. pois justiça. alertando para as qualidades do bom hermeneuta: "Para ser hermeneuta completo. sobre a “ciência do direito”. Ob. "Hermenêutica e aplicação do direito"240. é um marco. mas. Idem. pois não se conhece os seus preceitos241. 105. Entretanto. ainda que o mundo pereça”). hoje vitoriosa. um auxiliar da idéia. Dessa maneira. é. cit. 11. é mister entesourar . Ob. cit. Ob. é muito mal usada. e conducente a uma decisão reta”243. adapta o texto à vida real e faz do Direito o que ele deverá ser. cf. pereat mundus (“faça-se justiça. o aplicador do direito não agirá segundo o brocardo fiat justitia. p. Idem. e verificar. resulta a suprema injustiça")248.. da lei.85 A CRÍTICA DE CARLOS MAXIMILIANO Ao estudar a breve "história da hermenêutica jurídica" no Brasil. entenderá que summum jus. "Deve o intérprete‚ acima de tudo. uma condição da coexistência humana. talvez. pudemos contemplar alguma coisa a respeito de Carlos Maximiliano. desconfiar de si.. cit. cit. Ob."profundo conhecimento de todo o organismo do Direito e cognição sólida. abstratamente falando. trata-se a hermenêutica de uma verdadeira arte242.. 100. "Precisa o exegeta possuir um intelecto respeitoso da lei.citando Roberto de Ruggiero . porém ao mesmo tempo inclinado a quebrar-lhe a rigidez lógica". ao entender que a aplicação da lei é sua correção. . sendo que interpretar "não é simplesmente 'tornar claro' o respectivo dizer. p. aqui.

172. nem o excessivo desprezo. Tornar uma decisão judicial. Deste modo ele desempenha. maldoso. obtêm esplêndido êxito de livraria"251. o que não significa. A eqüidade é o Direito benigno. porque o atual processo 249 250 251 252 253 254 Ob. Maximiliano. em verdade o melhora. e faz ressaltarem belezas imprevistas. Na verdade. na citação que faz de Miraglia250. p. Assim o juiz: introduz pequenas e oportunas graduações. matizes vários no texto expresso. preferem... Para Maximiliano. mais uma vez: nem o excessivo apego à lei. causídicos e magistrados. cit. Basta a consulta rápida a um índice alfabético para ficar um caso liquidado. 102. cit. Por isso. Ob. p. pois "ninguém ousará dizer que a música escrita. o direito romano deve a sua longevidade às relações intencionalmente mantidas com a eqüidade249. dispensem o talento e o preparo do intérprete‚. sob a aparência de o observar à risca. do que muitos se vangloriam. às exposições sistemáticas de doutrina jurídica os repositórios de jurisprudência. o Direito duro.. e. aproxima do ideal do verdadeiro Direito. embora úteis no auxílio da exegese de textos legais. Ob. ainda que de tribunal superior. cit.86 Segundo bem observa Maximiliano. 182. a justiça natural. adapta às circunstâncias do fato concreto. Ob. inclinada à benevolência)". casos particulares que dificilmente se assemelharão a outros e. simples compilações. apenas a lei é‚ genérica. Maximiliano acerta em um ponto nevrálgico da má aplicação do direito: a preguiça e a vaidade aliadas à busca de sucesso. "pequena diferença de fato induz grande diversidade de direito"252. a razão humana (isto é. Este não se afasta da letra. é realista quanto à qualidade dos magistrados: "Homens de tanto valor se não encontram comumente nos pretórios. ou o drama impresso. se manuseados criteriosamente. moderado. p. Por isso. porém. outrossim. a mais alta cruz. Diz ele que "em virtude da lei do menor esforço e também para assegurarem os advogados o êxito e os juizes inferiores a manutenção das suas sentenças. com as razões na aparência documentadas cientificamente. à maravilha. p. isoladamente não têm valor algum. uma atitude de beatificação do dogma. cit. porém. cit. Ob. como é a "jurisprudência sentimental" do bom juiz Magnaud"253.. pois "fora da eqüidade há somente o rigor do Direito. o seu papel de intermediário inteligente entre a lei e a vida"254. assevera Maximiliano. a fórmula estreitíssima. o respeito à lei contra "invenções" e atitudes "revolucionárias" contra-legem.. pois os arestos. cit. 103 e 83. referência para decisões futuras. os repertórios de decisões em resumo.. E isso porque versa sempre sobre fatos. o processo é "erradíssimo". 181. p. na citação de Berriat Saint-Prix. parece realmente um grave equivoco. Ob. 173. Defende. excessivo. . porém dá ao seu trabalho cunho pessoal. p.

132 Ob. mostrando258 o caminho do estudo sério da técnica jurídica. como até os alemães o reconhecem: Conquista os grandes advogados para membros de tribunal de segunda instância. lembra muito bem o renomado autor. cit. poderemos dizer. mas o problema é duradouro. diz que a Universidade.. tem que enfrentar a questão da Ob. que nos tornamos justos! 255 O autor fala. Zaffaroni.. ao lado das demais agências. No Brasil. na página 153 . num círculo vicioso. como lei positiva. 154. o que impede a pesquisa séria e que. de studium. evidentemente. antes de tudo. segundo se depreende da leitura. ao menos.. Nesse prisma. p. educere. se presta como chave do sistema penal. recém-formados‚ se oferecem. o melhor sistema de seleção é o inglês. cit. na citação de Ehrlich. p. p. ao se desligarem da carreira. cit. 256 257 258 Ob. "quanto mais o Governo economiza com a magistratura. ao passo que esses novatos. p.. 261 . conduzir para fora. igualdade. ao caracterizar-se pela superficialidade no ensino do direito. com a redução da bibliografia e o descuido salarial dos professores. é uma tecnologia. de um lado. pois o direito. já empobrece a magistratura de um modo geral. Quem atua na Justiça Criminal e também na Universidade. assim. aquele que se dedica. ser juiz ou catedrático na América latina significa corresponder o privilégio ao dever para com os demais260. e Estudante significa. por si só. o que melhor se pode fazer no âmbito acadêmico da formação de novos juristas. que afirmou "nasci justo"261. 102 Educar significa etimologicamente educare. Os mais experientes não se resignam diante das parcas condições de trabalho e de salário. de outro. Entretanto. e o exercício da justiça. Para ele. mais despende o povo com advogados"256. pois como auto-realização do homem em sociedade é. Se não pudermos dizer como Maximiliano. irão emprestar sua experiência à função de advogados. faz deslocar verbas para o setor de segurança pública 259. numa colocação muito interessante. ensinando. ao início destas reflexões: o estudo do direito. 374 e 376. onde o responsável pela escola de magistrados paulista ainda reclama dessa mesma situação..87 de seleção ‚ antiquado e deficiente. 16. os quais já estão suficientemente familiarizados com a difícil tarefa da aplicação do direito257. 259 260 deslegitimação do Direito Penal. ao contrário. como candidatos em concurso público. cit. Ignora-se que.. ”Em busca das penas perdidas. recorda ele. do jornal denominado Tribuna do direito. de agosto de 1993. aliás. cit.. e os vencimentos não atraem as capacidades excepcionais"255. da sua época. p. é o trabalho esclarecedor da prática hermenêutica. p. Ob. após aprenderem à custa da sociedade. ou melhor. já referida antes. Voltamos.”. a policial e a judicial. o que. 76.

(Cecília Meireles... como os artistas... de tantos olhos faraônicos. Porque avistam mais longe. Mas os homens gostam da ilusão. que vamos fazer de tantos quilos de miçanga. sombrinhas. quase sempre melancólicos..? .. de tantas plumas. Mas agora que o carnaval passou. E já vão preparar o próximo carnaval.. de tantas coroas superpostas.. porque conhecem o futuro. leques.88 ÚLTIMA CITAÇÃO Oh! Os sábios são. .. “Ilusões do mundo”) .. porque antes que as coisas aconteçam já estão padecendo com suas conseqüências.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful