A Arte do Violão

Textos do Programa A Arte do Violão Idealização e Apresentação : Fabio Zanon Difusão : Radio Cultura FM de São Paulo (103,3 MHz) Programas apresentados no Ano de 2004 Textos do programa disponibilizados por Fabio Zanon no Fórum “ Violão Erudito ” endereço eletrônico : www.forumnow.com.br/vip/foruns.asp?forum=26122 em Dez/2004 Editoração: Fábio Monteiro / Afonso Monteiro / Ricardo Marui

27 Pág. XXI Pág. Paul Galbraith. 45 Pág. 83 PROGRAMA XXIII – David Russell. 5 Pág. 23 Pág. 61 Pág. 89 Pág. 9 Pág. 93 Pág. 41 Pág. 97 . 79 Pág. 65 Pág. 69 Pág. 85 PROGRAMA XXIV – Duo Assad e Marcelo Kayath PROGRAMA XXV .Julian Bream – 1979-1995 PROGRAMA XI – A geração dos anos 20 PROGRAMA XII – John Williams I PROGRAMA XIII – John Williams II PROGRAMA XIV – Leo Brouwer PROGRAMA XV – Konrad Ragossnig. 17 Pág. 53 Pág. 4 Índice PROGRAMA I – O legado de Tarrega: PROGRAMA II – Agustin Barrios: o Paganini das selvas do Paraguai PROGRAMA III – ANDRÉS SEGOVIA: gravações 1927-1939 PROGRAMA IV – ANDRÉS SEGOVIA: gravações 1947-1955 PROGRAMA V – Andrés Segovia: gravações 1957-1977 PROGRAMA VI – Os contemporâneos de Segovia PROGRAMA VII – Duo Presti-Lagoya PROGRAMA VIII – Julian Bream I PROGRAMA IX – Julian Bream II PROGRAMA X . 35 Pág. 19 Pág. 49 Pág.O Violão no Brasil PROGRAMA XXVI – O Violão no séc.A Arte do Violão pág. 57 Pág. Oscar Ghiglia PROGRAMA XVI – Turíbio Santos e Carlos Barbosa-Lima PROGRAMA XVII – Sérgio e Eduardo Abreu PROGRAMA XVIII – Kazuhito Yamashita PROGRAMA XIX – Los Romeros PROGRAMA XX – A escola rio-platense dos anos 70 PROGRAMA XXI – Manuel Barrueco e David Starobin PROGRAMA XXII – Eliot Fisk e Sharon Isbin Pág. 31 Pág. Raphaella Smits Pág. 73 Pág. 37 Pág. 13 Pág. 75 Pág.

O instrumento progressivamente se confinou às manifestações musicais domésticas. Por quê? Quem sabe as cordas do arco de Apolo. deus da música e também da arte do arco e flecha. Berlioz e Weber tocaram e publicaram música para violão. como Fernando Sor e Mauro Giuliani. de onde também se derivam as palavras portuguesas viola e violão [exemplo] e a das guitarras. sob vários disfarces. antes de partir para uma perigosa missão espacial. originariamente a menos aristocrática. [Sor Minueto op. Uma segunda geração se aproveitou da expansão estética do Romantismo e criou um magnífico repertório. folclóricas e como acompanhamento para a dança. estendidas sobre uma caixa de ressonância na forma de um corpo de mulher. e caiu nas mãos da classe trabalhadora. para esse declínio. a história do violão é a história da humanidade. Estas grandes famílias atingiram um apogeu de popularidade no Renascimento e Barroco e produziram um repertório imenso. em forma de oito. as mutações organológicas haviam transformado o instrumento de 4 cordas duplas em um instrumento solista de seis cordas simples. egípcios e assírios. Coste e Regondi dotaram o violão com um grande número de obras características e evocativas. a popularidade deste formato produziu um levante de grandes virtuoses e compositores que constituem a primeira Época de Ouro do violão. Compositores como Mertz. passou por grandes transformações e atingiu seu apogeu no final do séc XVIII enquanto as outras duas gradualmente declinaram até tornarem-se obsoletas. grosso modo. dono de integridade e capacidade musical superiores: Francisco Tárrega. é o instrumento mais tocado no mundo. um formato suficientemente estável para se espalhar por toda a Europa. O resgate espetacular e seu estabelecimento como moderno instrumento de concerto se inicia no final do séc XIX. apesar de amar o instrumento. mas a família das guitarras. para onde convergiram os maiores virtuoses espanhóis e italianos. apesar de termos imagens de instrumentos similares ao violão já entre os hititas. a das vihuelas. é o primeiro violonista documentado. mas que podem. Paganini. um nome derivado das palavras persas char (4) e tar (corda). se morresse. não seja um símbolo da perfeita realização física? A verdade é que o astronauta Scott Carpenter. Londres e Paris. simultaneamente na Itália e Alemanha. disse que. especialmente em Viena. também em forma de oito. mas também presenciaram seu declínio como instrumento de concerto. o grande caçador. diz em seu tratado de orquestração que é necessário que o compositor seja capaz de tocá-lo para escrever música de maiores conseqüências. Apolo.A Arte do Violão pág 5 PROGRAMA I – O LEGADO DE TARREGA : Diz a lenda que Hermes inventou o primeiro instrumento de cordas dedilhadas esticando tripas de boi na carapaça vazia de uma tartaruga – e Apolo. os maiores compositores do período não escreveram para o violão. através de um artista com uma missão. Em meados do séc XVI havia uma profusão de instrumentos de cordas dedilhadas em toda a Europa. Ainda hoje o preconceito de classe se verifica nos círculos dominantes da música clássica. Ao redor de 1800. Berlioz. Mertz Brigitte Zaczek Várias foram as causas. que vinham em todas as formas. O instrumento não possuía volume para enfrentar o inchaço das salas de concerto e as demandas da música de câmara. A popularidade era imensa em várias capitais européias. teria duas coisas a lamentar: não haver criado seus filhos e não ter aprendido a tocar violão direito. De Apolo aos astronautas. Prelúdio Stefano Grondona . em forma de pêra. Ao redor de 1780. Parece ser uma idéia tão antiga quanto a própria civilização – e. em decorrência. onde o violão muitas vezes não é aceito sem reservas. um nome originário da palavra latina fidicula. ser divididos em três famílias principais: a dos alaúdes. artísticas e sociológicas. trocou seu gado roubado pelo novo instrumento. dos ciganos e mandriões de todas as colorações. e não é por acaso que Schubert. cujo nome se origina no al´ud persa [exemplo]. encantado com seu som. afinações e quantidade de cordas imagináveis. hoje.11] 2´00 José Miguel Moreno É um período concomitante ao bel-canto na ópera e à primeira onda de virtuoses do violino e do piano.

leve e frágil do romantismo aumentou de tamanho. A modernização do violão se efetuou através da colaboração de Tarrega e de seu antecessor Arcas com o grande luthier Antonio Torres. e é o mais destacado. renovação do repertório e reformulação da técnica e sua aplicação musical. liberando assim a mão direita para um uso mais inventivo. Essas características foram parte integral do novo estilo interpretativo de Tarrega e admiradas e documentadas por seus devotos. Os violonistas do séc XIX tendiam a empregar as posições abertas e as cordas soltas. mas refletem ao mesmo tempo as qualidades e limitações de seus autores. Seu talento excepcional foi desde cedo alimentado por um ambiente familiar de inclinação artística – seu pai era um artesão especializado em figuras religiosas. que não eram nada além de uma coletânea requentada de exercícios. [El Mestre] Outra significativa inovação de Tarrega é a adoção de um estilo de digitação mais expressivo. ressaltando assim os movimentos caprichosos do fraseado musical e as riquezas harmônicas através da sonoridade [exemplificar]. Estas inovações podem ser detectadas nas centenas de transcrições e composições originais que Tarrega deixou ao morrer em 1909. Haydn e Mozart. sem cesuras. com uma foto do mestre impressa na capa. e Llobet manteve sua habilidade como desenhista por toda a vida. Estudou com Tarrega . o qual até o momento não está disponível. Aparentemente há um fragmento de Tarrega tocando uma de suas composições num cilindro de cera. a escala foi levantada e a estrutura foi reforçada com um leque radial por baixo do tampo. O colorido e o relevo das passagens melódicas pode ser explorado de forma ainda mais detalhada e rica com a mudança de angulação dos dedos em relação às cordas. Dois temperamentos artísticos sobremaneira diferentes. um conceito um pouco difuso e contraditório de uma nova metodologia de ensino. [violão Torres] A via escolhida por Tarrega para aumentar a respeitabilidade do instrumento foi a da transcrição. que chegou a dizer que preferia as transcrições de Tarrega a alguns de seus originais para piano. uma revolução técnica se fazia necessária. O uso constante de glissandos [exemplificar] torna o fraseado mais fluido e tátil e permite a manutenção de longas linhas melódicas eloqüentes. com mais volume. passeando ao longo das cordas e obtendo um colorido mais aveludado ao tocar próximo à escala [exemplifica]. Mas dois de seus alunos deixaram um número significativo de gravações. colorido e empolgante. deixaram uma marca e abriram uma trilha possível para o violão clássico nas décadas subseqüentes. Décadas depois de sua morte. similar ao violino. maior caráter e riqueza de timbres e uma projeção frontal. e temos de nos contentar com os métodos deixados por seus discípulos e. viajaram por todo o mundo empregando sua nova concepção de violonismo e pregaram com fé evangélica a nova “Escola de Tárrega”. Tarrega não deixou nenhum método escrito de sua própria lavra. levantada com o auxílio de um banquinho. e nas obras de seus sucessores. levaram-no a selecionar e adaptar ao novo instrumento o que de melhor havia sido feito por seus antecessores. cada um a seu modo. mais tarde. aos 54 anos. mas que. Sua mente analítica. O catalão Miguel Llobet. que ouviremos numa majestosa demonstração do renovado potencial colorístico do violão. Miguel Llobet. cristalina e direcionada. ainda se publicavam métodos de violão intitulados “A Escola de Tarrega”. Numa época menos purista.A Arte do Violão pág. Tarrega desenvolveu a digitação ao longo das cordas. Para fazer jus a este novo repertório. é às vezes chamado de “violonista do Impressionismo”. honesto e afirmativo sobre a boca do instrumento [exemplifica] ou mais metálico e pontiagudo ao se posicionar próximo ao cavalete (a ponte onde as cordas estão amarradas) [exemplifica]. [Testament d´Amelia] Talvez seu talento maior tenha sido mesmo o de professor: vários de seus alunos tornaram-se concertistas de mérito. O resultado foi um instrumento de concerto pleno. que disciplinava a distribuição das ondas sonoras. mas também de românticos como Schumann. ele quis mostrar que o instrumento podia dar conta de um argumento musical mais consistente. Miguel Llobet e Emílio Pujol foram os dois alunos mais célebres de Tarrega. Chopin e Mendelssohn e de seus contemporâneos espanhóis como Albéniz. o comprimento das cordas aumentou para um padrão de 65 centímetros. O instrumento adequado para um novo conceito estético de interpretação. que se apropriavam indevidamente do legado e da reputação de Tarrega. pelos alunos destes. foi ele quem definitivamente aboliu o uso do dedo mindinho apoiado sobre o tampo do violão. mas não ficaram registradas para a posteridade através de gravações. e uma boa parte dos fundamentos hoje empregados pela maioria dos violonistas foram sistematizados por Tarrega: foi ele quem defendeu o uso do violão sobre a perna esquerda. buscando um brilho e amplitude que faltava a seus instrumentos. Tarrega efetuou a transição para o violão moderno em três frontes de atuação: modernização do instrumento. explorando uma sonoridade mais diáfana. transcrevendo genialmente obras de Bach. 6 Nascido em 1854 na Espanha. sua ampla formação musical e um afã incontrolável pela excelência. calorosa e cantabile das posições altas. “enriquecidos” por princípios técnicos de origem e eficácia duvidosa. O instrumento feminino.

ideal para o destaque de linhas melódicas expressivas e de picos melódicos ou eventos harmônicos. serve-se da parte mais sensível do corpo. Casals ao violoncelo – um período que associamos erroneamente a uma liberdade indisciplinada do discurso musical. Essa pode ser uma definição adequada para a abordagem de artistas menores. onde a hierarquia entre [exemplificar ao violão] a linha melódica. a matéria-prima da música. Llobet. E suas qualidades como intérprete? Llobet é um contemporâneo exato do que chamamos de época de ouro da interpretação romântica – Caruso no canto lírico. há poucos violonistas capazes de alcançar a facilidade de Llobet nesta pequena dor de cabeça musical. Chegou a morar na Argentina por alguns anos. Estas gravações foram feitas entre 1926 e 1929. Ricardo Viñes e Gaspar Cassado. O aspecto mais importante de qualquer abordagem técnica é a qualidade do som. o fundamento dos baixos e o acompanhamento é projetada de maneira mais nítida. um som puro. em resumo. A figura de Llobet ilustra à perfeição o paradoxo da “Escola de Tarrega”. pelo toque sem unhas. a certo ponto de sua carreira. que teria um som pungente e cônico. ou seja. [Estilo]. O inimitável virtuosismo de Llobet na gravação do estudo no 23 de Coste não seria possível sem o emprego das unhas. [La Filla Del Marxant] Nos anos seguintes. mas não se pode chamar de indisciplinada a arte dos músicos mais brilhantes. [Leonesa] Tarrega se digladiou à exaustão com os limites impostos pelo toque sem unhas. tampouco a de Llobet. e teve se debut em Málaga em 1900. mas sim um momento onde ele se encontra com o universo . assim. Algumas delas foram lançadas pela primeira vez pela Odeon brasileira. de acordo com Pujol. onde realizou algumas de suas gravações. mas ao mesmo tempo. Llobet se estabeleu como um membro da elite musical em Paris. ao contrário da unha. Esta sensibilidade assoberbada teoricamente levaria à produção de um som mais redondo. A julgar pela qualidade dessas gravações. produzindo. O toque com os dedos proporciona uma natural uniformidade e fusão das notas. que exige maior grau de esforço físico por parte da mão esquerda. em favor de uma expressão individual transbordante.A Arte do Violão pág 7 por vários anos e freqüentou o Conservatório de Barcelona onde teve colegas do quilate de Pablo Casals. submissa aos caprichos momentâneos do intérprete. seu aluno mais destacado. o que leva a uma perda considerável de agilidade. compositores que freqüentavam seus concertos e influenciaram seu estilo como compositor. (Falar sobre cilindros de cera). a resistência também é maior. Llobet não foi o primeiro violonista a gravar – este mérito provavelmente tem de ser atribuído ao paraguaio Agustín Barrios. Tarrega orquestrou toda sua técnica em torno uma concepção platônica de som: por considerar as unhas matéria morta. tema do nosso 2o programa. como era a arte de Tarrega. pelo ponto de contato com as cordas ser mais amplo e débil. ele optou. [Coste] Até agora nos concentramos em aspectos da técnica violonística de Llobet. Do ponto de vista puramente ginástico. Fauré e Ravel. [Plany] Outra grande inovação de Tarrega é o uso sistemático do toque apoiado. mais explosivo e saliente. o dedo fere a corda num ângulo mais fechado e repousa sobre a corda seguinte em seguida. e teve contato direto com Debussy. simétrica. Essa robustez sonora é uma das maiores estratégias na imposição do violão como instrumento de concerto. Teoricamente. pois sua projeção e nitidez são excepcionais. Cortot ao piano. Com o auxílio do grande pianista Ricardo Viñes. a ponta dos dedos. [Menuetto de Sor] Não é exatamente uma versão clássica. o que permite ao violonista modular a forma de ferir as cordas. suave e aparentado ao órgão. produzindo assim um efeito robusto. Llobet provavelmente usava as unhas bastante curtas. o qual. mas estas foram provavelmente as primeiras gravações de violão feitas com a nova tecnologia do microfone. uma variedade de colorido e de saliência musical. Llobet tocou por toda a Europa e pela América do Norte e do Sul. tocava com unhas. Kreisler ao violino.

É impressionante a variedade e consistência de timbre que Pujol consegue com esta técnica. Sanz. 3 pavanas] Nessas obras notamos uma sobriedade e elegância que contrasta ao estilo arrebatado de Llobet. Emilio Pujol. Foi um compositor prolífico e deixou centenas de obras de excelente qualidade. Nascido em 1886. [Bach Sarabande] Em contraste à eloqüência e virtuosismo de Llobet. É interessante a estratégia de desvio rítmico. alaúde e guitarra barroca. e “O Dilema da Sonoridade do violão”. um calhamaço que é a maior referência para o estudo desses primórdios do violão moderno. uma versão anacrônica para os ouvidos modernos. preferiu o caminho mais discreto. e hoje constituem algumas das pedras fundamentais do repertório do instrumento. 35 no 22 de Sor. Um belo exemplo é o duo com sua esposa Matilde Cuervas. e talvez uma lástima que nenhum outro violonista digno de nota tenha se enveredado por este caminho. talvez o único caso de um violonista de alta categoria a empregar esta técnica. como um seguidor ortodoxo dos princípios de Tarrega. [La Vida Breve] . O resultado dessas décadas de pesquisa foi sendo publicado pela casa Max Eschig em Paris a partir de 1925. ao menos em gravação. produziu três clássicos para a literatura do instrumento: a Escuela Razonada de la Guitarra.A Arte do Violão pág. [Milan. uma biografia de Tarrega. Le Roy e outros mestres do passado foram adotadas por concertistas e amadores. Este foi o maior presente que Pujol deu à história do violão: em pouco tempo as obras de Milan. 8 espiritual de Sor no seu lirismo sóbrio. e. mas em 1900 iniciou seus estudos com Tarrega e rapidamente se projetou como solista de violão. repleta de deslizamentos entre os acordes. Mudarra. intrigado pelo instrumento. Pujol começou sua carreira tocando música folclórica. e constitui um dos primeiros exemplos do processo de reconstituição histórica hoje corrente. como escritor. para que se evite um efeito chato e repetitivo. onde as notas da melodia são agogicamente alongadas. ele toca SEM unhas. consegue domar seu impulso e terminar a obra com calma e dignidade. mas. iniciou um labor descomunal de pesquisa do repertório de instrumentos como a vihuela. Mas uma das características mais importantes de Pujol é que. Pujol descobriu em um museu em Paris uma antiga vihuela. [Sor estudo] Ele também gravou uma Sarabande de Bach. onde percebemos que ele quase se deixa arrebatar irremediavelmente e perder completamente o pulso da música no seu clímax. uma apaixonada defesa do princípio do toque sem unhas e uma das primeiras tentativas de uma abordagem científica da capciosa questão da produção sonora. Em 1924. Pujol foi um grande professor (conservatório de Lisboa) e. ainda adotado em muitos conservatórios. num momento de contenção. na intensa interpretação do estudo op. mas igualmente importante da musicologia e pesquisa histórica. o outro grande aluno de Tarrega.

e talvez com Miguel Llobet. Abraçado a ela passei muitas luas à borda de uma fonte. à força de um talento excepcional e de uma genuína ilusão artística. na Argentina. embarcou numa carreira musical e. Sentindo a tristeza de minha alma índia.A Silva: San Lorenzo (marcha) 3. em 1916 encontramos Barrios no Brasil. da música e de seu país. Barrios foi um dos oito filhos de uma família de pendores artísticos. aprisionando nela todos os pássaros canoros da floresta E a alma resignada dos vegetais. Barrios – disco 2 – faixa 3 Jota 5. onde a herança cultural havia voltado à estaca zero e onde a prática da música culta era praticamente inexistente. aos 25 anos. vamos escutá-la apesar da baixa qualidade de reprodução. e chegou a conhecer João Pernambuco e dizer que ninguém improvisava como ele. o Espírito Supremo e protetor de minha raça.A Arte do Violão pág 9 PROGRAMA II – AGUSTIN BARRIOS: O PAGANINI DAS SELVAS DO PARAGUAI PROFISSÃO DE FÉ Tupã. é difícil imaginar as dificuldades que se impuseram para Barrios apresentar um concerto desta natureza. tocando um instrumento de reputação duvidosa. sua obra favorita para encerramento dos concertos é a Jota Aragonesa. Aos 13 anos. E. associado à malandragem. que estavam no auge de popularidade na década de 1910. Agustín já era reconhecido como um prodígio e ganhou uma bolsa para o colégio Nacional em Assunção. e ao qual não se atribuía a capacidade de sustentar um argumento musical. Um paraguaio descendente de índios. realizou suas primeiras gravações.55 Gravação de 1928. Começou a estudar música muito cedo e seu primeiro professor foi Gustavo Sosa Escalada. E o milagre se operou: do fundo da caixa misteriosa. Deu-me seis raios de prata para com eles descobrir seus arcanos segredos. obedecendo a ordem de Tupã.06 Gravação sem data. E me disse: Toma esta caixa misteriosa e descobre seus segredos. Sendo uma obra que nos dá um retrato bastante fiel da eletrizante experiência de um recital de Barrios. Encontrou-me um dia no meio de um bosque florescido. Tarrega e Aguado. Sabe-se que Barrios conheceu Villa-Lobos e se encontrou com os chorões cariocas.] Nesse período. Ao terminar seus estudos. Barrios deve ter conhecido e talvez até estudado com Gimenez Manjón. Nascido em 1885 num Paraguai destroçado por uma guerra desigual e sangrenta. Jaci. retratada no líquido cristal. Barrios – disco 3 – faixa 8 C. [comentar a gravação: dificuldades da gravação em cilindro de cera. Da mesma forma que o broto de uma planta remove de sobre si a pedra para que possa vir à luz e florescer. uma noite. Agustín Barrios é um milagre da natureza que soube enfrentar todos os obstáculos e deixar uma marca perene na história do violão. em 1910. onde há um repertório e um público formados. etc. ele conseguiu. Brotou a sinfonia maravilhosa De todas as vozes virgens da natureza da América AGUSTÍN BARRIOS Barrios – disco 1 – faixa 12 Pericón 3. onde permaneceu por seis anos e gozou de sucesso sem precedentes. caráter marcial. abandonou-a em minhas mãos. Após breves períodos em Buenos Aires e Montevidéu. que o instruiu nos clássicos Sor. .35 Hoje. E. Tomei-a. numa época em que os recitais de violão podem ser encarados como uma parte integral da vida de concertos. provavelmente realizada antes de 1913. o célebre violonista espanhol cego. tornar-se um dos compositores mais significativos da história do instrumento e um violonista de recursos extraordinários. Colocando-a bem junto ao coração.

durante o qual Barrios compôs grande parte de suas melhores obras. apresentando-se e divulgando fotos publicitárias onde vemos um figurino indígena completo. e preenche uma desconfortável lacuna no repertório de sua época. Uma dessas cidades. Espanha e Alemanha e. compondo música em todos os estilos. Ele visitou todos os 21 estados brasileiros. com uma igreja e um pequeno colégio onde o recital se realizou. à qual somente se podia chegar depois de uma viagem de avião e de algumas horas por barco ou estrada de terra. Barrios – disco 1 – faixa 5 Danza paraguaia 3. minuetos. A esta categoria pertence uma de suas obras mais conhecidas.32 . mas várias cidades do interior.13 Gravação de 1928 [comentar. com exemplos]. Uma de suas melhores gravações nessa veia é a de Barrios – disco 3 – faixa 15 Caazapá – aire popular paraguaio 2. Às vésperas da 2a Guerra. 10 Depois de um retorno decepcionante ao Paraguai. Marcelo pensou que deveria ser o primeiro violonista clássico a se apresentar no local. o homem transfigurado se ressente do contraste com o burburinho prosaico. Foi um período que marcou época na história do violão. e compositores mais sérios só começaram a escrever música em meados dos anos 20. Marcelo esteve no estado do Pará para uma série de concertos promovidos pela secretaria estadual de cultura. onde um organista estava estudando um coral de Bach. assumindo suas raízes indígenas e anunciando seus concertos como “O Paganini das selvas paraguaias. embriagado de sua arte e em comunhão com seu público é um retrato bem preciso do rumo que Barrios escolheu para sua vida neste período maduro de sua arte. que sugere a intensidade de uma experiência pessoal. Llobet ou o jovem Segovia elaboravam um pot-pourri de transcrições românticas. cenário de seus maiores êxitos. visitou brevemente a Bélgica. como o Pericón e a Danza Paraguaia que já ouvimos. a agitação e a futilidade da vida terrena quando volta à rua. A partir de 1930. pois ele tinha escutado o grande Agustín Barrios tocar no mesmo local ainda nos anos 30. A segunda é a categoria de pastiches de música antiga. ou das danças espanholas como a Jota que ouvimos no início do programa. onde ensinou no conservatório superior e onde faleceu. Após esta epifania. de quase uma centena de peças curtas. Nos anos 80.A Arte do Violão pág. Barrios solucionou o problema da maneira mais prática. O acesso a obras novas ainda era limitado. um par de ruas sem pavimentação. Barrios decidiu-se por uma completa maquiagem publicitária.58 Na verdade. gavotas e árias onde ele “imita” o estilo de compositores como Bach ou Mozart. de obras de sua própria autoria e de peças curtas dos compositores-violonistas do séc XIX como Sor. em 4 categorias: a primeira é a das obras inspiradas no folclore e nas danças locais. certa vez em Montevidéu. algumas das quais de acesso difícil. de tanga e cocar! Com o novo formato. Barrios decidiu retornar ao Brasil.05 Gravação Odeon de 1928. La Catedral. foi visitar a Catedral de San José. Ao final do concerto. Aquela música solene transportou o compositor a uma dimensão de íntima espiritualidade. Barrios se fixou em El Salvador. um arranjo admirável de uma canção folclórica. a arte da transcrição ainda estava em seus primórdios e artistas como Tarrega. A dualidade entre o religioso e o profano é representada pelas duas partes contrastantes. Barrios. qual seria o repertório de que Barrios dispunha? O violão ainda não havia incorporado o repertório do alaúde. tocando em toda e qualquer cidade de qualquer tamanho e sem conhecimento prévio do nível de cultura musical que haveria de encontrar. ao voltar à Costa Rica. Prelúdio e Allegro Solenne Barrios – disco 1 – faixa 16 La Catedral 4. em 1944. cacique Nitsuga Mangoré”. Este era um artista que literalmente ia aonde o povo estava. Barrios – disco1 – faixa 18 Valsa no 4 3. Coste ou Aguado. Em condições tão romanticamente precárias. Há uma estória deliciosa que me foi contada pelo grande violonista Marcelo Kayath. Barrios levou seu espetáculo a praticamente todos os países da América Latina. um senhor já bastante idoso lhe disse que esse não era o caso. sofreu um infarto que encerrou qualquer sonho de conquistar os EUA. Podemos compartimentalizar a produção de Barrios como compositor. A vida romântica de artista boêmio. era na verdade era um povoado. que incluíam não só Belém. e aqui residiu até 1932. Sem saúde para continuar com a vida boêmia.

na tradição do intelectual de feira popular que ainda é tão presente na América Latina e cujas reverberações ainda podemos presenciar na arte de um Antônio Nóbrega. até que o violonista australiano John Williams gravou. o Barrios que falava várias línguas. peso do braço na linha de baixos. Barrios era somente um nome obscuro para especialistas. muitas delas só existem em gravação. outras rápida e nervosa. ele também sabia ser artista sério. A famoso minueto de Beethoven. entretanto. o homem profunda e ingenuamente religioso.49 .John Williams – Faixa 12 Barrios: Maxixa 2.44 Barrios – disco 1 – faixa 8 Maxixe 2. que recitava de memória trechos de Don Quijote e das Mil e uma Noites. o Barrios autor de vários poemas. ativamente impediu sua carreira na Europa e dizia que Barrios era “um compositor fraco”. algumas vezes mais lenta e melancólica. Mas os arranjos de clássicos de bolso e de temas populares foram a segredo de seu sucesso. e ouvindo Contemplación logo percebemos por quê. outras têm de ser buscadas em coleções particulares. temperados com um sentimento puro e idealista. um LP totalmente dedicado a Barrios. Uma de suas especialidades era o efeito de tremolo [descrever e exemplificar].disco 1 – faixa 13 Confesión – romanza 3. É o Barrios boêmio e arrojado. mas cuidadosamente evitou falar do colega e rival. um estrondoso sucesso. A seção central é pura magia e leveza. Barrios . o Barrios que desenhava com perfeição os retratos das jovens mais belas. onde a figura recorrente é pronunciada com uma inflexão diferente a cada repetição. talvez onde encontramos o genuíno Barrios. Foi o primeiro violonista da história a tocar uma suíte para alaúde de Bach completa e.A Arte do Violão pág 11 A terceira categoria é a das peças características de inspiração romântica. ora intricados e extenuantes. ora poéticos e evocativos. com exemplos] A quarta categoria é a de obras de caráter técnico/didático. distribuídas a amigos e escritas em mesas de bar. um misto de exercício e peça característica. Latin American guitar music . outras com temas religiosos. com textos incongruentes. o Barrios mestre da caligrafia.06 Energia e eloqüência. uma tarefa difícil pois o estilo de vida de Barrios fez com que tivesse várias cópias de suas obras. Nosso conhecimento sobre Barrios está somente começando. Embora muitas vezes as gravações demonstrem uma expressão descontrolada e excessivamente açucarada para ouvidos modernos. realmente uma interpretação vinda do fundo do coração.32 Barrios não fez escola. históricos ou evocativos. Na Europa e EUA.29 Apesar da imagem de saltimbanco que temos de Barrios. outras mais pausada e digna. sua importância como o elo perdido do violão romântico foi re-avaliada e sua música começou a ser publicada. Albéniz e Granados a seu repertório. uma verdadeira dança de fadas e uma das mais belas gravações da história Barrios – disco 1 – faixa 15 Valsa no 3 3. estudos de concerto.25 [Comentar a técnica: cordas de aço. por exemplo. algumas com temas sentimentais. incorporou obras de Turina.33 A partir daí. no final da carreira. Sua música nunca deixou de ser tocada na América Latina. Barrios – disco 1 – faixa 11 Contemplación 4. Ouçamos por exemplo a bela Valsa no 3. Segovia certamente aprendeu algo ao encontrar-se com Barrios. sempre mantendo sequinho o ritmo da valsa e uma atmosfera de profundo dissabor. Ele deixou várias obras nesse estilo. enfim o poeta do violão. e cada uma de inspiração soberba. [agradecimentos] Barrios – disco 3 – faixa 17 Levino Albano da Conceição: Tarantela 2. Barrios – disco 3 – faixa 13 Beethoven: Minueto 2. toque lateral que pode ter influenciado Segovia. só podemos admirar a extraordinária imaginação de seu fraseado. é tocado com uma languidez totalmente apropriada e um especial cuidado nas terminações de frase que praticamente não se escuta em interpretações modernas. São obras de temática variada. em 1978.

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20 segundos) Disco 2. a um público que extrapolasse o limite dos aficionados do violão.Granada Sua infância não é bem documentada. Segovia foi.45 Segovia nasceu na pequena cidade de Linares.” ANDRÉS SEGOVIA BG (c. Para consolar o garoto separado de sua família. Numa carreira que se estendeu ininterruptamente por quase 80 anos e sem ser um compositor de relevo. Segovia transportava o ouvinte a uma era anterior. Um psicanalista teria muito a ler nas entrelinhas de seu relato e associaria sua relação obsessiva com o violão a um mecanismo compensatório para sua carência emocional. a presença latente dos ciganos e da música flamenca e com a perfumada e misteriosa arquitetura dos monumentos granadinos. é um relato pitoresco e fantasioso de seus primeiros anos. O extraordinário alcance da arte de Segovia é ainda mais surpreendente pelo fato dele ter.15 segundos Disco 2 . por toda sua vida. De qualquer maneira. ele foi separado de seus irmãos e enviado a seus tios em Granada. que havia sucumbido com a 1a Guerra Mundial. devido a tensões familiares. sem concessões a manifestações de caráter folclórico. faixa 14 Ponce – Variações s/ folia de Espanha Há. respectivamente. em sua visão. em todos os parâmetros artísticos e pessoais. extremamente cauteloso ao revelar detalhes de sua vida pessoal e nunca fez de sua intimidade um espetáculo. Aparentemente. Como todo bom espanhol. Disco 1 – faixa 18 Malats – Serenata Española 3. e [3] estimular compositores a criarem um novo repertório para o instrumento. em 1987. Sua autobiografia. sonoros e expressivos do instrumento a um patamar sequer imaginado por seus contemporâneos. ainda em tenra idade. e corooaram uma carreira inigualável onde o nome Segovia. irmãos e demais familiares. que nunca passou do primeiro volume. uma região ligada à mineração e à agricultura. Liszt e Bach. os quais. BG – c. Segovia efetuou uma síntese daquilo que melhor se fazia em sua época e alçou os aspectos técnicos. Disco 1 – faixa 19 Tarrega – Recuerdos 3. no sul da Espanha. na província de Jaén. enfim. seu tio o ensinou a tocar alguns acordes no violão.22 . na história da música. No violão. Granada no final do séc XIX era um dos lugares mais inspiradores para qualquer estudante de violão e o garoto formou sua sensibilidade em contato com a cultura mourisca. é sinônimo de violão clássico na acepção mais elevada do termo. eram fundamentais para a aceitação do violão pelo público filarmônico (o termo usado por Segovia para definir o público de concertos sinfônicos e camerísticos): [1] levar um repertório ortodoxamente clássico. de acordo com relatos de parentes. O violino.A Arte do Violão pág 13 PROGRAMA III – ANDRÉS SEGOVIA: gravações 1927-1939 “O violão é como uma orquestra cujo som nos alcança vindo de um planeta que é menor e mais delicado que o nosso. sua inclinação política e comportamental conservadora. ainda hoje. que não tinham filhos. poucos instrumentistas que conseguem dirigir o fluxo dos acontecimentos e parecem re-definir a imagem pública e a estatura musical de seus instrumentos. dos quais o mais magnífico é o palácio dos reis mouros. O fato é que o menino Segovia. mas praticamente não menciona seus pais. este papel coube ao espanhol Andrés Segovia. o Alhambra. não parecia estar aprendendo o violão – a intimidade era tão grande que ele mais parecia estar relembrando algo que já sabia antes de nascer. Ele se serviu de seu prestígio ímpar para consolidar três objetivos auto-impostos. em 21 de fevereiro de 1893. mas parece ter sido algo turbulenta.faixa 1 Albéniz . 16 anos após seu falecimento. sua presença pública a de um fidalgo. para que o criassem. adotado uma persona do século XIX: seu ideal musical era o romântico. o piano e o órgão estarão para sempre associados aos nomes de Paganini. Estes objetivos foram consolidados com energia hercúlea e incomparável ambição artística e pessoal. por terem aberto a tampa que trancava a sonoridade e as qualidades expressivas de seus instrumentos. [2] propugnar pelo estabelecimento do curso de violão em nível de igualdade com outros instrumentos em todos os conservatórios mais importantes e estimular publicações especializadas de violão. e faleceu aos 94 anos em Madri.

rapaz. não só o violão mas também teoria e solfejo. Por ser autodidata. Sua estréia em Madri teve enorme repercussão e a partir daí Segovia ampliou suas atividades para toda a Espanha. era necessário ampliar os horizontes de seu repertório. onde conheceu Agustín Barrios. URSS. Neste período fixou-se alternadamente em várias cidades. além de incrementar suas atividades em seu país. no Teatro Ateneo. e isto tornou-se aparente já em sua estréia em Madri. Foi também em Madri que começou a associação entre Segovia e os luthiers. Disco 2 – faixa 2 Albéniz – Sevilla – (grav 1939) 4. sem dúvida. já aos 18 anos Segovia devia possuir poucos rivais além de Llobet e Pujol. de aspirações pequeno-burguesas. que não vou te alugar nenhuma guitarra.28 Transcrições. diria quando já famoso. com a exceção de ocasionais visitas à Argentina.16 A relação de Segovia com a música de Bach. Este recital contou com a presença de uma multidão de figuras importantes da cena musical parisiense e a surpreendente qualidade artística de Segovia transformou-o numa celebridade num golpe único.” [falar sobre os violões Manuel Ramirez] Disco 2 – faixa 7 Granados – Dança no 10 4. 14 Segovia teve uma escolaridade irregular. Em todas as viagens procurou encontrar os violonistas locais mais famosos. A partir desse momento. EUA e Áustria e as primeiras gravações realizadas em 1927 começaram a projetar o seu nome . Ainda adolescente. Sua família. desde o início. mas também para ampliar os horizontes de seu repertório e absorver e aperfeiçoar sua arte. parte devido ao caos familiar.17 [Comentar].. [Falar sobre a base do repertório] Disco 1 – faixa 11 Sor – Variações op. fazendo suas estréias nas cidades vizinhas.12 [Comentários]. auxiliado. Alemanha. mas você pode levar esta a passear pelo mundo afora. que supriram a necessidade de um estudo regular. A um dado momento começou a trabalhar com o empresário Quesada. castigou-o por meter com os ciganos e foi. expandindo pouco a pouco sua atividade para cidades mais distantes como Barcelona. Disco 1 – faixa 1 Bach – Gavotte em Rondeau 2. geralmente motivado por ligações amorosas e noivados rompidos. Disco 1 – faixa 17 Mendelssohn – Canzonetta 4. Bélgica. Até então o instrumento era visto como uma curiosidade fora dos círculos de aficionados e a carreira de Segovia ainda não se havia projetado fora da Espanha. que já havia organizado extensas turnês para Artur Rubinstein na Espanha e. As obras que estamos ouvindo formavam a base de seu repertório neste período. começou uma carreira local. O legado de Tarrega e Llobet. Depois de sua estréia em Granada aos 15 anos. mais tarde. por conta própria. Segovia visitou também a Argentina e Uruguai no início dos anos 20. dizendo “é claro. em parte para comparar seu desenvolvimento musical com o deles. fato que ele não menciona em sua autobiografia. em 1912. para obter sucesso em sua empreitada. rompeu com a família e decidiu morar sozinho e estudar. tentou separar o violão clássico da guitarra flamenca. Pague sem dinheiro. Segovia agora vislumbrava uma verdadeira carreira internacional e. Casou-se pela primeira vez. parte devido ao fato de gazetear aulas para ir às covas dos ciganos para escuta-los tocar violão. que sempre tratou como uma forma de arte inferior. pela sua imensa capacidade de observação e análise. foi à casa Ramirez no intuito de alugar um instrumento de qualidade.. radicalmente contra sua decisão de tornar-se músico. Respeitabilidade. Ao ver o rapaz tocar. Ramirez resolveu presenteá-lo com seu melhor violão.A Arte do Violão pág.47 A estréia de Andrés Segovia em Paris em 1924 é um marco na carreira do andaluz e na história do violão. Recepção. Como não possuía um instrumento adequado para o recital no Ateneo.9 3. e podemos somente imaginar o deslumbramento que sua técnica excepcional já provocava. Talvez daí venha a radicalismo com que. sua carreira internacional tomou corpo e sucessivas estréias na Inglaterra. A verdade é que. nunca houve atrito entre o mestre e o aluno. Edições de Bruger.

casamento com Paquita Madriguera. Disco 2 – faixa 12 Ponce – Mazurka 3.57 Relação de Segovia com Ponce. ele se tornaria mais cauteloso nas declarações de caráter público. Guerra civil espanhola. antes de 1924. Saque da casa em Barcelona em 39. Além de muito de seu patrimônio na Espanha ter sido confiscado ou destruído e das despesas de manutenção da ex-mulher e dos filhos. Carreira norte-americana.A Arte do Violão pág 15 como o de um pioneiro musical e de um artista de qualidade indiscutível. guardando ciosamente sua vida privada e opiniões políticas. .Compositores espanhóis do período. na época. Este crédito tem de ser dado a Moreno Torroba.58 .54 A 2a guerra trouxe várias dificuldades de caráter pessoal para todos os artistas da época e Segovia não foi exceção. Morte do filho. [comentar] Disco 2 – faixa 3 Torroba – Fandanguillo 1. Se escrever para Segovia praticamente se tornou uma moda depois que obras de vulto foram estreadas depois de 1925. seria necessário um dom profético para se supor que uma obra escrita para o violão. sua inclinação política significou discriminação por parte alguns setores. Disco 1 – faixa 10 Ponce/Weiss – Gigue 4. publicada como último movimento da Suíte Castellana de Moreno Torroba. ainda era considerada estapafúrdia Depois da Homenaje de Falla de 1920. Inclinações políticas de Segovia. contribuiu para a aura intocável de lenda viva que perdura até hoje. sua atividade estava praticamente circunscrita às Américas e. controlando o conteúdo de suas entrevistas e resguardando-se sob um véu de lenda e de reminiscências romanceadas. Residência em Montevidéu durante a guerra. Disco 2 – faixa 11 Ponce – Poslúdio 1. Instintivamente ele adotou uma estratégia moderna de relações públicas que. aliada à qualidade superlativa de seus concertos e gravações a partir de 1949. uma idéia que. seria tempo bem empregado. divórcio.23 Os pastiches de Ponce.19 Este era o momento para ele aproveitar a súbita elevação de seu perfil público e fazer contatos com os compositores mais destacados de sua época para que escrevessem obras originais para violão. de 1919). para um artista ainda emergente. Disco 1 – faixa 16 Torroba – allegretto da sonatina 3. segundo Segovia. Disco 2 – faixa 6 Turina – Fandanguillo 3. A partir de então. Foram os primeiros passos da criação do mito Segovia. Composições importantes de Ponce.38 Início das gravações em 1927. mesmo nos EUA. a obra geralmente aceita como a primeira escrita para Segovia é a Danza de 1923 (ou.

16 .A Arte do Violão pág.

A Arte do Violão pág 17 PROGRAMA IV – ANDRÉS SEGOVIA.] . exilaram-se ou pereceram. compositores e intérpretes diminuíram suas atividades. Necessidade de se completar uma ampla gama de freqüências. A música popular. se não secundário. Necessidade de aspectos unificadores e elementos de variedade. A técnica de Segovia não era particularmente brilhante no que se refere.” Piero Rattalino The Art of Segovia – disco 1 faixa 2 Tarrega: Capricho Árabe – 1955 5. não ouvimos apenas um som agradável. Aquele tipo de som. mas acadêmica. mas Segovia manteve-se.56 [Conceitos de sonoridade e interpretação. certamente de pouca atração para o establishment cultural. É o som e o estilo que inspiraram todo o mais. aquele vibrato. Seu cantabile torna-se absolutamente “falado””. Um estilo severo e rigoroso de interpretação passou a dominar a cena musical. beneficiada pela ampliação e alcance dos meios de comunicação como o rádio. Do ponto de vista sociológico. a movimentar massas humanas antes somente encontradas em manifestações de caráter político. Nessa esfera. O som do cantabile. 6. por exemplo. mas era superlativa no que se referia a variedade de cor. BG [Falar sobre concertos para violão e orquestra. Ele usa variedade timbrística para re-conquistar a variedade oferecida por vogais e consoantes.40? [Imprevisibilidade e fantasia. abarcando uma doçura langorosa a um ataque afiado com a unha ao invés da polpa do dedo. As mãos de Segovia e descrição das características fundamentais de seu timbre.] “O maior problema para o músico que se encontra à frente de duas mil pessoas é precisamente este: ter uma grande variedade de cores à disposição. Primeira gravação de concertos. Qualidade de som. ascético e se reveste de um apego ao cientificamente demonstrável sem precedentes na história da música. Muito de seu fascínio neste período residiu exatamente na lealdade a uma abordagem interpretativa que apelava aos sentidos do ouvinte antes de mais nada.27 [Conceitos de fraseado. a velocidade. A música clássica entrou nas universidades e pouco a pouco tornou-se domínio de uma nova elite. Canto salmódico/ canto falado] “Quando entra a melodia. John Williams Hauser 1937 A vida musical do planeta passou por mudanças drásticas após o final da 2a Guerra mundial. estréia em Montevidéu. tv e gravação. Fascínio pela variedade de timbres. uma nova abordagem de interpretação do repertório tradicional se fez necessária e passou. é tudo parte do mesmo sentimento pelo som do violão. a dominar a cena musical: o intérprete não mais é um demiurgo que revive o espírito de um compositor. mas um pesquisador que. triturados pela guerra. pouco a pouco.1 1.29 [Relação de Segovia com Villa-Lobos] 1949 London Recordings – faixa 8 Villa-Lobos: Estudo no. não econômica. e no significado exclusivo do que se vê na única fonte confiável de acesso à idéia do compositor: a partitura. antes um aspecto. passou progressivamente a dominar o imaginário popular e. como demonstra a vertiginosa ascensão do rock. aquele debruçar-se sobre as notas. por vezes íntima mas freqüentemente arrebatadora. desenvolve-se.99 2o mov. é absolutamente ideal e o melhor som possível em toda a era do violão clássico no século XX.] Recordings – faixa 17 Castelnuovo-Tedesco: Concerto op. encontra o significado da música em sua estrutura. Piero Rattalino Segovia Music of Albeniz and Granados – faixa 5 Albéniz: Torre Bermeja – 1950 3. Emulação da voz. Segovia não está interessado em cantar somente com um único tipo de som bonito. A música composta na década de 50 é de um caráter rigoroso. porque o canto seria salmódico. As necessidades primárias do ouvido humano. as décadas seguintes marcam a ascensão absoluta e imprevisível da cultura de massa. impávido. ser um pintor de afrescos. diferente do som do acompanhamento. servindo-se das ferramentas da hermenêutica. Como conseqüência. gravações 1947-1955 Como som de violão. fiel aos princípios românticos da interpretação como um espelho da vida emocional.

” Charles Duncan.] “Em geral. Apesar disso. 18 “Ele afina inaudivelmente e praticamente sem ser visto. a obra já começou de fato. Quando ele ainda parece estar afinando.59 [A arte do rubato. Guitar Review The Art of Segovia – disco 1 faixa 13 Castelnuovo-Tedesco: Capriccio Diabólico . tal é a sedução de seu conceito ame-ou-deixe de interpretação. contribui para a completa vitalidade de seu som. Manutenção da forma através do rubato. 10 anos estudando a Chaconne. se a próxima frase trará um vibrato e onde ele será aplicado.1954 1.51 . mais que qualquer outro fator individual.1954 13. mesmo que não se perceba. este nobre artista nos deixa exaustos.” Peter Stadlen. Convicção.28 Aspecto demiúrgico. o qual. não emocionalmente. é depois do evento. o efeito geral é de uma pronúncia musical extremamente distinta.A Arte do Violão pág. ao contrário do tipo mais extrovertido de virtuose. Não há como dizer se a próxima nota será atacada frontalmente ou se será alcançada através de um deslizamento. Quase invariavelmente. que se compreende qual era a sua meta. Liszt descreve o rubato de Chopin. mas. Genuíno delírio artístico compensando desvios estilísticos. Impassibilidade de Segovia e consistência técnica. Assim. Suas interpretações são feitas de uma infinita variedade de toque e nuance. intelectualmente.] Segovia Box – disco 4 faixa 15 Bach: Chaconne . Podemos ouvi-lo no seu manuseio de notas individuais ou em fragmentos motívicos compostos de notas curtas. e é função do público se ajustar ao pequeno volume.15 [relaxamento e seu efeito na interpretação (Busoni). se uma passagem rápida soará polida e nítida ou com uma sonoridade oca. o estilo de Segovia é caracterizado por um sistemático uso do staccato. Daily Telegraph The Art of Segovia – disco 2 faixa 3 Haendel – Sarabande 1952 3. nunca antes de um episódio se concluir. A execução de Segovia também se caracteriza por um conceito bastante flexível de pulso. aplicadas com atordoante imprevisibilidade.] The Art of Segovia – disco 1 faixa 17 Carlos Pedrell: Guitarreo . Esteticamente. ninguém preferiria estar numa sala menor.1954 9.

mas que não era capaz de cumprir os requerimentos formais das obras de maior envergadura com o mesmo sucesso. Ao lhe perguntar: “Maestro. valorizada por um leve espalhar das notas dos acordes. com que idade começou a tocar o violão?”. O primeiro desses LPs traz dois concertos para violão e orquestra escritos para ele. O problema é que um tipo de som tão particular toma tempo para desabrochar – o que afeta a continuidade do pulso musical. Precisaríamos de uma série de programas só para Segovia para fazer justiça ao seu legado. Uma crítica freqüente a Segovia era a de que ele tocava obras curtas com grande charme. o glissando e as sonoridades metálicas (exemplificar com violão) nos lugares mais óbvios. . Apesar da minúcia e nitidez.tão obscena quanto o olhar descarado da cortesã do quadro de Goya. Esta é a recordação do produtor Israel Horowitz depois de décadas de colaboração no estúdio de gravação. ainda aprendendo novo repertório. oboé e flauta – que o acompanham na seção central. que ensinava nos festivais de Santiago de Compostela e de Siena. No entanto suas gravações mostram que ele tinha uma capacidade ímpar de caracterizar os vários movimentos de uma sonata e de desenhar um grande arco formal através de um processo cumulativo. o que se faz essencialmente com a qualidade do som – que pode ser mais penetrante. De Torroba gravou 3 obras extensas. Em mais de 50 anos de carreira ele não se havia permitido um único período de férias. Aqui ele obtém um efeito formidável no uso do glissando. os Castillos de España. ao mesmo tempo em que reserva sua sonoridade mais robusta. A partir gravações do Jubileu. tocando com uma sonoridade mais estridente. de qualquer jeito que fizesse. da qual ouvimos o 5 movimento.A Arte do Violão pág 19 PROGRAMA V – ANDRÉS SEGOVIA: gravações 1957-1977 “Acompanhá-lo no processo de gravação foi uma das minhas maiores experiências. Nesta gravação da Tonadilla de Granados Segovia demonstra de maneira magistral como é possível obter o equilíbrio.27 [Desanunciar] É impressionante como ele consegue ao mesmo tempo fazer com que suas entradas não soem casuais. Ele não só valoriza uma infinidade de detalhes que numa execução literal passariam desapercebidos. eu não conheço ninguém que toque desse jeito em nenhum outro instrumento. mas o faz sempre evitando posicionar o vibrato.05 Entre 1949 e 1977. funcionava – e de uma maneira única”. que infalivelmente incluíam obras de seus amigos mais chegados. 1959 foi o ano do Jubileu de Segovia. nos momentos de maior tensão dramática. gravações 1957-77 The Segovia Collection – disco 3. Andrés Segovia. assim ele se exime da obrigação de repeti-los e cair em redundância. The Segovia Collection – disco 1. ora dando ao fraseado um caráter risonho e brincalhão. ano de sua última gravação. Um dos melhores exemplos é o da Sonata de Castelnuovo-Tedesco. e sem jamais fazer concessões em seus extensos programas.47 O intérprete freqüentemente enfrenta o dilema da escolha entre a manutenção da unidade musical. gravando discos e programas de TV. Não importa o quê ele fizesse. a resposta foi: “desde muito antes de nascer”. e o desejo de sublinhar pequenas belezas localizadas. Neste fragmento gostaria de chamar a atenção para a sonoridade de bronze dos baixos do violão e para a sutileza com que ele timbra suas entradas de acordo com os instrumentos de sopro – clarineta. mais pontiagudo de acordo com o caráter que se quer imprimir.1958 4. Seu som era parte integral do conceito musical como um todo. fazendo anualmente temporadas de mais de 100 concertos. mais vibrante. ora criando o um efeito tátil e sensual. o ligeiro deslizar entre as notas. Albada. e as várias re-edições e compilações fazem de sua discografia um verdadeiro labirinto. a Sonatina e as Piezas Características. quando ele celebrou 50 anos de carreira lançando uma caixa de 3 LPs que são um verdadeiro marco.andante . O sexagenário violonista parece superar até mesmo sua habitual excelência. faixa 35 Granados – La Maja de Goya . Castelnuovo-Tedesco – Sonata 16. mais velado. Segovia teve espaço para registrar no LP as maiores obras que marcaram sua carreira. o que se faz essencialmente pela constância do pulso. enfrentando a bajulação dos admiradores e dos alunos. faixa 6 Ponce – Concierto del Sur – 2º mov. o forte perfume erótico que sua interpretação exala chega às bordas do impossível ao fazer uma obra puramente instrumental soar quase obscena . Segovia lançou cerca de 40 LPs.1958 6. ganhando liberdade para retornar rapidamente ao andamento correto depois de roubar uma fração do tempo em favor da sonoridade.

com uma madeira menos temperamental. e que ajudou Segovia a disfarçar o inevitável declínio de sua facilidade técnica. resolveu aposentá-lo e experimentar os violões de José Ramírez III. The Segovia Collection – disco 2 faixa 25 Ponce – Allegro. e depois de desentendimentos com Ramirez. A diferença fundamental é de timbre e projeção.31 de John Duarte com um verniz mágico. ele extrai todo o mel do violão e toca com a doçura de um avô afagando a cabeça de um netinho. de quem gravou a Cavatina e a Suíte em Modo Polônico. Os violões de cedro normalmente têm uma projeção mais difusa e menos direcionada. Os violões de abeto costumam ter uma sonoridade extremamente focada e definida.1964 4. de uma certa forma um final tranqüilo para uma vida pessoal atribulada e repleta de eventos que não fazem nenhum favor à sua reputação. Nana de Maria Esteban de Valera. Segovia on Stage – Faixa 12 John Duarte – Folk Song . o terceiro de Segovia. que reveste uma obra modesta como a Suíte Inglesa op. na tentativa de fazer instrumentos em série de melhor qualidade. que de fato era o maior instrumento de sua época. com uma aluna quase 50 anos mais jovem. 20 The Segovia Collection – disco 2 faixa 13 Torroba – Albada 1958 1. Canción – 1964 2. adotou também os violões de Ignácio Fleta. não importa quem os esteja tocando. onde as tramas da textura musical são desfiadas com habilidade de ourives. . da Sonata no. da Sonata mexicana . dois temas com variações e vários prelúdios e peças curtas. Depois de 25 anos de viagens. era feito exclusivamente de abeto alemão. Segovia – Suite in Modo Polonico – faixa 5 Tansman – Reverie e Alla Pollaca . onde todas as notas de um acorde soam individualmente. Nele ouvimos Segovia num estilo mais comedido. faixa 19 Mompou – 5o mov. Um pequeno exemplo de sua afinidade com este compositor pode ser ouvido no movimento final. uma textura mais pastosa e. Numa obra despretensiosa de uma autora obscura. com quem ele ainda teria mais um filho. que é o que efetivamente caracteriza seu timbre e equilíbrio.1967 2. em pouco tempo. de serena intensidade e sem sombra de espanholismo. aliando um certo rigor formal acadêmico à extraordinária fantasia e vigor.37 Outro compositor de presença marcante em seu repertório foi Tansman.A Arte do Violão pág. em 1937. Segovia gravou algumas das maiores obras. Ramirez III.1958 3. Segovia gravou a estupenda Suite Compostelana de Mompou. incluindo 4 sonatas. que estava fazendo uma interessante pesquisa com um novo tipo de madeira para o tampo. de Barcelona. todos os jovens violonistas do mundo queriam também tocar em Ramirez e Fleta.33 De seu favorito Manuel Ponce. Tansman foi um grande admirador Stravinsky. fez experiências com o cedro do Oregon e obteve resultados excepcionais. entre outras obras menores. nas obras curtas de caráter íntimo é onde a luz de Segovia brilha mais intensa. uma obra íntima e de um caráter místico. The Segovia Collection – disco 2. adotou o instrumento feito pelo luthier alemão Hermann Hauser.26 No mesmo disco.58 Formidáveis como são suas gravações de obras de maior envergadura. Até então o tampo do violão. Se o consolo pudesse ser traduzido em música. uma árvore da família dos Pinus. Não é necessário dizer que esses instrumentos valorizaram-se enormemente e. allegro. Reparem no cuidado com que ele gradua sua dinâmica e constrói uma sucessão de clímaxes cada vez mais intensos. um compositor de um neo-barroquismo enriquecido pelo cromatismo harmônico rica e informado pelo aristocrático uso do folclore nacional.27 Segovia usou por 25 anos seu violão Manuel Ramírez/Santos Hernandez e. É um instrumento mais potente e grato de tocar. Segovia usou vários desses instrumentos até o final de sua carreira. mas que aumentou ainda mais o apelo de sua magnífica sonoridade. tendem a soar com uma cor própria.1 “Mexicana”. que só se desencadeiam totalmente no final. este é o som que ele teria: Escenas Españolas – disco 2 faixa 25 Valera – Nana – 1964 2.42 [Desanunciar e comentar] Esta obra foi dedicada como presente de casamento. uma sonatina. Aqui ouvimos o sofisticado comando da atmosfera através de um fraseado aristocrático e de uma intensa projeção da linha melódica. o maior compositor polonês do período.

os contemporâneos de Segovia. da Suíte Mística No próximo programa. enquanto as pessoas ainda o quisessem escutar. o artista septuagenário foi coberto de honrarias. Aura. ele continuaria tocando. em abril de 1987. já não tão confiável. mesmo com o evidente declínio que levou as gerações mais jovens a. para o Papa e para o presidente Jimmy Carter na Casa Branca num concerto televisionado. injustamente. o sufoco foi imperceptível. ao esquecer um trecho de uma das peças. Como muitos dos ouvintes nunca tiveram a chance de ouvir uma gravação de Segovia ao vivo. e ele faleceu em junho do mesmo ano na sua casa em Madri. Para quem não conhecia as músicas. O violão e seu repertório já estavam caminhando em outra direção e Segovia representava uma tradição já passada. terminou em outra obra. ele teve a presença de espírito do consumado profissional e. podia trazer problemas. Seu último concerto foi aos 94 anos em Miami. Em certos momentos. improvisando uma transição. . gravado dez anos antes. Segovia regularmente tocava em teatros de mais de 2 mil lugares. Como cada recital de um senhor de mais de 80 anos pode ser o último. assistindo televisão.A Arte do Violão pág 21 A partir dos anos 60. faixa 14 Asencio – Pentecostes. ele sempre tinha casa cheia pois o público não queria perder a chance de ver a lenda ao vivo. através de suas gravações. entre elas o título de Marquês e o prêmio da Royal Philharmonic Society de Londres. faixa 23 Torroba – Romance de los Pinos – gravado ao vivo em Lugano em 3-Out-1968 1. mas hoje. um exemplo da enorme concentração e atmosfera que ele era capaz de comandar. por exemplo. Reveries. onde o tempo parece passar mais devagar. já mostra um artista quase incorpóreo. Seu último disco. além de ter tocado para vários monarcas. sua memória. desprezar sua importância. Neste concerto da Casa Branca. e dizia que.52 Nos últimos 20 anos de sua vida. com interpretações estáticas. podemos avaliar em perspectiva o papel fundamental que ele exerceu na história do violão.

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Sua carreira internacional foi modesta. e assim sustentam o topo da pirâmide. foram inventadas porque Segovia assim o quis. Regino foi o criador da primeira cátedra de violão do mundo. a partir dos anos 50. o Concierto de Aranjuez. E seu nome foi inscrito na história quando estreou uma obra que Joaquin Rodrigo lhe dedicou: o concerto mais popular do século. caracterizando cada ambiente com clareza de articulação e uma ampla gama de dinâmica que sugere vários planos de atividade musical. ouvindo. que havia sido aluno de Tarrega. [Só podemos imaginar o número de horas que ele deve ter passado debruçado sobre o violão. Muito do repertório de Oyanguren era dedicado a arranjos de música folclórica e clássicos de salão. Em 1960 ele retornou ao Uruguai. inclusive os vanguardistas da geração de 1927. Se suas carreiras foram mais modestas. escreveram para ele. “deveriam desaparecer da face da terra. e tido como um músico de maior cultura musical que Segovia. ele consegue amarrar a estrutura desta obra rapsódica com um timing perfeito. livrando-se de preconceitos musicais. Depois de uma pausa. o mais respeitado deles foi Regino Sainz de la Maza (Burgos. as cordas de nylon. “Quanto aos amadores”. as infinitas maneiras de se acentuar uma nota ou realçar uma frase. Hoje estamos acostumados a interpretações melosas deste movimento. Na Espanha. pois estes é que compram ingressos e discos. FAIXA 2 2º mov. indisponíveis por serem de fabricação alemã. nenhum outro violonista poderia lhe fazer frente. e por todo o percurso vai criticando duramente seus colegas. [BG?] Regino estudou com Fortea.08 [Desanúncio] Rodrigo se auto-denominava um compositor “neo-castiço”. com ele no carro. ainda bastante jovem fixou residência nos EUA. Entretanto alguns de seus contemporâneos. comparando e corrigindo. no que se refere à técnica. em 1948. da obra que tornou Rodrigo mundialmente famoso. Ele e seu irmão Eduardo foram compositores de relevo. pois são uma desgraça para a arte do violão”. Nesta gravação ouvimos a habilidade de Oyanguren em despachar com verve uma batelada de efeitos. mas Segovia atingiu uma síntese que só pôde ser emulada na próxima geração. chegando até a solar com a Filarmônica de N York e a tocar para o presidente Roosevelt. onde foi extremamente popular. foram também essenciais como um contraponto para o êxito singular de Segovia e para a formação de um público para o violão fora dos grandes centros em que ele estava habituado a se apresentar. extraordinariamente talentosos. temperada por uma elegante ironia. diz. um notável compositor andaluz da 2a metade do séc XIX. tocando. e o Concierto de Aranjuez ilustra sua preferência por formas inspiradas no passado musical espanhol. O primeiro intérprete sul-americano a ter uma carreira de relevo no exterior foi o uruguaio Júlio Martinez Oyanguren. o mundo do violão é uma pirâmide. a angulação que produzisse o som mais vívido. onde faleceu em 1973. mas. cada um com uma ênfase pessoal. que é o senhor!”. Claro que Segovia foi a pessoa certa na hora certa. São necessários muitos pecadores para se fazer um Papa”. reclamando o quanto suas técnicas deficientes mancham a reputação do violão. construindo um conceito sonoro a partir do nada. replica: “mas Maestro. as inúmeras maneiras de se harpejar um acorde. BG Mas seriam todos eles pecadores? Ou bispos e cardeais. sem arrastar o andamento e com especial cuidado pela sincronia com a orquestra. inventadas por Albert Augustine durante a 2a Guerra. “pontaria” musical e abrangência de repertório. que em suas obras procurou aliar as formas de dança flamenca a uma moldura clássica. Adagio 8. mas na Espanha ele era considerado o violonista dos “iniciados”. experimentando o acabamento ideal para suas unhas. Segovia responde: “Você tem razão. .] A arte de se fazer violões melhorou para servi-lo. a presença dos irmãos La Maza foi fundamental como uma resistência no duro período da ditadura franquista. 1896-1981).A Arte do Violão pág 23 PROGRAMA VI – OS CONTEMPORÂNEOS DE SEGOVIA Andrés Segovia está num carro. nesta que foi a primeira gravação. sentindo. Um amigo. Inúmeros compositores. no Conservatório de Madri em 1935. Ouviremos a fantasia Alhambra de Juan Parga. complementaram seu trabalho. mas Regino o toca com uma expressão franca. alguns deles poderiam ser superiores em alguns elementos específicos. que é sublinhada por esta vigorosa interpretação. Nascido em 1905. para substituir as de tripa. Concierto de Aranjuez. a caminho de um concerto. talvez até injustamente preteridos para o posto de Pontífice? Coloquemos os pingos nos ii. Nós precisamos de uma ampla base de amadores.

foi convidada pelo governo de Cuba a residir em Havana. Aqui. 24 Disco Oyanguren. Zambra. Neste tremolo de Tarrega. Uma artista muito diferente. mas na introdução ouvimos a sua especialidade. Ela nasceu em 1910 Viena. de se harpejar os acordes como uma norma [exemplificar]. Artistas como Oyanguren. Estes senhores eram sem dúvida extremamente capazes. mas também algumas de suas limitações. nas gravações anteriores à 2a guerra. e iluminava o violão como instrumento de salão da alta sociedade e um . ele trocaria as cordas quantas vezes fossem necessárias para perfeição.25 Introducción.50 de altura. as notas longas ficam suspensas no espaço e cada mínimo movimento harmônico é sublinhado com uma nuance de dinâmica e colorido. [BG?] Ela nasceu 1907 e estudou com Domingo Prat e com Miguel Llobet. aliás uma constante na época. e tornou-se por muitos anos a catedrática de violão na Academia de Música de Viena. Maria Luisa anido vol 1 – FAIXA 11 Anido: Aire Norteño 1. desfiando e perdendo a sonoridade com o uso e as condições climáticas. Luise Walker herdou um interesse pela tradição vienense. de Albéniz: Maria Luisa Anido vol 1 – FAIXA 8 Albeniz: Cadiz 4. Ainda menina já fazia turnês em duo com Llobet. Llobet. foi a austríaca Luise Walker [BG?]. A intenção desta prática é otimizar os recursos sonoros do violão. É importante dizer. mas também teve aulas com Miguel Llobet. sendo que acordes perfeitamente simultâneos são exceção [exemplificar]. Essas cordas têm um timbre mais áspero que o nylon e são notoriamente temperamentais. algo que Segovia jamais deixaria passar. mas a melodia inicial parece flutuar. Eu tive o privilégio de conhecê-la pessoalmente na Espanha em 1992. nesta interpretação de Albeniz. no entanto. mas um talento verdadeiramente fora da norma pertencia a uma dama: a argentina Maria Luísa Anido. também adotada por Segovia. e aos 81 anos de idade. onde residiu por toda sua vida e faleceu em 1998. Ela toca esta pequena dança de sua autoria de forma eletrizante.22 [Desanúncio] Um defeito desta gravação. de uma certa forma. que é conjurar uma atmosfera de calma em que o tempo quase pára. faixa 23 Juan Parga: Alhambra 4. Anido é uma demonstração deste conceito. Nela ouvimos as melhores qualidades de Oyanguren. Granadina e Final [Desanúncio] Numa gravação em 78 rotações sem data. onde continuou a ensinar até pouco antes de falecer em 1996. viria se “graduar” para a arte mais severa de Segovia. ela maneja o andamento com uma liberdade sem fronteiras. sua sonoridade não está particularmente bonita.19 [Desanúncio] nesta gravação ouvimos a prática.A Arte do Violão pág. em muitas de suas gravações. Anido parecia não ter limites. Moruna. Anido – Recital de Guitarra – FAIXA 6 Albeniz Granada 5. acelerando e acalmando de maneira totalmente espontânea. Ela ensinou no Conservatório Nacional em Buenos Aires por mais de 50 anos. entretanto.09 [Desanúncio] Anido tinha o dom de re-compor uma obra com sua interpretação.Recital de Guitarra – FAIXA 7 Tarrega: Sueño 4. que. Parranda. grandiosa. além de permitir o realce de vozes internas. ela não devia passar de 1. como uma sonoridade de arame nos baixos. Talvez ela só tenha dado vazão ao lado delirante de sua personalidade no violão. Anido . e com uma combinação de pizzicato com sons naturais e um movimentado contraponto consegue dar a ilusão de um grupo folclórico a todo vapor. estava impecavelmente trajada e maquiada e portava-se com a suavidade e autoridade de uma lady. como ouvimos nesta interpretação arrebatada. e que o peso e tensão relativos de cada acorde guiavam seu conceito de interpretação. ajudaram a engrossar um público de pouca cultura musical que. mas igualmente uma grande dama do violão. é que o violão está terrivelmente desafinado.40 [Desanúncio] O pianista Daniel Baremboim já disse que os músicos desse período tinham uma sensibilidade exacerbada para a harmonia. os defeitos são mais aparentes que as qualidades. já que os acordes harpejados tendem a criar um espectro harmônico mais complexo e uma sonoridade mais cheia. Segovia e dos artistas deste programa tocam com cordas de tripa. provavelmente um descuido ou uma corda com defeito. Estudou com os maiores nomes do violão em Viena na época. Seu tremolo é perfeito. que remontava ao início do séc XIX.

Nesta gravação de Schumann. Nesta obra de Tarrega. A exemplo de Anido e Walker. A explicação era simples: eles vinham de uma turnê ininterrupta de 8 anos! Pouca gente acredita que um sujeito bonito e bem sucedido possa também ser bom músico. em 1994.29 no. artistas do show business já ganhavam muito mais que obscuros concertistas de violão clássico. esse cartaz teria sido bem menor. sem exceção. Ele já aponta para a tendência contemporânea de se “esconder” as idiossincrasias técnicas do violão em favor de uma realização musical mais neutra. os baixos. feminilidade e doçura incomparáveis. começando 1´58´´ e terminando aos 4´08´´ Sor: Estudo em si b maior op. ele estudou com professores locais e mais tarde aperfeiçoou-se com Llobet. amargurado. um dos grandes “hits” do repertório do violão deste período. Ida Presti & Luise Walker – FAIXA 10 Schumann: Träumerei 2. Mas.44 [Desanúncio] Enquanto Luise Walker se desvelava pelo violão como um instrumento quase que doméstico e Segovia prosseguia em sua conquista dos grandes teatros. no que se refere a metralhar uma grande quantidade de notas por segundo. FAIXA 1 Tarrega: Gran Jota 3. a contraparte dos regimes totalitários que marcaram o século XX. onde Iglesias residiu. seus nomes seriam escritos no cartaz da história do violão com letras maiúsculas. são antecipados em relação à melodia. gozando de uma sólida reputação. como nesta resplandecente interpretação do estudo op. [Agradecimentos e anúncio. os repórteres ficaram estarrecidos com a quantidade de malas em sua bagagem. fascinando o público dos teatros de revista e dos night-clubs com sua beleza misteriosa e com a eletricidade de suas apresentações. com quem faria intermináveis turnês.1: Fernando Sor Grand Sonata. infelizmente. Arabesca. e Iglesias ficou com a pecha de ser um músico de boate. Claro que as considerações econômicas também tiveram sua parte: nos anos 40 e 50. foi aluno de um aluno de Tarrega. seu fraseado respeita a simetria clássica com uma sutil flutuação de andamento. Em meados dos anos 60 ele foi acometido de uma artrite degenerativa e teve de abandonar os palcos. como ouvimos nas gravações de Fritz Kreisler ou do quarteto Busch. com seu fraseado aristocrático e minucioso. mas continuou ensinando violão por mais 30 anos e faleceu.10 [Desanúncio] Sem contar com a imensa gama expressiva de Segovia ou Anido. muitas vezes ela toca 4.29 no. Dispensando arroubos delirantes. A extensa discografia de Rey de la Torre demonstra um gosto impecável na escolha de repertório. Walker tocava com um lirismo. Esta prática.33 [Desanúncio] Não é exagero dizer que Segovia é. e esta gravação é um documento de uma época que não existe mais. praticamente abolida das interpretações modernas. Rey de la Torre. ele deixa seus colegas comendo poeira. também nascido em 1917.1 2. Suas interpretações da obra de Fernando Sor são de especial interesse. [BG?] Nascido em Badajoz em 1917. sem ele. o seu arrojo não tinha paralelo. Sem ter uma técnica particularmente brilhante. Ao chegar à Dinamarca. Sua arte inspirou vários compositores latino-americanos a escreverem obras-primas para o violão como este bartokiano Prelúdio y Danza de Orbón: Rey de la Torre vol 1. Desde suas primeiras apresentações. Sua estréia em Nova Iorque em 1941 fez tal sucesso que ele viveu pelo resto de sua vida nos EUA. Se ele não houvesse existido. um procedimento usado no violino.21 [Desanúncio] Uma contraparte a esta fúria violonística de gosto algo duvidoso é o refinado cubano Rey de la Torre.A Arte do Violão pág 25 ativo participante na música de câmara. que produz uma textura diáfana e uma projeção quase vocal da melodia está. mas a evidência de suas gravações é a de que ele era uma capacidade extraordinária e. pois demonstram uma abordagem mais moderna e disciplinada que a de seus contemporâneos. ajudou a “desanuviar” a atmosfera carregada dos clichês interpretativos de sua época. dominando os dois com igual excelência. ele. nós temos um exemplo extremo da abordagem vienense na época: praticamente todos os acordes são harpejados. no violão. Sua figura dominante relegou estes grandes artistas a um papel coadjuvante. na Califórnia. FAIXA 7. como todos de sua geração.] . FAIXA 12 Orbón: Prelúdio y Danza 3. evitando acentos impróprios e atingindo os pontos culminantes com um cuidadoso controle dinâmico. o espanhol Ángel Iglesias rodava o mundo com o seu espetáculo cross-over. ele oscilou entre o repertório clássico e o flamenco. 5 ou 6 notas consecutivas com glissando. um leve deslizar entre elas. Mais tarde casou-se com a dançarina Nati Morales.

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Ida Presti & Luise Walker. BG Podemos dizer que o que Andrés Segovia representou para a consolidação do violão como um instrumento solista. e já adolescente iniciou sua carreira de concertista em seu país e. pois todas as gravações são de qualidade extraordinária. pelo violão e um pelo outro – foram uma combinação explosiva. Aos 14 fez suas primeiras gravações e aos 17 já era uma veterana dos palcos.A Arte do Violão pág 27 PROGRAMA VII – DUO PRESTI-LAGOYA Tanto o alaúde quanto o violão são instrumentos gregários. A ocupação de Paris na 2a guerra e um primeiro casamento infeliz prejudicaram sua carreira. que fazia com que todos os elementos expressivos gravitassem em torno de si e de suas melhores qualidades. e “desiguais”. O violão tem em comum com o piano o fato de todas as notas terem um ataque extremamente definido e uma rápida queda de volume. em que as partes têm a mesma dificuldade. Apesar de demasiado intensos para os padrões atuais. A identificação foi total e. Já vi muitas crianças tocando repertório bastante avançado. foi praticamente autodidata no violão e deu seu primeiro recital solo em 1934. mas seu encontro e suas três paixões – pela música. provavelmente escritos para o professor tocar com seus alunos. foi movido por uma paixão de folhetim: o duo de marido e mulher de Ida Presti e Alexandre Lagoya. mov. e. No caso dos duos. num piano ou num violão. No séc. até a abrupta interrupção com a morte prematura de Ida Presti em 1967. Uma marca inconfundível já se escuta no seu cartão de visitas. A expressividade é obtida com um comando absoluto das cores primárias do violão. junto com um amigo. Não o duo PrestiLagoya. faixa 7 Torroba – allegretto da sonatina em la maior 3. os ornamentos são historicamente corretos e exploram as duas maneiras distintas de executar os trinados com igual desenvoltura e precisão (exemplificar). De todos os programas até agora este é o que mais apresentou dificuldades na seleção.05 É uma interpretação de notável controle rítmico. Ida Presti era filha de um professor de piano francês e de mãe italiana.12 Ao contrário de Segovia. onde ambos membros abdicaram de suas carreiras solo em favor de um ideal de música de câmara.XIX e no início do séc XX. pode apostar que na maioria dos casos estas notas não soarão juntas. mas nada que remotamente se comparasse a esta estupenda interpretação do 1o. em 1952. a maioria pela Phillips. Tanto Ida Presti quanto Alexandre Lagoya já tinham suas carreiras encaminhadas como solistas. em que a busca primordial é a anulação da individualidade em favor de um resultado integrado. com técnica polida e ocasionalmente uma musicalidade inata evidente. a Chaconne de Haendel. nesta série já ouvimos Emílio Pujol em duo com sua mulher Matilde Cuervas. mais tarde. com um repertório substancioso e com o potencial para um trabalho de unificação interpretativa comparável a um quarteto de cordas ou um duo de violino e piano. Ida Presti & Alexandre Lagoya. vários violonistas importantes tocaram ocasionalmente em duo. Em 15 anos de atividade. um dos maiores prodígios da história do violão. Um duo de violões tem de estudar e ensaiar praticamente cada nota e cada acorde. notavelmente o mestre de todos. Fernando Sor. na intransigência com que mantém o colorido em seções completas para sugerir as mudanças de registro do cravo. Muitas vezes esta tentativa de sincronia faz com que a execução fique rígida como um bate-estacas. de pai grego e mãe italiana. aqui já percebemos uma abordagem que tenta importar para o violão a linguagem de outros instrumentos. faixa 13 Haendel – Chaconne em sol maior 13. Se o ouvinte tentar. em período integral. No que se refere à precisão de conjunto. aos 10 anos de idade. A recepção da crítica francesa foi extremamente positiva e abriu espaço para uma carreira internacional ascendente. já estavam casados e já estava decidido que se dedicariam exclusivamente à carreira de duo. capaz de criar reverberações incalculáveis. no caso o cravo. há uma tradição da escrita para conjuntos de violão. mas ao mesmo tempo na sonoridade redonda e na alta temperatura emocional. Entretanto o primeiro duo profissional. a de duos “iguais”. verve e elegância. Escutem a admirável maleabilidade com que tocam a suíte de Marella . tocar duas notas ao mesmo tempo. Alexandre Lagoya nasceu no Egito. desde o Renascimento. com Dionísio Aguado na Paris do início do Romantismo. no rigor rítmico. deram mais de 2 mil recitais e gravaram vários LPs. mas as gravações que realizou aos 14 anos de idade atestam a presença de um talento singular. na busca da unificação da intenção musical. mudou-se para a França para completar seus estudos. da Sonatina de Torroba. havia duas categorias de composição. o duo Presti-Lagoya representou para o duo de violões – uma formação de proporções clássicas. A ornamentação traz algumas novidades. o patamar alcançado por eles é sem precedentes. disco 2. Ida e Alexandre se encontraram pela primeira vez 1950 na casa de um aficionado em Paris.

também composta para eles.A Arte do Violão pág. faixa 19 Rodrigo – Tonadilla 1o. O violão costuma refletir nitidamente a personalidade de quem o toca.3 – Finale:presto 4. que traz à mente imagens de acordeonistas de boina.96 no. é difícil categorizar o duo Presti-Lagoya. bem cedo em sua carreira. Um erro provocou uma hemorragia durante uma bronquioscopia. e uma das melhores obras de Joaquin Rodrigo foi escrita para eles. Disco 3 – faixa 6 Petit – Toccata 5. têm mais facilidade em obter homogeneidade sonora. a velocidade com que os dedos deixam as cordas escapar. ele compôs 24 prelúdios e fugas para dois violões. op.15 [relato de Duarte] Como todos os grandes artistas. e dedicou-os ao duo. que produz uma sonoridade redonda e penetrante. e ela faleceu com apenas 43 anos. O P & F em mi maior nos deixa o gostinho do que teria sido uma integral. que eles usam com grande efeito dramático nas obras pré-românticas italianas como esta serenata de Carulli. Aos mesmo tempo em que eram capazes de tocar com tal doçura.41 [comentar sobre o estilo Empfinsamkeit] A imprevisibilidade do fraseado é atordoante: nunca se sabe se a próxima frase será tocada estritamente no tempo. onde o grau de eletricidade é elevado e uma citação de Gershwin perto do final é tocada quase que em meio a gargalhadas. Alexandre .51 Em abril de 1967. mas de alta definição timbrística: as notas agudas têm uma sonoridade brilhante e os metálicos têm uma qualidade de sino bastante peculiar. que eu costumo chamar de “bolsinhas de couro”. As Guitarras Bem Temperadas. faixa 14 Carulli – Serenata em sol. mov. 28 Disco 1. se a nota superior será alcançada a seco ou com um gentil debruçar-se – mas cada mínima inflexão é executada com total sincronia. durante uma turnê dos EUA. Disco 3 – faixa 7 Poulenc – Improvisation no. Ida Presti sentiu-se mal durante um vôo e foi levada ao médico. devido à semelhança física. Disco 3 – faixa 9 Castelnuovo-Tedesco – P & F em mi maior 4. Disco 3. faixas 5 e 8 Marella – Suíte em lá – Andante e giga 3. esta sonoridade é naturalmente aveludada. e nos dá um exemplo comovente da atmosfera de ternura que eles eram capazes de criar. Duos formados por irmãos. eles também se excediam em obras ágeis ou galhofeiras do repertório francês.04 Ou a atmosfera misteriosa. Disco 3 – faixa 8 Falla – Danza Ritual do Fogo do ballet El Amor Brujo 3. se haverá uma hesitação antes da última nota. Até as mínimas ondulações da dinâmica (exemplificar) são tocadas com total unidade de propósito. à beira do Sena. Não só o tipo de técnica e postura.43 Rodrigo também escreveu um excelente concerto para 2 violões e orquestra.33 [comentar abordagem estilística] Esta sonoridade arrebatadora fez deles o veículo ideal para a música espanhola. suas interpretações de Albeniz.12 2. se haverá uma leve brisa de aceleração. mas também o formato e textura dos dedos e unhas faz com que cada violonista tenha uma sonoridade característica e difícil de reproduzir. Ida Presti adotou. allegro ma non troppo 2. Granados e Falla são soberbas.20 Ou esta pequena transcrição de Poulenc. A sonoridade do duo é bastante particular.18 1. uma angulação para a mão direita que fere a corda com o lado direito do dedo. Já ouvimos várias obras de Castelnuovo-Tedesco nos programas sobre Segovia. especialmente irmãos gêmeos. Mas o duo de marido e mulher Presti-Lagoya consegue o milagre de uma sonoridade absolutamente uniforme pela afinidade musical e espiritual. opressiva e obcecada da violência mal contida da Dança de Manuel de Falla. Um exemplo é a Toccata de Pierre Petit. que não chegou a ser feita pelo duo. Disco 1.

vieram progressivamente a preencher o vácuo deixado por estes artistas estupendos. No próximo programa. dois duos brasileiros. e a distribuição de seus discos aqui era precária. sem brilhantismo. Mas ainda assim estes desbravadores criaram o precedente de uma carreira possível para um duo de violões. por vias independentes. a arte de Julian Bream. de obras importantes como os concertos de Rodrigo e Castelnuovo compostos especialmente para eles.A Arte do Violão pág 29 Lagoya entrou em profunda depressão e só conseguiu retomar uma carreira solo. 5 anos depois dessa verdadeira tragédia. mas ainda assim. os irmãos Abreu e os Assad. Nunca tocaram no Brasil. Ida Presti e Lagoya. não se concretizaram. . Numerosos projetos de gravação.

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seu ponto de partida foi a aquisição de uma vasta cultura musical que moldasse sua concepção de violão. conseguiu conquistar a aceitação do violão como um instrumento de concerto. opinião compartilhada por Segovia. ao longo da história moderna. na época. que produziu algumas das melhores orquestras e escolas do mundo. Tampouco produziu instrumentistas capazes de criar maiores reverberações. Bream é primordialmente interessado em fazer com que o violão seja parte ativa da vida musical como um todo.10 Julian Bream nasceu num subúrbio de Londres em 1933. violonista e violoncelista”. a maior parte dos músicos de relevo no país era importada do continente.guitar recital faixas 8 e 9 Turina: Homenaje a Tarrega op.” “Posso não ser um Sir. Tarrega chegou a dizer que um bom violonista inglês era uma “contradição em termos”. Ser um comandante de um império que não existe é uma sensação superior a qualquer outra. que trouxe o violão à esfera da alta cultura. Andrés Segovia. Visto por este viés. científica e literária. o país conseguiu criar uma estrutura para sua vida musical – tanto no campo de ensino quanto no campo empresarial e de logística – que praticamente não tem paralelo em nenhum outro país. “O senhor gosta de estudar?” “Eu devo.A Arte do Violão pág 31 PROGRAMA VIII – JULIAN BREAM I Uma entrevista feita na Itália. Desde cedo ele percebeu que. uma posição de liderança no movimento de música antiga e solistas e regentes de fama mundial.” Julian Bream BG Considerando sua inquestionável hegemonia econômica. no violão. com palheta. Foi como cellista que ele conseguiu uma bolsa para estudar no Royal College of Music. na sua perspicaz construção de uma mitologia pessoal e guitarrística. Compare-se por exemplo uma gravação de Segovia etc. mas ao ouvir um disco de Segovia ele vislumbrou as possibilidades do violão clássico e nunca mais olhou para trás. vários compositores de primeiro escalão. No final do século XIX. Com o fim da rica produção musical do período elisabetano. ainda não tinha o curso de violão (que só seria criado nos anos 60). Inefável. seu pai era um artista gráfico que tocava jazz nas horas vagas. faixa 11 Sor: Rondo Julian Bream – guitar recital faixa 7 Sor: Rondo – Allegretto da sonata op. Julian Bream é.35 .69 – 1956 2. Bream é responsável pelo amadurecimento musical do instrumento.1956 4. Eu adoro. comandante da Ordem do Império Britânico. servindo-se da música para mostrar as mágicas qualidades do instrumento. Amo estudar até mais que tocar”. precisaria ampliar seu conhecimento musical.31 2. “Mr Bream. o representante do levante da música britânica. Teve uma infância austera. entretanto sou um Commander. pois a figura dominante do violão no pós-guerra seria a do quintessencialmente britânico Julian Bream. BG Se Segovia trouxe o violão à maturidade técnica e. e estudou também piano e violoncelo. o senhor é alaudista ou violonista?” “Sou alaudista. ao mesmo tempo em que tinha aulas de violão com o professor russo Boris Perrot. o último compositor britânico de primeiro escalão tinha sido Purcell. Ao contrário dos violonistas da geração anterior. porque o senhor não tem o título de Sir? Diga a verdade. um garoto de família modesta e de sotaque caipira conseguiu tornar-se um artista de refinamento sem paralelo. Julian Bream . “Entre nós. num programa que já mostrava um equilíbrio clássico e um entendimento musical que seriam constantes em toda sua carreira. os espanhóis tiveram de engolir suas palavras. já que. uma tradição musical de magnitude comparável. ela era chamada de “A Ilha sem Música”. um britânico deixa de ser uma exceção. para deixar sua marca com o violão. Bem. Como conseqüência. um veículo de música de alta qualidade e um ator respeitável na música de câmara.22 . marcada pelos bombardeios da blitz na 2a guerra e pela penúria geral da década seguinte. [história com o diretor e o problema do cockney]. Apesar do violão ter sido por um período considerável um instrumento de moda na Inglaterra. que. é surpreendente que a GrãBretanha não tenha construído. Inicialmente ele também tocou jazz. apesar de ter uma vibrante atividade musical. enquanto a geração de Segovia se bastava com o violão e seu fascínio intrínseco. depois da 2a Guerra. Sua estréia foi aos 14 anos em Cheltenham.

relação com o pai e sua perseverança na promoção do filho . when I behold the roses.58 . Começo no teatro e na BBC . .faixas 18 e 19 Byrd – Pavan & My Lord Willoughby´s Welcome Home .Comentar abordagem do alaúde e voicing em Johnson The Golden Age of English Lute Music – faixa 10 Johnson .A Arte do Violão pág.início da carreira discográfica em 1956 .36 Violão Hauser II 1957 .18 Violão Robert Bouchet 1960 .1 – 1956 4. etc. Walton.Ciclos de canções de Britten.Comentar Walton . op.O violão como alaúde e o alaúde como violão .17 Violão Bouchet 1964 . Dificuldades na gravação .Carman´s Whistle – 1961 2.Comentar Britten Music for Voice & Guitar – faixas 3 & 6 Britten: Songs from the Chinese.38 .comentar o equilíbrio da gravação de V-L Julian Bream – guitar recital faixa 13 Villa-Lobos: Prelúdio no.28 1.51 .1963 1.1959 10.relação com Thomas Goff e o contato com o alaúde. To couple is a custom 1. Music for voice & Guitar – faixas 15 & 18 Walton: Anon in Love .marco na história do violão. Twentieth Century Guitar I – faixas 1-3 Berkeley – Sonatina op.56 .Início da relação com compositores.Desenvolvimento da carreira discográfica .22 .estréia no Wigmore Hall em 1951 e serviço militar .43 .Relação camerística de complementaridade.Pioneirismo na pesquisa do repertório de alaúde .repertório diferente do de Segovia.abordagem do repertório barroco Baroque Guitar – faixa 6 Weiss: Passacaglia – 1965 4.Relação com Britten & Peter Pears . .12 The Autumn Wind.primeiras gravações com orquestra . Perfil .1963 1.49 Lady. Dance song 0.Comentar Byrd The Golden Age of English… .Moda da música elisabetana [fita Bream & Pears] .Perfil dos compositores caros a Bream. 32 Violão Hector Quine 54 .1963 2.

A Arte do Violão pág 33 .Comentar Nocturnal. casa no campo . . ao contrário de Segovia e Williams. Sua reputação internacional atingiu o ápice e ele freqüentemente dava concertos tocando alaúde na primeira parte e o violão na segunda. E isto ouviremos no próximo programa.trio JB.33 Violão Rubio 1965 Esta gravação consolidou Bream como o arauto da música moderna de qualidade para o violão.70 . Para a maior parte do público – agora não só de violonistas – ele era o intérprete dedicado à música antiga ou à contemporânea. que se excediam no repertório romântico.1966 18. Mal poderiam imaginar que também no repertório tradicional ele operaria uma revolução nos anos seguintes. Music for voice & guitar Britten: Nocturnal op.

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01 [Desanúncio] Estas gravações de Bream ao alaúde tiveram extraordinária acolhida e. porém as fantasias. Dowland é um autor cujas obras alternam empolgação com momentos de profundo pessimismo e melancolia. toca a canção Das coisas tais como são”.A Arte do Violão pág 35 PROGRAMA IX – JULIAN BREAM II Homem curvado sobre o violão. muitas vezes explorando somente um compositor. com quem Bream pôde dividir sua paixão pela música elizabetana. com a grande atriz shakespeareana Peggy Ashcroft. ao gosto do intérprete. Uma arte de ilusionismo. No violão azul. a tendência das gravações que cobrem áreas específicas do repertório. além de serem o retrato de uma época. o tenor tem som de tenor. Não tocas as coisas tais como são”. um dos primeiros grupos do gênero. E eles disseram: “Toca uma canção Que esteja além de nós. A música renascentista inglesa lhe é especialmente querida. as gravações de violão costumavam ser compilações de obras de vários períodos. Ninguém negará o papel central da grande tradição das sonatas e sinfonias de Haydn a Brahms. tiveram um papel fundamental na disseminação do processo de transformação temática que culminaria na forma cíclica de Liszt e Franck.14 Francesco Canova da Milano: Fantasia ‘La Compagna” –1972 – Rubio c. Cada uma das linhas do contraponto é burilada ao extremo. Isto lhe permitiu uma imersão total no estilo em questão e a busca de um idioma interpretativo que se adequasse a ele. mas nos anos 70 ele começou também a investigar a música original para violão do séc XIX e. no violão. o soprano tem som de soprano. o companheiro do compositor Benjamin Britten. Até os anos 60. especializado em música elizabetana.00? [Desanúncio] Um complemento a esta atividade foi a colaboração com o tenor Peter Pears. Como se fosse foice. Dia verde. Sua fama parecia residir nos dois extremos da música renascentista e da contemporânea.Goff 1. deu vários recitais de música e poesia. mas ao mesmo tempo além dele. na Inglaterra. Disseram: “É azul teu violão. E o homem disse: “As coisas tais como são Se modificam sobre o violão”. ele gravou as maiores obras deste período. eles. onde Wallace Stevens explora o paradoxo entre a realidade artística e a realidade exterior. mas seja nós. A . hoje há uma re-avaliação do papel histórico dos compositores da época de ouro do violão. o baixo de baixo.48 Dowland: Forlorne Hope Fancy – 1976 – Rubio 4. em especial nas pavanas e fantasias ele consegue descer ao fundo do poço e criar versões memoráveis. Bream inaugurou. e gravou seus discos na Wardour Chappel. disputaram a popularidade com outros hits da música antiga como as 4 estações. graças a este esforço. de um violão que sugere uma envergadura e uma profundidade que estão nele. “Ser o leão no alaúde/ Ante o leão preso na pedra. nos anos 70.” Julian Bream plays Dowland – FAIXAS 13 e 20 Dowland: Sir Henry Guilforde´s Almaine –1967 .3. mas Bream faz com que cada peça tenha uma voz própria. poderiam perfeitamente se aplicar à arte de Julian Bream. a trabalharem num atelier que ele mantinha na sua casa de campo. Por mais de 25 anos ele trabalhou com o mesmo produtor e o mesmo engenheiro de som. Rubio e Romanillos. Não surpreende que cada uma dessas gravações seja um clássico. e o compositor que visitou com maior freqüência foi John Dowland. como nesta Fantasia que ouviremos agora: Fita No. Ouçam a discrição com que Bream sublinha a ambigüidade métrica desta linda canção de Dowland: Elizabethan Lute Songs – faixas 12 e 13 Dowland: Shall I sue? 1970 – Rubio 1. Ou como diz Wallace Stevens. No programa de hoje. obras de forma variável. Julian Bream [BG] Estes versos são a seção inicial do poema “O Homem do Violão Azul”.57 [Desanúncio] Julian Bream também montou o seu próprio “consort”. e ele consegue manter ao mesmo tempo individualidade e interdependência. um reflexo da estrutura dos programas de recitais. Os especialistas em música antiga tendem a uniformizar este contraste. Ele convidou seus luthiers favoritos. entretanto. uma capela a poucos quilômetros de sua casa.

16 [Desanúncio] Muitos intérpretes especializados se satisfazem em executar música contemporânea com precisão e um mínimo compromisso pessoal.20 [Desanúncio] Acho que esta execução enterra para sempre a idéia de que Bream teria uma técnica insuficiente. mas são interpretações densas. O estilo de Henze. 36 advocacia de Bream revelou a plena estatura de um mestre como Giuliani: ele desfia a música como se fosse o enredo de uma ópera. A homogeneidade de fraseado é algo notoriamente difícil de se conseguir no violão: cada corda tem um colorido próprio. Villa-Lobos – faixa 3 Villa-Lobos: concerto.Romanillos 6.13 [Desanúncio] Importante como foi a contribuição britânica. pontuando a mudança de timbre entre as frases com acordes de um colorido intermediário [11´05´´]. produzindo interpretações ao mesmo tempo empolgantes do ponto de vista instrumental e intelectualmente complexas e equilibradas. ele consegue abreviar o abismo cultural e produziu uma interpretação de estilo perfeitamente convincente.35 2. Estas são estratégias típicas de artistas como Michelangeli ou Horowitz. É uma sonata de 30 minutos em seis movimentos que ilustram personagens das tragédias de Shakespeare.Hauser 4. [exemplo?] Bream não só faz com que a técnica do violão desapareça. onde Gloucester monologa sobre sua incapacidade de se deleitar com a vitória e os prazeres mundanos e sua resolução em se tornar um vilão devido à sua deformidade física. talvez a maior obra escrita para Bream tenha sido a Royal Winter Music de Hans Werner Henze. Comparemos a célebre gravação das Bagatelas de Walton com sua versão orquestral.121 1974 . uma condecoração com a Medalha Villa-Lobos. [Agradecimentos] Extra: concerto de Bennett 3o mov. Fita Walton: Varii Caprici (cerca de 30 segundos) Dedication – Faixa 6 e 8 Walton: Bagatelle no 1 e 3 – 1981 – Romanillos 3. Nas obras de Walton. Julian Bream não havia gravado o repertório espanhol por cerca de 20 anos e já era hora de se preencher este buraco em seu catálogo. desde a atmosfera solene da introdução. Maxwell Davies. Bream estreava ao menos uma obra de larga escala por temporada. Ouça. em que ele equilibra o lirismo derramado da introdução a um ritmo estrito e um caráter rigoroso no rondó. Andre Previn [Desanúncio] Ao mesmo tempo em que cobria o repertório tradicional. mov. Como exemplo. um genuíno herdeiro da tradição germânica representada por Beethoven e Brahms. op. ou Henze. como ele gentilmente empurra este tema para diante com um “coice” na anacruse [5´10´´]. já que o violão impõe uma mudança de cor e de articulação que muitas vezes não pertence à música em um plano ideal.Romanillos 14. O primeiro movimento ilustra cena inicial do Ricardo III. e é perfeitamente caracterizado nesta dramática e majestosa interpretação de Julian Bream. por exemplo. mas perfeitamente controlado.allegretto non troppo – 1971 . e hoje estas obras ocupam posição central na história do violão e na discografia de Bream. e mesmo tocar uma simples escala pode ser um problema insolúvel. Berkeley. Dedication – faixa 12 Henze: Royal Winter Music – Gloucester – 1981 .A Arte do Violão pág. Isto ele fez nos anos 80 com um projeto de maiores proporções. . Como todo grande artista. Bream gravou a obra completa de Villa-Lobos nos anos 70. o 3o movimento do concerto. ele destilou sua experiência musical. 3o. mas consegue absoluto controle de dinâmica e agógica com um colorido atordoante.24 London Symphony.3. e colocam Bream no panteão dos maiores artistas do século. Classic Guitar – faixa 8 Giuliani: Rossiniana no. Continuando sua sistemática exploração do cânone do repertório do violão. alia um atonalismo livre informado pelo desenvolvimento motívico clássico. buriladas e poderosas como esta as que verdadeiramente podem trazer a música contemporânea para uma posição de maior prestígio no meio musical. ou como ele “orquestra” este outro. caracterizando cada tema como se fosse um personagem e desencadeando uma tempestade no final. à maneira de Rossini. A lista de compositores que escreveram para ele soa como um quem-é-quem da música dos anos 60 e 70. que atende o pedido de Bream de uma obra de proporções e ambições estéticas comparável às últimas sonatas de Beethoven. por parte do governo brasileiro. e é o que ouviremos no próximo programa. que lhe valeu.

Melodias não são exatamente ressaltadas: mais parece que estão sendo declamadas. outras vezes altivo e cavalheiresco. de 1536. a arte de Julian Bream é a da síntese. ele nem chega a impressionar. Três de carne E três de prata. Seu livro El Maestro. Ele arrematou o projeto com uma série de programas para o Canal 4 da TV britânica que teve imenso sucesso.00? [Desanúncio] Quanto à interpretação de Bream. as gravações mais recentes de Julian Bream [BG – Music of Spain – faixa 17] Este é o poema Adivinanza de la Guitarra. Os sonhos de ontem procuram-nas Porém têm-nas abraçadas Um Polifemo de Ouro. e com esta música ele carregava o público na palma da mão. que. de Garcia Lorca. uma exploração sistemática de 400 anos de música espanhola. o grande mestre do período é Luys Milan. Ele havia gravado várias obras espanholas nos anos 50. também em forma de oito e com seis cordas duplas. são o ponto de largada para qualquer estudo sério do repertório do violão. Estas obras são escritas para vihuela. faz desta uma das gravações mais belas do século. ele evitou os clichês e iniciou a série com uma gravação estupenda dos mestres do renascimento espanhol. ele quase nos faz crer que não há outra maneira de se tocar esta música. O cuidado com que ele molda as seções imitativas e prepara as explosões de entusiasmo e a clareza com que caracteriza as seções da obra sem prejudicar a fluência do discurso são realmente tudo o que esta obra precisa. ele é um precursor na criação de uma linguagem puramente instrumental. Luys de Narváez é o primeiro compositor documentado que publicou obras em forma de tema com variações. Suas explorações de Albeniz. Granados. Tipicamente. Sua transcrição.26 [Desanúncio] Enquanto alguns artistas se contentam em tocar mais forte ou mais suave. por exemplo. Seis donzelas Bailam. Elas têm um valor histórico incalculável. mais dura ou mais maleável. ou diferencias. XVI. para início de conversa. já em sistema digital. Tarrega. Entre os dois extremos. é muito mais rica. e enriquecido o repertório com obras-primas contemporâneas. ele decidiu fazer. dedicado a Regino Sainz de la Maza. mas o aroma schubertiano que se desprende de sua versão. às vezes lânguido e melancólico. Turina e Rodrigo primam por uma plasticidade extraordinária. Depois de haver re-habilitado os compositores do renascimento e do início do romantismo. que já ouvimos em programas anteriores. apesar dele não usar um instrumento autêntico e tocar com uma técnica moderna. como eram chamadas.JULIAN BREAM – 1979-1995 ADIVINANZA DE LA GUITARRA a Regino Sainz de la Maza Na redonda Encruzilhada. mas que. [BG? Spanish Guitar Recital faixa 14] O cenário do violão nos anos 70 ainda contava com um Segovia em plena atividade. A guitarra! No programa de hoje. [fita] Milan – Fantasia XXII . é um tratado de instrução de vihuela que traz 40 fantasias em que ele explora genialmente as múltiplas possibilidades de combinações imitativas e de livre improvisação. Acompanhamentos não são somente suaves: são sussur- . aliando rigor. são negligenciados. fantasia e um alto teor evocativo.A Arte do Violão pág 37 PROGRAMA X . Spanish Guitar Recital – faixa 10 Granados: Valses Poéticos – 1982 – Romanillos 12. ainda hoje. Ao lado de Narváez. que teve um curto período de popularidade em meados do séc. Ouviremos dele a Fantasia no. no que se refere à agilidade. mas alternativas de um modo mais objetivo e atlético de se tocar o repertório espanhol já se cristalizavam com John Williams ou Narciso Yepes. de uma forma algo convencional. detalhada e rigorosa que as de seus colegas. Bream trabalha com uma gama de sensações mais complexa: freqüentemente temos a sensação de que a música está mais próxima ou mais distante. 22. um instrumento aparentado ao violão. em teoria. mais quente ou mais fria. Tive a satisfação de ouvi-lo várias vezes ao vivo tocando Granados. um artista de imaginação ilimitada.1979 3. mas que sugere o projeto de música espanhola que Julian Bream desenvolveu nos anos 80.

escrita para Sainz de la Maza. “mais ou menos” simplesmente não serve. Seu primeiro disco na nova companhia incluiu sua 4a gravação do Concierto de Aranjuez e sua 2a gravação do concerto de Arnold. Sinceramente. de 1995. sua inclinação para um caráter elegíaco e um certo azedume estavam se acentuando. um legato perfeito. a engenharia de som deste CD capta seu toque com mais fidelidade que qualquer outro. voltou a ser tocada nos anos 90 e Bream realizou uma gravação majestosa. Ele também encerrou seu contrato com a RCA e passou a gravar pela EMI. não consegue eliminar os chiados porque a música “pede” que ele deslize entre as notas.23 [Desanúncio] Nos anos 80. que havia estreado nos anos 50. um dos mais promissores compositores do modernismo espanhol. articulação e toque ideais.41 .faixa 10 Torroba: allegro da Sonatina – 1983 – Romanillos 3. Uma grande lição foi a sua total intransigência. Simon Rattle [Desanúncio] Aliás uma obra riquíssima que mereceria ao menos uma estréia no Brasil. 38 rados. há uma razão muito forte para estas regravações: a parceria com Sir Simon Rattle. mas. Várias vezes gastamos muitos minutos repetindo somente um acorde. Hoje em dia. mas ele tem como prioridade máxima a continuidade das linhas. e muito. Vibratos podem sugerir uma leve brisa ou um tremor de raiva.52 [Desanúncio] Aqui ouvimos um artista no auge de sua maturidade técnica e musical. Na Sonata de Brouwer. que são os chiados de corda. retomou sua carreira logo em seguida.03 [Desanúncio] Uma interpretação de beleza glacial e profundo estranhamento. aliás. que dá mais contorno e definição à sonoridade. que consegue cavar uma riqueza insuspeita nestas obras. Eu o vi com freqüência tocar Ponce. o que é simples.A Arte do Violão pág.Romanillos 4. notamos. Claro que Bream está em grande forma nesta obra extremamente difícil. Parece um pianoforte ouvido em um sonho. e ele me respondeu que sim. e vocês podem perceber que não é exatamente um som limpinho. O ouvinte praticamente vê o rubor dos pimentões e dos gazpachos e sente o aroma do vinho de Rioja nesta interpretação de Moreno Torroba: Twentieth Century Guitar II . revelou Antonio José. compositores que nunca gravou. Bream sofreu um acidente que quase encerrou sua carreira: ele estava dirigindo seu carro com o braço apoiado na porta e. perdeu a direção e esmagou o cotovelo direito numa pilastra de concreto. mas soa estranhamente distante. felizmente. Escutem só a Guajira. Seu último CD. Eu me divirto tanto com esta gravação que a escolhi como tema de abertura de nosso programa. um aspecto técnico que ele deixa passar. Sonata – faixa 1 Antonio José – Sonata – allegro moderato – 1995 6. Eu tive o sumo privilégio de tocar várias vezes para Julian Bream em masterclasses neste período. ao fazer uma curva por baixo de um pontilhão. em interpretações superlativas como estas.27 City of Birmingham Symphony orc. Julian Bream – Simon Rattle – faixa 1 Arnold – Concerto 1o mov allegro – 1993 6. Uma vez eu lhe perguntei se isso não o incomodava. mas bem trabalhoso. Regondi e Piazzolla. Isto é música de câmara em larga escala. ao se aproximar da terceira idade. Bream cria um personagem vivo à nossa frente. com cenografia completa. As gravações de Bream são de tal abrangência e qualidade que nos faz esquecer que seu repertório era muito maior. e o impacto de sua imaginação musical foi profundo e determinou muitas de minhas escolhas artísticas. Além da tecnologia digital. de Pujol. Music of Spain – La Guitarra Romantica – faixa 9 Pujol: Guajira – 1990 . basicamente temos de levantar o dedo para mudar de posição. e que. Tansman. mas repare no vigor e riqueza de detalhes da realização orquestral. entretanto. Aqui nós ouvimos um ligeiro click das unhas. assassinado ainda jovem durante a Guerra Civil. e ele gravou várias obras carregadas de reminiscência e de tons escuros. Ele passou por uma operação delicadíssima e ficou fora de ação por toda uma temporada. muitos violonistas já desenvolvem uma técnica de mão esquerda que praticamente elimina este efeito bastante intrusivo. buscando o timbre. Sua escolha de repertório reflete este caráter. Também notei que.1993 4. Sua sonata. isto é só um detalhe bobo. quando ele toca do jeito que “soa” certo. Nocturnal – faixa 15 Brouwer: Sonata .Sarabanda de Scriabin . cada nota é polida ao extremo. ouvimos um cuidado quase neurótico com cada som: a música é estática. uma interpretação que sugere os heróis picarescos da tradição literária espanhola. Isto é uma festa.

e ficamos na esperança de que outros artistas venham a dar continuidade a este magnífico plano urbanístico. ele sentiu que a missão estava cumprida. um reduto do bom-gosto e do bem-pensar. em comemoração aos 50 anos de sua estréia naquela sala. graus de doutor honoris causa. [agradecimentos e anúncio] . etc. Foi uma noite memorável. ele tem sentido um certo desencanto com a crescente comercialização do mundo da música clássica. deu um recital no Wigmore Hall em Londres. em 2001.. Apesar das homenagens por toda parte. ambos abriram avenidas na história do violão. onde. Gradualmente ele foi limitando sua atividade e. Não é por acaso que esta série deu a Julian Bream um espaço igual ao de Segovia. ele estreou duas obras. e desde então o mundo está mais pobre porque o músico que trouxe o violão para o primeiro mundo intelectual decidiu pendurar o chapéu. pasmem.A Arte do Violão pág 39 [Desanúncio] Ao terminar este disco.

40 .A Arte do Violão pág.

o impressionismo das escalas de tons inteiros [exemplo: 3. que conjuga amplas melodias. e vários de nossos mais influentes músicos e professores passaram temporadas no Uruguai se aperfeiçoando com Carlevaro. Abel Carlevaro . distendendo as terminações de frase.54]. Este foi Abel Carlevaro. antebraço e cotovelo como um mecanismo integrado. um violonista uruguaio. É da primeira geração de discípulos de Segovia que tratamos no programa de hoje. Abel Carlevaro . Seu impacto no Brasil foi incalculável. Mas a grande contribuição de Carlevaro para o mundo do violão foi sua exposição de uma teoria instrumental.2´00´ [Desanúncio] Uma personalidade que é a antítese do erudito Carlevaro é a do borbulhante venezuelano Alirio . Carlevaro estudou com ele por nove anos e. tendo como meta a clareza de emissão e um mecanismo bem azeitado que não trai nenhum esforço desnecessário e praticamente elimina os incômodos chiados que anteriormente se consideravam parte intrínseca do som do violão. Paganini nunca deixou nenhum método. o violão é notoriamente carente de sistematização técnica. comprimindo os momentos rapsódicos e deixando as harmonias mais complexas ressoarem com naturalidade. só nos dá pistas através de suas composições. [ BG] Para Carlevaro. Nesta gravação do intrigante Nocturno de Moreno Torroba. mas estudou violão como auto-didata até 1937. braço. de talento analítico incomum. mesmo Tarrega. apesar de muitos artistas mais jovens terem esmiuçado e imitado seus procedimentos técnicos e musicais. acompanhamos uma mente de compositor desvendando com calma a complexa estrutura. [BG] Carlevaro nasceu em Montevidéu em 1919. um violonista que tocava aparentemente sem esforço.29] e dos acordes alterados [exemplo:4.Faixa 5 iniciando aos 2´54´´ Torroba: Nocturno c.44] e gestos da música tradicional espanhola [exemplo: 4. começou a estudar de uma forma mais científica os maiores problemas técnicos do violão. em que cada uma das partes contribui para o equilíbrio gravitacional. que residiu no Uruguai durante a II Guerra Mundial. Ele não deixou nenhum método ou livro que revelasse seu pensamento musical e preservasse seu legado para as próximas gerações. Até mesmo uma coisa simples como uma postura em que o instrumento não escorregue ainda não é consenso. ele considera as costas. ministrou inúmeros cursos ao longo de sua carreira e ajudou a projetar o nome de vários de seus alunos. Ele foi um professor extremamente persuasivo e formou gerações de violonistas. em 2001. Sua detida observação da arte de Segovia. Andrés Segovia. a figura dominante do violão.53]. e formou-se em harmonia e composição.4´00 [Desanúncio] Com a habilidade de um perfeito barman. levou-o a formular uma técnica que trabalha a favor do aparato neuro-muscular. Suas gravações dos anos 50 atestam um alto grau de maturidade musical. embarcou numa carreira internacional. trazendo à tona as dissonâncias. os ombros.A Arte do Violão pág 41 PROGRAMA XI – A GERAÇÃO DOS ANOS 20 Grandes virtuoses não se destacam por sistematizar sua arte para uso das futuras gerações. mas o que mais interessa é que ela lhe dá margem para tocar com um fraseado elástico e elegante. composto por empréstimos dos modos eclesiásticos [exemplo: 2. [BG] Apesar de sempre ter sido um instrumento extremamente popular. logo em seguida.faixa 3 Barrios: Las Abejas c.55]. quando encontrou Segovia. Porém ele lutou para que se estabelecessem cursos de violão nas maiores escolas de música de todo o mundo e. e escreveu uma série de obras didáticas que tiveram enorme repercussão em todo o mundo. Esta gravação de um difícil estudo de Barrios é um retrato da arte de Carlevaro: sua técnica é. só podemos ter uma idéia de como Chopin e Liszt tocavam através de seus alunos. com este intuito. especialmente na América do Sul. não são as mãos e dedos que executam o trabalho pesado: partindo de uma postura estável e repousada. que foi mais um professor que um concertista. aos 85 anos. não deixou exatamente uma escola. inconfundivelmente castelhanas [exemplo FAIXA 5: 3. claro. Mas a partir dos anos 50. Ele mesmo manteve sua técnica intacta e estava ainda em plena forma quando faleceu na Alemanha. irrepreensível. Carlevaro acerta a dose em cada um dos elementos. No século XX. com um tecido harmônico mutante.

eles têm em comum uma abordagem essencialmente rítmica. mas suas interpretações de música venezuelana sempre tiveram o poder de entusiasmar o público. a preferência por uma articulação dura. na Itália. dançante e celebratório. Alguns dos melhores concertos para violão e orquestra foram escritos para Yepes. onde ouvimos as marcas registradas de Yepes: uma sonoridade levemente metálica e anasalada. Yepes soube administrar sua carreira de forma admirável. Mais tarde freqüentou os cursos de Segovia em Siena. o verdadeiro modelo para a técnica colossal do australiano John Williams. que é. de ouvido. A partir daí sua carreira internacional tomou corpo e chamou a atenção para seu virtuosismo extrovertido e descomplicado. com uma técnica de extraordinária firmeza e flexibilidade. de notas bem destacadas. O mundo da Guitarra Espanhola vol 1 – faixa 3 Tarrega – Recuerdos 3´ [Desanúncio] Yepes teve poucas aulas esporádicas com Segovia. ele começou a tocar violão aos 4 anos de idade e formou-se pelo conservatório de Valencia. Manuel Palau – faixa 1 Concierto Levantino: allegro non tanto c. franco e espouca com um caráter alegre. Yepes realizou dezenas de gravações para a companhia alemã Deutsche Grammophone. Entretanto. Solos de Guitarra – faixa 3 começando no 4´20´´ Lauro – Valsas nos 3 c. inexplicavelmente.57 [Desanúncio] Longe de ser um artista superficial. como demonstra este Bolero de Eduardo Sainz de la Maza. Aos 80 anos ele ainda está ativo. e pouco a pouco se aperfeiçoou e construiu uma bela carreira de âmbito local. Eu costumo chamar Alírio Díaz de violonista-champanhe: tudo o que ele toca é direto. bem como de Segovia. foi um retumbante sucesso e abriu as portas de uma carreira internacional.A Arte do Violão pág. a maior contribuição de Yepes para a história do violão é a vasta lista de obras-primas que lhe foram dedicadas por compositores de primeiro escalão. nos cursos de Siena. que lhe permitiram extraordinária fluência em passagens rápidas e extenuantes. Sua estréia em Madri. onde seu principal professor foi o compositor Vicente Asencio. mas ele decidiu traçar um caminho totalmente independente e a rivalidade entre os dois cresceu com o passar do tempo. que tornaram seu nome uma referência mundial. Yepes foi essencialmente um autodidata que desenvolveu um arsenal de inovações técnicas. tocando o Concierto de Aranjuez aos 19 anos. e foi escolhido pelo mestre como seu assistente. tornou seu nome conhecido em todo o mundo. Além de uma sonoridade robusta e masculina. como este magnífico Concierto Levantino. [BG romance de amor] A trilha sonora do filme francês Jogos Proibidos. 42 Díaz. em que o pulso da música nunca é subserviente aos caprichos do fraseado e ao feitiço da sonoridade. praticamente desconhecida até entre os violonistas. E aqui também começa um paradoxo: é o caso. de um intérprete de inatacáveis credenciais que.5´40´´ [Desanúncio] Uma figura controversa. A partir dos anos 60. e a alternância entre frases tocadas de forma indiferente com súbitas intrusões de algumas notas incrivelmente suculentas.faixa 9 E Sainz de la Maza: Bolero 3. e usa os recursos básicos do violão de forma totalmente desinibida. muitas delas inspiradas na técnica da guitarra flamenca. que foi seu aluno. Mompou] Nascido em Lorca em 1927. Quando já era homem feito. Sob a orientação de Asencio. Asencio. estudou com Regino Sainz de la Maza no conservatório de Madri.12´´ [Desanúncio] É uma obra admirável. que é particularmente adequado para o repertório latino-americano e espanhol. que inclui o notório Romance de Amor. produziu uma sucessão de interpretações completamente inadequadas do ponto de . é a do espanhol Narciso Yepes. [BG Ruiz Pipó. mas seu tremolo é uma metralhadora de alta precisão. Alírio Diaz sempre teve um repertório imenso. incluindo todos os maiores concertos de violão. na minha opinião. do catalão Manuel Palau. o intérprete Díaz prima por uma sabedoria que brota da experiência e da intuição. Não é difícil imaginar o impacto criado pelas suas versões atléticas e intransigentes do repertório espanhol. Sua interpretação do famoso Recuerdos de la Alhambra de Tarrega pode não ser das mais poéticas. [BG] Díaz nasceu no interior da Venezuela em 1923 e desde criança já tocava música folclórica ao violão. talvez único. mas de enorme popularidade. de sutil coloração impressionista. The Spanish Guitar .

60 e 70. que se tornou um crítico ferrenho das idéias de Yepes. [BG ??] Esta sonoridade singular inspirou o grande compositor Maurice Ohana a escrever várias obras-primas. faixa 3] Ohana: 3 Graficos: Grafico de la Bulería y Tiento 5´32 [Desanúncio] Aquí.1 de Villa-Lobos. meio andaluz. sua fama internacional cresceu. Também nos anos 60. um período em que os promotores de concertos pareciam dar maior atenção ao violão e ao seu infinito potencial na formação de um público para a música clássica. onde ele explora com inteligência os recursos de seu instrumento de 10 cordas. Uma das gravações mais interessantes dos anos 70 é a que Yepes fez das Canções Populares Espanholas de Manuel de Falla. [LP – faixa 3] Falla: Asturiana 2´01´´ [Desanúncio] Yepes faleceu em 1997.. um compositor com quem tem especial afinidade. ele projetou um novo instrumento.. e não os equívocos. Em 1952. onde ainda vive. É interessante saber que Lopez Ramos. já em 1957. a partir dali. são as qualidades de Yepes que nos interessam. entre elas aquele que é um dos maiores concertos para violão. que é sublinhada pela interpretação rígida. . [BG] Lopez Ramos nasceu em Buenos Aires em 1929 e cedo desenvolveu uma brilhante carreira confinada à América do Sul. um violão de 10 cordas – 4 baixos a mais – que lhe permitiu novas possibilidades musicais e com o qual criou uma sonoridade característica. ele se inspirou na arte arrebatada de Segovia e criou um estilo pessoal caracterizado por uma sonoridade cálida e intimista e uma irresistível sinceridade de expressão. a arte de John Williams. como catedrático de violão na Universidade. Mas. que explora a ressonância por simpatia das cordas extra. Até o ouvinte menos instruído pode perceber que há algo errado nesta interpretação do Choros no. depois de uma estréia de sucesso. Manuel Lopes Ramos – faixas 4 e 6 Ponce Sarabande e Giga 6´30´´ [Desanúncio] Uma gravação realizada ao vivo em Belo Horizonte em 1958. era um visitante assíduo do Brasil nos anos 50. Nesta obra ele desenvolve aspectos essenciais do ritmo e da trágica intensidade da música flamenca. [LP. fixou-se na Cidade do México. claro. quase brutal de Narciso Yepes. com a notável mezzo-soprano Teresa Berganza. como demonstra esta gravação ao vivo de Ponce. especialmente nos EUA. por exemplo: [BG Choros] Acho que já é o suficiente.A Arte do Violão pág 43 vista técnico e musical. e. assim como Carlevaro e Narciso Yepes. mas um violonista que continua a propagar os valores oitocentistas inspirados em Segovia é o argentino Manuel Lopez Ramos. mas de educação francesa e que se considerava meio africano. Ohana é um compositor judeu nascido em Gibraltar. os Três Gráficos. [Agradecimentos] No próximo programa. estamos a anos-luz do universo estético de Segovia. Sem ser exatamente um aluno.

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e não passará muito tempo para que seu nome se torne conhecido na Inglaterra e no exterior. A recomendação de Segovia foi realmente infeliz e revela o abismo que se abria entre uma geração sisuda e preconceituosa e o espírito mais democrático e inclusivo de John Williams. nunca se tem a impressão de que ele deixa de tocar com raça em favor da segurança. molto vivace 1964. Isto já era evidente quando ele fez suas primeiras turnês na União Soviética e nos Estados Unidos. simplista e autoritário. Hernandez y Aguado [desanúncio] Bem. escreveu o seguinte texto de apresentação: “Um príncipe do violão surgiu no mundo musical: John Williams . Com a provável exceção de Ida Presti.. nascido na Austrália há 17 anos. faixa 13 John Duarte: Variações sobre um tema catalão. que já mostram os ingredientes do sucesso que o acompanha até hoje: já parece que nada é difícil o suficiente e tudo soa sem esforço. e já nas próximas gravações. do fundo do coração. The Virtuoso Guitar.” [BG – Harvey faixa 1 2´44 ou faixa 2] “Parecia que tudo que eu havia aprendido.] Não foi o caso! Eu estudei com meu pai dos 4 aos 14 anos. op. num contrato com a CBS. E nunca passou pela cabeça de Williams estabelecer o “domínio espiritual” de sua “raça” – seja ela australiana ou inglesa. com isto contribuindo para o domínio espiritual de sua raça. mas Williams. Ele vive e estuda em Londres. Constatei os méritos deste jovem e faço um desejo. como se fosse sua sombra. . um equilíbrio difícil de se alcançar quando se é uma celebridade aos 18 anos.1 Allegro con moto. violão Fleta [Desanúncio] Uma obra adstringente. espontâneo. e atingindo rapidamente a maturidade artística. ele se acomodaria confortavelmente como herdeiro do manto de Segovia como rei do violão clássico. tudo que pudesse se aprender de violão. quase antagônica à de Segovia. Rodrigo/Dodgson faixas 11 e 12 5´08 Dodgson: Partita no. ele mesmo. Deus colocou um dedo em sua testa. nosso colega de escola ou de trabalho.” [BG: Colibri] O desejo de Segovia se concretizou numa dimensão que talvez nem ele esperasse.” Este sucesso inicial lhe deu autoconfiança para desenvolver uma personalidade independente. [.. já é o único infalível. Não poderíamos estar mais enganados. não Segovia! Segovia foi uma grande inspiração. [BG] O traço mais cativante de sua personalidade é exatamente o contrário: ele é o tipo de pessoa que poderia ser nosso vizinho. mas ele era um professor bem ruim. Entretanto ele nunca dá a impressão de chamar a atenção para este fato. Nas semanas seguintes a esse concerto. e não é para menos. o que não ajuda ninguém a se desenvolver como músico. um jovem violonista deu seu primeiro concerto profissional em Londres e Andrés Segovia. o que a mensagem de Segovia não deixa claro. stravinskiana. que o sucesso possa acompanhá-lo por toda parte. é difícil imaginar um violonista tão maduro tão precocemente. Williams gravou seus dois primeiros LPs. Estas variações de John Duarte conseguem a proeza de soarem perfeitas e casuais ao mesmo tempo. Um souvenir desta primeira fase de sua carreira é a magnífica gravação que fez do Concierto de Aranjuez em Fliadélfia em 1965. Outros violonistas também podem ter uma técnica impecável. Ele consegue ser despretensioso sem perder a consciência de seu extraordinário talento. já uma lenda viva. Numa entrevista para a BBC em 1993 ele disse: “esta recomendação me persegue até hoje e é mais um fardo que uma honra. podemos perceber que ele procura criar um repertório próprio que já pertence a uma estética totalmente diferente. com uma interpretação destemida e incisiva.25 9´50 1958. fosse através de Segovia. e desde 1954 vem aperfeiçoando sua técnica instrumental na Academia Musical Chigiana em Siena. ainda adolescente. Chamar o jovem de príncipe sugere a existência de um único rei. poderíamos supor que depois do êxito dessa estréia fenomenal. e ele era um excelente professor – essa foi a parte mais importante de minha formação.A Arte do Violão pág 45 PROGRAMA XII – JOHN WILLIAMS I Em 1958. Este sucesso inicial lhe deu cacife para afirmar uma personalidade independente e uma visão musical antagônica à de Segovia.

A Arte do Violão pág. 46 Rodrigo/Dodgson faixa 1 Rodrigo: concierto de Aranjuez, 1o.mov: allegro com spirito 5.55 Orquestra de Filadélfia, Eugene Ormandy / 1965 [Desanúncio] Uma interpretação modelar e até hoje uma das melhores versões desta obra já gravada mais de 100 vezes. Aqui já notamos também a preferência de Williams por alterar o texto original em favor de uma execução mais fluente: o segundo tema é tocado uma oitava abaixo do original de Rodrigo, evitando o efeito estrangulado da região aguda do violão, e muitas das indicações de dinâmica não são respeitadas. Mas nunca temos a sensação de que ele faz isso para fugir da dificuldade, afinal tudo soa fácil e parece que ele ainda tem uma larga folga técnica. O que ele quer é que a música soe mais arredondada e natural. Se há uma pequena crítica é que muitas vezes a ginástica do solista faz parte do efeito dramático da obra, e essa sensação de perigo iminente está totalmente ausente de sua versão do Concierto de Aranjuez. [BG – Gentilhombre?] Seu colega Julian Bream o definiu como um músico apolíneo, onde o equilíbrio, a luminosidade e uma atitude sadia são os conceitos essenciais, opostos à visão do artista como um ente neurótico. Como ele mesmo já disse, a idéia de que o estudo é trabalho pesado é um ranço vitoriano. Para ele, a essência da atividade musical é que ela deveria ser um prazer. E isso é o que emana de suas inúmeras gravações dos anos 60 – um imenso deleite em ser capaz de se expressar e dominar tecnicamente uma sucessão de grandes obras. Greatest Hits faixa 21 Paganini: Capricho no 24 6.53 1969 [Desanúncio] Poucos músicos fazem de suas gravações um retrato tão perfeito de sua atuação ao vivo como John Williams. Eu o vi tocar esta peça várias vezes, e, em uma ocasião, numa das variações que terminam na região sobreaguda, o seu dedo mindinho simplesmente escapou da corda e ele errou a última nota, espetacularmente. Silêncio no auditório. Um erro desses é um evento raríssimo num concerto de John Williams. Ele olhou para a platéia com uma cara de “nem eu acredito que isso aconteceu”. Todo mundo começou a rir e ele prosseguiu, impávido, ainda mais perfeito que antes, até o final, quando o aplauso foi ainda maior que numa situação normal. Dentro de um legado de cerca de 80 discos, todos igualmente imaculados do ponto de vista técnico, é difícil escolher as melhores gravações, mas eu acho que algumas de suas versões de música espanhola têm uma certa impaciência e tensão interna verdadeiramente empolgante. Spanish Guitar Music faixa 1 Albéniz: Asturias 6.16 1969 [Desanúncio] Realmente, seu ritmo implacável e o cuidado com que gradua o crescendo de volume são inimitáveis, e a seção lenta definitivamente não é tocada para se escutar sonhando. De acordo com suas próprias palavras, “Segovia pensa a música verticalmente: há pouca tensão e propulsão no seu estilo. O som é maravilhoso e nada soa apressado, o que sempre foi e continua sendo um estilo maravilhoso. Mas minha sensação é de maior urgência, eu sempre tive esta tensão interna, não importa quão relaxante é a música”. [BG Bach?] Esta urgência também serve admiravelmente à música de Bach. Suas gravações das obras completas de alaúde representam uma virada na maneira como se encara Bach ao violão. Ele vê Bach como um compositor vigoroso, com um forte senso de pulso e consciência do substrato dançante da música barroca. Ao contrário dos violonistas do passado, ele não se debruça sobre a música, mas conquista o ouvinte pela propulsão. LP Columbia presents... faixa 1 Bach: prelúdio BWV 1006 c3´30? [Desanúncio] Outra característica em que ele se distingue de Segovia e de muitos outros solistas famosos em qualquer instrumento é a disposição em fazer música de câmara. Segovia jamais dividiria a ribalta. Williams sente-se mais feliz atuando como parte de um time, e usando seu prestígio para promover música que, sem ele, não teria muito espaço. Inicialmente suas colaborações foram algo convencionais, como neste esplêndido quarteto de Haydn. LP Paganini/Haydn lado 1 faixa 1 Haydn: Quarteto op 2 no 2, allegro 4´13 1968

A Arte do Violão pág 47 [Desanúncio] Mas pouco a pouco ele foi criando outras conexões, e a lista de seus parceiros aumentando. Ele fez duos com canto, com violino, com órgão, com cravo, duos de violões com vários violonistas conhecidos e não tão conhecidos, e uma célebre série de concertos com seu suposto rival, Julian Bream. Uma das combinações mais bonitas foi o duo com o grande cravista Rafael Puyana. LP Music for guitar and Harpsichord faixa 4 Ponce: Preludio 3´30? Rafael Puyana, cravo 1971 [Desanúncio] Londres devia ser um lugar muito estimulante para uma jovem celebridade nos anos 60. [BG Tellemann] Seu círculo de amigos incluía Daniel Baremboim, Jacqueline Dupré e F´Ou T´Song, mas também os músicos de jazz, uma herança de seu pai – aliás, sua filha, nascida nesta época, é pianista de jazz. Pouco a pouco ele acompanhou a moda de dar concertos sem casaca, e, ao final dos anos 60, não só estava tocando vestido com uma camisa florida totalmente paz-e-amor [hoje em dia ele toca com uma roupa esporte e mocassim], mas também começou a se envolver em espetáculos de fundo político, por exemplo com a cantora dissidente grega Maria Farandouri ou com o grupo chileno Inti Ilimani. Mas estas experiências são assunto para o próximo programa. [Agradecimentos]

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de encontrar. uma obra extraordinária em que o equilíbrio sugerido no título é alcançado através de uma oposição entre a linguagem tonal e atonal e entre a sonoridade dos instrumentos cantantes de um lado e dos percussivos. sua companhia. Perlman & Williams. criou um grupo de rock progressivo.. tocando violão clássico. entre eles Um Peixe Chamado Wanda. o mais célebre clube de jazz de Londres. Há algo no caráter australiano que é uma mistura das melhores coisas dos americanos. Muitas destas experiências. início Gowers: Chamber Concerto. encontramos com mais freqüência. K7 Gerhard Gerhard: Libra c. como esta com Itzakh Perlman. [BG Cavatina] O que os críticos não percebiam é que a vida de solista de música clássica pode ser brutalmente solitária e paralisante. Segovia disse: “este rapaz está empenhado em destruir tudo aquilo que eu levei anos construindo”. LP JW plays Patrick Gowers. descobrir. dos quais o violão faz parte. re-editados em CD. John Williams. de ter-se vendido e ser viciado em publicidade. é um parâmetro de comparação em todo o mundo. o tema deste filme. deu-lhe um prêmio por ter vendido mais de um milhão de discos. mas manteve várias colaborações de música de câmara num repertório tradicional. [BG] Mas isso não quer dizer que ele tivesse abandonado a música séria. Não demorou muito para que ele percebesse que era mais divertido tocar em shows que ficar repetindo o Concierto de Aranjuez ao redor do mundo. Grandes Esperanças e O Franco Atirador. Em 1979. construir. Para essa ocasião ele encomendou uma obra para o compositor de trilhas sonoras Patrick Gowers. do outro. CBS.4´00 . faixa 16 Paganini: Cantabile 3´38 1976 [Desanúncio e comentário] ele também participou da gravação das obras completas de Webern sob a regência de Boulez e da estréia de várias obras contemporâneas de peso. e mais londrino que qualquer coisa. Ele não só enco mendou e estreou inúmeras obras contemporâneas de linguagem bem mais drástica. consegue ver num material musical tão inconseqüente? Talvez a posição dos discos nas paradas de sucesso tornem essa questão irrelevante”. Ele começou a se interessar pela guitarra elétrica e encomendou várias obras para este instrumento. Um crítico chegou a se perguntar: “o quê um músico que. início c. hoje em dia. as músicas mais convencionalmente clássicas do lado B destes LPs. John Williams foi acusado de oportunismo. lado A. que teve extraordinário sucesso. como esta Libra de Roberto Gerhard. A Austrália tem vozes originais em arte e música sem aquela coisa horrível de tirar o chapéu e baixar a cabeça para outros países”. Os círculos da música clássica ainda eram extremamente circunspectos e não absorveram essa guinada sem chiar. inclusive o privilégio de ser o único grupo de rock a tocar na Abadia de Westminster. muito pelo contrário. o Sky. [BG Gowers] Em 1971 já era considerado um dos grandes mestres do violão e era um veterano em turnês ao redor do mundo. simplesmente passaram com o tempo.A Arte do Violão pág 49 PROGRAMA XIII – JOHN WILLIAMS II “Embora eu tenha morado na Inglaterra a maior parte de minha vida. no fundo eu me sinto mais australiano que inglês. lacônica. que na época impulsionaram as vendas de seus discos. A atitude mais descompromissada e arejada dos músicos de jazz e pop e o caráter artesanal da música comercial exercem um fascínio inegável. que é um dos poucos exemplos de cross-over plenamente satisfatórios do ponto de vista artístico. ele gravou várias trilhas sonoras para filmes de sucesso. [BG] Esta Cavatina de Stanley Myers. Foi também o primeiro artista clássico a tocar no Ronnie Scott´s. um feito raro para um artista clássico que mal havia completado 30 anos. Além de pope jazz. uma atitude bem franca. chegou ao terceiro lugar nas paradas de sucesso.8´00 1971 [Desanúncio] E seu virtuosismo é um show à parte.

l´Arc-em-ciel. que se volta para um tipo de som que está na moda. uma obra que certamente ficará no repertório de muitas gerações é a de Toru Takemitsu. mas este LP de 1977 marcou o início de um enorme interesse internacional por Barrios. [BG – world] Pode-se dizer que isso é um pouco a filosofia do eu-também. porém alguns acertos históricos também ocorrem. 50 [Desanúncio] Mas o forte de Williams na verdade é sua atuação como solista de orquestra. e o solista “encaixa” sua parte ao redor destas seções parcialmente improvisadas – uma técnica que Brouwer aprendeu do polonês Penderecki. oboé d´amore e uma vasta orquestra é uma homenagem ao pintor espanhol Joan Miró. mas ao mesmo tempo ele trabalhava com Leo Brouwer. K7 Brouwer Brouwer: concerto no 1 alguns minutos 1977 É uma obra em que usa a técnica do improviso controlado. boa parte do qual foi composto especialmente para ele. Barrios e Ponce faixa 9 Barrios: Cueca 3´26 1977 [Desanúncio] Barrios nunca deixou de ser tocado na América Latina. Muito do material que se escuta na orquestra não passa de blocos pré-determinados de motivos e efeitos sonoros que são embaralhados e repetidos irregularmente pelos músicos. uma peça de sua fase neo-romântica. a música clássica é somente uma linha particular de desenvolvimento que não tem de ocupar necessariamente uma posição central. final Dodgson: Concerto no 2 para violão. presto c. Palma 14´39 1989 [Desanúncio] Muitos desses experimentos de cross-over. numa obra bem mais experimental.4. Claro que há uma possibilidade elevada de erro. e o passeio circular do observador revela novos ângulos de uma essência imutável. . Ele não grava para a posteridade e não tem o menor interesse pelo que as pessoas possam achar de seu trabalho no futuro. John Williams é autêntico ao defender uma visão inclusiva das diferentes culturas musicais: para ele. o grande compositor cubano. Dos muitos concertos escritos para John Williams. mas em uma entrevista ele afirmou que está muito mais interessado em manter uma atitude arejada com a música e ter liberdade para experimentar o que quer que atraia sua atenção em dado momento. de pop e música de cinema ficaram irremediavelmente datados. inclusive o Concerto no. LP Castelnuovo/Arnold/Dodgson. Sua técnica flexível. sem muita convicção artística. [BG Takemitsu] Takemitsu é o compositor japonês mais conhecido no Ocidente. faixa 12 Takemitsu: Vers. boa vontade para colaboração musical e consumado profissionalismo deram origem a algumas das melhores gravações de um vasto repertório para violão e orquestra. [BG] [Desanúncio] Williams gravou mais tarde várias outras obras de Brouwer. principalmente através de suas trilhas sonoras para os filmes de Kurosawa. Takemitsu. esta é uma obra acadêmica e que propõe poucos desafios ao ouvinte. Este concerto para violão. lado B. excelente senso de conjunto. como no caso de Barrios. em que os materiais sólidos se posicionam ao redor da fluidez aquática.4´00 Orquestra de Câmara Inglesa. Charles Groves 1977 [Desanúncio] Sem ser exatamente fácil. que hoje é um autor publicado e tocado em todo o mundo.A Arte do Violão pág. Sua obra alia o ouvido afiadíssimo para um delicado colorido orquestral – influência francesa – a uma estética e uma filosofia tipicamente japonesas de se encarar a música como uma comunhão com a natureza: ela é organizada como um jardim japonês.

uma atitude arejada que deveria ser um exemplo para todos os estudantes. feito pelo australiano Greg Smallman. muito antes da moda.XIX. Ele já chamou a atenção para a música asiática. e nutre uma profunda admiração pela música das Américas. É um instrumento de timbre fosco.A Arte do Violão pág 51 [BG] É uma linha de pensamento que ele tem defendido desde os anos 60. para o jazz e o pop. [Dedicatória e agradecimentos] . esculpido em forma de tela. E é com este olhar para o futuro que terminamos a primeira série d´A Arte do Violão. de se fazer do cross-over um caça-níqueis. que foge por completo da linha tradicional criada por Torres no séc. ele sempre procura novo material para seus discos e concertos. australiana. [BG – Koyunbaba?] É um design inovador. e usa um tampo finíssimo. africana. mas que produz um considerável ganho de volume e atesta o fato de que o violão ainda é um instrumento em desenvolvimento. Ao invés de fazer coletâneas com peças já batidas. imposta pelas grandes companhias. com um fundo pesado de compensado. Spirit of the Guitar faixa 1 Andrew York: Sunburst 3´32 1988 [Desanúncio] Nesta gravação ele já exibe o instrumento que tem usado nos últimos anos.

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como o mais importante compositor-violonista da atualidade. ganhou uma bolsa de estudos para os EUA. Beethoven. Giuliani e se amplia com Villa-Lobos. 30 segundos Os anos 60 e 70 marcam sua fase mais experimental. uma criatividade irrequieta.A Arte do Violão pág 53 PROGRAMA XIV – LEO BROUWER Música costuma ser uma atividade intelectual independente. BG – Danzas Concertantes A Revolução Cubana em 1959 reformulou. muitas vezes à força. do grande compositor Ernesto Lecuona. temos o caso de VillaLobos e de sua guinada populista na Era Vargas. atualizado com a produção da vanguarda. e onde o diálogo histórico com a técnica e a linguagem é preponderante. com segurança. o equivalente violonístico das obras de Bártok ou Stravinski. Eventualmente.Quinteto Leo Brouwer pode ser apontado. mas se amalgamam de forma simultânea na consciência do compositor contemporâneo. filho de um cientista e violonista amador de origem holandesa e parente. violão Fleta [Desanúncio] Brouwer diz que. de um alinhamento multifacético com as várias vertentes de vanguarda. a espanhola. mas seu mérito reside em haver-nos incitado a entender o violão como uma aventura intelectual. por parte de mãe. Isaac Nicola. E em Cuba. de produção cinematográfica e de órgãos governamentais de cultura e educação. BG – Scarlatti Estas são palavras do próprio Brouwer: “Eu era louco pelo flamenco. o acesso às obras mais modernas era limitado e. participando de comissões orquestrais. em casos como os de Gossec. na Cuba dos anos 50. “inovar é uma condição intrínseca a qualquer adepto da Revolução. definindo os rumos do ensino musical. e ante o modo como esta se fundia com nossa identidade. Como violonista e compositor. Este concerto . Esta pequena “Peça sem Título”.20 Marcelo Kayath. mas com Isaac Nicola meu horizonte se ampliou e descobri um universo insuspeito entre as seis cordas. já demonstra a certeza da forma. BG . quando ele compôs obras orquestrais de peso e flertou com a música eletrônica. já considerado o maior talento jovem da composição cubana. desconhecendo obras de vanguarda para violão. ele aprendeu guitarra flamenca sob a influência de seu pai. restringir ou subestimar as massas é que é uma atitude burguesa”. que obedece a seus próprios paradigmas. 1 1. tornou-se artigo de exportação da nova Cuba e visitou festivais de música contemporânea como representante oficial – e nestes sofreu a profunda influência do aleatorismo e efectismo de Penderecki e Maderna. Brouwer – Pieza sin Titulo no. pujante e otimista e um talento único para a mediação entre a discussão acadêmica da música clássica pós-moderna e sua tradução para a massa do público: Leo Brouwer. Segundo suas próprias palavras. onde estudou composição por um ano. a perfeição na condução das vozes e a originalidade harmônica. Brouwer. legítimo herdeiro de uma tradição que começa com Luys Milan no séc XVI e passa por Sor. e aos 12 anos passou a estudar com o grande pedagogo cubano do violão. e a entender que a aparente humildade do violão escondia uma nobreza indescritível e infinita”. Escrita quando Brouwer tinha apenas 17 anos. Na América Latina. O respeito pela tradição acompanha Brouwer até hoje e pouco a pouco tem se transmutado numa estética de sincronicidade. um grande compositor e violonista pode ser esmiuçado à sombra dos eventos da Revolução Comunista: uma personalidade carismática. c. Bach – Siciliana (sonata p/ violino BWV 1001) 3. ele quis compor aquilo que o instrumento não tinha. a economia de material. Inicialmente. Este mestre e amigo não só nos colocou ante uma tradição. BG – concerto para violino. Ele nasceu em 1939. Meyerbeer. que havia sido aluno de Emílio Pujol. e um ativo militante da revolução. Suas credenciais de revolucionário permitiram-no estabelecer a experimentação de vanguarda na agenda da produção musical cubana. em que os eventos musicais se sucedem numa linha contínua. tornou-se uma figura dominante na vida musical do país. todos os aspectos da sociedade.05 [Desanúncio e comentários sobre a pronúncia e estilo] Desde o primeiro momento Brouwer se afirma como criador e inicia uma sucessão de obras para violão que se movem numa esfera correlata ao nacionalismo essencial de um Bártok. ela é de precocidade verdadeiramente mendelssohniana. acontecimentos de ordem política podem exercer uma influência determinante na orientação estética dos compositores. que parte do violão como base de uma produção sinfônica. De volta a Cuba. uma micro-obra-prima. o entendimento do potencial da música folclórica cubana na libertação da métrica quadrática tradicional. Wagner ou Shostakovich.

elas formam este acorde arquetípico (ex. Brouwer desenvolve em termos musicais a idéia de que as mesmas estruturas são encontradas no cosmos e nas criaturas vivas. um raro caso de obra socialmente engajada que sustenta um escrutínio puramente musical. formas orgânicas . que. pertencem a uma seleção pré-estabelecida de intervalos. Estas relações são organicamente desfiadas. Brouwer – Canticum 4.29 [desanúncio] Nesta altura Brouwer. sugere um movimento espiralado (ex. a 4a. a cadência inicial do violino nos remete ao universo dos grandes concertos românticos de Brahms e Bruch. em ritmo propositalmente irregular. flauta. de articulação dura (ex. talvez. por sua vez. Uma das mais notáveis é o recital para barítono. repetido à velocidade máxima.). “pela primeira vez revelou-se nos céus a famosa estrutura espiral empregada com profusão pela natureza no mundo orgânico”. BG sobe [desanúncio] Mas é nas obras de violão que a reputação internacional de Brouwer se firma. sugerindo o eterno retorno do mesmo ciclo da natureza. que. que gradualmente penetra no espaço microtonal (ex. sugere uma nuvem de gás. mantém o padrão de 3 notas no início (ex. A primeira nota atacada marca o início da 2a seção. foi adotado como o troféu da vanguarda européia de inclinação esquerdista. enquanto a segunda adquire um coração.). que prescindem de complicações de notação e privilegiam a improvisação controlada ao invés de uma desnecessária complicação métrica.) e sugere o início da atividade molecular que marca a aparição das formas de vida na seção 4.). No notável “Canticum”. Brouwer passou a fazer extensas turnês como intérprete. aqui e ali interrompida por intervenções – que seriam. de 1971. que. isto abriu-lhe as portas do circuito internacional de música contemporânea e vários compositores escreveram obras que ele tocou e gravou para o selo alemão Deutsche Grammophon. Isto desemboca na 5a. BG . sugere uma estrutura espiralada – e o intérprete improvisa com elas uma dança. por traduzirem o discurso muitas vezes hermético da produção dos anos 60 em termos palpáveis e acessíveis até ao ouvinte desavisado. e a 6a. ele se inspira na transformação da larva. menor (ex. em borboleta.).3. explorando várias possibilidades de articulação: o semitom melódico descendente (ex. que deveria ser estudada como uma das obras modelares do século XX. de investigação do estilo histórico de interpretação de música antiga e de um personalismo . seção.A Arte do Violão pág. O potencial estético da borboleta é comprimido no acorde inicial. É difícil acreditar que uma obra que soa tão espontânea obedeça a um projeto ditatorial em que absolutamente todas as notas. a tremulação (ex. ouvimos este volteio de 3 notas (ex. Após uma introdução de escrita descontínua. justa (ex.00 [desanúncio] Ao lado de uma frenética atividade como compositor. Nesta obra. É uma das raras obras contemporâneas que.). A obra é dividida em 5 seções: na 1a.).).). combinadas.de complexidade crescente (ex. que é sua inversão (ex.El Cimarrón c. Luigi Nono e Hans Werner Henze visitaram Cuba e se encantaram com seu talento. de novo. usando a nota mais grave e a mais aguda (ex.) e levado à dissolução (ex. compositor e intérprete. sem exceção. maior. A 3a seção. a granulação das sétimas (ex. Pode-se dizer que estas obras constituem uma perfeita introdução à produção contemporânea. anuncia a presença dos materiais sólidos (ex. em que o material é aberto no limite da possibilidade do violão. composta unicamente de golpeios sobre o braço do violão. 54 para violino e orquestra. dentro de um casulo. executadas ao vivo. baseado no relato autobiográfico de um escravo fugitivo.) em adição ao material gasoso.). que estamos ouvindo.) e de repetição espiralada (ex.01 [desanúncio] Brouwer retoma a idéia medieval da música como um reflexo da ordem cósmica em “La Espiral Eterna”.) e sua progressiva permuta em forma de deslizamento (ex. a 7a. na forma de um pedal pulsante (ex. prestam honras à grande escola do violino barroco italiano. o trítono (ex. que concentra simultaneamente todas as relações intervalares desdobradas ao longo da peça: o semitom (ex. esta tradução é efetuada em obras tecnicamente acessíveis.) ou em volteio ornamental (ex. criando um amálgama muito pessoal de defesa da música experimental e seu complemento na música popular. Brouwer – La Espiral Eterna 7. que parte do silêncio e que. e com razão.). Somente um cubano poderia simbolizar o aparecimento de vida com um ritmo de dança: a seqüência de 3 notas do início é esgarçada em intervalos mais amplos – o que. compelem o ouvinte a um total engajamento e o convencem de uma verdade oculta que está bem além de uma simples organização casual de notas.).). na total ausência de ataque. de 1968.). Partindo de uma citação de um livro de astrofísica de Withrow. baseada em relações de tensão.).). percussão e violão de Hans Werner Henze: “El cimarrón”.). A primeira parte tem um caráter improvisatório e pontilhista. ele faz uma síntese das possibilidades de organização intervalar encontradas em obras de compositores mais “densos”. na sua materialidade. antecipa a inclinação dos compositores da década de 80 de produzir um argumento polissêmico através da fricção de elementos estilísticos heterogêneos. E esta dissolução deixa a obra em aberto.

passou a dedicar-se. onde os dois violões perseguem-se aleatoriamente. o movimento de investigação da interpretação histórica tomou corpo.11 [desanúncio] Importantes como foram estas inovações. Juan Blanco – Contrapunto Espacial III-c 2.Fariñas Já no repertório romântico. à regência. mas para os padrões atuais poderíamos dizer que é um pouco carregada demais. Leo Brouwer foi um pioneiro e um dos primeiros a adotar uma realização dessa nova filosofia da interpretação sobre o violão moderno. soa ao mesmo tempo rapsódica e analítica: Villa-Lobos – Estudo no. ao final da temporada.00c Visée – Suíte em ré menor 4. nos anos 70. para manter seu apertado calendário de concertos. ao invés de manter a simetria da progressão harmônica [ex. BG De acordo com suas palavras.00 [desanúncio] No final dos anos 70. um defeito . além de incrementar a carreira de compositor. ele valoriza uma relação secundária e interrompe a marcha harmônica [ex. Falla – Pantomima (El Amor Brujo) 4. com igual competência. Cristóbal Halffter. sequer decifrar a partitura desta obra de Juan Blanco. eu percebi uma saturação da linguagem da chamada vanguarda. o dedo se atrofiou e sua mão direita incapacitada encerrou. sua carreira de violonista. de envergadura orquestral. ele é um legítimo herdeiro da tradição espanhola de Llobet e Segovia.]. para violão e tape. o esforço afetou seus movimentos. A interpretação de Brouwer é extraordinariamente inventiva sem pôr de lado o aspecto de baile dos movimentos de dança. de Manuel de Falla. como demonstra esta sublime interpretação. Isso coincidiu com uma guinada na sua orientação estética. como se toda a história da música fosse ouvida de relance. seca e tensional sofreu. estudou todo um programa sem usar aquele dedo.00c [desanúncio] Esta multiplicidade de interesses se reflete em algumas de suas composições dos anos 70. Brouwer teve um problema com uma de suas unhas da mão direita e. para sempre.17 [desanúncio] Quase sempre ele traz uma visão de compositor ao repertório mais tradicional. nos anos 70. de conceitos esquecidos de articulação e fraseado e de evidência histórica para a realização da ornamentação tomaram o mundo musical de assalto e levaram os intérpretes do repertório convencional a reverem suas posições. é o trabalho de Brouwer com a linha mais extrema do repertório contemporâneo que o coloca na linha de frente do violão contemporâneo. é subitamente interrompido por uma citação de Beethoven. assimétrico. Neste duo.]. onde Brouwer toca um dueto consigo próprio. ao contrário. com um efeito quase psicodélico. a ornamentação reflete o entusiasmo inicial do movimento de música antiga pela liberdade criativa.00c [desanúncio] Visée é um dos compositores supremos do barroco francês.7 2. o discurso entrecortado. nenhum outro violonista capaz de tocar com tanto rigor e entendimento as obras de Maderna. pouco a pouco. mas a seu crédito podemos dizer que alguém precisava abrir as portas bruscamente para que outros músicos pudessem se dar conta do vasto espaço a ser explorado. e ainda sofre. talvez uma vaga lembrança de uma canção popular. eu não consigo pensar em nenhum outro violonista que conseguisse. Para falar a verdade. Henze. perpassando os dois violões de forma de-sincronizada e servindo como um fluido pano de fundo ao pontilhismo da boca de cena.Per Suonare a Due 3. No violão. Numa interpretação mais rigorosa. BG . Infelizmente. Brouwer . Uma figura em harpejo. Cornelius Cardew ou Bussotti. O que aconteceu é que este tipo de linguagem atomizada. Ele foi o professor particular de guitarra barroca do rei Luís XIV.A Arte do Violão pág 55 e uma expressão apaixonada verdadeiramente românticos. esta passagem soaria assim: Zanon A interpretação de Brouwer. Simplesmente não havia. Neste conhecido estudo de Villa-Lobos. Nos anos 50. uma leitura imaginosa e que não se atém à notação de Villa-Lobos. Ele não se deixou abater e. num sonho. O efeito é teatral: linguagens opostas convivem num ambiente orgânico. “com o tempo. sobrevoa a textura como uma fantasmagoria. o uso de instrumentos originais. à exceção de John Williams. Ohana. Ouçamos o que o próprio Brouwer tem a falar sobre sua interpretação da suíte em ré menor do compositor Robert de Visée: Comentário 2.

da música clássica e da própria vanguarda. masculino-feminino. vivendo na Europa mas representando seu país em vários organismos internacionais. que pouco a pouco se afastou do violão para se concentrar em obras sinfônicas. nos anos 70. tempo de amar. BG sobe Esta guinada a uma nova simplicidade informada pelo minimalismo. tempo de odiar – existe em todas as circunstâncias da humanidade. e que abrange os elementos essenciais da música popular. Para ilustrar esta fase. ao optar por enriquecer o papel do instrumento como um fundamental mediador entre a música clássica contemporânea e a esfera da música popular e da world music. ele já se apresentou frente a algumas das maiores orquestras do mundo e fixou-se como diretor musical da Orquestra de Córdoba. levou Brouwer a compor algumas de suas obras mais populares. além de mais 7 concertos para violão e orquestra. e recebe encomendas de obras novas o suficiente para mantê-lo ativo por décadas. eu fiz uma regressão na direção da simplificação dos materiais composicionais.A Arte do Violão pág. um fenômeno que será explorado nos próximos programas. um conceito que está presente na história: movimento. hoje Brouwer é uma das figuras mais requisitadas do circuito internacional de violão. na Espanha. A vanguarda sentia falta do relaxamento das tensões. Esta “lei de forças opostas” – dia-noite. que chamo de “Nova simplicidade”. Ponce] . Como regente. de um circuito internacional de festivais e sociedades de violão clássico. Este é o que considero minha última fase. Brouwer situou-se como um líder. yin-yiang. Brouwer – concierto de Liege 10. Elas me ajudam a dar contraste às grandes tensões”. Isso só foi possível pela emergência. certamente um reflexo da época globalizada e do enfraquecimento das certezas etnocêntricas da cultura clássica. uma de suas obras mais representativas. Dessa maneira. Ghiglia. tensão e seu conseqüente repouso ou relaxamento. 56 relacionada à essência do equilíbrio composicional. onde ele exibe seu brilhantismo como regente. que se estende de 1980 até hoje. Ao contrário de Villa-Lobos. Concerto para violão. ouviremos um trecho de seu 2o.00c [desanúncio] Coberto de honrarias em Cuba e ao redor do mundo. como a Sonata e El Decameron Negro. [Agradecimentos – Ragossnig. Não há ente vivo que não descanse.

As programações de orquestras sinfônicas ou de séries de recitais. na esfera da música de concerto. mas ao mesmo tempo. e aquele cuja carreira provocou reverberações que superavam o gueto do violão. organizado sob a égide da Radio e Televisão Francesa. no final dos anos 50.A Arte do Violão pág 57 PROGRAMA XV – KONRAD RAGOSSNIG. com razões pouco fundamentadas. Ele já apresentava um programa regular de violão clássico. A capacidade de mediação do violão é. sem pressa. e as mudanças de sonoridade entre as seções são discretas. em qualquer cidade. foi criação de Robert Vidal. em todo o mundo. raramente absorvem mais do que um ou dois solistas de violão por temporada. com um harpejo delicadíssimo. BG LP Guitar Recital Torroba: Madroños A arte de Ragossnig se define por uma sonoridade líquida e penetrante e por uma sensação de calma e serenidade que perpassa todas as suas interpretações. a base da carreira de muitos solistas. O violão. e que perdura até hoje. K7 Granados: Danza Española no. um aficionado fanático e um dos maiores conhecedores de violão e violonistas que já houve. infelizmente. Por outro lado. OSCAR GHIGLIA O final dos anos 50 constituem um período de transição na história do violão. uma vasta massa de aficionados e amadores começava a construir um público fiel. BG A situação parodoxal que se criou. tornou-se o evento mais esperado e comentado do calendário internacional de violão e lançou as carreiras de dezenas de jovens praticamente desconhecidos até ser desativado em 1993.30 [desan] Não se pode dizer que Ragossnig tenha aberto um universo de novas possibilidades no violão. Ragossnig estava longe de ser um novato quando sua carreira foi acionada através do prêmio em Paris. em 1960. Andrés Segovia. Ele se contenta em percorrer com maestria superior o caminho previamente aberto por outros violonistas. o que intensificou a expectativa do público no que se referia à técnica e à proficiência musical. foi o austríaco Konrad Ragossnig. um compositor que já estava na ordem do dia nos anos 60: a melodia é tratada com carinho e está sempre destacada. por um lado imprimia no inconsciente do público a idéia de que o violão era um show de um homem só. mais ou menos como este nosso. porém o Concurso. como já demonstram suas primeiras gravações. O prêmio em 1961 trouxe à luz um violonista de sólida cultura musical. não poderia ficar de fora desta tendência por muito tempo e. as difíceis mudanças de posição da mão esquerda são manejadas imperceptivelmente. o instrumento mais tocado em todo o mundo. a contornar a falta de oferta de maneira artesanal: criando clubes. os acordes são ligeiramente espalhados. ampla experiência em música de câmara e um natural equilíbrio de concepção que tinha muito a oferecer no cenário internacional. programas de rádio e festivais dedicados exclusivamente ao violão clássico. que hoje constituem. o patriarca. um fenômeno esquentado pelo clima de guerra fria e pela teledifusão de eventos esportivos.10 c. na tentativa de emular os outros instrumentos solistas. em Paris. é a de que o violão é. difícil de imaginar sem o ardor da versão de Segovia. mas sem ansiedade.4. O leal público de aficionados do violão passou. que já se materializavam nas incipientes carreiras de Narciso Yepes. Ouçamos por exemplo esta interpretação de Villa-Lobos. Nesta gravação de uma obra de Granados. ouvimos um artista que deixa o argumento musical escorrer como o fio de um azeite finíssimo. mal explorada. profissionalizando o ensino do instrumento. quando o exemplo já havia sido imitado em todo o mundo e um verdadeiro circuito de fórmula 1 de concursos de violão estava instaurado. Entre os primeiros vencedores deste evento de importância incalculável. . foi criado o primeiro grande concurso internacional de violão. Revistas e programas de rádio especializados em violão apreciam por toda parte. como convém ao caráter preguiçoso da peça. na Radio France. que soa como um cabelo bem penteado. o violão já fazia parte do curriculum dos conservatórios e universidades. Ele já havia feito estudos com Karl Scheit e com Segovia e já tinha sido apontado professor na Academia de Música de Viena. BG Nascido em Klagenfurt em 1932. sociedades. Julian Bream e John Williams. por ele comandado. Este concurso anual. ele ocupa uma posição periférica. sem suor e com uma clareza de expressão que só posso definir como puro alto astral. Em vários países. BG Este período também marcou a elevação do perfil dos concursos internacionais de interpretação musical. neste período. por um lado. informado e aberto para outras possibilidades.

00? [des. com uma técnica mais próxima à do violão. que é Konrad Ragossnig. dois grupos escritos a 4 vozes são colocados em oposição antifonal. É uma pena. e ambos. pelo repertório renascentista e barroco. Parece absurdo? Escutem só este magnífico madrigal de Gabrieli. Esta gravação ilustra a personalidade gentil e altiva. na maioria austríacos ou suíços.40 [desanúncio] Vários compositores.21 [dês. duos e trios de alaúdes e de violões. o pai lhe deu um violão.49 . 58 Lp Guitar Recital Villa-Lobos Prelude no 5 3. um dos mais significativos compositores do barroco francês. que não queria ficar sentado na pose correta. Ghiglia já era um músico de considerável experiência quando o prêmio em Paris o consagrou. seu pai era um artista plástico e tudo levava a crer que ele seguiria o mesmo caminho. BG . e até com órgão. mas poucas delas entraram para o cânone do repertório como aquelas feitas para Segovia ou Julian Bream. Conta ele que. ambos se interessaram por música de câmara. LP órgão – Gabrieli – Lieto Godea Sedendo 5.A Arte do Violão pág. com cravo. onde a mudança de registros do órgão é eficazmente espelhada no controle de colorido do violão.50 [des. Ghiglia já estava sendo convidado por Segovia para ser seu assistente.] Suas gravações trouxeram à luz o pouco explorado repertório para conjuntos de alaúdes. original. com flauta doce e transversal. num dado momento. que é tocada com elegância e flexibilidade expressiva e raro bom gosto para ornamentação. com cello. seu pai quis fazer um retrato da família. o menino tinha posto de lado os pincéis e queria ser violonista. Um arranjo contemporâneo feito para 2 alaúdes sugeriu esta versão. de orquestração fulgurante. Quando o quadro ficou pronto. Ragossnig toca com impecável virtuosismo – virtuosismo-virtude. LP La Guitare Royale Robert de Visée: Chaconne 3. Ouçamos. que nunca chama a atenção para si próprio. BG Ele fez duos com voz. com um preciso manejo dos diálogos entre o solista e a orquestra e que sustenta um timing perfeito para o desenrolar de cada idéia. como Julian Bream. Seu ritmo seco e pontiagudo trai a influência de Darius Milhaud. LP Bondon Bondon: Concerto de Mars 3o mov 8. Quando venceu o concurso de Paris. ele toca um alaúde adaptado. LP 2 ou 3 Alaúdes Anon: De la Trumba 2. o vencedor do primeiro prêmio do Concurso de Paris foi o italiano Oscar Ghiglia. LP The Guitar in Spain Albéniz: Zambra Granadina 3. por exemplo. Eles têm muito em comum – ambos estudaram piano e violoncelo. É uma obra sem instrumentação especificada. Vale notar que. que hoje é o arroz-com-feijão dos alaudistas historicamente informados.] Eu costumo encarar Ragossnig como uma contrapartida germânica para o historicismo britânico de Julian Bream. este concerto de Bondon. foi escrita por Robert de Visée. Esta Chaconne.] Em 1963. Para acalmar o garoto de sete anos.01 [dês. Ele também trouxe à luz obras pouco conhecidas de autores de enorme importância histórica. É uma obra vigorosa. professor de guitarra do rei Luís XIV.Tarantela Assim como Ragossnig. de alto interesse rítmico. preferiram tocar o alaúde. de um verdadeiro cavalheiro de eras em que boas maneiras e modéstia eram qualidades. Ghiglia estudou na Academia de Santa Cecília em Roma e tornou-se o aluno favorito de Segovia nos festivais de Siena e Santiago de Compostela. Ele nasceu em Livorno em 1938. dedicaram obras a Ragossnig. num belo dia.] Mas a maior parte da discografia de Ragossnig é dedicada à música de câmara.

onde é o catedrático de violão. BG – Ponce Ponce hoje parece ter conquistado um espaço cativo no repertório do violão. Ele soa como um tranqüilo passeio de barco num rio de águas límpidas. Ghiglia parecia ter tudo para uma carreira primorosa. soa como lei. técnica e cultura musical irretocáveis. Ninguém contestará a nobreza de sua inspiração. e que consegue criar um impacto singular com a dosagem certeira entre espontaneidade e estratégia estrutural. BG LP The Guitar in Spain .40 [dês. é um compositor bem acadêmico. hoje. e no conservatório de Basiléia. o desenvolvimento. a simetria das entradas do sujeito principal é mantida com um minucioso controle do volume de cada nota. e o resultado é um veredicto. Isto é particularmente evidente em suas interpretações de Bach. a intransigência ao trilhar um caminho que já tinha sido percorrido por Segovia: ele não explorou novos caminhos no repertório e a percepção do público resumiu-se a vê-lo como o embaxador post-mortem do mestre espanhol. que escreveu sonatas de feitio didático. de coloração judiciosa e discreta. Uma personalidade extremamente independente levou-o a passos algo bizarros. o que produz uma delicada continuidade de fluxo na seção central. principalmente. Nesta fuga.Sanz O que mais impressiona em Oscar Ghiglia é a majestosa autoridade de sua concepção musical. uma avalição injusta para um artista tão original. [agradecimentos] . Ghiglia parece ter encontrado a receita certa para esta música: correta proporção de andamentos e paciência para esperar o momento certo de se desencadear um único ponto culminante. um favorito de Segovia. na Suíça. Todos os elementos são postos na balança e sofrem um inquérito.] Nesta gravação fica fácil ver por quê Ghiglia tornou-se alvo da afeição de Segovia: uma sonoridade robusta.00 [dês. parece destacado do resto da peça e a recapitulação é algo convencional. pela convicção com que ele ataca a obra num andamento que parece funcionar em todas as situações.6. um contrato com uma gravadora multinacional. mas é massacrado pela total coerência intelectual. LP Ponce: Sonata III 3o mov. c. é apreciada principalmente nos inúmeros cursos que dá. A arte de Ghiglia.6. onde os temas são apresentados de maneira estanque. Isto dá mais propósito à forma e o discurso passa a soar como um monólogo interior.] BG Segovia Em meados dos anos 60. O ouvinte pode até cogitar outras possibilidades interpretativas. Sua atividade em música de câmara foi pequena e inexpressiva. que extrapolasse o restrito circuito dos festivais de violão: a mão benevolente dee Segovia.A Arte do Violão pág 59 [dês. E. mas algumas oportunidades foram desperdiçadas. o que não deixa de ser surpreendente. ao redor do mundo. mas ele não é um original – pelo contrário. LP Oscar Bach: Fugue c. que o isolou dos grandes centros musicais.] Outro compositor ao qual ele dedicou muita reflexão é o mexicano Manuel Ponce. onde as belezas localizadas são revestimentos para um passo rítmico firme e um fraseado de notável plasticidade. onde cada entrada do tema é apenas uma pedrinha jogada na água. A articulação é mantida obsessivamente em toda a peça. apesar de engenhoso. professor inspirado que é. como um período de residência no Taiti.

60 .A Arte do Violão pág.

o Museu Villa-Lobos convidou-o a gravar em estréia mundial os 12 estudos de Villa-Lobos. teve o privilégio de conhecer Villa-Lobos e travar conhecimento em primeira mão com sua criatividade torrencial. é provavelmente o primeiro concertista de violão do país. O primeiro concertista brasileiro a conquistar um espaço no exterior foi Laurindo de Almeida. felizmente. o Canhoto. Uma das mais fortes razões foi a falta de sistematização do ensino.A Arte do Violão pág 61 PROGRAMA XVI – TURÍBIO SANTOS E CARLOS BARBOSA-LIMA A única coisa que se rivaliza com o futebol na identidade do Brasil para o mundo é provavelmente o violão. do capadócio. sua participação na formação da identidade nacional foi se tornando cada vez mais forte. ainda menino. Ele veio ao Brasil com os portugueses na forma de vihuela e guitarra barroca e. Turíbio Santos tomou parte no Concurso Internacional da Radio France em Paris e obteve o primeiro prêmio. Sua estréia como concertista foi em 1962 e. BG Turíbio. violonista brasileiro a fazer uma carreira expressiva no exterior exclusivamente como violonista clássico foi Turíbio Santos.8. da pessoa de moral duvidosa. além de discutir aspectos da interpretação de sua obra. Mais tarde ele também teve aulas com outro uruguaio. onde estudou com Antônio Rebello. BG Ele nasceu no Maranhão em 1940 e mudou-se com sua família para o Rio de Janeiro. reveste-se de uma autoridade indiscutível e continua sendo uma referência para a infinidade de outras versões que vêm sendo feitas desde então. CD Turíbio em Paris [desa. Américo Jacomino. BG sobe O violão clássico brasileiro levou tempo a conquistar um espaço internacional. Esta é a gravação feita na Inglaterra logo após a vitória em Paris: realmente ele estava preparado de maneira impecável. freqüentemente à frente de importantes orquestras. um grande divulgador do violão clássico no Rio e um irmão espiritual de Isaías Sávio. e que formou uma primeira geração de violonistas plenamente treinados no repertório clássico. LP Villa Lobos 2 Estudos C. uma visão que compartilho: nada mais xarope que uma interpretação preciosista de Villa-Lobos. mas pouco o distingue dos não-tão-concertistas João Pernambuco e Quincas Laranjeiras. assim podemos ter o melhor de ambos os mundos: grandes concertistas de música clássica e grandes criadores de música instrumental brasileira. BG Na literatura brasileira. Este feito sem precedentes transformou-o numa celebridade dentro do meio musical brasileiro e marcou o início de uma guinada para a aceitação do violão como um instrumento de concerto pleno. que impediu muitos talentos de desabrocharem plenamente. ocasionalmente dividindo o palco com artistas do calibre de Yehudi Menuhim . portanto.] As portas para uma carreira internacional estavam abertas: ele fixou-se em Paris por 10 anos como professor do Conservatório Municipal e tocou regularmente nos maiores centros musicais. uma vigorosa execução daquilo que está escrito na partitura é suficiente para que essa música aconteça plenamente. ou seja. que não requer a imposição de uma interpretação individual. Sua carreira pendeu para o jazz e será tratada num outro programa mais adiante.] O intérprete já disse que Villa-Lobos é um compositor que se toca sozinho. Isto veio nos anos 40 e 50 com o uruguaio Isaías Sávio.00 [desa. e esta gravação feita ao vivo poderia tranqüilamente passar por um CD gravado em estúdio. que o 1o. então. Oscar Cáceres. Pode-se afirmar com segurança. Esta distinção talvez nunca se torne muito nítida. BG Em 1965. depois da independência. XX há algo no ar dizendo que o violão terá um papel glorioso a cumprir na cultura nacional. que chegou aos EUA como membro do Bando da Lua de Carmen Miranda. no ano seguinte. Mas já no início do séc. o violão é sempre posto nas mãos do boêmio. que incluiu o violão nos cursos de conservatório do país. algo de que ainda se duvidava dentro dos meios musicais mais conservadores. Esta sua primeira gravação.

claro. Uma figura dinâmica e livre de preconceitos. podemos dizer que praticamente todo estudante de violão no país é um neto ou bisneto de Isaías Sávio. 62 ou Christian Lardé. BG Turíbio continua sendo um solista bastante requisitado mas. mais recentemente. e um conceito de interpretação despojado. diretor do Museu Villa-Lobos. CD Spanish Music. que lançava a bossa nova. tornou-se diretor da Sala Cecília Meirelles e. Uma boa parte de seus recitais são compostos exclusivamente de música brasileira. um de seus alunos começou a chamar a atenção por sua precocidade incomum: Antonio Carlos Barbosa Lima BG Ele nasceu em São Paulo em 1944 e começou a estudar violão muito menino por influência do pai. [desanuncio] Nos anos 30. Gravou dezenas de discos no Brasil e na França. Por muitos anos. As pequenas imperfeições inclusive dão um lustro de autenticidade. um verdadeiro milagre de precocidade. encantado com sua habilidade natural. usando um piano de armário. sem nunca ter visto outro pianista tocá-la. vencendo o preconceito e desbravando um caminho para violonistas mais jovens. transformaram-se em ícones da música popular brasileira. hoje está preservado e disponibilizado o legado escrito e gravado de nosso maior compositor. tem se dedicado a promover uma ponte entre o universo mais ortodoxo do violão clássico e a tradição do violão popular brasileiro.A Arte do Violão pág. fez o seu debut com estrondoso sucesso em São Paulo e no Rio. Já seria excepcional somente pelo fato de Barbosa Lima ter apenas 12 anos na ocasião. faixa Albéniz – Malagueña De volta ao Brasil. e mostram que não se tratava de um pequeno autômato treinado para reproduzir as idéias do professor. que tende a explorar os efeitos mais elementares de contraste sonoro. as condições de gravação eram primárias. um forte conceito de pulso. numa obra de tal complexidade. K7 Barbosa Lima Castelnuovo Tedesco Vivo e enérgico c. não havia violões de qualidade e o instrumento que ele usa é precário. que não tenta se impor à música. ele foi o único violonista a tocar regularmente à frente das orquestras brasileiras e nas maiores séries de concertos. criou uma cultura para o violão clássico e foi uma figura determinante para a inclusão do violão nos programas de conservatório e universidade do país.30 [desa. publicou métodos. Compositores como Edino Krieger.3. mas tem também gravado o legado de compositores como João Pernambuco. mas como um estudante adulto especial”. No final dos anos 50. Mais tarde. uma verdadeira caixa de cebolas. seguro e simétrico. uma infra-estrutura educacional e técnica e. depois do falecimento da viúva do compositor. CD da Radio: escolher c. na época. Em sua estréia na TV dividiu o palco com João Gilberto. Seria o equivalente a um pianista de 12 anos gravar uma sonata de Chopin. eu não vou te tratar como criança.4 min. ainda não tinha uma cultura para o violão clássico e não havia praticamente nenhum intérprete capaz de servir como modelo para o garoto. Turíbio estabeleceu o curso de violão nas universidades do Rio de Janeiro e envolveu-se de corpo e alma na vida musical do país. que promove a unidade interpretativa. no programa do Chacrinha. Hoje. mas ele já contava com um grande instrumento. conheceu Isaías Sávio que. realizou suas primeiras gravações. o concertista uruguaio Isaías Sávio decidiu estabelecer-se como professor em São Paulo e operou uma transformação no ensino do violão no Brasil: ele formou centenas de estudantes. .] Esta é uma gravação absolutamente incomum. Aos 11 anos. lhe disse: “se você estudar comigo. onde tem feito uma administração excepcional. John Williams. graças a ele. como Luís Bonfá e Toquinho. Almeida Prado e Marlos Nobre dedicaram-lhe obras de envergadura. onde escutamos suas principais qualidades: uma sonoridade potente e algo áspera. mesmo tendo um embasamento no violão clássico. mas consideremos as condições sob as quais foi feita: o Brasil. com apenas 12 anos. ele estimulou seus alunos a desenvolverem um caminho próprio e muitos deles. Pouco depois. que fez sua primeira gravação no mesmo ano com 17 anos de idade. a orientação de nada menos que Andrés Segovia. tudo é tocado num único take. Seu desenvolvimento foi rapidíssimo e. Somente a título de comparação. não só tem colaborado com artistas como Paulo Moura e Olívia Byington.

para sua estréia. em apenas duas semanas. típica do estilo pampeano de tocar violão.] O trabalho de ampliação do repertório através de transcrições e colaboração com compositores prosseguiu e. Grau – Concerto em Modo frígio 3o. Ouviremos os dois últimos movimentos: o primeiro é uma longa canção de amor expressionista. mais tarde. Barbosa Lima gravou este magnífico ciclo em 1976.] Sempre amparado por seu pai e pelo professor. junto ao Mignone.00 [desa. 1 e 9 7. em 1977. LP Scarlatti 1 ou 2 sonatas [desa. Ginastera percebeu a ausência de uma obra contemporânea de maior envergadura e complexidade e no repertório de violão e escreveu uma sonata que é uma continuidade natural de suas sonatas para piano e uma das obras capitais do repertório. no início dos anos 70. ele teve de substituir um outro violonista impossibilitado de tocar e aprendeu a obra. de caráter sensual e ardoroso. como catedrático de violão na cidade de Pittsburgh e. e um rito de passagem obrigatório para qualquer jovem virtuose. e comentários] Neste período.A Arte do Violão pág 63 BG Aos 15 anos ele já era um veterano dos palcos e exibia um dinamismo contagiante. Francisco Mignone compôs seus 12 estudos para violão. teve a chance de tocar nos EUA pela primeira vez e a recepção foi bastante positiva. BG Barbosa Lima esteve ao lado do compositor em todo o processo de composição deu sugestões para os efeitos instrumentais que cumprem um papel fundamental na construção da peça. mov 6. temos um outro marco em sua carreira: a seu pedido. inscreveu seu nome na história do violão: a sonata de Alberto Ginastera. a mais importante obra brasileira depois de Villa-Lobos. fez parte do corpo docente da Manhattan School em Nova York. ele estreou a obra que. Sua primeira gravação norte americana teve enorme repercussão: pela primeira vez um violonista gravava um LP inteiramente dedicado a transcrições de sonatas de Scarlatti. Nesta ocasião. LP Mignone Estudos no. e o segundo é uma toccata baseada no ritmo de malambo. Tom Jobim Gershwin .00c [desa. com estonteante violência e empolgação. mas nunca pôs de lado suas origens e sempre incluiu algo do repertório brasileiro em seus programas. ele estabeleceu suas credenciais como solista clássico. Em 1970. Ouçamos uma gravação que fez nos poucos anos mais tarde do concerto do compositor argentino Eduardo Grau. onde o compositor emprega a técnica de rasgueado e golpe. Barbosa Lima tocou por todo o Brasil. Em pouco tempo ele já tocava também por toda a América do Norte e logo em seguida foi convidado a residir no país. uma técnica segura e flexível e uma incrível capacidade para aprender peças novas com rapidez e manter um extenso repertório.

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Quando os garotos já haviam superado o que havia para se aprender em casa. vibrante e sóbria. ouvimos no canal direito a sonoridade mais brilhante. em que uma nova obra era estudada em detalhe por alguns meses. BG Eles nasceram no Rio de Janeiro em 1948 e 49. Sérgio fechava a primeira parte com alguns solos. Em 1967 Sérgio venceu o prestigioso concurso internacional de Paris. o ambiente doméstico não distinguia estudo de brincadeira e a rigorosa disciplina foi uma decorrência natural. que é empregado em uma concepção musical ampla e exuberante. LP Abreu Albéniz: El Puerto c. nas palavras de Sérgio. A estréia do duo Abreu em 1963 foi um sucesso estrondoso. BG . S Marcos. Eduardo abria a segunda sozinho e o programa se encerrava com mais duos.25 [desanúncio e comentário] Ela era adepta de uma preparação rigorosa. feita em 1968. mas as próprias contingências da carreira – é mais prático organizar um concerto só para dois irmãos – acabaram levando-os a adotar um formato em que eles abriam o concerto com alguns itens em duo. Sor: L´encouragement 5. mas de rigor estilístico sem preceden- . [fade BG] Neste tema com variações de Sor. Esta é uma das poucas gravações deixadas por ela: CD Simalha. robusta e articulada de Sérgio.Telemann É curioso o fato de que. somente aceitou quatro alunos regulares: os irmãos Abreu e os irmãos Assad. e no canal esquerdo a sonoridade mais líquida. sustentada e penetrante de Eduardo. e o processo se repetia até que o aluno pudesse tocá-la com perfeição a qualquer momento. uma ex-aluna de Segovia. estudada de novo. fantasmagóricas. mas ela os orientou a tocar somente um ou dois concertos por ano para que a rotina de concertos não afetasse seu desenvolvimento no longo prazo. Villa-Lobos. Esta é sua primeira gravação comercial. os irmãos tocavam duos como uma experiência de disciplina artística.07 [desanúncio] Um compositor freqüentemente assassinado que recebe aqui uma interpretação a um tempo espontânea. sem aviso prévio. podemos perceber que eles tiram partido das ligeiras diferenças técnicas. e no ano seguinte Eduardo obteve o 2o prêmio. De qualquer forma. em uma família em que o pai e o avô eram professores de violão. numa transcrição que exime Albéniz de sua herança da música de salão e projeta a sua modernidade num colorido sofisticado. distantes e fugazes. a este limitado olimpo e são objeto de culto no mundo todo: Sérgio e Eduardo Abreu. BG sobe Apesar da absoluta sincronia de ritmo e dinâmica. CD Os Violões etc. grandes compositores ou intérpretes têm a aura de aparições miraculosas. Assioli: 1. Távora etc. Como nesta obra as repetições se alternam entre o primeiro e segundo violão. respectivamente. “a carreira começou a tomar conta de si mesma” e eles obtiveram excepcional recepção nos maiores centros musicais e foram convidados a gravar pela Decca e pela CBS. verdadeiros cometas: intensos. Artistas como Carlos Gomes. essa pequena diferença cria a variedade necessária numa interpretação de intenção musical impossivelmente uniforme. que. por vir de uma família de posses. onde a música clássica nunca ocupou uma posição central na educação e na vida social. Guiomar Novaes ou Nelson Freire são dissidências da ordem natural das coisas. BG O fascínio que os irmãos Abreu exercem deve-se muito à sua intransigência no aspecto de acabamento técnico. combina “um profundo sentimento romântico com uma pureza clássica de estilo”. posta de lado.40 [desanúncio] Uma gravação de excepcional maturidade para jovens de 18 ou 19 anos. nos anos 60 e 70. de acordo com Sérgio. Em sua passagem pelo Brasil. continuaram seus estudos sob a égide da enigmática violonista argentina Adolfina Távora. no início. nunca buscou uma carreira como concertista ou professora. metódica e de vasta cultura que. Dois irmãos cariocas juntaram-se.A Arte do Violão pág 65 PROGRAMA XVII – SÉRGIO E EDUARDO ABREU Num país como o Brasil. que realça a reiteração nervosa das frases. uma interpretação parnasiana. a partir daí. 4.

Não no Duo Abreu. Eduardo. o que definitivamente não acontece nesta empolgante versão da Tonadilla de Rodrigo. sem nenhum esforço aparente. As diferentes versões ao vivo das mesmas obras tocadas por eles demonstram uma similaridade de concepção que está fora do alcance da maioria dos mortais – as obras estão plenamente resolvidas e soam como diferentes takes da mesma execução. mov. dono de uma personalidade retraída. com imensa gama de dinâmica. os irmãos Abreu juntam-se a mitos como Arturo Benedetti Michelangeli. e aqui notamos a simplicidade de concepção e a sonoridade resplandecente que eram suas marcas registradas. Inclusive Sérgio. Concertos for 2 guitars: Castelnuovo: 1o. Rameau orienta o cravista a tocar cada nota com uma das mãos. Rodrigo: tonadilla 2o e 3o mov.45 [desanúncio] Uma obra que foi quase que uma assinatura do duo e demonstra sua consistência de ritmo. jamais produzir uma nota troncha ou zumbida. a escolha das cordas e dedos que são empregados em cada passagem. seu senso de estilo em música barroca estava anos à frente de qualquer outro violonista da época. BG Mas este mesmo perfeccionismo que realiza o ideal artístico pode se provar um empecilho. onde os graves aveludados servem como uma cama elástica onde a sonoridade mais brilhante dos agudos pode pipocar. eles conseguem esconder e uniformizar de tal forma as dificuldades técnicas do violão que suas digitações soam como uma charada. 6.A Arte do Violão pág. fraseado. CD BBC Scarlatti: Toccata 3. BG Santorsola Uma sincronia em tal grau exige não só muito trabalho.12 [desanúncio] Na passagem central. Krystian Zimerman e Jascha Heifetz em seu perfeccionismo obsessivo. na transcrição.04 [desanúncio] Poucas gravações com orquestra. Eles tocam de maneira pontiaguda e parecem se servir da potência máxima do violão sem. sob risco de se amordaçar a expressão com o excesso de preparo. o violão I toca a primeira nota. articulação e senso de conjunto. A sensação de plenitude sonora é alcançada por um perfeito controle vertical. ou seja. parece que os solistas estão sempre tocando “entre aspas”. um violonista profissional não encontra dificuldade em “ver” mentalmente a digitação. Poucos são os artistas que têm um comando tão completo e abrangente de todos os aspectos da realização musical. Sem esquecermos que todas estas gravações foram feitas num curto espaço em que eles tinham pouco mais de 20 anos. que tem grande interesse por tecnologia de gravação. mas um tipo específico de controle e memória auditiva. assim se alternando sucessivamente. o violão I a terceira. entretanto. sublinha o lado delicado e cerimonioso do estilo castiço de Rodrigo. BG Mesmo em mitos como Segovia ou Julian Bream. No início dos anos 70. 66 tes. e que. BG Isto exige uma dedicação completa a uma variedade de minúcias e milhares de horas de prática atenta. de qualquer instrumento solista. no minueto.30 [desanúncio] Uma versão que transmite um senso de coragem frente ao perigo. rigor e vigor rítmico. o violão II a segunda. pessoalmente se envolvia com a produção e fazia as edições dos próprios discos em casa. meses debruçados sobre umas poucas passagens e um entusiasmo genuíno pelo detalhismo. Rameau: Les Cyclopes 3. Eles freqüentemente levavam vários anos para incluir novas obras no repertório e gastavam um tempo precioso resolvendo problemas técnicos e musicais talvez imperceptíveis para ouvidos comuns. já que a mudança de uma corda a outra é perceptível e a mesma passagem tocada em posições diferentes soa diferente. trazem esta aura jovial. criando uma tapeçaria de fios imperceptíveis. e pouco afeito à atividade febril de um concertista internacio- . 7. BG O último Lp do duo traz dois concertos para 2 violões e orquestra.

Segundo o irmão.20 [desanúncio] Uma gravação de facilidade extraordinária e de textura clara e envolvente. resolveu tirar alguns meses de folga para estudar sem pressões. ardor e humor. BG – Fabio Scarlatti Para mim é um privilégio poder realizar algumas de minhas gravações num instrumento feito por um dos intérpretes que mais admiro. fina percepção auditiva e meticulosidade de preparo. e que é um modelo de inteligência. com inventividade. Poucos violonistas na história podem-se comparar a Sérgio Abreu em cultura musical. mas quem não gosta. pode soar bastante prosaica em um verdadeiro concerto para violão. bravura. que estamos ouvindo nesta gravação. E é a ele que agradecemos. era a parte mais fácil. No próximo programa.. num dado momento ele se deu conta que estava mais satisfeito fazendo violões que viajando pelo mundo a dar concertos. que contém gravações insuperáveis de Paganini e Sor. entrevistas. Seus instrumentos têm um timbre melífluo e trazem as mesmas características de clareza. . insatisfeito com o que considerava alguns problemas técnicos. E isso é perceptível no seu único LP solo. Eduardo sempre foi. segundo o irmão. projeção. a arte de Kazuhito Yamashita. Mais uma vez. todos os dias.1 1. Ele sempre tivera um interesse mais que passageiro pela construção de violões e. entre os dois. Hoje ele vive nos EUA e. limpidez e perfeição de artesanato que encontramos no Abreu intérprete. ainda é capaz de tocar como se nunca tivesse parado. Sérgio prosseguiu brilhantemente com uma carreira solo. Retirar-se dos palcos foi uma decisão séria mas natural. sem dormir direito. somente um hobby. Em suas próprias palavras. não dá pra forçar.33 [desanúncio] Aqui ele transforma uma obra que. recepções. Sérgio. dedicação e solicitude. visitava luthiers e comprava madeira e ferramentas para o que era. Sua concentração é proverbial. foi como tirar um sapato apertado”. e para ele não há distinção entre trabalho e hobby: longas horas de trabalho são horas de alegria por descobrir e produzir. em outras mãos. o desejo de encontrar a fórmula ideal procrastinou a realização deste disco por vários anos e envolveu várias experiências com diferentes instrumentos e salas de gravação. Eu mesmo sou o feliz proprietário de um violão Abreu feito em 1986.. BG Mas nesse período ele conseguiu fabricar seus primeiros violões. Sérgio: Paganini e Sor Paganini: 9. BG Sor? A partir de então. de uma certa forma. resolveu abandonar os palcos e se dedicar à eletrônica. em suas turnês. Tocar. tem gente que gosta exatamente disso. “gostar de tocar e gostar de dar concertos são coisas diferentes. BG – Hoje Sérgio Abreu vive no Rio de Janeiro e é internacionalmente reconhecido como um dos maiores luthiers da atualidade. BG Sor No início dos anos 80. por haver fornecido as versões em CD das gravações que ouvimos neste programa. LP Villa-Lobos: Estudo no. mas aquela xaropada de aeroportos. então. Os poucos meses de folga foram se ampliando.A Arte do Violão pág 67 nal. tornaram-se anos e. o que tinha maior facilidade técnica.

68 .A Arte do Violão pág.

Aos 15 anos já era vencedor de todos os concursos de música de seu país. mas dificilíssimos. Yamashita está. BG Pode parecer que esta batelada de efeitos tem um intuito puramente circense e exibicionista. que sugerem diferentes texturas orquestrais: um harpejo tremolado [ex]. tornando-se o mais jovem vencedor da história do prestigioso concurso da Radio France em Paris em 1977. faixas 1. entretanto. mas a verdade é que sua interpretação é magistral e capta perfeitamente a essência pré-expressionista. e aos 16 viajou à Europa pela primeira vez. médio e anular funcionam como ponto de apoio alternadamente [ex]. buscando mais velocidade e um efeito de metralhadora em passagens de notas repetidas. não têm espaço em outras esferas do repertório. mas alguns movimentos já nos dão a idéia do verdadeiro choque elétrico desta estréia de Yamashita. . de uma energia arrasadora. ele desde cedo criou o hábito de fazer arranjos para violão de todo tipo de música que atraísse sua atenção. mas um dos países onde mais se toca violão hoje é o Japão. em 1981. sem ter nenhum parâmetro de comparação. e isso. e poucos estudantes têm a paciência de estudar estes efeitos miraculosos que. já nos anos 30. CD Mussorgski. dos cellos e contrabaixos. tocando a corda alternadamente com a o lado de cima e de baixo da unha. ou toca exatamente na metade da corda para reproduzir o som da tuba [ex]. 50 anos à frente de seu tempo e tenho certeza que a composição contemporânea eventualmente incorporará estes efeitos em obras originais e forçará as próximas gerações a desenvolverem um grau de virtuosidade que. ele foi menino-prodígio e seu único professor foi seu pai. um feito extraordinário! [ex]. hoje.26 1981 [Desanúncio] Confesso que até hoje não me recuperei da surpresa ao ouvir esta gravação pela primeira vez. ou seja. A cabana de Bab Yaga. mas com qualquer dedo. e aquele que tem provocado maior impacto no cenário internacional é um original. como a superimposição de ligados em direções opostas. trinados simultâneos de mão esquerda e direita. com professores. tocando em várias posições próximas ao cavalete [exemplo]. ou mais pontiaguda para o oboé [ex]. mas ainda não foram digeridas por outros violonistas. tocando sobre a escala do violão com a polpa do polegar [ex]. pertence somente a Yamashita. Isso sem contar os efeitos menos evidentes numa gravação. com a formação de clubes de violão com milhares de membros. Catacumbas. da arte de Mussorgski. A Grande Porta de Kiev 19. Sua formação foi bem pouco ortodoxa e. ele criou um enorme arsenal de novos efeitos e possibilidades técnicas. Eu não poderia sequer imaginar que o violão era capaz de fazer tudo isso. com o vai e vem de somente um dedo. nunca haviam sido explorados antes. inclusive o mindinho. tocando acordes ao mesmo tempo. outras tentativas de tocar este Mussorgski não têm sido tão felizes. ao lado da literatura tradicional do instrumento. há uma cultura violonística. Progressivamente. fosse uma obra sinfônica ou um simples tema de televisão. A primeira coisa que chama a atenção é a imensa vitalidade da interpretação. A progressiva adoção da cultura ocidental ao longo do séc XX firmou o instrumento no país e. os quais. lançou seu primeiro disco. Ele desenvolveu vários tipos de tremolo. e até consegue sugerir o rulo do tambor militar [ex] ou o efeito de sinos. Gnomo. das madeiras agudas tocando em harmônicos [ex]. com uma rápida alternância de sons ocos e metálicos [ex]. neste aspecto. rápidos saltos. eu conheço poucas gravações do original desta obra ao piano que sejam tão vívidas quando a versão de Yamashita para violão. Nos anos seguintes sua carreira tomou corpo tanto no Oriente quanto na Europa e. o país começa a exportar concertistas. que marcou época: sua própria transcrição para violão solo dos Quadros de uma Exposição de Mussorgski. depressiva e onírica. compositores e concertistas. que eu saiba. BG Estas inovações de Yamashita já têm mais de 20 anos. Nos anos 60. uma escovadela com a palma das mãos para sugerir os violinos em pianíssimo [ex]. 9 e 10 Mussorgski: Quadros de uma exposição Promenade. O colorido orquestral é reproduzido fielmente através de um ágil deslocamento da mão direita: ele sugere a sonoridade dos metais. BG Nascido em Nagasaki em 1961. baseada na versão orquestral de Ravel. ele toca grupos de duas notas com três dedos. 8. Infelizmente esta obra completa preencheria quase toda a duração do programa e não nos daria a chance de ouvir outras gravações interessantíssimas. com formação 100 % japonesa: Kazuhito Yamashita. extensões extremas da mão esquerda. em que o indicador. ele consegue tocar em dedillo. ele produz uma sonoridade mais redonda para sugerir o saxofone [ex].A Arte do Violão pág 69 PROGRAMA XVIII – KAZUHITO YAMASHITA O imaginário popular sempre associa o violão com a Espanha e a América Latina.

da Sinfonia Novo Mundo de Dvorak. chiados de cordas [ex]. ou que ocasionalmente pode produzir uma sonoridade de derreter o coração [ex].27 [desanúncio] Castelnuovo –Tedesco é um compositor demasiado comportado e urbano para ilustrar um ciclo tão macabro. no que se refere a velocidade. . No caso do violão. a obra completa para violino. por exemplo.A Arte do Violão pág. de uma vitalidade ameaçadora: CD Espanhóis Asencio: Collectci Intim.10 [desanúncio] Esta interpretação é típica de sua abordagem de Bach. faixa 13 Suíte para cello BWV 1012. ao menos até o séc. Yamashita. um sarcástico e desesperado ataque à decadência da sociedade espanhola no início do séc XIX. Isso tudo soaria muito suspeito se ele não tivesse já ao seu crédito. é aquele que permite os sons musicais serem projetados com um mínimo de interferência de ruído.09 [desanúncio] No repertório espanhol. Uma de suas gravações mais interessantes é a dos grandes ciclos de Castelnuovo-Tedesco. mas também pesquisou outros autores obscuros do séc XIX. um som de vibrações caóticas. que alternadamente toca com total abandono e não liga para esse tipo de coisa. BG Eu acho que o mais sensato é tentar ouvir seletivamente e. com uma técnica deste tamanho. Bach. realizou arranjos para violão do Pássaro de Fogo de Stravinski. A técnica de Yamashita. com apenas 43 anos de idade. mentalmente. ao serem tocadas com força excessiva. ou sons musicais.Tedesco: Hilan Delgado 2. ele ataca o trabalho das parteiras que realizavam abortos: Cd Caprichos de Goya Fx 19 C. por exemplo. nada é difícil o suficiente. garra. mas o virtuosismo diabólico de Yamashita re-instaura o equilíbrio e aumenta o impacto desta obra. em mais de 10 CDs. Um bom acabamento. C-T ilustra musicalmente a notória série de gravuras do artista espanhol Francisco Goya. O que é acabamento? BG – Bach Fx 7 A música clássica tende a priorizar os sons de freqüências definidas. mas. Nesta obra. em geral. La Frisança 2. mais de 60 CDs. ou ama ou detesta. mas o acabamento fica prejudicado com este excesso de energia. O público. intensidade. Escutem. gravou a Scheherazade de Rimski-Korsakov. estes ruídos são as alfinetadas das unhas [ex].27 [desanúncio] É difícil achar uma obra que Yamashita não tenha tocado. este interessantíssimo arranjo de Haydn feito pelo violonista francês François de Fossa: CD Fossa. em duo com sua irmã Naoko. “eliminar” as idiossincrasias de sua técnica e tentar apreciar sua colossal musicalidade. 5o mov. bastante tradicional e inflada. o ruído. que cobrem uma vasta parcela do repertório tradicional. BG Ele gravou a obra completa de Sor. 70 BG Este não foi um evento isolado.XIX. do concerto para violino de Beethoven e. Yamashita é um violonista singular. prelúdio 5. ou que zumbem ao serem mal-pisadas [ex]. é visto como um elemento desagregador. é sem paralelo. cello e alaúde de Bach. notas que. e até incorpora estes defeitos como “efeitos” musicais [ex]. rebatem contra o braço do violão [ex]. Nesta assustadora gravura. para um violonista acostumado a tocar no extremo da possibilidade do instrumento o tempo todo. fx 12 Haydn/Fossa: presto da Sinfonia no 85 “La reine” 2. certos aspectos não soam tão satisfatórios. o Platero y Yo e os 24 Caprichos de Goya. onde as ondas sonoras vibram de forma periódica e harmoniosa. Em contrapartida. Sua facilidade para aprender músicas novas é proverbial e. ele também se excede e produz versões com um tremendo arranque. na técnica de qualquer instrumento. nos anos seguintes. incluindo.

34 [desanúncio] Vários compositores japoneses dedicaram obras para ele. O desafio para a próxima geração é conciliar as suas criações no campo do virtuosismo com as evoluções na esfera da musicologia e do acabamento técnico das últimas décadas. no primeiro movimento ele consegue criar uma textura mágica com somente dois acordes e uma profusão de ornamentos e inusitados efeitos orquestrais. comparável a Segovia 60 anos antes. Esta gravação enterra a idéia de que Yamashita só brilha quando toca milhões de notas. talvez os equivalentes de Isaías Sávio ou Garoto daquele país. tem evitado extensas turnês no Ocidente. inclusive vários concertos para violão e orquestra. Um dos mais impressionantes é o Concerto “Pegasus Effect”. mas não se pode negar que ele é o passo mais evidente na direção de uma evolução das possibilidades do violão na segunda metade do séc XX. CD Japão Fx 26 Shun Ogura (1901-77). 1o mov Bird 9. é uma celebridade local e. reg Tadaaki Otaka [desanúncio] Ao contrário do que sua atividade musical possa fazer crer. CD Yoshimatsu Concerto para v e orq “Pegasus Effect”. nos últimos anos.A Arte do Violão pág 71 BG – Japão Fx 1 Mas Yamashita também toca a música de seu país. modesta e equilibrada. Yamashita é uma pessoa tranqüila. pois é um dedicado homem de família. . de uma polidez tipicamente japonesa. Magouta 1. Agradecimentos. ele suscita acalorada discussão. e um de seus discos mais encantadores e delicados traz obras compostas por violonistas japoneses. Ele mora no Japão com sua mulher e quatro filhos.27 Sinfo-Filarmônica de Tóquio. Do ponto de vista artístico. de Yoshimatsu. Poucos violonistas conseguem criar uma atmosfera de paz tão completa.

72 .A Arte do Violão pág.

gravada com galhardia e técnica impecável por um já alquebrado senhor de 83 anos. Infelizmente estes concertos são longos e não caberiam completos neste programa. um verdadeiro exemplo de vitalidade. etc. este fenômeno recrudesceu e. no violão. em muitos casos. onde não só corrige os problemas formais com uma judiciosa escolha de andamentos. como exemplifica esta gravação de Pepe: CD Flamenco Fx 9 Trad: Bulerías 4. “desde minhas primeiras lembranças. que foi aluno de Daniel Fortea. nunca teve pretensões como solista e hoje se dedica principalmente ao ensino e ao quarteto da família. e um pleno domínio da linguagem do flamenco exige dedicação integral. de uma família que tem passado a tocha por três gerações: a Família Real do Violão. o que aumentou ainda mais o cisma entre elas. mas para ilustrar a maestria com que Pepe Romero defende este . antagônicos. a “pegada” e o raciocínio musical não só são diferentes. Pepe e Ángel. Pouca gente se dá conta de que. mas de inegável charme. BG Celedonio Ele foi um pai devotado e um tremendo professor. mas também alucina o ouvinte com seus rasgueados de arrepiar os cabelos. começaram a aprender violão aos 3 anos de idade. A partir do Romantismo e sua ênfase no individualismo artístico.XIX. eu destaco a gravação integral dos concertos de Mauro Giuliani. Celín. CD Noches de España Turina: Sonata 3º. e o know-how era passado de pai para filho como um livro de receitas secreto. aliado a uma cultura musical inatacável.47 [desanúncio] Uma peça sem maiores conseqüências. Um raio não pode cair duas vezes no mesmo lugar. que era um violonista. como podemos ouvir nesta pequena peça de sua autoria. Uma das grandes inovações da família Romero foi tentar reunir o melhor de ambos os lados e enriquecer o violão clássico com a intensidade do flamenco. raramente há uma sucessão de estrelas com o mesmo sobrenome. BG Pepe nasceu em Málaga em 44 e. que ele gravou poucos meses antes de falecer em 1996: CD Celedonio.A Arte do Violão pág 73 PROGRAMA XIX – LOS ROMEROS Era muito comum até o século XVIII a ocorrência de famílias inteiras devotadas ao ofício da música. se normalmente grandes intérpretes são alimentados no seio de uma família musical. Este conhecimento íntimo da arte folclórica andaluza. Uma das idéias fixas de Segovia era distinguir por completo uma arte da outra. é fluente tanto no violão clássico como na guitarra flamenca. como nas famílias Oistrakh ou Serkin. Movimento allegro 2.56 [desanúncio] Pepe é também um profundo conhecedor da literatura da época de ouro do violão no século XIX e. o que tem gozado de uma carreira mais consistente é o filho do meio. em 1958 ele conseguiu se evadir. primeiro a Portugal e depois aos EUA. Desde cedo ele tornou-se um respeitado concertista. Fx 5 Celedonio Romero: Fantasia (Suíte Andaluza) 3. Carulli. mas Pepe e Ángel começaram como meninos-prodígio e logo juntaram-se ao pai em suas turnês. um espanhol nascido em Cuba em 1913. Celín. tornam Pepe um dos maiores intérpretes do repertório clássico espanhol. apesar dos instrumentos serem idênticos. tendo sua base em Málaga. entre inúmeras gravações de Sor. Pepe Romero. BG: Concierto Andaluz A origem da dinastia está em Celedonio Romero. ele me fez sentir que eu era um músico. Dos irmãos. pois como disse seu filho Pepe. Entretanto. por ser abertamente contrário ao regime do General Franco. A fama de seus filhos tem obscurecido o valor de Celedonio como solista até certo ponto. exemplos óbvios são as famílias Bach. mas. obras-primas do gênero apesar de pouco conhecidas. mas teve enormes dificuldades para desenvolver sua carreira depois da Guerra Civil Espanhola. a técnica. e as raras exceções. Ele consegue tornar convincente até uma obra como a Sonata de Turina. ao mesmo tempo em que o flamenco tornou-se mais refinado com a minúcia da formação clássica. Los Romeros. mas a evidência de suas gravações mostra um músico sólido. o mais velho. Benda e Mozart. que eu era seu amigo e que era seu parceiro”. Mas temos um raro caso.39 [desanúncio] Raramente se escuta flamenco tocado com tanto refinamento sonoro. que por sua vez foi aluno de Tarrega. técnica esplêndida e de uma espécie de musicalidade senhoril que trai uma conexão direta com o séc. como o pai. A profissão tinha um caráter artesanal e corporativo. demonstram que um pai notável é tanto um modelo quanto um peso a se carregar. junto com sua família. Boccherini. Seus três filhos.

[desanúncio] Uma obra estimulante. BG Em 1993 Ángel decidiu dedicar-se à carreira solo e. e desde sua mudança para os EUA em 1958 o quarteto Los Romeros tem tido uma carinhosa acolhida. 3o. dos poucos que regularmente tocam com todas as maiores orquestras. Cd Giuliani Fx 4 Giuliani: Concerto no. . apesar de. é difícil verificar alguma diferença marcante entre eles. mas pela imagem de afeto familiar que exsude de suas apresentações. Girardilla c. que tem a forma de uma introdução e oito variações sobre um madrigal do séc XVI. que hoje goza de enorme popularidade no cenário do violão clássico.2 em lá maior 1o mov maestoso 9. LP Concertos Moreno Torroba: Concierto de Castilla. como a deste concerto de Moreno Torroba. o Concierto Madrigal. encoraja a visão distorcida de que o violão tem um repertório circunscrito a somente um estilo. de maneira quase beligerante. nesta que é uma das grandes gravações de música espanhola do século. ele tem o mérito de ter gravado um vasto repertório bem menos conhecido. o êxito internacional do quarteto. também tem uma esplêndida carreira como solista. Pepe e Angel. que é completa pela presença da mãe. merecidamente. O trabalho do duo não chega a mostrar a finesse de um duo Abreu. Mas a gravação que mais me impressiona é a da obra mais sofisticada de Rodrigo. mas as gravações mais sérias. A velocidade de aço da girardilla é algo que somente se conquista com décadas de prática assídua de escalas. onde Giuliani tenta criar a síntese entre o estilo operístico italiano e a complexidade formal do classicismo vienense. Se. Seu irmão mais novo. Pastorcito tu que vienes partocito tu que vas. por um lado. um concerto para dois violões e orquestra escrito para o duo Presti-Lagoya. A formação de quarteto de violões não tem uma tradição centenária e a maior parte do repertório consiste de transcrições ou de obras encomendadas. inclusive um de seus filhos é agora um respeitado luthier. Ele é também um grande colecionador de violões e toca sempre com instrumentos diferentes. com milhares de apresentações dos concertos de Rodrigo. Naturalmente eles gravitaram para a órbita da música de entretenimento. Entrada. o que eles fazem com imenso savoir faire. Moreno Torroba reg. Pepe é hoje. tem levado um entretenimento de qualidade ao público há 50 anos. 74 magnífico repertório ouviremos um fragmento do concerto no. garantem o sucesso de seus CDs.27 Orquestra de Camara Inglesa. Concierto Madrigal Rodrigo: concierto Madrigal. tocando castanholas. de orquestração magistral. com o falecimento de Celedonio em 96.A Arte do Violão pág. que lembra um pouco Antonio Banderas.10 [desanúncio] A Família Romero. e com um virtuosismo aterrador. movs. e de Pepe e Angel como solistas. são madeira da mesma cepa. interpretada de forma algo espanholada por Pepe Romero.28 [desanúncio] Uma obra formidável. garante a presença do violão na programação das maiores orquestras e séries de música de câmara. BG Angel: Rodrigo. [desanúncio] A família Romero era muito ligada ao grande compositor espanhol Joaquín Rodrigo. Madrigal. Mov.2. mas Angel tem uma musicalidade transbordante e um gosto musical algo menos erudito que Pepe. CD Carmen Fx 9 Moreno Torroba: Sonatina Trianera 8. inclusive um concerto solo e um concerto para 4 violões e orquestra. Angel. Elogio de la Guitarra Fx 4 Tecnicamente. ele tocar o desgastado Concierto de Aranjuez com frequência maior que a desejável. a excessiva ênfase no repertório espanhol. desta forma. Sua verve no repertório mais leve e a sua boa pinta. mas todos são de categoria excepcional. BG – Carmen É apenas natural que esta plêiade de virtuoses na mesma família se juntem para tocar. não só pelo seu valor artístico. a formação do quarteto agora inclui seus netos Celino e Lito. Agradecimentos a Pepe Romero e Henrique Pinto. atendendo à demanda. Ele dedicou várias obras a Celedonio. atestam uma integridade artística que justifica a prática mais comercial. um dos mais populares solistas internacionais. Eles abriram o precedente à formação de quarteto de violões. Cd ou fita. Angelita Romero. mas eles tocam com fogo.8 min. Allegretto sostenuto 6.

que fixou-se em Madri antes de falecer prematuramente em 1996. Um dos agraciados foi Miguel Angel Girollet. tem também uma sólida formação como compositor e musicólogo. 2o mov Scherzo 2. além de visitar setores inteiros do repertório com acuidade estilística e sensibilidade para as . Em 1975. uma carreira expressiva. deu seu primeiro concerto aos 13 anos e já havia vencido os concursos internacionais de Caracas e de Porto Alegre antes do sucesso em Paris. e um grande intérprete é sempre aquele que cria seu próprio universo sonoro. por um lado. Não é para menos. mas o vencedor foi o argentino Roberto Aussel. a precisão dos metais americanos. um verdadeiro aristocrata do violão. mas Fernandez foi o primeiro a grava-la e até hoje seu registro é uma referência. aquilo que está mais próximo de constituir uma escola não acontece na Espanha. na Alemanha. seu temperamento conciliador tende a uniformizar indevidamente o repertório romântico e moderno. Interpretação musical é uma expressão de individualidade exacerbada. de uma certa forma.A Arte do Violão pág 75 PROGRAMA XX – A ESCOLA RIO-PLATENSE DOS ANOS 70 Um dos conceitos mais artificiais que a crítica musical jamais cunhou é o de escola instrumental. é possível perceber uma comunhão de interesses e prioridades musicais: a bravura da escola russa de piano. além do prêmio em Paris. Eduardo Fernández. Eles compartilham uma técnica límpida e natural. Uruguai e Sul do Brasil. Villa-Lobos Ginastera: sonata. posteriormente. além de ter estudado violão com Carlevaro. Musette 6´30 [desanúncio] Weiss foi um contemporâneo exato de Bach e o alaudista mais admirado do séc. honesto e bem dosado.00 [desanúncio] Esta Sonata de Ginastera é um dos pilares do repertório do violão. na Argentina. como esta suíte de Weiss: CD Roberto Aussel Weiss: Suite no. L´Infidele: Entrée. Suas estréias em Nova York e Londres em 1977 arrancaram superlativos da crítica e levaram a gravadora Decca a convidá-lo para uma série de CDs. BG O que mais admiro em Eduardo Fernandez é sua cultura musical absolutamente impecável. No violão. Seguindo a tradição de Segovia e Bream. todos os quatro desenvolveram. Com um virtuosismo coruscante ele consegue esculpir a atmosfera alucinatória que é um dos ingredientes essenciais da arte de Ginastera. uma espécie de escola rio-platense do violão. ele se serviu dos concursos internacionais como plataforma para sua carreira. Esta suíte L´Infidele provavelmente deve seu título ao caráter beligerante à aparição de dissonâncias que eram consideradas “orientais” numa época marcada pelas invasões turcas. Se.XVIII. o prestigioso concurso internacional da Radio France em Paris teve dois argentinos e dois uruguaios na final. Porém. que produz elegantes interpretações de obras barrocas. BG No mesmo concurso de Paris em 75. e que tem em comum os professores argentinos Jorge Martinez Zarate e Abel Carlevaro. o segundo prêmio foi dividido. sem deixar uma discografia. ele não se rende à pressão comercial e só inclui em seu repertório obras de primeira ordem. freqüentemente ele ressuscita obras-primas esquecidas e realiza primeiras gravações de obras contemporâneas. as primeiras gravações de Fernandez já mostram um grau de maturidade incomum. as qualidades arquitetônicas da regência alemã. BG Fernandez nasceu em 1952 e. os europeus da América Latina. mas bem perto de nós. ele foi vencedor dos concursos internacionais de Porto Alegre e de Palma de Mallorca. Eles freqüentaram os célebres Seminários de Violão de Porto Alegre e desenvolveram seu rigor musical com o compositor Guido Santorsola. BG – Tamboriles? É uma geração de violonistas que tomaram o mundo musical de assalto nos anos 70. A tonalidade de lá menor era considerada apropriada para a expressão de um caráter majestoso. São. uma abordagem racional e analítica do texto musical e uma expressão sóbria. Como todos os violonistas desta geração.23. Hoje ele é um nome freqüente no panorama internacional do violão e é professor na Escola de Música de Colônia. O outro tornou-se o violonista mais conhecido deste grupo. por outro ele é admirado por sua sonoridade líquida. num dado momento e num certo lugar. o que é uma descrição apropriada para esta interpretação de Roberto Aussel. BG Aussel Aussel nasceu em 1954.

como professor na Universidade de Santa Maria. XIX. onde o compositor reproduz a sonoridade da harpa venezuelana.39 [desanúncio] Uma obra-prima que. como Liszt. Fernández tem uma técnica de notável fluência. Sua total imersão em qualquer obra que esteja tocando produziu o que considero a melhor gravação das obras de Bach ao violão. Double 2. BG Pode parecer que ele só tem interesse por raridades e obras muy sérias. Além de ser capaz de analisar em profundidade qualquer obra de seu repertório. A estrutura motívica é sempre articulada de maneira uniforme. 76 necessidades estruturais. devido à sua dificuldade. Gigue. BG Fernandez é conhecido por uma admirável acuidade mental. inclusive o japonês. freqüentemente ele dividiu o palco com os maiores artistas de sua época. BG Ele também já havia vencido o concurso de Porto Alegre e morou no Brasil por vários anos. e seu controle da dinâmica sempre respeita a macro-estrutura harmônica destas obras. Pode parecer que isso não tem nada a ver com o desempenho de um concertista. Berio constrói uma estrutura em que dois blocos de material contrastante são colocados em oposição logo no início. mas uma obra como a Sequenza de Berio exige de um intérprete não só uma técnica poderosa.24 1. ele é capaz de aprender obras inteiras de cor sem ter de tocá-las ao violão. Eduardo Fernandez. CD La Danza Lauro: Seis por Derecho 4´? [desanúncio] O sucateamento das grandes companhias discográficas levou Fernandez a abandonar a Decca por uma gravadora menor. ainda não é tocada com freqüência. mas ele também é capaz de produzir versões cintilantes de obras mais leves. Prelude. que às vezes resulta um pouco arenosa e sem lustro. e é o catedrático de violão nas escolas destas duas cidades. onde ele tem mais liberdade de escolha sem pressões comerciais. Ele tende a desenvolver à máxima potência algum aspecto estrutural . sem se sobrepor à concepção original de Bach. uma cópia de um violão de 1830 que pertenceu ao compositor desta peça. ao vivo isso não é tão evidente.22 [desanúncio] Mais recentemente. ele é versado em literatura e tem pleno domínio de várias línguas. CD Avant Garde Berio: Sequenza XI 16. além de ser um concertista bastante requisitado. mas ela serve a uma personalidade musical bastante excêntrica. Fx Aguado: Introdução e Rondo op. CD Bach Bach: Suíte BWV 997. Não admira que tenham vencido a guerra.3 em ré maior 9´30´´ [desanúncio] O vencedor do Concurso de Paris em 1977 foi o uruguaio Álvaro Pierri. Pierri tem talvez a técnica mais sofisticada de todos os violonistas dessa geração. Elas têm uma qualidade fundamental: coerência intelectual. Romantic Guitar. mas também cultura no mesmo patamar. mas a engenharia de som de suas gravações pela Decca não lhe faz nenhum favor. no RS. gradualmente ele vai criando pontes entre eles. Clara Schumann e Moscheles. Fita: Legnani Legnani: Caprichos em fa# menor e mi maior c. a ornamentação é historicamente perfeita. Se há uma pequena coisa a criticar é a sua qualidade de som. Nela. ampliando as possibilidades técnicas do violão com técnicas emprestadas do flamenco e da guitarra elétrica. Dionísio Aguado. Hoje ele divide seu tempo entre Montreal e Viena. ele tem gravado o repertório do séc XIX com um instrumento de época.2 no. Os soldados de Bolívar provavelmente se divertiam tocando joropos como este.A Arte do Violão pág. como esta de Antonio Lauro.4 [desanúncio] Legnani é um contemporâneo exato de Paganini e esteve no centro da vida musical do séc.40 1. Seus 36 Caprichos são um compêndio do violão pré-romântico e estavam praticamente esquecidos até a gravação de Fernández.

BG Quando eu tinha 15 anos de idade e estava começando a tocar profissionalmente. construíram suas carreiras vencendo concursos internacionais. BG Neste prelúdio de Villa-Lobos. Suas interpretações sempre primam por um perfeito balanço entre inspiração e erudição. Fita Pierri Brouwer: Villa Prelúdio no1 c. e tem se especializado no repertório do século XX. Outro violonista argentino que tem suscitado bastante interesse nos últimos anos é Eduardo Isaac. É apropriado que um intérprete tão singular viva no Canadá. no caso de Fernández e Isaac. mas amplamente compensada pela sua claridade de fraseado. ele toca o acompanhamento sempre com um ligeiro harpejo. os colegas sempre perguntavam “quando é que você vai sair?”. O andamento é consideravelmente mais lento que aquele a que estamos habituados. muitas vezes desconsiderando até mesmo as indicações do próprio compositor e qualquer convenção interpretativa consagrada pela tradição. o pianista que mais defendeu o direito de intervenção intelectual do intérprete. Como o futebol. BG A palavra-chave para definir Eduardo Isaac é a estabilidade. Eduardo Fernández e Gilson Antunes. continuam morando em seus próprios países.5´ [desanúncio] O caráter desta interpretação é totalmente diferente daquilo ao que o ouvinte está acostumado. a terra de Glenn Gould. Além disso ele é catedrático de violão no conservatório de Entre Rios.03 [desanúncio] Bogdanovich é um compositor sérvio que vive em San Francisco. o violão sul-americano é referência mundial e artigo de exportação. e alguns violonistas brasileiros têm se aperfeiçoado com ele nesta cidade fronteiriça. especialmente na seção central. entre coração e cabeça. por exemplo. como neste prelúdio de seu mestre Abel Carlevaro: CD Carlevaro Carlevaro: Evocación 5. Esta sonata é uma de suas primeiras obras. espalhando as notas do primeiro acorde. Ele começou sua carreira como um compositor folclorista. mas ele “desenha” o movimento melódico da peça com um controle de dinâmica digno de um ourives. O que mais admiro em Isaac é o bom gosto na escolha de obras contemporâneas. Talvez não seja a gravação mais indicada para quem nunca ouviu a peça.A Arte do Violão pág 77 das obras que escolhe. e esta gravação de um de seus melhores alunos é um tributo e uma referência. e mais recentemente tem utilizado elementos de improvisação numa obra imensa e de alto interesse. são idolatrados no circuito internacional de violão e. No próximo programa. e o faz de maneira absolutamente obsessiva. Agradecimentos Henrique Pinto. Madri e palma de Mallorca. seguindo o exemplo de Bartok. exceto nos casos em que há um movimento cromático. Sua sonoridade é algo opaca. que ele toca com verdadeira devoção. entre eles os de Porto Alegre. como esta sonata de Bogdanovich: Cd 20th Century Guitar I Bogdanovich: sonata I 1o mov 3. BG Ele nasceu em 1956 e se escolou nos cursos ministrados por Carlevaro na Argentina e Porto Alegre. como se o único caminho para um concertista de violão sul-americano fosse residir na Europa ou nos EUA. Ele é um múltiplo vencedor de concursos internacionais. . mas ao mesmo tempo é de total coerência. mas para quem já a conhece é sempre instigante. A verdade é que todos os intérpretes deste programa tiveram 100 % de sua formação em casa. a arte de Manuel Barrueco e David Starobin.33 [desanúncio] Carlevaro aliás é um compositor interessantíssimo.

78 .A Arte do Violão pág.

. em Baltimore. de forma mais fluida ou ligada [ex. e encarando Villa-Lobos como um compositor sério ao invés de vê-lo como um meio-termo entre a música popular e a música clássica. nesta gravação ele tentou ser bastante direto na sua leitura. O violão se desenvolveu um pouco mais devagar. sem tentar forçar suas próprias excentricidades sobre a música. mas hoje podemos falar de uma maneira tipicamente americana se tocar violão. Cada uma de suas gravações é preparada laboriosamente e retrata perfeitamente a solidez de sua atuação ao vivo. produzindo uma sensação de leveza e facilidade. ao menos nas suas gravações de música espanhola esse conflito é bem ocultado. Este mesmo disco traz uma das poucas gravações do Estudo no. Guarnieri: Estudo no. sua família evadiu-se para os EUA quando ele tinha 15 anos. ele prefere executar as figuras curtas ainda mais curtas [ex. seu pulso é constante e flexível. O que é articulação? BG Articulação em música é mais ou menos o mesmo que articulação na fala ou na anatomia: é o ponto de junção entre dois elementos sólidos. abordagem musical ou repertório.1 [desanúncio] Barrueco é um dos violonistas mais estáveis da história. Em suas próprias palavras. Suas primeiras gravações datam deste período e já mostram a fórmula de seu êxito: uma técnica extremamente sólida e particularmente cristalina em passagens rápidas e articuladas. Rey de la Torre. nós percebemos também sua habilidade incomum em traçar a forma da música com um aguçado controle da articulação. e isso é algo com que tenho de lutar. Se compararmos a um . uma mini-obra prima que ilustra a expressão torturada e o finíssimo comando do contraponto do compositor brasileiro.]. e percebemos um constante encurtamento da parte fraca dos tempos. Bem. o violonista que epitomiza esta arte é um cubano: Manuel Barrueco. o maior didata do violão americano. Granados: Arabesca [desanúncio] Num escrutínio mais atento. porém..A Arte do Violão pág 79 PROGRAMA XXI – MANUEL BARRUECO E DAVID STAROBIN A formação de uma prática reconhecivelmente norte-americana de música clássica evolveu gradualmente no séc XX com a absorção de influências do teatro musical inglês e dos cantos e danças africanas. Não há nenhuma grande novidade na sua técnica. com um pequeno espaço entre as notas [ex. Em 1974 ele foi o primeiro violonista a vencer o importante concurso do Concert Artist´s Guild. Albéniz: Cataluña [desanuncio] Barrueco não é um inventor. ao invés de uma execução quadrada e algo pesada [exemplo]. especialmente no piano e nas cordas. Claro que os maiores artistas têm ao seu dispor uma infinita variedade de nuances e combinações. grande parte deles judeus. “eu tenho uma enorme negatividade. isso acaba me levando a trabalhar ainda mais pesado. onde hoje ele é o catedrático de violão. que se adaptaram a uma mentalidade de máximo rendimento esportivo e tecnológico. BG Ele nasceu em Santiago de Cuba em 1952 e iniciou seus estudos no conservatório local.7 [desanúncio] Como ele mesmo disse. sonoridade. mas na arte da interpretação musical a influência decisiva foi a chegada de milhares de professores oriundos dos escombros da Alemanha e da Rússia.1 de Camargo Guarnieri.]. da suposição de que as coisas não vão funcionar.] ou de forma mais destacada e seca. BG Não importa a complexidade da música. Nesta obra. e lá ele estudou com outro cubano. ele se contenta em realizar versões supremamente polidas daquilo que já foi explorado por outros intérpretes. uma expressão pouca dada a exageros e uma escrupulosa leitura dos mínimos detalhes do texto musical: Villa-Lobos: Estudo no. Sempre trabalho a partir de um tipo de energia negativa. As pessoas pensam que tenho muita facilidade. e estabeleceram um alto padrão de brilhantismo técnico. é um consolidador. É a maneira como músico sai de uma nota e atinge a outra. e poliu sua técnica com Aaron Shearer. e a partir daí sucesso seguiu sucesso com estréias nos principais teatros. Curiosamente. O que mais chama a atenção num primeiro momento é a vitalidade de sua pronúncia rítmica. e seu Albéniz é fluido e vigoroso. mas eu sou dolorosamente auto-crítico e não há nenhum aspecto de minha técnica ou musicalidade que eu não tenha trabalhado conscientemente”.

é modelar. há uma série de idéias recorrentes que exigem coerência na sua articulação.Ponce]. ou de explodir ou produzir um som bruto se toca forte demais. Seja qual for a escolha. . onde as hierarquias musicais desaparecem e o efeito geral é de uma chatice incontornável. Falla: Danza de la Molinera [desanúncio] O repertório espanhol é o forte de Barrueco. o de levar os artistas a resgatarem seu eu e se disporem a comungar com o público de forma mais intensa. mas ao mesmo tempo pode tornar-se estranhamente impessoal. Nesta obra de Bach. que associa sucesso à eficiência num processo narcisístico que abdica da vitalidade. e isso Barrueco tem de sobra. uma sociedade tecnológica e guiada pela ética das máquinas e do sucesso a qualquer preço. Brouwer: Rito de los Orishas ou Angulo: Cantos Yoruba de Cuba [desanúncio] Um outro fruto da escola americana de Aaron Shearer é David Starobin. de dar granulação ao texto. de acúmulo de tensão. a diferença de afinação dificulta uma execução convincente no violão moderno. Nesta passagem. Sua sonoridade é cristalina. Nesta obra do barroco francês. uma qualidade essencial para uma experiência musical plena. É um instrumento de cinco cordas duplas. Isto exige técnica perfeita. mas muito difícil de amar. ou uma combinação destes procedimentos que torna o discurso mais complexo e estimulante [ex. Quiçá a recente turbulência política dos EUA possa ter ao menos um efeito positivo. Ao mesmo tempo. Invocación y Danza. BG Como o instrumento tem naturalmente um volume pequeno. A saída é ajustar a qualidade do timbre. ornamentação e elegância. o que. BG Nesse sentido. e imbuída do senso de mistério e claustrofobia herdado de Manuel de Falla através de uma rede de citações. algumas das quais afinadas em oitavas. o intérprete tem de ser intransigente e fazer os maiores malabarismos para manter o padrão em toda a obra. o violonista está sempre correndo o risco de desaparecer quando toca suave. em passagens extensas. Rodrigo: Invocación y Danza [desanúncio] O trabalho árduo que lhe é característico rende frutos no repertório barroco também. é muito comum ouvir-se violonistas que trabalham somente numa faixa média.A Arte do Violão pág. mas ao mesmo sente-se um distanciamento. O intérprete tem várias opções igualmente aceitáveis: articular com nitidez todas as notas [ex. Neste aspecto. ou toca-las num único fluxo ligado [ex. com picos cada vez mais altos que se desencadeiam num ponto culminante [ex. ou seja. Este é um dos aspectos mais rebeldes da técnica do violão. que criam uma infinita gama de recursos para o harpejo. Sua gravação da maior obra de Rodrigo. acuidade auditiva. Barrueco é um mestre. De Visée: Ouverture La Grotte de Versailles [desanúncio] A pressão pelo perfeccionismo pode criar um efeito adverso num artista. Isso é uma tremenda pressão negativa para o músico. e muito trabalho por parte do intérprete. uma tensão interna mal-resolvida e uma atitude desengajada e temerosa. enfim.]. é possível fazer uma sucessão crescendos seguidos de pequenos relaxamentos. por exemplo. a sua sonoridade algo metálica sugere com perfeição o efeito da guitarra barroca. Bach: Prelúdio BWV 1006 [desanúncio] Outra característica marcante é um soberbo controle da dinâmica ou do volume sonoro. para separar a melodia do acompanhamento [ex. Especialmente nos EUA.]. o espalhamento das notas de um acorde. sob pena do edifício musical simplesmente ruir.] e.] ou agrupa-las de duas em duas [ex. 80 ator. não importa a dificuldade técnica. é a arte de se fazer entendido. cria um sotaque. modular a dinâmica a prestações. como Barrueco faz nesta magnífica obra cubana. uma carreira exclusivamente baseada na ausência de erros faz com que o público não atente às conexões musicais mais profundas. eu vejo que Manuel Barrueco corre o risco de se tornar uma vítima do sistema: suas apresentações são invariavelmente perfeitas. Com o cuidado de evitar os extremos. combinado com o controle do ritmo.]. mas Barrueco toca com um senso infalível de estilo. um artista impossível de não admirar.

cedo em sua carreira ele resolveu enveredar pela via da música contemporânea. sem ser um virtuose.] gradualmente através de alterações matemáticas da proporção rítmica. a Bridge Records. Nela ouvimos duas características marcantes deste que é possivelmente o maior compositor americano do séc. Ele é possivelmente o violonista contemporâneo que mais significativamente contribuiu para a criação de um repertório sério e de qualidade. Agradecimentos. Poul Ruders. Encomendou e estreou centenas de obras de compositores do porte de Elliott Carter. o que dá à obra um caráter sempre mutante. Desta extensa lista. George Crumb e Milton Babbitt. BG sobe Hoje Starobin é um dos violonistas mais respeitados dos EUA. e a modulação rítmica. catedrático de violão na Manhattan School de Nova York e incansável promotor da música contemporânea através de sua própria gravadora. em que o andamento da peça pode passar disso [ex. É uma obra de extrema dificuldade de leitura e Starobin. aquela que parece destinada a ocupar um lugar perene no repertório é Changes. XX: o atematismo. . consegue toca-la como se fosse sua. uma outra vertente de interesse é a mal-explorada música do século XIX. Starobin: Carter: Changes [desanúncio] O violão passa por uma época interessantíssima nos EUA. participando de toda sorte de formações camerísticas e encomendando obras dos compositores mais destacados. e no próximo programa mostraremos mais dois grandes originais do violão americano: Sharon Isbin e Eliot Fisk. que ele tem tocado em instrumentos originais. ou seja. um consciente evitar de qualquer recorrência de idéias.] para isso [ex. de Eliott Carter. Ao mesmo tempo.A Arte do Violão pág 81 BG Nascido em Nova York em 1951.

82 .A Arte do Violão pág.

ele ganhou várias bolsas para estudar com luminares como Oscar Ghiglia e Alirio Diaz. na ordem que preferir. idéias inesperadas. O intérprete pode tocar quantas variações quiser. energia. 16. e há sempre uma certa tensão interna de quem está tocando no limite de sua capacidade técnica e mental. seu interesse por questões sociais. o que explica. inteligentes e dotados jovens artistas de nosso tempo. segundo ele. 51 Rochberg. 24. Mahler ou Webern. o que escreverá seu nome na história é o trabalho com os compositores contemporâneos. e ao mesmo tempo um dos mais controversos e enervantes. não suscita controvérsia. estudou musicologia com o grande cravista Ralph Kirkpatrick e. O fato de seu pai ser um professor de marketing talvez também explique seu talento para a auto-promoção. Eu não suporto esta idéia de arte enlatada. uma das inúmeras obras inspiradas pela enorme vitalidade de Fisk. Estamos ouvindo um trecho de Music of Memory de Nicholas Maw. CD Guitar Vistuoso Scarlatti ou Bach [desanúncio] Nesta gravação percebemos uma mentalidade iluminista: ele investiga a obra por dentro. 47. o mais forte. Algumas variações são verdadeiras colagens de obras de Beethoven. O apadrinhamento de Segovia e algumas controversas aparições em concursos chamaram a atenção do público e logo ele lançou suas primeiras gravações. Suas vidas freqüentemente são tão ilhadas da realidade do mundo que sua música não possui mais nenhum elemento visceral”. São nada menos que 50 variações sobre o famoso Capricho no. o estilo de vida de vários músicos tem se tornado tão burguês e somente dirigido ao conforto pessoal. mantenha o estranhamento estilístico que é a essência da obra. O que não é possível é lhe ficar indiferente. Estamos a um mundo de distância da técnica imaculada hoje em voga: Fisk toca como se o mundo fosse acabar amanhã e não tem tempo para detalhes pedantes. segundo o compositor. 2 e 3 cerca de 4’ [desanúncio] Uma gravação onde já ouvimos a assinatura de Fisk: potência.24 de Paganini. tornou-se um protegido de ninguém menos que Andrés Segovia. o mais intenso. que declarou: “Considero Eliot Fisk um dos mais brilhantes. ouvimos um outro lado da mentalidade norte-americana: a auto-confiança missionária dos fundadores. desde que. mais tarde. Brahms. 4. Especialmente no mundo da música clássica. um dos poucos que se preocupam em fazer do violão um participante ativo da sociedade como um todo.22’ [desanúncio] Uma obra extremamente significativa para nossa época de sincronicidade. o mais musical. 29. 13. às vezes conflitante. 5. Na Universidade de Yale. como sua transcrição dos 24 . Desde cedo um aluno brilhante. não é possível que esteja fazendo algo importante. Fita – V-Lobos Estudos nos. 9. as coisas se tornaram tão enlatadas. mas um trabalho hercúleo é sua versão das Caprice Variations de George Rochberg. onde Rochberg aplica sua teoria da “expansão estilística”. Caprice Variations c. cultos e engajados. 50. onde elementos pertencentes a todos os períodos da história da música se entrelaçam de forma às vezes harmoniosa. 3. o americano Eliot Fisk é certamente um dos mais interessantes. Uma frase nunca é tocada duas vezes da mesma maneira. Eu particularmente acho o resultado às vezes revoltante. mas no mundo da música como um todo”. explora ao mesmo tempo o intenso violonismo de seu mentor Segovia e as noções de articulação e ornamentação da moderna pesquisa histórica. mas freqüentemente sublime. seu exato contemporâneo. Esta vocação de Eliot Fisk para super-herói produziu um sem-número de trabalhos interessantíssimos. 48. exigindo do ouvinte uma constante suspensão do senso de tempo histórico. a necessidade de ser sempre o mais rápido. que já ouvimos em outro programa. entre elas uma instigante versão dos 12 estudos de Villa-Lobos. não somente entre os violonistas. Uma outra obra seminal escrita para Eliot fisk é a Sequenza XI de Luciano Berio. Se você não defende nenhuma causa. em Eliot Fisk. Eliot Fisk BG De todos os violonistas em atividade hoje. BG – Maw Sem sombra de dúvida. o mais isso ou aquilo ao invés de ser somente adequado. que infelizmente não poderemos exibir na totalidade. originalmente escritas para violino. 15. Ele nasceu em Filadélfia em 1954 numa família cujos antepassados pertenciam à seita religiosa dos Quakers. Se no programa anterior percebemos em Manuel Barrueco uma obsessão por auto-controle e eficiência industrial. É um monumento de mais de 20 minutos e uma das obras máximas do séc XX. CD Caprice Variations Faixas 1.A Arte do Violão pág 83 PROGRAMA XXII – ELIOT FISK E SHARON ISBIN “Se você nunca ofende ninguém. vitalidade.

que ele continua transmitindo como um brilhante professor no Mozarteum de Salzburgo e no Conservatório de Nova Inglaterra em Boston. a arte de David Russell. Fita Corigliano: Troubadours. é o concerto Troubadours de John Corigliano. tendo já realizado gravações de música latinoamericana. alguns verão uma espécie de caricatura na sua abordagem. Schwantner. e estabeleceu-se como uma das artistas mais respeitadas dos EUA. uma missão quase impossível.22 [desanúncio] Por mais que os artistas americanos tenham de ceder às armadilhas de uma sociedade voltada para o consumo. presídios. um projeto inovador que levanta a escala do violão como se fosse um violino.5 impressiona pela bravura e velocidade. integrado ao meio musical como um todo e com um papel a cumprir na sociedade contemporânea. Ela toca bem qualquer tipo de música e é particularmente interessada em projetos multi-culturais.6 é um momento de pura poesia. para mim. e fez um estudo particularmente profundo das obras de Bach com a renomada pianista Rosalyn Tureck. BG sobe Nos anos 70. oriental. mas Fisk tem verdadeira idolatria por Andrés Segovia. inclusive é hoje a chefe da cátedra de violão na Juilliard School de Nova York. num diálogo onde o violão parece representar a força de um passado que continua a nos nutrir. tradicional americana. Outros violonistas. Ela estudou também com Oscar Ghiglia e Alirio Diaz. A orquestra cria uma nuvem de lembranças da qual o violão emerge como uma fantasmagoria da época dos trovadores. Eliot Fisk tem de ser parabenizado pelo trabalho de sua Fundação. Ela também venceu os concursos internacionais de Munique e de Madri. A lista é imensa. e inclui nomes do porte de Lukas Foss. Mas a sua maior contribuição para a história do violão é. nascida em Minneapolis em 1956 numa família judaica. como o brasileiro Geraldo Ribeiro. A obra é uma fricção entre técnicas contemporâneas e o aroma da música medieval. seu mentor musical. nós temos de nos sentir esperançosos pelo fato de que ainda seja possível que artistas vitais como Eliot Fisk e Sharon Isbin possam dar plena vasão à sua visão de um violão original. e absorveu como poucos a essência de seu estilo romântico. Manuel Barrueco segundo colocado e Eliot Fisk ficou em terceiro. no Canadá. Uma outra violonista bastante original que usa um violão Humphrey é Sharon Isbin. A edição de 1975 é por muitos chamado de “concurso do século”. Nesta obra o compositor demonstra sua obsessão pela relação da música atual com o passado. BG Ela é exata contemporânea de Fisk. o que aumenta a potência do instrumento e melhora o acesso às notas mais agudas. Sharon Isbin foi a vencedora. mas o no. construído pelo luthier americano Thomas Humphrey. Barrueco e Starobin. 84 Caprichos de Paganini para violão. Tan Dun. mas Fisk é capaz de tocar obras despretensiosas com extraordinária ternura e refinamento segovianos. sem abdicar de sua originalidade. já haviam tentado transpor as imensas dificuldades desse emblema do virtuosismo diabólico. mas o fez nas tonalidades originais.A Arte do Violão pág. No próximo programa. onde os tremolos executados com uma suavidade extraordinária criam um verdadeiro brocado: CD Paganini Faixas 5 e 6 – Caprichos no 5 e 6 c. orfanatos. deixando-a em um ângulo em relação ao tampo. etc. Agradecimentos. Christopher Rouse e Aaron Jay Kernis. mas Fisk não só gravou todos eles. C. que procura a humanização através da música. a julgar por estas gravações. principalmente no repertório para violão e orquestra. além de suas escalas executadas com a mão esquerda solo. CD Segovia Franck: 2 Peças de L´organiste 2´58 [desanúncio e comentário] Curiosamente ele busca isso num violão notoriamente neutro. a colaboração com compositores. O Capricho no. mas quase nada tem um valor e a obra de arte facilmente se transforma em mercadoria ou auto-ajuda. mas a obra mais interessante. BG sobe Uma das características mais marcantes de Sharon Isbin é seu ecletismo. o concurso internacional de maior prestígio era organizado trienalmente em Toronto. asilos e áreas carentes. onde tudo tem um preço. de novo. 6 [desanúncio] Pode parecer. desenvolvendo projetos de inclusão social levando concertos a escolas. Ademais. . que Eliot Fisk é um especialista em punições autoimpostas.

Não há sofrimento nem conflito: tudo é despachado de maneira franca. descomplicada. uma espinha. o que é verdade. há um violonista escocês que é um modelo do segundo tipo de artista: David Russell BG Vivaldi: Sonata R. a meticulosidade e exatidão criam um caráter meio coquete. propulsão e elegância que lhe são únicos. No violão.46 Allegro 2´15 David Russell nasceu em Glasgow em 1953. Eu não vejo problema nisso. uma atitude resoluta. o espaço entre duas cordas do violão é bem estreito. e algo anormal. como era o caso de Rubinstein. totalmente apropriado. alguns intérpretes abordam a música sob o viés da anomalia. mas com um método diferente. PAUL GALBRAITH. do conflituoso ou doentio. mas passou boa parte de sua infância na ilha espanhola de Menorca. em parte por escolha pessoal. e obviamente é bem difícil encaixar os 4 dedos dentro de um espaço tão exíguo. RAPHAELLA SMITS Num documentário recente. Ele adotou a técnica de ornamentos em cordas cruzadas. suas gravações mais impressionantes são as de música barroca. sem exageros. que já ouvimos no programa sobre o duo Presti-Lagoya. Seus trinados são executados com uma alternância constante dos 4 dedos ativos da mão direita. Seus primeiros CDs foram algo tímidos. Russell gradua o volume e o andamento de maneira admirável. sua carreira não extrapolou os limites dos festivais e sociedades de violão. Em parte por força das circunstâncias. onde os ruídos das unhas da mão direita ou do atrito contra as cordas são praticamente eliminados. investindo a música de Haendel com uma característica nobreza e pompa. bem timbrada e absolutamente imaculada. mas no início dos anos 80 ele lançou um CD de compositores esquecidos do séc. abordam a música de uma forma sadia.XX. com primeiros prêmios no concurso Tarrega em Benicasim e no concurso Segovia de Mallorca. O repertório de Russell encaixa com as aspirações e com o nível de cultura musical do vasto público de estudantes e amadores do violão. Scarlatti e Haendel: CD Baroque Music FX 6 Haendel: Passacaille 5´49 [desanúncio] Nesta obra em que muito do interesse está no acúmulo de tensão gerado pela aceleração dos elementos composicionais. ele completou sua formação na Royal Academy of Music em Londres e passou vitorioso pelo moedor de carne dos concursos internacionais. e preferiu se concentrar no seu prazer pessoal de tocar sem pressões de ordem comercial. do estilo virtuosístico de Liszt e Thalberg então em voga. mas Russell o faz com precisão milimétrica e produz versões cintilantes e equilibradas de Bach. Uma das críticas mais freqüentes a seu respeito é o repertório: ele tende a render melhor em música de segunda categoria. Depois de estudos com José Tomás. Em obras do barroco francês. exagerando os aspectos depressivos e os contrastes inesperados de maneira excêntrica. De fato. Ele diz que o público muitas vezes não vê distinção entre a personalidade de um grande artista como algo incomum. CD 19th Century Music FX 5 Mertz: Fantasie Hungroise 6´05 [desanúncio] Nesta obra vemos a aplicação mais doméstica. o grande pianista e regente Daniel Baremboim faz um comentário bastante afiado ao comparar Alfred Cortot e Artur Rubinstein. e . mas ao mesmo tempo com uma desenvoltura. para o âmbito do violão. entretanto. um assistente de Segovia. BG Bach Apesar de sua afinidade com o sentimental repertório original do séc.XIX que marcou época. XIX. o que lhe dá um ganho de velocidade e de possibilidades de enunciação. Russell tornou-se uma figura muito querida no circuito do violão em todo o mundo. Claro. Outros. e sempre buscam organizar os conflitos do discurso musical mantendo um fio condutor. o que não é necessariamente verdade. num grau de pureza técnica que não se ouvia praticamente desde o Duo Abreu nos anos 60. Aqui o potencial de Russell já está plenamente desabrochado: é uma sonoridade clara.A Arte do Violão pág 85 PROGRAMA XXIII – DAVID RUSSELL. ou na música mais leve e sem maiores conseqüências do séc. CD Baroque Music II FX 1 Loeillet: Suite no 1 Allemande 3´26 [desanúncio] A partir destas gravações. no repertório de salão do séc XIX.

Sua leitura das obras de Agustín Barrios são bem diferentes do que o compositor faria. Isso faz de dele também um admirado professor. normalmente. e um poderoso intelecto voltado às mais profundas associações musicais. capazes de fazer qualquer pessoa se sentir especial com um par de frases. mas seu CD de obras de Barrios é bastante admirado. Sua formação foi algo convencional. mas o concierto para uma fiesta. provavelmente ainda não se popularizou devido à natureza extrema de sua dificuldade técnica. talvez os equivalentes do Prêmio Eldorado aqui no Brasil. Seguindo o que talvez seja um padrão no mundo do violão. seu terceiro e talvez o melhor de todos. Algumas destas leituras não são tão interessantes. sabe. é a belga Raphaella Smits. Cd Barrios FX 1 Barrios: Un Sueno en la floresta 7´09 [desanúncio] Alguns intérpretes têm uma natureza mais dramática. numa carreira internacional. Uma outra intérprete de essência lírica.. solidez e velocidade quando é necessário. não está na minha natureza”. ponderada e acessível. “eu entendo que é normal. e a combinação destes fatores faz dele. bem humoradas mesmo depois de horas de espera em aeroportos. sua realização é leve. recentemente. de gosto mais que duvidoso.A Arte do Violão pág. hoje. Cd Raphaella Smits FX 5 Manjon cuento de Amor 7´30 [desanúncio e comentário] Um outro artista escocês que merece a máxima atenção é Paul Galbraith. que ele despacha com elegância e humor. BG A partir dos anos 90. Ainda adolescente ele atraiu enorme atenção em dois importantes concursos musicais na Inglaterra. um verdadeiro príncipe. ele se concentra em fazer panorâmicas de faixas específicas do repertório. mas dada a drásticas guinadas. enfim. devido a uma abordagem formulaica e a uma mesmice de fraseado. BG Nascida em 1957. dada a contrastes mais acentuados. acessíveis. CD Tarrega I FX 21 Tarrega El Carnaval de Veneza 8´56 [desanúncio] Além de ser um virtuose absolutamente inatacável. Galbraith é um dos violonistas de mais abrangente cultura musical em atividade. para este repertório. mas. Esta é uma de minhas gravações favoritas.. Neste pouco conhecido concerto de Rodrigo. eu sou escocês. ela também é uma pessoa encantadora. superficialmente. Russell é daquelas poucas pessoas iluminadas. BG Nascido em Edimburgo em 1964. tocar de forma mais incandescente. que chegou até a gravar dois discos em duo com David Russell. O que não quer dizer que ele não possa ter uma técnica de extraordinário brilhantismo. talvez o violonista mais requisitado dos palcos de todo o mundo. A ausência de combustão é amplamente compensada pela naturalidade de seu fraseado e por seu tremolo perfeito. como ouvimos neste Barrios. sem extremos de expressão. tempestade e ímpeto. e embarcou. essencialmente. mas como Russell mesmo disse uma vez em um masterclass. onde o mundo é visto um pouco através de lentes cor-de-rosa. especialmente o concierto de Aranjuez. talvez cedo demais. ela tem. Perce- . ele mudou um pouco o formato de seus CDs e hoje. mas numa escuta mais atenta e profunda vemos que isso é alimentado por um autêntico delírio artístico e intensidade emocional. Russell é. Ouçamos esta obra de Tarrega. CD Rodrigo FX 10 Rodrigo: concierto para uma fiesta – allegro moderato 6´48 [desanúncio] Os outros dois concertos de Rodrigo são mais que conhecidos. sutil. adotado a prática de instrumentos originais e gravado muito da esquecida música romântica original para violão com um instrumento de 7 cordas feito por Vicente Arias em 1899. ela seguiu o padrão desta geração de violonistas ao completar seus estudos com José Tomás e a lançar sua carreira com o auxílio dos prêmios em concursos internacionais. 86 ele consegue freqüentemente tornar muito deste repertório bastante apreciável e divertido. marcada por algumas gravações algo convencionais. Sempre voltada à faixa mais lírica do repertório. um intérprete lírico. ele toca de forma tão flexível e relaxada que o ouvinte nem se dá conta da verdadeira punição técnica pela qual ele está passando. e ensina no Conservatório de Antuérpia.

com uma corda mais aguda e outra mais grave. 11. temos uma ampliação em ambas as direções. Galbraith CD Bach FX 5. em proporção matemática. lhe permite total liberdade de ação para moldar a música com sua mão direita. acordem! Agradecimentos . por todo o ciclo. CD Bach FX 14 Bach Fuga BWV 1003 5´41 [desanúncio] casado com uma alaudista brasileira. mas ao mesmo tempo a verdadeira fé que Galbraith deposita nestas obras é absolutamente sublime. e este Brahms que estamos ouvindo. com efeitos drásticos em sua técnica e até em seu instrumento. Neste ponto Galbraith resolveu se dedicar somente à música que realmente mais lhe importa. 12 O resultado é radical. como ouvimos na gravação de Raphaella Smits. segundo ele. verá que todos os movimentos obedecem a praticamente uma só unidade de pulso: EX. 10. o que. Ele re-emergiu anos depois com uma abordagem holística do fazer musical. com auxílio do luthier David Rubio. Paul Galbraith reside em São Paulo há vários anos e raramente se apresenta no Brasil. Grieg. por favor.A Arte do Violão pág 87 bendo que isso era uma barca furada. Promotores de concertos. BG Bach Nela. Ele encara todo o ciclo de 6 sonatas e partitas como uma só obra. Esta visão unificada é evidenciada pela escolha dos andamentos. 7. usando um espigão à maneira do cello. 9. preenchendo de forma ornamental todos os momentos de silêncio. e que lhe permite uma abordagem totalmente original. drástico. A novidade de Galbraith é que ele expande o limite superior da tessitura do violão com uma corda mais aguda. Galbraith adota um princípio holístico em que a compreensão estrutural da obra é informada por um profundo entendimento dos aspectos teológicos da música de Bach e por um senso de proporção. que funciona como um amplificador acústico. BG sobe Não satisfeito com isto. 8. mantendo o instrumento em perfeita simetria. Sua gravação das obras para violino de Bach teve enorme repercussão e foi nominada para um Grammy. ele resolveu ampliar os recursos do instrumento e projetou. na busca de uma líquida continuidade sonora. BG sobe No início dos anos 90. Galbraith já estava tocando com o violão numa posição totalmente vertical. em que uma única unidade de pulso é mantida. Haydn. que ele executa sem interrupção. Este é o instrumento que ele tem usado em seus concertos e gravações. o que o levou a transcrever obras de Bach. 6. Por exemplo. ele limitou seus compromissos e passou vários anos re-elaborando seus conceitos musicais sob a orientação do pianista grego George Hadjinikos. afinal Narciso yepes tocava num instrumento de 10 cordas e já no séc XIX a 7a e 8a cordas mais graves já eram exploradas. provoca estranhamento. Desta forma. Isto não é novidade. equilíbrio e continuidade derivados do classicismo grego. se o ouvinte tentar marcar o tempo nesta 1a partita. um instrumento de 8 cordas. Este espigão é conectado a uma caixa de ressonância.

A Arte do Violão pág. 88 .

Claro que o duo gosta de Piazzolla desde criancinha. que combinava o repertório tradicional. ao entrar no curso superior de música no Rio de Janeiro. até que. o que o fez se sentir deslocado. o que hoje chamamos de cross-over. que era professora dos irmãos Abreu. quando o duo ainda não era conhecido fora do Brasil. para limpar o ambiente”. Eu me lembro de um conhecido pianista tocar algumas peças de Ernesto Nazareth e dizer ao final: “deixe-me tocar agora um pouco de Bach. d. eles estavam à frente dos acontecimentos e buscavam desenvolver um conceito sonoro próprio. a cada recital novos convites apareceram. unanimemente considerados o maior duo de violões do mundo. Dois irmãos nascidos no interior de São Paulo construíram de forma gradual e a duras penas uma sólida carreira internacional e são. que ouvimos num programa anterior. tratando um com os métodos do outro. essa leveza e swing. no início dos anos 80. compositores como Gnatalli e Marlos Nobre e arranjos sofisticados de Piazzolla ou Gismonti. carretilha. xenhenhem [desanúncio] onde ouvimos que eles são capazes de evocar a atmosfera da caatinga nordestina. Badi Assad. seca. seu Jorge. a família se mudou para o Rio para que os irmãos pudessem estudar com a célebre Adolfina Távora. por inclinação natural e pelo respeito à prática do choro. sua aspereza e ritmos másculos com igual eficiência. Em SP. hoje. Nos últimos anos. claro. com um vigor e ímpeto controlados por uma técnica composicional de primeira linha LP Marlos Nobre Nobre: 2o ciclo Nordestino. da suíte Retratos 4’32’’ [desanúncio] Quando o duo começou sua carreira nos anos 70. é uma respeitável cantora. mas ainda se ouvia comentários do tipo “que pena que eles desperdiçam o talento com estas musiquinhas”. O público europeu percebeu isso logo nas primeiras apresentações do duo e. o ambiente musical no Brasil ainda era muito sisudo e segmentado. BG No início dos anos 80. não é algo fabricado: é o próprio código genético do duo Assad. já nos anos 70. parou de compor: a prática de composição era totalmente voltada para a vanguarda européia e tratava a música nacionalista como se ela não existisse.A Arte do Violão pág 89 PROGRAMA XXIV – DUO ASSAD E MARCELO KAYATH Poucos artistas brasileiros podem se gabar de ter uma carreira verdadeiramente internacional. seja por curiosidade ou por pressão comercial. BG sobe O fato é que. Ele me falou “não sei quem é. é uma cantora/instrumentista de extraordinários recursos. Ika. mas Sérgio diz que. Piazzolla preenche uma lacuna em seus programas. dividindo o palco regularmente com celebridades como YoYoMa e Gidon Kremer: o Sérgio e Odair Assad. Compositores nacionalistas começaram a escrever para eles e aquele a cujo nome estão indissociavelmente ligados é Radamés Gnatalli. da suíte troileana 8’12’’ . Em 1973 eles ganharam o concurso de jovens solistas da Sinfônica Brasileira e começaram a ocupar um espaço no cenário musical do país. em 1982. O duo Assad tem minimizado a barreira entre o clássico e o instrumental popular. respeito pela perfeição e musicalidade. como os contrastes dramáticos faltam à música brasileira. eles se viram forçados a residir no exterior para atender à demanda por mais e mais concertos. e a irmã mais jovem. Suas obras para violão são do mesmo escol de Villa-Lobos. LP Gnatalli: Corta-jaca. mas posso assegurar que são argentinos”. BG – Concerto de Gnatalli na fita Sérgio Assad me contou que. BG música do Sérgio A atividade do duo Assad emana do ambiente doméstico. Os filhos e filhas de Sérgio e Odair também começam a se profissionalizar na música. a maioria dos artistas clássicos tem feito cross-over de uma forma ou de outra. CD saga dos Migrantes Piazzolla: Bandoneon. é um ótimo violonista e bandolinista de choro. op. mostrei a um colega argentino uma gravação que eles haviam feito de um arranjo de Piazzolla. havia. Nos anos 60. pela primeira vez. BG sobe e fade [desanuncio] Outro compositor bastante próximo deles é Marlos Nobre. a mãe.13 bis 4’20’’ Batuque. Esse jeito de tocar a um tempo brincalhão e detalhado. não era diferente: quando os vi. onde a música e o violão se confundem com os laços afetivos: o pai. há 30 anos. praiana. da qual eles mesmos emanaram.

dentro de um padrão essencialmente legato. Em poucos meses. paquidérmico. BG Nascido em 1964. BG Um acento não é necessariamente um golpe na nota. dentro deles. uma de suas melhores obras. que até Segovia tocava com um certo desconforto. Esta leveza e ritmo faceiro fazem deles intérpretes ideais também da música barroca francesa. que não são normalmente prioritários para músicos treinados exclusivamente na música clássica. BG O duo Assad trata o ritmo com imenso desvelo: é uma intricada combinação de pequenos acentos. de grande complexidade auditiva e de uma graça felina. variada. pequenos desvios da norma quadrática do ritmo e de controle da articulação. um ligeiro espichar e contrair da distância entre as notas é feito de maneira imprevisível. Talvez seja uma percepção aguçada para alguns elementos da pronúncia musical. entretanto. dinamogênico da música. o duo cada vez mais tem incluído suas obras em suas apresentações pelo mundo afora. 3o. um discurso rítmico vigoroso e direto. foi Marcelo Kayath. O duo Assad subverte o quadrado rítmico inserindo algumas notas em staccatto. medida com a régua.6’00’’ [desanúncio] Piazzolla ficou estupefato ao ouvir o duo Assad pela primeira vez e lhes dedicou esta suíte. poesia e rigor estilístico. dos dois maiores concursos internacionais de violão de então. . com apenas 20 anos e enquanto ainda cursava a faculdade de engenharia. mas extremamente bem-sucedida carreira internacional nos anos 80. portentosa. CD Barroco Couperin: Le Carrillon de Cythère 3’28’’ [desanúncio] Sérgio Assad. criam um efeito pesado. um contratempo pode ser levantado. em Paris. de textura complexa e sofisticada. ou seja. A medida dos compassos é absolutamente regular. e o respeitado concurso da Radio France.A Arte do Violão pág. felizmente. por um desvio do padrão de articulação. Esta minúcia nas mínimas inflexões do fraseado e da ornamentação cria um efeito de rendilhado. ele foi aluno de Leo Soares e Jodacil Damaceno no Rio de Janeiro. 90 [desanúncio e comentário] Fala-se muito que swing é um talento natural. Fita Piazzolla: Tango suíte. mov c. num intervalo de poucos meses. imaginação. O efeito é ao mesmo tempo marcado e leve. BG É uma percepção para o elemento coreográfico. “iluminado”. ele se tornou um convidado freqüente dos palcos internacionais e fez o que considero uma das mais impressionantes estréias em disco em toda a história do violão. difícil de ser ensinado. ele consegue não só fazer com que não nos demos conta das dificuldades. Um outro violonista brasileiro que teve uma curta. é um compositor de primeira linha e. o concurso de Toronto. Nesta obra de Albeniz. no Canadá. ele foi vencedor. e ainda adolescente já havia vencido os maiores concursos nacionais no Brasil. todavia se forem pronunciados com muita ênfase e de forma quadrada. Sua ascensão aos palcos internacionais foi meteórica: em 1984. Marcelo Kayath tem de sobra: uma sonoridade opulenta.65 5’45’’ [desanúncio] Tudo que gosto de ouvir num violonista. técnica imaculada. ademais. na música de Couperin. mas toca cada artéria das frases com uma voz própria e cria uma aura de sonho no acompanhamento ao mesmo tempo em que mantém uma robusta sustentação nos baixos. curtinhas. que eles tocam com um virtuosismo alucinante e com um formidável controle de dinâmica na seção final. LP Nobre: Prólogo e toccata op. A música latino-americana de origem dançante tende a valorizar os contratempos. contínuo.

Na minha opinião. onde a música e o carinho do público são muitas vezes a única compensação. uma perda para o violão da mesma magnitude dos irmãos Abreu ou de Ida Presti. que é o tema de nosso próximo programa. Barbosa Lima. Mas ao menos podemos ouvir um registro de sua inteligência musical e nobreza de expressão nas 6 gravações que deixou. que freqüentemente se resumem a teatros e quartos de hotel. bem como o Duo Assad. escutem como ele pronuncia o ritmo com uma graça sem paralelo e nos dá a ilusão de três planos distintos de sonoridade. a face internacional da história de amor do violão com o Brasil. onde é um bem-sucedido executivo no mercado financeiro. No início dos anos 90 Marcelo Kayath percebeu essa vida não era para ele e abandonou os palcos. Cd Barrios e Ponce FX 2 Barrios: Danza Paraguaya no. Agradecimentos: Marcelo Kayath . a maior parte delas de obras curtas de caráter romântico. Isso tudo num andamento cômodo e sem o exibicionismo típico dos vencedores profissionais de concursos. o duo Abreu e Turíbio Santos são a ponta do iceberg.3 2’15’’ [desanúncio] O público muitas vezes tem a ilusão de que o estilo de vida de um concertista internacional é uma sucessão de eventos glamurosos e paparicação. Fez um MBA em economia na Califórnia e hoje vive em São Paulo. CD Barrios e Ponce FX11 Ponce: Preâmbulo e Allegro 4’25’’ [desanúncio] Marcelo Kayath. espera em aeroportos e a solidão de se encontrar gente desconhecida diariamente.A Arte do Violão pág 91 CD Spain Albeniz: Granada 4’45’’ [desanúncio] Acho que o segredo de Marcelo Kayath é se ater ao essencial: nesta pequena peça de Barrios. mas poucos imaginam o que é a pressão de estar sempre em plena forma em longas turnês.

92 .A Arte do Violão pág.

e nossa identidade musical é impensável sem a sua presença. O violão como instrumento de concerto no Brasil tem até data de nascimento: maio de 1916. Cd Villa-Lobos V-Lobos choros no. heroicamente se sujeitaram ao ridículo público ao se apresentarem.A Arte do Violão pág 93 PROGRAMA XXV . apresentou-se no Conservatório Dramático e Musical. talvez surpreendentemente. o violão está presente.que. E não é para menos. tornaram-se guitarras barrocas . o desembargador Itabaiana e o professor Alfredo Imenes. que realizava um ideal de bom tom das famílias urbanas mais abastadas. ou a guitarra francesa (como era chamada nos métodos à venda no Rio de Janeiro). centro musical da elite carioca. quando o crítico do jornal O Estado de São Paulo ouviu e se rendeu à arte do virtuose e compositor paraguaio Agustín Barrios (1885-1944). um instrumento tipicamente sertanejo. que chegou a fazer duo com ele e mais tarde fixou-se como jazzista nos EUA foi Laurindo de Almeida. dos capadócios e da marginalidade.Viola Isto. que ele utilizava para penetrar nas rodas de choro. conjugado à marcada diferença cultural entre as classes sociais no período imperial. Seria absolutamente impensável a realização desta obra. instrumento favorecido no acompanhamento do cancioneiro popular de tradição urbana. [comentar Laurindo] Fita Laurindo Por um lado. no Clube Mozart. dentro do contexto acanhado no Brasil dos anos 20. BG sobe Os primeiros concertos de violão solo documentados no país foram oferecidos pelo violonista cubano Gil Orozco em 1904 e não chegaram a atrair muita atenção. simplificadas. estigmatizou o violão – como acontecia na Espanha – como o instrumento do populacho.1 A distinção entre o violão de concerto e o violão popular foi gradualmente se acentuando nos anos 1930. 40 e 50 e alguns dos músicos de maior visibilidade construíram quase que a totalidade de suas carreiras à sombra da Era do Rádio. BG violão O violão também foi adotado como baixo-contínuo dos incipientes grupos de choro. Os primeiros defensores sérios do violão como instrumento de concerto. o “Canhoto” (1889-1928). Até a metade do séc. o que faz da vulcânica personalidade de Heitor Villa-Lobos (1887-1959) um fenômeno ainda mais singular. o violão como instrumento de concerto ainda não completou 100 anos no Brasil.O VIOLÃO NO BRASIL Como o café e o futebol. foram adotadas como o instrumento folclórico nacional por excelência: a viola caipira. por exemplo. com notável êxito.Instrumentos da família do violão foram já trazidos pelos jesuítas e usados na catequese. e o violão. o Garoto CD Garoto FX 6 Tristezas de um violão [desanúncio e comentário] Um colega de Garoto. aquele que podemos apontar como o primeiro concertista brasileiro. Fita Canhoto Abismo de rosas? C. Dessa forma. XIX há uma certa confusão entre a viola e o violão. desde o primeiro encontro que define nossa identidade cultural.3’ Como vemos. levadas ao interior do país pelos bandeirantes. As contingências sócio-culturais fizeram com que seu instrumento público fosse o violoncelo e que o violão fosse somente um laboratório de fundo-de-quintal. ele não sabia ler música e tocava com o violão invertido. em oposição ao piano. um divisor de águas na história do violão. alaúdes e violas – as quais. Um dos mais importantes foi Aníbal Augusto Sardinha. o rádio enfraqueceu as distinções de classe através do gosto musical e transformou-as numa . como o engenheiro Clementino Lisboa. Os instrumentos trazidos pelos jesuítas provavelmente foram as vihuelas. Meses depois. o violão está indissociavelmente ligado a uma visão sócio-cultural do Brasil. mas depois de 1850 já fica clara a diferença entre a viola. que residiu no Brasil em decorrência de seu sucesso. mas com as cordas em posição normal: Américo Jacomino. BG .

A Arte do Violão pág. 94 massa indistinta chamada “ouvinte”, disposta a ouvir o violão sem preconceitos; em 1928, o interesse pelo instrumento é vasto o suficiente para o surgimento de uma revista, “O Violão”, no Rio de Janeiro. E o rei do violão na Era do Rádio foi Dilermando Reis (comentar Dilermando, rádio, seresta, Juscelino) Dilermando Lp Gnatalli?? Ou fita abismo de rosas? Por outro, ainda faltava uma metodologia que permitisse o surgimento de um número significativo de concertistas de violão que preenchessem um vazio só ocasionalmente quebrado por raras visitas de artistas internacionais como Regino Sainz de la Maza, Andrés Segovia (a partir de 1937) e Abel Carlevaro (nos anos 40). O desenvolvimento desta metodologia veio com o uruguaio Isaías Sávio (1902-1977), que se estabeleceu em São Paulo nos anos 30. Sávio foi um concertista de modestos recursos, mas um devotado professor e autor de mais de 100 peças originais para violão, algumas das quais, como a Batucada das Cenas Brasileiras, perduram no repertório. Ele teve um papel considerável na promoção do violão dentro do establishment musical do país, publicou dezenas de métodos e arranjos, e formou gerações de violonistas que prontamente se estabeleceram como professores em outras capitais, com destaque para Antonio Rebello (1902-1965) no Rio de Janeiro. A Sávio também devemos a criação do curso oficial de violão nos conservatórios e, pouco antes de falecer, nas universidades. Fita Sávio Escuta Coração ou Sonha Iaiá Sávio teve a sensibilidade de ver a afinidade do violão com a alma brasileira e confirmar o violão como uma ponte ideal da transição entre a formação clássica e a música popular de qualidade. Entre seus alunos contamos não só com Barbosa Lima e Antonio Rebello, mas também Luís Bonfá e Toquinho. Os anos 60 e 70 marcam não só uma extraordinária expansão do ensino do violão popular com o advento da bossa-nova, mas também a consolidação da carreira internacional de uma geração: Carlos Barbosa Lima (n.1944), Turíbio Santos (n.1940), Sérgio (n.1948) e Eduardo Abreu (n.1949), Sérgio (n.1952) e Odair Assad (n.1956). Uma outra violonista brasileira que teve expressiva carreira no exterior e hoje é catedrática de violão no conservatório de Genebra é Maria Lívia São Marcos. LP Maria Lívia Um outro violonista brasileiro de enormes recursos foi Geraldo Ribeiro (comentar). Cd Geraldo Barrios Um fenômeno, pois não outra forma de chamá-los, foram os Índios Tabajaras (comentar). LP Índios Chopin Fantasia

A popularidade de Dilermando Reis e a bossa nova foram um fator crucial na divulgação do violão no Brasil. Nos anos 60 o violão era uma verdadeira febre, e o violonista que define o papel do violão nos novos movimentos musicais, absorvendo a harmonia da bossa nova e uma vigorosa pegada derivada dos ritmos africanos, e que, para muitos, define o som do violão brasileiro é Baden Powell (comentar). LP Baden? O ensino do violão no Brasil, depois de Sávio, profissionalizou-se. Hoje é presente em conservatórios, faculdades, etc. No Rio de Janeiro, um dos professores que mais formaram alunos de sucesso foi Jodacil Damaceno. CD Jodacil. Em São Paulo, este papel coube a Henrique Pinto. É incalculável a contribuição de Henrique etc. (comentar0 LP Violão câmara trio

A Arte do Violão pág 95 Fenômeno dos discos independentes, alunos de Henrique, mudança da filosofia de repertório e gama que vai dos extremos do clássico ao popular, com todas as nuances. LP Trio op.12 Extremo ortodoxo Everton Gloeden LP Bach Grande personagem saído do choro, com formação clássica, grande acompanhador: Rafael Rabello Mini CD Rafael ou CD Era do CD. Benefícios de inteligência musical e qualidade administrativa CD Quaternaglia

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XXI Nesta série A Arte do Violão. A outra razão é mais mundana: é mais fácil que 3 ou 4 violonistas trabalhem de forma coordenada para uma carreira. à sua maneira. um atributo essencial do grande solista. leva a uma diluição. XIX. criou um universo musical particular e conquistou seu espaço no coração do público. BG sobe Dos muitos grupos de violões em atividade no momento. e é apenas natural que estes exploradores queiram basear sua atividade exclusivamente em composições próprias. à sua maneira. um dos mais impressionantes é o LA Guitar Quartet. allegro 3´03 [desanúncio] A Espanha parece produzir bons violonistas aos cântaros. Henrique Pinto. CD LA Guitar Quartet – FX 5 Holst: St Paul´s Suite: Dargason 3´09 [desanúncio e comentário] Uma outra tendência é a do compositor-violonista. BG Bream Cada um deles. Uma tendência que. técnica límpida e calor humano. O violão naturalmente atrai personalidades introspectivas e rapsódicas. XX. onde julgaríamos brotarem violonistas-toureiros a cada esquina. com sua inteligência e paixão. é Marco Sócias. elegância de fraseado. de caráter dinâmico e efervescente. CD Kytarovy Festival – FX 15 Domeniconi: Koyunbaba 4o Mov. eu mostrarei um pouco do que eu. Como disse meu professor. E isto com apenas 19 anos. capricho nas terminações de frase. CD Elogio de la Guitarra – FX 3 Rodrigo: sonata Giocosa. uma intérprete de enormes recursos. e uma das estréias mais impressionantes dos últimos anos é a de Anabel Montesinos. invariavelmente mantidos sob o controle de uma técnica imaculada. que se fazer isto sozinho. ele é um instrumento que tem repertório. um instrumento delicado e distante. ouço com admiração e prazer. onde uma figura central dá lugar a um cenário múltiplo. mas acho que. o violão não é mais uma curiosidade ou aberração. muitas vezes no limite entre a música clássica. raramente atrai as personalidades comunicadores.A Arte do Violão pág 97 PROGRAMA XXVI – O VIOLÃO NO SÉC. e um papel a cumprir no cenário musical. 4´02 [desanúncio] Isto não quer dizer que o mundo do violão virou um festival de música étnica. que se mostra incrivelmente apta para a música do séc. onde cada um pode. Uma de minhas preferidas é Margarita Escarpa. quem será o novo Segovia. Barrios ou Julian Bream? Eu não sou muito apto para a profecias. do ensino de David Russell. CD Margarita Escarpa – FX 9 Mompou: suíte Compostelana Prelúdio 3´39 [desanúncio] Um outro intérprete de sumo interesse. eu penso. têm surgido uma geração de músicos refinados e de estilo cálido e sutil. talvez. tende a se fortalecer. o jazz e a música étnica. músicos bem formados. acho. Um dos mais tocados e apreciados é Carlo Domeniconi. agora. influência. para o estabelecimento do violão como instrumento de concerto no séc. Mas as pessoas me perguntam: e no séc XXI. Como poucas exceções. particularmente. é a da música de câmara com violão. Ela tem tudo o que este repertório pede: imaginação. mas também com um perfeito acabamento técnico. manifestar sua individualidade artística. BG LA Guitar Quartet Por duas razões: o violão. Já um grupo de instrumentos investe uma apresentação com um elemento substitutivo: a interação artística. Na Espanha. BG sobe Isto. são também os violonistas que pessoalmente gosto de escutar. tentei dar ao ouvinte um retrato daqueles violonistas que contribuíram. porque muita gente ainda tem muito a acrescentar dentro de um formato mais convencional. . Ao invés de apontar erroneamente aqueles músicos que podem ou não cair no favor da mídia e da indústria cultural. uma figura central deste porte não tem mais lugar.

-CD All in Twilight – FX 15 Takemitsu: In the woods. Dentre eles. Vamos ouvir duas facetas de sua arte. Franz Halasz tem tudo o que gosto de ouvir num violonista: preferência pelas obras primas escritas para o instrumento. 98 CD Anabel Montesinos – FX 10 Llobet: Scherzo-Vals 3´48 [desanúncio] Um outro celeiro de grandes violonistas é a Alemanha. como nesta inptrospectiva gravação de takemitsu. 1st mov Wainscot Pound after Cornelia Foss 2´58 -CD Bach – Hoppstock FX 1 Bach – BWV 995 prelude/presto 2´33 -CD Nora Buschmann FX 1 Kellner – Phantasia em la menor 2. CD Franz Halasz – FX 1 Turina: Rafaga op. primeiramente esta vibrante. arrasadora interpreatção deTurina. virtuosismo a toda prova.42 CD Pavel Steidl FX 11 Mertz: Romanze 3´44 -CD Asencio FX 15 Asencio: La gaubança 1´53 -CD Ana Vidovic FX 1 Bach Prelúdio BWV 1006 3´22 -CD Fragments FX 7 Kampela Estudo Percussivo no. fecundidade.1 4´30 -CD Stefano Grondona FX 5 Tansman Preludio 3´15 -CD Aniello Desiderio FX 10 Dyens: Fuoco: Libra sonatina 3´14 -CD Graham Devine?? -CD Pablo Márquez FX ? Milano -CD Pablo Marquez II Piazzola: compadre 3´00 . e a capacidade de se envolver inteiramente com o universo da música que toca.A Arte do Violão pág. Os alemães combinam rigor de preparo com potência. e uma imaginação delirante.53 2´33 [desanúncio] O outro lado de Halasz é o respeito pela arquitetura da obra e uma escrupulosa leitura dos mínimos detalhes do texto musical.

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