UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ FACULDADE DE EDUCAÇÃO PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO BRASILEIRA NÚCLEO TRABALHO E EDUCAÇÃO

EM CIMA DO LIXO: A EXPLORAÇÃO DO TRABALHO DOS CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS DO ATERRO CONTROLADO DA CIDADE DO NATAL/RN

FÁBIO FONSECA FIGUEIREDO

FORTALEZA/CE Novembro/2004

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FÁBIO FONSECA FIGUEIREDO

EM CIMA DO LIXO: A EXPLORAÇÃO DO TRABALHO DOS CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS DO ATERRO CONTROLADO DA CIDADE DO NATAL/RN

Dissertação apresentada ao programa de pósgraduação da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará, para a obtenção do Grau de Mestre, sob a orientação do Prof. Dr. Enéas de Araújo Arrais Neto.

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EM CIMA DO LIXO: A EXPLORAÇÃO DO TRABALHO DOS CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS DO ATERRO CONTROLADO DA CIDADE DO NATAL/RN

FÁBIO FONSECA FIGUEIREDO

Aprovado em ____/____/____

_____________________________________ Dr. ENÉAS DE A ARRAIS NETO Presidente da Banca

_____________________________________ Dr. GUSTAVO ALBERTO MOURA Examinador Interno/UFC

___________________________________________ Dr. ERASMO MIESSA RUIZ Examinador Externo/UECE

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DEDICATÓRIA

Dedico esta dissertação à minha tia Ritinha, a pessoa que mais acreditou em mim nos últimos dois anos. Nos momentos difíceis, você foi meus olhos quando não enxerguei, ouvidos quando não ouvi e boca quando não pude falar. Este trabalho certamente se engrandece em ter você como incentivada, de quem a garra na conquista dos objetivos sempre foi uma característica marcante.

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AGRADECIMENTOS

Este é o momento mais difícil da dissertação. Certamente não conseguirei contemplar os nomes de todas as pessoas que de alguma forma me ajudaram a realizar este trabalho. De antemão peço desculpas às que não foram citadas, aproveitando a oportunidade para novamente agradecer pelo fizeram por mim nessa árdua trajetória. Agradeço à FACED/UFC por ter me dado a chance de cursar o mestrado em Educação. Também agradeço ao CNPq por ter custeado com uma bolsa de mestrado, o que foi bastante útil haja vista eu ter vindo de outro Estado e não possuo qualquer vínculo empregatício. As instituições, procurei fazer jus a oportunidade que me foi concedida. Ao meu orientador Enéas Arrais por ter me dada liberdade na composição do referencial bibliográfico sem as amarras de certas exigências acadêmicas. Aos componentes da banca, professores doutores Gustavo Moura e Erasmo, os quais selecionamos por pensarmos que podem dar contribuições significativas ao trabalho. Não posso deixar de mencionar os professores da FACED os quais me municiaram de um rico referencial teórico. À Ana Elizabeth, Gerardo, Bodião, Inês Mamede, Sandra Felismino, Ana Dorta, Ângela Sousa, Ercília, Juraci, Arimatéia e Cacau do Prodema/UFC, o meu muitíssimo obrigado por tudo e desculpa se falhei em alguma ocasião. Também agradeço à Geiza, Aldagiza, Anne, Mara, Pontes, Gina e Marquinhos. Faço menção especial à URBANA, na pessoa de seu diretor presidente e aos técnicos entrevistados. Às duas entidades de catadores, ASCAMAR e ASTRAS, e principalmente aos catadores por terem permitido a minha entrada no mundo vivido por eles. À minha turma que nunca esquecerei. Tivemos momentos marcantes os quais guardo ótimas recordações. Em nome de TODOS, agradeço a Barbosa, de quem aprendi que a maturidade não se encontra mas se constrói. À Terezinha, amiga fiel de quem somente posso elogiar. Eduardo, talvez o cara mais bacana que eu já conheci. Irmão na cachaça, no charuto e

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no apoio acadêmico. E, finalmente, à Izaura. Não sei o que essa senhora é para mim, se mãe, irmã, amiga ou simplesmente meio-conterrânea maranhense...não tenho palavras para expressar o que eu sinto por esse ser GENUINAMENTE humano, que dignifica a espécie! Aos amigos que conheci ao longo destes dois anos, Geny, Dori, Baby, Rogério, Carlos Alberto e Guto...a vocês todos, valeu ter-lhes conhecido. Também a Caline, de Natal, por ter se revelado uma amiga acima de qualquer suspeita. A minha família, Mãe, Leidinha, Eliene, Genal, Francisco, Joãozinho e aos demais membros da extensa família Vieira Figueiredo. A Lindomar, ex-quase tio, que mesmo na fria e cinzenta Curitiba, foi fundamental no fechamento do trabalho. Dodó, a maneira de agradecer é dividindo uma boa garrafa de Gim! Especialmente, agradeço a meu pai por ter segurado a “onda” nos momentos difíceis, sempre acreditando e apoiando as minhas decisões. Agradeço por ter me ensinado a ir à luta com trabalho, seriedade e principalmente honestidade nos atos. Vir fazer mestrado aqui em Fortaleza ocorreu pela insistência de três pessoas. Uma delas é o grande amigo Daniel Lins que desde 2000 tem me incentivado voar cada vez mais alto. Outro cara importante foi Giuliano, amigo de Natal, que não mediu esforços no sentido de me convencer a vir morar na terra do sol. Finalmente, meu primo Santiere, este último sempre acreditou no meu potencial e sempre me deu a maior força. Aos três, muito obrigado! Finalmente, a Lis, por quem me apaixonei desde a primeira aula do mestrado. Atualmente, mesmo longe, sei que ela torce e vibra por mim. Guna, obrigado por ter me aturado, principalmente nos últimos meses de “gestação”.

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RESUMO

O estudo analisa a dinâmica da exploração do trabalho dos catadores de materiais recicláveis do Aterro Controlado da Cidade do Natal/RN. Trata-se de um estudo de caso que utilizou para coleta dos dados a análise documental, a observação direta e entrevistas com funcionários da Companhia de Limpeza Urbana da Cidade do Natal (URBANA) e com os representantes das duas associações de catadores existentes no aterro. Os resultados indicam que há entre os representantes das associações uma rivalidade motivada pela necessidade de se apresentar, cada uma delas, como entidade representativa dos catadores. A disputa tem o propósito de obter benefícios provenientes do projeto de combate à fome associado à inclusão social de catadores e à erradicação de lixões, financiado pelo Governo Federal e URBANA, implantado em Natal desde janeiro/2003. Os referidos representantes percebem suas associações apenas como entidades econômicas, exigindo produtividade do trabalho dos associados com o objetivo de angariar lucro com a venda dos recicláveis. A URBANA demonstra empenho na concretização do mencionado projeto, realizando todas as ações de sua competência. Contudo, exime-se de responsabilidade do possível fracasso do mesmo, o que atribui aos conflitos entre os representantes das associações e ao descrédito dos catadores pelo projeto. A implementação do projeto atenuará a problemática ambiental que envolve o lixo em Natal e haverá melhoria nas condições de trabalho dos catadores. Com a coleta seletiva do tipo portaa-porta, eles terão uma substancial melhoria nas suas condições de trabalho pois realizarão a coleta dos materiais recicláveis nas residências, ao invés de coleta-los no lixão. Todavia, deixar a cargo dos catadores a coleta seletiva, ficando a URBANA apenas gerenciando os serviços, é uma forma velada de terceirização, com a peculiaridade de isentar a Companhia da necessidade de formalização do contrato de trabalho com os catadores. Palavras-Chaves: Catador de materiais recicláveis; Exploração do trabalho; Reciclagem de resíduos sólidos.

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ABSTRACT

The study analyzes the dynamics of the exploration of the work of the trash workers of recycle materials of lixão of the Natal City. One is about a case study that used how methodological proceeding the documentary analysis, the direct comment and interviews with employees of the Company of Urban Cleanness of the Natal City (URBANA) and with the representatives of the two associations of the trash workers existing in the lixão. The results show that it has between the representatives of the associations a rivalry motivated for the necessity of if presenting, each one of them, as representative entity of the trash workers. The dispute has the intention to get benefits proceeding from the project of combat to the hunger associated with the social inclusion of trash workers and the eradication of lixões, financed for the Federal Government and URBANA, implanted in Natal City since january/2003. The representative related ones only perceive its associations as economic entities, demanding productivity of the work of the associates with the objective of the get profit with commerce of the recycle materials. The URBANA one demonstrates to persistence in the concretion of the mentioned project, carrying out all the actions of its ability. However, it is exempted of responsibility of possible the failure of project, what it attributes to the conflicts between the representatives of the associations and to the discredit of the trash workers for the project. The implementation of the project will attenuate problematic the ambient one that involves the garbage in Natal City and will have improvement in the conditions of work of the trash workers. With the selective collection of the type door-the-door, they will have a substantial improvement in its conditions of work therefore the collection of the recycle materials will be in the residences, instead of collects them in the lixão. To leave to selective collect to trash workers, being the URBANA one only managing the services, is a blind form of the flexibility, with the peculiarity of to give up the Company of the necessity of the employment contract with the trash workers.

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Key-words: Trash workers; Exploration of the work; Recycling of solid residues.

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LISTA DE SIGLAS

SIGLA ABES ABNT ABRELPE ASCAMAR ASTRAS CAERN CEMPRE CLT CTR DIT EPC EPI FACED FAT FGTS FSM IBGE IDEMA INSS MMA MST

DEFINIÇÃO Associação Brasileira de Engenharia Sanitária Associação Brasileira de Normas Técnicas Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais Associação de Catadores de Materiais Recicláveis Associação de Agentes Trabalhadores da Reciclagem e Compostagem do Aterro Sanitário Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte Compromisso Empresarial para a Reciclagem Consolidação das Leis Trabalhistas Centro de Triagem de Resíduos Divisão Internacional do Trabalho Equipamento de Proteção Coletiva Equipamento de Proteção Individual Faculdade de Educação Fundo de Amparo ao Trabalhador Fundo de Garantia por Tempo de Serviço Fórum Social Mundial Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística Instituto de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte Instituto Nacional de Seguridade Social Ministério do Meio Ambiente Movimento dos Sem Terra

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OIT ONG ONU PEV PEQ PIB PIS PNUD Organização Internacional do Trabalho Organização Não-Governamental Organização das Nações Unidas Posto de Entrega Voluntária Programa Estadual de Qualificação Produto Interno Bruto Programa de Integração Social Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento

SINDIVERDE Sindicato de Empresas Compradoras de Materiais Recicláveis UFC UFRN URBANA USP WWF Universidade Federal do Ceará Universidade Federal do Rio Grande do Norte Companhia de Limpeza Urbana da Cidade do Natal Universidade de São Paulo Fundo Mundial para a Conservação

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LISTA DE ANEXOS

ANEXO 1 ANEXO 2 ANEXO 3 ANEXO 4

Proposta de debate do projeto de combate à fome associado à inclusão social de catadores e à erradicação de lixões Relatório de cadastramento dos catadores da área de disposição final Informações referentes as atribuições da URBANA I Congresso Latino-americano de catadores e catadoras de materiais recicláveis

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SUMÁRIO

DEDICATÓRIA ................................................................................................................... IV AGRADECIMENTOS ........................................................................................................... V RESUMO.............................................................................................................................. VII ABSTRACT ....................................................................................................................... VIII LISTA DE SIGLAS ................................................................................................................ X LISTA DE ANEXOS ........................................................................................................... XII INTRODUÇÃO ....................................................................................................................... 1 ENVOLVIMENTO COM O TEMA ...................................................................................... 2 PROBLEMATIZANDO A TEMÁTICA ................................................................................ 6 PARTICULARIZANDO A DISCUSSÃO ............................................................................ 13 ESTRUTURAÇÃO DOS CAPÍTULOS ............................................................................... 17 CAPÍTULO I: TEMÁTICA AMBIENTAL NA PERSPECTIVA DO CAPITALISMO21 1.1 – CONTEXTUALIZANDO A TEMÁTICA AMBIENTAL ................................................ 22 1.1.1 – O lixo na sociedade ................................................................................ 29 1.1.2 – O lixo no contexto atual ......................................................................... 32 1.1.3 – A Reciclagem dos Resíduos Sólidos ....................................................... 36 1.2 – ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O MEIO AMBIENTE EM NATAL ..................... 40 1.2.1 – Antecedentes históricos do acondicionamento do lixo em Natal ........... 42 1.2.2 – Aspectos da problemática atual do lixo ................................................. 45 CAPÍTULO II: A EXPLORAÇÃO DO TRABALHO NO CAPITALISMO .................. 49

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2.1 – A ORIGEM DO TRABALHO .................................................................................. 49 2.1.1 – A divisão entre lucros e salários no capitalismo ................................... 51 2.2 – A CRISE DO TRABALHO ...................................................................................... 56 2.2.1 – Desenvolvimento tecnológico e a redução da força de trabalho ........... 59 2.2.2 – O que dizem os Críticos ......................................................................... 63 2.2.3 – Breve esboço sobre o trabalho no Brasil ............................................... 73 2.3 – O EMPOBRECIMENTO DA POPULAÇÃO MUNDIAL ................................................ 76 2.3.1 – A atividade da catação como estratégia de sobrevivência .................... 80 2.3.2 – Os (des)caminhos da atividade da catação no Brasil ............................ 85 CAPÍTULO III: PERCURSOS METODOLÓGICOS ...................................................... 88 3.1 – COLETA DE DADOS DA PESQUISA DE CAMPO ...................................................... 88 3.1.1 – Observação Direta ................................................................................. 90 3.1.2 – Entrevistas semi-estruturadas ................................................................ 90 3.1.3 – Análise documental ................................................................................ 91 3.2 – SUJEITOS ENTREVISTADOS ................................................................................ 91 3.2.1 – Representantes da URBANA .................................................................. 91 3.2.2 – Representantes das associações de catadores ....................................... 92 3.3 – ETAPAS DA PESQUISA ........................................................................................ 93 CAPÍTULO IV: EM CIMA DO LIXO: DESVENDANDO A EXPLORAÇÃO DO TRABALHO DOS CATADORES DO ATERRO CONTROLADO ................................ 95 4.1 – APROXIMAÇÃO COM O AMBIENTE DA PESQUISA ............................................... 95 4.1.2 – A Organização espacial do Aterro Controlado ..................................... 96 4.1.3 – O trabalho dos catadores da ASCAMAR ............................................... 97 4.1.4 – Os Catadores Avulsos ............................................................................ 99 4.2 – O PROJETO DE ERRADICAÇÃO DO LIXÃO .......................................................... 101

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4.2.1 – Peculiaridades da cidade de Natal ...................................................... 104 4.3 – ASCAMAR E ASTRAS: OS DOIS LADOS DA MESMA MOEDA ........................ 106 4.3.1 – A rivalidade de quem devia estar do mesmo lado ................................ 108 4.3.2 – As armas utilizadas na “trincheira de guerra” ................................... 111 4.4 – A POSTURA DA URBANA DIANTE DOS CATADORES ....................................... 115 4.4.1 – Em busca da credibilidade perdida...................................................... 118 4.4.2 – Administrando conflitos ....................................................................... 123 4.4.3 – Beneficiando-se da desconfiança e rivalidade alheias ........................ 126 4.5 – A DEFESA DOS INTERESSES DOS CATADORES ................................................... 129 4.5.1 – O que é trabalho para o representante da ASCAMAR ........................ 129 4.5.2 – A ASTRAS e suas palavras carregadas de significados ....................... 136 4.5.3 – À guisa de nossas análises ................................................................... 140 CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................................. 149 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................................. 155 ANEXOS .............................................................................................................................. 159

INTRODUÇÃO

O leitor poderá observar ao longo do texto que a singularidade deste estudo está no enfoque sobre a atividade de catação dos materiais recicláveis existentes no lixo, realizada pelos catadores do aterro controlado da cidade de Natal/RN. Desmistificando a idéia de que essa ocupação se faz imprescindível para a sociedade natalense, pelo fato de oportunizar ocupação e renda para as pessoas que possuem baixa qualificação profissional e se encontram desempregadas, também pelo fato da atividade ser uma prática de cunho ambiental, retratamos o lado nefasto da catação dos resíduos, a dinâmica expropriativa do trabalho do catador. Para VASCONCELOS (2003:12), “a realidade não é fixa, embora guarde segredos de cada época como se turbilhões de devires tornassem o dito multiplicado por muitos outros modos de dizer o mesmo dito”. Em concordância com o autor, empreendemos a busca de mais um segredo que pensamos existir na realidade investigada. Contudo temos a certeza de que os saberes acumulados até o fechamento desta dissertação aumentam diante da amplitude e complexidade dos nossos conceitos préformulados sobre a realidade que pretendemos analisar cientificamente. Ou como afirma VASCONCELOS (op. cit., 13), “vivemos num abismo, com uma corda esticada dos dois lados, sendo nossa missão atravessar de um lado a outro da corda munidos de toda a insegurança que podemos ter”. A insegurança que amedronta também aguça o desejo de conhecer o admirável mundo novo que adentramos a partir deste momento, no sentido de que partem de uma percepção as análises que fazemos. Cientes de que estamos aprendendo, iniciamos essa viagem despidos de qualquer certeza, coadunando com ZAOUAL (2003:58) quando diz que “os conhecimentos bem estabelecidos são, sem dúvida, uma fonte de ignorância apresentada com arrogância”.

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Envolvimento com o tema Nosso interesse com a temática da catação de resíduos do lixo partiu da necessidade da realização da monografia para a conclusão do curso de graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Natal. Iniciamos o processo de elaboração do estudo com questões acerca do que acontecia com o lixo coletado nas ruas. As inquietações surgiam com mais vigor à medida que deparávamos com catadores de lixo perambulando pelos bairros da cidade. Na ocasião, o primeiro passo para a investigação foi identificar quem era o responsável pela limpeza pública da cidade. Através da coleta das ruas, obtivemos informações que o órgão responsável pela coleta e destinação final do lixo era a Companhia de Limpeza Urbana da Cidade do Natal (URBANA), empresa de economia mista fundada no final da década de 1970. Entrevistamos um dos funcionários responsáveis pelo setor de limpeza que nos cedeu todas as informações sobre o sistema de coleta e acondicionamento final do lixo. O interesse pela temática do lixo intensificou-se a partir da nossa primeira visita à área de destino final que, conforme representantes da URBANA se tratava de um Aterro Controlado. Nesse período, estávamos no processo de definição do objeto de estudo para esta monografia. No local destinado ao recebimento dos resíduos, no bairro de Cidade Nova, zona leste de Natal, percebemos que o lixo coletado pela URBANA se constituía em grave problema ambiental pelo fato de ser despejado a céu aberto, o que poluía o entorno do lixão. Essa prática equivocada de acondicionamento final dos resíduos se constituiria em problema ambiental não somente para as imediações da área do aterro mas a toda Natal pois o aterro localiza-se sobre importante lençol freático da cidade. A continuar o acondicionamento do

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lixo daquela maneira, os mananciais de água subterrânea que abastecem parte das zonas sul e oeste do município estariam em perigo devido à contaminação por chorume. Nossas especulações teóricas e visualizações empíricas do risco ambiental causado pela inadequada disposição final do lixo se confirmaram quando os meios de comunicação de massa noticiaram, no segundo semestre de 2000, o indiciamento, por parte do Ministério Público, da URBANA. O processo exigia que a Companhia desenvolvesse, urgentemente, uma solução visando ao condicionamento racional dos resíduos do lixo, evitando assim a contaminação das águas subterrâneas, empobrecimento do solo da região do aterro e o desmatamento da área de duna. A notificação referia-se ainda às crianças e catadores do lixão, os quais deveriam deixar a área imediatamente. Respondida a pergunta inicial, outra surgiu: o que fazer para atenuar os problemas ambientais visíveis ocasionados pela negligente disposição final do lixo em Natal? Não tardou para descobrirmos que a reciclagem é a maneira eficaz de se atenuar tais problemas. Fazendo a revisão de literatura da temática, tivemos o conhecimento de um projeto piloto que, no segundo semestre do ano de 2000, estava sendo implementado na cidade de Fortaleza/CE. Tratava-se do Consórcio do Lixo, projeto originado da dissertação de mestrado do professor Albert Brasil Gradvohl. Segundo o professor, o Consórcio do Lixo impulsionaria a implementação da coleta seletiva na capital cearense. Para tanto, caberia ao órgão responsável pela limpeza pública de Fortaleza a missão de gerenciar as ações propostas, recrutando catadores, denominados agentes sociais, a participarem do projeto. A Prefeitura faria o cadastramento dessas pessoas para que posteriormente fizessem a coleta de lixo na cidade. A iniciativa privada também participaria do projeto, sendo que para isso as empresas interessadas deveriam se cadastrar no Sindicato de Empresas Compradoras de Materiais

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Recicláveis (SINDIVERDE). As empresas do SINDIVERDE comprariam os materiais coletados pelos catadores. Segundo GRADVOHL (1998), a estrutura de funcionamento do Consórcio do Lixo envolvia os catadores espalhados pelas ruas fazendo a coleta dos materiais recicláveis. A produção dessa coleta era levada aos vários pontos de entrega voluntária (PEV’s) da cidade, sendo os catadores pagos conforme o peso e o tipo de material coletado. O material dos PEV’s era transportado pela Prefeitura para o galpão de armazenamento, Centro de Triagem de Resíduos (CTR’s). Nos CTR’s, todo o material era devidamente enfardado, de acordo com as exigências das empresas do SINDIVERDE, que o compravam em seguida. Tinha-se, portanto, uma cadeia econômica na qual as empresas do Sindicato eram as demandadoras de materiais recicláveis e os catadores, os ofertantes desses materiais. O contato que mantivemos com o Consórcio do Lixo aguçou nosso interesse em difundir a prática da reciclagem como forma de solucionar a problemática do lixo. No período, adimitíamos que a reciclagem, além de implicações ambientais benéficas que proporcionavam ao meio ambiente, apresentava-se como possibilidade real de geração de emprego e renda para as pessoas desempregadas. No ano seguinte ao término da monografia, 2001, participamos de grupo de pesquisa multidisciplinar em Natal, que prestou consultoria técnica para o Instituto de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte (IDEMA), realizando o projeto intitulado: “Diagnóstico da Situação dos Resíduos Sólidos no Rio Grande do Norte e a proposta de Lei que instituirá a Política Estadual de Gestão de Resíduos Sólidos1”. A pesquisa foi financiada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)/Ministério do Meio Ambiente (MMA) e coordenada pelo IDEMA.

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O conteúdo do diagnóstico encontra-se disponível no sítio eletrônico <http://www.idema.rn.gov.br/Cma/Diagnostico2001>

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Nesta pesquisa, realizou-se levantamento minucioso sobre o lixo, em 34 cidades do Estado do Rio Grande do Norte, inclusive na capital. Inicialmente com a entrega de amplo questionário para o representante do órgão público responsável pela limpeza de cada cidade. Visitamos o local de destinação final dos resíduos do lixo, onde se fez a filmagem, fotografias, bem como o estudo Gravimétrico2 do lixo. De acordo com o IDEMA (2001), o objetivo central da pesquisa foi traçar o quadro situacional do lixo, nos municípios, para que, constatadas as deficiências, fossem propostas alternativas à problemática. Os dados da pesquisa apresentaram-se bastante contundentes, evidenciando o descaso e/ou despreparo das Prefeituras com a questão. Dentre as alternativas formuladas, estavam a coleta seletiva, o desenvolvimento de projetos de educação ambiental e consórcio de municípios para o acondicionamento e tratamento do lixo coletado, em aterros sanitários, que atendessem as especificações técnicas da engenharia sanitária3. A participação no grupo da pesquisa constou da coleta de dados através da aplicação de questionários com os responsáveis pela coleta pública, nas cidades selecionadas, filmagens e documentário fotográfico da área de destino final do lixo, além do levantamento gravimétrico. Participamos ainda do processo de categorização e análise dos dados, merecendo destaque das dezesseis maiores indústrias do Estado. Este trabalho foi imprescindível para que começássemos a enxergar a atividade da catação dos resíduos do lixo de maneira diferenciada. Nas 34 cidades visitadas, percebemos a presença de catadores, famílias inteiras que sobreviviam da coleta dos resíduos. Embora houvéssemos discutido alguns aspectos referentes à precariedade do trabalho desses sujeitos, na monografia, foi somente em 2001 que começamos a indagar sobre as condições subhumanas dos catadores.

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O Levantamento Gravimétrico consiste na caracterização dos resíduos existentes no lixo. Para saber sobre as especificações técnicas de um aterro sanitário, consultar sítio eletrônico da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária (ABES): <www.abes.org.br>

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A proximidade com a literatura que aborda a temática ambiental, juntamente com a leitura crítica que desenvolvemos sobre o modo de produção capitalista, levou-nos à percepção de que o capital tem se apoderado das questões ambientais com o intuito de fazer do meio ambiente mais um espaço de reprodução capitalista, o que percebemos com nitidez, com a análise da atividade da catação realizada pelos catadores de materiais recicláveis. Com novos questionamentos, sentimos a necessidade de aprofundar o conhecimento através do curso de pós-graduação. No ano de 2002, com a aprovação para o mestrado da Faculdade de Educação (FACED) da Universidade Federal do Ceará (UFC), começamos a desenvolver esta dissertação na intenção de investigar os processos associados de exploração do trabalho dos catadores do aterro público controlado de Natal. Com o aporte teórico, fomos esmerilhando nosso objeto, definindo-o como a exploração do trabalho dos catadores, no âmbito da atividade econômica, a reciclagem dos resíduos do lixo. Estamos, há quatro anos, estudando as questões que envolvem a temática do lixo, suas implicações ambientais, sociais e econômicas. Também temos participado de eventos envolvendo questões ambientais. O aprofundamento teórico obtido no núcleo de pesquisa Trabalho e Educação, da FACED/UFC, no que tange as questões concernentes a reestruturação capitalista e suas conseqüências para o mundo do trabalho. Assim, consideramo-nos apto a contribuir com a discussão proposta, no momento, com a realização deste trabalho dissertativo.

Problematizando a temática Em meados de 2003, ganhou notoriedade nacional a gigantesca fila que se formou para a inscrição, em concurso público, à vaga de gari na companhia de limpeza pública da cidade do Rio de Janeiro/RJ. Durante uma semana, fizeram-se, em praticamente todas as emissoras de televisão, reportagens sobre os motivos de os candidatos se interessarem pelas

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vagas disponíveis. Na gigantesca fila, foram entrevistados administradores de empresas, advogados, motoristas, donas-de-casa, pedreiros, estudantes secundaristas, enfim, pessoas de diversas habilitações profissionais. Exemplos desse tipo multiplicam-se por todo o país, podíamos descrever muitos outros dos quais tivemos conhecimento ao longo desta dissertação. Entretanto, mais do que imensas filas que se formam nas portas dos contratantes, o que externa o quadro situacional da economia brasileira marcado por elevadas taxas de desemprego, têm merecido destaque e atenção os profissionais, nas filas, à procura de emprego. O fato de pessoas das mais variadas qualificações almejarem uma vaga para cargo que exige habilitação diferente da sua é indicativo de que a economia brasileira não está conseguindo absorver os profissionais disponíveis no mercado de trabalho. Essa constatação refuta o discurso da qualificação profissional do trabalhador como garantia de emprego, tão amplamente difundido ao longo da década de 1990. A propalada empregabilidade, na qual o trabalhador devia estar sempre apto às mudanças do mercado de trabalho fruto da reestruturação produtiva, ao menos do ponto de vista das evidências empíricas, não tem salvado o trabalhador do horror do desemprego (ARRAIS NETO 2002, FORRESTER 1997). No Brasil, o desemprego tem tomado forma diferente do que ocorreu em períodos anteriores. Se, nos anos de 1940 e 1950, início do industrialismo brasileiro, a qualificação profissional era uma garantia de emprego, agora o quadro é outro. A retomada da teoria do capital humano com a qualificação do trabalhador tem se mostrado refutável, haja vista que os trabalhadores qualificados encontram-se também desempregados. Ao analisar os condicionantes da integração das economias dos países na última década, POCHMANN (2001:08) afirma que o processo de acumulação mundial do capital rebaixou o padrão de uso e remuneração da força de trabalho. Destarte, “é comum

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encontrarmos estatísticas que apontam para a diminuição dos salários reais médios, bem como o aumento das atividades consideradas informais em todos os lugares”. Nesse sentido, o trinômio desemprego-trabalho informal-baixo rendimento ocorre de maneira evolutiva. O trabalhador desempregado desenvolve como estratégia de sobrevivência a atividade informal, sendo irrisória a remuneração de ocupação em alguns casos. Como vemos, incluir os trabalhadores informais no processo social de produção de mercadorias, excluindo-os do trabalho formal, pode ser interpretado como mais uma forma de combinação do capital para garantir a sua reprodução, que se efetiva às custas da expropriação dos trabalhadores. Ao discutir as implicações sociais a partir da construção da barragem Armando Ribeiro Gonçalves, na região do Vale do Assu, Rio Grande do Norte, BONETI (1997) analisa a exclusão como sendo fruto de desenvolvimento econômico que usa, como estratégia, “a limpeza da área”, através da destruição do sistema econômico tradicional de produção para, em seguida, instalar o novo sistema produtivo avançado. Aos trabalhadores do antigo sistema não resta outra alternativa senão migrar para a informalidade, tornando-se excluídos econômico e socialmente por representarem o atrasado, o arcaico, sem serventia para o novo sistema. Se fôssemos elencar um ranking das ocupações informais, a partir da visibilidade, muito provavelmente a catação de resíduos pelos catadores comporia as primeiras colocações da lista. A nosso ver, essa atividade reflete soberbamente o que vem ocorrendo com o mercado de trabalho brasileiro, desde a ascensão neoliberal do início dos anos de 1990, elevadas taxas de desemprego fazendo com que as pessoas utilizem, como estratégia de sobrevivência, as atividades informais. Esses trabalhadores, ao ingressar no setor informal da economia, segundo JAKOBSEN (2001:05) “convertem-se numa espécie de cidadãos de

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segunda classe, perdendo inclusive o acesso a direitos garantidos pela Constituição Brasileira”. Outro elemento não menos importante na composição deste estudo diz respeito à intervenção do homem ao meio ambiente. Com o intuito de manter a remuneração do capital no patamar mais elevado possível, os detentores do capital têm optado pelo modelo de desenvolvimento econômico baseado no consumo predatório dos recursos naturais existentes no planeta. O uso irracional dos extratos ambientais, fruto das atividades econômicas da sociedade capitalista, vem se constituindo em ambiente propício à reprodução do capital. Em sendo o meio ambiente planetário um sistema fechado, a utilização desmedida/indevida dos recursos naturais, visando ao suprimento de demanda determinada pelo consumismo desenfreado, portanto desnecessária, de parcela diminuta da população mundial, pode ser interpretada como mais uma forma de exploração capitalista (ALTVATER, 1995). Isso sem falar nos danos ambientais distribuídos para toda a humanidade, de forma que a riqueza gerada seja apropriada pela parcela social detentora do capital, distribuindo a poluição para todos. Tentando minimizar os terríveis problemas ambientais ocasionados a partir da opção feita por esse tipo de desenvolvimento econômico, determinados grupos e setores sociais de alguns países capitalistas desenvolvidos têm proposto formas sustentáveis de intervenção à natureza, respeitando os limites e as potencialidades do meio ambiente. Acreditando que o desenvolvimento econômico-industrial pode e deve ser alicerçado em novas bases, os simpatizantes desses grupos defendem a distribuição da riqueza gerada pelo conjunto da sociedade. Segundo FRANCO (2000), o conceito de desenvolvimento sustentável surgido no início da década de 1970 propunha a harmonização entre o desenvolvimento socioeconômico com a preservação e conservação do meio ambiente sendo que, para isso, aportara-se sob três

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princípios fundamentais que são: a conservação dos sistemas ecológicos sustentadores da vida, a preservação da biodiversidade e a garantia da sustentabilidade através do uso de recursos renováveis. Finalmente, propôs manter as ações humanas dentro da capacidade de carga dos ecossistemas sustentadores. Mesmo com a constatação de que o desenvolvimento sustentável não se efetivou da maneira como concebido, o conceito é amplamente difundido por todos, desde ecologistas até os industriais, passando pela esfera do setor público. Analisando a discussão ambiental sobre a problemática do lixo, observamos que, nos últimos anos, a reciclagem tem ganhado destaque em várias agendas de debate, sobretudo no âmbito dos municípios brasileiros. Conforme veremos no capítulo I, a reciclagem transformase em coqueluche dos discursos econômico-ecológicos da atualidade. Amparados pelos benefícios ambientais que a reciclagem proporciona ao meio ambiente e pela geração de ocupação e renda da atividade da coleta para os desempregados, os defensores argumentam que, através da indústria da reciclagem, é possível amenizar dois problemas que afligem a sociedade contemporânea: primeiro, o ambiental em virtude do elevado volume de lixo e o econômico, graças à redução das taxas de desemprego. Investigando o processo evolutivo da indústria da reciclagem no Brasil a partir dos anos de 1990, percebemos que essa atividade se desenvolve com uso intensivo de mão-deobra de baixa qualificação profissional, composto por catadores de materiais recicláveis. Talvez a característica mais marcante dessa indústria no país seja a precariedade do trabalho a que são submetidos os catadores de materiais recicláveis. Originários do processo de crescimento desigual e absorto da economia brasileira, os catadores, ora perambulantes de ruas, ora moradores de lixões públicos, realizam a atividade da catação em condições subumanas, mantendo contato direto com o lixo, pondo em risco a integridade física devido à propensão a enfermidades, e psicossocial pela exclusão, problema

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relevante de que surge a aceitação social destes sujeitos. Por estarem à margem da sociedade, os catadores sobrevivem na informalidade, um mundo lúdico para a sociedade normal. Este paradoxo gera conflitos entre o formal, o que é aceito pela sociedade, e o informal, o desconhecido. Para BURSZTYN (2000), o imbricamento entre os rejeitos físicos, o lixo, e humanos, os catadores, da sociedade revela, a dimensão perversa da modernidade neoliberal. O autor vai mais além ao definir essa perversidade como sendo “o aumento da produção de bens com componentes cada vez mais descartáveis, paralelamente ao aumento da produção de desempregados, dois elementos dialeticamente conexos (p.21)”. O desenvolvimento que surgiu para ser sustentável implica, salvo raras exceções, novas facetas do capital para a sua reprodução. Diferentemente do que foi proposto quanto ao desenvolvimento racional sustentável, todas as estatísticas divulgadas por órgãos públicos ou privados demonstram que, especialmente no último quartel do século XX, a poluição apresentou índices de degradação ambiental significativos e preocupantes. E o que tem motivado a elevação desses índices é a maneira de desenvolvimento econômico-industrial adotado pela sociedade capitalista, desrespeitando os limites ambientais em função da lucratividade das megacorporações internacionais4. Nesse ínterim, a lógica sistematizada do capital age na natureza de modo agressivo, provocando danos ambientais, alguns já considerados irreparáveis. Busca justificar a forma de intervenção sob o julgo econômico, primordial na consolidação da riqueza social das nações. Contudo, visando reparar possíveis incongruências do desenvolvimento, como o desemprego, o capital aponta, como estratégia, a reparação do dano ambiental atrelado à proposta de minimização dessas incongruências.

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As estatísticas sobre poluição ambiental são divulgadas em canais de comunicação e meios de circulação científica. Sugerimos o acesso a sítios eletrônicos de institutos como o Fundo Mundial para a Conservação (WWF), <www.wwf.org>.

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A produção capitalista que para MESZAROS (1996) é caracterizada atualmente pela obsolescência programada, com elevada produção de descartáveis, gera, na mesma intensidade, elevadas proporções de lixo. Para minimizar o dano ambiental causado a partir do lixo, estimula-se a reciclagem dos resíduos criando-se assim a cadeia produtiva da indústria que vai desde o catador até o empresário do setor, passando pelo deposeiro e o atravessador. Exemplo atual de como se utiliza o meio ambiente como forma de reprodução das contradições do sistema capitalista se refere à reciclagem das latinhas de alumínio. Indissociáveis das práticas ambientalmente corretas de coleta seletiva e reciclagem do lixo, as latinhas de alumínio viraram símbolo do ambientalismo econômico atual. Para tanto, apresentam-se as inúmeras implicações ambientais positivas a partir da reciclagem desse material, o que induz a sociedade ao consumo desmedido das latinhas, que, seguindo o discurso da reciclagem, proporciona benefícios ambientais e ganhos econômicos. Caso o ideal de desenvolvimento sustentável leve em consideração as questões eminentemente ambientais, os parâmetros adotados para as latinhas de alumínio, por exemplo, atendiam a critérios técnicos, ao invés de econômicos. A idéia de se produzir lixo em excesso para posteriormente reciclá-lo, gerando emprego e renda em vários setores da economia, dá vez à produção e consumo racional, respeitando as restrições ambientais, bem como desenvolvendo a sociedade em bases e níveis de produção e consumo diferentes do que se apresentam no mundo contemporâneo. A nosso ver, essa modalidade de ambientalismo parece estar permeada pela lógica da lucratividade do capital pela exploração do trabalho nas atividades relacionadas ao meio ambiente. Trata-se de produzir e consumir, em demasia, para suprir a demanda criada artificialmente pelos supérfluos e posteriormente desenvolver atividades visando minimizar a degradação ambiental e aquecer setores econômicos específicos da economia. Assemelha-se ao fato de criar uma doença para, a seguir, fabricar e vender o remédio.

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De acordo com a metáfora, a doença representa as centenas de milhares de toneladas de lixo e o remédio, a tentativa de reciclar a maior quantidade possível desse lixo. Enquanto o ciclo doença-remédio-doença se processa em intensidade geométrica, o desfalque ambiental vem ocorrendo de modo sorrateiro e perigoso, sendo sutilmente perceptível em alguns lugares do planeta e, com maior visibilidade, nas cidades tomadas por lixo.

Particularizando a discussão Sentimo-nos bastante à vontade para ensejar a discussão proposta trazendo, à tona, as particularidades de Natal. Pelo fato de termos morado a maior parte da vida naquela cidade, constituindo teia de inter-relações com os residentes locais e adquirido a formação necessária para chegar ao estágio acadêmico. Por isso, acatamos a suposição formulada por BOGDAM & BIKLEN (1994:85) de que “certos pormenores, ambientes ou pessoas tornam-se objetos aliciantes porque intervieram, de forma decisiva, na vida do investigador”. O desenvolvimento econômico em Natal não levou em conta os riscos e danos passíveis de ocorrem com o meio ambiente urbano. Atividades econômicas, como a construção civil, o setor turístico e alguns ramos industriais não respeitaram os limites ambientais urbanos, de tal forma que podemos facilmente identificar edificações em áreas de dunas e invasões a manguezais próximos à cidade. Em se tratando do lixo, a situação se agrava, haja vista os efeitos maléficos provenientes do acondicionamento inadequado, o que se sente quase que imediatamente. Dado aos efeitos nocivos distribuídos pelo conjunto da sociedade natalense, o lixo deixa de ser uma questão meramente ambiental e passa ser encarado como questão de política pública. O órgão público estatal encarregado da limpeza da cidade, a URBANA, vem, desde sua fundação, tratando de resolver a problemática ambiental e social do lixo.

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Atualmente, apoiada e financiada pelo Governo Federal, a URBANA tem realizado ampla intervenção no aterro controlado da cidade, com o intuito de erradicar o lixão, devido à inadequada disposição final dos resíduos, bem como promover a ressocialização dos catadores existentes. O projeto de combate à fome associado à inclusão social de catadores e à erradicação de lixões, formulado pelo Governo Federal (Capítulo IV, item 4.2) contempla a remediação do lixão, correção sanitária e urbanização da área, além de incentivo à formação de entidades de catadores, que serão parceiros na implantação e continuidade do projeto. O projeto de reestruturação do aterro controlado motivou o surgimento da Associação de Agentes Trabalhadores da Reciclagem e Compostagem do Aterro Sanitário (ASTRAS), que com a Associação de Catadores de Materiais Recicláveis (ASCAMAR) forma duas entidades de catadores. Sob o julgo da sustentabilidade ambiental da cidade do Natal, as duas associações de catadores juntamente a URBANA têm se comprometido a dar a devida importância ao lixo e aos problemas dele derivados. Ao poder público, cabe acondicionar os resíduos de maneira correta, para tanto, está, em fase final de construção, um aterro sanitário que atende às exigências da engenharia sanitária. À ASCAMAR e à ASTRAS, cumpre a missão de apoiar a URBANA na empreitada, auxiliando a Companhia na tarefa de sensibilizar a sociedade natalense na adoção da coleta seletiva, o que contribui para a elevação do tempo de vida útil do novo aterro sanitário. No tocante ao campo econômico, as três entidades entendem que o desenvolvimento econômico sustentável passa, necessariamente, pela ocupação e renda dos desempregados que migraram para a atividade da catação. Com os materiais recicláveis coletados pelos próprios catadores, na fonte geradora, as residências, haverá diminuição da quantidade de lixo destinado ao aterro sanitário. A medida elevaria a vida útil do aterro, além de proporcionar renda para os catadores com a venda dos materiais coletados.

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Para a efetivação da coleta seletiva, os catadores associados têm treinamento específico por parte da URBANA, a qual se prestaria apenas no monitoramento da limpeza pública, uma vez que os catadores da ASCAMAR e ASTRAS ficam responsáveis pelo serviço de coleta. Os catadores associados são remunerados pelos próprios serviços, dado que a renda é proveniente da venda dos materiais recicláveis. Com a nova reorganização do lixão, alguns questionamentos fazem-se pertinentes. O primeiro diz respeito às condições de trabalho dos catadores. Conforme capítulo IV, item 4.1, tanto os catadores associados pela ASCAMAR quanto os avulsos realizam ocupações em condições precárias. Portanto, questiona-se até que ponto a implantação do projeto de erradicação do lixão beneficia esses sujeitos, no que diz respeito às condições de trabalho. Outro questionamento não menos importante se refere à divisão sexual do trabalho. O trabalho no lixão é historicamente caracterizado por ser masculinizado (COSTA, 1983), de forma que a opressão da mulher catadora é uma constante. A alegação que referenda essa opressão é a de que o trabalho feminino possui baixa produtividade, se comparado ao trabalho masculino (FIGUEIREDO, 2000). Se a alegação, a priori, for verdadeira, que alternativas são tomadas pela URBANA para que haja equivalência entre homens e mulheres em relação aos benefícios provenientes do projeto de erradicação do lixão proposto? Caso contrário, em que resultarão as medidas a serem tomadas tentando minimizar tal situação? Devemos também nos deter ao fato de existirem duas associações de catadores, ASCAMAR e ASTRAS. Inicialmente, o fato de a ASTRAS ter surgido pelo mesmo motivo da ASCAMAR, ou seja, por incentivo da URBANA, faz supor que o movimento social que defende a causa dos catadores está condicionado à Companhia. Com as duas associações dividindo o mesmo espaço e, ao menos em tese, defendendo posicionamentos semelhantes, cabe investigar sob quais aspectos os representantes das entidades tencionam promover o engajamento dos interesses dos catadores.

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Se, de maneira classista, declaradamente em prol dos anseios dos catadores entrelaçados pela vertente ambiental por ser atividade da coleta seletiva do lixo também uma prática ambiental; ou embasadas na lógica capitalista da produção, na qual as ocupações econômicas devem ser crivadas com o intuito do lucro. Por fim, trata-se de definir qual o papel da URBANA nesse novo contexto. O gerenciamento de projeto ambicioso pretende eliminar a problemática ambiental do lixo, acenando para a possibilidade de resolução do grave problema de cunho social causado pela agregação de pessoas que sobrevivem da coleta clandestina dos resíduos do lixo despejado no aterro. Ao que indica, em Natal está se reproduzindo o fenômeno que vem ocorrendo em outros lugares, o desenvolvimento econômico desrespeitando o meio natural. Sob a alegação da sustentabilidade e da premente preocupação com a natureza, os agentes econômicos e o poder público desenvolvem práticas para eles consideradas ambientalmente corretas. Paralelamente, utilizam-se do conceito do desenvolvimento sustentável com o intuito de defender a idéia de que as práticas citadas devem estar, obrigatoriamente, correlacionadas com o desenvolvimento de atividades econômicas que, no caso investigado, referem-se à geração de emprego e renda para os catadores do lixão de Natal. Essas inquietações investigativas criaram o ambiente propício à formulação desse trabalho dissertativo. O tato de pesquisador, ora motivado pela curiosidade humana natural, ora pelo contato mantido com a literatura acadêmica, levou-nos a definir os objetivos da pesquisa e implementar a construção do pensamento concatenado a uma posterior investigação. Assim, o objetivo geral visou analisar a dinâmica da exploração do trabalho dos catadores de materiais recicláveis do Aterro Controlado da Cidade de Natal, os quais estão inseridos na perspectiva ambiental permeada pela lógica da reprodução do capital.

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Neste ínterim, pretendeu-se apresentar o projeto de erradicação do lixão de Natal, situando os encaminhamentos para a resolução da problemática do lixo, bem como a situação do trabalho dos catadores a partir da implantação do projeto; investigar a relação entre os representantes da ASCAMAR e ASTRAS, quanto à defesa dos interesses dos catadores de melhores condições de trabalho; analisar o papel da URBANA, no atual contexto de trabalho e de vida dos catadores. Por fim, discutir aspectos da exploração do trabalho dos catadores em face do entendimento dos representantes da ASCAMAR e ASTRAS sobre trabalho e lixo;

Estruturação dos capítulos A introdução está dividida em três itens, no primeiro, relatamos nosso envolvimento com o tema no intuito de situar o leitor sobre a origem da motivação pessoal que nos levou a produzir este estudo. O segundo refere-se à problematização, em que enfocamos as questões pertinentes aos elementos que vamos abordar no texto. Para tanto, discutimos o trabalho na sociedade capitalista, a crise do emprego e a migração dos desempregados para atividades informais, dentre elas, a catação de materiais recicláveis do lixo. Finalmente, tratamos de particularizar a discussão proposta, mencionando aspectos referentes à atividade dos catadores do aterro controlado de Natal. Pontuamos a situação atual desses catadores, desenvolvendo questões que nortearam a construção do objeto de análise, bem como os objetivos que nos dispusemos investigar. O primeiro capítulo consta do aprofundamento teórico sobre meio ambiente, fazendo a contextualização da temática por pensarmos que a interpretação dos dados passa pelo entendimento das questões a ela pertinentes. Em seguida, relacionamos os aspectos da questão ambiental com a produção do lixo, abordando motivos e conseqüências para a sociedade. Discutimos a reciclagem dos materiais recicláveis, enfatizando a relação entre economia e meio ambiente no contexto em que a atividade da reciclagem se insere.

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No segundo item do capítulo I, versamos sobre o meio ambiente em Natal. Para não alongar o texto, as informações são trazidas em forma de algumas considerações. Posteriormente, tentamos resgatar os antecedentes históricos do acondicionamento final do lixo na cidade. Devido à escassez de informações, usamos dados da URBANA e COSTA (1983), sendo este último o único trabalho acadêmico encontrado na UFRN, que trata dos catadores do aterro de Cidade Nova, em vinte anos, 1983 a 2003. Por fim, discutimos a problemática do lixo com dados referentes à produção e poluição ambiental. O capítulo II é o mais denso vez que trata de discutir a questão da exploração do trabalho no capitalismo. Após breve introdução sobre a origem do trabalho, recuperamos os escritos de Marx acerca da divisão entre lucros e salários no capitalismo. Posteriormente, tecemos comentários sobre a crise do trabalho, fazendo a releitura das teorias que tentam explicar o fenômeno do desemprego. Em uma das seções, explicitamos as análises dos teóricos que defendem a tese de que o desemprego é o sintoma de uma sociedade que alcançou o estágio de desenvolvimento tecnológico que independe do uso do trabalho humano como fator de produção. Na seção seguinte, consta a análise dos estudiosos que vêem no desemprego uma vertente do capital para sua reprodução, usando maior ou menor quantidade de trabalho humano, conforme melhor rentabilidade. Finalizamos a seção fazendo breve esboço sobre a situação do trabalho no Brasil, através de especulações teóricas e empíricas dos autores mencionados. O terceiro item do capítulo II contempla o empobrecimento da população mundial, motivado pela concentração e centralização do capital. Apresentamos dados que confirmam a situação de precariedade da maioria da população mundial, expulsa da economia formal, que utiliza, como estratégias de sobrevivência, a migração para as atividades informais. A última seção se propõe a traçar quadro referente à catação de resíduos sólidos no país, sua noção de informalidade perante a sociedade bem como o entendimento dos próprios catadores,

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reportando-se, para isso, ao documento redigido no I Congresso Latino-americano de Catadores de Materiais Recicláveis. No terceiro capítulo, versamos sobre os aspectos metodológicos que permearam a pesquisa de campo. Relatam-se as dificuldades encontradas, assim como os motivos que nos fizeram optar por utilizar três instrumentos metodológicos de coleta: a análise de documentos, a observação direta e entrevistas semi-estruturadas, além de comentarmos o porquê da escolha de dois representantes da URBANA e dois da ASCAMAR e ASTRAS, um de cada associação, como sujeitos a serem entrevistados. O capítulo IV analisa os dados da pesquisa de campo que realizamos na área do aterro, em setembro de 2003. Pensamos ser importante situar o leitor no contexto do universo investigado, por isso, iniciamos com a aproximação com o ambiente da pesquisa. Fruto de estudos anteriores realizados no próprio aterro, trazemos informações sobre a organização espacial da área, a divisão territorial entre os catadores avulsos e os associados da ASCAMAR, além de detalhes a respeito da atividade da catação realizada pelos sujeitos. O segundo item do capítulo IV trata do projeto de erradicação do lixão do Natal, informações que consideramos primordiais para o entendimento da dinâmica dos catadores. Explicitamos as ações desenvolvidas especificamente para os catadores do lixão. Não fizemos qualquer análise sobre o projeto citado por pensarmos ser mais conveniente nos restringimos, no primeiro momento, à apresentação das propostas. As análises das ações foram desenvolvidas ao longo do capítulo, onde fizemos a intercessão com a fala dos sujeitos entrevistados. A terceira seção responde a um dos objetivos específicos de investigação, a relação entre os representantes das duas associações de catadores, ASCAMAR e ASTRAS. Tomando por base os depoimentos, fizemos uma reflexão acerca desta rivalidade com vista aos próprios

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sujeitos, na forma como percebem a existência da outra entidade, como procuram se diferenciar, e os motivos da acirrada rivalidade. Enfim, inserimos a URBANA no capítulo, inicialmente investigando seu posicionamento diante da situação dos catadores. A seguir, passamos à minuciosa análise dos depoimentos de seus representantes para identificarmos o papel da Companhia em relação aos catadores do aterro controlado. A quinta seção do capítulo IV discute a exploração do trabalho a que são submetidos os catadores. A peculiaridade está em compreender as noções de trabalho e lixo, no discurso dos representantes da ASCAMAR e ASTRAS. Vale dizer que estamos relacionando, nesse item, a lógica capitalista com a vertente ambiental. Encerramos as análises com o apanhado geral do que foi debatido. Nas considerações finais, não trazemos qualquer solução definitiva para a problemática estudada, contudo, apresentarmos nosso posicionamento diante do discutido. Mais do que uma crítica, as considerações se propuseram a alçar o debate em torno da exploração do trabalho dos catadores do lixão, em Natal, bem como a postura que o poder público e sociedade poderiam ter diante da questão ambiental urbana. Para as referências bibliográficas, fizemos uso da NBR 6023 de agosto de 2002, divulgada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que trata da informação e documentação, referência e elaboração. Para a formatação do texto, usamos a NBR 14724 de agosto de 2002, que contém indicações sobre a apresentação de trabalhos acadêmicos. Finalmente, os anexos. No anexo I, temos a proposta de debate do projeto de combate à fome associado à inclusão social de catadores e à erradicação de lixões; o anexo II versa o relatório de cadastramento feito pela URBANA, em janeiro de 2003, com os catadores do aterro; no anexo III, temos as informações referentes às atribuições da URBANA e o anexo IV contempla o documento redigido no I Congresso Latino-americano de catadores e catadoras de materiais recicláveis, realizado em janeiro de 2003, no Fórum Social Mundial.

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CAPÍTULO I: TEMÁTICA AMBIENTAL NA PERSPECTIVA DO CAPITALISMO

O homem, como todo animal, para poder sobreviver, modifica o locus vivendi a fim de adequar o lugar às suas necessidades, utilizando os recursos naturais existentes. Desde a pré-história, a sobrevivência e a perpetuação da espécie humana sempre estiveram condicionadas à transformação do meio ambiente, conforme demandas imediatas. A intervenção na natureza foi se dando à medida que o homem passou a dominar a tecnologia na fabricação das ferramentas. Em estudo sociológico, que investiga o papel do trabalho na transformação do primata em ser humano, ENGELS (1982) introduz a idéia de que a elaboração dos utensílios proporcionou um salto qualitativo fundamental à espécie humana que então se diferenciou dos outros animais. Hábitos como o nomadismo e a alimentação vegetariana foram substituídos pela fixação à terra e consumo de carne proveniente dos animais caçados e da pesca. Também a extração dos alimentos encontrados na natureza foi substituída pelo desenvolvimento da agricultura. Em síntese, “o uso da ferramenta fez com que o homem modificasse a natureza e a obrigasse a servi-lo, ou melhor: domina-la” (op.cit, 22.). Com o desenvolvimento da técnica, a sociedade humana foi transformando a natureza não somente por uma questão de sobrevivência. Uma vez que as intempéries puderam, na medida do possível, ser controladas, não representando tanto empecilho à existência humana, o consumo dos recursos naturais tomou outra conotação. Fatores como ostentação, luxúria, exacerbação de poder e costumes sociais diversos colocam-se como causas efetivas da ação do homem sobre o planeta. O que mais tem contribuído para a transformação do meio ambiente são as relações de produção com as quais cada sociedade humana se depara ao longo da história. O feudo da alta Idade Média que, sob a luz de produção artesanal e economia de subsistência, muito provavelmente explorou os recursos naturais com menos vigor e em menor intensidade do que

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a sociedade européia da primeira revolução industrial, caracterizada por uma produção em escala fabril, com o capitalismo em seu estágio inicial de expansão. Convém analisar a relação entre desenvolvimento econômico e meio ambiente no seio da sociedade capitalista.

1.1 – Contextualizando a temática ambiental Comentamos, no início do capítulo, que a sobrevivência e a perpetuação da raça humana estão condicionadas à intervenção do homem ao meio ambiente. Também propusemos que diferentemente dos outros animais, o homem modifica a natureza visando não apenas ao suprimento das suas necessidades, mas a fatores atrelados ao tipo de relação de produção na qual a sociedade está organizada em determinados momentos históricos. Por mais que façamos críticas ao sistema capitalista pela forma de reprodução, reconhecemos que, em dado momento da história da humanidade, essa forma de produção foi importante para a sobrevivência humana no planeta. Uma breve incursão, em períodos anteriores ao capitalismo, mostra que um dos graves problemas da humanidade estava em produzir mercadorias suficientes para o atendimento da demanda emergente. O capitalismo trouxe consigo o conceito de produção em escala industrial. O desenvolvimento da técnica e o posterior uso da tecnologia, a divisão e a especialização do trabalho alavancaram a produtividade da produção de tal forma, que o trabalho individualizado dos artesões foi em pouco tempo substituído pelo das fábricas. Nesse processo de transformação da estrutura produtiva, assumiram grande importância o conhecimento e o domínio dos elementos da natureza, diante da necessidade de se explorar o meio ambiente. Entretanto o desenvolvimento do capitalismo externa inúmeras contradições. Em se tratando da relação homem-meio ambiente, através da produção desordenada, o século XX poderia entrar para a história caracterizando-se pelas catástrofes ambientais. No período de

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cem anos, rios inteiros foram poluídos, grandes extensões de terra perderam a capacidade de germinação, houve o desmatamento de florestas inteiras, a contaminação de lençóis freáticos e a produção de imensa quantidade de lixo em todos os lugares do planeta. Podemos comentar, pormenorizadamente, a respeito de vários outros casos de degradação ambiental. Todavia pensamos que os exemplos citados dão a exata dimensão do que tem representado, para o meio ambiente, a intervenção humana motivada pela ânsia da produção capitalista. Em oposição ao capitalismo, surgiram, a partir da segunda metade do século passado, intensos movimentos sociais, notadamente capitaneadas pelas Organizações não

Governamentais (ONG´s). Gestados no seio das camadas mais intelectualizadas dos países economicamente desenvolvidos como Estados Unidos, França e Alemanha Ocidental, os integrantes desses movimentos passaram a adotar uma filosofia de vida diferente da cultuada pela sociedade da época. Expressando-se inicialmente através de manifestações artísticas, os integrantes foram considerados rebeldes por defenderem causas que iam de encontro à ordem capitalista vigente. Mas o que levaria as pessoas da classe média a irem de encontro ao sistema que, naquele momento, era propício ao estrato social do qual faziam parte? Não devemos esquecer que esse período ficou conhecido, na história da humanidade, como os trinta anos gloriosos, no qual welfare state tratou de conceder, às populações abastadas dos países desenvolvidos, benefícios sociais significativos. A explicação para esse fenômeno talvez repouse no fato de que:
(...) a partir de um determinado período, o aumento do consumo nos países ricos não traz consigo um aumento de satisfação das pessoas que dele usufruem. Daí surgirem propostas visando conter o desenvolvimento, mantendo a economia em crescimento zero e em seu lugar cultivar outros valores como questões de cunho ambiental. SINGER (1986:155)

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Para os participantes de movimentos definidos como de contra-ordem, a ganância dos empresários, que tinham a complacência dos Governos, era responsável imediato pelo extenso quadro de mazelas sociais que se apresentava, bem como pelo avanço desenfreado da poluição ambiental no planeta. Contrários ao contexto que se desenhava a partir da configuração capitalista da época, esses movimentos defendiam discursos recheados de conteúdos de vertente humanitários. Havia também forte apelo favorável à preservação, conservação e uso racional do meio ambiente. Nas palavras de SILVERSTAIN (1993:18):
O ambientalismo que floresceu em fins dos anos 60 e início dos anos 70, construiu elementos que combinavam a rejeição dos jovens aos valores consumistas de seus pais com a busca idealista pela simplicidade rústica, contrariando um estabelecido culto à ganância das grandes corporações.

De certa forma, os movimentos sociais de contra-ordem conseguiram estimular outras parcelas da população para que se ativessem à causa ambiental. Também pressionaram as autoridades governamentais para que fossem tomadas medidas de combate às práticas de destruição da natureza. SILVERSTEIN (idem) ao analisar o ideal ambientalista dos anos de 1960 e 1970, explicita que tais movimentos surgiram demandando que políticas destrutivas, como econômicas, ambientais ou de qualquer ordem fossem modificadas. E a maneira como se esperava que estas mudanças acontecessem foi fortemente influenciada pelas atitudes políticas dos Governos que estavam no poder no momento, diante dos sistemas econômicos. A insatisfação social com as políticas ambientais contribuiu para que a Organização das Nações Unidas (ONU) se pronunciasse diante da temática. No ano de 1972, a ONU promoveu, na Suécia, a primeira grande Conferência Mundial sobre Meio Ambiente. O evento teve como objetivo a discussão de alternativas de intervenção racional do homem na natureza. DIAS (1992) comenta que a Conferência da Suécia obteve valor reconhecido por ter

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lançado as bases para discussões posteriores que tiveram como objetivo traçar estratégias de uso e manejo racional dos recursos naturais. A participação do Brasil na conferência, assim como de alguns países subdesenvolvidos, foi considerada um escândalo de proporções internacionais. Conforme DIAS (idem), contrastando com propostas que visavam recompor o equilíbrio do ecossistema e o uso racional das potencialidades do meio ambiente, a delegação brasileira utilizou um discurso antipreservacionista por atrelar a degradação ambiental como condição necessária ao desenvolvimento econômico-industrial de um país. O Brasil do regime militar foi capaz de oferecer generosos subsídios às empresas transnacionais que desejassem se instalar em áreas nas quais a fauna e a flora ainda estivessem pouco exploradas, como, por exemplo, a região amazônica nacional. Embora possa parecer absurdo sob qualquer ponto de vista minimamente racional, o posicionamento brasileiro, na conferência de 1972, de desrespeito aos limites naturais, está coerente se analisarmos segundo a lógica das discussões que envolvem a temática. Um dos entraves para o equacionamento da problemática ambiental é o fato de os países, ricos ou pobres, utilizarem a biodiversidade natural como reserva de valor, o que faz com que haja bipolaridade em torno do debate. Os governantes dos países economicamente desenvolvidos admitem que a exploração ambiental se deu de maneira predatória, tanto que as reservas de recursos naturais em seus territórios são insignificantes em alguns países. Reconhecendo a importância de suas economias nacionais para o conjunto da humanidade, vêem a poluição como mal necessário por ter impulsionado o desenvolvimento econômico5. Cientes disso e preocupados com a sustentabilidade do planeta, esses governantes sugerem que os países que ainda possuem

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No capítulo III, ALTVATER (1995) analisa com bastante propriedade os motivos pelos quais o modelo de desenvolvimento econômico-industrial dos Estados Unidos não ter dado a merecida importância aos limites ambientais daquele país.

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reservas naturais significativas mantenham-nas objetivando garantir o equilíbrio natural do planeta. No outro extremo do debate, estão os governantes dos países pobres do ponto de vista econômico e/ou em desenvolvimento. Os representantes dessas nações contraargumentam o posicionamento anterior com o princípio da soberania nacional, que tem o direito de utilizar seu meio ambiente, assim como fez boa parte dos países desenvolvidos, de forma indiscriminada e sem se preocupar com os posteriores problemas ambientais que possivelmente venham a ocorrer. Em discurso, admitem a possibilidade de manter suas reservas ambientais pouco exploradas caso haja financiamento econômico em seus países por parte dos países ricos (SCHILLING, WALDMAN & CRUZ, 1991). Na nossa concepção, ambos os discursos dos governantes mundiais apresentam elementos que explicam apenas parcialmente o contexto dos problemas ambientais. Concordamos com os representantes dos países pobres quando afirmam que os ricos possuem uma dívida ambiental com o resto do mundo. Contudo expropriar os recursos naturais de forma inconseqüente, sob a justificativa do desenvolvimento econômico, é uma alegação absolutamente contraditória em relação à crítica que fazem aos países ricos, que usaram do artifício para se desenvolver. Também somos levados a discordar veementemente do posicionamento assumido pelos governantes dos países ricos. Eximir-se da culpa dos danos ambientais causados, em virtude da necessidade do desenvolvimento econômico, parece não ser justificativa aceitável, mesmo porque a riqueza gerada não foi distribuída entre as demais nações. O discurso de que atualmente os limites ambientais são respeitados, em seus países, perde relevância vez que as megacorporações, ao se instalarem nos países pobres, utilizam os recursos ambientais da mesma forma como fizeram nos países de origem, indiscriminadamente, amparados pela quase inexistência de legislações ambientais e/ou não cumprimento das leis determinadas.

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Enquanto permanece esse jogo sem regras, tanto os representantes das nações ricas, bem como os líderes das nações menos desenvolvidas não se apercebem de que o meio ambiente constitui um sistema fechado. ALTVATER (1995) aponta para o fato de que a contabilidade ambiental opera no sistema de partidas dobradas, pois o saldo ecológico de um país aparentemente consciente com o meio ambiente implica déficit ambiental de mesma magnitude para os demais. Para o autor, a resolução das macroquestões ambientais consiste menos em responsabilizar os culpados pelos danos causados ao meio ambiente do que redefinir a política do modelo econômico-industrial adotado. Deve-se, ipso factum, diminuir o vigor com que se degrada a biodiversidade do planeta. Em outro momento da análise, ALTVATER (op. cit) projeta uma tendência futura, segundo a qual, continuaremos a ter sociedades industrializadas e sociedades pré e semiindustrializadas. Por essa ótica, a acumulação capitalista, através do princípio da produção da mais-valia relativa, exige a industrialização em estágio avançado. Porém essa exigência não será realizada por todas as nações, dado que as reservas ambientais serão cada vez mais utilizadas pelos países mais avançados tecnologicamente. Neste sentido, vale dizer que a relação entre ecologia e economia resume-se apenas aos discursos de abertura e encerramento de eventos internacionais. No meio da disputa ambiental, visando ao poderio econômico, encontra-se a população dos países menos desenvolvidos. Geralmente culpados pela poluição do meio ambiente, esses indivíduos são bombardeados pela idéia de adotarem o estilo de vida da população dos países ricos. Trata-se, portanto, de um paradoxo pois, ao mesmo tempo em que essa população é incentivada a aderir a uma nova cultura de consumo, o que intensificaria ainda mais a poluição, é responsabilizada pelos danos ambientais causados em suas localidades.

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MAY (1995) vai além ao afirmar que a ecologia, nesses países, é uma questão de pobreza. Comentando o apelo global para a preservação do meio ambiente brasileiro, o autor afirma ser impossível fazer com que a população se comprometa com as causas ambientais, “uma vez que acima de 40% da população brasileira ganha abaixo do que é necessário para encher a cesta básica, a maioria das casas carece de sistema de coleta de lixo e tratamento de esgotos sanitários, e a mortalidade infantil mantendo-se na faixa de 57 por 100, como se poderia acatar as necessidades e aspirações dessas multidões permanecendo dentro dos limites ambientais?” (p: 14) Interpretação semelhante possui BLAUTH (1996). Embora a discussão em torno da minimização de resíduos tenha ganhado impulso no Brasil, a partir da Agenda 21, documento elaborado, durante a II Conferência Mundial sobre Meio Ambiente, ECO’92, realizada no Rio de Janeiro/RJ e promovida pela ONU, ainda há pouco interesse pelas questões ambientais por parte da maioria da população brasileira. Segundo a autora, uma possível explicação para o fato está nos baixos índices dos indicadores sociais, com destaque para a falta de escolaridade básica e o reduzido nível de renda da população brasileira. Na prática, vale dizer que a população dos países menos desenvolvidos é oprimida economicamente e responsabilizada ambientalmente. O binômio opressão-responsabilidade parece ser uma relação absolutamente contraditória vez que, nos países periféricos, há forte apelo para a reprodução dos costumes do mundo desenvolvido. Por sua vez, a reprodução dos costumes do centro hegemônico do sistema capitalista engendra a potencialização da degradação ambiental. FURTADO (2002), ao analisar o tipo de desenvolvimento econômico dos países ricos, chama atenção para o fato de que o modelo de vida dessas nações tem um custo considerável para os recursos naturais não renováveis. Para o autor, “generalizar esse modelo para toda a humanidade, o que é a promessa do chamado desenvolvimento econômico, seria

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apressar uma catástrofe planetária que parece inevitável se não se mudar o curso desta civilização” (p.: 78). Nessa perspectiva, concordamos com ALTVATER (1995) quando o autor atrela a ecologia à discussão sócioeconômica. Aderimos à reflexão do autor quando, munido de eficazes elementos de análise teórica sobre a temática exposta, afirma que a questão sócioeconômica pode ser elaborada adequadamente apenas como uma vertente da ecologia.

1.1.1 – O lixo na sociedade

A formação do lixo está intrinsecamente ligada à existência humana uma vez que resulta da intervenção do homem na natureza. Quer seja através da extração dos recursos minerais, na construção de rodovia ou no simples ato de consumir um fruto retirado de árvore, há lixo em todas as sociedades, desde as paupérrimas e miserávéis a opulentas e desenvolvidas. Diferentemente dos séculos anteriores em que a devastação do meio ambiente se deu majoritariamente pela extração dos recursos naturais, o século XX notabilizou-se pela poluição ambiental sob vários aspectos, merecendo destaque a produção de lixo em dimensões estratosféricas. Discutir o lixo implica, então, compreender o movimento que rege a produção e o consumo de mercadorias. Coadunando com a reflexão de LEME (1984:249), de que as várias formas em que se apresenta o lixo dependem do “status econômico, composição etária, costumes sociais, características climáticas, locais, hábitos populacionais e tipos de alimentos, bebidas, etc”, faremos algumas apreciações a esse respeito, enfocando a formação do lixo na sociedade capitalista contemporânea. O senso comum define lixo como algo que não mais é útil, portanto inútil, objetos e/ou restos de objetos que não servem mais. A definição simplista tratando da utilidade das coisas aproxima-se da que norteou as mentes esfuziantes dos competentes economistas da

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escola neoclássica da segunda metade do século XIX. A propósito de formulação teórica sobre o valor, os neoclássicos tentaram provar, através de extensas formulações matemáticas, que o valor de um bem e/ou serviço resultaria da sua capacidade de ser útil para alguém. JEVONS (1996:63), um dos mais renomados teóricos do neoclassicismo, definiu a utilidade como sendo “uma qualidade abstrata que torna um objeto apropriado para nossos fins, caracterizando-o como bem ou serviço”. Traçando uma curva exponencial decrescente, o autor demonstrou outro aspecto: qualquer bem possui valor elevado para uma pessoa que não o tem. À medida que a necessidade/vontade de possuir o bem diminui, este vai perdendo valor na mesma proporção. Para BENTHAM (apud HUNT, 1982:148), o consumo dos bens estava diretamente relacionado ao benefício que poderia proporcionar ao consumidor. Conforme o autor, “o homem é motivado a maximizar o prazer em detrimento da dor, sendo que assim procurará consumir aquelas coisas que lhe proporcionem satisfação, que lhes sejam úteis e que lhes dêem prazer.”O pressuposto do consumo atrelado ao prazer e à satisfação humanos constitui o conceito da racionalidade. Seguindo esse raciocínio, as pessoas buscam consumir apenas os bens que, de alguma forma, lhes deixam felizes. Havendo relação direta entre o valor de um bem e a intensidade do consumo, as pessoas estão motivadas a consumir racionalmente e, desta forma, influenciar diretamente no valor desses bens. Com a demanda equilibrada, os produtores não podem elevar o valor do bem a patamar muito superior ao que remunerasse satisfatoriamente o capital e o trabalho investidos na produção, sob o risco de perder a concorrência junto aos demais produtores. A teoria do valor utilidade6, em certa medida, explicou o contexto em que se encontrava a economia européia, na segunda metade do século XIX. No período definido como segunda revolução industrial, o desenvolvimento das forças produtivas proporcionou às

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indústrias um nível de produtividade bastante elevado para a época. Sendo assim, havia necessidade de se encontrar mercados consumidores que permitissem escoar a produção. Os novos consumidores estavam tentados a consumir os produtos industriais visando ao suprimento de suas necessidades imediatas, o que lhes proporcionavam prazer. O uso da teoria do valor para este estudo se faz pertinente, se admitirmos que, com o consumo racional, a produção de lixo estava condicionada a esse consumo. Assim, segundo os motivos citados anteriormente, as pessoas não consumiam em demasia, o que teria como conseqüência uma geração de lixo em escala menor do que, por exemplo, o que se tem na sociedade contemporânea, permeada pelo consumo desordenado. Com a finalidade de discutir dialeticamente as contradições do sistema capitalista de produção, MARX (1996) propôs a teorização do valor. Em suas abstrações teóricas preliminares, o autor dividiu o valor em duas categorias de análise: valor de uso e valor de troca. Partindo do princípio de que os objetos são reservas potenciais de utilidade, todos os objetos produzidos pelo conjunto da sociedade possuem valor de uso, atrelado à capacidade de ser útil. Todavia ter valor de uso não representa necessariamente para o objeto possuir valor. Entendendo que o valor se manifesta no ato da troca entre diferentes objetos, é incoerente trocar valores de uso, haja vista a utilidade ser uma qualidade subjetiva, ou seja, o que é útil para uma pessoa pode não ser para outra. Se assim o fosse, a indagação que surgia era: como trocar diferentes objetos de espécies e utilidades diferentes? Refutando a teoria neoclássica do valor, o autor conclui que não está na utilidade de um objeto a sua medida invariável de valor. A troca entre objetos diversos somente é possível, caso haja um referencial de valor invariável, algo que, sob todos os aspectos e em qualquer circunstância, não alterasse o valor. Essa condição dá ao referencial a aceitabilidade necessária pois os agentes econômicos devem

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HEILBRONER (1996) pontua os pressupostos fundantes da teoria neoclássica, fazendo uma leitura minuciosa das obras

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ter a certeza de que, ao longo da transação comercial, os valores dos objetos envolvidos permanecem constantes. Como medida invariável de valor, o autor elegeu o trabalho humano abstrato contido nas mercadorias. Já que toda mercadoria contém trabalho humano indiferenciado, ou gelatina de trabalho, MARX (1996:169) define o valor de uma mercadoria como sendo determinado pelo “quantum de trabalho socialmente necessário ou o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de um valor de uso o que determina a grandeza de seu valor”. E esse quantum deve ser aceito pela sociedade, uma vez que estar fora dos padrões do mercado implica prejuízo para o produtor devido à concorrência intercapitalista. Aceitos nas relações de troca, os objetos deixam de ser meros depósitos de valores de uso específicos, para se tornarem mercadorias com valor de troca. Admitindo que as mercadorias possuem valor na medida em que os valores de troca se externam, os produtores, cientes ou não, buscam produzir não mais simples valores de uso, mas valores de uso social, dado que as mercadorias só possuem valores de troca quando os valores de uso são aceitos pela sociedade.

1.1.2 – O lixo no contexto atual

Retomando a discussão inicial da compreensão do lixo no atual contexto social, dissemos que o mesmo é inerente ao ser humano, haja vista qualquer intervenção, no meio ambiente, ter como conseqüência a produção de lixo. Comentamos também que, a partir de dado momento histórico, a produção dos resíduos se deu não somente pela intervenção na natureza visando à sobrevivência da espécie humana, porém a fatores diversos, com destaque para o tipo de relação econômica e de produção engendradas em uma sociedade.

dos principais expoentes dessa escola do pensamento econômico.

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No mundo contemporâneo, praticamente todas as barreiras impostas para a transformação da natureza foram superadas. A técnica apurada e a tecnologia cada vez mais avançada são os instrumentos pelos quais a intervenção no meio ambiente alcança patamares nunca antes registrados na história da humanidade. Inexistindo as barreiras naturais, a produção desordenada capitalista vem atingindo índices de produtividade jamais registrados, por isso mesmo, assustadores. Visando desovar a imensa quantidade e variedade de produtos, as relações comerciais ocorrem em ritmo frenético. No plano macroeconômico, os Governos não medem esforços políticos, administrativos e até intervenções militares para que as corporações de seus países vençam a concorrência internacional e se instalem sem maiores dificuldades nos demais países periféricos (CHOMSKY, 1999). A contrapartida do apoio institucional é a remessa de lucros que essas corporações enviam aos países de origem. Em relação aos consumidores, as empresas utilizam várias estratégias de caráter apelativo com o intuito de vender os produtos. Através do poderoso recurso do marketing, criam-se estilos, inventam-se comportamentos, de forma que a sociedade vai sendo envolvida por uma espécie de casulo mercadológico, no qual o ser aceito por um grupo é substituído pelo estar sendo aceito desde que se acompanhe as tendências contemporâneas do mercado7. Não obstante, o consumo das mercadorias produzidas toma outra conotação. Se anteriormente, como pregavam os neoclássicos do século XIX, o objetivo do consumo pautava-se no suprimento das necessidades imediatas do indivíduo, atualmente as pessoas consomem também motivadas por estímulos externos, expressos nos modismos que surgem com freqüência na sociedade de consumo. A massificação do consumo não respeita os limites culturais, de tal forma que os costumes locais, sobretudo, nos países menos desenvolvidos, estão sendo, gradativamente,

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substituídos pelos costumes do centro do sistema capitalista. Induzidos pelo american way8, a população da periferia do sistema reproduz os estilos do centro, correndo o risco de perder a identidade própria 9. A lógica do consumo desmedido e reprodutor de costumes das sociedades capitalistas desenvolvidas economicamente é causadora de aberrações. Citemos, por exemplo, a compra de produtos com funções, muitas das quais, provavelmente nunca serão utilizadas pelo usuário. Existem também casos banais e mesmo cômicos de pessoas que consomem produtos inadaptáveis à região de origem e ao contexto em que vivem somente porque a tendência induz à compra do produto. Preocupado com a questão da destinação final do lixo, LUTZENBERGER (2004) atrela a produção acentuada dos resíduos à irracionalidade do consumo. Para ele, “uma sociedade racional em termos de uso justo de recursos finitos não produziria o tipo de lixo que produz hoje (p.: 35)”. Sendo o lixo corolário do excesso de consumo, parece incoerente fazer uso da teoria utilitarista do valor para explicar sua existência na sociedade. No atual contexto, o padrão de consumo desordenado refuta o conceito da racionalidade, segundo o qual, o indivíduo consumia apenas os produtos que lhes fossem úteis, na exata medida das necessidades. Caso os neoclássicos tentassem usar a teoria do valor utilidade para a situação vivida hoje, certamente a aplicação do postulado epistemológico da racionalidade do consumo é inviável. Pelo mesmo princípio, o consumo desordenado tende a refutar a teoria marxiana do valor de uso, isso se considerarmos que muitas mercadorias, embora produzidas em escala industrial, não possuem, do ponto de vista prático, qualquer utilidade que justifique sua

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Uma discussão sobre as tendências sócio-culturais do mundo atual pode ser encontrada em ROUANET (1996). Termo utilizado para expressar o estilo de vida da nação estadunidense de classe média. ALTVATER (1995) diz que uma das formas encontradas para disseminar o estilo americano de viver é através das manifestações culturais produzidas nos Estados Unidos, com destaque para a indústria cinematográfica e musical. 9 Ver Capítulo III, seção II de ALTVATER (1995).

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aceitação social. O que MARX (1996) anteriormente definiu como valor de uso social, bem poderia se adequar como referência a produtos que surgem em resposta à demanda do mercado. Entretanto, muitas mercadorias são produzidas sem que haja o valor de uso social. Para justificar a produção, é criada artificialmente a necessidade de consumo da mercadoria10. Outro aspecto referente à produção de descartáveis é formulado por MESZAROS (1996). Para o autor, o modo de produção capitalista é inimigo da durabilidade das mercadorias, devendo, no decorrer do seu desdobramento histórico, solapar as práticas produtivas orientadas para a durabilidade, inclusive comprometendo a qualidade das mercadorias produzidas. Em outros termos, trata-se da obsolescência programada, o que implica dizer que os produtos já nascem com vida útil predeterminada para que sejam substituídos o mais rapidamente possível, criando novas demandas para que se tenham novos produtos. O processo da obsolescência programada das mercadorias, segundo Meszaros, ocorre devido aos avanços obtidos com a produtividade da produção que, para se desfazer da grande quantidade de produtos, diminui a vida útil das mercadorias. Sendo assim, considera-se que esse mecanismo assumiu uma posição de domínio no quadro do metabolismo socioeconômico, “uma vez que o capital define útil e utilidade como vendável, é necessário produzir quantidades astronômicas de desperdícios.” (p.: 60). CANO (1995) faz interpretação semelhante acerca da produção desordenada na economia. A rapidez com que as mercadorias são sucateadas demonstra traço importante da terceira revolução industrial do século XX, que é o da criação e destruição de produtos. Nesta ótica, “o paradigma tecnológico é muito mais substituidor do que criador, ao contrário das primeira e segunda revoluções industriais” (p.: 192).

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Para ZAOUAL (2003:39), o capital “estimula o mercado com base em novas necessidades para manter em clima de expectativa o conjunto da sociedade”. Adiante, o autor comenta que “o sentimento de falta criado pelo capital é satisfeito para o consumidor através das técnicas de marketing”.

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Para LUTZENBERGER (2004), muitos dos problemas ambientais relacionados ao lixo, ainda considerados insolúveis, podem facilmente ser resolvidos, caso abandonássemos os enfoques simplórios e brutais da moderna Sociedade do Consumo. Para ele, “precisamos todos aprender a produzir menos lixo, rejeitando os apelos publicitários que nos querem atochar sempre mais produtos e embalagens desnecessárias (p.: 44)”. A nosso ver, a contextualização da temática ambiental, por sua vez, envolve diretamente os interesses de corporações e Estados, visando à hegemonia econômica no cenário internacional. A produção de desperdício citado por Meszaros e o paradigma substituidor apontado por Cano definem o processo de geração do lixo na sociedade contemporânea. Nesse sentido, a discussão da problemática do lixo urbano não deve ser dissociada das questões econômico-sociais pelo fato de que daí é que surge a discussão no âmbito da reciclagem dos resíduos do lixo.

1.1.3 – A Reciclagem dos Resíduos Sólidos

A reciclagem dos resíduos sólidos11 assume várias conotações dentro de uma sociedade em função do período histórico. Até meados dos anos de 1950, por exemplo, a reciclagem era entendida como um meio social para vencer as dificuldades econômicas da nação. Nos países diretamente envolvidos na segunda guerra mundial, a reciclagem dos resíduos atingiu índices bastante elevados, fato justificado pela incapacidade de se produzir mercadorias em virtude do esforço de guerra necessário para o momento. Em décadas posteriores, com a reestruturação do pós-guerra, o crescente volume de lixo nas cidades torna-se um problema de grandes proporções para a sociedade. Dessa forma, a reciclagem surge como alternativa para atenuar os malefícios causados ao meio ambiente,

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diante da inadequada disposição final do lixo. Atualmente, a reciclagem dos resíduos sólidos do lixo é uma atividade econômica rentável, fomentadora de empregos e geradora de renda 12. Ressaltamos que a reciclagem não constitui um fenômeno estático, podendo assumir mais de uma função social, cuja interpretação depende do momento histórico vivido pela sociedade. Durante a ECO’ 92, formulou-se um documento amplo, Agenda 21, elaborado por técnicos das mais diferentes competências e de diversas nações do mundo, contendo as possíveis ações que podem ser realizadas no planeta com o intuito de se aproximar do que se convencionou denominar desenvolvimento sustentável. Em relação aos resíduos sólidos, a Agenda 21 indica que seja implantado o plano de ação denominado 3R’s. Segundo NOVAIS (2000), o primeiro “R” da escala é o da redução na geração de lixo. Para que a primeira ação se concretize, é preciso que o consumo das mercadorias seja efetuado de maneira racional, evitando-se, portanto, o consumo exagerado das mercadorias. O “R” da reutilização aponta para que os resíduos do lixo sejam reaproveitados ao extremo, a fim de se evitar a produção de novos produtos. O terceiro “R” indica reciclagem, que implica utilizar os resíduos como matériaprima para a fabricação de novos produtos. Convém salientar que, do ponto de vista técnico, a reciclagem somente deve ser implementada quando esgotadas as condições de redução e reutilização dos resíduos do lixo. No que se refere à reciclagem dos resíduos sólidos, a ação traz benefícios ao meio ambiente por reduzir soberbamente o volume de lixo que tem como destino final os aterros públicos das cidades. Além de contemplar a questão ambiental, a reciclagem caracteriza-se por ser uma atividade econômica. Segundo CALDERONI (2003:34), a reciclagem possui várias implicações positivas, entre as quais destacam-se:

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Para facilitar a compreensão do texto, usaremos os conceitos de lixo e resíduo conforme Capítulo II, seção V de CALDERONI (2003). Portanto, lixo é definido como o conjunto de todas as coisas descartadas pela sociedade, enquanto que resíduo é o material encontrado no lixo passível de ser reciclado.

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Em termos específicos, a reciclagem do lixo apresenta relevância ambiental, econômica e social, com implicações que se desdobram em esferas como as seguintes: organização espacial, preservação e uso racional dos recursos naturais, conservação e economia de energia, geração de emprego e renda, desenvolvimento de novos produtos, finanças públicas, saneamento básico e proteção de saúde pública, além de redução de desperdício.

No tocante a reduções de custos de produção para o setor industrial, o autor comenta ainda que no ano de 1996, foi estimada em R$ 4,2 bilhões a economia de matéria-prima possível no Brasil através da reciclagem dos resíduos sólidos do lixo domiciliar. Atingiram-se na realidade R$ 0,7 bilhões, 18% do total da economia estimada. Foram perdidos, nos aterros e lixões públicos, cerca de R$ 3,4 bilhões, ou 82%. Em relação à geração de emprego e renda, a reciclagem pode funcionar como indústria absorvedora de mão-de-obra menos qualificada, dado que o ciclo dessa indústria se inicia com a coleta do lixo. Para VALLE (1995:77): “Do ponto de vista social, pode-se acrescentar mais um fator positivo à reciclagem que é a geração de emprego nos níveis mais baixos da sociedade através da utilização de mão-de-obra menos qualificada, na figura de catadores e carrinheiros.” Como dissemos anteriormente, a reciclagem representa atualmente a necessidade de preservação do meio ambiente. No entanto, devemos considerar que não foi a preservação ambiental o único motivo para a implantação dessa prática. Implicações de caráter econômico também contribuíram substancialmente para o desenvolvimento da atividade. No que tange à perspectiva de obtenção de lucro por parte de quem recicla, foi preponderante a implementação de programas de reutilização dos resíduos do lixo como alternativa no combate à poluição ambiental. Dessa forma, a reciclagem, mesmo maquiada com o propósito de preservação ambiental, teve como essência a reprodução capitalista.

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Ver CALDERONI (2003) e GRADVOHL (1998).

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Em um sistema econômico que se reproduz através da obtenção do lucro, os investimentos são canalizados para atividades que possuam viabilidade econômica. Seguindo esse raciocínio e acatando a teoria marxiana de que o lucro capitalista origina-se do trabalho não pago, compreendemos que a fonte do lucro da atividade da reciclagem está na expropriação do trabalho dos agentes econômicos que participam da cadeia produtiva dessa indústria. Levando-se em conta as características da reciclagem no Brasil, predominantemente pautada no trabalho da catação dos resíduos sólidos realizado pelos catadores, não tarda para relacionarmos que umas das formas de obtenção de lucro dessa indústria advém da expropriação do trabalho dos catadores. Para LUTZENBERGER (2004), a ideologia da sociedade de consumo, erroneamente, vê na reciclagem apenas a economicidade monetária para a entidade recicladora, não o benefício social e o interesse das gerações futuras quanto à prática ambiental. Dessa forma, torna-se claro que a reciclagem dos resíduos sólidos, como toda e qualquer atividade econômica, está sujeita à perspectiva do capitalismo. Assim sendo, a reciclagem de materiais economicamente viáveis, como alumínio e cobre vem crescendo no Brasil a cada ano13. No nosso entendimento, incentivar o crescimento dessa reciclagem implica inverter as estratégias ambientais de convivência harmoniosa com a natureza pois potencializa o consumo desses materiais sob a alegação de que é viável reciclá-los. Ou seja, está se criando demanda por reciclagem que, do ponto de vista ambiental, não constitui não melhor alternativa à resolução do problema que tem se constituindo o lixo nas cidade brasileiras. No mesmo sentido, porém em direção contrária, as sacolhinhas de supermercado, cujo nome técnico é plástico-filme, seguem poluindo, sob várias formas, o meio ambiente. O

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baixo preço pago no mercado da reciclagem para esse material faz com que os catadores não o coletem. Some-se a isso o baixíssimo preço de produção de plástico-filme, não sendo interessante, do ponto de vista econômico, investir na indústria de reciclagem desse plástico.

1.2 – Algumas considerações sobre o meio ambiente em Natal Localizado no extremo oriente do Brasil, a cidade de Natal ainda possui resquícios de mata atlântica. O clima agradável, com temperaturas amenas em torno de 27º a 30º graus Celsius, com duas estações do ano bem definidas e período chuvoso entre os meses de abril a agosto, segundo dados do IDEMA, Natal possui o segundo melhor ar do continente sulamericano. O conjunto desses fatores faz da capital do Rio Grande do Norte alvo fácil para quem busca qualidade de vida e meio ambiente agradável. No entanto, a tranqüilidade está ameaçada. Como na maioria das cidades de médio e grande porte do país, o desenvolvimento econômico em Natal tem se caracterizado fortemente pela exploração do setor terciário, que ocorre de maneira desregrada, não respeitando, muitas vezes, a legislação ambiental vigente. Em razão da geração de emprego, renda e aquecimento da economia local, os detentores do poder econômico não medem esforços para viabilizar os projetos. São constantes na mídia as intermináveis disputas judiciais travadas entre o Ministério Público e os empresários do setor hoteleiro. Tais contendas emergem do fato de boa parte da rede hoteleira ter sido construída em áreas legalmente reservadas à conservação ambiental. A argumentação dos empresários é de que os hotéis fazem parte do aporte turístico local, e sendo o turismo uma das atividades econômicas de maior relevância para Natal, eles estão contribuindo para o crescimento econômico da cidade.

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Para saber sobre os índices de reciclagem dos resíduos sólidos no Brasil, consultar sítio eletrônico <http://www.cempre.org.br>

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Outro tema que merece relevância, nos meios de comunicação, é a poluição dos manguezais. A entrada do braço do mar no rio Potengi favorece a implantação de fazendas de camarão, atividade econômica bastante significativa para o município. No entanto, são constantes as intervenções do IDEMA nos empreendimentos dos carcinicultores devido à maneira predatória como são criados os camarões. A carcinicultura é geralmente desenvolvida por empresários de médio e grande porte, em virtude dos elevados custos de implantação e manutenção do empreendimento. Desta forma, não se justifica a resistência desses empresários quanto ao uso de técnicas não poluentes no trato do camarão. Podemos deduzir que o desinteresse por uma produção limpa do ponto de vista ambiental é devido à exclusividade do ganho econômico. Se é mais rentável criar camarão poluindo os mangues, o rio e o mar, por que investir em técnicas ambientalmente satisfatórias, utilizando racionalmente os recursos naturais? Em relação aos mangues, o lançamento de resíduos provenientes de alguns curtumes e matadouros clandestinos se constitui em risco aos filtros naturais do rio. Essas práticas podem levar inclusive à extinção da biodiversidade dos manguezais. Por outro lado, a questão não e restringe à poluição engendrada pelos detentores do poder econômico. Inseridos no contexto de desprezo ao meio ambiente e favorecidos de qualquer ação estatal que vise minimizar tais efeitos, os moradores dos bairros menos desprovidos fazem do lançamento do lixo, a céu aberto, uma prática comum. Não se apercebendo das conseqüências do ato. A proliferação de agentes causadores de doenças, insetos, ratos e animais peçonhentos potencialmente colocam, em risco, a saúde da comunidade. Tudo isso reflete a posição ideológica do Estado diante da temática ambiental. A situação do saneamento básico ainda incipiente leva a crer que, para os diversos Governos que já ocuparam o poder público local, a questão ambiental constitui uma temática que apenas

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tangencia prioridades das políticas públicas. A quase inoperância dos órgãos estatais competentes, diante dos diversos crimes ambientais que vêm ocorrendo sistematicamente em Natal, supõe que a busca do poderio econômico está conseguindo se sobrepor aos interesses ambientais, o que tem inviabilizado a manutenção da qualidade de vida através de um meio ambiente saudável.

1.2.1 – Antecedentes históricos do acondicionamento do lixo em Natal

No sentido de esclarecer a temática do lixo em Natal, pensamos ser pertinente traçar um esboço histórico. No entanto, para proceder ao intento, deparamo-nos com a escassez de dados e informações sobre o tema. Segundo a URBANA, os relatos da existência do lixo em Natal são deficitários, com informações desencontradas e dados imprecisos sobre produção e tratamento final do lixo. A Companhia acata o estudo formulado pelo renomado médico Januário Cicco (1920)14, tratando dos primeiros registros sobre o destino final do lixo. O autor refere que o lixo coletado na cidade tinha como destino as proximidades do matadouro público, localizado na área atualmente conhecida como bairro do Salgado, zona oeste da cidade, em área próxima ao mangue do Rio Potengi. Nesse estudo, há referência à necessidade urgente, àquela época, de se dar tratamento adequado ao lixo, “afastando da communidade tudo quanto possa influir desgraçadamente nas vidas das sociedades, é ainda de inadiável necessidade retirar para logar próprio o Matadouro e também o forno de incineração, ou antes, o depósito do lixo” CICCO (1920). Não há como determinar o significado do termo afastando da communidade, no entanto, o fato de a região, que atualmente engloba o bairro do Salgado, ser uma das mais antigas da

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Embora tenhamos pesquisado em órgãos como IDEMA, Secretaria de Saúde, UFRN e a própria URBANA, não encontramos a referência deste estudo. Sendo assim, estamos reproduzindo as informações disponibilizadas pela URBANA no sítio eletrônico, <http://www.natal.rn.gov.br/urbana/index.php> Acesso em 25/08/2004.

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cidade, supomos que, já na década de 1920, existiam pessoas potencialmente prejudicadas por morar próximo ao local. Neste sentido, propõe-se a construção de um incinerador. Existem controvérsias em relação ao ano de funcionamento da unidade de incineração do lixo, construído pela Prefeitura nas proximidades do que se conhece como Horto municipal, no bairro Passo da Pátria, zona leste da cidade. Há registros de que o incinerador, conhecido pelos residentes como forno do lixo, começou a funcionar no ano de 1935. Já o documento fotográfico da área dá conta de que a construção foi finalizada no ano de 1937. Outra versão é de um antigo funcionário da URBANA, o qual afirma que a construção do forno do lixo se deu somente em 1938. O forno tinha capacidade para incinerar 32m3 de lixo, diariamente coletado por caminhões e carroças. Nas localidades em que inexistia a coleta oficial do lixo, a população se encarregava da construção de valas onde o lixo era depositado, queimado e posteriormente enterrado. Com o aumento da quantidade coletada, o lixo voltou a ser lançado a céu aberto, nas proximidades do incinerador que, em 1945, foi definitivamente desativado. No ano de 1955, a Prefeitura inutiliza também o lixão que se formou nos arredores do extinto incinerador, passando a colocar o lixo coletado em área próxima à ponte do bairro de Igapó, no atual bairro Nordeste. No início dos anos setenta, o destino final do lixo voltou para as proximidades do antigo incinerador, desta vez, para servir de material para cobertura de depressão do solo, no bairro do Baldo. Conforme a URBANA, a existência de residências e a proximidade do centro da cidade motivaram mais uma mudança na área de despejo final, desta vez em definitivo, para o bairro de Cidade Nova. Esse período marca a primeira iniciativa sistematizada em tentar resolver a situação da disposição final dos resíduos. O fato de o lixo servir para a correção da depressão do solo e

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a drenagem dos gases provenientes do lixo orgânico conferem, a esta forma de tratamento, caráter de aterro controlado. Paralelamente, a Prefeitura passou a investir na formação profissional de funcionários, encaminhando-os para cursos específicos na área de gerenciamento e tratamento dos resíduos sólidos. Em conformidade com as informações da URBANA, o atual aterro controlado do bairro de Cidade Nova começou a servir como área de destinação final de lixo no ano de 1968, com o lixo sendo lançado a céu aberto. Posteriormente, o destino final dos resíduos é transferido para o bairro do Baldo, retornando, em definitivo, à Cidade Nova em 1972. Conforme COSTA (1983), a área foi designada pela Prefeitura para receber o lixo a partir de 1971. Percebe-se que o lixo tem se constituído em problema de difícil solução para a Prefeitura de Natal. Inicialmente, as práticas adotadas para a questão resumiam-se em distanciar da população a área de recebimento do lixo. Essa postura, somando-se às constantes mudanças de local, leva-nos a considerar que a problemática foi encarada pelo poder público como questão de difícil equacionamento, sendo, portanto, permeada por políticas consideradas paliativas. Quanto às tentativas de se resolver tecnicamente a problemática do destino final do lixo, não lograram sucesso. A partir do resgate histórico, temos o entendimento de que o fracasso dessas ações se devem à descontinuidade das ações que visavam simplesmente à resolução imediata do problema, não levando em consideração fatores da realidade, como o aumento de volume de lixo devido ao crescimento da cidade e à ampliação e melhoria nos serviços de coleta. Também merecem comentário os locais selecionados para o acondicionamento final do lixo. Todos as áreas estão localizadas em zonas ambientais importantes da cidade, ora nas proximidades dos manguezais do Rio Potengi, como nos bairros do Salgado, Nordeste ou

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Baldo, ora no terreno de dunas como o do aterro de Cidade Nova. Isso comprova, historicamente, a inexistência de políticas públicas voltadas para a conservação e preservação ambiental no município.

1.2.2 – Aspectos da problemática atual do lixo

Limitando-se a sudoeste com o município de Macaíba, com 6.250m2, a área do bairro Cidade Nova foi escolhida em virtude de ser praticamente despovoada, no início de 1970 (COSTA, 1983). Outro fator preponderante na escolha foi o fato de ser distante do centro, inexistindo praticamente vias de acesso até o local. As primeiras construções residenciais, na área, o que posteriormente veio constituir o bairro, foram erguidas pelos catadores. Atualmente, a produção diária de lixo em Natal aproxima-se de 1600 toneladas/dia. Segundo IDEMA (2001), estima-se que 5,0% desse total seja pré-coletado pelos catadores nas ruas antes da coleta oficial da URBANA. Outros 10,0% são separados na Usina de Triagem, localizada na área do aterro controlado. O restante do lixo é despejado a céu aberto, sem que haja qualquer tratamento prévio. Não existem estatísticas referentes ao percentual de materiais recicláveis coletados pelos catadores avulsos na área de despejo do aterro. TABELA 1: Lixo produzido no período entre 1980 e 2003 Ano 1980 1980/1989 1990/1999 2000 2001 2002 2003 Produção de Lixo tonelada X 1000 162.500 254.3991 426.9151 445.375 443.441 508.339 573.400 Índice de Variação Base 1980=100 1,00 1,572 2,632 2,74 2,73 3,13 3,53

Fontes 1 e 2: Valor total do período dividido por 10.

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Fonte Tabela: URBANA (2004)15

Formulamos a tabela acima com os dados disponibilizados pela URBANA. Para os cálculos de índices de variação de lixo, adotamos como base o ano de 1980. A tabela está dividida em três períodos, um compreende a década de 1980 (período 1980-1989); outro, entre 1990 e 1999. Por fim, a década de 2000, até 2003. Os dados da tabela demonstram que o volume de lixo produzido em Natal está evoluindo a taxas crescentes. A variação do volume, no período 1980-1989, foi de 57%, ao passo que, na década de 1990, o aumento no índice de variação atingiu 263% em relação ao ano de 1980. Para os anos de 2000, as estatísticas apontam para índices ainda mais elevados, triplicando o volume de lixo gerado na cidade. Esses números, que representam o crescimento no volume do lixo em Natal, podem ser explicados, dentre outros fatores, pelo aumento populacional desordenado do município nos últimos anos. A inadequada disposição do lixo tem culminado em grave problema de cunho social, relacionado à saúde pública principalmente para os residentes dos bairros próximos ao aterro controlado. O lixo, a céu aberto, propicia a proliferação de microorganismos nocivos ao ser humano, bem como insetos e ratos. Segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE)16, as doenças mais comumente relacionadas, em virtude do não tratamento do lixo no destino final, são as diarréias infecciosas, amebíase, febre tifóide, malária, febre amarela, cólera, tifo e leptospirose. Outro perigo resultante das práticas inadequadas ao lixo é a contaminação do lençol freático da cidade. O aterro controlado de Natal está localizado em área de duna, caracterizada pela alta permeabilidade, prestando-se à captação da água proveniente das chuvas para a reposição do lençol freático da cidade. Todavia o lixo lançado, a céu aberto, nessa área,

15 16

Dados disponibilizados no sítio eletrônico: <http://www.natal.rn.gov.br/urbana/index.php>; Acesso em 25/08/2004. Informações disponibilizadas no sítio eletrônico: < www.abrelpe.org.br>; Acesso em 15/06/2003.

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implica que o chorume17, líquido proveniente do material orgânico contido no lixo, está se infiltrando na duna, poluindo as águas subterrâneas, o que pode ser comprovado no estudo realizado pela Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (CAERN), em 2000:
Segundo dados fornecidos pela CAERN, 25,0% dos 169 dos poços tubulares de Natal estão com índices de contaminação por nitrato acima do máximo permitido pelo Ministério da Saúde, tal contaminação se deve, dentre outros fatores, a contaminação do lençol freático da cidade. (Jornal Diário de Natal, 2000) 18

Esses dados podem ser considerados preocupantes haja vista que a contaminação dos alimentadores da água potável da cidade leva a verdadeiro caos no sistema de abastecimento d’água. Faz-se menção ao fato de que a água é um recurso natural que, se não gerenciado de maneira racional tanto no uso quanto na sua potabilidade, pode vir a se tornar imprópria para o consumo humano. Cabe, portanto, às autoridades competentes, a implementação de políticas públicas no sentido de se tomarem medidas urgentes visando minimizar o risco de contaminação do lençol freático. Desde a fundação em 1979, a URBANA vem tentando administrar a problemática do lixo em Natal. Destarte, até o presente momento, outubro de 2004, não se obteve o sucesso esperado em todas as intervenções. Embora possua índice de atendimento de coleta de lixo próximo dos 98% do município, a Companhia ainda não conseguiu suprimir a utilização dos diversos terrenos baldios espalhados pela cidade como logradouros de lixo. Apesar das implicações da realidade do lixo que potencialmente ameaça a qualidade do meio ambiente ainda existente em Natal, a sociedade natalense, juntamente com o poder público, constituído nas esferas Municipal, Estadual e Federal, deve se sensibilizar com o perigo que é a poluição do espaço urbano. Caso contrário, não há alternativas eficazes para o

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Ver PEREIRA NETO (1996).

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combate à poluição. Nesse contexto, faz jus a exacerbada preocupação ambiental demonstrada por VALLE (1995:05), quando afirma que “preservar o meio ambiente não é mais um modismo de minorias, mas uma necessidade universal para a preservação de nossa espécie”. Ao menos em Natal, enquanto não há solução definitiva e/ou próxima disso, deparamo-nos com os minilixões e uma montanha de quase 18 metros de altura, na área do aterro, fruto dos mais de 4 milhões de toneladas de lixo que já foram despejadas naquele local. Os encaminhamentos do novo projeto de intervenção, na área do aterro controlado, desenvolvido pela Fundação Zerbini e contando com o apoio da Prefeitura do Natal e URBANA, vislumbram a erradicação do lixão através da correção da atual área de Cidade Nova e a construção de um aterro sanitário. Há também ações no sentido da ressocialização dos catadores de lixo através da coleta seletiva. Com o objetivo explícito de se diferenciar das demais intervenções anteriores que fracassaram por não cumprir os objetivos

preestabelecidos, o atual projeto propala que as ações propostas sejam efetuadas e que, a partir de então, o lixo em Natal passa a ser tratado com a coleta e acondicionamento ocorrendo de maneira satisfatória, ambientalmente correto e economicamente viável. Retomaremos a discussão acerca do projeto mencionado no capítulo IV.

18

Dados extraídos do sítio eletrônico: <http://www.dnonline.com.br/anteriores>; Acesso em 03/11/2000.

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CAPÍTULO II: A EXPLORAÇÃO DO TRABALHO NO CAPITALISMO

O objetivo do capitalismo é a obtenção do lucro! Para que esse objetivo seja realizado, o sistema capitalista possui a capacidade de criar condições para a reprodução do capital. Ao fazer um breve levantamento histórico, observamos que, desde a fase inicial, o sistema vem passando por mutações de tal forma a fortalecer os alicerces. Não é nosso objetivo traçar o perfil das transformações, as quais o sistema econômico capitalista vem sofrendo ao longo de sua existência. Há uma vasta e competente literatura tratando dessa temática. Uma vez que estamos investigando a exploração do trabalho dos catadores dos resíduos sólidos do lixo, pensamos ser importante, até mesmo fundamental para a nossa análise, compreender o papel do trabalho no seio da sociedade capitalista. Destarte, tentaremos provocar discussão teórica sobre o trabalho na sociedade contemporânea, suas nuances e perspectivas. Ciente de que a discussão dessa natureza requer um nível de aprofundamento teórico consistente, dado o grau de complexidade que envolve a temática, nossa intenção é compreender o que está ocorrendo no âmbito do trabalho, sobretudo com o trabalho dos catadores de materiais recicláveis encontrados no lixo.

2.1 – A origem do trabalho A origem da palavra trabalho é de palavra tripaliu, que em latim vulgar significa instrumento de tortura, conforme FERREIRA (1986:1695). Na língua portuguesa, trabalho significa ocupar-se em algum mister; exercer seu ofício; aplicar a sua atividade. Enquanto algumas pessoas vêem o trabalho como uma tortura, outras admitem ser um mister, uma atividade primordial na sociedade humana.

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Tortura ou ocupação, o trabalho pode ser considerado intrínseco à existência humana, sendo realizado pelo homem como condição para sua sobrevivência. ENGELS (1982) afirma que a necessidade humana é fator imprescindível para o desenvolvimento do trabalho pois o homem, ser pensante, incrementa as tarefas executadas no trabalho. O crescimento demográfico das aglomerações primitivas foi crucial para isto, por demandar maior quantidade de alimentos e dificultar os deslocamentos nômades, ou seja, a comunidade passou a ter um leque de necessidades. O homem começa a raciocinar logicamente, produzindo utensílios que lhes serviam para a construção de moradias, bem como para a caça, a pesca e a domesticação de animais. Interpretação semelhante é desenvolvida por MARX (1996:297), ao analisar o processo de trabalho. Para ele, “o trabalho é, antes de tudo um processo entre o homem e a Natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a Natureza. O trabalho assume as mais diversas formas de organização, sendo peculiar a cada momento histórico, no qual está inserido. Tendo sido comunal, escravista, determinado pelo modo de produção feudal, chinês, mesopotâmico e socialista, dentre outros. Segundo a teoria marxiana, no capitalismo, o trabalho está condicionado às exigências do capital, vez que o capital se reproduz através da expropriação do trabalho. Conforme MARX (1996), o capital aufere remuneração, o lucro, através do valor a mais gerado na produção, que consiste na parcela de trabalho realizado pelo trabalhador e não pago pelo capitalista. O desfalque na remuneração do trabalhador, o autor denominou de mais-valia. A partir da capacidade da força de trabalho em gerar mais valor, Marx analisa a essência do fenômeno expropriação do trabalho pelo capital sob várias nuanças. Discutindo a jornada de trabalho, o autor formula os conceitos de mais-valia absoluta, ou extensificação na

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quantidade de horas trabalhadas, e mais-valia relativa, que implica reduzir a quantidade de horas trabalhadas elevando a produtividade do trabalho:
A mais-valia produzida pelo prolongamento da jornada de trabalho chamo de mais-valia absoluta; a mais-valia que, ao contrário, decorre da redução do tempo de trabalho e da correspondente mudança da proporção entre os dois componentes da jornada de trabalho chamo de mais-valia relativa. (MARX, 1996:432)

Adiante, o autor comenta que o desenvolvimento da força produtiva do trabalho, no seio da produção capitalista, tem por finalidade encurtar a parte da jornada de trabalho, durante a qual, o trabalhador tem de trabalhar para si mesmo. Isso ocorre, segundo o autor, para que o capital se aproprie da maior quantidade possível de trabalho não pago realizado pelo trabalhador. Retome-se a discussão dos conceitos de mais-valia absoluta e relativa na terceira seção deste capítulo. A seguir, faz-se exposição da relação capital e trabalho no modo de produção capitalista, no que tange à divisão entre lucros e salários. Para tanto, utiliza-se o referencial teórico marxiano por entender que o autor aborda, de maneira lúcida, a discussão proposta.

2.1.1 – A divisão entre lucros e salários no capitalismo

De acordo com MARX (1996), a sociedade capitalista é composta por duas classes sociais distintas, uma formada pelos detentores dos meios de produção (instalações, matériasprimas, máquinas e equipamentos), denominados capitalistas. A outra classe representa a parcela da população desprovida desses meios, mas possuidora da força-de-trabalho, os trabalhadores.

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O capitalismo é um sistema que possui, no cerne, a contradição, a começar pela sua forma de reprodução, embasada na expropriação do trabalho alheio. Temos duas classes antagônicas que disputam ferozmente pela apropriação da riqueza produzida. O resultado da disputa de interesses entre capitalistas e trabalhadores indica qual classe está em uma situação de vantagem em relação à outra. No sistema capitalista, a relação entre capitalistas e trabalhadores ocorre quando os primeiros contratam os últimos para que, utilizando máquinas e equipamentos, produzam mercadorias e serviços. Ao final de um período, os capitalistas pagam aos trabalhadores um salário. Aparentemente, os ganhos dos capitalistas são obtidos após a venda das mercadorias, descontando-se os custos de produção. Entretanto, lucros e salários não são distribuídos proporcionalmente como sugere a divisão dos ganhos. Vale dizer que o maior lucro capitalista implica um menor salário para o trabalhador e vice-versa. Isso faz surgir embate entre as classes sociais já que o capitalista está sempre motivado a lucrar mais, assim como o trabalhador procura salário maior que o atual. O debate, por que não dizer o embate, sobre como devem ser divididos lucros e salários põe, de um lado, os empresários capitalistas, e de outro os trabalhadores, sendo essa a base da contradição fundamental do capitalismo. Os capitalistas alegam que precisam de lucros cada vez maiores, pois somente assim podem reinvesti-los na atividade produtiva, comprando máquinas, equipamentos e contratando trabalhadores. Os integrantes dessa classe entendem que os salários não podem ser aumentados a taxas muito elevadas devido à concorrência intercapitalistas. Sendo assim, o capitalista que mantiver seus custos de produção menores terá vantagens no mercado. Dado que os trabalhadores consomem bens de primeira necessidade, como roupas e alimentos básicos, a lógica da racionalidade econômica faz com que os salários pagos sirvam apenas para garantir a sobrevivência do trabalhador e da sua família. Na citação de MARX

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(1996:108): “O valor da força-de-trabalho, ou, em termos mais populares, o valor do trabalho, é determinado pelo valor dos artigos de primeira necessidade ou pela quantidade de trabalho necessária à sua produção”. Seguindo esse raciocínio, os capitalistas defendiam a tese de que os salários não podiam ser reajustados a valor além do necessário à reprodução do trabalhador e da sua família. O aumento nos salários não proporciona os resultados esperados pelos trabalhadores, uma vez que leva a aumentos dos preços dos bens de primeira necessidade, consumidos pelos trabalhadores:
É inteiramente certo que a classe operária, considerada em conjunto, gasta e será forçosamente obrigada a gastar a sua receita em artigos de primeira necessidade. Uma alta geral na taxa de salários provocaria, portanto, um aumento na procura de artigos de primeira necessidade e,

conseqüentemente, um aumento de seus preços no mercado. (MARX, 1996:77)

Considerando-se que para os capitalistas os salários são custos de produção, o aumento dos salários faz com que os produtores dos bens de primeira necessidade reajustem seus preços na mesma magnitude. Na prática, havia um repasse de custos nos preços finais dos produtos. Contudo essa alegação capitalista não tinha sentido, pois conforme o autor, uma alta geral da taxa de salários de fato leva a uma diminuição na taxa de lucro, entretanto, não afeta, em linhas gerais, os preços das mercadorias. Outra justificativa dos capitalistas para que não houvesse aumentos nos salários, a um patamar superior ao nível de subsistência do trabalhador e da sua família, foi o desemprego que esse aumento podia gerar nos setores onde os salários estivessem acima do nível da reprodução da classe trabalhadora:
O capital e o trabalho deslocar-se-iam dos ramos menos remunerativos para os ramos que fossem mais; e esse processo de deslocamento iria durar

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até que a oferta em um ramo industrial aumentasse a ponto se nivelar com a maior procura e nos demais ramos industriais diminuíssem

proporcionalmente à menor procura. (MARX, 1996:77-78)

Supondo que, por um motivo qualquer, um setor industrial concedesse aumentos salariais superiores às necessidades do trabalhador, os capitalistas tendiam a deslocar os investimentos para outras atividades, já que parte dos lucros eram desviados para pagamento de salários, gerando desemprego onde os salários fossem maiores. Os desempregados estavam dispostos a migrar para outros setores mesmo ganhando menos, o que trazia os salários ao nível inicial. No outro extremo da discussão sobre a divisão entre lucros e salários, encontram-se trabalhadores. Marx percebeu, com extrema habilidade, que havia algo oculto na justificativa dos capitalistas em pagar o salário referente à sobrevivência do trabalhador. A constatação, ou essência dessa justificativa, ficou evidente para o autor quando desvendou que o trabalhador vendia sua força-de-trabalho ao capitalista e não a realização fruto do seu trabalho. Assim, o capitalista se sentia no direito de utilizar as horas de trabalho conforme suas necessidades.
Ao comprar a força-de-trabalho do operário e ao pagá-la pelo seu valor, o capitalista adquire, como qualquer outro comprador, o direito de consumir ou usar a mercadoria comprada. A força-de-trabalho de um homem é consumida assim como se consome uma máquina, fazendo-a funcionar. (MARX, 1996:101)

Com base nisso, Marx chegou à verdadeira origem do lucro capitalista, qual seja a parte do trabalho realizado pelo trabalhador e não pago pelo capitalista, o sobre-trabalho, denominado por ele de mais-valia. Implícita ao fenômeno das relações que permeiam a categoria trabalho, a mais-valia é uma variante de difícil compreensão e de pouca visibilidade, tanto para capitalistas quanto para trabalhadores.

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Como dissemos anteriormente, os trabalhadores são contratados pelos empresários capitalistas, recebendo por isso um salário que deve ser o necessário à sua sobrevivência. Entretanto o valor total produzido em mercadorias é superior ao pago ao trabalhador na forma de salários, sendo a diferença apropriada pelo capitalista. Diante disso, para MARX (1996:102): “A taxa de mais-valia dependerá da proporção existente entre a parte da jornada que o operário tem que trabalhar para reproduzir o valor da força-de-trabalho e o sobretempo ou sobre-trabalho realizado para o capitalista.” A citação evidencia o pensamento marxiano de que os lucros são provenientes da mais-valia. Comprando a força-de-trabalho dos trabalhadores, os capitalistas não medem esforços para aumentar a produtividade do trabalho dos contratados pois quanto maior for a extração de mais-valia, maior o lucro, muito embora a percepção de utilização do trabalho alheio seja apenas intuitivo dado que os capitalistas não se apercebem deste fato. O autor vislumbrou duas formas de extração de mais-valia: a absoluta que consiste no aumento da quantidade de horas trabalhadas, fazendo aumentar a produção sem que haja a contra-partida em salários; e a mais-valia relativa que intensifica a jornada de trabalho, levando o trabalhador a produzir mais no mesmo período de tempo, permanecendo os salários constantes. Para que a ampliação da mais-valia absoluta e relativa seja obtida com sucesso, os capitalistas procuram investir na melhoria das máquinas e equipamentos, bem como tratam de dividir o processo de trabalho no maior número de tarefas possíveis para que o trabalhador se especialize, cada vez mais, em uma atividade específica. Essas ações aumentam a produtividade do trabalho, aumentando a exploração do trabalho pelo capital.
O desenvolvimento da força produtiva do trabalho, no seio da produção capitalista, tem por finalidade encurtar a parte da jornada de trabalho durante a qual o trabalhador tem de trabalhar para si mesmo, justamente

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para prolongar a outra parte da jornada do trabalho durante a qual pode trabalhar gratuitamente para o capitalista. (MARX, 1996:437)

O desenvolvimento das forças produtivas do trabalho é condição para o aumento da produtividade do trabalhador, pois a repetição do mesmo trabalho eleva a capacidade produtiva do executor. Em síntese, o capitalismo com sua avareza pelo lucro, se apropria do trabalho alheio, expropriando-o de maneira nefasta. Com o significado do trabalho no sistema capitalista, à luz da teoria marxiana, buscaremos, a partir de agora adentrar, ainda que de maneira embrionária, algumas teorias que tentam explicar as transformações ocorridas com o trabalho na sociedade contemporânea, denominadas por muitos como crise estrutural.

2.2 – A crise do trabalho É certo que, desde os primórdios até hoje, o sistema econômico capitalista vem sofrendo constantes transformações na estrutura de funcionamento, sem, contudo, mexer na essência, a acumulação de capital sob a forma de lucro. ´No entanto, breve resgate histórico aos “30 anos gloriosos”, compreendidos entre os anos de 1945 a 1975, demonstra que o capitalismo conheceu, naquele momento, uma fase de menor ímpeto. Condicionantes políticoeconômicos como o Welfare State, embalados pela teoria keynesiana, geravam, nos países que adotaram essas políticas, uma situação que tendia ao que Keynes 19 definiu como pleno emprego. A segunda metade dos anos de 1940 do século passado, marcada por um período de pós-guerra, encontrou, no receituário keynesiano, a salvação das economias nacionais. Visando à retomada do dinamismo econômico, KEYNES (op. cit) propõe o investimento

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público desmedido como alternativa. No célebre exemplo de cavar um buraco pela manhã e enterrá-lo durante a tarde, o autor vislumbrava que era através dos gastos do Estado com grandes obras públicas que a renda nacional seria distribuída entre os agentes econômicos. Para o conjunto da classe trabalhadora, a política keynesiana proporcionou benefícios jamais vistos na história do mundo capitalista. Privilégios como jornada de trabalho definida, pagamento de horas extras e sensível melhoria nas condições de trabalho dos operários fabris são exemplos dos ganhos obtidos pelos trabalhadores no período. Em síntese, ao menos nos países desenvolvidos, houve diminuição na taxa de exploração do trabalho, através da maisvalia.. O Brasil é um bom exemplo do período desse capitalismo domesticado, marcado pelas políticas keynesianas do pleno emprego e investimento estatal. A política Getulista da década de 1940 prezava pela geração de empregos, estatização dos setores estratégicos como a extração do petróleo e a produção de energia, além das garantias trabalhistas, com a criação da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) e o salário mínimo. Na década seguinte, no Governo de JK, o país atravessa um surto de crescimento econômico, com maciço investimento estatal na indústria de base –mineral, energética e siderúrgica – além, é claro, da construção da nova capital federal, Brasília. O desenvolvimentismo de JK desembocou nos primeiros anos da ditadura militar, década de 1960, período conhecido como o Milagre Brasileiro. Contudo, o ciclo dos trinta anos gloriosos começa a ruir. Os Governos atolados em déficits orçamentários estratosféricos não mais conseguiam dinamizar as economias. Inseridos na conjuntura internacional desfavorável, os gestores do capital trataram de encontrar novos

19

John Maynard Keynes, renomado economista inglês da primeira metade do século XX. No período pós crise de 1929 e mais intensivamente no pós segunda grande guerra, vários países adotaram o receituário keynesiano como forma de vigorar suas economias. Para saber mais sobre a Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, ver KEYNES (1996).

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rearranjos, de tal forma que a segunda metade da década de 1970 pôde ser considerada um marco. A crise estrutural do capitalismo vivenciada pela incapacidade de sustentação do modelo fordista/taylorista de produção resultou na conseqüente adoção do toyotismo japonês e a implantação, nos países ricos, e imposição aos países pobres, das políticas neoliberais 20, com o fito de impulsionar o fortalecimento do capitalismo mundial. A vanguarda do neoliberalismo inglês, com a ascensão da administração Thatcher, em 1979, indicava ao mundo que, a partir daquele momento, uma nova ordem política se estabelecia. A intervenção estatal na economia saía de cena, retornando ao mercado o direcionamento das políticas ditadas pelos agentes econômicos. No mundo do trabalho, foram muitas as transformações, sobretudo com a propalada globalização da economia. Os novos modelos de organização industrial, centrados no avanço tecnológico, combinados com formas de produção já ultrapassadas, e ainda a extrema mobilidade do capital atestam que a disputa entre as classes, capital e trabalho está amplamente favorável à primeira. Deparamos atualmente fenômenos que trazem, à tona, debates inflamados no meio acadêmico e fora dele, sobre as novas nuanças do capitalismo. Uma das discussões mais instigantes, travadas entre cientistas das mais diversas áreas de conhecimento, nesse início de século, diz respeito à temática relativa à questão do desemprego. Cada teoria, fazendo uso do aporte teórico-metodológico, interpreta a realidade de maneira coerente e apropriada. Embora reconhecendo, aceitando e não refutando qualquer tentativa de explicitação da temática proposta, para efeito do nosso trabalho científico, damos um olhar economicista por entender que esse ângulo de visão nos norteia as elucidações demandadas no estudo.

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A literatura a cerca da gênese das políticas neoliberais em todo o mundo é vasta e diversificada. Sugerimos uma leitura apurada aos escritos de ANTUNES (1999) e TAVARES & FIORI (1997).

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Reportando à Ciência Econômica, identificamos duas teorias que explicam a reestruturação no mercado de trabalho, o que reflete no desemprego. A primeira refere-se ao avanço tecnológico como fator determinante das mudanças do trabalho. Dessa forma, uma vez que o desenvolvimento de novas tecnologias configura-se em processo inexorável, o trabalho humano está sendo fortemente substituído pelo trabalho das máquinas. A segunda teoria contempla os pensadores de viés crítico. Esta vertente teórica sustenta que a crise, no mundo do trabalho, está intimamente ligada à relação de exploração do trabalho pelo capital. Não refutando o referencial marxiano de que o desenvolvimento das forças produtivas leva à diminuição da composição orgânica do capital, ou seja, menor quantidade de trabalho vivo que é realizado pelos trabalhadores e acréscimo considerável de quantidade do trabalho morto das máquinas, os críticos entendem que a propalada crise implica novas práticas encontradas pelo capital, com o fito de realizar o objetivo principal, a obtenção do lucro através da expropriação do trabalho alheio. Por mais paradoxal que possa parecer, existe, entre as duas teorias, um ponto de confluência, o mundo do trabalho está passando por um período processual de transformação. Diante disso, cabe a nós realizar o árduo exercício de discutir as considerações formuladas pelos pensadores contemporâneos sobre o entendimento dessas transformações.

2.2.1 – Desenvolvimento tecnológico e a redução da força de trabalho

A inovação tecnológica implica mudança do trabalho humano, substituído, num ritmo crescente, pelo trabalho das máquinas, desencadeando dois fatores: o aumento da produtividade da produção e a correspondente diminuição dos postos de emprego. Portanto, se a inovação tecnológica potencializa a capacidade da produção da indústria, o efeito colateral é elevar o desemprego, devido à substituição do homem pela máquina no processo de produção.

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A dicotomia é interpretada por alguns teóricos como prenúncio do fim dos empregos. Autores como MESZAROS (1996), RIFKIN (1995) e HABERMAS (1975), dentre outros, reconhecem a crise do emprego e são categóricos em afirmar que a sociedade industrial caminha para se tornar em sociedade do não trabalho. Esses autores argumentam que, com o advento da tecnologia, os postos de trabalho estão sendo substituídos por máquinas inteligentes que dispensam o trabalho humano. Dessa forma, o avanço tecnológico, na sociedade contemporânea, é visto como contínuo e inexorável, explicado por dois motivos distintos, embora não indissociáveis, um de viés antropológico; outro, de cunho economicista. O caráter antropológico parte do princípio de que o ser humano é um animal racional. Com base nisso, há uma tendência natural para que o homem desenvolva novas formas de transformação da natureza, a fim de melhorar a qualidade de vida. Esse princípio pode ser comprovado quando se compara a tecnologia utilizada pelo homem, no período em que vivia nas cavernas, com a disponível no final do século XX. Embora simplista, o exemplo dá a dimensão do ascendente desenvolvimento tecnológico que permeia a sociedade humana, desde o aparecimento no planeta. A outra argumentação possui, como base de análise, a explicação economicista. A atividade econômica capitalista caracteriza-se, dentre outros fatores, pela concorrência entre agentes econômicos. Visando vencer a concorrência, os empresários desenvolvem diversas estratégias, entre elas a absorção de novas tecnologias. Assim, as grandes indústrias estão na vanguarda do desenvolvimento, financiando pesquisas que, de alguma forma, contribuam para a racionalização da produção. A corrente científica que relaciona a crise de empregabilidade à modernização da produção capitalista entende que esse movimento ocorre de maneira uniforme em todo o planeta, sendo impossível negar tal constatação. Para RIFKIN (1995), o mundo está entrando em nova fase de sua história, na qual cada vez menos trabalhadores são necessários para

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produzir bens e serviços demandados pela população global, não lhes restando outra alternativa senão as filas do desemprego, fato que o autor interpreta como exílio ao emprego. Esse movimento, para ele, ocorre em escala mundial, haja vista que:
As filas de desempregados e subempregados crescem diariamente na América do Norte, Europa e no Japão. Mesmo as nações em desenvolvimento estão enfrentando o desemprego tecnológico à medida que as empresas multinacionais constroem instalações de produção com tecnologia de ponta em todo o mundo, dispensando os trabalhadores de baixa remuneração, que não podem mais competir com a eficiência de custos, controle de qualidade e rapidez de entrega, alcançadas com a produção automatizada. (op. cit.: 05)

Fruto de nova ordem geoeconômica internacional, a globalização, com todo seu aporte teórico-prático, impulsionou a reestruturação produtiva das indústrias através da modernização do parque industrial, o que vem contribuindo para a elevação das taxas de desemprego. Esse fato remete para a racionalidade econômica do mercado, que busca alocar, da maneira mais eficiente possível, os fatores de produção, capital e trabalho, a fim de obter maiores lucros. Para HABERMAS (1975), o mundo passa por transformações em ritmo intenso. Na esfera econômica, por exemplo, o autor observa que a produção da riqueza social tornou-se independente da mais-valia extraída da força de trabalho dos produtores imediatos, passando os trabalhadores a depender do progresso técnico-científico. Sendo assim, uma vez que o desenvolvimento tecnológico avança, não tarda que se concretize o fim da sociedade industrial. OFFE (1989) argumenta que já no início da década de 1980, não parecia irrealístico antecipar, para o futuro previsível, uma redução drástica do potencial de absorção no mercado de trabalho em todo o mundo, devido à evolução tecnológica produtiva. Para o autor, a crise

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do mundo do trabalho é, na verdade, a conseqüência de uma sociedade caracterizada pelo desenvolvimento tecnológico potencializado. Se estamos discutindo o desenvolvimento tecnológico como gerador de desemprego, na sociedade contemporânea, não podíamos deixar de observar as formulações teóricas do grupo de pesquisa denominado Krisis, da Alemanha. No clássico texto intitulado Manifesto contra o trabalho21, os estudiosos do Krisis afirmam categoricamente que a produção de riqueza desvincula-se, cada vez mais, do uso da força de trabalho humano, devido à revolução da microeletrônica. Assim, a sociedade do trabalho chegou ao fim definitivo devido à autocontradição incurável do sistema produtor de mercadorias:
De um lado, ele [o sistema produtor de mercadorias] vive do fato de sugar maciçamente energia humana através do gasto de trabalho para sua maquinaria: quanto mais, melhor. De outro lado, contudo, impõe, pela lei da concorrência empresarial, um aumento de produtividade, no qual a força de trabalho humano é substituída por capital objetivado cientificizado. (p.:15).

A autocontradição do sistema capitalista foi a causa de todas as crises ocorridas. Porém o que diferencia as crises anteriores da atual é que, antes, havia o mecanismo de compensação que era a elevação da produtividade. Com a ampliação de novos mercados, reduzia-se o dispêndio da força de trabalho por produto, ao passo que a produção crescia em termos absolutos. A inovação do produto supera a inovação do processo, ou seja, há o domínio do trabalho morto, o trabalho realizado pelas máquinas, sobre o trabalho vivo, feito pelo homem. Na prática, vale dizer que o desenvolvimento tecnológico fez com que o trabalho fosse racionalizado mais do que a capacidade de ser reabsorvido pela expansão do mercado.

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Disponibilizado no sítio eletrônico http://www.terravista.pt/IlhadoMel/1540/manifesto_contra_trabalho.htm, Acesso em 15/06/2003.

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Dessa forma, na lógica de racionalização, a robótica substitui a energia humana, ou as novas tecnológicas que tornam o trabalho, na visão do Krisis, supérfluo, ao ponto de lançar o trabalhador que não consegue vender sua força de trabalho para o aterro sanitário social. Terminologia semelhante é utilizada por NASCIMENTO (2000), ao discutir a precariedade do trabalho de alguns estratos sociais definidos como excluídos. Para o autor, “o desenvolvimento tecnológico transformou o que Marx definiu de exército industrial de reserva em lixo industria (p.: 69).” Versando sobre a produção destrutiva na sociedade capitalista, MESZAROS (1996:95) salienta que essa forma de produção tem feito com que “sob tais circunstâncias, uma proporção cada vez maior de trabalho vivo se torne força de trabalho supérflua do ponto de vista do capital”. Esse fenômeno, o autor interpreta como sendo indício da dissolução do sistema que necessita do trabalho humano para se reproduzir. O fato de esses autores utilizarem termos como trabalho supérfluo, lixo industrial e aterro sanitário social é indicativo de que, na concepção desses teóricos, o trabalho perde vigor na sociedade atual. Para o bem ou para o mal, presenciamos a tentativa de reprodução sem a necessidade do trabalho humano. Se para os críticos da teoria marxiana ortodoxa, o momento inspira satisfação por alegarem que pressuposto da reprodução do capital condicionado à relação do trabalho vivo com o trabalho morto está sendo refutado, para os marxianos e marxistas, as constatações empíricas trazem, à tona, as contradições do capitalismo, demonstrando que o sistema está em ruínas, devido as contradições serem indissociáveis da sua existência.

2.2.2 – O que dizem os Críticos

Há consenso geral de que o desenvolvimento tecnológico é um fator que reduz a quantidade de trabalho humano, haja vista a máquina executar o trabalho de vários

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trabalhadores. A afirmação é passível de ser validada quando se analisam as indústrias de alta tecnologia, operando com reduzido número de funcionários e elevada quantidade de máquinas inteligentes na execução das tarefas. Outra suposição largamente aceita é a de que o indivíduo com baixa qualificação profissional tem dificuldade em conseguir colocação no mercado de trabalho. Isso ocorre porque as empresas buscam profissionais qualificados para ocupar postos de trabalho, o que implica dizer que são esses funcionários que mais rapidamente dão retorno lucrativo à contratante. Comentando a estrutura e a lógica da economia contemporânea, CARNOY (1993) afirma que os investimentos estão sendo alocados menos em locais que possuem recursos naturais abundantes e mão-de-obra barata. Segundo ele, as empresas transnacionais preferem investir em locais onde haja trabalhadores mais bem qualificados:
The structure and logic of information economy defines a new international division of labor. That division is based less on the location of natural resources, cheap and abundant labor, or even capital stock and more on the capacity to create new knowledge and apply it rapidly, via information processing and telecommunications, to a wide range of human activities in ever-broadening space and time. (op. cit. 06)

Se a apreciação estiver coerente com a realidade observada, aos trabalhadores desqualificados, não lhes resta outra alternativa senão migrar para as atividades informais, que requerem menor qualificação profissional. Há, ainda, o fato de muitos destes trabalhadores não conseguirem sequer colocação na economia informal, ficando desempregados e/ou desenvolvendo estratégias de sobrevivência próximas do que se concebe como atividades de subsistência. Para os teóricos que se fundamentam no referencial crítico, citemos ANTUNES (1999), ARRAIS NETO (1999), MELLO (1997) e CHESNAIS (1996), dentre outros, a crise

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do emprego que assola o mundo não pode ser explicada apenas pelo incremento da tecnologia, menos ainda pela falta de qualificação profissional dos trabalhadores. Para esses estudiosos, afirmar como fazem os neoliberais que as pessoas ficam desempregadas, ou executando atividades de subemprego, unicamente pela incapacidade de acompanhar os avanços tecnológicos, não se qualificando de maneira eficaz para ocupar os novos postos de trabalho que têm surgido, ao que indica, constitui-se em análise parcial e equivocada. A argumentação que contesta a proposição neoliberal é a de que a crítica à realidade contemporânea percebe que o sistema capitalista continua se reproduzindo às custas da expropriação do trabalho, a uma intensidade jamais vista na história da humanidade. Exemplo disso são as várias facetas assumidas pelo capital, nos diversos lugares do planeta, sobretudo a partir do início da década de 1990. Conforme analisado por CHESNAIS (1996:34):
A mundialização – ou globalização – é o resultado de dois movimentos conjuntos, estritamente interligados, mas distintos. O primeiro pode ser caracterizado como a mais longa fase de acumulação ininterrupta do capital que o capitalismo conheceu desde 1914. O segundo diz respeito às políticas de liberalização, de privatização, de desregulamentação e de desmantelamento de conquistas sociais e democráticas, que foram aplicadas desde o início da década de 1980, sob o impulso dos Governos Thatcher e Reagan.

O autor faz menção ao novo direcionamento da ordem econômica mundial a partir da saturação das políticas inspiradas na teoria keynesiana do Estado de bem-estar social. No período dos trinta anos gloriosos, o capitalismo keynesiano usava o estado como maior mantenedor. Com o passar dos anos, a incapacidade de financiamento estatal, devido o elevado déficit das contas públicas fez com que os agentes econômicos: banqueiros e grandes empresários internacionais, assumissem novamente o comando das diretrizes econômicas. A partir da lógica do mercado imposta pelos donatários do capital, buscou-se então desenvolver novas formas de reprodução capitalista que remetessem às especificidades de

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cada região. Antigos termos utilizados pelos teóricos liberais da Economia Política Clássica22 do século XIX, como vantagens comparativas e divisão internacional do trabalho, voltam a fazer parte do dicionário da classe dirigente. Seguindo a perspectiva dessa lógica, o capitalismo reuniu condições para seu fortalecimento no interior dos países, promovendo o propalado desenvolvimento econômico das nações, desta feita, à sua maneira. Exemplo disso foi o que ocorreu com o processo de intensificação tecnológica na atividade produtiva a partir da segunda metade da década de 1970 do século passado. O discurso neoliberal alegava que o objetivo central desse processo tencionava o aprimoramento da produção industrial. Impulsionado por melhores condições estruturais, bem como pelo elevado nível de qualificação profissional dos trabalhadores, o uso das novas tecnologias começara necessariamente nos países centrais, migrando, em seguida, para os demais, em estágios de desenvolvimento industrial. Todavia, para que o processo de desenvolvimento tecnológico ocorresse, cabia aos Governos a tarefa de criar as condições institucionais, de modo a facilitar a entrada dos investimentos internacionais, o que significava reduzir, modificar e, em alguns casos, extinguir a legislação vigente nesses países. À reforma estrutural, os governantes deviam oportunizar cursos de qualificação profissional demandados pelas empresas aos trabalhadores, além de colocar toda a infraestrutura de base tecnológica à disposição dos investidores. Uma vez minimizadas as barreiras que dificultavam a entrada dos investimentos externos, os países estavam aptos a receber o capital internacional, denominado por TAVARES & FIORI (1997), sem fronteiras e sem idiomas. Para os neoliberais, a reestruturação produtiva se fazia necessária, já que o modelo taylorista-fordista não mais se sustentava. O argumento usado era que a produção realizada nos molde do antigo modelo de produção implicava irracionalidade econômica, pois com ele

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Ver HEILBRONER (1996).

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não se conseguiria extrair a produtividade ótima dos fatores de produção: capital, trabalho e tecnologia. Quanto à força de trabalho, devia ser plenamente qualificada e adequada às novas estruturas da base produtiva vigente. Nesse sentido, surgem conceitos como empregabilidade, na qual o trabalhador tem que estar acompanhando as tendências do mercado de trabalho, buscando sua qualificação para novos e revolucionários modelos de produção industrial em voga: kanban, just-in-time etc. É evidente que, na atual conjuntura, o indivíduo que reúne as condições de polivalência técnica exigidas pelo mercado de trabalho tem menos dificuldade de conseguir emprego, até porque as competências adquiridas, ao longo dos anos, fazem o trabalhador qualificado útil para o capital. Entretanto outras variáveis devem ser levadas em consideração quando se pretende fazer uma análise dessa natureza. Ao discutir as mudanças no mercado de trabalho dos países periféricos, a partir do final dos anos de 1980, com a ascensão das políticas neoliberais, POCHMANN (2001) acena para o fato de que a periferização da indústria mundial promoveu o deslocamento das atividades menos complexas para os países menos desenvolvidos. Analisando,

especificamente, o mercado de trabalho brasileiro, apresenta índices que demonstram que, na década de 1990, houve maior demanda por empregos em atividades consideradas informais em setores econômicos menos favorecidos. A estatística subsidia o autor para afirmar que a polarização da atividade industrial, através da periferização provocou no Brasil a estagnação da capacidade da economia na geração de empregos que requerem mão-de-obra qualificada. HOBSBAWM (apud FRIGOTTO 2002) explica que a hipertrofia do capital morto em forma de ciência e tecnologia na produção, como previsto por Marx nos Grundrisse, não só gera desemprego estrutural como a extrema precariedade do trabalho. Nos países pobres, existem indústrias que utilizam trabalho humano intensivo. Nessas áreas, trabalho precário

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convive com trabalho informal, trabalhadores de altíssima qualificação profissional contrastam com a mão-de-obra semi-escrava, e assim por diante. Sob a ótica da teoria crítica à ordem neoliberal, percebemos a dimensão da falácia do discurso da flexibilização do trabalho, já que, no plano da ação, tais modelos industriais que visam à melhoria das condições de trabalho não são aplicados paralelamente e de forma contínua em todo o mundo. O que se têm são algumas partes do mundo, majoritariamente nos países ricos, a atividade industrial realizada com o uso de modernos modelos de produção. E mais ainda, mesmo no interior das indústrias, existe a combinação de vários modelos, tradicional e moderno, que operam concomitantemente. Outra constatação que desmerece o discurso neoliberal, conforme os teóricos críticos, é o fato de, em algumas regiões do mundo, o custo da mão-de-obra ser tão baixo a ponto de se tornar mais viável economicamente produzir utilizando tecnologias consideradas ultrapassadas. Nessas regiões, encontramos indústrias operando com grandes escalas de produção, como no início do século XX. Em áreas mais atrasadas da América Latina, África e Ásia Menor, é possível identificar ainda produção industrial realizada com trabalho manual. Dessa forma, a flexibilização do trabalho pode ser interpretada como flexibilização dos empregos, o que corresponde à desvinculação formal dos direitos trabalhistas conquistados, sob o signo da luta da classe trabalhadora. Os acordos trabalhistas são realizados não mais nos moldes da legislação vigente, mas conforme a necessidade e a conveniência das megacorporações internacionais. Levando-se em conta que cabe ao detentor do capital determinar como, quando e onde produzir, a flexibilização do trabalho se apresenta como mais uma forma de retenção do lucro capitalista através da expropriação do trabalho não pago. ARRAIS NETO (1999), debatendo os processos educativos para uma sociedade que, pretensamente, necessita de indivíduos com altíssima qualificação profissional, conclui que a

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intervenção do processo econômico permitiu o aprofundamento da exploração capitalista do trabalho, aumentando a produtividade por meio do que ficou conhecido como produção flexível:
No capitalismo atual, a valorização do capital utiliza uma combinação de procedimentos para a extração de mais-valia, tanto absoluta quanto relativa, através do rebaixamento dos níveis salariais, da intensificação da produtividade do trabalho, do uso de novos materiais e da integração dos novos mercados de trabalho e consumo (p. 36).

Tais especulações teóricas fazem supor que o discurso neoliberal não condiz com a realidade. A organização/combinação do sistema capitalista tem contribuído para alargar o fosso entre alguns setores mais privilegiados e a maioria da população mundial. Com o rearranjo da economia internacional, o que se apurou foi o movimento metamórfico do capital, impondo, aos países, sobretudo aos periféricos, a abertura irrestrita de suas economias, com o intuito de acelerar o fluxo migratório dos investimentos capitalistas dos países centrais para os de economia fragilizada. Para FURTADO (2002), os capitais produtivos internacionais migram para os países periféricos para obterem vantagem sob três aspectos: mercado consumidor de bens dos países centrais, abundância de recursos naturais ainda existentes nesses países e o baixo preço da mão-de-obra, este último favorecido pela desregulamentação trabalhista. Não restam dúvidas de que os três aspectos, juntamente com o capital financeiro especulativo, constituem os pilares da exploração capitalista na conjuntura contemporânea. Exemplo disso são as transformações no mundo do trabalho dos países da periferia do sistema. Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), extraídos de CARVALHO (2001), dão conta de que três bilhões de pessoas, no mundo, estão desempregadas ou não ganham o necessário para sustentar a família acima do nível da

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pobreza. Na América Latina, as taxas médias oficiais de desemprego se mantiveram entre 9 e 10%, na segunda metade da década de 1990, e os salários industriais estagnaram ou caíram. Uma breve avaliação da economia mundial, nos anos de 1990, não deixa dúvidas de que, para o capitalismo, não importa qual a forma de produção a ser implementada, desde que seja a mais rentável, visto que o lucro é determinado através da expropriação do trabalho não pago, conforme explicitado por MARX (1996), já no século XIX. O vigor das transformações atuais sugere que a melhor maneira de organização produtiva parece ser a combinação de várias formas de organização do trabalho. As evidências apontam para o desinteresse por parte do sistema em introduzir a melhor forma de produção. Interessa sim efetivar os elementos que proporcionem o maior retorno do capital investido no menor espaço de tempo possível. Assim, se em determinada região, a melhor remuneração capitalista se dá através do implemento de alta tecnologia, então a tecnologia de ponta é intensivamente utilizada. Por outro lado, se o uso das velhas tecnologias e a maior utilização de mão-de-obra forem a combinação que melhor remunere o capital, logo são a organização do trabalho utilizada. No nosso entendimento, esse movimento de encaixe de combinações de formas diversas de exploração da força de trabalho assemelha-se a um quebra cabeça, no qual as peças são minuciosamente estudadas, antes de postas ao lado das demais. A novidade no quebra cabeça está no fato de que a imagem a ser formada através da justaposição das peças poderá ser modificada, desde que o jogador, o investidor capitalista, assim o deseje. CHESNAIS (1996), ao analisar a reprodução geográfica do capital, afirma que, com a liberalização do comércio exterior e o movimento de capitais, impôs-se, às classes operárias dos países capitalistas avançados, a flexibilização dos direitos trabalhistas, levando conseqüentemente à perda das conquistas trabalhistas, bem como ao rebaixamento salarial e à

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redução dos postos de trabalho. O autor vai mais além ao afirmar que a tendência é para o alinhamento nas condições desfavoráveis aos assalariados em todo o mundo. A constatação de que existem várias formas de organização do trabalho, nos mais diversos lugares do mundo, expõe as contradições viscerais existentes no sistema capitalista. MELLO (1997) analisa o desemprego estrutural, a precariedade do trabalho, a intensificação da disparidade dos rendimentos, a heterogeneidade do mercado do trabalho e o agravamento da pobreza como sendo conseqüências da gigantesca máquina produtora de desigualdades, que é o capitalismo. Para ANTUNES (1999), o que se vê, no quadro atual, é o desemprego em dimensão estrutural, precariedade do trabalho de modo ampliado e a destruição da natureza em escala globalizada. Tais características tornaram-se os traços constitutivos da nova fase de reestruturação produtiva do capital. O autor comenta que, na nova denominação do mundo do trabalho: “(...) os trabalhadores informais poderiam ser enquadrados como parciais por fazerem parte de uma atividade industrial, porém sem nenhum vínculo empregatício. São trabalhadores terceirizados, sub-contratados ou part-time.” (op. cit.: 104). O vertiginoso aumento da economia informal pode ser considerado fruto da nova configuração do mundo do trabalho. Dados do IBGE, extraídos de CARVALHO (2001:23), indicam que, a partir do censo do ano de 2000, 20% da população ocupada no Brasil, ou seja, 12,4 milhões de trabalhadores não têm carteira assinada. São pessoas sem direito à Previdência Social através do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), ao Programa de Integração Social (PIS) e outros benefícios como férias, 13º salário e o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Desses trabalhadores informais, apenas 5% contribuem com o INSS. Do exposto, dizem os críticos, afirmar a extinção do trabalho humano, em poucas décadas, sugere muito mais uma visão apocalíptica dos fatos do que uma análise concisa da

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atual crise do desemprego que assola o mundo. O cerne da discussão não deve repousar no desenvolvimento tecnológico e na conseqüente implicação para o mundo do trabalho, tampouco na aquisição da empregabilidade e competências pelo trabalhador. Mas baseia-se na contradição fundamental do sistema capitalista, ou seja, ao proporcionar condições à sua reprodução através da expropriação do trabalho, dificulta ainda mais sua condição de existência. Portanto, entender a crise, no mundo do trabalho, implica entender para quem é a crise. Ela não tem afetado, por enquanto, a lucratividade dos grandes conglomerados internacionais, dado que a pilhagem exploratória atinge intensidade e dimensão extraordinárias23. As condições ótimas criadas pelo capital para sua reprodução podem até levar ao aniquilamento do sistema capitalista, contudo, enquanto a fase de superação do sistema não ocorre, evidenciamos a fase de supremacia do capital em relação ao trabalho. Para a classe trabalhadora, o que antes era motivo de luta da causa operária, a expropriação do seu trabalho pelo capital torna-se algo vital para sua reprodução enquanto classe. Se até bem pouco tempo, as discussões dos trabalhadores centralizavam-se na transformação de uma sociedade excludente para uma mais justa, atualmente os debates remontam à criação de postos de trabalho que estão sumindo em virtude do desenvolvimento tecnológico. Ao discutir os possíveis caminhos do desemprego, focando a realidade brasileira, POCHMANN (2001) admite que a crise do emprego não se deve apenas ao problema de escassez de postos de trabalho, mas também ao problema de falta de renda, que faz com que segmentos sociais adicionais sejam remetidos ao mercado de trabalho, quando deviam estar fora dele.

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Em publicação intitulada “O planeta pede socorro”, Revista Veja de 21/08/2002 aponta como um dos fatores para a poluição ambiental a extrema concentração de renda, citando como exemplo o fato das três pessoas mais ricas possuírem uma riqueza equivalente ao PIB dos 48 países mais pobre do mundo.

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A leitura da realidade apoiada no referencial teórico marxiano indica que a incapacidade na geração de emprego, em alguns países, supõe a expectativa de que o capitalismo vai, por suas próprias forças, ruir. Se a especulação teórica irá se confirmar é algo ainda incerto. Entretanto, os resultados da propalada crise, no mundo do trabalho, mostram de maneira cada vez mais visível entre ricos e pobres, o que gera convulsões sociais próximas ao que podíamos definir como barbárie.

2.2.3 – Breve esboço sobre o trabalho no Brasil

Compreender o papel do trabalho, na formação da sociedade brasileira, implica fazer o resgate histórico desde o descobrimento até hoje, contextualizando o Brasil no cenário internacional. Deixemos a tarefa para outra oportunidade. Por ora, cabe analisar a situação do trabalho no país na contemporaneidade. Vale o registro de que uma das características da mão-de-obra brasileira, a baixa qualificação profissional, resultam, dentre outros fatores, da forma como o Brasil foi inserido na economia mundial, desde o descobrimento, ou seja, colônia de exploração da corte portuguesa, produtora de produtos primários, forte apelo ao extrativismo natural e maciça utilização de força-de-trabalho escravo24. Nos anos de 1990, a estratégia utilizada para maquiar o processo de exclusão, a que estão sendo submetidos milhares de pessoas do mercado de trabalho, é através das exigências de qualificação. No Brasil, sobretudo na década de 1990, o discurso oficial via, na empregabilidade, uma alternativa ao desemprego. Nesse período, foram lançados programas como os PEQ’s – Programas Estaduais de Qualificação – com recursos do FAT – Fundo de Amparo ao Trabalhador – com o intuito de elevar a qualificação profissional do trabalhador brasileiro (TESSER, 2002).

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O discurso prega que o indivíduo somente terá condições de ascensão profissional quanto maior for sua qualificação, o que requer, além da formação específica, a capacidade de polivalência do trabalhador, definidas pelos pedagogos como competências ou pelos administradores e economistas como empregabilidade. No entanto, tais exigências se fazem desnecessárias, haja vista a nova Divisão Internacional do Trabalho (DIT). Segundo POCHMANN (2001), a atual DIT está dividida da seguinte maneira: nos países centrais residem as cadeias produtivas de maior importância, vinculadas aos processos de concepção do produto. Nos países pobres ocorre o movimento de periferização da indústria, com o deslocamento de partes menos complexas das atividades manufatureiras para essas áreas do globo. A realidade brasileira confirma a tendência mundial de desemprego generalizado, com repercussões nas condições de trabalho atual. Dados divulgados por pesquisa realizada pelo IBGE25 (2003) mostram que, nas seis macrorregiões metropolitanas do país (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife e Porto Alegre), do total de brasileiros que estavam trabalhando em maio de 2003, 13,9% ou 2,54 milhões de trabalhadores receberam menos de um salário mínimo. No mesmo período em 2002, eram 1,77 milhões de trabalhadores com renda inferior a um salário mínimo, equivalente a 10,2% da população ocupada. Segundo o Instituto, os resultados da pesquisa são indício de forte tendência ao incremento das atividades informais no Brasil. Estamos atualmente colhendo os frutos da ofensiva capitalista iniciada com o transbordamento das políticas neoliberais, porque o capital, uma vez fortalecido amplia a intensidade da sua atuação e os campos de reprodução. A esfera da financeirização da economia internacional, se não gera riqueza, comanda, segundo CHESNAIS (1996), a

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Ver FURTADO (1980). Dados extraídos do sítio eletrônico: <http://www.folha.uol.com.br/folha> Acesso em 05/07/2003.

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repartição e a destinação social da riqueza. Desse modo, a economia financeira atua como agente ameaçador, tornando reféns os Governos dos países menos favorecidos. MATTOSO (2001), ao analisar o mercado de trabalho no Brasil, durante os anos de 1990 chama atenção para o fato de que a política econômica neoliberal, baseada no tripé abertura econômica e financeira indiscriminada, sobrevalorização da moeda e juros elevados, teve como conseqüências um crescimento econômico medíocre e profunda desestruturação produtiva. A seguir, o autor comenta os efeitos nefastos da política neoliberal para o mercado de trabalho brasileiro:
O desemprego e a precarização das condições e relações de trabalho que se observam ao longo dos anos de 1990 são um fenômeno de amplitude nacional, de extraordinária intensidade e jamais ocorrido na história do país. (...) O Brasil nunca conviveu com um desemprego tão elevado. Tampouco com um grau crescente de deterioração das condições de trabalho, com o crescimento vertiginoso do trabalho temporário, por tempo determinado, sem renda fixa, em tempo parcial, enfim, os milhares de bicos que se espalharam pelo país. (op.cit.:09)

Nesse contexto, potencializam-se as várias formas de organização do trabalho com o intuito do rebaixamento dos níveis salariais e precariedade das condições de trabalho. As conseqüências desse processo se apresentam de maneira quase que imediata através do empobrecimento da população em todo o mundo, e particularmente no Brasil. Para o mercado de trabalho, os estragos são maiores, já que os trabalhadores, em condições desfavoráveis de barganha por melhores remunerações, sujeitam-se a ocupar postos de trabalho em situações brutalmente desfavoráveis. Fervilham empregos por contratos temporários, empregos sazonais, além de atividades caracterizadas por elevados níveis de exploração do trabalho. Dentre as novas ocupações no mercado de trabalho, destacamos a catação dos resíduos do lixo realizada pelos trabalhadores que não conseguem colocação no mercado de trabalho formal. Essa atividade expressa os resultados obtidos, no mercado de trabalho

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brasileiro, com o realinhamento da economia nacional à nova ordem internacional, ao longo da década de 1990.

2.3 – O empobrecimento da população mundial Nas últimas décadas, tem merecido destaque observar a ferocidade com que o sistema capitalista cria as condições necessárias para sua reprodução. No âmbito financeiro, o desenvolvimento da telemática vem proporcionando, ao capital especulativo, mobilidade jamais vista na história26. O capital virtual, como é chamada essa modalidade de capital, percorre do ocidente ao oriente, promiscuindo-se diante das elevadas taxas de juros determinadas pela especulação financeira internacional. No âmbito da economia produtiva, cresce, em todo o mundo, o poder dos grandes conglomerados internacionais. As empresas transnacionais, devido ao poderio econômico, conseguem influenciar as políticas internas dos países da periferia do sistema, a tal ponto de condicionar o crescimento econômico desses países aos interesses imediatos e/ou de longo prazo. Vale dizer que esses países se desenvolvem ao ritmo ditado pelos conglomerados estrangeiros associados a classe dominante nacional. Nos países desenvolvidos, os governantes contam com a colaboração de megaempresas para se manter no poder, tendo que executar, em troca de colaboração, políticas que satisfaçam os interesses econômicos das companhias, tanto no âmbito nacional quanto no contexto internacional. Elementos, como a financeirização atrelado ao poderio econômico-político dos grandes conglomerados internacionais e ainda a nova configuração capitalista engendrada pelo neoliberalismo do final dos anos de 1980, são fatores que contribuem para alavancar o

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Para uma compreensão mais apropriada da ação do capital especulativo sobre as economias nacionais na atual conjuntura internacional, ver TAVARES & FIORI (1997) e CHESNAIS (1996).

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distanciamento de rendimentos entre ricos e pobres em todo o mundo. Para BORON (1999), a reestruturação capitalista, iniciada em finais dos anos de 1970, com o fortalecimento das mega-corporações, desencadeou o processo de concentração e centralização do capital. Adiante, o autor aponta a intensidade desse processo:
(...) Em 1960, os 20% mais ricos da população mundial tinham uma renda 30 vezes superior aos 20% mais pobres. (...) no ano de 1990, se pôde verificar que, apesar de todos os programas de ajuda, as disparidades de renda duplicaram – a renda dos 20% mais ricos da população passou a ser 59 vezes maior que a dos 20% mais pobres. (p.31)

As evidências demonstram que o processo brutal de concentração e centralização do capital corroboraram para o empobrecimento crítico ao qual está sendo submetida a maioria da população mundial. BORON (op.cit.) aponta que relatórios governamentais da União Européia relatam a existência de, pelo menos, 50 milhões de pobres nos países que compõem a zona do euro, no início da década de 1990. Nos Estados Unidos, a situação é ainda mais grave, haja vista que, no mesmo período, cerca de 35 milhões de pessoas vivem abaixo da linha de pobreza. O autor comenta ainda que se estimava entre 130 e 196 milhões de pessoas pobres, na América Latina. Como podemos perceber, se, para a população dos países desenvolvidos, os estragos proporcionados pelas políticas neoliberais foram nefastos, para os países latinos, o efeito dessas políticas foi ainda mais nocivo. Segundo CANO (1995), a década perdida, como ficaram conhecidos os anos de 1980, em virtude dos baixos indicadores socioeconômicos dos países pobres, apresentou deplorável redução média anual de 1,9% no Produto Interno Bruto (PIB) por habitante, na América Latina, com o Brasil apresentando cifra próxima a zero e a Argentina e o México com números negativos.

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No recente relatório divulgado pela OIT27(2003), metade da população do planeta, cerca de três bilhões de pessoas, vive na pobreza extrema, com renda inferior a US$ 2 dólares por dia. O relatório indica também que a pobreza não está restrita ao mundo em desenvolvimento, haja vista que mais de 10% da população dos 20 países mais industrializados aufere rendimentos inferiores a metade do salário médio desses países. Ainda conforme o relatório, o empobrecimento da população mundial é agravado pela constatação de que existe algo em torno de 180 milhões de desempregados em todo o planeta. As estatísticas são preocupantes pois indicam que o fosso entre ricos e pobres está se alargando em dimensão e intensidade. Todavia, o que pode ser considerado ainda mais grave é o fato de que, mesmo nos países centrais, as desigualdades estão se exteriorizando de maneira cada vez mais acentuada. Diferentemente do que ocorreu no período compreendido entre pós-segunda guerra até meados dos anos de 1970, com a tendência à minimização das desigualdades nos países centrais e relativa melhora das desigualdades sócioeconômicas, nos países periféricos, presenciamos atualmente processo generalizado de empobrecimento da classe trabalhadora, no centro e na periferia do sistema econômico. Analisando o fenômeno da população de rua, BURSZTYN (2000:42) diz que “a sociedade atual se depara com a emergência dos inimpregáveis pelo sistema econômico do mundo globalizado, que deixam de ser um fenômeno apenas dos países mais pobres, agora eles estão em toda parte, inclusive nas sociedades mais afluentes”. Os trabalhadores desempregados, vítimas do processo de empobrecimento, migram para as atividades informais como forma de sobrevivência. Segundo ANTUNES (1999), as transformações do mundo do trabalho dos países centrais, com repercussões no interior dos países de industrialização intermediária, têm presenciado processo crescente de exclusão dos jovens e dos trabalhadores considerados velhos pelo capital. Dessa forma, ampliam-se os

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Dados extraídos do sítio eletrônico: <http://about.reuters.com/brazil>;

Acesso em 06/06/2003.

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contingentes do chamado trabalho informal, além de aumentar o vasto exército industrial de reserva. Além da centralização e concentração da riqueza, existe outro elemento complicador que provoca desemprego, o avanço da tecnologia. Com o desenvolvimento da tecnologia, diminui a necessidade de utilização de mão-de-obra fabril de tal forma que o trabalhador passa a ser supérfluo28 para o processo produtivo. Óbvio que a superfluidade do trabalho não ocorre de maneira linear em todo o mundo, entretanto as estatísticas apontam que, em alguns países, os índices de crescimento industrial não são acompanhados pelo crescimento na geração de empregos (RIFKIN, 1995). Diante desse quadro, se, para os trabalhadores que estão empregados, o presente é incerto e o futuro é insano, o que devem esperar os trabalhadores sem emprego? Sem expectativas, alguns utilizam como estratégia de sobrevivência as atividades ilícitas, criminalidade, prostituição, etc. Outros migram para as atividades econômicas consideradas informais, muitas delas em condições de extrema precariedade. As atividades informais caracterizam-se por elevadas taxas de exploração do trabalho. Os trabalhadores geralmente são desprovidos de quaisquer direitos trabalhistas básicos, tais como vínculo empregatício, pagamento de férias e seguridade social, etc, sendo submetidos a condições de trabalho mais precárias possíveis. A classe de trabalhadores informais é composta, nas palavras de IANNI (1997:67): “(...) por trabalhadores que compõem a subclasse, uma categoria de sujeitos, membros das mais diversas etnias e migrantes que se encontram na condição de desempregados permanentes nas cidades (...)”. Entendemos que uma investigação pormenorizada das conseqüências do processo de empobrecimento da população mundial não se restringe à mera questão econômica, tal qual fizemos. Uma reflexão mais aprofundada deve levar em consideração aspectos mais gerais,

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como os distúrbios sociais ocasionados pelos desequilíbrios na distribuição da riqueza produzida. Por ora, vale fazermos o recorte teórico evidenciando a categoria econômica para compreendermos a natureza e a dimensão do fenômeno analisado.

2.3.1 – A atividade da catação como estratégia de sobrevivência

Relacionada a situação de pobreza vivida pela nação, onde a atividade da coleta dos resíduos sólidos do lixo existiu, as economias locais passavam por período de recessão. Embora a catação exista pelos mesmos motivos em todos os momentos históricos da humanidade, seu surgimento depende do tipo de organização econômica da sociedade. Sendo assim, a existência de catador, no período pré-medieval, era devido à escassez na produção de alimentos da época, ou seja, a sociedade não havia desenvolvido os meios necessários à produção em abundância. No capitalismo contemporâneo, a catação surge como estratégia de sobrevivência das populações menos favorecidas em relação à distribuição da riqueza gerada, que vêem, na venda dos materiais recicláveis, uma forma de sobrevivência. A atividade da catação está associada à exclusão social de parcela significativa da sociedade que não consegue emprego na economia formal. Segundo ESCOREL (2000:166), os catadores, embora ocupem a cena pública:
São relegados à experiência mais primitiva, que é a de uma existência individual limitada à sobrevivência singular e diária. Integram o lixo urbano, abandonados à própria sorte de conseguir sobreviver dia após dia, reproduzindo-se como animal laborans, que não deixam vestígio algum no mundo.

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Embora seja uma literatura jornalística, a obra desenvolvida por FORRESTER (1997) tece comentários significativos no que tange a superfluidade do trabalho.

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NASCIMENTO (2000) faz ressalva para os conceitos de exclusão e pobreza, já que, em alguns momentos da história da humanidade, não houve qualquer relação entre os dois termos. Atualmente existe simbiose entre exclusão e pobreza. Conforme o autor, há um paradoxo no que tange à situação do catador na escala societal. Se, por um lado, o catador está inserido, à sua maneira, no processo de produção e consumo, desempenhando funções específicas; por outro, está excluído por não ter acesso aos bens materiais e simbólicos modernos. Despossuidores de qualquer vínculo, seja profissional, residencial e, em alguns casos, até mesmo familiar, os catadores aparecem nas estatísticas oficiais apenas como projeção. A clandestinidade das estatísticas faz com que os catadores de materiais recicláveis passem quase despercebidos pela sociedade. No mundo atual, essas pessoas perderam a identidade inicial e continuam assim por também não se inserirem na nova sociedade. Vitimados pelo viril processo de exclusão no campesinato, os modernômades29 se deparam com a cidade, ambiente hostil à sua existência. BURSZTYN & ARAÚJO (1997), ao comentar os perambulantes que chegam a Brasília, na utopia de melhorar as condições de vida, dizem que o estranhamento do local se dá em primeiro, quando, para sobreviver, os novos moradores viram mendigos. O estranhamento ocorre também com as pessoas que vivem no mundo formal em relação aos modernômades. Incomodados com a ameaçadora presença de forasteiros, os constituintes da sociedade formal mantêm relação conflituosa com esses sujeitos. Para NASCIMENTO (2000:81), a subclasse é considerada pela sociedade formal
Economicamente desnecessária, politicamente incômodo e socialmente ameaçador, podendo, portanto ser fisicamente eliminada. Nesta tendência, a expulsão do mundo econômico antecede as do mundo político e social para, finalmente, chegar à esfera da vida.

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Não existem no Brasil estatísticas precisas em relação à economia informal, menos ainda em se tratando da atividade da catação de resíduos sólidos. Os números são imprecisos, no entanto, de acordo com os dados fornecidos pelo Compromisso Empresarial para a Reciclagem (CEMPRE)30, existiam, em meados de 2003, cerca de 500 mil catadores de materiais recicláveis no país. Segundo a entidade, o contingente de catadores é formado por pessoas que ficaram desempregadas, nos últimos seis anos, em geral, possuem pouca instrução e são os primeiros a serem dispensados quando as empresas decidem demitir. A explicação para o elevado número de catadores de materiais recicláveis está no fato de o país conviver, há mais de duas décadas, com uma situação de extrema recessão econômica, com índices de crescimento inferior aos de décadas anteriores. Essa constatação, ao lado do processo de êxodo rural, em virtude da extrema concentração fundiária brasileira, e ainda das políticas de desenvolvimento nacionais centradas apenas nas zonas mais desenvolvidas do país, é elemento fundamental na análise da problemática social que envolve os catadores, nas cidades brasileiras. Para BURSZTYN (2000), existem dois movimentos que, embora contrários, explicam o surgimento dos perambulantes no Brasil. Considerando o centro dinâmico da economia, as metrópoles brasileiras, o autor afirma que as políticas públicas, visando à melhoria da infra-estrutura urbana, nos centros de médio e de grande porte brasileiros, atuam como força centrífuga, empurrando a miséria para a periferia e cidades menores. Por outro lado, a precariedade das condições de vida, na periferia, juntamente com as também precárias perspectivas nas zonas rurais, age como força centrípeta, atraindo a população miserável para o centro dinâmico. Finalizando sua análise, o autor comenta:

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Termo usado por BUARQUE (1997) para definir as pessoas que vivem nas ruas sobrevivendo da catação. Matéria divulgada no Jornal Folha de São Paulo de 20/07/2003, com o título: Título: Miséria Reciclada: Desemprego impulsiona corrida da sucata. Caderno de Economia e Negócios, pág. B-6.

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Em grande medida, o confronto entre as forças centrífugas e centrípetas, num contexto de estrangulamento do mercado de trabalho, explica a existência de um crescente contingente de moradores de rua e de populações perambulantes. (op. cit. 49)

Desempregados e sem ter o que fazer nas ruas das cidades, esses perambulantes desenvolvem diversas estratégias de sobrevivência. BURSZTYN & ARAÚJO (1997) argumentam que os novos-pobres, após estágio inicial de mendicância, socializam-se com a economia local, passando da condição de meros pedintes de rua à condição de catadores de materiais recicláveis:
Os perambulantes buscam, inicialmente, alimentos e objetos que lhes sirvam de utensílios, depois, percebem que podem também extrair renda do lixo. Processa-se então uma profunda metamorfose pois passam de simples extrativistas de subsistência imediata à condição de extrativista para o mercado da reciclagem. (p:35)

Assim, a catação dos resíduos sólidos se insere no rol das ocupações informais. A atividade do catador consiste em perambular diariamente pelas ruas, puxando uma carroça com o material reciclável coletado. Outra modalidade de catador são os que catam nos lixões públicos, restringindo-se à coleta dos materiais despejados na área específica. Atentemos para o fato de que essa divisão não é estanque, ou seja, um catador de rua também o faz nos lixões, assim como o catador do lixão pode vir a catar na rua. Em ambos os caso, a escolha do local mais adequado vai depender da melhor possibilidade de ganho. Analisando a contradição na reprodução do capital através da produção de descartáveis, para MESZAROS (1996), a pulverização das ocupações informais avilta o processo de exclusão engendrado pelo capital. Retomando os conceitos de mais-valia absoluta e relativa formulados por MARX (1996), Meszaros afirma que essas atividades informais são

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a expressão mais nefasta da reprodução do capital através da expropriação do trabalho não pago. A reflexão acima se faz pertinente, por exemplo, quando analisamos as características da atividade da catação de materiais recicláveis. Em relação às condições de trabalho dos catadores brasileiros, é marcante a insalubridade que são submetidos. A precariedade do trabalho do catador faz com que o contato com o lixo seja direto, estando propenso a doenças relacionadas ao lixo, além de possíveis cortes com o manejo dos materiais coletados. Outra forma de expressão desmedida da reprodução do capital através das atividades informais, especificamente na catação de materiais recicláveis, diz respeito às formas de organização do trabalho. No mundo do trabalho dos catadores existe uma espécie de parceria feita com o dono do depósito, que compra o material coletado. O deposeiro cede ao catador a carroça de coleta e, em troca, o catador somente pode vender os materiais recicláveis. Neste caso, embora o catador esteja trabalhando para o dono do depósito, este se isenta de qualquer responsabilidade no tocante à forma como o trabalho está sendo realizado. Também não há comprometimento por parte do deposeiro quanto aos possíveis riscos que venha sofrer o catador por estar trabalhando com o lixo31 Uma característica da atividade da catação é a produtividade do trabalho ensejada pelo catador. O fato de a renda ser proveniente diretamente da sua produção faz com que o esforço para atingir elevada produtividade no trabalho seja altíssimo. Neste caso, a mais-valia absoluta e relativa se faz presente, dado que o catador visando auferir maior renda, está motivado a trabalhar maior quantidade de horas possíveis, a um ritmo intenso. Todavia, dadas as condições de trabalho e a maneira como este é organizado, a produtividade desejada pelos catadores fica comprometida, abaixo das expectativas.

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2.3.2 – Os (des)caminhos da atividade da catação no Brasil

Analisando o documento redigido no I Congresso Latino Americano de Catadores e Catadoras de Material Reciclável, constatamos que a atividade da catação realmente se encontra à margem da sociedade. As estratégias utilizadas pelo Estado, no que tange à melhoria da atividade da catação e à condição do catador, não têm sido eficazes e/ou satisfatórias, ao menos, do ponto de vista dos próprios catadores. Na carta que contém dezoito compromissos sugeridos pelos catadores da América Latina, existem reivindicações no sentido de que a atividade da catação seja reconhecida legalmente, que o Governo conceda aos catadores os mesmos direitos trabalhistas cedidos aos demais trabalhadores. Os profissionais da reciclagem, como se intitulam, compreendem sua importância perante a sociedade, por desenvolverem uma atividade que resulta na melhoria da qualidade de vida das pessoas, através da catação de resíduos que teriam como destino final os lixões das cidades. Sendo assim, exigem inserção nas discussões em torno da política ambiental para o lixo. Concordamos, em parte, com as propostas contidas no documento citado, com destaque para o desejo dos catadores em almejar inserção no seio da sociedade, por se considerarem excluídos da economia formal. Neste sentido, coadunamos com CALDERONI (2003:72) quando comenta que a ausência do Estado, nas questões relativas à reciclagem, pode levar a “prevalência, inclusive de situações de clandestinidade. Isso se verifica, por exemplo, no mercado ligado à reciclagem, onde os catadores usualmente não contam com o amparo efetivo da legislação que regula a atuação de empregos autônomos”. Visando minimizar os efeitos nocivos da recessão econômica, no mercado de trabalho, o Governo brasileiro tem promovido políticas remediativas, tais como programas de

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Em um outro momento, pretendemos investigar as diversas organizações do trabalho do catador que está inserido na cadeia produtiva da indústria da reciclagem.

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qualificação e re-qualificação profissional. Em relação aos profissionais da reciclagem, há particular interesse por parte das Prefeituras em apoiar iniciativas de formação de associações e cooperativas de catadores. Ao menos no âmbito do discurso, catadores e Governos migram para o mesmo lado, qual seja, institucionalizar a atividade da catação de resíduos sólidos como trabalho, reconhecido como ocupação formal. No nosso entendimento, os catadores, tampouco os gestores públicos, não se apercebem de que estão defendendo uma modalidade de ocupação intrinsecamente precarizada pelo fato de atuar da escória da sociedade, o lixo, reafirma a relação de dominância do capital sobre o trabalho. A intensidade da atividade da catação indica a posição do Brasil na economia mundial, caracterizada como periferia do sistema. Destarte, aderimos à interpretação de BURSZTYN & ARAÚJO (1997) de que ainda que os catadores deixem de ser clandestinos, o trabalho com os resíduos do lixo não os liberta do estigma de ser uma população que sobrevive dos despojos da cidade. De maneira contrária ao que almejam os catadores, não é através da legalização da atividade da coleta que eles passam a ser aceitos por uma sociedade, que o simbolismo do consumo desmedido domina o imaginário das pessoas Em relação ao Estado que, com freqüência, vê na atividade da reciclagem uma tentativa de combater o desemprego dos inimpregáveis, pensamos que não está, na formalidade da ocupação, a solução do problema. Como veremos no capítulo IV, dada a conjuntura atual, a eficácia de incentivos de associações e/ou cooperativas de catadores age como muletas para o problema do desemprego, criando demanda ainda maior para a catação dos resíduos do lixo. Apoiamos o posicionamento diante da problemática abordada nas reflexões desenvolvidas por POCHMANN (2001). Para o autor, uma das maneiras de se aliviar a pressão exercida pelos desempregados sobre o mercado de trabalho brasileiro é,

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paralelamente, modificar a estrutura fundiária brasileira, garantindo a geração de emprego no campo; a desconcentração de renda, o que reduz a quantidade de trabalhadores com mais de um emprego, podendo estimular a geração de empregos nos setores secundário e terciário da economia, através dos pequenos negócios. Por fim, o autor diz que o estágio de bem-estar social pode ampliar a geração de emprego e renda da sociedade. Debruçando-se sobre a problemática social que envolve os moradores de rua, BURSZTYN & ARAÚJO (1997) afirmam que a solução do problema deve passar, necessariamente, pelas políticas públicas de abrangência nacional, já que as políticas localizadas apenas potencializam os problemas existentes. Analisando o momento, as perspectivas da atividade da catação de resíduos do lixo estão direcionadas para sua formalidade, com os catadores possuindo os mesmos direitos trabalhistas inerentes às demais profissões. Saindo da ilegalidade e amparados pela legislação trabalhista, é provável que haja melhoria nas condições de trabalho desses profissionais. Quanto à possibilidade de aceitação do catador pela sociedade formal, novamente fazemos referência a BURSZTYN & ARAÚJO (1997), por pensarmos não estar, no reconhecimento da profissão, o passaporte do catador para a sociedade formal. No nosso entendimento, existem questões que estão para além da formalidade trabalhista, que podiam ser trabalhadas com o objetivo de tornar a convivência social mais justa. Contudo trabalhar conceitos de equidade em uma sociedade capitalista parece ser um contra-senso.

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CAPÍTULO III: PERCURSOS METODOLÓGICOS

Compartilhando da compreensão de que o estudo de uma realidade particular é sempre um passo para a compreensão do espaço universal, esta dissertação assume o caráter qualitativo do tipo estudo de caso. Conforme LUDKE & ANDRÉ (1986), a pesquisa qualitativa tem, como características principais, a prioridade para estudo dos fenômenos sociais, a coleta de dados e a análise dos fatos no contexto de origem, a interação entre sujeito, pesquisador e objeto, e a ênfase no processo de conhecimento. Em relação ao local da pesquisa, escolhemos o aterro controlado de Natal pelo fato de já termos realizado pesquisas anteriores na área, o que obviamente facilitou tanto a construção do objeto de estudo quanto o acesso à área do aterro.

3.1 – Coleta de dados da pesquisa de campo Fizemos a pesquisa de campo no mês de setembro de 2003, no aterro controlado da cidade de Natal. Com base nos objetivos previamente propostos, definimos dois procedimentos metodológicos de coleta de dados para a pesquisa: a observação direta, realizada no próprio aterro, e entrevistas semi-estruturadas. Também foi utilizado como instrumento de coleta de dados a análise documental. Em virtude de o aterro controlado ser área pública administrada pela URBANA, devíamos necessariamente ter a autorização daquele órgão para iniciar a pesquisa. Pensamos ser justo ressaltar a prontidão com que fomos atendidos por funcionários e pelo diretor presidente da Companhia, não obstruindo, tampouco colocando qualquer empecilho à realização da pesquisa. Algumas vezes fomos agraciados com transporte até o aterro, no bairro de Cidade Nova, local de difícil o acesso, o que facilitou bastante nossas incursões ao local.

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Inicialmente, causou-nos certo incômodo ter que adentrarmos novamente o universo estranho e desconhecido, como o do lixão de Natal. Embora conhecêssemos a estrutura organizacional do aterro, em virtude de termos participado das pesquisas de IDEMA (2001) e FIGUEIREDO (2000), mesmo assim presenciamos cenas que qualificamos como aterrorizantes, sendo assim indescritíveis. Consideramos, este, o momento de maior dificuldade para o prosseguimento da pesquisa. Admitimos que, em alguns momentos, fraquejamos, sobrepondo o lado humanitário ao racional investigativo. No entanto, o caráter qualitativo moldado para este estudo sinalizava fortemente a necessidade de realização da uma pesquisa de campo. Dessa forma, nos momentos em que sentíamos equilibrados racionalmente, buscamos desenvolver postura próxima da indicada por BOGDAM & BIKLEN (1994) aos investigadores que se aventuram ao campo:
Se por um lado, o investigador entra no mundo do sujeito, por outro, continua a estar do lado de fora. Registra de forma não intrusiva o que vai acontecendo e recolhe, simultaneamente, outros dados descritivos. Tenta aprender algo através do sujeito, embora não tente necessariamente ser como ele. Pode participar nas suas actividades, embora de forma limitada e sem competir com o objectivo de obter prestígio ou estatuto. Aprende o modo de pensar do sujeito, mas não pensa do mesmo modo. É empático e, simultaneamente, reflexivo. (p.:113)

Nesse sentido, pensamos ser de fundamental importância a experiência adquirida em pesquisas anteriores, dado que, mesmo com as dificuldades que, sabíamos de antemão, que íamos enfrentar no campo, sentimo-nos à vontade para fazer as abordagens iniciais com os catadores e posteriormente entrevistá-los.

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3.1.1 – Observação Direta

Constantemente estamos observando algo. Funcionando como mais um sentido humano, a observação implica contato direto com o mundo real que está à volta. Quando utilizamos essa técnica para fins científicos, a observação deve seguir critérios que, para LAVILLE & DIONNE (1999:176), significa “por a técnica a serviço de um objeto de pesquisa, questão ou hipótese”. Embora tenhamos observado a estrutura organizacional do trabalho dos catadores, no parque de triagem de resíduos sólidos, assim como a atividade da catação em cima do lixo, o aspecto mais relevante do instrumento de coleta de dados para a nossa pesquisa se refere à apropriação do contexto, em que estavam inseridos os catadores, no momento, setembro de 2003. Não temos dúvidas de que o projeto de erradicação do lixão alterou sensivelmente o cotidiano desses sujeitos, tanto que, já nas primeiras visitas ao campo, percebíamos a diferenciação entre o encontrado no período das pesquisas do IDEMA (2001) e FIGUEIREDO (2000) e o que se estabelecera até o momento em que estávamos fazendo esta pesquisa. Sendo assim, fez-se fundamental apropriarmos da nova realidade. Salientamos que a observação direta foi desenvolvida durante toda a realização da pesquisa. Com isso, entendemos que podíamos evitar possíveis erros nos resultados, devido à uma situação não condizente com a realidade observada no campo.

3.1.2 – Entrevistas semi-estruturadas

Conquanto definido como sujeitos de pesquisa, um representante de cada associação de catadores e mais dois da URBANA, fomos ao campo realizar as entrevistas de caráter semi-estruturadas, gravadas, que constaram de questões semi-abertas. Dessa forma,

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pretendeu-se não direcionar as respostas dos sujeitos, deixando-os livres para expressar as idéias, e, com isso, foi possível incorporar elementos novos. O roteiro das entrevistas pré-elaborado continha questões que abordavam temáticas relacionadas ao objeto de estudo. Algumas perguntas foram semelhantes, tanto para os representantes da URBANA quanto para os entrevistados da ASCAMAR e ASTRAS. Montamos também, nesses roteiros, questões específicas para cada categoria de sujeito selecionado.

3.1.3 – Análise documental

Optamos por utilizar este procedimento metodológico no decorrer da pesquisa, devido a necessidade de se analisar documentos como a proposta de debate do projeto de erradicação do lixão de Natal; o cadastro dos catadores do lixão feito pela URBANA em janeiro de 2003; as informações sobre as atribuições da Companhia e o documento final do congresso latino-americano de catadores de janeiro de 2003. Todos esses documentos encontram-se nos anexos desta dissertação.

3.2 – Sujeitos Entrevistados

3.2.1 – Representantes da URBANA

Pensávamos ser imprescindível a realização de entrevistas com representantes da URBANA por ser empresa encarregada da limpeza pública em Natal. Outro motivo foi o fato de a Companhia ter sido responsável por diversas ações do projeto de erradicação do lixão. Para a escolha dos sujeitos, utilizamos como critério seu envolvimento com os catadores do lixão. Assim, selecionamos um funcionário, assistente social, que trabalha na

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URBANA, desde a fundação, em 1979. Foram bastante satisfatórias as informações cedidas por esse técnico, haja vista ter participado de todas as quatro intervenções anteriores desenvolvidas pela Companhia com os catadores. O segundo técnico para a entrevista é um funcionário comissionado, recémcontratado. Embora não fizesse parte do quadro efetivo da URBANA, esse técnico em meio ambiente possui a função específica de discutir, com os catadores da área do aterro, as ações propostas no projeto de erradicação do lixão. Registre-se que as entrevistas ocorreram em clima amistoso, com os dois sujeitos se dispondo a responder todas as perguntas pré-formuladas. Também foram complacentes em discutir questões internas da URBANA, o que enriqueceu a análise posterior dos dados. Ao fim da pesquisa de campo, os dois técnicos da Companhia nos forneceram documentos contendo a proposta de debate do projeto de erradicação do lixão, documento que comenta as atribuições da URBANA e os resultados da caracterização dos catadores do lixão, feita pela Companhia em janeiro de 2003.

3.2.2 – Representantes das associações de catadores

Utilizamos o critério da liderança perante os demais catadores para a escolha dos representantes da ASCAMAR e ASTRAS. A identificação desses sujeitos foi facilitada pelo fato de estarem no cargo de presidência de associações, em setembro de 2003. Em relação aos catadores avulsos, ao menos em setembro de 2003, não havia possibilidade de escolha que atendesse o critério predeterminado, haja vista as características desses sujeitos. Assim, adotamos que o entrevistado da ASTRAS é um representante dos catadores avulsos pois todos os associados catavam materiais recicláveis na área de despejo final do lixo. Embora associados, a prática da coleta dos resíduos individual ou em grupos familiares sugere que esses sujeitos ainda não se apercebem da convivência associativa.

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Dessa forma, pensamos ter contemplado as duas categorias de catadores da área do aterro controlado no período da pesquisa de campo, os catadores associados através da entrevista com o representante da ASCAMAR e os avulsos por termos entrevistado um representante da ASTRAS. Não houve qualquer dificuldade, os dois representantes selecionados se dispuseram a responder a todas as questões. Também foram bastante proveitosos os aspectos citados pelos entrevistados fora do roteiro das entrevistas.

3.3 – Etapas da pesquisa Houve as seguintes etapas:  Refinamento do quadro teórico: Estudo da bibliografia selecionada, para a construção do objeto teórico da pesquisa; definições da abordagem teórico/metodológica da pesquisa; preparação dos instrumentos de coleta dos dados em torno das categorias temáticas (representantes da ASCAMAR, ASTRAS e URBANA). O que foi realizado em aproximadamente quatorze meses;  Trabalho de campo: Constou de coleta de dados; inserção na área de destinação final dos resíduos sólidos da cidade de Natal; ajuste dos instrumentos de coleta de informações; entrevistas (gravadas), no mês de setembro de 2003;  Análise das informações: Leitura das informações e análise dos dados; construção do capítulo especifico que analisa os dados coletados no campo da pesquisa. Realizamos essa atividade em sete meses;  Sistematização da Dissertação: Em conformidade com as características da pesquisa de caráter qualitativo, essas etapas não constituíram momentos

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estanques de investigação. A análise, por exemplo, desde o inicio, teve o fim de possibilitar constante reavaliação do referencial teórico adotado, bem como da adequação das técnicas de coleta de dados. Portanto é difícil a identificação da linha que “separa” os diversos momentos da pesquisa. Enfatizamos que os passos especificados são apenas a organização didática da pesquisa. Os períodos de realização das tarefas seguiram as demandas exigidas pelo estudo, sendo cabíveis de serem alterados conforme a realização e a necessidade da pesquisa.

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CAPÍTULO IV: EM CIMA DO LIXO: DESVENDANDO A EXPLORAÇÃO DO TRABALHO DOS CATADORES DO ATERRO CONTROLADO

Este capítulo contempla os resultados obtidos com a coleta de dados da pesquisa de campo realizada no mês de setembro de 2003, no aterro público da cidade de Natal. Para a investigação, fomos ao universo escolhido norteado pela fundamentação teórica que desenvolvemos, munido das inquietações que levantamos ao longo da problematização. Outrossim, tencionamos nesse momento fazer a interpretação dos dados contidos nas respostas que foram cedidas pelos representantes das três entidades selecionadas: ASCAMAR, ASTRAS e URBANA. Embasado nas falas dos sujeitos, identificamos elementos como representatividade social, rivalidade e dialética que podiam ser trabalhados de tal forma a se constituir em categorias temáticas. Embora reconheçamos a importância desses elementos para a interpretação das nossas análises, não consideramos pertinente fazer-lhes uma incursão categorial pelo fato de que se assim o fizéssemos, deveríamos enveredar por especulações teóricas a que não nos sentimos apto, até o momento. Salientamos, porém, que não descartamos tais elementos, haja vista que, em um momento posterior, podiam ser utilizados convenientemente.

4.1 – Aproximação com o Ambiente da Pesquisa Partindo dos estudos realizados por IDEMA (2001) e FIGUEIREDO (2000), tecemos comentários sobre alguns resultados obtidos no momento. Vale ressaltar que optamos por comentar os aspectos que facilitam a compreensão da presente investigação, além de servir de subsídio para a elucidação do objeto de estudo proposto nesta dissertação.

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4.1.2 – A Organização espacial do Aterro Controlado

Existem dois tipos de organização do trabalho dos catadores, um formado com os catadores associados pela ASCAMAR, e outro contendo os catadores avulsos, não associados. Há no lixão uma divisão de território feita pelos próprios catadores que delimita a posse do lixo. Os catadores associados ficam postos na área do parque de triagem, e os avulsos realizam a coleta na área de despejo a céu aberto. A divisão territorial deve ser respeitada de tal modo que, quando o caminhão despeja o lixo na grande área a céu aberto, nenhum catador associado pode ter acesso, pois esse lixo pertence aos catadores avulsos. Do mesmo modo, se o caminhão despejar o lixo na usina de triagem, todo o material passa a pertencer à ASCAMAR, sem que os avulsos tenham acesso a esse material. O aterro controlado está dividido em três partes, em uma delas são dispostos os resíduos da coleta residencial, bem como de áreas comuns da cidade – feiras livres, praças, praias, etc. Na outra parte do aterro, existe uma vala onde são despejados os resíduos das unidades hospitalares, juntamente com corpos de animais mortos provenientes dos canis públicos da cidade. Na terceira parte do aterro, a URBANA montou, no ano de 1988, um parque de triagem de materiais recicláveis contendo uma usina de triagem, com capacidade para selecionar até 60 toneladas/dia, baias para separação de materiais, um galpão para o enfardo dos materiais separados na usina, além de máquinas destinadas à prensagem do material. Convém lembrar que alguns dos equipamentos do parque de triagem foram adquiridos ao longo do tempo. Na entrevista realizada por FIGUEIREDO (2000), com um dos mentores do projeto que viabilizou a instalação do parque de triagem, foi relatado que o objetivo da iniciativa era minimizar dois problemas, um de caráter ambiental e outro de cunho econômico. Do ponto de

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vista ambiental, os materiais recicláveis existentes no lixo, uma vez passando pela usina de triagem, reduzem de volume que vai para a área de despejo a céu aberto pois quantidades substanciais de resíduos são desviadas pelo enfardo e posterior venda. Economicamente falando, a venda dos resíduos é uma fonte de geração de ocupação e renda em potencial para os catadores da área do lixão. Analisando o relato sobre o projeto de implantação do parque de triagem, entendemos que a iniciativa se mostrava, no momento, eficiente. Todavia consideramos que o projeto foi pouco eficaz já que, após quinze anos da implantação, não houve em Natal, uma mobilização consistente junto à sociedade quanto a problemática do lixo, riscos, bem como a importância de se efetuar a coleta seletiva nos bairros da cidade. Ainda conforme informações da fonte citada, foi incentivada a criação de uma associação de catadores, a ASCAMAR, que tinha a missão de gerenciar todo o processo de triagem, enfardo e venda dos materiais recicláveis às indústrias recicladoras. Paralelamente, a URBANA implanta um projeto de coleta seletiva em Natal para que os resíduos viessem separados já da coleta, o que facilitava a triagem dos materiais pelos catadores, aumentando os rendimentos ao final do processo de venda dos resíduos.

4.1.3 – O trabalho dos catadores da ASCAMAR

Contando atualmente com quarenta associados, a ASCAMAR é uma associação de catadores que visa criar condições de sobrevivência para os associados, através da prática de triagem dos materiais recicláveis encontrados no lixo. A Prefeitura apóia a iniciativa da associação doando parte do lixo coletado nos bairros, além de criar projetos como o do ano de 2000, visando à ressocialização dos associados através da alfabetização básica para os catadores e creche, construída na área do aterro, para seus filhos.

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O trabalho dos catadores consta da separação dos materiais recicláveis, postos na usina de triagem de resíduos sólidos. A usina consiste em uma esteira rolante que vai passando com o material, sendo despejado em uma das extremidades pelo caminhão que traz a coleta da cidade. Os catadores se posicionam ao longo da esteira separando o material por tipo e colocando nas baias que se encontram nas laterais da esteira. O segundo passo é prensar os materiais nas máquinas prensadoras, isso porque os deposeiros somente compram o material depois de prensado e enfardado. Para isso, a associação de catadores, juntamente com a URBANA, comprou prensas para o papel/papelão, metais diversos e plásticos. Os vidros são vendidos na forma original, uma vez que não é viável economicamente a compra de uma prensa para esse tipo de material. Pelo relato do representante da ASCAMAR a FIGUEIREDO (2000), existem algumas deficiências técnicas que dificultam a produtividade da usina. Uma delas é a baixa capacidade de separação da usina de triagem em relação à produção diária de lixo em Natal, aproximadamente 1,5 mil toneladas/dia. Outra deficiência apontada são as constantes quebras do equipamento, fato que, juntamente com a demora por parte da URBANA para fazer os devidos reparos, dificulta a continuidade da atividade da associação. Os associados se ressentem ainda da falta de coleta seletiva na cidade, o que aumenta a quantidade de material disponível à venda por já vir separado na coleta. A maior quantidade de material vendido resulta em aumento nos rendimentos dos catadores. De acordo com FIGUEIREDO (2000), o rendimento médio de um catador associado, no ano de 2000 oscilava entre meio e dois salários mínimos por mês, bem abaixo do rendimento do catador avulso. Por fim, no que se refere à segurança e higiene, foi observado por IDEMA (2001) e FIGUEIREDO (op. cit.) que os catadores associados realizam seu trabalho com equipamentos de proteção individual (EPI’s) e equipamentos de proteção coletiva (EPC’s) em péssimas condições de uso. Tal fato leva risco à integridade física, pois a probabilidade de acidentes no

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trabalho se eleva tendo em vista que o indivíduo mantém contato direto com os equipamentos. Outro risco diz respeito à saúde humana devido ao altíssimo grau de insalubridade a que são expostos os catadores quando trabalham sem os equipamentos em perfeito estado .

4.1.4 – Os Catadores Avulsos

Os avulsos são uma categoria de catadores que realizam atividades dentro do lixão, exatamente no local onde é despejado o lixo proveniente da coleta da cidade. Diferentemente dos associados, os avulsos não gozam de quaisquer privilégios por parte da Prefeitura no que tange à melhoria da qualidade de vida. O único benefício concedido é o acesso à área do lixão para que possam disputar o sustento com cães, gatos, porcos, urubus, jumentos e bovinos no local. Esses animais domésticos pertencem aos próprios catadores e a alguns residentes próximos da área do lixão que os levam para que se alimentem dos resíduos. As condições de trabalho dos catadores avulsos são as mais precárias possíveis. A separação dos materiais é feita com o auxilio de um gancho de três pontas, que, não raro, ocasiona acidentes devido as suas pontas bastante afiadas. Os avulsos quase sempre não utilizam EPI’s, tão pouco EPC’s, mantendo assim contato direto com o lixo. Quando os fazem, esses equipamentos são encontrados na própria catação, o que leva a crer que já perderam sua capacidade de oferecer segurança ao usuário. Quanto à forma de organização do trabalho, a princípio, cada catador produz individualmente. Foi observada por FIGUEIREDO (2000) a presença de famílias realizando a coleta avulsa, nesse caso, o volume de material coletado pertence à família. Foi observado que, com a chegada do caminhão, existe uma espécie de rodízio de forma que os catadores que estiverem mais próximos do último caminhão não se aproximam tanto do caminhão seguinte, dando vez aos que não participaram da catação anterior. A cada novo caminhão, em média, oito catadores se aproximam para realizar a coleta.

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A lei do rodízio, contudo, se desfaz quando surge, na área de despejo, um caminhão proveniente de supermercados e das feiras livres da cidade. Neste momento, impera a lei do mais forte e do mais hábil no trato com os ganchos pois, nesses caminhões, há alimentos que podem ser consumidos pelos catadores. O registro especial que fazemos em relação à atividade da catação realizada, na área do lixão, tem se caracterizado por ser bastante masculinizada. Quando falamos de rodízio, devemos levar em conta que apenas o homem participa, a mulher não tem vez. Ora a lei silenciosa do mais forte que domina o mais fraco, ora a lei do rodízio na busca do melhor lixo que impera naquele universo desconsideram a mulher, renegando-a a segundo plano. Com efeito, às mulheres, não lhes restam alternativas, senão esperar que os homens usufruam a primazia do primeiro contato com o lixo recém chegado, até se saciarem, e também torcer para que passe despercebido dos primeiros donatários do lixo algum objeto de valor. Os recicláveis coletados pelos catadores avulsos são separados por tipo de material e enfardados manualmente. Após o enfardo, a grande maioria dos materiais são vendidos a atravessadores que vão à área do despejo e compram a produção conjunta dos catadores. Cada catador é remunerado de acordo com o tipo de material e a quantidade mensurada em quilos que consegue enfardar. A quantidade de catadores avulsos é maior do que a dos associados. Esse fato é explicado fortemente pelos rendimentos auferidos com a venda de materiais recicláveis. Foi apurado por FIGUEIREDO (2000) que os avulsos obtinham rendimentos médio mensal que oscilavam entre 1,5 e 3 salários mínimos. Outro fator preponderante para o elevado número de avulsos é a continuidade do trabalho realizado nesses moldes, devido a coleta de lixo da cidade ser diária. Finalmente, enfatiza-se que uma das características peculiares dos catadores avulsos são os diversos medos que sentem pelo fato de realizarem uma atividade concebida como

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informal, não permitindo que sejam filmados e/ou fotografados proximamente. Evidenciamos essa espécie de ostracismo social quando da realização das pesquisas de IDEMA (2001) e FIGUEIREDO (2000). Na ocasião, a entrada na área de despejo do lixo somente foi possível após a interpelação de um representante da ASCAMAR, que pediu aos catadores avulsos que fosse liberada a entrada do pesquisador.

4.2 – O projeto de erradicação do lixão No período compreendido entre dezembro de 2001, data do último contato que mantivemos com o universo investigado, até setembro de 2003, período de realização da pesquisa empírica, efetivaram-se mudanças significativas na estrutura organizacional dos catadores do aterro controlado de Natal. Se anteriormente os catadores eram divididos entre associados da ASCAMAR e avulsos, tem-se agora uma nova associação, a ASTRAS. Merece ser comentada também a quantidade de pessoas que migraram para aquela atividade na área: De aproximadamente 250 em 2001 para 466, sendo 64% homens e 36% mulheres conforme levantamento realizado pela URBANA em janeiro de 2003. Houve um salto quantitativo, em virtude do expressivo número de catadores, e qualitativo, referente ao surgimento de mais uma associação. Embora o fenômeno se relacione diretamente com a conjuntura macroeconômica de elevadas taxas de desemprego, apenas essa ocorrência não explicita, no nosso entendimento, as mudanças mencionadas. O representante da ASCAMAR, perguntado sobre os motivos do inchaço populacional no lixão, respondeu que o fato de a atividade ser lucrativa para quem dela sobrevive era a causa imediata da atratividade social que se estabelece:
É uma atividade altamente lucrativa, onde você não tem patrão, chega na hora que quer, trabalha do jeito que quer, no dia que quer, e é rentável né. A média salarial, a média per capita de catadores dentro do lixão, pelo menos há dois anos atrás, tava em R$ 200,00, hoje deve estar em torno de

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R$ 250,00 a R$ 300,00 onde os catadores, os catadores fariam de R$ 150,00 até R$ 650,00 trabalhando por semana, de segunda a sexta lá no lixão.

Embora essa resposta fosse confirmada posteriormente, na pesquisa de campo, percebemos que havia outros motivos que explicavam tal fenômeno. Nas entrevistas, obtivemos relatos dos representantes da URBANA evidenciando que Natal foi uma das oito cidades brasileiras contempladas com o projeto de combate à fome, associado à inclusão social de catadores e à erradicação de lixões. O projeto pertencente ao Governo Federal foi elaborado conjuntamente entre os seguintes órgãos federais: Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades, Fundo Nacional de Saúde do Ministério da Saúde, Secretaria de Qualidade Ambiental nos Assentamentos Humanos do Ministério do Meio Ambiente, Ministério Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome, Secretaria de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego e Secretaria de Articulação dos Programas Sociais do Ministério de Assistência Social. Até a conclusão da dissertação, outubro/2004, tivemos informações de que desde, abril/2004, algumas ações do projeto, como a coleta seletiva em bairros como Ponta Negra e a construção do aterro sanitário, encontravam-se em fase de implantação. Optamos por não voltar ao campo de estudo por entendermos ser irrelevante tal constatação para as análises que estamos desenvolvendo, dado o objeto de estudo que nos propomos a investigar. Entendemos que, se assim o fizéssemos, estávamos redirecionando nosso objeto de pesquisa, o que não desejamos neste momento. Deste modo, expomos alguns tópicos da proposta de debate do projeto, partindo da perspectiva de que as ações contidas, no documento, respeitam o cronograma preestabelecido, sendo viabilizadas integralmente. Direcionado a municípios com mais de 20.000 habitantes que respeitem critérios predeterminados, o projeto tem o objetivo de integrar a questão ambiental à problemática

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social. O determinante ambiental repousa na erradicação dos lixões e posterior recuperação das áreas urbanas degradadas com o lançamento indiscriminado do lixo no meio ambiente. No tocante à questão social, o projeto visa atuar no combate à fome das populações menos favorecidas economicamente que sobrevivem da atividade diária da coleta e venda dos materiais recicláveis encontrados no lixo. É meta, portanto, proporcionar sustentabilidade econômica às famílias de catadores, promovendo sua inserção social e segurança alimentar. Dos vários objetivos propostos, destacamos os que assinalam a possibilidade de incentivo e apoio a práticas de coleta seletiva, visando à garantia da sustentabilidade da atividade da catação. Essas práticas, uma vez realizadas de maneira organizada por associações e/ou cooperativas de catadores, levam à erradicação do trabalho precarizado e desorganizado nos lixões. Dessa forma, a intenção do projeto é a de fomentar a organização dos catadores em entidades de classe, além da criação de um mercado consumidor para os materiais recicláveis coletados por esses catadores. A proposta de debate possui duas bases de sustentação. A primeira é a extinção sumária dos lixões com posterior recuperação das áreas até então degradadas, com a implementação de aterros sanitários. A medida visa ao controle racional do destino final dos resíduos sólidos produzidos nas cidades. O outro pilar da proposta repousa na busca da sustentabilidade econômica para as famílias que sobrevivem do lixo. No item que versa sobre as ações necessárias para a consecução do projeto, um tópico propõe traçar as diretrizes à emancipação socioeconômica das famílias de catadores dos lixões:
Objetiva possibilitar a emancipação econômica e social das famílias de catadores de modo a não mais dependerem da assistência governamental. (PROJETO, 2003:09)

E, entre as ações necessárias à efetividade desse objetivo, destacam-se:

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Estimular e apoiar a formação, organização e o funcionamento de associações e cooperativas de catadores para o serviço de coleta, triagem e beneficiamento dos materiais recicláveis; (PROJETO, 2003:10)

Prover qualificação profissional para o catador, visando formá-lo como profissional de reciclagem (coleta, triagem e beneficiamento de resíduos); (PROJETO, 2003:10)

Facilitar o acesso ao crédito para as cooperativas tanto para custeio de suas atividades como para investimentos; (PROJETO, 2003:10)

Apoiar financeiramente a aquisição de equipamentos necessários ao funcionamento das associações e cooperativas como prensas, enfardadeiras, esteiras, etc. (PROJETO, 2003:10)

É evidente a menção do Estado em prover as pessoas que sobrevivem do lixo de elementos para que elas próprias desenvolvam as condições necessárias à sua reprodução, a partir da atividade da coleta dos materiais recicláveis. Às Prefeituras, cabe o importante papel de coordenar as atividades programadas visando ao cumprimento do cronograma preestabelecido.

4.2.1 – Peculiaridades da cidade de Natal

Para Natal, um representante da URBANA nos relatou que o projeto de erradicação dos lixões feito por órgãos do Governo Federal incorporou algumas ações de projeto que havia sido anteriormente elaborado pelos técnicos da URBANA, em janeiro de 2003. Essas peculiaridades referem-se basicamente às ações que são realizadas na área que atualmente abriga o aterro controlado da cidade.

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Todo o terreno é denominado de unidade de transbordo principal, acolhendo, em galpões, os materiais recicláveis provenientes da coleta seletiva. Está implantado, em uma área do terreno, o projeto denominado Rabo de Fogo, para a produção de carvão vegetal, sendo utilizada a madeira proveniente das podas de árvores. O local onde atualmente é lançado o lixo, a céu aberto, passa por um processo de recuperação, com a impermeabilização do solo para que o lençol freático não volte a ser contaminado pela infiltração do chorume através das águas da chuva. No perímetro dessa área, é desenvolvida uma horta comunitária e a compostagem32 do lixo orgânico, que serve de adubo para a plantação das hortaliças. Nas demais áreas, são construídos espaços destinados à cultura e ao lazer da população dos bairros de Cidade Nova e adjacências. Tais áreas contam com campos de futebol, pista de ciclismo, passeio público, quadras poliesportivas, além de salas que abrigam atividades relacionadas às artes plásticas e cênicas, dentre outras. Também é montada uma creche que acolhe os filhos dos catadores envolvidos no projeto. O passo mais importante desse projeto talvez seja a implementação da coleta seletiva do lixo em Natal. Do tipo porta-a-porta, espera-se que, com as ações pedagógicas de sensibilização e conscientização ambientais realizadas pela URBANA, nos bairros e demais locais públicos da cidade, a população adquira o hábito da pré-ciclagem, separando o lixo doméstico em seco (papel, papelão, latas, plásticos, etc) e o molhado (composto por materiais orgânicos). A participação do catador de lixo, definido pela proposta de debate do projeto como sujeito principal, faz-se imprescindível. As primeiras ações da URBANA junto aos catadores foram de mobilização para a formação de entidades de representação, associações e/ou cooperativas. Posteriormente, foi dada a qualificação específica dos catadores, que passaram a agentes ambientais, com a função social de realizar o trabalho de coleta seletiva junto às

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A compostagem é um processo biológico aeróbico, que utiliza o ar, controlado de tratamento e estabilização de resíduos

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residências. Cada catador devia obrigatoriamente fazer uso de um crachá de identificação que servia de canal de comunicação entre a população dos bairros e a URBANA. Tentando evitar possível beneficiamento de alguns catadores em detrimento de outros, a URBANA faz o revezamento de trechos de coleta entre os catadores das duas associações, ASCAMAR e ASTRAS. Deste modo, se, em um período, os catadores de uma associação fizerem a coleta em trecho onde o lixo é considerado de melhor qualidade, no mês seguinte, a coleta na área é realizada por catadores da outra associação. Cada bairro conta com uma Unidade de Transbordo, local onde o material coletado pelos catadores é estocado. Ao final do dia, um caminhão da URBANA leva o material para a Unidade de Transbordo principal. O lixo inadequado para a reciclagem vai para o Aterro Sanitário a ser construído na cidade de Ceará-Mirim/RN, no distrito de Massaranduba, distante 25km de Natal. Os catadores devem trabalhar em turnos a serem definidos pela URBANA. Diariamente é contabilizada, em cada unidade de transbordo dos bairros, a quantidade e o tipo de material coletado pelos catadores. Os materiais recicláveis, uma vez contabilizados por categoria, são repassados para as associações de acordo com a produção dos catadores. Os serviços de gerência no que tange ao enfardo e à venda do material, ficam a cargo de cada uma das associações participantes.

4.3 – ASCAMAR E ASTRAS: Os dois lados da mesma moeda Segundo informações cedidas por seus representantes, a ASTRAS foi registrada formalmente no dia 14 de maio de 2003, possuindo 82 associados formais, sendo 40% do total de mulheres. A associação conta ainda com 167 catadores, que embora se mostrem simpáticos à nova associação, não possuem ainda registro formal na entidade. Na visão dos idealizadores,

orgânicos para a produção de húmus. Para saber mais sobre o processo de compostagem, ver PEREIRA NETO (1996).

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a ASTRAS objetiva montar uma entidade ampla de cunho social que atenda à comunidade dos bairros de Cidade Nova, Felipe Camarão e Planalto. Durante a entrevista, perguntado sobre o que é a associação de catadores, o gestor prontamente respondeu:
A ASTRAS é uma associação formada por pessoas que nós queremos contar com a ajuda pra gente nunca errar. Procurar todo o tempo acertar, que seja bem gratificado pela norma da nossa união, da nossa equipe, que nós temo de pessoas unidas. Pessoas que tá fazendo um grupo bem vinculado, pessoas que tá abraçando a postura que a gente não quisemo antes, porque principalmente nós temo uma grande vitória que procuremos pessoa que já tava tendo programação dentro de outras associações pra associar com a gente, que acreditou na nossa postura de trabalho. (REPRESENTANTE DA ASTRAS)

Nesse depoimento, identificamos alguns elementos cuja interpretação correta demanda a compreensão do contexto de surgimento de uma nova associação de catadores. Merece também atenção o fato de que, de 1971, ano em que a área começou a ser utilizada pela Prefeitura para a destinação final do lixo, até 1983, ano do primeiro estudo acadêmico realizado com os catadores, estudo esse desenvolvido por COSTA (1983), não ter havido qualquer movimento organizado de catadores. Somente em 1999, através do incentivo da URBANA para a formação da entidade que ficava responsável pelo parque de triagem, foi fundada a ASCAMAR. A evolução histórica denota que o surgimento das entidades de catadores sempre esteve condicionado ao apoio e incentivo da URBANA, ou seja, motivado por estímulos externos ao invés de movimentos surgidos na própria classe de catadores. Uma das propostas do projeto de erradicação dos lixões é o incentivo à criação de associações/cooperativas de catadores. Como a ASCAMAR agrega atualmente 45

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associados33, mais de 400 pessoas estavam impossibilitadas de participar da presente intervenção por não possuírem vínculo com nenhuma entidade. Neste sentido, para atender a uma exigência formal do referido projeto, a URBANA incentivou, no período de janeiro a junho de 2003, a formação de diversos grupos de catadores, medida de suporte para potencializar o engajamento dessas pessoas. Segundo informações de um dos representantes da Companhia, os catadores foram se distribuindo por afinidade, formando inicialmente quatro grandes grupos, cujo processo de organização evoluiu de tal forma que um grupo denominado inicialmente Pacceli absorveu os demais, dando origem à ASTRAS.

4.3.1 – A rivalidade de quem devia estar do mesmo lado

O surgimento da ASTRAS está atrelado à exigência para a participação no projeto. Formada pela aglomeração dos diversos grupos no Pacceli, a associação dá subsídios à ASTRAS para que ela se denomine como uma associação gerida e composta por verdadeiros catadores de resíduos do lixo, pessoas que realmente sobrevivem da atividade da catação. Na visão de seu representante:
A ASTRAS é feita numa base experimental com essa associação, que é uma associação nova. Ela vai ter um recurso dado pela URBANA, um recurso dado pela NOVORIO34, que é uma firma que tá vindo aqui pra Natal, e essa ajuda que a URBANA vai dar é totalmente uma ajuda que ela ta dando a nós, agentes reciclador. É digno, de pé no chão e a gente vamo chegar num método de não errar...

Com a expressão não errar subtende-se que a associação até então errou, e corre o risco de continuar errando. Durante os primeiros dias de observação da pesquisa de campo,

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Número referente a setembro de 2003, período de realização da pesquisa de campo.

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torna-se nítido o clima de hostilidade por parte dos representantes da ASTRAS, em relação aos da ASCAMAR. As respostas que procurávamos para a compreensão do contexto surgiram quando perguntamos o que levou à composição de uma associação, haja vista a ASCAMAR estar consolidada nos cinco anos de existência:
Essa pergunta é meio [parou um pouco e ficou sem respostas]...mas eu vou sair dessa pergunta. A ASCAMAR tem uma administração e o qual nós vamos ter uma administração feita por que até hoje eu não vi essa administração de 14 pessoas da ASCAMAR. Nós não estamos vendo a cara dessa associação ASCAMAR. (REPRESENTANTE DA ASTRAS)

A resposta confirmou as suposições preliminares de que a nova associação de catadores se processava para além de mera falta de condições da ASCAMAR, em aglomerar os mais de 400 catadores avulsos. Nesses depoimentos, apontamos elementos subjetivos, tais como desconfiança, inveja e ressentimento. No plano objetivo, o fato de apenas a ASCAMAR ter acesso ao parque de triagem dos resíduos sólidos dava-lhe condições de explorar economicamente a estrutura existente, diferentemente da associação de boca como diziam alguns catadores, pelo fato de a ASTRAS existir apenas formalmente, já que os associados continuavam a fazer a catação dos materiais recicláveis dentro do lixão, assim como os catadores avulsos. As impressões que tivemos com as respostas cedidas pelo membro gestor da ASTRAS nos aguçaram de tal forma que, mesmo fora do roteiro preestabelecido, intentamos a entrevista com o representante da ASCAMAR perguntando sua compreensão sobre o surgimento de outra associação de catadores na área do lixão:
(...) Essa dissidência [refere-se à ASTRAS], infelizmente, já são por grupo de pessoas que não são catadores, infelizmente a ASTRAS eles não, ela não

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Entidade privada carioca, com sede na cidade do Rio de Janeiro/RJ, que atua no ramo da reciclagem de resíduos sólidos.

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é organizada 100% de catadores. A sua diretoria é, boa parte, ou era deposeiro, ou é da comunidade de Cidade Nova. Tem gente que nunca pegou um gancho dentro do lixo, e infelizmente esse número de pessoas tiveram um certo apoio da Prefeitura que deu uma brecha para que eles se organizassem, e agora se apoderam desse estigma de catador pra poder montar uma associação. (REPRESENTANTE DA ASCAMAR)

No depoimento transparecem acusações que questionavam a representatividade dos gestores da ASTRAS. Afirmava-se que não eram catadores e sim donos de depósitos que compravam os materiais recicláveis dos catadores. O representante da ASCAMAR deixava claro que também não era simpático à ASTRAS, sobretudo pelo fato de ter partido da própria URBANA o incentivo à formação da nova associação. Notávamos o interesse dos membros gestores das duas entidades em difundir a própria associação, visando não somente à consolidação como entidade que pretende ser dominante, mas, e principalmente, com o intuito de desmoronar todo e qualquer argumento que viesse a ser utilizado pelo opositor no sentido de promover sua associação. Na pesquisa de campo, pudemos perceber que as farpas entre os gestores das duas associações eram distribuídas gratuitamente. Vivia-se, à época, a expectativa da chegada dos representantes da Fundação Zerbini35 para a discussão dos encaminhamentos preliminares do tão propalado projeto de erradicação do lixão. Paralelamente, a URBANA promovia reuniões com representantes das associações apresentando ações a serem promovidas e, principalmente, tentando apaziguar os ânimos mais exaltados. O episódio que norteou nossa reflexão a respeito dos condicionantes, que permeavam o cenário de guerrilha que se instalava na ocasião foi a reunião36 que marcou o primeiro encontro entre a equipe da Fundação Zerbini, URBANA e os catadores. Demos atenção ao

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A Fundação Zerbini é uma organização não governamental que trata do apoio social às camadas menos favorecidas da população brasileira. Maiores detalhes, acessar sítio eletrônico <www.fundacaozerbini.org.br>.

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comportamento das duas delegações de catadores associados, pois, enquanto a ASCAMAR foi representada pelo corpo gestor, formado de três pessoas, a ASTRAS mobilizou mais de quinze associados. Além dos dois grupos organizados, alguns poucos catadores avulsos, cerca de seis, também participaram do evento. Após as explicações iniciais dos técnicos da fundação quanto ao projeto a ser implementado, abriu-se espaço para a intervenção dos presentes. Sempre que um catador da ASTRAS se propunha a fazer alguma pergunta, havia palmas efusivas por parte dos associados. O mesmo não ocorria com os membros da ASCAMAR, vale ressaltar que o reduzido número de pessoas também era um fator que impedia tal atitude. O comportamento dos catadores da ASTRAS, que podia ser interpretado por observador externo como ato de unicidade de grupo, ecoou diante da presença dos representantes da URBANA, dos membros da Fundação Zerbini e mesmo da nossa como um gesto simbólico de declaração de guerra, estando em jogo os possíveis benefícios que o projeto apresentado podia proporcionar aos catadores.

4.3.2 – As armas utilizadas na “trincheira de guerra”

Uma vez declarada a guerra, cada oponente faz uso das suas armas para acertar o alvo, o opositor. Utilizando essa metáfora, podemos vislumbrar no extremo da trincheira, a ASCAMAR, que, referendada por sua consolidação como associação, utiliza seu poderio econômico como argumento mais importante. O fato de explorar a estrutura de triagem existente, trabalhando com um número adequado de catadores ao limite suportável dessa estrutura, faz dessa associação, ao menos no entendimento de seus representantes, uma associação racional do ponto de vista econômico.

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Agradecemos a URBANA, na pessoa do seu diretor presidente, que gentilmente nos permitiu a participação como ouvinte na reunião ocorrida no dia 18/09/2003 entre os técnicos da Fundação Zerbini., funcionários da URBANA envolvidos no

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Pretende-se justificar, através dessa racionalidade, a suposição de que os catadores estavam, como até então, representados de maneira satisfatória. Como uma associação séria, comprometida com os interesses dos catadores, a ASCAMAR, nas palavras de seu representante, “não promete mais do que é possível para o momento.” O diminuto número de associados é explicado pela reduzida capacidade da esteira já que, “infelizmente aqui na usina só cabe 45. Se coubesse 100, nós teríamos 100, se coubesse 300, nós teríamos 300 e assim por diante.” Existe, nesse argumento, forte apelo à sustentabilidade econômica dos associados, uma vez que a excessiva quantidade de catadores, para além da capacidade suportável da usina de triagem, reduzia a renda dos associados. Levando-se em conta que a renda auferida com a venda dos materiais recicláveis é dividida em partes iguais entre os associados, a restrição operacional da usina e o elevado contingente de associados faziam diminuir a proporção da renda distribuída para cada associado. Neste sentido, relata-nos o representante da ASCAMAR, cabia à URBANA a destinação de recursos necessários para a ampliação da estrutura de triagem, bem como o treinamento dos catadores para a atividade de catação. Somente assim a associação tinha condições de elevar o quadro de associados. Caso contrário, permanecia a mesma quantidade de associados. Em relação à ASTRAS, muito embora os gestores da ASCAMAR admitam não temer a nova associação e que a convivência se dava de maneira pacifica pois “(...) nós da ASCAMAR não interferimos e não vamos nos sobrepor a nada. Nós queremos trabalhar da nossa maneira, eles [refere-se à ASTRAS] trabalham da maneira deles”, percebemos que não se sentem à vontade com a presença de concorrente em potencial. Aliás, essa postura, em relação à outra associação e a concomitante luta por benefícios por parte de seus

projeto de remediação do lixão e catadores.

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representantes, tonifica o apelo ideológico perante o grupo, de preocupação com os rendimentos dos associados, isso porque o surgimento da ASTRAS pode significar a diminuição dos rendimentos dos associados da ASCAMAR, pelo fato de os materiais recicláveis, fruto da coleta seletiva, serem divididos entre as duas associações. Em outro front de batalha, encontra-se a ASTRAS, que utilizava o discurso da representatividade de classe como arma mortal. O argumento preponderante de seus dirigentes é o de que a associação é composta e gerenciada pelos e para os verdadeiros catadores, definidos por eles como pessoas com vários anos de vivência dentro do lixão, sobrevivendo do e no lixo. Nos diversos contatos que mantivemos com seus representantes, e sempre que nos era apresentado um associado, fazia-se menção em informar a quantidade de anos em que a pessoa sobrevivia da catação, além de ressaltar as condições subumanas da atividade. Reconhecendo a precariedade do trabalho e da vida dos associados, o representante da ASTRAS apelava fortemente para o assistencialismo, muito embora negassem constantemente essa postura. À pergunta sobre as ações realizadas junto ao um associado acidentado e/ou doente, foi respondido o seguinte:
De nós associado por intermédio do que eu nunca ouvi falar em associação que vai existir a cobertura totalmente, dizer essa daí é um dos planos que estamos elaborando pra que exista uma cobertura feita por fundos de associados que seja depositado do seu dinheiro mensalmente na associação. (REPRESENTANTE DA ASTRAS)

O entrevistado exigia, de imediato, que a URBANA liberasse o acesso ao parque de triagem durante a noite. Exigia também que a Companhia não medisse esforços na construção de outro parque de triagem, já que a ASCAMAR tinha sucateado os equipamentos com práticas inadequadas, como excesso de peso na esteira rolante da usina.

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No entendimento da ASTRAS, essas reivindicações em sendo atendidas, proporcionavam à grande maioria dos verdadeiros catadores, benefícios a que sempre tiveram direito pois a renda ia aumentar com o trabalho de triagem na usina, além da melhoria na qualidade do trabalho por não mais terem que catar lixo dentro do lixão. Priorizando o lado humano do catador, a ASTRAS não abre mão da qualificação especializada dos associados no trato com os resíduos sólidos, além de cursos de alfabetização. Cabe à URBANA promover cursos pois os catadores não suportavam conviver daquela forma, trabalhando de maneira equivocada, o que lhes limitava auferir toda a renda potencial do lixo, além de causar danos à saúde. Outro motivo de orgulho, que também servia de argumento, é o fato de a ASTRAS possuir um contingente de catadores cadastrados bastante superior ao da ASCAMAR. No entendimento de seu representante, uma verdadeira associação tem o dever de aglomerar o maior número possível de catadores pois “nós estamos quereno uma associação voltada pra Cidade Nova e Felipe Camarão, que é um bairro próximo ao nosso”. A postura de revolta da ASTRAS, em relação à ASCAMAR, realça o argumento de uma associação que, de fato e de direito, representa os interesses dos catadores. A alegação que sustenta essa revolta se baseia no cadastro de catadores realizado em 1999 para a reativação do parque de triagem dos resíduos. Cabe às pessoas que atualmente dirigem a ASCAMAR compor a lista com nomes de catadores que fariam parte da associação. Segundo os representantes da ASTRAS, o critério do tempo de serviço, na área do lixão, não foi respeitado, tendo sido cadastrado apenas parentes e amigos dos líderes da ASCAMAR. Em cenário marcado pela rivalidade37, a ASCAMAR se apresenta sob o signo do equilíbrio e da eficiência econômica, referendada pela larga experiência de mais de cinco

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Empregaremos esse termo por ser comumente usado pelos catadores. Porém, mesmo sendo palavras sinônimas conforme FERREIRA (1986), entendemos que o termo disputa define com mais propriedade a relação conflituosa existente entre os representastes das duas associações de catadores.

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anos, como a única associação de catadores. Já a ASTRAS permeia seus argumentos evidenciando a enorme massa de catadores cadastrados, muitos deles com mais de dez anos de sobrevivência dentro do lixão. Na disputa há, porém, um prejudicado, o catador que, estando no meio da guerra entre os representantes das duas associações, se torna alvo fácil das balas perdidas. Na prática significa dizer que o catador continua uma atividade intrinsecamente precaria e em condições subumanas. Nesse contexto, faz-se fundamental conhecer a postura de quem tem a incumbência de proporcionar qualidade de vida e justiça social para as pessoas, o poder público, neste caso, constituído no papel desempenhado pela URBANA.

4.4 – A postura da URBANA diante dos catadores Com índice de atendimento dos serviços de coleta do lixo por volta de 98%, no município de Natal, consta, no documento de apresentação da Sociedade de Economia Mista URBANA, criada à luz da Lei Municipal nº 2.659, de 28/08/1979, que a Companhia tem como finalidade especifica de:
Planejar, desenvolver, regulamentar, fiscalizar, executar, manter e operar os serviços de limpeza pública tais como: coleta de resíduos sólidos domiciliares, comerciais, resíduos de varrição de logradouros, capinação e limpeza de terrenos baldios, remoções especiais, limpeza do sistema de drenagem, limpeza das praias, limpeza de canteiros, pintura de meios-fios e operacionalização dos resíduos na área de destino final de Cidade Nova.

Do ponto de vista da legislação vigente, a URBANA está isenta de qualquer responsabilidade, no que se refere a ações de cunho social voltadas para pessoas que sobrevivem da catação e venda dos materiais recicláveis, na área do aterro controlado do bairro de Cidade Nova. Deste modo, toda e qualquer ação desta natureza a ser desenvolvida

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pela Companhia foge aos propósitos que nortearam sua criação, podendo ser considerada um desvio de função. No entanto, segundo seus representantes, as intervenções junto aos catadores ocorrem desde 197938. Devido à inexistência de setor interno responsável por montar trabalho concatenado junto aos catadores, supomos que as primeiras intervenções realizadas com aqueles sujeitos tenham sido informais, motivadas por sentimentos humanitários de alguns funcionários que conheciam o cotidiano das pessoas dentro do lixão. Foi-nos relatado que inicialmente os funcionários da URBANA se preocupavam com os possíveis riscos à saúde dos catadores pelo fato de estarem consumindo alimentos encontrados no lixo. Tentando evitar que essa prática se perpetuasse, manifestavam-se em intervenções informais de caráter educativo alertando os catadores para o risco iminente de contaminação através da ingestão dos alimentos. Com o passar dos anos, o olhar lançado aos catadores do lixão foi se focalizando sob outro referencial de observação. Vislumbrava-se a possibilidade de os catadores auferirem rendimentos suficientes à sobrevivência com a venda de materiais recicláveis coletados no lixo, não mais necessitando se alimentar dos restos de comida encontrados no lixão. Com a mudança na interpretação da realidade, a URBANA, nas palavras de seu REPRESENTANTE 02, ensejou “uma postura de trabalho...de sustentação deles [catadores] próprios”. Segundo nos conta um de seus representantes, a URBANA foi indiciada algumas vezes pelo Ministério Público, sendo punida judicialmente por dispor de maneira inadequada o lixo assim como pela existência de catadores da área do aterro. Pressionados pelo poder judiciário e cobrados por setores específicos da sociedade natalense, tais como ONG´s de viés ambientalistas, em janeiro de 2003, os técnicos da Companhia formularam um projeto com a intenção de resolver a problemática ambiental que se aviltava, em Natal, há bastante tempo.

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Esse projeto contemplava ações, no sentido de dispor adequadamente o lixo no destino final, além de organizar estratégias para o remanejamento dos catadores do lixão, já que havia a intenção de se desativar a área. O encontro entre os dois projetos, o elaborado pelos técnicos da URBANA e o Projeto Nacional de erradicação do lixão, deu-se no primeiro semestre de 2003, período em que o então recém Governo Lula lançou como uma de suas medidas iniciais na área de saneamento ambiental o referido projeto nacional. A proposta da Companhia, estando de acordo com os parâmetros do Projeto Nacional, fez de Natal uma das primeiras cidades brasileiras contempladas:
O poder constituído ele inova as políticas e tenta praticar e executar mas a sustentação delas é que vêm, eu não digo que o fracasso total, mas vêm a contribuir negativamente, isso porque não tem um prosseguimento, uma continuidade. (REPRESENTANTE 02 DA URBANA)

O representante da URBANA faz uma análise acerca do fracasso das intervenções realizadas anteriormente, na tentativa de se resolver a problemática ambiental e social do lixo. Segundo ele, a equivocada disposição final do lixo, em Natal, e a questão social que envolve os catadores do lixão deveram-se a dois fatores geralmente denunciados quando da ineficácia de programas públicos assistenciais: a escassez de verbas públicas para a concretização das diversas etapas dos projetos e a descontinuidade das ações iniciadas. Percebíamos, na pesquisa de campo, que os funcionários da URBANA nutriam expectativas bastante positivas quanto ao êxito do novo projeto. As discussões internas sobre a problemática davam conta de que, desta vez, o resultado final era diferente das quatro intervenções anteriores. Na visão deles, somente agora, na quinta intervenção desde 1979,

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Uma funcionária nos relatou que vários estudos sobre a situação dos catadores do lixão foram extraviados, restando apenas alguns poucos documentos em sua biblioteca particular.

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poder-se-ia vislumbrar um desfecho satisfatório, dado que esta intervenção é financiada e gerenciada pelo Governo Federal:
Sinceramente quando a gente depende somente do poder público [refere-se ao poder público municipal], a gente não pode se comprometer. Por experiência própria a gente sabe que o poder púbico não tem muito recurso pra bancar certos projetos, mas com o apoio dessa fundação [Fundação Zerbini] com certeza há proposta de futuro pra essas pessoas [catadores]. (REPRESENTANTE 01 DA URBANA)

Contudo os técnicos da URBANA sabiam que o sucesso da última intervenção estava condicionado à eliminação de fatores que podiam, em algum momento, dificultar a eficácia das ações a serem desenvolvidas. Identificamos dois fatores, a saber: a descredibilidade do catador quanto ao sucesso da nova empreitada; e a viril rivalidade entre os representantes das associações de catadores, ASCAMAR e ASTRAS.

4.4.1 – Em busca da credibilidade perdida

O histórico da URBANA marcado por promessas não cumpridas e intervenções fracassadas fazia nutrir nos catadores, principalmente associados da ASTRAS e os avulsos, sentimentos de descrédito e desconfiança em relação ao projeto de erradicação do lixão. Conforme discurso característico de grupos sociais de baixo poder aquisitivo que se encontram à margem da sociedade definida como formal, os vários depoimentos os catadores atribuíam a solução dos problemas ao acaso e/ou ao além:
(...) Eles [refere-se aos catadores] são pessoas muito desconfiadas, ao longo de 1979 até aqui, essa já é a quinta intervenção, e a gente vê que a cada intervenção os catadores já não confiam mais nos poderes públicos. Eles pensam que é mais um engodo. (REPRESENTANTE 02 DA URBANA)

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De fato, o episódio ocorrido, entre os anos de 1988 e 1989, marcou negativamente a imagem da URBANA perante os catadores do lixão. Em agosto de 1988, a Companhia inaugurou o parque de triagem de resíduos contendo, além da usina de triagem, baias para separação de resíduos, máquinas compactadoras para prensagem e enfardo dos materiais recicláveis e um depósito para armazenamento dos materiais enfardados. Na época, a URBANA admitiu, para o quadro funcional, os catadores avulsos do lixão para que desempenhassem função de garis. Aos recém-contratados coube a missão de gerenciar o parque de triagem. Identificamos alguns catadores que participaram daquela intervenção. Eles nos relataram que, seis meses após a iniciativa, todos os catadores-garis que haviam sido contratados foram sumariamente demitidos. O fato ocorreu logo após a senhora Wilma Maria de Faria ter assumido a Prefeitura de Natal, em primeiro de janeiro do ano de 1989. Esses catadores contaram que, no período, procuraram o sindicato dos garis para rever os direitos trabalhistas, não obtendo, no entanto, apoio por parte da entidade. Os catadores atribuem a inércia do sindicato ao clima de disputa que havia entre os garis de rua e eles, garis do parque de triagem pois, além dos salários, auferiam rendimentos extras devido a venda dos materiais que eram separados no parque de triagem. Apostando na possibilidade real de sucesso do atual projeto de erradicação do lixão, a URBANA tem buscado cercear o que ela entende como sendo o maior empecilho para a concretização do mesmo, a desconfiança dos catadores do lixão. Com esse intuito, a primeira ação direcionada aos catadores foi a tentativa de reconquistar a credibilidade perdida, utilizando como estratégia o discurso do comprometimento atrelado ao fato de o projeto pertencer ao Governo Federal.

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Nos relatos dos representantes, há forte apelo para mudança de postura dos catadores diante do novo cenário, que se apresenta uma vez que as propostas contidas no projeto foram de fato efetivadas:
(...) Então a questão de mobilização, de tentar mudar a concepção deles é justamente pra que eles não venham a ter problema com relação à extinção [refere-se a extinção do lixão de Cidade Nova]. Isso porque a descredibilidade de alguns em relação à extinção é muito grande, então a gente está justamente tentando de alguma forma mostrar pra eles que realmente o lixão vai ser extinto e que eles precisam mudar a forma de pensar. (REPRESENTANTE 01 DA URBANA)

Fomos diversas vezes e uma das vezes falamos com bastante categoria e já tínhamos a certeza de que já iria ser construído o novo aterro e dissemos a eles que eles deveriam se associar, se organizarem para fazer parte desse processo porque só organizado é que a gente iria fazer essa intervenção e eles teriam parte nesse contexto. Para vender esse “peixe” tivemos muita dificuldade. Mas eles acreditaram finalmente que era uma coisa séria, a gente sempre enfatizando que seria algo responsável, e eles foram se organizando. (REPRESENTANTE 02 DA URBANA)

O processo de convencimento dos catadores quanto à efetividade do projeto ocorre de forma intensa e vigorosa, deixando transparecer a intenção da URBANA de se colocar a favor dos interesses dos catadores. Além do apelo à mudança de concepção dos catadores diante do projeto, demonstra-se nítida preocupação com a questão de sobrevivência econômica das pessoas após a desativação do lixão. Sobre o entendimento da Companhia em relação à atividade da catação, o representante prontamente nos respondeu:
A URBANA está tentando essa postura de seis meses pra cá de justamente viabilizar a melhor forma de trabalho pra esse pessoal [catadores do aterro] já que o lixão vai ser extinto e com isso a gente teria um problema de questão social. Então a gente pensou em ver também o lado social dos

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catadores.(...) Então, a URBANA está muito preocupada também com a questão social e provavelmente ela já está resolvendo, já está em processo de trabalho junto ao social. (REPRESENTANTE 01 DA URBANA)

O interesse demonstrado nas intervenções anteriores que fracassaram, de criar condições de auto sustentabilidade econômica para os catadores, através da coleta e venda dos materiais recicláveis, ressurge. O REPRESENTANTE 02 conta que a intenção principal do projeto da Companhia, em janeiro de 2003, era “implantar um projeto que viesse a acolher aquela mão-de-obra [refere-se aos catadores avulsos] que eles já praticam mas que de acordo com a prática deles é uma prática indisciplinada, desorganizada”. Em suma, fazer com que os catadores aprendessem a trabalhar da forma correta para poder auferir maiores rendimentos com a atividade da catação de materiais recicláveis. Essa intenção coaduna com a visão de outro funcionário da URBANA de que “os catadores necessitam melhorar a sua forma de trabalho porque eles trabalham de forma desorganizada. Ele precisa ter um estilo diferenciado de trabalhar, ele não deve ser mais aquele troglodita que o caminhão chega e ele corre, na nossa opinião”. Parece haver consenso de que a atividade de catação realizada principalmente pelos catadores avulsos não está sendo executada de maneira eficaz, a ponto de se explorar todas as potencialidades oferecidas pelo trabalho no lixão. Assim, reafirmando a postura de defesa dos interesses dos catadores e também por ser um dos objetivos do projeto de erradicação do lixão, a URBANA passou a incentivar a formação de entidades de representação de catadores, através do cadastramento, como podemos observar no depoimento do seu

REPRESENTANTE 02:
Paralelamente a esse cadastro estávamos implantando as ações do projeto e em especial a ocupação e o aumento da renda deles porque eles não se interessam em sair daquela atividade que é lucrativa e oferece subsistência

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imediata, você cata, você tem o dinheiro imediato e eles não se interessariam se não fosse uma coisa concreta.

Novamente o aumento dos rendimentos dos catadores é colocado como questão primordial. Porém condiciona-se esse aumento ao trabalho realizado de maneira organizada. Por isso a URBANA está conscientizando os catadores para que percebam que estão trabalhando de maneira equivocada, devendo, assim, buscar fazê-lo de maneira correta. O outro entrevistado da URBANA expõe a dificuldade de se tentar convencer os catadores de que aceitem trabalhar de maneira cooperativa, evitando a disputa entre eles:
A URBANA assumiu desde o início do ano [2003] a postura de organizar eles [os catadores] em grupos, tentar organizar porque é muito difícil realizar esse tipo de trabalho com pessoas que ficam tão à margem da sociedade, por natureza porque eles estão assim numa área de duna que está sendo utilizada como lixão e fica até distante do movimento, do dia-adia da cidade. (REPRESENTANTE 01 DA URBANA)

Desde a concepção do projeto, em janeiro de 2003, a Companhia entende que os catadores, organizados em cooperativas tinham melhores condições de elevar os rendimentos. O argumento que sustentava esse ponto de vista é o de que os catadores congregados em entidades cujo objetivo é a defesa dos interesses da categoria, procuram realizar o trabalho de maneira harmoniosa, somando os lucros da produção ao invés de dividi-los como vêm fazendo atualmente. Entretanto o incentivo na formação de diferentes grupos, dos quais surgiu a ASTRAS, fez eclodir um fato novo que podia por em risco a concretização do projeto de erradicação do lixão. Trata-se da rivalidade entre as duas associações de catadores, ASCAMAR e ASTRAS, externada no conflito entre representantes. À URBANA, resta esse elemento novo que pode por em risco a concretude da atual intervenção.

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4.4.2 – Administrando conflitos

O marco importante para a contextualização dos acontecimentos é a compreensão de como se estabeleceu a rivalidade entre as duas associações. Foi a partir de então que a URBANA passou a desempenhar o papel de administrador da cisma. Através da análise do conteúdo relatado por seus representantes, assim como os procedimentos adotados para a resolução dos conflitos, percebemos a real postura da Companhia quanto à questão social que envolve os catadores do lixão. No nosso entendimento, ao longo da história, a postura da URBANA, no que tange aos catadores do lixão, é permeada por ações paliativas e sem efetividade prática. Destacamos negativamente a intervenção, nos anos de 1988 e 1989, que dadas as características, denota ter sido de caráter político-eleitoreiro. Some-se a isso que todas as quatro intervenções foram permeadas por descontinuidades das ações propostas, conforme entrevistados. O surgimento do fato novo, a disputa acirrada entre as duas associações, tornou-se um empecilho e ameaça à concretização das ações da intervenção junto aos catadores. Assim, para a URBANA, os conflitos devem ser sanados o mais brevemente possível, uma vez que, além de não beneficiar nenhuma das associações, dificulta o andamento dos trabalhos do projeto. À Companhia, cabe a missão de tentar contornar as várias situações conflituosas que vêm ocorrendo quase que diariamente, das quais destacamos os apelativos ataques pessoais lançados entre os representantes das associações de catadores. Foi-nos relatado que o interesse inicial da URBANA era montar vários pequenos grupos de catadores. Contudo essa intenção não obteve êxito, dado que apenas a ASTRAS se apresentou como associação de catadores. Supomos que o interesse inicial tinha como finalidade evitar que houvesse algum tipo de rivalidade entre as associações. Além disso, objetivava garantir que, havendo atrito, fossem mais fáceis os problemas das entidades de catadores.

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Não podemos deixar de supor também que para a URBANA era mais fácil impor-se diante de várias associações de pequenos grupos de catadores. Pulverizada a representação dos catadores, cada uma delas contava com poucos associados, o que facilitava as negociações. Todavia a pulverização não se concretizou:
(...) Queríamos no início que fossem diversos grupos formados, não tão grande como foi essa da ASTRAS, porque a ASTRAS aglutinou a grande maioria dos catadores mais experientes, alguns que já trabalharam aqui na URBANA, lá na usina. (REPRESENTANTE 02 DA URBANA)

Para a URBANA, o clima de rivalidade entre as associações era motivado pelos representantes da ASTRAS, que percebiam a ASCAMAR como a única entidade de catadores reconhecida e legitimada. Dessa forma, na tentativa de obter o reconhecimento perante a Companhia, os representantes da ASTRAS utilizavam práticas conflituosas:
Você sentiu que existe uma divergência, ou melhor, um antagonismo entre eles [refere-se aos representantes da ASTRAS] (...) Eles ainda não entenderam que a ASCAMAR já está formada com uma experiência imensa. (REPRESENTANTE 02 DA URBANA)

Na pesquisa, em incursões ao campo, observamos que era evidente a preferência dos representantes da URBANA pela postura participativa dos gestores da ASCAMAR, em relação à atitude contestatória da ASTRAS. As reuniões aconteciam, na maioria, com os membros da ASTRAS, já que entre a ASCAMAR e a Companhia não havia problemas. Alguns elementos do discurso da ASCAMAR, para sobressair diante da URBANA, em relação à ASTRAS, surgem nos depoimentos dos representantes públicos. Um deles baseia-se na experiência adquirida ao longo dos anos, motivo pelo qual esta associação chegou a se firmar como soberana. Para a Companhia, os mais de cinco anos de organização

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em forma de associação deram o know-how com o lixo, por isso o parque de triagem devia continuar sendo gerenciado pela ASCAMAR. O argumento não parece coerente, se a ASTRAS também se encontra organizada pois é provável que seus membros adquiram a propalada experiência de trabalho no decorrer do tempo. A nosso ver, a URBANA devia acatar a justa reivindicação dos representantes da ASTRAS no sentido de poder explorar o parque de triagem dos resíduos no período noturno. E, caso não existissem condições técnicas de funcionamento dos equipamentos mecânicos, à noite, dever-se-ia fazer o rodízio diário de exploração do parque visando contemplar não somente as associações, mas também os catadores avulsos que ainda não estão participando de nenhuma associação. Para o REPRESENTANTE 02 da URBANA, os catadores da ASTRAS “deveriam se espelhar nela [refere-se à ASCAMAR] para aprender”. A aparente intenção política conciliatória desse funcionário não condiz com a realidade. É pouco provável que os associados da ASTRAS pudessem aprender a manusear os equipamentos que compõem o parque de triagem apenas pela observação do trabalho dos associados da ASCAMAR, uma vez que não lhes é permitida a entrada à área para fins de exploração econômica. Ainda que lhes fosse dado o treinamento especifico para operar os equipamentos mecânicos, de nada adiantava pois, em nenhum momento, cogitou-se em ceder o parque de triagem à ASTRAS, tampouco investir na construção de outra estrutura. Esse mesmo representante admite que os gestores da ASTRAS “vêem a ASCAMAR não para aprender nem pra imitar o conhecimento mas no sentido de chocar, de intervir negativamente”. O que foi caracterizado como atitudes chocantes, de intervenção negativa, entendemos ser uma forma de reivindicação. Embora questionemos alguns posicionamentos assumidos e procedimentos aparentemente escusos do representante da ASTRAS, consideramos legítima sua postura contestatória. O exemplo que referenda nossa interpretação

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é o fato de ter a URBANA concedido apenas para a ASCAMAR a exploração do parque de triagem, atitude que implica explícito beneficiamento dessa associação em detrimento da ASTRAS. O posicionamento da URBANA, diante das associações, acaba por explicitar-se no relato do REPRESENTANTE 02, de que “a ASTRAS tem a ASCAMAR como um bicho papão, uma coisa que pode de repente estar na frente deles, que pode angariar todas as coisas e eles ficarem à margem. Eles têm essa preocupação que não é a verdadeira”. Embora o entrevistado admita que a intenção da Companhia é dar oportunidade às duas associações indistintamente, pensamos que a preocupação por parte da ASTRAS faz jus, haja vista serem visíveis os benefícios concedidos à ASCAMAR. E mais uma vez insistimos em relatar que a concessão do parque de triagem à ASCAMAR constitui expressão dessa vantagem.

4.4.3 – Beneficiando-se da desconfiança e rivalidade alheias

Vimos, em itens anteriores, que, para garantir a eficácia do projeto de erradicação do lixão, a URBANA tem buscado eliminar todos os possíveis entraves que, em algum momento, podem vir a ameaçar a concretização das ações. Na busca de solucionar um desses entraves, houve a tentativa de se conquistar a confiança e a credibilidade perdidas junto aos catadores, após os insucessos das intervenções anteriores. Também há o esforço de conter e mediar os conflitos oriundos da rivalidade entre os representantes da ASCAMAR e ASTRAS. Entretanto o que aparentemente é encarado como problemático toma outra conotação, se analisarmos sob a ótica da viabilidade do projeto, podendo minimizar sensivelmente a parcela de responsabilidade da URBANA, caso o resultado final da intervenção não obtenha o sucesso esperado. Agindo de maneira intencional ou de forma despercebida, a Companhia, estrategicamente, utiliza esses elementos a priori desfavoráveis,

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mantendo relação favorável com o descrédito dos catadores e a rivalidade das duas associações. A URBANA tem tentado seduzir a confiança e a credibilidade dos catadores mostrando-se a favor dos interesses desses sujeitos. Para tanto, não poupa esforços no sentido de convencer os catadores de que, desta vez, o final será diferente. O argumento é de que a intervenção, definida pelos representantes como um “trabalho grandioso”, possui como maior objetivo a melhoria das condições de vida dos catadores do lixão, em curto espaço de tempo. O fato de ter angariado o projeto do Governo Federal, incentivando a formação de outra associação e por estar sempre à disposição dos catadores para explicar qualquer possível dúvida que venha a surgir sobre as ações do projeto, dá subsídios à URBANA para se eximir de qualquer responsabilidade quanto ao resultado final dessa intervenção. Por conseguinte, o sucesso ou fracasso do trabalho grandioso depende exclusivamente dos catadores, no que se refere à sua postura diante do trabalho: se de maneira arredia, dificultando os encaminhamentos das ações; ou se colaborando integralmente:
Mas a nossa preocupação primeira é justamente mostrar pra esse catador autônomo de cima do lixão e pra esse catador que já estar se organizando [os associados] que eles realmente devem se unir no sistema de cooperativismo, porque a gente sabe que com relação à catação é melhor a gente ter um resultado de cooperativa e não de associações divididas. (REPRESENTANTE 01 DA URBANA)

Identificamos outro mal necessário, a rivalidade entre ASCAMAR e ASTRAS. Segundo os técnicos, a URBANA está se reunindo exaustivamente com os catadores, informando-lhes cada detalhe das ações a serem desenvolvidas. Todavia, de nada adiantam os esforços realizados, se os catadores, maiores interessados na melhoria das condições de trabalho e de vida no lixão, não chegarem a consenso:

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Estamos tentando fazer com que eles [os catadores] se aperceberem de que realmente eles têm que sair daquele estigma, status quo deles de individualismo. Para isso, estamos levando dinâmicas, informações, fazendo um pequeno treinamento introdutório, o que não é fácil remover aquele estigma que eles têm... então, a gente vê que precisamos fazer muito, mas isso é uma característica do catador. (REPRESENTANTE 02 DA URBANA)

Continuando a estratégia, no intuito de satisfazer aos interesses das associações ao mesmo tempo, a URBANA assume a postura de se comprometer com ambas, diferenciando o discurso para cada uma delas. Assim, com a ASCAMAR, firma-se o pacto da continuidade do status quo, garantindo que a estrutura de funcionamento do parque de triagem continua a mesma e que a associação não deve se preocupar com as mudanças em processo. Ou seja, afirma que a não há mudanças no que tange à estrutura organizacional do parque de triagem. Quando a conversa envolve os interesses da ASTRAS, a Companhia diz não medir esforços no sentido de defender o que os representantes comumente chamam direitos iguais para todos. Os associados dessa entidade têm a garantia de que são contemplados com todos os benefícios previstos no projeto e na mesma magnitude dos benefícios concedidos aos catadores da outra associação. As contradições que permeiam os interesses das duas associações fazem com que a política ambivalente adotada pela URBANA estimule, ainda mais, a disputa entre ambas. Comprometendo-se com a ASCAMAR em não mudar o funcionamento do parque de triagem, está provocando a ira dos associados da ASTRAS que consideram o fato como o favorecimento à concorrente. Por outro lado, afirmar a garantia de igualdade de direitos aos associados da ASTRAS, o que implica diminuição dos resíduos que podiam ser coletados pelos associados da ASCAMAR. Destarte, a aparente intenção conciliatória da URBANA, na fala do

REPRESENTANTE 02, de congregar os catadores de tal forma que eles “não fiquem muito

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dentro de si pois não querem se comunicar, não querem dar as mãos para se abrir naquele gesto de consolidação, de solidariedade...” pode ser interpretada, no mínimo, como intenção ingênua. Da maneira como os encaminhamentos estão se processando, parece incongruente e inatingível o congraçamento entre ASCAMAR e ASTRAS. Para a URBANA, tudo que podia ser feito para garantir os benefícios previstos está sendo feito. Pelo discurso, ou as duas associações de catadores cessam imediatamente a disputa para obter maiores e melhores benefícios com a implantação do projeto proposto; ou a eficácia do projeto está seriamente comprometida, devido à rivalidade não condizente com as intenções da URBANA para com os interesses dos catadores.

4.5 – A defesa dos interesses dos catadores Vimos que, sob o julgo da representatividade de classe dos catadores, os representantes da ASCAMAR e da ASTRAS se propõem a defender os interesses dos catadores associados. Nos depoimentos cedidos, uma das questões abordadas com maior freqüência diz respeito às condições de trabalho dos catadores, definida por ambos os entrevistados como subumanas. Tentamos, a partir desse momento, compreender como se processa a defesa dos interesses dos associados sob a ótica dos representantes das associações, relacionando aspectos relativos à economia e meio ambiente.

4.5.1 – O que é trabalho para o representante da ASCAMAR

O representante da ASCAMAR relatou-nos que inicialmente a intenção era montar uma cooperativa de catadores. Entretanto, em virtude do elevado custo das expensas cartoriais, a solução mais viável foi montar uma associação de catadores:
Quando a gente foi programar a organização dos catadores, a primeira intenção era que fosse uma cooperativa, mas só que como cooperativa, o

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custo seria muito alto. (...) Então eu fui dar uma lidinha e vi que montar uma associação era muito mais fácil. Onde a gente montaria um grupo de quinze a vinte catadores e elaborava o estatuto. (...) E foi instituído a ASCAMAR no dia 17/04/1999. (REPRESENTANTE DA ASCAMAR)

Tentando compreender o entendimento do entrevistado acerca do trabalho dos catadores associados, perguntamos quais as vantagens e desvantagens de se organizar um grupo como aquele, formado por catadores de materiais recicláveis, em uma associação. A princípio, ficamos chocados com a resposta inicial de que não havia qualquer vantagem se organizar o grupo de catadores em uma associação. Por outro lado, eram inúmeras as desvantagens de uma organização associativa, citando-as em seguida:
As desvantages que a gente encontra na associação é o sistema de organização, ele é muito frágil. Dado a ressocialização dos catadores, a gente não tem tanto poder de mando de organização, de cobrança, como seria em um sistema de cooperativa. Quer dizer, a responsabilidade deles, os associados, é muito menor quanto a associação, de que quanto a cooperativa. (...) Mas a gente espera que com o sistema de organização da cooperativa, qualquer problemática que a gente ainda tenha com alguns, por motivo fútil, ou não quer fazer o serviço que foi destinado a fazer, a gente vai elaborar um regimento interno que faça com que a punição para o catador que trabalha na usina seja mais severa, pra poder melhorar as condições de trabalho. (REPRESENTANTE DA ASCAMAR)

Se bem compreendemos, o fato de a ASCAMAR ser uma entidade organizada em regime associativo ocasiona dois aspectos negativos: um é o sentimento descomprometido do catador com a associação. Agindo de maneira irresponsável, ora trabalhando de forma desatenta, ora faltando ao trabalho, sem que houvesse justificativa aceitável, o catador põe em risco a produtividade do trabalho e a conseqüente renda dos catadores devido aos possíveis prejuízos causados por ele assumir essa postura frente à associação.

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O segundo aspecto negativo e não menos nocivo é a limitação do poder de mando dos gestores perante os demais membros do grupo. Impossibilitados legalmente de poder ditar ordens aos associados, não resta outra alternativa para os gestores senão contar com a colaboração dos catadores para que encarem a associação com a devida seriedade. As dificuldades do cargo de gerência fazem com que haja interesse explicito por parte do representante da ASCAMAR em modificar a estrutura organizacional vigente. Para esse gestor, sob o julgo de uma cooperativa, ocorriam duas mudanças fundamentais no que tange à organização dos catadores. A primeira é o desenvolvimento do senso de responsabilidade do catador para com a entidade, mais comprometido na cooperativa do que na associação. A segunda diz respeito à possibilidade de punição para o catador que viesse a descumprir com o regimento interno e/ou não se empenhasse, de maneira satisfatória, na execução das tarefas. Analisando pormenorizadamente o último parágrafo do depoimento, criticamos alguns aspectos mencionados por entendermos que há contradição quando confrontados com a realidade. Interpretando o que foi dito, se a ASCAMAR passasse de associação para cooperativa, as condições de trabalho dos catadores associados iam melhorar pois havia rígido regimento interno com a intenção de punir com severidade o catador que se tornasse problemático para o grupo. Em síntese, existia relação direta na qual a causa é a criação e posterior cumprimento do regimento interno de caráter punitivo; e o efeito da medida se estabelecia na melhoria das condições de trabalho dos catadores da cooperativa. Dito isso, vejamos até que ponto os argumentos da relação causa-efeito podem ser aceitos! Em nossa percepção, caso a ASCAMAR viesse a se tornar uma cooperativa, essa modificação não surtia qualquer efeito prático para as condições de trabalho dos catadores, já que as tarefas executadas não sofriam qualquer mudança significativa. Torna-se óbvio imaginar que a situação do catador frente ao trabalho permanece a mesma, sem melhorias,

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tampouco pioras. É factual que as condições de trabalho em atividade qualquer tende a melhorar, à medida que as tarefas executadas priorizam o fator humano, respeitando as capacidades e necessidades individuais e coletivas. Respaldado na teoria marxiana, afirmamos ser impensável a convivência harmoniosa entre o trabalho e o individuo. O fato de estarmos no bojo do modo de produção, como o capitalista, o qual se reproduz justamente através da expropriação do trabalho alheio, impede a conciliação entre trabalho e capital, que, por origem, são categorias antagônicas. Retomando a discussão da questão da punição no trabalho, a história da humanidade demonstra fartamente que jamais houve exemplo no qual a punição engendrasse a melhoria das condições de trabalho, em qualquer modo de produção. Se a relação fosse verdadeira, por exemplo, o trabalho escravo, nas sociedades escravocratas, tinha sido realizado em condições satisfatórias. Para RIBEIRO (1995), os castigos pedagógicos aplicados semanalmente aos escravos dos engenhos do Brasil Colônia não responderam aos objetivos propostos já que, mesmo assim, os negros fugiam das senzalas. Na metáfora do autor, os açoites e os castigos impostos aos escravos constituíam mais moinhos de gastar gente (op. cit.: 106) do que tornar os escravos dóceis. Nas sociedades contemporâneas, cresce o interesse, principalmente no meio acadêmico39, em se investigar o estresse sofrido pelos trabalhadores, motivado por pressões no trabalho e as conseqüentes punições. As punições impostas atuam de maneira contrária ao que pensa o representante da ASCAMAR dado que, ao invés de fazer com que o trabalhador eleve a produtividade, amedronta-o e faz precárias ainda mais as condições de trabalho. É evidente que o termo punição empregado pelo representante da ASCAMAR não significa castigar fisicamente os catadores associados, proposição absolutamente

inimaginável. No entanto, o termo pressupõe que, caso a associação venha a se tornar uma

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cooperativa, a gerência pretende comandar os catadores com bastante rigor, típico de corporação empresarial que objetiva a produtividade do trabalho tendo como conseqüência os elevados níveis de estresse dos funcionários. Existe o interesse explicito por parte da ASCAMAR em elevar a produtividade do trabalho dos associados, haja vista que o rendimento da associação está condicionado à venda dos materiais separados na esteira da usina de triagem. Respaldado na lógica de funcionamento da associação, como organizada atualmente, não há qualquer contradição quanto à pretensão. Inclusive, quando as duas associações convergem no sentido de que devia existir, em Natal, coleta seletiva eficaz, está implícita a idéia de que a quantidade de materiais recicláveis passíveis de serem coletados aumenta substancialmente, o que implica aumento da renda dos catadores. Visando manter a produtividade do trabalho dos catadores associados em patamar elevado, foi-nos relatado que uma das estratégias adotadas pela ASCAMAR é a de não mais recrutar mulheres para a associação. Por entender que o tipo de trabalho, na usina de triagem demanda excessiva força física e por considerar pouco provável que a mulher execute de maneira satisfatória as mesmas tarefas do homem, os gestores da ASCAMAR limitaram a quantidade de mulheres ao patamar de 30%, impedindo a entrada de novas associadas:
Hoje você pode ver que nós temos mais mulheres na esteira do que homem, no quantitativo. A gente deu uma parada porque tem muito serviço braçal e as vezes os meninos que trabalham nos carrinhos e que trabalham na caçamba não podem vir, ou por algum problema foram suspensos, a gente não pode colocar uma mulher no lugar deles. Agora a gente parou, a gente não recebe mais mulheres. Se tiver algum catador saindo dessa estrutura, a gente vai colocar homem porque a gente já tá com a cota de mais de 30% de mulheres na usina, e a problemática é que o serviço da usina é muito pesado, é empurrar carrinho, puxar lixo na caçamba, carregar peso, aí fica

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Ver MOURA (2003).

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mais difícil. Então, é por isso que a gente adotou que agora a média vai ser essa de 30% e não extrapolar o percentual de mulheres.

(REPRESENTANTE DA ASCAMAR)

Observamos que as tarefas dos associados da ASCAMAR, no parque de triagem, realmente requeriam o uso intensivo de força física. Também constatamos que, ao menos aparentemente, os catadores e catadoras eram indivíduos subnutridos, haja vista a reduzida estatura corpórea. Baseando-se em observações preliminares, trabalho realizado com uso de força física e indivíduos subnutridos para executar as tarefas, podíamos supor que o homem estava mais capacitado fisicamente do que a mulher, no traquejo das atividades demandadas pelo trabalho. Fazendo uma reflexão, imaginamos ser este o entendimento do representante da ASCAMAR, no que se refere à maneira como o trabalho é organizado no parque de triagem dos resíduos sólidos. Se estivermos corretos na análise e levando em conta que a produtividade do trabalho, visando ao aumento dos rendimentos dos catadores é pano de fundo da questão, há certa coerência em se limitar a entrada de mulheres na associação. Todavia, mesmo admitindo a hipótese de que o entrevistado forneceu as informações apoiado em vasta experiência acumulada, ao longo dos mais de cinco anos de existência da ASCAMAR, passamos a discordar de alguns dos aspectos supracitados por considerarmos incoerentes, quando os confrontamos com as observações da pesquisa de campo. Existem outros aspectos que, citados despretensiosamente, podiam ensejar discriminação ao trabalho feminino, senão vejamos! A primeira incoerência se refere à quantidade de mulheres na usina no dia da realização da entrevista. Embora relatado que, naquele dia a quantidade de catadoras superava a de catadores, verificamos que havia apenas quatro mulheres para o universo de quatorze

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catadores ao longo da esteira mecânica, ou seja, 29%. O percentual, ao menos em termos de quantificação estatística, não pode ser considerado, sob qualquer hipótese, maioria. Contestamos também a afirmativa de que o trabalho na usina deve ser realizado majoritariamente por homens, por entendermos que não é o uso da força física em si, mas a maneira como o trabalho é organizado que determina maior ou menor quantidade de força na execução das tarefas. Observando o funcionamento da usina de triagem, tivemos a impressão de que algumas tarefas dos catadores podiam ser reordenadas de tal forma a privilegiar o encaminhamento da atividade em detrimento do uso da força física. Se assim o fosse, muito provavelmente catadores e catadoras estavam em igualdade de condições para desempenhar quaisquer atividades. Outro aspecto que merece ser discutido trata da capacidade física do homem de carregar peso como pré-requisito para a escolha de novos associados. Agindo dessa maneira, a ASCAMAR adota critério de seleção diferente do que havia acertado com a URBANA para ter acesso à exploração econômica do parque de triagem dos resíduos sólidos. Segundo relatos dos catadores avulsos e associados da ASTRAS, o critério para selecionar os catadores anteriormente combinado entre ASCAMAR e URBANA é outro: o que se pautava, no tempo de trabalho do catador ou catadora na área do lixão, de tal modo que os catadores mais antigos, na área, tinham prioridade em participar na associação. Os catadores também acusam a ASCAMAR de ser formada por familiares e amigos dos representantes. Não sabemos até onde considerar essa informação, no entanto, nas observações, vimos que vários associados mantinham algum grau de parentesco com os gestores da associação. Se nossa observação estiver correta, temos exemplos de nepotismo. Nesse contexto, limitar em 30% a quantidade de mulheres, nos quadros da ASCAMAR pode ser interpretado como discriminação ao trabalho feminino, haja vista não tratar-se de divisão de tarefas entre catador e catadora, o que a teoria econômica

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apropriadamente denomina divisão sexual do trabalho. Para a mulher catadora, com anos de sobrevivência no lixão, essa limitação significa a castração de direito adquirido no momento do acordo firmado entre ASCAMAR e URBANA, para que a associação tivesse o monopólio sobre a estrutura de triagem que, na realidade, pertence à Prefeitura do Natal. Por fim, vale o registro que a mesma prática discriminatória, em virtude da masculinização da catação dos catadores avulsos de cima do lixão, tem se repetido na ASCAMAR. Pensamos que, se a associação tenciona agregar os catadores visando defender a categoria, não devia fazer distinção por sexo para aceitar os integrantes. Analisando a questão, temos que não seria interessante para a mulher ter os mesmos direitos que os homens catadores, todavia, o quadro que apresenta demonstra a opressão ao gênero feminino. Por vários motivos que temos apresentado ao longo do texto, posicionamonos contrário a atividade da catação, no entanto, somo menos favoráveis ainda a discriminação da mulher nessa atividade já tão precária. Some-se a isso que a variável produtividade não podia sobrepor aos interesses coletivos de participação dos associados da entidade.

4.5.2 – A ASTRAS e suas palavras carregadas de significados

Conforme comentado anteriormente, o discurso do representante da ASTRAS para os catadores visando angariar a representatividade da classe, tem se notabilizado pela defesa dos interesses da categoria, vez que a associação é formada por verdadeiros catadores. Definindo-se como entidade social, percebe a relevância da associação para a sociedade natalense pregando o seguinte discurso:
Esse trabalho na coleta ele tá sendo participativo com a URBANA, com entrevistas nos hotéis. Agora a porta-a-porta [tipo de coleta seletiva] a URBANA está se ingressando de ir na casa das pessoa, com entrevistas

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sobre a coleta seletiva, e totalmente tá tendo a minha participação porque eu tô sempre pedindo pras pessoas adotar a coleta seletiva.

(REPRESENTANTE DA ASTRAS)

O trecho pressupõe que a ASTRAS, além dos interesses imediatos, a defesa dos interesses dos associados, está consciente quanto à responsabilidade perante a sociedade natalense, no sentido da melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, entendendo que, para isso, a preservação do meio ambiente se constitui no fator primordial. Desse modo, a associação coloca-se à disposição da URBANA, não medindo esforços em auxiliar a Companhia para que o projeto de erradicação do lixão de Natal seja de fato implantado. De fato, nas conversas informais que mantivemos, com este sujeito, estava presente o apelo à sensibilização e conscientização ambiental dos moradores do entorno da área do lixão. Contudo tal postura, diante da temática ambiental, restringia-se à separação dos materiais recicláveis do lixo doméstico, que, segundo o representante da associação, devia ser realizada inicialmente pela própria população, pré-ciclando os resíduos. Embora haja apelo ambiental, este ocorre de maneira parcial pois, em nenhum momento foi comentado o destino final do lixo orgânico, composto basicamente de restos de alimentos. Conforme a literatura sobre a temática ambiental, CALDERONI (2003) e PEREIRA NETO (1996), dentre outros, mais de 60% dos resíduos produzidos pela população de baixa renda, como a das adjacências do lixão, são lixo orgânico, o que sugere que as ações políticas ambientais, nessas populações, deviam ser voltadas primeiramente para a minimização desse resíduo. Neste sentido, entendemos que a preocupação com o meio ambiente não deva ser restrita à separação de materiais recicláveis pela população, haja vista que o lixo orgânico, restos de alimentos é tão poluente quanto plásticos, papeis, metais, etc. A nosso ver, a fala do representante da ASTRAS se presta mais ao aumento da quantidade de materiais recicláveis,

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o que eleva a renda dos catadores associados, do que propriamente à defesa das causas ambientais. Perguntado sobre as perspectivas da atividade da catação com a construção do aterro sanitário de Natal e a implementação da coleta seletiva na cidade, o representante da ASTRAS está convicto de que a quantidade de materiais reciclados aumenta na mesma proporção da efetividade da coleta seletiva, afirmando:
Não queremo expulsar nenhum daqui de dentro [refere-se aos catadores do lixão], queremo que todos fiquem porque o que vai pro aterro é depois que a mercadoria é tirada, o reciclado é tirado de todo o lixão, a mercadoria todinha que se chama o reciclado, que passa a ser o reciclador. Essa mercadoria vai ficar todinha, quer dizer que não deve ser bulido na renda de Cidade Nova e Felipe Camarão. A situação deve melhorar se o reciclado ficou aqui que é que gera a renda, não existe mudança nenhuma.

Tentando explicitar o que acarreta para os catadores, a implantação do projeto da Fundação Zerbini, o representante da ASTRAS exprime o desejo de que haja aumento nos rendimentos dos catadores com a erradicação do lixão pois, conforme demonstramos anteriormente, a área do lixão é utilizada como unidade de transbordo dos materiais recicláveis coletados seletivamente nos bairros da cidade. Logo, as perspectivas são animadoras quanto à reestruturação do lixão. Confrontando os resultados obtidos em face das perguntas, identificamos alguns contra-sensos entre a postura declaradamente ambientalista do representante da ASTRAS e seu entendimento sobre a dinâmica da atividade da catação dos resíduos do lixo. Tentando desvelar a imbricada relação feita pelo gestor da ASTRAS, entre meio ambiente e economia, tecemos a seguir, algumas análises dessa relação. No item que versa sobre a contextualização da temática ambiental, na qual destacamos as implicações que envolvem a produção do lixo, na sociedade, discutimos que,

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do ponto de vista técnico-ambiental, a reciclagem dos resíduos sólidos é indicada quando esgotadas as possibilidades de redução e/ou reutilização do lixo. A reciclagem constitui uma prática ambientalmente satisfatória, haja vista os vários motivos citados. Além de ser uma atividade econômica, fomentadora de investimentos no setor industrial, gera ocupação e renda para os catadores de lixo. A catação dos resíduos sólidos é uma ocupação econômica, essencialmente precária, no que tange ao trabalho dos catadores. Tida como atividade informal, a catação é realizada em péssimas condições de trabalho, o que submete os catadores ao contato direto com o lixo. Somem-se a isso os possíveis traumas psicológicos devido à discriminação social das pessoas que sobrevivem dessa atividade. Estávamos sendo parciais, se afirmássemos que é interesse da ASTRAS que os catadores continuem trabalhando em condições subumanas e que a exploração do trabalho se acentue. Quando entrevistado pede que as pessoas façam a coleta seletiva nas residências, está vislumbrando o aumento nos rendimentos dos catadores, pois há mais materiais recicláveis a ser comercializado. Agindo desta maneira, o represente da associação está coerente com o pensamento inicial, ou seja, gerar renda para seus associados da ASTRAS. No entanto, aproximando nossas especulações teóricas da realidade natalense, temos que, conscientemente ou não, quem faz apologia à coleta seletiva para posterior reciclagem dos resíduos sólidos, está contribuindo fortemente para a acentuação da expropriação do trabalho dos catadores. Sendo assim, a coleta seletiva implica contribuir para a perpetuação do quadro precário do catador. Tem-se outra fala carregada de significados quando o entrevistado comenta a organização do trabalho que pretende implantar a partir do momento de funcionamento da associação. Neste comentário, o representante da ASTRAS é enfático em afirmar que a sua administração “será e deverá ser caracterizada pelo rigor”. Explorando um pouco mais o

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significado do termo rigor, ele nos relatou que, na sua concepção, os catadores associados devem trabalhar sério, “a começar por não mais se chamarem por apelidos e sim pelo próprio nome de batismo”. É nosso entendimento que no termo rigor, há alguns significados. O primeiro, explicitamente perceptível, refere-se ao senso de profissionalismo que o representante da ASTRAS deseja entre os associados, a começar pelo tratamento pessoal. Descobrimos posteriormente que, mais do que uma maneira de organização do trabalho dos catadores, a intenção no profissionalismo alimenta a rivalidade com a ASCAMAR por ser uma fonte de crítica à gestão da associação concorrente. Outra interpretação se relaciona à firmeza com que as decisões são tomadas pela gerência. Embora o significado não esteja claro, tivemos a impressão de que, na fala do representante, ecoava certo ar de prepotência ao se referir ao cargo na ASTRAS. A nosso ver, esse gestor se considera o único capaz de conduzir a associação, dado que realmente tem a compreensão da problemática do lixo em Natal, bem como da situação de extrema precariedade vivida pelos catadores do lixão. Se correta nossa intuição, o administrar com rigor pode significar, para o catador associado à ASTRAS, acatar as determinações da gerência, devendo ser excluído do grupo quando não se enquadrar ao trabalho da associação. Na prática, possível comportamento autoritário do representante não deve diferir da intenção do seu rival da ASCAMAR, de constituir uma cooperativa com rígido regimento interno de caráter punitivo para os membros que não se adequarem às ordenações propostas.

4.5.3 – À guisa de nossas análises

Tomando por base o embate entre os representantes das duas associações, algumas indagações se fazem necessárias. Partindo do referencial comum de que a catação de

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materiais recicláveis constitui atividade econômica lucrativa, não podemos dissociar a rivalidade entre os gestores da ASCAMAR e ASTRAS, da variável econômica, questão central da análise. Ainda mais, com a possibilidade real de financiamento do Governo Federal, através do projeto de erradicação do lixão que está sendo implantado na cidade de Natal. Mesmo reconhecendo a importância das lideranças das associações para a comunidade, grosso modo, a impressão inicial que temos é de que a luta pela representatividade assume conotação de caráter pessoal. No entanto, embora o interesse dos representantes das associações seja apresentar-se como entidade representativa dos catadores, os argumentos utilizados denotam estar em jogo a manutenção do poder econômico por parte da ASCAMAR; a sobreposição econômica da ASTRAS em relação à concorrente. Pela teoria, entendemos que a rivalidade entre os dois representantes das entidades de catadores é algo nocivo para os ideais da categoria. MARX & ENGELS (1981:26), ao discorrerem sobre a precariedade nas condições de trabalho dos operários ingleses do século XIX, admitem que os trabalhadores, para reverter a situação, “deveriam se unir em sindicatos contra os burgueses; fundar associações permanentes para eventuais choques”. Assim. a postura conflituosa ensejada pelos representantes da ASCAMAR e ASTRAS, por mais que possa angariar benefícios, de parte a parte, conduz impreterivelmente ao enfraquecimento dos ideais dos catadores. Os gestores não estão percebendo que, com a disputa, a solução para a problemática dos catadores de lixo vai se tornando algo cada vez mais distante. Nesse sentido, perde relevância a acusação do representante da ASTRAS de que a ASCAMAR teve mais de cinco anos para abordar, de maneira satisfatória, a problemática dos catadores do lixão, não fazendo por que sempre estiveram preocupados com os interesses particulares. Da mesma maneira, os interesses de gestores da ASTRAS, em alguns momentos, não devem se sobrepor ao ideal coletivo da associação.

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Possível explicação para o atual contexto que permeia a relação conflituosa entre esses sujeitos talvez seja a forma como as duas entidades surgiram. A ASCAMAR e a ASTRAS foram fundadas com o incentivo dado URBANA, o que não as enquadra como movimentos sociais de classe. Elementos, como a excessiva valorização do quotidiano, amplamente difundida pelos representantes, enfraquecem o ideal do movimento que, em tese, devia ser a luta contra o sistema que o fez surgir. Neste sentido, concordamos com SANTOS (1995:261) ao afirmar que os movimentos sociais são locais de tempo e espaço, “a fixação momentânea da globalização da luta é também uma fixação localizada e é por isso que o quotidiano deixa de ser uma fase menor ou hábito descartável para passar a ser o campo privilegiado de luta por um mundo e uma vida melhores”. Em relação à URBANA, tem atribuído a si o papel de contornar a rivalidade entre os representantes das associações. Agindo dessa forma, a Companhia ganha tempo para enfrentar a problemática social que envolve os catadores do lixão, haja vista que, no momento, é praticamente impossível qualquer ação governamental. Em síntese, a URBANA encontra-se em posição favorável, eximindo-se da responsabilidade de possível fracasso do projeto de erradicação do lixão. O argumento é que se os próprios catadores, maiores interessados pelo sucesso da intervenção, que deviam atuar coletivamente, em função do objetivo comum, digladiam entre si, como a Companhia pode efetivar as ações do projeto sem a colaboração das duas entidades. Outro ponto que merece destaque, na análise, é a coleta seletiva, que, nesse momento, outubro de 2004, está sendo implantada em alguns bairros da cidade. Toda companhia de limpeza, pública, privada ou de economia mista, como a URBANA, tem a pretensão de desenvolver essa coleta. A modalidade de coleta é requerida por contemplar paralelamente duas questões primordiais quando se trata de lixo urbano: a vertente ambiental e a de cunho econômico.

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Em relação ao meio ambiente, a coleta seletiva reduz sensivelmente a quantidade de lixo que tem como destino final o novo aterro sanitário pois os materiais recicláveis serem desviados pelos catadores antes da coleta oficial. Levando-se em conta os elementos discutidos no capítulo I, a coleta seletiva e posterior reciclagem dos materiais previamente separados constituem em práticas ambientalmente corretas de manejo e disposição do lixo. Quanto à questão econômica, a coleta seletiva pode proporcionar, à URBANA, substancial redução nos custos com os serviços do lixo. A primeira redução evidencia-se no transporte, uma vez que a diminuição na quantidade de lixo coletado, nas ruas, implica menores custos de transporte do material, até o aterro sanitário, construído na cidade de Ceará-Mirim, a 25km de Natal. Outra substancial redução nos valores monetários da coleta seletiva refere-se aos serviços de tratamento do lixo. Em aterro sanitário, antes de acondicionado, em definitivo no meio ambiente, o lixo passa por processos técnicos visando poluir o mínimo possível o local de destinação final. Desse modo, na relação direta com a quantidade de lixo, os custos de operação diminuem. No que tange aos gastos com pessoal, a eficácia da coleta seletiva traz vantagens adicionais para a URBANA pois tira a responsabilidade no serviço de coleta. O lixo coletado pelos associados da ASCAMAR e ASTRAS reduz a quantidade de garis contratados pela Companhia. Para compreender a análise deveremos retomar a meta primordial do projeto de erradicação do lixão, ou seja, prover qualificação profissional para o catador visando formá-lo como profissional da reciclagem. Por essa meta, à medida que a coleta seletiva for obtendo sucesso e o catador das associações auferindo renda, na mesma proporção, a URBANA sai de cena, assumindo apenas o papel de gerenciador dos serviços de limpeza pública da cidade.

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Com isso, não estamos nos posicionando de forma contrária ao projeto de erradicação do lixão de Natal, tampouco à implementação da coleta seletiva. Particularmente, compartilhamos as práticas de coleta seletiva e reciclagem de resíduos desde que atendam às exigências técnico-ambientais de manejo do lixo, conforme a Agenda 21, documento ímpar no trato das questões ambientais do planeta (NOVAIS, 2000). Todavia é perceptível e factual que a utilização de entidades de catadores, na coleta, implica em uma forma velada de terceirização dos serviços. Além das vantagens da terceirização, como a diminuição dos custos de mão-de-obra para a empresa, no caso, há agravante que é a desnecessidade de se formalizar o contrato entre a URBANA e as associações envolvidas. Nestas condições, o empenho pelo sucesso da coleta seletiva, em Natal, está para além das questões ambientais. A nosso ver, implica a redução dos custos dos serviços do lixo para a URBANA, pela contratação das associações de catadores sem que haja a necessidade de contrato formal. Do ponto de vista da ressocialização dos catadores do lixão, conforme BURSZTYN & ARAÚJO (1997), ações como as desenvolvidas pela URBANA caracterizam-se por amenizar o problema social, em primeiro momento. Contudo, à medida da efetivação, as ações denotam o fenômeno da exclusão de excluídos. O fato de projetos, como o implantado em Natal, ser ação isolada desperta o interesse de migrantes, perambulantes de rua, enfim, de excluídos, de uma maneira geral, de reivindicarem participação por atenderem os mesmo critérios dos demais. A demanda crescente pela participação faz com que o órgão gestor crie barreiras à entrada, uma vez que o inchaço devido ao aumento de participantes põe em risco a sua continuidade. Assim, a principal ação do projeto, inclusão de populações excluídas, perde relevância já que os excluídos se tornam ameaça em potencial à efetividade do projeto.

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Pelo que podemos observar, não é intenção dos órgãos governamentais envolvidos na erradicação do lixão de Natal eliminar a catação. Pelo contrário, as ações desenvolvidas potencializam a demanda para a migração das pessoas de baixa renda e qualificação profissional para aquela atividade. Não é absurdo imaginar que o sucesso da coleta seletiva faz surgir atritos entre os catadores da ASCAMAR e ASTRAS, participantes do projeto, e os catadores de rua, pelo fato destes últimos exigirem participação, alegando estar há mais tempo catando lixo nas ruas da cidade. E o que é mais grave é que o argumento uma vez utilizado é convincente. Neste sentido, o que fazer, qualificar os catadores de rua e colocá-los à frente da coleta de lixo na cidade, ou promover a exclusão destes sujeitos. E quanto ao catador, em tese, responsável direto pelo que está acontecendo em Natal, no que se refere à limpeza da cidade? Vejamos! Alheio às disputas entre os representantes das duas associações, o catador do lixão, associado ou avulso, está preocupado em separar a maior quantidade possível de materiais recicláveis do lixo para poder vender e, com isso, realizar sua estratégia de sobrevivência. É evidente que o catador percebe que, de alguma forma, o seu entorno é modificado. Técnicos da Fundação Zerbini, funcionários da URBANA, conversas entre eles próprios, enfim, o contexto que se molda, tudo indica que há mudança significativa na vida desses sujeitos. Para o catador, a expectativa é de que as condições de trabalho e de vida sejam melhoradas em pouco tempo, tendo em vista a precariedade em que se encontram. Essas condições podem ser explicadas, em primeiro momento, pelo aumento da quantidade de materiais recicláveis, elevando a renda. Analisando a precária situação de trabalho e de vida dos catadores da forma como presenciamos, somos tentados a concordar com a reflexão de ESCOREL (2000) sobre a luta pela sobrevivência dos excluídos sociais modernos. Para a autora, “o fenômeno da exclusão

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releva tanto a distinção que há entre viver e sobreviver quanto o grau de dificuldade encontrados por uns e por outros para permanecerem vivos”, e, finalizando, “eis que surgem, então, pessoas que sobrevivem de teimosas” (p.: 145). O sentimento humanitário leva a crer que a intervenção da Fundação Zerbini e URBANA, junto aos catadores lixão, é algo imprescindível. Estando em cima do lixo, assim como os catadores, vimos a disputa pela coleta do melhor lixo. Pior, vimos a disputa entre catadores e animais pelo melhor lixo. Em dado momento, as cenas estarrecedoras causaram náuseas, não de nojo por estamos em cima de toneladas de lixo com sol a pino e fedentina insuportável, mas por vermos o tênue limite que separa, no momento, o homem, ser pensante, do animal irracional. Por outro lado, a inclinação teórica nos faz criticar o projeto de erradicação do lixão da forma como está sendo montado. Assim, entendemos que seu sucesso está em banir a atividade da coleta de lixo. Infelizmente, na nossa concepção, a tendência dos fatos leva à situação contrária, com a institucionalização da coleta do lixo como ocupação e trabalho. Os defensores da formalização dessa atividade argumentam que o interesse parte dos próprios catadores, bastando para isso a leitura do documento do I Congresso latino americano de catadores e catadoras de material reciclável. Em Natal, uma rápida conversa com qualquer catador comprova a máxima de que, apesar dos percalços, o catador quer continuar catando lixo no lixão. É evidente que, com a institucionalização da profissão de catador de materiais recicláveis, os profissionais têm a legislação para referendá-los, o que implica dizer que a atividade sairá da informalidade. Há melhores condições de trabalho e eles estão propensos aos mesmos direitos trabalhistas dos profissionais de outras áreas. Em síntese, a formalização da atividade dos catadores proporciona-lhes benefícios. Entretanto legalizar a ocupação, que sequer devia existir pelo fato de pessoas sobreviverem da coleta dos restos da sociedade, é

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algo que, a nosso ver, demonstra a insuficiência do sistema econômico em incluir pessoas, o que referenda contradição pois necessita dessas pessoas para se reproduzir. Exibe também o fracasso das políticas públicas, em Natal, vez que, conforme pesquisa de COSTA (1983), no início da década de 1980, as pessoas sobreviviam da catação dos resíduos do lixo, pelos mesmos motivos que os catadores de hoje. E ainda existem catadores no lixão há mais de vinte anos, ou seja, passadas duas décadas do estudo inicial, a Prefeitura e o Governo do Estado não conseguiram resolver questões relativas ao êxodo rural de caráter expulsivo, à educação de qualidade extensiva a todos, assistência a populações em situação de risco, enfim, não foram capazes de compensar as distorções sociais, fruto do aumento da concentração e centralização de renda, em Natal e no Rio Grande do Norte. Por ingenuidade ou ignorância, os defensores da pseudocausa dos catadores não percebem que a atividade da catação foi a estratégia encontrada pelo catador para poder sobreviver minimamente. Sendo assim, a homologação dessa atividade torna-se, para o catador, fundamental. É pueril pensarmos que o catador do lixão anseie pelo fim dessa atividade, afinal, embora reconheça a dureza da ocupação, admite que pratica a coleta dos resíduos devido a falta de condição e/ou opção de trabalho em outro ramo. Outro fator considerado diz respeito à subjetividade da catação. Para o catador, o lixão é seu mundo, onde ele desenvolve as relações de convivência social. Logo, embora haja o estranhamento do catador com a atividade, aquele é o seu mundo, melhorá-lo é seu desejo premente. Não estamos com isso querendo dizer que, à luz da teoria utilizada nesta dissertação, temos a intenção de definir que caminhos os catadores do lixão de Natal devam seguir. Contudo viver do e no lixo não condiz com o homem, ser pensante, com capacidade de transformar a natureza ao seu belprazer. A atividade da catação nos moldes como está sendo efetuada pelos catadores do lixão confirma a tese desenvolvida por ESCOREL (2000:140-

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141), de que “a exclusão reduz os indivíduos à condição de animal laborans, cuja única atividade é a sua preservação biológica, e na qual estão impossibilitados do exercício pleno das potencialidades da condição humana”. À luz da utopia, fruto da nossa imaturidade teórica, pensamos que, no contexto no qual estão inseridos os catadores do lixão de Natal, somente através de ação libertadora, nos moldes da concebida por FREIRE (1987), é que esses sujeitos podem libertar-se das amarras do sistema opressor, excludente. A pedagogia dos homens viabiliza-se pela práxis que é a reflexão e ação dos homens sobre o mundo para transformá-lo. Dessa forma, conclui o autor, “a superação exige a inserção crítica dos oprimidos na realidade opressora, com que, objetivando-a, simultaneamente atuam sobre ela” (p.: 38). Entendemos que a maneira de superação do panorama dos catadores seja através da educação libertadora. O projeto de erradicação do lixão contempla ações, no sentido de dotar o catador das habilidades especificas para realizar a coleta seletiva nas ruas da cidade de Natal. Não tivemos acesso ao conteúdo programático a ser ministrado, todavia esperamos que o material seja permeado por elementos que despertem, nos catadores, o interesse pela visão crítica dos fatos. Que o curso de qualificação profissional, mais do que mero processo de transmissão de conhecimento, seja espaço caracterizado pela reflexão, constituindo-se em meio de emancipação.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Iniciamos a problematização deste estudo comentando o concurso público para o preenchimento das vagas de gari, na cidade do Rio de Janeiro, em meados de 2003. Sem fazer juízo de valor, no que tange a ocupação, no evento, demos atenção aos candidatos que pleiteavam o cargo pelo fato de possuírem as mais variadas qualificações profissionais. Se fizéssemos estudo investigativo sobre quais caminhos seguiram os candidatos reprovados naquele concurso, é provável que poucos tenham sido aprovados em outro concurso, público ou privado. Alguns devem estar trabalhando em empresas privadas. Outros, por pensarem que a qualificação profissional é a garantia de colocação no mercado de trabalho, voltaram aos bancos escolares, rumando para cursos de informática, língua estrangeira e/ou cursinhos preparatórios para o vestibular. Parcela significativa, que se encontram em situação crítica, não podendo ficar desempregada por muito tempo, utiliza, como estratégia de sobrevivência, a informalidade, tornando-se camelôs nas calçadas das cidades brasileiras, cobrador free lance de transporte alternativo, enfim, sobrevivendo dos diversos bicos. Os sem perspectivas de colocação, nos mercados formal e informal de trabalho, migraram para atividades ilícitas, como criminalidade, e a prostituição. Há também os que superaram a vergonha e o preconceito, passando a coletar materiais recicláveis do lixo nas ruas e/ou lixões públicos Por fim, muitos continuaram à peleja de um emprego, estando disponíveis para qualquer função porventura oferecida. Exemplos como os citados demonstram que a economia brasileira vem passando por um período de recessão, perdendo gradativamente, ao longo dos anos, a capacidade de gerar novos empregos. A situação não é privilégio brasileiro, haja vista que a nova divisão internacional do trabalho, imposta pelo capital com a ascensão do neoliberalismo, fez com o fenômeno do desemprego surgisse em todos os países, independente de serem desenvolvidos

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ou em desenvolvimento. A conseqüência é o aviltamento das disparidades entre ricos e pobres, com repercussão no brutal processo de empobrecimento da população mundial, fruto da concentração e centralização da renda. Neste ínterim, os novos pobres, vítimas de modelo econômico essencialmente excludente, utilizam, como estratégias de sobrevivência, as atividades informais. No mundo contemporâneo, praticamente inexistem barreiras à reprodução desse modelo, de tal forma que possíveis empecilhos legislativos estão sendo minimizados. Em vários países, as conquistas angariadas pela classe trabalhadora estão sendo suplantadas sumariamente, o que demonstra a voracidade da ganância capitalista na pilhagem da riqueza a seu favor. Paralelamente, o contexto de quase total submissão dos trabalhadores em relação ao capital comprova a letargia forçada por que vem passando o movimento sindical diante da realidade. O que tem chamado atenção é a capacidade de reprodução do modelo capitalista excludente, iniciando novo ciclo exploratório, após completado o ciclo anterior. Vale ressaltar que as determinações entre fim de um ciclo e início de outro não são estáticas, ou seja, um ciclo pode iniciar sem que o anterior tenha se esgotado. Tomando, por exemplo, a intervenção ao meio ambiente, a utilização irracional dos extratos ambientais, sem a preocupação com os limites naturais, consiste a forma brutal de apropriação privada indevida de algo coletivo, que é a biodiversidade natural. Na nossa concepção, o capital completa o primeiro ciclo exploratório ao usar a natureza à sua maneira, conforme interesses imediatos. No recorte teórico que demos, neste estudo, analisando a produção do lixo na sociedade capitalista, vimos que o volume estratosférico de lixo resulta do modelo de produção de descartáveis e consumo desmedido, não comprometidos com o meio ambiente. O lixo que podia ser interpretado como o fim do processo, toma outra conotação, à medida que,

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para o capital, o fim de um processo engendra o início de outro, através da reciclagem dos resíduos sólidos. Nesse momento, inicia-se o novo ciclo exploratório do capital, vale dizer, é através da reciclagem que o capital busca nova reprodução. Daqui para baixo Referendada por competente aporte teórico-empírico, é disseminada a importância da reciclagem como forma de se atenuar os danos ambientais causados pelo lixo produzido na sociedade contemporânea. Utiliza também um forte apelo econômico, demonstrando que a prática da reciclagem, além de proporcionar benefícios ambientais significativos, serve ainda como apêndice da economia por dinamizar toda a cadeia produtiva da indústria recicladora. Neste caso, é dada especial ênfase à geração de ocupação e renda para os desempregados. Em resumo, busca-se, através da correção do dano ambiental, minimizar as distorções econômicas como o desemprego. Nesta dissertação, tentamos vislumbrar como a reprodução do capital se processa no âmbito do ambientalismo econômico. Para tanto, investigamos a dinâmica expropriativa a que são submetidos os catadores de materiais recicláveis do aterro controlado da cidade de Natal. Conforme resultados, pensamos que o projeto de erradicação do lixão é de fundamental importância para Natal, que o lixo é lançado, a céu aberto, em terreno de duna, contendo importantes estratos vegetais e aqüífero subterrâneo. Logo, a correção ambiental da área, bem como a construção do aterro sanitário visando ao correto acondicionado final dos resíduos são ações satisfatórias e necessárias como estratégia de resolução da poluição ambiental proveniente da inadequada disposição final do lixo. No que tange à coleta seletiva implantada nos bairros de Natal, apoiamos a iniciativa por considerarmos ser importante passo na resolução da problemática discutida. Entretanto receamos que tal iniciativa privilegie o postulado econômico da redução dos custos operacionais da URBANA com os serviços do lixo, em detrimento da sensibilização e

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conscientização ambiental que a coleta seletiva potencialmente podia proporcionar à sociedade natalense. Quanto ao catador do lixão, a atual intervenção da URBANA e Fundação Zerbini faz-se imprescindível, haja vista a situação de extrema precariedade e miséria absoluta em que vivem esses sujeitos. De fato, a participação no projeto atenua sensivelmente as péssimas condições de trabalho dos catadores, a começar pela inexistência da catação em cima do lixo. Um ponto que pensamos ser importante mencionar refere-se à relação do catador com a área do lixão. Com a pesquisa de campo, percebemos que havia simbiose entre os catadores e aquela realidade. Assim, tivemos a impressão de que, com o fim do aterro, a teia de relações formadas entre os catadores tende a se desmoronar. Em relação aos rendimentos auferidos pelos catadores, as expectativas são positivas desde que a coleta seletiva seja consolidada na cidade. Todavia, uma vez que os associados da ASCAMAR e ASTRAS realizam a coleta do lixo, a situação configura-se como uma terceirização altamente lucrativa para a URBANA, já que não há qualquer contrato formal com os catadores. A efetividade da coleta dos catadores das associações certamente causará atritos com os funcionários da Companhia, da limpeza pública da cidade, os garis, pois o processo de terceirização implica diminuição dos quadros funcionais da empresa. Outro problema em potencial da continuidade do projeto diz respeito aos catadores de rua. Sendo a coleta seletiva feita pelos ex-catadores do lixão, os catadores de rua provavelmente se sentem incomodados, num primeiro momento, com a presença de outros catadores devido à concorrência com a coleta dos materiais recicláveis. Posteriormente, reivindicam participação no projeto por atenderem aos mesmos critérios dos demais catadores. A princípio, não há qualquer menção, na proposta, de debate do projeto que contemple a participação dos catadores de rua, o que consideramos grave equívoco. Espera-se que, com a nova roupagem dada a atividade da catação através pela qualificação profissional do catador, os catadores sejam aceitos pela sociedade, sendo vistos

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não como ameaça mas como sujeitos importantes para a manutenção da qualidade de vida na cidade. Ações dessa natureza são de difícil penetração, cabendo árduo esforço por parte dos órgãos públicos envolvidos em tentar reverter tal situação. Na nossa concepção, a ação não traz os resultados desejados pelo fato de apenas a URBANA se encarregar dessa missão. Sentimos falta, por exemplo, do envolvimento do setor educacional que podia dar grandes contribuições à forma como as pessoas percebem o meio ambiente, a começar pela discussão da educação ambiental como temática transversal nos currículos escolares. Pelas análises dos depoimentos dos representantes da ASCAMAR e ASTRAS, ficou claro que ambas funcionam com a lógica da lucratividade. Embora se denominem entidades sociais de classe, ASCAMAR ASTRAS constituem associações que, como tais, esperam tão somente elevar a quantidade de materiais recicláveis passíveis de serem comercializáveis. Como estão sendo gerenciadas, pensamos que as duas associações têm pouco a contribuir com seus associados, assemelhando-se mais a grupos particulares com objetivos específicos do que a movimentos sociais com interesses coletivos. Exemplo disso é a viril rivalidade entre as duas associações de catadores que, ao contrário do que pensam os representantes entrevistados, enfraquece a categoria dos catadores. A questão ambiental do lixo, ainda que mencionada pelos entrevistados das associações, trata-se de algo apenas adjacente. A nosso ver, a preocupação ressentida pelos representantes da ASCAMAR e ASTRAS, com as questões ambientais, não passam de mero discurso, sem qualquer efeito prático do ponto de vista ambiental, porém com significado de angariar benefícios com o projeto que está sendo implantado. Também funciona como meio de tentar sobressair diante da associação rival. Do exposto, entendemos que os problemas relacionados ao meio ambiente urbano da cidade de Natal são sistêmicos, isto é, interligados e interdependentes que requerem mudanças

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nos valores da sociedade local, com percepções, práticas novas e processo de sensibilização e conscientização coletivas, incentivados e apoiados pelo poder público em todas as suas instâncias. Elogiamos o empenho da URBANA em acolher um projeto de expressão nacional, por considerarmos ser esse o primeiro passo na resolução da problemática ambiental e social do lixo. No entanto, as análises dos depoimentos dos representantes da ASCAMAR e ASTRAS, assim como dos relatos dos próprios técnicos da URBANA levam a crer que o projeto, em Natal, pode até lograr o sucesso esperado por todos, todavia é agente causador de novos problemas justamente por constituir ação isolada, restrita à cidade de Natal. Dessa forma, se a vertente econômica sobrepor-se a de cunho ambiental-educativo potencialmente contido no projeto, temos que nos posicionar de maneira contrária ao projeto desenvolvido. Também consideramos de pouco efeito desenvolver, em Natal, ações voltadas à resolução da problemática do lixo, sem que haja iniciativas semelhantes e concatenadas com as ações da capital potiguar em todo o Rio Grande do Norte. Conforme comentamos ao longo do texto, iniciativas isoladas até resolvem as questões propostas em primeiro momento, porém, posteriormente aguçam os problemas pelos quais motivaram o surgimento delas.

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ANEXOS

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