Contribuição metodológica para a pesquisa historiográfica com os testamentos

Maria Lucília Viveiros Araújo Nosso artigo tem por objetivo apresentar os métodos e os procedimentos relacionados ao uso dos testamentos como documentação serial de forma a subsidiar o aprofundamento dos estudos da família. Os testamentos vêm sendo utilizados como fontes para o conhecimento do passado há muitos anos no Brasil. No entanto, somente nas últimas décadas essa documentação incorporou novos procedimentos possibilitados, ao mesmo tempo, pela generalização da informática, pela influência dos estudos quantitativos da demografia histórica e a redescoberta da morte como tema da Nova História.[*1] Explanaremos sobre os antigos princípios das Ordenações do Reino e o atual Código Civil Brasileiro, que orientam os direitos e deveres da família brasileira. Comentaremos também a complexidade dos antigos testamentos, composto por diferentes itens da sociedade, especialmente os aspectos religiosos, a vida familiar, a vida material, sugerindo procedimentos para a coleta e a síntese dos dados. Por fim, identificaremos os recentes questionamentos da História da Família e transcreveremos a bibliografia mais recente. A regulamentação dos testamentos As escrituras testamentárias tiveram início na França nos finais do século XII, seguindo a tradição jurídica romana, de forma que o ato de testar havia-se generalizado naquela região nos séculos XIV e XV. Os testamentos portugueses modernos visavam à preparação do funeral e à salvação da alma principalmente. No século XVIII, a estrutura dos testamentos atingiu sua máxima complexidade. Surgiu, então, uma série de confrarias especializadas no cerimonial da morte e na salvação da alma. No século XIX, os testamentos foram perdendo sua finalidade espiritual, de forma que as versões mais recentes abordam exclusivamente os bens materiais. As Ordenações Filipinas de 1603 orientaram a vida familiar e os direitos de sucessão desde a formação da América Portuguesa. Essa legislação manteve-se no Brasil, com algumas alterações, até 1916, quando foi aprovado o primeiro Código Civil Brasileiro. O direito da família sofreu nova alteração em 2002. Segundo as antigas leis do reino, todo homem com 14 anos e mulher com 12 anos podiam deliberar livremente sobre a distribuição dos seus bens. No entanto, os testadores com herdeiros forçados ascendentes (pais, avós) e descendentes (filhos, netos) podiam legar apenas um terço de seus bens (terça). Os cônjuges herdavam de acordo com o contrato de casamento adotado. Geralmente casava-se pelo regime de comunhão de bens chamado “carta de ametade”, de forma que o cônjuge sobrevivente ficava com a meia do espólio. Os filhos recebiam a outra metade ou legítima, descontadas as disposições dos testamentos. 12:27 18/10/05Os filhos naturais, caso fossem reconhecidos por escritura pública, podiam herdar. Essa lei garantia a justa partilha dos bens entre os herdeiros dos plebeus, porém, permitia o direito de primogenitura nas casas nobres, isto é, a desigualdade de condições entre irmãos herdeiros. O novo Código Civil Brasileiro basicamente modificou a situação do cônjuge, dos filhos adotivos, do companheiro e do filho fora do casamento, tornando-os herdeiros necessários. Além disso, passou a permitir que a metade dos bens seja legada pelo testador com herdeiros necessários. Enfim, para o estudo dessa documentação, faz-se necessário conhecer essa legislação. As partes do testamento Os antigos testamentos eram documentos muito complexos. Eles informavam sobre a vida familiar do testador, suas preferências espirituais, os receios e segredos da hora da morte e, algumas vezes, apresentavam um balanço dos bens materiais para direcionar a partilha. Eles continham uma apresentação ou prólogo, o preâmbulo, as disposições espirituais, a distribuição do legado e as assinaturas das testemunhas. Os documentos paulistas freqüentemente indicavam três ou quatro nomes para testamenteiros. O prólogo incluía a saudação (sinal da cruz) e a identificação do testador (nome, estado conjugal e residência), seguido do preâmbulo religioso, com a encomendação, a invocação, as considerações sobre o estado de saúde, sobre a vida e a morte e, finalmente, a razão do testamento.

a repartição da herança. número dos ofícios e missas com as respectivas intenções. o recorte temporal selecionado e a região geográfica compreendida. nem todo testamento era seguido de inventário. pode-se optar pela pesquisa de parte da documentação disponível. custo de cada uma das cerimônias. o método quantitativo da demografia histórica foi utilizado primeiramente na historiografia paulista por Maria Luiza Marcílio (1974). sugerimos o uso de um banco de dados e alguns procedimentos para o trabalho historiográfico. Porém. legados de caridade e legados religiosos. vários historiadores publicaram importantes teses utilizando as informações dos antigos testamentos. Conforme a quantidade de documentos disponíveis. cor e idade. Carlos de Almeida Prado Bacellar (1987) fala da investigação sobre os filhos que migraram para o Oeste Paulista. muitos deles foram trasladados no livro de registro de óbitos. Discutindo especificamente a terça e o dote como estratégias de favorecimento de parte dos filhos. Arquivos Essa documentação pode ser localizada em diferentes arquivos. a atribuição da terça. sobre a sociedade mineira do século XVIII e XIX. temos Alida Metcalf (1992) que abordou a família colonial de Santana do Parnaíba.Logo após. Entretanto. a reserva de usufruto. Reexaminando o conceito de família patriarcal extensa. Considerações finais . essa documentação somente recebeu metodologia específica após o desenvolvimento dos estudos das séries documentais e da demografia histórica especialmente na França. Até o século XIX. Os trabalhos com bases quantitativas sempre apresentam um resumo do corpo documental. Historiografia Os inventários e os testamentos vêm sendo pesquisados há muito tempo para a reconstituição da memória histórica. e de Maria Lucília Viveiros Araújo (2003). quando houver. Muriel Nazzari (2001) discorreu sobre a transformação do dote em São Paulo. determinavam-se as disposições espirituais ou bem da alma com a escolha da mortalha e do lugar da sepultura. temos as teses de Kátia de Queirós Mattoso (1988) sobre a família baiana do Oitocentos. mas os testamentos do século XIX e XX continuam arquivados no Arquivo do Judiciário do Estado de São Paulo. a estipulação de encargos e pensões e a nomeação do testamenteiro. contendo o número dos testamentos consultados. Síntese dos dados Quanto maior a quantidade de informações coletadas. tipo de testamento e seus respectivos arquivos. Os antigos testamentos de São Paulo estão arquivados no Arquivo do Estado de São Paulo. indicação do acompanhamento ou constituição do cortejo fúnebre. No Brasil. um estudo da família colonial do norte fluminense. a Igreja considerou-se guardiã dos testamentos. A organização da família colonial paulista e o papel dos casamentos foram os temas da tese de Alzira Lobo de Arruda Campos (1986). Por exemplo. o escrivão. iniciavam-se as disposições materiais ou herança. Eram transcritos nos inventários post-mortem. o trabalho pioneiro de Alcântara Machado sobre a sociedade paulista seiscentista (1943). estado conjugal ou civil. oitocentista. A documentação referente à comarca de Campinas está sob guarda do Centro de Memória da UNICAMP. isto é. contendo o número e/ou porcentagem de homens e mulheres testadores. Maria Beatriz Nizza da Silva discutiu o sistema de casamentos (1989) e a questão dos bens vinculados no Brasil setecentista (1990). o pagamento e a cobrança de dívidas. Livre-Docência) repensando o papel da família e da mulher em São Paulo seiscentista. A documentação eclesiástica manteve-se nos arquivos das diversas Cúrias do Brasil. da Capitania de São Paulo. o lugar da redação e a data. Para finalizar indicavam-se as testemunhas. de Sheila de Castro Faria (1998). sobre a riqueza dos paulistanos da primeira metade do Oitocentos. temos as teses de Eni de Mesquita Samara (1980. naturalidade. Terminada a parte religiosa. apresentaremos algumas obras que possuem ampla bibliografia sobre a família brasileira. Após os anos 1980. com a enumeração dos herdeiros e legatários. Em vista disso. Os dados da pesquisa devem ser tabulados e apresentados preferencialmente em tabelas ou gráficos. a síntese para a redação da dissertação poderá ficar mais difícil. A seguir. essa documentação pode estar nos cartórios ou reproduzida nos livros dos cartórios. Relacionando as estratégias das famílias na concentração ou na distribuição da riqueza. Estado de São Paulo. Doutorado e 2003. de Ida Lewkowicz (1989). em vista disso. Dora Isabel Paiva da Costa (1992) tratou do crescimento das legítimas dos filhos (parte da herança) em Campinas. uma pesquisa por amostragem. A apresentação do corpo documental deve estar preferencialmente no primeiro capítulo do trabalho.

e possibilitaram o diálogo das questões nacionais com a problemática internacional. Esses documentos eram redigidos de forma a contemplar primeiramente os pedidos espirituais e. tornando-se somente uma indicação pessoal para a distribuição de parte dos bens.Os testamentos serviram como documento da última vontade do cristão desde a Idade Média. Essas teses criaram novos paradigmas para a história brasileira. a seguir. entretanto. Nosso artigo apresentou preferencialmente as teses que utilizaram os métodos quantitativos. Anexos Tabela das disposições testamentárias de São Paulo. os pedidos temporais. Modelo de parte da ficha eletrônica de testamento . os historiadores têm preferido analisá-los por partes. 1800-1850 Gráfico da distribuição dos legados em São Paulo. Como eles abordavam diferentes aspectos da sociedade. no século XIX. eles foram perdendo o caráter místico. 1800-1850 Fonte: 68 testamentos dos inventários do Arquivo do Judiciário do Estado de São Paulo.

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