Histórias Maravilhosas do Oriente PEARL S.

BUCK

Título original: Fairy Tales ofthe Oríent

AGRADECIMENTOS Para organizar esta antologia de contos de encantar que reuni ao longo dos anos, recorri, no tocante a alguns textos que aparecem, revistos, neste livro, a traduções originais e a antologias. Devo especiais agradecimentos a Lafcadio Hearn, pelos seus dois livros Kwaidan e Some Chinese Ghosts; ao Dr Ignácz Kuno, pela sua antologia Turkish Fairy Tales, traduzida por R. Nisbet Bain; a A. B. Mit/ord, pelos Tales of Old Japan, e a Andrew Lang, pelas suas muitas antologias de contos de encantar. P S. B.

Prefácio Findou um dia de Verão e eu acabei o último conto de encantar, após acrescentar a cada um deles alguns comentários pessoais. Agora que a minha tarefa terminou verifico que, afinal, não foi uma tarefa, mas sim uma excursão, uma viagem de descoberta por terra e mar. Visitei muitos países e não estou ainda certa de haver regressado à minha própria casa. Talvez seja a paisagem que se abarca da minha janela aberta que ainda me sugere a atmosfera dos contos de encantar, ou o ar fusco, ou as árvores da floresta situada para lá dos relvados, agora suavemente recortadas na névoa que sobe do lago aquecido pelo sol, no sopé do monte. Por cima da névoa brilha a lua cheia, que inunda de luz os salgueiros da margem. O luar é tão claro que, se me aproximasse do tanque, veria os peixes dourados abrirem o seu caminho na água. Porque em noites de lua cheia os peixes confundem a noite com o dia... Mas não me aproximarei do tanque. O meu espírito pensativo está repleto de pessoas: gente da Ásia antiga, gente da velha Europa, gente dos contos de encantar. Rodeiam-me muitos rostos: indianos de turbante com as suas mulheres de saris multicores, chineses de vestes compridas, samurais do Japão com as suas damas sequestradas, turcos e russos, homens e mulheres da Pérsia e da Arábia. Só estão ausentes rostos do Hemisfério Ocidental, a que pertenço. Porque não temos nós contos de encantar? Excluo o nosso empolado Paul Bunyan e as suas famosas aventuras, porque não encontro nele nenhuma magia. Talvez só os antigos saibam inventar contos de encantar, inspiraPearlS. Buck

M’ de pinceladas rápidas e arrojadas e os sentimentos não são desenhados com delicadeza. Existe entre eles a diferença que separa uma aguarela de um cartaz, mas há vigor em ambos. No conto russo o animal favorito é o cavalo ou o veado escolha natural se nos recordarmos das vastas paisagens russas. O estado de espírito é, com frequência, a melancolia, que não se compara à suave tristeza asiática. Há qualquer coisa de soturno e de desesperado nos abismos da alma russa, e isso transparece nos contos de encantar desse grande país. Cavalos velozes, magia simples, vingança, crueldade, triunfo arteiro - eis o que atrai um auditório constituído basicamente por camponeses, que se delicia com a vitória da força e da astúcia. Todavia, nos contos de encantar russos existe, também, algo cativante: o herói é, muitas vezes, um simplório, como suponho que acontece frequentemente na vida real. Seja como for, porém, deve haver certo encanto na sua inocência, na sua simplicidade, pois de contrário como se explicaria que o simplório encontre sempre quem o ajude até casar, por fim, com a princesa? Todas as vezes que se vê auxiliado, parece-lhe isso bom de mais para ser verdadeiro, mas a sorte continua a favorecê-lo, sem esforço da sua parte, até à conquista do almejado prémio. É mister admitir, portanto, que existe na alma russa alguma coisa que ama este homem simples ou que com ele se identifica. Um conto de encantar persa é como uma pintura persa: delicadamente subtil, intrincadamente complexo, uma obra de arte miniatural que se desenrola num ambiente de antiguidade e riqueza. Bonitas raparigas exercem o seu fascínio sobre jovens delicados e belos, umas e outros envoltos na mesma sonhadora aura de idílio poético. Os homens são mais ternos do que fortes e os seus anseios não se impõem; actuam, por assim dizer, por permeabilidade. Semelhante ambiente se encontra, em parte, nos contos de encantar indianos, por via da forte influência persa na antiga índia. Os descendentes dos persas viveram durante séculos nas imediações de Bombaim e concentraram nesta cidade a sua religião e a sua cultura. Na verdade, são muitos os povos que deixaram na índia vestígios da sua passagem. Alexandre, o Grande, por exemplo, invadiu a índia em tempos recuados, com os seus exércitos de homens brancos, e ainda hoje se encontram no Norte do país indianos de cabelos claros e olhos azuis. Contudo, a grande diversidade étnica do povo indiano, bem patente na língua e na cor, aglutina-se na crença no poder de uma bondade que chega a ser santidade. Os heróis dos seus contos de fadas são homens simples e generosos, como o venerado Maatma Gandhi, que usava a cobri-lo uma simples túnica de algodão e se alimentava de vegetais, fruta e leite de cabra, e que nem mesmo quando esteve em Inglaterra e foi recebido no Palácio de Buckingham abandonou os seus hábitos de ascética pobreza e frugalidade. Ao proceder assim, cumpria a tradição indiana simbolizada nos seus contos de encantar. Quem hoje for à índia encontrará homens destes a percorrer as estradas da província ou as ruas das

cidades modernas. Os contos de encantar da Turquia revelam características muito diferentes. Neles o herói é o senhor todo-poderoso, o paxá, o sultão. O destino do homem comum depende da sorte ou do acaso, de uma feiticeira ou de um génio, mas o senhor manda e é obedecido. Em cima encontram-se os deuses e embaixo o povo; entre os dois extremos, porém, situam-se os nobres, seres privilegiados por natureza ou por nascimento; aos quais acontecem coisas singulares e maravilhosas ou que produzem esses estranhos acontecimentos. Os contos turcos assemelham-se, de certo modo, aos russos, quer pela sua acção rápida, quer pelo emprego da violência, quer pelos pormenores fulgurantes. Os contos de encantar chineses são os primeiros de todos. Através dos séculos, o narrador de histórias chinês tem sido também o professor que divulga, de modo agradável e divertido, as lições da vida. Por isso, encontramos mais graça nos contos de encantar chineses do que nos de qualquer outro povo. O principal motivo por que assim acontece consiste em serem os chineses um povo gracejador. A sua literatura e a sua conversação estão cheias de piadas que vão do dito grosseiro e picante à sátira e ao chiste mais subtis. Além disso, a vida ensinou também algumas verdades ao narrador de histórias, o qual sabe, por exemplo, que o momento em que o auditório ri é o indicado para estender o cesto de bambu da pedincha... Mas a literatura chinesa não é apenas humorística; povoam-na igualmente fantasmas e a presença de tais espíritos, maus ou bons, revela-se nos hábitos do povo. Até na arquitectura as extremidades dos telhados são ostensivamente voltadas para cima com o fim de impedir que os espíritos maus deslizem pelas telhas, e do lado de dentro dos portões principais ergue-se uma parede destinada a deter os espíritos voadores, que procuram por todos os meios transpor qualquer portão aberto. Os fantasmas mais comuns são os espíritos de bonitas mulheres, que se insinuam na vida dos homens através dos sonhos e adquirem aspecto de realidade - o que não surpreende num país em que os homens e as mulheres raramente se encontram e os casamentos são concertados pelos mais velhos. Quem pode censurar a um jovem, privado da companhia de raparigas ou casado com uma mulher que não ama, os seus secretos sonhos de amor com o espírito de alguma bonita mulher doutras eras? Pelo menos assim parecia acontecer na velha China... O uso de objectos mágicos nos contos de encantar é quase universal e revela as aspirações e a imaginação do povo. O lugar ocupado pelos sinos na vida chinesa, por exemplo, reflecte-se nas muitas histórias de fadas em que participam sinos famosos. Todos os templos possuem sinos e cada templo tem um sino especial que, quando toca, emite notas de harmoniosa e sublime beleza. Tal sino, afirmase, possui voz de timbre quase humano porque alguém - geralmente a filha do seu fundidor - sacrificou a vida lançando-se no metal derretido, durante a fundição. Recordo-me, sobretudo, de um grande sino existente num pagode próximo de

O dever filial exige destes sacrifícios quando tudo o mais falha e foi sobre o dever filial que como preceituou o grande Confúcio. que produzia som tão suave que vinham ouvilo de milhas de distância. Moldava-o e tornava a moldá-lo. O espelho é também usado com frequência como objecto de magia nos contos de encantar de todos os países. a mais preciosa dádiva que uma mulher pode oferecer ao homem amado. Mormente na Primavera. Talvez a primeira visão do próprio rosto proporcionasse o portento inicial. Por fim. da pomba que desce do céu com um raminho de oliveira no bico. era natural associar a nova abundância ao regresso das aves de algum abrigo invernal aquecido pelo Sol. se locomovem por meio de asas em tudo semelhantes às das aves. e dos anjos que. lançaram-se. Tão querido é este sonho que o . o fabricante. ainda permanece nas lendas da cegonha que traz os bebés. quando se julgavam as aves mensageiras dos deuses. uma vez visto não resistiu à tentaão de ver outra vez e outra e outra. viu um rosto que ao princípio não reconheceu. no metal derretido. Existem em todos os idiomas contos de encantar em que intervêm criaturas e instrumentos mágicos que permitem aos seres presos à terra que nós somos vencer as suas limitações. numa mensagem de paz. quinhentos anos antes de Cristo . apenas pelo poder de os desejar. poderoso como todos os seres humanos anelam ser.nisto se resumem os sonhos universais do coração infantil do homem. Considero especialmente interessante o significado das aves nos contos de encantar ou a sua utilização como símbolos cuja origem se perde na noite dos tempos. no desejo de ter filhos belos e perfeitos. Assim deve ter procedido o homem primitivo e assim procede ainda o homem de hoje. se não vir a sua imagem reflectida? Foi há muito tempo. época em que a vida brota dos campos e das florestas. sobretudo do deus Sol. os contos de encantar de todos os povos reflectem simbolicamente os seus anseios e os seus temores. No dia seguinte o sino saiu perfeito de forma e o seu repique lembrava moças a cantar. não conseguia moldar esse sino sem que ele estalasse. realizar o impossível e criar belos e valiosos objectos. sem dizerem nada ao pai. como aparece aos outros. capaz de realizar desejos e sonhos. O sonho universal exprime-se às vezes. Segundo a lenda. Qual de nós se conhece a si mesmo. Tornar-se invisível. as suas três lindas filhas decidiram sacrificar-se e.Nanquim.se alicerçou a antiga civilização chinesa. mas a fenda aparecia sempre. de noite. por exemplo. segundo creio. pelo menos. uma olhadela à sua imagem. pois raramente passa por um espelho sem deitar. mas que. ao debruçar-se para beber num charco de águas calmas. apesar da forma humana dos seus corpos. A missão divina das aves. um génio. Como já disse. apesar de muito famoso pela sua perícia. que Narciso. na província de Quiansu. mover-se no espaço e no tempo. Isto deu origem à lenda de que no espelho «existe» uma criatura mágica. no bem como no mal. obter oiro sem esforço .

embora bem deva prevalecer. Há algo de profundo neste tema central de todos os contos de encantar que não é. a luta é personificada pelo rapaz de cabelos dourados. mortais. algures. Será possível tamanha felicidade? Não se conjurarão contra ele. e talvez seja justo assim. não renunciemos aos nossos sonhos o mal terá de se apoderar de nós e do mundo. materialista e rápida na recompensa. vale a pena reflectir nele enquanto vivermos. perdemos a esperança e a fé em nós próprios e a vida deixa de parecer digna de ser vivida. O auxílio dos deuses faz sempre parte do sonho. e o príncipe e a princesa vivem eternamente felizes. Assim. nos contos de encantar. de modo nenhum.acompanham receios. . O único sinal’ de simbolismo e animismo asiático encontra-se na facilidade com que seres humanos entram e saem de corpos de animais.( evidentemente. para que nós. Pelo contrário. Bucfc 12 tão corajoso e expedito que até os deuses se sentem tentados a ajudá-lo. A Gralha Encantada. depreendendo-se sempre. parece que o bem nem sempre vence. mais características ocidentais do que asiáticas. sozinho. pois quando nós. . com poucas excepções. graças a Deus. infantil ou simples. forças maléficas? Nas histórias. que estar no corpo de um irracional é menos vantajoso do que no de. PearlS. não é uma das excepções. perdemos a esperança e a fé na espantosa e perene força da bondade. A gralha encantada Os contos de encantar da Turquia possuem. Só. seres humanos. Na vida. o homem receia não ser capaz de alcançar a sua meta. o mal sai vencido e o bem triunfa. O autêntico conto de encantar proporciona sempre esta certeza. porém. não conseguirá vencer. sente-se rodeado de forças do mal que. a fim de o bem não sair vencedor sem luta. Temos de lutar pelos nossos sonhos! Num conto. directa e prática na acção. essas forças tomam a forma concreta de bruxas empenhadas em destruir crianças encantadoras.

prometendo darlhe em troca coisa mais bela e preciosa do que ela própria. debaixo da árvore. que ta comprará. Foi procurar o amo. volta à forma humana e desposa o príncipe.. Um dia. existiu um homem que tinha um único filho e que costumava passar o dia inteiro na floresta.’. Tanto pediu e tanto rogou que. Admirava-o ainda. como justa recompensa. Guardaram a ave numa gaiola de ouro e o paxá deliciava-se a admirá-la de noite e de dia. PearlS. Pouco depois outra ave caiu na rede. que estava muito bem disfarçada. Nesse momento uma gralha voou baixo e foi apanhada pela armadilha. mas a pobre ave começou a suplicar-lhe que a libertasse. foi para a floresta e armou-a numa árvore. cheio de espanto.concordou o paxá -. 0ífÉ14 O rapaz meteu o pássaro numa gaiola e levou-o ao palácio. nos contos de encantar. A gralha. surpreendido.. Ma5 o paxá tinha um conselheiro que sentia inveja do jovem que levara a #ve e l116 daya tratos à imaginação à procura de uma maneira de o arruinar. quando a gralha reapareceu e lhe disse: Leva essa ave ao paxá. este pegou na armadilha do pai. ’. morreu e o filho ficou só. por fim. ave nociva. 13 Em tempos que já lá vão. preparou outra vez a armadilha e sentou-se à espera. mas estacou. a apanhar pássaros para se alimentar. o jovem a deixou ir em paz. e deu tanto dinheiro ao rapaz que este nem sabia que lhe havia de fazer. se tivesse um palácio de marfim para morar! Sim . um dia. O paxá ficou louco de alegria. Por fim.P° nm r encontrou-a.um humano. e até malfazeja. mas onde arranjaria eu marfim que chegasse Para construir um palácio? . O rapaz trepou pela árvore. pois jamais vira pássaro tão belo. aparece aqui com galas de beleza e virtude e. O rapaz amarinhou novamente pela arvore. ao ver a bela criaturinha. e disse-lhe: Que feliz seria essa ave. geralmente considerada.

Isso é contigo. recompensou o jovem com ricas prendas e deixou-o ir em paz. apareceu-lhe a gralha e perguntou-lhe que preocupações o torturavam. mas se. O paxá mandou chamar o rapaz e ordenou-lhe. em vez de água. O jovem ficou desesperado e. . Vai pedir ao paxá quarenta carros de vinho. pediu e obteve o vinho e. surgiu-lhe outra vez a gralha.lamentou-seojovem. mas nada a fazia cantar. os elefantes ficarão embriagados assim que o beberem. O moço cumpriu as instruções da gralha. .Quem trouxe a ave poderá. no regresso. Tens quarenta dias para o encontrares. Há aqui perto uma floresta em cuja orla existem quarenta grandes v#las onde vão beber tantos elefantes quantos há no mundo. cantaria livremente. sem preâmbulos. Saltitava alegremente de poleiro para poleiro. que construísse um palácio de marfim para a ave. Se o seu dono estivesse aqui . cairão e tu poderás cortar-lhes as presas e levá-las ao paxá. O rapaz voltou ao palácio. enquanto tentava decidir que caminho havia de seguir. Enche essas valas de vinho. A fascinante ave passou a viver no seu palácio de marfim. carregou os carros com as presas dos elefantes e voltou com elas ao palácio. encontrar o marfim redarguiu o conselheiro. não o arranjares.disse o mau conselheiro -. O paxá rejubilou Histórias Maravilhosas do Oriente í» ver o marfim. meu senhor. mandou construir um palácio. a tua cabeça estará onde estão agora os teus pés. onde arranjarei tanto marfim? . findo este prazo. Ai de mim. O moço contou-lhe o grande sarilho em que a avezinha o meterá e a gralha tranquilizou-o: Isso não é motivo para te preocupares. com certeza.

Preparado o barco. No sopé da mesma vivem quarenta peris1 que experimentarão intenso desejo de ver o que levas no barco. Lembra-te.) Pear! S. mando-te matar. . Foi nesse momento que a gralha voltou. .lamentou-se o pobre rapaz.Dou-te quarenta dias para o encontrares. (N. da T. • Espécie de génios benfazejos. faz-te de vela e não pares antes de chegares ao teu destino. entre os orientais. e ele foi buscá-la num batel e levou-a para bordo. Se. um bonito jardim e uma piscina. se o apanhei por acaso na floresta? protestou o moço.Isso é contigo .. mas ficou indeciso quanto à rota a escolher. findo este prazo.afirmou a ave. de que deves consentir que entre apenas a rainha. O jovem regressou ao palácio e informou o paxá do que precisava para a sua viagem. muito triste. a passear na praia. O peri ficou encantado com a bela embarcação.respondeu-lhe o paxá. . e contou-lhe a sua nova preocupação. . cheios de curiosidade. a voar. . assim que o avistarem. Enquanto lhe mostrares o barco.Corre ao palácio e pede ao paxá um barco que seja suficientemente grande para nele caberem quarenta criadas. e. correram todos.Como não hei-de chorar? . e lhe perguntou porque chorava. porém. Buck 16 O jovem partiu imediatamente para leste e só parou quando avistou a montanha.Quem sabe quem é o seu dono ou onde se pode encontrar? redarguiu-lhe o paxá. que é a dona do pássaro. não mo apresentares. O moço foi para casa a soluçar alto. Aquele que trouxe as presas dos elefantes também poderia trazer o dono da ave. . o moço embarcou. A rainha dos peris pediu ao moço que lhe mostrasse o barco. Mais uma vez o paxá mandou chamar o jovem e lhe ordenou que trouxesse o dono do pássaro à sua presença.É uma vergonha chorar por semelhante ninharia . mas eis que a gralha surgiu.Como hei-de saber quem é o seu dono. ao verem o barco. no seu desespero.Aponta o teu barco para leste t navega a direito até distinguires uma grande montanha. sobretudo o interior. Lá estavam os quarenta peris.. mas fantásticos. passeou no jardim com as . .

Então. a instâncias do mau conselheiro. O jovem guardou a pena. ao ouvi-la. O banquete de núpcias não tardou. dizendo-lhe que a levava para o palácio de um rei. o paxá mandou chamar o jovem e ordenou-lhe que fosse buscar o milagroso remédio. quero banhar-me. enquanto se banhava. mas os sábios afirmaram que só a curaria uma droga existente no seu próprio palácio encantado. disse: -Já que vim. não havia no mundo homem mais feliz do que o paxá. Mais uma vez o moço se meteu no barco e preparava-se para içar as velas quando a gralha chegou.quarenta criadas e. Experimentaram-se todos os remédios. Mas o veneno da inveja continuava a devorar a alma do mau conselheiro. o barco fez-se de vela. e o paxá. apaixonou-se logo pela sua real visitante e nunca mais pôde dispensar a sua companhia. e encontrarás o palácio atrás de uma montanha. chegou à montanha. extasiado. Desembarcaram. o jovem mandou avisar o paxá e levou-lhe a rainha dos peris. Que seria dela e para onde a levariam? Em que mãos cairia? Mas o moço tranquilizou-a. onde estaria entre boa gente. desatou a chorar amargamente. de facto. Mal lhes tocou com a pena. . mas toca-lhes com esta pena no focinho e nem sequer levantarão uma garra contra ti. deitaram-se e deixaram-no passar. ao ver a piscina. subiu à coberta e viu apenas mar à sua volta. Foi direito aos portões. O moço fez-se imediatamente de vela regressou ao palácio e dirigiu-se sem demora para o quarto da sultana. e. calcularam que a sua rainha adoecera e deram-lhe a droga. a nova sultana adoeceu subitamente e caiu à cama. Contou-lhe a nova missão de que fora incumbido e a ave disse-lhe: . com o belo peri à sua direita e a fascinante ave à sua esquerda. Na altura em que esta passava pelo palácio de marfim.Vai. Os peris viram-no também. desembarcou e deHistórias Maravilhosas do Oriente 17 essa avistou o palácio. Os portões estão guardados por dois leões. então. os leões. pouco depois. Um dia. Entrou na piscina e. onde se encontravam. A rainha dos peris sentiu-se reconfortada. a avezinha começou a cantar tão maravilhosamente que todos os que a ouviram ficaram loucos de alegria. com o remédio numa das mãos e a gralha num ombro. Quando acabou de se banhar.

O mau conselheiro foi desterrado e o jovem. mas assim que provou o remédio regressou imediatamente à vida. . .No entanto . Ao ouvir estas palavras a gralha estremeceu toda e o jovem viu diante de si uma donzela tão bonita que pouco diferia da rainha dos peris. A pedido da sultana.Não estás repesa de tudo quanto este moço sofreu por tua causa? Explicou então ao paxá ser a gralha uma criada sua. agora perdoo-lhe. viveu sempre muito feliz com a esposa. que transformara em ave por via da sua negligência. fitou o jovem e viu a gralha no seu ombro. iit ’« • iij y ir Histórias Maravilhosas do Oriente 18 19 A história de Ming.A sultana estava já na agonia. .acrescentou -. f:fí ••w :Í •m è ’B . nomeado vizir em seu lugar. dirigindo-se à ave.exclamou. o paxá casou o rapaz com a gralha encantada. Abriu os olhos.Oh. escrava! .Y . pois vejo que as suas intenções eram boas.

viveu na cidade de Genii. de súbito. nem sequer aos seus filhos. que desejava um professor digno para os seus filhos. e. Ao tomar conhecimento da chegada do novo inspector da Instrução Pública. os apaixonados cantaram velhas canções. O espírito da bonita mulher regressou à sua morada e o jovem que tão profundamente a amava viveu a sua vida sem a esquecer. olha para o Oeste. mas também sem nunca falar dela. da dinastia Ming. Perto da cidade de Tching-tou vivia um rico homem de posição. a fim de com ele se aconselhar. mais tarde. pareceu melhor que Ming-Y nela passasse a viver. Numa floresta rescendente de flores. Chamava-se Ming-Y. graça e delicadas virtudes. Ia o jovem na décima oitava primavera quando Tien Pelou foi nomeado inspector da Instrução Pública na cidade de Tching-tou.Este conto de encantar da velha China é uma história de amor. Como a casa do senhor Tchang ficava situada a vários quilómetros da cidade. a cidade de Kwang-tchau-fu. mas a quem o amor devolveu à vida por algum tempo. Este Tien Pelou tinha um filho. um altocomissário chamado Tchang. Se. recitaram antigos poemas e sonharam os seus sonhos. o nobre Tchang visitou-o. a culpa coube apenas à sua juventude e à inexperiência de um coração naturalmente . decidiu imediatamente contratar Ming-Y como aio particular. um homem célebre pela sua erudição e piedade. Há quinhentos anos. aonde Ming-Y acompanhou os pais. mas não ilude o Céu. tudo terminou. tendo por acaso encontrado e conversado com o virtuoso filho de Pelou. Se avistares uma donzela vir do Oeste. até que um dia. volta os teus olhos para o Leste». Se vires uma mulher vir do Leste. São seus protagonistas um bom jovem e o fantasma de uma bonita mulher morta há muito tempo. Ming-Y não seguiu esses conselhos. um belo rapaz que não encontrava entre os moços da sua idade quem o ultrapassasse em sabedoria. chamado Tien Pelou. no tempo do imperador Houng-Wou. O jovem nreparou todas as coisas necessárias na sua nova morada e os pais desdiram-se ^t com conselhos sensatos e citando-lhe as palavras de Lao-tseu e dos sábios antigos: «Um belo rosto enche o mundo de amor.

ou «Aniversário das Cem Flores». que faziam vibrar as folhas. Partiu. sombreando a vereda. e próximo. a pureza dourada da sua pele e o brilho dos seus olhos amendoados. levantou-se depressa e seguiu o seu caminho. presentear amigos e parentes. a minha ama mandou-me entregar-lhe esta prata que deixou cair na estrada . o dinheiro que levava na manga. muito surpreendido. portanto.Senhor. aqueles maravilhosos olhos. e entreviu uma jovem bela como os rosados botões dos pessegueiros. a espreitá-lo entre a folhagem. que cintilavam e baixo das sobrancelhas tão delicadamente curvas como as asas abertas da borboleta do bicho-da-seda. Buck 20 vista. pois. Ming-Y agradeceu-lhe delicadamente e pediu-lhe que apresentasse os seus respeitos à ama. ele próprio a sonhar e a sentir o coração bater com estranha rapidez sempre que pensava na bela criatura que vira. e Ming-Y experimentou a sensação de que o caminho que seguia não era pisado por ninguém havia muitos anos.alegre. aquele dia feliz a que os chineses chamam Hoa-tchao. ao regressar pelo mesmo caminho. Ming-Y parou no local onde a . e vapores dourados sublimavam a floresta e tornavam-na fragrante como um templo perfumado de incenso. Ming-Y experimentou o desejo de ver os seus pais. debaixo de ramos que abanavam suavemente sob o céu cor de violeta. e deparou com uma graciosa criadinha. Reatou em seguida o seu caminho através do silêncio perfumado e das sombras sonhadoras da vereda esquecida. entre os quais tentava ocultar-se. entrelaçavam os ramos vigorosos e cobertos de musgo por cima da sua cabeça. De súbito. onde floriam pessegueiros bravos.disse-lhe a rapariga. Passou o Outono. Abriu o coração ao bom Tchang. A paz sonhadora do dia penetrou no coração de Ming-Y e o rapaz sentou-se entre flores. Tão perturbado o haviam deixado. mas também insistiu em oferecer-lhe de presente duas onças de prata. o qual não só o autorizou a partir. alinhadas de ambos os lados. sem dar por isso. acto contínuo. pensando que o rapaz desejaria levar qualquer pequena recordação aos pais. na festa de Hoatchao. Voltou-se. Embora a olhasse apenas um instante. e quando a segunda lua da Primavera estava próxima. À sombra das frondes cantavam aves. Ming-Y desviou. Ming-Y viu o encanto do seu rosto adorável. a aspirar o perfume e a saborear o silêncio profundo e doce. passou também o Inverno. a PearlS. A erva estava alta e grandes árvores. para casa do senhor Tchang. pois era costume. que deixou cair. Noutro dia. de tão perfumado. porém. . zumbiam abelhas. O ar causava sonolência. Momentos volvidos ouviu passos leves correrem atrás de si e uma voz feminina chamar pelo seu nome. um ruído atraiu-lhe o olhar para um recanto sombrio.

Grandes borboletas de asas chamejantes entravam no aposento. de longe. a bela desconhecida. esvoaçavam um instante sobre os vasos pintados e saíam outra vez para a floresta misteriosa.uma casa de campo. Ming-Y entrou. uma habitação em que antes não reparara . posso considerar o professor dos seus filhos como meu próprio parente. As telhas azulbrilhante do seu telhado duplo. apesar de tímido. o ídolo da sua fantasia apaixonada. para o receber. como se falassem de si. sem que os seus passos produzissem ruído na esteira macia e fofa como musgo da floresta.redarguiu Ming-Y.Senhor . pois conhece a sua reputação e quer ter o prazer de lhe dar os bons-dias. Tien-chou. Como a família do senhor Tchang é a minha família também. . como a névoa muda de cor sob os efeitos da luz. na companhia da criada a quem confiara a sua mensagem de gratidão. . Era mais alta do que ele imaginara e esguia como uma açucena. a minha ama sabe que deseja agradecer-lhe e pede-lhe que entre. semioculta por trepadeiras de flores escarlates. o meu digno visitante é. e as suas vestes de seda clara adquiriam suaves cambiantes quando ela se movia. a jovem senhora da mansão entrou e saudou amavelmente o moço Ming-Y. permite-me que lhe pergunte o nome da sua nobre família e o parentesco que a liga ao meu respeitável benfeitor? .disse a jovem quando se sentaram. e encontrou-se num Histórias Maravilhosas do Oriente 21””vasto salão. preceptor dos filhos do meu respeitado parente. Ming-Y abriu uma cancela rústica. erguiam-se acima da folhagem e pareciam misturar a sua cor com o azul luminoso do dia. a bela dama recuou. com um sentimento misto de alegria e surpresa. Com grande espanto.Senhora .graciosa figura surgira momentaneamente a seus olhos. Silenciosa como elas.Se não me engano . teve a coragem de saudar. Desta vez surpreendeu-o entrever. O jovem percebeu que o observavam e sorriam. e. arqueado e serrilhado. e subiu ao terraço. o alto-comissário Tchang. tímido. que colocou as mãos no peito e se curvou muito. e. com grande surpresa -. mas a criada esperou nos degraus largos. depois das habituais formalidades de delicadeza -. embora pequena. viu a criada acenar-lhe para que se aproximasse. nem mais nem menos. No alto de uma escada que levava a um terraço e ladeada por grandes tartarugas de porcelana. Pálidos botões de chu-sha-kih entreteciam os seus cabelos negros. elegante. e os desenhos verdes t dourados dos seus alpendres entalhados eram cópias delicadas de folhas e flores banhadas de sol.disse-lhe -. . de apelido Ming-Y. através de um maciço de enormes árvores. Ming-Y viu a dona da casa. Reinava uma paz deliciosa e sombras de aves em voo recortavam-se nas faixas de luz que entravam pelas cortinas de bambu. Ao aproximar-se.

A sua voz possuía uma musicalidade suave. Enquanto conversavam. . como que encantado. a sua língua soltou-se e jorraram-lhe dos lábios palavras que nunca se julgara capaz de proferir. Sou filha de Siè de Moun-hiao. Contudo. rogo-lhe que fique um pouco mais em minha casa. Mas Siè não permitiu que a deixasse tão depressa e disse-lhe: Não. o tecto elevar-se e as lanternas brilharem como estrelas suspensas. pôs-se a mesa para o jantar e Ming-Y ocupou o seu lugar. ainda que não possa alardear instrução musical. Enquanto o bebia.Ouvi falar do seu raro talento . Buck 22 mais doce e bela criatura que até ali conhecera t amava-a ainda mais que a seu pai e a sua mãe. Era um vinho cor de púrpura. Ming-Y aceitou o convite. Ming-Y experimentava a sensação de que tudo se tornava mais luminoso. O seu coração dilatou-se. à morte e ao destino dos homens. não ousou demorar-se na sua presença sem um convite formal e. que presidem à vida. comigo.e dos seus muitos dotes galantes. e as suas palavras uma graça tão estranha como Ming-Y jamais ouvira. Siè aconselhou o seu jovem convidado a beber vinho.afirmou-lhe . Sei cantar um pouco. as longas sombras do crepúsculo fundiram-se lentamente numa escuridão cor de violeta. como a melodia dos regatos e o murmúrio das fontes. Jante. Mas Siè não o detinha e. depois de beber a chávena de chá que lhe serviram. e retribuíam o seu olhar de apaixonada admiração com afectuoso interesse. ao sabê-la viúva. levantou-se para partir. as paredes do aposento dir-se-ia recuarem. pois estou certa de que o seu nobre amo se zangaria muito se souesse que esteve aqui e que não o recebi como hóspede de honra. o grande clarão do poente empalideceu e os seres estrelados chamados Três Conselheiros. e beberam juntos várias taças. embora os seus lábios não sorrissem.O nome da minha humilde família é Ping. Ao notar que mal tocava nas iguarias. A voz de Siè chegava aos seus ouvidos qual melodia distante escutada através da imensidão de uma noite lânguida. secretamente feliz. tão fresco que a taça se cobria de vapor. com pouca vontade de comer e a pensar apenas no rosto encantador que tinha à sua frente. Fui casada com um jovem da família Ping e por esse casamento fiquei aparentada com o seu excelente amo. os seus oblíquos olhos cintilantes pareciam rir de prazer dos louvores que o moço lhe tecia. uma antiga família da cidade de Tching-tou. . e sinto-me tentada a esquecer a modéstia e a pedir-lhe que cante algumas canções comigo. meu amigo. e Siè é também o meu nome. abriram os seus olhos frios e brilhantes do lado norte do céu.. mas parecia aquecer as veias como um fogo estranho. mas meu esposo faleceu pouco depois do casamento e eu escolhi este lugar solitário para viver durante a minha viuvez. Dentro da casa de Siè acenderam-se as lanternas pintadas. ao menos. pois Siè parecia-lhe a PearlS.

e fundiram-se em líquida doçura.Sinto-me incapaz de exprimir a minha gratidão por tão excepcional favor. o Fung-hoang. continuo firme como pedra e as minhas letras resistem como laca. excelsos poetas e músicos da dinastia Thang. esse génio da tinta. Querido Ming-Y. cantemos juntos os seus versos com a velha melodia. comovido pelo feitiço da voz da companheira. . os caracteres eram belos e de um estilo antigo. deveras. a música daqueles anos grandiosos em que os homens eram mais nobres e mais sábios do que hoje.respondeu-lhe Ming-Y. a escrita dos grandes mestres que cantaram quinhentos anos antes do nosso nascimento! Que sorte magnífica terem sido preservados e existirem ainda! Esta deve ser a tinta maravilhosa acerca da qual se escreveu: Po-nien-jou-chi. que não é maior do que uma mosca. senhora! . por um momento que fosse. com lágrimas de felicidade a correrem-lhe pelas faces. e as composições estavam Histórias Maravilhosas do Oriente 2£ assinadas por Youen-tchin. . Passados momentos. até a noite ir muito avançada. com estranho fulgor no olhar. -A honra será minha. príncipe dos poetas e governador de Sze-tchouen há cinco séculos! . Ming-Y deixou-se ficar a ouvi-la. querida senhora . mais valiosos do que os tesouros dos reis! Esta é. Assim passou a nona hora e continuaram a conversar e a beber o vinho fresco cor de púrpura.Sentir-me-ia feliz se condescendesse em apreciar as minhas composições musicais. . Ming-Y pegou nos manuscritos e começou a examiná-los com sincero deleite.murmurou Siè.São inestimáveis. Koa-pien e Thou-mou. como o gorjeio de aves encantadas. Oh. em êxtase mudo. a canção de Kao-pien.Kao-pien. e a cantar as canções dos anos da dinastia Thang.» E como é divino o encanto desta composição. mas de todas elas Siè o .Kaopien é também o meu favorito.exclamou. querido Kao-pien! . Ming-Y pensou mais de uma vez em partir. O papel tinha um tom amarelo-pálido e a leveza da gaze. i-tien-jou-ki «Depois de séculos. Ming-Y não escondeu o seu entusiasmo ao ver tesouros tão inestimáveis e únicos e nem coragem tinha de os abandonar. como se houvessem sido desenhados pelo pincel do próprio Heisong ChéTchoo. As suas vozes ergueram-se na noite perfumada. Siè tocou um gongozinho de prata e a criada trouxe a música.

O rapaz beijou ternamente a prenda e a mão que lha dava. árvores. que o mergulhavam numa espécie de transe. que é uma imitação da guerra) e compunham poemas de oitenta versos acerca de flores. conscientemente. na sua voz doce e cristalina. jovem como é. as canções de Youen-tchin. com a forma de um leão deitado. Escolhiam os temas mais difíceis. volte as vezes que quiser. Passavam-nas por completo entregues aos mesmos prazeres que haviam tornado o seu primeiro encontro tão encantador: cantavam e conversavam alternadamente. se alguma vez lhe der. Ofereceu-lhe um curioso e primoroso pisa-papéis. embora a distância fosse um pouco grande. esculpido em jade tão amarelo como o criado pelo arco-íris em honra de Kong-fu-tze. meu querido. que ficava cercado e vencido.reteve. Ming-Y proferiu a primeira mentira da sua vida: que a mãe lhe pedira que passasse as noites em casa. As aves acordaram. regatos. Quando jogavam xadrez. a contar. ao regressar a casa do senhor Tchang. excepto o do ouvido. Buck 24 te. dos poetas da dinastia Thang. os poemas de Siè eram sempre superiores aos dele na harmonia. Sei que não é daqueles que atraiçoam S os. e aceite esta pequena lembrança da nossa feliz noite. . agora que o tempo estava tão agradável. o ísiang de Ming-Y. podia às vezes proceder insensatamenPearlS. Siè ra acompanhou-o ao terraço e beijou-o ternamente. de Kao-pien. Outras vezes entoava uma canção tão estranha que todos os seus sentidos pareciam falecer. pois. nuvens. era sempre o rei de Ming-Y. motivo para me censurar. histórias maravilhosas de grandes poetas e das mulheres por eles amadas. as flores abriram as suas pétalas ao Sol nascene e Ming-Y viu-se. de Thoumou e. não esqueça que só as estrelas foram testemunhas do nosso amor.disse-lhe -. Siè excedia muito o seu jovem namorado. quando compunham versos. naquela manhã. tantas quantas o seu coração lhe pedir.jurou -. Querido rapaz .Que os espíritos me castiguem . jogavam xadrez (o jogo erudito. e as canções que cantavam eram também as de cinco séculos antes. por isso. mas. Não fale dele a ninguém. obrigado a despedir-se da sua encanta° teiticeira. sobretudo. inventado por Wu-Wang. Em todos estes passatempos. Rogo-lhe. na elevação clássica do pensamento. o que permitiu ao moço professor ir todas as noites a casa da bela Siè. na elegância de forma. Despediram-se com promessas mútuas e. aves e abelhas. grande poeta e governador da província de Sze- . ele era forte e vigoroso e precisava de ar e de exercício. finalmente. Tchang acreditou nas suas palavras e não levantou objecções.

temos de nos separar para sempre por razões que não te posso explicar. Naturalmente Ming-Y travou conhecimento com algum jovem simpático com quem passa as noites e mentiu-me por recear que não o deixasse abandonar a minha residência. e contou a Tchang o que acontecera. porém.Amor .protestou o alto-comissário. mas ao chegar ao ponto mais escuro da estrada o rapaz desapareceu como se a terra o houvesse engolido. vem morto de cansaço.tchouen. regressou a casa. nem lugares de dissipação na vizinhança. senhor. quando Ming-Y saiu da residência de Tchang. ao entrar nos aposentos da sua amada. depois de prometer visitar Tchang na manhã seguinte. Não. de manhã. Pelou concordou imediatamente com a proposta e. o pai de Ming-Y respondeu-lhe: Mas. Naquela noite. que lhe perguntou: . Assim passou o Verão sobre o seu amor e chegou o luminoso Outono. pois vou tentar descobrir o mistério. Rogo-lhe que não lhe diga nada. Depois de o procurar em vão. o qual imediatamente mandou informar Pelou.Nunca vi nada de mau no rapaz e não há tabernas. Esta mesma noite mandarei o meu criado segui-lo e ver para onde vai. agora que o Inverno se aproxima? A distância é grande e quanHistórias Maravilhosas do Oriente 25 do ele volta. Ming-Y teve a dolorosa surpresa de a encontrar lavada em lágrimas. abraçando-o -. . Sabia desde o princípio que assim aconteceria. Entretanto. nem pensar nisso! . com as suas névoas de falso ouro e as suas sombras de mágica púrpura. o criado regressou a casa. meu filho não foi à cidade nem esteve em nossa casa durante todo o Verão! Receio que tenha adquirido maus hábitos e passe as suas noites em companhia indesejável. Porque não permite que durma na minha casa durante a estação da neve? Surpreendidíssimo. um criado seguiu-o à distância. nem barcos de flores. o pai de Ming-Y encontrou o amo do filho. cheio de espanto. . Inesperadamente. .soluçou ela. talvez a jogar ou a beber com as mulheres dos barcos de flores.Porque precisa o seu rapaz de caminhar todas as noites para a cidade.

e com certeza não se recusará a receber-me. Pelou interpelou-o: . Sem lhe dar tempo de proferir uma palavra sequer. Mas a beleza pálida da manhã chegou. No entanto. meu querido! Sei que jamais me esquecerás enquanto viveres.» Tais eram os pensamentos que lhe povoavam o espírito quando chegou a casa de Tchang e encontrou o pai e o amo à sua espera. Cantou-lhe uma linda canção antiga. no alpendre. de ágata maravilhosamente cinzelada. na presença do pai. uma caixinha de pincéis. Não tardaram a esquecer a sua tristeza na alegria da música e do vinho.Onde tens passado as noites. trouxe vinho e músicas e o melodioso kin de sete as de seda. para que não guardes de mim uma recordação dolorosa e recordes o meu riso de preferência às minhas lágrimas. e que uma bela e encantadora mulher te consolará da minha perda. de cabeça baixa. e com ela regressaram a tristeza e o pranto. E agora não falemos mais de tristezas. Ming-Y confessou a história do seu amor. também. do que as horas abençoadas do seu primeiro encontro. mas sei também que serás um grande sábio. E separaram-se para sempre. Limpou os olhos. cumulado de honrarias e de riquezas. e não consentiu que Ming-Y se referisse à próxima sePearlS. Buck 26 paração. ao dar-lhe um beijo de adeus. da mágoa e do enfado escurecerem o seu pequeno mundo. pois não posso viver sem ela. ordenou-lhe que divulgasse o seu segredo e. com muitas lágrimas. até. pensava. por fim. e aquelas últimas horas pareceram a Ming-Y mais celestiais. «Visitá-la-ei amanhã. que falava da serenidade dos lagos estivais que reflectiam apenas o azul do céu e da serenidade do coração antes de as nuvens dos cuidados. Mais uma vez Siè acompanhou o namorado aos degraus do terraço e. Ming-Y não acreditava que a separação fosse eterna. meu filho? Compreendendo que a sua mentira fora desmascarada. que não posso deixar de chorar! Depois desta noite nunca mais nos veremos. passemos alegremente esta última noite. Pelou bateu-lhe então violentamente. «Não!». da lei segundo a qual «o filho que se recuse a obedecer ao seu progenitor será punido com cem vergastadas de bambu». a desgraça tão inesperada. receoso do pai e. por fim. digna de um grande poeta. .mas a perda é tão súbita. meteu-lhe na mão uma prenda de despedida. Ming-Y não ousou responder e ficou envergonhado e silencioso.

nunca ouvi falar da mulher que descreves nem. Não duvido que o moço Ming-Y fala verdade. os presentes que Sié lhe dera: o leão de jade amarelo.Tchang mudou de cor ao ouvir as palavras do moço: . Ming-Y mostrou-lhes. da autoria da própria senhora. nimbadas pela suave luz outonal. eram verdadeiras obras-primas poéticas. onde os perfumes eram mais doces. recitou o famoso verso do antigo poeta Tching-Kou: . nada mais se divisava agora que um túmulo tão antigo. não tenho nenhum parente com o nome de Ping. espaço vazio. onde estivera a fachada verde e dourada. Quando chegaram ao ponto mais sombrio da estrada. voltando-se para Pelou. a caixa de pincéis de ágata esculpida e.Filho . os musgos mais verdes e os frutos do pessegueiro bravo mais rosados.declarou o alto-comissário -. e onde existira o largo terraço. no entanto. da casa a que aludes. Pelou Histórias Maravilhosas do Oriente 27 CO mpartilhou o espanto de Tchang ao notarem ambos que a caixa de -gata e o leão de jade tinham o aspecto de objectos que haviam permanecido séculos debaixo da terra e denunciavam uma arte que não estava no poder de nenhum vivente imitar. A casa de Siè desaparecera! De súbito o alto-comissário passou a mão pela fronte e. então. Sei. estou certo de que deve haver algum estranho mistério em todo esse caso. apenas. acompanhemos imediatamente o rapaz ao lugar onde obteve estes objectos miraculosos e recorramos ao testemunho dos nossos sentidos para esclarecer este mistério. mas a sua história ultrapassa a minha compreensão. Quanto às composições. sequer. havia agora. tão profundamente comido pela humidade e pelo musgo que o nome gravado na pedra se tornara indecifrável. Ming-Y olhou através das árvores e soltou um grito de espanto.sugeriu o alto-comissário -. também. E puseram-se os três a caminho da casa de Siè. que não ousarias mentir ao teu honrado pai e. Onde o telhado de telhas azuis se erguera para o céu. Amigo Pelou . algumas composições originais. por isso. no estilo da dinastia Thang. somente roçagavam agora folhas de árvores.

Buck mN seu filho se encontram caracteres que dizem: «Puro objecto de arte pertencente a Kao. mas permanece a recordação de Kao-pien.. Falou por enigmas em tudo quanto disse. mas Ping-Khang é o nome de uma travessa larga. A neblina matinal ofuscava a distância verde e acentuava a beleza fantástica da floresta. Pelou mandou-o imediatamente para a cidade de Kwang-tchau-fu. a beldade que enfeitiçou seu filho não foi outra senão aquela cujo túmulo se encontra nas ruínas que estão diante de nós! Não disse ter sido esposa de Ping-Khang? Não existe nenhuma família com esse nome. na cidade. colocados juntos. não há nenhuma pessoa nem rua com esse nome. anos volvidos. cuja graça não teve par entre as mulheres da sua época? Foi ele que lhe ofereceu estes manuscritos. jamais esqueceu Siè-Thao.. famosos pelas suas virtudes e dotes. perto daqui. Casou com a filha de uma casa ilustre. Escutem! A Travessa Ping-Khang. Preocupadíssimo com o filho.continuou -. nem mesmo quando os filhos lhe pediam que contasse a história dos dois bonitos objectos que conservava sempre na sua escrivaninha: um leão de jade amarelo e uma caixa de pincéis de ágata esculpida. Não é verdade ainda que. da cidade de Pho-hai»? Essa cidade já não existe. mas há qualquer coisa dela que ainda vive nesta densa floresta. era o lugar onde viviam as grandes cortesãs da dinastia Thang! Não e verdade que essa mulher cantava as canções de Kao-pien? Não é em verdade que na caixa de pincéis e no pisa-papéis que deu a 28 PearlS. embora se diga que nunca falou dela. deixando um rasto de perfume . Os seus membros podem ter-se desfeito em pó. situada na Rua Kiao.. foi sua favorita a bela e voluptuosa Siè. pois foi governador da província de Sze-tchouen e grande poeta. Passou por eles uma leve brisa. que o tornou pai de filhos e filhas. mas os caracteres chineses Moun e Hiao. a sua sombra ainda vagueia neste lugar escuro.» Amigo Pelou . foi ele que lhe ofereceu estes raros objectos de arte. formam o carácter Kiao. no silêncio: Siè-Thao. Aí. ténue como o perfume que se agarra à seda de um vestido esquecido -. No entanto. enquanto viveu na terra de Chou. Tchang calou-se e um medo vago apoderou-se dos três homens. Declarou chamar-se ie de Moun-hiao. graças aos seus talentos e à sua erudição. mas não como morrem as outras mulheres.«Certamente as flores de pessegueiro desabrocham sobre o túmulo de SièThao.Ming-Y alcançou grandes dignidades e honrarias. O príncipe veado . Siê-Thao morreu. e as árvores pareceram murmurar. Siè-Thao.uma última fragrância de flores moribundas.

e por fim foram ter a um imenso e escaldante deserto. é. Irmãzinha . Infelizmente. graças ao artifício de uma escrava ciumenta. depois da morte do pai. de noite. dentro dele dá à luz um principezinho.exclamou a rapariga..disse -.«J Este conto de encantar da Turquia fala do filho e da filha de um soberano que. e. o jovem sentiu-se incapaz de avanÇar mais um passo que fosse. o jovem príncipe bebe água encantada. Se o povo soubesse. Parece-me melhor. i.. morreu e o filho sucedeu-lhe. portanto. . Reuniram o pouco que lhes restava e.vi» :. Andaram. ” Não. o irmão e a irmã abandonaram o palácio do pai e foram correr o vasto mundo. como a jovem é engolida por um grande peixe. Buck 30 . Mas o filho não soube governar e não tardou a perder toda a sua herança. o ver uma pequena poça de água. não poderei ir mais longe se não beber esta água. Como depois cuida da irmã. foram obrigados a abandonar o seu reino e a vaguear pela Terra.Quem sabe se Pecais. e fica transformado em veado. Um dia disse à irmã: . o paxá. como uma velha astuta a convence a descer e a desposar o paxá. restituída ao marido. como. O paxá envelheceu. querido irmão! .Todo o nosso dinheiro se gastou. para mitigar uma grande sede. Mas lede. chegou a sua hora. andaram. lede e vereis! Era uma vez um paxá que tinha um filho e uma filha. partirmos e recomeçarmos vida noutro lado qualquer. expulsar-nos-ia da nossa casa e nunca mais conseguiríamos levantar a cabeça. finalmente. depois de tudo isso. empoleirada numa árvore.-**.

mas nada mais podiam fazer do que continuar a andar.Talvez a água esteja suja de lama . com certeza. os cavaleiros chegaram. irmãzinha . . levou-a para junto da árvore e comeu-a com a irmã. para a grande árvore.Tentem outra vez . descobriram a donzela e foram logo dar a notícia ao paxá.Despejámos o buraco e enchemo-lo de água limpa. ao olharem. Uma noite.Não está . os homens contaram o caso ao paxá. como de costume.alvitrou o paxá. semana após semana. O paxá suplicou-lhe que descesse da árvore.e observem bem as proximidades. atravessaram a imensidão arenosa e chegaram.Escuta. Subiram e desceram encostas.é boa ou má? Podemos.pediu o veado -.respondeu-lhe a j ovem. Este quis ver com os seus próprios olhos e encontrou. da qual não conseguiu desviar a vista. resistir um pouco mais e em breve encontraremos água fresca. Sem saberem que fazer.És espírito ou peri? . mas quando os cavalos iam a beber viram a imagem da donzela reflectida na água e recuaram. Deve haver alguma coisa perto da nascente. deves trepar para aquela árvore. debaixo de uma grande árvore. que os assusta. mas os cavalos não quiseram beber. finalmente. . despejaram o buraco e voltaram a enchê-lo. a uma nascente. mas não encontrou Histórias Maravilhosas do Oriente .Não sou espírito nem peri. embora isso me mate. bebeu a água . . . Os cavalos do paxá costumavam ir beber à nascente. debaixo da grande árvore. uma menina linda como a Lua. onde pararam a descansar.ordenou-lhes o amo . -Já te disse que não darei nem mais um passo enquanto não beber. enquanto tento arranjar alguma comida. A rapariga empoleirou-se na árvore e o veado subiu e desceu encostas. Assim viveram dia após dia. Os cavaleiros regressaram e.perguntou-lhe. Os cavaleiros pensaram que talvez a água não estivesse limpa. A irmãzinha chorou amargamente tamanha desgraça.que era encantada . . de facto. sou mortal como tu . apanhou uma lebre.até à última gota e transformou-se em veado. mas os cavalos recuaram de novo e não beberam. . por fim. Ajoelhou. empoleirada na árvore. .afirmaram os cavaleiros.

m. lavras que a demovessem e irritou-se. Ordenou aos seus homens e abatessem a árvore, estes foram buscar machados e atacaram o onco Desferiram machadada atrás de machadada, até restar apenas m caule estreito, mas como, entretanto, escurecera, interromperam o trabalho até ao dia seguinte. Mal se afastaram, o veado surgiu a correr da floresta e perguntou à irmã o que sucedera. Ao ouvir a história, redarguiu-lhe: Fizeste bem, irmãzinha. Toma cuidado, não desças nunca, digam-te o que te disserem. Aproximou-se da árvore, lambeu-a e os ferimentos produzidos pelos machados desapareceram ficando o tronco outra vez intacto. No dia seguinte, depois de o veado partir para a floresta, os homens do paxá voltaram e verificaram que a árvore se tornara mais larga e mais forte do que era antes. Brandiram novamente os machados e trabalharam até chegarem ao meio do tronco, mas, entretanto, anoiteceu e, mais uma vez, interromperam a tarefa e deixaram o resto para o dia seguinte. Todo o seu trabalho anterior se perdeu, porém, pois o veado regressou, lambeu de novo a árvore e o tronco tornou-se, acto contínuo, mais largo e duro do que nunca. De manhãzinha cedo, logo a seguir à partida do veado, o paxá chegou com os seus lenhadores. Quando viram que o tronco estava outra vez intacto, resolveram tentar convencer a rapariga a descer, usando de outros meios. Regressaram ao palácio e mandaram chamar uma velha bruxa muito famosa, a quem contaram a história e prometeram rica recompensa se conseguisse, graças a alguma manha subtil, levar a donzela a descer da árvore. A velha bruxa concordou de bom grado e, munida de um tripé de ferro, um caldeirão e várias carnes cruas, colocou tudo perto da nascente. Depois armou a tripeça e pendurou nela o caldeirão, mas de pernas para o ar. Feito isto tirou água da nascente e deitou-a, não no caldeirão, mas no solo, conservando sempre os olhos fechados, como se fosse cega. A rapariga julgou que fosse, de facto, cega e disse-lhe, do alto da árvore: Querida velhinha, puseste o caldeirão ao contrário e a água caiu toda para o chão! • Acontece assim, doce donzela, porque não tenho olhos para ver Pearl S. Buck Histórias Maravilhosas do Oriente

32 33 - respondeu-lhe a bruxa. - Trouxe alguma roupa suja comigo e, se amas Alá, desce e vem ajudar-me a lavá-la. A jovem lembrou-se das palavras do irmão e não desceu. No dia seguinte, a velha bruxa voltou, andou às apalpadelas, acendeu uma fogueira e tirou um saco de farinha para peneirar, mas deitou cinzas na peneira, em vez de farinha. - Pobre avózinha! - exclamou a donzela, compadecida, e explicou-lhe que estava a peneirar cinzas. - Oh, querida menina, sou cega, não vejo! - chorou a velha. Desce e ajuda-me na minha aflição! Mas o veado voltara a recomendar seriamente à jovem, naquela própria manhã, que não descesse da árvore, fosse o que fosse que lhe dissessem, e ela obedeceu. No terceiro dia a velha bruxa reapareceu. Desta vez trazia uma ovelha e uma faca para a matar, mas começou a apunhalá-la e a esfolá-la pela parte de trás, em vez de lhe cortar a garganta. A pobre ovelhinha balia horrivelmente e a jovem, incapaz de suportar a visão do seu sofrimento, desceu da árvore para pôr termo aos tormentos do animal. O paxá, que estava escondido ali perto, apareceu e levou-a para o seu palácio. A jovem era tão bonita que desejaria desposá-la sem demora, mas ela recusou-se a consentir enquanto não encontrassem o irmão, isto é, o veado. Se ele não aparecesse, afirmava, não teria um momento de tranquilidade. O paxá mandou homens para a floresta e eles apanharam o veado e levaram-no à irmã, da qual nunca mais se afastou. Mesmo depois de o paxá e a jovem casarem, o veado encontrava-se sempre perto deles e, à noite, afagava-os com a pata, um de cada vez, antes de se deitar a seu lado, e dizia: 3 Este pezinho é para a minha irmã, E este pezinho é para o meu irmão.

Teriam vivido felizes desta maneira se não houvesse no palácio uma certa escrava. O ciúme devorava-a só de pensar que o paxá tomara por esposa a donzela esfarrapada do alto da árvore, em vez dela própria, e procurava oportunidade de se vingar. Havia no palácio um bonito jardim com uma fonte, onde a jovem

l snosa do paxá costumava passear. Um dia, com um pires de oiro na mão e uma sandália de prata no pé, dirigiu-se para a grande fonte, mas escrava invejosa seguiu-a e empurrou-a para dentro dela, onde um enorme peixe a engoliu imediatamente. A escrava regressou então ao palácio, vestiu os trajes dourados da sultana e sentou-se no seu lugar. Ao regressar, à noite, o paxá perguntou-lhe, julgando tratar-se da esposa, que fizera ao rosto, que o tinha tão transtornado. Passeei muito no jardim e estou fatigada - respondeu-lhe a escrava. O paxá acreditou-a e sentou-se a seu lado, mas o veado veio juntar-se-lhes e reconheceu a escrava, ao afagá-los com o casco e ao dizer: Este pezinho é para a minha irmã, E este pezinho é para o meu irmão. Tornou-se então desejo da escrava ver-se livre do veado o mais depressa possível, com medo de que a denunciasse. Depois de pensar muito, fingiu-se doente, mandou chamar os médicos e deu-lhes uma grande quantia em dinheiro, para que dissessem ao paxá que só se curaria se comesse o coração do veado. Os médicos procuraram o soberano e informaram-no de que, se a esposa não comesse o coração do veado, não haveria esperança de se salvar. O paxá foi ter com a escrava, que ainda julgava ser a sua esposa, e perguntou-lhe se teria coragem de comer o coração do próprio irmão. - Que hei-de fazer? - suspirou a impostora. - Se eu morrer, que será do pobre bichinho? Se o matarem, viverei e ser-lhe-ão poupados os tormentos que padecem os pobres animais quando envelhecem e adoecem. O paxá ordenou que afiassem uma faca de carniceiro, acendessem uma fogueira e pusessem sobre ela um caldeiro de água. Compreendendo o que se passava, o pobre veado correu para a fonte e disse três vezes à irmãzinha: A Jaca está na pedra, A água está ao lume, Apressa-te, irmãzinha, apressa-te! PearlS. Buck 34 E três vezes ela lhe respondeu, das entranhas do peixe:

e ouviu tudo quanto os irmãos disseram um ao outro. que esgotassem toda a água do reservatório da fonte. bom e delicado. nas entranhas do peixe! O paxá. a uma bonita princesa e a um peri ainda mais bonito. ffi. para que tenha o prazer de os montar. uma sandália de prata no pé e um filhinho nos braços. O paxá mandou então chamar a escrava ciumenta e perguntou-lhe que preferia: quatro bons corcéis ou quatro boas espadas.respondeu-lhe . beberaa e voltara a ser príncipe. Uma sandália de prata no pé E nos braços um paxázinho! Pois a esposa do paxá dera à luz um filho. . O príncipe era o mais novo dos três filhos do sultão das índias. onde lhe contaram tudo quanto se passara.Aqui estou no ventre do peixe. ficou com eles. que fora confiada aos cuidados do sultão. e o filho do rei. Por j fim foi o peri quem ajudou a resolver o problema e viveram todos muito felizes.Guardai as espadas para o pescoço dos meus inimigos . preocupado. e este.e daime os quatro corcéis. Os homens do paxá amarraram-na à cauda de quatro bons cavalos e mandaramna dar um passeio. Deram um grande banquete que durou quarenta dias e quarenta noites e todos realizaram os seus desejos numa vida longa e venturosa. que fora veado.: O príncipe Ahmed e ajada Peribanou \ Este conto de encantar persa refere-se a um jovem príncipe. abraçaram-se e choraram de alegria. Mas o paxá e a esposa viveram felizes. Os corcéis esfrangalharam a invejosa rapariga. ao vêlo dirigir-se para o jardim. O soberano abraçou a esposa. fizeram-na em bocadinhos e lançaram-nos ao vento. 35 . encontrara uma substância mágica no sangue do peixe. Os três irmãos estavam todos apaixonados pela princesa. Correu para junto da irmã. retirassem o peixe e lhe abrissem a barriga. E que julgais que viu? Nas entranhas do peixe encontrava-se a sua mulher. com um pires de oiro na mão. empenhado em apanhar o veado. Quanto ao veado. serenamente. Com um pires de oiro na mão. fora sorrateiramente atrás dele. beijou o filho e levou-os para o palácio. Ordenou. tentou encontrar maneira de descobrir qual dos seus filhos era mais digno de desposar a jovem.

ao verificar que se opunham terminantemente a tal soluÇão. portanto. ao nascer do dia. Assim. prevendo que seria difícil levá-los a chegar a um acordo quanto àquele a quem a mão da jovem deveria ser dada. mandou chamar os três. pensando casá-la com algum príncipe vizinho. o segundo Ali. findo o qual se reencontrariam na estalagem. chegou a Bisnaga. Buck 36 com os outros. a mão da minha sobrinha àquele que me trouxer a raridade mais extraordinária. quando atingisse idade conveniente. por deferência. enquanto jantavam. Um dia descobriu. e cada um pensava que talvez a sorte o favorecesse. combinaram viajar durante um ano. era possível que regressassem juntos também. Prometo. Como obedeciam sempre à vontade do sultão. que morrera e a deixara órfã ainda muito pequena. para não andarem juntos e a brigar uns Peart S. dispostos a partirem na manhã seguinte. sou muito curioso e delicio-me com tudo quanto é singular. depois de se abraçarem e desejarem mutuamente felicidades. capital do reino do mesmo nome e residência do rei. Para a sua aquisição e para as despesas de viagem. O pai entregou-lhes o dinheiro e naquele mesmo dia ordenou que se iniciassem os preparativos das viagens. vestidos de mercadores. como tinham partido juntos. O sultão tomara a seu cargo a educação da sobrinha e criara-a no seu palácio com os três limos. já que não os consegui persuadir a escolher quem deve esposar a princesa.Houve em tempos que já lá vão um sultão que tinha três filhos e uma sobrinha. Aquele que chegasse primeiro esperaria pelos outros. todos bem montados e equipados. o mais velho. pois. porém. os dois príncipes mais jovens deviam consentir em resignar-se a favor do irmão mais ve no. No primeiro dia viajaram juntos e ficaram numa estalagem onde a estrada se dividia em três outras estradas. Instalou-se num caravansará destinado a mercadores estrangeiros e aí tomou conhecimento de que existiam quatro zonas principais onde mercadores de todos os géneros vendiam as suas mercadorias e tinham as suas lojas. O príncipe mais velho chamava-se Houssain. No meio da praça do mercado erguia-se o palácio do rei. partiram da mesma porta da cidade. mas. Os filhos despediram-se dele. darei a cada um certa soma de dinheiro. A princesa Nouronnibar era filha do irmão mais novo do sultão. Nouronnibar. O príncipe Houssain. montaram nos seus cavalos e cada um tomou a sua estrada. acho que não seria má ideia se cada um de vocês jasse por países diferentes. o mais novo Ahmed e a princesa. à noite. No dia . que os seus três filhos a amavam apaixonadamente e ficou muito preocupado. Achou que. concordaram todos com a proposta. Como sabem. e cada um deles com um oficial de confiança disfarçado de escravo. Na manhã seguinte. sobrinha do sultão. Hinos.

também. dos diamandos rubis. o mesmo acontecendo com os artesãos. com animais. Os mercadores tinham igualmente rosas em jarras. e prata lavrada.Se o preço lhe parece extravagante. Pouco depois de se sentar. que o tomou por mercador. O pregoeiro. Depois de a examinar bem. confessou ao pregoeiro não compreender por que motivo pedia preço tão elevado por tapeçaria tão pequena e insignificante. um comerciante convidou-o a sentar-se na sua loja. fizeram-no duvidar dos seus próprios olhos. A grande quantidade de lojas.Deve possuir algo de muito extraordinário que eu ignoro . . ficou muito impressionado e observou a praça com admiração. Houssain chamou-o e pediu-lhe que lhe mostrasse a tapeçaria. . todas abobadadas e protegidas do sol. ficou extasiado perante tão prodigiosas quantidades de Histórias Maravilhosas do Oriente m . porcelanas do Japão e da China e maravilhosas tapeçarias). sedas e brocados da Pérsia e da China. Outra coisa que o príncipe Houssain também admirou foi o grande número de vendedores de rosas que enchiam as ruas. As lojas eram de igual tamanho e os comerciantes de cada espécie de mercadorias ocupavam uma rua. à pouca espessura do tecido. Quando chegou às lojas dos ourives e joalheiros. mas. árvores e flores pintadas nas cores mais vivas. que o homem apregoava por trinta moedas. que tinham as suas oficinas em ruas mais pequenas. Como estava muito fatigado.comentou o príncipe. que lhe pareceu avaliada em preço exorbitante. maior será a sua surpresa se lhe disser que tenho ordem de o elevar para quarenta dinheiros e não vender por menos. replicou-lhe: . rua por rua. não só devido ao seu tamanho como. o príncipe Houssain sentia-se deslumbrado com as maravilhas que vira. abastecidas de toda a espécie de mercadorias (os mais finos linhos da índia.seguinte dirigiu-se a uma dessas zonas. e ofuscado pelo brilho das pérolas. nas lojas. os indianos gostam tanto desta flor que não fazem nada sem um ramalhete na mão ou uma grinalda na cabeça. Depois de observar as mercadorias daquela zona. apesar disso. muito claras. o príncipe viu passar um pregoeiro levando no braço uma tapeçaria dos seus seis pés quadrados. das esmeraldas e de outras pedras preciosas expostas para venda. Era grande e dava para várias ruas. para perfumarem o ar.

Em resumo. e. lhe mereceria a mão de Nouronnibar. e achou que não podia encontrar nada mais adequado. o senhor desejará ser transportado aos seus aposentos no caravansará. O príncipe aceitou as condições e fechou o negócio. Como não precisava de mais provas da virtude do tapete. embora o vendedor pague o meu trabalho. Ao ouvir tal explicação. Bastar-lhe-ia sentar-se no tapete para estar no ponto de encontro naquele mesmo dia. estava tão ansioso por se encontrar mais perto da princesa que estendeu o tapete. o príncipe das índias lembrou-se de que o pnncipal motivo da sua viagem era levar para casa uma raridade qualquer. e de se informar acerca da força.Aliás. . mas como seria obrigado a esperar aí pelos irmãos. sentou-se nele com o oficial que o acompanhava e. ~~ Se o tapete possui a virtude que lhe atribuis . o príncipe exprimiu o seu desejo e pouco depois encontrou-se com o pregoeiro nos seus aposentos. Se não nos transportar. resolveu demorar-se ali alguns meses. Desta maneira ficou o príncipe Houssain possuidor do tapete e feliz por em tão pouco tempo de estadia em Bisnaga haver encontrado uma raridade tão grande que. com a PearlS.disse ao pregoeiro . O que há de extraordinário neste tapete é que quem quer que nele se sente será imediatamente transportado aonde desejar. embora o príncipe Houssain pudesse ficar mais tempo na corte de Bisnaga. estava certo. não considero quarenta dinheiros preço exorbitante e ainda te darei um presente. contou as moedas de oiro e juntou-lhe mais vinte.. Como calculo que não traz tanto dinheiro consigo. Fechemos o negócio por quarenta dinheiros. depois de nos sentarmos nele. mal proferido o desejo. aceitá-lo-ei como um favor e ficar-lhe-ei muito agradecido.afirmou o homem. de presente. com esse objectivo. r. Sentaram-se ambos no tapete. de acordo com o combinado. nesse capítulo. ficará desobrigado do negócio. Colocarei o tapete no chão e. . dos costumes e da religião do reino. parecia-lhe impossível que os irmãos mais novos encontrassem alguma coisa que se pudesse comparar ao que ele próprio encontrara.~T~ Disse-lhe a verdade. sejam quais forem os obstáculos. . senhor. Buck 38 condição de eu fazer uma demonstração. Quanto ao presente. foram transportados à estalagem onde ficara de se reunir aos irmãos.Acertou. O tempo passou e. sentia curiosidade de ver o rei de Bisnaga e a sua corte. será convencê-lo. senhor . das leis. acompanhá-lo-ei à sua morada.

mas decidirá por si próprio quando o informar da sua característica especial. O pregoeiro elucidou-o e o príncipe olhou pelo vidro indicado. Na manhã seguinte vestiu-se e foi dar um passeio pelo bazar de Xiraz. escolheu a estrada que levava à Pérsia. pode ter a certeza de que vale outro tanto ou mais.Não é o senhor a primeira pessoa que me julga doido por causa deste telescópio. A princípio. passados quatro dias de viagem. . se apregoa o telescópio de marfim por trinta moedas. Garanto-lhe que é um dos nossos pregoeiros mais competentes e o mais utilizado por todos quando queremos vender alguma coisa valiosa. onde passou por joalheiro. disse-lhe: . Portanto. aquele homem é doido? Se não é. queira observar que este tubo tem um vidro em ambas as extremidades e considerar que. devo estar muito enganado. um que segurava na mão um telescópio de marfim.O príncipe Ali. Eu próprio me sentiria muito surpreendido se já não te conhecesse. O príncipe Ali aceitou a amável oferta do mercador e.Mostre-me por que extremidade deverei olhar para acontecer o que diz. espreitando por um deles. chegou a Xiraz. O pregoeiro voltou-se para o príncipe e declarou: . viu. surpreendido. senhor. . ao mesmo tempo . poderá ver qualquer objecto que deseje. sente-se no meu sofá e descanse. apontando o príncipe. Mas ele passará por aqui em breve.De bom grado pedirei desculpa do que pensei se assim for afirmou o príncipe. O dono do estabelecimento chamou-o pelo nome e. juntou-se a uma caravana e. Primeiro . Entretanto. senhor. o mercador passou.prosseguiu o pregoeiro. de cerca de trinta centímetros de comprimento e da grossura de um dedo de homem. para se certíHistórias Maravilhosas do Oriente f r dirigiu-se a um mercador que se encontrava à porta da sua loja e perguntou-lhe: __ Diga-me. capital do reino. ainda ontem estava no seu juízo perfeito. chamá-lo-emos e satisfará a sua curiosidade. Entre os pregoeiros que se azafamavam de um lado para o outro com as suas mercadorias. estendendo o tubo de marfim ao príncipe -. pegando no tubo de marfim.Explica a este cavalheiro porque apregoas esse pequeno telescópio por trinta moedas. julgou que o homem fosse doido e. Na verdade. o irmão do meio. pouco depois. que apregoava por trinta moedas.

Assim que a caravana se preparou para regressar. desejou vê-la & a sua vontade realizou-se: a princesa apareceu-lhe. pagou-lhe e recebeu o telescópio mágico.Se é verdade o que dizes. a seguir ao sultão. feliz e sem contratempos ou incómodos que não fossem os próprios de viagem tão longa e fatigante. de facto. sem ter tempo de beneficiar do seu invento. os irmãos não encontrariam nada tão raro e admirável. Deteve o homem e disse-lhe: . devolve-lhe imediatamente a saúde. O príncipe Ahmed escolheu a estrada de Samarcanda e. entregando-lhe a maçã -.Senhor. no seu toucador. esta maçã é conhecida de toda a cidade de Samarcanda. . Levou. Só é pena que tenha morrido de súbito. como a princesa Nouronnibar. para que te acredite. como. quando lá chegou. cura todos os enfermos das doenças mais mortais e. Em resumo. como nada no mundo lhe era tão querido. sem valor. que nela confia inteiramente. esta maçã parece. Depois. Mas. terás de mas demonstrar.Senhor . a rir e em disposta. sentado no seu trono entre os seus conseheiros. Avistou-o imediatamene> de perfeita saúde. a princesa Nouronnibar seria sua. de facto. exteriormente. bastando para isso que o doente cheire a maçã. graças à qual operou já muitas curas surpreendentes. rodeada de todas as suas aias. se o paciente está moribundo. o príncipe reuniu-se-lhe e chegou à estalagem. por isso. Buck 40 goeiro ao caravan-sará onde se instalara. produziu esta maçã. o préPearlS. achará que trinta e cinco moedas não são nada. O príncipe Ali ficou louco de contentamento com a aquisição e persuadiu-se de que. . pois quem a possuir será dono de um grande tesouro. esperaram pelo príncipe Ahmed. . a sua grande utilidade e os benefícios que pode trazer à Humanidade. mas se considerar as suas propriedades. as virtudes desta maçã são. ouviu um pregoeiro apregoar uma maçã artificial por trinta e cinco moedas. juntos. maravilhosas. por certo. Já lá encontrou o irmão Houssain e. O príncipe Ali não P ecisou de mais provas para se convencer de que aquele telescóera o objecto mais precioso do mundo e de que nunca enconana raridade que se lhe assemelhasse.que desejava ver o pai.respondeu-lhe o pregoeiro. fruto das experiências de um célebre filósofo desta cidade. Dedicou toda a sua vida ao estudo das virtudes de plantas e minerais e. Vários lhe dirão que não estariam vivos se não fora este remédio excelente.Mostra-me essa maçã e explica-me que virtudes e propriedades extraordinárias possui para valer preço tão elevado. . Interrogue os mercadores que vê por aí e ouça o que lhe disserem. finalmente.

Vamos. Logo que se encontrou no quarto de Nouronnibar. tinham-se reunido em volta deles muitas pessoas que confirmaram as palavras do pregoeiro. cada príncipe apresentou a sua raridae. quando viram pelo telescópio que a princesa agonizava. tanto por terem regressado como pela cura da sobrinha. Em resumo. Enquanto a princesa se vestia. para sustentar as crianças. . o príncipe Ali o seu telescópio de marfim e o príncipe Ahmed a sua maçã artificial. agradeceu a todos e depois. O sultão recebeu-os com a maior alegria. sobretudo ao príncipe Ahmed. depois das cerimónias e cumprimentos usuais. e assim aconteceu. As aias disseram-lhe alegremente que devia agradecer aos três príncipes o súbito restabelecimento da sua saúde. Entretanto. Sentaram-se imediatamente no tapete. aproximaram-se da cama e colocaram o pomo debaixo do nariz da moribunda. desejaram estar com ela. a experiência foi bem sucedida e. e.Posso garantir-lhe que se obtém sempre o efeito desejado. em particular. sentou-se na cama e pediu que a vestissem. como se acordasse apenas de um sono profundo. o príncipe Ahmed levantou-se do tapete. façamos a experiência e a maçã será sua . De novo juntos. depois de entregar as quarenta moedas ao pregoeiro. Uma delas declarou ter um amigo gravemente doente. ao príncipe Ahmed. os irmãos mostraram uns aos outros os respectivos tesouros. corno prometera. em perigo de vida.disse o pregoeiro ao príncipe. o príncipe prometeu ao pregoeiro quarenta moedas se curasse o enfermo. olhou as pessoas que a rodeavam.Deixou mulher e muitos filhos em situação pouco invejável e a pobre senhora tem de vender a maçã. Verificaram que o eunuco-chefe da princesa já informara o sultão da chegada dos filhos e da maneira como haviam curado a princesa. . num instante. e ser a oportunidade favoHistórias Maravilhosas do Oriente 41 ”vel para uma experiência. Aguardou pacientemente a primeira caravana com destino às índias e chegou de perfeita saúde à estalagem onde os príncipes Houssain e Ali o aguardavam. Ao ouvir tais palavras. imitado pelos irmãos. que estimava como se fosse sua filha. e a jovem não escondeu a alegria que lhe causava vê-los. Momentos depois a princesa abriu os olhos. senhor.o príncipe Houssain o seu tapete. a qual deles daria por esposa a princesa Nouronnibar. Deixaram a decisão a cargo do pai e pediram-lhe que se pronunciasse acerca do seu des> lsto é. voltou a cabeça de lado para lado. Qual não foi a sua consternação. os três irmãos foram lançar-se aos pés do pai e prestar-lhe as suas homenagens. porém. o príncipe ficou com a maçã.

Assim que o sultão chegou. Muniu-se cada um de arco e flecha e dirigiram-se para o local do encontro. portanto.Mas ouçam e vejam se isso é possível. mas poderias tê-la curado se não soubesses pelo telescópio do príncipe Ali o perigo que corria e se o tapete do príncipe Houssain não te tivesse trazido tão depressa? «O teu telescópio. informou-te. Embora se acreditasse que o seu disparo fora o de maior alcance e que. se pudesse fazê-lo com justiça . mas ninguém viu aonde a sua seta foi parar. cada um de arco e flecha e reúnam-se na grande planície onde se exercitam os cavalos. o príncipe Ali disparou a seguir. Buck 42 traziam e da maneira como fora salva a princesa. meus filhos. pelo contrário. a princesa seria muito ingrata se não reconhecesse o serviço prestado pelo teu tapete. que a princesa deve a sua cura à tua maçã artificial. príncipe Houssain. existe igualdade perfeita. a pensar na resposta que devia dar. merecia a mão da princesa Nouronnibar. de que podiam perder a princesa.disse por fim. não posso conceder a mão da princesa a nenhum e o único fruto que colheram das viagens que fizeram foi a glória de contribuírem igualmente para restaurar a sua saúde. compreendam que devo recorrer a outros meios para determinar qual de vocês merece ser escolhido. o sultão ficou calado durante algum tempo. pegou no arco e na flecha e disparou primeiro. e como. O sultão decidiu a favor do Histórias Maravilhosas do Oriente . «E finalmente. . Prometo dar a princesa Nouronnibar àquele que disparar mais longe. com grande prazer. Sendo tudo isto verdade. como nem o tapete. e aos teus irmãos.PÔS ouvir o que os filhos tinham a dizer acerca das raridades que PearlS. portanto. tão essencial para a sua cura. nem a maçã artificial tiveram preponderância uns sobre os outros. com muito mais alcance do que o irmão. É verdade. Portanto. e o príncipe Ahmed foi o último a esticar o arco. o príncipe Houssain. seguidos por grande multidão. Arme-se. Deves também concordar que essa informação de nada valeria sem a maçã artificial e o tapete. príncipe Ahmed. não apareceu longe nem perto. . nem o telescópio de marfim. foi impossível prová-lo.Dá-la-ia a um de vocês. príncipe Ali. como mais velho. devem-lhe todos um grande favor.» Os três príncipes nada tiveram que dizer contra a resolução do pai. por isso. Mas deves concordar que de pouco serviria se não tivesses conhecimento da doença da princesa pelo telescópio do príncipe Ali e se o príncipe Ahmed não possuísse o pomo artificial.

seja bem-vindo. Mas não resistiu à tentação de continuar a avançar. Dirigiu-se primeiro ao ponto onde as setas do príncipe Houssain e do príncipe Ali tinham sido encontradas e. As rochas estavam cheias de cavernas. A princípio caminhou numa penumbra sombria. Junto dos rochedos encontrou uma seta. O príncipe Houssain não honrou a festa com a sua presença. as tão bem vestidas e bonitas que era difícil distingui-las da ama. viu a dama. Não . Empurrou-a com o corpo. «nem eu nem qualquer outro homem poderia disparar uma seta tão longe.» Verificando. seguindo a direito a partir daí.Aproxime-se. um mistério que talvez seja vantajoso para mim. «Certamente». falando-lhe em primeiro lugar: PearlS. encontrou um magní° Pa’ácio. também não compareceu. o príncipe Ahmed apressou-se a apresentar-lhe os 56115 resPeitos e ela disse-lhe. e não espetada no solo. e olhando cuidadosamente para ambos os lados. como o irmão mais velho. afastou-se do seu séquito e foi procurá-la. Grande foi a surpresa do príncipe ao ouvir o seu nome pronunciado num lugar do qual nem sequer ouvira falar e que ficava tão perto da capital do seu pai. distante cerca de quatro léguas do ponto de onde partira. Resolvido a descobrir aonde fora parar a sua seta. a fim de me compensar de ter perdido o que considerava a minha maior felicidade?». O príncipe Ahmed. olhou à sua volta e descobriu uma porta de terro que parecia não ter fechadura. surpreendendo-se por verificar que era a que disparara. Terá a sorte trazido para aqui a seta. a cinquenta ou sessenta passos de distância. ainda. ao penetrar num largo espaçoso. situados numa região árida. mas pouco depois brilhou uma luz na sua frente e. andou tanto que por fim começou a pensar serem vãos os seus esforços.• ripe Ali e ordenou que se iniciassem os preparativos do casamenue se celebrou poucos dias depois com grande magnificência. na qual pegou e que examinou atentamente. pela qual meteu com a seta na mão. disse para consigo. Ao mesmo tempo. e o príncipe entrou numa. que ficara deitada. príncipe Ahmed. a porta abriu-se e descobriu-lhe uma descida suave. calculou que ressaltara contra a rocha e pensou: «Deve haver um mistério nisto. acompanhada de um grande grupo de aias. algumas das quais fundas. Buck 44 . o seu dessosto era tão profundo que abandonou a corte e renunciou a todos os seus direitos de sucessão ao trono para se tornar eremita. até que chegou a uns rochedos íngremes e escarpados. mas ao contrário de Houssain não renunciou ao mundo. encaminhou-se ao seu encontro uma seora de aspecto majestoso.

. minha rainha.em imensas riquezas. num êxtase .Aí responderei às suas perguntas. obedecendo ao seu convite.Mil agradecimentos.compreendia que o conhecesse uma senhora que lhe era absolutamente estranha. cedendo ao seu amor. . Permita-me. lançando-se-lhe aos pés e dizendo. inteligência e . príncipe . se me fosse permitida a felicidade de ser toda a vida seu escravo e admirador dos muitos encantos que arrebatam a minha alma. Retribuiu o cumprimento. tanto como por homens. sem dúvida. nhã sultana. respondeu: . Ao pronunciar as últimas palavras o tom da voz da fada Peribanou modificou-se e ela olhou o príncipe com ternura e pudico rubor nas faces. iearia Que poderei fazer de melhor e com maior prazer? Sim. abençoou o momento em que decidira procurar segunda vez a seta e. minha senhora. apanhei-a no ar e fiz com que embatesse nas rochas junto das quais a encontrou. disse-lhe: . sentou-se num sofá e quando Ahmed.convidou-o. julgar-me-ia o mais venturoso e abençoado dos homens! Perdoe a ousadia que me inspira a pedir este favor e não se recuse a admitir na sua corte um príncipe que lhe é inteiramente devotado. se sentou também.Minha senhora. dou-lhe o meu coração sem a mínima re- .. pelas suas boas-vindas. que a sua religião ensina ser o mundo povoado por espíritos. Pois eu sou filha de um dos espíritos mais poderosos e distintos e chamo-me Peribanou. previ que não alcançaria mais longe que a do príncipe Houssain.respondeu o príncipe. Agora digo-lhe que está na sua mão aproveitar esta oportunidade favorável para ser feliz. não me jura fidelidade.Entremos no salão. Claro que o jovem não teve dificuldade em compreender a que felicidade ela aludia. Conduziu o jovem ao salão. que lhe pergunte como é possível conhecer-me e ser-me totalmente desconhecida? . ao levantar-se: . . simpatia. jurando-lha eu? Histórias Maravilhosas do Oriente m Q^ sjmí minha senhora! . Encontrava-me presente quando disparou a sua seta. contudo.Sabe. Reflectiu que a princesa Nouronnibar jamais poderia ser sua e que a fada Peribanou a excedia infinitamente em beleza.Príncipe. Achei-o digno de destino mais feliz que o de desposar a princesa Nouronnibar.pelo que a magnificência do palácio permitia conjecturar .

Mas como suponho que ainda não comeu nada hoje. iniciaram um concerto. e onde estava posta a mesa do banquete. Algumas aias da fada abandonaram o salão e regressaram pouco depois com excelentes carnes e vinhos. ágata. mas deixaremos isso para outra ocasião.serva! Então será meu marido e eu sua mulher . Diversos coros de bonitas mulheres. o nosso casamento. que. Ao lado havia uma grande mesa com uma baixela de oiro tão variada e finamente lavrada que o trabalho dir-se-ia ainda mais valioso j *• ao que o próprio oiro. Achou igual excelência nos vinhos. rubis. onde ele viu diamantes. e os que se seguiram foram também dias festivos. . espaçosos e magnificentes? Poderia encantá-lo também com os meus jardins. Depois de o príncipe comer. estavam dispostas com tal simetria que produziam uma luz suave e agradável. a fada Peribanou mostrou-lhe todo o palácio. experimentou o grande desejo de saber como ele estava. que constia de guloseimas e frutas deliciosas.respondeu a fada. pórfiro e os mais preciosos mármores. Buck 46 Ao fim de seis meses. o príncipe Ahmed. desejo que só podia ser satisfeito com uma visita.Príncipe. ricamente vestidas. que continuava a amar e a reverenciar o sultão. A festa de noivado continuou la seguinte. o jovem admirou o número infinito de castiçais com velas de cera perfumadas de âmbar. Ao entrar. A noite aproxima-se e são horas de jantar. jaspe. misturadas com pérolas. PearlS. esmeraldas e outras belas pedras preciosas. O salão a que o conduziu em seguida. O príncipe afirmou que jamais imaginara existir tanta beleza. . enquanto se prepara a festa que celebrará. em vez de causarem confusão. e depois mostrar-lhe-ei os aposentos do meu palácio. era o único aposento que o príncipe ainda não vira. se admira tanto o meu palácio (e não há dúvida de que é muito belo). que diria dos palácios do chefe dos nossos espíritos. mandarei servir-lhe uma leve refeição. que são muito mais belos. esta noite. acompanhadas pelos mais harmoniosos instrumentos imagináveis. Falou no assunto à fada e pediu-lhe licença para se ausentar. Quando se sentaram à mesa. a fada Peribanou teve o cuidado de servir ao príncipe Ahmed as iguarias mais içadas e ° jovem achou-as tão maravilhosamente boas que as gabou com exagero e afirmou ultrapassar aquela hospitalidade tudo quanto m homem poderia imaginar. que e e nem a fada provaram antes de servida a sobremesa.

bem montados e equipados. Primeiro. l Histórias Maravilhosas do Oriente . ao vê-lo. Acredita que nada poderá dar-me maior prazer do que as tuas visitas. com paternal ternura. . para lhe servirem de séquito. . O sultão não insistiu e replicou-lhe: j^ão tentarei desvendar os teus segredos. ou quando a tua presença me parecer necessária. pelas horas de angústia que a sua ausência lhe causara. se não apareceres. filho.Diz-me. em multidão.O único favor que peço a vossa majestade é que me permita visitá-lo frequentemente. onde poderei comunicar contigo. nem neste palácio. O príncipe Ahmed demorou-se apenas três dias na corte do pai e. O povo sentiu-se feliz. abraçando-a e renovando a sua promessa de regressar brevemente.Rogo-lhe que me autorize a continuar calado a esse respeito.. és livre. . O sultão recebeu-o com grande alegria.Podes ir quando quiseres. o príncipe despediu-se da fada. mas preferiria que resolvesses ficar comigo . Nomeou vinte nobres. Mas não esqueças os conselhos que te vou dar acerca da maneira como te deves conduzir. tão logo os preparativos ficaram concluídos. embora o censurasse. . após um último e terno adeus à fada. Roga-lhe que se dê por satisfeito com saber que és feliz e nada mais desejas e explica-lhe que o único propósito da tua visita é tranquilizá-lo e informá-lo de que estás bem. pôs-se a caminho. . não é conveniente falares a teu pai no nosso casamento. no quarto dia. O moço príncipe contou a história das suas aventuras sem aludir à fada. animal tão belo e bem ajaezado como os melhores das cavalariças do sultão das índias.redarguiu-lhe o sultão das índias. O moço príncipe montou-o com graça inexcedível e. e. mais depressa me julgará maçador do que negligente nos meus deveres. recebeu-o com aclamações e seguiu-o. nem na minha condição. ao menos. filho. para m a tua presença me devolveres a alegria que me abandonou durante todo este tempo.Não posso recusar-te o que me pedes.O que vossa majestade me pede faz parte do mistério de que lhe falei respondeu o príncipe Ahmed.respondeu-lhe ela. conforme lhe prometera. Como o palácio do pai não ficava longe. o príncipe Ahmed depressa lá chegou. e concluiu: . receio-o. Trouxeramlhe então o cavalo. apresentar-lhe os meus respeitos e ver como se encontra. príncipe . até junto do pai. pois virei com tanta frequência que. Serás sempre bem-vindo.

O sultão recebeu-o com a mesma alegria e satisfação e as visitas repetiram-se durante vários meses. arte imediatamente e segue o meu filho quando ele deixar o pa- ° igia-o bem. Na manhã seguinte. sultão das índias resolveu. magica partiu e. equipado e vestido do que anteriormente.regressou para junto da fada Peribanou. então. O soberano estava longe de imaginar que o príncipe Ahmed pudesse engendrar plano tão terrível e respondeu-lhes: . Um mês após o regresso do príncipe. que avaliavam a dignidade e o poder do príncipe pela maneira como se apresentava) fizeram com que o pai invejasse o filho. perdeu-o . alguns vizires (os conselheiros favoritos do sultão. . dizendo-lhe recearem que este fosse capaz de se insinuar nas boas graças do povo e de destronar o sultão. que lue entrou nos seus aposentos por uma porta das traseiras. Para isso chamou uma mágica. para lá se dirigiu imediatamente e escondeu-se entre os rochedos. até que o sultão disse: Não acredito que o meu filho Ahmed seja tão mau como pretendeis fazer-me crer. to recordo. conhecedora do local onde o príncipe Ahmed PearlS. Buck encontrara a seta. seguiu-o com o olhar. com um séquito ainda mais luzido do que o anterior. de súbito. fico-vos grato pelos vossos conselhos e não duvido das vossas boas intenções. mandar vigiar o príncipe Ahmed. esqueceste o sultão teu pai? Não te lembras da promessa que lhe fizeste de o visitares com frequência? Pela minha parte não esqueci o que me disseste ao regressar e. A mágica. ao vê-lo aproximar-se. e ordenou-lhe: •. m ° ° stu grão-vizir o soubesse. da visita ao pai. No entanto. a fada perguntou-lhe: Príncipe. e ele próprio melhor montado. de cada vez com uma equipagem mais rica do que a anterior. descobre onde mora e informa-me. Por fim. por isso. o príncipe Ahmed partiu do palácio do pai. O príncipe partiu na manhã seguinte. ao nascer do dia. meu filho ama-me e estou certo da sua ternura e fidelidade.Estais enganados. Mas os conselheiros continuaram a difamar o príncipe. mas.

Abandonou. Desde que a fada Peribanou o autorizara a visitar a corte do sultão das índias. assim como ao seu séquito.de vista. . a ofegar. encaminhou-se para uma das extremidades dos penhascos e olhou cautelosamente à sua volta. com palavras entrecortadas e suspiros. não pôde recusar a caridosa feita Um dos cavaleiros desmontou. por isso. e passou pela mágica. o portão de ferro. Este ficou satisfeito com a conduta da mulher e disse-lhe: . e respondeu-lhe. deduziu que só podia haver duas explicações para o desaparecimento do príncipe: ou entrara numa caverna. Ahmed. sem desmon-tar. uma vez por mês. teve pena dela. a mágica. antes de uma dessas visitas. Ao vê-la caída. Não obstante toda a sua atenção e diligência. Esperarei com paciência mais informações. acompanhado do seu séquito. não lobrigou nenhuma abertura nem. com a cabeça pousada numa rocha e a gemer como se padecesse grandes dores. Ao chegar ao pátio exterior. virou o cavalo e foi-lhe perguntar o que tinha. não estás tão longe de socorros como supões Histórias Maravilhosas do Oriente 49 frmou-lhe o príncipe Ahmed. . Em virtude de os rochedos serem tão íngremes e escarpados que constituíam uma barreira intransponível. para a encorajar. mandou um dos seus homens dizer à fada que . a fim de informar o sultão. o seu esconderijo. ofereceu-lhe um diamante de grande valor. . Um dia.E. pois este só podia ser visto e aberto por aqueles cuja presença fosse agradável à fada Peribanou. como de costume. a mágica voltou aos rochedos e esperou toda a noite. sem levantar a cabeça. que ia a caminho da capital.De boa vontade te ajudarei e lea um lugar onde te curarás depressa. A astuciosa feiticeira olhou-o tristemente. a mágica contentou-se com a descoberta que fizera e regressou ao palácio. tão-pouco. que se fingira doente apenas para saber onde vivia o príncipe e o que este fazia. o portão de ferro que o príncipe Ahmed descobrira. Levanta-te e permite que Vm dos meus homens te transporte no seu cavalo.Procede como achares conveniente. mas que a atacara uma febre tão violenta que as forças lhe haviam faltado e tivera de se deitar ali onde a via. montou atrás dela e seguiu o príncipe. Compreendendo a inutilidade de continuar a procurar. longe de qualquer habitação e sem esperança de assistência. Na manhã seguinte o príncipe Ahmed transpôs.Boa mulher. ou visitara a morada de um espírito ou de uma fada. ergueu-a para cima do cavalo. Ao ouvir tais palavras. o príncipe Ahmed nunca deixara de o fazer. que retrocedera em direcção ao portão de ferro.

Sentirás os seus efeitos benéficos em menos de uma hora.Encontrei-a neste estado e prometi-lhe auxílio. perguntando de si para si porque teria o príncipe regressado tão depressa. sem lhe dar tempo de indagar o que acontecera. esta mulher não está tão doente como pretende e creio que se trata de uma impostora e que será causa de grandes contratempos para ti. aproximou-se do marido e segredou-lhe: .lhe desejava falar. .Bebe isto . que dois cavaleiros amparavam. não a abandones. .Minha princesa. A fada Peribanou. que não tirara os olhos da falsa doente enquanto o príncipe falava. portanto. Este. A fada Peribanou acorreu apressadamente. ordenou a duas aias que levassem a velha para dentro do palácio e cuidassem dela.e apontou a mágica.pois a velha bruxa iingia-se atacada por uma febre tão violenta que não a deixava far nada . Vai e continua a tua viagem. Depois de a deitarem . Entretanto. As palavras da fada não assustaram o príncipe Ahmed. Enquanto as duas mulheres cumpriam as suas ordens. enquanto lhe faziam uma cama com uma manta finamente bordada a seda. que alguém pense em fazer-mo a mim. com as costas apoiadas numa almofada de brocado de oiro. . Buck Histórias Maravilhosas do Oriente 50 ir . uma das mulheres saiu e voltou passados instantes com a chávena de porcelana cheia de certo líquido. que lhe retorquiu: .Príncipe. disse-lhe: Princesa. que ofereceu à mágica: PearlS. as duas aias transportaram a mágica para um aposento ricamente mobilado e sentaram-na num sofá. Mas não te preocupes: libertar-te-ei de todas as armadilhas que te estenderem.recomendou-lhe. Por favor. desejo que tenhas compaixão desta boa mulher . lençóis de linho finíssimo e colcha dourada. não me lembro de ter feito mal seja a quem for e não creio.É água da fonte dos leões e remédio infalível contra todas as febres.

admirável poção! . e. mais nobremente mobilados do que aquele onde ela estivera. Por fim. Acompanha as minhas aias e elas to mostrarão. bebeu o líquido. . acrescentando que. l Os conselheiros invejosos e despeitados. mas creio que não te desagradará ver o meu palácio. Não te deterei.Oh. Deitou-se outra vez e as duas aias taparam-na. o príncipe Ahmed se tornara riquíssimo. e acompanhada de grande número de belas fadas. rubis e pérolas de extraordinário tamanho.Fica quieta . As duas aias regressaram decorrida a hora estabelecida e encontraram a feiticeira vestida no sofá.exclamou. . Deixamos-te só e esperamos encontrar-te completamente curada. Peribanou encontrava-se aí sentada num trono de oiro maciço.Curou-me ainda mais depressa do que disseram e agora poderei continuar a minha viagem. As duas mulheres. conduziram-na através de diversos aposentos. inclinando a cabeça para trás. que eram fadas como a ama. quando voltarmos. a um grande salão que vencia todos os outros do palácio. mais rico que todos os reis do mundo. . daqui a uma hora. mas a mágica discordou: Obrigue-o a dar-lhe toda a espécie de coisas maravilhosas. graças ao seu casamento com a fada.A feiticeira aceitou a chávena. depois de se prostrar diante do trono. a mágica regressou e contou ao sultão das índias o que acontecera.recomendou-lhe a que lhe trouxera o remédio e tenta dormir um pouco. Ao despedi-la.Agradeço os teus serviços e as tuas boas palavras. Embora o sultão das índias pensasse que o príncipe Ahmed era naturalmente bom. ainda bem que tive ensejo de te ajudar e que te encontras em condições de reatar a tua viagem. Ao ver tanta majestade.Boa mulher. e que havia o perigo de pretender tirar o trono ao pai. recomendaram que se matasse o príncipe. não pôde deixar de se preocupar com as palavras da velha feiticeira. todas ricamente vestidas. em riqueza e magnificência. disse-lhe: . mas também tão aturdida que. coberto de diamantes. Peribanou poupou-lhe o trabalho e disse-lhe: . a bruxa ficou não só muito deslumbrada. não foi capaz de abrir a boca para agradecer à fada. com . depois de muito rogada. como desejava. Não as esquecerei e deliberarei acerca delas no conselho.

Acredita. e a tua daria provas de muito pouco amor por ti se. impossível na realidade. ficarei muito triste se o que te peço me roubar o prazer de te voltar a ver respondeu-lhe o sultão das índias. que é meu pai quem te pede este favor. Por exemi todas as vezes que vossa majestade entra em campanha incorre em grandes despesas. porém. No dia seguinte. . com o seu poder de fada. como também em mulas e camelos para o transporte da bagagem. confessou-lhe: Senhora. a mão. recusasse satisfazer pedido tão insignificante. Buck . O príncipe regressou muito triste e receoso de ofender a fada e.Creio que ignoras o poder que um marido tem sobre a esposa. que me perdoe e considere que foi vossa majestade quem me colocou nessa situação. Pode pedir ao príncipe que se sirva da sua influência junto da fada para lhe arranjar uma tenda que possa ser transportada na mão de um homem e ao mesmo tempo tão grande que abrigue todo o exército e o proteja do mau tempo. Desde já lhe rogo. mas não lhe prometo obtê-lo. portan’ ^ue nã° sou eu. Se não tiver a honra de o voltar a visitar. duvidava que fosse susceptível de arranjar uma tenda como a desejada pelo sultão. quem abusiv amente te pede m pavilhão tão grande que possa abrigar da violência do tempo ele pró° a sua corte e o seu exército. Lembra-te. repito.Filho. . O príncipe Ahmed nunca esperara que o pai lhe pedisse coisa tão difícil. como eles se calassem. PearlS. . se acaso não vier.Não deixarei de pedir à minha mulher o favor que vossa majestade pretende disse por fim -. resolveu seguir o conselho da mulher. isso significará que não fui bem sucedido. Depois de ouvir a feiticeira. mas o sultão meu pai. e que um só homem consiga transpor. Embora não soubesse até que ponto ia o poder das fadas e dos génios. deves ter notado que até agora me tenho contentado com o teu amor e nunca te pedi qualquer outro favor. procedeu de acordo com as palavras da feiticeira.ajuda da fada. até esta se cansar dele e o mandar embora. o sultão perguntou aos seus conselheiros se tinham alguma proposta melhor e. depois de esta insistir em saber o que o atormentava. não só em pavilhões e tendas para o exército.

filho. tirando a tenda da mão do príncipe Ahmed -. traz-me o maior pavilhão do meu tesouro. Este. possui uma propriedade extraordinária: pode tornar-se maior ou mais pequeno. Quando armou a tenda. ficou surpreendidíssimo com o êxito do filho. lamento que problema tão insignificante te perturbe e constranja dessa maneira. Aceitou a tenda e. uma das extremidades desta chegava junto do próprio palácio e o príncipe achou-a tão grande que abrigaria à vontade dois exércitos maiores que o do sultão seu pai. . o pavilhão é maior do que os desejos de teu pai. Nourgihan disse à tesoureira. creio que nada é impossível para ti. vai armá-la. que considero o .Histórias Maravilhosas do Oriente m .Então. ao palácio do sultão. além disso. que montou a cavalo e se dirigiu. com os dedos cerrados. Quando armaram a tenda na grande planície. que não só transportava sozinha. que na realidade não acreditava que existisse tal pavilhão. quanto te estou grato pela dádiva da tenda. ainda não estava satisfeito. -Já te disse. depois de a examinar.Como vês. a quem disse: . com o seu séquito. Nourgihan voltou pouco depois com o pavilhão. o seu espanto foi tão grande que teve dificuldade em recuperar a compostura. Mandou então chamar a sua tesoureira. mas que também lhe cabia na palma da mão. supôs que ela troçava de si e olhou-a com ar tão surpreendido que Peribanou desatou a rir. para que meu marido veja se é suficientemente grande para o sultão. verificou que chegava para recolher um exército duas vezes maior do que qualquer general poderia manter em campanha. Ao ver o pavilhão a que a fada chamava o maior do seu tesouro. conforme o exército a abrigar.Príncipe . No entanto. . a sorrir -.respondeu-lhe a fada. A tesoureira saiu imediatamente do palácio e levou-a para muito longe.Nourgihan. príncipe? Imaginas que troço de ti? Verás que te enganas. Entregou-o à ama e esta deu-o ao príncipe Ahmed. A tesoureira desarmou a tenda e entregou-a ao príncipe. .Peço à minha princesa mil perdões pela minha incredulidade disse a Peribanou Depois do que vi.

o qual transportará um carneiro que deve ser morto hoje e cortado em quatro quartos. para meu uso.objecto mais valioso de todo o meu tesouro. passando corajosamente pelo meio deles. encheu a garrafa e regressou são e salvo. chegou à fonte. com os seus rugidos. O fio rolará até chegar às portas do castelo. Ao chegar às portas do castelo. A fada Peribanou estava naquele momento muito atarefada com vários novelos de fio. enche a garrafa sem te apeares e regressa da mesma maneira. Parte amanhã de manhã cedo e assim que transpuseres o portão de ferro atira o novelo para a tua frente. mesmo as mais perigoComo não duvido de que a minha saúde te é cara. com acenos da cauda e da cabeça. quando dela recisar.Primeiro. e seguiu à risca as suas instruções. segundo. cuja utilidade te explicarei depois. como verás pelo que te vou dizer respondeu-lhe a esposa. distribuiu os quartos de carne pelos quatro leões e. O príncipe Ahmed partiu na manhã seguinte. Depois esporeia a montada. O príncipe regressou e contou à fada o pedido do pai. galopa para a fonte. à hora estipulada pela fada. Contudo. pois proporcionar-te-ei meios de passares por eles sem qualquer perigo. Empunhou o sabre P eparou-se para se defender. tenho a certeza de que lhe pedirás uma garrafa dessa água. pega neste novelo. Os leões estarão tão entretidos a comer que te deixarão passar. Os dois que estão acordados despertarão. terceiro dar-te-ei uma garrafa em que trarás a água. um para montares e outro para conduzires. dizendo-lhe: . tu segui-lo-ás e. Faz-me isso e cumprirás o dever de um bom filho para com um terno pai. os outros dois. num dos quais pegou e estendeu ao príncipe. Já um pouco afastado das portas do castelo olhou P ra trás e verificou que duas das feras o seguiam. mas não te assustes! Limita-te a atirar a cada um deles um quarto do carneiro. $erá perigoso cumprir esse desejo. quando parar. as portas abrir-se-ão e verás os quatro leões. dois dos quais dormem enquanto os outros dois vigiam. precisarás de dois cavalos. mas ao avançar viu um dos felinos sair strada e demonstrar-lhe.A fonte dos leões encontra-se no meio do pátio de um grande castelo. cuja entrada está guardada por quatro ferozes leões. Estou informado ue a fada tua esposa utiliza certo elixir chamado «água da fonte dos leões» na cura de toda a espécie de febres. Mas não te assustes. . gostaria que fizesses ainda mais uma coisa por mim. que .

Desejo que me tragas um homem que não tem mais de trinta centímetros de altura. ao qual mandou chamar a feiticeira.Desejolhe. naquele momento. Buck 54 não pretendia fazer-lhe mal. depositou a garrafa aos pés do sultão e beijou a rica tapeçaria que cobria o supedâneo. Depois de ouvir os cumprimentos do príncipe. senhor. enquanto o outro ficava atrás. sentiu-se intimamente mais ciumento e retirou-se para outro aposento. nada mais esperarei da tua obediência. Mal o príncipe terminou a narrativa.disse no dia seguinte ao príncipe Ahmed -. que ajudaram o príncipe a desmontar e o conduziram aos aposentos do sultão. o sultão. pois todo o mérito se deve à fada minha mulher. mas o sultão insistiu no seu pedido Histórias Maravilhosas do Oriente . Embainhou o sabre e. . o sultão sentou-o à sua direita e disse-lhe: . então. mas gostaria me informasses graças a que poderes foste capaz de conseguir a água curativa. para lhe proteger a retaguarda. a salutar água que vossa majestade pediu disse.Trouxe-lhe. rodeado pelos seus conselheiros. . ao pai em que haviam consistido esses conselhos e como tudo decorrera sem complicações.Fico-te muito grato por este valioso presente e também pelo grande perigo a que te expuseste por minha causa. o qual se encontrava. Regressaram então pelo mesmo caminho. mas apenas seguir à sua frente. que exteriormente demonstrava grande alegria. chegou à capital das índias. . O príncipe aproximou-se do trono.Filho . O príncipe Ahmed não acreditou que houvesse no mundo homem como aquele que o pai descrevia. Fui informado a esse respeito por uma mágica que conhece a fonte dos leões. mas cuja barba mede nove metros de comprimento. uma saúde tão extraordinária que nunca precise de se servir dela. ao mesmo tempo. e que transporta aos ombros uma barra de ferro que pesa duzentos e cinquenta quilos e lhe serve de arma. assustando quantos os viam. embora procedessem sossegadamente e não mostrassem a mínima ferocidade. . cujos bons conselhos segui. tenho ainda um pedido a fazerte e. mas os leões só o abandonaram às portas do palácio do sultão.Não mereço os elogios que vossa majestade tem a bondade de me dirigir. Acorreram diversos oficiais.PearlS. assim protegido. depois. Explicou.

da qual tirou um perfume que lançou ao fogo. . Possuía olhos muito pequenos e afundados nas órbitas.afirmou por fim.redarguiu o príncipe. A fada ordenou que colocassem no alpendre do palácio um rescaldeiro de oiro. Dizes que Schaibar é teu irmão? Pois seja feio ou deformado. Mas acautela-te! Prepara-te para não te mostrares assustado com o seu estranho aspecto. É exactamente como o teu pai o descreveu e mandá-lo-ei chamar. aceso. quando o vires. que é o meu irmão Schaibar. porém. embora pequeno? Que armas empregarei para o vergar à minha vontade? Se há maneira de o conseguir. provocando espessa nuvem de fumo. rogo-te mo digas. É diferente de mim. estupefacto. minha rainha? . Ahmed viu Schaibar aproximar-se. Nada temas. disse ao príncipe Ahmed: . e possui temperamento tão irascível que nada o pode impedir de demonstrar o seu ressentimento pela mais pequena ofensa. Por outro lado. Se o príncipe Ah^ não soubesse que Schaibar era irmão de Peribanou.Arriscaste-te quando foste buscar a água à fonte dos leões a pedido do teu pai. que lhe parecia ainda mais impossível de satisfazer que os dois anteriores. seria incapaz o har sem medo. é tão bom que está sempre pronto a fazer tudo quanto lhe pedem. aí vem o meu irmão.Olha. Ou talvez deseje a minha desgraça. como teu irmão. que segurava à sua frente. e um espesso bigode cujas guias metia atrás das orelhas e lhe cobria quase todo rosto.Tenho a impressão de que meu pai pretende apenas experimentar-me.O quê. Respeitá-lo-ei e estimá-lo-ei. . No H seguinte Ahmed voltou para junto da sua querida Peribanou e inf rmou-a do novo pedido do pai. . PearlS. Não posso imaginar que exista tal homem no mundo . a longa barba. usava oné de granadeiro e tinha uma grande corcunda. Poucos momentos depois. manteve-se ao lado da esposa. embora sejamos filhos do mesmo pai.55 ntiu-lhe que a fada podia fazer coisas muito mais incríveis. Buck Histórias Maravilhosas do Oriente 56 .tranquilizou-o a fada. mas não correrás nenhum perigo para encontrar esse homem. assim como uma caixa do mesmo metal. Como me pode supor capaz de vencer homem tão bem armado. gravemente. para ver se sou tão idiota que tente encontrar semelhante criatura. assim. para sair com honra desta prova. com a pesada bara ’erro a° ombro. meu príncipe . sem o mínimo receio. jamais o seu aspecto me assustará.

Quando chegaram às portas da cidade e o povo viu Schaibar. Ao ouvir tais palavras. sem encontrarem obstáculos. os introdutores fugiram também.Poderei servi-lo de alguma maneira. . quando chegaram ao palácio. Schaibar e Ahmed encontraram as ruas desertas e. . portanto. . outros fugiam apenas e comunicavam a quem encontravam o seu pavor. irmão .Basta que me indique o caminho e segui-lo-ei. Aí. depois de se ter dado ao incómodo de vir de muito longe.É o meu marido. em vez de guardarem as portas. para evitar a terrível visão.Mandaste-me chamar. . onde o sultão dava audiência sentado no trono. desatou a fugir e a esconder-se. é demasiado tarde para partirem hoje . até à sala do conselho. Tomei a liberdade de te mandar chamar agora.Fica. levantou a barra e matou o sultão. sem esperar que o príncipe Ahmed o apresentasse.Chama-se Ahmed e é filho do sultão das índias. irmã? Basta que seja teu marido para que me comprometa a fazer tudo quanto ele desejar. os porteiros fugiram. Schaibar fitou o príncipe de maneira que chegaria para lhe gelar o sangue nas veias e perguntou a Peribanou quem era . Aqui estou. Na manhã seguinte. até amanhã de manhã e aproveitarei o ensejo para te informar de tudo quanto se passou entre o sultão das índias e o príncipe Ahmed. Que queres de mim? O sultão tapou os olhos com as mãos. Não te convidei para o meu casamento porque não quis distrairte da expedição em que andavas nessa altura empenhado e da qual soube com prazer que regressaste vitorioso. Uns fechavam as lojas e trancavam-se em casa. sem dizer palavra. e disse ao sultão das índias: . Schaibar fitou o príncipe com melhores olhos e disse: . .Ao aproximar-se. abandonando os seus postos e deixando a entrada livre. como os outros. melindrado com a grosseira recepção.Irmão. sem que o príncipe tivesse tempo de interferir . fugiam também. e desejo que meu marido te conduza à sua corte. Schaibar dirigiu-se ousada e arrogantemente ao trono.O sultão seu pai mostrou empenho em te ver .respondeu-lhe a fada. e Schaibar. Estes não olhavam para trás. Os dois homens avançaram. Schaibar e o príncipe Ahmed partiram para a corte do sultão. assim. desde que nos casámos.lembrou-lhe a fada.respondeu-lhe Peribanou -.

e disse-lhe: Sei que há aqui uma feiticeira mais inimiga do meu cunhado do que todos os outros. Olhou fixamente o grão-vizir. como seu sultão e sultão das índias. que eram. Tratarei toda a cidade da mesma maneira se não reconhecerem imediatamente o príncipe Ahmed. simultaneamente. inimigos de Ahmed. obrigou todos a juraremlhe vassalagem e fidelidade e foi buscar sua irmã Peribanou. Ordeno que ma tragam. como não haviam colaborado na .Mas isto ainda não chega. Quanto ao príncipe Ali e à princesa Nouronnibar. a quem nomeou sultana das índias. O grão-vizir mandou-a chamar imediatamente e. que devia a vida ao príncipe Ahmed. depois. Terminada a terrível execução. nesse caso. e matou todos os outros vizires e bajuladores do sultão. Schaibar brandiu mais uma vez a barra e declarou: . com a barra de ferro ao ombro.exclamou S haibar. Schaibar ordenou que lhe vestissem o traje real e o instalassem no trono. 2 stava sentado perto e que afirmou ao j ovem ter dado sempre bons conselhos ao sultão seu pai.Aqui tens a recompensa dos teus maus conselhos! Depois de a matar. Todas as vezes que erguia a barra matava alguém e só escaparam aqueles que conseguiram fugir. que lhos deram maus! . Schaibar saiu da sala do conselho e dirigiu-se para o meio do pátio. meu cunhado.l 57 i a seu que e favor Conseguiu apenas evitar que matasse também o grão-vizir. que trouxe com toda a pompa e grandiosidade imagináveis. Todos os presentes gritaram repetidamente: «Longa vida tenha o sultão Ahmed!» e. assim que a viu. Foram estes. o jovem foi aclamado soberano por toda a cidade. acrescentou: .

Pouco depois encontrou um poço cheio a transbordar de água límpida como cristal. visitando diversos pontos do seu território. em cuja superfície flutuava umjarro de oiro. O rei Kojata . mal e bem. Houve em tempos que já lá vão um rei cuja barba era tão comprida que lhe passava dos joelhos. pois trata-se de um conto de fadas. onde passaram o resto dos seus dias. o que deveras o magoava. Como o dia estava quente e abafado. um jovem príncipe e uma bonita rapariga . visto tudo quanto havia a ver. O enredo é simples. montou a cavalo e percorreu os campos. Um rei bom. Mas o príncipe sentia-se tão feliz na sua soliao que agradeceu a lembrança e respondeu desejar apenas continuar a viver em paz no retiro que escolhera. ílWJjtoWffi: Histórias Maravilhosas do Oriente 59 O rei Kojata Eis uma história grande. De súbito sentiu uma sede terrível e. tm seguida Ahmed mandou um oficial informar o príncipe oussain dos acontecimentos verificados e oferecer-lhe a província que mais gostasse. sultão Ahmed e a sua sultana Peribanou tiveram vida longa e dia e governaram o seu povo com sabedoria e justiça. ordenou aos servidores que armassem tendas na planície e aguardou aí o fresco da noite. e por fim. vasta como as planícies e montanhas da Rússia e tão variada como as suas paisagens. e nesta história galopam e percorrem grandes distâncias. mas o céu não lhe dava um herdeiro. encaminhou-se para casa. um feiticeiro mau. o novo sultão deu-lhes o governo de uma grande província. Um dia partiu da sua capital com a intenção de viajar pelo reino. Três anos tinham decorrido desde o seu casamento e vivia muito feliz com a esposa. à procura de uma nascente. Demorou-se quase um ano. como não visse água nas proximidades. Claro que tudo acaba bem. Os cavalos faziam parte do ambiente russo.conspiração contra o príncipe Ahmed nem sabiam nada a tal respeito. incisivo e claro e apresenta um retrato fiel do temperamento russo.eis os necessários elementos de terror e beleza.

com a barba e do’ dentro de água e bebeu sofregamente. gemeu de desespero e disse para consigo: «Era isto. Quem está aí? Largue-me! Mas ninguém lhe respondeu. então. mas a malfadada vasilha iludia os seus esforços e não se deixava apanhar. pensativo. pois alguém lhe puxava com força a barba. eram duas garras. As lágrimas rolaram-lhe pelas faces e os cortesãos reunidos à sua volta ficaram muito surpreendidos com a dor do rei. que segurava nas mãos um bercinho com um bebé lindo como o dia. Que 0 diabo te leve! . a casa. . uma voz áspera. E não eram mãos mortais que seguravam a barba do rei Kojata. rei Kojata.Está bem. dentro de água. só te largarei com a condição de me dares uma coisa acerca da qual nada sabes e que encontrarás ao chegar a casa.Mas fica sabendo que será mau para ti se faltares ao prometido . montou a cavalo e regressou. e as garras abriram-se e o rosto desapareceu no fundo do poço. seguido do seu séquito.tentou logo apanhá-lo. Quando se aproximaram da capital o povo veio esperá-los com grandes mostras de alegria e muitas aclamações. apenas um rosto hediondo o fitou do fundo do poço. desaparecia e voltava a aparecer noutro ponto qualquer. que eu ignorava!».Posso matar a sede sem ti! E debruçando-se sobre o poço. «É absurdo!») e respondeu sem demora: . O monarca compreendeu. tentou o rei agarrá-lo.Os teus esforços são todos vãos. Primeiro com uma das mãos e depois com ambas. Mas quando. não o conseguiu. pensou. primeiro com a mão direita e depois com a esquerda. O rei não perdeu tempo a reflectir («Que poderá encontrar-se no meu próprio palácio que eu desconheça?». A seu lado encontrava-se o primeiro-ministro. mas o jarro escorregava-lhe por entre os dedos como um peixe. soou vinda das profundezas do poço: . O rei retirou o rosto da água e. Por fim. mergulhou o rosto. pois. com dois grandes olhos verdes a brilharem como esmeraldas e uma grande boca rasgada de orelha a orelha e a mostrar duas fileiras de reluzentes dentes brancos. prometo que ta darei! . .advertiu-o a voz áspera. como se troçasse dele.explodiu o rei Kojata. enquanto a rainha esperava o rei à porta do palácio. tudo. acalmada a sede’ quis levantar a cabeça. sacudindo-se como um cão. mas nenhum ousou perguntar-lhe o motivo dela.

o rei Kojata não descansava de noite nem de dia. não passou despercebida a ninguém. mas entretanto faz o que te vou dizer. Pear! S. O tempo passou. ao perseguir um javali. beijou-o ternamente. Depois de muitas lágrimas e lamentos. o príncipe despediu-se dos pais e partiu. .aconselhou-lhe o príncipe Milan . . resolvido a dominar as suas emoções. voltaremos a encontrar-nos. Um dia. com o coração pesado de angústia. entregou-se aos seus deveres reais. regressou a casa e contou ao pai tudo quanto vira e ouvira. e nada aconteceu. . de olhos e queixo verdes.Não te atormentes. o rei Kojata. Adeus de momento. Passou há muito o prazo de pagamento e ele terá de honrá-la agora. mas mesmo defronte do príncipe estendia-se um estreito carreiro de terra de prado. . tornou-se um belo rapaz. contudo. as coisas nunca são tão feias como parecem. depositou-o de ovo no berço e. As árvores eram tão densas e pouco espaçadas que era quase impossível ver através delas.Está um belo dia. Buck m preocupada. ao ouvir a história do filho. O rei deu-lhe uma espada e um belo corcel. no centro do qual se erguia um limoeiro. em meu nome. e a rainha colocou-lhe uma cruzinha ao pescoço. No temor constante de que o filho lhe fosse tirado. perdeu-se dos outros caçadores e encontrou-se sozinho numa escura floresta. era tempo de me visitares. príncipe Milan .Pegou no menino. . soberano guardou o seu segredo. O rei empalideceu. e por fim até o rei esqueceu a promessa feita havia tanto tempo.. . mas a sua expressão grave.Maldito seja eu.Não tardarás a sabê-lo. De súbito. Dá-me apenas um cavalo para a viagem e aposto que em breve me voltarás a ver. contou ao príncipe o que acontecera quando do seu nascimento. soou uma espécie de roçagar no interior do tronco da árvore e dele saiu um velho extraordinário. O velho desapareceu outra vez na árvore e o príncipe.E. e disse-lhe: . meu filho! Chegou a altura de nos separarmos. e recorda-lhe a sua dívida. com estribos de oiro. O príncipe cresceu.Quem és tu? . assustado. . Saúda o teu pai. o príncipe foi caçar e.disse a aparição.Fizeste-me esperar muitos anos. cheio de cardos e de ervas daninhas. querido pai .perguntou-lhe o príncipe. cheio de espanto.

Muito obrigada. Nadou perto de terra e soltando um gritinho dilacerante. pela tua delicadeza. Sou filha de um mau feiticeiro e chamo-me Jacinta. Assim que te encontrares na presença do meu pai. o patinho gritou. Entretanto. nadaram para a margem e vinte e ove enfiaram os fatinhos brancos e transformaram-se imediatamente noutras tantas belas donzelas. desmontando. por amor do céu. acho melhor partirmos. em voz humana: Querido príncipe Milan. . Perto da margem. Não soprava uma aragem. O príncipe entrou alegremente. olhou desesperado à sua volta e mergulhou outra vez. mas nada terás a recear se seguires os meus conselhos. eu tratarei do resto. dá-me o meu vestido. príncipe Milan. Ditas estas palavras. que desapareceram mal acabaram de se vestir Só o trigésimo patinho não podia sair da água. para ver se o podia ajudar. o príncipe viu trinta fatinhos brancos espalhados na erva e. Por fim cansados de tanta brincadeira. Estendeu a mão ao príncipe e agradeceu-lhe: . O feiticeiro estava sentado num trono. Meu pai tem trinta filhos e é um senhor poderoso do mundo subterrâneo. mas no seio do lago parado nadavam trinta patos de brilhante plumagem. Os patos H lizaram pelo lago todo. estendeu timidamente o pescoço. Não te importes se ele barafustar e praguejar. ajoelha-te imediatamente no chão e aproxima-te dele de joelhos. Mal o viu. possuidor de muitos castelos e grandes riquezas. O príncipe Milan sentiu o coração tão cheio de piedade pelo pobrezinho que saiu do seu esconderijo nos juncos. e voltou para os caniços. Histórias Maravilhosos do Oriente m imou-se a coberto dos juncos altos que cresciam em redor do ?^o pegou num dos vestidos e ocultou-se atrás dos caniços.Cavalgou três dias e ao terceiro chegou a um lago tão liso como vidro e tão claro como cristal. a bela Jacinta bateu com o pezinho no chão. mergulharam e voltaram à superfície. junto dela. tão loura e doce e jovem que não havia palavras que a descrevessem. O palácio do feiticeiro era feito de um único rubi e iluminava toda a região circundante.. e ficar-te-ei reconhecidíssima! O príncipe colocou o vestido na margem. não bulia uma folha e reinava um silêncio de túmulo.. a terra abriu-se e mergulharam ambos no mundo subterrâneo. Espera-te há muito tempo. Poucos segundos depois encontrava-se na sua frente uma bonita rapariga de vestido branco.

Por hoje podes ir.Abre e deixa-me entrar. Se o conseguires. o feiticeiro mandou-o chamar e disse-lhe: . Buck Histórias Maravilhosas do Oriente 62 Por fim o mágico riu-se e exclamou: . Quando escureceu. com tanques de peixes e cascatas artísticas. De manhã muito cedo. foste bem aconselhado para me fazeres rir! Nunca mais serei teu inimigo. o príncipe ajoelhou-se. «Podias matar-me Regressou.Vejamos agora o que aprendeste. que seria o mesmo. Pear! S. esta noite tens de me construir um palácio cujo telhado seja do mais puro oiro. até que a noite chegou. temos de te exigir três serviços. O mágico bateu o pé. não se assustou e aproximou-se do trono sempre de joelhos.com uma coroa ofuscante na cabeça. pensou imediatamente. fiel aos conselhos da ela. uma abelha bateu à janela e disse-lhe: . Dois criados conduziram então o príncipe Milan a um belo quarto onde se deitou para descansar na cama macia preparada para ele. a entrou. as paredes de mármore e as janelas de cristal. Porque estás tão triste? . Bem-vindo sejas ao mundo subterrâneo! Mesmo assim. mas amanhã terei alguma coisa mais para te dizer. monstro perverso!». Milan apressou-se a abrir a porta e. de cabeça baixa. «Oh. Em redor dele quero um belo jardim. mas se não o conseguires cortar-te-ei a cabeça. mal entrou.Como não hei-de estar triste? Teu pai ameaçou-me de morte e já me vejo sem cabeça! . Antes de mais nada. para castigo da tua demora em comparecer. e não tardou a adormecer. muito triste. príncipe Milan. os seus 0 nos coruscavam como um fogo verde e em vez de mãos tinha garras. furiosamen’ ° seu ° lhar despediu chispas verdes e praguejou tanto que todo o mundo subterrâneo estremeceu. ao seu quarto e meditou.Tratante.Boas-noites. no seu cruel destino. recompensar-te-ei prodigamente.» o príncipe Milan. Mas o príncipe. a abelhinha transformou-se na bela Jacinta. .

Agora. Não há dúvida de que és um esplêndido artífice . pensou o príncipe.sei que és muito talentoso com as tuas mãos.. no fim de contas. No dia seguinte o feiticeiro ordenou outra vez que levassem o príncipe Milan à sua presença. Aconteceu tudo como ela prometera. e. é inútil desesperares. passarás por elas três vezes. Depois poderás aproximar-te e dar uma pancadinha aqui e outra ali. creio que só se morre uma vez.Escuta: reconhecer-me-ás por uma mosquinha que terei na face esquerda. então? . como se tivesses acabado de o construir. vestidas de igual e com os olhos no chão. génio. Se não acertares.Não há nada a fazer e. «Desta vez cometeste um erro». l 63 O próprio feiticeiro ficou surpreendido com a sua beleza. a princesa Jacinta. todas bonitas princesas. à terceira vez. uma autêntica obra de arte nos mais ínfimos pormenores. Somos trinta irmãs. . . jamais acertarias. Deita-te e quando acordares.perguntou-lhe o príncipe Milan. pois poderás enganar-te facilmente.E que resolveste fazer? .afirmou. meu querido príncipe.Que hei-de fazer. . Amanhã colocá-las-ei numa fila. As filhas estavam todas alinhadas à sua frente.Não sejas pateta. o príncipe Milan saiu do quarto e deparou com o palácio. dirigindo-se para o quarto e sentando-se à janela. que passava naquele momento. tão parecidas que até o nosso pai mal nos pode distinguir. Tenho em minha casa trinta filhas. . mas agora quero ver se . Assim que o dia nasceu. .também com a cabeça. olha três vezes estas beldades e diz-me qual delas é a princesa . perderás a cabeça. . mas acautela-te.Se não viesse ajudar-te. o palácio estará construído. amanhã de manhã.afirmou a abelhinha. dir-me-ás qual é a mais nova. «Imaginem se me seria possível não reconhecer a bela Jacinta! Não há nada mais fácil no mundo inteiro!» Não é tão fácil como imaginas .

fechou a porta e atirou a chave fora. correram para o local por onde tinham descido ao mundo subterrâneo e não tardaram a alcançar as margens do lago. Após estas palavras respirou para a janela e o seu hálito congelou nos vidros. Entretanto. . se não lhas fizer. mas continuou sem ver nada. Percorreu segunda vez a fila. porém. Buck 64 .E esta a princesa Jacinta! Acertaste novamente . príncipe Milan? PearlS. agarrou a mão da jovem e exclamou: . surpreendido. e se não te salvar a vida morrerei contigo.Como queres que não esteja triste? Desta vez o teu pai encarregou-me de uma tarefa impossível: quer que lhe faça um par de botas antes de uma vela arder até ao castiçal. . nâo as fizeres nesse prazo. matar-me-á. O cavalo relinchou de alegria. ao reconhecer o dono. perderei a cabeça. o feiticeiro esperava impacientemente pelo príncipe.Não te atormentes.Jacinta! O príncipe Milan percorreu a fila. enquanto o príncipe e Jacinta lhe saltavam para cima..perguntou-lhe Jacinta. mas eram todas tão semelhantes que dir-se-iam um só rosto reflectido em trinta espelhos.E que tencionas fazer? . tens de me fazer um par de botas que me dêem pelos joelhos.declarou o feiticeiro. mandou os criados buscá-lo. olhando-as atentamente. desesperado. correu para ele e imobilizou-se. viu uma mosquinha a descer pela face esquerda de uma das princesas.Porque estás tão triste. e a princesa Jacinta mais uma vez o visitou transformada em abelha e lhe perguntou: . pois a hora marcada passara. Enfurecido com a demora. Antes que esta vela se gaste até ao castiçal. ficas sem a cabeça. .Que hei-de fazer? Como não posso cumprir a sua ordem. À terceira vez. Temos de fugir tão depressa quanto pudermos. onde o corcel do príncipe Milan ainda pastava a erva que crescia perto da água. Mas tenho ainda outra tarefa para ti. A mosca notava-se pela ausência.. querido! Amo-te e casarás comigo. Depois partiu como uma seta disparada de um arco. . De mãos dadas. príncipe foi para o quarto. Depois conduziu Milan para fora do quarto. pois não há outro remédio. Que sabe um príncipe da arte de sapateiro? No entanto.

e imediatamente se transformou em rio e ao príncipe em ponte de ferro.Vou já. o mágico ordenou que perseguissem o príncipe Milan. se não querem arrepender-se! A perseguição recomeçou. antes da ponte a estrada dividia-se em três. . mas ao cherem à ponte hesitaram. Enlouquecido de raiva. encostou o ouvido ao solo e escutou. então. encontrando-a fechada. e vociferou: Idiotas! O rio e a ponte eram eles! Voltem e tragam-mos imediatamente. a si. Foram informar o feiticeiro da resposta e. . perseguem-nos e estão perto. uma perseguição furiosa. Num momento. encostou o ouvido ao chão e comentou: -Já estão muito perto. Os criados do feiticeiro correram atrás da pista fresca. O príncipe desmontou. O hálito congelado no vidro da janela respondeu-lhes na voz do príncipe Milan: . então . Quando o fizeram.Os criados chegaram à porta e. como o príncipe continuasse sem aparecer. regressaram e informaram o mágico do que acontecera.declarou a princesa JaHistórias Maravilhosas do Oriente 65 . . assim que os viu. os criados encontraram o quarto deserto e o hálito riu-se deles. bateram. Ouço tropel de cavalos . O hálito congelado continuou a dar a mesma resposta. . Temerosos e trémulos. a princesa Jacinta transformou-se. O feiticeiro ferveu de cólera. Começou. ao príncipe e ao corcel. mas o príncipe continuou a não aparecer.disse Jacinta ao príncipe.Não podemos perder tempo. aquele mandou os criados chamá-lo segunda vez.Ouço tropel de cavalos atrás de nós . não havia mais rastos e não sabiam qual das três estradas seguir.Sim. Por fim o feiticeiro perdeu a paciência por completo e mandou arrombar a porta.suspirou Jacinta. Milan saltou da sela.

Tragam imediatamente um cavalo! Não me escaparão! Mais uma vez a bela Jacinta murmurou: ’ .Perseguem-nos com afã e estão muito próximo. Buck 66 . tfPear! S.berrou o feiticeiro.Veremos apenas a cidade durante uma hora e depois continuaremos a nossa viagem para o reino do meu pai. Por fim encontraram-se no ponto de partida e. a Milan num monge e ao cavalo num campanário. regressaram mais uma vez de mãos vazias. onde mandou espancar todos os criados quase até à morte. o príncipe sentiu um grande desejo de nela entrar. e regressou apressadamente ao seu palácio. Pararam ns momentos na igreja. mas procuraram em vão o príncipe Milan e a noiva. O príncipe Milan continuou a viagem com a sua noiva.Ouço tropel de cavalos muito perto. desesperados. : E o príncipe respondeu: .afirmou a princesa.gritou o feiticeiro. Dá-me a tua cruz. Não viu ninguém passar a cavalo. .perguntou ao monge. agora devagar e sem temer nova perseguição. Os seus perseguidores entraram na floresta.Oh.Gostaria de lhes torcer o pescoço! . ao longe. . apareceram o feiticeiro e os seus criados.Que temes? . rogo-te que não vás! Receio alguma desgraça. . . . pois agora é o meu próprio pai quem nos persegue! . .perguntou-lhe o príncipe. Acabam de passar o príncipe Milan e a princesa Jacinta. .Irei eu próprio atrás dos patifes! . O príncipe tirou do pescoço a cruzinha de oiro que a mãe lhe dera e mal Jacinta lhe tocou transformou-se numa igreja. . De súbito. a rezar. reverendo padre? . ao ouvi-los.implorou-lhe Jacinta -.Estamos perdidos. e pediram-me que acendesse esta vela em lntencão do senhor e lhe desse saudades suas. Quase no mesmo instante. meu amor .Mas quando chegarmos à primeira igreja o seu poder cessará e não poderá seguir-nos mais. O Sol punha-se e os seus últimos raios iluminavam uma grande cidade.numa densa floresta onde se cruzavam mil caminhos e estradas.

Quando acordava de manhã. Quis o acaso que. Eis o que a bruxa lhe disse: Levanta-te antes de o galo cantar e observa atentamente até veres qualquer coisa mexer-se. como a princesa dissera. Suplico-te que tenhas muito cuidado. na valeta. mas primeiro transformar-me-ei num marco branco. do que resultou surgir na sua frente a bela princesa Jacinta. disfarçada de marco branco. regressava a asa encontrava a mesa posta com as mais deliciosas iguarias e bastava-lhe sentar-se e saboreá-las. Nessa altura. na mimosa florinha azul. colocou-a num vaso e regou-a com enlevo. Aconteça o que acontecer. Passou o primeiro dia.Entrar na cidade é fácil. notou que a florinha azul começava a tremer. trazendo consigo uma criança. a pobre donzela chorou amargamente e. mas sair. A menina acariciara o jovem que. transformando-se numa florinha silvestre azul. O homem não pregou olho toda a noite. pois se o fizeres esquecer-me-ás e a tudo quanto nos aconteceu. E uma lágrima ficou.. O rei e a rainha da cidade virão ao teu encontro. cujos olhos brilhavam como duas estrelas. Ao princípio sentiu-se apenas surpreendido e encantado. pouco depois. ao meio-dia. desenraizou-a cuidadosamente e levou-a para casa. até algum transeunte me pisar». porém. . como uma fulgurante gota de orvalho. O rei e a rainha tinham ido ao seu encontro. Seja. difícil . Vai. que eu esperarei aqui. Esperar-te-ei aqui durante três dias. saltava do vaso e voava pelo aposento. O velho saltou apressadamente da cama e cobriu a flor com o pano que a velha bruxa lhe dera. uma coisa extraordinária. O príncipe dirigiu-se rapidamente para a cidade e Jacinta ficou na estrada. então. não beijes essa criança. entrava sempre o quarto arrumado e tão limpo que não se via um rãozinho de poeira que fosse. mas passado algum tempo começou a preocupar-se e foi aconselhar-se com uma velha feiticeira. Encantado com a sua beleza. Ao ver que o príncipe não voltava. mas o príncipe não seguira o conselho de Jacinta e não voltou. passou o segundo e passou finalmente o terceiro. se baixara e a beijara na cara. Quando os primeiros raios de luz entraram no quarto. disse: «Crescerei aqui. seduzido pela sua beleza. cobre o que for com este pano e verás o que acontece. Aconteceu.suspirou Jacinta. e quando. acompanhados de uma menina encantadora e loura. A partir desse momento perdera por completo a memória e esquecera a bela Jacinta. passasse por ali um velho e a visse. arrumando tudo. limpando o pó e acendendo o lume. como desejas. pois a partir desse rnoHistórias Maravilhosas do Oriente 67 to tudo mudou na casa do velho.

uma obra de arte. onde encontrou a esperá-lo a bela Jacinta. Os soberanos receberam-nos com alegria nunca vista e viveram todos felizes até ao fim da sua vida. saiu de dentro dele um casal de pombos brancos.Meu querido companheiro.Porque me devolveste à vida se o meu noivo. O cozinheiro ia a recusar e a ordenar-lhe que saísse da cozinha. se azafamavam. Buck 68 numa salva de prata um maravilhoso bolo de casamento. Para sua surpresa.. aproximou-se do cozinheiro-mor e pediu-lhe: Querido cozinheiro. numa grande confusão. mas as palavras morreram-lhe nos lábios.respondeu-lhe o velho. Fora encontrava-se o seu fiel cavalo. ao ouvir as palavras da pomba. e respondeu-lhe delicadamente: Vieste mesmo a tempo. . Sem hesitar. bela donzela. Depois enxugou as lágrimas e foi à cidade. Os convidados não esconderam a sua admiração pois o bolo era. vestida de camponesa. trazendo PearlS.Que fizeste? . onde os cozinheiros. quando ao voltar-se viu a linda raPariga.Começaram já os preparativos para a boda e os convidados acorrem ao palácio vindos de todos os lados. por favor escuta o meu pedido e deixa-me fazer um bolo de casamento para o príncipe Milan. Os convidados ocupavam já os ugares à mesa quando o cozinheiro-mor entrou na sala. não me abandones nem me esqueças como o príncipe Milan esqueceu a sua adorada Jacinta! Milan soltou um suspiro profundo. A lenda de Tchi-Niu Este conto de encantar da velha China fala de um filho tão fiel à memória do seu . e o príncipe apressou-se a cortá-lo.perguntou-lhe a donzela. a chorar. na realidade. um dos quais disse: . bolo não tardou a estar pronto. A bela Jacinta chorou amargamente ao ouvir a novidade. que colocou à frente do príncipe. Dirigiu-se à cozinha do rei. Faz o teu bolo e eu próprio 0 levarei ao príncipe Milan. que escarvava o solo. o garboso príncipe Milan. de avental branco.O príncipe Milan vai casar . o príncipe e Jacinta montaram e galoparam o mais depressa que puderam para o reino do rei Kojata. levantou-se bruscamente da mesa e correu para a porta. me abandonou? . .

Tong lamentou profundamente encontrar-se em tal pobreza que não podia honrar a memória do seu bom pai com os habituais ritos fúnebres e um túmulo esculpido num lugar propício. os escravos e os devedores. 69 Tong-Yong perdeu a mãe quando ainda era criança e aos dezanove anos o pai morreu-lhe também.preço que lhe permitiria erigir um belo túmulomas que lhe seria impossível vir um dia a pagar. Foi o que. se fosse possível.defunto pai que se vendeu como escravo. deixando-o só no mundo e sem recursos de espécie nenhuma. nte na sua juventude e robustez. a fazer-lhe propostas enganosas de fuo auxílio. alguns elogiaram-no sem sinceridade e alguns ainda zombaram abertamente da sua generosidade e . o pai de Tong passara grandes privações para educar o jovem e não conseguira juntar uma só moeda dos seus ganhos. Em vão os amigos tentaram dissuadi-lo. Com esta intenção dirigiu-se para a larga praça pública onde se expunham. Como só os pobres são amigos dos pobres. Muitos dos que leram os caracteres do letreiro sorriram desdenhosamente do preço pedido e passaram adiante. para venda. resolveu exigir preço elevado PearlS. Tong respondia que preferia vender a sua libercem vezes. outros pararam e interrogaram-no movidos por simples curiosidade. desinteressados. transformou-se em mulher mortal e tornou-se esposa de Tong-Yong. Pobre como era. Ao fazê-lo concedeu-lhe os dois maiores bens da vida: a liberdade e um filho tão belo como ela própria. entre todos os conhecidos de Tong não havia ninguém com posses para o ajudar a custear as despesas do funeral. o jovem decidiu fazer. Debalde. Só existia uma maneira de obter dinheiro: vender-se como escravo a algum proprietário rico. tendo aos ombros um letreiro com as condições em que se venderia e uma lista das suas aptidões de trabalhador. a permitir que a memória do pai não se onrada. Buck 70 pela sua servidão . na esperanÇa de adiarem o seu sacrifício. chegando até. a fim de lhe construir um belo túmulo. Além disso. ainda que apenas por uma breve estação. e sentou-se num banco de pedra. O céu recompensou esse testemunho de amor filial à sua maneira: uma deusa desceu à terra. finalmente.

começavam a trabalhar mal o Sol era nado e regressavam. mandando construir um monumento que. recitaram-se as preces sagradas e queimaram-se em fogo consagrado modelos de papel de todas as coisas de que o morto poderia necessitar na terra dos espíritos para onde partira. um homem escorreito e grave. com as suas muitas luas. Assim passaram muitas horas fatigantes e Tong começava a desesperar de encontrar um amo quando passou a cavalo uma alta personagem da província. Não sorriu. nem aconselhou. um dia que fosse de feliz repouso. Enquanto o jovem enfermo dormitava. Depois dos geomantes e dos necromantes haverem escolhido um local de enterramento sobre o qual não pudesse brilhar nenhuma má estrela. nem fez perguntas. não havia ninguém para o tratar. assim. Mas Tong jamais lamentou a sua servidão ou deixou de praticar os ritos de adoração ancestral. mas ele não deixou de prantear. só depois de ele se pôr. a oferenda de fruta e comida. três vezes se celebrou o festival dos mortos. para onde o jovem levou as tabuinhas de madeira com os nomes dos antepassados. Tong entrou então ao serviço do seu senhor. Observaram-se então os piedosos ritos: colocou-se a moeda de prata na boca do defunto.riram-se da sua infantil devoção. que lhe destinou para morada uma pequena cabana. ordenando apenas ao servo que o acompanhava que pagasse a soma exigida e tratasse dos documentos necessários. pois seria idealizado por bons artistas e executado por hábeis escultores. A Primavera perfumou a terra de flores. penduraram-se lanternas brancas à porta. realizar o desejo do seu coração. Os companheiros julgaram-no condenado a morrer. limitou-se a observar o preço pedido e as fortes e belas pernas do jovem e a comprá-lo sem dizer palavra. fatigados.filial deve queimar diariamente o incenso da prece e cumprir os Jemos deveres da adoração familiar. no sono . entre preces e lamentos. O período de luto passou. até que um dia a febre dos campos de arroz o atacou e não pôde levantar-se da cama. embora pequeno em tamanho. em quintuplicado. chamado Stu-/an-ti. sem que lhe trouxessem uma hora sequer de alegria. Tong pôde. o cortejo fúnebre partiu da morada do morto e. um lugar de repouso que nenhum demónio ou dragão pudesse perturbar. numa tarde sufocante. os restos mortais do pai de Tong foram lançados ao túmulo. diante das quais a devoHistórias Maravilhosas do Oriente 71 . Puxou as rédeas do seu cavalo tártaro e parou a ler o letreiro. e três vezes Tong varreu e enfeitou o túmulo do pai e lhe fez. deliciaria os olhos de quantos o vissem. construiu-se o belo chih. senhor de mil escravos e de extensas propriedades. Espalhou-se pelo caminho dinheiro falso. Os anos rodaram. pois os escravos e os servos andavam ocupados nas lides caseiras e no trabalho dos campos.

Daria anos de vida em troca da coragem de lhe confessar a sua miséria. mas depois viu que ela também estava pobremente vestida. rezaram e juraram fidelidade com um copo de vinho trazido nunca ele soube donde. Como se tivesse adivinhado os seus mais íntimos pensamentos. surpreendido por verificar que as forças Pear! S. pois nem naquele dia nem em nenhum outro ousou Tong perguntar à mulher o nome da família ou a terra da sua origem. nem soube . na mesma voz clara e cristalina: . Abriu os olhos. sem enfeites de nenhuma espécie. Foi um casamento misterioso. Buck 72 lhe tinham voltado por completo. cheio de espanto. Antes que conseguisse falar-lhe. No entanto. Tong corou de vergonha ao pensar no seu miserável aspecto e nas suas roupas esfarrapadas. ajoelharam-se. de lhe dizer que não podia manter uma esposa.espasmódico da exaustão. O fogo da febre apagou-se. sonhou que uma estranha e bela mulher se encontrava a seu lado e lhe pousava na testa os dedos compridos e finos da sua bonita mão. a mulher disselhe. o seu olhar calmo parecia traspassá-lo como a luz traspassa o cristal. Levanta-te e ora comigo. de facto. sua voz clara possuía tons melodiosos como o canto das aves. Sem deixar de o acariciar. Assim adoraram juntos o Céu e a Terra e assim ela se tornou sua esposa. como se lhes houvessem insuflado vida nova. Tong experimentou um doce abalo e todas as suas veias latejaram. uma frescura deliciosa penetrou todas as fibras do seu ser e a comoção do que sonhara continuou a vibrar-lhe no sangue. viu debruçada sobre si a encantadora criatura com quem sonhara e não lhe restaram dúvidas de que a sua mão lhe acariciara. Ao seu contacto fresco. a fronte escaldante. brilhantes como maravilhosas pedras pretas sob as sobrancelhas arqueadas como asas de andorinha.Arranjarei o necessário. No mesmo instante os olhos da terna aparição encontraram-se com os seus e Tong viu que eram singularmente belos. Sentiu-se possuído por um vago temor e a pergunta que lhe subira aos lábios morreu neles. a estranha criatura sorriu-lhe e disse-lhe: Vim para te restaurar as forças e para ser tua mulher. ° seu olhar havia uma força imperiosa a que Tong nã o ousava reevantou-se da cama. e a mão esguia e fresca que segurava a sua arrastou-o tão rapidamente que pouco tempo teve para se admirar. e que nem sequer trazia sapatos nos pés. como uma mulher do povo. mas havia um não sei quê naqueles rasgados olhos escuros que não o deixava falar. chegaram junto das tabuinhas dos antepassados.

A mulher passava o dia sentada ao tear. Ela tecia co*1110 desejavam. ao entardecer. a seda saía do tear como uma corrente vagarosa de ouro brilhante. campos.até que afama da sua arte se espalhou a outras províncias.ragõe^ brilhava uma pérola mística. Como por magia. a tecer seda de uma maneira que nunca fora vista naquela província. . em troca das moedas de prata que lhe pagavam. adquiria nas suas ondulações estranhas formas cor de violeta. creiam . -jí amais poderia ensiná-los. Enquanto tecia. mercadores de grandes cidades mandavam mensageiros pedJlr a Tchi que tecesse para eles e lhes ensinasse o seu segredo. As estações paissaram e Tong nunca soube o que eram necessidades.responder às muitas perguntas curiosas que os seus companheiros de trabalho lhe faziam a respeito dela. mascarada a sua miséria por encantadores enfeites de papel e bonitas decorações feitas de nada pela suave prestidigitação de que só as mulheres conhecem o segredo. se sentia sem vontade própria. AAS moedas de brilhante prata trazidas pelos mercadores acumulavam-se em pilhas cada vez mais altas no grande armário que Tchi comprara para guarcar as provisões. a não ser para dizer que se chamava Tchi. a pequena cabana transformou-se. De long?e e de perto acorriam pessoas desejosas de admirar o maravilhoso t*”abalho. embora a esposa lhe inspirasse tão respeitoso temor que. acabada a refeição. Todas as manhãs o jovem marido encontrava uma refeição abundante e bem cozinhada. se o fitava. no capacete de todos os cavaleiros intilav^3 uma pedra preciosa. Contudo. se dispunha a sair para os. tão bem a sua b»ela mulher cumpriu a sua promessa de que arranjaria o necessário. desenhos de fantásticos cavaleiros. regressava a casa. ao olhá-lo. chorou de alegria. o mesmo acontecendo quando. Certta manhã em que Tong. Tong amava-a loucamente e o pensamento da sua servidão deixou de o atormentar a partir do momento em que a desposou. era tão impossível distinguir os seus dedos enquanto tecia comao observar a vibração das asas de uma abelha a voar. Tong. pois ers» o certificado da sua manumissão. carmesim e verde-esmeralda. Tchi tecia diariamente uma grande peça da tal s^da. Abriu o grande armário e tirou e entregou-lhe um documento escrito nos caracteres oficiais chamados li-shu.afirmava -. de carros puxados por dragões e de nuvens. De facto. dos campos. No peito de todos os 1 Histórias Maravilhosas do Oriente 73 . A mulher também nunca proferiu palavra a seu respeito. Tchi pediu-lhe inesperadamente que ficasse. mas ria--se quando lhe pediam que os ensinasse. pois nenhum tem decdos corno os meus.

Abençoavam Tong e afirmavam-lhe: . mas.Este teu filho é. o perfume do Estio desaparecido. um sinal de que os imortais te amam.Tchi comprara em segredo a libercrJade do marido. . os ventos tornavam-se frios e em casa de Tong já se acendia a lareira. Buck 74 Não tardou a tornar-se evidente que a criança era tão maravilhosa como a mãe. ”hi. ao mesmo tempo. com o dinheiro ganho na venda das suas maravilho:-sas ^das! ^Nlão trabalharás mais para nenhum senhor. apenas para ti -^_ di5S. com todo o seu recheio. tão boa para quantos r. Tudo quanto lançava à ter.. fora de si de contentamento e gratidão. pois Tchi deu à luz um . a mulher dedicou-se inteiramente aos cuiuauos e. Assim voltou a ser lie f> c*0m a liberdade. veio a prosperidade. . As flores tinham murchado.elhe a mulher. sim. no sétimo sabia repetir de cor os provérbios dos sábios e recitar as preces sagradas e antes do undécimo mês servia-se com habilidade do pincel de escrita e copiava em bonitos caracteres os preceitos de Lao-tsé. pois no terceiro mês de vida já falava.Comprei também esta casa. PearlS.’ ^m rapaz tão klo que Tong chorou de alegria quando o viu. MO menino. er^çoada centuplicava. Até os sacerdotes dos templos vinham admirá-lo e conversar com ele e ficavam maravilhados com o seu encanto e com a sabedoria do que dizia. HO seu nascimento. A j . quis prostrar-se-lhe aos pés> em acioração. os seus criados amavam-no e bendiziam a bela Tc: L-i .. e^vam O tear não tardou a ficar parado. os campos de chá do sul e as amoreiras que ficam aqui perto. mas ela não lho consentiu. ele a falar sern cessar das suas esperanças e alegrias. Que os teus olhos vejam cem felizes primaveras! Chegara o período da undécima lua. Marido e mulher estavam sentados havia muito tempo ao calor. tão silenciosa. uma dádiva do Senhor do Céu. Çi tudo teu_ ^g. à tardinha. com certeza. mas. do filho que seria um .

Contudo. ao berço onde o filho dormia. meu amado.grande homem e de tantos outros sonhos paternais. compreendeu que ela partira para sempre. a sorrir nos seus sonhos. mas que nunca o abandonara por completo. No exterior. A sua doce voz soou com toda a ternura de outras horas. mas logo os cerrou. abrindo outra vez os olhos. fora de casa. Nesse momento Tong experimentou o mesmo estranho medo que sentira quando os olhos de Tchi haviam mergulhado nos seus pela primeira vez. o vago medo que o amor e a confiança tinham acalmado.formas tão estranhamente belas como os sonhos de seda tecidos no tear de Tchi-Niu. dizendo-lhe: . o penhor do 113 o amor. Inconscientemente como se cedesse à pressão de poderosas e invisíveis mãos. com temor. misteriosamente como os ventos do céu. 76 O tigre. o clarão do fogo esmorecia e o vento uivava nas árvores nuas. para a chegada do Sol. como recompensa da tua devoção filial. no entanto. findava a noite. irremediavelmente como a luz de uma chama que se apaga. cuja luminosidade lhe desenhava os membros através das vestes. meu amado. e o menino continuava a dormir e a sorrir nos seus sonhos. as neblinas matinais adquiriam formas maravilhosas de cores mutáveis . em silêncio. Histórias Maravilhosas do Oriente iem encarunca fui de nascimento mortal e os Invisíveis só podem encar^ durante certo espaço de tempo. o brâmane e o chacal . como na estranha manhã do seu casamento.Chegou. Majestosamente. Tchi levantou-se e. o momento em que te devo abandonar. Quando deixou de falar a auréola desapareceu e Tong. com um sorriso compreensivo. Deixo-te. Nunca lhe parecera tão bela e. e. este belo filho que será sempre tão fiel e tão afectuoso tu foste. Sou a deusa Tchi-Niu. e que devo agora regressar à glória da Sua casa. inclinou-se diante dela e ajoelhou como se ajoelhasse diante de uma divindade. Fica sabendo. todas as portas estavam trancadas. a escutar as suas palavras e a envolvê-lo naquele seu olhar maravilhoso. pegou na mão do marido e conduziu-o docemente. o céu clareava depressa. as trevas morriam. como o medo que se tem dos deuses. iluminadas pela sua vinda. e ela pouco faladora. Levantou os olhos para o rosto da mulher. pois ela erguia-se a uma altura nunca atingida por qualquer mulher mortal e dir-se-ia envolta numa auréola de raios solares. o nascente escancarava as suas altas portas de ouro. todas as janelas fechadas. De súbito. que te fui mandada pelo Sehor do Céu. Tong nem dava por que a noite avançava. a olhá-la.

respondeu-lhe suavemente o brâmane. Era uma vez um tigre que foi apanhado numa armadilha. mas muito engenhosa e concisa e nas suas linhas incisivas oculta as bases essenciais da filosofia indiana.uma pedra preciosa pequenina. pois. não são de fiar. um animal pequeno e selvagem.Os tigres percorrem sorrateiramente os montes e as selvas da índia. mas rolou no chão e mordeu-se de raiva ao ver que nada conseguia. mas a que não falta o fulgor da inteligência. a quem a fera suplicou: . como o bom brâmane da história descobriu. tem de se ajudar a si mesmo. então. mas a sua própria bondade o impele a actuar contrariamente ao que a razão lhe aconselha. como o desta história. Além disso. O brâmane segue o seu caminho. e é da índia que nos vem esta história. do sofrimento ao serviço alheio. Quis o acaso que passasse por ali um pobre brâmane. É que os tigres. Manhosa e velhacamente. meu amigo . Que poderá. Vive de manhas. talvez. como ninguém o ajuda.Não.Solta-me desta jaula. ó santo homem! .Se o fizesse eras capaz de me comer. e a sua resignação a este destino revela a aceitação indiana da dureza da própria vida. mais sensato. sim. são também muito estúpidos e deixam-se apanhar facilmente em jaulas. . salvar o pobre brâmane? Apenas o mísero chacal. fecha-o nela. Esse. . Esta história é uma pedra preciosa . A árvore-dos-banianos. é bom. e o chacal regressa aos antros selvagens. o búfalo e a estrada exprimem todos a doutrina budista do sofrimento em vida. da astúcia e da sugestão filosófica. sem beleza nem força. sem dúvida. É breve. persuade o grande tigre a voltar à jaula e. embora belos e fortes. apesar de belos. triunfante. Tentou em vão sair por entre as grades.

O mais que conseguiu foi a promessa de ser aceita a decisão das primeiras três coisas que interrogasse acerca da justiça da acção do tigre. a uma árvore-dos-banianos o que pensava do assunto.. grandes e pequenos. se limitam a pisar-me e não me dão nada mais que a cinza dos seus cachimbos e o folhelho do seu grão! Ao ouvir tais palavras. de coração triste. mas agora que os meus úberes secaram jungiram-me aqui e alimentam-me de restos! Mais triste ainda. suspirar.És um idiota se esperas gratidão! Olha para mim! Enquanto produzi leite.De que te queixas? Não ofereço sombra e abrigo a todos quantos passam e não me cortam. ncos e pobres. o brâmane perguntou à estrada a sua opinião. chorar e jurar. mas todos. o brâmane retrocedeu.respondeu-lhe a estrada -. Eis a resposta que obteve: . de te comer? Depois de estar fechado tanto tempo. que tolo foste em esperar outra coisa! Aqui onde me vês sou útil a toda a gente. o coração piedodo brâmane comoveu-se e. mas a árvore respondeu-lhe friamente: . sê um homem! O brâmane. ficar-te-ia eternamente grato e seria teu escravo! _ Ao ouvir o tigre soluçar. . alimentaram-me de caroço de algodão e torta de linhaça.De maneira nenhuma! . tenho uma fome terrível! Em vão o brâmane suplicou que lhe poupasse a vida. O tigre saiu. agarrou o pobre diabo e gritou: que grande idiota me saíste! Quem me impede. por fim. para alimentar o gado? Não choramingues. e no caminho . o santo homem resolveu abrir porta da jaula. em primeiro lugar. agora. os ramos. Por isso o brâmane perguntou.e o tigre desfez-se em juramentos e Histórias Maravilhosas do Oriente 77 essas pelo contrário. num ímpeto. mas não teve melhor sorte. em troca. embrenhou-se mais na floresta e encontrou um búfalo a puxar à nora. desesperado.Meu caro .

Mas que grande idiota me saiu! . eu não estava na jaula! Meu Deus. então. . paciência. O tigre consentiu e o brâmane contou outra vez a história.. também não é assim! Bem. no fim. dar o meu parecer.gemeu o chacal.Eu.. o chacal comentou: Que confuso! Importa-se de me contar tudo outra vez. . do princípio. e continuou sem perceber. tristemente -. . para ver se percebo? PearlS. pensou o infeliz brâmane.Demoraste-te muito! . mas as suas palavras parecem entrar-me por um ouvido e saírem pelo outro! Irei ao local onde o caso se passou e talvez possa. Não.Mas agora comecemos o nosso jantar. sem esquecer um pormenor e fazendo render o peixe o mais possível. O tigre estava no brâmane e a jaula passou.Conceda-me cinco minutos.. eu é que estava na jaula! . fingindo tremer de medo.. mas o chacal abanou a cabeça.. Buck f8 O brâmane repetiu a história.. minha pobre cabeça! .É muito estranho ..verberou-o o tigre. . onde está o meu juízo? Ora deixem ver. Como começou tudo? Você estava na jaula e o tigre passou. minha pobre cabeça! Ora deixem-me ver.rosnou a fera. torcendo as patas.suplicou -. senhor tigre .Ai.Ai. com os joelhos a bater um no outro...Com certeza! Eu estava na jaula. . «Que maneira delicada de expor o assunto!» . Regressaram à jaula.. «O nosso jantar!». que é de compreensão um pouco lenta. . .encontrou um chacal que lhe perguntou: Que se passa. para que possa explicar o assunto a este chacal. enquanto afiava os dentes e as garras.confessou. Não. fora da qual o tigre aguardava o brâmane. comece o seu jantar.Com certeza! . . pois está visto que nunca compreenderei. senhor brâmane? Parece infeliz como um peixe fora de água! u brâmane contou-lhe tudo o que acontecera e.concordou o chacal. de medo. desalentado. meu Deus. .

a minha cabeça começou outra vez a andar à roda! Por favor não se zangue. O jovem percorre a paisagem russa montado num cavalo veloz e atravessa as negras e intermináveis florestas russas...Farei com que compreendas! Olha.. compreendes? . . . a porta. se me permite que lhe diga creio que as coisas continuarão no pé em que estavam! 80 Iwanich e o anel mágico Esta é a história de encantar de um filho mais novo e da maneira como encontrou a princesa dos seus sonhos.. senhor tigre. É um conto russo.Isso é que compreenderás! . Por favor. neste caso.Sim. É verdade que. . senhor tigre. . saltou para dentro da jaula e gritou: Entra-se assim! Percebes agora como as coisas se passaram? Perfeitamente! .E... senhor tigre.. tigres e quejandos a climas .E este é o brâmane.E eu estava na jaula.. Histórias Maravilhosas do Oriente 79 £ntão? gritou o tigre.. ... . onde se acoitam animais selvagens.. ... senhor tigre. mas como é que se entra? O tigre perdeu por completo a paciência.E isto é a jaula. enfurecido com a estupidez do chacal.rugiu o tigre.. cada vez mais impaciente.Sim. Como entrou? Como? Mas como se entra.. eu sou o tigre. senhor tigre. enquanto fechava. . a sorrir..Sim.respondeu o chacal. senhor tigre. depressa. está bem de ver! ^j meu senhor.Sim. a Rússia pede emprestados leões. evidentemente.. __ Por favor. não.

poucos dias depois. o do meio Warsa e o mais novo Iwanich. Por fim.mais quentes. porém. Dei ao meu jardineiro ordens estritas para vigiar atentamente as árvores. O mais velho chamava-se Szabo. que não posso ver sem mágoa. . e tinha de fazer um grande esforço para não desobedecer às ordens do feiticeiro. vergadas até ao chão. que dera as sementes ao meu pai. Todos os dias admirava as belas maçãs e as via tornarem-se cada vez mais tentadoras. apenas. o que fiz. foram aqui plantadas por mim quando era um jovem de vinte anos. mas é igualmente verdade que todos eles se portam como lobos russos. sem compreenderem a sua tristeza. o poder do amor para libertar uma alma do mal é autêntico. abanou tristemente a cabeça e afastou-se em silêncio. e como lobos russos se atiram à comida que o jovem lhes lança. perguntaram-lhe a razão da mesma e obtiveram a seguinte resposta: . prometera-lhe que se transformariam nas três mais belas árvores do mundo. Os filhos. O rei olhou-as um momento. mas a lebre é mágica e indica o caminho para a princesa. pois o feiticeiro advertira o meu pai de que todos os frutos apodreceriam se um deles fosse colhido antes de amadurecer. carregadas de pomos. outras. muito tempo viveu um rei que tinha três filhos. passados cinco anos.Estas três árvores. mas no seu leito de morrecomendoume que as transplantasse para aqui e cuidasse delas om o maior cuidado. as árvores de fruto. para os demorar. Saberia que estavam maduros quando adquirissem um tom amarelo-dourado. Um feiticeiro célebre. Claro que esta se encontra sob um encanto mau. onde cresciam três esplêndidas árvores. com admiração. de um conto de encantar. Há muito. mas o amor liberta-a. reparei ue apareciam algumas flores nos ramos e. algumas cheias de flores e. Numa bela manhã de Primavera o rei passeava pelos jardins com os três filhos e observavam. Trata-se. Entre essa comida conta-se uma lebre viva. surgiam os pomos mais maravilhosos que jamais vira. A certa altura chegaram a um canteiro cercado por uma vedação. Meu pai não viveu Histórias Maravilhosas do Oriente ai rã ver essas palavras tornarem-se realidade.

observou: Perdoe. reclamo o direito de o fazer antes de todos e. Era já dia claro quando acordou e as maçãs tinham desaparecido todas. . pois já não tinha muita fé na advertência do feiticeiro. Depois disso mandei guardar as árvores pelos meus servos mais fiéis. mandei chamar o jardineiro e perguntei-lhe se os frutos das três árvores não tinham amadurecido completamente durante a noite. resolvido a proteger os frutos mesmo que isso lhe custasse a vida. Eu próprio. também. permitindo ao príncipe ver tudo quanto o rodeava. mas pouco depois da meia-noite sentiu-se invadir por uma sonolência irresistível e adormeceu profundamente. o irmão do meio. Embora penalizado com o roubo. Szabo trepou a uma das arPearlS. Iwanich não se sentia desencorajado pelo insucesso dos irmãos mais velhos. Tenho a cereza de que há no seu reino muitos homens que podiam proteger estas arvores das artes manhosas de um feiticeiro ladrão. pois apesar de ter vigiado as árvores toda a noite. o homem lançou-se a meus pés e jurou-me que estava inocente. Chegou a vez do terceiro e mais novo dos filhos. Havia luar e a sua luz suave iluminava as cercanias. mas com o mesmo resultado. de facto.» Quando o rei acabou de falar. mais fortes que ele. embora fossem. mas resolvi colher todos os frutos do ano seguinte antes que amadurecessem. «No ano imediato mandei. que comia algumas e que eram mais deliciosas do que tudo quanto já saboreara. o filho mais velho. nesta mesma noite. No ano seguinte. vigiar as árvores. meu pai. os frutos tinham sido todos roubados. rei corisentiu e. de cuja fidelidade não duvidava. sequer. Em vez de me responder. mas quando provei um achei-o amargo e desagradável e. mas creio que não procede bem. os outros estavam todos podres. tentou a sua sorte. mas todos os anos. quando anoiteceu. na manhã seguinte. Warsa. Quando a noite chegou subiu à árvore. colher todos os frutos. ícarei de guarda às árvores esta mesma noite. os frutos foram colhidos e roubados por mão invisível e na manhã seguinte não restava uma só maçã para amostra. por isso. como eu primogénito. Buck 82 vores. Esteve atento muitas horas. não castiguei o jardineiro.«Uma noite sonhei que estavam perfeitamente maduras. Assim que acordei. Há algum tempo que não mando. como por magia. como eles tinham feito. Szabo.

Mas se o teu amor é.disse-lhe. . Tê-lo-ia feito esta noite. sempre que chegares a uma encruzilhada olha para este nel antes de decidires o caminho a tomar. talvez. . verificou que tinha nos braços a mais bela rapariga que jamais vira! . se não me houvesses agarrado com tanta força que quebraste parcialmente o encanto. mas o feiticeiro cortou-me uma vez um anel de cabelo. e quando Militza quis partir o príncipe rogou-lhe que não o deixasse.À meia-noite um suave vento oeste abanou a árvore e. mas este anel ajudar-te-á a encontrá-lo. Passaram o resto da noite nos braços um do outro. transformou-se outra vez em ave e desapareceu através dos ramos da árvore. como vês. e a ti também. O príncipe deu-se pressa em agarrar as asas da ave. . Não posso indicar-te o caminho. segue em frente. lllaJ * *”~-’ i -i j Imente. pois antes de morrer ela ordenou-me que colhesse as maçãs das árvores. Se me tens amor e coragem suficientes para empreenderes tal viagem. procura-me no meu reino e liberta-me do encantamento. Tirou. e nunca uma encantadora rapariga. e se ainda aqui me encontrasse de manhã poderia fazer-me mal. apaixonou-se imediata e perdidamente por ela.respondeu-lhe Militza -. também. assim que amadurecessem. então. uma ave branca como a neve e parecida com um cisne pousou-lhe brandamente no peito.Não tenhas medo de Militza .Um feiticeiro mau condenou-me a voar de noite como uma ave e este encanto só pode ser quebrado se alguém que me tiver amor descobrir onde vivo. . Esse feiticeiro roubou as sementes de macieira a minha mãe e causou-lhe. mas. olhando-o com afecto. ao mesmo tempo. Se os diamantes brilharem com o brilho natural.Guarda este anel como recordação de Militza e pensa nela alguHistórias Maravilhosas da Oriente 83 mas vezes se nunca mais a vires . a morte. com grande espanto seu.disse-lhe a jovem. Iwanich. mas se o seu brilho diminuir. como parte do encantamento. sem lhe dar tempo para falar. um faiscante anel de diamantes do dedo e entregou-o ao príncipe. sincero. que esperava um feiticeiro terrível ou alguma fera nocturna. Militza deu um beijo de despedida ao príncipe e. assim. . todos os anos. Por isso.De bom grado ficaria mais tempo contigo . escolhe outro caminho. não tens o direito de possuir este fruto.

Iwanich ia a entrar por um carreirinho quando ouviu uma voz gritar-lhe: . ao vê-las carregadas de frutos maduros. Mantivera-a à distância com a espada e. O entusiasmo alastrou à cidade inteira e toda a gente compartilhou a alegria do rei. com a ajuda do anel. o monarca foi ao jardim e ordenou ao jardineiro que colhesse alguns frutos. Procurou imediatamente o príncipe Iwanich e. quando começava a sentir-se extenuado. Só o príncipe não participou nos festejos. Como não queria que a verdadeira história se conhecesse. o príncipe procurava a sua Militza. apressou-se a dar a boanova ao rei. a vespa desaparecera tão inesperadamente como aparecera. Passados seis meses foi considerado morto. montando o cavalo mais veloz das cavalariças reais. O rei. depois de o abraçar ternamente e de o cumular de elogios. Ao fim de três meses chegou à orla de uma floresta que parecia estender-se até ao infinito e dirse-ia nunca ter sido pisada por pés humanos. sem saber. respondeu que. correu em direcção às árvores e. vestido de farrapos. provou um e achou-o tão delicioso como os que comera em sonhos. sem ninguém se aperceber. Enquanto o Pai se encontrava num banquete. Louco de contentamento. Buck 84 Só no dia seguinte deram pela sua falta. mas em vão. Esta pergunta colocou Iwanich perante um dilema.Pára. apoiado a um cajado e sentado debaixo de um carvalho de cor tão semelhante a . mandou o filho descansar das fadigas da noite. cerca da meia-noite. Pear/S. todo o seu espírito estava absorvido no pensamento de Militza e na maneira de a encontrar. O rei ficou muito preocupado com o seu desaparecimento e mandou-o procurar por todo o reino. sem duvidar da veracidade da história. se as maçãs haviam sido tiradas. como se sonhasse. mas ordenou festejos em honra da preservação dos maravilhosos frutos. jovem! Aonde vais? O príncipe voltou-se e viu um homem alto e esquelético. Assim que o jardineiro viu o príncipe dirigir-se para o palácio. Entretanto. perguntou-lhe como conseguira conservar-se acordado e proteger os raros pomos do poder do feiticeiro. o príncipe desceu da árvore e regressou ao palácio. e outros seis meses depois o povo esquecera-o por completo.Chegada a manhã. sequer. abalou corno o vento. Iwanich muniu-se de algumas bols de ouro e. uma enorme vespa voara por entre os ramos e zumbira sem parar à sua volta. de manhãzinha.

de facto. antes de ires mais longe! Fica sabendo que esta floresta oculta no seu interior incontáveis e ferozes tigres. gritou: . mas se estás. lobos. cobras e outros monstros. Mas deves deixar o teu cavalo. por instantes. Num lado. se desejas salvar a vida.Lamento-te sinceramente . se corres tão às cegas ao encontro da morte! Escuta-me.Bem se vê que nada sabes desta floresta.ele próprio que não admirava ter o príncipe passado sem o ver. . mas o velho chamou-o em tal grita que o príncipe retrocedeu e se aproximou do carvalho. . trou na floresta. avistou os olhos coruscantes de um tigre. Quando tiveres percorrido cerca de cem metros no interior da floresta. espantado. hienas. Mal deixara de ver o seu esquelético e cinzento amiouviu rugidos numa moita próxima e. as feras rodear-te-ão.Aonde hei-de ir senão atravessar a floresta? . Iwanich agradeceu-lhe. Deves abrir imediatamente o saco e espalhar as migalhas. Leva este saco cheio de migalhas e esta lebre viva. . não teria outro remédio senão atravessá-la! Esporeou o cavalo e entrou na floresta. segue outro caminho.afirmou-lhe o homem -.Atravessar a floresta?! . ^ ’m que tocar no chão. permitindo-te assim atravessares em segurança a floresta. pegando no saco e na lebre. ursos. e as feras persegui-la-ão. de um momento para o utro viu-se rodeado das mais horríveis criaturas. Os animais deitar-se-ão a elas com sofreguidão e.repetiu o velho. ao ver que brilhava como sempre. ofereço-tos. Esta fugirá velozmente. Se te cortasse e ao teu cavalo em bocadinhos e os atirasse às feras. .Ainda que nesta floresta se encontrassem feras mais terríveis do que essas. pois tropeçaria nas árvores caídas ou enredar-se-ia nas urzes e nos espinhos. desmontou e. O príncipe ficou impressionado com as palavras do velho e reflectiu. lançada a última mic Histórias Maravilhosas do Oriente 85 não percas tempo e lança-lhes a lebre. não chegaria um bocado para cada cem! Aceita o meu conselho e. Depois olhou para o anel e. permite ao menos que te ajude. no que devia fazer. resolvido a enfrentar todos esses monstros da floresta.

Ladeavam-no dois leões. aqui. que te protegerá. perseguido de perto pelas bestas. tinha as pernas tortas e o corpo todo coberto de espinhos como o de um ouriço. mas o homenzinho prosseguiu: . Iwanich continuou a atravessar a floresta e.. olhou para o anel e. Não media mais de noventa centímetros de altura. seguiu a direito através da floresta.Agradeço muito a tua gentileza. Que te posso dar como recompensa? Peço apenas permissão para atravessar esta floresta em segurança . mantiveram-se todas a respeitosa distância mal avistaram o . Mandou parar o príncipe e perguntou-lhe. Com certeza. O príncipe encontrou-se só. Contudo.. a última migalha desapareceu e as feras famintas apertaram o cerco. para maior segurança. para que não Caia em mãos inimigas que o matariam. os dentes arreganhados de uma grande loba. deitou as orelhas para trás e lançou-se por entre as árvores como uma flecha. Em seguida desprendeu o leão da barba e recomendou-lhe que pró7 PearlS. Pouca distância percorrera quando viu um homem de aspecto extraordinário ir ao seu encontro. E.disse-lhe Iwanich. a seus pés. então. Assim que o animalzinho tocou no chão. Mas quando deixares a floresta e chegares a um palácio que não pertence ao meu domínio. tirou um punhado de migalhas e começou a atirá-las às feras. presos pelas duas pontas da sua comprida barba. leopardos e outras feras. rispidamente: -Foste tu que acabaste de dar de comer à minha escolta? Iwanich sentiu-se tão assustado que não pôde responder. ali. Acompanhado do novo protector. Buck 86 87 tegesse bem o jovem. a lebre. um grande urso rugia ferozmente. gulosas de nova presa. uma medonha cobra enroscava-se na erva. ao vê-lo brilhar como sempre. Iwanich não esqueceu os conselhos do velho. dar-te-ei um dos meus le° es. Iwanich atirou-lhes. Meteu a mão no saco. O saco foi-se tornando leve. embora encontrasse muitos mais lobos hienas.no outro. cada vez mais leve. solta o leão.

sua mulher. O leão parou na orla da floresta e o príncipe deixou-o. Pôs-se de novo a caminho até avistar. . temos neste conto de encantar japonês pardais a dizerem-nos verdades acerca da vida. intermináveis. ouviuse um estrondo tremendo. as árvores tornaram-se menos densas e avistou. como se mil vidros se houvessem partido. permite o contraste e é punida como merece pelos pardais. e como nos contos de encantar a verdade é importante. dos homens e das mulheres. Daí resulta uma enternecedora história de encantar. Iwanich e Militza viveram numa paz e numa felicidade que nada perturbou. ao longe. de súbito. a donzela correu para ele e abraçou-o ternamente. depois de o príncipe lhe contar todas as suas aventuras. depois de lhe agradecer calorosamente a sua protecção. entre as ramarias uma larga planície. O pardalJerido A vida no antigo Japão colocava muitas vezes os animais e as aves no mesmo plano do homem. e. já quase à noite. Assim que viu Iwanich. onde os esperava uma sumptuosa refeição. um palácio todo branco. com a sua consideração e generosidade. Como entretanto escurecera. e nem um campo verde.companheiro do príncipe. Não tardou a desfazer-se numa nuvenzinha de fumo e nunca mais se ouviu falar dele. Quando o alcançou abriu a porta e entrou e. acendeu uma fogueira de ramos secos e dormiu a sono solto até de manhã. é a pessoa boa do conto. Iwanich teve de esperar pelo dia seguinte para continuar a sua viagem. porque o encanto se quebrara. A princesa reuniu então a sua corte e apresentou Iwanich como seu futuro marido. O velho. sem o mínimo respeito pelos factos. em miniatura. Por fim. a velha. Soaram sinos e o vulto vago do mágico apareceu louco de raiva. na qual uma avezinha desempenha o papel de um ser humano. entraram no palácio. avarenta e irascível. que se realizou com grande pompa e magnificência. Iwanich caminhava o mais depressa que as pernas lhe permitiam As horas sucediam-se. Daí em diante. mas os factos o não são. O príncipe soltou um grito de alegria ao ver Militza no meio de um grupo de raparigas que teciam grinaldas de flores e cobriam com elas a ama. Fez uma cama de erva e folhas. iniciando-se logo os preparativos para o casamento. nem uma habitação humana surgia no seu caminho.

Pardal! Pardalinho! Onde estás tu? Um dia. «Ai de mim. Buck 88 tuo. apresentou-lhe a mulher e os pardalinhos seus filhos. . à procura da avezinha e a chorar. viu tanta riqueza na sua frente.Não. mas a mulher era intratável e. . . a vadiares nessa idade! . ficou muito penalizado. . Um deles era pesado e o outro leve. O velho. um velho e uma velha. todos estes dias? Que bonito. o marido perguntou o que sucedera e a velha respondeu-lhe que lhe batera e o afugentara porque lhe roubara a goma. Pô-lo ao ombro e partiu a caminho de casa. e o velhote respondeu que.És um pardal muito delicado! . que era tão avarenta como má. que tinha bom coração. O pardal rogou-lhe que aceitasse. ao regressar dos montes. Quando chegou. enfureceu-se de tal maneira que bateu no passarito e o afugentou. aceitaria apenas o leve. como prenda de despedida. em tempos que já lá vão. que o pardal desaparecera. furiosa: . com um suspiro. o pardal conduziu o velho para sua casa.elogiou-o o velhote.Partilhe a nossa humilde comida. depois de se felicitarem um ao outro pelo encontro muPear! S. visto ser fraco e de idade avançada. ao ouvir tão cruéis palavras. Abriram o cesto para verem o que continha e verificaram.Viveram. que me deram este cesto de vime. pôs-lhe à frente toda a espécie de iguarias finas e recebeu-o hospitaleiramente. estupefactos.convidou-o o pardal. no sopé de uma alta montanha. que estava cheio de oiro e prata e outros objectos preciosos. Por fim disse que tinha de se despedir e regressar a casa. pobre pardalito ferido! Onde vives agora?» í>aiu de casa e andou. como prenda de despedida. um dia. para onde terá ido o meu passarinho?». dois cestos de vime. fui apenas visitar os pardais. mas oferecida de boa vontade. quando o pardal debicou um amido que ela destinava para engomar a roupa branca. a mulher ralhou-lhe. andou. Quando a velha. possuía um pardalito de que gostava ternamente. por favor . encontrou finalmente a ave esaparecida e. mulher. Ele.É pobre. «Pobrezinho. deixou de ralhar e não . perguntou a si mesmo.Por onde andaste. e foi tratado e alimentado como um rei. como seu hóspede. deixando a família de pardais triste com a separação. Vendo. Ficou muito tempo em casa do pardal.

conseguiu dominar a alegria. - Irei também visitar o pardal - declarou - e trarei um bonito presente. Perguntou ao marido onde ficava a casa da ave e pôs-se a caminho, até acabar por a encontrar. - Que agradável encontro, senhor Pardal! Que agradável encontro! - exclamou. Desejava tanto ter o prazer de o ver! Tentou, com palavras doces e melífluas, lisonjear e conquistar as boas graças do pardal, que não teve outro remédio senão convidá-la a ficar em sua casa. No entanto, não se incomodou oferecer-lhe iguarias. Mas a velha não se atrapalhou e pediu qualquer coisa que levasse consigo, como recordação da sua visita. O pardal apresentou-lhe dois cestos de vime, como fizera ao mando, e a gananciosa mulher escolheu o mais pesado dos dois e partiu com ele. Assim, porém, que o abriu, para ver o que continha, saíram cv Histórias Maravilhosas do Oriente 89 de dentro do cesto duendes e anões que a atormentaram e, por fim, agarraram e levaram consigo. n vplho empregou a sua nqueza a adoptar e educar um iilho, O velho empregou a sua nqueza; nou-se ainda mais rico do que fora. etor90 Os meninos dos cabelos de ouro Este conto de encantar turco fala de duas crianças de cabelos de ouro, filhas do paxá e de uma pobre jovem, a mais nova de três irmãs. As duas irmãs mais velhas tinham sido também levadas para o palácio, depois de os seus desejos serem escutados, mas a sua boa fortuna estragou-as e voltaram para a pobre cabana. A mais nova continuou humilde e boa, mesmo no palácio, e foi ela que deu à luz os meninos

dos cabelos de ouro. Tão belos eram os pequeninos, que as duas irmãs mais velhas, invejosas, subornaram uma velha megera para os roubar e se desfazer deles. Mas um velho e bondoso casal encontrou-os e criou-os com a ajuda de uma cabrinha. O que sucedeu às crianças e a maneira como, no fim, o paxá as reencontrou, depois de muitos acontecimentos estranhos e interessantes, proporciona uma boa história de encantar. Era uma vez uma grande cidade na qual viviam três jovens donzelas, filhas de um pobre lenhador. Do romper ao pôr do Sol e pela noite fora, não faziam outra coisa senão coser e bordar. Quando acabavam os bordados, uma delas ia ao mercado e vendia-os, comprando com o produto obtido o essencial para viverem pobremente. Ora sucedeu que, um dia, o paxá da cidade se zangou tanto com o povo que, na sua cólera, ordenou que durante três dias e três noites ninguém acendesse uma vela na cidade. Que seria das três pobres irmãs? Não podiam trabalhar às escuras, mas precisavam de trabalhar. Depois de muito pensarem, cobriram a janela com uma grande e espessa cortina, acenderam uma velazinha e sentaramse a trabalhar, para ganharem o pão de cada dia. Na terceira noite do castigo, o paxá resolveu percorrer pessoalmente a cidade, para se certificar de que todos obedeciam à sua ordem. Histórias Maravilhosas do Oriente 9ÍJ n ’ o acaso que parasse defronte da casa das três donzelas e, como a rtina não chegasse bem até ao fundo da janela, visse brilhar luz no mtenor. As raparigas, sem suspeitarem do perigo que corriam, contiuaram a coser e a bordar, enquanto conversavam da sua pobre vida. 5e ao menos o paxá me casasse com o seu cozinheiro-mor, que tos Deliciosos comeria todos os dias! - dizia a mais velha. - Bordaria, para o paxá, uma carpete tão grande que caberiam nela, ao mesmo tempo, todos os seus homens e todos os seus cavalos.

Pois eu - dizia a do meio - gostaria de casar com o encarregado do seu guardaroupa. Que belos vestidos teria! E faria ao paxá uma tenda tão grande que abrigaria todos os seus cavalos e todos os seus homens. Eu - declarou a mais nova - só me contentaria com o próprio paxá! Se me tomasse por esposa, dar-lhe-ia dois filhos de cabelos de ouro, um menino e uma menina. Na testa do menino brilharia uma meia-lua e na da menina uma estrela! O paxá ouviu as palavras das três donzelas e, mal a primeira luz matinal enrubesceu o céu, mandou chamar as três ao palácio, entregou a primogénita ao encarregado da sua copa, a do meio ao seu camareiro-mor e guardou a mais nova para si. Ao princípio tudo correu bem com as três irmãs, mas depois... A mais velha empanturrou-se com tão bons e suculentos pratos que, chegada a altura de fazer a prometida carpete, a gordura quase não lhe deixava manejar a agulha e o paxá recambiou-a para a cabana do lenhador. Quanto à segunda, depois de ataviada e vestida de ouro e de prata, não se dignou sujar os dedos a fazer tendas e foi fazer companhia à primeira. E a mais nova? Passados nove messes e dez dias as duas irmãs mais velhas foram ao palácio, para verem se a pobre rapariga cumpria a sua palavra e presenteava o paxá com os dois maravilhosos rebentos. Junto do portão encontraram uma velha e persuadiram-na, com prendas e Prornessas, a interferir, no caso de a irmã cumprir a promessa feita. A ha era a própria filha do demónio e a maldade e a velhacaria eram a sua carne e o seu vinho. Muniu-se de dois cachorrinhos e levou-os para ° ^uarto da jovem futura mãe. A mulher do paxá deu à luz duas crianças lindas como as estrelas, menino e uma menina. O menino tinha uma meia-lua na testa e a PearlS. Buck Histórias Maravilhosas do Oriente 92 93 menina uma estrela, de maneira que as trevas transformavam em luz na sua presença. Mas a velha trocou-os pelos cãezinhos e disse ao paxá que a mulher os tivera. O soberano ficou tão furioso que quase teve um ataque, enterrou a pobre mulher no chão, até à cintura, e mandou apregoar na cidade a notícia de que

Esta ficou ainda mais alegre que o marido. para ser mungida. Um dos cortesãos aproximou-se do rapaz e disse-lhe: . A cabrinha amamentava-as todos os dias e depois ia para o pasto. os dos cabelos de prata enfraqueciam. encontrou o axá mas nem o filho sabia que ele era seu pai. até que uma manhã não acordaram e o irmão e a irmã se encontraram sós. levou-os para a cabana e entregou-os à mulher. Numa cabana perto do local onde as crianças foram abandonadas morava um casal idoso. pois Alá não o abençoara com filhos seus. O tempo passou. quando caçava animais selvagens na floresta. Choraram e carpiram. tratavam do gado e ajudavam os velhotes por palavras e obras. Contou o facto ao marido e disse-lhe que seguisse o animal. As duas surpreendentes crianças chegaram à idade de correr montes e vales. O velho ficou louco de contentamento ao ver as maravilhosas crianças. Seguiu-a outra vez. muito velho. Pegou-lhes. mas depressa compreenderam que as lágrimas nada remediavam. e que imaginam que viu? Na relva jaziam duas crianças de cabelos de ouro. levou os dois meninos para muito longe da cidade. a quem a cabra amamentava! Depois de lhes dar o seu leite balia-lhes docemente e ia pastar. enquanto o irmão ia caçar para arranjar comida. a velha surpreendeu-se ao verificar que a cabrinha não trazia uma gota de leite. No entanto. Caçavam animais selvagens. o velho seguiu a cabra. Quanto à bruxa. contudo. No dia seguinte. tomou conta das crianças e criou-as como se fossem suas. nem o pai reconheceu o filho. O marido tinha uma cabra que saía de manhã para pastar e regressava à tarde. as crianças cresceram ainda mais e o bondoso casal tornou-se muito. Enquanto os dos cabelos de ouro se tornavam mais fortes. Um dia.quem passasse por ela lhe devia bater com uma pedra na cabeça. o paxá desejou ardentemente apertá-lo ao peito e ordenou aos que o acompanhavam que lhe perguntassem de onde era. viu-a ir direita à margem do rio e depois desaparecer atrás de uma árvore. colocou-os na margem relvosa de um rio caudaloso e regressou ao palácio muito feliz por se ter saído tão bem do seu terrível trabalho. de devassar as escuras florestas com a luminosidade dos seus cabelos de ouro. Enterraram os velhos pais e a rapariga ficou em casa com a cabrinha. Um dia. permitindo assim aos velhotes irem vivendo. no momento em que os seus olhos fitaram o jovem tão maravilhosamente belo. para ver se alguém lhes roubava o leite.

que poderia fazer? Tenho de ocupar o tempo o melhor possível. vou dizer-te uma coisa. se vivia sozinha. senhor. A notícia chegou aos ouvidos da velha bruxa.E ele gosta de ti? Sim.Não te aborreces de passar o dia inteiro sem companhia? . O jovem tinha o mesmo cabelo de ouro e a mesma fronte radiosa que sua mulher lhe prometera. mal transpôs o limiar indagou. minha pequenina. muito. Perguntar-te-á o ens e não lhe responderás. Esta tarde. Mesmo que aborrecesse. Buck 94 . gostas muito do teu irmão? . vá ao jardim da PearlS. de dia. Diz-me.perguntou ainda a bruxa. mas quando te perguntar terceira vez dir-lhe-ás que esticar em casa sozinha e que. perguntar-te-á segunda vez e contias calada. e.Abateste aqui muita caça. A jovem perguntou-lhe delicadamente o que queria e a velha não esperou que repetisse a pergunta. meu diamantezinho. respondeu que vira na floresta um jovem maravilhoso e que o amava tanto que nunca mais teria descanso. . coÇa a chorar e a lamuriar com todas as tuas forças. acrescentou. linda como a Lua.Não. tntão. quando o teu irmão regressar a casa.Claro que gosto! . quando os cortesãos lhe perguntaram o que o entristecia. com palavras doces como o mel. avozinha. que ficou cheia de medo. mas não a res a ninguém.respondeu-lhe o moço. e deixou-o. Correu ao rio. e regressa à tarde a casa. Alá também criou muita e há bastante para ti e para mim . Anda a caçar. espreitou e deparou com uma encantadora menina. se gosta de ti. viu a casa. tenho um irmão. O paxá regressou ao palácio cheio de saudades do rapaz. .

filhinho! . depois de recitares duas vezes uma Histórias Maravilhosas do Oriente 95 . .perguntou-lhe a mulher. lhe contou o destino da sua mãe e lhe ensinou o caminho para o jardim encantado: . . à procura das fronteiras do reino encantado. pôs-se a caminho do jardim da rainha das fadas. . até que chegou a um imenso deserto que olhos humanos nunca tinham visto nem pés humanos pisado. Ao chegar a casa. ter-te-ia devorado imediatamente. O jovem foi direito a ela.Quem te pôs essas palavras na boca. .Centenas e centenas de talismãs guardam esse jardim e centenas de almas já lá pereceram.Bons-dias. atravessou desertos por onde caravana alguma jamais passara.Só poderei morrer uma vez.replicou-lhe a velha. que o mandou sentar ao seu lado. Depois de a ouvir. a donzela começou a chorar e a lamentar-se até ter os olhos vermelhos. o jovem dos cabelos de ouro prometeu satisfazer o desejo do seu coração e. beijou-lhe a mão e saudou-a: . Andou. Dispara as tuas setas para essa floresta e apanha de cinco a dez pássaros.Parte ao nascer do dia e não pares enquanto não vires na tua frente um poço e uma floresta. mas apanha-os vivos. como nunca viste outro igual. abraçou-a. inocentemente enterrada . Se não me tivesses chamado mãezinha e não me houvesses beijado a mão. escalou montanhas que ave alguma jamais sobrevoaria. filhinho. à volta da qual o ar estava impregnado de enxofre. filhinho? . cheia de espanto. Mas o jovem não hesitou: .rainha dos peris e te traga um ramo encantador. o irmão ficou surpreendido com o estado de desespero em que a encontrou e prometeu-lhe toda a relva dos campos e todas as árvores das florestas se lhe dissesse o que tinha.Se teimares nesse desejo não tardarás ajuntar-te à tua mãe. A rapariga prometeu que assim faria e a velha foi-se embora. de manhãzinha. percorreu vales pelos quais serpente alguma jamais rastejaria. andou. Mas dize-me. mãezinha. Leva-os ao poço e. mas tinha confiança em Alá e continuou a andar sempre. À tardinha.Bons-dias. aonde vais? O rapaz respondeu-lhe desejar um ramo do jardim da rainha dos peris. No meio dele erguia-se um belo palácio e na berma da estrada sentava-se a mãe dos demónios.respondeu-lhe a mãe dos demónios.

declarou -. deixando o irmão sem saber que fazer para a consolar. Pear! S. minha filha? . como de costume. Mal a bruxa saíra. Buck Histórias Maravilhosas do Oriente 96 97 . parando apenas quando lá chegou. .Mas isso ainda não é nada. No dia seguinte. apoderou-se da chave. estende o braço direito para as trevas interiores. a velha bruxa voltou à cabana e encontrou a donzela com o ramo mágico na mão. Do poço lan-te-ão imediatamente uma chave. quando a aurora enrubescia o céu. os rebentozinhos cheios de folhinhas. abriu a porta da caverna e . nunca olhes para trás. E que ramo! Estava cheio de rebentozinhos. mais doente que nunca de saudades do filho.ó Alá! . p uco depois encontrarás uma grande caverna cuja porta abrirás com tua chave e. No dia seguinte o jovem foi caçar. agarrou qualquer coisa e. . mas milhares de almas humanas que pereceram ao tentar obter o que pretendes. Não deixes de o atormentar enquanto não to for buscar. Entretanto. tnsinou-lhe depois que caminho devia seguir e o que devia fazer. a gritar. pois se o fizeres Alá não terá piedade da tua alma.ece mergulha-os no poço e pede. sem olhar uma única vez para trás. Se o teu irmão te trouxesse o espelho da rainha dos peris. apanha-a e segue o teu caminho. agarra aquilo em que a tua mão tocar. assim que entrares. puxa-o depressa para fora e atira outra vez a chave. em cada folhinha havia um passarinho e cada passarinho trinava a sua melodia. pois não foram centenas.estendeu a mão direita. Trocou umas palavras com o jovem e regressou ao palácio. Estás decidido a ir para debaixo da terra. a donzela começou a chorar e a lamentar-se. Que música maravilhosa! Toda a cabana se encheu de alegria. arrastou-a todo o caminho até à cabana da irmã. Mas tem cuidado. o jovem pôs-se a caminho. A rapariga acabou por lhe falar no espelho e o jovem procurou imediatamente a mãe dos demónios e suplicou-lhe com tanto desespero que o ajudasse que ela não teve coragem de lhe recusar o que queria.Que te disse eu. Alá sabe que deitarias fora esse ramo. e enquanto perseguia as feras da floresta o paxá voltou a vê-lo. fazer companhia à tua mãe. apanhou os pássaros na floresta. uma chave.declarou. Só então os seus olhos viram o que trouxera: um ramo do jardim da rainha dos peris. inocentemente sepultada .

até arderem de novo. apanha-o! . Encontrou ainda outra porta e junto dela dois fornos. Muniu-se de um bordão de ferro. . Assim. por isso. tal qual como a mãe dos demónios lhe dissera. . nem de noite nem de dia. olhou-o e . O jovem fechou a aberta e abriu a fechada. enquanto não lhe levasse a própria rainha dos peris.louvado seja Alá! . De novo o irmão foi caçar e de novo avistou o paxá. e encontrou à sua frente outra porta. deixou-o passar. O moço pegou na carne e pô-la diante do leão e pegou na erva e pô-la diante do carneiro. e o leão tinha erva à sua frente e o carneiro tinha carne. A jovem não pensou mais no ramo encantado. A velha bruxa compreendeu muito bem o que se passava. procuu a donzela e encheu-lhe a cabecinha tonta com tantas histórias. não o deixes passar! . pois ele apagou-me! O outro forno estava agradecido ao rapaz por o ter espertado e. Esta agarrou no espelho. Apagou o primeiro e espevitou as cinzas do outro.Forno aceso. . o rapaz dos cabelos de ouro não tardou a chegar a casa. para grande alegria da irmã.respondeu o leão.Isso é que deixo. daí.ordenou a voz. leão. quando o moço chegou junto dos dois animais. que convenceu a não dar descanso ao irmão. Junto desta encontravamse um leão e um carneiro. andou. pois serviu-me uma boa refeição . .gritou a voz do interior do palácio.Porta aberta. esfrangalha-o! . . pois ele dera-lhe erva. calçou sandálias de ferro e andou. pois se ele não me tivesse aberto ainda estaria fechada! respondeu a porta. e em seguida transpôs a porta e entrou no jardim dos peris e. e os animais deixaram-no entrar sem lhe fazerem mal. pois os seus olhos estavam presos ao espelho.Não posso . apanha-o. E o carneiro também não lhe fez mal. para o palácio.e o jovem partiu. meio inconsciente.gritou a voz poderosa das profundezas do palácio.Leão. no palácio. um com lume aceso e outro com cinzas amodorradas. até chegar a duas portas. . mas ao chegar aos fornos uma voz estentórea gritou de tal maneira que fez tremer a terra e o céu.Não o apanho. .viu nele o mundo inteiro.respondeu o primeiro forno -. mas este terceiro encontro comoveu tanto o soberano que tiveram de o levar. Uma das portas estava aberta e a outra fechada. Apoderou-se do espelho encantado e apressou-se a fugir com ele.

mas não voltarei sem ela! . a seguir ao deserto.disse-lhe . mãezinha. na sua impaciência.. todos aqueles que alguma vez desejaram a rainha dos peris. não eram PearlS.Oh. Não pares. pois todas as almas humanas que empreendiam tal aventura tinham por força de morrer. . verás duas estradas. mas a jovem ficou tão entusiasmada com a ideia de possuir também a rainha dos peris que. um grande túmulo. As as das árvores eram de um verde escaldante e as suas copas penentes ocultavam túmulos de uma brancura de neve. ela respondia-lhe sempre: Quero a rainha dos peris e hei-de tê-la! Mais uma vez o jovem se pôs a caminho e mais uma vez procurou a mãe dos demónios.Segue pela mesma estrada que te conduziu ao ramo . Quando este chegou. sem olhar para a dlreita nem para a esquerda. pensou a velha. Quando começar a clarear um pouco verás um grande bosque de ciprestes e. transformados em pedra. Nesse túmulo encontram-se. .Ajuda-me nesta terrível provação! A mãe dos demónios ficou surpreendida com a sua coragem e tentou tudo para o dissuadir do seu propósito. O que te acontecerá depois disso nem eu própria sei. mal pôde esperar pelo regresso do irmão. Chegarás por fim a um grande deserto e.e depois continua até onde encontraste o espelho. . Não olhes nem para a direita nem para a esquerda. Que podia a mãe dos demónios fazer senão ensinar-lhe o caminho? . nas trevas. minha mãe! . Orou junto do poço. abriu todas as portas que encontrou e.«Isso perdê-lo-á!». chorou tanto que mais parecia uma nuvem a verter chuva..exclamou.Morrerei se assim tiver de ser. continua a andar até encontrares o palácio da rainha e chama-a com toda a força dos teus pulmões. segue a direito pelas trevas que ficam entre elas.afirmou o rapaz. seguiu a direito. Em vão o moço tentou demonstrar-lhe como era longo e perigoso o caminho que o pretendia obrigar a percorrer. nele. ”o dia seguinte o moço dos cabelos de ouro iniciou a viagem. Buck . Não. Pouco dePOIS começou a clarear e encontrou o grande bosque de ciprestes.

mas pedras do tamanho de homens. Histórias Maravilhosas do Oriente 99 . com os olhos . como se sete mundos e sete céus se fundissem. reuniu a bagagem. O jovem suplicou-lhe então que se compadecesse de todos os homens que transformara em pedra e os devolvesse à vida.perguntou-lhe. que era pequena em peso.Vim buscar-te . quase cegos por uma luz ofuscante. e o jovem teria morrido de medo se a rainha não estivesse a seu lado. Gritou pela última vez e tornou-se pedra primeiro até à garganta e depois até à cabeça. .. tirou água de uma fonte de diamantes e espargiu com ela o jovem transformado em pedra. como o teu amor por mim é tão extraordinário. tiveste de te arriscar uma terceira vez? . Seria o Sol? Não se tratava do Sol. Não. encheu-se de coral gem e seguiu o seu caminho.respondeu-lhe o jovem. devolvendo-lhe vida e movimento.Bem. Porque vieste? Fala! . Não se via homem nem espírito e não havia ruído nem sopro de brisa.Partilharás o destino da tua mãe inocentemente sepultada. como os outros. Montaram por fim a cavalo e quando partiram do reino encantado a terra e o céu tremeram. . sempre a olhar em frente. No entanto. e ainda as palavras não lhe haviam morrido nos lábios quando o seu corpo se transformou em pedra até aos joelhos. Sem olharem uma única vez para trás. nenhum mal te acontecerá e partiremos juntos. encheu o prato de ouro de água. mas de valor incalculável. A rainha regressou ao palácio. A rainha dos peris desceu então ao jardim. não eram pedras < mas homens que se haviam transformado em pedra. galoparam até chegarem a casa da irmã do moço dos cabelos de ouro.98 túmulos. mas do palácio da rainha dos peris! O jovem reuniu toda a força que lhe restava e gritou o seu nome. Gritou de novo com todas as suas forças e transformou-se em pedra até ao ventre. e o jovem sei lou de terror até à medula dos ossos. Tinha sandálias de prata nos pés e um prato de ouro na mão. e foi tão grande a alegria do reencontro que mal tiveram tempo de pensar na rainha dos peris. e acabou por se transformar numa pedra tumular. em pedra te tornarás e pedra continuarás. .Não te chegou levares-me o meu ramo e o meu espelho encantado.. corajosamente. salpicou com ela todas as pedras e todas se transformaram em homens. pois dera o coração à encantadora rainha dos peris e ela era sua e ele seu. Mas agora o jovem não tinha muito desejo de sair de casa para caçar.

pouco depois.gritou o génio. de facto. convidou o jovem a visitar o seu palácio. palavra puxa palavra. a rainha dos peris desenterrou a mãe dos jovens e. Na manhã seguinte. seguido de alegre e luzido séquito. Comeram. . Entretanto. convidou o paxá a visitá-lo no dia seguinte e regressou para junto da fada e da irmã. Montou. depois de ouvir a história dos irmãos e dos seus pais doptivos e o destino da sua inocente mãe. Mas a rainha dos peris não disse à mãe uma palavra acerca dos filhos nem aos filhos uma palavra acerca da mãe. levantou-se cedo e ordenou que no lugar da cabana se erguesse um palácio como nunca se vira outro assim e no qual se amontoariam tantas pedras preciosas como as . a rainha dos peris acordou e pediu aos irmãos que chamassem o seu conselheiro. mas não aceites o convite. e. onde encontrarás o paxá. a rainha dos peris dissera-lhe que prestasse atenção enquanto estivesse no palácio do paxá e se apressasse a regressar assim que ouvisse o cavalo relinchar. Mal chegara à floresta. muito cedo. pois. A pnmeira coisa nue ele fará será convidar-te para o palácio. surgiu um cavalo como não podia haver no mundo outro igual. Que desejas de mim. O jovem saltou-lhe para a garupa e encontrou a esplêndida comitiva do paxá a esperá-lo na estrada. tão grande que um dos seus lábios tocava no céu e o outro na terra.Uma manhã. mas ele recusou. a rainha das fadas disse ao rapaz: yai caçar na floresta. tal como era na sua juventude. O génio desapareceu como um furacão e.Traz-me aqui o cavalo de meu pai .ordenou-lhe a fada. graÇas às suas artes mágicas. Na manhã em que receberiam o paxá. mas de súbito o cavalo relinchou e o jovem levantou-se e nada o convenceu a não partir imediatamente. durante todo o caminho. o paxá apareceu-lhe na frente e. beberam e divertiram-se tanto que o paxá não cabia em si de feliz. O jovem foi. no palácio receberam-no com uma pompa nunca vista. visitar o paxá no seu corcel com rédeas de diamantes. E assim aconteceu. minha sultana? . Saudou o povo para a direita e para a esquerda. Os jovens bateram palmas e imediatamente surgiu na sua frente um enorme génio. Antes de partir. devolveu-a à vida.

enfim. Buck 100 cada flor uma ave canora cujas penas refulgiam de luz. estava cheio de gente para tudo o que era preciso: escravas do harém. se são. cantoras e tocadoras de instrumentos de corda . a filha e a rainha dos peris sentaram-se à mesa de um grande banquete e divertiram-se muito. e em Pear! S. a rainha dos peris. e bailarinas. O paxá ficou petrificado.existentes em todo o reino. uma fada os deve ter ajudado. Depois surgiram servos que se curvaram diante do paxá e lhe disseram: . um nunca mais acabar. maavuha! Havia inúmeras flores. com a sua noiva. e a rainha dos peris começou a contar-lhe como tudo acontecera. O grande sino . mas a esposa correu para ele e beijou-lhe a fímbria do manto. e ilusionistas divertiram-no até cair a noite. todas maravilhosamente belas. um canto tão maravilhoso que apeteceria ficar a ouvi-lo a vida inteira. bailarinas. de tão grande beleza que todos a admiravam de boca aberta e suspiravam.A paz seja contigo. a sultana. E o jardim que cercava o palácio? Oh. que estivera enterrada todos aqueles anos. O paxá entrou no harém e viu o jovem dos cabelos de ouro e bela meia-lua a brilhar-lhe na fronte. «Ou. e a seu lado uma donzela de cabelos de ouro. Não há palavras que exprimam o esplendor do séquito que foi receber o paxá. pensou o soberano quando viu tantas maravilhas. assim como a sua própria esposa. o filho. Quanto ao palácio. meu senhor! Esperam-te no harém. a sultana. Serviram-lhe a seguir ricas carnes em pratos preciosos e raros. jovens cativos. O paxá. as criadas serviram-lhe café e sumos de frutas e depois falou-lhe a voz da música e o canto das aves.» O paxá foi conduzido ao melhor aposento do palácio. mas a velha bruxa foi impiedosamente destruída. Festejaram durante quarenta dias e quarenta noites e a bênção de Alá caiu sobre eles. O monarca julgou morrer de alegria. «Estes jovens não são de nascimento mortal!». quase incapaz de acreditar nos seus sentidos ao apertar a mulher ao peito e ao abraçar os seus dois belos filhos e a rainha dos peris. Perdoou às irmãs da sultana. com uma estrela a brilhar na testa.

a cidade de Pequim. os ins•L”: medida ii itinerária chinesa equivalente a cerca de 576 metros. que na face e nos grandes rebordos se gravassem dizeres dos livros sagrados e que fosse pendurado no centro da capital do Império. Após muitos malogros.) PearlS. Ordenou ainda que a voz do sino fosse fortalecida com bronze. ouvissem a sua voz. quando tocasse. intensificada com ouro e suavizada com prata. e era de facto como o imperador sonhara. um sino de som tão excelente e ao mesmo tempo tão forte que. que um dia sentiu o desejo de possuir um sino perfeito. Mas uma rapariga dera a vida para que se atingisse tal perfeição. da T. Buck 102 . O digno mandarim Kouan-Yu reuniu os mestres moldadores. \ 101 Há quase seiscentos anos. os sineiros de renome do Império e todos os homens de grande reputação e perícia no trabalho de fundição. o sino fez-se. o Celestialmente Augusto. da dinastia «Ilustre».Há muitos contos de encantar chineses que fakm do fabrico de grandes sinos. e este é um deles. Calcularam as quantidades dos materiais necessários para a liga e anipularamnos com arte. o sino mais maravilhoso que jamais se houvesse fabricado. finalmente. o fogo. prepararam os moldes. todos quantos viviam na sua capital. Como foi isso possível? A história responde à pergunta. ou Ming. (N. o mais famoso imperador da famosa dinastia Ming. para que a sua voz se ouvisse em toda a cidade de Pequim. Relaciona-se com Yong-Lo. ordenou ao digno oficial Kouan-Yu que mandasse fazer um sino de tal tamanho que o som do mesmo se ouvisse a uma distância de cem lis1. o Filho do Céu. Yong-Lo.

os lados estavam estalados e fendidos e os rebordos escoriados e sem graça. o resultado era lamentável. ficou furioso. a Kouan-Yu. Se ainda uma terceira vez não cumprires a nossa ordem. Quando o Filho do Céu teve conhecimento do sucedido. o sino não tinha uniformidade. KoNgai. cujo nome. Vendeu em segredo algumas jóias e. reacender o fogo. com grande desespero de Kouan-Yu. o Sublime Tait-Sung. obstinadamente. Foi preciso preparar novos moldes. só de pensar no que podia acontecer ao pai. o Fuh-yin: duas vezes traíste a confiança que graciosamente nos dignáramos depositar em ti. ficou mais irritado ainda e mandou um mensageiro levar a Kouan-Yu uma carta escrita em seda cor de limão e selada com o sinete do Dragão. depois.trumentos e o gigantesco depósito para o metal fundido. enfadonha e laboriosamente. a troco de grande soma. Ao ver a terrível missiva amarela selada com o sinete do Dragão. Trabalharam como gigantes. verificou-se que. não conseguiu dormir Histórias Maravilhosas do Oriente 103 nem ter descanso. rebelado uns contra os outros. Quando recuperou os sentidos e as forças. Em resumo. ao qual pediu. desfaleceu de medo. apesar do trabalho extenuante e dos incessantes cuidados. Segunda vez se lançou o metal em brasa no molde. com o dinheiro obtido. desdenhando o ouro fundir-se com o bronze e não querendo a prata misturar-se com o ferro fundido. Os metais continuavam a recusar. o Celestial e Augusto. Ko-Ngai amava tanto o pai que recusara cem óptimos pretendentes só para não desolar com a sua ausência a morada do progenitor. Mas. mas o resultado foi ainda pior. todo o trabalho. cujo reino se chama Ming. por assim dizer. Os metais haviam-se. sem parar de noite nem de dia. a tua cabeça será separada do pescoço. misturarem-se uns com os outros. O Filho do Céu teve conhecimento do sucedido. Treme e obedece!» Kouan-Yu tinha uma filha de estonteante beleza. na qual dizia: «Do Poderoso Yong-Lo. deste. esquecidos do repouso. voltar a fundir os metais e repetir. e esforçaram-se de todas as maneiras possíveis para satisfazer os desejos do Filho do Céu. tanto a atormentava o perigo que o pai corria. nue a aconselhasse acerca da . em obediência a Kouan-Yu. lançado o metal fundido no molde de barro e separado. do sono e dos confortos da vida. mais uma vez foi preciso recomeçar. mas não disse nada. andava sempre na boca dos poetas e cujo coração era ainda mais belo que o seu rosto. apressouse a consultar um astrólogo.

quis lançar-se também no lago ardente. Pear! S. transformando-se num rugido semelhante ao berro do tufão. com relâmpagos e trovões e murmúrios. transbordou da cratera de barro. olhava para o forno e segurava um sapato. mas braços fortes seguraram-no e prenderam-no até desmaiar e poder ser transportado para casa como morto. Antes que levantasse a mão. ou Princípios do Universo. tornou-se ofuscante. examinou os signos do zodíaco. trémula. o Hwang-tao ou Estrada Amarela. Os trabalhadores deixaram então de alimentar as chamas vorazes. a que nós chamamos Via Láctea. Buck 104 O pai de Ko-Ngai. e os livros místicos dos alquimistas. atirou monstruosas línguas de chamas até ao telhado. e consultou as tabelas dos Cinco Hin. Ko-Ngai acompanhou o pai à fundição. e o lago de metal cor de sangue iluminou-se lentamente. louco de dor. Quanto à aia de Ko-Ngai estonteada e muda de dor. erguer-se acima da grande trovoada do fogo: . assemelhou-se ao vermelho do Sol a nascer. a lava do forno rugiu ao recebê-la. Ko-Ngai regressou a casa de coração triste. Os operários trabalhavam em silêncio e o único som que se ouvia era o crepitar do fogo. pousaram os olhos nos olhos de Kouan-Yu e este preparou-se para dar o sinal de moldar. lançou-se no rio branco do metal fundido. respondeu: O ouro e o bronze jamais se unirão em matrimónio e a prata e o ferro jamais se abraçarão enquanto a carne de uma donzela não se derreter no crisol e o sangue de uma virgem não se misturar com os metais em fusão. moldou uma turbilhonante fonte de fogos multicores e acalmou-se. Por fim chegou o dia terrível em que se efectuaria o terceiro e derradeiro esforço para moldar o grande sino. e instalaram-se num estrado. O crepitar aumentou. . como a face prateada da Lua.Por amor de ti. Após um longo silêncio. porém. ó meu pai! Enquanto gritava. um grito fê-lo voltar a cabeça e ouviu a voz de Ko-Ngai. de onde avistavam o trabalho dos fundidores e o lago de metal liquefeito. pungentemente doce como o canto de uma ave. o vermelho adquiriu o clarão radioso do ouro e o ouro embranqueceu. O astrólogo observou o céu e o aspecto do Rio de Prata. juntamente com a sua aia.maneira de salvar o pai da desgraça iminente. mas guardou segredo do que ouvira e não disse a ninguém o que fizera.

. o brilho do metal parecia mais puro e mais branco que antes e não mostrava vestígios do belo corpo que nele se sepultara. Mas. como se tivesse enlouquecido. 105 A história do califa cegonha l i! 4 ••} í t. prazenteiras.integram-se bem no seu papel. o sino surgiu. apesar da tragédia.. quando o metal arrefeceu. Tentara agarrar Ko-Ngai por um pé quando ela saltara. mais longe que os cem lis pretendidos. Ko-Ngai!.. belo. perfeito e de uma cor maravilhosa. como uma voz colossal a proferir um nome . tinha de ser cumprida e o trabalho dos moldadores efectuado. superior em tudo a todos os outros sinos. do Filho do Céu. Ko-Ngai!. com bordados de pérolas e flores o sapato da sua linda menina.. Destinase a provocar o riso e as duas aves escolhidas para inspirarem esse estado de espirito -a cegonha e o mocho . mais suave e mais potente que a de qualquer outro sino. por desastroso que o resultado pudesse ser. No entanto. implicitamente.. Esta alegre e graciosa história da Arábia é contada com leveza e espírito. Na verdade. mas continuaram a não aparecer vestígios do corpo de Ko-Ngai. Procedeu-se à moldagem e.um nome de mulher vezes sem conta: Ko-Ngai!. não há notas trágicas de mágoa e as relações humanas entre califa e vizir são divertidas e. a voz do sino soou mais profunda. a ordem do Celestial e Augusto. Quando tocou.. ouviu-se. Era como um ribombo de trovoada estival. até. toda a história decorre no ritmo de uma «F . o qual fora totalmente absorvido pela preciosa liga e misturado ao bronze e ao ouro e à prata e ao ferro. mas agarrara-lhe apenas no sapato e ficara com ele na mão.um sapatinho pequeno e elegante. O diálogo é alegre. Continuou a fitá-lo.

Porque vem com um ar tão preocupado.Ignoro qual seja o seu valor. que um escravo lhe estendia. enquanto respondia: Oh. que desejava havia algum tempo oferecer um presente ao seu grão-vizir. trazia o bufarinheiro. O califa e o vizir examinaram tudo e aquele escolheu umas belas pistolas para si e para Mansor e um pente cravejado de pedras preciosas para a mulher deste. . não posso deixar de entristecer por Possuir tão pouco dinheiro. se encontra um bufarinheiro com tão belas coisas que. pouco depois. . Em resumo. sorvia um pouco de café. O homem abriu a gaveta e mostrou-lhes uma caixa com um pó preto e um pergaminho cheio de estranhos caracteres que nem o califa nem o seu vizir perceberam. bastava olhar para ele para se compreender que estava com excelente disposição. Na realidade. comprou o manuscrito e a caixa e mandou embora o vendedor. no pátio do palácio. contrariamente ao que era habitual. * Numa bela tarde.Comprei estes dois artigos a um mercador que os encontrou numa rua de Meca respondeu o bufarinheiro. e depois de cada gole afagava a comprida barba. aquele era o momento do dia mais propício para tratar com ele. como de costume. ordenou ao escravo que trouxesse imediatamente o bufarinheiro à sua presença. Fumava por um longo cachimbo e. Quando o bufarinheiro ia a fechar a caixa. que gostava de ter antigos manuscritos na sua biblioteca. taças e pentes. perguntou ao vizir se conhecia alguém capaz de os decifrar.representação musical. com ar feliz. mas sei que. tirando o cachimbo da boca. de vez em quando. Depois. mesmo que não queira. Transportava uma caixa com toda a espécie de mercadorias: colares de pérolas. trazia uma expressão perturbada. mas. O escravo obedeceu e. embora não os soubesse ler. meu senhor. um homem baixo e atarracado.perguntou-lhe o califa. como não me servem para nada. O califa. pois encontrava-se sempre bem disposto. Buck 106 O califa. pistolas ricamente adornadas. o que explicava que a visita diária do grão-vizir Mansor se efectuasse a essa hora. grão-vizir? . o califa reparou numa gavetinha e perguntou-lhe se não continha nada para venda. o califa Chasid de Bagdade descansava confortavelmente no seu divã. Naquela tarde chegou. . de cara morena e vestido de farrapos. sentindo curiosidade de saber o que diriam os estranhos caracteres. anéis. de bom grado lhos venderei por uma bagatela. Mansor cruzou os braços no peito e curvou-se profundamente diante do amo. não sei se venho com ar preocupado. mas. Pearls. .

Todo aquele que aspirar o pó desta caixa e pronunciar. oferecer-te-ei um traje de honra. Quando desejar reassumir a forma humana.replicou o califa. sei que és um sábio.Anseio pelo momento em que poderei transformar-me num animal. amanhã de manhã. exclamou: . . Esperoo cedo.respondeu Mansor -. aspiraremos o pó da caixinha e ouviremos o que se diz no ar. Selim prosternou-se e respondeu: . Obrigou o letrado a jurar que não contaria o caso a ninguém.Selim-disse-lhe o califa -. se é latim.Eu morra. senhor! .É a isto que chamo um bom negócio. ouçamos o que diz . mas se não conseguires ordenarei que te dêem doze palmadas nas faces e vinte e cinco nas solas dos pés. ler o pergaminho.. deve ter o cuidado de não se rir.Muito gracioso senhor e amo . Mande-o chamar. . louva Alá pela sua misericórdia. transformar-se-á em qualquer criatura que deseje e compreenderá a fala de todos os animais. Contudo. o Sábio. se não é latim! .» Depois de Selim. pois falsamente te intitulas Selim.Seja de acordo com a tua vontade. O sábio Selim foi imediatamente chamado. que conhece todas as línguas existentes debaixo do Sol. de súbito. o Sábio. quando ficou só com o vizir. quando adquirir a forma de animal ou ave. perto da Grande Mesquita vive um homem chamado Selim. na terra e no mar! . o Sábio.disse. . ofereceu-lhe um traje esplêndido e mandou-o embora. Olha bem para este manuscrito e vê se o consegues ler. a palavra Mutabor. Mansor . Histórias Maravilhosas do Oriente 107 Selim começou a traduzir: «Tu que achastes estes objectos. pois se o fizer esquecerá com certeza a palavra mágica e ficará para sempre animal. pois talvez saiba decifrar estes misteriosos caracteres. Se conseguires.Depois olhou durante muito tempo para o manuscrito e. iremos para o campo. bastar-lhe-á curvar-se três vezes na direcção do Oriente e repetir a mesma palavra. o califa sentiu-se encantado.Bem. ó meu senhor. ao mesmo tempo.

em corno estas duas pernaltas vão travar uma boa conversa! Que tal se n° transformássemos em s cegonhas? ~. os braços em asas e o pescoço começou a alongar-se-lhes entre os ombros. a caçar rãs e. Mas.Mas. primeiro. tirou a caixa do cinto. mas esta a voar muito alto. . O califa meteu a caixinha no cinto e. na companhia de Mansor. sobretudo cegonhas. no céu. o grão-vizir apareceu. mas procuraram em vão uma criatura que os tentasse a servirem-se do pó mágico. cuja aspecto grave e digno e constante palrice lhe despertara a atenção. Buck 108 cuidadosamente do que precisaremos de fazer para voltarmos a ser homens. pelo amor de Alá. . com um ar imponente. ao mesmo tempo que as barbas lhes desapareciam e os seus corpos se cobriam de penas. Assim que chegaram viram uma cegonha a passear de um lado para o outro. pois de contrário estaremos perdidos! Enquanto falava. os seus belos sapatos amarelos transformaram-se em toscas patas de cegonha. depois de ordenar aos criados que ficassem no palácio. e a dirigir-se Para o mesmo local. Por fim o vizir sugeriu que andassem um pouco mais. dizemos Mutabor! e eu serei outra vez o califa e você o meu grão-vizir. a murmurar .Mutabor! Acto contínuo. gracioso amo .qualquer coisa. Atravessaram primeiro os jardins do palácio. deu uma boa fungadela. O califa assentiu e dirigiram-se para o referido tanque. pôs-se a caminho. Sem perda de tempo.Bem dito! .disse o grão-vizir -. de vez em quando.exclamou o califa. pelo menos! . o califa viu a cegonha que voava descrever um círculo sobre a sua cabeça e descer gradualmente. Inclinamo-nos três vezes na direcção do Oriente. para o acompanhar na sua expedição. não se ria.assim parecia.Na manhã seguinte. mal o califa Chasid acabou de se vestir e de tomar o pequeno almoço. até um tanque que ficava fora da cidade e onde vira muitas vezes diversas criaturas. de acordo com as ordens recebidas. Viram também outra cegonha. as suas pernas ressequiram-se e tornaram-se finas e vermelhas. ofereceu outra a Mansor e gritaram juntos: . Apostaria a minha barba. lembremo-nos Pearls.

no fim.Bons-dias. Primeiro raspou o bico com a pata e alisou as penas. sossegadamente.Muitíssimo obrigado. ouviram a seguinte conversa: . meu caro Bico-Tagarela! Vim procurar o pequeno almoço.Seria uma brincadeira de muito mau gosto se tivesse de continuar cegonha até ao fim dos meus dias! Tente recordar a . para me treinar um pouco. acho-o ainda mais perfeito como cegonha do que como califa! Se assim deseja. Hoje terei de dançar para os convidados do meu pai e.Os meus muito humildes agradecimentos . nunca vi uma coisa assim na minha vida! . a ave se equilibrou numa perna. após um longo momento de espanto. E a cegonha começou a executar passos maravilhosos. a cegonha que voava pousara. porém. pois provavelmente acabariam por cantar também! De súbito.exclamou o califa. Estou aqui com um objectivo muito diferente. mas esta manhã não tenho apetite.Tem um belo bico comprido. surpreendidas. . É servido de uma articulação de lagarto ou de uma coxa de rã? . surpreendidos. por isso. aproximemo-nos dos nossos camaradas e certifiquemo-nos se compreendemos. numa atitude pitoresca. .respondeu o vizir. de facto. dona Pernalta.Por Meca e Medina! .exclamou o califa. e depois aproximou-se da outra cegonha.É verdade.. não puderam conter-se mais: soltaram uma prolongaHistórias Maravilhosas do Oriente 109 da gargalhada e só passado algum tempo conseguiram recuperar a compostura. vizir! . O califa foi o primeiro a serenar e confessou: Nunca na minha vida vi coisa mais engraçada! Foi uma pena o nosso riso ter assustado as estúpidas criaturas. Entretanto. mas se vossa alteza me permite. As duas novas cegonhas aproximaram-se também e. vim até cá. O califa e Mansor observaram-na. e quando. .Pelas barbas do Profeta. o vizir lembrou-se de que o pergaminho recomendava expressamente que não rissem enquanto estivessem transformados e apressouse a comunicar os seus receios ao califa. a sua fala. e bateu graciosamente as asas. arqueando o comprido pescoço -. Esta manhã saiu muito cedo! .

viram passar. rodeado de escravos muito bem vestios. Nos primeiros dias notaram. Meia Bagdade comprimia-se atrás dele e gritava: PearlS. o encanto se quebre. para verem como corriam as coisas por lá. mas. O seu único consolo.. quando se encontravam empoleirados no telhado palácio. enganando a fome com frutos que tinham certa dificuldade em comer com o longo bico e sem conseguirem habituar-se às rãs e aos lagartos. meu fiel amigo. Viraram-se para oriente e começaram a curvar-se até tocarem no chão com os bicos. na triste situação em que se encontravam.Devemos inclinar-nos três vezes na direcção do Oriente e dizer Mu... que num momento de cólera jurou vingar-se de mim. mu. Por muito que o califa se curvasse e o seu vizir gaguejasse lamentosamente Mu.. horror! A palavra mágica sumira-se-lhes da memória. mu. na rua. As duas aves encantadas vaguearam tristemente pelos prados...estúpida palavra.. E. Mas não desesperarei! Vem comigo.... o poderoso mágico Kaschnur.. oh. um luzido cortejo. Mas voar não era tarefa fácil.Compreende agora. não se lembravam do resto e continuavam cegonhas. nas ruas. porque fui encantado? Este Mirza é filho do meu mortal inimigo.Viva Mirza. pois passou-me por completo. o que lhes permitia sobrevoarem com frequência os telhados de Bagdade. abriram as asas e puseram-se a caminho de Medina. Soavam tambores e trornt>etas e um homem de manto escarlate bordado a ouro montava Um cayalo ricamente ajaezado. sem saberem que fazer. mesmo que acreditassem. mu. naquele local sagrado. sinais de muita inquietação. e passadas duas horas o vizir declarou. . era a faculdade de voarem. Buck 110 . iremos ao túmulo do Profeta e talvez.. grão-vizir.. pois ninguém acreditaria numa cegonha que dissesse ser um califa. ofegante: .. consentiria o povo de Bagdade que uma cegonha o governasse? Vaguearam assim vários dias. senhor de Bagdade! As duas cegonhas empoleiradas no telhado entreolharam-se e o califa Chasid disse: .. Levantaram voo do telhado do palácio. Não conseguiam libertar-se da sua nova forma! Seria inútil regressarem à cidade e dizerem quem eram. mas no quarto dia. mu. pois as duas cegonhas tinham pouca prática.

que entretanto se acercara também. através da qual ouviu. a coruja soltou um grito de alegria. curvou o comprido pescoço e disse: . sentir-me-ia nervosíssimo.e ainda mais uma cegonha! .ter medo de fantasmas. à procura de um lugar seco. tristes aueixas.. em tempos. dirigiu-se-lhes em bom e humano árabe: Bem-vindas. Quando se refez da surpresa. Assim que viu o califa e o vizir. e. limpou delicadamente as lágrimas. que parecia mais de ser humano que de animal. perdendo algumas penas. vendo no vale que sobrevoavam umas ruínas que pareciam capazes de os abrigar. começaram a descer. pois alguém ou alguma coisa acaba de suspirar e gemer perto de mim. o califa ergueu um pé. ia a correr para o local de onde lhe parecera vir o som. O califa. em voz rouca. com as asas castanhas sarapintadas. frouxamente iluminado por uma janelinha gradeada. pois foi-me profetizado que me aconteceria uma coisa boa por intermédio de uma cegonha. . um castelo. O edifício onde se propunham passar a noite parecia ter sido. também. numa atitude graciosa. com a maior clareza. Viamse ainda algumas belas colunas. mas de súbito Mansor estacou. além disso. até encontrar uma porta entreaberta. cegonhas! São um bom sinal da minha liberação. suspiros misturados com soluços. e vários quartos razoavelmente conservados testemunhavam antigo esplendor. Cheio de curiosidade. se não fosse absurdo um grão-vizir . não posso ir mais longe! Voa depressa de mais para mim e. porém. meu senhor. e seguiu apressadamente por um corredor escuro. com grande surpresa dos recém-chegados. Chasid concordou com a sugestão do seu vizir e. Empurrou a porta com o bico. espantado com o que viu. enconHistórias Maravilhosas do Oriente 111 trava-se uma grande coruja. entre as ruínas. anoitece e não seria má ideia procurarmos um lugar para passarmos a noite.Meu amo e senhor. soltou-se. No chão do quarto em ruínas. O califa parou.Oh. Enormes lágrimas rolavam-lhe dos grandes olhos redondos e o bico arqueado proferia. e ouviu distintamente uma espécie de choro abafado. mas o vizir segurou-lhe numa asa com o bico e suplicou-lhe que não se expusesse a novos e desconhecidos perigos. Chasid e o companheiro percorreram os corredores. sob cujo peito de cegonha batia um coração valente. mas ficou no limiar.

desprezada até pelos brutos. que é um pouco impetuoso.Ouçam a minha história e ficarão a saber que não sou menos infortunada que vocês. ao ouvir tal história. Um dia procurou o meu pai e pediu-lhe a minha mão para o seu filho Mirza. Desmaiei de terror e ele transportou-me para aqui e gritou-me. pois o relato dos seus tormentos arrancara-lhe mais lágrimas. te peça que sejas sua esposa! Assim me vingo de ti e do teu orgulhoso pai!». A dificuldade reside em encontrar a chave da charada. sob outra forma.. até ao fim dos nossos dias ou até que alguém.O mágico vem uma vez por mês a estas ruínas. evitada pelo mundo e um terror até mesmo para os animais. As belezas da natureza estão-me vedadas. E creio poder dizerlhe como poderemos salvar-nos. . Surpreendido. A coruja pediu-lhe que a contasse e o califa disse-lhe o que já sabemos. quando me encontrava no jardim e pedi um refresco. a coruja agradeceu-lhe e disse-lhes: . muitos meses passaram. pois de dia sou cega e só quando a Lua ilumina este lugar com a sua pálida luz o véu cai dos meus olhos e volto a ver. Não longe deste quarto existe um grande salão onde costuma banquetear-se com os seus companheiros. O meu pai.Oh. coruja. sozinha e hedionda. o malvado conseguiu aproximar-se de mim. O mágico Kaschnur que os encantou. transformouse em escravo e trouxe-me uma bebida que me transformou imediatamente nesta feia ave. na sua voz terrível: «Ficarás aqui. Buck 112 A coruja calou-se e limpou de novo os olhos com a asa.. . Passado pouco tempo. deduzo das tuas palavras que encontrámos em ti uma companheira de infortúnio! Mas. para aqui tenho vivido como uma eremita. Depois disso. pois em menina uma mulher de virtude vaticinou-me que uma cegonha me traria grande felicidade. .Sou da mesma opinião. dentro destas paredes. Meu pai é o rei das índias e eu sou Lusa. Ouvida a história. ordenou que o atirassem pela escada abaixo.. o califa perguntou-lhe o que significavam as suas palavras. foi também a causa das minhas desventuras.. Pear! S. de sua livre vontade. ai de nós! A tua esperança de alcançares a libertação por nosso intermédio é vã. Compreenderás a nossa impotência quando ouvires a nossa história.. O califa mergulhou em profundo cogitar. e pouco depois declarou: . meu senhor. a sua única filha. Triste e sozinha.Ou me engano muito ou existe uma relação misteriosa entre os nossos infortúnios. Um dia.

que se coava pelas fendas de uma parede meio arruinada.Que caso complicado. e de boa vontade satisfarei o teu desejo. As cegonhas pareceram desanimadas com a sugestão e o califa fez sinal ao seu vizir para se afastar e conferenciar com ele. gostaria igualmente de ser livre.exclamou o califa. Passaram por um corredor escuro e comprido até encontrarem. . solteiro e um partido melhor para uma princesa moça e encantadora. o califa disse: . com um suspiro. e junto da mesa um divã no qual estavam sentados oito homens.Deveras? Para a minha mulher me arrancar os olhos. que substituíam a luz do dia. A coruja ficou encantada e afirmou que não podiam ter chegado em melhor altura. mas por fim. fala! . . quando o califa compreendeu que o seu vizir preferiria continuar cegonha até ao fim da vida a desposar a coruja.concordou o califa.Tem razão .Tenho-os observado muitas vezes. . um raio de luz. Contam uns aos outros as suas patifarias e é muito possível que a palavra mágica que vocês esqueceram seja mencionada. Fora da porta. Histórias Maravilhosas do Oriente 113 Argumentaram durante algum tempo. ao passo que vossa alteza ainda é jovem. viam facilmente todo o grande salão.. junto da qual se encontravam. resolveu comprometer-se e cumprir a condição exigida. grão-vizir! Mas pode ficar com ela. mas isso só acontecerá se um de vocês me oferecer a sua mão de esposo. .. . silêncio.Fala.Oh. queridíssima princesa! . deixando pender tristemente as asas. então. .. adornado com belas colunas esculpidas e diversas lanternas coloridas. cheia de iguarias.Mas como sabe que ela é jovem e encantadora? Chamo a isto comprar nabos em saco. finalmente.Bem. Pela fresta. antes de responder: . . pois era muito provável que os mágicos se reunissem naquela mesma noite.pediu-lhe Chasid. No meio do aposento via-se uma mesa redonda. sou velho. mas só posso satisfazer esse desejo com uma condição.Quando é que ele vem e onde fica o tal salão? A coruja hesitou. As duas cegonhas reconheceram num deles o bufarinheiro que vendera o pó mágico ao ..Pede. . quando voltar para casa? Além disso. Conduziu então as duas cegonhas ao referido salão. A coruja recomendou-lhes.Não me julguem antipática.

felizmente. Uma boa fungadela e a palavra mágica e ei-lo feito cegonha! Chasid mandou-o fechar numa gaiola de ferro e colocar no jardim do palácio.E que palavra lhes deu? . as cegonhas ficaram fora de si de contentamento e correram tão depressa para a porta do castelo em ruínas que a coruja teve dificuldade em as apanhar. No êxtase de voltarem a ser o que eram. o califa voltou-se para ela e disse-lhe muito comovido: . o califa deu-lhe a escolher entre a morte e uma fungadela do pó mágico. .perguntou um velho feiticeiro. Mas como o filho ignorava os actos do pai.Não reconhece a sua coruja? . Haviam-no declarado morto e o povo ficou contentíssimo ao rever o seu amado chefe e proporcionalmente furioso com o usurpador Mirza. Ao ouvirem tal palavra. O que se encontrava sentado a seu lado pediu-lhe que contasse os seus últimos feitos. Ao chegar. . e depois o califa ordenou que levassem o primeiro para o quarto onde a princesa vivera transformada em coruja e o enforcassem. Era ela! O califa ficou tão encantado com a sua graça e beleza que PearlS. o califa encontrou no cinto não só a caixa do pó mágico. aceita-me por marido. estendendo-lhe a mão. e entre eles o bufarinheiro referiu a história do califa e do seu vizir. como prova da minha eterna gratidão. . Voltaram-se em seguida para o Oriente. curvaram três vezes o comprido pescoço numa vénia ao Sol. amo e servo caíram nos braÇos um do outro. que nascia naquele momento. ao voltarem-se de novo. Buck 114 afirmou ter sido.perguntou ao califa. onde a presença do califa causou grande sensação. maravilhosamente vestida? .Uma palavra latina muito difícil: Mutabor. a rir e a chorar. O jovem escolheu a última hipótese e o vizir estendeu-lhe a caixa. mas também a sua bolsa. afinal. Como descrever a sua surpresa quando. Chegaram por fim às portas da cidade de Bagdade. viram na sua frente uma linda senhora. Correram ao palácio e aprisionaram o feiticeiro e o filho. o que lhe permitiu comprar na cidade mais próxima tudo quanto precisavam para a viagem.califa. exclamaram ao mesmo tempo Mutabor! e transformaram-se imediatamente.Salvadora do meu amigo e de mini próprio. uma grande sorte haver sido transformado em cegonha! Nunca na vida lhe acontecera nada melhor! Partiram imediatamente para Bagdade e.

aldeias. notando ao mesmo tempo que o animal farejava e escarvava a terra com as patas. repetindo várias vezes tal procedimento. se mostrava grato aos donos pela sua bondade e nunca os deixava. Nesta p história. o cão é encantado e castiga o mal e recompensa o bem. para que desempenhem bem essa missão. Usam-nos como guardas. mu. Admirado... quer fora dela. Claro que. pois os cães asiáticos têm uma certa tendência para serem ariscos e maus... a certa altura. sobretudo nas. a princesa Lusa.. muito tempo vivia numa aldeia um velho casal que. um cãozinho dá sorte a um velho casal que o trata como a um t filho. É raro ( encontrar um cão assim na Ásia. e os seus momentos mais divertidos eram aqueles em que o vizir o visitava. se inclinara em vão e murmurara «Mu. que não parava de PearlS. a rir. e fazem-nos passar fome. Talvez isso se deva ao facto de não serem tratados como animais de estimação. a pouca distância. e o velho continuou a cavar. como de costume. Um dia o velho trabalhava no jardim e. •sá •**•• O vizinho invejoso i Este conto de encantar do antigo Japão relaciona-se com um bom cão. com as crianças-. à tarde. mas quando o califa exagerava e dizia «Mu. a tagarelar e a demonstrar como o seu vizir se voltara para o Oriente.O califa viveu muito tempo feliz com sua mulher. aos saltinhos.. o homem pegou na enxada e seguiu-o. em vez de se tornar mimado ou mau quando não obtinha o que queria . e voltou ao local onde estivera.. o vizir ameaçava. De súbito o cão correu para ele. visto tratar-se de um conto de fadas. o cão fazia-lhe companhia. Buck . mu.. visto não ter filhos a quem amar e cuidar. condescendia em imitar Mansor-cegonha. pois todos os cães gostam de arranhar a terra.como às vezes acontece. Quando o califa se sentia excepcionalmente bem disposto.».. até. A manhã estava quente e. contudo. a ladrar. O cão estava tão contente com o seu êxito. mesmo numa história.» mais vezes que a conta. o homem largou a enxada e enxugou a testa. tranquilamente. Não havia nada de estranho nisso. quer estivessem em casa. A mulher e os filhos achavam sempre muita graça à imitação. contar à esposa do amo o assunto de certa conversa travada uma noite à porta do quarto da princesa-coruja. Andava pela sala muito direito. 115 Há muito.. dedicava todo o seu afecto a um cãozinho. Era um animalzinho bonito que.

mas como não ganharia nada calando-se. até que os velhotes. na realidade. dos quais se desprendia tal fedor que não pôde suportá-lo. Sabe quanto gostamos do cão e que nunca o perdemos de vista nem cinco minutos. e podeis imaginar o rico jantar que o cão teve naquela noite! Agora que os tornara ricos.Como se atreve a pedir semelhante coisa? . Baixou-se e retirou do buraco uma grande caixa cheia de reluzentes moedas de ouro. Sentiu tanta cólera contra o cão que assim o enganara que pegou numa picareta e o matou. e um vizinho cuja horta ficava pegada à dos velhotes teve tanta inveja que não podia comer nem dormir. fingindo chorar -. que julgais que encontrou? Apenas um embrulho de velhos ossos. O homem gritou à mulher que trouxesse uma pá e correu atrás do cão.perguntou-lhe o velho. arvorou uma expressão muito triste e dirigiu-se à horta do vizinho. . o idiota pensou que podia descobrir mais e rogou ao casal que lhe emprestasse o animal por uns tempos. mas o cão limitou-se a correr de lado para lado e o homem não teve outro remédio senão esperar com a paciência que pôde arranjar. ficou aterrorizado. . À noite levou-o para casa. prometeram emprestar-lhe o animalzinho só por uma noite ou duas. sem saber o que fazia. para enriquecer também. alguma coisa. o marido começou a cavar e a enxada não tardou a bater em qualquer coisa. A caixa era tão pesada que a velha teve de o ajudar a transportá-la para casa. correu para uma árvore e começou a cavar desembaraçadamente. todos os dias os donos lhe davam tudo quanto um cão gosta de comer e o deitavam em almofadas dignas de um príncipe. Mas. Como o cão descobrira um tesouro.116 ladrar e saltar e o barulho que fazia atraiu a velhota. que saiu de casa para ver o que acontecera. Mas o invejoso vizinho não fez caso das suas palavras e todos os dias vinha com o mesmo pedido. Histórias Maravilhosas do Oriente 117 O vosso cão morreu de repente . depois de cavar no local indicado. Com curiosidade de saber se o animal encontrara.informou. Assim que se apanhou com ele soltou-o na horta. Quando se lembrou de que teria de dar uma explicação ao velho casal. indignado. A história do cão e do tesouro depressa se espalhou. Na manhã seguinte abriu-lhe a porta e o cão saltou alegremente para a horta. ansioso por entrever os primeiros fulgores do desejado tesouro. que não gostavam de dizer «não» a ninguém.

pegou num grande punhado de arroz e começou a descascálo. maravilha!. As árvores não tardariam a florir como jamais haviam florido. Buck por uma. Mas nessa noite o cão apareceu outra vez em sonhos ao dono e disse-lhe que fosse buscar as cinzas do almofariz e as levasse para casa. De manhã à noite ele e a mulher choraram a sua perda. mas como não sabia dizer que não o vizinho levou-o. o almofariz foi tirado da prateleira e meteram-se-lhe dentro os bagos de arroz. o coração dos velhos alegrou-se e mais uma vez abençoaram o seu fiel cão. Mas quando acordou e recordou o seu sonho. ajudado pela mulher. o velho devia levar as cinzas à estrada pela qual o coreJ° Passar ia e. . Os velhotes ficaram. a árvore foi derrubada e feito dela um belo almofariz. e espalhar nelas as cinzas. assim que o visse surgir. uma Pear! S. sem que nada os consolasse. recolheu as cinzas do almofariz. Portanto. Mas.. Mal chegou a casa. O velho não gostou muito de emprestar o seu precioso tesouro. Desta vez o velho não precisou de consultar a mulher para saber se devia fazer o que o cão lhe dissera. consultou a mulher. disse. ao casal se tinha um almofariz que lhe emprestasse. e não os confortou nada as explicações e desculpas apresentadas pelo vizinho. A história não tardou a chegar aos ouvidos do vizinho invejoso.embora tivesse tomado bem conta dele e lhe desse tudo quanto podia desejar. não se sentiu muito inclinado a derrubar uma árvore que todos os anos dava abundantes frutos e. como é natural. o qual se apressou a ir perguntar. Chorando amargamente. o velhote sonhou que o cão lhe aparecia e lhe dizia que abatesse a figueira junto da qual estava a sua campa e da madeira fizesse um almofariz. furiosos. mas só depois de. Achei melhor vir informá-los.. Por fim. por isso. partirem o almofariz e deitarem fogo aos bocados. o velho foi buscar o corpo do animalzinho e enterrou-o sob a figueira onde ele achara o tesouro. Quando o grande Manchu a quem aquela parte do território pertencia tosse à capital. num abrir e fechar de olhos transformaram-se em moedas de ouro! Ao verem tanta riqueza. mas em vez das moedas de ouro que esperavam o arroz transformou-se em sementes tão malcheirosas que tiveram de fugir. Assim que se levantou foi a casa do vizinho. para serem pisados. Quando chegou a altura de colher o arroz. o conselho do cão devia ser seguido. Depois do que acontecera. uma noite. guardou-as num vaso de porcelana e levou-as para a estrada. subir a todas as cerejeiras. Esta não hesitou um momento sequer. muito contrariados ao saberem o que acontecera ao seu almofariz.

para que os tivessem em casa. que gritaram de dor. e é isso que dá ao conto . embora este seja príncipe. Mas a nota de bondade é dada pela atitude enternecedora de um cãozinho e de um rapazinho. ninguém se lembraria de procurar nelas um botão que fosse antes que decorresse pelo menos um mês. mas do seu gesto não nasceram botões nem desabrocharam flores. Claro que o vizinho invejoso não tardou a saber também essa novidade e o coração quase lhe estoirou de inveja. os três destinos. e nesta história egípcia do «Príncipe e os Três Destinos» o rei. Irritado. que enraivece e ataca os seres humanos. Quanto às árvores que ladeavam a estrada. onde ficou muitos meses. o vento atirou as cinzas para os olhos do Manchu e dos seus guerreiros. mas. foi de mal a pior e teve um fim desgraçado. o Manchu ordenou que capturassem o atrevido e o metessem numa prisão. os três inimigos são o crocodilo. ou mesmo melhor. facto que não passou despercebido ao grande senhor. que suspende o seu longo corpo mortífero de alguma árvore ou espera na poeira do chão que um pé descalço pise o seu dente venenoso. onde desabrochariam e enfeitariam os aposentos. Quando o libertaram toda a gente da aldeia descobrira a sua maldade e não lhe permitiram que lá continuasse a viver. Era. Apressou-se a ir ao local onde queimara o almofariz e a recolher um resto de cinzas que o velho deixara. Este ordenou a um dos cortesãos que lhe perguntasse porque desobedecera aos antigos costumes. num instante. Ao ver o Manchu. São estes. e o Manchu rejubilou. As flores brancas desabrocharam. antes que o mensageiro o alcançasse. num gesto largo. as quais levou para a estrada. que também era pai. de facto. ao longe. sobretudo em climas tropicais. tinha motivos para querer proteger o seu filho. uma nuvem de poeira e calculou que fosse o cortejo do Manchu. o velho trepara à árvore mais próxima e espalhara as cinzas. na esperança de que a sua sorte fosse tão boa. na realidade. Os homens que o compunham vestiam os mais belos fatos e a multidão que enchia a estrada curvava-se até ao chão. Só o velho não se curvou. As cerejeiras estavam nuas. pois era a estação em que costumavam vender-se rebentos envasados às pessoas ricas. à passagem do séquito. que a do vizinho. O coração saltou-lhe de prazer quando avistou os primeiros sinais da aproximação do cortejo. Em vez disso. a serpente. O príncipe e os três destinos No mundo oriental. Como não se emendou. atirou um punhado de cinzas para as árvores. e preparou-se para o grande momento. Não esperava havia muito tempo quando viu.em cuja berma se sentou à espera da passagem do Manchu. e o cão esfomeado e selvagem. cumulou o velho de presentes e convidou-o para o seu palácio. que se oculta nas águas dos rios preguiçosos.

ffUCK 120 Histórias Maravilhosas do Oriente Durante momentos o rei ficou imóvel. olhou para o outro lado do fosso e viu um cãozinho que era uma verdadeira bola de pêlo a saltar e a brincar. ficou preocupado ao ver o seu ar grave. . Voltou-se para o pajem que o acompanhava e perguntou-lhe: .Aconteceu alguma coisa? . mas como era um homem que não perdia facilmente a esperança. As fadas abanaram todas a cabeça.Que bichinho engraçado é aquele. ao mesmo tempo. Passada uma hora ou duas eram tantas as fadas que cercavam o berço que o infantezinho parecia correr o perigo de morrer asfixiado. começou logo a inventar planos para poupar ao príncipe o terrível destino que lhe fora vaticinado. Durante quatro ou cinco anos o principezinho viveu sozinho no castelo com as suas amas. Mandou chamar o seu mestre construtor e encarregou-o de erigir uma fortaleza no pico de uma montanha. Deu ainda ordens estritas para que uma guarda percorresse o castelo noite e dia. tomando ar nos vastos terraços rodeados de muralhas com fossos e apenas uma ponte levadiça para os ligar ao mundo exterior.É um bonito rapaz e é uma grande pena. mas o que tem de acontecer acontecerá. que corre além? . 119 n . pois sempre desejara um filho para lhe herdar a coroa.j. mas o nosso poder não chega para tanto. Era uma vez um menino filho de um rei que governava um grande país através do qual passava um largo rio. Está escrito nos livros do destino que morrerá vítima de um crocodilo. O rei ficou quase louco de alegria quando o menino nasceu. Se o pudéssemos salvar. Um dia. Ora o garoto nunca vira um cão. . horrorizado com o que ouvira. de uma serpente ou de um cão. e responderam: . „«*/ f .o seu encanto.perguntou inquieto. pois estes animais tinham sido afastados dele para evitar que a profecia das fadas se cumprisse. a qual seria mobilada com os objectos mais preciosos daquele palácio e toda a espécie de brinquedos com que uma criança pudesse sonhar. e convidou as fadas mais poderosas para verem o maravilhoso bebé.E desapareceram. que as observava ansiosamente. salvá-lo-íamos. O rei. quando já tinha idade suficiente para correr sozinho pelos terraços.

até aquele se tornar alto e forte. mas lembrava-se da profecia e achava o assunto muito sério. Nunca houvera príncipe tão feliz como ele. A certa altura escreveu ao pai a seguinte mensagem: «Porque me conservas aqui fechado. acabava o rei de completar uma maravilhosa casa para a sua única filha. amarrado a uma árvore. sem fazer nada? Estou ao corrente da profecia feita quando nasci. . Mais uma vez o rei satisfez os seus desejos e o moço e o cão partiram num barco para a outra margem do rio. dá-me armas e deixa-me partir. O palácio devia parecer muito engraçado.respondeu-lhe o monarca. por isso. como meu cão». Haviam decorrido já vários dias em tão fúteis tentativas quando o jovem príncipe . suplico-te. . com os príncipes de fatos coloridos a treparem pelas paredes de mármore branco. Quando o jovem príncipe chegou ao reino. Mas embora alguns conseguissem ir mais longe que outros.Traz-me um igual. não faltaram príncipes dispostos a tentar a sua sorte. todas as manhãs.respondeu-lhe o pajem.Dá-lhe o cão. A casa tinha setenta janelas. Por fim achou conveniente contar tudo ao rei e deixá-lo decidir a ele. Desciam e na manhã seguinte tornavam a tentar. Por fim avistou um palácio real. e o príncipe montou e cavalgou até onde a fantasia o levou sempre seguido pelo cão. ou não. tão igual ao outro como se fossem gémeos . um cachorrinho. O pajem ficou sem saber que fazer. HI. O rei que nele vivia não estava para se maçar a governar bem o seu país nem se importava que o povo vivesse. príncipe .. nenhum conseguira ainda chegar ao cimo. Por isso.e talvez fossem. naquele ponto tão largo que quase podia ser um mar. até ele desaparecer numa volta do caminho.É um cão.E continuou a observar o animalzínho. Arranjou-se. mas crê que prefiro ser morto imediatamente a viver aqui uma vida ociosa e inútil. e o rei mandou o arauto real anunciar nas fronteiras dos reinos vizinhos que daria a filha como esposa a quem conseguisse trepar pelas paredes até à janela onde ela se encontrava.Se não lhe fizéssemos a vontade nunca mais se calaria. . Esperava-o um cavalo preto. para vermos qual corre mais depressa. por isso. alegre e feliz. Tinha ordens severas para não recusar nada ao príncipe. . Passava o tempo a fazer charadas e a inventar projectos em que mais valeria não se ocupar. todas a setenta pés do chão. se ele o deseja . Os anos passaram e o rapaz e o cão brincaram juntos. A fama da beleza da jovem era grande e.

. mas assim que a minha madrasta teve filhos seus. começou a odiar-me e eu fugi para que não me acontecesse nenhum mal. . Tentou. na esperança de chegarmos à janela da princesa . para repousar da longa viagem.Donde vens? . com grande inveja dos seus amigos. resolvido a subir de outra maneira. enviuvou e voltou a casar.O rapaz que conseguiu chegar à janela da princesa nem sequer é príncipe! É filho do estribeiro-mor do grande rei que vive na outra margem do rio e fugiu do seu país para escapar ao ódio da madrasta. Pear! S.respondeu-lhe um deles. . por isso.Mas. De baixo. quero ver como vocês fazem. até agora.Deixem-me tentar também! . mentiu: . os jovens viram a mão branca da donzela estender-se para o puxar para dentro.Mas. Como era simpático e delicado. .Meu pai era o estribeíro-mor do rei do meu país. conseguiu agarrar-se a uma pequena saliência após outra e chegou.E de quem és filho? O jovem príncipe tinha motivos para guardar segredo quanto à sua identidade e.Por quem? . . graças ao que aprendera com os malogros dos outros. então. quando chegasse a sua vez. Um deles correu então ao palácio do rei e gritou: . ninguém chegou sequer a três metros dela.perguntou o rei.Passamos o tempo todo a trepar pelas paredes do palácio. Dia após dia observou as tentativas dos pretendentes. . ao parapeito da janela da princesa. Os jovens comoveram-se com a história e fizeram tudo quanto puderam para o ajudar a esquecer os seus passados desgostos. soerguendo-se do trono. .perguntou-lhes um dia o moço príncipe.pediu o príncipe. v . Buck 122 .-u-:”-.A qual dos príncipes posso chamar genro? . antes de começar. No dia seguinte viu os jovens subirem pelas paredes e fixou os pontos que pareciam mais difíceis.Que estão aqui a fazer? . Ao princípio tudo correu bem. os outros príncipes receberam-no com agrado na casa que fora posta à sua disposição e mandaram-lhe preparar um banho convenientemente perfumado. .A parede foi escalada e o prémio ganho! .chegou.perguntaram-lhe por fim. . até adquirir a certeza de que conhecia de cor o plano das paredes.

Toquem-lhe com um dedo e estarei morta antes de o Sol se pôr! Compreendendo que a ameaça era sincera. Decorridas várias semanas o príncipe disse à mulher: -A minha vida está nas mãos de três criaturas: um crocodilo.Que temerário és! . pois jamais acreditarei que não te corre sangue real nas veias.exclamou a princesa. A princesa. começou a partir as taças. Ordenou pois que trouxessem a princesa e o jovem. os guardas regressaram ao palácio e repetiram-na ao monarca. abraçou-o e pediu: . O rei tomara-se de tal simpatia por ele que não insistiu. porque trazes contigo aquele imundo animal? Darei ordens para o matarem imediatamente! Mas o príncipe nem quis ouvir falar em tal coisa: .Diz-me quem és. . O jovem que lhe trouxera a novidade ficou tão assustado que voltou para junto dos amigos e contou o que o rei dissera. abraçando-o.Estas notícias enfureceram o rei.gritou. Correu para ele. na sua fúria. O casamento efectuou-se no dia seguinte e o jovem casal recebeu como presente de noivado grandes manadas de gado e uma enorme propriedade. e quando entraram na sala do trono ficou tão bem impressionado com o ar nobre do vencedor que a sua cólera se desfez por completo. Mas o príncipe ainda tinha as suas razões para guardar segredo e repetiu a mesma história. que estava à janela. a cólera do rei acalmara e ele começava a considerar o que diria o povo de si se quebrasse a promessa. . O rei ficou ainda mais furioso e ordenou aos guardas que fossem ao palácio e matassem o pretendente bem sucedido. uma serpente e um cão.Se sabes isso. colérico.Esperará que dê a minha filha a um exilado? E. . Histórias Maravilhosas do Oriente 123 Entretanto. . Mas a princesa colocou-se entre ele e os seus assassinos e gritou-lhes: .Ele que volte para a sua terra! . ouviu as suas palavras e pediu ao mensageiro que fosse informar o pai de que fizera um voto de nunca mais comer nem beber se o jovem lhe fosse tirado. pois não lhe passara pela cabeça que alguém que não fosse príncipe tentasse conquistar a sua filha.

mas quando chegaram já o encontraram morto e fizeram-lhe um funeral . pois ergueu a cabeça. Susteve a respiração ao vê-la aproximar-se e erguer outra vez a cabeça. Nas semanas que se seguiram o príncipe entreteve-se o melhor que pôde. Como a distância era grande. Depois caiu no chão e adormeceu pesadamente. no caminho do réptil. o príncipe soube que o pai estava velho e doente e desejava ter o filho a seu lado. a princesa viu uma mancha negra a um canto do quarto. um dia. foi obrigado a descansar muitas vezes na estrada e sucedeu que. Saiu da cama sem acordar o marido. Quanto mais tempo permanecesse na cidade. contudo. em direcção ao quarto do príncipe. Poucos meses depois do seu casamento. pois muniu-se da espada do marido e separou-lhe a cabeça do corpo. sorrateira. A jovem viu então tratar-se da cabeça comprida e achatada de uma serpente e lembrou-se da profecia.. que foi meu companheiro de brinquedos desde cachorrinho? Oh. Assim continuou durante mais de um mês. um enorme crocodilo saiu da água e se dirigiu. despediu-se ternamente da mulher e iniciou a viagem de regresso. Mal ela chegou. pois quando o príncipe pensou que seria pouco provável que pudesse abandonar outra vez o reino do pai. silenciosamente. pois sabia que nenhuma serpente do mundo pode resistir ao leite. Por sorte um dos guardas acordou no momento em que a fera tentava passar. mandou chamar a mulher e PearlS. O jovem não pôde ficar surdo a semelhante mensagem. jamais o consentirei! O mais que a princesa conseguiu que lhe prometesse foi que usaria sempre uma espada e iria sempre acompanhado de alguém quando saísse do palácio. quando o crocodilo dormia. Estremeceu de terror e o que quer que era devia ter ouvido o levíssimo ruído. e fechou-o num grande átrio. maior seria o perigo de. pois não tirou a cabeça de dentro da vasilha enquanto nela restou uma gota de leite. Buck 124 recomendou ao mensageiro lhe dissesse que aguardaria o seu regresso na cidade da margem do grande rio. enquanto o marido dormia. iniciou os preparativos para seguirem para a corte.Matar o meu querido cãozinho. Na manhã seguinte a esta aventura o príncipe e a princesa partiram para o palácio do rei. Fora isso mesmo que a princesa esperara. Por fim os seus olhos depararam com o leite e começou a lambê-lo tão depressa que foi um milagre não se asfixiar. como se cheirasse alguma coisa deliciosa. Naquela noite. pegou numa pesada vasilha de leite que se encontrava em cima de uma mesa e colocou-a no chão. guardado por um gigante que só o abandonava de noite. uma mancha que parecia tornar-se cada vez mais comprida e aproximar-se lentamente das almofadas onde o príncipe repousava. embora contasse os minutos que faltavam para a chegada da mulher. o crocodilo o comer. quando certa noite dormia numa cidade na margem de um grande rio. enquanto a língua bifurcada lhe saltava gulosamente da boca.

. incluindo a tarefa impossível de que o crocodilo o incumbira. a fim de descansar. o meu encanto quebrar-se-á. não longe daqui. Dou-te essa oportunidade. preocupada. eu própria te posso libertar. Para sua Histórias Maravilhosas ao Oriente 125 surpresa.exclamou. ao chegar ao palácio. sempre acompanhado pelo seu cão. Agora vai.Estás ferido? Conta-me. encontrar-me-ás sempre à tua frente. O jovem afastou-se tristemente e. quando se refez da surpresa.Não podes escapar-me . Há apenas uma maneira de te libertares do meu poder: se conseguires abrir na areia seca uma cova que permaneça cheia de água. Depois disso o príncipe teve de examinar as novas leis decretadas na sua ausência e de tratar de tantos negócios de estado que acabou por adoecer de fadiga e ser obrigado a ir para um dos seus palácios nas margens do rio. a princesa assustou-se e fez tal alarido que o príncipe foi obrigado a retirar a tranca da porta e a deixá-la entrar.Como estás pálido! . e ao perseguirem uma presa aproximaram-se da margem do rio. uma voz falou-lhe e o jovem viu tratar-se de um crocodilo o que tomara por um tronco.magnificente. fechou-se no seu quarto e recusou-se a ver fosse quem fosse durante o resto do dia. Depressa recuperou a saúde e recomeçou a caçar e a matar patos selvagens com o seu arco.respondeu a princesa -. se não conseguires. morrerás depressa. Uma manhã o príncipe e o cão caçavam. O príncipe corria velozmente atrás do cão quando quase caiu sobre qualquer coisa que se atravessava no seu caminho e parecia um tronco. . até mesmo a esposa. . pois a fada minha madrinha ensinou-me a conhecer o uso das plantas e no deserto. porém.Sou o teu destino e vás para onde fores e faças o que fizeres. vendo que continuava a não sair qualquer ruído do quarto do marido. pois talvez eu possa ajudar-te! O príncipe contou-lhe tudo. existe uma ervazinha de quatro folhas capaz de conservar a água na cova durante um ano inteiro.Como pode um buraco na areia permanecer cheio de água? perguntou por fim. . mas bem podia ter-me logo arrastado para o rio. . Razão teve ao dizer que não lhe posso escapar. suplicote. Claro que se escoará toda! O crocodilo chamou-lhe uma «oportunidade». Irei apanhá-la de madrugada e tu poderás começar a abrir .ouviu a fera dizer. o que te atormenta. Ao pôr do Sol.Se isso é tudo . agora já muito velho. . como de costume.

Na primeira tentativa a corda escorregou para o fosso e ela teve de a puxar e atirar de novo.não podia ver o quê .e a jovem confiou todo o peso do seu corpo à precária ponte. Assim que pisou uma saliência da rocha. Que contentes se sentiram ambos quando avistaram. os seus dedos tocaram algo macio.a cova assim que quiseres. chegar ao cimo do rochedo. a pedra partiuse debaixo dos seus pés e deixou-a no mesmo lugar. A princesa falara despreocupada e alegremente para tranquilizar o marido. e continuaram a avançar firmemente. duas. . com todas as suas forças. até que o burro parou. Apoderou-se dela e do burro uma sede terrível. Uma. sã e salva.. Mas aí soprava um vento tão forte que a poeira levantada quase a cegava e teve de se deitar no chão e procurar a preciosa erva às apalpadelas. Se assim acontecesse. mas sabia que não tinha uma tarefa fácil na sua frente. era corajosa e enérgica e estava decidida a que. uma rocha escarpada! Esqueceram que tinham sede e que o sol estava quente e o chão pareceu voar debaixo deles. três. Olhou à sua volta e encontrou. sim. não fosse o crocodilo declarar que o príncipe não cumprira as condições estipuladas. Disse palavras animadoras ao burrinho. mas por fim o nó prendeu-se em qualquer coisa . Durante muito tempo nada mais viu que uma extensa vastidão de areia que se tornava mais quente à medida que o sol subia. Mas embora o burro pudesse descansar. mesmo que houvesse. conseguiu. mas seria a que procurava? Não podia ver.. à sombra fresca. um pouco acima. pois o vento soprava cada vez com mais força. à custa de tremendo esforço e com as mãos feridas e a sangrar. pois a planta que procurava crescia no cimo da rocha. numa fenda. O coração da pobre princesa estava cheio de desespero. mas não havia nenhuPear! S. atirou-a para o outro lado. por iniciativa própria. No entanto. Era uma planta. uma pedra pequena. apoiando-se muito ao de leve nas que ficavam de permeio. a princesa não podia. a sua morte seria tão certa como a do príncipe. não teria tempo para se deter. Mas tal não aconteceu e a princesa chegou. ao longe. De súbito. Entretanto. e. o marido se salvasse. as horas passavam e era quase meio-dia. Buck 126 ma nascente onde pudessem saciá-la e. em redor de cuja base havia uma larga fenda. mas ela não desistia da luta. Durante momentos terríveis pensou que a rocha era árida e que a sua viagem fora inútil. ao outro lado. que parecia mais resistente que as outras. pois por muito que tacteasse só encontrava cascalho e pedras. Felizmente trouxera consigo uma corda e. que zurrou em resposta. de uma maneira ou de outra. sem dúvida. Faltava a parte pior da sua tarefa. As estrelas brilhavam ainda quando saiu do palácio num burro branco de neve e se afastou do rio em direcção ao oeste. dando-lhe um nó corredio numa ponta. pois ainda tinha muito caminho que percorrer e devia regressar ao palácio antes de anoitecer. mas deixou-se ficar onde estava e contou as folhas. que podia partir-se de um momento para o outro e provocar a sua queda entre as rochas.

de ir parar perto da corda e depressa chegou ao outro lado. . Logo a seguir o cão surgiu. eram quatro! Agarrando um punhado de plantas. a procurar abrigo entre os caniços da margem. mas o príncipe foi puxado para terra. disparado.declarou . furioso. Resultaria o encanto ou a água esgotar-se-ia lentamente. trazendo.foi mais forte que o meu destino! FIM . mas a cova permanecia tão cheia como no princípio. com um grito de triunfo e o crocodilo mergulhou. quase arrastada pelo vento. e o príncipe morreria. O príncipe libertara-se para sempre do segundo dos seus três destinos! Ficou a ver o crocodilo desaparecer. quando lhe chamou a atenção um pato selvagem que voou perto deles. junto da cova que abrira na areia seca. Parou na margem do grande rio e a princesa correu ao local onde o príncipe se encontrava. e chocou violentamente com as pernas do dono. com a florinha verde a flutuar na superfície.A minha mulher . arrancou-as e conHistórias Maravilhosas do Oriente 127 servou-as bem seguras na mão. através da areia. o príncipe despejou a água na cova e.sim. vítima do horrível monstro? Durante meia hora não desviaram os olhos da água. O pobre e velho cão morreu afogado. enquanto se virava. feliz por estar livre. no rio. Gritou por socorro e a mulher acorreu. desequilibrou-se e caiu de costas no rio. porém. com um enorme recipiente de água a seu lado. nem parecendo aperceber-se de que o solo que pisava estava tão quente como o Sol. O príncipe voltou-se. O príncipe cambaleou. A um sinal da princesa. com as fauces branco-amarelas escancaradas e a mostrar os dentes aguçados. onde a lama e os juncos o prenderam. Teve a sorte. quando esta ficou cheia até acima. A pouca distância. a corda consigo. então. felizmente. O burro zurrou alegremente ao vê-la e partiu para casa o mais depressa que pôde. a perseguir a ave. o crocodilo piscava os olhos ao sol. Quando se encontrou na encosta o vento parou imediatamente e a jovem desceu do rochedo tão depressa que pareceu um milagre não cair no abismo. a jovem atirou-lhe para dentro a planta de quatro folhas. para descer a rocha.