A responsabilidade civil pelo rompimento do noivado

por Alencar Frederico Sumário 1. Introdução; 1.1. Noivado; 1.1.1. Conceito; 1.1.2. Breve notícia histórica; 1.1.3. Brevíssimas considerações; 1.2. Quaestio; 1.2.1. Um breve conceito de responsabilidade civil; 1.2.2. Cabimento de indenização - danos materiais e morais; 1.2.3. Jurisprudência pesquisada; 1.3. Conclusão; Bibliografia.

1. Introdução. Advertência inicial. Nosso intento não é tecer grandes feitos doutrinários, mas sim içar o assunto à discussão, tecendo algumas linhas sobre a responsabilidade civil pelo rompimento unilateral, sem motivo justificado, do noivado. 1.1. O noivado. 1.1.1. Conceito. "Derivado do latim sponsalia (esponsais), indica o contrato ou a convenção, que precede o casamento, em virtude do qual os nubentes (os noivos), os futuros esposos assumem por si mesmos, ou por intermédio de seus parentes, o compromisso ou promessa de se casarem. Vulgarmente, é o noivado ou promessa de casamento. O nome de sponsalia, atribuído ao ato pelos romanos, provinha da forma por que se objetivavam, isto é, mediante uma estipulação (stipulatio), que servia de garantia (sponsio) à promessa, o que, primitivamente, dava o mesmo motivo à actio ex sponsu, contra aquele dos sponsi que não os cumprisse. Em certas ocasiões os sponsais chegaram a ter a mesma força do casamento. Mas sempre foram admitidos como dissolúveis, mesmo pela Igreja. Modernamente, nenhuma promessa de casamento tem força jurídica para obrigar os promitentes ao cumprimento do prometido, embora não se impeça o pedido de indenização pela falta de cumprimento da promessa, desde que dela possa decorrer prejuízo patrimonial a uma das partes"(1). Em outras palavras, o noivado é o compromisso firmado entre homem e mulher no intuito de no futuro próximo constituir família. 1.1.2. Breve notícia histórica. No direito romano. Os esponsais (sponsalia) era convenção verbal e solene pela qual homem e mulher, ou seus pais comprometiam-se a contrair casamento. Sponsalia sunt mentio et repromissio nuptiarum futurarum(2). O noivado, sob alguns aspectos, era equiparado ao casamento. A quebra desse compromisso gerava conseqüências patrimoniais, muito embora houvesse uma grande solenidade e importância, não se podia obrigar o noivo ou a noiva a casar-se(3). No direito brasileiro. Nas Ordenações do Reino, no período da pré-codificação, havia previsão do contrato de esponsais e era celebrado por escritura pública, e quem não o cumprisse respondia por perdas e danos. E em 1858, Teixeira de Freitas, na Consolidação das Leis Civis, também regulamentou os esponsais. Contudo, em 1916, não houve a previsão do instituto dos esponsais no Código Civil, desaparecendo desde então do nosso direito positivo(4). 1.1.3. Brevíssimas considerações. Cumpre observar que os espaços de tempo denominados namoro ou noivado não se confundem com a união estável ou concubinato que são outros institutos.

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1). CC. ou melhor. Daí pergunta-se: será cabível a reparação de danos pelo rompimento da promessa do casamento? Vejamos: 1.2.O noivado tem natureza jurídica de contrato preliminar verbal. rege-se pelo direito particular estabelecido pela conferência dos Bispos. que redunda em dano ou prejuízo a outrem. Quaestio. 2 . § 1. conforme as teorias filosóficas-jurídicas"(5) daí sua complexidade."É a expressão usada na linguagem jurídica. art. risco para os direitos de outrem. causar dano a outrem. comete ato ilícito. oferecendo à vítima uma compensação"(7). Revela-se. é o conjunto de regras que obrigam o autor de um dano causado a outrem a reparar este dano. 1939. Um breve conceito de responsabilidade civil. Haverá obrigação de reparar o dano.2. 927. o rompimento injustificado da promessa acarreta. art. como. Pode ter como causa a própria ação ou ato ilícito. citada por Caio Mário da Silva Pereira. que varia tanto como os aspectos que pode abranger. assim. Aquele que. Introduction. Geneviève Viney (in Traité de droit civil. "ensina que a expressão 'responsabilidade civil'. se responde ou se é responsável"(8).2. Da promessa de matrimônio não cabe ação para exigir a celebração do matrimônio.daí "aquele que. é precedido pelo noivado. denominada esponsais. tanto unilateral como bilateral. independentemente de culpa. Parágrafo único. negligência ou imprudência. nos casos especificados em lei. 186. por ato ilícito. n. Em nossa legislação não há nada que obrigue o noivo ou a noiva a respeitarem a promessa de casamento. quando injustamente causado a outrem. na linguagem jurídica atual.danos materiais e morais. v. pois como assevera José de Aguiar Dias . apenas a responsabilidade civil .1. A doutrina encontra dificuldades em conceituar juridicamente o termo responsabilidade.2. I. mas cabe ação para reparação dos danos. Código de Direito Canônico. Paris. volume sobre Responsabilité civile. ainda que exclusivamente moral. Desta forma. fica obrigado a repará-lo. por sua natureza. em virtude de regra legal. Aquele que. a responsabilidade civil revela a obrigação de indenizar ."toda manifestação da atividade humana traz em si o problema da responsabilidade. § 2. por ação ou omissão voluntária. por ato ilícito (arts. Segundo De Plácido e Silva . 1. Isso talvez dificulte o problema de fixar o seu conceito. Cânone 1062. o fato ilícito de outrem. A promessa de matrimônio. fica obrigado a repará-lo"(9). Designa a obrigação de reparar o dano ou de ressarcir o dano. Neste sentido. sous la diréction de Jacques Guestin. também. 1) conceitua responsabilidade civil "como a obrigação que pode incumbir uma pessoa a reparar o prejuízo causado a outra. que como visto é o compromisso firmado entre homem e mulher no intuito de no futuro próximo constituir família. desta forma. causar dano a outrem. ou por fato de pessoas ou coisas que dela dependam"(6). resulta da ofensa ou da violação de direito. resumidamente.ocasionando. em distinção à responsabilidade criminal ou penal. Silvio Rodrigues citando Savatier (Traité de la responsabilité civile. por fato próprio. violar direito e causar dano a outrem. Na maioria das vezes. a reparação dos danos morais e patrimoniais sofridos pela "parte ofendida". o matrimônio. por quem. ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar. levando-se em conta os costumes e as leis civis se as houver. se for devida. 186 e 187). Assim: CC. Do cabimento de indenização . n. 1.

Sentença elogiada e acolhida por inteiro. em que um rapaz ao ser interrogado se era de sua livre e espontânea vontade receber a noiva como legítima esposa. eqüitativamente. 5ª Câm. não resta dúvida. retirou-se da Igreja. A indenização mede-se pela extensão do dano. exemplificadamente. Des. há de corresponder a tudo aquilo que a vítima perdeu. Vale aqui evocar a ilustração citada por Edgard de Moura Bittencourt. 944. de Direito Privado. É direito seu reconsiderar a escolha da esposa. é que deverá pagar"(13).1993). nem em nome de princípios jurídicos aplicáveis aos esponsais. Por isso. utensílios. a suprema injúria de uma humilhação pública. reparar todo o dano por ela sofrido. mas é obrigação fazê-lo de forma discreta. em face do rompimento injustificado do noivado."A meu ver repito. 1. livremente. Indenização .02. da promessa de casamento. injustificadamente. dando ensejo à indenização do dano. Rel. falta de honestidade etc. expedição de convites e outros preparativos . Dano moral indenizável.). 03.] "Essa menina. j.e esse é o requisito básico para que a demanda possa prosperar -. O noivo não seria punido civilmente pela ruptura da promessa. infidelidade). CC. injúria grave.262-4 . ocorrendo o rompimento. e com o mínimo de impiedade.casamento já agendado. para ser franco não! Assim respondendo. Vejamos a visão de alguns autores a respeito do assunto: Washington de Barros Monteiro enumera três requisitos para que se reconheça a responsabilidade: "a) que a promessa de casamento tenha emanado do próprio arrependido.ruptura sem motivo justificado . Cível. Voto vencido. e não de seus genitores. etc.. desde que haja rompimento injusto do noivado . 6ª Câm.danos morais e materiais . com aquisição de moveis. 593080112. b) que o mesmo não ofereça motivo justo para retratar-se. em 25. ou seja. reclamar a indenização do prejuízo experimentado. constatação de impedimentos ignorados pelos noivos. Jurisprudência pesquisada. Por agir de modo cruel e abusivo. neste caso. Namoro e noivado prolongado e rompido sem motivação. pelo escândalo infligido e pelo dano moral quando se converte em prejuízos materiais.. b) que tenha havido recusa de cumprir a promessa esponsalícia por parte do noivo arrependido e não dos seus genitores.rompimento de noivado . sofreu o que talvez nenhuma outra noiva terá sofrido: além da perda do noivo. a moléstia grave. a indenização. ao dano moral"(14). por isso e não pelo arrependimento. levíssima (mudança de religião. mede-se a indenização pela extensão do dano. pois comumente o desfazimento do noivado traz repercussões psicológicas. grave enfermidade. a mudança de religião ou de nacionalidade. sem qualquer motivo justo (TJSP. disse: "Bem. Para Silvio Rodrigues . Ação de reparação de dano. pecuniária e morais"(12). a condenação criminal e o descobrimento de defeito físico oculto durante o noivado. 3 .3. Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano. APC n. pelo rompimento de noivado e desfazimento da cerimônia de casamento já programada. nem injúria. Promessa de casamento. e ocasionando dano ao "inocente" (que não deu causa). saber qual a extensão da reparação dos danos sofridos? "O fim da responsabilidade civil é a restituição do lesado ao estado em que se encontraria se não tivesse havido o dano. Parágrafo único. j. c) que haja ausência de motivo justo. pode o prejudicado. desde que esta tenha chegado ao conhecimento da outra parte. na Espanha. ainda.Ilha Solteira/ Pereira Barreto. d) que exista dano. Para Maria Helena Diniz são quatro as exigências para que se reconheça a responsabilidade: "a) que a promessa de casamento tenha sido feita. a despeito do silencio da lei. a infidelidade. responderá sim pelos seus atos. [. considerando-se como tal. Rel. Entendo ademais que. mas pela humilhação. Ap. igualmente. fixar uma indenização moderada para a reparação do dano moral"(11). tanto por parte do noivo quanto da noiva.11.2. Indenizar significa tornar indene a vítima. 90. Assim resta. ao que razoavelmente deixou de ganhar e.Então. poderá o juiz. Cabe indenização por dano moral e material. art. a ruína econômica. (TJRS. deixando a noiva desmaiada e atônita aquela porção de gente da alta sociedade que se comprimia no templo". poderá o juiz reduzir. sevícia. leve (prodigalidade. condenação por crime desonroso.dever de indenizar do noivo.). não há responsabilidade alguma se não houver culpa grave (erro essencial. Testa Marchi. sem ofensa. pelos noivos e não por seus pais. aversão ao trabalho. uma vez que. de um caso ocorrido em León. ficando obrigado a reparar os possíveis danos patrimoniais e morais sofridos. c) o dano"(10).2000). Décio Antonio Erpen.

Assim. Bens moveis adquiridos em período de namoro e noivado. Osvaldo Caron.Móveis adquiridos pelo esforço comum das partes durante o noivado . (TJSP .04.02 .Apelação Cível n. por outro lado.2ª Câmara de Direito Privado .u. (TJSP . Improcedência da ação.22.201-1 Assis . que foi efetivada a contribuição da recorrida para o sucesso na compra do bem Recurso não provido. Embora não tenhamos legislação específica ao assunto. . como a responsabilidade civil pelo rompimento do noivado. o noivo que gastou para construir casa em terreno da noiva deve ser por esta indenizado".1ª Câmara de Direito Privado . não só em relação a si própria como também perante os grupos sociais com os quais se relaciona".377-4 .2. 26.Dever de indenizar pela parte que ficou de posse dos bens .02. 194031225.Desfazimento .97 . Jorge Tannus j.Procedência parcial em primeiro grau. pela quebra da promessa do casamento.888-4/9 .Conjunto probatório inapto a formar convicção do julgador e dar-lhe a certeza sobre as alegações da autora .Relator: Testa Marchi .Comprovação de parte das despesas alegadas .238-1 . Indenização .v. Indenização . .96 . ALMEIDA. 1. concedendo-se apenas indenização material . estas linhas ficam dirigidas aos colegas (estudantes) para não se fecharem a dogmas e a argumentos pacóvios. 15. E como visto.Rel. Des. alcançando familiares e amigos.). Prejuízo moral não caracterizado.80). Buenos Aires: Abeledo Perrot.v.Relator: Alexandre Germano .v. Apelação improvida por unanimidade.Poá . Férias "A" .Ressarcimento de quantias gastas com construção de moradia para o casal . 248. 121. Esponsais.10.04. 116.Relator: Vasconcellos Pereira . 4 . recurso este acostado de documentação que não tem o condão de desconstituir as acertadas razões da decisão de primeiro grau. 2ª Câm.Desfazimento de noivado . Temas atuais de responsabilidade civil. Indenização .Apelação Cível n.Recurso não provido. Recurso improvido. (TJSP . 242.04.j.Ação parcialmente procedente . 9ª ed.Einfrs. quando este ocorre após sinais de sua exteriorização.Responsabilidade civil . Ação declaratória de propriedade. Sentença mantida. -"A ruptura de noivado. emergindo probatoriamente claro.Relator: Evaldo Veríssimo . "Não ficando comprovados motivos ponderáveis para o desfazimento do noivado. (Org. (TJSP . da promessa de casamento. Danos morais.3.1º Gr. (TJRJ .j. Admissibilidade.Apelo improvido. tornando definitiva a liminar deferida em ação cautelar de busca e apreensão. o responsável pelo rompimento. esquecendo-se de questões importantes e necessárias.1994).11. Olavo Tostes Filho . 15.).6ª Câmara de Direito Privado . APC n.Danos moral e material . Wellington Pacheco Barros.02.). 2007. Reparação de danos . tanto materiais quanto morais.Ap. Rel. Octavio Stucchi .Rel.). José Luiz Gavião de.12. Teoria general de la responsabilidad civil.u.15.Inocorrência . Rompimento unilateral do noivado pelo noivo que casou com outra.AI .9ª Câmara de Direito Privado . Nosso cordial Vale. São Paulo: Atlas.Lorena . Rompimento de noivado.Apelação Cível n. uma vez que abalados os sentimentos da pessoa atingida. . sem justo motivo.2ª C.74). Jorge Bustamante.Desfazimento unilateral de noivado . Bibliografia. (TJSP . "Havendo o rompimento do noivado.5ª C.Incomprovação de que tenha ele pago o número de prestações alegado. nos limites de seus danos.03.96).u. assiste ao prejudicado o direito a ser ressarcido dos prejuízos".Apelação Cível n.Ap. 1997. vez que teria o recorrente arcado com quase a totalidade do preço do imóvel .Artigo 333 do Código de Processo Civil .Indenização. gera a indenização por dano moral.j. Conclusão.3999-1 . Cível.Argüido o desacerto da decisão. 279. Sentença procedente em face da evidencia das provas apresentadas.u.Recurso não provido.Desfazimento de noivado .Responsabilidade civil .).v. Dano moral. . Rompimento do noivado. j. o entendimento jurisprudencial de nossos Tribunais é tendente à indenização por danos materiais e morais. 09.01 . fica obrigado através do instituto da responsabilidade civil a reparar o prejudicado. (TJSP .1ª C . Cms. (TJSP .Ribeirão Preto . Indenização.97). .02.Rel. (TARS.Rel.Enlace não demonstrado . ALSINA. 25.

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