UNIVERSIDAD E FEDERAL DA BAHIA

LETRAS VERNÁCULAS

SHIRLEI ALMEIDA

DIFERENTES FORMAS DE LER:
RESENHA CRÍTICA

Salvador 2011

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA. INSTITUTO DE LETRAS. LEITURAS DE PRODUÇÕES ARTÍTISCAS. ALUNA: SHIRLEI ALMEIDA.

ABREU, Márcia. Diferentes formas de ler. In: XXIV CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 2001. Campo Grande: 2001.

O texto da autora (Márcia Abreu, Profa. Dra. Departamento de Teoria Literária. Instituto de Estudos da Linguagem – UNICAMP) promove questionamentos acerca do ato de ler, como se construiu e se chegou às concepções correntes e atuais de leitura. Mostrando que através dos tempos, ler é uma atividade humana, e por esse caráter é algo que está em constante transformação e que consequentemente amplia o horizonte dos objetos de leitura e dos modos de ler. Assim, antes se lia em voz alta, de preferência em grupo como meio de se socializar e entreter-se e o correto era ler pouco e repetidas vezes o mesmo livro. Ao que a autora contrapõe aos costumes comuns da forma de ler na atualidade: Leitura silenciosa e solitária (objetivando a concentração e o entendimento) e a difundida ideia de que o bom leitor é quem ler muito e variados livros. Abreu demonstra como se deu, de forma histórica, a construção do imaginário contemporâneo em torno ao ato de ler, na qual há uma intrínseca associação entre a leitura e o enobrecimento do indivíduo, uma vez que fatores sociais e econômicos (a ascensão da burguesia) influenciaram na organização deste modelo estigmatizado de leitura e leitor. Então, são bastante comuns e recorrentes imagens antigas de pessoas portando livros ou lado de vários deles em uma biblioteca, buscando dessa maneira ostentar status social e intelectual, e de forma óbvia, em sua maioria são homens. Os lugares escolhidos para leitura são sempre confortáveis e aconchegantes, em geral luxuosos. O objeto da leitura é fundamentalmente um livro. Essas imagens, segundo a autora ainda permeiam e permanecem até o momento nas

concepções atuais acerca da leitura: “Ler parece ser1 um ato prazeroso, que se realiza em ambientes, tranquilos e harmônicos” (Abreu). Mais a frente, Márcia Abreu revela o ponto central da sua argumentação, ao frisar que ler talvez não seja isso, e que essas formas e objetos de leitura não são os únicos e os mais frequentes, e são tão recorrentes por serem práticas impregnadas de prestígio social. E esse olhar preconceituoso e errôneo consequentemente apaga as outras manifestações de modos de ler, difunde falsas ideias que se vive uma grande crise da leitura, de que as pessoas não gostam de livros e tantos outros mitos acerca da leitura e os seus objetos. Ao que a autora rebate veementemente ao mostrar dados da pesquisa que evidenciam a boa relação dos brasileiros com a leitura e seus objetos (não apenas livros, mas jornais, revistas e etc.) E mais ainda, a pesquisa traz à tona as verdadeiras vilãs: As desigualdades sociais e precariedade da educação que ainda impera neste país. Assim, Abreu reitera acerca da importância de se questionar as correntes concepções de leitura e propõe uma saída: a ampliação dos estudos do livro e da leitura para além do modelo consagrado e estereotipado das práticas de leitura.

Revendo a questão da diversidade das formas de leitura em sociedade e os questionamentos acerca de quem é o leitor, o que preferem ler, o que almejam ao ler e etc., o texto é de suma relevância aos estudiosos e profissionais da área das Letras e afins, uma vez que, desconstrói ao mesmo tempo em que rearranja as concepções tão comuns e frequentes da leitura na atualidade. Fica claro o quanto é equivocado, preconceituoso e idealizado o modo como esse imaginário foi construído e continua a ser difundido como exclusivo, por ser mais prestigiado. Torna-se imprescindível que se reveja esses discursos que pregam que as pessoas não gostam de ler só porque talvez elas não estejam lendo um autor consagrado. Ou ainda porque talvez não façam jus ao padrão de pessoa culta e rica a qual se associa a ideia do leitor ideal. Portanto é de suma importância chamar a atenção para a existência dessas variadas maneiras de ler e o quão elas vêm sendo colocadas de lado, por serem práticas de leituras de pessoas igualmente desvalorizadas na atual sociedade.

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Grifo meu