1

A Indústria de Lacticínios em Vale de Cambra

Ângelo Augusto da Silva Pinho Câmara Municipal de Vale de Cambra Setembro de 2009

2

A EVOLUÇÃO DA INDÚSTRIA DE LACTICÍNIOS EM VALE DE CAMBRA ....... 6 Introdução..................................................................................................................... 6 Álbum 1 de Imagens............................................................................................. 7 Capítulo I .......................................................................................................................... 8 A Política Agrícola Comum ............................................................................................. 8 1 – A integração de Portugal na CEE e os impactos da Política Agrícola Comum (PAC)............................................................................................................................ 8 Capítulo II....................................................................................................................... 13 A indústria de lacticínios ................................................................................................ 13 2 - O que resta da actividade?..................................................................................... 13 Álbum 2 de imagens ........................................................................................... 13 Álbum 3 de imagens ........................................................................................... 15 Álbum 4 de imagens ........................................................................................... 17 Capítulo III ..................................................................................................................... 18 A evolução histórica ....................................................................................................... 18 3 – As referências iniciais........................................................................................... 18 4 – Da produção artesanal da manteiga à criação das primeiras indústrias no concelho .................................................................................................................................... 30 Álbum 5 de imagens ........................................................................................... 32 Álbum 6 de imagens ........................................................................................... 33 Álbum 7 de imagens ........................................................................................... 34 Álbum 8 de imagens ........................................................................................... 35 Álbum 9 de imagens ........................................................................................... 36 5 – O papel do Estado na indústria de lacticínios....................................................... 38 Álbum 10 de imagens ......................................................................................... 41 6 - A Fábrica de Lacticínios Martins & Rebelo.......................................................... 44 6.1 - Caracterização das instalações ...................................................................... 45 Álbum 11 de imagens ......................................................................................... 46 6.2- Documentação relativa ao processo de classificação...................................... 47 Álbum 12 de imagens ......................................................................................... 47 Capítulo IV ..................................................................................................................... 48 Outras histórias, outros autores ...................................................................................... 48 7 – Outras histórias mas os mesmos factos ................................................................ 48 7.1 – Comércio do Porto de1930 (a indústria de lacticínios- uma instalação modelar).................................................................................................................. 48 Álbum 13 de imagens ......................................................................................... 49 7.2 – Diário de Notícias de 1937 e 1938, sobre os lacticínios................................ 51 Álbum 14 de imagens ......................................................................................... 53 7.3 - A indústria de lacticínios por António Martins Ferreira ................................ 54 Capítulo V ...................................................................................................................... 56 Escrituras diversas .......................................................................................................... 56 8 – A primeira escritura da Martins & Rebelo(transcrição) ....................................... 56 Álbum 15 de imagens ........................................................................................ 58 8.1 – Outras escrituras relacionadas com a Martins & Rebelo............................... 59

- Venda que faz , Maria Gomes de Pinho , em 3 de Novembro de 1933, à firma Martins & Rebelo, de um mato e oito leiras no lugar de Coelhosa e Pinheiro Manso; .................................................................................................................... 59 Álbum 16 de imagens ......................................................................................... 59 - Venda que faz Adriano Ferreira da Cruz, do lugar de Coelhosa, no dia 18 de Abril de 1934, à firma Martins & Rebelo, de um terreno de mato, com 2500m2, no lugar do Pinheiro Manso; ....................................................................................... 59 Álbum 17 de imagens ......................................................................................... 59 - Trespasse com arrendamento que faz Custódio Pereira Dias de Couto Esteves, em 14 de Janeiro de 1940,de uma fábrica de lacticínios instalada numa casa no lugar de Catives, da freguesia de Couto Esteves,com todos os seus direitos industriais, alvarás e licenças de exploração bem como a transferência de registo da marca de manteiga “Beleza”,e ainda os postos de desnatação em Couto Esteves (dois), Silva Escura , dois em Junqueira, três em Rocas, seis em Arões e dois em Cepelos; vendem ainda todos os maquinismos, utensílios, vasilhanme, todos os pertences da fábrica e pastos; ...................................................................................................... 59 Álbum 18 de imagens ......................................................................................... 60 - Trespasse que faz Manuel Fernandes Cubal, no dia 26 de Abril de 1940 à firma Martins & Rebelo , de uma fábrica de lacticínios que possui numa casa de habitação, composta de rés do chão, nesta vila, incluindo os postos de desnatação de Vila Cova do Ferrinho, cartim, Bouça, Provizende de cima, Cazal de Arão e metade do Cruzeiro;................................................................................................ 60 Álbum 19 de imagens ......................................................................................... 60 - Trespasse que faz Manuel da Silva Tavares, do Pinheiro da Bemposta, no dia 12 de Maio de 1940, de uma fábrica de lacticínios no lugar de Figueiredo de cima , instalada no rés do chão de sua casa térrea e todos os direitos industriais;........... 60 Álbum 20 de imagens ......................................................................................... 61 - Trespasse que faz Arcanjo Martins de Pinho de Macieira à Velha, no dia 26 de Outubro de 1940, à firma Martins & Rebelo ,de uma fábrica de manteiga que possui no lugar de Macieira à Velha, instalada numa casa de habitação e todos os direitos industriais, postos de desnatação e demais pertenças................................ 61 Álbum 21 de imagens ......................................................................................... 61 9 – A primeira escritura da Lacto-lusa(transcrição) ................................................... 62 Álbum 22 de imagens ......................................................................................... 69 9.1 – Alacto-Açoreana............................................................................................ 70 Álbum 23 de imagens ......................................................................................... 71 9.2 – Uma referência à Lacto-Lima........................................................................ 75 Álbum 24 de imagens ......................................................................................... 75 Conclusão ....................................................................................................................... 76 Bibliografia..................................................................................................................... 77

A EVOLUÇÃO DA INDÚSTRIA DE LACTICÍNIOS EM VALE DE CAMBRA

Introdução

Tempos existiram em que a paisagem agrícola e florestal era uma nota dominante do quadro paisagístico do nosso concelho. Na realidade, o gado bovino e caprino abundava nesta nossa terra, ora utilizado como força que ajudava o lavrador nas suas lides agrícolas ora como fonte de sustento e rendimento. O gado arouquês predominava, sobretudo nas zonas serranas e os rebanhos atravessavam os nossos montes. Pela maior produção de leite e maior rendimento que traziam aos lavradores, as “vacas leiteiras”, importadas da Holanda, foram substituindo o gado “arouquês”. Com a entrada de Portugal na CEE, a paisagem agrícola vai-se progressivamente alterando i aquela que foi a actividade impulsionadora da indústria do nosso concelho, vai, aos poucos e poucos, dando lugar a novas indústrias, deslocando-se as populações serranas para o vale, encontrando aqui trabalho e outras fontes de rendimento. Este afluxo populacional não deixou de se reflectir no quadro urbanístico e paisagístico do concelho. Na sede surgiram novas construções e o património arquitectónico foi irremediavelmente perdido. “A Suíça Portuguesa” de que nos fala Ferreira de Castro, já não mais existe. A cidade tornou-se sombria e os montes que a cercavam tornaram-se escuros e aterra queimada, originada, concerteza, entre outros factores, pelo abandono a que foi votada a actividade agrícola e florestal. Ao realizar este trabalho, tenho a consciência de que muito fica por desvendar, sobretudo sobre o período em que a manteiga era produzida em casa dos próprios lavradores, essencialmente sobre o processo de produção. A descoberta de fontes de informação na imprensa da época ficou aquém das expectativas. Procurei junto das Conservatórias, cartórios notariais e Arquivos Distritais, de Vale de Cambra, Aveiro e Lisboa, escrituras que de alguma forma me permitissem reconstituir a “História dos lacticínios em Vale de Cambra”. Descobri as primeiras escrituras de constituição da “Martins & Rebelo” celebrada em 30 de Janeiro do ano de 1906, e a da “Lacto – Lusa” efectuada em 12 de Novembro do ano de 1940. Foram também descobertos, a partir daí, outros averbamentos relacionados com estas duas firmas que no presente já desapareceram.

A integração de Portugal na Comunidade Europeia e a consequente reforma das políticas agrícolas vieram a acabar com os pequenos produtores que da agricultura tiravam a sua principal fonte de rendimento. Agora já não o é mais!

Álbum 1 de Imagens

Imagem 1 – Gandra 1910 …

Imagem 2 – Vale de Cambra 1935 Imagem 3 – Vale de Cambra 1960

Imagem 4 – Café Arcádia Imagem 5 – Vale de Cambra em dia de feira

Imagem 6 – Vale de Cambra anos 50

Imagem 7 – Vale de Cambra visto das Baralhas 1950

Imagem 8 – Jardim em 1950 Imagem 9 – Lavra em Coelhosa Imagem 10 – Merenda após sementeira

Capítulo I A Política Agrícola Comum

1 – A integração de Portugal na CEE e os impactos da Política Agrícola Comum (PAC)

O processo da criação e implementação da Política Agrícola Comum (PAC) decorreu entre 1957 e 1962. Os seus primeiros objectivos passavam pela supressão das necessidades e pelo combate à escassez do pós – guerra. Procurava-se aumentar a produção agrícola de modo a aumentar o consumo, uma vez que nesta época se verificava um excesso de procura. Até à década de 90 a PAC baseava-se em objectivos que procuravam que a Europa fosse auto-suficiente, face à escassez da pós-guerra. A política que daqui surgiu era extremamente rígida e com bastantes subsídios. A partir da agenda 2000, a PAC tem como objectivos, não só a qualidade de vida dos agricultores, como também a sustentabilidade do meio rural. Hoje, a PAC é mais simples e tem custos inferiores. É uma política orientada para o consumidor, uma vez que as suas maiores preocupações são agora o bem-estar animal, a segurança alimentar e a defesa do meio ambiente. A PAC procura satisfazer, não só as necessidades dos agricultores, mas também da sociedade em geral. Com a adesão de Portugal à União Europeia, o Sector Leiteiro nacional sofreu, nas últimas décadas, um desenvolvimento significativo, passando para actividade fonte importante de riqueza e bem-estar. A agricultura tem, na maior parte dos países, uma enorme importância para a sociedade, uma vez que procura dar resposta às necessidades alimentares, tendo constituído sempre uma prioridade para os responsáveis políticos europeus, sobretudo quando se realizaram as negociações do Tratado de Roma. Os princípios da Política Agrícola Comum (PAC) foram definidos neste mesmo tratado, na Conferência de Stretch em Julho de 1958. A PAC é composta por um conjunto de normas e mecanismos que regulam a produção, as trocas e o processamento dos produtos agrícolas na União Europeia (UE), com uma incidência cada vez maior no desenvolvimento rural. A PAC é considerada como uma das mais importantes áreas de intervenção política da UE. Essa importância é comprovada pelo peso que é atribuído à PAC no orçamento da União Europeia (cerca de 50%) e pelo vasto número de pessoas e dimensão do território a que esta se aplica. A importância da PAC está, ainda hoje, evidente no facto de estar directamente ligada ao Mercado Único e à União Económica e Monetária (UEM), dois elementos base da integração europeia. Os grandes objectivos da PAC presentes no artigo 39º do Tratado de Roma são ainda os que vigoram nos nossos dias e são os seguintes: • Incrementar a produtividade da agricultura, fomentando o progresso técnico, assegurando o desenvolvimento da produção agrícola e a utilização óptima dos factores de produção, designadamente da mão-de-obra; • Assegurar, deste modo, um nível de vida equitativo à população agrícola, designadamente pelo aumento do rendimento individual dos que trabalham na agricultura; • Estabilizar os mercados; • Garantir a segurança dos abastecimentos;

• Assegurar preços razoáveis nos fornecimentos aos consumidores; (PINHEIRO, António Cipriano Afonso; CARVALHO, Maria Leonor da Silva Economia e Políticas Agrícolas. Lisboa: Edições Sílabo, 2003, p. 257) Estes objectivos reflectem a procura de eficiência económica, equidade social e segurança alimentar. Com a finalidade de os atingir, o artigo 34º do Tratado CE prevê a criação de Organizações Comuns dos Mercados Agrícolas (OCM) que, conforme os produtos, pode assumir uma das seguintes formas: • • • Regras comuns em matéria de concorrência; Coordenação obrigatória das diversas organizações nacionais de mercado; Organização europeia de mercado.

Actualmente, existem OCM’s para grande parte dos produtos agrícolas da UE. Estas organizações são essenciais no mercado comum agrícola já que eliminam barreiras ao comércio intra-comunitário de produtos agrícolas, mantendo uma barreira aduaneira comum face aos países terceiros. São três os princípios fundamentais, adoptados desde 1962, que caracterizam o mercado agrícola comum e, por inerência, as OCM: Mercado unificado, o que implica a livre circulação de produtos agrícolas no território dos Estados-Membros e a afectação de meios e mecanismos comuns em toda a União Europeia para a organização; Preferência comunitária, tal significa que os produtos agrícolas da União Europeia gozam de preferência e têm preços vantajosos relativamente aos produtos importados; significa ainda, a protecção do mercado interno face aos produtos importados de países terceiros a preços baixos e face às grandes flutuações de preços no mercado mundial;

Solidariedade financeira, ou seja, todas as despesas e gastos resultantes da aplicação da PAC são suportados pelo orçamento comunitário. As organizações comuns de mercado são as disposições fixadas pelas decisões comunitárias que regulamentam a produção e o comércio dos produtos agrícolas de todos os Estados-Membros da União Europeia. Desde a instituição da Política Agrícola Comum substituíram, progressivamente, nos sectores onde isso foi necessário, as organizações nacionais de mercado. As organizações comuns de mercado visam, sobretudo, cumprir os objectivos da Política Agrícola comum. As OCMs abrangem cerca de 90% da produção agrícola final comunitária. A PAC é a política da União Europeia mais controversa e onerosa, do ponto de vista orçamental. A UE tem maior poder de intervenção na política agrícola do que em qualquer outra política, pelo que a legislação agrícola seguida tem, pela sua grandeza, maior importância do que a de qualquer outra política comunitária.

A aplicação da PAC é financiada pelo Fundo Europeu de Orientação e Garantia Agrícola (FEOGA) que representa uma parte substancial do orçamento comunitário, tal como foi referido. O FEOGA foi criado em 1962 e, dois anos depois, foi dividido em dois segmentos: • FEOGA-Orientação, direccionada para a implementação de medidas estruturais destinadas a suportar a produção; • FEOGA-Garantia, que financia as despesas relativas à organização comum dos mercados. A secção "orientação" faz parte dos fundos estruturais vocacionados para promover o desenvolvimento regional e reduzir as disparidades regionais na Europa. O enorme peso orçamental do FEOGA-Garantia explica o facto de o custo da PAC ter vindo a ser excessivamente pesado em termos de orçamento comunitário, e decorre do notável proteccionismo em relação ao sector agrícola. Desta forma, não será de estranhar a baixa competitividade da agricultura europeia, uma vez que esta está dependente de mecanismos artificiais de ajustes de preços (NUNES, Artur Figueiredo – Leite Mecanismos de Produção. [s.l.], Federação Nacional das Cooperativas de Produtores de Leite, 2004, p.15). Isto significa que a agricultura europeia não se submete às leis gerais do mercado, o que resulta muitas vezes em excessos de produção. O FEOGA-Garantia é ainda, classificado como despesa obrigatória no orçamento comunitário, podendo ainda concluir-se que a execução do FEOGA-Garantia, em Portugal, representa em média apenas 1,8% da execução na UE, tendo-se registado uma diminuição em 1996, situação que se mantém até 1999. Assim, de uma forma geral, o FEOGA apresenta um contínuo aumento até 1997 e alguma oscilação nos anos seguintes. A União Europeia é o maior importador e segundo maior exportador de produtos agrícolas. Desta forma, o comércio agrícola assume um papel preponderante para a UE. A União Europeia faz parte da Organização Mundial de Comércio, como tal, participa de negociações e acata decisões tomadas no seio da organização. A UE, no seu papel de grande exportador de produtos alimentares, tem como objectivo alargar as oportunidades exportadoras, bem como reduzir as barreiras aduaneiras não justificadas. A Organização Comum dos Mercados visa a viabilização da PAC, actuando através de regimes de preços e de trocas. Foi criada em 1968, remodelada em 1984 e em 1987, ano no qual foram introduzidas as quotas leiteiras e reduzida a intervenção pública. Estão incluídos na OCM do leite e produtos lácteos, o leite e a nata de leite (frescos, conservados, concentrados ou açucarados); o leitelho, leite e nata coalhados, iogurte, outros leites e natas fermentados ou acidificados; o soro de leite (mesmo concentrado ou adicionado de açúcar); manteiga e outras matérias gordas provenientes do leite; queijos e requeijão; lactose e xarope de lactose bem como alimentos compostos para animais à base de produtos lácteos.

O organismo de Intervenção (INGA, no caso português), normalmente em caso de descida do preço de mercado para níveis preestabelecidos, compra toda a produção que o produtor lhe queira vender, a um preço também pré-estabelecido. A protecção do mercado interno está condicionada pelos acordos do GATT, funcionando através da aplicação de direitos alfandegários sobre as importações de países terceiros. De maneira a permitir a exportação de produtos lácteos comunitários com base nos preços do mercado mundial, a União pode cobrir essa diferença com uma restituição à exportação. Essa restituição é a mesma para toda a União e é diferenciada segundo os destinos e o produto exportado, sendo o valor fixado regularmente em sede de Comité de Gestão. Segundo os acordos do GATT, a UE encontra-se obrigada a respeitar em cada ano determinados limites, quer em volume, quer em montante total das ajudas atribuídas. O Sector do Leite foi dos primeiros sectores a ser regulado no âmbito da Política Agrícola Comum. A criação de quotas à produção, em 1984, veio dar resposta à necessidade de combateras denominadas “montanhas” de leite em pó e manteiga que então se verificavam. Este sistema caracteriza-se pela imposição de um limite máximo de produção a cada Estado-Membro. Acima desse limite, os produtores ficam sujeitos ao pagamento de uma multa por litro de leite. Ao adoptar o regime de quotas leiteiras, a Comunidade recorria a um instrumento administrativo muito restritivo para atingir o objectivo de manutenção dos preços no produtor, controlando simultaneamente a produção e as despesas. Inicialmente delineado com uma duração de cinco anos, o sistema de quotas leiteiras foi sendo prolongado, tendo-se decidido na Agenda 2000 mantê-lo até 2007/2008,vindo a verificar-se um aumento linear de 1,5% a partir de 2005/2006, tendo este sido ainda prolongado até 2014/2015 pela Revisão Intercalar. Importa definir que a Campanha Leiteira é o período entre 1 de Abril e 31 de Março do ano seguinte, e que a Imposição Suplementar é uma penalização que incide sobre as quantidades de leite, ou equivalente-leite, entregues durante uma campanha leiteira que excederam as respectivas quotas. A Imposição Suplementar reverte a favor do Fundo Europeu de Orientação e de Garantia Agrícola (FEOGA). As quotas leiteiras é o volumes de produção leiteira repartidos entre os EstadosMembros e, no interior de cada um deles, entre produtores (quotas individuais), com o objectivo de equilibrar a oferta e a procura, bem como limitar os excedentes de produção na Comunidade. O sistema de quotas permitiu controlar produções e orçamentos bem como estabilizar o rendimento dos produtores e contribuir para que em determinadas regiões se preservasse o tecido rural (não foi o caso da Beira Litoral). A maioria dos EstadosMembros tem utilizado a totalidade da sua quota tendo mesmo vindo a excedê-la em parte devido ao aumento da produtividade do efectivo leiteiro (como aconteceu nos Açores).

Capítulo II A indústria de lacticínios

2 - O que resta da actividade?

Restam as marcas, ainda bem vincadas da sua existência. As instalações fabris e os inúmeros postos de recolha de leite espalhados pelo concelho são testemunhos próprios de uma actividade que foi a principal fonte de rendimento de muitos agregados familiares. No que se refere à Martins & Rebelo, o edifício encontra-se desocupado e a sociedade foi liquidada. As dívidas acumuladas levaram à sua falência e consequente encerramento no ano de 2001. O edifício da Lacto-Lusa serve actualmente para funcionamento da Câmara Municipal. As quotas dos accionistas foram vendidas a um Fundo de Investimento de capitais estrangeiros, passando a laborar em Teamonde com a designação de LactoIbérica. Actualmente é propriedade de uma empresa francesa – a “BEL Portugal”. Por imposição e regras comunitárias, os lavradores deixaram de se dedicar a produção do leite. Já não se faz a recolha e a fábrica produz somente o queijo tipo flamengo, marca “Limiano”. O queijo “Pastor”, que foi uma marca que dominou o mercado nacional, deixou de se ver nas prateleiras dos hiper e supermercados. Foi assim com o queijo, foi assim com a manteiga”Lusa”. Se actividade industrial do concelho se desenvolveu com a indústria de lacticínios o património arquitectónico desapareceu com o afluxo populacional que aquela originou e consequente pressão imobiliária. Recordo aqui alguns pormenores através de pinturas de A. Barros.

Álbum 2 de imagens

Imagem 11– Av. Camilo Tavares de Matos (1940) Imagem 12 – Av. Infante D. Henrique (1940) Imagem 13 – Jardim e edifício da C. M. (1950) Imagem 14 – Jardim e edifício da C. M. com neve

Imagem 15 – Mercado municipal (1940)

Nos Açores, há mais de uma década atrás, antes de ser edificada na zona dos Vales actual União de Cooperativa Agrícolas da Ilha das Flores, responsável pelo fabrico do famoso e premiado “Queijo da Ilha”, quem laborava o leite e derivados deste na Ilha das Flores era a empresa continental Martins & Rebelo Lda., que efectuava a recolha do leite pelos diversos postos espalhados pelas freguesias da Ilha. Hoje, após o encerramento desta unidade de fabrico, ficaram dispersos pela ilha os resquícios da sua passagem. São vários os postos de recolha de Leite agora abandonados que diariamente reuniam a matéria-prima necessária ao fabrico, a fim de ser transportada em barris de alumínio de 50L, porque na altura ainda não se viam por aí a circular, carrinhas tanque com refrigeração. A Martins & Rebelo Lda. possuía na zona da “lomba da Vaca” uma considerável área de exploração pecuária, onde ainda hoje estão instalados vários edifícios então utilizados para a criação e manutenção de gado bovino, bem como, acredite-se, a cura e embalagem do queijo para posterior embarque via marítima. Destas instalações resta hoje a configuração exterior original, uma vez que os interiores foram recuperados e reutilizadas por uma empresa de exploração de madeiras que viria mais recentemente a ali instalar-se. A configuração “sui generis” destas instalações (consequência da utilização inicial para o qual foram edificados) bem a sua localização, isolada no meio de amplos terrenos de pasto, fazem desta zona de mato, quanto a mim, uma das mais singulares da ilha e que provavelmente apenas alguns conhecem, uma vez que estas instalações ainda distam um pouco da estrada regional, de onde é impossível vislumbrá-las. Em adição a estas, ficou ao abandono também a unidade fabril contígua á Ribeira dos Barqueiros, onde hoje restam ainda passíveis de reutilização as divisões ocupadas pelos “grafitis” e onde abunda no chão ainda documentação da antiga empresa.

Tempo houve em que todas as famílias da zona tinham um ou outro familiar ligado na laboração do produto, porém hoje parece estar longe alguma solução para esta área que se limita a ser lentamente derrubada pelo esquecimento (Soares, Sandro. (2008), http://kanadasekaminhos.blogspot.com/2008_07_01_archive.html). Em Vilar Maior, terra de cabras, ovelhas e vacas, o leite desempenhou um papel importante na economia. Antes da emigração massiva da segunda metade do século XX, não era um produto mercantil e nunca constituiu propriamente um produto a explorar. As vacas eram primariamente animais de trabalho e para além de alimentarem as crias, pouco restava. Dava para o consumo de casa, fabrico de queijo para consumo familiar e curando alguns para vender no mercado. Um pouco o mesmo com o leite de cabra e de ovelha. Quando paria uma fêmea presenteavam-se os padrinhos, algum amigo ou um qualquer a quem se devia um favor. Para os mais novos era o primeiro leite que se tirava e que era encaroçado, cozido e acrescentado um pouco de açúcar. Ficava um manjar de fazer inveja aos deuses! O queijo, para além do enchido, constituía o principal peguilho ou conduto para acompanhar o pão. A merenda habitual, verdadeiramente feita de produtos naturais, era constituída por vinho, queijo e pão de centeio. A partir da década de sessenta, progressivamente, as searas do gado acabaram, o número de cabras diminui e as juntas de vacas vão também desaparecendo. As vacas castanhas de trabalho vão dar lugar a vacas pretas ou taurinas que dão maior quantidade de leite. Este começa a tornar-se a maior fonte de receita interna de Vilar Maior. Mais que uma vez por semana, vinha uma camioneta da Martins & Rebelo de Vale de Cambra fazer a recolha do leite. Talvez durante uns trinta anos. O posto de recolha era a casa de um particular que acordava com a empresa as condições do serviço que prestava. Há já alguns anos, tanto quanto sei, não se recolhe leite em Vilar Maior. (Extraído do blog de julmar, Memórias de Vilar Maior, minha terra minha gente, acedido em 12 -09-2008).

Álbum 3 de imagens

Imagens 16 e 17 – Posto de recepção do leite (Cavadas – M. Cambra)

Imagem 18 – Martins & Rebelo (1937)

Imagem 19 – Outro pormenor da Martins & Rebelo (1937)

Imagem 20 – Lacto-Lusa (vista aérea) Imagem 21 – Fábrica da BEL Portugal em Teamonde Imagem 22 – Outro aspecto da BEL Portugal Imagem 23 – Lacto-Lusa (publicidade e foto) Imagem 24 – Queijo Pastor

Imagens 25 e 26 – publicidade ao queijo Limiano

E quem não se lembra dos produtos “Primor”? Da manteiga “União” e do leite achocolatado? Quem não se lembra de, primeiro “à cabeça” e depois em “carrinhos de mão”, muitos cambrenses irem buscar o “soro” para alimentarem os suínos? Dos camiões que atravessavam o nosso concelho e outros mais distantes, que faziam o transporte do leite e o produtor, por sua vez, o levava ao “posto”, de manhã e ao escurecer? Recordações de um passado recente que deixamos de ver!

Álbum 4 de imagens

Imagem 27 – Vacas arouquesas na serra da Freita Imagem 28 – Campo de lavoura 1954

Imagem 29 – Junta de bois arouqueses puxando carro (Rôge)

Imagem 30 – Rebanho

Capítulo III A evolução histórica

3 – As referências iniciais

No ano de 1953, num artigo publicado na Revista do Arquivo do Distrito de Aveiro, sobre a indústria de lacticínios na região, pode ler-se que: “O grau de prosperidade duma região depende essencialmente da riqueza do seu solo, da intensa e racional exploração deste e do desenvolvimento industrial que aí se registar. As restantes actividades estão, por via de regra, estreitamente subordinadas aquelas e ao afluxo populacional que determinam ou que as condições de vida do meio permitem. A elevada densidade de população que se verifica no distrito de Aveiro pode em grande parte explicar-se pela extraordinária importância agrícola e industrial da região. No caso particular da indústria de lacticínios à base do leite de vaca, o distrito de Aveiro constitui o fulcro da sua área principal e é nele onde essa actividade atingiu maior desenvolvimento. Para documentar o que se acaba de referir, bastará indicar que ao distrito de Aveiro cabem cerca de 77% da produção de lacticínios do Continente. A indústria absorve na região cerca de 60% da produção de leite de vaca, avaliada no ano de 1951 em cerca de 65 milhões de litros. Vemos assim que o maior contingente de produtos lácteos é fornecido pela região aveirense, pertencendo-lhe inteiramente a produção de produtos dietéticos, leite condensado, leite em pó e lactose e grande parte dos produtos de tecnologia mais delicada.

A produção total de lacticínios do distrito pode atribuir-se, no ano em referência, o valor aproximado de 110 mil contos, contra cerca de 70 mil contos do valor da matéria prima industrializada, cerca de 50 milhões de litros. Naquela importância não está incluído o valor dos principais subprodutos: 350.000 Litros de leite magro, 1.800.000 litros de leitelho e 18.000.000 de litros de soro de queijo e caseína utilizados na alimentação de animais ou noutros fins. Apesar da enorme importância da produção de leite na região, o valor desta é inferior ao de vários produtos agrícolas e pecuários, tais como o vinho, a carne, a batata e o milho, que excedem em muito os 100 mil contos anuais, assim como o valor da respectiva indústria é, nalguns casos, bastante inferior ao de outras actividades industriais, mesmo sem falar naquelas que constituem empreendimentos com verdadeira projecção em todo o País. Todavia, se situarmos aquela modalidade industrial no quadro das actividades regionais, ela pode, mercê da posição relativa que ocupa, do progresso que atingiu e da série de problemas que envolve, ser considerada das mais importantes. Por estes motivos e pelas tradições que a indústria de lacticínios tem no distrito, afiguras-nos de interesse arquivar nas notas que vão seguir-se os factos mais salientes da sua evolução e do incontestável desenvolvimento e aperfeiçoamento atingidos nos últimos anos. Assim, na evolução da indústria de lacticínios no distrito de Aveiro podemos considerar três períodos: 1º - Da sua origem a 1923; 2º - De 1924 a 1938; 3º - De 1939 à presente data. O 1º Período: — Corresponde à época que decorre até 1923 e compreende duas fases distintas. A primeira vem das mais recuadas épocas e estende-se até ao fim do século XIX (1892), altura em que são introduzidas as desnatadeiras centrífugas na região. As notícias mais antigas que atestam a preparação da manteiga nesta região datam de 1513. Em foral de D. Manuel i, dado em Dezembro daquele ano à vila de Arouca, fazem-se referências a este produto. Em 1640 todos os proprietários de vacas da freguesia de S. Pedro de Castelões de Cambra tinham incluído nos seus foros o pagamento de meio quartilho de manteiga ou meio tostão em dinheiro, por cada animal. (Rectificação do Tombo relativa à freguesia de Castelões). Em 1870 escrevia o Intendente da Pecuária, António Augusto dos Santos:

«Em Cambra e mais terras que compõem o solar da família bovina arouqueza, o leite de vaca é convertido tão-somente em manteiga. Nenhum se aplica ao fabrico do queijo. É geralmente mal preparado aquele lacticínio. À imperfeição do seu preparo deve atribuir-se sobretudo a má qualidade da manteiga. A estatística oficial relativa ao ano de 1870, acusa nos cinco concelhos, que total ou parcialmente constituem o solar da raça arouqueza, a produção de 17.902,5 kg de manteiga que ao preço médio de 340 reis, dão o valor de 6.086850 reis.» Do relatório acerca do estudo da indústria pecuária no distrito de Aveiro, relativo a 1876 e 1877, publicado em 1878, transcrevemos as seguintes referências: «As explorações económica e zootécnica da espécie bovina neste distrito reduzemse à produção, criação e recriação de novilhos — trabalho, e produção de lacticínios...». E mais adiante: «Está muito atrasada a indústria de lacticínios neste distrito como geralmente o está em todo o País». No mesmo trabalho se afirma que a indústria de fabricação de manteiga estava quase limitada aos concelhos de Sever do Vouga, Cambra, Arouca e Paiva, sendo uma pequena parte consumida nestas localidades e a restante vendida para Aveiro, Porto, Coimbra, Santarém, Lisboa e outras terras do Sul. Estrabão regista que o uso de manteiga na Lusitânia vem desde 60 anos antes de Cristo. A maior exportação deste lacticínio fazia-se de Cambra, por intermédio da Estação de Estarreja. O autor dos referidos relatórios (o Intendente de Pecuária, Manuel F. de Oliveira Coutinho) calculava que do concelho de Cambra saíam anualmente cerca de 40.000 kg de manteiga, embora parte fosse produzida nos concelhos vizinhos. Até à introdução das desnatadeiras centrífugas eram os próprios lavradores que extraíam a manteiga pelo primitivo processo da cântara de barro e touco, prática que ainda, por vezes, se realiza nos lugares mais recônditos da Serra. Consistia essencialmente em guardar o leite na cântara de barro durante dois ou três dias para facilitar o afloramento da gordura, aumentar a acidez e permitir um maior rendimento em manteiga. No Boletim da Direcção Geral da Agricultura (8º ano, nº 1, pág. 23) — refere-se: que o modo de preparo da manteiga foi talvez introduzido pelos árabes, pois que, nos arredores da capital, se usam processos de todo idênticos ao que as actuais populações muçulmanas da Ásia Menor empregam». O processo em referência era conhecido pela designação de «massar o leite». A sua descrição sumária permite avaliar a natureza e péssima qualidade da manteiga, por via de regra conspurcada de moscas, larvas, pêlos, etc, apresentando muitas vezes aspecto verdadeiramente repugnante. Os lavradores vendiam a manteiga assim obtida a intermediários que, depois de reunirem quantidades apreciáveis, a submetiam a uma salga feita à mão na típica

masseira, colocando-a a seguir nos centros de consumo, embalada em tigelas de barro, cestos de vime ou latas. Este processo circunscrevia-se quase exclusivamente à zona serrana, solar da raça bovina arouqueza, constituindo o natural aproveitamento do leite que excedia da amamentação das crias e do parco consumo em natureza. Mota Prego considerava este processo pouco generalizado e apenas em uso pelos pequenos agricultores do distrito de Aveiro, cuja manteiga de má qualidade era sobretudo consumida pelo mercado do Porto. Nessa altura, de facto, a técnica de fabrico utilizada era rudimentar e inteiramente caseira. A segunda fase deste período inicia-se com a introdução das desnatadeiras centrífugas na região e corresponde à generalização das referidas máquinas por quase todo o distrito. Pode considerar-se como a de «iniciação industrial». Em 1892, montou-se no escritório duma casa comercial de Sever do Vouga a primeira desnatadeira. Em 1893, surge em Sanfins do mesmo concelho a primeira fábrica de manteiga com finalidade industrial. A instalação desta fábrica deve-se à iniciativa do Visconde de Nandufe, a quem se atribui também a introdução das desnatadeiras centrífugas no País e a montagem, anos antes, duma outra fábrica em Tondela. Aquele titular dedicava-se com entusiasmo à preparação da manteiga, pois em 1894 estabelecia uma rede de postos de desnatação e de fábricas por todo o distrito. A sua falência, em 1924, obrigou-o a passar os restos dessa actividade para um seu feitor, o qual a abandonava totalmente em 1932. Em 1896, um grupo de vendedores de manteiga estabelece em Vale de Cambra outra fábrica de manteiga, e, em 1906,constituiu-se na mesma localidade uma firma em regime de sociedade que emprestou também grande impulso ao fabrico desse produto (o autor refere-se à firma Martins e Rebelo). Em 1896, é decretado que a Frutuária de Castelo de Paiva funcione como escola de lacticínios, sendo o respectivo plano de organização aprovado no mesmo ano pouco tempo depois. Não foi fácil colher elementos seguros sobre o exercício da Frutuária. As poucas informações que obtivemos levam-nos a supor que a escola de lacticínios não chegou a funcionar. A circunstância do País deixar de exportar gado bovino para a Inglaterra, a partir de 1895, levou a lavoura a interessar-se pelo fabrico de manteiga.

Neste último ano são decretadas providências relativas à fiscalização da venda do leite e lacticínios. Em 1905, o Visconde de Nandufe apresentava no Congresso de Leitaria, entre outras, as seguintes considerações: «O fabrico de manteiga pelo processo do repouso, ainda bastante praticado no País, deve ser proibido. Tem gravíssimos inconvenientes: O primeiro, é ser nocivo, porque sendo a manteiga por este processo obtida de nata da qual a mais antiga tem, por vezes, dez, doze e mais dias, não é nata o que se pretende transformar em manteiga, mas sim uma substância repugnante à vista, mal cheirosa e cheia de vermes, além de micróbios de toda a espécie; O segundo inconveniente deste processo, ou antes, da forma por que ele é praticado, está em que o produto obtido por esta forma não é manteiga, mas sim um produto falsificado em que predomina a caseína e a matéria azotada, esta proveniente dos vermes desenvolvidos por milhares... durante o tempo em que a nata esteve em repouso...». Em 1906, o professor Mota Prego considerava «a indústria de fabrico de manteiga de rudimentar e pouco importante, visto que o consumo deste produto no País era sustentado por uma grande importação de Inglaterra». Com o rodar dos anos, sucedem-se e realizam-se várias tentativas, embora na maioria infrutífera, para o estabelecimento do fabrico do queijo, em imitação do que já se fazia nos países estrangeiros de maior produção de leite. Assim, de 1902 a 1914, o Visconde de Salreu dedicou-se em instalações próprias, à preparação do queijo do tipo holandês, o que maior contingente ocupava no mapa das nossas importações. Em 1905, aparece na Feira outra tentativa com vistas ao fabrico de queijo do tipo de pasta mole. Este empreendimento sucumbe no ano imediato, data em que a firma Molândia inicia a preparação do queijo em Válega — Ovar. Nesta fábrica, cujo desaparecimento teve lugar em 1924, preparou-se queijo de tipo holandês, no intuito louvável de se abastecer o mercado com produtos fabricados no País. Apesar de algumas instalações serem consideradas modelares para a época, — é o caso da fábrica de Salreu todas as tentativas soçobraram perante a insuficiência de meios adequados, deficiência de instalações e falta de conhecimentos para trabalhar leite produzido em condições de higiene e salubridade. Ao tempo que estas tentativas tinham lugar, assistia-se a uma intensa pulverização de fábricas de manteiga e postos de desnatação.

Ao período de guerra que começou em 1914, segue-se o tabelamento da manteiga em 1918. Embora fosse de prever que esta medida traria como consequência um certo abrandamento ao desenfreado interesse na instalação de novos estabelecimentos, o que é certo é que estes aumentaram em grande escala. Do que se deixa dito somos levados a concluir que este período inicial da indústria de lacticínios teve a caracterizá-lo: a) O aumento progressivo do número de estabelecimentos; b) A falta de condições higio-técnico-económicas de laboração, funcionando os estabelecimentos em adegas, estábulos, cozinhas, alpendres, nas piores condições de salubridade; c)A transformação dum leite mau em manteiga de péssima qualidade e sem poder de conservação; d) O irremediável e lógico fracasso das tentativas para o aproveitamento integral do leite. O 2º Período decorre desde 1924 até 1939, ano em que a indústria é organizada (Decreto n.° 29.749, de 13/7/939 e Portaria n.° 9.733, de 10/2/941). Nos primeiros anos deste período regista-se a publicação de dois diplomas legais, com o fim de assegurarem, na instalação e funcionamento dos estabelecimentos, as condições de higiene e de salubridade indispensáveis (Decs. n." 10.195 e 16.130). Como se disse atrás, os postos e fábricas polulavam por toda a parte da região, instalados, por vezes, em antros de verdadeira imundície. Aos diplomas citados deve-se realmente a disciplina e o progresso que a partir dessa altura se operou na indústria: o primeiro, estabelecendo os preceitos higiénicos a observar no fabrico dos produtos; o segundo, promulgando várias medidas relativas às condições a que deviam obedecer os estabelecimentos de lacticínios. Além destes pontos essenciais, aqueles diplomas inserem várias disposições sobre armazenagem e venda dos produtos e tornaram obrigatório o licenciamento dos estabelecimentos de preparação de natas, manteiga, queijo e outros derivados do leite, seja qual for a sua extensão e natureza. A execução dos decretos a que nos vimos reportando competia e compete quase exclusivamente à Direcção-Geral dos Serviços Pecuários. Nos primeiros anos que se seguiram à sua publicação, organizou-se o cadastro dos estabelecimentos em exercício e iniciou-se a obrigatoriedade do seu licenciamento. Por alturas de 1926, é determinado um inquérito para conhecimento do estado e exigências da indústria de lacticínios no País.

Só a partir de 1933 podemos considerar extensiva a todas as oficinas a obrigatoriedade de possuírem a respectiva licença sanitária. De 1925 a 1930 a indústria do fabrico de manteiga atravessou um período de crise pela concorrência da margarina. Este produto invadiu o mercado em embalagens originais e serviu, ao mesmo tempo, para a prática de fraudes por falsificação da manteiga. Em 1930, inicia-se em Vale de Cambra nova tentativa de fabrico de queijo, a qual só vê resultados práticos assegurados a partir de 1933. Este período foi de grande entusiasmo pelo fabrico daquele produto, pois que se estabelecem no distrito fábricas em Estarreja (1931), Feira (1933), Avança (1933) e Vale de Cambra (1934). O êxito que ia alcançando o fabrico do queijo, a secagem do leite praticada em pequena escala desde 1924, o aparecimento de farinhas lácteas em 1934 e o da caseína cujo fabrico data de 1936, marcam o início da fase verdadeiramente industrial. Começa a fazer-se em extensão o total aproveitamento do leite, valorizando o leite magro na preparação dos vários produtos, até então quase inteiramente destinado à alimentação de animais. O distrito de Aveiro possuía nessa altura metade das fábricas existentes no País e cerca de dois terços dos postos de desnatação. Estes, na totalidade, ultrapassavam o número 500. Por alturas de 1934, são visitados pelos Serviços Oficiais os estabelecimentos e os seus proprietários são notificados a executar as beneficiações de que aqueles careciam. Estas determinações abrangeram 128 fábricas de manteiga; 312 postos de desnatação; e 15 postos de recepção. Apesar destas exigências, o número de estabelecimentos foi aumentando progressivamente, a ponto de em 1936 se ter verificado a necessidade de impedir que a indústria se pulverizasse mais. Assim é, naquela data, superiormente determinado o condicionamento da indústria e a suspensão de novos licenciamentos. Nos anos que decorreram de 1934 a 1938, verificou-se grande número de encerramentos, quer voluntários, por incapacidade técnica e económica dos proprietários, quer impostos pelos Serviços Oficiais, por falta de requisitos de ordem técnico-higiénicas nas instalações. São estas, a traços largos, as ocorrências de maior relevo verificadas no decorrer do período a que nos vimos referindo. No entanto, alguma coisa mais diremos acerca desta época. Na verdade essas disposições prestaram relevantes serviços ao País e podem considerar-se, para esse tempo, de superior concepção, pela visão clara do problema e metódico ordenamento dos pontos que visam.

Paralelamente às exigências feitas nas instalações, os Serviços Oficiais iniciam em 1934 uma campanha de assistência à indústria. Embora não transparecesse a apreciável melhoria que a pouco e pouco se ia verificando nas condições de laboração, procedeu-se, assim, em etapas sucessivas à beneficiação obrigatória das instalações, ao reapetrechamento das fábricas, dotando-as dos requisitos indispensáveis a uma melhor técnica. As exigências dos Serviços Oficiais incidiram, em especial, sobre os seguintes pontos: • Impermeabilização das paredes e pavimentos; • Isolamento das instalações e salubridade dos locais • (afastamento de estrumeiras e de estábulos); • Arejamento e ventilação convenientes; • Tectos forrados ou a estuque; e • Abastecimento de águas e canalização de esgotos. • Ao mesmo tempo a laboração era vigiada e exigia-se: • Conservação e limpeza das instalações e material; • Uso permanente de vestuário próprio e exclusivo para trabalho nos estabelecimentos; • Documentação sanitária de todo o pessoal; e • Lavagem e desinfecção do material utilizado na recolha e transporte do leite. Nos anos imediatos foram seguidas, com interesse, as técnicas de fabrico e foi prestada a necessária assistência. Aconselhava-se a montagem de frigoríficos, a pasteurização do leite e a fermentação das natas à base de culturas de fermentos lácteos próprios, etc. Fizeram-se demonstrações e experiências, orientava-se o fabrico e aconselhavam-se os pormenores de ordem técnica indispensáveis à obtenção de produtos de melhor qualidade. Ao mesmo tempo o Laboratório de Patologia Veterinária do Porto foi devidamente apetrechado, para efeito de poder distribuir gratuitamente fermentos lácteos pela indústria, de resolver as dificuldades de ordem técnica que surgissem aos industriais, de realizar os ensaios e os estudos necessários para que fossem divulgadas as normas a atender na preparação dos produtos. Dos vários estudos efectuados destacamos o que incidiu sobre o queijo nacional do tipo holandês, considerado pelo Prof. José Maria Roseli o mais completo do mundo. Reconheceu-se também a necessidade de ser criada uma Comissão de Vistorias a estabelecimentos de lacticínios que, em resumo, tinha como finalidades essenciais: a) Estudar e propor as remodelações necessárias nos vários estabelecimentos; b) Apreciar as condições dos locais previstos para novas instalações; e

c) Apreciar e pronunciar-se sobre os projectos relativos a estabelecimentos desta natureza. Os postos de recepção aparecidos em 1933, aumentaram de ano para ano e contavam-se por cerca de 90 em 1939. Um número que representava, por si só, um índice de progresso, dado que a sua missão principal é recolher leite em boas condições, com vistas ao abastecimento de fábricas onde existe a possibilidade de realizar o seu inteiro aproveitamento. Em 1939, 5 fábricas preparavam queijo, cotando-se a produção em cerca de 400.000 quilos, quantidade suficiente para evitar a importação deste produto. Sete anos depois a produção de queijo no distrito atingia 1 milhão de quilos. O elevado número de estabelecimentos e a sua confusa dispersão continuavam a permitir, na compra do leite, uma concorrência desmedida entre os industriais, concorrência à primeira vista salutar, mas no fim, quase sempre de funestas consequências para a própria produção. A subida exagerada de preços da matéria prima durante a luta entre os industriais sucedia quase sempre um largo período de baixa- por eliminação de alguns concorrentes ou por acordo entre eles. O aspecto geral que oferecia a indústria no fim deste período foi ainda essencialmente caracterizado pela grande dispersão e expressivo numerário dos estabelecimentos: 89 postos de recepção; 250 postos de desnatação;113 fábricas de manteiga (5 das quais preparavam queijo e outros produtos). Em resumo, neste período, deve destacar-se: • • • • • • • • • Instalações acanhadas e por vezes inadequadas; Reduzida capacidade de laboração e inconstante garantia da matéria prima; Incapacidade técnica e financeira da maioria dos proprietários; Deficiente apetrechamento; Ausência de condições para a formação de stocks. Daqui necessariamente resultava: Produção mais cara; Concorrência no mercado de produtos laborados; Frequentes oscilações no preço do leite.

A falta de frigoríficos que permitissem conservar e armazenar a super-produção dos anos de 1937 a 1939, facilitou a desmedida concorrência na venda da manteiga. Foram, sem dúvida, estas razões que levaram o Estado a organizar a indústria em moldes especiais, com vistas a conciliar e a garantir o justo equilíbrio dos interesses em causa. Pelo que temos lido e ouvido, podemos concluir que talvez fosse essa a solução que se afigurasse mais consentânea com as necessidades da época.

Referindo-se ao estado da indústria de lacticínios em Portugal, escrevia, em 1938, o Agrónomo Ernesto Burguette: «Chegamos, assim, logicamente, à concentração industrial como único meio, permitindo o melhoramento dos produtos e uma economia de laboração aceitável, da qual muito longe se encontram as nossas minúsculas fábricas actuais. De uma melhor economia e qualidade dos produtos beneficiarão, sem dúvida, o consumidor e o industrial, mas também com ele viria a lucrar o produtor, presentemente uma vítima das deficiências da indústria.» Reconhecida esta oportunidade, o Governo cria a Junta Nacional dos Produtos Pecuários, com cuja acção se inicia o período seguinte: O 3º Período: — Começa verdadeiramente com o aparecimento da J. N. P. Pecuários e é, por assim dizer, o período da concentração da indústria de lacticínios. O diploma que cria aquele organismo, impõe com clareza a orientação a seguir e os objectivos a atingir pelas suas diferentes secções. No caso particular da indústria de lacticínios esses objectivos eram: • Estudar as condições a que devem obedecer as fábricas para uma laboração económica, e promover a concentração da indústria por forma que todas as unidades que subsistissem desfrutassem dessas condições de laboração; • Definir as respectivas zonas de abastecimento; • Promover a supressão dos postos de desnatação considerados impróprios, inconvenientes ou de laboração deficientes. O referido organismo, servindo-se de estudos feitos e tomando em conta as médias de laboração do triénio 1937 a 1939, extraídos de elementos fornecidos directamente pelos industriais, dá imediata execução às determinações previstas na lei. Organiza e promove a concentração dos industriais e propõe o encerramento dos estabelecimentos considerados desnecessários. Diversos industriais agrupam-se em sociedades. Eram estes os primeiros efeitos da orientação que se entendia dever seguir em matéria de lacticínios. Logo que a maioria dos industriais se constitui nos agrupamentos previstos, são definidas as zonas de abastecimento (Portaria nº 9.733, de 10/2/941) para as novas unidades industriais. Aos proprietários dos postos de desnatação é garantida a indemnização respectiva, calculadas na base da sua quilagem média de laboração. Alguns proprietários de fábricas não entraram nas sociedades por sua livre vontade e outros aguardaram oportunidade de ver considerados os seus direitos, devidamente assegurados pelo organismo competente.

A definição das zonas de abastecimento para cada fábrica impunha necessariamente uma modificação profunda nas instalações existentes, as quais eram inadequadas, insuficientes ou incapazes, pelo seu apetrechamento, de laborarem em boas condições técnico-económicas os quantitativos de leite que lhe haviam sido atribuídos. Inicia-se assim uma época de renovação nas instalações da indústria de lacticínios, o que se consegue na maior parte com o decorrer dos anos. Os projectos das novas unidades fabris ou os projectos de ampliação das já existentes, foram apreciados e considerados em relação à provável laboração prevista e à natureza dos produtos a preparar. De uma maneira geral todas as instalações passaram a dispor de boas condições higiotécnicas, realizando-se as diferentes operações de fabrico segundo um ordenado esquema de trabalho. Os melhoramentos técnico-higiénicos introduzidos nas diferentes instalações fabris e estabelecimentos complementares, podem considerar-se notáveis, pois de instalações incipientes e antiquadas passou-se em pouco tempo para edifícios modernos e de boa concepção É certo que, nalguns casos, as exigências dos Serviços Oficiais foram excedidas pela iniciativa dos industriais que se abalançaram a empreendimentos de extraordinária grandeza. Observa-se assim que, embora decrescendo o número de postos de desnatação e de fábricas de manteiga, só em 1943 se verifica o desaparecimento dos estabelecimentos previstos na organização da indústria. Daí por diante o número de fábricas e de postos oferece certa estabilidade, embora nos últimos anos tenha aumentado o movimento de postos de recepção . Muitos estabelecimentos licenciados actualmente como postos de desnatação realizam apenas a recepção de leite. É natural que futuramente se observe aumento nos estabelecimentos daquela natureza, circunstância que poderá ser interpretada como retrocesso. Das 14 fábricas de lacticínios existentes apenas 3 fabricam exclusivamente manteiga; as restantes realizam o aproveitamento do leite na variada gama de produtos a que pode dar lugar. Durante o período a que nos referimos aumentou consideravelmente o fabrico de queijo e produtos dietéticos. Em 1941 inicia-se o fabrico de leite condensado. As zonas de abastecimento das fábricas definidas em 1941 são suspensas a partir de 1947 (Portaria nº 11.750, de 14/3/947).

Em 1948 entra em actividade o fabrico de leite em pó, pelo método de Krause e procede-se às instalações necessárias à preparação de lactose e ácido láctico, como elementos valorizadores do soro resultante do fabrico de queijo. Em 1949 inicia-se o fabrico de «Pelargon». A lactose e ácido láctico começam a produzir-se a partir de 1951 e em 1952 mais duas fábricas estão apetrechadas com a aparelhagem necessária para efectuarem a secagem do leite pelo processo de atomização. Ultimamente uma empresa deseja iniciar a preparação de albuminas e ensaia-se a secagem de soro para alimentação de animais. Não há dúvida de que da concentração da indústria resultaram benefícios que não podem ser postergados e que representam para o País riqueza apreciável. Entre os benefícios que a concentração industrial pôde trazer, destacaram-se: - Maiores possibilidades para a instalação e montagem de estabelecimentos fabris, em boas condições de higiene e salubridade, garantindo, ao mesmo tempo, uma laboração técnico-económica conveniente; - Reapetrechamento em condições de permitir um maior rendimento económico; - Integral aproveitamento do leite, com o aumento do fabrico do queijo e de outros derivados; - Aperfeiçoamento dos processos tecnológicos por uma gradual melhoria das técnicas de fabrico; - Mais eficiente controle do leite e melhoria apreciável nas condições de recolha e transporte; - Conservação e constituição de stocks reguladores do abastecimento público. Como reflexo da organização indicam-se ainda: • Redução considerável do número de estabelecimentos e aumento relativo da laboração diária; • Melhor qualidade e maior variedade dos produtos; • Garantia na colocação do leite e desaparecimento das frequentes oscilações de preços. «Assim, e em última análise, parece-nos que está fora de qualquer crítica a medida mandada pôr em execução pelo Governo, no sentido de se promover à concentração da matéria prima leite para fins industriais. De facto, a dispersão de pequenas unidades fabris - postos de desnatação e fábricas de manteiga - jamais podia corresponder às necessidades sempre crescentes da

população portuguesa em produtos lácteos e constituía uma aberração dentro do progresso industrial a que nos últimos anos assistimos no nosso País. No aspecto particular das instalações reiterámos que houve modernização e que atingimos até um grau de aperfeiçoamento muito razoável. Nos edifícios das novas fábricas estão montados e laboram os maquinismos mais modernos em uso nas indústrias lácteas. Estas condições permitem, além duma laboração em boas condições de higiene e salubridade, a prática de processos técnicos mais aperfeiçoados na preparação dos vários produtos. Ao mesmo tempo, a maioria das fábricas assegura o completo aproveitamento do leite. Em pouco tempo a indústria de lacticínios sofreu profunda remodelação e pode dizer-se que presentemente rivaliza com a indústria dos países mais progressivos em matéria de indústrias lácteas.

Não conhecemos no País outra actividade que em tão curto espaço de tempo atingisse o progresso e o grau de aperfeiçoamento registado na indústria de lacticínios. Apesar de estarmos longe de satisfazer as reais necessidades da população do País em matéria de lacticínios, o distrito de Aveiro contribui largamente com produtos de qualidade para minorar essas deficiências alimentares. São estes os factos que supomos de maior evidência na linha evolutiva da indústria de lacticínios no distrito de Aveiro» (Ralo, José A. Carrilho , Revista do Arquivo do Distrito de Aveiro, volume 19,nº 75,ADA, 1953).

4 – Da produção artesanal da manteiga à criação das primeiras indústrias no concelho

As primeiras referências à produção artesanal de derivados do leite encontram-se inscritas no Foral de Cambra, dado por D. Manuel I às Terras de Cambra, no ano de 1514. Aí estabelece-se uma comparticipação anual de uma determinada quantidade de manteiga à casa real. Além deste, não são raras as referências a foros e pagamentos destinados aos mosteiros de Pedroso, Arouca e aos Condes da Feira. Esta tradição, que parece ser uma das bases da economia local até às últimas décadas do século XX, sempre beneficiou de um microclima e com um alto regime pluviométrico, de solo granítico, bastante favorável à produção de forragens de qualidade. Dadas estas qualidades, a criação de gado bovino encontrou um local

propício ao seu desenvolvimento, proporcionando grandes quantidades de leite que cedo as populações começaram a crer aproveitar. Assim, até finais do século XIX, a região de Vale de Cambra baseava grande parte da sua economia na produção de leite e no fabrico de manteiga, mediante processos artesanais, que tornaram conhecida a região e motivaram a implantação das indústrias de lacticínios. Nos finais do século XIX, mais propriamente no ano de 1893, com a introdução das desnatadeiras centrífugas e com as óbvias melhorias de produção, fizeram com que não demorasse muito o incremento da produção de manteiga, como também, se lhe juntasse a produção de queijo. Esta crescente especialização levou à criação de uma das empresas pioneiras neste ramo, o Martins & Rebelo, sociedade fundada em Lisboa no ano de 1906 por António Cardoso Rebelo e Alfredo Martins. A sociedade que formaram começa inicialmente, precisamente em Lisboa pela comercialização de manteiga. Nesta altura já eram detentores de uma unidade de produção em Sátão. Iriam mudar para Vale de Cambra ainda neste mesmo ano. Com a instalação no Pinheiro Manso desta unidade industrial Vale de Cambra, passou a ser conhecida pela manteiga que produzia - a Manteiga União – que foi premiada numa exposição em Lisboa. O alargamento do mercado e o aumento da produção criaram a necessidade de uma melhor apresentação da embalagem destes produtos. Deste modo, a indústria de latoaria, nomeadamente litografada, torna-se também um dos principais ramos da indústria do concelho. Mas outras indústrias floresceram em Vale de Cambra, relacionadas não apenas com o aproveitamento dos seus recursos naturais, mas igualmente ligadas à produção de embalagens para a manteiga e o queijo que se produziam no concelho. Referimo-nos às fábricas de serração, tratamento de madeira de pinho e caixotaria bem como a da maquinaria.

Este período que apelidaremos de arranque da industrialização e que situaremos entre 1896 (data de introdução da primeira desnatadeira centrífuga) e 1940 (reestruturação dos lacticínios) define toda uma época caracterizada pelo aparecimento, no concelho, dos primeiros maquinismos accionados inicialmente por água (fábrica do papel pardo em Santa Cruz, denominada de Pães e COMP. Lda.) e mais tarde a vapor (serração de madeiras) e electricidade. Esta a partir de 1929, com a criação da Central Hidroeléctrica do Caima, Lda. (…)

Paralelamente e aproveitando a força motriz da água do rio Caima, surge, junto a Santa Cruz, por volta de 1900 a referida fábrica de papel grosso, designada de “Paes e Cª”. A esta atribui, parece que justamente, António Martins Ferreira, a primazia no uso da força motriz no concelho. Outras se lhe vão juntar: Martins & Rebelo nos lacticínios, A. Ribeiro & Irmão, na latoaria, M. Soares Pinheiro & Filho, na serração e caixotaria, Almeida & Freitas na latoaria, entre muitas outras( Almeida , 2002 ).

Álbum 5 de imagens

Imagem 31 – Fábrica Pães e Cª. ( “fábrica velha” açude do Moreira)

Imagem 32 – Central hidroeléctrica ( vista actual)

Imagem 33 – Fachada principal da fábrica Almeida e Freitas( anos 40)

Imagem 34 – Chaminé da caldeira da antiga fábrica Moreira de Paiva ( foto actual)

Um pioneiro dos lacticínios, o senhor Serafim Figueiredo, que em 1920 se torna um dos sócios da Martins & Rebello, dizia: ”Primeiro trabalhava-se com carroças, depois vieram as camionetas, a folha-deflandres para a embalagem da manteiga, a embalagem de madeira, o vasilhame adequado e as máquinas para as fábricas; já que durante a guerra não se poderia recorrer à assistência e ao recurso ao equipamento de origem estrangeira. Daí que o sector de lacticínios tivesse que se espevitar e exigisse a criação de outras indústrias em Vale de Cambra (madeiras, embalagens e máquinas e equipamentos).

Álbum 6 de imagens

Imagem 35 – uma das primeiras serralharias a produzir maquinaria (Arlindo S. Pinho) Imagem 36 - Arlindo S. Pinho (oficina, 1957)

Imagem 37 – Fachadas da Rimarte (latoaria)

Aqui se situa concretamente o berço dos lacticínios portugueses”. O aparecimento da energia eléctrica em 1929, fornecida pela Central Hidroeléctrica do Caima, permitiu que as indústrias a vapor e as oficinas manuais passassem a ser accionadas a energia eléctrica, contribuindo, desse modo, para um maior crescimento industrial.

Álbum 7 de imagens

Imagens 38 a 41 - interior da Central Hidroeléctrica

Em 1940 diversos industriais agrupam-se em sociedades. No ano seguinte, oficialmente, a firma Lacto-Lusa inicia a sua actividade, sendolhe atribuída a zona de abastecimento de leite nº 16, para a laboração da sua fábrica, englobando a totalidade dos concelhos de Cinfães, Castelo de Paiva e Arouca, parte dos concelhos do S. Pedro do Sul, Vila da Feira, Oliveira de Azeméis e de Vale de Cambra. A sede desta grande empresa foi em Vale de Cambra e pelo edifício da fábrica , que serve actualmente para funcionamento da Câmara Municipal, se pode avaliar da sua grandeza, onde se fabricaram os afamados queijos da marca “ Pastor, Camponesa e Pastorinho “ e a reputada manteiga marca “ Lusa”.

Álbum 8 de imagens

Imagem 42 –Edifício actual da Câmara Municipal (antiga unidade de produção da Lacto-Lusa)

Além da zona de abastecimentos de leite que lhe foi demarcada para a fábrica da sua sede, foi – lhe também atribuída a zona nº 4 que abrange os concelhos de Arco de Valdevez, Ponte da Barca e parte do concelho de Ponte de Lima. Comprometia-se a Lacto-Lusa de instalar uma unidade fabril. Tal facto , veio a concretizar-se em 1958.

Foi há 50 anos, que se produziu a primeira cuba de Queijo Limiano, por mão do gerente da Lacto-Lusa Américo Tavares da Silva, também conhecido pelo “papa dos queijos”.

Álbum 9 de imagens

Imagens 43 e 44 – Queijo Limiano em forma de bola e aos quartos

Os primeiros gerentes da Lacto-Lusa foram Francisco da Costa Leite e Américo Tavares da Silva.

Por falta de saúde de Francisco Leite, pouco tempo depois, o cargo foi confiado a António Soares da Costa Neves. Eram estes os primeiros efeitos da orientação que se entendia dever seguir em matéria de lacticínios. Logo que a maioria dos industriais se constitui nos agrupamentos previstos, são definidas as zonas de abastecimento (Portaria n.º 9.733, de 10/2/1941) para as novas unidades industriais. A Martins & Rebelo fica com certas zonas de abastecimento, em Vale de Cambra e concelhos limítrofes (Postos de recolha de leite em Arões, Cepelos, Ossela, Vagos, Tomar, Pijeiros, S. João da Madeira). Aos proprietários dos postos de desnatação é garantida a indemnização respectiva, calculada na base da sua quilagem média de laboração. Alguns proprietários de fábricas não entraram nas sociedades por sua livre vontade e outros aguardaram oportunidade de ver considerados os seus direitos, devidamente assegurados pelo organismo competente. A definição das zonas de abastecimento para cada fábrica impunha necessariamente uma modificação profunda nas instalações existentes. Inicia-se assim uma época de renovação nas instalações da indústria de lacticínios, o que se consegue na maior parte com o decorrer dos anos. Os projectos das novas unidades fabris ou os projectos de ampliação das já existentes, foram apreciados e considerados em relação à provável laboração prevista e à natureza dos produtos a preparar. Duma maneira geral todas as instalações passaram a dispor de boas condições higiénicas e técnicas, realizando-se as diferentes operações de fabrico segundo um ordenado esquema de trabalho. Os melhoramentos técnico-higiénicos introduzidos nas diferentes instalações fabris e estabelecimentos complementares, podem considerar-se notáveis, pois de instalações incipientes e antiquadas passou-se em pouco tempo para edifícios modernos e de boa concepção. A Martins & Rebelo vai crescendo devido ao mercado conquistado em África e pela diversidade dos produtos que produzia. Tal facto leva, entretanto, à natural ampliação das suas instalações em Vale de Cambra, sendo que as que ainda hoje existem. Foram inauguradas oficialmente a 8 de Junho de 1952. Associada a várias indústrias do ramo a Martins e Rebelo era associada da SUIL, Sociedade União de Industriais Limitada, que se dedicava ao fabrico de leite de consumo de garrafas, leite achocolatado, o leite SUIL, manteiga, a manteiga SUIL e galalite a pedra de leite, este é o nome comercial de um plástico com numerosas aplicações, obtido por acção do formol sobre a caseína pura. Esta empresa ficava no concelho de Santa Maria da Feira. Era igualmente sócia da empresa Lacticínios de Vale Pedre, em Vale Pedre e da empresa de Lacticínios Vigor, em Ordenhas, concelho de Sintra. Possuíam, além da fábrica em Vale de Cambra, uma na Madeira, nos Açores e montam na década de 60 uma outra em Avis.

Para além do queijo “Pinheiro Manso”, a empresa diversifica a sua oferta com a produção de outros tipos de queijo: queijo tipo prato – O Queijo Castelões e outros à base de queijos fundidos; a barra fundida e o queijo triangular, também fundido. A manteiga produzida era agora a manteiga Primor. Vai assim, ao longo dos seus anos de existência, diversificar a oferta dos seus produtos: o Leite Condensado Primor, o Leite Evaporado Primor e o leite achocolatado Primor, produzindo ainda outros produtos dietéticos: o Primolacto, o Saulacto, leite dietético para crianças e o Acilacto, leite acidificado, igualmente para crianças. Produziam ainda leite em pó gordo, meio-gordo e magro. E ainda um reconstituinte o Vigormalte (Rodrigues, A., 2003/04). Com instalações modelares e usando a mais avançada tecnologia da época, tornouse, na década de 50 e 60, na maior empresa de lacticínios do País, empregando cerca de 700 trabalhadores. Entrou em declínio após o “25 de Abril de 1974”. em finais dessa década e após a venda de algumas das suas unidades de produção, após sucessivas reestruturações, acompanhadas por despedimentos, a Martins & Rebelo abriu falência em 2001. Pelo contrário, a Lacto-Lusa, transformada em sociedade anónima em 23 de Dezembro de 1987, conseguiu sobreviver, graças a uma gestão moderna e, estrategicamente, pela posição maioritária que ocupava nas sociedades que ajudou a fundar, também elas transformadas em sociedades anónimas, caso da Lacto-Lima e da Lacto –Açoreana, respectivamente, criadas no ano de 1957. Na década de 90 do século passado, os seus activos foram vendidos a um fundo de investimento de capitais estrangeiros , passando a denominar-se de Lacto-Ibérica que, por sua vez foi adquirida por um grupo francês – a BEL- PORTUGAL, passando a produzir unicamente o queijo Limiano.

5 – O papel do Estado na indústria de lacticínios

É verdade que o estado teve um papel fundamental no desenvolvimento , surgimento e declínio das empresas a que me refiro. Teve um papel importante no surgimento da Lacto-Lusa e no desenvolvimento que proporcionou à indústria de lacticínios . No entanto terá contribuído para o declínio da Martins & Rebelo com a intervenção que teve nesta empresa. Mas , vejamos: O Estado, consciente da importância tanto deste como de outros sectores e da pressão a que estava a ser alvo por parte dos industriais de lacticínios, vai, legislar sobre este sectorde actividade. É então que, em finais da década de 30, surgem as primeiras publicações legislativas no tocante ao ramo de lacticínios. Primeiramente, o governo optou por publicar o Decreto-lei nº 28.974 (Diário do Governo, I série, n.º 200 de 29 de Agosto de 1938) onde cria regras para a produção e

transporte do leite – este decreto-lei foi alterado em 1948 com o Decreto-lei nº 36.973(Diário do Governo, I série, n.º 165 de 17 de Julho de 1948). Em seguida, o governo optou por impor regras para poder melhorar a qualidade dos produtos da indústria dos lacticínios e para uma maior organização do sector. Desta forma, em finais da década de 30 (1939) e inícios da de 40 (1941) a indústria de lacticínios foi regulamentada com a publicação do Decreto-lei nº 29.749, de 13 de Julho de 1939 (Diário do Governo, I série, n.º 162 de 13 de Julho de 1939) e da Portaria nº 9.733, de 10 de Fevereiro de 1941 (Diário do Governo, I série, n.º 33 de 10 de Fevereiro de 1941). Com o Decreto-lei nº 29.749(Diário do Governo, I série, n.º 162 de 13 de Julho de 1939, Art2, n.º2) é criada a Junta Nacional dos Produtos Pecuários, cujos objectivos são “Coordenar e disciplinar a acção dos organismos da produção e comércio de lãs, carnes, leites e produtos derivados ou das actividades ligadas à produção e comércio dos mesmos”. Com a publicação da Portaria Nº 9.733 demarcam-se as zonas de abastecimento de leite para cada empresa. Com este último Decreto-Lei e com esta Portaria, regulamenta-se este sector que vai beneficiar os industriais em detrimento do pequeno produtor e industrial familiar. Esta legislação impõe regras para o tratamento e produção de derivados. Iniciou-se o monopólio deste sector. Passou a ser obrigatório a criação de unidades fabris, adequadas para o tratamento e produção de derivados de leite. É lógico que esta legislação beneficiou, em parte, a Martins & Rebello que, como indústria de lacticínios que era, apetrechada com os requisitos que eram exigidos, não teve problemas em continuar o seu desenvolvimento. Note-se que era a maior empresa do ramo a nível nacional. Esta legislação também fez com que surgisse, na década de 40, uma nova indústria do sector de lacticínios em Vale de Cambra. O concelho, por possuir imensas indústrias familiares, fez com que se unissem e com a indicação da Junta Nacional dos Produtos Pecuários, criassem a empresa de lacticínios Lacto-Lusa, também ela uma das maiores empresas do ramo, instalada em em condições excelentes para a época. No início dos anos 50, as principais empresas de lacticínios eram: Martins & Rebello, Lacto-Lusa em Vale de Cambra, Nestlé em Avança, Lacticínios MAF em Vila da Feira, Lacticínios Aveiro em Aveiro e Lacticínios Suil em Vila da Feira (Artigo do jornal alemão “Deutshe Molkerei – Zeitung”, 21-12-1951, cit. Por Tavares, Vítor M. F., 2006 ). A década de 50 é um período para o lançamento de novos sectores industriais e a reorganização de outros. Também nesta época, a Martins & Rebello relança-se e prova disso, é a ampliação da fábrica de Vale de Cambra, a associação com outras empresas e produção de novos

produtos. Um aspecto importante que fez com que a empresa aumentasse a sua produção foi, a exclusividade que obteve no abastecimento do exército português. Foi também neste período, entre os anos 50 e inícios de 60, que o Estado tentou reabilitar a indústria com o I e II Planos de Fomento (O I Plano de Fomento foi aprovado pela Lei nº 2058, de 29 de Dezembro de 1952 e o II Plano de Fomento pela Lei nº 2094, de 25 de Novembro de 1958). Mas esta evolução positiva, no mundo industrial, tanto a nível global como em relação à Martins & Rebello, vai sofrer a primeira quebra no início dos anos 70, com a crise petrolífera de 1973, com o agravamento da guerra colonial e também com a Revolução de 25 de Abril (MATTOSO, José – História de Portugal – O estado Novo – Vol 7, pág. 471cit. Por Tavares, V. M. F. 2006). Com o 25 de Abril legalizam-se as greves, reivindicam-se aumento dos salários, enfim, o patronato estava cercado pelo operariado. Para rematar estes acontecimentos, é publicado um decreto-lei,em Novembro de 1974 (Decreto-lei nº 660/74 , Diário do Governo, I série, n.º 274 de 25 de Novembro de1974), que permite o Governo Provisório intervir, quer financeiramente, quer directamente fazendo ele a gestão da empresa através de comissões administrativas (Decreto-lei nº 660/74, Diário do Governo, I série, n.º 274 de 25 de Novembro de 1974). Passado pouco mais de meio ano, o Governo Provisório decidiu intervencionar a Martins & Rebelo justificando tal abuso na “destruição de matéria-prima e produtos acabados (leite e queijo)”, no “desvio de fundos da actividade da empresa em benefício de empresas de outro grupo”,etc. (Diário do Governo, I série, n.º 143 de 24 de Junho de 1975) . Esta vai durar apenas alguns meses. A 10 de Fevereiro de 1976 foi nomeada uma nova Comissão Administrativa. O VI Governo Provisório, consciente dos erros que se foram fazendo nas nacionalizações e intervenções nas empresas, publicou um decreto-lei a 29 de Maio de 1976 (Decreto-lei n.º 422/76 , Diário do Governo, I série, n.º 126 de 29 de Maio de 1976) , no sentido de rectificar os anteriores diplomas sobre esta matéria. Este, por sua vez, foi revisto a 10 de Julho do mesmo ano (Decreto-lei n.º 543/76 , Diário do Governo, I série, n.º 160 de 10 de Julho de 1976). Nesse mesmo ano, a 31 de Dezembro, sai um Decreto-Lei (Decreto-lei n.º 907/76 , Diário do Governo, I série, n.º 303 de 31 de Dezembro de 1976), que regula os processos para possíveis desintervenções. Em 15 de Junho de 1977, é publicado um despacho conjunto entre os Ministérios do Plano e Coordenação Económica, das Finanças e da Agricultura e Pescas (Despacho conjunto dos Ministros do Plano e Coordenação Económica, das Finanças e da Agricultura e Pescas , Diário da República, II série, n.º136 de 15 de Junho de 1977), no sentido de analisarem a Martins & Rebelo para verem se a intervenção do Estado ainda se justificava. A conclusão desta comissão ficou a ser conhecida com a Resolução do Conselho de Ministros de 28 de Fevereiro de 1978 (Resolução nº 26-A/78 , Diário da

República, I série, n.º49 de 28 de Fevereiro de 1978), onde se determina a cessação da intervenção do Estado na Martins & Rebelo. Após este caminho atribulado que a empresa atravessou, nos primeiros anos de democracia, a sua evolução começou a estagnar. São várias as razões que, ao longo dos anos 80 e 90, vão provocar uma paragem a nível evolutivo na empresa. No início dos anos 80, Portugal ainda estava mergulhado numa crise financeira que afectou, de uma forma indirecta, a empresa. Também convém frisar que a má gestão das comissões administrativas, nomeadas pelo Estado, deixaram sequelas. Com a entrada de Portugal na CEE, a concorrência aumentou e a empresa não conseguiu acompanhar o novo mercado europeu que abriu Portugal para a Europa. De referir que a nível tecnológico, a Martins & Rebello tinha parado no tempo. A maquinaria ainda era dos anos 50 e 60. Já nos finais dos anos 80 começaram a sair importantes pessoas da empresa. Esta nunca mais conseguiu reestruturar-se e , como já se disse atrás as dívidas acumuladas levaram à sua falência no ano de 2001. No ano 2000, a 23 de Março, o grupo parlamentar do Partido Popular, efectuou um requerimento no sentido de recolher informações a respeito da Martins & Rebelo. Infelizmente o destino desta empresa estava traçado!

Álbum 10 de imagens

Imagens 45 a 47 - Cópia do requerimento (pp. 1, 2 e 3)

Ainda hoje, nos jornais , se fala na intervenção do Estado na Martins & Rebelo, na preparação do Orçamento de Estado para 2009!: Quem entra na Farmácia Central de Carcavelos, numa das avenidas desta localidade, perto de Lisboa, não dá pela diferença. É normal. A fachada deteriorada e a simplicidade decorativa denunciam antiguidade e uma possível carência de proveitos, mas nada indica que não se trata de uma farmácia como tantas outras. A verdade é que é a única no país que está nas mãos do Estado, integrando a carteira de participações públicas acessórias, em conjunto com mais 38 empresas.

Faz parte deste grupo desde 2006 e, tal como as restantes entidades, é vista como um activo de utilidade e interesse reduzidos. Continua, no entanto, por vender, destoando do tradicional património público. O mesmo acontece com a empresa de decoração Decoviz ou com a Dilop Charcutaria Cozidos e Fumados, por exemplo. O Orçamento do Estado (OE) para 2009 promete rever esta situação, mas as medidas não vão ter um impacto muito expressivo. No rol das 39 entidades, apenas esta farmácia se enquadra no regime de sucessão legítima. O motivo mais frequente é a dação em pagamento, ou seja, a conversão de dívidas em acções. Foi assim que entidades como a empresa de lacticínios Martins & Rebelo ou a Têxtil da Cuca lá foram parar. Muitas delas, ao abrigo do Plano de Recuperação de Dívidas ao Fisco e à Segurança Social, conhecido por Plano Mateus (por ter sido encabeçado por Augusto Mateus, na altura ministro da Economia), em 1996. (…) A venda destas participações já esteve na agenda de diversos governos, numa óptica de maior eficiência financeira das contas públicas, mas parece contribuir para esse propósito. A própria definição dos activos acessórios fala por si: "participações de reduzida utilidade para a prossecução do interesse público", de acordo com o relatório Sector Empresarial do Estado, elaborado pelo Ministério das Finanças no início de 2008. O economista João César das Neves defende que "seria bom que o Estado cuidasse um pouco da racionalidade dessas participações". Até porque, em alguns casos, "essas situações são mais caricatas do que nocivas". A finalidade deste processo deve ser "a promoção dos sectores e da economia e não, como tem sido muitas vezes, a arrecadação de receitas das vendas". De acordo com o relatório mais recente do Ministério das Finanças, no final de 2007 o Estado detinha, através da Direcção-Geral do Tesouro e Finanças (DGTF), um universo de 156 participações. Destas, 39 pertenciam à carteira acessória, atingindo um valor nominal de 22,4 milhões de euros. Acrescem ainda as que são controladas pela Parpública (gestora de participações públicas envolvidas em processos de privatização e de reestruturação e do património imobiliário) e pelo Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social (IGFSS), que, também ao abrigo do Plano Mateus, se tornou accionista de sete empresas. Este ano, na proposta de OE para 2009, o redimensionamento da carteira regressou à agenda política. Consta no diploma um artigo que possibilita a exoneração da qualidade de sócio em empresas que preencham os seguintes requisitos: participadas pelo Estado até dez por cento do capital social, cujo valor não exceda os 2500 euros, que tenham apresentado reduzida liquidez e resultados negativos, nos últimos cinco anos, ou que não tenham distribuído dividendos. Feitas as contas, das 39 sociedades analisadas pelo PÚBLICO apenas nove devem ser abrangidas pelo artigo 116º do OE. Além disso, as empresas que cumpram os

requisitos ainda têm de ter passado para as mãos do Estado "por sucessão legítima, prescrição, extinção de pessoas colectiva ou conversão de créditos em capital social no âmbito de processos de recuperação ou de insolvência". O ministério liderado por Teixeira dos Santos referiu que "se encontram em fase de análise um conjunto de empresas passíveis de enquadramento no referido artigo", mas não se comprometeu com datas, nem com expectativas. "A calendarização e a quantificação das contrapartidas decorrentes da exoneração encontram-se condicionadas por causas exógenas que influenciam o desenrolar de cada um dos processos", acrescentou a tutela. É seguro que as empresas que não preenchem os requisitos "vão manter-se na carteira", embora exista "a possibilidade da sua alienação nos termos da lei", esclareceu a mesma fonte. No entanto, também neste caso não existem datas concretas. Eduardo Catroga, ex-ministro das Finanças, concorda que as posições estratégicas devem ser conservadas, mas tem opinião contrária no que se refere aos activos secundários. "O Governo socialista é demasiado neoliberal nas privatizações. As empresas devem ser maioritariamente privadas, mas é essencial manter posições fortes nos sectores estratégicos, como o da energia", refere. Isto porque, ao abrir o capital a privados, "não havendo grupos económicos portugueses com musculatura suficiente para formarem núcleos duros nestas empresas, o mais certo é que saiam de mãos nacionais". Já no que toca à carteira acessória, o economista defende "uma redefinição urgente". "Não se deve vender participações a todo o custo, mas deve haver um esforço para limpar participações secundárias, que não trazem um benefício real" ao património público, acredita. O sector empresarial do Estado sofreu profundas transformações nos últimos 30 anos. Encerrado o ciclo de nacionalizações iniciado em 1974, avançou-se para uma drástica redução da sua dimensão, através de um processo de privatizações que atingiu praticamente todos os sectores de actividade. Entretanto, o Plano Mateus, para regularização das dívidas fiscais e à segurança social, foi lançado em 1996 e permitiu que 13 empresas trocassem uma situação de aperto pela entrada do Estado como accionista, através da conversão de créditos. Foi através da aplicação das novas regras previstas "a título excepcional", durante os governos Guterres, que entre 1996 e 2001 a carteira de participações acessórias voltou a ficar mais pesada. Entre as empresas abrangidas contou-se a Teviz Têxteis de Vizela, empresa familiar nascida em 1935, que ainda hoje tem quase metade do capital nas mãos da DGTF e do IGFSS. (…) Em contrapartida, à Martins & Rebello não lhe valeu de nada a entrada do Estado como accionista, com a aquisição de 37,3 por cento do capital em 1997, igualmente ao abrigo das medidas do Plano Mateus. Aquela que foi a maior produtora portuguesa de lacticínios durante a primeira metade do século XX, ligada a marcas conhecidas como o queijo Castelões e com uma

actividade que se estendia às ilhas da Madeira e dos Açores acabou por fechar portas no início do novo século. No desemprego, ficaram cerca de 80 trabalhadores da única fábrica que se mantinha ainda nas mãos da Martins & Rebello, em Vale de Cambra, depois da venda à Lactogal de uma outra unidade de produção em Avis. Entretanto, a DGTF manteve a sociedade como participada, apesar de esta permanecer inactiva há muito tempo e ter entrado em processo de falência. Augusto Mateus, que deu o seu nome ao plano de recuperação de empresas em dificuldade, considera que a carteira do sector empresarial do Estado "é particularmente desorganizada", inclusivamente por ser herdeira de vários períodos conjunturais como a onda de nacionalizações na década de 70... (PUBLICO.PT, Carteira inclui participação em farmácia, lacticínios e centro de abate de suínos, Estado abre baú das empresas descartáveis a partir de 2009, Inês Sequeira, Raquel de Almeida Correia, Texto publicado no Suplemento de Economia de31/10/2008 )

6 - A Fábrica de Lacticínios Martins & Rebelo
Embora a fábrica tenha sofrido várias alterações, ao longo dos tempos, foi crescendo e é na década de 30 , do século passado que sofre a primeira remodelação. Os originais do projecto de remodelação das instalações da fábrica que se seguiu, datam do ano de 1944 e a sua inauguração foi a 15 de Julho de 1952. O autor do projecto Filipe Nobre de Figueiredo, Arquitecto, nasceu em 1913 e faleceu em 1990. Estudou na Escola de Belas Artes e Lisboa, concluindo o curso no ano de 1943. Em 1944 elabora o projecto da fábrica de lacticínios Martins & Rebelo; em 1946 decora o bar-restaurante Vela Azul (Caxias, Oeiras), propriedade de sua irmã; Depois de 1950 passa a trabalhar com Celestino de Castro e José Segurado, procurando uma solução racional acerca da habitação da Avenida dos Estados Unidos da América e da Avenida de Roma em Lisboa, baseando a construção dos apartamentos (1952) em conceitos de análise volumétrica e plasticidade na cidade moderna ( Rodrigues, 2004 ). Outras pessoas, ligadas a esta fábrica , são dignas de algumas referências: - António Cardoso Rebelo nasceu em Armamar e casou no Sátão. Negociante de manteiga, é na região de Vale de Cambra e arredores que vem adquirir a referida manteiga que depois vendia em Lisboa. Associa-se ao seu padrinho Alfredo Martins e fundam a empresa Martins & Rebelo em 1906. - Alfredo Martins: natural do lugar dos Dois, freguesia de Castelões, Concelho de Vale de Cambra, padrinho de António Cardoso Rebello e co-fundador da fábrica em 1906. - Serafim Figueiredo: torna-se sócio em 1920.

- Arlindo Soares de Pinho: nasceu em 21 de Maio de 1910, em Lordelo, pequeno lugar da freguesia de Vila Chã, concelho de Macieira de Cambra, filho de Rosalina Soares de Pinho e de Avelino Ferreira. Produziu grande parte da maquinaria utilizada na produção de manteiga e queijo, por intermédio das funções que desempenhou na empresa Almeida & Freitas (1921-1941) e mais tarde na sua própria unidade fabril a “Serralharia Mecânica, Construção e Reparação de Máquinas para a Indústria de Lacticínios e Reparação de Automóveis” . Mais tarde criou a ARSOPI - Indústrias Metalúrgicas Arlindo S. Pinho, S. A. - António Cardoso Rebelo: neto do fundador nasceu em Lisboa no ano de 1926 e inicia a sua actividade na empresa em Vale de Cambra ainda muito novo. Com cerca de 16 anos deixa Lisboa e vem estudar para Aveiro onde conclui o 6.º ano. Depois vai para a Suiça estudar para uma Escola Profissional de Lacticínios, para se especializar na área. Permanece na Suíça durante três anos e para além de estudar vai estagiar na Junta Nacional dos Produtos Pecuários e em diversas empresas. Regressa a Vale de Cambra e assume a direcção técnica da Martins & Rebelo. É o responsável, dada a sua formação, pela maioria dos novos produtos fabricados pela empresa, nomeadamente os produtos dietéticos bem como pelo arranque das novas instalações em Vale de Cambra. É igualmente responsável pelo arranque da fábrica de Avis e dos produtos produzidos na SUIL (Rodrigues, 2004).

6.1 - Caracterização das instalações

A construção é constituída por uma estrutura em betão com aplicações de pedra granítica nos “rodapés” e nos níveis inferiores da mesma na fachada principal. A aplicação de pedra também se encontra na parte da torre que alberga o relógio virada à fachada principal. As paredes exteriores são rebocadas e pintadas de branco. A cobertura é em Telha em quatro águas. Os interiores, nas zonas de produção, possuem azulejo branco nas paredes e mosaico no chão, facilitando os processos de lavagem. Caixilharia em madeira. A fábrica possui alguns elementos decorativos, nomeadamente: Aplicação de blocos graníticos nos “rodapés” do edifício. Na fachada oeste encontra-se um elemento que permite a entrada de luz natural composto por um rectângulo reticulado num arabesto losângico. Arcadas de passagem no pátio interior, nas zonas de acesso ao interior do edifício. Arruamento de acesso ao pátio interior através de um alpendre na fachada principal. Muros delimitadores em pedra de granito e grade com rede metálica.

O edifício encontra-se desocupado e embora tenha sofrido alguns actos de “vandalismo” nos espaços interiores, estes foram minimizados pela acção dos técnicos da Câmara Municipal de Vale de Cambra e pelos elementos da Leiloeira Paraíso (Lisboa), na altura do leilão da maquinaria e de alguns equipamentos.

Álbum 11 de imagens

Imagem 48 - Aspecto da fachada principal com alpendre de acesso ao pátio interior.

Imagem 49 - Outra vista da fachada principal.

Imagem 55 - Refeitório.

Perante a impossibilidade de incluir a documentação do projecto, uma vez que se tratam de originais que irremediavelmente foram, pura e simplesmente, queimados ou colocados no lixo, pela incúria de alguém, resta-nos o trabalho realizado pelo funcionário da Câmara, Alexandre Rodrigues, que em devido tempo acautelou uma cópia que se encontra na Faculdade de Letras do Porto, no trabalho realizado por si, no âmbito da disciplina de Registo Arquitectónico, licenciatura em Arqueologia , no ano lectivo 2003/2004.

6.2- Documentação relativa ao processo de classificação

A Câmara Municipal abriu processo de classificação como Imóvel de Interesse Municipal no ano de 2002. Deste processo consta alguma documentação que urge preservar. No entanto, tenho dúvidas quanto à conclusão deste, já que não descobri qualquer publicação no Diário da República, o que me parece indispensável.

Álbum 12 de imagens

Documentação relevante Imagem 56 - Acta processo de classificação p. 1 Imagem 57 - Acta processo de classificação p. 2 Imagem 58 - Acta processo de classificação p. 3 Imagem 59 - Edital processo de classificação Imagem 60 - Edital publicação no jornal local 1 Imagem 61 - Edital publicação no jornal local 2 Imagem 62 - Parecer do IPPAR p. 1 Imagem 63 - Parecer do IPPAR p. 2

Capítulo IV Outras histórias, outros autores

7 – Outras histórias mas os mesmos factos

7.1 – Comércio do Porto de1930 (a indústria de lacticínios- uma instalação modelar)

«O ilustre agrónomo João da Mota Prego afirmou que em Portugal se podem fabricar todos os queijos conhecidos, porque os leites portugueses a isso se prestam. Já se fabricam, no Continente e Ilhas Adjacentes, algumas variedades de queijos muito apreciáveis. Ainda assim, a importação de manteiga e de queijos é bastante importante, apesar da protecção pautal concedida em 1892. Em 1932, importamos mais de 53.000 quilos de manteiga, principalmente da Inglaterra e da Dinamarca, no valor declarado de 610 contos. Importaram-se, no mesmo ano, mais de 283.000 quilos de queijos no valor de 2.748 contos, principalmente da Holanda, da Itália, da Suíça, da França, etc. Tem, pois, ainda o nosso país capacidade para produzir e colocar importantes quantidades de manteiga e queijo. Nessa orientação, foi agora instalada, no Pinheiro Manso, Vale de Cambra, uma importante fábrica de manteiga e queijo, pela firma Martins & Rebelo, de Lisboa. Essa instalação é feita para o emprego dos processos de fabrico mais aperfeiçoados. O leite, ao ser recebido, é lançado em recipientes apropriados, sendo devidamente pasteurizado e refrigerado. Passa a desnatadeiras mecânicas, sistemas Laval e Melotte, malaxadores rotativos, etc. A massa destinada a queijo é tratada segundo o tipo que se pretenda obter. E, quando nas batedoras, é enformada, para receber pressão conveniente; é metida em tanques de salmoura e, por fim, vai secar em vastas câmaras frigoríficas, uma delas subterrânea, com capacidade para mais de 10.000 queijos. As dependências em que se executam estas operações são todas devidamente resfriadas e guarnecidas de portas duplas para evitar a entrada do ar exterior.

Os fermentos são conservados em recipientes apropriados. Possui a fábrica 9 motores eléctricos e uma caldeira de vapor para esterilização do vasilhame. As máquinas de congelação e outras são da casa Lerun, de Nany (Bélgica) e a energia eléctrica é fornecida pela Central Eléctrica do Caima. Tem dependências para fechar as latas de manteiga, para expedições dos produtos, etc. O soro que fica da desnatação do leite é aproveitado por 200 suínos, instalados numa ampla pocilga, situada, com todas as condições higiénicas, a bastante distância da fábrica. O leite é directamente colhido na região para umas latas, devidamente esterilizadas, conduzidas num caminhão. Reúne, como se vê, a nova fábrica todas as condições para produzir excelente manteiga e esplêndidos queijos, de vários tipos» (Indústria de Lacticínios, Uma instalação modelar, Comércio do Porto 1930).

Álbum 13 de imagens

Imagem 64 - Martins & Rebelo (1930)

Imagem 65 – Martins & Rebelo (interior, 1937)

Imagem 66 – Maquinismo no interior da fábrica(1937)

Imagem 72 – empregados vestidos com roupas adequadas(anos 40)

Imagem 69 – Mesa de análises(1937)

Imagem 70 – Lavagem do queijo antes de perafinar(1937)

Imagem 71 – Queijo em fase de Cura(1937) Imagem 72 – Dar forma ao queijo(1937) Imagem 73 – outra fase de preparação do queijo(1937) Imagem 74 – Frascos para conservação de derivados de leite (fermentos e outros)

Imagem 75 – Lavagem das bilhas de transporte de leite

7.2 – Diário de Notícias de 1937 e 1938, sobre os lacticínios

No ano de 1937, alguns industriais de Cambra, reclamavam medidas para combater a falsificação da manteiga. Nessa altura, no Diário de Notícias ,escrevia-se: «Alguns industriais de lacticínios acabam de elaborar uma exposição desenvolvida e detalhada que dirigiram ao Sr. Intendente Geral da Polícia de Segurança Pública, exposição essa que põe em relevo, não só os meios de que se servem os falsificadores para matularem a manteiga, como ainda sugere à mesma entidade os remédios a opor à falsificação e na qual também se pedem medidas de protecção à indústria lacticínia. A exposição, que é assinada por vários industriais conceituados na nossa região, é um alto documento de revelação moral e um protesto feito pelas pessoas de bem que reclamam para a sua indústria, uma rigorosa fiscalização e uma série de providências atinentes a desembaraçá-la de falsificadores e a torná-la uma exploração honesta e criadora de riqueza regional. Os industriais de lacticínios, que sofrem neste momento uma das suas piores crises, como se põe em evidência na referida exposição, não podendo desenvolver a sua indústria nem suportar os seus encargos, terão necessariamente de a deixar cair em manifesta decadência se o Sr. Intendente não promover a decretação de medidas que reprimem os novos truques de falsificação , pois que, mercê dos novos processos a que obedece a orientação falsificadora, a indústria lacticínia e com ela os seus honestos industriais terão de sucumbir, perdendo-se desta maneira uma inapreciável fonte de riqueza e o único elemento que serve de amparo e de sustentáculo à nossa lavoura regional.

Esperam, por isso, os industriais de lacticínios que a citada exposição seja favoravelmente acolhida pelo Sr. Intendente, como é de justiça» (Fiscalização de manteiga, O Diário de Notícias de 20/08/1937). Nesse mesmo jornal, no ano de 1938, o nosso conterrâneo, Dr. Abel Augusto de Almeida, dava conta dessas mesmas preocupações e escrevia algumas notas sobre o estado da agricultura e da indústria do nosso concelho: «Com a introdução da indústria de lacticínios em 1900, abriu-se uma nova era para este concelho. O aproveitamento do leite para fins industriais, teve grandes repercussões na lavoura, que passou a contar com mais uma importantíssima fonte de receita. Em poucos anos, Vale de Cambra passou a ser o principal centro produtor de manteiga, no país. Em 1900, surgiram as primeiras tentativas para o fabrico de queijo e hoje, duas fábricas – uma modelar preparam o precioso produto. A manteiga e o queijo representam a maior riqueza do concelho, que se avalia na avultada cifra de oito mil contos anualmente. Paralelamente a esta indústria desenvolveu-se a de latoaria de que há duas fábricas importantes. A serração está representada também por quatro fábricas. Como se vê a indústria do concelho representa um valor económico grande e pena é que, a da manteiga esteja a atravessar uma grave crise devida à pulverização e aviltamento dos preços que, cem anos de liberalismo económico explicam plenamente. Impõe-se, sem demora, a sua integração no quadro corporativo sem o que está condenada à mais completa ruína. A agricultura tem-se desenvolvido muito. Os terrenos são férteis e abundantes em pastagens, mas o cultivo trabalhoso. O índice pecuário é elevado: oito mil vacas, produzindo diariamente 30000 litros de leite, constituem a principal receita do pequeno lavrador e do rendeiro. A principal cultura é o milho, mas produz também trigo, centeio, cevada, etc. Vale de Cambra está incluído na região dos vinhos verdes e o produto é excelente. Basta dizer que, este ano, se vendeu à razão de 450$00 a pipa de 500 litros, enquanto no Minho o preço é de 250$00. O principal mercado é Lisboa. A lavoura está a ser muito prejudicada com a desvalorização do gado. As vitelas vendem-se a um preço irrisório de 40 escudos em média correspondendo a 1$60 por quilo de carne»! (Síntese da vida industrial e agrícola de Vale de Cambra,Diário de Notícias, 12/06/1938).

Álbum 14 de imagens

Imagem 76 – Lavra em Areias

Imagem 77 –boi arouqês Imagem 78 – Campo da lavoura

Imagem 79 – Guardador de vacas

A verdade é que a indústria de lacticínios veio a ser regulamentada e é neste contexto que surge a Lacto-lusa.

7.3 - A indústria de lacticínios por António Martins Ferreira

Em 1942, no seu livro “Vale de Cambra, as suas belezas naturais e o seu engrandecimento”, António Martins Ferreira escrevia: A indústria de lacticínios, principalmente no fabrico da manteiga, teve o seu berço na maravilhosa região de Vale de Cambra devido à fertilidade do seu solo, rico em pastagens. Aqui nasceu e se desenvolveu, irradiando-se, depois, para outra terras do país. Até 1897 o fabrico da manteiga era caseiro, mas a manteiga de Vale de Cambra era conhecida em quase todo o país, especialmente nas terras do Sul, para onde era levada pelos pequenos fabricantes da região, que em caravanas a transportavam. As viagens eram longas e penosas mas os lucros nem sempre eram compensadores do esforço dispendido, mas os humildes fabricantes nunca desanimaram e foram transmitindo aos seus vindouros o amor e a coragem na luta de onde resultou uma das principais riquezas agrícolas deste país. Vieram depois as desnatadeiras centrífugas, industrializou-se o fabrico e os fabricantes, que até ali compravam a manteiga aos lavradores para a venderem aos seus clientes, principiaram a instalar pequenas fábricas e assim se desenvolveu a indústria que representa, actualmente, um factor importantíssimo da Economia Nacional. Com o grande desenvolvimento que a indústria adquiriu, foram-se multiplicando as pequenas fábricas, geralmente sem higiene necessária e principiou a surgir uma chusma de fabricantes advertícios, sem conhecimento alguns da indústria, que a colocaram à beira do abismo. Foi nestas circunstâncias e para evitar a sua ruína total que Ex.mo Sr. Ministro da Agricultura decretou a sua regulamentação. Desta resultou a fusão dos industriais da região de Vale de Cambra que se associaram sob a denominação de LACTO LUSA, Lda. sendo-lhe atribuída oficialmente a zona da abastecimento de leite nº 16, para a laboração da sua fábrica, englobando a totalidade dos concelhos de Cinfães, Castelo de Paiva e Arouca: parte dos concelhos do S. Pedro do Sul, Vila da Feira, Oliveira de Azeméis e de Vale de Cambra. A sede desta grande empresa é em Vale de Cambra e pelo projecto do edifício da fábrica e pelas obras já feitas se pode avaliar da sua grandeza, incontestávelmente a primeira do País, onde se fabricam os afamados queijos da marca “ Pastor, Camponesa e Pastorinho “ e a reputada manteiga marca “ Lusa”.

Além da zona de abastecimentos de leite que lhe foi demarcada para a fábrica da sua sede, foi-lhe também atribuída a zona nº 4 que abrange os concelhos de Arco de Valdevez, Ponte da Barca e parte do concelho de Ponte de Lima. Nesta grande zona tem a Lacto Lusa,de montar uma fábrica para o que já adquiriu dentro da referida zona uma quinta. Uma empresa de tal vulto não podia deixar de ter à sua frente pessoas de reconhecida competência e para isso, a sociedade nomeou para a gerência os Srs. Francisco da Costa Leite e Américo Tavares Silva, pessoas dotadas de excelentes qualidades às quais nada falta para desempenhar brilhantemente o honroso e difícil cargo; o Sr. Francisco da Costa Leite, por falta de saúde pouco tempo se demorou na gerência, sendo o cargo confiado ao Sr. António Soares da Costa Neves, pessoa também de reconhecida competência e honestidade (Ferreira, António Martins, Vale de Cambra, edição do autor, 1942, pag. 20-21). Para além das referências à manteiga no Foral de Cambra, podemos assinalar também, no Tombo da freguesia de Castelões: «Todos os povos da freguesia de S. Pedro de Castelões de Cambra, que tiverem vacas paguem por cada uma anualmente ao Comendador Frei Pantalião de Soares Meneses e Melo, um quartilho de manteiga, ou meio tostão em dinheiro, como é do costume» (rectificação do tombo da freguesia de Castelões em 1640). “O fabrico da manteiga de vaca em Vale de Cambra, é tão antigo, que se perde na bruma dos tempos. Um cântaro de barro e um touco, eram os utensílios empregados pelos povos de Vale de Cambra, para extraírem do leite a manteiga. Este fabrico rústico constituía uma indústria caseira própria da região. Os lavradores fabricavam a manteiga e os negociantes, também filhos de Cambra, faziam em determinados dias da semana a sua compra, de porta em porta. Recolhida a manteiga em casa dos negociantes, era lavada, salgada e acondicionada em pequenas tijelas,-ou em cestos revestidos por toalhas e estes transportados à cabeça ou em cargas para a feira de Santo Amaro, em Estarreja ou mercados do sul, onde promoviam a sua venda, tornando assim a manteiga de Vale de Cambra, conhecida por quási todo o país. Nos fins do século passado, (diga-se , século XIX) o falecido Visconde de Nandufe, (Tondela) introduzia no nosso país, as desnatadeiras centrífugas, e com a sua introdução, o fabrico e negócio da manteiga, entrou numa nova fase de evolução. Os negociantes Cambrenses, ao terem conhecimento das novas máquinas, principiaram a utilizarem-nas e a orientar o lavrador a vender o leite. A pouco e pouco, o lavrador foi abandonando o fabrico caseiro, habituando-se a vender o eite ao industrial, que por sua vez, aperfeiçoou o fabrico da manteiga. As

embalagens passaram a ser em latas litografadas, com desenhos aparatosos, tornando ainda mais conhecida e acreditada a manteiga de Vale de cambra por todo o país. Em 1930 estava industrializado o fabrico da manteiga, e foi nesta altura, que alguns industriais de lacticínios aumentaram as suas instalações com o fabrico de queijo tipo Flamengo, tornando-se a indústria de lacticínios, o principal factor da vida económica do concelho. Com o decreto do Ministro da Agricultura a indústria foi regulamentada e Vale de Cambra ficou com duas indústrias de lacticínios que inquestionavelmente eram das maiores do País (refira-se que embora existisse a unidade de produção da Martins e Rebelo em Vale de Cambra, esta tinha a sua sede em Lisboa). Pela disposição que definiu as zonas, as empresas de Vale de Cambra recebiam o leite produzido nos concelhos de Vale de Cambra, Arouca, Castelo de Paiva, Cinfães, S. Pedro do Sul, Vouzela, Oliveira de Frades, Sever do Vouga e parte dos concelhos de Oliveira de Azeméis e Vila da Feira, num total superior a 40.000 litros por dia, empregando na elaboração dos produtos (manteiga e queijo) condução de leite, etc, milhares de pessoas» (Ferreira, António Martins, Vale de Cambra, edição do autor, 1942, pag.48).

Capítulo V Escrituras diversas

8 – A primeira escritura da Martins & Rebelo(transcrição)

Saibam os que virem esta escritura de sociedade que no ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil novecentos e seis, aos trinta dias do mês de Janeiro, nesta cidade de Lisboa, freguesia de Sacramento,rua do Príncipe, número dezanove, no meu Cartório, perante mim, Notário desta dita cidade e comarca, Bacharel José Ribeiro de Almeida Cornélio da Silva, e duas testemunhas que me declararam ser idóneas, adiante nomeadas e no fim assinadas, compareceram : Alfredo Martins e António Cardozo Rebello, ambos solteiros, maiores, comerciantes, moradores à rua de São Lázaro, número cinquenta e dois, segundo andar, freguesia da Pena, desta cidade e pessoas cuja identidade me foi afirmada pelas referidas duas testemunhas do meu conhecimento as quais me declararam serem eles outorgantes os próprios. Em minha presença e na das mesmas testemunhas, por eles outorgantes foi dito : que, tendo ajustado, entre si, formarem uma sociedade em nome colectivo, a constituem, efectivamente, por esta escritura, nos termos constantes dos artigos seguintes: A sede da sociedade é nesta cidade, na rua de São Lázaro, número cinquenta e um, primeiro andar. O objecto da sociedade é o comércio de venda e fabrico de manteiga ou qualquer outro de comércio que eles, outorgantes,entenderem, explorado em fábrica que já possuem na freguesia de Santo André, de Ferreira d'Aves, concelho de Satam, podendo

também ser explorado em qualquer outra fábrica que venham a adquirir. A firma social é Martins & Rebello, da qual ambos passam a fazer uso, mas só em objecto concernente a esta sociedade, ficando expressamente proibido ser fiadora a firma, esta arranjar qualquer letra de favor ou ainda ser empregada para qualquer outro fim que não seja as operações desta sociedade e aquele dos sócios que usar dela fora dos casos em que lhe é permitido, ficará individualmente responsável para com o outro sócio pelos prejuízos que do mau uso da firma advierem para a sociedade. A sociedade tem hoje o princípio e a sua duração é por tempo indeterminado, devendo contudo, aquele dos sócios que pretender a dissolução, prevenir o outro sócio, com a antecedência de seis meses. O sócio Alfredo Martins será o caixa da sociedade. O sócio, António Cardozo Rebello, será o gerente da fábrica, e o sócio Alfredo Martins, terá a seu cargo a gerência da sociedade nesta cidade de Lisboa. O capital social é de três contos de reis, representado na referida fábrica, maquinismo e mais utensílios e em dinheiro, entrando cada um com um conto e quinhentos mil reis, ficando deste modo, ambos com partes iguais na sociedade. Os ganhos e prejuízos serão repartidos e sofridos por eles sócios, em partes iguais. Todos os anos será dado um balanço e parciais, quando qualquer dos sócios os exigir. Para seus gastos pessoais por conta dos seus lucros, o sócio Alfredo Martins, levantará mensalmente da caixa social a quantia de quarenta e nove mil reis e o sócio António Cardozo Rebello, quarenta mil reis. Que quando o sócio António Cardozo Rebello estiver nesta cidade, poderá mensalmente da caixa social a quantia de quarenta e nove mil reis. A Sociedade dissolve-se pela saída, falecimento ou interdição de qualquer dos sócios, por acordo e pelos outros casos legais. Dissolvida a sociedade em vida dos sócios, estes serão os liquidatários, mas, desde já, determinam o direito de licitar para o caso de ambos quererem ficar com o estabelecimento social. Dissolvida a sociedade por falecimento ou interdição de qualquer dos sócios a liquidação será feita pelo sócio sobrevivo ou ajuizado que será o liquidatário, com a assistência dos herdeiros ou representantes do sócio falecido ou interdito. Dissolvida a sociedade, em qualquer dos casos, a respectiva partilha e liquidação serão feitas em caso de morte ou interdição, conforme o último balanço, e em vida, pelo balanço a que por essa ocasião se proceder. Aquele dos sócios que pretenda a dissolução da sociedade, dará ao outro sócio a quantia de quatro contos de reis. Dissolvida a sociedade por falecimento ou interdição de qualquer sócio – o sócio sobrevivo obriga-se a continuar em sociedade com os herdeiros ou representantes do sócio falecido ou interdito quando aqueles queiram e possam associar-se. Que estipulam o prazo de seis meses para a liquidação da sociedade, e cada um receba o que lhe pertence do capital de lucros, quer esta se dê em vida dos sócios, quer falecimento ou interdição de algum deles. Todas as dúvidas e desinteligências que se levantarem entre o sócio sobrevivo ou ajuizado e os herdeiros ou representantes do sócio falecido ou interdito serão sem coimas resolvidas pelo juízo de amigável arbitragem, indicando seu árbitro, cada uma das partes dissidentes e escolhendo os indicados o terceiro de desempate que, em falta de acordo, será nomeado pelo juiz de Direito de uma das varas do Tribunal de Comarca desta cidade. Os mais casos, aqui não previstos, serão regulados pelo que se achar disposto no Código Comercial Português e mais disposição da lei aplicáveis. Nestes termos é o seu contrato de sociedade que, respectivamente se obrigam a cumprir e pelo qual responderão perante as repartições desta comarca de Lisboa. Adiante irei pôr duas estampilhas de imposto do selo ( de taxa de dois mil reis cada uma ) o selo de quatro mil reis, devido por esta escritura. Assim o disseram, outorgaram e respectivamente aceitaram sendo testemunhas presentes : Luíz Fernando

de Pinho, casado, comerciante, morador á rua de São Mamede, número seis e João Fernando de Pinho, casado, comerciante, morador á rua de Forneiros, número duzentos e vinte e um, que com os outorgantes esta escritura vão assinar depois de ser a todos lida em voz alta por mim Notário. ( Seguem-se algumas ressalvas e respectivas assinaturas)

Averbamento nº 1 : - Por escritura de 10-5-976 lavrada a fls. 42 e seguintes do livro nº 212-C do 15º Cartório Notarial de Lisboa, foi feita a partilha dos bens do casal comum de Arnaldo Mota Rebelo e Maria da Piedade Lopes Gallis Mota Rebelo, dissolvido por divórcio litigioso e, em consequência foram adjudicados ao ex-marido 13/56 avos indivisos de partes sociais do montante de 3.400.000$00 no capital social de “ Martins & Rebelo”. Lisboa,1-06-976.

Álbum 15 de imagens

Imagens 80 a 84 – Digitalizações das cinco páginas da escritura inicial (Martins & Rebelo, 1906)

8.1 – Outras escrituras relacionadas com a Martins & Rebelo

Para além da escritura inicial de constituição, foram descobertas outras que, após o resumo das mesmas, deixo as imagens das respectivas páginas:

- Venda que faz , Maria Gomes de Pinho , em 3 de Novembro de 1933, à firma Martins & Rebelo, de um mato e oito leiras no lugar de Coelhosa e Pinheiro Manso;

Álbum 16 de imagens

Imagens 85 a 88 – Digitalizações das quatro páginas da escritura (1933)

- Venda que faz Adriano Ferreira da Cruz, do lugar de Coelhosa, no dia 18 de Abril de 1934, à firma Martins & Rebelo, de um terreno de mato, com 2500m2, no lugar do Pinheiro Manso;

Álbum 17 de imagens

Imagens 89 a 93 – Digitalizações das cinco páginas da escritura (1934)

- Trespasse com arrendamento que faz Custódio Pereira Dias de Couto Esteves, em 14 de Janeiro de 1940,de uma fábrica de lacticínios instalada numa casa no lugar de Catives, da freguesia de Couto Esteves,com todos os seus direitos industriais, alvarás e licenças de exploração bem como a transferência de registo da marca de manteiga “Beleza”,e ainda os postos

de desnatação em Couto Esteves (dois), Silva Escura , dois em Junqueira, três em Rocas, seis em Arões e dois em Cepelos; vendem ainda todos os maquinismos, utensílios, vasilhanme, todos os pertences da fábrica e pastos;

Álbum 18 de imagens

Imagens 94 a 102 - Digitalizações das nove páginas da escritura (venda que faz Custódio Dias, 1940)

- Trespasse que faz Manuel Fernandes Cubal, no dia 26 de Abril de 1940 à firma Martins & Rebelo , de uma fábrica de lacticínios que possui numa casa de habitação, composta de rés do chão, nesta vila, incluindo os postos de desnatação de Vila Cova do Ferrinho, cartim, Bouça, Provizende de cima, Cazal de Arão e metade do Cruzeiro;

Álbum 19 de imagens

Imagens 103 a 109 – Digitalizações das sete páginas da escritura (trespasse que faz Manuel Cubal, 1940)

- Trespasse que faz Manuel da Silva Tavares, do Pinheiro da Bemposta, no dia 12 de Maio de 1940, de uma fábrica de lacticínios no lugar

de Figueiredo de cima , instalada no rés do chão de sua casa térrea e todos os direitos industriais;

Álbum 20 de imagens

Imagens 110 a 117 – Digitalizações das oito páginas da escritura (Manuel Tavares, 1940)

- Trespasse que faz Arcanjo Martins de Pinho de Macieira à Velha, no dia 26 de Outubro de 1940, à firma Martins & Rebelo ,de uma fábrica de manteiga que possui no lugar de Macieira à Velha, instalada numa casa de habitação e todos os direitos industriais, postos de desnatação e demais pertenças.

Álbum 21 de imagens

Imagens 118 a 126 - Digitalizações das nove páginas da escritura (trespasse que faz Arcanjo Martins de Pinho , 1940)

9 – A primeira escritura da Lacto-lusa(transcrição)

Constituição da Sociedade por quotas “ Lacto Lusa, Limitada” com sede em Vale de Cambra. No dia doze de Novembro de mil novecentos e quarenta, neste meu cartório sito ao Largo da Feira, da vila e concelho de Vale de Cambra, perante mim, Álvaro Ferreira Landureza, licenciado em Direito e notário da comarca de Oliveira de Azeméis e as testemunhas adiante nomeadas e no fim assinadas compareceram como outorgantes : primeiro – Manuel de Almeida Martins, segundo – Américo Tavares da Silva ; terceiro – Herculano de Almeida Martins, desta vila ; quarto – Francisco da Costa Leite, morador no lugar das Agras, freguesia de Codal, deste concelho ; quinto – António Soares da Costa Neves ; sexto – Francisco Tavares de Almeida, desta vila ; sétimo – José Soares de Almeida, do lugar de Sandiães, freguesia de Rôge, deste concelho; oitavo – Agostinho Fernandes Cubal, desta vila ; nono – José Soares Ferreira, do lugar de Lordelo, freguesia de Vila Chã; décimo – Manuel Luiz de Almeida, morador no lugar de Macieira -a-Velha, freguesia de Macieira de Cambra ; décimo primeiro – Mário Soares Ferreira, morador no mencionado lugar de Lordelo; décimo segundo – Manuel de Almeida Ferreira Bugalho, desta vila, todos casados e industriais; décimo terceiro – Victorino Corrêa Vaz de Aguiar, solteiro, maior, industrial, morador no lugar de Ramilos, freguesia dita de Macieira de Cambra ; décimo quarto – João de Almeida Freitas, casado, industrial, morador no lugar da Relva, freguesia de Vila Chã ; décimo quinto – Miguel Martins de Pinho, casado, industrial, morador no lugar da Farrapa, freguesia de Chave, do concelho de Arouca ; décimo sexto – Joaquim Rodrigues, casado, industrial, morador na cidade de Leiria, à rua da Victoria, número vinte e sete; e décimo sétimo – Albino de Almeida Sampaio e Melo, casado, industrial, morador também nesta vila, todas pessoas cuja identidade reconheço por serem minhas conhecidas e das testemunhas desta escritura, também do meu conhecimento pessoal, pelo que verifiquei a sua idoneidade de tudo o que dou fé. E disseram todos os outorgantes : Que pela presente escritura, é constituída uma sociedade comercial por quotas de responsabilidade limitada, nos termos e sob as cláusulas dos artigos seguintes: PRIMEIRO – A sociedade adopta a denominação de “ Lacto Lusa, Limitada “, tem a sua sede nesta vila de Vale de Cambra e durará por tempo indeterminado, sendo o seu começo em um de Janeiro de mil novecentos e quarenta e um. SEGUNDO - O seu objecto é a indústria de lacticínios, bem como qualquer outro ramo de indústria ou negócio deliberado em Assembleia Geral de todos os sócios, com a excepção do bancário. TERCEIRO – O capital social é de setecentos e onze mil duzentos e setenta e cinco escudos, igual á soma das quotas de todos os sócios, que são : a dos sócios Manuel de Almeida Martins, Américo Tavares da Silva e Herculano de Almeida Martins, setenta e três mil e trezentos escudos, cada um ; de Francisco da Costa Leite, António Soares da Costa Neves e Francisco Tavares de Almeida, sessenta e dois mil e cem escudos cada um ; do sócio sétimo outorgante José Soares de Almeida, cinquenta e sete mil e seiscentos escudos ; de Agostinho Fernandes Cubal, trinta e sete mil quinhentos e setenta e cinco escudos ; de José Soares Ferreira, quarenta e dois seiscentos e cinquenta escudos ; de Manuel Luiz de Almeida, dezoito mil quinhentos e cinquenta escudos ; de Mário Soares Ferreira, dezoito mil e trezentos escudos ; de Manuel de Almeida Ferreira Bugalho, cinquenta mil oitocentos e oitenta cinco escudos ; de Victorino Corrêa Vaz de Aguiar, doze mil setecentos e setenta e cinco escudos ; de

João de Almeida Freitas, dois mil e quatrocentos escudos ; do sócio Miguel Martins de Pinho, sete mil e quinhentos escudos ; de Joaquim Rodrigues, dezassete mil e quinhentos escudos e do sócio Albino de Almeida Sampaio e Melo, trinta e nove mil trezentos e cinquenta escudos – PARÁGRAFO ÚNICO – As quotas de todos os sócios, encontram-se realizadas em dez por cento, devendo os restantes noventa por cento, serem realizados em prestações conforme deliberação da Assembleia Geral e as necessidades da sociedade. QUARTO – Não poderão ser exigidas prestações suplementares aos sócios, mas estes, se isso se tornar necessário ou conveniente, poderão fazer suprimentos á sociedade nas condições de juro e reembolso que a Assembleia Geral deliberar. QUINTO – A gerência ou seja a administração e direcção de todos os negócios da sociedade e com dispensa de caução ficam a cargo de dois gerentes que serão nomeados em Assembleia Geral, pela maioria de votação e que a representarão em Juízo e fora dele, os quais entre si, distribuirão por acordo, os respectivos serviços, e não havendo esse acordo, será o assunto resolvido pela Assembleia Geral de sócios. PARÁGRAFO – PRIMEIRO – Não poderão ser nomeados ou eleitos gerentes pessoas estranhas á sociedade. PARÁGRAFO – SEGUNDO – No caso de falecimento ou impedimento de qualquer dos gerentes, a Assembleia Geral elegerá outro para o substituir durante o seu impedimento. SEXTO – Todos os assuntos ou documentos que envolvam responsabilidade, deverão ser assinados em conjunto pelos dois gerentes sem o que a nada obrigarão a sociedade. PARÁGRAFO UNICO – É expressamente proibido aos gerentes , agir como tais em assuntos estranhos aos negócios da sociedade ou obrigar esta como avalista ou fiadeira, sob pena de o que fizerem em contravenção disto, a nada obrigar a sociedade e eles serem pessoalmente responsáveis para com ela por quaisquer prejuízos que ela venha a sofrer por isso. SÉTIMO – Haverá um Conselho Fiscal, composto de três membros, que serão eleitos em Assembleia Geral, o qual terá as atribuições, além das que constam nesta escritura, as que são determinadas por lei, não sendo este cargo remunerado. OITAVO – Os sócios poderão retirar mensalmente, para as suas despesas, por conta dos lucros que venham a apurar-se no balanço do respectivo exercício, até á importância que foi determinada em Assembleia Geral, mas os sócios gerentes só poderão retirar até metade daquela importância. NONO – Nenhum dos sócios poderá ceder a sua quota, sem a oferecer á sociedade, que terá o direito de preferência na sua aquisição pagando-a por preço igual ao do seu valor nominal, acrescida da percentagem das entradas realizadas, mas se estiver integralmente realizada a quota, receberá o seu valor nominal em dobro; do disposto neste artigo exceptuam-se as cessões ou divisão de quotas feitas pelos sócios a seus filhos, netos ou sobrinhos que são livremente permitidas. PARÁGRAFO - ÚNICO – No caso da Junta Nacional dos Produtos Pecuários, atribuir a cada quilo de manteiga, valor superior a mil escudos, esse excesso será aumentado no valor nominal da quota a amortizar. DÉCIMO – A sociedade poderá admitir novos sócios ficando o capital aumentado com o valor das respectivas quotas. DÉCIMO PRIMEIRO – As indemnizações que a Junta Nacional de Produtos Pecuários, atribuir aos postos de desnatação ficam a cargo exclusivo dos sócios aos quais eles disserem respeito, ficando desobrigada a sociedade desses pagamentos. DÉCIMO SEGUNDO – Na admissão de empregados para a sociedade, serão sempre preferidos os próprios sócios, filhos ou netos destes, com maior competência para os cargos a desempenhar, sendo os ordenados destes, estipulados pela gerência de acordo com o Conselho Fiscal. DÉCIMO TERCEIRO – O falecimento ou interdição de quaisquer dos sócios, não importará a dissolução da sociedade, a qual continuará com os sócios sobrevivos ou capazes e os herdeiros do sócio falecido ou o representante do interdito. PARÁGRAFO PRIMEIRO - Se for mais do que um herdeiro do sócio

falecido, terão estes de escolher um de entre si, que os represente como tais na sociedade. PARÁGRAFO SEGUNDO – No caso do herdeiro do sócio falecido não querer continuar na sociedade, receberá a sua quota amortizada pelo valor segundo o disposto no artigo nono, acrescido dos créditos acusados pela escrituração e da percentagem de lucros pelo tempo decorrido desde o último balanço até à data do evento por uma percentagem proporcionalmente igual à que ao falecido ou interdito tenha pertencido em igual período de tempo. DÉCIMO QUARTO – Em trinta e um de dezembro de cada ano, fechar-se-á o balanço anual do exercício do respectivo ano devendo o mesmo estar concluído e ser aprovado até ao último dia do mês de Fevereiro seguinte; mas trimestralmente, a gerencia deverá afixar na respectiva sede, um balancete para conhecimento dos sócios. DÉCIMO QUINTO – Os lucros líquidos apurados pelos balanços anuais, depois de retirados cinco por cento para o fundo de reserva legal, serão distribuídos pelos sócios na proporção das respectivas quotas e os prejuízos serão suportados na mesma proporção até ao limite legal da sua responsabilidade. DÉCIMO SEXTO – Em caso algum, os sócios dentro do Continente poderão exercer indústria igual á que a sociedade explorar nem ter ligações com qualquer entidade que explorar a mesma indústria, excepto com autorização da sociedade. DÉCIMO SÉTIMO – A Assembleia Geral dos sócios, reunirá ordinariamente uma vez por ano para apreciação e votação do balanço e contas da gerência; e extraordinariamente sempre que seja convocada por qualquer dos gerentes ou por cinco dos seus sócios, sendo as suas deliberações tomadas pela maioria do capital, salvo os casos em que seja exigida representação superior. PARÁGRAFO PRIMEIRO – As Assembleias Gerais serão convocadas por meio de cartas registadas com aviso de recepção, dirigidas aos sócios com a antecipação de cinco dias,sempre que por lei não sejam exigidas outras formalidades. PARÁGRAFO SEGUNDO – As Assembleias Gerais são presididas pelo sócio que para esse fim for escolhido na ocasião, pelos demais sócios. PARÁGRAFO TERCEIRO – Qualquer dos sócios poderá fazer-se representar nas Assembleias Gerais por outro sócio em quem delegue os seus poderes, bastando que o faça por simples carta. DÉCIMO OITAVO – A sociedade dissolver-se-á nos casos prescritos na lei ou então por acordo dos sócios que representem pelo menos três quartas partes do capital social e serão liquidatários os gerentes dela. DÉCIMO NONO – Todos os sócios por si, seus herdeiros ou representantes comprometem-se a não requerer imposição de selos nem arrolamentos dos haveres sociais ainda que a lei lhe dê tal direito; o que transgredir esta cláusula, pagará aos outros sócios como pena aqui livremente estabelecida, uma quantia igual á da respectiva quota além de responder pelas perdas e danos que causar á sociedade, podendo fazê-lo no entanto, os sócios em conjunto desde que comporte a maioria do capital. VIGÉSIMO – Em tudo mais aqui não previsto regularão as disposições legais aplicáveis. POR MINUTA. Por uma certidão passada ontem pela Repartição do Comércio do Ministério da Economia, verifiquei que não está inscrita no registo das denominações das sociedades por quotas nem no das sociedades anónimas, denominação idêntica á da sociedade constituída pela presente escritura, ou alguma por tal forma semelhante que possa induzir em erro, certidão esta, que vou arquivar para os devidos efeitos. Assim o disseram e outorgaram na presença das testemunhas : Domingos Francisco da Silva, casado, empregado industrial, e António de Almeida, casado, comerciante e industrial, ambos moradores nesta vila , que vão assinar esta escritura com os outorgantes, não assinando o outorgante Mário Soares Ferreira, por me declarar ser cego, embora em tempos soubesse assinar, depois de lida em voz alta e acto contínuo na presença simultânea de todos, duas vezes, uma por mim notário e outra por Humberto de Almeida Guerra, casado, ajudante da Conservatória do Registo

Civil desta vila e aqui morador, pessoa para tal fim designada para proceder á segunda leitura, por aquele Mário Soares Ferreira e que também vai assinar comigo notário. Em seguida expliquei aos outorgantes os dizeres desta escritura e pela sua respectiva ordem vão apôr a sua impressão digital do indicador direito. (Seguem-se as assinaturas e impressões digitais.)

Imposto de selo que vai ser pago por guia 2.870$10,dois mil oitocentos e setenta escudos e dez centavos. Estatística : Série 12, conhecimento 668, verbete 8.

Conta : Nº 1 Nº 2 Nº 24

25$00 1.026$30 25$80 1.077$10

Imposto de selo Artigo 225 Distribuidor Livro e despesas Verbete

2.870$10 1$50 2$50 36$05 $75 Total 2.910$90 3.988$00

Três mil novecentos oitenta e oito escudos Registado no respectivo livro sob o nº 23. Imposto de selo e recibo : 2.874$10, dois mil oitocentos setenta e quatro escudos e dez centavos.

AVERBAMENTOS

1º Averbamento : - Admissão de sócios e aumento de capital = Livro 424, fls.32 vº deste Cartório. 2º Averbamento : - Admissão de novos sócios, aumento de capital e cessão de quotas, por escritura lavrada neste Cartório a fls.24 vº do L.º 427. 3º Averbamento : - Por escritura exarada neste Cartório Notarial de Vale de Cambra em 17-12-963, a fls.53 vº e seguintes, do L.º nº590, foi aumentado o capital social de 980.775$00, para o de 9.807.750$00, sendo o aumento de 8.826.975$00, sendo alterado o artº 3º do pacto social e eliminado o parágrafo único do mesmo artigo. Vale de Cambra, 17-12-963. 4º A- Averbamento : - Por escritura de 26-11-1975, lavrada a fls. 88 do Lº B – 30 do Cartório Notarial de São João da Madeira, foi feita a divisão da quota de 505.000$00 pertencente em comum a Lucinda Joaquina da Silva Costa Leite e marido, Ilda da Costa Leite e marido, José Francisco da Costa Leite e esposa e Manuel Joaquim da Silva Costa Leite e mulher, ficando cada casal com uma quota de 126.250$00, na Lacto-Lusa, Lda. 2-12-75. 5º Averbamento : - Por escritura de 29-12-1977, exarada neste Cartório Notarial de Vale de Cambra, a fls. 70 e seguintes, do Livro nº 670, foi aumentado o capital social de 9.807.750$00, para o de 39.231.000$00, seno o aumento de 29.423.250$00; e foi alterado o pacto social mediante nova redacção dada ao artº 15º – Vale de Cambra, 2912-1977. 6º Averbamento : - Por escritura de 15-4-980, exarada no Cartório Notarial de S. Pedro do Sul, exarada a fls.39vº a 100vº do Lº. nº A-397, Marcolina de Jesus e marido António de Oliveira; Idalina Augusta Peralta e marido Manuel Gomes; Manuel de Pinho Peralta e mulher Maria Duarte Ribadas;- e José de Pinho Peralta e mulher Rosa Alves Baja, dividiram a quota de 60.000$00 que possuíam em partes iguais no capital da sociedade, em quatro quotas iguais, ficando, cada um dos referidos casais, com uma delas.- Vale de Cambra 17-4-980. 7º Averbamento : - Por escritura de 18-4-83, lavrada a fls 14 do Lº 17-B, deste mesmo Cartório, a sócia Judite de Almeida Martins da Silva vendeu á sociedade Lacto Lusa, Lda, a sua quota de valor nominal de 916 contos. Vale de Cambra 18-4-83. 8º Averbamento : - Por escritura de 7-10-83, lavrada a fls 25vº do L.º Escrituras Diversas nº 19-B, deste mesmo Cartório, Rosa Henriques de Almeida, Glória de Almeida Freitas ou Glória Henriques de Almeida ou ainda Glória Henriques de Almeida Freitas e marido, e Fernando de Almeida Freitas e mulher e António de Almeida Freitas, venderam á própria sociedade as posições que possuíam, correspondentes a 11/12 de uma quota de valor nominal de 24 contos. Vale de Cambra, 7-10-83. 9º Averbamento : - Por escritura de 19-12-83, lavrada a fls.95vº do Livro de Escrituras Diversas nº 19-B, deste mesmo Cartório, Ilce dos Santos Gomes vendeu à própria sociedade a posição de 1/12 que possuía na sociedade, numa quota de valor

nominal de vinte e quatro contos, ficando, com esta compra, a sociedade detentora da referida quota de vinte e quatro contos. V.Cambra,19-12-83. 10º Averbamento : - Por escritura 14-12-84, lavrada a fls 27, do Livro notas para Escrituras Diversas nº 25-B, deste mesmo Cartório, foi aumentado o capital social para 235.386.000$00 e, por consequência alterado o artº 3º do pacto social. Vale de Cambra, 14-12-84. 11º Averbamento : - Por escritura de 8-11-85, lavrada a fls.45 e seguintes do Lº. 712, deste mesmo Cartório, a sócia Judite de Almeida Martins da Silva,que também usa Judite Martins da Silva, dividiu a sua actual quota de 6.072.000$00 em 2 novas quotas, uma de 4.572.000$00 que reservou para si, e outra de 1.500.000$00 que vendeu à própria Lacto Lusa Lda, por 3.000 contos. Vale de Cambra, 8-11-85. 12º Averbamento : - Por escritura outorgada neste Cartório e lavrada a partir de fls.82, do L.º 33-B, foi alterado totalmente o pacto excepto o artº 2º, nesta data. Vale de Cambra, 31-01-1986. 13º Averbamento : - Por escritura lavrada neste Cartório desde fls.52 a fls.54 do L.º nº 716 em 20-5-86 a sócio Maria Jesubina de Almeida e marido, José Alves Soares, dividiram uma das quotas que possuíam, no valor nominal de 1.380.000$00 em duas quotas autónomas e distintas, de 690.000$00 cada. Pela mesma escritura cederam à filha Maria do Céu de Almeida Soares Ribeiro Nogueira e marido, José Manuel Ribeiro Nogueira, uma dessas novas quotas e a outra à filha Maria Dulce de Almeida Soares. Vale de Cambra 20-5-86. 14º Averbamento : - Poe escritura lavrada a fls.( ilegível ) do L.º 716, deste Cartório, datada de hoje, a sócia Maria Preciosa da Conceição Costa Leite Sales, dividiu as suas duas quotas de valor nominal de 4.800.000$00 e de 1.800.000$00, a primeira em cinco quotas autónomas e distintas, no valor nominal de 960.000$00 cada, e a segunda em cinco quotas autónomas e distintas, no valor de 360.000$00 cada. O sócio José Correia Pinto Sales Júnior, dividiu a sua quota do valor nominal de 1.632.000$00 em cinco quotas, autónomas e distintas, sendo três no valor de 326.500$00 e duas no valor de 326.250$00, cada. - Pela mesma escritura e com reserva do usufruto vitalício, por inteiro, até à morte do último dos titulares, sobre as primeiras duas quotas cederam todas as novas quotas aos filhos e respectivos cônjuges do seguinte modo : - a Maria Augusta Correia Leite e marido, 3 quotas, no valor de 960.000$00, de 360.000$00 e de 326.250$00 ; - ao Arlindo Leite Pinto Sales e mulher, 3 quotas no valor de 960.000$00, de 360.000$00 e de 326.500$00 ; - a Dulce Leite Correia Sales e marido, 3 quotas no valor de 960.000$00, de 360.000$00 e de 326.500$00 ; - ao José Jorge Leite Pinto Sales e mulher, 3 quotas no valor de 960.000$00, de 360.000$00 e de 326.250$00 ; - e a Branca Fernanda Correia Leite Sales Machado,3 quotas no valor de 960.000$00, 360.000$00 e de 326.500$00 . Vale de Cambra, 22-5-86. 15º Averbamento : - Por escritura outorgada hoje, neste Cartório, lavrada a partir de fls.77, do L.º de Notas 716, a sócia Dulce da Costa Leite, cedeu a sua quota de 4.800 contos ao seu único filho, dr. Fausto Leite de Almeida, com reserva de usufruto a seu favor e do marido. Vale de Cambra, 5-6-86.

16º Averbamento : - Por escritura outorgada hoje, neste Cartório e lavrada a partir de fls. 21, do Lº 36-B, foi feita a divisão da quota do valor nominal de 144 contos, entre os seus comproprietários, Arlindo Tavares da Silva e outros. Vale de Cambra, 12-6-86. 17º Averbamento : - Por escritura outorgada nesta data e neste Cartório, lavrada a partir de fls. 81, do Lª 716, o sócio Herculano de Almeida Martins dividiu a sua quota de 6.792 contos, em quatro quotas, sendo três de 2.000 contos, cada, que cedeu a cada uma das suas 3 filhas, Maria Olanda Martins Leite, Maria Luísa Ferreira Martins Fernando, Maria Manuela Ferreira Martins, e sendo uma de 792 contos que reservou para si. Vale de Cambra, 12-6-86. 18º Averbamento : - Por escritura outorgada hoje neste Cartório, lavrada a partir de fls.85,vº, do Lº 716, o sócio Francisco da Costa Leite, dividiu a sua quota do valor nominal de 3.504 contos, em 2 quotas, sendo uma de 3.300 contos que cedeu à nora Maria Salete Silva Carvalho Pinheiro Leite, e outra de 204 contos que reservou para si. Vale de Cambra, 16-6-86. 19º Averbamento : - Por escritura outorgada nesta data e neste Cartório, lavrada a partir de fls, 34,vº do Lº 36-B, a sócia, Ilda da Costa Leite, dividiu a sua quota de 3.030 contos em 2 quotas, de 1.015 contos, cada, que cedeu uma a cada um dos filhos José Paulino Neto Costa Leite e Maria Gabriela Neto Costa Leite. Vale de Cambra, 20-6-86. 20º Averbamento : - Por escritura outorgada hoje neste Cartório lavrada a partir de fls. 94,vº, do Lº 716, a sócia Guilhermina da Costa Ferreira, dividiu a sua quota de 1.188 contos, em 5 quotas, sendo 2 de 237.750$00 cada, que cedeu a cada um dos António de Almeida e José de Almeida, e 3 de 237.500$00 que cedeu a cada um dos Idalina Soares de Pinho, Maria do Carmo de Pinho e Maria Madalena de Almeida, com reserva de usufruto a seu favor. Vale de Cambra 29-6-86. 21º Averbamento : - Por escritura outorgada neste Cartório, em 7-8-86, a fls 5 do Lº ( ilegivel) – D, esta sociedade adquiriu uma quota de 375 contos, pelo preço de 3.500 contos a José António Bastos da Silva; uma quota do valor nominal de 187.500$00, pelo preço de 1750 contos a Carlos Jorge Soares Ferreira; uma quota do valor nominal de 375 contos pelo preço de 3.500 contos, todas elas da soc. “ J. Silva & M. Ferreira Ldª “, com sede nesta vila. Vale de Cambra, 7-8-86. 22º Averbamento : - Por escritura de hoje, outorgada neste Cartório, a partir de fls. 46 do Lº 38-B, Branca da Costa Leite e marido dividiram as quotas de que eram titulares em cinco novas quotas cuja sua propriedade cederam a seus cinco filhos. Vale de Cambra, 14-10-86. 23º Averbamento : - Por escritura exarada a fls. 34 vº do Livro de notas para escrituras diversas nº 644-A, do Cartório Notarial de Sever do Vouga, o sócio Fernando Maria Barbosa e esposa Fernanda Soares de Almeida, dividiram a quota de que são titulares no valor nominal de 252.000$00, em duas novas quotas uma no valor de 20.000$00, que para si reservam e outra de 232.000$00, que cedem, em comum e em partes iguais aos seus filhos, eng. António Jorge Soares Barbosa, dr. José Augusto Soares Barbosa, Maria Helena Soares Barbosa de Oliveira Braga, Ana Alice Soares Barbosa Leite de Pinho, Rui Manuel Soares Barbosa e Maria do Rosário Soares Barbosa, pelo preço de 3.600.000$00. Vale de Cambra 7-10-1987.

24º Averbamento: - Por escritura de hoje, outorgada neste Cartório, a partir de fls.37vº, do Lº 8.D, a sócia Maria América da Costa Leite dividiu a sua quota de 6.864.000$00 em quatro quotas iguais de 1.716.000$00 que cedeu a cada um dos seus filhos, Aníbal, Álvaro, Maria Aldina e Maria Cândida. Vale de Cambra, 16-10-87. 25º Averbamento: - Por escritura pública outorgada hoje, neste Cartório, lavrada a partir de fls. 54,vº, do Libro de Notas nº 8-D, Urgel da Costa Leite cedeu a Maria Graciete da Costa Leite Fonseca Maia, a sua propriedade de uma quota de valor nominal de 1.800.000$00 que possuía nesta sociedade. Vale de Cambra 30 de Outubro de 1987. 26º Averbamento: - Por escritura pública outorgada hoje, neste Cartório, lavrada a partir de fls. 12, do Livro de Notas para Escrituras Diversas nº 9-D, foi aumentado o capital social de 235.386.000$00 para 688.278.000$00 e alterado o artº 3 deste pacto social. Vale de Cambra 23 de Dezembro de 1987. 27º Averbamento: - Por escritura pública outorgada hoje, neste Cartório, lavrada a partir de fls.31, do Livro de Notas para Escrituras Diversas nº 9-D, foi esta sociedade transformada em sociedade anónima de responsabilidade limitada, com a firma “ Lacto Lusa, S.A.”. Vale de Cambra, 23 de Dezembro de 1987.

Álbum 22 de imagens

Imagens 127 a 141 - Digitalizações das 15 páginas da escritura de constituição da Lacto-Lusa

9.1 – Alacto-Açoreana

Esta empresa foi constituída em 2 de Dezembro, no ano de 1957, lavrada a fls. 90 do livro nº 464, no cartório notarial de Vale de Cambra. Tinha como objecto a exploração e comercialização do leite e seus derivados nos Açores. Era seu principal associado a empresa Lacto-Lusa deste concelho. O seu capital social era de um milhão e quinhentos e setenta e cinco mil escudos. Um dos seus gerentes foi o Dr. Fausto Leite de Almeida. Foi vendida juntamente com a Lacto-Lima e a empresa mãe – a Lacto-Lusa.

Álbum 23 de imagens

Imagens 142 a 166 - Digitalizações das 25 páginas da escritura de constituição da Lacto-Açoreana (e procurações)

9.2 – Uma referência à Lacto-Lima

Refira-se que A Lacto Lima , LDA foi criada através da escritura lavrada em 28 de Setembro de 1957, livro nº 551, a fls. 14 e seguintes, no cartório notarial de Vale de Cambra por Maria Fernanda de Vasconcelos de Aguiar Fonseca e Castro. O seu capital social era de 1.500.000.000$00. A Lacto-Lusa era detentora de 972.000.000$00 do capital social daquela. Para além da Lacto-Lusa, entre outros , eram sócios desta empresa : Ana Elizabete Norberto Dantas de Brito; Ana Maria Dantas de Brito Cajeira; João José Dantas da Cunha Cajeira; António Norberto Dantas de Brito Parente; Antónia Oliveira Dantas; António Manuel Dantas de Brito; Maria Salomé da Cunha Veiga; César Manuel Dantas de Brito; Ana Maria Veloso Castro e Costa Dantas Brito; Maria Adelina dos Santos Domingues Gois Ferreira e outros . A 25 de Novembro de 1993,a Lacto-Lima tornou-se numa sociedade anónima. teve na sua gerência Manuel Ferreira Leite e Fausto Leite de Almeida. Este último também esteve na gerência da Lacto-Açoreana,igualmente associada da Lacto-Lusa nos Açores.

Álbum 24 de imagens

Imagens 167 a 176 – Digitalização das 10 páginas da escritura da Lacto–Lima

Conclusão
Em jeito de conclusão,pretende-se destacar que o principal objectivo deste trabalho foi descobrir fontes importantes da história dos lacticínios em Vale de Cambra. A entrada de Portugal na Comunidade Europeia, para além das implicações políticasque todos conhecemos, teve na actividade agrícola do concelho um nefasto efeito. A agricultura foi abandonada, os agricultores deixaram de possuir uma fonte de rendimento mensal considerável proveniente da produção de leite e os campos foram abandonados. A actividade industrial ligada aos lacticínios foi o principal factor de crescimento e de desenvolvimento do concelho. Com esta desenvolveram-se as indústrias da madeira, latoaria e posteriormente da metalurgia. Após 30 anos de Europa Comunitária, Vale de Cambra atravessa um período menos favorável, onde as principais centros de empregabilidade são, no presente, a indústria metalomecânica. Desapareceram as firmas Martins & Rebelo e posteriormente a Lacto-Lusa absorvida que foi por capitais estrangeiros, dando origem a Lacto-Ibérica e actualmente,em Teamonde, a firma “Bele Portugal”. Estas são, pois, as notas mais significativas do trabalho que me propus realizar. Tenho a convicção de que muito fica por explorar. No entanto, um trabalho deste género, de investigação histórica, com limitações impostas pelo prazo de execução, fica condicionado ao possível. E este foi a descoberta das principais fontes de informação, deixando para desenvolvimentos posteriores, uma reflexão mais aprofundada. Este trabalho tem a particularidade de possuir vários aspectos que podem despertar a curiosidade de outras pessoas, encontrando aqui o ponto de partida para novas ou aprofundadas investigações. Neste pormenor reside, a meu ver, o mérito deste trabalho.

Bibliografia

ALMEIDA, Manuel de. “A evolução da Indústria no Concelho de Vale de Cambra”. Boletim Cultural de Vale de Cambra, n.º2. Vale de Cambra: Câmara Municipal de Vale de Cambra, 1998, pp. 23-35.

archInform – relativamente ao arquitecto português Filipe (Nobre) Figueiredo: http://www.archinform.net/arch/9168.htm?ID=7a9ffedf3b76c179204617725314032 1

COMÉRCIO DO PORTO, Indústria de Lacticínios, Uma instalação modelar, 1930; CRUZ, Maria da Graça Mendes de Pinho da. Vale de Cambra – Meio século de imagens”. Volume II – Transportes, Indústria e Comércio – Fotografias da família Sousa. Gráfica de Coimbra, Lda. 1999.

FERREIRA, António Martins. “Vale de Cambra – comércio, indústria, artes e ofícios”. Aveiro e o seu Distrito, n.º 20. Aveiro: Publicação semestral da Junta Distrital de Aveiro, 1975, p.11-13.

FERREIRA, António Martins. Vale de Cambra. As suas belezas naturais e o seu engrandecimento. Vale de Cambra: Edição do autor 1942.

DIÁRIO DE NOTÍCIAS, Fiscalização de manteiga , 20/08/1937; DIÁRIO DE NOTÍCIAS, Síntese da vida industrial e agrícola de Vale de Cambra, 12/06/1938;

NUNES, Artur Figueiredo – Leite Mecanismos de Produção. [s.l.], Federação Nacional das Cooperativas de Produtores de Leite, 2004, p.15

PINHEIRO, António Cipriano Afonso; CARVALHO, Maria Leonor da Silva Economia e Políticas Agrícolas. Lisboa: Edições Sílabo, 2003, p. 257

RALO, José A. Carrilho. “A evolução da indústria de lacticínios no distrito de Aveiro.” Arquivo do Distrito de Aveiro, vol XIX, n.º 75. Aveiro: Arquivo do Distrito de Aveiro, 1953, p.161-184.

RODRIGUES, Alexandre; Trabalho de Arqueologia Martins & Rebelo, disciplina de Registo Arquitectónico, 2003/2004.

SEQUEIRA, Inês; Correia, Raquel de Almeida. PUBLICO.PT, Carteira inclui participação em farmácia, lacticínios e centro de abate de suínos, Estado abre baú das empresas descartáveis a partir de 2009, Texto publicado no Suplemento de Economia de31/10/2008

SOARES, Sandro, http://kanadasekaminhos.blogspot.com/2008_07_01_archive.html

TAVARES, Vítor M. F., Arquivologia, artigo 2006