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A economia da inteligência coletiva

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Uma das questões clássicas da economia social é como os comportamentos dos indivíduos e das instituições são
afetados pelas relações sociais atuando naquele contexto. Estas relações estão invariavelmente presentes na
economia e a situação criada por sua ausência poderia ser imaginada somente por meio de esquemas mentais de
ideação. Grande parte da tradição utilitarista, inclusive a economia clássica e a neoclássica, pressupõe um
comportamento racional e individualista para os atos econômicos que são, minimamente, afetados pelas relações
sociais. A nova sociologia econômica substituiu o ator individual por um coletivo pensante. No cerne destas novas
configurações reside a proposta do “embeddedness” que é o entrelaçamento de um grupo ou uma firma com redes
sociais participando em conjunto dos atos da ação econômica. A ideia marca um comportamento das instituições de
hoje comprometidas com suas relações sociais e onde seria um terrível mal-entendido interpretar sua conduta como
centrada em elementos independentes.

A sociologia econômica pode ser entendida de modo conciso como a aplicação de ideias, conceitos e métodos
sociológicos aos fenômenos econômicos: dos mercados, empresas, lojas, sindicatos, sistemas de informação e assim
por diante. Segundo os sociólogos da economia, o homo economicus não explica mais, como ator individual
racionalmente explicado, as nuances do mercado a produção, distribuição e consumo. Ele foi substituído pelo
homo socialis que em convivência e "enraizado" em redes de convivência passa a determinar os feitos de uma nova
economia.

Uma das críticas centrais à visão da economia clássica é a de que esta teria tomado como modelo de ação da
economia de mercado um radicalismo do individualismo racional e postulado a partir daí que esta seria a base de
toda condição humana nos negócios. Marcel Mauss *, por exemplo, mostra como nas sociedades não
mercantilizadas os povos estabelecem relações de troca pautadas por outra lógica que não a mercantil
individualista. Nelas se estabeleceriam tais relações baseadas em um princípio da reciprocidade conhecido como o
"Dom"*. A economia do Dom é baseada no valor de uso dos objetos ou ações. Contrapõe-se portanto à economia de
mercado, que se fundamenta no valor de troca de bens e serviços; é na realidade uma troca recíproca com algumas
características definidas por convenções e não por regras escritas.

Politicamente já se explicou este agir coletivo através da condição do viver do homem na terra. Hanna Arendt *
relaciona três atividades fundamentais da condição humana como sendo a vida ativa do indivíduo: o labor o trabalho
e a ação. O labor é a condição tácita, que corresponde ao processo biológico do corpo predeterminado para o
estado do poder fazer. A condição humana do labor é o viver a vida na terra.
O trabalho corresponde ao saber fazer com o experienciado pelos conhecimentos culturalmente absorvidos e
desenvolvidos. Com o trabalho o homem exerce sua condição de realizar para poder trocar e manter sua
permanência na terra. A ação é a única atividade da condição humana que só pode ser exercida em conjunto com
outros homens. É a condição da pluralidade e a qualidade da vida política do homem na terra. Com a ação o homem
exerce seu estatuto de inteligência para introduzir o conhecimento no seu espaço de convivência estruturando as
condições de produzir e trocar em conjunto.

A sociologia econômica fornece a base teórica para a nova economia da das trocas no espaço digital e um agir em
mercado pautado por uma lógica de interação de grupos ou de um pensar coletivo. Introduz, ainda, instrumentos
práticos para delimitar esta atuação. Dos seus vários recursos destacamos: o Crowdsourcing, o crowdfunding e a
estigmergia.

Estigmergia é um mecanismo de coordenação indireta entre os atores ou suas ações. O nome é derivado do grego
para mark e ergon: "marcar" uma "ação" e indica a ideia que um agente deixa sinais no meio ambiente que outros
agentes percebem e guiam a ação subsequente. O princípio é que os traços deixado por um ato no meio ambiente
indica como será o seguimento da próxima ação pelo mesmo agente ou seu próximo. Dessa forma, as ações
subsequentes tendem a reforçar ou construir a trilha, criando uma emergência de eventos espontânea, coerente e
sem hierarquia. A estigmergia é uma forma de auto-organização sem qualquer coordenação quando segue os rastros
de ações anteriores; produz estruturas complexas e inteligentes, sem necessidade de qualquer planejamento ou
controle ou comunicação direta entre os agentes. É uma colaboração eficiente entre os atores/ações e
extremamente simples que não se baseia em memória ou na inteligência a individual.

O instrumental da estigmergia foi desenvolvido pela observação de enxames de insetos. Por exemplo, ao trocar
"informação"as formigas, deixam uma trilha de feromônio como marca de seu atuar, uma forma de agir que formará
uma inteligência em coletiva em rede. Uma formiga sozinha nada explica, mas seu conjunto exala um entendimento
de inteligência coletiva, de planejamento, controle e ação. A rede de funções se delineia sem memória prévia e
mostra ao observador um curso da ação ou seu seguimento.

Este instrumental tem sido utilizado em diversas áreas. Em um ambiente hospitalar, por exemplo, colhe-se
informação superposta que é a suplementar a outra quando seguimos as marcas deixadas em prontuários médicos,
que sozinhos não indicam um problema de saúde generalizado, mas ao seguirmos as pegadas dos procedimentos em
todos os prontuários teremos um histórico da saúde de um grupo que não está escrita explicitamente em
seguimento, mas em pistas que podem revelar importantes tendências.

Na administração a observação dos traços dos procedimentos formado por um caminho de links ou pela compra de
insumos, patenteamento ou a documentação formal e informal de uma empresa revela ao administrador um curso
de ação a seguir, uma indicação do estado motivacional da equipe, alternativas para o planejamento e se
corretamente direcionado revela o modo de proceder e o comportamento da concorrência e do mercado.

Outro instrumento é o crowdsourcing. Até uma época recente se usava só o outsourcing que designa a ação por
parte de uma organização em usar mão de obra terceirizada para realizar determinados tipos de serviço; está ligado
a ideia de subcontratação de serviços. Em outras palavras, outsourcing é a transferência das atividades meio para
uma empresa terceirizada quando a relação custo, benefício, competência forem favoráveis. Porém esta
terceirização não permite repassar a outsiders a autoridade sobre as questões estratégicas da organização.

O instrumental do crowdsourcing, utiliza a inteligência e os conhecimentos de um coletivo para obter subsídios


inclusive para suas decisões estratégicas. Para isso a empresa, o grupo o ou o indivíduo, forma e indaga a uma rede
específica que é formada por clientes, fornecedores, colaboradores, fomentadores e técnicos da produção, por
exemplo. O problema que se quer debater é colocado e soluções são apresentadas em um ambiente de colaboração
com coordenação. Aqui a grande diferença da estigmergia: no crowdsorcing há uma coordenação, uma memória e
uma comunicação entre os atores. De fácil implantação e gerenciamento, após montada a rede de consulta fornece
dados para o planejamento, troca de insumos, preço, nichos de mercado, etc..

Um variante é o crowdfunding em que uma coordenação procura fomento para lançamento ou modificação do
produto ou serviço através de clientes potenciais que participam da rede em troca de uma remuneração em cotas.
Aqui nichos de demanda com interesses entrelaçados podem financiar a oferta. Estes instrumentos já funcionam no
exterior e existem com menor impetuosidade no Brasil.

Isto não é uma previsão para o futuro é a tendência atual de uma nova economia que que inicia um novo ciclo e é
formatada por configurações operativas em ambiente digital e de racionalidade de redes de inteligência coletiva.
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* Notas:

- Maus, M., Ensaio sobre a dádiva: Forma e razão da troca nas sociedades arcaicas, ver em
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69091998000300001

Economia do Dom - http://pt.wikipedia.org/wiki/Economia_do_dom

- ARENDT, Hanna, A Condição Humana, Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1989.

- Exemplos no Brasil: “Crowdsourcing – a sabedoria das multidões”


http://bit.ly/k1rhMk

Revisão de artigos em C&T através de Crowdsourcing


http://www.sympoze.com/

- Uma ação de estigmergia é difícil de ser mostrada pois envolve um observador e as coisas observadas para aprendizagem ou
decisões estratégicas ou proprietárias. Poderíamos citar como ações semelhantes, as informações entrelaçadas no Twitter, a
Wikipédia, a Facebook, mas todos baseados em um software e assim fruto de um coordenação e hierarquia. Contudo, a
observação destas redes para uma finalidade específica seria um exemplo de um processo de estigmergia.