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OS NOVOS PARADIGMAS EMPRESARIAIS:

A GESTÃO AMBIENTAL OPERANDO MUDANÇAS NO AMBIENTE DOS NEGÓCIOS

ADRIANA MARTELLO VALERO

RESUMO:
Programas voluntários de gestão ambiental têm se tornado uma ferramenta importante para a
diminuição dos impactos nocivos ao meio ambiente. Tanto indústrias quanto empresas de outros
segmentos têm implementado programas de Gestão Ambiental com propósitos de preservação e
melhoria de sua imagem corporativa perante a sociedade, órgãos reguladores, imprensa e
investidores internacionais. Este artigo examina as posições sobre economia e meio ambiente e
sua interface com as organizações empresariais. Mostra alguns tipos de gerenciamento
ambiental dando ênfase à ISO 14000, suas vantagens e os aspectos problemáticos de
implementação. Enfatiza a importância do envolvimento da variável ambiental nos processos
organizacionais.

PALAVRAS-CHAVE:
Programas voluntários; meio ambiente; gerenciamento; ISO 14000.

ABSTRACT:
Enviromental management self-regulation programs have become an important tool for the
reduce of bad impacts to the environment. Industries, division companies and the like, have
introduced codes of environmental management with preservation purposes and improvement of
their corporate image with the society, regulation agencies, press and international invest. This
paper examines the positions about economy and environment and also their interface with the
companies; it shows some kinds of environmental management with emphasis to ISO 14000, the
gains and the problematic aspects of the implementation. It emphasises the importance of the
environmental variable in the company organizational process.

KEY WORDS
Self-regulation; environmental; management; ISO 14000.

MAIO/2002
2

INTRODUÇÃO:

A tendência atual nos mostra caminhos que levam à melhoria no desempenho ambiental
das operações realizadas por empresas em todos os segmentos. Não só as indústrias estão
preocupadas em manter os padrões ambientais, o envolvimento passa a ser geral e influencia
desde empresas prestadoras de serviços até grandes parques industriais (Nash & Ehrenfeld; 1997:
487). Com isso, o presente artigo foi desenvolvido com o objetivo de estudar os programas de
Gestão Ambiental 1 que foram ou estão sendo utilizados pelas organizações em caráter preventivo
e voluntário com vistas promover a diminuição dos impactos ambientais.
Apesar de alguns programas envolverem o estabelecimento de políticas de Meio
Ambiente 2 , estaremos analisando aqueles que são implementados sem o envolvimento de
organismos ou instituições do Estado. Iremos focalizar os elementos básicos dos sistemas de
responsabilidade ambiental, principalmente a implementação de programas com base nas normas
ISO 14000, como estas podem ajudar uma empresa a gerenciar, medir e melhorar os aspectos
ambientais de suas operações e quais são os pontos de estrangulamento de tal implementação.
É necessário portanto, apresentar uma noção conceitual preliminar afim de estabelecer o
contexto para a Gestão Ambiental e posteriormente oferecer elementos que favoreçam a
construção de um sistema para ajudar a compreensão dos modelos propostos focalizando a
implementação da ISO 14000.
A premissa básica é que uma mudança de paradigmas nas empresas, adotando normas de
Gestão Ambiental, levará indiretamente à melhoria no desempenho ambiental, bem como
melhoria nos negócios da empresa gerada por maior confiança por parte do público, empregados,
acionistas, mercado, instituições financeiras e grupos ecológicos.

1
Gestão Ambiental: Um conjunto de medidas e procedimentos bem definidos e adequadamente aplicados que visam
reduzir e controlar impactos causados pela ação do homem sobre o meio ambiente.
2
Instrumentos regulatórios de Comando e Controle: referem-se a instrumentos de políticas públicas que são
estabelecidos e inspecionados pelo Governo.
3

O AMBIENTE EMPRESARIAL E AS MUDANÇAS:

No final dos anos 60 e início dos anos 70, começaram a ocorrer mudanças significativas
nos ambientes empresariais: organizações que eram consideradas somente como instituições
econômicas com preocupações voltadas para a produção e distribuição dos produtos por ela
produzidos, vivenciaram o surgimento de novos paradigmas como: combinação de ciência e
tecnologia em busca de padrões aceitáveis de degradação ambiental e aspectos sociais e políticos
influenciando o ambiente dos negócios (Donaire; 1999:13).
Na “antiga” abordagem tradicional a organização com enfoque estritamente econômico
buscava somente a maximização dos lucros e minimização de custos, sem se ater a aspectos
relativos ao contexto ambiental no qual estavam inseridas. Acarretando com isso alguns efeitos
indesejáveis à comunidade, representando um alto custo social para todos.
É necessário considerar que o desenvolvimento gera impactos tanto na atividade
econômica como no meio ambiente, pois, “o funcionamento do sistema econômico requer a
extração do meio ambiente de recursos naturais essenciais, que são transformados em bens e
serviços, que, em última instância são consumidos. E tanto a produção como o consumo geram
resíduos, dejetos, boa parte dos quais acaba sendo devolvido ao meio ambiente” (Mueller;2000:
28). Hoje, não podemos mais descartar as influências do ambiente externo nos processos
empresariais. A emergente relação entre sociedade e ecologia, requer a incorporação de novos
valores nos procedimentos industriais e administrativos das organizações. Além disso, os
veículos de comunicação e o público em geral têm estado mais atentos ao posicionamento das
empresas no tocante ao cumprimento de leis e regulamentos que tentam melhorar o padrão
ambiental.
Esta pressão tem levado as empresas a implementarem programas de Gestão Ambiental
em busca de maior comprometimento ético e responsabilidade social em sua atuação, buscando
se adequar às mudanças e diminuir os impactos causados ao meio ambiente sem com isso
comprometer sua competitividade.
A onda que leva a maioria das empresas a adotar práticas ambientalmente corretas, não
decorre somente do modismo ambiental atual, nem das pressões dos órgãos reguladores ou
consumidores.
4

Decorre sim, da análise de que a adoção destas medidas são rentáveis à empresa, proporcionando
acesso a mercados intermediários, empréstimos e melhorando a cotação de suas ações devido a
demanda por produtos ambientalmente corretos. Ainda, o somatório dos benefícios gerados pelos
programas ambientais são maiores em relação a seus custos.
Devido a estes aspectos, a integração das questões ambientais na empresa e sua aceitação
pela comunidade dos negócios tornam-se cada vez mais prioridade de ação nas organizações.

ENFOQUE ECONÔMICO DA VARIÁVEL AMBIENTAL:

A mais antiga forma de se pensar em sistema econômico e meio ambiente deixava em


segundo plano a existência de inter-relações entre estes. Chegando ao extremo de tratar a
economia como um sistema isolado 3 , prevalecia o pensamento de que o meio ambiente forneceria
infinitamente e de forma gratuita os bens para serem utilizados no processo produtivo e
posteriormente consumidos pela sociedade. (Mueller; 2000:40).
Somente a partir do final dos anos 60 é que se iniciaram os estudos em economia
ambiental, estudos estes que proporcionaram o desenvolvimento das principais correntes de
pensamento que implementaram a inserção da dimensão ambiental na análise econômica.
Os dois precurssores da economia ambiental foram: Frederick Soddy e Sergei Podolinski.
No entanto, os trabalhos destes dois autores não repercutiram sobre a evolução da análise
econômica, que começou a se desenvolver mais recentemente, motivada principalmente pela
ocorrência de três eventos: a intensificação da poluição nas economias industrializadas; os
choques do petróleo da década de 70 e a publicação em 1972 do relatório do Clube de Roma.
(Mueller;2000:46)
Atualmente, a economia ambiental se apoia na noção de desenvolvimento sustentável 4
que é empregada nas principais correntes econômicas ligadas ao meio ambiente, e, apesar de seu
conceito ser um tanto “vago”, procura combinar em seu contexto três vertentes principais:
crescimento econômico, eqüidade social e equilíbrio ecológico.

3
É um sistema que não intercambia nem matéria nem energia com seu meio externo.
4
Conforme Mueller, 2000 pg. 48: Desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento que garante o atendimento das
necessidades do presente sem comprometer a habilidade das gerações futuras de atender suas necessidades.
5

O relatório da Brundtland Comission, de 1.987, intitulado Nosso Futuro Comum trata justamente
do equilíbrio do crescimento econômico com a proteção ambiental. Envolvendo a implementação
da prevenção à poluição, redução do uso de substâncias tóxicas e do desperdício e a
desaceleração do uso de recursos não renováveis. Na verdade o equilíbrio entre economia e meio
ambiente é o maior desafio para as próximas décadas, e necessitará da cooperação de governos,
sociedade e organizações para que possamos vislumbrar melhorias na conservação ambiental.
A moldura conceitual para a avaliação da economia ambiental, se baseia nas principais
correntes econômicas da atualidade que tem diferentes ênfases entre si e abordam as três
dimensões essenciais do desenvolvimento sustentável, porém existem diferenças entre as
hipóteses ambientais que adotam. (Donaire; 1999:40-49)
Enfim, as teorias têm suas limitações e contribuições, e, é evidente que o celeuma em
torno dos estudos sobre economia e meio ambiente continuará, motivado por questões técnicas e
interesses políticos e econômicos. No entanto, nossa posição como pesquisadores se coaduna
com as tendências do conhecimento científico atual.

GESTÃO AMBIENTAL NA EMPRESA:

A Gestão Ambiental envolve em seus conceitos o estabelecimento de políticas de meio


ambiente que visam diminuir ou controlar os impactos causados pela ação do homem sobre o
meio ambiente. Neste contexto, alguns economistas defendem que para conseguir um padrão de
desenvolvimento sustentável é necessário intervenção pública ou ação governamental. Outros
acreditam que as metas ambientais podem ser atingidas através do livre funcionamento dos
mercados, não sendo necessária a intervenção.
Entre os pontos de vista acima descritos, existem diversos instrumentos para alcançar a
sustentabilidade ambiental, entre eles: Instrumentos de persuasão5 ; de comando e controle 6 e
instrumentos econômicos 7 .

5
Exemplos: fornecimento de informações; tradição comunitária e comunal; comportamento pró-ativo (empresas que
procuram ter uma relação harmoniosa com o meio ambiente); educação ambiental e publicidade.
6
Zoneamento; licenciamento; legislação; avaliação de impactos ambientais e outros.
7
Taxas; impostos; subsídios; depósitos reembolsáveis etc.
6

Apesar das divergências entre os instrumentos, todos estarão em busca de um mesmo objetivo
que é alcançar a sustentabilidade ambiental, pressionados por interesses diversos: padrões
ambientais cada vez mais exigentes; pressões de grupos ecológicos; órgãos legais e
regulamentadores; clientes; concorrentes; empregados e também pela exigência de alguns
investidores e financiadores. (Nash & Ehrenfeld; 1997:488)
Estaremos neste artigo, tratando especificamente do instrumento de persuasão –
Comportamento pró ativo – com enfoque empresarial, que se baseia na criação de uma política
ambiental interna, com o estabelecimento de objetivos e alvos para a implementação de
programas com o intuito de atingir estes objetivos e monitorar ou medir sua eficácia através dos
resultados, para posteriormente corrigir os problemas detectados com o intuito de melhorar cada
vez mais o desempenho ambiental geral da organização. (Tibor & Feldman; 1996:20)
Empresas de todo o mundo, desde multinacionais às pequenas e médias empresas de todos
os setores de indústria e serviços, públicas ou privadas, estão preocupadas em avaliar
sistematicamente os impactos ambientais de suas atividades, devido às drásticas transformações
nos processos industriais nos últimos anos. Tanto no que tange às formas de organização de
trabalho, quanto aos processos de produção propriamente ditos. O impacto ambiental destas
organizações, industriais ou não, e o estilo de vida modernos se tornaram uma questão
importante para a sociedade como um todo, e aquelas que não se enquadrarem poderão se tornar
menos competitivas num mercado de concorrência cada vez mais acirrada.
A forma e a intensidade da responsabilidade ambiental são diferentes entre países e
empresas, que resulta da pressão exercida pelo movimento ambientalista e da política ambiental
adotada pelos diferentes governos. O grau de interface com a variável ecológica dependerá do
ramo de atividade da empresa, seu tamanho, tipo de capital e localização. (Maimon; 1998:400).
Contudo, pode-se dizer que a responsabilidade ambiental nas empresas é desigual, independente
de ser aplicada nos países desenvolvidos ou terceiro mundistas.
“Até a década de 70, as empresas dos países desenvolvidos limitavam-se a evitar
acidentes locais e seguir as normas impostas pelos órgãos governamentais”. (Cavalcanti; 1999).
Nesta época ocorreram os dois choques do petróleo, 1973 e 1979, e as indústrias passaram a
reavaliar seus processos de produção, pois, estavam sendo pressionadas a incorporar
equipamentos de despoluição. Somente a partir da década de 80 a postura ambiental reativa
começa a fazer parte dos planos empresariais, passando por mudanças significativas.
7

“O sistema de regulamentação dos Estados Unidos começou a olhar as abordagens


focalizadas no final dos processos utilizadas no passado e a buscar abordagens preventivas. O
Federal Polution Prevention Act [(lei federal de prevenção da poluição, nos EUA, de 1990,
encorajou a prevenção da poluição”. (Tibor & Feldman; 1996:42)].
A partir de então, a responsabilidade ambiental passa gradualmente a ser vista como
necessidade de sobrevivência, consistindo assim, num mercado promissor onde a visão
estrategista do “ganha/ganha” 8 , adquire um comportamento empresarial responsável, começando
a trabalhar em busca do desenvolvimento sustentável a longo prazo.
Na qualidade ambiental deve-se tratar de forma integrada o desenvolvimento do produto e
do processo e o gerenciamento dos resíduos resultantes da produção. Além de transpor a área
ocupada por suas instalações controlando os impactos gerados pelas operações da empresa sobre
o meio ambiente externo. Consiste então, no “atendimento aos requisitos de natureza física,
química, biológica, social, econômica e tecnológica que asseguram a estabilidade das relações
ambientais no ecossistema no qual se inserem as atividades das empresas”. (Vale; 1997:23).
Cabe ressaltar que as empresas só buscarão desenvolver uma estratégia ambientalmente
correta se obtiver sinais claros do mercado que isto será rentável. Prova disso é que os gestores
ambientais lidam com diversos impasses quando, ao tentarem adotar um enfoque ecológico, se
vêem às voltas com as exigências conflitantes de interessados que rivalizam entre si,
principalmente os acionistas cujas expectativas giram em torno de demonstrações financeiras das
empresas (Andrade; 2000:12). Assim, os eco-administradores devem estar preparados para
enfrentar os desafios de harmonizar certas divergências, buscando um objetivo comum e não um
conflito, entre desenvolvimento econômico e proteção ambiental.
A gestão ecológica não questiona a ideologia do crescimento econômico, que é a principal
força motriz das atuais políticas econômicas, porém reconhece que o crescimento econômico
ilimitado e sem controle, poderia levar a um desastre, já que nossos recursos são escassos e
finitos. Sugere, desta forma, introduzir-se a sustentabilidade ecológica como critério fundamental
de todas as atividades de negócios.

8
Postura totalmente capitalista, onde a firma não dá importância às relações com o meio ambiente e a sociedade em
que está inserida, almejando obter benefícios, independente dos estragos que possa vir a causar.
8

Contudo, as estratégias organizacionais devem priorizar a Gestão Ambiental e encará-la


como um fator determinante do desenvolvimento sustentável; estabelecendo políticas, programas
e procedimentos para conduzir suas atividades de modo ambientalmente seguro e sustentável.
(Andrade; 2000:34).
Os novos rumos da empresa ambientalmente responsável deverão ser tratados por
critérios sustentabilidade administrativa, financeira e comercial, pela adoção de processos limpos
e a minimização de impactos desfavoráveis, fatores essenciais à oferta de bens e serviços de
qualidade confiável. “O comportamento empresarial pró ativo trata das condições básicas para
que a busca permanente de índices positivos entre benefício e custo se desenvolva em harmonia
com um relacionamento digno e estável entre produtor e consumidor”. (Valle; 1997:34).

PROGRAMAS DE GESTÃO AMBIENTAL:

A maneira pela qual o gerenciamento ecológico deve se estruturar em uma organização


depende do tipo de atividade a que esta se dedica e do seu tamanho. Em função de seu ramo de
atividade, poderá existir maior ou menor envolvimento com a variável ambiental. Portanto, estas
diferenças se traduzirão em arranjos estratégicos adequados ao tipo da organização.
As empresas do ramo industrial são as geradoras dos maiores impactos ambientais, pelo
motivo de ter processos transformadores de matéria prima em bens finais. Já as empresas do
ramo comercial, que envolvem mera intermediação dos bens produzidos pelas indústrias, têm
impactos ambientais de moderada intensidade. Quanto às empresas prestadoras de serviços, estas
são as que provocam os menores efeitos sobre o meio ambiente. (Andrade; 2000:45).
Portanto, serão as características de cada empresa que decidirão a intensidade e
complexidade de seu programa ambiental. “Empresas situadas em ramos industriais em que o
envolvimento da problemática ambiental é intenso, o nível de autoridade e influência da área de
meio ambiente deve ampliar-se”, enquanto que, “nas demais empresas, com potencial poluidor
reduzido, a tendência é que a área ambiental apresente nível de autoridade funcional reduzido”.
(Donaire; 1999:68).
9

A essência da investigação e identificação do tipo de empresa reside na determinação de


variáveis críticas para a diferenciação de fenômenos que são investigados, e podem variar
conforme a complexidade de cada organização. A partir desta avaliação a empresa pode escolher
os códigos de gerenciamento ambiental que mais se adaptem ao tipo de organização.
Segerson & Li (1999) destacam os programas: Polution Prevention Pays (3P da 3M) e o
Waste Reducion Always Pays (WRAP) da Dow Corporation, que são práticas bem sucedidas de
comportamento pró ativo. Os autores enfatizam que uma das grandes motivações para estes tipos
de programas é a potencial redução de custos em comparação aos instrumentos de comando e
controle.
O Sistema Integrado de Gestão Ambiental, conhecido por Modelo Winter e o Programa
de atuação Responsável da Abiquim que é a versão brasileira do Responsible Care Program, são
descritos por Donaire (1999:115), juntamente com a ISO 14000 como propostas para o
estabelecimento de programas de gestão ambiental.
Ainda, com base em Nash & Ehrenfeld (1997), podemos citar o Responsible Care
Program, que surgiu no Canadá em 1970, o ICC Business Charter for Sustainable Development,
desenvolvido por um grupo de indústrias em 1991 e novamente a ISO 14000.
Enfim, diversos são os programas de gestão ambiental, os apresentados aqui são apenas
alguns entre os muitos que ainda resta citar. Porém em toda a literatura consultada um programa é
sempre destaque, a ISO 14000.
O que vem a ser ISO? ISO é uma organização internacional especializada, a
International Organization for Standardization, fundada em 1946, com sede em Genebra, na
Suiça, com o objetivo de desenvolver normas (voluntárias) de fabricação, comércio e
comunicações. É estruturada em aproximadamente 180 comitês técnicos (TC´s) e possui
membros de entidades normativas provenientes de 111 países.
As normas da ISO são formuladas com o intuito de facilitar o comércio internacional,
aumentando a eficácia dos produtos e serviços através da definição de uma norma como um
acordo documentado com especificações técnicas ou outros critérios para serem utilizados
uniformemente como uma regra, diretriz ou definição de características como garantia de que os
materiais, produtos, processos e serviços sejam adequados a sua finalidade. (Tibor & Feldman;
1996:49).
10

Devido a aceitação da norma ISO 9000 de gestão da qualidade e a disseminação de


normas ambientais diversificadas em todo o mundo a ISO passou a dar atenção especial para a
área ambiental, criando em 1991 o SAGE – Strategic Action Group on the Environment (Grupo
de Ação Estratégica sobre o Meio Ambiente), com o intuito de formular recomendações com
respeito a normas ambientais internacionais. Após diversos estudos do SAGE, recomenda-se, em
1992, a formação de um comitê técnico, o TC 207, dedicado ao desenvolvimento de uma norma
internacional para gestão ambiental – a ISO 14000.
As normas da série ISO 14000, oficializada em 1996 com base na BS 7750 9 , tratam dos
sistemas de gestão ambiental e compartilham de princípios comuns estabelecidos para sistemas
da qualidade da série de normas NBR ISO 9000 10 . Devido a esta característica, as empresas
podem utilizar um sistema de gestão existente, como base para seu sistema de gestão ambiental.
Contudo, os vários elementos do sistema de gestão aplicados, irão variar em função dos
diferentes propósitos e diversas partes interessadas.
Podemos dividir as normas da série ISO 14000 da seguinte forma: a ISO 14001 é
formulada para fins de certificação junto a terceiros, a ISO 14004 fornece exemplos, descrições e
opções que auxiliam a implementar os sistemas de gestão ambiental, a ISO 14010 a ISO 14011 e
a ISO 14012 fornecem os princípios, os procedimentos e os critérios para a auditoria ambiental.
Existem ainda, outras normas que tratam da ISO 14000 11 , contudo, somente as especificadas
acima foram publicadas. (Tibor & Feldman; 1996:62-72)
As normas da série ISO 14000 possuem metodologias uniformes e aceitas
internacionalmente, o que vem a ser uma vantagem perante os demais programas de gestão
ambiental, devido a alta competitividade proporcionada pelo crescimento das estruturas de
demanda e oferta nos diversos países resultando no intercâmbio de mercados e a criação de novos
produtos e serviços. “Sem uma norma internacional comum, as empresas podem ser forçadas a
lidar com dúzias de sistemas separados e potencialmente incompatíveis para cada país com o
qual travarem negócios. Isso pode aumentar o custo dessas transações e impor barreiras
comerciais”. (Tibor & Feldman; 1996:24).

9
BRITSH STANDARD INSTITUTE, que emitiu a norma BS 7750, que foi preparada pelo Comitê de Política de
Normalização Ambiental e da Poluição da Inglaterra, tomada como referencial por outros países.
10
ISO 9000: conjunto de 05 normas que possuem relação com a gestão da qualidade nas empresas.
11
Maiores informações sobre as normas da série ISO 14000 ver TIBOR E FELDMAN (1996) pg. 62 e 63.
11

A proliferação de normas e iniciativas voluntárias estão crescendo intensamente devido às


pressões do mercado para que as empresas demonstrem maior cuidado e responsabilidade com o
meio ambiente, entretanto é necessário que haja uma padronização normativa com o intuito de
tornar os mecanismos voluntários mais eficientes.
Tibor & Feldman (1996) chamam atenção para o fato de que o uso de normas
internacionais para países onde os regulamentos são mais rígidos e os custos para adequação são
altos, as empresas podem alcançar um resultado mais eficiente das normas. Em contrapartida,
países em que custos para o cumprimento às regras são mais baixos, devido, em parte, a um
sistema regular menos exigente, a ISO 14000 poderá vir a exigir um maior compromisso com a
gestão ambiental eficaz.
O presente trabalho não tem a intenção de analisar a problemática que envolve a diferença
entre a aplicação da ISO 14000 nos países desenvolvidos e em desenvolvimento, porém, não
podemos deixar de destacar que esta diferença existe e que poderá vir a ser uma barreira na
aplicação de programas de gestão ambiental, podendo causar perda de competitividade
internacional aos países em desenvolvimento, devido a estes não terem condições de arcar com os
custos adicionais dos programas 12 .
As normas da ISO 14000 podem ser utilizadas por qualquer tipo de organização, em
qualquer país, tanto como ferramentas internas, quanto como requisitos para certificação
ambiental por terceiros. Contudo, o objetivo de uma implementação da ISO 14000 será o de
proporcionar meios para que a empresa lide com suas responsabilidades ambientais de forma
eficaz e que tenha como resultado uma conformidade sistematizada com exigências (internas e
externas), melhor desempenho ambiental que consequentemente se reverterão em lucros para a
organização. (Nash & Ehrenfeld; 1997:505-510).
Enfim, um programa de gestão ambiental, para ser bem desenvolvido necessita de um
estudo cuidadoso, pois, “o escopo da normalização é abrangente e irá atingir cada aspecto da
forma pela qual a indústria – em cada setor, em empresas grandes e pequenas – confronta os
desafios da proteção ambiental”. (Tibor & Feldman; 1996:258-261).

12
Maiores informações sobre as conseqüências econômicas da aplicação da ISO 14000 em países desenvolvidos e
no caso Brasileiro ver trabalho de NOGUEIRA e VIANA.
12

VANTAGENS E LIMITAÇÕES NA IMPLEMENTAÇÃO DA ISO 14000:

Conforme abordado anteriormente neste artigo, a cobrança de maior responsabilidade


ambiental por parte das empresas vem de grupos diversos da sociedade, bem como do próprio
mercado que se encontra cada vez mais competitivo, com isso, uma das vantagens da
implementação da ISO 14000 seria o de satisfazer as necessidades de todos com relação às
responsabilidades ambientais das empresas. Estas poderão proporcionar maior confiabilidade aos
seus consumidores, através da melhoria contínua de processos e produtos, abrangendo não só o
cumprimento da regulamentação existente, como de uma política publicamente declarada. A
implementação de programas de gestão ambiental eficazes podem ainda proporcionar a
negociação de taxas de seguros mais baixas e maior acesso a capital institucional.
A nível interno, um programa de gestão ambiental também pode trazer diversos
benefícios, levando a economias de custo através do melhor gerenciamento dos aspectos
ambientais das operações da organização. “A redução do número de infrações e o aumento da
eficiência operacional podem levar a empresa a uma redução nos desperdícios, à prevenção da
poluição, à substituição de elementos químicos e outros materiais por elementos menos tóxicos,
a um menor consumo de energia, a economias de custo através da reciclagem e outros
programas relacionados, podendo ainda facilitar a obtenção de alvarás operacionais e outras
autorizações”. (Tibor & Feldman; 1996:32).
Podemos ainda destacar alguns benefícios estratégicos dos programas de gestão
ambiental, Donaire (1999:59): “Melhoria da imagem institucional, renovação do “portfólio” de
produtos, aumento da produtividade, alto comprometimento do pessoal, melhoria nas relações
de trabalho, melhoria na criatividade para novos desafios, melhoria nas relações com os órgãos
governamentais, comunidade e grupos ambientalistas, acesso assegurado ao mercado externo e
melhor adequação aos padrões ambientais”.
Quanto às limitações, elas existem e não podem ser desconsideradas. Devemos encarar os
programas de qualidade como ferramentas a serem analisadas com cautela para que possamos
minimizar os possíveis impactos negativos de uma futura implementação.
13

Podemos destacar, neste caso, a questão dos custos que envolvem a implementação da
ISO 14000, pois, este programa pode ser oneroso e seus custos se tornam mais críticos quando
tratam-se de empresas de pequeno e médio porte. O tempo e o custo de uma certificação podem
representar um preço muito alto, impondo uma barreira comercial a essas empresas. A solução
seria implementar programas de forma gradual até atingir os níveis mais sofisticados.
Outro problema das normas internacionais é que estas podem criar possíveis barreiras
comerciais não-tarifárias, vindo a prejudicar o desempenho dos países em desenvolvimento.
Entretanto, isto é uma possibilidade que acontecerá se o programa for utilizado de forma
inadequada, pois seu objetivo é o oposto: “facilitar o comércio e minimizar as barreiras
comerciais através da alavancagem da participação”. (Tibor & Feldman; 1996:34).
Apesar das preocupações acima descritas, as organizações estão se conscientizando cada
vez mais das oportunidades competitivas da implementação dos programas de Gestão Ambiental,
devido a melhora na eficiência operacional e a obtenção de um Meio Ambiente mais preservado.

CONCLUSÃO:

Este artigo sugere que programas de gestão ambiental, como instrumentos voluntários,
incluem elementos que podem estabelecer uma conexão entre pessoas interessadas em obter
atividades favoráveis ao meio ambiente e organizações empresariais. Estes programas aumentam
o senso de gerenciamento e responsabilidade ambiental das empresas que os implementam,
através da combinação de fatores que proporcionam melhor prática ambiental.
Programas de gestão tem ajudado a institucionalização de novas práticas empresariais
voltadas a mudança de atitude e consciência ambiental. Entretanto, velhas atitudes sobre
responsabilidade ambiental e a relação com a comunidade ainda persistem, porém novos
paradigmas estão se tornando tão fortes que as empresas que não se adaptarem, poderão se ver
em situações difíceis para se manter no mercado.
Os modelos de gestão aqui apresentados, resumidamente, representam instrumentos e
técnicas que, de forma integrada, podem constituir um suporte ao gerenciamento ambiental em
qualquer organização, porém os detalhes, a forma e a interação entre os instrumentos e técnicas
devem ser aplicados atentando para as particularidades de cada organização.
14

A dinâmica da aplicabilidade dos programas de gestão ambiental abordada neste artigo


oferece a possibilidade de analisá-los criticamente. O estudo nos faz refletir sobre a dificuldade
em avaliar se estes programas são meras ferramentas mercadológicas ou se de fato podem ser
aplicados com o intuito de diminuir a degradação ambiental.
Nossa articulação baseou-se no levantamento do referencial teórico sobre o tema em
questão tratando da mudança de comportamento influenciada por pressões exercidas pela opinião
pública, pela expansão do movimento capitalista, pela disponibilidade de inovações tecnológicas,
entre outros. Concluímos que o aspecto mais importante e fundamental a ser considerado é que
existe a intenção de transformar a causa ecológica em um princípio básico da empresa, superando
o temor natural das organizações de enfrentar e equacionar de forma transparente seu
envolvimento com a questão ambiental.
15

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