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As famílias primeiro!
Programa eleitoral do Movimento Esperança Portugal
Legislativas 2011
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Este documento é composto


por três partes distintas:

Manifesto, em que se contextualiza e


justifica esta opção de escolha do tema “As
famílias primeiro!” para esta campanha
eleitoral e respectiva legislatura.

Princípios gerais programáticos, em que se


recupera do Programa do MEP a visão
sobre as questões políticas relativas às
famílias.

Propostas políticas em que enunciam


algumas medidas propostas pelo MEP
para as politicas públicas de apoio às
famílias portuguesas no actual contexto.

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As famílias primeiro!

Manifesto do MEP
para as Legislativas 2011
Portugal está no meio da tempestade. Portugal vai ter de adoptar um pro-
Uma crise gravíssima abateu-se sobre a grama de resgate financeiro resultante
sociedade portuguesa, não poupando dos erros cometidos nos últimos anos
nenhum sector, região ou geração. A que nos obrigaram a recorrer a um me-
confiança nas instituições atingiu míni- canismo de ajuda externa. É fundamen-
mos e a desesperança tocou no tecto tal ter mecanismos de compensação
máximo. Parece que estamos num beco social perante o impacto dessas medi-
sem saída. Urge resgatar a esperança. das e o stress acrescido a que os Portu-
gueses serão sujeitos.
Mas como, perguntam-se legitima- Onde radicam hoje as principais preo-
mente os portugueses? cupações do quotidiano a que os políti-
cos deve dar resposta? Onde estão as
Para recuperar a confiança e construir forças que podem ser potenciadas para
uma política de esperança, é urgente fazer face à crise?
uma proposta realista, que vá ao encon-
tro das principais preocupações dos Em todos os estudos sociológicos, os
portugueses e que se construa a partir portugueses indicam a sua família (e
dos activos existentes. rede de amigos) como prioridade abso-

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luta para as suas preocupações e a ân- políticas públicas de apoio às famílias


cora de segurança que permanece, con- que as ajudem a vencer a crise e a re-
tra tudo e em qualquer necessidade. É forçar a coesão social.
nesse espaço que se continua a exercer
prioritariamente um vínculo de solida- Sabe-se que uma sociedade será o que
riedade e de ajuda mútua. A família re- forem as suas famílias. E que a quali-
presenta também um espaço de dade de vida das famílias é uma impor-
responsabilidade intergeracional e de tante medida do nosso viver colectivo.
motivação para enfrentar dificuldades Em tempo de recursos escassos, im-
do tempo actual. É através das famílias porta decidir bem onde investir os
que mais facilmente se pode reforçar a meios existentes.
coesão social.
No quadro do ajustamento estrutural
Mas as famílias enfrentam nesta tor- da economia nacional e das contas pú-
menta, grandes dificuldades. Mais do blicas, que será feito num quadro de sa-
que uma geração “à rasca”, de que tanto crifício enorme, importa saber escolher
se falou, temos famílias “à rasca”. que mecanismos de coesão social se
devem reforçar, para obviar os efeitos
O impacto do desemprego crescente, mais devastadores da crise.
o aumento dos juros dos empréstimos
à habitação, o endividamento exces-
sivo, a redução das deduções fiscais
com despesas de educação e de saúde,
o crescimento da inflação, o aumento
dos impostos, a angústia com a edu-
cação dos filhos, a ausência de médi-
cos de família suficientes, são algumas
das dimensões dessa aflição.
O MEP escolhe o reforço das fa-
O MEP defende que a prioridade abso- mílias portuguesas para criar uma
luta, num tempo em que é necessário janela de esperança no futuro de
fazer escolhas, deve estar na criação, Portugal.
desenvolvimento e concretização de

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Princípios gerais para políticas


públicas de apoio às famílias.
(do Programa do MEP)

Um partido com futuro assento parlamen- “As famílias constituem o núcleo fun-
tar, focado numa “causa”, precisa de ter damental da sociedade. Elas represen-
bem clarificados os princípios por que se tam, desde sempre e numa dinâmica
rege, mais ainda do que medidas progra- evolutiva e sempre renovada, o espaço
máticas que estarão no âmbito de acção mais importante da realização da Pes-
do Governo. O Programa do MEP identi- soa, da transmissão de valores, da vi-
fica de uma forma muito detalhada esses vência entre gerações.
princípios fundamentais.
É nas famílias, para além da Pessoa in-
dividualmente considerada, que se deve
centrar a análise e compreensão da rea-
lidade social, os critérios de decisão, o
desenvolvimento de respostas e de ac-
ções.

O MEP acredita que considerando as


famílias, e a partir delas, se pode cons-
truir uma sociedade mais humana,
mais equilibrada, mais coesa e mais
solidária.

Cada família cumpre a sua missão,


quando lhe é possível desenvolver-se
como comunidade de pessoas ligadas
por afectos, compromissos e por um
elo de zelo mútuo, aberta à vida, à edu-
cação dos filhos, à solidariedade entre
gerações e com a comunidade.

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Uma política de família para o lorize o seu papel essencial, crie e pro-
século XXI. porcione condições para o desempenho
das suas funções, incentive o desenvol-
Sabe-se que uma sociedade será o que vimento das competências e responsa-
forem as suas famílias. E que a qualidade bilidades que lhe pertencem e lhe são
de vida das famílias é uma importante próprias, assumindo uma intervenção
medida do nosso viver colectivo. Assim subsidiária.
sendo, o MEP quer conceber e desen-
volver uma política de família para os A universalidade das políticas
nossos dias, quer numa perspectiva de família.
transversal a todos os sectores, quer
enquanto abordagem específica. Essa Para o MEP, uma política de família di-
política deve ser capaz de valorizar a rige-se a todas as famílias. É universal.
Família, capaz de garantir às famílias o Distingue-se, no entanto, de uma política
pleno exercício das suas responsabili- social, também essencial, que deve re-
dades e competências, capaz de prevenir conhecer e apoiar as situações familiares
e apoiar as situações de risco e vulnera- de maior risco ou exclusão.
bilidade.
Participação das associações
O MEP é, pois, “familiocêntrico”. de famílias.

Dever de apoio às famílias. Na visão programática que o MEP pro-


põe, as famílias devem participar, através
O Estado, nos diferentes âmbitos da das suas organizações representativas,
sua actuação, ao reconhecer a insubsti- no planeamento e desenvolvimento
tuível função das famílias na sociedade, da política de família. Também as enti-
tem o dever de as apoiar e proteger, dades públicas e privadas, autarquias,
concebendo e aplicando medidas que empresas, diferentes sectores sociais,
potenciem as suas competências e res- igrejas e os media devem promover e
ponsabilidades. colaborar no desenvolvimento de uma
política de Família.
Uma intervenção subsidiária
do Estado. Empresas social e
familiarmente responsáveis.
O MEP defende que o Estado respeite
a identidade e autonomia das famílias, Entende-se que a conciliação família/tra-
reconheça a primazia da sua acção, va- balho constitui um dos maiores desafios

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e prioridades actuais da política de fa- tárquico, de políticas de transportes,


mília, a nível nacional e internacional. de habitação, de cultura e lazer mais
Promover-se-á, assim, uma cultura de próximas das expectativas e necessi-
trabalho e de empresa social e familiar- dades das famílias.
mente responsável. Será incentivada e No quadro de políticas amigas da Fa-
defendida a igualdade de género e coo- mília, defende-se uma fiscalidade mais
peração homem/mulher na partilha de justa.
tarefas, responsabilidades e benefícios.
Serviços de mediação e
Educação, uma competência acompanhamento de situações
das famílias. de risco.

Reconhece-se, como já foi referido, um O MEP reconhece a importância da


papel central da família na educação mediação e do aconselhamento con-
dos filhos e, eventualmente, de outros jugal e familiar, que devem ser conhe-
menores dependentes, e valoriza-se a cidos e acessíveis. Na prevenção e acom-
participação das famílias na vida da co- panhamento de situações de vulnera-
munidade educativa. bilidade e de risco, com particular aten-
ção à problemática da violência domés-
Poder ter os filhos que se tica e das crianças e idosos em risco, o
desejem. MEP defende um trabalho mais eficaz,
flexível e próximo das famílias. Esse tra-
Na defesa de uma política pública de balho deve desenvolver, por um lado,
fomento da natalidade, o MEP propõe uma maior cultura na área das relações
a promoção de condições para que as interpessoais e competências parentais
famílias possam ter os filhos que de- e, por outro, proteger as vítimas, pro-
sejem. Reconhece-se a importância dos curando soluções estruturais para si-
chamados incentivos à natalidade, mas tuações disfuncionais.
estes só serão eficazes se integrados
numa política global de família. A solidariedade social vista a
partir da família.
Políticas amigas das famílias.
O MEP propõe também que a solida-
Tendo consciência de que é no contexto riedade social seja abordada, tenden-
de proximidade que se podem desen- cialmente, a partir de uma visão subsi-
volver políticas mais eficazes, o MEP diária da acção da família. Em vez de
lutará pela implementação, ao nível au- olhar cada público-alvo da acção social

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como elemento isolado e descontex- de maior vulnerabilidade, nomeada-


tualizado, prefere-se uma abordagem mente no cuidar das suas crianças, dos
que inclua sempre a família, partindo seus seniores ou das pessoas com ne-
dela, das suas potencialidades e das cessidades especiais.
suas fragilidades, para uma intervenção
complementar. Quando nenhum en- Combate à pobreza e à
quadramento familiar exista, ou quando exclusão, quer nas causas
o enquadramento existente seja dis- estruturais quer nas crises.
funcional e coloque em risco os ele-
mentos mais frágeis do agregado fa- O MEP compromete-se seriamente no
miliar, então a solidariedade social deve combate à pobreza e à exclusão social,
substituir-se integralmente, umas vezes das famílias e das pessoas, como uma
de forma definitiva, outras de forma das prioridades essenciais da sua acção.
temporária. É também nesse sentido que caminha
a política da esperança que o MEP quer
Responsabilidades partilhadas construir enquanto partido político. Tal
na solidariedade. desígnio deve incluir não só a ajuda de
urgência em situação de crise, mas so-
A solidariedade social é, neste contexto, bretudo o empenho na transformação
entendida como dinâmica de construção das condições objectivas e subjectivas
do bem comum, sem deixar ninguém que levam à pobreza e à exclusão.
para trás, para a plena realização de
todas as Pessoas. Não é uma exclusiva A libertação da pobreza.
responsabilidade do Estado, pois as
instituições da sociedade civil e as É fundamental a participação das famílias
pessoas individualmente consideradas e das pessoas pobres, como actores prin-
têm um papel central. Muito menos cipais do processo de libertação da pobreza
pode ser reduzida a uma simples es- e de inclusão social, num permanente
trutura ou sistema tecnocrático. respeito pela sua dignidade, autodeter-
minação e capacidade. Esse mesmo res-
Apoio às situações de maior peito exige a criação de mecanismos de
vulnerabilidade. auscultação dessas famílias e pessoas, a
contratualização de apoios, a afirmação
No âmbito da solidariedade social, dos deveres em simultâneo com os direitos
devem ser considerados mecanismos e a promoção da autonomia progressiva
clássicos, bem como soluções inovadoras, das famílias e pessoas pobres face aos
para ajudar as Famílias em situações mecanismos de solidariedade social.

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Acesso a habitação digna, uma Efectivo apoio à maternidade e


responsabilidade de todos. paternidade.

Uma sociedade humanista deve asse- O MEP defende a consolidação dos


gurar às famílias mais pobres o acesso mecanismos de apoio às licenças de
a uma habitação digna, quando aquelas, maternidade e paternidade. Apoia tam-
comprovadamente não consigam, pelos bém a viabilização do trabalho a tempo
seus próprios meios, reunir os recursos parcial, ou em regime flexível, para
mínimos necessários para esse fim. acompanhamento de familiares (des-
Um desafio urgente à solidariedade cendentes, colaterais em 1º grau ou as-
social é o realojamento das famílias cendentes) dependentes.
que vivem em habitações indignas,
tarefa que, sendo difícil, não é impos- Serviços de apoio à família na
sível, como já se provou no passado. guarda das crianças.
Isso requer firme determinação política
e mobilização dos meios necessários. Também se defende o reforço dos me-
Para o MEP, esta será sempre uma canismos de solidariedade social, prin-
prioridade primeira nas suas propostas cipalmente de creches, amas certificadas
políticas. e jardins-de-infância, financiados pelo
Importa, no entanto, reafirmar que desse Estado e geridos pelo terceiro sector,
apoio público decorrem responsabili- que permitam a guarda das crianças
dades para as famílias beneficiárias, no- durante o período laboral dos pais.
meadamente no zelo pela habitação Estes serviços devem ter um custo ajus-
concedida e no cumprimento das obri- tado à capacidade financeira de cada
gações contratualizadas. família e devem ser estimulados a fun-
cionarem com a flexibilidade de horários
Equidade nos apoios às necessária.
famílias.
Protecção eficaz das crianças
No cuidado à infância, as famílias devem e jovens em risco.
beneficiar de um apoio diferenciado
consoante as suas necessidades, devendo As crianças e os jovens em situações
as prestações familiares reflectir uma de risco devem beneficiar de uma pro-
perspectiva de equidade. Particular- tecção eficaz e competente do Estado,
mente, no caso das famílias pobres, é em associação com instituições de soli-
fundamental um apoio público reforçado dariedade. A sua guarda e defesa é res-
e diferenciado. ponsabilidade de todos nós. Todas as op-

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ções devem corresponder unicamente atitude de profundo respeito pela sua


à consideração cuidadosa do superior intocável dignidade humana, quer de
interesse da criança. um esforço permanente de inclusão
e promoção de igualdade de oportu-
Roteiro de prioridades para a nidades. As suas famílias devem ser
protecção da criança em risco. redobradamente apoiadas nas tarefas
de cuidar e apoiar estes seus membros,
Nesse contexto, quando estas situações evitando tanto quanto possível a ins-
são resultantes de famílias desestru- titucionalização, mas garantindo os
turadas, deve tentar-se – se viável - a apoios necessários para assegurar a
reconstrução da família em crise, qualidade de vida destas famílias e,
para que, desejavelmente, se possam principalmente, destas pessoas com
reunir todas as condições de segurança necessidades especiais.
para as crianças e jovens voltarem ao
ambiente familiar. Nesse período, os Cidadania sénior: de pleno
diversos modelos de acolhimento fa- direito
miliar devem ser preferidos face à
institucionalização. Quando não existe Num quadro de permanente cresci-
família, ou se esgotaram efectivamente mento do número de seniores na nossa
todas as possibilidades de regresso à sociedade e do alargamento da esperança
família natural, devem ser agilizados de vida, torna-se necessário ajustar as
e apoiados os mecanismos de adop- políticas públicas a esse novo cenário
ção. A institucionalização permanente demográfico. A primeira opção política
deve constituir a última opção, mas, de solidariedade que defendemos neste
quando não há outra alternativa, devem domínio é a cidadania sénior. Os se-
ser proporcionadas a estas crianças e niores devem ser entendidos como ci-
jovens todas as condições de afecto, dadãos de pleno direito, afastando qual-
educação e formação, bem-estar e quer lógica de exclusão em função da
protecção. idade. Não há pessoas descartáveis.
A cidadania sénior deve ser garantida
Respeito e igualdade de pelo envelhecimento activo, no seio
oportunidades para pessoas da família, com uma reforma ou pensão
com necessidades especiais. que assegure uma vida digna e com
acesso aos cuidados de saúde neces-
As pessoas com necessidades espe- sários.
ciais devem beneficiar, da parte do Defende-se que os cidadãos seniores
Estado e da sociedade, quer de uma devem poder trabalhar até quererem,

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até que a vontade, a saúde e a energia Responsabilidades partilhadas


o permitam. As empresas e outras or- na sustentabilidade da
ganizações devem ser incentivadas a segurança social.
aproveitar estes conhecimentos adop-
tando medidas inovadoras de recru- A sustentabilidade do sistema de segu-
tamento e organização do trabalho, rança social deve constituir uma preo-
bem como promovendo sistemas de cupação, garantindo a solidariedade in-
voluntariado. Também as famílias po- tergeracional e o cumprimento das res-
derão beneficiar do papel dos avós, ponsabilidades e expectativas assumidas
competentes no apoio à educação e pelo Estado perante os cidadãos contri-
acompanhamento das crianças. Por buintes. Devem ser exploradas novas for-
outro lado, a sociedade poderá aproveitar mas de organização do sistema de fi-
esse capital precioso que é a memória e nanciamento e gestão do Fundo financeiro,
a sabedoria. que tire partido das melhores práticas de
gestão financeira, para maximizar os re-
Combate à pobreza e cursos existentes. Por outro lado, o Estado
isolamento dos mais velhos. deve promover o desenvolvimento dos
pilares II (empresas) e III (indivíduos), in-
Particularmente sensível é a situação centivando as empresas a adoptar modelos
de seniores pobres, isolados e com complementares ao sistema público de
sérias limitações de mobilidade. O MEP Segurança Social, tais como Planos de
defende que o esforço que tem vindo a Pensões, e reforçando a poupança privada
ser feito para garantir a convergência quer através de PPR quer de outros me-
do valor mínimo das pensões e refor- canismos de financiamento das pensões
mas com o salário mínimo deve conti- individuais. Desta forma, reforçam-se os
nuar mas que, desde já, se atendam os sistemas complementares de reforma,
casos de maior pobreza, garantindo um promovendo a poupança e aliviando o
valor mínimo que assegure uma vida sistema público das crescentes respon-
com dignidade. sabilidades com pensões decorrentes das
De novo, a família deve estar no centro actuais tendências demográficas.
destas opções, evitando contextos de
solidão ou de institucionalização de O novo desafio da inovação
pessoas seniores. Esta deve constituir social.
uma última opção quando todas as ou-
tras estão esgotadas. Reconhecendo que o combate à pobreza
e à exclusão social está ainda longe dos
resultados ambicionados, o MEP defende

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a importância da inovação social, capaz cisão directa dos cidadãos e das em-
de gerar respostas mais eficazes a pro- presas, a partir dos seus impostos.
blemas antigos e encontrar soluções Estas várias instituições particulares de
para necessidades ainda não satisfeitas. solidariedade social e as instituições
públicas devem reforçar o trabalho em
Empreendedores sociais, uma rede, a cooperação e a coordenação,
nova alavanca. tendo em vista o grau máximo de eficácia
no apoio social.
Ainda neste domínio, devem ser refor-
çadas as iniciativas de empreendedo- Uma integração bem sucedida
rismo social e de voluntariado social dos imigrantes.
que possam envolver os cidadãos na
solidariedade activa. Também as expres- Os imigrantes que nos procuram, bem
sões de mutualismo devem ser enco- como as suas famílias, devem encontrar
rajadas, num espírito de fraternidade e um pleno acolhimento na sociedade
de associação solidária. portuguesa, no quadro de uma cidadania
de direitos e deveres iguais aos dos ci-
A defesa do fortalecimento do dadãos nacionais. Os imigrantes e as
Terceiro sector. suas famílias devem ser protegidos de
todas as formas de xenofobia, discri-
Atendendo à presença e à qualidade da minação ou exploração. O seu processo
intervenção do terceiro sector na área de integração deve ser global e atender
da solidariedade social, defende-se o às diferentes necessidades de que são
fortalecimento das instituições de so- portadores, desde o acesso à habitação,
lidariedade social e das Misericórdias, à saúde, à educação para os seus filhos
que devem ser apoiadas pelo Estado. e à cultura.
As políticas públicas de solidariedade
podem e devem ser interpretadas por
esta rede institucional, com maior pro-
ximidade às comunidades, maior co-
nhecimento das problemáticas e, fre-
quentemente, maior eficiência.
No modelo de financiamento do terceiro
sector, o MEP defende uma solução
mista, que some a decisão tecnico-po-
lítica dos serviços públicos de solida-
riedade social com mecanismos de de-

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Propostas políticas

As famílias primeiro!
Roteiro de temas para a Legislatura 2011/2014
( Cada medida proposta tem uma ficha de explicitação em www.mep.pt )

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1. Emprego 2.2 Apoio à reestruturação das dívidas


1.1 Cheque-Emprego Família - Ins- das famílias - O endividamento excessivo
tituição do “Cheque Emprego Família”, em Portugal é comum ao Estado, às
no valor do salário mínimo, para aque- empresas e às famílias. É o resultado
las famílias que têm o(s) seu(s) activo(s) de uma iliteracia financeira generalizada
desempregado(s ) e que não benefi- e de um apelo ao crédito e ao consumo
ciam de qualquer outra prestação so- desregulado. O MEP propõe:
cial de protecção no desemprego. O
Cheque Emprego consiste na possi- I. Condicionar o apoio público aos
bilidade da celebração de contrato de Bancos, nomeadamente a partir dos
trabalho a termo máximo de dois doze mil milhões de euros disponibi-
anos, numa rede de instituições sem lizados no fundo de resgate, à dispo-
fins lucrativos, credenciadas pela en- nibilidade efectiva destes bancos em
tidade distrital competente da Segu- promoverem uma reestruturação da
rança Social. dívida das famílias excessivamente
endividadas, com reescalonamento
1.2 Transformação do Subsídio de De- dos pagamentos e redução dos juros.
semprego em Contrato de Reinserção
Laboral: revisão do regime de subsídio II. Apoio ao alargamento da rede de
de desemprego tendo em vista a sua Gabinetes de apoio às famílias ex-
contratualização em função da reinserção cessivamente endividados, em IPSS
laboral, majorando na diferenciação da e ONG, à semelhança do projecto de-
prestação a composição e situação do senvolvido pela DECO e por outras
agregado familiar, a qualificação durante instituições. Envolver igualmente ins-
o período de desemprego e a prestação tituições públicas já existentes e a
de serviço comunitário. partir das quais seja possível negociar
com as instituições financeiras a res-
2. Endividamento e vida truturação das dívidas das famílias e
alavancar o crescimento económico
financeira das famílias do país.
2.1 Reforçar os programas de educação
financeira para a gestão financeira fa- III. Desenvolvimento nas instituições
miliar de modo a capacitar as famílias adequadas de competências arbitrais
portuguesas para a boa gestão do orça- e de mediação para dirimir, com efi-
mento familiar, a redução do endivida- cácia e rapidez, potenciais conflitos
mento e a criação de uma cultura que resultantes das situações de endivi-
promova a poupança. damento excessivo.

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3. Saúde 4.2 Aposta no aumento das respostas


3.1 Garantia a todas as famílias de em termos de creches e jardins-de-
acesso a um médico de família (espe- infância, garantindo uma oferta horária
cialista em Medicina Geral e Familiar- compatível com a vida profissional de
MGF), até 2015, com prioridade ao mo- muitas famílias, bem como a continuação
delo das Unidades de Saúde Familiar da promoção da formação, certificação
(USF). e supervisão de amas e ajudantes fami-
liares.
3.2 Reforço acelerado da rede de cui-
dados continuados integrados, com 5. Apoio aos seniores
particular atenção aos grandes depen-
dentes e um papel primordial às IPSS 5.1 Promoção da Iniciativa Cidadania
nesta missão, bem como apoio e for- Sénior, conjunto de medidas integradas
mação das famílias, no plano psicológico e articuladas, promotoras da autonomia
e social ou na conciliação família/traba- e da plena participação cívica dos seniores
lho. (Envelhecer com dignidade; Envelhecer
com saúde; envelhecer activamente).
4. Apoio à infância
6. Conciliação Emprego -
4.1 Maior investimento no ensino
pré-escolar, garantindo até 2014 co- Vida familiar
bertura a 100% a partir dos 3 anos, 6.1 Incentivo à prática da responsabili-
através de um sistema descentralizado, dade social nas empresas, nomeada-
autónomo, baseado na cooperação e mente nas suas políticas internas de
complemento da oferta dos sectores recursos humanos, através de meca-
público, social e privado, beneficiando nismos de contratação com os colabo-
de um financiamento público por crian- radores e o Estado, minimizando os
ça beneficiária, mantendo-se a dife- efeitos negativos para todas as partes,
renciação com base no rendimento. A com vista a fomentar a aplicação de di-
eficácia do investimento público em ferentes modalidades de trabalho flexível
capital humano é maior quando ocorre e parcial, abrangendo as situações de
na infância (antes do início da escola- trabalhadores com filhos até três anos,
ridade obrigatória), quando é dirigida idosos ou pessoas deficientes a cargo.
preferencialmente à população mais
vulnerável, e quando é este investi- 6.2 Garantir a possibilidade de faltas
mento é mantido durante toda a in- pagas para assistência aos ascendentes
fância. a cargo, até 6 meios-dias/ano.

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6.3 Desenvolver as necessárias adapta- VI. Sinalização e apoio de famílias


ções legislativas para que os avós em- com necessidades especiais, reforçando
pregados possam beneficiar de até três programas de proximidade.
dias/ano para assistência à família.
VII. Disponibilizar recursos/serviços
7. Municípios e Famílias para acompanhamento situações fa-
miliares de crise (ex. falência financeira,
7.1 Incentivo às autarquias e empresas desemprego, endividamento excessivo,
prestadoras de serviços públicos es- perda de habitação, doença, luto).
senciais, para a adopção de medidas
concretas de apoio às famílias, desta- 8. Apoio social às famílias
cando entre outras:
mais pobres
I. A Tarifa Familiar da Água; 8.1 Gestor da “unidade família” e pres-
tação familiar única - Reforço do mo-
II. O cálculo do valor do Imposto Mu- delo de acompanhamento do apoio
nicipal sobre Imóveis (IMI) em função social às famílias vulneráveis, por um(a)
do agregado familiar e não só da di- assistente social, preferencialmente de
mensão da habitação; uma IPSS articulada com a Segurança
Social, tendo ao seu alcance a possibi-
III. Programas de apoio a arrenda- lidade constituir uma solução de apoio
mento para famílias de 3 ou mais fi- social adaptada a cada família, a partir
lhos; do portfolio de recursos existentes
(subsídios, acções de formação profis-
IV. O acesso a transporte e a bens sional,...). Assim será possível desenhar
culturais e desportivos através de bi- uma prestação global para toda a fa-
lhetes ou cartões –família; Incentivo mília, atendendo à situação concreta e
à adopção de medidas de apoio às fa- real de cada uma, evitando-se a dupli-
mílias. cação de prestações e uma visão par-
celar. Tal como noutras vertentes, esta
V. O aumento do apoio domiciliário a prestação social deve ser concretizada,
famílias com dependentes a cargo, numa lógica contratual, com reforço
sejam pessoas idosas, crianças, pessoas da correlação direitos/deveres. O acom-
com deficiência, com apoio de inicia- panhamento deve ser próximo, flexível,
tivas locais, estimulando o voluntariado favorecendo a autonomia familiar e a
ou os bancos de tempo. sua capacitação para superar os pro-
blemas.

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8.2 Revisão do modelo do Rendimento da violência doméstica. Definição de


Social de Inserção (RSI) para Contrato uma estratégia mais efectiva de protecção
de Inserção Social (CIS), com reforço e da segurança das vítimas, bem como
da correlação direitos/deveres e a prio- dos seus direitos, que reduza radical-
ridade à contratualização de um processo mente a taxa de mortalidade por violência
de integração, com metas progressivas. doméstica.
Em paralelo, criação de um sistema de
incentivos que permita correlacionar 10.2 Criação de um enquadramento
esforço e benefício, integração e remu- legal para a protecção de Seniores e
neração, à semelhança do que acontece consequente criação de Comissões para
actualmente no RSI com a obrigatorie- a Protecção de Seniores em Risco. À
dade da manutenção das crianças na semelhança do funcionamento das CPCJ
escola, bem como a sua integração propõe-se a criação de comissões a
plena no sistema de saúde. nível concelhio que se empenhem na
protecção de seniores em risco, articu-
9. Apoio à maternidade lando serviços públicos de saúde e se-
gurança social, polícias, ministério pú-
9.1 Reforço efectivo aos Centros de blico e tribunais, e que assegurem pro-
Apoio à Vida, na sua função de atendi- tecção a todos os Seniores que dela ne-
mento, acompanhamento ou acolhi- cessitem.
mento de mulheres grávidas, puérperas
ou com filhos recém-nascidos, em si- 10.3 Protocolo de despiste e de alerta
tuação de vulnerabilidade social ou psi- precoce nas redes de saúde, educação,
cológica. Apoio à criação de uma Rede segurança social e de segurança pública
Nacional de Centros de Apoio à Vida. - Definição de protocolos claros e uni-
formes de despiste e alerta precoce
10. Políticas públicas em de situações de maus-tratos, tendo
como espaços essenciais o sistema
situações de disfunção educativo, o sistema de saúde, o sistema
familiar grave, maus-tratos de segurança social e o sistema de se-
gurança pública. Clarificação de res-
e abandono de crianças e ponsáveis pela execução do despiste,
seniores procedimentos de rotina e acções a
desencadear automaticamente perante
10.1 Reforço no combate à violência suspeitas de maus-tratos, bem como
doméstica – aprofundamento das cam- a sua devida formação inicial e contí-
panhas de sensibilização e de prevenção nua.

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10.4 Reforço da intervenção de progra- I. Pais: reforço da importância da for-


mas de prevenção do risco de exclusão mação parental;
de crianças e jovens. - Numa aposta
clara de uma política de prevenção, pro- II. Professores e profissionais de saúde:
põe-se o reforço consistente e deter- sensibilização em temáticas da família
minado de intervenções de sucesso (no- (problemas, disfunções, sinais de alerta,
meadamente o Programa Escolhas), do- prevenção, apoio e acompanhamen-
tando-as de meios financeiros suficiente to);
para que possam chegar a mais crianças
e jovens em risco. III. Magistrados e juízes: complementar
a formação específica na área da família
11. Apoio ao daqueles que lidam com problemas
da família e tutela de menores;
Reagrupamento Familiar IV. Polícias: reforço da formação no
11.1 Reforço do apoio das instituições tema dos jovens e crianças em risco.
públicas aos processos de reagrupamento
familiar de imigrantes, com criação de 13. Acesso
uma “Via verde para o reagrupamento
familiar” no Serviço de Estrangeiros e à informação
Fronteiras, em articulação com o ACIDI. 13.1 Desenvolvimento e promoção do
acesso facilitado a uma Carta de Apoio
12. Formação e Mediação às Famílias, enquanto base de dados
nacional de recursos, serviços e equi-
Familiar pamentos sociais de apoio à família,
12.1 Reforço da Mediação Familiar atra- adequando a sua estrutura às necessi-
vés de Gabinetes de Mediação, mas dades do público a que se destina.
com garantia de acessibilidade para to-
dos. Criação de serviços integrados de
apoio à família, na área da mediação,
do aconselhamento conjugal, terapia
de casal e de família, formação parental,
apoio à regulação e cumprimento da
responsabilidade parental.

12.2 Valorização e aprofundamento da


formação na área da família para dife-
rentes públicos-alvo:

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Compromissos
Compromissos eleitorais do MEP
Uma agenda da solidariedade
O Movimento Esperança Portugal apre- infelizmente, não são muito evidentes
senta-se a estas eleições com o seu Pro- esses sinais. O MEP, enquanto movi-
grama eleitoral, centrado na mensagem mento cívico da sociedade civil, que
“As famílias primeiro!”. pode ir a eleições como partido político,
revê-se nas propostas sérias e bem fun-
Em complemento a esse Programa e damentadas destas instituições. Na sua
dando resposta ao pedido feito aos par- matriz fundacional, o MEP escolheu
tidos políticos pela CNIS – Confedera- como pilar essencial a defesa da coesão
ção Nacional de Instituições de social e da inclusão, bem como o re-
Solidariedade e pela CÁRITAS, o MEP forço do papel do terceiro sector na vida
decidiu assumir o Compromisso de ser do País.
um dos porta-vozes das propostas apre-
sentadas por estas organizações. Assim, em coerência, defenderemos na
Assembleia da República esta agenda
Repetidamente ouvimos que os parti- de solidariedade da CNIS e da CÁRITAS,
dos têm que se abrir às pessoas e orga- a bem de um Portugal mais justo e
nizações da sociedade civil. Mas, mais humano.

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em termos que se afiguram, no es-


sencial, adequados, a natureza, o regime
jurídico, a autonomia e o modo de
funcionamento das IPSS.
Mas, no que toca à regulação jurídica
dos instrumentos da sua sustentabili-
dade, a mesma regulação carece de
revisão.
Na verdade, mesmo após a Revisão
Constitucional de 2005, apesar de se
*CNIS consagrar, pela primeira vez, no capítulo
Confederação Nacional das da organização económica, a existência,
Instituições de Solidariedade no sector social de propriedade dos
meios de produção, das pessoas colec-
Propostas Para um Programa tivas sem fim lucrativo, o Texto Consti-
Político de Governo tucional enfatiza, nesse campo, “desig-
nadamente entidades de natureza mu-
Porto, 13 de Abril de 2011 tualista” -artº 82º, d).
Ora, se é certo que, sob o ponto de
1. 0 presente trabalho visa explicitar a vista do volume financeiro, as associações
posição da CNIS relativamente ao rumo mutualistas foram, durante muito tempo,
que deverão assumir as orientações po- o sector dominante, o certo e que essa
líticas para a actividade das instituições já não é, há várias décadas, a realidade
do sector social solidário nos próximos do Sector.
anos. O mesmo se diga, reforçadamente, do
Relativamente situação actual, pode di- relevo que actualmente assume, em
zer-se que o enquadramento jurídico termos de criação e manutenção de
vigente em relação a essa actividade se emprego, o Sector Solidário.
encontra, numa certa perspectiva, de- (Alguns indicadores quantitativos aju-
senquadrado da realidade existente no darão a perceber melhor a realidade
Sector. actual: em 2007, segundo um estudo
Na verdade, a Constituição da Republica do ISCTE, o movimento financeiro da
Portuguesa, nos seus artsº 46º, 63º, economia social representava 4,5% do
67º, 69º a 72º e o Estatuto das Institui- PIS, sendo que, desta percentagem,
ções Particulares de Solidariedade So- 3,7% corresponde ao Sector Social So-
cial, aprovado pelo Decreto-Lei nº lidário; na mesma data, a Economia
119/83, de 25 de Fevereiro, consagram, Social era responsável por 250.000 tra-

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balhadores, sendo que, destes, 180.000 membros da corporação, enquanto que


correspondiam ao Sector Solidário; fi- os destinatários da acção das IPSS são
nalmente, e segundo os dados da Carta exteriores ao substrato corporativo.
Social, a Economia Social assegura
73,6% da acção social sendo 65,8% do 3. Os dados acima referidos indicam,
Sector Solidário.) clara mente, que a parte substancial da
Essa mesma desadequação entre a rea- acção social é desenvolvida por insti-
lidade normativa e a realidade concreta tuições particulares de solidariedade
se verifica no que respeita a comparação social o que sugere a retirada do Estado
com o Sector Cooperativo - que, na do exercício concreto da prestação de
verdade, possui uma densidade nor- serviços na área social.
mativa, mesmo em termos constitu- Mas essa retracção não tem corres-
cionais, que já não corresponde a uma pondido a uma efectiva devolução de
situação de predominância, nem quali- competências as organizações da so-
tativa, nem quantitativa. ciedade, na medida em que permanece
(Esta situação justificara, eventualmente, uma estrutura regulamentar e admi-
um aprofundamento desta matéria em nistrativa mais típica de uma concessão
termos do projecto de revisão constitu- ou subempreitada, mais sufraganea de
cional.) uma relação de controlo e de tutela do
que de um verdadeiro reconhecimento
2. Para clarificar conceitos, importa es- da autonomia e capacidade daquelas
clarecer o âmbito do que é, no entendi- organizações.
mento da CNIS, o Sector que a mesma Esta gestão da devolução - ou não-de-
representa, o Sector Social Solidário. volução - das competências pode ser
Este é constituído pelo conjunto das vista num duplo registo:
Instituições Particulares de Solidariedade - Um desses registos é o que se deixou
Social e outras a elas equiparadas, que aflorado acima: a organização do Estado
prosseguem actividades e programas não assumiu ainda, com todas as suas
de prevenção e protecção social a indi- consequências, a perspectiva de que
víduos, famílias e comunidades, especial nas sociedades subsistem entidades
mente as mais fragilizadas social mente, alheias a essa mesma organização,
e de promoção do desenvolvimento so- fruto da vontade dos cidadãos em se
cial local, assegurando a coesão social e associarem para o exercício da solida-
territorial -distinguindo-se das mutua- riedade social. E de que tais entidades
lidades e das cooperativas na justa me- possuem competências e atribuições
dida em que estas tem como destina- próprias e originarias, que lhes con-
tários da sua actividade os próprios ferem uma matriz específica.

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- Um outro registo e o da permanência a noção de que o serviço prestado


de uma instancia publica, para a qual pelas IPSS, não obstante a autonomia
vem sendo transferidas pelo poder destas e a sua natureza particular,
central competências e atribuições em devera ser classificado como verdadeiro
diversos domínios -e também no do- serviço público, quer no que respeita
mínio da acção social. as prestações vinculadas ao princípio
Aqui, trata-se de verdadeira transferência, da universalidade, quer nas vinculadas
isto é, as competências e atribuições ao princípio da solidariedade.
mantêm a sua natureza pública, que A ausência de um quadro legislativo
era a que possuíam de origem, quando claro no que se refere à separação e
as mesmas se encontravam imputadas delimitação das áreas de intervenção
ao Estado Central. das organizações solidárias e das au-
Tal instância é evidentemente, a das tarquias locais ao nível territorial mais
autarquias locais. primário, como a freguesia - ou a pa-
A lei de transferência de atribuições e róquia -, ou ao nível municipal, tradu-
competências para as autarquias locais ziu-se, nos últimos 4 anos, na emer-
filia essa operação, entre outros, no gência dos dois principais constrangi-
princípio da subsidiariedade o que, mentos que visaram as IPSS:
num primeiro nível, corresponde à rea- - A criação das AEC’s, nas escolas pu-
lidade: a transferência para uma autar- blicas, para as crianças do 12 ciclo do
quia local aproxima a resposta dos des- ensino básico, desperdiçando e des-
tinatários. considerando a tradição de trabalho
Mas tal princípio conhece outros e si- a esse nível das Instituições, nos
multâneos níveis - como o de ser ainda ATL’s, em relação a cerca de 100.000
subsidiariedade a devolução aos entes crianças e conduzindo ao encerra-
de natureza privada de atribuições e mento ou esvaziamento dessa res-
competências que se encontravam ra- posta social em muitas IPSS, com
dicadas na esfera pública, mas que, por desperdício de instalações e recursos
natureza, correspondem ao sopro vital humanos qualificados;
daquelas entidades. - A reformulação do parque escolar,
Da cumulação desses dois níveis, a em curso, com criação de Centros
subsidiariedade deve verificar-se, em Escolares Verticais, promovendo de
primeira linha, para o nível privado; e forma ilegal a concorrência desleal
só numa segunda opção, de forma su- com os jardins de infância que as
pletiva, para um outro nível da esfera IPSS mantém no âmbito da Rede
publica o nível autárquico. Solidária e reproduzindo inutilmente
Deve passar a ser um dado adquirido equipamentos.

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Nesta perspectiva, deverá ser revista a nhecimento do papel dos voluntários


lei da Transferência de Competências nas Instituições de Solidariedade.
-lei nº 159/99 de 14 de Setembro, con- A propósito da política do voluntariado,
sagrando o carácter supletivo da in- seria de encarar uma iniciativa da
tervenção das autarquias locais no própria Administração Publica, no
exercício da acção social sem prejuízo sentido de promover um período de
do apoio que as mesmas cabe prestar transição, uma espécie de pré-refor-
relativamente as entidades que, na res- ma, para os seus trabalhadores, entre
pectiva circunscrição territorial, satisfazem o serviço activo e a aposentação, em
as correspondentes necessidades. tarefas de voluntariado social, sob o
(A revisão devera especificamente re- enquadramento das IPSS.
portar-se à 1ª parte do nº 1. do artº 23º d) Sem prejuízo da participação -even-
da referida Lei -relativa a gestão dos tualmente reforçada -das IPSS nas
equipamentos sociais). instancias e redes que tem como ob-
jecto a protecção social de cidadania,
4. Neste capítulo, relativo ao enquadra- crê-se que a eficácia das respectivas
mento da relação entre o poder político acções sairia potenciada, e os recursos
e o Sector Solidário, para além da pro- humanos mais rentabilizados, com a
posta de alteração legislativa referida, articulação ou concentração de tais
importaria ainda anotar a necessidade instâncias e redes.
de revisão dos seguintes aspectos -uns,
igualmente ao nível do processo legis- Nesta perspectiva, justificar-se-ia a revisão
lativo; outros, carecidos de um outro do actual modele que a Rede Social foi
modo de encarar o actual modelo de definido pelo Decreto-Lei nº 115/2006,
funcionamento: de 14 de Junho, fazendo-o regressar à
a) Retoma do Pacto de Cooperação para matriz inicial constante da Resolução
a Solidariedade como instância efec- do Conselho de Ministros nº 197/97, de
tiva de negociação e conciliação, sa- 18 de Novembro. Com efeito, o modelo
lientando a transversalidade das po- actual enfraqueceu as competências das
líticas sociais e a concertação leal na comissões sociais de freguesia no que
concepção e desenvolvimento das se refere ao acompanhamento e reso-
respectivas medidas. lução das situações.
b) Participação da CNIS, como repre- No mesmo sentido, fez desaparecer, a
sentante do Sector Social Solidário, nível nacional, a comissão de cooperação
no Conselho de Concertação Social. social, instância de participação alargada
c) Revisão do Estatuto do Voluntariado, a representação dos vários Ministérios,
no sentido da dignificação e do reco- autarquias locais e organizações sem

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fins lucrativos, ficando assim prejudicada gências em recursos humanos muito


a consciência colectiva dos problemas superiores as que se exigem do sector
sociais e a assunção partilhada de res- comercial.
ponsabilidades. 0 caso exemplar desta discriminação
O sistema passou a ficar organizado negativa e constituído pelo regime ju-
tendo o fulcro ao nível do conselho rídico do licenciamento e fiscalização
local de acção social, municipal, a custa dos estabelecimentos de apoio social,
do esvaziamento da base e da cúpula. aprovado pelo Decreto- Lei nº 64/2007
Por outro lado, o modelo de Rede Social de 14 de Marco.)
que hoje prevalece, com concentração A actual situação de grave crise econó-
de competências a nível municipal, mica e social do Pais justifica, em nossa
nos termos descritos, veio igualmente opinião, e neste contexto, uma flexibili-
a conduzir a um esvaziamento da pa- zação e simplificação dos requisitos e
ridade e parceria que constitua, na in- condições de funcionamento de res-
tenção inicial, princípio estruturante postas sociais, em termos necessaria-
da mesma Rede. mente transitórios e sem prejuízo das
condições de qualidade do serviço pres-
5. Nos anos mais recentes, vem-se ma- tado.
nifestando uma orientação legislativa Por exemplo, não é aceitável que uma
que procura indiferenciar as IPSS, tra- instituição não possa abrir, numa situação
tando as respostas sociais por elas de emergência social, um serviço de
levadas a cabo -que o Estado deve, nos fornecimento de refeições a cidadãos
termos da Constituição da Republica, carenciados, sem que antes tenha per-
apoiar e promover -, de forma idêntica corrido o calvário dos passos procedi-
aos serviços prestados por empresas, mentais que a actual legislação excessi-
sob forma comercial e com intuito lu- vamente impõe.
crativo. Ainda a propósito da referida indife-
Nesse aglomerado, alias, as IPSS são renciação normativa da acção do sector
tratadas com discriminação negativa - social solidário com o sector privado da
na medida em que os preços praticados economia, deve apontar-se, como exem-
nos equipamentos das IPSS são objecto plo negativo recente, na sequência da
de regulação administrativa restritiva e Lei do Orçamento de Estado de 2010, o
os praticados nas empresas são livres. agravamento para a taxa normal de tri-
Mas as exigências legais de funciona- butação em IVA das obras da iniciativa
mento são idênticas, do ponto de vista das IPSS.
dos requisitos físicos, sendo ainda as Tal medida legislativa devera ser alterada,
Instituições Particulares impostas exi- no sentido do regresso ao sistema de

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reembolso pré-existente, ou, em alter- discriminação positiva das pessoas e


nativa, de aplicação da taxa reduzida, famílias mais carenciadas e vulneráveis
de 6%, idêntica a suportada pelas au- com o principio da sustentabilidade
tarquias locais. financeira das Instituições e com aque-
loutro principio de que as próprias
6. Um outro ponto a justificar revisão - Instituições deverão constituir a ins-
uma vez que a pratica se tem afastado tancia de comunicação e distribuição
do que era o procedimento seguido - dos recursos entre os agregados fa-
tem que ver com o cumprimento da miliares, recusando-se qualquer modelo
tradição de nenhuma medida legislativa operacional introduzido pelo princípio
relativa as políticas sociais ser tomada da discriminação positiva que reforce
sem envolvimento prévio das entidades os mecanismos burocráticos de controlo
representativas das Instituições. administrativo da actividade das Insti-
(0 processo de alargamento do horário tuições.
escolar do 1º ciclo do ensino básico, Neste contexto, e sem prejuízo do acima
com introdução das chamadas “activi- referido, propõe-se a manutenção, no
dades de enriquecimento curricular”, essencial, da matriz traduzida no Des-
levado a cabo pelo Ministério da Edu- pacho Normativo 75/92, de 20 de Maio;
cação em 2007/2008, sem consideração Na mesma linha, defende-se a conti-
da rede de respostas sociais então exis- nuação -mas com tradução pratica, o
tente por parte das IPSS, em Actividades que não sucedeu desde 2004 ate hoje -
de Tempos Livres, bem como a abertura das medidas de discriminação positiva
dos Centros Escolares Verticais, a que relativamente às creches e aos lares
acima nos referimos, e o exemplo, a de idosos instituídas no Protocolo de
evitar, desse alheamento.) Cooperarão para 2004.
As suas exigências em termos de insta-
7. A CNIS reconhece virtualidades no lações e pessoal vêm ao encontro da
actual debate sobre uma eventual alte- orientação definida pela CNIS de qua-
ração do modelo de financiamento das lificação das respostas sociais.
respostas sociais. Os futuros Protocolos de Cooperação
No entanto, para alem de essa alterarão, deverão alargar as formas e os índices
a fazer-se, já dever ser abrangida pela para a discriminação positiva, que não
participarão da representação das IPSS deverão passar por decisões casuísticas
no processo de concepção e decisão a nível distrital, mas pela definição de
das correspondentes medidas legislativas, regiões particularmente desfavorecidas
a revisão do actual modele devera as- e de critérios de dispensa da comparti-
sentar no cruzamento do principio da cipação dos utentes, nomeadamente no

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que se refere aos lares e centros de do papel que já desenvolvem nesse do-
acolhimento de crianças e jovens. mínio.
Neste âmbito, apontam-se algumas li-
8. Ainda neste âmbito, importaria que nhas complementares de orientação a
a revisão global dos modelos de coo- seguir:
peração viabilizasse a negociação com - Abertura de áreas de formação para a
as estruturas sindicais da aproximação cobertura das necessidades a nível do
do estatuto remuneratório das carreiras desenvolvimento local, nomeadamente
e categorias do pessoal técnico não em meio rural;
docente as que já são aplicadas aos - Diversificação das formas de empre-
educadores e professores. gabilidade e das modalidades empre-
sariais no âmbito do Mercado Social
9. Apresenta-se, de seguida, um quadro de Emprego, centrando-as no desen-
de propostas e princípios que reforcem volvimento social, económico e am-
a capacidade das Instituições na luta biental, nomeadamente das zonas mais
contra a pobreza e a exclusão e que deprimidas do território, configurando
realcem a sua natureza de instituições as IPSS, quer em termos de emprego,
autónomas e particulares, marcadas to- quer de actividade económica, como
davia pela noção do serviço publico, verdadeiros promotores do desenvol-
através da solidariedade com os mais vimento local.
desfavorecidos. - O modelo das empresas de inserção e
Estas propostas só são viáveis e passíveis de eficácia social restrita;
de concretização se a relação entre os b) As IPSS já desenvolvem um importante
Serviços do Estado e as IPSS se fundarem papel, alias em crescimento, como se
num verdadeiro contrato de confiança. sabe, no campo da Saúde, nomeada-
Nesta medida e com respeito por estes mente no domínio dos cuidados hos-
princípios, as Instituições podem cons- pitalares e de saúde mental e ainda dos
tituir uma instância exemplar no alívio cuidados continuados.
do peso do Estado na vida das pessoas, No actual quadro de encerramento de
das famílias e da sociedade, na descon- escolas e de concentração geográfica
centração e na descentralização. de unidades de saúde, os equipamentos
Tais propostas são, resumidamente, as e serviços das IPSS constituem em mui-
seguintes: tas pequenas comunidades do nosso
a) Reforço da participação das IPSS na País as respostas mais próximas e com
formação profissional das pessoas em recursos humanos mais qualificados.
situação de desfavorecimento face ao Importa, a partir da rede capilar consti-
mercado de trabalho, na continuidade tuída pelas Instituições a nível de todo

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o território nacional, utilizar esses re- que não possam, por si, exercer, reco-
cursos no âmbito dos cuidados primários nhece-se a insuficiência do quadro ju-
de saúde, ao nível da prevenção e na rídico de enquadramento existente; e
reintegração psico-social de doentes defende-se o desenvolvimento desse
mentais. quadro, nomeadamente através da pre-
c) No campo da Educação, impõe-se a visão de entidades diversas dos familiares
utilização dos recursos, das competências e das instituições de enquadramento
e da vasta experiência das IPSS na pro- para a representação autónoma desses
moção do sucesso educativo e na pre- interesses.
venção do abandono escolar, aqui se e) A criação de condições do reforço da
incluindo o alargamento à resposta capacidade de intervenção das IPSS,
social de creche da existência de projecto mediante mecanismos que facilitem a
educativo. sustentabilidade financeira das respostas
A questão do apoio as famílias durante sociais, através da diversificação das
o tempo e nos domínios não-Iectivos, fontes de financiamento das IPSS, jus-
em todos os níveis do ensino básico e tifica a clarificação do quadro jurídico
secundário e a aposta na formação pa- da capacidade de exercício, a nível ins-
rental são prioridades que a CNIS en- trumental dos seus fins de utilidade e
tende deverem constar do Programa interesse publico, de actividades eco-
de um partido de vocação governamental nómicas pelas Instituições, ou da sua
para os próximos anos. participação em partes de capital de
O entendimento da CNIS, nem sempre sociedades comerciais, para alem do
valorizado pelos poderes públicos, e o que já se encontra estabelecido no âm-
de que o serviço público da Educação bito do Mercado Social de Emprego e
não tem de ser apenas desenvolvido na lei da propriedade de farmácias -
pelos serviços do Estado, podendo e Decreto-Lei nº 307/2007, de 31 de Agosto.
devendo sê-Io igualmente, em sede Trata-se do desenvolvimento da questão
de cooperação, pelo Sector Social Soli- identificada na parte inicial desta pro-
dário, como já vem sucedendo com posta, quanto à necessidade de revisão
sucesso no âmbito da educação pré- do quadro jurídico da intervenção das
escolar. IPSS na actividade económica, embora
d) Relativamente às modalidades de tu- a título instrumental das suas finalidades
tela e protecção dos interesses das pes- principais.
soas idosas não autónomas ou porta-
doras de deficiência com vista ao exer- Porto, 13 de Abril de 2011
cício, em seu nome e no seu interesse,
dos direitos civis, pessoais e patrimoniais

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dono das situações sociais não abrangidas


por direitos e por outras prestações previstas
na lei. Trata-se de um fenómeno gravíssimo
de exclusão institucional e político, refor-
çando a pobreza e exclusão em que se en-
contram muitas das pessoas e famílias
envolvidas.
Temos verificado, com enorme preocupa-
ção, que a generalidade das forças políticas
Cáritas Portuguesa e sociais visa apenas, neste domínio, a
Propostas de medidas políticas consagração de direitos abstractos e a ga-
rantia de prestações para determinadas
A Cáritas Portuguesa acompanha diaria- situações-tipo; deste modo, vota ao aban-
mente os problemas sociais, a partir do dono muitas pessoas em concreto, sobre-
contacto directo com as pessoas e famílias, tudo as que se encontram em situações
atribuindo prioridade aos mais graves. não redutíveis a padrões pré-estabelecidos.
Para além do trabalho de acção social di- Parece que tais forças condenam ao ex-
recta, procedemos a análise das causas termínio essas pessoas, comprazendo-se,
dos problemas, ajustamos as nossas orien- em contrapartida, nos narcisismos políti-
tações, sempre que necessário, e apresen- co-sociais próprios de cada ideologia.
tamos propostas a centros de decisão po- Sabemos perfeitamente que esta desa-
lítica, ou de outra natureza, para a adopção creditada a assistência social, tratada pe-
de medidas adequadas. jorativamente como assistencialismo e
De entre as propostas já apresentadas a caridadezinha. Mas verificamos que, na
departamentos do Estado, salientamos as medida em que se despreza essa assistência,
respeitantes ao voluntariado social, a «rede se vem desprezando as pessoas e famílias
social», a criação de empregos, ao trata- dela beneficiárias. Cinicamente, o Estado,
mento dos dados da acção social e a as forças políticas e a sociedade abandonam
parceria na análise dos problemas sociais «a sua sorte» milhares de pessoas e, para
e na procura de soluções para os mesmos cúmulo, ainda humilham as entidades
as medidas que temos proposto caracte- que procuram minorar os seus males.
rizam-se pelo baixo custo financeiro, pela Não defendemos, de maneira nenhuma
facilidade de aplicação e pelo aproveita- o assistencialismo sem cidadania; defend-
mento de potencialidades já existentes. emos, sim, o reconhecimento da acção
A resposta as sugestões apresentadas até social directa e a sua integração no quadro
aqui foi praticamente nula, verificando-se de soluções mais adequadas.
uma propensão muito grave para o aban- Segundo Bento XVI, na sua carta encíclica

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«Deus Cáritas Est», 2005, e «desumana» protecção, durante algum tempo; mas
a «filosofia» que sacrifica o ser humano não podemos admitir que sejam sacrificadas
ao «moloch do futuro» (n°. 31-b); de facto, as pessoas de mais baixos rendimentos. A
«a humanização do mundo não pode ser insuficiência de diálogo social neste do-
promovida renunciando, de momento, a mínio, tal como na esfera política, afecta
comportar-se de modo humano. Só se perigosamente o país, com maior incidência
contribui para um mundo melhor, fazendo nos estratos mais pobres e excluídos;
o bem agora e pessoalmente, com paixão
e em todo o lado onde for possível, inde- 2. Rede básica de protecção
pendentemente de estratégias e programas social
de partido» (ibidem). Não resulta daqui o
esmorecimento na consagração de direitos Esta Rede, já defendida também pela Con-
e na adopção de «estratégias e programas»; ferencia Episcopal Portuguesa, teria por
resulta, sim, a afirmação clara de que nunca base não o Estado e as instituições, mas
deveriam ser abandonadas as pessoas ainda sim as pessoas: as que vivem os problemas
não abrangidas por eles. sociais, marginalizadas pelo quadro de di-
Em face do que acabamos de referir, sug- reitos em vigor e as que, a seu lado, coo-
erimos ao Partido de V. Exa. e a todos os peram diariamente na procura de soluções
outros a mais alta prioridade para as directas e imediatas. Tais pessoas coope-
seguintes linhas de acção - modestas sem rantes, mais ou menos organizadas em
dúvida e pouco dispendiosas, mas indis- grupos de voluntariado social de proxi-
pensáveis para que a política esteja ao midade, disporiam do acesso regular a
serviço de todas as pessoas e de cada uma: instituições particulares e aos diferentes
organismos públicos especializados nos
1. Defesa do Estado Social problemas a resolver. Através destas insti-
tuições e organismos, os problemas sem
O nosso país tem «a sorte» de todos os solução seriam encaminhados para os ór-
partidos representados na Assembleia da gãos do poder político, autárquico, regional
Republica serem favoráveis ao Estado e central, com um duplo objectivo: a ob-
Social. Porem, em contrapartida, digla- tenção de soluções rápidas, ainda que
diam-se acerca da respectiva natureza e provisórias; e a preparação das mais defi-
âmbito. Para que a defesa seja efectiva, nitivas. A nível central, impõe-se a reacti-
impõe-se que se intensifique o diálogo vação do «Pacto de Cooperação para a
político e social neste domínio, procurando Solidariedade» (em que tem assento as
os consensos possíveis. Não nos repugna organizações representativas das instituições
que os detentores de rendimentos mais particulares de solidariedade social (IPSS),
altos vejam reduzidos os seus níveis de das autarquias locais, dos governos regionais

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e central). Impõe-se, igualmente, que a 4. «Criemprego». sistema social


Assembleia da Republica de execução as de criação de emprego
suas resoluções sobre a pobreza, adoptadas
em 2008. Altamente recomendável que Este sistema visaria a criação de emprego,
esta Rede não beneficie de apoio financeiro sobretudo por cooperativas e empresas
para o seu funcionamento. Em contra- privadas de pequena dimensão, em qual-
partida, e indispensável que disponha de quer sector de actividade económica. Aten-
um «volante financeiro» para as respostas dendo ao desconhecimento das oportu-
directas, embora provisórias, que se tornem nidades de negócio viáveis e a dificuldade
necessárias; o financiamento publico seria de escoamento de produções, o sistema
complementado pelo das comunidades incluiria basicamente: -A difusão sistemática
locais e das instituições e movimentos de oportunidades de negócio/investimento;
comprometidos neste serviço; -Uma ou varias cadeias de comercialização.
Estas cadeias poderiam ser integradas por
3. Tratamento de dados do empresas de comercialização, interna e
atendimento social internacional, e por peritos, reformados
ou não, disponíveis para cooperar em re-
Todos os dias são atendidos milhares gime de voluntariado. A participação de
de casos sociais, quer por serviços pro- empresas, no âmbito da responsabilidade
fissionalizados, públicos e privados, quer social, poderia constituir um factor relevante
pelo voluntariado, mais ou menos or- para a viabilização deste serviço. Natural-
ganizado. Infelizmente, porem, não se mente, não deveria ser descurada a for-
difundem estatísticas sobre esta reali- mação das pessoas envolvidas nem o
dade, análogas as que se difundem apoio a gestão e ao financiamento, apro-
sobre o desemprego; no atendimento veitando as medidas e programas políticos
menos formal, nem sequer se faz o re- já em vigor e outros que venham a ser
gisto necessário. Deste modo, perde-se adoptados;
uma informação preciosa sobre a pobreza
e exclusão; pior do que isso, recusa-se 5. Desenvolvimento sociolocal
as pessoas pobres e excluídas o que e
mais fácil oferecer-lhes - o nosso co- Este desenvolvimento sintetizaria, no plano
nhecimento solidário. Através de fichas local, as virtualidades da rede básica de
simplificadas e do respectivo apuramento protecção social e do sistema social de
estatístico, bem como da difusão deste, criação de emprego. Ela poderia ter como
passaríamos a dispor de um meio in- base legal a actualização e aplicação de
dispens8vel de consciência e de co-res- um normativo publicado há mais de quinze
ponsabilizações sociais; anos e que nunca foi levado a pratica; tra-

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ta-se da Portaria nº. 247/95, de 29 de Março, chegar a soluções gerais e individuais/fa-


nos seus capítulos VI a VIII. A portaria miliares que permitissem assegurar a ma-
prevê: actividades baseadas na economia nutenção da casa, em moldes variáveis,
e acção social, na animação sociolocal, em salvaguardando os direitos das instituições
redes de apoio técnico e na investigação de crédito. As instituições ou grupos de
relacionada com o desenvolvimento local acção social poderiam assegurar o acom-
e a criação de empregos. Estas actividades panhamento de cada caso por voluntários
facilitariam a promoção de processos de credenciados, oferecendo a banca uma
desenvolvimento em todas as localidades garantia moral.
neles interessadas, tendo sempre em conta No que se refere as propinas e a outras
os problemas de desemprego e outros despesas escolares, as parcerias poderiam
problemas sociais, bem como as poten- ter lugar entre as instituições académicas,
cialidades do voluntariado e da iniciativa as instituições ou grupos de acção social e
económica. O seu custo financeiro poderia os serviços competentes das autarquias
ser compensado, em parte, mediante o locais e da segurança social. Também aqui,
valor acrescentado resultante das empresas as instituições ou grupos de acção social
que se fossem criando e desenvolvendo; poderiam assegurar o acompanhamento
de cada caso, por voluntários credenciados,
6. Parcerias de e oferecer uma garantia moral.
co-responsabilidade Muito mais poderíamos acrescentar. Ficam
apenas estas sugestões, com a firme con-
Chega a ser chocante que, perante a pro- vicção de que, levadas a pratica, poderiam
fundidade e extensão de tantos problemas constituir dinamismos acessíveis e pouco
sociais, as diferentes entidades envolvidas dispendiosos de acção social de base e de
não desenvolvam a cooperação e a parceria criação de emprego; tanto a favor de
que estejam ao seu alcance. Realçamos soluções pontuais como de estruturais.
apenas duas parcerias: uma no domínio A Cáritas Portuguesaa
fica disponível para
da habitação, e outra no das propinas e dialogar com V. Ex ., ou com quem o rep-
outras despesas escolares. resente. E, agora como sempre, esta
No que se refere à habitação, e considerando disponho para toda a cooperação que
tão somente as amortizações em divida possibilite e valorize a acção de base, no
por inúmeras famílias, parece óbvio o im- contacto directo com as situações de
perativo de parceria entre instituições de carência, e a intervenção junto dos centros
crédito envolvidas, instituições ou grupos de decisão política ou outra. Neste enten-
de acção social e serviços competentes dimento, e na expectativa da ponderação
das autarquias locais e da segurança social. destas sugestões por esse Partido, subs-
Em conjunto, estas entidades poderiam crevo-me com as melhores saudações.

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