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TEORIA DO
DISCURSO
Fundamentos Semióticos
USP - UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Reitor. Adolpho José Melfi
Vice-Reitor: Prof. Dr. hélio Nogueira da Cruz

FFLCH - FACULDADE DE FILOSOFIA,


LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS
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Humanitas FFLCH/USP março 2002


Diana Luz Pessoa de Barros.

TEORIA DO
DISCURSO
Fundamentos Semióticos

3ª. edição

São Paulo, 2002

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO • FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS


Copyright 2002 da Humanitas FFLCH/USP

É proibida a reprodução parcial ou integral,


sem autorização prévia dos detentores do Copyright.

Serviço de Biblioteca e Documentação da FFLCH/USP


Ficha catalográfica: Márcia Elisa Garcia de Grandi — CRB 3608
____________________________________________________________

B276 Barros, Diana Luz Pessoa de


Teoria do discurso: Fundamentos semióticos / Diana Luz
pessoa de Barros. — 3. ed. – São Paulo : Humanitas / FLLCH
/ USP, 2001

172p.

ISBN 85-7506-059-7

1. Análise do discurso 2. Lingüística 3. Semiótica 1. I


Título

CDD 410

HUMANITAS FFLCH/USP
e-mail: editflch@edu.usp.br
Telefax: 309 1-4593

Editor Responsável
Prof. Dr. Milton Meira do Nascimento

Coordenação Editorial
Mª. Helena G. Rodrigues — MTb n. 28.840

Composição
Diarte Composição e Arte Gráfica

Emendas
Selma Mª. Consoli Jacintho — MTb n. 28.839

Capa
Diana Oliveira dos Santos

Revisão de emendas
Simone D’Alevedo

[página 4]
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ...................................................................................... 1
Teoria do discurso ......................................................................... 1
Plano do livro ................................................................................ 6
I — NARRATIVIDADE: À PROCURA DE VALORES ................... 7
Considerações iniciais ................................................................... 7
Estruturas sintático-semânticas subjacentes .................................. 8
A gramática de casos de Fillmore ....................................... 8
Análise estrutural da narrativa ............................................ 10
A gramática sêmio-narrativa ........................................................ 12
Uma proposta semiótica ...................................................... 13
Análise interna .......................................................... 14
Análise imanente ...................................................... 14
Percurso gerativo ...................................................... 15
Gramática fundamental ................................................................. 20
Sintaxe fundamental ............................................................ 20
Semântica fundamental ....................................................... 24
Conversão das estruturas fundamentais
em estruturas narrativas ....................................................... 27
Gramática narrativa ....................................................................... 28
Sintaxe narrativa .................................................................. 28
Enunciado elementar ................................................. 29
Sintagma elementar: programa
narrativo .................................................................... 31
Percurso narrativo ..................................................... 35
Esquema narrativo canônico ..................................... 41
Estratégia narrativa ................................................... 43
Intencionalidade narrativa ........................................ 44
Semântica narrativa ............................................................ 45
Modalização e modalidades ..................................... 49
Paixões e apaixonados ............................................. 60
Notas ...................................................................................................... 70

II — DISCURSO: A ASSUNÇÃO DE VALORES ............................. 72


Considerações iniciais .................................................................. 72
Sintaxe discursiva ......................................................................... 73
Projeções da enunciação ..................................................... 73
Desembreagem e embreagem actancial
e teorias do foco narrativo ........................................ 74
Temporalização e espacialização ............................. 88
Relações entre enunciador e enunciatário .......................... 92
Contrato de veridicção e verdade
discursiva ................................................................. 92
Argumentação .......................................................... 95
Semântica discursiva .................................................................... 113
Elementos de semântica estrutural ..................................... 113
Tematização e figurativização ............................................ 115
Isotopia ............................................................................... 124
Coerência textual ................................................................ 131
Notas ............................................................................................ 132

III — ENUNCIAÇÃO: A MANIPULAÇÃO


DE VALORES ............................................................................. 135
Considerações iniciais .................................................................. 135
Estruturas narrativas e discursivas
da enunciação ............................................................................... 136
Tema de comunicação ........................................................ 137
Tema de produção .............................................................. 139
Intertextual idade .......................................................................... 142
Discurso e classes sociais ............................................................. 146
Discurso e ideologia ..................................................................... 148
Texto e problemas de expressão ................................................... 152
Notas ............................................................................................ 155

BIBLIOGRAFIA .................................................................................... 157


ÍNDICE ANALÍTICO ............................................................................ 165

À Mariana
que descobre a escrita.

À Flávia
que aprende a falar.
INTRODUÇÃO

Este livro retoma, com algumas adaptações, a primeira


parte da tese de livre-docência A festa do discurso. Teoria do
discurso e análise de redações de vestibulandos, apresentada e
defendida na Universidade de São Paulo, em 1985.
Propôs-se, no trabalho, costurar e dar forma a um texto que
apresentasse uma visão de conjunto da teoria semiótica de análise do
discurso e que servisse a pós-graduandos de lingüística e a todos os que
pelo discurso se interessam. Em segundo lugar, tencionou-se contribuir
para o desenvolvimento da teoria, de cujo projeto temos participado de
vários modos. Finalmente, deu-se destaque ao objetivo de conciliar as
análises externa e interna do texto, em um mesmo quadro teórico.

TEORIA DO DISCURSO

Situemos, como primeiro passo, os objetivos e interesses deste


trabalho, no contexto das atuais preocupações lingüísticas.
A lingüística, a partir de Saussure e, sobretudo, com a teoria
distribucional, toma a língua como seu objeto, quase sempre sem
ultrapassar a dimensão da frase. Alguns lingüistas estabeleceram
claramente esse limite, outros não o determinaram com igual clareza,
outros ainda reconheceram a necessidade de se ir além da frase, mas não o
puderam ou souberam fazer.
O interesse pelo texto como um todo, principalmente com o
desenvolvimento dos estudos de semântica, e a aceitação do fato de o texto
não ser, como já se sabe há muito, a sim- [página 1] ples soma de frases,
tornou necessária uma lingüística do texto ou do discurso.
As tão discutidas dicotomias saussurianas, de reconhecida
importância para situar a lingüística entre as ciências humanas, para
estabelecer seu objeto, limitaram, por outro lado — por má interpretação do
mestre, dizem alguns, por necessidade do momento histórico em que se
transformavam os estudos da linguagem, afirmam outros, ou por razões
ideológicas, consideradas as condições de produção do texto de Saussure,
acreditam terceiros —, o campo de possível interesse do lingüista,
preocupado em ser objetivo em suas abordagens. Língua e fala, lingüístico
e extralingüístico fizeram da lingüística a ciência da língua — “social,
essencial, tesouro depositado pela prática da fala em todos os indivíduos
pertencentes à mesma comunidade” (SAUSSURE, 1969, p. 21) —,
relegando ao extralingüístico a fala — “acessória e mais ou menos
acidental, ato individual de vontade e inteligência” (p. 22) — e suas
relações com a “etimologia”, com a “história política”, com “instituições de
toda espécie, a Igreja, a escola, etc.” (p. 29).
A lingüística do discurso pode ser, assim, considerada como uma
tentativa de ruptura de duas barreiras: a que impede a passagem da frase ao
discurso e a que separa a língua da fala, ou melhor, dos fatores sócio-
históricos que a envolvem.
Harris (1969), por exemplo, sem fugir dos pressupostos
epistemológicos da teoria distribucional, tenta derrubar a primeira barreira,
propondo um processo de estruturação global do texto pela integração das
frases em unidades maiores. Já outros lingüistas do texto, como Pêcheux,
Verón, Slakta, Ducrot, estão mais interessados em vencer a segunda
fronteira e retomar ao extralingüístico elementos situacionais
indispensáveis à construção do sentido do texto lingüístico.
Estabelecidas, em grandes linhas, a necessidade e as pretensões de
uma lingüística do discurso, reconhece-se que, nesse projeto, não é fácil
delimitar o que é da alçada da lingüística. Constata-se, facilmente, quando
se examina o discurso, sua localização na encruzilhada entre preocupações
da lingüística e das demais ciências humanas (MAINGUENEAU, 1976, p.
19). Ao deixar a proteção das limitações de uma lingüística pura e lançar-
se no caos do extralingüístico, sente-se a lingüística um tanto atordoada,
pois ora se vê fortemente solicitada por aqueles que exigem que ela lhes
ensine a ler textos como meio de acesso ao homem, ora é confrontada com
ofertas diversas, do historiador, do psicólogo, do sociólogo, que sugerem a
sua leitura do discurso. [página 2]
A primeira preocupação é a de estabelecer um denominador comum
às varias definições do termo discurso, bastante polissêmico, segundo
Maingueneau (1976, p. 7), e muito usado em textos sobre a linguagem. O
ponto de interseção pode ser encontrado na remissão que diferentes
teóricos da linguagem fazem à enunciação ou às condições de produção do
discurso. E preciso distinguir, com a clareza possível, as variadas
colocações a respeito das relações mantidas pelo discurso com seu quadro
enunciativo ou com as condições de sua produção. Mesmo assim, pretende-
se tomá-las, enunciação e condições de produção, reunidas, como elemento
comum, caracterizador do discurso nas várias abordagens.
Para Benveniste (1966, p. 253-66) é no discurso que a língua,
sistema social, é assumida por uma instância individual, sem, porém, se
dispersar em infinitas falas particulares. O autor caracteriza o discurso
pelas relações que se estabelecem entre indicadores de pessoa, tempo,
espaço do enunciado e a instância de sua enunciação.
Ducrot (1980) distingue o texto, abstrato, do discurso, realizado,
cabendo à enunciação transformar o texto em discurso e por ele se
responsabilizar.
Para a análise automática do discurso, de Pêcheux, as formações
discursivas são componentes de formações ideológicas, por sua vez
relacionadas a condições de produção específicas (PECHEUX & FUCHS,
1975, p. 11), que englobam o mecanismo de colocação dos protagonistas e
do objeto do discurso e as características múltiplas de uma situação
concreta.
Guespin (1971) considera que um olhar lançado a um texto do ponto
de vista de sua estruturação em língua faz dele um enunciado e que o
estudo das suas condições de produção o torna um discurso.
Segundo Greimas, enunciação é a instância de mediação que produz
o discurso, ou seja, que realiza a passagem das estruturas semióticas
narrativas às estruturas discursivas (GREIMAS & COURTÉS, s.d.).
Outros autores poderiam ser aqui arrolados, mas, das citações
transcritas, se extraem já três pontos decisivos para a concepção de
discurso e sua análise: a relação do discurso com a enunciação e com as
condições de produção e de recepção; o discurso como lugar, ao mesmo
tempo, do social e do individual; a articulação entre narrativa e discurso,
isto é, o discurso constituído sobre estruturas narrativas que o sustentam.
As estruturas narrativas, entendidas como suporte sintático-semântico das
estruturas discursivas, de qualquer tipo de discurso, serão examinadas no
capítulo 1. [página 3]
Antes de se focalizar a questão central da enunciação, algumas
observações devem ser feitas sobre o caráter individual e social do
discurso. Há dois modos distintos de encarar o problema. Lingüistas como
Benveniste, Ducrot ou Greimas acatam as dicotomias social vs. individual,
lingüístico vs. retórico, competência vs. performance, que, mesmo não
recobrindo a oposição língua vs. fala, podem ser a ela referidas. Para
Benveniste, por exemplo, coexistem no discurso o sistema da língua e as
marcas da opção individual de sua realização que, muito apropriadamente,
denominou subjetividade na língua. A segunda forma de abordar a questão
está bem colocada por Robin, que não aceita a liberdade discursiva
individual do sujeito “sem inconsciente, sem pertencer a uma classe, sem
ideologia, que fala, que se fala” (1977, p. 41). Afirma a autora que

“esta liberdade atribuída ao domínio da fala inscrevia-se numa


Filosofia do sujeito neutro, transparente a si próprio (uma
Filosofia de antes da descoberta freudiana), e naquela de um
sujeito sem determinações sócio-ideológicas (uma Filosofia de
antes de Marx)” (p. 25).

Cabe retomar, nessa perspectiva, o problema da co-presença do


social e do individual no discurso, afirmando que, nele, coexistem a
invariável sistêmica social e as variáveis, também sociais, de realização,
forjadas pelas determinações sócio-ideológicas. Se a significação nasce da
variação, como propuseram Barthes (1964 e 1966) e Greimas (1966), é da
relação entre a invariante do sistema e a variação social que surge o sentido
do discurso. A articulação do discurso com a formação social não é, por
conseguinte, fortuita e ocasional ou secundária e acessória.
Poucos são os teóricos do discurso que deixam de reconhecer a
estreita vinculação existente entre discurso e enunciação. Harris é um deles,
pois, com método puramente formal, prescinde do conteúdo na análise do
discurso. Os estudiosos, que, de alguma forma, atentam para o sentido, se
vêem obrigados a recuperar elementos da enunciação, sem o que deixarão
de lado muitos aspectos da significação do discurso ou estarão até mesmo
impossibilitados de construí-la. Não se pretende invalidar análises
realizadas de fatias do sentido, pois se reconhecem as dificuldades de
apreendê-lo todo. E preciso, porém, concordar com Ducrot, quando afirma
que cabe à análise lingüística, atualmente, fornecer pistas, dar instruções,
ser uma fonte de hipóteses pala os analistas do discurso (1980, p. 12).
[página 4]
A mudança de objete dos estudos lingüísticos, graças ao problema da
enunciação, ocorre pouco a pouco na reflexão lingüística que,
genericamente, se pode denominar semântica da enunciação. Rotulam-se
assim orientações diversas como a teoria semântica intencional de Ducrot,
os projetos da pragmática conversacional de Grice e da teoria dos atos de
linguagem de Austin e Searle, as propostas para uma teoria da
argumentação e os esforços da semiótica de Greimas na construção de uma
sintaxe e de uma semântica da enunciação. Essas reflexões, mais
lingüísticas em sentido restrito, consideram apenas a enunciação
pressuposta no discurso, seu objeto-resultante. Distinguem-se, portanto, de
orientações que tentam recuperar para a análise do discurso não apenas os
elementos da instância enunciativa implícita, mas também as variáveis
sócio-históricas ou condições de produção, que engendram, com as
lingüísticas, o sentido do discurso.
Reconhecendo a pertinência da dimensão histórica para a análise do
discurso, mas também as muitas dificuldades encontradas na determinação
das relações entre formações sócio-ideológicas e formações discursivas,
propõe-se, neste trabalho, a hipótese, conciliatória entre os dois grupos, de
que essas relações podem e devem ser estabelecidas pela mediação
lingüística da enunciação. Tenta-se, assim, definir enunciação pelo duplo
papel de mediação ao converter as estruturas narrativas em estruturas
discursivas e ao relacionar o texto com as condições sócio-históricas de sua
produção e de sua recepção.
O objetivo é integrar, por meio da enunciação, uma abordagem
interna do texto, indispensável para que se reconheçam os mecanismos e
regras de engendramento do discurso, com a análise externa do contexto
sócio-histórico, em que o texto se insere e de que, em última instância,
cobra sentido. Para tanto, parte-se da teoria semiótica desenvolvida pelo
grupo de investigações sêmio-lingüísticas, sob a direção de Greimas, por
razões que, embora aqui resumidas, serão lembradas e mais bem sentidas
no decorrer do trabalho. Em síntese, são três os motivos da escolha: a teoria
sêmio-lingüística de análise do discurso está suficientemente avançada para
oferecer princípios, métodos e técnicas adequados de análise interna do
discurso, apreendido em níveis diferentes de geração e de abstração, que
serão examinados nos capítulos 1 e 2; ela constitui, no momento atual, um
dos poucos e mais completos modelos de abordagem das estruturas
narrativas; embora a semiótica não tenha tratado ainda, satisfatoriamente,
[página 5] das relações entre discurso e contexto, acredita-se que, sem
contradições teóricas, o projeto avance nessa direção, já que a enunciação,
mediadora entre formações sociais e discursivas, encontrou, há muito,
espaço na proposta semiótica. Tenciona-se, dessa forma, promover a
conciliação complementar das análises interna e externa do texto, no
quadro epistemo-metodológico da semiótica, recorrendo sempre que
possível e necessário a outras propostas e estudos que, sem incoerências
teóricas ou contradições, ajudem a construir o sentido do discurso, tal qual
foi aqui entendido. Não se pode esquecer o caráter fronteiriço do discurso,
entre as ciências humanas, mas tampouco se pode desconhecer o princípio
de que não se somam técnicas ignorando as teorias que implicam.

PLANO DO LIVRO

O livro divide-se em três capítulos: o primeiro, para estudo das


estruturas narrativas, o segundo, das organizações discursivas, e o terceiro,
da enunciação e das relações intertextuais.
No primeiro capítulo serão examinados os princípios fundamentais
da teoria semiótica e a sintaxe e a semântica narrativas, com ênfase no
caráter modal da sintaxe e na definição passional da semântica.
O segundo capítulo será dedicado à sintaxe e à semântica do
discurso. A sintaxe tratará das relações que se estabelecem entre a instância
da enunciação e o discurso enunciado e para sua elaboração serão
retomadas as teorias do foco narrativo e os estudos de semântica da
enunciação sobre questões de argumentação, pressuposição e atos de
linguagem. No exame da semântica serão abordados os aspectos de
tematização e figurativização do discurso. Tenciona-se verificar quais os
procedimentos discursivos que se empregam para criar ilusões de
enunciação e de realidade e, a partir daí, efeitos de verdade do discurso.
Caberá ao terceiro capítulo a tarefa de rever a enunciação como
articuladora entre formações discursivas e sociais e de efetuar a integração
das análises interna e externa, conciliação apontada como a finalidade
principal deste trabalho. A inserção contextual será considerada a partir das
relações de intertextualidade e serão distinguidos os contextos situacional,
interno e externo. [página 6]
I — NARRATIVIDADE:
À PROCURA DE VALORES

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Duas razões levaram-nos a tratar a narratividade, de maneira


sistemática, neste trabalho. A primeira delas foi a concepção de discurso
assumida e apresentada na Introdução: o discurso caracteriza-se por
estruturas sintático-semânticas narrativas que o sustentam e organizam. Em
segundo lugar, ainda que não pretendêssemos atribuir papel privilegiado à
organização narrativa na teoria do discurso, seríamos obrigados a
reconhecer que os modelos de descrição e explicação da narrativa são
marcos fundamentais na história da análise do discurso.
Procurou-se ressaltar inicialmente, neste capítulo, a necessidade de
dar atenção às estruturas sintático-semânticas narrativas, tanto na análise
lingüística da frase quanto no exame de discursos, e apresentar, de forma
sucinta, algumas propostas precursoras. Em seguida, tratou-se de firmar
posição em certos pontos da semiótica narrativa, considerados
imprescindíveis para a explicação da narratividade. Optou-se por não
apresentar exaustivamente a teoria greimasiana de análise narrativa, a
respeito de que há muitos textos publicados, e restringiu-se a exposição a
uma apreciação de conjunto da teoria. [página 7]
ESTRUTURAS SINTÁTICO-SEMÂNTICAS
SUBJACENTES

A gramática de casos de Fillmore1

Examinaram-se, para o nível da frase, as elaborações da gramática


de casos de Fillmore (1968). Não interessa retomar a proposta de Fillmore
em sua totalidade, mas fazer ver que é forçoso reconhecer, o que nem
sempre aceitam as teorias lingüísticas, a existência de estruturas profundas
mais distanciadas da estrutura de superfície, em que se definem papéis
sintático-semânticos.
Em nossa tese de doutoramento (1976), apresentamos e discutimos a
gramática de casos, tentando pôr em evidência sobretudo as diferenças
básicas encontradas entre o modelo de Fillmore e o de Chomsky, já que
Fillmore se declarava então, explicitamente, um seguidor da teoria
gerativa. A principal divergência entre eles consiste no fato de Chomsky
desenvolver uma gramática de “sujeito-predicado”, enquanto Fillmore
exclui do componente de base as noções funcionais de sujeito e de objeto
direto e propõe colocar em seu lugar as relações casuais, concebidas como
relações sintáticas, semanticamente relevantes, que envolvem os nomes e
as estruturas que os contêm. O autor reconhece, dessa forma, um suporte
sintático-semântico subjacente à organização da frase, num modelo gerador
de frases. As relações casuais, ou casos, formam um conjunto de conceitos
universais, provavelmente inatos e correspondentes a certos julgamentos
que os homens fazem sobre os acontecimentos: Quem fez isso? Com o
quê? A quem isso aconteceu? Em que lugar? Na análise de uma frase,
como “João joga bola”, importa determinar, no componente de base, que
João manifesta o caso agentivo e bola o objetivo e, só após transformações
e já em nível intermediário entre estrutura profunda e de superfície, definir
suas funções de sujeito e de objeto direto.
Essas observações têm a finalidade de mostrar que, ao lado das
semânticas lógicas, das semânticas formais, preocupadas com os valores de
verdade e de falsidade das proposições, a lingüística pratica, no quadro da
semântica gerativa, uma semântica de caráter antropológico, para muitos
mais ingênua, capaz de explicar os recortes semânticos culturais. A análise
semântica da frase, assim concebida, aproxima-se da dos mitos, da dos
contos populares e da dos textos em geral, bastando pensar nas propostas
de Lévi-Strauss, de Propp ou dos formalistas russos. [página 8]
Em 1977, em resposta a uma serie de criticas e de sugestões feitas à
gramática de casos, Fillmore publica ‘The case for case reopened’, onde
firma dois pontos fundamentais da teoria, já implícitos em seus textos
anteriores. Um deles é a concepção do sentido relativizado em cenas ou,
como preferimos, em um espetáculo. O reconhecimento da dimensão
espetacular da sintaxe (ou da sintaxe-semântica), que ocorre também em
Tesnière (1959), vem corroborar as convergências acima apontadas e
constitui a maior atração de sua teoria, para este trabalho. Os papéis
sintático-semânticos casuais, que simulam o espetáculo do homem no
mundo, constituem, já no nível da frase, organizações “narrativas” e fazem
a ponte entre as estruturas oracionais e as textuais, ou narrativas
propriamente ditas.
Apreendida a organização sintático-semântica profunda, o autor
desenvolve jogos de perspectivas e pontos de vista sobre a cena, que
permitem caracterizar recortes culturais e sócio-históricos da língua e de
seu uso.
As objeções que podem ser feitas à gramática de casos não se
aplicam ao nível geral de interesses e objetivos em que aqui nos colocamos.
Uma única observação é cabível: como a gramática de casos procura
explicar, no nível da oração, o espetáculo do homem agindo no mundo, não
deve esquecer que tal espetáculo é visto, através da língua, no texto, ou
seja, uma teoria que examina os papéis sintático-semânticos oracionais
precisa pressupor uma teoria do texto, no interior da qual encontre seu
lugar.
O segundo esclarecimento do texto de 1977 é o de que a gramática
de casos, apesar do nome, não é um modelo de gramática e sim uma
proposta de descrição e explicação sintático-semântica de um nível da
geração da oração, tornando-se necessário examinar a gramática em que
tal instância se insere. A intenção do autor é localizá-la na gramática
gerativa.
Halliday (1974, 1976) e Slakta (l971a, 1971b e 1974) discordam, de
certa forma, de Fillmore quanto à gramática em que são reconhecidos os
papéis sintático-semânticos. Halliday parte da hipótese de que o
funcionamento social da língua está refletido na estrutura lingüística e
determina três funções, das quais derivam as estruturas constitutivas da
oração: função ideacional (vs. estrutura da transitividade), função
interpessoal (vs. estrutura do modo) e função textual (vs. estrutura temática
e, indiretamente, estrutura da informação). A primeira das funções
compara-se facilmente com o nível sintático-semântico dos casos, pois
expressa o sentido cognitivo, a experiência que o falante tem do mundo,
através do sistema da transitividade. As demais funções acrescentam à
[página 9] proposta de Fillmore variáveis da instância da enunciação
função interpessoal, manifestada pelas distinções de modo, de topicalização
— e da organização textual — função textual, marcada sobretudo pela
entoação. Slakta interessa-se pela gramática de casos porque tal teoria
pensa, ao mesmo tempo, sintaxe e semântica, e julga que, embora Fillmore
não o reconheça, o discurso e seu verdadeiro campo de aplicação. O único
reparo que faz a gramática de casos deve-se ao fato de ela não levar em
conta o social, ou melhor, as relações do texto com os elementos sócio-
históricos de produção e de recepção, ainda que preencha as condições
mínimas necessárias seu caráter sintático-semântico — para atingir tais
objetivos mais amplos. Prevê a análise do discurso em três níveis: o nível
teórico-abstrato, que explicita regras especificamente lingüísticas por meio
da gramática de casos, o nível das realizações concretas e o nível retórico,
que dizem respeito, ambos, a competência ideológica e para cuja
explicação recorre a teoria das ideologias de Althusser.
Tanto Slakta quanto Halliday consideram a gramática de casos como
uma das etapas da análise do discurso ou da frase — instância de
explicação sintático-semântica a que devem ser somados níveis que
examinem, de outro ponto de vista e com novos elementos, as relações
entre discurso e enunciação, entre texto e contexto. Deixam de ter sentido
as objeções que, a respeito de contexto, se podem fazer a gramática de
casos, desde que a concebamos como uma etapa no interior de proposta
mais ampla, a de Halliday ou a de Slakta, entre outras.
Não cremos, e nesse ponto discordamos de Slakta, que a gramática
de casos, como foi proposta, explicitamente o nível da oração, seja o
modelo mais adequado, atualmente, para explicar o suporte sintático-
semântico narrativo do texto. Há, para o texto, modelos mais desenvolvidos
de análise narrativa, que prescindem de todo um trabalho de adaptação de
propostas localizadas, como a de Fillmore, e que serão examinados nos
próximos itens.

Análise estrutural da narrativa

Para a análise da narrativa propriamente dita, diferentes


caminhos podem ser seguidos. Escolher se o da gramática narrativa
estrutural, principal fonte da semiótica narratológica.2
A gramática narrativa, além de herdar da lingüística, mais
especificamente da semântica, Schnaiderman chama consciência semiótica
ou estrutural, dois veios de ori- [página 10] gem bem marcados: os estudos
dos formalistas russos, sobretudo sobre o folclore, e os trabalhos de Propp,
de um lado, e as abordagens das mitologias, essencialmente na perspectiva
de Lévi-Strauss, do outro.
Os textos precursores dos formalistas russos trouxeram para a análise
narrativa a preocupação, em primeiro lugar, com a análise imanente do
texto, ao mostrarem a necessidade de compreender as estruturas objetivas
da obra, interrogada em si mesma. Seria, no entanto, no mínimo um engano
não reconhecer que os formalistas, além de terem aos poucos alargado suas
perspectivas, não chegaram nunca a eliminar os falos sociais da
compreensão lingüística.
Propp, folclorista e etnólogo, não pertenceu ao grupo dos formalistas,
mas seus trabalhos têm muito em comum com os estudos dos elementos
dessa escola. A morfologia do conto de Propp é, sem sombra de dúvida,
uma das obras sobre as quais repousa a análise estrutural da narrativa,
representada, nos Estados Unidos, pelos estudos do folclore e, na França,
pelos trabalhos de Bremond, Todorov, Barthes e Greimas. Ao conceber
invariantes narrativas, como as funções e as esferas de ação, distinguindo,
por exemplo, o doador do objeto mágico do pássaro que oferece uma pena
ao herói, do peixe que lhe dá uma escama ou do velho que lhe cede um
bastão que bate, Propp revelou as regularidades subjacentes à variedade
dos contos maravilhosos russos. Os métodos e técnicas propostos foram,
posteriormente, estendidos a outros tipos de textos3: os da “grande
literatura”, os não-figurativos, como os discursos políticos e científicos, os
não-verbais.
Se Propp apreendeu unidades sintagmáticas constantes sob a
diversidade do texto, coube à antropologia, de visão estrutural, desenvolver
as pesquisas taxionômicas, como por exemplo a descrição das
terminologias do parentesco. A elaboração metodológica das
etnotaxionomias e as análises paradigmáticas, de Lévi-Strauss sobretudo,
procuraram explicar as regularidades estruturais subjacentes e são
comparáveis ao modelo lógico-conceptual constituído por Greimas para a
representação das estruturas profundas.
Aos esforços precursores dos formalistas russos e dos antropólogos
seguem-se, principalmente na França, trabalhos que marcaram época nos
estudos da narratividade, como a ‘Introdução à análise estrutural da
narrativa’, de Barthes. Este, a partir de Benveniste (1974), reconhece níveis
de descrição lingüística e mostra que a distribuição, ou relação de mesmo
nível, não basta para a construção do sentido do texto, sendo necessário
considerar também as relações que inte- [página 11] gram níveis
hierarquicamente diferentes. Distingue assim, pela primeira vez, funções
distribucionais, que foram desenvolvidas por Bremond (1966, 1973), ao
deduzir regras dos possíveis narrativos, e funções integrativas, como os
indícios e os informantes. Essa distinção teve larga aceitação entre os
estudiosos da narrativa, O texto instigante de Barthes, de 1966, levantou
muitos problemas, em sua maioria já resolvidos, ao menos
provisoriamente, pelas pesquisas que a ele se seguiram. A unidade
sintagmática da função, por exemplo, foi reformulada em termos de
enunciado narrativo, caracterizado pela relação entre actantes, o que
permitiu a construção de uma sintaxe narrativa.
Entre os trabalhos sobre a narratividade, não podem ser ignoradas as
contribuições de Bremond, ainda bastante presas à etnoliteratura, de
Todorov, no campo dos estudos literários, e dos semioticistas da Escola de
Tartu4. A vinculação entre os formalistas e os atuais semioticistas russos é
motivo de controvérsias. Enquanto alguns estabelecem uma relação de
continuidade direta entre formalistas (período de 1914 a 1930) e
semioticistas (a partir de 1960), para outros, como Lévi-Strauss, a ruptura é
completa. Schnaiderman não acredita em nenhuma das colocações
extremistas e mostra “marcos essenciais no desenvolvimento de uma
consciência semiótica” na URSS — um dos quais seria o formalismo —,
responsáveis pelo aparecimento da semiótica de Tartu
(SCHNAIDERMAN, 1979, p. 26). São principalmente os textos de
semiótica da literatura que fazem a ponte entre os formalistas, poetas em
sua maioria, e os semioticistas, lingüistas e cibernéticos.
A apresentação que se acabou de fazer teve por objetivo, em
primeiro lugar, ressaltar a necessidade de explicar a estrutura sintático-
semântica subjacente ao texto, seja no quadro da frase, seja na instância do
discurso. Em segundo lugar, pretendeu-se, ao tratar da gramática narrativa
estrutural, expor alguns elementos — a ênfase formalista na análise interna
e imanente do texto; as unidades sintagmáticas constantes ou invariantes
narrativas de Propp; as regularidades paradigmáticas subjacentes da
antropologia estrutural; as relações distribucionais e integrativas e a
questão dos níveis de descrição textual — cuja contribuição foi inegável
para a elaboração de uma teoria semiótica da narratividade.

A GRAMÁTICA SÊMIO-NARRATIVA

A opção feita neste trabalho pela abordagem sêmio-lingüística5 do


discurso deve-se, essencialmente, conforme foi [página 12] apresentado na
Introdução, à concepção de discurso que, a partir de vários autores,
discutimos e fizemos nossa: tal enfoque descreve e explica
satisfatoriamente o componente narrativo do discurso; é, sem dúvida
alguma, a proposta mais desenvolvida, atualmente, de análise interna e
imanente do texto; acredita-se, finalmente, que tal modelo permita, pela
mediação da enunciação, articular o discurso com suas condições de
produção. Ao conceber um sistema de regras capaz de explicar, com os
mesmos princípios epistemo-metodológicos, tanto as estruturas narrativas
quanto as discursivas, a semiótica deu já os primeiros passos para a
construção de um modelo que, sem abandonar a análise do texto, examine
também sua inserção no contexto. Pretende-se, portanto, fazer o projeto
avançar nessa direção, sem contradições teóricas, pois a enunciação, que se
tomará como elemento mediador entre formações discursivas e sociais, tem
já lugar na proposta semiótica.

Uma proposta semiótica


A semiótica, como a vê Greimas, tenta determinar as condições em
que um objeto se torna objeto significante para o homem. Herdeira de
Saussure e de Hjelmslev, não toma a linguagem como sistema de signos e
sim como sistema de significações, ou melhor, de relações, pois a
significação decorre da relação. Falar da significação é falar do sentido
negativo decorrente do postulado saussuriano da “diferença”. Uma
grandeza semiótica qualquer é, por conseguinte, uma rede de relações e
nunca um termo isolado.

A teoria semiótica caracteriza-se por:

a) construir métodos e técnicas adequadas de análise interna,


procurando chegar ao sujeito por meio do texto;
b) propor uma análise imanente, ao reconhecer o objeto textual como
uma máscara, sob a qual é preciso procurar as leis que regem o
discurso;
c) considerar o trabalho de construção do sentido, da imanência à
aparência, como um percurso gerativo, que vai do mais simples e
abstrato ao mais complexo e concreto, em que cada nível de
profundidade é passível de descrições autônomas;
d) entender o percurso gerativo como um percurso do conteúdo,
independente da manifestação, lingüística ou não, e anterior a ela.
[página 13]

Análise interna

O enfoque semiótico procura organizar o texto como uma totalidade


de sentido e determinar o modo de produção desse sentido, isto é, como o
texto diz o que diz (GROUPE D’ENTREVERNES, 1979, p. 7). Para atingir
tais objetivos, a semiótica tem-se esforçado por elaborar procedimentos
operatórios e por construir modelos adequados à análise interna.
A crença na necessidade de análise interna, ou seja, de descrição e
explicação dos mecanismos e regras que engendram o texto, constitui uma
das razões da escolha teórica feita. Como foi bem salientado na Introdução,
não se acredita, porém, que termine aí a construção do sentido do discurso.
Pretende-se, assim, cobrar da semiótica a explicação dos mecanismos de
produção do sentido, produção que não se fecha no texto, mas vai do texto
à cultura, ao mesmo tempo que dela depende.

Análise imanente

Hoje, na lingüística, da frase ou do discurso, poucos são os enfoques


que não distinguem a imanência da aparência, ou estruturas profundas de
estruturas de superfície, ou ainda macroestruturas de estruturas textuais, O
texto, objeto da enunciação, é uma ilusão — referencial e enunciativa — e,
para ser explicado, precisa ser desbastado dos efeitos de sentido aparentes.
Sob a aparência, busca-se a imanência do discurso; sob a máscara, as leis
que o produzem. Depois de cumpridos os procedimentos de abstração, é
necessário efetuar o percurso inverso e reconstruir, a partir de estruturas
imanentes, as estruturas aparentes da manifestação.
Imanência e aparência são níveis diferentes de abstração e
dependem, portanto, da perspectiva adotada, o que dificulta ou mesmo
impede a tarefa de precisar o que são instância profunda e instância de
superfície. Construções metalingüísticas, estrutura profunda e estrutura de
superfície designam os pontos de partida e de chegada de uma cadeia de
transformações (GREIMAS & COURTÉS, s.d., p. 352), tendo assim
caráter puramente operatório. A título de exemplo, podem-se comparar as
concepções de estrutura profunda em Fillmore e em Chomsky: a estrutura
profunda em Fillmore, com seus papéis sintático-semânticos ou casos, é
“mais profunda” que a estrutura profunda em Chomsky, ou melhor, está
mais distante da manifestação. São as estruturas intermediárias, em
Fillmore, resultantes de transformações ao menos de subjetivação e
objetivação, que podem ser comparadas, por se encon- [página 14] trarem
no mesmo nível de descrição, com a estrutura profunda em Chomsky.
Em semiótica, as estruturas profundas são as estruturas mais simples
que geram as estruturas mais complexas. A maior complexidade deve ser
entendida também como uma “complementação” ou um “enriquecimento”
do sentido, já que novas articulações são introduzidas em cada etapa do
percurso e a significação nada mais é que articulação. Considera-se,
portanto, o trabalho de construção do sentido, da imanência à aparência,
como um percurso gerativo.

Percurso gerativo

O discurso é encarado pela semiótica como uma superposição de


níveis de profundidade diferente, que se articulam segundo um percurso
“que vai do mais simples ao mais complexo, do mais abstrato ao mais
concreto” (GREIMAS & COURTÉS, s.d., p. 206).
A noção de percurso gerativo é fundamental para a teoria semiótica.
Prevê-se a apreensão do texto em diferentes instâncias de abstração e, em
decorrência, determinam-se etapas entre a imanência e a aparência e
elaboram-se descrições autônomas de cada um dos patamares de
profundidade estabelecidos no percurso gerativo. As razões que levaram à
escolha de certas etapas e não de outras, igualmente possíveis, resultam da
concepção de discurso e de construção de sentido assumidas e serão
percebidas, mais claramente, na explicação de cada patamar.
O nível propriamente semiótico, imanente, compreende o percurso
gerativo todo e distingue-se do nível lingüístico (ou pictórico, gestual, etc.)
aparente, que se situa fora do percurso gerativo e em que se reconhecem as
estruturas textuais.
O nível semiótico comporta três etapas julgadas necessárias para a
clareza da explicação do percurso: a das estruturas fundamentais, instância
mais profunda, em que são determinadas as estruturas elementares do
discurso, a das estruturas narrativas, nível sintático-semântico
intermediário, e a das estruturas discursivas, mais próximas da
manifestação textual. São lugares diferentes de articulação do sentido, que
pedem a construção, no interior da gramática semiótica, de três gramáticas
— fundamental, narrativa e discursiva —, cada qual com dois
componentes, ou seja, uma sintaxe e uma semântica.
A sintaxe e a semântica complementam-se na gramática semiótica. A
sintaxe semiótica deve ser considerada uma sintaxe conceptual, em que as
relações, ainda que reconhecidamente abstratas, são significantes, e a
semântica, uma semân- [página 15] tica gerativa — ‘concebida sob a forma
de investimentos sucessivos, dos mais abstratos aos mais concretos e
figurativos” —, sintagmática, e não apenas taxionômica, e geral
(GREIMAS & COURTÉS, s.d., p. 431 e 396).
No nível das estruturas fundamentais, uma sintaxe explica as
primeiras articulações da substância semântica e das operações sobre elas
efetuadas e uma semântica surge como um inventário de categorias sêmicas
com representação sintagmática assegurada pela sintaxe; na instância das
estruturas narrativas, uma sintaxe regulamenta o fazer — simulacro do
fazer do homem no mundo e das suas relações com os outros homens — e
uma semântica atribui estatuto de valor aos objetos do fazer; na etapa mais
superficial das estruturas discursivas, uma sintaxe organiza as relações
entre enunciação e discurso e uma semântica estabelece percursos
temáticos e reveste figurativamente os conteúdos da semântica narrativa.
Passa-se, assim, do lógico-conceptual ao narrativo graças à ação do
homem, sujeito do fazer, e do narrativo ao discursivo pela intervenção do
sujeito da enunciação.
Texto da imagem:

Gramática semiótica Sintaxe Semântica


Gramática fundamental
Sintaxe fundamental Semântica fundamental
(lógico-conceptual)
Gramática narrativa
Sintaxe narrativa Semântica narrativa
(antropomórfica)
Gramática discursiva
Sintaxe discursiva Semântica discursiva
(da enunciação)

Tomando-se o texto de João Cabral de Melo Neto ‘O vento no


canavial’, em análise de rápidas pinceladas, pode-se entender melhor a
noção de percurso gerativo.

O vento no canavial

Não se vê no canavial É como um grande lençol


nenhuma planta com nome, sem dobras e sem bainha;
nenhuma planta maria, penugem de moça ao sol,
planta com nome de homem. roupa lavada estendida.

É anônimo o canavial, Contudo há no canavial


sem feições, como a campina; oculta fisionomia:
é como um mar sem navios, como em pulso de relógio
papel em branco de escrita. há possível melodia.

[página 16]

ou como de um avião É solta sua simetria:


a paisagem se organiza, como a das ondas na areia
ou há finos desenhos nas ou as ondas da multidão
pedras da praça vazia. lutando na praça cheia.

Se venta no canavial Então, é da praça cheia


estendido sob o sol que o canavial é a imagem:
seu tecido inanimado vêem-se as mesmas correntes
faz-se sensível lençol, que se fazem e desfazem,
se muda em bandeira viva, voragens que se desatam,
de cor verde sobre verde, redemoinhos iguais,
com estrelas verdes que estrelas iguais àquelas
no verde nascem, se perdem. que o povo na praça faz.

Não lembra o canavial (MELO NETO, 1975, p. 148-9)


então, as praças vazias:
não tem, como têm as pedras,
disciplina de milícias.

Os conceitos empregados, nesse rápido exercício, estarão mais bem


desenvolvidos no corpo do trabalho. Não serão distinguidos, com nitidez,
os fatos sintáticos dos semânticos.
No nível das estruturas fundamentais, primeira etapa na geração do
sentido, as categorias semânticas /anônimo vs. com nome/, /em branco vs.
Escrito/, /sem feições vs. com cara/, podem-se reduzir à relação
fundamental /não marcado vs. Marcado/ ou /continuo vs. descontínuo/.
Lembrando a lição da semântica de que o sentido nasce da
descontinuidade, da ruptura, da percepção da diferença, tem-se a oposição
entre a significação da marca, do nome, da feição, do traço e a ausência de
significação do anonimato, da diluição, da continuidade ou, em última
instância, entre o sentido da vida (“sensível lençol”, “bandeira viva”, “no
verde nascem”) e o sem-sentido da morte (“tecido inanimado”)6.
Acrescente-se a relação de /estaticidade vs. dinamicidade/ ou
/conservação—manutenção vs. mudança—transformação/ ou /ordem vs.
desordem/ e, muito provavelmente, estarão arroladas as categorias
semânticas sobre as quais se constrói o poema.
Ainda no patamar das estruturas fundamentais, cabe explicação das
operações sintáticas que põem em movimento as [página 17] relações
acima estabelecidas. As operações lógicas de negação e de asserção
determinam os seguintes percursos:

1 2 3
continuidade descontinuidade ruptura
morte (sem-sentido) não-morte vida (sentido)
estaticidade (conservação) não-estaticidade dinamicidade

cujas etapas (1, 2 e 3) podem ser reconhecidas no texto:


1: anônimo; sem feições; mar sem navios; papel em branco de escrita;
lençol sem dobras e sem bainha; tecido inanimado;
2: oculta fisionomia; possível melodia; a paisagem se organiza; finos
desenhos nas pedras da praça vazia; sensível lençol; estrelas verdes
que no verde nascem; não lembra as praças vazias; não tem
disciplina de milícias;
3: ondas da multidão; praça cheia; mesmas correntes que se fazem e
desfazem; voragens que se desatam; redemoinhos que o povo na
praça faz.

O texto trata, portanto, do surgimento da vida, do movimento, da


transformação, da ruptura ou do aparecimento da tensão entre estados de
distensão e de relaxamento.
No segundo patamar do percurso gerativo, o das estruturas
narrativas, é preciso reconhecer sujeitos humanos que realizam as
mudanças descritas como operações lógicas, no nível fundamental. No
poema, há um sujeito que transforma estados, ou seja, que altera a relação
de outros sujeitos com os objetos-valor. Nesse caso específico, transforma-
se a competência do sujeito para a ação: o sujeito sem nome, feições ou
marcas, que nada quer, sabe ou pode fazer, torna-se um sujeito determinado
ou “qualificado”, que aspira às mudanças (faz “estrelas”), é capaz de operá-
las e, finalmente, age (“correntes que se fazem e desfazem”; “que o povo
na praça faz”). O sujeito responsável pela alteração das qualidades do
sujeito da ação é denominado, na teoria semiótica, destinador. Destinador é
aquele que determina a competência e os valores do sujeito que age, aquele
que, em suma, estabelece as regras do jogo. No texto em exame, o
destinador aparece sob a figura do vento que muda o canavial, que lhe dá
voz e vez, O canavial, graças ao vento, coloca-se como sujeito operador das
mudanças de estado e como sujeito “apaixonado”, que espera, que confia e
desconfia, que se desilude e se aflige, que não se conforma e se revolta.
A terceira e última etapa do percurso gerativo, a mais próxima da
manifestação, é a das estruturas discursivas. Exa- [página 18] mina-se o
texto como resultado da enunciação, como discurso, enfim. Retomam-se as
estruturas narrativas na perspectiva da instância de enunciação que as
assume. Instala-se, no poema, um observador, sujeito cognitivo delegado
do sujeito da enunciação, que “filtra”, que conduz o discurso. Nada mais
justo, portanto, que nesse texto a dimensão do saber esteja figurativizada
pela visão (“não se vê no canavial”; “oculta fisionomia”; “o canavial é a
imagem”; etc.) e que seja claro o jogo de veridicção entre o ser e o
parecer: o canavial mente, pois parece, mas não é estático e sem feições, e
esconde segredos, pois, embora não pareça, tem “fisionomia”. O
observador, ao assumir diferentes posições e perspectivas, ao fazer variar o
ponto de vista, conhece ou reconhece as voragens ocultas, os redemoinhos
escondidos, a melodia possível.
Sendo o observador (e não o narrador) o condutor do discurso,
aparecem fortes recursos de aspectualização, que garantem a passagem das
transformações narrativas a processos com começo, meio e fim. A
descontinuidade aspectual rompe a duratividade do “papel em branco”, da
“campina” ou do “grande lençol” e o aspecto incoativo da mudança dá
início a uma nova duratividade.
Também no nível do discurso, a semiótica examina os temas e as
figuras que os recobrem. As relações e operações elementares do nível
fundamental, já retomadas como transformações, valores e paixões
narrativas, apresentam-se, no nível discursivo, como percursos temáticos e
figurativos. Em ‘O vento no canavial’, várias linhas temático-figurativas
podem ser estabelecidas. Uma primeira leitura é, sem dúvida, a do vento
que mexe com o canavial. Outras são possíveis e não se pensa em esgotá-
las aqui:

a) leitura sócio-política das transformações sociais, com a presença de


elemento desencadeador das mudanças operadas pelo povo “lutando
na praça” (não se pode esquecer do papel transformador da praça,
muito bem reconhecido pelos antropólogos);
b) leitura sócio-econômica do anonimato e do conformismo
do homem do Nordeste, submetido às injunções da política
econômica e à natureza e com ela confundido, mas que, se
soprar o “vento forte”, pode mudar-se em “bandeira viva”;
c) leitura existencial e cíclica da vida, da fecundação e do nas cimento.

A apreensão vertical dessas linhas temáticas (e figurativas) cria


metáforas: o povo, o Nordeste, o homem confundem-se com o canavial; o
líder, o herói, o fecundador misturam-se com o vento; os movimentos da
cana balançada pelo vento [página 19] equivalem, na leitura vertical, ao
nascimento ou às lutas na praça cheia.
Percorridas, rapidamente, as etapas de geração do sentido propostas
pela semiótica, resta, ainda, a possibilidade de considerar o texto nas suas
relações com o significante — lingüístico, visual, etc. —, já fora do
percurso gerativo. Cabe lembrar que, a partir de Hjelmslev, a semiótica
condiciona a construção de uma metalinguagem descritiva à separação dos
planos da expressão e do conteúdo, sem que isso signifique deixar de
reconhecer a implicação mútua que os define. Entende-se o percurso
gerativo, portanto, como um percurso do conteúdo, independente de sua
manifestação e anterior a ela. A manifestação tem implicações diversas,
como a linearidade e a organização no espaço, a escolha lexical, as marcas
estilísticas, de que a semiótica não se ocupa. No caso da manifestação
verbal, o nível textual desdobra-se, por sua vez, em instância das estruturas
de superfície e instância das estruturas profundas, estudadas pela
lingüística.

GRAMÁTICA FUNDAMENTAL

A sintaxe e a semântica fundamentais constituem o nível profundo da


gramática sêmio-narrativa, a instância ab quo do percurso de geração do
sentido de um discurso (GREIMAS & COURTÉS, s.d., p. 432-3).

Sintaxe fundamental

A sintaxe fundamental articula-se nos subcomponentes taxionômico


ou morfológico e operacional ou sintático. Em decorrência do caráter
relacional da sintaxe semiótica, os termos do subcomponente taxionômico
são interseções ou redes de relações e as operações do subcomponente
sintático, stricto sensu, “atos que estabelecem relações” (GREIMAS &
COURTÉS, s.d., p. 433).
O subcomponente taxionômico ou morfológico descreve e explica o
modo de existência da significação como um microssistema relacional não
orientado, ou melhor, como estrutura elementar. Com a noção de estrutura
elementar, procurou-se dotar a semiótica de uma definição de estrutura
capai de incluir relações que “constituem o essencial da herança Sobre a
qual repousa o cálculo lingüístico desde 1827” (GREI- [página 20] MAS,
1981a, p 44). Organização estrutural mínima, a estrutura elementar define-
se, em primeiro lugar, corno a relação que se estabelece entre dois termos-
objetos — um só termo não significa —, devendo a relação manifestar sua
dupla natureza de conjunção e de disjunção. Tal estrutura necessita, porém,
ser precisada e interpretada por um modelo lógico que traduza bem suas
relações em oposições de contradição, contrariedade e complementaridade,
e que a torne operatória, no plano metodológico. O quadrado semiótico foi
concebido como a representação lógica, “tão simples quanto possível”
(RICOEUR, 1980, p. 6), da estrutura elementar7.
S 1 S 2

S2 S1

relação de contrariedade
relação de contradição
relação de complementaridade

Os termos da categoria elementar s1 e s2, mantêm entre si relação de


oposição por contraste, no interior de um mesmo eixo semântico, e podem,
cada um deles, projetar, por uma operação de negação, um novo termo, seu
contraditório (s 1 e s 2). Só é possível pensar em estrutura elementar
quando s1 e s2 forem termos polares de uma mesma categoria semântica.
Retoma-se, como ilustração, o texto ‘O vento no canavial’, já
utilizado no item sobre o percurso gerativo, para melhor situar os conceitos
da gramática fundamental. Investindo o quadrado semiótico com as
categorias semânticas do poema citado, tem-se:
Texto da imagem:

S1 S2
continuidade ruptura
morte vida
estaticidade dinamicidade

S 2 S 1
não-ruptura descontinuidade
não-vida não-morte
não-dinamicidade não-estaticidade

[página 21]

Percebe-se facilmente que /continuidade vs. ruptura/, /morte vs.


vida/, /estaticidade vs. dinamicidade/ são termos de uma mesma categoria
semântica: temporal, existencial e de movimento, respectivamente.
Além das relações categoriais (s1 vs. s2 e s 2 vs. s 1 são contrários;
s1 vs. s 1 e s2 vs. s 2 são contraditórios; s 1 vs. s1 e s 2 vs. s1 são
complementares), o modelo acima define seis dimensões:

dois eixos: s1 + s2 e s 1 + s 2
dois esquemas: s1 + s 1 e s2 + s 2
duas dêixis: s1+ s 2 e s2 + s 1

Os termos categoriais (s1, s2, s 1, e s 2) resultam de urna primeira


geração de termos, graças às operações de negação e asserção. O quadrado
semiótico permite ainda uma segunda geração, em que são obtidos os
metatermos contraditórios e contrários, e uma terceira geração que produz
os termos complexo e neutro. Os metatermos contraditórios são dois
esquemas (s1 + s 1 e s2 + s 2) que contraem relação de contradição (por
exemplo, imanência e manifestação, no quadrado das modalidades
veridictórias)8 e os metatermos contrários, duas dêixis (s1 + s 2 e s2 + s 1)
que mantêm entre si relação de contrariedade (como a mentira e o segredo,
no mesmo quadrado das modalidades veridictórias). Os termos complexo e
neutro caracterizam-se, respectivamente, pela reunião dos termos do eixo
dos contrários (S (sexualidade) = s1 (macho) + s2 (fêmea)) e dos termos do
eixo dos subcontrários (S (assexualidade) = s 1 (não-macho) + s 2 (não-
fêmea)).
Com esse modelo, traduz-se estaticamente a organização relacional
do conteúdo, a taxionomia do subcomponente morfológico. Enquanto o
subcomponente morfológico ocupa-se do modo de existência da
significação, cabe ao subcomponente operatório ou sintático descrever e
explicar o seu modo de funcionamento. A dinamização do modelo
taxionômico da estrutura elementar — as relações são tratadas como
operações orientadas — permite passar ao ponto de vista sintático. A
orientação rias relações é a primeira condição da narratividade e pressupõe
já um sujeito produtor do sentido. Reúnem-se aí — relações da estrutura
elementar da significação e seqüência ordenada de operações sintáticas —
as condições mínimas de ou discurso (GREIMAS, 1981a, p. 42-6).
O quadrado semiótico, por meio da reformulação das ralações em
operações, responde também pela representação dinâmica da estrutura
elementar. [página 22]

*
asserção
asserção

**
** *

(texto da imagem: * asserção; ** negação)

As operações são de dois tipos: a negação e a asserção. A operação


de negação, efetuada sobre s1 ou sobre s2, considerados como termos
primitivos, produz seus contraditórios, respectivamente s 1 e s 2; a
operação de asserção aplica-se aos termos s 1 e s 2 e faz aparecer os
termos primitivos afirmativos, s1 e s2.
As operações realizadas no quadrado semiótico negam um conteúdo
e afirmam outro, engendrando a significação e tornando-a, como vimos,
passível de narrativização.
No poema de Cabral que se está usando como exemplo, a
dinamização das relações fundamentais em percursos orientados resulta no
esquema abaixo:

s1 s2
continuidade ruptura
morte ** vida
estaticidade * dinamicidade

asserção
s 1
descontinuidade
não-morte
não-estaticidade
(texto da imagem: * asserção; ** negação)

Nega-se a /continuidade/, a /morte/ e a /estaticidade/ e afirma-se a /ruptura/,


a /vida/, a /dinamicidade/.
Duas tarefas, entre outras, foram confiadas ao modelo quaternário
que acabamos de definir: a primeira é a de modelo constitucional, ponto de
partida do percurso de geração de todo discurso, lingüístico ou não; a
segunda, que de certa forma incluiria a primeira, é a de representar as
relações semânticas em sua dimensão paradigmática e propiciar-lhes a
sintagmatização pelas operações orientadas, em qualquer etapa de
descrição. O quadrado semiótico pertence ao nível metalingüístico da
semiótica. Ressalte-se, ainda, qualquer que seja a tarefa cumprida, a
eficácia heurística do quadrado, enquanto modelo de previsibilidade.
[página 23]
Resumiu-se, em grandes linhas, a sintaxe fundamental. Foram
apresentados apenas os elementos de consenso entre os estudiosos da
semiótica. No item sobre a semântica fundamental, serão analisadas
algumas reformulações possíveis, sobretudo a partir do trabalho de
Zilberberg (1981).

Semântica fundamental

A semântica fundamental define-se por seu caráter abstrato e


constitui, com a sintaxe fundamental, o ponto inicial da geração do
discurso.
Todo semantismo articula-se em categorias semânticas que,
representadas pelo quadrado semiótico, se tornam operatórias e adquirem
estatuto lógico-semântico (GREIMAS, 1979b, p. 9). Em princípio, uma
única categoria é suficiente para produzir um microuniverso semântico,
mas prevêem-se também, em sua geração, categorias hierarquizadas. Esse
inventário ou taxionomia de categorias semânticas é sintagmatizado pelas
operações sintáticas descritas.
As categorias semânticas podem ser axiologizadas na instância das
estruturas fundamentais pela projeção, sobre o quadrado que as articula, da
categoria tímica /euforia/ X /disforia/.

“Trata-se de uma categoria ‘primitiva’, dita também


proprioceptiva, com a qual se procura formular, muito
sumariamente, o modo como todo ser vivo, inscrito em um
contexto, ‘se sente’ e reage a seu meio, considerado o ser vivo
como ‘um sistema de atrações e repulsões’.” (GREIMAS,
l979b, p. 9).

Eufórica é a relação de conformidade do ser vivo com o meio


ambiente, e disfórica, sua não-conformidade. Os termos da categoria
semântica assim investidos são ditos valores axiológicos, e não apenas
valores descritivos, e surgem, em relação à semântica narrativa, como
valores virtuais, ou seja, não relacionados ainda a um sujeito. A atualização
só ocorre na instância superior da semântica narrativa, quando tais valores
são assumidos por um sujeito.
Em ‘O vento no canavial’, as categorias semânticas geradoras do
poema são axiologizadas: a /continuidade/, a /morte/ e a /estaticidade/ são
disfóricas e opõem-se à euforia da /ruptura/, da /vida/, da /dinamicidade/.
Passa-se, portanto, da disforia à euforia, em texto euforizante. [página 24]

Texto da imagem:
s1 s2
continuidade ruptura
disforia morte vida euforia
estaticidade dinamicidade

s 1
descontinuidade
não-morte não-disforia
não-estaticidade

A aplicação do tímico sobre o descritivo e os valores axiológicos


resultantes, além de constituírem sistemas de valores virtuais a serem
explorados pelo sujeito da enunciação, têm especial interesse para
explicarem-se, na instância narrativa, as articulações modo-passionais que
regem as relações entre os sujeitos e os objetos. A categoria tímica /euforia/
vs. /disforia/, para Greimas (1979b), está por detrás, ou melhor, de acordo
com a metáfora do percurso gerativo, por baixo das organizações modais
que definem as paixões.
Zilberberg (1981) sugere mudanças nas relações entre o tímico e o
passional e alterações no próprio percurso gerativo “clássico”, de forma
geral mantido neste trabalho. Não se discutirão aqui o interesse e o alcance
de todas as sugestões de Zilberberg, mas serão retomados alguns pontos de
sua proposta que se acredita poderem contribuir para melhor explicar o
modo de produção do sentido.
O ponto de partida das inovações de Zilberberg é a categoria /tensão/
vs. /relaxamento/, apresentada como oposição-matriz, correspondente à
oposição /elevado/ vs. /reduzido/ do modelo fonológico acústico, e que
instalaria a descontinuidade na unidade contínua do sema.

“Em outras palavras, se o sema é mantido, para satisfazer o


princípio da continuidade, como compacto ou contínuo, é
preciso, para satisfazer agora o princípio da descontinuidade,
instalar nessa continuidade uma ‘descontinuidade sistêmica’.
Esta última manterá o sema como unidade, mas, ao mesmo
tempo, o esvaziará, o escavará, roerá sua substância para
conservar-lhe apenas a forma ou, melhor ainda e segundo a
bela expressão de Valéry, ‘a figura da forma’.”
(ZILBERBERG, 1981, p. 6).

Cada sema tem, nessa perspectiva, dupla definição, em relaxamento


e em tensão, ou seja, o sema varia entre um estado tenso e outro relaxado.
Os percursos de tensão e de relaxamento são denominados modalidades
tensivas. [página 25]

Texto da imagem:

tensão (t) relaxamento (r)

intensão (r ) distensão
(t )

Zilberberg ilustra bastante bem sua proposta: o operador ou, por


exemplo, engloba tanto o ou tenso das oposições quanto o ou relaxado das
analogias; em La Rochefoucauld, a distinção entre avareza e economia é
uma variação de intensidade e não de qualidade, ao contrário do que ocorre
com avareza e prodigalidade, ambos termos tensos que se separam por
“qualidade semântica”; os universos semânticos também se determinam
pela tensividade: o de Baudelaire, tenso, o de Verlaine, relaxado
(ZILBERBERG, 1981, p. 22-3).
Se as modalidades tensivas subjazem a toda unidade de sentido,
podem ser consideradas como termos de uma categoria que modaliza as
categorias semânticas, no nível das estruturas fundamentais, papel que
Greimas atribui à categoria tímica.
Neste trabalho, pretende-se empregar a categoria da tensividade,
articulada em tensão e relaxamento, mesmo sem acompanhar as demais
contribuições de Zilberberg à semiótica. A categoria da tensividade poderá
levar a melhor caracterizar a categoria tímica /euforia/ vs. /disforia/,
responsável, como foi visto, pela axiologização das categorias semânticas
fundamentais. A categoria tímica será redefinida como categoria fá rica. A
troca de nomes, de timia para foria, explicita o caráter articulador da
categoria, a ser entendida, a partir daí, não só pela oposição tímica de /bem,
benéfico (eu-)/ vs. /mal, maléfico (dis-)/, mas também pela relação de
/tenso/ vs. /relaxado/. A euforia define-se, assim, como uma tensão
decrescente e um relaxamento crescente; a disforia, como aumento de
tensão e diminuição de relaxamento.
A tensividade, para Zilberberg, é uma propriedade do ser vivo ou,
mais exatamente, do encontro do ser vivo com o não-vivo, concepção que
lhe permite homologar a forja ao princípio do prazer de Freud, à pulsão.
Retoma-se, uma vez mais e indiretamente, a categoria tímica, tal qual a
propôs Greimas, como a categoria que articula as reações do ser vivo a seu
contexto.
Pode-se concluir que a tensividade, ou melhor, a variação e a
conservação tensiva organizam os conteúdos no nível das estruturas
fundamentais e correspondem à metacategoria semântica, tímica ou fórica,
que determina o descritivo e o torna valor axiológico. Metacategoria
definidora das catego- [página 26] rias semânticas ou relação sintática
responsável pela organização, conservação ou redução das diferenças
semânticas, como prefere Zilberberg, a tensividade tem, inegavelmente, um
papel a cumprir na instância fundamental do percurso de geração do
sentido, além de iluminar um pouco as obscuras regras de passagem de um
nível semiótico a outro.

Conversão das estruturas fundamentais


em estruturas narrativas

Caracterizada a gramática Fundamental, Cumpre tratar da conversão


das estruturas profundas em estruturas narrativas, etapa imediatamente
superior no percurso gerativo. O problema colocado pela passagem de um
nível a outro, quaisquer que sejam eles, não encontrou ainda real solução.
O reconhecimento dos procedimentos de conversão e o estabelecimento de
suas regras estão apenas começando. Sabe-se, no momento, que a
conversão9 diz respeito à manutenção e não à ruptura, introduzindo a
continuidade na descontinuidade das etapas. A equivalência ao modelo
inicial deve ser mantida, ao mesmo tempo que a estrutura se torna mais
complexa e o sentido mais “rico”.
Quanto à passagem específica do nível fundamental ao narrativo, é
possível reconhecer certos elementos. As operações da sintaxe fundamental
convertem-se, na sintaxe narrativa e graças ao sujeito do fazer, em
enunciados do fazer que regem enunciados de estado. Pode-se dizer que a
conversão das operações lógicas em transformações narrativas é uma
antropomorfização, em que a sintaxe narrativa, de caráter antropomórfico,
substitui as operações lógicas da sintaxe fundamental por sujeitos do fazer
e define sujeitos de estado pela junção com objetos-valor, formulando,
portanto, sintaticamente, a relação básica do homem com o mundo.
Há semioticistas, como Zilberberg, que, em lugar de definirem a
narrativa pela antropomorfização das operações lógicas fundamentais,
preferem determiná-la pela intencionalidade. Entende-se a intencionalidade
como a tensividade fundamental com um começo e um fim. Em outras
palavras, a intencionalidade narrativa decorre da aspectualização10 da
variação e da conservação tensiva das estruturas fundamentais.
Pela conversão semântica, os valores virtuais, isto é, ainda não
assumidos por uru sujeito na instância fundamental, são selecionados e
atualizados na instância narrativa. A atualização realiza-se em duas etapas:
inscrição dos valores em objetos, que se tornam objetos-valor, e junção dos
objetos-valor com os sujeitos. Os valores axiológicos virtuais conver-
[página 27] tem-se, dessa forma, em valores ideológicos, entendidos como
valores assumidos por um sujeito, a partir de seleção no interior dos
sistemas axiológicos.

GRAMÁTICA NARRATIVA

A gramática narrativa descreve e explica o modo de existência e de


funcionamento das estruturas narrativas ou superficiais que constituem a
etapa imediatamente superior, no percurso de geração do sentido, à das
estruturas fundamentais.

Sintaxe narrativa

Retomando a concepção espetacular da sintaxe, entende-se a sintaxe


narrativa como o simulacro do fazer do homem que transforma o mundo.
Desvendar a organização narrativa consiste, portanto, em descrever e
explicar as relações e funções do espetáculo, assim como em determinar
seus participantes. Para tanto, a análise narrativa procura utilizar o quadro
geral e rigoroso da teoria semiótica, buscando mostrar e analisar a
especificidade de cada texto e não, como acreditam alguns criar uma
camisa-de-força, uma fôrma, em que devam obrigatoriamente entrar os
mais diversos discursos. A proposição de modelos de enunciados
narrativos, de programas, de percursos e mesmo de um esquema narrativo
canônico, que serão vistos em seguida, só tem sentido se tais modelos
forem entendidos como instrumentos de análise e de previsão, que facilitam
a decomposição do discurso e a explicação coerente das transformações e
dos estados e que possibilitam a comparação, por exemplo, de narrativas
diferentes. Enquanto instrumentos de previsão, permitem reconhecer, por
catálise — explicitação dos pressupostos —, elementos narrativos
implícitos.
Parte-se de duas concepções complementares de narratividade:
narratividade como transformação de estados, de situações, operada pelo
fazer transformador de um sujeito, que age no e sobre o mundo em busca
de certos valores investidos objetos; narratividade como sucessão de
estabelecimentos e de rupturas de contratos entre um destinador e um
destinatário, de que decorrem a comunicação e os conflitos entre sujeitos e
a circulação de objetos-valor. Em outros termos, as estruturas narrativas
simulam a história da busca de valores, da procura de sentido. [página 28]

Enunciado elementar

O enunciado elementar da sintaxe narrativa será definido pela


relação-função entre pelo menos dois actantes. Função está sendo tomada
no sentido lógico-matemático de relação entre duas variáveis. Com base
nessa concepção de sintaxe relacional, deve-se rever a noção de actante de
Tesnière, pois, para a semiótica, actante é o termo-resultante da relação-
função ou, em outras palavras, a relação-função é constitutiva dos actantes,
seus funtivos.
A relação que caracteriza o enunciado elementar é a de transitividade
— relação que comporta um investimento semântico mínimo —, e os
actantes, definidos por tal relação, são o actante sujeito e o actante objeto.
A relação transitiva entre sujeito e objeto dá-lhes existência.
Investimentos semânticos complementares à relação de transitividade
permitem estabelecer distinção entre duas diferentes funções, a junção e a
transformação, e entre duas formas canônicas de enunciados elementares.
A fábula ‘A Galinha dos ovos de ouro’, de Millôr Fernandes, será
utilizada para ilustrar os diferentes tipos de enunciados e outros conceitos
da gramática narrativa.

A Galinha dos ovos de ouro

Era uma vez um homem que tinha uma Galinha. Subitamente,


em dia inesperado, a Galinha pôs um ovo de ouro. Ouro! Outro
dia, outro ovo. Outro ovo de ouro! O homem mal podia
dormir. Esperava todas as manhãs pelo ovo de ouro — clara,
gema, gala, tudo de ouro! — que o tirava da miséria aos
poucos, e aos poucos o ia guindando ao milionarismo. O fato,
que antigamente poderia passar despercebido, na data de hoje
atraía verdadeiras multidões.: E não só multidões. Rádios,
jornais, televisão, tudo entrevistava o homem, pedindo-lhe
impressões, querendo saber detalhes de como acontecera o
espantoso acontecimento. E a Galinha, também, ia dando aqui
e ali seus shows diante dos jornais, câmaras, microfones. Certa
vez até, num esforço de reportagem, conseguiu pôr um ovo
diante da câmara da TV Tupi. Porém o tempo passou e muito
antes que o homem conseguisse ficar rico, a Galinha deixou de
botar ovos de ouro. Desesperado, o homem foi ocultando o
fato, até que, certo dia, não se contendo mais, abriu a galinha
para apanhar os ovos que ela tivesse lá dentro. Para sua
decepção não havia mais nenhum. [página 29]
Então o homem — espírito bem moderno — resolveu
explorar o nome que lhe ficara do acontecimento e abriu um
enorme restaurante, com o sugestivo nome de Aos Ovos de
Ouro. E isso lhe deu muito mais dinheiro do que a Galinha
propriamente dita.

MORAL: CRIA GALINHAS E DEITA-TE NO NINHO.


(FERNANDES, 1975, p. 99)

As duas formas canônicas de enunciados elementares, definidas


pelas funções de junção e de transformação, são:

enunciado de estado.... F junção (S,O)


Ex.: “Era uma vez um homem que tinha uma
Galinha”
enunciado de fazer.... F transformação (S,O)
Ex.: “Subitamente, em dia inesperado, a Galinha pôs um
ovo de ouro”.

A junção é a relação que determina o “estado” do sujeito em relação


a um objeto qualquer. Articula-se em conjunção e disjunção:

enunciado de estado conjuntivo....S ⋂ O


Ex.: O homem tinha a Galinha dos ovos de ouro.
enunciado de estado disjuntivo....S ⋃ O
Ex.: O homem não tinha mais a Galinha dos ovos de
ouro.

Os enunciados de fazer operam a passagem de uni estado a outro, ou


seja, de um estado conjuntivo a um estado disjuntivo e vice-versa. O objeto
da transformação e, portanto, um enunciado de estado. Na fábula, ao matar
a galinha (enunciado de fazer) o sujeito do fazer “homem” muda seu estado
de conjunção com o objeto “galinha e ovos de ouro” em estado de
disjunção.
Retomando a definição de actantes, pode-se dizer que o sujeito não
existe nem semântica nem semioticamente se não for determinado pela
relação transitiva com um objeto. Se a relação que os liga for de disjunção,
serão chamados de sujeitos (e objetos) atualizados, se de conjunção,serão
ditos realizados. Anteriormente à junção, os sujeitos serão virtuais. A
natureza da função constitutiva do enunciado permite, ainda, distinguir
sujeitos e objetos do estado, de sujeitos e objetos [página 30] do lazer. O
objeto, enquanto objeto sintático, caracteriza-se como uma posição
actancial que pode receber investimentos de projetos do sujeito (objeto do
fazer) e de suas determinações (objeto do estado) (GREIMAS &
COURTÉS, s.d., p. 313). Tais investimentos fazem do objeto um objeto-
valor.
No texto-exemplo, o sujeito (homem) define-se pela relação
transitiva com o objeto (ovos de ouro, dinheiro), que, investido pelos
projetos e pelas determinações do sujeito (em busca de dinheiro, fama e
prestígio), torna-se um objeto-valor. O sujeito apresenta-se ora como
sujeito virtual (antes de a galinha botar ovos de ouro, não mantém relação
juntiva com o objeto), ora como sujeito realizado (quando “sua” galinha
põe ovos de ouro, o sujeito passa a estar em conjunção com o objeto), ora
como sujeito atualizado (quando a galinha deixa de botar ovos de ouro e é
morta, o sujeito se relaciona por disjunção com o objeto).
Conclui-se, a partir da apresentação das duas formas de enunciados
elementares, que a sintaxe narrativa não é uma sintaxe de sujeito-
predicado, como as da gramática gerativa ou da sintaxe distribucional, mas
uma sintaxe semelhante à de Tesnière ou Fillmore, em que o núcleo é o
“verbo”, que define a relação entre actantes. Os dois tipos de enunciados
marcam no discurso a diferença entre estado e transformação, cujo
reconhecimento e distinção constituem o primeiro trabalho da análise
narrativa. A narratividade deve ser entendida como a sucessão de estados e
de transformações, responsável, nessa instância, pela produção do sentido.
Em ‘A Galinha dos ovos de ouro’, seguem-se estados de disjunção e
de conjunção do sujeito com o objeto-valor (ovos de ouro, dinheiro), sendo
as mudanças ocasionadas por transformações (enunciados de fazer): a
galinha começa a botar ovos de ouro; a galinha deixa de pôr ovos de ouro e
é morta; o homem abre um restaurante que lhe dá muito dinheiro.

Sintagma elementar: programa narrativo

O sintagma elementar da sintaxe narrativa é denominado programa


narrativo. O programa narrativo constitui-se de um enunciado de fazer que
rege um enunciado de estado. Ao integrar os estados e as transformações, o
programa narrativo, e não o enunciado, deve ser considerado a unidade
operatória elementar da sintaxe narrativa. [página 31]

No programa narrativo abaixo representado, o enunciado de estado é


o enunciado resultante da transformação, a partir do qual se pode
reconstituir o estado inicial.
F = função
→ = transformação
S1 = sujeito do fazer PN = F[S1 → (S2 ⋂ OV)]
S2 = sujeito do estado
F[S1 → (S2 ⋃ OV)]
⋂ = conjunção
⋃ = disjunção
Ov = objeto-valor

Pelo fato de transformar estados, o sujeito do fazer altera a junção do


sujeito do estado com os valores e, portanto, o afeta.
São programas narrativos, por exemplo:

PN1 = F (botar ovos de ouro)


[S1 (galinha) — (S2 (homem) ⋂ Ov (ovos de ouro-dinheiro, prestígio))]

PN2 = F (deixar de botar)


[S1 (galinha) — (S2 (homem) ⋃ Ov (ovos de ouro-dinheiro, prestígio))]

PN3 = F (abrir a galinha)


[S1 (homem) (S2 (homem) ⋃ Ov (ovos de ouro-dinheiro, prestígio))]

PN4 = F (abrir um restaurante)


[S1 (homem) - (S, (homem) ⋂ Ov (restaurante-dinheiro, prestígio))]

Todo enunciado que rege outro enunciado é um enunciado modal, e


o regido, um enunciado descritivo. No programa narrativo, o enunciado de
fazer é um enunciado modal, que “modaliza” o enunciado de estado
descritivo. E preciso, porém, lembrar que, como se verá adiante, os
enunciados de estado também podem ser enunciados modais.
Há vários tipos de programas narrativos, segundo:

a) a natureza da junção — conjunção ou disjunção —, que


determina programas de aquisição ou de privação de objetos-
valor (Os PN1 e PN4, em que o sujeito (homem) obtém os
objetos que valem dinheiro e prestigio, são programas de
aquisição de objeto-valor, e os PN2 e PN3, em que o sujeito
perde tais valores, programas de privação.);
b) o valor investido no objeto — modal ou descritivo —, que
define, no primeiro caso, programas de transformação de
competência e de alteração de estados passionais, e no
segundo, programas de performance, desde que cumpridas
também as condições do item d (Os programas acima são
programas de performance11. Os valores (dinheiro, prestígio,
fama) investidos nos objetos são descritivos. Em ‘O [página
32] vento no canavial’ tem-se um bom exemplo de programa
de competência: o sujeito do fazer (vento) dota o sujeito de
estado (canavial) do valor-modal do poder-fazer (PN = F
(“ventar”) [S1 (vento) → (S2 (canavial) ⋂ Ov (poder-fazer))].);
c) a complexidade do programa narrativo — simples ou
complexo — e a relação entre os programas que o constituem
(Os programas são, em geral, complexos, constituídos por
mais de um programa, hierarquizados: um programa narrativo
de base, que exige a realização prévia de outros programas,
pressupostos, denominados programas narrativos de uso e
cujo número depende da maior ou menor complexidade da
tarefa a ser executada. O programa de uso pode ser realizado
pelo mesmo sujeito que cumpre o programa principal ou por
um sujeito do fazer delegado. Na fábula, o programa de base é
o de aquisição dos valores de dinheiro e prestígio,
apresentando-se os demais programas como programas de uso
que levam à realização do programa de base. E o caso, por
exemplo, das entrevistas com rádios, jornais e televisão.);

d) a relação entre os sujeitos, actantes narrativos, e os atores


discursivos12: os dois sujeitos, do estado e do fazer, podem ser
assumidos por um único ator ou por dois atores diferentes.
(Nos PN1 e PN2 acima, o sujeito do fazer S1 é realizado pelo
ator “galinha”, enquanto o sujeito do estado S2 é manifestado
pelo ator “homem”. Nos PN3 e PN4, os dois sujeitos, do fazer
(S1) e do estado (S2), são assumidos por um mesmo ator
“homem”.)

Combinados os critérios a e d, ocorrem programas de aquisição


transitiva ou por doação (opera-se a conjunção e o sujeito do fazer é
diferente do sujeito de estado), de aquisição reflexiva ou por apropriação
(opera-se a conjunção e o sujeito do fazer é igual ao sujeito de estado); de
privação transitiva ou por espoliação (opera-se a disjunção e o sujeito do
fazer é diferente do sujeito de estado); de privação reflexiva ou por
renuncia (opera-se a disjunção e o sujeito do fazer é igual ao sujeito de
estado). O PN1 é um programa de doação, o PN2, de espoliação, o PN3, de
renuncia, o PN4, de apropriação. Todo programa narrativo projeta um
programa correlato, ou seja, o Programa de doação corresponde, em outra
perspectiva, ao programa de renúncia, da mesma forma que o programa de
apropriação é concomitante ao programa de espoliação. O desdobramento e
a correlação de programas levam a ler a transformação de estados como
transferência de objetos-valor e como comunicação de objetos entre dois
sujeitos que, por meio deles, se relacionam. [página 33]

A galinha, ao botar e doar os ovos de ouro, está a eles renunciando;


ao parar de pôr ovos, espolia o homem e apropria- se dos ovos. Estabelece-
se a comunicação do objeto “ovos de ouro” entre os sujeitos “galinha” e
“homem”.

PN1 = F (botar ovos de ouro)


[S1 (galinha) → (S2 (homem) ⋂ Ov (ovos de ouro))] DOAÇÃO

PN1 correlato = F (botar ovos de ouro)


[S1 (galinha) → (S2 (galinha) ⋃ Ov (ovos de ouro))] RENÚNCIA

PN2 = F (deixar de pôr ovos de ouro)


[S1 (galinha) → (S2 (homem) ⋃ Ov (ovos de ouro))] ESPOLIAÇÃO

PN2 correlato = F (deixar de pôr ovos de ouro)


[S1 (galinha) → (S2 (galinha) ⋂ Ov (ovos de ouro))] APROPRIAÇÃO

Acreditando na apropriação pela galinha, o homem abriu-a “para apanhar


os ovos que ela tivesse lá dentro”.
Com base nos critérios levantados, definem-se dois tipos
fundamentais de programas narrativos, a competência e a performance. A
performance, em sentido lato, confunde-se com a própria definição de
programa. Em sentido restrito, constitui um tipo de programa narrativo, o
programa de aquisição (ou de produção) de valores descritivos em que o
sujeito do fazer e o sujeito do estado estão sincretizados em um único ator
(aquisição por apropriação correlata à privação por espoliação). Opõe-se à
competência, definida como programa de aquisição de valores modais em
que o sujeito do fazer e o sujeito do estado são realizados por atores
diferentes (aquisição por doação). Assim, em

F[S1a → (S2a ⋂ Ovd)]


Ex.: F(abrir restaurante) [S1a (homem) → (S2a (homem) ⋂ Ovd (dinheiro))]

tem-se a representação da performance: S1 = S2 (o índice a marca o


sincretismo actorial dos sujeitos) e o valor é descritivo. Em

F[S1a → (S2b ⋂ Ovm)]

Ex.: F(botar ovos) [S1a (galinha) → (S2b (homem) ⋂ Ovm (poder-fazer))]

transcreve-se a competência: S1 ≠ S2 (os índices a e b representam a


diferença actorial) e o valor é modal. Trata-se, na performance, da
representação sintático-semântica do ato, ou seja, do fazer-ser, e, na
competência, da doação de valores modais [página 34] ao sujeito do estado,
tornando-o apto para agir ou para “viver paixões”.
A competência, entendida como as condições necessárias à
realização da performance, é sempre um programa de uso em relação ao
programa da performance. Caracteriza-se como uma organização
hierárquica de modalidades ou de valores modais: o querer-fazer e/ou o
dever-fazer regem o poder-fazer e/ou o saber-fazer. O problema das
modalidades será examinado em item à parte.
Quanto à performance, dissemos acima, de passagem, que há
performances de aquisição de valores, quando os objetos, em que os
valores desejados estão investidos, já existem e circulam entre sujeitos, e
performances de construção de objetos ainda inexistentes, para serem
lugares de investimento dos valores visados. O primeiro tipo de
performance pode ser exemplificado, nos contos infantis, com a história de
Joãozinho e o pé de feijão; em que a Galinha-dos-ovos-de-ouro circula
entre o Gigante e Joãozinho; o segundo, com a história da Galinha Ruiva
que, a partir do valor gustativo desejado, planta o trigo, mói, amassa, faz e
assa o pão, constrói enfim o objeto em que o valor irá se inscrever. Se, no
primeiro caso, há conflito entre dois sujeitos de fazer, em luta pelo objeto-
valor, representado pela figura da Galinha-dos-ovos-de-ouro, no segundo,
opõem-se um sujeito que faz — a Galinha Ruiva — e outro que não faz —
os amiguinhos da Galinha Ruiva. No texto de Millôr que está sendo
utilizado como exemplo, as performances do sujeito “homem” são
performances de aquisição de objetos-valor já existentes e em circulação
entre sujeitos: os ovos de ouro, entre a galinha e o homem; o dinheiro, entre
homens.
Descrever e explicar a organização dos programas narrativos, nos
moldes propostos, constitui o segundo passo da análise narrativa.
Percurso narrativo

“Um percurso narrativo é uma seqüência hipotáxica de


programas narrativos (abreviados em PN), simples ou
complexos, isto é, um encadeamento lógico em que cada PN é
pressuposto por um outro PN” (GREIMAS & COURTÉS, s.d.,
p. 300).

Os actantes sintáticos — sujeito do estado, sujeito do fazer, objeto —


, que participam da formulação do enunciado elementar e do programa
narrativo, são redefinidos, no interior dos percursos narrativos, como
papéis actanciais. Os papéis actanciais dependem da posição que os
actantes sintáticos, ou o programa de que fazem parte, ocupam no percur-
[página 35] so — existem, então, sujeitos competentes, sujeitos
realizadores — e da natureza dos objetos-valor, com os quais estão em
junção — distinguem-se, assim, sujeitos do querer, sujeitos do saber. Os
papéis actanciais variam segundo o progresso narrativo. Na última etapa da
hierarquia das unidades sintáticas, o conjunto dos papéis actanciais de um
percurso define o chamado actante funcional ou actante, simplesmente. O
actante funcional não se caracteriza de uma vez por todas, mas tem apenas
a determinação mínima dada pelo percurso, cujos papéis engloba.

Unidades sintáticas Actantes


Actante funcional (sujeito, objeto,
Esquema narrativo
destinador, destinatário)
Papel actancial (Ex.: sujeito
Percurso narrativo
competente, sujeito do querer)
Programa narrativo (e Actante sintático (sujeito do estado,
enunciado elementar) sujeito do fazer-objeto)

Unidade do esquema narrativo, o actante funcional esta sendo


chamado aqui para denominar os percursos que assume, facilitando-lhes a
referência. Há três percursos distintos: o do sujeito, o do destinador-
manipulador e o do destinado julgador.
O percurso do sujeito é constituído pelo encadeamento lógico do
programa da competência, pressuposto, e do programa da performance,
pressuponente, ou seja, o sujeito adquire competência modal e semântica,
torna-se sujeito competente para um dado fazer ou performance e executa-
o, passando a sujeito realizador. Os diversos tipos de competência e de
performance, assim como o encadeamento dos dois programas,
caracterizam diferentes percursos do sujeito, cuja explicação pode ser
considerada o terceiro passo da análise narrativa. Em ‘A Galinha dos ovos
de ouro’ o Sujeito (funcional) “homem” torna-se sujeito competente (quer,
sabe e pode lazer), qualificado para a performance de adquirir dinheiro e
prestígio, e executa tal fazer, transformando o estado de sujeito sem
dinheiro em estado de sujeito com dinheiro. Assume, portanto, diferentes
papéis actanciais: sujeito do querer, sujeito do poder, sujeito do saber,
sujeito competente, sujeito realizador.
Os outros dois percursos, percurso do destinador-manipulador ou
percurso da manipulação e percurso do destinador-julgador ou percurso da
sanção, enquadram o percurso do sujeito. O destinador-manipulador é a
fonte dos valores, ou [página 36] melhor é quem determina os valores que
serão visados pelo sujeito ou o valor dos valores — competência semântica
do sujeito — e quem dota o sujeito dos valores modais necessários ao fazer
— competência modal do sujeito. Manipulação e competência são
correlativos, ou seja, são pontos de vista diferentes sobre o programa de
aquisição por doação. Na manipulação, adota-se a perspectiva do sujeito do
fazer; na competência, a do sujeito do estado que “recebe” os valores
modais.
O percurso do destinador-manipulador é, pela definição acima,
formado por um programa, em geral complexo, de doação de competência
semântica e modal ao destinatário, que será sujeito do fazer. Na fábula-
exemplo, o destinador-manipulador ocorre sob a forma da sociedade, que
leva o sujeito a querer-fazer (adquirir dinheiro e prestígio), através da
galinha, que, com os ovos de ouro, lhe dá o poder-fazer, e por meio da
“modernidade”, que lhe lega o saber-fazer (explorar o nome e abrir um
restaurante).
A dotação de competência semântica ou manipulação cognitiva tem
todas as características do programa de competência e deve ser entendida
como um contrato fiduciário, em que o destinador, graças a um fazer
persuasivo, busca a adesão do destinatário. Pretende fazer com que o
destinatário, ao exercer o fazer interpretativo que lhe cabe, creia ser
verdadeiro o objeto apresentado, o discurso do outro e o próprio
destinador. Há estreita vinculação entre a confiança e a crença, o que
permite falar em contrato fiduciário. A confiança entre os homens
fundamenta a confiança nas palavras deles sobre as coisas e o mundo e,
finalmente, a confiança ou a crença nas coisas e no mundo.
A atribuição de competência modal ao sujeito, para levá-lo a fazer,
constitui a manipulação propriamente dita e pressupõe o contrato fiduciário
acima referido. Tal manipulação consiste na doação de valores modais,
cuja organização determina a competência do sujeito. A manipulação do
destinador distingue-se, pelos critérios vistos, da ação do sujeito: o sujeito,
pela performance, altera estados, faz ser, e simula a ação do homem sobre
as coisas do mundo; o manipulador transforma o sujeito, ao modificar suas
determinações semânticas e modais, ou seja, faz-fazer, e representa a ação
do homem sobre o homem.
A manipulação tem a estrutura contratual da comunicação. O
destinador-manipulador transforma a competência modal do destinatário ao
colocá-lo, durante a comunicação, em posição de falta de liberdade ou de
não poder não aceitar o contrato proposto. O destinatário é levado a efetuar
uma es- [página 37] colha forçada. O destinador emprega, para tanto, a
persuasão, articulada no fazer persuasivo que exerce e no fazer
interpretativo, por conta do destinatário, O fazer persuasivo define-se como
um fazer-crer e, secundariamente, como um fazer-saber, e o fazer
interpretativo, como o crer, ou melhor, como um ato epistêmico que leva a
crer. Em resumo, o percurso do destinador-manipulador pode ser
desmembrado em três etapas: o contrato fiduciário, em que é estabelecido
um mínimo de confiança; o espaço cognitivo da persuasão e da
interpretação; a aceitação ou recusa do contrato.

Percurso do destinador-manipulador

Manipulação propriamente dita:


Aceitação ou re-
Contrato fiduciário proposição do contrato, persuasão
cusa do contrato
e interpretação

Uma tipologia da manipulação foi esboçada na semiótica13. Há


quatro grandes tipos de figuras da manipulação, a provocação, a sedução, a
tentação e a intimidação, segundo dois critérios de classificação: o da
competência do manipulador para o fazer persuasivo e o da alteração modal
operada na competência do sujeito manipulado. No primeiro caso, o
destinador-manipulador persuade pelo saber, provocando e seduzindo, ou
pelo poder, tentando e intimidando. Na provocação e na sedução, o
destinador diz ao destinatário, de forma clara ou implícita, o que sabe de
sua competência, colocando-o em posição de escolha forçada. Na
provocação, deve escolher entre aceitar a imagem desfavorável que dele foi
apresentada ou fazer o que o manipulador pretende; na sedução, precisa
recusar a representação lisonjeira que dele foi feita ou deixar-se manipular.
O julgamento da competência é, portanto, positivo, na sedução, e, negativo,
na provocação. Na tentação e na intimidação, o manipulador mostra poder
e propõe ao manipulado, para que ele faça o esperado, objetos de valor
cultural, respectivamente positivo (dinheiro, presentes, vantagens) e
negativo (ameaças). O segundo critério aplica-se à transformação da
competência modal do sujeito manipulado, que passa a querer ou a dever-
fazer. O querer-fazer caracteriza a sedução e a tentação, o dever-fazer, a
provocação e a intimidação. Os diferentes tipos de manipulação
manifestam-se, em geral, combinados e confundidos em estruturas de
manipulação complexas, que se explicam pela organização e encadeamento
dos programas no percurso do destinador-manipulador. [página 38]
Acrescente-se, agora, que a manipulação só será bem sucedida se o
sistema de valores que esta por deitas dela for compartilhado pelo
manipulado. Volta-se à questão do contrato fiduciário. O bom
funcionamento da manipulação pressupõe uma certa cumplicidade entre
manipulador e manipulado. Assim, se o destinatário provocado não se
importar de ser chamado de covarde, ele não será levado, no saloon, ao
duelo; se o homem-motorista não fizer questão de confirmar sua imagem
de força e competência frente à mulher, ele não se deixará seduzir pela
“fragilidade” da jovem que está com o pneu do carro furado; se o guarda
rodoviário não se interessar por dinheiro ou se prevalecerem nele outros
valores, além do econômico, não será ele levado pela tentação do suborno.
Escapar da manipulação, além de significar a recusa em participar do jogo,
constitui, também, a proposição de outro sistema de valores14.
O terceiro percurso narrativo proposto é o do destinador-julgador ou
percurso da sanção15. O percurso do destinador-julgador, da mesma forma
que a manipulação, consiste no encadeamento lógico de programas
narrativos, em geral complexos, de dois tipos: o primeiro, responsável pela
sanção cognitiva, que leva ao reconhecimento do “herói” e ao
desmascaramento do “vilão”; o segundo, encarregado da sanção
pragmática, que culmina na retribuição, sob a forma de recompensa ou
punição. A sanção pragmática pressupõe a cognitiva e caracterizam-se,
ambas, como programas de doação de valores, modais e descritivos, que
modificam o ser do sujeito.
No texto de Millôr, o percurso da sanção, não muito desenvolvido,
aparece tanto como sanção cognitiva, no reconhecimento do “espírito
moderno” do sujeito e na moral “Cria galinhas e deita-te no ninho”, quanto
como sanção pragmática: “E isso lhe deu muito mais dinheiro do que a
Galinha propriamente dita”.
A sanção a última fase do algoritmo narrativo e apresenta-se como
um fim necessário, tanto pelo desenvolvimento dos programas narrativos
do percurso do sujeito, percurso que lhe cabe encerrar, quanto pelas
correlações que se estabelecem entre manipulação e sanção. A sanção faz
eco à manipulação e ambas delimitam o percurso do sujeito, encaixando-o
entre dois momentos do sistema do destinador. Instala-se, com a sanção,
um outro ponto de vista na narrativa, o da relação de interpretação entre o
sujeito e o destinador-julgador. [página 39]
A operação cognitiva de sanção é uma interpretação que se cumpre
em duas etapas, a de reconhecimento e a de integração do sujeito e de seu
percurso no sistema de valores do destinador. Para isso é necessária, em
primeiro lugar, a “objetivação” do percurso narrativo realizado pelo sujeito
(PANIER, 1982), sua apreensão como objeto do saber a ser interpretado.
Recategorizado como objeto, o percurso do sujeito as transformações e os
estados resultantes — torna-se suporte de valores descritivos e modais,
passível de interpretação.
O sujeito, caracterizado essencialmente pelo fazer e pelos valores
com os quais se relaciona, precisa ser retomado e lido pelo destinador-
julgador, para adquirir sentido. No reconhecimento, as modalidades
veridictórias e epistêmicas sobredeterminam o ser do sujeito. O destinador
interpreta os estados resultantes do fazer do sujeito, definindo-os como
verdadeiros (que parecem e são), falsos (que não parecem e não são),
mentirosos (que parecem e não são) ou secretos (que não parecem e são).
No conto popular, em geral, o reconhecimento do herói dá-se pela
transformação do secreto em verdadeiro, ao mesmo tempo que o
desmascaramento do vilão ocorre pela passagem do mentiroso ao falso.
Veridictoriamente modalizado, o sujeito é, em seguida, determinado pelas
modalidades epistêmicas da certeza ou da dúvida: afirmado ou recusado,
admitido ou posto em dúvida.
Na sanção, o destinador, além de reconhecer o sujeito, integra o
percurso narrativo por ele realizado no sistema de valores de que, como
destinador, é guardião. Ou seja, o destinador julga a conduta do sujeito e os
estados obtidos pelas operações, por sua conformidade ou não com o
sistema de valores que representa e, também, em relação aos valores
implicitados ou explicitados no contrato inicial com o destinador-
manipulador. Cabe-lhe verificar se o sujeito cumpriu o compromisso
assumido quando da sua instauração como sujeito da performance.
Conclui-se que toda interpretação, e sanção, se faz em nome de uma
ideologia, da qual depende, em suma, o sentido do percurso narrativo
realizado.
O sujeito, reconhecido e considerado cumpridor do contrato que
assumiu, é julgado positivamente e recebe uma retribuição, última etapa da
sanção, sob a forma de recompensa. A retribuição faz parte da estrutura
contratual inicial e restabelece o equilíbrio narrativo. Pode-se exemplificar,
uma vez mais, com a literatura infantil: a Gata Borralheira, após ser
reconhecida como a verdadeira princesa, de quem o príncipe se enamora,
casa-se com ele; Joãozinho, cumprido o com- [página 40] trato implícito de
coragem e esperteza, recebe a retribuição sob a forma da galinha-dos-ovos-
de-ouro, O inverso também ocorre e a não-obediência ao contrato conduz à
punição, após julgamento negativo. A Galinha Ruiva propõe acordo ao
rato, ao pato e ao porco, para que a ajudem a fazer o pão. Como eles não
assumem o compromisso, são reconhecidos preguiçosos pela galinha, que
os pune, comendo o pão sozinha. Uma última possibilidade é a de o sujeito
ser sancionado por um destinador-julgador que encarne valores contrários
ou contraditórios aos do destinador-manipulador. Nesse caso, o sujeito que
cumpriu o contrato será julgado negativamente e vice-versa. Em geral, é o
que ocorre na punição do anti-sujeito.
A sanção realiza, portanto, duas operações, a cognitiva, de
interpretação reconhecimento do sujeito e integração de seu percurso no
sistema de valores de ambos os destinadores —, e a pragmática, de
retribuição.

Esquema narrativo canônico

A hierarquia sintática da narrativa vai do programa ao esquema,


passando pelo percurso.
O esquema narrativo, enquanto modelo canônico, deve ser tomado
como referência, a partir do qual são calculados os desvios, as expansões e
as variações narrativas, e estabelecidas as comparações entre narrativas
diferentes. Só pode ser entendido no topo da estrutura sintática hierárquica
que se está examinando, ao definir-se como modelo hipotético de uma
organização geral da narratividade que procura mostrar as formas pelas
quais o sujeito concebe sua vida, enquanto projeto, realização e destino
(GREIMAS & COURTÉS, s.d., p. 298).
O esquema narrativo canônico compreende os três percursos
descritos, o percurso da manipulação ou do destinador-manipulador, o da
ação ou do sujeito e o da sanção ou do destinador-julgador. Os percursos da
manipulação e da sanção situam-se na dimensão cognitiva e enquadram o
da ação, localizado tanto na dimensão pragmática (encadeamento de atos
somático-gestuais), quanto na cognitiva (sucessão de atos de linguagem).
Visualiza-se o esquema narrativo na representação abaixo:

Percurso do Percurso do
Percurso do sujeito
destinador-manipulador destinador-julgador
Dor — Dário S—O Dor — Dário

[página 41]
Os actantes funcionais ou actantes, simplesmente, caracterizam-se,
no nível do esquema, pelos papéis actanciais que englobam e definem-se
por duas categorias, a da transitividade, articulada em sujeito e objeto, e a
da comunicação ou factitividade, desmembrada em destinador e
destinatário.
O esquema narrativo, ao estabelecer a regularidade sintagmática da
organização narrativa, retoma as contribuições de Propp. Podem-se
aproximar os três percursos, constitutivos do esquema, das provas
proppianas — qualificante, principal e glorificante. Muitas mudanças
ocorreram a partir do trabalho precursor de Propp, graças, sobretudo, ao
reconhecimento dos dispositivos modais da narrativa que permitem
reinterpretar a sintaxe narrativa em termos de sintaxe modal. Que se pense
na semiótica da manipulação e da sanção e na determinação da
competência e da existência modais do sujeito. No entanto, a semiótica
conserva ainda, na sua definição de esquema narrativo, o ponto de vista de
Propp ao atribuir às regularidades narrativas o estatuto ideológico de um
projeto de vida.
Retomando as duas definições propostas de narratividade, pode-se
agora perceber que a primeira, a de sucessão de estados e de
transformações, adotou a perspectiva do sujeito e de seu fazer, e a segunda,
a da sucessão de estabelecimentos e de rupturas de obrigações contratuais,
escolheu o ponto de vista das relações entre destinador e destinatário-
sujeito. A leitura da estrutura contratual da narrativa mostra o
estabelecimento de um acordo entre o destinador-manipulador e o
destinatário-sujeito, em geral após a ruptura da ordem estabelecida, ou seja,
depois da transgressão de contratos sociais implícitos ou explícitos; o
cumprimento, pelo sujeito, cio compromisso assumido; a atribuição de
recompensa ao sujeito fiel a suas obrigações, pelo destinador-julgador, que
executa, assim, sua parte no contrato. Se a estrutura contratual parece
dominar o conjunto do esquema narrativo, é preciso não esquecer que a
organização contratual da intersubjetividade articula-se em dois pólos
opostos, o das estruturas polêmicas ou conflituais e o das estruturas
contratuais, em sentido restrito.

“O reconhecimento, na semiótica, desse tipo de estruturas,


permite-nos articular e formular, com maior precisão, a
problemática mais geral — peculiar ao conjunto das ciências
sociais — no interior da qual se opõem duas concepções quase
inconciliáveis da sociabilidade: a vida social, enquanto luta (de
classes) e competição, e a sociedade fundada na troca e na
coesão social.” (GREIMAS & COURTÉS, s.d., p. 341.)
[página 42]

O reconhecimento da estrutura polêmica na narratividade — no


conto da Branca de Neve, por exemplo, há, ao mesmo tempo, a história da
Branca de Neve e a da madrasta; na fábula da Galinha dos ovos de ouro, a
do homem e a da galinha — obriga-nos a desdobrar, em todas as etapas
hierarquizadas, a organização sintática da narrativa. O programa narrativo
de aquisição reflexiva por apropriação, que caracteriza a performance, é
concomitante ao programa narrativo de privação transitiva por
desapropriação, da mesma forma que a doação ocorre simultaneamente à
renúncia. Os objetos-valor circulam em um espaço fechado e a aquisição de
um objeto por um sujeito corresponde à sua privação para outro sujeito.
Aquisição e privação opõem-se paradigmaticamente e pressupõem-se
reciprocamente. No nível do percurso narrativo, a dupla implicação que
liga os programas de aquisição e privação tem, como conseqüência, o
desdobramento dos percursos: percurso do sujeito e percurso do anti-
sujeito, percurso do destinador-manipulador e percurso do antidestinador-
manipulador, percurso do destinador-julgador e percurso do antidestinador-
julgador. Os percursos narrativos do sujeito e do anti-sujeito caracterizam-
se pela oposição e pelo fato de os dois sujeitos estarem interessados no
mesmo objeto-valor. O antidestinador manipula e sanciona o anti-sujeito e
opõe-se ao destinador do sujeito, pois ambos representam sistemas de
valores contrários ou contraditórios. As muitas relações e combinações
devidas à estrutura polêmica da narrativa tornam a organização sintática
bastante complexa e possibilitam um sem-número de variações.

Estratégia narrativa

O esquema narrativo, assim como as demais instâncias hierárquicas


da sintaxe narrativa, oferece muitas oportunidades de variações e
combinações que dão caráter único e específico às narrativas-ocorrências.
Cabe à estratégia narrativa, última instância da organização narrativa,
elaborar os esquemas narrativos, determinando: a articulação dos percursos
narrativos; a forma do desdobramento polêmico; as tarefas do sujeito e do
anti-sujeito na busca de valores; a composição dos programas complexos,
com os sujeitos delegados; o emprego recursivo de programas e de
percursos — um percurso de manipulação pode ser encontrado, por
exemplo, no interior do percurso do sujeito, e não só no do destinador-
manipulador —; o tipo de aquisição de valores, por apropriação ou por
construção de objetos; a forma de sociabilidade, por troca ou por luta; as
passagens entre as dimensões pragmá- [página 43] tica e cognitiva. Os
esquemas resultantes da estratégia narrativa constituem a instancia sêmio-
narrativa a partir da qual os discursos são gerados. O sentido narrativo
depende das opções feitas, que remetem, em ultima instância, ao sujeito da
enunciação. A estratégia narrativa não se confunde com as estratégias
discursivas e textuais, diretamente relacionadas ao sujeito da enunciação,
mas constitui o patamar narrativo mais próximo — a meio caminho, quem
sabe — do discurso.

Intencionalidade narrativa

Antes de se abordar a semântica narrativa, cabem algumas


observações sobre a intencionalidade, já repetidas vezes proposta, no
âmbito da semiótica, como traço definidor da narratividade.
Intencionalidade diferencia-se de intenção. Uma narrativa
determinada pela intenção restringiria sua produção e desenvolvimento a
atos voluntários e conscientes. Não seria possível, nesse caso, ler a
intencionalidade narrativa como a procura do prazer e da estabilidade do
Nirvana freudiano, pois são buscas inconscientes, nem considerar as
determinações sócio-históricas, que negam a liberdade e o caráter
voluntário do discurso. A intencionalidade, distinta da intenção, não se
identifica, para Greimas, nem com a motivação, nem com a finalidade, mas
as engloba. Dessa forma, é possível conceber as transformações narrativas
como uma tensão entre dois modos de existência, a virtualidade e a
realização, como uma relação orientada, transitiva, entre sujeito e objeto.
A definição acima e o papel central da intencionalidade aparecem em
texto fundamental da semiótica, de 1968 (GREIMAS, 1970). Nesse artigo,
distinguem-se duas interpretações do termo sens em francês, que
correspondem, muito de perto, às acepções de sentido, em português. Com
efeito, o Novo Dicionário Aurélio define sentido tanto como significação,
significado (a relação entre expressão e conteúdo), quanto como
orientação, direção, rumo (a intencionalidade, ou seja, “uma relação que se
estabelece entre o trajeto a percorrer e seu ponto de chegada” —
(GREIMAS, 1970, p. 63). A segunda acepção de sentido permite conceber
o desenrolar narrativo como um sintagma programado entre a posição
incoativa e a posição terminativa do sujeito. Esse sintagma define-se como
um projeto cultural.
Zilberberg (1981), conforme exposto, concebe o nível fundamental
do percurso gerativo do sentido a partir da noção de tensividade, articulada
em /tensão/ vs. /relaxamento/. A variação tensiva e sua conservação
organizam sintaticamente as [página 44] categorias semânticas discretas.
As mesmas operações tensivas, convertidas, respondem, no nível das
estruturas narrativas, pela intencionalidade. Entende-se intencionalidade
como a tensividade aspectualizada, com um começo e um fim.

Sintaxe Sintaxe
fundamental narrativa
conservação aspectualização intencionalidade
tensiva recursiva
variação aspectualização intencionalidade
tensiva diretiva
Barthes define narrativas conservadoras pela intencionalidade
recorrente e narrativas reformadoras ou revolucionárias pela
intencionalidade diretiva. A conservação e a variação tensiva,
aspectualizadas e tornadas intencionalidade, determinam tipos diversos de
narrativa e delimitam melhor o entendimento semiótico de conservação e
progresso narrativos.
A noção de intencionalidade esteve sempre, na semiótica, ligada à de
narratividade, muito embora um tanto camuflada pela ênfase dada ao
caráter antropomórfico das organizações narrativas. Não se trata de negar
agora que a narratividade é função do sujeito, mas sim de concebê-la num
nível de abstração maior, o que permite uma generalização crescente e
facilita a tarefa de análise narrativa da música ou da gestualidade, por
exemplo.

Semântica narrativa

A semântica narrativa é, no percurso gerativo, a instância de


atualização dos valores. Os termos do nível fundamental, resultantes da
articulação de categorias semânticas e, pela projeção da categoria tímico-
fórica, axiologizados como valores virtuais, são, na instância narrativa,
selecionados e convertidos em valores atuais (ou valores, simplesmente),
mediante inscrição em um ou mais objetos em junção com sujeitos. Há,
portanto, dois momentos essenciais na passagem da semântica fundamental
à semântica narrativa: a seleção dos valores, articulados nos quadrados
semióticos, e a relação com os sujeitos. A escolha de valores corresponde a
uma primeira decisão do sujeito da enunciação, quanto ao discurso que será
produzido. A atualização dos valores ocorre, como visto, no enunciado de
estado, em que o valor é investido no objeto e relacionado, por disjunção
ou conjunção, com o su- [página 45] jeito. Só assim, inscrito na estrutura
sintática, o valor se torna 1eghel e faz do objeto um objeto-valor.
Conforme foi examinado em itens anteriores, as primeiras
articulações do sentido em categorias semânticas, ainda no nível das
estruturas fundamentais, podem tornar-se valores axiológicos virtuais desde
que sobre elas se projete a categoria articulada em /euforia/ vs. /disforia/ ou
em /tensão/ vs. /relaxamento/. Passa-se da taxionomia à axiologia. As
conversões do nível profundo ao nível narrativo, desmembradas, graças aos
dois elementos definidores do valor axiológico, representam-se como no
esquema abaixo:
categoria + categoria = valor axiológico
Semântica
semântica tímico/fórica virtual (axiologia)
fundamental
(taxionomia)

traços semânticos traços modais, valor ideológico


Semântica
inscritos nos objetos, no que “modificam” (ideologia) ou valor
narrativa
interior de enunciados as relações entre assumido por um
de estado sujeito e objeto sujeito

O primeiro aspecto da conversão é a inscrição de elementos


semânticos no objeto. Se a relação do sujeito com o objeto lhe dá existência
semiótica, o investimento de traços semânticos no objeto em junção com o
sujeito, atribui-lhe existência semântica. Depende da categoria semântica
convertida a subdivisão dos valores narrativos em valores descritivos e
valores modais (o saber, o poder, etc.). Os valores descritivos, por sua vez,
classificam-se em valores objetivos (consumíveis e armazenáveis) e em
valores subjetivos (prazeres, estados de alma).
Em ‘O vento no canavial’16, conforme foi analisado, encontram-se as
categorias semânticas fundamentais

continuidade vs. ruptura


morte vs. vida
estaticidade vs. dinamicidade

Esses traços semânticos inscrevem-se, na instância das estruturas


narrativas, nos objetos relacionados com os sujeitos:

Antes da transformação:
S (canavial/povo) ⋂ Ov (continuidade’, morte, estaticidade)
S (canavial/povo) ⋃ Ov (ruptura, vida, dinamicidade) [página 46]

Depois (la transformação:


S (canavial/povo) ⋂ Ov (ruptura, vida, dinamicidade)
S (canavial/povo) ⋃ Ov (continuidade, morte, estaticidade)

Os valores acima são valores descritivos. A transformação é operada


pelo sujeito do fazer(canavial/povo), que se tornou competente para tal
fazer graças ao destinador(vento).
PN de competência:
F (“ventar”) [S1 (vento) → (S2 (canavial/povo) ⋂ Ov (poder-fazer)]

PN de performace:
F (“balançar/lutar”)
S (canavial/povo) → (S2 (canavial/povo) ⋂ Ov (ruptura, vida, dinamicidade))]

Em “Epílogo”, poema de Bandeira (1961, p. 42), há, na estrutura


fundamental, as categorias semânticas vida vs. morte e mocidade vs.
velhice:

Epílogo

Eu quis um dia, como Schumann, compor


Um carnaval todo subjetivo:
Um carnaval em que o só motivo
Fosse o meu próprio ser interior...

Quando o acabei — a diferença que havia!


O de Schumann é um poema cheio de amor,
E de frescura, e de mocidade...
E o meu tinha a morta morta-cor
Da senilidade e da amargura...
— O meu Carnaval sem nenhuma alegria!...

As categorias fundamentais vida vs. morte e mocidade vs. velhice


ocorrem como traços semânticos descritivos nos objetos dos enunciados
narrativos

S1 (Schumann) ⋂ Ov (vida, mocidade)


S2 (Eu) ⋂ Ov (morte, velhice).

O segundo quadro do esquema mostra a conversão da categoria


tímico-fórica em categoria modal. Enquanto a categoria tímico-fórica
corresponde, no nível das estruturas fundamentais, às relações de tensão e
de relaxamento cio ser vivo com seu contexto, as categorias modais ou
modalidades determinam, na instância narrativa, as relações que ligam o
sujeito ao objeto-valor. Em outras palavras, as categorias mo- [página 47]
dais modificam as relações do sujeito com os valores. A conversão da
categoria tímico-fórica em categorias modais diferenciadas e interdefinidas
resulta de novas articulações significantes responsáveis pelo
enriquecimento semântico das etapas do percurso gerativo do sentido.
A categoria tímico-fórica determina, na instância fundamental, as
categorias semânticas dos dois textos em exame. No poema de João Cabral
tem-se

(DISFORIA-TENSÃO) (morte, continuidade, estaticidade) vs.


(EUFORIA-RELAXAMENTO) (vida, ruptura, dinamicidade)

no de Bandeira,

(DISFORIA-TENSÃO) (morte, velhice) vs.


(EUFORIA-RELAXAMENTO) (vida, mocidade)

No nível narrativo, a categoria tímico-fórica converte-se em


categoria modal, modificadora da relação do sujeito com o objeto-valor.
Dessa forma, em ‘O vento no canavial’, obtêm-se as categorias
modais do querer-ser e do poder-ser (exemplo 1) e do poder-fazer
(exemplo 2), entre outras:

1 — [S (canavial) ⋂ O querer, poder] [S (canavial) ⋂ O vida, ruptura]


2 — [S (canavial) ⋂ O poder]
[F (balançar, lutar) (S1 (canavial) → (S2 (canavial) ⋂ O vida, ruptura)]

No primeiro exemplo, o sujeito de estado (canavial/povo) quer e


pode estar em relação de conjunção com os valores /vida, ruptura,
dinamicidade/, investidos no objeto. Esse é, no poema, o estado resultante
de transformação da existência modal do sujeito, operada pelo destinador
(vento). O vento muda a relação do sujeito (canavial/povo) com o objeto-
valor, que passa de indesejável e impossível a desejável e possível, tal como
indica o exemplo acima.
No segundo exemplo, representa-se a competência do sujeito
(canavial/povo) para transformar (pelo movimento e pela luta) sua relação
com a vida, a ruptura e a dinamicidade, conforme as aspirações expressas
no primeiro exemplo. O destinador (vento) é o responsável também pela
modificação da competência do sujeito, a quem atribui o poder-fazer.
No poema ‘Epílogo’, a relação do sujeito (Eu) com o objeto-valor
(vida, mocidade) é desejável e impossível e a do sujeito (Schumann), com
os mesmos valores, desejável e possível: [página 48]

3 — [S1 (Eu) ⋂ querer, não-poder] [S1 (Eu) ⋂ O (vida, mocidade)]


[S2 (Schumann) ⋂ querer, poder] [S2 (Schumann) ⋂ O (vida, mocidade)]

Daí a amargura e a falta de alegria de S1 e o amor de S2, entendendo-se a


amargura como o efeito passional de /querer-ser/, não-crer-ser/ e /saber-
não-poder-ser/ e definindo-se o amor pela organização das modalidades do
/querer-ser/, /crer-ser/, /saber-poder-ser/ e /querer-fazer-bem/ ao destinador
que tornou possível a conjunção.
Como a modalização diz respeito às relações constitutivas dos
enunciados, e os enunciados são de dois tipos, determinam-se duas classes
de modalidades, as existenciais ou modalidades do ser e as intencionais ou
modalidades do fazer (GREIMAS, 1979). A modalização do fazer é
responsável pela competência modal do sujeito do fazer, qualificando-o
para o fazer. A modalização do ser dá existência modal ao sujeito do
estado, modificando o estatuto dos objetos que estão em relação com o
sujeito e definindo estados passionais.
Os exemplos 1 e 3, acima, são casos de modalização do ser, ou seja,
de mudanças na existência modal do sujeito, que caracterizam estados
passionais. No poema ‘Epílogo’, mostraram-se as paixões de amargura,
alegria, tristeza e amor. O exemplo 2, por sua vez, ilustra a modalização do
fazer, quando se altera a competência modal do sujeito.
No último quadro do esquema das conversões, valores axiológicos
virtuais convertem-se em valores ideológicos. Os valores ideológicos são
valores atualizados e assumidos por um sujeito, com o qual mantêm uma
relação modal qualquer.
Os traços descritivos /vida, ruptura e dinamicidade/, investidos no
objeto, desejados pelo sujeito e, para ele, possíveis, são valores ideológicos,
no poema de João Cabral, da mesma forma que os traços /vida e mocidade/,
desejados pelo sujeito e, para ele, impossíveis, no texto de Bandeira.

Modalização e modalidades

A lógica foi o primeiro campo de reflexão sobre as modalidades e,


sem dúvida, seus estudos estão por detrás dos resultados das investigações
que aqui se apresentam. Mesmo assim, não se pretende retomar as relações,
influências e convergências entre lógica e semiótica ou lingüística, a não
ser para estabelecer, em certos momentos, algumas diferenças de
perspectiva17. A semiótica utiliza também aquisições da lingüística para o
tratamento das modalidades. Os trabalhos precursores de Bally, Brunot,
Benveniste e Jakobson e os mais recentes de Pottier e de toda a chamada
pragmática lin- [página 49] güística - teoria dos atos de linguagem,
pragmática converciacional, semântica da enunciação de Ducrot — atestam
a grande produção lingüística sobre modalidades e modalização.
Para Darrault (1976, p. 6), a semiótica obteve, na lingüística, a
formulação sintática das modalidades e, na lógica, sua determinação
taxionômica18.
Na perspectiva da semiótica, as modalidades resultam da conversão
da categoria tímico-fórica fundamental, operação já examinada no item
anterior, e alteram, na instância narrativa, as relações do sujeito com os
valores. A modalização, por sua vez, deve ser entendida como a
determinação sintática de enunciados: um enunciado, que será denominado
modal, modifica um enunciado dito descritivo. O enunciado modal pode
ser tanto um enunciado de estado quanto um enunciado de fazer, e
modalizar enunciados de estado ou de fazer, indiferentemente. A natureza
do enunciado modalizado é um primeiro critério de classificação das
modalidades, distinguidas, assim, em modalidades de fazer e de ser.

texto da imagem:
Enunciado Enunciado Enunciado
modal descritivo modal

MODALIDADES
DE enunciado de estado enunciado ser-fazer
FAZER de
fazer

enunciado de fazer fazer-fazer

MODALIDADES
DE enunciado de estado ser-ser
SER enunciado
de
enunciado de fazer estado fazer-ser

As modalidades do fazer são de dois tipos: fazer-fizer e ser-fazer. No


primeiro caso, tem-se a modalidade factitiva, definida como uma estrutura
modal constituída por dois enun- [página 50] ciados do fazer, com sujeitos
diferentes, isto e, não há sincretismo actorial entre os sujeitos do fazer. Essa
definição e insuficiente, pois, como se viu na descrição dos percursos
narrativos, cada um desses fazeres representa, no fazer-fazer, todo um
percurso e não um enunciado apenas. O fazer modalizador é, na verdade, o
percurso do destinador-manipulador, e o fazer modalizado, o percurso do
sujeito, organizações sintáticas bem mais complexas que a do enunciado. O
modalizador realiza, portanto, seu percurso, visando ao estabelecimento do
percurso do sujeito que, como é sabido, se decompõe em competência e
performance. Para fazer-fazer, o modalizador precisa, em primeiro lugar,
alterar a competência do sujeito e, só assim, criando a predisposição para o
fazer, estabelece, indiretamente, o percurso do sujeito e modaliza a
performance. A relação entre o primeiro fazer (o do manipulador) e o
segundo (a performance do sujeito) é sempre indireta, mediatizada pela
transformação da competência modal do sujeito. Pode-se dizer que, no
fundo, o manipulador faz-ser, isto é, com sua ação, de natureza cognitiva,
transforma o estado modal do sujeito do estado, transferindo-lhe, por
doação, valores modais que o levam a fazer. Em ‘O vento no canavial’, o
destinador (vento) faz o destinatário-sujeito (canavial/povo) fazer. O
destinador, na verdade, atribui ao destinatário-sujeito os valores modais do
querer e do poder-fazer, que o tornam competente para realizar o fazer-
transformador: passar do estado de morte, continuidade e estaticidade ao de
vida, ruptura e dinamicidade.
O segundo tipo de modalidade do fazer, o ser-fazer, caracteriza a
competência do sujeito. E preciso distinguir a constituição da competência,
que depende da comunicação de valores modais pelo destinador ao
destinatário-sujeito, da organização modal da competência, entendida como
o “ser do fazer”, isto é, enunciados de estado que modalizam o fazer.
A semiótica trabalha essencialmente com quatro modalidades,
inventário estabelecido a partir da experiência de análise de discursos e das
descrições de algumas línguas européias19: o querer, o dever, o poder e o
saber. Tais valores modais determinam tanto o ser (enunciados de estado),
quanto o fazer (enunciados de fazer) e interdefinem-se e classificam-se
segundo diferentes critérios. Greimas (GREIMAS & COURTÉS, s.d., p.
283; GREIMAS, 1976b, p. 100) organiza-as pelo modo de existência que
as modalizações atribuem ao sujeito e pelos sincretismos actoriais dos
sujeitos dos enunciados modal e descritivo, no quadro a seguir, que se
aplica tanto à modalização do fazer quanto à do ser. [página 51]

MODALIDADES virtualizantes atualizantes realizantes


exotáxicas dever poder fazer
endotáxicas querer saber ser

Pode-se ilustrar o quadro com duas histórias de galinha, de que se


reproduzem pequenos trechos:

Mas eu, galinha, fêmea da espécie, posso estar satisfeita? Não


posso. Todo dia pôr ovos, todo semestre chocar ovos, criar
pintos, isso é vida? Mas agora a coisa vai mudar. Pode estar
certo de que vou levar uma vida de galo, livre e feliz. Há já
seis meses que não choco e há uma semana que não ponho
ovo. A patroa se quiser que arranje outra para esses ofícios.
Comigo, não, violão! (FERNANDES, 1975, p. 23)

Todo ovo Mas fiquei


que eu choco bloqueada
me toco e agora
de novo de noite
Todo ovo só sonho
é a cara gemada
é a clara A escassa produção
do vovô alarma o patrão. (BUARQUE, s.d.)

Na fábula de Millôr, o sujeito galinha deve botar ovos. Trata-se de


modalidade exotáxica, em que o sujeito modalizador, que impõe o dever, é
a patroa, e o sujeito modalizado, a galinha, e de modalidade virtualizante,
que dá à galinha o estatuto de sujeito. O sujeito galinha deve,, sabe e pode
botar (saber inato, da natureza das galinhas, e poder recebido da patroa,
que lhe assegura, com casa e comida, as condições para pôr ovos), mas
não-quer botar. O querer é modalidade virtualizante, como o dever, e
modalidade endotáxica: o sujeito modalizador e o modalizado estão
sincretizados no mesmo ator “galinha”, O sujeito não age, portanto, por
existir conflito entre as modalidades virtualizantes do querer e do dever-
fazer.
Na canção de Chico Buarque, o sujeito galinha também deve botar
(imposição do patrão) e, ao contrário da galinha da fábula, quer botar, mas
não-pode mais botar: o bloqueio psicológico da rotina ou a velhice
modalizam-na para não-poder botar. Nesse caso, a galinha é sujeito virtual
para o fazer de pôr ovos, mas não está atualizada, pois lhe falta o poder-
fazer. Há incompatibilidade entre as modalidades virtualizantes do querer e
do dever-fazer e a modalidade atualizante do não-poder-fazer, o que
impede a ação do suspeito. [página 52]
As modalidades virtualizantes instauram o sujeito e as atualizantes o
qualificam para ação posterior. O sujeito definido pelo dever ou pelo
querer-fazer é chamado sujeito virtual; se na organização modal de sua
competência incluem-se também o saber e/ou o poder-fazer, tem-se um
sujeito atualizado ou competente, qualificado para fazer. Só o fazer o torna
sujeito realizado.
Uma modalidade é chamada exotáxica ou extrínseca quando, na
estrutura modal de que faz parte, o sujeito modalizador for diferente do
sujeito modalizado, e endotáxica ou intrínseca quando os dois sujeitos
estiverem sincretizados no mesmo ator. Decorrem daí os efeitos de sentido
de “subjetividade” ou de “individualidade”, das modalidades endotáxicas, e
de “objetividade” ou “sociabilidade”, das exotáxicas. O dever-fazer é,
assim, um querer do destinador, e o querer-fazer, um dever autodestinado.
As modalidades virtualizantes do querer-fazer e do dever-fazer dão
ao sujeito as condições mínimas para o fazer e, projetadas no quadrado
semiótico (GREIMAS & COURTÉS, s.d., p. 117), apresentam-se como:
texto da imagem:

querer-fazer querer-não-fazer
(vontade ou (abulia)
volição)

não-querer-não-fazer não-querer-fazer
(vontade passiva) (má vontade ou
nolição)

dever-fazer dever-não-fazer
(prescrição) (interdição)

não-dever-não-fazer não-dever-fazer
(permissividade) (facultatividade)

Cada termo modal, articulado no quadrado, pode ser tratado como


uma estrutura modal, definida sintaticamente pela relação entre
enunciados, e como um valor modal, inscrito nos objetos e circulando entre
sujeitos. As denominações, bastante precárias e arbitrárias, cumprem o
papel de condensar os dois predicados em um valor modal e de facilitar seu
emprego nas línguas naturais. Uma das diferenças entre as abordagens
lógica e semiótica das modalidades reside no fato de que a semiótica define
sintaticamente as denominações da lógica.
As modalidades atualizantes do poder-fazer e do saber-fazer
estruturam-se de forma taxionômica no quadrado semiótico como:
texto da imagem:

poder-fazer poder-não-fazer
(liberdade) (independência)

não-poder-não-fazer não-poder-fazer
(obediência) (impotência)

saber-fazer saber-não-fazer
(competência) (habilidade)

não-saber-não-fazer não-saber-fazer
(inabilidade) (incompetência)

[página 53]

Teve-se dificuldade em denominar o saber-fazer, entendido como a


competência cognitiva para organizar os programas narrativos, para buscar
os valores desejados. Utilizou-se a denominação de competência, no seu
sentido usual no português a competência em Chomsky, por exemplo —,
como competência cognitiva e não no emprego semiótico de organização
modal, de que o saber-fazer é apenas uma das modalidades.
Há muitas afinidades entre as estruturas modais do poder-fazer e do
dever-fazer, em geral não distinguidas na lógica. Relacionam-se elas, do
ponto de vista semiótico, por implicação, pois a modalidade atualizante do
poder pressupõe a modalidade virtualizante do dever. A obediência (não-
poder-não-fazer), por exemplo, implica a prescrição (dever-fazer).
Retomando, ainda nos domínios das modalizações do fazer, o ser-
fazer e a organização modal sintagmática da competência do sujeito
operador, vê-se que uma primeira composição é a da combinação de
modalidades virtualizantes e atualizantes que, respectivamente, instauram e
qualificam o sujeito. Esse esboço de organização, porém, não basta; é
preciso ainda confrontar as várias modalidades e determinar suas
compatibilidades e incompatibilidades. Extraíram-se do artigo de Greimas
(1976b, p. 102-6), sobre as modalidades, alguns exemplos, apenas para
melhor localizar a questão. O dever-fazer e o querer-fazer são compatíveis
e constituem a obediência ativa (exemplo da galinha de Chico Buarque),
enquanto o dever-fazer e o não-querer-fazer não se harmonizam e
caracterizam a resistência passiva (exemplo da galinha de Millôr). Da
mesma forma, há compatibilidade entre o dever-fazer e o saber-fazer e
incompatibilidade entre o dever-fazer e o não-saber-fazer. As combinações
compatíveis ou incompatíveis estabelecem-se entre duas ou mais
modalidades e determinam tipos diferentes de narrativa, como nas histórias
das galinhas.
Um último ponto a ser lembrado, na modalização do fazer, é o fato
de que o destinador de valores modais da competência do sujeito pode ser
realizado por um único ator ou por vários deles. Os contos maravilhosos
analisados por Propp têm um ator para o destinador das modalidades
virtualizantes, em geral o rei, que atribui o querer ou o dever-fazer ao herói,
manipulando-o por tentação ou intimidação, e outro para o destinador das
modalidades virtualizantes, o doador do objeto mágico, que supre o sujeito
do poder e/ou do saber-fazer, persuadindo-o por sedução ou provocação.
[página 54]
A integração da modalização do fazer na sintaxe narrativa, mais
especificamente no percurso do destinador-manipulador, levou a se
substituírem as casas vazias ou neutras da emissão e da recepção, na teoria
da comunicação, por sujeitos dotados de “competência modal variável”
(GREIMAS, 1983, p. 115). Abre-se caminho para o tratamento das
relações intersubjetivas, contratuais ou polêmicas. A confrontação
polêmico-contratual, uma das estruturas de base da organização do
esquema narrativo, pode ser explicada de forma mais satisfatória, graças às
organizações modais da competência.
Observe-se ainda que a modalização do fazer, tal como foi
considerada, incide especialmente sobre o sujeito do fazer.
Passando à modalização do ser, importa saber que ela tem sido
investigada de forma mais sistemática nos últimos anos e que seus
resultados representam um avanço considerável da semiótica em uma
direção que parecia não ser a sua, há até bem pouco tempo, qual seja a da
abordagem das paixões. O risco do “psicologismo”, de se retomarem
estudos de caracteres e de temperamentos, afastou sempre a lingüística e a
semiótica desse ângulo da análise do discurso. O amadurecimento e a
segurança, atualmente alcançados, permitiram à semiótica enveredar pelos
meandros das paixões, sem medo de perder um espaço duramente
alcançado ou de voltar caminho.
A modalização do ser, ou do enunciado de estado, resulta da regência
tanto por um enunciado do fazer — fazer-ser — quanto por um enunciado
de estado — ser-ser. Se o fazer-ser, caracterizador da performance do
sujeito, ocorre obrigatoriamente no percurso do sujeito, o ser-ser determina
a sanção, no percurso do destinador-julgador.
O ser que modaliza o ser é chamado modalidade veridictória e
articula-se, como categoria modal, em /ser/ vs. /parecer/.
verdade

ser parecer
o
çã
s ta
ife
an
m ima
segredo * nên
cia
mentira
**

não-parecer não ser

falsidade

(GREIMAS & COURTÉS, s.d., p. 488)


(texto da imagem: *manifestação; **imanência)

[página 55]

Da modalização do enunciado de estado por um outro enunciado de


estado resultam a verdade ou a falsidade das relações juntivas que ligam
sujeito e objeto. As modalidades veridictórias aplicam-se à função-junção e
determinam-lhe a vaidade. Substitui-se, dessa forma, o problema da
verdade pelo da veridicção ou do dizer verdadeiro: um estado é
considerado verdadeiro quando um outro sujeito, que não o modalizado, o
diz verdadeiro. Para modalizar veridictoriamente o enunciado de estado
parte-se da manifestação — parecer ou não-parecer — e infere-se a
imanência — ser ou não-ser, O destinador-julgador, ao dizer verdadeiro ou
falso ou mentiroso, realiza um fazer interpretativo.
Um exemplo claro de fazer interpretativo encontra-se em ‘O vento
no canavial’, O observador, instalado no poema, diz ser verdadeiro ou não
o estado do canavial: “Não se vê no canavial/ nenhuma planta com nome,
(...) Contudo há no canavial/ oculta fisionomia: (...)“. O observador
determina veridictoriamente o enunciado de estado do canavial. Começa
pela manifestação — o canavial parece estático, contínuo, morto — e
chega à imanência — o canavial não é estático, contínuo, morto. Ou, o
canavial não-parece dinâmico, descontínuo e vivo, mas o é (“oculta
fisionomia”). O observador, corno destinador-julgador, interpreta o estado
de estaticidade e morte do canavial como mentiroso (parece mas não é) e, a
partir daí, como falso (não parece e não é), e seu estado de ruptura e vida
como secreto (não parece e é) e, em seguida, como verdadeiro (parece e é).
Este é o momento de retomar e explicar melhor o fazer
interpretativo, a que se tem referido com freqüência neste trabalho.
Conforme foi visto anteriormente, em situação de comunicação
manipuladora, o destinatário é colocado em posição de falta de liberdade,
ou seja, em posição de não-poder-não-aceitar o contrato proposto. Nesse
caso, o destinador realiza um fazer persuasivo que tem sua resposta no
fazer interpretativo do destinatário. O fazer persuasivo procura fazer-crer
por meio do fazer-parecer-verdadeiro. Não se trata de produzir, de criar
verdades, mas sim efeitos de verdade. O sujeito do fazer persuasivo quer
levar seu destinatário a crer que o estado que apresenta parece e é
verdadeiro (ou falso, etc.). Realiza, portanto, uma performance cognitiva.
O fazer interpretativo é, também, um fazer cognitivo e consiste em
modalizar um enunciado pelo parecer e pelo ser e em estabelecer a
correlação entre os dois planos da manifestação e da imanência. Os
enunciados já modalizados veridic- [página 56] toriamente — denominados
verdadeiros, falsos, mentirosos ou secretos — são sobredeterminados pelas
modalidades epistêmicas do crer, ou seja, sofrem julgamento epistêmico.
As modalidades epistêmicas organizam-se em categoria modal
representada no quadrado semiótico como:

crer-ser crer-não-ser
(certeza) (impossibilidade/exclusão)

não-crer-não-ser não-crer-ser
(probabilidade) (incerteza)

O enunciado de estado interpretado é chamado, por conseguinte,


certamente verdadeiro (crer-ser e parecer), provavelmente verdadeiro (não-
crer-não-ser e não-crer-não-parecer), certamente falso (crer-não-ser e não-
parecer), e assim por diante.
A fábula de Millôr, “A galinha reivindicativa”, pode ilustrar o fazer
interpretativo e a sobredeterminação epistêmica:

A galinha reivindicativa ou The he’s liberation

Em certo dia de data incerta, um galo velho e uma


galinha nova encontraram-se no fundo de um quintal e, entre
uma bicada e outra, trocaram impressões sobre como o mundo
estava mudado. O galo, porém, fez questão de frisar que
sempre vivera bem, tivera muitas galinhas em sua vida
sentimental e agora, velho e cansado, esperava calmamente o
fim de seus dias.
— Ainda bem que você está satisfeito — disse a
galinha. — E tem razão de estar, pois é galo. Mas eu, galinha,
fêmea da espécie, posso estar satisfeita? Não posso. Todo dia
pôr ovos, todo semestre chocar ovos, criar pintos, isso é vida?
Mas agora a coisa vai mudar. Pode estar certo de que vou levar
uma vida de galo, livre e feliz. Há já seis meses que não choco
e há uma semana que não ponho ovo. A patroa se quiser que
arranje outra para esses ofícios. Comigo, não, violão!
O velho galo ia ponderar filosoficamente que galo é galo
e galinha é galinha e que cada ser tem sua função específica na
vida, quando a cozinheira, sorrateiramente, passou a mão no
pescoço da doidivanas e saiu com ela esperneando, dizendo
bem alto: “A patroa tem razão: galinha que não choca nem põe
ovo só serve mesmo é pra panela”.

MORAL: UM TRABALHO POR JORNADA MANTÉM A


FACA AFASTADA.
(FERNANDES, 1975, p. 23)
[página 57]

Na fábula, o sujeito galinha é manipulado pela patroa e por sua


condição de “fêmea” para pôr ovos e chocá-los: ela deve botar (intimidação
pressuposta no texto). A manipulação, porém, não é bem sucedida, pois a
galinha crê que a obrigação e a punição, caso não bote, parecem, mas não
são verdadeiras, ou seja, ela interpreta como mentiroso o estado
apresentado pela patroa e pelo galo e crê na sua interpretação. A patroa,
além do fazer persuasivo, realiza também, por sua vez, um fazer
interpretativo. Ela julga o estado resultante da ação ou da falta de ação da
galinha: “galinha que não choca nem põe ovos só serve mesmo é pra
panela”. Comparando a atitude da galinha com aquilo que já conhece, a
patroa interpreta a galinha como verdadeiramente improdutiva (parece e é)
e nisso passa a acreditar. Como decorrência, o sujeito não cumpridor do
contrato de “domesticidade da galinha” é sancionado negativamente:
reconhecido como “má galinha” e punido com a panela.
O julgamento ou ato epistêmico é uma transformação de um estado
de crença em outro. Para haver transformação, o sujeito que interpreta e
julga realiza uma operação de reconhecimento da verdade, que consiste em
comparar e identificar o que lhe é apresentado pelo sujeito do fazer
persuasivo com o que ele já sabe ou com aquilo em que crê. Trata-se de
verificar a adequação do novo e desconhecido ao velho e já sabido, ou
melhor, a um fragmento do universo cognitivo de quem julga. Tendo sido a
adequação reconhecida ou rejeitada, o sujeito aceita ou recusa o que lhe é
proposto. A verdade e a falsidade constituem efeitos de sentido do
julgamento epistêmico: o crer precede o saber e pertencem, ambos, a “um
único e mesmo universo cognitivo” (GREIMAS, 1983, p. 133). Interpretar,
para o sujeito, é, por excelência, confrontar a proposta recebida com seu
universo do saber e do crer, com os sistemas de valores que atribuem
sentido aos fazeres e aos estados. Distinguir a adesão “fiduciária”, que
envolve sobretudo o crer, da adesão “lógica”, que recorre ao saber, é
separar tipos de racionalidade, que, no ato de interpretar, se misturam e se
confundem na certeza ou na dúvida da verdade, na verdade ou na falsidade
da certeza. Afirma-se, com isso, o caráter ideológico da interpretação, no
seu “reconhecimento da verdade”.
Se a modalização veridictória e a sobremodalização epistêmica
explicam o ser do ser e julgam a verdade ou a falsidade das relações
juntivas estabelecidas entre sujeitos e objetos, as modalidades do dever,
querer, poder e saber regem também enunciados de estado. Enquanto a
veridicção diz respeito à [página 58] relação de junção caracterizadora do
enunciado, as modalidades do dever, querer, poder e saber incidem sobre o
objeto-valor ou, mais especificamente, sobre o valor que nele se encontra
investido20. Além disso, enquanto a modalização veridictória assegura a
existência veridictória dos sujeitos, ditos verdadeiros, falsos, mentirosos ou
secretos, a modalização do ser, pelo dever, querer, poder e saber, constitui a
existência modal dos sujeitos, ao determinar a existência modal dos
objetos.
Competência modal e existência modal são complementares na
definição do sujeito, respectivamente, do fazer e do estado. A modalização
do ser é responsável, portanto, pela existência modal do sujeito do estado.
Na fábula da galinha reivindicativa, a galinha define-se, do ponto de vista
da competência modal, como sujeito que deve, sabe, pode, mas não quer
botar ovos (dever, saber, poder e não-querer-fazer) e, quanto à existência
modal, em relação ao objeto-valor “liberdade”, como sujeito que quer, mas
não pode, nem sabe ser (querer-ser, não-poder-ser e não-saber-ser). No
primeiro caso a galinha é sujeito do fazer, no segundo sujeito do estado.
As quatro categorias modais que modificam os enunciados de estado
estão abaixo representadas no quadrado semiótico (GREIMAS, 1979, p.
15):

texto da imagem:

querer-ser querer-não-ser
(desejável) (prejudicial ou
nocivo)

não-querer-não-ser não-querer-ser
(não prejudicial) (indesejável)

dever-se dever-não-ser
(indispensável) (irrealizável)

não-dever-não-ser não-dever-ser
(realizável) (fortuito, ocasional)

poder-ser poder-não-ser
(possível) (prescindível
ou evitável)

não-poder-não-ser não-poder-ser
(imprescindível, (impossível)
inevitável)
saber-ser saber-não-ser
(verdadeiro) (ilusório)

não-saber-não-ser não-saber-ser
(?) (?)

As denominações, a que se aplicam as observações e restrições feitas


às modalidades do fazer, foram escolhidas para caracterizar os objetos: um
objeto-valor será, assim, desejável, indispensável, possível, verdadeiro,
quando seu valor for determinado pelo querer, dever, poder e saber-ser.
[página 59]
Essas estruturas modais modificam quaisquer valores,
descritivos e modais, pois são dispositivos permanentes e independentes de
investimento semântico, além do mínimo semântico já determinado na
conversão das estruturas fundamentais em estruturas narrativas. Greimas
(1979) reescreve o valor corno uma estrutura modal, formada por uma
grandeza sêmica (traços semânticos resultantes da conversão de categorias
semânticas fundamentais) e por uma organização de modalidades21
(procedentes da categoria tímico-fórica). No item Semântica narrativa,
examinou-se a conversão da categoria tímico-fórica em categorias modais,
mostrou-se que as categorias modais determinam, no nível narrativo, os
traços semânticos descritivos e exemplificaram-se a conversão e a
modalização em ‘O vento no canavial’ e em ‘Epílogo’. Um novo exemplo
pode ser obtido na fábula de Millôr, ‘A Galinha dos ovos de ouro’. Antes
de a galinha começar a pôr ovos de ouro, o sujeito homem tem sua
existência modal definida pelo querer-ser e pelo nâo-poder-ser, que
modificam os valores descritivos dinheiro e prestígio. O valor, assim
caracterizado — estrutura modal que determina a grandeza sêmica —‘
inscreve-se em objetos que se tornam desejáveis e impossíveis. A existência
modal do sujeito é passível de alteração, a qualquer momento, por meio de
transformações operadas por um sujeito do fazer. Na fábula de Millôr, a
galinha é o sujeito do fazer que altera a existência modal do sujeito de
estado homem, quando começa a botar ovos de ouro. O objeto-valor passa
de desejável e impossível a desejável e possível. A existência modal, da
mesma forma que a competência modal, resulta, portanto, de um fazer,
executado por um sujeito transformador.
Atentando-se para os efeitos de sentido dos dispositivos modais da
existência, é possível reconhecê-los como “amor”, “medo” ou “ambição”,
já nos domínios da paixão, assunto do próximo item.

Paixões e apaixonados22
A semiótica, no exame das estruturas narrativas, partiu da ação,
relação de produção e de transformação do sujeito com o objeto, e chegou à
manipulação, relação intersubjetiva de comunicação entre o destinador e o
destinatário. Quando considerou que a comunicação não se reduzia ao fazer
informativo do destinador e ao fazer receptivo do destinatário, mas incluía
também, e sobretudo, o fazer persuasivo do destinador e o fazer
interpretativo do destinatário, enveredou a semiótica pelo caminho da
modalização, já antes pressentida na [página 60] definição da competência
do sujeito operador. Natural, portanto, que as modalidades que se aplicam
ao fazer e os enunciados modais que regem enunciados do fazer tenham
sido os primeiros a serem examinados. Nada mais previsível que o passo
seguinte tenha sido a abordagem da modalização do ser, que resultou na
semiótica das paixões.
As paixões, neste trabalho, devem, por conseguinte, ser entendidas
como efeitos de sentido de qualificações modais que modificam o sujeito
do estado.
Dois caminhos apresentam-se para a colocação do problema: o
primeiro estabelece a relação entre a organização modal narrativo-
discursiva e as categorias semânticas da estrutura fundamental que estão
por detrás das paixões, ou seja, preocupa-se com a relação vertical e de
conversão entre dois níveis do percurso gerativo, para explicitar, de uma
certa forma, a “origem” gerativa das paixões; o segundo tenta determinar,
horizontalmente, as relações sintagmáticas modais que caracterizam as
paixões, a partir de configurações discursivas, e, também, suas relações
paradigmáticas, que constituem “sistemas de paixões”.
As relações verticais foram abordadas em vários momentos deste
capítulo, no exame das conversões das estruturas fundamentais em
narrativas, mais especificamente na conversão da categoria tímico-fórica
em categoria modal, e na descrição das organizações modais que
caracterizam a existência do sujeito do estado. Julgando que a questão da
“origem” gerativa das modalidades e, indiretamente, das paixões, se não foi
resolvida, foi ao menos discutida, com as possibilidades teóricas do
momento, passa-se à descrição das organizações sintagmáticas e sintáticas
passionais e às tentativas de denominação de tais estruturas e de
estabelecimento das relações paradigmáticas do sistema das paixões.
Para abordar as configurações passionais, a semiótica levantou,
inicialmente, os estudos existentes, sobretudo na lógica e na psicanálise, e
constatou terem todos preocupações taxionômicas. Tomou, assim, o
caminho inverso e procurou, em primeiro lugar, o processo. Na prática,
tentou-se dar às paixões-lexemas e a suas expressões discursivas definições
sintáticas. Parte-se, portanto, neste trabalho, de análises de paixões
lexicalizadas — da cólera (GREIMAS, l98lb), do desespero
(FONTANILLE, 1980), da indiferença (MARSCIANI, 1984).
A descrição das paixões se faz, quase exclusivamente, em termos de
sintaxe modal, ou seja, de relações modais e de suas combinações
sintagmáticas. Assim, em ‘Epílogo’, de Ban- [página 61] deira, a
organização sintagmática de /querer-ser, não-crer-ser e saber-não-poder-
ser/ é uma estrutura patêmica ou passional, de caráter modal, que produz o
efeito de sentido ‘afetivo’ ou “passional” de amargura. Da mesma forma,
no poema, a combinação das modalidades de /querer-ser, crer-ser, saber-
poder-ser e querer-fazer (bem)/ causa o efeito passional de amor.
Para explicar as paixões, é preciso, portanto, recorrer às relações
actanciais, aos programas e percursos narrativos. Só assim se podem
determinar o sujeito que quer ser, o objeto de seu desejo, o sujeito em que
outro sujeito crê, o destinador a quem o sujeito passional quer fazer bem.
Como se sabe, as relações entre actantes são de dois tipos, relações
transitivas, que ligam o sujeito ao objeto, e comunicativas, que ocorrem
entre o destinador e o destinatário. O sujeito do estado é o lugar
privilegiado da confluência das duas relações: enquanto sujeito, está em
conjunção ou em disjunção com o objeto-valor, enquanto destinatário,
papel assumido pelo fato de a junção resultar de um fazer comunicativo,
relaciona-se com o destinador. O sujeito do estado, por conseguinte,
mantém laços afetivos ou passionais com o destinador, que o torna sujeito,
e com o objeto, a que está relacionado por conjunção ou por disjunção. O
estudo das paixões reabilita, no seio da semiótica, o sujeito do estado, posto
de lado durante bom tempo.
Há três formas de definição da existência do sujeito:
existência semiótica, determinada pela relação sintática entre sujeito e
objeto (definição topológica de narrativa como lugar de circulação de
valores); existência semântica, caracterizada pela relação do sujeito com o
valor (narrativa como sintaxe de comunicação entre sujeitos); existência
modal, em que o sujeito se define pela modalização do seu ser e assume
papéis patêmicos (narrativa como sintaxe modal). Os “estados de alma”
estão relacionados à existência modal do sujeito, ou seja, o sujeito segue
um percurso, entendido como uma sucessão de estados passionais, tensos-
disfóricos ou relaxados-eufóricos.
Distinguem-se, em primeiro lugar, paixões simples ou paixões de
objetos, resultantes de um arranjo modal da relação sujeito-objeto, de
paixões complexas, em que várias organizações de modalidades
constituem, na instância do discurso, uma configuração patêmica e
desenvolvem percursos. A regra é a complexidade narrativa e percursos
passionais complexos.
As paixões simples decorrem da modalização pelo /querer-ser/.
[página 62]
/não-querer-
/querer ser/ /querer-não-ser/ /não-querer-ser/
não-ser/
desejo avareza desprendimento repulsa
anseio mesquinhez generosidade medo
ambição usura liberalidade aversão
cupidez sovinice prodigalidade desinteresse
avidez
curiosidade

Percebem-se, pelas definições analisadas do Novo Dicionário


Aurélio, mais dois critérios de diferenciação das paixões de objeto: a maior
ou menor intensidade do querer — desejo ardente, sôfrego, veemente,
excessivo, violento, irreprimível — e os tipos de valores desejados —
pragmático descritivo na cobiça, na cupidez e na avareza, descritivo e
modal na ambição, não marcado na inveja ou no anseio, cognitivo na
curiosidade.
Outros elementos de classificação das paixões simples, mais
propriamente narrativos, podem ser lembrados: explicitação do
desdobramento polêmico — na inveja, o /querer-ser/ implica querer que o
outro não seja, isto é, os valores desejados estão em conjunção com outro
sujeito —, intenções de conservar o estado de conjunção, como na avareza,
ou de transformar a disjunção em conjunção, como na ambição.
Muitas vezes, no português, as oposições encontradas entre as
paixões anulam-se e certos termos empregam-se, indiferentemente, em uma
ou outra situação passional: a esganação é sinônimo tanto de avareza
quanto de avidez.
As paixões complexas têm um estado inicial que Greimas (1981b)
denomina espera. A espera pode ser simples e fiduciária. Na espera
simples o sujeito deseja estar em conjunção ou em disjunção com um
objeto-valor, sem, no entanto, nada fazer para isso. Trata-se de uma paixão
de “ser acionado”, distinta das paixões “de ação”, como a avareza, por
exemplo (GREIMAS, 1981b, p. 11). Na espera, o sujeito do estado deseja
que a conjunção se realize, mas não quer ser o sujeito do fazer responsável
pela transformação. Pode-se representar a espera pelo programa narrativo
abaixo:

S1 querer [S2 → (S1 ⋂ Ov)]

S1: sujeito do estado (que sofre a paixão)


S2: sujeito do fazer
[página 63]
Na espera fiduciária, o sujeito do estado mantém com o sujeito do
fazer urna relação fundamentada na confiança. O sujeito do estado pensa
poder contar com o sujeito do fazer para realizar suas esperanças ou
direitos, ou seja, atribui ao sujeito do fazer um /dever-fazer/. Não se trata,
na maior parte das vezes, de contrato verdadeiro e sim de contrato de
confiança, um pseudocontrato ou contrato imaginário. Dessa forma, o
sujeito do fazer não se sente obrigado a fazer, já que sua modalização
deôntica não passa de produto da imaginação do sujeito do estado. No
ensaio citado, Greimas, com muita felicidade, denominou o fazer cognitivo
contratual cio sujeito de estado construção de simulacros. Os simulacros
são objetos imaginários, que não têm fundamento intersubjetivo, mas,
mesmo assim, determinam as relações intersubjetivas. O sujeito do estado
estabelece urna relação fiduciária — de confiança, de /crer/ — com o
simulacro que constrói. A espera fiduciária acrescenta ao programa da
espera simples o programa narrativo abaixo representado:

S1 crer [S2 dever → (S1 ⋂ Ov)]

A contrapartida da espera são a satisfação e a confiança ou a


insatisfação e a decepção, que decorrem da conjunção ou da disjunção do
sujeito com o objeto-valor desejado e da conservação ou da perda da
confiança investida no contrato simulado. Reservam-se os nomes
satisfação e insatisfação para os efeitos de sentido de bem-estar ou de mal-
estar, resultantes da relação com o objeto-valor, e empregam-se confiança e
decepção para os casos de manutenção ou de ruptura das relações
fiduciárias entre sujeitos. A espera é um estado tenso-disfórico de
disjunção; a satisfação e a confiança, estados relaxados e eufóricos de
conjunção; a insatisfação e a decepção, estados intensos e não-eufóricos de
não-conjunção. E possível prever também estados de espera relaxada. A
esperança é um dos efeitos de sentido da espera relaxada; a insegurança,
que gera a aflição, decorre da espera tensa.

aflição e insegurança esperança e segurança satisfação e confiança


(espera tensa) (espera paciente)

disjunção e tensão não-disjunção e tensão conjunção e relaxamento

querer-ser querer-ser querer-ser


crer-não-ser não-crer-não-ser ser crer-ser
saber-poder-não-ser saber-não-poder-não-ser saber-poder-ser
[página 64]

satisfação e confiança insatisfação e decepção aflição e insegurança da falta


(espera relaxada)

conjunção e relaxamento não-conjunção e intensão disjunção e tenção

querer-ser querer-ser querer-ser


crer-não-ser não-crer-não-ser não-ser crer-ser
saber-poder-não-ser saber-não-poder-não-ser saber-poder-ser

A insatisfação e a decepção podem ser determinadas aspectualmente


pela duração e prolongar-se em novos efeitos passionais: a mágoa que
perdura ou a resignação, por exemplo. Outra possibilidade é a da
insatisfação e da decepção conduzirem ao sentimento de falta, definido
pelo /querer-ser/ em conflito com o /saber-não-ser/ e com o /crer-não-ser/ e
característico da crise de confiança. Os efeitos passionais da insatisfação e
da decepção são interrompidos e seguidos pela falta que dá lugar a um
programa de liquidação da falta. A insatisfação e a decepção assumem o
papel de termos intermediários entre o estado relaxado de crença no
contrato imaginado e a situação tensa final de falta.
Há dois tipos de falta, conforme resulte da insatisfação ou da
decepção (que pressupõe a insatisfação), quais sejam, a falta de objeto-
valor e a falta fiduciária ou falta de confiança. A liquidação da falta toma,
portanto, duas direções, na tentativa de suprir a falta de objeto ou de
resolver a crise de confiança, e produz, nesses percursos, novos efeitos
passionais.
Passa-se, agora, a denominar e explicar as configurações passionais
previstas a partir do estado inicial da espera:

a) a insatisfação e/ou a decepção que não conduzem, de forma


obrigatória, à liquidação da falta e que se prolongam ou não,
durativamente, definem três grupos de paixões, exemplificadas
respectivamente por amargura ou mágoa, decepção ou
desilusão e frustração ou tristeza;
b) a satisfação e/ou a confiança determinam duas classes de
efeitos passionais, lexicalizados como esperança ou crença e
alegria ou felicidade;
c) a insatisfação e a decepção que geram um programa narrativo
de liquidação da falta caracterizam, por exemplo, paixões de
cólera ou rancor.
O grupo a engloba paixões, lexicalizadas, que não se resolvem na
falta a ser liquidada, mas se prolongam temporalmente. Seus três subtipos
correspondem: um, aos efeitos passionais da insatisfação e da decepção —
amargura, azedume, acrimônia, desagrado, amargor, desprazer; outro, aos
da decepção apenas — desilusão, decepção, ressentimento, desen- [página
65] gano, desapontamento; e o último, aos da insatisfação sozinha —
frustração, tristeza.
O grupo b contém os efeitos passionais de satisfação e confiança. A
subdivisão no grupo b faz-se entre as paixões de confiança — crença,
esperança — e da satisfação — alegria, felicidade. Não se descobriram, no
português, paixões decorrentes, simultaneamente, da satisfação e da
confiança. Trata-se de problema de lexicalização, pois, do ponto de vista da
estrutura das paixões, nada impede o surgimento de paixões em que se
combinem a confiança e a satisfação.
As paixões do grupo a são intensivas e podem ser chamadas paixões
de ausência (ZILBERBERG, 1981, p. 25-6), diferentes das paixões tensas
de falta do grupo c.
A falta resolve-se de duas formas diferentes: pela reparação, graças a
um sujeito do fazer instaurado, em geral em sincretismo com o sujeito que
sofre a falta e a quem cabe realizar um programa para liquidá-la, ou pela
resignação e conformação. O programa reparador liquida ora a falta de
objeto — efetuam-se novas tentativas de conjunção — ora a falta de
confiança.
A falta de confiança faz-se acompanhar de malevolência, assim
como a confiança é seguida de benevolência (GREIMAS, 1981b, p. 18). A
malevolência e a benevolência interpretam, para Greimas, a hostilidade e a
atração de paixões definidas pelo /querer-fazer/, bem ou mal, a alguém. O
/querer-fazer/ é a modalização que dá início à competência do sujeito
reparador da falta. A instauração desse sujeito é um dos três caminhos para
o relaxamento da situação tensa de falta fiduciária. Os outros dois são
voltar a acreditar — /crer-não-ser → não-crer-não-ser → crer-ser/ — ou
prolongar a aflição na “paixão” distensa da resignação.
O /querer-fazer/, que instala o sujeito, define-se pela
intencionalidade, ou seja, dirige-se para outro sujeito, considerado
responsável pela falta. O sujeito que desperta a hostilidade do sujeito do
estado pode, segundo Greimas, no ensaio citado, ser entendido como
destinador ou como anti-sujeito.

“— o sujeito que provocou o ‘sentimento de malevolência’ pode ser


o actante Destinador: o querer-fazer do sujeito se integrará então no
PN de revolta, comportando a rejeição do Destinador e a busca de
uma nova axiologia. — o sujeito que inspirou a malevolência pode
ser o actante Anti-sujeito: o querer-fazer servirá, então, de ponto de
partida ao PN de vingança” (GREIMAS, 1981b, p. 19). [página 66]

As relações entre sujeito e anti-sujeito e entre destinador


destinatário-sujeito são as duas posições de conflito possíveis na
organização narrativa.
Nesse contexto, entende-se a vingança como o programa de
liquidação da falta causada, na perspectiva do sujeito, pelo anti-sujeito. O
sujeito e o anti-sujeito, como é sabido, confrontam-se na narrativa, pois
estão em busca dos mesmos valores. Na vingança, o sujeito “ofendido”
assume o papel de destinador-julgador e sanciona negativamente o anti-
sujeito que não cumpriu o esperado ou que exerceu um fazer contrário e
prejudicial aos seus projetos.
Já na revolta, programa de reparação da falta provocada pelo
destinador, o sujeito do estado exerce um fazer prejudicial ao destinador
que faltou à palavra dada, mesmo que se trate de compromisso imaginário.
O sujeito coloca-se corno destinatário que cumpriu sua parte no contrato e
que espera do destinador a sanção positiva que lhe e devida, sob a forma de
reconhecimento e de recompensa. Quando o destinador não o sanciona ou,
além do mais, o julga negativamente, o sujeito se decepciona, se torna
inseguro e aflito e se revolta23.
O desejo de vingança ou de revolta, causado pela violência da
ofensa, representa-se, na estrutura modal, pelo /poder-fazer/ (GREIMAS,
1981b, p. 21). O sujeito do estado torna-se, portanto, sujeito competente
para o fazer, isto é, instaurado pelo /querer-fazer/ e atualizado pelo /poder-
fazer/. O querer fazer mal a alguém tem, assim, a possibilidade (poder-
fazer) de transformar-se em vingança ou revolta. O /poder-fazer/ e a forma
de o sujeito ofendido auto-afirmar-se, graças à possibilidade de destruição
do ofensor.
Os termos que exprimem as paixões de malquerença organizam-se
em dois grupos distintos: as de malquerença propriamente dita, isto é,
paixões definidas pelo /querer-fazer/, e as que marcam o sentimento de
honra ofendida, instalando também o /poder-fazer/. A hostilidade, por
exemplo, caracteriza-se pelo /querer-fazer/, já o ódio, além do /querer-
fazer/, conta, em sua definição, com o /poder-fazer/ do desejo de vingança
ou de revolta.
Assim como a insatisfação e a decepção levam à malquerença da
hostilidade e da agressividade, a satisfação e a confiança conduzem à
benquerença da afeição. A benevolência, interpretada como /querer-fazer/
bem ao outro, tem também a possibilidade teórica de ser definida pelo
/poder-fazer/, que torna o sujeito competente para o fazer da recompensa.
No [página 67] entanto, ao menos pelas definições de dicionário, não há
paixões “benevolentes” do poder-fazer/. Enquanto o ódio é entendido como
paixão que impele a causar ou desejar mal a alguém e a ira como desejo
de vingança, o amor caracteriza-se como sentimento que predispõe alguém
a desejar o bem de outrem ou de alguma coisa. Entende-se por isso que,
embora seja “ponto de honra” recompensar alguém que corresponde às
expectativas, essa questão não tem a mesma força, entre as relações
intersubjetivas, que a punição do ofensor.
Os arranjos sintagmáticos que definem as paixões podem ser
apreendidos como organizações paradigmáticas. Retornam-se, no esquema
adiante, as relações básicas de uma taxionomia das paixões, tal qual foram
aqui examinadas.
Diferenciam-se, num primeiro momento, paixões simples de paixões
complexas. As paixões simples definem-se pela relação do sujeito com o
objeto e, ao contrário das complexas, não pressupõem um percurso modal e
passional anterior.

a) paixão simples vs. paixões complexas


[querer-ser] [querer-ser + ...]
ex.: avareza, ambição. ex.: cólera, ressen-
timento, vingança, alívio

O segundo critério é o tipo de sujeito, que distingue paixões de ação


de paixões de ser acionado. Nas primeiras, o sujeito faz alguma coisa para
estar em conjunção com o objeto-valor desejado; nas demais, espera que
outro aja em seu lugar, a partir de um contrato.

b) paixões de ação vs. Paixões de ser acionado


S1 querer [S1 → (S1 ⋂ Ov)] S1 querer [S2 → (S1 ⋂ Ov)]
ex.: avareza, vingança ex.: espera, decepção

O terceiro elemento de classificação, que não foi, praticamente,


examinado neste trabalho, é a oposição entre as modalidades virtualizantes
do querer e do dever-ser. Descreveram-se, em princípio, apenas as paixões
de querer-ser.

c) paixões de [querer-ser] vs. Paixões de [dever-ser]


ex.: cólera, avareza ex.: amor, ódio (na
tipologia de Parret,
1982)

Os demais critérios classificatórios aplicam-se apenas às paixões


complexas e definem as etapas do percurso do sujeito como estados
passionais. Organizam-se de forma hierárquica, embora haja muitas vezes
superposição de critérios, caracterizando a recursividade dos percursos.
[página 68]

PAIXÕES COMPLEXAS

Paixões de falta Outras paixões


lato sensu complexas

Paixões Paixões de Paixões


de liquidação de Paixões fiduciárias de
falta falta (fiduciária) objeto
sirictu sensu ex.: alegria,
satisfação,
tristeza
Paixões
Paixões Paixões de confiança
fiduciárias de objeto ex.: confiança Paixões
ex.: insegurança ex.: aflição decepção de benque-
ansiedade desilusão rença
ex.: amor

Paixões paixões
De virtualiza- de reali-
ção e de atuali- zação
zação ex.: revolta,
vingança

Paixões Paixões de
/querer-fazer/ /poder-fazer/
ex.: antipatia ex.: cólera,
rancor

A classificação de paixões proposta obedeceu a critérios apenas de


organização modal que, conforme foi visto, define estados passionais. A
paixão do rancor, por exemplo, determina vários estados passionais do
sujeito: estado de espera e de confiança, estado de decepção, estado de falta
ou de insegurança e aflição, estado de malevolência e estado de rancor. O
rancor permite ainda a passagem ao fazer reparador, mas pode também ser
sopitado ou reprimido. O percurso é marcado por variações tensivas: a
espera é relaxada, a decepção intensa, a falta tensa, em seguida há a
distensão da constituição da competência e o relaxamento final do fazer.
No estágio atual das pesquisas sobre as paixões, chegou-se já a
alguns fatos imprescindíveis para se fazer a revisão da sintaxe narrativa
como uma sintaxe modal e garantir à semântica seu caráter passional.
[página 69]

NOTAS

1. Outras gramáticas de casos foram desenvolvidas, como a teoria


localística de Anderson (1971), sem que se alterem, entretanto, os
princípios básicos aqui discutidos.

2. Outra possibilidade seria a gramática ou lingüística textual,


sobretudo a ala que conta com pesquisadores como Janos S. Petöfi,
Jens Ihwe e Teun A. van Dijk e que sustenta a tese de que a
coerência do texto não se define apenas no nível superficial das
concatenações frásicas e da organização argumentativa, mas também
no nível macroestrutural ou narrativo subjacente.

3. Não se trata de generalização apressada, comumente entendida como


a utilização inconseqüente de princípios e métodos, desenvolvidos
com vistas a análise de um objeto, a outros, para os quais são
inadequados. A extensão da analise narrativa a outros domínios só se
fez graças a investigações serias no campo da manipulação, da
modalização e das estruturas passionais, que atribuíram, enfim, á
sintaxe narrativa caráter de sintaxe modal.

4. Tivemos acesso à semiótica da Escola de Tartu (onde, na verdade,


trabalha Lotman), graças a três coletâneas de textos traduzidos para o
português, o italiano e o francês. A primeira foi organizada por
Schnaiderman e reúne dezenove textos variados de semiótica da
cultura, da literatura, do cinema e do teatro. A publicação italiana,
sob a responsabilidade de Faccani e Eco, contém textos de semiótica
da literatura, das artes figurativas e da cultura, alem de trabalhos
sobre outros sistemas de significação, como a cartomancia, a
etiqueta, a musica, a gestualidade e o código de trânsito. Finalmente,
para a edição francesa, os textos — de semiótica geral, da cultura,
das artes — foram escolhidos e apresentados por Lotman e Uspenski.
5. Para a apresentação da teoria sêmio-lingüística recorreu-se a textos
de semioticistas diversos e, com mais freqüência, ao Dicionário de
semiótica de Greimas e Courtés.

6. No dizer de outro poeta, “Bendita a morte, que é o fim de todos os


milagres” (BANDEIRA, 1961, p. 184).

7. Sobre o quadrado semiótico e suas relações com o quadrado lógico


de Apuleio ou com o hexágono de Blanché, assim como sua filiação
ao enfoque lingüístico de Brøndal, a teoria do mito de Lévi-Strauss
ou as oposições binárias fonológicas de Jakobson, vejam-se Nef
(1976) e Landowski (1981 b).

8. O quadrado das modalidades veridictórias pode ser encontrado neste


mesmo capítulo, no item Modalização e modalidades

9. Hjelmslev emprega o termo conversão para as transformações não-


diacrônicas.

10. Sobre aspectualização, veja-se o item Temporalização e


espacialização, no capítulo 2.

11. Mais bem analisado, o PN1 revela-se um programa de competência: o


sujeito do fazer “galinha” transforma a competência do sujeito
“homem” ao lhe atribuir, por meio dos ovos de ouro, o poder-fazer,
isto é, o poder adquirir dinheiro e prestigio. O mesmo acontece com
o PN2.

12. Para actante e ator, veja-se o item Tematização e figurativização, no


capítulo 2. [página 70]

13. Para unia primeira tipologia das figuras de manipulação ver,


principalmente, o verbete sobre manipulação no Dicionário de
semiótica (GREIMAS & COURTÉS, s.d., p. 269-71) e nosso artigo
publicado em Le Bulletin n. 1 (BARROS, 1977).

14. Para Greimas, trata-se, mais especificamente, de outro código de


honra (1983, p. 219).

15. Para abordar a sanção, além de utilizar OS textos de semiótica já


citados, recorreu-se a um ensaio de Greimas sobre o saber e o crer
(1983, p. 1 15-33) e a um trabalho de Panier (1982, p. 12-24), em
que o autor procura situar a sanção nu conjunto ria teoria sêmio-
narrativa.

16. Para ilustrar os conceitos da semântica narrativa serão usados o texto


de Cabral ‘O vento no canavial’, a que já se recorreu em outros
momentos, e o poema Epílogo’, de Bandeira.

17. Ver, sobre o assunto, os trabalhos de Coquet e Parret e a revista


Langages 43, que reuniu lógicos, lingüistas e semioticistas em torno
da questão das modalidades.

18. Para esta breve exposição a respeito de modalização e modalidades,


empregaram-se, sobretudo, o número já citado de Langages,
inteiramente dedicado ao assunto, o ensaio de Greimas (1979) sobre
a modalização do ser, o trabalho de Zilberberg (1981) a respeito das
modalidades tensivas e os textos de Parret (1976, 1982) dedicados às
modalidades e às paixões.

19. Zilberberg (1981, J).33) critica, com razão, o fato de a semiótica


trabalhar com um inventário de modalidades e não propriamente com
uma paradigmática das modalidades.

20. Há três tipos diferentes de modalização, quanto ao local de


incidência no enunciado: modalização do enunciado, que recai sobre
o predicado, como nas modalizações veridictórias e epistêmicas;
modalização do sujeito do fazer, no caso do querer, dever, poder e
saber-fazer; modalização do objeto, que repercute no sujeito do
estado e se representa pelo querer, dever, poder e saber-ser.

21. As modalizações do ser combinam-se, como as do fazer, e obedecem


também a critérios de compatibilidade e incompatibilidade.

22. Este item foi bastante reduzido na passagem da tese ao livro.


Remetam-se, portanto, à tese os que se interessarem pela explicação
detalhada das relações sintagmáticas modais que caracterizam as
diferentes paixões.

23. Fontanille (1980) afirma que a revolta decorre do desespero e que o


sujeito desesperado rejeita o destinador, mas não os valores que o
destinador representa. O desespero e a revolta surgem do conflito
entre a perda de confiança no outro e em si mesmo e a confiança,
reiterada, em “alguma coisa de transcendente”. Exemplifica com a
análise cio texto de Aragon, em que os soldados de Luís XVIII,
abandonados pelo rei na fronteira da Bélgica, mantêm sua adesão aos
valores monárquicos, embora não mais aceitem os representantes, de
fato e de direito, da monarquia. [página 71]
II — DISCURSO:
A ASSUNÇÃO DE VALORES

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Neste capítulo abordam-se os vários aspectos da sintaxe e da


semântica discursivas, em nível imediatamente superior ao das estruturas
narrativas examinadas. Atribuiu-se especial importância às estruturas
discursivas por serem consideradas o lugar, por excelência, de
desvelamento da enunciação e de manifestação dos valores sobre os quais
está assentado o texto.
A análise discursiva opera sobre os mesmos elementos que a análise
narrativa, mas retoma aspectos que foram deixados de lado: as projeções da
enunciação no enunciado, os recursos de persuasão utilizados pelo
enunciador para manipular o enunciatário, a cobertura figurativa dos
conteúdos narrativos abstratos.
A mediação entre estruturas narrativas e estruturas discursivas é
tarefa da enunciação: os esquemas narrativos são assumidos pelo sujeito da
enunciação, que os converte em discurso e nele deixa “marcas”. Dessa
forma, o exame da sintaxe e da semântica do discurso permite reconstruir e
recuperar a instância da enunciação, sempre pressuposta.
A semiótica, como se espera ter mostrado no capítulo anterior,
desenvolveu bastante bem a sintaxe e a semântica narrativa, muito
comumente rotuladas, sozinhas, de teoria semiótica. Os exercícios de
análise da instância narrativa multiplicam-se e a recategorização da sintaxe
narrativa, como uma sintaxe modal, e da semântica, como organização
passional, rende cada vez mais frutos. As estruturas discursivas, porém,
[página 72] foram pouco ou mal tratadas pela semiótica, que a elas, no
entanto, tem dedicado seus mais recentes esforços. Há, assim, algumas
direções indicadas, alguns caminhos iniciados, alguns percursos
inacabados, que é preciso seguir, percorrer e completar. Explica-se, dessa
forma, a exposição menos segura, e quem sabe até mais criativa, que se
fará da instância discursiva, e também o fato de procurar em outras
propostas teóricas ou em práticas experimentadas subsídios para explicar as
organizações sintáticas e semânticas do discurso. Para a elaboração da
sintaxe, pensou-se nas diferentes colocações da semântica da enunciação
— da argumentação, da pressuposição, dos atos de fala —‘ na teoria do
texto literário, principalmente quando aprecia questões de foco narrativo,
na estilística e na retórica, pelo tratamento dado às formas da composição
ou do discurso e pela preocupação com os procedimentos de argumentação
e persuasão. Para a semântica, pretende-se examinar, ou, ao menos, lembrar
e sugerir, a estilística, a retórica e a poética, além das teorias semânticas
desenvolvidas pela lingüística.

SINTAXE DISCURSIVA

Serão analisados dois aspectos da sintaxe discursiva: o das projeções


da instância da enunciação no discurso-enunciado e o das relações,
sobretudo argumentativas, entre enunciador e enunciatário. A separação
dos dois tipos de mecanismos sintáticos não pode ser entendida como
ausência de ligação entre eles, pois, na verdade, confundem-se muitas
vezes e as diferentes projeções da enunciação explicam-se, em última
instância, como procedimentos utilizados pelo enunciador para levar o
enunciatário a crer e a fazer.

Projeções da enunciação

Serão examinados, em primeiro lugar, os procedimentos de sintaxe


discursiva desenvolvidos pela semiótica e, em seguida, alguns elementos
dos estudos literários do foco narrativo. A intenção é determinar as relações
entre enunciação e discurso, distinguir as diversas formas de projeção da
enunciação — actancial, temporal e espacial — e os mecanismos de
delegação do saber, e relacionar o discurso, a partir daí, com as condições
de sua produção. [página 73]
Desembreagem e embreagem actancial
e teorias do foco narrativo

A enumeração produz o discurso e, ao mesmo tempo, instaura o


sujeito da enunciação. O lugar da enunciação (eu/aqui/agora), segundo
Greimas e Courtés (s.d., p. 147), é semióticamente vazio e semanticamente
cheio, como um depósito de sentido. A projeção, para fora dessa instância,
dos actantes do discurso-enunciado e de suas coordenadas espácio-
temporais instaura o discurso e constitui o sujeito da enunciação pelo que
ele não é. A operação e os procedimentos pelos quais a enunciação realiza
a projeção mencionada denominam-se desembreagem. Com a
desembreagem criam-se, ao mesmo tempo, o sujeito, o tempo e o espaço da
enunciação e a representação actancial/actorial, espacial e temporal do
enunciado. A enunciação explora, na desembreagem, as categorias da
pessoa, do espaço e do tempo.
A desembreagem actancial é, assim, a projeção de um não-eu do
enunciado, distinto do eu da enunciação. Observe- se que o sujeito da
enunciação, instaurado por tais procedimentos, está sempre implícito e
pressuposto, nunca manifestado, no discurso-enunciado. Deve-se evitar
confundir a enunciação pressuposta com a enunciação-enunciada24, seu
simulacro e um tipo de enunciado.
A categoria da pessoa, explorada na desembreagem actancial,
articula-se, segundo Benveniste (1966), em /pessoa (eu-tu)/ vs. /não-pessoa
(ele)/. Obtêm-se, assim, enunciados que resultam da projeção do eu/tu e
enunciados decorrentes da projeção do ele. O eu e o ele projetados são
actantes e atores do enunciado, distintos dos da enunciação. Fala-se, para
os enunciados com eu, em desembreagem enunciativa, para os enunciados
com ele, em desembreagem enunciativa e, dessas diferentes
desembreagens, surgem, respectivamente, a enunciação-enunciada e o
enunciado propriamente dito, os dois grandes tipos de unidades discursivas.
As duas histórias de galinhas, que se tem usado como exemplo, empregam
recursos diferentes de desembreagem.

Em certo dia de data incerta, um galo velho e uma galinha


nova encontraram-se no fundo de um quintal...
(FERNANDES, 1975).

Todo ovo
que eu choco
me toco
de novo (BUARQUE, s.d.)
[página 74]
Na fábula de Millôr, tem-se um enunciado, resultante de
desembreagem enunciva, o poema de Chico Buarque é uma enunciação-
enunciada, que decorre de desembreagem enunciativa.
Na enunciação-enunciada, o sujeito que diz eu denomina-se
narrador, e o tu, por ele instalado, narratário, simulacros discursivos do
enunciador e do enunciatário implícitos. Os discursos em primeira pessoa
servem de exemplo de enunciação-enunciada e são, em geral, considerados
“subjetivos”. Já o enunciado propriamente dito caracteriza os discursos em
terceira pessoa, julgados “objetivos”. A subjetividade e a objetividade
entendem-se, no sentido que lhes atribui Benveniste, como efeitos criados
pelas diferentes relações que os tipos de enunciado mantêm com a
enunciação. O enunciado propriamente dito liga-se metonimicamente à
enunciação, em relação de parte a todo. A enunciação-enunciada, além dos
laços metonímicos, estabelece também ligação metafórica que se funda na
similaridade, na equivalência que o simulacro mantém com a enunciação
pressuposta. Além disso, são ainda possíveis desembreagens de segundo e
de terceiro graus, que instalam os interlocutores do diálogo. O esquema
abaixo representa as várias relações:

IMPLÍCITOS (ENUNCIAÇÃO PRESSUPOSTA)

DESEMB. DE 1º GRAU-ATORES EXPLÍCITAMENTE INSTALADOS

DESEMB. DE 2º GRAU

ENUNCIADOR NARRADOR INTERLUTOR OBJ ETO INTERLOCUTÁRIO NARRATÁRIO ENUNCIATÁRIO

[página 75]
A crônica ‘Glória’ de Drummond (ANDRADE, 1 97, p. 324) ilustra
bem as desembreagens internas.

Meu filho é artista de televisão, contando o senhor não


acredita. [...] Ai eles me viram chorando, ficaram com pena de
mim, um barbudo que passava disse assim pro bigodão: Paga a
ela, Reginaldo. O bigodão resmungou: Tá legal, e me deu um
papel passado em três folhas iguais, pra eu assinar nelas todas.
Aí eu disse: O senhor me desculpe, mas eu não sei escrever, a
cabeça não dá. Então nada feito outra vez, o bigodão
respondeu. [...] Um cara que estava escutando falou assim: A
senhora vai jogar fora esses 50 mangos? E daí? respondi pra
ele [...]

A mãe é a narradora que instala “o senhor” como narratário e que


cede a palavra a vários sujeitos, desembreados em segundo grau como
interlocutores (barbudo vs. bigodão; mãe, no passado vs. bigodão; cara que
escutava vs. mãe).
Os diferentes tipos de desembreagem e as subdelegações de voz
definem unidades discursivas e produzem efeitos de sentido diferenciados.
Os efeitos de sentido, ao menos na nossa cultura, são de dois tipos: efeitos
de referente ou de realidade e efeitos de enunciação, com os quais se obtêm
efeitos de verdade. A verdade ou a falsidade de um discurso ligam-se à
comprovação referencial ou à proximidade e autoridade da enunciação. O
efeito de realidade é produzido, em grande medida, pelas desembreagens
internas (segundo, terceiro graus) que criam a ilusão de situação “real” do
diálogo. Verifique-se o exemplo acima e, principalmente, as reportagens,
que empregam a referencialização obtida através de procedimentos de
desembreagem interna como recurso na criação de efeitos de verdade e
como meio de passar a responsabilidade do que é dito àquele que se cita em
discurso direto. No texto ‘Militares — Linha Secreta Mistério na morte dos
três Sargentos’ (Veja, 14 jan. 87, p. 32), o procedimento é utilizado com
sucesso. Fazem-se referências à falta de esclarecimentos sobre a causa das
mortes e dá-se a palavra a familiares dos sargentos:

[...]“A partir dessa premissa, é evidente que estão mentindo”,


afirma Hilário Moretto, tio do sargento Ronaldo.[...] “Tudo é
inexplicável”, diz Neuza Muller de Souza, 24 anos, de Passo
Fundo, a 290 quilômetros de Porto Alegre, viúva do sargento
Luiz Élvio. “Podem até dizer que acidentes com militares são
fatos normais”, afirma Hilário Moretto. “O que não se concebe
é a divulgação de tantas informações desconexas” [...]
A atribuição de voz à família dos sargentos dá “realidade” e,
portanto, “verdade” às manifestações de estranheza em [página 76] relação
às mortes. Além disso, e o tio de um dos sargentos ou a mulher de outro
que, diretamente, recriminam e criticam o Comando Militar. Trata-se, nesse
caso, de efeito de enunciação, ou melhor, de distanciamento da enunciação.
Os efeitos de enunciação são, em geral, criados pela escolha da
desembreagem enunciva ou enunciativa e por um procedimento oposto à
desembreagem, denominado embreagem. A embreagem apresenta-se como
uma operação de retorno de formas já desembreadas à enunciação e cria a
ilusão de identificação com a instância da enunciação. A enunciação finge
recuperar as formas que projetou fora de si. Nega-se o enunciado e procura-
se produzir o efeito de suspensão da oposição entre os atores, o espaço e o
tempo do enunciado e os da enunciação. Um bom exemplo é o da mãe que
diz à filha “a mamãe amarra o sapato para você”, empregando os recursos
de desembreagem enunciativa (eu/você) e de embreagem enunciva (a
mamãe).
Incluem-se como efeitos de realidade, de enunciação e de verdade
também as ilusões contrárias: pode-se pretender obter efeitos de mentira ou
de falsidade, de irrealidade ou de ficção, de distanciamento da enunciação.
Os exemplos são muitos: as histórias contadas com a indicação de
“histórias de pescador”, as fábulas que se dizem sempre fábulas, as
historias infantis que começam com “Era uma vez...”. Todas elas produzem
efeitos de mentira, de irrealidade ou de ficção. Para se negar a enunciação e
se obter a ilusão de objetividade, coloca-se o sujeito do enunciado como
um simples locutor2, distanciado do sujeito da enunciação. O discurso da
imprensa, que cita e recria discursos diretos que não foram ditos, procura
conseguir esse efeito. Outro exemplo é o da montagem da peça de
Kálidása, Xacuntalá reconhecida26, como uma “leitura dramática
demonstrada” e assim explicada no programa:

“O texto nas mãos dos atores não quer dizer apenas segurança
na interpretação. Ao se propor a fazer uma ‘leitura dramática
demonstrada’, o grupo pretende deixar visível que esta
construindo no palco um simulacro de uma realidade distante
no tempo e no espaço e da qual está sendo apenas o ‘porta-
voz’”.

Conclui-se que, na análise de discursos, se devem reconhecer os


procedimentos utilizados para a obtenção de efeitos de sentido, que variam
de cultura para cultura, de grupo para grupo, de ideologia para ideologia.
[página 77]
Para melhor sistematização das relações instauradas entre enunciação
e enunciado, criadoras dos efeitos de sentido mencionados, pensamos em
recorrer a trabalhos sobre foco narrativo. As razões que nos levaram a
procurar tais textos, cru geral considerados de interesse e responsabilidade
da Teoria Literária, prendem-se ao fato de reconhecermos que, durante
muito tempo, enquanto a lingüística não ia além da frase, a crítica e a teoria
literária preocupavam-se com o texto como um todo e com o sentido do
discurso. São, portanto, anos de pesquisa e de trabalho, cujos resultados
podem, em grande parte, ser estendidos a outros domínios, além do
literário, e contribuir para a teoria do discurso. Estamos cada Vez mais
convencidos de que muitos dos fatos julgados específicos do objeto
literário encontram-se também em outros tipos de discursos figurativos e
até mesmo nos não-figurativos. O abandono em que se encontravam os
estudos das diferentes manifestações discursivas, em oposição ao sempre
grande desenvolvimento da teoria e análise literárias, permitiu certas
conclusões um tanto apressadas.
Neste trabalho, examinaram-se alguns textos básicos para o estudo
do ponto de vista27, de que se retomaram apenas as questões gerais.
A teoria literária distingue, há muito tempo já, autor e narrador.
Vejam-se, a esse respeito, por exemplo, os trabalhos de Kayser (1970) e de
Booth (1970), que acabam mesmo por concluir não haver diferença
fundamental entre o romance em primeira e em terceira pessoa, já que
ambos comportam um narrador, como máscara do autor. Um primeiro
equívoco se desfez assim, o da confusão entre narrador e autor, acentuado
principalmente quando se tratava de discurso em primeira pessoa.
Ao reconhecer que as visões narrativas são diferentes máscaras ou
projeções do autor, a teoria do foco narrativo pôs fim ao conflito instaurado
entre os que atribuíam à teoria um caráter normativo, preconizando o
“melhor foco narrativo”, o mais apropriado ao romance, e menosprezando
os demais. Na esteira de James (1948), que, com seus prefácios escritos no
fim do século XIX, marcou o início da teoria do foco narrativo tal como
hoje é concebida, Lubbock (1976) sobretudo e, em parte, Friedman (1967)
e Mendilow (1972) consideram a terceira pessoa dramatizada como a visão
narrativa mais eficaz para o romance e não admitem a intervenção do autor,
que destrói a “ilusão de realidade”. O romance ideal seria aquele em que o
narrador quase não se mostrasse, dando a impressão de que a historia se
conta a si mesma, de que o narrador não está lá. Se James é contra a
narrativa em primeira [página 78] pessoa, contra as interferências,
comentários e avaliações do autor e, também, contra a variação de ponto de
vista, Forster (1969, p. 21) aceita que o romancista mude seu ponto de
vista, desde que obtenha o resultado esperado, mas não admite certas
interferências do autor:

“Pode o escritor fazer confidências ao leitor sobre suas


personagens? Melhor não fazê-lo. E perigoso e, em geral, leva
a uma queda de temperatura, a um afrouxamento emocional e
intelectual e, pior ainda, a um certo tom de jocosidade”.

A essas considerações normativas opõem-se as de Kayser, que trata


de mostrar, em sua segunda grande contribuição ao tópico do foco
narrativo, que o romance em primeira pessoa não é uma forma menos
poética que as outras e que não se pode estabelecer, de antemão, o que é
mais ou menos poético e sim o que é mais adequado aos efeitos de sentido
buscados. As variações de pessoa, já que representam apenas formas
diferentes de o autor se colocar no texto, são, segundo ele, questão de
estilo. Kayser antecipa as colocações lingüísticas e semióticas sobre a
ilusão de enunciação e sobre a questão da “neutralidade” do sujeito da
enunciação em relação ao discurso.
Hoje, sobretudo com as mudanças sofridas pelo romance, não passa
pela cabeça de ninguém a possibilidade de valorizar uma perspectiva
narrativa em detrimento de outra. Sendo porém a valorização uma questão
“externa”, isto é, de cultura, de época, de espaço, de História, acaba-se
sempre por atribuir maior importância a certas “técnicas” de organização
das visões que a outras. E inevitável fazê-lo, mas é preciso, então, tomar
consciência da relatividade cultural e histórica dos juízos de valor.
A concepção normativa, a que se referiu, está presa a um segundo
equívoco, qual seja a confusão entre o autor, ser ficcional, e o autor “de
carne e osso”. Foi Booth, entre os teóricos do ponto de vista, quem trouxe
algum esclarecimento à questão, ao determinar que o autor de que o texto
fala, ou aquele que se mascara no narrador e se projeta em primeira ou em
terceira pessoa, não é o ser de carne e osso, ontologicamente definido, mas
um autor-implícito, caracterizado e criado a partir do texto, pela escrita, O
autor-implícito, diz Booth, é sempre diferente do homem real e cria, ao
mesmo tempo que sua obra, uma versão superior de si mesmo (1970, p. 6).
A noção de autor-implícito é precursora da de sujeito da enunciação,
pressuposto pelo discurso-enunciado. [página 79]
O estabelecimento das duas distinções, entre autor e narrador e entre
autor e autor-implícito, permite que se deixe de lado o autor e que se
pensem as visões narrativas a partir das relações estabelecidas entre o
autor-implícito (instância e sujeito da enunciação) e o narrador (sujeito do
enunciado). O mérito e o alcance da proposta de Booth anulam-se, caso o
autor-implícito seja considerado, como fazem alguns, apenas uma etapa
intermediária entre o autor e o narrador e não a instância produtora do
discurso.
Na perspectiva da semiótica, a noção de narrador merece alguns
reparos. Para fazê-los, porém, é preciso antecipar certos elementos de
semântica discursiva28e da formalização narratológica da enunciação29 e
distinguir, com clareza, os actantes dos atores e, entre os actantes, os
actantes narrativos dos actantes discursivos.
A noção de actante foi examinada no capítulo 1, dedicado à
narrativa, O actante pertence à sintaxe e define-se pelos papéis actanciais
que engloba: o actante Sujeito subsume, entre outros, os papéis de sujeito
do querer, de sujeito competente, de sujeito realizador. Na instância do
discurso, o actante converte-se em ator, ao receber investimento semântico,
temático e/ou figurativo. O ator resulta, assim, da combinação de papéis da
sintaxe narrativa com um recheio temático e/ou figurativo da semântica do
discurso. O actante Sujeito, em ‘A galinha reivindicativa’ de Millôr, ocorre,
no nível discursivo, como o ator galinha, com as decorrências temáticas de
“ser galinha” e com as determinações figurativas da galinha em questão
(nova, etc.). Da mesma forma, o actante Destinador do dever torna-se o
ator patroa, e o Destinador do saber, o ator galo velho. Há diferentes
modos de relacionamento entre os actantes e os atores, sendo comuns os
casos de sincretismo.
Os actantes são, por conseguinte, concebidos como entidades
narrativas. Só é possível pensar em actantes do discurso se uma perspectiva
narratológica for adotada no exame da enunciação, ou seja, se a enunciação
for abordada do ponto de vista de sua organização narrativa ou espetacular.
Deve-se, então, distinguir, entre os actantes, os actantes narrativos,
propriamente ditos, dos actantes discursivos, que são também narrativos,
mas pertencem à estrutura narrativa da enunciação. Os actantes do discurso
instalam-se como projeções da enunciação e simulam os papéis actanciais
assumidos pelo sujeito da enunciação (sujeito e destinador/destinatário). Na
crônica ‘Glória’ de Drummond (ver p. 76), a mãe-narradora é um ator que
investe, no nível do discurso, os actantes discursivos Sujeito do fazer
discursivo e Destinador do saber, en- [página 80] quanto o ator mãe “no
passado” realiza o actante narrativo Sujeito da performance de cobrar o
cachê do filho.
Bem esclarecidas as noções de actante e ator e de actante narrativo e
actante discursivo, volta-se à questão do narrador. Há, do ponto de vista da
semiótica, duas definições possíveis de narrador. Pode-se considerar o
narrador como o resultado da projeção da instância da enunciação,
fundadora do discurso, tendo o narrador manifestação explícita ou implícita
no discurso-enunciado. Narrador seria, então, qualquer máscara da
enunciação, e até seu desaparecimento ou seu esfacelamento seriam
tomados como “tipos de narrador”. A outra possibilidade, pela qual se
optou, é a de reservar o termo narrador apenas para os casos de explicitação
do sujeito que assume a palavra no discurso. Pela primeira caracterização, o
narrador estaria identificado com os actantes discursivos Sujeito e
Destinador, papéis actanciais de nível discursivo, que marcam as relações
entre enunciador e enunciado e entre enunciador e enunciatário,
respectivamente. Na segunda concepção, o narrador é entendido como um
ator que engloba os papéis actanciais de Sujeito e Destinador discursivos e
os papéis temáticos da “narração”, também discursivos. A cobertura
semântico-temática do discurso define, nessa perspectiva, o ator-narrador.
Não havendo investimento temático, não há ator e não há narrador. Nesse
caso, outros mecanismos sintáticos e semânticos são encontrados para
marcar os actantes do discurso. Em ‘O vento no canavial’, tem-se um
exemplo desses possíveis procedimentos: o fio discursivo está a cargo do
observador e não do narrador.
Há muitas propostas de classificação dos focos narrativos e as
confusões terminológicas são bastante freqüentes. Parece provável que isso
se deva à variação de critérios e de perspectivas dos vários teóricos, nem
sempre explicitadas. As comparações resultam, portanto, em geral, pouco
produtivas.
Há um certo consenso, porém, em torno de dois pontos, além dos que
já foram levantados: o foco narrativo é um recurso discursivo — diríamos
sintático — ligado a um sentido determinado, mas não se pode estabelecer
de uma vez por todas os efeitos de sentido resultantes da variação de ponto
de vista. Delineiam-se, no entanto, certas tendências na consideração do
papel discursivo do foco narrativo e dos tipos de efeitos que cria. Kayser
afirma que o foco narrativo é só aparentemente uma questão de forma e que
o sentido do discurso muda, segundo variem os pontos de vista. Para
Booth, não se pode julgar um recurso técnico, como o ponto de vista, senão
em relação às noções mais gerais de sentido e de efeito a que [página 81]
tal recurso está destinado a servir. Há discrepâncias entre OS autores
quanto aos efeitos que se procura obter com a escolha de determinado foco
narrativo. A maior parte dos teóricos consultados, James, Lubbock e,
sobretudo, Friedman, vê como objetivo primeiro do ponto de vista, e do
romance no seu todo, o de produzir a ilusão completa de realidade, o maior
grau possível de “realismo”. A questão da escolha do foco narrativo liga-se,
dessa forma, ao tipo de ilusão de realidade que se quer criar. Explica-se
assim o caráter normativo de suas considerações, anteriormente
mencionadas. Já segundo Booth, a finalidade do romance não é tanto
produzir uma ilusão, quanto fazer passar certos valores. A transmissão dos
valores, para o autor, é um problema de retórica. Retoma ele uma
concepção de retórica que estava desaparecida, sufocada pela retórica
clássica das figuras de linguagem, qual seja a retórica como conjunto das
técnicas e meios utilizados pelo romancista para comunicar-se com seus
leitores, para controlá-los, de modo a fazê-los participar de seu sistema de
valores. O problema da retórica da ficção não é o das ligações do narrador
com a história que conta, nem apenas o das estruturas internas, mas,
sobretudo, o da relação do “autor” com seu “leitor”.
Enquanto Friedman atribui ao foco narrativo o efeito de realidade ou
de referente, Booth desloca o problema para o efeito de verdade, para o
contrato de veridicção estabelecido entre enunciador e enunciatário e para o
jogo da manipulação entre o fazer persuasivo do enunciador e o fazer
interpretativo do enunciatário. A questão das relações entre enunciador e
enunciatário, apontada por Booth, foi, neste trabalho, separada, um tanto
artificialmente, da abordagem dos procedimentos de projeção da
enunciação e será examinada no próximo item.
Resta retomar o problema relativo à ilusão de realidade, sem dúvida
uma das principais razões de escolha do foco narrativo. Não se trata de
acreditar, como James, Lubbock ou Friedman, que o romance deva gerar
“ilusão de realidade”, mas de entender o jogo dos efeitos de sentido de
realidade que o sujeito da enunciação procura obter com as opções e
variações de ponto de vista, pois pode tanto querer criar o efeito de
realidade quanto o de irrealidade. As ilusões engendradas pelo discurso,
assim como a relação entre o procedimento sintático do foco narrativo e os
efeitos criados, dependem de vários fatores, tanto de organização narrativo-
discursivo-textual, quanto de variação sócio-cultural e histórica.
O caráter relativo e contextual da correlação entre foco narrativo e
efeitos de sentido não impede, porém, que se bus- [página 82] quem
algumas indicações de percursos possíveis, traços e pistas de direções a
seguir, sobretudo a partir das classificações mais conhecidas de foco
narrativo.
Lubbock (1976) distingue dois tipos de apresentação do texto, a
cônica e a panorâmica. Na apresentação cênica o narrador restringe-se a
momentos particulares, a uma determinada cena frente à qual o leitor é
colocado, enquanto na panorâmica sua visão é ampla e geral. As
apresentações sofrem dois diferentes tipos de tratamento, ligados à
oposição entre o “narrar”e o “mostrar”: o pictórico, em que os fatos são
vistos através do narrador que descreve, que “pinta” a história, e o
dramático, em que o narrador desaparece e dá lugar à visão “direta” das
coisas, ou seja, os fatos visíveis e audíveis contam a história.
Friedman (1967) organiza os focos narrativos em oito tipos distintos,
que serão apresentados na ordem que vai da onisciência total — o narrador
tudo sabe e em tudo se intromete — ao apagamento do narrador.
1. Onisciência do narrador organizador:
narrador o narrador tudo sabe, comenta e avalia.
+ 2. Onisciência do narrador neutro:
onisciência o narrador tudo sabe, mas se abstém de comentários gerais
(3º pessoa e estilo indireto).

3. Narrador-testemunha ou observador (em primeira pessoa):


o narrador, como um observador, não participa diretamente
narrador
dos acontecimentos.
+
4. Narrador-protagonista:
não-onisciência
o narrador participa dos acontecimentos, como personagem
principal.

5. Onisciência multisseletiva:
o narrador desaparece e a história é “filtrada” através dos
não-narrador
personagens (em geral, predomina o discurso indireto livre).
+
6. Onisciência seletiva:
onisciência
não há narrador e a história é filtrada através de um
personagem (predomina o discurso indireto livre).

7. Modo dramático:
os atos e palavras dos protagonistas contam a história
não-narrador
(predomina o discurso direto).
+
8. Câmera:
não-onisciência
uma fatia de vida é como que apanhada arbitrária e
mecanicamente por uma câmera.

Passou-se dos traços de /presença do narrador/ + /onisciência/, para


/presença do narrador/ + mão-onisciência/ e para /ausência do narrador/ +
/onisciência/, chegando-se a /ausência do narrador/ + /não-onisciência/30.
[página 83]
Forster (1969) agrupa os focos narrativos segundo dois
critérios: caráter exterior ou interior (onisciência) do ponto
de vista ou posição ocupada pelo narrador na história (personagem ou não).
Pouillon (1974), que aproxima a experiência vivida do romance —
do modo de compreensão da realidade surge o ponto de vista —, propõe
três visões: visão com, em que o narrador vê e sabe com a personagem;
visão por trás, em que o narrador é onisciente; visão de fora, em que o
narrador se limita a descrever os acontecimentos.
Booth (1970) prega a necessidade de uma classificação mais rica das
vozes do autor e considera insuficientes as oposições entre primeira e
terceira pessoa ou entre “contar” e “mostrar”. Distingue, em primeiro lugar,
conforme foi visto, autor-implícito e narrador e, em seguida, organiza os
narradores em:

• narradores representados (explicitados) vs. não-representados


(não-explicitados);
• narradores representados declarados (conscientes de si
mesmos, enquanto escritores) vs. não-declarados (os
“refletores”, em terceira pessoa, e os narradores não-
conscientes, em primeira pessoa);
• narradores que são personagens centrais vs. narradores que não
são personagens centrais (observadores e os que têm alguma
influência sobre o curso dos acontecimentos);
• narradores oniscientes vs. narradores não-oniscientes.

A multiplicidade de critérios pouco explicitados dificulta o confronto


das diferentes classificações dos focos narrativos e causa
desentendimentos31. Espera-se que a revisão das tipologias arroladas, na
perspectiva da sêmio-lingüística (outras são possíveis), contribua para a
explicação dos mecanismos sintáticos do discurso.
Distinguem-se três diferentes aspectos da questão do ponto de vista,
que, a nosso ver, só ganharão em serem diferenciados: a delegação de
“voz”, a organização do saber e a relação entre os papéis do discurso e os
da narrativa.
O foco narrativo é, sem dúvida, um problema de delegação de “voz”.
Considera-se a delegação de voz como resultante da operação de
desembreagem ou de projeção da instância da enunciação no discurso. Em
termos de sintaxe, pode-se afirmar que o sujeito da enunciação, para
construir seu objeto, instala um ou mais sujeitos delegados, aos quais
atribui o /dever-fazer/, que os instaura como sujeitos, e o /poder-fazer/ ou
poder falar por ele, que os qualifica, que os dota de “voz”. O sujeito da
enunciação projeta o discurso como uma meto- [página 84] nímia da
instância da enunciação (o enunciado propriamente dito, em terceira
pessoa) ou como urna metáfora (a enunciação-enunciada, em primeira
pessoa), obtendo com isso diferentes efeitos de sentido que tendem,
respectivamente, para a ilusão de ausência de enunciação ou de distância
em relação a ela (“objetividade”) e para a de anulação da distância entre
enunciação e enunciado. As diferenças de pessoa, nos pontos de vista,
relacionam-se, portanto, ao ato de instauração e modalização do enunciado
e de seu sujeito. O fazer modalizador pode repetir-se no discurso, através
de desembreagens de segundo ou terceiro graus que produzem, em geral,
ilusão de realidade. Unidades do discurso, como o diálogo, devem ser
redefinidas no interior desse quadro, em relação à instância da enunciação,
e organizadas coerentemente. A explicação sintática das unidades do
discurso faz-se ainda desejar. M. Bakhtin, preocupado com os esquemas
lingüísticos de discurso citado, desenvolve trabalho sobre estilo direto,
indireto e indireto livre e afirma que

“um estudo fecundo das formas sintáticas só é possível no


quadro da elaboração de uma teoria da enunciação. Enquanto a
enunciação como um todo permanecer terra incógnita para o
lingüista, está fora de questão falar de uma compreensão real,
concreta, não escolástica das formas sintáticas” (1981, p. 140).

O autor não disse apenas que tal concepção de sintaxe só tem sentido
no bojo de uma teoria do discurso.
A oposição entre o “narrar” e o “mostrar”, que fundamenta a maioria
das propostas de classificação dos focos narrativos, explica-se
essencialmente pela modalização do /poder-fazer/, ou seja, o sujeito da
enunciação atribui ao sujeito do enunciado o /poder-conduzir/ o discurso de
diferentes modos.
O segundo aspecto posto em destaque na organização dos pontos de
vista é a questão da delegação do saber. Entende-se o saber delegado como
um /saber-ser/, pois o /saber-fazer/ não é imprescindível ao narrador,
caracterizado, antes de mais nada, como sujeito que deve e pode narrar, O
/saber-ser! é necessário, uma vez que a competência atribuída ao sujeito o
torna sujeito de um fazer informativo ou de comunicação do saber. A
delegação do saber tem sido o critério classificatório mais explorado nas
distinções entre narrador onisciente e não-onisciente, entre narrador
consciente de seu papel de narrador e narrador inconsciente, entre a difusão
(onisciência multisseletiva) ou a concentração do saber. Articulado, como
categoria, em /saber-ser/ e /saber-não-ser/, o saber define su- [página 85]
jeitos (e narradores) que sabem e sujeitos ignorantes, sujeitos iludidos e
sujeitos desenganados, enquanto a variação de seu objeto — saber sobre
competência própria ou dos outros, saber sobre os fazeres, saber sobre as
paixões — fornece outros elementos para se organizarem as perspectivas
do narrador.32
Em resumo, o sujeito da enunciação instaura narradores, definindo-
lhes a competência modal para o narrar — sujeitos que devem e podem
assumir a palavra — e a existência modal — sujeitos que sabem ser.
Grande parte das distinções de foco narrativo resultam das diferentes
combinações dessas modalizações. O sujeito do discurso, competente para
narrar e existente pelas relações com objetos do saber, realiza-se de modos
diversos, ou seja, cumpre o fazer para o qual foi determinado e narra. As
intrusões e a “neutralidade” do narrador constituem, por exemplo, formas
diferentes de sua realização como sujeito.
O último elemento enfatizado nas propostas sobre as visões
narrativas é o das relações entre o narrador e as personagens, isto é, entre
os actantes do discurso e os actantes e papéis actanciais da narrativa. Os
actantes discursivos e os narrativos manifestam-se ora por meio de atores
diferentes, ora através dos mesmos atores.
No primeiro caso, isto é, quando os actantes discursivos e os
narrativos não estão sincretizados nos mesmos atores, os actantes
discursivos aparecem como sujeitos cognitivos, instalados no discurso pelo
sujeito da enunciação, e assumem apenas os encargos de narrador e/ou de
observador. Sobre o narrador, já se falou, nas páginas anteriores. O
observador, que se prefere distinguir do narrador, é também um sujeito
cognitivo, ao qual cabe o fazer-receptivo e, muitas vezes, o fazer-
interpretativo no discurso. Manifesta-se claramente no discurso ou ocorre
de forma implícita. Qualquer que seja o modo de manifestação, há sempre
marcas do observador no discurso, sendo a principal delas a transformação
do fazer do sujeito narrativo em processo, graças às categorias aspectuais.
Dizer que uma ação começa, dura ou termina só é possível pelo fazer do
observador. Em ‘O vento no canavial’ é o observador que conduz o
discurso, como sujeito responsável pela interpretação da narrativa do vento
e do canavial. Está marcado, no poema, principalmente pelas figuras
visuais (“não se vê”, “oculta fisionomia”, “cor verde”, “o canavial é a
imagem”, “de um avião a paisagem se organiza”), pela indeterminação
actorial (“não se vê”) e pelos recursos, bastante acentuados, de
aspectualização (a descontinuidade aspectual [página 86] do movimento
interrompe a duratividade do “papel em branco”, da “campina” ou do
“grande lençol”).
No discurso dito “sem narrador”, em geral sobressai o papel do
observador. Vejam-se, por exemplo, o modo dramático e a câmera de
Friedman. Explicitado e, em geral, em sincretismo com o narrador
(narrador-testemunha, por exemplo) ou assumindo o modo do implícito,
quando a história parece contar-se sozinha, o observador realiza seu fazer
receptivo e interpretativo e é o grande responsável pela discursivização da
narrativa. Na diluição do ator narrador, o observador assume o fio condutor
do discurso.
Na segunda situação, ou seja, quando os actantes discursivos e os
narrativos realizam-se por meio dos mesmos atores, não mais se
distinguem, com nitidez, os papéis discursivos da “narração” dos papéis
narrativos da “história narrada”. Um único ator ocupa os postos de narrador
e/ou de observador e preenche os encargos de “personagens”, principais ou
secundárias. Há, assim, narradores que, além de sujeitos e destina- dores do
discurso, são destinadores-manipuladores, sujeitos, anti-sujeitos,
destinadores-julgadores, sujeitos de programas de uso, sujeitos delegados
da narrativa. No quadro a seguir apresentam-se as diferentes possibilidades
de sincretismo. O sinal “=“ indica sincretismo actorial e o sinal “≠”,
ausência de sincretismo.

1. narrador observador
= ≠

actante narrativo actante narrativo

2. narrador observador
= =
actante narrativo

3. narrador observador

≠ ≠
actante narrativo actante narrativo

4. narrador observador
=

actante narrativo
5. narrador observador

= =
actante narrativo actante narrativo
6. narrador observador

≠ =
actante narrativo actante narrativo
[página 87]

Os tipos mais comuns são o 2 e o 4, em que narrador (no sentido


restrito de narrador explicitado) e observador estão sincretizados em um
mesmo ator. Podem ser exemplificados com trechos de Guimarães Rosa:
Tipo 2:
Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga do homem
não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo
do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde
mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum
bezerro: um bezerro branco, erroso os olhos de nem ser — se
viu —; e com máscara de cachorro. (Grande sertão: veredas.
7. ed. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1970, p. 9.)

Tipo 4:
Do narrador a seus ouvintes:
— Jó Joaquim, cliente era quieto, respeitado, bom como o
cheiro de cerveja. Tinha o para não ser célebre. (‘Desenredo’.
In: Tutaméia — Terceiras estórias. 5. ed. Rio de Janeiro, J.
Olympio, 1979, p. 38.)

É preciso acrescentar, às considerações expostas sobre as relações do


sujeito da enunciação com o discurso-enunciado, as projeções do tempo e
do espaço.

Temporalização e espacialização

Aplicam-se, de maneira geral, aos procedimentos de desembreagem


e embreagem de tempo e de espaço, as observações já feitas sobre as
projeções de actantes no discurso. A desembreagem temporal e a espacial
definem-se como a projeção, para fora da instância da enunciação, do
agora e do aqui do discurso, o que institui, por pressuposição, o agora e o
aqui da enunciação. O sujeito da enunciação instala o tempo e o espaço do
enunciado segundo dois sistemas de referência: o primeiro sistema simula
metaforicamente o tempo e o espaço da enunciação e tem como ponto de
remissão o aqui e o agora do enunciado; o segundo sistema retoma
metonimicamente o tempo e o espaço da enunciação e parte do então e do
lá do enunciado. O tempo e o espaço resultantes são ditos, respectivamente,
subjetivos e objetivos. Quaisquer que sejam os sistemas de referência, o
tempo e o espaço determinam-se pela categoria topológica da
/concomitância vs. não-concomitância/ e a /não-concomitância/ articula-se,
por sua vez, em /anterioridade vs. posterioridade/. Os trechos abaixo,
extraídos do conto ‘Livro de ocorrências’, de Rubem Fonseca (1979, p.
126-31), ilustram os dois sistemas de referência: [página 88]

O investigador Miro trouxe a mulher à minha presença


(p. 127).
Manhã quente de dezembro, rua São Clemente. Um ônibus
atropelou um menino de dez anos (p. 129).

No primeiro exemplo, remete-se ao aqui e ao agora do enunciado. A


ação narrativa é localizada no tempo anterior ao agora e no espaço do aqui
do narrador, no tempo passado. No segundo texto, a referência se faz ao
então (“manhã quente de dezembro”) e ao lá (“rua São Clemente”).
Os programas narrativos são localizados temporalmente e
espacialmente, em relação a qualquer dos sistemas de referência. Há,
assim, programas concomitantes, anteriores ou posteriores ao aqui ou ao lá,
ao agora ou ao então. Das diversas escolhas de perspectiva temporal e
espacial, em geral compatibilizadas com os pontos de vista actanciais,
resultam os efeitos de sentido, já apontados, e constituem-se unidades de
discurso.
Em resumo, as operações de desembreagem e embreagem criam o
quadro de referência para a localização espácio-temporal dos programas
narrativos, a partir das duas posições temporais e espaciais “zero”. Os
enunciados de estado são situados no tempo e no espaço e os do fazer
interpretados como passagens de um espaço a outro, de um intervalo
temporal a outro.
Além dos procedimentos de localização, a temporalização e a
espacialização discursiva respondem pela programação espácio-temporal.
A programação espacial organiza o encadeamento linear dos espaços
parciais já localizados. No texto a seguir, veja-se o encadeamento dos
espaços: porta, primeiro andar, sala, corredor, banheiro.

Cheguei ao sobrado na rua da Cancela e o guarda que estava


na porta disse: primeiro andar. Ele esta no banheiro. Subi. Na
sala uma mulher com os olhos vermelhos me olhou em
silêncio. Ao seu lado um menino magro, meio encolhido, de
boca aberta, respirando com dificuldade. O banheiro? Ela me
apontou um corredor escuro (FONSECA, 1979, p. 130).

A programação temporal realiza a sintagmatização dos tempos e


estabelece uma cronologia. O eixo das pressuposições, que representa a
ordem lógica dos programas narrativos, e convertido em eixo das
consecuções (GREIMAS & COURTÉS, s.d., p. 355). A ordem temporal
substitui a ordem lógica e a organização narrativa transforma-se em
historia. A programação espácio-temporal do discurso é diferente da
[página 89] programação textual em que o sujeito da enunciação tem,
por exemplo, liberdade para reorganizar a cronologia. Em
”Conto retroativo”, de L. F. Veríssimo (1982, p. 119-21), percebem-se bem
as diferenças entre a programação temporal do discurso e a programação
textual. Reproduziram-se abaixo o meio e o fim do conto.

Beijaram-se, finalmente, depois que ela entrou correndo no


saguão do aeroporto gritando: “Mário! Mário!”. E ele, que já
se preparava para embarcar, desconsolado, depois de ter
tomado três cafezinhos para fazer tempo, dar tempo a ela de se
decidir se embarcaria com ele ou não, na esperança de que ela
chegaria no último minuto, ele virou- se e também gritou.
“Sandra!”. Ele que tinha vindo para o aeroporto meio sonso no
táxi, triste porque passara no apartamento para uma última
olhada e ficara andando do quarto para a sala e da sala para o
quarto, voltando no tempo, lembrando tudo, os momentos na
cama, o cheiro dela, a risada, a marca do jeans apertado nas
suas coxas lembrando que na última vez ela dissera que não ia
mais com ele, que estava com passaporte, passagem mas não
ia, era uma loucura, não queria se amarrar, ele era um
obsessivo, um doido, e ela era muito moça e...
[...]
— Antes que alguém me denuncie, eu mesmo confesso:
sou o pintor. Meu nome e Mário.
— O meu é Sandra.
— Alô.
— Alô.
E embarcaram juntos.

A organização cronológica ou programação temporal do conto é,


aproximadamente, a seguinte: Mário e Sandra se conhecem na galeria em
que Mário expõe; amam-se durante dois meses; ele a convida para ir com
ele para a Europa; ela aceita, mas, na véspera da partida, diz que não vai
mais; antes de partir, ele passa pelo apartamento e relembra os momentos
felizes; ele vai para o aeroporto; lá, toma três cafezinhos e prepara-se para
embarcar; ela entra correndo no aeroporto; beijam- se; embarcam juntos. Já
a programação textual organiza de outra forma o tempo e, praticamente,
inverte a ordem cronológica, à exceção do último parágrafo: beijam-se no
aeroporto; ela entra no saguão; ele se prepara para embarcar; ele toma três
cafezinhos; ele vai para o aeroporto; ele passa no apartamento e relembra
os momentos felizes; ela diz, no ultimo encontro, que não vai mais; ele a
convida para ir para a Europa; eles se conhecem na exposição de Mário;
eles embarcam juntos. A última frase “E embarcaram juntos” é ambí-
[página 90] gua tanto pode significar que Mário e Sandra partiram para a
Europa, quanto que, apos a apresentação na galeria, passaram a viver
juntos. Na segunda leitura, conserva-se o caráter retroativo da programação
textual.
Inclui-se, no componente temporal da sintaxe discursiva, a
aspectualização33. A aspectualização transforma as funções narrativas, de
tipo lógico, em processo, graças ao observador colocado no discurso
enunciado. Justifica-se assim a definição, em geral atribuída a aspecto, de
“um ponto de vista sobre a ação”. O efeito de sentido decorrente da
aspectualização liga-se apenas indiretamente à instância da enunciação. A
aspectualização mantém relativa independência da enunciação, pois esta
desembreia um sujeito do fazer, que faz., e um sujeito cognitivo, que
observa. Observar é ler, no fazer do sujeito, os semas de duratividade,
pontualidade e outros e transformar, dessa forma, a ação em processo.
Embora temporal, o processo é apreendido pela sobredeterminação
aspectual. As categorias aspectuais, organizadas em sistemas, caracterizam
os aspectos discursivos:

Duratividade vs. pontualidade

descontinuidade vs. continuidade incoatividade vs. terminatividade


(aspecto (aspecto (aspecto (aspecto
iterativo) durativo) incoativo) terminativo)

O arranjo sintagmático dos semas aspectuais, capaz de explicar um


processo, toma a forma de:

Incoativo → durativo → terminativo


(pontual) (descontinuo (pontual)
ou continuo)

Conforme foi discutido no capítulo anterior, os procedimentos de


aspectualização são imprescindíveis para a caracterização das
configurações passionais.
Antes de terminar a discussão dos problemas de tempo e de espaço,
importa lembrar que, tanto um quanto o outro, além de se definirem em
relação à instância da enunciação e aos actantes do discurso, podem ser
relacionados com os actantes narrativos. Os trabalhos de Propp fizeram-se
nessa direção. Retoma-se, a respeito disso, a sugestão de Geninasca (1979,
p. 10) para o espaço: [página 91]

ESPAÇO TÓPICO
Espaço Espaço Espaço Espaço Espaço
heterotópico paratópico utópico paratópico heterotópico

PERFORMANCES

Estado Estado
Deslocamento 1 Performance Deslocamento 2
inicial final
principal

O espaço tópico é aquele em que as coisas acontecem ou espaço das


transformações narrativas, em oposição ao espaço heterotópico ou espaço
dos estados narrativos, em que nada ocorre. No interior do espaço tópico,
distinguem-se os espaços paratópicos, entendidos como espaços de
aquisição de competência e de sanção, do espaço utópico da performance
principal do sujeito.
Há alguns anos, a leitura do texto de A. Rosenfeld (1968), intitulado
‘Literatura e personagem’, levou-nos a reconsiderar, enquanto professora,
os procedimentos de correção de textos, e a perceber, com maior clareza, o
desconhecimento dos alunos (e dos mestres) sobre as estruturas discursivas.
O trecho do ensaio, desencadeador desse movimento, foi a citação
comentada de Alice Berend em Os noivos de Babette Bomberling: “Bem
cedo ela começava a enfeitar a árvore. Amanhã era Natal” (p. 24). A
ligação de “amanhã” com “era”, um erro de muitas cruzes em redação de
aluno, um bonito recurso de temporalização no texto poético, fez-nos
retomar, neste trabalho, os diversos aspectos das relações entre instância da
enunciação e enunciado.

Relações entre enunciador e enunciatário

Contrato de veridicção e verdade discursiva

Examinaram-se, em alguns casos mais minuciosamente


— actancialização —, em outros de forma mais geral — temporalização e
espacialização —, os procedimentos sintáticos que explicam as relações
entre enunciação e discurso. Resta agora, para completar o
desenvolvimento da sintaxe do discurso, tratar das diferentes relações entre
enunciador e enunciatário.
Enunciador e enunciatário são desdobramentos do Sujeito da
enunciação que cumprem os papéis actanciais de destinador e de
destinatário do objeto-discurso. Dessa forma, o enunciador coloca-se como
destinador-manipulador, responsável pelos valores do discurso e capaz de
levar o enunciatário, seu destinatário, a crer e a fazer. O fazer manipulador
rea- [página 92] liza-se no e pelo discurso, como um fazer persuasivo. O
enunciatário, por sua vez, manipulado cognitiva e pragmaticamente pelo
enunciador, cumpre os papéis de destinatário-sujeito, ainda que o fazer
pretendido pelo enunciador não se realize. O fazer interpretativo do
enunciatário, que responde ao fazer persuasivo do enunciador, ocorre
também no discurso-enunciado.
Para conhecer o fazer persuasivo do enunciador e o interpretativo do
enunciatário, precisa-se, por conseguinte, recorrer à análise do texto, em
todas as instâncias propostas. E certamente no nível das estruturas
discursivas, no entanto, que as relações entre enunciador e enunciatário
mais se expõem e, com maior facilidade, se apreendem.
Será analisada, em primeiro lugar, a relação de manipulação
estabelecida entre enunciador e enunciatário, nos seus vários aspectos: os
contratos propostos e assumidos, os meios empregados para a persuasão e a
interpretação e os diferentes fazeres pretendidos.
Grande parte do capítulo anterior foi ocupada pela explicação da
manipulação. Esta prevê um primeiro contrato fiduciário, em que são
decididos os valores dos objetos a serem comunicados ou trocados. No
nível do discurso, o contrato fiduciário é um contrato de veridicção, que
determina o estatuto veridictório do discurso. A verdade ou a falsidade do
discurso dependem do tipo de discurso, da cultura e da sociedade, pois o
que vale para uma entrevista política não se aplica, por exemplo, ao texto
literário, e o que se coloca para um discurso religioso na China não tem o
mesmo valor no Brasil. Cita-se, abaixo, Rosenfeld (1968, p. 19) sobre a
relatividade da verdade e sua dependência do tipo de discurso:

“Quando chamamos ‘falsos’ um romance trivial ou uma fita


medíocre fazemo-lo, por exemplo, porque percebemos que
neles se aplicam padrões do conto da carochinha a situações
que pretendem representar a realidade cotidiana.. Os mesmos
padrões que funcionam muito bem no mundo mágico-
demoníaco do conto de fadas revelam-se falsos e caricatos
quando aplicados à representação do universo profano da
nossa sociedade atual.
[...]
É esta incoerência que é falsa’. Mas ninguém pensaria em
chamar de falso um autêntico conto de fadas, apesar de o seu
mundo imaginário corresponder muito menos à realidade
empírica do que o de qualquer romance de entretenimento”.

As duas conclusões possíveis são, em primeiro lugar, que o


enunciador propõe um contrato, que estipula como o enun- [página 93]
ciatário deve interpretar a verdade do discurso; em segundo lugar, que o
reconhecimento do dizer-verdadeiro liga-se a urna serie de contratos de
veridicção anteriores, próprios de uma cultura, de uma formação ideológica
e da concepção, por exemplo, dentro de um sistema de valores, de discurso
e de seus tipos. O contrato de veridicção determina as condições para o
discurso ser considerado verdadeiro, falso, mentiroso ou secreto, ou seja,
estabelece os parâmetros, a partir dos quais o enunciatário pode reconhecer
as marcas da veridicção que, como um dispositivo veridictório, permeiam o
discurso. A interpretação depende, assim, da aceitação do contrato
fiduciário e, sem dúvida, da persuasão do enunciador, para que o
enunciatário encontre as marcas de veridicção do discurso e as compare
com seus conhecimentos e convicções, decorrentes de outros contratos de
veridicção, e creia, isto é, assuma as posições cognitivas formuladas pelo
enunciador.
O discurso constrói sua própria verdade e, por essa razão, prefere-se
falar em “dizer-verdadeiro” e não em verdade discursiva. Evita-se o já
mencionado equívoco de caracterizar a verdade do discurso pela adequação
ao referente. Cita-se, a respeito disso, Antônio Cândido, quando diz que “a
verdade da personagem depende, antes do mais, da função que exerce na
estrutura do romance de modo a concluirmos que é mais um problema de
organização interna que de equivalência à realidade exterior”, e que “o
aspecto mais importante para o estudo do romance é o que resulta da
análise da sua composição, não da sua comparação com o mundo” (1968,
p. 75).
Forster, na mesma direção, afirma que as personagens “são reais não
por serem como nós, mas porque são convincentes” (1969, p. 48).
O enunciador não produz discursos verdadeiros ou falsos, mas
constrói discursos que criam efeitos de sentido de verdade ou de falsidade,
que parecem verdadeiros. O parecer verdadeiro é interpretado como ser
verdadeiro, a partir do contrato de veridicção assumido.
Dessa concepção de verdade discursiva decorre que a verdade ou a
falsidade de um discurso não servem de critério para diferenciar-se o
discurso da História do da ficção, o discurso político do da fábula ou do
conto de fadas. Todos elaboram sua verdade e, isoladamente, a não ser que
sejam mal construídos, são ditos verdadeiros ou, ao menos, que parecem
verdadeiros. Só quando um discurso é inserido no contexto de outros
textos, podem-se perceber os procedimentos graças aos quais o enunciador
o fez parecer verdadeiro e, no confronto com discursos contrários ou
contraditórios, ou melhor, [página 94] localizados em formações
ideológicas contrárias ou contraditórias, chega-se a aceitá-lo ou a recusa-lo.
Discutiu-se, até agora, o primeiro momento das relações entre
enunciador e enunciatário, o do contrato de veridicção, e, também, a
concepção de verdade discursiva dai advinda.
Na operação de manipulação propriamente dita, distinguem-se dois
fazeres possíveis e dois tipos de manipulador. Há o manipulador que
instaura o sujeito virtual, levando-o a querer ou a dever-fazer, e o que faz o
sujeito atual, pela atribuição do saber e do poder-fazer. A maior parte dos
discursos pertence ao primeiro grupo, como o discurso da propaganda, o
didático, o político ou o texto literário. No segundo grupo, encontram-se os
discursos programadores, como a receita de cozinha e os folhetos de
explicação de uso de uma máquina, em que o enunciador não se preocupa
em transmitir ao enunciatário as modalidades do querer ou do dever-fazer,
e contenta-se em lhe comunicar o saber ou o poder-fazer, sem dúvida por
reconhecer o enunciatário como um sujeito virtual, previamente
modalizado.
Resta agora explicar alguns dos procedimentos do fazer- parecer
verdadeiro do enunciador, os recursos utilizados para dotar o discurso das
marcas de veridicção e para levar o enunciatário a reconhecê-las. É preciso,
em suma, examinar o fazer persuasivo do enunciador.

Argumentação

O fazer persuasivo do enunciador é diferente segundo o jogo de


imagens que constrói de si mesmo e do enunciatário34 — e que o leva à
sedução, à tentação, à provocação ou à intimidação — e segundo também o
tipo de fazer a que pretende persuadir o enunciatário — fazer pragmático,
como na publicidade ou no discurso político, fazer cognitivo, como no
texto científico ou literário. Trata-se de fazer consumir, fazer votar ou de
fazer crer. O discurso político e o pedagógico caracterizam-se, muito
provavelmente, tanto pelo fazer-fazer (votar ou assumir certos
comportamentos), quanto pelo fazer-crer (reconhecer o fazer do político e
do professor).
Muitas das teorias da linguagem explicam estruturas e mecanismos
que recobrem, parcialmente, a questão do fazer persuasivo do enunciador.
Podem ser aqui agrupadas teorias diferentes, que têm porém em comum o
fato de estarem procurando aumentar a fatia da linguagem que cabe,
tradicional- mente, aos estudos lingüísticos, pela recuperação de uma parte
do “caos” da fala e pela consideração de certas condições [página 95] de
uso da língua. Definem todas elas também os fatos pragmáticos, ou seja, de
interação social do homem na e pela linguagem, como fatos de língua ou de
competência, isto é, como fenômenos sistemáticos e não fortuitos e
ocasionais, cujos mecanismos fazem parte das regras que o falante domina
para usar a língua. Não eliminam a oposição entre competência e
performance, cabendo a uma teoria da performance explicar o
comportamento lingüístico real, sujeito a pressões sociais, psicológicas, de
memória e outras.
Entre os estudiosos que reconhecem os fatos pragmáticos como fatos
de língua, encontram-se dois grupos. Para alguns, como Ducrot, por
exemplo, as relações pragmáticas devem ser explicadas por uma teoria
semântica. O autor não concebe uma semântica que não tenha por objetivo
explicar o sentido, ou seja, a significação em situação, e ressalta que certos
enunciados não podem ser descritos, semanticamente, sem a indicação de
seu emprego argumentativo ou sem a intervenção de alguns elementos de
sua enunciação. Outros, como Grice ou Searle, consideram a pragmática
um componente autônomo da gramática da competência, ao lado dos
componentes sintático e semântico. Neste caso, a sintaxe é formal e a
semântica trabalha com as condições de verdade ou satisfação do
enunciado e responde pelas implicações lógicas, que explicam alguns dos
implícitos da linguagem. Sobre esse sentido literal, isolado pela semântica,
constroem-se os demais sentidos, dependentes, então, de fatores
pragmáticos. Compete, assim, à pragmática tratar das implicaturas
conversacionais e da força ilocucional que se associa ao conteúdo
proposicional semântico.
Adotou-se o ponto de vista de Ducrot, de que a gramática da língua
tem dois componentes, o sintático e o semântico, em que cabem também as
regras pragmáticas, pois muitas são as dificuldades encontradas na
separação entre fatos semânticos e pragmáticos, sobretudo se não mais se
definir a semântica pelas condições de verdade ou pelas implicações
lógicas de uma semântica frásica.
Quatro tipos de abordagem dos fatos de enunciação foram
consultados para este trabalho:

a) os textos precursores de Jakobson (sobretudo ‘Les


embrayeurs, les catégories verbales et le verbe russe’ —
1963, p. 176-96) e de Benveniste (principalmente a parte
sobre o homem na língua — 1966, p. 22-276), que
recolocam a questão da enunciação entre as
preocupações lingüísticas;

b) os trabalhos de Ducrot, que desenvolve uma teoria


semântica da enunciação ou semântica intencional, ao
conside- [página 96] ra que os problemas da situação
dos enunciados e os elementos relativos à intenção do
locutor participam do objeto da semântica (Ducrot
distingue, no interior da semântica, dois componentes,
um componente lingüístico e um componente retórico,
fazendo-se a passagem da significação lingüística ao
sentido retórico por meio da enunciação. Para explicar o
sentido, assim concebido, formula três leis do discurso:
a da informatividade — o falante deve dizer ao ouvinte
o que supõe que o ouvinte desconheça —, a da
exaustividade — o locutor deve dar as informações mais
fortes que tiver sobre o tema em questão — e a da lítotes
— o locutor leva o ouvinte a interpretar o enunciado
como dizendo mais do que sua significação literal. Com
esse modelo, o autor desenvolve, sobretudo, o
tratamento dos implícitos da linguagem, pressupostos e
subentendidos, e das estruturas argumentativas, e mostra
que a linguagem, por sua própria natureza, é um
instrumento de argumentação.);

c) A teoria dos atos de linguagem ou pragmática


ilocucional que, a partir de Austin (1970) e desenvolvida
principalmente por Searle (1972), vê a linguagem como
ação, ou melhor, considera como parte do sentido
lingüístico as ações que se realizam quando se diz e pelo
dizer (Austin tratou inicialmente dos performativos —
eu lhe prometo, eu declaro aberta a sessão — em que o
dizer é já um fazer. O exame dos performativos, embora
casos muito específicos de fórmulas quase
estereotipadas, constitui a primeira etapa para o
reconhecimento das ações lingüísticas, pondo em xeque
a tese saussuriana de identificação da atividade
lingüística com a iniciativa individual. As convenções
sociais determinam não apenas o sentido dos
enunciados, mas também o valor dos atos de
enunciação. Austin desenvolveu, em seguida, uma teoria
dos atos de linguagem, em que mostrou que, ao
falarmos, realizamos três atos diferentes: um ato de
locução — atividades de ordem fonética, gramatical e
semântica, independentes da situação do discurso —, um
ato de ilocução — produzido pelo falar — e um ato de
perlocução — decorrente do dizer, como resultado
visado. A ilocução e a perlocução identificam-se a partir
das variáveis situacionais. A atividade lingüística, dessa
forma, não mais se coloca como uma exceção na língua,
sendo os performativos um caso particular e espetacular
de ilocução. Os atos ilocucionais e perlocucionais são
determinados por regras específicas do discurso, como
condições requeridas de sua realização. Graças à teoria
dos atos de [página 97] linguagem, os lingüistas
deixaram de ver a língua como lugar apenas de
representação de significados objetivos, para considerá-
la também como meio convencional de agir no mundo;

d) a pragmática conversacional, que elabora máximas


conversacionais, como regras gerais de direção do
comportamento lingüístico e de formulação das relações
vigentes entre locutor e ouvinte. (Grice (1982)
estabelece um princípio geral de cooperação e quatro
máximas: da quantidade — faça sua contribuição tão
informativa quanto requerida e possível —, da qualidade
— procure dar uma contribuição que seja verdadeira ou
sincera —, da relação — seja relevante — e do modo —
seja claro, nítido, não ambíguo, breve, ordenado.)
O aproveitamento das contribuições variadas de teorias lingüísticas
que levam em conta a enunciação e as relações entre enunciador e
enunciatário faz-se, neste trabalho, no quadro da sintaxe discursiva,
buscando, por meio delas, descrever e explicar melhor o fazer persuasivo
do enunciador e o fazer interpretativo do enunciatário. Mostra-se, apenas,
como essas propostas se integram na sintaxe discursiva, tal qual a semiótica
a concebeu, sem se desenvolverem as muitas possibilidades que tais teorias
oferecem, pois, para tanto, seria necessário rever e discutir longamente as
várias pragmáticas. Um trabalho que gostaríamos, ou gostaremos, de fazer,
mas, de toda forma, um outro trabalho.
A pragmática tem como objeto de estudo as relações sociais do
homem na e pela linguagem, ou melhor, as relações que se estabelecem
entre enunciador e enunciatário. As teorias pragmáticas mencionadas
procuram explicar aspectos diversos dessa interação. Por isso mesmo,
complementam-se, em lugar de se excluírem, e cada qual, sozinha, não é
capaz de responder à questão colocada. Usa-se, neste trabalho, o rótulo de
teoria da argumentação para aproximá-las e envolvê-las no quadro de
análise semiótica da sintaxe do discurso. Uma teoria da argumentação,
assim concebida, deve ocupar-se dos diversos aspectos do discurso
relacionados à intenção do enunciador, aos efeitos a que este visa, ao
produzir seu discurso, e à manipulação que pretende exercer sobre seu
enunciatário.
É preciso fazer, de antemão, um reparo ao fato de as teorias
pragmáticas se preocuparem, em geral, com as marcas, numa dada língua,
das estruturas argumentativas, e não com a determinação dessas estruturas.
A semiótica, ao pretender, no percurso gerativo, fazer abstração da
manifestação, interessa-se antes por estabelecer os recursos e mecanismos
ge- [página 98] rais de argumentação, por meio dos quais o enunciador
persuade o enunciatário.
Partindo das propostas teóricas apresentadas, podem-se extrair três
dos principais procedimentos utilizados pelo enunciador para influenciar,
de alguma forma, o enunciatário: o recurso de implicitar ou de explicitar
conteúdos; a prática de certos atos lingüísticos (ilocucionais), para atingir
determinados fins (perlocucionais); a argumentação, em sentido restrito, já
que os dois primeiros são também recursos argumentativos lato sensu.
Embora os três tipos de procedimentos não se apresentem isolados e sim
confundidos no fazer persuasivo do enunciador, serão examinados
separadamente, por razões apenas de clareza de exposição.
Ao enunciador é oferecida a possibilidade lingüística de jogar com
conteúdos implícitos ou explícitos, para fazer passar os valores e deles
convencer o enunciatário. Há diferentes modos de implicitar conteúdos.
Ducrot (1969, 1977), em seus primeiros trabalhos sobre o assunto,
distingue dois grandes grupos, o dos pressupostos e o dos subentendidos.
Posteriormente, reviu essa posição, conforme será mostrado adiante.
Veja-se, em primeiro lugar, e com grandes traços, a pressuposição.
Existe um grande número de trabalhos a respeito, entre lingüistas e
sobretudo entre filósofos da linguagem, especialmente na filosofia analítica
inglesa, a que se remetem os interessados.
Concebe-se a noção de pressuposição, segundo Ducrot (1977, p. 34),
de duas formas distintas. De um lado, estão os que vêem os pressupostos
como condições de emprego, lógico ou não. No outro, agrupam-se os que,
com Ducrot, consideram os pressupostos como elementos de conteúdo,
como parte integrante do sentido. Define-se, nessa acepção, pressuposição
“como um ato de fala particular, do mesmo modo que a afirmação, a
interrogação ou a ordem” (DUCROT, 1977, p. 77).

“O que reteríamos então da filosofia analítica inglesa seria


sobretudo uma concepção de conjunto, a idéia de que a língua
constitui algo assim como um gênero teatral particular, que
oferece ao sujeito falante um certo número de empregos
institucionais estereotipados (ordenar, afirmar, prometer,...
etc.), mas, em lugar de considerar os pressupostos como
condições a preencher para que esses papéis possam ser
representados, gostaríamos de fazer da pressuposição em si
mesma um papel — talvez o mais permanente — na grande
comédia da fala” (DUCROT, 1977, p. 59-60).

Em “João continua gordo”, os adeptos da noção de pressuposição


como condição de emprego dizem que “João era [página 99] gordo antes” é
condição de verdade (emprego lógico) ou condição para que o enunciado
atinja o fim pretendido, para que a afirmação “João é gordo” se realize e a
informação passe. Já Ducrot julga que dois atos de linguagem foram
efetuados: o de afirmar a gordura atual de João e o de pressupor sua
gordura anterior, O autor utiliza, para explicar a pressuposição, a teoria dos
atos de fala, desenvolvida pelos filósofos de Oxford, ao mesmo tempo que
se coloca contra a concepção de pressuposição, a seu ver restritiva, por eles
adotada.
Descrever a pressuposição como um ato de fala equivale a introduzir
o implícito entre o enunciador e o enunciatário, como “um dos tipos de
relações humanas, cuja possibilidade está inscrita na língua (da mesma
forma que a ordem, a promessa, ... etc.)” (DUCROT, 1977, p. 59).
Enquanto ato, a pressuposição modifica a fala do interlocutor. Não se trata
de influir nas crenças, desejos e interesses do enunciatário, mas de alterar
seu direito de falar. A escolha dos pressupostos limita a liberdade do
destinatário, porque a sua conservação é uma das leis definidoras do
discurso. Se o destinatário quer prosseguir o discurso iniciado, precisa
tomar os pressupostos como quadro de referência de sua própria fala. O ato
de pressupor um conteúdo consiste em situá-lo como já conhecido do
enunciatário e em apresentá-lo como fundo comum, no interior do qual o
discurso deve prosseguir. O pressuposto, além disso, não é objeto de
discussão, pois não se coloca como assunto do discurso que vem a seguir.
Opõem-se, por tais critérios, conteúdos postos e conteúdos pressupostos,
que, juntos, satisfazem às condições de progresso e de coerência do
discurso. O conteúdo pressuposto garante-lhe a coerência, assegura-lhe a
necessária redundância, enquanto o progresso discursivo se faz no nível do
conteúdo posto.
Resumindo as considerações feitas, vê-se que, ao pressupor um
conteúdo, o enunciador determina sua aceitação como condição de
manutenção do “diálogo”, atingindo, portanto, o direito de fala do
enunciatário e estabelecendo os limites do que pode ou não ser dito para
que o discurso continue. Se o enunciatário recusa o pressuposto, o discurso
não pode prosseguir e cria-se uma situação polêmica. Está sendo colocado
em dúvida, com a recusa, o direito do enunciador de organizar o seu
discurso da forma que melhor lhe convém, direito esse que faz parte das
regulamentações lingüísticas da interação social. Pode-se discutir, negar,
não aceitar o posto, o conteúdo explicitado, nunca o pressuposto, pois isso
equivale a desqualificar o enunciador e a impedir o prosseguimento do
discurso. A pressuposição, no dizer de Ducrot, aprisiona o [página 100]
enunciatário num universo intelectual que ele não escolheu e que, ainda
assim, não pode negar ou dele duvidar, sem recusar, ao mesmo tempo, todo
o discurso. O pressuposto é apresentado “como comum aos dois
personagens do diálogo, como objeto de uma cumplicidade fundamental
que liga entre si os participantes do ato de comunicação” (DUCROT, 1969,
p. 36). Quando os jornais dizem que “os paulistanos ainda preferem Telê”,
é possível não aceitar o posto e retrucar que a pesquisa foi mal feita e que
os paulistanos preferem agora Mineli. Se, porém, for negado o pressuposto
de que, antes das derrotas na Copa, os paulistanos queriam Telê, o discurso
não poderá prosseguir, pois estarão sendo discutidos o direito do
enunciador de organizar o seu próprio discurso e suas qualificações para a
tarefa.
A pressuposição tem, muitas vezes, emprego retórico. O enunciador
pode colocar como conteúdo pressuposto, por definição constituído de
crenças e conhecimentos presumidos comuns ao enunciador e ao
enunciatário, certas informações que ele sabe não serem compartilhadas
com o enunciatário. Evita dizê-las diretamente, para não caracterizar
intrusão, indiscrição ou mesmo injúria, mas as faz passar de qualquer
forma. Age assim a Mariazinha quando diz à amiga, enamorada de Pedro:
“Ontem, encontrei-me com Pedro, mulher e filha, no cinema”. A
informação nova, o conteúdo posto, é a de que ela se encontrou com Pedro
e família, de que isso aconteceu ontem e no cinema. Um dos pressupostos,
que deveria ser, assim, comum às duas é o fato de Pedro ter mulher e filha.
Sabendo, de antemão, que a amiga ignorava ser o namorado casado e pai de
família, Mariazinha, mesmo assim, forneceu-lhe a informação como algo já
conhecido, já pressuposto. Deixou, portanto, de ser considerada “faladeira”
ou de envergonhar a amiga que pôde fazer como se, realmente, soubesse do
caso e não se importasse. Antes passar por “destruidora de lares” que por
“idiota enganada”.
Recurso de grande eficácia, o emprego retórico da pressuposição não
é, porém, seu único uso persuasivo-argumentativo. Todo ato de pressupor
implica presumir e, de alguma forma, impor a adesão do enunciatário. Na
definição de Ducrot, o ato de pressupor mostra-se, claramente, como uma
tática argumentativa. O enunciador obriga o enunciatário a admitir o
conteúdo pressuposto, sem o que o discurso não prossegue, e não lhe dá o
direito de discutir, de argumentar enfim, a partir de tal conteúdo.
Foi dito aqui que, num primeiro momento, Ducrot opunha
pressupostos a subentendidos, dois tipos de implícitos. Essa distinção liga-
se a proposta, já mencionada, de reconhe- [página 101] cer dois
componentes semânticos, um lingüístico e outro retórico. No componente
lingüístico, o semanticista explica a frase, entidade abstrata, e assinala sua
significação, independentemente de qualquer determinação contextual; no
componente retórico, preocupa-se com o enunciado, entidade concreta, e
com seu sentido efetivo numa dada situação. A enunciação encarrega-se de
transformar a frase em enunciado. Nesse quadro teórico, os pressupostos (e
todos os atos ilocucionais) ligam-se apenas à frase, no componente
lingüístico, cabendo ao subentendido a função de “implícito da
enunciação”, no componente retórico. A partir de l976,35 Ducrot revê a
questão, ao reconhecer que há atos ilocucionais, inclusive de
pressuposição, que resultam da intervenção da enunciação. A distinção
entre implícito da frase e implícito da enunciação não garante, portanto, a
oposição encontrada entre pressupostos e subentendidos, que precisa ser
caracterizada de outra forma. O ato de pressupor ocorre tanto no
componente lingüístico quanto no retórico, enquanto o subentendido só
aparece ligado à enunciação e ao componente retórico. Além disso, a noção
de ato de linguagem permite separá-los, pois, se a pressuposição é um ato
ilocucional, o mesmo não acontece com o subentendido.
O subentendido é uma opção de organização do discurso, que se
oferece ao enunciador, e que leva o enunciatário a interpretar o discurso da
forma que o enunciador pretende. Pode-se considerar o subentendido como
efeito de sentido que surge na interpretação e que resulta do
reconhecimento das razões do enunciador em dizer o que disse. Essa
definição de subentendido indica que a pressuposição e demais atos
ilocucionais apresentam-se no componente retórico sob a forma de
subentendidos36. Procurou-se enfatizar o caráter manipulador dos
implícitos, comum ao ato de pressupor e aos procedimentos que envolvem
os subentendidos. Outra característica entre eles partilhada é a
possibilidade de o enunciador escapar da responsabilidade do dizer. No
caso da pressuposição, o enunciador pode sempre atribuir o conteúdo
pressuposto ao “senso comum”, a fatos conhecidos de todos e pelos quais
ninguém responde; no do subentendido, a forma implícita de dizer faz a
responsabilidade recair sobre o enunciatário, podendo o enunciador
afirmar, em qualquer tempo, que não foi ele quem disse, mas o outro quem
assim interpretou. A grande astúcia do subentendido é fazer com que o
enunciatário diga o que o enunciador pretende dizer, mas que, por razões
diversas, em geral de ordem social, não deve dizer.
Para determinar os subentendidos e construir o sentido do discurso,
Ducrot (1977) estabelece leis do discurso, Grice [página 102] (1982), as
implicaturas conversacionais37, que regulamentam a interpretação dos
subentendidos e mostram o caráter social e lingüístico do seu
reconhecimento. Ao responder ao autor, que nos pergunta o que achamos
de seu livro, que a introdução é boa, subentendemos que o livro não nos
agradou, pois deixamos de cumprir a lei da exaustividade de Ducrot,
segundo a qual o locutor deve dar as informações mais fortes que tiver
sobre o tema em questão, ou a máxima da quantidade de Grice: “Faça com
que sua contribuição seja tão informativa quanto requerido (para o
propósito corrente da conversação)” (1982, p. 87). O conhecimento dessa
“regra de cooperação discursiva” permite ao enunciador subentender, ou
seja, dizer, sem o dizer, que não achou bom o livro, pois sabe que o
enunciatário, também ciente das máximas, assim irá interpretá-lo.
Mais recentemente, Ducrot (1980) retomou o problema da
pressuposição em outra perspectiva, ou melhor, alterando apenas alguns
ângulos da questão. Mantém a definição de pressuposição como ato
ilocucional, mas nega a existência de um ato de pressupor específico,
passando a vê-lo como uma asserção. A diferença entre a asserção “posta”
e a “pressuposta” num discurso está no fato de que, embora realizadas por
um Único locutor, cada ato de afirmar deve ser atribuído a um enunciador
diferente. O enunciador da asserção “posta” confunde-se com o locutor,
enquanto o enunciador da asserção “pressuposta” é a comunidade
lingüística, a voz do povo, em que se misturam locutor e alocutário. Em
“João parou de fumar”, exemplo apresentado, a afirmação de que João
atualmente não fuma cabe ao enunciador-locutor e a de que João fumava
antes, à voz do povo, ao conhecimento de um grupo, ou, ao menos, ao
saber comum aos dois elementos envolvidos na comunicação. A distinção
de Ducrot entre os pares enunciador/enunciatário e locutor/alocutário tem
várias conseqüências na sua teoria semântica e é um dos pontos mais
instigantes de sua exposição. Volta-se ao problema, anteriormente
examinado, das relações entre enunciação e enunciado.
A multiplicidade de vozes sugerida para a definição de pressuposição
faz parte de um projeto mais amplo do autor, sobre a concepção
enunciativa do sentido. Ao considerar o sentido como representação da
enunciação, Ducrot explica que se trata, fundamentalmente, de fazer ouvir
a voz de diversos enunciadores que se dirigem a diversos enunciatários e de
identificar esses papéis ilocucionais com personagens que podem ser, entre
outras, as da enunciação (1980, p. 56). A enunciação projeta-se numa
pluralidade de vozes que realizam diferentes atos ilocucionais. O discurso
é, portanto, essencial- [página 103] mente polifônico. A polifonia faz
reconsiderarem-se as relações entre enunciação e enunciado e, sobre a
questão, observam-se dois fatos, no quadro teórico da análise do discurso.
Em primeiro lugar, as “vozes discursivas” confirmam a concepção de
Ducrot de língua como um instrumento intrinsecamente polêmico e
mostram que, no discurso de um mesmo locutor, se combinam pontos de
vista diferentes. A segunda observação diz respeito à comparação possível
de locutor/alocutário com narrador/narratário. Foi apontado que o narrador
assume a palavra em nome de um enunciador pressuposto. Esse enunciador
caracteriza-se pela polifonia, ou seja, além de desembrear sujeitos
discursivos diferentes, pode ainda atribuir a cada um deles várias vozes,
como procedimentos de persuasão. O narrador, projetado pela enunciação,
realiza, por exemplo, o ato de afirmar e assumir a responsabilidade pela
asserção que faz (o posto), e o ato de afirmar sem ficar como o único
responsável pelo que diz, graças ao recurso de colocar sua afirmação como
um bem comum, pelo menos ao narratário e a ele (pressuposto). Pode ainda
o narrador optar pelos mecanismos do subentendido e, nesse caso, três
vozes estão sendo atribuídas ao discurso: a do narrador que assevera o
conteúdo explícito, a do narratário que, ao interpretar, afirma o conteúdo
subentendido e a do grupo social que garante o pressuposto e o caráter
polêmico do discurso38.
Muito embora os trabalhos conhecidos digam respeito a
procedimentos lingüísticos, acredita-se que quaisquer sistemas de
significação empregam procedimentos para a obtenção de mesmos efeitos
de sentido. Valeria a pena conhecer tais mecanismos e compará-los aos
implícitos da linguagem.
O segundo grupo de procedimentos empregados para a persuasão do
enunciatário é o dos atos ilocucionais, entendidos como práticas para
atingir certos fins perlocucionais. A teoria dos atos de linguagem teve o
mérito, incontestável, de obrigar a ver a linguagem não apenas como
instrumento de dizer o mundo, mas como forma de nele agir. As
conseqüências daí advindas são muitas e aparecem na nova postura da
lingüística, cada vez mais voltada para os fatos pragmáticos.
O ato ilocucional é definido por Ducrot

“como um ato jurídico realizado pela fala ... Uma promessa só


pode [.1 ser descrita como ato ilocucional na medida em que
crie uma obrigação para seu autor, e que essa obrigação
decorra diretamente da fala pronunciada, e não de um efeito
prévio” (1977, p. 88-9).

Afirma ainda que um enunciado tem valor ilocucional quando


comporta a atribuição de uma certa eficiência jurídi- [página 104] ca à sua
enunciação. Todo ato ilocucional apresenta-se, dessa forma, como uma
qualificação do sujeito da enunciação. A determinação da ilocução permite
caracterizar o sujeito da enunciação por seus atos de linguagem, cuja
escolha é bastante marcada do ponto de vista sócio-cultural.
O exame e a explicação dos atos ilocucionais do sujeito da
enunciação e de suas condições de realização, assim como da distribuição
polifônica de tais atos no discurso, são, sem dúvida, condições que a
análise discursiva deve preencher. Acrescente-se ainda que o emprego dos
atos ilocucionais tem por objetivo atingir certos fins e que decorre daí a
inserção da teoria dos atos de linguagem no quadro da manipulação. Nesse
sentido, Searle, embora não desenvolva o estudo da perlocução, define os
atos perlocucionais como as conseqüências, os efeitos que os atos
ilocucionais

“têm sobre as ações, os pensamentos ou as crenças, etc., dos


ouvintes. Se, por exemplo, sustento um argumento, posso
persuadir ou convencer meu interlocutor; se lhe faço uma
advertência, posso atemorizá-lo ou inquietá-lo; se lhe peço
alguma coisa, posso levá-lo a fazer o que solicito; se lhe
forneço uma informação, posso convencê-lo (esclarecê-lo,
inspirá-lo, fazê-lo tomar consciência)” (1972, p. 62).

Osakabe (1979, p. 53) destaca o papel dos atos perlocucionais na


análise discursiva, sobretudo ao caracterizar o comportamento dos
interlocutores no “agenciamento do discurso”, essencialmente pelos
resultados da ação discursiva no ouvinte. Organiza, a partir de Searle, dois
grandes grupos de atos perlocucionais, representados, o primeiro, nos
discursos pragmáticos, pelos verbos persuadir e convencer, o segundo, nos
não-pragmáticos, pelo verbo impressionar. Um terceiro tipo, em geral
ligado aos atos de persuadir e convencer, seria o do ato de informar. Os
demais atos enquadram-se na classificação apresentada. Essas
considerações levam-no à proposta de “determinar os atos ilocucionários de
um discurso somente após a determinação dos atos perlocucionários” (p.
56). Se as promessas, as ameaças, os juramentos qualificam o enunciador
como sujeito operador dos atos de prometer, ameaçar ou jurar, constituem
também recursos que emprega para persuadir, convencer ou impressionar o
enunciatário. Em lugar de afirmar, como Ducrot, que os atos ilocucionais
caracterizam a enunciação, prefere-se, pelas razões apontadas, considerar
neste trabalho que as relações entre ilocução e perlocução definem o
enunciador e o enunciatário e explicam o sentido do discurso. [página 105]
O terceiro e último grupo de procedimentos de persuasão, proposto
neste rápido exame das teorias pragmáticas, é o da argumentação. Duas são
as saídas possíveis para definir a argumentação. Pode-se considerá-la como
um ato ilocucional, entre outros, em geral ligado ao ato perlocucional de
persuadir ou convencer, ou tomá-la como o ato ilocucional por excelência,
realizado pelo enunciador e, dessa forma, uma espécie de sinônimo de fazer
persuasivo ou fazer-crer, que tem por contraparte o fazer interpretativo do
enunciatário. Neste caso, os demais atos ilocucionais, uma promessa ou
uma ameaça, por exemplo, são recursos utilizados na argumentação e
mantêm relação hierárquica com o ato de argumentar. Da mesma forma, os
atos perlocucionais de persuadir ou convencer assumem papel especial
entre as perlocuções, e os vários atos perlocucionais empregam-se como
meios para se atingir a persuasão final — chorar ou informar, por exemplo,
para convencer — ou como tipos de atos de persuadir.
Prefere-se, neste trabalho, a segunda hipótese, ou seja, a de
considerar a argumentação como o ato ilocucional do enunciador39. A
generalização corre, no entanto, o risco de se tornar excessiva e vazia, se
não forem feitas especificações e examinado o espectro de variação da
argumentação. Remete- se sobretudo aos trabalhos de Perelman, de que se
retiraram alguns poucos elementos a serem aqui comentados.
Perelman e Olbrechts-Tyteca (1970), no seu tratado de argumentação
que tem como subtítulo A nova retórica, procuram recuperar a retórica
aristotélica, abafada, segundo os autores, por três séculos de cartesianismo.
Definem uma teoria da argumentação como o “estudo das técnicas
discursivas que permitem provocar ou aumentar a adesão dos espíritos às
teses apresentadas à sua aprovação” (1970, p. 5). Para melhor localizar a
questão, distinguem a demonstração, que se liga à experiência e à dedução
lógica e utiliza provas analíticas, da argumentação, que emprega provas
dialéticas e diz respeito ao verossímil, ao plausível, ao provável, escapando
das certezas do cálculo lógico40. Os autores do tratado, mesmo
reconhecendo a oposição entre demonstração e argumentação, enfatizam,
no decorrer do texto, que, desde que se leve em conta a adesão dos
espíritos, isto é, que se passe do ponto de vista formal ao ponto de vista
argumentativo, a demonstração se torna um procedimento de
argumentação.
“É assim que Werthermer mostrou, por meio de experiências
interessantes, que a compreensão de certas demonstrações
matemáticas difere segundo a maneira pela qual se apresenta a
figura que as ilustra. As variantes não [página 106] são mais
equivalentes, nesse caso, porque houve um distanciamento das
condições puramente formais da demonstração, para passar-se
ao exame da força persuasiva das provas” (p. 649-50).

Importa esclarecer também que Perelman e Olbrechts-Tyteca (1970,


p. 11) mostram os meios discursivos de se obter a adesão dos espíritos,
restringindo-se às técnicas utilizadas pela linguagem para persuadir ou
convencer e descartando, por exemplo, as provas extratécnicas de
Aristóteles.
A teoria da argumentação, desenvolvida no tratado citado como uma
nova retórica, gira em torno da concepção social da linguagem,
“instrumento de comunicação e de ação sobre o outro” (p. 680). Os autores
consideram insustentáveis o realismo e o nominalismo lingüístico, que
vêem a linguagem como reflexo do real ou como criação arbitrária de um
indivíduo e se esquecem de seu aspecto social. Nesse quadro, nada mais
justo que conservem da retórica antiga e desenvolvam como fundamental a
uma teoria da argumentação a idéia de auditório, ou melhor, de que todo
discurso é dirigido a um auditório, entendido não apenas no sentido restrito
de “público do orador, reunido na praça”, mas principalmente na
concepção alargada de enunciatário41 de qualquer tipo de discurso, em
qualquer situação. A mudança de auditório leva à alteração de certos
elementos da argumentação, pois os mecanismos de argumentação
dependem, em primeiro lugar, da relação entre o argumentador e seu
“público”.
Com a noção de auditório, Perelman e Olbrechts-Tyteca instalam
também a de contrato, em concepção bastante próxima à de contrato
fiduciário, já mencionado.

“Quando se trata de argumentar, de influenciar por meio do


discurso a intensidade de adesão de um auditório a certas teses,
não é mais possível negligenciar completamente,
considerando-as irrelevantes, as condições psíquicas e sociais
sem as quais a argumentação não teria objetivo ou efeito. Toda
argumentação visa a adesão dos espíritos, e, por isso mesmo,
supõe a existência de um contrato intelectual” (p 18).

São condições prévias da argumentação e caracterizam o “contato


dos espíritos”: a língua comum a enunciador e enunciatário, o fato de
manterem relações sociais, o desejo do enunciador de entrar em
comunicação e, em resposta, a atenção e o interesse do enunciatário. Grice,
no texto já citado, agrupa essas condições no seu “princípio de
cooperação”.
As condições da argumentação dizem respeito à competência do
sujeito da enunciação, desdobrado em enunciador e enunciatário. A
argumentação caracteriza-se, essencialmente, [página 107] pela assunção
do discurso por uma instância enunciadora. As diferentes formas de
argumentar resultam, por conseguinte, da interação entre sujeito da
enunciação e discurso e entre enunciador e enunciatário, ou seja, de todos
os mecanismos descritos na sintaxe discursiva.

“Essa interação entre orador e discurso seria mesmo a


característica da argumentação, em oposição à demonstração.
No caso da dedução formal, o papel do orador é reduzido ao
mínimo; ele aumenta à medida que a linguagem utilizada se
afasta da univocidade, à medida que o contexto, as intenções e
os fins ganham importância” (p. 426).

O papel principal atribuído às relações entre enunciação e discurso e


entre enunciador e enunciatário, na teoria da argumentação, leva Perelman
e Olbrechts-Tyteca a rechaçarem certas posições extremadas na forma de
considerar a argumentação, fundadas em oposições filosóficas,
tradicionalmente aceitas.

“Quanto a nós, pensamos que uma teoria da argumentação não


deve nem procurar um método conforme à natureza das coisas,
nem encarar o discurso como uma obra que encontre nela
mesma sua estrutura. Tanto uma concepção como a outra,
complementares, separam fundo e forma, esquecem que a
argumentação é um todo, destinado a um auditório
determinado” (p. 672).

“Combatemos as oposições filosóficas, categóricas e


irredutíveis, que os absolutismos de toda espécie nos
apresentam: dualismos da razão e da imaginação, da ciência e
da opinião, da evidência irrecusável e da vontade enganadora,
da objetividade universalmente admitida e da subjetividade
incomunicável, da realidade que se impõe a todos e dos
valores puramente individuais” (p. 676).

Justificam-se as citações por situarem bem o quadro de uma teoria da


argumentação passível de ser retomada no seio de uma sintaxe discursiva.
Em lugar das “oposições filosóficas” acima arroladas e bastante
difundidas, Perelman e Olbrechts-Tyteca propõem a distinção de dois tipos
de auditórios, o auditório particular e o auditório universal, e, portanto, de
mecanismos diferentes de argumentação, de que resultam, também, efeitos
de sentido diversificados, O auditório universal é “constituído pela
humanidade toda ou ao menos por todos os homens adultos e normais” (p.
39); o auditório particular é formado apenas pelo interlocutor ao qual o
locutor se dirige ou, em última instân- [página 108] cia, pelo próprio sujeito
desdobrado em enunciador e enunciatário. A universalidade e a
particularidade do auditório não são fatos experimentalmente provados,
mas representações ou construções do sujeito da enunciação. Cada cultura,
cada classe social, cada indivíduo tem sua própria concepção de auditório
universal e particular e, a partir dela, faz variar a argumentação. A
argumentação dirigida a um auditório universal procura convencer o
enunciatário da evidência das razões apresentadas e de sua independência
de contingências locais ou históricas. A retórica mais eficaz é aquela que
emprega apenas provas lógicas (demonstração), embora não se possa
esquecer que, no curso da história, variam as concepções de real, de
verdadeiro, de válido e de evidência. A argumentação apresentada a um
auditório particular procura persuadir o ouvinte a realizar uma ação
imediata ou futura, desenrolando-se essencialmente no plano prático. A
distinção de convencer e persuadir depende, portanto, do auditório
representado pela enunciação e liga-se aos dois tipos de manipulação
descritos, a cognitiva e a pragmática. Convencer é /fazer-crer/ e persuadir é
/fazer-fazer/. Essa separação, conforme foi mostrado, não se faz com
rigidez, pois /fazer-crer/ é condição da ação pretendida, posição
compartilhada com os autores do tratado.

“A finalidade de toda argumentação, como dissemos, é


provocar ou aumentar a adesão dos espíritos às teses
apresentadas à sua aprovação: uma argumentação eficaz é a
que consegue aumentar a intensidade de adesão de modo a
provocar nos ouvintes a ação pretendida (ação positiva ou
abstenção), ou ao menos a criar, neles, uma disposição para a
ação, que se manifestará no momento oportuno” (p. 59).

Entende-se, a partir das observações feitas, que a argumentação


depende de acordos entre enunciador e enunciatário, colocados como
condições da eficácia do fazer argumentativo. Na nova retórica tais
contratos são especificados como acordos sobre as premissas da
argumentação e divididos em acordos com o auditório universal, sobre
fatos, verdades e presunções, e acordos com o auditório particular, sobre
valores. Concebem-se de modo relativo os fatos e as verdades, definidos
pela adesão do auditório universal. A semiótica, também convencida do
caráter relativo da verdade, engloba “fatos”, “verdades”, “presunções” e
“valores” como valores, e distingue, por critérios sintáticos e semânticos,
tipos de valores.
Pretendeu-se, com essa exposição, ressaltar sobretudo as
convergências entre teoria da argumentação e semiótica. [página 109]
Ambas deslocam para a relação entre enunciador e enunciatário, para a
interação sócio-historicamente definida, a determinação dos valores e
enfatizam a relatividade discursiva do real e do verdadeiro. Para ambas,
também, o estabelecimento de acordos sobre os sistemas de valores é
condição para o exercício da argumentação e determina critérios de seleção
e de apresentação dos dados e, ainda, as formas de manipulação. Perelman
e Olbrechts-Tyteca estabelecem, exaustivamente, esquemas de argumentos,
embora enfatizem o caráter arbitrário desse estudo, já que a argumentação
se caracteriza pela interação constante e sobre vários planos dos elementos
esquematizados. A superposição ou combinação dos argumentos leva em
conta a sua força argumentativa, que, uma vez mais, depende dos
auditórios e da finalidade da argumentação.
Os esquemas argumentativos propostos mostram a riqueza e a
variação dos procedimentos de argumentação, assim como o interesse em
se reverem certas “figuras da linguagem”, a analogia ou a metáfora, por
exemplo, do ponto de vista da busca da adesão. Conclui-se, também, que
todas as opções feitas pela enunciação na produção do discurso são
argumentativas. Por isso mesmo, gostaríamos de propor outras formas de
organização dos procedimentos argumentativos, nos vários níveis do
percurso gerativo, distinguindo melhor mecanismos e efeitos, assim como o
alcance de cada recurso. Neste trabalho serão apenas esboçadas, em
grandes linhas, algumas das possibilidades.
Nessa revisão superficial, distinguem-se, em primeiro lugar, no nível
discursivo, recursos propriamente sintáticos de procedimentos mais
especificamente semânticos. Prefere- se reservar o termo argumentação
para os meios sintáticos. A semântica discursiva, ao investir
figurativamente os conteúdos, cria efeitos de realidade que ajudam a
persuadir e a convencer, mas são os mecanismos sintáticos do discurso que
promovem a relação entre enunciador e enunciatário. No texto de
reportagem já utilizado como exemplo, sobre a morte misteriosa de três
sargentos, empregam-se os dois tipos de procedimentos:
“‘Tudo é inexplicável’, diz Neusa Muller de Souza, 24 anos, de
Passo Fundo, a 290 quilômetros de Porto Alegre, viúva do sargento Luiz
Élvio” (Veja, 14 jan. 87, p. 32).
Os dados a respeito da mulher — nome próprio, idade, lugar de
moradia, localização precisa da cidade e relação com o morto — produzem,
pela ancoragem de ator e de espaço, a ilusão de realidade necessária para a
fabricação de efeitos de [página 110] verdade. Esses recursos diferenciam-
se, porém, dos procedimentos sintáticos de delegação de voz, por exemplo.
É a mulher quem fala, mas para nada dizer de novo, do ponto de vista da
informação. Sua fala funciona como um argumento em favor do “mistério”
da morte dos sargentos, direção seguida no texto, já que a família deveria
conhecer as causas da morte de um de seus membros.
Em segundo lugar, opõem-se recursos discursivos a recursos
narrativos. Muitos dos esquemas argumentativos apresentados no tratado
explicam-se narrativamente. Basta pensar-se no argumento de autoridade,
que utiliza atos e opiniões de uma pessoa ou de um grupo como prova em
favor de uma tese. Seu alcance dependerá do prestígio da autoridade
invocada (PERELMAN & OLBRECHTS-TYTECA, 1970, p. 410-1). Pode
ser ilustrado com as citações dos discursos científicos — “Escrevendo entre
1973 e 74, Roland Barthes estabelece uma distinção entre ‘nouveau’ e
‘neuf’ (entre novo e recém-feito, recente) expressiva para a pós-
modernidade, embora não pensasse nela” (Coelho, 1986, p. 171) — ou com
as constantes remissões no discurso jornalístico —“ ‘Isso está gerando um
novo tipo de criminalidade’, afirma o advogado carioca Marcelo
Cerqueira” (reportagem sobre estupro, Veja, 14 jan. 87, p. 33).
O argumento de autoridade, formulado em termos actanciais na
sintaxe narrativa, deve ser considerado como a convocação de auxiliares do
sujeito ou do anti-sujeito — adjuvantes ou oponentes — para que cumpram
programas narrativos de uso: atribuam competência ao sujeito ou realizem,
em seu lugar, fazeres necessários ao programa de base. Roland Barthes é o
adjuvante que dota o sujeito de competência (poder e saber-fazer) para
explicar o pós-moderno. O advogado, citado na reportagem como
autoridade em criminalidade, realiza programa de uso, tendo em vista o
programa de base do enunciador do texto, o de mostrar a necessidade de
mudança na legislação.
Nos discursos “argumentativos” — discursos científicos, políticos,
entre outros — muito do que sempre se considerou como argumentação
deve, assim, ser revisto em termos de estruturação narrativa de programas
narrativos de busca ou de construção do saber ou de procura de adesão e de
confiança. A organização narrativa dos discursos argumentativos é, dessa
forma, reconhecida. A separação dos discursos, em argumentativos e
narrativos, não pode mais ser efetuada a partir do critério de existência ou
não de narratividade subjacente e desloca-se para a instância da semântica
discursiva, [página 111] onde se diferenciam discursos temáticos e
discursos figurativos. A analise de Greimas (1983) de um prefácio de
Dumezil oferece um bom exemplo da posição semiótica frente à
argumentação.
A exposição sobre a argumentação apresentou problemas e caminhos
mais do que propriamente soluções. Nela, colocou-se como questão
fundamental a dos acordos entre enunciador e enunciatário sobre os
valores. Ducrot (1973) define a argumentação como a tentativa do locutor
de levar o interlocutor a transformar suas opiniões, graças a princípios que
reconhece. A teoria da argumentação assenta-se sobre a idéia de
reconhecimento. Retoma-se a questão da interpretação, caracterizada pela
comparação do novo e desconhecido ao já sabido ou acreditado. A
adequação cognitiva não se confunde com a adequação à realidade
referencial. Na argumentação, cotejam-se os valores e os procedimentos
sintáticos utilizados pelo enunciatário, determinados por sua inserção na
sociedade e na história.
A sintaxe discursiva, em resumo, explica as relações entre
enunciação e enunciado — modalização virtualizante do sujeito do
enunciado, delegação do saber, relações entre actantes e atores discursivos
e actantes narrativos, instauração do tempo e do espaço do discurso e entre
enunciador e enunciatário — implicitação de conteúdos, realização de atos
de linguagem, procedimentos argumentativos — como recursos discursivos
para comunicar valores e convencer e persuadir o enunciatário.
Para examinar a sintaxe discursiva, recorreu-se a várias teorias
pragmáticas e procurou-se retomar seus princípios e métodos na abordagem
da instância discursiva. Tais teorias reconhecem os conflitos entre sujeitos,
desde que inscritos na língua, ou seja, marcados na própria estrutura do
enunciado. Essa concepção dos fatos pragmáticos não é suficiente para
explicar satisfatoriamente a organização argumentativa do discurso, mas,
colocadas no seu devido lugar, o de análise das estruturas especificamente
lingüísticas no nível textual, as contribuições da pragmática mudam os
objetivos dos estudos lingüísticos e, na perspectiva semiótica, completam,
com o exame das estruturas textuais, a análise do texto empreendida. Além
disso, e essa foi a direção que este trabalho procurou indicar, os estudos
pragmáticos de superfície apontam para organizações argumentativas
imanentes, no nível discursivo, e oferecem pistas para sua explicação. No
dizer de Ducrot [página 112]

“a lingüística ajudar (a compreender um discurso), na medida em que


dá às palavras, as frases então, significações que obrigam, para se
deixarem transformar em sentido, a reconstruir os debates de que o
discurso e o lugar” (DUCROT, 1980, p. 56),
SEMÂNTICA DISCURSIVA

A semântica discursiva descreve e explica a conversão dos percursos


narrativos em percursos temáticos e seu posterior revestimento figurativo.
A disseminação discursiva dos temas e a figurativização são tarefas do
sujeito da enunciação, que assim provê seu discurso de coerência semântica
e cria efeitos de realidade, garantindo a relação entre mundo e discurso.

Elementos de semântica estrutural

É preciso retomar alguns elementos de semântica estrutural, apenas


os julgados imprescindíveis para a explicação da tematização e da
figurativização, assim como da noção de isotopia.
Distinguem-se, na organização do semema42, unidade de
manifestação do plano de conteúdo, dois tipos de categorias semânticas,
definidas pela projeção, sobre elas, da categoria metassêmica articulada em
/exteroceptividade/ vs. /interoceptividade/43. Os semas interoceptivos
denominam-se classemas e os exteroceptivos, semas propriamente ditos.
Dessa articulação dos semas decorrem as duas dimensões fundamentais da
linguagem: a dimensão abstrata, dos classe- mas, e a figurativa, dos semas.
As duas dimensões mantêm, por definição, relação de natureza diferente
com o mundo natural44. A relação entre a linguagem e o mundo, entendido
como realidade-significante, explica-se como uma rede de correlações entre
duas semióticas, a semiótica das línguas naturais e a semiótica do mundo
natural (GREIMAS, 1970, p. 52). O mundo natural é responsável, nas
línguas naturais, pela dimensão figurativa, ou seja, as unidades elementares
da forma da expressão do mundo natural constituem parte da forma do
conteúdo das línguas naturais. As figuras sensoriais visuais, auditivas,
táteis, da expressão do mundo, como as categorias /quente vs. frio/,
/horizontal vs. vertical/, /doce vs. azedo/, tornam-se semas exteroceptivos
nas línguas naturais. Já a dimensão abstrata da língua responde pela
organização [página 113] abstrata da realidade significante. Inverte-se a
direção da seta na relação entre língua e mundo.
O semema reúne as duas dimensões fundamentais da linguagem. Os
semas, organizados hierarquicamente, constituem o núcleo sêmico ou a
figura nuclear do semema e os classemas, sua base classemática. O núcleo
sêmico marca “sensorialmente” sua relação com o mundo natural e
apresenta-se como a porção invariante do semema, como um mínimo
sêmico permanente. O núcleo sêmico de pé contém, por exemplo, os semas
/extremidade/ e /inferioridade/. Os classemas, que se combinam em bases
classemáticas, cumprem duas funções. A primeira é a função
classificatória; pois as categorias classemáticas formam uma rede capaz de
organizar as figuras nucleares e os sememas em classes de /animados/,
/humanos/ e outras. A segunda função diz respeito ao papel que o classema
assume, no interior do semema, de denominador comum a toda uma classe
de contextos. Os classemas são, portanto, semas contextuais e asseguram a
coesão sintagmática do discurso, estabelecendo compatibilidades e
incompatibilidades entre figuras sêmicas. A concordância sêmica garantida
pelos classemas foi denominada isotopia classemática.
Para encerrar essa rápida incursão na semântica estrutural, resta
ressaltar que o semema, assim definido, depende essencialmente do
contexto e não pode ser determinado de uma vez por todas. O lexema,
unidade de expressão e de conteúdo que manifesta o semema, caracteriza-
se por sua relação com muitos sememas, que mantêm entre si algum tipo de
ligação e que determinam, quando da realização do lexema, percursos
semêmicos diversos, segundo os contextos. Tem-se então a polissememia
(e não a polissemia). Um lexema como língua, por exemplo, define-se por
diferentes percursos semêmicos em contextos variados como “Comi língua
ensopada no jantar”, “Joana fala várias línguas”, “A língua portuguesa tem
sua origem na língua latina”, “Ela tem uma língua que dá medo” e assim
por diante. O lexema é uma unidade de significação virtual que, em
contexto, assume um ou mais sememas. Resta acrescentar que a variação
semêmica no interior das unidades lexemáticas não se deve apenas aos
classemas. Também os semas nucleares, excetuado o mínimo invariante nu
semema, alteram-se contextualmente.
A semântica discursiva recupera a oposição entre as duas dimensões
da linguagem, conciliadas mas não identificadas no semema, e, também, o
caráter contextual do semema e suas relações com o lexema, sob a forma
de percursos. [página 114]

Tematização e figurativização

Examinaram-se na semântica narrativa (ver esse item) os valores


assumidos por um sujeito que, graças a essa junção, se define como sujeito
existente, passional, e como sujeito competente. Os valores disseminam-se,
sob a forma de temas, em percursos temáticos e recebem investimento
figurativo, no nível discursivo. O tratamento dos temas é garantia de
manutenção semântica, na passagem do narrativo ao discursivo, cabendo à
figurativização o acréscimo de sentido previsto na conversão. As estruturas
discursivas são, ao mesmo tempo, mais específicas e mais complexas e
“enriquecidas” que as estruturas narrativas e fundamentais.
nível das estruturas + + complexo
discursivas específico (+ “rico”)

nível das estruturas


narrativas

+ geral + simples
nível das estruturas (noção de extenção (noção de intenção,
fundamentais lógica) na lógica

Temas e figuras, relacionados, repetem, no nível do discurso, a


conciliação e a diferenciação das duas dimensões da linguagem, a abstrata
e a figurativa, tal como se viu ocorrer no semema.
Tematização é a formulação abstrata dos valores, na instância
discursiva, e sua disseminação em percursos. Ê possível, a partir de um
mesmo valor, obter-se mais de um percurso temático. O objeto-valor do
/poder-fazer/ e do /poder-ser/ da dominação ocorre, por exemplo, no poema
infantil A galinha, de Chico Buarque, sob a forma de tema sócio-
econômico (relação patrão-operário), sexual (relação homem-mulher) e
político (relação entre estado e subversão da ordem), entre outros
(BARROS, 1985).
A tematização assegura a conversão da semântica narrativa em
semântica discursiva e poder-se-ia, então, pensar em discursos puramente
temáticos ou não-figurativos, como os discursos científicos. O exercício da
análise textual tem mostrado, porém, que não há discursos não-figurativos
e sim discursos de figuração esparsa, em que assumem relevância as
leituras temáticas. Os discursos literários, denominados figu- [página 115]
rativos, e os científicos, considerados não-figurativos, diferenciam-se, na
verdade, por graus de figurativização, a serem examinados nos
procedimentos de figurativização semântica. Nos discursos temáticos,
feitas as ressalvas acima, encontram-se configurações temáticas que se
comparam com os morfolexemas de Greimas, ou morfemas de Martinet, ou
gramemas de Pottier. Os morfolexemas têm caráter essencial- mente
classemático, isto é, relacionam-se a um tipo particular de semema,
constituído por combinações apenas classemáticas e pertencente só à
dimensão abstrata da língua. Tais sememas formam um sistema segundo
em relação aos demais, assumindo papel metalingüístico, As configurações
temáticas, da mesma forma que os morfolexemas, abrigam apenas
percursos narrativos e temáticos, diferentes, segundo os discursos, e
diversamente interligados. Os discursos temáticos, em que se realizam um
ou mais percursos temáticos de uma configuração, têm por objetivo, em
lugar de “representar o mundo” ou de causar esse efeito, classificar e
organizar a realidade significante, estabelecendo relações e dependências
temáticas. Constituem, portanto, também eles, uma dimensão segunda,
metalingüística, em relação aos discursos figurativos.
Nos discursos temáticos, os actantes recebem o investimento
semântico mínimo, necessário para se tornarem atores. Os elementos da
sintaxe narrativa — ao menos um papel actancial — e da sintaxe discursiva
— resultantes da regulamentação da distância em relação à enunciação —
especificam-se por meio de um ou mais papéis temáticos. O sujeito que
busca o saber na instância narrativa, que é determinado como um ele
enuncivo pela sintaxe discursiva, converte-se em ator, graças ao papel
temático de pesquisador.
A figurativização constitui um novo investimento semântico, pela
instalação de figuras do conteúdo que se acrescentam, “recobrindo-o”, ao
nível abstrato dos temas. O sujeito da enunciação emprega certos
procedimentos para figurativizar o discurso, para investir os temas
discursivos. A narrativa da busca do saber, por exemplo, ocorre com
investimento figurativo esparso, no caso do discurso científico, ou
totalmente recoberta de figuras, na história da procura de um manuscrito
perdido, na da revelação pela palavra divina no trecho bíblico de Moisés e
os Dez Mandamentos ou na da visita à Dona Coruja que dá bons conselhos.
São investimentos figurativos diferentes para a mesma busca narrativa do
saber, em que o objeto-valor /saber/ aparece sob a figura do manuscrito, da
voz e da presença reveladora de Deus ou da fala da coruja. A partir daí,
todo o percurso do sujeito encontra-se figurativiza- [página 116] do: os
processos, já aspectualizados, tornam-se ações de explorar, escrever,
escutar, contar; o sujeito, já marcado como um actante do discurso, eu ou
ele, representa-se pelos atores pesquisador, explorador, povo de Deus,
Moisés, coelho curioso ou criança perdida; o tempo e o espaço,
determinados em relação à enunciação pelos procedimentos de
desembreagem, especificam-se sob a forma de figuras espaciais e
temporais do tipo de nos tempos atuais, na exploração do Tibete em maio e
junho de 1951, no tempo bíblico do Antigo Testamento, na floresta
encantada, no tempo em que os bichos falavam ou no da fantasia do “Era
uma vez... “. Os exemplos mostram níveis diferentes de especificação,
alguns antropônimos, topônimos e cronônimos mais genéricos —
explorador, criança, povo de Deus, floresta, tempo em que os animais
falavam —, outros mais específicos — Moisés, Tibete, maio e junho de
1951.
Denomina-se figuração a instalação pura e simples das figuras
semióticas, ou seja, a passagem do tema à figura, e iconização, seu
revestimento exaustivo com a finalidade de produzir ilusão referencial.
Falar de figuras discursivas é, de qualquer forma, retomar a
discussão da relação entre língua (ou discurso) e realidade. Na rápida
incursão pela semântica estrutural, definiram-se as figuras nucleares pela
exteroceptividade, ou seja, pela conversão de certos elementos da
expressão do mundo natural em traços do conteúdo das línguas naturais. O
procedimento de figurativização discursiva tem a ver com a definição, aí
proposta, de figuras, pois são figuras do conteúdo, determinadas por traços
“sensoriais”, que particularizam e concretizam os discursos abstratos. A
relação intersemiótica — mundo e língua — não deve ser entendida como a
instauração de laços analógicos entre realidade e discurso ou de confusão
entre imagens do mundo e figuras discursivas. O discurso figurativizado
resulta da construção do sentido efetuada pelo sujeito da enunciação,
trabalho esse representado sob a forma do percurso gerativo. O discurso
não é a reprodução do real, mas a criação de efeitos de realidade, pois se
instala, entre mundo e discurso, a mediação da enunciação.
Os trabalhos da chamada semiótica do visual, sobretudo os textos de
Floch e Thürlemann, colocam bastante bem o problema, já que, mais do
que outros, estão às voltas com a divisão, tradicionalmente aceita, entre
pintura abstrata e pintura figurativa, ou com a iconicidade da fotografia —
“cópia-do-real”. Floch (1982a) mostra que o enunciador tenta fazer o
enunciatário achar semelhante ou não ao “mundo real” a pin- [página 117]
tura e a fotografia que produz, isto é, procura fazer-crer no caráter icônico
delas. A questão da relação entre discurso e referente desloca-se para a do
contrato entre enunciador e enunciatário, de tal forma que um produza e o
outro interprete os efeitos de realidade. Mostrou-se já, neste texto, que a
criação de efeitos de sentido de realidade é um trabalho tanto da sintaxe
discursiva (ver item Desembreagem e embreagem actancial e teorias do
foco narrativo) — sobretudo na desembreagem de segundo e de terceiro
graus —, quanto da semântica discursiva, por meio, principalmente, da
figurativização. O enunciador utiliza as figuras do discurso para fazer-crer,
ou seja, para fazer o enunciatário reconhecer “imagens do mundo” e, a
partir daí, a verdade do discurso. O enunciatário, por sua vez, crê-
verdadeiro (ou falso ou mentiroso ou secreto), graças ao reconhecimento de
figuras do mundo natural. O fazer-crer e o crer pressupõem, conforme foi
visto, um contrato fiduciário de veridicção, que regulamenta o
reconhecimento das figuras. Com o acordo de reconhecimento, assume-se a
relatividade cultural da distinção entre figurativo e abstrato nas artes
plásticas e define-se a iconicidade como um efeito de sentido resultante do
contrato de veridicção. Uma pintura será considerada figurativa e uma
fotografia, icônica, quando forem interpretadas como tal, quando o
enunciatário nelas reconhecer “imagens do mundo”, graças ao contrato de
veridicção e a partir dos efeitos de realidade que o enunciador produziu. A
mesma definição aplica-se, em sentido contrário, à abstração.
No quadro da semiótica geral, os dois pontos extremos do
reconhecimento, denominados figurativo e abstrato no campo das artes
plásticas, aplicam-se às diferentes maneiras de figurativizar o discurso. O
investimento figurativo pode ser esporádico e não recobrir totalmente os
percursos temáticos, ou duradouro e espalhar-se pelo discurso todo, que se
organiza em isotopias figurativas. No primeiro caso, encontram-se, entre
outros, os discursos científicos e políticos, em que não se determinam
leituras figurativas completas. Veja- se, por exemplo, o trecho transcrito de
um prefácio de Martinet, com figurativização que não atinge as dimensões
do discurso.

“No entanto o ensino de Saussure só frutificou


verdadeiramente uma vez enxertado noutros rebentos e os
vários movimentos estruturalistas tiveram de eliminar...”
(MARTINET, 1982, p. X — os grifos são nossos).

Reforçam-se, nesses textos, as isotopias temáticas e sobressaem os


efeitos de sentido de enunciação, em detrimento [página 118] dos de
realidade, que, embora não desapareçam totalmente, ficam restritos ao
âmbito da sintaxe discursiva. A verdade discursiva decorre, então, mais das
ilusões enunciativas — presença ou ausência de enunciação, marcas e
efeitos alcançados —‘ que das de realidade.
O segundo tipo de procedimento para tornar os discursos figurativos
caracteriza, entre outros, os textos literários e históricos, em que um ou
mais investimentos figurativos recobrem o discurso inteiro. Esses
discursos, graças aos recursos de figurativização, criam efeitos de realidade
ou de irrealidade e percorrem o caminho que vai da figuração à iconização.
Parecer real ou irreal são ilusões construídas e que dependem de fatores de
contextualização. Os procedimentos de ancoragem histórica — actorial,
temporal e espacial —, comumente utilizados para se obter efeito de
realidade, produzem, em certas situações, a ilusão contrária. No filme A
vida de Brian, quando se diz que no dia 5 de agosto, às três horas da tarde,
Cristo pregou no deserto, o espectador ri do absurdo. Da mesma maneira, a
negação no discurso de seu caráter de reprodução do real, quando tudo se
fez para obter tal efeito, provoca risos nervosos da platéia, na projeção de
Pra frente Brasil. A última cena do filme, após tantas de perseguição,
tortura e morte, é a do estádio de futebol, logo depois da vitória do Brasil
na copa de 70 — a taça erguida, as bandeiras verde-amarelas sacudidas —,
sobre a qual se lê “Este é um filme de ficção”.
Nos textos em que o investimento figurativo goza de certa autonomia
e ocupa as dimensões do discurso, equilibram- se efeitos de sentido de
realidade (ou de irrealidade) e de enunciação, na constituição da verdade
discursiva. A presença (ou a ausência) e a qualificação do enunciador
somam-se à ilusão de referente, de fato ocorrido e experimentado. As
possibilidades de combinação dos dois recursos são muitas e caracterizam
momentos e lugares históricos. A literatura, nos últimos anos, tem
enfatizado, por exemplo, os efeitos de enunciação.
Comparando a composição do semema e a relação entre semema e
lexema com a organização semântica do discurso, podem-se explicar mais
minuciosamente as configurações e os percursos figurativos e destacar o
papel e a importância da figura, para as relações entre texto e contexto.
No semema, há um mínimo sêmico invariante, na figura nuclear, e
variação contextual tanto de traços figurativos, quanto de classemas
“abstratos”, que fazem prever percursos semêmicos, contextualmente
diferentes, para um mesmo le- [página 119] xema. Define-se configuração
discursiva como uma espécie de “lexema do discurso”, que subsume vários
percursos figurativos e temáticos, além dos narrativos, e conta com
algumas figuras invariantes. Os esquemas abaixo mostram melhor a
comparação efetuada.
núcleo sêmico (invariante)
Figura nuclear
variação figurativa sema 1
Lexema sema 2
sema 3
classema 1
Base classemática classema 2
classema 3

figura comum (invariante)

Núcleo figurativo variação percurso figurativo 1


Figurativa percurso figurativo 2
percurso figurativo 3
Configuração
discursiva
percurso temático 1
percursos percurso temático 2
Variação temáticos percurso temático 3
temático-narrativa

percursos percurso narrativo 1


narrativos percurso narrativo 2
percurso narrativo 3

Courtés (1980a) serviu de inspiração para os esquemas, embora não


se tenha retomado totalmente sua organização da configuração discursiva.
A principal diferença está no fato de que Courtés não considera a variação
figurativa, enfatizando apenas as diferentes possibilidades temáticas e
narrativas de uma configuração. Tentou-se, no quadro acima, mostrar
também as mudanças contextuais figurativas, ou seja, ao lado da porção
permanente de figuras que permitem a identificação da configuração,
procurou-se reconhecer percursos figurativos diferentes, segundo o
contexto.
Os motivos da etnoliteratura são bons exemplos de configuração
discursiva ‘. Pode-se ilustrar a questão, muito rapidamente, com o motivo
do dedo furado por objeto pontiagudo, que ocorre, por exemplo, no conto
da Branca de Neve e no da [página 120] Bela Adormecida. Na Branca de
Neve, a mãe da princesa, num dia de inverno, antes de ela nascer, está
bordando e fura o dedo com a agulha. Formula, então, o desejo de ter urna
filha branca como a neve que cai e com os lábios vermelhos como o sangue
de seu dedo. Na Bela Adormecida, a princesa, ao completar quinze anos,
fura o dedo num fuso e, por causa de uma maldição, dorme cem anos, só
sendo acordada pelo beijo de um príncipe apaixonado. O instrumento em
que a princesa se fere, a roca, que fora banido do reino, por causa da
maldição, está sendo utilizado pela fada má, disfarçada de velha, e com seu
barulho atrai a princesinha curiosa. A configuração discursiva em exame
tem figuras que permanecem, nos dois textos, e que permitem identificá-la:
o dedo furado, o objeto de ponta que serve para bordar, costurar ou tecer, a
“ação entre mulheres” — mulher que fura o dedo, mulher que faz uso do
instrumento de trabalho manual. Pode-se perceber, também, por outro lado,
a variação na configuração, seja figurativa, temática ou narrativa. O
esquema proposto mostra uma análise mais minuciosa da variação
contextual no interior da configuração:
Configuração discursiva do “dedo furado”:

texto da imagem:
• Figura de perfuração: instrumento pontiagudo,
ação de perfurar, sujeito perfurador humano, objeto perfurado
— parte do corpo
N Figura comum
Ú ou invariante
C • Traços sensoriais visuais e táteis: da espacialidade (pene-
L tração de espaço interior e preenchimento de espaço pe-
E la trama do bordado ou do tecido), táteis (pontiagudo,
O longo, duro vs. mole)

F
I
G
U
R • espacialidade: espaço aberto e conta-
A to com o exterior
T • cor: contraste vermelho vs. branco
I Percurso figurativo • temporalidade posterior: previsão do
V na Branca de Neve futuro
O
Variação
Figurativa
• espacialidade: espaço fechado e es-
condido
Percurso figurativo som: ruído da roca
na Bela Adormecida • temporalidade anterior: realização de
previsão do passado

[página 121]
texto da imagem:

criação • sacrifício materno de


dar a vida
na Branca • produzir o belo
V de Neve
A • previsão de acontecimentos
R informação ruins
I Percursos
A temáticos
Ç
Ã
O na Bela curiosidade e traição
Adormecida (que levam à morte)
T
E
M
Á
T
I doação de competência e de existência modal e
C na Branca semântica (Destinador vs. Destinatário-sujeito)
O de neve
-
N
A
R Percursos
R narrativos
A
T na bela privação do objeto de valor “vida”
I Adormecida (Sujeito vs. Anti-sujeito)
V
A
Há diferentes percursos figurativos, temáticos e narrativos na
configuração do “dedo furado”. Muito resumidamente, pode-se dizer do
ponto de vista narrativo que, na Branca de Neve, tem-se o percurso do
destinador que dota o destinatário-sujeito de competência — qualidades
que têm importância para o fazer futuro do sujeito — e de existência modal
— instaura o sujeito. A mãe é o destinador, e Branca de Neve, o
destinatário-sujeito. Já na Bela Adormecida, encontra-se o momento da
falta, em que a fada má desapropria (disjunção transitiva) a princesa do
objeto-valor “vida”, graças tanto a seu fazer persuasivo “sonoro”, quanto à
transgressão das regras pela princesa curiosa. A fada má é o anti-sujeito
que, mais tarde, enfrenta o sujeito, o príncipe. O dedo furado concretiza,
nesse discurso, o tema de desapropriação da vida. Assim, enquanto na
Branca de Neve, num dos temas ao menos, mostra- se o nascimento, o
surgimento da vida pela doação do sangue, na Bela Adormecida manifesta-
se a morte ocasionada pelo outro, o crime enfim. Finalmente, a variação
figurativa ocorre, sobretudo, por meio de oposições espaciais — espaço
aberto para o exterior, na Branca de Neve, e fechado, na Bela Adormecida
—, temporais — previsão do futuro, na Branca de Neve, e maldição do
passado, na Bela Adormecida — e de cor e de som — na Branca de Neve,
contrastam e combinam-se o vermelho e o branco, e, na Bela Adormecida,
opõem-se o ruído da roca e o silêncio do sono. [página 122]
A rápida e incompleta análise de uma configuração pretendeu apenas
mostrar como elas se organizam. Ressaltou-se que:

a) na análise de um determinado discurso, encontram-se apenas


os percursos, um ou mais, de uma mesma configuração, que só
se deixa apreender quando se relaciona mais de um discurso
(A configuração, da mesma forma que o lexema, é virtual e se
realiza sob a forma de percursos figurativos.);

b) a figurativização é a camada mais superficial sob a qual se


acham percursos temáticos e narrativos (Cabe, na geração do
sentido, estabelecer a relação entre os vários tipos de
percurso.);

c) percursos figurativos e percursos temáticos mantêm relações


variadas. (No exemplo da Branca de Neve, propuseram-se,
para o mesmo percurso figurativo de “furar o dedo com a
agulha de bordar”, três percursos temáticos, dois claramente
englobados como “criação”, ou seja, dar a vida e produzir o
belo, e um terceiro, de informação antecipada de
acontecimentos ruins. A gota de sangue é vida, é beleza, é
aviso. Já na análise da Bela Adormecida, a relação entre
percurso figurativo e percurso temático é de um para um. Não
se examinou a perspectiva contrária, ou seja, de um mesmo
tema especificar-se em figuras diversas. Comparem-se, por
exemplo, as figurativizações diferentes, para o mesmo
percurso temático de “tirar a vida”, na Branca de Neve e na
Bela Adormecida. Na Branca de Neve, a madrasta faz a
princesa dormir com a maçã envenenada — há uma nítida
leitura figurativa gustativa —, na Bela Adormecida, a fada má
leva a jovem ao sono ao lhe furar o dedo — há figuras,
sobretudo, táteis e sonoras.)

Os exemplos propostos e o reconhecimento da variação fazem


desembocar na questão do papel das figuras na relação entre texto e
contexto. A enunciação, como instância de produção do discurso, foi
examinada através de suas projeções no enunciado e está sendo retomada
como uma espécie de depósito de figuras, a partir de que o sujeito da
enunciação especifica e concretiza os temas abstratos e reveste
semanticamente a narrativa. O depósito forma-se no tempo e no espaço,
historicamente, e o discurso figurativizado, graças a seu dis- [página 123]
positivos de figuras, relacionam-se com o ‘‘extradiscursivo’’ e constitui-se
ideologicamente. As figuras são, por excelência, o lugar do ideológico no
discurso46. Não é ingênua, portanto, nos exemplos vistos, a escolha de
figuras de mulher que borda e que se sacrifica, ligadas ao tema da
maternidade, da beleza e do conhecimento intuitivo, ou a de espaços
abertos e fechados, para concretizar temas de nascimento e morte.

Isotopia

As estruturas discursivas foram explicadas, na última etapa da


geração do sentido, pelas relações do discurso com a enunciação, do ponto
de vista sintático, e pela organização de temas e de figuras, na perspectiva
semântica.
Os temas disseminam-se pelo texto em percursos, as figuras
recobrem os temas. A reiteração discursiva dos temas e a redundância das
figuras, quando ocupam a dimensão total do discurso, denominam-se
isotopia.
O conceito de isotopia, assim como o termo, foi proposto por
Greimas, na Semântica estrutural (1966). As primeiras definições de
isotopia, embora bastante vagas, marcam já, com precisão, a noção de
recorrência, ou seja, de que ao menos duas unidades são precisas para sua
determinação. Duas limitações aparecem nas colocações iniciais: em
primeiro lugar, só se examinam as isotopias classemáticas — a isotopia
resulta da redundância de uma mesma categoria classemática ou da
repetição de um ou de vários classemas — e, em segundo lugar, as
definições encontram-se ainda muito presas às questões de coerência
interfrásica ou mesmo frásica.
Não muito tempo depois, Rastier (1976) retoma algumas das
observações marginais na Semântica estrutural e estabelece a noção de
isotopia figurativa, para explicar a coerência figurativa do discurso.
Os desenvolvimentos da teoria semiótica, sobretudo quanto à
distinção de níveis de análise e à concepção de percurso gerativo, permitem
que o conceito de isotopia seja reinterpretado no quadro de uma teoria geral
do discurso, mais precisamente, do seu componente semântico. Assim
recuperada, a noção de isotopia conserva a idéia de recorrência de
elementos lingüísticos, redundância que assegura a linha sintagmática do
discurso e responde por sua coerência semântica. Distinguem-se dois tipos
de isotopia, segundo as unidades semânticas reiteradas: isotopia temática e
isotopia figurativa. A isotopia classemática, inicialmente proposta,
substitui-se, [página 124] na instância do discurso, pela isotopia temática,
não mais confundida com relações frásicas ou interfrásicas e capaz de
mostrar a organização abstrata do discurso.
A isotopia temática surge da recorrência de unidades semânticas
abstratas em um mesmo percurso temático. Um discurso, por exemplo, em
que se dissemina o valor /saber/, pode ter atores como pesquisador,
informante, informado, ações de pesquisa ou de informação, objetos a
serem pesquisados ou objetos de informação, entre outros, que
desenvolvem um ou mais percursos temáticos, ligados à mesma
configuração, e retomam, a cada passo, o elemento comum temático da
busca do saber. Na leitura ingênua de um texto qualquer, procura- se, em
geral, esse denominador comum, essa homogeneidade obtida mesmo às
custas de perda de especificidade discursiva. Diz-se de um livro que ele
trata de questões de liberdade; de um quadro, que pinta a velhice; de um
poema, que fala do desaparecimento da vida; de uma escultura, que dá
forma ao amor. Só podemos fazer essas generalizações pelo
reconhecimento da isotopia temática.
A isotopia figurativa caracteriza os discursos que se deixam recobrir
totalmente por um ou mais percursos figurativos. A redundância de traços
figurativos, a associação de figuras aparentadas atribui ao discurso uma
imagem organizada e completa de realidade ou cria a ilusão total do irreal,
a que já se fizeram muitas referências. Assegura-se, assim, a coerência
figurativa do discurso.
A coerência semântica do discurso, pelo visto, é função de isotopias
temáticas e figurativas ou de uma isotopia temática, ao menos.
Se a disseminação de temas e a dispersão de figuras em percursos
correspondem à sintagmatização das configurações, a recorrência de traços
abstratos e figurativos propicia abordagens paradigmáticas do sentido do
discurso. Reconhece-se a definição de Jakobson de função poética como
“projeção do princípio de equivalência do eixo da seleção sobre o eixo da
combinação” (1963, p. 220). Os percursos figurativos e temáticos, que se
estendem pelo discurso, não têm sintaxe própria — é a sintaxe narrativa
que os sustenta — e devem, portanto, sua organização, antes de mais nada,
às associações próprias do paradigma.
A análise das linhas isotópicas se faz, em grande parte, com métodos
e técnicas da semântica estrutural, já que se trata de determinar traços
semânticos figurativos e abstratos, de organizá-los e de reconhecer seu
caráter iterativo. Dessa forma, puderam-se opor, no item Tematização e
figurativização, os percursos figurativos da configuração de “furar o dedo”,
[página 125] na Branca de Neve e na Bela Adormecida, a partir essencial-
mente de traços visuais cromáticos, sonoros, espaciais e temporais.
A leitura de um texto implica não só a construção, a partir das
reiterações semânticas, dos percursos e das configurações virtuais, como
também a determinação das relações vigentes entre as várias isotopias. As
relações entre isotopias são denominadas metafóricas ou metonímicas,
conforme sejam ligadas por similaridade ou por contigüidade de conteúdos.
A respeito disso, duas observações precisam ser feitas. Em primeiro lugar,
as relações metafóricas e metonímicas estabelecem-se, na realidade, entre
isotopias figurativas, cada qual pressupondo uma isotopia temática, com
que mantém laços. A metáfora é, por exemplo, a relação de similaridade
entre figuras que recobrem temas. Em segundo lugar, a reformulação da
maneira de abordar as “figuras de retórica” tem várias conseqüências, a
mais importante delas sendo a possibilidade de se tomarem metáfora e
metonímia não mais como figuras de palavras ou de frases, mas como
figuras de discurso. As figuras de palavras ou de frases podem ser, então,
consideradas como conectores de isotopias.
Os conectores de isotopias pertencem, na verdade, a outro nível de
análise, pois são lexemas ou sintagmas da instância de manifestação textual
que abrigam, mesmo realizados em um contexto, vários sememas,
colocados em percursos isotópicos diferentes. Os conectores lêem-se nos
dois planos isotópicos e fazem a passagem de uma isotopia a outra. São,
portanto, um dos recursos práticos de determinação das isotopias
discursivas, muito embora liguem também percursos figurativos parciais,
que não constituem isotopias. Distinguem-se tipos de conectores de
isotopias a partir das relações entre os sememas englobados pelo mesmo
lexema: se têm semas comuns, fala-se em conexão segundo a polissemia;
se não há traços compartilhados, diz-se que a conexão se faz por homoní-
mia.
Os conectores diferem dos desencadeadores de isotopias. Considera-
se que um elemento desencadeia uma isotopia quando não pode ser
integrado a uma dada leitura já reconhecida. Os resíduos de isotopias
obrigam, assim, a propor-se um novo plano isotópico.
Escolheu-se para exemplificar a conexão de isotopias o lexema
discurso no poema de J. C. de Melo Neto ‘Rios sem discurso’ (1975, p.
23). [página 126]

Rios sem discurso

Quando um rio corta, corta-se de vez


o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.

O curso de um rio, seu discurso-rio,


chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.

O lexema discurso conecta duas isotopias figurativas, a da água, não


a parada, estancada no poço, mas a enfrasada no curso ou no discurso do
rio, e a da palavra, não a guardada, muda, no dicionário, mas a em fio, no
discurso. Na isotopia da água, lê-se a história dos rios do Nordeste,
interrompidos pela seca e em luta contínua para se refazerem: rios,
(dis)curso, corta, água, poços, estanque, estancada, com nenhuma
comunica, (dis)corria, curso, reatar, fio de água, cheia, água em fios, seca.
Na leitura figurativa da palavra, encontra-se o fazer discursivo, o tomar a
palavra para com ela adquirir voz e constituir, com muitas dificuldades, o
discurso: discurso, em situação dicionária, isolada, muda, com nenhuma
comunica, sintaxe, discorria, grandiloqüência, linguagem, enfrasem, frases
curtas, frase e frase, sentença, voz. Os traços figurativos asseguram, nas
duas leituras, às vezes mais em uma que em outra, as oposições de:
continuidade (correr, discorrer, fio) vs. descontinuidade (corta-se o
discurso-rio, a água se quebra, em pedaços, água estancada, cortou-se a
sintaxe); linearidade (do discurso [página 127] e do curso do rio em fio) vs.
circularidade (da água em poço, da palavra dicionária) no tempo;
bidimensionalidade (do fio) vs. tridimensiorialidade (do poço ou da cheia)
no espaço; movimento vs. estaticidade (paralítica, estancada); som (voz,
comunica, grandiloqüência) vs. silêncio (muda).
Cada uma das isotopias figurativas prende-se a pelo menos uma
isotopia temática: a água recobre o tema da produção da vida, num trabalho
miúdo e sem parada da natureza, e a palavra investe o tema da criação
operada pelo homem, no mesmo fazer cuidadoso e continuado. E sempre,
na verdade, o tema da criação, pela natureza ou pelo homem, confundidos e
combinados na poesia. As relações que se instauram entre a água-vida e a
palavra-criação definem metáforas.
No último verso do poema, encontra-se um exemplo de elemento
desencadeador de isotopia, que introduz um terceiro par de isotopias
temáticas e figurativas. O lexema combate desencadeia a isotopia figurativa
de luta, de forças em oposição, relacionada à leitura temática sócio-
econômica e política. Relê-se o discurso nesse novo plano isotópico que
engloba os demais: a água estancada, o rio cortado, a palavra emudecida, o
curso e o discurso interrompidos, a outra linguagem imposta, falam do
autoritarismo, da opressão e da repressão e atribuem papel social ao fazer
criador do homem, ao discurso, no reatamento da voz e da vez.
Além dos dois recursos textuais de reconhecimento de isotopias,
outros procedimentos facilitam sua apreensão e exame. Pensa-se sobretudo
na intertextualidade. O conhecimento de outros textos do autor, da época,
do grupo contribui para a descoberta das isotopias, ao fornecerem tais
textos uma espécie de “dicionário das metáforas e das metonímias” do
autor, do grupo ou do período. A oposição entre a criação do homem e a da
natureza, por exemplo, caracteriza muitos dos poemas de J. C. de Meio
Neto. Além de aparecer em ‘Rios sem discurso’, encontra-se em ‘Os remos
do amarelo’ ou em ‘O mar e o canavial’, entre outros.
Os exemplos propostos não podem ser considerados, realmente,
exercícios de explicação das linhas isotópicas do poema. A análise das
isotopias enfrenta ainda muitas dificuldades, que não impedem, porém, que
se reconheça ser indispensável, para a construção do sentido do discurso, a
explicação dos procedimentos de coerência semântica. Determinaram-se
três mudos práticos de descoberta das isotopias, o conector, o
desencadeador e a relação intertextual, critérios que, em geral, auxiliam
bastante na tarefa. Não basta, no entanto, estabelecer-se a existência de
diferentes planos isotópi- [página 128] cos é preciso explicá-los e
relacioná-los uns com os outros e com os planos temáticos e narrativos.
Para tanto podem-se convocar recursos dos estudos de retórica, de
estilística e de poética. No que concerne à retórica, têm-se à disposição
dois tipos de obras, as que são ou tratam de retórica clássica, como a
reedição parcial de Fontanier (1968) ou o manual, em três volumes, de
Lausberg (1966, 1967, 1968), e as que a retomam e reequacionam, como
ocorre sobretudo nos trabalhos de Barthes (1970), Todorov (1967, 1977), e
do Grupo µ (DUBOIS, 1974). Barthes, Todorov e principalmente o Grupo
µ procuram repensar a retórica em termos estruturais, já no contexto da
semântica, reavaliando e reinterpretando essa rica tradição de trabalho com
a linguagem, à luz da lingüística geral. O ressurgimento da retórica, na
acepção de estudo das figuras, tem muito a ver com a retomada dos estudos
sincrônicos e dos problemas semânticos no quadro da lingüística. Se a
oposição entre linguagem natural e figurada, fundamento da retórica,
contribuiu, como quer Todorov, para sua morte, pois não se acredita mais
no grau zero da escritura ou na inocência da linguagem, o campo de
preocupações da retórica e as descrições que propôs de um grande número
de fatos lingüísticos merecem ser recuperados. Nesse sentido, Jakobson
(1963, p. 43-67) exerceu papel de importância ao utilizar as noções de
metáfora e de metonímia para caracterizar diferentes tipos de discurso.
Segundo o lingüista, no romantismo e no simbolismo predomina a
linguagem metafórica; no realismo, a metonímica. Foi, sem dúvida, uma
das primeiras tentativas de explicação de figuras de discurso, e não apenas
de palavra ou de frase.
A retórica, a estilística e a teoria literária podem fazer avançar a
análise semiótica das relações entre percursos semânticos, sobretudo nos
discursos pluriisotópicos. Há quatro possibilidades diferentes de
pluriisotopia: a primeira e mais freqüente é a de se encontrarem várias
isotopias figurativas que pressupõem, cada qual, uma isotopia temática e
que se relacionam, entre si, de diferentes maneiras — todas se relacionam
com todas, uma é mais abrangente e domina as demais, e assim por diante;
a segunda possibilidade é dada por diferentes isotopias figurativas ligadas a
uma mesma isotopia temática; no terceiro tipo, uma única isotopia
figurativa relaciona-se a várias isotopias temáticas; finalmente, a última
possibilidade é a dos discursos temáticos, em que se estabelecem relações
entre diferentes isotopias temáticas.
O primeiro tipo de pluriisotopia é o único que Greimas assim
denomina, já que as outras possibilidades de relações [página 129] entre
isotopias não caracterizam, em geral, um mesmo e único discurso. O
poema Rios sem discurso’ exemplifica bem esse tipo de pluriisotopia, o
mais comum no texto literário. Há aí, conforme foi visto, duas isotopias
figurativas, a da água e a da palavra, relacionadas, respectivamente, aos
temas da produção da vida e da criação operada pelo homem.
O segundo tipo de pluriisotopia pode ser ilustrado com o conjunto de
contos de Léguas da promissão, de Adonias Filho. O tema do
renascimento, da passagem da morte à vida, é figurativizado de formas
diversas: pelo corpo que serve de adubo, em ‘Túmulo das aves’, pela
identificação do velho com o sobrinho, em ‘Imboti’, pela lembrança que
faz reviver, em ‘O pai’, pelo milagre, em ‘Simoa’.
A terceira possibilidade apresenta-se nos motivos etnoliterários que
se manifestam, em textos diferentes, sob a forma de percursos figurativos
semelhantes, correlacionados a temas diferenciados. Nas análises
apresentadas da Branca de Neve e da Bela Adormecida, a configuração do
“dedo furado” abriga os temas de doação de vida, de produção do belo e de
privação de vida.
O último caso previsto, o das relações entre isotopias temáticas,
corresponde, em geral, à chamada isotopia complexa, em que uma
categoria classemática (humano vs. animal, natural vs. cultural, etc.) se
manifesta com seus dois termos na seqüência do sintagma.
Quase nada se disse das relações entre percursos narrativos e
percursos semânticos discursivos. Rastier (1971, p. 289) distingue duas
espécies de ambigüidades lingüísticas: a lexical (um mesmo lexema pode
recobrir vários sememas) e a sintática (uma mesma seqüência de morfemas
pode recobrir várias estruturas profundas diferentes). Pode-se pensar
também em dois tipos de ambigüidades semióticas: a discursiva, abordada
sob a forma de pluriisotopia, e a narrativa. Para produzir o efeito da
ambigüidade narrativa, organizações narrativas diferentes devem ser
manifestadas por um mesmo arranjo discursivo ou textual. Ilustra-se a
ambigüidade narrativa com o conto de Lígia Fagundes Telles, ‘O jardim
selvagem’. Nesse conto, o marido de Daniela, muito doente, morre por
causa de um tiro de revólver. Duas organizações narrativas são possíveis: a
do suicídio, uma privação reflexiva ou renúncia, e a do assassinato, uma
privação transitiva ou espoliação. No segundo caso, o sujeito seria Daniela,
que já havia antes matado seu cachorro doente. A ambigüidade sustenta- se
porque, na instância da sintaxe discursiva, os procedimentos de
desembreagem impedem que se opte por uma das possibilidades. [página
130]

Coerência textual

No último item deste capítulo, procura-se inserir a questão da


isotopia semântica no contexto mais amplo da coerência textual. Os
estudiosos do texto, preocupados em determinar o que faz de um texto um
texto, isto é, uma unidade específica e não uma soma de frases, têm
proposto a noção, um tanto vaga, de coerência, como critério definidor.
As diferentes teorias do texto e do discurso concebem também
diversamente a coerência textual. Em ‘La cohérence textuelle’ (1985),
destacamos quatro pontos de vista diferentes sobre o assunto: o da coesão
textual, o das estruturas narrativas, o das estruturas argumentativas e o da
isotopia semântica. Excetuada a coesão textual, apenas referida na
apresentação da gramática textual, no capítulo anterior, os demais aspectos
da organização do texto foram bastante desenvolvidos neste trabalho.
A coesão textual, isto é, as diferentes concatenações frásicas lineares
que, segundo Halliday e Hasan (1976), dependem de cinco categorias
diferentes de procedimentos — a referência, a substituição, a elipse, a
conjunção e a coesão lexical —, pertence, na perspectiva deste trabalho, ao
nível mais superficial da análise do texto, o das estruturas propriamente
textuais. Coloca-se fora, portanto, do percurso gerativo do sentido.
Reconhece-se aqui a importância da coesão textual para a coerência do
texto, mas não se aceita considerá-la como sua única ou principal garantia.
A organização discursiva e a narrativa, subjacentes ao nível superficial das
relações interfrásicas, têm também muito a dizer sobre a questão.
Afirmou-se, enfaticamente, que não se distinguem, na perspectiva
semiótica, discursos argumentativos e discursos narrativos. Todo discurso é
narrativo e argumentativo, localizando-se as estruturas narrativas e as
argumentativas em etapas diferentes do percurso de produção de sentido.
As estruturas narrativas pertencem a nível semiótico mais profundo que as
argumentativas, definidas no momento discursivo da relação entre
enunciador e enunciatário. A narratividade e a argumentatividade são,
ambas, fatores de coerência, situados em níveis diferentes de descrição e
explicação do discurso. O fio narrativo e a finalidade discursiva da
argumentação costuram o discurso e tornam o texto coerente.
A coerência semântica das isotopias, sobre a qual se discorreu no
item anterior, é o ultimo dos fatores de coerência apresentados. [página
131]
Retomaram-se as concepções mais usuais de coerência textual para
mostrai que, embora cada procedimento destacado seja condição de
aparecimento do texto, sozinhos, não bastam. E preciso, portanto, uma
teoria geral que englobe

“com os mesmos procedimentos metodológicos e a mesma


metalinguagem descritiva, os diferentes fatores de coerência,
situando-os em níveis diferentes de análise e explicação e
indicando as relações complementares que mantêm na
construção do sentido” (BARROS, 1985, p. 277).
A semiótica pode ser essa teoria geral. Nesses dois capítulos,
explicaram-se e situaram-se as diferentes condições de coerência previstas:

• nível das estruturas narrativas: coerência narrativa


• nível das estruturas discursivas:
• sintaxe discursiva: coerência argumentativa
• semântica discursiva: coerência semântica das isotopias
• nível das estruturas textuais: coesão interfrásica.

Sem dúvida alguma, a coerência do texto está na dependência


também de suas relações com o contexto sócio-histórico. Este, porém, é o
assunto do próximo capítulo.

NOTAS

24 “o eu que escreve sabe que não é exatamente aquele eu


que aparece como sujeito gramatical do texto; em outros
termos: o eu-autor sabe que o eu- narrador é apenas uma
sua variante possível, uma sua possível máscara” (BOSI,
1977, p. 12).
25 Para a distinção entre enunciador e locutor, veja-se
Ducrot (1980).
26 A peça foi montada pelo Grupo BHÃRATANÃTYA
DARPANA e apresentada em abril de 1985, na
Universidade de São Paulo, durante a Semana da Índia,
promoção do Curso de Língua e Literatura Sânscritas.
27 Além dos autores citados no decorrer da exposição sobre
foco narrativo, contribuíram para esta visão geral do
assunto os textos de Rossum-Guyon (1970) e Leite
(1985).
28 Veja-se, sobretudo, o item Tematização e figurativi-
zação do discurso, neste capítulo.
29 No capitulo 3, será examinada a estrutura narrativa da
enunciação.
30 Exemplos analisados dos focos narrativos propostos por
Friedman podem ser encontrados em Leite (1985).
[página 132]
31 ‘‘Se há disparidades no entendimento de um mesmo
conceito, como se apontou a propósito da dicotomia
inside-outside ou internal-external, ocorrre a mesma
situação quanto às diferentes acepções conferidas a
iguais termos. O que é subjetivo e onisciente para
Friedman, torna-se, para Tomachevski, objetivo e
onisciente” (DAL FARRA, 1978, p. 30).
32 A crônica ‘Brincadeira’ de L. F. Veríssimo (1981, p. 10)
mostra um bom trabalho com a categoria do /saber-ser/.
33 Segundo Greimas & Courtés (s.d., p. 29), o
procedimento de aspectualização caracteriza também a
espacialização e a actancialização, mas, até o momento,
só a aspectualização do tempo foi examinada, na
lingüística e na semiótica.
34 Para o jogo de imagens, vejam-se o trabalho de Pêcheux
(1969) e, no quadro teórico da semiótica, os de
Landowski (1981a, 1983).
35 Essa revisão foi iniciada em curso ministrado na Escola
de Altos Estudos em Ciências Sociais, em 1976 e 1977,
e aparece nas publicações de Ducrot a partir de 1977.
36 Outra conseqüência é a substituição dos critérios de
negação e de interrogação, classicamente utilizados na
determinação dos pressupostos, pelo de encadeamento.
Os pressupostos “lingüísticos” ou da frase mantêm-se
quando a frase é negada ou interrogada: em “João
continua gordo”, o pressuposto de que antes João era
gordo conserva-se em “João não continua gordo” ou em
“João continua gordo?”. Já os pressupostos
“subentendidos” ou do enunciado só se identificam pelo
encadeamento. Encadeia-se sempre sobre o posto, nunca
sobre o pressuposto. Assim, “João continua magro” tem,
em certas situações, o pressuposto subentendido de que
manter-se magro é sinal de força de vontade e João tem
força de vontade. Esse pressuposto não se conserva na
negação “João não continua magro”, mas pode ser
identificado pelo critério de encadeamento, porque sobre
ele nenhum prolongamento discursivo argumentativo
(“João não tem força de vontade”, por exemplo) pode
ser feito, sob pena de recusa de todo o discurso. O
critério de encadeamento está bem de acordo com a
definição de pressuposto, pois, conforme foi apontado, o
enunciador não quer ou finge não querer que o
desenvolvimento do discurso, em geral de caráter
argumentativo, recaia sobre os pressupostos.
37 Veja-se Guimarães (1979) para uma aproximação das
propostas de Ducrot e de Grice.
38 Exemplificam-se as três vozes do discurso com
‘Governo deixa os bancos à espera de medidas de apoio’
(Folha de S. Paulo, 15 mar. 1986), em que se tem:
posto: Governo protelou as medidas de apoio aos
bancos;
pressuposto: Os bancos esperavam (e esperam)
medidas de apoio do
Governo;

subentendido: O Governo não dará apoio aos


bancos. Os bancos vão
mal e precisam do apoio do Governo.

39 Em texto sobre a argumentação no discurso político,


Osakabe (1979, p. 81) apresenta proposta semelhante.
40 Ducrot (l973) separa prova e argumento. A prova seria
um tipo particular de argumento, o argumento decisivo,
que torna necessária a admissão da conclusão. O
argumento apenas motiva o interlocutor, para que aceite
a conclusão. Segundo o autor, na vida de todos os dias,
lidamos com argumentos, sem termos provas. [página
133]
41 O termo enunciatário não é de Perelman, mas a idéia
sim (P. 9).
42 Para semema, núcleo sêmico, classema e demais
elementos da semântica estrutural, aqui rapidamente
apresentados, veja-se Greimas (1966).
43 Na psicologia, exteroceptor é o receptor ou órgão
sensorial estimulado por agentes externos ao organismo,
e interoceptor, o receptor ou órgão sensorial excitado
por estímulos internos.
44 O mundo natural está sendo concebido como sistema de
significação, como realidade significante e não como
realidade-coisa. Vejam-se Greimas (1970, p. 49-91) e
Blikstein (1983).
45 Courtés (1980a) tem desenvolvido pesquisas sobre os
motivos, em que atribui o caráter migratório do motivo
sobretudo à sua capacidade de conservar a identidade
figurativa e, ao mesmo tempo, de exercer papéis
narrativos e temáticos variados, segundo o contexto de
emprego.
46 Para o caráter ideológico das figuras, veja-se Fiorin
(1983). [página 134]
III. ENUNCIAÇÃO:
A MANIPULAÇÃO DE VALORES

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Neste capítulo examinaremos a questão central de nosso trabalho, a


do desenvolvimento de uma teoria do discurso capaz de conciliar a análise
do texto, como sistema de regras explicativas de sua organização imanente
— uma abordagem interna —, com o exame da inserção contextual do
texto, considerado como pretexto do contexto — uma abordagem externa.
Conforme foi apontado na Introdução, nossa contribuição não reside no
reconhecimento do caráter indispensável dessa conciliação, já por outros
avançada47, mas em discutir o quadro epistemo-metodológico em que, no
momento, é possível fazê-lo, sem resvalar para as superposições de teorias
contraditórias. Apostamos na teoria semiótica, pelos motivos já
sobejamente apontados de propiciar, de forma satisfatória, a análise interna
e imanente do texto, de explicar com os mesmos princípios as estruturas
narrativas e as discursivas e de examinar a enunciação. Procuraremos fazer
avançar o projeto de explicação dos vínculos que prendem o discurso a
suas condições sócio-históricas de produção e de recepção, pela análise
mais acurada da enunciação. Conhecer um pouco mais a enunciação foi a
forma encontrada de abordar o assunto, pois todo trabalho de construção do
sentido conduz sempre à posição privilegiada e misteriosa do sujeito da
enunciação. Acabou-se acreditando poder obter ali, se não as soluções, ao
menos pistas que permitam avançar em bom caminho48. [página 135]
ESTRUTURAS NARRATIVAS
E DISCURSIVAS DA ENUNCIAÇÃO

Para o exame da enunciação, toma-se, da análise narrativa e


discursiva, essencialmente a concepção de esquema canônico da
narratividade, organizado pelos percursos do destinador-manipulador, do
destinatário-sujeito e do destinador-julgador, e as distinções apontadas
entre unidades narrativas, como os actantes e os papéis actanciais, e os
papéis temáticos e figurativos da instância discursiva. Com esses
elementos, consideram-se o enunciador e o enunciatário papéis temáticos
discursivos, sob os quais são reconhecidos papéis actanciais e actantes
narrativos.
Os papéis temáticos de enunciador e de enunciatário constituem, na
verdade, uma espécie de neutralização de dois diferentes percursos
temáticos, da mesma configuração de “enunciação”: o de produção e o de
comunicação. O tema da produção é o da ação do homem sobre as coisas,
transformando-as ou construindo-as; o da comunicação, o da ação do
homem sobre os outros homens, “criadora das relações intersubjetivas,
fundadoras da sociedade” (GREIMAS & COURTÉS, s.d., p. 67). A
duplicidade de percursos temáticos permite, certamente, considerar a
enunciação como a atividade humana por excelência, ao mesmo tempo
produção e comunicação. Reservam-se os papéis de enunciador e
enunciatário para o percurso temático de comunicação (quem comunica e
quem recebe e interpreta a comunicação) e emprega-se o de sujeito da
enunciação, sincretismo de enunciador e de enunciatário, no percurso de
produção (quem produz).
Reconhecido o caráter discursivo-temático da enunciação e sua
manifestação em dois percursos temáticos distintos, deve-se, em seguida,
determinar a correlação entre o nível discursivo, assim desdobrado, e as
estruturas narrativas. Apresenta-se o resultado no quadro abaixo:

Estrutura Narrativa Destinador- Destinatário- Destinador-


Manipulador Sujeito Julgador

P. temático ENUNCIA- ENUNCIA- (ENUNCIA-


Estrutura Da comunicação DOR TÁRIO DOR)49
Discursiva
P. temático SUJEITO
Da produção DA ENUN-
CIAÇÃO
Conforme foi apontado no capítulo 1, o esquema narrativo canônico
funciona como modelo de previsibilidade e obriga a que se tente preencher
as casas vazias, na instância discursiva. [página 136]

Tema de comunicação

Na primeira leitura proposta, a enunciação é manifestada pelo


percurso temático de comunicação, em que o enunciador se coloca como
destinatário-manipulador, responsável pelos valores em jogo e capaz de
levar o destinatário-sujeito, seu enunciatário, a crer e a fazer. O fazer
persuasivo do enunciador realiza-se, conforme foi examinado na análise
das estruturas narrativas e discursivas, no e pelo discurso. O enunciatário,
por sua vez, manipulado cognitiva e pragmaticamente pelo enunciador,
deve cumprir os papéis de destinatário- sujeito, ou seja, deve realizar o
fazer interpretativo, em resposta ao fazer persuasivo do enunciador, e,
como decorrência, crer e fazer o que dele se espera. O fazer pretendido nem
sempre se realiza, mas a interpretação, operada pelo enunciatário e que o
instaura como sujeito, ocorre também no discurso-enunciado.
Se tanto o fazer persuasivo do enunciador quanto o interpretativo do
enunciatário se realizam no e pelo discurso, conclui-se que, para conhecer e
explicar tais fazeres e por meio deles apreender a instância da enunciação,
precisa-se proceder à análise interna e imanente do texto. Os capítulos 1 e
2, dedicados às estruturas sêmio-narrativas e discursivas, pretenderam
mostrar como efetuar essa análise e os motivos por que se deve realizá-la
na forma indicada. Foram também destacados, no percurso proposto, os
aspectos que mais fortemente marcaram a relação do discurso com a
enunciação pressuposta50. No nível das estruturas fundamentais, salienta-se
a projeção axiologizante da categoria tímico-fórica sobre as primeiras
articulações de sentido. Na instância das organizações narrativas, três
pontos merecem especial referência: a conversão dos valores virtuais em
valores ideológicos, quando investidos nos objetos e assumidos pelo
sujeito; o jogo de manipulação entre destinadores e antidestinadores, que
instalam, no interior do discurso, o conflito ideológico; os percursos
passionais do sujeito, que mostram suas relações com os objetos e com
outros sujeitos e que o inserem numa formação social e num sistema de
valores.
Se as primeiras reações do ser vivo ao seu contexto, de euforia e
relaxamento ou de disforia e tensão, e as relações ideológicas dos sujeitos
com os objetos-valor ou com outros sujeitos podem ser consideradas
marcas, e bastante nítidas, da enunciação, é, sem dúvida, no nível das
estruturas discursivas que enunciador e enunciatário mais se expõem.
Arrolam-se aqui esses momentos fortes do enunciador e do enunciatário, já
enfatizados no capítulo anterior, quando se desenvol- [página 137] veu a
análise da sintaxe e da semântica discursiva, Na sintaxe do discurso, as
marcas são freqüentemente lidas como sinais da presença ou da ausência da
enunciação no enunciado (efeitos de enunciação): diferentes perspectivas
discursivas, regulamentação da relação entre enunciação e enunciado e
exercício do fazer argumentativo. Na semântica discursiva, a máscara
praticamente se revela como tal, ou seja, a enunciação e as formações
ideológicas que a sustentam mostram-se na escolha dos percursos
figurativos e temáticos e nas relações metafóricas e metonímicas que unem
as várias isotopias.
Efetuada a análise das estruturas narrativas e discursivas, está-se de
posse de certas características do enunciador e do enunciatário do discurso.
O enunciador determina-se como um tipo específico de manipulador, a
partir, em primeiro lugar, dos valores que atualiza no discurso e que podem
ser apreendidos no componente semântico, nos três níveis de descrição:
valores virtuais axiológicos, valores ideológicos do sujeito, imerso em
paixões, figuras do mundo e temas. Em segundo lugar, o enunciador
caracteriza-se pelo exercício do fazer persuasivo, ou seja, pela forma como
faz passar os valores, como faz crer, para fazer-fazer. Diferenciaram-se, já
no capítulo anterior, tipos de enunciador e, conseqüentemente, de
enunciatário, conforme o valor modal utilizado para determinar o
enunciatário — querer-fazer, no discurso literário, dever-fazer, no religioso
ou no científico, saber e poder-fazer nos discursos tecnológicos —,
segundo a classe de manipulação empregada — sedução, tentação,
provocação ou intimidação — ou de acordo com o fazer pretendido,
pragmático ou cognitivo. Subdivisões mais afinadas podem ser obtidas com
critérios sobretudo da sintaxe do discurso: enunciadores que dizem eu ou
ele, que desembreiam diálogos internos, que criam diferentes ilusões de
enunciação, pela distribuição diferenciada de voz e de saber, que
empregam esquemas argumentativos distintos.
Pretendeu-se, neste item, agrupar os fatos dispersos de enunciação,
entendida como comunicação, destacando-se dois aspectos da questão. O
primeiro deles é o caráter manipulador do discurso comunicado, como
objeto de persuasão, entre enunciador e enunciatário. A direção das
operações fundamentais, a intencionalidade narrativa e a finalidade
argumentativo-discursiva falam do sentido do sentido e impedem qualquer
idéia de neutralidade do discurso, reforçando, ao contrário, sua concepção
direcional-ideológica. O segundo fato é o de que a leitura da enunciação
como comunicação se faz a partir do discurso, em que estão inscritos o
fazer emissivo e [página 138] persuasivo do enunciador e o fazer receptivo
e interpretativo do enunciatário, por meio de analise sêmio-narrativa
discursiva do texto. A enunciação esta sendo concebida, portanto, como
instância de mediação entre estruturas sêmio-narrativas e discursivas,
responsável pelas diferentes opções do discurso, dirigidas para a
manipulação do enunciatário. As escolhas feitas e os efeitos de sentido
obtidos decorrem da enunciação, ao mesmo tempo que a definem. Essa
concepção de enunciação tem sido aceita e desenvolvida pela teoria
semiótica e pelas diversas pragmáticas.

Tema de produção

A enunciação realiza-se também segundo o percurso temático de


produção, em que o enunciador e o enunciatário, sincretizados no sujeito da
enunciação, lêem-se como sujeitos produtores do discurso-objeto. O
sincretismo destaca o fato de o enunciador e o enunciatário compartirem a
responsabilidade da construção do sentido do discurso.
Os programas narrativos de realização, conforme foi apontado no
capítulo 1, são de duas espécies distintas: programas de construção de
sujeitos e programas de construção de objetos. São modos diferentes de o
sujeito adquirir e manipular valores, através dos objetos, que só lhe
interessam como lugares de investimento de valores. Nos programas de
construção de sujeitos, a aquisição do objeto-valor, que “constrói” o
sujeito, semiótica e semanticamente, se faz por doação, por apropriação ou
por troca. Já nos programas de construção de objetos, um objeto é
produzido como suporte de valores que o sujeito operador ou algum outro
sujeito deseje ou de que necessite. O objeto é fabricado, portanto, para vir a
ser a cobertura de um ou mais valores com os quais o sujeito quer ou deve
estar em conjunção. Tal empreendimento procura satisfazer a uma
necessidade do sujeito ou proporcionar- lhe prazer. Na receita de cozinha,
por exemplo, a execução correta das indicações conduz à construção de um
objeto, figurativizado pelo pudim, que proporcionará ao cozinheiro ou a
seus convidados um prazer estético de ordem gustativa (GREIMAS, 1983,
p. 157-70) ou lhes matará a fome.
O sujeito da enunciação pode ser considerado um sujeito realizador
de programa de construção de objeto, ou seja, um sujeito que fabrica o
objeto-discurso como lugar de investimento de valores. O objeto-discurso
construído é um objeto- valor cognitivo, e não pragmático como os objetos-
valor gustativos das figuras do pudim ou do bolo. O discurso, além disso,
apresenta a ambigüidade fundamental de resultar do fazer [página 139]
construtor do sujeito da enunciação e, ao mesmo tempo, de se colocar
corno lugar desse fazer ou como o próprio fazer engendrante.
A competência do sujeito da enunciação assim como sua
performance refazem-se, em parte, a partir do discurso, pois o objeto
fabricado traz sempre marcas de seu fabricante e de sua fabricação. Os
procedimentos de sintaxe do discurso já analisados permitem reconstruir a
competência e a existência modal do sujeito da enunciação. As figuras
semânticas do discurso acrescentam novos elementos à caracterização do
sujeito empreendida, ao deixarem entrever, quando examinadas como
pontos de intersecção entre texto e contexto, os valores para que se constrói
o discurso. A enunciação começa a se mostrar como estrutura de mediação
entre o discurso e o contexto.
Necessária e capaz de recompor a competência modal e a
performance do sujeito da enunciação e de fornecer indicações sobre os
valores, a análise interna do texto não é suficiente para determinar,
realmente, os valores que o objeto- discurso deve suportar e veicular. Tais
valores, como se sabe pelo esquema narrativo, são comunicados ao sujeito
da enunciação por um destinador-manipulador. A definição dos valores
parece depender, portanto, de maiores informações sobre o destinador-
manipulador, de que provêm. Em outras palavras, é provável que o
preenchimento das casas vazias no quadro das relações entre estruturas
discursivas e narrativas contribua para esclarecer melhor a questão da
enunciação produtora do discurso. Propôs-se, em outros trabalhos (1985,
1987), o papel temático do produtor para ocupar a casa discursiva do
destinador-manipulador narrativo, e o do receptor-interpretante, para a do
destinador-julgador:

Estruturas Destinador- Destinatário- Destinador-


Narrativas Manipulador Sujeito Julgador

Estruturas
Discursivas PRODUTOR SUJEITO DA RECEPTOR-
Tema da Produção ENUNCIAÇÃO INTERPRETANTE

A intenção dessa proposta é criar possibilidades de descrever, com


princípios e métodos da Semiótica, as chamadas condições de produção e
de recepção do texto, ou boa parte delas.
O produtor é o destinador-manipulador responsável pela
competência do sujeito da enunciação e origem de seus valo- [página 140]
res. Deve ser entendido como destinador sócio-histórico (ou psico-socio-
histórico). O sujeito da enunciação constrói o discurso enquanto delegado
do destinador-produtor, o que lhe dá autonomia apenas da ordem do fazer,
sendo os valores determinados de antemão pelo destinador sócio-histórico.
O receptor-interpretante, papel temático do destinador-julgador,
julga e sanciona o fazer do sujeito da enunciação, com base no contrato
passado entre destinador-produtor e sujeito.
Determinar os destinadores do sujeito da enunciação corresponde a
inserir o texto no contexto de uma ou mais formações ideológicas, que lhe
atribuem, no fim das contas, o sentido.
O desdobramento polêmico da narrativa, em narrativa do fazer do
sujeito e em narrativa do fazer do anti-sujeito, prevê, correlativamente, o
aparecimento de antidestinadores, cujos valores opõem-se aos dos
destinadores. Na análise da enunciação, a duplicação de percursos e de
programas permite situar e esclarecer os confrontos sociais em que se
assentam os discursos. A crítica desfavorável ou a boa aceitação de público
decorrem das relações conflituosas entre os destina- dores, produtores e
interpretantes do discurso. No ensinamento de Verón51, o texto
revolucionário provoca ruptura entre condições de produção e de recepção.
Na perspectiva aqui adotada, pode-se dizer que os contextos do produtor e
do receptor opõem-se por contradição, e não apenas por contrariedade,
como ocorre com os discursos reformadores. Há, também, o caso mais
freqüente dos discursos conservadores, em que os destinadores não entram
em conflito e o receptor interpreta o discurso no mesmo quadro de valores
de sua produção.
Os objetos são construídos com duas finalidades: suprir as carências
ou responder aos anseios do receptor. Carências e anseios são determinados
pelo destinador. Assim, do mesmo modo que a feijoada é preparada para
atender à exigência de alimentação ou ao prazer gustativo daqueles a quem
será servida, o discurso é fabricado como decorrência de necessidade
/dever-ser/ do receptor ou de seu desejo /querer-ser/ de certos valores,
segundo a interpretação do destinador, e com o objetivo de se constituir em
lugar de inscrição, manipulação e veiculação desses valores. A
necessidade, em geral interpretada como precisão e questão econômica, e o
prazer estético do texto distinguem-se, mas não recobrem a oposição do
social ao individual. Ambos, interesse econômico e prazer estético, dizem
respeito a grupos sócio-historicamente determinados e [página 141]
atendem a diferentes necessidades do homem, oriundas da sociedade o
prazer estético do texto, não se deve esquecer, depende de um código
cultural implícito.
Quer se diga que o discurso foi engendrado apenas como veículo de
prazer, na “arte pela arte”, quer se aceite o seu compromisso como meio de
transformação do mundo, nos textos “engajados”, há, sempre, por detrás
dele, uma ou mais formações ideológicas que apagam o caráter categórico
da separação entre prazer e comprometimento social e que é preciso
determinar. Foi com essa intenção que se propôs o exame do produtor e do
receptor-interpretante sócio-históricos. Cabe esclarecer, porém, o modo
como se concebe tal estudo. Não se trata, como alguns poderiam supor, de
analisar o ser ontológico. Pretende-se refazer os caminhos narrativos do
destinador-manipulador e do destinador-julgador, assim como os percursos
temáticos de produtor e de receptor-interpretante, pelo recurso aos textos
que formam o contexto do discurso em questão. Revê-se o problema do
contexto em termos de relações intertextuais.
Assim entendido, o contexto não se confunde com o “mundo das
coisas”. E antes considerado como um texto maior, uma totalidade de
significação, no interior do qual cada texto cobra sentido. O sentido do
texto depende do sentido do texto-contexto em que se integra. Essa
concepção de contexto faz supor, em última instância, uma Semiótica da
cultura que estabeleça os papéis narrativo-discursivos devidos a cada texto
no macrotexto da cultura. Não se tem a pretensão de reconstruir o
macrotexto cultural, mas se julga imprescindível, para a análise semiótica
de um texto qualquer, a determinação de suas interações contextuais.
Recorta-se, dessa forma, a totalidade do texto-contexto, graças às suas
relações com o texto em exame. Os critérios e os motivos empregados para
proceder aos recortes e delineamentos serão discutidos no próximo item,
sobre intertextualidade.

INTERTEXTUALIDADE

Partindo da hipótese de que a enunciação é o conceito-chave para


explicação do discurso e de suas relações com as condições sócio-históricas
de produção e de recepção, propôs-se examiná-la com base no aparato
conceitual e metodológico da Semiótica, reconheceu-se que ao menos dois
percursos temáticos se abrigam na configuração da enunciação, o de
comunicação e o de produção, e relacionaram-se os papéis te- [página 142]
máticos de cada percurso aos actantes e papéis narrativos subjacentes.
Recorreu-se, para o exame do primeiro tema e de suas ligações com a
organização narrativa, à análise interna do texto, julgada, nesse caso,
satisfatória. Ressaltou-se, porém, a insuficiência da análise interna, mesmo
sabendo-a necessária, para a abordagem da segunda leitura temática e
apontou-se uma saída, que pareceu adequada, a da intertextualidade
contextual.
A enunciação assume, assim, sua dupla tarefa de mediação, entre as
estruturas sêmio-narrativas e as estruturas discursivas e entre o discurso e o
contexto sócio-histórico. Confirmam-se as expectativas iniciais sobre o
lugar de destaque da enunciação na questão das relações entre texto e
contexto e espera-se poder conciliar, por meio da explicação da instância
enunciadora, as análises interna e externa do texto.
Há, conforme foi apontado, dois meios de acesso à instância da
enunciação: o primeiro, pela determinação do enunciador e do enunciatário,
graças aos procedimentos narrativos e discursivos empregados na
manipulação, e pela definição do sujeito construtor do discurso, com base
no objeto- discurso produzido; o segundo, pela caracterização sócio-
histórica do sujeito da enunciação, a partir de elementos externos ao texto
em questão, ou seja, a partir das relações intertextuais. A análise de outros
textos, que formam o contexto do discurso em exame, permite alcançar os
fatores sócio-históricos constitutivos da enunciação.
Destacaram-se, até o momento, as justificativas teóricas e a
necessidade prática de se considerar o contexto na tarefa de construção do
sentido do discurso. Não se fez referência, ainda, às muitas dificuldades de
delimitação do contexto a ser examinado. Há sempre o risco de o analista
se perder, inadvertidamente, no macrotexto da cultura ou na diversidade de
teorias e métodos, muitas vezes contraditórios, que se dispõem a explicar a
sociedade, a história, a ideologia.
As resultantes de análises contextuais, ou melhor, os pontos de
cruzamento de variáveis de textos distintos, foram denominados produtor e
receptor-interpretante, destinadores do sujeito da enunciação, fonte e
destino dos valores do discurso. O primeiro passo, portanto, para a
definição de produtor e de receptor é o de delimitar o contexto. Há uma
seleção a ser feita, sem a qual a análise do texto se revelaria impossível.
Certamente recortes diferentes podem ser obtidos e um mesmo discurso
pode ser lido em contextos diversos. E muito difícil, porém, não haver
intersecção entre os recortes, pois os [página 143] textos fornecem pistas
para sua inserção contextual. Além disso, da mesma forma que a frase
propicia várias leituras, dependendo do texto a que pertença, mas não
infinitas, também o texto pode ser inserido em contextos variados, em
número, no entanto, de alguma forma limitado.
A distinção adotada pela Lingüística entre contexto e situação e entre
contexto lingüístico e contexto extralingüístico pode ser útil na análise do
discurso. Diferenciam-se, neste trabalho, três tipos de contexto.
O primeiro, mais imediato e que será chamado contexto situacional,
é constituído por textos claramente metalingüísticos, em relação ao texto
que contextualizam. Tomam-no, portanto, antes ou depois de sua produção,
como objeto de uma metalinguagem natural ou científica. Esse tipo de
contexto caracteriza a situação de enunciação espacial e temporalmente,
servindo para localizar, no tempo e no espaço, o produtor e o receptor e, a
partir daí, o sujeito da enunciação. Determina o que o enunciador pensa de
seu discurso, do enunciatário, dos objetivos da produção, do ato de
produzir, assim como as razões que levaram à fabricação do texto —
realizar uma tarefa escolar, ser aprovado no vestibular, ser reconhecido
pela crítica, cumprir uma obrigação acadêmica, mostrar altos objetivos
patrióticos ou preocupação com o desenvolvimento da ciência e assim por
diante. Pode-se exemplificar o contexto situacional com as cartas em que
um dado autor fala de sua obra, com as entrevistas com escritores, com
estudos sobre a visão da criança a respeito da redação na escola, com textos
de crítica, de tradução, de comentários, com proposições de produção
textual (“Faça uma redação sobre...”), com prefácios, introduções,
conclusões e com todos os demais textos que, de alguma forma,
regulamentam as condições de avaliação do discurso. Sem dúvida, muitas
subclassificações devem ser efetuadas: avaliar o texto antes ou depois da
produção, localizar o produtor no tempo ou espaço, tratar de produção ou
de recepção e outras.
O segundo tipo de contexto, que será denominado contexto interno,
reconstitui o caráter idioletal do texto, ou seja, determina os elementos
ideológicos e lingüísticos que caracterizam o produtor e o sujeito da
enunciação. Da mesma forma que é difícil separar idioleto (normas
individuais) de socioleto (normas sociais)52, também são fluidos os limites
entre contexto interno e contexto externo. Pode-se ilustrar a noção de
contexto interno com as relações mantidas por um conto com os demais de
um mesmo livro ou no interior da obra de um único autor. [página 144]
A terceira espécie de contexto, chamada contexto externo, deve,
finalmente, responder pelos valores que produtor e receptor manipulam,
sejam eles de classe, de grupo, de época, de cultura. A extensão desse
contexto é grande e fronteiras são estabelecidas com critérios
diversificados: de tempo, em “o romance da década de 70”, de espaço em
“a literatura no Nordeste”, de tempo e de espaço em “a literatura brasileira
no início do século”, de tema, de grupo profissional e muitos outros.
Quaisquer que sejam os contextos considerados — situacional,
interno e externo —, a análise do discurso fornece várias indicações deles,
sobretudo na explicação da argumentação e da figurativização. Há, além
disso, pistas seguras nos discursos que repetem, simulam ou atacam outros
discursos.
Reconhecida a variação contextual e seus papéis diferenciados na
determinação do sentido do discurso, faz-se necessário encontrar um
denominador comum que permita caracterizar o produtor e o receptor do
ponto de vista sócio-histórico e a que venham se acrescentar as demais
determinações contextuais. Acredita-se que se possa obter esse resultado
pela definição da classe social ou da fração, categoria ou camada, a que
pertençam o produtor e o receptor. Essa convicção baseia-se no fato de que
a classe social, determinada por um sistema de relações econômicas,
políticas e ideológicas, leva, finalmente, a inserir os valores resultantes da
análise interna ou mesmo contextual do discurso na formação ideológica,
que lhes atribui, em última instância, o estatuto de valor. Não basta afirmar
que um discurso aborda o tema do romantismo ou da liberdade, é preciso
saber de que romantismo e de que liberdade se trata e só a especificação
sócio-histórica permite dizê-lo. A classe social é, assim concebida, um
traço imprescindível e, muito provavelmente, o único obrigatório da
definição de produtor e de receptor, organizando-se os demais elementos
contextuais em diferentes arranjos necessários mas de composição variável
e facultativa. Nas palavras de Singer (1981, p. 17),
“o pressuposto teórico aqui é que as classes são os verdadeiros
atores do drama que se desenrola no cenário histórico. Em
outros termos, o que se encontra por detrás dos embates entre
partidos e correntes de opinião, dos conflitos entre órgãos de
representação, do entrechocar de ideologias é a oposição entre
diferentes classes, de cuja luta resultam as grandes
transformações sociais e econômicas que constituem a própria
história do país”.

E, por que não o dizer, constituem também o seu discurso. [página 145]
Expõem-se, no próximo item, alguns elementos de uma teoria das
classes sociais, poucos, mas suficientes para os objetivos deste trabalho e
para esclarecimento da proposta apresentada.

DISCURSO E CLASSES SOCIAIS

Não se tenciona participar das discussões sobre os vários conceitos


de classe social, em primeiro lugar por nos faltar competência para assumir
posições no terreno do sociólogo, em segundo lugar porque, mesmo que
preenchêssemos as condições exigidas, este trabalho não seria o lugar de
um debate desse tipo. Pretende-se apenas recorrer aos sociólogos, cientistas
políticos e economistas, em busca de subsídios para a análise do discurso,
mais especificamente, para a constituição do produtor e do receptor-
interpretante do sujeito da enunciação.
Os autores consultados sobre a questão da classe social reportam-se
todos às propostas de Marx, desenvolvendo-as, interpretando-as, e, mesmo
aqueles que não as aceitam totalmente, reconhecem ser impossível realizar
um estudo sobre as classes sociais sem recorrer a tal bibliografia.
Para este trabalho não interessam as concepções economicistas de
classe social, ou seja, aquelas que consideram as classes sociais
determinadas apenas pelas relações econômicas, por ser essa definição de
classe muito pobre para caracterizar o produtor e o receptor do discurso.
Com Giannotti, aceita-se que

“a posição de um indivíduo, no processo produtivo, determina


uma condição necessária para sua inserção numa classe,
embora não chegue a formular-lhe uma condição suficiente”
(1983, p. 291).

A definição de classe social proposta por Poulantzas, como o


resultado do conjunto das estruturas econômicas, políticas e ideológicas,
parece mais adequada aos propósitos da análise discursiva.
“... tudo se passa como se as classes sociais fossem o efeito de
um conjunto de estruturas e de suas relações, no caso concreto
1? — do nível econômico, 2? — do nível político e 3? — do
nível ideológico. Uma classe social pode ser identificada quer
ao nível econômico, quer ao nível político, quer ao nível
ideológico, e pode pois ser localizada em relação a uma
instância particular. No entanto, a definição de urna classe
enquanto tal e a sua conceptualização [página 146] reporta-se
ao conjunto dos níveis dos quais ela constitui o efeito”
(POULANTZAS, 1971, p. 64-5).

Realmente, só uma concepção de classe social em que são


consideradas as relações de produção, mas também as p0- líticas e
ideológicas, tem interesse para a teoria do discurso. Na prática, muitas são
as decorrências dessa definição mais completa, como por exemplo não
poder caracterizar as classes sociais apenas pelo critério de rendimento.
Justiça seja feita, nem mesmo os “economicistas” julgam a renda suficiente
para definir a inserção do indivíduo na classe, pois tal critério não
determina a forma de sua participação nas relações de produção.
Igualmente, não se sustentam divisões em classes, marcadamente
ideológicas, efetuadas apenas pelo prestígio da ocupação, ou as
interpretações “sobrepolitizantes” de classe social, em que as classes só
existem, efetivamente, no nível político, graças à aquisição da consciência
de classe5. Em outros termos, tampouco interessam a este trabalho as
concepções apenas políticas ou ideológicas de classe.
É preciso, nestas rápidas observações, lembrar ainda um aspecto da
questão das classes sociais: o do número e das combinações das classes
sociais numa formação social. Uma formação social caracteriza-se pela
superposição de vários modos de produção, hierarquizados, ou seja, em que
um dos modos de produção domina os demais. O modo de presença e as
combinações das classes no interior de uma formação social são sempre
diferentes e variáveis, pois as classes se dissolvem, se fundem e se tornam
frações ou categorias sociais de outras classes54.
Para Poulantzas (1971, p. 82), uma classe é autônoma quando
constitui uma força social, isto é, quando, numa dada formação social, as
relações de produção dessa classe se refletem no nível político e no
ideológico. Segundo Lukács (1960, p. 99) é a consciência de classe,
entendida como “o sentido, tornado consciente, da situação histórica da
classe”, que a define. Singer (1981, p. 22), de modo semelhante, afirma que

“o que caracteriza as classes não é apenas a posição relativa no


processo de produção, mas um conjunto de interesses que
define um ‘projeto de classe’, ou seja, um modelo objetivo e
global de organização da vida social”.

As classes, que compõem forças sociais ou que têm consciência de


classe ou que são dotadas de um projeto de classe, organizam-se a partir de
relações de dominação. As classes dominantes, do modo de produção
dominante, determinam as [página 147] classes dominadas (classes
dominadas do modo de produção dominante ou classes do modo de
produção dominado), que, em geral, não desenvolvem uma organização
política independente, nem formam uma ideologia própria, embora
apresentem certos “efeitos” particulares e constituam, mesmo dominadas,
força social.
A definição de classes sociais como “efeitos da estrutura global no
domínio das relações sociais” (POULANTZAS, 1971, p. 69) vem justificar
a proposta deste trabalho de que, para conhecer a dimensão sócio-histórica
do discurso, é preciso determinar os “efeitos” de classe. Com essa intenção,
conceberam-se, nas páginas anteriores, o produtor e c receptor do sujeito da
enunciação como suportes da teia de relações econômicas, políticas e
ideológicas, cuja determinação permite inscrever o discurso no contexto
sócio-histórico de produção e de recepção. Observe-se, uma vez mais, que
a apreensão das relações sociais das estruturas que as definem faz-se por
meio de textos, pelo recurso à intertextualidade.

DISCURSO E IDEOLOGIA

Este trabalho está sendo desenvolvido a partir da convicção de que o


discurso é sempre ideológico. As considerações a respeito da condição
ideológica do discurso suscitam duas questões, como pressupostos ou como
decorrências delas: a da concepção de ideologia adotada e a das relações
entre linguagem e ideologia.
Ideologia está sendo entendida como visão de mundo. Não se ignora,
porém, a outra concepção, igualmente fundamental, de ideologia, como
falsa consciência, isto é, como criação de ilusão ou como ocultamento da
realidade social. Este conceito de ideologia, de tradição marxista, está
bastante bem apresentado em O que é ideologia, de Marilena Chauí:

“A ideologia é um conjunto lógico, sistemático e coerente de


representações (idéias e valores) e de normas ou regras (de
conduta) que indicam e preservam aos membros da sociedade
o que devem pensar e como devem pensar, o que devem
valorizar e como devem valorizar, o que devem sentir e como
devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer. Ela é,
portanto, um corpo explicativo (representações) e prático
(normas, regras, preceitos) de caráter prescritivo, normativo,
regulador, cuja função é dar aos membros de uma sociedade
dividida em classes uma explicação racional para as diferenças
sociais, políticas e [página 148] culturais, sem jamais atribuir
tais diferenças à divisão da sociedade em classes, a partir das
divisões na esfera da produção. Pelo contrário, a função da
ideologia é a de apagar as diferenças como de classes e de
fornecer aos membros da sociedade o sentimento da identidade
social, encontrando certos referenciais identificadores de todos
e para todos, como por exemplo, a Humanidade, a Liberdade,
a Igualdade, a Nação ou o Estado” (1981, p. 113-4).

Essa concepção de ideologia decorre: da divisão social do trabalho,


sobretudo da separação entre trabalho manual, realizado pelos que “não
sabem pensar”, e trabalho intelectual; do fenômeno da alienação, segundo o
qual os homens se acreditam produzidos pelas condições de existência
social e não por elas responsáveis; da divisão da sociedade em classes e da
luta de classes, ou seja, da dominação e da exploração de uma classe sobre
as outras. No entendimento mencionado de ideologia, para que ela possa
servir de instrumento de dominação de classe, isto é, para que as idéias da
classe dominante se tornem idéias dominantes ou idéias de todas as classes
sociais, é preciso que a dominação e a exploração e até mesmo a divisão
em classes sejam ocultadas e dissimuladas; que as idéias e ilusões da classe
dominante se convertam em representações coletivas, em universais
abstratos; que tais idéias e explicações racionais e universais sejam
difundidas por meio do que Althusser denominou aparelhos ideológicos do
Estado.
Althusser distingue o aparelho repressivo do Estado, que funciona,
principalmente, pela violência e compreende o Governo, a Administração,
o Exército, a Polícia, os Tribunais, dos aparelhos ideológicos do Estado,
que se apresentam sob a forma de instituições especializadas como a
religião, a escola, a família, os diferentes partidos políticos, os sindicatos,
os meios de comunicação. A pluralidade dos aparelhos ideológicos não
impede, segundo o autor, seu funcionamento unificado, pois, apesar das
contradições, devidas a vestígios das antigas classes dominantes e a
afrontamentos com as classes dominadas, eles dependem da ideologia
dominante, que é a ideologia da classe dominante. “Nenhuma classe pode
duravelmente deter o poder de Estado sem exercer simultaneamente a sua
hegemonia sobre e nos Aparelhos Ideológicos do Estado” (ALTHUSSER,
s.d., p. 49). Todos os aparelhos ideológicos, embora o façam cada qual da
maneira que lhe é própria, concorrem para um mesmo resultado: a
reprodução das relações de produção, de dominação e de exploração. Os
aparelhos ideológicos asseguram, mais especificamente, a reprodução da
qualificação da força de trabalho, ou seja, a repetição, em [página 149]
essência, de um saber. Em nossa sociedade basta pensar-se no papel
assumido pela escola e pela família.
As ideologias não nascem nos aparelhos, surgem das classes sociais,
de suas condições de existência, de suas práticas, de suas lutas, e os
aparelhos constituem a forma pela qual a ideologia da classe dominante se
realiza. E no seu interior que se medem e se confrontam valores.
A acepção de ideologia como visão de mundo tem muitos pontos em
comum com a definição que se acaba de apresentar, de ideologia como
ilusão ou como inversão do real. Filia- se, no dizer de Bruni (1980, p. 13),
aos trabalhos de Gramsci e corresponde, da mesma forma que a concepção
anterior, a um sistema de valores que define normas e regras de condutas
sociais. A ideologia, assim concebida, determina-se também em relação às
classes sociais e suas práticas, pois cada visão de mundo prende-se a um
dado grupo, cujos elementos compartilham os mesmos valores, pensam e
agem de modo semelhante. Ao aceitar esse conceito de ideologia não se
deixa tampouco de reconhecer o papel da ideologia da classe dominante e
sua tarefa de ocultamento e dissimulação. A diferença mais marcante entre
as duas formas de considerar a ideologia está no fato de que a ideologia
como visão de mundo permite relativizar a “verdade”, ao mostrar que há
vários saberes ligados às diferentes classes, e reconhecer contradições em
cada forma de ver o mundo, especialmente na visão dominante, criticando-
a e a ela resistindo.
Não se pode esquecer, porém, que a ideologia dominante é tão
abrangente que torna as demais organizações do saber fragmentárias e
muitas vezes contraditórias, pois incorporam elementos da representação
dominante, O grau de coerência e abrangência dos sistemas ideológicos não
é, assim, o mesmo nas diferentes concepções de mundo55.
Emprega-se, neste trabalho, o conceito de ideologia como visão de
mundo, mas com as ressalvas de que se levam em conta o caráter
desequilibrado dos diferentes sistemas de representação e as distorções e
ilusões produzidas ideologicamente.
O discurso, tal como foi apresentado, é uma prática social
determinada por uma formação ideológica e, ao mesmo tempo, lugar de
elaboração e de difusão da ideologia56. Essa definição de discurso está
fundamentada na distinção entre língua e discurso, mas não se pretende
fazer acreditar no caráter neutro da língua em oposição à condição
ideológica afirmada do discurso. Tenciona-se, ao contrário, mostrar que no
sistema da língua se imprimem, historicamente, as marcas [página 150]
ideológicas do discurso. Se o discurso “reflete as mais imperceptíveis
alterações da existência social” (BAKHTIN, 1981, p. 46), na língua as
modificações processam-se lentamente.
Sabe-se, porém, que a língua produz discursos ideologicamente
opostos, pois classes sociais diferentes utilizam um mesmo sistema
lingüístico. Nesse caso, deve-se reconhecer que os traços impressos na
língua, a partir de seu uso discursivo, criam em seu interior choques e
contradições, que fazem Bakhtin afirmar que em todo signo se confrontam
índices de valor contraditório e que, em suma, “o signo se torna a arena
onde se desenvolve a luta de classes”. Termina mostrando que “é este
cruzamento dos índices de valor que torna o signo vivo e móvel, capaz de
evoluir” (1981, p. 46).
A língua, caracterizada dessa forma, não é neutra e sim complexa,
pois tem o poder de instalar uma dialética interna, em que se atraem e, ao
mesmo tempo, se rejeitam elementos julgados inconciliáveis. Os vários
percursos semêmicos de um lexema explicam-se por essa polivalência da
língua. As ideologias, sobretudo a dominante, tentam colocar o signo acima
da luta de classes e esconder suas contradições internas, tornando-o
monovalente e “neutro”.

“Esta dialética interna do signo não se revela inteiramente a


não ser nas épocas de crise social e de comoção
revolucionária. Nas condições habituais da vida social, esta
contradição oculta em todo signo ideológico não se mostra à
descoberta porque, na ideologia dominante estabelecida, o
signo ideológico é sempre um pouco reacionário e tenta, por
assim dizer, estabilizar o estágio anterior da corrente dialética
da evolução social e valorizar a verdade de ontem como sendo
válida hoje em dia. Donde o caráter refratário e deformador do
signo ideológico nos limites da ideologia dominante”
(BAKHTIN, 1981, p. 47).

Da língua, complexa e viva, surgem os discursos, ideológicos, que


escolhem um dos pólos, um dos valores. Abafam-se os percursos em
conflito, perde-se a ambigüidade da múltipla posição, toma-se uma única
direção. Para reconstruir a dialética desaparecida, fazem-se necessários os
outros textos, do contexto, do intertexto, que recuperam a polêmica
escondida, os choques sociais, o confronto, a luta.
Não se põe em dúvida a capacidade dos discursos de instalarem,
internamente, o diálogo intertextual, os conflitos entre as classes57. O
desdobramento polêmico da narrativa, os recursos diversos de
desembreagem, a organização pluriisotópica de temas e de figuras são
procedimentos que estabelecem no interior do discurso a dualidade, a
pluralidade que lhe [página 151] dá vida e relativiza a verdade, O caráter
dialógico de um discurso, enfatizado por varias formas de proceder, separa-
o de discursos ideológicos autoritários e pode ser tomado como marco
divisor de tipos discursivos. Em alguns poucos casos, pode-se mesmo
prescindir de outros textos-contextos, na leitura do discurso, além daqueles
que no seu interior se defrontam. Não é, porém, a regra. O discurso
comumente cristaliza-se e faz-se autoritário, discurso da verdade absoluta,
sem contestações. A intertextualidade cumpre, então, o papel de tentar
refazer a complexidade e as contradições dos conflitos sociais. Contesta-se
o incontestável, opõem-se verdades.

TEXTO E PROBLEMAS DE EXPRESSÃO

Conforme foi proposto na Introdução, examinaram-se as várias


etapas de descrição e de explicação do percurso gerativo do sentido, da
instância fundamental ao discurso. Não se chegou, nem era a intenção, ao
texto. O texto resulta da junção do plano do conteúdo, construído no
percurso gerativo, com o plano da expressão e pode ser considerado a
instância profunda lingüística, a partir da qual são geradas as estruturas
lingüísticas de superfície. Há, portanto, níveis diferentes de abordagem do
texto e problemas diversos como a linearização, a organização sintática das
frases, a escolha lexical, a condensação e a expansão textual, a
programação textual, a explicitação do programa do sujeito em detrimento
do do anti-sujeito, apresentado de forma fragmentária, a coesão textual.
Esses elementos situam-se em diferentes patamares de análise lingüística
do texto.
Tenciona-se, neste trabalho, lembrar apenas que a textualização é
também tarefa do sujeito da enunciação e que, por conseguinte, a
explicação de seus procedimentos contribui para a reconstrução da
instância enunciadora. As marcas mais propriamente individuais de
produção textual, se é que existem, encontram-se no texto e não no
discurso, como se sabe. Observe-se que “a língua não é o reflexo das
hesitações subjetivo-psicológicas, mas das relações sociais estáveis dos
falantes” (BAKHTIN, 1981). Se o texto parece marcar certas preferências e
vícios “subjetivo-psicológicos”, torna-se, porém, muito complicado
estabelecer o que nele é idioletal e o que é socioletal. A contextualização
propicia algumas delimitações, porém ainda vagas e incertas, devido aos
recortes impostos à intertextualidade.
Quanto ao plano da expressão, chamado a se jungir ao do conteúdo,
no texto, é bem conhecido seu papel saussuriano de [página 152] suporte
do significado, de elemento que tem a possibilidade de se tornar sensível,
em qualquer ordem sensorial e que, por esse motivo, expressa o conteúdo
ausente (DUCROT & TODOROV, 1972, p. 132). Não se retomam aqui
debates históricos sobre a arbitrariedade e a motivação do signo, na relação
entre significante e significado. Pretende-se apenas rever o problema da
expressão, na perspectiva da Semiótica, ou seja, mostrar o interesse em se
explicarem as organizações da expressão na tarefa de construção do
sentido. Pensa-se especificamente nos textos em que, além de cumprir o
encargo acima apontado de expressar o conteúdo, o plano da expressão
compõe também organizações secundárias da expressão.
As organizações secundárias correspondem, no plano da expressão,
às configurações e percursos figurativos do conteúdo, ou seja, como elas,
investem e “concretizam” percursos temáticos abstratos. Extrapola-se o
nome e fala-se em figuras da expressão, que se manifestam sob a forma de
unidades reiteradas da expressão, em geral traços ou conjuntos de traços,
que assumem relações de caráter semi-simbólico58 com o plano do
conteúdo. Em outros termos, uma categoria da expressão que subsume a
articulação de contrários correlaciona-se a uma categoria do conteúdo.
Tomem-se como exemplo os versos de Drummond em ‘Mudança’:

O que muda na mudança,


se tudo em volta é uma dança
no trajeto da esperança
junto ao que nunca se alcança? (ANDRADE, 1984, p. 73).

Há uma linha de leitura da expressão obtida pela reiteração (treze


vezes) do traço de nasalidade: muda, na, mudança, em, uma, dança, no,
esperança, junto, nunca, alcança. O traço de ressonância nasal opõe-se à
oralidade na constituição da categoria oralidade vs. nasalidade. Essa
categoria relaciona-se, no texto de Drummond, à categoria abstrata de
conteúdo articulada em mudança/transformação vs.
manutenção/conservação. A repetição nasal, ressonante, concretiza sonora-
mente o tema abstrato da mudança, qual seja o da conservação dentro da
transformação. Sem dúvida, esse percurso temático realiza-se também no
discurso, investido pelas figuras visuais de conteúdo, graças aos traços
espaciais de circularidade (“volta”, “dança”), em oposição aos de reta, de
seguir adiante (“trajeto”).
A correlação proposta entre a categoria da expressão e a do conteúdo
cria o sistema semi-simbólico, em que as rela- [página 153] ções entre os
dois planos não são convencionais, no sentido atribuído à relação
comumente vigente entre expressão e conteúdo. Nas organizações semi-
simbólicas, secundárias, cabe à expressão concretizar sensorialmente as
abstrações temáticas do conteúdo, instaurando, assim, um novo saber sobre
o mundo. Nega-se o já sabido, o já conhecido, e aprende-se. no poema de
Drummond, por exemplo, que a ressonância nasal expressa conservação e
“sentem-se”, sonoramente, os efeitos do permanecer, do ficar igual, mesmo
no movimento da mudança.
As figuras semânticas do discurso, conforme foi explicado,
procuram. essencialmente, criar a ilusão de realidade. Pode-se dizer que
também as figuras da expressão concorrem para a referencialização textual.
Os efeitos de sentido de realidade resultam, portanto, de diferentes
procedimentos discursivos e textuais de investimento figurativo de
conteúdos abstratos. Na semântica do discurso, porém, ao contrário do que
ocorre na figurativização da expressão, os efeitos de verdade decorrentes da
cobertura figurativa são, em geral, efeitos apenas de reconhecimento do
mundo tal qual o lê o senso comum, ou seja, descobrem-se no texto as
imagens do mundo. Só por meio das relações metafóricas e metonímicas
instaladas entre duas ou mais linhas isotópicas obtêm-se efeitos de novo
saber sobre as coisas e, em lugar de reconhecer imagens já vistas, aprende-
se a ler o mundo de outro modo. As três isotopias figurativas de ‘O mar e o
canavial’, de J. C. de Meio Neto (1975, p. 9) — a do mar, a do canavial e a
da criação poética (“verso”, “elocução”, “cordel”, “narrada”, etc.) — e,
sobretudo, as relações entre elas, fazem conceber poesia, de forma original,
como a contradição entre a veemência e a mesmice do mar e entre o
desmedido e o comedido do canavial.
As figuras de expressão combinam-se e confundem-se com as
metáforas e as metonímias discursivas na tarefa de produzirem uma nova
leitura do mundo. A organização secundária da expressão não se restringe,
assim, a expressar conteúdos, primeiro encargo do plano dos significantes,
não se limita tampouco a criar efeitos de realidade, como os procedimentos
semânticos de figurativização, mas cumpre, antes de tudo, o papel essencial
de fabricar o mundo, lido e sabido, a partir de novas perspectivas, e de
mostrar uma outra verdade das coisas.
As aliterações, as rimas, os anagramas não podem ser pensados
apenas como recursos de expressão que reforçam ou enfatizam certos
conteúdos ou que criam efeitos de literariedade, chamando a atenção para o
texto e não para o refe- [página 154] rente. Consideradas sistemas semi-
simbólicos, as organizações da expressão recobrem, como foi apontado,
categorias de conteúdo e, a partir dessa relação, repensam ou refazem a
realidade.
Os sistemas semi-simbólicos, pelos motivos já mencionados, podem
ser denominados poéticos e ocorrem predominantemente nos textos
literários e também na pintura, no desenho, na escultura, no quadrinho, em
todos os textos enfim que buscam produzir os efeitos descritos. Foram, na
verdade, estudos de Semiótica do visual que fundamentaram as
considerações feitas sobre os sistemas semi-simbólicos secundários da
expressão59.
Com base nessas observações, devem-se rever as figuras de
expressão e aproximá-las das figuras de conteúdo. Ambas são figuras do
texto, e não de palavras ou de frases, e assumem o papel de estabelecer um
outro ponto de vista sobre o mundo. Nesse caso, pode-se falar de
originalidade ou de criatividade.
NOTAS

47 “Veja-se sobretudo o ensaio de Lopes (1978), em que propõe três


interpretantes do discurso: do código (leitura paradigmática
taxionômica), do contexto (leitura sintagmática) e ideológico
(leitura intertextual).
48 Retoma-se aqui, de forma fragmentária e sem recorrer aos
procedimentos lingüísticos de citação, nosso ensaio de 1983,
‘Problemas de enunciação’ (1987).
49 Em geral o esquema narrativo da enunciação interrompe-se no
momento em que o destinatário, manipulado, se torna sujeito
capacitado para o fazer ou sujeito que crê, não ocorrendo, nesse
caso, nem o percurso completo do sujeito, nem a sanção final, que
lhe julgaria o fazer. Se essa e a situação mais freqüente, nada
impede, porem, o aparecimento discurso do percurso da sanção,
como acontece, muitas vezes, no discurso publicitário. O
destinador-julgador é, então, investido pelo mesmo ator
enunciador ou por seu delegado no discurso, o narrador. Isso
acontece, por exemplo, com as propagandas em que o sujeito que
comprou o produto anunciado e recompensado com uma bela
mulher ou com muito dinheiro.
50 Não se insistiu mais no fato de que a enunciação está sempre
pressuposta no discurso, nunca nele explicitada, pois se acredita
ter mostrado que essa concepção de enunciação fundamenta todo
o trabalho.
51 Anotações decurso ministrado na Escola de Altos Estudos em
Ciências Sociais, em Paris, no ano escolar de 1976-1977.
52 Empregam-se norma, norma social e norma individual, no
sentido que lhes atribui Coseriu (1979, p. 13-85).
53 Lukács, no dizer de Poulantzas, pertenceria à tendência
“sobrepolitizante”, com sua leitura historicista de classe e da
consciência de classe. [página 155]
54 As frações de classe, como as classes, têm força social; as
categorias sociais BIBLIOGRAFIA são estabelecidas
principalmente em relação ao nível político e ao ideológico
como, por exemplo, a burocracia de Estado; as camadas sociais
indicam efeitos secundários da combinação dos modos de
produção numa for maçã social (POULANTZAS, 1971).
55 Para a questão do “saber dos dominados”, vejam-se Bruni (1980)
e Fiorin (1983, p. 130-63).
56 Não se trata de estabelecer uma determinação direta do nível
econômico sobre o discurso, nem cabe aqui discutir as mediações
e as relações entre o econômico e o ideológico. É suficiente
reconhecer que as formações ideológicas, determinadas de forma
complexa e indireta pela base econômica, determinam, por sua
vez, os discursos. Veja-se, a respeito, Fiorin (1983).
57 Vejam-se os trabalhos de Bakhtin sobre a condição dialógica ou
carnavalesco de certos discursos, sobretudo suas análises de
Dostoievski (1970) e de Rabelais (1974)
58 Para a distinção entre linguagens e sistemas simbólicos, veja-se
Hjelmslev (1968)
59 Vejam-se os trabalhos de Floch (1978, 1981), Thürlemann (1982)
e o nosso, de 1986. Também a dissertação de Tatit (1982), sobre a
canção popular, trata da organização poética da expressão.
[página 156]
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ÍNDICE ANALÍTICO

Abstrato (vs. figurativo) 113-24


Ação (vs. manipulação) 37
Actancial
(embreagem) 77
(desembreagem) 74-7
(papel) 35-6
Actante 29-31
destinador 36-40, 42
destinatário 36-40, 42
discursivo 80-1, 86
funcional 35-6, 42
narrativo 80-1, 86
objeto 29-31, 42
sintático 35-6
sujeito 29-31, 42
Actorial (ancoragem) 119
Actorialização 80-1
Aflição (paixão de) 64-5
Ambigüidade 130
discursiva 130
narrativa 130
Análise
externa 5-6, 14, 135
interna 5-6, 14, 135
Ancoragem 119
actorial 119
espacial 119
temporal 119
Aparência (vs. imanência) 14-5, 56
Apropriação 33-4
Aquisição (programa de) 32-4
transitiva (ou doação) 33-4
reflexiva (ou apropriação) 33-4
Argumentação 98, 106-12
Argumentativo(a)
(discurso) 111-2, 131
(estrutura) 106-12, 131-2
Aspecto 91
contínuo 91
descontínuo 91
durativo 91
incoativo 91
pontual 91
terminativo 91
Aspectualização 91
Ato de linguagem 97-8
ilocucional 97, 104-6
locucional 97
perlocucional 97, 104-6
performativo 97
Ator 80-1, 116-7
Atualização 27-8, 30, 43, 52-3
Auditório 107-9
particular 108-9
universal 108-9
Axiologia 45-6, 49
Axiologização 24-5, 45-6

Base (programa de) 33


Base classemática 114
Benevolência (paixão de) 66-7

Categoria
da comunicação ou da factividade 42
da pessoa 74-5
da tensividade 25-7
da transitividade 29, 42
descritiva 25
fórica 26-7
semântica 24
tímica 24-7
Classema 113-4
Classemático(a)
(base) 1 14
(isotopia) 114, 124
Coerência 131-2
semântica 124-31
textual 131-2
Coesão textual 131-2
Cognitivo(a)
(dimensão) 41
(lazer ou performance) 56-8
(sanção) 39-41
Competência 34-7
modal 37
semântica 37
Complementar (termo) 21-2
Complementaridade 21-2
Complexo(a)
(isotopia) 130
(termo) 22
Componente
lingüístico 97, 102
retórico 97, 102
Comunicação 42, 136-9
Condições
de produção 3, 140-5
de recepção 140-5
Conector de isotopia 126-8
Confiança (paixão de) 64-5
Configuração 119-23
discursiva 119-23
figurativa 119-23
passional ou patêmica 61
temática 116
Conjunção 30
Construção
de objetos 35, 139
de simulacros 64
de sujeitos 35, 139
Contexto 117-9, 142-6
externo 145
interno 144
situacional 144
Continuidade 91
Contradição 21-2
Contraditório (termo) 21-2
Contrariedade 21-2
Contrário (termo) 21-2
Contrato
de veridicção 93-5, 117-8
fiduciário 37
Convencer (vs. persuadir) 109
Conversacional
(máxima) 98, 102-3
(pragmática) 98
Conversão 27-8, 45-9

Decepção (paixão de) 64-5


Descontinuidade 91
Descritivo(a)
(categoria) 25
(enunciado) 32, 50
(valor) 46-7
Desembreagem 74-7
actancial 74-7
enunciativa 74-5
enunciva 74-5
espacial 88-92
interna ou de 2º grau 75-6
temporal 88-92
Desencadeador de isotopia 126, 128
Destinador 36-40, 42
— julgador 39-40
— manipulador 36-9
(percurso do) 36-40
Destinatário 36-40, 42 Dever
— fazer 51-3
— ser 58-9
Dimensão
abstrata 113-4
cognitiva 41
figurativa 113-4
pragmática 41
Discursivo(a)
(ambigüidade) 130
(configuração) 119-23
(estrutura) 15-6
(semântica) 15-6, 113-32
(semiótica) 15-6, 72-132
(sintaxe) 15-6, 73-112
Discurso 2-4, 72-3
argumentativo 111-2, 131
(figuras do) 1 29
(leis do) 97, 102-3
narrativo 111-2, 131
temático 115-6
Disforia 24-6
Disjunção 30
Doação 33-4
Duratividade 91

Efeito de
enunciação 76-7, 84-5, 118-9
referente ou realidade 76-7, 81-5, 117-9
sentido 76-7, 81-5, 117-9, 138
verdade 56, 76-7, 82, 94, 117-9
Elementar
(enunciado) 29-31
(estrutura) 20-3
(sintagma) 31-5
Embreagem
actancial 77
espacial 89
temporal 89
Endotáxica (modalidade) 52-3
Enunciação 3-6, 72-7, 123-4, 136-44
(efeitos de) 76-7, 118-9
— enunciada 74-5
pressuposta 74-5, 137-9
(projeções da) 73-7
(sujeito da) 136, 139-42
Enunciado
descritivo 32
de estado 29-30
de fazer 29-30
elementar 29-31
modal 32
vs. frase 102
Enunciador 75, 92-5, 103, 136-9
Enunciatário 75, 92-5, 136-9
Enunciativo (desembreagem, embreagem) 74-7
Enuncivo (desembreagem, embreagem) 74-7
Espacial
(ancoragem) 119
(localização) 88-9
(programação) 88-9
Espacialização 88-92
Espaço 88-92
heterotópico 92
objetivo 88
paratópico 92
subjetivo 88
tópico 92
utópico 92
Espera (paixão de) 63-4
fiduciária 63-4
relaxada 64
simples 63
tensa 64
Esperança (paixão de) 64-5
Espoliação 33-4
Esquema narrativo canônico 41-3
Estratégia narrativa 43 4
Estrutura
argumentativa 106-12, Hl 2
discursiva 15-6
elementar 20-3
fundamental 15-6
narrativa 15-6
patêmica ou passional 61
textual 15-20
Estrutural (semântica) 113-4
Euforia 24-6
Existência
modal 59-62
semântica 46, 62
semiótica 30, 46, 62
veridictória 59
Exotáxica (modalidade) 52-3
Expressão
(figuras da) 153-5
(organização secundária da) 153-5
(plano da) 152-5
Externo(a)
(análise) 5-6, 135
(contexto) 145
Exteroceptividade 113-4

Factitividade 42, 50-1


Falsidade 55-6, 93-5
Falta 65-6
(liquidação da) 65-6
Fazer
cognitivo 56-8
(enunciado de) 29-30
interpretativo 39-41, 56-9
persuasivo 38, 56
pragmático 41
(modalidade do) 49-55
Fiduciário(a)
(contrato) 37
(espera) 63-4
Figura 115-24, 129
da expressão 153-5
do discurso 129
nuclear 114
Figuração 117
Figurativização 115-24
Figurativo(a)
(discurso) 116-9
(dimensão) 113-5
(isotopia) 124-5
(núcleo) 120-1
(percurso) 119-23
(variação) 120-1
Foco narrativo 78-88
Foria26-7
Fórica (categoria) 26-7
Frase (vs. enunciado) 102
Função 29
conjunção 30
disjunção 30
junção 29-30
transformação 29-30
Funcional (actante) 35-6, 42
Fundamental
(estrutura) 15-6
(gramática) 15-6, 20-8
(semântica) 24-7
(sintaxe) 20-4

Gerativo (percurso) 15-20 Gramática


discursiva 15-6
fundamental 15-6, 20-8
narrativa 15-6
semiótica 15-6

Heterotópico (espaço) 92

Iconização 117
Ideologia 49, 148-52
Ilocução 97, 104-6
Ilocucional
(ato) 97, 104-6
(pragmática) 97-8
Imanência (vs. aparência) 14-5, 56
Implícito 96, 99-104
Incoatividade 92
Insatisfação (paixão de) 64-5
Insegurança (paixão de) 64-5
Intencionalidade 27, 44-5
Interlocutário 75-6
Interlocutor 75-6
Interno(a)
(análise) 5-6, 14, 135
(contexto) 144
Interoceptividade 113-4
Interpretação 39-41, 56-9
Interpretativo (fazer) 39-41, 56-9
Intertextual (relação) 142
Intertextualidade 128, 142-5
intimidação 38
Isotopia 124-30
classemática 114, 124
complexa 130
(conector de) 126-8
(desencadeador de) 126-8
figurativa 124-5
pluriisotopia 129
temática 118-9, 125

Junção 29-30
conjunção 30
disjunção 30

L
Leis do discurso 97, 102-3
exaustividade 97, 103
informatividade 97
litotes 97
Lexema 114, 119
Lingüístico
(componente) 97, 102
(nível) 15
Liquidação da falta 65-6
Localização espácio-temporal 88-9
Locução 97 Locucional 97
Locutor 103

Malevolência (paixão de) 66-7


Manifestação 14-5, 56
Manipulação 36-9
intimidação 38
provocação 38
sedução 38
tentação 38
Manipulador (destinador) 36-9
Máxima conversacional 98, 102-3
da qualidade 98
da quantidade 98, 103
da relação 98
do modo 98
Mentira 55-6 Modal
(categoria) 47-9
(competência) 37
(enunciado) 32, 50
(existência) 59, 62
(valor) 46-7
Modalidade 47-60
atualizante 52-3
dever 51-3, 58-9
endotáxica ou intrínseca 52-3
existencial ou do ser 49, 55-60
exotáxica ou extrínseca 52-3
factitiva ou fazer-fazer 50-1
fazer-ser 58-60
intencional ou do fazer 49-55
poder 51-4, 58-9
querer 51-3, 58-9
realizante 52-3
saber 51-3, 58-9
ser-fazer 51-5
ser-ser 55-8
tensiva 25-7
veridictória 55-8
virtualizante 52-3
Morfolexema 116
Morfológico (ou taxionômico) (sub-componente) 20-2
Motivo 120

Narrador 75-7, 80 1, 86 8
Narratário 75-7
Narrativo(a)
(ambigüidade) 1 10
(discurso) 111 2. 131
(esquema) 41-3
(estratégia) 43-4
(estrutura) 15-6
(foco) 78-88
(percurso) 35-41, 122
(programa) 31-5
(semântica) 45-69
(sintaxe) 28-45
(variação) 120-2
Neutro (termo) 22
Nuclear (figura) 114
Núcleo
figurativo 120-1
sêmico 114
O

Objetividade
de discurso 75
de tempo e de espaço 88
Objetivo(a)
(discurso) 75
(espaço) 88
(tempo) 88
(valor) 46
Objeto
(actante) 29-31, 42
(construção de) 35, 139
objeto-valor 31, 45
Observador 86-8, 91
Operacional (ou sintático) (subcomponente) 20, 22

Paixão 60-9
aflição 64-5
benevolência 66-7
complexa 62-9
confiança 64-5
decepção 64-5
de ausência 66
de benquerença 67
de falta 66
de malquerença 67
espera 63-4
esperança 64-5
insatisfação 64-5
insegurança 64-5
malevolência 66-7
revolta 66-7
resignação 65-6
satisfação 64-5
simples ou de objeto 62-3, 68
vingança 66-7
Papel
actancial 35-6
temático 116
Paratópico (espaço) 92
Passional ou patêmica
(configuração) 61
Percurso
do destinador-manipulador 36-9
do destinador-julgador 39-40
do sujeito 36
figurativo 119-23, 125
gerativo 15-20
narrativo 35-41, 122
temático 116, 119-23, 125
Performance 34-5
Performativo (verbo) 97
Perlocução 97, 104-6
Perlocucional (ato) 97, 104-6
Persuadir (vs. convencer) 109
Persuasão 38, 56
Persuasivo (fazer) 38-56
Pessoa (categoria da) 74-5
Pluriisotopia 129-30
Poder 51-4, 58-9
Poético (sistema semi-simbólico) 155
Polifonia 103-4
Polissememia 114
Ponto de vista 78-88
Pontual (aspecto) 91
Pontualidade 91
Posto 100
Pragmática 95-9
conversacional 98
ilocucional 97-8
Pragmático(a)
(dimensão) 41
(fato) 95-106
(fazer) 41
(sanção) 39-41
Pressuposição 99-104
Pressuposto 99-104
(emprego retórico) 101
Privação (programa de) 32.-4
reflexiva (ou renúncia) 33-4
transitiva (ou espoliação) 33-4
Produção 136, 139
(condições de) 140-5
Produtor 139-41, 143
Programa narrativo 31-5
de apropriação 33-4
de aquisição transitiva e reflexiva 32-4
de base 33
de competência 34-7
de construção de objeto 35, 139
de construção de sujeito 35, 139
de doação 33-4
de espoliação 33-4
de performance 34-5
de privação transitiva e reflexiva 32-4
de renúncia 33-4
de uso 33
Programação espácio-temporal 88-9
Programação textual 89-91
Provocação 38

Quadrado semiótico 21-3


Querer 51-3, 58-9

Realidade
(efeito de) 76-7, 81-5, 1 17-9
Realização 30, 52-3
Recepção (condições de) 140-5
Receptor-interpretante 140-3
Reconhecimento 39-41, 58, 112, 118
Referente
(efeito de) 76-7, 81-5, 1 17-9
Relação transitiva 29
Relaxamento 25-6
Renúncia 33-4
Retórico (componente) 97, 102
Retribuição 39-41
Revolta (paixão de) 66-7

Saber 51-3, 58-9


Sanção 39-41
cognitiva 39-41
pragmática 39-41
Satisfação (paixão de) 64-5
Sedução 38 Segredo 55-6
Sema 113-4
Semântica
da enunciação 96-7
discursiva 113-32
estrutural 113-4
fundamental 24-7
intencional 96-7
narrativa 45-69
semiótica '5-6
Semântico(a)
(categoria) 24
(coerência) 124-30, 131
(competência) 37
(existência) 46, 62
Semema 114, 119
Sêmico (núcleo) 114
Semiótica
características gerais 13-4
da língua natural 113, 117
discursiva 72-132
do mundo natural 113, 117
narrativa 28-69 Semiótico(a)
(existência) 30, 62
(quadrado) 21-3 *
(semântica) 15-6
(sintaxe) 15-6
Semi-simbólico
(sistema) 153-5 Sentido
(efeito de) 76-7, 81-5, 117-9, 138
(vs. significação) 97, 102-3
Ser (modalidade do) 49, 55-60
Significação (vs. sentido) 97,
102 Simulacro
(construção de) 64
Sintagma elementar 31-5
Sintático (ou operacional) (subcomponente) 20, 22
Sintaxe
discursiva 73-112
fundamental 20-4
narrativa 28-45
semiótica 15-6
Situacional (contexto) 144
Subcomponente
morfológico ou taxionômico 20
sintático ou operacional 20, 22
Subentendido 101-5
Subjetividade
de discurso 75
de tempo e de espaço 88
na língua 4 Subjetivo
(discurso) 75
(espaço) 88
(tempo) 88
(valor) 46
Sujeito (actante) 29-31, 42
competente 35-6
da enunciação 136, 139-42
do querer 35-6
do saber 35-6
(percurso do) 36
realizador 35-6

Taxionômico (ou morfológico) (subcomponente) 20


Tema 115-6, 124-5
Temático(a)
discurso 115-6
isotopia 118-9, 125
papel 116
percurso 119-23
variação 120-1
Tematização 115-6
Tempo 88-92
Temporal
(ancoragem) 119
(aspectualização) 91
(localização). 88-9
(programação) 89
Temporalização 88-92
aspectualização 91
localização 88-9
programação 89
Tensão 25-6
Tensividade (categoria da) 25-7
Tensivo(a) (modalidade) 25-7
Tentação 38
Terminatividade 91
Terminativo (aspecto) 91
Termo
complexo 22
complementar 21-2
contraditório 21-3
contrário 21-3
neutro 22
Textual
(estrutura) 112, 152
(coerência) 131-2
(coesão) 131-2
(nível) 112
(programação) 89-91
Textualização 89-91, 152
Timia 24-7
Tímica (categoria) 24-7
Tópico (espaço) 92
Transformação 29-30
Transitividade 29-42
Transitivo(a)
(aquisição) 33-4
(privação) 33-4
(relação) 29-42
U

Uso (programa de) 33


Utópico (espaço) 92

Valor 45-7
descritivo 46-7
modal 46-7
objetivo 46
subjetivo 46
Variação
figurativa 120-1
narrativa 120-1
temática 120-1
Verdade 55-6, 93-5
(efeitos de) 76-7, 82, 94, 117
Verdadeiro (discurso) 94
Veridicção 93-5
(contrato de) 93-5, 117-8
falsidade 55-6, 93-5
imanência 56
manifestação 56
mentira 55-6
segredo 55-6
verdade 55-6, 93-5
Veridictória (modalidade) 55-8
Vingança (paixão de) 66-7
Virtualização 27-8, 30, 43, 52-3
Ficha técnica

Divulgação LIVRARIA Humanitas-Discurso


Mancha 10,3 x 18 cm
Formato 14x21 cm
Papel miolo: off-set 75 g/m2
capa: cartão Supremo 240 g/m2
Impressão da capa Prata e vermelho vinho
Impressão e acabamento GRÁFICA FFLCH
Número de páginas 174
Tiragem 2.000
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