DIREITO COMUNITÁRIO

Introdução ² AS ORIGENS DA IDEIA EUROPEIA

1. Noção de Europa
É frequente situar em épocas recuadas da história o momento em que, pela primeira vez, se terá pressentido a existência de elementos que, contribuindo para definir um particular espaço físico e para individualuzar os povos da Europa, permitiram a estes arrogar-se a qualidade de membros de uma distinta família humana. A tomada de consciência da realidade europeia exigiu, porém, a superação de poderosos factores de dissociação de populações que, à partida, se achavam profundamente separadas pelas diferenças de origem, pela língua, pela cultura, pelo grau de civilização. Em primeiro lugar,a própria irregularidade do contorno geográfico e a duvidosa autonomia da Europa não se prestam a uma caracterização geográfica muito precisa, havendo quem apresente a Europa como um simples promontório da Ásia, enquanto outros a vêm estreitamente ligada à África. Ora, esta noção de elasticidade geográfica, com todos os elementos de diversificação de condições de vida que daí naturalmete decorrem, não podia favorecer uma satisfatória definição territorial da Europa. Analogamente, quando nos detemos a examinar a diversidade étnica e o antagonismo de interesses dos diversos povos que ao longo dos sucessivos períodos históricos se foram fixando no continente europeu, não deparamos com qualquer factor de unidade (salvo, a partir de certa época histórica, a comunhão de crença religiosa) cuja presença tivesse podido desempenhar , à semelhança do que ocorreu noutros espaços territoriais, uma acção catalisadora de múltiplos factores de desagregação.
É bem conhecida como tal acção catalisadora foi no séc. XIX desempenhada no continente americano, tal como no séc. XX em África, pelo desejo comum da libertação do domínio ou da simples ingerência europeia ² traduzido, pelo que toca ao Novo Mundo, pela doutrina Monroviana da «América para os americanos» e no Continente Negro por um vasto movimento de emancipação expresso em fórmulas anticolonialistas e em comuns anseios de desenvolvimento económico e social capaz de permitir ultrapassar o generalizado atraso das condições de vida.

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2. Uma comunidade de civilização
A comunidade de cultura e de civilização e a unidade espiritual em que a Europa viria a exprimir-se, superando a falta de unidade geográfica e a diversidade dos povos que ao longo dos tempos nela se instalaram, é, porém, antes de mais e fundamentalmente, obr a de Roma. É certo que a tradição europeia deve o essencial do seu conteúdo tanto às instituições jurídicas e sociais romanas como ao espólio helénico e ao ideário judaico -cristão; mas Roma, não se limitando a justapor essas diversas contribuições, soube realizar a síntese dos seus elementos fundamentrais, transmitindo-a depois aos povos que submetera ao seu domínio e conquistara para a sua civilização. A ulterior incursão no Império, centrado sobre o Mediterrâneo e já então periclitante (que corria risco, perigo), de elementos culturais de origem germânica, viria a influenciar fortemente a definição do que mais tarde se convenciou denominar civilização europeia ² uma civilização cuja essência é o resultado da amálgama da tradição cultural da antiguidade greco-romana e do cristianismo, do mundo mediterrânico e dos povos germânicos.
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3. A Europa sob o domínio da Roma Imperial A adesão de toda a Europa ² desde a Lusitânia, sobre o Atlântico, até aos povos acantonados a leste do Elba, desde a Grécia à Britânia ² ao modelo romano de cultura e de civilização, permitiu que num vasto espaço geográfico, sensivelmente coincidente com a Europa Ocidental e Central dos nossos diais, se desenvolvessem sociedades humanas que embora etnicamente distintas, se subordinaram a leis e instituições comuns. Surge, assim, uma primeira noção política de Europa: uma Europa conquistada, mas tornada una, depois de submetida pelas legiões romanas, por virtude da superior civilização do conquistador e sobretudo da ordem jurídica com vocação unificadora de que este era portador. A unidade europeia sob o domínio de Roma não haveria, porém, de resistir muito tempo aos factores de desagregação interna e ao assalto de sucessivas vagas de bárbaros que, desencadeadas nas periferias, rapidamente convergiram para o coração do Império.

4. A Europa sob a égide da Roma papal
Mas, ultrapassada a fase de profundas convulsões que acompanharam e se seguiram à derrocada do império Romano, é ainda sob a égide de Roma ² apoiada agora não na força das legiões mas, antes, no prestígio e autoridade que o Papado romano conseguira salvaguardar e impor ² que a Europa vai ser organizada e a sua unidade de civilização preservada. A difusão do cristianismo implicou a aceitação pelos diversos povos da Europa de concepções muito próximas sobre o mundo e avida, sobre o destino último do homem e o modo de o alcançar ² tudo traduzido no respeito de valores e na observância de regras de comportamento resultantes dos princípios de uma comum religião de matriz judaico-cristã e de uma vasta interpenetração de culturas em que o sistema jurídico e social de Roma, amoldado a novas formas de existência no contacto com as instituições dos povos bárbaros, marca uma presença inconfundível. Numa Europa assim submetida à religião cristã, a Igreja de Roma exerce uma influência e consegue mesmo um acatamento tão generalizado no domínio temporal que conseguiu impor à Europa uma unidade espiritual e formas de unidade política que ficaram a marcar para sempre a sua história. O império de Carlos Magno surge, neste especial ambiente da Europa medieval, como uma magnífica representação da «Civitas Dei» na concepção de Santo Agostinho, assente como esteve mum vasto território europeu submetido a uma autoridade dual ² política e religiosa ² mas que no topo da hierarquia, na pessoa, reencontrara transitoriamente uma certa forma de unidade. De igual modo, o Sacro Império Romano-Germânico conformase ainda com o modelo político de uma Europa unificada sob o signo da Igreja de Cristo. Neste contexto político-religioso, o movimento das Cruzadas ² dominante num longo período histórico em que eram ainda bem frouxis os conceitos de soberania nacional ² apresenta-se como expressão inequívoca de uma Europa una que, mobilizando as energias colectivas, surge perante os infiéis a defender ideias e objectivos comuns a povos e príncipes submetidos todos, espiritual e temporalmente, à autoridade voluntariamente acatada dos Papas de Roma.

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e não obstante o espírito de cristandade que domina as nações da Europa vinculando-as e solidarizando-as sobretudo na luta contra os inimigos da fé e permitindo-lhes resistir a graves ameaças asiáticas e islâmicas. marcam também a época histórica em que se inicia um esforço sistemático na busca de 4 . que permitira reafirmar a soberania temporal da Igreja. porém. 6. À medida que no quadro das diversas nações europeias se robustece o poder central e se afirma o princípio da unidade nacional. As guerras religiosas ² que representam um momento crucial do processo de afirmação da independência nacional em face do Papado e de elaboração de um novo mapa político da Europa ² dando ocasião a prolongadas e esgotantes provas de força. de complexos processos de integração macional e de afirmação do poder absoluto dos respectivos soberanos. O despertar das modernas soberanias europeias e a quebra da unidade política e religiosa da Europa Entretanto. A desvalorização do papel político da Igreja Não obstante a vitória alcançada sobre os Imperadores alemães. arrogando-se a qualidade de representantes directos de Deus na Terra.5. a grande vencida ² com enorme prejuízo do seu anterior poder político e mesmo da sua influência epsiritual que até então exercera. X ao séc. fortes e senhores dos seus destinos. sobretudo. A Igreja é agora. esta saiu consideravelmente enfraquecida das lutas que do séc. as relações entre os diversos Estados europeus são dominadas por um clima de rivalidade permanente a exprimir-se frequentemente em luta armada. a Reforma protestante (1517). represntaram os momentos culminantes da decadência do prestígio e da autoridade de Roma sobre a Europa Cristã. acentua-se o risco de confrontos directos ² que o Papado deixara de ter autoridade para arbitrar ² entre Estados que emergem. A partir do século XIV é com os Reis de França que se reacende a longa batalha entre o poder de Roma e o poder de Príncipes que. A transferência dos Papas para Avinhão (1309). nesta segunda fase da luta. o Cisma do Ocidente (1378-1429) e. pretendiam eximir-se a qualquer ingerência do Papado no domínio temporal. XIII os Papas se viram obrigados a sustentar. cada vez mais coesos.

dos princípios e regras do «Balance of Power» baseado num sistema de alianças entre potências europeias. atentas ao princípio das nacionalidades. A paz fundada na cooperação e no respeito pelo direito internacional (1815-1914) Valorizando e utilizando no interesse geral uma comunidade de civilização que o contacto cada vez mais fácil e estreito permitia reforçar. essa parecia definitivamente perdida. mas a unidade religiosa e política da Europa. A comunidade da civilização mantém -se. se necessário pela força das armas. fruto de um imperialismo apoiado na força de exércitos em movimento através do continente. a Europa soube construir ao longo do séc. técnico e cultural. . moderam as irrupções de agressividade ocorridas aqui e além. arbitram autoritariamente. buscam fórmulas de convivência possível. de cooperação efectiva e de enriquecimento mútuo que proporcionou ao Velho Continente um século de paz e de enorme desenvolvimento económico. que desde o século XVI vinha a ser ensaiada. um espírito de entendimento. o mapa político da Europa. por sobre as fronteiras erguidas no decurso de um milénio e através de frequentes congressos políticos e conferências técnicas. os conflitos pontuais a nível interno ou internacional e retocam paulatinamente. soberanias que. que o Papado preservara durante um milénio. 5 8. cujo eixo podia oscilar por razões conjunturais mas sem alteração profunda do peso das coligações em presença. dia a dia. 7. só por um curto espaço de tempo interrompeu a aplicação.fórmulas de equilíbrio das potências europeias. certamente. independentes e soberanas dentro dos limites territoriais do Estado. A Santa Aliança ² que emerge do Congresso de Viena em que se procedera à liquidação por via diplomática da aventura imperial da França ² e a política do «Concerto Europeu» que se lhe seguiu. forçadas a coexistir num estreito quadro geográfico. exprimem o pleno triunfo das soberanias nacionais em que o continente se achava retalhado. O «Balance of Power» e o «Concerto Europeu» A tentativa napoleónica de unificação do espaço europeu. XX.

Em 1865 é instituída a União Telegráfica Internacional. as potências europeias reúnem-se em frequentes conferências e congressos internacionais para tratarem dos problemas políticos da Europa e do Mundo que são a expressão da instituição. XIX ² designadamente no domínio dos transportes e das comunicações ² dá lugar a um notável florescimento de organizações de cooperação internacional cuja iniciativa surge normalmente no quadro europeu. Porém. na Conferência de Berlim de 1906 é criada a União Rádio-Telegráfica Internacional. A guerra franco-prussina. pareceu não ser mais. de que as Conferências de Haia e as importantes convenções aí concluídas são a justa expressão. até aí bem sucedidos. A par disso.A evolução técnica. logo diversas vozes ² e das mais autorizadas ² se erguem a proclamar a necessidade não apenas de retomar o interrompido esforço de cooperação mas. de um embrião de governo internacional assento no Concerto das grandes potências. no quadro europeu. ainda então o verdadeiro centro do mundo civilizado. no sentido do estreitamento da cooperação europeia. em 1875 surge a União para o Sistema Métrico. tragicamente. mal o conflito chega ao seu termo. retomada a calma. em 1874 é criada uma União Postal Internacional que em 1878 adopta a designação de União Postal Universal (UPU). se lançava de novo na busca do progresso através da cooperação e na consolidação da paz através do apelo ao Direito. 6 . bem mais do que isso. A guerra de 1914-1918 viria. em 1890 a União dos Caminhos de Ferro. neste particular contexto. de cruta duração. em 1886 a União para a Protecção da Propriedade Literária e Artístrica. em 1883 a União para a Protecção da Propriedade Industrial. impor uma interrupção brutal e sangrenta nos esforços. Em breve a Europa. sobretudo na segunda metade do séc. que um conflito episódico e circunscrito. de o ultrapassar mediante a recriação da perdida unidade da Europa.

os conflitos de interesses desencadeados na altura de assinatura do Tratado de Versalhes contribuíram largamente para exacervar os nacionalistas reinantes. que se assitiu à criação de um clima particularmente favorável à divulgação do velho sonho de unidade política. de HERRIOT. de LOUCHEUR. pouco propícios à aceitação imediata do pensamento de EINAUDI e daqueles que o retomaram. Uma ideia mítica A recriação da unidade europeia constituíra sempre.ª ² Os Percursores 9. que viria a ser o Presidente da República Italiana. como Napoleão e Hitler. porém. Luigi EINAUDI.Capítulo I ² O ANSEIO DE UNIDADE EUROPEIA Secção 1. mas o desfecho das suas aventuras sangrentas comprovou que a Europa só se uniria pela força de vontades livres. de projectos concretos de integração da Europa. Uma ideia mobilizadora Logo após a primeira grande guerra. ao longo dos séculos. capaz de desempenhar no mundo o tradicional e eminente papel que historicamente fora e deveria continuar a ser o seu. 7 . tentaram-no pela força das armas. como foi o caso do Conde COUDENHOVE-KALERGI. em pleno século XX. um anseio comum a homens «invulgares»: alguns. Apesar de esta ser uma ideia muito compartilhada entre muitos euorpeus de vulto. e a tragédia europeia de 1939-1945 viria a permitir a reposição. publicava uma primeira mensagem em que expunha a necessidade de congregar os povos europeus que acabavam de sair de uma luta prolongada e cruel e de os solidarizar na construção de uma Europa unida.  O período entre as duas grandes guerras 10. em novas bases. no período entre as duas guerras mundiais. Foi.

HERRIOT. O Conde COUDENHOVE-KALERGI. por seu tirno. O manifesto saído do Congresso exprimia um veemente apelo à unidade europeia. jovem aristicrata austrohúngaro. tornou-se o apóstolo da unificação da Europa. Desta forma. Logo em 1926. o Congresso Pan-Europeu. surge um novo apelo à união dos povos da Europa.11. Em 1927. no Parlamento Francês. criação de cartéis europeus do carvão. O Manifesto de Viena Por inciativa do referido Conde realizou-se em Viena de Áustria. o ministro francês LOUCHEUR propunha. do aço e dos cereais. diversos economistas e homens de negócios exprimiram a sua adesão à ideia de criação de uma «União Económica e Aduaneira Europeia» cuja designação exprime um objectivo ainda hoje perfeitamente actual na medida em que se considere que uma sólida união económica constitui a base necessária da desejada união política. . pouco tempo volvido. A acção de COUDENHOVE-KALERGI Porém. tarefa à qual iria consagrar a sua vida. lançou em 1925. a que estava reservado bem mais amplo acolhimento. o então ministro dos negícios estrangeiros de França. 8 12. a partir de uma tribuna decorada sobre as doutrinas dos grandes precursores: KANT e VITOR HUGO. os apóstolos da Nova Europa fizeram a sua profissão de fé nos destinos de uma Europa unificada. SULLY e o Abade SAINT-PIERRE. em 1927. Em consonância com a sua luta. um primeiro apelo oficial à união da Europa. sobretudo no que respeita à formação de uma opinião pública mais aberta ao anseio de uma Europa unida. especialmente sobre a opinião parlamentar. e utilização da integração económica ² ainda que incialmente restringida a sectores bem delimitados ² como instrumento da integração política. Os seus esforços alcançaram resultados encorajadores. Num ambiente entusiasta. propostas de actuação e medids fundamentais de um projecto coerente de integração europeia: acção sobre a opinião pública. «organizados pelos Governos no interesse geral e não apenas para satisfação do egoísmo dos produtores». no curto espaço de cinco anos haviam sido lançadas as ideias.

9 14. bastante equívoca. tão vaga que esvaziava a ideia original de muito do seu conteúdo útil. Mas estou igualmente seguro de que. Mas. sobretudo. A acção de Aristides BRIAND A acção do referido conde e. com grandes reservas. sem dúvida. que decide tomar uma iniciativa oficial de carácter concreto que fosse o eco. .as suas propostas foram acolhidas. BRIAND decide finalmente. É este o laço que eu desejaria esforçar-me por estabelecer. dos anseios expressos por tantos ilustres europeus. não obstante esta formulação prudente. sem afectar a soberania de nenhuma das Nações que possam vir a participar em tal associação. Após ter sondado vários dos seus colegas europeus sem ter deparado com reservas sérias senão do lado da Grã-Bretanha. o laço federal. ao nível dos governos da Europa. do ponto de vista político. É esta a questão mais premente e eu creio que é possível alcançar êxito. só em Setembro de 1930 veio a ser designada uma «Comissão para o Estudo da União Europeia» presidida pelo próprio BRIAND que nela trabalhou aceveradamente durante dois anos. manifestadas obretudo por parte da Grã Bretanha. A proposta de BRAIND era. pode ser benéfico». na medida em que não é fácil ver como um laço fe deral entre Estados Europeus poderia ser compatibilizado com o total respeito da soberania dos Estados-membros da organização a constituir. e de ter anunciado as suas intenções em conferência de imprensa. após ter conseguido a aprovação da sua iniciativa pelo Parlamento francês na altura do voto sobre a sua declaração de investidura como Presidente do Conselho. após um primeiro movimento de simpatia. deve existir uma espécie de laço federal. Aristides BRIANDA. como os povos da Europa. assim como do po nto de vista social.13. em 5 de S etembro de 1929. a sua proposta não surgiu no melhor momento. Apanhada na lenta e entorpecedora engrenagem da SDN. Evidentemente que a associação terá sobretudo lugar no domínio económico. submeter à Assembleia da SDN o seu projecto de União Europeia : «(« ) Eu julgo que entre os povos que estão geograficamente agrupados. O fracasso da iniciativa de BRIAND De qualquer modo. o manifesto de Viena causaram uma profunda impressão no ministro dos NE de França.

Secção 2. sobretudo quando começram a manifestar-se no quadro europeu iniciativas alemãs que eram o claro prenúncio de uma nova guerra. Mas o aparelho europeu de produção. oposto a qualquer porjecto de unidade europeia assente na livre expressão da vontade dos diversos povos da Europa. Submetidos a apertado controlo. destinado antes de mais a alojar. vestir e alimentar populações carecidas de meios para satisfazer necessidades elementares. consolidando assim o triunfo de um ideário inspirado num nacionalismo exacerbado e agressivo. que permitiu a subi da ao poder de governos constituídos por elementos favoráveis aos desígnios soviéticos. no ano imediato.ª ² O Ressurgimento da Ideia Europeia no Pós-Guerra  A situação na Europa no termo da II Guerra Mundial 15. A situação económica Quando a guerra chega ao seu termo. esses Estados viram-se forçados a modelar a sua vida política. HITLER conquista o poder na Alemanha. não só de uma vasta parcela de território alemão. em fins de 1932 BRIAND morre. dividia por ódios indizíveis. que durante seis anos foram em larga escala posto ao serviço do esforço da guerra ou detsruído no decurso das hostilidades. o desfecho da guerra determinara a ocupação. económica e social. não dispunha de equipamentos. bem como as suas próprias relações exteriores. pelos exércitos soviéticos. A situação política A par disso. Mesmo aos mais optimistas a iniciativa de BRIAND aparecia como uma ideia morte. defronta -se com a necessidade imediata de um ingente esforço de recuperação da sua capacidade de produção. nem de capital. na conformidade da vontade e da própria imagem do . como igualmente dos países da Europa de Leste e da Europa Balcânica. após seis anos de luta devastadora e sangrenta. profundamente endividada e economicamente detsroçada. a Europa não é mais do que um vasto campo de ruínas: exausta espiritualmente.Mas. 10 16. nem de matérias-primas que lhe pemritissem retomar a actividade normal.

desmobilizara-as rapidamente.U. a fisionomia e o comportamento de estados satélites de Moscovo. A situação militar Por outro lado. numeroso e bem estruturado. haviam emergido dos quadros da resistência ao ocupante nazi. político e social. militarmente. com as iniciativas golpistas dos partidos comunistas bem estruturados. representa sse uma ameaça permanente para as instituições democráticas. de forças armadas eficazes. única potência europeia a dispor. e a Europa Ocidental sabia -se militarmente indefesa: os E. A concretização dessa ameaça poderia depender apenas de uma oportunidade favorável. disciplinado e combativo dos partidos franceses). a GrãBretanha. ou que resultaria naturalmente da conjugação de uma situação interna económica e socialmente difícil. as tropas soviéticas achavam-se a poucas horas d emarcha das fronteiras francesas. O resto da Europa do Ocidente não representava. 11 17. bem apoiados do exterior e dotados da capacidade comprovada para .A. propícia à aceitação popular de transformações profundas dos sistemas económico. após o termo do conflito. Cada um dos Estados do Ocidente Europeu sentia-se politicamente minado e ameçado. haviam retirado. por uma«quinta coluna» soviética . logo após o fim da guerra. o predomínio eleitoral da democracia cristã não impedia que o Partido Comunista. onde o Partido Comunista cedo veio a revelar-se como o mais forte. Também na Itália. Mas os propósitos expansionistas da União Sociética parecia não se limitarem ao espaço europeu que a sorte das operações militares colocara directamente sobre o seu domínio. tentaram apossar-se do poder pela força (como sucedeu na Grécia. Os desíngios hegemónicos da União Soviética ² bem expressos no domínio total (militar. Durante a guerra. onde só com o auxílio exterior foi possível ao governo legal dominar. político e económico) a que sujeitara os países de Leste ² faziam deste modo pesar sobre a Europa Ocidental uma ameaça permanente. no interior das suas próprias fronteiras. mais do que uma soma de fraqueza. nos países do Ocidente Europeu. fortes e bem organizados partidos comunistas que. após prolongada luta. mantendo no Continente europeu forças pouco mais que simbólicas a afirmar o seu direito de ocupação da Alemanha. no termo do conflito. e a assumir rapidamente. a rebelião armada) ou pelo menos participar no seu exército (como se verificou na França .ocupante. tanto no plano interno como na cena internacional. a fomentar do exterior.

sociais e de defesa ² que só em conjugação de esforços poderiam ser eficazmente enfrentados. afectando todos os países do Ocidente. as múltiplas fissuras da armadura democrática dos Estados do Ocidente Europeu. no exílio. económicos. exacerbanos pela tentaiva hitleriana de criação da Europa Germânica. Foi assim que o projecto da criação do BENELUX. de dirigentes dos países subjugados.explorar. união aduaneira entre a Bélgica. o caminho para a unidade europeia parecia aplanado na medida em que ao nível dos respinsáveis políticos dos países do Ocidente se forjara durante a guerra a convicção generalizafa de uma acção solidária na construção de um futuro comum. sente que é urgente antecipar-se a novas manifestações dos nacionalismos europeus. e que as dificuldades que iriam veirificar-se no após-guerra. após o termo das hostilidades. Por outro lado. A acção de CHURCHILL CHURCHILL tem perfeita consciência da ameaça que provém do Leste. a existência de problemas comuns a todos os Estados ² problemas políticos. A conjugação de condições favoráveis à unidade europeia Nestas condições. eram particularmente vulneráveis à agressão. nasceu em Londres. durante a guerra. os europeus mais lúcidos sentem que a Europa só poderá fazer face à ameaça que sobre ela impende se conseguir organizar-se e fortalecer-se na unidade. 12 19. Ganahra-se consciência de que os pequenos países. isolados.  A palavra de ordem: «Construir a Europa» 18. a Holanda e o Luxemburgo. de que a . As condições necessárias estão para tal reunidas: a pendência de uma ameaça exterior. A sujeição dos povos da Europa ao domínio alemão dera co m efeito origem a contactos e favorecera a aproximação. em proveito da causa internacionalista a que se haviam devotado. dos contactos entre os dirigentes exilados destes países. criado-se entre eles um estado de espírito que muito contribuiu para a aceitação. e está seguro. «Construir a Europa» passa a ser palavra de ordem. sobretudo no campo económico e social. de novos arranjos políticos e económicos. exigiam soluções inovadoras de que todos pudessem tirar porveito. por outro lado.

CHURCHILL decide envolver-se activamente nos movimentos de opinião tendentes a divulgar e a fazer avançar o projecto de integração da Europa. a criação dos Estados Unidos da Europa. parecia acreditarem. 13 . está dependente da reconciliação franco -alemã. Depois de apontar a necessidade da organização do Ocidente Europeu. 20. A oposição entre as duas correntes era fundamental e à divergência de opiniões estava subjacente uma dificuldade inerente. ou seja.unidade europeia. nas vantagens dos contactos intergovernamentais e insistiam em que o objectivo último da unificação da Europa deveria ser alcançado progressivamente. hostis aos abandonos de soberania por parte dos Estados. A querela da supranacionalidade A atmosfera de exaltada fé europeia em que o CONGRESSO DA HAIA decorreu não consegiu mascarar a realidade de que pelo menos duas tendências bem mascaradas dividiam os partidários da «ideia europeia»:  uma corrente federalista que reclamaba a instituição imediata de uma autêntica federação política. face à Europa de Leste que se fechara sobre si mesma («Uma cortina de ferro» . considerando que tal união comportava a prévia reconciliação entre a França e a Alemanha e implicava a constituição entre os dois países de uma confederação capaz de garantir uma comunhão de destinos. agrupava os que.acaba de tombar sobre a Europa). CHURCHILL faz um apelo à união dos povos europeus. aparentemente mais realista ou mais prudente. sobretudo. através de uma cooperação cada vez mais estretita entre os Estados soberanos. O terreno estava já preparado para que a exortação de CHURCHILL -«É preciso criar os Estados Unidos da Europa! » recolhesse um eco favorável no seio dos múltiplos movimentos internacionais que entretanto haviam surgido para divulgar o ideário da construção europeia.  uma corrente pragmática. não podendo basear -se em qualquer projecto hegemónico. que assim pode enunciar-se:  Como conciliar o objectivo de unificação da Europa que necessariamente implicaria a aceitação de instituições dotadas de poderes supranacionais efectivos ² com a permanência e intangibilidade da soberania dos Estados.

por definição avessos a todas as formas de ingerência externa nos assuntos de cada um? 21. uma vez aprecuada pelos responsáveis políticos dos Estados da Europa. mas foram particularmente relevantes no âmbito económico e no domínio político. e a da integração ² que acabaria por se impor ² tendente à instituição entre os Estados participantes de um embrião de laço federal vocacionado para congregar um dia. . A moção final do Congresso da Haia Dado que a dificuldade não é puramente doutrinal. A opinião pública europeia estava já perfeitamente alertada e preparada para os esforços concretos. conduzindo à criação da União da Europa Ocidental (UEO).DA COOPERAÇÃO À INTEGRAÇÃO 14 Secção 1. Mas. que iriam desenvolver-se em duas frentes: a da cooperação ² no pleno respeito pela soberania dos Estados europeus. sob cuja égide a maior parte dos movimentos pró-europeus acabaria. um grupo de paises que ao longo dos séculos se haviam periodicamente enfrentado nos campos de batalha.ª ² A fase da cooperação Não obstante a dramática situação económica em que a Europa se encontrava no imediato após-guerra. permitiria a estes avançar numa das possíveis direcções. por se federar no seio do MOVIMENTO EUROPEU. A par da aprovação desta moção os congressitas decidiram a criação de um Comité para a Europa Unida. Capítulo II . os primeiros esforços de cooperação institucionalizada no quadro europeu ocorreram no plano da defesa. pelas crises e mesmo pelos impasses por que haveria de passar o projecto de união europeia no quadro comunitário. ela irá estar presente ao longo de todo o processo de integração e será a responsável pelas dificuldades. no sentido de edificação da Europa. unidos por um compartilhado apego a uma ideia-mito e animados do mesmo empenho em fazer avançar o porcesso. em 1948. os congressistas de Haia souberam habilmente camuflar as suas divergências doutrinais e chegar a uma moção final que seria votada por unanimidade e que. no quadro dos Estados Unidos da Europa.

os Estados participantes assinaram. em 16 de Abril de 1948. A cooperação económica 22. . 15 24. a cooperação no domínio económico surgia como uma necessidade pungente numa Europa devastada pela guerra e por isso carecida de auxílio exterior pronto e eficaz para se recompor dos golpes sofridos e para furtar as populações esmorecidas à propaganda comunista.Esta mesma ideia viria a ser formalmente consagrada na lei norte-americana de 2 de Abril de 1948 que aprovou o «European Recovery Program» em que o Plano Marshall se convertera. O Plano Marshall Os responsáveis norte-americanos aperceberam-se rapidamente dos riscos políticos decorrentes da situação de ruína económica e da consequente debilidade do tecido social com que a Europa emergira de uma longa e terrível guerra. na conformidade de um sistema de cooperação mútua a instituir entre eles. Tendo chegado a completo acordo. em 16 de Julho de 1947. a Convenção de Paris que criou a Organização Europeia de Cooperação Económica (OECE). A Convenção de Paris de 16 de Abril de 1948 que instituiu a OECE Imediatamente a seguir. A Organização Europeia de Cooperação Económica (OECE) Se a colaboração estreita no plano da defesa era um imperativo de sobrevivência do Ocidente Europeu face à voracidade soviética. Em 5 de Junho de 1947. cujos objectivos no domínio da cooperação económica foram largamente alcançados. 23. Os países europeus membros da organização conseguiram. uma conferência de 16 países europeus (entre os quais Portugal) reunia-se em Paris para apreciar os termos da oferta norte-americana e decidir sobre a forma de lhe dar adequado seguimento. p General MARSHALL declarava que os Estados Unidos estavam prontos a apoiar o esforço de reconstrução europeia. desde que os países da Europa conseguissem entender -se quanto à forma de repartir e utilizar eficazmente o auxílio económico financeiro norte-americano.

a redefinição dos seus objectivos. de desenvolvimento da economia e do comércio internacionais e mesmo de ajuda.A. sem prejuízo da estabilidade financeira e contribuir assim para o desenvolvimento da economia mundial. tanto nos países membros como não membros em vias de desenvolvimento económico. a OECE pôde encarar. à luz de circunstâncias qualitativamente diferentes.nos dez anos que se seguiram à sua criação. mais equitativamente repartida. O art. a acção da Organização deveria passar a interessar a um mais bloco de países industrializados do mundo ² nomeadamente aos E. ultrapassando o quadro europeu.A. atingir e mesmo ultrapassar os níveis de desenvolvimento económico anteriores à guerra. os 18 estados Europeus membros da OECE. 1. c) Contribuir para a expansão do comércio mundial numa base multilateral e não discriminatória. 25. que eram já membros associados da OECE ² ligados. A Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE)  Um novo contexto económico Realizada assim com êxito a missão que lhe fora cometida e modificado profundamente o contexto económico que presidira à sua criação. no âmbito de um sistema de economia de mercado. pela Convenção que assinaram em Paris em 14 de Dezembro de 1960. Doravante. aos países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento económico. com objectivos diferentes ² mais amplos e mais genéricos. por relações económicas intensas e todos empenhados num esforço de liberalização das trocas.U. 16 .º da Convenção enuncia-os nos seguintes termos: «A OCDE tem por objectivo promover políticas visando: a) Realizar a mais ampla expansão possível da economia e do emprego e a melhoria do nível de vida nos países mebros. os E.U. b) Contribuir para uma expansão económica sã.  A criação da OCDE Nesta conformidade. e ao Canadá. e o Canadá decidiram converter a OECE numa Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). na conformidade das obrigações internacionais».

tendo cumprido brilhantemente a sua missão. Num plano equiparável se pode situar outra organização ² esta especificamente europeia ² que.A OCDE surge assim como uma organização renovada quanto aos seus objectivos e alargada quanto ao número de países que nela participam aos quais viriam ulteriormente a juntar-se o Japão. 17 . apareceu como evidente que a OECE e depois a OCDE haviam esgotado o essencial da sua finalidade de promoção da cooperação económica no quadro re gional europeu. uma vez alcançado o objectivo inicial e f undamental da recuperação económica da Europa e do funcionamento normal das relações de comércio internacional. tendo aderido às Comunidades Europeias. e isto sobretudo porque a emergência de novas Organizações ² as Comunidades Europeias. puderam expor e discutir os respectivos pontos de vista sobre as melhores vias para promover a cooperação económica europeia e internacional e para prestar ajuda a terceiros países.A. a Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA) e a Organização Mundial do Comércio (OMC) ² haviam feito transitar para outros centros de concertação e de cisão problemas maiores da economia e do comércio intra-europeu e mesmo mundial. pelo Canadá e por outros países industrializados do mundo (Japão. Mas. a OCDE desempenha actualmente um papel marginal no que respeita à resolução dos grandes problemas económicos com que o mundo ² e a Europa em particular ² se estão a defrontar. instituído no quadro da cooperação política. esteve sempre aquém das esperanças que nela se depositaram: tarta-se do CONSELHO DA EUROPA. a Austrália e a Nova Zelândia.  O papel actual da OCDE A OECE e a OCDE constituíram ao longo das últimas décadas um fórum privilegiado em que os países do Ocidente Europei mais tarde acompanhados pelos E. criada com objectivos marcadamente políticos. Esta situação tornou-se ainda mais evidente depois que a GrãBretanha.U. deixou de tentar utilizar a OCDE como ponte de contacto entre a EFTA e o Mercado Comum Europeu. Austrália e Nova Zelândia). Parece legítimo admitir que.

acompanhados de mais cinco Estados democráticos do Ocidente Europeu (Irlanda. no seio do Conselho da União da Europa Ocidental (UEO) conseguiu chegar-se. patrocinar as conclusões do Congresso da Haia e propor a criação de uma Assembleia Parlamentar Europeia. os governos francês e belga decidiram. As origens No Congresso da Haia. Dinamarca. por acordo mútuo de todos os membros. em 5 de Maio de 1949.  seria instituída no quadro da nova organização uma ASSEMBLEIA CONSTITUTIVA. a um dúbio (ambíguo) compromisso: 18  A organização europeia a criar comportaria um COMITÉ DE MINISTROS cujas decisões estariam sujeitas à regra da unanimidade. No seguimento da moção. exprimia um vibrante apelo comum aos responsáveis dos Estados. Bélgica. Holanda e Luxemburgo ² BENELUX). As origens. A cooperação política: o Conselho da Europa 26. Grã -Bretanha. como no âmbito da OECE. conseguiu chegar-se a acordo quanto ao teor de uma moção final que. em Janeiro de 1949. realizado de 7 a 10 de Maio de 1947. . A proposta franco-belga defrontou-se. os objectivos e os meios de acção do Conselho da Europa i. formada por representantes de cada Estado-membro. Foi com base neste compromisso que os cinco Estados-membros da União da Europa Ocidental (França. os membros. não obstante as divergências de princípio entre os países participantes sobre a forma de «fazer a Europa». Suécia e Noruega) assinaram em Londres. mas. Itália. com a habitual reserva britânica a iniciativas portadoras do selo da supranacionalidade ² e tudo quanto se consegiu obter dos ingleses foi uma contraproposta baseada num sistema de cooperação intergovernamental de tipo clássico com base num Conselho de Ministros habilitado a decidir. com sede em Estrasburgo. a Convenção que criava o CONSELHO DA EUROPA. Finalmente. em Agosto de 1948. eleitos pelo respectivo Parlamento ou designados por outra forma definida a nível nacional. porém.

ou não.º). 3. em virtude de uma resolução que adoptou em 1951. o Comité de Ministros aceitou que a Assembleia Consultiva fosse ouvida sobre o convite a dirigir a um Estado europeu para se tornar membro do Conselho da Europa. o Comité de Minsitros pode decidir excluí-lo. No entanto.º. para o caso de um Estado infringir as disposições do art.º: o Estado em causa é.ii. decide se um Estado europeu pode. aprecdiando livremente cada caso concreto. O Conselho da Europa é actualmente constituído por 46 países.º pode ser convidado pelo Comité de Ministros a tornar-se membro do Conselho da Europa». 3.º da Convenção de Londres de 5 de Maio de 1949: «A finalidade do Conselho da Europa é a de realizar uma união mais estreita entre os seus membros a fim de salvaguardar e promover os ideiais e os princípios que são seu património comum. O processo de admissão está definido no art. 4. essa finalidade genérica não exprime qualquer intenção dos signatários da Convenção de Londres (que contém o Estatuto do Conselho da Europa) de promover a integração política do s Estados. Estão definidos no art. ser convidado a fazer parte da Organização. Com efetio. se não se retirar voluntariamente. primeiro. 7. 19 iii. Os membros do Conselho da Europa 27. A simples suspensão do direito de representação pode igualmente ser decidida «se um membro não cumprir as suas obrigações financeiras» (art. 8. e de favorecer o respectivo progresso económico e social».º do Estatuto. 1. suspenso do seu direito de representação na Assembleia Consultiva e no Comité de Ministros e convidado a retirar-se do Conselho da Europa.º: «Qualquer Estado europeu considerado como dotado da capacidade e de vontade de se conformar às disposições do art.9. Os objectivos da Conselho da Europa 28. A exclusão está prevista no art. e nenhuma referência é aí feita ao propósito dos Estados de pôr em comum os seus direitos soberanos. . É um órgão político ² o Comité de Ministros ² que. A retirada de um membro do CE é possível nos termos enunciados no art.

assim como mediante a salvaguarda e o desenvolvimento dos direitos do Homem e das liberdades fundamentais (art. al. 1. tanto pelos objectivos que visa como pelos meios de os realizar surge. ou seja:  «liberdade individual»  « liberdade política» e  «preeminência do direito». da conclusão de acordos e da adopção de uma acção comum nos domínios económico. capaz de conduzir à realização dos apontados objectivos comuns. como objectivo do Conselho da Europa. cultural. «favorecer o progresso económico e social». nitidamente. o art. jurídico e administrativo. Para além dessa «União mais estreita» dos Estados-membros.O Conselho da Europa. A união mais estreita entre os membros do Conselho da Europa.º da Convenção de Londres aponta ainda.1. os domínios em que pode exercê-los: só foram .b). No quadro desta Organização. será prosseguida pelos órgãos do Conselho através do exame das questões de interesse comum. afeiçoada às tradicionais reservas e concepções britânicas. em contrapartida são muito vastos. Os Estados europeus ocidentais entenderam assim reafirmar a sua vinculação aos princípios tradicionais da dem ocracia liberal e fazem mesmo da sua aceitação uma condição essencial da adesão ao Conselho da Europa. como mera organização de cooperação internacional. objectivo que comporta o respeito dos três princípios «sobre que se funda a verdadeira democracia». científico. iv. Os meios de acção do Conselho da Europa 20 29.º. do Estatuto). os Estados-membros pretendem apenas «salvaguardar e promover os ideais e princípios que são seu património comum». manifestamente alheada das fórmulas federalistas defendidas no Congresso da Haia e subjacentes à vibrante moção que esteve na origem dessa Organização europeia. coném sublinhar que se o Conselho da Europa dispõe de limitados meios de acção. O que se instituiu no seio do Conselho da Europa foi uma simples cooperação intergovernamental. No entanto. quase ilimitados. social. Os meios de acção indicados assemelham-se aos utilizados por qualquer outra Organização internacional de cooperação : são manifestamente limitados e não põem de modo algum em causa a intangibilidade das soberanias nacionais.

cerca de 10 vezes por ano). cuja aprovação é da sua competência.  Organização e funcionamento do Conselho da Europa São três os órgãos essenciais do Conselho da Europa: o Comité de Ministros. o exame de recomendações formuladas pela Assembleia. 21 . o Comité acabou por consagrar a regra da unanimidade. o art. das decisões para as quais o Estatuto exija unanimidade. O Comité de Ministros 30. a discussão das propostas apresentadas pelos membrps d Comité e o estudo das recomendações a dirigir aos governos dos países membros do Conselho. Estatutariamente. não sendo públicas. O Comité de Ministros funciona na conformidade do regulamento interno. são tomadas por unanimidade. na prática. menos rígidas. pelos restantes. O Comité de Ministros é o órgão intergovernamental representativo dos Estados-membros do Conselho da Europa. pelo menos duas vezes por ano e uma normalmente por ocasião da abertura da sessão ordinária da Assembleia Consultiva.  ao nível dos delegados as reuniões são bimensais (mas. Os trabalhos decorrem de acordo com a ordem do dia previamente elaborada em que figuram normalmente os problemas de administração interna. previstas no Estatuto (art. não obstante as regras d evoto. As suas reuniões realizam-se a dois níveis:  ao nível dos MNE. i.expressamente excluídas da sua competência as«questões relativas à defesa nacional» ou que sejam «da competência de outras organizações internacionais» (cfr.b) e c)). 20. al. A Presidência do Comité de Ministros é rotativa. embora admitindo que a abstenção de um membro não impede a adopção. segundo a ordem alfabética dos respectivos países.º. cada um dos membros do Conselho tem um representante no Comité de Ministros (que é. o Ministro dos Negócios Estrangeiros ou o seu suplente) e dispõe aí de um voto. em questões importantes. em princípio. decorrendo as sessões na conformidade do regulamento interno do Comité. 1. As decisões.º). a Assembleia Consultiva e o Secretariado.

por outro lado. e muito menos dispõe de qualquer poder político efectivo em relação ao Comité de Ministros.º».º e 16. A Assembleia do Conselho da Europa não corresponde. Enquanto o art. «o Comité de Ministros é o órgão competente para agir em nome do Conselho da Europa. A Assembleia Parlamentar 31. convidar qualquer estado a tornar-se membro da Organização e pronunciar a sua suspensão ou exclusão. A Assembleia Consultiva não dispõe de poder de legislar. a Assembleia está longe de poder co nsiderar-se uma autêntica instituição parlamentar. encorajar. nem sequer pode tomar decisões em matéria de finanças directamente relacionadas com o seu funcionamento. aconselhar.º confia-lhe uma vasta missão europeia ² a de «examinar as medidas apropriadas à realização da finalidade do Conselho da Europa. 15. 13. ii. 16. no plano político e jurídico-constitucional.Os poderes do Comité são aparentemente vastos: nos termos do art. e em que. mais concretamente o de sugeriri. frequentemente. manifestamente. 22 . assistindo-lhes o direito de exprimir com toda a liberdade as suas opiniões pessoais e de votar. o art. por simples maioria. incluindo a conclusão de convenções e acordos e a adopção pelos Governos de uma política comum em relação a questões determinadas». A semelhança entre essa instituição e qualquer parlamento nacional reside apenas na circunstância de que os seus membros são parlamentares dos países membros da Organização. Compete ainda ao Comité aprovar o orçamento do Conselho. os pareceres ou recomendações que a Assembleia tem competência para adoptar. aos anseios dos que no Congresso da Haia reclamaram a criação de um órgão verdadeiramente representativo dos povos da Europa e dotado das competências necessárias para impulsionar. Na realidade. O papel da Assembleia é o de exprimir a opinião pública europeia. o projecto de unificação europeia. em cumprimento dos arts. a Assemblei se organizou e funciona como um verdadeiro parlamento. 15.º atribui ao Comité competência em relação a todas as questões de organização interna do Conselho da Europa. o de criticar ² nunca o de decidir.º.

Itália e Inglaterra) e mínimo de 2 (Liechtenstein). em EstrasburgoA Assembleia Consultiva pode igualmente reunir -se em sessão extraordinária ² mas para tal é necessária a concordância do Comité de Ministros. Nos termos do art. 23 b) Os poderes da Assembleia 33.º do Estatuto. Entre os limites de 18 e 2 encontram-se:  Espanha com 14. entre o limite máximo de 18 (Alemanha. Como a competência do Conselho da Europa é muito ampla. com duração de uma semana e dez dias (Primavera. Outono e Inverno). Cada país tem o direito de designar um número de representantes efectivos ² e outros tantos suplentes ² que é função do respectivo peso demográfico. podendo a Assembleia discutir praticamente tudo.  Islândia. Chipre e Malta com 3. Na realidade. 23.  Bélgica. França. adoptar resoluções e fazer recomendações. Holanda. O Estatuto do Conselho da Europa previu que a Assembleia tivesse em cada ano uma sessão cuja duração não deve. escapando-lhe apenas as questões ligadas à defesa nacional. dir-se-ia que um vasto campo de reflexão e acção estaria aberto à Assembleia.  Irlanda com 4. tais poderes são muito reduzidos. Luxemburdo. o que permitiria supor a existência de extensos poderes. Portugal e Grécia com 7. a Assembleuia realiza três sessões públicas por ano.a) Composição e funcionamento da Assembleia 32. exceder um mês. em princípio.  Dinamarca e Noruega com 5. mas decide sobre pouquíssima coisa. A Assembleia conta actualmente com 313 membros efectivos e outros tantos suplentes.  Turquia com 10. actualmente. . Áustria e Suiça com 6. «A Assembleia Consultiva pode deliberar e formular recomendações sobre qualquer questão que corresponde à finalidade do Conselho e se inclua na sua competência». É-lhe facultado emitir pareceres.  Suécia.

em vários domínios ² político. a definir certos direitos fundamentrais do Homem no seio de uma sociedade civilizada. coadjuvado por um Secretário-Geral Adjunto (ambos nomeados pela Assembleia sob recomendação do Comité). em 4 de Novembro de 1950 pelos representantes dos Estados-membros do Conselho Da Europa. Que balanço fazer da obra realizada pelo Conselho da Europa em mais de 50 anos de existência? Os resultados da sua acção são sem dúvida modestos ² sobretudo se confrontados com as expectativas geradas pela iniciativa que esteve na sua origem e com os ambiciosos objectivos dos seus promotores. fixar a ordem do dia das sessões.Entre os seus poderes contam-se o de aprovar o seu regimento. cultura e ensino. Este documento não s elimitou. Inúmeras convenções (nos domínios político. em particular. Alguns problemas concretos . téncico.º e 37. o de eleger juízes do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. À frente do Secretariado está um Secretário -Geral. em particular. assinada em Roma. da livre circulação das pessoas e ideias) foram negociadas e concluídas no seio do Conselho da Europa. organizado em conformidade com os arts. económico. 36. ponto de encontro e de convívio das diversas correntes de opinião europeias e centro de debate de todas as questões com interesse para a Europa. segurança social. CABENDO-LHE. como acontece com a Declara ção dos Direitos do Homem da ONU. prestar à Assembleia o apoio de que esta carece. A acção do Conselho da Europa atingiu resultados particularmente notáveis no que respeita à definição e defesa dos Direitos do Homem assentes nos princípios e regras jurídicas enunciados na Convenção Europeia dos Direitos do Homem. pois organiza também um adequado 24 . e pelo pessoal neces sário. social. O Secretariado. constituir Comissões e. constitui o aparelho administrativo do Conselho da EUROPA.º dos Estatutos. iii.  O Secretário-Geral 34. o de eleger a sua Mesa. O Conselho tem funcionado como um importante e prestigiado fórum europeu. A acção do Conselho da Europa 35. jurídico. cultural ² têm encontrado aí uma via de solução.

Secção 2. Inglaterra e França ² estava submetida. ii.A. subtraída ao domínio russo e que graças ao generoso auxílio americano iniciara uma fase de prodigiosa recuperação económica que em breve levaria o mundo surpreendido a falar do «milagre aleão». a Alemanha não podia mais ser ignorada nem excluída das grandes correntes do movimento europeu. tomou sobre o problema das relações franco- . Situada no coração da Europa.processo de salvaguarda. ocupada por três potências aliadas ² E. A questão alemã 36..ª ² Da Declaração Schuman aos Tratados de Paris e de Roma  A criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço i. através do seu MNE. dividida. Uma iniciativa ousada: a Declaração SCHUMAN 25 37. dos direitos ameaçados de violação. Vencida em 1945. Em 7 de Setembro. não tivera qualquer intervenção nos esforços de construção europeia nem fora admitida a participar nos diversos acordos que haviam permitido dar -lhe expressão jurídica. que já obrigara os países europeus vencedores da II Guerra Mundial a refazer o seu sistema de alianças miliatres. Robert SCHUMAN. da qual sempre constituiu uma parcela essencial.U. era proclamada a República Federal Alemã e o termo do regime de tutela a que desde o fim da guerra a Alemanha Ocidental. o Governo francês. A evolução da situação política da Europa e no mundo. com efeito. Em Maio de 1950. privada de instituições representativas do Estado. sob pena de s criar uma situação anómala e cheia de riscos para uma Europa que nunca poderia considerar-se verdadeiramente integrada enquanto dela estivesse ausente a grande nação germânica. destroçada.ª ² A Fase de Integração Subsecção 1. a nível europeu e no âmbito de instituições especializadas. O ano de 1949 marca uma viragem decisiva na luta do povo alemão pelo seu ressurgimento económico e político. a Alemanha. ia por+em aconselhá-los a ter em conta a existência da Alemanha Ocidental.

manifestamente incapazes de promover a integração da Europa Ocidental. consistia em «colocar o conjunto da produção franco-alemã do carvão e do aço sob o controlo de uma autoridade comum. como CHURCHILL. em prticular. fora encontrada para um sério problema económico que estava na origem de muitas das tradicionais dificuldades entre a França e a Alemanha. à instituição da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA).  questão política ² vital para apaz da Europa. que teria por efeito imediato permitir o controlo bilateral da produção de matérias-primas fundamentais para o desenvolvimento de qualquer futuro esforço de guerra ou prossecução de objectivos de domínio económico. em geral. A proposta do governo francês teve imediato e favorável eco nas capitais europeias. pois pressentiu as fundas implicações futuras do projecto concebido por R. . 26 iii. lucidamente pusera em relevo ² que consistia na necessidade imepriosa d eregular em novas bases. as indústrias de base. as relações franco-alemãs. as propostas contidas na Declaração SCHUMAN coorespondiam com grande oportunidade e clarividência a três acutilantes questões com que a Europa se defrontava no início dos anos 50:  questão eonómica ² resultante da necessidade urgente de reorganizar a siderurgia europeia e. Tal solução. A adesão à proposta francesa 38. que exigia a superação de fórmulas tradicionais de simples cooperação. Para além disso. numa organização aberta à participação de outros países da Europa». adequadas a eliminar as causas de novos conflitos sangrentos. Desde logo pelo chanceler alemão Konrad ADENAEUR. por sugestão de Jean MONNET.germânicas. no respeitante às relações franco-alemãs. em 18 de Abril de 1951. e  questão mais ampla da unificação europeia. uma iniciativa da maior importância histórica ao expor publicamente a solução que. SHUMAN ² quer no tocante à reinserção da Alemanha no mundo ocidental quer. O acolhimento do Governo italiano e dos três países do BENELUX foi igualmente positivo ² pelo que em 20 de Junho se iniciaram entre os seis países as negociações que haveriam de conduzir.

iv. mediante a instauração de uma comunidade económica. Ratificado pelos Estados participantes ² França. Apesar de tudo isto ser muito significativo. direitos. . 1 O Tratado de Paris consagra não só as soluções como o rpóprio espítio da declaração SCHUMAN:  os aspectos característicos de uma organização «parafederal» estão com efeito claramente marcados no Tratado: transferência de determinadas competências estatais para uma Alta Autoridade comunitária dotada de amplos poderes para agir tanto sobre os Estados-membros como sobre as empresas nacionais dos sectores do carvão e do aço. proclamava o seu objectivo último de «criar. O Tratado de Paris de 18 de Abril de 1951 39.No entanto. Nesta conformidade. Bélgica. agora. pela União Europeia.  a par disso. O Tratado que instituiu a COMUNIDADE EUROPEIA DO CARVÃO E DO AÇO foi assinado em Paris em 18 de Abril de 1951. sendo as suas competências. o Tratado. se tivermos em conta os grandes anseios anteriormente expressos pelos diversos movimetnos europeus. a organização extingiu-se em 2002. Holanda e Luxemburgo ² entrou em vigor em 25 de Julho de 1952. uma integração europeia limitada aos sectores do carvão e do aço constituía um projecto e uma realização assaz modestos. Itália. submissão dos Estados-membros à legislação de origem comunitária e a rigoroso controlo jurisdicional do exacto cumprimento das obrigações por eles assumidas no âmbito da CECA. património e obrigações assumidos pela Comunidade Europeia e. possibilidades abertas às instituições comunitárias de procederem elas mesmas a revisões do Tratado. retomando no seu preâmbulo as fórmulas essenciais da declaração SCHUMAN. a Inglaterra pura e simplesmente recusou-se a participar. produção legislativa autónoma e consequente sobreposição de ordens jurídicas. os primeiros fundamentos de uma comunidade mais larga e mais profunda « e lançar assim as bases de instituições capazes de orientar um destino doravamte partilhado». 1 27 A CECA foi constituída por um Tratado que deveria vigorar durante 50 anos. República Federal da Alemanha.

data histórica que marca um momento decisivo do esforço da unificação da Europa Ocidental. Os números respeitantes à produção e às trocas intercomunitárias internacionais melhoram de forma acentuada. O passo seguinte seria a criação da Comunidade Económica Europeia e da Comunidade Europeia da Energia Atómica.  A criação da CEE e da CEEA (EURATOM) i. ii. Subsecção 2. na redacção actual. e em face de um acolhimento popular franbcamente favorável. 49. resultante do Tratado de Lisboa.ª ² O Alargamento e Aprofundamento das Comunidades Europeias  Os sucessivos alargamentos 40.º do Tratado da União Europeia. a nova entidade económica europeia toma rapidamente forma.Só que a criação da CECA como que desbloqueou uma situação de impasse. numa época francamente favorável ² a dos golden sixties ² para a economia mundial em geral e para a europeia em particular. . três Comunidades ² três distintas organizações internacionais ² passaram a responder pelo processo de integração europeia. A partir de então. foram assinados em Roma para entrarem em vigor em 14 de Janeiro de 1958. dois tratados. acababria por ultrapassar o quadro apertado de uma organização sectorial. A assinatura dos Tratados de Roma Em 25 de Março de 1957. O Mercado Comum em marcha 28 O Mercado Comum Europeu arranca em 14 de Janeiro de 1958. Segundo o art. o «facto europeu» começa a impor-se no interior e no exterior da Comunidade. pondo em movimento uma engrenagem que pelo simples jogo dos fenómenos económicos e políticos a que daria lugar. instituindo a Comunidade Económica Europeia (CEE) e a Comunidade Europeia da Energia Atómica (CEEA ou EURATOM).

 também..  29  O aprofundamento do projecto comunitário i.  As «Quatro Liberdades» . . directivas. estando pendentes negociações para a adesão de novos membros. O Acto Único Europeu 41.e. liberdade de prestação de serviços e livre circulação dos capitais ² previstas no Tratado ² seriam concretizadas à medida que a autorudade comunitária (i. deveria ocorrer ao longo de um período transitório de 12 anos.º e esteja empenhado em promovê-los pode pedir para se tornar membro da União («)» Ao abrigo do correspondente art .  em 1980 ocorreu a desão da Grécia. 2. nomeadamente: República Checa. Lituânia. o duo Comissão-Conselho) fosse adoptamdo os necessários regulamentos. Estónia. direito de estabelecimento. previsto no Tratado de Roma de 1958 que instituiu a CEE. membros de pleno direito da Comunidade. da Finlândia e da Suécia teve lugar em 1 de Janeiro de 1995. SCHUMAN:  A liberalização das trocas.237. Malta e Polónia. dividido em três fases (arts. os dois Estados ibéricos tornaram-se. em 1 de Janeiro de 1986.  a este Comunidade de 25 membros juntaram -se depois a Bulgária e a Roménia. no quadro da União Aduaneira. e segs. Eslovénia.liberdade de circulação dos trabalhadores. 7. do Tratado da CE). a Dinamarca e a Irlanda solicitaram em 1973 a sua adesão às Comunidades Europeias. O projecto de integração europeia.º. Letónia.«Qualquer Estado europeu que respeite os valores referidos no art. Eslováquia.º. na conformidade da política de pequenos passos que fora preconizada por R. deveria ser realizado faseadamente. Hungria.º do Tratado da CEE.  em 1 de Maio de 2004 ocorreu a adesão de 10 outros Estados mediterrânicos e do Leste da Europa.  A adesão da Áustria. então em vigor:  o Reino Unido. Chipre. 12. por força dos Tratados de Adesão assinados em Lisboa e em Madrid em 12 de Junho de 1985.

Tal foi o objectivo do Acto Único Europeu que. natural consequência da aplicação do Acto Único Europeu. na perspectiva de criação da ão falada União Europeia. assim. em 1986. mas o grande esforço então realizado não teve o desejado seguimento na década de 70 e no primeiro lustro dos anos 80. o Tratado de Amesterdão e o Tratado de Nice 42. a plena realização do mercado interno e a eficaz aplicação das novas políticas comuns instituídas pelo Acto Único aconselhava ² se não exigiam mesmo ² o estabelecimento no quadro comunitário de uma união económica e monetária.  Ao longo dos anos 60. 30 ii. O Tratado de Maastricht representou um novo e importante avanço no processo de integração europeia. assinado em 1986. o processo de integração europeia avançou consideravelmente. o número dos seus membros.decisões e outros actos normativos da competência das Instituições da Comunidade.  Os sucessivos alargamentos da Comunidade revelavam cada vez mais ostensivamente a crescente inadequação dos processos comunitários de decisão ao funcionamento de uma Comunidade que perdera homogeneidade ao aumentar para doze. entrou em vigor em 1987. Formara-se. O Tratado de Maastricht. servida por uma moeda única.  A definição e aplicação das políticas comuns necessárias à realização e ao bom funcionamento do mercado comum europeu ² quer as políticas previstas no Tratado quer outras que a prática comunitária iria mostrar serem indespensáveis ² exigiam igualmente um árdio e complexo esforço normativo que iria constituir um trabalho de décadas. A existência desta união ampliava a projecção da unidade comunitária na cena internacional e exigia o reforço e o . Na verdade. a consciência generalizada ² a que os governos dos Estados-membros não podiam ser indiferentes ² de que a Comunidade carecia de novos impulsos. e de que tais impulsos não dispensavam a adaptação do sistema institucional comunitário.

a posição dos cidadãos não podia ser menosprezada. e para introduzir nos Tratados comuntários alguns aprofundamentos e aperfeiçoamentos que se tornaram necessários ² foi assinado.aperfeiçoamento dos mecanismos preexistentes de definição e execução de uma política externa da Comunidade . em 2 de Outubro de 1997 viria a ser assinado o Tratado de Amesterdão que corresponde a um novo impulso dado à construção de uma Europa mais unida. em 26 de Fevereiro de 2001 o Tratado de Nice que entrou em vigor em Fevereiro de 2003. iii. De igual modo. social. cerca de 40 anos após a criação das Comunidades Europeias. convindo por isso assegurar-lhes um estatuto mais consistente de cidadãos de uma Comunidade de Estados. A União Europeia estava em vias de abarcar todo o espa ço europeu ² e era geral a consciência da necessidade e bem assim da . redifinir ² alargando-os e aprofundando-os ² os objectivos do projecto inicial de integração. reconsiderar os instrumentos ou meios de acção a utilizar. para realizar tais objectivos ² quer os meios de carácter económico. na perspectiva do alargamento da UE a um vasto conjunto de países europeus cujas candidaturas foram aceites e estavam pendentes. anda que muito timidamente. para obviar a dificuldades de ordem institucional que uma União mais ampla iria suscitar na ausência de disposições adequadas. consequentemente. O Tratado de Maastricht foi assinado em 7 de Fevereiro de 1992 e após vicissitudes várias ² relacionadas com dificuldades na sua aprovação em alguns Estados. no seio de uma União Europeia. O Tratado de Lisboa 31 43. quer os instrumentos de natureza jurídica e institucional adequados a dotar a União de maior capacidade de resposta pronta e eficaz aos desafios com que haveria de ver-se confrontada tanto no quadro interno como na ordem institucional. Também na perspectiva de futuros alargamentos e do aperfeiçoamento e aprofundamento do processo de integração europeia. monetário e outros. Também no seio de uma união cada vez mais estreita dos Estados Europeus. com o indispensável reforço da salvaguarda dos seus direitos fundamentais. e. que obrigaram a revisões das constituições respectivas e mesmo a referendos nacionais ² entrou em vigor em 1 de Novembro de 1993. Em suma: impunha-se.

de forma adequada.disponibilidade dos respectivos políticos dos Estados-membros para enquadrar institucionalmente. prestigiado campeão da integração europeia. tal como o holandês. a integração económica. Valery Giscard d·Estaings. em referendo convocado para votar o projecto. Apesar do enorme desânimo que se abateu sobre as hostes mais europeísticas. agora alargado a 27 Estados-membros e em breve a mais. após vicissitudes várias no tocante à sua ratificação pelos Estados-membros (o povo irlandês só em segundo referendo lhe deu a sua aprovação). social e política da Europa. o Projecto de Constituição não logrou triunfar das resistências opostas por importantes sectores da população europeia. Uma Comissão liderada pelo ex-Presidente da França. pudesse salvaguardar o essencial. se revelava dia a dia incompatível com a visão de uma integração mais ampla e mais profunda da Europa e com o espartilh institucional concebido nos anos 50 ² os Estados-membros decidiram reconverter a malograda «Constituição para a Europa» num novo Tratado que. Roménia e Turquia). redigiu com notável celeridade um projecto de Tratado que estabelecia uma «Constituição para a Europa» que viria a ser assinado em Roma em 29 de Outubro de 2004 por 25 Estados-membros com o acordo dos 3 Estados que tinham então pendentes candidaturas de adesão (Bulgária. exprimiu a sua rejeição ² pelo que o projectado Tratado Constitucional não pôde ter seguimento. 32 . porque se mantinha premente a necessidade de um novo enquadramento jurídico do projecto de integração ² que. Surgiu assim o Tratado de Lisboa. assinado no Mosteiro dos Jerónimos em 13 de Dezembro de 2007 e que. o eleitorado francês. No entanto. viria a entrar em vigor em 1 de Dezembro de 2009. embora de perfil mais modesto.

Ao concluir os Tratados Comunitários ² quer os Tratados originários quer outros. ulteriormente negociados para operar a revisão dos anteriores ² os Estados-membros pretenderam prosseguir objectivos de natureza diferentes : 33  Objectivos reais ou imediatos. assinala apenas «uma nova etapa nos processos de criação de uma união cada vez mais estreita entre os povos da Europa» (art.. 47. a concretizar a longo prazo. 19.  Um objectivo virtual ou potencial. e para lhe facultar o recurso a competências não expressamente previstas mas necessárias à prossecução dos objectivos estatutariamente fixados ² competências implícitas.II Parte .º TUE. ao conferir à União personalidade jurídica (art. Note -se. porém. e os instrumentos da sua realização 44. Tal definição de objectivos serve também para melhor avaliar da adequação dos meios ou instrumentos de acção de qu e a Organização e causa dispõe para o cumprimento das missões que a respectiva carta constitutiva pôs a seu cargo.E.º TUE) e ao aprofundar consideravelmente a integração europeia empreendida nos anos 50. finalidades ou missões de uma organização internacional reveste-se de fundamental importância jurídica na medida em que permite delimitar com o necessário rigor a sua esfera de competências e apurar com maior segurança o sentido e alcance dos textos que a refem ² interpretação teleológica a que o Tribunal de Justiça da União Europeia faz constantemente apelo no cumprimento da sua missão de interpretar e aplicar o direito comunitário ² art. i. que o Tratado de Lisboa. de carácter político.º do TUE). A definição dos objectivos. que acabaria por ser identificado e explicitado sob a designação de U.A natureza específica da União Europeia Título I ² Os objectivos da U. O objectivo político da União Europeia . 1.E. traduzidos na realização da integração económica .

implicaria um largo passo na direcção apontada. no TFUE. ii. por força da dinâmica da engrenagem instituída pelos Tratados ² seria o resultado previsível ou inevitável da integração dos diversos espaços económicos nacionais. se tivesse vingado. ao longo das últimas décadas. repetidamente afirmado e viria a ser confirmado quer pelo Tratado de Maastricht em 1992 que instituiu a União Europeia. 3. mas o Tratado de Lisboa.45. 34 . económico e social ² estão enunciados no art. Estes objectivos ² de carácter marcadamente político.º do TUE e. Os objectivos reais ou imediatos da União Europeia 46.e. embora menos ambicioso. Não vingou. O objectivo polítco para cuja realização deveriam concorrer as Comunidades Europeias e que por efeito de arrastamento ² i. Tais objectivos deverão ser prosseguidos mediante o aprofundamento do processo de integração no âmbito da União Económica e Monetária instituída no quadro da U. quer nos subsequentes Tratados de Amesterdão e de Nice. O projecto da «Constituição Europeia».. mais explicitamente ainda. consistia na associação dos Estados-membros numa União Europeia de estiço confederal ou mesmo federal. representou um passo significativo no processo de unificação europeia. Este objectivo foi.E.

A proposta SCHUMAN era dominada por três ideias-força que lhe estavam na origem:  a necessidade de pôr termo à rivalidade franco -alemã. feita em nome do Governo francês no dia 9 de Maio de 1950.  a necessidade de proporcionar aos países europeus um quadro favorável a uma «economia de grandes espaços». no seguimento desta. mas tal intenção nunca deixou de ser proclamada. 35 Numa passagem essencial dessa Declaração afirmava -se que mediante a criação da CECA «será realizada simples e rapidamente a fusão de interesses indispensável ao estabelecimento de uma Comunidade económica e introduzido o fermento de uma Comunidade mais vasta e mais profunda entre países durante muito tempo opostos por divisões sangrentas («) Esta proposta estabelecerá as primeiras bases concretas de uma federação europeia indispensável à preservação da paz». Os Tratados de Paris (CECA) e de Roma (CEE e CEEA) que criaram as Comunidades Europeias exprimem frouxamente a intenção política subjacente ao projecto de integração europeia.ª ² A expressão dada aos Tratados de Paris e de Roma ao objectivo da unidade política 48. quer no âmbito das instâncias comunitárias quer no quadro intergovernamental.  a necessidade de unificar a Europa para lhe restitui r o lugar que lhe coubera no passado e poderia vir ainda a ser o seu no mundo dos nossos dias. Secção 1. a CE e a CEEA têm na sua origem a DECLARAÇÃO SCHUMAN. Recorde-se que a CECA (extinta em 2002) e.Capítulo I O objectivo da unidade política subjacente ao Projecto de Integração Europeia 47. com maior ou menor vigor e convicção. 49. Na conformidade do pensamento expresso na declaração SCHUMAN e dos claros propósitos de unidade política que .

nas sucessivas declarações. a assentar. cuja realização só a longo prazo se antolhava possível. Desde então.animavam vastos e influentes círculos europeus no após-guerra. os Estados não deram seguimento a esta iniciativa. que os Estados-membros: «Conscientes de que a Europa só se construirá por meio de realizações concretas que criem uma solidariedade efctiva («) Resolvidos a substituir rivalidades seculares por uma fusão dos seus interesses essenciais. limiatndo-se a assinar o Acto único Europeu que viria de algum modo explicitar as suas concepções mais reservadas sobre a evolução do processo de construção política da Europa. os responsáveis políticos. . projectos d etratados e documentos oficiais emanados tanto dos mais altos representantes dos Estados-membros como das Instituições Comunitárias. Em 1984. os primeiros alicerces de uma comunidade mais ampla e mais profunda entre povos há muito divididos po conflitos sangrentos e a lançar as bases de instituições capazes de orientar um destino doravamte compartilhado («)» 50. afirmava-se no preâmbulo do Tratado de Paris que instituiu a CECA. O objectivo da unidade política da Europa. 36 Secção 2.ª ² A proclamação pelas instâncias nacionais e comunitárias do objectivo da unidade política da Europa 51. que visava instituir a «União Europeia» e cuja conclusão propôs aos Estados-membros. Porém. esteve sempre presente. relatórios. jamais cessaram afirmar que as Comunidades ditas económicas implicavam e simultaneamente preparavam a emergência de uma Comunidade política. Esta mesma ideia viria a ser retomada e confirmada ² embora em termos mais vagos ² pelos seis Estados fundadores da CE que no preâmbulo do Tratado de Roma se declara ram «determinados a estabelecer os fundamentos de uma união cada vez mais esTreita entre os povos europeus». tanto a nível nacional como no quadro comunitário. o Parlamento Europeu decidiu ele próprio fazer avançar o processo de integração política. pela instituição de uma comunidade económica. aprovando um projecto de tratado elaborado no seu seio. com mais ou menos clareza.

a intenção política subjacente ao projecto de integração europeia. Embora em termos ambíguos. O TUE. respeito pelos direitos do Homem e liberdades fundamentais e do Estado de Direito. inspirados «no património cultural. e respeitem os valores identificados no art. de forma repetida. 2. viria a ser expressa quer no Tratado de Maastricht de 1992.No entanto. por consenso inequívoco. os Estados-membros da U. no Tratado de Lisboa.E.E. A intenção mais clara de vontade dos Estados a prosseguir pela via do aprofundamento da U. recordam «a importânica histórica do fim da divisão do continente europeu e a necessidade da criação de bases sólidas para a construção da futura Europa». que a instituiu. liberdade.  O significado do Tratado de Lisboa 52.  Mais se declaram resolvidos a «instituir uma cidadania comum aos nacionais dos Estados-membros». vocacionada para abarcar todos os países europeus que satisfaçam as exigências da adesão à U. com a formulação resultante do Tratado de Lisboa.  e a «executar uma política externa e de segurança» que possa evoluir no sentido de uma defesa comum. religioso e humanista da Europa». democracia. quer no Tratado de Nice de 2001 ² quer. declaram-se decididos « a assinalar uma nova fase do processo de integração europeia iniciado com a instituição das Comunidades Europeias» e. e bem assim na . 37  Logo no Preâmbulo. ao longo dos últimos 25 anos. os Estados-membros têm proclamado. finalmente. quer no Tratado de Amesterdão de 1998. o objectivo final contido nessas declarações era o de instituir um «União Europeia» . retoma e amplia as proclamações de princípios constantes dos tratados anteriores. se entendia dever caracterizar tal projecto.E. em solenes declarações dos seus mais altos representantes.  Igualmente se afirmam resolvidos a «continuar o processo de criação de uma União cada vez mais estreita entre os povos da Europa» assente nos princípios da igualdade.º do Tratado que a instituiu.de natureza não definida mas que aparecia sempre ligada a um ideário de liberdade e democracia comum a todos os Estados-membros e que.

3. na sua fase actual.E. Secção 1. como obra acabada e definitiva ² desde já encaram «a perspectiva das etapas ulteriores a transpor para fazer progredir a U. do Estado de Direito e pelos direitos do homem. segurança.». a solidariedade e o respeito . 2. foram explicitados no seu articulado. Estes valores são comuns aos Estados-membros. 38 Para isso. como o desfecho ou termo do processo de integração já iniciado nos anos 50 ² i.º/1 TUE). Contribui para a paz.solidariedade entre os povos da Europa e no progresso económico e social. E. tem por objectivo promover a paz (art. Trata-se de objectivos de natureza marcadamente política ou de carácter económico e social.. a tolerância. a não discriminação.ª ² Objectivos de natureza política  Objectivos na ordem internacional 53.  Finalmente. não considerando a U.  respeito da liberdade. nas suas relações com o resto do mundo. evocados no Preâmbulo do TUE. os Estados-membros. art.e. igualdade. incluindo os direitos das pessoas pertencentes a minorias. numa sociedade caracterizada pelo pluralismo. tem presentes os valores em que se afunda e de que entende não dever alhear-se nas relações com os outros países:  respeito pela dignidade humana.. democracia. a justiça.E.E. Na ordem externa a U. desenvolvimento sustentável do planeta. a União afirma e promove os seus valores e interesses e contribui para a protecção dos seus cidadãos. ao promovê-la. Capítulo II Os objectivos imediatos da União Europeia Tais objectivos.º TUE). a solidariedade e a igualdade entre homens e mulheres (cfr.

perante os Tratados bem como a respectiva identidade nacional . A União respeita as funções essenciais do Estado. velando pela salvaguarda e pelo desenvolvimento do património cultural europeu (art.  Objectivos na ordem interna i. Em particular. 4. com base no princípio da cooperação leal que domina as relações entre os Estados-membros e entre estes e a União de que fazem parte. bem como para a rigorosa observância e o desenvolvimento do direito internacioanl incluindo o respeito dos princípios da CNU (cfr. 5. a fim de criar um espaço de prosperidade e boa vizinhança.º). a União respeita a igualdade dos Estados-membros.º/1). erradicação da pobreza e a protecção dos direitos do Homem. baseadas na cooperação. a União desenvolve relações privilegiadas com os países vizinhos.º) ² e mesmo no que respeita às competências da União. art. 3. a União promove a coesão económica. 5. Tendo em vista o reforço da unidade entre os países europeus que a constituem. De qualquer forma. 8.º). a delimitação das competências da União rege -se pelo princípio da atribuição (art. fundado nos valores da União e caracterizado por relações etsreitas e pacíficas. em especial os da criança.º) pelo que «as comeptências que não sejam atribuídas à União pertencem aos Estados-membros» (art. art. Igualmente. 3. nomeadamente as que se destinam a garantir a integridade territorial. podendo para o efeito concluir acordos específicos com os países interessados (cfr. a manter a ordem pública e a salvaguardar a se gurança nacional continua a ser da exclusiva responsabilidade de cada Estado-membro (art. comércio livre e equitativo.º/1/5). reflectida nas estruturas políticas e constitucionais fundamentais de cada um deles. o seu exercício rege-se pelos princípios da subsidiariedade e da proporcionalidade (art.º/3 TUE). social e territorial e bem assim a solidariedade entre os Estados-membros respeitanto a riqueza da sua diversidade cultural e linguística. incluindo no que se refere à autonomia local e regional. uma e outros respeitam-se e assistem-se mutuamente no cumprimento das missões decorrentes dos Tratados ² cumprindo à União velar por que os seus Membros tomem todas as medidas gerais 39 .mútuo entre os povos. Na verdade. 4. Nas relações com os Estados-membros 54.

º do TUE: «A União tem por objectivo promover a paz. os seus valores e o bemestar dos seus povos» (art. a União combate e exclusão social e as discriminações e promove a justiça e a protecção sociais. abstendo_se de qualquer medida que possa pôr em risco a realização dos seus objectivos (art. numa economia social de mercado altamente competitiva que tenha como meta o pleno emprego e o progresso social. bem como de prevenção da criminalidade (art. 3. em termos mais amplos.º/1). de asilo e emigração. proporciona aos cidadãos da União um elevado nível de vida assente num crescimento económico equilibrado e na estabilidade dos preços. a União procurou através da criação do mercado interno e. 3.º/3). liberdades e princípios enunciados na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia que tem o memso valor jurídico que os Tratados (art. ii.º/2). 3. Tendo em vista a concretização deste objectivo. 6. 4.º/1). a solidariedade entre gerações e a protecção dos direitos da criança ² tudo na conformidade das disposições dos tratados em particular no respeito dos direitos. e num elevado nível d e protecção e de melhoramento da qualidade do ambiente (art. da realização da União Económica Monetária. 40 . em conjugação com medidas adequadas em matéria de controlos na fronteira externa. Entre tais obrigações conta-se a de os Estadosmembros facilitarem à União e colaborarem com ela no cumprimento da sua missão. a União proprociona também aos seus cidadãos um espaço de liberdade. na ordem interna e na ordem internacional.º/2).segurança e justiça sem fronteiras internas. Mas. A par disso. em que seja assegurada a livre circulação de pessoas. 3. Nas relações com os cidadãos da União 55. a igualdade entre os homens e mulheres. O princípio fundamental está explicitado no art. convindo que a um alto nível de bem estar material correspondesse também um adequado quadro de vida.ou específicas adequadas para garantir a correcta execução quer das obrigações resultantes dos Tratados quer das impostas pelos actos das Instituições da União.

dotado de atribuição e poderes adequados a dese mpenhar com eficácia o seu papel no plano interno e na cena internacional. 3. a igualdade entre homens e mulheres. personalidade jurídica (art.  respeita a riqueza da sua diversidade cultural e linguística e vela pela salvaguarda e pelo desenvolvimento do património cultural europeu.Secção 2. quer na ordem interna. e a solidariedade entre os Estados-membros.ª ² Os instrumentos da realização dos objectivos políticos Em primeiro lugar. Tais objectivos estão enunciados no art. foi conferida à U. Por força dos n. a União foi dotada de um aparelho institucional poderoso. 41 . numa economia social de mercado altamente competitiva que tenha como meta o pleno emprego e o rpogresso social. e »uma união económica e monetária cuja moeda é o euro».º do TUE e explicitados ao longo do TFUE.  combate a exclusão social e as discriminações e promobe a justiça e a protecção sociais.ºs 3 e 4 do art.ª ² Objectivos económicos e sociais da União Europeia 56. 47. Por outro lado.º TUE) que lhe permite agir autonomamente. e num elevado nível de protecção e de mlehoramento da qualidade do ambiente. a União:  «estabelece um mercado interno». 3. quer na ordem internacional. social e territorial. em seu próprio nome. Capítulo III ² Os isntrumentos da realização dos objectivos da União Europeia Os Tratados procuram dotar a União de meios adequados à prossecução dos seus objectivos quer de natureza política quer de natureza económica. Secção 1.º. assente num crescimento económico equilibrado e na estabilidade dos preços.  promove a coesão económica.  Empenha-se no desenvolvimento sustentável da Europa.E. a solidariedade entre as gerações e a protecção dos direitos da criança.

 O aparelho institucional i. 26.º.º TUE). 16.º/6 TUE). Composto pelos mais altos representantes dos Estados da União (chefes de Estado ou de governo). 21. 26. 216.º a 218.º/1 TUE). 15. A Comissão. . o Conseho Europeu «dá à União os impulsos necessários ao seu desenvolvimento.º/2 e 27.º. E o Presidente do Conselho Europeu assegura. por outro lado. conduz as negociações assegurando-se de que os acordos negociados são compatíveis com as políticas e normas internas da União (art. por seu lado. sob a Presidência do Alto Representante da União para os Negócios Estrangeiros e Políticos de Segurança. Cabe ainda à Comissão (quando não caiba ao Alto Representante da União no exercício das suas competências). designar o negociador ou chefe de equipa de negociação. através de iniciativas que toma. 15.º TUE). 21. dar execução aos compromissos internacionais assumidos pela União. desencadear o processo de contratação interncional. autorizar a assinatura do acordo negociado e decidir da sua conclusão (arts.º TFUE). adopta as decisões necessárias à definição e execução dessa política com base nas orientações gerais e linhas estratégicas definidas pelo Conselho Europeu» (arts. o Conselho reunido em Conselhos Gerais. e nomeadamente.º/6. utilizando os meios da União e também dos Estados-membros (arts. nomeadamente no domínio da política comercial comum.º). E é da sua competência autorizar a 42 abertura de negociações para a conclusão de acordos internacionais e definir as directrizes de negociação. à sua projecção na cena internacional» (art. cabe à Comissão.º e 26. «elabora a política externa e de segurança comum da Unição. o Conselho Europeu identifica os interesses e objectivos estratégicos da União e fixa as linhas esratégicas que deverão nortear o Conselho na elaboração da acção externa da União (arts.º TFUE). O papel das Instituições da União 57.º. Por seu turno. 207. Cabe ao Alto Representante da União para os Negócios Estrangeiros executar a política externa e de segurança comum. mediante recomendações que apresenta ao Conselho. Mais concretamente: com base nos princípios e objectivos enunciados no art. 22. ao nível e nessa qualidade « a representação externa da União nas matérias do âmbito da política externa e de segurança comum» (art.º/3 e 27. 207. desempenha um importante papel na cena internacional: o Alto Representante da União é Vice -Presidente da Comissão.

a posição dos Estados-membros relativamente às guerras internacionais ou civis e outros conflitos que ocorram no mundo.E. no domínio das relações externas tem fundamentalmente em vista a afirmação da identidade da U. A definição e aplicação de tais políticas sem um prévio esforço de adequada concertação poderia implicar consequências graves quer para a União quer para os Estados que dela fazem parte. A política comercial adoptada pela União em relação a determinados países ou ao resto do mundo. 24. para que tais opções sejam as mais convenientes simultaneamente do ponto de vista da U. compete ao Parlamento Europeu. a posição dos Estados membros em face do mundo árabe em geral e do conflito israelo-árabe em particular. com eles celebrou. no quadro intergovernamental dos Estados-membros e no âmbito da União. A acção da U. na cena internacional.º/6.a)). 43 . em certos casos.Finalmente. nomeadamente através da execução de uma política externa e de segurança comum que inclua a definição gradual de uma política de defesa comum que poderá conduzir a uma defesa comum (art. a ajuda a países do Terceiro Mundo e as relações especiais com os países ACP (África. as questões relativas ao abastecimento em energia ou à preservação do ambiente ² tudo são matérias que implicam sérias opções políticas a nível nacional.º TUE). e dos estados que a constituem. Caraíbas e Pacífico) organizadas no âmbito de sucessivas Convenções que a U. 218. e que as posições acordadas num quadro apropriado tenham depois adequada expressão prática no âmbito da acção da União e da política ext erna dos Estados-membros. conceder ou não a sua aprovação a acordo s negociados em diversos domínios e dar parecer (não vinculativo) sobre outros acordos (art.E.  A acção externa da União 58. al.E. é indispensável que as decisões a tomar quer pelas Instituições da União quer pelos governos nacionais surjam como o resultado de um prévio esforço de compatibilização dos objectivos e interesses gerais da União com os interesses e objectivos particulares dos seus membros. Ora.E.

Estado de direito.º/1 TUE). independência e integrid ade. Objectivos da acção externa da União 60. interesses fundamentais. b) Consolidar e apoiar a democracia. ii. 44 . tendo como principal objectivo erradicar a pobreza. desenvolvimento e alargamento. A União procura desenvolver relações e constituir parcerias com os países terceiros e com as organziações internacionais. e) Incentivar a integração de todos os países na economia mundial. os direitos do Homem e os princípios do direito internacional. com os princípios da Acta Final de HelsÍnquia e com os objectivos da Carta de Paris. respeito pela dignidade humana. Princípios fundamentais da acção externa da União 59. princípios de igualdade e de solidariedade e respeito pelos princípios da CNU e do direito internacional. inclusivamente através da eliminação progressiva dos obstáculos ao comércio internacional. em conformidade com os objectivos e os princípios da CNU. a fim de: a) Salvaguardar os seus valores. inlcuindo os respeitantes às fronteiras externas. c) Preservar a paz. prevenir conflitos e reforçar a segurança internacional. d) Apoiar o desenvolvimento sustentável nos planos económico. regionais ou mundiais que partilhem dos princípios enunciados ( art. e que é seu objectivo promover em todo o mundo: democracia. segurança. a fim de assegurar um desenvolvimento sustentável. A acção da União na cena internacional assenta nos princípios que presidiram à sua criação. o Estado de direito. social e ambiental dos países em desenvolvimento. A União define e prossegue políticas e acções comuns e diligencia no sentido de assegurar um elevado grau de cooperação em todos os domínios das relações internacionais. f) Contribuir para o desenvolvimento de medidas internacionais para preservar e melhorar a qualidaDe do ambiente e a gestão sustentável dos recursos naturais à escala mundial. 21.i. universalidade e indivisibilidade dos direitos do Homem e das liberdades fundamentais.

os Estados-membros devem concertar-se no âmbito do Conselho Europeu e do Conselho sobre todas as questões de política externa e de segurança que revistam de interesse geral. O papel dos Estados-membros 45 61. países e regiões confrontados com catástrofes naturais ou de origem humana. A competência da União em matéria de política externa e de segurança comum abrange todos os domínios da política externa. Qualquer Estado-membro tal como o Alto Representante da União para os Negócios Estrangeiros e a Política Segurança (ou o Alto Representante com o apoio da Comissão) podem submeter ao Conselho todas as questões do âmbito da política externa e de segurança comum e apresentar-lhe. de modo a definir uma abordagem comum. Com base nos referidos princípios e objectivos. Também. o Alto Representante convoca. por iniciativa própria ou a pedido de um Estado-membro. respectivamente. bem como todas as questões relativas à segurança da União. 21. 24.º TUE). 22. podem apresentar propostas conjuntas ao Conselho ( art. 30. no domínio da política externa e de segurança comum. identifica os interesses e objectivos estratégicos da União. art. Nos casos em que exijam uma decisão rápida. 30. e a Comissão.º TUE). o Conselho Europeu. E o Alto Representante da União para os Negócios Estrangeiros. no prazo de quarenta e oito horas ou.º TUE). iniciativas ou propostas (art. uma reunião extraordinária do Conselho. num prazo mais curto (art. 32. iii.º/2 TUE). por força do art.º. inc luindo a definição gradual de uma política comum de defesa que poderá conduzir uma defesa comum (cfr. nos restantes domínios da acção externa. e h) Promover um sistema internacional baseado numa cooperação multilateral reforçada e uma boa governação ao nível mundial (art. em caso de absoluta necessidade. Antes de empreender qualquer acção no plano internacional ou de assumir qualquer compromisso que possa afectar os interesses da União. cada Estado-membro consulta os outros no Conselho Europeu ou no .g) Prestar assistência a populações.º TUE). mediante recomendação do Conselho.

delegações e representações intensificam a sua cooperação através do intercâmbio de informações. os Estados-membros coordenam a sua acção no âmbito das organizações internacionais e em conferências internacionais. que a União possa defender os seus interesses e os seus valores no plano internacional. Também as missões diplomáticas dos Estados-membros e as delegações da União nos países terceiros e junto das organizações internacionais cooperam entre si e contribuem para a formulação e execução da abordagem comum . A par disso. os Estados-membros que nele têm assento solicitam que o Alto Representante seja convidado a apresentar a posição da União (art.º do TUE. Os Estados-membros asseguram. bem como as respectivas representações junto das organizações internacionais concertam-se no sentido de assegurar a observância e a execução das decisões que definem as posições e acções da União.º TUE). bem como o Alto Representante. Logo que o Conselho Europeu. o Alto Representante da União para os Negócios Estrangeiros e os Ministros dos Negócios Estrangeiros dos Estados-membros coordenam as suas actividades no Conselho (art.Conselho. 32. procedendo a avaliações comuns. As referidas missões. sem prejuízo das responsabilidades que lhes incumbem por força da CNU.º e 34. 32. deliberando por unanimidade 46 . consoante o disposto no art. no exercício das suas funções. Em especial. Sempre que a União tenha definido uma posição sobre um tema que conste da ordem de trabalhos do CSNU. Por outro lado. Os Estados-membros que sejam igualmente membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas concertam -se e mantêm os outros Estados-membros. as posições e os interesses da União. através da convergência das suas acções. Nessas instâncias defendem as posições da União ( arts. ou o Conselho.º TUE). as missões diplomáticas e consulares dos Estados-membros e as delegações da União nos países terceiros e nas conferências internacionais. as referidas missões e delegações contribuem para a execução do direito de protecção dos cidadãos da União no território de países terceiros. 34. Os Estados-membros que são membros do CSNU defendem. plenamente informados.º TUE). 35. As decisões em matéria de política externa são tomadas pelo Conselho Europeu e pelo Conselho. tenha definido uma abordagem comum da União.

a Política Comum de Segurança e Defesa comporta um sistema de auxílio e assistência mútuos: no caso de um Estado-membro ser alvo de agressão armada no seu território: os outros 47 . Esta conduzirá a uma defesa comum logo que o Conselho Europeu.º/3 TUE). Por outro lado. A política comum de segurança e defesa garante à União uma capacidade operacional apoiada em meios civis e militares . Segundo o art. inclusive mediante o apoio prestado a países terceiros para combater o terrorismo no respectivo território. 42. A política comum de segurança e defesa inclui a definição gradual de uma política de defesa comum da União. 42. deliberando por unanimidade. incluem as acções conjuntas em matéria de desarmamento. Os Estados-membros que constituam entre si forças multinacionais podem também colocá-las à disposição da política comum de segurança e defesa (art. de acordo com os princípios da CNU. a política comum de segurança e defesa faz parte integrante da política externa e de segurança comum. a prevenção de conflitos e o reforço da segurança internacional. deve abster-se de actuações susceptíveis de colidir com a acção da União (art. A execução destas tarefas assenta nas capacidades fornecidas pelos Estados-membros. os Estados-membros colocam à disposição da União capacidades civis e militares de modo a contribuir para os objectivos definidos pelo Conselho.que não é prejudicada pela eventual abstenção de qualquer Estadomembro ² o qual não ficando por força da sua abstenção obrigado a aplicar a decisão adoptada. As missões nas quais a União pode utilizar meios civis e militares. A União pode empregá-los em missões no exterior a fim de assegurar a manutenção da paz. Todas essas missões podem contribuir para a luta contra o terrorismo. 31.  A política comum de segurança e defesa 62. missões de forças de combate para a gestão de crises. missões de aconselhamento e assistência em matéria militar.º/1/2 do TUE.º TUE). incluindo as missões de restabelecimento da paz e as operações de estabilizção em termos de conflitos. missões de prevenção de conflitos e de manutenção da paz. missões humanitárias e de evacuação.º TUE). 42. assim decida e os Estados-membros assim o aceitem na conformidade das respectivas normas constitucionais (art. Com vista à execução da política comum de segurança e defesa.

ª ² Os instrumentos da realização dos objectivos de natureza económica e social 63. incluindo as que respeitam ao lançamento de uma missão referida no art. sob proposta do Alto Representante da União para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança ou por iniciativa de um Estadomembro (art. 42.  «Promove a coesão económica. são adoptadas pelo Conselho. e a solidariedade entre os Estados-membros. a União .» Para alcançar estes objectivos. é assegurada de acordo comas disposições dos Tratados (art. 42.uma união económica e monetária cuja moeda é o Euro. Fomenta o progresso científico e tecnológico».  «Combate a exclusão social e as discriminações e promove a justiça e a protecção sociais. e num elevado nível de protecção e de melhoramento da qualidad edo ambiente. 30. O mercado interno compreende um espaço sem fronteiras internas no qual a livre circulação das mercadorias. a igualdade entre homens e mulheres. deliberando por unanimidade.º/2 TUE). 26. numa economia social de mercado altamente competitiva que tenha como meta o pleno emprego e o progresso social. social e territorial.º TUE:  A União «empenha-se no desenvolvimento sustentável da Europa. assente num crescimento económico equilibrado e na estabilidade de preços. e . . 42. a solidariedade entre as gerações e a protecção dos direitos da criança».Estados-membros devem prestar-lhe auxílio por todos os meios ao seu alcance (art. Relembre-se os objectivos económicos e sociais explicitados no art. Secção 2.º.º/7 TUE). serviços e capitais. As decisões relativas à política comum de segurança e defesa. 48  O mercado interno 64. pessoas.estabelece um mercado interno.º/4 TUE).

dos empresários que pretendam estabelecer em qualquer sector de actividad e (agricultura.º). iii. Nesta conformidade.i. dos profissionais independentes cuja actividade consista na prestação de serviços e das pessoas em geral ao deslocar-se no espaço da União.º. 49. A livre circulação tem lugar no quadro de uma união aduaneira que abrange a totalidade do comércio de mercadorias (originárias ou não dos Estados-membros) e implica a proibição entre os Estados-membros de direitos aduaneiros de importação e exportação e de quaisquer outros encargos de natureza equivalente ² e bem assim de restrições quantitativas à importação e exportação ou de medidas de efeito equivalente ( arts.º ).º TFUE). 34.º e 35. designadamente 30.º e 62. e em particular dos trabalhadores assalariados (arts. em qualquer parte do espaço da União. Livre circulação das mercadorias 65. empresas ou sociedades novas. 28. sucursais ou filiais de empresas ou sociedades já constituídas no respectivo país de origem. beneficiam da prestação de serviços diversos. pelos nacionais dos Estados-membros (arts. 45. os Tratados proíbem as restrições ao direito de estabelecimento dos nacionais de um Estado-membro no território de outro Estado-membro. pelo que estes gozam da liberdade de criar. no território da União. ii.º a 48. de participar em sociedades já existentes ou de criar agências. Igualmente são proibidas as restrições à livre prestação de serviços. A realização do mercado interno também implica a livre circulação das pessoas em geral.º e segs. A livre circulação das pessoas 66. Liberdade de estabelecimento e de prestação de serviços 49 67. indústria. mesmo na qualidade de simples turistas. serviços) a título individual ou mediante a constituição de sociedades. .

A livre circulação dos capitais 68. 38.º do TUE. por força da engrenagem instituída e da sua dinâmica própria deveria evoluir no sentido da criação de uma união económica e monetária . Este passo foi sendo dado paulatinamente.  política de transportes (arts.  A União Económica e Monetária 70.º 4 do art. 101. 3. graças à definição e aplicação gradual de um conjunto de políticas comuns nos domínios económico e social. 3. 67. as seguintes:  política agrícola e de pescas (arts.º a 172. conducentes a um desenvolvimento sustentável assente no crescimento económico equilibrado. Para que a economia da União se tornasse «altamente competitiva» (art. até ser formalmente consagrado no n.  Regras comuns e concorrência 69.º a 100. segurança e justiça (arts. contempladas no TFUE são.º TFUE). 63.º a 89º). Tais políticas. no pleno emprego e no progresso social. O projecto europeu não se limitava apenas à realização do mercado interno que.º/3 TUE).iv.º e 170. entre outras. os Tratados estabeleceram um conjunto de regras de concorrência aplicáveis aos operadores económicos da União que proíbem e sancionaram práticas anticoncorrenciais entre as empresas (privadas e públicas) e auxílios estatais lesivos de uma concorrência leal (arts.º TFUE).º TFUE). 50 . no progresso científico e tecnológico e no elevado nível de protecção do ambiente.º TFUE).  política conducente à criação na União de um espaço de liberdade. na estabilidade dos preços (que cabe ao BCE assegurar).º a 109. 90.º a 44. A União proíbe todas as restrições aos movimentos de capitais e aos pagamentos entre Estados-membros e entre estes e países terceiros (art.

º).º). 20. A expressão «cidadãos comunitários» pretende dirigir-se aos cidadãos dos Estados-membros que eram sujeitos de direito comunitário.º .193. 165. expressão cuja natureza e alcance foram estabelecidos nos arts. 173. O TUE reforça também os direitos e interesses dos nacionais dos seus Estados-membros mediante:  instituição de uma cidadania da União.  política industrial (art. 9.E. O TUE instituiu.  políticas de educação e formação profisisonal e de juventude e desporto (arts. a cidadania da União.  de saúde pública (art.º) e de criar.º TFUE).  política de cultura (art.º).º e 160.  de defesa dos consumidores (art.º a 24. 119.º)..º).  política de investigação de desenvolvimento tecnológico (art. 168.º). no quadro da U.º). 191. que tratam do reconhecimento da cidadania da União e dos direitos inerentes a esse reconhecimento. 151. nos seus arts. uma sólida União Económica e Monetária servida por uma moeda única.  O reforço da defesa dos direitos e dos interesses dos nacionais dos Estados-membros 71. 167. i.  política de protecção do ambiente (arts.º a 164. 174º .º) ² tudo orientado no sentido de promover um desenvolvimetno harmonioso do conjunto da União e reforçar assim a sua coesão económica.  política social (arts. 169. .º).º a 144. 179.  proclamação solene do respeito pelos direitos e liberdades fundamentais.178. 196. A cidadania da União Europeia 51 72. social e territorial (arts. políticas nos domínios económico e monetário consiantes com a criação da União Económica e Monetária (arts.º e 10.  política de protecção civil (art.º.º do TFUE.

Direito de livre circulação e permanência 73.º do TFUE.«É cidadão da União qualquer pessoa que tenha a nacionalidade de um Estado-membro» (art. conjugadas com as do direito derivado e com a jurisprudência do Tribunal. Esta disposição estende a qualquer pessoa o direito de livre circulação de que na redacção das anteriores disposições do Tratado. Consequentemente. 1. E como cidadão da União goza dos direitos e fica sujeito aos deveres decorrentes do direito comunitário. 52 . todo aquele que pelo direito interno de um Estado for considerado como seu nacional beneficia. complementado por uma Convenção de Aplicação (1990) e outros actos que alargaram o seu domínio de aplicação a quase todo o espaço da EU permitiu facilitar o direito de livre circulação dos cidadãos europeus. os empresários e os trabalhadores indepententes beneficiários da liberdade de estabelecimento e de prestação de serviços. Nestas condições. de acordo com os seus próprios critérios.E.º TUE). da cidadania da União. 9. 20. atribuir a sua nacionalidade. Segundo o art.a) e 21. O acordo de Schengen de 14 de Junho de 1985 relativo à eliminação dos controlos nas fronteiras internas da Comunidade Europeia .º/2/al. cada um dos Estados-membros da União mantém completa liberdade para. apenas beneficiava o «homo economicus». participante no mercado interno. ii. ipso facto. A esse direito de livre circulação acresce o de permanecer livremente no território dos Estados-membros ² direito de que inicialmente apenas usufruíam os trabalhadores assalariados. «qualquer cidadão da União goza do direito de circular e permanecer livremente no território dos Estados-membros». Os direitos inerentes à qualidade de cidadão da U.

Qualquer cidadão da U. 5.2. Direitos políticos 74.º/2/al.º/2/al. 24.º e 227. a título individual ou em associação com outros cidadãos ou pessoas. beneficia. Direito de petição ao Parlamento Europeu 76. 20.º TFUE).º TUE). 4. ao qual incumbr prestá-la nas mesmas condições em que a presta aos seus próprios nacionais (art. 2 53 . residentes num Estado-membro de que não tenham a nacionalidade Lei n. c) e 23.º TFUE).2 3.º/2/al. petições ao Parlamento Europeu sobre qualquer questão que se integre nos domínios da actividade da União e que lhe diga directamente respeito (arts.E.E. nas mesmas condições que os nacionais desse Estado (art. no território de países terceiros em que o Estado-membro de que é nacional não se encontre representado. nas mesmas condições que os nacionais de esse Estado (art. Qualquer cidadão da U. Direito de queixa ao Provedor de Justiça 77. d).º 93/101/CE regula o exercício do direito de voto e a elegibilidade nas eleições para o Parlamento Europeu por parte dos cidadãos da U. de protecção por parte das autoridades diplomáticas e consulares de qualquer Estado-membro.º 4/94. 20. Directiva n. de 9 de Março (transposição para a ordem interna portuguesa). b) e 22.º/2/al. Direito à protecção diplomática 75. Estes direitos abarcam: a) O direito de qualquer cidadão da EU residente num Estado-membro que não seja o da sua nacionalidade eleger e ser eleito nas eleições municipais do Estado-membro de residência. bem como qualquer outra pessoa singular ou colectiva com residência ou sede estatutária num Estado-membro) tem o direito de apresentar. 20. Qualquer cidadão da União ² ou qualquer pessoa singular ou colectiva com residência ou sede estatutária num Estado-membro ² CFR. 20. b e 22. b) O direito de eleger e de ser eleito nas eleições para o Parlamento Europeu no Estado-membro de residência.º TFUE)..E.

º TUE. o exercício. o direito de se dirigir às Instituições e aos órgãos consultivos da União numa das línguas dos Tratados de obter uma resposta na mesma língua (art. do exercicio pelos Estados-membros de poderes paralelos ou concorrentes. Por fim. não apenas uma autolimitação da soberania nacional mas.º/2/al. Ao assumirem o estatuto de membros da União. em seu lugar.º e 228. A conclusão dos Tratados implicou para os Estados-membros que neles participaram ou a eles aderiram mais tarde. do exercício de poderes soberanos do Estado. o TUE garante aos seus cidadãos o respeito pelos seus direitos fundamentais nos termos decorrentes do art.º TFUE). os Estados renunciaram ² como o exigia o estabelecimento de uma união aduaneira e a integração dos mercados internos ² a uma considerável parcela das suas competências tradicionais. a transferência para a U. de competências e poderes muito vastos. 24. Cabe igualmente aos cidadãos da U. mas. 20. mais do que isso. Respeito dos direitos fundamentais dos cidadãos da União 78. para além disso.º/2/al.E. com vista à criação da União Económica e Monetária. nos domínios submetidos a uma gestão comum. d)). 54 . 6. 6. Título II ² A Natureza Jurídica da União Europeia 79.pode dirigir-se ao Provedor de Justiça para apresentar queixas respeitantes a casos d emá administração na actuação das Instituições ou organismos da União ² com excepção do Tribunal de Justiça quando este tenha agido no exercício das respectivas funções jurisdicionais (arts. d).E. tanto de carácter legislativo e executivo como de natureza jurisdicional e até política ² com exclusão. conferiram às Instituições da União. 20.

3 55 . cujos caracteres distintivos não permitem incluí-la em nenhuma das categorias preestabelecidas ² situada a meio caminho entre as organizações de simples cooperação e os sistemas federais. atribuido ao Tribunal de Justiça competências que lhe permitem impor um certo federalismo jurídico.Capítulo I ² Uma Organização Internacional «SUI GENERIS» Introdução 80. comporta também a participação das próprias Instituições da U. a transferência de competências dos Estados-membros para as Instituições Comunitárias. se exige a intervenção dos Estadosmembros. traduzido não só na aplicabilidade directa do direito comunitário como também na sua primazia sobre o direito Actualmente isto não é excato. Numa síntese dos aspectos ou caracteres de estilo federal que uma análise levada a cabo com espírio federalista permitia atribuir às Comunidades Europeias reconhece que:  Os Tratados de Roma.  A revisão dos Tratados deve ser levada a cabo não através de instrumentos de carácter intergovernamental negociados no âmbito de conferências diplomáticas do tipo clássico mas. foram concluídos por tempo ilimitado e não previram em nenhum caso o direito de secessão 3..  O sistema institucional das Comunidades comporta elaborados processos de decisão por maioria. 50.  Os Tratados organizam a subordinação dos Estados-membros à regra do direito comum. tal como as cartas federais. antes. à semelhança de uma «Carta Federal». directa e imediatamente aplicáveis na ordem jurídica interna dos Estados-membros independentemente de qualquer processo de recepção.  Organização do tipo federal? 81.E. segundo um processo que.  Tais tratados estabelecem.º do TUE dispôs que: «Qualquer Estado-membro pode decidir ( ) retirar-se da União».  À semelhança do que sucede num sistema federal a s Instituições dispõem de um verdadeiro poder legislativo que lhes permite adoptar regras gerais e abstractas. Ainda é do fórum a questão da natureza da U. O art.E.

Em suma: as concepções qualificações referidas não são muito úteis: antes de mais. ainda. Outros autores. depara-se com um «tal conunto de caracteres inerentes ao regime federal que é legítimno concluir que os nossos Tratados consagram um certo federalismo funcional e pretender. Mas esta conclusão em nada prejudica a tese de TEITGEN. entenderam possível qualificar as Comunidades Europeias como organizações de integração e o direito que as reGe como direito de integração ² por oposição ao direito internacional clássico da coexistência ou da simples cooperação intergovernamental. exercidos no espaço territorial dos Estados-membros (por vezes em relação aos próprios nacionais destes) e que. no âmbito da U. simultaneamente económicas e políticas. uma União Económica e Monetária servida por uma moeda única. considerando a originalidade e as finalidades. Assim. por conseguinte. do processo de integração europeia de que os tratados comunitários foram o elemento motor.E.  Organizações supranacionais 83. têm permitido encarálas como organizações supranacionais.  E foi instituída.interno dos Estados-membros e na sua sujeição a mecanismos destinados a assegurar-lhe uma interpretação e aplicação uniformes. interpretá-los com referência aos princípios fundamentais do federalismo» (Prof. estão demasiado ligadas à concepção ideológica a 56 . Também a natureza e a extensão das atribuições e poderes das Comunidades Europeias. excluem o exercício das correspondnetes competências dos Estados. dos quais sobressai o papel de Pièrre PESCATORE. em domínios determinados. TEITGEN)  Organizações de integração 82.  Os Tratados e mais ainda o direito deles derivado e que é uma criação das próprias Comunidades comportam uma espécie de fiscalização federal no âmbito de um sistema de recursos próprios.

cuja criação não implicou para os Estados-membros a renúncia à soberania nacional.E.ª ² A pretensa soberania da União Europeia 84.E.que se adira sobre os objectivos das Comunidades (U. 57 Secção 1. impõe-s-enos examinar se é possível considerar as Comunidades Europeias (agora U. impõe-se reconhecer que nenhuma é aceite pelo conjunto da doutrina jurídica. Em todo o caso. por outro lado.) como entidades soberanas. instituídas para gerir em comum interesses de um conjunto de Estados-membros.) e até a juízo que se faça sobre as intenções que teriam presidido à sua criação. implicou. apenas. as qualificações possíveis não contribuem de modo algum para facilitar a apreensão do sistema complexo de relações e particularmente de partilha de competências entre a Comunidade (U. etc. porque é ideia corrente que a adesão às Comunidades Europeias implicou a alienação da soberania nacional. Apesar de haverem já sido feitas profundamente. .E. estas análises não têm permitido chegar a conclusões seguras no tocante à questão de saber se os tratados que instituíram as Comunidades Europeias e agora a União Europeia deram origem a uma entidade «supranacional» habilitada a beneficiar da transferência de uma parcela de soberania dos Estados-membros. Para chegar a um porto seguro sobre a verdadeira natureza da U.) e os seus Estados-membros. seria oportuno analisar a natureza jurídica das suas atribuições.E.E. a transferência do exercício de certas competências estatais. a extensão e o conteúdo dos seus poderes ² em relação aos Estados-membros e aos respectivos súbditos ² o grau de dependência ou de autonomia do seu sistema de tomada de decisões. finalmente. por força de tal transferência. se torna soberano.) a ser consideradas como simples organizações interestaduais do tipo novo . partindo do princípio de que uma transferência de soberania estadual não é concebível senão a favor de um sujeito de direito internacional titular de soberania que. O prosseguimento da nossa análise vai levar-nos a concluir que as Comunidades Europeias (agora U. as relações de superioridade ou de subordinação entre a ordem jurídica da União e as ordens jurídicas nacionais.

bem como a transferência de competências de que beneficiou. Para R. a manifestar todas as suas virtualidades como ideia-força da integração europeia: utilizada en 1952 no art. Por seu turno. 9.  A questão da supranacionalidade 85.º do Tratado CECA. certos tribunais nacionais não têm hesitado em ir mais longe. o individualismo internacional (que considera intangível a soberania nacional e só aceita as limitações desta soberania que resultem de obrigações consensuais. Esra noção de supranacionalidade estaria destinada. art. No entanto. a supranacionalidade situa-se a meio caminho entre. em nome do Governo. e. nos limites definidos pelo Tratado. se uma instituição supranacional como a Comunidade. SCHUMAN.  o Tratado confere à Comunidade uma missão e funções próprias que não são exercidas a Título de simples delegação de poderes dos Estados-membros. Segundo ele. tendo antes recorrido a fórmulas sibilinas. é um afcto que ela detém e exerce certos poderes soberanos:  é independente dos Governos dos Estados-membros.O TJUE tem-se furtado a empregar expressões sumárias ultrapassadas como a de «supranacionalidade». por outro lado. os traços gerais do projecto CECA. Mais tarde.º do Tratado CECA). a expressão «supranacionalidade» viria a ser retomada no projecto de tratado respeitante à Comunidade Política Europeia ² o que permitiu a 58 . como a de «nova ordem jurídica» e tomando decisões ousadas que lhe permitiram pavimentar a via de um certo federalismo jurídico europeu. não possui as características de um Estado. ocasionais e revogáveis). ao expor perante a Assembleia Nacional Francesa. uma vez lançada sob a autoridade desse homem de Estado e europeu convicto.  esta independência é irrevogável. a federação de Estados subordinados a um superestado dotado de soberania territorial e política próprias. por um lado. O primeiro autor a empregar a expressão «supranacional» no contexto da unificação europeia foi Arthur SALTER. 9. SCHUMAN. depois. ao favorecer a introdução da expressão no próprio dispositivo do Tratado de Paris (cfr. proclamando a emergência de um verdadeira soberania comunitária. a responsabilidade pela introdução deste vocábulo no léxico oficial cabe a R. SCHUMAN esforçou-se por precisar quais seriam o sentido e alcance da supranacionalidade europeia.

podri acrescentar-se aos elementos relevados por REUTER o facto de que as competências atribuídas às Comunidades são relativamente extensas. considera que o carácter distintivo da supranacionalidade consiste no imediatismo do direito comunitário. Em suma: pela nossa parte. a transferência de competências estatais para as Comunidades e as relações imediatas entre os órgãos comunitários e os particulares (pessoas singulares e colectivas) nacionais dos Estados-membros. independentemente de qualquer intervenção dos Estados. ao contrário do vocábulo «internacional»m que está essencialmente relacionado com a ideia de coordenação de soberanias. por seu lado. a doutrina jurídica adoptou-a para caracterizar as Comunidades Europeias face a outras organizações internacionais. a independência dos resoectivos órgãos e dos seus membros são características comuns a diversas organizações internacionais. Segundo outros autores. Para REUTER ² primeiro autor que tentou dar conteúdo jurídico preciso à nova noção ² o que autorizaria a utilizá-la no quadro europeu seria a independência das instituições comunitárias em relação aos Governos nacionais. VISSCHER.E.. a expressão em causa supõe uma ordem de subordinação. 86. assinados em 1956 não tenham utilizado esta expressão. o carácter obrigatório de tais decisões na ordem interna dos Estados. Embora os Tratados CEE e CEEA. esta ordem de subordinação implica a independência do órgão supranacional face aos Estados e o carácter obrigatório das suas decisões. admitimos que uma análise cuidada dos diversos aspectos que os autores referidos puseram em destaque permitiria detectar situações similares em organizações intergovernamentais tradicionais. ou seja. mesmo aceitando que o Tratado de Lisboa. pondo em relevo o que há de específico no fenómeno comunitário e que permitiria falar de «supranacionalidade».SCHUMAN avançar a previsão de que este vocábulo não mais seria excluído do léxico jurídico. veio sublinhar a natureza supranacional da U. 59 .. Também COLIN entendeu que a origem da supranacionalidade reside numa transferência de competências estaduais. A tomada de decisões por maioria. na possibilidade da sua aplicação directa aos particulares.E. e manifestar a sua firme convicção de que um novo grau na hierarquia dos poderes estaria assim definitivamente consagrado para o futuro. Para WILDAU. ao criar a U.

dos direitos e obrigações correspondentes às disposições dos tratados implica. uma Comunidade de duração ilimitada. reconhecer que a intervenção sistemática e permanente das Comunidades e agora da U.Impõe-se. diversamente dos tratados internacionais tradicionais. todavia. da sua ordem jurídica interna a favor da ordem jurídica comunitária. capacidade jurídica. pois. é uma realidade que tem pouco que ver com a intervenção esporádica das organizações internacionais clássicas em domínios restritos e rigorosamente definidos da actividade e da competência próprias dos Estados. Tanto o TJ como certos tribunais nacionais tiveram já ocasião de se pronunciar sobre a natureza jurídica das Comunidades Europeias. Não obstante. parece que os critérios que melhor podem exprimir a supranacionalidade de uma OI são essencialmente dois: a autonomia dos seus órgãos em face dos Estados-membros e os imediatismo dos poderes exercidos ² imediatismo que se manifesta quando a norma ou injunção concreta (decisão) emanada desses órgãos autónomos é directamente aplicável e plenamente eficaz na ordem jurídica interna dos Estados. 60 .E. independentemente de qualquer acto nacional destinado a operar a sua recpção ou prejudicar a sua eficácia. de personalidade. mais precisamente. No acórdão proferido no caso Costa/ENEL. «ainda que em domínios restritos. dotada de atribuições próprias. exprimindo as suas concepções. em vastos domínios que anteriormente dependiam da competência exclusiva dos Estados e cujas fronteiras são mal definidas (o que permitiu uma inflação constante de competências comunitárias). de poderes reais decorrentes de uma limitação de competências ou de uma transferência de atribuições dos Estados à Comunidade (« )» Os Estados limitaram pois. os seus direitos soberanos e criaram assim um corpo de direito aplicável aos seus súbditos e a si próprios« A transferência operada pelos Estados. uma limitação definitiva dos seus direitos soberanos contra a qual não poderá prevalecer um acto unilateral ulterior incompatível com a noção de Comunidade».  Uma nova ordem jurídica 87. instituiu: «Uma ordem jurídica própria. capacidade de representação internacional e. o TJ precisou que o Tratado CE.

no plano normativo. em termos mais moderados. graças aos princípios de aplicabilidade directa e do prim ado da norma comunitária. de 14 de Dezembro de 1971. ao apresentá-las. encarando -as como um sistema normativo autónomo que. ao proclamar o princípio da primazia da ordem jurídica da U. Mas no Ac. ao procurar isolálas de qualquer impureza de carácter metajurídico. contra a qual não poderá prevalecer a invocação de disposições do direito interno.E. dotada de instituições permanentes. instituiu uma relação de subordinação em que o ordenamento jurídico dos Estados-membros é forçado a vergar-se perante a ordem jurídica reconhecida como superior. mas ainda porque as suas relações com tais ordens jurídicas são definidas segundo critérios póoprios de direito comunitário ² que. de 13 de Julho de 1972. Mas. porém. seja qual for a sua natureza». o TJ reafirma esta ideia de «limitação definitiva dos direitos soberanos dos Estados.No Ac. ² autónoma e distinta da dos Estados-membros ² a expressão. como um «ordenamento jurídico» próprio e autónomo. 88. na concepção do TJUE. de uma sonberania própria em face dos Estados que a constituem? . o Tribunal declara. investida de poderes reais decorrentes de uma limitação de competências ou de uma transferência de atribuições dos Estados a esta Comunidade». um ordenamento autónomo não somente por ser distinto tanto da ordem jurídica interna como da ordem jurídica internacional e por não ser tributário das ordens jurídicas dos Estados-membros. depuradas de qualquer componente política ou ideológica. 61 Não constituirá a ordem jurídica da U. Verifica-se que o TJ evita meticulosamente qualificar as Comunidades como entidades soberanas. que os «Estados-membros acordaram em instituir uma Comunidade de duração ilimitada. não se terá poreventura o Alto Tribunal inspirado numa concepção kelsiana que precisamnete identifica a entidade soberana que é o Estado com um sistema de normas jurídicas? O direito comunitário seria. age como um instrumento de unificação do direito.E. e.

Certos tribunais nacionais entenderam poder dar esse passo. de tipo supranacional. para a qual os Estados-membros «transferiram certos direitos de soberania» e cujas Instituições exercem «direitos soberanos» de que os Estadosmembros se despojaram em porveito da Comunidade por eles criada. de carácter permanente. acrescenta que «ao criar a Comunidade como uma instituição caracterizada por uma ordem jurídica autónoma e independente. «Resulta da natureza jurídica da Comunidade que os actos adoptados soberanamente pelas suas Instituições no quadro da sua competência (« )» Este mesmo tribunal já tinha igualmente declarado em 1968 que «ao concluir o Tratado CEE. e agora à U.E. de poder soberano no interior de um domínio limitado de competência. na sua decisão de 27 de Dezembro de 1973. dotada de personalidade jurídica e de capacidade de representação internacional». criada por um tratado que«representa de certo modo a Constituição desta Comunidade» . O TC italiano.   62 . As concepções de alguns tribunais nacionais 89. o direito dele emanado encontra o fundamento da sua validade interna no facto de os Estados-membros terem submetido o respectivo território a essa potência sob erana». a soberanoa que o TJ não havia ousado proclamar abertamente. reconhecendo formalmente às Comunidades. os Estados fundadores criaram um sujeito novo e autónomo. depois de ter qualificado a CEE como «uma nova organização interestadual. « supranacional» . Também o TC da República Federal Alemã qualificou a CE como uma « potência pública de natureza particular». « nitidamente distinta da potência pública dos Estados -membros ( ) potência pública autónoma e independente em face da potência pública de cada um dos Estados-membros».i. a Itália e o s outros Estados-membros conferiram e reconheceram poderes soberanos determinados à Comunidade Económica concebida como instrumento de integração dos Estados participantes («)»..

não deve ser considerada como entidade soberana ² antes como mera organização interestadual em proveito da qual os Estados operaram não a transferência (irreversível) de uma parcela de soberania nacional mas. embora sem usar a palavra. . o carácter autónomo da ordem jurídica comunitária. uma simples delegação do exercício de competências estaduais. embora com o alto custo que representaria.E. para um Estadomembro. em todo o caso. Ora. como se impõe admitir que quando uma soberania se esvazia uma outra se lhe substitui. limitada a certos domínios específicos. No entanto. dos atributos fundamentais da soberania do Estado ² a ausência de qualquer forma de subordinação no plano orgânico (tendo como corolário a exclusão da ingerência externa nos assuntos internos e o exclusivismo das competências ² designadamente das competências normativa e jurisdiconal ² que o direito internacional reconhece aos Estados? 63 O próprio princípio da submissão imediata ao direito internacional ² que segundo um critério puramente jurídico é a marca distintiva da soberania ² e bem assim o princípio da autonomia constitucional que é. a esta luz. mais singelamente. a sua supremacia dita absoluta e o seu domínio crescente sobre o conjunto da ordem jurídica nacional (inclusive sobre a ordem constitucional) não poderiam ser entendidos senão como implicando o esvaziamento progressivo da própria essência da soberania do Etado face à constante e irreprimível expansão de uma ordem jurídica superior.Secção 2.º do TUE. a sua inevitável separação da União ² como aliás lhe é facultada pelo art. Que subsistiria. parece que não chegamos ainda a esse ponto se aceitarmos que a U. 50. como dificilmente contestável. a soberania das Comunidades Europeias apareceria. Com efeito. delegação esta que a todo o tempo pode ser retirada. A afirmação do primado absoluto da ordem jurídica comunitária correspondia a proclamar. a natureza supranacional e soberana das Comunidades Europeias. em tais circunstâncias. um atributo essencial da independência nacional. estaria irremediavelmente prejudicados pelo princípio da primazia absoluta do Direito Comunitário.ª ² As Comunidades: Organizações Interestaduais não soberanas 90.

porém. não dispensa a evocação dos objectivos virtuais da empresa de integração europeia e da base democrática em que os Estados-membros pretenderam fazê-la assentar. O TUE viria.E. Estes dois princípios apresentam um carácter essencial que não comportam. este princípio podia ser considerado como verdadeiramente basilar e estruturante da empresa comunitária. A determinação do conteúdo do princípio democrático como elemento essencial da ordem jurídico-política instituída no âmbito da U. Por isso mesmo.E. A apreensão da natureza da U.E. já que tal derrogação constituiria um atentado inaceitável contra o espírito da U.Capítulo II ² Os Princípios Constitucionais da União Europeia 91.E.: o princípio democrático e o princípio da liberdade económica .ª ² O princípio democrático 64 92. em caso algum.? Organiza²lo-emos em torno de dois grandes eixos de reflexão que correspondem a outros tantos princípios dominantes da ordem jurídico-económica e social da U. a par destes princípios os Tratados consagram outros que muito contribuem para conferir à U. Secção 1. a fazer-lhe referência expressa.E.. na medida em que poria irremediavelmente em causa a homogeneidade e a coesão do bloco de países que dela fazem parte. não permite prescindir do apuramento de alguns princípios fundamentais que a caracterizam e cuja identificação contribuirá para esclarecer o verdadeiro carácter peculiar desta Organização.  O princípio democrático na base da União Europeia 93. Quais são esses princípios fundamentais que pela sua particular importância poderão ser considerados princípios constitucionais da U. . uma entidade própria. a possibilidade de derrogação na ordem jurídica interna dos Estados-membros. Embora não haja sido explicitamente enunciado nos Tratados de Roma. Mas.E. importa precisar o seu conteúdo e verificar até que ponto os Estados da União estão vinculados à sua observância na respectiva ordem interna.

a longo prazo. no preâmbulo e no próprio articulado. a justiça. a tolerância. No seu preâmbulo. ii. da liberdade. do Preâmbulo do Acto único e do texto do Tratado da U. a «verificar a existência de um risco manifesto de violação dos valores» referidos e a «suspender alguns dos direitos decorrentes da aplicação do presen te Tratado ao Estado-membro em causa». O Tratado da União Europeia 95. do Estado de direito e do respeito pelos direitos do Homem. reafirmar o fundamento democrático da U. Os objectivos virtuais dos Tratados Comunitários originários 94. numa sociedade caracterizada pelo pluralismo.E. democracia. 65 . a solidariedade e a igualdade entre homens e mulheres». 7.E. da «Declaração sobre a Democracia». tal como manifestam o seu desejo de «reforçar o carácter democrático e a eficácia do funcionamento das Instituições» da União. o art. de uma União Económica e de uma União Política da Comunidade.º do TUE dispõe que a União «funda-se nos valores do respeito pela dignidade humana. É de notar o texto da «Carta da Identidade Europeia». 2. No entanto. esse objectivo da fundação de uma união económica e política dos povos da Europa nunca foi dissociado do princípio democrático a que deveria conformar-se. respeito pelos direitos do Homem e liberdades fundamenrais e do Estado de direito». da democracia. nas condições aí previstas. Estes valores são comuns aos Estadosmembros. O objectivo virtual dos Tratados Europeus consiste na instituição. o art.º autoriza o Conselho. Procurando prevenir qualquer desvio a tais princípios. Explicitando este propósito. da igualdade. O TUE viria ulteriormente. os Estados-membros confirmam «o seu apego aos princípios da liberdade. a não discriminação.i. assente numa base federal. incluindo os direitos das pessoas pertencentes a minorias. incluindo o direito de voto no Conselho.

social e político. no quadro de uma organização «sui generis» que aspira a ser mais do que um simples instrumento de integração económica. imbuídos de um comum respeito pelos valores do humanismo e identificados pela sua adesão geral a um sistema de economia social de mercado assente .  paralelamente.º/1 do TUE.ª ² Os Princípios Constitucionais de Ordem Económica 66  O princípio da liberdade económica i. A fisionomia geral da Comunidade 97. a «Declaração sobre a Democracia» e. Os Tratados de Paris e de Roma. e hoje o TUE. organização e exercício do poder político). Por força do art. como expressão de uma exigência irrecusável nos planos ético. Ao reler a Carta ou «Declaração sobre a Identidade Europeia». nas Constituições dos Estados-membros e nos instrumentos internacionais a que os mesmos Estados aderiram. Secção 2. organização e exercício do poder político e encontra a sua expressão ² no quadro da União como nas Constituições dos Estados-membros ² no sistema da democracia representativa e pluralista. ligaram entre si. sobretudo.º TUE. O conteúdo do princípio democrático 96. «o funcionamento da União baseia-se na democracia representativa». vinculados a uma concepção comum sobre o valor intrínseco da democracia (considerada como fundamento da legitimidade. 6. o princípio identifica -se com uma determinada concepção sobre a legitimidade. diversos Estados europeus portadores de uma civilização milenária. verificamos que o princípio democrático aí firmado se exprime em dois planos distintos:  por uma lado. também. o princípio democrático implica o respeito dos direitos fundamenrais tal como estes são enunciados e salvaguardados não só em algumas disposições dos Tratados mas. que a ordem jurídica comunitária pôde assimilar em virtude do trabalho de elaboração jurisprudencial levado a cabo nos últimos 30 anos pelo Tribunal das Comunidades ² tudo hoje vertido no art. 10. o Preâmbulo e o articulado do TUE.

na livre concorrência e noutros princípios e regras de disciplina económica e social que desses decorrem. A exacta caracterização do mercado interno resulta do real conteúdo de tais liberdades . constitucionalmente garantida na ordem jurídica interna dos Estadosmembros quer no quadro da União ² art. favorecida pela instituição. O conteúdo do princípio: as liberdades instituídas 98.e outras que os Tratados reconhecem:  livre circulação das mercadorias . consideradas a tal ponto específicas e essenciais que o Tratados de Roma as qualificava como fundamentos da Comunidade.  livre prestação de serviços. Estas liberdades individualizam o mercado interno da U. em relação aos mercados de direcção administrativa. no quadro de uma união aduaneira. Tal princípio comporta a propriedade privada dos meios de produção . A liberdade económica implica ainda o direito reconhecido aos operadores ou agentes económicos do mercado interno de circular livremente no espaço da União para aí se dedicarem a um trabalho assalariado ou independente (actividade artesanal ou profissão liberal). para se estabelecerem como comerciantes ou produtores em qualquer domínio 67 .  direito de estabelecimento.º CRP.  livre circulação de pessoas. comporta também a liberdade de empreender e de agir no domínio económico (livre iniciativa). da pauta exterior comum. de inspiração neoliberal ² o que explica a grande importância que os tratados atribuem ao princípio da livre concorrência. da disciplina inerente a uma economia de mercado resulta dos princípios e disposições jurídicas que organizam e regem o funcionamento do mercado interno e que dão expressão concreta a «cinco liberdades» . ii.E. 99.na propriedade privada dos meios de produção. O princípio constitucional da liberdade económica reflecte a realidade de que o mercado interno é expressão de uma economia de mercado.  livre circulação dos capitais no quadro de uma união económica e monetária.E. tal como o distinguem de uma zona de trocas livres ou de uma simples união aduaneira. 61. A consagração na ordem económica da U.

sujeitas às regras comuns de concorrência e os Estados obrigados a respeitar o princípio da não discriminação ² cfr.º e 101. Cada Estado é pois livre não somente de manter. no exercício da respectiva actividade.da vida económica e para prestarem livremente os serviços correspondentes ao seu ramo de actividade. A ordem jurídica comunitária comporta um regime capaz de assegurar que a concorrência não é falseada no mercado interno . com efeito. arts.  O princípio da concorrência leal 100.º da CRP.º. conferem plena expressão à livre iniciativa de que usufruem os operadores económicos do mercado interno da U. Os negociadores dos Tratados consideraram. mas igualmente de alargar. Porém. é de notar que esta liberdade económica não é absoluta. o sector público da economia ² e isto através da criação de novas empresas. As implicações do princípio da liberdade económica O completo apuramento do conteúdo e alcance do princípio da liberdade económica exige uma referência a outros princípios a nível constitucional que. Mas se o Tratado não interfere com o regime de propriedade dos meios de produção. 101. a justo título.) ² art.E. Tal regime ficou estabelecido nos arts. para além das «cinco liberdades» referidas.º TFUE). que o princípio da concorrência era essencial para o funcionamento . Nos termos do seu art. etc. quer mediante a socialização de empresas peexistentes (por nacionalização. Tudo isto no quadro de um estado de direito democrático que salvaguarda eficazmente os direitos que dão conteúdo real ao princípio da liberdade económica. expropriação. tem muito a ver com o uso que deles é feito : as empresas do sector público estão . o Tratado (TFUE) «em nada prejudica o regime de propriedade nos Estados-membros». 37. 68 iii.º a 109. em detrimento da propriedade privada. já que os Estados se reservaram o direito de restringor o acesso dos operadores do mercado interno à propriedade e ao uso de certos m eios de produção e a determinadas actividades profissionais. 83.º do TFUE.º e 106. tomada de posição accionista. 345.

45.º e 35.  O princípio da não discriminação em razão da nacionalidade 101. 34.. 18. igualmente. sem ele. bem como a respectiva identidade nacional. como sejam os arts. tendo a sua expressão concreta noutras disposições. etc. 69 . 57. O princípio da igualdade. 49. de qualquer competência que tenha por efeito estabelecer não só discriminações istentivas e evidentes com base na nacionalidade como . o mercado interno e o seu funcionament o seriam inconcebíveis. o direito da União. A filosofia que presidiu ao sistema instituído foi a de que se impunha criar um mercado aberto. capaz de proporcionar aos nacionais dos Estados-membros ² produtores. 92. O princípio proíbe todas as formas de discrimiançaõ em razão da nacionalidade. Este princípio encontra-se consagrado no art. reflectida nas estruturas políticas e constitucionais fundamentais de cada um deles. comerciantes e consumidores ² as vantagens decorrentes de um vasto espaço economicamente integrado.º.E.º/2/3. a) A igualdade dos Estados A União respeita a igualdade dos Estados-membros perante os Tratados. de tal modo que. formas dissimuladas de discriminação que por aplicação de outros critérios possam conduzir ao mesmo resultado. acha-se estreitamente ligado ao princípio da não discriminação. à escala da U.º. opondo assim um limite intransponível ao exercício.º.º/1/2. de que pode mesmo considerar-se a outra face. na sua dupla vertente da igualdade dos Estados e da igualdade dos agentes económicos privados . pelos Estados-membros.correcto do mercado que se pretendia instituir ² pois só a liberdade de concorrência poderia assegurar a protecção das empresas e dos consumidores e impedir que barreiras criadas pelo «dirigismo» dos cartéis e monopólios se substituíssem às fronteiras de direito público que os Estados quiseram abater. 54. Trata-se de um princípio verdadeiramente fundamental na medida em que de facto ou de direito penetra e rege toda a construção europeia.º.º.º do TFUE. 37.  O princípio da igualdade 102.

os direitos e obrigações decorrentes dos Tratados ou dos actos adoptados na sua conformidade. é contrário à ordem jurídica por que a União se rege. a manter a ordem pública e a salvaguardar a segurança nacionaL. 2. um estatuto de inteira igualdade. estreitamente limitados. autorizá-lo a adoptar medidas de excepção (cláusulas de salvaguarda) ² mas limitadas no tempo e aplicadas em condições rigorosamente definidas. um Estado poderá beneficiar da possibilidade de se furtar (mas nas precisas condições resultantes da negociação) ao cumprimento de algumas obrigações inerentes à qualidade de Estado-membro. a segurança nacional continua a ser da exclusiva responsabilidade de cada Estado membro (art. em que os Tratados a admitem: 1. adquirem.º Durante o período de transição que se segue à sua adesão à União. pelo simples facto de serem nacionais de um Estado-membro. O princípio da igualdade dos Estados implica que situações comparáveis não devem ser tratadas de maneira diferente. nomeadamente as que se destinam a garantir a integridade territorial. enquanto agentes económicos da União. a União pode. a solicitação do Estado afectado. aos nacionais de qualquer Estado-membro (pessoas físicas ou morais). . Em especial.º No caso de sérias perturbações da situação económica ou social de um Estado-membro. mas esta concessão poderá implicar contrapartidas diversas a favor dos seus parceiros. 70 b) A igualdade dos agentes económicos privados Implica que o direito da União atribui em condição de perfeita igualdade. A igualdade dos Estados-membros implica que nenhum deles pode reivindicar uma situação de privilégio em face dos seus parceiros fora dos casos. qualquer privilégio que não encontre fundamento numa qualquer disposição. agindo no quadro do mercado interno. a menos que uma diferenciação seja objectivamente justificada.incluindo no que se refere à autonomia local e regional. 4.º/2 do TUE). qualquer tartamento de favor. Consequentemente. A União respeita as funções essenciais do Estado. sem qualquer discriminação entre eles. Todos.

e a solidariedade entre os Estados-membros». 3. da solidariedade e da cooperação leal 103. e cumpre à União. esta desenvolve e prossegue a sua acção no sentido de reforçar a sua coesão económica.E. a concretização desta solidariedade implica uma cooperação leal quer entre os Estados-membros quer entre estes e as Instituições da União e também a prática do princípio da preferência comunitária que encontra expressão no domínio da política agrícola da União. na formulação e concretização das suas políticas e acções e na realização do mercado interno. o art. 174.: «A União promove a coesão económica. mas a coesão dos Estados-membros supõe. uma solidariedade efectiva entre eles. 71 Nesta conformidade. O objectivo da coesão económica já estava de algum modo implícito no primitivo texto do Tratado de Roma em que se proclamava como «missão» comunitária a realização de «um desenvolvimento harmonioso» no conjunto da Comunidade. Em especial. ter em conta esses mesmos objectivos e contribuir para que sejam alcançados. O princípio da coesão económica e social 104.º entre os objectivos da U. O TUE reforçou a relevância do princípio ao inscrevê-lo no seu art. cumpre mais à União apoiar a prossecução desses objectivos mediante a acção por ela desenvolvida através de fundos com finalidade estrutural: . cumpre aos Estados conduzir e coordenar as suas políticas tendo em vista alcançar os referidos objectivos . Os princípios da coesão económica e social. Dando aplicação ao citado art. social e territorial. 3.º CE. dados os diferentes estádios de desenvolvimento em que ainda se encontram. social e territorial. a União procura reduzir a disparidade entre os níveis de desenvolvimento das diversas regiões e o atraso das regiões menos favorecidas». Trata-se de princípios intimamente relacionados: a prática da solidariedade nas relações entre os Estados-membros torna-se mais fácil e menos custosa à medida que se fortalece a coesão económica e social do conjunto.º do TFUE dispõe: «A fim de promover um desenvolvimento harmonioso do conjunto da União. i.

º do TUE que confia à União a missão de promover «a coesão económica e social e a solidariedade entre os Estados-membros». Os tratados associaram os Estados-membros da União Europeia num quadro jurídico. económico e social que constantemente faz apelo à prática da solidariedade. (Fundo Europeu de Orientação e G arantia Agríciola (FEOGA) ² Secção Orientação. 175. 72  O princípio da cooperação leal nas relações entre a Comunidade e os seus Estados-membros 106. 3.º 3 do art. Este princípio tem plena aplicação em diversos domínios e circunstâncias ² e designadamente no âmbito do sistema de financiamento das despesas da União ² na medida em que as receitas do orçamento (ditos recursos próprios) são geradas no quadro das actividades de produção e consumo que se desenvolvem nos territórios dos Estados-membros que assim contribuem em conjunto para suportar o custo das acções da União.  Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER).  Fundo de Coesão. Banco Europeu de Investimento (BEI) e demais instrumentos financeiros existentes (cfr. art.º TFUE). independentemente dos benefícios que delas possam retirar. ii. O princípio da solidariedade 105.4.  Fundo Social Europeu. .º/3: «3. «Os Estados-membros tomam as medidas gerais ou específicas adequadas para garantir a execução das obrigações decorrentes dos Tratdos ou resultantes dos actos das instituições da União. Em virtude do princípio da cooperação leal. O princípio da cooperação está contemplado no Tratado CE ² em particular no art. a União e os Estadosmembros respeitam-se e assistem-se mutuamente no cumprimento das missões decorrentes dos Tratados». O princípio tem consagração constitucional no n.

Os Estados-membros facilitam à União o cumprimento da sua missão e abstêm-se de qualquer medida susceptível de pôr em perigo a realização de objectivos da União».
Note-se que se este princípio obriga os Estados-membros a tomar todas as medidas adequadas a garantir o alcance e eficácia do direito da União, igualmente impõe às Instituições deveres recíprocos de cooperação leal entre si e nas relações com os Estados-mmebros (cfr. art. 13.º/2 TUE). Secção 3.ª ² Os Princípios da especialidade, da subsidiariedade e da proporcionalidade Trata-se de dois princípios fundamentias norteadores das relações entre a União e os seus Estados-membros. 

O princípio da especialidade ou da atribuição 107. A União não dispõe de competência geral. Goza, apenas das competências que pelos Tratados lhe foram atribuídas, ou seja, é titular de uma competência de atribuição.
Este princípio da especialidade, que rege a generalidade das organizações internacionais, está consagrado no art. 5.º/1/2:
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«1. A delimitação das competências da União rege-se pelo princípio da atribuição (« ) 2. Em virtude do princípio da atribuição, a União actua unicamente dentro dos limites das competências que os Estados-membros lhe tenham atribuido nos tratados para alcançar os objectivos fixados por estes últimos. As competências que não sejam atribuídas à União nos Trtados pertencem aos Estados-membros.»
Por seu turno, o art. 13.º/2, após identificar as Instituições da União, acrescenta:

«2. Cada instituição actua dentro dos limites das atribuições que lhe são conferidas pelos Tratados, de acordo com os procedimentos, condições e finalidades que estes estabeleceram ( )»

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Mas o Tratado não delimita com absoluto rigor, por âmbitos materiais ou de funções, as competências conferidas à União e as reservadas para os Estados-membros e isto não obstante o disposto nos arts. 2.º e segs. do TFUE. Por isso mesmo, as competências comunitárias têm, ao longo das últimas décadas, beneficiado de constante expansão ² graças, por um lado, à utilização que tem sido feita do art. 352.º do TFUE ; e, por outro lado, da aplicação encorajada pelo Tribunal de Justiça, do princípio das competências implícitas, válido no quadro da União como no de outras organizações internacionais. Esta ambiguidade na definição rigorosa das competências, propiciadora da ingerência da União em domínios que os Estados consideravam seus, está na origem do princípio da subsidiariedade destinado precisamente a acautelar o risco da crescente redução da esfera de competências estatais.  O princípio da subsidiariedade i. A proclamação do princípio
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108. Trata-se de um princípio fundamental no quadro de uma organização deferal que por definição supõe um adequado sistema de repartição de competências entre os órgãos centrais da federação e os estados federados (estados, repúblicas, províncias ) A forma por que esta repartição se opera pode diferir de Federação para Federação. A U.E. é uma associação de Estados independentes que nos Tratados constitutivos apenas conferiram às suas Instituições as atribuições e poderes que quiseram confiar-lhes. O sistema de repartição de competências que foi adoptado enferma, no entanto, de inevitável imprecisão ² o que permitiu quer ao Tribunal de Justiça (que tal como o STFederal dos Estados Unidos se tem largamente socorrido da teoria das competências implícitas) quer à própria União (explorando as potencialidades do art. 352.º do TFUE) quer aos próprios Estados-membros agindo por via dos tratados formais, alargar constantemente o quadro das competências da União, com o correspondente esvaziamento das competências estatais. A retracção constante no domínio das competências reservadas dos Estados-membros, registada ao longo dos últimos 30 anos, acelerou-se fortemente por força do TUE e, em particular, em resultado da instituição da União Económica e Monetária.

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Compreende-se, portanto, a inquietção dos responsáveis dos Estados-membros e dos cidadãos em geral perante a dilatação constante, aparentemente imparável, do poder de intervenção da União em domínios que tradicionalmente eram objecto do exercício de competências exclusivas dos órgãos nacionais. Essa inquietação generalizada levou os Estados-membros a tentar lmitar os poderes de ingerência das Instituições da U.E.. E a fórmua encontrada para concretizar a intenção, proclamada no preâmbulo do TUE, de criar «uma União cada vez mais estreita entre os povos da Europa, em que as decisões sejam tomadas ao nível mais próximo dos cidadãos», consistiu na adopção do princípio da subsidiariedade, consagrado no seu art. 6.º/3 TUE:

«Em virtude do princípio da subsidiariedade, nos domínios que não sejam sua competência exclusiva a União intervém apenas se e na medida em que os objectivos da acção considerada não possam ser suficientemente alcançados pelos Estados-mmebros, tanto ao nível central como ao nível regional e local, podendo, contudo, devido às dimensões ou aos efeitos da acção considerada, ser mais bem alcançados ao nível da União». O princípio da subsidiariedade surge como essencial para estabelecer o critério de repartição de competências entre os diferentes níveis de poder na União Europeia . Mas a aplicação do princípio suscita dificuldades quer no tocante à sua explicitação quer quanto à repartição das atribuições e correspondentes responsabilidades. ii. A aplicação do princípio da subsidiariedade

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109. Atento às dificuldades de aplicação deste princípio, o Conselho Europeu reunido em Edimburgo, em 11 de Dezembro de 1992, procedeu a uma abordagem global do novo princípio estabelecido no art. 5.º do Tratado, definindo «os princípios básicos, as orientações e os procedimentos e políticas a adoptar» para o aplicar correctamente e, portanto, para obviar a dificuldades nas relações interinstitucioanis e nas relações entre a União e os seus Estadosmembros. Actualmente, um Protocolo relativo à aplicação dos princípios da subsidiariedade e da proporcionalidde, anexo ao Tratado de Lisboa, fixa as condições de aplicação desses princípios e institui um sistema de controlo dessa aplicação, em que avulta o papel dos

ª ² Os princípios fundamentais da Ordem Jurídica e da ordem institucional O princípio da liberdade económica acha -se salvaguardado.E. 5. ao Tratado de Lisboa. a cargo do TJUE (arts. por um sólido e coerente conjunto de princípios de natureza constitucional: o princípio da legalidade.º do TFUE). Este princípio é frequentemente objecto da atenção do TJUE que.Parlamentos nacionais e a fiscalização jurisdicIonal.º do Protocolo e 263.02. no quadro de um verdadeiro estado de direito. em segundo lugar.º TFUE).  O princípio da proporcionalidade 110. está. Em virtude do princípio da proporcionalidade. os princípios da primazia. entendeu que: «A fim de determinar se uma disposição do direito comunitário está em conformidade com o princípio da proporcionalidade. FROMANÇAIS de 23..  O princípio da legalidade 111. no Ac. se os meios que emprega para alcançar o objectivo correspondem à importância desse objectivo e. 76 Secção 4. submetido ao princípio da legalidade : a organização e as actividades das . o princípio de equilíbrio institucional e. é necessário determinar. O funcionamento da U.ex.1985. todo ele. 8. em primeiro lugar. ao exercer o controlo da legalidade dos actos das Instituições. tem procurado precisar o seu exacto sentido. o conteúdo e a forma da acção da União não devem exceder o necessário para alcançar os objectivos dos Tratados (arts. se são necessários para a sua realização». da aplicabilidade directa e da uniformidade de interpretação do direito da União. Pe. As instituições da União aplicam o princípio da proporcionalidade em conformidade com o Protocolo relativo à aplicação dos princípios da subsidiariedade e da proporcionalidade anexo.º/4 TUE e 296. em estreita concexão com estes.

da primazia e da uniformidade de interpretação e de apreciação da validade da regra comum. Consequentemente.Instituições e as relações interinstitucionais. a aplicar o direito da União em condições de desejável uniformidade ² assegurada pelo jogo combinado dos princípios fundamentais da aplicabilidade directa. Este princípio. às empresas e associações de empresas a que se aplica» e não só às empresas.º TUE). todas as relações jurídicas estabelecidas no quadro da União ficam sob o controlo de órgãos jurisdicionais independentes ² quer o TJUE. o art.E. nos limites da competência que lhes é reconhecida pelos Tratados. nomeadamente. está baseado na ideia de que a repartição de poderes no quadro da U. a posição dos particulares em face dos Estados. É permitido ver «no equilíbrio de poderes característicos da estrutura institucional da Comunidade uma garantia fundamental concedida pelo Tratado. deve ser rigorosamente respeitada por cada Instituição. posto em relevo pelo TJUE. Tendo-se presente que a União obedece ao «princípio democrático» e que conseguiu instituir um sistema que reconhece e salvaguarda os direitos fundamentais dos seus cidadãos. . as relações dos Estados-membros e destes com a União. da União e dos parceiros económicos privados ² na medida em que as suas relações mútuas se situem no âmbito da ordem jurídico-económica relativa à União Económica e Monetária (cfr. cada instituição deve respeitar o lugar e o papel que lhe cabem segundo o sistema neles estabelecido. pode com toda a segurança afirmar-se que a Comunidade apresenta a fisionomia de um verdadeiro «Estado de direito». 77  O princípio do equilíbrio institucional 112. Tais jurisdições estão habilitadas. e dele decorre que:  no exercício dos poderes que lhe foram reconhecidos pelos Tratados. do Tribunal Geral e dos tribunais especializados. a definição das competências da União e de cada um dos seus órgãos. quer das jurisdições nacionais que são os tribunais de direito comum da ordem jurídica da União. aos particulares e às próprias Instituições. como igualmente aos Estados-membros. 2. no âmbito das competências respectivas.

respeitam às relações do ordenamento interno com a ordem jurídica da União e com o direito internacional.: a livre circulação das mercadorias. o princípio do equilíbrio institucional está estreitamente ligado ao princípio da legalidade.  Os princípios respeitantes às relações entre a ordem jurídica da União e as ordens jurídicas dos Estados-membros 113. etc. por outro lado. são da mesma natureza dos que. regendo as relações da ordem jurídica da União com a ordem jurídica interna dos Estados-membros e com o Direito Internacional. O princípio do equilíbrio institucional constitui. de princípios fundamentais da ordem jurídica da União. no quadro da União. uma apreciável contrapartida ao princípio clássico da divisão de poderes cuja falta de rigor no seio da União traduz um défice democrático e uma falha no sistema de garantias do cidadão europeu. Trata-se de princípios que. contribuindo fortemente para caracterizar a União como «Estado de direito». bem pelo contrário. mesmo quando a criação de tal organismo não seja em si mesma ilegal. a liberdade de criculação e de prestação de seviços. a política comercial exterior comum. Trata-se. e atmbém. Assim. o direito de estabelecimento.E. por fim. quer de um organismo não previsto pelos Tratados. na ordem constitucional destes últimos. de princípios que estão longe de ser indiferentes à ordem económica da União. a política agrícola. a sua elaboração e imposição foram levadas a cabo pelo TJUE no quadro de uma salvaguarda sistemática dos fundamentos económicos da U. 78 . Trata-se. a política de transportes. da primazia e da interpretação uniforme do direito da União. da aplicabilidade directa. A ordem jurídico-constitucional instituída pelos Tratados está profundamente marcada pelos princípios da autonomia. uma Instituição não pode ser privada do exercício de um poder que lhe caiba em proveito quer de outra Instituição.

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