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A violência urbana apresenta diferentes facetas, na atualidade.

Isto decorre da complexidade das características das grandes concentrações humanas, que envolvem diversos campos de atividade econômica e cultural. Desse panorama complexo faz parte a violência no esporte. Para além das manifestações violentas no âmbito da própria prática desportiva, têm ocorrido manifestações de violência entre grupos de torcedores e destes em relação a pessoas não relacionadas aos eventos esportivos. Nesse quadro, destacam-se os confrontos entre torcedores (que resultam em ferimentos graves e mesmo em mortes, não raro de pessoas que não fazem parte das torcidas), e a depredação e saque de bens e serviços públicos e privados. A violência associada ao esporte, nos termos acima apontados, é um fenômeno mundial. No Brasil, a discussão sobre essa questão ganhou impulso a partir de um evento que, por sua publicidade e pelas circunstâncias em que ocorreu, tornou-se emblemático e desencadeou reações imediatas de diferentes setores da sociedade. Trata-se da briga entre torcedores das equipes de futebol do São Paulo F.C. e da S. E. Palmeiras, ocorrida por ocasião do jogo final de um torneio de futebol da categoria ³júnior´, no estádio do Pacaembu, na cidade de São Paulo, no dia 25/01/96. As cenas de agressão entre os torcedores, amplamente divulgadas pela televisão, chocaram a opinião pública do país, e repercutiram também no exterior. A morte de um torcedor e os ferimentos em dezenas de outros, embora não fossem eventos novos, mobilizaram autoridades e a imprensa em torno da discussão da violência no esporte e da busca de medidas para enfrentamento do problema. O ESPORTE COMO PRÁTICA SOCIAL E A VIOLÊNCIA URBANA Para compreender as manifestações de violência associadas ao esporte como parte do fenômeno mais amplo da violência urbana, cabe considerar, inicialmente, algumas características do esporte. Como ponto de partida da caracterização do esporte, assumimos o pressuposto segundo o qual o esporte é uma prática social construída historicamente. Como tal, não tem qualquer essência imutável, devendo ser compreendido no quadro mais amplo das produções culturais, vinculadas tanto à infra-estrutura econômica como à superestrutura ideológica. Assumindo esse pressuposto, cabe compreender o esporte atual no contexto político-econômico que o produz, ou seja, na ordem econômica do capitalismo e na sua correspondente ideologia política, o liberalismo. Nessa ótica, o esporte moderno, cujas características ganharam seus atuais contornos a partir de meados do século XIX, especialmente a partir da Inglaterra, não pode deixar de refletir as contradições e os problemas sociais mais gerais da sociedade organizada segundo o ideário capitalista-liberal. Dentre as características do referido ideário, podem ser destacadas algumas que assumem centralidade na prática desportiva. A primeira delas é a competição, verdadeiro pressuposto do esporte. A segunda é a organização rigorosa das regras que devem normatizar os objetivos e as condições da competição desportiva. A terceira é a organização racional e burocrática dos procedimentos de planejamento, condução, controle e registro dos eventos desportivos e de seus agentes ± clubes, atletas, dirigentes, árbitros etc. A quarta é a publicidade dos eventos e de seus

com produção organizada de modo racional e burocratizado. embora se pressuponha que a competição se estabelece a partir de igualdade de condições entre os competidores. possibilidade de estabelecer-se onde e quando querem etc. A atividade desportiva também está sujeita a instituições reguladoras. nas fazendas. nos serviços. objetos de um grande esforço e de um investimento para melhorar a produtividade e a eficiência. é possível entender que as práticas sociais que caracterizam a produção capitalista também fazem parte da dinâmica do esporte. configurando -se como processo de mundialização da produção e da circulação econômicas.resultados. e os atletas nos clubes ± é uma característica presente em todos os empreendimentos econômicos. O controle da atividade econômica capitalista. hoje. No plano econômico. perseguições. A segunda razão refere-se à desigualdade na aplicação das regras. os competidores apresentam diferentes condições iniciais. isso não ocorre de fato. de âmbito local (ligas e comissões municipais). nos bancos. conselhos nacionais. é exercido por diferentes organismos reguladores. associações. A primeira razão para isso refere-se à desigualdade inicial entre os competidores. a organização estratégica para extrair o máximo de rendimento daqueles que vendem sua força de trabalho ± os operários nas fábricas. organismos internacionais etc. nacional (confederações. como qualquer outra área de atividade humana . sindicatos. segundo regras (monetárias.) definidas. critérios e condições da prática.). é óbvio que tanto a produção econômica quanto o desempenho desportivo são. pressupostos. aduaneiras. fica claro que o esporte apresenta-se como campo de conflito de interesses políticos e econômicos. em ambas as esferas. fraudes. nas escolas. No que diz respeito ao planejamento e racionalização da produção. Também no jogo desportivo. ocorrem favorecimentos. regional (federações). de modo a expandir a institucionalização do esporte para que esta abranja toda a população do planeta. controlada e publicizada por agências reguladoras (Estado. como já colocado. No jogo econômico. Igualmente. incluindo os desportivos. conhecimento técnico. Assim. aplicação deliberada de violência. comitê olímpico internacional). sobreposição de interesses individuais em detrimento de interesses coletivos. no plano desportivo. As características acima podem ser facilmente associadas ao modus operandi do liberalismo econômico capitalista ± competição livre entre agentes econômicos empreendedores.) e estendida progressivamente para além de fronteiras nacionais. doping e outros expedientes são exemplos amplamente conhecidos. por parte dos dirigentes das diferentes instituições. Além do investimento em tecnologia. no que se refere a patrocínio econômico-financeiro e orientação técnica especializada. Em ambos os casos (atividade econômica e esporte). comitês olímpicos nacionais) e internacional (associações e confederações internacionais. no comércio. as regras são freqüentemente burladas pelos competidores ± simulação de faltas. Isto posto. decisões casuístas. não é verdade que as regras são respeitadas igualmente por todos ± a prática do dumping é um exemplo cabal dessa afirmativa. trabalhistas etc. Estabelecido este paralelo. A quinta é a mundialização de todos os estatutos. não é verdade que todos os empreendedores começam nas mesmas condições (quantidade e qualidade de capital.

como decorrência da ação de torcidas organizadas ou de grupos de torcedores que promovem brigas (até planejando-as com antecedência pela Internet) e saques. -Penalização de clubes nas competições. (in: Lerner. inclusive. Trata-se da idéia segundo a qual o esporte é um meio socialmente aceitável de expressão da agressividade. de cultura. Além das características genéricas que o esporte apresenta. -Engajamento de clubes.inserida no conjunto das relações sociais marcadas por um distanciamento entre os discursos normatizadores e as ações efetivas dos seus agentes. -Aplicação imediata e rigorosa das penas previstas para os crimes de agressão cometidos nos estádios e suas cercanias. para que se expresse preferencialmente em condições mais controladas. Em nosso entendimento. estádios e ginásios ± não pode ser isolada da violência reinante no conjunto das relações sociais. confederações e atletas em campanhas e manifestações contra a violência no esporte.. pode-se citar: -Numeração de todos os lugares nos estádios e controle da torcida por câmeras de vídeo.. -Prisão de torcedores violentos nos dias de jogos de seus clubes. Nesse sentido. de moradia. em nossa juventude. pois são as mesmas determinações gerais que condicionam todas as manifestações de violência. . e tudo o que se poderia fazer é estabelecer mecanismos para regular suas expressões e mantê-las num nível aceitável. evitando sua propagação para todas as relações sociais. A POSSIBILIDADE DE REDUZIR A VIOLÊNCIA NO ESPORTE No Brasil. federações. no bojo do capitalismo liberal. mas não pode ser totalmente evitada. Tudo isso gera situações de frustração e de impotência. -Aumento no preço dos ingressos. da qual a violência é uma conseqüência que deve ser controlada. o esporte nunca poderia deixar de comportar alguma violência.) as causas da violência no esporte devem ser buscadas na sociedade. acompanhamos Arlindo Chinaglia: (. os acontecimentos mencionados na referida partida de fute bol desencadearam análises e propostas voltadas para o enfrentamento da violência nos estádios (especialmente em relação ao futebol) e nas cidades. assume-se que a violência é uma manifestação inerente ao homem. presentes. Assim concebido. -Maior rigor da arbitragem e afastamento ou punição de árbitros tecnicamente despreparados ou que não atuem para coibir a violência em campo (pois esta estimula a violência na torcida). Dentre as propostas. A pobreza. tendo como conseqüência a falta de perspectiva de vida e a desesperança. Nessa idéia. E aqui não há como escapar ou negar que a exclusão social é um fator preponderante dentre as múltiplas causas da violência. um outro fator contribui para que este campo seja associado à violência. as péssimas condições de vida. de lazer etc. em decorrência de ações violentas de suas torcidas. a falta de escola. 1996: 45). e precisa de ³válvulas de escape´. a violência no esporte ± dentro e fora dos campos e quadras. -Cadastramento e controle rigoroso das torcidas vinculadas aos clubes. o desemprego.

contudo. entende-se que tais medidas.Em face da indissociabilidade entre violência no esporte e violência urbana. também é preciso considerar que. mitos de criação.) sejam eficazes para auxiliar no controle das populações submetidas às classes dominantes. Sabe-se que isso só pode ocorrer com o envolvimento de muitos setores de nossa sociedade. estão as ideologias que justificam relações de dominação que mantêm grandes grupos humanos assujeitados ao controle de minorias. justificativas ³científicas´ etc. Não obstante. As dificuldades para promover as transformações político-econômicas estruturais que podem conduzir à superação da violência urbana não justificam. tende a gerar reações também violentas. o uso de violência é indispensável para materializar o controle e. Associadas a essas diferenças. características étnicas. . pela falta de serviços de promoção social etc. as relações violentas fazem parte da vida social. por conseguinte. inclusive no Brasil ± um dos campeões de desigualdade na distribuição de renda. a começar pelo plano mais geral dos conflitos entre classes sociais. Em primeiro lugar. cabe cogitar que podemos vir a nos construir como seres não violentos. podem apenas reduzir as ocorrências violentas. a renúncia a buscar caminhos para a construção de práticas sociais menos violentas. cabe questionar a visão que naturaliza a violência. articulados em torno de um projeto político voltado para a construção de uma sociedade democrática e igualitária. É inegável que as diferenças estabelecidas entre grupos sociais. ± as quais acabam por envolver-se em atividades ilegais para sobreviver. é um dos elementos que se colocam na raiz da violência. que só pode ser controlada. mas permanece sempre como possibilidade latente. pela falta de formação escolar e profissional adequadas. quando muito. em face do desenvolvimento histórico da maior parte dos grupos sociais hoje existentes. voltadas para o controle nos eventos desportivos. A amplitude e as dificuldades de tal empreitada são tais que não podemos nos propor tratar dela neste artigo. Ainda que não se possa dispensá-las (e algumas vêm sendo implementadas. em permanente processo de construção. A superação da violência no esporte ± no quadro da violência urbana ± pressupõe um processo mais abrangente. entende-se que um movimento real de superação das relações sociais violentas envolve a superação das grandes desigualdades sociais presentes na maior parte do mundo. Esse processo não é previsível (a não ser que se assuma uma visão teleológica do desenvolvimento humano) e. Embora tais ideologias (baseadas em religião. Um exemplo claro disto é a violência recíproca que se estabelece entre certos agentes de instituições policiais e pessoas excluídas da vida econômica ³regular´. portanto. Essa visão desconsidera que a construção do ser humano é fruto da determinação recíproca entre a herança biológica e a herança histórico-sócio-cultural. pelo desemprego. não se pode afirmar com certeza que a violência é uma característica essencial do homem. ao menos parcialmente). Assumindo-se que o homem é um ser histórico. Assim sendo. atribuindo-a a uma inescapável tendência agressiva presente no homem. A vida social envolve a violência em diferentes planos. não podem ser suficientes para superar os problemas que estão na raiz da violência. no que diz respeito ao acesso aos bens materiais e culturais produzidos pelo trabalho coletivo organizado.

introduzir alterações nas regras. com a mesma intensidade. TV. rádio. entendemos que a superação da violência no esporte passa.. A educação para a prática esportiva é uma tarefa que. análise técnica e tática dos jogos feita em conjunto pelas equipes etc. de modo a que estes não se transformem em pretextos para atitudes violentas. numa ordem econômica mundializada. mas deve se limi tar ao momento da competição e não se prolongar. colocando a integridade humana em primeiro plano. embora essa atuação já venha ocorrendo. por uma ressignificação do senti do da prática esportiva. de modo a inviabilizar atitudes violentas e. devem ter clareza de que não se encontram mais na situação lúdica e imaginária em que os espetáculos ocorrem. Esta idéia articula-se a uma outra: o espetáculo esportivo deve ser encarado como uma atividade de lazer. não pode ser encarada como indicativo de qualquer tipo de mérito ou demérito para seus torcedores. continuem elaborando. Nas escolas. professores de Educação Física podem ensinar práticas que tenham como fundamento o respeito a si e a outros. Outra idéia que pode ser difundida continuamente é relativa ao caráter simbólico da vitória ou da derrota e à ausência de conseqüências importantes destas para a vida dos torcedores. comentando. nas escolinhas de esporte. no sentido de relativizar a importância do resultado das competições. por um lado. ou seja. revistas. a TV e a imprensa. A educação para a apreciação do esporte como espetáculo. tal como outros espetáculos ± cinema. não basta o trabalho isolado de professores. Para tanto. Essa ressignificação implica processos educacionais. rejeitando cabalmente a idéia de que o resultado da competição é o que mais importa. após o seu término. discutindo idéias e sentimentos estimulados pelos espetáculos. enfim. pode-se. Tal orientação pedagógica implica a articulação de uma visão crítica em relação ao esporte e às ideologias da ³vitória a qualquer preço´ com propostas concretas de encaminhamento da prática esportiva. em todos estas manifestações. que podem ter lugar nas instituições educativas ± escolas e universidades ± e em meios de comunicação social ± jornais. É preciso. fundamentalmente. Assim. circo. ainda que os espectadores. a categoria dos professores de Educação Física. em ONGs. no Brasil. por outro lado. que tenham como referências a integridade e o bem-estar de todos os nela envolvidos. Em nosso entendimento. não pode prescindir do apoio de outros meios de comunicação social ± especialmente o rádio. além de envolver a atuação educacional dos profissionais de Educação Física. Internet. insistir na idéia de que a vitória ou a derrota de uma equipe. que voltaram ao ³mundo real´. por exemplo. A implementação de propostas como as exemplificadas . teatro. Uma educação ± em sentido amplo ± para um esporte menos violento e gerador de menos violência envolve dois planos distintos e relacionados: a educação para a prática esportiva e a educação para a apreciação do esporte como espetáculo. para além deste. música etc.Embora reconheçamos que soluções abrangentes dependem de mudanças nas relações de produção e distribuição dos frutos do trabalho coletivo. também.. em uma competição esportiva. Cabe ressaltar o fato de que a emoção do ato de torcer é significativa. estimular a integração entre os adversários.). após as disputas. Por exemplo. pois é preciso articular competições esportivas que se organizem em torno de uma orientação educacional comum. deve envolver. é preciso uma ação mais clara e sistemática desses meios de comunicação. cinema. nos clubes. em todos os espaços institucionais em que ocorrem iniciação e competições desportivas. por meio de diferentes estratégias (confraternização.

a violência gerada pela busca de vitória a qualquer preço deve-se. Nas primeiras. Aí está o ³X´ da questão. contudo. também. as mesmas oportunidades. Nesse quadro. o que será da competição econômica e política. nos marcos do atual capitalismo. muitos dos ³tubarões´ terão de se conformar em se transformarem em peixes menos truculentos e corpulentos. que vão prestigiar as competições dos filhos (não é raro. no sentido de torná-la menos violenta.. em dignidade? Certamente. o que é mais importante. não é tão raro presenciar brigas entre pais ³torcedores´. professores de educação física e treinadores sejam exigidos. Este é o real desafio para o enfrentamento da violência urbana em todas as suas manifestações ± do esporte aos seqüestros e homicídios. Nas segundas. do bem-estar. nem por isto. exige uma convicção ideológica e uma vontade política clara e direcionada. as mesmas condições e. mas. etc. com violência. Por isto. Entretanto. de fato. forem reconhecidos como iguais. pode-se esperar que. se todos ± dos ³tubarões´ aos ³peixinhos´ ± tiverem. ³na vida real. do prazer e da solidariedade entre pessoas. É esta ideologia. aos valores econômicos em jogo (prestígio e dinheiro dos atletas. uma atuação sistemática para modificar a prática esportiva. que pais estimulem seus filhos a reagirem com violência diante de outras crianças. muitas vezes. subterfúgios. das competições escolares às competições profissionais. Ele pode ser visto em manifestações concretas. os mesmos direitos. mas de um movimento coletivo organizado. tal processo educativo só pode alcançar seu escopo se ocorrer d e forma articulada a um projeto político. que consagra a competição e a valorização da vitória e dos ³mais fortes´. pois o esporte não pode ser isolado do conjunto das práticas sociais. menos limitante: o poder da ideologia liberal. pois não terão mais o direito de ³engolir´ os mais fracos. pode esbarrar em um obstáculo de natureza genérica. O viés ideológico apontado acima não é uma abstração genérica. subjacente às práticas sociais que predominam na vida econômica e política (onde se busca a vantagem a qualquer preço). que induz à idéia de que um esporte regulado por princípios que priorizam a saúde. não apenas de professores e técnicos isolados. . que deve envolver tanto profissionais que atuam na formação do praticante e do espectador (profissionais de educação física) como os agentes sociais responsáveis pela difusão do esporte como espetáculo. em valor. De fato. como no esporte ³de verdade´). configura-se como processo educativo. no sentido de ensinarem seus alunos e atletas a jogarem de acordo com as regras ³da vida´ ± vale dizer. A possibilidade de construir o esporte como manifestação voltada para a promoção da saúde. portanto.acima. também. interesses dos patroc inadores). a integridade e o bem-estar de todos é um esporte ³para fracos´ ± uma vez que. é cada um por si e Deus por todos´. ³manhas´ etc.